Autora: Larissa Cristina | Beta: Janina | Capista: Drika



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Prólogo

Minha mãe me costumava dizer que haveria situações em minha vida que eu teria que abrir minhas asas e alçar vôo rumo aos meus sonhos. Porém, ela nunca deixou de me alertar sobre as pessoas que tentariam me puxar para baixo no intuito de me impedir de tocar as estrelas.
Mamãe sempre me dizia para não dar ouvidos a essas pessoas e ainda me encorajava a seguir em frente.
Por anos, ela sempre esteve presente nas minhas apresentações do ballet, do teatro e do coral da igreja.
Todavia, desde que um acidente a tirou de mim, os bancos na primeira fileira que ela sempre ocupava permaneciam vazios.
Eu nunca deixei de acreditar nas coisas que ela me dizia antes de morrer. Eu sabia que algum dia eu teria que voar. Quanto mais longe eu fosse, mais rápido eu tocaria os meus sonhos.
Ao invés de me afogar em tristeza, eu continuei dançando, cantando e atuando. Era a única maneira de lidar com toda a dor.
Agora eu moro com o meu pai. Ele não acredita em mim como a minha mãe acreditava, mas entende que a minha vida é viver da arte e não dentro de um escritório quente e apertado rodeada de papéis e cafeína.
Quando a sorte finalmente resolveu sorrir para mim, uma forte chama de esperança sacudiu todo o meu corpo.
A maior Escola de Dança, Canto e Teatro de Londres, a Wings, está promovendo um concurso grandioso que será transmitido mundialmente. O prêmio do ganhador será o papel de protagonista num musical da Broadway e também R$ 500.000,00.
Claro que eu não perdi tempo em me inscrever.
Junto com os dados pessoais preenchidos no formulário, eu tive que fazer um vídeo para mandar junto com o formulário pela internet. E o resultado de quem foram os mil escolhidos para participar do concurso sairia agora.
Tudo o que eu sei sobre o concurso é que esses mil contemplados estudarão na Wings e serão treinados pelos melhores professores do mundo.
Os candidatos serão avaliados constantemente e, a cada final de semestre será feita uma prova onde quem se sair melhor tem a chance de permanecer.
Entrei no site da Escola e acessei a página do concurso.
Enquanto a página com o resultado carregava, o nerosismo que eu sentia embrulhava cada vez mais o meu estômago.
Eu preciso estar entre esses mil concorrentes.
Minha vida está prestes a mudar. Se a mudança seria boa, eu ainda não sabia.
A única coisa que eu tinha certeza naquele momento é que talvez eu esteja perto de sair do casulo e me transformar numa bela borboleta.
Eu estava prestes a ganhar as minhas asas.

Capítulo 1 - Alçando Voo

betado por Marcella Vitória

- Meus pés estão tão doloridos! - exclamei, me jogando no chão do estúdio de ballet. Minha respiração estava desregulada devido ao treino incessante e o suor encharcava o meu collant e a minha testa, fazendo com que alguns fios de cabelo soltos do meu coque grudassem no rosto.
- Acho que você já treinou o bastante por hoje. - disse Lucy, minha professora de ballet e tia de consideração. - Você precisa descansar. Terá um longo dia amanhã e horas sentadas dentro de um avião.
Só lembrar da viagem para Londres eu já ficava nervosa. Meu nome estava na lista dos mil escolhidos para estudar na Wings por 6 meses, que é o tempo de duração do concurso, mas eu sabia que só os 3 finalistas ficariam os 6 meses inteiros.
Papai não havia gostado muito da ideia de deixar sua única filha sair de New Haven para participar de um concurso em um lugar totalmente diferente e distante.
Ele só permitiu que eu fosse porque eu já tenho 18 anos e já respondo por mim mesma. E também por causa da minha mãe, já que ela era a única pessoa no mundo que me incentivava a seguir os meus sonhos.
Eu vejo esse concurso como uma grande chance e eu não posso deixá-la escapar de jeito nenhum.
A ansiedade e o nervosismo já preenchiam o meu corpo inteiro. Eu tenho certeza de que não conseguirei dormir essa noite, o que me dará umas boas olheiras pela manhã. Mas quem se importa? Eu estou indo para Londres!
- Eu sei, é que... - Mordi o lábio inferior e suspirei, hesitando em continuar a frase: - Eu preciso impressionar os professores. Deve ter muita gente talentosa nesse concurso e eu preciso estar no mesmo nível que eles.
- Tenho certeza de que você está querida. Dê o seu melhor que a sua mãe lhe aplaudirá de onde ela estiver. - assenti sentido os meus olhos arderem. Lucy percebeu e afagou o meu rosto, dando-me um sorriso doce e encorajador.
Lucy foi uma das melhores amigas da minha mãe. Elas se conheciam desde a época do colegial e eram praticamente inseparáveis antes do acidente tirá-la de mim.
Lucy costumava dizer que a minha mãe era como uma caixinha cheia de conhecimento. E ela era mesmo. Colecionava livros de todos os tipos, cores e tamanhos diferentes. Trancava-se na biblioteca de nossa casa e ficava lá dentro lendo livros até perder a noção do tempo.
Gostava de escrever histórias de romance e era a pessoa mais doce e amável que eu já conheci.
Ela fazia muita falta.
- Queria que ela estivesse aqui. - confessei, sentando-me no chão e encarando o piso liso e bem encerado.
- E ela está, querida. - disse Lucy, olhando-me carinhosamente. - Bem aqui, no seu coração. - Lucy tocou meu peito com a ponta do dedo indicador, bem no lugar onde meu coração batia.
- Você tem razão. - Enxuguei uma lágrima que havia caído e sorri, levantando-me do chão.
- Agora vá para a casa. Amanhã irei até o aeroporto lhe dar um abraço apertado. - Nós duas sorrimos uma para a outra e eu a abracei bem forte.
- Obrigada. Por tudo.
Saí do estúdio de ballet e senti frio assim que coloquei meus pés na rua. Fechei meu sobretudo preto e enfiei minhas mãos no bolso.
O frio costumava me deixar depressiva e desanimada. Mas não naquele dia. Porque amanhã eu estaria pegando o avião com destino ao meu grande sonho e nada seria capaz de estragar a felicidade e empolgação que eu estava sentindo.
A expectativa de saber o que vai acontecer de agora em diante parecia que iria corroer o meu peito. Todavia, eu tentava a todo o custo não me preocupar com isso. Eu tinha que viver um dia de cada vez, lembrando-me de aproveitar o momento presente.
E o presente de agora pedia que eu arrumasse as minhas malas e ficasse um pouco com o meu pai antes de tentar descansar para o dia de amanhã.
Entrei em minha casa correndo como um foguete.
- Pai! - Segui o cheirinho de comida e encontrei-o fazendo Waffles na cozinha. Ele usava um avental de mamãe e cantarolava uma música antiga que tocava no rádio.
Assim que me viu, ele deu um sorriso totalmente animado.
- Bem na hora! - exclamou ele assim que me viu, colocando luvas de cozinha nas mãos.
- Hora de quê? - Uni as sobrancelhas, colocando minha bolsa em cima do balcão e sentando-me no banco de madeira.
- Hora de experimentar os Waffles que acabaram de sair do forno. - Dei um sorriso ao ver como papai estava empenhado em me agradar. - Você quase não tem comido besteiras. Uma extravagância antes do grande dia não fará mal algum.
- Também acho. - concordei, observando-o retirar uma bandeja de alumínio de dentro do forno repleta de Waffles quentinhos.
Me servi vendo que papai fazia o mesmo que eu.
Trocamos olhares de cumplicidade e meio sorrisos cheios de amor e felicidade. Estávamos aproveitando o máximo de tempo juntos, já que daqui algumas horas eu estaria indo para Londres.
Depois que terminei de comer, fui para o meu quarto arrumar as malas. Abri a gaveta da cômoda e peguei a lista que eu havia feito no dia anterior. A lista continha anotações de tudo o que eu precisaria levar para a Wings.
Eu iria dividir um quarto com mais duas garotas. Os rapazes não podiam transitar pelo dormitório das meninas e vice-versa. Tudo isso estava escrito nas normas de conduta da Escola, disponível no próprio site da Wings.
O mesmo se aplicava ao dormitório dos professores. Como se eu fosse me atrever a transitar pelo dormitório dos garotos ou dos professores, né? Por favor.
Dei uma leve alongada no meu pescoço e nos meus pés antes de começar a arrumar as minhas malas.
Três malas super pesadas estavam encostadas na parede do meu quarto. Toda hora eu ficava relendo a lista, certificando-me se eu não havia me esquecido de nada.
Eu havia colocado o meu guarda-roupa quase todo nas malas. Collants extras, sapatilhas menos gastas, meias-calça sem rasgos... Fora os outros objetos que são tantos que se eu ficar citando ficarei aqui a noite inteira.
Olhei para a minha cômoda e vi uma fotografia dos meus pais se casando. Mamãe sempre me dizia que aquele fora um dos momentos mais felizes de sua vida. Papai também dizia a mesma coisa.
Quando o acidente aconteceu, eu estava viajando e papai ainda estava no trabalho. Seu carro havia ficado destruído com a pancada forte que levou. Um motorista embriagado havia batido no carro de mamãe, que morreu antes mesmo de conseguir chegar ao hospital.
Sempre que eu me lembrava disso eu sentia uma dor no peito tão forte que as vezes eu achava que morreria também.
Papai ficou abalado por tanto tempo que eu achei que ele nunca mais seria o mesmo. Com o tempo, a ferida se fechou um pouco, mas eu tenho certeza absoluta de que ela nunca ficará cicatrizada. As marcas causadas por um passado doloroso ficariam sempre no presente. A cada lembrança, uma nova dor e a cada dor, uma nova ferida. Era um círculo vicioso.
Peguei a fotografia da cômoda e a abracei com toda a força, chorando como se eu nunca mais fosse conseguir parar. Deitei-me em minha cama sem soltar a fotografia, sentindo tanta dor que achei que meu peito sangraria.
Fechei os olhos e franzi os lábios, tentando a todo o custo abafar os meus soluços.
Quando eu menos percebi, eu já havia caído no sono.
Eu batia os pés no chão impacientemente, segurando um copo de cappuccino com uma mão e mudando a música que tocava em meu MP4 com a outra. Papai lia um jornal ao meu lado e Lucy estava em pé, andando de um lado para o outro.
, minha única e melhor amiga havia ido buscar algo que não fosse café para beber. Ela estava tão (ou mais) nervosa do que eu.
Se não houver atrasos, meu vôo sairá daqui a 15 minutos. 15 longos e torturantes minutos que me separam do meu verdadeiro destino.
Avistei voltando com as mãos vazias e com uma carranca que poderia ser vista há quilômetros de distância.
- Esse aeroporto é muito tosco! - esbravejou, parando ao lado de Lucy e cruzando os braços acima do peito. Retirei os fones de ouvido para poder me comunicar melhor com ela.
- Por quê? - perguntei, dando um grande gole em meu cappuccino.
- Porque é! - exclamou, irritada. - Não achei nada que me agradasse para beber.
- Não? E refrigerante?
- Não estou a fim de tomar refrigerante agora.
- Mas não tem só refrigerante aqui. - disse Lucy, intrometendo-se na conversa e dando um sorriso de lado.
- Eu sei, mas acho que o mau humor que estou sentindo tirou a vontade que eu tinha de tomar alguma bebida. Acho que é o nervosismo. - desfez a carranca de seu rosto para sorrir.
- Parece até que é você que vai para a Wings. - debochei, fazendo com que ela me encarasse com uma expressão engraçada.
- Eu estou surtando tá ok? Já parou para pensar que depois que você entrar naquela Escola maluca e sobreviver lá dentro com aquele bando de ambiciosos você vai estar na televisão? Eles gravarão todas as avaliações de vocês e algumas partes das aulas. Tipo um reality show. - Claro que eu tinha pensado naquilo. Várias e várias vezes seguidas. Pensei tanto que achei que um buraco enorme fosse surgir no meu cérebro.
- Não é um reality show, . - Revirei os olhos, tentando parecer irritada.
- Mas bem que parece! - Papai deu risada do desespero de e eu dei um sorriso triste ao pensar no quanto sentiria falta daquilo.
Do jeito amável que Lucy me tratava e do jeito paciente em me ensinar a fazer pliés e releves, do jeito maluco e meio mal humorado de minha melhor amiga e do jeitão protetor e cuidadoso do meu pai.
Eles eram a minha família e eu tinha medo de perdê-los como perdi a minha mãe. Mas se eu não entrasse naquele avião, meus sonhos não seriam concretizados. Eu sei que esse concurso é como um tiro no escuro e que eu poderei ser eliminada se fizer algo de errado. Também sei que pessoas tão ou mais talentosas do que eu estarão lá também.
Mas eu não podia desistir antes mesmo de tentar.
O meu vôo foi anunciado e eu me levantei, com a apreensão corroendo todo o meu ser e com lágrimas nos meus olhos. Eu sentiria falta de New Haven.
Abracei Lucy, que me deu um beijo demorado na bochecha e sussurrou palavras de incentivo para mim, brincando comigo sobre a 1° e 2° posição do ballet para aliviar a tensão. E funcionou.
foi a próxima a me abraçar, já chorando. Eu não me aguentei e comecei a chorar também.
- Prometa que não vai se esquecer de nós. - falou, me abraçando apertado.
- Nunca me esqueceria de você, sua boba. - eu disse, tentando sorrir em meio a tantas lágrimas. - Não esqueço as pessoas que são importantes para mim.
- Eu sei. Boa sorte, amiga. Eu amo você. Atualiza seu twitter, por favor. - Nós duas rimos juntas.
- Obrigada. Eu também te amo, sua boba. Pode deixar que eu atualizarei. - eu disse, passando a mão no rosto para me livrar das lágrimas que escorriam incessantemente.
Separamos-nos do abraço e papai veio até mim com um semblante pesaroso que só me fez sentir vontade de chorar mais. Joguei-me em seus braços, enterrando minha cabeça no vão do seu pescoço. Papai afagou meus cabelos e ficou dando beijos no topo da minha cabeça.
- Vá atrás do seu sonho, . Voe, evolua e arrebente nas avaliações. Impressione os professores e chegue até a final. Eu acredito em você, pequena. - Levantei a cabeça para olhar para ele e vi que ele sorria. Papai nunca havia me dito nada parecido e ouvir aquilo foi tão arrebatador que as lágrimas até caíram com uma veracidade maior.
Mas agora eu chorava de alegria.
- Obrigada, pai! - eu disse, beijando seu rosto. - Eu te amo muito.
- Eu também te amo. Seja vitoriosa! - Assenti positivamente com a cabeça e apertei sua mão com força antes de pegar minhas malas e começar a me afastar.
- Pode deixar! - falei, andando para a fila de embarque de costas para observar as pessoas mais importantes da minha vida ficando para trás.
Eu vi o olhar esperançoso de Lucy sem deixar de reparar no sorriso repleto de saudades antecipadas de e no brilho que o olhar de papai irradiava. Ele também sorria.
Todos deram um tchau com a mão e eu retribuí, sorrindo e deixando as lágrimas caírem.
Me virei e comecei a caminhar em direção ao meu sonho com um sorriso bobo no rosto.
Minha vida mudaria naquela mesma manhã. Mesmo antes que eu embarcasse no avião ela já havia mudado. Desde o momento em que decidi me inscrever no concurso, ela já estava mudando.
Enxuguei as lágrimas com a ajuda da manga da jaqueta que eu vestia sem tirar o sorriso do rosto.
Naquele momento não havia tristeza.
Somente esperança.

Capítulo 2 - A Xícara de Café

betado por Marcella Vitória

Londres definitivamente é uma cidade bonita. E mágica. Não consigo parar de olhar para o movimento das ruas, dos carros se locomovendo, das pessoas andando apressadas e de cada detalhe que preenche a minha visão.
Ando com um pouco de dificuldade, equilibrando duas malas enormes e pesadíssimas nos ombros e uma de carrinho que agarrava em alguma coisa de tempos em tempos.
Pego o endereço da Wings no bolso e respiro aliviada quando percebo que estou perto de chegar. Meu coração salta de felicidade e de nervosismo dentro do peito e respiro bem fundo para me acalmar.
Assim que eu dobrei a rua, avistei diversos carros estacionados próximo a calçada. O muro da Wings logo entrou em meu campo de visão e eu apressei o passo, andando com um pouco de dificuldade por conta do peso que eu carregava.
Passei pelos portões já abertos da escola com um sorriso que mal cabia em meu rosto.
Um letreiro enorme com o nome da escola fez com que caísse a ficha de que eu estava mesmo em Londres numa das melhores escolas de Música do mundo. Aquilo me encheu de orgulho e satisfação.
Dei uma olhada ao meu redor, observando as pessoas que já haviam chegado. Algumas saíam de dentro de carros luxuosos enquanto outras chegavam de ônibus ou a pé. As que já estavam no campus se enturmavam uns com os outros, mas também havia aquele grupo de pessoas que preferia ficar sozinho.
Pessoas de estilos diversificados, com violão nas costas ou baquetas nas mãos transbordavam alegria e bom humor.
Algumas até faziam alguns passinhos de dança.
O campus estava repleto de pessoas e era enorme e arborizado. O prédio da escola, imponente e bonito. Possuía diversos andares e alguns seguranças rondavam a entrada do prédio, barrando a nossa entrada.
O prédio era marrom, com janelas imensas de vidro e quatro andares que esbanjavam luxo e poder.
Meus ombros começaram a latejar e eu fiquei procurando um lugar para sentar por uns bons minutos, porém os bancos que estavam espalhados por ali ficavam um pouco distantes da parte do campus onde todos estavam reunidos e isso fez com que eu desistisse.
Um homem alto e bonito abriu a porta do prédio e passou pelos guardas. Logo me lembrei de sua fisionomia, dando-me conta de que ele é o dono e diretor da Wings.
Uma mulher lhe entregou um microfone e ele se posicionou no último degrau das escadas que nos levavam até o prédio. Um homem no canto do prédio, na escadaria, segurava uma câmera e gravava tudo o que estava acontecendo.
O barulho de microfonia fez com que as pessoas parassem o que estavam fazendo para prestar atenção nele.
- Sejam bem-vindos a Wings! - disse ele, dando um sorriso aberto e cheio de entusiasmo. - Como vocês devem saber, eu sou , diretor desta instituição. Vocês tem 15 minutos para se instalarem em seus alojamentos. Quero todos vocês no salão principal do terceiro andar daqui a 15 minutos para conversarmos melhor!
Ele entregou o microfone a mulher e passou pelos guardas, entrando novamente no prédio.
Os guardas liberaram a nossa entrada logo em seguida, fazendo com que todos se movessem rapidamente até a entrada do prédio. Eu fiz o mesmo, pegando no bolso da minha calça jeans o papel que continha algumas coisas referentes a minha inscrição. Ali tinha o número e o andar do meu alojamento.
Subi as escadas andando apressadamente. Havia uma portaria no prédio, onde duas mulheres elegantes sorriam para nós de forma simpática, anunciando que os elevadores estavam em manutenção, o que significava que teríamos que subir as escadas.
Legal, meu ombro iria protestar ainda mais. E minhas pernas também.
Caminhei em direção as escadas de forma tão esbaforida que nem vi a mulher que vinha em minha direção segurando uma xícara de café.
Com a minha pressa, acabamos nos esbarrando e o café que ela tomava acabou se derramando em sua blusa azul turquesa.
Ela me olhou como se fosse me trucidar.
- D-desculpe. - pedi, realmente arrependida. A última coisa que eu queria era arrumar confusão com alguém no meu primeiro dia na Wings.
- Sua... Sua artistazinha de quinta! - esbravejou, olhando para sua blusa manchada de café com horror e assoprando constantemente seu peito.
- E-eu n-não quis... - Tentei me explicar, mas ela me olhou de cima a baixo com um olhar que me fez recuar alguns passos.
- Você vai vir comigo agora, sua desastrada! - Ela tentou segurar o meu braço, mas eu me esquivei. Me pus a correr como uma louca pelo corredor, dando uma leve escorregada no piso bem encerado.
As malas atrapalhavam o meu desempenho, mas eu não parei de jeito nenhum.
Subi dois lances de escada quase morrendo e percebi que a mulher não havia me seguido. Respirei aliviada depois disso e fiquei procurando meu alojamento por uns bons 5 minutos. Os andares eram muito parecidos e os corredores me confundiam.
Uma placa no fim do corredor indicava que ali era o alojamento das garotas. Procurei o número 210 e não demorei a encontrar.
Abri a porta de uma vez só e mãos a seguraram, empurrando a porta bruscamente em direção ao meu rosto. Dei um passo para trás e a porta se abriu totalmente, revelando uma garota loira de olhos azuis muito bonita que me olhava de modo irritado.
- Vê se toma cuidado, garota! - exclamou, cruzando as mãos acima do peito e batendo o pé de forma impaciente.
- Desculpe. - sibilei, entrando no quarto. A garota revirou os olhos e saiu do quarto fechando a porta atrás de si com um baque certeiro.
Era a segunda vez no dia que eu pedia desculpas a alguém. Quem seria a terceira?
- Não ligue para a . - disse uma menina ruiva que desfazia a sua mala. - Ela já se acha uma estrela da Broadway.
- Acho que encontrarei muitas s por aí então. - Ela riu, sentando-se na cama e cruzando as pernas.
Ela era tão bonita quanto . Levei um soco no estômago da minha auto-estima quando percebi aquilo.
- Com certeza. - concordou, balançando a cabeça positivamente.
Coloquei minhas malas na terceira cama que havia sobrado e me joguei na cama de barriga para cima. O quarto era bem claro e espaçoso e a minha cama ficava no canto esquerdo. A de ficava no meio e a da ruiva que parecia ser uma garota legal ficava no outro canto.
- Você está nervosa? - perguntou ela depois de um tempo.
- Bastante. - Mordi o lábio inferior e soltei um suspiro, lembrando-me do esbarrão desastroso que eu dei naquela mulher elegante.
Eu estava torcendo para não encontrar com ela de novo.
- Estão dizendo que hoje terá uma avaliação. - Levantei a cabeça bruscamente e olhei para a ruiva com olhos arregalados.
- Sério?
- Sim. - confirmou, olhando para as suas unhas antes de voltar-se para mim. - Não sei se disseram isso para me amedrontar, mas a pessoa que me passou essa informação me pareceu muito sincera.
- E você, está nervosa? - perguntei para ela, sentando-me na cama, tentando parecer um pouquinho indiferente em relação à suposta avaliação que teríamos que nos submeter. Entretanto, eu vi que não funcionou muito bem quando vi meu reflexo embaçado no espelho da mesinha de cabeceira. Minha expressão era de puro pavor.
- Um pouco. - deu de ombros, lixando suas grandes e perfeitas unhas.
Sua postura, seu jeito e até mesmo as suas roupas faziam com que eu me lembrasse de uma felina.
- Como você se chama? - perguntei, olhando bem para ela.
- Me chamo e você?
- Sou .
- Prazer, . - Ela sorriu. - Algo me diz que vamos nos dar bem!
- Assim espero. - Sorrimos uma para a outra.
- Acho que os 15 minutos já passaram. - constatou, olhando seu relógio de pulso e se levantando com a agilidade e elegância de uma gata. - Vamos!
Fomos conversando sobre o concurso e bandas das quais gostávamos mais e quando chegamos, percebemos que o salão já estava lotado.
Havia um grande palco ali dentro, onde pude avistar assim que me aproximei junto com .
Mas não era o único que estava ali em cima.
Havia quatro homens bonitos e alinhados. Usavam trajes elegantes que pareciam até de outra época. Ambos estavam sérios e nos olhavam com um ar de superioridade.
Porém, um deles em especial me chamou a atenção. Não pela sua beleza, afinal ele não era o único cara charmoso ali em cima, mas sim porque seu rosto não me era estranho.
Havia uma mulher ali também. Tratei-me de me camuflar atrás de quando a reconheci. Sua blusa ainda estava manchada de café, mas ela ainda estava linda e nos olhava com um ar de deboche.
- Competidores, atenção! - disse com a voz firme. Todos fizeram silêncio imediatamente. - Creio que todos aqui tenham conhecimento das regras de conduta disponíveis em nosso site, portanto não irei repeti-las. Quero lhes apresentar seus futuros professores de dança, teatro e canto. Lembrando que vocês serão separados por turmas e que cada turma ficará com um professor e um instrutor. - Todos continuaram em silêncio, mas os suspiros de expectativa eram quase palpáveis ao meu redor. - Esse é , meu filho. Ele já trabalhou na direção de diversos musicais além de já ter protagonizado quatro deles. É cantor e estudou dança aqui na Wings, portanto dança diversos estilos diferentes, desde ballet até foxtrote. - deu um passo a frente e eu logo me lembrei de onde o conhecia. Da tela da minha televisão. Lembro-me de ter assistido "Love in Hollywood" e "Game Over" com a minha mãe incontáveis vezes. Esses musicais foram os que mais marcaram a carreira do . Eu e minha mãe sempre chorávamos com a sua atuação impecável, sua voz e o jeito que ele dançava. parecia colocar toda a sua alma no palco, fazendo com que sentíssemos o mesmo que o seu personagem sentia. De alegria até tristeza. De dor até emoção.
Ele brilhava no palco, mas naquele momento, observando aqueles olhos tão bonitos, percebi que a sua magia se perdia quando as cortinas se fechavam.
exalava confiança. Desde a postura rígida até o olhar afiado como uma lâmina de superioridade.
Porém, seus olhos eram tristes.
Lembro-me de que ele fora a minha primeira paixonite. Tanto que eu vivia procurando tudo o que eu pudesse achar sobre ele no Google. Atualmente, ele tem 26 anos e está no auge da sua carreira. Tem muita fama, sucesso e glamour. Me senti uma idiota por não tê-lo reconhecido rapidamente.
Mas não me culpe. Fazia um tempo que eu não acompanhava mais o twitter de com frequência. Além do mais, seu visual havia mudado. O garoto franzino que brilhava nos palcos agora parecia um lindo bad boy boêmio cruzando uma ponte debaixo de uma noite estrelada.
Mamãe vivia me dizendo que o era o genro dos sonhos dela, mesmo ele sendo alguns anos mais velho do que eu.
Como se ele fosse mesmo gostar de alguém como eu.
- Estes são respectivamente , e . Ambos habilidosos e talentosos, também foram alunos da Wings e se destacaram por serem realmente brilhantes. - apontou para os outros homens charmosos e vi se abanar com a mão. A cena me deu a maior vontade de rir.
Eu também não a julgava por sua reação. Os outros três eram tão lindos e charmosos quanto .
- E por fim, Deborah Cyrus. - Ele apontou para a mulher que eu havia esbarrado no corredor. - Professora de canto, bailarina e atriz.
Merda. Merda. Merda. Merda.
Ela vai ser uma das professoras também? Se eu cair na turma dela tenho certeza de que ela irá me infernizar para sempre.
- Espero que nenhum desses professores sejam gays. - cochichou , vindo para o meu lado já que eu estava atrás dela me escondendo.
- E porque eles seriam gays?
- Você sabe o que dizem sobre os bailarinos.
- Eles não parecem ser gays para mim.
- Vou torcer para que não sejam. - ela cruzou os dedos na altura da cabeça. - Espero que eu fique na turma do . Ou na do . - falou com muita ênfase, encarando e como se eles fossem dois pedaços de carne.
Dei uma risada baixa.
passou o microfone para , que o pegou e se posicionou bem no centro do palco.
- Vocês tem exatamente 10 minutos para voltarem aos seus alojamentos e colocarem uma roupa confortável de dança. A primeira avaliação sujeita a eliminatória acontecerá no estúdio de dança do terceiro andar.
Corri ao lado de para fora do salão vendo que todos tiveram a mesma ideia que a gente. Os corredores ficaram congestionados e o desespero para chegar a tempo até os alojamentos foi coletivo.
Quando eu e finalmente chegamos em nosso alojamento, já estava lá trocando a sua roupa.
Fiquei revirando as minhas malas em busca das minhas roupas de ginástica por uns bons 5 minutos.
Quando comecei a me vestir, já estava pronta e saía do quarto como um foguete enquanto terminava de colocar suas sapatilhas e prender o cabelo. Minha cama estava toda desarrumada e minhas roupas, espalhadas pelo chão.
- Eu estou indo, boa sorte! - disse apressadamente, sem me dar tempo de respondê-la.
- Obrigada. - falei para o nada, vendo a porta bater. Saí do quarto e corri feito uma louca desvairada. Subi uns três lances de escada e cheguei ao terceiro andar já arfando. Senti alguém puxando o meu braço e cambaleei para trás, parando bruscamente no corredor quando vi a professora Deborah me olhando de forma maquiavélica.
- Você não vai fugir de mim de novo. - disse ela, fincando suas unhas afiadas em meu braço.

Capítulo 3 - O Dragão e o professor da Ironia

Respirei fundo e olhei dentro dos olhos verdes de Deborah, com um misto de medo e inveja. Ela era uma professora muito bonita e bem sucedida. Já havia ouvido falar dela algumas vezes em algumas matérias que saíam nas revistas que mamãe costumava ler.
Seus cabelos eram mais loiros do que os de , porém, os de eram maiores. Deborah tinha um rosto fino e perfeito. Seus cabelos curtos e repicados lhe davam um ar mais formal e sofisticado.
Desvencilhei-me de suas mãos fincadas em meu braço e dei alguns passos para trás.
- Professora, eu sinto muito por mais cedo. - eu disse, nervosa e aflita. - Mas eu preciso ir para o estúdio de dança.
- Você não vai a lugar algum! - exclamou, levantando o braço para tentar alcançar o meu, mas fui mais rápida e me esquivei.
Antes que ela pudesse tentar fazer mais alguma coisa, me virei e saí correndo sem saber se eu estava indo na direção certa. Eu esperava que sim, pois agora não dava mais para voltar atrás. Tinha um dragão bloqueando o corredor e esse dragão se chamava Deborah.
Pude ouvi-la berrar alguns xingamentos enquanto eu me afastava. Ela era a mulher mais louca e neurótica que já havia conhecido e olha que nem fazia 24 horas que eu havia chegado ali.
Parei em frente a uma porta de madeira, e respirei aliviada quando vi a plaquinha que indicava que ali era o estúdio de dança pregada na parede.
Abri a porta com desespero e afobação, e senti que todos os concorrentes - inclusive e - viraram a cabeça em minha direção.
Ou seja, eu tinha cerca de 1.000 pessoas me encarando.
Ao perceber isso, me encolhi e entrei timidamente no estúdio.
- Ora, ora, ora... Achei que eu tivesse sido bem claro em relação aos 15 minutos correspondentes para trocar de roupa e vir para cá. - disse , sorrindo ironicamente para mim.
- Desculpe, tive um pequeno desentendimento com a professora Deborah. - justifiquei-me, vendo o olhar de divertimento que alguns lançavam em minha direção. - Isso não vai acontecer novamente.
me analisou dos pés a cabeça. Ele parecia fazer aquilo com afinco e determinação, como se quisesse gravar em sua mente cada detalhe que seus olhos capturavam. Mas ele não me olhava com interesse. Não, longe disso.
Até porque, eu bem sei que nunca despertaria o interesse do . Eu sou sem graça. Não tenho nenhum corpo exuberante como o de , e muito menos o seu olhar de gata sedutora. Também não tenho os cabelos sedosos de ou os olhos de Deborah.
A única coisa que eu tenho é o meu talento. Mas não faz a mínima ideia de que eu tenho um. Afinal, ele estava me olhando como se eu fosse um verme que precisava ser exterminado imediatamente.
E eu não gostei nada daquilo.
- Achei que você ia me dar uma resposta atravessada. - não desfez o sorriso do rosto. Ele parecia estar se divertindo tanto quanto qualquer um na sala.
- E porque eu faria isso? - perguntei de cenho franzido.
- Não é isso que garotas rebeldes como você fazem? - ele perguntou, colocando as duas mãos nos bolsos da calça. Ninguém ousou interrompê-lo. - Se atrasam, quebram as regras e respondem os professores?
- N-não é n-nada... – gaguejei, nervosa demais para conseguir formular uma frase coerente.
- Se você quer chamar a atenção, venha até aqui. - me chamou com a mão, mas eu fiquei tão aturdida com tudo o que estava acontecendo que não consegui mexer as pernas.
Meus olhos logo se encheram de lágrimas, mas fiz questão de afastá-las. Eu não iria chorar na frente daquelas pessoas. Não mesmo.
- Eu não quero chamar atenção. - respondi com a voz embargada.
- Venha até aqui. - ordenou novamente. Inspirei profundamente e o obedeci, caminhando lentamente na direção de .
Tentei olhar em seus olhos, mas o que eu enxergava não era possível decifrar.
Eu estava com medo. E morrendo de vergonha. E assustada como uma criança no escuro. Mas não parei de caminhar.
Parei na frente de , que pegou em meu braço e me colocou ao seu lado.
- Agora eu quero que dance. - falou, olhando-me de perto, sem deixar de lado a ironia.
- O quê? - Arregalei os olhos e meus batimentos cardíacos aceleraram com o que ele me mandara fazer.
Eu tinha certeza de que ele queria me humilhar. Ele queria que eu desistisse do concurso ou que eu chorasse, e eu podia ver isso somente olhando dentro de seus olhos.
- Você é surda ou o quê? Eu quero que você dance! - ordenou.
Olhei para as pessoas ali paradas. A maioria tinha um sorrisinho no canto dos lábios. Tentei localizar no meio da multidão, mas não obtive êxito em minha busca.
O único que parecia um pouco compassivo por mim era .
- M-mas e-eu... - Minha voz estava embargada, mas eu lutava para não chorar.
Olhei para os lados e consegui ver . Ela não sorria ou me encarava com pena, e sim parecia temerosa com o rumo que tudo aquilo estava tomando.
- Como você se chama? - perguntou-me.
Voltei-me para e limpei a garganta antes de responder:
- .
- Então, se você não dançar agora mesmo, está fora do concurso. - disse, quase me fuzilando com os olhos. Engoli em seco, tremendo de medo.
- , deixe-a em paz. - interveio. - Tenho certeza de que ela não fez por mal.
Abaixei a cabeça, fitando minhas sapatilhas de ballet.
pensou no que disse e suspirou, massageando as têmporas.
- Se junte aos outros, Little Rebel. - Pisquei os olhos, aturdida e fui para onde estava, ainda assustada com tudo o que havia acabado de acontecer.
Ela me olhou de modo compassivo e colocou a mão em meu ombro para me amparar.
- Dividirei vocês em dois grupos para o teste. Quinhentos ficarão aqui e a outra metade aguardará em outra sala, com e , que irão comandar o restante, para que o risco dos outros saberem o que faremos aqui vazar seja preservado.
e dividiram os dois grupos. fez questão de que eu ficasse no primeiro grupo, e ainda me colocou na primeira fileira junto com um monte de pessoas que eu nem conhecia.
e ficaram no segundo grupo.
Uma jovem vestida com roupas parecidas com as nossas entrou na sala. Ela seria uma das instrutoras que o havia mencionado mais cedo.
colocou uma música eletrônica para tocar e a jovem começou a se mover rapidamente, dançando pelo estúdio.
- Prestem muita atenção no que a Lena está fazendo, pois vocês farão o mesmo. - disse , aumentando a voz por causa da música.
Concentrei-me na garota e em seus movimentos, balançando meus pés devagarinho para poder gravar seus movimentos e poder executá-los com perfeição.
O garoto que estava ao meu lado foi o primeiro a imitar os movimentos que Lena fazia e assim, várias outras pessoas começaram a executar a coreografia também.
olhava para todos os alunos atentamente, assim como . Eles me intimidavam tanto que fui uma das últimas a começar a imitar os movimentos de Lena.
Cada pessoa tem um jeito próprio de dançar e interpretar cada passo e movimento. Eu tenho algumas dificuldades e sei que sou um tanto afobada enquanto danço, mas tenho talento. Se eu não o tivesse, não teria sido uma das 1.000 selecionadas.
falou algo no ouvido de , que assentiu positivamente com a cabeça. Logo em seguida, apontou para a garota que dançava a minha esquerda e mais umas dez pessoas ou mais. Ele ordenou que elas parassem de dançar.
- As pessoas que eu apontei, podem voltar para casa. Vocês estão reprovados. - Todos soltamos exclamações e alguns de nós até perdemos a concentração com aquilo.
Os eliminados começaram a reclamar, mas deixaram a sala com o sentimento de decepção e vazio dentro do peito.
- Continuem dançando! - ordenou .
Fizemos o que ele ordenara, fazendo a sequência gigante de passos que Lena já havia parado de fazer.
Senti que me olhava e temi que ele me eliminasse também. Afinal, ele havia cismado comigo desde que eu passei por aquela porta, assim como Deborah.
Dei um giro e fiquei me perguntando se sobreviveria nessa escola até o final do dia, com tantas pessoas querendo me prejudicar.

Eu estava suada e meus pés doíam. Eu ainda estava no maldito teste com mais de 30 pessoas. Uma quantidade considerável de competidores havia sido aprovada e uma parte maior acabara sendo eliminada.
Eu não aguentava mais dar rodopios e piruetas e parecia perceber, pois continuava mandando que continuássemos fazendo a maldita sequência.
desligou a música e eu e os outros paramos, ofegantes.
deu alguns passos para frente e sorriu. Mas não era um sorriso simpático ou alegre.
Era irônico.
Ele apontou para cerca de dez pessoas. Eu fui a décima primeira. Meu coração acelerou e senti vontade de chorar novamente.
Com certeza estava eliminada.
- As pessoas que eu apontei podem voltar para os seus alojamentos. Vocês estão aprovadas. - O encarei com um misto de surpresa e alegria. - Ao saírem, vocês encontrarão Lena com uma prancheta. Peço que deem seus nomes completos a ela antes de se recolherem. Amanhã será pregado no mural de avisos do primeiro andar uma folha contendo a turma que cada um de vocês ficará. Boa sorte e parabéns!
Os dançarinos ao meu redor comemoraram e eu saí do estúdio sorrindo de felicidade.
O grupo de e seria o próximo, porém, como dissera, não vimos o próximo grupo quando saímos do estúdio. Provavelmente fariam a avaliação com , e Deborah.
Uma fila enorme se formou na direção de Lena, que anotava os nossos nomes com muita concentração.
Dei meu nome para ela quando chegou a minha vez e fui correndo para o meu alojamento com medo de esbarrar com Deborah no caminho.
Por sorte, não encontrei com o Dragão e não esbarrei em mais ninguém que pudesse ter o desejo de me atormentar.
Entrei em meu alojamento e me joguei na cama. Minhas roupas ainda estavam espalhadas pelo chão, devido ao desespero em me vestir para a avaliação. Soltei o ar pesadamente e fiquei encarando o teto da Wings.
O alívio de ter sido aprovada ainda preenchia o meu peito, mas o medo do que ainda estava por vir não me largava de jeito nenhum. Estava morrendo de medo de ficar na turma da Deborah. Ou na turma do . Sei que ambos infernizarão minha vida e me farão desistir do concurso.
Tenho certeza de que me deixou por último junto com os outros por algum motivo. Toda a vez que eu o pegava olhando para mim, eu avistava a sombra de um sorriso maquiavélico em seu rosto.
Se a ou o meu pai tivessem me dito que eu enfrentaria tudo isso quando eu chegasse aqui na Wings, eu não teria acreditado. Além do mais, eu nunca fui o tipo de garota que arrumava confusão. O jeito que estava me chamando, Little Rebel, me desagradava um bocado.
Nunca fui para a detenção ou fiquei de castigo por mau comportamento quando eu ainda estudava, e nunca fui o tipo de garota que gosta de quebrar as regras. Nunca tive coragem de matar aula e sempre fui a aluna mais quieta da turma.
O apelido que ele me dera não era nada mais do que uma ironia.
A porta se abriu e entrou, cantarolando.
- Adivinha quem vai continuar no concurso? - perguntou, sorrindo e dando pulinhos pelo quarto. - Eu!
- Que bom, ! - Me sentei em cima dos meus pés na cama, sorrindo de volta para ela. - Parabéns!
- Obrigada! Nossa, estou muito feliz que você tenha passado também. Achei que o fosse te eliminar pelo lance do atraso. - disse ela afobada, sentando-se de frente para mim na cama de .
- Nem me lembre disso! - exclamei, passando as mãos pelo rosto de tanto nervosismo. - Foi horrível, ele me deixou por último com mais de trinta pessoas de propósito. Eu não aguentava mais fazer aquela sequência.
- Acho que ele vai pegar muito no seu pé se você for pra turma dele. - observou, roendo a unha do polegar.
- A Deborah também não foi muito com minha cara. - confessei, colocando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.
- Eu ODEIO aquela mulher, ela é uma vaca! Ela não vai com a cara de ninguém, . Sem contar que vive dando em cima do . - disse ela, ficando com o rosto vermelho de tanta raiva.
- Como você sabe disso?
- O Google é uma ferramenta de pesquisa muito eficaz, sabia disso? Antes de me inscrever nesse concurso, eu procurei todo o tipo de informações possíveis sobre a Wings e seus professores. Dizem que a Deborah e o tiveram um caso há alguns anos atrás. Para ele, não era nada sério, mas para ela, eles iriam se casar e ter mais de trinta filhinhos. - Fiquei olhando para ela boquiaberta por um longo tempo. Eu não fazia ideia de que por trás de toda aquela fachada de superioridade e beleza existia uma mulher rejeitada.
- Fala sério! - falei, embasbacada.
- Dizem que ela é obcecada por ele e é totalmente idiota com os seus alunos. Todos a odeiam. Ninguém a suporta, nem mesmo o Delicious . - disse , sorrindo maliciosamente e olhando para cima.
- Delicious ? - Levantei uma das sobrancelhas, dando uma risada.
- Ah fala sério. Ele é um pedaço de mau caminho, ! - Ela se abanou com as duas mãos e simulou um ataque cardíaco logo em seguida.
- Ele é um idiota! - exclamei, irritada. Todos os sonhos adolescentes construídos com no fundo de minha imaginação estavam sendo estilhaçados naquele momento. - Eu não me atrasei porque eu quis, foi tudo culpa da Deborah.
- É, mas ele não acreditou nisso. - disse ela, ficando séria de repente. - E aí, o que você vai fazer se for para a turma dele ou para a de Deborah?
- Vou amarrar uma corda no meu pescoço e me enforcar como fizeram com Joana d’Arc. - Ela franziu o cenho, olhando-me com uma expressão estranha no rosto.
- Ela não morreu queimada?
- Morreu? Ah, tanto faz. De qualquer forma, acho que eu me mato.
- Quer uma ajudinha? - perguntou, jogando o travesseiro da cama de no meu rosto.
- Não, obrigada. - eu disse, rindo e jogando o travesseiro em , que se esquivou dando altas gargalhadas.
entrou, olhando-nos de forma enfurecida.
- Que bagunça é essa aqui na minha cama? - perguntou, irritada. Mesmo com toda a tensão do momento não pude deixar de reparar que mesmo suada, continuava impecável. Nenhum fio de cabelo seu parecia estar fora do lugar.
- Não acredito que você foi aprovada! - exclamou , meio decepcionada com aquilo.
- Pois é, acho que vocês terão que aprender a conviver comigo. - disse ela para antes de se virar para mim e esboçar um sorriso irônico. - Não é mesmo, Little Rebel?
Engoli em seco, encarando-a com um pouco de incredulidade. Será que era assim que as pessoas estavam me chamando pelos cantos? O maldito apelidinho que colocara em mim já havia se espalhado pelos corredores enormes da Wings?
Além de ter que enfrentar a fúria de uma professora apaixonada e rejeitada, eu ainda tinha na bagagem um professor irônico disposto a infernizar a minha vida e uma loira azeda aspirante a Barbie no mesmo quarto que o meu.
Onde eu arranjo uma corda?

Capítulo 4 - Cante de Novo

Abri os olhos com um sentimento de ansiedade dentro do peito. Eu nem havia conseguido pregar os olhos direito à noite. Era a primeira noite que eu dormia fora de casa, na Wings, a escola dos sonhos de qualquer um que ame dança, canto e teatro tanto quanto eu.
Além do mais, a saudade de casa já apertava o meu peito. E a preocupação de dar de cara com a Deborah por aí também contribuía para a minha insônia.
O dia já havia amanhecido e logo o sinal anunciando que tínhamos que nos levantar tocaria. Haviam nos explicado que o sinal tocava primeiramente as 6:15 da manhã, para que todos nós nos levantássemos e tomássemos um banho. Uma hora depois, o sinal para que fôssemos para o refeitório tocava para tomarmos o café da manhã e irmos para a sala de aula.
No entanto, como nós ainda não sabíamos em que turma ficaríamos, depois do café da manhã, antes de irmos para a nossa primeira aula, iríamos olhar o mural de avisos para vermos com qual professor iremos ficar.
O sinal tocou e eu me levantei, pegando uma roupa normal para vestir. havia nos avisado que a primeira aula que teríamos era de canto portanto, não precisávamos nos preocupar em vestir uma roupa confortável, o que significava que eu poderia muito bem vestir a minha calça jeans.
se levantou logo em seguida, mas eu entrei primeiro no banheiro. Por sorte, todos os alojamentos tinham uma suíte. Tomei um banho rápido, repleta de nervosismo e alegria afinal, hoje eu teria a minha primeira aula!

- Seria muito legal se nós duas ficássemos na mesma turma, não é? - disse colocando um pedaço de pão na boca.
- Poxa, nem me fale. - eu disse, olhando para as mesas já lotadas do refeitório. - Seria mesmo.
De 1.000 pessoas, somente 400 haviam passado na avaliação de ontem e mesmo assim o refeitório continuava abarrotado de pessoas.
- É uma pena que os professores não façam as suas refeições junto com os alunos. - disse , passando manteiga em um biscoito Cream Cracker. - Seria realmente interessante comer com a visão daqueles gatos.
- Mas comer com eles significaria comer junto com a Deborah também. - bufou, jogando o biscoito de volta em sua bandeja.
- Aquela... Bruxa!
Ao olhar mais uma vez ao meu redor, eu percebi que algumas pessoas olhavam na direção que eu estava com e cochichavam. Eu tinha certeza de que a notícia de que eu seria "assombrada" pelo já havia vazado pelos corredores.
Posso jurar que agora todos só me chamam de Little Rebel por aí, inclusive , que havia arranjado protótipos de Barbie semelhantes a ela para andar junto na hora do intervalo.
O sinal tocou e eu e nos levantamos junto com outros alunos que também haviam terminado de comer. Todo o mundo estava ansioso para saber em que turma ficaria.
Saímos do refeitório e fomos direto para o primeiro andar, na direção do mural de avisos. Meu coração acelerou na medida em que eu chegava mais perto junto com .
Uma multidão de pessoas parou na frente do mural de avisos, bloqueando a minha visão. Alguns comemoravam ao verem seus nomes em uma respectiva turma e outros reclamavam quando viam que haviam ficado na turma da Deborah.
Quando algumas pessoas se dispersaram, eu e abrimos caminho e ficamos bem na frente das folhas com os nomes das turmas. Procurei meu nome na turma da Deborah, mas não achei, o que me fez respirar aliviada. Porém, eu não estava na turma do também. Muito menos na do .
Também não achei meu nome na lista do .
Prendi a respiração quando passei os olhos pela folha com a turma do e senti vontade de realmente me matar quando vi o meu nome na terceira linha da lista.
Eu estava mesmo na turma do .
- Não acredito nisso! - guinchei, sentindo uma vontade louca de voltar para New Haven. - Eu estou perdida!
- O que houve? - perguntou, olhando-me preocupada devido ao meu desespero.
- Eu estou na turma do ! - falei, desesperada.
- Ai meu Deus! – colocou as mãos em meus ombros, fitando-me bem de perto. - Fica tranquila, . Talvez ele nem vá implicar mais com você.
- É, talvez você tenha razão. - Menti. Eu tinha certeza de que ele infernizaria a minha vida. - Em que turma você ficou? – perguntei, tentando ignorar o frio que eu senti em minha barriga.
- Na do ! - disse ela, toda contente.
- Que legal, fiquei na turma do ! - gritou, vindo para o meu lado. - Boa sorte, Little Rebel. Acho que você precisará muito agora que descobriu que está na turma do .
- Cale a boca, Barbie falsificada! - defendeu-me, aproximando-se de lentamente.
- Não me mande calar a boca, sua vadiazinha. - retrucou , fuzilando-a com o olhar.
- Se você me chamar assim novamente eu juro que corto a sua língua com um alicate de unha e dou pra sua mãe de presente de natal! - Entrei no meio das duas, impedindo que as duas se engalfinhassem no corredor.
- Parem, por favor. - pedi, segurando o braço de com força.
- Vamos embora, . - Uma das amigas de veio para o lado dela, nos encarando de forma esnobe. - Deixe essas fracassadas para lá.
- Fracassada é a sua bunda suada e cabeluda! - respondeu enquanto as duas se afastavam.
- Vamos para a sala de aula, ok? - assentiu, concordando comigo. Seu rosto estava vermelho de irritação. - Boa sorte no seu primeiro dia com o .
- Boa sorte com o . - Ela riu, dando-me um abraço rápido. - Por favor, tente não se enforcar.
- Tudo bem, pode deixar. - Sorri, me afastando de e indo na direção contrária.
A Wings é uma escola imensa. Possui diversas salas de aula para canto, diversos estúdios de dança gigantescos e salas de aula de teatro. Fora o salão principal, o refeitório, os inúmeros alojamentos e as outras salas que eu ainda nem conhecia.
A sala de aula que a turma do ficaria era a do terceiro andar. Corri pelas escadarias afoita, já que os elevadores estavam em manutenção. Torci para que eu não estivesse atrasada, já que eu ainda não sabia qual era o horário exato da primeira aula.
Quando entrei na sala, ela já estava parcialmente lotada. Havia alguns lugares sobrando, mas preferi me sentar na terceira fileira do canto.
Ignorei os cochichos dos outros alunos e fiquei observando as folhas brancas de ofício e outros materiais como lápis e canetas que estavam em cima da minha carteira.
entrou logo em seguida, usando uma roupa tão formal quanto a de ontem. Uma calça social cinza e uma blusa social branca com um blazer da mesma cor da calça por cima. Seu sapato social brilhava e ele usava uma boina cinza na cabeça que o deixou bem charmoso.
Ele trazia consigo uma bolsa de couro pendurada de lado em seu ombro. a colocou em cima de sua mesa e se sentou, olhando para os alunos que já estavam ali na classe.
Seu olhar parou em mim assim que me viu e ele esboçou o mesmo sorriso irônico de ontem.
- Little Rebel! - saudou ele, fingindo animação. - Fico feliz que não tenha chegado atrasada desta vez.
Me encolhi na cadeira quando ouvi as risadas dos alunos preencherem os meus ouvidos. pareceu gostar da minha reação, porque abriu um sorriso ainda maior do que o primeiro.
- Como esse é o nosso primeiro dia de aula, quero que cada um de vocês faça uma apresentação breve. Digam seus nomes, de onde vieram e como vocês se definem. Depois, passarei uma parte teórica sobre canto para vocês copiarem e se der tempo, quero ouvir alguns de vocês cantando.
Ah, não. Aquilo definitivamente não era legal.
Tenho certeza de que me mandará ser a primeira a me apresentar. Como se ele já não tivesse gravado o meu nome e todas as informações preenchidas em minha ficha na secretaria da Wings.
Um grupo de 5 alunos deu 3 batidas na porta antes de entrarem timidamente.
- Com licença, professor . - disse a única menina do grupo.
- Tudo bem, podem entrar. – disse ele, completamente relaxado.
Encarei embasbacada aquela cena.
Ontem eu não pude de jeito nenhum dar uma justificativa plausível sobre o meu atraso sendo que eu não havia me atrasado porque eu quis ou porque eu estava vadiando por aí.
Tenho certeza de que eles estavam aprontando lá fora antes de virem para cá. Porém, o nem ao menos se preocupou em questioná-los ou lhes dar uma advertência.
Esse professor definitivamente é um idiota.
Eles se amontoaram nos lugares vagos e logo não tinha mais nenhum lugar sobrando.
- Agora podemos começar com as apresentações. - esfregou uma mão na outra, empolgado. Passou os olhos pela sala de aula de um canto a outro lentamente. Me abaixei em minha cadeira para que ele não me notasse. - Little Rebel, vamos começar com você.
Droga.
- Fique de pé e diga seu nome, sua idade, de onde veio e como você se define. Isto é, suas qualidades e defeitos. - Respirei fundo e me levantei, arrastando a cadeira que eu estava sentada para trás.
Toda a atenção estava voltada para mim.
- Eu sou , tenho dezoito anos e nasci em um bairro pequeno e pouco conhecido de New Haven. Eu sou uma garota muito sonhadora. Sou movida a sonhos e a vontade constante de realizá-los. Também sou tímida e bastante insegura, o que me atrapalha bastante na maioria das vezes. - Mordi o lábio inferior, nervosa. Eu sentia meu rosto esquentando cada vez mais e resolvi escondê-lo tirando algumas mechas do meu cabelo de trás da orelha.
- Hm, interessante. - ele disse, sorrindo sugestivamente. Eu tinha certeza de que aquele sorriso não era nada amigável. Voltei a me sentar e só então fui perceber o quanto minhas mãos estavam tremendo.
me deixava nervosa e eu tinha certeza de que aquilo era só o começo.
O seu sorriso me dizia aquilo.

O refeitório estava totalmente tumultuado a as conversas paralelas só me irritavam na medida que eu ia me lembrando do desastre que estava sendo o meu dia.
Todo mundo estava alvoroçado com sua primeira aula de canto. não parava de falar no quanto o é lindo e no quanto é difícil prestar atenção em alguma coisa com aqueles olhos e aquele corpo perfeito tão perto de si.
Mas a minha primeira aula foi um desastre.
me mandou cantar. Eu cantei, é claro. Morrendo de vergonha, mas cantei. O problema é que ele cismou que eu havia saído do tom em uma parte da música e me mandou cantar a música novamente não uma ou duas vezes. Mas sim dez (dez!) vezes.
- Little Rebel, quero que você seja a primeira a cantar. - disse ele, sorrindo daquele jeito irritante.
- Mas por quê? - perguntei me engasgando com a saliva e tossindo horrores.
- Porque sim. - Ele deu um breve aceno de cabeça. - Agora venha até aqui.
Me levantei da cadeira sentindo as minhas pernas tão bambas quanto gelatina de morango. Andei devagar até ele com a esperança de que se eu andasse no ritmo de uma tartaruga a aula acabaria e eu poderia sair da sala de aula como um foguete.
Mas é claro que aquilo não aconteceu.
me entregou um microfone e pegou sua cadeira, colocando-a na mesma direção que eu estava, sentando-se logo em seguida.
Eu comecei a cantar sem acompanhamento de um instrumento a primeira música que me veio à cabeça.
- Down to you, you're pushing and pulling me down to you but I don't know what I. Now, when I caught myself, I had to stop myself. From saying something that I should've never thought...
- Você semitonou feio. - disse ele, fazendo com que eu parasse de cantar abruptamente.
- Não semitonei não. - discordei, ficando realmente irritada com sua implicância. Os outros só sabiam dar risadinhas discretas do meu constrangimento.
- Claro que semitonou. - retrucou, rindo descaradamente de mim. Apertei o microfone com força, imaginando a cabeça de em seu lugar.
- Eu notaria se tivesse semitonado. - respondi ríspida.
- Cante de novo.
Respirei fundo, levando o microfone a boca e repetindo as primeiras estrofes da música.
- Down to you, you're pushing and pulling me down to you but I don't know what I. Now, when I caught myself, I had to stop myself. From saying something that I should've never thought...
- Viu? - me interrompeu novamente, dando um sorriso torto e cruzando os braços acima do peito. Tentei não notar no quanto seus ombros eram largos e bonitos.
- O que? - perguntei piscando os olhos várias vezes para clarear as ideias.
- Você semitonou de novo! - exclamou, claramente se divertindo as minhas custas.
- E o que você quer que eu faça? - Será que ele não se cansava de me humilhar? Existiam mais setenta e nove alunos na sala de aula além de mim. Setenta e nove!
- Quero que você cante de novo. - O encarei incredulamente e limpei a garganta antes de voltar a cantar.
As próximas vezes foram semelhantes as primeiras. cismava que eu estava semitonando e me mandava cantar novamente. Na décima vez que cantei, ele finalmente se deu por satisfeito.
- Se quiser continuar no concurso, tem que ensaiar essa voz. - disse ele, se levantando da cadeira e pegando o microfone da minha mão. - Semitonar é tão feio quanto desafinar, sabia?
Levantei a cabeça para poder olhá-lo nos olhos e não me importei em esconder o quanto estava furiosa. Porém, apenas voltei para o meu lugar enquanto chamava mais um aluno para cantar.
O mais irritante nessa história toda é que ele sabia que eu não estava semitonando. Eu faço aulas de canto desde os meus 5 anos e sei perfeitamente quando não consigo alcançar uma nota.
fazia aquilo para me humilhar, para ver até onde eu aguentaria e isso me irritava profundamente.
- A comida daqui é uma delícia, não acha? - perguntou-me , falando de boca cheia, perdida entre garfadas de uma deliciosa macarronada.
- É sim. - respondi brincando com a macarronada praticamente intacta em meu prato.
- É estranho que você concorde comigo já que até agora não te vi colocando uma garfada sequer de macarronada na boca. - disse , observando-me atentamente.
Abaixei a cabeça e larguei o garfo de qualquer jeito no prato, brincando com a costura desfiada de minha blusa.
- Só estou chateada com toda a situação com o . Não sei se vou aguentar por muito tempo. - Encolhi os ombros, sentindo meus olhos arderem. - Para você ter uma ideia, eu nem liguei para o meu pai, para Lucy e para contar para eles como estava sendo minha estadia aqui na Wings. Tenho certeza de que eles vão notar que eu não estou bem e vão ficar preocupados comigo.
- Você tem que ser forte, . - me encorajou, olhando-me fixamente. - O sabe que você tem potencial e faz isso para que você desista.
- Isso não faz muito sentido. - murmurei com a voz embargada.
suspirou, deixando sua comida de lado por alguns instantes.
- Quando um candidato é realmente bom, a tendência é que todos tentem fazer com que ele saia por conta própria do concurso.
- Eu acho que ele não gosta de mim pelo lance do atraso. Acho que essa história de potencial não tem nada a ver com isso. - eu disse, totalmente pessimista.
- Tente não ligar para ele. - deu um meio sorriso e eu assenti positivamente. - Eu sei que é difícil, mas ninguém disse que ganhar isso aqui seria fácil.
- Eu acho que está sendo mais difícil para mim do que para os outros. - eu disse, lembrando-me de que eu ainda teria aula de dança com .
Aquele dia seria longo e exaustivo.
E totalmente torturante.

Capítulo 5 - Tweets Escondidos

Um. Dois. Três. Giro. Plié. Releve. Plié. Giro. Sobe. Para. Desce.
ficava repetindo essa sequência incessantemente em nossos ouvidos. O estúdio de dança era gigantesco e mesmo assim, parecia pequeno e estreito para 80 pessoas.
Boatos de que a segunda avaliação ocorreria naquela mesma semana já rolava solto pelos corredores. Ninguém desmentia, mas também não havia uma única pessoa capaz de confirmar aquela informação.
Diziam que era porque ainda havia muitos concorrentes e poucos professores para muitos alunos. Se aquilo era verdade, ninguém sabia. Só o que sabíamos era que a Wings é uma caixinha cheia de surpresas.
- Little Rebel, faça os passos com mais calma e leveza. - pediu assim que parei para descansar. Ele estava sentado numa cadeira acolchoada. Sua postura era reta e impecável.
Ele observava a todos os seus alunos de onde estava e anotava algumas coisas em uma prancheta.
já havia percebido a minha dificuldade na dança.
Desde que a minha mãe morreu, eu passei por diversas fases dolorosas em minha vida. A primeira foi a iminente tristeza e o isolamento. Passei 1 semana sem vontade de voltar ao estúdio de ballet para dançar.
Quando finalmente voltei ao estúdio, meu jeito de dançar já havia mudado. Lucy percebeu. Todo o mundo percebia.
Antes eu dançava com alegria. Um pé após o outro, um giro após o outro. Um levantar de braço para logo depois o outro. Após a minha mudança, tudo parecia totalmente fora do eixo e desconexo.
Meus pés se atrapalhavam. Meus braços pareciam querer me afogar em minha própria insanidade. Mas não era porque eu queria. Dançar sempre foi uma das minhas maiores paixões e isso não mudou com a morte de minha mãe.
Mas eu mudei, assim como a minha forma de dançar.
A segunda fase foi a da raiva.
Eu já não me atrapalhava, mas eu parecia ter perdido a essência que mamãe dizia que eu tinha. Eu não dançava mais com leveza.
Dançava com raiva, brutalidade. Fiquei um bom tempo sem dançar ballet porque achava muito lento e travado para se dar bem com as minhas atuais emoções.
E quando a última fase veio, parecia ser uma mistura das outras duas. Da tristeza e da raiva. Raiva do motorista embriagado que bateu no carro da minha mãe. Tristeza por saber que eu nunca mais a veria ou sentiria o seu perfume.
Eu nunca mais consegui recuperar a minha essência. Tampouco, a leveza que a maioria dos bailarinos tinham. Eu dançava com ênfase, com amor, mas também dançava com brutalidade, com força, de um modo afobado que me prejudicava mais do que ajudava.
A única coisa que sobrou da velha e antiga foram os meus sonhos. Mamãe sempre me disse para não desistir deles.
E somente porque ela me pediu, eu continuei sonhando.
- Tudo bem, eu vou tentar. - respondo a mesmo sabendo que isso é uma tarefa praticamente impossível.
Volto a fazer a sequência, tentando controlar meus instintos naturais. Vejo que não dá certo quando olho na direção em que está sentado. Ele me olha profundamente, com um ar desaprovador que é capaz de embrulhar o meu estômago.
A porta do estúdio se abriu e dois câmera-man surgiram gravando o que fazíamos enquanto uma mulher segurava um microfone e falava tão rápido que era difícil acompanhar tudo o que ela dizia sem se perder no meio do caminho.
Vi uma das amigas de (que infelizmente estava na mesma turma que eu) ajeitar o cabelo e desamassar a roupa enquanto voltava a dançar com mais energia do que antes, o que era totalmente desnecessário.
Infelizmente, ela não era a única a se exibir.
Os outros bailarinos começaram a fazer a sequência de de um jeito totalmente exagerado. Eu não estou brincando. Eles começaram a improvisar viradas estratégicas de cabelo e alguns garotos davam mais giros do que eu gostaria de ter contado.
Fiquei por um bom tempo parada no meio daquele "Fogo Cruzado do Exibicionismo" sem saber o que fazer. Não sabia se recomeçava a fazer a sequência exatamente do mesmo jeito que eu fazia antes ou se seguia a mesma linha que os outros e dançava de forma totalmente exibicionista.
levantou uma das sobrancelhas para mim ao ver o quanto eu estava perdida no meio de toda a minha indecisão. As câmeras começaram a nos filmar e por um bom tempo eu fui a única que continuei parada sem fazer nada.
Depois, voltei a fazer a sequência, mas o nervosismo acabou me atrapalhando e eu tropecei em meus próprios pés ao dar um giro mal executado. Cambaleei para o lado e inspirei profundamente, tentando me concentrar.
Voltei a fazer a sequência, executando cada passo já gravado em minha mente da mesma forma que eu fazia antes dos câmeras-man chegarem. A mulher continuava falando sobre os concorrentes e sobre como a turma do transbordava energia, mas a maioria das coisas que ela dizia acabava sendo abafada pelos acordes da música que tocava no rádio.
Todos continuaram repetindo a sequência incansavelmente e quando os câmera-man e a mulher se retiraram, nós paramos, ofegantes.
desligou o rádio e o sinal indicando que a aula havia acabado tocou.
- Parabéns pelo desempenho, pessoal! - disse ele, mas seu rosto estava sério. - Todos estão liberados, menos você, Little Rebel.
Estagnei no meio do caminho, com o coração já acelerado de medo dentro do peito. Os outros bailarinos pegaram suas coisas e foram embora. Percebi que alguns me davam olhadelas de canto ao passarem por mim.
Quando o mar de concorrentes finalmente se foi, fechou a porta do estúdio e eu juro que fiquei gelada e pálida. Tentei controlar as minhas reações, mas eu tinha quase certeza de que podia sentir o meu medo de longe.
- Você foi a única que não se exibiu para as câmeras. - observou, me olhando intrigado. - E eu quero saber o porquê.
- Eu não vejo a necessidade de me exibir e muito menos de fazer alguma coisa somente porque a maioria está fazendo também. - dei de ombros, olhando-o diretamente nos olhos.
- Isso é uma atitude muito... estúpida. - disse ele, pendendo a cabeça para o lado para me observar de um ângulo diferente. Minhas bochechas ficaram coradas. - E intrigante.
- Eu não estou aqui para fingir ser algo que eu não sou. - murmurei, torcendo para que o meu cabelo solto cobrisse as minhas bochechas vermelhas.
- Mas você deveria saber que no Show Business vale tudo. - sorriu, mas não era um sorriso que transmitia alegria ou força. Somente ironia. - Às vezes temos que nos submeter a algumas situações para que possamos ser vitoriosos.
- Prefiro continuar com as minhas próprias convicções. - respondi, levantando o queixo para parecer uma garota mais astuta e corajosa. Teria funcionado, se o meu queixo não estivesse tremendo tanto.
caminhou lentamente até mim, parando atrás do meu corpo e aproximando a boca do meu ouvido. Comecei a tremer, sentindo um nervosismo tão grande que quase me esqueci como se respirava.
Sua respiração batia perto do meu pescoço.
- Se é o que você quer... Só tome cuidado para não ser sempre a garota certinha e se esquecer de que tem um concurso para ganhar. - Ele sussurrou. Podia sentir o sorriso em sua voz, o sorriso irônico.
- O que quer dizer com isso? - Minha voz estava trêmula, baixa e um pouco esganiçada.
- O que eu estou querendo dizer é que para ganhar isso aqui requer esperteza. Habilidade. E vejo que você não tem nenhum dos dois. - Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu respirei fundo, tentando controlar a vontade de derramá-las em sua frente. - Na verdade, eu vejo muitas coisas.
- O quê, por exemplo? - perguntei, ficando com raiva das coisas que ele dizia.
- Inocência, medo. – O tom de voz que usava era baixo e rouco, o que me assustava um pouco.
Me virei, ficando de frente para . O problema é que eu virei o corpo tão rápido que nossos narizes se encostaram de leve, devido a nossa proximidade.
Dei um passo para trás para me afastar e vi que sorria. Ele estava adorando ver o quanto estava certo ao meu respeito.
costumava me chamar de "Menina Inocente" porque eu sempre deixava as pessoas se aproximarem de mim independente da situação. Algumas se aproximavam por puro interesse. Infelizmente, eu nunca conseguia distinguir esse tipo de pessoa. Somente quando eu quebrava a cara e aí, já era tarde demais para fazer alguma coisa a respeito.
Eu também nunca havia namorado. Não sabia muito sobre o amor, somente o que eu lia nos livros e nas coisas que eu assistia na tevê. Mas isso não me fazia ser uma expert no assunto.
- Porque está fazendo isso comigo? - Balancei a cabeça para afastar as lágrimas.
- Porque você não merece estar aqui. - me olhava com expectativa, como se aguardasse ansiosamente o momento em que eu choraria em sua frente.
- Pois um dia eu vou lhe mostrar que você está errado. - afirmei, andando na direção da porta do estúdio.
- Então me mostre. - falou, rindo com escárnio. - Eu vou adorar ver você fracassando.

A internet da Wings era uma droga. Percebi isso no momento em que tentei acessar a página inicial do Twitter e fiquei esperando por longos 5 minutos até que a página fosse totalmente carregada.
Quando finalmente consegui entrar em meu Twitter, fiquei assustada com o número de seguidores que eu havia ganhado desde que cheguei aqui na Wings. Mentions de pessoas desconhecidas marcando-me no primeiro vídeo oficial da Wings, que mostrava um pouco de cada turma dançando e se alongando juntamente com as apresentações do primeiro dia, deixaram-me meio eufórica e assustada.
As pessoas realmente levavam a sério aquele programa. Por um momento, senti que a minha privacidade estivesse sendo violada. De certa forma, ela realmente estava afinal, era como se eu estivesse dentro de um reality show, já que milhares de pessoas acompanhavam o concurso da Wings pela internet e pela TV a cabo.
Aquilo era fascinante e meio constrangedor.
Tá, era muito constrangedor. Afinal, eles mostraram exatamente a parte em que eu tropeço nos meus próprios pés tentando dar um giro. Minha cara de assustada também não contribuiu muito para que as pessoas simpatizassem comigo.
Mas as pessoas me seguiam mesmo assim.
Aposto que todos esses seguidores acessaram a página oficial da Wings na internet e coletaram as informações referentes aos alunos e concorrentes que ainda faziam parte do concurso. Meu nome estava lá também, suponho, com meu link do Twitter para que as pessoas pudessem me seguir.
Mandei um tweet desesperado para , sentindo a saudade se apertar quando vi que ela tinha trocado a sua foto de perfil.
Ela sorria na foto, segurando o urso de pelúcia que eu dei para ela no Dia do Amigo daquele mesmo ano. Meus olhos se encheram de lágrimas quando me dei conta da vontade que eu tinha de desabafar sobre como eu estava sendo maltratada pelo meu próprio professor, sem contar que tinha uma professora louca e exuberante no meu pé e um bando de concorrentes dispostos a me evitar pelos corredores.
Mas eu não podia. Não pelo Twitter.
Além do mais, se eu ligasse para ela para contar como minha estadia na Wings estava indo de mal a pior, ela ficaria preocupada e frustrada. Afinal, eu tenho certeza de que não é isso o que ela espera ouvir de mim. Fizemos muitos planos e sonhamos por muito tempo, especulando o que aconteceria assim que eu pusesse os pés neste lugar. Nada do que pensamos se tornou real. Eu não me preparei para o pior. Eu realmente não sabia que e Deborah Cyrus implicariam comigo. Muito menos que seria motivo de piada para todos ali, principalmente para uma loura oxigenada que dividia o mesmo quarto que eu.
me respondeu 1 minuto depois, eufórica e animada:
@dreamsbefore Hey GIRRRRL! Estou com saudades de você! Estou desesperada, me dê notícias suas!
@pinkandblack Eu também!! A internet aqui está caindo toda hora e eu ainda não consegui usar meu celular, já que ele está sem sinal.
@ dreamsbefore Porque demorou tanto para vir falar comigo, hein? Estou há 2 dias esperando alguma ligação, mention ou sinal de fumaça, sua besta!
Ouvi um barulho lá fora. A porta da sala de computadores estava fechada, só eu estava ali dentro. Já passavam das 22:00 e eu não sabia se era permitido usar o computador aquela hora, mas eu não ligava. Se eles não queriam as pessoas entrando então, que tratassem de trancar a porta, certo?
Mesmo assim, não pude evitar desligar o monitor e me agachar na cadeira que eu estava sentada, inclinando um pouco a cabeça para o lado para enxergar quem era a pessoa que estava acordada, zanzando pelo corredor. Pela porta daria para ver, já que metade da porta era feita de madeira e vidro.
Prendi a respiração quando vi a cabeleira loura de Deborah parada de costas para a porta e arregalei os olhos quando vi com ela. Os dois estavam discutindo, dava para ouvir de onde eu estava que Deborah parecia tão enfurecida quanto . No entanto, esse último parecia manter o controle, apesar da forma com que ele trincava o maxilar mostrar que ele estava a ponto de explodir.
- Você deveria me amar! Me amar! – disse Deborah acusadoramente, empurrando pelo peito. Ele nem se mexeu, já que bater não deveria ser uma das habilidades de Deborah. Aqueles braços magrelos pareciam não possuir muita força para esmurrar homens másculos daquela forma.
- Nós já conversamos sobre isso, Deborah! – rosnou ele de volta, retirando as mãos de Deborah de cima de si. A professora parecia tão fraca e vulnerável, choramingando por causa de um homem, que eu me peguei sentindo muita pena dela. – Eu não amo você! Me esqueça, viva a sua vida!
- Você vai se arrepender das palavras que acabou de proferir, ! – exclamou, enxugando as lágrimas dos olhos. permaneceu sério e frio, fitando-a com os olhos mais duros que eu já havia visto em toda a minha vida.
Então, Deborah saiu correndo, deixando um mais aliviado para trás. Ele suspirou, saindo do meu campo de visão e eu, liguei o monitor novamente, vendo que havia deixado milhares de mentions em meu twitter:
@ dreamsbefore Cadê você?? Já saiu? =(
@ dreamsbefore Volte aqui agora, cadela! Se você não me deixar a par de tudo o que está acontecendo ai eu JURO que invado essa escola!
@ dreamsbefore Eu vou atrás de você até no quinto dos infernos, VACA!
@pinkandblack Amiga, vou ter que sair. Não posso explicar agora. Mas vou te ligar amanhã. Mande beijos para todos. Amo você <33

Desliguei o computador e saí de forma abrupta da sala, tropeçando em meus próprios pés e esbarrando em um corpo, me fazendo cambalear para o lado.
estreitou os olhos em minha direção assim que viu que a pessoa que havia trombado nele era eu.
Droga, acho que sou a garota mais azarada de todos os tempos.

Capítulo 6 - Aquele Belo Soneto

- Hora de acordar, Raio de Sol! – cantarolou, abrindo as cortinas brancas da Wings para me despertar. - Temos um longo dia pela frente!
Tampei a cabeça com o travesseiro e resmunguei, sentindo-me desanimada o suficiente para não querer levantar daquela cama. Toda hora, a imagem de enfurecido vinha em minha cabeça, dizendo-me que se me pegasse ali na sala de informática novamente fora do horário permitido iria me dedurar para o seu lindo e carrancudo papaizinho.
Claro que fiquei assustada e até tentei me explicar, mas eu sabia que em parte, eu estava errada em ter invadido a sala de informática. Tudo bem que a porta estava aberta, mas eu tinha uma pequena noção das regras da Wings para saber que 22:00 era para todo o mundo estar em seus respectivos alojamentos.
Pelo menos ele não fez mais nada além de me ameaçar. E me perguntar se eu havia ouvido a discussão acalorada dele com a Deborah. Apenas balancei a cabeça para os lados freneticamente, sussurrando um “Não, eu... eu não ouvi nada.”
O que ele respondeu apenas dando uma risada super sarcástica antes de me encarar com aquela famosa expressão de você-é-a-garota-mais-retardada-desse-lugar. Tratei de me afastar dele o mais rápido possível. me assustava. Muito.
Eu não tinha motivos para sair daquela cama. Tudo bem, as chances de ser expulsa da Wings se eu faltasse naquele dia sem mais nem menos eram enormes, mas eu não me importava. Talvez fosse mesmo melhor desistir do meu sonho e voltar para New Haven, o lugar no qual eu nunca deveria ter saído.
Sim, era melhor afinal de contas. Eu já sabia que não iria ganhar aquele concurso. Minha caveira estava queimada naquele lugar.
- Não me faça te arrancar da cama a força, . – Ameaçou ela, puxando minhas cobertas e me deixando somente de baby doll.
Choraminguei, deitando de barriga para cima. Eu não me sentia nem um pouco disposta para sair dali. Não queria enfrentar o olhar zombador do e dos outros alunos e muito menos gostaria de ser maltratada pela Deborah mais uma vez. Não mesmo.
- Sei que você tem todos os motivos do mundo para estar desanimada, mas não deixe isso lhe abater, . Eles não fazem ideia do quanto você é talentosa. – disse , sentando na beirada da minha cama e olhando-me de forma doce.
- A maioria das pessoas daqui me acha retardada, . Minhas chances acabaram aqui, tenho certeza disso. – respondi, com os olhos ardendo.
- Pare de se importar com o que as outras pessoas estão achando, . É o seu sonho e ninguém tem o direito de pisar nele. – Esbocei um sorriso tímido para . Ela estava certa. Não seria , Deborah, ou quem quer que fosse que iria me fazer desistir. Eu tinha que continuar tentando.
- Você tem razão. – eu disse, me pondo de pé rapidamente. Meu ânimo havia voltado com força total. sorriu também, satisfeita por ter feito com que eu mudasse de ideia.
- Eu sempre tenho razão, baby. – piscou os olhos para mim, sorrindo daquele jeito que sempre me fazia lembrar de uma felina.
- Me espere, me arrumo em no máximo 20 minutos.

Hoje a primeira aula era de Teatro. Fomos conduzidos a uma sala ampla e aberta. A sala continha diversas cadeiras vermelhas acolchoadas e um enorme palco, além de luzes e refletores, que estavam desligados, mas que eu tinha certeza de que eram capazes de deixar quem quer que estivesse lá em cima com um brilho imensurável.
Como sempre, estava sério e carrancudo, posicionado no meio do palco, como se já fizesse parte de tudo aquilo. Era estranho saber que há alguns anos atrás, enquanto eu assistia seus espetáculos da tela da minha TV, parecia ser uma pessoa mais feliz do que é hoje.
Nos inúmeros vídeos que ele gravava no backstage com , e , por exemplo, ele sorria bastante. Era brincalhão até demais e hoje... ele era um homem sério e carrancudo.
Eu gostaria de saber por que ele mudou tanto. Ele não era sério e carrancudo somente comigo e com o restante dos alunos. Ele era sério com os amigos também.
Me acomodei num dos primeiros assentos, ciente de que não podia fugir de e seus olhos de águia nem se eu me acomodasse na China.
Alguns alunos da minha turma sentaram-se ao meu lado e olhou para o rosto de cada aluno antes de começar a falar:
- A primeira peça teatral adaptada para o meio musical foi feita em 1866. De lá para cá, outras peças teatrais com o mesmo âmbito apareceram e as performances progrediram com o passar do tempo, tornando-se cada vez mais grandiosas e sofisticadas, portanto, se vocês não são capazes de dar sua alma em cada espetáculo, então, não merecem estar aqui. – disse , altivo, olhando para todos os alunos ali presentes, fixando seus olhos em mim por último. – A primeira avaliação de vocês sujeita a eliminação acontecerá daqui a duas semanas e o tempo está correndo. Ainda não sei o que vocês terão que fazer nessa avaliação, mas não pensem que será fácil passar por ela. – Ele sorriu, mas era um sorriso irônico, que praticamente dizia: “Vocês estão totalmente ferrados!” que tentei ignorar com todas as minhas forças.
- Essa avaliação parece ser muito difícil. Eles colocam muita pressão na gente. – disse o menino que estava sentado do meu lado direito. Claro que ele falou baixo, já que não admitia que conversassem no meio da aula.
- Nem me fale. – respondi, olhando de soslaio para o garoto. Ele parecia ser dois anos mais velho do que eu e tinha cabelos negros, lisos e totalmente bagunçados.
- Hoje vai ter uma festa aqui na Wings de boas-vindas, você está sabendo disso? – Sim, eu estava sabendo. fez questão de me contar a novidade. Eu só não tinha certeza se deveria ir. Deborah provavelmente estaria lá, e eu não queria que ela me perseguisse a festa inteira.
- Sim. – respondi, simplesmente.
Por um momento, só ouvi a voz de . O menino parecia ter desistido de puxar assunto comigo. Me senti culpada por estar dando-lhe respostas monossilábicas, mas eu realmente estava morrendo de medo de me ver conversando com aquele garoto.
- Eu acho que vai ser ótimo ter uma festinha hoje para relaxar. Os professores não dão sossego para ninguém. A propósito, me chamo Camerom Launch. – ele estendeu a mão para que eu a apertasse. Olhei da sua mão para o seu rosto, vendo o quanto ele parecia adorável.
- Sou . – respondi, apertando a sua mão.
Camerom sorriu, voltando a sua atenção para , que chamava duas garotas que cochichavam para o palco. Pela sua expressão, era certo que aquelas duas garotas estavam ferradas.
- Já que vocês duas gostam tanto de falar na minha aula, terão que recitar esse lindo soneto que separei para quem me atrapalhasse. Ou seja, especialmente para vocês. – Ele retirou dois papéis do bolso e estendeu um para a garota esquelética que ria um pouco alto demais antes de chamar sua atenção e outro para a amiga dela, uma morena asiática que se encolheu com o olhar maligno que lançava as duas. Elas pegaram o papel com as mãos trêmulas. – Comecem logo! – ordenou, fazendo as garotas trocarem um olhar assustado antes de se concentrarem no conteúdo de seus respectivos papéis.
Com as mãos trêmulas, a loira magricela pigarreou antes de começar a falar:
- Se... Se te comparo a... a um dia de verão, és por certo...
- Não, não e não! Isso foi HORRÍVEL! Esse soneto de Shakespeare é um dos mais conhecidos e você consegue lê-lo como se fosse algo totalmente desagradável e medonho! – esbravejou, fazendo a garota loira dar um pulinho. Mesmo que ela me olhasse torto algumas vezes, naquele momento, senti pena dela. sabe muito bem como humilhar uma pessoa. – Sua vez. – Apontou com a cabeça para a morena, que estava acuada.
- Se te comparo a um dia de verão, és por certo mais... belo e... – A voz da garota ficou embargada e eu sabia que ela estava louca para chorar. A loira magricela choramingava baixinho, de cabeça baixa.
- Voltem aos seus lugares, isso foi um desastre! – exclamou, puxando os papéis de suas mãos bruscamente. As garotas praticamente voaram de volta as suas poltronas. – Vocês duas perderão pontos não só por estarem conversando e atrapalhando a aula como pelo mau desempenho que tiveram aqui em cima. - Esse é mesmo mal, não é? – Sussurrou Camerom para mim. Eu olhei para ele, assentindo vigorosamente com a cabeça, porque estava petrificada demais para conseguir abrir a boca. Se me visse conversando, já era. Não queria passar por mais humilhações.
- Little Rebel, venha até aqui. – Congelei no assento. me chamou com a mão e todo o mundo olhou diretamente para mim, inclusive Camerom.
Eu não iria me levantar dali. Meu nome não era Little rebel, para começar. E muito menos o meu nome artístico.
- , você está surda ou o quê? Venha até aqui, agora. – Respirei fundo e me levantei, lembrando-me das palavras encorajadoras que proferiu para mim naquela manhã, tentando buscar calma para poder lidar com e com as situações em que ele mesmo me enfiava.
Caminhei até com passos firmes, tentando mostrar para ele que eu não o temia, mesmo sabendo que aquilo não era verdade. Mas se a aula era mesmo de Teatro, então eu podia começar a praticar as minhas habilidades artísticas, certo?
Parei a meio metro de onde se encontrava e ele estendeu um dos papéis que estavam em sua mão, observando-me com um pequeno sorriso no canto dos lábios.
- Espero que você se saia bem pelo menos nessa aula e leia isso corretamente, sentindo a essência do soneto.
Assenti com a cabeça, olhando para o mar de alunos que me encarava. A tensão no ar era palpável, ninguém sequer parecia respirar ali dentro. Abaixei a mão, ignorando o papel, já que eu conhecia aquele soneto como a palma da minha mão.
- Se te comparo a um dia de verão és por certo mais belo e mais ameno. O vento espalha as folhas pelo chão e o tempo do verão é bem pequeno. – Dei uma rápida olhada para , que acenou levemente com a cabeça para que eu prosseguisse. - Ás vezes brilha o Sol em demasia outras vezes desmaia com frieza; o que é belo declina num só dia, na terna mutação da natureza. – falei com firmeza, me sentindo segura pela primeira vez desde que cheguei à Wings.
fez um gesto com a mão para que eu parasse e me olhou de modo bastante surpreso. Acho que ele não esperava que eu falasse o soneto com tanta ênfase, ou talvez o fato de eu não ter chorado como as outras duas garotas explicasse a reação de perplexidade que estava estampada em seu rosto.
De qualquer forma, naquele momento, eu tinha certeza de que não poderia falar mal de mim. Não depois de ter demonstrado que estava surpreso.
- Uau. Isso foi... impressionante. Parabéns, Little Rebel. – ele disse, sorrindo de um jeito que acabou me deixando perplexa. Porque essa era a primeira vez que eu via sorrir de um jeito amistoso e admirado.
Minhas bochechas ficaram vermelhas e eu sorri, voltando-me para o meu lugar. Os outros alunos apenas me encaravam, mas eu não liguei.
Não, eu estava radiante demais para me importar com que os outros deviam estar falando naquele momento.

Camerom e eu saímos da sala conversando bastante. Ele parecia ser um cara legal e era bastante divertido. Super diferente dos outros garotos com quem já conversei.
Encontramos no fim do corredor. Ela também conversava com um garoto, que pelo que eu pude notar, era bem diferente de Camerom, pois era louro, alto, magrelo e tinha as laterais da cabeça raspadas.
- ! Que bom que você apareceu porque as pessoas não param de falar do show que você deu na aula de Teatro do ! – exclamou , sorrindo e pulando de um lado para o outro.
Olhei para ela de modo surpreso. Não sabia que as notícias se espalhavam tão rápido por ali. E olha que eu vim de uma cidade onde até mesmo o ar tinha ouvidos. E boca também.
- Eu não dei um show, eu só recitei um soneto. – Encolhi os ombros timidamente, mas fez que não com a cabeça, discordando totalmente do que eu havia acabado de falar.
- Não seja modesta! – disparou o suposto amigo de . Reparei que a sua voz era bem afeminada. – Estou sabendo que você é uma forte concorrente. O só implica com as pessoas em que ele vê algum talento.
Eu não conseguia acreditar naquilo. O implica comigo porque acha que eu sou uma rebelde sem causa que gosta de chegar atrasada nas aulas, mesmo já tendo provado para ele que eu não sou como ele pensa.
- Ah, desculpe, eu não apresentei meu novo amigo, não é? Esse é o Miles. – disse , apontando para o loiro. Ele sorriu e fez uma reverência meio desajeitada para mim. Camerom riu graciosamente ao meu lado.
- E este é o Camerom! – Apontei para o moreno ao meu lado. Algo no olhar de e Miles me disse que olhar para Camerom era algo extremamente agradável.
Camerom deu um aceno de cabeça para os dois.
- , você é uma diva bafônica! Tenho certeza de que você será uma lenda viva aqui na Wings! – Miles deu pulinhos e bateu palminhas, semelhante ao que fez quando me viu há alguns minutos atrás.
- Eu? Que nada, Miles! – Dei uma risada, achando muito engraçado o jeito como Miles falava comigo. Ele gesticulava bastante com as mãos e sua roupa de ginástica consistia numa legging rosa bebê e uma blusinha de alcinha da mesma cor.
- Não seja humilde, perua! – Miles deu um leve empurrão em meu ombro. - Aposto que daqui a alguns anos haverá retratos seus em poses contemporâneas espalhados pelas paredes.
- E uma estátua de gelo conservada no Salão Principal. – Camerom disse, entrando na conversa e me fazendo rir ainda mais.
- E confeccionarão uma linha de roupas de ballet com o seu nome. – brincou, dando uma piscadela para mim.
- E meu sobrenome será Bond, Bond! – exclamei, fazendo com que os três gritassem em coro um sonoro “eeee!”.
Caímos na gargalhada logo em seguida. Algumas pessoas que passavam nos olhavam como se fôssemos alienígenas, mas eu estava muito feliz para me importar com o que os outros estavam pensando.
Fomos conversando para o pátio da Wings, já que nós tínhamos o dia todo livre. Ainda não haviam autorizado a nossa saída do colégio, mas eu mal podia esperar para poder conhecer Londres.
- Quando aquele velho do liberar a nossa saída dessa prisão, bem que nós podíamos fazer um tour por Londres, não é, gente? – perguntou, sentando-se no gramado da Wings. A temperatura amena naquele dia nos encorajou a sair do prédio e sentar no belo jardim do campus. Algumas pessoas tiveram a mesma ideia que a gente, inclusive , que fazia algumas acrobacias perto dali com suas supostas novas melhores amigas.
- Eu estava pensando em algo semelhante agora mesmo! – exclamei, rindo como uma boba. Aquele dia estava sendo realmente agradável.
- Eu acho uma ótima ideia. – concordou Camerom, sorrindo.
- Podem contar comigo nessa aventura! – Miles disse, empolgado. - Vou levar a minha câmera para registramos todos os momentos do nosso passeio.
- Então está combinado. – sorriu, antes de se levantar com uma expressão de desespero. – Ai meu Deus eu esqueci completamente da festa de hoje!
- O que tem essa festa? – perguntei, franzindo o cenho.
- Nós temos que nos arrumar! Vão filmar a festa, ! Nós temos que causar! – gritou, fazendo com que eu continuasse sem entender nada.
- Como assim?
- Não te explicaram? A festa é uma das nossas oportunidades de se destacar aqui nesse lugar. Sabe, ganhar algum tipo de fã-clube ou pelo menos uma página no Face. – Quem respondeu foi Miles, que lixava as unhas despreocupadamente.
- Estou mais perdida do que cego em tiroteio. – Fiz uma careta e cobri o rosto com as mãos.
- É para isso que você tem a gente! Para não ir para o lado negro da força e se juntar as Barbies Falsificadas como a , que parece um Coala com diarreia pulando daquele jeito. – Olhamos para onde e suas amigas estavam. As garotas pulavam e rodavam como se estivessem possuídas.
Nós rimos, olhando para aquela cena patética.
Elas são tão talentosas, porque se exibem desse jeito exagerado?
- Estou tão perdido quanto a , mas tudo bem. – disse Camerom, coçando a cabeça com um olhar desolado. - Entendi que eu não estou mais no Texas e que aqui as coisas são totalmente diferentes.
- Bem-vindos à Wings! – Miles sorriu ironicamente para nós enquanto Camerom e eu nos entreolhávamos.
O olhar que trocamos dizia tudo:
Estamos ferrados!

Apertei o telefone entre os dedos e com as mãos trêmulas, o coloquei na orelha, esperando que papai atendesse logo.
A Wings possuía duas daquelas cabines vermelhas de telefone, onde podíamos usá-las para fazer apenas duas ligações por dia. Eu havia deixado no quarto, arrumando as roupas que usaríamos na festa de hoje e vim correndo para cá.
Papai atendeu no quinto toque.
- Alô.
- Oi, pai sou eu. – falei, suspirando aliviada ao ouvir a voz acolhedora de meu pai.
- Graças a Deus você resolveu me dar um telefonema! Onde está o seu celular? Abduziram ele? Porque demorou tanto para me ligar? – disse papai, aflito e exasperado. Apertei o fone com força, sentindo-me estúpida e arrependida por não ter ligado para ele antes.
- Desculpe, pai. Eu realmente fiquei muito atarefada esses dias. Esse colégio está me deixando maluca. Meu celular vive sem sinal aqui dentro. Eu te amo tanto, pai... Sinto sua falta. – Mordi o lábio, tentando engolir o choro repleto de arrependimento.
- Eu devia ir aí te trazer de volta! – exclamou do outro lado da linha, soltando um suspiro logo em seguida. - Você não sabe o quanto fiquei preocupado...
- Me desculpe, pai... Não foi a minha intenção. – pedi, sentindo que meus lábios já tremiam.
- Tudo bem, querida... Mas me conte, como estão as coisas por aí? Eu vi você tropeçando na televisão. Achei engraçado... Você lembrou muito a sua mãe na tela da Tevê sabe? Desastrada e desatenta. – Uma lágrima rolou pela minha bochecha quando senti o sorriso que se formava no rosto de meu pai. Era sempre assim quando falávamos de mamãe.
Ela sempre foi o tipo de pessoa que nos arrancava sorrisos com uma facilidade incrível e impressionante.
- Eu sou mais desastrada ainda... E as coisas estão muito bem por aqui. Hoje teremos uma festa, mas ainda não pude conhecer Londres do jeito que gostaria. – respondi, brincando com o fio do telefone e sentindo que as lágrimas ainda caíam.
- Você terá a sua oportunidade... Uma coisa de cada vez, certo?
- Certo! – Nós dois rimos. – Pai, vou ter que desligar agora, mas eu prometo que amanhã ligo para você. Mande lembranças para a Lucy e para a ! Diga que estou morrendo de saudades e que ligarei para elas em breve. Se eu encontrar um lugar onde meu celular pegue, ficará ainda mais fácil.
- Pode deixar que eu direi a elas. Eu amo você, querida. – Papai disse, de forma doce e amável.
- Eu também, pai. Eu também.

Capítulo 7 - O Duelo

As luzes de neon piscavam em várias direções, fazendo com que eu ficasse meio zonza. Tive que me apoiar no braço de para não perder o equilíbrio, tentando a todo o custo impedir que alguém pisasse no meu pé.
parecia uma criancinha e olhava para o salão de festas da Wings com os olhos brilhando e com um sorriso enorme no rosto. Eu até teria ficado impressionada como ela, se não estivesse me sentindo tão deslocada.
O salão era enorme e as luzes de neon eram fortes o bastante para me cegarem. A música que tocava parecia que iria estourar os meus tímpanos, mas ao mesmo tempo, me dava a maior vontade de dançar.
Os alunos já estavam por ali, se esbaldando. As roupas que alguns usavam era repleta de brilhos e lantejoulas e eu já estava esperando encontrar alguém vestido com uma roupa semelhante a da Lady Gaga.
Os fotógrafos e os câmera-man já marcavam presença por ali e e mais uma meia dúzia de pessoas entrava na frente dos câmera-man a cada 5 segundos e começavam a dançar.
Era meio estranho tudo aquilo.
- Olá, meninas! AMEI o look de vocês! Estão lindas, lindas, lindas! – Miles apareceu em nossa frente com um modelito tão chamativo quanto o das outras pessoas. Ele usava um blazer dourado cheio de purpurina e uma calça jeans rasgada nos joelhos com detalhes em dourado bem semelhantes ao de seu blazer.
definitivamente era uma das garotas mais bonitas da festa. Ela usava um vestido vermelho que ia até a metade de suas coxas. Ele era bem justo na cintura, mas não chegava a ser indecente. Seus cabelos ondulados estavam soltos e brilhosos.
Eu usava um vestido branco rodado que ia até os joelhos. Uma fita de cetim branca fora presa em minha cintura, formando um laço na parte de trás do meu quadril e eu usava um sapato de salto da mesma cor do vestido.
havia feito uma chapinha em meus cabelos, fazendo com que ele ficasse liso e temporariamente controlado.
- Obrigada! Você também não está nada mal, Miles. – disse , olhando para o blazer de Miles com um sorriso no rosto.
- Mas disso eu já sabia, queridinha. – ele respondeu, fazendo uma daquelas jogadas estratégicas de cabelo.
Apertei os olhos para olhar para o restante das pessoas que estavam no salão de festas e encontrei Deborah parada ao lado de . Ambos pareciam esta detestando a companhia um do outro. Percebi isso somente olhando para a carranca que os dois estavam fazendo.
Os professores daquele lugar são tão ranzinzas...
Virei o rosto bruscamente antes que Deborah ou percebessem que eu os observava e acabei encontrando . Ele parecia meio chateado, escorado numa pilastra e segurando um copo de uma bebida escura e estranha.
Seus olhos pareciam estar tão longe dali quanto a sua cabeça estava e por um momento me peguei pensando com curiosidade no que fazia ser tão mal-humorado e triste.
Antes que eu pudesse formular alguma tese interessante, levantou os olhos e me viu. Eu desviei o olhar na hora, constrangida por ter sido pega no flagra.
- , vou pegar um refrigerante para mim. – Alternei olhares entre e Miles. - Vocês vão querer alguma coisa?
- Eu quero aquele gatinho ali. – falou Miles, apontando com o queixo para um bailarino alto e fortão.
- Não, obrigada. Ficaremos por aqui pensando em alguma estratégia para atrair os câmera-man.
- Tudo bem. Eu já volto.
Comecei a andar pelo lugar e tentei parar de pensar nos problemas dos outros, mas eu não conseguia retirar de dentro do meu peito a sensação de que precisava de ajuda. Eu já fui uma fã praticamente alucinada e conheço o trabalho de como a palma da minha mão e posso afirmar com certeza que ele nunca agiu daquele jeito com as pessoas.
Tudo bem, eu sei que essa é a primeira vez que o vejo pessoalmente e que nunca tive nenhum tipo de vínculo com ele ou com alguém de sua família, mas realmente mudou e eu consigo ver isso sempre que olho para ele.
E não foi uma mudança boa.
Resolvi sair do salão de festas assim que senti que estava exagerando ao pensar naquelas coisas e acabei encontrando Deborah parada no corredor escuro. Ela conversava com um homem alto e robusto, mas não consegui olhar para seu rosto.
Decidi me escorar na parede oposta a que eles estavam assim que percebi que eles poderiam me ver voltando para o salão de festas. Sair dali havia se tornado uma opção inviável quando vi Deborah se virando de lado.
A música alta da festa não impediu que eu ouvisse trechos da conversa dos dois.
- Ela não pode permanecer neste concurso. – bradou Deborah, furiosa.
- Não posso fazer nada quanto a isso, Deborah. – disse o homem. A voz dele era tão fria e cortante que eu instantaneamente fiquei com medo.
- Eu quero aquela garota fora do concurso! – exclamou Deborah, com os olhos apertados. - A mãe dela acabou com a minha vida!
- Não faça drama, Deborah, e eu verei o que posso fazer. – O homem respondeu, deixando Deborah falando sozinha. Por sorte, ele se virou na direção contrária e não me viu.
Aproveitei que Deborah tinha resolvido segui-lo e voltei correndo para o salão de festas com o coração acelerado e as mãos tremendo.
Acabei batendo de frente com . Minha testa bateu em seu peito e meus cabelos temporariamente controlados voaram por várias direções diferentes, cobrindo parcialmente o meu rosto.
Levantei minha cabeça para poder olhá-lo nos olhos. Ele ainda não parecia muito contente.
- Vai tirar quem da forca, Little Rebel?
Pensei em responder: “Você, mas vai ser pra te enforcar mesmo e não para tirar da forca!”, mas eu estava tão assustada que só consegui olhar para ele com os olhos arregalados.
Era estranho, mas eu me sentia incluída de alguma forma nas ameaças de Deborah e eu não sabia explicar o motivo.
- O que aconteceu? – ele franziu as sobrancelhas quando percebeu que eu estava assustada e segurou minhas mãos. – Nossa, você está gelada.
Me afastei instintivamente dele quando senti o contato de suas mãos com as minhas e saí andando de forma desgovernada pelo salão de festas.
- Está tudo bem com você? – veio atrás de mim e segurou meu pulso para me frear quando viu que eu não o responderia.
- Está tudo ótimo. – respondi. Ficamos nos olhando por alguns segundos. Até pensei que falaria mais alguma coisa, mas senti um flash de uma câmera vindo em direção ao meu rosto e fechei os olhos para me recuperar.
- Lindos, fabulosos! – disse uma fotógrafa, se agachando para tirar mais uma foto minha com , que ainda segurava o meu pulso.
Nos afastamos alguns centímetros quando percebemos que a fotógrafa não iria parar tão cedo.
- Chega de fotos! – ordenou. A mulher parou de nos fotografar na hora, pedindo desculpas e se afastando logo em seguida.
- , você está linda! – Camerom apareceu em minha frente, sorrindo. Ele estava todo alinhado e cheiroso. Abri um sorriso ao vê-lo e percebi que já havia saído de perto de mim.
Olhei ao meu redor, procurando pelo , mas ele parecia ter desaparecido como fumaça.
- Obrigada, Camerom. – eu disse, sorrindo timidamente para ele. – Vamos encontrar e Miles.
Camerom me seguiu pelo meio da festa e encontramos e Miles parados perto de , e . Assim que nos viram, acenaram e vieram correndo ao nosso encontro.
Porém, tropeçou e esbarrou em , que ficou irritada na hora.
- Sua idiota! – esbravejou, fuzilando com os olhos. – Você não olha mesmo para onde anda, não é?
- É que você pode ser facilmente confundida com uma mosca morta. – respondeu , lhe dando um olhar angelical.
- Não sei como vocês conseguiram entrar nesse concurso – apontou para mim, Camerom e Miles com a cabeça –, aposto que nem sabem dançar.
nos olhou com desdém, mas me puxou pelo pulso para o meio da pista de dança junto com Camerom e Miles. também juntou seu grupo de Barbies loiras e por um momento eu achei que todos nós iríamos entrar em uma briga.
Eu entendi exatamente o porquê de estarmos todos ali quando a galera gritou e os câmera-man se aproximaram de nós.
Havíamos acabado de entrar em um duelo de dança.
Eu até tentei escapar, mas me impediu, segurando o meu pulso mais uma vez. Eu e ela tiramos os sapatos e os jogamos para longe. Meu coração acelerou de medo, mas eu me recusei a prestar atenção nisso naquele momento.
Uma música que eu conhecia e gostava começou a tocar e e suas amigas começaram a mover os quadris de um lado para o outro. Duas de suas amigas começaram a fazer acrobacias, como estrelinhas e pontes invertidas. Logo em seguida, as quatro se juntaram e começaram a fazer uma sequência onde seus quadris se mexiam ao mesmo tempo que seu corpo e sua cabeça.
Elas dançavam muito bem e o alvoroço do público foi grande. Eles as ovacionaram positivamente.
O quarteto deu um passo para trás e eu soube que era a nossa vez.
Comecei levantando a perna lá no alto e dei um giro logo em seguida. , Miles e Camerom me imitaram e quando menos percebi, havíamos invertido a sequência que aprendemos na primeira avaliação da Wings.
Nós nos movíamos com perfeita sincronia. Nossos braços e pernas pareciam ter vida própria e quando percebi, eu e dançávamos pelo salão de festa com graça, enquanto os meninos dançavam com precisão.
Estiquei minha perna novamente, dando várias piruetas. Meu vestido balançava tanto quanto o de , enquanto girávamos no ar.
Corremos na direção de Camerom e Miles e ambos nos levantaram no ar. Impulsionamos nossos corpos para cima e abri os braços, sorrindo. Me senti leve, feliz e liberta naquele momento, enquanto ouvia a galera gritar de forma mais enérgica.
Camerom me colocou no chão e segurou minha cintura, arqueando minha coluna para trás e me puxando de volta logo em seguida. Eu senti meus cabelos grudando no rosto e senti meu nariz quase tocando o dele. Pareceu que tudo ao meu redor ficou em câmera lenta por alguns segundos, mas me separei dele quando vi que e suas amigas saíam do salão de festas chorando.
A galera gritava ao meu redor, e eu só conseguia pensar em uma coisa:
Nós havíamos ganhado o duelo.
E talvez, após essa noite, uma página no Face.

Me levantei meio zonza naquele dia. Talvez pelo fato do sol ainda não ter nascido, ou pelos meus pés estarem me matando.
Afinal, ontem foi uma festa e tanto!
e dormiam em suas respectivas camas enquanto eu aproveitava para pegar minhas roupas de ginástica e minhas sapatilhas. Eu iria para um dos inúmeros estúdios de ballet da Wings ensaiar para as avaliações que eu teria.
havia anunciado que seu pai estava pensando em colocar a data das duas primeiras avaliações para o mesmo dia. Uma seria de canto e a outra, de dança.
Só não sabíamos ainda o que teríamos que preparar.
Corri para o estúdio de ballet e prendi meu cabelo num rabo de cavalo alto. Liguei o rádio baixinho e tive medo de que alguém me descobrisse.
Assim que comecei a me alongar, vi escorado na porta com os braços cruzados. Ele me olhava de um jeito tão intenso que eu não consegui desviar o olhar.
- Belo show ontem à noite, Little Rebel. – ele deu um daqueles sorrisos irônicos e por um momento eu fiquei me perguntando se ele estava mesmo falando sério.
- Obrigada. – respondi, sentindo as minhas bochechas queimarem.
- Sério mesmo, você me impressionou. – disse, entrando no estúdio e me olhando dos pés à cabeça. Confesso que o jeito que ele me olhava acabou me deixando arrepiada. - Mais uma vez.
- Eu não participei do duelo para me amostrar, se é o que está pensando.
- Eu sei, você prefere continuar com suas próprias convicções, não é mesmo? – ele disse, usando minhas próprias palavras contra mim. – Bom, acho que você sabe que é proibido usar o estúdio de ballet para treinar sem autorização. Porém, vou fingir que não te vi aqui, entendido?
- Porque você faria isso? – franzi o rosto, em parte porque não estava entendendo porque estava dando uma de bonzinho e também porque percebi que apertava a barra ao meu lado com muita força.
- Porque você precisará de muito treino se quiser continuar nesse concurso.
fechou a porta do estúdio e eu suspirei de modo aliviado.
Fiquei me perguntando por que o meu coração estava batendo tão rápido dentro do peito e porque eu ficava tão nervosa na presença do , porém, não obtive as respostas que eu tanto queria.
Assim que eu terminei de treinar, fui correndo para o alojamento tomar um banho. As aulas logo começariam e eu queria estar cheirosa e apresentável. No entanto, assim que entrei em meu alojamento, ouvi gritos.
e estavam discutindo dentro do banheiro.
Com medo do que podia ter causado aquilo, eu corri, mas parei abruptamente ao ver o notebook de em cima da cama. Meus olhos congelaram na tela e minha boca ficou seca.
Na foto, e eu parecíamos muito próximos. Ele segurava o meu pulso e até parecia mesmo que tinha rolado um clima entre a gente. Eu o olhava bem de perto e nos encarávamos de um modo que não consegui descrever.
Porém, o que me deixou mais chocada foi a legenda da foto:

mal chegou ao concurso, mas já quer garantir o seu lugar na final tentando seduzir o professor .”

Eu tinha certeza de que aquilo era obra de .
Meus olhos começaram a arder e minhas mãos, a suar.
Antes mesmo que eu pudesse assimilar a repercussão que aquela foto traria, eu desmaiei.

Capítulo 8 - A Avaliação

Quando retomei a consciência, percebi que eu estava numa sala desconhecida. Tentei levantar, mas os braços de me impediram.
- Não, você precisa continuar deitada. – disse , segurando-me para que eu não tentasse levantar novamente.
- Mas eu estou bem... – retorqui mesmo sabendo que era mentira. A tela do notebook de apareceu em minha mente como um lembrete luminoso. Levantei um pouco a cabeça e vi que , , , e estavam ali.
E também. Seu rosto estava vermelho e ela chorava muito.
- Que bom que acordou, . – Os olhos de pousaram em cima de mim com alívio. - Como se sente?
- Bem. Eu estou bem. – respondi, sorrindo amarelo. Percebi que todos me encaravam dentro da sala e desejei que um buraco se abrisse no chão e me tragasse.
- Que bom. – disse, olhando-me de um jeito meio aliviado e ao mesmo tempo meio ríspido. Ele com certeza passou aquilo para seu filho geneticamente. - Peça desculpas a ela. – ordenou, lançando para um olhar ameaçador.
Ela caminhou até mim com receio. Seus lábios tremiam.
- Desculpe, . – disse , com lágrimas brotando em seus olhos. - Desculpe também, .
- Você quase denegriu a nossa imagem, sabia disso? – se aproximou de com um olhar que me fez encolher junto com ela. - Se eu fosse o meu pai, você já teria sido expulsa daqui há muito tempo. Por sua culpa, eu e teremos que gravar uma entrevista para desmentirmos esse boato idiota.
Fiquei tão surpresa com aquilo que nem me apeguei ao fato de ter se dirigido a mim pelo meu nome e não pelo apelido irritante que ele colocara em mim.
Logo pensei em meu pai, em e em Lucy. Será que eles já conseguiram ter acesso àquela foto? O que será que deve estar se passando pela cabeça deles naquele momento? Droga, não faz nem uma semana que eu comecei a estudar aqui e já me enfiei em mais escândalos do que eu gostaria.
Até o fim de semana eu viro uma lenda, tenho certeza disso.
- Deixe-a em paz, . – interveio, fazendo com que bufasse de raiva e saísse da sala. Os outros professores o seguiram, e ficou olhando fixamente para até que ele se encontrasse bem longe dali.
também saiu correndo e pediu licença antes de correr atrás deles também.
Me sentei na cama, sentindo-me desorientada.
- Esse lance de entrevista é mesmo verdade? – perguntei para , torcendo para que o estivesse exagerando.
- Pior que é. Aquela foto de vocês dois está fazendo os telespectadores pirar. O duelo de dança de ontem apenas contribuiu para que a sua popularidade aumentasse. – disse , mordendo o lábio inferior e me olhando cuidadosamente.
Choraminguei, enfiando o travesseiro em meu rosto.
- Meu pai vai me matar!
- Ligue para ele e explique tudo. Tenho certeza de que ele vai entender...
Assenti para antes de pedir licença e sair do quarto.
Eu precisava dar muitas satisfações.
Após dar um telefonema para papai, e Lucy tranquilizando todo o mundo, eu me senti mais aliviada. Papai foi o mais difícil de convencer que eu estava bem e Lucy pareceu meio preocupada quando ouviu a minha voz no telefone, mas eu me mantive firme quando lhes contei sobre a foto com o .
era a única que estava animada com a minha popularidade. Primeiro ela gritou comigo, chamando-me de amiga desnaturada por tê-la deixado no vácuo no Twitter e logo depois começou a surtar, dizendo que já havia visto o vídeo do duelo de dança várias vezes e que estava compartilhando em suas redes sociais de 15 em 15 minutos.
Mas o que a deixou mais eufórica foi a tal foto com o . Tentei convencê-la de que não havia rolado nada, mas eu conheço há bastante tempo para saber que eu não conseguiria tirar aquela ideia fixa de sua cabeça.
Ela cismou que eu tenho uma queda pelo meu professor. Se ela ao menos soubesse o quanto o é irritante, com certeza pensaria duas vezes antes de dizer que eu sinto algo por ele.
De qualquer forma, me senti bem melhor quando voltei para o alojamento naquela manhã.
Mas o alívio logo passou quando vi sentado em minha cama, relaxado.
- O que você está fazendo aqui? – arregalei os olhos, sentindo-me estranha mais uma vez naquele dia. sorriu ao me ver e deu um tapinha ao seu lado, indicando que era para eu me sentar ali.
- O câmera-man já está chegando. – disse ele, olhando-me com uma expressão divertida. - Temos que gravar essa entrevista logo.
- Mas eu não sei o que vou dizer! – estrilei, sentando-me ao seu lado. Percebi que meu corpo inteiro tremia e fiquei sem saber se essa reação era pelo fato de que eu teria que gravar uma entrevista, ou se era a presença de que me deixava daquele jeito.
- Fique tranquila, você não falará mais do que meia dúzia de palavras. – assenti, tentando controlar a minha respiração.
O câmera-man logo chegou e eu acho que permanecemos ali a tarde quase inteira, pois e ele só se deram por satisfeitos quando já estava quase anoitecendo.
As aulas naquele dia tinham sido suspensas por causa da arte de , portanto alguns alunos ficaram ensaiando nos estúdios de dança enquanto outros aproveitaram para relaxar.
Eu fui a única que não pude fazer nenhuma das duas coisas que os outros alunos estavam fazendo.
- A entrevista ficou ótima! – exclamou , animado, olhando para a gravação que estava na mão do tal câmera-man.
A entrevista começava com saudando as pessoas e comentando algumas coisas sobre o concurso antes de começar a falar sobre a polêmica foto.
Na tal entrevista ele dizia que eu estava me sentindo um pouco mal e que ia correndo me amparar quando percebeu que eu não estava bem. A fotógrafa apenas havia se aproveitado daquela pose para tirar a foto.
Meu rosto amedrontado ficou focalizado na câmera por menos de 30 segundos, enquanto eu apenas concordava com , meneando a cabeça várias vezes e dizendo algumas palavras para que todos vissem que eu estava de acordo.
Assim que os dois saíram do meu quarto anunciando que amanhã mesmo aquela entrevista estaria no ar, eu me joguei em minha cama, pensando no quanto eu sentia falta de minha mãe. Ela com certeza saberia o que fazer numa situação como a que eu havia me enfiado.

No dia seguinte, enquanto estávamos no estúdio de dança esperando pelo , percebi que a maioria dos alunos me encarava.
Claro que ninguém esqueceria aquela foto tão cedo.
- Relaxe, . – Camerom passou um braço pelos meus ombros, tentando a todo o custo me tranquilizar. - Eles só estão com inveja.
Tentei dar um sorriso para ele, mas eu não consegui. Abaixei a cabeça e fiquei olhando para o piso brilhoso do estúdio de dança antes de entrar na sala com uma carranca que me deixou morrendo de medo.
- Bom dia, turma. – disse ele, com os olhos frios. – As avaliações de vocês começarão no final da semana que vem. As duas primeiras avaliações serão práticas. Uma será de canto e a outra, de dança. A avaliação de canto será a menos complicada. Vocês terão que ensaiar uma música que vocês gostem para apresentá-la numa data que ainda não foi estipulada.
- Como será a avaliação de dança? – perguntou um garoto magricela no final da sala.
- A de dança será um pouco mais complicada. Vocês terão que inventar uma coreografia de um estilo de dança que vocês desconhecem ou não se sentem familiarizados para dançar. Os ritmos já foram sorteados e o papel que trago em mãos informa os ritmos que vocês terão que dançar. – um burburinho coletivo fez com que todos olhassem para a folha que carregava com um semblante curioso. - Mas, vocês só verão isso no final da aula. – completou, dando um sorriso maldoso.
Lena, uma das instrutoras, ligou o rádio e ordenou que fôssemos para as barras. Parece que hoje faríamos mais uma aulinha de ballet.
Enquanto eu imitava os movimentos precisos e graciosos de Lena, percebi que meus pliés estavam cada vez melhores. Eu sempre entortava um pouquinho o quadril quando fazia o gran plié e naquele momento, pude ver que estava melhorando.
Talvez a pressão daquele lugar finalmente estivesse fazendo alguma coisa boa por mim.
Depois que a aula acabou, eu e Camerom fomos olhar a folha que havia pregado no mural de avisos. Eu estava tão curiosa quanto ele para saber qual ritmo teríamos que dançar.
- Rock. Não acredito nisso. – falei, olhando para a folha mais uma vez para ter certeza. - Isso é sério mesmo?
- Acho que sim. Pelo menos você não foi escolhida para dançar merengue. – retrucou Camerom, mal-humorado. Eu dei risada.
- Merengue não é ruim, vai... – empurrei seu ombro, fazendo com que ele cambaleasse para o lado. Camerom fez uma careta.
- Continuo não gostando da escolha. – disse ele, entortando o nariz e fazendo com que algumas sardas em seu rosto ficassem mais evidentes.
- Acho pouco provável que alguém goste dos ritmos que foram escolhidos. – respondi, caminhando em direção ao campus.
A temperatura Londrina aquele dia não era tão favorável e eu acabei passando as mãos pelos braços para afastar o frio que eu sentia. Camerom se encolheu com a rajada de ar frio que passou por nós e que fez os cabelos lisos de Camerom voarem em várias direções diferentes. Nossos corpos já haviam esfriado da aula de dança.
- Acho que nunca me acostumarei com o clima daqui. – disse Camerom, passando um dos braços pelo meus ombros. - O Texas sempre foi bem quente.
Fiquei vermelha com aquele gesto tão repentino. Não soube dizer se Camerom me abraçava para nos esquentar por causa do frio ou se aquele era um típico gesto masculino que a sempre falava que os caras davam quando queriam demonstrar que estavam afim de você. De qualquer forma, preferi encarar aquilo como um gesto de amizade.
Levantei um pouco a cabeça para poder olhar para ele e vi que Camerom estava sorrindo. Acabei sorrindo também, mas assim que olhei para a frente, vi que – que conversava com , e – nos encarava furtivamente.
Encará-lo sempre foi uma tarefa difícil para mim. Eu nunca tinha percebido isso antes. tinha um jeito tão intenso de olhar que eu ficava constrangida só de encará-lo de volta. A sensação era de que ele podia me encurralar a qualquer momento só com o poder que seu olhar transmitia.
Acho que é por isso que sempre fico nervosa em sua presença.
- Você está tremendo. – disse Camerom, seguindo a direção que o meu olhar focava.
- Eu só estou com frio. – dei de ombros, tentando fazer com que a minha voz não saísse esganiçada.
- Tem certeza de que é por causa do frio que você está assim? – Camerom levantou uma das sobrancelhas, olhando-me de um jeito desconfiado.
- Claro que é, eu estou sem casaco. – alguma coisa dentro de mim me dizia que eu não estava sendo sincera, mas eu tentei com todas as minhas forças tirar aquilo da minha mente.
Passamos por e pelos outros professores e mesmo sem olhar para trás, eu soube que o olhar de ainda estava sobre mim.

Sexta-feira, Estúdio de dança 7 (véspera da primeira avaliação de dança).
Ensaiar um ritmo que você não está acostumado a dançar nunca me pareceu ser tão difícil quanto naquele momento. Eu já havia escolhido a música, já sabia todos os passos, mas o nervosismo que eu sentia estava me enlouquecendo.
Meu collant estava todo suado e meu coque já havia desmanchado há muito tempo. Minha testa encontrava-se apoiada no enorme espelho do estúdio de dança e eu já estava cansada de tanto ensaiar.
A única coisa que me consolava era saber que eu não sou a única a estar dançando daquele jeito.
Desde que o anunciou a data da avaliação de dança, todo o mundo correu para pesquisar músicas que se encaixavam exatamente nos ritmos que nos foram escolhidos. Depois disso, só se ouvia cochichos dos concorrentes pelos corredores.
Por alguns, eu era vista como uma garota descolada. Miles havia me dito que era por causa do duelo de dança e também por terem tirado aquela foto minha com o .
No entanto, a maioria das pessoas me odiava. Algumas jogavam piadinhas maldosas para mim quando eu passava e até me olhavam torto. A maioria dos comentários maldosos se referia a foto com o .
Eu me sentia mal, mas eu fingia não ligar.
Por fim, decidi dar uma pausa e fui andar pelo campus, pois ali era um dos meus lugares favoritos. Acabei encontrando Miles e deitados no gramado.
- E aí, Lenda Wings! – Miles sorriu, saudando-me de forma empolgada. Agora ele me chamava de Lenda Wings por sempre chamar a atenção para confusão.
Sentei-me no gramado e os dois acabaram se sentando para me acompanhar.
- Eu estou muito nervosa! – exclamou , colocando o dedo na boca. - Estou roendo todas as minhas unhas de tanta ansiedade.
- Eu não posso roer as minhas unhas porque elas são postiças! – disse Miles, abrindo a mão rente ao seu rosto para que víssemos as unhas enormes e douradas em suas mãos. – Mas eu também estou nervosa. Só de pensar naqueles jurados me encarando... ui!
- Vocês viram o Camerom? – perguntei, olhando para o campus e esperando vê-lo por ali.
- Eu só o vi na hora do almoço, mas ele nem ficou no refeitório. Acho que deve ter acontecido alguma coisa porque ele parecia estar meio chateado. – respondeu, dando de ombros.
Depois disso, nós três resolvemos ficar em silêncio. Afinal, a primeira avaliação seria amanhã, e ninguém queria ser reprovado.
O nervosismo já tomava conta das nossas ações.

Sábado, alojamento das meninas (dia da primeira avaliaçã0)
Respirei fundo quando olhei para o meu reflexo no espelho e prendi o meu cabelo em um rabo de cavalo alto. Ajeitei o meu collant preto e procurei me certificar de que minhas roupas não estavam frouxas e não iriam atrapalhar os meus movimentos.
e já haviam ido para a sala de espera. Era ali que todos os dançarinos ficavam antes de ouvirem seus nomes e terem que se dirigir até a sala onde ocorreria a avaliação.
Assim que me dei por satisfeita, saí do quarto e fui caminhando até a sala de espera com as pernas tremendo e o coração acelerado. O corredor estava praticamente vazio.
Tentei controlar o meu nervosismo, já que a última coisa que eu queria era ser reprovada por ter errado a coreografia por estar muito nervosa.
Eu já estava quase virando o corredor quando senti alguém me puxar pelo braço para dentro da sala de limpeza. O puxão que recebi foi tão forte que eu caí de costas no chão.
Tentei me levantar, sentindo a minha coluna doer, mas me assustei quando vi que a porta estava se fechando.
- Você não vai a lugar algum, queridinha. – disse Deborah, sorrindo de forma triunfante antes de me trancar na sala de limpeza.

Capítulo 9 - Uma Linda Melodia

- Socorro! Socorro! – eu gritei, socando e chutando a porta mais uma vez. Eu já estava rouca de tanto gritar e eu não parava de chorar. A avaliação já havia começado há muito tempo e eu já estava trancada ali há mais de 2 horas.
Eu já havia tentado arrombar a porta e também cheguei a procurar qualquer outra alternativa que pudesse me tirar dali, inclusive alguma janela, mas aquela sala era como um depósito e não nem uma passagem de ventilação.
- Socorro. – falei sem forças daquela vez, dando um último soco na porta e deslizando o corpo até desabar no chão, chorando.
Já era. O meu sonho acabou. Eu perdi a avaliação de dança e com certeza serei reprovada. A Deborah conseguiu o que queria e nem precisou se esforçar muito.
Ouvi vozes e um barulho de passos se aproximando e me levantei. Recomecei a esmurrar a porta e a gritar.
- Socorro!
- ? O que você está fazendo aí? – Soltei um suspiro aliviado quando ouvi a voz de . – Estávamos te procurando há um tempão.
- A Deborah me trancou aqui dentro. – eu disse, ainda chorando.
- Mas que filha da égua! – exclamou , irritada. - Aguenta aí, nós vamos destrancar essa merda de porta.
Por alguns minutos, o silêncio fez-se presente antes que eu escutasse o barulho da chave sendo introduzida na fechadura. A porta logo se abriu e eu me joguei em cima de , que me abraçou de volta.
- Nós estranhamos quando não te vimos na sala de espera. – disse Camerom, me abraçando quando me separei de . – Nós procuramos por você, mas o veio atrás de nós pedindo para que não saíssemos da sala.
- Achamos que você chegaria a qualquer momento, mas você nunca aparecia... – completou Miles, assim que me abraçou.
- Foi a Deborah. – respondi, tremendo de nervoso.
- Você tem que falar com o , . – disse , afagando meus cabelos.
- Onde ele está? – perguntei, fungando.
- Ainda está lá na sala de avaliação. – disse Cameron, me encorajando. - Vá atrás dele antes que ele saia de lá. – assenti com a cabeça antes de sair correndo.
Eu tinha que explicar o que havia acontecido para o e esperava que ele acreditasse em mim, mas se tratando dele, eu não tinha tanta certeza de que ele acreditaria.
A Deborah pode até tentar acabar com os meus sonhos e as chances de que ela realmente tenha arruinado tudo são enormes, mas eu não ia me render assim tão fácil. Mesmo que nenhum dos professores acredite em mim, pelo menos eu não deixei de tentar.
Passei pela sala de espera já vazia como um foguete e abri a porta da sala de avaliação sem ao menos me importar em pedir licença.
estava sozinho, organizando uns papéis que estavam em cima da mesa.
- , eu posso falar com você um instante? – perguntei, ofegante e nervosa.
Assim que me viu, largou os papéis em cima da mesa e levantou a cabeça para me olhar.
- Quem é vivo sempre aparece, não é? – deu o seu famoso sorriso irônico para mim.
- , eu não compareci a avaliação porque eu quis. – falei, me aproximando dele. - A Deborah me trancou na sala de limpeza quando eu vinha para cá.
- A Deborah fez o que? – perguntou, incrédulo.
- Ela me trancou na sala de limpeza para que eu não fizesse a avaliação.
E então, começou a rir. Assim, sem mais nem menos.
- Você acha mesmo que eu vou acreditar nisso, Little Rebel? – perguntou ele, ainda com vestígios do risinho debochado na boca.
- Eu não iria faltar a avaliação de propósito!
- E porque ela te trancaria dentro da sala de limpeza? A Deborah mal te conhece.
- Ela não gosta de mim. – meus olhos se encheram de lágrimas quando percebi que nada do que eu dissesse iria adiantar. O não acreditaria em mim.
- Se você me der licença, eu tenho coisas mais importantes para me preocupar do que com os dramas adolescentes de uma rebelde. – juntou os papéis e os colocou dentro de uma pasta, carregando-os junto consigo e caminhando até a porta.
- Eu não sou rebelde e isso não é um drama adolescente! – exclamei, sentindo as lágrimas rolando rapidamente pelas minhas bochechas. – , por favor, eu estou dizendo a verdade. Eu não sou a garota que você pensa que eu sou eu...
- Deveria ter pensado nisso antes de faltar a avaliação. – disse ele, olhando-me de cima a baixo com um olhar sério antes de sair da sala.
Comecei a soluçar quando saiu.
Eu deveria saber que ele nunca acreditaria em mim. Para ele, eu sempre serei a garota rebelde que se faz de santa.
A tristeza que eu sentia foi tão arrebatadora que se juntou com toda a angustia e sofrimento dos dias anteriores, principalmente com a rejeição que eu venho recebendo da maioria dos concorrentes e da foto que a postou na internet sobre mim e o .
A falta que eu sentia da minha mãe, do meu pai e de também acabou contribuindo para que eu chorasse tão alto. Meu peito doía tanto quando me dei conta de que tudo estaria acabado para mim que eu pensei que morrer não seria o bastante para que todo aquele sofrimento acabasse.
Voltei para o meu alojamento com o semblante de uma garota destruída. logo me abraçou quando viu o meu estado. Eu nem precisei falar nada, só de ver o meu rosto ela já adivinhou o fiasco que foi a minha conversa com o .
Então é isso. Está tudo acabado. Eu com certeza voltarei para New Haven depois do que aconteceu hoje.
Eu ainda terei que fazer a avaliação de canto quando eles marcarem o dia, mas mesmo que eu passe na avaliação de canto, eu não terei a nota da de dança e serei reprovada. Ou seja: Serei eliminada do concurso de qualquer jeito, pois não terei nota o suficiente para passar.
- O não acreditou em você. – afirmou , sentando-se de frente para mim em minha cama. Assenti com a cabeça, comprimindo os lábios. Eu não conseguia falar. – Mas ele é um idiota mesmo! Será que nos corredores dessa budega existe alguma câmera de vigilância?
- Eu não sei. – respondi, ficando um pouco mais animada quando percebi que eu ainda tinha a chance de ficar no concurso se tiver alguma câmera no corredor em que Deborah me abordou.
- Nós podemos procurar e se tiver, é só falarmos com o que ele checa pra gente. Se for verdade, ela pode até ser expulsa daqui.
- Sério?
- Claro! Vamos, não podemos perder tempo. – se levantou, puxando-me pela mão para saírmos do quarto.
Fomos até o corredor onde Deborah me puxou para dentro da sala de limpeza e vimos uma câmera no teto da parede oposta, que estava levemente inclinada na direção em que Deborah me puxou.
Um funcionário responsável pela manutenção dos elevadores estava passando pelo corredor e não hesitou em chamá-lo.
- Com licença, você sabe me dizer se essa câmera funciona? – ela perguntou e eu cruzei os dedos, torcendo para que ele dissesse sim.
- Todas as câmeras que existem nesse corredor estão com defeito, mas amanhã a minha equipe virá consertar. – eu e nos entreolhamos decepcionadas.
Como uma Escola tão conceituada como a Wings conseguia se manter com os elevadores e as câmeras sempre em manutenção? Que colégio mais esquisito!
- Ah sim... obrigada. – sorriu amarelo para o homem, que assentiu e retomou a caminhada.
- Droga, realmente não tem jeito para mim. Está tudo acabado. – eu disse, chorando novamente. Me agachei na parede e abracei minhas pernas, tentando pensar positivamente.
se sentou do meu lado, abraçando-me pelos ombros.
- Eu não quero que você seja reprovada. Você é a única garota aqui dentro que eu me dou bem. – suspirou, encostando a cabeça na parede. Fiz o mesmo que ela e foquei meus olhos no teto da Wings.
- Mas você é comunicativa, as pessoas gostam de você.
- Que nada, . Eu quase nunca tive amigas. Na turma do , só o Miles fala comigo. – abracei , pois eu senti uma ponta de tristeza naquela frase.
Naquele momento eu percebi que poderíamos ser uma das poucas pessoas que não faziam acepção de pessoas naquele lugar.
Ficamos em silêncio por algum tempo antes de voltarmos para o nosso alojamento. Daqui a pouco seria a hora da janta, mas eu não sentia fome e portanto, não iria para o refeitório.
- Estou sabendo que alguém será reprovada. – disse , deitada em sua cama e me fitando com um olhar provocativo.
- Cale a boca, . É sério. Se você provocá-la, vai apanhar! – fechou as mãos em punho e ameaçou ir para cima de , que levantou da cama e saiu correndo do quarto. – Ela é uma covarde mesmo.
- Eu não ligo pra ela. – murmurei, me jogando na cama.
- Tem certeza de que não quer ir para o refeitório? – pousou a mão na fechadura da porta, olhando-me com expectativa.
- Tenho. Não estou afim de encarar todas aquelas pessoas.
- Tudo bem então, até depois.
A porta se fechou e eu fiquei completamente sozinha, com o olhar vago no teto e um cansaço que me venceu assim que eu percebi que a batalha eu já havia perdido.
Quando acordei, o alojamento estava escuro e e já dormiam. Eu me levantei da cama e percebi que ainda usava as roupas que eu usaria na avaliação.
No meio da escuridão, consegui achar o meu pendrive. Eu o peguei e saí do quarto, indo em direção a um dos estúdios de dança.
Os corredores da Wings eram silenciosos, escuros e um tanto assustadores, mas eu sentia que precisava fazer aquilo. Eu não tinha me esforçado a toa fazendo aquela coreografia.
Abri a porta do estúdio de dança 7 e a deixei encostada sem perceber. Liguei o rádio baixinho e conectei o pendrive, selecionando a música que eu teria dançado na avaliação. O ritmo que escolheram para que eu pudesse dançar tinha sido o rock, e eu havia feito uma coreografia bem elaborada que dava mais ênfase aos passos no chão.
A música começou a tocar e eu encarei meu reflexo nos espelhos enormes do estúdio de dança com uma determinação que eu provavelmente não tinha antes.
Comecei a me mover com rapidez, sincronia e precisão, lembrando-me dos passos que eu mesma havia elaborado com tanto afinco.
A música era forte, falava de raiva e amor. Começava calma, mas conforme os acordes iam fluindo e a letra ia mudando, a melodia ficava mais forte, assim como a letra.
Eu girava bem rápido, esticava a perna, ficava na ponta do pé e saltava como eu nunca havia saltado antes. Eu sabia que não estava fazendo nenhuma avaliação, mas era como se eu estivesse na frente de todos os professores dançando.
Me joguei no chão, deixando uma perna totalmente levantada e a outra esticada no solo, virando-me de bruços e fazendo um cambrê, onde a minha coluna ficava toda arqueada para trás e eu quase conseguia encostar a minha cabeça no meu bumbum.
Eu me esticava, me encolhia, fazia meu corpo ir e voltar como um pêndulo, devagar e depois rapidamente, do mesmo jeito que a música fluía.
Quando eu dançava, eu sentia que conseguia me desconectar de tudo aquilo que me atormenta. No momento em que eu começava a executar os movimentos, era como se existisse somente eu e a música, nos unindo, como se fôssemos uma coisa só.
A música finalmente acabou, e a bolha em que eu havia entrado estourou, fazendo com que toda a tristeza que estava acumulada em meu peito voltasse. Desliguei o rádio e desconectei o pendrive, saindo do estúdio de dança logo em seguida.
Tomei um banho demorado assim que cheguei ao meu alojamento e me deitei. Não demorei muito a cair no sono e fiquei feliz com isso, pois acabou não dando tempo das lágrimas caírem.

Eu caminhava ao lado de de forma desanimada. O resultado da avaliação de dança já havia saído e todo o mundo correu para o 1° andar para ler. saiu correndo em direção a folha da turma do assim que teve a oportunidade, mas eu fiquei parada longe do mural de avisos.
Eu já sabia o resultado então não precisava ir lá comprovar e me martirizar ainda mais.
- , venha ver isso! – gritou antes de me puxar pelo braço até a folha da turma de .
- Você tá brincando, né? Eu já sei que fui reprovada e... – Parei de falar bruscamente quando virou minha cabeça em direção a folha. Porque ao lado do meu nome, a palavra “Aprovada” em azul ganhava destaque dentro da minha cabeça. – Eu... não acredito! – agora foi a minha vez de gritar. – Mas... como?
- Você está aprovada, garota! Comemore porque eu também estou! – começamos a gritar e a nos abraçar. Alguns concorrentes faziam o mesmo, mas percebi que a maioria havia sido reprovada.
- Pelo jeito, as duas também foram aprovadas. – disse Miles, contente. Cameron estava ao seu lado e parecia estar feliz.
- Sim! – respondemos em uníssono.
- Então o quarteto fantástico não irá se separar tão cedo. – Cameron disse, nos abraçando.
Mesmo com toda a felicidade do momento, não pude deixar de ficar me perguntando porque o e os outros professores haviam me passado se eu não havia feito a avaliação.
- Galera, eu volto já. – eu disse, me distanciando dos meus amigos e indo em direção a ala dos professores.
Ainda era cedo, e os professores costumavam estar em seus alojamentos a essa hora da manhã. Esperava que não fosse uma exceção.
Eu nunca havia estado no alojamento dos professores. Era bem diferente do alojamento das garotas. Era mais amplo, aberto e até mais limpo e amistoso.
Bati na porta que continha uma placa escrita “Professor , não perturbe” e esperei.
abriu a porta para mim coçando os olhos. Ele estava meio sonolento e a camisa social que ele vestia estava completamente aberta e mostrava o seu peito nu e definido e um pouco dos seus ombros largos.
Desviei o olhar daquela área rapidamente e olhei para o seu rosto quando me senti constrangida.
- O que você quer, Little Rebel? – ele perguntou, de mau humor.
- Eu só queria lhe perguntar como eu fui aprovada se eu não fiz o teste. Não estou querendo abusar da minha sorte, mas eu queria uma explicação. – engoli em seco, temendo que ele tivesse me aprovado sem querer, ou algo do tipo.
se escorou no batente da porta e cruzou os braços. Seus cabelos bagunçados lhe deixaram com um ar mais jovial e seu rosto nem estava tão carrancudo naquele momento.
- Eu vi você no estúdio 7 ontem a noite. Devo ressaltar que seus atos clandestinos em invadir salas e estúdios de dança na calada da noite estão se tornando um hábito peculiar. – ele sorriu, dando de ombros. - Eu filmei a avaliação e mostrei para os outros professores.
- Mas todos resolveram me aprovar? – perguntei, surpresa.
- Não. Confesso que eu fiquei meio intrigado com o que você me contou sobre a Deborah e decidi investigar. Você estava certa. Eu a ouvi falando no telefone que tinha trancado uma das concorrentes na sala de limpeza e soube que era você.
“Enquanto a minha insônia me perturbava porque fiquei pensando no que eu faria com você, eu te vi ligando o rádio e tive a ideia de te filmar quando soube que aquela seria a coreografia que você apresentaria na avaliação. Eu contei toda a história para os caras e eles entenderam. A Deborah que não gostou nada do que foi decidido, mas se ela não aceitasse, ameaçamos contar tudo para o diretor.” – suspirou, olhando-me fixamente. Às vezes eu gostaria de saber porque sempre que ele tinha que citar seu pai, ele sempre falava “diretor” ou o chamava pelo nome.
- Ah, entendi... – pisquei os olhos algumas vezes, tentando assimilar todas as informações que eu havia acabado de receber.
Então, ficou intrigado o bastante para investigar o que havia acontecido. Isso era um bom sinal, eu acho. Significava que mesmo não indo muito com a minha cara, que o se importava comigo.
- Os professores ficaram muito surpresos com a sua apresentação. Foi uma das melhores, . Você é um talento bruto, mas é um talento. – eu dei um sorriso quando ouvi aquele elogio, porque era muito raro eu receber algum elogio do grande e temido .
- Obrigada.
- Agora saia daqui. – disse ele, ficando sério e ameaçador. - Alunos não são permitidos nos alojamentos dos professores.
- Tudo bem, obrigada mais uma vez. – eu sorri, me distanciando do alojamento.
- Não tem de que. – respondeu, antes de fechar a porta e bocejar.
Fui saltitando para o refeitório. No caminho, vi que algumas pessoas choravam, provavelmente pelo fato de terem sido reprovadas enquanto outras já faziam as suas malas.
Me dirigi até a mesa onde , Camerom e Miles estavam e me sentei ao lado de .
- Onde você foi? – Camerom perguntou, curioso.
- Fui falar com o . Ele me viu dançando ontem à noite, filmou tudo e mostrou para os outros professores. Ele disse que ouviu a Deborah falando que me trancou na sala de limpeza.
- Que bom que tudo se resolveu. – falou, de boca cheia.
- É, mas agora temos que tomar cuidado com a Deborah. – Miles disse, olhando-me preocupado. - Eu tenho certeza de que ela agirá outra vez.
- Sem contar que ela já demonstrou que é capaz de fazer qualquer coisa. – completou Camerom.
- Eu só não entendo porque ela implica tanto com a . – observou, pensativa. - Foi só um acidente com o café e ela virou um bicho com a garota.
Acabei me lembrando da festa e de sua conversa sinistra com aquele cara. As suas palavras reverberaram na minha mente outra vez:
“Eu quero aquela garota fora do concurso!”
- E se não for só isso? E se, sei lá, ela me odeie por algum motivo? – perguntei, mordendo um biscoito.
- E porque ela te odiaria se mal te conhece? – retorquiu Camerom, mordendo o lábio inferior.
- Eu não sei... – murmurei, olhando para baixo.
- De qualquer forma, nós não vamos mais deixar que aquela bruxa te faça mal. – disse Miles, decidido.
- Obrigada, galera. Vocês são demais.
Após a aula de canto e de teatro que tivemos naquele dia, a data para a avaliação de canto foi marcada para a sexta-feira daquela mesma semana.
, Camerom e Miles tinham ido na diretoria perguntar quando teríamos permissão para sair e eu resolvi dar uma olhada pela escola, para conhecê-la um pouco melhor.
Entrei no elevador, já que ele já havia sido consertado e fui para o último andar.
Os corredores dali eram brancos e fazia mais frio ali do que nos outros andares e as salas tinham vidros fumês para que não víssemos o que se passava do lado de dentro.
Ouvi a melodia das teclas de um piano em meu ouvido e me assustei, porque até então tudo estava estranhamente silencioso. Mas a melodia era tão linda e dotada de uma pureza que nem eu mesma entendia, que o meu coração acabou acelerando.
Segui o som da melodia e parei na última sala de música. estava sentado de costas para mim, num banco de madeira. Ele tocava o piano com certa destreza e habilidade e quando parou de tocar, percebi que ele havia soltado um suspiro de quem estava cansado, ou simplesmente triste.
Me aproximei meio hesitante dele e coloquei a mão em seu ombro. , que estava de cabeça baixa, levantou a cabeça e me olhou de modo surpreso e meio desolado.
Retirei a mão de seu ombro e me sentei ao seu lado, temendo levar um fora, mas a única coisa que fez foi voltar a abaixar a cabeça.
Olhei de relance para o piano e vi uma folha com a letra da música que escrevia meio rabiscada.
Só consegui ler uma frase:
‘Cause the heart never lies...
- O que você está fazendo aqui? – a sua voz rouca e forte reverberou no recinto. Desviei os olhos da folha para olhar para , que ainda estava com um semblante de um homem triste e decepcionado.
- Eu estava passando por aqui e ouvi a melodia. – eu disse, olhando-o de forma admirada. - Ela é muito bonita.
- Você deveria ir embora. – ele respondeu, ficando irritado de repente.
- Foi você que compôs? – o ignorei, porque quando se tratava de música boa, eu ficava animada como uma criancinha diante de um parque de diversões.
- Sim, mas ainda não está pronta. – murmurou. Percebi que ele estava meio inquieto. Deveria ser meio difícil para ele expor seus sentimentos. - Eu nem sei se vou terminá-la.
- Mas por quê?
- É meio complicado.
- Eu acho que nada é complicado o bastante para nos impedir de fazermos as coisas que temos vontade. A melodia dessa música está ficando muito bonita e eu tenho certeza de que a letra também está. Seja lá o que esteja te impedindo a continuar com a música, ignore. Não deixe esse tipo de coisa embaçar os seus objetivos. – falei, determinada, lembrando-me que a minha mãe sempre me dizia coisas parecidas quando eu queria desistir de ser bailarina porque achava que nunca seria boa o bastante.
me olhou de um jeito diferente naquela hora. Eu não sei explicar, mas meu coração acelerou. Não consegui quebrar o contato visual de jeito nenhum. Sabe quando o seu olhar encontra acidentalmente com o de outra pessoa e vocês ficam se olhando e tudo a sua volta parece congelar? sempre me dizia que isso acontecia com ela, mas eu não sabia qual era a sensação antes de experimentar.
E agora, eu sabia o que era.
Eu sentia um frio na barriga. Algo se agitava dentro de mim e acho que dentro dele também, porque abriu um sorriso lindo. Foi o primeiro sorriso verdadeiro e genuíno que eu recebi. Não havia nenhum vestígio de ironia ou escárnio. Somente admiração.
- Você está certa. Eu vou terminar essa música. – disse ele, mais animado do que antes. Eu sorri, sentindo que meu ser ainda estava meio agitado.
- Vou deixar você se concentrar. A gente se vê. – caminhei até a porta. Eu estava quase saindo quando me chamou novamente.
- ! – eu me virei na hora, com a mão na maçaneta e o rosto meio vermelho. Encontrei virado de lado, ainda sorrindo para mim. – Obrigado.
- De nada. – eu disse, antes de sair da sala.
A melodia logo preencheu os meus ouvidos outra vez e eu encostei a cabeça atrás da porta, fechei os olhos e fiquei ali, ouvindo-o cantar.
Foi a coisa mais linda que já me aconteceu.

Capítulo 10 - O Teste de Canto

O dia da avaliação de canto havia chegado e eu já estava tremendo antes mesmo de chegar a hora das apresentações. Todo o mundo comentava o fato pelos corredores e tinha me dito que nós cantaríamos em cima do palco da sala de teatro e que eles avaliariam a nossa performance de forma minuciosa.
Camerom e Miles não sentiam tanto nervosismo quanto eu e . Na verdade, eles pareciam tranquilos até demais.
- Eu tenho uma banda de rock alternativo, já estou acostumado com esse tipo de coisa. – disse-me Camerom naquela manhã, quando perguntei para ele como ele conseguia se manter tão calmo.
- Mas mesmo assim, isso é um pouco diferente, não acha? Você vai estar sozinho lá em cima e terá cinco jurados te avaliando além das câmeras que gravarão tudo para poder passar algumas cenas na televisão. – Camerom me deu um sorriso tranquilo e afagou os meus cabelos com carinho. O nervosismo que eu sentia não me impediu de ficar envergonhada com aquele gesto.
Não estou acostumada a ter garotos bonitos afagando os meus cabelos e sorrindo para mim de modo gentil. Em New Haven, os garotos costumavam me ignorar.
- Pelo menos os outros alunos não estarão lá também. – disse ele, tranquilamente.
- Por enquanto... – respondi, sentindo que o nervosismo aumentava cada vez mais.
- Relaxa, . Você está cansada de saber que é talentosa. Tenho certeza de que se sairá muito bem na apresentação de hoje e será aprovada. – eu sorri com as palavras encorajadoras de Camerom e o olhei de modo agradecido.
- Obrigada, Cam. De verdade.
E agora, eu estava no quarto, encarando as minhas roupas e tentando encontrar algo digno de uma apresentação de canto. Eu sabia que nós estávamos totalmente livres para usarmos a imaginação. O próprio havia nos dito que era para providenciarmos um figurino digno de futuros artistas da Broadway.
Mas as minhas roupas não chegavam nem perto do que os outros alunos estavam usando e eu me odiei por isso.
- Parece que alguém está com problemas com as roupas de puritana. – disse, sorrindo de forma provocadora para mim. Ela usava um vestido lindo e brilhoso de veludo preto e saltos finos e afiados.
O seu cabelo estava solto e rebelde e a sua maquiagem, impecável. Eu me odiei por não ter providenciado uma roupa legal e me odiei ainda mais por não ter me preparado para nada disso.
A maioria dos concorrentes tinha dinheiro de sobra para providenciar figurino, maquiagem e tudo o que precisassem. Até mesmo Camerom e tem uma estabilidade financeira que com certeza invejaria pessoas como meu pai ou Lucy. Já eu, não tenho nada disso. Não tenho grana para providenciar uma roupa decente, já que eu e meu pai usamos nossas economias para bancarmos a minha viagem para Londres.
O pouco dinheiro que eu tenho não daria para comprar uma roupa legal, tenho certeza disso.
- Me deixe em paz. – fuzilei com o olhar e ela se retirou, rindo como uma campeã de vale-tudo.
Me sentei na ponta da cama e suspirei, observando as minhas roupas sem graça espalhadas pelo chão e me perguntei se um dia eu me encaixaria num lugar como aquele ou se eu fui uma boba ao pensar que poderia mesmo pertencer aquele lugar. - , chegou essa encomenda para você! – entrou correndo no quarto, esbaforida, colocando em cima de minha cama uma caixa enorme de papelão.
- O que é isso? – perguntei para ela, enquanto franzia as sobrancelhas e encarava a caixa com um ar desconfiado.
- Eu não sei! Abre, abre logo! – incentivou ela, animada e sorridente.
Suspirei mais uma vez e abri a caixa de uma vez só. Senti que meus olhos se arregalavam e soltou uma exclamação abafada e mais uma enxurrada de palavrões em italiano quando viu o conteúdo da caixa.
Levantei na altura dos olhos o primeiro vestido que eu vi. Ele era branco e rodado, com alguns detalhes brilhosos que faziam com que qualquer um que o visse se apaixonasse instantaneamente e o quisesse comprar mesmo que isso o levasse a falência.
Com um comprimento mediano, sua saia era bem armada, dando um volume que com certeza ficaria lindo no corpo de qualquer garota. Para combinar, havia um par de sapatos prateados de salto.
Encarei os presentes boquiaberta e vi que havia mais um vestido na caixa.
Esse era laranja, e era um pouco mais curto do que o outro. Havia um sapato cinza combinando com aquele, do mesmo formato que o prateado.
Eu e nos encaramos por um momento e eu percebi que havia um bilhete no fundo da caixa.
O peguei na mesma hora, ávida por saber quem me dera aqueles presentes.
“Querida amiga desnaturada, veio por meio desta carta lhe explicar porque lhe dei esses presentes porque não queria que você surtasse. Sei que você é o tipo de pessoa que não os usaria se não soubesse quem te deu e provavelmente ficaria falando o tempo todo que não poderia aceitar tamanha bondade. Conheço bem você, sei que agiria dessa forma.
Sabe, eu tenho acompanhado o programa e imaginei que você iria precisar de um vestido legal para a sua apresentação assim como imaginei que você precisaria de um outro vestido caso um gatinho da Wings te chamasse para sair para dançar. De qualquer forma, use o branco para a apresentação. O laranja é mais curto e mais discreto, e você poderá se mover com ele se for dançar com o (me deixe sonhar, beleza?)
Eu espero que você use os presentes que eu te dei e que, sei lá, isso meio que te ajude a perceber que sempre vou estar do seu lado, mesmo que não seja no sentido literal da palavra. Você é a minha melhor amiga e estou torcendo muito por você. A galera de New Haven já até montou o seu fã-clube e claro que eu sou a presidente.
Seu pai e Lucy estão muito orgulhosos de você. Sabia que seu pai até fez um Facebook só para divulgar os seus vídeos e as notícias relacionadas ao concurso para o pessoal do face dele? É, ele está tão empolgado com o seu sucesso quanto eu e queremos que você chegue na final e arrase em todas as apresentações.
Sei que você tem passado por momentos difíceis e sei que ainda não teve coragem para me contar o que aconteceu, mas seja forte, ok? Lembre-se do que a sua mãe te ensinou.
Eu amo muito você, , e por mais que eu queira que você vença esse concurso, não vejo a hora de você voltar para casa para eu poder te matar num abraço esmagador.
Da sua amiga mais neurótica da face da terra, .”

Comecei a chorar quando terminei de ler a carta. Eu deveria saber que aquilo só podia ter sido obra de . Ela nunca me deixaria na mão. Nunca.
- Nossa, essa sua amiga deve ser muito legal. – disse assim que terminou de ler a carta.
- É, ela é sim. – concordei, sorrindo em meio as lágrimas.
- Trate de enxugar essas lágrimas e vai se arrumar. Pode deixar que eu farei a sua maquiagem. Tenho umas sombras que ficarão lindas com esse vestido que você usará. Não lave o cabelo também, seus cachos são lindos e eu quero fazer um penteado nele. – disse de forma autoritária. Eu dei risada.
Me levantei da cama e caminhei até o banheiro, mas parei abruptamente para olhar na direção de .
- Mas e você?
- Não se preocupe comigo, eu me arrumo depois. Sou uma felina, as felinas sempre sabem se virar sozinhas.

Meu corpo todo tremia de nervoso e meus dentes até batiam vez ou outra. O teste já havia começado e a primeira concorrente, uma garota baixinha e com um ar confiante, já estava lá cantando.
Apesar de não podermos assistir as apresentações, eu era capaz de ouvir a garota cantar. Ela era realmente talentosa, tinha uma voz muito bonita e a música que escolheu era bem difícil. Cantar uma música da Christina Aguilera nunca foi uma tarefa muito fácil e ela estava se saindo muito bem.
estava segurando forte a minha mão. Percebi que estava tão nervosa quanto eu. Ela havia me arrumado e eu estava me sentindo muito bonita com aquele vestido. A maquiagem em meu rosto me fazia sentir que eu era outra pessoa, um tipo de garota que na escola, eu e classificávamos como “bonitas e perigosas” ou “bonitas e cruéis”. Aquilo me fez perceber que eu me sentia tão bonita quanto . Ou quanto a própria , que estava linda com sua calça preta de couro e sua blusa verde decotada.
Camerom e Miles estavam sentados na fileira atrás da nossa. Miles usava uma roupa toda purpurinada, com um figurino meio espacial. Ele cantaria uma música da Lady Gaga e parecia meio nervoso naquele momento.
Já Camerom estava mais tranquilo. Seu rosto exalava calma e ele mantinha no rosto um sorriso preguiçoso e relaxado. Ele usava uma roupa despojada e simples: Camiseta preta do System Of a Down, jeans rasgados e botas de motoqueiro. O cabelo dele parecia haver crescido um pouco, foi o que notei quando olhei para trás e encontrei seu corpo apoiado na cadeira de forma relaxada.
Ele sorriu para mim, e eu corei quando retribuí aquele gesto, me virando para a frente assim que percebi que estava agindo como uma idiota.
A espera era grande e a expectativa aumentava quando um dos professores se dirigia até a sala de espera e chamava outro concorrente para se apresentar. Alguns saíam da sala de forma confiante e outros, saíam de lá com uma expressão aterrorizada.
Tinha medo de pensar de que forma eu sairia de lá quando terminasse a apresentação.
foi a primeira do meu círculo de amizades a se apresentar. Fiquei torcendo por ela e ouvindo com atenção a sua apresentação. Ela cantou uma música da Pink, o que fazia bem o seu estilo e ela tinha uma voz linda e forte. é uma das garotas com mais atitude daquele lugar.
Quando sua apresentação terminou, ela se sentou ao meu lado e sorriu de forma radiante. Eu sorri e a parabenizei, tocando em sua mão e sentindo o quanto estava gelada.
O próximo foi Miles. Devo confessar que fiquei surpresa com a sua capacidade vocal. Ele tinha uma voz que daria inveja a qualquer cara, e quando voltou a se sentar, algumas pessoas até o parabenizaram.
Cam demorou um pouco mais para se apresentar e quando foi chamado, percebi que algumas pessoas olharam torto para ele, por causa das roupas que ele vestia. Eu adorava o jeito como ele lidava com as situações e gostava mais ainda do fato dele estar tão calmo. Eu o admirava também pelo fato de não ligar para os figurinos exagerados que os outros estavam usando. Camerom não era de se influenciar pelo que as outras pessoas diziam ou faziam. Ele usava o que queria e o que lhe deixava confortável e aquilo era o bastante.
Ele também foi impecável em sua apresentação. Sua voz era rouca e aveludada. Ele cantou uma música do Three Days Grace, que apesar de ser uma banda pouco conhecida, era uma banda que eu gostava.
Quando voltou, as pessoas o olharam com raiva, como se sentissem incapazes de conter a surpresa diante de sua apresentação. Antes de se sentar, ele olhou para mim e sorriu. Eu sorri de volta, me levantei e o abracei.
- Você foi ótimo. – eu disse, sussurrando em seu ouvido. Sabia que as pessoas estavam prestando atenção, mas eu não liguei.
- Obrigado. Tenho certeza de que você também se sairá muito bem. – respondeu, me abraçando forte.
- Acho que os pombinhos podem esperar para comemorar depois. – disse , me olhando de um jeito meio incomodado. Fiquei sem entender porque ele estava agindo daquela forma e me separei de Camerom rapidamente. – Little Rebel, é a sua vez.
Assenti para e ouvi Cam sussurrar um “Boa sorte” para mim antes que eu pudesse seguir pelo corredor que nos levaria até a sala de teatro. Minhas pernas estavam trêmulas e meu coração, batia acelerado em meu peito.
Logo a imensa sala de teatro surgiu em meu campo de visão e eu vi a mesa dos professores logo em frente ao palco. Tentei ignorar o fato de que Deborah me olhava de modo ríspido e raivoso e subi no palco de uma vez só.
Caminhei até o centro do palco, ouvindo o barulho dos meus saltos ecoarem no piso brilhante e escorregadio e tentei não olhar muito para a câmera que filmava meu rosto. Segurei com força no microfone que estava encaixado no pedestal e fiz sinal para que liberassem a música que eu cantaria.
Respirei fundo quando ouvi os primeiros acordes da música começar a tocar e fechei os olhos quando cantei a primeira estrofe da música. Como a música era animada, abri os olhos e comecei a me mover de um lado para o outro timidamente.
Não olhei para os professores logo de início, não tinha coragem de encará-los ainda, mas arranquei o microfone do pedestal e comecei a andar pelo palco com muita energia, sentindo o refrão da música fluir por mim como se eu mesma tivesse escrito a letra.
Vi , e balançarem a cabeça de forma animada e sorrirem para mim e aquilo me encorajou ainda mais. Olhei de relance para e vi que ele me observava de um modo mais compenetrado do que os outros. Deborah era a única que estava odiando ter que me ver ali em cima, mas a essa altura do campeonato eu já estava desinibida demais para me importar com aquilo.
E quando a última parte da música chegou, eu gritei assim como a cantora original fazia na música. Levantei um dos braços no ar e liberei toda a energia e animação naquela última nota.
A única coisa que de fato me lembro, foi que assim que terminei a apresentação, vi , e me aplaudirem de pé.

Capítulo 11 - Dança Comigo?

Eu estava muito feliz. A apresentação de canto foi melhor do que eu tinha imaginado e os professores me parabenizaram assim que terminei de cantar, inclusive o . Deborah foi a única que ficou enfurecida e não disse nada, mas eu já imaginava que isso aconteceria.
Depois da minha apresentação, ainda havia algumas pessoas para se apresentar e era uma delas. Apesar de ter feito uma ótima apresentação, vi que entrou na sala em que estávamos chorando. Ninguém pensou em ir até ela consolá-la. Nem mesmo as suas “amigas”.
Pensei em ir falar com ela, mas assim que fiz menção de me levantar, os professores surgiram em meu campo de visão.
- Nós ficamos muito contentes em ver o desempenho de vocês no palco. Parabéns, guerreiros, vocês estão no caminho certo. – disse , animado. Todos nós começamos a gritar e aplaudir ao mesmo tempo.
- Mas, vocês ainda tem muito pela frente e o resultado desse teste só sairá depois de amanhã. – completou, dando risada quando alguns alunos protestaram choramingando.
- Portanto, aconselho vocês a aproveitarem o dia de amanhã. Vocês ainda não tem permissão para sair, mas aproveitem para descansar um pouco. Eu sei como a tensão de um teste pode ser fatal algumas vezes. – disse , fazendo com que todos nós déssemos risada.
- Boa sorte, pessoal! – exclamou , inexpressivo como sempre.
- Alguns vão precisar. – completou Deborah, rindo de forma maldosa.
Saímos da sala na mesma hora, sentindo a tensão da apresentação se evaporando aos poucos. abraçou-me pelos ombros e Miles e Camerom vieram para o nosso lado.
- Vocês foram muito bem. – Cam disse, se referindo a nós três e nossas apresentações.
- Você também. – eu, e Miles respondemos juntos e começamos a rir.
- Como um cowboy do Texas pode ser um roqueiro descolado? – perguntou, brincando com Camerom. Eu e Miles rimos.
- Não sei, acho que deve estar no meu sangue. Minha família toda é formada por roqueiros. – ele disse, dando de ombros e colocando as mãos no bolso da calça jeans.
- Sua família deve ser bem estilosa. – Miles disse e eu concordei com a cabeça.
- Galera, eu preciso ir. Vou dar uns telefonemas. – Camerom acenou, já se afastando.
- Eu também vou nessa, vou para a sala de informática entrar na internet e ver as novidades. – disse Miles, fazendo com que algo em se acendesse.
- Acho que eu vou com você. – disse, olhando para mim como se perguntasse se eu iria junto.
Por mais que eu quisesse ver o que estavam falando na internet sobre o concurso e o fã-clube que a e os moradores de New Haven haviam criado, eu ainda não me sentia preparada para aquilo. Saber que eu agora era famosa me deixava com o estômago embrulhado, principalmente depois que aquela foto minha com o vazou e as especulações maldosas começaram.
- Eu vou andar por aí.
assentiu com a cabeça, acenando antes de seguir Miles pelo corredor.
Caminhei um pouco sem rumo e ouvi gemidos e soluços em algum lugar próximo a mim. A princípio, pensei que fosse coisa da minha cabeça, pois o barulho tinha cessado, mas os soluços e gemidos logo voltaram e eu percebi que alguém estava chorando bastante.
Me deparei com sentada no chão, com as mãos cobrindo o rosto. Ela chorava como se alguma coisa muito ruim tivesse acontecido.
- , você está bem? – perguntei, me aproximando dela a passos hesitantes.
- Não, vai embora! – ela gritou, ainda com o rosto coberto.
- O que aconteceu?
- Porque você quer saber? Para debochar de mim? – tirou as mãos do rosto e me olhou com raiva. Seu rosto estava todo borrado de maquiagem e molhado pelas lágrimas.
- Não, quem tem feito isso ultimamente é você. – respondi, fazendo com que se enfurecesse ainda mais.
- Você acha que sabe tudo só porque os professores te idolatram, mas esse papinho de menina boazinha não me engana! – exclamou, enxugando as lágrimas do rosto de modo irritado. Eu a olhei sem entender do que ela estava falando.
- De onde foi que você tirou que os professores me idolatram? Eu não me faço de menina boazinha.
- Claro que faz! Adora se fazer de vítima também. Mas não se engane se pensa que vai ganhar o concurso. No final, você vai voltar a ser a órfã de mãe fracassada que sempre foi. Você é tão sem brilho que chega a me dar ânsia de vômito. – a mágoa que eu senti com suas palavras foi tão forte que eu senti vontade de chorar. Eu só queria ajudá-la, mas era o tipo de pessoa que preferia afastar as pessoas de si mesma de modo que ninguém nunca pudesse alcançá-la.
- E você é tão fútil e invejosa que vai acabar sozinha e sem amigos. – respondi, antes de deixá-la sozinha e sem palavras.
Saí correndo, sentindo muita vontade de chorar. Como uma pessoa como a conseguia ser tão cruel? Será que ela não entendia que eu realmente sentia falta da minha mãe?
Fui parar na escadaria escura do prédio da Wings. Ali eu fiquei, com o queixo apoiado no meu joelho, sentindo que algumas lágrimas já escorriam pelo meu rosto.
Ouvi passos se aproximando de mim, mas não tive forças de me levantar e me esconder. Senti que alguém se sentava ao meu lado na escadaria e nem me abalei quando vi que era que havia se sentado ao meu lado.
- Acho que roubaram a minha ideia. – disse de repente, dando um sorriso de lado. Eu o olhei de relance, não me importando nem um pouco com o fato de que eu estava chorando em sua frente. Acho que nem dava para perceber que meus olhos estavam marejados.
- Eu queria ir para um lugar onde eu não fosse capaz de sentir emoções. – eu disse subitamente, incapaz de impedir que as palavras escapassem de minha boca.
Sempre que eu me lembrava de minha mãe, era como se desencadeasse uma série de emoções diferentes dentro de mim e eu sentia que precisava falar ou desabafar de alguma forma que me fizesse sentir segura outra vez.
Na maioria das vezes, nunca funcionava, mas eu tinha esperanças de que algum dia tudo fosse se ajeitar.
- Essa seria uma válvula de escape excelente. – disse, olhando para algo distante, algo que ultrapassava aquelas paredes. Talvez ele estivesse se sentindo do mesmo jeito que eu, só que por algum motivo diferente.
Ficamos em silêncio por um tempo que me pareceu infinito.
- Tá a fim de dar uma volta? – perguntou, com um tom de voz empolgado.
Levantei a cabeça bruscamente e o olhei meio confusa.
- Eu não estou autorizada a sair e... – balbuciei, meio incerta.
- Vamos, garanto que você vai gostar. – se levantou, sentindo-se animado de repente. Eu nunca o havia visto daquele jeito.
- Aonde vamos? – perguntei, me levantando também.
arqueou uma das sobrancelhas e sorriu para mim:
- Vou te apresentar a minha válvula de escape.

Nunca pensei que eu fosse usar aquele vestido tão cedo. Na verdade, eu achei que ele ficaria na caixa pelo resto dos meus dias aqui na Wings. Mas estava certa e eu a agradeceria imensamente pelas coisas que ela fazia por mim mesmo estando tão longe.
Eu andava sorrateiramente pelos corredores já escuros da Wings, com os sapatos que havia me dado na mão porque eu não podia fazer nenhum barulho que pudesse me delatar.
O vestido laranja que me dera coubera tão bem em meu corpo e era tão bonito que eu fiquei com medo de que eu me iludisse achando que havia me chamado para um encontro. Mas isso não me impediu de vesti-lo quando disse que eu precisava me arrumar.
Não que eu estivesse desarrumada, mas o vestido que usei na apresentação era muito chamativo. Além do mais, eu não fazia a mínima ideia do que poderia estar tramando e aquilo só me deixava mais nervosa.
Abri a porta dos fundos do colégio e senti o ar frio de Londres me envolver assim que pus meus pés descalços do lado de fora.
Meu coração acelerou quando avistei encostado em seu carro de forma despreocupada. O cabelo dele balançava um pouco por causa do vento e ele usava um sobretudo preto por cima de uma blusa branca de algodão e calça jeans.
Coloquei meus sapatos e fiquei parada em frente à porta dos fundos do colégio. Tive medo de me mover e mais medo ainda de que alguma coisa desse errado naquela noite.
Foi exatamente no meio do dilema em que eu me encontrava que me viu. Ele me chamou com a mão de um jeito impaciente que acabou me encorajando a ir ao seu encontro.
- Porque você estava parada feito um poste? – perguntou, me encarando dos pés a cabeça. O ar londrino não impediu que eu sentisse calor naquele momento.
- Por nada. – respondi, dando de ombros.
Entrei no veículo e senti que minhas pernas estavam moles feito gelatina. Cruzei as mãos em cima da perna e fiquei esperando que nos tirasse logo dali antes que alguém nos visse.
Antes de ligar o carro, ele ligou o rádio e colocou um CD do Panic! At The Disco para tocar. Olhei para ele com o cenho franzido, não só porque eu amava a banda, mas também porque ele havia escolhido a música Hurricane, que tinha um ritmo bem diferente. Naquele momento eu pude perceber que ele tramava alguma coisa. Não havia sido uma escolha aleatória.
- Gosta da banda? – perguntou, ligando o carro e dirigindo tranquilamente pelas ruas iluminadas de Londres. Não pude deixar de pensar que aquela era a primeira vez que eu estava saindo da Wings e fiquei eufórica com a possibilidade de poder olhar pela janela do carro as diferentes paisagens que surgiriam em meu campo de visão.
- Gosto, mas porque não deixou o CD tocar normalmente? – me virei para ele, esperando que ele me desse um fora ou pelo menos uma resposta atravessada, mas a única coisa que fez foi dar um sorrisinho torto.
- Porque eu quero que você deixe a música penetrar a sua alma. Sinta-a e imagine que você está dançando de uma forma totalmente diferente. – franzi o cenho ao ouvir o que havia dito, mas depois que aquelas palavras saíram de sua boca, fixei meu olhar nele e deixei que elas fizessem sentido.
- Tudo bem.
Os acordes animados de Hurricane preenchiam a minha mente e eu virei minha cabeça em direção à janela e comecei a imaginar.
Meia-hora mais tarde, estacionou o carro em frente a uma casa noturna bem animada. Luzes fluorescentes piscavam em todas as direções da fachada do lugar o nome do estabelecimento: Fire Starter. Eu mal tinha saído do carro e já conseguia ouvir a música que tocava lá dentro. Era salsa.
- O que estamos fazendo aqui? – perguntei assim que saiu do carro.
Ele sorriu e abriu os braços, como se estivesse se divertindo antes mesmo de ter entrado no lugar.
- Te apresento a minha válvula de escape.
Arregalei os olhos quando percebi que estava falando sério. Era mesmo ali que ele queria me levar? A uma boate?
- E se reconhecerem a gente?
- Aqui as pessoas só se importam com a diversão e não com quem tem dinheiro ou é famoso. Relaxe, Little Rebel. Esse lugar é ótimo para quem gosta de dança. Tenho certeza de que você irá gostar daqui.
A entrada do estabelecimento já estava lotada, mas de alguma forma nós conseguimos passar a frente de todo o mundo quando estendeu duas entradas na direção dos dois seguranças que tentavam barrar quem queria entrar de penetra.
A música era ainda mais ensurdecedora do lado de dentro e por todos os cantos, via-se casais grudados, dançando de um jeito que acabou me deixando vermelha dos pés a cabeça.
As mulheres balançavam seus corpos de um lado para o outro e os homens as conduziam de forma sensual, passando as mãos pelas laterais de seus quadris enquanto as mulheres jogavam suas cabeças de um lado para o outro.
Sem perceber, grudei meu braço no de . Ele pareceu não se importar com o meu gesto e aquilo foi tão estranho quanto qualquer coisa que ele já tenha feito hoje.
Um homem alto e loiro apareceu em nossa frente e o cumprimentou com um abraço e dois tapinhas amistosos nas costas.
- ! Quanto tempo não te vejo por aqui! – disse o homem, empolgado.
- Tenho estado muito ocupado com o concurso. – respondeu, parando no meio do caminho para conversar com ele.
- Entendo, só espero que não se esqueça de que aqui sempre será o seu lugar favorito e de que mesmo você tendo aqueles seus amiguinhos da época que o McFly ainda tinha planos de fazer sucesso, de que eu também sou um dos seus melhores amigos. – lançou um olhar censurado ao homem, que logo se tocou de que “McFly” era um assunto proibido para mim. - Mas quem é essa belezinha? – ele perguntou, mudando de assunto e me encarando com um brilho no olhar.
- Essa é a , uma aluna minha. – disse , apontando em minha direção. Eu sorri timidamente. - Eu a trouxe aqui para que ela tenha um pouco mais de inspiração e atitude.
- Então estão no lugar certo! Seja bem-vinda, . Eu sou o Brandon, dono desse lugar. – Brandon estendeu a mão para mim e eu a apertei, sorrindo.
- Prazer, Brandon.
- Vou deixar vocês à vontade. Divirtam-se! – ele saiu de perto de nós e correu na direção de um dos funcionários gritando a beça. Eu ri e me virei para quando percebi que ele estava me encarando.
- Vem comigo. – disse ele, me puxando pelo pulso. Não tive outra alternativa a não ser segui-lo.
me levou para frente da pista de dança e parou ali, de frente para os casais que dançavam. Eram muitas pessoas se movendo e todas elas pareciam saber exatamente o que fazer ali em cima. A dança era sensual, hipnótica, intensa e totalmente envolvente. Eu não via aquilo como algo vulgar. Aquilo era a arte se manifestando.
Uma das coisas que eu sempre admirei na arte da dança era poder se expressar com o corpo de uma forma que todas as pessoas pudessem compreender a mensagem. Era uma sensação de poder que podia libertar ou até mesmo aprisionar quem estivesse na pista de dança. Mas até mesmo a maior prisão conseguia te deixar com um gostinho de liberdade. Era totalmente inspirador. E relaxante.
A forma como aqueles casais se moviam na pista de dança fez com que os meus olhos brilhassem de admiração. Eu não conseguia me imaginar dançando daquela forma, porque eu nunca me considerei uma pessoa sexy, muito menos na pista de dança.
- Preste atenção na forma como todas essas pessoas estão se movendo. Como você definiria todos esses movimentos? – perguntou , tendo que se inclinar em minha direção para que eu conseguisse ouvi-lo perfeitamente.
- São movimentos sensuais. E intensos. – respondi, sem conseguir desviar o olhar da pista de dança.
- Essas pessoas não tem medo de mostrar como estão se sentindo. Ritmos como a salsa, o merengue e até mesmo a lambada estão aí para mostrar que a dança pode agir de várias maneiras diferentes.
“Desde a maneira contida, a leveza e elegância do ballet até a explosão de emoções que acontecem quando dois corpos se unem numa dança como a da lambada. E você, , deve saber quando agir de um jeito e de outro. Deve saber como atingir esses dois extremos em uma única dança, às vezes. E o mais importante de tudo: Não deve ter medo.”
Olhei de forma interessada para . Ele gesticulava um pouco com as mãos e tinha um brilho no olhar que há muito tempo eu não via em seu rosto. As únicas vezes em que aquele brilho aparecia era quando ele estava no palco se apresentando, ou nos ensinando algo que o deixasse fascinado.
- Porque está me falando tudo isso? – perguntei, não porque estava me sentindo insultada, mas sim por curiosidade mesmo.
conseguia me surpreender sempre que brigava comigo e depois me elogiava, ou sorria para mim. Aquilo deixava a minha cabeça meio bagunçada.
- Porque sempre que eu olho para você, eu enxergo a pureza, a curiosidade, a inocência e o medo. E acredite, esses três primeiros fatores fazem com que qualquer um que te veja dançar, cantar ou atuar, fique maravilhado. O problema é esse medo, que muitas vezes consegue embaçar os seus objetivos. O que estou querendo dizer, é que você não precisa ter medo de ser sensual ou ousada. E que é absolutamente normal sentir medo de ser sexy na pista de dança. Mas isso não quer dizer que você tenha que recuar por causa de todos esses anseios. – algo no jeito como me olhou naquele momento fez com que meu coração palpitasse. As luzes coloridas do lugar refletiam no rosto dele e eu conseguia enxergar as expressões de seu rosto com certa clareza.
- Entendo. – assenti positivamente com a cabeça, tentando gravar em minha mente tudo o que havia acabado de me ensinar.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas apreciando a dança que os casais faziam na pista.
- , dança comigo? – olhei para o rosto de com uma expressão de incredulidade. Ele também me olhava, e a expectativa que encontrei em seu olhar foi capaz de me desarmar.
O nervosismo que eu comecei a sentir não foi capaz de me impedir de aceitar aquele convite.
Estendi a minha mão na direção da dele e deixei que ele me levasse até a pista de dança.

Capítulo 12 - A Foto

A batida inebriante da música pareceu se fundir com as minhas veias, transmitindo uma corrente elétrica por todo o meu corpo. Eu segurava a mão de com firmeza, mas sentia que as minhas pernas tremiam um pouco.
A pista de dança estava lotada, e eu tive medo de que as pessoas pudessem começar a reconhecer o , mas aquilo não aconteceu e eu logo percebi que ele estivera certo em relação aos frequentadores daquele estabelecimento quando disse que as pessoas só queriam se divertir.
Olhei para os lados, aflita, sentindo as luzes fluorescentes do lugar em cima de mim e me perguntei se dançar com seria uma ótima forma de esquecer os meus problemas.
Paramos de frente um para o outro e senti uma das mãos de envolver a minha cintura e me segurar com firmeza. A outra mão segurou a minha, como se fôssemos mesmo dançar lambada. Estremeci quando eu vi os casais ao meu redor, mas fez com que eu o encarasse e algo na firmeza daqueles olhos claros e límpidos me fez criar coragem para começar a mover o meu corpo.
Movi a minha cintura de forma lenta de um lado para o outro, de forma acanhada. assentiu levemente com a cabeça e começou a me conduzir pela pista de dança. Eu sentia o interior da sua perna roçando na minha coxa e me senti totalmente constrangida com aquilo.
Eu sabia que era meio idiota me sentir daquele jeito, já que era uma dança que exigia muita sensualidade, mas ter o corpo de tão próximo do meu me fez sentir espasmos de calor por todo o meu corpo. Afinal, eu nunca havia dançado daquele jeito antes. A minha dança era tão recatada e pessoal que eu nunca pensei que pudesse ser capaz de me mover daquela forma.
Posicionei uma das minhas coxas de forma que ela ficasse grudada ainda mais com a de e continuei balançando o meu quadril. Segurei em seus ombros quando ele encostou o seu peitoral em meu corpo e arqueei a minha coluna para trás, sentindo as mãos firmes de passeando pelas minhas costas.
Nós nos abaixamos juntos, eu esfregando minhas coxas em suas pernas e vice-versa e nos levantamos rapidamente, começando a nos mover mais pela pista de dança. Me agachei e deixei uma perna levantada no ar enquanto o restante do meu corpo girava. me seguiu e me puxou pelo braço em sua direção, fazendo com que meu corpo trombasse no dele propositalmente.
Uma comoção no lugar ocorreu com aquele gesto e logo todas as pessoas estavam assistindo a nossa dança. Havíamos chamado à atenção, mas eu não me importava.
Meu vestido esvoaçava enquanto eu girava diversas vezes, sendo seguida por , que segurava uma de minhas mãos com leveza.
Enrosquei minha perna esquerda na coxa de , que segurou a minha cintura enquanto eu esticava a outra perna e arqueava a minha coluna novamente para trás.
me levantou com firmeza no ar, fazendo com que eu me sentisse zonza e quente ao mesmo tempo. A batida da música pulsava em nossas veias como se fosse uma droga viciante que nos deixasse tontos de adrenalina. Nossos corpos suavam, mas não deixamos de nos mover um segundo sequer.
As mãos de exploravam toda a extensão do meu quadril e da minha coluna, mas, naquele momento, eu estava envolvida demais para perceber o que eu estava fazendo.
A dança possuía uma extraordinária magia de me deixar anestesiada, e parecia que aquilo amplificava quando eu estava ali com o , no meio daquela pista de dança.
A música acabou e, sem que eu percebesse, nossos dedos estavam entrelaçados. Nós nos olhamos por cerca de 2 segundos, ofegantes. Encostei a minha testa na dele sem me importar com o fato de que várias pessoas estavam aplaudindo e que ele era o meu professor rude e totalmente prepotente.
Parecia que eu havia entrado em uma cabine a prova de som, pois eu não ouvia mais nenhum barulho além do de nossas respirações, que estavam meio descontroladas pela dança que tínhamos terminado de fazer.
- Parece que alguém está se soltando. – disse , com a voz rouca. – Não sabia que dentro de toda a personalidade de garota ingênua pudesse existir uma leoa. - ele me fitava de forma intensa e ao mesmo tempo curiosa e aquilo me deixou totalmente trêmula e nervosa. Meu coração também estava um pouco alterado, e eu não sabia direito o que responder.
Várias respostas arrasadoras vieram a minha cabeça, mas eu não consegui dizer uma única palavra que pudesse responder a altura aquele elogio.
- Cuidado, . Você ficaria totalmente surpreso com as coisas que eu sou capaz de fazer. – falei, sentindo as minhas bochechas queimarem.
Ele sorriu, me olhando de um modo diferente. Na verdade, naquela noite, estava completamente diferente. Não só os olhares, ou os sorrisos – afinal, eu achava que ele não era capaz de sorrir de outro jeito que não fosse sarcástico – mas algo em seu jeito me fez ver que talvez aquele fosse o de verdade.
Sabe, o que eu assistia da televisão da minha casa junto com a minha mãe e que era tão sorridente e gentil quanto os seus amigos.
me conduziu até a saída do estabelecimento, pois já estava ficando muito tarde. Brandon nos interceptou nesse meio tempo, nos parabenizando pelo nosso belo desempenho na pista de dança, enfatizando que fazíamos um lindo casal e que tínhamos muita química, fato que me deixou mais corada ainda. Por sorte, reagia melhor do que eu a comentários desse tipo e apenas deu um sorriso meio irônico. Parecia que o velho estava de volta para me assombrar e me chamar de Little Rebel.
Ficamos em silêncio por um bom tempo dentro do carro, enquanto fazíamos a viagem de volta para a casa.
- , peço que não conte a ninguém o que aconteceu hoje. – disse ele, com seriedade. - Se alguém descobrir pode haver consequências sérias tanto para mim quanto para você.
- Eu imaginei que diria isso. – respondi, me sentindo um pouco nervosa. - Pode ficar tranquilo, eu não vou contar nada.
A viagem de volta para a Wings ocorreu mais rápido do que eu esperava, apesar do clima constrangedor que havia se instalado no veículo. parecia relaxado, mas eu estava alerta e tensa. Minhas mãos estavam muito suadas, e eu só queria entrar no meu alojamento para poder pensar em tudo o que havia me acontecido naquele dia.
estacionou o carro na garagem dos professores e usou sua chave para podermos entrar pelos fundos. O colégio estava muito escuro, e o medo que eu sentia de sermos pegos me deixou atenta a qualquer barulho que fosse suspeito.
- Então, acho que é isso. – disse , colocando as mãos nos bolsos de sua calça quando já estávamos nos corredores silenciosos da Wings. - Boa noite, , e boa sorte amanhã com o resultado final da primeira etapa do concurso.
- Obrigada. – falei, meio sem jeito. Os olhos dele brilhavam com a luz do luar que entrava pela fresta de uma das janelas do 2° andar. - Boa noite, .
Ele assentiu com a cabeça de forma lenta e eu dei alguns passos hesitantes para longe dele. Meu coração estava acelerado, e eu tentava decifrar o que a imagem daquele que me desejara boa noite gostaria que eu captasse.
- . – ele me chamou baixinho. Meu coração acelerou mais um pouco.
Me virei, tremendo da cabeça aos pés, enquanto tentava encará-lo sem parecer uma idiota.
- Sim?
- Esteve ótima hoje à noite. – sorriu de forma irônica para mim. Ele ainda mantinha as mãos nos bolsos e me encarava fixamente. Incomodava ser observada por um homem como ele, porque aqueles olhos pareciam ser capazes de me perfurar.
- Obrigada. – dei um sorriso acanhado, enquanto ele continuava a me observar com a mesma audácia de sempre.
- Não pense que lhe darei tratamento diferenciado por conta do que aconteceu hoje. – advertiu-me, enquanto eu assentia com a cabeça.
- Tudo bem.
Fiz menção de que iria me virar para retomar minha caminhada até o alojamento, quando me interceptou novamente.
- Te vejo amanhã, Little Rebel. – disse ele, e pude sentir seu sorriso zombeteiro na minha coluna.
É, parece que o de agora estava de volta. Para o meu desespero.

- Onde você esteve ontem à noite? – perguntou para mim no café da manhã. Camerom e Miles ainda não haviam aparecido no refeitório, pois costumavam dormir até mais tarde e quase sempre chegavam atrasados nas aulas.
Naquele dia não teríamos aula, pois o resultado final da primeira etapa do concurso estava prestes a sair, e o diretor também queria conversar conosco um pouco depois da divulgação dos resultados.
Andavam dizendo por aí que eles iriam selecionar três participantes para realizar uma entrevista coletiva. Me dava um frio na barriga só de pensar na possibilidade de ter mais alguma câmera gravando tudo o que eu fosse falar.
Minha experiência com entrevistas não é muito legal, levando em conta tudo o que ocorreu com no dia que postou uma foto nossa muito comprometedora na internet, com uma legenda mais comprometedora ainda. Tudo bem, eu não tinha falado mais do que meia dúzia de palavras, mas eu ainda não havia me acostumado com aquelas câmeras em cima de mim.
A única coisa boa naquela história toda é que eu provavelmente não serei entrevistada. Existem muitos concorrentes naquele concurso, e muitos são bastante talentosos, e se destacaram demais nas apresentações. Eu nem havia apresentado a minha coreografia por causa da Deborah e só passei porque filmou a minha apresentação e mostrou para os outros.
- Eu fui ensaiar um pouco no Estúdio de Dança e depois fiquei no terraço, pois estava sem sono e não queria ficar perto da . – menti, colocando um enorme pedaço de pão na boca, torcendo para que não desconfiasse de nada.
- Entendi. Eu fiquei preocupada, pois você ficou um bom tempo fora. Tome cuidado, você não tem permissão para usar os Estúdios à noite. Se alguém descobrir, você poderá ser punida. – ela disse, lançando-me um olhar de advertência.
- Pode deixar.
Terminamos o nosso café da manhã e encontramos com no corredor. Minha amiga suspirou, e fingiu que tropeçava só para se jogar em cima dele.
- Me desculpe. Nossa, sou muito desastrada. – disse ela de forma sedutora, com as mãos enroscadas na nuca do professor. Olhei para a minha amiga de forma horrorizada, enquanto encarava a minha amiga com um pouco de constrangimento no olhar.
- Tudo bem, senhorita , não se preocupe. – ela retirou as mãos de cima dele e sorriu. Parece que o sorriso de minha amiga surtiu algum efeito, pois ficou encarando o rosto dela de uma forma meio engraçada. – Eu... preciso ir. Os resultados já foram lançados no mural. Podem ir lá conferir. – disse, recomposto, dando um sorriso meio envergonhado. Nós assentimos, e meu coração acelerou com o nervosismo que senti quando ele falou que os resultados já haviam sido divulgados.
Eu e praticamente corremos, e encontramos com Miles e Camerom que estavam irritados pela aglomeração que estava na frente do mural onde os resultados haviam sido pregados.
- O pessoal vê a nota e fica tampando o mural! – reclamou Miles, berrando para quem quisesse ouvir. - Ei, tem gente querendo ver o resultado, caramba! Se vocês já viram, saiam do caminho, seus cafonas!
Algumas pessoas olharam feio para Miles, enquanto eu, e Camerom prendíamos a risada. O bom senso reinou na cabeça de outras pessoas, fazendo com que nos dessem licença.
Me dirigi até a folha da turma do com as mãos trêmulas e procurei pelo meu nome naquela lista imensa.
Quase gritei de alívio quando vi que havia sido aprovada, mas fiquei meio pra baixo quando vi que eu estava em 22° lugar no ranking de sua equipe em relação ao desempenho.
Como não havia feito a apresentação de dança quando era para eu ter feito, os professores tiveram que descontar alguns pontos. Eles queriam ser justos, mas, na verdade, não foram. Se quisessem mesmo justiça falariam para o diretor sobre a Deborah. Se eu falasse algo ninguém acreditaria em mim, mas o é filho do dono dessa escola e a sua opinião conta muito.
De qualquer forma, não adiantava mais chorar pelo leite derramado. O importante é que eu havia sido aprovada.
Muitos concorrentes começaram a chorar, principalmente os que não haviam sido aprovados, ou os que não estavam satisfeitos com suas colocações no ranking de desempenho. Confesso que eu também não estava muito feliz, e comecei a me perguntar se o palco era realmente o meu lugar, e se a Wings iria mesmo me ajudar a realizar os meus sonhos.
Existia uma infinidade de pessoas mais talentosas do que eu naquele lugar. Talvez eu não seja o que eles estão procurando. Talvez o pouco talento que eu tenho não seja suficiente para conseguir um pequeno espaço naquele imenso palco.
- E aí, amiga você passou? – perguntou para mim.
- Sim, e vocês? – respondi, fingindo que estava feliz e empolgada.
- Passamos também! – responderam meus amigos em uníssono.
- Já volto. – falei para os meus amigos, me dirigindo para a sala de informática, imaginando que não estaria cheia naquela hora, já que todos estavam concentrados no mural de divulgação dos resultados dos testes.
Quando cheguei lá, percebi que eu não estava errada, pois a sala estava completamente vazia.
Escolhi a última máquina da sala e me sentei, entrando no Facebook e no Twitter. Quase caí para trás quando vi a quantidade de mentions e seguidores que eu havia conseguido. Eu tinha cerca de 90 seguidores no twitter, e agora, mais de 1.500 pessoas me seguiam.
Respondi algumas mentions de pessoas carinhosas que já se nomeavam meus fãs, e vi alguns vídeos meus dançando que vazaram na internet. A maioria era de antes de eu entrar na Wings, mas havia um em especial, aquele que eu tropeço na aula de , que também é muito popular.
Decidi dar atenção ao meu Facebook e aceitei a solicitação de amizade do meu pai, já que ele não tinha Facebook antes de eu entrar na Wings e curti o meu fã-clube, que já tinha muitas curtidas também. Meus olhos se encheram de lágrimas quando vi Lucy, papai e tão empenhados em divulgar a minha participação no concurso em suas respectivas redes sociais.
Mandei uma mensagem gigantesca e totalmente sentimental por inbox para meu pai e para Lucy, e uma mention para em seu twitter, já que ela adorava conversar comigo por lá, pois dizia que aumentava o número de tweets que ela publicava.
@pinkandblack Também postei um tweet agradecendo pelo carinho e pelo apoio que todas as pessoas estavam me dando e pus um fim nas especulações que ainda existiam sobre mim e .
Tinha gente que até nos shipava como casal, postando a foto da festa em seus respectivos perfis com legenda fofa e tudo. estava me seguindo no twitter, e por isso o alvoroço não tinha cessado ainda, apesar dele também seguir outros participantes no twitter.
@dreamsbefore Não precisa agradecer! Espero que tenha gostado dos presentes que eu lhe dei. Surgirão muitas oportunidades para usá-los.
@dreamsbefore Também estou morrendo de saudades. Te amo muito, amiga <3
Saí das minhas redes sociais e fui para o campus, pois imaginei que meus amigos estariam lá. Assim que cheguei, vi que os três estavam muito entretidos olhando para o tablet de .
- O que vocês estão vendo de tão interessante aí nesse tablet? – perguntei, enquanto me aproximava deles.
Dos três, Camerom era o que parecia menos interessado no tablet.
- Tiraram uma foto do dançando com uma garota muito bonita numa danceteria ontem à noite. – disse Miles, empolgado.
Meu coração quase saiu pela boca, e meus olhos se arregalaram. Droga, eu estava ferrada.

Capítulo 13 - O Ônibus

As aulas naquela semana foram as mais intensas de toda a minha vida. não parou de pegar no meu pé, mesmo depois de ter me feito quebrar milhões de regras só para me ensinar a ser sexy na pista de dança. Confesso que aprendi muitas coisas naquele dia, e percebi que o não é um cara totalmente ruim. Alguma coisa deve tê-lo mudado com o tempo, eu só não sabia o que era.
A foto havia se espalhado pelos corredores da Wings e as especulações sobre quem era a garota que dançava com o começaram a surgir. Escondi bem o meu vestido laranja no fundo do meu armário, abaixo de um monte de roupas, para que ninguém descobrisse.
permanecia tranquilo quanto as especulações, afinal não dava para ver o meu rosto na foto já que o meu cabelo o cobriu parcialmente.
havia me dito que no começo da próxima semana nós ficaremos sabendo quem serão os três sortudos que participarão da entrevista coletiva. Enquanto eu torcia para que eles nem se lembrassem da minha existência, ela e Miles queriam muito estar nesse meio.
Se a escolha dos entrevistados depender do , tenho certeza de que minha imagem estará bem vívida para todos os envolvidos na hora que eles forem fazer as tais escolhas.
Estávamos no meio de um Workshop de Street Dance, onde um professor de fora da Wings foi convidado para nos ensinar algumas técnicas sobre essa dança. Cada turma fez o Workshop em horários separados, e depois daquele dia, finalmente fomos liberados para conhecer Londres.
Eu mal conseguia conter a minha ansiedade, e acho que isso me atrapalhou um pouco na hora de executar os passos que Jordan, o professor convidado, nos ensinava. Acho que eu era a mais desengonçada da sala. Cameron levava jeito para o Street Dance, e ria disfarçadamente de toda a minha falta de jeito.
Eu não conseguia acompanhar a turma, que estava menor depois da primeira eliminação, e executava os passos de forma atrasada. me observava com um sorriso no canto dos lábios, o que me desconcentrou mais do que deveria.
Olhei para o relógio enquanto dançava e percebi que faltava pouco para aquele Workshop terminar. Meu corpo estava todo suado, e meu cabelo havia se soltado do elástico e estava espalhado por todo o meu rosto.
A sequência que Jordan nos ensinou e que estávamos executando estava quase chegando ao fim quando eu pisei no cadarço desamarrado do meu tênis. A primeira coisa que se chocou contra o chão foi o meu joelho. Aposto que iria ficar roxo mais tarde. Mas o meu rosto, esse eu tenho certeza de que já estava mais vermelho do que um pimentão.
Todos começaram a rir, menos Jordan e Cameron, que me ajudou a levantar.
- Você está bem? – Jordan perguntou, se aproximando. – Cadarços assassinos os do seu tênis.
- É, acho que não os amarrei direito. – falei, dando um sorriso tímido. Ele deu uma piscadela para mim, voltando-se ao restante da turma logo em seguida.
- Bom, galera, a aula acabou. Vocês estão liberados para curtir o clima Londrino da forma que precisam!
Quase gritei de felicidade, e saí do estúdio andando em passos bem rápidos. A maioria da turma tinha ficado lá para puxar o saco de Jordan - que era muito bonito e talentoso - e também do , já que ele era nosso professor.
Eu precisava de um banho. E precisava fazer logo o meu tour para Londres.
- , espera aí! – Camerom gritou, me alcançando logo em seguida. – Isso tudo é a pressa para conhecer a cidade ou você está com vergonha do tombo que levou?
- Acho que os dois. – falei, suspirando. - Sou uma negação no Street Dance.
- Relaxa, depois que tivermos mais aulas, você vai pegar o jeito. – disse Camerom, piscando para mim.
- Tomara.
- Eu vou nessa. Nos encontramos lá embaixo para nosso passeio. – Camerom acenou indo para a direção contrária, sentido ao alojamento masculino.
- Até mais!
Praticamente corri pelo corredor, com pressa de chegar logo no meu alojamento, mas me alcançou, segurando o meu braço.
- , preciso te mostrar uma coisa. – disse-me ele, falando baixo e próximo ao meu ouvido. Meu coração acelerou repentinamente e eu comecei a suar.
- Agora? – perguntei, me sentindo meio atônita.
- Te encontro no último andar daqui a 20 minutos. – respondeu e saiu andando logo em seguida, não dando a chance de contestar.
Fui correndo para o meu alojamento, sentindo meu coração ainda acelerado de ansiedade. O que será que o queria me mostrar?
Entrei em meu alojamento de forma afobada e encontrei , Olivia e Ella fofocando sobre os professores da Wings. Quando me viram, torceram o nariz para o meu estado. Eu estava suada, descabelada e provavelmente com cara de espantalho.
- Vocês viram a ? – perguntei, enquanto pegava uma muda de roupa no armário, toalha e sabonete.
- Ela acabou de sair. - disse , com cara de nada. Ainda não sabia porque ela me odiava tanto.
- Obrigada.
Caminhei com pressa em direção ao banheiro, mandando uma mensagem de texto para no meio do caminho, confirmando que nos encontraríamos as 15:30 para o nosso passeio.
Tomei o banho mais rápido de toda a minha vida e me vesti correndo. Penteei meu cabelo com os dedos e os soltei. Por incrível que pareça, meu cabelo estava bem bonito naquele dia, apesar de estar um pouco marcado pela presilha que usei para prendê-lo no Workshop.
Após guardar meus pertences, fui direto para o elevador. Apertei o botão do último andar e chequei a hora no meu relógio. Eu não estava atrasada para encontrar , mas provavelmente me atrasaria para o meu passeio a Londres.
Caminhei normalmente pelos corredores, sentindo a ansiedade aumentar cada vez mais. Eu não sabia o que queria, e não entendia porque eu ficava daquela forma perto dele. Acho que ele me dava tanto medo que o meu psicológico já ficava em alerta quando ele aparecia.
Não havia ninguém ali naquele andar, e por um momento, senti um pouco de medo. E se fosse um serial killer?
Afastei os pensamentos idiotas da minha cabeça e segui em frente, vendo-o sentado em frente ao mesmo piano da outra vez, naquela mesma sala.
Dei duas batidas na porta e entrei. deu uma rápida olhada para trás e me chamou com a cabeça, pedindo para que eu me aproximasse. Me sentei de forma tímida ao seu lado.
- Lembra daquele trecho que eu estava tocando naquele dia? – acenei positivamente com a cabeça, demonstrando que me lembrava. Aquela melodia era muito bonita e mesmo se eu quisesse, não conseguiria esquecê-la. – Eu escrevi mais um pouco da letra. Está quase completa.
apontou para a folha do lado de uma pequena partitura. Apesar da música não estar completa, pude ver que o título era The Heart Never Lies.
- Falta muito para terminar? – perguntei, olhando-o de forma cautelosa.
era como uma figura valente e brava que não podíamos contrariar. Sempre que eu falava com ele, sentia que estava pisando em ovos. Eu não gostava muito de me sentir assim.
- Um pouco. Preciso fazer uns ajustes. – ele disse, parecendo meio envergonhado. Era bem curioso conhecer um lado de que parecia não existir. - Posso cantar e tocar a música para você?
- Claro que pode.
E então, ele se voltou para o piano, deslizando os dedos sob as teclas de forma leve e suave. Ele tocava com destreza e quando começou a cantar, senti vontade de fechar os olhos, pois a música ainda nem estava pronta, mas já era muito bonita.

Some people laugh
(Algumas pessoas riem)
Some people cry
(Algumas pessoas choram)
Some people live
(Algumas pessoas vivem)
Some people die
(Algumas pessoas morrem)

Enquanto tocava, eu o observava. Ele se entregava verdadeiramente a tudo o que fazia, principalmente a música. Sua voz era singela, e com uma leve rouquidão, e por um momento, pude conhecer um no qual nem todos conseguiam ter acesso: Um vulnerável, doce e de pensamentos verdadeiramente bonitos.

Some people run
(Algumas pessoas correm)
Right into the fire
(Direto para o fogo)
Some people hide
(Algumas pessoas escondem)
Their every desire
(Todos os seus desejos)

E depois dessa estrofe, ele parou de tocar. Parecia mais envergonhado ainda, enquanto olhava para o meu rosto.
- A música está ficando muito boa, . – eu disse, admirada. – Sério, ela é muito bonita. A melodia... tudo!
Eu continuei o olhando de forma admirada, enquanto sorria. Eu realmente não sabia me controlar quando o assunto era música boa e a de realmente merecia todos aqueles elogios.
- Eu tenho outros versos, mas ainda não consegui juntá-los da forma que eu queria. – ele disse, meio encabulado, enquanto dobrava a partitura e a folha que continha a letra da música e as guardava no bolso do casaco.
- Você deveria gravá-la. – falei, abruptamente, sentindo-me um gênio. - Eu sei que você gosta tanto de cantar quanto de dançar e atuar.
quase sorriu. Suas feições pareceram se iluminar repentinamente com a ideia. Porém, ele logo ficou sério, e me encarou com um olhar que me deixou meio temerosa.
- Eu não posso. – ele disse simplesmente, enquanto pegava meu braço. - , você tem que me prometer que isso não sairá daqui.
Balancei a cabeça de forma positiva, tentando entender porque ele não podia gravar aquela música.
- Mas eu não entendo. – falei, franzindo o cenho. - Porque você não pode gravá-la?
- Faça o que estou te pedindo, . – virou o rosto, escondendo novamente as suas emoções. Tarde demais eu percebi que o mal humorado e carrancudo estava de volta.
- É o seu pai? – fiz a pergunta, mas me arrependi no mesmo instante.
se levantou do banco abruptamente, e eu o segui, querendo saber porque seu humor havia mudado de forma drástica quando mencionei o seu pai. Ele se virou de frente para mim, segurando meus ombros e me encostando de um jeito nada delicado na parede. Tremi, mas de medo.
Pela primeira vez, eu pude olhar bem de perto as cores em seus olhos raivosos. Eram bonitas, apesar da raiva que exalavam. O rosto de estava tão próximo do meu que eu acabei ficando instantaneamente nervosa. Não sabia se tinha medo do que ele podia fazer comigo ali, ou se era a proximidade que me causava tantos arrepios.
- Nunca mais fale do meu pai, entendeu? – perguntou ele, com a voz baixa e totalmente rouca. Fiquei mais nervosa naquele instante, mas não conseguia parar de encará-lo.
- Eu... entendi.
Continuamos nos encarando fixamente, pois parecia não querer me soltar. Sua raiva pareceu diminuir também, pois seus olhos me fitavam de um jeito menos agressivo. Sua respiração batia no meu rosto, e os batimentos cardíacos do meu coração aceleraram tanto que eu pensei que fosse morrer olhando para o rosto do meu professor.
- Seus olhos são bonitos. – disse, antes de aproximar ainda mais o rosto do meu. Arregalei os olhos quando vi seus olhos se fecharem. Minhas mãos começaram a suar quando as mãos firmes de passearam pelos meus braços e fechei os olhos, sentindo que era aquilo que o meu coração queria que eu fizesse.
Senti seus lábios roçarem de leve nos meus, mas meu celular começou a tocar, e se afastou de mim, com um semblante surpreso e ao mesmo tempo assustado.
Atendi a ligação meio afobada.
- , onde você está? Estamos há vinte minutos aqui embaixo te esperando. parecia preocupada do outro lado da linha. Suspirei, sentindo que me corpo todo ainda tremia.
- Desculpa, . Eu me atrasei, mas já estou descendo.
- Só te desculpo se formos na London Eye.
- Tudo bem. – eu tinha medo de altura, mas faria qualquer coisa para encerrar logo aquela ligação.
- Se eu soubesse que seria fácil assim, teria te chantageado antes!
- Engraçadinha. Até daqui a pouco.
Encerrei a ligação e guardei o celular no bolso de trás. As minhas bochechas estavam pegando fogo naquele momento.
Olhei para , que me observava de um jeito meio confuso.
- Eu tenho que ir. – falei, e saí correndo logo em seguida, sem esperar uma resposta dele.
Entrei no elevador e me encostei na parede, sentindo que o tremor em meu corpo demoraria a passar.
Eu ainda conseguia sentir a respiração rápida de atingindo o meu rosto, apesar de não estar mais lá naquela sala. Seu cheiro havia ficado nas minhas roupas, e se eu fechasse os olhos, tenho certeza de que conseguiria vê-lo em minha frente, deslizando as mãos pelos meus braços.
O que será que estava acontecendo comigo?
As portas do elevador se abriram, e encontrei os meus amigos do lado de fora, batendo os pés de forma ansiosa.
- Até que enfim! – disse Miles, de forma impaciente assim que me viu chegar. – e as suas amigas nojentas já saíram. Se dermos sorte, não pegaremos o mesmo ônibus que elas.
- Toma, segura a câmera aí. – Camerom estendeu na direção de Miles a sua câmera profissional. Miles pegou de sua mão e tirou uma foto dele mesmo fazendo biquinho.
Caminhamos em direção ao ponto de ônibus, mas eu já não me sentia mais tão empolgada para pegar o ônibus de dois andares como estava antes. A adrenalina do meu “encontro” com ainda corria nas minhas veias, enquanto a minha mente repassava as cenas do que havia acontecido em minha cabeça.
- Você está bem, ? Parece até que deu uns amassos em alguém! – exclamou ela, enquanto dava algumas risadas da minha cara de desespero. – Ai não, você... você...
- Cala a boca, ! – exclamei, quando ela percebeu que havia algo em meu rosto que me delatava.
- Só se você me disser o que aconteceu. – disse ela, enganchando seu braço no meu. Camerom e Miles andavam um pouco mais na frente, conversando sobre os pontos turísticos que visitaríamos. - Você deu uns amassos em quem?
- Em ninguém. – eu disse, falando baixinho. Minha amiga ficou meio desanimada, então decidi que mais tarde contaria a ela sobre meu “encontro” com . - Depois eu te conto o que aconteceu.
Eu não iria conseguir guardar aquilo só para mim, e eu confiava em o suficiente para poder dividir aquele segredo.
- Não acredito que você vai me deixar curiosa desse jeito. – choramingou, enquanto eu dava uma pequena risadinha.
- Em breve, você saberá de tudo.
Enquanto esperávamos o ônibus e dávamos risada das besteiras que o Miles falava, eu sentia que parte de mim ainda não estava ali com os meus amigos. Eu estava tão confusa quanto o em relação ao que quase havia acontecido entre nós, pois eu ainda não conseguia acreditar que realmente deixaria o meu professor me beijar.
Céus, se alguém estivesse passando por ali naquele exato momento, eu seria desclassificada do concurso na mesma hora.
O ônibus apareceu e entramos felizes, tirando fotos de basicamente tudo dentro dele. Fomos para o segundo andar apreciar a vista, e tiramos mais uma dezena de fotos juntos.
Mas, por mais que eu quisesse me divertir, a minha cabeça não deixava. Ela ficava toda a hora repetindo o que havia rolado entre mim e o meu professor.
Acho que foi por isso que quase despenquei como uma banana podre no chão quando vi , , e entrarem no ônibus.
Ele também ficou meio atônito quando me viu, e quando olhei para , percebi que ela havia sacado tudo.
Droga, eu realmente estava ferrada.

Capítulo 14 - Paixonite

- Tá, agora você pode me contar o que aconteceu entre vocês? – sussurrou quando percebeu que ninguém prestava atenção em nós. Camerom e Miles tiravam fotos da paisagem e os nossos professores estavam muito entretidos em uma conversa para notarem a gente.
- A história é longa, . – suspirei, tentando fazer com que a minha amiga deixasse esse assunto de lado.
- O caminho também. Acho que temos tempo.
E então, eu comecei a contar tudo o que aconteceu entre e eu desde que saímos juntos até o acontecimento de hoje. Ela ficou bem entretida na minha história, e vez ou outra arregalava os olhos e sorria maliciosamente.
Quando terminei meu relato, sorria feito um gato e tinha um olhar de quem estava louca para ver o circo pegar fogo.
- Eu não acredito que você quase pegou o professor gostosão Delicious ! – exclamou , rindo de alegria. Eu não dei risada porque ainda estava muito nervosa com a situação toda. – , eu acho que ele está sentindo alguma coisa por você.
- Não viaja, ! – Revirei os olhos, tentando não absorver tudo o que ela estava dizendo.
Eu nunca havia tido um namorado antes. Nunca mesmo. Exceto por alguns garotos bem canalhas e idiotas, ninguém nunca tinha se interessado por mim. Tudo o que eu sabia sobre o amor se encontrava nos livros que eu lia, e nas novelas e séries que eu costumava assistir antes de entrar na Wings.
Confesso que estar perto do me dá uma adrenalina que eu nunca havia sentido em toda a minha vida. Estar perto dele era como andar de moto numa velocidade muito alta. O coração acelerava, e o meu corpo todo parecia estar eletrificado. Eu ficava nervosa e eufórica, e não sabia por quanto tempo poderia aguentar tanta adrenalina percorrendo o meu corpo. O olhar dele era intenso e bonito, mesmo em seus momentos mais cruéis.
Mas era o meu professor, e isso era totalmente errado.
O que aconteceu hoje não iria mais se repetir, tenho certeza de que foi tudo um mal entendido e eu não quero ser desclassificada do concurso. Portanto, manterei distância dele. Nossa relação será somente de professor e aluna. Nada mais.
- Eu amo esse clima de final de ano! – sorriu, olhando para como se ele fosse um deus grego. - Parece que todas as pessoas ficam propícias a viver um romance!
- O que você tomou? – perguntei para ela, dando uma risada logo em seguida. é bem mais sonhadora e apaixonada do que aparenta.
- Chegou a nossa parada, galera! – disse Miles, fotografando a mim e a .
Nos levantamos, esperando o nosso ponto chegar para que pudéssemos descer do ônibus. Miles, que estava com a câmera nas mãos, tirou umas fotos dos nossos professores. adorou a ideia, e aproveitou para tirar algumas fotos do . Eu balancei a cabeça e dei uma risada baixa.
- Eles não tem jeito. – disse Camerom para mim, observando-os dando uma de paparazzi. Percebi que às vezes dava umas olhadas para trás, mas fingi que não tinha percebido nada.
O ônibus finalmente parou, e os professores se levantaram. Arregalei os olhos quando vi que eles desceriam no mesmo ponto que a gente. apertou o meu braço disfarçadamente e seu olhar dizia para que eu fosse discreta.
Descemos do ônibus e eu tentei relaxar. Não podia deixar que aquela situação estragasse o meu passeio. Hoje era o dia de aproveitar, e não de pensar nos problemas em que eu havia me metido. Pensar no que eu sinto pelo não iria me fazer bem.
Começamos o nosso tour por Londres tirando fotos próximos ao Big Ben, uma torre enorme do relógio. Infelizmente, não foi permitida a nossa entrada, mas conseguimos tirar umas fotos legais perto do relógio ainda assim.
Miles fez umas poses provocantes para a foto que renderam boas risadas. A foto em grupo foi a mais legal. Fiquei entre e Camerom na foto, com Miles do lado direito dela. Eu sorria abertamente para a câmera, com um braço esticado para cima. Camerom fez pose de boca aberta e colocou as duas mãos para cima. Miles tirou foto com as mãos na cintura. Acabamos rindo daquela foto, mas a guardamos porque tinha ficado bem espontânea.
Visitamos depois o palácio Westminster e tiramos algumas fotos bem legais também. As pessoas que passeavam por ali ficaram rindo das palhaçadas que o Miles fazia e de , que ficava dando alguns passos de dança pelo local.
Infelizmente, como tínhamos hora para voltar, pudemos escolher somente mais um ponto turístico para visitar. Para o meu desespero, escolheram a London Eye, que segundo os meus amigos, seria o ponto alto da diversão.
A fila não estava tão grande para o brinquedo, mas eu me desesperei da mesma forma. Fiquei olhando para os lados, tentando arranjar uma desculpa para poder escapar, mas não consegui pensar em nenhuma desculpa que não fosse esfarrapada.
- Ai meu Deus, ! – disse para mim. – Olha quem está na fila.
Meu coração deu um solavanco quando apontou para a frente e me mostrou que nossos queridos professores estavam na fila da London Eye também. Principalmente porque a Deborah estava lá com eles.
- Temos que ir embora agora! – exclamei, fazendo Miles e Camerom me olharem de modo confuso.
- Eu só saio daqui depois de andar no brinquedo. – disse Miles, entendendo o meu surto repentino. - Não me interessa se a broaca está aqui, eu vou andar na London Eye. Se bobear ainda jogo a perua lá de cima.
- Ela não pode fazer nada com você, . – Camerom disse, afagando meu ombro.
- O e o estão chamando a gente. – disse entredentes. Olhei para a frente e percebi que eles realmente estavam acenando em nossa direção e gritando nossos nomes.
- Não estão não. – retruquei, desejando que aquilo fosse só um pesadelo.
- Estão sim! – exclamou Miles, empolgado.
- Não estão não! Não estão! – Bati o pé no chão, irritada e temerosa. Deborah olhava pra gente com cara de pastel, e fingia que não tinha percebido nada enquanto conversava com o .
- Nós vamos andar junto com eles! – disse cheia de empolgação enquanto já corria para onde eles estavam. Camerom, Miles e eu a seguimos.
- E aí, estão gostando de Londres? – perguntou , simpático.
- Muita coisa. – respondeu por nós. Seus olhos brilhavam.
Fiquei ainda mais inquieta quando percebi que olhava para mim. A Deborah ficava o tempo todo se insinuando para ele e nem havia se dado ao trabalho de nos cumprimentar.
- Pena que não vai dar tempo de conhecerem a cidade toda. – disse , dando uma piscadela para nós. faltou se derreter ali no meio de tão admirada que ela ficou. Camerom revirou os olhos e Miles também estava parecendo bem abobado.
Acho até que percebeu, pois deu uma risada bem maliciosa pro meu gosto.
Logo chegou a nossa vez de adentrar a London Eye. Fiquei nervosa e as minhas mãos começaram a suar e a tremer. Na verdade, acho que o meu corpo todo tremia naquele momento.
me puxou pelo braço, com um sorriso que mal podia ser contido.
- Achei que você gostasse do . – cochichei em seu ouvido. deu uma risada baixa.
- Eu gosto, mas confesso que o charme do é irresistível.
Nós duas demos risada, mas meu nervosismo não diminuiu.
Enquanto Camerom, e Miles conversava com os professores – até mesmo a Deborah resolveu socializar – eu fiquei sentada em um banco que tinha na cabine, pois a roda gigante começou a girar e por mais que a rotação dela fosse lenta, comecei a ter vertigens conforme a cabine ia se distanciando do chão.
Não me importei mais com os professores e nem com as outras pessoas ao meu redor. Fechei os olhos e me concentrei na tarefa de respirar fundo e não olhar para a paisagem lá fora.
- Assustada?
Dei um pulo ao ouvir a voz rouca de próxima ao meu ouvido. Ele havia se sentado ao meu lado e cheirava bem. Era o mesmo cheiro que havia grudado na minha roupa quando roçou seus lábios nos meus.
Droga, só a breve menção do acontecimento já me fez corar.
- Eu tenho medo de altura. – confessei, mas mantive a minha cabeça baixa em parte porque ainda estava nervosa e também porque a vergonha que eu sentia ainda não tinha passado.
- Sério mesmo? – perguntou, e parecia estar se divertindo com aquela informação.
Olhei para seu rosto pela primeira vez, e tudo a minha volta girou por causa da vertigem que me atingiu. Meu corpo tombou para o lado e me pegou antes que eu fosse ao chão.
- Abra os olhos, . – ele pediu, me encarando de perto. Fiz o que ele havia me pedido e levei um susto ao ver que seu rosto estava bem próximo do meu. – Não precisa ter medo. Aqui é seguro.
A sensação que tive naquele instante foi a de que todos dentro da cabine conseguiam ouvir a minha respiração e os meus batimentos cardíacos. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas tinha certeza de que não era coisa boa. As mãos de estavam em mim novamente, e me colocaram sentada no banco. Ele se ajoelhou em minha frente e apoiou as mãos em meus joelhos, buscando meus olhos.
Tudo pareceu ficar em câmera lenta e a vertigem não tinha mais tanta importância naquele momento. Comecei a ficar um pouco mais calma quando olhei para aqueles grandes e lindos olhos azuis que tanto me amedrontavam.
- Obrigada. – eu dei um meio sorriso, sentindo-me melhor. Fiquei torcendo para que os outros não tivessem visto aquilo, principalmente a Deborah.
Então, subitamente, ficou sério. Fiquei com medo do que ele fosse fazer em seguida, pensando se voltaria a ser o cara grosseiro que vinha me tratando mal a maior parte do tempo.
- Eu não sei porque tenho sido gentil com você e nem porque te mostrei a minha música mas não se acostume com isso. Esqueça o que aconteceu hoje, por favor.
Assenti positivamente com a cabeça enquanto se levantava e voltava para seus amigos. Abaixei a cabeça e senti que meus olhos se enchiam de lágrima. Não sei porque eu senti tanta tristeza ao ouvir aquelas palavras, mas não queria admitir que estava me sentindo cada vez mais atraída por ele.

Quando o passeio acabou e voltamos para nossos alojamentos, a minha cabeça não parava de remoer as últimas 24 horas. não tinha visto o me amparar, e eu não tinha contado nada ainda. Ela ficou tão empolgada com a conversa que teve com os professores que pareceu não reparar no modo como eu estava.
Tomamos nossos respectivos banhos e recebemos um chamado do diretor, de que nos queria no salão principal daqui a 10 minutos. Boa coisa não devia ser.
- O que será que esse velho quer? – indagou .
revirou os olhos e saiu do quarto. Eu e fomos atrás dela.
O salão já estava lotado quando chegamos, e o diretor estava acompanhado de e dos outros professores. Tive aquela sensação de déjà vu de quando iniciei os estudos aqui e só de pensar no que eles falariam, eu já tive vontade de ir ao banheiro.
Hoje eu estava funcionando sob pressão desde o início do dia, e aquilo estava começando a me fazer mal.
- Acredito que hoje tenha sido um dia agradável para todos, afinal, puderam passear um pouco pela cidade. – disse , estranhamente alegre. – Decidimos fazer alguns avisos de última hora. O primeiro é que as próximas avaliações serão de teatro e de dança. A avaliação de teatro consiste em um pequeno monólogo que vocês terão que apresentar para os professores. O tema é livre, e vocês poderão procurar monólogos de filmes, séries, novelas e etc. Já a de dança, será em dupla, e vocês terão que fazer a coreografia de uma música de sua preferência para dançar em casal. Inicialmente, vocês poderão escolher a dupla, mas se houver alguma confusão, os professores terão todo o direito de interferir nessa última regra.
Um burburinho coletivo se fez presente com aquelas informações. Me senti mais nervosa ainda, mas pelo menos eu já tinha em mente que monólogo eu apresentaria.
- Decidimos contar logo para vocês quem serão os três primeiros participantes que estarão na entrevista coletiva. – Meu estômago começou a revirar quando assumiu a palavra, não só por ele estar ali falando, mas também porque agora era a hora de saber quem seriam os três primeiros entrevistados.
Camerom e Miles vieram para o nosso lado e eu dei um sorriso amarelo para os dois.
- Vamos dançar juntos. – Camerom disse, me abraçando de lado. Eu sorri, me sentindo mais segura em saber que teria um parceiro de dança como ele.
- O método que decidimos utilizar para escolha foi um sorteio. Não fiquem decepcionados se eu não disser o nome de vocês, pois todos os participantes serão entrevistados. Claro que para isso acontecer vocês terão que passar nos testes. – disse , dando uma risada sarcástica. - E o primeiro nome a ser sorteado foi... , da turma do ! – Algumas pessoas a aplaudiram, e ela sorriu, totalmente convencida. e Miles bufaram ao meu lado. – A segunda pessoa a ser sorteada foi... Brendan Rogers, da turma do ! – Uma salva de palmas maior que a primeira saudou o tal do Brendan, que comemorou levantando os braços para cima e gritando feito doido. Eu o conhecia de vista, e o achava um dos caras mais convencidos que estudavam aqui na Wings. – E, a última pessoa sorteada foi...
Eu torcia para não ter sido eu. Até fechei os olhos e cruzei os dedos, pedindo mentalmente para que aquilo não acontecesse.
- , a Little Rebel, da minha turma.
Algumas pessoas comemoraram isso, principalmente meus amigos, mas eu só conseguia pensar no quanto não queria que aquilo estivesse acontecendo. O dia inteiro havia sido um borrão de acontecimentos esquisitos e descobertas desagradáveis, e eu não achei que tinha como piorar ainda mais.
Sei que para alguns a chance de gravar uma entrevista coletiva dentro do concurso é ótima, mas tenho certeza de que a maioria dos participantes ainda terão essa oportunidade no decorrer do concurso.
Eu não me sentia preparada para isso agora, e acho que sabia disso somente pela forma que me olhava.
Depois que os avisos acabaram, voltamos para os nossos alojamentos. Eu ainda não sabia quando que essa tal entrevista seria gravada, mas já tinha certeza de que seria um completo fiasco.
Pensei em ligar para o meu pai e para , mas o meu humor estava tão ruim que fiquei com medo de que percebessem que havia algo errado comigo.
Eu estava sozinha no alojamento. havia ido procurar o para dar em cima dele e deveria estar por aí com suas melhores amigas. Peguei uma foto de minha mãe e fiquei observando-a por um tempo que pareceu infinito.
- Como você soube que estava apaixonada pelo papai? – perguntei em voz alta, sentindo vontade de chorar. Se a mamãe estivesse viva, tenho certeza de que ela saberia o que dizer.
Eu não podia estar me sentindo atraída pelo meu professor. Aquilo podia ser normal para outras pessoas, mas para mim, não era.
Eu não queria ser desclassificada do concurso, e não queria sofrer por amor. Eu sabia que o nunca gostaria de verdade de uma pessoa como eu e não podia me deixar iludir pensando que os poucos momentos que passei com ele fizeram com que ele mudasse, ou até mesmo se apaixonasse por mim.
Não tem como se apaixonar por uma pessoa que te trata mal a maior parte do tempo, não é?
Guardei a foto de minha mãe e peguei um collant, uma calça legging e sapatilhas e corri para um dos estúdios. Coloquei uma música num volume não muito alto e comecei a dançar, pensando na loucura que a minha vida estava ultimamente.
Quando eu dançava, parecia que meu corpo se movia por vontade própria. Eu me tornava uma coisa só com a música, e sentia que ela me libertava enquanto executava os passos que fluíam naturalmente através de mim, de dentro para fora.
Era como uma terapia que sempre surtia efeito e me deixava mais tranquila.
Dei um giro e cambaleei para o lado, me assustando ao ver no final do corredor. Desliguei o rádio e apaguei a luz do estúdio, me escondendo atrás da porta.
Ouvi um barulho de uma porta se abrindo e fechando logo em seguida, e entendi que ele havia entrado em um dos estúdios. Saí do estúdio em que eu me encontrava e tentei correr de volta para o alojamento. Eu teria conseguido, se eu não tivesse escorregado feito uma casca de banana.
- Quem está ai? – ele perguntou, se aproximando da porta do estúdio em que estava.
Fechei os olhos e praguejei todas as minhas gerações passadas mentalmente por ser tão estúpida e desastrada, porque se eu era assim, a culpa era dos meus antepassados.
abriu a porta e ficou meio segundo com uma expressão de surpresa no rosto. Também vi que outra coisa se passava pelo seu semblante, mas eu não era telepata para conseguir captar o que ele estava pensando.
No instante seguinte, ele abriu um sorriso sarcástico, e eu entendi porque agia daquela maneira. Acho que era uma casca sua, um jeito de camuflar as suas reais emoções.
- Parece que alguém quer levar uma advertência por estar usando o estúdio sem autorização. – disse ele, se abaixando para ficar na mesma altura que eu.
- Não precisa fingir mais ser um cara mal pra mim. Sei que você não é desse jeito.
começou a rir de uma forma que me assustou. Sério, ele parecia histérico e estranhamente maldoso.
- Você não sabe absolutamente nada sobre mim, Little Rebel. – disse ele, de forma séria e ameaçadora. - Espero que não esteja apaixonadinha, pois o que aconteceu mais cedo não significou nada, entendeu? Venha comigo, vou preparar uma advertência para você.
Meu rosto ficou mais vermelho do que um tomate, e meus olhos começaram a arder. A forma como tinha dito aquilo fez com que meu peito doesse de uma forma que só havia doído quando recebi a notícia de que a minha mãe havia falecido. Que dor era aquela? Dor do luto?
Será que as pessoas que estavam apaixonadas se sentiam daquela maneira quando descobriam que seus amores nunca iriam correspondê-las? De qualquer forma, acho que nunca saberia.
- O quê? Mas... eu... – gaguejei, sem saber direito o que dizer para sair daquela situação. me puxou pelo braço bruscamente, o que fez com que a vontade de chorar aumentasse.
- Isso vai fazer você aprender a respeitar as regras dessa instituição e a falar direito com seus professores.
Enquanto me levava pelo corredor, eu sentia uma tristeza tão profunda que a primeira coisa que se passou pela minha cabeça foi a possibilidade de sair do concurso, de desistir de tudo.
Desde que eu cheguei que as coisas não saem como o planejado, e parece que a tendência é só piorar. Eu quase beijei meu professor e agora ele tinha insinuado que eu estava “apaixonadinha” por ele. Eu não queria mais como meu professor, eu não sei por quanto tempo mais iria aguentar tanta humilhação.
Se ele estiver certo sobre meus sentimentos, eu não sei se vou aguentar. Gostar de uma pessoa como ele era pedir para sofrer, e de sofrimento a minha vida já tinha o bastante. Sofro até hoje com a morte da minha mãe, a maioria das pessoas do concurso riem de mim pelas costas (e pela frente também), e o meu professor adora implicar comigo, além de ter um tipo de complexo de bipolaridade que eu nunca vou conseguir entender.
Entramos na secretaria da Wings, altivo e seguro de si e eu, acuada. Vi que a e as suas amigas estavam ali e que iriam adorar me ver naquela situação.
Me encolhi ainda mais no canto, pensando que se esse era o meu sonho, por mais difícil que estivesse sendo, eu não deveria desistir dele.
Decidi que continuaria lutando, mas também decidi que me manteria longe do . Seria difícil, mas eu tenho certeza de que se eu ignorá-lo, minha estadia aqui dentro será mais agradável afinal, uma paixonite não dura para sempre.
Pelo menos eu acho que não dura.

Capítulo 15 - Entrevista da Discórdia

Enxuguei o suor das minhas mãos no vestido balonê que eu vestia e encarei a equipe de filmagem perambular pela sala de um lado para o outro com certa apreensão. Meu coração estava acelerado e eu tinha certeza de que se alguém me chamasse, eu seria capaz de vomitar o meu cérebro para fora da cabeça, mesmo tendo a certeza de que isso era impossível.
Eu estava sentada entre e Brian Rogers, e os dois pareciam estar calmos e convencidos. Vez ou outra, ambos se olhavam como se fossem se matar para logo em seguida olharem para mim com o mesmo ódio instantâneo. Eu já estava incomodada o bastante para mexer minhas pernas de forma impaciente.
O sofá vermelho em que estávamos sentados era bem apertado, o que só piorava a situação, e eu não parava de pensar em quantos minutos eu precisaria para alcançar a porta e fugir daquela entrevista.
e Brendan se encararam com raiva mais uma vez, e eu revirei os olhos internamente quando ambos olharam para mim do mesmo jeito raivoso de antes, repetindo aquele círculo vicioso idiota.
Eu queria me matar.
se aproximou de nós com os cabelos bagunçados de um jeito bem charmoso, o que fez suspirar baixinho. Olhei para ela com o canto do olho, mas ela apenas deu de ombros.
- Primeiro o pessoal quer realizar uma mini entrevista individual com vocês. Eles irão cortar as partes mais interessantes para colocar no ar. – assentimos para ele os três ao mesmo tempo. Ele chamou Brendan com a mão, que se levantou como se nada mais fosse importante no mundo além dele.
Eu e reviramos os olhos quase na mesma hora, o que fez com que trocássemos olhares meio tímidos. Se eu conhecesse bem a , diria que ela tinha achado tão engraçado quanto eu a forma de pensarmos a mesma coisa sobre Brendan e que talvez aquilo pudesse significar uma trégua entre nós, mas eu sabia que a última coisa que iria querer era um possível acordo de paz.
Não, ela queria mesmo que uma guerra eclodisse.
Eu fui a última a ser chamada, e o nervosismo que eu senti apenas se intensificou quando me chamou. Os outros professores não estavam presentes, pois haviam sido convocados para uma reunião de última hora.
Me levantei de forma menos confiante e atrevida que os outros dois participantes ao meu lado e segui para uma sala que ficava quase do lado da outra sala em que eu estava. Tentei me convencer de que a entrevista individual não seria tão ruim quanto à em trio, mas meu coração já tinha começado a bater ainda mais forte a medida que eu ia me acomodando num pufe branco na frente das câmeras.
Pensei no quanto meu pai, e Lucy ficaram animados quando lhes contei que gravaria uma entrevista. Parecia que eu ainda podia ouvir os gritos histéricos de e Lucy no telefone junto com um grito mais contido de meu pai.
Logo, a entrevista individual começou. Como dissera, realmente foi uma entrevista pequena. Só me fizeram quatro perguntas. Quatro perguntas que eu não gostaria de ter respondido.
Mas, a pior pergunta de todas, foi a última. Eles perguntaram sobre a minha mãe e o acidente, em como eu me sentia não tendo uma mãe. Foi horrível, pois meus olhos marejavam sempre que eu falava da minha mãe, e não queria que as pessoas lá fora achassem que eu estava fingindo sobre tudo o que acontecera desde que o acidente a tirou de mim.
A última coisa que eu queria era que as pessoas me vissem como uma vítima. Eu respondi todas as perguntas, mas dei uma pequena travada quando a entrevistadora me fez a primeira pergunta.
Percebi que , a entrevistadora e toda a equipe que estavam no local me lançaram olhares compreensivos quando eu saí. Aposto que eu era a única órfã de mãe estudando ali. Por um motivo desconhecido, pensar naquilo me fez sentir raiva.
e o restante da equipe me conduziu de volta para a sala do sofá vermelho. Peguei um copo de água que gentilmente me ofereceu e eu sentei em meu lugar, sentindo que meu rosto ainda estava meio vermelho.
e Brendan não disseram nada, acho que haviam percebido que tinha algo de errado comigo.
Não demorou muito para a entrevista em trio começar, mas eu sabia que mais tarde desejaria nunca ter participado dela.
As pessoas saberão quando for ao ar.
Em breve.

- Foi tão ruim assim? – perguntou assim que eu entrei no quarto. ainda não tinha aparecido, e era evidente para ela que havia sido um desastre só pela expressão em meu rosto.
Me joguei de qualquer jeito na cama, sentindo uma vontade quase descontrolada de chorar.
- Foi horrível! – exclamei de forma exasperada, olhando para o teto. - Quando o vir aquela entrevista,vai querer me matar!
se ajeitou melhor na cama, arregalando os olhos, provavelmente tentava imaginar o que eu tinha dito de tão ruim para estar tão desesperada.
- O que você disse, ?
- Eu sou uma burra! – dei um tapa em minha testa, me sentando na cama de forma totalmente desleixada. - Meu futuro na Wings está em jogo! Eu não devia ter deixado aquela loura oxigenada me irritar.
- Sabia que tinha dedo da nisso tudo. – disse , me dando um sorriso de lado.
- Eles não vão cortar aquela parte da entrevista. Meu pai vai ficar decepcionado quando vir meu vexame na tevê!
- Dá para me falar o que disse logo, mulher?
- Eu disse que o é um tirano que deveria dar aulas para um circo e que a é um protótipo de Barbie burra e narcisista. E, pra completar, ainda insultei Brendan quando ele me faltou com o respeito. Depois disso, ele e a ficaram se alfinetando. Foi a coisa mais horrível de toda a vida. – falei, cobrindo o rosto com as mãos enquanto morria de vergonha de me lembrar do ocorrido.
começou a dar altas gargalhadas após o resumo do que se tornou aquela entrevista. Todos se divertiram muito gravando nossa entrevista e, no final, ainda conseguimos fazer parecer que estávamos brincando. Nem foi de propósito. Acho que a única pessoa que não acreditou que estávamos fingindo foi o .
Por fim, e Brendan saíram de cara amarrada do local. Ambos continuaram se fuzilando com o olhar. Quando eu passei pelos dois, eles também me encararam.
Era mesmo um círculo vicioso.
- Desculpa amiga, mas estou louca para assistir essa entrevista. – disse em meio as gargalhadas. – Sabe quando vai ao ar?
- Eles ainda não divulgaram a data da entrevista. – eu respondi, me sentindo irritada com a reação dela. Eu estava apavorada, e para ela aquilo parecia não significar muita coisa. - Não sei o que você está vendo de tão engraçado.
- Não consigo imaginar você perdendo o controle e insultando alguém, principalmente o . Quero estar presente quando ele estiver assistindo a entrevista para poder ver a cara dele.
Suspirei, cabisbaixa olhando para baixo. vai me infernizar até eu desistir do concurso.
- Não fique assim, amiga. – disse, ficando séria de repente. - Você tem todo o direito de se defender do Brendan e da . E quanto ao , não se preocupe. Ele vai superar.
- Tomara.
Fiquei torcendo para acreditar no que dissera, mas algo dentro de mim me dizia que não seria assim tão fácil.

- De novo! – gritou para todos nós na sala. Nossos corpos já estavam suados e cansados, e eu só queria dormir e nunca mais acordar.
Eu não conseguia me concentrar na aula de dança, assim como não tinha conseguido prestar atenção na de teatro e na de canto.
Haviam divulgado a data que a entrevista iria ao ar e meu coração estava aterrorizado. Um dia quase inteiro tinha se passado desde o mico de ontem e nem as palavras encorajadoras de e Camerom fizeram com que eu me sentisse aliviada.
A entrevista iria ao ar hoje à noite, e todos nós assistiríamos juntos no telão de uma das salas de vídeo da Wings.
Camerom me conduziu pela pista de dança com leveza e graciosidade. Tentei acompanhar os seus passos, mas era meio difícil me concentrar no Foxtrot quanto existiam muitas coisas em minha cabeça.
me lançou um olhar enviesado quando viu que eu não estava me concentrando. Olhei para Camerom em pânico, tentando me lembrar das coisas engraçadas que Miles me dissera hoje de manhã a respeito da entrevista. Ele e haviam adorado a forma como falei de , dizendo que ele realmente merecia.
Desde o dia em que levei uma advertência que não nos falamos. Ele só falava comigo para chamar a minha atenção na frente de todo o mundo e nunca mais tentou me beijar. Não que eu estivesse ligando para isso.
- O Foxtrot não se trata só de se mover pelo salão. Trata-se de fazer movimentos longos e contínuos pela pista de dança. Movam-se com elegância, e não como patos perdidos numa encruzilhada! – exclamou , observando todos os alunos até que seus olhos pararam em mim. - Little Rebel, concentre-se. Você é a pior dançarina no Street Dance. Quer ser ruim no Foxtrot também? Você nem está aqui nessa sala. Sua mente está devaneando pelo salão. Trate de achá-la, antes que eu a encontre primeiro!
- Se acalme, . – disse Camerom, tentando me passar algum tipo de segurança e conforto.
- Eu não consigo. – murmurei, sentindo vontade de chorar.
desligou o rádio e murmurou de forma desgostosa que a aula havia acabado. Camerom e eu tínhamos reservado esse mesmo estúdio para ensaiarmos a nossa coreografia do próximo teste. Não havíamos montado todos os passos, mas já tínhamos uma ideia do que iríamos fazer. Também já estávamos de acordo em relação à música.
- Quero que treinem não só a coreografia de vocês, mas também o Foxtrot. Se querem entrar para a Broadway, precisam saber dançar bem todos os ritmos que puderem aprender. Vocês estão péssimos! – disse, praticamente cuspindo as palavras em cima de nós. Ele me lançou um olhar de puro desprezo antes de sair, acompanhando o fluxo desajeitado e suado de alunos que ia em direção à porta.
Soltei o ar pesadamente quando ele se foi.
- Ele é um mala! – soltou Camerom, dando uma pequena risada.
- Nem me fale.
Camerom ligou o rádio novamente, colocando uma faixa do Panic! At The Disco. Me posicionei no meio do estúdio, e me olhei no espelho. Eu precisava me concentrar, não podia prejudicar Camerom por causa das minhas preocupações. Eu tinha que me esforçar.
Começamos a dançar, executando os passos que já tínhamos inventado e acertando algumas coisas referentes à introdução da música.
- Esse passo está estranho. – disse Camerom, me pondo no chão.
- Tem razão, acho que estou fora do tempo. – respondi, me virando de frente para ele e pedindo para que me levantasse mais uma vez.
Girei no ar, virando-me de frente para o espelho bem rápido, fazendo a ponta nos pés. Camerom me colocou no chão e esboçou um sorriso satisfeito.
- Bem melhor! Estamos progredindo.
Dei um sorriso menos animado, mas que o satisfez ainda assim.
- O não vai te expulsar do concurso só porque você disse aquilo na entrevista, . E não tem como ele te infernizar mais do que já inferniza. – Camerom disse, pausando a música e pondo uma das mãos em meu ombro.
- Ele é sádico, tenho medo do que possa fazer. Não posso ficar levando mais advertências.
- Fique calma, . Eu tenho certeza de que tudo vai se resolver. Pode não ser na hora que você espera, mas vai acontecer.
Eu dei um sorriso agradecido para Camerom, que ficou bem feliz por ter conseguido me encorajar um pouco mais. Ele me girou no ar e eu dei uma risada.
Ensaiamos até perdermos a noção do tempo.

Me olhei no espelho e respirei fundo, tentando reunir todas as forças do meu corpo para poder sair daquele quarto e ir para a sala de vídeo.
A expressão em meu rosto era de uma garota assustada e pavorosamente branca.
- Boa sorte com a entrevista, Little Rebel. – disse , piscando de forma irônica para mim antes de bater com força a porta do seu quarto.
- Não ligue para ela, . – me deu um abraço carinhoso e me puxou pela mão para que saíssemos do quarto.
Miles e Camerom estavam nos esperando nas escadas.
- A Lenda Wings ataca novamente! – disse Miles assim que me viu. Dei uma risada, mas meu humor ainda não era dos melhores.
- Vai dar tudo certo, já falamos isso. – Camerom falou, dando uma piscadela para mim. Eu esbocei um sorriso.
Assim que chegamos na sala de vídeo e nos sentamos, pude ver , Deborah, , , e Deborah sentadas junto com o na primeira fileira.
A sala estava lotada, e havia sido especialmente preparada para aquele tipo de ocasião. Eu me senti em New Haven pela primeira vez desde que cheguei em Londres, pois a sala de vídeo me lembrava a sala de cinema do pequeno shopping que tínhamos na cidade.
Cadeiras vermelhas e acolchoadas estavam dispostas em forma de U por toda a sala, e um telão parecido com os de cinema ficava em nossa frente.
Apagaram-se as luzes e a vinheta do concurso da Wings começou a tocar. Meu coração acelerou e minhas mãos começaram a suar. Droga, eu estava muito ferrada.
O programa começou com a entrevistadora Jane Hych falando um pouco sobre o concurso e sobre a escola Wings. Logo, ela começou a fazer uma breve apresentação dos concorrentes. O primeiro foi Brendan.
O telão começou a exibir uma parte de sua entrevista individual.
- Bom, eu gosto de música e de dança desde que eu nasci. Está no meu sangue, e eu tenho certeza de que sou um dos candidatos com mais capacidade de chegar até a final e vencer. – ele deu um sorriso presunçoso e convencido para a câmera. O vídeo corta o resto de sua resposta para uma outra parte da entrevista.
- Minha família era pobre antes de eu nascer. Só tínhamos um carrinho avaliado em quinhentos mil, mas somos muito humildes. Tenho muita compaixão dentro do meu coração e gosto de fazer caridade. – Brendan deu um sorriso meio condescendente dessa vez, mas dava para ver que ele estava fingindo.
Ele nem sabia contar mentiras.
- Acho que sou a melhor escolha para a Broadway. – ele sorriu de um jeito convencido.
O programa voltou para a Jane, que fez a breve apresentação de para logo em seguida mostrar a parte dela da entrevista individual.
- Eu sou linda e sei que mereço ganhar. Na verdade, eu sei que vou ganhar. O meu cabelo é liso natural e eu só pintei uma vez. Minha dança é impecável e a minha voz é linda e meu timbre, completamente inconfundível. jogou os cabelos para trás dos ombros e deu uma risada coberta de soberba.
Novamente, o vídeo cortou o restante de sua fala, indo direto para outra de suas respostas:
- Eu não sei se o mico leão dourado já entrou em extinção e... bom, eu gosto sim de animais! Só não preciso saber tudo sobre eles, não é?
trazia no rosto um semblante confuso e constrangido.
Ouviu-se a voz de alguém no fundo na entrevista.
- Mas você não disse que trabalhou na defesa ambiental?
- Sim, mas isso não vem ao caso.
– ela rebateu, revirando os olhos.
As risadinhas invadiram a sala de vídeo.
Por fim, ela finalizou sua parte da entrevista dizendo:
- Salve os animais! Salve a Wings! Eu vou voar e vencer esse programa!
A risada foi coletiva quando a parte individual de acabou. Ela ficou mandando as pessoas calarem a boca, mas ninguém lhe deu ouvidos.
Fiquei mais trêmula do que eu já estava quando chegou a minha vez:
- A Wings significa muito para mim. Desde pequena, eu sempre sonhei em estudar aqui, pois de alguma forma, eu sentia que era aqui que meus sonhos estavam escondidos. A dança está por toda a parte de mim. É ela quem define quem eu sou.
Eles cortaram novamente para a outra resposta:
- A minha mãe morreu num acidente. Eu sinto muito a falta dela, pois era ela a pessoa que mais me dava forças e não me deixava desistir dos meus sonhos. Ela dizia para eu abrir as minhas asas de pequena borboleta e alçar voo em direção a tudo aquilo que acredito. – a câmera se aproximou mais do meu rosto naquela hora, focando em meus olhos vermelhos e marejados. - Não é só por mim e por meu pai que estou aqui. É por ela também. Eu prometi que iria me dedicar a esse concurso para vencer, e se acharem que eu mereço, eu vou conseguir.
segurou a minha mão e sorriu, enxugando uma lágrima que eu nem percebi que tinha derramado.
Algumas pessoas aplaudiram o meu discurso, o que me fez morrer de vergonha.
Quando voltei meus olhos para a tela, a entrevista em trio já tinha começado, e Jane batia um papo descontraído conosco.
- Os professores de você são bastante dedicados, não é? – perguntou Jane, sorridente.
- O é o melhor professor que eu já tive. disse, claramente bajulando o professor.
- O é um tirano! – exclamei antes mesmo que pudesse impedir. Quando vi, já tinha dito em voz alta. Jane e todos os outros me olhavam espantados. - Ele deveria dar aulas no circo para ver se aprende a ser menos idiota.
Jane começou a rir, claramente achando que era tudo pura brincadeira.
- É visível que vocês e seus professores tem bastante brincadeiras e zoações! Adorei! – ela bateu palmas, empolgada, ainda rindo. - Eu soube que houve um duelo de dança em que e foram rivais. Isso é verdade, meninas?
- É verdade sim. E o grupo da ganhou porque o meu estava em completa desvantagem. – disse ela, desconcertada. Ela nunca admitiria que perdeu porque fomos melhores.
- Seu grupo não estava despreparado, . Eu vi tudo! – disse Brendan, alfinetando a loira. – Claro que se eu estivesse lá dançando o grupo da mosca morta não teria se saído vitorioso.
- Mosca morta é esse seu topete ridículo! – eu disse, me arrependendo no mesmo instante. Brendan me olhou de modo incrédulo, e Jane riu, achando que estávamos implicando de brincadeira um com o outro.
- Você se acha a última bolacha do pacote, Brendan! – disse , olhando de forma ameaçadora para ele e impedindo-o sem querer de responder a mim.
- Olha só quem está falando! – debochou Brendan, estirando a língua para ela. - A loira oxigenada que só sabe falar de si mesma.
- Pois é, você não pode falar nada, ! – eu disse, com o rosto vermelho de raiva. - É um perfeito protótipo de Barbie burra e narcisista!
As pessoas ao redor riam muito da entrevista enquanto eu só queria cavar um buraco bem fundo onde eu pudesse enfiar a minha cabeça.
Depois daquilo, não demorou muito para que a entrevista acabasse. Quando Jane se despediu, já estava vermelha de tanto rir. Não sei como ela pôde acreditar mesmo que estávamos brincando um com o outro.
Meus amigos se acabavam de rir como todos os outros. Lágrimas grossas saíam de seus olhos e eles se contorciam em seus respectivos assentos.
Fiquei encarando as minhas mãos suadas no colo por bastante tempo antes de criar coragem para levantar a cabeça. Várias pessoas me encaravam, e eu me senti exposta. Podia jurar que meu rosto estava corando.
Entretanto, foi o olhar de que me deu medo. Ele estava virado para trás em seu assento e me olhava de modo assassino. Engoli em seco e sustentei o olhar de modo acuado.
passou o dedo rente ao pescoço, e eu entendi tudo.
Ele iria acabar comigo.

Capítulo 16 - A peça de Teatro

Dor. Era isso o que eu sentia no momento. Minha unha do dedão do pé não parava de sangrar, mas eu não iria parar enquanto os passos não estivessem perfeitos. Na verdade, era para eu e o Camerom estarmos treinando para a avaliação, mas ele estava bastante ocupado no momento lendo as falas do seu personagem para a peça que os professores da Wings estavam organizando.
Os testes haviam sido adiados por uns dias, e ontem, após a entrevista horrível que ainda era maldosamente citada toda a vez que eu passava, os professores anunciaram que iriam nos preparar para uma peça de teatro. Eles alegaram que seria uma prévia do que é a Broadway e queriam ver se estávamos preparados.
O problema é que eu não iria participar.
não me dirigiu a palavra nenhuma vez desde que viu aquela entrevista, e eu sabia que ele estava esperando o momento certo para me humilhar.
Enquanto muitos da minha turma haviam conseguido papéis brilhantes, o grupo excluído no qual eu começara a fazer parte desde ontem, iria ficar responsável pela iluminação e/ou sonoplastia da peça.
Eu tinha ficado por trás dos refletores. Literalmente.
Pessoas que eram mais desinteressadas do que eu haviam conseguido papéis de figurantes, e eu não consegui nada. Graças a , é claro.
Cada professor faria uma peça diferente com sua respectiva turma, e o roteiro e história tinha sido redigido pelos próprios professores, e a de era simplesmente magnífica.
Ela falava de um anjo que tinha perdido sua melodia enquanto observava um humano no qual se apaixonara. Na busca pela sua canção, os dois acabam se encontrando e a história flui de uma forma apaixonante que me deixou completamente encantada.
Camerom havia conseguido o papel principal, o do humano. e Miles também tinham papéis importantes em sua peça e eu havia conseguido os refletores, mas teria que ficar por trás deles.
, Camerom pediu para avisar que está na hora do ensaio da peça. — Chamou da porta do estúdio. Fiz questão de esconder a unha machucada com uma meia e me levantei.
— Tudo bem, estou indo.
Recolhi meus pertences e me dirigi até uma das salas de teatro que havia reservado para nossos ensaios. A maioria da turma já estava presente, e me encarou de forma indiferente quando passei. Aquilo doeu em mim de uma forma que me deixou estranhamente preocupada.
Sentei-me ao lado de Camerom, o protagonista. Ele me deu um sorriso e um beijo estalado na bochecha, bagunçando meu cabelo logo em seguida. Comecei a rir, dando um tapa em seu ombro, tentando não lembrar que dos meus amigos, eu era a única que não estava na peça.
— O pessoal da sonoplastia e iluminação pode vir até aqui. – disse , com o semblante carrancudo de sempre. — O ensaio já vai começar e vocês precisam estar em seus postos.
Me levantei junto com os outros encarregados da tarefa – chata – de cuidar dos refletores e do som e comecei a preparar os refletores que seriam usados no primeiro ato.
— Eu já vi várias criaturas magníficas ao longo dos anos. Anjos, Arcanjos... criaturas com um nível altíssimo de beleza mas, nada que se compare a você, humano. — disse Ramona, a protagonista da peça. Ela parecia meio sem emoção e essa era um dos melhores diálogos da peça. Não tinha porque fazer errado.
A luz que focava Camerom e Ramona estava forte o bastante para deixá-los destacados no palco e, de onde eu estava, conseguia ver que estava completamente decepcionado – para não dizer palavra pior – com a atuação de Ramona.
As cenas em que ela dançava e cantava conseguiam ser melhores do que as que ela precisava atuar, e era óbvio que já havia percebido isso.
Nessa hora, Deborah apareceu no ensaio. não parecia muito contente com o progresso da peça e parecia aliviado ao ver o Dragão Deborah por ali.
Ele se levantou, pedindo para que acendêssemos as luzes principais e foi até ela, que o entregou uns papéis e o puxou pelo braço para um canto da coxia.
Apoiei uma das mãos no ferro da parte superior do teatro e estiquei a cabeça para tentar espiar o que os dois poderiam estar fazendo ali. Claro que eu não obtive êxito, pois eu só conseguia ver metade do ombro dos dois.
Tentei me esticar mais um pouquinho, mas me desequilibrei e fiz com que o refletor se espatifasse no chão com um barulho bem estrondoso.
Todos se voltaram para mim, espantados, e e Deborah logo entraram totalmente em meu campo de visão.
Claro que ninguém estava me olhando de forma agradável naquele momento.
— Little Rebel, limpe essa bagunça, sua inútil! — Gritou meu professor, me olhando de modo hostil. Arregalei os olhos e mordi os lábios, sentindo que meus olhos começavam a lacrimejar. Andei com dificuldade quando senti a unha do dedão protestar e fiz o que me ordenava sob as piadinhas do restante da turma.

— Tem sido horrível! — eu disse, me jogando em minha cama e sentindo meus olhos arderem. — Eu não aguento mais isso, as humilhações... Eu só quero voltar para New Haven.
Comecei a chorar por tudo o que eu passei desde o dia em que cheguei na Wings, tentando pensar na minha mãe e no que ela me diria em um momento como esse.
se sentou em minha cama para me consolar.
— Não mesmo! Você não pode desistir por causa desse idiota, . Você precisa se impor. Não aceite mais que ele te trate dessa forma. — pegou em minha mão, olhando-me seriamente.
— Mas se eu fizer isso, perderei a minha vaga. Ele com certeza daria um jeito de me desclassificar.
— Você só estaria se defendendo. Aliás, ele não tem motivos para te punir. Você só disse verdades naquela entrevista, principalmente o que disse a respeito da . – Eu e demos uma risada quando nos lembramos do que eu disse. Foi um ato estúpido e impensado, mas que havia sido bem libertador.
Quando as risadas cessaram, enxuguei as lágrimas do rosto.
— Falando sério agora, sua mãe não desistiria porque as coisas estão difíceis. — disse , afagando o meu ombro. Mordi o lábio inferior, tentando enxergar o lado positivo das coisas.
— É, eu sei.
— Agora, precisamos ir. Temos aula de ballet, esqueceu? — Arregalei os olhos quando proferiu aquela frase e me levantei da cama num rompante. Tinha me esquecido completamente que, com os ensaios da peça, os horários das aulas haviam mudado. — É, pelo visto você realmente esqueceu. — Completou , rindo da minha cara.
Prendi meu cabelo rapidamente em um coque que ficou bem mal feito por conta da pressa e peguei minha sapatilha, que estava jogada num canto qualquer.
Eu e abrimos a porta e vimos falando no telefone. Ela parecia bem esquisita e estava agindo como se tivesse algo a esconder, pois falava bem baixinho ao telefone.
Só conseguimos ouvir uma frase antes que ela nos percebesse ali.
“Eu te ajudo a acabar com ela.”
Eu e nos entreolhamos de modo desconfiado e virou para trás, nos pegando no flagra.
— Perderam alguma coisa aqui? — indagou ela, desligando o telefone.
— Não, imagina. — respondeu de forma irônica, olhando de forma indolente para a loira.
Puxei pelo braço antes que as duas iniciassem uma guerra de troca de olhares.
Apertamos o botão para chamar o elevador e ficamos esperando. Quando olhei para trás, a não estava mais lá.
— Tá, isso foi bem estranho. — eu disse, já imaginando liderando uma gangue muito perigosa.
— Eu não gosto dessa garota. Ela me passa a impressão de que tem algo de muito errado acontecendo e eu não gosto dessa sensação.
— Não vai me dizer que você também acha que a faz parte de uma gangue?
— Não é isso. — deu uma risada, e o elevador chegou logo em seguida. — Eu não sei explicar, só sei que ela me passa uma energia ruim.
Entramos no elevador e eu apertei o andar dos estúdios de dança.
— Tem certeza de que isso não é coisa da sua cabeça?
— Eu espero que seja, . Não costumo me enganar com as pessoas, mas a me confunde. Antes, eu a achava apenas uma garotinha esnobe e metida, mas agora parece que ela é mais do que isso.
As portas do elevador se abriram e nós saímos de dentro dele em silêncio. Se a era uma pessoa intuitiva, eu não saberia afirmar, mas a sempre disse que se alguma pessoa te causa alguma sensação ruim ou calafrios, que é pra sair de perto, porque é encrenca na certa.
Me despedi de e fui para o estúdio de ballet. Por incrível que pareça, eu tinha sido a primeira a chegar. Nem havia sido tão pontual quanto eu.
Dei um sorriso e decidi me aquecer enquanto o restante da turma não chegava.
Coloquei as minhas sapatilhas e senti a unha protestar, mas caminhei até a barra e comecei a me aquecer.
O estúdio de ballet era enorme, pois a turma ainda estava bem cheia. Eu ocupava uma das últimas barras porque tinha me colocado ali. Acho que tinha algo haver com o meu desempenho e com a sua implicância com a minha pessoa.
Acho que ele gostava de me insultar em parte porque era a maneira que ele tinha de descarregar a sua raiva e frustração com sua vida, e também porque ele não ia muito com a minha cara.
O mais estranho de tudo é que eu realmente acreditei que estava começando a confiar em mim quando me mostrou a sua música. Claro que eu me enganei.
Às vezes eu queria saber o que se passava na sua cabeça. Ele parecia ser muito atormentado, e eu sempre me repreendo por pensar que gostaria de saber o motivo dele ser tão frio.
— Se pensa que vou aumentar seus pontos ou te dar um papel na peça por sua pontualidade, está muito enganada. — disse , fazendo com que eu pulasse de susto. Estava tão distraída me aquecendo e pensando no próprio que nem o vi entrando.
— Eu confundi os horários.
deu um sorriso que fez com que meu corpo inteiro se aquecesse. Eu não sabia direito o que estava acontecendo comigo, mas tive a ligeira impressão de que não era nada bom.
Lembro-me de uma vez que e eu compramos uma daquelas revistas de garotas para ficar lendo na casa dela. Tinha uma matéria que falava sobre o poder que alguns garotos poderiam ter sobre você. Eu me lembro vagamente do que estava escrito porque só sabia falar do Aaron, o garoto que ela estava paquerando. Mas, de algum modo, naquele momento, uma parte da matéria me veio à mente, e dizia que se o seu corpo esquenta quando um cara está perto de você, quer dizer que há uma chance muito grande de estar afim dele.
Na época, eu dei altas gargalhadas daquilo, e fiz se irritar comigo por eu não estar levando a sério. Eu nunca gostei de ficar lendo essas revistas e, quando as lia, era só para passar o tempo debochando das coisas que eu achava engraçadas.
Acho que estava certa quando dizia que eu era mais boba do que a revista.
— Little Rebel, se concentre! — disse , fazendo com que eu pulasse de susto novamente. — Seu quadril está torto e seu plié está saindo errado por conta disso!
Tentei me endireitar, mas as minhas mãos começaram a suar de forma desenfreada e eu acabei perdendo o foco. veio até mim, posicionando-se atrás do meu corpo e colocando as suas mãos quentes sobre meus quadris.
Soltei uma lufada de ar quando senti o contato de suas mãos na minha pele e senti que meu coração acelerou tanto que tive medo de que o pudesse ouvi-lo.
— Você está totalmente distraída. Se quiser vencer o concurso, precisa ter mais foco. — A voz de estava baixa e bem próxima dos meus ouvidos. Sua respiração quente batia no meu pescoço nu, fazendo com que uma sensação estranha percorresse a minha espinha. O calor aumentou, e minhas pernas começaram a tremer um pouco.
As mãos de estavam firmemente posicionadas, e me auxiliavam para que meu quadril não saísse do lugar na hora de fazer os pliés. Eu subia e descia, e conseguia sentir o corpo de encostar-se no meu sempre que eu fazia os mesmos movimentos.
— Está nervosa, ?
Arregalei os olhos com a pergunta e me virei bruscamente para a frente, fazendo com que eu e nos encarássemos de perto. Ele trazia no rosto um sorriso torto bem bonito, e um olhar que me deixou completamente hipnotizada.
— Você me deixa nervosa. — falei antes mesmo que eu percebesse a gravidade do que estava falando.
deu um passo à frente, diminuindo completamente a nossa distância. Minha respiração ficou ofegante, e percebeu isso pela maneira desenfreada com que meu peito subia e descia. Seu sorriso ficou maior ao perceber o efeito que tinha sobre mim e foi então que eu entendi o que todos aqueles sinais confusos queriam dizer.
Eu realmente estava apaixonada pelo meu professor. E não era só uma quedinha boba, e sim um tombo gigantesco, daqueles que você tem certeza de que se machucou feio antes mesmo de se levantar do chão.
— Quero dizer... eu não quis dizer q...
De repente, a mão de estava em minha cintura, e seus olhos miravam a minha boca. Fiquei completamente nervosa com aquele ato, e acabei esquecendo completamente de que eu deveria terminar a frase.
— Eu sei exatamente o que você quis dizer.
E quando eu achei que fosse me beijar – pois seu rosto já estava há alguns centímetros do meu - alguns alunos entraram na sala. O encanto se quebrou, e se afastou rapidamente da minha figura pequena e constrangida. Camerom irrompeu pela porta no mesmo instante e logo estranhou o meu comportamento.
— O que aconteceu? Você está bem?
— Eu estou bem sim, Cam. — Esbocei um sorriso que certamente não chegou aos meus olhos. — Não se preocupe.
— Mas você está vermelha! O te fez alguma coisa? — Ele perguntou, segurando a barra com força e olhando para ele de forma ferina.
Soltei um suspiro e olhei para meu professor, que havia voltado a costumeira seriedade de sempre, balbuciando:
— Por incrível que pareça, ele não me fez nada.

No dia seguinte, fui uma das últimas a chegar ao ensaio da peça e recebi um olhar nada agradável de . Eu tinha acordado tarde, pois fiquei pensando no que quase aconteceu ontem entre nós dois.
e eu ficamos conversando no jardim, bem longe de nosso alojamento e da , e eu acabei contando a ela tudo o que tinha acontecido. Claro que ela ficou eufórica, mas me alertou, pedindo para que eu tomasse cuidado, pois todo o mundo sabe como o consegue ser hostil quando quer.
O pior de tudo nem era o seu jeito hostil, grosso, frívolo e carrancudo, mas o fato irreversível de que ele é o meu professor e eu não posso me envolver com ele de jeito nenhum. Eu entrei nesse concurso justamente para realizar meus sonhos e não para destruí-los, e não posso deixar os meus sentimentos me dominarem dessa forma.
— Será que dá para você colocar mais emoção nessa frase, Ramona? — esbravejou , jogando seu roteiro no chão e puxando alguns fios de seu cabelo para cima, um sinal bem claro de que ele estava bem nervoso.
Ramona o olhou de forma assustada, e tive a impressão de que ela iria sair correndo dali a qualquer minuto.
— Ela está quase se borrando nas calças! — disse uma menina que segurava o outro refletor. Eu dei uma risada baixa.
— Fico feliz em saber que você está se divertindo, Little Rebel!
Meu sorriso murchou na hora ao ver que estava olhando para mim. Droga, será que ele não parava de prestar atenção em mim? Eu tinha certeza de que havia dado uma risada muito baixa e discreta.
— Porque você não vem até aqui para fazer essa cena no lugar da Ramona? Se for boa o suficiente, pode até ficar com o papel. — Ele disse, encarando-me com um olhar desafiador.
Quase larguei o refletor de qualquer jeito no chão quando dissera aquilo. Tentei manter a compostura enquanto caminhava até ele de forma calma. Ramona saiu do palco praticamente correndo, e eu peguei o roteiro que ela havia deixado cair na pressa.
Camerom, que estava no palco, deu um sorriso encorajador para mim.
— Leia para mim as falas grifadas e cante e dance a música do terceiro ato. Acha que consegue fazer isso? — Balancei a cabeça de forma afirmativa, mas minhas mãos estavam tremendo.
— Consigo.
Procurei as falas que estavam grifadas para começar a ler.
— Depois de viver por tantos milênios, cantar milhares de canções e decifrar tantos versos de harpas celestiais, eu encontrei o amor. Eu finalmente me apaixonei! Mas você é um idiota, e não consegue encarar bem todas as coisas boas que entram no seu caminho. — eu disse, me sentindo impressionada ao ver o quanto me identificava com alguns trechos dessa fala.
— Eu não quero nada de bom! Eu não quero você na minha vida. Será que você não entende? Eu sou a pessoa mais complicada do universo, não sou nada bom. Isso nunca vai dar certo, Anlynx. Você é um anjo, e eu um humano! — gritou, surpreendendo-me com a maneira como entrou no personagem.
— Diga isso olhando nos meus olhos! — Aumentei meu tom de voz, me aproximando dele. — Diga!
— Eu não te quero. — disse, com a voz baixa, olhando para o chão, exatamente como descrevia o roteiro. Emoções se passaram pelos nossos rostos, mas ele quebrou o momento de novo.
— Agora vamos para a cena da música do terceiro ato — disse de forma brusca, me deixando sozinha no palco, e pedindo para que alguém soltasse o instrumental da música.
Me posicionei no centro do palco. A princípio, eu me senti nervosa e acuada, pois as luzes dos refletores me iluminavam, e todos estavam me olhando. Mas, quando a música começou a tocar, eu me senti leve. Me senti como se fosse a própria personagem, e fiquei tranquila ao começar a cantar a primeira estrofe.

De repente eu estou na frente das luzes
Tudo parece assustador e bonito ao mesmo tempo
E todos os dias eu tento apenas respirar
Eu quero mostrar pra todo o mundo a verdade que está em mim

A música dizia o que eu sentia dentro de mim em relação à Wings. A minha vida toda eu fui subestimada pelas pessoas, sempre aparentando ser uma garota frágil e sem talento. A única pessoa que nunca duvidou de mim foi a minha mãe, e eu cantava essa música pensando nela.

De repente as pessoas sabem meu nome
De repente tudo mudou
De repente me sinto tão viva
Em um piscar de olhos
Meus sonhos começam a se realizar

Comecei a me movimentar pelo palco, fazendo pequenos e leves passos de dança.
Eu já tinha lido o roteiro da peça antes, e sonhava em fazer essa cena porque eu me sentia conectada com a personagem de uma forma muito estranha.
Fiquei me sentindo aliviada em conhecer a letra da música, e isso me fez ter mais coragem de mover meus pés. Naquele momento, nem a dor que eu sentia em minha unha iria me fazer parar.

De repente o tempo é como o vento
Ele muda em qualquer lugar que eu vou
Eu apenas estou tentando me adaptar
Agora aqui eu estou de pé e continuo sendo só aquela garota
Eu estou seguindo meu coração neste maravilhoso, mundo louco

Naquele momento, eu não enxergava mais as pessoas ao meu redor. Não sabia se estava detestando a minha atuação ou adorando. A única coisa que eu sabia, era que o meu lugar era bem ali, no palco.

De repente as pessoas sabem meu nome
De repente tudo mudou
De repente me sinto tão viva
Em um piscar de olhos
De repente eu estou no centro do palco
De repente eu não tenho medo
De repente eu acredito novamente
Num piscar de olhos isso está acontecendo agora

Eu levantei a minha perna no ar e dei um giro, continuando a cantar a música. As luzes dos refletores me seguiam por onde eu andava, mas nem aquilo me importava no momento.

Como meus sonhos começam a reinar
Eu quero dizer, "Ame-me pelo o que eu sou"
O que está dentro
E eu serei positiva, não vou fugir
Demais pra você
É a vida

Na parte instrumental da música, eu continuei dançando, só que com mais firmeza. Os movimentos continuaram leves, só que mais fortes conforme a música ia crescendo. Eu tinha me unido a música e ela a mim, e eu não fazia ideia quando fora a última vez que havia me sentido daquele jeito. Eu sorri, rodopiei, e quando voltei a cantar, me senti mais viva do que nunca.

De repente eu estou no centro do palco
De repente eu não tenho medo
De repente eu acredito novamente
Num piscar de olhos
Meus sonhos começam a se realizar

Quando a música acabou, eu me sentia ofegante e cansada. As luzes principais se acenderam, e a turma inteira se levantou para me aplaudir. A vergonha me dominou, mas agradeci timidamente e tremi quando veio em minha direção. Seu semblante não me dava nenhuma pista do que poderia estar se passando pela sua cabeça e aquilo me deixou bastante temerosa.
— Parabéns, . O papel agora é seu. Não estrague tudo.
A felicidade que eu senti foi tão grande que um sorriso se abriu em meu rosto. Acho que também queria sorrir, mas seu desejo de ser carrancudo era mais forte do que transmitir o que ele realmente estava sentindo.
Cam veio em minha direção me parabenizar, dizendo que agora podíamos ensaiar juntos as falas e a nossa coreografia e eu concordei, ficando cada vez mais empolgada.
Quando a noite chegou, eu me sentia exausta. Além do ensaio da peça, tive aula de jazz, um pouco de teatro e também uma aula de canto. Depois, ainda ensaiei a coreografia da avaliação com o Camerom. Naquele momento, eu só desejava a minha cama.
Eu caminhava em direção ao meu alojamento nas pontas dos pés, pois os corredores já estavam escuros e a maior parte das pessoas já estava dormindo. Porém, um barulho atrás de mim fez com que eu me assustasse. Olhei para trás, e vi .
— Está afim de dar uma volta?
— Para onde?
— Vou te mostrar um dos meus lugares favoritos.
Olhei para de modo confuso, tentando processar o convite que ele estava me fazendo. Ele havia me pego totalmente de surpresa.
A minha cabeça gritava que eu não deveria ir de forma alguma. Era errado. Terrivelmente errado. Além de burlar as regras outra vez, eu poderia ser expulsa da Wings. Eu não queria arruinar a minha vida daquele jeito.
Mas o coração queria muito que eu aceitasse aquele convite.
me olhava de uma maneira que eu não conseguia decifrar. Ele parecia ansioso, e eu fiquei com medo de que ele desistisse do convite. Apesar de ele ser uma pessoa complicada, algo dentro de mim sentia que eu deveria confiar nele.
Antes mesmo que eu pudesse pensar mais, eu quebrei o silêncio:
— Tudo bem, eu vou com você.
deu um meio sorriso, parecendo estranhamente sem jeito.
O coração havia vencido aquela batalha.

Capítulo 17 - O Sumiço

As noites em Londres pareciam muito mais bonitas vistas de fora da Wings do que da janela do meu quarto, em New Haven. Enquanto eu andava ao lado de , que parecia travar uma batalha interior, eu observava o céu londrino com um sentimento de esperança dentro do meu peito. Respirar aquele ar frio parecia estar me ajudando a adquirir a calma e a tranquilidade que eu tanto venho procurando.
parou embaixo de uma árvore enorme que ficava atrás da escola, em cima de um pequeno morro de terra e grama. Eu não podia negar que a paisagem era linda, pois dava para ver parte da cidade de onde estávamos.
Eu me sentei na grama e fez o mesmo que eu, sentando-se bem ao meu lado.
— Por que você me trouxe aqui? — perguntei, tentando soar de forma tranquila para que ele não se fechasse de novo.
— Esse é o problema. Eu não sei por que eu fiz isso. — disse , soando amargurado e ao mesmo tempo arrependido.
Balancei a cabeça algumas vezes, tentando entender porque eu tinha aceitado aquele convite. Era arriscado demais, e só agora eu tinha me dado conta de que não valia a pena todo esse esforço.
— Eu não consigo te entender. — balbuciei enquanto me levantava.
— Talvez eu não queira ser entendido.
— Talvez não valha a pena entender você.
se levantou, abaixando a cabeça e retirando de dentro do bolso da calça um papel. Ele estendeu a folha em minha direção. Ele parecia triste e aquilo cortou o meu coração.
— Eu terminei aquela música. Chama-se The Heart Never Lies.
Olhei para com um semblante confuso.
— Porque você está me mostrando isso?
— Eu quero que a letra fique com você. — se aproximou de mim vagarosamente, e meu coração começou a acelerar.
— Mas... Porque?
Me assustei quando ele colocou as mãos sobre as minhas e fiquei com medo de que o suor de minhas mãos acabassem com a letra da música.
Seus olhos a luz do luar eram tão bonitos que eu tive medo de me perder neles.
— Porque eu confio em você.
E então, sorriu. Foi uma das poucas vezes em que o vi sorrir daquele jeito. Era um sorriso sincero, bonito e que me deixou completamente encantada.
Quando percebi, nós já estávamos nos aproximando um do outro o suficiente para que nossas respirações se misturassem.
As mãos de começaram a acariciar a minha cintura, puxando-me mais para perto. Agora, eu podia sentir o corpo dele próximo do meu, e confesso que aquilo me deixou um pouco nervosa e envergonhada.
Acho que nós não tínhamos noção do que estava acontecendo conosco, porque eu não conseguia me lembrar de quando foi que eu me meti nessa situação. A única coisa que eu gostaria de me lembrar era desse momento.
Coloquei uma das minhas mãos na nuca de e acariciei os seus cabelos de forma tímida. Eu era meio inexperiente no quesito beijo, e isso acabou me deixando um pouco insegura, pois eu não sabia direito onde colocar as mãos.
Se pudesse me ver agora, provavelmente estaria rindo da minha cara, falando que eu deveria ter prestado mais atenção nas revistas que ela trazia para ler, pois haviam dicas que poderiam me ajudar a passar por esse momento sem pagar um grande mico.
Mas agora era tarde demais para pensar nisso.
Assim que eu senti roçar os lábios nos meus, eu fechei meus olhos e comecei a tremer de nervoso. Era uma sensação gostosa e, ao mesmo tempo, apavorante.
Uma das mãos de estava em minha nuca, e logo meus lábios estavam encostados nos dele. Completamente.
Meu coração acelerou ainda mais com o contato de sua boca na minha e não tardou para que eu me esquecesse de todos os meus anseios. O medo que eu sentia do futuro parecia estar distante de mim naquele instante, o que me fez aproveitar ainda mais o momento.
conduziu o beijo como um perfeito cavalheiro e eu posso jurar que se ele não estivesse me segurando com firmeza que eu já teria caído no chão.
Ele aprofundou um pouco mais o beijo, colando mais seu corpo no meu. Apertei alguns fios de seus cabelos em minhas mãos e senti meu corpo se aquecer cada vez mais com aquele contato.
Quando nos separamos, eu tive medo de que gritasse comigo, de que se arrependesse do que fizemos, mas ele me surpreendeu ao me dar um selinho e encostar a testa na minha.
— Droga, nós estamos ferrados. — disse ele, antes de me puxar para mais um beijo.

— Não brinca! — exclamou assim que eu terminei de contar o que tinha acontecido comigo ontem à noite.
Nós estávamos em nosso cantinho no campus da Wings conversando. As aulas daquele dia tinham sido suspensas para podermos ensaiar para as avaliações que aconteceriam amanhã.
Miles e Camerom estavam ensaiando seus respectivos monólogos e viriam nos encontrar depois. Afinal, eles eram nossos pares na avaliação de dança.
— Você é tão sortuda! — Ela exclamou, olhando para mim de forma eufórica. — E aí, ele beija bem?
Fiquei corada com a pergunta de .
— A sua cara já diz tudo, nem precisa responder. — deu uma risada estrondosa. — Vocês já se viram hoje?
— Ainda não. As aulas foram suspensas e ele não estava no refeitório na hora do café da manhã. — eu disse, soltando um suspiro de tristeza. — Eu tenho medo de que ele se arrependa do que aconteceu e volte a me menosprezar.
— É um risco que você corre, amiga.
— Ontem, enquanto tudo acontecia, eu não fiquei com medo das consequências que aquele beijo me traria. Mas agora eu tenho tanto medo do que pode acontecer que eu não sei como vou lidar com essa situação.
— Olha, eu sei que a situação é complicada, mas se o me beijasse, eu acho que aproveitaria. Se o te beijou, é porque ele sente algo por você. O pai dele pode ser dono da Wings e o principal organizador desse concurso, mas pelo que eu sei, tenho certeza de que o nunca perdoaria o filho por se envolver com uma aluna de um concurso mundialmente famoso. O corre tantos riscos quanto você. Claro que você perderá mais coisas do que ele, mas o que quero dizer é que ambos estão correndo perigo. E cabe a você decidir se vale a pena se arriscar ou não.
era como um anjo em minha vida. Sempre fazendo ótimas observações sobre situações complicadas como as minhas.
— Acho que ainda é muito cedo para dizer isso. Eu estou com medo e confusa, mas meu coração gosta tanto dele...
— Sei bem como é isso, amiga. — disse com certa tristeza na voz. Eu sabia que era do que ela estava falando.
Avistamos Miles e Camerom caminhando em nossa direção, e decidi parar de falar qualquer coisa sobre e eu.
— Você vai contar a eles? — perguntou, apontando na direção dos dois.
— Ainda não. Acho que é mais seguro se isso ficar entre nós por enquanto. Ainda é muito cedo para falar alguma coisa para eles.
— Olá, moças bonitas! — disse Miles, de forma entusiasmada. Camerom também esbanjava animação.
— O hoje está mais rabugento do que o normal. — disse Camerom, sentando-se ao meu lado. Meu corpo logo ficou rígido. e eu nos entreolhamos.
— O que ele fez?
— Ficou implicando com algumas pessoas no corredor, que estavam tocando violão e levou duas garotas para a secretaria. Ninguém sabe o que as duas fizeram, mas rolam alguns boatos meio tenebrosos. — disse Camerom, ficando meio envergonhado de repente.
fez uma careta repleta de nojo.
— Não quero nem saber que boatos são esses.
— Nem eu. — eu disse, dando uma risadinha.
— Miles, vamos ensaiar agora? — perguntou , mas Miles não estava prestando atenção nela. Seu olhar estava voltado para um quarteto de meninas mais a frente, que riam e se exercitavam. — Miles? — passou a mão em frente ao rosto dele, fazendo com que ele piscasse várias vezes.
— O que?
— Vamos ensaiar agora?
— Claro, vamos sim.
Os dois se levantaram e Camerom sugeriu que começássemos a ensaiar também. A nossa coreografia já estava pronta, mas nós ainda precisávamos acertar o tempo de alguns movimentos que estavam saindo mais lentos do que o normal.
Eu e Camerom fomos andando junto com e Miles. Enquanto meus amigos conversavam, a minha cabeça ficava pensando no , e no que ele poderia estar fazendo naquele instante.

Já eram mais de sete da noite e eu e Camerom ainda estávamos no estúdio. Eu já estava exausta, e só tinha parado para fazer um lanche. Tive esperanças de encontrar com o no caminho para o refeitório, mas ele parecia ter desaparecido.
Camerom me colocou no chão e fizemos a pose final da coreografia.
— Nós vamos arrasar amanhã! — disse ele, batendo a mão na minha e rindo. Ele sempre agia de forma confiante.
— Eu estou nervosa. — eu disse, pegando a minha garrafa de água de dentro da bolsa. — A nossa coreografia é muito arriscada.
— Vai dar certo, . Tenho certeza disso.
— Se você diz...
Camerom bagunçou meus cabelos, fazendo-me rir.
— Eu não sei você, mas eu comeria uns dois bois agora.
— Você não é o único, acredite. — eu disse, enquanto saíamos do estúdio de dança.
— Estão dizendo que nessa avaliação eles vão eliminar mais participantes do que da outra vez. — Camerom disse, enquanto eu bebia minha água, que já estava terrivelmente quente.
— Tomara que isso não seja verdade.

No dia seguinte, eu já estava tremendo antes mesmo de abrir os olhos. As avaliações da Wings sempre me deixavam daquele jeito, mas hoje em especial, tinham outros problemas tirando a minha paz, e a maioria deles envolviam o .
Eu não o vi em lugar algum ontem e imaginava que ele não queria mesmo ser visto. Só tinha medo do que tudo isso podia significar.
Ontem, antes de dormir, eu fiquei lendo a letra da música que escrevera incontáveis vezes. Era uma música muito bonita, e eu me sentia bem só de ler a letra dessa composição que me deixara tão fascinada.
— Bom dia, perdedoras. — disse , que já estava de pé usando um roupão e com o rosto devidamente maquiado para a avaliação de dança. Ela segurava o vestido que iria usar em uma das mãos e sorria como se já tivesse ganhado o concurso.
— Você é tão convencida que chega a me dar ânsia de vômito. — disse , revirando os olhos.
— Porque você está maquiada desse jeito? — perguntei, sentindo-me confusa. — O monólogo não vai ser antes da apresentação de dança?
— Essa é a maquiagem que eu vou usar no meu monólogo, não que isso seja da sua conta. Ah, e para quem tem medo de câmeras, sugiro que desista logo, pois as avaliações serão gravadas e transmitidas mundialmente. Não todas, é claro. Só as melhores e as piores. — disse, sorrindo de forma confiante.
— Vamos pegar nossos figurinos, . — se levantou da cama fuzilando com os olhos. — A gente come alguma coisa na volta.
— Tudo bem, só preciso ir ao banheiro primeiro.
Assim que terminei de fazer as minhas necessidades, acompanhei até uma das salas de teatro, pois os professores iriam nos disponibilizar alguns figurinos da própria escola para usarmos na avaliação de dança.
No meu monólogo, eu usaria roupas normais, pois a personagem que vou interpretar não exigia uma caracterização muito elaborada.
Haviam muitos figurinos para escolher, mas a maioria dos alunos já estava amontoados sobre as araras das roupas e eu e ficamos um pouco desapontadas.
Enquanto procurávamos uma roupa que fosse combinar, Camerom e Miles nos enviavam SMS perguntando que roupas iríamos escolher, afinal, a roupa deles tinha que combinar com a nossa.
me cutucou no braço e apontou com a cabeça para o lado oposto em que eu e ela estávamos. No momento em que olhei na direção em que ela apontava, meu coração pareceu que iria saltar pela boca, pois era que estava ali, trazendo mais alguns figurinos.
— Vem comigo. — disse, sorrindo maliciosamente e me puxando pelo braço até as duas araras que trazia. Tentei fincar meus pés no chão, mas tinha mais força do que eu imaginava.
— Professor , esses figurinos estão disponíveis? — Ela perguntou, com o seu famoso sorriso indolente. Eu queria matá-la.
me olhou de um modo indecifrável. Meu corpo todo esquentou, inclusive o meu rosto, e eu não sabia para onde olhar.
— Sim.
— Que ótimo, porque eu e a já estávamos ficando aflitas aqui.
— Peguem o que acharem necessário. , depois venha até a minha sala, preciso falar com você.
— Tu-tudo bem. — Gaguejei, nervosa, enquanto se distanciava. deu uma gargalhada quando ele se afastou.
Achamos nossos figurinos depois de um bom tempo de procura.
Me despedi de e fui até a sala em que ficava no horário de trabalho. Dei três batidas tímidas na porta e só quando ouvi a sua voz permitindo que eu entrasse na sala foi que eu tive coragem de abrir a porta.
— Você queria falar comigo?
— Eu só queria te desejar boa sorte na avaliação de dança. — disse ele, se levantando e agindo como se estivesse desconcertado. — E dizer que nós precisamos conversar sobre... sobre o que aconteceu
. — Eu sei. Só não tenho certeza se hoje é a hora apropriada para isso.
Ele acenou com a cabeça de forma afirmativa, concordando comigo.
— Que tal amanhã? Eu te ligo.
— Você tem o meu telefone? — perguntei, sentindo que estava corando novamente.
apenas deu um sorriso malicioso que me deixou ainda mais encabulada.
No instante seguinte, ele se aproximou de mim e depositou um beijo calmo em meus lábios. Quanto mais nos aproximávamos um do outro, mais as coisas saíam de controle e mais perigosas ficavam. Eu não queria correr riscos, mas era tudo o que eu conseguia atrair para mim enquanto deixava que me beijasse daquele jeito.
— Nos vemos na sala de avaliação. — disse , assim que quebramos o beijo.

Depois que entrou na sala de avaliações, ninguém mais disse nada. Eu estava nervosa, pois o monólogo havia sido transferido para amanhã. A avaliação de dança, que era a mais difícil para mim, seria hoje e eu já estava devidamente arrumada.
O figurino que havia escolhido era um vestido justo lilás, que chegava a metade das coxas e era brilhoso de um jeito singelo e nada chamativo. Ele tinha uma armação na saia que deixava o vestido bem rodado e dava um acabamento bem bonito.
Nos pés, eu usava as minhas sapatilhas da sorte. Meu cabelo estava metade preso e metade solto, e Camerom usava uma roupa branca com detalhes em lilás para combinar com a minha.
estava usando um conjunto de saia e top vermelho e branco. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto. Miles usava roupas das mesmas cores que as dela, só que eram mais brilhosas e chamativas.
Camerom havia saído para ir ao banheiro há alguns minutos, e eu tive medo de que chamassem os nossos nomes e ele não estivesse aqui.
também haviam sumido e Deborah vez ou outra me olhava de um modo assassino. Eu já estava começando a ter calafrios na espinha.
O primeiro casal que estava se apresentando era da turma do . Os professores olhavam com atenção a apresentação dos dois, que estavam indo razoavelmente bem, apesar do tombo que a garota levou quando foi realizar um passo sozinha.
estava tão nervosa quanto eu e quanto mais o tempo passava, e mais nomes eram chamados, a apreensão que conseguíamos sentir nos deixava cada vez piores.
— Será que o Camerom está bem? Ele ainda não voltou do banheiro. — eu disse, sentindo-me estranhamente preocupada quando vi a aparecer com um sorriso muito confiante em seu rosto.
— Ele pode estar passando mal. — disse , com o semblante tão preocupado quanto o meu. — Acho que estão todos aqui, então a demora não deve ser por causa da fila dos banheiros.
— Eu vou atrás dele.
Me levantei e fui em direção a porta de saída, mas os dois seguranças que estavam na porta me barraram.
— Você deve ficar aqui dentro até o final das avaliações.
— Mas o meu amigo foi ao banheiro e até agora não voltou. Eu estou preocupada com ele. — eu disse, me sentindo cada vez mais nervosa.
— Desculpe, mas você deve esperar que ele retorne.
— Como ele conseguiu sair se não podemos deixar a sala de avaliações? — indaguei, me sentindo ligeiramente desconfiada.
— Ele deve ter saído antes das avaliações começarem. A partir do momento que as avaliações começam, temos ordens restritas de não deixar ninguém sair.
— Entendi. Obrigada.
Voltei até o meu lugar ao lado de , bufando.
— O que aconteceu? Eles não te deixaram sair? — perguntou Miles para mim.
— Não. Eu não posso sair enquanto as avaliações não terminarem.
Miles arregalou os olhos, espantado.
— E se me der uma caganeira?
— Você terá que cagar nas calças. — disse tentando amenizar o clima.
Depois de um tempo, enquanto as avaliações aconteciam, meu coração retumbava no peito. Eu sabia que tinha alguma coisa errada no sumiço de Camerom, só não sabia dizer o que era.
O último casal a dançar tinha sido e seu parceiro, um tal de James Harper. Ele se achava assim como ela, e assim que terminaram a apresentação, ela me lançou uma piscadela provocativa que me irritou um bocado.
A apresentação dela tinha sido incrível, mas seu ego inflado fazia com que o brilho se perdesse completamente.
anunciou a próxima dupla e eu quase morri do coração.
e Camerom Launch podem vir para o palco.
Arregalei os olhos, gelando na cadeira em que eu estava sentada.
— E agora, o que eu faço? — perguntei entredentes, pois estava sentindo o olhar de todo o mundo em cima de mim.
— Apenas dance. — disse Miles, colocando a mão sobre a minha.
— Como eu vou dançar sem dupla? — indaguei, sentindo o desespero me dominar.
— Nós vamos dar um jeito. — disse , me encorajando.
Eu me levantei sob os olhares de todas as pessoas que estavam presentes. A expressão em meu rosto devia estar em pânico, assim como o meu ser estava. Eu não sabia o que a e o Miles iriam fazer, mas assim que me dirigi até o palco e vi que os dois se levantavam, percebi que não era boa coisa.
Um nó se formou em minha garganta e eu senti como se fosse vomitar a qualquer momento. Me posicionei no meio do palco, olhando para os professores e para como se eu fosse desmaiar.
A luz de um refletor quase me cegou, e as câmeras começaram a me focalizar. Deborah tinha no rosto uma expressão vitoriosa, assim como . Meu estômago embrulhou quando eu vi o olhar que as duas me lançavam. Apesar de estarem em lugares diferentes e distantes, parecia que as duas sabiam bem porque eu estava em pânico.
A cadeira de estava vazia, foi o que eu percebi quando deixei de dar atenção a Deborah. Olhei para o lado, e encontrei , Miles e parados nos bastidores.
A introdução da música começou a tocar, e era uma mulher falando algumas palavras antes da música realmente começar. Meu coração retumbou de medo dentro do peito, enquanto me encorajava a dançar. Eu ainda não sabia o que estava fazendo ali, mas agradeci internamente por estar preocupado comigo.
Comecei a fazer a introdução da música sozinha, me jogando no chão e esticando uma das pernas. Minha cabeça girou para o lado esquerdo e eu me senti leve quando a adrenalina que a dança me proporcionava começou a agir em minhas veias.
Dei uma cambalhota para trás e me levantei um pouco antes do instrumental da música começar. E, quando começou, me surpreendi ao ver o adentrar o palco, começando a dançar junto comigo a coreografia que eu ensaiei com o Camerom.

Capítulo 18 - Sangrando

Quando entrou no palco e me pegou pela mão, eu senti como se cada movimento que estivéssemos prestes a fazer começavam a ficar em câmera lenta. Eu ainda não sabia como ele poderia saber todos os passos da coreografia, mas algo dentro de mim me dizia que ele tinha plena consciência do que estava fazendo.
A música era rápida, e a coreografia que eu e Camerom fizemos era arriscada do começo ao fim. Porém, o olhar de confiança que me transmitiu me deu coragem para começar a dançar.
Eu e ele dançamos em sincronia, nossos corpos se movendo junto com a batida da música. Ele me levantou no ar, e eu deslizei por seus braços, arrastando as minhas sapatilhas pelo palco e indo ao seu encontro logo em seguida. Seus braços, firmes e ágeis, rapidamente envolveram o meu corpo, conduzindo a minha coluna para a trás e trazendo-me de volta quase no mesmo instante.
Ao redor, eu conseguia ouvir a galera toda gritando de forma extasiada, mas não demorou muito para que eu me desligasse do que acontecia a minha volta, pois dançar com o era como estar visitando um lugar muito bonito. Eu me sentia nas nuvens, parecia que eu havia ganhado as minhas próprias asas. Eu nunca me senti daquela forma antes.
Tão... Solta. Tão... Livre.
me virou de frente para a plateia e me pegou no colo, dando sustentação para que eu flexionasse uma perna de cada vez. Depois desse movimento, eu dei um giro e levantei uma das pernas na altura da cabeça, me virando de frente para ele e fazendo com que me girasse no ar.
Nossos olhares se cruzaram, e pude perceber que ele mantinha no rosto um semblante muito diferente. Ele parecia... Satisfeito e alegre. Foi nesse momento que eu percebi que ele se sentia da mesma forma que eu. Meu coração estava acelerado, e eu tinha certeza de que havia suor em todas as partes do meu corpo, mas a única coisa que me importava naquele momento, era dançar.
Quando a música estava quase no fim, eu dei algumas piruetas enquanto fazia sua performance individual. Ele me pegou pelas mãos e me fez deslizar por baixo de suas pernas, fazendo-me parar do outro lado do palco. Me levantei, girando a cabeça e indo ao seu encontro mais uma vez. Ele me puxou e me levantou no ar novamente. Eu abri os braços e sorri, sentindo-me como um passarinho engaiolado ganhando finalmente a sua liberdade. A minha gaiola havia sido destruída, e eu não poderia estar mais feliz por isso.
me virou de frente para ele, colocando-me no chão. Fomos nos movimentando juntos pelo palco até que a última estrofe da música terminou, fazendo com que eu deslizasse pela lateral de seu corpo e terminasse a coreografia agarrada em uma de suas pernas, no chão, com ele olhando fixamente para mim de braços cruzados.
Quando as pessoas começaram a aplaudir, eu saí do transe em que eu me encontrava. Por um momento, a felicidade me invadiu e eu sorri. Tive vontade de abraçar , mas eu não podia.
No entanto, quando veio em nossa direção com uma expressão séria, eu percebi que estava ferrada.
indicou a coxia com a cabeça, e nós o seguimos até lá.
Ele olhou para como se fosse trucidá-lo.
— Posso saber o que deu em você?
— Eu só estava ajudando a minha aluna.
Olhei para de forma temerosa. Era nítida a fúria que estampava o rosto de seu pai. Se eu tivesse um pai como o , com certeza iria andar na linha.
— Ajudando? — contorceu o rosto, olhando para ele com indignação. Ele agia como se as ações de tivessem sido muito absurdas. Tudo bem, ele é meu professor e alunos não podem ter privilégios como esse. Eu até entendia o ponto de vista.
O que eu não entendia mesmo era a calma que demonstrava perante o seu pai. Ele nem estava assustado com as caretas que ele fazia.
Decidi intervir antes que a coisa ficasse mais feia:
— O meu parceiro sumiu e eu não sei onde ele pode estar.
— Isso ainda não justifica o que você fez. — disse, ignorando-me completamente. — Você dançou com uma aluna! Para você esse ato pode ter sido inofensivo, mas o que será que os outros alunos e os telespectadores vão pensar? A Wings é uma instituição séria, que não dá privilégios a nenhum aluno. Espero que se porte como um professor de verdade de agora em diante.
Me senti mal quando ele se referiu a mim e ao como professor e aluna. Se ele já ficou revoltado por ele ter dançado comigo, imagina como ele ficaria se descobrisse o que andamos fazendo pelas suas costas.
— Ele só não queria que a dançasse sozinha. — disse Miles, aparecendo ao meu lado acompanhado de .
olhou para os dois como se fossem ETs.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Viemos apoiar a nossa amiga. — disse , me dando um sorriso encorajador.
— Vejo que a senhorita é muito querida, não é? Todos querem ajudá-la. — nos olhou de forma irônica, e eu me senti muito pequena naquele instante.
— Eu não queria causar problemas. — Me justifiquei, já sentindo vontade de chorar. , que estava praticamente com o braço colado no meu, roçou a ponta dos dedos na minha mão, o que me fez ficar levemente arrepiada. — Eu não sei o que aconteceu com o Camerom, estou preocupada. — !
Camerom entrou na coxia de forma afobada, fazendo-me sentir instantaneamente aliviada.
— O que aconteceu com você? — perguntou, de olhos arregalados.
— Me trancaram dentro do vestiário masculino.
Eu, , Miles e nos entreolhamos. Nós só conhecíamos uma pessoa que tinha uma mania grotesca de trancar as pessoas em datas de avaliação: Deborah.
— E como você conseguiu sair, posso saber?
— Um segurança que estava passando pelo corredor ouviu meus gritos.
— É verdade, Sr. . — disse o segurança enquanto entrava na coxia. — Esse menino estava esmurrando a porta. Tenho que dizer que destruíram a câmera que fica nesse corredor.
— Isso não é possível. — fechou as mãos em punho, sentindo-se ainda mais irritado do que antes, se é que isso é possível.
— Parece que tem alguém querendo sabotar vocês dois. — disse o segurança, alternando olhares entre Camerom e eu.
— Mocinha, você e Camerom estão em condições de dançar juntos? — perguntou, olhando fixamente para mim. Tive medo de que ele descobrisse sobre o que acontecia entre seu filho e eu só olhando para mim.
— Sim.
— Parabéns, vocês não serão desclassificados.

Dançar com o Camerom foi completamente diferente. Ele também tinha braços firmes, mas não me passou tanta segurança, apesar de eu ter ensaiado a coreografia com ele diversas vezes. Porém, tudo correu bem.
e Miles queriam denunciar a Deborah por ter trancado Camerom no vestiário masculino. Porém, eu e ele concordávamos com o fato de que nós não temos prova nenhuma que a incrimine. Apesar de termos certeza de que aquilo era obra dela – o que já era assustador o suficiente – nós não podíamos fazer nada, e essa sensação era bem ruim. fez um comunicado muito ameaçador antes que eu e Camerom começássemos a nossa coreografia, dizendo que não aceitava sabotagens dentro da Wings, e muito menos vândalos, e que estava decepcionado por terem trancado um aluno no vestiário e também por terem destruído uma das câmeras de vigilância.
Já era noite, e eu estava deitada em minha cama, trocando SMS com o meu pai e . Eu tinha achado um lugar estratégico em minha cama onde o sinal do telefone funcionava de forma precária.
Eu queria muito contar a o que estava acontecendo comigo e , mas eu tinha medo. Eu mal consegui falar aquilo em voz alta para , e acho que não conseguiria repetir aquilo tão cedo.
As palavras de ficavam reverberando de forma insistente dentro da minha cabeça.
Meu celular vibrou. No visor, aparecia uma mensagem de um número desconhecido. Abri a mensagem e meu coração acelerou.
Podemos nos encontrar?
Xx

Um tremor chato e insistente se apossou das minhas mãos.
Ir ou não ir?
Uma grande parte dentro de mim gritava que eu deveria parar com aquilo antes que a situação se agravasse, e que a melhor opção seria pular fora do barco enquanto ele ainda não estava afundando. Porém, havia outra parte, a que tinha a voz mais potente, que gostava além da conta dos beijos e do calor do corpo de .
Era essa parte que controlava a maioria dos meus sentidos, e que me induzia a fazer loucuras como a que eu estava prestes a fazer.
Sim. Estou indo ao seu dormitório.
Apertei em enviar e saí do dormitório onde e dormiam de fininho. Os corredores ficavam praticamente desprovidos de iluminação àquela hora da noite, e eu me movi com bastante dificuldade.
Quando cheguei ao dormitório de , ele já estava na porta me esperando. Ele me puxou para dentro e fechou a porta atrás de si.
Eu o abracei fortemente, sentindo seu perfume suave me invadir. Olhei para ele de forma terna.
— Muito obrigada. O que você fez por mim foi... Incrível. Dançar hoje foi incrível.
deu um sorriso torto e afagou a minha bochecha de forma carinhosa.
— Eu não podia deixa-la sozinha.
— Como você sabia os passos?
coçou a cabeça, ficando vermelho e meio nervoso de repente. Foi engraçado vê-lo daquele jeito.
— Ahn... É que... Bom, os professores são orientados a fazer acompanhamento dos alunos nos ensaios das avaliações, só que de longe para que vocês não percebam. Nós não podemos interferir no processo criativo e no desenvolvimento de vocês.
— Entendi.
Olhei ao meu redor, reparando que o dormitório de era bem organizado e limpo. Havia uma cama de solteiro maior do que a minha, uma mesinha de cabeceira onde havia um porta-retratos, além de um armário e um sofá preto localizado no canto. Ele tinha seu próprio banheiro também, assim como imaginei que todos os professores tivessem.
— E então... Você está encrencado com o seu pai? — perguntei, dando uma pequena risada. Ele tinha no rosto um olhar distante quando fiz a pergunta.
— Eu sempre estou encrencado com o meu pai.
— Você fala muito pouco sobre a sua família e seus sentimentos.
deu um sorriso que só consegui denominar como malicioso. Ele se aproximou de mim devagar, me encurralando contra a parede. Eu fiquei nervosa e tensa.
— Eu não te chamei aqui para falarmos sobre a minha família. — disse ele, encostando-se em mim e colocando o rosto no vão do meu pescoço. mordiscou a minha orelha, e eu arfei com aquele contato.
Coloquei as minhas mãos em sua blusa social, encarando-o de forma tímida. Eu tinha certeza de que meu rosto pegava fogo, e sabia que ele tinha percebido, pois passou o polegar pela minha bochecha e retirou uma mecha do meu cabelo da frente do meu rosto.
— Relaxa, eu não farei nada que você não queira.
O timbre que ele usou para proferir aquela frase me deixou mais quente do que eu já me sentia. Eu não sabia bem que sensação era aquela, mas ela era boa. pegou meu rosto com delicadeza e depositou um beijo demorado em minha boca. Não demorou muito para que eu correspondesse o beijo com certa urgência, embrenhando minhas mãos em seus cabelos bagunçados e sentindo as dele passando por cada pedacinho da minha coluna.
Nosso beijo ficava cada vez mais desesperado e intenso, e eu sentia como se meu coração não fosse conseguir mais acompanhar.
Quando começou a beijar o meu pescoço, eu fiquei mais ofegante. Joguei a minha cabeça para trás, e ele segurou meus cabelos, fazendo a minha cabeça ficar inclinada para o lado para que ele pudesse ter total acesso ao meu pescoço. Meus olhos se fecharam imediatamente, e eu tive que morder os lábios para não deixar escapar qualquer som que fosse me deixar envergonhada.
Os lábios de pareciam ávidos, e deixavam uma trilha de beijos e mordidas que me deixaram arrepiada.
No entanto, quando voltamos a nos beijar, percebi que diminuiu um pouco a velocidade de nosso beijo. Eu estava meio desnorteada, mas pude notar que ele sabia os meus limites e estava respeitando-os.
— Você precisa descansar. — disse ele, me abraçando. — Amanhã tem a avaliação do monólogo e ensaio da peça de tarde.
— Você tem razão. Boa noite, .
— Boa noite, . Tenha bons sonhos.
Ele abriu a porta e depositou um beijo demorado em minha testa.
Eu tinha certeza de que aquela noite eu dormiria feito um anjo.

Eu havia acabado de fazer a segunda avaliação, e estava me sentindo bastante confiante sobre o meu desempenho.
A única pessoa que me preocupava no momento era a Deborah, que não parou de me olhar feio durante a minha apresentação e ainda tinha trancado o meu amigo dentro do vestiário masculino.
No entanto, a coisa mais estranha que tive de fazer hoje foi encarar o como meu professor e jurado, pois quando eu estava na sala de espera, eu o vi passando, e só esse pequeno ato fez meu coração acelerar. Meu rosto ficou corado, enquanto as cenas de ontem à noite preenchiam a minha mente.
Quando entrei na sala de avaliações, eu mal olhei para ele. Eu tinha certeza de que perderia o foco se eu o olhasse. Porém, quando terminei a apresentação, ele foi a primeira pessoa para quem eu olhei. Por sorte, não tinha mais aquele olhar carrancudo no rosto de antigamente, que costumava me assombrar sempre que eu passava a encará-lo.
Entrei no refeitório a procura dos meus amigos. Eu tinha sido a última a entrar para a avaliação e estava faminta. Peguei uma bandeja e coloquei quase tudo o que eu tinha direito no meu prato, indo na direção em que meus amigos se encontravam.
— Olha a puxa-saco do , meninas. — disse assim que passei perto da sua mesa.
— O que você teve que fazer para que o te ajudasse, hein? — perguntou Mel, uma de suas seguidoras.
— Nada, ele me ajudou porque quis.
— Todas nós sabemos que o não gosta de você. Diz logo, . Eu sei que você se faz de santinha, mas no fundo não passa de uma oferecida.
Ver e suas amigas me difamando daquela forma fez com que a raiva se apossasse totalmente do meu corpo. A minha visão escureceu, e minhas mãos tremeram como nunca antes em minha vida. Eu não queria revidar, não sou de responder afrontas com afrontas, mas se tem uma coisa que eu não suporto, é que falem mal da minha índole.
— Você vai chorar? — aproximou o rosto do meu, fingindo estar comovida.
Tentei respirar fundo e me conter, mas quando dei por mim, eu já tinha acertado um tapa bem forte no rosto dela.
Todos ao redor prenderam a respiração, e me encarou com uma expressão assustada.
Seu nariz estava sangrando.

Capítulo 19 - A Sombra

Uma das piores coisas de se fazer parte de um concurso do porte da Wings era a divulgação dos resultados e das pontuações. Eu sempre ficava nervosa demais quando os via, principalmente porque eu não estava nem entre os 10 primeiros na minha turma.
e – que ainda estava com o nariz machucado – pareciam estar tão apreensivas quanto eu.
Por incrível que pareça, a minha agressão a não fez com que ela prestasse queixa na direção. A única coisa que ela fez depois de perceber que seu nariz estava sangrando foi sair correndo em direção ao banheiro com os olhos marejados. Eu até tentei pedir desculpas, mas ela não me dirigiu a palavra nem para me provocar desde o ocorrido.
e Miles adoraram a minha atitude, alegando que eu a coloquei em seu devido lugar. Camerom disse que eu exagerei, e eu concordava com ele. Se ela tivesse prestado queixa, eu provavelmente estaria em New Haven agora.
Eu já tinha feito meu monólogo na tarde anterior, e os resultados já estavam pregados no mural de avisos. O monólogo que apresentei foi sobre , a personagem de uma série chamada Skins. Interpretei uma cena extra da série, em que ela faz um vídeo de terapia e fala um pouco sobre o que ela gosta e o que ela não gosta.
Acho que eu me saí bem.
e eu andamos de braços dados até o mural de avisos, ambas apreensivas. As pessoas já estavam amontoadas ali, algumas tentando empurrar as outras no intuito de enxergarem alguma coisa.
Nos aproximamos do mural de avisos. Meus olhos seguiram para a turma de e um suspiro aliviado escapou pelos meus lábios. Eu havia sido aprovada.
Fui para o ranking de desempenho e percebi que eu tinha subido apenas uma posição no ranking. De 22% fui para 21%, o que não era uma grande diferença para mim.
Miles e Camerom apareceram do nosso lado e logo comemoraram seus resultados, assim como .
— Aprovados! — Miles e Camerom gritaram juntos, atraindo a atenção de alguns bailarinos mais competitivos e antipáticos, que os fuzilaram com os olhos.
— Também estou aprovadíssima! — gritou , provocando com o olhar. Ela a ignorou, se virando para as suas amigas para dizer que havia subido quatro posições no ranking.
Algumas bailarinas que estavam ao meu redor começaram a chorar, e eu logo percebi que elas haviam sido eliminadas do concurso. Fiquei surpresa com a quantidade de eliminações que ocorreram nessa última semana, pois parecia que os jurados haviam mandado muito mais concorrentes para casa dessa vez.
Eu e meus amigos caminhamos juntos para nossas respectivas aulas de dança, conversando de forma animada sobre as peças de teatro que estávamos ensaiando.
Me despedi de Miles e quando eles entraram em sua sala e segui com Camerom até a turma de , sentindo-me nervosa. Afinal, eu ainda não sabia como agir em sua frente somente como uma aluna quando às escondidas nós éramos muito mais do que isso.
— Nós temos que ficar de olho na Deborah, . — Camerom disse, sussurrando. —Tenho quase certeza de que foi ela que tentou sabotar a nossa apresentação.
Eu tinha medo de acreditar na possibilidade de que uma professora do nível dela queria mesmo me prejudicar. Até porque era meio surreal que a Deborah quisesse me tirar do concurso por causa de um acidente. Eu não manchei a blusa dela por querer.
— Não é possível que tenha sido a Deborah. Ela não saiu da bancada uma única vez. — eu disse, tentando a todo o custo acreditar que não tinha ninguém querendo me ver fora da jogada.
Porém, quanto mais eu pensava sobre o assunto, mais a ficha caía. Logo me lembrei da conversa sinistra que a Deborah teve durante a festa de boas-vindas da Wings com um cara misterioso. Lembro que ouvi claramente o que ela dizia, sobre querer uma aluna fora do concurso.
— Ela pode ter mandado alguém para realizar o trabalho sujo. — respondeu Camerom, me olhando atentamente. Torci para que ele pensasse que meu nervosismo se devia somente a Deborah e suas sabotagens malucas.
— Isso faz mais sentido.
Entramos em um dos estúdios de dança. O número de alunos em sala havia reduzido bastante agora que os resultados já haviam sido divulgados. Isso prejudicaria um pouco a peça, se algum dos alunos eliminados fizer parte do elenco.
Abaixei a cabeça quando passei por , e pude sentir o peso de seu olhar sobre mim. Fui para uma das barras no fundo e comecei a me aquecer junto com os outros alunos.
— Bom dia, pessoal. — disse , sério e altivo. Com as mãos nos bolsos da calça, ele começou a se movimentar pela sala. — Como vocês devem ter percebido, o número de alunos reduziu ainda mais nessa última avaliação. As coisas agora começarão a dificultar e, para estender a estadia aqui, vocês terão que provar que são os melhores. A próxima avaliação acontecerá na próxima semana e será um pouquinho mais complicada. Vocês terão que se unir em trios, e esses trios serão compostos pelas pessoas que vocês dividem os quartos.
Algumas pessoas ao meu redor soltaram exclamações abafadas e começaram a reclamar. Eu fechei os olhos com força, tentando acreditar que isso não passava de um pesadelo, porque se não fosse, eu realmente me mataria. Como eu e iríamos realizar qualquer tipo de apresentação com a Rainha do Gelo ? Ela nos odeia, e eu ainda piorei as coisas quando bati nela. Mas que droga!
— Essa será a única avaliação da semana, e vocês terão que escolher uma música para cantar em conjunto, como se vocês fossem uma daquelas boybands ou girlbands. Além de cantar, é necessário que haja uma coreografia. Não precisa ser nada muito elaborado. Assistam vídeos de cantores que costumam dançar em suas performances e vocês entenderão o objetivo dessa atividade. Reservem os estúdios para começarem os ensaios. Quanto antes tiverem algo elaborado, melhor a apresentação de vocês irá ficar.
Eu e Camerom nos entreolhamos. Ele sabia bem o que aquilo significava para mim. Afinal, não é uma pessoa fácil de se lidar.
Eu estava ferrada.
— Não adianta reclamar, são ordens do concurso. — disse , ouvindo as reclamações de alguns alunos de forma impaciente. — Não sou eu quem organizo as provas que vocês terão que fazer. Agora, vamos praticar um pouco de Jazz. Estão todos aquecidos?
Assim como eu, evitava o contato visual comigo. Ele parecia mais tranquilo do que eu, e não deixou transparecer em nenhum momento qualquer tipo de nervosismo. Espero que isso não se deva ao fato dele já ter se acostumado a se envolver com alunas. Seria totalmente constrangedor se a nossa “relação” fosse apenas um fetiche idiota.
Começamos a praticar uns movimentos legais de Jazz. Quanto mais eu dançava, mais a sensação de que meus problemas estavam diminuindo surgia. Foi tão relaxante que eu quase me esqueci de que estava apaixonada pelo meu professor.

Assim que as aulas acabaram, fui direto para o quarto tomar um banho. O ensaio da peça de teatro aconteceria depois do almoço, e eu queria conversar com sobre a avaliação que nós teríamos que fazer.
Porém, quando eu entrei no quarto, vi que e já discutiam isso, só que de uma forma um pouco mais... agressiva.
— Nem morta que eu vou realizar qualquer tipo de avaliação com você! — gritou , atirando seu estojo de maquiagem em cima de , que recuou, com os olhos arregalados.
O estojo de se espatifou no chão, espalhando uma de suas sombras favoritas pelo carpete, o que fez a minha amiga ficar bem mais irritada.
— E você acha mesmo que eu quero fazer qualquer tipo de prova em conjunto com vocês duas? As duas patetas da Escola? Faça-me rir, ! — disse de forma debochada, levantando-se da cama e adotando uma postura de garotinha metida que conseguiu me irritar.
— Você se acha muito superior, não é mesmo? Mas quer saber de uma coisa? Você não passa de uma garotinha inútil e clichê, cujo talento é tão pequeno quanto o número de neurônios que existem dentro da sua cabeça! — ficou tão indignada que abriu a boca, sentindo-se insultada.
— Eu vou te matar! — berrou a loira, agarrando com força os cabelos de .
As duas começaram a se engalfinhar pelo chão, fazendo com que eu arregalasse os olhos. Fechei a porta do quarto, temendo que a discussão das duas chamasse a atenção dos curiosos que andavam pelo corredor.
— Ei, PAREM COM ISSO! — gritei, com medo de me aproximar demais e acabar apanhando também.
— Não se meta nisso, Little Rebel. Todo o mundo sabe que você anda dando em cima do professor . É a única explicação plausível para ele ter te ajudado na apresentação de dança.
Me senti altamente ofendida com aquela acusação. Eu sabia que estava errada em estar com o , mas as coisas não aconteceram da forma que estava dizendo. Eu não dei em cima dele, as coisas simplesmente... Aconteceram.
rolou pelo chão junto com ela posicionando-se em cima da loira. Minha amiga começou a sacudir sua cabeça como se ela fosse uma boneca de pano. arranhou os braços de , tentando fazer com que ela largasse sua cabeça, mas minha amiga estava tão raivosa que parecia que iriam sair faíscas dos seus olhos a qualquer momento.
— Não fale assim com ela, sua vadia! A tem muito mais caráter do que um dia você vai ter.
deu um tapa no rosto de e aproveitou o momento de choque de minha amiga para inverter as posições e ficar em cima dela.
Andei na direção delas para tentar separá-las, mas me puxou, e eu acabei caindo por cima de sua barriga, o que fez com que ela urrasse de dor.
— Sai de cima de mim, sua obesa!
— Foi você que me puxou, !
Ficamos rolando pelo chão por alguns segundos. Ambas ofegantes e descabeladas, até que eu me cansei daquela briga estupida e gritei.
— CHEEEGA!!
As duas pararam de se agredir, assustadas com o grito que eu emiti. Respirei fundo e fechei os olhos, tentando acalmar minha respiração, que estava descompassada.
— Galera, eu sei que é chato trabalhar com quem nós não gostamos, mas não há outra maneira de fazermos essa avaliação. Eu sei que vocês querem passar tanto quanto eu, então é importante que nós adotemos uma postura mais profissional pelo menos nessa situação. Vamos, por favor, deixar as diferenças de lado pelo menos dessa vez?
e olharam para mim, e pareciam entender o que eu estava querendo dizer. Ambas estavam ofegantes e descabeladas, o que seria bem cômico se não fosse uma situação tão chata.
— Tudo bem. — disse , levantando as mãos como estivesse se rendendo. — Mas só farei esse sacrifício porque não há alternativa.
A loira se levantou do chão com a mesma expressão azeda que eu já conhecia. Ela foi direto para o banheiro.
— Como se fosse uma dádiva fazer qualquer tipo de parceria com você.
— Chega. — Olhei de forma repreensiva para , que me lançou um olhar arrependido.
— Tá bom, desculpa. — disse ela, olhando para seu estojo de maquiagem jogado no chão. — Droga, aquela vadia quebrou meu estojo de maquiagem. Lá se vai a minha sombra preferida.
fez um biquinho, olhando com tristeza na direção do seu estojo. Olhei para ela e me esforcei para ficar séria, mas não consegui. Quando eu percebi, estávamos as duas jogadas no chão do quarto, rindo feito loucas.
saiu do banheiro e nos olhou de forma enojada.
Era uma pena ela não entender como a nossa amizade funcionava. Acho que nunca teve amigos verdadeiros.

Com a eliminação de vários candidatos, a peça de teatro que estávamos ensaiando teve que passar por algumas alterações.
estava empolgada com a peça de teatro e com o concurso, pois ela iria ser uma das próximas entrevistadas junto com mais dois candidatos que nós não conhecíamos.
Miles estava morrendo de inveja dela. Já Camerom nem parecia ligar.
Depois do ensaio, eu e meus amigos nos sentamos no campus da Wings para conversar. Nesse final de semana o diretor nos liberou para fazermos uma visita aos nossos parentes, devido ao feriado de Ação de Graças, e nós conversávamos de maneira empolgada sobre o que faríamos nessa data.
— Eu sempre reclamei dos meus pais serem chatos, mas agora sinto tanta falta deles que eu não vejo a hora de vê-los de novo. — disse , após ter tirado uma de suas inúmeras selfies. Ela estava tão empolgada com o fato de seus seguidores no Instagram terem aumentado e também com a entrevista que ela daria um dia antes de irmos visitar nossas famílias que não havia parado de tirar fotos.
— Mas é sempre assim. Nós reclamamos o tempo todo, mas quando ficamos longe sentimos falta de tudo, inclusive das ordens que eles dão. — disse Camerom, fazendo com que nós gargalhássemos.
— A minha mãe era assim também. — eu disse, tentando prender a vontade que eu tinha de chorar. — Sinto falta de quando ela me mandava lavar a louça e ligava o rádio. Ela começava a improvisar uns passos de dança e, quando eu menos percebia, eu já tinha me juntado a ela.
— Parece divertido. — Miles sorriu de forma amável para mim, enquanto segurava a minha mão. — Sua mãe devia ser uma pessoa muito bacana.
— Ela era mesmo.
Enquanto imagens de minha mãe preenchiam a minha mente, percebi que estava sentada sozinha. Ela parecia meio chateada, pois suas amigas, que estavam sentadas perto dali, pareciam ignorá-la com afinco.
— Eu não sei se quero ir para casa nesse fim de semana. — disse Miles, com um semblante pesaroso. — O clima ficou meio pesado desde que eu assumi que sou gay. Eu me visto de forma afeminada para irritá-los, e parece que acabei me acostumando em agir assim.
— Você se assumiu há quanto tempo? — Camerom perguntou, guardando o celular no bolso da frente da calça que usava.
— Me assumi três dias antes de entrar na Wings.
— Nossa... — disse, e eu sabia que ela estava tentando encontrar as palavras certas para dizer para Miles.
— O problema é que tem uma garota na minha turma que tem me deixado confuso. — Miles disse, com o semblante meio atormentado.
— Uma... Garota? — Camerom levantou uma das sobrancelhas, tentando descobrir se tinha entendido certo.
— Sim. O nome dela é Emily.
— Aquela loirinha bonitinha?
e Miles eram da mesma turma, portanto ela era a única que conhecia a tal da Emily.
— Isso. Sempre que eu a vejo eu me sinto esquisito, o que é totalmente estranho, já que eu sou gay.
— Mas isso é normal, Miles. O fato de você ser gay não te priva totalmente de se sentir atraído por alguém do sexo oposto.
Enquanto falava, senti o celular vibrar no bolso da calça. Desbloqueei a tela e vi que eu tinha recebido uma mensagem de texto de , que pedia para encontrá-lo no lugar onde nos beijamos pela primeira vez. Fiquei nervosa e inquieta, tentando pensar em alguma desculpa para sair de perto dos meus amigos.
— Pessoal, eu preciso dar uns telefonemas e também vou tomar um banho. Estou me sentindo um pouco suada do ensaio da peça e não quero ficar assim por mais tempo. — eu disse, já me levantando. me olhou como se soubesse o que eu iria fazer, mas Camerom e Miles pareceram não ter desconfiado de nada.
— Tudo bem, até amanhã. — disse Miles, enquanto Camerom acenava para mim.
— Nos vemos no alojamento, ! — exclamou , piscando maliciosamente para mim, o que era um aviso de que ela iria querer que eu lhe contasse exatamente o que aconteceu no meu “encontro” com o .
Assim que cheguei ao nosso cantinho, já estava lá. Ele parecia sereno naquele fim de tarde. Me sentei ao seu lado embaixo de uma árvore, e o assisti esboçar um lindo sorriso em minha direção, me dando um selinho logo em seguida.
— E então, o que você vai fazer no dia de Ação de Graças? — perguntei para ele, entrelaçando os nossos dedos de forma tímida. Me senti confortada pelo calor de sua mão.
— Aturar meu pai e o resto da minha família o quanto eu conseguir.
— É tão ruim assim estar na companhia deles?
— Você não faz ideia. — disse , esboçando um sorriso amargurado. — E quanto a você? Vai para New Haven visitar seu pai?
— Sim, eu estou muito ansiosa para vê-lo. Quando a minha mãe ainda era viva, ela fazia um banquete muito gostoso e reunia toda a família. , uma das minhas melhores amigas, sempre ia com a família dela. Eles sempre levavam um doce para comermos na sobremesa. Depois que ela se foi, meu pai nunca mais comemorou o dia de Ação de Graças.
Meu coração se apertou quando o rosto da minha mãe veio à mente. Sempre sorridente, em uma de minhas lembranças, ela cantarolava uma música dos anos 80 enquanto colocava a mesa. Essa época era sempre uma das mais difíceis para meu pai e para mim, pois nós sempre nos lembrávamos de minha mãe.
colocou um braço em volta dos meus ombros e me puxou para um abraço.
— Eu sinto muito. Sua mãe deve ter sido uma pessoa muito especial.
— Ela era sim. Eu sinto tanto a falta dela... Há dias em que eu quase me esqueço que ela se foi, mas existem outros que parecem que a dor nunca vai passar. A minha mãe era uma pessoa maravilhosa, e não merecia ter morrido daquele jeito.
Nós dois ficamos em silêncio por um tempo. As minhas lágrimas silenciosas molharam o pescoço de , mas ele pareceu não se importar. Seu abraço pareceu me acalmar um pouco, pois sempre que eu me lembrava de minha mãe, eu costumava soluçar como uma criancinha desesperada. Foi reconfortante descobrir que o me fazia tão bem.
— Sabe, eu também não tenho a minha mãe. Mas ao contrário de você, a minha me abandonou por causa do meu pai. Ele disse que ela era ingrata, e que o traía, mas eu achei uma carta que ela havia endereçado a mim, e que dizia que não aguentava mais o meu pai e que sentia muito. Ele tinha escondido a carta para que eu não lesse.
Fiquei surpresa com aquela confissão, pois era o tipo de cara que não se abria facilmente. Levantei o rosto para poder olhá-lo e reparei que seus olhos também estavam marejados.
— Eu... Não sabia. Sinto muito.
— Você é uma das poucas pessoas que sabem disso. Só o , o e o que sabem, além de você. — Ele deu mais um de seus sorrisos amargurados e sacudiu a cabeça para afugentar as lágrimas antes que elas caíssem.
— Eu nem sei o que dizer. — falei suavemente quando percebi que ele já encarava a minha boca. colocou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e me deu um sorriso.
— Então não diga nada.
segurou a minha nuca e me puxou com delicadeza em sua direção até que nossos lábios se encostassem. Eu posicionei minhas mãos no colarinho da camisa que ele usava, beijando-o de forma urgente. Só agora eu tinha percebido o quanto o queria, e o quanto precisava daquele beijo.
Apesar de saber da minha história, eu não sabia quase nada sobre a dele, e confesso que me senti importante quando ele me contou parte de sua história sobre a sua mãe. O engraçado era que quanto mais eu descobria coisas sobre ele, mais eu queria explorá-lo. Eu queria desvendar cada parte sua e cada segredo que completava o seu interior.
Nosso beijo se tornou cada vez mais urgente, e quando percebi as nossas mãos estavam em quase todos os lugares – pelo menos aqueles em que as mãos ainda eram permitidas – fazendo com que eu arfasse. era a pessoa mais intensa que eu já havia conhecido.
Quando quebramos o beijo, se levantou agilmente e estendeu a mão para mim, curvando-se em minha direção como um cavaleiro.
Mademoiselle...
— O que é isso? — perguntei em meio a risadas, dando a mão a e me levantando.
— Vamos dançar. — ele disse, envolvendo a minha cintura.
— Ok, vamos dançar! — Envolvi seu pescoço com meus braços, ainda me sentindo risonha.
Começamos a nos mover lentamente de um lado para o outro, presos em nossos olhares. tinha um sorrisinho nos lábios bem fofo, e eu acabei me esquecendo temporariamente de todas as coisas que tinham me entristecido.
segurou minha mão com delicadeza e me girou.
Eu parei em sua frente com um sorriso nos lábios.
Ele pegou na minha cintura, e aproximou nossos corpos, fazendo com que os nossos narizes se encostassem.
O sorriso que brincava em seus lábios fez com que o meu se abrisse ainda mais. Foi a primeira vez que não o enxerguei somente como meu professor de dança, foi a primeira vez que eu enxerguei o interior escondido do verdadeiro .
Nós nos beijamos outra vez, enquanto suspendia meu corpo no ar. Eu sorri, incapaz de continuar o beijo, e ele me rodopiou.
A sensação de felicidade durou mais do que eu podia prever, pois quando olhei para a frente, há alguns metros de nós, havia uma sombra escondida atrás da árvore.
Essa sombra parecia nos observar.

Capítulo 20 - Coração Partido

— Eu juro que estava aqui, ! — exclamei, apontando para a árvore onde eu havia visto a silhueta de uma pessoa.
Fazia mais ou menos uns 5 minutos em que eu e estávamos discutindo se a sombra que eu vi era real ou não. Afinal, eu me aproximei da árvore em que a silhueta parecia estar e não tinha encontrado absolutamente nada.
— Mas não tem nada aqui. — respondeu, olhando para mim. — Pode ter sido um animal ou talvez o reflexo dos refletores da escola.
Ponderei por alguns segundos, enquanto visualizava a sombra em minha memória. Será que eu estava tão paranoica ao ponto de ter imaginado tudo?
— Não, eu tenho certeza do que eu vi. — eu disse firmemente.
Um barulho no campo chamou a nossa atenção.
— O que foi isso? — perguntou, procurando a origem do barulho, e meu coração acelerou quando subimos o morro de terra e vimos a mesma silhueta correr para o lado oposto da escola.
se pôs a correr na direção da sombra.
!
Comecei a correr atrás dele, me sentindo cada vez mais aflita, com a certeza de que era mesmo uma pessoa que estava nos espionando.
Por estar um pouco escuro, eu não consegui enxergar muita coisa. Eu não via mais a silhueta, mas ainda continuava correndo, então imaginei que ele estivesse enxergando a sombra que vimos.
Ele parou de correr abruptamente e eu parei ao seu lado, ofegante. Coloquei as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.
— Ela sumiu. — disse , com o olhar pensativo e distante.
— “Ela?”
— Eu posso estar ficando louco, mas tenho certeza de que a silhueta que vimos era de uma mulher.
Empalideci. Várias coisas começaram a se passar na minha cabeça ao mesmo tempo. Eu tinha mesmo sido descuidada, pois era óbvio que tinham me seguido até aqui.
Queria me convencer de que estava errado a respeito da silhueta, e que havia algum ladrão nos arredores da Wings, mas como eu poderia me convencer de uma coisa que nem eu mesma acreditava?
— E se era a Deborah que estava nos espionando? — indaguei, com as mãos trêmulas e os olhos arregalados. — O que nós vamos fazer?
— Vai ser a palavra dela contra a nossa. — disse . Ele parecia um pouco tenso, e provavelmente se sentia tão preocupado quanto eu, só não demonstrava para que eu não ficasse ainda mais nervosa.
— E se ela tiver provas?
Eu estava prestes a ter uma síncope. Se for a Deborah a dona daquela silhueta, ou até mesmo algum aluno, tenho certeza de que vai ser uma questão de tempo até que o diretor saiba do acontecido. Eu seria desclassificada do concurso.
— Fique tranquila. Caso algo aconteça, eu vou cuidar disso. — disse , tentando me passar calma e confiança. Ele colocou as mãos em meus ombros e fixou seu olhar no meu. Seus lindos olhos azuis conseguiram calar as vozes dentro da minha cabeça. — Vai dar tudo certo, .
Nós nos olhamos profundamente, e quando o sinal do toque de recolher foi anunciado, percebi que era hora de irmos. e eu nos despedimos com um abraço rápido.
Não nos olhamos por muito tempo, acho que ele tinha medo de me olhar e acabar transparecendo todo o medo que sentia. Eu não o olhei, pois estava começando a me sentir cada vez mais culpada.
Enquanto eu ia para o meu alojamento, eu sentia o choro preso em minha garganta, louco para se libertar. Dentre todas as preocupações que circulavam dentro da minha cabeça, a maior delas não era sobre a silhueta feminina.
Alguma coisa em meu peito me dizia que esse era o último abraço que eu e demos, e essa sensação só se intensificava a cada passo que eu dava para longe dele.
Assim que cheguei ao meu alojamento, encontrei sozinha. Ela me olhou com um sorriso ansioso que logo se desfez quando viu a minha cara de choro.
— O que ele fez? — ela rosnou, fechando as mãos em punho. Passei os olhos pelo quarto, com medo de que aparecesse.
— A está por aqui? — perguntei só para confirmar, afinal, eu estava começando a ficar cada vez mais paranoica.
— Não. Acho que ela foi falar algo com o . — disse , cada vez mais séria. — Agora, sente-se aqui e me conte o que aquele ordinário fez.
Sentei em sua cama, bem de frente para ela e respirei fundo antes de soltar a bomba.
— Eu e o vimos alguém nos observando hoje. Ele acha que era uma mulher.
arregalou os olhos.
— O que? Como assim? E agora?
— Se for alguém que me quer fora do concurso, com certeza vai conseguir fazendo isso. — eu disse, já pensando no dia de amanhã. Eu irei arrumar as malas para passar o feriado de Ação de Graças em New Haven e talvez nem precise mais voltar.
— Talvez a pessoa não tenha visto nada. A pessoa estava longe de vocês?
— Um pouco. Parece que estava de mãos vazias, mas é difícil saber.
— Então fique tranquila. Sem provas, ninguém pode falar absolutamente nada. — Concordei com , mas ainda estava absorta em pensamentos. — No que você está pensando?
— Eu e o nunca iremos dar certo, amiga. Está na cara que o nosso “relacionamento” — fiz aspas com as mãos — vai acabar destruindo a minha carreira antes dela ter começado. Que futuro nós temos? Não podemos nem ser vistos juntos!
Por incrível que pareça, dizer tudo aquilo fez com que as lágrimas caíssem. Eu não tinha percebido até agora o quanto eu gostava do . O meu peito doía só de pensar na ideia de que nós dois não tínhamos nenhum futuro.
me abraçou apertado, afagando meus cabelos. Enquanto eu chorava, eu pensava em todos os arrependimentos que eu tinha no momento. Todos eles envolviam o .
Eu não devia tê-lo deixado entrar na minha vida. Afinal, quem em sã consciência se apaixonaria por um cara amargurado que te chama constantemente de Litte Rebel? Se eu não tivesse levado isso adiante, provavelmente eu não estaria chorando agora. Se eu tivesse sido cautelosa, não teria deixado nenhuma sombra nos observar. No entanto, chorar por tudo o que eu deixei de fazer não iria me ajudar a sair dessa situação.
Independente do que fosse acontecer de agora em diante, eu precisava manter a cabeça erguida.
Se o meu destino é vencer o concurso, eu vou conseguir chegar até esse sonho, mesmo que eu me machuque no caminho.
Mesmo que eu tenha que fazer sacrifícios.

O dia estava estranhamente tranquilo. Depois da aula de canto – que foi totalmente desconfortável por causa de –, foi anunciado que as peças que cada turma estava ensaiando seria apresentada daqui há algumas semanas. Porém, como amanhã nós iríamos embarcar para nossas respectivas casas, não haveria mais aulas pelo restante do dia, afinal nós ainda tínhamos que arrumar as nossas malas.
Eu não iria levar muita coisa, só algumas mudas de roupa mais confortáveis, meu dinheiro e alguns itens de sobrevivência, como meu MP4 – música é tudo – e alguns livros. Eu sabia que a viagem seria bem longa e exaustiva, mas eu estava animada, apesar dos eventos de ontem à noite.
Eu não vi mais o depois da aula de canto, mas vi a Deborah. Ela não me fuzilou com os olhos quando me viu, mas me cumprimentou educadamente com um animado “bom dia”. Eu fiquei meio atônita, mas consegui respondê-la antes que ela resolvesse voltar a me odiar.
Essa viagem vai ser boa para eu refletir sobre tudo o que me aconteceu nos últimos dias. Talvez o evento de ontem a noite tenha servido para me dar um aviso de que ainda dá tempo de sair de vez dessa maluquice.
Meu pai já estava sabendo que eu o visitaria, e tinha prometido que esse ano nós comemoraríamos o dia de Ação de Graças com tudo o que nós tínhamos direito.
Entrei em meu alojamento depois do almoço para arrumar as minhas malas e encontrei e conversando civilizadamente.
— Estamos tentando escolher a música que iremos apresentar na próxima avaliação. — explicou , vendo a minha cara de interrogação. — Por incrível que pareça, a que deu a ideia de escolhermos a música antes da nossa viagem.
revirou os olhos.
— Eu voto em Britney Spears. — disse, num tom petulante.
— Eu já disse que nós não vamos cantar nenhuma música dela! — ralhou a ruiva, irritada. — Prefiro mil vezes cantar alguma música da Beyonce.
— Se você não gosta da Britney, eu não gosto da Beyonce! — esbravejou , cruzando os braços.
— Porque não cantamos alguma música de girlband mesmo? — indaguei, me juntando a elas. — Vai ficar até mais fácil de dividir as vozes.
— Até que a Little Rebel pensa de vez em quando. — disse , me provocando. Revirei os olhos.
— Que tal Little Mix? — perguntou , com um sorriso enorme no rosto. Ela estava radiante, pois hoje ela seria uma das entrevistadas do concurso.
— Eu gosto delas... — disse , pensativa.
Depois de muito tempo tentando escolher uma música, decidimos cantar Word Up, da Little Mix. Por incrível que pareça, não houve nenhuma briga entre e , só algumas costumeiras alfinetadas entre as duas.
— Tenho que ir para a minha entrevista! — disse, pulando da cama. — Depois eu arrumo as minhas malas.
— Boa sorte! — eu disse, lembrando-me de como a minha entrevista foi um fiasco. Pelo menos a coletiva tinha sido.
— Depois eu te conto como foi. — saiu do quarto radiante e animada.
Tirei uma mala que estava embaixo da minha cama e comecei a separar os poucos pertences que eu levaria.
Olhei para , que estava sentada na cama observando um ponto fixo dentro do quarto. Seu rosto estava repleto de amargura. Fiquei me perguntando se ela tinha para onde ir no feriado.
— Não vai arrumar a sua mala? — perguntei de forma amigável, recebendo um olhar ferino como resposta.
— Isso não é da sua conta! — bradou ela, irritada. — Afinal de contas, não é como se eu tivesse para onde ir. Briguei com a minha mãe por telefone e provavelmente ficarei trancafiada aqui junto com a minoria que ficar.
— Ainda dá tempo de mudar de ideia. — eu disse, mantendo o tom de voz amigável. — Você cancelou seu voo?
— Ainda não. — disse ela, abaixando a cabeça. Coloquei algumas mudas de roupa dentro da mala, sentindo o silêncio que havia se instalado dentro do quarto. — Anda, vai em frente, ri de mim.
A voz de parecia meio melancólica. Percebi que eu não havia visto suas amigas por perto desde ontem.
, eu não sou você. — eu disse, dando um meio sorriso.
Ela me encarou de um jeito diferente. Não havia petulância e nem a sua costumeira arrogância, o que me surpreendeu bastante.
— Me desculpe por falar da sua mãe naquele dia. Acho que eu peguei pesado demais. Não que eu não tenha pegado pesado outras vezes, mas... — disse, se remexendo na cama de forma desconfortável.
— Tudo bem, relaxa.
Nós sorrimos uma para a outra. Pela primeira vez em todo o tempo em que estivemos na Wings, acho que aquela foi a primeira vez que nós tivemos uma conversa amigável.
— Acho que eu vou ligar para minha mãe. — se levantou da cama e se dirigiu até a porta. — Ela disse que iria fazer frango assado esse ano.
— Boa ideia. — respondi de forma encorajadora. Ela sorriu para mim e saiu do quarto.
Fiquei olhando para a porta assim que saiu, me perguntando constantemente se aquele diálogo realmente havia acontecido.

Já era madrugada quando eu acordei. Tanto o meu voo quanto o dos outros alunos sairiam daqui a algumas poucas horas. Eu estava ansiosa em ver meu pai, e Lucy novamente, mas não deixei de pensar em .
Minha mala grande já estava comigo no térreo, enquanto eu e meus amigos esperávamos os ônibus que a Wings tinha alugado para nos levar até o aeroporto.
Procurei , mas ele não estava por ali, o que me fez ficar um pouco chateada.
Olhei para o lado e vi com uma mala e sorri sozinha, vendo que ela realmente tinha mudado de ideia.
Miles era o mais desanimado do nosso grupo em ver a família.
— Ânimo, rapaz! Vai dar tudo certo. — disse , sacudindo os ombros do amigo. Ele deu um sorriso sem humor.
Camerom já estava com o seu chapéu do Texas na cabeça. Ele não conseguia conter a animação que sentia em rever a família.
Quando os ônibus finalmente chegaram, nos organizaram em filas e fizeram uma chamada. Eu e meus amigos queríamos pegar o mesmo ônibus, então ficamos juntos na mesma fila. Percebi que havia poucos alunos que iriam visitar suas casas no feriado. Quero dizer, em vista dos alunos que ainda tinham dentro do concurso, eu achei pouco.
De tempos em tempos, eu olhava para trás, na esperança de ver o uma última vez antes de ir. Eu sabia que só ficaria fora por três dias, mas eu estava confusa com tudo que tinha acontecido, e eu precisava ver seu rosto.
Eu gostaria de saber o que eu iria sentir se nossos olhos se encontrassem dessa vez. Se eu me sentiria culpada, nervosa ou feliz... Mas ele não apareceu, e a única conclusão que encontrei para seu sumiço é que se sentia tão culpado quanto eu.

Apesar de serem três horas da manhã, o aeroporto já estava cheio. Eu e meus amigos já apresentávamos sinais de cansaço, afinal, tínhamos acordado bem cedo para estarmos ali. Quando os nossos respectivos voos foram anunciados, eu e meus amigos nos abraçamos.
— Prometam que não vão se esquecer de mim. — disse, enquanto nos abraçávamos. Nós demos uma risada.
— Só ficaremos fora por três dias, não tem como nos esquecermos um do outro. — disse Camerom, ainda rindo.
— Vou manter contato em nosso grupo do WhatsApp. Por favor, não me deixem no vácuo. Se a minha família me matar e vocês me ignorarem, vocês serão os culpados. — Miles disse, brincando e provocando mais gargalhadas.
— Eu amo vocês.
— Nós amamos você também, .
— Feliz Ação de Graças.
Embarquei em meu voo, com um sentimento esquisito dentro do meu peito. Me instalei em meu lugar e coloquei meus fones de ouvido. Pensando nas longas horas que eu teria dentro daquele avião, acabei adormecendo.
Acordei assim que o avião aterrissou. Meio sonolenta, saí do avião em busca das minhas malas e do meu pai, que disse que me esperaria no aeroporto. Já era dia de Ação de Graças, então corri para pegar a minha única mala logo e comecei a procurar por ele.
Carreguei minha mala com um pouco de dificuldade e avistei meu pai parado com um buquê de flores na mão, no meio da multidão. Eu comecei a chorar na hora e me pus a correr com toda a dificuldade que eu tinha até ele.
Me joguei nos seus braços, sentindo os braços quentes de meu pai me envolverem em um abraço apertado e reconfortante. Como eu tinha sentido falta disso.
— Minha pequena ... — sussurrou papai, afagando meus cabelos com carinho. Percebi que a voz dele estava embargada.
— Eu senti sua falta. — eu disse, enxugando as lágrimas que caíram. Ele estendeu o buquê para mim e eu sorri.
— Eu também senti a sua.
Fomos conversando o caminho inteiro e, quando cheguei em casa, encontrei , Lucy, meus tios por parte de mãe e por parte de pai e meus avós por parte de mãe me esperando. A sala estava toda decorada para me receber, e segurava um cartaz que dizia: “Seja bem-vinda, !” que me emocionou ainda mais.
Papai colocou uma enorme mesa no centro da sala que estava regada de comida. Tinha uma travessa com um peru enorme e outra com um frango assado que cheirava muito bem, além de várias outras coisas gostosas, como sobremesas.
atravessou a sala correndo e me deu um abraço apertado.
— Senti sua falta, vaca! Nem respondeu mais os meus tweets... — fez um biquinho dramático que me fez rir.
— Acredite, eu acabaria com todos os caracteres do mundo se eu te contasse tudo o que vem me acontecendo somente pelo twitter.
deu uma risada.
— Eu me convidei para dormir na sua casa então, não se preocupe que você vai me contar tudinho antes de ir embora de novo amanhã à tarde.
Abracei meus avós, Lucy e meus tios e nos sentamos à mesa para comer. Afinal, eu tinha chegado em casa quase duas horas da tarde e eu só tinha comido uns biscoitos na viagem.
— E então, ? Como é a Wings? — perguntou Lucy, ansiosa.
Eu comecei a me lembrar de quando cheguei à Wings, dos ensaios, das aulas... De . E reprimi o restante dos pensamentos. Limpei a garganta e respirei fundo antes de responder.
— Lá é... Incrível. Os professores são ótimos, só que o ensino e os treinos são bem puxados.
— Eu percebi que você está muito magrinha. A comida que eles servem lá é boa? — perguntou vovó, lutando com o pedaço do frango que estava em seu prato.
— É sim. Nós temos todas as refeições lá no colégio.
— Estamos tão orgulhosos! — disse minha tia por parte de pai, falando de boca cheia e me olhando de forma maravilhada. — Adorei ver você na televisão.
— E o fã clube que fizemos tem crescido a cada dia. — completou , orgulhosa, bebericando seu suco logo em seguida.
— Sua mãe ficaria orgulhosa, disso não tenho dúvidas. — Vovô disse, sorrindo para mim. Eu também sorri, me contendo para não começar a chorar.
— Depois de tanto tempo sem comemorarmos essa data importante, eu finalmente consegui achar um motivo para comemorar o dia de Ação de Graças! — disse papai, pegando em minha mão.
Depois de comermos juntos e agradecermos a Deus por todas as coisas boas que nos aconteceram, ficamos conversando. Meus familiares estavam cada vez mais empolgados a cada detalhe novo que eu contava a eles sobre a Wings.
Quando anoiteceu, me despedi dos meus avós, tios e também de Lucy, que me deu um chaveiro lindo com uma bailarina.
Papai anunciou que iria dar uma passada no supermercado e eu e fomos para o meu quarto. Fazia tanto tempo que eu não entrava ali que um sentimento de nostalgia me atingiu.
Nos sentamos em minha cama e me olhou de um jeito curioso.
— Pronta para me contar as novidades que você não pôde contar para todo o mundo?
Respirei fundo, e hesitei, com medo do que iria pensar de mim.
— Vou começar então. Você sabe que o é o meu professor, não é? — ela acenou positivamente com a cabeça. — Então, nós começamos a nos aproximar um do outro e nós estamos tipo... Juntos.
— O QUÊ?! — arregalou os olhos e cobriu as mãos com a boca, rindo de um jeito histérico. Ela sempre ficava assim quando eu lhe contava algum segredo tenso. — Eu quero muito dizer “, sua maluca!”, mas a única coisa que se passa na minha cabeça agora é que isso é muito excitante.
! — ralhei, ficando vermelha de vergonha.
— Eu sabia que tinha alguma coisa entre vocês dois, eu sabia! — ela disse, comemorando de felicidade, como se tivesse acabado de descobrir que unicórnios existiam.
— O problema é que nós vimos alguém nos observando ontem e eu estou com muito medo. — eu disse, abaixando a cabeça e encarando as minhas mãos. Lembrei-me de que não se despediu de mim e nem se preocupou em me mandar uma mensagem, fiquei ainda mais triste do que já estava.
— E você está pensando em terminar tudo. Acertei? — Acenei positivamente com a cabeça mais uma vez. me entendia somente olhando para mim, e eu achava isso incrível. — Amiga, você gosta muito dele?
— Mais do que eu pensava.
— Você acha que vale a pena insistir no que vocês têm?
Os poucos momentos que eu tive com o me proporcionaram mais alegria do que eu podia imaginar. Eu gostava da sensação dos seus lábios contra os meus, e dançar com ele me enchia de paz e tranquilidade. Mas não era só isso. Eu sentia que a cada dia que eu ficava junto com ele era como se o sentimento aumentasse.
— Eu... Não sei. Há muita coisa em jogo.
— Você não vê futuro nisso. — ela observou, me olhando atentamente. Minha amiga estava quase se formando em psicologia, então seu modo de me entender somente me olhando tinha se ampliado com seus conhecimentos. — Amiga, quantas vezes você se permitiu abrir o coração para alguém? Eu acredito que esse não seja um idiota. Se ele se envolveu com você, é porque ele realmente não consegue lidar com esse sentimento. Eu acho que pelo menos dessa vez, você deve se permitir amar.
— Mas...
— Eu sei que é assustador e que dá um enorme frio na barriga, mas se você se sente bem ao lado dele, que mal tem? E se essa tal pessoa que observou vocês tentar te prejudicar, ligue para mim, que eu saberei resolver o problema. — deu um sorriso predatório que me fez dar uma risada alta. — Daqui a alguns meses o concurso termina e eu tenho certeza de que você chega a final. Quando isso tudo acabar, vocês podem até assumir o romance.
Eu dei um sorriso para a minha melhor amiga e a abracei fortemente. Eu gostava da forma como ela me vivia me tranquilizando. Era como se as minhas ações não eram tão ruins quanto eu pensava. Claro que aquilo não apagou a culpa que residia em meu peito, mas fez com que um pequeno alívio tomasse conta do meu coração.
Ficamos conversando por um bom tempo, o que me fez contar a ela sobre Deborah e , depois meu pai se juntou a nós.
O cansaço começou a me atingir. Papai percebeu e nos desejou uma boa noite, e e eu adormecemos antes que eu pudesse respondê-lo.

Eu, meu pai, Lucy e já estávamos no aeroporto. Meu dia tinha se passado como um foguete e eu fiz de tudo para aproveitá-lo. Visitei o estúdio de ballet onde eu fazia aulas junto com meu pai e , e depois tomamos um sorvete. Respirei o ar de New Haven com um sentimento bom dentro do peito.
Quando meu voo foi anunciado, lágrimas preencheram nossos olhos. Abracei fortemente Lucy e - que pediu para que eu convencesse o diretor da Wings a colocar Wi-fi para os alunos - e me joguei nos braços de meu pai.
— Eu te amo, papai. — eu disse, sorrindo em meio às lágrimas que já caíam. Papai enxugou as minhas lágrimas e deu um beijo no topo da minha cabeça.
— Eu também te amo, querida. Cuide-se e arrebente. Nós estaremos aqui torcendo por você.
Acenei para todos e caminhei em direção ao meu voo. Não matei toda a saudade que eu podia, mas, pelo menos, deu para amenizar um pouco a angustia em meu peito.
Enquanto eu voava de volta para casa, fiquei pensando nas palavras de incentivo de . Talvez ela esteja certa. Talvez haja esperança para eu e .
Cheguei de madrugada na Wings, junto com meus amigos, que estavam exaustos de suas respectivas viagens. Nós nem conversamos muito, cada um foi direto para seu respectivo alojamento.
Quando eu estava quase me deitando, meu celular vibrou. Eu desbloqueei a tela e levei um susto ao ver uma mensagem de no visor.
“Preciso te encontrar.”
Xx
Minhas mãos começaram a suar e meu coração logo se descontrolou. Saí de mansinho do quarto e caminhei com cautela, olhando para trás de 2 em 2 minutos.
Eu o avistei em pé no morro de terra e grama, com as mãos nos bolsos. A ansiedade corroeu o meu peito e eu corri até , querendo dizer que estava tudo bem, que eu queria ficar com ele, mas quando parei em sua frente, percebi que ele estava sério e frio.
— Nós precisamos parar com isso.
Uma primeira pontada atingiu o meu coração, me fazendo ficar desnorteada.
— O... O que?
— Eu andei pensando, e acho que é muito arriscado para nós dois se continuarmos com isso. Melhor que isso acabe antes que alguém se machuque. — disse, com sua postura firme e inabalável. Meu coração se apertou quando percebi que ele estava voltando a ser o mesmo mal humorado que eu conheci.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu lutei para que nenhuma gota caísse na sua frente.
— Concordo, afinal nós não daríamos certo, não é? Você não poderia mesmo dar a mão para mim na frente de todo o mundo, e nunca poderíamos ir ao cinema. — falei de um modo um pouco agressivo, que não fez com que sua expressão se afetasse.
Eu sabia que estava certo, mas, ainda assim, eu sentia raiva por saber que era ele quem desistiria de nós dois primeiro.
— Isso aí. Nós não temos futuro nenhum e é melhor encararmos isso agora. — ele imitou o meu tom de voz, mas seu rosto ainda era desprovido de emoções.
— Tudo bem. — eu disse, me contendo para não chorar. O olhei com toda a raiva que circulava pelo meu corpo. — Até amanhã, professor .
— Até amanhã, Little Rebel.
Me virei com as lágrimas já escorrendo pelo meu rosto e comecei a caminhar em direção ao prédio da Wings.
Eu fui para New Haven sentindo que tudo deveria terminar, e voltei confiante de que eu e poderíamos passar por todos os obstáculos para ficarmos juntos, mas agora eu percebo que nem ele via possibilidades nisso. Talvez essa seja mesmo a coisa a fazer, e eu quero muito acreditar que esse é definitivamente o fim, mas eu não consigo ficar bem com isso.
Eu protegi o meu coração de tudo e de todos depois que a minha mãe morreu. O único cara do qual eu não consegui protegê-lo conseguiu destruí-lo com meia dúzia de palavras.
Foi com muita tristeza que eu percebi que aquela foi a primeira vez que eu tive o meu coração partido.

Capítulo 21 - A aluna enfrenta o professor

Estar rodeado por tantas pessoas era cansativo para alguém como eu, que já estava acostumado a ficar solitário em minha própria bolha de amargura e infelicidade. O dia de Ação de Graças foi tão hipócrita quanto o meu pai e seu círculo seleto de amizades.
Inicialmente não era nem para estarmos comemorando um feriado daquele tipo, mas meu pai insistiu que seria bacana entrar no clima de harmonia junto com os alunos da Wings e eu resolvi que era melhor não contrariá-lo. Dei sorrisos fingidos, fiz parte de assuntos dos quais eu não entendia e nem fazia a mínima questão de entender e fingi que eu e meu pai éramos um exemplo de família feliz, o que não era nem de longe verdade.
Deitado em minha cama, eu só conseguia pensar no quanto era ruim estar ali naquele alojamento sozinho. Eu havia acabado de chegar na Wings e já havia quebrado o coração de uma garota que eu já começava a achar incrível. Quando eu a vi pela primeira vez, entrando no estúdio de dança daquele jeito inseguro e afobado, eu pensei que ela seria a primeira garota que eu teria prazer de eliminar do concurso. Porém, quanto mais eu a via, mais eu sentia que ela tinha um tipo diferente de potencial, um potencial que me agradava, e, que se fosse trabalhado, poderia realmente ser capaz de chegar até as finais desse concurso, o que só me deixava mais intrigado.
Eu queria fazê-la chegar ao limite, testando-a ao máximo, e me surpreendi quando vi que era mais forte do que aparentava ser.
Eu enxergava nela muita dor, tristeza e vulnerabilidade. Mas também enxergava potencial, talento e força. Acho que nem ela sabe do que é capaz, e isso me assusta, porque na maioria das vezes, nem eu mesmo sei.
Não estava nos meus planos beijá-la, ou me envolver, mas aconteceu e eu me arrependo amargamente disso. é minha aluna e eu sei que ela pode sair muito mais prejudicada do que eu nessa história toda, e eu não podia permitir que a minha garota fosse eliminada do concurso por meu egoísmo.
Claro que antes de tomar essa decisão, eu conversei com os caras. Depois que eu e vimos aquela sombra, eu ainda tinha dúvidas sobre o que fazer com o nosso... Relacionamento.
Foi no dia de Ação de Graças, quando meu pai e todos os seus amigos saíram para beber que me abordou, olhando-me como se estivesse diante de uma pesquisa muito intrigante.
, você está com a mesma cara de quando comeu aquela garota horrorosa do 3° ano na casa dela e os pais pegaram vocês dois no flagra. — disse , divertido, tamborilando os dedos nos lábios logo em seguida, enquanto olhava para cima e franzia o cenho. — Qual era mesmo o nome dela? Nancy?
— Era Tracy, e cale essa boca! — exclamei, dando um tapa no braço do meu melhor amigo. e se juntaram a nós dando risadas.
— Foi realmente uma cena engraçada. — disse, fingindo que estava segurando uma arma imaginária. — O pai apontou uma espingarda para você e te expulsou da casa dele. Você teve que sair correndo de lá pelado.
— As pessoas falaram disso por diversas semanas! — disse em meio a risadas, imitando o jeito desesperado como corri aquele dia. Eu estava completamente bêbado quando fiquei com ela, mas os caras riam de mim até hoje quando se lembravam da história.
Quando as risadas cessaram, colocou uma das mãos em meu ombro e me olhou de um jeito preocupado.
— Dude, agora eu falo sério. O que aconteceu com você?
— É, cara você tá péssimo. — completou , e eu senti a preocupação dos meus melhores amigos em cima de mim.
— E eu sei que não é só por causa dos canapés que o seu pai serviu hoje. — A frase de arrancou risadas dos meus amigos e, de mim, apenas um riso baixo e sem muito entusiasmo.
Eu queria muito falar sobre o que estava acontecendo, mas tinha muito medo da reação que os meus amigos teriam. Eu sei que eles não são santos, mas eu ainda tinha um pouco de medo dos julgamentos das outras pessoas, mesmo que essas pessoas sejam meus melhores amigos.
Suspirei, sentindo que eles não me deixariam em paz enquanto eu não dissesse logo o que estava acontecendo.
— Vocês prometem que não irão me julgar? — perguntei, fazendo com que os três acenassem de forma positiva com a cabeça. — Se lembram da , aquela minha aluna? Então, eu meio que estou ficando com ela.
, e me olharam como se estivessem diante de um E.T.
— O QUE?!? — gritou, olhando-me espantado.
— E o pior é que nós vimos alguém nos espionando e agora eu não sei o que fazer, porque parece que as coisas estão ficando cada vez mais sérias entre nós e...
— Como isso aconteceu? — perguntou , curioso enquanto me interrompia.
— Nós fomos nos aproximando aos poucos e, quando eu percebi, nós já estávamos juntos. As coisas ficaram mais intensas do que eu pude imaginar e, sei lá, parece que eu realmente estou gostando dela, o que é esquisito, já que faz um bom tempo que não me sinto assim em relação a ninguém. — confessei, olhando para baixo.
A verdade é que desde que eu e a começamos a nos envolver e nós não pensamos nas consequências disso. Eu não queria admitir que ela realmente mexia comigo, mas, agora, falando em voz alta tanto para mim quanto para os meus amigos, eu percebi que eu realmente sentia aquilo. E por mais que eu não quisesse sentir, eu não conseguia me livrar desse sentimento.
, nós somos seus amigos. — disse , me olhando fixamente. — Nós nunca te julgaríamos. Eu só acho que isso é perigoso tanto para você, quanto para ela.
— Principalmente para ela. — completou , recebendo de um tapa na nuca.
— Eu tenho uma queda por uma aluna, e sempre que ela tem a oportunidade de flertar comigo, ela a agarra com unhas e dentes, mas eu tenho resistido porque sei que essa história pode acabar mal. — disse, olhando-me como se compreendesse a forma como eu me sentia.
— Mais cedo ou mais tarde, as pessoas irão descobrir sobre vocês. Se essa pessoa que os viu resolver abrir a boca, as chances dessa menina no concurso estarão arruinadas. E mesmo que vocês tenham sorte de ninguém descobrir nada durante o concurso, vocês não poderão namorar escondido a vida toda. — disse, soando sincero. Eu assenti com a cabeça, tendo a plena consciência de que ele estava certo.
— Não cabe a nós dizermos o que você tem que fazer, eu imagino como deve ser difícil estar numa situação como essa. Nós sabemos que faz tempo que você não se relaciona com ninguém, e que essa situação é bem excitante, mas quero que você esteja ciente dos riscos que está correndo caso decida seguir adiante com essa situação. — alertou-me , abraçando-me de lado.
— Independente da decisão que você for tomar, pode contar conosco. — completou , sorrindo.
— Seu segredo está a salvo com a gente, . — disse, apertando meu ombro e dando tapinhas amistosos nas minhas costas.
Quando os meus amigos foram embora, eu fiquei pensando na conversa que tivemos. Foi difícil tomar essa decisão, mas eu sabia que a estava tão aflita quanto eu em relação à mulher misteriosa que nós vimos. Talvez aquilo tenha sido um aviso de que ainda há tempo de sair dessa, e eu não podia mais ignorar o perigo que nós estávamos correndo somente por estarmos juntos. Eu queria entender todos esses sentimentos, e talvez a melhor maneira de fazer isso seja estando longe dela.
E foi o que eu fiz. Foi difícil encarar seus olhos cheios de lágrimas e seu tom de voz ressentido, mas eu não podia vacilar. Eu sempre fui um perito em esconder as minhas emoções e essa habilidade foi bem útil na hora de dizer a que nós não podíamos seguir adiante com aquilo.
No entanto, por mais que eu tentasse me convencer de que fiz a coisa certa, algo dentro de mim me dizia que afastá-la de mim tinha sido um dos maiores erros que eu já pude cometer.
Estar naquele alojamento estava me sufocando, parecia que eu ainda conseguia ouvir a voz de e seu choro enquanto ela se afastava. Acho que aquilo iria me assombrar pelo resto da vida.
Fechei os olhos, tentando me concentrar na fachada despreocupada e fria que eu iria ter que aderir amanhã diante dela, mas o meu coração já doía só de pensar em ter que fingir para ela.

No dia seguinte, eu caminhei de forma robótica até o estúdio de canto, deixando todas as pessoas que me cumprimentavam falando sozinhas. A maioria eram alunos que gostavam de puxar saco dos professores, achando que assim teriam alguma preferência na hora das avaliações.
Professoras como Deborah adoravam alunos puxa saco. Quanto a mim, se pudesse, eliminaria a maioria dos alunos que acham que irão ganhar alguma coisa bajulando os professores.
Entrei mais cedo do que de costume no estúdio. Arrumei algumas partituras que usaria na aula para me distrair, mas a minha cabeça continuava presa no que tinha acontecido ontem. Como é possível um homem como eu se apaixonar de novo depois de tanto tempo? Eu já tinha me convencido de que meu coração não era mais capaz de se interessar por alguém, e apareceu na minha vida para me provar justamente o contrário.
A minha vida sempre foi bem complicada. Meu pai nunca demonstrou o menor tipo de afeto por mim. Estava sempre me criticando, dizendo que eu tinha que ser o melhor. Por mais que eu seja um dos artistas mais consagrados atualmente, para ele, eu ainda estou longe de ser o melhor. Na verdade, acho que para meu pai eu nunca serei bom o suficiente em nada.
Eu o culpo até hoje por minha mãe ter nos abandonado, e sei que a maior parte do meu jeito frio de ser foi por conta do tratamento que meu pai me deu desde criança. Ele me fez odiá-lo, e odiar também a maioria das pessoas. Não sei como eu ainda tenho a amizade dos caras. Acho que eles são os únicos que me conhecem de verdade.
também conheceu uma parte de mim. Uma parte legítima de como eu era antes de começar a me tornar o cara amargurado que eu sou hoje. Ninguém além dos caras tinha me visto sorrir como ela viu. Nenhuma das garotas com quem eu já me relacionei – e isso inclui a Deborah – me viram como eu sou.
Na verdade, acho que elas nem se importavam muito com o meu jeito reservado, fechado e calado de sempre. Claro que as garotas reclamavam algumas vezes, mas eu sabia que eu não ficava em suas cabeças de vento por mais de 5 segundos.
O barulho da porta se abrindo me assustou, e eu parei de arrumar as partituras. Os alunos foram entrando na sala, mas eu não a vi.
O estúdio foi enchendo de alunos animados, que conversavam sobre as visitas que fizeram aos seus parentes. Vi Camerom, um dos seus amigos, entrar sozinho e comecei a me preocupar. E se não viesse a aula por minha causa?
Essa dúvida não ficou por muito tempo em minha mente, pois eu logo a avistei, entrando na sala daquele jeito tímido de sempre. Ela não me encarou nenhuma vez, e foi se sentar ao lado de Camerom. Eu não gostava muito do cara, mas vivia grudada com ele e com o restante do seu grupo de amigos. Era bem nítido o interesse que ele tinha nela. Será que não percebia isso?
Fechei as mãos em punho e decidi começar logo a aula de hoje, que seria mais teórica do que prática. Dei um bom dia frio para a turma e comecei a encher o quadro de informações. Ouvi alguns suspiros desanimados, mas eu não estava com saco de ouvir ninguém cantando. Eu só queria explicar tudo o que eu estava escrevendo e deixá-los copiando até que essa aula terminasse.
Enquanto eu explicava a matéria, percebi que e Camerom estavam cochichando um com o outro. Aquilo me irritou profundamente. Eu tentei ignorar e continuar a minha aula, mas a raiva que tomou conta de mim começou a tomar proporções gigantescas.
— O cochicho de vocês deve estar mais interessante do que a aula, não é mesmo, Little Rebel? — indaguei, lançando em sua direção um dos meus melhores sorrisos sarcásticos. Ela empalideceu em seu lugar, mas se recompôs em questão de segundos.
— Eu prefiro que você me chame pelo meu nome. — disse , séria em seu lugar. Percebi que ela parecia um pouco insegura em me enfrentar, mas conseguiu dizer o que queria sem parecer uma garotinha assustada.
— Essa é a minha aula, e eu chamo você do que eu bem entender.
Eu dei uma risada repleta de escárnio. Vi que ficou ainda mais irritada com a minha atitude.
— Acontece que Little Rebel não é o nome que consta na minha certidão de nascimento.
Confesso que fiquei surpreso com aquela atitude. Disfarcei ao máximo a expressão perplexa que queria tomar conta do meu rosto, substituindo-a por fúria e indignação. O restante dos alunos olhava para nós dois com o mesmo nível de perplexidade que eu estava lutando para disfarçar.
— Pessoal, continuem copiando a matéria. — eu disse para a turma, direcionando o meu olhar a no instante seguinte. — Little Rebel, venha comigo, por favor.
se levantou, e parecia nervosa de todas as formas possíveis. Ela me seguiu para fora da sala e eu a levei para o escritório onde eu costumava ficar quando não estava em horário de aula.
Tranquei a porta atrás de mim, sentindo-me nervoso por estar sozinho com ela e também desconfortável por ter que fingir que nada tinha acontecido desde que voltamos para a Wings.
— Você quer levar uma advertência? — perguntei, cruzando os braços e assumindo uma postura de seriedade.
me olhou de forma incrédula.
— Advertência? Você está me tratando como se nós... Como se eu fosse aquela mesma aluna que você achava ser um problema.
— E como você quer que eu te trate depois dos cochichos que você e seu amiguinho estavam dando na minha aula? — Levantei uma das sobrancelhas e a encarei de forma irônica. Eu estava tão exaltado quanto ela, mas não queria dar o braço a torcer.
— Ele só estava me pedindo uma caneta emprestada! E eu respondi com uma piada sobre eu não ter canetas sobrando!
— Pois me pareceu muito mais do que isso.
— Você não precisa me tratar daquela forma! — ela exclamou, indignada e com o rosto vermelho. Percebi que ficava ainda mais bonita irritada. Era um lado dela que eu ainda não tinha visto de perto. — Nós não estávamos atrapalhando a sua aula!
— Você é muito ingênua mesmo. – eu disse, cansado de fingir que não estava ligando para ela. — Aquele garoto só estava arrumando uma desculpa para falar com você.
— E porque ele faria uma coisa dessas, ? — ela indagou, aproximando-se de mim de forma arfante.
— Porque ele gosta de você! — exclamei, levantando o tom de voz mais do que gostaria. parou por uns instantes, me olhando de um jeito que quase me enlouqueceu.
Eu só queria prensá-la contra a parede e beijá-la como se fosse a primeira vez.
— E qual é o problema nisso? Não é possível que você esteja com ciúmes de mim. — ela disse, negando várias vezes com a cabeça.
— Talvez eu esteja! — falei, encarando a sua boca com desejo. Os olhos de se tornaram mais amáveis quando ela ameaçou tocar meu rosto.
, você disse que nós...
Ouvi um barulho perto da porta da sala em que estávamos e abri a porta, interrompendo-a, temendo que alguém estivesse ouvindo tudo atrás da porta.
— Espera um pouco...
Saí da sala, virei o corredor e vi e Deborah conversando de uma forma bem suspeita. Elas estavam sussurrando e pareciam não querer que as vissem. veio atrás de mim, mas eu segurei seu braço e pedi que ela fizesse silêncio. Apesar de ter quase certeza de que ninguém tinha ouvido nada do que eu e ela dissemos, algo dentro de mim me dizia que aquelas duas tinham tentado.
E, se uma delas fosse dona da silhueta da última noite que e eu estivemos juntos de verdade, eu iria me vingar. Enquanto eu fosse um dos professores dessa escola, ninguém mais ia se meter com os sonhos dela.

Capítulo 22 - 27 Chamadas Perdidas

O clima Londrino estava agradável naquele dia, o que fez com que um pouco da tristeza que eu sentia saísse do meu peito. Fazia quase uma semana que eu e não nos falávamos, e ficava cada vez mais difícil aceitar que nós terminamos algo que eu ainda tentava entender como havia começado.
Temos evitado nos olhar durante as aulas e Cameron acabou ficando ligeiramente desconfiado, já que eu agia de forma estranha durante as aulas de . Por sorte, convencê-lo de que o meu comportamento se devia ao fato de que eu estava preocupada com a Deborah foi mais fácil do que eu pensava.
Desde que eu e a vimos acompanhada de eu me sinto incomodada. As desconfianças de em relação ao caráter de nossa companheira de quarto logo invadiram a minha mente e eu comecei a me sentir desconfortável perto dela.
Os nossos ensaios para a próxima avaliação estão sendo um desastre, pois discorda das minhas ideias e as de o tempo inteiro, e eu tenho quase certeza de que, se continuar desse jeito, nós seremos eliminadas do concurso.
A única coisa que me anima é que a peça que todas as turmas estão ensaiando serão apresentadas amanhã à noite. Hoje faremos um ensaio geral incluindo iluminação, sonoplastia e figurino.
Eu andava pelo corredor da Wings de forma tranquila quando vi Deborah segurando um copo de cappuccino da Starbucks. Ela falava baixo ao telefone, mas parecia exaltada de alguma forma. Assim que ela me viu, desligou o telefone e ficou me encarando fixamente antes de caminhar na minha direção.
Parei no meio do caminho e olhei para os lados, percebendo que o corredor estava completamente vazio. Tentei parecer tranquila, mas algo dentro do meu estômago se revirava de nervoso.
— Faz tempo que não nos falamos, . — Deborah parou em minha frente e me lançou um sorriso repleto de malícia. Seus olhos me analisavam como uma raposa faz com a sua presa quando está prestes a dar o bote.
— É. Se não se importa, eu estou atrasada.
Desviei de seu corpo e fiz menção de que continuaria o meu caminho, mas Deborah se colocou novamente em minha frente.
— Pra quê a pressa? Está indo se encontrar com alguém?
Seu tom de voz era fingido e repleto de insinuações, o que fez com que eu ficasse em estado de alerta. Deborah sabia que havia algo entre eu e o . Se ainda não sabia, estava desconfiada disso.
Cruzei os braços acima do peito e franzi o cenho, fingindo que estava confusa com a sua pergunta.
— Porque quer saber?
Deborah abriu mais um sorriso indolente. Seus olhos azuis carregavam um brilho esquisito, e ela se aproximou um pouco mais de mim, tentando me intimidar.
— Então os boatos são mesmo verdadeiros...
— Que boatos?
— Os boatos de que você respondeu o professor na aula. — disse ela, citando-o pela primeira vez na conversa. Respirei fundo e tentei me manter séria e inexpressiva. — Sabe, eu estou muito curiosa para saber de onde você tirou tanta coragem para respondê-lo.
— Não foi tão difícil quanto você faz parecer. — eu disse, fazendo com que Deborah me encarasse de um jeito estranho. O sorriso falso que ela estava esboçando finalmente tinha sumido, mas o tom de sua voz ainda soava de forma natural.
— Sabe, , garotas como você são facilmente iludidas. Acho que você deveria tomar cuidado com o que faz aqui dentro.
— Onde quer chegar? — perguntei, sentindo-me completamente irritada pelas suas provocações.
Antes que Deborah pudesse me responder, apareceu.
— O que está acontecendo aqui? — ele indagou, olhando para Deborah de forma furiosa e depois pousando seus olhos em mim. — , você não deveria estar ensaiando sua coreografia com as meninas?
— Nós só estávamos... — tentou Deborah, sendo brutalmente interrompida por .
— Não me interessa ouvir a sua voz, Deborah. Não quero você importunando a minha aluna outra vez. — disse ele, fazendo com que Deborah arregalasse os olhos em ultraje. Contive a vontade de dar uma risada. — , vá para o estúdio. As meninas já estão lá te esperando e é bem capaz que elas se matem se você não chegar logo.
— Tudo bem.
Ignorei os olhares furiosos de Deborah e sibilei um obrigada para antes de seguir o meu rumo. Senti seu olhar nas minhas costas enquanto eu me afastava e me arrisquei a olhar para trás. Os dois pareciam discutir de uma forma contida, o que fez o aperto no meu peito diminuir um pouco. A intervenção dele ao mais recente ataque de Deborah me fez perceber que o ainda se importava comigo.
Entrei no estúdio de dança em que e se encontravam e me surpreendi ao constatar que elas ainda não haviam se matado. As duas estavam sentadas mexendo em seus respectivos celulares e não perceberam o momento em que eu entrei.
— Vamos começar? — perguntei, colocando minhas sapatilhas para poder me aquecer.
— Até que enfim! — bradou , guardando o celular na bolsa e se levantando. — Onde foi que você se meteu?
— Culpe a Deborah pelo meu atraso. — respondi, sentindo que me olhava. abriu a boca para dizer algo, mas a fechou quando se lembrou de que não estávamos sozinhas.
— Depois você me conta o que aconteceu. — disse ela, ajudando-me a me levantar. Apoiei a minha mão em uma das barras e comecei a me aquecer.
— Eu quero deixar avisado desde já que eu só participo se cantar a parte da Jade. — disse quando se levantou. a olhou com escárnio.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer que a parte da Jade já é minha?
— E quem disse isso? — ela indagou, assumindo a postura petulante que eu já havia me acostumado a ver.
— Eu, ontem à noite, enquanto você mandava mensagens de texto idiotas pro só para ter um pretexto para falar com ele!
— Como você sabe disso? Você... mexeu no meu telefone? — estrilou, ficando vermelha e ainda mais irritada. Fechei os olhos, já prevendo que não ensaiaríamos mais uma vez por causa das duas.
— Meninas, se acalmem! Nós temos apenas cinco dias para montar e ensaiar a coreografia e as nossas vozes. Essa música é um tanto difícil, então seria legal se nós pud...
— Responde agora, sua cadela! — esbravejou a loira, ignorando-me.
— Eu não mexi nessa porcaria! Eu vi sem querer quando passei para ligar o rádio e você estava sentada quase embaixo da prateleira com seu celular! E não me chame de cadela, sua loira falsa! — avançou alguns passos na direção da e eu me coloquei no meio das duas.
— Você é uma fofoqueira! — gritou , apontando o dedo na direção de minha amiga.
— O que está acontecendo aqui? — indagou , acompanhado de , e . Esses três últimos nos olhavam com um brilho divertido no olhar.
— Não há um jeito de fazermos essa avaliação com outra pessoa? — perguntei de forma esperançosa.
— Não mesmo! E, se vocês três não conseguem se entender, significa que precisam passar mais tempo juntas.
— O problema não somos nós. É ela. — disse, apontando com a cabeça para .
— Passar mais tempo juntas? Como assim? — perguntei, confusa. deu um sorriso sarcástico que fez meu coração palpitar.
— Depois das aulas vocês ficarão aqui no estúdio até a noite. Enquanto não se entenderem, terão menos tempo para a vida social que tanto prezam. Como amanhã vocês apresentarão as peças de teatro, não precisarão ficar aqui então, aproveitem seu último dia de liberdade. — disse, dando um sorriso plastificado na minha direção. Ele parecia estar tão triste quanto eu por ter que fingir que nada havia acontecido entre nós.
— Meninas, vocês precisam aprender a trabalhar em equipe. — disse de modo sorridente. Os outros meninos concordaram e pareceu entrar em transe enquanto olhava para . Reprimi a risada que eu queria soltar pela cara que a minha amiga estava fazendo e bufou ao meu lado.
— Nós não temos escolha, temos? — ela perguntou, mal humorada.
olhou fixamente para mim antes de respondê-la:
— Não, vocês não têm.

O dia da apresentação da peça teatral chegou junto com o meu nervosismo. Fiquei o dia inteiro inquieta e percebi que e Miles estavam tão nervosos quanto eu, apesar dos seus esforços para disfarçar. O único tranquilo de nosso grupo era o Camerom.
e Miles estavam na mesma peça, assim como eu e Camerom. A turma de seria a última a se apresentar e a de – que é a turma onde os outros dois se encontravam – seria logo a primeira, o que os deixava ainda mais aflitos.
Eu e os meus amigos estávamos sentados num banco que tinha no campus da Wings, relaxando um pouco antes de irmos para os camarins nos arrumar. ainda estava inconformada com o fato de que teria que passar mais tempo com e, sempre que tinha a oportunidade, falava sobre o assunto.
— Vai dar tudo certo, galera. — disse Cam, observando a inquietação que tomou conta de nós. — Essa peça não é um teste e nem nada do tipo, relaxem!
— Até parece que eles não vão reparar nem um pouquinho no nosso desempenho. — Miles disse, encarando a tal menina que ele estava afim.
— Concordo com o Miles. — disse, fuçando o Facebook de . — Você é muito ingênuo se acredita nisso.
— Se eles vão avaliar ou não, não importa. — Cam deu de ombros, despreocupado.
— Eu tenho inveja de você. — eu disse, fazendo com que ele desse uma risada. Cam passou um dos braços por cima dos meus ombros, o que fez com que eu enrijecesse na mesma hora.
— Nós faremos um ótimo par na peça de hoje, não se preocupe.
Olhei para o rosto de Cam de um jeito envergonhado. Se estivesse ali naquele instante tenho certeza de que ela diria que ele estava me paquerando. Camerom tinha as bochechas avermelhadas, mas o sorriso galanteador que ele me lançou logo fez com que o rubor de suas bochechas se afastassem.
Eu dei um sorriso sem graça para ele e quando olhei para frente, vi que nos encarava com um olhar de desagrado. cochichava algo no ouvido dele enquanto o levava para longe dali, e eu senti meu estômago embrulhar.
Eu queria poder alcança-lo e dizer a ele que eu e o Camerom nunca teríamos nada porque era dele que eu gostava, mas eu não podia fazer nada, e isso já era ruim o suficiente.
Enquanto o levava, nossos olhares se cruzaram. Ele parecia magoado e irritado, e aquilo partiu meu coração.

O reflexo do espelho em minha frente me dizia que eu era realmente bonita. A maquiagem que haviam feito em meus olhos me deixou com uma aura angelical que combinava com o papel que eu iria interpretar naquela noite.
O vestido longo e branco de seda se ajustava perfeitamente ao meu corpo e meus olhos brilhavam. Meus cabelos longos estavam soltos e com ondas magníficas. Eu estava completamente admirada. E nervosa.
Como eu seria a última a me apresentar, me dirigi até o backstage, onde fiquei junto com os outros alunos esperando as cortinas se abrirem para a turma de . faria o papel de uma vilã e Miles era um dos amigos do protagonista. Segundo ele, seu papel era tão importante quanto o de .
Eu não sabia sobre o que a peça deles falava, mas estava prestes a descobrir.
Procurei por e o encontrei do outro lado do backstage, junto com , e . Ele não me viu, e eu senti a tristeza preencher meu peito. Eu queria muito falar com , mas acho que nunca teria uma oportunidade de fazê-lo enquanto ele só andasse acompanhado.
— Nossa, tem muita gente! — exclamou uma menina, olhando para a plateia. Arregalei os olhos ao notar que o teatro estava lotado de gente. A imprensa também estava presente, e eu senti vontade de vomitar ao ver a quantidade de pessoas que estava lá fora.
— Preparada? — Cam perguntou, aparecendo ao meu lado.
— Já viu a quantidade de pessoas que estão lá fora?
— Sim. Confesso que eu estou com um frio na barriga.
Nós dois rimos. O instrumental de uma música começou a tocar e foi para outra parte do backstage para olhar melhor a peça que havia ensaiado.
Observei meus amigos atuarem com perfeição, e meu coração acelerou ao pensar que daqui há alguns instantes seria eu ali no palco.

Quando a última turma estava terminando de se apresentar, saí de perto dos meus amigos com a desculpa de que eu iria ao banheiro. Me dirigi até onde estava e parei em sua frente. Ele me olhou com frieza e eu limpei a garganta para tomar a coragem necessária para falar com ele.
— Vá para a sua posição inicial, . — disse ele, mal olhando para mim. — A apresentação já está acabando.
Respirei fundo e segurei em seu braço. Ele me lançou um olhar de censura que me fez largar seu braço imediatamente.
— Eu preciso falar com você sobre o Camerom.
, você não me deve satisfação nenhuma.
Eu olhei dentro dos seus olhos e parei de prestar atenção no que acontecia ao meu redor. Eu só queria que ele soubesse que por mais que não pudéssemos ficar juntos, era dele que eu gostava. Seus olhos foram perdendo a frieza lentamente, e eu senti que queria que eu falasse algo, qualquer coisa. Mas eu não consegui.
— Eu sei, mas... É que eu...
, sua turma já pode ir se posicionando.
Levei um susto ao ouvir a voz de um dos ajudantes de palco. se recompôs em questão de segundos e não me olhou mais nos olhos.
— Vá para a sua posição, por favor. — eu assenti, indo para o meu lugar atrás da cortina. Engoli o choro e comecei a entrar no personagem antes mesmo que as cortinas se abrissem.
A peça falava sobre um anjo da canção que havia perdido a sua melodia enquanto observava um humano e cobiçava o mundo dele. Eu era o tal anjo, e Camerom o humano. Enquanto a minha personagem começa a sua busca pela melodia, ela encontra o humano no qual se apaixonara.
As cortinas se abriram e essa foi a minha deixa para entrar em cena. E, quando entrei no palco, tudo foi tão mágico que eu acabei me esquecendo de todos os meus problemas. Eu cantei, dancei e atuei como nunca antes. Eu senti que a minha mãe estava comigo ali no palco e aquilo me deixou ainda mais segura.
Meus movimentos fluíam de forma natural e meus pés não me traíram um momento sequer. Os outros alunos também atuavam bem e me passaram tanta segurança quanto Camerom costuma me passar. As luzes em cima de nós não nos intimidou em nenhum instante, e se a plateia ou as câmeras queriam nos intimidar, elas não haviam conseguido.
E, quando a peça acabou, todos se levantaram para nos aplaudir. O sorriso que se formou em meu rosto era totalmente real, e meu coração ficou feliz ao perceber isso.
Depois de agradecermos, voltamos felizes para a coxia. Eu, Camerom, e Miles nos abraçamos, ambos parabenizando uns aos outros pelos nossos desempenhos.
veio parabenizar a nossa turma com um sorriso satisfeito e se retirou. Aproveitei a distração da galera e dos meus amigos para correr atrás dele. O empurrei para um dos corredores vazios e o beijei com cada célula do meu corpo.
Surpreso, ficou alguns segundos em choque, mas quando se recuperou do susto, ele agarrou a minha cintura e me puxou para si com força e intensidade. Nosso beijo foi ficando cada vez mais voraz, e eu senti que poderia explodir a qualquer momento, pois haviam milhares de sensações se passando pelo meu corpo naquele instante.
mordiscou meu lábio inferior, mas não partiu o beijo. Nos apertamos um contra o outro com uma força descomunal, mas ele não me machucava. Eu só queria senti-lo cada vez mais perto de mim até que nossos cheiros se misturassem e o calor de seu corpo me deixasse febril.
Fiquei um pouco impressionada com a veracidade dos meus pensamentos e sentimentos. Eu nunca tinha sentido aquilo antes e estar descobrindo tantas sensações novas era um pouco assustador.
Fui obrigada a separar nossos lábios quando ouvi as vozes de alguns alunos que se aproximavam.
— Eu sei que você tem me tratado com frieza porque quer me proteger. Eu sei que nós não podemos ficar juntos. Mas isso não vai me impedir de continuar gostando de você.
Eu o olhei intensamente. estava escorado na parede, respirando de forma ofegante. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, eu o deixei ali e corri até o camarim de forma contente. Meu coração estava acelerado e a adrenalina ainda corria pelas minhas veias quando peguei o celular e vi 27 chamadas perdidas de .
Achei estranho e decidi retornar quando vi que ali tinha sinal. Ela atendeu depois de 4 toques.
Até que enfim você me atendeu! — disse ela esbaforida do outro lado da linha.
— Me desculpe, amiga! Acabei de me apresentar e...
Nós precisamos conversar. disse, tropeçando nas palavras de um jeito que fez com que eu engolisse em seco. A adrenalina sumiu das minhas veias no momento em que notei que algo estava errado no tom de voz de minha amiga.
— O que aconteceu?
É o seu pai, . Ele está internado no hospital. O estado dele é grave.

Capítulo 23 - A Confissão

Eu ainda não acreditava que aquilo estava acontecendo de novo.
Eu não queria acreditar.
Enquanto eu entrava no hospital, afoita e desesperada, eu senti como se um flashback estivesse passando diante dos meus olhos. Era como se eu estivesse revivendo momentos de terror estando ali dentro.
Lembrei-me de minha mãe e do quanto ela tinha sofrido antes que a morte a levasse, meu coração se apertou dentro do peito. As lágrimas escorriam pelo meu rosto incessantemente enquanto as imagens do corpo já sem vida da minha mãe entravam nesse mesmo hospital.
Depois que a me ligou dizendo que papai tinha passado mal, eu praticamente surtei. Eu tive que insistir muito para que me deixasse voltar para New Haven, ele só permitiu por causa de , e ainda impôs duas condições: A de que eu voltasse dentro de 2 dias e a de que o me acompanhasse.
Claro que isso me pegou de surpresa, já que iria deixar a classe dele sem aulas enquanto me acompanhasse, mas disse que Lena e ele iriam cobrir as aulas nesse pouco tempo de viagem.
Nós embarcamos em um avião particular que o próprio contratou, e ficamos quietos no caminho que fizemos até entrarmos no avião. sentou-se ao meu lado e me olhou com preocupação o tempo todo.
... Você quer conversar? — ele perguntou, estudando meu rosto com atenção.
— Não, eu só quero chegar logo. — Virei meu rosto em sua direção, sentindo-me ansiosa. Eu apertava os nós dos meus dedos e já os sentia ficando brancos, mas eu não conseguia parar. viu a aflição em meu olhar e segurou a minha mão. — Falta muito para chegarmos?
deu um meio sorriso para mim, acariciando a minha mão suavemente.
— O avião acabou de decolar.
Apertei meus lábios em uma linha fina, tentando a todo o custo não chorar em sua frente. Mas eu fracassei no momento em que olhei para ele.
se curvou em sua poltrona e me abraçou apertado, senti as minhas lágrimas molhando o seu pescoço. Ficamos assim até eu cair no sono e, quando acordei, já tínhamos chegado em New Haven.
Me debrucei no balcão da recepção do hospital assim que voltei a realidade, mas surgiu do meu lado e perguntou pelo meu pai antes que eu o fizesse.
Ouvi atentamente as informações que a recepcionista nos passava e percebi que ela não tinha reconhecido . Fiquei um pouco mais calma quando ela me disse que meu pai estava bem, mas que só o médico poderia me dar informações mais precisas sobre o caso.
Ela nos indicou a sala de espera — que era onde todos estavam aguardando por notícias — e nós seguimos suas instruções para chegarmos até lá.
Encontrei e Lucy sentadas uma ao lado da outra na sala de espera, e minha tia Darcy em pé, andando de um lado para o outro. Assim que me viu, praticamente saltou da poltrona e me abraçou.
— Como ele está? A recepcionista disse que ele está bem, mas eu quero ter certeza. — eu disse, desfazendo o abraço. Lucy e tia Darcy também vieram me abraçar. Ambas cumprimentaram com um sorriso e um aperto de mão.
— Os médicos fizeram alguns exames, mas eles ainda não têm certeza do que pode ter acontecido para que o seu pai desmaiasse. Os médicos suspeitam de algumas doenças, mas só um diagnóstico mais preciso fará com que eles descubram o que há com o seu pai. — disse Lucy, afagando a minha bochecha.
Apresentei oficialmente a Lucy, minha tia e a , que ficou um pouco empolgada demais ao ver que ele estava me acompanhando.
O médico, que segurava uma prancheta, apareceu em meu campo de visão. Ele tinha acabado de sair do quarto onde o meu pai estava, e seu semblante se encontrava desprovido de emoções. Ele caminhou em minha direção e esboçou um pequeno sorriso, que por algum motivo me fez lembrar do Dr. Carlisle de Crepúsculo, só não me pergunte o porquê.
— Olá, eu sou o Doutor Holden. Você deve ser . — ele disse, ainda com o sorriso no rosto. Acenei de forma afirmativa com a cabeça, e nos cumprimentamos com um aperto de mão.
— Sim, sou eu. Como o meu pai está?
— Seu pai está bem melhor, mas ainda estamos fazendo alguns exames e ele terá que ficar em observação por mais alguns dias. Ele está acordado, você quer vê-lo?
Balancei a cabeça várias vezes de forma positiva e o médico logo sentiu a urgência que havia no meu olhar.
— Quero, por favor.
O Doutor Holden indicou a porta do quarto do meu pai com a mão e eu caminhei rapidamente até lá. Assim que entrei, encontrei o meu pai de olhos abertos e todo entubado. Haviam fios em seu peito, em um de seus pulsos e um fio preso em seu nariz.
Corri até a sua maca e o abracei com cuidado, depositando todas as lágrimas que eu prendi do lado de fora do hospital. Papai colocou uma das mãos em minha cabeça, fazendo um carinho naquela região. Aquele gesto me confortou muito.
Eu estou com tanto medo de perdê-lo que sinto que devo desistir da Wings para poder cuidar do meu pai. Não posso deixa-lo, ele precisa de mim.
— Querida... Você não precisava ter vindo. — disse papai, com a voz baixa e contida. — Eu estou bem.
Levantei a cabeça para olhá-lo e segurei a sua mão, as lágrimas ainda rolando pelas minhas bochechas.
— Mas é claro que eu precisava, papai. Eu fiquei preocupada... — fiz uma pausa e soltei um suspiro. — O que aconteceu?
— A Lucy me encontrou desmaiado na cozinha de casa. Eu tinha acabado de chegar do trabalho e estava planejando cozinhar uma lasanha, mas comecei a sentir fortes dores e uma tontura que não permitiu que eu ficasse de pé.
Papai afagou meu queixo com carinho e eu sorri, ficando séria logo em seguida.
— Pai, acho melhor eu voltar pra cá definitivamente para cuidar de você. Eu não me importo de sair da Wings, eu posso muito bem voltar a treinar na minha antiga academia de ballet e...
— Nada disso! — exclamou papai, me interrompendo. — A Lucy e a sua tia Darcy estarão cuidando de mim no tempo em que você estiver fora, não se preocupe. O que eu quero mesmo é te ver lá naquele palco, dançando, cantando e fazendo tudo aquilo que você sempre sonhou. , eu nunca te apoiei como a sua mãe te apoiava, e agora sinto que é meu dever te dar todo o amor e suporte que você precisa para seguir em frente com isso.
Eu abri um sorriso largo e apertei com força a mão de meu pai. Ele sorriu de volta e, com a mão livre, enxugou uma lágrima que rolava pela minha bochecha.
— Mas pai...
— Eu vou ficar bem, minha princesa. Eu só quero que você seja forte. Lute pelos seus sonhos e não deixe que ninguém os destrua. “Abra as suas asas, minha pequena borboleta.” Lembra? Era isso o que a sua mãe lhe dizia quando você queria desistir. — ele disse, e seus olhos ficaram marejados quando citou mamãe na conversa. — Sei que você pensa que tem sonhos muito grandes, mas eles são seus sonhos e ninguém pode tirá-los de você. Querida, acredite na magia. Seus sonhos estão lá na Wings e eu não vou permitir que você desista deles agora. Afinal, eu criei um Facebook só para administrar o seu fã-clube, e isso seria muito injusto. Eu paguei muito caro pelas aulas de informática.
Gargalhei quando ouvi o que papai tinha dito e ele sorriu para mim quando viu que suas palavras haviam surtido o efeito que queria. Fiquei emocionada e encantada e o abracei forte novamente. Cortava o meu coração vê-lo naquele estado, uma vez que os médicos ainda não sabiam o que o papai tinha.
O que me restava era ter esperança e fé.
Fechei meus olhos e apertei ainda mais meus braços no corpo de meu pai, pedindo silenciosamente a Deus que tudo desse certo, e aproveitando o abraço aconchegante e cheio de amor do senhor , o homem que me criou e que eu amo mais do que qualquer coisa que possa existir.
Eu não vou sair da Wings porque essa é a vontade do meu pai, mas se eu vou ter mesmo que voltar para lá, vou precisar ser forte. Muito forte.

Abri a porta da minha casa e me joguei no sofá. Já era noite quando eu e deixamos o hospital e eu só queria descansar. Papai teria que ficar internado por mais alguns dias, e minha tia acabou ficando com ele. Lucy tinha ido resolver algumas coisas da sua academia de ballet e foi para a sua casa estudar para um vestibular que ela havia se inscrito.
Tia Darcy não ficou muito feliz em saber que eu iria ficar sozinha com na casa, mas eu lhe garanti que ele é um cara que sabe respeitar suas alunas. Ela não ficou muito convencida disso, mas pelo menos não ficou mais reclamando.
se sentou ao meu lado no sofá, de um jeito quieto e pensativo. Percebi que ele olhava tudo a sua volta, provavelmente reparando no quanto a minha casa era simples se comparado a todos os lugares que ele costumava frequentar.
Eu tinha tantas coisas na minha cabeça que só agora eu tinha parado para pensar que era ao meu lado naquele sofá. Ele não é só o meu professor, mas também é o cara que eu agarrei nos bastidores de uma peça de teatro algumas horas antes de estarmos bem aqui.
E eu estou completamente apaixonada por ele.
— Sua casa é legal. — disse , depois de muitos minutos constrangedores de silêncio.
— Obrigada.
— E aí, como você está? — perguntou, olhando fixamente para mim. Suspirei pesadamente, ainda sentindo-me um pouco nervosa por tudo o que tinha acontecido.
— Estou preocupada. Enquanto os médicos não descobrirem o que o meu pai tem, eu não vou descansar.
— Fique tranquila. — ele colocou a mão por cima da minha e meu coração acelerou com o contato. Engoli em seco e quebrei o contato visual, ficando terrivelmente constrangida ao me lembrar da minha audácia em beijá-lo daquela forma depois da peça de teatro. — Vai dar tudo certo, .
Ele apertou a minha mão com força, o que fez com que eu levantasse a minha cabeça e olhasse para ele. me encarava de um jeito intenso, e a minha pele começou a formigar.
— Posso te contar uma coisa? — ele perguntou, e eu assenti de forma afirmativa com a cabeça. — Quando eu era adolescente, eu e meus amigos montamos uma banda. Essa banda fez com que eu me sentisse feliz como há muito tempo eu não me sentia, e fez com que eu recuperasse um pouco a essência que eu tinha perdido por ter que conviver com o meu pai. Eu depositei todas as minhas forças na banda e em tudo o que fazíamos em conjunto: letras de músicas, arranjos, acordes... O McFly era a minha válvula de escape naquela época.
“Eu amava dançar, mas eu não conseguia mais sentir a dança como eu sentia. Claro que isso mudou depois que eu e você dançamos juntos pela primeira vez. Porém, nós começamos a fazer sucesso, e o disse que alguns empresários tinham entrado em contato com ele, mas meu pai deu um jeito de destruir os nossos sonhos. Ele disse que se eu fosse em frente com a banda, que ele queimaria o nosso filme para todos os empresários que tentassem nos contatar e ainda me expulsaria de casa. Eu fiquei muito mal, é claro. Cheguei a entrar em depressão profunda, afinal, eu tinha perdido a minha válvula de escape. Os caras ficaram tristes também, mas não quiseram seguir sem mim. Depois disso, eu não consegui mais compor nenhuma música. Mas aí eu conheci você e, pensando na sua dança, eu consegui escrever The Heart Never Lies.”
Olhei para de uma forma que eu não consegui descrever. Seu rosto, sempre tão sério e amargurado, estava totalmente triste e vazio. Meu coração se entristeceu ao vislumbrar a sua dor, então apertei de volta a sua mão. Pela primeira vez eu estou vendo todas as marcas que ele possui. Tanto as externas quanto as internas. Em seus pulsos, haviam cicatrizes. Eu nunca tinha reparado nelas antes, mas sempre estiveram ali.
é um péssimo pai.
— Posso te levar em um lugar? — perguntei, me corroendo em expectativa. assentiu com a cabeça.
Ainda segurando a sua mão, o conduzi para fora de casa. O tempo estava úmido naquela noite, mas eu não me importava. Caminhamos rapidamente e de mãos dadas até um parque abandonado que ficava atrás da minha rua.
Apesar de abandonado, eu sempre gostava de ir pra lá, pois é um lugar que sempre me inspirou. O gramado já estava crescendo — um vizinho e o meu pai costumam fazer a manutenção do lugar aparando a grama — e os balanços já começavam a apodrecer.
Haviam refletores posicionados de forma estratégica pelo local e algumas corujas descansavam em cima dos postes de luz.
Me virei para e segurei seu pulso com ternura, passando os dedos levemente pelas cicatrizes que existiam ali.
— Eu sinto muito. Por tudo o que você passou. Sei que ainda há coisas que você não tem coragem de compartilhar comigo, mas eu agradeço de qualquer forma por confiar em mim. Eu sei que o que há entre nós não pode acontecer, mas quando eu estou com você, eu me sinto livre e desperta. Mais do que isso, eu sinto que o que temos é mais certo do que muitas coisas em minha vida, como o meu relevé*, por exemplo. — deu uma genuína risada com a minha piadinha, mas logo ficou sério novamente.
Ele fechou os olhos para sentir o carinho que eu fazia em suas cicatrizes e me puxou para perto de si, movendo seu corpo e me conduzindo em uma dança sem música.
A dança começou lenta e calma. Eram só nossos corpos se movendo de um lado para o outro. Seus olhos estavam grudados em mim e os meus se encontravam perdidos na imensidão azul dos dele.
Até que me girou e me suspendeu no ar, surpreendendo-me. Ele deu uma risada e me colocou no chão, e continuou me guiando na dança improvisada. Estiquei a minha perna o mais alto que conseguia usando jeans e virei de costas para ele, fazendo alguns passos de dança individuais. me virou para si outra vez, encerrando a nossa pequena dança.
, você me devolveu o amor pela dança. Mais do que isso, você trouxe de volta a minha inspiração. Eu não quero mais ficar longe de você. Eu só não sei se isso vai ser seguro, por causa do concurso e...
— Eu quero estar contigo, . Não me importo em termos que agir em segredo e de forma mais cautelosa. Eu só não quero mais ter que ficar fingindo que não te quero.
abriu um largo sorriso com o que eu disse. Seus olhos brilhavam tanto quanto os meus deviam estar brilhando naquele momento. Até que ele diminuiu a distância entre nossos lábios, beijando-me com urgência.
Senti as suas mãos subindo e descendo por toda a extensão da minha coluna enquanto seus lábios me beijavam com destreza e fervor. As minhas mãos pareceram criar vida própria, e se enfiaram por dentro de sua camiseta, sentindo o quanto seu corpo estava quente. soltou um grunhido no meio do beijo com o carinho tímido que eu fazia e desceu os lábios para o meu pescoço, beijando-me languidamente e de um jeito que me deixou totalmente entorpecida.
Segurei sua nuca com uma das mãos e arfei quando senti me puxar para ainda mais perto de si. Parecia que o meu coração ia sair pela boca a qualquer momento.
voltou a beijar a minha boca, mas dessa vez, de forma mais calma. Ele sabia dos meus limites, e estava me respeitando mais uma vez.
— Acho melhor nós irmos dormir. — eu disse, entrelaçando os nossos dedos. — Amanhã de manhã nós iremos passar no hospital antes de voltarmos para a Wings.
— É uma boa ideia.
Nós voltamos para a minha casa rapidamente. O clima estava mais leve do que antes e eu já não estava me sentindo mais tão preocupada. Emprestei uma muda de roupa de meu pai para usar, mas elas ficaram um pouco largas e se moldaram de um jeito engraçado ao corpo do meu namorado secreto.
— Acho que as roupas do senhor não ficaram muito bem em mim. — disse de forma risonha, enquanto eu arrumava o sofá para que ele pudesse dormir.
Eu parei o que estava fazendo para dar uma risada.
— Você acha?
Levantei uma das sobrancelhas e vi me olhar com uma expressão desafiadora. Tarde demais eu entendi o que ele pretendia e, quando percebi, ela estava sentado em cima de mim me fazendo cócegas.
Eu comecei a rir e a me contorcer feito uma descontrolada, sentindo meus olhos lacrimejarem. Eu odeio quando as pessoas me fazem cócegas, a sensação de impotência que me acomete é sempre desesperadora.
... Pare... Com... Isso!
Arfei, sem conseguir de fato terminar a frase direito.
continuou gargalhando, e foi parando de fazer as cócegas, mas não saiu de cima de mim. Minhas bochechas doíam de tanto rir, e as dele estavam coradas e fofas.
Seu rosto se aproximou do meu, e quando menos percebi, já estava me beijando.
Sentir seu corpo tão perto do meu estava fazendo com que eu sentisse coisas que até então eram desconhecidas por mim. Meu corpo parecia estar febril e eu sentia seu cheiro por toda a minha pele.
O beijei com todo o fôlego que eu tinha, tentando compensar todas as vezes que não pudemos estar juntos, e despejando toda a minha angústia de não poder estar com da forma que eu gostaria, já que o concurso não permitia isso.
Ele se deitou ao meu lado assim que quebrou o beijo e nós ficamos nos olhando por um tempo que me pareceu infinito. Seu peito subia e descia, e o sorriso de felicidade que estava em seu rosto só fez com que o meu sorriso tímido aumentasse de tamanho.
, seria loucura se eu dissesse que amo você?

Capítulo 24 - Dose de Coragem

, seria loucura se eu dissesse que amo você?
Quando eu vi o pela primeira vez na tela da minha televisão, com um talento imensurável e bem mais jovem, eu não percebi o quanto aquele rapaz carregava tristeza em seu coração. Eu não sabia que as nossas vidas iam se cruzar dessa forma e não consegui compreender em que momento eu comecei a nutrir sentimentos por ele.
Eu o admirava, e sempre me sentia estranha quando me olhava de um jeito diferente, e que era capaz de aquecer a minha alma. Eu sabia que tinha algo errado comigo, mas eu não conseguia simplesmente tirá-lo da minha cabeça.
E agora, estávamos os dois aqui, dividindo um colchão do meu pai no meio da sala de estar. Mas não era só isso que dividíamos naquele momento. havia acabado de confessar que me ama.
Ao olhar para os seus olhos, tão doces e sinceros como eu nunca tinha visto, o meu coração acelerou. Meus olhos começaram a lacrimejar e uma grande porção de felicidade começou a inundar todo o meu ser, por que eu tenho certeza de que o amo também.
Amo desde a primeira vez que o vi na televisão, dançando como se estivesse entregando a sua alma. O amo desde que eu pus os pés na Wings e olhei dentro dos olhos dele. O amo desde que ele começou a me chamar de Little Rebel, quando ele me olhava de um jeito intenso eu sentia que poderia pegar fogo a qualquer momento e isso era outra coisa que eu definitivamente havia aprendido a amar.
Quando o conheci, ele era frio como o granizo, e quando comecei a desvendá-lo e a sentir o peso de seu olhar sobre mim, percebi que também podia ser quente como uma fogueira e eu amava cada parte dele.
— Eu... Eu amo você também, . — confessei, segurando a sua mão com firmeza. abriu um largo sorriso, apertando de volta a minha mão. —Eu nunca amei um cara em toda a minha vida, mas tenho certeza de que o que eu sinto aqui dentro de mim agora só pode ser amor.
segurou meu rosto com as duas mãos e depositou um beijo carinhoso e demorado em minha boca, que fez com que todos os meus medos desaparecessem. Naquele momento, eu acabei me esquecendo de que nós tínhamos que lidar com muitos problemas ao assumir esse relacionamento, o que fez meu coração ficar ainda mais leve.
Acabamos adormecendo alguns minutos depois, na sala de estar da minha casa. Repousei minha cabeça no peito de e ele envolveu seus braços em torno do meu corpo.
Nunca dormi tão bem em toda a minha vida.

Assim que passei pelos portões da Wings, , Miles e Camerom vieram correndo me abraçar. se despediu de mim de forma cordial para que não levantássemos suspeitas e eu pude dar a devida atenção aos meus amigos.
— Como está o seu pai? — perguntou, olhando-me com preocupação.
— Ele está bem melhor, mas os médicos ainda não sabem o que ele tem.
Antes de ir embora, eu e passamos no hospital para ver como meu pai estava. Ele parecia mais corado e falante, o que definitivamente era um bom sinal. , Lucy e minha tia me prometeram que iriam me manter informada, e com essa garantia eu consegui voltar para a Wings me sentindo um pouco mais tranquila.
— Ele vai ficar bem, . — disse Camerom, afagando o meu ombro com carinho ao ver meu semblante preocupado.
Eu dei um sorriso agradecido para meus amigos e juntos, caminhamos para dentro do prédio da Wings. Eu e havíamos desembarcado no horário de almoço e descanso dos alunos, o que significava que eu ainda tinha uma aula pela frente e ensaio com e .
— Você já almoçou? — Miles perguntou, preocupado.
— Eu e comemos no aeroporto. Estou meio sem fome.
— O está vindo para cá! — praticamente gritou enquanto ajeitava suas roupas e cabelo. Ela olhava para de forma furtiva e sedutora.
, se controle! — ralhei, segurando o braço dela.
— Eu não consigo! — ela disse, praticamente despindo com os olhos enquanto ele passava. Acho que ele percebeu, mas não se sentiu envergonhado ou intimidado pelo flerte descarado de minha amiga. Ele só a olhou de um jeito meio vazio. Era como se ele estivesse se controlando para não demonstrar nada. — O é lindo demais e eu estou apaixonada por ele.
ficou olhando para o enquanto ele se distanciava com a boca meio aberta. Seus olhos brilhavam.
— Eu vou atrás dele! — anunciou, já andando na direção para onde ele havia ido.
, não faça isso! ! — Camerom gritou, indo atrás dela no instante seguinte.
— DEIXA A MENINA SER FELIZ, CAMEROM! — Miles berrou, fazendo com que todos que passavam pelo corredor o fitassem de forma estranha. Ele apenas deu de ombros, sorrindo, mas ao ver que Emily, a menina que estava balançando seu coração o olhava de um jeito risonho, ele se encolheu.
— Por que você não fala com ela? — perguntei, apontando com a cabeça para a menina, que agora mexia em seu celular.
— E o que eu vou dizer? Ela acha que eu sou gay! — exclamou, olhando para a menina com um certo tipo de nervosismo.
— Você quer conquista-la?
— Eu... Eu não sei! — estrilou, puxando os cabelos para cima e me olhando de um jeito espantado. — Isso me faz ser bi e eu estou confuso com toda essa situação. — Do que você tem medo, Miles? — Coloquei a minha mão em seu ombro e olhei dentro dos olhos dele. Meu amigo estava com medo, desesperado e confuso, e eu queria muito ajuda-lo. Eu tenho a plena consciência de que eu tenho uma mala para guardar e um collant para vestir, mas o meu melhor amigo precisava de mim.
Miles abaixou a cabeça e, quando voltou a me olhar, ele disse:
— De nunca saber qual é a minha verdadeira essência.
— Você só vai saber se tentar. Se o seu coração quer a Emily, não custa nada arriscar, não é mesmo?
— Vou precisar de roupas novas para isso. — ele disse, olhando para a sua blusa regata rosa que dizia: “Eu amo lantejoulas e ursinhos carinhosos”.
Nós dois demos uma risada espalhafatosa.
— É, nisso eu tenho que concordar com você.
Miles pegou a minha mala, dizendo que ia me ajudar a leva-la até meu alojamento. Eu o agradeci, e comecei a zoar a calça de oncinha que ele estava usando. Nós dois demos mais umas boas gargalhadas até chegarmos ao meu dormitório.

A aula de jazz estava quase no fim, e eu ainda tentava me preparar psicologicamente para o ensaio com e . Eu estava realmente preocupada com essa avaliação, já que nós três juntas ainda não tínhamos conseguido entrar em um consenso na hora da divisão das vozes e da coreografia.
A única coisa que me deixava sã, era ver o me olhando de canto de olho enquanto eu e os outros alunos dançavam a sequência difícil e elaborada que ele tinha feito especialmente para aquela aula.
Eu dei um sorriso discreto para , que se levantou para desligar o rádio. Ele abaixou a cabeça e deu uma risada, o que me deixou um pouco envergonhada.
— Por hoje é só, pessoal. Não se esqueçam de ensaiar para a avaliação. Até amanhã!
Eu e os outros alunos aplaudimos , que não esboçou nenhuma reação. Ele tinha voltado a ser o mesmo cara fechado de sempre, mas agora pelo menos eu sabia o porquê dele agir assim.
Comecei a recolher as minhas coisas de forma mais lenta do que o normal, afinal, eu queria ter uns minutos a sós com o meu... Namorado.
— Vamos para o pátio juntos hoje? — Camerom perguntou, parando ao meu lado e sorrindo animadamente.
— Hoje não dá. Eu preciso falar com o... Professor antes de ir ensaiar com e . Esqueceu que agora teremos que ficar o dobro do tempo juntas depois das aulas?
— Você chama o de professor ? — indagou, franzindo as sobrancelhas. — De qualquer forma, eu me esqueci que também preciso ensaiar. Os caras do meu dormitório são um saco. Talvez a gente possa se encontrar mais tarde...
Camerom parecia meio desconfiado e ansioso por minha companhia, o que me fez lembrar do que tinha me dito sobre Camerom gostar de mim. Havia momentos em que isso parecia ser uma ideia totalmente ridícula e existiam momentos como esse em que eu começava a achar que essa ideia não era tão absurda assim.
— Acho que não vai dar mesmo... Enquanto esse “castigo” não acabar, eu e não vamos poder nos reunir com vocês. — eu disse, me sentindo inquieta em meu lugar. Camerom me olhou de um jeito ainda mais desconfiado.
— Você parece meio nervosa... Aconteceu alguma coisa em New Haven? — Cam perguntou, olhando para e para mim. Ele franziu o cenho e eu pude sentir que a sua desconfiança aumentou quando eu comecei a suar frio de nervoso.
— Não, mas é claro que não! É só impressão sua. — dei uma risada nervosa, passando a mão pela nuca para tentar disfarçar meu nervosismo. Camerom assentiu com a cabeça, mas não pareceu totalmente convencido. Para uma garota que quer ir para a Broadway, eu tenho que começar a usar mais o meu talento para atuação na vida real também.
— Entendi. Eu vou nessa, depois nos falamos.
Camerom me deu um abraço rápido e saiu da sala junto com os poucos alunos que ainda estavam ali. Olhei para , que conversava com um grupo de alunos e decidi que era melhor sair logo da sala antes que as coisas piorassem, afinal, eu já estou atrasada para o ensaio com e .
Corri em direção ao estúdio que tinha reservado para usarmos e encontrei o Dragão Deborah caminhando na direção contrária da que eu estava seguindo. Respirei fundo e apressei ainda mais o passo, mas ela não perdia a oportunidade de me provocar e eu sabia que agora não seria diferente.
, eu estava louca para falar com você. — Deborah disse, sorrindo e falando daquele jeito falso que eu e todo o mundo já conhecia.
— Eu estou atrasada, professora.
Tentei continuar meu caminho, mas Deborah foi mais rápida e pegou em meu braço.
— Fiquei sabendo do que aconteceu com o seu pai. Ele está bem? — ela perguntou, sem se preocupar em demonstrar que não estava nem ligando para o meu pai.
— Ele está bem melhor, muito obrigada pela preocupação. — dei um sorriso forçado e tentei mais uma vez continuar meu caminho, mas ela apertou meu braço com um pouco mais de força. Minhas mãos começaram a tremer e eu tive que me controlar para não empurrá-la.
— Em breve você vai ter uma grande surpresa! — ela disse, aproximando a boca do meu ouvido para sussurrar. Fiquei me sentindo nauseada ao sentir seu perfume tão perto e, mais uma vez, me controlei. — Tenho certeza de que deixará a sua estadia aqui na Wings mais... Animada.
— Seja lá o que for, eu não quero. Se me der licença, eu realmente preciso ir.
Me soltei do aperto que sua mão exercia em meu braço e praticamente corri pelo corredor. Eu ainda me sentia nervosa e com raiva de suas insinuações. Seja lá o que Deborah esteja tramando, sei que não é boa coisa.
Quando entrei no estúdio, e já discutiam. Juro que por um momento eu senti vontade de dar meia volta e ir para meu dormitório. Meus últimos dias haviam sido cheios demais e eu ainda não tinha conseguido descansar o suficiente. Era muita pressão na minha cabeça e eu precisava de um pouco de paz. Mas eu tenho certeza de que paz é a última coisa que eu terei aqui na Wings.
Coloquei minha bolsa no canto do estúdio e me aproximei das duas, que vociferavam xingamentos uma para a outra.
— Eu já disse que faremos do meu jeito! — esbravejou a loira, com o rosto vermelho de raiva. — É a única forma de ganhar!
— Nós temos que fazer do NOSSO jeito, . Do NOSSO! Aprenda a trabalhar em equipe pelo menos uma vez na sua vida! Eu sei que a água oxigenada do seu cabelo matou quase todos os seus neurônios, mas pelo menos TENTE! — respondeu, a ira transbordando de seus olhos cristalinos.
levantou a mão para acertar um tapa no rosto de minha amiga, mas eu segurei sua mão a tempo.
— PAREM COM ISSO! — eu gritei. No instante seguinte, vi avançar em minha direção. Ela me jogou no chão e começou a me estapear.
— Sai de cima de mim! — vociferei, tentando segurar suas mãos. — Sai de cima de mim, sua louca!
— Você acha mesmo que eu me esqueci do tapa que você me deu? Acha? — ela perguntou, transtornada. Agarrei seus cabelos e puxei sua cabeça para baixo, o que fez com que a gritasse descontroladamente. A loira começou a puxar os meus cabelos também, o que me fez soltar um grito de dor.
— Larga a minha amiga, sua idiota! — empurrou para o lado e começou a estapear seu rosto.
— PAREM!
As duas se soltaram, assustadas com o meu grito. Ficamos em silêncio por um tempo que me pareceu mais longo do que o normal, até que olhou para seu reflexo no espelho e começou a rir.
Então, eu e também nos olhamos no espelho e começamos a rir de nossas aparências destruídas. Nós três estávamos com o rosto vermelho e suado, e nossos cabelos pareciam ninhos de passarinhos de tão desgrenhados que eles estavam. Eu nunca me senti tão descabelada na vida.
Quando o acesso de riso passou, nós nos entreolhamos, ainda meio risonhas pelas cenas estranhas que tínhamos acabado de participar.
— Meninas, nós temos que começar a nos entender. Sei que todas nós temos ideias legais e eu acho que se juntarmos tudo dá para fazer algo bacana. — falei, olhando para as duas de forma séria. Elas pareceram concordar.
... Você pode ficar com a parte da Jade, se quiser. — disse, fazendo com que eu e ficássemos surpresas.
— Obrigada, .
Me levantei do chão, me sentindo animada de repente.
— E então... Vamos começar?

Por incrível que pareça, o ensaio hoje tinha sido bastante produtivo. Eu, e concordamos com a maioria das ideias umas das outras, conseguimos montar uma parte do nosso número e ensaiar a divisão das vozes.
Eu iria cantar as partes da Perrie e decidiu cantar as partes da Jesy. Iríamos nos revezar para cantar as partes da Leigh-Anne.
Estávamos arrumando as nossas coisas quando , , e entraram no estúdio. Eles sorriram ao ver que estávamos nos dando bem e ficou mais agitada ainda ao ver que estava ali.
— Fico feliz ao ver que estão se entendendo. — disse, dando um meio sorriso.
Os outros ficaram rindo do jeito contido dele.
— Vocês são espertas, meninas. — disse, olhando fixamente para . A minha amiga permaneceu imóvel em seu lugar. — Se metade das garotas fossem como vocês, o mundo seria menos turbulento.
e deram altas risadas, empurrando para a frente.
— Agora, se nos derem licença, precisamos ir. — disse , sorrindo. Ouvi suspirar ao meu lado.
— Little Rebel, posso falar com você?
Fiz que sim com a cabeça e me dirigi as meninas antes de seguir para fora do estúdio.
— Meninas, me esperem aqui para acertarmos os últimos detalhes da parte que montamos, tudo bem?
As meninas assentiram com a cabeça enquanto eu saía da sala acompanhada de . Me escorei no batente de uma das salas mais afastadas quando percebi que a mesma estava vazia. Ele parou em minha frente e parecia meio nervoso.
— Eu e os caras vamos para aquela danceteria que eu te levei. está meio confuso em relação à , e quer descarregar um pouco as frustrações bebendo e dançando um pouco. Você não se importa, não é?
Eu deveria me importar? Eu não sabia o que responder. Eu me importava? Sim, claro que sim! Afinal, iria sair para uma danceteria cheia de mulheres bonitas. E ele, bonito e mulherengo — eu também leio tabloides de fofoca — nunca perdeu a chance de ficar com mulheres bonitas.
— Acho que não... Quero dizer, nós confessamos os nossos sentimentos, mas isso não quer dizer que sejamos namorados. — eu disse, me sentindo desconfortável por ter tocado naquele assunto. ficou meio sem jeito também, quase como se estivesse decepcionado.
— Nós não somos namorados?
— Eu não sei... Eu quero ser a sua namorada, mas eu não sei se você quer.
— Mas é claro que eu quero, ! — ele disse, fazendo menção de segurar em minha mão e desistindo no instante seguinte. — E eu vou apenas para dançar e apoiar meu amigo, não para ficar de olho em outras mulheres. Você confia em mim, não confia?
Ao olhar para o rosto do , eu tive a certeza de que ele nunca faria nada para me magoar. Afinal de contas, ele me ama e só queria dar um pouco de apoio ao amigo que não estava disposto a ficar na mesma situação que estava. Eu entendia e iria apoiá-lo.
— Eu confio.
— Por favor, não conte a o que eu te disse sobre o .
— Pode deixar.
Eu e ficamos nos encarando com desejo. Eu sabia que ele queria me beijar tanto quanto eu, mas só de saber que não podíamos fazer isso, já me deixava triste.
— Eu queria muito te beijar agora. — disse , me olhando daquele jeito intenso que eu já conhecia. Sua afirmação fez minhas pernas tremerem. — Você não sabe o quanto é difícil para mim, ficar perto de você sem poder te tocar.
— É difícil para mim também.
— Eu vou te mandar uma mensagem durante a semana. Vamos tentar fazer com que isso dê certo. Quero te levar para sair quando o liberar de novo os passeios.
Abri um sorriso radiante com o que havia me dito. Eu queria muito que esse dia chegasse logo, pois nunca tínhamos ficado tão à vontade quanto estivemos em minha casa, em New Haven.
— Esperarei ansiosamente por isso.
deu um sorriso esperto para mim antes de me deixar ali no corredor. Voltei para o estúdio, onde e conversavam civilizadamente.
— Amiga, prepare seu vestido que hoje nós vamos sair! — disse , animada. Fiquei olhando para ela com uma expressão confusa. — Lembra quando eu segui o hoje mais cedo? Então, eu ouvi uma conversa dele ao telefone e sei que ele estará hoje numa danceteria. Eles sairão daqui a pouco e nós precisamos segui-los! A sabe onde fica o estabelecimento.
O relato de fez com que eu ficasse ainda mais confusa. Desde quando a era confiável para falar de ou de seu plano de seguir os professores até uma danceteria? Ela pode muito bem dedurar a gente.
— Se vocês forem mesmo, eu vou querer ir junto. — disse, olhando de forma entediada para as suas unhas. — Estou precisando sair, não aguento mais ficar presa nesse lugar.
— Nós não podemos sair assim! Se formos pegas, seremos expulsas na hora.
— Nós seremos cautelosas, ... — disse , de forma despreocupada.
Olhei fixamente para a ruiva, mas ela não captou meu olhar.
, posso falar com você aqui fora um instante?
— Claro!
se levantou e me seguiu até o corredor dos estúdios de dança.
— Desde quando você confia na ? — sussurrei, cruzando os braços.
— E eu não confio. Acabei falando sem querer a parte do e a danceteria para ela enquanto você se agarrava com o .
— Nós não estávamos nos agarrando. — falei em minha defesa, vendo que minha amiga me olhava de forma maliciosa.
— Ela irá com a gente. Você acha mesmo que a vai nos prejudicar estando junto conosco? Eu duvido! E eu vou ficar de olho nela o tempo todo.
— O estará lá! Ele veio me perguntar se eu confio nele. O que acha que vai acontecer se ele me vir nessa danceteria? — indaguei, sentindo que aquele plano iria dar errado. Mas não sentia aquilo e estava pronta para rebater meus argumentos.
— Esse é mais um motivo para você ir! Ou você não quer ficar perto dele? Amiga, pelo que eu te conheço deu para sacar que você é uma garota que faz tudo certinho. Se divirta um pouco, faça pelo menos uma coisa diferente na sua vida! Você é jovem e está descobrindo agora o amor. Que tal descobrir o que alguns copos de tequila podem fazer com você? Brincadeira! — ela levantou as mãos no ar quando viu meu olhar horrorizado. Nós demos uma risada. — Faça isso por mim também. Eu tenho quase certeza de que o sente algo por mim, e essa é a chance que eu preciso para ouvi-lo confessar. Estaremos longe da Wings e de todas as pessoas. Eu preciso tentar.
O rosto do gatinho do Shrek de conseguiu me convencer. Os sentimentos que ela nutria pelo eram tão fortes que ela nem ligava mais para o fato de que ele era o seu professor. Seus olhos brilhavam quando ele passava perto dela e isso era um fato que todo o mundo já sabia, inclusive ele.
Se ela soubesse que o motivo do ir para essa danceteria é somente para tentar tira-la da cabeça, acho que ficaria maluca.
— Tudo bem, eu topo embarcar nessa loucura. Mas, se alguma coisa der errado, nós iremos embora.
deu um gritinho agudo e me abraçou.
— Você é a melhor amiga que alguém poderia ter.

Eu, e paramos na frente da danceteria quase que ao mesmo tempo. Muitas pessoas entravam e saíam constantemente, o barulho da música que tocava já parecia ensurdecedor estando do lado de fora.
Os rapazes já estavam ali dentro, e eu tinha decidido que só iria ajudar a falar com o , mas que não deixaria que o ou os outros me vissem, afinal, eu não queria que ele pensasse que eu estou desconfiando dele.
Nós pagamos nossas entradas e adentramos o estabelecimento.
A danceteria não tinha mudado nada desde a última vez que estive ali. As luzes coloridas ainda dançavam ao redor dos casais que se acabavam na pista de dança e os mesmos movimentos sensuais podiam ser vistos. e abriram um largo sorriso ao ver a forma como as pessoas se movimentavam.
Apesar de estar de vestido, eu comecei a sentir calor ali dentro. Eram muitas pessoas juntas dentro de um lugar só e, apesar de ter ar condicionado, o mesmo não parecia estar funcionando muito bem.
Arregalei os olhos ao ver e os outros sentados em um enorme sofá vermelho. Os 4 tinham bebidas nas mãos, e pareciam rir de alguma piada que tinha dito.
Cutuquei e apontei o local onde os caras estavam.
— Eles estão aqui mesmo! — ela gritou, sorrindo de forma radiante.
— Vai até lá! — Eu a incentivei, afinal, era só por isso que estávamos ali. Quanto menos tempo nós perdêssemos ali, mais rápida e segura seria a nossa volta para a Wings.
O sorriso de foi se desmanchando e ela nos encarou com um pouco de pânico.
— Eu... Eu não consigo! — ela disse, andando em direção à saída. segurou seu braço, impedindo-a de continuar. — Eu não posso fazer isso!
— Mas é claro que você consegue! Nós chegamos até aqui. Vai mesmo desistir agora que está tão perto? — indaguei, segurando firme em seus ombros.
— Você precisa de uma dose de coragem! — disse , nos chamando com a mão. — Me acompanhem.
Nós a seguimos até o bar da danceteria que ficava longe de onde e os outros se encontravam.
— Três doses de tequila, por favor. — se debruçou no balcão e deu uma piscadela para o barman.
— O que você está fazendo? — perguntei, arregalando os olhos ao ver o barman depositar três copinhos da bebida no balcão.
— Dando coragem a nossa amiga aqui.
pegou dois dos três copos, colocando um na minha frente e outro na frente de , pegando o que sobrou para si.
— Tem certeza de que quer fazer isso? — perguntei a assim que ela segurou o copo de tequila com uma das mãos.
— Essa não é a primeira vez que eu bebo. E se for para me dar coragem, eu vou beber todos os shots de tequila que forem necessários.
virou o copo dela e virou o seu. As duas fizeram careta para engolir o conteúdo, e eu fiquei olhando para o meu copo cheio repleta de dúvidas.
estava certa quando disse que sou certinha. Até mesmo vivia falando isso para mim. Claro que uma parte de mim desejava ser uma garota mais aventureira, que faz grandes loucuras, mas a outra parte que me dominava, a mais medrosa, me freava sempre que eu tinha esses tipos de pensamentos.
Talvez estivesse na hora de mudar isso.
Peguei o copo que estava no balcão sob os olhares atentos de e , virando o líquido na minha boca de uma só vez e sentindo uma ardência horrível quando a tequila passou pela minha garganta.
As meninas riram e comemoraram quando eu bebi, assim acabou pedindo outras doses para nós.
Eu olhei para , que ria de forma espalhafatosa do barman que nos servia. Era nítido que nós estávamos perto de perder o pouco juízo que nos restava, mas eu não me importava. Minha cabeça começou a girar e eu tive que colocar as duas mãos em cima do balcão do bar para poder recuperar o equilíbrio.
Por um momento, eu fiquei lúcida de novo. Pude ver a minha mãe me olhando de forma desaprovadora na minha mente e a culpa começou a fazer um buraco no meu peito.
Fugir da Wings no meio da semana para ir a uma danceteria com e é ainda mais estranho do que eu consigo admitir. Eu sabia que se fôssemos pegas iríamos ser severamente punidas, mas era como se eu estivesse totalmente anestesiada e despreocupada, de forma que aquilo não me afetou da forma que deveria.
Afastei a imagem da minha mãe da cabeça e peguei o copo da mão de , que sorriu de uma forma vitoriosa. Eu virei o shot de uma só vez, sentindo a minha garganta queimar e minha cabeça girar de novo. Sacudi a cabeça e levantei os braços para o ar, gritando um sonoro "Uhul", e e se apoiaram em mim, rindo e gritando junto comigo, tão desajeitadas quanto eu.
Esbocei um sorriso para o barman e pedi mais um shot de tequila.
A diversão estava prestes a começar.
Depois de várias doses de tequila, se sentiu encorajada o suficiente para ir falar com o . Ficamos esperando que ela voltasse perto do balcão da danceteria e, apesar de estar vendo tudo dobrado devido às várias doses que eu tinha bebido, ainda pude perceber que parecia mais sóbria do que eu e , mesmo tendo bebido a mesma quantidade que a gente.
Porém, antes que eu pudesse pensar mais nesse fato, avistei caminhando de forma desajeitada em nossa direção. Mas ela não estava sozinha. Ela trazia , , e . Esse último me olhava de um jeito que eu não pude descrever. Apesar de toda a tontura, ainda pude reparar que ele parecia completamente furioso.
Os 4 pararam em nossa frente e cambaleou para o lado, rindo como uma hiena. me pegou pelo braço com firmeza, mas sem me machucar e me levou para um canto afastado da danceteria.
— O que deu em vocês? Perderam o juízo? — ele perguntou, parecendo extremamente nervoso. Tentei organizar a minha mente antes de responder, porque eu sabia que não estava sóbria o suficiente para ter um diálogo com uma versão tão transtornada do .
— A queria se declarar para o e disse que só conseguiria fazer isso fora da escola.
— E você a acompanhou nessa loucura por quê? Achei que você confiasse em mim!
— Mas eu confio! — gritei, tentando pegar o rosto de , mas ele se afastou do meu toque. — Eu só vim porque a me implorou. Não tem nada a ver com você.
— Vou te levar de volta pra Wings.
Puxei o braço de antes que ele desse mais um passo e grudei meu corpo ao dele. A música envolvente que tocava e a bebida em meu sangue fizeram com que o pouco juízo que restava em mim desaparecesse.
A princípio, tentou se afastar, mas eu continuei pressionando meu corpo ao seu em movimentos intensos e torturantes que fizeram com que ele respirasse fundo.
... O que você está fazendo?
Enlacei seu pescoço com meus braços e continuei esfregando meu corpo no dele, imitando alguns casais que estavam ali por perto. Me virei de costas e senti as mãos de passearem por minha cintura e traçarem um rastro de desejo por minha pele.
Senti a boca de beijar meu pescoço exposto. Fechei os olhos e segurei suas mãos, passando-as por várias partes do meu corpo. arfou, subindo os beijos para a minha orelha, onde mordiscou e lambeu. Meu coração acelerou e eu comecei a me sentir quente quando ele começou a se esfregar com mais força em mim.
me virou e me puxou para si em um beijo que eu nunca tinha experimentado antes. Era um beijo cheio de desejo, que fez com que as minhas pernas ficassem bambas e com que um formigamento estranho e bom se alastrasse por dentro de mim, arrepiando cada pedacinho da minha pele.
Nossas bocas estavam famintas e buscavam desesperadamente matar a vontade que tinha se espalhado por nossos corpos. Eu não sabia bem de onde tinha vindo tanta coragem para fazer o que eu estava fazendo naquele momento, mas sabia que não era somente culpa do álcool. Teríamos ficado nos beijando ali para sempre, se não tivesse nos interrompido com um sorrisinho irritante nos lábios. Droga, agora ele sabe sobre nós. Ou será que ele já sabia?
— Está na hora de levar as meninas encrenca de volta para a Wings. — disse para um meio desnorteado.
Caminhamos em silêncio até o carro de , onde e já se encontravam. Tive que me apoiar em para conseguir chegar até o carro e, quando entrei, percebi que a minha amiga chorava.

O caminho até a Wings foi silencioso dentro do carro. Eu ainda estava um pouco alta, e , além de bêbada, parecia desnorteada. A única que parecia estar com a aparência melhor era .
se despediu de mim dizendo que conversaríamos amanhã, e deu um beijo na testa de , o que eu achei bem fofo. encarou estranho por todo o trajeto, o que eu não entendi muito bem, e era o único que parecia estar tranquilo com toda a situação.
Assim que entramos no quarto, correu para o banheiro para vomitar. Eu fui atrás dela com cuidado por causa da tontura, e segurei seus cabelos.
— O que aconteceu lá com o ?
— O disse que mesmo que ele sinta algo por mim, que nós não podemos ficar juntos. Eu sou uma idiota! Uma idiota bêbada! — ela exclamou assim que parou de vomitar. Fiquei me sentindo mal por , pois minha amiga parecia gostar muito dele.
— Você não é a única bêbada da história.
Nós duas rimos e encontramos parada na porta, nos olhando de forma risonha também. Parecia ser o início de uma estranha e maluca amizade.

Minha cabeça latejava e eu não conseguia abrir os olhos. Eu ainda me sentia cansada e com dificuldades de me lembrar da noite passada. Tentei me virar na cama, mas só o pensamento já fez com que a minha cabeça doesse mais.
— Deixe elas aí e vá logo! — disse Deborah do outro lado da porta. Abri os olhos assustada, mas o sono falou mais alto e eu acabei fechando-os de novo outra vez.

— Eu não posso fazer isso! — exclamou, parecendo aflita.
— Vamos logo, Deborah. O está nos esperando. — disse uma terceira voz, meio impaciente.
— Você vai se arrepender disso, ! Você não cumpriu o nosso acordo.
Depois disso, eu não ouvi mais nada.

, acorda! ! — Senti que alguém me sacudia e acordei assustada. A minha cabeça doía e meu corpo estava esquisito. Parecia que tinham dançado rumba em cima de mim.
— Estamos atrasadas! — disse , sacudindo enquanto terminava de se vestir. — O convocou uma reunião com todos os alunos e professores no salão principal.
Comecei a me lembrar da noite passada e a vergonha de tudo o que eu fiz me deixou completamente tentada a voltar para a cama.
acordou assustada também, e pela expressão em seu rosto a sua cabeça doía tanto quanto a minha.
Lembrei-me de ter ouvido falando com alguém no corredor, mas tudo parecia borrado na minha mente, o que julguei ser um sonho muito esquisito que eu tive antes de acordar.
Nos levantamos da cama rapidamente e tentamos nos vestir o mais rápido que conseguimos, levando em consideração o fato que nós estávamos completamente ruins por conta das doses de tequila de ontem.
Passaram-se bons 15 minutos até que nós três estivéssemos prontas.
— Droga, nós estamos atrasadas! — exclamou, abrindo a porta do alojamento.
Corremos o mais rápido que pudemos até o salão principal. Quando entramos, pudemos perceber que todos já estavam lá, inclusive , que tinha parado de falar para nos fuzilar com os olhos.
O olhar de todos os presentes estava em cima de nós, e eu me senti uma estúpida por ter concordado em sair e beber ontem à noite. Se eu tivesse insistido para a que aquela era uma má ideia, talvez não estivéssemos aqui agora, sendo o centro das atenções.
Ao vermos o olhar de em cima de nós, eu, e engolimos em seco.
— E então? Qual das moças bonitas vai me explicar o que fizeram vocês se atrasarem?
Nós três nos entreolhamos, nervosas e aflitas. Olhei para todas aquelas pessoas e encontrei o rosto de , Cam e Miles. Esses dois últimos não estavam entendendo nada.
Com o coração acelerado de pavor, eu me joguei no chão e esperei que o caos se instalasse ao meu redor no momento em que fingi que tinha desmaiado.

Capítulo 25 - Amigos ou inimigos?

Depois que eu me joguei no chão, o caos se fez presente. e correram para me amparar, e todos começaram a falar ao mesmo tempo. Abri minimamente um dos meus olhos e pisquei para as duas, que entenderam que era tudo fingimento.
— Nós nos atrasamos porque a nossa amiga estava passando mal. — disse de supetão. Senti que alguém me pegou no colo e me carregou para fora da sala.
— Então porque não a levaram para a enfermaria? — perguntou , comigo nos braços e em seu encalço. Ele parecia desconfiado só pelo seu tom de voz.
— A não queria ir para a enfermaria. — justificou-se por mim, já que eu estava “incapacitada” de me defender. — Ela disse que já se sentia bem para ir para a aula.
Senti que alguém me colocava com delicadeza numa maca cujo colchão era macio e, o lençol, bem gelado.
— Essa história está muito mal contada... — ponderou , transparecendo irritação. — Eu vou voltar para a sala, . Depois conte às mocinhas o que eu vou comunicar ao restante dos alunos.
Assim que eu percebi que realmente havia se retirado da sala, eu abri os olhos.
— Onde está a enfermeira? — perguntou , tentando sustentar a mentira.
— Eu não preciso de uma enfermeira. — respondi, dando um sorriso esperto. Porém, quando olhei na direção de , percebi que ele me fuzilava com o olhar.
— Eu não quero saber o que aconteceu, mas imagino que tenha algo a ver com a bebedeira de ontem à noite. — disse ele, balançando a cabeça. Eu e abaixamos a cabeça, envergonhadas. — Eu tenho uma notícia boa e duas ruins. Quais vocês querem ouvir primeiro?
— Quero ouvir as ruins primeiro, se vocês duas não se importam. — disse, com certo tipo de nervosismo no olhar. Eu e demos de ombro, mas eu já me sentia apreensiva antes mesmo de saber o que o iria nos contar.
— A primeira notícia ruim é que a avaliação terá que ser antecipada para daqui há 3 dias.
— O QUÊ?!? — eu, e gritamos em uníssono.
Eu e as meninas tínhamos começado a montar o nosso número não tinha nem um dia direito. Nem em um milhão de anos nós iríamos conseguir terminar de ensaiar a harmonia das vozes e terminar a coreografia antes do prazo estipulado.
— O quer diminuir o número de concorrentes. Segundo ele, existem muitos de vocês aqui ainda. Vai fazer 2 meses que o concurso começou e ele está incomodado com a quantidade de alunos que ainda circulam pelo campus. — abriu um sorriso repleto de sarcasmo para nós. Ele está se divertindo com o nosso desespero, disso eu tenho certeza. — O lado bom é que em épocas de avaliação a carga horária de vocês em relação às aulas irá diminuir. Ou seja, a partir de hoje vocês só terão aula pela manhã até que o dia da avaliação chegue.
— Estamos ferradas. — eu disse, sentindo a minha pressão baixar.
— E a outra notícia ruim? — indagou , tão nervosa quanto eu.
— Parece que o quer acelerar o ritmo das avaliações também, mas isso ainda não é certo. A notícia boa é que depois dessa avaliação vocês terão dois dias livres para passear pela cidade. — disse , e eu pude sentir uma pontinha de animação que fez o meu coração acelerar. Se tudo der certo, nós dois poderemos passar um tempo juntos sem ser dentro da Wings.
— Nós podemos voltar para a aula? — perguntei, me sentindo inquieta de repente. olhou fixamente para o meu rosto com uma expressão risonha. A enfermeira apareceu e ficou me observando de modo atento.
— Você está incapacitada de dançar hoje, . Fique aí de repouso e depois encontre suas amigas para ensaiar. — disse meu professor piscando para mim. e o seguiram para fora da sala, me deixando sozinha com a enfermeira.
Já era hora do almoço quando a enfermeira finalmente me liberou. Ela me deu uns analgésicos para dor de cabeça e eu fiz uma nota mental de nunca mais beber daquele jeito. Entrei no refeitório e avistei Miles, Cam e almoçando. Peguei uma bandeja, me servi e caminhei até os meus amigos, mas parei no meio do caminho quando vi que almoçava sozinha. Suas aparentemente ex’s amigas estavam na mesa ao lado e pareciam caçoar dela junto com Brendan Rogers, o bailarino que fez a entrevista coletiva junto comigo e .
Parei em frente à sua mesa e pigarreei.
A loira me olhou de um jeito meio triste.
— Quer se sentar conosco? — perguntei de forma amistosa. assentiu com a cabeça e me deu um sorriso mínimo e desanimado antes de se levantar e pegar a sua bandeja de comida.
Fomos juntas até a mesa dos meus amigos, que me olhavam como se eu tivesse me vestido de banana Split e iniciado uma dancinha ridícula no meio do corredor.
cumprimentou meus amigos e se sentou ao meu lado e de frente para Miles, que sibilou um “você ficou maluca?” com a boca cheia de espinafre.
Eu apenas balancei a cabeça e comecei a comer, já que eu estava faminta.
— O que aconteceu com você hoje de manhã? — Cam perguntou, direcionando a mim o seu melhor olhar de 007. Aquilo gelou a minha espinha.
— É, a contou que você estava passando mal. Ficamos muito preocupados. — completou Miles, esquecendo-se momentaneamente de que estava comendo junto conosco sem atacar ou humilhar ninguém.
— Eu tive uma queda de pressão pela manhã. Essa rotina da Wings tem me deixado maluca. — respondi, dando um gole na minha Coca-Cola para disfarçar a expressão fajuta no meu rosto. Ainda senti o olhar de Camerom em cima de mim por um tempo, o que fez com que o encarasse de um jeito desconfiado.
— Eu reservei um dos estúdios para nós ensaiarmos hoje. — disse , olhando para mim e para .
— Até que enfim você fez alguma coisa que preste. — disse Camerom, desafiando com o olhar. Eu, Miles e ficamos observando a cena de modo estupefato. Nunca tínhamos visto o Camerom tão revoltado antes e era estranho vê-lo provocando daquela forma.
— Você não sabe nada sobre mim, Camerom. Não me provoque.
— Sei o suficiente para saber que você não seria capaz de fazer nada contra mim. Ou seria? Pelo que eu saiba, você e a professora Deborah são muito íntimas. — Camerom se inclinou para a frente na mesa e olhava para a como se a desafiasse com o olhar. Havia um fulgor jamais visto antes nos olhos do meu amigo e, por um momento, eu não o reconheci.
— O que a professora Deborah tem a ver com o assunto? — ela indagou, já alterada pelas insinuações de Camerom.
— Ah, então você não sabe? Eu vejo você e a Deborah cochichando pelos cantos desde que eu misteriosamente fiquei trancado no banheiro masculino. Quase ninguém suporta aquela mulher, só você. Isso me deixou bastante intrigado... — ponderou Cam, colocando a mão no queixo e fingindo pensar. No canto dos lábios dele havia um sorrisinho irritante e sarcástico. — Você nunca se deu bem com a e com a e está se aproveitando da bondade das duas para derrubá-las, não é? Confessa logo! — exclamou, aumentando o tom de voz e fazendo pular para trás com o susto. Miles também estava meio estarrecido com aquela explosão repentina, mas não soubemos o que fazer para que aquilo parasse.
— Você não sabe o que está falando! — ela gritou, se levantando. — Me deixa em paz!
Eu, Miles e encaramos Camerom de um jeito perplexo. Seu rosto estava vermelho e seus olhos raivosos.
— Camerom, o que foi isso? — perguntei, tentando alcançar seu braço, mas meu amigo se esquivou do meu toque.
— Com licença, eu perdi a fome
. E assim, Camerom se levantou, deixando sua bandeja de comida e toda a sua raiva pairando no meio de nós.

— Vamos, mais uma vez! — gritou , se posicionando no centro do estúdio de dança. Coloquei o playback da música para tocar de novo e cantamos juntas a primeira estrofe da música com os microfones sem fio que o e o haviam arrumado para nós.
O ensaio corria bem até então. Apesar da parecer um pouco aérea, nós conseguimos montar a coreografia quase toda e a harmonia das vozes estava funcionando bem. Por sorte, as nossas vozes combinavam de um jeito bem bacana.
Nossos collants estavam suados e o meu coque já se desfazia. Nós já estávamos ali ensaiando há mais de 3 horas, onde a primeira hora foi somente para organizar as vozes e terminar de montar a coreografia, mas eu estava confiante de que tudo iria dar certo.
Apesar de estar animada com o nosso número, confesso que o jeito que o Camerom me olhou e tratou a de certa forma me espantou. Eu nunca tinha visto meu amigo daquele jeito e aquilo me preocupava. Eu não sei o que está se passando com ele, mas tenho o palpite de que não é nada bom.
Ensaiamos o nosso número até a parte que tínhamos criado e nos sentamos no meio do estúdio para descansar e terminar de montar o nosso número. Nós só tínhamos mais dois dias até a avaliação e eu queria pelo menos terminar de montar o nosso número antes de irmos jantar e dormir.
, o que foi aquilo hoje no almoço? — indagou, olhando fixamente para a loira, que empalideceu com aquela pergunta. — Você e o Camerom tiveram algum problema antes de hoje?
— Não quero falar sobre isso. — respondeu, mordendo o lábio inferior. —Temos que nos concentrar somente no nosso número agora.
— Antes de voltarmos a ensaiar, eu só quero que saiba que se você estiver tentando nos ferrar, você vai se dar muito, muito mal. — ameaçou, olhando para como uma felina pronta para dar o bote.
sustentou o olhar, mas percebi que ela havia se afetado com as palavras da minha amiga.
Decidi intervir antes que todo o progresso que fizemos fosse para o espaço.
— Meninas, temos pouco tempo. Vamos focar a nossa pouca energia no que realmente importa, ok?
As duas assentiram com a cabeça e nós voltamos a nos concentrar no ensaio.

No dia seguinte, enquanto íamos para a única aula do dia, esperei Camerom na porta da sala de aula para conversar, já que eu não o vi na hora do café da manhã. Ontem eu não consegui falar com ele, pois saímos muito tarde do estúdio de dança e tivemos pouco tempo para comer, tomar banho e dormir antes que o toque de recolher iniciasse.
O avistei no fim do corredor com uma expressão fechada que não lhe era característica. Ainda era cedo, nenhum aluno se encontrava no estúdio e nem o havia chegado ainda. Era a oportunidade que eu precisava para tentar esclarecer as coisas.
— Oi, Camerom. Você está bem? — eu sorri, mas Camerom me olhou com indiferença.
— Hoje eu não estou afim de papo, .
— Mas o que aconteceu? Eu fiz alguma coisa? — perguntei, exasperada — É por causa da ?
Camerom deu uma risada repleta de escárnio.
— Se a fosse o único problema...
— O que aconteceu, Camerom? — perguntei, cruzando os braços acima do peito enquanto tentava assimilar tudo o que estava acontecendo.
— Nada, ! Me esquece! — esbravejou, entrando na sala de forma bruta. Fiquei olhando para ele de forma magoada e nem percebi que o tinha parado na minha frente e olhava para Cam de um jeito que me deu medo.
— O que está acontecendo aqui?
— Não é nada, pro-pro-fessor. Está tudo bem. — gaguejei, vendo arquear uma sobrancelha e olhar para mim de um jeito bem desconfiado.
Entramos no estúdio de dança juntos e pude sentir o olhar de Camerom em cima de nós. Fiquei com tanto medo por não saber com que tipo de situação eu estou lidando que quase contei tudo para o por mensagem de texto.
O que estava acontecendo com o Camerom? Porque ele está agindo desse jeito?
A princípio, eu pensei que o problema era só a . Mas agora eu vejo que eu também estou inclusa nesse problema. Mas por qual motivo? Isso eu não sabia responder.

— Eu não sei porque o Camerom está agindo desse jeito. — disse , perplexa, após ouvir o relato do que houve hoje antes da aula. Eu e ela estávamos indo ao estúdio de dança ensaiar com , que disse que tinha uma surpresa para nós. Do jeito que as coisas estão, tenho até medo de saber do que se trata essa surpresa. — Ele não apareceu na hora do almoço, não falou com o Miles quando ele o cumprimentou e me ignorou completamente hoje de manhã. Estou preocupada.
— Confesso que eu também estou.
e eu entramos juntas no elevador a tempo de ver Miles correndo com seu grupo na nossa direção. Coloquei o braço na porta para que a mesma não se fechasse e ele entrou esbaforido na companhia de mais dois caras.
— Obrigado, Lenda Wings! — disse Miles, mandando um beijinho no ar para mim. Percebi que hoje ele estava usando roupas escuras, trocando as famosas regatas de oncinha e as camisetinhas rosa. Seu cabelo estava diferente também. Ao invés do costumeiro topete, seu cabelo estava despenteado e caindo todo para o lado.
— Você está um gato, Miles! Sério, eu te pegaria se eu ainda tivesse dúvidas em relação as suas preferências. — disse , olhando meu amigo de cima a baixo.
entrou no elevador no mesmo instante, demonstrando que tinha ouvido a frase de minha amiga. Acompanhado de e , os três tinham entrado dando uma risada e ficaram em silêncio no momento em que nos viram.
— Eu sei que eu sou um pedaço de mau caminho, linda. — Miles deu uma piscadela para minha amiga, que deu uma risada. Os caras do grupo de Miles também riram.
Apesar do climão instalado no elevador, eu posso dizer que está se saindo bem em sua tarefa de fingir que o não existe.
— Vocês estão indo ensaiar? — perguntou diretamente a , que arregalou os olhos ao perceber que era com ela que ele falava.
— Sim, já terminamos de montar a nossa apresentação. — ela disse, fingindo que estava indiferente ao e a todo o resto. Eu e Miles nos olhamos e prendemos a risada.
abriu um sorriso que não chegou aos seus olhos. e também prenderam o riso.
— Que ótimo.
As portas do elevador se abriram no nosso andar e eu tive que pedir licença para os professores para poder sair. agarrou o meu braço com força e saiu sem olhar para trás. Miles e seus colegas nos acompanharam.
— Fiquem quietos. — disse para nós. Miles e eu começamos a rir.
— Esses amores adolescentes... — debochou ele, fazendo estapear o seu braço.
Nos despedimos de Miles e seus colegas e entramos em nossos respectivos estúdios. Meus olhos brilharam ao ver em pé perto de uma arara gigantesca e repleta de roupas divinas.
— O que é isso? — indagou, apontando para todas as peças de roupa.
deu um sorriso animado e pediu para que nos aproximássemos.
— Vamos escolher o nosso figurino! — disse ela, pegando um vestido de saia rodada.
Eu e olhamos uma para a outra e soltamos gritinhos repletos de empolgação enquanto corríamos na direção dos figurinos que estavam nas araras.
Esse ensaio vai ser longo!

2 dias depois...
Dia da avaliação
O meu reflexo no espelho estava irreconhecível naquele instante, pois tinha feito um ótimo trabalho me maquiando e modelando os meus cabelos. Eu usava um vestido decotado da cor rosa bebê que ia até a metade das minhas coxas. Ele era brilhoso e bonito, e combinava com a minha sapatilha de ponta.
O vestido de era igual ao meu, exceto pela cor. O seu vestido era vermelho e o de era preto. O cabelo delas também estava modelado com babyliss.
Por incrível que pareça, eu me senti a vontade na presença de . Eu e não sentíamos mais que ela era uma pessoa ruim, mas a ruiva ainda tinha medo de confiar plenamente nela.
Nós fomos para o auditório quando a hora chegou e observamos os outros concorrentes com figurinos extravagantes e acessórios ainda mais chamativos. Vimos bailarinas fantasiadas de palhaços e bailarinos de salto alto, enquanto plumas e lantejoulas voavam em nossa direção.
torceu o nariz para alguns figurinos que viu.
Nos acomodamos nas primeiras fileiras do auditório, fazendo comentários engraçados para espantar o nervosismo. Os professores ainda não haviam chegado. Pude perceber que na bancada deles havia microfones e plaquinhas indicando os lugares de cada um.
Será que eles iriam comentar todas as apresentações? Meu coração acelerou só de pensar na hipótese de ter comentando a nossa performance.
A sala se encheu rapidamente. Vi Brendan entrar no auditório acompanhado dos integrantes do seu grupo nos encarando com deboche. O figurino deles estava ridículo e deu uma risada espalhafatosa da cara dele.
— Que otário!
As “amigas” de também já estavam ali, dando risinhos nervosos entre si. Miles passou pela porta junto com seu grupo e fez sinal para que ele se aproximasse.
O figurino deles era bonito e masculino. Miles realmente estava querendo conquistar aquela garota. Ele se sentou perto de mim e seus amigos sentaram ao seu lado.
— Vocês viram o Camerom? — eu perguntei, procurando-o pela multidão.
— Esquece ele, ! Esse cara tá maluco. Quando ele parar de agir como um animal, ele virá conversar conosco. — disse Miles. Ele estava tão magoado quanto eu com toda essa atitude rebelde do Camerom.
— Falando no dito cujo... — disse , olhando na direção da entrada do auditório.
Camerom passou pela porta vestido para a apresentação. Ele e seu grupo se sentaram bem longe de nós. Nossos olhares se cruzaram, mas ele fez questão de demonstrar que não queria papo comigo me fuzilando com os olhos. Desviei o olhar, me sentindo magoada com toda aquela fúria repentina e me virei para frente. afagou o meu ombro com carinho, me deixando surpresa com aquela atitude.
— Os professores chegaram! — Miles cantarolou, apontando para a porta.
O primeiro a entrar foi o , lindo e simpático como sempre. Logo em seguida veio , , e o Dragão Deborah. Todos se dirigiram até seus respectivos lugares e o frio na barriga começou a me invadir.
subiu no palco com um microfone na mão.
— Boa noite a todos! Daremos início agora a mais uma avaliação. Lembrem-se que os professores estarão avaliando como vocês se portam no palco, se possuem energia e presença, além da afinação, desenvoltura e a coreografia que montaram. A avaliação dessa semana é única, mas a dificuldade é maior. Então deem tudo de si hoje!
A galera gritou, contagiada com a estranha animação de .
As câmeras localizadas em cada canto do palco e os cinegrafistas presentes me deixaram ainda mais nervosa, mas eu tentei me conter, afinal, eu não podia deixar isso me atrapalhar.
O primeiro trio foi chamado para o palco para se apresentar. Eles tiveram um problema com os adereços de seu figurino e um dos bailarinos escorregou enquanto andava pelo palco. Miles quase se engasgou de tanto rir.
Deborah e comentaram a apresentação deles. Ela foi um tanto cruel, mas ele a cortou antes que todos nós começássemos a vaia-la.
Quanto mais apresentações eu via, mais eu ficava nervosa com a possibilidade de que a Deborah fosse comentar a nossa apresentação de forma maldosa só para me humilhar. Os pensamentos que me atingiam eram tão fortes que eu nem percebi quando a minha vez finalmente foi anunciada.
— Acorda, ! — deu uma pequena sacudida em meu ombro, me fazendo despertar do meu transe. — Somos nós agora.
Eu, e caminhamos até o palco. O silêncio que nos envolveu me fez ter medo do que aconteceria no momento em que começássemos a nos apresentar.
Lembrei-me do que me disse quando comecei a estudar na Wings a respeito da minha dança. Eu precisava ser uma versão mais decidida de mim mesma pelo menos naquele momento. A apresentação pedia isso. Eu pedia isso.
E é claro que eu iria acatar esse pedido.
Começamos a cantar a primeira estrofe da música de forma sincronizada. Eu estava no meio, do meu lado esquerdo e do direito. Dei um gritinho igual ao que a Perrie dava na música e as meninas foram cada uma para um canto do palco com animação.
Cantei a parte da Perrie e me movi pelo palco com precisão, segurança e (pasmem!) sensualidade.
Movi meu quadril de um lado para o outro e sorri o tempo todo.
veio para o meio do palco cantar a sua parte da música. Ela já era sensual por natureza. Seus cabelos, seu jeito de andar e falar já diziam muito sobre ela, e claro que não foi difícil colocar isso em prática ali no palco.
Nos juntamos para cantar o refrão da música e dançar a coreografia que montamos. A plateia quase toda batia palmas na nossa apresentação e eu me senti feliz ali no palco.
Por um momento, o rosto da minha mãe me veio à mente. Ela sorria para mim e tirava uma mecha de cabelo do seu rosto. Eu sabia que naquele momento ela estava orgulhosa de me ver ali em cima e aquilo me deu coragem para manter o ritmo da apresentação. A também cantou a sua parte de forma impecável e nós três nos divertimos no palco.
Nós dançamos, cantamos e rimos juntas. Fizemos poses, caras e bocas em determinadas partes da música e vi pela minha visão periférica que todos os professores pareciam se divertir com a nossa apresentação. Todos menos Deborah, é claro. Mas quem se importa com um Dragão quando se tem a maioria dos professores sorrindo para você? Isso mesmo, ninguém!
Quando terminamos a nossa apresentação, toda a plateia se levantou para nos aplaudir. O primeiro a comentar a nossa apresentação foi o :
— Eu acho que nunca vi vocês três se divertindo tanto quanto hoje aqui nesse palco. Foi uma das melhores apresentações de hoje, disso eu não tenho dúvidas. Vocês tem presença de palco, simpatia, atitude e são entrosadas. Parabéns, vocês fazem um bom time!
— Obrigada, . — disse timidamente enquanto toda a plateia vibrava.
, você evoluiu muito da primeira avaliação para essa. Eu estou impressionado com o seu progresso! , você tem uma voz limpa e um gingado tão incrível quanto o de e, , essa noite você conseguiu colocar em prática tudo o que temos te ensinado. Sua potência vocal é incrível e essa música só te favoreceu. Parabéns a todas! — disse , nos olhando com orgulho.
Nós saímos do palco com uma sensação de felicidade que era difícil de descrever em palavras. nos puxou para um abraço apertado que rapidamente foi retribuído e nós comemoramos com vontade. No fim das contas, nós descobrimos que realmente fazemos um bom time e aquilo fez toda a diferença naquele momento.

Os resultados da avaliação não tinham saído ainda, mas tinha liberado a saída dos alunos para passear pela cidade por dois dias. Eu, , Miles e iríamos no shopping mais tarde.
Enquanto eu conversava por SMS com a , — tem um lugar estratégico em cima do armário que pega um pouco de sinal; duas barrinhas, para ser mais exata — recebi uma mensagem de no Whatsapp. Por um momento, meu coração disparou ao ver o nome dele na tela do meu celular. O sinal da internet era tão precário na Wings que eu tinha me esquecido que o Whatsapp existia. Visualizei a mensagem e cliquei sobre a foto de perfil dele. A fotografia era linda. Seus cabelos estavam despenteados na foto, mas a sua expressão era de um homem sério e carrancudo. Dei uma risada baixa e decidi que iria fazê-lo tirar uma foto mais amistosa que aquela.
:
Pode sair hoje?
:
Sim, mas tenho que voltar antes das 17h. Eu e meus amigos vamos ao shopping.
:
Te encontro daqui há 15 minutos na esquina da Wings. Estarei dentro de um carro prateado.
:
Tudo bem.
Vou me arrumar.
:
Mal posso esperar para te ver.
:
Você é lindo. <3
Joguei o celular na cama com um sorriso bobo no rosto e comecei a andar nervosamente de um lado para o outro. , que estava jogada na cama lendo um livro, logo percebeu que havia algo errado.
— Vai se encontrar com ele? — ela indagou, me olhando maliciosamente.
— Sim, mas eu não consigo pensar no que tenho que fazer! Meu cérebro parece que foi fritado!
— Amiga, respira. — se levantou e colocou as mãos no meu ombro para tentar me acalmar.
Ela soltou o meu cabelo, que caiu pelas minhas costas de uma só vez e pegou uma muda de roupa no meu guarda roupa.
— Vista isso e estará linda!
A peça que havia me dado consistia em um short jeans escuro, botinhas e uma camiseta preta escrita “peace and love”.
— Eu não estou parecendo muito adolescente com essa roupa? — perguntei assim que vesti o look que tinha atirado em minha direção. — O é bem mais velho que eu.
— Você é jovem! E ele nem é tão velho assim. — disse ela, revirando os olhos — Você está linda e estilosa.
— Tudo bem, eu já vou. — eu disse, colocando o celular no bolso e caminhando até a porta.
— Divirta-se por mim!
Eu andei de forma apressada pelos corredores da Wings, me sentindo verdadeiramente feliz por saber que eu iria estar com o cara que eu amo. Mandei uma mensagem para avisando que já estava chegando e apressei ainda mais o passo quando avistei Miles no campus. Não queria ser parada por ninguém para evitar o trabalho de ter que dar satisfações.
Meu celular vibrou no bolso com uma mensagem de . Eu a respondi rapidamente dizendo que eu iria me encontrar com e que nos falávamos mais tarde. Pedi para que ela continuasse me atualizando sobre o estado de papai e guardei o telefone no bolso novamente.
Porém, quando eu estava saindo da Wings, eu vi Camerom conversando com Deborah do outro lado da rua. Apertei os olhos na direção dos dois, ainda sem acreditar no que eu estava vendo, mas eu não tinha dúvidas. A minha visão não estava me pregando peças.
Aquele era mesmo o Camerom, e ele não estava sozinho.
estava lá também.

Capítulo 26 - Exposta

A minha amizade com o Camerom começou assim que entrei na Wings. Na época eu tinha muito medo do , e poucas pessoas falavam comigo. Na verdade, eu só conversava com a .
Eu e Cam nos sentamos juntos na aula de Teatro e o fato do estar humilhando duas alunas que conversavam em sua aula foi o que nos uniu.
Ao olhar para o meu amigo que conversava de um jeito suspeito com e Deborah, eu me entristeci. Me entristeci porque eu não consigo pensar em um motivo que justifique essa mudança repentina. Eu simplesmente não sei o que eu fiz para o Camerom começar a me tratar com tanta frieza.
Desviei o olhar daquela cena estranha e apertei o passo, com medo de que eles me vissem observando-os. Eu me sentia nervosa da cabeça aos pés, e não era por estar indo encontrar o que eu me sentia daquele jeito. A verdade é que eu estava com medo do que a Deborah estava tramando.
— Little Rebel! — exclamou , me assustando. Ele abaixou o vidro do carro e me chamou para entrar, destravando a porta do carona. Eu dei um sorriso trêmulo para ele e entrei no carro, afivelando o cinto de segurança logo em seguida.
Nos cumprimentamos com um selinho demorado que fez o meu coração se aquecer. Nós nos afastamos e deu a partida no veículo.
— O que aconteceu? — ele indagou, olhando para o meu rosto rapidamente antes de voltar a olhar para a estrada — Você parece preocupada.
— É o Camerom. Ele não fala comigo e nem com a e o Miles, e está sombrio e obscuro.
Meu melhor amigo não era sombrio e obscuro, mas agora estava agindo assim.
Mas por qual motivo?
— Sombrio e obscuro combina com ele. — disse , risonho. Acho que o Camerom está longe de ser seu aluno favorito.
— Tem mais uma coisa. Eu acabei de vê-lo conversando com a Deborah e a .
desfez o sorrisinho brincalhão que estava no canto dos seus lábios e adquiriu uma expressão pensativa e preocupada, que fez com que a minha preocupação aumentasse ainda mais.
— A Deborah não costuma conversar com alunos, principalmente com o Camerom. A única aluna que eu sei que a Deborah conversa é a . Sem contar que você tinha me dito que o Camerom estava achando que foi a Deborah que o trancou no dia da avaliação em dupla.
— Se a Deborah não costumava fazer amizades com alunos antes, agora ela faz. Eu tenho certeza de que ela está tramando alguma.
— Você acha que o seu amigo se envolveria nisso? — perguntou , parando o carro no sinal vermelho.
— Ela pode estar obrigando-o a fazer isso.
Eu ainda não tinha absoluta certeza dos planos da Deborah, mas sabia que ela estava tramando alguma coisa contra mim. Ela foi capaz de me trancar numa sala somente para que eu não participasse de uma avaliação, e tentou me prejudicar desde que entrei na Wings.
— Mas por qual motivo ela estaria empenhada em destruir a sua carreira? Eu não consigo entender. — disse , prestando atenção na estrada agora que o sinal estava aberto novamente.
— Quando nos conhecemos, eu derramei café na sua blusa de grife e, desde então, a Deborah começou a me perseguir.
— Você acha mesmo que a implicância da Deborah com você é por causa de um pouco de café? — deu uma pequena risada. — A Deborah é louca por natureza, mas eu tenho certeza de que ela não se daria ao trabalho de recrutar um exército de alunos para acabar com uma garota só por causa da sua blusa de grife manchada. Eu tenho certeza de que tem mais coisa aí.
— Mais coisa? Eu não a conhecia antes de entrar na Wings. Eu nunca a vi na vida! Eu morava em New Haven e, até onde eu sei, a Deborah sempre morou aqui, não é?
— Na verdade não. Houve uma época em que ela morou em Los Angeles.
— Isso ainda não explica as suas motivações em querer que eu saia do concurso. Passei a minha vida inteira em New Haven, estudando e fazendo as minhas aulas de dança, canto e teatro. Não é possível que ela tenha me odiado nessa época.
ficou em silêncio por um tempo. Ele parecia pensativo, e eu fiquei me perguntando o que estaria se passando pela sua cabeça. Eu quase conseguia sentir a sua preocupação e eu comecei a criar um monte de teorias malucas em minha mente apenas para explicar o motivo da Deborah estar querendo destruir a minha carreira dentro da Wings. Porém, por mais que eu pensasse, nada conseguia explicar as motivações dela. Nada mesmo.
— Você não está sozinha nessa, . Eu vou começar a investigar a Deborah. Ela não vai te tirar do concurso, não se preocupe. — ele afagou o meu joelho com carinho e sorriu. Esbocei um sorriso fraco, e deixei os pensamentos paranoicos me dominarem novamente.
— Obrigada.
entrou em uma rua bonita e diminuiu a velocidade até parar em frente a um condomínio grande e luxuoso. Ele era bem afastado da cidade, e por um momento eu senti que estava fazendo algo ilegal.
O portão foi aberto para nós e estacionou o carro no próprio estacionamento do condomínio. Entrelaçamos as nossas mãos e eu me senti mais calma ao sentir a sua mão quente tocar firmemente a minha.
Caminhamos em silêncio até a sua casa, que ficava quase no fim da rua do condomínio. As casas por onde passamos eram bem bonitas e luxuosas, e me surpreendi ao ver que a de parecia ser menos chique que as outras.
A entrada da casa era bonita, mas simples. A varanda estava um pouco suja e tomada das folhas das árvores do jardim que ficava dentro do condomínio. destrancou a porta e nós entramos, e me surpreendi ao ver o quanto a casa parecia conservada e limpa por dentro.
Na sala não havia muitos móveis, somente uma escrivaninha, uma mesinha de centro e um sofá cinza. Ele me pegou pela mão e me levou até o andar de cima, direto para o seu quarto. Meu coração acelerou de uma forma absurda, mas eu tentei me manter calma.
— Me desculpe pela poeira. A moça que limpa não pôde vir essa semana e eu não tive como contatar ninguém. — disse ele, meio envergonhado, colocando as mãos no bolso da calça.
— Tudo bem, não se preocupe.
Andei pelo quarto de como se estivesse prestes a conhecer um outro lado dele que eu ainda não tinha visto. Passei os olhos pela cama de casal bastante convidativa, pelo armário grande e pelo violão encostado a parede, mas parei na janela. A paisagem era linda, e por um momento eu perdi o fôlego. De onde eu estava, eu conseguia ver o jardim bonito e bem cuidado do condomínio, que exibiam flores de todos os tipos, cores e tamanhos. Acho que eu nunca tinha visto um jardim tão bonito de perto antes.
— Gostou da vista? — me abraçou por trás, repousando o queixo no meu ombro. Seu rosto tão perto do meu fez o meu estômago se revirar de nervoso. O calor do seu corpo, seu cheiro, tudo nele parecia me chamar.
— Sim, eu nunca tinha visto um jardim tão bonito antes.
— Só os caras sabem que eu venho aqui. Sempre que estou precisando ficar em um lugar calmo, eu venho para cá. Essa vista é inspiradora. — disse, beijando o meu ombro demoradamente.
Soltei um suspiro e inclinei a cabeça para trás, fazendo com que começasse a subir os seus beijos pela minha clavícula até chegar ao meu pescoço, despertando em mim uma série de espasmos de prazer.
A temperatura do meu corpo começou a subir, e tudo se intensificou quando ele me virou de frente para si e depositou um beijo cheio de vontade em minha boca. As suas mãos começaram a percorrer a minha coluna, seus dedos arranhando-me de forma vagarosa e torturante enquanto a sua boca se chocava com a minha, ambos embriagados de desejo.
As minhas mãos pareciam que tinham criado vida própria, pois quando dei por mim elas já estavam se embrenhando por dentro de sua camisa social. Sua barriga se contraiu com os meus toques tímidos e eu senti a sua pele queimar como a minha queimava.
Caminhamos para a cama a passos trôpegos e desajeitados, e eu senti o colchão macio embaixo de mim. deitou em cima de mim com cuidado, depositando uma mordida no meu queixo e um rastro de beijos e mordidas pelo meu pescoço. Meu corpo se contorceu e eu arfei, sentindo-me completamente ensandecida ao sentir o calor do corpo dele ainda mais próximo ao meu.
Segurei firme os seus cabelos quando começou a distribuir beijos no vão dos meus seios. Eu nunca tinha ficado daquela forma com um rapaz antes, mas eu sabia o que tudo isso significava. Enquanto subia novamente a sua trilha de beijos até chegar a minha boca, eu comecei a desabotoar a sua camisa, pensando se eu realmente queria aquilo.
Eu sempre pensei que a minha primeira vez aconteceria a partir do momento em que eu tivesse certeza dos meus sentimentos e dos sentimentos do rapaz. Eu tinha aquela certeza, e sabia que o também tinha, mas será que eu estava mesmo preparada para dar esse grande passo? O nosso relacionamento é proibido e, afinal, ele é o meu professor. Eu ainda não sei se consigo lidar com isso agora.
Não sei se estou preparada para dar esse passo.
Com a ajuda de , eu retirei a sua camisa, e pude ver o quanto o seu peitoral era bonito e definido. Meus pensamentos ficaram turvos quando eu passei as minhas mãos pelos seus ombros, e eu me esqueci completamente de tudo o que eu estava pensando.
Nossas bocas se encontraram novamente, e meu corpo se aqueceu ainda mais com o contato. Eu senti que meu corpo parecia estar eletrificado, e não consegui mais parar. arfava baixinho em meu ouvido, com sua voz rouca e sexy toda a vez que ele se esfregava em mim. Eu consegui sentir o volume de sua calça me tocar e fiquei rígida.
No mesmo instante, os pensamentos temerosos que rondavam a minha cabeça voltaram, e eu parei de responder ao corpo dele. Ele também percebeu e parou na mesma hora o que estava fazendo para me olhar. Ele estava suado e ofegante.
— Me desculpe, eu... Eu acho que ainda não consigo. — eu disse, envergonhada. Meu rosto devia estar mais vermelho do que um tomate.
— Está tudo bem, . — disse, com ternura — Não quero que você se sinta forçada a nada. Eu vou te esperar o tempo que for necessário.
afagou o meu rosto e eu fechei os olhos para sentir o carinho. Me aninhei em seus braços, descansando a cabeça em seu peito. Eu sabia que era difícil para ele parar, mas ele o tinha feito mesmo assim, o que só provava que ele realmente me respeitava.
— Eu amo você, .
— Eu também te amo, minha .
Eu dei um sorriso quando depositou um beijo no topo da minha cabeça. Quando dei por mim, eu já estava adormecida em seus braços.

me acordou antes das 17h para poder ir encontrar meus amigos no shopping. Eu tinha dormido feito uma pedra nos braços dele, e ele ficou me zoando por um tempo por conta disso.
Me levou de volta e nós nos despedimos com a promessa de que passaríamos o dia de amanhã todo juntos. Ele disse que iria abastecer a geladeira com um monte de coisas gostosas e que alugaria alguns filmes. Claro que eu fiquei ansiosa para que o amanhã chegasse.
— Adorei essa blusa de oncinha! — exclamou Miles, apontando para uma blusa feminina do manequim de uma loja. Nós olhamos feio para ele. — É brincadeira, meninas!
Eu e estávamos no shopping ajudando Miles a escolher roupas mais masculinas para o seu novo visual. Já tínhamos rodado quase todas as lojas do 1° piso sem Miles se decidir quando ele avistou uma loja masculina que fez os seus olhos brilharem.
— Essa loja tem o que eu quero, eu sinto isso! — ele exclamou, entrando na loja quase que saltitando.
Eu e começamos a dar uma olhada em algumas peças de roupa, mas Miles já tinha escolhido tudo o que iria experimentar.
— Experimenta essa aqui, Miles. — eu disse, jogando em sua direção uma camiseta de manga curta azul marinho com uma prancha de surf na frente. Ele pegou a blusa da minha mão e levou junto com as outras peças de roupa que ele tinha separado.
— E aí, como foi o encontro com o seu professor? — perguntou com a voz baixa, mexendo em algumas roupas da loja. Meu rosto ficou vermelho só em me lembrar de tudo o que tinha acontecido.
— Nós quase chegamos a...
arregalou os olhos e me lançou um sorriso indolente e malicioso.
— Vocês transaram?
— Não, mas é claro que não! — exclamei, constrangida e nervosa.
— Mas chegaram perto? O quão perto chegaram? O parece ser bem sensual, ele tem pegada?
Arregalei os olhos com a pergunta de , mas ela parecia se divertir com todo o meu constrangimento.
!
— Desculpe, amiga. — pediu, fazendo carinha de cachorro abandonado — Mas eu quero detalhes!
Miles abriu a cortina do provador e mostrou o look que havia montado. Ele colocou as mãos na cintura de um jeito engraçado e sorriu, fingindo uma sensualidade que não existia.
Ele estava usando um jeans rasgado nos joelhos propositalmente, uma blusa preta e uma jaqueta jeans estilosa. Nos pés, ele usava um All Star vermelho.
— Você está parecendo o Camerom, Miles! — bateu palmas e assobiou, chamando a atenção de alguns clientes que estavam dentro da loja. — Tá lindo.
— Não me compare aquele traidor! — Miles esbravejou, contraindo o rosto em uma carranca.
— Eu adorei esse look. Combina muito com você! — eu disse com sinceridade. Miles deu um sorriso singelo e agradecido para mim antes de entrar novamente no provador. — Por falar no Camerom, eu o vi hoje conversando com a Deborah e a .
— E o que ele fazia com aquelas bruxas? — perguntou Miles com indignação dentro do provador.
— Isso é muito estranho... Acho que não podemos confiar muito na , não é? — indagou, parecendo um pouco desapontada. Confesso que desde a última avaliação nós nos aproximamos bastante dela. Porém, não podemos deixar de lado o fato de que ela possui uma “amizade” muito estranha com a Deborah.
— Do jeito que as coisas estão, acho que não podemos confiar nem na nossa própria sombra.

Nós chegamos na Wings felizes e contentes. Miles estava cheio de sacolas que definiam quem ele queria ser de agora em diante. Já , estava um pouco mais animada, mas eu sabia que ela ainda se sentia triste por gostar tanto do . E eu estava com o coração bobo e apaixonado, mas com a mente repleta de preocupações.
Nós nos despedimos de um Miles sorridente e esperançoso e fomos as duas juntas para o nosso alojamento. Porém, estava na porta da sala de informática acenando para nós. Ela parecia ter visto um fantasma, e eu fiquei assustada ao vê-la daquele jeito.
— Vocês precisam ver isso. — disse ela, parando em frente a um dos computadores da Wings. Eu me sentei em frente à tela, e empalideci.
O navegador estava aberto na página da Wings e no Youtube, onde um vídeo meu dançando com no dia da avaliação em dupla era reproduzido. O Camerom era o meu par nessa apresentação, mas ele tinha sido trancado no banheiro masculino e não pôde se apresentar. O me salvou de ser desclassificada, mas depois o Camerom apareceu e o nos deixou repetir a coreografia.
O choque tomou o meu rosto quando eu vi que o vídeo estava circulando livremente pela internet, e que tinha mais de 400 mil acessos. O título do vídeo no Youtube era: “Vaza vídeo de protegendo aluna em concurso da Wings”.
O pior nem era o título do vídeo, e sim os comentários. A metade dos internautas dizia estar shippando a gente, e a outra metade destilava ódio e comentários ofensivos, que em sua grande maioria, eram destinados a mim. Eram comentários machistas, odiosos e que me deixaram com uma grande dor de cabeça.
Meus olhos se encheram de lágrimas enquanto eu lia tudo o que estava escrito.

Capítulo 27 - Encurralada

“Desde o início eu sabia que essa garota é a preferida do concurso.”
“Como você conseguiu convencer a dançar com você, ? Com uma rapidinha? Você é menos ingênua do que eu pensava.”
“Já sabemos quem é que vai ganhar esse concurso.”
“O que deixou a coreografia bonita foi o dançando. Pelo amor, né gente? Essa é muito sem sal.”
Paralisada. Era assim que eu me sentia no momento. Não havia nada nesse mundo que iria conseguir me descongelar. Eu simplesmente não conseguia desviar o olhar de todos os comentários maldosos que apareciam naquele vídeo. Minha mão era a única que se mexia, e ela direcionava o mouse para baixo, para que eu conseguisse ler mais comentários.
Eu conseguia ouvir um zumbido bem longe em meus ouvidos, mas se alguém me perguntasse o que acontecia a minha volta, eu tenho certeza absoluta de que não conseguiria responder nada.
! — exclamou, puxando a cadeira de rodinhas em que eu estava sentada para trás e se posicionando na frente da tela do computador. — Chega de olhar pra essas coisas. São comentários de haters idiotas que não tem mais o que fazer além de odiar a própria vida e a vida dos outros. São pessoas que se odeiam tanto que querem arruinar a vida de todas as pessoas que puderem só para que elas se odeiem também.
Uma vez eu disse para a minha mãe que não sabia se seria capaz de lidar com a fama que a minha carreira provavelmente me traria, e ela respondeu que eu sou mais forte do que penso. No entanto, eu não consigo enxergar toda essa força que ela disse em mim. Eu só consigo enxergar o desespero que eu sinto ao ler tantos comentários horríveis.
A culpa começou a massacrar o meu peito quando eu lembrei o que eu e estávamos fazendo, e eu me senti cada vez pior.
— Eu não sei como o vídeo foi parar aí, só sei que um anônimo me mandou esse link do Youtube pelo Facebook. — disse , parecendo se justificar.
— Tem certeza de que não foi você que pôs esse vídeo ai? — indagou , apontando para a loira com os olhos acusatórios.
— Eu nunca faria isso! — ela gritou, olhando para nós com certo desespero.
— Eu preciso ficar sozinha. — eu disse, me levantando e saindo de perto das duas.
Os corredores da Wings pareceram ficar maiores à medida que a minha vontade de sair dali ia aumentando. Alguns alunos olharam para mim com superioridade, como se realmente gostassem de me ver daquele jeito.
O canal do Youtube que tinha postado o vídeo era novo, e só tinha esse vídeo postado, o que me fez crer que alguém tinha feito uma conta fake de propósito somente para me prejudicar.
Comecei a correr quando percebi que não iria suportar tantos olhares de desprezo, e quase trombei com a Deborah quando eu estava saindo da Wings. Ela tentou me parar segurando meu braço, mas eu me desvencilhei antes que ela conseguisse. O dragão me olhou de um jeito vitorioso e isso me irritou tanto que eu tive vontade de voltar e estapear o rosto dela.
Eu nunca tinha sentido tanta raiva em toda a minha vida.
Diminuí o passo quando vi que havia poucas pessoas no campus do colégio e me senti mais relaxada com o vento frio que envolvia meu corpo. Deixei algumas lágrimas rolarem pelo meu rosto e senti meu corpo todo tremer.
— Eu não vou conseguir, eu não sou forte o bastante, mãe. — sussurrei com tristeza, me afastando das pessoas que estavam no campus.
Se eu pudesse, eu já estaria longe da Wings há muito tempo, mas já estava anoitecendo e eu não podia mais sair, o que dificultava ainda mais a minha situação, já que eu não queria ficar aqui.
Encontrei Camerom encostado em uma árvore me encarando. Ele tinha um semblante muito estranho no rosto, e parecia abatido. Ele me olhava com os olhos semicerrados e seu cabelo estava despenteado não de um jeito charmoso, mas de um jeito desleixado que me preocupou. Porém, assim que Camerom percebeu que eu o encarava, ele sumiu por entre as árvores, me deixando ainda mais triste e vazia.
. — disse , pegando em meu braço com delicadeza. — O quer falar conosco. A sós.
Assenti fracamente com a cabeça e andamos em silêncio até a Wings. Ele acariciava de forma disfarçada as costas da minha mão, e olhou feio para todos os alunos que ousaram me olhar com desprezo, fazendo com que todos se encolhessem e desviassem o olhar de forma constrangida. Dei um mínimo sorriso com isso.
Eu não sabia o que iria acontecer comigo depois disso. O queria nos ver, o que provavelmente queria dizer que ele acreditava nos boatos. Talvez eu seja desclassificada do concurso.
Talvez eu mesma desista dele.
Entramos na sala e encontramos em pé, com a expressão fechada de sempre. Ele pediu para que encostasse a porta e eu esperei o esporro que eu provavelmente levaria.
— O site da Wings foi hackeado essa manhã, mas nós já conseguimos recuperar a conta e estamos fazendo de tudo para encontrar o engraçadinho que fez isso. O vídeo não está mais disponível em nosso site. Também estamos tomando todas as providências para que o Youtube retire o vídeo e o canal fake do ar. — disse , sério e direto. — Ou alguém te odeia muito para se dar ao trabalho de fazer isso, ou você é mesmo muito talentosa para quererem tanto te sabotar. O que o meu filho fez te defendendo no dia daquela avaliação foi imprudente e errado, mas eu não acredito nos boatos que estão rolando por aí. O que acontece é que o é impulsivo e prestativo, e talvez isso seja mais um defeito do que uma qualidade. — continou ele, olhando fixamente para mim. — De qualquer forma, não se preocupe. Você não será afetada de nenhuma maneira em relação ao concurso. Você é uma participante como todos os outros, mas o que eu não tolero é que tentem denegrir a imagem do concurso dessa maneira. Eu convoquei uma reunião com todos os alunos e professores agora para falar sobre o ocorrido. Se você não quiser participar, não precisa. Tire o dia de folga amanhã para passear por Londres e esfriar a cabeça. Amanhã as aulas estarão suspensas, mas depois tudo vai voltar ao normal.
— Obrigada, Sr. . — eu disse, sentindo-me aliviada por ele não ter desconfiado de nada.
— Disponha. , leve a senhorita até o seu alojamento e depois me encontre no salão para a reunião que eu convoquei.
Eu e ele saímos da sala e caminhamos lado a lado até o meu alojamento.
— Isso foi mais um monólogo do que uma conversa, mas tudo bem. — disse, dando uma risadinha. Eu dei um pequeno sorriso, mas continuei calada. — Olha, me desculpe por tudo. Eu só te ajudei aquele dia porque eu realmente vi que você estava precisando de um parceiro. Eu não podia te deixar lá em cima sozinha.
— Eu sei disso. Não se sinta culpado por ter tentado me ajudar.
— O vídeo foi vazado. O meu pai não queria que o publicassem e não queria que ele aparecesse em lugar algum. Só pode ter sido a Deborah que fez isso.
Parei em frente ao meu alojamento, olhei para o rosto do e desejei que as coisas fossem diferentes. Desejei que tivéssemos nos conhecido em outro lugar e de outra forma e, principalmente, desejei não ser a sua aluna.
— Nós temos que fazer alguma coisa. Eu não vou aguentar ficar aqui se ela continuar me infernizando. Já vai fazer 3 meses que estou aqui e eu já estou chegando ao meu limite.
— Nós não devíamos estar fazendo isso, não é? — ele indagou, e eu senti a dor ao olhar em seus olhos, principalmente porque eu não sabia bem como responder essa pergunta.
Por um lado, eu senti que o que eu mais queria era ficar com , mas por outro, eu não conseguia parar de pensar em todos os comentários daquele vídeo, na minha carreira e em tudo o que pode acontecer caso eu levasse isso adiante.
Abaixei a cabeça e respondi:
— Eu... Eu não sei.
— Eu vou começar a investigar a Deborah amanhã. Qualquer informação nova que eu descobrir, estarei te mandando uma mensagem no Whatsapp. — disse , me olhando com determinação. Acho que ele tinha tanto medo quanto eu de que tudo acabasse mal para nós dois.
— Tudo bem. Boa noite.
— Boa noite. Até amanhã.
Entrei no meu alojamento e me senti melhor ao ver que o quarto estava vazio. Me joguei na cama de qualquer jeito e comecei a chorar, sentindo a preocupação que eu sentia com a saúde do meu pai e com tudo o que tinha acontecido hoje desencadeando em mim uma avalanche de desespero.
Eu queria muito poder dizer que aquilo tudo não me afetou, mas de uma forma muito ruim eu me senti suja e culpada ao me lembrar de todos aqueles comentários.

Acordei com o meu celular vibrando com uma mensagem de me pedindo para encontra-lo daqui há meia hora na mesma esquina de ontem. Joguei a coberta para o lado e encontrei e me olhando com preocupação.
— Você está bem? — perguntou assim que eu me levantei da cama.
— Me sinto um pouco melhor. — eu disse, dando um sorriso forçado.
— O Miles está preocupado com você.
— O ontem fez um comunicado que deu medo. — disse , tentando me animar. — Ele disse que sabe que quem fez aquilo com você está aqui dentro, e que se a pessoa se entregar logo vai ser melhor.
— Eu vou me arrumar pra sair, mas depois eu volto e conversamos melhor. — eu disse para as duas, que continuaram me olhando com preocupação.
Peguei uma muda de roupa e fui direto para o chuveiro tomar um banho e escovar os dentes e, quando terminei, mandei uma mensagem para avisando que já estava a caminho.
Nos encontramos na mesma esquina de ontem. Pelo menos dessa vez, quando passei pelas pessoas, ninguém me olhou com desprezo. Acho que o pessoal estava com medo do , já que ele consegue ser intimidador quando quer.
Quando cheguei, o carro dele já estava lá. Eu entrei no banco do carona e fui recebida com um selinho carinhoso que me fez sentir um pouco melhor.
, precisamos conversar. — disse , sério. — Eu descobri umas coisas sobre a Deborah.
— Vamos até o seu apartamento. — eu disse, sentindo o meu coração disparar de nervoso e medo.
Quando chegamos ao apartamento, me ofereceu um suco de morango que aceitei de bom grado. Nós nos sentamos lado a lado no sofá da sala e ele estendeu em minha direção algumas folhas que ele parecia ter imprimido da internet.
— O que é isso? — perguntei, pegando as folhas de suas mãos.
— Eu descobri que a Deborah já morou em New Haven antes de ir para Los Angeles. — disse, me mostrando uma folha com a foto da Universidade de Yale. — Ela e sua mãe frequentaram a mesma universidade.
— A minha mãe dava aulas lá. — eu disse, arregalando os olhos de forma horrorizada.
— Eu entrei em contato com uma irmã da Deborah hoje mais cedo, e descobri que ela começou a ter alguns problemas psicológicos quando era mais nova. Sua irmã não quis me dar muitos detalhes, mas eu posso investigar mais a fundo e descobrir que problemas eram esses.
Fiquei pensando em todas as informações que recebi, percebendo que agora tínhamos alguma coisa que realmente fazia sentido.
— Será que a Deborah odiava a minha mãe por algum motivo e agora quer descontar em mim?
acenou de forma afirmativa com a cabeça.
— Pode ser. Dependendo do problema que ela tem, e eu imagino qual seja, talvez explique porque ela age desse jeito. A Deborah é uma pessoa extremamente narcisista e impulsiva.
— Concordo com você.
pegou em minhas mãos e as segurou firme entre as suas. Ele me olhou de um jeito tão lindo que eu fiquei extremamente balançada. Eu queria muito estar com ele, muito mesmo, mas parecia que o universo estava conspirando contra o que sentíamos um pelo outro.
— Olha, eu sei que você está com medo disso tudo, mas eu te prometo que vai dar tudo certo. Eu quero muito estar com você, e não quero que essas coisas destruam o que nós temos. Por favor, não desista de nós.
— Eu vou pensar nisso, ok? — eu disse, me desvencilhando de suas mãos. ficou tão desapontado que abaixou a cabeça. Meu coração doeu. — Esse não é o fim, eu só quero organizar a minha cabeça que está uma bagunça nesse momento.
— Tudo bem.
Nós nos olhamos mais uma vez e eu me joguei em seus braços. Me joguei porque eu sabia que não conseguiria ficar sem seus braços em envolvendo, e porque só o tinha o poder de me acalmar. Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto, e quando menos percebi, eu estava chorando de soluçar. Ele me apertou contra seu corpo e afagou o meu cabelo, dizendo que tudo iria ficar bem.
Se ele estava mentindo, eu não sei. A única coisa que eu sei é que enquanto eu estiver em seus braços, nada pode me atingir.

Já era noite quando eu voltei do apartamento do . Nós ficamos conversando e maratonando Grey’s Anatomy na televisão. Ele não gostou muito da série, mas me acompanhou só para me agradar.
Também prometi que o faria tirar uma foto mais apresentável para postar no perfil do Whatsapp, mas disse que sua foto está ótima e que não tem nada de errado nela. Iludido.
O campus da Wings estava vazio, escuro e silencioso, e eu me assustei ao ver Camerom jogado no chão entre as árvores.
— CAMEROM! — gritei, já me pondo a correr até ele quando o mesmo se levantou e me olhou de um jeito que me deu calafrios. — Você está bem?
Me aproximei dele a passos hesitantes, temendo que, se eu me aproximasse demais, ele começasse a brigar comigo ou se afastasse.
— Você tem que sair daqui.
— O que? Por quê?
— Sabe o que é estranho? — ele perguntou, ignorando totalmente a minha pergunta. — A sua capacidade de se preocupar comigo mesmo depois de todas as coisas que eu fiz.
— O que você fez, Camerom?
Ele deu um sorriso doentio e se aproximou de mim.
— Eu não mereço a sua amizade. — Camerom disse, com lágrimas nos olhos. — Eu te maltratei, te ignorei e até gritei com você! É imperdoável, tudo imperdoável!
Ao chegar mais perto do meu amigo eu percebi o quão descontrolado e abatido ele estava. Haviam círculos profundos embaixo de seus olhos, e sua expressão facial parecia diferente da que eu estava habituada a ver. O Camerom nunca teve aquela expressão, ele sempre me tratou amigavelmente, e agora ele parecia até outra pessoa.
Os olhos azuis profundos ainda estavam ali, mas eles não eram mais amáveis: eram assustadores.
— O que está acontecendo com você? — perguntei de forma preocupada, segurando suas mãos.
Camerom parou por um momento e ficou me encarando fixamente por alguns segundos antes de me encurralar contra uma árvore.
— Me perdoe, .
Foi a última coisa que eu ouvi antes de começar a gritar.

Capítulo 28 - Más Notícias vs Boas Notícias

— Pare de gritar, . — Camerom sussurrou, tampando a minha boca com agilidade. Suas mãos tremiam tanto quanto as minhas e, pela primeira vez, eu realmente senti medo do meu melhor amigo. — Preste atenção no que eu vou te dizer.
Meus olhos arregalados de pavor encaravam Camerom com assombro. Eu só queria chutá-lo e sair correndo dali, mas o medo me impedia. Eu nunca lidei muito bem com situações perigosas e acho que isso se deve ao fato de que eu quase não passei por nada muito sério na minha vida. Claro que bastou eu entrar na Wings para que tudo mudasse, mas isso não vem ao caso agora.
— Você tem que ir embora agora, .
— O... O que? — indaguei assim que ele tirou a mão da minha boca. Eu estava tão confusa que até me esqueci do medo que eu senti do Camerom descontrolado e de olhos vermelhos parado em minha frente.
— Ela está em toda a parte e quer te ver mal. — disse ele, com os olhos assustados. — Eu sei sobre o , mas não sou o único. Tome cuidado, .
Um suspiro angustiado escapou de meus lábios e meu coração se encheu de pavor, mas agora o motivo do meu medo tinha outro nome.
Deborah.
— Você está falando da Deborah, não está? — Camerom deu dois passos para trás com a minha pergunta, fazendo que não com a cabeça logo em seguida. Ele estava se negando a compartilhar comigo as informações, mas eu precisava continuar tentando. — Por que ela está fazendo isso comigo?
Eu precisava de respostas concretas. O que o descobriu me situou um pouco de tudo o que está acontecendo, mas ainda não é o suficiente.
Eu lembro que nos meus primeiros dias dentro da Wings eu ouvi a Deborah falando com um homem muito sinistro que a minha mãe tinha arruinado a vida dela e que ela me queria fora do concurso. Na época eu não tinha certeza de que a Deborah falava de mim, mas agora não me restam dúvidas.
A minha mãe nunca faria mal a ninguém. Eu não consigo imaginar o que ela possa ter feito para a Deborah criar tanto ódio a ponto de querer se vingar.
— Corra para o seu alojamento sem olhar para trás. — instruiu, olhando para o prédio imponente da Wings.
— Mas... Cam...
Me aproximei dele e tentei tocar em seu braço, mas Camerom se esquivou do meu toque e gritou com energia:
— Agora!
Movida pelo susto, corri o mais rápido que pude para dentro do prédio da Wings. Meu calcanhar doía e eu não sabia bem o porquê, mas me recusei a parar. Porém, contrariando as instruções de Camerom, eu olhei para trás.
Deborah e ele pareciam estar tendo uma espécie de discussão. Voltei meus olhos para a frente e tropecei em minhas próprias pernas, mas retomei a corrida antes que eu piorasse ainda mais a minha situação. Só parei de correr quando cheguei ao elevador, onde, com as mãos trêmulas, peguei o celular e enviei uma mensagem para o Whatsapp de . Eu precisava alertá-lo sobre tudo o que estava acontecendo.
As portas do elevador mal se abriram quando passei por elas, totalmente nervosa. Abri a porta do meu alojamento e encontrei deitada na cama lendo uma revista enquanto dormia com uma máscara de dormir.
— O que houve, ? Viu um fantasma? — largou a revista de lado e veio ao meu encontro com um olhar preocupado. Uma falta de ar começou a me consumir e eu me curvei para frente tentando respirar melhor. — , o que aconteceu?
Lágrimas grossas começaram a escorrer pelo meu rosto. Meu peito queimava e o choro piorou ainda mais a falta de ar que eu estava sentindo. Eu estava tão nervosa com tudo o que estava acontecendo comigo que a crise de choro e a falta de ar não queriam parar. Eu simplesmente não conseguia me controlar.
se curvou para me abraçar e , acordada e sonolenta, também se juntou a nós. O choro foi aumentando gradativamente junto com a falta de ar e eu já me via desmaiando a qualquer instante.
Pensei em meu pai doente, na minha mãe que infelizmente tinha partido, no Camerom que obviamente estava fazendo coisas que não queria por causa da Deborah, nas sabotagens recentes que eu estava sofrendo e nos meus sonhos. Será que valia mesmo a pena continuar lutando por esse concurso? As coisas começaram a ficar sérias, e não falo sobre as aulas de dança e de canto. Havia tanta maldade e tanta pressão aqui dentro da Wings que estava ficando insuportável ser forte para aguentar tudo.
Acho que eu não sou tão forte no fim das contas.
e me acalmaram depois de muitos minutos e várias tentativas. Contei as duas o que tinha acontecido, já que naquela altura do campeonato, se a Deborah realmente estava em todos os lugares, não adiantava mesmo esconder nada da .
Eu tinha muitas preocupações na minha cabeça e ainda não tinha respondido as minhas mensagens. Eu não sabia se ele havia visto a Deborah e o Camerom discutindo ou se ele demorou mais para entrar na Wings. Eu só sabia que estava com medo.
No dia seguinte, levantamos bem cedo para a aula de dança. Hoje teríamos ballet e jazz. estava sério quando começou a ministrar a aula e meu calcanhar doía tanto que eu mal consegui me aquecer na barra.
Eu queria questioná-lo, já que ele não tinha respondido a minha mensagem ontem. Busquei seus olhos todas as vezes em que ele passou perto de mim, mas ele não devolveu o olhar. Se eu já estava aflita antes, agora eu me sentia 10 vezes pior.
— A próxima avaliação de vocês será em grupo de 5 a 10 participantes de sua escolha. Vocês terão que fazer um número de dança e atuação dessa vez. O número deverá ter de 5 a 15 minutos, e será bem mais trabalhoso. Na aula de teatro eu orientarei vocês melhor sobre a proposta do próximo desafio. — disse por cima da música clássica que tocava no rádio.
Procurei por todos os cantos da sala pelo Camerom, mas não o encontrei em lugar algum, e pediu para que fizéssemos uma sequência de passos de dança que ele tinha criado.
A música clássica e lenta foi substituída por uma mais rápida. Fomos divididos em pequenos grupos, para que não trombássemos uns nos outros. Quando chegou a vez do meu grupo, meu calcanhar já latejava tanto que eu mal conseguia pensar. Eu consegui fazer o começo da sequência sem maiores complicações, mas foi na pirueta em dehor* que eu me desequilibrei e caí no chão. Meu calcanhar já doía tanto que eu mal conseguia pensar.
— Você está bem? — perguntou, se agachando ao meu lado.
Apertei meu calcanhar e fiz que não com a cabeça. Ele me olhou com preocupação, me pegou no colo e me levou até a enfermaria da Wings.
Um médico examinou o meu calcanhar com um olhar sério e preocupado, e eu logo comecei a pensar no pior. teve que voltar para a aula, mas disse que depois nós iríamos conversar, o que me deixou ainda mais aflita. Tive que fazer alguns exames que demoraram mais do que deveria para ficarem prontos, mas quando os resultados saíram, desejei nunca ter caído no estúdio de dança.
— Eu dei uma olhada nos resultados do seu exame e constatei que você está com uma inflamação no tendão de Aquiles. — disse o médico, anotando algumas coisas num papel.
Arregalei os olhos, tentando conter o nervosismo que já estava começando a se apossar do meu corpo.
— E isso é grave?
— Se você seguir todas as minhas recomendações, isso não se agravará. — ele disse, dando um sorriso confiante. Acho que ele estava tentando me animar, mas não surtiu muito o efeito desejado. — Eu vou te receitar um anti-inflamatório e também muita fisioterapia. Você terá que vir aqui todos os dias para tratar do seu calcanhar. Faremos de tudo para que a sua recuperação seja rápida.
— Recuperação? — indaguei, me sentindo cada vez mais aflita sentada ali na cadeira daquele consultório.
Faz tempo que eu não tenho um dia normal dentro da Wings e eu estava começando a sentir falta disso.
— Você terá que ficar sem dançar por enquanto se quiser se recuperar. Se você forçar ainda mais o seu calcanhar, poderá agravar a sua lesão a ponto do tendão se romper. É preciso que você faça um tratamento para poder continuar dançando sem causar mais danos ao seu calcanhar. Vou escrever na receita algumas coisas que você precisará fazer caso a dor não passe, tudo bem? — assenti lentamente, tentando não ter uma crise em sua frente. — Você vai ter que aplicar umas compressas de gelo sobre o calcanhar por 8 minutos e depois fará o mesmo só que sem gelo por 3 minutos repetidamente até completar 30 minutos por 3 ou 4 dias até que a dor desapareça. Entendido?
— Entendido.
— Venha aqui amanhã às 13h para que possamos começar. Até amanhã, .
— Até amanhã, doutor.
O meu calcanhar ainda queimava um pouco quando eu saí do consultório. A falta de ar recomeçou a tomar conta de mim, me fazendo correr com dificuldade para o banheiro mais próximo. Eu suava frio e tinha certeza de que estava mais pálida do que um fantasma, mas eu estava com tanto medo de tudo o que estava me acontecendo que eu não sentia mais coragem de fazer nada.
Apoiei a minha testa na porta de um dos reservados e fiquei inspirando e expirando por alguns minutos. Percebi que comecei a respirar melhor, e consegui ficar mais aliviada.
Eu não posso ficar sem dançar, não mesmo. Eu gosto mais de dançar do que de cantar ou atuar. Se eu parar de ir às aulas de dança, ficarei em desvantagem. A próxima avaliação já foi anunciada e provavelmente eu não poderei participar se ainda estiver desse jeito. Eu tenho que dar um jeito nisso. Já tiraram muitas coisas de mim, não vou deixar que me tirem a dança também.

Alô.
— Oi, pai... Como você está? Já recebeu alta do hospital?
Eu estou novinho em folha, querida! Os médicos disseram que eu vou ficar bom logo, só preciso tomar meus remédios direitinho. — disse papai, com a voz forte e ligeiramente animada.
Soltei um suspiro aliviado, feliz por saber que pelo menos havia uma notícia boa no dia.
— Fico feliz em saber disso.
— <>E você, como está? Eu deixei o fã-clube nas mãos da Lucy enquanto eu me recupero em casa. Sua tia está aqui cuidando de mim.
— Eu estou bem. Só estou com saudades de você e do pessoal.
Eu também estou com saudades, minha linda. — houve uma pausa do outro lado da linha. Meus olhos começaram a marejar, mas tentei me conter. Eu não queria que o meu pai me ouvisse chorando. — Você não me parece bem... O que aconteceu, ?
— Nada, eu só... eu só estou com saudades. — eu disse, empurrando o choro para o fundo da alma.
Tem certeza? Pois se estiver acontecendo alguma coisa ficarei feliz em viajar até aí para resolver.
— Não exagera, pai. Você precisa se recuperar. Eu estou bem.
Eu sabia que estava mentindo para o meu pai, mas era o melhor no momento. Eu não podia preocupá-lo de forma alguma.
Eu te amo, minha querida.
— Eu também te amo, pai.
Encerrei a ligação e chorei feio um bebê dentro da cabine telefônica.

Eu estava evitando os meus amigos a tarde inteira. A minha cabeça não parava de trabalhar e eu não gostava do rumo que os meus pensamentos estavam tomando. Eu tinha tomado os medicamentos que o médico havia passado e torcia para que a dor no calcanhar passasse logo.
me mandou uma mensagem pedindo para encontrá-lo em sua sala antes da aula de teatro. Não era um local suspeito, já que ele atendia diversos alunos ali.
Quando eu entrei na sala, eu percebi que as coisas estavam estranhas. Primeiro porque ele mal me olhou quando me sentei em sua frente e, segundo, porque ele parecia aflito.
E lá vem mais notícias ruins...
— A irmã da Deborah não quis me contar qual era o problema dela, mas disse que a Deborah largou o tratamento uns 3 anos atrás. Eu acho que a Deborah pode ser mais perigosa do que pensamos. — disse , encarando um ponto fixo em meu ombro.
— Por que você não está olhando direito para mim? — indaguei, buscando mais uma vez os olhos dele. me olhou, e eu vi que ele estava tão angustiado quanto eu.
— Eu só estou nervoso com tudo isso, sem saber o que fazer.
— Eu também estou.
— Vai dar tudo certo, . — disse, pegando delicadamente em minha mão. Desejei que ele me abraçasse, mas nós não podíamos fazer isso. — Eu estou com você.
Eu abri um sorriso fraco em resposta e me preparei para sair da sala quando fui surpreendida com uma pergunta:
— Como foi no médico?
— Está tudo bem, foi uma leve torção no tornozelo, nada demais. — eu disse, me amaldiçoando por ter respondido rápido demais.
— Entendi. Nos vemos na aula. — assenti, torcendo para que ele tivesse acreditado em mim. — Lembre-se sempre que eu estou com você.
me lançou um olhar desconfiado, me fazendo crer que ele não tinha acreditado muito em mim. Droga.
— Eu sei. — eu dei mais um sorriso falso e saí da sala o mais rápido que pude, julgando o estado do meu tornozelo.
Avistei Camerom andando normalmente pelo corredor. Ele também me viu, mas não falou comigo. Ele parecia bem fisicamente, mas não tinha certeza se o seu psicológico estava da mesma forma. Acho que ele estava tão danificado quanto eu.
Meu celular vibrou na minha mão com uma mensagem de texto. Incrível como o sinal do telefone milagrosamente tinha resolvido funcionar dentro das instalações da Wings. Abri a mensagem esperando que fosse alguma notificação qualquer, mas levei um susto quando abri o conteúdo multimídia da mensagem.
Havia uma foto minha com , no dia em que achamos ter visto a sombra de uma mulher no nosso local de encontro secreto dentro da Wings. Nós estávamos nos beijando.
Apertei o celular contra o peito e entrei em um dos reservados do banheiro feminino para ler o texto da mensagem.
Termine tudo com o até o fim da semana. Se isso não acontecer, essa foto vai parar na mesa do diretor da Wings.
Ah, sinto muito pelo seu calcanhar. Você não é tão perfeita no fim das contas.

* pirueta em dehor: é a pirueta que gira para fora. O corpo se transforma para a perna levantada, por isso, se o dançarino gira sobre o pé direito, o dançarino se vira para a esquerda.

Capítulo 29 - Fugas, choros e términos

A semana já estava chegando ao fim, mas a mensagem que eu tinha recebido ainda não havia saído da minha cabeça. Eu ando evitando o por toda a semana dando a desculpa esfarrapada de que estava muito ocupada treinando para a próxima avaliação e que não tinha tempo para conversar.
Eu sabia que era a Deborah quem tinha me enviado aquela mensagem, mas só o fato de que existe mesmo uma foto bem concreta dos meus encontros com o já faz o meu estômago se retorcer. já estava a par de tudo o que tinha me acontecido — inclusive a parte do quase rompimento do meu tendão, mas ocultei a parte em que o médico disse que eu não posso dançar enquanto não terminar o tratamento, é claro — e ela sugeriu que eu tentasse falar com o Cameron sobre tudo o que estava acontecendo.
A próxima avaliação estava se aproximando e eu não conseguia pensar em nada além da Deborah me ameaçando, principalmente porque essa avaliação é muito mais complicada do que as outras. O Cameron estava no nosso grupo e as coisas andavam bem estranhas entre nós por conta disso.
— Temos aula de ballet e jazz pela manhã e a tarde ensaiaremos o nosso número. — disse , colando com fita adesiva um cronograma das aulas e ensaios que ela mesma havia feito. — Eu reservei um dos estúdios para nós pelo resto da tarde.
— Você está levando muito a sério esses ensaios. — disse para a loira em tom de zombaria. estirou a língua na direção da ruiva e riu.
— Nós precisamos de foco e, para mim, a organização faz parte de se estar focada.
— Vou anotar essa frase na testa! — exclamei, ajeitando o meu collant e colocando na bolsa a minha sapatilha de ponta. Senti uma pontada no tornozelo e me sentei na cama para disfarçar, mas percebeu que eu não estava bem e ficou me observando.
— Eu vou indo na frente porque preciso conversar com o Miles. — disse, colocando sua bolsa no ombro e abrindo a porta do dormitório. — Se ele continuar encarando o Cameron nos ensaios, o nosso número vai ficar uma porcaria.
Eu concordei com a cabeça e me voltei para a bolsa, torcendo para que a se esquecesse do que tinha visto.
— Você está bem? Eu soube do seu acidente na aula do .
— Não muito. Estou com uma inflamação no Tendão de Aquiles, mas estou resolvendo isso.
Todos os dias, eu vou escondida para o consultório do médico da Wings para a sessão de fisioterapia. Apesar de estar desconfiado de que eu ainda esteja dançando, ele não tomou nenhuma providência. Tenho pensado no que farei no momento em que ele resolver investigar o que tenho feito antes e depois das sessões de fisioterapia.
— A sabe disso? — indagou, parecendo já saber a resposta.
— Sim.
— Você ainda não confia muito em mim, não é? — ela perguntou, mordendo os lábios de um jeito incerto.
— É que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que eu nem sei mais em quem confiar. Me desculpe, é que até algumas semanas atrás nós éramos inimigas. — e acho que você está trabalhando com a Deborah, completei em pensamentos.
Ela assentiu com a cabeça, parecendo um pouco chateada.
— Eu entendo. Espero que um dia possamos ser amigas de verdade.
— Eu também espero. — dei um meio sorriso.
Nós caminhamos juntas para a aula, mas não tocamos mais no assunto. Eu poderia ser franca e perguntar a se ela tem algum envolvimento com a Deborah. Talvez ela queira mesmo ser minha amiga, talvez me conte tudo o que está acontecendo, mas eu não tenho coragem de perguntar. Tenho medo de que ser franca com ela faça com que a Deborah piore as coisas para ela ou para mim.
Ou para o .
Fui para o estúdio de dança onde ele dava suas aulas e seguiu para a aula com o . Nós nos despedimos e ficamos de nos encontrar para almoçarmos juntas.
Quando cheguei, o estúdio já estava cheio. me olhou por alguns segundos, mas abaixou o olhar de um jeito que me deixou bem arrasada.
Cumprimentei Cameron de longe, coloquei as minhas sapatilhas e guardei a bolsa em um canto antes de ir para a barra me aquecer.
Enquanto eu me aquecia, a minha cabeça permanecia bem longe dali. Eu precisava terminar logo com o , pois o prazo da mensagem já estava quase esgotado. Apesar de me manter distante dele, eu sabia que não era o suficiente para a Deborah. Nunca seria.
Eu tinha que fazer isso.

Saí da aula do praticamente correndo, levando em conta o estado do meu tornozelo, que latejava demais. Ele até que tentou falar comigo, mas eu previ seus movimentos e corri para fora sem ao menos tirar as sapatilhas.
Durante o almoço, Miles e conversavam civilizadamente. Ele estava nervoso,pois Emily, a garota que ele parecia estar afim, também faria a próxima avaliação conosco.
— O que eu faço agora? — ele indagou de boca cheia.
— Você pode começar convidando-a para almoçar conosco amanhã. — sugeriu, revirando a comida em seu prato de um lado para o outro.
— Ficou doida? — Miles perguntou com a voz esganiçada, engasgando com a comida e tossindo loucamente.
— Você quer descobrir o que sente por ela? Pois bem, faça o que eu te disse sem contestar.
Eu e nos entreolhamos com a resposta de . Ela era sincera ao extremo e Miles, apesar de se sentir contrariado, parecia gostar disso.
— Tudo bem, dona da verdade. — Miles bateu continência e deu um gole na sua lata de refrigerante diet.
— Eu não sou a dona da verdade.
— Você fala de mim com a Emily, mas nunca convidou o para almoçar. — disse ele, em tom de desafio.
— Porque ele é meu professor! Isso não tem cabimento, Miles. — revirou os olhos, mas pude jurar que vi as suas bochechas corarem.
— Mas é claro que tem! Todo o mundo aqui sabe que você gosta dele. Tudo bem gostar do loirinho, aqui na mesa todos concordam com o fato de que ele é um pedaço de mal caminho.
— Eu concordo mesmo. — admitiu , se metendo no assunto. — Ele é um gato. Pena que eu ainda gosto do .
— Mesmo que eu goste dele, é platônico. Prefiro me concentrar em ser uma ótima artista do que ficar pensando em caras, principalmente em algo que eu sei que nunca vai acontecer.
— Nunca diga nunca. Quando é para ser, acontece. Não tem jeito. Você ama a pessoa e isso te consome tanto que você não consegue mais separar o que é certo do que é errado. Não dá para se conter. — eu disse, pensando em e em tudo o que tínhamos vivido. Meu coração se apertou e eu senti uma vontade louca de chorar.
— Ai meu Deus! — Miles gritou, rindo um bocado — A tá apaixonada pelo !
— O que? Mas é claro que não! — neguei, sentindo que o meu coração estava quase saindo pela boca. O Miles ainda não sabia de nada e eu queria que tudo permanecesse igual, pelo menos por enquanto.
— E esse discurso inspirado e apaixonado foi pra quem, então? Pra mim? Eu sei que sou irresistível, ainda mais agora com meu novo visual hétero, mas eu ainda sinto atração por homens e estou tentando entender o que sinto pela Emily, portanto não se iluda.
— Você é um idiota! — exclamei, jogando algumas fritas do meu prato em cima do meu amigo. Ele gargalhou de um jeito engraçado que me contagiou instantaneamente. Logo, toda a nossa mesa estava repleta de gargalhadas. As pessoas que passavam olhavam para nós como se fôssemos loucos, mas eu não me importei. Pela primeira vez eu consegui sorrir sem medo do que as outras pessoas iriam pensar e isso me fez um bem danado.
Cameron passou pela nossa mesa com a bandeja já vazia. Miles lhe lançou um olhar enviesado que Cameron fez questão de ignorar.
Nem tudo estava bem entre nós, mas eu ainda tinha esperanças de que pelo menos a nossa amizade iria curar todas as feridas.

A minha consulta com o médico foi estranha. Ele parecia tenso enquanto fazíamos a fisioterapia rotineira, mas tentei não ligar muito. Todos nós temos dias ruins dentro da Wings, acho que essa regra não se aplica só aos alunos.
Eu caminhava até o estúdio de dança que havia reservado para o nosso ensaio de forma desleixada e distraída. Já passavam das 15h e os corredores pareciam assustadoramente vazios, mas essa sensação se intensificou depois que a Deborah praticamente se materializou na minha frente.
Ela sorriu, cruzando os braços acima do peito, e trazia consigo uma postura de superioridade que me irritou.
— Como foi a consulta com o médico? — perguntou, se aproximando um pouco mais de mim.
— Ótima, como sempre.
— Eu soube do seu tornozelo. — disse ela, com sarcasmo. — Eu sinto muito.
Mas dava para ver pelo tom de voz que Deborah usou que ela não sentia nada mesmo. Nem pelo meu tornozelo e provavelmente por coisa alguma.
— Eu tenho que ir. Estou atrasada para o ensaio. — eu disse, tentando passar, mas Deborah se pôs a minha frente com uma expressão que me deixou nervosa. Seus olhos pareciam lâminas afiadas e me olhavam como se pudessem me perfurar a qualquer momento.
— Sempre tão aplicada... O que será que as pessoas pensariam se soubessem que a perfeita e talentosa não é tão perfeita assim?
— O que você quer dizer com isso? — indaguei, já imaginando o que ela diria a seguir.
— Quero dizer que você gosta de seduzir os professores.
— Eu não gosto de seduzir ninguém! Você está dizendo mentiras ao meu respeito e eu posso falar com o Sr. tudo o que você está fazendo! — exclamei, sentindo-me cansada de tantas ironias e ameaças.
Eu nunca planejei ficar com o . Eu não o seduzi! Simplesmente aconteceu.
— Qual dos você se refere? O pai ou o filho?
— Eu tenho que ir. — tentei passar mais uma vez, mas Deborah continuou bloqueando a passagem. Ela parecia triunfante, sabia que suas palavras estavam me atingindo e adorava isso.
— Sabe, , aquela mensagem que você recebeu é uma tentativa minha de te ajudar.
— Ajudar? — indaguei, com escárnio. — Tudo o que você tem feito desde que eu cheguei aqui é infernizar a minha vida!
— O que você acha que vão pensar quando descobrirem o seu casinho com o ? Você será banida do concurso. Você pode não perceber, mas eu te observo desde que chegou. — disse ela, me desafiando com o olhar. — Você não é tão talentosa, . Você nunca vai conseguir. Existem muitas pessoas mais talentosas do que você nesse concurso.
— Me deixe em paz! Eu vou fazer o que você me pediu, Deborah. Mas você não vai mais controlar a minha vida. — esbravejei, empurrando-a para o lado e andando firmemente pelo corredor. Ainda pude ouvir a sua risada às minhas costas, mas eu fiz de tudo para que aquele som não penetrasse a minha mente.

Precisei de alguns minutos para me recuperar da discussão com a Deborah, mas quando cheguei ao estúdio de dança percebi que todo o meu grupo se encontrava jogado no chão de forma desanimada.
Essa avaliação parecia bem mais difícil e complexa do que achávamos que seria e a nossa criatividade não estava ajudando como deveria. O nosso nível de entrosamento também não era dos melhores, levando em conta que Cameron continuava agindo de forma estranha.
— Acho que nós precisamos sair daqui. — disse, se levantando com a graciosidade de uma felina.
— Sair? Nós não podemos sair! — estrilou. — E eu reservei o estúdio pelo resto da tarde, nós não podemos mexer no cronograma dessa forma.
— A nossa fonte de inspiração precisa ser encontrada e eu tenho certeza de que não a encontraremos aqui na Wings.
— Eu concordo. — eu disse, me levantando também. Os outros, mais relutantes e desanimados do que eu, também se levantaram, inclusive a .
Andamos pelos corredores da Wings como se estivéssemos praticando algo ilegal. Afinal, nós estávamos prestes a sair da Wings de forma clandestina.
— Vocês acham que essa é uma boa ideia mesmo? Ainda temos tempo de desistir. — disse Emily, a crush de Miles, para nós.
, sem sombra de dúvidas a mais corajosa de todos nós, foi a primeira a se embrenhar no muro da Wings.
— Eu sou . Eu nunca desisto, principalmente quando tenho certeza de que a minha intuição está certa.
Os outros só assentiram com a cabeça.
Cameron parecia um fantasma. Ele agia como se fosse um robô e aquilo estava começando a me assustar. Até aquele momento estava tentando descobrir se ele estava ali conosco porque concorda com a teoria da ou se estava apenas no piloto automático. Estava tendendo para a segunda alternativa.
— Aqui nos fundos não tem câmera não, né? — indagou, temerosa.
— Não, é tranquilo. — ela revirou os olhos, impaciente. — Relaxem e subam logo!
Eu e os outros fizemos o que pediu. Logo, estávamos do lado de fora da Wings.
— Para onde vamos agora? — perguntei, temendo ser vista por algum funcionário da Wings. Eu já estava metida em confusão dos pés a cabeça, não precisava de mais um motivo para ser punida.
Mas também não sabia para onde ir.
— Não acredito que saímos da escola à toa! — exclamou Miles, irritado.
— Não foi à toa, eu estou pensando. Me deixem pensar! — disse, colocando as mãos na cabeça.
— Porque apenas não caminhamos? Conheço um lugar bacana que me deu muita inspiração quando nos deixaram sair da Wings para passear. — Cameron sugeriu, abrindo a boca pela primeira vez no dia e surpreendendo a todos.
— E que lugar seria esse? Um onde só deixam idiotas entrarem? Porque se for você deve ter passe livre! — esbravejou Miles, ainda mais irritado do que antes.
— Olha, Miles, eu sei que eu errei em agir como um idiota. Me desculpe por tudo. Me desculpem por tudo. Eu tive os meus motivos para fazer o que fiz e agir como agi, mas o carinho que sinto por todos vocês é tão grande que eu só quero proteger cada um. E se eu tiver que agir como um babaca só para que vocês fiquem seguros, é assim que eu irei agir.
— Isso foi muito profundo, Cam. — disse , emocionada.
— Você está desculpado, mas avise quando for ser um babaca, por favor. — Miles disse, parecendo aliviado com a sinceridade de Cameron.
— Pode deixar.
Os dois sorriram um para o outro antes de se abraçarem.

Fomos parar num dos lugares mais lindos e escondidos que eu já havia visto. Tenho certeza de que este lugar nunca apareceu nos catálogos de turismo de Londres.
Havia um jardim florido e um gramado verde vivo que fez os meus olhos brilharem. Também havia uma lagoa que ficava linda com os fracos raios de sol que a iluminavam. Assim que avistamos esse lugar nós soubemos que era aqui que criaríamos a nossa próxima apresentação.
Eu e Miles começamos criando algumas ideias e, como eu tinha trago meu celular, comecei a fazer um pequeno esboço do roteiro de ideias da nossa apresentação. já pensava nas músicas e nas coreografias junto com e Cameron enquanto Emily pensava em como seriam construídas as falas que já tínhamos criado para o nosso número.
O nosso entusiasmo era tão grande que a atmosfera parecia estar modificada. Eu consegui me esquecer dos meus problemas e, pela primeira vez no dia, me foquei no que realmente importava.
Ficamos lá quase a tarde inteira e, quando nos cansamos, ficamos sentados lado a lado observando o pôr do sol. Miles e Emily, que pareciam mais próximos do que nunca, caminhavam e conversavam como se fossem amigos de longa data. Eu e , que observávamos com afinco o pseudocasal, demos um sorriso cúmplice.
Cameron ainda permanecia distante de mim, apesar de ter interagido comigo. Eu acho que ele queria me contar o que estava acontecendo, mas ainda não se sentia preparado para isso e eu iria respeitar o seu momento. Na hora certa ele viria falar comigo, disso não tenho dúvidas.
Quando estava ali compartilhando aquele momento de felicidade com os meus amigos, eu me dei conta de que eu precisava conversar com o . Disfarçadamente, peguei o telefone e mandei uma mensagem para ele.
Me encontre no estúdio de dança 3 daqui a 1 hora. Precisamos conversar.
— Vem, vamos dançar, ! — se levantou, puxando-me pela mão logo em seguida.
Miles, que havia se aproximado de nós com a Emily, colocou uma música agitada para tocar. Logo, todos nós, até mesmo Cameron, estávamos dançando loucamente pelo gramado. Nossos passos de ballet eram genuínos e leves, mas felizes ao mesmo tempo.
fez uma série de piruetas e Cameron a seguiu, e logo todos fazíamos uma série de piruetas desconjuntadas por conta do acesso de riso que nos atingiu.
O meu celular vibrou no bolso com a resposta de .
Ok.
Foi tudo o que ele respondeu.
O meu coração se apertou e o momento de felicidade se partiu.
Era a hora de acabar com o que tínhamos.
Para sempre.

Entrei no estúdio de dança com o coração já retumbando dentro do peito. já estava lá me esperando e eu podia ver a apreensão em seu rosto. Fiquei um tempo admirando-o, já que ele estava tão perdido em pensamentos que ainda não tinha me visto. Ele era lindo e tinha um coração cheio de marcas, mas também era uma das pessoas mais doces que eu pude conhecer.
Seria doloroso, mas era melhor assim.
Para nós dois.
— Oi, eu não te vi parada aí. — ele disse, meio nervoso. — Achei que você não se cansaria de me evitar.
, nós precisamos conversar. — falei séria enquanto entrava na sala.
— O que aconteceu? — ele perguntou, parecendo aflito. — A Deborah fez alguma coisa com você?
Respirei fundo antes de começar a falar. Eu sabia que isso seria uma das coisas mais difíceis que eu faria na vida, mas eu tinha que ser dura. Eu o amava, mas agora que eu sabia do que a Deborah era capaz, não queria mais arriscar. Ela era perigosa.
Não era só com a minha carreira ou com o concurso que eu me preocupava. Na verdade, essa era a última preocupação que eu tinha na cabeça. O problema era que agora eu sabia que a Deborah poderia ser capaz de qualquer coisa e eu não queria que o saísse ferido por minha causa.
— Não, eu só percebi que isso não está mais funcionando.
— Isso o que?
— Eu me tornei uma pessoa muito distraída e eu acho que isso não é bom para a minha carreira. Eu acho que nós dois não vamos dar certo. — eu disse, sem responder a sua pergunta.
Seu semblante mudou e ele ficou decepcionado e desesperado ao mesmo tempo. Senti o meu coração se apertar dentro do peito e meus olhos começaram a arder. Eu queria chorar, mas não podia.
Eu tinha que ser forte por nós dois.
— E porque você acha isso? Eu entrei nessa de cabeça no momento em que eu soube que nós podemos superar isso e sermos felizes juntos. Eu posso ser mais cuidadoso, nós dois podemos ser mais cuidadosos. Eu prometo a você que...
, eu sinto que você vai arruinar a minha carreira. A cada avanço que eu dou é como se você me puxasse mais para trás e eu não quero mais que isso interfira no meu desempenho aqui dentro. — eu disse, sentindo que não suportaria mais tanta dor.
A expressão de ficou ainda mais triste e confusa do que já estava. Ele parecia tentar entender tudo o que estava acontecendo, mas eu não podia dizer a ele que a Deborah tinha me ameaçado. Eu não podia fazer com que ele se sentisse culpado por isso e nem encorajá-lo a fuçar mais o passado dela.
Independente dos problemas mentais de Deborah, eu sabia que ela era perigosa.
— É isso o que você pensa? Você parecia muito certa sobre nós há algumas semanas atrás. O que te fez mudar de ideia? — ele perguntou, tocando meu braço com delicadeza. Eu pensei que fosse derreter somente com o seu toque, mas me mantive firme. Eu precisava ser firme.
— Eu não quero ser só talentosa, . Eu quero ser a melhor, quero ganhar esse concurso. — eu disse, me lembrando das palavras que Deborah despejou em cima de mim essa tarde. — Acha mesmo que namorando com você eu vou ter a chance de conseguir isso?
— Eu sei que você ficou um pouco receosa por conta da Deborah, mas eu não sabia que era isso o que você pensava de mim. De nós. — ele respondeu, parecendo ressentido. Seus olhos estavam tão marejados como os meus, mas, igual a mim, não ousou soltar uma lágrima sequer.
— Eu te amo, . — eu disse com tristeza. — Mas nós não podemos ficar juntos.
— Tudo bem, . Eu te entendo. Não vou mais te atrapalhar. A partir de agora, nossa relação será somente de aluna e professor.
Nós dois ficamos nos olhando por alguns segundos. Eu não queria dizer adeus, mas precisava. Ele tinha entendido o meu lado, mas não fazia ideia de que esses meus motivos não tinham nada a ver com o nosso término.
— Adeus.
Foi a última coisa que eu disse antes de deixar o estúdio 3 em frangalhos. As lágrimas desciam do meu rosto com uma veracidade fenomenal e meu peito parecia que iria explodir de tanta raiva e tristeza.
Por que as coisas tinham que ser tão difíceis? Se duas pessoas se amam de verdade e querem ficar juntas, porque tudo se torna tão complicado?
Se não estamos destinados a ficar juntos, porque nos apaixonamos? Por que?
Acho que eu nunca saberei a resposta dessas perguntas.
Mas talvez eu saiba o motivo de ter acabado de ver a Deborah apertando o braço de e a minha melhor amiga, , de New Haven, logo atrás das duas, como se estivesse totalmente perdida e desolada.
O que será que está acontecendo com essa escola?

Capítulo 30 - O Diário

, o que está fazendo aqui? — perguntei sem demonstrar o quanto estava confusa com a situação. Seus olhos estavam marejados e meu coração se contorceu dentro do peito ao sentir que algo ruim estava acontecendo.
— É o seu pai, . Ele mentiu para você. Ele está muito doente no hospital.
Uma nova onda de desespero dominou todos os membros do meu corpo e a falta de ar que me atingiu foi abrasadora. Minhas mãos começaram a tremer e eu precisei me apoiar na parede para obter algum equilíbrio.
— Mas... O que ele tem? — perguntei com dificuldade, enquanto me amparava.
— Ele precisa de um transplante de coração urgente. Descobriram que as quedas e desmaios foram causados por um problema de coração difícil de detectar. Como é um problema que quase não aparece nos exames, quando é descoberto já é quase muito tarde para tratar. A única opção dele é o transplante. Porém, a cirurgia é muito cara e nem ele e nem seus tios conseguem pagar. Ele está entre um dos primeiros na lista de transplantes, mas sem o dinheiro os médicos não poderão operar. — disse ela, segurando em meu braço. — A sua recuperação também vai ser um pouco cara, pois ele terá que fazer um acompanhamento, sem contar os medicamentos que seu pai terá que tomar.
— Quanto é a cirurgia?
Eu tinha umas economias guardadas em New Haven para o caso da minha carreira não dar certo e emergências. Não era muito, mas meus pais sempre me ajudaram depositando uma quantia para mim.
— Digamos que é muito mais do que as suas economias possam pagar.
— Eu preciso vê-lo, mas eu não sei se o diretor vai me deixar ir dessa vez. — eu disse, dando meia volta para bater na porta de seu escritório. Já era um pouco tarde, mas eu esperava encontra-lo por lá. — Eu tenho que pensar em uma forma de conseguir esse dinheiro.
O concurso ainda estava um pouco longe de acabar, então eu não tinha como contar com o dinheiro do prêmio e nem tinham garantias de que eu conseguiria mesmo ganhar.
Bati na porta de e esperei que ele me atendesse.
O diretor abriu a porta com uma cara de poucos amigos, mas permitiu que eu entrasse em seu escritório. Respirei fundo e contei o que estava acontecendo, esperando que ele entendesse a gravidade da situação.

tinha conseguido um voo de última hora para mim, e . Eu me senti mal quando o diretor disse que o não poderia me acompanhar dessa vez, mas eu entendi. Nós tínhamos terminado e eu não posso mais me dar ao luxo de querer a sua companhia, apesar do meu coração teimoso ainda insistir em estar ao lado dele.
O acordo que eu fiz com o era o mesmo da outra vez: passar a noite e ir embora no dia seguinte.
Quando embarcamos, já era quase 3 horas da manhã. cochilava em sua poltrona, ouvia música e eu não conseguia nem colocar meus fones em meu ouvido. A única coisa que habitava o meu pensamento era a visão de meu pai debilitado numa cama de hospital.
— Eu sei que essa é uma pergunta meio idiota, mas você está bem? — perguntou, retirando os fones do ouvido e sorrindo para mim de forma amistosa. Fiz que não com a cabeça. — Vai dar tudo certo, . Tenho certeza disso.
— O Sr. te contou o que aconteceu com o meu pai?
— Sim, ele contou. Eu sei que é difícil se manter otimista numa situação dessas, mas às vezes as coisas se resolvem de um jeito que nós não entendemos. — disse ele, de uma maneira bem enigmática.
— Você acha que existe um jeito de conseguir o dinheiro para o meu pai? — perguntei, me sentindo um pouco mais esperançosa, mesmo sem saber direito o porquê.
— Claro que sim! Só o fato de ele estar entre os primeiros na lista de transplantes só melhora as suas chances. — sorriu, transbordando otimismo.
— Eu li um pouco sobre o procedimento antes de embarcar e descobri que existe uma possibilidade de que o corpo dele rejeite o coração. Eu não quero estar com medo, mas estou. Eu não posso perdê-lo. Eu já perdi a minha mãe, não quero outro funeral na minha vida. — suspirei, me sentindo nervosa e triste quando a imagem de minha mãe inconsciente numa cama de hospital apareceu em minhas lembranças.
— Seja otimista, . Sabe, foi o que me pediu para tomar seu lugar nesse voo. Eu soube que vocês terminaram e acho que vocês dois ainda tem muita história pela frente. Tudo pode se resolver depois que esse concurso acabar.
— Você acha que nós ainda temos uma chance?
Meus olhos se encheram de lágrimas quando me lembrei da última vez que estive em New Haven. estava comigo e eu me senti bem mais segura ao seu lado.
— Sim, eu acho. Eu nunca vi o apaixonado desse jeito desde Madison Laine, uma caloura do ensino médio que ele era meio obcecado. Ele vivia compondo músicas para ela, mas a garota vivia dando mole para o e pro . — nós dois demos uma risada baixa enquanto uma imagem de um franzino e apaixonado surgia em minha mente.
— Então esse deve ter sido o seu primeiro coração partido.
— Sim, você tinha que ter visto como ele ficava nos ensaios da banda. — disse, o rosto banhado por lembranças boas.
— O me contou sobre a banda. Ele estava compondo uma música nova, acho que vocês deviam voltar a tocar. O McFly sempre fez muito bem a ele.
pareceu pensar um pouco no que eu disse antes de responder:
— Vou falar com os caras para ver o que eles acham, mas eu gostei da ideia.
Nós dois sorrimos um para o outro e eu me virei para a janela. Eu ainda sentia medo, tristeza e nervosismo, mas não me sentia mais sozinha e desamparada.
Eu sabia que estava comigo. Afinal, se ele enviou para representá-lo, é um sinal de que ainda não há nada a temer.

Quando cheguei ao hospital, já eram 8 horas da manhã. Eu não tinha comido nada e só cochilei um pouco no avião depois que eu comecei a ouvir música. Meu calcanhar não estava doendo e eu agradeci pela trégua que ele estava me dando.
me abraçou alegando que voltaria mais tarde para me ver, restando apenas eu e .
O hospital estava um pouco mais agitado naquele dia: ambulâncias paravam de tempos em tempos na frente do hospital e pessoas com diversos tipos de ferimentos entravam deitadas em macas. Os médicos que as acompanhavam corriam para salvar suas vidas enquanto faziam alguns procedimentos.
Conversei com a minha tia quando a avistei e ela me disse que estava tentando arrecadar o dinheiro com o restante dos familiares e amigos e eu me prontifiquei em ajudar. Os médicos vieram me explicar a situação de meu pai, o que me deixou um pouco mais nervosa de início. Eles foram bem calmos e honestos, mas me passaram tanta segurança que eu consegui me sentir um pouco mais tranquila.
Encontrei meu pai deitado na cama cochilando. Ele estava tão pálido que até a sua boca tinha perdido um pouco a cor. Subitamente, senti raiva dele por ter escondido de mim a sua real situação.
Ele abriu os olhos e me fitou de um jeito meio surpreso. Com certeza meu pai não estava esperando uma visita minha. O olhei em desaprovação, mas, quando ele começou a chorar, eu corri até a sua cama e o abracei fortemente.
— Nunca mais minta para mim, ouviu bem? Nunca mais! — exclamei, já sentindo as lágrimas molhando meu rosto.
— Me desculpe, minha filha. — ele disse, com a voz embargada enquanto tentava manter o bom humor. — Eu não queria te incomodar com os meus problemas de velho.
— Eu sou sua filha, pai... Eu tenho o direito de saber de tudo o que acontece com você. Sejam coisas boas ou ruins. — ele assentiu com a cabeça e eu me sentei na ponta de sua cama, segurando a sua mão.
— O meu plano de saúde esgotou com as internações.
— Não se preocupe com isso, nós vamos dar um jeito. — afirmei, determinada. — Eu não vou perder você.
— Não, não vai.
Papai sorriu para mim enquanto apertava a minha mão. Ele estava fraco e debilitado, mas ainda assim conseguia manter um pouco o seu bom humor. Eu sabia que a sua situação não era muito favorável, mas eu precisava manter o otimismo.
Meu pai era a única família que eu tinha. Apesar de ter meus tios e avós, eles moravam distantes de mim. A minha tia estava ajudando a cuidar dele, mas não é a mesma coisa. Eu sentia tanta falta da minha mãe que às vezes era como se fosse ontem que ela me deixou. Eu não queria ter que sentir o mesmo com o meu pai, não quando eu ainda podia lutar para que ele tivesse uma chance, não enquanto ele ainda estivesse disposto a lutar pela sua vida. Um dos médicos entrou no quarto de papai pedindo licença. Os poucos segundos que a porta permaneceu aberta eu pude observar falando ao telefone de forma animada. Ele sorria e parecia bastante feliz.
A minha tia, que estava do lado dele, também parecia bem animada.
— Senhorita , eu tenho novidades para vocês. — disse o doutor Hendrick, sorrindo enquanto fechava a porta do quarto.
— Novidades? Que novidades? — perguntei com aflição.
— A primeira é que recebemos uma ligação anônima de um homem que vai doar toda a quantia para a cirurgia, medicamentos e tratamentos do seu pai. — arregalei os olhos, sem saber se o médico estava mesmo falando a verdade ou se era tudo uma brincadeira.
— Meu Deus! Quem faria algo assim por nós?! — exclamou papai, me olhando de modo abismado.
— Um homem muito bondoso. — disse o doutor, sorrindo. — A outra novidade é que ele quer que o senhor seja transferido para o melhor hospital de Londres, o Hospital de St. Mary. O doador quer que você fique perto de sua filha e quer que ela possa se concentrar no senhor sem se distanciar do concurso.
Meu coração deu um solavanco no peito enquanto lágrimas de emoção se acumularam em meus olhos. Eu tinha certeza de que o doador anônimo era o .
— Que notícia maravilhosa! — papai disse, o rosto iluminado e mais feliz do que nunca.
— Mas uma viagem de avião não é arriscada para ele? — indaguei, o coração ainda acelerado dentro do peito.
— Tem alguns riscos, mas haverá uma equipe excelente de profissionais que cuidará disso.
— A transferência dele será quando? Já tem alguma previsão?
— Vai ser ainda essa semana. Já estamos em contato com o St. Mary e assim que tivermos a data passaremos para vocês.
— Muito obrigada, doutor. — eu disse, ainda sentindo-me surpresa com a avalanche de notícias boas que surgiram.
A minha tia abriu a porta do quarto com um sorrisão. Ela já sabia das boas novas e iria viajar com meu pai para cuidar dele em Londres.
Eu sabia que fora quem havia feito a doação. O jeito como ele se preocupou em me manter perto do meu pai só me mostrou o quanto ele me ama. Eu me sentia culpada pelo jeito como tinha terminado as coisas com ele, pois eu realmente fui muito dura e exagerei nas palavras. Ele não merecia ser tratado da forma como eu o tratei.
, você já comeu? — minha tia perguntou, já tirando algo de dentro do bolso de sua calça. — Tome esse dinheiro e vá comer algo na lanchonete.
A minha barriga roncou quando pensei em comida, então tratei de dar um beijo em meu pai e ir para a lanchonete que tinha do lado de fora do hospital.
Encontrei comendo um sanduíche com guaraná natural e me sentei ao seu lado assim que comprei o meu lanche.
— Foi o , não foi? — perguntei assim que me sentei ao seu lado. me encarou de modo surpreso.
— Como você sabe?
— Não tem como não saber. — dei uma risadinha antes de morder meu sanduíche com vontade.
— Ele já estava pensando em fazer isso quando me pediu que viesse com você. Ele só queria que eu conversasse com um dos médicos primeiro sobre toda a parte financeira antes de tomar uma decisão.
Eu abri um sorriso enorme enquanto pensava nele, planejando as coisas em seu quarto. Meu coração doeu quando me lembrei da forma como o tratei, mas tentei me convencer de que, por ora, o melhor era ficarmos afastados um do outro.
— Ele é inacreditável.
— Sim, ele é. Por baixo de toda aquela pose de ogro existe um cara doce e gentil que se importa com as pessoas que ele gosta. — disse ele, bebendo o que restava do seu guaraná.
— Eu queria tanto poder retribuir toda a ajuda... — apoiei o queixo em minha mão enquanto olhava para um ponto fixo, tentando pensar em algo.
— Você já retribuiu. Contei pra ele e para o e o que vamos voltar com o McFly. O ficou bem empolgado. — eu me senti mais aliviada quando disse que a banda voltaria, pois sempre se sentiu incompleto sem essa parte de sua vida que lhe foi tirada contra a sua própria vontade.
A música era como se fosse um pedaço muito grande dele, assim como o ballet era a minha. Portanto, eu o entendi quando ele disse que sempre sentiu falta de tocar com os seus amigos. Esperava que dessa vez ele não deixasse com que tirassem sua parte favorita de seu coração.
e eu terminamos nossos respectivos lanches em silêncio e eu senti que o som que nossos pensamentos produziam poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância.

Quando voltei à Londres meu coração estava um pouco mais calmo. Em poucos dias meu pai estaria perto de mim esperando que algum doador compatível apareça para que ele possa fazer seu transplante de coração.
Eu me despedi dele, da minha tia e de com a promessa de que as coisas iriam melhorar. Agradeci a minha melhor amiga por ter cruzado outro país somente para me contar o que estava acontecendo, já que se não fosse por ela eu estaria achando que o meu pai estava bem.
A primeira coisa que eu fiz ao chegar foi me dirigir até a sala de . Eu sabia que tinha uma grande chance da Deborah estar a minha espreita, mas essa era a minha menor preocupação no momento.
Encontrei-o sentado à frente de sua mesa lendo alguns relatórios. Bati timidamente na porta e entrei, temendo que o professor frio que conheci tivesse voltado de vez.
— Posso falar com você por um instante?
— Claro.
parecia um pouco surpreso ao me ver, mas não me olhou com frieza. Eu sabia que toda a frieza e mau humor eram apenas mecanismos de defesa, mas confesso que me surpreendi ao ver que ele não tinha mudado comigo como eu achei que mudaria.
Decidi revelar logo o motivo de estar ali.
— Muito obrigada pelo que fez por mim e pelo meu pai. — eu disse, fazendo com que ficasse claramente surpreso.
— Eu não sei do que você está falando... — ele franziu o cenho e fingiu-se de desentendido enquanto mexia de forma desenfreada nos papéis de sua mesa.
— Por favor, não finja que não sabe. Eu sei que foi você que doou a quantia necessária para o meu pai poder fazer o transplante.
suspirou de modo frustrado enquanto largava os papéis de qualquer jeito na mesa.
— Como você soube?
— Ninguém no mundo se preocuparia comigo e com meu pai do jeito que você se preocupou. O fato de você querer me manter perto dele aqui em Londres para poder conciliar tudo foi o que me fez perceber que você era o doador. Muito obrigada, eu nem sei como retribuir tudo o que tem feito por mim. — falei, me sentindo inteiramente emocionada pelo seu gesto. Ninguém nunca tinha feito algo assim por mim e acho que nada que eu faça poderá ser capaz de compensar isso.
Aparentemente, também estava emocionado, pois se levantou e deu alguns passos para frente, mas se deteve há poucos metros de mim. Percebi que ele levantou o braço para segurar a minha mão, mas desistiu. Por um momento eu quis que ele avançasse em minha direção, mesmo sabendo tudo o que estava em jogo.
...
— Eu quero me desculpar por ter dito todas aquelas coisas horríveis para você quando terminamos. Eu não sinto que você me atrapalha, nunca senti. O problema é que a Deborah tem me ameaçado com uma foto nossa e eu não queria te colocar no meio disso tudo. Ela me mandou uma mensagem de texto por um número descartável pedindo para que eu terminasse com você. Do contrário, essa foto iria parar na mesa do diretor. — eu senti um enorme alívio no peito ao dizer tudo aquilo.
Quando eu estava no avião, eu tive muito tempo para refletir sobre tudo e percebi que eu não tinha o direito de machucá-lo do jeito que eu machuquei. Havia muitas maneiras de se conversar e a abordagem que eu tinha usado foi muito cruel.
— Por que você não me disse nada? — indagou, com um brilho diferente no olhar. Ele parecia aliviado de certa forma e aquilo me deixou um pouco mais tranquila.
— Porque você não poderia fazer nada. Eu não fui sincera em minhas palavras quando disse tantas coisas horríveis, mas eu senti que precisava ser dura e essa foi a única forma que eu encontrei.
— Então vamos combinar uma coisa? — fiz que sim com a cabeça quando um de olhar determinado me fitou. — Por favor, nunca mais me esconda nada. Vamos continuar nos mantendo afastados, mas eu te prometo que vou fazer o possível para excluir qualquer prova que a Deborah tiver contra nós. Nós voltaremos a ficar juntos, . Eu não vou mais deixar ninguém nos separar.
— Eu confio em você.
Nós nos olhamos intensamente. Meu coração acelerou e, mesmo não estando colada nele, eu sabia que seus batimentos cardíacos também estavam acelerados. Eu só queria abraçá-lo mesmo sendo errado, mesmo não sendo permitido. Eu só queria esquecer todas as consequências e me jogar de cabeça nisso mais uma vez.
— Eu sei. Vou tentar manter contato pelo WhatsApp sempre que der. — ele disse, confiante.
— Tudo bem.
— Isso não é um adeus. É um até logo.
roçou sua mão na minha de forma leve e eu vi estrelinhas. Seu rosto estava corado e lindo e eu me lembrei de quando eu o assistia dançando e cantando suas brilhantes peças de teatro na tela da TV com a minha mãe. O brilho no olhar era o mesmo, só que mais intenso, e fazia o meu coração querer se desmanchar.
Eu sabia que esse não era o fim da nossa história.
Saí da sala de com o coração um pouco mais tranquilo. Eu ainda tinha uma penca de problemas, mas pelo menos uma parte dele estava se encaminhando para uma solução.
Entrei no meu alojamento me sentindo exausta. , que fazia algumas abdominais no chão do nosso quarto, se levantou num rompante quando me viu.
— Eu soube do seu pai. — ela disse, me abraçando. — Como você está?
— Melhor. — dei um meio sorriso e comecei a contar a minha amiga tudo o que tinha acontecido: desde o término com até a parte em que fui agradecer a meu nem-tão-ex-namorado tudo o que tem feito por mim.
Quando terminei o meu relato, a minha amiga estava pensativa demais, e não era por causa da nossa próxima avaliação.
— Você disse que viu a Deborah e a numa espécie de discussão, não é? Eu ando desconfiada da e não é de hoje, porque eu sempre a vejo perto do alojamento dos professores. Sério, . Enquanto você não estava, eu a vi rondando a porta do quarto da Deborah umas três vezes. Não tenho dúvidas de que as duas estão aprontando alguma. — disse , séria. Seus olhos verdes quase não piscavam e ela parecia preocupada.
— Qual ideia você teve?
— Entre cinco e seis da noite a Deborah sempre sai pra dar uma caminhada ou rodar bolsinha, vai saber o que aquela louca faz com o tempo livre dela. — disse, mexendo as mãos de um lado para o outro, dando-me um vislumbre de suas unhas vermelhas.
— Foco, .
— Eu pensei em invadirmos o quarto dela, eu já sei onde a bruxa guarda a chave reserva do seu alojamento.
— E o que faremos quando entrarmos lá? — perguntei, me sentindo aflita só de pensar. — E se formos pegas?
— Vamos procurar alguma coisa que a incrimine. Ou podemos tentar achar a tal foto sua que ela tirou com o . Talvez a Deborah tenha um diário onde ela conte todos os detalhes obsessivos da sua vida, vai saber... O que não podemos é ficar de braços cruzados. Nós temos que fazer alguma coisa, . Você precisa fazer alguma coisa.
As palavras de ficaram martelando na minha cabeça pelo pouco tempo em que fiquei olhando para ela. Eu sabia que era um plano arriscado, pois poderíamos ser pegas por muitas pessoas como alunos baderneiros, espiões da Deborah (acho que ela não tem só Camerom e como seus aliados), funcionários da Wings e os outros professores. Eu sei que as chances do e do me dedurarem são mínimas, mas eu não posso abusar da sorte.
Além do mais, eu já estava atolada de problemas e não queria adicionar mais um à lista. Se a Deborah nos flagrar, pode ser a sua chance de acabar com a minha carreira aqui dentro e de quebra ainda vou levar a junto comigo.
Por outro lado, se eu não tentar fazer nada vou ficar a mercê das chantagens de Deborah por tempo indefinido, pois não tem como eu saber por quanto tempo ainda ficarei no concurso. O plano de era bem arriscado, mas pelo menos eu estaria tentando tomar as rédeas da situação em que me meti. E, se a Deborah se sentia completamente capaz de tirar a minha paz, então eu poderia me sentir capaz de tentar pegar a minha paz de volta.
— E aí, o que você me diz? — passou a mão na frente do meu rosto para me acordar do pequeno transe em que eu me instalara.
Olhei para o relógio na mesinha de cabeceira. Os ponteiros marcavam 16h30min.
— Temos que nos preparar. A bruxa logo vai sair.

A cada passo que nós dávamos eu sentia mais vontade de desistir. Nós não tínhamos pensado em um plano B e nem no que falaríamos caso nós fôssemos pegas, o que me deixava cada vez mais aflita.
Enquanto eu e caminhávamos fingindo que nada estava fora do normal, eu ouvi uma das melodias que mais me encantou no começo da minha trajetória da Wings.
‘Cause the heart never lies...
Em uma das salas, , , e tocavam e cantavam a música que havia criado. Meu coração se encheu de alegria quando eu vi que eles realmente estavam empenhados em voltar com a banda.
— Eles são tão lindos! — deu um gritinho.
— Sim, eles são, mas nós não podemos perder o foco agora. — eu disse, enquanto andava com a minha tranquilidade fingida.
A ruiva e eu pegamos um elevador e descemos no andar do alojamento dos professores. Não vimos e o corredor estava vazio. Eu e ficamos atrás da porta das escadas de emergência esperando, mas a Deborah só resolveu sair de sua toca às 17h15min.
Ela usava uma calça de ginástica, blusa de malha e tênis nos pés. Em seu ombro esquerdo, a loira carregava uma bolsa de porte médio que parecia estar abarrotada de coisas e Deborah falava ao telefone. Infelizmente, eu não consegui ouvir direito o que ela dizia porque o elevador que ela esperava não demorou a aparecer.
Assim que a bruxa desapareceu, eu e andamos até a porta do quarto de Deborah e levamos um susto ao ver que estava ali.
— Eu sabia! — exclamou, apontando para a loira. — Eu sabia que você estava trabalhando para a Deborah!
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou, assustada. Percebi que ela segurava um tipo de agenda velha na mão.
— Eu não acredito nisso! — esbravejei, me sentindo traída. Eu já desconfiava dela, mas ver com os meus próprios olhos o que meu coração ainda tinha esperanças de não ser verdade foi demais para mim — Nós confiamos em você, Brianna! Como pôde?
— É, eu trabalho para a Deborah sim, mas me arrependo disso. Ela não quer me deixar em paz e eu já tentei sair, mas essa mulher é completamente louca. Eu entrei no quarto dela escondido para tentar ajudar a . Faz tempo que não estou mais do lado da Deborah. Vocês são minhas amigas e eu quero ajudar vocês. — ela disse e parecia sincera, mas eu não podia me dar ao luxo de acreditar assim tão facilmente.
— Me desculpe, mas não sei se consigo acreditar em você. — disse, se sentindo tão magoada quanto eu. abaixou a cabeça e passou a encarar a agenda em sua mão.
— Eu entendo se vocês não quiserem mais a minha amizade. — murmurou ela, olhando para nós de forma envergonhada. — Olha, eu achei algo aqui que esclarece um pouco as suas dúvidas, .
— O que é isso?
— O diário da Deborah.
Eu e nos entreolhamos. A aflição e o nervosismo já circundavam todo o meu ser. Eu queria muito saber o porquê da Deborah ser assim, mas confesso que tenho um pouco de medo. A verdade é muito mais assustadora que a mentira porque geralmente mentimos por aquilo que queremos ouvir e não por aquilo que devemos escutar.
estendeu o diário aberto numa página específica em minha direção e eu o peguei, temerosa. Me sentei no chão com ao meu lado e, juntas, começamos a ler.

“Seja perfeita. Seja a melhor. É tudo o que eu sempre ouço dos meus pais. Será que eles não entendem que eu não aguento mais? Eu tento agradá-los o tempo todo, mas parece que nada do que eu faço é suficiente.
Hoje, no corpo de baile, eu tentei finalmente fazer a pirueta que a minha mãe disse que a deixaria orgulhosa. Ela chegou bem na hora em que eu girava, mas meu pé enroscou na minha sapatilha que tinha desamarrado e o desastre foi certo: eu caí, todo o mundo riu e a minha mãe me olhou de um jeito tão raivoso que eu só senti vontade de desaparecer.
No carro, mamãe só sabia reclamar de mim. Disse que eu nunca vou ser a bailarina principal da companhia e que eu nunca vou ser como ela, que nunca irei superá-la.
Ela está com uma fixação louca por uma aluna nova da companhia só porque ela tem tornozelos fortes e dança com leveza.
Grande coisa. Eu posso fazer melhor do que isso, só não sei por quanto tempo vou aguentar a voz irritante da minha mãe apontando todos os meus erros.”

Eu passei para a próxima página. Essa anotação era do dia seguinte:

“Juro que eu tento entender a minha professora de ballet, mas não consigo! Eu fiz um arabesque lindo, mas a professora só tinha olhos para os tornozelos de Rose, para a abertura de Rose, para os braços de Rose!
O pior de tudo é que essa ridícula estuda no mesmo colégio que eu e TODO o mundo gosta dela. Sério, as meninas no ballet não param de falar no quanto ela é linda, simpática e talentosa. Será que eu sou a única que vejo que ela é uma falsa?
Até a minha mãe se encantou pelo “talento natural” dela. Sério, ela me perturbou o caminho todo para fazer amizade com a garota porque ela é muito boa e blá, blá, blá.
— Você viu a abertura de perna da Rose? Ela tem um futuro promissor no ballet, ao contrário de você que só vive comendo. Vai virar uma baleia! Eu vi como a sua abertura de perna está e te digo duas palavras: UM HORROR! Você é um desgosto, Deborah. UM DESGOSTO!
Foi tudo o que a minha mãe disse hoje para mim.
Hoje eu vou chegar em casa e nem vou comer nada, vou ficar só treinando para ver se melhoro um pouco. Eu não posso deixar aquela idiota ser melhor do que eu.
Não posso!”

Avancei mais alguns dias, nervosa. Eu tinha medo, mas acho que sabia quem era aquela Rose de quem a Deborah tanto falava.

“Porque você não é como a Rose ?
Rose, fique na frente.
Parabéns, Rose. Você é a bailarina principal da companhia.
Rose, Rose, Rose.
EU A ODEIO! Ela conseguiu arruinar a minha vida. A minha mãe me odeia porque a Rose conseguiu tudo o que queria: agora ela é a bailarina principal da companhia e eu sou a substituta.
SUBSTITUTA!
Eu quero matar aquela garota, ela arruinou tudo! A minha mãe disse que eu sou uma inútil e que eu não presto para nada, disse que queria ter gerido a Rose e que não quer nem olhar para mim.
Estou me sentindo um lixo.
Ah, Simon Dorley, o amor da minha vida, não me convidou para o baile de inverno do meu colégio.
Sabe quem ele chamou?
A ESTUPIDA DA ROSE!
COMO EU A ODEIO!”

Levantei a cabeça e olhei de para com os olhos marejados, porque se eu li mesmo direito e se isso não for uma tremenda coincidência, a pessoa que a Deborah odeia tanto e que é mencionada muitas e muitas vezes nas páginas desse diário, não é ninguém mais ninguém menos do que alguém que eu conheço.
É a minha mãe.

Continua...


Nota da autora: YEEEEEEY! Demorei, mas cheguei SAHSUAH
Desculpem pela demora, mas época de TCC é osso! Mesmo de férias eu tive que ficar vendo umas coisas desse bendito e eu to reescrevendo uma fanfic e transformando em livro e isso tem me deixado bem atarefada também.
Tentei compensar com um big capítulo pra vocês de 13 páginas. Espero que vocês tenham gostado da revelação do diário da Deborah e do capítulo <3
No mais, comentem porque os comentários de vocês no decorrer do capítulo são uma lindeza e eu AMO DEMAIS lê-los. <3
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Trailer novo da fanfic: https://www.youtube.com/watch?v=Uf6vfgJvFP4
Dreamcast: https://www.youtube.com/watch?v=zYNRTBArqZk
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