Autora: Paula P. | Beta: Babs | Capista: Paula P.



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Capítulo I

Eu não acredito em histórias de amor. Não mesmo. Mas todas as vezes que eu olho para o sorriso do Miles, com suas covinhas e o jeito que seus olhinhos quase desaparecem, eu começo a acreditar em “felizes para sempre” e toda aquela palhaçada. Miles é o tipo de cara que te faz acreditar que anjos andam entre nós. Quer dizer, ele me faz acreditar nisso toda as vezes em que eu olho para o seu rosto, quando eu escuto sua voz, quando ele toca em mim. É engraçado como as coisas são... quando éramos crianças, vivíamos brincando juntos, as pessoas achavam até que éramos irmãos e é assim que as pessoas nos veem desde então. Como irmãos. Aliás, é assim que Miles me vê: como um irmão.
Eram cinco da manhã quando meu celular começou a tocar enlouquecidamente e eu, que estava meio acordado, meio morto, fiquei sem entender de onde vinha o barulho. Demorei mais do que eu me orgulho para descobrir que era meu celular que estava tocando e, quando descobri, já até sabia quem estava me ligando àquela hora.
Olhei o visor e tive a certeza.
— Ely, eu posso ir aí? — Miles perguntou num sussurro.
— Você sabe que horas são? Hoje é segunda-feira, Miles! Por mais que eu te ame e tudo mais, eu tenho aula daqui a... — Olhei para o relógio. 5:24am. — Três horas.
— É sério, cara. — Sua voz estava carregada, parecendo triste ou como se ele estivesse chorando. O que, obviamente, me preocupou. Miles não era muito de demonstrar sentimentos.
Deixei um suspiro frustrado escapar e acabei concordando, afinal eu tinha a certeza de que, se eu não deixasse, ele acabaria aparecendo de qualquer forma.
Passei alguns minutos no escuro, tentando pensar num motivo para o Miles querer aparecer na minha casa às cinco da manhã e o porquê de ele estar soando tão triste. Uns bons quarenta minutos haviam se passado até eu ouvir uma batidinha na janela do quarto. Levantei da cama, instantaneamente me arrependendo de ter dormido apenas de cueca, vesti uma camiseta e abri a janela para Miles entrar. Era difícil enxergar direito devido ao escuro, seus grandes olhos cor de mel estavam assustados e seu rosto, vermelho e inchado, como se estivesse chorando durante um bom tempo. Franzi o cenho, preocupado, e sentei na cama, seguido de Miles.
— O que houve, M? Tá tudo bem?
Miles segurou minha mão, me olhando com os olhos arregalados, e sacudiu a cabeça.
— E, você não pode contar pra ninguém, ok?
— Tudo bem, Miles, mas o que aconteceu? Você tá me assustando.
Ele suspirou e desviou o olhar, parecendo estar segurando o choro. Senti que ele estava à beira do desespero e eu estava mais do que preocupado. Miles não demonstrava sentimentos. Eu nunca o havia visto chorar, aquela fora a primeira vez.
— Ely, eu... — Ele engoliu em seco. — Eu acho que... Que...
— “Que” o quê, Miles? Pelo amor de Deus! — Eu quase gritei, mas quando Miles finalmente falou, sua voz era quase inaudível e nada, absolutamente nada, podia ter me preparado para ouvir aquelas seis palavras.
— Eu acho que eu sou gay.



Capítulo II

— Ely, diz alguma coisa!
Eu pisquei algumas vezes, ainda tentando processar a nova informação. Minha cara de surpresa (olhos arregalados e o queixo tão caído que abriria um portal pra China a qualquer momento) não estava ajudando, então respirei fundo e fiz a única coisa que me veio à cabeça: abracei Miles. Mas não um abraço de bro, não. Um abraço longo e apertado, pra mostrar à ele que eu estava ali e que jamais sairia do lado dele. Uma pitadinha de “eu tenho uma crush em você desde que passamos pela puberdade juntos e você ficou incrivelmente gostoso” entrou no meio do abraço também, mas isso não vem ao caso nesse momento.
Quando nos afastamos, Miles estava chorando e a visão das lágrimas escorrendo pelo seu rosto partiu meu coração.
— Ei... — Sussurrei suavemente, limpando suas lágrimas. — Não chora, M. Pensa bem, agora nós podemos ir nas baladas gay juntos, olha que beleza! Dançar Beyoncé e Gaga a noite toda, que tal?
Miles riu baixinho e eu sorri.
— E, o que eu vou fazer? — Ele sussurrou, deitando na cama. Me ajeitei ao lado dele enquanto pensava numa resposta. — Meu pai, E, ele vai querer me matar se souber...
Abracei Miles e ele apoiou a cabeça no meu peito.
— Ele não vai te matar, Miles. A) Porque eu não vou deixar e B) porque ele é seu pai, ele te ama e quer o melhor pra você.
— É o que eu espero, e...
Eu estava quase apagado quando Miles cutucou minha perna. Abri os olhos com dificuldade e a primeira coisa que eu vi foram as costas nuas dele, o que me fez rapidamente olhar para o outro lado. Se eu continuasse encarando, outra parte do meu corpo também acordaria, se é que você me entende. Levantei um pouquinho, me apoiando nos cotovelos e pigarrei pra mostrar que estava acordado.
— Que horas são? — Perguntei quando M virou o rosto em minha direção.
— Seis? Não sei. — Ele suspirou e engatinhou até onde eu estava deitado e sentou com as costas encostadas na cabeceira. Me sentei imitando Miles e ele apoiou a cabeça em meu ombro. — Você vai pra escola hoje? — Aparentemente não, né, M. Já são seis horas e eu não dormi nada.
— E, posso te perguntar uma coisa?
— Óbvio.
— Se eu te beijar aqui e agora, você vai deixar de ser meu amigo?
Dizer que eu fiquei sem palavras seria um puta eufemismo. Arregalei os olhos, engoli em seco e respirei fundo enquanto pensava em uma resposta coerente. Deus sabe o quanto eu queria beijar a boca do Miles, mas eu não podia entregar que eu estava mais animado do que eu deveria estar.
Então Miles cometeu o erro de morder o lábio inferior, ato que o deixava oitocentas mil vezes mais sexy. Não pude mais me conter, segurei seu rosto com as duas mãos e o beijei como fiz tantas vezes em sonhos. Seus lábios eram mais macios do que eu imaginava e eu não pude deixar de sorrir, eu estava realizando um sonho. Deixei minha mão esquerda passar pelos cabelos ondulados dele, puxando levemente.
Soltei um pequeno gemido quando Miles mordeu meu lábio suavemente, enquanto suas mãos passeavam pelo meu torso. As pontas geladas de seus dedos percorriam minha pele, parando apenas para brincarem com o tecido da minha cueca. Suas mãos estavam perigosamente próximas do meu pênis, que, por sua vez, começava a dar sinal de vida. Desci minha boca até o pescoço de Miles, deixando uma trilha de beijos por seu maxilar, e comecei a dar mordidinhas ali. As mãos de Miles puxavam meu cabelo enquanto eu beijava um lugar sensível em seu pescoço, fazendo-o tombar a cabeça para trás.
E assim, como começou, a sessão de beijos terminou subitamente e, quando me dei conta, Miles já estava vestindo a camisa e pulando pela janela do quarto. Me deixando sem ar, excitado e sozinho na manhã de segunda.



Capítulo III

Após a saída repentina de Miles, levantei-me e entrei no banheiro para um banho gelado. Eu não fazia ideia se o calor que eu sentia era por causa da temperatura alta ou pela troca de beijos e carícias entre eu e Miles, o que eu sabia era que eu estava suado como quem passa um dia inteiro no deserto do Saara. Se alguém me dissesse que era isso que aconteceria naquela manhã, eu riria e falaria “quem me dera”.
Enquanto eu tirava minha roupa suada, tudo o que vinha a minha mente eram as mãos de Miles percorrendo meu corpo, sua boca na minha... A eletricidade passava como formigas por debaixo de minha pele, eu sentia sua boca em meu pescoço, seus dedos brincando com a minha cueca, e uma nova ereção se formava.
— Você se acalme! — Falei com meu próprio pênis.
Entrei debaixo do chuveiro e abri o registro, e logo água gelada batia em minha pele quente.
Decidi que não iria pensar no Miles. Não enquanto estava tomando banho, porque eu sabia o que aconteceria se eu me deixasse distrair por alguns minutos e nenhuma amizade sobrevive à vergonha de ter batido uma pensando no seu melhor amigo.
Ugh, mas eu sou fraco e sou um adolescente, pelo amor de Deus! Quando dei por mim, estava com uma mão na parede, me apoiando, e a outra estava envolvendo meu pênis ereto. Já estava na chuva, não tinha como não me molhar, então fechei os olhos e revivi tudo que acontecera naquela manhã. Parecia que eu ia explodir de tanta excitação!
Minha mão fazia movimentos vai-e-vem enquanto eu pensava como seria maravilhoso ter a boca linda do Miles me chupando. Imaginei-me dentro do Miles, em como seria bom transar com ele, ver suas costas pálidas e cheias de pintinhas se arqueando com prazer, ouvir seus gemidos e sua voz rouca pedindo por mais, seu rosto lindo se contorcendo ao atingir um orgasmo. Não demorei muito a gozar, espirrando esperma na parede do banheiro.

O dia estava incrível, não havia sequer uma nuvem no céu e as ruas cheiravam a grama recém-cortada. O verão havia, finalmente, chegado! Miles e eu costumávamos matar aulas para irmos à praia, mas eu já não tinha certeza se isso iria acontecer esse ano.
Deixei meus pensamentos passearem por todos os lugares que Miles gostava de me levar e fiquei surpreso ao perceber que meu celular havia começado a tocar a música favorita dele: fluorescent adolescent, do Arctic Monkeys. Sorri enquanto deslizava o dedo para atender a ligação.
— Hey, M. Eu estava pensando em você ago-
— Você pode me encontrar na praça em frente minha casa?
Sua voz não demonstrava nenhum sentimento, o que me deixou – de certa forma – menos preocupado. Mas depois daquela manhã, eu não sabia como as coisas ficariam entre nós.
— Umm... Posso? Quer dizer, posso, sim. Claro... — Pisquei, confuso. — Que horas?
— Agora, E. Vem rápido.
E antes que eu pudesse responder, Miles já havia desligado.

Andei o mais rápido que pude e, 20 minutos depois, estava virando a esquina da rua onde M morava. Podia avistar a praça e suas árvores gigantescas de longe, assim como também podia ver a casa da família de Miles, com o sol refletido em suas telhas brancas.
Ao chegar mais perto, pude ver Miles sentado em um dos bancos mais distantes da casa, mexendo em seu celular. Ele estava com uma mochila em seus pés, um casaco preto e skinny jeans. Seus cabelos castanhos e ondulados estavam por dentro de uma touca, apenas um pedaço da franja escapando e caindo sobre seus olhos cor de mel.
Se eu estivesse com a minha câmera naquele momento, eu tiraria uma foto dele. Miles era meu modelo favorito, ele ficava tão natural na frente da câmera que parecia que ele havia nascido pra fazer aquilo. Fotografar Miles era um tipo de terapia para mim. Sorri vendo ele ali, tão imerso em pensamentos.
Ele estava tão concentrado em seu celular que nem viu que eu estava sentado do lado dele há alguns segundos, então quando eu pigarreei pra me fazer notado, Miles deu um pulo. Eu ri e o empurrei com meu ombro.
— O que estamos fazendo aqui, M? — Perguntei. — E por que você está com uma mochila?
— Porque eu vou fugir, Ely.
— Oi? Fugir pra onde, Miles?
— Não sei. Pra qualquer lugar... — Ele suspirou. — Eu quero que você venha comigo.
— Você nem sabe pra onde vai!
— Eu vou sozinho então.
— Nem fodendo, Miles!
— Então você vem comigo?
Fechei os olhos, passando as mãos por meus cabelos, e ponderei por alguns segundos. Seria assim tão ruim? Passar uns dias sozinho com o cara que eu gostava, longe de tudo e de todos? Certamente não.
— Eu preciso passar em casa antes. Você sabe. Pegar umas roupas e dinheiro pra comida. — Falei.
Miles sorriu abertamente e, naquele momento, se ele falasse que queria que eu fosse pro inferno, eu iria de boa vontade.



Capítulo IV

Saímos da minha casa quando o relógio deu sete horas, o Sol estava se pondo finalmente e lançando uma luz alaranjada pela rua arborizada, e ainda não se via nenhuma nuvem no céu. O tempo estava maravilhoso, estava fresco, diferente da manhã. Coloquei minha mochila no chão e vesti minha jaqueta jeans de mil anos atrás, toda rasgada e puída, mas confortável. Peguei a mochila e toquei no braço de Miles, mostrando que eu já estava pronto. Não fazia ideia de onde estávamos indo ou como faríamos pra chegar lá, mas eu confiava cegamente nele. Qualquer lugar que escolhesse, eu ficaria feliz só de estar ali com ele.
Pegamos um táxi até o centro da cidade, de lá fomos andando até a estação de trem. A estação, como sempre, estava lotada. Famílias esperando entes queridos desembarcarem, pessoas se despedindo de seus amados. Quando eu era criança, eu costumava pensar em despedidas como algo meio inútil, porque sempre me despedia de alguém e a via no dia seguinte. Quando eu fiz doze anos e meu pai saiu de casa, eu falava com minha mãe que ele voltaria no outro dia, que não era necessário dizer “adeus”. Ah... Aquela foi a última vez que eu vi meu pai. Engraçado como a vida é.
Despertei-me de meu devaneio com a mão de Miles apertando a minha, eu tinha até me esquecido que ele estava ali. Pisquei, focalizando nas placas com os horários e os lugares e me perguntei se Miles sabia para onde estávamos indo.
— M.
— Oi. — Ele se virou pra mim e deu um meio sorriso.
— Já escolheu para onde vamos?
— São Francisco.
Meus olhos se arregalaram. São Francisco? De Lancaster até lá são mais de dez horas de viagem, pensei.
— Miles... São mais de dez horas de viagem!
Miles revirou os olhos.
— Eu ia vir sozinho, Ely. Você quis vir comigo.
— Você me chamou! — Franzi o cenho. — E eu não iria deixar você vir sozinho. Você é um recém-gay, virgem, de dezessete anos. Você não pode ficar sozinho.
— Que diferença isso faz, Ely? Você é um “gay veterano”— ele fez as aspas com os dedos e eu revirei os olhos — provavelmente mais rodado que os pneus do carro da minha mãe, de dezoito anos. Ok, agora que já constatamos os fatos, podemos comprar as passagens?
— Ugh, tudo bem. Mas se você não fosse meu melhor amigo desde o gênesis, eu te largaria aqui e voltaria pra casa.
Quando o trem chegou, fomos os primeiros a entrar. Pegamos as poltronas do fundo no vagão, Miles sentou-se virado de frente para mim e apoiou a cabeça na janela. Ele parecia cansado, com círculos escuros embaixo dos olhos. Eu podia ver o emaranhado de veias por debaixo de sua pele. Seus olhos estavam fechados, pensei que ele pudesse estar cochilando, por isso quando sua voz grave e rouca preencheu o silêncio, eu dei um pulo.
— Eu queria te pedir desculpa. — Disse, abrindo os olhos e encarando os meus. Nem tive tempo de perguntar por que ele estava pedindo desculpas. — Por hoje de manhã. Por ter te beijado. Eu estava confuso, quer dizer, eu nunca tinha beijado outro cara antes. Pensei que...
Ele deu uma risada fraca e balançou a cabeça.
— Pensou o quê, M? Você pode me falar. Nós somos... Somos melhores amigos. Você pode me falar qualquer coisa.
— É besteira, Ely.
Levantei as sobrancelhas pra ele e ele sorriu.
— Só... Só pensei que seria legal se o primeiro fosse alguém que eu ame. E eu amo você, Ely Patterson.
Sorri pra ele, sentindo-me quente por dentro. Não era a primeira vez que ele dizia que me amava, mas meu corpo sempre respondia por mim. Às vezes eram arrepios, mas na maioria dos casos, eu me sentia quente. Como se eu tivesse acabado de beber café.
— Eu também te amo, Miles Isherwood. Mas não precisa se desculpar. Até onde eu lembro, eu que te beijei. Se alguém tem que se desculpar, esse alguém sou eu.
— Não seja bobo, E.
— É sério. Você estava vulnerável, eu me aproveitei disso. Mais ou menos. — Semicerrei os olhos e sorri de lado.
Miles balançou a cabeça novamente e se levantou para sentar do meu lado. Virei para olhá-lo.
— Você não tem que se desculpar, E. — Ele disse, se aproximando.
— Não?
— Não. Sabe por quê?
— Hm?
— Porque eu não paro de pensar naquele beijo. — Miles se aproximou mais ainda, quase sentando no meu colo, e mordeu o lábio inferior. — E porque eu tô morrendo de vontade de repetir a dose.
Levantei uma sobrancelha para Miles e ele sorriu de lado, me puxando para ainda mais perto dele. Senti meus órgãos internos ficarem quentes, a sensação de estar bebendo café, porém coisa muito melhor estava em minha boca. Miles tinha uma mão em meus cabelos e a outra em minha cintura, e sorria enquanto eu mordia de leve seu lábio inferior. Seus lábios eram tão macios, parecia que o garoto passava, sei lá, hidratante na boca. Era incrível. Abrimos a boca quase ao mesmo tempo, dando espaço para nossas línguas. Miles beijava tão bem que não pude deixar de me perguntar se ele também era bom fazendo outras coisas com a boca. Enfiei minhas mãos por debaixo do casaco e da blusa dele, passando meus dedos pela pele lisa e quentinha de sua barriga. Miles se afastou um pouco, parando o beijo, e pegou minha mão, levantando-se e me puxando com ele.
— Onde você tá me levando, M? — Perguntei, com os olhos arregalados.
Ele se virou e sorriu sacana, dando uma piscadinha.
Paramos na frente da porta do banheiro, uma cabine apertada que mal cabia uma pessoa, quem dirá duas, mas isso não impediu Miles de me empurrar pra dentro e se enfiar ali comigo. Miles trancou a porta e se virou para mim, com cinco centímetros de distância entre nossos corpos. Olhei confuso pra ele quando suas mãos foram logo para o botão de minha calça, abrindo-o, e puxando o zíper para baixo. Ele se abaixou na minha frente e eu franzi o cenho.
— Miles...?
— Oi. — Ele olhou pra cima, pra mim.
— O que... Umm... O que você tá fazendo?
— O que parece que eu tô fazendo, Ely? — Miles revirou os olhos e eu engoli em seco.
“O que parece que você tá fazendo, Miles?”, pensei, “Parece que você está tentando me chupar.” O que, na minha cabeça, parecia uma ótima ideia. Uma ideia maravilhosa, inclusive! Mas Miles era virgem, havia acabado de se assumir – mesmo que só eu soubesse disso – e eu não queria que ele se arrependesse. Mesmo que eu não fosse me arrepender de ter sido chupado por ele.
Suas mãos estavam em minha cueca e uma ereção estava se formando. Estava bem difícil eu ser o controlado quando o rosto e as mãos de Miles estavam tão próximos do meu pênis.
— Miles, levanta...
— O quê? Por quê? — Ele parecia magoado, os cantos da boca caídos.
— Só... Levanta. Não quero que você faça nada que depois você se arrependa, ok?
— Não vou me arrepender, Ely.
Eu sorri.
— Anda, vamos. Quando nós não estivermos num trem ou em qualquer lugar em movimento, nós continuamos de onde paramos aqui. Tudo bem?
— Você perdeu a chance de ganhar o melhor boquete da sua vida.
— Uau. Você nunca chupou ninguém e já se considera o melhor boqueteiro do mundo? Você é tão fofo.
Miles riu e se levantou. Fechei minha calça e saí da cabine, puxando sua mão. Honestamente, eu não tinha dúvidas de que seria, realmente, o melhor boquete do mundo. Era o Miles, afinal de contas, e ele era o melhor em tudo que ele fazia.



Capítulo V

Depois de duas horas de viagem, nós faríamos a primeira troca de trens. A estação onde faríamos a primeira parada ficava num lugar ligeiramente deserto. Grandes árvores cercavam os trilhos, sombreando toda a estação. O vento era mais frio ali, então me vi vestindo um casaco de Miles para me proteger do frio. Estávamos há dez minutos na primeira parada, aguardando o próximo trem, quando o celular de Miles começou a tocar. Ele franziu o cenho e atendeu a ligação. A pessoa que estava do outro lado da linha gritava furiosamente. Era possível escutar clara e perfeitamente o que ele dizia.
— Pai, eu não vou voltar. — Miles disse, surpreendentemente calmo.
Você está com aquele viadinho, não é? Eu sempre soube que ele te levaria pro caminho do pecado, Miles.
— Pai...
Cala a boca! Você vai voltar agora.
— Não vou! — Os olhos de Miles lacrimejavam, enquanto eu o olhava, sussurrando “tá tudo bem, eu tô aqui”.
Ah, mas você vai sim. Ou eu vou jogar suas coisas na rua, porque se você for em frente com isso, você não será bem-vindo nessa casa.
Miles parecia ter levado um tiro. Seu rosto desabou e as lágrimas agora corriam livres por suas bochechas. Eu sentia que todos da estação podiam ouvir as coisas que o pai dele dizia e que os olhos estavam sobre nós, mas todos estavam ocupados demais com seus próprios problemas para focarem nos nossos. Sem dizer mais nada, Miles finalizou a ligação e guardou o celular no bolso. Seus olhos estavam fixos no chão, as mãos nos bolsos do casaco.
— Eu preciso voltar, E. — Ele sussurrou, sem nem levantar o olhar para mim. — Eu preciso voltar.
— Não, Miles! Você não precisa voltar...
— Ely, meu pai vai me colocar pra fora de casa!
— Você vem morar comigo, Miles, isso não é problema. — Peguei suas mãos e o puxei para perto, mas ele se afastou, soltando minhas mãos.
— Eu não quero morar com você! — Ele elevou a voz e suspirou. Quando ele abriu a boca para falar de novo, sua voz estava mais suave. — Meu Deus, Ely. Você não entende... — Miles parecia cansado, os olhos fechados e os dedos apertando a ponte do nariz. — Eu não posso deixar minha mãe e ela não pode deixar meu pai. E eles são a única família que eu tenho.
Sentei-me num dos bancos perto de uma das lanchonetes da estação, apoiando meus cotovelos nas pernas e a cabeça nas mãos, e ele sentou-se ao meu lado. Se Miles voltasse para casa agora, eu sabia o que isso significaria e eu não estava pronto para perdê-lo. Mas também não queria ver Miles triste por minha causa, então respirei fundo e olhei fundo em seus olhos. — Eu não vou te impedir de voltar pra casa, M.
— Obrigado, Ely. — Miles sorriu levemente.

****

Duas horas depois, estávamos chegando na estação de Lancaster. Miles havia adormecido assim que o trem começara a se mover e isso me deu a chance de encarar meus pensamentos.
Eu conseguia entender seu lado. Era a família dele versus o melhor amigo. Por mais que fôssemos quase irmãos – um relacionamento um tanto quanto incestuoso, se pararmos para pensar -, aquela era sua família. Eram as pessoas que ele mais amava na vida e eu sei que Miles faria qualquer coisa a sua disposição para deixar os pais felizes. Miles era a pessoa mais carinhosa e amorosa do mundo, então, mesmo que doesse, ele jamais sacrificaria os pais para viver uma vida feliz e completa comigo. E eu entendia. Não ficava contente com essa decisão dele, mas entendia.
O trem já estava parando na estação e Miles despertava lentamente. Ele lançou um olhar para mim e eu juntei todas as minhas forças para esboçar um sorriso. Eu não estava feliz com aquela situação, mas, para evitar brigas desnecessárias, resolvi que fingir seria a melhor opção.
Coloquei minha mochila em meus ombros e Miles fez o mesmo, caminhamos juntos até a saída do trem. Seu pai o estava esperando, os braços cruzados e o cenho franzido. Virei-me para Miles e sussurrei:
— Quando chegar em casa, me manda uma mensagem pra saber se está tudo bem.
Ele assentiu com a cabeça e encaminhou-se até seu pai, com seus ombros caídos e a expressão triste, mas antes, virou-se para mim e sussurrou “eu te amo, E”.
E, por anos, aquela havia sido o último “eu te amo” sincero dito por Miles.



Capítulo VI

Os anos se passaram e a vida seguiu. Realizei meu sonho de morar na melhor cidade do mundo: São Francisco; entrei para uma faculdade incrível, arrumei novos amigos, novos amores... Quanto a Miles, a última notícia que tive dele foi que ele estava noivo – por pura pressão dos pais, não tenho dúvidas. Com uma garota, óbvio. Havia acabado de completar vinte anos e já estava noivo? Ele ainda nem podia beber legalmente! Vai entender...
O quê, de fato, aconteceu? Nós nos afastamos. Simples, porém, muito complicado. Os primeiros meses após a tentativa de fuga foram tranquilos, quase normais. O que diferenciava era que Miles e eu apenas podíamos nos encontrar na escola ou falarmos por telefone. Eu não era bem-vindo em sua casa, ele fora proibido de entrar na minha... Mas, até então, ainda mantínhamos contato.
Não vou mentir, era bem difícil vê-lo e não poder tocá-lo. Era ainda mais difícil conversarmos sobre nós, sobre nossos sentimentos. Nossa “história de amor” caiu no esquecimento, era como se nunca tivesse acontecido. Se eu tocasse no assunto, Miles revirava os olhos e dizia “não torne isso mais difícil do que já é, Ely”, “segue em frente, E” ou “eu te amo, você sabe, só não podemos ficar juntos do jeito que você quer”. Era como se nada daquilo tivesse qualquer significado pra ele, como se fosse uma via de mão única e eu fosse o único a querer que ficássemos juntos.
Sua atitude tornou a separação mais fácil, de certa forma, porque eu preferia ignorar suas mensagens para evitar uma possível briga. Eu ainda o amava, mas já não gostava mais de ficar em sua presença. Parecia que tudo que Miles fazia, desde as coisas que ele dizia até o modo que ele revirava os olhos, era para me irritar. Mas eu, com esse orgulho enorme que tenho, jamais demonstrava o quanto eu queria socar ele. Eu não deixava, em momento algum, Miles ver como ele estava me tirando do sério e ele certamente não desistia.
Um dia estressante, após uma semana de provas finais, Miles me ligou. Nem me esperou dizer um “alô” e já foi disparando:
— Tenho um encontro hoje.
Arqueei uma sobrancelha, certo de que Miles estava apenas fazendo seu joguinho.
— Ah, é? — Perguntei, cínico. — Com quem?
— Com a Jenna. — Ele disse. Nenhuma emoção pôde ser notada em sua voz. — Engraçado como as coisas são... — Miles suspirou. — Sempre achei que ela fosse a garota mais bonita da turma, mas nunca pensei que ela fosse se interessar por caras como eu.
— “Como você” como? Gays?
— Ugh, Ely. Nem sei por que ainda perco meu tempo falando com você, sabe?
— Bom encontro. — E desliguei.

Algum tempo depois, recebi a carta de aceitação para o curso de fotografia no Instituto de Arte de São Francisco e eu não podia estar mais animado. Fotografia era minha paixão, São Francisco era meu lugar favorito no mundo inteiro... Meus pensamentos corriam a mil km/h, tamanha era minha alegria. Eu não conseguia parar de fantasiar sobre o meu futuro, sobre o possível apartamento que eu ficaria, sobre as pessoas que eu faria amizade.
Em momento algum eu pensei em como eu contaria para Miles que meus dias em Lancaster estavam contados, e, pra ser sincero, o tópico “Miles” nem havia passado por meus pensamentos. Mas ele, de certa forma, ainda era o meu amigo mais próximo, então nós teríamos aquela conversa uma hora ou outra. O que, é claro, eu decidi adiar até o último momento. E quando eu digo “último momento”, eu quero dizer “até o dia anterior à mudança”.
Liguei para Miles assim que acordei naquela sexta-feira, umas 9h da manhã. O tempo todo que eu esperei até ele atender ao telefone, eu fiquei olhando para as malas e todas as caixas empilhadas nos pés da cama. Eu ainda não acreditava que estava me mudando para outra cidade, que aquele não seria meu quarto mais.
Quando ele finalmente atendeu, eu estava com os olhos marejados por pensar em todos os momentos que eu vivi naquele quarto. Inclusive nosso primeiro beijo, naquela manhã de segunda-feira que, agora, parecia ter sido há décadas e não apenas meses. Pigarreei para espantar a voz de quem estava prestes a chorar.
— Miles?
— Oi, E. — Ouvir sua voz era, ao mesmo tempo, familiar e confortável, e como um soco na barriga. Extremamente doloroso. — O que houve?
— Eu estava imaginando se você poderia me encontrar naquela Starbucks perto da sua casa?
— Não sei se seria uma boa ideia... E eu não estou em casa, então eu poderia demorar um pouco até chegar lá.
Tentei ignorar que, às 9h da manhã de uma sexta-feira, nas férias, Miles não estivesse em casa. Ele não era do tipo de pessoa que acorda cedo para se exercitar ou pra fazer qualquer outra coisa, pra falar a verdade. Tentei não pensar que talvez ele estivesse passado a noite na casa de outra pessoa, como um encontro ou algo do tipo, mas era difícil.
— Umm... É meio urgente, Miles. Quer dizer, não urgente, mas eu realmente preciso falar com você.
Ele demorou alguns segundos para responder. Respirou fundo e finalmente disse:
— Tudo bem então. Te vejo em alguns minutos. — E desligou.
Levantei-me da cama e tomei um banho, permitindo-me chorar um pouco. Eu sentia sua falta, sentia falta não só dos beijos e das carícias, mas principalmente sentia falta de ter Miles como meu melhor amigo. Nós éramos inseparáveis! Engraçado, tudo o que eu mais queria era que ele me visse como mais que só um amigo e, depois de tudo o que aconteceu, nem como amigo ele me via. Havíamos nos tornado estranhos um para o outro e isso me machucava bastante, apesar de eu não me deixar pensar nisso.
Havia ensaiado toda a conversa enquanto me vestia, me distraindo o suficiente até para perceber o que eu estava vestindo – que, no caso, era uma das camisas que Miles deixara comigo e skinny jeans. Saí de casa repassando tudo o que eu tinha ensaiado, todos os possíveis caminhos que aquela conversa seguiria, e foi assim até chegar ao Starbucks. O estabelecimento estava praticamente vazio, com exceção de um rapaz mexendo em seu laptop e os garçons. Sentei em uma das cabines mais afastadas e pedi um café grande e um croissant e, enquanto esperava meu pedido, Miles trancava sua bicicleta na placa de “pare” do outro lado da rua. Sorri ao ver que ele usava uma das minhas blusas, parecia que havíamos combinado de usar as roupas um do outro naquele dia.
Quando Miles sentou-se em minha frente, senti meu estômago dar cambalhotas. Era como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez após uma longa viagem, o que não era tão diferente assim da realidade, afinal estávamos realmente nos vendo pela primeira vez após meses. Até então, nós nunca havíamos ficado tanto tempo assim sem manter contato e isso me assustava, como se, mesmo naquela época, eu já soubesse que ficaríamos bastante tempo sem nem ligarmos um para o outro.
Depois de alguns minutos de conversa fiada, apenas reafirmando que ambos estávamos bem e que a vida estava agradável, Miles e eu parecíamos duas pessoas que estavam em um encontro às cegas. Dois estranhos.
— Eu... — Falamos ao mesmo tempo.
— Você primeiro, M.
— Ahh, ok. — Miles pareceu escolher cautelosamente as palavras antes de dizê-las. — Ely, eu queria que você soubesse por mim. Ahn, eu realmente não sei como dizer isso.
— Dizer o quê?
— Eu e Jenna, Ely, nós estamos juntos. Eu estava na casa dela, quando você me ligou, essa manhã.
Eu não conseguia formar nada coerente em minha mente, só consegui olhá-lo com o cenho franzido. Miles estava namorando uma garota? Que porra?
— Acho que isso provavelmente significa que eu não sou gay, afinal. Quer dizer, eu estou com uma garota. Nós... — Ele pigarreou. — Nós fazemos sexo... Erm... Não é ruim, então...
Semicerrei os olhos, extremamente desconfortável. Não conseguia acreditar no que eu estava ouvindo, mas preferi não criar caso ali, naquele momento.
Ele olhou para baixo, claramente querendo evitar qualquer confronto e pronto para mudar de assunto.
— O que você queria contar, E?
— Bom... Eu fui aceito no Instituto de Artes de São Francisco e eu me mudo para o meu novo apartamento amanhã. Te chamei aqui porque eu queria me despedir, na verdade.
Miles parecia surpreso, mas logo abriu um sorriso e me desejou boa sorte. Eu, honestamente, não sabia dizer se ele estava sendo sincero, mas agradeci de qualquer forma. Ele se inclinou por cima da mesa e me abraçou, mas acabou tão de repente quanto começou.
Assim que nos despedimos, seguimos cada um o seu caminho. Na caminhada de volta para casa, me permiti chorar, relembrando cada segundo da conversa. Mas, assim que cruzei minha porta de entrada, deixei tudo para trás e prossegui o dia como se nada daquilo tivesse me atingido da forma que atingiu.



Capítulo VII

A faculdade estava consumindo a maior parte do meu tempo. Quando eu não estava no campus, eu estava em casa estudando como se a minha vida dependesse disso – e, pra falar a verdade, dependia. O mais engraçado é que eu imaginava que minha vida como universitário seria ir para as festas e ficar bêbado e beijar todos os caras... Oh, como eu estava errado! Tão errado que desde que me mudei, eu não havia ficado com ninguém.

Eram onze da noite, num sábado, quando alguém bateu na porta do apartamento que eu dividia com Sarah e Jon. Meus colegas de quarto haviam saído, afinal eram onze da noite num sábado, pelo amor de Deus, e eu estava ocupado demais estudando para uma prova que só aconteceria dali duas semanas. Sentei-me no sofá, pensando “se eu ficar quieto, talvez a pessoa vá embora”, o que não aconteceu, já que a pessoa continuou batendo na bendita porta.
Caminhei até a porta e a abri, dando de cara com Ryan, o cara barulhento que mora no apartamento acima do meu. Toda noite Jon levantava da cama e ia bater na porta do garoto para reclamar do barulho insuportável. Dei uma examinada no que ele estava vestindo: sua camisa estava suja de algo que parecia molho de tomate e seu cabelo estava uma bagunça. Mas quem sou eu pra julgar, se eu estava igual ou até mesmo em piores condições, né? Especialmente quando eu não tenho o dom de ficar apresentável mesmo estando um lixo, o que Ryan parecia ter.
— Jon saiu. — Não dei nem chance para que ele abrisse a boca para falar qualquer coisa.
Ele coçou a cabeça, passou os dedos pelo cabelo e olhou para meus pés descalços.
— Eu sei. Eu vim falar com você. Posso entrar?
— Umm... Pode? — Respondi, incerto.
O guiei até o sofá e gesticulei para ele se sentar.
— Você quer um copo d’agua? Ou, sei lá, uma camisa nova?
Ryan olhou para a camisa que vestia e viu a mancha. Ele riu e balançou a cabeça.
— Não, obrigado.
— Ok... — Sentei-me na poltrona que ficava ao lado do sofá e abracei minhas pernas. Não me aguentei de curiosidade e perguntei: — Então, o que você quer falar comigo?
— Jon me falou que você gosta de música e, bom, a banda de um amigo meu vai tocar num bar em Castro hoje. Você quer ir?
— Hoje? Mas já são onze da noite! — Franzi o cenho e a ficha caiu. Ryan estava me chamando para sair com ele. Nós nunca trocamos mais que cinco palavras na vida, por que isso agora?
Como que lendo meus pensamentos, ele rapidamente disse:
— Eu sei que isso pode parecer estranho, já que a gente nunca nem se falou direito, mas, sei lá... — Ryan passou os dedos pelo cabelo desgrenhado e deu de ombros. — Pode ser uma oportunidade da gente se conhecer melhor.
Demorei alguns minutos para responder, mas acabei concordando.
— Ok, legal! — Ele sorriu. — O show começa 1 da manhã, ou seja, a gente tem um tempo de sobra. Tem uma lanchonete ali perto, eu estava pensando em parar lá para comer alguma coisa, você topa?
— Tudo bem.
Mudei de roupa rapidamente, dei uma ajeitada no cabelo e saímos.

O trânsito estava meio louco, então o que era para ser uma viagem de quinze minutos, demorou o dobro do tempo. Mas ainda assim chegamos em Castro com tempo de sobra e fomos direto para a lanchonete.
O lugar era interessante, estilo anos 60, com cabines e uma jukebox. Os garçons e garçonetes usavam roupas de época e zanzavam pelo local com seus patins. Eu só conseguia pensar em Friends, quando a Monica trabalhava de chef em uma lanchonete parecida. Comentei isso com Ryan, que riu.
— Eu pensei na mesma coisa.
Aquela não fora a primeira vez na noite em que concordamos com alguma coisa, Ryan parecia compartilhar das mesmas opiniões que eu e até que ele era uma boa companhia. Se ele fosse gay, eu já teria flertado com ele. Aliás, eu não fazia ideia se ele era ou não. Decidi perguntar, mas de uma forma sutil, como as pessoas fazem nos filmes: perguntando se ele tinha uma namorada.
— E aí, cara, você tem namorada? — Perguntei, brincando com um guardanapo. — Não querendo me meter na sua vida, mas eu sou sagitariano, sou curioso.
— Tranquilo, cara, não se preocupa. — Ele riu. — E não, não tenho namorada.
— Namorado, então? — Levantei uma sobrancelha.
— Também não... — Ele semicerrou os olhos, desconfiado. — Peraí, você tá querendo perguntar, indiretamente, se eu sou gay?
Arregalei os olhos, surpreso. Fui pego.
— Como você sabe?! — Ele riu e deu de ombros. — Então... Você é ou não?
Ryan gargalhou, jogando a cabeça para trás.
— Achei que estivesse bem claro que isso é um encontro.
— Ah, bom... É que eu sou sagitariano, além de curioso, eu sou lerdo.

Quando chegamos no bar, a banda já estava no palco terminando de fazer os últimos ajustes para o show. Ryan acenou para um dos caras e me puxou pela mão até o palco. Uma garota com jeans rasgados nos joelhos e uma blusa de alguma banda que eu não conhecia sorriu para nós enquanto testava o microfone.
— A menina com o microfone é a Penny, vocalista da banda. O cara ali atrás, — Ele apontou na direção do rapaz, — de xadrez, é o Brendon, meu amigo. O de barba, Mark, é o baterista e o baixista é o George.
Ryan acenou para eles e prometeu que nos apresentaria depois do show, que, por sinal, já estava para começar, então nos sentamos em uma mesa próxima ao palco. As luzes se apagaram e uma introdução de guitarra começou, seguida da voz suave de Penny. De dez em dez minutos, Ryan olhava para mim, buscando a aprovação da banda, e eu sorria. Ele cantava baixinho, sabia todas as letras de cor.
— Então... Você é uma groupie? — Perguntei, rindo.
— O quê? — Ele riu alto. — Não, é que... Bom, eu escrevi a maioria das músicas deles. Brendon é meu melhor amigo desde o primário e nós escrevemos as músicas juntos, eu trabalho nas letras e ele, na melodia.
— Uau...
— Talvez um dia eu escreva algo pra você. — Ele deu uma piscadela.

Quando o show acabou, ajudamos a banda a colocar os instrumentos dentro da van e depois fomos andando até o carro, que estava estacionado a dois quarteirões do bar. Ele se sentou no capô do veículo e deu tapinhas no espaço vago pra eu sentar também, o que eu fiz.
— Eu tive uma ótima noite.
— Eu também.
— Deveríamos repetir.
— Com certeza.
Ryan me puxou pela camisa e me beijou. Escutei os meus batimentos cardíacos, imaginei que ele tenha escutado também. Nós éramos os últimos habitantes do planeta naquele momento.



Continua...

Nota da Autora: (01/02/2017)

Nota da Beta: Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.