Virtual Paradise

Autora: Gaby R. | Beta: Janina

Capítulos:
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Prólogo

O inverno chegou mais rápido do que eu esperava, meus pés congelavam a cada passo e sentia que ia desabar toda vez que enchia meus pulmões de ar. Continuei andando na esperança de me esquentar o mais rápido possível, mas a cada investida contra o vento era uma batalha perdida. Meu corpo não estava me aguentando, mas eu tinha que continuar.
O que outrora parecia uma rua vazia, com somente uma garota de cabelos castanhos sendo chicoteados pelo vento, agora já voltava a sua imagem original, pessoas foram surgindo com o passar do tempo. Por mais lento que ele seja, sempre chegaria. Homens e mulheres, provavelmente de quantidade igual, saíam de suas casas, pelo jeito tão massacrados pelo frio quanto eu. Me encolhi novamente no casaco. Observava-os, um por um, uma mulher que julguei ter trinta anos ou mais, com o corpo tão magro quanto o meu, saía de casa somente com uma blusa de malha fina cobrindo os finos braços, ela tremia, seus lábios estavam roxos e os olhos cheios de lágrimas.
Um homem careca, expressão de raiva, punhos fechados e músculos enrijecidos. Em sua mão consegui ver marcas vermelhas, provável que tenha socado algo... ou alguém. Continuei andando. A rua estava cheia de tal forma que eu não era capaz de observar as pessoas uma por uma sem me perder. Pelo menos o lado esquerdo da rua estava assim. O lado direito, por outro lado, se encontrava sem uma alma sequer. Durante um segundo me deixei levar pelo sentimento de um dia caminhar por aquela rua, viver naquela cidade, ser uma alta. Um sorriso tolo se abriu em minha boca, e dei conta de fazê-lo desaparecer. Dentro de mim, sempre haverá o desejo de ser uma alta, mas é a realização desse desejo que me impede de sorrir. Nesse momento, todos estão dormindo, sonhando com suas vidas perfeitas e com o seu dinheiro inesgotável, sonhando com a família maravilhosa que têm e os filhos que herdarão sua fortuna. Sonhando em nos humilhar, sonhando em ser melhor que médios e baixos. Sonhando em ser melhor que eu.
O sorriso bobo que uma vez brotou em meu rosto, não voltaria por um bom tempo.
Agradeci mentalmente, a biblioteca era na próxima esquina, só mais alguns passos para sentir o calor entrar em mim novamente. Como qualquer média eu tinha um emprego, mais cedo do que qualquer alto jamais colocaria seus filhos para trabalhar. Ainda lembro de meu primeiro emprego, aos quatorze anos, dois anos atrás, quando atingi a faixa etária necessária. Meu pai fez questão de me colocar em algum lugar para fazer alguma coisa que não fosse nada e conhecer o mundo, como ele dizia “essa geração alta vai chegar aos dezoito e só saber mudar o canal de televisão, como vão sequer trabalhar?”. Me fazia rir, porque era verdade. A maioria dos jovens altos não saberiam como subir em uma árvore, pular um portão, nem ao menos limpar uma casa. Coisas que eu aprendi aos sete.
Finalmente eu estava de cara com a porta da biblioteca, analisei a maçaneta coberta de gelo e rezei para que eu conseguisse abrir. Tive que fazer mais força do que o normal, o que foi doloroso graças ao contato do gelo com minha pele, mas felizmente a porta cedeu e abriu. Fui abraçada pelo calor, um calor abafado, mas incomparavelmente melhor do que o frio do lado de fora. Mary estava dentro da biblioteca arrumando algumas pilhas de livros, com os cabelos azuis caindo sobre um de seus olhos. Ela me viu e sorriu.
- Até que enfim, ! Pensei que você tinha morrido com esse frio. – ela disse, colocando o último livro que tinha em mãos na prateleira.
- Você não foi a única. – falei, indo ao balcão do caixa e deixando meu casaco por lá. – Esse frio pegou a gente de jeito, não ficarei surpresa se os baixos e médios morrerem todos. Inclusive eu.
Ela riu de um jeito desesperado, era trágico, mas real, se não fizessem algo desesperadamente rápido, populações seriam aniquiladas. Não estávamos preparados para o frio, e dificilmente estaremos.
- Depois da guerra Londres nunca foi a mesma, o mundo nunca foi o mesmo. Meus avós diziam que era praticamente impossível termos temperaturas negativas tão altas.
- A gente que se fode nessa. – dei de ombros, e me sentei na cadeira que havia no balcão do caixa, observando Mary. Suas cores, seus jeitos, ela era diferente, e seu cabelo era um jeito de mostrar isso. Criada pelos avós, que eram muito tradicionais, veio morar com amigos em uma casa que fica em cima da biblioteca depois que eles descobriram do relacionamento dela com a garota vizinha. Ela não fala sobre isso, e eu sinceramente não gostaria de saber detalhadamente o que aconteceu, simplesmente a acolho em meus braços sempre que seus sentimentos são muito pesados para seu corpo.
Notei um silêncio desconfortável na loja, então liguei a televisão que havia ali. Era praticamente um luxo ter uma desses, especialmente para os baixos, mas a biblioteca nos rendia um dinheiro bom, vivíamos bem. Por incrível que pareça, mesmo após guerras e devastações, as pessoas mantinham seu interesse em ler.
Ao apertar o botão de “ligar”, imediatamente surgiu a imagem de um homem, na faixa de uns quarenta anos, cabelos grisalhos, sem indicio de pelos no rosto e utilizando um paletó que brilhava mesmo com a péssima qualidade da transmissão. Ao fundo havia o mapa de Londres, com efeitos tridimensionais e bem mais aprimorado do que os que tínhamos nas escolas. Ele falava calmamente, sem errar uma palavra, dizia algo sobre as guerras acontecendo na América, as bombas que mataram populações e, acima de tudo, a escassez de água. Enfim a atual notícia teve um fim e a outra começou logo em seguida.
- E hoje finalmente se iniciam as vendas do teletransportador mental, inventado pelos melhores cientistas ingleses. Tem o propósito de levar todos os que adquirirem o produto a um novo mundo, onde as experiências são tão boas como as que vivemos, o envelhecimento não acontece e todos podem desfrutar de ambiente aprimorados. Foi criado, finalmente, o paraíso virtual.

Capítulo 1

29 de janeiro – 1 semana depois.

Por incontáveis vezes nos perdemos em nossos próprios devaneios, nossos próprios sonhos, e nessa última semana eu tenho me surpreendido com todos os momentos em que me peguei pensando nas coisas que jamais seriam permitidas a entrarem na minha cabeça. Melhores condições, empregos melhores, casas melhores, pessoas melhores... uma vida melhor. Conseguia sentir meu coração pulsando somente pela adrenalina do pensamento. Era um idealização impossível em uma sociedade onde só se pode cair, não subir. Tentei afastar o pensamento, o dia mal tinha começado e eu já me torturava.
Sentei em minha cama, não era uma cama de classe alta, mas era confortável, você se surpreende como somente um colchão, um lençol, um cobertor e um travesseiro fazem ótimas noites de sono, mas, infelizmente, no meu caso, nem mesmo a melhor cama ajudaria com a insônia. Minha mãe tinha me dado, insistia que a noite era a parte mais importante do dia, e desnecessariamente me comprou uma cama de casal. Respirei fundo e soltei a maior quantidade de ar possível, repeti pela segunda vez até parar. Senti cada músculo do meu corpo acordando comigo, todas as partes de mim que haviam encolhido por conta do frio agora tomavam sua forma original.
Era sábado, mais conhecido como: dia de ficar em casa fazendo absolutamente nada. Me levantei. Fui até meu banheiro e criei coragem o suficiente para me olhar no espelho. Meus olhos carregavam olheiras e eu já havia me acostumado com elas, mas todo dia de manhã era como se eu olhasse para alguém diferente, alguém que não queria ter me tornado. Queria poder olhar para a garota de doze anos que nem sonhava em perder os pais, queria me ver e pensar que estava tudo bem, e que tudo ficaria bem. Fiz o que tinha que fazer e desci até a sala. Não estava tão frio do lado de dentro, por outro lado, estava abafado e abrir a porta não traria vantagens.
Fiz um chá, não era a minha melhor opção, mas por ser rápido e prático, foi o escolhido. O sofá estava gelado, afetado pelo frio incontrolável. Me sentei e consegui achar um aconchego naquele móvel vazio e espaçoso demais para uma pessoa só. Sem pais, sem animais, nem mesmo uma alma viva para me acompanhar, lá estava eu, mais uma vez tentando encontrar um jeito se suprir a falta familiar. E mais uma vez, falhei.
Quis ligar a televisão, hesitando por um momento, há uma semana eu não poderia ter previsto o estrago mental que um botão causaria em mim, e hoje eu também não iria prever. Apertei o botão de ligar.
Era um noticiário daqueles que passam alertas, coisas que precisam ser resolvidas nesse exato instante e se algo não for feito imediatamente, as consequências seriam gravíssimas. Tínhamos problemas de sobra, eu mesma podia enumerar muitos; o frio, a fome e a guerra e, ironicamente, a figura de um homem loiro aparecia na tela. Era uma fotografia. A primeira coisa que notei foi a cicatriz. Não era uma das maiores e mais feias, pelo contrário, ela encaixava no rosto, quase como se tivesse sido feita propositalmente, e se encontrava na sobrancelha direita, descia sobre a pálpebra, quase como um raio. Seus olhos quase se fechavam por causa do flash, os cabelos castanhos praticamente na altura dos ombros estavam nitidamente bagunçados, até mais bagunçados que os meus. Ele tinha cachos dourados, que brilhavam se fossem olhados detalhadamente e um rosto que me deixou atônita. Me distraí, quase a ponto de não ouvir o que o jornalista dizia.
- Este homem é um terrorista, exilado da sua terra natal. é responsável pela destruição de mais de cinco estabelecimentos de alta importância governamental até agora. Caso seja visto deve ser imediatamente levado às autoridades. Ainda não sabemos como este infrator conseguiu invadir nossos muros, mas estamos tomando as devidas previdências, fiquem dentro de suas casas. Qualquer um que tente ajudá-lo, ou acobertá-lo, será considerado cúmplice e receberá a mesma pena diante da lei. Repito... - e então se iniciou novamente o breve discurso sobre o terrorista.
Devo dizer que alguma coisa nele mudou alguma coisa em mim, a escuridão em seus olhos, o jeito como seu cabelo caía sobre os olhos, sua feição de raiva, de rancor. Balancei a cabeça. O que? Novamente, os devaneios. Após notícias e mais notícias inúteis sobre o maldito paraíso artificial e como ele poderia mudar a minha vida, desliguei a televisão. O efeito do chá começava a fazer e minhas pálpebras ficavam cada vez mais pesadas. O sono não dormido desta noite agora queria ter sua dívida paga. Eu sou do tipo de pessoa que não sabe a diferença entre estar com sono e estar bêbada, meu subconsciente responderia por mim, eu provavelmente lembraria vagamente dos momentos enquanto estava com sono, isso tudo com um chá de camomila.
Um barulho ecoou do lado de fora da porta, batidas que formavam um ritmo, mas que pararam no instante seguinte. Olhei em direção à porta, um pequeno vulto branco atravessava o vão. De longe era possível ver um selo vermelho e nada mais. Caminhei até lá, ainda com o sono pesando em mim como uma âncora me obrigando a ficar no sofá.
O papel estava incrivelmente morno, estranhei, meus dedos passaram sobre o selo, era daqueles de cera, que eram carimbados. Havia uma raposa sobre as patas, símbolo da Inglaterra. Meu nome estava escrito na borda e mais nada, todo o corpo do envelope estava em branco. Não sabia se abria. O que seria? Dessa vez, me permiti levar pelos pensamentos, nas mil e uma informações que a carta poderia trazer. Talvez quisessem tomar a casa de mim, talvez estariam solicitando a minha presença para depor sobre algo, ou para saber se eu sou útil em alguma investigação – automaticamente lembrei do homem com a cicatriz – talvez tenham me convidado para testar o teletransportador mental, talvez simplesmente seja uma carta de “agradecemos o esforço que tem feito como cidadã, continue assim”.
Respirei fundo. Abri a carta.
, Londres, dezesseis anos.
Devido aos documentos enviados para nós, acreditamos que como cidadã média você possui alto potencial para o seu país. É com grande prazer que enviamos esta carta informando-lhe que a senhorita foi aceita para uma seleção que levará jovens como você para fazer parte do departamento governamental de sua cidade, aplicando sua especialidade no edifício Montgomery Inc. como receptora de empresários, uma vez que estamos a par de sua especialidade com línguas estrangeiras, especialmente a língua russa e alemã. Solicitamos sua presença na empresa nesta SEGUNDA-FEIRA (01.02) para uma melhor avaliação e para o processo seletivo.
Boa sorte. Agradecemos o esforço que tem feito como cidadã, trabalhadora e futura colaboradora com o nosso país, continue assim.
Central Reino Unido.”

- Eu não acredito nisso! – disse Mary. – Caramba, , essa é a oportunidade da sua vida! – ela sorria, estava contente por mim. Às vezes até mais contente do que eu, sabia que poderia contar com ela, sabia que não seria o tipo de pessoa que invejaria o que tinha acontecido comigo. Mary era meu porto seguro, uma alma positiva e boa, e que mesmo com todos os problemas que enfrentou, mantinha um sorriso incrivelmente honesto no rosto e sempre uma frase otimista na ponta da língua. Éramos mais que amigas e acredito que depois de tantos anos de convivência, duas pessoas que por alguma desventura perderam entes queridos, estavam trabalhando duro para se manterem unidas, eu acreditava que não seria abandonada, assim como não a abandonaria.
- Não sei o que sentir, medo, ansiedade, pavor. – ela riu. Parecia brincadeira, mas eu realmente estava um tanto bagunçada naquele momento.
- , sinta-se agradecida! – ordenou, mexendo o dedo indicador, como se fosse uma mãe ou algo do tipo. Eu ri.
- E estou, mas você sabe como é fácil pra eu foder tudo. – dei de ombros, ela chegou perto de mim, segurando meus braços e me encarando nos olhos.
- Você sabe que eu acredito em você, mas primeiro você precisa acreditar em si mesma.
- Eu acredito, é só que... – eu não sabia o que dizer, estava feliz, é claro, mas estava com medo. Não era igual a ela, não tinha frases otimistas prontas para dizer em situações ruins e deixá-las melhor, não era tão fácil assim, aliás, era quase impossível, levando em conta meu pessimismo.
- Shhhh... – me interrompeu. – Você vai se dar bem, e para de ver o lado ruim das coisas! Muitos médios vão morrer sem ao menos sonhar em trabalhar para os altos.
- Mas é só um processo seletivo. – falei, e realmente era somente isso, eu não poderia ser a única média que sabia falar outras línguas. Claro que isso era uma vantagem, mas seria como entrar em uma luta e achar que só porque havia treinado, a luta já estaria ganha.
- Olha, , eu sei, você sabe: essa seleção já tem dona. – piscou para mim, com um sorriso malicioso. Eu sorri. Meu estômago estava revirado de um jeito incrivelmente bom, aquela famosa sensação de borboletas, era uma sensação que eu não sentia há tempos. Sorrir abertamente sem sentir culpa, saber que eu poderia mergulhar nos meus pensamentos impossíveis que agora seriam possíveis...
- Acho que estamos viajando demais. – falei. – Mesmo que eu passe, é bem improvável que eu suba pra classe alta ou coisa assim. - ela grunhiu.
- Cara, como você é chata! – me deu um soco de leve no braço, e rimos as duas. Uma energia boa estava no ar, não era pesada, era leve até demais. Estávamos juntas, compartilhando momentos de felicidade, embora eu estivesse triste por não poder arrastar Mary comigo para a Montgomery e mostrar a eles que ela pode ser tão prestativa quanto eu, eu estava feliz pelo simples fato de ter com quem falar sobre as coisas. Se fosse por mim, ela estaria morando comigo, tinha espaço o suficiente em minha casa para duas pessoas, até três se uma não se importasse em dormir no sofá. Na verdade até hoje acho que não tive uma explicação descente do porquê.
- Mas e aí, Mary, você pensou na minha proposta? – a cutuquei com um gesto engraçado. Estávamos na biblioteca, que felizmente estava fechada, sentadas de costas para a porta no chão gelado, era possível ter uma visão boa da biblioteca do chão. Fileiras e fileiras de livros, todos organizados por categorias e em cada categoria eram organizados em ordem alfabética – eu disse que ela era prestativa –, não haviam livros jogados ou fora do lugar. Na direita, o caixa, cheio de bugigangas trazidas por nós, os da direita eram meus e os da esquerda eram de Mary. Em ordem, um Maneki Neko*, um porta canetas que lembrava um cacto, um cachorro de pelúcia tamanho mini e algumas outras coisinhas imprestáveis, mas que deixavam nossa marca no estabelecimento. Ao lado do caixa ficava o corredor que daria acesso a uma parte bem mais ampla da biblioteca. Tínhamos livros que nem a biblioteca central do Reino Unidos caça pra ter, livros pré-guerra, livros didáticos dos anos antigos, livros de ditadores como o homem de bigode que eu não me lembrava o nome, livros de rebeldes ensinando a como se disfarçar na sociedade... e por fim, os de ficção.
- Olha, , eu sei que assim que você começar a trabalhar na Montgomery vamos ficar mais distantes, mas eu não posso deixar esse pessoal. Eu criei laços com eles, entende? – assenti com a cabeça, para depois encostá-la na porta.
- Tudo bem... – e ficamos mais uma vez envolvidas pelo silêncio. A casa em cima da biblioteca, que geralmente estava cheia nos horários em que a biblioteca não estava aberta, agora estava em silêncio. Me perguntei onde eles estariam. Eram um grupo de seis, pelo menos da última vez que os vi, duas garotas com idades entre 16 e 18 anos, e quatro homens, suas idades para mim eram um mistério, não tive a oportunidade de analisá-los; a maioria das visitas não durava mais de dois minutos. Eu sempre chegava na hora em que eles saíam. – Você tem visto o jornal? – perguntei. Era um assunto que eu queria e não queria falar sobre, e acredite, falando com a pessoa errada, pode trazer enormes problemas, mas... eu não estava falando com a pessoa errada, estava?
- O que aconteceu? – deixou de encarar o gato japonês com a pata erguida e olhou para mim, curiosa.
- Alguma coisa a ver com um terrorista russo, cabelos longos, uma cicatriz assim – desenhei em meu rosto o formato da cicatriz, no lugar onde ela se encontrava em Jason.
Mary voltou seu olhar à escuridão no centro da biblioteca.
- Eu ouvi falar – suspirou, recostando a cabeça na parede. – Esse cara tá causando mais problemas do que a gente imagina.
- Como assim? – indaguei, abraçando minhas pernas com mais força em uma tentativa frustrada de me aquecer, pensando que quando eu levantasse dali, minha bunda estaria congelada.
- Um jornal, não sei se você conhecia, The Weeks, a gente tinha assinatura, simplesmente sumiu. Todo mundo que trabalhava nele, sumiu. Assim, puf – ela fez um sinal com as mãos, provavelmente eles estariam vivos, mas presos, desejando estarem mortos –, e tudo por causa de uma matéria tão tosca, tão inútil, que não estava nem na capa: “Terrorista ou ameaça ao governo?”. Ninguém sabe onde eles estão, o pai de uma menina daqui trabalhava lá, a loirinha baixinha, sabe? – não sabia, mas afirmei com a cabeça.
- E o que você acha? – olhei para ela, obviamente não era a favor do que tinha acontecido aos trabalhadores, mas ainda tinham coisas a serem levadas em consideração.
- Eu acho que você tinha que ir pra casa – desconversou, um tanto quanto desconfortável com a conversa - e dormir, sua carinha de sono é fofa, mas dá dó. Revirei os olhos. Depois entraria nesse assunto novamente, impedindo-a de fugir.
Ela se levantou, ajeitou a roupa e me ofereceu a mão. Aceitei e me levantei, como eu temia, estava bem congelada.
- Você quer que eu te acompanhe até a esquina? – ela perguntou, ajeitando seus cabelos azuis. Eu quis dizer sim.
- Não, obrigada, eu acho que vou passar pela farmácia e comprar alguma coisa que me faça dormir. Domingo, segundo dia de fazer absolutamente nada. – ela sorriu, me dando tapinhas nos ombros. Abri a porta, sentindo a brisa congelante invadindo meu corpo e a biblioteca.
- Vai lá, menina mais chata que eu já conheci. – disse em tom de brincadeira. Eu sorri de volta.
- Au revoir, insuportável. – fechei a porta atrás de mim, acenando para Mary, e comecei a fazer meu caminho à farmácia. Dessa vez eu não sentia como se fosse desmaiar ou até mesmo morrer de hipotermia, acho que Mary ia gostar do meu humor, eu estava incrivelmente otimista.

Estava girando a maçaneta de minha casa quando senti um cheiro vagamente familiar.
Fogo.
A chama vermelha engolia praticamente toda a casa no fim da rua, não havia gritos nem barulho de sirene, nada. O mundo estava quieto assistindo perplexo àquele show de formas e figuras dançantes. O que seguiu foi uma explosão, móveis, pedaços da casa, tudo pelos ares. A rua estava incrivelmente quieta, pessoas não saíam de suas camas para saber o que estava acontecendo, afinal, não era de sua conta. Eu não sabia o que fazer, não sabia se corria casa adentro e fingiria que aquilo não estava acontecendo até o corpo de bombeiros vir tomar conta do calor desenfreado, ou se eu mesma deveria fazer uma ligação para eles.
Vi pessoas correndo, eram um grupo pequeno, no máximo três pessoas, não sabia distinguir se eram homens ou mulheres, seus cabelos e rostos estavam cobertos com a roupa. Rebeldes. Respirei fundo, tentando achar um pouco de ar naquele ambiente, sentindo meu coração gritar dentro do meu peito, a chama parecia queimar dentro de mim, meu pulso acelerado deixava minha respiração cada vez mais ofegante. O que estava acontecendo?
Um dos três percebeu a minha presença, seus olhos eram verdes como esmeraldas e brilhavam conforme a luz do fogo refletia em seus olhos. Ainda não pude dizer qual era o sexo, também não pude me mover, estava travada, meus músculos não respondiam às minhas ordens, estava sendo traída pelo meu próprio corpo. Para a minha infelicidade, a pessoa de olhos verdes não estava como eu, se movia perfeitamente, comentou alguma coisa com os outros dois e continuou a me encarar. Eu tremia, a mão não mais na fechadura, estava ao lado do meu corpo. Procurei por ar mais uma vez, pedindo mentalmente para que eu pudesse me mexer. A pessoa fez um sinal com a mão, pelo jeito dizia para eu entrar novamente em minha casa. Movi minha mão até a maçaneta novamente, ainda tremendo pelo medo, medo do que eles poderiam fazer a mim se eu não lhes obedecesse, medo de que me queimem, assim como fizeram com as almas vivas daquela casa.
Inspirei. Expirei. Inspirei. Expirei.
Consegui girar a maçaneta, aliviada, soltei o ar em um suspiro. Pude me visualizar entrando em casa, batendo a porta e correndo ao telefone para avisar a polícia, os bombeiros, o primeiro que atendesse. Mas não foi bem assim.
Eu não me segurei, tive que olhá-los. Os três já pareciam não mais se importar com a minha presença, todos eles já haviam me dado as costas, agora seguindo seu caminho. Não sei o que havia neles que tinha me paralisado completamente, as roupas, o jeito como andavam, como se comunicavam, como exalavam autoridade. Eu estava praticamente abrindo a porta quando...
Outra explosão.
Esta, pior que a primeira, felizmente não atingiu outra casa, mas fez um som alto o suficiente para acordar todos. Ouvi um barulho diferente, não era do fogo, nem de móveis atingindo o chão, era um som vivo, som de ossos e carne, som de algo sendo esmagado. Me atrevi a olhar.
Lá estava ele – ou ela – deitado no chão, urrando de dor. Eu sabia que ele não teria a coragem de gritar, ele não entregaria a si mesmo e o seu grupo tão facilmente. Rosnou de dor.
Não sei o que aflorou dentro de mim, não sei. Não sei de onde surgiu coragem e força, não entendo como meu corpo se moveu tão rápido sem eu querer. Só sei que aconteceu. Em um minuto eu estava abrindo a minha porta, pensando em formas de solucionar aquele grande e caloroso problema, no outro eu estava cortando o ar, minhas pernas correndo, indo em direção a ele. Estava mais surpreso com a minha presença do que eu, os olhos verde esmeralda arregalados, e as mãos tentando afastar o móvel que esmagava sua perna. Estava queimado, mas eu pude reconhecer um freezer extremamente atual e, pelo jeito, extremamente caro.
Procurei em volta, não achei seus companheiros, deve haver algum tipo de juramento rebelde do tipo, “cada um por si, não vamos matar a matilha inteira por um lobo ferido”.
- Você é burra? – ele gritou. Era um ele. – Se você for pega me ajudando...
- Se eu for pega, eu sei que eu vou me foder. Agora me ajuda com isso. – falei, interrompendo-o. Eu sabia que seria difícil salvá-lo e nessa altura do campeonato alguém já teria chamado os bombeiros. Traduzindo: tínhamos que agir rápido e muito, muito rápido.
- Mesmo que a gente consiga tirar, como você quer que eu ande com isso? – ele disse, sem esperança alguma. Minha mente simplesmente não sabia o que dizer, só sabia que eu tinha que ajudá-lo.
- Onde eles estão? Os outros dois? – perguntei, aflita, meu coração novamente saltava dentro de mim e eu me controlava para não perder as forças que tinham surgido milagrosamente.
- Há essas horas eles já devem estar longe. E você também tinha que estar. Vai logo. – com o braço ele tentou me empurrar, mas pelo jeito tinha usado toda sua energia para empurrar o que estava destruindo seus músculos e ossos.
- Eu não vou te deixar aqui. – falei.
- Por que você está fazendo isso? – era uma pergunta que eu não sabia responder, só sabia que essa era a decisão certa a tomar. Não entrar em casa e fingir que nada estava acontecendo, porque estava. Como eu iria ignorar um homem tendo a perna esmagada. Foi ele que causou o incêndio. Eu não ligava. Somente por esse pensamento eu merecia no mínimo trinta anos na pior cadeia do Reino Unido, ou até mesmo exilio. – Me responda! – ordenou.
- Só empurra! – gritei.
Após inúmeras investidas, eu já podia sentir a adrenalina indo embora, a sensação de que eu poderia ajudá-lo desaparecia, minha força estava desgastada, meus braços cedendo ao calor, minha temperatura esquentando demais, meu corpo já não era o mesmo de quando parti em direção ao homem dos olhos verdes. Eu voltava a tomar consciência de quem eu era e o nível da minha força. Infelizmente eu sabia que não tiraria aquele freezer dali.
Ele não queria desistir, já estávamos ali, dois condenados, desistir não era uma opção. E também não queria que eu desistisse, eu era sua última esperança.
Duas figuras surgiram ao meu lado, eram eles. Agradeci mentalmente e não precisei dizer uma palavra para eles começarem a empurrar.
- Alguém chamou os insetos. Temos que ir logo. – era uma voz feminina, a garota tinha olhos azuis acinzentados e era tão magra quanto eu.
- Insetos? – perguntei.
- Bombeiros, policiais. – ela respondeu, e continuamos a empurrar. Insetos? Não tinha tempo para entender o apelido amigável que eles davam às pessoas.
Um barulho ecoou alto. Era alto, fino e irritante.
- Puta merda, eles estão chegando. – o homem de olhos verdes disse. – Corram, agora, parem de ser estú...
E finalmente, sua perna estava livre. A continuação foi pra mim um alívio, eles o colocaram pendurado em seus ombros e antes que pudessem correr em direção a van que os trouxera, pude ouvir de sua boca um “obrigado”.
Correram, eu fiz o mesmo, não paralisada como da última vez, na verdade eu não sabia o que estava sentindo. Tudo estava tão rápido, tão quente, coisas demais para serem processadas.
Os encarei novamente, as pálpebras cerradas para conseguir vê-los na distância e desejei poder encontrar com o homem de olhos claros novamente, a garota de olhos azuis e a terceira pessoa eu ainda não sabia se era homem ou mulher.
Entrei em minha casa. Simplesmente desabei, sem mais nem menos. Me encontrei no chão, abraçando as pernas, com a respiração ofegante entendendo a gravidade do que eu tinha feito.
Eu tinha ajudado um rebelde.

Continua...

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