Autora: Nina | Beta: Babs



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Capítulo 01 –

betado por Isla

Avila

De vez em quando encontro-me a recordar quando eu sorria, quando éramos crianças e amávamos como gente grande. Lembro-me do brilho nos teus olhos inocentes, da tua gargalhada contagiante, das tranças que eu gostava de puxar só para poder ouvir o resmungo infantil ou a resposta esperta sempre debaixo da língua. As noites passadas debaixo das estrelas, caçando vagalumes como pretexto de aproveitar as nossas companhias durante um pouco mais de tempo. Ah! Como eu amava cada segundo da tua presença.
Depois penso em todas as lágrimas que chorei por ti, a dor que senti ao perder alguém que nunca cheguei a ter realmente. As vezes que implorei para que tudo não passasse de um mau sonho e que no dia seguinte tu me acordasses cedo, só para me deixar irritado.
Mas o que aconteceu não foi um sonho mau, e tu não voltaste para mim. Eu nunca mais vi o meu reflexo no teu olhar, ou ouvi a tua gargalhada, nunca mais toquei nos teus cabelos ou passei as noites caçando vagalumes, nada se repetiu ou se acrescentou às minhas lembranças contigo. O que poderia existir já existiu, e tudo que sobrou foram recordações.
Não entendo bem o porquê de ainda te escrever cartas, mas creio que esta foi a única forma que arranjei de me iludir por alguns segundos. Pensar que tu talvez as vás ler acalma o meu coração por instantes, mesmo sabendo que é mentira.

Com amor,
Negrume da noite.

26 – 10 – 2010

Eu conhecia bem demais cada uma daquelas palavras, estava já habituada a lê-las, mas o fascínio que senti ao ler cada uma delas pela primeira vez, ainda faiscava dentro de mim.
A caligrafia parecia arte de tão bem trabalhada. A linguagem era carregada de sentimentos reprimidos de um alguém que sofria demais. Alguém a quem eu desconhecia o nome, mas ansiava conhecer. Foi desde a morte da minha irmã que as cartas começaram a surgir, todos os anos, no mesmo dia. O conteúdo era semelhante em todas elas, falava de amor perdido, alegrias que se foram e a amargura que ocupou o coração do anônimo.
“Negrume da noite”, era tudo que eu conhecia daquele rapaz. Um simples apelido, típico de criança criativa que gosta de inventar nome para tudo e todos. Porém, aquele nome nada me oferecia, eu precisava de uma base, algo que me ajudasse a encontrar o autor das cartas. Passei noites acordada, lendo e relendo os nove pedaços de papel já mal tratados pelo tempo, procurando por algo, uma pista, um código, alguma coisa que me fizesse chegar ao seu paradeiro, mas tudo foi em vão. Nenhuma das minhas noites acordada serviu para achar a mais insignificante das respostas. Eu estava à zero, e provavelmente iria ficar sempre assim.
O som agudo da porta principal sendo aberta acordou-me do meu transe momentâneo. Inconscientemente, olhei para o relógio despertador em cima do criado mudo. Passavam três minutos das oito da manhã, era hora de sair.
Dobrei a carta com o maior dos cuidados possíveis e recoloquei-a no seu respetivo envelope. Abri a última gaveta do pequeno móvel e pousei-a lá, juntamente com todas as outras. A voz impaciente do meu pai chamou-me do andar de baixo, e eu fui ao seu encontro sem consternar, como usualmente fazia.
Hoje era um dia importante para a toda a minha família, fazia dez anos que a minha irmã mais velha faleceu. Todos os dias 26 de Outubro celebrávamos uma missa em memória da menina de nove anos que perdeu a sua vida de forma inexplicável. Eu tinha apenas oito quando se foi, nunca soube exatamente o que aconteceu, mas para ser realmente franca, nunca quis saber a verdade. Algo por trás da sua morte soava estranho, como se houvesse mais do que os olhos pudessem ver e a razão pudesse explicar.
A minha irmã era uma pessoa especial, alguém de aura iluminada. A sua inocência era tão genuína quanto a sua perspicácia. Ela sempre tinha a última palavra em todos os assuntos, sempre descobria a melhor forma de calar um adulto com as suas teorias bem simuladas.
Os seus cachos -mel, os seus olhos oceano e a sua pele de pêssego enganavam qualquer um que a julgasse como imatura. era mais inteligente que muitos adultos que eu conheci até hoje, poderia persuadir quem bem entendesse com aquele seu jeito angelical e feminino que eu tanto invejava. Porque ela sempre foi mais graciosa, mais menininha, mais bonita que eu. Ela era talentosa em tudo que fazia, enquanto eu era um desastre ambulante na mais simples das habilidades, contudo, por mais que eu invejasse todos os seus feitos e capacidades, eu não cobiçava nada daquilo, para mim ela era apenas a minha irmã mais velha, a minha melhor amiga que partiu demasiado cedo sem que eu pudesse evitar.
Sívio Avila estava de pé no batente da porta de braços cruzados e olhar indecifrável, tal como na maioria das vezes. O meu pai era certamente o ser humano mais enigmático que eu conhecia. A sua personalidade reservada e conservadora contribuíam em parte, mas algo nele me deixava nervosa, como se ele nunca falasse tudo o que queria, como se ele guardasse os seus pensamentos mais francos para si mesmo.
O terno preto assentava-lhe como uma luva, e se não fosse o fato de ele só o usar naquela mesma data todos os anos, eu diria que gostava de vê-lo assim vestido.
Ao alcançar o último degrau, vi o rosto do meu pai adquirir vida quando lhe lancei um sorriso condolente. Não eram necessárias palavras para expressar aquilo que nos vinha na alma naquele momento, os olhares falavam mais do que mil conversas quando o assunto era .
Sívio abriu espaço para que eu passasse, e assim o fiz. Obriguei-me a andar até a varanda e esperei ele fechar a porta para não ter que ir sozinha para o carro.
- O tempo parece não estar a nosso favor hoje. – ele comentou, usando um tom falsamente causal, ao aproximar-se de mim. – Acho melhor nos precavermos e levarmos um guarda-chuva.
- Há um guarda-chuva no carro. A mãe deixa sempre um dentro da mala.
Senti o olhar do meu pai sobre mim, mas não retornei. Procurei pela mão dele e segurei-a com força, tal como eu fazia quando era pequena. Senti o seu aperto em resposta, e caminhamos juntos até ao BMW preto de 1995.


Vielmond

– Senhor! – falou uma voz feminina. – Senhor, já chegamos a Fireflies Place! – senti uma mão sendo pousada no meu ombro - o que me assustou de repente - e abri os olhos, recebendo a inevitável radiação solar que fazia queimar as minhas pupilas. Tinha acordado cedo para conseguir chegar de manhã. Afastei o rosto da janela do comboio para ver a paisagem.
As coisas tinham mudado. Tal como o tempo passou para mim, o tempo também passou para aquela pacata cidade Irlandesa. As ruas estavam mais povoadas, não só por pessoas, mas também por casas de variadas elevações. Os jardins estavam podados e coloridos em tons de lilás e azul, os comércios de rua variavam entre pubs e mercearias modestas. Tudo parecia ter crescido naqueles últimos dez anos que estive ausente de Fireflies Place. O mundo não tinha parado como eu imaginei que tivesse acontecido. As pessoas seguiram com as suas vidas, somente eu estagnei no tempo e perdi-me.
- Senhor, preciso que abandone o comboio, por favor, temos passageiros que querem embarcar. – insistiu a voz feminina que me acordou.
Senti os meus olhos viajarem para encontrar a dona da voz suave. Ela era uma mulher jovem, aparentava ter entre os vinte e os vinte e cinco anos. O seu cabelo loiro estava preso em um coque perfeitamente arranjado. Usava o mesmo uniforme que todas as outras funcionárias, blazer e saia lápis azuis-marinho, camisa branca engomada e um emblema bordado no bolso do casaco, onde eu conseguia ler o nome da companhia de transportes, Pirilampo Nómada.
Os seus grandes faróis castanhos-avelã miravam-me expectantes. Ela usava um batom vermelho-vivo nos lábios carnudos, a boca entreaberta mostrava a fileira de dentes impecavelmente brancos, eu estava a me sentir tentado a prová-la. Não conseguia desviar os olhos da linda definição que desenhava aquela boca. O perfume doce embargava as minhas narinas, deixando-me até um pouco zonzo. Era uma bela mulher, com quem eu não me importaria de compartilhar alguma intimidade física.
- Senhor, o senhor está bem? – perguntou-me, franzindo o cenho. – O senhor fala inglês?
A pergunta apanhou-me um pouco de surpresa, mas conseguiu afastar a minha mente pecaminosa no mesmo momento. Apercebi-me de que mais uma vez a luxúria estava a tomar posse de mim. Isto sempre acontecia, mas eram só os prazeres carnais que me faziam esquecer tudo por instantes, era a única forma que eu arranjava para me sentir mais leve e vivo.
- Ah! – sibilei patético, tentando parecer o menos idiota possível. – Falo, falo! Peço desculpa, eu vou já sair!
Vi um sorriso de agradecimento surgir na sua cara e acompanhei-a com o olhar até ela sumir no fundo do corredor.
Dei mais uma olhada rápida pela janela e soltei um suspiro pesado. Eu não queria ter que sair daquele comboio, não queria respirar ar irlandês novamente, queria voltar para casa e esquecer que este lugar existia. Contudo, eu não podia fugir mais, não tinha mais idade para isso. Era hora de enfrentar os fantasmas do passado e encarar as coisas de frente. Afinal de contas, eu não voltei para esta cidade só porque precisava de dinheiro, esse foi o pretexto que eu inventei para tentar convencer a mim mesmo. Eu precisava voltar, eu precisava superar algo que eu deveria ter superado há dez anos.
Levantei-me para pegar a única mala que trouxe comigo e arrastei-me para a saída. Eu não quis trazer muita coisa, senti que se o fizesse, estaria a tornar a minha estadia mais definitiva do que já era.
Andei a passo curto e lento, tentando adiar o inevitável. Quando a velha estação se emergiu na minha frente com a sua imponência férrea, modesta e arrojada, eu hesitei a dar o primeiro passo para fora do trem.
Não senti falta de ar, ou vontade de chorar como pensei que sentiria, eu apenas senti aquilo que sempre sentia. Solidão e vazio.

Caios Vielmond estava sentado ao volante do seu antigo Chevy vermelho, contemplando a rua pouco movimentada na sua frente, os olhos azuis intensos observavam atentamente cada uma das pessoas que passavam. A janela do carro estava aberta para que o meu primo usasse o chão da rua como cinzeiro. As mangas da camisa xadrez estavam arregaçadas até aos cotovelos, interpretei isso como uma escapadela do trabalho para poder vir me buscar.
O som das minhas botas contra o alcatrão acusou-me e chamou a atenção do rapaz de cabelos pretos, que me lançou um largo sorriso antes de sair apressado do seu carro para me cumprimentar.
- Vielmond? Pensei que tinhas emigrado para o Pólo Norte e tinhas casado com um pinguim!
Eu queria rir da maneira tão única que o meu primo usava para me dar as boas-vindas depois de tantos anos sem o ver. Caios sempre foi engraçado, desde que éramos pequenos, gostava de usar as suas piadas para convencer os outros a fazer aquilo que ele queria. Era esperto e matreiro, mas não tinha má índole. E agora, depois de tantos anos sem nos falarmos, fiquei feliz por perceber que ele continuava o mesmo. Senti a necessidade de voltar atrás no tempo também e ser o menino de oito anos que tinha a insolência de responder da forma mais inteligente que sabia ao seu primo mais velho.
Lancei-lhe um olhar pouco simpático ao parar na sua frente, senti frio de Outono querer castigar-me, mas ignorei a sensação. Os olhos azuis de Caios esperavam a minha resposta.
- Não existem pinguins no Pólo Norte. – constatei presunçoso, recebendo uma confiscada com o olhar antes do sorriso natural e contagiante que sempre acabava por vir.
- Touché.


Avila

Se havia um aroma que eu simplesmente abominava, era o cheiro da água-benta. Deixava-me enjoada sempre que o sentia por mais de vinte minutos, e, para minha sorte, eu já estava a respirá-lo há quase uma hora. A missa não estava nem perto de acabar, e eu já não conseguia suportar mais um minuto sequer dentro daquela igreja.
Não gostava de ter que ouvir o mesmo discurso vezes e vezes sem conta, sabendo que atrás de mim estavam as hipócritas das beatas a comentar o tamanho do meu vestido um palmo e meio acima do joelho, ao invés de prestar atenção ao que o padre dizia, ou o silêncio constrangedor por trás dos olhares de desdém dos mais velhos. As vezes que eu tinha de me levantar e sentar, a falsa atenção no rosto de alguns dos presentes. Todo aquele ambiente de falsa conversão fazia-me sentir desconfortável. Eu era cristã, não católica, mas acreditava em Deus e Jesus Cristo. Porém, acreditava também que há mais do que aquilo que nos foi ensinado quando éramos pequenos e andávamos na catequese, mais do que alguns de nós podem alcançar. Essa minha desconfiança começou quando eu tinha uns doze anos e as dúvidas sobre os reais motivos da morte da minha irmã surgiram.
Os médicos não tiveram uma resposta exata para o que aconteceu na época, supuseram que fora uma parada cardíaca, mas nunca conseguiram comprovar a teoria. No entanto, houve sempre aquela pulga atrás da orelha que me dizia que todas aquelas especulações não passavam de mentiras desmedidas para ocultar o real motivo do falecimento de . E eu, teimosa, acreditava.
O pigarrear discreto da garganta da minha mãe despertou a minha atenção. Olhei para ela e entendi que tinha chegado a hora do meu discurso.
Levantei-me do banco, passando por ambos os meus pais, e encontrei o carpete vermelho que se erguia até ao altar. Senti todos os olhares em mim assim que comecei o meu caminho até ao púlpito.
Já há dois anos que eu discursava no memorial da . Eu gostava de o fazer, apesar de tudo.
Chegando em frente do altar, curvei-me, fazendo uma pequena reverência, e subi lentamente os degraus que me separavam do púlpito dourado.
Senti a garganta seca, como das outras vezes, e o suor frio na palma das mãos. Eu sempre ficava nervosa quando toda a atenção era direcionada a mim. Olhei para a minha mãe, recebendo um olhar incentivador em troca, depois olhei para o meu pai, que compreendeu a minha dificuldade em começar a falar.
Fechei os olhos e respirei fundo. Vamos lá, , tu consegues! Falou a minha voz interior. Tu és capaz! Esquece-te deles, pensa só naquilo que te vai à alma.
- O que me vai à alma... – murmurei para mim mesma, tentando interiorizar. Soltei uma última expiração e abri os olhos, encontrando uma plateia concentrada. Engoli a saliva que estava travada na minha garganta e deixei as palavras fluírem. – Antes de mais, obrigada a todos os presentes, que tal como eu, os meus pais e o resto da minha família decidiram se reunir para celebrar mais uma missa em memória da minha falecida irmã Avila – fiz uma pequena pausa, preparando-me para aquilo que ia dizer e colocar o microfone à minha altura, o que acabou por produzir um som agudo e estridente. – Como sabem, já não é a primeira vez que eu subo a este altar para falar da minha irmã. Sempre que eu subo, eu trago comigo um papel ensaiado, onde escrevo o quanto sinto a sua falta e rezo pela sua alma todas as noites. Mas hoje, pela primeira vez, eu não trago nada comigo. Estou completamente desarmada, a mercê das minhas emoções mais íntimas. Eu não queria repetir o mesmo discurso de outros anos, não estou disposta a automatizar todas as palavras que escrevo e fingir que elas não me afetam – o rosto da minha mãe estava contorcido de forma ilegível, eu não sabia se ela estava em agonia ou não. – Eu tinha oito anos quando perdi a minha irmã, eu também tinha oito anos quando perdi a minha melhor amiga, a minha heroína. A era uma menina demasiado crescida para sua idade. Era bonita e inteligente, destemida e corajosa, inocente, mas não ingênua – sorri ao visualizar a imagem da menina de cabelos longos e vestido azul na minha mente. – A minha irmã era o meu modelo, o meu abrigo. Ela sempre me defendia de todos, amava-me acima de qualquer coisa e cuidava de mim, como se fosse minha mãe. Era uma pessoa apaixonante, demasiado perfeita para ser real. Demasiado boa para ter partido tão nova – eu senti as lágrimas quererem aflorar no canto dos olhos, mas eu não queria chorar na frente de ninguém. – Quando eu olhava para a minha irmã, eu via uma pessoa grande num corpo pequeno, alguém com um futuro extraordinário, cheio de conquistas e sonhos realizados. Contudo, o destino que lhe foi reservado não se assemelhou nem um pouco àquilo que eu imaginei para ela. Ela nunca se tornou a bailarina, a cantora ou a médica, tal como ela me contava que seria um dia, quando estávamos a conversar de noite no quarto. Ela nunca mais cantou para eu adormecer, ou se deitou do meu lado quando eu tinha medo da trovoada – a lágrima que eu estava a tentar evitar caiu rápida pela minha bochecha. – Eu tive que aprender a viver sem ela, mesmo antes de ter idade suficiente para deixá-la ir. Eu tive que ser feliz sem a minha melhor amiga, sabendo que toda a minha felicidade era forjada. Eu ainda sonho com ela quando a saudade aperta, e só dessa forma eu consigo enganar a minha alma. Eu choro em vão e peço para que tudo seja mentira e que no dia seguinte eu volte a ter oito anos e a minha irmã esteja lá para mim – a respiração errante e as lágrimas começaram a dificultar a minha mensagem, mas eu tinha que me aguentar firme durante alguns segundos a mais. – Ela está agora a ouvir-me, sei disso! Tal como sei que esta noite vou sentir a sua falta e na próxima e na outra seguida também. Mas independentemente da saudade, do choro, das amarguras, eu sempre poderei contar com ela, porque ela sempre estará do outro lado quando eu desmoronar, a segurar a minha mão, mesmo que eu não o sinta, a passar os dedos pelos fios do meu cabelo, a consolar a minha tristeza, tal como uma boa irmã mais velha faria – esfreguei a mão direita pelo rosto, para poder limpar as lágrimas. A maquiagem, a esta hora, já estava toda desbotada e manchava toda a minha cara. Se fosse noutra ocasião, eu teria me importado, mas não era o caso. Encarei uma última vez a plateia emocionada antes de descer do púlpito, agradecendo a atenção de todos, e retirei-me para a sacristia.
Fechei a porta atrás de mim e deixei que a emoção tomasse conta da minha alma. Dizer que aquilo foi difícil era um eufemismo para o que eu fiz. Eu nunca mostrava os meus sentimentos, sempre chorava em silêncio com medo de mostrar que era fraca.
Senti o meu corpo fraquejar e escorreguei até o chão. Com as costas apoiadas na porta, eu agarrei as pernas e escondi a cara entre elas.
Hoje, pela primeira vez em tantos anos, eu tinha-me despido da capa protetora que eu gostava de manter e tinha revelado aquilo que eu já guardava há demasiado tempo. Os meus soluços aumentavam gradualmente, e eu já não tentava contê-los, decidi deixar que todas aquelas emoções reprimidas se libertassem em lágrimas para que eu pudesse lavar-me daquela sensação de inquietude e aflição. Estava agradecida por finalmente conseguir ser humana e revelar o quanto eu ainda sofria com a morte da .
Dei por mim a embalar o meu próprio corpo, balançando de trás para frente, tentando cessar com as lágrimas. Um vento frio vindo do meu lado esquerdo fez-me levantar a cabeça. A única porta da sacristia que dava saída para a rua estava entreaberta, o som dos sinos a tocar as nove badaladas da manhã recordou-me de que o carteiro provavelmente estaria agora a passar na minha casa e que ele provavelmente trazia consigo mais uma das cartas. Levantei-me desajeitada e corri para a frente do único espelho daquele compartimento. Eu estava com um aspecto lastimável. O rímel tinha-se espalhado por toda a minha cara, mostrando o estrago que o meu choro tinha feito. Passei as mãos pela face para limpar a maquiagem, e quando consegui obter algum resultado, saí a correr.
Percorri todo o jardim, que separava a Igreja do resto da rua, em menos de quinze segundos. Os saltos altos pretos estavam a impedir-me de passos mais eficazes, acabei por retirá-los e comecei a correr novamente.
Sem olhar para qualquer lado, atravessei a rua. O som da buzina e dos pneus do carro a derraparem no asfalto fizeram-me tomar o maior susto da minha vida. Quando eu percebi, já ambas as minhas mãos estavam apoiadas sobre o carro vermelho e os meus olhos estavam petrificados de terror.
Olhei para frente e encontrei Caios Vielmond sentado no banco de motorista. Os seus membros superiores mostravam o quão tenso ele se encontrava, segurando o volante com força desnecessária. Os olhos azuis intensos estavam arregalados e verificavam-me receosos.
Eu quase pude sentir o meu queixo cair de espanto quando vi o rapaz no outro acento. Os olhos , cabelos bagunçados, a pele clara e as feições angelicais eram demasiado iguais a outro que uma vez conheci para que este não fosse o mesmo. Era impossível tamanha semelhança, tinha que ser ele.
Vielmond. O menino de oito anos que adorava zombar de mim na frente dos meus colegas de escola. O menino que um dia foi o melhor amigo de estava ali, na minha frente, depois de tantos anos sem o ver.
Um surto de consciencialização fez-me recordar do porquê de eu quase ter sido atropelada, e a imagem do carteiro surgiu na minha mente de forma nítida. Dei por mim a correr mais uma vez, deixando para trás os saltos altos no meio da estrada e uma estranha sensação nostálgica dentro de mim.


Vielmond

– Mas que raio! – ouvi Caios resmungar exaltado. – Um tipo já não pode andar à vontade na estrada sem que lhe apareça uma louca desvairada? A garota nem sapatos usava! – exclamou, lançando o antebraço para frente. – Ela deixou os saltos na estrada.
Saí do carro, demasiado rápido para conscientizar-me dos meus movimentos involuntários, encontrei um par de saltos altos pretos caídos no chão da estrada e peguei neles sem nem pensar duas vezes.
Voltei para o carro e coloquei os sapatos perto dos meus pés. Caios olhou-me perturbado. Eu sabia que ele estava a perguntar-se o porquê de eu fazer aquilo, mas também quem não perguntaria? A expressão carregada não enganava nem um cego. O meu primo estava a tentar encontrar resposta possível à sua questão, mas sem grande sucesso.
- Você sabe onde ela mora? – surpreendi-me a mim mesmo ao fazer-lhe aquela pergunta.
Ele não me respondeu logo. Os olhos estavam paralisados em qualquer canto do meu rosto, eu só não conseguia identificar se era o nariz, ou a boca.
Estalei os dedos na frente da cara dele, recebendo um som parecido com um “Ah?” em resposta.
- Eu te perguntei se sabes onde ela mora.
- Er… – balbuciou, ainda atordoado. – Sei!
- Então é pra lá que vamos! – informei-o, recolocava o cinto de segurança. – Vamos devolver os sapatos à sua dona.

Capítulo 02 – Carta

betado por Isla

Avila

Cheguei a tempo suficiente de ver a lambreta do carteiro subir a rua e desaparecer no horizonte. Fui obrigada a pousar uma das mãos sobre o depósito das cartas, curvando o meu corpo para frente numa tentativa de recuperar o fôlego. Eu não estava habituada a correr tão depressa, e mesmo não sendo sedentária, era impossível não ficar cansada. Quando senti o coração desacelerar e a respiração estável, encontrei a chave no bolso do vestido e abri a caixa em ferro com uma mão desajeitada e tremeluzente. Eu estava nervosa, o discurso na igreja mexeu comigo de forma inexplicável. Expor a minha intimidade emocional foi libertador e assustador em simultâneo. Cuspir toda aquela dor deu-me uma sensação de leveza, mas ainda assim não me curou por inteiro. Contudo, o que realmente abalou as minhas estruturas foi ver Vielmond depois de dez anos. Das poucas vezes que imaginei voltar a vê-lo, nunca esperei que fosse sentir o que senti. As minhas memórias de infância onde ele surgia estavam sempre cheias de emoções negativas e humilhantes. adorava caçoar de mim, fazer-me de idiota e brincar com os meus sentimentos. Eu era apenas uma menininha de oito anos, apaixonada pelo melhor amigo da sua irmã. E ele, apenas um rapaz cheio de presunção e completamente rendido aos encantos de , tal como todos os outros.
O que mais estranhei foi a falta de brilho nos olhos . costumava ter um brilho incomum no olhar, uma chama que acendia e aquecia todos a seu redor. Era uma característica tão própria, tão sua e tão boa. Mas hoje, quando o olhei no fundo dos seus olhos, eu só os enxerguei , escuros e tristes. O rancor que eu sentia desvaneceu-se, dando espaço a um sentimento condolente e compreensivo. Pela primeira vez em anos, vi um olhar como o meu, onde a solidão gostava de habitar. Não fui só eu quem se consumiu com a morte da minha irmã, também o fez e isso refletia-se no seu olhar.
Enfiei a mão dentro da caixa de correio e puxei os três envelopes que lá estavam. Entrei em casa apressada, fechando a porta com força desnecessária. O estrondo que a porta produziu destruiu o silêncio do hall de entrada e obrigou-me cerrar os olhos, instintiva.
Todo o meu corpo estremeceu com a acentuada elevação de temperatura. O frio do Outono tinha chegado forte este ano e, para variar, já estava a ter efeito sobre mim. Baixei o olhar para os meus pés. Estavam gelados e machucados, eu necessitava urgentemente calçar os meus chinelos. Abri a porta à minha direita e tirei de lá os chinelos de reserva. Calcei-os, sentindo um alívio imediato na planta dos pés e agradeci mentalmente à minha mãe, por sempre lembrar-se de deixar um par de chinelos no armário. Os calafrios desconfortáveis começaram a diminuir relativamente e eu quase já conseguia ignorá-los. Fechei a porta atrás de mim e subi as escadas.
Ao chegar ao meu quarto, vi a Gabi deitada sobre a colcha floral que a minha mãe tinha comprado na semana passada. O olhar verde e superior da minha gata era digno de Oscar. A sua pose majestosa era tão irônica quanto interessante. Gabriela era uma felina rebelde, uma companheira rabugenta, mas eu a adorava.
Fiz o meu melhor olhar reprovador, recebendo em troca indiferença da pequena gata, fingi-me de insultada e ela limitou-se a soltar um longo bocejo.
- Ok, tu venceste! – mostrei rendição, exibindo as mãos no ar. – Eu não digo nada à mãe, se tu também não disseres.
Para a minha surpresa, a Gabi soltou um “miau” agudo e seco, permitindo-me interpretá-lo como um acordo feito.
- É sempre um prazer negociar contigo. – falei, passando a mão sobre a sua cabeça felpuda ao sentar-me do seu lado. – Ok, lá vamos nós! – soltei um suspiro pesado, mostrando a falta de entusiasmo.
As três cartas estavam amassadas na minha mão esquerda esperando que eu lesse aquela que eu tanto aguardava todos os anos. O friozinho nervoso no fundo da barriga estava a chegar sorrateiro, a garganta começava a secar e o ar parecia não querer entrar nos meus pulmões corretamente. A hora de desvendar mais uma daquelas declarações de amor havia chegado. Eu tanto ansiava, quanto temia aquele momento. Sabia que, depois de ler a carta, eu ia chorar, como sempre acabava por acontecer. Sabia que tudo que lá estava escrito apenas contribuiria para a minha tristeza e não traria a minha irmã de volta. Mas a ideia de que talvez pudesse achar uma pista que me levasse ao autor das cartas acendia aquela esperança dentro de mim e deixava-me naquele impasse de dúvida.
- Ler ou não ler? – perguntei-me, esperando pela dose de coragem necessária. – Ler ou não ler? – repeti num sussurro.
O som da campainha interrompeu o meu momento de decisão. Pousei as cartas sobre a colcha floral e apressei o passo até a janela do meu quarto. Discretamente, desviei a cortina e espreitei lá para fora.
Senti o meu coração querer saltar pela boca quando vi o carro de Caios estacionado em frente a minha casa. Dentro do carro estava apenas ele, o que me fazia concluir que era quem havia tocado a campainha. Eu não ia abrir a porta, eu recusava-me a fazer isso. Olhar para aqueles olhos faria com que eu recuasse no tempo e recordasse a minha infância. Eu não gostava disso, a sensação de nostalgia e saudade, eu simplesmente abominava. Olhei mais uma vez para Caios e implorei mentalmente para que eles fossem embora, porém a ironia do destino falou mais alto e ele viu-me.
- Merda! – exclamei enraivecida ao afastar-me da janela.


Vielmond

A casa era tal e qual eu me recordava, a fachada amarela pálido e portas azuis claras, a varanda principal, cercada de uma grade em madeira pintada em branco, o jardim, onde um dia eu brinquei, era abundante em verde. Tudo igual, tudo o mesmo.
Voltei a insistir e toquei pela terceira vez a campainha, ouvindo Caios reclamar.
- , deixa os sapatos da Cinderela aí, ela não vai abrir a porta! – resmungou, impaciente. – Eu acabei de vê-la espreitar da janela. Se ela quisesse abrir a porta, ela já o tinha feito.
Ignorei o comentário do meu primo e mantive-me na mesma posição, parado a cerca de vinte centímetros da porta, com um par de sapatos nas mãos e uma estranha sensação melancólica que me impedia de ceder à vontade de Caios.
Eu ainda não tinha recuperado do choque. A semelhança era irrefutável e aterrorizadora. e pareciam a mesma pessoa em todos os ângulos possíveis e imagináveis. Os mesmos cabelos , o mesmo nariz pequeno e delicado, a mesma pele clara e luminosa e os mesmos olhos , os únicos que eu alguma vez amei. Foi impossível não sentir a raiz daquela cicatriz tão caduca querer reabrir um pouco, depois de tantos anos a ter ignorá-la. Para quem tinha perdido a fé de ver o seu amor uma última vez, encontrar uma sósia tão perfeitamente esculpida em prol da original magoava mais do que um coração deveria ter que suportar.
E eu sabia que a mulher dentro daquela casa não era o meu amor de infância. Eu tinha completa noção de que para além da semelhança física e o grau de parentesco, e não partilhavam mais nenhuma característica em comum. Todavia, o meu coração parou mesmo assim, no instante em que os meus olhos encontraram os dela, tanto ou mais pasmos que os meus – se é que era possível –, e eu soube, naquele exato momento, que algo iria mudar permanentemente na minha vida. Fosse o que fosse, seria algo de proporções grotescas e forte demais para não deixar danos.
- , eu tenho que voltar para a oficina. Apenas deixa aí os sapatos. – pediu Caios mais uma vez.
Virei para trás e olhei para Caios, que apoiava o cotovelo esquerdo sobre a janela aberta enquanto segurava a cabeça, aborrecido. Soltei um suspiro derrotado e olhei uma última vez para a porta, pousando os sapatos na frente da mesma. Senti o meu corpo hesitar pela segunda vez naquele dia, esperando expectante pela porta que não abriu.
Entrei no carro calado e mantive o olhar fixo em qualquer ponto que não fosse a cara de Caios. A minha carranca mal disposta mostrava a pouca vontade que eu tinha em dialogar sobre algum assunto. O meu primo entendeu isso na perfeição, limitando-se a dar partida e seguir caminho.


Avila

Abri a porta com o coração na garganta e o corpo tenso. Eu sabia que ele já não estava do outro lado, eu escutei os seus passos pesados distanciarem-se em direção ao carro enquanto eu fixava o olhar na maçaneta, covarde demais para girar.
Os sapatos de cerimônia estavam pousados sobre o tapete da entrada, um pouco sujos de terra, mas, ainda assim, elegantes. Peguei rápido neles e voltei para dentro de casa. Subi as escadas de dois em dois degraus e corri até o meu quarto.
As cartas estavam espalhadas na cama tal como eu tinha deixado. Apanhei-as e apertei-as contra o meu peito. Dei uma demorada vista d’olhos no quarto, tentando ganhar coragem para ler. E depois de contar pela quarta vez quantas riscas tinha o meu tapete, eu olhei para as cartas. A primeira carta era a conta da luz. A segunda era do gás, o que me levava diretamente à última opção. A terceira carta.
Senti o aperto no peito voltar, mas desta vez eu não podia deixar-me vacilar. Virei a frente do envelope branco para mim sem nem pensar duas vezes.
O enrugar da minha testa espelhou a minha desorientação.
Eu não soube se foi a humilhação ou raiva que mais me perturbou, mas quando eu olhei para o chão, a carta estava desfigurada em incontáveis pedaços, tal como o meu orgulho frágil. Eu senti-me estranha. Eu queria e não queria chorar. Eu podia fazê-lo, sem ter que dar justificações a ninguém, mas eu devia? Devia sentir-me revoltada por não ter chegado nenhuma carta? Era certo eu sentir-me assim? Se a carta nem era para mim?
Fosse qual fosse o motivo, independentemente da razão obscura, eu senti-me esquecida, pelo Negrume da Noite. E o mais ridículo de tudo era que eu tinha a plena consciência de que as cartas não eram para mim, nem nunca seriam.


Vielmond

Sorri involuntário ao ver que a casinha vitoriana, tão bem conservada na minha memória, estava igual.
O tempo perdoou as paredes azuis da fachada, impedindo-as de desbotar a sua cor vibrante. Os detalhes a branco na porta, alçados e decorações da madeira, tinham sido repintados da mesma cor. O grande janelão em arco perfeito, do lado esquerdo, era tal e qual ao que eu me recordava. As cortinas estavam abertas, o que me permitia ver a sala de estar do albergue. A minha tia Camélia estava sentada a bordar. Um repentino flash de uma infância, não tão distante assim, passou na minha frente.
Ouvi um pigarrear de garganta atrás de mim e nem precisei olhar para saber que era o Caios.
- Eu não sei quanto a ti, , mas eu cá não tenho o dia todo, por isso faz-me um favor e mexe-te cara!
- Tu de vez em quando consegues ser um chato de primeira. – respondi, com um sorriso travesso ao virar-me para ele.
- Já me chamaram de coisa pior. – constatou Caios, tirando a minha única bagagem da mala do carro.
- Também já te chamaram de melhor, certamente. – contra-argumentei.
- Touché! – exclamou, fechando a mala. – Agora vamos lá, priminho, há uma certa senhora que está ansiosa por te dar o abraço dos dez anos.
- Abraço dos dez anos? – perguntei, confuso, seguindo-o até as escadas.
- Sim, meu caro, a dona Camélia está a formigar por todos os seus poros, ansiando pelo abraço que já não te dá há dez anos! – explicou-me, parando na frente da porta. – Preparado?
Nem tive tempo para reagir. Assim que a porta foi aberta, ouvi um som gutural semelhante a um grito entusiasmado de mulher e, no segundo seguinte, vi a minha tia de agulha e pano na mão, na frente da porta, com um sorriso resplandecente e até mesmo um pouco exagerado.
- ! Meu Deus, és mesmo tu! – exclamou a minha tia Camélia, atirando os objetos para o chão para me encurralar o tronco com seus braços rechonchudos e desconfortáveis. – Cresceste tanto. Parece que foi ontem que tu entraste por aquela porta com o Caios, ambos sem as calças depois…
- Ok! Ok! Ok! Mãe, o já entendeu! – interrompeu Caios, falando desesperado num tom esganiçado. – Não é necessário entrarmos em detalhes sórdidos do meu passado negro. Não faço questão que mais ninguém saiba o que eu fiz ou não com as minhas calças. Muito menos os nossos clientes. – falou, sorrindo para uma moça que estava sentada na poltrona perto da lareira.


Capítulo 3 – Rotina

Vielmond

O quarto número 13 era pequeno e aconchegante, perfeito para mim. No centro do quarto estava uma cama de casal, era evidentemente mais baixa do que o habitual, mas era necessário que assim fosse, caso contrário a cama não caberia dentro do sótão.
Na parede oposta à da porta havia uma pequena janela, perto estava uma televisão, e na outra ponta, uma estante velha com livros antigos e empoeirados. As cores deambulavam entre o branco da madeira, do chão e teto, o azul nos desenhos da colcha da cama, e o castanho da mobília, quase inexistente.
A roupa de cama cheirava a algo cítrico. O aroma agradável e sutil aos poucos se apossava dos meus pulmões. E algo me dizia que toda a minha roupa iria adquirir este cheiro exótico, eventualmente.
Eu estava deitado na cama, sem t’shirt ou qualquer outra coisa que me aquecesse o tronco. O silêncio que reinava no aposento deixava-me tranquilizado. Eu costumava adorar o barulho, o som da música alta batendo contra o meu peito, a agitação à minha volta, lembrando-me de que eu não era o único que se sentia vivo depois de uma boa dose de álcool no corpo.
Gostava da sensação de êxtase que a música e a bebida me proporcionavam. Da forma rápida e eficaz com que estas duas coisas me faziam esquecer de quem eu era, daquilo que eu já fiz e de onde eu vinha. Mas eu também apreciava a ausência de som, a calma e plenitude que eu conseguia atingir quando mantinha a cabeça limpa dos problemas e das questões sem resposta.

Não desligue a primeira música

O assobio do vento encheu o quarto junto com a rajada forte de vento. Olhei para a janela entreaberta e só então percebi que chovia lá fora. Levantei-me apressado para fechá-la. Inclinei o meu corpo para alcançar a porta, quando a vi andando no meio da chuva. Avila caminhava apressada para o norte, debaixo de um guarda-chuva partido pelo temporal. A distância não me deixava ler a sua expressão, mas eu quase conseguia sentir o frio que passava por baixo do seu vestido rosa. Avila dobrou a esquina e eu acompanhei-a até a minha vista não poder mais alcançar a garota.
A sensação inquietante voltou forte. Subitamente eu tive uma tremenda vontade de segui-la, mas a minha consciência falou mais alto. Eu não tinha qualquer motivo, qualquer razão ou qualquer direito de ir atrás dela, sequer tinha o direito de lhe dirigir a palavra. Durante toda a minha infância, eu não fiz outra coisa que não fosse magoá-la. E, durante toda a minha ausência de Fireflies Place, eu não me lembro de tê-la recordado uma vez que fosse.
Percebi, então, que naquela manhã eu agi por impulso. Fiquei deslumbrado pela sua inegável semelhança com , essa era a única justificativa possível para o meu comportamento lunático.
Faltavam três minutos para a meia-noite. Para mim ainda era cedo, mas para ela era tarde. não parecia ser o tipo de garota que saía de casa depois das dez. Ela era uma boa garota, filha de bons pais, com bons costumes e boa índole; eu, em contra partida, era um exemplo daquilo que não se devia ser. Um marginal com um longo historico de noitadas na cadeia, um encrenqueiro mal falado pela boca do povo, um filho que só dava dor de cabeça e desgosto aos pais. Um poço de prevaricação e más intenções, eu era assim, um lixo humano. Um erro da natureza que deveria ter sido apagado no dia em que a minha alma morreu com .
Mas a questão agora era outra, eu estava curioso sobre para onde ia. Ridiculamente interessado. Contudo, eu não iria acatar ao meu desejo descomunal e segui-la, eu ia agir coerentemente e dormir.

Acordei ao esfregar os olhos, numa tentativa frustrada de os abrir sem sentir o incômodo da luz do dia. O resultado foi pouco ou nada, mas eu não fiquei quieto à espera que as minhas pupilas se adaptassem à iluminação no quarto. Levantei-me, sem preguiça, para ir até o banheiro, depois de soltar um longo bocejo.
Mal abri a porta, assustei a minha - até então desconhecida - vizinha de piso, ao surgir no corredor usando apenas calças.
O rubor nas suas bochechas deixou-me um tanto com pena dela, mas antes que eu me pudesse desculpar, a garota voltou para dentro do quarto, fechando a porta com o trinco.
Surpreendi-me com a atitude virginal dela e tive que conter uma gargalhada alta de deboche. Depois de alguns segundos a esperar por algum sinal de vida da minha vizinha, ignorei o sucedido.
Entrei no banheiro e saí pouco depois, cheirando a sabonete de lavanda, enrolando uma toalha branca na cintura. Sorri malandro ao imaginar os olhos esbugalhados da garota do quarto 12, embaraçada ao me encontrar agora, apenas de toalha, no corredor.
O meu lado maldoso quis bater à sua porta só para poder brincar mais um pouco com a coitada, contudo eu reconheci que aquilo não era certo e poderia vir a trazer problemas para os meus tios. E isso era algo que eu queria evitar a todo o custo.

Não foi necessário chegar à sala de refeições para sentir o aroma do café da tia Camélia no ar. Os sons de talheres ameaçavam a quantidade de pessoas em volta das mesas circulares.
Mia foi a primeira a me ver. Levantou os cantos da boca sorrindo genuinamente doce, de uma forma que só ela sabia fazer. A minha prima mais nova, que agora tinha dezesseis anos, havia se tornado uma bela moça. Os seus longos cabelos pretos contrastavam perfeitamente com a sua pele de porcelana e os seus enormes olhos expressivos, do mesmo tom de azul dos de Caios.
- , senta-te aqui! – falou ela, atraindo a atenção dos outros para mim.
- Ui! A Cinderela já acordou do seu sono eterno!
- Caios, cala a boca – cortou-o Maximos, indisposto, do outro lado do salão.
- A boca é minha, seu…
- Hey! – exclamou o meu tio Rodolf, batendo com a mão sobre a mesa. – Parem já! Onde já se viu dois marmanjos discutirem como se fossem meninas de cinco anos.
Seria mentira se eu dissesse que não tive vontade de rir ao ver os meus dois primos mais velhos serem repreendidos pelo pai, como se fossem duas crianças malcriadas. Mas, mais uma vez, senti que o respeito deveria levar a melhor e optei por fingir que nada se passou.
- Caios! – sussurrei-lhe, sentando entre ele e a irmã. – A que dorme eternamente não é a Cinderela. É a Bela Adormecida.
- Touché – cantarolou, sorridente, no mesmo tom de voz.


Avila

- ! Já passam das oito e meia, eu não vou esperar nem mais um minuto – avisou a voz impaciente da minha mãe.
- Eu já vou! – resmunguei, olhando para baixo da cama. – Eu só… Mãe, vai andando para o carro, eu já desço.
- Despacha-te! – gritou, zangada, batendo a porta atrás de si.
- Merda, merda, merda – maldisse, sacudindo a poeira dos collants. – Onde é que eu coloquei a porra das sapatilhas?
Mordi o lábio inferior, pensativa. Olhei para a gaveta aberta da cômoda, apenas para confirmar mais uma vez que não havia nada que me interessasse lá. Os ponteiros do despertador em cima do criado mudo marcavam oito e trinta e dois e, inevitavelmente, imaginei a carranca furiosa que a minha mãe faria quando eu entrasse no carro.
Ontem de noite, após sair do Luzes da Ribalta, eu tinha colocado as sapatilhas dentro da sacola preta. Pode ter sido o cansaço que me anestesiou um pouco a memória, ou a pressa em fugir da chuva, mas eu recordava-me disso bem demais para que fosse ilusão.
Soltei um suspiro derrotado, após meio minuto perdido a olhar para todo o cômodo, e abandonei o quarto, com a cama por fazer e as gavetas reviradas.
Ao passar no hall, vi o vulto do meu pai, usando um robe azul-marinho, entrar na cozinha para tomar o seu café da manhã.
Nem ele e nem a minha mãe perguntaram nada sobre o meu súbito sumiço da igreja ontem, e agradeci por nenhum deles o ter feito, porque, honestamente, eu não saberia o que dizer sem que parecesse no mínimo desequilibrada.
“Eu só fugi descalça da igreja e quase fui atropelada porque queria muito ler a nova carta do Negrume da Noite!” Não! Nem na minha mente soava normal.
- Até logo, pai! – berrei, saindo porta fora, sem esperar pela resposta.


Vielmond

Música: Youth - Daughter

Senti a nuca arrepiar pelo vento gélido que cortou a minha pele, impiedoso. Eu estava desacostumado ao frio de Fireflies Place, mas, pelo visto, eu era o único.
Caios conduzia a velocidade moderada, de rádio ligado e janela aberta. O céu estava relativamente nublado, num tom aborrecido de cinza. Os vidros do carro estavam embaçados e molhados, devido ao temporal da noite passada.
Limpei o vidro da janela com a manga da camisa para poder ver a rua. Um casal jovem entrava de mãos dadas num pub, rindo de alguma piada aparentemente divertida. Mais à frente, passavam duas meninas, de uniforme escolar, correndo despreocupadas pelo gramado do jardim municipal, carregadas com um brilho genuíno no olhar. Um brilho típico de criança, um brilho que eu um dia tive.
Bastou eu fechar os olhos para conseguir ouvir a gargalhada esganiçada de no fundo da minha cabeça, ecoando repetidas vezes de forma crescente e lúcida. Era incrível como eu ainda tinha a sua risada tão bem decorada na minha memória, contudo, ela não soava exatamente como a original. Na minha mente havia uma pequena dose de angústia por trás da gargalhada infantil e, talvez, tenha sido esse o motivo para que eu tenha reagido impulsivamente e aberto os olhos de sobressalto.
Caios encostou o carro de repente, sem reparar na minha atitude. Vi o seus olhos acompanharem uma miúda de cabelos longos e escuros, que atravessava a passadeira na nossa frente.
- Alinne! – chamou ele, tentando obter a atenção dela. – Alinne! – repetiu em vão.
- Caios, eu acho que ela não está a ouvir – afirmei, acompanhando o passo rápido dela. – Tens a certeza que é ela?
- , meu caro primo, eu posso não saber muita coisa nesta vida, mas se há coisa que eu conheço de todos os ângulos possíveis e imagináveis é o corpo daquela mulher ali – deu ênfase na última palavra. – Aquela é a Alinne.
Percebi que ela não parou sequer para olhar para trás. Parecia que a garota estava a tentar evitar o meu primo, e rapidamente cheguei à conclusão de que aquela não era apenas mais uma conquista de Caios, mas sim alguém do seu passado. Alguém importante.
- A Alinne é só um caso delicado! – constatou ele, a meio de um suspiro entristecido, quando a viu já consideravelmente longe.
- Aham! – murmurei em concordância. – Define delicado! – pedi, levantando uma sobrancelha esperta.
- Mais tarde, Vielmond, mais tarde – bateu de leve no meu ombro, sorrindo breve, e depois ligou o carro rumo à oficina Vielmond.


Avila

Ashton estava de pé, em cima dos bancos do balneário, dançando loucamente ao ritmo de Wannabe das Spice Girls, enquanto Genevive ria e aplaudia a loira.
Violet Jones, para variar, abanava a cabeça em discordância, apoiada na porta do seu cacifo, devidamente arrumado.
- Vocês não vão crescer nunca? – interpelou, irritada.
- Violet, deixa esse teu lado de velha bruxa e aproveita o momento como uma mulher de vinte e dois anos normal.
- Olha aqui, Delevingne, eu sou normal! – indagou, insultada com o comentário da loira. – Eu só não gosto de perder o meu tempo com brincadeiras de criança. E, por falar em criança, deem-me licença, eu tenho uma aula para dar.
E saiu sem dizer mais nada.
- Eu às vezes pergunto-me como consegues aturar esta tua irmã, Gen – falou Ashton, descendo do banco de madeira. – Ela é tão… tão azeda!
- Educação oriental – declarou prontamente. – A Violet sempre sofreu mais pressão por ser a mais velha.
- Ainda bem que somos europeias e filhas únicas! – dirigiu-se a mim sem pensar. – Oh! Er… quer dizer…
- Esquece, Ash – soei serena, mas cortante. – Sei que não foi a tua intensão – sorri, tentando aliviar a culpa na expressão da minha amiga.
Ashton era assim, espontânea e sincera. Por vezes caía no erro de deixar a sua boca tomar conta do seu cérebro e acabava por disparar algum comentário desagradável. Mas eu sabia que ela não o fazia por mal, estava escrito nos seus olhos e rosto. Ela era apenas uma garota de dezessete anos, com um grave problema de autocontrole e uma tremenda dose de autoestima, ou pelo menos era o que ela transparecia para a maioria das pessoas. Porque, a mim, ela não enganava.
- Sim, sim! O treinador foi muito claro durante o treino de sexta, ele está à procura de novos membros para a equipe.
As vozes vindas do balneário masculino apelaram pela nossa atenção e, imediatamente, paramos a nossa conversa para escutarmos outra.
- Ele não está satisfeito conosco – declarou Wilfred, o rapaz que adorava um belo rabo de saia.
- Ultimamente o nosso rendimento não tem sido o mesmo – completou a voz de Tate, o loirinho sempre discreto. – É natural que ele esteja a procurar novos membros.
- Isso tudo são baboseiras – cuspiu Colton, num notório tom arrogante. – O rendimento não baixou, estamos em alta! Atrevo-me a dizer que nunca estivemos melhor! – concluiu, exibindo provavelmente um sorriso caro e presunçoso, que eu tanto desprezava ter que olhar.
- O que achas, Rick? Será que o teu pai está mesmo a procurar alguém?
- É possível – respondeu, indiferente, como sempre.
Percebi movimento do meu lado, quando Ashton começou a dar pulinhos de criança, fazendo Gen colocar uma mão na boca, para controlar o riso.
- Carne fresca! – sussurrou ela, batendo palmas miúdas, freneticamente.
- Ashton! – exclamei, intolerante, ainda que com um sorriso travesso nos lábios. – Controla esse teus hormônios, mulher.



Capítulo 4 – Segundo olhar

Eu sentia o suor escorrer pelo meu pescoço até o fundo das costas, fazendo com que o body colasse ainda mais no meu corpo, e eu realmente achava que isso não era possível! Os espelhos do estúdio de dança estavam baços, graças ao calor humano dentro da sala. A voz de Daina Avila sobrepunha-se ao volume máximo da música clássica, que saía ruidosa das colunas do velho rádio vermelho. O meu corpo ardia cansado, e a respiração era cada vez mais vacilante.
- Sauté, sauté, sauté, sauté – de olhos vincados por dor, eu conseguia ouvir a voz exigente da minha mãe.
- Es-tou a mor-rer! – pigarreou Ashton, ofegante.
- Echapé, echapé, echapé, echapé.
“Está quase”.
- Relevê! – paramos todas em meia ponta, de forma coordenada e elegante. – E desce! – falou finalmente, arrancando sons de alívio de todas as bailarinas, incluindo eu. – Podem descansar, a aula acabou por hoje.
- Água! – exclamou Genevive, correndo para o balneário.
- Gen, espera! – gritou Ashton, tentando caçar a garota asiática. “Doidas”, sorri, olhando para as minhas amigas.
- Que sorriso idiota é esse, Avila? – perguntou a vozinha aguda e irritante que tendia em atazanar a minha vida. – Viste passarinho verde?
- Não, Giselle – encarei-a com a minha melhor cara de enjoo. – Estava só a pensar na última vez que foste rejeitada pelo Caios – levantei uma sobrancelha sugestiva, antes de sorrir triunfante, abandonando a loira oxigenada com cara de tacho ofendida. Eu realmente não gostava de jogar baixo, mas a Giselle nunca nos deixava outra hipótese.
- Lindsay! – berrou com um sotaque francês de quinta. – Vamos!
A loira oxigenada número dois - tal como Ashton a havia intitulado - obedeceu a dona sem contestar, levantando-se de imediato, de forma desajeitada e até mesmo um pouco patética.
Observei como Lindsay seguiu Giselle tão religiosamente. A sua atitude chegava a ser digna de pena. Não me cabia na cabeça como alguém conseguia sujeitar-se a ser o cachorrinho da Giselle.
A sua falta de escrúpulos e a sua vaidade exacerbada tornavam-na num dos seres mais repugnantes que eu conhecia. Esperei o estúdio esvaziar para poder deitar-me no soalho de madeira, aproveitando para descontrair os músculos. O som de um andar delicado acusou a chegada de Daina Avila. A incandescência das lâmpadas da sala desapareceu do meu rosto quando a minha mãe se debruçou sobre mim.
- , hoje estiveste muito bem, mas não posso admitir que voltes a esquecer-te do material.
Como era de esperar, depois de um elogio, veio a repreensão. Típico! Daina nunca seria ela mesma se não encontrasse defeito em algo que eu fazia.
- Tu deves dar o exemplo, não voltes a esquecer-te das sapatilhas – e afastou-se, mesmo antes de ouvir o resmungo. Eu sabia que o meu argumento de defesa só iria desencadear mais uma discussão com Daina. Ela tinha uma incrível capacidade em ser inflexível em todas as matérias, exigindo nada mais do que a perfeição. Algo que nenhum ser humano lhe poderia dar. Era frustrante, tanto para ela quanto para mim, mas eu já me havia cansado de tentar agradá-la. Eu não era perfeita, nunca seria ou tentaria ser, não mais.

Desci as escadas vinte minutos depois, sem ouvir nada. Quando cheguei ao térreo, não encontrei nenhuma alma viva a perambular pelo hall e fui em direção ao vestiário para poder tomar o meu banho.
Um som parecido com um assobio chamou a minha atenção. Pestanejei, tentando perceber de onde vinha o barulho, mas não consegui entender. Sacudi a cabeça em negação, achando que o som devia ter sido fruto da minha imaginação fértil, mas logo em seguida o mesmo ruído repetiu-se e, desta vez, bem mais próximo. Olhei para trás, mas não encontrei ninguém. Irritada com a brincadeira, decidi tentar adivinhar quem era.
- Ashton?
- Nome errado, Avila! – uma lufada de ar quente, trazida por um hálito a tabaco, sussurrou no meu ouvido, fazendo com que todo o meu corpo estremecesse em desagrado.
Antes que eu pudesse virar, duas mãos ágeis e fortes agarraram a minha cintura e puxaram o meu corpo para o interior do vestiário masculino.
Tentei gritar, mas uma das mãos tapou a minha boca, mesmo antes de eu tentar. O azulejo da parede estava gelado e úmido. Rick riu satisfeito, prensando-me com força contra a parede. Eu podia ver nos seus olhos azuis o quanto ele se estava a deleitar com a situação, e isso só apurava mais a minha vontade de espancá-lo.
- O que é que tu queres, Rick? – rosnei, zangada, quando ele decidiu tirar a mão da minha boca.
- Hum! Vejamos, o que será que eu quero? – perguntou, zombeteiro. – Eu acho que quero brincar, Avila. Queres brincar comigo? – o seu olhar sugeria o tipo de brincadeiras que ele tinha em mente.
- Larga-me! – exigi, enraivecida. Tentei remexer o corpo, mas o dele pesava demasiado sobre o meu, impedindo-me de exercer movimentos bruscos. Rick soltou uma gargalhada alta, divertindo-se com o meu desespero, e isso só atiçou mais a minha vontade de espancá-lo.
- Eu largo-te, mas assim não vais ter aquilo que queres – murmurou próximo demais ao meu rosto.
- Eu não quero nada vindo de ti.
- Não? – perguntou, encostando a boca no meu lóbulo direito. – Tens a certeza? – mordiscou-o, alimentando a minha repulsa. – Mas então, e as tuas sapatilhas de ponta? Tu não queres as tuas sapatilhas de ponta?
- Seu filho da…
- Ah! Então, Avila, a mamã e o papá não te deram educação, não? – mostrou um ar falsamente indignado. – Ou só ensinaram à que dizer palavrões é feio?
Sem entender direito de onde veio toda aquela força, empurrei o seu peito com força suficiente para fazê-lo cambalear até o outro canto do vestiário.
- Tu dás-me nojo – berrei, nervosa.
- Vamos ver por quanto tempo – Rick espicaçou, mantendo o seu sorriso trocista, enquanto se levantava. – Tu ainda vais comer na palma da minha mão, . Ai, se vais!


Vielmond

– Pensei que não seria possível sentir calor estando seis graus de temperatura ambiente, mas pelos visto enganei-me – Caios comentou, tirando a camisa xadrez que usou no dia anterior.
Estávamos há pelo menos quatro horas em volta daquela moto. Quando aceitei o desafio de recuperá-la, não esperei que pudesse dar tanto trabalho. O motor estava completamente destruído e os calços dos travões precisavam ser mudados urgentemente.
O meu tio Rodolf havia nos incumbido de restaurar aquela deslumbrante sucata, e, em troca, eu poderia ficar com ela, livrando o meu primo do seu cargo de taxista.
No momento, aquela ideia soou como música, tanto aos meus ouvidos quanto aos de Caios. Eu não precisaria mais depender do meu primo, e ele não teria de trabalhar como meu chauffeur.
Mas não foram precisos nem vinte minutos em volta do veículo para que chegássemos à brilhante conclusão de que Rodolf Vielmond tinha-nos tramado à grande. Aquela moto estava pronta para se aposentar e agora tínhamos de repará-la, mesmo não fazendo a menor ideia de como alcançar tal feito.
- Que horas são? – perguntei, ainda com o olhar completamente absorto na moto.
- Faltam cinco para as seis da tarde! – respondeu um homem alto, de cabelo escuro e barba por fazer, que, até o momento, eu não havia reparado a presença.
Os seus olhos castanhos sorriram-me expressivos, pedindo por uma reação minha.
- Er… Obrigado, senhor…
- Belfast – sorriu, estendo-me uma mão grande e calejada. – Kal Belfast.
Revidei da mesma forma, estendo a mão, educado. No mesmo instante, uma sensação agradável atingiu-me e eu simpatizei com ele.
Desde os seus sapatos sociais até a gola da polo azul-marinho, tudo me inspirava uma certa confiança, uma certa segurança.
- Treinador? Mas que bons ventos o trazem cá? – interpelou o meu tio, limpando as mãos sujas de graxa ao seu fato-macaco. – Não me diga que a lambreta voltou a dar o berro!
- Não, meu caro, hoje vim cá por outro motivo – informou-o, dirigindo o olhar para Caios, que surgiu do meu lado de ouvidos atentos. – Eu queria convidar o seu rapaz mais novo e este aqui a entrarem na equipe de boxe.
Levou apenas meio segundo para que eu entendesse que o “este aqui” referia-se à minha pessoa. E não levou nem um milésimo para que eu defendesse o meu nome.
- O meu nome é – soei um pouco ríspido demais para o meu próprio gosto.
- ! – repetiu, parecendo não ter ficado ofendido com o meu jeito rude. – Diz-me, , tu nunca pensaste em lutar?


Avila

Música: Cups - Anna Kendrick

- São duas cervejas para a mesa seis, e aquele ali no fundo do balcão… – Alinne inclinou o corpo apontando para um homem de cabelos grisalhos e casaco escuro. – …acho que é uma vodka de limão.
- Mas são dez da noite! – indaguei, franzindo o cenho. – Não é um pouco cedo para uma vodka de limão?
- Nunca é cedo demais quando o assunto é um desgosto amoroso, Avila – sussurrou Kellan, surgindo atrás de mim. – Vai logo servir o pobre homem, com sorte ainda consegues uma boa gorjeta.
- Eu não vou extorquir dinheiro de um mal-amado, isso é errado!
- Ok! Mas então não sorrias quando o servires… – puxou o pano que estava pendurado no meu ombro para limpar um copo. – …caso contrário, ele não vai resistir a dar-te um bônus na hora do pagamento.
- Kellan, cala a boca! – ordenei-lhe, saindo com um sorriso idiota no rosto.
Kellan era o meu melhor amigo. E ao contrário do que muita gente pensava, nós não passávamos disso. Não que ele não fosse bonito. Ele era, e muito, diga-se de passagem! Os seus cabelos eram castanhos caramelo, os seus olhos eram de um tom penetrante de verde e a sua estrutura era máscula. Ele exalava sedução, e via-se como todas as nossas clientes do sexo feminino ficavam felizes quando era ele a servi-las. Mas Kellan era diferente da maioria dos rapazes, ele não me via como uma mulher, como um alvo, ele via além disso. A sua capacidade de me compreender e desarmar a minha mente assustava-me. Kellan sempre tinha a palavra certa, mesmo quando eu não pedia.
Quando cheguei ao fundo do balcão com o copo de vodka, o homem nem notou a minha presença. Os olhos estavam presos nas suas mãos, pousadas no balcão. Pensei em perguntar-lhe se ele precisava de mais alguma coisa, mas tive medo de parecer inconveniente, então pousei o copo na sua frente e continuei a trabalhar.
- .
Levantei o rosto procurando por Alinne, mas não por muito mais tempo. A porta do pub abriu-se, trazendo os três Vielmonds consigo.
O sorriso no rosto dele desapareceu assim que os nossos olhares se encontraram pela segunda vez.
Eu perdi a noção de tudo o que se passava à minha volta. Os tilintares dos copos e talheres, a música ambiente e as vozes que conversavam foram dizimados a um insignificante eco no fundo da minha cabeça.
Subitamente o pub não estava mais lotado de clientes animados e barulhentos. Éramos apenas eu e ele. Cada um do seu lado, unidos por uma estranha conexão de olhares, uma conexão tão forte que quase se podia tocar. Como se uma corrente de aço nos prendesse um ao outro e não houvesse chave no mundo que pudesse abrir aquele cadeado.
E eu soube naquele exato momento que, de alguma forma, eu estava realmente presa por essa corrente imaginária.



Capítulo 5 – Saudade

Vielmond

Por um nano segundo, eu juro que imaginei que talvez aquele olhar pudesse significar algo. Algo que nem eu não sabia decifrar ao certo, mas enganei-me.
Quando a fugiu para fora do pub, isso ficou bem claro. Ela não suportava a minha presença e eu não tinha como a culpar por isso. Foi bastante evidente a perturbação que eu lhe causei quando tentei arriscar um meio sorriso de cumprimento e ela limitou-se a fugir a sete pés como se eu fosse alguma assombração.
O irônico de tudo isto é que em parte eu sou! Eu sou um fantasma do seu passado amaldiçoado. Alguém com quem ela não gostaria de estar, alguém com quem ela só partilha memórias infelizes.
De fato, eu não tenho em memória recordações minhas e da . As únicas de que me consigo ver foram também na presença de , e nessa altura eu pouco me importava se a estava lá ou não.
E foi por esse mesmo motivo que eu não entendi o porquê de me sentir tão incomodado com a sua aversão à minha pessoa.
Anos atrás isso seria um alívio. Eu sempre soube que a mais nova dos Avila fora apaixonada por mim. Ela nunca me falou, mas também não foi necessário, a irmã mais velha havia me contado e eu próprio, ainda que criança, já tinha chegado a essa conclusão.
empurrava-me para a irmã tão constantemente que eu chegava a ficar irritado.
Irritava-me ao ponto de ofender a pobre , mesmo quando ela era gentil comigo. Mas nessa altura, eu não media as consequências dos meus atos, nem entendia que as minhas palavras atingiam tão ferozmente o coração apaixonado da pequena. Então, quando eu via os olhos da marejarem de tristeza por alguma atrocidade minha, eu não sentia pena ou qualquer tipo de peso.
No entanto, agora eu sentia o peso em dobro. não mereceu nenhuma das vezes o meu desprezo. Talvez seja por isso que a sua abominação em relação a mim me deixe tão agoniado. O peso na consciência veio tarde demais e eu perdi o direito de pedir desculpas, ainda que tudo se tenha passado quando éramos apenas crianças.
Vielmond! Pensei que nunca mais chamaria por este nome!
Sívio Avila surgiu na minha frente, impressionando-me com o mesmo aspecto de anos atrás. O estilo casual de antes ainda era o mesmo. A barba por fazer, o cabelo escuro e os olhos num azul contrastante remontavam-me à altura em que eu ainda pedia para que aquele homem me levasse para passear com a sua filha, até à clareira dos vagalumes de inverno.
– Sívio! – levantei-me para cumprimentá-lo de imediato. – Como vai?
– Isso pergunto-te eu? – respondeu, apertando a minha mão. – Meu Deus! Estás tão crescido, rapaz! Lembro-me que, da última vez que te vi, tinhas pouco mais de um metro e quarenta – gargalhou com a recordação.
– Já foi há bastante tempo – soei um tanto nostálgico.
– Verdade – confirmou, sorrindo-me compreensivo. – Mas enfim, o que já lá vai, já lá vai e a vida só anda para a frente, por isso conta-me tudo, rapaz! Estou curioso para saber o que andaste a fazer nos últimos dez anos. – Sívio sentou-se ao meu lado e cruzou os braços no peito. – Desculpem a intromissão, jovens.
– Ora essa, senhor Avila, o estabelecimento é seu. Esteja à vontade! – encorajou Máximos.
– Não há muito para lhe contar, senhor Avila! – gargalhei sem vontade. – A minha vida não mudou muito.
– Não acredito!
– Acredite, a verdade é que, desde que deixei Fireflies Place e mudei-me para Riverswood, a minha vida pouco mudou.
– Bobagens! Tenho a certeza que tens algumas histórias que eu vou querer ouvir – insistiu. – E podes contar-me todas elas este fim-de-semana, num jantar em minha casa. Estou certo de que a vais adorar ver-te.


Avila

– Filha – era a voz da minha mãe que sussurrava pela segunda vez no meu ouvido tentando acordar-me. Eu mantinha os olhos fechados, evitando que a luz matinal ferisse-os, mesmo já estando desperta.
– Hum! – murmurei.
– Tens de te levantar – avisou meiga. – O café-da-manhã já está pronto. Arruma-te, eu vou ficar à tua espera lá em baixo.
– Eu já desço – articulei baixo, depois de ela já ter saído do quarto.
Eu tinha chegado em casa às quatro e vinte da manhã, e apesar de acordada, eu estava um farrapo. Todo o meu corpo chorava por mais um pouco de descanso, mas até o meu relógio biológico reconhecia que já passava da minha hora de levantar. Eu só tinha pena de a vontade não ser muita.
Fui de arrasto escadas a baixo até chegar à cozinha, onde, enrolado no seu robe azul-marinho, estava Sívio Avila, sentado à mesa, com o jornal do dia colado no rosto e o café a fumegar na sua frente.
– Tens de aquecer o chá – informou-me assim que eu peguei no bule.
Pousei o bule na boca do fogão e acendi-a.
Estava um belo dia para a época do ano. Geralmente em Outubro, os dias não eram tão iluminados na Irlanda, pelo menos, não em Fireflies Place. Mas hoje, em particular, estava um dia bonito, um dia de primavera, em pleno outono.
Desviei o olhar para a água que começava a ferver e pousei os cotovelos no balcão da cozinha, entediada. O meu pai pareceu perceber o meu aborrecimento matinal…
– Tu nem vais acreditar quem eu encontrei ontem – começou, pousando o jornal na mesa. – Vielmond! – o meu corpo inteiro enrijeceu com a simples pronunciação daquele nome. – Não sei se lembras bem dele. Ele costumava brincar com…
– Eu sei quem ele é, pai – cortei-o, pegando no bule, nervosa.
– Ah! Ótimo. Eu convidei-o para jantar connosco no sábado.
– MERDA! – o palavrão saiu rápido demais para eu puder evitá-lo, mas quando a água quente caiu na minha mão, eu não tive como me conter.
, estás bem?
– Estou – afirmei, enfiando a mão debaixo da torneira. – Eu só tenho de deixar água fria escorrer.
– O que aconteceu? – perguntou já do meu lado.
– Distraí-me – menti, sem encará-lo. – Foi só isso.
– A tua mãe está à tua espera no carro – constatou, alerta. – Leva uma fruta contigo e eu limpo isto.
– Obrigada! – agradeci e despedi-me do meu pai, com um beijo estalado na bochecha.


Vielmond

Pousei a rosa azul na campa dela e coloquei a mão sobre a lápide fria, sentindo o ar ser arrancado dos meus pulmões. Era a primeira vez que eu ali estava. Nunca antes havia entrado naquele cemitério, muito menos visto a sua sepultura.
Era simples, contudo, não havia qualquer fotografia que pudesse identificar o corpo, apenas o seu nome gravado na pedra e a surpreendente frase que a identificava na perfeição.

Avila
“A caçadora de Vagalumes de Inverno”
1994 – 2003

Apenas isso. Toda uma vida marcada em uma tábua de pedra igual a tantas outras que ali estavam. Eu sentia revolta. Raiva por saber que aquele seria também o meu fim, ódio por achar que não merecia ter morrido tão nova, tão cedo.
– Deus! – suspirei em tom desmoralizante. – Mas que belo Deus!
Cerrei os olhos contendo a ira interna. Aquele não era o momento certo para descontrolos racionais. Acreditando em Deus ou não, eu devia conter a minha aversão a qualquer religião e respeitar o lugar.
merecia o meu respeito, acima de tudo.
Uma lágrima quente caiu, contornando o meu rosto com o seu rastro gélido. Eu sempre odiei chorar, mas era algo que eu não conseguia evitar, principalmente quando o assunto era a minha menina.
– Até o céu chora de vez em quando – falei para mim mesmo.
Inspirei profundamente, lutando contra a dor que se alastrava no meu peito, porém foi escusado.

“– , estás bem? – perguntou, preocupada. – , estás a sangrar! – exclamou, inclinando-se para o amigo. – Deixa-me ver isso.
– Não! – gritou, empurrando-a com um empurrão brusco.
– Tu estás a chorar!
– Não estou nada.
– Estás sim, seu casmurro! – insistiu, petulante. – E não devias ter vergonha disso.
– Os homens não choram – esbravejou, enxugando o rosto.
– Tolice.
Corajosa, reaproximou-se de sem temer e abaixou-se ao nível do menino para poder analisar melhor o joelho ferido.
Uma careta de desgosto surgiu na face angelical da menina quando ela viu o tamanho do estrago. Mas ela sabia perfeitamente que não era a ferida em si que o fazia chorar naquele momento
. – ! – chamou-o em sussurro. – Não faz mal chorares – sorriu terna, levando a pequena mão ao rosto do amigo. – Até o céu chora de vez em quando.”

– Desculpa – implorei, pesaroso. – Eu podia ter feito as coisas de outra forma, eu podia ter estado contigo na hora…
Fui interrompido pelo som de vidro a estardalhar-se no chão.
Instintivo, levantei o rosto lavado em lágrimas e olhei para o local onde o castiçal de um dos túmulos mais atrás havia sido derrubado. Um vulto escuro chamou a minha atenção, afastando-se a largos passos, obviamente a fugir. Tentei perceber quem era, mas a distância não me deixava reconhecer a pessoa.
– Hey! – exclamei, tentando fazê-lo parar. – Hey! Tu aí!
O corpo continuava a mover-se para fora do cemitério sem me encarar e instintivamente comecei a correr atrás dele.
Despreocupado com as caras de escândalo nas faces das senhoras de idade, comecei a atravessar aquele cemitério sem me importar com os estragos que eu poderia causar nas campas.
O vulto passou a correr, confirmando-me de que ele estava ali para me observar e não queria que eu o reconhecesse de forma alguma.
Algo ligado ao fato de ele ter me observado no meu estado mais vulnerável, fez com que claramente me sentisse ameaçado.
Ignorei o cansaço que começava a tomar-me e acelerei ainda mais. Quando alcancei o maldito portão do cemitério, seguro de que agora seria mais fácil encontrar a pessoa, olhei para os dois lados da rua e ninguém estava ali.
Uma insana raiva voltou a crescer dentro de mim. Cerrei as mãos em punho e inspirei todo o ar que os meus pulmões podiam suportar, mas isso não chegava para aliviar a ira.
– Inferno! – esbravejei alto demais, arrancando um olhar desgostoso do casal de meia idade que saía do santuário.


Avila

Cheguei atrasada ao Neon, tal como calculei. Depois da avassaladora notícia daquela manhã, Vielmond e o jantar de sábado era o meu único pensamento constante.
Mal entrei pela porta principal, três olhares curiosos tomaram-me numa análise nada tímida. Imediatamente, a minha voz interior alertou-me sobre a longa conversa que me esperava. Uma daquelas conversas que eu gostava de ter talento para evitar.
A primeira a abandonar o seu posto de espectador interessado foi Genevive, que se distraiu com a chegada do Kellan ao círculo analista.
Ashton e Alinne, no entanto, não se deixaram afetar pela chegada do meu melhor amigo. E durante todo o meu trajeto até elas, ninguém ousou pestanejar.
– Eu tenho alguma coisa na minha cara? Ou vocês só estão a tentar matar-me com o olhar? – aventurei-me a perguntar, numa tentativa falha de quebrar a tensão.
– Muito engraçadinha, Avila. Andaste a pensar nessas gracinhas ontem de noite, enquanto fugias do Vielmond?
– Quem? – tentei soar desentendida. – Do que é que estás a falar, Alinne?
, . Minha doce – Ashton pousou uma mão no meu ombro, estranhamente teatral.
– Ash, deixa os filmes musicais! – disse a Gen.
– Calou! – fuzilou a asiática com o olhar. – Esse não é o ponto de conversa neste momento. Vielmond, pelo contrário... – voltou os seus olhos azuis mais uma vez para mim – é um ótimo tema para a nossa tertúlia.
– Ashton, que porra de linguagem é essa?
– O que se passa entre ti e o primo do Caios? – interpelou Alinne, ignorando as duas avoadas. – Por que é que fugiste quando ele entrou aqui ontem à noite? – olhei para todos à minha volta, sentido o rosto arder. – Não mintas, !
– É uma história antiga – expliquei, inquieta.
– Eu disse que ela não ia falar!
– Cala a boca, Ashton – ordenou Alinne. – , tu por acaso já sentiste algo por esse rapaz? – soou terna. – Tu já foste apaixonada por ele?
– Ele… – comecei vacilante. – Ele era o melhor amigo da minha irmã, e eu meio que…
– Ah! Mas que merda! – exclamou a loira. – Tu és apaixonada pelo Vielmond. Eu bem disse Genevive!
– Eu não sou apaixonada por ninguém, deixem-se de idiotices! – falei mais alto do que gostaria. – O faz parte do lado mau do meu passado e agradecia imenso que nenhum de vocês voltasse a tocar no nome dele perto de mim – engoli um nó na minha garganta impedindo-me de mostrar o quanto eu queria chorar agora. – Obrigada!



Capítulo 6 – Rosa

Vielmond

Parei a moto na frente do albergue, absorto nos meus pensamentos. Na rua não se ouvia qualquer som, exceto os habituais latidos de cães e a passagem de algum carro de tempo a tempo. Tudo normal!
Tirei o capacete e levantei o colarinho da jaqueta, abrigando-me do frio da noite. Passava um pouco das dez e vinte, o que significava que todos já se tinham recolhido. Desmontei a Harley e segui pelo passeio até o alpendre da casa vitoriana.
Coloquei a mão no bolso procurando pelas chaves e tentei ser silencioso. A fechadura fez um leve clique e eu entrei.
? – reconheci a voz no mesmo instante. Mia acendeu a luminária da mesa de apoio e sorriu-me meiga. Nas suas mãos, estava uma xícara com algo quente e fumegante.
A lareira ainda ardia forte, aquecendo a sala.
– Mia, não devias estar deitada? – sussurrei.
– Não devias ter chegado há duas horas? – levantou as sobrancelhas, audaz. – Onde estavas?
Bloqueei. Onde estava? Eu não queria dizer que estava no cemitério até estas horas, mas também não queria mentir.
– Não precisas responder, ! Senta-te aqui! – convidou-me, dando duas batidas no sofá.
Fiz o que ela pediu, meio vacilante. Algo dizia-me que a caçula dos Vielmond havia planejado esta conversa previamente.
– O Caios contou que o treinador Kal convidou-vos para entrar na equipe de boxe do Luzes da Ribalta – comentou, relaxada.
– Aham – anuí. – Mas eu não quero ir!
– É uma pena. Tu provavelmente serias uma mais-valia para eles – lamentou baixo. – E a está sempre lá com a mãe.
– A ? – fitei-a, repentinamente interessado.
– Sim! A mãe dela é sócia do treinador Belfast. Ela ensina ballet no andar de cima, e ele boxe no piso subterrâneo. A trabalha com a mãe – confirmou, sorrindo travessa. – Vocês eram amigos de infância, não é?
– Algo do gênero – ciciei.
– De qualquer das formas, eu acho que devias ir, nem que fosse só para experimentar. Ouvi dizer que o treinador Kal…
Não consegui prestar atenção no resto da conversa. Quando dei por mim, eu já cogitava a ideia de tornar-me praticante de boxe. Seria uma boa forma de me aproximar sem cair no erro de forçar demasiado a barra. Já bastava ter aceitado o convite para o jantar, sabendo que ela não ficaria nem um pouco satisfeita com a minha presença na sua casa. A partir de agora, eu tinha de dar passos miúdos. A era frágil, ao contrário da irmã.
Eu necessitava conquistar a sua amizade, era o mínimo que eu podia fazer. Sentia-me em dívida para com ela por todas as vezes que agi como um idiota, mesmo que o tempo para me redimir já tenha passado há muito, eu queria arriscar conseguir o seu perdão e, com sorte, a sua amizade.
– Tu não estás a ouvir nada do que eu te estou a dizer – bufou, frustrada. – Vielmond chamado à Terra! – estalou os dedos na frente da minha cara.
– Er… Desculpa, estava aéreo.
– Aham! Em outra dimensão, eu diria. Tu pensas demasiado no passado primo. Não podes-te torturar tanto, deixar que o teu passado dite o teu futuro é um atraso de tempo – Mia aconselhou-me, sem qualquer propósito.
Olhei-a abismado. Eu sabia que a Mia era uma rapariga bastante esperta, lembro-me dessa sua qualidade já revelada na idade precoce, mas eu não esperava que ela me fosse dizer algo daquele gênero. Nós nunca tínhamos convivido o suficiente para que ela pudesse tirar conclusões daquela qualidade e análise.
– Eu li isso em algum lado. Eu tenho uma incrível capacidade de decorar tudo o que leio – afirmou, presunçosa. – Tudo o que interessa, como é obvio! E sou uma grande observadora.
– Coloca grande nisso! – assegurei-a, ainda aturdido.


Avila

“– O que se passa entre ti e o primo do Caios? – interpelou Alinne, ignorando as duas avoadas. – Por que é que fugiste quando ele entrou aqui ontem de noite? – olhei para todos à minha volta, sentido o rosto arder. – Não mintas, !
– É uma história antiga – expliquei, inquieta.
– Eu disse que ela não ia falar!
– Cala a boca, Ashton – ordenou Alinne. – , tu por acaso já sentiste algo por esse rapaz? – soou terna. – Tu já foste apaixonada por ele?
– Ele… – comecei vacilante. –… ele era o melhor amigo da minha irmã, e eu meio que…
– Ah! Mas que merda! – exclamou a loira. – Tu és apaixonada pelo Vielmond. Eu bem disse Genevive!”

Apaixonada? Meu Deus, só mesmo a desmiolada da Ashton para tirar uma conclusão dessas.
Abalada? Mexida? Nostálgica? Sim, essas sim eram as únicas sensações que o conseguia despertar em mim.
Mas apaixonada? Deus, não! Isso já aconteceu há dez anos e nunca mais vai voltar a acontecer.
– Nunca digas nunca! – Daina exclamou, lendo os meus pensamentos. – Sívio, as coisas mudaram, Fireflies Place está a crescer, mas isso não implica que algumas famílias não venham a emigrar algum dia.
Estremeci em alívio ao perceber que a minha mãe não se tinha dirigido a mim.
– Daina, Fireflies Place é um lugar como nenhum outro – hora do discurso sobre a linda cidade onde vivemos. – Não há mais nenhum lugar em toda a Irlanda do Norte onde existam vagalumes de inverno. Não há mais nenhuma cidade no mundo que possa oferecer este espetáculo da natureza.
– Sívio, nem toda gente liga a isso. Já devias estar careca de saber – continuou, entornando o resto do leite na minha caneca. – , já chega?
– Ah, sim, mãe, está ótimo! – respondi, barrando o doce de amora na minha torrada.
– Hoje é quarta-feira?
– Sim, por quê? – interrogou, duvidosa.
– No Sábado, o filho dos Vielmond vem jantar aqui, preciso fazer umas compras antes.
Vielmond? – cogitou, estupefata. – Mas quando é que ele voltou?
– No domingo, acho. E eu mal o reconheci, se não fosse o fato de estar acompanhado pelos primos na segunda à noite, eu acho que ele me passaria despercebido.
– Meu Deus – suspirou a minha mãe. – Eu já não vejo esse rapaz desde…
– … a morte da – completei, fingindo indiferença.
– Exato! – concordou, desconfortável. – Por falar na tua irmã, quero passar no cemitério. Precisamos mudar as flores da campa.
Concordei com a cabeça em resposta e continuei a comer a torrada em silêncio.
– Eu preciso ir andando – informou Sívio, espreitando para o relógio de pulso. – Antes de ir para o Neon, tenho de passar nos correios, eu não sei o que aconteceu, mas a conta da luz e água não chegaram.
Desviei o rosto, fingindo que não tinha qualquer culpa no cartório, e xinguei-me mentalmente por ter destruído as cartas.
– Como assim não chegaram? – a minha mãe levantou-se, tirando as coisas da mesa.
– Não sei! Mas vou tratar isso agora mesmo – pegou nas chaves do BMW. – Vejo-vos na hora do almoço – e saiu.
Acabei de comer a torrada e fui escovar os dentes, quando voltei para baixo, Daina já estava a arrumar a vassoura dentro da dispensa.
– Vamos andando? – sugeriu.
Concordei com a cabeça e coloquei o meu casaco de ganga.

Atravessei os portões do cemitério, cabisbaixa. Era mais fácil encarar os meus coturnos pretos ao invés de apreciar a paisagem solitária que o cemitério de Fireflies Place me oferecia.
Depois de ter já lá entrado tantas vezes, era suposto eu estar habituada àquele ambiente.
Era suposto! Mas eu não estava. Mesmo sabendo que parte da minha irmã vivia ali.
Agora soava bizarro, mas quando eu era criança parecia lógico e natural. Nessa altura, visitar a campa da era fácil. A menina inocência de nove anos de idade adocicava a amarga realidade. Eu acreditava que, a qualquer momento, a minha irmã iria surgir viva na minha frente e voltaria comigo para casa.
Mas como era lógico, ela nunca voltou. Com o passar do tempo, eu fui perdendo a esperança e, depois disso, eu tive de aprender a conformar-me.

“– Mãe, vamos esperar só mais um pouco – suplicou a menina, puxando a barra da saia da mãe.
Daina abaixou-se ao nível da, agora, sua única filha e sorriu-lhe solene.
, nós temos de ir, filha. Na próxima semana, nós voltamos, eu prometo!
torceu a boca, desconsolada, e aproximou-se da campa da irmã. Como qualquer outra criança de nove anos, ela começou a chorar.
Não foi um choro escabroso e insuportável. O choro dela era retraído e envergonhado, tal como ela.
Depois de um ano desde o falecimento, ninguém esperava que ainda chorasse tanto pela partida da irmã, mas a menina não conseguia aceitar a perda.
– Mãe! – chamou-a, chorosa. – Por que é que a não apareceu?
– Filha…
– Tu disseste que ela morava aqui agora! Então por que é que, sempre que a visitamos, ela não aparece? – a menina soluçava entre as palavras. – Ela não nos quer ver?
– Não, meu anjo. Não é nada disso – apertou a pequena num abraço, esforçando-se para não se desmanchar em lágrimas também. – A tua irmã está sempre aqui. Ela ama-te, ela toma conta de ti, como qualquer boa irmã mais velha faz.
– Eu comecei a esquecer como é abraçá-la – choramingou, escondendo-se no abraço da mãe. – Eu preciso lembrar. Eu não posso esquecer!”

De longe, avistei o pequeno túmulo, perto do glorioso mausoléu da família fundadora de Fireflies Place, os Van der Wood. Apertei o casaco contra o corpo, defendendo-me do frio matinal e continuei a seguir Daina Avila. O cheiro da terra molhada adentrava nos meus pulmões de forma agradável e os poucos raios do sol da manhã tentavam rasgar as nuvens, dando-me flashes de calor temporário.
Quando chegámos ao local, surpreendemo-nos ao encontrar uma rosa sobre a campa molhada.
A flor ainda estava saudável e bonita. Provavelmente nem um dia tinha passado desde que ali foi deixada.
Soube, no mesmo segundo, que tinha sido quem deixou a rosa azul ali.
O albergue Lampejo da Estrela era o único nesta cidade com um jardim enfeitado com rosas azuis, pelas mãos de Camélia Vielmond.
Abaixei-me para pegar na rosa azul e permiti-me sentir o seu aroma. De olhos fechados, sorri plena, a rosa azul cheirava à minha infância. À minha infância com .
, eu preciso de ajuda! – Daina reclamou, atolada com as flores.
– Desculpa, mãe, já estou a ir!


Vielmond

Depois de uma longa tarde na oficina, decidimos ir para casa tomar um banho e descansar um pouco, antes de passarmos no Luzes da Ribalta.
Assim que chegamos, a tia Camélia arrastou-nos até à cozinha e empanturrou-nos com uma quantidade exacerbada de bolachas de gengibre e leite com chocolate.
Tive de implorar para que ela parasse de servir bolachas, porque nem eu e nem o Caios conseguiríamos recusar.
Com o estômago cheio, subi as escadas e fui direto tomar um merecido banho.
O Caios ficou no meu quarto, despojadamente deitado na cama, depois de mudar de roupa e colocar as mesmas peças que usou no dia em que me foi buscar na ferroviária, assistindo a novela das sete.
– Devias ver esta novela. Principalmente agora, a Melissa está quase a descobrir que o James não a traiu de verdade – falou sem tirar os olhos da tela. – Eu não costumo assistir estas novelinhas de mulher, mas esta é boa demais.
Passei o suéter cinza pelo tronco e olhei para a televisão sem grande interesse. Durante quase meio minuto, perdi-me numa análise superficial à protagonista da novela e sorri ao fazer uma inevitável comparação.
– Esse teu súbito interesse em novelas das sete não tem nada a ver com uma certa garçonete de longos cabelos pretos e pele morena? – sugeri, crente da minha suspeita.
Caios fuzilou-me de relance com os seus globos azuis e grunhiu em resposta.
– Eu sabia – sorri de lado.
Caminhei até a única janela do aposento e espreitei a rua. Nada se passava, como de costume.
– Ela acha que eu a traí – confessou, trazendo-me para dentro do quarto, novamente. – A Alinne – assenti para que ele prosseguisse. – Mas eu seria incapaz de sequer mentir-lhe. Eu a amo, primo, e sei que ela me ama também. Mas ela não confia em mim, não acredita na minha palavra e eu não tenho como lhe provar que tudo o que ela viu na noite do baile de inverno, há dois anos, não passou de um esquema bem dissimulado.
Franzi o cenho à confissão de Caios, mas não disse nada. Não que eu não tivesse nada para falar, eu só não achava que qualquer uma das minhas palavras pudesse resolver o problema dele.
– São quase sete e meia! – exclamou, desligando a TV. – Se ainda queres fazer hoje a tua inscrição no Luzes, é melhor irmos andando.
– Claro! – segui-o, fingindo não ter reparado na sua tentativa de mudar de assunto. – Caios, só uma coisa! – parei do seu lado. – Tu és muito mais sensual que o James.
Caios riu alto e pousou a mão nas minhas costas.
– Essa foi a coisa mais simpática e talvez mais gay que um homem já me disse. Obrigado, !



Capítulo 7 – Jantar na casa dos Avila

Avila

A Gaby sapateava no meu estômago à procura do melhor lugar para se sentar na minha barriga, enquanto eu estava deitada sobre a colcha floral contando os minutos que faltavam para aquele maldito jantar.
Ainda era cedo. Sabia disso porque ambos os meus pais estavam deitados.
Eu finalmente tinha tomado uma decisão quanto ao jantar, e, por muito covarde que fosse, eu não ia voltar atrás. Depois de toda uma noite em claro a matutar sobre o assunto, eu lembrei-me de alguém que poderia ser o meu escudo.
Peguei o telefone rápido para não correr o risco de vacilar no meu plano e disquei o número já decorado há muito.
Depois de dois “bips”, a Ashton atendeu.
– Daqui bomba loira! A que se deve a sua chamada, cara Avila?
Dei um riso.– Ash, será que te posso pedir um favor? – mordi o lábio, nervosa.
Espera só um minuto – pediu-me. – Ethan, baixa a televisão já! – gritou do outro lado da linha. – Desculpa, o meu irmão…não interessa. Do que estávamos a falar? Ah! – exclamou, mesmo antes de eu ter a oportunidade de abrir a boca. – Claro, um favor!
– É. Mas antes de mais… tens algum plano para hoje à noite? – fechei os olhos.
Noup! – estalou os lábios ao entoar o “p”.
– Estás disponível para sair?
Yap! – repetiu a brincadeira com os lábios.
– Podes jantar aqui hoje? – abri um dos olhos, exibindo uma careta cômica.
Pos… Hey! Não é hoje que o Vielmond vai jantar aí?
Apanhada!
Murmurei um “Sim” fanhoso, constrangida demais para responder direito.
Sua filha da mãe, maricas! Tu estás com medo do jantar – eu quis contestar, mas era verdade, eu estava com medo. – Ok, eu vou! A que horas é?
– Às oito, mas podes chegar um pouco mais cedo…por favor – supliquei, patética.
Desta vez, Avila! E só desta vez.
– Obrigada – sorri.
Desliguei o telefone, aliviada. Mesmo sabendo que a Ashton não podia proteger-me do no sentido literal da situação, era bom ter uma amiga do meu lado naquele momento.
Levantei-me preguiçosa e fui tomar banho. Os banhos acalmavam-me e eu realmente estava a precisar de um.
Rodei a válvula para deixar a água aquecer, enquanto despia o pijama. Com a pele arrepiada pelo frio matinal, coloquei um pé de cada vez ao entrar na banheira.
Enfiei-me debaixo do chuveiro e fechei os olhos, disfrutando da sensação que a água morna oferecia-me. Eu adorava água sobre a minha pele. A sensação de pureza, o alívio muscular e a pacificidade que ela me transmitia. Era quase terapêutico.

“As duas pequenas estavam empoleiradas no alpendre da janela, atentas ao espetáculo da natureza que acontecia lá fora. Nenhuma delas falava. O silêncio era reconfortante e natural entre as duas. Não existia constrangimento na ausência de diálogo, apenas paz.
Era a chuva que enchia a sala de estar dos Avila, com o seu som pesado de inverno.
, a mais velha, trocava o olhar entre a tempestade e a irmã mais nova. Já não perdia tempo em pestanejar, os seus olhos intensos estavam demasiado ocupados a admirar a chuva que caía incessante.
? – balbuciou sem desviar o olhar da rua. – Eu gostaria de ir lá fora.
, eu não acho uma boa ideia – avisou-a previamente. – Está a chover muito.
– Por isso é que eu quero ir.
franziu o cenho, pensativa. Ela sabia que o certo era permanecer em casa, mas ela também queria ir. Queria poder correr na chuva e ser inconsciente como qualquer outra criança de nove anos.
– Só um bocadinho – suspirou, arrancando um grunhido entusiasmado da mais nova. – Vamos logo, se a mãe chega e apanha-nos na rua, ficamos de castigo.
– Yey! – exclamou, correndo para a porta de saída. – Obrigada, ! Obrigada!
, espera! – gritou. – ! – mas era em vão, a pequena já não a conseguia ouvir.
Quando chegou ao jardim da casa, a mais nova já estava a correr de um lado para o outro, encharcada pela água da chuva.
, anda! – incentivou-a . – Eu preciso de alguém que me empurre no balanço!
correu ao encontro da irmã, que já estava sentada à espera. Espalmou as suas pequenas mãos nas costas da outra e então empurrou-a.
fechou os olhos, exibindo o maior sorriso que a sua face conseguia suportar, e desfrutou do momento. esforçava-se para levar a irmã cada vez mais alto, e confiava na mais velha.
, eu vou fazer-te tocar no céu!
A sensação da chuva no seu rosto, no seu cabelo, nos braços, tronco e pernas, a chuva em si. Não apenas a chuva que molhava. sentia a felicidade querer rebentar no seu peito.
Alguns segundos depois, os embalos do balanço foram diminuindo até pararem.
saltou do balanço e correu para abraçar a irmã com força.”

Uma lágrima caiu, juntando-se à água que já escorria no meu rosto, e eu inspirei fundo, recordando aquele momento.
– Eu toquei no céu – sussurrei, antes de desligar a água do chuveiro.


Vielmond

Não recusei quando o Caios convidou-me para dar uma volta ao quarteirão. Ficar parado no meu quarto não era realmente um grande programa de sábado à tarde. Por isso, logo depois do almoço, eu e o meu primo saímos para um passeio pelas redondezas.
Os leves chuviscos não me incomodavam, mas Caios fez questão de trazer um guarda-chuva consigo, por prevenção. Estávamos a passar em frente ao Neon Lights, quando reparei em duas loiras vindo na nossa direção.
Eram bonitas e bastante atraentes. Os olhares confiantes e passos determinados atraíram o meu instinto pecaminoso.
Sorri sacana vendo-as cada vez mais próximas, mas o sorriso descaiu assim que reparei no desconforto de Caios.
– Caios! – a de cabelos encaracolados pendurou-se no pescoço dele, num abraço não correspondido. – Estava com saudades tuas! – o sotaque francês sobressaiu.
– Oi, Giselle – cumprimentou-a seco.
A rapariga afastou-se dele, torcendo a boca.
– Então, meu amorr, que carrinha trriste é essa?
– Eu estou bem, Giselle – Caios rodou os olhos, impaciente. – Este é o meu primo .
– É um prrazerr conhecer-te, Erros – o meu nome saiu da sua boca num tom arrastado e carregado. – Eu sou a Giselle Piaff – levantei uma mão para cumprimentá-la, mas a rapariga fez questão de apertar-me num abraço desconfortável com cheiro a perfume francês. Ela não me largou, sem deixar quatro beijos em cada um dos lados das minhas bochechas.
Típico de franceses.
– Esta é a minha amiga. Lindsay Coldwater.
Lindsay não esforçou-se para ser educada, cumprimentando-me apenas com um “oi” amuado, antes de entrar no pub. Giselle correu novamente para os braços de Caios, que não pareceu nada contente em tê-la pendurada no seu pescoço, e sussurrou-lhe algo no ouvido.
– Giselle, eu estou com um pouco de pressa – mentiu, tentando desvencilhar-se dos braços magros da rapariga. – Eu e o temos de…
Caios perdeu a fala, quando viu Alinne sair do pub. A morena não ficou indiferente também, olhando-o com um misto de nojo e deceção. Contudo, não abriu a boca para mencionar uma palavra sequer. Quando Caios conseguiu finalmente soltar-se da loira, Alinne já estava a uns bons passos de distância.
Giselle falou mais alguma coisa que eu não consegui ouvir e entrou no pub com um sorriso vitorioso no rosto.
– Foda-se! – maldisse Caios.
Um clique fez-se dentro de mim e eu percebi tudo.
– Aquela é…
– Sim – confirmou, continuando o passeio sozinho.
Não fui atrás dele. Caios precisava ficar sozinho com os seus pensamentos, eu entendia isso. Ele estava chateado, provavelmente com raiva de Giselle e de si mesmo. Mas quem não estaria com raiva no lugar dele?
Afinal de contas, a Giselle era a outra rapariga. Aquela que separou o Caios da Alinne na noite do baile de inverno.
Decidi continuar eu sozinho o meu passeio sem destino por Fireflies Place. Estava um dia especialmente calmo. Não sei se era a chuva ou aquele era já o movimento habitual da cidade, mas as poucas pessoas que se viam, estavam dentro de estabelecimentos, nas suas varandas ou em carros.
Enveredei-me por uma rua estreita que me parecia engraçada, o chão era de terra batida, mas estava completamente enlameado. Algo naquele caminho parecia-me bastante familiar de uma boa maneira.
Continuei o caminho sem saber onde este me levava, até começar a ouvir um som de água. Não demorei nem mais um segundo a perceber que tinha chegado à antiga clareira, onde eu sempre ia brincar com a .
Uma súbita onda de saudade inundou a minha alma e senti um aperto no coração querer se transforar em lágrimas, que contive. Fui até ao centro do cenário onde um dia eu passei os momentos mais felizes da minha vida e deixei-me lá ficar, a ouvir o som da chuva cair no lago.


Avila


Peguei no colar com o pingente vermelho e coloquei-o em volta do pescoço.
A imagem da com aquele mesmo colar surgiu na minha cabeça.
Eu ainda lembro-me perfeitamente de como a corrente em bronze lhe assentava, contrastando com a sua pele alva de criança. A pedra vermelha, que antes parecia grande no seu peito pequeno, era agora quase insignificante, no meio do meu. Mas eu amava usar aquele colar. Mesmo que o fizesse raramente. Não era por medo de estragar, mas sim para poupá-lo. Pode ser tolice minha, mas sempre que eu o usava, uma sensação de segurança interior parecia acolher-me. Como se dentro daquela pedra encarnada houvesse uma parte da , a irmã mais velha e protetora. E era o medo de deixar de sentir isso, que me fazia poupar o seu uso. Contudo, esta noite eu sentia que o devia usar.
O celular em cima da cômoda começou a vibrar, chamando por mim, e eu corri para ler a mensagem.

SMS de Ashton D.
Estou na porta da tua casa. Cheguei mais cedo como pediste!

Fiquei amedrontada quando a Ashton falou que não poderia ficar até tarde, mas procurei não pensar nisso. De fato, procurei não pensar de todo.
Eu sempre fui aquele gênero de pessoa que sofre de ansiedade e, quando eu penso demais, fico estranhamente apática por fora, mas completamente desesperada por dentro. Por vezes, acho que chego até a ser um pouco rude com quem tenta falar comigo, e eu odeio ser mal-educada, mas a questão é que eu simplesmente não consigo evitar, é uma forma natural de defesa. Uma bem idiota, diga-se de passagem!
, eu sei que não é da minha conta, mas tu não estás a exagerar um pouco? – levantou uma das sobrancelhas expeças. – Eu entendo que tu tenhas uma história com o , e que só o fato de envolver a tua irmã, passa a ser um assunto delicado, mas sei lá… já aconteceu há tanto tempo. Não será um pouco desnecessário tudo isto?
– Isto o quê? – retruquei, defensiva.
– Isto, ! – gesticulou com as mãos. – Às vezes que já olhaste para o relógio, a quantidade de vezes que já te levantaste porque simplesmente tens necessidade de te mexer, as mãos suadas, o medo por trás dos teus olhos…
Era verdade. Quem é que eu queria enganar? Por muito que eu tenha conseguido manter o controlo durante o dia e fingido que estava bem, a verdade é que agora que o jantar está prestes a acontecer, eu sentia o nervosismo à flor da pele. Já cheguei a ponderar a ideia de inventar uma falsa indisposição, só para não ter de descer as escadas e encará-lo. Mas seria covardia, demasiada covardia até para mim.
– Eu estou aqui porque sou tua amiga – senti as mãos quentes da Ashton apertarem as minhas geladas. – Mas, como boa amiga, eu não te posso deixar fugir para sempre, . Há alturas em que o medo tem de ser enfrentado.
Soltei um suspiro alto ainda sem encará-la. A Ashton estava certa. Eu tinha de enfrentar os meus medos, se eu queria superar aquele trauma de infância, eu tinha de ser forte.
A campainha tocou e eu estremeci em resposta. Senti o aperto nas minhas mãos intensificar-se e procurei os olhos verdes da minha amiga.
– Força! – sussurrou, sorrindo cúmplice.
Levantei-me devagar, sendo seguida por Ashton, que incentivava-me a continuar, dando pequenos tapinhas condolentes no meu ombro. Parei quando ouvi a voz da minha mãe cumprimentar e engoli a seco. Olhei para Ashton de lado e respirei fundo antes de prosseguir.
Entrei no hall de cabeça erguida e coração na mão. As minhas pernas pareciam gelatina de tão fracas, mas saber que Ashton estava mesmo atrás de mim se eu precisasse, mantinha-me em pé.
olhou-me por um segundo que me pareceu demasiado longo e desviou o olhar para cumprimentar o meu pai, que surgiu da cozinha.
Ele usava uma camisa xadrez verde, nem tão social, nem tão casual. Os jeans eram escuros, quase pretos. E eu tinha de admitir, ele estava muito bem, de fato ele estava demasiado bonito e, por muito que eu sentisse desconforto ao olhá-lo, era quase impossível evitar.
Ash passou na minha frente e foi cumprimentá-lo.
Então ele voltou a encarar-me, e eu senti a obrigação de o cumprimentar também.
Instintiva, procurei a pedra vermelha no meu peito e apertei-a com toda a força que eu tinha, até chegar perto dele. O vacilou um pouco, mas um sorriso meigo, que eu nunca antes tinha visto ser dirigido a mim, desabrochou no seu rosto e então ele inclinou-se para beijar o meu.
– Oi, – as suas palavras saíram do fundo da garganta, quase como um suspiro. Senti uma palpitação forte no peito, e todo o meu corpo estremeceu quando os seus lábios tocaram a minha bochecha.



Capítulo 8 – Jantar na casa dos Avila (parte II)

Avila

Eu não me lembro do que falei ou deixei por falar, quando os olhos de afastaram-se de mim depois do beijo. Não me recordo do momento em que me sentei do lado da Ashton, nem de quando a minha mãe serviu o jantar.
Eu não consigo lembrar-me sequer de quando eu fui até o banheiro desanuviar. De fato, eu só sei que lá fui, porque ainda não saí. E como numa ridícula cena de filme adolescente, eu estou sentada no vaso sanitário, com um olhar esbugalhado direcionado para o espelho, demasiado amedrontada para me mover.
O certo a fazer era sair logo daqui antes que alguém venha bater à porta para perguntar se eu estou bem. Mas eu não quero sair porque eu não estou bem, para ser franca, eu não estou nada bem.
Eu sei que sou fraca por não conseguir encará-lo, não conseguir ouvi-lo, não conseguir suportar estar perto dele sem que uma pontada aguda atinja o meu peito.
No entanto, eu não posso evitar sentir o que sinto. Ele mexe comigo de uma forma que não devia mexer. E é tão estranho que eu nem sei se chega a doer, eu só sei que sufoca e incomoda-me como os diabos.
Então, tudo o que eu consegui fazer até o momento foi fechar os olhos e inspirar profundamente, antes de procurar o colar no peito e apertá-lo com força.
– Eu dava tudo para te ter aqui – murmurei em prece. – Juro que dava! Mas tu tiveste de ir embora – apertei os olhos. – Tu foste embora, minha irmã. Foste embora, e eu sinto tanto a tua falta, sinto tanto medo, tanto frio – engoli saliva, sentindo um gosto de choro. – Tu disseste que nós nunca nos separaríamos. Tu prometeste, , por que é que morreste? Eu queria tanto poder-te ver mais uma vez, eu queria...
?
– Sim! – exclamei de sobressalto, ainda com a voz embargada.
– Filha, está tudo bem? Já estás aí há quase vinte minutos...
– Eu estou bem, mãe – cortei-a. – Eu já vou descer, podes ir.
– Hum! Ok, então não demores – avisou mesmo antes de eu ouvi-la afastar-se no corredor.
Levantei-me para enxugar as lágrimas e lavar o rosto. Graças a Deus eu não tinha colocado máscara, ou, caso contrário, a esta hora eu já estaria a transbordar tinta negra de ambos os olhos. Passei um pente rápido pelo cabelo, apenas para tentar disfarçar um pouco mais o meu aspecto deplorável, e abri a porta.
A passos contados, desci cautelosamente até o piso de baixo e estremeci em pânico quando vi a Ashton no fundo das escadas de bolsa na mão e casaco vestido.
– Desculpa, , eu pensei que ia poder ficar mais tempo. Mas a minha mãe ligou-me agora mesmo a avisar que o turno dela vai começar mais cedo do que o previsto e eu não posso deixar o Ethan sozinho em casa. Eu tentei ligar para a Genevive, para ver se ela podia fazer de baby-sitter por um bocado, mas ela não me atende.
A minha expressão deve ter sido realmente muito má, para receber uma explicação tão carregada de culpa como a da Ashton. Contudo, eu não podia contê-la. Eu sentia o ambiente a girar em torno de mim, enquanto eu mantinha os olhos pousados na única pessoa à minha frente.
Eu queria abrir a boca e falar alguma mentira que pudesse desanuviar o sentimento de culpa que eu sabia que a Ashton estava a sentir, mas as palavras recusavam-se a sair.
, eu vou ter de ir andando – fez-me sinal com a cabeça, indicando-me a porta. – Eu sinto muito, .
– Está tudo bem – soei um pouco aguda demais para o meu próprio gosto, mas consegui esboçar um sorriso de falsa compreensão. – Eu fico bem, Ash, não é como se o fosse fazer-me algum mal ou coisa parecida.
A Ashton franziu a testa, provavelmente pouco crente na minha súbita indiferença, antes de sorrir uma última vez e abraçar-me.
Observei a minha melhor amiga ir embora e contive a tremenda vontade de correr até ela e implorar-lhe que me levasse também. Não! Ao contrário do que eu esperava de mim própria, eu despachei-me a voltar para a sala de jantar e, assim que lá entrei, o par de olhos caleidoscópicos fez questão de trespassar o oceano que eram os meus olhos.


Vielmond

Merda, ela era tal e qual a irmã. Os olhos , os cabelos , o tom de pele. Não havia como não lembrar da quando tinha ali na minha frente uma fotocópia quase perfeita 8 anos mais velha.
Olhá-la era praticamente impossível! Por muito que eu tentasse evitar fazê-lo e tivesse consciência de que ela não estava nem um pouco à vontade com a minha presença, eu não conseguia desviar o olhar.
Olhar para a era como olhar para uma borboleta pousada em uma flor, e que nós não sabemos durante quanto tempo se vai manter ali, eu não sabia durante quanto tempo a estaria perto de mim, para que eu a pudesse apreciar.
, ouvi dizer que estás a adaptar-te muito bem a Fireflies Place – desviei rapidamente o olhar para Sívio, um pouco atordoado. – Estive a falar com o teu tio ontem e ele contou-me que agora estás a trabalhar na oficina.
– Sim! – exclamei, soando um pouco entusiasmado demais. – Eu não tenho tanta prática como os meus primos, mas vou-me safando.
– Hum! – balbuciou, acabando de mastigar um pouco de carne. – Eu estava para te perguntar isto na terça-feira, quando te vi no Neon, mas acabei por me esquecer – Sívio parou para poder dar um gole rápido no vinho. – Por que voltaste para Fireflies Place?
Foda-se! Eu devia ter calculado que eventualmente alguém me ia perguntar o porquê de eu ter voltado depois de tantos anos.
Era óbvio que as pessoas queriam saber!
Qualquer um que ali vivesse há mais de quinze anos sabia perfeitamente quem eu era e qual era a minha história. Todos sabiam que depois da morte da eu nunca mais voltei a colocar os pés naquela cidade. E como era de se esperar, todos estavam curiosos.
“O que é que eu fazia ali?”
Merda! Eu não estava preparado para contar agora. Possivelmente nunca estaria, mas se eu caísse no erro de o fazer, muito provável seria que toda a gente me virasse as costas, tal e qual fizeram quando eu vivia em Portaferry. As pessoas iam ter medo de mim, todos iam odiar-me.
Eu não queria ter de passar por isso de novo. Sentir o ódio no rosto de cada um que passasse por mim na rua, sentir o medo das pessoas que me reconheciam de alguma forma. Eu não queria que a tivesse medo de mim. Não!
Mas, então, que porra de resposta haveria eu de dar?
Peguei no copo que estava na minha frente e dei duas longas goladas, saciando a minha garganta seca, e aproveitei para ganhar mais tempo.
– Rapaz, eu não quis ser indiscreto, mas pelo vistos o tiro saiu-me pela culatra. Esquece lá a pergunta, é curiosidade boba – Sívio sorriu.
– Não, senhor está tudo bem – respondi-lhe, sorrindo da mesma forma. – Eu mudei-me para cá porque estava a precisar de dinheiro. Não que os meus pais estejam com dificuldades em sustentar-me, mas eu não me sinto no bem nessa situação quero a minha independência. – mantive o olhar no prato, temeroso de que ele entendesse que eu estava a mentir. – Já tenho 18 anos e quero poder ser eu a bancar as minhas próprias despesas.
Sívio pousou os talheres, antes de dar uma rápida olhada na sua filha e esposa. Parou por um segundo – que mais me pareceu uma eternidade – e depois disse: – Mas que bela cabeça que tu tens! Antes fossem todos como tu e pensassem um pouco mais nos velhos que os criam e amam.
Soltei um suspiro de alívio, acompanhando o riso melódico do Sr. Avila, e senti a minha respiração regularizar-se.
, queres mais alguma coisa? Talvez um pouco mais de batatas? – perguntou-me Daina, atenciosa.
– Não, Sra. Avila, estou muito bem.
– Vê lá! Qualquer coisa que queiras, não tenhas vergonha em pedir.
– Não, não! – ri educado. – Não precisa se preocupar. Se eu precisar de algo, eu falo!
– Hum! – levantou um dedo, acabando de mastigar. – É verdade que tu e o Caios se inscreveram no Luzes?
– É, sim! O treinador Belfast veio falar connosco na oficina no outro dia e convenceu-nos a entrar na equipe.
O tilintar dos talheres a cair sobre o prato da fez-se ressoar sobre toda a sala de jantar, e, de repente, todos os olhos estavam postos sobre ela.
– Desculpem – pediu baixo, ao pegar no guardanapo para limpar o vestido. – Er... acho que está na hora de pegar a sobremesa – falou baixo afastando a cadeira, para poder se levantar.


Avila

Arrastei a cadeira sentindo-me observada, mas preferi continuar a fingir uma apatia, para que ninguém percebesse o meu choque em ouvir que o se tinha inscrito no Luzes da Ribalta.
– Eu também vou! – levantou-se de sobressalto.
– Não é necessário, , a trata bem sozinha das sobremesas. – disse o meu pai, conseguindo arrancar um suspiro discreto do meu peito. – Além disso, tu és o convidado.
– Eu insisto. Será um prazer ajudar a .
Dei um meio sorriso amarelo, mas não contestei contra. Sem nada falar segui até à cozinha, trazendo o comigo.
Esperava que ele não fosse tentar nada. Ele podia ser muita coisa, mas burro ele não era certamente e eu sabia que ele não me magoaria, pelo menos não fisicamente.
Assim que chegamos à cozinha, eu corri para as gavetas mais afastadas e comecei a tirar os talheres.
– Onde ficam os pratos? – perguntou casual, aflorando o meu instinto irritadiço.
– O que é que estás a tentar fazer? – virei-me de impulso, deixando-me a mim mesma surpresa com a minha atitude.
juntou as sobrancelhas, aparentemente desentendido.
– Desculpa, não entendi, eu só estava a perguntar…
– Pois eu acho que tu entendeste muito bem – fulminei-o com o olhar, lutando para manter a voz baixa. – Desde quando é que decidiste ser simpático comigo?
Ele olhou-me por um instante, parecendo tentar formular uma resposta boa o suficiente. Houve um pequeno momento de silêncio antes de ele manifestar-se.
... Eu era uma criança idiota e inconsequente. Eu não pensava antes de agir e era demasiado egoísta para perceber que te magoava, o amor que eu sentia pela tua irmã cegava-me – eu não gostava de admitir, mas eu senti desconforto ao ouvir aquilo. Talvez o fato de ele mencionar a minha irmã, para se desculpar pelos seus erros, soasse covarde demais aos meus ouvidos. – Não sou mais aquele menino de oito anos como é óbvio. Cresci e a vida mudou-me.
– Não foi só a ti que a vida mudou, . Tu não foste o único a sofrer as suas consequências.
– Sei disso! – murmurou mais para si. – , eu não costumo ser muito bom com as palavras, contudo eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para dar o meu melhor. Eu sinto-me extremamente arrependido por todas as vezes que te magoei e sei que estou em dívida contigo.
Reprimi a gargalhada sem humor e apertei as mãos em punho, contendo a vontade de espancá-lo.
Como é que ele se atrevia a pedir-me desculpa depois de tanto tempo? Ele provavelmente não se lembrava nem de um terço das coisas porque me fez passar.
, faz um favor a ti mesmo e guarda esses teus esforços para outro alguém, porque eu não faço questão de ser digna da tua pena.
– Eu não disse que sentia pena de ti.
– Não, tu não disseste! – concordei. – Mas tu pensaste...
– Eu não...
, o tempo esgotou-se. Ao contrário do que o teu ego está a tentar dizer, eu não pensei em ti nos últimos dez anos – era mentira. – Eu não te devo nada e tu certamente não mereces nada vindo de mim, por isso, se me dás licença...
Atravessei a cozinha, mas fui impedida de continuar ao sentir o meu pulso ser agarrado pela mão firme do Vielmond.
– Gostaria que as coisas tivessem sido diferentes – suspirou, afrouxando o aperto no meu pulso.
– Mas não foram – dei impulso com o braço, libertando-me de , e peguei na torta em cima da mesa, antes de fugir outra vez para a sala de jantar.



Capítulo 9 – O começo

2 semanas depois...

Vielmond

Peguei no casaco e o vesti antes de me sentar junto ao meu tio. O tempo estava cada vez mais frio e já não havia forma de trabalhar naquela oficina usando apenas uniforme.
– Eles vêm para cá no fim de semana – falou baixo, assim que fechei a porta do Rover. – O teu pai está preocupado.
– Ele está sempre preocupado – rolei os olhos.
– Não é para menos, ! Tu sabes melhor do que ninguém o motivo pelo qual estás a ser julgado e as coisas estão complicadas. O juiz concedeu-te que saísses de Portaferry, mas isso não indica que o cenário esteja minimamente melhor e que as coisas se tenham resolvido.
– Eu sei! – esbravejei alterado, me arrependendo no segundo seguinte. – Desculpa, tio, eu só…
– Esquece, !
Fixei o olhar no porta-luvas e soltei um suspiro pesado. Havia já alguns dias em que eu não pensava sobre o julgamento, sobre o motivo pelo qual eu voltei para cá tão de repente sem mais nem menos. E agora eu ia ter de voltar a encarar as mesmas caras pouco esperançosas dos advogados que o meu pai contratou. Voltar a reviver vezes e vezes sem contar a mesma noite. A maldita noite que arruinou a minha vida.
– Eles chegam no sábado de manhã, querem falar contigo. Suponho que é tudo uma questão de burocracias.
– Eu estou completamente fodido – disse a meio de um suspiro.
– Rapaz, não digas isso, a situação não está boa, mas…
– Eu estou! Eu sei que estou – virei-me para o meu tio. – Não há forma de eu conseguir escapar disto. Toda a cidade, toda aquela maldita cidade está contra mim e a minha única testemunha, a única esperança que eu tinha de me safar desta, desapareceu.
– Ninguém desaparece assim, . Ainda há esperança de que a rapariga apareça e até lá temos tempo até ao julgamento.
– Eu não tenho esperança, se fosse para ela aparecer, ela já tinha aparecido. Já se passaram cinco meses, com sorte, eu fico livre até ao próximo ano.

– É verdade, tio! Estou aqui em Fireflies Place há pouco mais de três semanas. Três semanas! – dei ênfase nas minhas palavras. – Nem um mês se passou e já estou a receber visitas dos advogados. Daqui a pouco as pessoas daqui também vão saber o que eu fiz e tal como aconteceu em Portaferry, eu vou ser apontado na rua. Vou perder as poucas amizades que comecei a formar e vou destruir o nome dos Vielmond nesta cidade. Eu não posso fazer isso. Não aqui! Onde tu, a tia Camélia, e os meus primos vivem.
Cerrei as mãos em punho, nervoso.
, filho, tu não podes pensar assim, as coisas vão se resolver. Os advogados não virão pra cá para dar más notícias, é tudo uma questão burocrática.
– Desta vez não são más notícias – ressaltei. – Mas já era, não há esperança. Não só em mim, mas no meu pai também. Na minha mãe! – exclamei alto. – A pessoa que mais me deu força quando tudo aconteceu. Ela perdeu a esperança.
– Não digas tolices – indagou indignado.
– Não são tolices! Eu vi! Eu senti! – insisti. – No dia em que me despedi dela na estação, antes de vir para cá. Eu vi a luz nos seus olhos apagar-se. Mesmo antes de eu partir.
– Ela só está cansada, filho.
– Não… – neguei com a cabeça. – Ela está vazia. Desiludida. Sem nada que a possa sustentar. E eu também. Já nada me sustenta, nada me faz querer lutar pela minha liberdade. E só não me entreguei ainda porque o meu pai faz questão de ir até o fim com isto.
– Tu não podes desistir assim, sem mais nem menos. Tu tens uma mãe e um pai que te amam. Tens a mim e a toda a tua família. Tu tens quem te sustente. Tu só não tens por quem lutar.
– Como assim?
– Se há uma coisa que eu aprendi nesta minha vida, sobrinho, é que nada vale a pena se não for feito por amor. Se não for por amor-próprio, que seja por amor ao próximo. Tu só precisas encontrar uma pessoa por quem lutar, depois disso, mais nada importa.


Avila

, nós vamos indo. – Genevive saiu do balneário, acompanhada pela Ashton. – Já passa um pouco da nossa hora e daqui a pouco tenho a Violet a ligar-me a perguntar onde eu estou.
– Tudo bem, Gen, não há problema – saltei do balcão da recepção. – Eu vou ter muito com que me ocupar – dei um sorriso amarelo.
– Infelizmente – completou a Ashton.
– Infelizmente – repeti baixo.
– Anda cá! – exclamou, agarrando-me de forma desajeitada. – Tu sabes que eu te amo e eu sei que tu me amas, por isso põe-me um sorriso nessa tua cara de peido e anima-te.
– Cara de peido? – o meu riso saiu entre palavras.
– Foi o primeiro insulto que me veio à cabeça, ok? – largou-me. – A sério, ! Tens de aprender a sorrir mais vezes, ou então vais acabar como a Violet, com uma alma chata e velha num corpo de vinte anos.
– Tu definitivamente não queres ser como a minha irmã, garanto-te! – afirmou Genevive. – Ela deita-se às dez horas até no fim de semana.
Entreolhamo-nos em silêncio de maneira constrangedora, mas não foi preciso mais do que dois pares de segundos para cairmos nas gargalhadas.
– A tua irmã é assustadora! Nem o meu avô se deita às dez.
– Ash, o teu avô anda de moto – comentei.
– Porra, o meu avô é radical! – exclamou. – Agora faz todo o sentido.
– O quê? – perguntou a Gen.
– Não é óbvio? – colocou as mãos na cintura, imitando uma falsa indignação. – Eu! Eu ser assim, linda e maravilhosa!
– Modéstia à parte, não é, Ash?
– Cala a boca, Avila! Deixa de ser invejosa!
– Aham! Aham! – assenti com a cabeça.
!
– Eish! Estás tramada! – exclamou a loira. – É melhor nós irmos andando, senão ainda sobra para nós também.
Vi as minhas duas amigas irem embora, mesmo antes de subir as escadas para ir a encontro da minha mãe, que estava a preparar-se para o início da próxima aula.
Ao chegar na sala de dança, encostei-me à soleira da porta e parei para observá-la a fazer o seu aquecimento.
A minha mãe era linda. Pequena, magra e delicada, tal como uma verdadeira bailarina deveria ser.
O seu cabelo estava preso num coque alto e impecável, ela usava um bodie bordeux de costas descobertas e uma saia preta de tule.
Estava sentada no meio da sala, a fazer exercícios de aquecimento, enquanto Clair de Lune, de Debussy, tocava na aparelhagem.
Eu estava tentada a não interrompê-la naquele momento tão dela e tão raro de se assistir, mas se eu não fizesse, ela provavelmente ia acabar por se aborrecer comigo por eu não ajudá-la para a aula que estava prestes a começar.


Vielmond

Eu precisava desanuviar. Estar sozinho era a única forma de eu conseguir colocar as ideias no sítio antes que os meus impulsos me levassem a cometer algum erro. Mas eu não podia sair para beber. Aqui não. Seria demasiado arriscado.
Optei pela ideia mais sensata e eficaz. Eu fui treinar. Sozinho.
– Vielmond, hoje não temos treino, jovem – o treinador Belfast levantou-se da sua secretaria assim que me viu entrar na sala.
– Er... Eu sei, treinador, eu só vim praticar um pouco, isto, claro, se não houver problema.
– Problema? – levantou as sobrancelhas. – Quem dera que todos fossem como tu, . Estás à vontade para treinar – bateu-me no ombro, passando por mim.
Deixei o saco cair do ombro, fazendo-o bater no chão, e soltei o ar dos pulmões.
?
– Sim, treinador – virei-me para ele.
– Não vais acreditar em mim – fez uma pausa. – Mas os problemas sempre se resolvem rapaz, sejam eles grandes ou pequenos.
– Eu não sei se o meu tem solução.
– Eu não teria tanta certeza – deu um meio sorriso, antes de abandonar a sala.


Avila

Eu odiava ter de descer até à arrecadação. O lugar era escuro e cheirava a suor. Pelos vistos, treinar de porta fechada é uma missão impossível para os lutadores do treinador Belfast. O que não seria um problema, se o cheiro a testosterona não se espalhasse por todo o subterrâneo. Mas desta vez eu não ia me safar, a minha mãe tinha sido bem explícita quando me pediu para ser rápida a pegar nos tutus azuis.
Eu estava a ter um mau dia, ou melhor dizendo, uma má semana.
Eu não sei bem o que fiz para merecer tanta má sorte. De umas duas semanas para cá, eu tenho tido muitos poucos motivos para sorrir. Para ser realmente franca, acho que não tive nem um.
O meu único alento até então foi ainda não me ter cruzado com o desde o jantar.
No início, achei que fosse pura bondade do destino, mas, com o tempo, comecei a perceber que ele também está a tentar-me evitar.
Por exemplo, anteontem eu sabia perfeitamente que ele estava no Luzes da Ribalta a ter treino, vi-o chegar através da janela da sala de ballet e também o vi sair apressado, quando eu saí do balneário um segundo depois dele.
Eu tenho a certeza absoluta de que ele me viu e fugiu.
Não o culpo. Também prefiro que assim seja.
Não sei qual seria a minha reação se tivesse de encarar depois do que falei. Provavelmente iria bloquear, ou talvez desviaria o olhar e fingiria que não tinha visto.
É, provavelmente faria isso!
O é um problema que eu faço questão de evitar enquanto o destino permitir-me.

– Eu não acredito! – exclamei irritada quando percebi que a lâmpada da arrecadação tinha fundido. Agora seria praticamente impossível encontrar os tutus no meio de tanta tralha. As caixas estavam entulhadas e espalhadas por toda a área e não havia forma de encontrar fosse o que fosse sem luz.
Bufei frustrada e fui até à estante a minha direita. Peguei na única caixa que eu conseguia ver e puxei-a para fora. No momento em que o fiz, um entulho de sapatilhas caiu no chão.
– Merda! – exclamei irritada.
– Avila! – virei-me assustada.
Girei os olhos assim que vi a ponta luminosa do cigarro do Rick aproximar-se de mim.
– Cada vez me surpreendo mais com essa tua língua afiada.
– Não devias – comentei, entediada.
Segurando o cigarro entre os lábios, ele tirou a caixa das minhas mãos e voltou a pousá-la na estante.
– Não sei porquê, mas tenho uma tara por ti – sorriu sedutor, dando um passo na minha direção. – O que posso fazer quanto a isso? Tu cativas-me, intrigas-me…
– Pena – recuei um passo. – Tu a mim só enojas!
O Rick torceu o cenho irritado com a minha resposta e, num movimento rápido e eficaz, encostou-me contra a prateleira de madeira, fazendo com que mais uma caixa caísse.
– Tu não devias ir por aí, Avila! – rosnou num tom de voz irado. – Agora deixaste-me chateado.
O escuro não me permitia ver os seus olhos, mas eu conseguia sentir a sua intensidade sobre mim, tal como eu sentia as suas mãos apertarem os meus ombros, com uma força desnecessariamente grande e a sua respiração pesada a bater na minha testa.
– Larga-me – remexi-me, assustada.
– Cala a boca! – ordenou.
– Eu vou gritar!
– Se não te calares, eu vou começar a suspeitar que tu queres que seja eu a fazê-lo por ti – sorriu sacana. – Tenho a certeza que ias amar.
A sua barba por fazer roçou no meu rosto causando-me arrepios na espinha.
– Tu és repugnante – murmurei. – Larga-me, Rick!
– Não! – rosnou autoritário, fazendo a minha nuca gelar.
Fechei os olhos e desviei a minha cara. Ele agarrou-me pelo queixo e puxou o meu rosto para o dele, deixando-me encurralada com a sua boca.
Eu senti os meus lábios doerem quando ele comprimiu os dele violentamente contra os meus. Queria vomitar, mas não havia forma de eu o conseguir fazer. A sua boca exigente não largava a minha e, mesmo eu tentando empurrá-lo com o meu braço livre, ele era demasiado pesado para eu o afastar.
– Largue-a já! – reconheci a voz do mesmo antes de vê-lo.
– Era só o que me faltava – o ar voltou aos meus pulmões e as minhas pernas fraquejaram em alívio.
– Largue-a já, Belfast, ou eu não respondo por mim! – a voz do revelava calma, no entanto, a sua postura mostrava exatamente o contrário. Os punhos estavam cerrados junto ao corpo e todos os músculos estavam tensos.
– Ok, ok! – levantou as mãos em rendição, largando-me. – Não precisamos partir para a luta, Vielmond. Eu e a estávamos a apenas a divertir-nos um pouco. Não é mesmo, ?
Não respondi, não por medo, mas porque não sabia o que falar na presença de um que eu nunca antes tinha visto. Estava demasiado admirada com aquela versão que ainda não conhecia dele para sequer raciocinar direito sobre as palavras de um idiota sem escrúpulos como o Rick.
O Rick saiu da arrecadação sendo seguido pelo olhar de , enquanto eu mantive o meu preso nele.
Então, ele também me olhou e o meu coração parou meio segundo antes de voltar a bater.
– Estás bem? – mostrou-se preocupado.
– Sim – assenti com uma expressão demente. – Obrigada.
– Não foi nada! – deu um pequeno sorriso.
– Não contes nada a ninguém, por favor – implorei baixo.
– Não te preocupes – sorriu de novo. – Mas se ele voltar a tocar-te, não esperes que eu fique quieto.
Senti um sorriso involuntário querer se formar nos meus lábios enquanto o observava a ir embora, deixando-me ali sozinha.



Capítulo 10 – Beijo

Vielmond

Acordei com o sol nos meus olhos, por volta das oito da manhã, pronto para mais um dia de trabalho. Era sábado, o que significava que dentro de algumas horas os advogados que o meu pai contratou estariam aqui em Fireflies Place, com as últimas notícias sobre o meu caso.
Eu sentia um nó na garganta de cada vez que me lembrava disso. E não fosse o meu primo Caios querer arrastar-me para o Neon até às tantas da madrugada, eu teria dado em louco.
Levantei-me sonolento e fui direto ao banheiro no fundo do corredor, sem nem vestir as calças do pijama.
Depois de um banho demorado, desci para tomar o meu café da manhã, mas fui parado por uma prima de dezesseis anos, que parecia bastante empenhada em não me deixar passar.
, tenho boas notícias! — sorriu cintilante.
— Duvido — girei os olhos e tentei desviar-me dela, mas mais uma vez ela meteu-se na minha frente. — Mia, eu não estou com vontade de brincar agora, podes, por favor, deixar-me passar?
— Nossa, mas que humor matinal fabuloso — ironizou. — Eu não vou sair da tua frente até te dizer o que eu quero.
Passei a língua pelo lábio inferior, mordendo-o de seguida. Eu não estava num bom dia, nem fazia questão de escondê-lo.
— Rápido — bufei.
— Sabes quem vai passar aqui o fim-de-semana conosco? — olhou-me com cara de “tu sabes a resposta”.
Arqueei as sobrancelhas sem vontade de pensar e ela deixou o sorriso descair.
— Que raio se passa contigo hoje? Parece que acordaste do lado errado da cama!
— Vais dizer-me ou não? — ignorei o comentário dela.
— Caramba, . É a !
— A ?
— Uau! Subitamente o assunto tornou-se interessante, não foi? — olhou-me malandra, esperando por alguma reação minha. — Enfim, ela vai ficar aqui enquanto os pais dela estão fora, algo sobre uma tia qualquer, de que agora não me recordo bem, mas pelos vistos a mulherzinha adoeceu e a Daina queria ir lá vê-la.
— E por que é que a não vai com os pais?
— A vai ficar no Neon com a Alinne amanhã, porque o Kellan está de folga.
— E tu sabes disso como? — olhei-a de modo inquisitório.
— Como eu sei ou deixo de saber as coisas, não é contigo — contra-argumentou presunçosa.
— Ok, priminha — falei seco. — Mais alguma coisa? Não? Ótimo! Agora, se me dás licença…
Fitei-a uma última vez e corri até à mesa onde estavam Caios e Maximos.
— Caios, cala a boca! — ordenou Maximos. — Estou farto de te ouvir a falar merda.
— Merda! — gritou. — Pronto, Max, agora já te podes começar a queixar.
— Seu filho da… — inspirou fundo contendo o palavrão. — Bastardo!
— Clima tenso? — perguntei, recebendo uma confirmação do mais novo dos irmãos.
— O Maximos só está um pouco rabugento, nada a que eu já não esteja habituado — atiçou o outro, enquanto barrava manteiga no pão torrado. — Não é mesmo, mano?
— Caios, se tu não calas a merda da boca, eu vou acabar por não responder por mim! — ameaçou-o, visivelmente irritado.
— Hey! Rapazes! — exclamei.
— Por que é que eu haveria de me calar? — Caios insistiu provocador.
— Porque nem todos estão a fim de ouvir idiotas — cerrou os dentes, pousando a xícara de café na mesa.
— Max, se esse é o teu problema, és tu quem tem de se calar!
— Estejam calados, marmanjos de uma figa — Mia surgiu por trás de mim.
— Baixa a bolinha, criança! — Maximos gritou quando a irmã já ia longe.


Avila

Pousei a sacola no chão e espreitei pela janela da porta de entrada. Da rua, já conseguia ouvir o movimento matinal do Albergue Lampejo da Estrela, olhei para trás e vi o sorriso da minha mãe, do lado do banco de passageiro, à espera do momento em que eu entrasse.
Os dedos do meu pai batucavam no volante, impacientes.
Inspirei fundo e toquei na campainha.
Assustei-me quando a porta se abriu tão de repente e a figura de uma miúda de 16 anos, de longos cabelos pretos, puxou pela minha mão, sem me dar a oportunidade de sequer lhe dizer “Oi, Mia!”.
Quando dei por ela, a porta atrás de mim tinha sido fechada, a minha sacola estava nas mãos da Mia e ela arrastava-me com toda a rapidez, para a zona do barulho.
, eu estava mesmo à espera que tu chegasses, eu pensei que hoje, como supostamente não tens de trabalhar, podíamos passear um pouco, talvez ver um filme ou então se preferires, podíamos fazer bolos com a minha mãe, ela tem umas receitas novas e está desejosa de as estrear.
Tentei acompanhar o seu palavreado rápido e os passos ritmados, enquanto tentava dar-lhe uma resposta.
— Fazer bolos soa lindamente — comentei. — Já não me lembro da última vez em que comi algum doce caseiro da Dona Camélia.
Entramos num salão pequeno, com algumas mesas redondas e outras retangulares, dispostas em toda a sua extensão. Não havia uma mesa desocupada, todos os clientes do albergue estavam devidamente sentados nos seus lugares a tomar o café da manhã madrugador e, na última mesa, estavam os três rapazes Vielmond.
Maximos, Caios e .
Vacilei quando notei a sua presença, mas então lembrei-me do nosso último momento juntos.
Não havia nada a temer, pelo contrário.
Vi que Mia percebeu o meu momento de hesitação, quando ela me sorriu em incentivo. Olhei para a nuca dele a pouco metros de mim e fui até lá.
Quando cheguei, o primeiro a notar a minha presença foi Caios, que cutucou o braço do primo para que este me notasse também.
olhou-me duas vezes. Da primeira vez foi rápido. Como se desse uma vista d’olhos ao que o primo lhe queria mostrar, mas a segunda vez foi longa.
Longa o suficiente para deixar as minhas bochechas ruborizadas.
— Bom dia — pigarreei com um meio sorriso no canto da boca.
— Bom dia, ! — responderam ambos os irmãos em uníssono.
Olhei para quando ele pousou a sua caneca.
— Bom dia, ! — os seus lábios não sorriram, mas os seus olhos sim.
Ouvi barulho atrás de mim e olhei para trás, a Mia colocou duas cadeiras em volta da mesa e sentou-se ao lado do irmão mais velho.
Fuzilei-a discretamente com o olhar. Ela tinha feito de propósito para que eu me sentasse ao lado do .
— Maximos, passa aí o café!
Maximos pegou no bule e entregou-o à irmã caçula, levantando-se em seguida.
— Eu já estou atrasado para o trabalho. Um bom resto de café da manhã para vocês.
— Vai! Vai lá, chato! — murmurou Caios, quando Maximos já estava a uma distância segura. — Estava a ver que não ia!
— Caios, deixa de ser criança.
— Olha lá, miúda, respeitinho aqui ao irmão! — exclamou, batendo no peito.
— Está calado. — disse a mais nova, fazendo-me rir baixo.
— Estás-te a rir, Avila? — perguntou Caios. — Não tem piada, esta criança acha que só porque tem mais de 15 anos, pode dizer o que bem entende.
— Eu posso, Caios. Tu não mandas em mim.
De canto d’olho, vi a conter um riso e percebi que nunca tinha ouvido o som da sua gargalhada, o que de alguma forma, me incomodou.
— Estás com fome, ?
— Er… não, eu estou ótima, obrigada, Mia.
— Não faças cerimônia, aqui estás à vontade — falou Caios.
Mia levantou-se de rompante, deixando-nos todos de olhos postos nela.
— Eu lembrei-me agora do bolo de laranja que está na geladeira.
— E é preciso assustares toda a gente por causa de um bolo? — falou pela primeira vez.
— Tu ainda não provaste o bolo de laranja da senhora Camélia Vielmond, por isso não digas nada. — Caios defendeu a irmã. — Vai lá buscá-lo, Mia.
— Caios, anda comigo! — pediu a mais nova.
— Para quê? Não sabes pegar num bolo sozinha?
— Anda, porra! — vi o olhar insinuado da garota.
— Ah! Ok, já entendi. Com licença — pediu antes de sair com a irmã.
Ouvi uma inspiração alta do meu lado. pegou num biscoito e voltou a pousá-lo.
Eu continuava com as mãos sobre o meu colo e os olhos pregados nas unhas pintadas de azul-escuro.
— Eles não sabem disfarçar.
Sorri, involuntária, com o seu comentário.
— Então não fui só eu quem reparou.
— Digamos que sútil não é o nome do meio do meu primo.
Permiti-me encará-lo. usava um pullover verde musgo que realçava ainda mais os seus olhos, já naturalmente . Do pouco que eu conseguia ver, as suas calças eram pretas e um tanto justas.
Só percebi que ele me olhava também quando os nossos olhares se encontraram e, pela primeira vez sorrimos juntos.
— É engraçado, depois de tantos anos, estarmos aqui juntos, a tomar o café da manhã — ele pegou num pouco de café e colocou na caneca. — É estranho.
— Por que dizes isso? — sabia que não devia ter perguntado, mas a curiosidade falou mais alto.
— Eu pensei que nunca mais voltaria a ver-te. Depois da morte da , eu pensei que não nos fôssemos voltar a ver, muito menos voltar a falar.
As suas palavras sinceras não conseguiam deixar de me magoar um pouco. Mesmo eu tendo perfeita noção de que ele sempre gostou mais da minha irmã do que de mim, não podia simplesmente ignorar o fato de isso deixar-me mal.
— Bem, o destino gosta de nos pregar umas peças de vez em quando — concluí com um olhar meigo.
— Pelo menos foi uma boa peça — falou antes de se levantar. — Vou ter de ir andando, , hoje de noite quando voltar para casa falamos.
Ele abaixou-se para ficar ao nível do meu rosto e depositou um beijo na minha testa, antes de sair.
Os segundos passaram-se ao meu redor, mas eu não me lembro de quantos foram exatamente. Em tantos anos de convivência, ele nunca antes me tinha dado um beijo na testa. À sim, inúmeras vezes, mas a mim aquela era a primeira e, se Deus quisesse, não seria a última.



Continua...



Nota da Autora: (12/04/2017) A todas as minhas leitoras, antes de mais um enorme obrigado. Não só por acompanharem VDI, mas também por terem paciência de santas e não reclamarem das minhas constantes ausências. Não é fácil para mim escrever, hoje em dia.
A minha vida deu uma volta de 180º e nada é como costumava ser, no início de VDI.
A culpa é minha, eu não sei dividir as coisas e muitas vezes me deixo levar por momentos e emoções, pondo de lado a minha história, e sem querer, abandonando-vos também.
Mas eu nunca me esqueci, nunca deixei de acreditar em VDI e espero que vocês também não. <3
Não tenho muito para falar, apenas queria deixar um agradecimento <3
Beijo grande <3
XX Carol

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Nota da Beta: Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.

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