Volcanoes

Autora: Gabrielle Rocha | Beta: Mily (Gaby até o capítulo 2)

Capítulos:
| 01 | 02 | 03 |

Capítulo 1: Todos.

Adolescência – [Do lat. Adolescentia] Sf. 1 O período da vida que se caracteriza por uma série de mudanças corporais e psicológicas.

Todos os seres que vivem em comunidade, com idade de 12 a 20 anos já escutaram certo discurso vindo de mais velhos com teor de “hoje, os jovens reclamavam demais, na minha época...” seguido de um relato de como era a vida em certo tempo, denotando todas as mudanças que a juventude sofreu nesse meio tempo.
O que o dicionário não conta é no como cada mínimo desastre dessa fase é considerado o fim do mundo, como se não houvesse uma saída e que seria uma situação constante; não diz como é difícil lidar com fracassos, perdas, rejeições, e os tabus envolvendo sexo, virgindade, álcool e drogas; ninguém aconselha a manejar a cadeia alimentar desnecessária do ensino médio ou como sobreviver às provas de física.
Como toda história sobre a adolescência é um clichê – e obedecendo a regra, o primeiro gosto desses jovens meticulosamente escolhidos seria com uma personagem chegando a sua nova escola. Nada de anormal em seus passos nervosos, imaginando cada mínimo detalhe da atual estrutura educacional, contudo, ela não queria estar ali. A porcentagem de jovens que põem seu futuro no foco da sua vida não é alta, principalmente os que aceitam mudar de país pra isso: foi isso que fez.
Determinada e controladora, queria ser a melhor da turma na melhor faculdade. Mesmo sendo meio de ano, ela fez promessas de ano novo que sabia que não cumpriria: esquecer-se de tudo - festas, amigos e garotos – para se concentrar particular e unicamente em tirar notas altas o bastante para que fosse possível entrar na melhor faculdade com mérito, ter um currículo digno de aplausos e não ter complicações na hora de ser apresentada ao mercado de trabalho. Com dezessete anos completados recentemente, tinha sua vida programada e organizada, contando com a ajuda da sorte para que os planos fossem concretizados.
Forçou suas pernas e pés a andarem como se desfilassem – o que ela concluiu depois que deve ter parecido uma bêbada tentando andar em linha reta – assim que viu todos os pares de olhares curiosos sobre a garota que obviamente não pertencia ao ambiente frio e geralmente nublado de Bristol. Sentiu-se como um extraterreste pelo jeito que as pessoas a olhavam, e desejou pela trigésima vez naquele dia poder estar na Califórnia, e não em Bristol. Fingiu ignorar os olhares e entrou na secretaria, confusa e perdida com o sotaque inglês carregado de todos - em especial da inspetora – e tantas portas sem nenhuma placa informando, sequer, onde estava.
Enquanto a americana se perdia em um mar de gente desconhecia, o inglês se achava em meio a tantas pessoas que o conheciam, mas ele não fazia ideia de quem eram. Respondeu com sorrisos e acenos, mesmo não reconhecendo uma percentagem alta deles. De que importava? Eles sabiam seu nome, não saber o deles era uma parte do percurso dos ditos “populares”.
reconheceu os cabelos loiros de longe, aqueles que de tanto tempo de convivência reconheceria em qualquer lugar e a qualquer distância. Agradeceu a Deus por reconhecer alguém no meio daqueles rostos vagos e nomes totalmente irreconhecíveis no momento. Os pares de olhos que encaravam com uma curiosidade a americana, agora prestavam atenção no capitão do time de futebol.
Como um ato normal, o ombro da americana – o que para ela era, seu jeito canhestro que esbarrava em tudo e trocava os pés – bateu violentamente com o inglês que passava, coincidentemente, na frente da secretaria.
- Puta que pariu, me desculpa, de verdade. Eu sou muito desastrada – fora o que o sotaque californiano numa voz única proferiu. jurou que iria pedir desculpas, mas ela se foi levando os cabelos louros escuros tão rápido quanto disse a frase.
Ele ficou observando enquanto a novata da boca suja sumia naquele mar de gente novamente. Balançou a cabeça, afastando qualquer linha de pensamento que poderia ser formada e voltou para a mesa do time de futebol, onde se encontrava. Era bom estar de volta.
Em uma mesa próxima àquela, as líderes de torcida sem reuniam, dessa vez sem uniforme. Olhares de ódio, cobiça, inveja e nojo eram jogados para a mesa composta apenas por meninas de peles perfeitas, cabelos bem cuidados e maquiagem inegável mesmo que fosse manhã. Já não ligavam, virou rotina; todos sabiam quem elas eram, não precisavam de uniforme para informar o colégio que aquele era o grupo das garotas que todos queriam ter e todas odiavam. – a principal candidata ao posto de capitã do time, após a ex-capitã ter se mudado para Nova Zelândia em prol do trabalho militar do pai – se encontrava sentada na ponta da mesa, guinando seus cabelos platinados e expondo os dentes brancos e alinhados, daqueles de quem usou aparelho.
dava uma lenta estudada em cada líder de torcida, sem suas saias curtas e blusas acima do estômago. Assim que seu olhou parou em , seu olhar passou de curioso e analista para desprezo, como da água para o vinho; este não foi desviado até a loura respondê-lo e se formar uma corrente de ódio via olhar. Eles se odiavam, todos respeitavam como se fosse normal. sorriu ironicamente para o moreno sentado do outro lado do pátio, este voltou a prestar atenção nos amigos depois de revirar os olhos.
De acordo com a regra do ensino médio, existem três tipos de relações para a líder de torcida e o capitão do time de futebol, estes são: 1- São os namorados queridos de todos, os mais melosos, acabam se casando em alguns casos. 2- Não mantêm nenhum tipo de relação, o menos comum. 3- Se odeiam por algum motivo desconhecido ou até inexistente: o caso de e .

Uma cabeleira ruiva passou pelo corredor em passos rápidos procurando a melhor amiga. estava a ponto de implodir, sem paciência alguma para a falsidade comum de primeiro dia de aula, portanto, correu com seus cabelos cor de fogo até a melhor amiga. tinha acordado com o pé esquerdo, definitivamente, depois dos barulhos da casa ao lado que sabe-se lá Deus o que estava ocorrendo naquele recinto; sendo a boa moça que sempre fora educada para ser, mandou-o tomar em devidos orifícios.
Risadas escandalosas soaram no meio do corredor, mais especificamente, encostado nos armários. e alguns meninos faziam uma roda por ali, e o primeiro olhava descaradamente para ela, rindo daquele jeito que ela sabia bem que não era espontâneo. Estendeu o terceiro dedo da mão sem demorar o olhar para ele. Definitivamente, não estava muito afim daquela coisa toda.
- Não seja tão carrancuda, princesa! – gritou ele, assim que viu o movimento da ruiva.
- Vai se foder, ! – gritou de volta.
Quando achou , a menina da saia florida e tiara de pérolas puxou quase violentamente o pulso da melhor amiga que saiu literalmente arrastada da mesa em que estava sentada. Sentaram em um banco de madeira do pátio aberto, onde podiam conversar sem toda aquela insanidade e euforia sem necessidade de primeiro dia de aula. Perguntas de como foram suas férias, como se realmente fosse algo que importasse, já que parte deles passou boa parte do período juntos, espalhando a constante diversão em redes sociais. não era mal humorada assim, ela jurava que não era. Hoje simplesmente não era seu dia.
- Que bico é esse, ? – perguntou, colocando os braços por cima dos joelhos, já em cima do banco.
- Parece que eu entrei num fuso horário repentino, ou o mundo acordou na hora errada.
- Você não penteou os cabelos hoje, penteou?
- Não deu tempo, .
- Vira, vamos arrumar esses nós de marinheiros aí.
A loura sacou o pente da bolsa e penteou o cabelo ruivo natural da amiga, tratando com um carinho quase materno cada cacho e cada nó ali presente. Mencionou um rímel e um corretivo, que logo negou, dizendo que não era necessário. E realmente não era, a beleza estonteante da ruiva lhe rendeu votações infantis de meninos de todas as séries sendo chamada de a mais bela. , a líder de torcida pela animação e energia, não ficava atrás. E nem por isso a amizade das duas deixava de ser um pouco menos verdadeira por padrões bobos como esses. No meio de tantas farsas, as duas se salvavam nesse quesito, cresceram juntas durante o ensino médio e era assustador o pouco tempo e o quanto elas se conheciam.

Quando tirou seu olhar de , puxada pela melhor amiga, esperou ser encarado novamente para desatar a rir, simplesmente porque achava a birra que os dois tinham completamente ridícula e felizmente engraçada era sua melhor amiga, uma menina com personalidade forte e inteligência indubitável, reduzindo sua competição naquele time para zero. Recebeu um tapa na curva do pescoço para o cabelo do moreno de olhos azuis que chamava de melhor amigo, devolvendo-o.
Esperou o olhar dele se perder novamente para encarar o banco mal visto do colégio, onde os – acredite, a nomenclatura digna de filmes na tarde de domingo remanescia – punks, “góticos” e junkies sentavam-se. Estranhamente, só uma pessoa estava sentada naqueles bancos: , dona de cabelos negros brilhosos e olhos de um verde esmeralda faiscante. Não sabia muito sobre ela, fora os trejeitos, as companhias e alguns boatos de anos atrás, mas queria saber. não era nenhum psicopata espião, nem lunático, só alguém com um desejo incomum e impossível de ser controlado de querer o que não pode ter.
Jordan Perry não se encontrava naquela fedorenta jaqueta de couro nem ao lado dela, estranhou, já que viviam colados. Um pensamento bom envolto numa fumaça veio: Jordan fora expulso, isso o fez sorrir por dentro e por fora. voltou os olhos cor de piscina nesse momento, rindo do amigo, que sorriu e deu outro tapa nele.
- Nem vem.
- Jura? Amy Winehouse de Bristol? Que mito.
- Amy Winehouse? Porra, , você cada ano supera suas piadinhas – gargalhou, chamando atenção do resto da mesa, que voltaram logo para seus afazeres que envolviam peitos e Barcelona – Você é ridículo, pra caralho.
- Eu tento o meu melhor, obrigado.

Uma camisa polo verde água tentava ser arrumada enquanto seu dono alternava entre guardar o skate na mochila e voltar para a arrumação da mesma. estava nervoso, se cobrando desde o primeiro dia de aula, só conseguia pensar em inscrições pra faculdade e A+, A e nada abaixo dessas no boletim. Também tinha o fato de simplesmente ser o primeiro dia de aula e ele ficava nervoso assim todo ano.
Avistou os amigos com as costas escoradas nos armários dos calouros. ria de algo aleatório, ou alguém que passava e como não quis prestar atenção nisso, cumprimentou-os como sempre, não calorosamente como todos estavam fazendo por sentirem tanta falta assim de seus amigos, só como sempre.
- Sem óculos, ? – Ed perguntou assim que o loiro se juntou a eles.
- Agradeça a tecnologia do nosso amado século, Ed! Lentes!
- Finalmente, quatro olhos, não aguentava olhar mais pra aquelas coisas. Agora não precisa ser zoado tanto por parecer um nerd.
- Eu sou um nerd! – disse com orgulho do seu cérebro gigante, sorriu por pelo menos ele não se vestir como um. De qualquer jeito, era seu melhor amigo.
E assim foram desde o início do ensino médio. e eram opostos, não se igualavam em quase nada. todo ano ficava a centímetros e repetir várias matérias, enquanto passava com maestria e louvor. não tinha muitos objetivos com dezessete anos, principalmente isso de estudar tanto para passar mais quatro anos ou mais deles estudando mais arduamente ainda. Queria fazer o maior número de merdas possíveis, todas incluindo garotas, bebidas, drogas, o que viesse. Tendo como lema, “foda sua vida antes que ela te foda primeiro”.
queria muitas coisas, porém não tinha a mesma sorte que para consegui-las, portanto tinha que usar seu tempo livre de festas, bebidas, garotas, e afins para dedicar-se a construir uma vida sozinho, tudo sozinho, e para isso, ele precisava usar de toda sua capacidade para dar o fora daquela fase horrível que a adolescência tem sido para ele – novamente, preferia fazê-lo sozinho.

estranhou instantaneamente a presença da menina assim que essa sentou ao seu lado no banco mal visto da escola. Colocou os fones de ouvido e decidiu ignorar qualquer tipo de presença num raio de 300m.
Até teria dado certo.
Se a garota não começasse a falar e calasse a boca, talvez percebesse que a interlocutora tinha fones nos ouvidos e não tinha vontade alguma de tirá-los para começar a conversar com uma total desconhecida. revirou os olhos, tirava-lhe do sério quando tentavam falar com ela enquanto ela preferia suas 950 músicas. E de rabo de olho viu a menina deixar os lábios em uma linha fina enquanto encostava-se ao banco.
sentiu-se culpada por ignorar a menina, novata e visivelmente perdida. Culpada também por estar ignorando e sendo completamente rude com a única pessoa que tentara falar com ela naquele tempo todo.
- Me desculpe, eu estava com o fone. O que você disse?
- Ah, oi! – disse a loira, assustada por não ter sido inteiramente ignorada – Eu estou perdida.
- Sênior? – perguntou e viu a garota assentir, assim pegou o papel das mãos dela e analisou – vou pra história também, te mostro onde é.
- Certo, obrigada...?
- .
- Certo, sou . .
sorriu tímida, não sabendo o que fazer ou falar. Digamos que a morena não era especialista no quesito amizade, muito menos em fazê-las.
- Então, por que tem tanta gente olhando para cá? - perguntou com um olhar divertido.
- Vamos supor que eu não sou uma das pessoas mais queridas do colégio... Você é nova aqui e tá falando comigo.
- As pessoas não deveriam levar “Mean Girls” tão a sério, sabe, foi só um filme – riu e a outra continuou – Um ótimo filme, claro, mas não era sério.
- Parece que é mandamento nas líderes de torcida. Seja fútil senão “burn book”.
- Jura? Saí da Califórnia americana e vim pra britânica. Só muda o sotaque.
- Vai ver com o passar do tempo, novata.
Um tempo razoável se passou, no qual elas ficaram conversando, nos mostrando que não era tão antipática quanto parecia ou quanto falavam. prestou atenção nos olhos vermelhos da garota, que ameaçavam lacrimejar a qualquer hora, não fez nenhum comentário, já imaginando o que era. Seu interior dava uma risadinha, dando graças por seu primeiro contato com o colegial britânico não fora alguém totalmente aleatório.

Como todo primeiro dia de aula, alvoroços em todo colégio, amigos se reencontrando, novatos chegando, pessoas fazendo amizades, olhares furtivos de ambos os gêneros para uma pessoa que despertava sua atenção, muitos deles correspondidos.
Contudo, não seria um ano igual a todos.
Os poderes do destino uniriam certo grupo de jovens: uns com perguntas, outros com respostas; uns com curiosidades e outros com oportunidades. Aparentemente, com nada em comum, eles iriam ensinar e aprender uns com os outros. Isso tudo, no último ano do colegial.
Aquele clichê que todos já ouvimos falar, as provas, os exames, a pressão, os perigos, as tragédias, todos os problemas com um alto de nível de “foder com a tua vida” jogados como bomba em todos, mas em especial nesse grupo.
Adolescência é aquele ultimo gosto que realmente somos jovens prestes a virarmos adultos que precisam arcar com dez vezes mais responsabilidade, e que precisamos agir como se isso fosse a realidade porque brevemente será. Então aproveitem a estadia junto desses oito jovens nessa trágica e mágica fase.

Capítulo 2: .

Na manhã que trouxe consigo a segunda semana de escola, uma americana relativamente baixinha acordou de mau humor: as olheiras do sono tardio combinadas com as de fundo alérgico rodeavam os olhos da loira. Jared acordou especialmente para tirá-la da cama – o que ele fez com exímio abrindo as cortinas dando entrada a claridade que o dia trazia, e já que o sol não brilhava para Bristol, ainda puxava as cobertas – o que ela odiava, e a fazia querer explodir. Em suma, odiava manhãs.
Colocou o iogurte em sua caneca preferida e passou a nutella no pão. Seu irmão, Jared, voltou para cama com Mia, essa que só trabalharia no turno da tarde hoje, então nenhum dos dois acordaria tão cedo. Vestida no uniforme que não se conformava em usar, pegou a bolsa e o iPod saindo do apartamento, que foi trancado por fora e a chave com o chaveiro da bandeira dos Estados Unidos foi jogado dentro da bolsa gigante dela.
Durante o caminho da escola, foi escutando música com a esperança de ela fazer seu humor perturbado se dissipar aos poucos, e ficou bem satisfeita com os resultados. Ao chegar, adiantada alguns minutos da primeira aula, parou em frente ao mural da escola para esperar . Um alfinete se enroscou os cabelos ondulados de que a fez virar e prestar atenção no anuncio do jornal da escola, que admitia escritores e editores.
Enquanto sorria sozinha, tramando qualquer coisa, chegou em passos silenciosos para poder sussurrar um “bu!” que fez pular, o que rendeu algumas risadas para , impressionada com a facilidade que a nova e possível amiga levava sustos.
- Jornal da escola? – leu no mural o que prendia a atenção da mais nova amiga – Não vai querer escolher como atividade extracurricular.
- Eu peço um bom motivo.
- Ah, você sabe. O jornal da escola é o lar dos revolucionários, os que vão fazer diferença. Daí você entra lá cheia de esperanças de mudar as diferenças sociais, o almoço feito sem o mínimo de esmero e pressionar a direção pra que não haja problemas com a estrutura e acaba escrevendo artigos sobre o nosso time de futebol ou a olímpiada de matemática que acabam estampando desperdício de árvore que ninguém lê.
- Porra, você tem bastante o que dizer mesmo.
- Eu observo bastante. – sorriu para a loura, um dos poucos sorrisos que Bristol já vira dando. Abriu a boca para falar ao mesmo tempo em que apontou uma ruiva de moletom rosa – Aquela é a Casey, a gente sempre estudou junta e tal, ela é “diretora chefe” – interagiu, fazendo o movimento das aspas com dois dedos – do jornal. Entrou lá falando que o banheiro feminino não podia ficar naquela fedentina e hoje ela tá ajudando na impressão, revisão, sei lá que merda ela faz.
- Relaxa, juro que não tô a fim de mudar o mundo hoje. No meu colégio nos Estados Unidos a gente não tinha isso de jornal. É um bom extra pro meu currículo.
- Eu te avisei, loirinha.
As duas passaram pelo portal de madeira papeando, até que a morena teve seu ombro chocado, quase displicentemente, com um ser alto de cabelos claros. Os olhos verdes de ficaram quase felinos, olhando para com certo desprezo, este que sorriu e parou de frente para a menina.
- Foi mal, .
- Tanto faz, tá tudo bem – proferiu baixo antes de apressar o passo para a direção contrária que o goleiro do time da escola se propusera a ir.
- Ele parecia que queria conversar com você, por que saiu tão depressa?
- e os amigos dele representam tudo que eu desprezei o meu ensino médio inteiro. – explicou, escorando-se na parede ao lado das condecorações do colégio.
- Nós até que somos legais vendo de dentro, , devia tentar qualquer dia – um tom de voz grave e beirando o sarcasmo decidiu intrometer-se na conversa. olhou para o garoto até então sem nome, mas com olhos azuis que se equiparavam a piscina da escola de uso quase covarde. Por um segundo, o sorriso de canto, convencido e provocante, exibia a mesma covardia.
No entanto, só fazia rolar os olhos, estes que não dirigiram seus orbes para o menino por um instante.
- Mas é muita modéstia, .
continuava quieta, encarando-os e só trocando a direção de um para o outro. Sentiu um vibrar vindo de dentro da bolsa e pediu licença, se dirigindo a uma parte calma do colégio; o que não era difícil, devido à hora que transformava todos seus estudantes em potenciais zumbis.
- Mãe? Que horas são aí?
- Bem tarde, querida. Só liguei para saber como você está. Já que seu irmão não atende o bendito telefone, tenho que vir te perguntar se está se adaptando direitinho, se alimentando direito. A comida daí é muito diferente daqui? As pessoas são frias mesmo, benzinho?
- Mãe...
- Você sabe que foi uma péssima ideia ir pra Inglaterra quando você tem tudo aqui, não é, ? Deus, eu estou tão preocupada com você!
Lucy era a personificação da palavra “tagarela”. A mulher falava tanto que se a mais nova tirasse o telefone do ouvido por alguns segundos, arriscando até minutos, a mãe não teria parado de falar. Mostrava-se firme contra a ideia de ter os dois filhos morando do outro lado do mundo quando podiam estar perto dela. Embora admirasse intensamente a noiva do filho e a ambição da filha, a segurança de ter seus pequenos perto dela era o gás que ela precisava para lidar com o estresse do dia a dia.
- , ainda dá tempo de voltar para casa.
- Mãe, juro que está tudo bem aqui. Você sabe que Mia cuida da alimentação minha e do Jared, as pessoas são totalmente normais e aqui só é frio!
- É muita responsabilidade você estar aí sem seus pais, querida! Nem dezoito anos tem, e mesmo se tivesse eu não deixaria de cuidar do meu bebezinho. Paul, estou falando com , venha dar oi!
A loura tinha certeza que Lucy sacodia e cutucava seu pai para falar com ela, então só suspirou e interrompeu o falatório da mãe.
- Eu tenho aula em cinco minutos, preciso ir.
- Não precisa de tanta grosseria! – mesmo quando a mais nova juraria não ter sido grossa – Eu só queria dar um oi, ver como você está! Nem isso eu posso? Não devia ter deixado você perturbar o juízo do seu irmão do outro lado do mundo, !
Volátil, a mais velha deslizou o dedo no botão vermelho, deixando sua filha sozinha com o som da ligação encerrada. Um fator determinante na sua mudança para Europa fora a necessidade do espaço longe de seus pais, mesmo que os amasse indubitavelmente, eles a sufocavam com tanta preocupação, restrição e tamanho cuidado. Sua personalidade constantemente ia de encontro com a da mãe, motivo de tantas brigas no seu lar, a casa ficava calma por dias e as duas com caras fechadas quando estavam no mesmo cômodo.
- Oi, pai. O que houve com mamãe? – perguntou quando recebeu uma ligação de seu pai, pouco tempo depois do rude encerramento de sua mãe.
- Não sei o que falou, querida, mas sei que não precisava. Sabe como sua mãe é e não faz o favor de poupá-la dos ataques. Ela está chorando no banheiro agora, repetindo que você não a ama, que vai pegar o próximo voo para Bristol e te trazer arrastada pelos cabelos... Aquelas coisas de sempre.
- Pai, eu juro que não falei nada demais. Sério. Só que precisava ir pra aula e não podia conversar.
- Você sempre diz isso, meu bem, mas sua mãe sempre parece ofendida com o que você diz. Se desculpe, logo. E vá para aula porque você não foi pra outro continente para ficar fazendo ligação internacional.
Tendo respondido a despedida de Paul , suspirou e voltou a apoiar os dedos nas têmporas. a avistou e veio andando até ela como se tocasse uma marcha fúnebre ao fundo, seu semblante denotava que não estava satisfeita de ter que ficar com o tal e ser obrigada a ter de trocar algumas palavras com o moreno.
- O que ele queria? Vocês são amigos? – questionou a novata, ganhando um arregalar de olhos gratuitos de .
- Eu e o ? Claro que não. Ele só queria saber onde tava um amigo antigo, provavelmente pra espalhar alguma fofoca.
- Bonito.
- Não, definitivamente, não! Ele é artilheiro e capitão do time de futebol, . Se você quer uma palavra que defina, essa é: não.
- Ok, calma. Só disse que ele é bonito, não é como se eu estivesse apaixonada por um cara que eu não sei nem o nome – riu, se levantando assim que o sinal tocou e seguindo para o local da primeira aula.
- E você, com quem tava falando? Boy dos Estados Unidos?
- Quisera eu, querida. Eram só meus pais mesmo dando uma crise de saudade do melhor modo de ser.

- Tá nervosa? – a tal Casey perguntou, tirando os cabelos vermelhos de cima no ombro e deixando-os cair em peso sobre suas costas.
- Não, só meio irritada com uns probleminhas pessoais. Já passa.
- Sério, quer conversar?
arqueou a sobrancelha e estranhou a intimidade que a menina qual tinha trocado exatas quinze palavras desde que chegou ali, e logo seu cérebro acionou o faro jornalista, sentindo o cheiro do mesmo faro: a garota a sua frente estava analisando ela do mesmo modo que ela a analisava: minuciosa e superficialmente.
- Não, mas obrigada.
- Que isso, se precisar pode contar comigo. Você é nova aqui então deve estar se adaptando, então se quiser alguma ajuda, é só falar.
A ruiva se levantou, alertando que ia pegar uma ficha porque não colocavam qualquer pessoa dentro de um jornal respeitado pelos alunos. só conseguiu desconfiar cada vez mais da menina, suspeita até o ultimo fio pintado de vermelho. havia contado que a menina gostava de se intitular “editora chefe”, por se sentir no pleno direito de mandar e desmandar em cada membro daquele pertencente, embora ela soubesse que só quem poderia fazê-lo era o professor de inglês e responsável. Casey voltou com um questionário cheio de perguntas desnecessárias e observou a loura enquanto respondia, sempre com um sorriso tão largo que arrepiava a nuca de . Casey era bem estranha, estranha demais que fez a americana até imaginar ela a seguindo para fora da salinha que o jornal se reunia e correndo atrás dela. E só essa visão a fez apressar os passos sem sequer olhar para trás.

- Papai me ligou – Jared falou para a irmã assim que ela chegou a casa – nossa mãe ficou chorando por meia hora, mais ou menos, dentro do banheiro.
- Você sabe que eu não falo nada demais, ela que entende tudo errado e o papai acha mais fácil brigar comigo do que conversar com ela como duas pessoas casadas e normais.
- E ela não deixou você explicar, não é? Do jeito que fala.
- Não tive sequer chances, tinha aula em pouco tempo e ainda estava sem material. Sem falar que a ligação daqui pra lá é cara pra caralho e depois ela me liga cobrando.
- Eu também sou filho dela, . Liga pra ela mais tarde, finge que tá escutando e que concorda com tudo, só pra ela ficar feliz.
A mais nova não concordava com a conduta que foi aconselhada a seguir desde nova, achava que dava o direito da mãe dar ataques por nada sem pensar nas consequências ou como os filhos se sentiriam com os atos dela. Paul só abraçava a esposa pelos ombros enquanto Jared dizia para não dar atenção ao que ela dizia.
- Eu vou voltar para o laboratório, ok?
- Como tá a clonagem de ovelhas? – perguntou, gracejando para o irmão que estudava biomedicina.
- Eu já sei a piadinha que você vai fazer, e pode deixar que eu clono o cara daquela banda depois de clonar a ovelha com nome mais legal que a Dolly.
- Bom saber que você me conhece tão bem.
Não era muito constante, mas agradecia por seus pais terem feito Jared antes de tê-la. Era perceptível que a relação com Lucy e Paul sempre teve mais quebra-molas que vias expressas, mas seu irmão era a balança perfeita pra todo aquele caos que era o choque entre ela e sua mãe, os escândalos pelas vírgulas que ao ver dela pareciam pontos finais, e seu pai, unilateral. E pensando nisso, se jogou no sofá perolado de Mia, calculando a hora que a cunhada chegaria a casa e vendo que podia tirar um cochilo sem levar um puxão de orelha ou uma voadora por estar dormindo no sofá amado da noiva do irmão.
Quase cochilou, se o celular não tivesse vibrado tão insistentemente que a forçou a abrir os olhos e encarar a terrível realidade que era não poder dormir a hora que quisesse. E como o humor da pequena já não era dos melhores, o dedo deslizou com raiva no visor e atendeu a chamada no Facetime sem vontade e sem prestar atenção em quem a chamava quando podia estar todos dormindo.
- Que é, porra? – cuspiu as palavras, com a câmera virada para os pés na mesinha de centro e vendo o rosto sempre feliz de David a encarar.
- Que receptiva, ! Califórnia sente tanto sua falta como você sente de nós.
- Ah, vai se foder, Dave! Eu poderia estar dormindo, mas aceitei sua chamada pra me encher o saco.
- Você engole esses palavrões todos antes de falar comigo, ouviu ? Eu gosto de respeito e boca lavada com sabão.
Dave arrancou uma risada da amiga e riu também, achando graça do próprio comentário. Conhecia há cinco anos e não só se acostumou com o hábito já tão comum da amiga soltar palavrões, como decidiu implicar com ela por isso, sabendo a cara que o pai da garota fazia quando ouvia tantas palavras como aquelas em tão pouco diálogo.
- Fala bicha, me conta as novidades já que não vai me deixar dormir.
- Não vou mesmo. Você sabe que faz muita falta, não é? Preciso destilar veneno com alguém e ninguém me entende tão bem como você.
- Aw, querido, também sinto sua falta. Você precisa desembolsar sua ida para Bristol imediatamente.
- Ainda que fosse só a ida, né bicha? Ainda tenho que comprar uns sessenta casacos pra aguentar esse frio do caralho aí.
riu alto e sentiu o coração apertar pela falta que sentia do melhor amigo. Enquanto ele contava tudo que era novidade, ela se perdia na saudade que sentia de passar os dias na areia da Califórnia acompanhando o único motivo que a fez hesitar em deixar o Estados Unidos e rumar para a Inglaterra. contava sobre sua primeira semana como estudante inglesa e Dave ria junto, imaginando a amiga esbarrando em milhares de ingleses mau humorados, desastrada como só ela era. Ela sabia que podia procurar na Europa inteira não acharia ninguém melhor que o melhor amigo, sempre acobertando-a quando saía escondida pra ir em algum show num buraco tão apertado que era contra as leis da física ter tanta gente assim, e sendo cumplice criminal nas loucuras que ela se submetia.
Só existia um David, e como era difícil não estar no mesmo metro quadrado que ele.

- Você está quase babando no meu sofá, .
Mia Stinson apareceu na sala com seus cabelos escuros esvoaçantes e cara de quem mataria alguém se seu sofá estivesse danificado. apenas pôs as mãos sobre o peito, levando um tremendo susto por não ter nem ouvido a cunhada adentrar no apartamento. Mia era o mais perto da perfeição que a pequena já tinha visto, tratada como filha e melhor amiga pela mais velha, agradecendo sempre a escolha certeira do irmão pela noiva com um instinto materno aguçado.
- Que puta susto, Mia!
- Meu. Sofá.
- Eu não babei nele.
- Eu vou investigar.
A morena fingiu inspecionar onde estava deitada, olhando muito de perto, fazendo a mais nova rir.
conseguiu cochilar, mas em seu quarto, depois de preencher e esvaziar a cabeça com pensamentos de como sua vida seria daquele momento para frente. Era uma grande chance para um novo começo, cheio de turbulências, como costumava ser, mas ainda sim, algo novo, pegando tudo que odiava e deixando nos Estados Unidos visando ter uma convivência mais pacífica com ela mesma e as pessoas que a cercavam. Caiu no sono com a mesma roupa que usou no colégio, desafiando Bristol a mostrar o que tinha de melhor naquele ano.

Capítulo 3

’s POV


Totterdown era uma dos bairros de Bristol que seus amigos não costumavam frequentar: primeiramente porque era ao lado de Bath, de onde eles estavam temporariamente banidos por conta de uma das brigas de bar que eles faziam o favor de arranjar depois de vários copos de cerveja escura e shots de qualquer coisa. No entanto, acompanhou os colegas para outro bar que ainda não tinham jogado bancos para o ar e quebrado garrafas de vidro na cabeça de alguém. Já tinham tomado copos e copos da cerveja que é tipicamente inglesa e se aventuraram no uísque, todos rindo demais e falando bem alto. Os sete já estavam em estado de embriaguez completa, vendo tudo turvo e escuro, olhar para a cara um do outro tinha uma graça que arrancava gargalhadas.
Se perguntassem a , naquele momento, quando ele conheceu aqueles meninos, ele não saberia dizer e mandaria o questionador para lugares nada educados depois de se dispor a pensar um pouco. Mas sóbrio, ele até sorriria e contaria da vez que foi quase morto por deitar num gramado qualquer depois de uma festa da escola e foi amparado por três daqueles briguentos que eram até simpáticos antes do álcool subir quente pelas veias deles, procurando diversão em forma de dentes quebrados e narizes sangrando.
- Parece que não vamos nos ausentar do nosso esporte – um dos meninos disse devagar, quase não saindo, vendo o escolhido da vez para buscar bebidas se estranhar com um menino do outro lado do bar.
- Pensei que por pelo menos essa noite vocês iam tentar não sair na mão com alguém – lembrou , já recordado os horrores que as brigas sem sentido deles o fizeram passar.
- Temos uma honra a defender, . – respondeu, estufando o peito e recebendo apoio dos outros cinco.
Eram pessoas boas pra se estar junto, do tipo que rendiam várias risadas, gastavam dinheiro com bebidas e farras sem ligar para muita coisa e pagavam tudo para todo mundo enquanto alterados. Mas como nem tudo são flores, o etanol tomava conta do sangue, a maconha dos sentidos e a cocaína da mente e eles acabavam brigando com quem os ousasse olhar torto e daí surgia os bancos jogados pelo ar e as garrafas jogadas sobre as cabeças de alguém; ainda havia as meninas que só queriam aproveitar a noite de sexta-feira ou sábado e acabava tentando mirabolar desesperadamente um jeito de fugir dos braços fortes que as prendiam e as bocas que imploravam por beijos a força. estava ali pelo resto, já que as brigas e agarrar meninas a força não era algo que ele gostaria de por na lista de hobbies.
- E pelo jeito está na hora de defendê-la – avisou outro menino com a voz embargada, antes de se levantar e ir para fora do bar encontrar com o amigo que já se preparava para brigar com um grupo de seis.
- Olha o tamanho dos caras, vamos resolver tudo na diplomacia dessa vez – pediu mais uma vez, ouvindo o riso geral dos amigos enquanto cruzava o estabelecimento.
- Diplomacia é o caralho, .
Ele não precisou ouvir um sino dentro da sua mente para saber que a briga tinha começado. Todos se atacavam com fúria, como se fossem governantes de povos inimigos da Idade Média, dois reinos procurando pelo trono. Na sua visão alterada por fatores externos, tudo parecia uma odisseia que tinha direito a música de fundo. Um homem careca veio na sua direção, aproveitando a feição que ele tinha de quem não sabia o que fazer. Soco ia, soco vinha; conseguiu desferir um chute de raspão no garoto, mas ele tinha a vantagem de não estar tão chapado como estava, e isso fez a sua mão forte acertar o estômago de depois de jogá-lo no chão e chutá-lo sem misericórdia. sentiu o sangue ser cuspido sem autorização e decidiu simplesmente ficar deitado ali, fingindo estar morto para que ninguém mais se achasse no direito de realmente fazê-lo.
Quando o careca olhou para o lado, decidindo bater em outro colega de , esse pegou os poucos colhões que tinha e saiu correndo para longe de qualquer briga que não tivesse pedido ou merecido. Ousou olhar para trás e viu garrafas se quebrando na cabeça de alguém, era de praxe, e isso só o fez correr mais rápido sem direção alguma, só parando perto de uma praça mal iluminada.
- Merda, merda, merda... – repetia, entre as respirações entrecortadas e o peito subindo e descendo implorando por mais oxigênio.
- Se meteu numa briga, rapaz? – uma voz o pegou de surpresa, fazendo pular do banco e perder o ar que começava a recuperar. Um morador de rua com uma barba enorme olhava pra ele com preocupação, os olhos brilhando na noite serena e um carrinho de coisas que ele colecionava. – Não vim te roubar não, você só tá sentado na minha cama. – e apontou para o banco de madeira, rindo baixo da expressão do garoto.
- E-eu... Me desculpe senhor – levantou num pulo, ainda com as mãos tremulas de medo.
- Tá tudo bem, jovem. O que houve? Tá fugindo da polícia?
- Você quer ouvir mesmo? – perguntou esperando uma real validação do mendigo, e no momento que este sentou ao seu lado com seu cobertor de lã empoeirado, puxou a respiração que daria início ao monólogo bêbado e com a participação especial da maconha e cocaína.
E ele disparou contando sobre a briga que tinha acabado de se meter, das brigas que já tinha apanhado só por estar na companhia daqueles sete, das meninas que um deles chamava quando os pais viajavam e deixavam o apartamento só pra eles. contou o quanto gostava de se divertir, da leveza que ele sentia quando estava só fumando, bebendo e conversando com aqueles rapazes, contudo, não aguentava mais socos, chutes e sangue derramado por nada. O mendigo jurou que viu uma lágrima ameaçando se jogar da linha d’água do garoto quando ele citou uma vez que tinha cheirado tanto que só lembra-se de acordar na esquina do quarteirão do bar com a camisa branca toda ensanguentada.
- E, porra, eu tenho um melhor amigo na escola, o nome dele é . Ele sempre me diz pra ficar longe desses caras, que um dia eu vou chegar ao colégio sem nariz e essas coisas. Meus pais ficam preocupados, perguntam o que houve, mas assim que eu falo que não foi nada e pra eles me deixarem em paz, eles não insistem. Meus pais foram criados na era hippie, sabe? Eles tentaram fazer eu e minha irmã seguirmos esse caminho louco, comida vegana, Stevie Nicks, chás de plantas e flores no cabelo, sabe? Não deu muito certo, daí eles pararam com essa ideia de viver num acampamento, venderam o trailer velho deles e abriram uma fábrica de comida orgânica com a herança do meu avô que odiava essa porra. Hoje a gente mora num apartamento. Eu e meus pais, porque minha irmã morreu há um tempo. Ela tinha leucemia e meus pais queriam que a natureza cuidasse dela. Procuraram uns tratamentos loucos pra caralho e quando o câncer já tava grande pra porra, decidiram tratar ela como pessoas que vivem nesse século. Às vezes eu chamo minha mãe de Janis Joplin e ela fica puta.
A essa altura, o desconhecido estava assustado com o fôlego do garoto de cabelos claros sentado ao seu lado. contava sua vida toda numa lufada de ar, olhando para o céu, chão, o mendigo, os poucos carros que passavam ao redor da praça, o verniz do banco descascando debaixo de suas unhas. Os olhos não paravam, e se parassem, sentia que poderia adormecer sem aviso prévio. Quando parou, mexendo nos fios louros, secando o suor que descia por sua testa e delineava o pescoço, o estranho respirou por ele. O morador de rua se mostrava um excelente ouvinte, olhando para o adolescente com os olhos castanhos atenciosos e assentindo com a cabeça quando soltava validações retóricas.
- E, cara... Tem essa garota, olhos verdes bonitos pra caralho. O pessoal dá uma gastada nela porque ela anda com um menino mais drogado que eu, com cara de quem não toma banho há uns dias. Mas ela é bonita, tipo, muito bonita mesmo, só que ela não vai com a minha cara. Eu nunca tive muita oportunidade de falar com ela porque ela nunca vai às festas que eu vou ou fala com as pessoas que eu falo. Na verdade, ela não fala com quase ninguém, só a vejo falando com uma americana novata lá nos corredores. Eu escutei que é porque eu sou goleiro do time da escola e ela odeia “esse tipo”, besteira né? – ele riu baixo, mais uma vez o mendigo confirmando com a cabeça. – Parece meio louco eu ficar meio interessado por uma pessoa que eu nem falo ou que não vai com a minha cara, mas eu tenho esse sentimento que eu entenderia ela, se eu pudesse me aproximar, sabe?
O garoto parou, olhando para os tênis cheios de terra por sua superfície. E o estranho entendeu que era sua deixa pra falar o que achava daquele testamento, praticamente um livro.
- Garoto, a primeira coisa que você tem que fazer é ficar longe desses garotos, porque você só vai se foder e levar muita porrada por nada. A segunda é parar de cheirar e fumar desse jeito, principalmente cheirar; esse negócio é forte, eu sei bem até onde uma pessoa pode ser levada por aquilo. Terceiro, seus pais podem ser meio pancados com essa coisa de incenso, meditação e comida nojenta, mas ainda são seus pais e merecem o mínimo de respeito seu. Não fique culpando-os pela morte da sua irmã a sua vida inteira, ela provavelmente não ia querer isso.
- Você pode até estar certo sobre as duas primeiras coisas, mas você não conhece meus pais – ele parecia mais calmo depois das pernas balançando e a insistência em estalar dedos e pescoço já estalados.
- Nem preciso, você é uma criança ainda, respeita um pouco eles, garoto. Pergunta de Woodstock, sei lá. Abre um canal com eles que sua irmã ia querer ter. Eles tinham uma crença e se agarraram a isso num momento difícil. Duvido que eles iriam ficar brincando de damas em cima do corpo doente da sua irmã, eles também queriam uma cura.
- Ok, eu posso pensar em odiar menos meus pais. Eles me deixam plantar maconha no apartamento pra vender. São legais de vez em quando, bem liberais. Só sinto que, por isso, eles não estão nem aí pra mim; que a mãe natureza vai me ensinar a me virar. Com o dinheiro da maconha eu compro comida de verdade, porque eles não compram nada de origem animal ou qualquer merda dessas.
- Negocia algo com eles então – com um “ok” baixo do garoto, o morador continuou. – Quarto: a garota dos olhos verdes. Fala com ela. Puxa um assunto qualquer, arranja algo que não a deixe incomodada e aberta pra bater um papo contigo. Não é pra ser aquele cara chato e inconveniente que fala qualquer merda só pra falar com ela. Devagar, aos poucos, você vai ver se realmente entendia ela ou não.
E abraçou o estranho que falava muito bem e era incrivelmente atencioso aos detalhes, como sua linguagem corporal durante algumas frases e como ele coçava o cabelo em nervosismo citando Payton, sua falecida irmã. E o mendigo abraçou de volta, sentindo emanar um calor que ele não sentia há tempos.
não era uma má pessoa. Se não tivesse tão alto aquela noite, ele perguntaria o nome do mendigo e passaria horas escutando ele falar sobre como foi parar nas ruas e o resto da sua vida. Aquilo não passou pela cabeça dele, ele só agradeceu, deixou uma nota de cinquenta libras para o desconhecido e correu para pegar o próximo ônibus que passava no seu bairro, longe demais daquela parte da cidade. Animado para por os conselhos em pratica quando acordasse no outro dia, renovado e como outra pessoa.

Se ele se lembrasse de alguma coisa no dia seguinte, quem sabe ele teria alguma força de vontade para mudar uns aspectos turbulentos da sua vida. Mas ele só sentia a cabeça pulsar e mandar memórias não autorizadas de um nariz sangrando, uísque, cocaína, briga, e um papo louco com um mendigo. Não lembrava o que falou, o que ouviu, como foi parar naquela praça desconhecida, de onde veio a briga... Não se lembrava de nada.
- Puta merda! – exclamou, levantando o tronco do colchão e segurando sua cabeça, como se ela fosse despencar de seu pescoço e rolar pelo chão de tanto que doía.
Levou o corpo dolorido e fraco para a cozinha do apartamento que morava com os pais, procurou sem cuidado algum pelos remédios antirressaca e um pacote de chá que Jenna, sua mãe, o aconselhava a fazer quando passava a noite fora. Esperando a água esquentar, forrava o estomago com pães integrais desgostosos, não por serem integrais, mas qualquer coisa que era obrigada a entrar no corpo dele, recebia uma ameaça forte de ser repelida por vômitos e mais dores. O bule fez o barulho, anunciando que o chá já podia ser preparado, e deixou o pão sem graça de lado e se dedicou em fazer o chá, sem empenho algum, o que ocasionou a água quente de encontro ao seu pé e um grito de sonoridade generosa contendo alguns palavrões.
- , silêncio, por favor, estamos tentando meditar na sala – sua mãe pediu na porta da cozinha. Seus cabelos cor de areia e os fios brancos que ela recusava-se a pintar eram característicos de Jenna , sua cara de humanitária e seus óculos redondos.
- São dez horas de um domingo, Jenna. Por favor.
- Silêncio .
Se esticasse um pouco mais o pescoço veria Hans, seu pai, nas suas vestes coloridas de sempre e o cabelo exatamente igual aos seus. A cara de pacifista que passa seu tempo pensando na gravidade das guerras do oriente médio e políticas de imigração não combinava com ele. Ele estava sempre sério e calado, mesmo se tivesse adotado o modo de viver dos pais, não via como ter uma relação mais íntima com o descendente de imigrantes alemães durante a Primeira Guerra Mundial que parecia nunca querer esquecer essas raízes, como se fosse gás para alguma guerra interior que Hans parecia viver.
Nem sabe de onde os fundamentos hippies vieram, não sabia se seus avós moraram nos Estados Unidos durante os anos setenta ou no final dos sessenta. Não sabia onde seus pais nasceram, como voltaram para a Inglaterra, porque a família de seu pai não voltou para a Alemanha, por qual motivo foram colonizar em Bristol e não em um país desconhecido, do outro lado do mundo. Parara pra pensar em várias questões envolvendo sua família e ancestralidade, mas nunca abrira a boca para Hans e Jenna sanarem essas dúvidas. Não quando deixaram a vida de Payton escapar pelos dedos como areia fina; como se estivessem brincando de castelo e aquele punhado simplesmente tinha escapado das mãos infantis e despreocupadas.

- Eu já falei pra você parar de andar com esses merdas, mas quem vai me escutar, não é mesmo?! – reclamou pela milésima vez só naquela aula. revirou os olhos para o sermão do melhor amigo.
- Valeu – resmungou.
- É sério, , sério mesmo. Um dia vai que bate polícia e você vai junto com eles. Fica esperto.
- Eu sei, cara. Eu não vou mais sair com eles, eu prometo de dedinho se você quiser – brincou, fazendo rir e o professor de história chamar atenção dos dois. – É pro meu bem, tô ligado. Não vou ficar batendo em marmanjo só porque eles não conseguem se segurar em algum lugar sem tirar sangue de alguém.
- E porque eles são uns merdas. São chatos e bem irritantes. Você sabe que eu sou uma pessoa legal, gosto de todo mundo, sou só sorrisos pra todos, mas eles são chatos pra caralho. Não dá pra ficar meia hora sem querer bater na cara deles. Talvez seja por isso que arrumem tantas brigas.
- Você parece uma velhinha reclamona, – ele riu, recebendo outro olhar do professor – mas nada disso deixa de ser verdade.
- Chega de putas e de cheirar até ficar da cor do seu cabelo, ?
- Chega de putas e de cheirar até ficar da cor do meu cabelo, .
se virou para frente depois de dar um sorriso aliviado pro melhor amigo desde o início do ensino médio. Tinham se aproximado por causa do time de futebol que, atualmente, era capitão e era goleiro, e depois apoiaram um no outro para tudo. Desde quando eram moleques de quinze anos, descobrindo o que seriam os próximos três anos, confiaram um no outro pra que continuassem com os pés no chão, e claro, não irem pra cadeia. Hoje, eram inseparáveis.

sempre teve notas entre ótimas e regulares, mas gostava de usar o tempo que podia gastar conversando lá em baixo com o pessoal do time ou algumas garotas na biblioteca. Escondia-se atrás do computador da escola pra ficar observando uns cabelos negros em questão: sempre se apoiava na parede e sentava de lado na cadeira com o livro sobre as pernas. Quando o acompanhou na semana passada, riu baixo e sussurrou para que ela estava lendo seu próximo livro de feitiços e magia negra, ganhando em troca um olhar duro e uma expressão séria. nunca parecia perceber os olhos escuros sobre ela, de tão compenetrada no que estava lendo como estava.
Bom, ele tinha uma queda por fazia um tempo, só que não era uma queda de ensino fundamental, que o menino vê uma menina e a acha a mais bonita da escola. Tinha algo em que o fazia tentar forçar uma aproximação toda vez que a via sozinha com o olhar perdido em qualquer lugar. Via nela uma solidão que ele se sentia no dever de acabar, via nela uma tristeza que ele entendia. E era naqueles olhos verdes foscos que ele caiu, porque eram exatamente iguais aos deles: sem brilho, com uma visão onde o sol não bate no futuro, cheio de pequenas explosões que se findavam em duvidas; e naquela análise minuciosa e de longe, ele via o que era exatamente a menina. E quando acabava aquela linha de pensamento, tinha a vontade de bater a cabeça na parede mais próxima até desmaiar pelos pensamentos tão íntimos por alguém que não sequer conhecia. Parecia paranoia, parecia loucura.
Então se desculpava mentalmente com , fechava as abas que abrira procurando testes de 16 personalidades a fim de ter algo que lhe desse uma pista de quem ele era e do que fazer daqui pra frente e saía da biblioteca silenciosamente. buscava sempre algo que o definisse, pois ele mesmo não o conseguia, nisso se envolvia com mapas astrais, cartomantes, tarô, testes de personalidade e afins. Saía do mesmo jeito que tinha entrado naquela loucura: com menos conhecimento sobre ele mesmo do que já acumulava.

Jenna e Hans não tiravam os olhos do prato do filho. A mulher pousou o garfo no seu prato, parando de mexer na salada e mais coisas orgânicas que cozinhara para a noite. Seu marido franziu as sobrancelhas, não parando de comer, mas atento à expressão de Jenna, que parecia tentar engolir algumas palavras, mas elas voltavam para a ponta da língua o tempo todo. , por sua vez, comia o hambúrguer bem satisfeito, abria o frasco de ketchup e o derramava sem dó pelo pedaço de carne processada. Sua mãe não aguentou mais tentar por as tais palavras para dentro da garganta de novo e as vomitou:
- Você está comendo carne na nossa mesa? – perguntou no tom mais calmo que podia alcançar àquela altura.
- É – disse ele com explícito deboche, lhe sorrindo sarcástico.
- , você sabe que eu e seu pai não aprovamos isso. É tão difícil tentar seguir nossas regras enquanto vive conosco?
- É – respondeu o mais novo, sem mudar sua expressão ou a entonação.
Jenna não disse mais nada novo, só levantou e levou seu prato para a pia, descansando lá por alguns momentos.
- Você falta com respeito conosco o tempo todo, . Pensei não termos te criado para isso. Coma sua carne, faça o que quiser, mas não na nossa cara. Eu sei que você tem muitas mágoas guardadas; de qualquer jeito, não há motivo pra tantos anos de maus tratos comigo e com a sua mãe. Vamos contra todos nossos princípios de criação que tentamos passar pra você e sua irmã, mas vamos te disciplinar.
Seu pai deu aquele discurso na calmaria de água de pesca e levantou-se com a mesma atitude. Já seu filho era exatamente o oposto, suas narinas inflaram e seu rosto estava bem vermelho, indignado com tudo que escutara dos pais. não era um rebelde que fazia tudo para provocar os pais, apenas a convivência com eles era difícil, então sua diversão era provocá-los. Não fazia por mal, era quase um reflexo, uma atitude já mecânica e programada no sistema.
Olhando de primeira, Jenna e Hans eram os pais perfeitos: eram liberais, deixavam o filho fazer o que bem quisesse e não interferiam nas escolhas dele, tinham uma alimentação saudável e um negócio próprio, eram pessoas harmônicas, do tipo que davam bom dia para todo mundo e não negava um sorriso para o sol ou a lua. Mas ser filho deles era diferente: teve muito espaço pra aprender a fazer escolhas, que por sua vez, eram impulsivas e impensadas, porque não obtinha o aconselhamento ideal; nunca teve pais que se ofereciam para buscá-lo em eventos, sequer levar. Não sabe nem porque seu pai tinha um carro velho parado na garagem, então aprendeu fácil como andar por Bristol nos seus próprios pés e garganta, o que rendeu algumas lições sobre onde carregar a carteira e o celular. Em suma, passou uma adolescência pensando que se seus pais não ligaram quando Payton estava doente, por que raios ligariam para ele?
E alimentando sua raiva e repulsa de ser criado por quase-hippies, mordeu o resto do sanduiche numa mordida, antes de se dirigir para o quarto.
Ele não tinha ideia de quem era ou do que faria daquele momento para frente, só sabia o que era obvio: tentou ser criado de um jeito hippie, falhou miseravelmente na sua formação, gostava de provocar as pessoas ao extremo e, bem, tinha dificuldade de se impor de uma maneira definitiva.
E não fazia ideia de como lidar com aquilo.

Continua...

Nota da Autora: (17/07/2017) Se realmente tiver alguém aí lendo: obrigada por estarem lendo e espero que continuem acompanhando! Eu sei que a interação ainda é mínima, mas tudo vai mudar bem em breve. Tenho um carinho extremo com essa história e espero que vocês também tenham.

Twitter | Grupinho no Facebook



Nota da beta: Se você encontrar algum erro me avise no email ou no ask. Você também pode saber quando essa fic atualiza aqui.