Autora: Gigi C. | Beta: Lu Guimarães (Até capítulo 14: Gaby)



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CAPÍTULO 01

Los Angeles – 26 de novembro de 2016.

– EU O QUE? O QUE VOCÊS QUEREREM? – a menina gritou para seu agente, se levantando imediatamente.
– Queremos que você namore com o – disse o empresário lentamente, como se estivesse explicando algo à uma criança.
– Eu não vou fazer isso. Vocês ficaram loucos? – tentava manter a calma, mas não estava dando certo. – Vocês me acham com cara de puta, prostituta ou vadia? – apontou para seu próprio rosto com raiva.
– Amorzinho, quem faz isso não é puta ou qualquer outra coisa que você falou. Kendall Jenner, Nadine Leopold e, até mesmo, a Taylor Swift já fez isso – o agente enumerou os nomes em seus dedos e sorriu para a moça de olhos claros e cabelos loiros, típico das garotas australianas.
– Eu não vou fazer isso por dinheiro – cruzou os braços e continuou encarando os homens que estavam na sala.
– Não é por dinheiro. Você só vai ter um pouco mais de atenção. Quem são as modelos que estão no topo nesse exato momento? – deu uma pausa para ela responder, mas a moça nem se quer deu-se o trabalho de responder. O agente revirou os olhos e continuou: – Cara Delevingne, Taylor Hill, Gigi Hadid, Kendall Jenner... – disse dando ênfase na última por fim complementou:
– E eu acho que ' ' não está nessa lista – a garota sentiu a ironia e se ofendeu, mas não queria demonstrar.
– Eu não vou fazer isso. Não mesmo.


Londres – 14 de dezembro de 2016.

Eu sei. Eu disse que não faria isso, mas fui convencida.
E lá estava eu, dentro de um carro com algumas amigas para encontrar um homem que eu nunca tive contato em toda minha vida. Eu sentia vontade de matar as pessoas que fizeram isso comigo. Bufei e continuei olhando as ruas pela janela.om certeza, o
Vocês devem estar se perguntando: por que chamaram uma "who" para ser a namorada do queridinho de Londres? Só para constar, eu não sei o porquê. Talvez seja por esse motivo, por eu ser who. Acho que ele já fingiu namorar todas as outras modelos e sobrou para mim dessa vez.
Suspirei me lembrando da última reunião que eu tive com o meu empresário, Preston, e meu agente, Bill.

– Preciso que seja bem real. Olhe para ele como se fosse um... um... uma torta de morango – olhei para Bill com uma cara de deboche, não acredito que tal comparação veio dele. – Um pepino então, Sra. Eu não como doces – gargalhei pela primeira vez com aquele assunto. O Bill é o cara mais engraçado e gay que eu conhecia.
– Parem de falar besteiras – Preston revirou os olhos e levantou batendo as mãos na mesa. – Eu preciso de amor, paixão, olhares apaixonados, mãos dadas, beijos e abraços apertados, ok? – não respondi – Será que você consegue tirar essa cara de quem comeu e não gostou?
– Quando você sumir da minha frente, eu tiro – dei um sorrisinho e fui saindo da sala.
– Quero você amanhã pronta para ir até Londres conhecer o seu novo namorado – arregalei os olhos, pronta para gritar. – Não adianta reclamar. O primeiro contato de vocês será num pub, como eles chamam. A história é que um amigo em comum os apresentou – apenas dei as costas e fui embora sem responder.


Meus flashes daquela reunião foram interrompidos quando o carro parou. Saímos do mesmo e entramos no tal pub. Como eu estava em Londres, eu aproveitei para rever umas amigas e acabei levando algumas delas para a tal festa, só para parecer algo mais real. Se for para mentir vamos fazer isso da melhor forma possível.
Entramos no recinto e logo reparei que aquela era uma das melhores boates da cidade. Três andares com a vista para a pista de dança principal, dois bares no primeiro andar e um em cada um dos outros, local reservado para os Vips/ricos, banheiros em perfeito estado, todos os tipos de drinks... Eu sabia que tinha mais coisas, mas aquilo foi apenas o que uma das minhas amigas, Amy, disse enquanto subíamos para o andar dos Vips. Era lá que eu encontraria meu futuro namorado.
Assim que chegamos, um segurança pediu para ver nossas pulseiras e assim fizemos, estendendo o braço. Passamos por aquela corrente vermelha e logo seus olhos se cruzaram com os meus. Droga, ele era realmente lindo. Passei a mão no meu vestido, verificando se estava tudo em ordem e andei até o bar.
– Pode falar – o barman disse me olhando nos olhos.
– Um Martini, por gentileza – sorri para o homem e me virei para a mesa em que ele conversava com alguns amigos. Eu não sabia o que fazer, então continuei parada. Até que sinto alguém estendendo seu braço por sobre meu ombro.
– Olá, . Eu sou o George, o tal amigo que você tem em comum com o – analisei o homem. Sapato preto, calça jeans e camisa vinho de mangas compridas. Não parecia muito mais velho que eu. – Vamos nos abraçar agora para parecer que somos velhos amigos.
– GEORGE! Quanto tempo! – abracei–o forte e ele fez o mesmo. Olhei para as outras pessoas que estavam por ali e elas nos encaravam. Ótimo, era exatamente isso que eu queria.
– Por que você não senta com a gente? – apontou para seus amigos.
– Vou chamar as meninas – peguei minha bebida, chamei as quatro garotas e sentamos numa mesa junto com os amigos do George.
– Pessoal – disse chamando a atenção de todos os presentes na mesa – Essa é a , uma amiga minha – as poucas pessoas que ali estavam, acredito que não deveriam ter mais de dez, nos cumprimentaram e sentamos na ponta da mesa. E logo começaram a conversar sobre qualquer assunto aleatório, assunto este que no momento eu não estava prestando a devida atenção.
Mais uma vez, os olhos dele me encaravam. Sorri tentando ser simpática e ele repetiu o ato. Levantei meu copo, chamando–o silenciosamente para um drink, e ele se levantou, e pude o ver vindo em minha direção.
, olha o vindo – Melanie, uma das minhas amigas, sussurrou e eu apenas concordei com a cabeça.
– Boa noite, garotas. Estão se divertindo? – foi educado. As meninas concordaram e começaram a elogiar o local e as bebidas. Ele apenas sorria. – Vou roubar a amiga de vocês um pouco. Posso?
– Claro. Pode roubar sempre – Sue gargalhou e eu lhe lancei um olhar mortal, mas a menina continuou rindo como se tivesse contado uma piada. Com certeza já estava ficando bêbada.
– Me acompanha até o bar? – pediu assim que me levantei e parei ao seu lado. Concordei e fomos. – Então, você é a minha nova namorada?!
– Sou – respondi mesmo sabendo que havia sido uma pergunta retórica.
– É um prazer conhece–la – me estendeu a mão e lançou um sorriso amigável. Cumprimentamo-nos com um aperto de mãos com direito à leves balançadas, como se estivéssemos fechando um acordo – e de fato, era realmente o que estava acontecendo.
– Precisamos fazer isso direito se quisermos que suas fãs acreditem. Porque, pelo o que eu ouvi, elas nunca acreditam nesses seus namoros – bebi um pouco do meu drink e o olhei de cima a baixo. Ele usava umas botas marrom claro, calça jeans preta, camisa florida de botões e seu cabelo longo estava jogado de uma forma que o deixava ainda mais bonito.
– E o que você sugere? – fez comigo o que eu havia acabado de fazer com ele, me analisou dos pés a cabeça. Primeiro, meus saltos bege, depois meu vestido branco de mangas longas e um pouco colado e, por fim, meus cabelos que estavam soltos. Fiquei um pouco sem graça quando ele voltou a me olhar nos olhos.
– Nós poderíamos tirar algumas selfies com nossos amigos, nos divertir na pista de dança... – ele não teve tempo para concordar, pois George o gritou, chamando todos para uma foto. Ele teve, exatamente, a mesma ideia que eu.
– Não é preciso que vocês saíam juntos. Eu fico no meio – George sussurrou para nós dois quando chegamos para tirar a foto. Todos se posicionaram e em poucos minutos a foto já estava postada, sim, poucos minutos, George ainda foi edita-la e procurar uma legenda.

Após alguns minutos, todos nós descemos para dançar. Ficamos quase três horas dançando juntos e, algumas vezes, eu olhava para os lados e via alguns celulares apontados discretamente para todos nós. Uma das vezes me puxou para mais perto dele e começamos a dançar juntos. Eu estava torcendo para que aquelas fofoqueiras conseguissem tirar muitas fotos desse momento.
– Preciso ir – ele sussurrou em meu ouvido. – Não vamos juntos e nem vamos nos beijar, apenas no próximo encontro – beijou minha bochecha e saiu para se despedir dos outros. – Nos vemos daqui a cinco dias – antes mesmo que eu pudesse concordar, minhas amigas já estavam surtando. Fiz um "legal" com a mão e ele se foi. Nosso “namoro” já tinha até mesmo um roteiro, o qual fiquei sabendo exatamente agora.
Fiquei mais um pouco por lá, para não parecer que eu só estava ali por ele, e depois voltei para o hotel. Cansada, assim que cheguei no quarto, tirei minha sandália. Sempre gostei de sair, mas sempre sou a que mais me canso, por isso dormi feito pedra assim que me joguei na cama.

CAPÍTULO 02

Londres – 19 de dezembro de 2016.
Já havia se passado cinco dias desde que eu conheci o no pub. Desde então não tivemos nenhum contato frente a frente, nem mesmo conversávamos por mensagens, só depois que acordei no outro dia foi que me lembrei que não havíamos pego o número um do outro. Desde aquele encontro, as revistas começaram a fazer mais e mais especulações sobre isso.

“CANTOR DA MAIOR BANDA ATUAL, , É VISTO COM MODELO AUSTRALIANA, .”

Essa era a manchete de todas elas. Em uma dessas matérias, a única que olhei por inteiro, tinha várias fotos nossas, tiradas de vários ângulos por pessoas aleatórias, e a selfie que tiramos com George era a foto de mais destaque na revista
Nesses cinco dias, o meu Twitter era bombardeado diariamente por fãs perguntando se eu estava namorando com o "bebê delas". Algumas delas falavam que eu era uma fofa e já nos desejavam felicidades. Outras falavam que eu era uma puta e me mandavam ódio diário. Eu não tinha permissão para responder nada sobre esse assunto, seja um elogio ou um xingamento.
Revirei os olhos e coloquei meu celular no silencioso. Eu não aguentava mais escutar ele tocar quando chegavam novas mensagens no Twitter.
– Você está em todas as revistas, amiga – Melanie falou com animação enquanto entrava no quarto do hotel trazendo consigo uma revista de fofocas.
– Eu não quero mais ver isso – bufei empurrando a revista para longe. – Preciso de ajuda – falei antes que ela pudesse contestar e ela concordou.
Faltava uma hora e meia para chegar para irmos jantar no restaurante mais caro de Londres, o Gordon Ramsay, e eu ainda não havia escolhido uma roupa quanto menos um penteado. Era o nosso primeiro encontro a sós, eu precisava estar maravilhosa. Foi exatamente isso que eu disse para Mel e ela se propôs a me ajudar. Em menos de meia hora já havíamos escolhido tudo: salto bege, vestido longo salmon e um sobretudo também bege. Optamos por uma maquiagem leve nos olhos para que eu pudesse usar um batom mais forte, escolhemos um vermelho sangue. Melanie estava tão empolgada. Se fosse um encontro real, eu também estaria, mas esse não era o caso.
Assim que minha amiga terminou de fazer cachos nas pontas do meu cabelo, meu celular acendeu avisando a chegada de uma nova mensagem. Não tive tempo de olhar, pois a garota correu para ver antes.
– É o . Ele já chegou!! – Melanie estava animada, parecia até que era ela quem iria para um encontro com o cantor da maior banda da atualidade. Bom, ele deu um jeito de descobrir meu número nesses cinco dias, sorri – Vai logo, . Não deixa esse gato escapar – dizia enquanto me empurrava para porta.
– Obrigada, Mel – abracei a garota meio sem jeito, por ela ainda estar me empurrando, e ela deixou um beijo babado na minha bochecha. Olhei-me no espelho do elevador e vi que eu estava maravilhosa. Suspirei sem acreditar que estava, realmente, fazendo aquilo. Saindo com um famoso só para ter mais atenção, isso me parecia coisa de mulher baixa.
Meus pensamentos cessaram quando as portas do elevador se abriram. Andei lentamente até a porta do hotel e lá estava ele parado ao lado do carro usando uma calça jeans escura, camisa social preta, sobretudo preto e branco com listras na vertical e sua famosa bota marrom claro. Estava lindo.
– Você está linda! – me deu um abraço com direito a beijinhos na bochecha.
– Você não está nada mal – sorri e ele gargalhou. – Estou brincando, você está maravilhoso – falei enquanto ele abria a porta para que eu pudesse entrar, deu a volta no carro, abrindo a porta do motorista. Assim que ele deu partida, um silêncio incômodo se alojou no local e eu não sabia como mudar aquilo. Resolvi puxar o único assunto que nos envolvia.
– Então... Por que você está sempre "namorando"? – fui direta. Desde o momento em que me propuseram um namoro com ele, eu queria fazer aquela pergunta, ou então só queria saber se ele tinha algo mesmo a esconder.
– A mídia pode ajudar bastante na divulgação de um CD ou um produto qualquer, mas pode atrapalhar bastante também – começou a explicar me olhando de relance. – As revistas estão sempre procurando novas fofocas para chamar atenção de seus leitores fiéis. Quando elas não acham nada interessante, simplesmente inventam...
– Fala logo, . Você está me enrolando – cruzei os braços e encarei o garoto.
– Eles acham que eu sou gay e que namoro o meu companheiro de banda, – concordei com a cabeça e continuei o encarando. Ele apenas deu de ombros e voltou a prestar atenção no caminho. Mas uma pergunta estava entalada em minha garganta e eu não iria conseguir segurar por muito tempo.
– E você é... – dei uma pausa pensado se aquilo não iria o ofender de alguma forma. – Hm...
– Se eu sou gay? – completou e eu apenas concordei com a cabeça. – Digamos que eu não tenho preferência – piscou e deu um sorriso safado. Arqueei as sobrancelhas e fiquei sem saber o que dizer. Agradeci aos céus quando vi que já havíamos chegado ao nosso destino. – Vamos?! – disse saindo do banco do motorista e dando a volta rapidamente, me estendeu a mão quando abriu a porta para que eu saísse. Segurei em sua mão e andamos até a entrada do local. – Reserva no nome de .
– Me acompanhem – a mulher atravessou o local até chegar numa mesa ao lado de uma janela de vidro enorme. Com certeza era para que os paparazzi nos vissem. Revirei os olhos e me sentei na cadeira que o havia puxado.
– Obrigada. O que vai pedir? – dei uma olhada rápida no cardápio.
– O que acha dessa carne? – me encarou e eu quase me perdi naquela imensidão verde que ele chama de olhos.
– Pode ser – concordei sem nem prestar atenção no que ele havia dito.
– Pediremos isso então – ele logo chamou o garçom e fez o meu pedido e o dele, acrescentando um vinho. – Podemos conversar enquanto não chega.
– Você quer falar sobre o que?
– Por que você aceitou isso? – apontou para nós dois e eu fiquei surpresa com sua "delicadeza", bem direto esse menino.
– Estou no início da carreira – falei apenas isso e ele já entendeu. – Podemos falar sobre coisas normais? Tipo: qual seu nome ou qual é a sua idade? Isso ainda é um primeiro encontro, ainda temos que nos conhecer.
– Eu começo. Me chamo , 22 anos. Meus pais são separados e eu tenho uma irmã mais velha chamada Gemma. Nasci em uma vila chamada Holmes Chapel, em Cheshire. Hoje eu moro sozinho aqui em Londres, mas faço o possível para ir visitar a minha família sempre – terminou e ficou esperando eu fazer o mesmo.
Jeanne , mas pode me chamar de . Tenho 19 anos. Nasci na Austrália, mas passei a morar em Los Angeles quando comecei a trabalhar como modelo. Hoje eu moro com a minha melhor amiga enquanto os meus pais e meu irmão mais novo, o Noah, ainda moram na Austrália. E, sempre que possível, eu vou visita–lós – assim que eu terminei de falar, a comida chegou. Comemos em silêncio até que seu celular apitou, avisando a chegada de uma nova mensagem.
– Tem paparazzi aqui na porta e no seu hotel – eu apenas dei de ombros, era o esperado. – Sobre o que você quer falar agora? – limpou a boca com o guardanapo, me olhando nos olhos.
– Me conte a experiência de namorar uma famosa a cada ano – apoiei a cabeça em minhas mãos e me inclinei para ficar mais perto dele, mostrando interesse.
– A única coisa boa é que você conhece mais pessoas. Mas o resto é bem chato – ele olhava seu prato e não desviava. Cada parada era um suspiro e isso só demonstrava o quanto ele odiava aquilo. – Tudo é programado e não temos uma conversa direito. Kendall Jenner foi a única que eu consegui conversar de verdade e acabamos nos tornando amigos – levantou, aos poucos, o seu olhar até se encontrar com o meu.
– Você não gosta disso não é? – perguntei já sabendo a resposta. Ele só teve tempo de abrir a boca e soltar um suspiro cansado, pois seu celular tocou na hora.
– Vem – ofereceu-me a mão e nos guiou até a recepção. Enquanto ele falava com uma funcionária, eu dei uma olhada lá fora. Devia ter uns dez paparazzi ali e umas trinta fãs. Confesso que fiquei assustada.
– Como vamos passar ? – me aproximei dele com cuidado.
– Os seguranças daqui vão nos ajudar. Eu vou na frente e abro a porta para você – falou e já foi puxado para passar por aquela multidão. Abriu a porta e me chamou com a mão. Respirei fundo e fui. Eu escutava várias pessoas falando ao mesmo tempo. Umas falavam mal, outras me elogiavam e os paparazzi gritavam perguntando se estávamos namorando.
– Ufa! – bati a porta do carro com força e escondi o rosto em minhas mãos.
– Pode ser bem assustador – o olhei com as sobrancelhas arqueadas e ele apontou para a janela. – Eles podem ser bem assustadores – eu concordei.
Fomos metade do caminho em silêncio. Eu ainda estava um pouco assustada com aquela multidão e não estava preparada para passar por outra.
– O que faremos agora?
– Me mandaram te levar para o hotel e subir com você...
– Não mesmo – neguei com a cabeça várias vezes. – Você não vai subir comigo no primeiro encontro. Ficou louco? – ele gargalhou sem me olhar.
– Não é exatamente um primeiro encontro normal, mas tudo bem. Como você prefere fazer? – interrogou manobrando o carro pelas ruas de Londres.
– Vamos nos despedir com beijinhos no rosto e você vai embora – apenas concordou com a cabeça.
Logo que chegamos ao hotel em que eu estava hospedada, vimos que a entrada principal estava completamente cheia de fãs e fotógrafos. Era visível que ali havia mais pessoas que no restaurante.
– Meu Deus! – me encarou com preocupação. – Estou com medo – foi nessa hora que eu senti vontade de voltar atrás, de continuar sendo apenas mais uma modelo. Senti vontade de desistir de toda aquela mentira. Eu sabia que tudo só pioraria. Dali em diante seriam mais ameaças, xingamentos, gritos, fãs nas portas dos locais, declarações de amor, mais trabalhos e seções de fotos... Existia o lado bom e o ruim, mas, naquele momento, o ruim estava pesando bem mais. Olhei para o menino que estava sentado ao meu lado e que me encarava com um olhar preocupado. Ele parecia tão forte e, ao mesmo tempo, tão frágil. Eu sabia que nunca seríamos namorados de verdade, mas eu queria ser sua amiga e amigos se ajudam.
– Vamos – olhei-me no espelho rapidamente e vi que tudo continuava impecável. Ele me mandou um sorriso amigável.
– Quer que eu te leve até a porta? – não precisei responder, pois um segurança do hotel bateu no vidro do carro.
– A senhorita precisa de ajuda? – perguntou quando eu baixei o vidro. Concordei com a cabeça e voltei a olhar para o .
– Até amanhã, – nos despedimos com um abraço desajeitado e beijos na bochecha, mas próximos aos lábios. Quase fiquei cega com os flashes dos paparazzi.
Saí do carro com a ajuda do segurança e o mesmo me ajudou a passar por todas aquelas pessoas sem que elas me agredissem. E, novamente, as fãs me xingavam, elogiavam e perguntavam se estávamos namorando. Como da outra vez, ignorei tudo e entrei no hotel.
– Finalmente – falei assim que me deitei na cama. Eu estava exausta.
Dormi assim que terminei o banho.

CAPÍTULO 03

Londres – 20 de dezembro de 2016.
– Está pronta? – escutei a voz do assim que atendi o celular.
– Porra, eu me atrasei. Venha em meia hora – não esperei ele responder, desliguei a chamada e fui correndo para o banheiro – Droga!
Eu havia me atrasado para a nossa primeira reunião com o e o seu empresário, só acordei porque o meu "namorado" me ligou.
Corri para escolher uma roupa. Peguei uma calça preta de cintura alta e uma blusa qualquer. Vesti o mais rápido possível e, na mesma velocidade, prendi meu cabelo em um rabo de cavalo e desci para o hall do hotel enquanto vestia meu sobretudo. Não demorou muito para chegar uma mensagem de avisando que já estava me esperando.
– Bom dia.
– Boa tarde já, – sorriu olhando para a minha cara amassada e apontando para o relógio, que marcava 13:45 pm.
– Acordei um pouco tarde – brinquei e ele gargalhou. Fomos escutando músicas aleatórias até chegarmos a sua casa, que diga-se de passagem, era gigante.
– Seja bem vinda, Sra. – abriu a porta para que eu saísse me estendendo a mão.
para você – levantei o queixo e saí em direção à porta da casa, ignorando sua mão.
– Me desculpe senhorita – fez uma falsa voz de arrependimento e sorrimos.
Entramos na mansão do e eu fiquei surpresa com cada detalhe daquele lugar. A porta da garagem dava em uma sala de estar grande e com paredes brancas, um sofá cinza escuro gigante, tapete preto, mesa de centro de madeira e quadros caros deixavam o local mais sofisticado, nunca imaginei que um homem seria capaz de manter uma casa tão organizada.
– Vamos, eles já chegaram – puxou-me por um corredor pequeno e logo chegamos ao que parecia uma sala de jantar. Logo vi Preston e Bill, cada um sentado ao lado de uma cadeira vazia, e mais dois homens.
– Finalmente! – Preston resmungou e eu revirei os olhos. Sussurrei um 'boa tarde' e me sentei entre os dois.
, esse é Phil, meu empresário, e o Jamie, meu agente – nos cumprimentamos com apertos de mão.
– Esse aqui é o cronograma do namoro de vocês – Phil me estendeu um papel e eu logo o peguei para analisar. Não precisei ler tudo para achar aquilo ridículo. Me segurei para não rir na frente de todos, mas no momento, essa é a minha vontade
– Isso está ridículo – todos me olharam, aparentemente, assustados. – Nós iremos passar o natal cada um com a sua família, ok. Mas como assim "passar o ano novo em New York"? O não fez isso com a Taylor Swift? Muito repetitivo. Não vamos fazer de novo – continuei analisando o papel. – Terminar o namoro no fim de janeiro?
– É como sempre fazemos. No máximo, em fevereiro – Jamie respondeu e eu não acreditei naquilo. Depois se perguntam porque nunca acreditam nos namoros do garoto.
– É por isso que ninguém acredita nas mentiras de vocês. Todas às vezes é a mesma coisa, os mesmos planos, sendo que ninguém acredita desde a primeira vez. Isso é andar em círculos – todos me olhavam atentamente. Eu estava me sentindo a chefe daquela equipe e me senti uma incompetente por aquilo estar um completo caos.
Joguei-me de volta na cadeira e comecei a pensar em uma forma que fizesse todos acreditarem que estávamos, realmente, namorando.
– Nós vamos comemorar o ano novo em Dubai... – todos abriram a boca, mas eu continuei – Passaremos uma semana e nossas famílias também vão, assim eu conheço a sua família e você conhece a minha...
– Você não pode chegar aqui e mudar todos os nossos planos. Você é só uma novata nesse ramo, precisa aprender mais antes de falar qualquer merda que você pensa – Phil praticamente berrou batendo as mãos na mesa e me olhando como se fosse me atacar a qualquer momento. – Não mudaremos os nossos planos só por causa dessa menininha – eu arqueei as sobrancelhas me sentindo ofendida.
– Então arrumem uma nova "menininha" para fazer essa idiotice, porque eu estou fora – me levantei empurrando a cadeira e saí da sala. Eu não suporto pessoas que querem ser melhores que os outros só porque possuem mais dinheiro.
Sentei no sofá cinza escuro e fiquei olhando para o nada até ouvir passos vindos do corredor. Olhei para o e sorri sem graça. Ele andou lentamente e sentou–se ao meu lado.
– Desculpa por ele. O Phil é meio...
– Ignorante, grosso, estúpido e várias outras coisas – ele gargalhou concordando com a cabeça – Além de burro, porque só assim pra não perceber o erro por trás dos seus roteiros de namoro – disse bufando no final.
– Você vai mesmo deixar de ser minha namorada? – sussurrou olhando nos meus olhos e eu vi a tristeza invadir os seus. Abri a boca algumas vezes, mas nada saía. Eu estava sem saber o que responder. – Eu dou um jeito, , o faço mudar de ideia.
– Não sei se aguento a pressão, – abaixei a cabeça sem conseguir encará-lo. Eu estava me sentindo, realmente, uma menininha.
O garoto apenas encarou o chão e ficou sem falar nada por alguns minutos.
– Eu preciso de você, – disse apenas isso e não foi preciso mais palavras para me fazer voltar atrás na minha decisão. Eu senti, novamente, que precisava ajudá-lo.
Voltamos para a sala e sentamos em nossos devidos lugares na mesmo velocidade. Phil estava com as costas encostadas na cadeira, tinha os braços cruzados e me olhava com os olhos cerrados. Os outros continuaram em silêncio por alguns minutos, apenas nos encarando, até que o resolveu falar:
– Eu concordo com a – Phil arregalou os olhos e, quando o mesmo estava prestes a gritar, o menino continuou: – Se ninguém nunca acredita, é porque estamos fazendo algo errado – ele suspirou passando as mãos em seus cabelos. – Dessa vez, poderíamos tentar fazer algumas mudanças – ele falava tudo com calma, para que ninguém se ofendesse com as suas palavras.
– Inacreditável! – Phil resmungou com raiva. – Façam como preferir, eu não vou mais meter um dedo nessa história – apontou-me com o dedo indicador e eu me levantei pronta para iniciar uma briga, mas Preston me fez sentar novamente. Lancei um olhar raivoso e voltei a olhar para Phil. – Mas se não der certo, eu vou sujar o seu nome e você não conseguirá um emprego nunca mais – sua voz aumentou três oitavas no momento em que ele me ameaçava. Phil saiu da sala batendo a porta com força, nos deixando para trás. Olhei para as pessoas que restaram e cruzei os braços, sem saber o que iria acontecer.
– Eu, realmente, gostei da ideia de ir para Dubai – Bill disse calmamente e Preston concordou com a cabeça. Perguntei-me mentalmente o porquê de o Preston estar tão calado, aquele homem não era assim. O pensamento deixou minha mente quando ouvi algo que me surpreendeu:
– Não é uma ideia ruim, – olhei para Jamie com as sobrancelhas arqueadas e lhe mandei um sorriso alegre. – Só precisamos fazer tudo dar certo, pelo menos dessa vez – o homem escrevia algo em um papel, que logo foi passado para mim.
Olhei o papel com atenção e vi que ele havia anotado o que eu disse, só que de uma forma mais organizada. O primeiro tópico era sobre o natal: cada um com a sua família. O segundo tópico falava sobre a virada do ano...
– Vocês irão para Dubai no dia 27 – Jamie começou a falar e eu parei de ler, pois estava escrito a mesma coisa no papel. – , você vai sair de Los Angeles com a sua família e vai direto para o hotel. , você vai fazer o mesmo, mas saindo daqui de Londres – pegou seu celular enquanto falava e começou a digitar alguma coisa. – Chegarão em horários diferentes, isso é óbvio, mas nós iremos dar um jeito de fazer com que todos saibam que estão indo para o mesmo lugar – nos olhou rapidamente e voltou a prestar atenção em seu celular. – Eu já estou providenciando a hospedagem de vocês em um dos melhores hotéis de Dubai. Bill? – olhou para o meu agente, que apenas levantou as sobrancelhas. – Você providência as passagens?
– Claro – murmurou e já foi pegando um papel para anotar o que deveria ser feito nos próximos dias. – Quatro passagens para e família, e são quantas para o ?
– Por enquanto, três. Eu vou ligar para a minha irmã e perguntarei se ela irá nos acompanhar. Mando-lhe uma resposta ainda hoje – Bill concordou com a cabeça e voltou a escrever.
– Passarão apenas uma semana?
– Sim? – sugeri olhando para o e ele concordou.
– Preston? – Jamie chamou e o outro apenas o encarou. – Está de acordo com tudo?
– Eu gostei da ideia de ir para Dubai. O nunca foi para lá com nenhuma das namoradas então é algo novo e interessante – dei um sorriso largo para o meu empresário, eu estava feliz por ele concordar comigo pelo menos uma vez na vida. – Mas, acho que eu acrescentaria algumas coisas, como: saídas aleatórias agora em janeiro, uma viagem para Cheshire e outra para a Austrália – ia dizendo para com calma, para que tudo fosse anotado – Para conhecerem o resto da família, deveria se aproximar da Gemma e você , pode ficar amigo do Noah... – deu de ombros e eu vi que Bill e Jamie continuavam tudo em seus bloquinhos e de vez enquanto balançando a cabeça em sinal de afirmação. Eu sabia que eles iriam usar algumas ideias do Preston.
Não demorou muito para que nossa, um tanto quanto conturbada, reunião chegasse ao fim. Os nossos feriados do fim de ano já estavam programados e a próxima reunião havia sido marcada para o dia 18 de janeiro. Bill e Preston já haviam ido embora quando o Jamie apareceu com outra ideia.
– Por que vocês não vão andar um pouco? – olhamos para ele sem expressão e eu estava prestes a perguntar se ele estava ficando louco quando sua voz calma voltou a preencher o local. – Porque as pessoas iriam atacar vocês, já entendi – sorrimos, aquilo era verdade. – Que tal um filme? Vão para um cinema – mirei o rosto do , seu nariz estava enrugado e sua cabeça balançava em negação. – Como vocês são chatos. Façam alguma coisa para se conhecerem melhor – juntou suas coisas e andou rapidamente até a porta, mas, antes de abrir a mesma, ele voltou a nos encarar. – Até qualquer dia – acenou e saiu, nos deixando sozinhos.

CAPÍTULO 04

– Você quer comer alguma coisa? – indagou como se eu fosse uma criança e ele, a mãe. Só tive tempo de concordar com a cabeça, pois meu celular começou a tocar.
, onde você se enfiou? – ouvi a voz da Julie e, só naquele momento, percebi o quanto estava com saudades.
– Davis, que saudade de ouvir a sua voz me gritando – ela gargalhou do outro lado da linha. – Eu te avisei que vinha para Londres resolver umas coisas – encarei e desviei quando vi que ele fazia o mesmo.
– Mas não disse que demoraria tanto e nem que iria se encontrar com o – praticamente gritou e eu senti meu rosto esquentar de vergonha.
– Julie, eu estou um pouco ocupada agora. Posso te ligar mais tarde? – cocei minha sobrancelha esquerda e fitei a mesa.
– Você está com ele. Ai meu Deus! Espero não ter atrapalhado nada – fez sua melhor voz de maliciosa e eu neguei tentando não sorrir. – Até mais tarde, gata – suspirei, eu sentia saudades de casa.
Deixei de fitar a mesa quando o limpou a garganta para chamar a minha atenção.
– Era a minha melhor amiga, a Julie. Nós moramos juntas – expliquei, para ele não ficar por fora. – Então, o que vamos fazer?
– Eu estava pensando em fazermos pipoca e assistirmos um filme aqui mesmo. O que acha? – levantei-me rapidamente para segui-lo.
– Contanto que você escolha o filme, para mim tudo bem – dei de ombros e ele concordou.
Ofereci-me para fazer a pipoca enquanto ele escolhia o filme e ele concordou. me apontou onde ficava a cozinha e eu me encantei, aquele lugar era simplesmente maravilhoso. Dirigi-me lentamente até a ilha que ficava mais para o canto do local, toquei o mármore gelado que havia ali e olhei para os lados, procurando alguma pista que me mostrasse onde fica a pipoca.
– Segunda porta – ouvi a voz de e me virei para olhar de onde ela vinha. estava encostado no batente da porta da cozinha e apontava para um dos armários que havia ali. – Pode ir para a sala, eu resolvo aqui – andou até o armário e tirando algumas comidas de lá.
– Mas eu quero te ajudar – fiz uma voz manhosa e ele deu um sorriso de lado.
– Não precisa, . Se você for ajudar vai demorar muito. Eu já sei onde tem cada coisa e acabo me tornando mais ágil – explicou andando ao meu encontro. – Na próxima você ajuda – bagunçou meus cabelos e beijou o topo da minha cabeça, fazendo-me franzir as sobrancelhas e perguntar – silenciosamente – o porquê daquela ação, ele apenas deu de ombros e andou até a geladeira.
Observei colocar todas as comidas na ilha de mármore escuro e começar a preparar uma taça de sorvete de creme com algumas frutas.
– Então, , me fala mais sobre você – me olhou de relance e voltou à atenção para o morango em suas mãos.
– Sobre o que você quer saber? – peguei um kiwi e comecei a descascá-lo.
– Como você começou a ser modelo? – ele cortava o morango em pedaços médios e arrumava na taça de uma forma bonita.
– O Preston estava fazendo uma viagem para a Austrália e acabou me encontrando andando pela rua. Ele perguntou se eu queria trabalhar como modelo e eu aceitei – parou o que estava fazendo e me encarou, para prestar atenção.
– Você não teve medo de ele estar te enganando?
– Eu tive muito medo, mas eu não podia negar – baixei o olhar para as minhas mãos, eu não queria encará-lo enquanto falava sobre aquilo. Eu não sei o porquê, mas me senti segura para falar sobre aquele assunto com ele. – Meu pai havia perdido o emprego na empresa em que trabalhava e o salário que a minha mãe ganhava não dava nem para pagar o aluguel da casa em que morávamos. Eu precisava ajudá-los – senti meus olhos marejados só de lembrar tudo o que passamos. – Esse foi o pior ano de nossas vidas.
– Eu sinto muito, . Não precisa mais falar sobre isso. Vamos mudar de assunto – enxuguei as poucas lágrimas que escorreram por meu rosto e voltei para minha posição anterior, cortando o kiwi em camadas finas. – Você já namorou? – olhou-me de canto e voltou sua atenção para as uvas em suas mãos.
– Já, uma vez – respondi e fiquei rezando para que ele não perguntasse o porquê do término, mas, infelizmente, ele o fez. – Ele tinha a cabeça muito fechada para certas coisas – resumi, mas minha mente não conseguiu não propagar um flashback da nossa última conversa.

– Você não vai fazer isso, vai? – ele passava a mão em meus cabelos.
– Minha família precisa de mim, Derek. Eu não tenho como negar – olhei para o chão tentando fugir de seus olhos ameaçadores.
– Você arruma outro emprego, mas não vai ser modelo. Eu não vou deixar minha namorada sair por aí tirando fotos de biquíni para todos os idiotas verem – ele gritava. Suas veias do pescoço saltavam e estavam mais grossas do que nunca. – Você é minha, . Não consegue entender isso?
– Você está me machucando – sussurrei quando ele segurou meu braço com força.
– Estou deixando minha marca em você, meu amor, para que todos vejam que você tem dono – aproximou-se do meu rosto e mordeu minha bochecha com força. Tentei me soltar, mas ele apertou ainda mais o meu braço.
– Não me trate como se eu fosse um cachorro, Derek. Você não é meu dono, é apenas o meu namorado – consegui falar depois que ele soltou seus dentes da minha pele.
– Não é exatamente isso que você é? Uma cachorra? A minha cadelinha – empurrou-me para o sofá e prensou seu corpo sobre o meu. – E eu não vou deixar você se exibir para o mundo usando apenas um biquíni minúsculo. Você é minha! – gritou mais uma vez e eu me encolhi, estava com medo. Consegui reunir todas as minhas forças e dar um murro em seu nariz, o fazendo tombar para o lado e – consequentemente – cair no chão. Eu sabia que aquilo havia doído mais em mim do que nele, mas eu ganhei alguns segundos para conseguir ir embora.
– Nunca mais encoste em mim, seu cachorro – minha voz saiu entre os dentes e eu juntei minhas coisas para ir embora daquela casa.
– Você não vai se livrar de mim nem tão cedo, cachorra – rosnou e tentou me alcançar, mas eu consegui correr para fora de sua casa e entrar no quintal da vizinha, que me ajudou e me levou em segurança até em casa.


! – escutei meu nome ser gritado bem próximo ao meu ouvido.
– Ai, , o que foi? – questionei assustada. Lembrarei de agradecer ao por me tirar daquele pesadelo que eu estava revivendo.
– Eu te chamei várias vezes e você não me escutou – trouxe as taças de sorvete para mais perto de mim, me entregando uma. – Em que você estava pensando?
– Nada demais. – tentei fugir do assunto e deu certo. Ele concordou com a cabeça e ficou em silêncio por alguns minutos.
– Eu não consegui escolher um filme, então decidi ficar apenas conversando e nos conhecendo – deu de ombros e levou uma colher de sorvete com morango até a boca. – Você vai passar o natal com sua família?
– Vou. Droga, eu me esqueci de falar para o Bill – resmunguei enquanto pegava o celular e mandava uma mensagem para o outro. Logo a resposta chegou.

“Querida , eu te conheço faz uns dois anos e sei várias coisas sobre você, ou quase tudo”. Já comprei suas passagens. Você embarca de madrugada para LA e, na manhã do dia seguinte, para Sydney. Se eu fosse te esperar, teria comprado a passagem de Los Angeles para Dubai.
Xx, Mister Billy"


Gargalhei e franziu as sobrancelhas. Mostrei-lhe a mensagem de Bill e ele gargalhou junto comigo.
– Ele é bem gay, não é? – questionou me olhando curioso.
– Sim, está interessado nele? – zombei o empurrando com o ombro e ele negou várias vezes.
– Estou interessado em você – sussurrou próximo ao meu ouvido, me fazendo arregalar os olhos e corar – Estou brincando, . Não que eu não esteja gostando de estar com você, é só que sei lá, você sabe e...
– Calma , eu entendi – levantei as mãos tentando acalmá-lo.
Ficamos apenas tomando nossos sorvetes em silêncio. Até que ele surgiu com uma ideia.
– Que tal a gente tirar uma foto? – ele abriu um sorriso gigante, era como se ele tivesse descoberto algo muito importante para a humanidade.
– Oi? – arqueei as sobrancelhas e quase me engasguei com uma uva. – Ainda não está muito cedo para isso?
– Não de nós dois . Você poderia tirar uma foto de... sei lá, a televisão e colocar uma legenda significativa.
– E as pessoas já viram a sua casa?
– Acho que não – o olhei com os olhos cerrados e continuamos discutindo até que decidimos que ele tiraria a foto, mas - ao lado - estaria minhas botas e o sobretudo. jurou que suas fãs eram melhores que o FBI e CSI juntos e que elas saberiam que eu estava com ele assim que vissem a foto.
– Para onde vamos agora? – arqueei as sobrancelhas.
– Seu hotel?!
– Vamos! Ainda preciso arrumar minhas malas para viajar amanhã cedo - expliquei e ele concordou com a cabeça.
Coloquei meus sapatos de volta e vesti o sobretudo enquanto me guiava até a garagem.
Fomos o caminho todo em silêncio, por motivos de não haver assunto para ser falado. Quando chegamos, fiquei feliz por não encontrar muitas pessoas nos esperando.
– Até o dia 27 – falou e me olhou nos olhos. Vi que seu rosto se aproximava lentamente e fiquei – levemente – assustada. Seus lábios se encontraram com os meus em um simples selinho. Arregalei os olhos e espalmei minhas mãos em seu peito, pronta para empurrá-lo, mas ele se afastou alguns centímetros e sussurrou: – Um show para os paparazzi – assim que escutei a frase, minhas mãos subiram para sua nuca e voltei a encostar os nossos lábios. Era possível ver os flashes de luz que as câmeras emanavam e aquilo me incomodava. Não ficamos por muito tempo daquele jeito, logo fez um caminho de beijos até a minha bochecha e depositou mais alguns naquele local. Com certeza aqueles fotógrafos estavam adorando aquela cena de afeto entre nós dois.
– Até semana que vem – murmurei quando um segurança do hotel abriu a porta para me ajudar a sair. apenas acenou com a mão e acelerou com o carro antes que as pessoas o atacassem. Fiz o possível para ignorar todos os comentários dos fotógrafos e sai, praticamente, correndo para o meu quarto.
Passei o resto da tarde fazendo minhas malas e tentando não pensar na boca macia do , mas estava sendo impossível. Aquele garoto acampou na minha mente e resolveu não sair de lá pela tarde toda. Talvez pela semana toda...

CAPÍTULO 05

Byron Bay (Austrália) – 23 de Dezembro de 2016
Finalmente em casa, depois de passar três dias voando mais de avião do que andando no chão, eu não aguentava mais ver aquele transporte nem no céu.
Tirando essa parte, estava feliz por estar em casa. Já fazia mais de dois meses que eu não ia visitar a minha família e estava morrendo de saudades. Mas estava com um pouco de medo da reação dos meus pais quando soubessem do meu "namoro". Não seria nada boa, com certeza.
– Bom dia, flor do dia! O cardápio para o almoço de hoje é: arroz, macarrão, salada verde, frango com o molho especial da mamãe e suco de abacaxi. O que a senhorita prefere? – abri os olhos bem devagar e encarei a figura minúscula do meu irmão. Aquilo era uma piada humana.
– Olá, fiel súdito – limpei a garganta enquanto coçava os olhos. – Eu desejo um pouco de salada com um pedaço de frango, um copo de suco e... não temos sobremesa?
– Falha minha, rainha. Temos torta de morango.
– Quero um copo de suco e um pouco de torta – respondi e voltei a fechar os olhos.
– Você acha mesmo que eu vou trazer seu almoço? – ele gargalhou e eu o fuzilei com os olhos, mas o que eu queria mesmo era fuzilá-lo, literalmente. – Vamos, , mamãe está nos chamando.
– Você é, oficialmente, o pior súdito do universo.
– E você é uma chata – mostrou sua língua e saiu correndo para o andar de baixo.
– Venha aqui, seu pestinha. Eu vou morder você – eu mal terminei a ameaça e ele já corria para longe de mim e perto da mamãe.
E essa era eu quando estava com o meu irmão mais novo. O meu lado criança falava mais alto do que todos os outros e isso era bom. Nada melhor que se divertir com a sua família.
– Bom dia, pessoas – acenei para os meus pais e me sentei na única cadeira que sobrava.
– Bom dia, ! – papai abaixou um pouco do jornal para me lançar um sorriso largo. Mamãe apenas sorriu de boca fechada, estava comendo.
Comemos enquanto mamãe e papai contavam todos os acontecimentos do mês que passou. Noah sempre atrapalhava e começava a contar a mesma história, porque, segundo ele, os mais velhos estavam contando da forma errada.
– Preciso falar com vocês – limpei os cantos da boca com um guardanapo.
– Pode falar – Noah repetiu meu ato e me encarou, até parecia um menino de quinze anos.
– Não com você, seu pestinha – revirei os olhos.
– Mas eu também quero saber – e começou a birra.
– Noah, se esqueceu de que hoje você vai passar o dia na casa do Tom? – mamãe perguntou e, na mesma hora, o bico se desfez na mesma hora. – Vá tomar banho que eu vou lhe deixar lá – o mais novo saiu correndo e derrubando tudo que estava na sua frente. Eu sempre achei que aquela criança tinha algum problema nas pernas, pois ele estava sempre correndo, mesmo quando não havia necessidade alguma.
– Não sei muito bem como começar a contar isso, mas... – comecei assim que ouvi a porta do banheiro bater.
– Você está grávida?!
– Vai se casar?!
Olhei para os dois de olhos arregalados e neguei com a cabeça várias vezes.
– Não, não – papai soltou um suspiro aliviado ao saber que não seria avô tão cedo. – Eu estou namorando.
– Isso é bom, filha. Muito bom – a mais velha batia palminhas, toda animada. – Quem é ele? Ou é ela? É por isso que você está com tanto medo, porque é uma garota? Não tem problema algum...
– Lauren, deixe a menina falar – papai olhou feio para ela. Eu apenas arregalava mais os olhos a cada pergunta que era feita.
– Estou namorando do One Direction – dei uma pausa para respirar fundo e me preparar para o que viria a seguir. – Na verdade, eu fui convidada para ser sua namorada, então não é um namoro de verdade – eles tinham a testa enrugada, entendi como um pedido silencioso por explicação. – A mídia e os fãs de especulam sobre um relacionamento secreto entre ele e um colega de banda, eu fui contratada para deixar claro que esse romance não existe e para as pessoas acreditarem que é heterossexual. E também vai ajudar na minha carreira – suspiro quando finalmente explico aquela história um tanto confusa. Sentia-me uma idiota falando aquilo tudo em voz alta, principalmente a última parte.
– Isso me parece uma coisa tão baixa, . Você aceitando namorar um garoto só para conseguir fama – minha progenitora negava com a cabeça e continua me encarando. Eu tinha certeza que essa seria sua reação. – Não foi isso que a gente te ensinou, filha.
– Eu sei, mas isso vai além da minha fama – eu me sentia uma idiota tentando explicar aquilo. – Eu senti que ele precisava da minha ajuda, duas vezes. Ele sofre com isso, mãe. Eu tentei sair dessa, tentei não concordar. Mas me pediu ajuda e... E foi impossível recusar. Vocês vão entender quando olhá-lo nos olhos, é impossível dizer não para aqueles olhos – eu fitava o nada enquanto lembrava daquelas lindas esmeraldas. Eu estava desesperada para que eles parassem de me julgar.
– Filha, você está apaixonada?
– Não, mãe. É claro que não – arregalei os olhos com sua conclusão. – Eu só vi o garoto umas três vezes. Nem o conheço de verdade.
– Já ouviu falar em amor a primeira vista? – ela tinha um sorrisinho mínimo nos lábio e aquilo era um bom sinal.
– Já ouvi falar em atração à primeira vista e atraída por ele eu já estou desde que nossos olhos se cruzaram pela primeira vez – foi a vez de mamãe arregalar os olhos e do mais velho gargalhar.
– Adoro sua sinceridade, filha. Com certeza puxou a sua mãe, Lauren.
– Certamente sim – a mais velha concordou e os dois caíram na risada. Acho que estavam compartilhando, mentalmente, alguma lembrança da vovó.
O comentário de papai fez mudou a tensão entre nós e eu o agradeci mentalmente por isso.
– Se você concordou, então acha que é o certo a se fazer e eu confio em você, . Sei que é muito inteligente ao ponto de fazer a escolha certa. Só vou pedir uma coisa... – papai fez uma pausa dramática. – Tenha cuidado para não se apaixonar pelos "olhos impossíveis de negar" e terminar sendo magoada pelos mesmos. Não quero ver minha garotinha triste – beijou meus cabelos e foi embora sem esperar por uma resposta. Olhei para Lauren esperando alguma palavra de ajuda e ela apenas concordou com a cabeça.
Eu não sabia o que dizer, então não disse nada.
Voltei para meu quarto ainda calada, assim como a casa após os mais velhos saírem para trabalhar e levarem consigo o pestinha.
Dormi a tarde inteira com o pensamento ainda na conversa do almoço. Acho que foi por causa disso que sonhei com o . Um sonho meio tosco onde estávamos num lago muito, muito bonito. Ele segurava minha mão e nos guiava para mais perto do lago. O sonho terminou antes de qualquer coisa interessante acontecer.

Suffolk Park (Austrália) – 25 de Dezembro de 2016
Noite de natal, finalmente. Eu esperava por essa noite todos os dias do ano.
Provavelmente, aquele era o meu feriado preferido. Jantar com a família da minha mãe; almoçar com a do meu pai; comida muito boa; presentes e o clima é a cereja do bolo. Aquela, com certeza, era a melhor noite do ano.
, faz tempo que você não aparece por aqui!
– Pois é, tia. Muito trabalho – ela concordou e começou a falar sobre o seu emprego, coisa que eu não estava com muita vontade de saber. Por sorte, meu celular começou a tocar. – Com licença – me retirei, indo em direção ao jardim.
!
! A que devo a honra de sua ligação?
Eu estava comprando uns presentes para a minha família e lembrei que, onde você está, já é Natal e liguei para te desejar um Feliz Natal! – ele havia lembrado de mim e nem estávamos na frende das câmeras, um sorriso involuntário surgiu em meus lábios.
– Muito obrigada, . Desejo o mesmo para você e sua família – ele agradeceu e ficamos em silêncio por alguns minutos. – Hm... Eu estava mesmo querendo falar com você...
Então pode falar, querida – franzi as sobrancelhas ao ouvir aquele tratamento inesperado.
– Indo direto ao ponto, por que você não deu parabéns ao ? – a ligação ficou muda na mesma hora, tirei o celular do ouvido para ver se ele ainda estava na linha e vi que sim. – Har...
, podemos falar sobre isso quando chegarmos em Dubai? – eu estava prestes a perguntar o porquê, mas ele sussurrou antes que eu o fizesse: – tem gente aqui.
– Tudo bem, . Até mais!
Até, querida – dessa vez não franzi as sobrancelhas e nem surgiu um sorriso em meus lábios. Ele estava na frente de alguém, provavelmente uma fã ou paparazzi, isso já explicava tudo.
Descansei o corpo num balanço que havia por ali e minha mente começou a vagar. Será que ele não havia lembrado? Ou será que eles não se falavam mais? Ou, pior, será que ele não podia?
– Filha, o que está fazendo sozinha aqui? Vamos entrar – vovó surgiu por detrás de mim, afastando meus pensamentos.
– Só estava pensando em umas coisas, vó – lhe mandei um sorriso quando começou a balançar o brinquedo.
– Imagino que essas coisas tenham a ver com seu novo namorado – arregalei os olhos e a encarei meio assustada. Ela gargalhava. – Sarah passou a semana inteira chorando e dizendo que você é exatamente igual à Catlin pois, assim como ela, você rouba os futuros maridos das primas.
– Isso é um absurdo! Eu não admito que ela me insulte dessa forma – levantei indignada.
– Já está na hora de vocês pararem com essa briguinha de criança. Você tinha dez anos, quando aconteceu e agora você já vai completar vinte – vovó falava com toda calma do mundo, como se falasse da chuva que estava prestes a cair.
– Eu só vou esquecer quando ela me pedir desculpas e assumir que errou. Até lá, continuaremos sem nos falar – a mais velha apenas revirou os olhos e olhou para o céu, analisando as estrelas de forma minuciosa.
– Tudo bem, não vou me meter nisso. Agora precisamos entrar, se não vamos nos molhar – concordei com a cabeça e entrelacei meu braço no seu. – Quando vai trazer seu namorado aqui? Eu preciso conhecê-lo para ter certeza que é uma boa pessoa.
– Ele é muito ocupado, vó. Mas prometo que vou trazê-lo em janeiro – vovó me encarou com os olhos cerrados, como se eu estivesse mentindo. – Juro – lhe mostrei meu dedinho e nós duas gargalhamos. Fiquei tentada a dizer que eu seria paga para trazê-lo aqui, mas aquilo a decepcionaria.
Metade da noite se passou sem mais emoções. Tentei evitar Catlin Coleman de todas as formas, mas aquela praga sempre consegue me fazer perder a paciência.
– Próximo mês eu vou me mudar para Londres, pois consegui um emprego como modelo de uma marca bastante famosa – acho que era a quinta vez que ela dizia aquilo em menos de uma hora. – E, adivinhem, eu não precisei nem passar pelos testes. Estava apenas andando pelas ruas, quando o próprio estilista me chamou para ser modelo de suas roupas – ela fez um bico estranho e jogou os cabelos, como se estivesse num show da Beyoncé e fosse a própria Beyoncé.
Revirei os olhos mais de trinta vezes enquanto ela se gabava de seu novo emprego. Mamãe me cutucou com seu cotovelo todas as trinta vezes.
– Adivinhem só quem me convidou para sair – ela batia palminhas e soltava gritinhos, parecia uma foca gripada. – Luke Hemmings, daquela bandinha que você gosta. Como é o nome mesmo? – me apontou com descaso. Senti vontade de gritar com ela e depois arrancar todos os seus cabelos. Ela ao menos conhecia a banda. Tinha certeza que ela havia se jogado para cima dele. – Surpresa? – arqueou as sobrancelhas e deu uma gargalhada sarcástica.
– Que ótimo, prima querida – fiz minha melhor voz de felicidade. Minha mente começou a pensar em alguma coisa para dizer, que fizesse ela perceber que eu estava tão bem quanto ela.
– Minhas duas netinhas estão tão grandes, estão até namorando – vovó enxugou suas lágrimas no canto dos olhos e Catlin me fuzilou.
– Quem vai querer uma garota como essa?
– Hã... Não sei. Talvez ? – ergui uma sobrancelha e sua boca se escancarou num perfeito 'O'. – Surpresa? – repeti sua própria fala e abri um sorriso irônico.
– Você só pode estar...
– Ela roubou o meu namorado – Sarah gritou e começou a chorar como se eu tivesse jogado sua boneca pela janela.
– Me desculpe, Sarah – me aproximei da garota e toquei seus cabelos escuros. – Que tal eu trazê-lo até aqui e vocês saírem para tomar um sorvete ou podemos ir Byron e passar na praia – um sorriso tão grande surgiu no rosto dela que chegou a iluminar o meu coração.
– Você faria isso? – seus olhos brilhavam mais que a quinze minutos atrás, quando ganhou uma bicicleta de seu pai.
– Claro – beijei seus cabelos e voltei a me sentar com minha mãe.
Catlin continuava me encarando e eu apenas ignorava. Aquela garota sempre quis ser melhor que eu, principalmente quando falamos de nossos trabalhos e relacionamentos. Ela sempre teve inveja pelo fato de eu não ter precisado passar por nenhum teste de modelo, enquanto ela levava 'nãos' inúmeras vezes. Eu nunca gostei de está me vangloriando por causa daquilo, nunca fui como ela, mas às vezes era preciso mostrar que estávamos no mesmo patamar.
Já em questão de relacionamento, é uma história que vem de anos e que, praticamente, começou toda essa briguinha de quem é a melhor. Quando eu tinha dez anos e ela doze, nós éramos muito próximas e até compartilhávamos segredos e esse era o problema. Sempre que eu falava que queria compra uma roupa, ela ia lá e comprava; quando eu dizia que queria ser amiga de alguém, ela ia lá e se aproximava da pessoa; quando eu disse que estava gostando de Michael (um garotinho nerd que estudava na mesma turma que eu), ela o beijou bem na minha frente. Esse é o motivo de eu não querer conversa com ela desde então.
!!
– O que foi?? – meu tom saiu mais alto do que eu queria. Olho para o lugar de onde veio a voz e vejo meu pai de olhos arregalados – Me desculpe, pai. Estava viajando.
– Tudo bem, filha. Vamos embora? Já faz horas que seu irmão está dormindo – reparo que Noah está babando no colo de Harvey, nossa prima.
– Vamos – concordo com a cabeça e levanto para me despedir da família.
– Você deveria aparecer mais – Harvey me abraça com força e beija minha bochecha.
– Prometo voltar ainda em janeiro – retribuo o beijo e ela concorda. Depois da briga com Catlin, eu e Harvey nos aproximamos de uma forma surpreendente.
– Ela me prometeu que vai trazer o novo namorado para nos visitar – vovó me apontou como uma ameaça.

– Eu venho, vó. Eu venho – beijei sua bochecha e ela sorriu.
Aceno para meus tios e agradeço mentalmente por Catlin não estar por perto, não queria fingir simpatia por ela mais uma vez.
Eu estava tão cansada que simplesmente me joguei no banco de trás do carro e dormir a viagem inteira. Não me lembro como cheguei em meu quarto, apenas deitei na cama e dormi como não dormia a dias.

CAPÍTULO 06

Aeroporto de Sydney – 27 de dezembro de 2016
Os últimos dois dias se passaram sem mais problemas.
Almoçamos com a família do papai em Gold Coast no dia de Natal. No dia 26, ficamos em casa assistindo filmes e eu usei meu tempo livre para fazer algumas pesquisas sobre os antigos namoros de e dos outros garotos da banda. Encontrei algumas – muitas – falhas; li alguns blogs de fãs que tinham algumas teorias e fiquei impressionada com muitos, aquelas garotas eram realmente inteligentes. Juntei o máximo de informações relevantes e resolvi chamar Bill, Jamie e Preston para uma reunião em vídeo assim que chegasse em Dubai.
– 'Tá muito cedo, eu quero dormir – Noah não parava de resmungar desde que levantou da cama. – Não poderíamos viajar depois das 6:00? – meus pais me olharam enquanto concordavam com a cabeça.
– São, praticamente, 15 horas de voo, não queria passar a noite viajando – revirei os olhos e me joguei na cadeira da sala de espera.
Eu estava morrendo de sono e pensei em dormir ali mesmo, mas percebi que havia um cara tirando fotos do outro lado da sala. Franzi o cenho quando o homem levantou e andou em minha direção.
!
– Sim?! – ele não parecia um daqueles caras de série sobre psicopatas que matam e estupram desconhecidos, então fui simpática. – Quem é você?
– Sou fotógrafo do The Sun – abriu um sorriso convencido e eu não entendi, continuei com as sobrancelhas franzidas. – Fui pago para tirar fotos suas aqui no aeroporto. É bem provável que elas estejam circulando em todo o mundo em... – olhou para o seu relógio de pulso e voltou a me encarar – algumas horas.
– Como é? – tentei controlar meu tom de voz para não chamar atenção de ninguém, mas percebi que falhei na missão quando minha mãe me encarou de outra fileira de cadeiras. Droga! – Não consigo acreditar nisso – resmunguei encarando o homem. – Já entendi, agora o senhor pode sair daqui e me deixar em paz? – ele arqueou as sobrancelhas, mas concordou com a cabeça e voltou para sua cadeira no mesmo momento em que mamãe se levantou e andou ao meu encontro.
– Está tudo bem? – seu tom de voz demonstrava sua preocupação. Apenas assenti com a cabeça, ainda encarando o homem. Ele apontou mais uma vez para o relógio e abriu um sorriso sinistro. – Quem é aquele homem?
– Apenas um paparazzo – agradeci aos céus quando ouvi a mulher do aeroporto chamando o nosso voo, só esperava que aquele não fosse o voo do homem também.
Olhei para a cadeira onde ele estava sentado, mas não consegui ver nada por causa da quantidade de pessoas apressadas para entrar no avião logo. Resolvi fazer o mesmo que elas e segui mamãe até meu assento.
– Cuidado no seu irmão – papai avisou e eu revirei os olhos. Virei-me para Noah, só para ameaçá-lo se ele fizesse algo, mas ele já dormia como um anjinho que não era. Em menos de dez minutos eu já estava dormindo também.
A vigem foi muito longa e super cansativa. Dormi boa parte dela, mas fui acordada – não só eu, como outros passageiros também – pelos gritos do meu irmão quando ele acordou e viu as nuvens de pertinho. Pensei em mandá-lo calar a boca, mas lembrei de que aquela foi exatamente a minha reação quando andei de avião pela primeira vez.
– Bonito né? – sussurrei e ele deu um pulinho na cadeira.
– Que susto! Sim, muito bonito – ele estava praticamente com o rosto encostado na janela. Apenas gargalhei e tentei voltar a dormir.
Finalmente a aeromoça avisou que já estávamos prestes a pousar e a animação do meu irmão foi substituída por medo. Ele segurou minha mão com força e fechou os olhos de uma forma muito fofa.
– Chegamos Dubai!! – mamãe praticamente gritou quando saímos do transporte. Ela sempre quis passar as férias ali e esse foi o motivo de eu ter o sugerido. E, também, porque o nunca foi com suas antigas namoradas.
Um vento frio se alojou na minha barriga ao lembrar-me do garoto. Será que iria dar tudo certo? Ou as fãs iriam perceber a farsa logo de cara? Será que eu e ele deixaríamos de ser amigos quando tudo aquilo acabasse?
Vocês nem são amigos de verdade, .
Eu sei, subconsciente. Mas nós poderíamos ser. Ele uma ótima pessoa. E, se tivéssemos em outras condições, com certeza eu daria uma chance a ele.
Parei de pensar no meu falso namorado quando percebi que havia uma garota tirando fotos minha a um metro de distância, ela deveria ter uns 15 anos. Continuei encarando a garota por alguns minutos até que reparei em sua blusa.
"Lol ur not Payne"
Ótimo. Uma fã do meu namorado.
Ela me encarava com as sobrancelhas arqueadas e a boca formando um bico, com um ar de arrogante.
Ótimo. Uma fã do meu namorado que me odeia. Não o namorado, a garota.
Parei de encará-la de volta quando meu celular tocou avisando a chegada de novas mensagens. Comecei pela do Travis, um amigo de infância.
"Soube por Harvey que você esteve em Byron. Por que não veio me ver? Você sabe que minha velha morre de saudades de você. Sei que está de férias por causa dos feriados, então venha nos ver. Estarei esperando.
Feliz Natal atrasado e ano novo adiantado. Felicidades no novo namoro.
Travis."

Respondi dizendo que, com certeza, iria visitá-los em janeiro e lhe desejei boas festas. Não comentei sobre meu namoro, pois senti uma pontinha de ironia em suas felicitações.
A segunda era de Julie.
"Miga, estou indo passar o ano novo no inferno. O velho fez chantagem emocional e estou sendo obrigada a ir. Divirta-se por mim aí nos Emirados Árabes, porque eu não vou me divertir nem um pouco lá.
Ah, beija muito aquela boca linda do .
Te amo."

Com 'inferno' ela quis dizer a casa do seu pai na Holanda. Gargalhei. Julie não prestava. Respondi com várias carinhas sorrindo e mandei que ela arrumasse um holandês para se divertir por lá. Passei para a próxima.
"Nossas fotos já estão circulando em todo o mundo. Dá uma olhada nesse site em anexo. Demais não é?
Até mais tarde.
H."

Cliquei no link e parei numa revista online. "THE SUN", estava escrito na primeira linha e no centro da página. Automaticamente me lembrei do homem no aeroporto, ele me avisou que aquilo iria acontecer.
"Ouvimos boatos que o nosso galã, , havia começado um novo romance e fomos mais a fundo nessa história.
Pelo que nos contaram, e a modelo australiana – – se conheceram pessoalmente em um pub de Londres, por causa de um amigo em comum entre eles.
O romance começou bem, pois já levou a garota para um jantar romântico, já assistiram filme na casa dele e, agora, estão desembarcando em Dubai para uma virada de ano em família.
Uma fonte segura nos disse que está muito feliz com sua nova namorada e que ela é uma ótima pessoa.

'São como melhores amigos', a fonte relatou.
Confira nossa galeria abaixo e veja fotos de todos os encontros do novo casal."
Na galeria, havia mais de trinta fotos desde o dia da boate até as fotos no aeroporto.
Rolei a página até os comentários e um me chamou atenção: uma tal de bbystyles dizia o quanto aquilo era ridículo e demonstrava todo o ódio que sentia por mim e por todas as outras pessoas que não deixavam o seu ídolo ser quem ele realmente era; ela também disse que estava cansada daquela revista e de todas as mentiras que a mesma vinha espalhando.
Não posso negar que fiquei surpresa com aquele comentário. Aquela menina estava realmente indignada e não era apenas ela. Havia mais cinco comentários que falavam a mesma coisa, só mudava os insultos.
Bloqueei o celular e peguei um carrinho para as malas.
– Está tudo bem? – mamãe sussurrou, pela segunda vez no dia.
– Estou cansada da viagem – e não era mentira. Não totalmente.
– Seu pai quer conversar quando chegarmos ao hotel. Ah, falando nisso... Qual é o hotel que vamos ficar? – aquela pergunta me fez perceber que nem eu sabia qual era o hotel. Provavelmente o Bill havia me mandado algo sobre, mas eu não prestei muita atenção.
– Vou ver aqui – balancei o celular e me afastei um pouco para mandar uma mensagem para meu agente. A resposta chegou em menos de três minutos, o que me fez concluir que ele estava aguardando minha mensagem a algum tempo. – Tem um carro branco nos esperando no estacionamento, ele vai nos levar direto para o hotel – todos concordam e andamos lentamente até o lado de fora. Não demorou muito para achar o táxi, pela placa, e logo estávamos seguindo para o que seria a nossa casa na próxima semana.
Mamãe passou todo o caminho com o rosto colado no vidro do carro, admirando a paisagem, papai tentava se manter acordado enquanto Noah já havia desistido e babava no ombro do mais velho. Eu olhava o piso do carro com diversos pensamentos ocupavam minha mente.
– Já estamos chegando – o motorista bigodudo avisou e apontou para um lugar ao horizonte. Todos – tirando Noah – nos inclinamos para seguir seu dedo e, antes mesmo que eu pudesse enxergar, mamãe começou a gritar.
– Meu Deus! Não consigo acreditar nisso. É um sonho Senhor?? – ela olhava para o teto do carro, como se falasse com Deus.
– O que foi, Lauren? Qual é o motivo do escândalo? – papai olhava atentamente para minha mãe. Ou melhor, para o encosto do banco da frente, onde ela estava.
– Burj Al Arab!!! – a voz estridente dela se propagou pelo carro como se alguém tivesse quebrado um copo de vidro bem perto do meu ouvido.
Coloquei a cabeça um pouco para fora da janela quando ouvi suas palavras a entendi a gritaria. O sr. Bigode estava nos conduzindo para o Burj Al Arab, o hotel dos sonhos da minha mãe. Mamãe fala sobre esse hotel desde que me entendo por gente. Sempre foi seu sonho ter sua lua de mel naquele lugar, mas meu pai não tinha condições de pagar uma viagem daquela. Na verdade, nem eu sabia que eu tinha.
Senti alguém cutucar meu braço e olhei para o lado direito do carro. Papai sussurrou um "obrigado" e sorriu como só vi uma vez em toda minha vida, quando Noah nasceu. Sorri de volta.
Depois de dez minutos, chegamos ao nosso destino. O sr. Bigode começou a retirar as malas, mas um funcionário disse que faria aquilo e que poderíamos entrar.
Mesmo quase caindo de sono, meus olhos arregalaram quando entrei no hotel. Aquele lugar era, simplesmente, maravilhoso. Havia dois balcões para a recepção dos clientes, um de cada lado; mesas e sofás para os clientes em espera; azul, dourado, vermelho e branco decoravam o local e o deixava mais luxuoso.
Fui guiada para o balcão de recepção esquerdo e encontrei uma mulher sorridente por trás dele. Vi pelo canto do olho, mamãe observando todos os detalhes com adoração.
– Seja bem vinda ao Burj Al Arab, o único hotel sete estrelas do mundo – seu sorriso abriu mais do que achei que seria possível. – Peço quem me informem seus nomes.
Forneci minhas informações pessoais, resolvi os assuntos pendentes, que eram pouco, e peguei a chaves. Combinamos de fazer uma tour pelo hotel na manhã seguinte, por causa do cansaço.
– Vão querer conhecer o hotel ainda hoje? – a mulher do sorriso questionou. Queria pedir para que ela deixasse suas bochechas descansarem, mas sabia que fazia aquilo para continuar trabalhando ali.
– Infelizmente não – mamãe respondeu surgindo do meu lado. Finalmente o sorriso da recepcionista diminuiu. – Acabamos de chegar da Austrália – a mais velha explicou, acho que para o sorriso da mulher voltar.
– Entendo, foi uma viagem bem longa – e deu certo, seus dentes voltaram a aparecer. – Vou mandar levarem vocês para seus quartos e suas malas já estão subindo – apontou para o elevador, onde dois homens entravam com nossas bolsas.
– Boa noite, senhores – outra funcionária surgiu. – Vamos? – nos levou até a escada rolante que havia no centro do lugar. Ao lado, havia uma fonte jorrando água e prendendo a atenção dos turistas – principalmente da minha mãe.
– O quarto de vocês... – parei de falar quando virei completamente e meus olhos encontraram os dele. – Hã...
! – ele abriu um dos seus melhores sorrisos. Papai e mamãe trocavam o olhar entre nós dois, com as sobrancelhas arqueadas. – Vocês finalmente chegaram – me puxou para seus braços e beijou meus cabelos. Uma atitude um tanto estranha que foi explicada no segundo seguinte: – tem uma fã aqui – ergueu as sobrancelhas para o lado em eu havia uma menina. A mesma do aeroporto.
Papai e mamãe trocavam o olhar entre nós dois, com as sobrancelhas arqueadas.
– Mãe e pai, esse é . , esses são Lauren – apontei para a mulher e depois para o homem -, Andrew e meu irmão, Noah – indiquei o garotinho que dormia no colo do pai.
– É um prazer conhecê-los – mandou uma piscadela pra os dois antes de cumprimentar minha mãe com um abraço e meu pai com aperto de mão. – Vão conhecer o hotel ainda hoje?
– Apenas amanhã, a viagem foi longa – mamãe respondeu por nós e ele apenas concordou enquanto voltamos a acompanhar a nossa guia.
Caminhávamos em um silêncio constrangedor que fora causado pela chegada do meu namorado. Tentei analisar o prédio, mas via apenas dourado e mais dourado.
– Nós podemos fazer isso juntos, minha mãe também estava cansada e vai ser uma ótima oportunidade de nos conhecer melhor – ele parecia um pouco desconfortável com o momento e decidi ajuda-lo:
– Nos encontramos as 10:00 am na recepção, então? – todos concordaram com um aceno e eu agradeci silenciosamente por eles não estarem atacando o garoto, como achei que fariam
– Aqui é o quarto de vocês – a mulher, que descobri ser chamada de Tâmara, apontou para a porta de um quarto onde estava gravado o número 213.
– O da minha mãe é bem ali – apontou para uma porta que ficava no corredor oposto e mantinha uma distância de três portas da que estávamos parados. Quarto 207. – O nosso é mais em cima – não consegui me segurar e acabei arregalando os olhos.
– Nosso?
– Sim... – respondeu naturalmente e depois percebeu o que havia dito. – Quero dizer... é um quarto para nós... hã... nós quatro. Eu, você é nossos irmãos – apontou para o pequeno. Era possível ver o seu peito subindo e descendo rapidamente, estava nervoso.
– Eu posso mostrar onde fica o quarto – a funcionária anunciou e eu neguei com a cabeça.
– Pode deixar que mostro – lhe mandou um sorriso cheio de covinhas fofas, ela apenas concordou e se retirou, mas antes de ir nos deixou o número da recepção para qualquer emergência.
, posso falar com você? – mamãe perguntou e já foi me puxando para longe dos homens. – Que história é essa de dormirem no mesmo quarto? – ela tentava manter sua voz calma. Estava dando certo.
– É uma surpresa para mim também, mãe. Prometo que amanhã eu tento resolver esse problema – forcei uma cara de cansada e ela concordou.
Depois de jurar para meus pais mais de dez vezes que cuidaria do Noah e de um olhar ameaçador de papai para o , finalmente seguimos para o nosso quarto.
Caminhávamos num silêncio confortável, era ouvido apenas as rodinhas dos carrinhos que carregavam as malas dos hóspedes. Após subirmos mais duas escadas rolantes e andarmos por sete minutos, chegamos ao nosso quarto.
– Seja bem vinha a sua casa pela próxima semana – falou com animação e abriu a porta. O quarto era deslumbrante e parecia mais um hotel completo. O chão era amarelo, havia uma escada bem no centro do lugar (coberta com um tapete de onça bem chamativo) e duas portas nas laterais. As mesmas da decoração do hall do hotel estavam presentes ali. – Um pouco extravagante, mas espero que goste – sua voz me puxou de volta para a realidade.
– É lindo – sorri verdadeiramente. – Onde são os quartos? – não queria parecer insensível, mas estava caindo de sono e Noah também.
– Porta esquerda do andar de cima – agradeci e subi puxando meu irmão com uma mão e tentando carregar uma mala pequena com a outra. – Deixa que eu levo – segurou a malinha de minha mão e eu, mais uma vez, agradeci.
Meus olhos se arregalaram quando viram o “quartinho” que seria meu. Aquilo parecia um palácio. Estava com muito sono, então não prestei atenção. Muito menos meu irmão, que apenas correu e se jogou na cama sem nem tirar os sapatos.
? – ouvi a voz de do lado de fora e caminhei até lá.
– Sim?
– Só queria te dizer que não precisa ficar envergonhada por causa daquele beijo – franzi as sobrancelhas. De onde ele havia tirado que eu estava envergonhada? – Você parece tímida depois do que aconteceu e eu não queria que estivesse assim. Sei que acabamos de nos conhecer, mas achei você uma pessoa muito legal e não quero que nosso relacionamento sofra um retrocesso – soltou tudo num suspiro e meus olhos piscavam rapidamente.
– Não estou envergonhada, apenas cansada – eu usaria aquela desculpa para tudo naquele dia. – Desculpa se pareceu isso. Prometo que depois de uma boa noite de sono naquela cama gigante vai me deixar melhor – tentei expulsar o clima pesado para longe.
– Eu espero – suas covinhas apareceram novamente e ele fez menção de me abraçar. Fingi não perceber e dei três passos em direção ao quarto.
– Boa noite, ! – acenei e entre antes mesmo de ele responder. Resolvi ser hipócrita e me joguei na cama da mesma forma que havia reclamado de Noah, com sapatos e tudo. Dormi no mesmo instante.

CAPÍTULO 07

Dubai – 28 de dezembro de 2016
– E esse aqui é o nosso spa – a guia abriu a porta e nós a seguimos para dentro do local.
Minha boca se escancarou, assim como das outras vezes que ela mostrou lugares incríveis dentro do hotel.
– Isso é...
– Magnífico – minha mãe cortou o pensamento de Anne e as duas gargalharam, depois de a mulher dizer que havia pensado na mesma palavra.
"Conhecer" parte da família do não foi tão constrangedor quanto imaginei.

– Mamãe, essa é a – me apontou – , essa é Anne, minha mãe.
– Bom dia, senhora . Que bom conhecê-la – falei com toda formalidade possível. Sempre li na Internet que os britânicos são cultos.
– Finalmente estou te conhecendo – me surpreendeu com um abraço forte. – Ouvi muito sobre você – seu sorriso era idêntico ao de seu filho.
– Espero que tenha sido só coisa boa – cerrei os olhos para , como uma ameaça.
– Algumas – voltei a olhá-la e vi que ainda sorria, como para amenizar o clima. Percebo na hora que ela falava de redes sociais. Twitter, revistas, Facebook... Só coisas ruins sobre mim.– Quase ia me esquecendo, nada de senhora e muito menos – olhou para o homem ao seu lado e me lembrei que havia comentado sobre ter um padrasto. Minhas bochechas se esquentaram na hora que percebi a mancada.
– Me desculpe, eu não lembrei que...
– Tudo bem, . E falando nisso – se virou para o marido –, esse é Robin, meu marido.
– Seja bem vinda à família – o abraço que ganhei do homem também me deixou surpresa. Mas não havia sido apenas o gesto carinhoso o motivo de meu nervosismo. A última palavra que usou havia me deixado desnorteada.
– Essa é Lauren e esse é Andrew, meus pais – apontei para cada um e os outros foram os cumprimentar com apertos de mãos e abraços.
– E esse menininho lindo? Qual o seu nome, pequeno ? – a mulher abaixou para olhar meu irmão nos olhos.
– Me chamo Noah e tenho oito anos – contou oito nos dedos e depois mostrou para a mulher, que gargalhou.
– Você é um garoto muito bonito – bagunçou seus cabelos de leve e voltou a me olhar. – Que roupa linda, – por sorte, consegui enxugar minhas mãos soadas no short antes de ela segurá-las para que eu desse um pequeno giro. Passei a achar meu short azul claro com renda e minha blusa branca com um nó na altura do umbigo um charme depois daquele elogio.
– Podemos ir? – uma mulher, devidamente uniformizada, perguntou e nós a seguimos pelos largos corredores.


– Acho que vou ficar por aqui – avisei antes que saíssem do ambiente.
– Vai querer companhia?
– Não, mãe. Pode ir conhecer os outros lugares. Está tudo bem – vi a mulher soltar um suspiro aliviado e voltar a examinar os detalhes do luxuoso spa. Ela se ofereceu apenas para que eu soubesse que ela estava ali para quando eu precisasse de alguém, mas eu queria ficar sozinha e ela queria conhecer o hotel de seus sonhos.
– Agora vamos visitar os restaurantes – pude ouvir a guia, Lisa, explicar e todos a seguiram. Agradeci ao Senhor pelo meu tempo livre de tudo e de todos.
Tirei minha roupa e pulei na piscina. Nadei lentamente até uma das bordas e olhei para o teto bem trabalhado. Aquilo deveria ter custado caro, para quem quer que tenha sido o pagador.
Escutei um barulho alto de alguém pulando na água bem atrás de mim e me virei para olhar.
– Posso te acompanhar? – perguntou depois de voltar à superfície.
– Você já está aqui – dei de ombros e segurei um sorriso.
– Eu saio – virou de costas e começou a se afastar, mas voltou quando gritei seu nome.
Ficamos em silêncio por alguns minutos até que resolvi quebrar o clima estranho:
– Então, o que sua irmã tem?
– Saudades – franzi o cenho. Lembrava-me muito bem de ter escutado Anne falando que ela estava doente. – Ela brigou com o namorado e eles terminaram. Gemma não quer ver, ou falar, com ninguém e é por isso que ela está aqui em Dubai.
– Ela não queria estar aqui?
– Não sei muito bem, mas acho que não. Ela só me ligou e disse que passaria a virada de ano comigo – deu de ombros como se aquele assunto não lhe pertencesse. – Ah, e me fez jurar que não faria perguntas sobre nada.
– E você, como o bom irmão que é, passou uma viagem de mais de dez horas se segurando para não perguntar nada – conclui e ele gargalhou.
– Você está certa – me apontou e concordou com a cabeça.
Procurei os olhos sorridentes de , mas vi que estava encarando a borda da piscina sem desviar por um segundo. Parecia desconfortável.
– Har–
, o seu irmão é uma graça – seu tom de voz subiu algumas oitavas quando me interrompeu. – Nem parece ser seu irmão.
– Que calúnia, – levei as mãos até a cintura, para mostrar mais indignação, mas a água não me deixava passar essa imagem.
– Me desculpe, querida, mas ele é adorável – minha sobrancelha esquerda arqueou quando ouvi o apelido mais uma vez.
– É, parece que ele também gostou de você.
– Por que acha isso? – franziu as sobrancelhas.
– Ele é um pouco tímido com desconhecidos e, cinco minutos depois de te conhecer, ele já estava te falando dos jogos preferidos e te chamando para ir jogar com ele... – dei de ombros. Estava claro que Noah havia gostado do mais velho.
– Eu também gostei dele. Noah é um garoto esperto – sorriu e voltou a olhar para a mesma borda da piscina. Eu já estava sacando qual era a dele.
estava com medo que eu refizesse a pergunta que fiz no Natal. Ele parecia desconfortável com aquele assunto, talvez falar sobre o não fosse tão confortável para ele, levando em conta a situação.
, por que está desse jeito? – finalmente perguntei. Ele virou bruscamente em minha direção.
– Como? – seus olhos estavam levemente arregalados.
– Sério, amedrontado, atordoado, desconfortável – contei nos dedos. – Por quê?
– Hã... Só estou um pouco desconfortável com a situação – apontou para a porta, como se nossas famílias estivessem ali. – Nunca conheci os pais de nenhuma das minhas namoradas.
– Estou sentindo a mesma coisa, – aproximei-me e segurei suas mãos na superfície da água, numa tentativa de passar segurança. – Tem certeza que não está assim porque está com medo que eu entre no assunto proibido? – sua testa enrugou, num pedido silencioso por explicação. Cheguei mais perto dele e sussurrei: – se afastou na mesma hora e voltou a sua posição tensa, olhando para todos os lugares menos para mim.
, eu não quero falar sobre isso aqui – ele puxava seus fios longos para longe de seu rosto.
, eu só queria entender o porquê de você não ter mandado parabéns, só isso – tentei me aproximar, mas ele foi mais rápido e sentou na borda.
– É uma verdade cruel, .
– Verdade? Não escuto essa palavra desde que comecei a participar desse "projeto" – apontei para nós dois.
– Essa uma vida de mentiras, querida, não espere muitas verdades nela – sua frase continha um toque de veneno, mas seu tom era triste.
– Você sabe que pode me falar, não é? Sabe que estou do seu lado?! – consegui me aproximar e sentei ao seu lado.
– Não existe lado. Existe um jogo onde temos os jogadores e os peões. Infelizmente somos os peões, os manipulados.
– Jamie e Phil seriam os manipuladores? – talvez Bill e Preston também.
– Com certeza, não – ele desviava o olhar. – Eles recebem tantas ordens quanto nós.
– E quem seria?
– Simon Cowell, Syco, Modst!. Vários jogadores, mesmas imposições – estalou a língua no céu da boca e fez menção de levantar. Toquei seu braço para impedir.
– Achei que Phil mandava em tudo e que fosse por isso que ele agiu daquela forma quando neguei fazer o que estava no cronograma – voltou a sentar e cruzou os braços.
– Phil ficou puto porque ficou com medo de ser mandado embora – naquele momento ele me olhava nos olhos. – Você não negou uma ordem DELE, você negou uma ordem do Simon, da Modest! E você não imagina as consequências que aquela reunião trouxe.
– O-o que aconteceu, ? Não me diga que Phil do d-demitido por minha causa – podia sentir meus olhos arregalados e respiração acelerada. – Diga alguma coisa, !!
– Ele não foi demitido – soltei um suspiro aliviado. Phil foi um idiota na primeira reunião que tivemos, mas havia um motivo maior por trás daquela pose de chefe –, graças ao Jamie. Ele conversou com os jogadores do nosso joguinho de manipulação e lhe deram uma chance para fazer nosso namoro ser visto como real ou então...
– Jamie está fora – completei e ele concordou. – E você aceita todas as imposições vinda deles?
– Eu não posso falar nada e muito menos fazer alguma coisa, você não imagina o quanto isso pode ser ruim – seu olhar voltou a se perder na imensidão azul. Notei um fio de tristeza em sua voz.
, o que eles fizeram com você?
– Nada... – arqueei as sobrancelhas, eu sabia que ele estava mentindo. Ele respirou fundo e soltou o ar com força. – Um dia, a alguns anos, eu estava cansado de tudo, de todas as mentiras, todas as ordens e decidi sair um pouco sem dar satisfação para ninguém – começou lentamente. – Desliguei o telefone e fui à casa de um amigo, Nick Grimshaw, passamos a tarde inteira nos divertindo e ele me fez esquecer um pouco do meu abismo de problemas – passou pela minha cabeça a forma mais pervertida de se divertir.
– Vocês... Hã... – estava envergonhada de perguntar aquilo.
– Não. Ai meu Deus, não – me interrompeu antes que eu pudesse falar mais besteiras. – Nós jogamos vídeo game, conversamos sobre amenidades, assistimos e essas coisas de amigos.
– E qual é o problema disso?
– Eu não podia ter saído daquela forma, precisava avisar para os meus "responsáveis" – revirou os olhos. – De alguma forma, descobriram meu paradeiro e enviaram as consequências de meu surto de irresponsabilidade – eu não conseguia nem pensar, apenas prestar atenção no garoto. – Quando fui sair da casa dele, havia dezenas de paparazzi e fãs na porta. Tentei passar por dentro da multidão, mas estava sem segurança então fiquei encurralado na frente do local. Por conta do tumulto, eu fiquei nervoso e comecei a chorar ali mesmo. Nunca me senti tão pequeno quanto naquele dia.
– Por que tentou passar sem segurança? – eu tentava compreender os detalhes da história.
– Eu não estava com um e eles não me mandaram um – puxou o ar com força e segurou antes de soltá-lo vagarosamente. – Foi a Modest que divulgou onde eu estava e mandou os paparazzi, como forma de castigo para que eu entendesse que aquilo não deveria ser feito novamente.
– Mas isso é maldade, você não fez nada e...
– Eu sei, – segurou minhas mãos da mesma forma que fiz com ele antes. – Eu não queria uma menina como você no meio disso tudo. Só pedi que me ajudasse na naquele dia porque senti que você é minha última salvação.
– Sua salvação é você mesmo, – apertei suas mãos nas minhas. – Mas juro que vou ajudar você, não vou desistir de te ver fora disso, 'tá? – eu olhava no fundo dos seus olhos.
– Você é uma boa amiga, – alisou minha mão com o polegar e se levantou, dessa vez não interrompi.
– Já somos amigos, querido ? – brinquei enquanto ele me ajudava a levantar.
– Acho que somos desde aquele jantar. Você não acha? – me jogou uma toalha e foi pegar uma para si.
– Acho e não quero perder sua amizade no final disso tudo – confessei num fio de voz. Estava envergonhada de dizer aquilo para ele.
– Claro que vamos continuar sendo amigos – afirmou depois de me jogar minhas roupas. Vesti-me com rapidez e vi que ele fazia o mesmo com sua bermuda cinza e uma camisa de botões estampada. – Mas sinto que isso não vai acabar nem tão cedo – murmurou mais para si mesmo que para mim.
me guiou até a porta do spa e depois para o nosso quarto, onde nos preparamos para mais uma (conturbada) reunião.

CAPÍTULO 08

– O que estão fazendo trancados nesse quarto quando deveriam estar mostrando o amor entre vocês para o mundo inteiro? – Jamie perguntou assim que a conexão em vídeo começou.
– Resolvi que precisávamos de uma reunião – falei com a mesma ignorância e Preston me olhou feio.
– Eu estou de férias, . Não só eu como os outros dois também, então é bom começar a falar logo – ele cruzou os braços com a autoridade de sempre.
– Que história é essa de The Sun, Daily Mail e essa coisa toda de vocês pagarem paparazzo para tirar fotos nossas e mandar para essas revistas que todo mundo sabe que só fazem matérias mentirosas? – meu tom de voz era alto, quase um grito.
– Que? De onde tirou isso? – Jamie teve a cara de pau de perguntar, como se não soubesse de nada.
– Todo mundo sabe disso. Até a fãs sabem que só sai mentira sobre os garotos nessas revistas – revirei os olhos. Puxei uma cadeira e sentei ao lado do , que me olhava sem entender muito bem a minha revolta.
– Tem certeza de que ninguém está ouvindo essa conversa? – meu agente tentava olhar por cima do nosso ombro. Olhei para trás por alguns minutos e não vi ninguém ali. O garoto ao meu lado concordou antes que eu o fizesse. – , se a gente não divulgar onde vocês estão, como as pessoas vão saber que estão juntos?

– Achando. As fãs não são burras, Bill – agitava os braços sobre minha cabeça. – Elas veem pequenos detalhes que passam despercebidos por vocês, elas prestam atenção em cada detalhe de uma foto, vídeo e até tweets. Não precisam que vocês deixem as coisas estampadas na cara delas – espalmei minha mão em frente ao meu rosto.
– Calma, tocou meu braço e o empurrou para baixo.
– E o que você sugere, dona da razão? – Preston voltou a falar. Revirei os olhos com o apelido estúpido.
– Sugiro que parem! – daquela vez consegui manter meus braços parados. – Poderíamos tentar fazer isso do meu jeito só por essa semana que estamos aqui. Se não der certo, eu juro que paro de me meter nisso e faço o que mandarem – levantei o dedinho.
– Não podemos correr esse risco. Dar errado não pode ser uma opção – Jamie afundou os dedos em seu cabelo, num movimento claro de nervosismo. Graças à explicação do , eu entendia seu medo, mas estava segura que aquele plano daria certo por isso fiz de tudo para convencê-lo daquilo também.
– Uma semana, Jamie. Eu faço tudo, não precisa se preocupar – garanti com minha voz mais firme do que eu realmente estava.
– Uma semana, . Nada mais que isso – levantei os braços na mesma hora em que ele concordou e bati palmas –, se der errado você estará fora e se prepare para os piores dias de sua vida.
– Farei o possível para que isso não aconteça – tentei falar entre o sorriso gigante que tinha em meu rosto. Sem paparazzo por uma semana, eu não poderia ter ficado mais feliz.
– Agora tchau. E saíam já desse quarto! – acenou e desligou a conexão.
– Estou depositando toda a minha pouca confiança em você, – Preston me apontou com o olhar firme –, me decepcione e você estará fora da minha empresa – fez o mesmo que Jamie assim que acabou com a ameaça.

Vi Bill acenando em despedida, mas gritei antes que ele fizesse o mesmo que os outros dois:
– Calma!!! Vou precisar de você nessa.
– Você disse que faria tudo sozinha – ele cerrou os olhos.
– Por favooooor – juntei as mãos em frente aos meus seios. Ele revirou os olhos, mas concordou com a cabeça. – Obrigada!! Te mando uma mensagem – acenei de forma exagerada e fechei a janela, desligando a conexão em vídeo
– O que você está planejando, querida? – meu namorado questionou. Aquele apelido já não me incomodava como antes.
– Planejo curtir essa semana sem paparazzo para encher o saco, o que acha?
– Uma ótima ideia, mas como vamos mostrar ao mundo o nosso amor? – citou a fala de Jamie, me fazendo gargalhar.
– Simples. Aquela fã pode servir como fotografa – expliquei meu plano da forma mais resumida, mas ele ainda tinha as sobrancelhas franzidas. – Assim: normalmente essas revistas têm fotos em melhores qualidades e onde o "casal" mostra que se amam com todas as forças existentes no universo – arregalei meus olhos para mostrar a grandiosidade do amor entre eles –, mas quando são fotografados de surpresa por fãs ou stalkers, eles estão agindo como meros amigos ou até mesmo desconhecidos.
– Então vamos precisar fingir em tempo integral? – me interrompeu com uma sobrancelha arqueada. Concordei com a cabeça.
– Será o único jeito de elas terem fotos nossas interagindo como namorados mesmo por trás das câmeras.
– Então quer dizer que você só vai ficar perto de mim por causa desse plano? – tinha um sorrisinho brincando em seus lábios.
– É exatamente isso – pisquei um olho e seu sorriso se transformou num O, surpreso com minha resposta.
– Estou, pessoalmente, ofendido em saber disso – colocou a mão no peito e fez menção de levantar.
– Seu idiota – o empurrei de volta para o sofá e joguei minhas pernas sobre as suas, para evitar que levantasse novamente.
– Você é muito folgada, sabia? – fechei os olhos fingindo não ouvir.
Seus dedos tocaram meus pés e torci para que ele me fizesse uma massagem. Antes que eu pudesse me deliciar com seu toque leve, um grito agudo saiu da minha garganta.
– Para !! Por favor! – eu gritava como se estivessem me matando, mas ele estava apenas fazendo cócegas nos meus pés. – Me larga, !! – berrei tentando soltar minhas pernas dos seus braços. Debatia-me como uma louca e, por consequência, ele me segurou com mais força.
Por causa dos meus gritos, não ouvimos os passos do lado de fora e fomos pegos de surpresa.
, você... Quem é ela? – uma garota de cabelos curtos e tingidos de loiro entrou no local e paralisou ao ver a cena. Suas características idênticas às do meu namorado e de sua mãe denunciavam seu parentesco. Franzi o cenho ao reparar que ela usava uma calça rasgada no joelho e blusa de malha, estava bem quente para usar aquele tipo de roupa lá fora.
– Sou – finalmente consegui me soltar do mais novo e fui cumprimentar a mais velha.
– Sou Gemma – fiz menção de abraçá-la, como com sua mãe, mas ela apenas estendeu a mão e voltou a encarar seu irmão com cara de poucos amigos.
– Minha namorada – fez as tão conhecidas aspas na palavra que definia nosso falso relacionamento.
– Você não disse que ela viria – voltou dois passos e parou ao lado da porta que dividia o quarto deles e a sala anexada que estávamos. Ela tinha seus punhos cerrados numa demonstração clara de raiva.
– Achei que você sabia que eu sempre passo ano novo com uma namorada diferente. Pensei que já estamos acostumados com isso – ele levantou também e se aproximou da garota, que deu mais um passo para trás.
– Você sabe que eu não quero me meter nessa gigante bola de mentira. Não quero as pessoas pensando que eu apoio isso – me encarou dos pés a cabeça com um olhar reprovador. – Que droga, ! – vociferou e saiu do nosso campo de visão quase correndo.
– Desculpa por isso, – seus olhos estavam tristes. – Eu preciso... – apontou para a porta e eu entendi. Concordei com a cabeça e ele saiu na mesma velocidade que sua irmã. Gritou mais um pedido de desculpa por cima do ombro e continuou seu caminho.
Eu não conseguia raciocinar direito depois daquela apresentação conturbada. A única coisa que queria era sair daquele quarto, me esconder em minhas cobertas e acordar quando aquela coisa toda já estivesse acabada. Mas eu não podia. Havia assinado um contrato com aquelas pessoas e já iria sofrer as consequências por estar modificando seu intocável cronograma, imagina se eu largasse tudo e sumisse? Não, eu não queria ficar mal falada no mundo das celebridades. Eu precisava daquele emprego para conseguir me sustentar e ajudar meus pais, não podia voltar para casa com as mãos abanando só por causa de uma crise.
E ainda tinha o . Ah, o querido . Ele necessitava da minha ajuda mais do que qualquer velho amigo precisou um dia. precisava se libertar daquela vida e eu estava disposta a ajudá-lo de todas as formas possíveis. Ele confiava que eu era sua salvação e eu sentia necessidade de vê-lo feliz, então eu continuaria ali por ele.
Com aqueles pensamentos, deixei o quarto dos irmãos e me dirigi ao meu. Mas não consegui deixar de ouvir os gritos que vinham do andar de baixo:
– Ela é uma garota legal, Gemma, não é como as outras – tentava controlar sua voz, mas não estava funcionando.
– Como você pode ter certeza disso? Não faz nem um mês que se conhecem – Gemma, por outro lado, nem se esforçava.
– Não preciso conhecê-la a mais de um mês para saber que é uma amiga para mim e só está tentado me ajudar – seu tom subiu algumas oitavas e me senti culpada por ele estar aos berros com sua irmã.
– Amigos não tentam te camuflar para o mundo. Amigos não aceitam esse tipo de coisa e, principalmente, não se metem nisso. Amigos te apoiam e conhecem o verdadeiro você – seu timbre aumentava a cada frase. – Como ela te conhece em menos de um mês, ? – senti o nojo em sua voz ao dizer meu nome – conhece o que a mídia mostra de você e quem as fãs acha que é, mas o verdadeiro é conhecido pelos poucos que convivem com ele diariamente e...
– Você quer saber de uma coisa, Gemma? – ele interrompeu seu monólogo com a voz firme. – Nem eu me conheço mais – a declaração saiu como um sussurro e quase não consegui entender, precisei descer dois degraus.
O silêncio que se estendeu por dois minutos me fez perceber que era hora de deixa-los, realmente, sozinhos. A conversa havia tomado um rumo sentimental e aquele era o momento propício para que se entendessem.
Voltei a fazer o caminho para o meu quarto e o encontrei perfeitamente arrumado, o que significava que a camareira havia passado por ali. Andei lentamente pela sala que antecedia o quarto e repare na quantidade absurda de almofadas que havia ali, fora o exagero de sofás (uma para quatro pessoas, com duas poltronas ao lado e cobertos por almofadas coloridas; e um sofá em formato de U, que ficava numa parte mais elevada, também coberto por travesseiros). Passei direto por ali e, em vez de hibernar naquela maravilhosa e gigante cama com lençóis roxos muito mais que chamativos, fui direto para o banheiro hibernar na banheira de mármore claro.
A água sempre me acalmou de uma forma inexplicável. Provavelmente aquilo se devia ao fato de eu ter, praticamente, nascido nas praias de Byron Bay e sempre que tinha um pequeno problema – que, por eu ser criança, era transformado num gigante –, corria para as águas salgadas na esperança que sua correnteza os levasse embora. Até que aquilo funcionava bem, porém quando se é quase uma adulta, você não pode simplesmente se jogar no mar e esperar que seus problemas se resolvam como num passe de mágica.
E foi com aqueles pensamentos que entrei na banheira com a esperança de relaxar mental e fisicamente. Eu precisava daquele momento de paz comigo mesma.

xx


, se você não abrir essa porta agora mesmo eu vou mandar um segurança arrombar.
Que porra é essa?
Foi a primeira coisa que me perguntei quando acordei com a gritaria de meu pai e seus murros na porta. Olhei para o meu corpo completamente enrugado por ter passado mais de uma hora na água e me levantei correndo. Eu precisava dizer que estava tudo bem, para que ninguém colocasse a porta para baixo e me visse nua.
– Por que essa gritaria? – interroguei colocando apenas a cabeça para fora, mesmo que já vestisse um roupão. Acabei me surpreendendo ao ver que todos os meus acompanhantes de viagem estavam ali, até mesmo a Gemma. Mas, assim que ela me viu, se retirou com uma careta.
– Achamos que havia acontecido alguma coisa com você, filha – mamãe foi a primeira a se pronunciar. – Deixamos Noah aqui para que se arrumasse para irmos ao centro e, depois de meia hora, ele pediu para que nos avisasse que você não saia desse banheiro. Todos nós ficamos batendo nessa porta como loucos e nada de você responder. Já estava ficando assustada – senti vontade de dizer que aquilo era perceptível, por causa de seus olhos inchados e voz rouca, mas decidi ficar calada por entender sua preocupação.
– Está tudo bem, mãe – senti vontade de abraçá-la, mas não estava vestida de forma apropriada para sair na frente do e sua família. – Então, vamos visitar o centro de Dubai? – tentei mudar o foco daquela conversa tensa para algo mais divertido.
– Sim e já estamos atrasados. Coloque uma roupa e desça em dez minutos – papai avisou e se retirou do quarto, levando consigo o padrasto de .
– Vou me arrumar – meu namorado apontou para a porta e me deixou sozinha com as duas mais velhas.
Fiquei calada por alguns minutos, sem saber muito bem o que fazer ou dizer. Fiz menção de voltar para o banheiro, mas fui interrompida:
, não quer ajuda para escolher uma roupa? Posso te ajudar – Anne se ofereceu olhando para mamãe, senti que ela queria acabar com meu constrangimento. Dona Lauren apenas concordou com a cabeça. – Pode terminar o seu banho, querida. Vamos te esperar aqui – apontou para o sofá que ficava do outro lado do quarto.
Segui a sua ordem e voltei para dentro do banheiro pensando em como o meu apelido ficava mais charmoso e significativo quando era falado por seu filho. Coloquei a banheira para esvaziar e tomei uma ducha rápida no enorme chuveiro que havia ali. Qual era o problema daquelas pessoas com tamanho? Tudo era exageradamente grande naquele hotel.
Vesti minhas roupas íntimas e o roupão com rapidez e me coloquei para fora daquele ambiente molhado.
– O que acha dessa saia? – a senhora balançava uma saia, branca com detalhes em preto, em frente ao seu rosto. – Sua mão permitiu que revirássemos sua mala e acabamos colocando uns vestidos no armário, espero que não se incomode – o tom de voz que saía de sua garganta era tão calmo que era praticamente impossível ficar incomodada com qualquer coisa que ela fizesse.
– Tudo bem, sim. E eu adorei a escolha – apontei para o look que elas haviam escolhido: a saia com detalhes, uma blusa branca soltinha, sandália aberta e confortável para caminhar pelo centro de Dubai. – Prontas? – as duas assentiram e nos direcionamos para a recepção, onde os outros já esperavam.
Papai batia o pé no chão, mostrando sua impaciência; Robin olhava para todos os detalhes do local; Gemma me olhava com cara de poucos amigos e Noah comia um sanduíche que, aparentemente, estava muito bom.
– Como temos dois carros, vamos os mais velhos em um e a nova geração no outro. Tudo bem para vocês? – Robin alternou o olhar por todos nós, que concordávamos. Menos Gemma, ela mantinha a cara de poucos amigos até mesmo quando entrou no banco de trás do carro. Resolvi sentar no banco de carona, para não precisar lidar com seu mau humor novamente.
interrompeu minha ação segurando meu braço direito. O encarei sem entender muito bem e percebi que ele indicava algo atrás de mim com o queixo. Fingi que havia esquecido algo com minha mãe e me virei para o que ele apontava. Era uma fã. Não a mesma das outras vezes, era uma loira com aparência de dezessete anos. Ela fingia olhar para o céu ensolarado enquanto apontava a câmera de seu celular em nossa direção. Ótimo, meu plano já estava sendo posto em prática. Voltei ao que fazia antes e mandei uma piscadela para o .
Os trinta minutos que levamos para chegar ao Museu de Dubai foi completamente silencioso e constrangedor. Nem mesmo o Noah se manifestou, o que significava que ele estava acuado com a presença de Gemma.
Soltei um suspiro aliviado quando percebi que, finalmente, havíamos chegado ao nosso destino. Entramos no Museu acompanhados de mais turistas e do pátio principal já era perceptível as características da era medieval, também havia réplicas de antigas embarcações e de uma casa árabe. Escolhemos fazer a visita mais rápida, já que a mais longa levava cerca de uma hora e ainda queríamos passar nos mercados da cidade.
Uma jovem nos contou que o Museu estava hospedado no Forte Al Fahidi, construído em 1787 para a defesa da cidade. Por meio de painéis multimídia e murais, a história que antecedia o petróleo e o cotidiano sofrido das pessoas que ali residiam era mostrada. Depois passava pela época da descoberta do petróleo há poucas décadas e seguido da explosão no desenvolvimento de Dubai, com a construção mega projetos e as perspectivas para o futuro a cidade.
Em um dos momentos do nosso passeio, se aproximou e passou o braço por cima dos meus ombros. Estranhei a atitude, mas passei um braço por sua cintura ao lembra que alguma fã poderia estar vendo e registrando aquele momento. me olhou nos olhos e raspou seus lábios no topo da minha cabeça, como um beijo delicado.
– Só eu que acho que apenas o Noah está curtindo esse passeio? – questionou com um sussurro. Neguei com a cabeça ao perceber que só o meu irmão estava interessado nas explicações, ele gargalhou fazendo algumas pessoas nos olharem com repreensão.
– E aqui acaba o nosso passeio – a jovem garota indicou a saída com suas longas unhas pintadas de vermelho e tatuagens douradas espalhadas pela mão –, foi ótimo recebe-los. As portas estarão sempre abertas para que voltem aqui – ela sorria tanto quanto a mulher da recepção do hotel.
Deixamos os carros ao lado do Museu e fomos andando até o canal que cruzava a cidade. Fomos guiados a entrar no um barquinho (mais conhecido como Abra) junto árabes em seus trajes típicos e outras pessoas que já estavam ali antes. Acomodei-me entre e Noah, segurando a mão do segundo por medo de que ele saísse correndo e caísse na água.
A viagem até o outro lado do rio foi rápida, mas a visão que era proporcionada por aquele ângulo fazia com que nós quiséssemos passar mais e mais horas ali.
– Que vista linda! – finalmente Gemma falou alguma coisa. Todos nós concordamos e puxamos nossos celulares para registrar aquele momento. Aproveitamos e tiramos algumas fotos juntos.
Quando chegamos ao outro lado do rio uma discussão foi iniciada para resolvermos o lugar que iríamos primeiro. Mamãe e Anne queriam visitar o Mercado do Ouro, enquanto Gemma e preferiam o de Especiarias. Papai e Robin estavam muito ocupados discutindo sobre a arquitetura local, Noah já gastava sua vasta energia correndo de um lado para o outro e eu apenas olhava a movimentação na espera que aquela discussão terminasse logo e fôssemos conhecer qualquer mercado daqueles.
– Tudo bem, primeiro o do Ouro e depois Especiarias – se rendeu. Nossas mães fizeram um Hi-5 e saíram com um mapa à procura do Mercado.
O lugar era algo grandioso. Mais de cinquenta lojas com ouro e mais ouro nas vitrines. Era de encher os olhos de luxúria e glamour. Visitamos três lojas da primeira rua e eu já estava encantada com tanta variedade.
– O que acha desse anel? – meu namorado segurava um anel prateado fino com uma pedra azul turquesa em cima.
– Achei lindo, . Combina com você – ao me ouvir dizer isso, seus lábios se abriram em um sorriso que iluminou o meu dia inteiro.
– O que você escolheu? – apontou para minha cestinha e lhe mostrei que ainda estava vazia. – Posso te ajudar?! – a pergunta soou mais como uma afirmação e ele começou a separar acessórios que, segundo sua visão sobre mim, eram a minha cara. – O que achou desse? – estendeu um colar com formato de uma palmeira, a mesma forma que um dos hotéis da cidade tinha.
– Eu adorei! – puxei o colar de sua mão e o coloquei em meu pescoço.
– Coloque-o logo e vamos sair daqui.
– Pretende roubar o colar, Senhor ? – arqueei as sobrancelhas com o tom de brincadeira e ele gargalhou.
– Já está pago. Um presente para você, querida – arregalei os olhos com aquela informação e paralisei, eu não sabia muito bem o que falar.
– Não posso aceitar, . Tenho certeza qu-
– É um presente, . Você não pode negar – segurou minhas mãos para que eu não tirasse o acessório. Estava prestes a agradecer quando papai avisou que estava na hora e ir para o próximo destino.
– Finalmente! – Gemma levou as mãos para o céu, agradecendo silenciosamente a Deus. Ela estava começando a se soltar.
Caminhamos animadamente pelo centro de Dubai, os moradores locais nos cumprimentavam com acenos e palavras desconhecidas do meu vocabulário.
Marhaban! acenou para uns vendedores e franzimos o cenho em sua direção. – É como se diz 'olá' em árabe – explicou. Ele tentou nos ensinar aquela e algumas outras palavras, mas desistiu quando chegamos ao Mercado de Especiarias.
Aquele era completamente diferente do primeiro. Começando pela organização: o local era composto de pequenas bancas preenchidas por temperos, ervas e outras especiarias; a iluminação era baixa, fazendo a luz do pôr do sol ser a mais forte dali. O cheiro do local também era algo diferente, como uma grande mistura de vários aromas diferentes. Aquele era muito mais legal que o outro.
Sem perceber, eu já tinha várias bolsinhas cheias de temperos variados. E, como o local era relativamente pequeno, passei por todas as barraquinhas umas duas vezes e só na terceira volta percebi que não estava acompanhando meu grupo de turista.
– Que droga! – sussurrei para mim mesma e sai à procura de qualquer um deles.
– Te achei!! – ouvi a vozinha de Noah e suspirei aliviada. – Papai está te procurando – ele saiu me puxando até a entrada e lá estavam meus familiares. Percebi que não tinha sido só que havia me encantado com aquele lugar quando vi que todos eles seguravam mais de cinco bolsinhas com especiarias diferentes.
– Eu disse que esse era melhor – Gemma se gabou para Anne, que concordou veemente.
– Espero que a próxima parada seja nossas camas – resmunguei fazendo todos sorrirem.
– Ainda precisamos jantar. Poderíamos fazer isso no shopping que fica bem perto do Museu de Dubai ou no hotel mesmo – Robin sugeriu enquanto voltamos para o outro lado do rio.
– Eu voto no hotel – levantei o braço, Gemma me acompanhou e depois foi a vez de mamãe.
– Prefiro o shopping, já almoçamos no hotel hoje e sei que se fomos jantar lá vamos pedir no quarto – papai, o diferentão. Anne lhe apontou, em concordância, Robin e fizeram o mesmo. – Quatro contra três.
– Ainda falta o Noah – Gemma apontou para meu irmão, que até então estava distraído com a água do rio. – Você prefere jantar no hotel ou no shopping?
– Shopping – ele falou como se fosse óbvio, para a comemoração dos nossos rivais.
Andamos até onde nossos carros estavam estacionados seguidos pelos últimos raios de sol que já dava lugar à lua e as estrelas. assumiu mais uma vez a cadeira do motorista e nos seguiu seu padrasto até o BurJuman Centre, um shopping pequeno e aconchegante que ficava a menos de vinte minutos da nossa primeira parada.
Entrei no centro comercial com vontade de me jogar no primeiro banco que vi, mas papai me arrastou até a praça de alimentação. A variedade dos restaurantes não era extensa, por isso paramos no primeiro café que vimos. Era uma padaria francesa bem confortável e charmosa.
Pedi um salmão defumado com salada de batatas e um suco de limão. Não prestei atenção no pedido dos outros e, ao menos, olhei quando chegaram. Apenas o do Noah, que era uma torta de morango com a aparência de está muito gostosa. Repeti milhares de vezes em minha mente que eu estava num regime muito rigoroso por causa de um evento que eu participaria logo quando voltasse para Sydney, mas não resisti e briguei com ele pelo último pedaço da torta. Depois de ganhar a briga, seguimos para o hotel.
A volta foi mais movimentada que a ida, Gemma e Noah conversavam animadamente sobre o parque aquático que visitaríamos no dia seguinte, enquanto e eu comentávamos baixinho sobre as pessoas que vimos tirar fotos discretamente do nosso passeio.
Assim que chegamos ao Burj Al Arab, saltei do carro e fui direto para a minha suíte mega luxuosa. Ajudei a criança da viagem a tomar banho e depois fiz o mesmo. Tomei o banho mais rápido de toda a minha vida e me joguei na cama de lençóis roxos mais que chamativos, dormindo em menos de três minutos.

CAPÍTULO 09

Dubai – 31 de dezembro de 2016
Finalmente já era dia de vestir o vestido branco e ir ver o show de fogos magníficos que os árabes sempre preparavam.
Os dois dias que se passaram foram muito bem aproveitados por todos nós.
No dia vinte e nove, fomos ao parque aquático que ficava no Jumeirah Palm, o hotel do colar que ganhei de . Fomos de manhã cedo e acabamos passando o dia inteiro lá. A noite jantamos em um restaurante no próprio hotel e voltamos para os nossos quartos.
Dia trinta fomos ao safári que fica em Abu Dhabi, a algumas horas de Dubai, e voltamos a noite.
Nos dois passeios haviam fãs e admiradores do . Nenhum deles nos pararam, mas tiraram fotos e jogaram em todas as redes. Todo o Twitter estava comentando sobre o novo casal e até colocaram " e " nos assuntos mundiais, o que fazia meu plano sair melhor que o imaginado.
Nesse meio tempo, chamei Gemma para uma conversa de garotas. Já estava sendo constrangedor estar no mesmo ambiente que ela e ser sempre ignorada.

– Gemma, nós podemos conversar? – pedi quando a encontrei quase entrando no quarto que dividia com o irmão. Por mais estranho que pareça, ela apenas concordou com a cabeça. – Então – procurei as melhores palavras para começar sem que ela fosse embora nos primeiros segundos. Resolvi começar com calma: –, eu sei que nosso primeiro encontro não foi o melhor de todos, mas eu queria dizer que te entendo – suas sobrancelhas arquearam em surpresa. – Entendo que você não quer se envolver nessa mentira e que acha ridículo o que fazem com seu irmão, mas não é culpa minh-
– Não é culpa sua? – soltou um riso irônico. – Foi você que aceitou isso. Vocês estão "namorando" porque você quer – ela me apontava com raiva.
– Você sabe que, se eu não aceitasse, outra garota seria chamada. E você acha mesmo que eles iriam me deixar recusar depois de terem me contado que o namora por contrato? Lógico que não, Gemma – minha voz estava começando a ficar mais alta. – Assumo que aceitei a proposta para conseguir mais empregos, mas eu ia desistir. Eu tentei, mas não deixou! Ele disse que precisava de mim e mais um monte de coisa que me fez não conseguir dizer não.
– Ninguém consegue dizer não a ele – murmurou para si mesma.
acha que sou sua salvação, mesmo eu já tendo dito que só ele mesmo pode se salvar, e eu vou fazer o impossível para ajudá-lo no que precisar – ela revirou os olhos como se não acreditasse naquilo. – Mas eu preciso que você me ajude – voltei a se cautelosa para não a assustar, pena que não deu certo:
– Eu não vou meter um dedo nisso, nem que me paguem – seu tom saiu como um grito.
– A gente só precisa que você pare de agir como se eu fosse sua rival, porque não é isso que somos. As pessoas estão começando a perceber que você não gosta de mim...
– E não é a verdade? – me interrompeu pela segunda vez.
– Elas não precisam saber disso, Gemma – tentei esquecer que ela havia acabado de dizer, entre linhas, que me odiava. – Não precisa agir como se fôssemos melhores amigas ou algo do tipo, só precisamos mostrar que você não me odeia – ela abriu a boca para me interromper, mas levantei o indicador como um pedido de espera. – Podemos fazer isso pelo ? – sim, era jogo baixo, mas eu precisava que ela aceitasse.
– Ele sabe dessa conversa? – seus ombros caíram para frente, numa demonstração claríssima de desistência. Neguei com a cabeça. – Isso só vai ajudá-lo a se esconder mais ainda do mundo.
– Ele pediu para que eu o ajudasse a fazer as pessoas acreditarem nesse namoro, já que ninguém acreditou nos outros – lembrei da conversa que tive com ele no dia anterior. Aparentemente ele estava com muita raiva e um pouco abalado com uma mensagem que recebeu, não me contou o que havia acontecido.
– Tudo bem – senti vontade de correr para abraçá-la, mas não o fiz. – Porém, eu não quero você e nem ninguém achando que somos melhores amigas ou até mesmo amigas.
– Farei o possível para que ninguém pense isso – bati continência como se ela fosse meu chefe e saí voando para o meu quarto, onde comecei a anotar os meus planos.


Depois daquela conversa, eu e Gemma andamos juntas no safári e algumas pessoas conseguiram capturar os poucos momentos em que estávamos nos divertindo como amigas, o que ajudou muito no meu "projeto".
– Todo mundo está falando sobre a foto que Gemma postou com você, Noah – enquanto eu tentava convencer a irmã que poderíamos ser amigas, Noah conseguia isso sem esforço algum. Ela até havia postado uma foto beijando sua bochecha com a legenda "Novo namorado". Uma cutucada em todos os lados.
– Devem estar falando no quanto você é fofo – a loira apertou as bochechas do meu irmão, que soltou um resmungo em protesto.
– Sim, em cada cinco comentários, quatro são falando que meu irmão é um amorzinho – informei.
– Para onde vamos hoje? – entrou na sala em que estávamos e interrompeu a conversa animada.
– Não podemos ir para nenhum bar porque não podemos entrar – apontei para Noah e eu. Os bares de Dubai só liberam entrada para maiores de vinte e um, entrada para menores só era permitida no almoço. Eu tinha dezenove.
– Esqueci que vocês são crianças – meu namorado se jogou no sofá ao meu lado. Dei uma risada irônica e o empurrei para longe de mim.
Nossa relação estava ficando mais amigável a cada hora que passávamos juntos. era adorável e isso fazia ser quase impossível não gostar de estar ao lado dele. Ele vivia fazendo piadas bobas, cócegas e cantando.
– Podemos ir para algum restaurante e ver os fogos de artifícios de lá – dei de ombros.
– Eu vou ver se Jamie fez reserva em algum restaurante e digo a vocês – saiu da sala com o celular em mãos.
Fiquei em silêncio vendo os outros dois jogando no celular da mais velha e acabei dormindo.
!? !? – alguém tocava meu braço suavemente. Empurrei sua mão com brutalidade. – Precisamos almoçar para irmos nos aprontar – soltei um palavrão em protesto, mas a pessoa não parava de chamar meu nome.
– 'Tá bom, eu me rendo – levantei minhas mãos e abri os olhos lentamente, não encontrando Noah e Gemma no outro sofá. – Vou tomar um banho e te encontro aqui – avisei ao e saí em direção ao meu quarto.
Em menos de quinze minutos eu já vestia um short jeans curto e uma blusinha preta com detalhes em branco. Desci as escadas correndo para encontrar meu namorado no mesmo lugar que o deixei. Assim que me viu, levantou-se e fomos juntos encontrar nossas famílias no restaurante que ficava próximo à piscina.
– Finalmente! – mamãe levantou as mãos, em forma de agradecimento. Revirei os olhos e sentei ao lado de papai. Dona Lauren, voltou à sua conversa animada com minha cunhada. Até minha mãe conquistou a Gemma e eu só consegui que ela fosse educada e minha "colega" em frente aos outros.
Conversamos sobre a programação para a noite de Ano Novo e contou que Jamie e Bill já haviam feito reserva em um restaurante do Burj Khalifa, de lá iríamos para a praia.
Depois do almoço, cada um voltou para seus quartos. Fui direto revirar minha mala para achar o vestido branco com renda que levei para aquela noite.
Tomei um banho bem demorado, com direito a depilação das pernas, hidratação no cabelo e óleo corporal. Coloquei uma roupa qualquer apenas para arrumar o cabelo e a maquiagem.
Estava muito concentrada na minha escolha de sombra e acabei não percebendo a presença de alguém.
– Esse? – Gemma apontou para um vestido azul royal que, provavelmente, ficaria acima de seu joelho – Ou esse? – ergueu outro vestido só que preto com flores laranja e rosa. Parei alguns minutos para analisar as opções, mas só conseguia me perguntar o porquê de ela estar me pedindo ajuda. – Hum? – ela arqueou as sobrancelhas e eu lembrei que precisava dar uma resposta.
– O azul – indiquei com o queixo. Escutei ela agradecer num sussurro e começar a sair do meu quarto, mas ouvi seus passos voltando.
– Er... Você já escolheu o seu? – franzi as sobrancelhas. Ela estava tentando me ajudar? Estava sendo simpática?
– Já sim, esse aí – apontei para o vestido que estava em cima da cama. A loira o pegou e analisou cuidadosamente.
– Combina com você – senti vontade de perguntar como ela pode dizer isso se não me conhece direito, assim como fez com o , mas deixei passar.
– Vou levar como um elogio – abri um sorriso para mostrar que era brincadeira.
– Não leve, porque não foi – Gemma também sorriu, entrando na onda. – Você quer ajuda aí? – indicou meu olho, onde eu começava a passar uma sombra marrom. Aquilo já estava muito estranho.
– Desculpa, Gemma. Mas por que você está fazendo isso? – não consegui segurar minha língua gigante que insistia em não ficar dentro da boca.
– Eu estava pensando. Se o gosta de você, significa que não é tão ruim quanto parece. Meu irmão não costuma gostar de pessoas chatas – deu de ombros. Eu sentia que ela estava derrubando todas as suas barreiras de orgulho apenas para falar aquilo.
– E você é muito mais chata do que aparenta – brinquei novamente e ela fingiu indignação. Gargalhamos juntas e, por um momento, achei que estava sonhando.
– Então, quer ajuda ou não?
– Quero sim – lhe estendi o pincel e a paleta de cores.
– Calma – empurrou os materiais de volta para mim e saiu do quarto. Voltando em três minutos junto com duas mulheres que carregavam maletas coloridas nas mãos. – Chamei essas duas maquiadoras profissionais para nos ajudar, Safira e Lorrana – apontou primeiro para a ruiva e depois para uma loira. Acenei para elas e me questionei o porquê de não ter pensado naquilo antes.
Lorrana deu uma olhada rápida em meu vestido e sugeriu que eu fizesse os olhos mais chamativos e a boca um pouco mais clara. Concordei e logo ela começou sua arte. Fez metade do olho claro e a outra metade preta, com uma fina camada de delineador e cílios postiços.
– Vão fazer tatuagens? – Safira questionou mostrando um catálogo com vários exemplos. Olhei sugestiva para Gemma e ela deu de ombros.
– Eu vou! – balancei a cabeça em concordância. Escolhi uma tatuagem étnica branca.
Provavelmente Gemma havia dito aos nossos acompanhantes que iríamos estar ocupadas a tarde inteira, pois ninguém nos incomodou.
Em duas horas e meia, estávamos prontas da cabeça aos pés. Corri para ver o resultado e fiquei encantada, eu nunca havia me sentido tão bonita como naquele momento.
– Obrigada!! – abracei as duas mulheres que salvaram nossas vidas. Despedimo-nos e elas nos deram seus números para futuras ocasiões.
e Noah apareceram assim que elas saíram. O pequeno usava uma calça jeans com uma blusa de botões cinza e sapatos; o mais velho estava com suas famosas botas, calça skinny preta e blusa estampada de botões com mangas curtas. Fiz questão de dizer o quão maravilhosos estavam.
– Vocês também estão lindas – Noah se apressou ao falar quando viu que iria fazer primeiro. Todos sorriram. Virei-me para olhar Gemma e vi que ela estava digna de capa de revista: usava o vestido azul escolhido por mim, botas pretas, colar prateado e também tinha tatuagem nas mãos.
– Adorei as tatuagens – apontou para nossos braços. – Agora temos que ir.
– Vamos! – peguei minha bolsa e saímos todos juntos.
Passamos no quarto dos nossos pais, que já nos esperavam, e fomos para o restaurante que Jamie havia reservado. Mais uma vez, nos dividimos em dois carros e levamos menos de vinte minutos para chegar ao nosso destino. A diferença foi que, daquela vez, não tinha um silêncio constrangedor e sim um barulho alto de conversa entre amigos.
– Chegamos! – estacionou e saiu para abrir a porta para mim e Gemma, passou seu braço por minha cintura e me levou até a entrada do local, enquanto Noah acompanhava sua irmã.
Assim que chegamos à recepção do hotel, e meu pai falaram com a recepcionista enquanto admirávamos cada detalhe do hotel. Depois de verificarem nossas reservas e documentos, um homem nos guiou até o Armani/Ristorante. O lugar tinha uma decoração branca, com mesas e cadeiras redondas e enfileiradas. Um garçom nos levou até uma mesa com vista para os altos prédios e nos acomodamos para escolhermos nosso jantar. Como a cozinha era italiana e eu não era muito de comer aquele tipo de comida, pedi a mesma coisa que mamãe (depois de ela em garantir que eu iria gostar).
– Então, vamos olhar o show pirotécnico da praia? – Robin iniciou a conversa enquanto aguardávamos a comida.
– Se todos estiverem de acordo – meu namorado deu de ombros. Começaram uma baixa discussão sobre o lugar que iríamos e ficou decidido que veríamos os fogos na praia ao lado do hotel que estávamos.
Graças aos céus, a comida chegou na mesma hora em que a discussão chegou ao fim e finalmente podemos comer. Como Dona Lauren disse, eu realmente gostei da comida, só não sabia muito bem o que era aquilo.
– Vocês duas estão lindas! – Anne indicou Gemma e eu. – Eu queria muito ter feito uma tatuagem dessas. – Eu também – mamãe concordou com a outra. – Antes de irmos, nós chamamos Lorrana e Safira para fazerem em vocês – elas concordaram felizes com a ideia da mais velha e marcaram para o dia dois de janeiro, um dia antes de irmos embora daquela cidade esplêndida.
Não dava para acreditar que faltava apenas três dias para a viagem chegar ao fim. Em parte, eu estava feliz porque iria voltar para casa e ver a Julie, meus outros amigos e voltar a trabalhar. Mas metade de mim estava triste por ter que ficar longe da Anne com seus comentários que me faziam sentir bonita; do Robin que, menos não conversando muito comigo, eu gostava do seu modo de tratar o e a Gemma como se fosse realmente seu pai; de Gemma que era bem insuportável no começo, mas descobri ser adorável apenas na metade da viagem; e, principalmente, de com suas piadas idiotas e seu bom humor eterno. Quando dei a ideia daquela viagem, nunca foi prioridade me apegar a nenhum deles, mas foi impossível com toda aquela simpatia que emanava deles.
– Todos prontos? – ainda bem que papai afastou meus pensamentos, pois eu estava começando a ficar nostálgica antes mesmo de o ano terminar.
– Sim! – Noah quase gritou, nos fazendo arregalar os olhos com sua mal educação.
– Mais baixo, filho – Lauren reclamou e o menor sussurrou um "sim!" que nos fez gargalhar.
Depois de protestar com o , consegui que dividíssemos a conta por família e todos concordaram.
Com tudo resolvido, fomos caminhando até a praia onde precisamos tirar nossos sapatos por causa da areia seca que começava a incomodar. Precisamos nos apertar um pouco entre as pessoas para conseguir uma boa vista para o Burj Khalifa. Conseguimos achar um lugar mais vazio e decidimos ficar ali.
– Vamos precisar tirar fotos – murmurou ao meu lado.
– Podemos pedir para que alguém tire – sugeri. – Eu posso tirar uma sua com sua família, depois você tira uma da família e alguém tira uma de todos nós. O que acha? – arqueei as sobrancelhas e ele concordou.
Pedimos para que uma garota que passava por ali para que tirasse a fotos de todos juntos e, antes de voltar a caminhar, ela fez questão de dizer ao que estava feliz por ele estar feliz e que esperava que continuássemos juntos por mais algum tempo. Fingi que não prestei atenção na conversa e andei para perto de mamãe.
– Como se sente? – perguntou assim que parei ao seu lado.
– Feliz, mas nostálgica – fiz um beicinho.
– Já está com saudades da família dele?
– E dele – completei a fazendo sorrir. – Mamãe, se ele for embora depois dessa viagem?
– Todos nós vamos, . Só uma semana aqui, lembra? – arqueou as sobrancelhas. Ela tinha um ar de riso que me fazer ter certeza que ela sabia que eu não falava sobre aquele tipo de partida. – Infelizmente não posso te garantir nada, filha. Mas posso dizer que ele gosta muito de você e sei que gosta muito dele.
– Eu me acostumei com a presença dele, sabe? E até dos outros também – me virei para olhá-los apontando para os prédios e sorrindo.
– Eles são encantadores – mamãe concordou e ficou em silêncio, eu sabia que ela não tinha mais o que dizer e nem eu mesma tinha. Só podíamos lamentar por aquela semana ter passado voando.
– Por que estão tristes? – o senhor apareceu com Noah no colo. Demos de ombros no mesmo momento. – O ano está acabando e outro melhor virá. Logo estaremos em casa com nossas famílias e amigos – nos abraçou como conforto, mas só piorou tudo. – Vamos lá, já vai começar a contagem regressiva. Animação! – me segurou pelos ombros e começou e me balançar no ritmo de uma música que tocava em algum lugar.
Faltando um minuto para a virada de ano, nos juntamos para a contagem e olhávamos para o céu, esperando os fogos de artifício.
– Dez... nove... – senti alguém me encarando firmemente e olhei de volta. Era Gemma sorrindo da forma mais doce que já vi, sorri de volta em cumprimento. – Sete... seis... – passei o olhar por Anne e Robin, que já estavam abraçados, assim como meus pais. – Quatro... três... – encarei e ele me mandou uma piscadela, sorri sem graça e voltei a olhar para o céu. – Dois... um! Kul 'am wa antum bi khayr!¹ – os nativos gritaram juntos, fingíamos fazer o mesmo enquanto os fogos coloridos iluminavam a noite. Aquela era a vista mais bonita que já havia visto em toda a minha vida. Abracei minha família com força e disse a cada um que os amava.
Senti uma mão em minha cintura e virei rapidamente para ver quem era. .
– Feliz Ano Novo, querida! – me puxou para perto dele e beijou meus lábios suavemente. Pensei em me afastar, mas ele me segurava e alguém poderia estar olhando.
– Feliz Ano Novo, ! – sussurrei quando nos separamos. Fiquei na ponta dos pés para beijar sua bochecha e passei meus braços por seu pescoço.
– Que nojento! – Noah berrou fazendo a maioria das pessoas nos encararem. Um coro começou a gritar "beija, beija" e eu quase entrei em pânico, mas a mão do em minha cintura me acalmou.
– Desculpe – murmurou em minha orelha quando fingiu que beijava meus cabelos. Seus lábios vermelhos voltaram a selar os meus. Fechei os olhos com força obrigando minha mente a pensar que aquela era um bom momento para o meu plano ser posto em prática novamente, mas era tão ridículo. Virei minha cabeça para o outro lado, fingindo que dávamos algo a mais que um selinho. Após nos separar, ele tirou um fio de cabelo do meu rosto e o colocou atrás da orelha, beijou minha testa com um sorriso triste nos lábios.
Os desconhecidos comemoravam nosso beijo e voltaram a olhar para o céu, que ainda era colorido pelo show pirotécnico de mais de dez minutos.
Abracei a família de e desejei que próximo ano fosse melhor que o anterior, todos os outros fizeram o mesmo. Fitei o meu namorado, que aparentava estar um tanto distante não só fisicamente.
– Sinto muito – lamentei quando ele me olhou de volta. O sorriso triste voltou a pairar em seus lábios e meu coração se dilacerou. Eu realmente sentia muito por tudo aquilo.

¹ 'Feliz Ano Novo!' em Árabe.

CAPÍTULO 10

02 de janeiro de 2017

– Argh! – grunhi com raiva.
Eu estava, a quase meia hora, tentando acordar Noah para irmos para a piscina e ele não abria nem os olhos.
– Noah , eu só vou chamar mais uma vez. Se você não levantar agora, eu vou embora sem você! – lancei uma das mil almofadas dali na cabeça dele.
– Sai, . Que saco! – ele virou para o outro lado e voltou a fechar os olhos.
– Vamos, Noah, todos estão na piscina nos esperando e hoje é o nosso último dia aqui. Por favor, levanta – eu o balançava com força, na esperança de ele mudar de ideia.
"E hoje é o nosso último dia aqui."
"Hoje é o nosso último dia aqui."
A frase ecoou em minha mente me fazendo parar de importunar a criança e me afastar da cama. Aquilo não deveria me afetar tanto. Que droga!
? – ouvi a voz do menor, mas não respondi. – Você já foi? – ele tirou o lençol da cabeça e me procurou pelo cômodo, me encontrando parada em frente a grande janela de vidro que havia ali. – Eu vou tomar banho, não fica triste – mais uma vez, não respondi. Ouvi seus passos rápidos em direção ao banheiro e logo o chuveiro ser ligado, me fazendo "acordar".
Escolhi uma roupa de banho para Noah e me joguei na cama com força. Mil pensamentos rondaram minha mente já perturbada e eu só conseguia pensar no que eu faria dali em diante. Seguindo o cronograma ridículo, nosso "relacionamento" terminaria em menos de um mês; as fãs dele iriam continuar me chamando de falsa e o seria o mentiroso; em um ano, estaria com uma nova garota para os mesmos fins sem noção.
E qual era o problema de ele se assumir bissexual? Tantas fãs mostravam apoio ao garoto, mesmo ele sendo obrigado a passar a imagem de "mulherengo". E se ele namorasse seu colega de banda, o que aquilo mudaria na vida das pessoas?
– Acabei! – meu momento de reflexão fora atrapalhado. Vesti a roupa escolhida nele e penteei seus cabelos mais claros que o meu.
– Você gostou? – questionei o encarando pelo espelho.
– Sim, mas acho que está meio torto – puxou a escova da minha mão e começou a arrumar os próprios fios.
– Não, Noah. Da viagem, do e da família...
– Sim! Eles são muito legais – ele se virou com rapidez e tinha um sorriso gigante no rosto. – O é muito engraçado e a Gemma é chata quando aperta minhas bochechas, mas eu gosto dela – gargalhei. – Já estão até ficando vermelhas, olha só – voltou a virar para o espelho e examinou seu rosto.
– Quanto drama para uma criança – revirei os olhos e ele me encarou emburrado.
– Esse foi a melhor viagem que eu já fiz, obrigada, ! – abraçou minha cintura, que era o único lugar que ele alcançava, com força e meus olhos se encheram de lágrimas. Olhei para o teto e respirei fundo, não iria chorar ali.
– Prometo que vamos viajar muito mais, mas agora nós precisamos ir – Noah me soltou e saiu correndo para fora do quarto. Precisei correr para alcançá-lo antes que se perdesse naquela imensidão dourada.
Agarrei meu irmão pela mão e andamos lado a lado até a enorme área de lazer, onde encontramos e Gemma dentro d'água.
– Hey! – acenou quando me viu – Achamos que vocês não viriam.
– Estava esperando esse pestinha... Noah, não vá para o fundo – gritei quando vi que ele estava prestes a pular na água. Em que momento aquele garoto tirou as roupas?
Mesmo com o aviso prévio, meu irmão pulou na área mais funda. Ele sabia nadar desde os quatro anos, mas uma vez ele perdeu o fôlego e engoliu metade da água da piscina, por esse motivo mamãe não o queria sozinho. Por causa disso, me preparei para pular atrás dele, mas vi que o segurou pela cintura e parei.
– Para o raso, criança – o menor ainda tentou se soltar, mas o mais velho conseguiu segurá-lo.
– Obrigada, querido – sorri vitoriosa para o garotinho que fazia bico.
Decidi não entrar na água e me escondi do sol numa espreguiçadeira coberta. Se eu ficasse exposta aos raios solares por mais alguns minutos, minha pele ficaria mais vermelha.
Puxei uma revista da minha mochila de praia e sorri ao olhar para a capa. Era uma Vogue UK¹ edição de dezembro de 2000, com Kate Moss na capa, que havia chegado remetente 'Mrs. Billy'. Um dos melhores presentes de Natal que já recebi.
Antes mesmo de começar a folhear aquela obra de arte, meu celular avisou a chegada de uma nova mensagem:

"Como você está, futura ?
Nos vemos em Sydney? Diz que sim.
Estou com saudades da minha irmã mais nova!
x Julie"

Senti-me uma amiga ingrata quando li aquilo. Eu estava curtindo em Dubai e, ao mesmo tempo, sofrendo com a partida do meu "namorado" que acabei não ligando para a minha melhor amiga e seus problemas familiares.

"Amigaa, desculpa por ter sumido. Aqui tem tanta coisa para fazer que acabo esquecendo do celular.
Como vão as coisas aí? Você já pegou a Ms. Penni no vizinho? Não se esqueça de sua comida!
E é claro que vamos nos encontrar em Sydney, eu não vejo a hora.
Xx "

Assim que enviei, senti gotas geladas caindo em meu rosto. Soltei um gritinho de susto.
!
! – tentou imitar minha voz. – Vim te fazer companhia – sentou na cadeira ao meu lado e eu voltei a olhar para minha revista – Uma fã me parou agora a pouco e perguntou sobre você – o encarei na mesma hora. estava sem camisa, com uma bermuda azul marinho da Adidas e uma cueca cinza que estava quase toda de fora. Estava sexy.
– E?
– Eu disse que você estava no quarto. Ela pediu uma foto e, antes de sair, perguntou se eu estava feliz... – arqueei as sobrancelhas, o incentivando a continuar. – Eu disse que sim. Ela saiu com o celular na mão, acho que vai postar algo sobre isso.
– Você fez o possível para ser realista? – coloquei a revista de volta na bolsa, não iria conseguir ler mesmo.
– E o que te faz pensar que não estou? – ele franziu o cenho, mostrando indignação.
– Depois que você largou seu celular e me pediu para fazer todo mundo acreditar no nosso... – olhei para os lados procurando alguém por perto – relacionamento falso – inclinei-me para frente e sussurrei -, você anda todo estranho e meio triste.
– Algumas coisas aconteceram, . Prefiro não comentar sobre isso – afastou-se de mim e encarou um ponto qualquer.
– Você sempre "prefere não comentar" sobre nada – revirei os olhos. Eu nunca quis pressionar o para que me falasse sobre sua vida pessoal, mas seu ar de tristeza me deixava incomodada. – Tudo bem, . Não vamos comentar sobre isso.
– Desculpa, . Eu, realmente, não gosto de falar sobre isso – ele tinha os ombros encolhidos e os olhos no chão. Apenas dei de ombros e decidi observar o local.
Poucas crianças corriam de um lado para o outro, adultos tomavam sol e famílias comiam enquanto conversavam alto.
– Mas só porque estou triste com uma pessoa e situação, não quer dizer que não estou gostando de passar esse tempo com você – voltou a se aproximar e me olhou nos olhos. – Eu gosto de você, . Não desse jeito que estamos mostrando ao mundo, mas como uma amiga próxima.
– Também gosto de você dessa forma, . Por isso queria saber o que está acontecendo com você e poder te ajudar.
– Com isso ninguém pode me ajudar. Agradeço e aprecio sua preocupação, mas garanto que tudo vai ficar bem. Sempre fica – beijou minha cabeça e voltou para a água. Deixei-o ir sem interrupções, queria ficar sozinha.
Resolvi ir dar uma olhada no que as pessoas estavam falando sobre nosso relacionamento. Alguns sites de fofocas mentirosas aqui, capas de revistas teen² ali, nada novo. Migrei para o Twitter e achei uma hastag nos Trend Topics³ que dizia que estava feliz. Li alguns comentários, algumas palavras de baixo calão direcionadas à minha pessoa e algumas demostrando de carinho. Acabei parando em uma conta de informações diárias sobre os garotos e o primeiro tweet era o relato da fã que conheceu o :
"Hoje conheci o , ele estava sozinho, então perguntei se poderíamos tirar uma foto e ele foi um fofo. Tiramos duas fotos e, antes de ir embora, perguntei se podia lhe fazer uma pergunta e ele – meio receoso – disse que sim. “Você está feliz?”. “Você não imagina o quanto”, ele respondeu. E seus olhos brilharam como se estivessem sorrindo por si só. Eu tirei uma conclusão disso: eles podem não estar namorando e ele pode até ser gay, mas essa garota o faz feliz e é isso que importa."
Fiquei completamente paralisada. Não esperava por aquela sinceridade.
Olhei para o garoto cabeludo que nadava de um lado para o outro com Noah, meus olhos piscavam rapidamente. "Ele estava, realmente, feliz?"
Continuei rolando a página até parar numa foto de dois homens andando com um carrinho de bebê. A legenda era: " e Freddie ontem em Los Angeles"
– Oh, ele tem um filho?
– Quem tem filho? – ouvi a voz de mamãe atrás de mim. – Bom dia, filha!
– Bom dia, !
Mamãe e Anne chegaram juntas e sentaram nas cadeiras ao meu lado. Cumprimentei as duas com um sorriso.
– Você estava falando sozinha? Quem tem um filho?
– Eu estava fazendo umas pesquisas e descobri que tem um filho. Achei que não tinha falado aquela frase, apenas pensado – expliquei tentando não parecer que havia ficado louca.
Percebi que na hora que falei de e seu filho, Anne olhou para todos os lados e encarou seu filho, estava aparentemente desconfortável.
– Não é o garoto que acham que o namora? – mamãe questionou e Anne desviou o olhar para mim, apenas concordei com a cabeça. – Como as pessoas acham que eles namoram se ele tem um filho? Isso é loucu-
– Robin, estava lhe procurando – a mãe de atrapalhou mamãe com um grito quase agudo.
Logo os homens chegaram e todos começaram a falar o quão bom foi o jantar do dia anterior. No primeiro dia do ano, os mais velhos decidiram ir jantar sem as "crianças". "Um jantar entre casais de verdade", Gemma aproveitou o momento para tirar uma brincadeira um tanto sem graça.
– Estava arrumando minhas malas e fiquei triste em perceber que já vamos embora amanhã. Esse lugar é um paraíso! – Anne apontou para o hotel. – E eu amei conhecer todos vocês, não achei que poderia ser tão bom como foi.
– Confesso que fiquei um tanto contrariado quando veio com essa história, mas foi uma ótima viagem – papai concordou.
– Hoje eu só quero descansar e aproveitar tudo que esse hotel tem a oferecer – Robin apontou para a piscina. – Que tal um mergulho, todos? – estava prestes a negar quando senti os braços de alguém me tirando da espreguiçadeira.
– Não, pai, por favor! – consegui jogar meu celular na cadeira antes de cair na água. – Pai! – gritei quando emergi.
– Vamos aproveitar o último dia, filha – ele gritou de volta e logo uma guerra de água havia começado.
Passamos o resto do dia e parte da tarde ali, jogando água uns nos outros, fazendo aquelas guerrinhas que um sobe no ombro do outro; tentou me ensinar a dar um mortal, mas uma funcionária do hotel avisou que aquilo não poderia ser feito ali por causa dos riscos, então paramos; almoçamos no restaurante que ficava de frente para a área de lazer e, quando cansamos, voltamos para os nossos quartos.
– O que vamos fazer agora? – perguntei quando vi entrando em meu quarto, secando os longos cabelos com uma toalha.
– Em... – fez uma pausa para olhar a hora em seu celular. – meia hora vai sair o anúncio do nosso primeiro show depois da pausa, preciso estar online nas redes sociais para ver os comentários e interagir com os fãs.
– Vai acabar a pausa?! Quando? – eu estava mais empolgada que o normal e eu nem era tão fã da banda. Mas fiquei feliz em saber que eles voltariam, parecia mais feliz quando estava no palco e com seus melhores amigos.
– Sim! No dia do meu aniversário, não é demais? – seus olhos brilharam só em dizer aquilo, pareceu o Noah quando ganhava um presente que ele queria muito.
– Consigo ver nos seus olhos o quão feliz está – fui sincera.
– Você não imagina como é bom estar no palco, com todas aquelas pessoas que amam sua música e seu trabalho, poder interagir com eles... É uma sensação única e poder fazer isso com os rapazes é melhor ainda – seu sorriso se escancarava a cada palavra. Aquele era mesmo o trabalho certo para ele.
Apenas assenti com a cabeça e deixei que ele revivesse aqueles momentos tão especiais para ele. Depois de alguns minutos, ele voltou a interagir comigo:
– O que você vai fazer?
– Eu não sei. Noah me largou para ficar com sua irmã, meus pais me largaram para ficar com os seus... – dei de ombros, mas quase escapou que ele havia me largado pelas fãs, mas era um pensamento tão idiota quando era mais do que claro que ele gostava muito mais delas que de mim. O que era óbvio já que ele havia me conhecido a menos de um mês.
– Podemos assistir a um filme enquanto eu trabalho ou fazer qualquer outra coisa que não necessite de muita movimentação ou atenção.
– Certo, um filme seria ótimo. Você pede comida e eu escolho um filme aqui – o empurrei para a porta e me joguei na enorme cama de casal.
Zapeei alguns canais, cutuquei alguns botões aqui e outros ali e acabei parando em De repente 30, uma das minhas comédias românticas preferidas. Torci para que também gostasse. Após dez minutos, meu namorado voltou com um suco light, refrigerante, ninhos* recheados com geleia de damasco e alguns salgadinhos.
– O que escolheu? – questionou depois de se jogar ao meu lado. Apontei para a televisão quando apareceu o nome do filme. Ele soltou uma risadinha anasalada e puxou o iPad de ouro que era dado para todos os hóspedes pelo próprio hotel. – Vai ser agora!! – avisou animado demais para diminuir o tom de voz.
E saiu.
me cutucou na barriga e apontou para o aparelho dourado em suas mãos. Estava me mostrando o vídeo do anúncio, onde podia ser visto ele e os outros três garotos.
“Oi gente, aqui é One Direction e nós nos juntamos para dar uma boa notícia a todos vocês” , começou.
“Resolvemos dizer isso diretamente para vocês em primeira mão” , foi a vez de .
“Viemos anunciar o nosso primeiro show depois da pausa” , fez o grande anúncio e todos os quatro começaram a gritar.
“Sim, nós estamos de volta e queríamos convidar todos vocês para o primeiro show que será no dia um de fevereiro...”.
“Meu aniversário!” , atrapalhou o loiro gosto... O .
“Dia do aniversário do Harold, na O2 Arena” , ele finalizou sem mais interrupções.
“Aguardamos a presença de todos vocês” , apontou para a câmera e todos começaram a acenar e gritar o quanto amavam as fãs. Anúncio encerrado.
– Finalmente! – começou a pular na cama como um louco. – Vem, – me puxou pelo braço e lá estava eu pulando na cama como uma louca.
– Cansei – deitei na cama e ele fez o mesmo.
Não tivemos mais emoções: começou a responder seus fãs, eu voltei a assistir, acabamos com toda a comida e – vez ou outra – me mostrava algum comentário engraçado de alguma fã maluca.
Peguei no sono assim que Jenna Rink** voltou a ser criança e, finalmente, começou a viver o seu final feliz.

¹UK: United Kingdom = Reino Unido.
²Teen: revistas de adolescentes.
³Trend Topics: tópicos tendências, ao pé da letra. A tradução mais lógica é "tópicos mais comentados".
*Ninho: é uma sobremesa árabe composta por: macarrão kneefe (um macarrão bem fininho) é recheado de creme de nozes, nozes amolecidas, amêndoas ou mesmo com geleia de damasco (uma fruta bastante consumida pelos árabes).
**Jenna Rink: personagem principal do filme De repente 30.

CAPÍTULO 11

Aeroporto de Dubai – 03 de janeiro de 2017
Eu arrastava minhas pernas e mala pelo local e me esforçava para não bater em ninguém, o que era praticamente impossível já que o aeroporto estava cheio de turistas voltando para suas casas. Avistei minha mãe sentada em frente à sala de embarque e me joguei na cadeira ao seu lado. Eu não aguentava mais ficar de pé.
– Você está parecendo uma velha, !
– São cinco da manhã, mãe. Estou com sono – resmunguei de volta e fechei os olhos para tirar um cochilo.
– Estou só esperando os homens para que possamos entrar – concordei com a cabeça, sem força para abrir os olhos.
Estava quase entrando no mundo dos sonhos quando ouvi uma gritaria ao meu lado esquerdo. Queria pedir para que todos falassem mais baixo, mas não conseguia nem abrir a boca.
parece um zumbi – reconheci a voz fininha de Noah, que riu em deboche.
– Eu deveria repreender você por esse comentário, mas preciso concordar – papai, o engraçadinho.
– Ela parece incomodada, deveríamos acordá-la?
– Eu estou ouvindo todos vocês – murmurei e todos se calaram. – Noah, zumbi é o seu pai. E , estou acordada – abri os olhos para encarar os três homens. Demorei o olhar no rosto cansado do , ele tinha olheiras grossas e bocejava a cada cinco segundos.
Depois de todo o drama mental que fiz nos últimos dias e de eu ter ensaiado mil vezes como iria me despedir do , Jamie ligou e avisou que viajaríamos juntos novamente:

Apaguei no final do filme e deixei sorrindo como um bobo para o seu celular. Mas, infelizmente, ele me fez acordar com menos de meia hora de sono.
– Por favor, . É importante – ele me balançava de leve. – Jamie precisa falar com nós dois.
– Eu não quero falar com Jamie – virei meu rosto para o outro lado.
– Aprecio a consideração por minha pessoa, nunca me senti tão amado – a voz de deboche invadiu o quarto.
– Haha. Pode falar – finalmente abri os olhos e olhei para o iPad dourado nas mãos do . Eu só queria que Jamie falasse logo e eu voltasse a dormir.
– Preciso lhe parabenizar pelo seu plano, foi uma ótima ideia – arregalei os olhos que teimavam em fechar. Ele estava
mesmo me parabenizando? – Todos estão comentando sobre vocês e o fato de não ter fotos em HD dessa viagem. As fotos tiradas pelos fãs estão em quase todas as revistas e ocupam a primeira página de vários jornais – ele gesticulava bastante e tinha um tom bem animado.
– Obrigada – eu não queria ser mal educada, mas queria muito perguntar se ele não poderia ter me parabenizado no dia seguinte.
– Por isso – interrompeu meus pensamentos. –, vocês irão viajar juntos para Sydney!
– Quê?
– Oi?
e eu murmuramos na mesma hora, nos olhando confusos no segundo seguinte.
– Isso mesmo que ouviram. terá um encontro de modelos em Sydney e você, , terá uma entrevista numa rádio local para falar sobre o fim da pausa – explicou tudo com uma animação estranha. – Depois irão para Byron Bay e, dia oito, voltarão cada um para seus países – cerrei os olhos tentando adivinhar o porquê daquilo.
Eu estava consciente do meu encontro, pois estava marcado desde novembro, mas parecia surpreso com sua entrevista.
– Por que não disse antes?
– Porque foi confirmado ontem...

– Levanta, . Nós precisamos entrar na sala de embarque – mamãe me acordou do meu flashback com um tapinha no braço.
Levantei meio desnorteada e segui minha família até a sala da frente. Em menos de meia hora, estávamos sentados confortavelmente nas cadeiras do avião – onde ficamos por treze horas.
Dormi boa parte do vôo, mas chegou num momento que eu não aguentava mais. Eu queria me mexer, fazer alguma coisa, jogar alguém pela porta de emergência... Por isso, fiquei inquieta: comecei a remexer na cadeira, ligar a televisão, tentar acordar o Noah, olhar minhas fotos no celular. Até que o acordou com minha movimentação.
– O que você está fazendo, ? – sua voz, que já é rouca, estava muito rouca. Ele tinha os olhos meio fechados e me olhava por uma pequena fresta. Estava lindo até todo amassado.
– Estou cansada de não fazer nada! – resmunguei voltando a olhar os filmes que estavam disponíveis. – E nem tem filme bom.
– Vamos conversar então – virou seu corpo em minha direção, como se estivesse muito disposto para um diálogo.
– Mas você não abre nem os olhos – cutuquei seu braço. Ele me encarou na mesma hora, ainda com os olhos pequenininhos. – Você fica lindo com sono – sussurrei sem pensar muito, ele arqueou as sobrancelhas.
– E você fica chata quando está com tédio – deu um sorrisinho mínimo, revirei os olhos. – Eu disse que a Gemma falou que você “até que é legal”?
– Ela disse? – foi a minha vez de levantar as sobrancelhas. Nunca achei que ela iria gostar realmente de mim.
– Sim e mamãe também adorou conhecer você. De todas as minhas namoradas, ela só conheceu a Kendall Jenner e já está dizendo por aí que você é melhor.
– Sua mãe é adorável e o Robin também. A Gemma sabe ser legal quando ela quer – concordou com a cabeça, voltando a fechar os olhos. – ?!
– Esse fuso horário está me matando – a carinha que ele fez foi tão fofa que decidi deixá-lo dormir e assistir qualquer filme só para me manter ocupada, mas acabei dormindo também.

Sydney – 04 de janeiro de 2017
– Hora de levantar, senhora preguiçosa – alguém gritou em meu ouvido direito. Abri apenas um dos olhos para ver quem era e soltei um grito quando vi o rosto de Julie a menos de quarenta centímetros do meu. – Finalmente acordou! – ela berrou de volta e se jogou em cima de mim.
– Você está me sufocando, Van der Melt – resmunguei tentando empurrá-la para longe.
– Van der Melt é a sua tia – ralhou enquanto me lançava uma almofada na cabeça.
Julie não se dava muito bem com seu pai e sua família rica e fútil. Em partes, eu entendia que o que minha melhor amiga sempre quis de seu pai fora atenção e não seu dinheiro, mas sempre achei que ela deveria dar uma chance de ele se redimir por ter sido um procriador bem ausente em sua adolescência – mesmo morando na mesma casa. Julie nunca concordou comigo.
– Senti falta desse seu mau humor matinal – sorri com a boca fechada e ela voltou a me abraçar.
– Também senti sua falta. E eu estava precisando contar a alguém como foi comemorar o fim de ano na Holanda – sua voz continha uma pitada de animação que nunca dava as caras quando o assunto era sua família paterna.
Então ela começou a falar sobre um homem que conheceu enquanto admirava os fogos de artifício em alguma cobertura luxuosa, o qual a ajudou a sair da festa chata que era obrigada a estar. Minha amiga contou que aquela foi a melhor virada de ano de sua vida e que estava feliz por começar o ano já beijando. Tive que gargalhar com a última parte.
– Nós temos que ir para a praia, – interrompeu seu monólogo com um berro.
– E que horas são? – eu estava completamente perdida nos quesitos horas e datas. O fuso horário estava me deixando louca.
– Quase três da tarde... – não deixei que ela terminasse de falar, sai correndo para o banheiro de hóspedes e fiquei ali até ter certeza de que estava tudo em ordem. Afinal, eu estava indo para um encontro com todas as modelos australianas que trabalhavam na agência de Preston, não podia ir desleixada.
No meio da minha produção, me veio à mente o que seria feito nos dias seguintes. O cronograma da vez era: ficar num hotel próximo à rádio que seria sua entrevista, enquanto eu me hospedaria na casa da mãe de Julie – Rosalie –, depois de resolvermos nossos trabalhos, nos encontraríamos para irmos visitar minha família em Byron Bay, para depois voltar para Sydney e nos livrarmos um do outro. Uma semana bastante animada.
Depois que terminei de colocar meu vestido rosa estampado e minhas sandálias abertas, segui com Julie para a praia onde seria nosso encontro. Assim que chegamos, vimos tapetes coloridos forrados na areia seca onde algumas garotas já estavam devidamente acomodadas.
– Sejam bem vindas ao sexto encontro de modelos australianas da agência YMG Models¹ – uma loira sorridente surgiu ao nosso lado. – Vamos aguardar mais alguns minutinhos até que todas estejam aqui, então vocês podem ir se acomodando ou comer ali, fiquem a vontade – indicou uma mesa enorme cheia de comida me fazendo lembrar que não havia comido nada desde que acordei.
– Muito obrigada, Ferrah – Julie sorriu para a mulher e me puxou para sentar no tapete do canto esquerdo, mas antes, cumprimentamos nossas colegas de trabalho com abraços rápidos e pegamos sanduíches naturais de frango.
– Como sabe o nome dela? – murmurei sobre meu ombro.
– Enquanto você estava em Dubai, ela foi promovida a chefe das modelos daqui – sussurrou de volta.
Sempre rolou uma briguinha entre as mais antigas na agência para ver quem seria a representante de cada país, pois ser representante tinha seus privilégios: você viajava para todos os países onde havia sede da YMG para reuniões; recebia mais trabalhos e, consequentemente, mais atenção da mídia e com isso mais dinheiro; saia na capa da revista Aussie Models no mês de comemoração de sua primeira revista impressa; e muitas outras regalias que faziam todas quererem aquele cargo. E qualquer uma podia conseguir, só bastava ser a segunda mais destacada em seu país de origem e pronto (a primeira sempre era a representante da vez). Qualquer uma menos as modelos em desenvolvimento, como eu.
Olhei Ferrah por alguns instantes e me lembrei de ter visto suas fotos diversas vezes na capa de nosso site, estava claro que seria ela a ocupar aquela colocação.
– Enfim, vamos começar – olhei ao redor e os tapetes já estavam quase todos ocupados. – Eu sou Ferrah Irwin, sua nova representante... – aplausos foram ouvidos e seu sorriso se alargou mais ainda. – Obrigada, meninas. Significa muito para mim estar aqui hoje dizendo isso para vocês, pois agora sei que os quinze anos de esforço valeram muito a pena – outra salva de palmas. Ferrah deveria ter começado cedo nesse ramo, já que não parecia ser velha, eu lhe daria no máximo vinte e sete anos. – Hoje nós vamos conhecer as novas integrantes da agência, iremos decidir alguns pontos do desfile e apresentaremos as vitoriosas que irão sair do desenvolvimento para se tornarem modelos profissionais da YMG – meu coração parou por um instante. Aquele era o meu sonho desde que havia aceitado trabalhar com o Preston. Eu rezava para que tivesse conseguido me destacar entre as garotas do meu nível e conseguisse pegar uma das oito vagas que sempre eram cedidas.
Ao meu lado, Julie estava calma como uma criança dormindo. Por ser modelo desde criança e também na adolescência, Julie era profissional desde os dezoito anos.
– Você vai conseguir – adivinhando meus pensamentos, ela me abraçou pelos ombros e beijou minha bochecha. Sorri com sua demonstração de esperança.
– Nós vamos começar com a apresentação das novas garotas. Assim como a maioria de vocês, elas foram descobertas enquanto Preston ou Gianini aproveitavam suas férias nas cidades daqui. Então, palmas para as nossas novas irmãs! – assim que ela terminou de falar, uma fila de menos de dez meninas surgiram de trás de todas nós e se alinharam ao lado de Ferrah.
– Sejam bem vindas! – falamos em coro.
Meus olhos foram analisando todas as desconhecidas que estavam ali até que encontraram uma conhecida.
– Aquela não é... – ouvi minha melhor amiga sussurrar e confirmar que aquilo não era uma miragem.
– Mas que por-
– Por favor, dê um passo à frente e se apresente dizendo seu nome, idade e de onde veio – nossa representante explicou sorrindo para as novatas.
– Catlin Grace Coleman, tenho vinte e dois anos. Nativa de Byron Bay, mas moro desde os doze anos em Gold Coast – lançou-me um sorrisinho convencido antes de voltar para a fila. Ela me encarava como se eu fosse uma assassina pronta para matá-la. E talvez eu fosse.
As outras garotas fizeram o mesmo que Catlin, mas não consegui prestar atenção no que era dito, apenas me perguntava o que eu fiz em vidas passadas para ter que sofrer tanto nessa.
– Podem se acomodar, meninas. Vocês agora são parte dessa imensa família – Ferrah, com certeza, foi feita para aquela ocupação.
Vi minha prima vir em minha direção para sentar no lugar vago ao meu lado, mas graças aos céus uma loira baixinha sentou primeiro.
– Pode me agradecer – ela sibilou e eu a encarei.
– Melanie! – gritei chamando a atenção de todas. Desculpei-me um tanto envergonhada, mas voltei a surtar com a presença da minha amiga.
– Achei que nunca mais iria te ver – Julie entrou na conversa fazendo uma voz melancólica.
– Julie, amorzinho – as duas se cumprimentaram com abraços desajeitados.
– Meninas – Ferrah chamou nossa atenção de volta para a pequena cerimônia. –, agora vamos conhecer as garotas que se esforçaram tanto no ano que se passou que acabaram conseguindo e se tornaram modelos profissionais da YMG. Mas, antes, eu quero parabenizar e dizer que todas vocês foram magníficas e estar aqui já é uma grande vitória – voltamos a bater palmas, mas a verdade era que eu já estava cansada de ouvir que fui ótima o ano inteiro e não conseguir nada. Naquele dia, eu queria mudar aquele ciclo. – Quem for chamada venha até aqui na frente e se apresente assim como as novas fizeram, mas acrescente desde quando trabalham para a agência – pediu com a maior calma do mundo e pegou um papel que estava em cima da mesa. – Maia Darcy!
– Ai, meu Deus, sou eu! – gargalhamos ao ver a morena gritar e abraçar uma ruiva que estava ao seu lado. – Como a Ferrah disse, meu nome é Maia Darcy, tenho vinte e um anos. Sou de Melbourne e estou na agência desde os meus dezesseis anos – ela finalizou com um sorriso largo e todas as parabenizamos.
Uma sucessão de nomes veio depois disso: Alexa Shea; Erin Hall; Jessica Stone; Lise Martin; Melina Shelly; Talisa Hue e, finalmente, a última:
– Nina Hunt! – uma japonesa levantou e correu até o lado de Ferrah e explicou sobre ela ter duas nacionalidades, mas não prestei muita atenção.
Aquela era a oitava garota. A oitava de oito. O que significava que, mais uma vez, eu não havia conseguido me destacar. Meus olhos encheram de lágrimas só de pensar em todo o esforço que fiz, os cinco meses que passei longe dos meus pais apenas para me dedicar ao meu trabalho e não consegui o prêmio final.
Senti o olhar de Julie pesar sobre o meu rosto, assim como o de Melanie, eu não queria ver os seus olhares de pena, então prendi a respiração por alguns instantes para controlar os batimentos descompassados do meu coração. Olhei para o céu azul escuro, para as nuvens carregadas, numa tentativa de não deixar as lágrimas escapar dos meus olhos.
– Eu sinto muito, -
– E, por fim, ! – o grito de Ferrah atrapalhou o começo do discurso de Julie. Pisquei os olhos diversas vezes, sem entender o que estava acontecendo.
– É você, . Vai lá, amiga – consegui levantar com o empurrão de Melanie e me direcionei para o centro do local.
– Parabéns, ! – minhas bochechas coraram ao ouvir o pessoal gritar.
– Pela primeira vez, temos uma nona garota a passar do desenvolvimento para profissional e ela é você, parabéns pelo seu desempenho – Ferrah me abraçou com força enquanto eu continuei lá parada, perplexa com a situação.
– Bom, eu sou , tenho dezenove anos. Sou nativa de Byron Bay, mas moro em Los Angeles com Julie Whitely – apontei para a morena que me olhava com os olhinhos brilhando. – Trabalho com o Preston a três anos e é isso – dei um sorriso nervoso em direção às minhas irmãs de trabalho e voltei correndo para sentar no meu lugar. Assim que me acomodei, comecei a surtar com minhas amigas.
Ferrah começou a falar sobre o primeiro desfile do ano para apresentar a nova coleção de inverno. Tentei prestar o máximo de atenção, mas era praticamente impossível quando meu coração não parava de bater num ritmo louco. Eu queria sair dali e ir comemorar com minha família e .
?
Meu subconsciente voltou a questionar meus pensamentos indevidos.
Percebi que aquela era a primeira vez, desde o dia vinte e sete, que eu passara o dia inteiro sem vê-lo e aquilo estava fazendo eu me sentir estranha, como se faltasse algo importante. Talvez fosse o glamour de Dubai ou a chatice da Gemma, mas não ele. Não podia ser saudade dele. Não podia.
– E aí, , onde está o seu namorado maravilhoso? – Melanie questionou depois de darem a reunião como terminada.
– Ele precisou dar uma entrevista hoje – sorri de boca fechada. Eu não gostava nem um pouco da ideia de mentir para as minhas melhores amigas.
– Oh, entendo.
Graças aos céus, duas modelos vieram nos cumprimentar antes que Melanie fizesse mais perguntas inadequadas. Conversamos um pouco sobre a animada reunião e, por fim, elas nos convidaram para um jantar na casa de alguma delas. Respirei fundo quando Julie aceitou com toda a sua educação.
Só uma coisa se passava em minha mente: seria uma semana agitada.

¹YMG Models: Referência a IMG Models, uma das maiores agências de modelos do mundo. Representa Gisele Bündchen, Kate Moss, Heidi Klum e outros nomes importantes do mundo da moda.

CAPÍTULO 12

Sydney – 05 de dezembro de 2017
– Bom dia, tia Rosalie! – nos cumprimentamos com um abraço apertado daqueles típicos de quando estamos com saudades.
– Bom dia, – beijou minhas bochechas, as deixando melecadas de batom. – Já estava ficando com saudades da minha filha mais nova.
– Eu também, tia.
Desde que conheci Julie, logo quando me mudei para Los Angeles e dividíamos um apartamento com mais três garotas, nós ficamos tão próximas que quando voltávamos para a Austrália ela dormia na minha casa ou eu na dela. Foi assim que sua mãe ganhou o cargo de tia/melhor conselheira.
– Soube que você está namorando aquele bonitão das revistas adolescentes – tia Rose falou como quem não queria nada enquanto servia nossos pratos com ovos e torradas quentinhas.
– O nome dele é , mamãe – Julie avisou antes de enfiar uma torrada com vegemite¹ dentro da boca.
– Isso! , o Mick Jagger dessa nova era – ela falou com uma empolgação tão grande que acabei me assustando. – E como está indo esse romance?
– Ah, tia, eu nem sei como começar a contar tudo a vocês – não precisei pensar muito para decidir que, para elas, era melhor a verdade. Eu sabia que nunca iria conseguir manter um segredo daquelas duas.
Soltei uma lufada de ar antes de começar a contar tudo sobre aquele assunto, desde a primeira reunião até a nossa despedida no aeroporto de Sydney. Incluindo todos os mínimos detalhes que eu lembrava naquele momento.
– Sinceramente? Eu imaginei – a mais velha falou assim que terminei. Olhei-a com as sobrancelhas franzidas numa clara demonstração de confusão. – Há alguns anos, quando Julie ainda não havia voltado a ser modelo, eu lhe comprei umas revistinhas de adolescentes só para que ela se sentisse como qualquer outra garota de sua idade – começou com uma careta de minha amiga em sua direção. – A banda dele estava na capa, não que eu lembre, precisei dar uma olhadinha nas coisas antigas. Enfim, o ponto é que havia uma entrevista com todos os garotos e, pelas palavras usadas, não aparentava ser um cara heterossexual... – ela deu de ombros, parecia estar incomodada de estar falando aquilo. – Falei com a Julie sobre o namoro de vocês ser um farsa e ela ficou de falar com você.
– Lembra quando te liguei e você estava com ele? – me forcei a lembrar de quando ela havia ligado e lembrei-me do dia da reunião na casa do . Concordei com a cabeça. – Então, foi exatamente para perguntar sobre isso.
– Então aquele escândalo que você fez e a mensagem no ano novo...
– Eu vi as fotos de vocês. No restaurante e chegando ao seu hotel. Você não parecia triste com aquilo ou até desconfortável, então disse a mamãe que achava que ela estava errada – ela me interrompeu após beber um pouco de suco de goiaba para engolir sua comida.
– Só que a mamãe nunca erra, meus amores – tia mandou um beijinho no ar para nós duas. – Confesso que nunca pensei que faria isso, . Mas sei que, se está fazendo, é por algum motivo.
– Sim! Eu gostei muito de passar um tempo com ele e realmente estou disposta a ajudá-lo no que precisar.
– Mas...
– Mas eu queria saber mais sobre ele e , entende? As vezes sinto que estou fazendo tudo no escuro, sem saber o que me aguarda – encarei as duas e percebi que elas me olhavam com um tantinho de pena e muita preocupação. – Já tentei conversar com ele, mas ele não fala. Foge do assunto sempre.
– Talvez eles não tenham tido nada e ele já esteja de saco cheio disso – minha melhor amiga começou.
– Ou eles não estão numa fase muito boa do relacionamento – tia Rose disse como se fosse algo óbvio. Julie a encarou com os olhos cerrados num pedido silencioso que se calasse.
– Essa é uma ótima alternativa a se pensar, tia. Vou investigar sobre e, com certeza, contarei a vocês duas – garanti com toda a sinceridade. Naquele momento, eu prometi a mim mesma que iria questionar aquilo a ele.
Terminamos de tomar café em meio a risadas e colocando a conversa em dia. Julie contou novamente a história sobre o homem que conheceu na Holanda e tia Rose quase chorou de rir quando sua filha contou que o pai quase teve um infarto quando a viu acompanhada.
– Julie, você vai conosco para Byron? – questionei enquanto tentava arrumar minha mala.
– Desculpe, , mas não poderei ir. Tenho uma sessão de fotos na Nova Zelândia amanhã à tarde, vou viajar hoje ainda – ela se aproximou e começou a dobrar minhas roupas também. Murmurei um 'tudo bem'. – Diga aos seus pais que estou morrendo de saudades e, ao Noah, que eu estou de olho nele – gargalhei ao ouvir aquilo. Julie enchia o saco do meu irmãozinho dizendo que ela era sua namorada e garotos de oito anos não gostam muito da ideia de ter namorada, essa era a parte engraçada.
Depois de tudo pronto, me joguei na cama de casal e mandei uma mensagem para avisando que só estava o esperando para irmos embora. Não demorou muito para a reposta chegar:

"Passo aí em 1h30. Já estou na rádio e a entrevista já vai começar. Falo com você quando acabar.
Beijos, H."

Respondi apenas com uma mãozinha fazendo um "legal".
, a senhora minha mãe mandou avisar que a entrevista do vai começar – Julie avisou colocando a cabeça na porta do meu quarto (Sim, eu tinha um quarto na casa delas).
Não demorou muito para estarmos todas sentadas na frente ao MacBook de Julie, estávamos parecendo três adolescentes com os hormônios à flor da pele.
A entrevista começou com perguntas bobas, como: “você está animado para a volta da One Direction? Você sentiu falta do palco?”, sim e sim, respectivamente. O entrevistador continuou com as perguntas sobre a banda e a volta triunfal, até que entrou no tópico "relacionamento".
– Soube que você está namorando uma australiana, isso é mesmo verdade?
– Estamos nos conhecendo
– respondeu depois de alguns segundos de silêncio.
Então você pretende vir mais vezes para cá? – o jornalista continuou com o assunto.
Não muito, porque a banda está voltando no mês que vem. Então, vou me dedicar totalmente ao meu trabalho – a voz do meu namorado transmitia força e um tanto de raiva. Aquele era um assunto proibido.
Isso quer dizer que esse romance vai acabar quando começar fevereiro? – mudando as palavras do , era isso o que aquele homem estava fazendo. Aquilo era um tanto baixo.
Isso quer dizer que eu estou muito animado com a volta da banda – depois daquela cortada, o repórter mudou de assunto e o tom de voz do já havia voltado ao normal.
Muito obrigado, , por nos ceder meia hora dos seus últimos dias de férias. Espero te ver mais vezes por aqui e desejo tudo de bom para a volta da banda.
– Obrigada por me receber!

O entrevistador se despediu mais uma vez e começou a tocar uma das músicas sucessos da One Direction. Olhei para minha melhor amiga, que cantava a tal música, e tia Rose, que me encarava com atenção.
– Você já va- – sua fala foi cortada pelo meu celular avisando a chegada de uma nova mensagem.

", estou saindo da rádio. Te encontro aí na frente em 20min?
H."

Respondi apenas um "sim" e voltei a olhar para tia.
– Isso, já respondeu – apontou para o celular, me fazendo sorrir.
As duas me ajudaram a levar as malas para a sala e verificar se eu não havia esquecido nada. Despedi-me das duas com um abraço apertado e prometi a Rosalie que iria visitá-la mais vezes naquele ano, já que havia conseguido sair do desenvolvimento da YMG.
– você passou? Que coisa ótima, ! – Gritou. Ela correu para me abraçar e começamos a pular no meio da sala. – Se você tivesse dito antes, nós teríamos saído para comemorar.
– Outro dia, tia. Juro que comemoramos – me perguntei mentalmente o porquê de estar sempre prometendo ver todo mundo, porém eu não tinha tempo nem para mim. Tia Rose apenas me olhou de canto.
Ouvimos uma buzina do lado de fora e eu soube que ele já me esperava. Puxei as duas para fora e pedi para que saísse do carro um pouco.
– Bom dia. Eu sou – meu namorado as cumprimentou com apertos de mão e abraços rápidos. Se eu estivesse concentrada, talvez eu pudesse ouvir os batimentos agitados da minha amiga. Ela curtia toda banda e cantor pop que aparecia, One Direction não era uma exceção.
– Essa é Julie, lembra que te falei que morava com uma amiga? É ela – apontei para a morena que sorria sem parar. – E essa é Rosalie, primeira mãe dela e minha segunda – arqueou as sobrancelhas e todos sorrimos. – Temos que ir agora – avisei colocando minhas coisas no porta-malas do táxi que nos deixaria no aeroporto de Sydney.
– Cuidado com a minha filha mais nova! – a senhorita Whitely berrou antes de entrarmos no carro.
– Elas são adoráveis! – ouvi a voz do assim que sentei no banco de trás.
– Eu as amo – acenei uma última vez para as duas mulheres que ficavam para trás.
O motorista, que se apresentou como Jackson, nos levou até o aeroporto enquanto nos contava uma história sobre sua filha de oito anos não sair de casa sem seu batom rosa choque e suas botas douradas. Eu nunca havia visto aquele homem na minha vida, mas ele falava com tanta empolgação que acabei me interessando por suas histórias.
– Então eles sumiram por algumas horas e, quando voltaram, estavam com tinta colorida em todo o rosto e gritavam “somos arco-íris!” – e eu gargalhávamos sem parar.
– Preciso conhecer seus filhos um dia – consegui falar em meio às risadas.
– Aqui está o meu cartão, me ligue quando estiver de bobeira e eu pego você, onde estiver, e levo para conhecê-los – me passou um retângulo pequeno com seu nome, número e um endereço.
– Até se eu estiver em Byron Bay? – arqueei as sobrancelhas com o ar de riso.
– Aí você me quebra, nove horas de viagem não é para qualquer um. Ligue quando estiver aqui em Sydney – manobrou o carro no meio de outros que estavam no estacionamento e parou na frente da porta lateral.
– Até a próxima, Jackson – se despediu com um aperto de mão.
– Te ligo quando estiver de bobeira – balancei o cartão com seu número e ele concordou com a cabeça. Demos um abraço rápido antes de ele me entregar minhas malas.
– Até mais, meus amigos – acenou e saiu pisando fundo no acelerador.
– Vamos? – apareceu com um carrinho para nossas bagagens e as colocou em cima de forma organizada.
– Vamos – passei o braço direito por sua cintura e ele abraçou meus ombros.
Algumas pessoas nos encaravam com curiosidade e até tiravam fotos, por sorte ninguém interrompeu nossa caminhada até o check-in e, depois, até a sala de embarque. O voo não estava lotado, pois era uma viagem até Gold Coast – já que na minha cidade natal não tinha aeroportos. A viagem foi rápida e silenciosa. Eu pensava numa forma de perguntar ao sobre seus segredos e ele, bem, eu não sei sobre o que ele tanto pensava.
Chegamos com um pouco menos de duas horas de viagem, havia uma Mercedes-Benz branca nos esperando no estacionamento e logo estávamos parando o carro em frente à minha casa.
– Mãe? Pai? Chegamos! – gritei após passar pela porta. Ninguém respondeu. – Mamãe?
– Tem certeza que eles estão aqui? – parou ao meu lado me estendendo um bilhete escrito com a letra da minha mãe.

“Estamos no restaurante. Espero que não estejam tão cansados, pois esperamos vocês lá.
Beijos, mamãe”

– Não tenho mais tanta certeza, mas sei para onde iremos.
Largamos as malas no quarto de visitas e voltamos para o carro.
– Estou ficando exausto.
– Eu também. Você quer que eu dirija? – ele me olhou de canto e pareceu pensar um pouco. – Você não sabe o caminho até lá – pisquei os olhos várias vezes, tentando ser fofa. Eu só queria dirigir aquela belezinha.
– Cuidado com ele – jogou a chave em minhas mãos e eu quase me joguei nele.
– Obrigada, obrigada – lhe mandei beijos no ar e corri para o banco do motorista.
– Não sabia que você dirige, faz muito tempo? – antes de eu responder, ele colocou o cinto de segurança e verificou se ele funcionava bem.
– Engraçadinho. Eu aprendi aos treze e tirei a carteira assim que completei dezoito. Não precisa ficar com medo, você só morre se eu quiser – pisei no acelerador com mais força que o necessário, fazendo o garoto ao meu lado se segurar no banco e me encarar em pânico.
– Agora estou com medo. Já te fiz alguma coisa que possa comprometer minha vida nesse momento? – ele me olhava atentamente, sua expressão assustada já havia dado lugar a um sorriso brincalhão.
– Sim, mas eu troco por segredos do seu passado obscuro – parei no sinal vermelho e o fitei.
– Pode me matar – respondeu sem preocupação alguma. Seu sorriso já ameaçava sumir.
– Estou brincando, querido – sorri para mostrar que não falava sério, quando na verdade, eu falava. Só não sabia como dizer aquilo sem que ele se fechasse em seu casulo contra falsas namoradas curiosas. – Olha só, chegamos – estacionei em frente ao B & N Grill, um nome um tanto criativo para o meu pai que não conseguiu nem escolher o nome dos filhos.
– Nome legal – apontou para a placa gigante.
– Estava pensando exatamente nisso – saí do carro e lancei a chave de volta para ele. – Preciso de um carro como esse.
– Sim, eu também! – entramos no local juntos e me surpreendi ao ver apenas um casal lá dentro.
Não querendo me gabar ou fazer isso para o meu pai, mas aquele era o melhor restaurante da cidade e estava sempre lotado de gente. Aquilo só podia ter algo a ver com nossa chegada.
! – ouvi a vozinha de Noah assim que entramos.
– Noah! – os dois se abraçaram como se não se encontrassem há anos.
– Estou, oficialmente, ofendida – resmunguei com a mão no peito. – Eu sou sua irmã, Noah .
– Pff, eu não senti sua falta, – ele revirou os olhos e saiu andando em direção à recepção.
– Eu vou matar você de cócegas – “gritei baixo”, só para que ele e escutassem. Parece que não funcionou, já que meu irmão continuou andando. Ou ele me ignorou.
Puxei meu namorado até uma mesa vazia, o deixei sentado ali e fiz o mesmo caminho que meu irmão até a recepção. Encontrei meu progenitor resolvendo algo no caixa eletrônico, sua mulher falando com dois funcionários e o menor enfiando o dedo numa torta de morango que estava em cima do balcão.
– Olá família, quanto tempo! – chamei a atenção de todos com um grito.
– Filha, não grite aqui dentro, por favor – o mais velho repreendeu, depois acenou com o dinheiro na mão.
– Oi, – Lauren beijou minhas bochechas, assim como Rosalie fez. – Onde está o ? – apontei para a porta como resposta. – Já estamos fechando aqui, hoje vamos só comemorar! – ela fez uma dancinha estranha e me fez repetir logo depois.
– Vamos logo, mãe – puxei-a pela mão e a levei até onde estava mexendo em seu celular. Papai e Noah vieram em nosso encalço. Os mais velhos cumprimentaram meu namorado com a mesma empolgação do meu irmão.
Antes de sentar ao lado de seu filho mais novo, mamãe avisou que a comida seria por conta da casa e que eles iriam servir um prato novo do cardápio.
– Finalmente vamos vender torta de carne! – ouvi papai gritar pela primeira vez desde que eu lhe disse que havia comprado um restaurante para a família. Todos bateram palmas, animados com a notícia. Logo Lisie trouxe uma bandeja com a torta de carne, purê australiano, costelinha com molho barbecue e batata frita.
Puxei o garfo, animada pra começar a comer aquela comida dos deuses, mas fui interrompida pelo barulho da porta. Um homem alto passou pela porta de entrada e eu estranhei. O restaurante não havia fechado?
– Lisie, você não trancou a porta? – mamãe sussurrou.
– Me desculpe, senhora Lan...
Parei de ouvir quando percebi que eu conhecia aquele cabelo um tanto ondulado e claro, aqueles olhos azuis esverdeados e aquela boca...
– Colton?! – levantei com rapidez e olhei para o garoto com os olhos arregalados.
, que ótimo ver você! – abraçou minha cintura e me tirou do chão.
– O que você está fazendo aqui? – questionei após ele me colocar de volta no piso. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso com a pergunta. – Quero dizer, você nunca veio muito e...
– Entendi! Eu vou tirar umas fotos amanhã para a Forever 21 da Nova Zelândia e decidir passar aqui para te dar os parabéns – ele prolongou a última sílaba com animação me abraçando mais uma vez. – Fiquei muito feliz quando soube que você passou.
– Muito obrigada, Colton. Você não imagina como eu fiquei – meu tom aumentou algumas oitavas, aquele assunto me deixava animada e orgulhosa. – Você ainda mora no apartamento da frente?
– Não, saí de lá logo depois que você e Julie se mudaram para Los Angeles. Não tinha mais graça ficar ali sem vocês – deu de ombros e olhou para alguém atrás de mim.
– Não tinha mais graça ou você ficou rico o bastante para comprar um apartamento em Nova Iorque? – arqueei as sobrancelhas.
– As duas opções – meu amigo abriu um sorriso convencido.
Conheci o Colton logo quando me mudei para os Estados Unidos, ele morava com outros três modelos no apartamento que ficava em frente ao nosso. Eu não gostava muito de nenhum deles, pois eles estavam sempre fazendo barulho e se achavam os últimos homens da constelação inteira. Julie foi a intermediadora da nossa relação, ela gostou de todos no primeiro contato e fazia questão de chamá-los para tudo que era canto. Acabei me acostumando com a presença deles e percebendo que eles eram os vizinhos mais legais que eu já tive.
– Senhora , como está? – ele quase correu para abraçar minha mãe e cumprimentar meu pai. – Senhor.
– Colton, querido, me chame de Lauren. Quantas vezes eu já te pedi isso? – minha mãe foi outra que gostou do meu amigo logo na primeira vez que ele foi para a Austrália. – Vamos, sente aqui para comemorarmos essa nova fase da – minha progenitora apontou para uma cadeira vazia, ao lado dela.
Senti alguém me encarando atentamente e me virei para ver quem era. me olhava sem expressão alguma no rosto. Franzi as sobrancelhas, perguntando o que estava acontecendo, ele apenas deu de ombros e fitou o outro homem.
– Boa tarde! – meu ex vizinho e um dia ficante, estendeu a mão para meu atual “namorado”. – Eu sou Colton Cassell, é um prazer conhecer uma celebridade como você.
– apertaram as mãos. Eles estavam visivelmente incomodados. – O prazer é meu.
é meu namorado – entrei na conversa, na intenção de mudar o clima, mas a resposta do meu amigo acabou com a ideia:
– Sim, eu sei. Vocês estão em todas as revistas – ele abriu o sorriso mais desconfortável que eu já havia visto em toda a minha vida. o acompanhou.
– Er... Vamos... Vamos sentar – apontei para a mesa e puxei meu “namorado” junto. – Então Colton, você estava apenas passando pela porta desse lindo restaurante e resolveu entrar ou...? – interroguei.
– Com certeza foi exatamente isso que aconteceu – nós gargalhamos. – Eu lembrei que você não parava de falar sobre o restaurante da sua família e resolvi conhecê-lo – deu de ombros e voltou a olhar para a comida que estava sendo servida.
Comemos ao som da voz de mamãe que intercalava perguntas entre Colton e . Eles respondiam superficialmente e encerravam o assunto. Aquilo estava sendo cada vez mais constrangedor.
, você soube ontem que havia passado de fase? – Cassell limpou os cantos da boca logo após a pergunta.
– Sim, você soube que a Ferrah é a nova representante daqui? – eu sabia que, se estivéssemos sozinhos, ele diria algo como “você sabe muito bem que não quero mais ouvir o nome dessa garota”. Por aquele motivo, perguntei na frente de todos.
– Não, eu não sabia – ele me fuzilou com os olhos. Se ele tivesse visão de calor, eu já estaria completamente queimada.
Num passado não tão distante, Colton e Ferrah haviam tido um romance passageiro (para ela) e gigantesco (para ele). Infelizmente ela o largou pelo seu ex colega de apartamento e se mudaram para Londres.
– Eu tenho que ir embora, vou pegar um voo para Nova Zelândia ainda hoje – “tenho uma sessão de fotos na Nova Zelândia amanhã à tarde, vou viajar hoje ainda”.
– Acho que você e Julie irão para a mesma sessão de fotos.
– Espero, sinto falta daquela garota – respondeu um pouco apressado. Tirou a carteira do bolso e abriu a boca, porém minha mãe o cortou:
– Nem pergunte, vá logo para o aeroporto pegar o avião.
– Quando eu voltar, acertamos as contas, senho... Lauren – piscou para a mais velha e me encarou. – Até outro dia, . Foi bom conhecê-lo, – acenou para nós dois e saiu quase correndo. Eu só não sabia se aquela reação se devia ao fato de eu ter falado sobre sua ex namorada ou qualquer outra coisa.
, que fitava a porta por onde o outro havia saído, me olhou novamente sem expressão alguma. Mais uma vez, arqueei as sobrancelhas no entanto, ele não falou nada.
– Quem vai querer pavlova² de morango?? – Andrew gritou, pela segunda vez em menos de três horas, tirando minha atenção do garoto de cabelos cacheados que olhava estranho para seu prato quase sem comida.
Naquele momento, estava mais estranho que o normal.

¹ Vegemite: pasta feita com levedo de cerveja e é encontrado em qualquer supermercado do país.
² Pavlova: é uma receita feita com torta de merengue com frutas e suspiros, pode ser feita em vários sabores, como chocolate e morango.

CAPÍTULO 13

Byron Bay – 6 de janeiro de 2017
– Sua avó virá nos visitar hoje, por isso não fui para o restaurante – mamãe começou a falar quando nos viu sentados no sofá.
Estávamos todos, menos o papai, de bobeira em casa. Noah e não cansavam de assistir futebol americano e eu queria fazer outra coisa, por isso me animei quando soube da visita.
– Sarah virá também e não para de perguntar sobre você, – aumentou o tom de voz quando saiu para a cozinha.
– Sarah? – me encarou com as sobrancelhas franzidas, mas logo voltou a atenção para a televisão. Ele não queria perder o jogo do seu time de coração, o Green Bay Packers.
– É minha prima mais nova. Ela tem sete anos e acha que vai casar com você quando crescer – me encarou com as sobrancelhas franzidas, fazendo Noah gargalhar e sussurrar que Sarah era louca. – Pois é. Eu prometi que iria trazer você para conhecê-la e que iríamos sair para tomar um sorvete e passear na praia. O que acha?
– Claro que vamos – sorriu para mim e voltou a comentar sobre o jogo com meu irmãozinho.
Continuei sentada ao lado dos garotos, esperando entender alguma coisa, mas nada fazia muito sentido. Finalmente mamãe nos chamou para almoçar e depois voltamos a fazer nada, até minha prima chegar acompanhada de sua mãe.
– Sarah, esse aqui é – não consegui acabar de falar, pois a garotinha saiu correndo para abraçar as pernas do maior. Meu namorado se ajoelhou e começaram uma conversa animada:
– Então você é a tão falada Sarah – ela balançou a cabeça positivamente enquanto limpava uma lágrima que escorria em sua bochecha esquerda. – Você está triste? – respondeu, mais uma vez, com a cabeça só que dessa vez negando. – Então não chore! – minha prima se encolheu com vergonha no mesmo momento em que a abraçou com força.
– Você é mesmo o da revista? – essas foram as primeiras palavras que ela conseguiu falar na frente dele. Tive que gargalhar.
– Sou eu mesmo. Juro – levantou o dedinho, como uma promessa.
disse que a gente ia tomar sorvete, a gente vai, não é? – sua vozinha estava mais doce que o normal.
– Se a disse, então nós vamos – me mandou uma piscadela e voltou a levantar. – Estão prontas?
– Só vou trocar de blusa para irmos – ele concordou e eu saí correndo para o primeiro andar. Eu queria uma blusinha mais fresca para andar no clima quente de Byron Bay. Acabei achando um vestido rosa florido que eu não vestia a meses e decidi que aquela era uma boa hora para usá-lo.
– "Vou trocar de blusa" – tentou imitar a minha voz, só para implicar. Revirei os olhos, mas ignorei, peguei na mão da criança e sai. veio logo atrás, rindo.
– Onde está o Noah? – a mais nova perguntou.
– Ele foi para casa do Tom, disse que vocês dois brigaram – olhei para ela tentando arrancar algo sobre sua briga com meu irmão, mas ela apenas bufou como se fosse uma garota mais velha.
Andamos sorrindo e brincando até uma sorveteria que ficava a duas quadras da minha casa. contava piadas, como sempre, fazendo eu e Sarah rir sem parar.
– Eu quero uma bola de morango, outra de chocolate e a última de flocos. Calda de uva e esse negócio colorido em cima de toooodo o sorvete – ela fingiu que jogava um pó invisível por todos os lados.
– Tudo isso? – arregalou os olhos fazendo a menininha sorrir como uma boba. – Eu vou querer de menta e você, querida?
– Uma de morango, por favor – indiquei o sabor com o dedo e sentei numa mesa do estabelecimento que, para a nossa sorte e privacidade, estava quase vazio.
– O que acha de ir ver o nosso show lá em Londres? – ele chegou trazendo meu sorvete e o seu em uma mão e segurando a mãozinha da menor com a outra.
– Seria muito legal, mas acho que a mamãe não deixaria – fez o biquinho mais fofo que eu já havia visto.
– E por que não? Você poderia ir com a – me olhou, esperando uma resposta. Apenas dei de ombros, se ela quisesse e seus pais permitissem, eu levaria.
– Podemos combinar isso outra hora – sugeri e eles concordaram.
Tomamos os sorvetes entre sorrisos e pingos para todos os lados. Sarah estava quase sujando sua blusa com chocolate e calda de uva.
Chamei-os para ir até a praia, para curtimos um pouco e eles aceitaram. Foi uma tarde sem muitas emoções, sem fingimento, sem poses para fotos inesperadas... Apenas nós três sendo crianças com menos de seis anos, pulando ondinhas e fazendo buracos na areia.
– Hora de ir para casa! – acenei para os dois que corriam um atrás do outro. Sarah fez cara de que iria começar a chorar, mas parou quando viu que o homem já estava quase lhe alcançando e fazendo cócegas nela.
A cena dos dois rindo, o mar ao fundo e o sol começando a se pôr... Me fez sentir vontade de ficar ali até a lua começar a surgir no céu azul vivo. Naquele momento, me perguntei se ele sentia vontade de casar e formar uma família. Para não acabar com o clima leve, deixei a pergunta para outra hora.
A volta para casa foi agitada, mas rápida. Em menos de vinte minutos já estávamos de volta, esse era o lado bom de morar perto do mar.
– Mamãe! – Sarah saiu correndo em direção à sua mãe, que conversava com a minha na porta de nossa casa. – Mãe, eu fui tomar sorvete com e e a senhora não vai adivinhar o que ele disse – fez uma pausa dramática para ver se a mãe adivinhava, mas respondeu antes mesmo de a mais velha o fazer. – disse que posso ir assistir a um show da banda dele em Londres, não é demais?
– Sim filha, depois a nos passa os dias e nós marcamos – a criança começou a pular sem parar e eu achei que ela iria abrir um buraco no chão da minha sala.
, filha!
– Vovó! – abracei-a com força. Minha avó sempre foi como uma segunda mãe e eu adorava tê-la em casa. – Eu não lhe disse que iria trazer o meu namorado? – apontei para , que estava sentado no sofá brincando de algo com Noah. O nó de sempre se formou em minha garganta após dizer "namorado" e mentir para minha avó me deixou mais desconfortável ainda.
– Sim, fico feliz em poder conhecê-lo!
– Então vamos até lá, vou apresentá-los – puxei-a até a sala e parei ao lado do sofá. – , essa aqui é Naomi, minha avó. Vovó, esse é o , meu namorado – apontei para cada um e o homem levantou para cumprimentá-la.
– É um prazer conhecê-la!
– Digo o mesmo – cada um deixou dois beijinhos na bochecha do outro e se calaram. – Quantos anos você tem, ? – questionou após o puxar para sentar ao seu lado no sofá.
– Vinte e dois – também me puxou para sentar.
– E onde vocês se conheceram? – ela quis saber. Encarei com os olhos arregalados enquanto ele sorria tranquilo.
– Temos um amigo em comum e acabamos nos conhecendo em uma de suas festas...
– E foi amor à primeira vista? – eu não sabia o que responder e, para piorar, meus olhos não paravam de piscar. Estava muito nervosa.
– Não! Fomos nos aproximando aos poucos, não foi, ? – encarei os seus olhos verdes e a única coisa que fiz foi concordar com a cabeça.
– Comigo e seu avô foi amor à primeira vista. Estávamos numa festa de sua irmã mais velha... – e começou a contar aquela história que eu sabia desde que eu tinha cinco anos. Por já saber, não prestei muita atenção, fiquei olhando Noah e Sarah discutirem por uma barrinha de chocolate.
A tarde chegou ao fim e a noite se iniciou. Meus parentes ficaram lá por mais algumas horas e voltaram para Suffolk Park antes de ficar tarde demais para percorrer aquele caminho.
– Já estou ficando com sono – me joguei na minha cama quando eu entrei no quarto com em meu encalço.
– Isso se chama fuso horário, querida – sentou ao meu lado. – Eu já estou também.
– Deve ser exatamente isso – concordei já fechando os olhos para tirar um cochilo, mas voltei a abri-los quando uma pergunta voltou a pairar em minha mente. – , você já pensou em ter filhos? – não estava olhando para ele, mas senti a movimentação na cama mostrando que ele estava desconfortável.
– Não acha muito cedo para isso, querida? Nos conhecemos a menos de um mês – apoiei o cotovelo direito na cama e repousei a cabeça em minha mão.
– Haha, engraçadinho. Você entendeu – revirei os olhos e o olhei, esperando uma resposta.
– Sim, entendi. Já pensei sobre isso, mas me parece um futuro um pouco distante – deu de ombros e deitou a cabeça em meus trinta travesseiros.
– Você já tem quase vinte e três, não me parece muito distante – deitei-me ao seu lado, mas mantendo distância para não intimidar.
– Parece distante quando ainda não se achou a pessoa certa? – encarei-o de lado e concordei com a cabeça, entendendo o que ele estava querendo dizer.
Silêncio. Cada um com seus pensamentos. Eu pensava em meu antigo namorado, o Derek, e quantas vezes já havíamos tido aquela conversa. Jurávamos amor eterno um ao outro, ele me prometia uma vida de princesa numa mansão em Malibu, enquanto eu prometia estar sempre ao seu lado e lhe fazer o homem mais feliz do mundo. Até que ele começou a ser um escroto machista e eu decidi acabar com a palhaçada.
? – ouvi a voz aveludada de e deitei de lado para olhá-lo. – Você já encontrou a pessoa certa? – suas sobrancelhas arquearam levemente.
– Não, com certeza não!
– E se fosse eu? – aquela pergunta me desconcertou. Pisquei rapidamente por dois segundos, enquanto abria a boca para achar uma resposta.
– Eu sei que não é – consegui achar minha voz depois de alguns segundos em silêncio sendo observada por grandes pares de olhos verdes.
– Como pode ter tanta certeza? – virou-se para a mesma posição que eu, fazendo com que eu perdesse a voz mais uma vez.
– Não gosto de você dessa forma – dei de ombros como se a resposta fosse óbvia. –, e você guarda segredos demais para o meu gosto – soltei uma risadinha apenas para mudar o tom da conversa.
– Não tente me arrancar nenhum deles, ninguém nunca saberá de nenhum – lançou uma piscadela e voltou a deitar com os olhos para o teto.
– Não tem ninguém que saiba dos seus segredos? – ele apenas negou com a cabeça. – Nem mesmo a Gemma ou Anne? – balançou a cabeça de um lado para o outro, indicando que a resposta era “mais ou menos”. – Nem os seus amigos de banda? – repetiu o sinal. – Vou começar a lhe contar toda a minha vida, pois você é a melhor pessoa em guardar segredos que eu já conheci – ele gargalhou alto e, logo depois, cobriu a boca com as mãos.
– Eu só guardo os meus segredos. Os seus, eu espalharia por todo o mundo – abanou o ar, como se espantasse algum pássaro.
– Isso que é amigo, hein? – empurrei-o numa tentativa falha de fazê-lo cair da minha cama.
– Posso ser o seu melhor amigo e, também, maior inimigo. E ao mesmo tempo – rolou até estar em cima do meu corpo fino.
– Sempre soube que você era mil e uma utilidades, só não sabia que servia para isso também – encarei sua boca rosada, seu nariz bem feito e seus belos olhos. A pergunta que saiu de minha boca no segundo seguinte, não fora algo bem pensado. – , e se eu fosse a sua pessoa certa? – seus olhos se arregalaram e sentir seu braço falhar em segurar seu peso.
– Não é você – respondeu simplesmente e fez menção de sair de perto de mim, mas o segurei pela mão.
– Lhe devolvo a pergunta: como pode ter tanta certeza?
– Porque eu...
, ! Mamãe mandou perguntar se você está precisando de alguma coisa – Noah entrou no quarto na velocidade da luz, quase derrubando a porta e fazendo meu namorado se jogar ao meu lado, um tanto constrangido.
– Não, muito obrigado Noah! – o maior sorriu, eu apenas neguei com o indicador e o mais novo saiu na mesma velocidade que entrou.
– Porque você... – incentivei-o a continuar sua frase que fora interrompida por meu irmão, mas ele apenas negou com a cabeça.
– Também não gosto de você dessa forma – sua voz saiu como um sussurro. Senti que não era aquilo que ele iria falar.
– Por que eu sinto que você não está falando a verdade? Ou, pelo menos, toda ela? – encarei-o de lado. Senti sua mão em meu cabelo e o vi brincando com uma mecha do mesmo.
– Está insinuando que gosto de você? – acho que o teto estava mais interessante que eu, pois ele não tirava os olhos de lá nem por um segundo.
– Não...
– Podemos mudar de assunto? A Sarah é uma garotinha muito engraçada, gostei muito de passar o dia com ela – ele não esperou que eu concordasse com sua pergunta, apenas mudou para um assunto menos constrangedor.
Começamos a falar sobre Sarah, depois passamos para minha avó, tia, pai, mãe e irmão. Ele falou um pouco mais sobre seu pai e sua infância. Quando já estávamos sem assunto, ele apenas se despediu com um aceno e foi para o quarto em que estava dormindo. Dormi pensando sobre nossa conversa e cheguei à conclusão que ele havia passado por algum relacionamento mal resolvido que havia deixado feridas em seu coração que me parecia tão bom.

Los Angeles – 08 de janeiro de 2017
Finalmente eu estava em casa e, daquela vez, para ficar – pelo menos por alguns dias – e aquilo me deixava feliz. Não que eu não goste de passar um tempo com minha família ou , mas me acostumei a ser apenas eu, Julie e a Ms. Penni. E, falando nela, eu já estava morrendo de saudades daquela bola de pelos. Com isso em mente, desci para o apartamento em baixo ao nosso e agradeci ao vizinho por tomar conta da minha gata.
– Estava com saudades de você, meu amorzinho – sussurrei para ela quando entrei no elevador para voltar até o meu andar. Ela apenas virou a cara para o outro lado, rejeitando minha aproximação e mostrando que havia ficado magoada com a minha demora. – Me desculpe pela demora, não foi porque eu quis. Eu juro – acariciei sua cabeça entre as orelhas e, até que fim, ela não se incomodou. – Para mostrar que sou uma boa mãe, eu vou lhe contar tudo que aconteceu nesses últimos dias – coloquei-a em sua cama, que era próxima a minha, e comecei a desfazer as malas enquanto repassava todos os acontecimentos em voz alta: – ... e ontem, eu até tentei ir visitar o Travis, mas ele estava visitando alguns parentes no norte e acabou que ficamos para remarcar o nosso encontro. Foi bom porque Harvey passou a tarde lá em casa e conheceu o . Você sabe o quão constrangedor seria para ela se o Travis estivesse lá. Aqueles dois deveriam parar com a palhaçada e dizer logo que se amam, ninguém aguenta mais – revirei os olhos colocando as últimas blusas sujas num balde de roupas e me joguei em minha cama, logo senti algo puxando o edredom da cama. – Vem aqui com a mamãe – coloquei-a sentada em minha barriga, com seus olhos vidrados nos meus. – Eu gosto de conversar com você, Ms. Penni. Na verdade, falar seria a palavra certa, já que conversa consiste numa troca de ideias e, logicamente, você não fala. Pelo menos não que eu entenda – fiquei em silêncio por alguns segundos, apenas apreciando a presença do animalzinho e pensando em coisas aleatórias. Até parar em .
“O que será que ele está fazendo?”, a pergunta parou em minha mente e lá se alojou. Puxei meu celular para lhe enviar aquela pergunta antes que a coragem fosse embora, mas parei quando vi que já havia uma mensagem dele.

“Então quer dizer que vamos acabar em alguns dias?
H”

Em baixo, havia um link de uma sequência de tweets feita por uma conta de novidade de e que dizia que o fim do stunt¹ estava próximo, já que dezembro já havia acabado e que ficaríamos juntos, no máximo, até o aniversário do , onde eu faria uma “participação especial” e sumiria de vez. Aquilo me fez rir e perceber o quanto eu estava certa quando falei que eles andavam em círculos e ninguém acreditava mais em suas tentativas estúpidas em fazer todos acreditarem que é o ser mais másculo do planeta. O que ele fazia questão de desmentir quando estava nos palcos e com respostas, aparentemente, insignificantes em algumas entrevistas.

“Eu deveria ter apostado que eu estava certa. Então, vamos fazê-las acreditar que é verdade ou vamos deixar que aconteça o mesmo das outras vezes? Você que decide...”

Sai do aplicativo de mensagens e voltei para olhar a conta que havia feito aquelas “suposições” enquanto esperava responder, o que não demorou muito:

“Oh, sim. Vamos fazer o possível para sairmos desse ciclo tão conhecido por todos. Vamos surpreendê-los. Tudo bem para você?”

Respondi em afirmativa e joguei o celular de lado. Achei que estava fazendo a melhor escolha que poderia ter feito em minha vida, o que eu ainda não sabia é que era totalmente o contrário.

¹ Stunt: ao pé da letra, significa façanha. É a criação de situações inusitadas e surpreendentes que gerem mídia espontânea e/ou forçada que tem como objetivo fazer com que aquela “situação” saia no máximo de veículos possíveis e, assim, atingindo o público-alvo e beneficiando duas ou mais pessoas.

CAPÍTULO 14

Los Angeles – 12 de janeiro de 2017

Tristeza é o estado afetivo caracterizado pela melancolia e é sinônimo de arrependimento, que é aquele sentimento que nos vem quando fazemos algo que não deveria ter sido feito. Em todos os meus dezenove anos de idade, eu me arrependi apenas uma vez.
Quando eu tinha treze anos eu percebi que minha vida estava parada demais para uma adolescente com os hormônios a flor da pele e fiz a pior coisa que eu poderia ter feito: fugi de casa para ir ver um show em outra cidade. Será que eu pareço menos louca se disser que era minha banda preferida de todos os tempos, 5 Seconds Of Summer? Mas tenho certeza que vou parecer uma completa sem noção do perigo quando falar que o show era à noite numa cidade a três horas da minha.
Eu consegui puxar minha melhor amiga da época, Lena, e seu namorado, Jean, para "fugirem" comigo. Chegamos em paz, sem brigas, sem problemas com o carro, sem ligações de pais preocupados, o show foi mais que bom... Mas é como diz aquele ditado: tudo que é bom dura pouco. Meus pais apareceram me puxando pelos braços e gritando como loucos. Ou como os pais preocupados que estavam. Eles passaram as três horas de viagem gritando que eu havia os feito sair de casa a noite, tiveram que deixar meu irmão na casa da vizinha, ficaram desesperados e mais reclamações. Fizeram eu me arrepender da ideia que tive, fiquei de castigo por semanas e – o pior – perdi a confiança deles por meses. Senti-me a pior filha do mundo e prometi que nunca mais faria nada parecido.
Deu certo por anos, até eu começar aquele namoro falso e decidir que faria todos acreditarem que era verdade. Tudo estava dando certo, mas só foi me seguir em todas as suas redes sociais que os xingamentos triplicaram. Quadruplicaram. Precisei respirar fundo inúmeras vezes para conseguir me acalmar e não responder aquelas garotas de uma forma bem mal educada. Consegui ignorar alguns, mas um em especial me ofendeu profundamente – e a minha família também.
– Já chega! – berrei do sofá da sala fazendo Julie sair de seu quarto no final do corredor e ir ver o que acontecia. – Essas pessoas não param de falar merda no meu Twitter. Acabei de ler um tweet que dizia que minha mãe é uma prostituta e meu pai um cafetão. Disseram que eles me venderam para o como uma prostituta de luxo, Julie! – eu balançava meus braços no ar expondo toda a minha indignação. – Eu sabia que ia ser ruim fingir ser namorada dele, mas não achei que chegaria a esse ponto. Já faz três dias que isso está acontecendo, três! Eu cansei disso – meu tom foi diminuindo até acabar num sussurro. Julie me olhou com as sobrancelhas erguidas por alguns segundos e se aproximou do grande sofá cinza.
– E o que vai fazer? Falar para ele que desistiu e dar motivos para te chamarem de mentirosa e coisas piores? – ela levantou as minhas pernas para sentar e as colocou em cima das suas.
– Eu só não quero continuar sendo chamada de inúmeras coisas que não sou por causa disso – bloqueei o telefone e o joguei no tapete, não sem antes colocá-lo no silencioso para não ser mais incomodada. – Eu me importo com o , eu gosto dele e queria muito ajudá-lo, mas desde jeito não dá.
– E o que você vai fazer? – perguntou mais uma vez, dando ênfase no "você".
– Eu não sei, Whitely, eu preciso de um conselho da minha melhor amiga – me virei no sofá e coloquei minha cabeça em suas pernas, ela logo começou a brincar com meus fios loiros.
– Nem eu sei o que você deve fazer – olhei-a de onde estava com os olhos piscando rapidamente, como um pedido silencioso de ajuda. – Talvez o melhor seja desistir mesmo – deu de ombros mostrando que era a única solução.
– Acho que essa é a única saída mesmo. Vou ligar para ele agora mesmo e dizer que não aguento mais – pulei do sofá para o tapete felpudo que havia no centro da sala e procurei o aparelho que havia acabado de jogar ali.
– Você vai ligar para ele e resolver isso depois – minha amiga levantou-se do sofá e puxou o celular da minha mão, saindo em direção ao corredor. –, porque agora nós vamos procurar nossos vestidos para a minha festa – gritou enquanto voltava de seu quarto trazendo um notebook e o celular nas mãos.
– Eu gostei do azul que você tem, Julie, não sei porquê não vai com ele – voltei a sentar no sofá para começar nossa procura pela “roupa perfeita”.
– Eu não posso usar um vestido simples daquele para minha festa num dos melhores clubes de Los Angeles – jogou os cabelos como se fosse uma das patricinhas de Beverly Hills, arregalei os olhos quando entendi o que aquilo queria dizer.
– Você aceitou o presente do seu pai??
– Aceitei por nós!! – abriu os braços e eu me joguei em cima dela, num abraço desajeitado.
O senhor Van der Melt deu de presente a sua filhinha mais nova uma festa no Exchange LA, eu passei quase dois meses fazendo o possível para que ela aceitasse e ela sempre dava uma resposta negativa e bem mal criada, finalmente ela havia concordado. Não sabia o que ou quem havia a feito mudar de ideia, mas também nem queria saber, vai que ela percebesse que não era uma ideia tão boa assim (mesmo sendo)?
– Só tem um problema... e sai de cima de mim – empurrou-me com as duas mãos, revirei os olhos e voltei para meu lugar. Ela sempre tinha que colocar defeito nas coisas que envolviam o seu pai. – Vai ter que ser dia vinte e quatro, dez dias depois do meu aniversário, porque o local já está reservado todos os outros dias.
– E daí, Whitely? Pelo menos você vai ter a festa e nós vamos comemorar muito seus vinte e três anos de pura chatice – abri um sorriso só para deixá-la ainda mais brava.
– Vou nem falar nada – desviou seus olhos dos meus para a tela do computador enquanto eu olhava meu celular. Ficamos por mais de quinze minutos apenas comentando sobre os vestidos que achávamos silêncio até ela mudar o assunto: – , olha isso! – sua voz saiu num tom tão preocupado que me virei o mais rápido que pude.
Na tela do seu computador havia uma foto de segurando na mão de um segurança e sendo levado para fora de um lugar que parecia uma boate. Ela apertou no botão direito do teclado e apareceu outra imagem, dessa vez trocava os pés no meio de uma rua cheia de fotógrafos e alguns fãs. Por fim, um vídeo no momento em que ele havia tropeçado antes de entrar num carro preto. O detalhe que chamava mais atenção era sua feição de bêbado e perdido.
– Quando foi isso? – perguntei já procurando seu número na minha lista de contatos, estava preocupada com o que o levou a chegar naquele ponto.
– Eu não se... Calma, uma garota disse que o viu a menos uma hora atrás – apontou para um tweet que dizia exatamente aquilo. Apenas concordei com a cabeça sem dizer nada e apertei em “ligar”.
Esperar nunca foi meu forte, principalmente quando estava preocupada, então quando o telefone tocou mais de quatro vezes e ele não atendeu eu estava quase subindo pelas paredes do apartamento. A chamada caiu na caixa postal e eu comecei uma nova ligação.
– Ele deve ter ido para casa dormir e, com certeza, não está em condições em falar nesse momento – Julie, que apenas analisava tudo, tirou meu celular do ouvido e desligou a chamada. – Amanhã, num horário conveniente para os dois, você liga e faz todas as perguntas que sua mente já formulou. Acho mais fácil ele conseguir dar respostas sensatas depois de uma boa noite de sono e um café forte – devolveu meu aparelho deixando claro que havia exposto seu ponto de vista, mas a escolha ainda era minha.
– Tudo bem – rendi-me à suas sábias palavras e, mais uma vez, deixei meu celular de lado.
Julie avisou que iria fazer algo para que pudéssemos jantar e eu concordei. Comemos enquanto minha amiga contava sobre uma sessão de fotos que precisaria ir na manhã do dia seguinte, aproveitei para contar que havia conseguido uma sessão com a Adidas, fazendo ela começar a surtar dizendo que aquilo era ótimo – exatamente como eu quando Bill me deu a notícia. Ficamos na sala até nossos corpos darem indícios de cansaço e cada uma foi para sua suíte ter uma boa noite de sono. Na teoria, é claro. Porque na prática eu passei mais de três horas olhando para escuridão.
Sabe quando seu corpo e sua mente estão cansados demais para passar mais de dez minutos trabalhando, mas seu coração não para de palpitar avisando que tem algo errado? Era exatamente isso que estava acontecendo. Meu corpo amolecia, meus olhos fechavam, mas a imagem de tropeçando sempre aparecia na escuridão e meus olhos voltavam abrir. Aquilo já estava me dando dor de cabeça.
Percebi que havia conseguido dormir quando voltei acordar e os raios do sol nascente já entravam pelas frestas da cortina que não havia sido fechada corretamente. Obriguei meu corpo, ainda cansado, a levantar e andar até o banheiro. Tomei uma chuveirada quente e longa aproveitando o tempo de sobra para lavar meus cabelos. Depois de vestir outra camisola, caminhei pelo vasto corredor até a cozinha e preparei um café forte para Julie e eu.
– Bom dia, coisa linda da minha vida – ela entrou na cozinha vestindo uma calça branca justa, uma blusa de linho rosa bebê e saltos, estava bonita. Acenei da mesa quando me mandou um beijo no ar. – Você vai fazer algo hoje cedo? – franziu as sobrancelhas ao perceber que, mesmo não sendo nem sete da manhã, a mesa estava ocupada com panquecas, torradas, algumas frutas e café. Apenas neguei com a cabeça. – Você está acordada por causa do , não é? – falou com dificuldade, pois mastigava uma das torradas com geleia de morango. Concordei com a cabeça antes de ocupar minha boca com uma panqueca, não queria muito conversar sobre o assunto que atormentou minha noite. – Acho que agora você já pode liga para ele – olhou para seu relógio branco no pulso e me mostrou que era sete em ponto, o que significava que eram três da tarde em Londres.
Esperei minha companheira de apartamento deixar nossa casa para pegar meu celular e voltar a ligar para , que, por um milagre, atendeu no terceiro toque.
, você está bem? – falei o mais rápido que pude, enrolando as palavras.
– Sim. Você viu as notícias, não foi? Foi por isso que me ligou ontem à noite? – sua voz estava mais grossa que o normal e até entrecortada. Ele deveria ter acabado de acordar ou estava na pior ressaca de sua vida.
– Foi exatamente isso. Fiquei preocupada com o seu estado, não parecia nada bem – tentei usar as palavras mais suaves que conhecia, não queria deixar claro que havia passado quase a noite inteira sem dormir por sua causa.
– Estou bem agora, não tem com o que se preocupar – concordei com a cabeça, mesmo sabendo que ele não poderia me ver e me joguei em minha cama, pensando no que deveria falar. – Você deveria voltar a dormir, sei que aí está muito cedo.
– Sete e dez, para ser exata. Vou voltar a dormir assim que Julie sair de casa, ela faz muito barulho enquanto se arruma – menti na cara dura mesmo, era melhor que ele pensar que estava acordada por ele.
– Oh, sim. Mande um beijo para ela!

– Mandarei – olhei para as paredes do meu quarto, debatendo comigo mesma se era uma boa ideia desligar a chamada sem me despedir, mas a curiosidade interrompeu meus pensamentos: – Por quê?
– Por que estou mandando um beijo para sua amiga? Estou apenas sendo educado, oras – eu quase conseguia ver suas sobrancelhas se franzindo e sua feição de confusão.
– Não, . Por que bebeu tanto ontem ao ponto de não conseguir se manter de pé sozinho e sem tropeçar no ar? – não quis ser rude, mas, quando percebi o que havia dito, já era tarde demais.
– Problemas, querida . Indecisões, pessoas inconvenientes, um pouco de pressão por a banda estar de volta. As vezes precisamos limpar tudo isso de nossa mente e nos distrair com coisas banais, como beber até precisar de ajuda para chegar em casa – sua resposta fora mais completa do que a que eu havia imaginado.
– Entendo, as vezes eu preciso fugir dos meus problemas também, mesmo que seja apenas por uma noite ou algumas horas – lembrei-me de algumas poucas noites que eu e minha melhores amigas saíamos para boates para livrar nossos corpos de todo o estresse que é trabalhar como modelo, mesmo que fôssemos proibidas de beber qualquer coisa contendo álcool por causa de nossas dietas super rígidas e sem graça.
– Conte-me sobre os seus problemas, querida – meu apelido saia de sua boca como uma melodia, cheguei a sentir um tantinho de saudades de estar ao seu lado.
– Promete me contar os seus? – minha voz saiu brincalhona, mas falava sério. Eu revelaria alguns segredos meus em troca de alguns seus.
– Que tal fazermos essa troca de confissões pessoalmente, quando vier para o meu aniversário e primeiro show da nova turnê? – arregalei os olhos com a sugestão e me perguntei se ele estava mesmo dizendo que iria me revelar algumas partes sombrias de seu passado nem tão perfeito.
– Gostei da sugestão, mas tenho uma melhor: o que você acha de fazermos isso no dia vinte e quatro, quando você vier para festa de Julie?
Isso é um convite? Se for, eu aceito! – forcei minha mente a pensar que sua empolgação não tinha nada a ver com saudades da minha pessoa.
– Sim e eu espero que você tenha concordado com as duas partes do acordo – ele gargalhou alto e negou várias vezes. – Então eu também não concordo com o seu.
Isso é o que vamos ver – seu tom ameaçador não me fez nem cócegas. – , aproveitando que estamos aqui, quero te perguntar se está tudo bem entre nós. Vi que algumas pessoas estão enviando ódio e aquela coisa toda em suas redes sociais e fiquei preocupado. Está tudo bem? Continuamos firmes e fortes com a mentira? – meu coração parou e, por alguns segundos, eu não sabia como responder. Eu queria responder um “não, não estamos”, mas não queria acabar com nossa amizade. Queria conversar sobre nossos segredos, mas não queria continuar recebendo ódio gratuito. Indecisão era meu maior defeito.
– Estamos firmes e fortes até o contrato acabar – resolvi, de última hora, mentir novamente.
Ainda bem, porque você é a melhor atriz que eu conheço! – precisei gargalhar depois daquela. Eu era, de longe, a pior atriz do mundo.
– Se isso for um elogio, obrigada. Se for ironia, eu sei! – rimos juntos. – Julie já se foi, vou conseguir dormir agora. Até qualquer dia, !
Até, !

(...)


Los Angeles – 24 de janeiro de 2017

, o que você acha desse cabelo aqui? – Julie apontou para um penteado na revista.
– Eu gostei, mas você não já havia escolhido outro corte? – lembrei-me de uma semana atrás, quando ela mostrou um corte num ombro que ela havia gostado.
– Estou em duvida agora – explicou e saiu fazendo todas as garotas do salão escolher um dos modelos.
As duas semanas que se passaram foram bastante cansativas e trabalhosas: no dia do aniversário de Julie, saímos para comemorar com outras modelos amigas nossas; dia quinze foi dia de tirar novas fotos para o catálogo da YMG, como modelo profissional; a sessão de fotos para Adidas estava marcada para o dia dezoito em Nova Iorque, mas acabou chovendo muito e a água destruiu o set ao ar livre que eles haviam preparado; adiaram para o dia seguinte, mas aconteceu o mesmo e haviam remarcado para o dia vinte e seis – único dia que estava previsto para ser ensolarado. Sem contar com minha melhor amiga enchendo minha paciência com a roupa para sua festa e sandália. Precisei fazer yoga nos dias vinte e vinte e um, para conseguir aguentar aquela garota.
E, finalmente, o dia da festa havia chegado. Julie havia convocado todas as garotas do seu squad¹ para irem se preparar em nossa casa, mas, antes de todas chegarem, ela me fez ir ao salão para que pudesse cortar as suas madeixas escuras. Aproveitei para dar uma hidratação no meu.
– Julie, você convidou o seu pai? – questionei quando ela voltou a parar do meu lado.
– Para ele trazer aquela mulher sem sal que ele pensa que eu não sei que minha mãe foi trocada por ela? Claro que não! – resmungou enquanto sentava na cadeira ao meu lado, logo chegou uma mulher para cortar seus fios molhados. – Chamei minha irmã e a mãe dela por educação, ainda sinto pena delas por aquele homem ter trocado a “família perfeita” para engravidar uma pobre australiana que não sabia de seu estado civil – todos já sabiam das histórias de traição do pai da Julie e que era por aquele motivo que ela não gostava nem um pouco dele, mas todos sempre prestavam atenção quando ela contava tudo de novo pela trigésima vez.
– Entendi! – concordei com a cabeça sem forças para discutir sobre o quão importante era para o seu pai estar presente em momentos como aqueles, porque eu sabia que era mentira.
Conseguimos sair do salão antes do almoço e fomos correndo para casa para recebermos as nossas amigas. Por sorte, havíamos encomendado comida de um restaurante que ficava na esquina e não precisaríamos nos preocupar com aquilo.
– Como é bom tê-las aqui – Julie falou quando abriu a porta e deu de cara com duas garotas sorridentes. Faltavam apenas duas.
Quando todas já estavam lá, fizemos coisas que garotas fazem antes de festas (eu acho): pintamos as unhas umas das outras, fizemos babyliss e repassamos a lista dos convidados e as garotas encontraram seus crushs² e tivemos certeza de que não havia nenhum ex namorado que pudesse deixar o clima tenso.
– Esse aqui – Hannah, uma velha amiga de Julie, apontou para o nome na lista. -, é realmente o ?
– Sim, ele e estão namorando. Melanie e eu estávamos lá quando se conheceram, ele é tão simpático! – Sue explicou para Hannah e Valerie, prima da minha melhor amiga, enquanto Melanie concordava.
– Que sorte você tem, – Valerie comentou me olhando meio de lado, parecia desconfiar de alguma coisa.
– Obrigada! – o agradecimento saiu meio sem jeito e, percebendo meu desconforto com o assunto, Julie começou a tagarelar sobre uma série qualquer que ela havia começado a assistir. Agradeci mentalmente por aquilo.
Depois de muita conversa, preparação, maquiagem e perfume, estávamos todas saindo de uma limousine e entrando na boate. Assustei-me ao ver a quantidade de paparazzi na frente do local, aquilo só poderia ser coisa do pai da Julie que precisava mostrar ao mundo como o seu nome tem poder até na América do Norte.
Assim que entramos na boate, percebi o porquê de ela ser uma das melhores da cidade: havia um grande quadrado que servia como pista de dança; dois bares em lados paralelos do grande quadrado; a cabine do DJ depois da pista; duas escadas que davam num grande mezanino que cobria todo o andar de baixo; grandes sofás com espaço para mais de cinco pessoa e luzes coloridas completavam a decoração moderna do clube.
Assim que alguns conhecidos avistaram Julie e seu vestido cor de vinho, que não chegava a bater em seu joelho, foram correndo parabenizá-la por mais um ano de vida. Cumprimentei alguns com abraços rápidos e beijinho, outros eu apenas acenei e saí em direção ao bar para pedir algo para beber. Precisei andar me esquivando, pois já havia bastante gente curtindo ao som de um dos DJs da noite e até agradeci mentalmente ao pai de Julie por ter reservado o Sky Loft Lounge, que era uma das três áreas VIP do lugar. Logo que pedi minha bebida e mostrei minha identidade falsa onde tinha mais de vinte e um anos de idade, fiz menção de voltar para onde havia deixado as garotas, mas fui interrompida por uma mão que me segurou pela cintura.
– Boa noite, querida!
¹ Squad: esquadrão, time, grupo.
² Crushs: alguém por quem você tem uma "queda", alguém por quem você seja apaixonado.


CAPÍTULO 15

– Boa noite, querido ! – Virei-me lentamente para olhá-lo e me surpreendi ao ver que ele usava uma camisa de botões branca com pequenos detalhes em preto e não uma colorida, que, sinceramente, combinava bem mais com sua personalidade alegre. Não que aquele tom não combinasse com sua calça jeans preta ou com seus olhos verdes como o mar, era só o costume de vê-lo usando camisas havaianas por aí.

– Por favor, , pare de usar o seu apelido em mim. – Revirou os olhos, mas seus lábios mantinham um sorriso iluminando seu rosto.

– Tudo bem, fofinho.

– Mais falso que isso, não dá para ficar. – Assim como ele, revirei os olhos para demonstrar minha impaciência o que o fez gargalhar. Em seguida, abriu os braços à espera de um abraço que logo dei.

– Achei que você iria chegar mais tarde. – Comecei dizendo após ele me soltar.

– Iria, mas aproveitei que todos os fotógrafos estavam de olho na chegada da filha de um dos homens mais ricos da Holanda e entrei pelos fundos. – Apontou para uma pequena porta vermelha ao lado de um dos bares.

– Não diga isso na frente dela, por favor! – Arregalei os olhos para demonstrar que falava sério.

– Não dizer o que e a quem? – Minha melhor amiga interrogou surgindo do além.

– Nada. – Eu e meu namorado respondemos no mesmo segundo. Julie tombou a cabeça para o lado e franziu o cenho, mas decidiu não questionar mais nada quando pisquei com o olho direito em sua direção.

– Tudo bem. Eu só vim chamá-los para irmos até o segundo andar, um lugar bem mais reservado que esse aqui – Apontou para as pessoas que dançavam e pulavam juntas, quase como uma coreografia mal ensaiada que poderia acabar machucando alguém.

Concordei com a cabeça e segurei o braço de Julie com uma mão e puxei com a outra, estava com medo de acabar me perdendo de algum deles entre aquela multidão. Minha amiga nos conduziu até onde seus outros convidados estavam e também os chamou para a sala VIP.

O lugar não era enorme, deveria caber umas quarenta pessoas confortavelmente, mas havia um bar privado; garçons servindo os convidados no grande sofá preto em formato de imã que havia no centro da sala e a vista panorâmica da boate que nos era fornecida por uma grande janela completava as características deslumbrantes da sala.

– Isso é incrível! – Ouvi a empolgação de meu namorado assim que paramos de frente para a janela de vidro, apenas concordei com a cabeça. Estava tão distraída assistindo a pegação nos andares inferiores que quase não percebi o olhar dele me analisando. – Alguém já te disse que vinho é a sua cor e que vestidos de veludo foram feitos para você? – Senti seu braço em minha cintura e o olhei com a testa franzida.

– Oh, acho Bill deve ter comentado isso alguma vez numa sessão de fotos ou desfile. – Dei de ombros e voltei a olhar pela janela, mas ele não tirava os olhos do meu vestido. – Você já parou para pensar na quantidade de dons que já nasceu possuindo? – Ele me olhou meio sem entender e negou com a cabeça. – É cantor, ator, escritor – Eu levantava meus próprios dedos quando terminava uma análise. –, entende de moda, é bom em guardar segredos e, por isso, vive duas vidas: uma que o mundo inteiro conhece e aquela que a Wikipédia não mostra – Analisei-o da cabeça aos pés, assim como fazia comigo a alguns segundos atrás e cheguei numa conclusão: – Quem você é? Clark Kent dos tempos modernos? – Ele gargalhou assim que terminei minha comparação.

– Provavelmente esse é o apelido mais criativo e a melhor referência que vai fazer em toda a sua vida. – Seu tom de deboche poderia ser percebido a quilômetros de distância dali. – Entretanto, eu sou um artista completo, , como não percebeu antes? – Sua mão direita foi em direção ao seu peito e ele recuou dois passos, apenas para deixar seu teatro bem mais dramático.

– Só falta aprender a dançar, aí sim você vai poder dizer isso. – A careta que ele fez deveria ter sido filmada e divulgada para o mundo. Ele arqueou as sobrancelhas da forma mais sarcástica que eu já havia visto e sorriu da mesma forma.

– Que calúnia, senhorita . Para a sua informação, eu não sou tão ruim assim!

– É sim. Eu dancei com você no nosso primeiro encontro e, bom, você só pode ser considerado "não tão ruim assim" se você tiver dois pés esquerdos. Isso explicaria o meu pé roxo no dia seguinte. – Ele encarou meus pés cobertos pelo salto preto e voltou a me olhar com cara de dúvida. – Já faz mais de um mês, . Lógico que não está machucado mais – Harry me olhou de lado, ainda não acreditando muito, e concordou com a cabeça.

– Vamos dançar novamente para você ver que sou bom nisso. – Puxou-me até um dos cantos da sala vermelha e logo estávamos tentando dançar ao som de I Could Be The One de Nicky Romero, que estava se apresentando.

Tentávamos imitar os passos de Melanie e seu namorado, que dançavam extremamente bem, mas não dava para acompanhar quando pisava nos meus pés e eu não conseguia parar de rir.

– Pelo visto eu perdi minha melhor amiga para um péssimo dançarino. – Julie parou ao nosso lado e precisou se esquivar para não ser acertada pelos nossos pés descompassados.

– Acho que sim. – O garoto respondeu por mim fazendo a menina olhá-lo de lado. – Feliz aniversário, Julie, espero que esteja tendo uma ótima noite. – Ele a cumprimentou com um abraço forte e deixou um beijinho em sua bochecha.

– Sim, estou tendo e vejo que vocês também. – Apontou para os copos em nossas mãos. – Ainda bem que sua sessão de fotos ficou para depois de amanhã, se não Bill iria passar um de seus sermões que nós, com certeza, já ouvimos. – Gargalhamos relembrando todas as vezes que aquilo nos acontecia.

– Você tem uma sessão depois de amanhã? – Concordei com a cabeça enquanto bebia um pouco do meu drink. – Isso é bom. Para onde?

– Adidas. – Meu tom de voz desanimado fez com que ele me olhasse estranho.

– Não está animada?

– Vou deixar vocês conversarem. – Julie deixou um beijo em minha bochecha e saiu para conversar com outros convidados. continuava me olhando com uma interrogação na cabeça.

– Estava até perceber que não é a ' modelo' que conseguiu esse trabalho e sim a ', namorada de '. – Apontei para ele como se estivesse o endeusando.

– Mas... essa não era a ideia? – Foi cauteloso, mas não tanto assim.

– Sim, mas eu me sinto mal por dentro. Sinto que estou enganando a todos e até a mim mesma. – Terminei de beber minha bebida e pedi que um dos garçons trouxesse mais uma.

– Se fosse por você, só para ajudar você a crescer no mundo da moda, você continuaria nesse "projeto"? – olhava nos meus olhos e eu ser quase do seu tamanho, e ainda está de salto, facilitava aquele ato.

– Não. – Ele nem se moveu, mostrando que sabia que a resposta era aquela. – Eu nunca teria apoiado a ideia, ao menos teria pensado nisso. Só continuo por você, porque você é uma boa pessoa e merece toda a ajuda que eu lhe ofereço. – Terminei no momento em que o garçom trouxe mais um Martini, peguei-o da bandeja e coloquei numa mesa que havia ali perto. – Muito obrigada! – O homem sorriu e saiu para servir outras pessoas.

– Fico lisonjeado em saber que sou tão importante assim para você, mas fico preocupado por você estar nesse caminho sem volta por culpa minha. – Ele puxou seus longos cabelos desobedientes para trás e os prendeu atrás da orelha, um ato que percebi ser uma mania para quando estava raiva ou um tanto aborrecido.

– Não vou ser uma daquelas pessoas que mentem para que os outros não se sintam culpados, mas foi um pouco de culpa sua sim. Naquele momento em sua casa, na primeira reunião, eu estava prestes a pular fora, mas seu 'discurso' me fez voltar atrás. – Dei de ombros para mostrar que, por mais que fosse a verdade, não tinha mais importância. Eu já estava ali mesmo.

– Você quer dizer que está fazendo isso tudo, sendo ofendida diariamente de diversas formas, tendo sua privacidade invadida por desconhecidos e ainda assim continua nisso para me ajudar? – Parei para pensar em tudo que ele havia dito e concordei com a cabeça. Era exatamente aquilo. – Você é incrível, sabia? – Suas palavras me fizeram desviar meus olhos para os seus e franzir as sobrancelhas. – Você continua ajudando as pessoas, mesmo que isso lhe faça mal.

– Só quero ser uma boa amiga para você, . – Coloquei uma mão em seu ombro e dei duas batidinhas de leve.

– Devo dizer que está conseguindo. – Abriu um sorriso com todos os dentes a mostra e tentou passar os braços por meus ombros, mas, graças ao meu salto, eu estava alguns centímetros mais alta que ele. se inclinou para analisar meus sapatos, voltou para o meu rosto e passou os braços por minha cintura. – Agora sim!

, você é hilário. – Gargalhei antes de encostar minha cabeça em seu ombro e começarmos a dançar uma música imaginária super lenta que não tinha nada a ver com a eletrônica que tocava.

– Acho que estamos fora do ritmo. – Ele parou de mover seus pés de um lado para o outro e apontou para algumas pessoas que pulavam com os braços para cima e depois para uns casais que quase se engoliam, mas continuavam dançando.

– Oh, você acha? – Fiz minha melhor voz irônica, o fazendo retirar a mão esquerda que ainda enroscava meu corpo e apoiar na mesa que havia ali.

– Não quero mais dançar com você. – Empurrou-me de brincadeira pela cintura. Revirei os olhos com sua birra e voltei a beber meu drink.

Resolvemos parar de passar vergonha com nossos passos descompassados e sentamos no sofá preto que ocupava grande parte da sala. Conversamos amenidades com outros convidados e aproveitei para apresentar a algumas amigas que não estavam enfiando a língua na garganta de outras pessoas. Umas modelos, amigas da aniversariante, pediram para tirarem fotos conosco e aquilo foi ótimo para mostrar a todos que o nosso relacionamento não havia acabado da mesma forma que os outros.

Não vi Julie muitas vezes, pelo que ela havia dito, seu “contratinho” número um estaria presente e era bem provável que suas bocas estivessem bastante ocupadas.

– Para onde você vai agora? – Questionei ao vê-lo puxar suas chaves do bolso traseiro.

– Vou ficar num hotel aqui em Los Angeles. Já está muito tarde para ir até Malibu. – Retirou o celular do bolso e mostrou que já passava das três da manhã.

– Entendo. – Sussurrei enquanto andávamos até a porta que dava para o mezanino. – O que você vai fazer amanhã?

– Vou encontrar uns amigos em Malibu e aproveitar para resolver alguns assuntos. – Ele virou para me olhar no exato momento em que paramos em frente à saída e ocupou minha cintura com suas mãos. – E você, querida?

– Vou tentar me recuperar de uma leve ressaca, – Balancei o que deveria ser o meu quinto copo de bebida e tomei mais um gole. – e me preparar para uma sessão de fotos no dia seguinte. – Ele apenas balançou a cabeça em concordância.

– Você quer uma carona? Se quiser, posso te deixar na sua casa.

– Muito obrigada, , mas vou ter que recusar. Prometi a Julie que a levaria para casa em segurança e que não a deixaria fazer nenhuma besteira. – Meu namorado gargalhou com a promessa.

– Você é, realmente, incrível. Ainda bem que conheci você. – Envolveu-me num último abraço e deixou um beijo no canto da minha boca.

– Não pense que esqueci que me deve algumas confissões, senhor . – Olhei-o com os olhos meio fechados para intimidá-lo. Ele apenas riu e acenou. – Até mais, ! – Consegui gritar antes de ele caminhar para fora da sala e sumir do meu campo de vista.

.Los Angeles – 26 de janeiro de 2017

– Você pode virar a cabeça um pouco mais para a esquerda? – A fotógrafa questionou e assim o fiz.

Todas as fotos ao ar livre já haviam sido tiradas e acabaram decidindo que seria bom fazer uma sessão em um estúdio fechado para o catálogo que ficaria nas lojas.

– Isso, ! Está ficando ótimo! – Queria abrir um sorriso para agradecê-la, mas o flash que saia de sua câmera me fazia continuar na mesma posição enquanto ela rodava o meu corpo e tirava as fotos em posições inusitadas. – Ótimo! Pode ir colocar aquela jaqueta ali. – Apontou para uma jaqueta floral azul marinho e eu a peguei. – Amber, retira toda essa maquiagem dela e faz uma coisa bem natural, mas com bastante rímel. – A outra mulher concordou com a cabeça e me levou de volta para uma cadeira em frente a um espelho cheio de luzes.

– Então, como está indo? Está gostando? – Bill pronunciou-se por trás de mim, eu conseguia ver seu reflexo no espelho.

– Sim, é um ensaio para Adidas! Quero dizer, é uma marca bem conhecida, com ótimas roupas e a publicidade para mim vai ser bem grande. – Arregalei os olhos para expor ainda mais o quão gigante aquilo era.

– Claro, vai ser um salto em sua carreira. – Meu agente passava as mãos em meus cabelos, tentando deixá-los apresentáveis para as próximas fotos.

– Eu ouvi dizer que as modelos ficam com algumas roupas. – Amber cochichou para que apenas nós dois ouvíssemos e eu voltei a arregalar os olhos. Aquelas roupas pareciam ser de coleções bem caras e exclusivas.

– Os agentes também? – Gargalhamos ao ouvir o questionamento dele. – Deveríamos, já que somos nós que fazemos toda a venda da imagem do nosso cliente. – Me indicou com o dedo.

– Infelizmente não. – A maquiadora falou entre risos e voltou a atenção para meu rosto. – Está pronta!

O ensaio ocupou toda a manhã e, quando saímos, já era hora de almoçar. Peguei uma carona com Bill e fomos comer num restaurante próximo ao meu apartamento.

– Amanhã à tarde você viaja para Londres. – Anunciou assim que sentamos numa das mesas vazias.

– O primeiro show dele não é em fevereiro?

– Sim, mas ele precisa ensaiar com a banda e sei lá mais o que os músicos fazem antes de um show importante. – Deu de ombros, puxou o cardápio da mesa ao lado e começou a procurar algo para ingerir. Estava prestes a fazer o mesmo quando ele fechou o cardápio com força, me fazendo dar um pulinho na cadeira e encará-lo. – Não saíram muitas fotos de vocês no aniversário de Julie, então vocês precisam aparecer juntos para mostrar que ainda namoram.

– E precisava disso tudo? – Apontei para o menu ainda sem entender.

– Eu falei com Phil semana passada. – Anunciou ignorando minha pergunta. O nome do empresário de fez meus pelos arrepiarem e minha postura se endireitar. – Ele disse que está tudo saindo muito melhor do que imaginava. Até admitiu que sua ideia sobre os paparazzi foi ótima. – Minha feição de espanto deve ter sido muito engraçada, pois o homem gargalhava sem parar.

– Não acredito que ele disse isso!

– Nem eu, que ouvi, acreditei – Soltou uma gargalhada alta que chamou atenção de todos que estavam ali. Aproveitou que até os garçons estavam o encarando e chamou um deles para anotar nossos pedidos, que não demoraram a chegar graças a ausência de clientes.

– Qual é o cronograma para os meus dias em Londres? – Interroguei quando terminamos nosso almoço.

– Nada de mais, só terá que ser simpática com milhares de fãs que, provavelmente, estarão xingando você e toda a sua geração. – Abriu um sorriso irônico.

– Então será pior do que pensei. – Resmunguei puxando meu casaco da cadeira e o vestindo.

– Será, mas você vai conseguir. Vai querer uma carona? – Neguei com a cabeça enquanto andávamos até o estacionamento, minha casa era a menos de um quarteirão dali. – Estou pensando em colocar você em uns testes para filmes e séries. – Viro-me para ele sem acreditar que ele havia dito aquilo. – Porque ou você é uma ótima atriz ou não está atuando quando está com ele. – Deu de ombros fazendo todas as insinuações possíveis.

– O que está querendo dizer?

– Que gosta dele, não é óbvio?? – Entrou em seu carro pela porta do motorista e desceu o vidro para me encarar. – Só espero que seja a primeira opção, pois não quero ver minha melhor modelo triste quando isso tudo acabar e contratarem outra artista para fazer o seu papel. – Apoiei-me a porta do carro para conseguir conversar com ele sem que todos os que passavam escutassem.

– E quando vai acabar?

– Quando ele estiver pronto para voltar a suportar tudo sozinho. – Passou a marcha e fez menção de começar a dar ré, mas continuei na janela.

– Tudo o que? Não estou entendendo nada, Bill. – Tombei a cabeça para o lado a espera de uma resposta.

– Um término depois de quase seis anos de namoro, a compra de uma casa de dez milhões de dólares no começo do ano passado, a volta da banda...

– Um término?! – Praticamente berrei em frente ao seu rosto.

– Você irá encontra-lo amanhã, pergunte para ele, pois eu só sei disso. – Percebi por seus olhos que estava mentindo, ele não desviava tanto o olhar enquanto conversava. Não tive chance de fazer mais questionamentos, pois ele buzinou para chamar sua atenção e acenou, num claro pedido para que saísse da janela e assim o fiz.

Respirei fundo inúmeras vezes enquanto andava para casa, a próxima semana seria longa, cheia de fãs e questionamentos, principalmente da minha parte.

CAPÍTULO 16

Londres – 01 de fevereiro de 2017

A viagem até a Inglaterra foi calma e sem grandes emoções. Tentei arrancar algumas respostas de , mas tudo o que ele disse foi que não poderia responder nada em público. Aquela resposta me fez passar boa parte da viagem em silêncio. Na outra parte, conversamos sobre o tempo, como ele estava animado para voltar aos palcos e eu lhe contei como foi minha sessão de fotos. Assim que chegamos a seu país, o motorista de me deixou no hotel que estava hospedada e o levou para casa. Cada segundo que eu passava ao seu lado era uma batalha entre a minha boca e minha mente: a primeira sempre estava prestes a questionar sobre seu namoro de quase seis anos, enquanto a segunda – a mais sensata – forçava a primeira a ficar fechada.

Não vi nos quatro dias que antecederam seu aniversário e o primeiro show de sua turnê. Ele me mandou uma mensagem no segundo dia explicando que estaria ensaiando nesse intervalo de tempo e não iria conseguir ficar comigo para desfilarmos nosso amor por aí, apenas concordei e lhe desejei um bom ensaio e não nos falamos mais. Aproveitei para sair com Melanie e ela chamou Sue para uma “festa do pijama” em sua casa, o que foi muito melhor que ficar os quatro dias no quarto passando o tempo assistindo filmes ou baixando jogos em meu celular.

No dia do aniversário dele, eu pensei em ligar para lhe desejar felicidades e tudo mais, mas apenas mandei uma mensagem, já que eu iria vê-lo em poucas horas e poderia falar pessoalmente.

O carro de parou em frente ao hotel bem antes do fim da tarde. Percebi que havia algo errado com ele assim que entrei no automóvel:

– Boa tarde, aniversariante! – Abri um sorriso assim que sentei no banco do passageiro. – Feliz aniversário, . Espero que tenha um dia incrível. – Lhe dei um abraço desajeitado por causa da divisão entre um banco e outro. – Trouxe um vinho da Austrália para você, direto do Barossa Valley¹. – Balancei de leve o embrulho em minha mão e sorri mais ainda. Estava feliz por ter encontrado um presente interessante e que o fizesse lembrar de mim ou, pelo menos, da Austrália. abriu um sorriso lindo, mas era perceptível que não estava exatamente feliz.

– Muito obrigado, . Adorei o presente. – Lhe entreguei a garrafa embrulhada num papel azul com pequenos desenhos inidentificáveis e ele a colocou na parte de trás, no piso. Analisei seus movimentos com atenção e provavelmente com feição de confusão, pois quando voltou a me olhar ele fez franziu as sobrancelhas. – Algo errado? – Desviei rapidamente dos seus olhos e mirei um ponto qualquer enquanto negava com a cabeça.

– Apenas estou nervosa em estar indo com você para um lugar público, cheio de pessoa que não vão muito com a minha cara e ainda conhecer os seus amigos. – Voltei a olhá-lo e, finalmente, o sorriso que eu conhecia abria seus lábios. – Eu estou com um mau pressentimento, . Vamos voltar!

– Calma, , você está prestes a ter um colapso. – Gargalhou ao me olhar de canto e ver que eu o encarava com os olhos arregalados. – Vai dar tudo certo. – Colocou a mão esquerda em minha coxa coberta pela calça jeans escura e fez um carinho quase imperceptível com o polegar. Tentei não olhá-lo estranho, mas era quase impossível. Ao perceber que eu o encarava, recolheu sua mão e voltou a colocá-la no volante.

Fomos até a arena escutando algumas músicas desconhecidas para os meus ouvidos, mas muito bem conhecidas pelos , já que ele cantava todas num tom bem baixo:

– Alguém já te disse que sua voz é linda?

– Não, acho que ninguém havia me dito isso. – Ele me olhou rapidamente enquanto mudava de faixa. – Na verdade, acho que você acabou de descobrir um talento meu que eu ainda não conhecia.

– Engraçadinho! – Apertei sua bochecha de leve e ele fez uma careta de falsa dor.

Assim que ele estacionou o carro e colocamos os pés para dentro de O2 Arena, uma das maiores arenas do país, fez questão de cumprimentar cada uma das pessoas que trabalhava ali. Foi bonito de ver como ele tratava todos com simpatia e igualdade, mesmo sem conhecer metade daquelas pessoas. Enquanto eu fiquei olhando de longe, meio apreensiva em estar ali no meio de todas aquelas pessoas que sabiam ou não da verdade.

– Vou te levar para conhecer algumas pessoas. – Avisou quando parou ao meu lado.

Caminhamos lentamente em corredores ocupados por pessoas andando de um lado para outro, provavelmente tentando deixar tudo em ordem para o show que começaria em menos de duas horas.

– Opa! – Ouvi uma voz masculina no exato momento em que posicionou sua mão no fim das minhas costas para guiar meus passos. Quando ouviu a voz, ele desfez o toque rapidamente e deixou o braço cair ao lado do corpo.

! – Seu tom de voz saiu alto, quase estridente ou assustado. Eles se cumprimentaram com um abraço com direito àquelas batidinhas nas costas. Depois do que pareceram dois minutos, lembrou que eu ainda estava ali e nos apresentou. ergueu a sobrancelha ao ouvir meu nome, mas me abraçou e deixou beijinhos me minhas bochechas. Devo comentar que ele usava um perfume incrivelmente bom.

– É bom vê-la aqui! – Abri um sorriso em agradecimento, mas ainda sem graça.

, você viu os outros garotos? Ou a Lou? – Meu namorado acabou com o meu constrangimento ao chamar a atenção de seu amigo de volta para ele.

– Não, acabei de chegar por aqui e nem sei se eles já estão por aqui. – Deu de ombros. – Meu microfone deu algum problema, vou lá resolver. Até a próxima, . – Tocou meu ombro, por cima do casaco, com delicadeza e deu duas batidinhas no de antes de sair conversando com seu segurança.

– Vamos. – fez menção de colocar sua mão de volta no local de antes, mas deteve o movimento antes que pudesse encostar em meu sobretudo marrom.

Paramos na porta de uma das três salas que havia no corredor, respirei fundo antes de colocar meus pés para dentro e, antes de fazê-lo, esbarrei numa garota de cabelos num tom de rosa algodão doce.

– Desculpe! – Sussurramos ao mesmo tempo e sorrimos. Quando nossos olhos se cruzaram, suas sobrancelhas franziram, como se me reconhecesse de algum lugar – talvez por fotos na capa do Daily Mail ou The Sun. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, fez as apresentações:

, Charlotte Tomlinson. Charlotte, . – Ele apontava para uma e depois para a outra. Não contive minha feição de surpresa ao ouvir o sobrenome da garota.

– É...

– Preciso ir pegar uns produtos em outra sala. Adorei conhecê-la, , encontro vocês por aí. – Charlotte desviou dos nossos corpos parados na frente da porta e foi embora sem olhar para trás.

– Ela é uma das irmãs de e também é nossa maquiadora. – Sua boca falava comigo, mas seus olhos olhavam para o caminho que a garota havia feito. Apenas assenti com a cabeça e finalmente entramos na sala.

O lugar não era grande, mas aparentava ser por causa da grande quantidade de coisas: um sofá para três pessoas encostado na parede esquerda, duas araras cheias de roupas e sapatos em baixo no canto paralelo à porta e na parede direita tinha um espelho grande com uma mesa cheia de produtos em baixo. Por fim, havia duas mulheres trabalhando.

, finalmente chegou! – Uma das mulheres falou e ando até nós dois. – Oi, você deve ser a . – Deu um aceno tímido e eu fiz o mesmo. – Eu sou Ellie e sou que cuido das roupas dessas crianças. – Apertou a bochecha do meu namorado, exatamente como eu fiz no carro.

– Acho que vocês se dariam bem. – O garoto resmungou tirando as mãos da mulher de seu rosto.

– A conversa está ótima, mas preciso ir conferir as roupas dos outros garotos na sala ao lado. – a olhou com os olhos arregalados e ela concordou com a cabeça o fazendo soltar um suspiro aliviado. Fiquei sem entender a linguagem de sinais entre eles. Quando ela saiu, a outra se aproximou.

– Essa é a Lou Teasdale, é nossa cabelereira. – Aponta para a mulher de cabelos quase brancos. – Lou, essa é , minha... hã...

– Já entendi, . – Colocou a mão em seu ombro e lhe mandou um sorriso reconfortador. Ela deveria ser mais que a cabelereira deles, uma amiga íntima talvez. – É muito bom conhecê-la, ! Li muito sobre você nas redes sociais. – Ela passou os braços por meus ombros e me envolveu num abraço inesperado.

– Digo o mesmo! E espero que só tenha lido coisas boas. – Retribuí o abraço ainda um pouco nervosa em conhecer aquelas pessoas.

– Nem todas, mas não se preocupe, a internet aumenta muita coisa. – Sua sinceridade me fez abrir um sorriso e percebi que nem todo mundo dali me trataria como Gemma, como pensei. Continuei olhando-a depois que ela me soltou e virou para uma garotinha loira que passava pela porta com os olhos vidrados num jogo em um celular de última geração. – Lux, olha só quem chegou! – Apontou para o homem ao meu lado, fazendo a garota abrir um sorriso gigante. Olhei para o e vi que ele sorria da mesma forma.

– Tio ! – A menininha, que não parecia ter mais de seis anos, deixou o celular cair e correu para os braços do homem e ele a abraçou levantou no ar. Uma cena digna de filme.

– Estava com saudades de você, meu amor. – Beijou os cabelos loiros da menina enquanto ela concordava com a cabeça. – Diz oi para a minha amiga . – Apontou-me e acenou para que ela fizesse o mesmo. Tentei dar um sorriso simpático, mas não conseguia parar de pensar na possibilidade de que alguém ter ouvido como ele havia me chamado, aquilo poderia estragar tudo. – Beth, essa menininha fofa aqui é a Lux, ela é filha da Lou. – Apontou mais uma vez para a mulher de cabelos brancos que já estava um pouco mais afastada fazendo algo relacionado ao seu trabalho. – E também é minha afilhada. – Abriu um sorriso maior que o anterior e encheu o rostinho dela de beijos.

– Você é muito linda, sabia? – Falo após me derreter com aquela cena entre eles. Ela apenas concordou com a cabeça e dá um sorriso tímido.

, você pode vir aqui? – Um homem alto e forte apareceu na porta da pequena sala fazendo colocar sua afilhada de volta no chão e se voltar para ele. – Precisamos ver alguns detalhes antes do show começar. – O mais velho disse num tom baixo que não poderia ser ouvido se a sala fosse grande. Meu namorado concordou com a cabeça e virou-se para mim com as sobrancelhas franzidas.

– Você se importa em ficar um pouco sozinha? Preciso resolver umas coisas, mas volto logo. Você pode ficar aqui com Lou e as outras garotas. – Apontou para Ellie, que estava de volta trazendo consigo uma garota que aparentava ser mais nova, que organizava os cabides de roupas.

– Sim, tudo bem. Pode ir. – Apontei para a porta, porém ele continuou me olhando.

– Certeza? – Ele parecia nervoso em me deixar com aquelas pessoas, como se eu fosse fazer algo errado. Ou elas.

– Tenho sim. Vai logo, – Empurrei-o de leve e ele sumiu atrás do armário ambulante.

Olhei para as pessoas na sala e sentei no sofá. Sem saber muito bem o que dizer ou fazer, puxei o celular do bolso e comecei a olhar fotos antigas de quando estava começando a ser modelo, algumas fotos engraçadas com Noah e Julie, fotos com minha família em datas comemorativas e...

– Onde está o ? – Lou questionou quando viu que eu estava sozinha.

– Ele precisou ir resolver alguma coisa, algo relacionado ao show, não sei bem. – Bloqueei o celular e joguei-o em meu colo. Estava tão desconfortável em ficar sozinha com aquelas pessoas. – Lou, você sabe sobre... tudo? – Eu e minha boca enorme a pegaram desprevenida. Ela me olhou com os olhos inquisidores, parecia estar tentado entender a que "tudo" eu estava me referindo.

– Sim, acho que sei de tudo que acontece por aqui. Por quê?

– Não, não é nada. Só queria saber depois que me chamou de amiga em sua frente. – Tentei explicar para que ela não achasse que sou invasiva.

– Fica tranquila, eu sei sobre vocês e todos os outros relacionamentos que ele teve. – Deu uma piscadinha com o olho direito, mostrando que ela também era uma cúmplice. – Queria muito continuar conversando com você, mas preciso ver onde minha filha se meteu. Esses garotos sempre a levam para fazer bagunça por aí. – Seu tom era brincalhão e despreocupado.

– Não, está tudo bem. Daqui a pouco o volta. – Tentei convencê-la a ir, mas ao mesmo tempo tentava me convencer que ele ia voltar logo. Lou acenou com as mãos e logo saiu da sala.

Voltei a pegar o celular, porém fui interrompida por acordes de violão de uma música bem conhecida por mim. Percebi que o som vinha da sala da frente, que tinha a porta fechada. Entrei em conflito comigo mesma por alguns segundos e resolvi que não tinha problema algum em eu abrir apenas uma fresta para parabenizar a pessoa que estava tocando lindamente, mesmo tendo errado uma das notas.

Terminei fazendo o que um dos lados da minha consciência mandava e coloquei parte do meu corpo para dentro da salinha. Encontrei um loiro sentado num sofá preto para três pessoas com um violão marrom em suas pernas cruzadas. Observei-o enquanto franzia o cenho e batia o punho direito no instrumento após errar a mesma nota pela segunda vez. Fiz menção de me retirar para deixá-lo sozinho com seus acordes, mas sua voz suave me fez voltar a olhá-lo:

– Desculpe, não vi que você estava aí. – Pousou o violão ao lado do sofá e andou até parar em minha frente. – Então você é a famosa ? – Apenas concordei sem saber o que falar. Espera aí, famosa? – Eu sou Horan – Estendeu a mão para receber um cumprimento e assim o fiz.

– Famosa? Os famosos aqui são vocês – Apontei para ele e depois para a porta, indicando os outros garotos.

– Ouvi muito sobre você e é bom, finalmente, conhecê-la. – Andou de volta até o sofá e sentou no mesmo lugar de antes.

– Espero que tenha sido apenas coisas boas! – Repeti a frase pela segunda vez no dia, mas sua reação não foi igual a da Lou. Ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Não entendi o porquê daquilo, mas a risada dele era tão gostosa de ouvi que acabei caindo na risada também. – Também ouvi falar de você, .

– Você deve ter ouvido sobre o quão bonito, fofo e bom guitarrista eu sou. – Pegou o instrumento de volta para suas mãos e tocou algo desconhecido para os meus ouvidos.

– Bom, eu não diria isso após errar duas vezes a mesma nota. – Caminhei lentamente até onde ele estava sentado e parei ao seu lado.

– Você conhece a música? – Ele tinha as sobrancelhas arqueadas, parecia espantado em eu conhecer.

Stubborn Love do The Lumineers. – concordou com a cabeça e apontou o espaço ao seu lado com a cabeça, indicando que eu era bem vinda no sofá. Sentei-me no exato momento em que ele voltou a tocar a introdução da música.

– Você gosta? – Seus dedos não paravam de mexer entre as cordas.

– Sim, uma das minhas favoritas. – Passei a palma das mãos na calça para amenizar o suor que havia se instalado ali desde a hora que havia saído de casa. – As músicas deles são muito boas, mas as melhores são as mais lentas.

– Então você gosta de Sleep On The Floor?! – Sua pergunta pareceu mais uma afirmativa, então apenas concordei.

Ele se concentrou nas cordas e depois de outra tentativa falha, acertou a nota que estava lhe dando trabalho. Lançou-me um olhar lateral para ver se eu havia percebido e eu sorri, mostrando que sim.

, eu posso ter fazer uma pergunta? – O garoto me olhou com as sobrancelhas arqueadas e ponderou a resposta. – Não tem nada a ver com sua vida pessoal, notas erradas ou The Lumineers.

– Ah, então não. Eu achei que você iria perguntar qual é minha música favorita. – Seus ombros caíram e um sorriso apareceu em seus lábios. – Claro que pode!

– Você viu o hoje? – Assentiu e voltou sua atenção para o violão, ele não parava de tocar. – Você notou que ele parece um tanto... chateado?

– Oh, sim! – Pelo tom que ele falou, parecia que já estava querendo comentar aquilo com alguém. – Eu acho uma atitude normal. – Deu de ombros sem me olhar.

– Por quê? Você sabe o motivo de ele estar assim? – Percebi que me aproximava mais a cada pergunta que saia da minha boca. Eu só queria entender tudo o que estava acontecendo.

– Ele até que está lidando bem com o ciúme. Se eu estivesse em seu lugar, já tinha explodido a tempos. – Por um mísero segundo pensei que era ciúmes de e eu, mas não sabia que eu estava ali. E por que ele sentiria ciúmes?

– Ciúmes?

– Sim, da... – Finalmente ele me olhou e abriu a boca várias vezes, mas nada saiu. Continuei o olhando enquanto sua mente travava uma batalha entre continuar aquela conversa ou cair fora. – Ele não contou para você?

– Não contou o que?

– Quem não contou o que?

Nossas vozes saíram ao mesmo tempo e rapidamente eu viro para olhar aqueles lindos olhos verdes.

– Que bom que chegou, estávamos falando sobre você. Espero que não fique chateado. – deixou o violão ao lado do sofá e foi em direção ao seu amigo com um sorriso nervoso. – Acabei de conhecer a . – Apontou em minha direção, mas ainda mantinha os olhos em . – Vou resolver alguns... problemas da minha guitarra e vou deixar vocês conversarem. – Andou dois passos, mas voltou antes de chegar até a porta e sussurrou algo no ouvido do meu namorado. apenas concordou com a cabeça e ganhou dois tapinhas em seu ombro esquerdo antes de o loiro sair de vez.

– Então... O que achou do ? – Ele passava uma mão na outra, provavelmente tentando enxugar o suor, assim como eu a alguns minutos atrás.

– Parece ser legal e gosta de The Lumineers. – Dei de ombros como se aquele assunto não importasse muito. Eu havia acabado de conhecer o outro garoto, o que mais poderia dizer?

– Eu...

– Por que você anda tão triste? – Minha voz saiu tão aguda, quase como um grito desesperado por explicações, a ponto de ele se assustar.

– É complicado, . Já te disse isso. – Passou as mãos nos cabelos, colocando-os atrás das orelhas. Um gesto simples que demonstrava seu cansaço ou raiva.

– É complicado dizer que você e o tiveram um caso? – Seus olhos arregalaram e me arrependi na mesma hora pelo tom de ironia que havia usado. Deveria ser, mesmo, bem complicado confessar aquilo para outras pessoas. Levando em conta a quantidade de pessoas preconceituosas e que os dois tinham suas vidas monitoradas 24 horas por dia, sete dias na semana; complicado ainda era pouco, aquilo era quase impossível. Mas eu não era uma desconhecida ou uma de suas fãs malucas que acham que vão se casar com os ídolos, eu era sua amiga. Uma pessoa que estava levando o nome de vadia por tentar ajudá-lo.

– Não foi um simples "caso", . – Vi seus dedos representarem aspas no ar e meu nome sair da forma mais rude que ele poderia ter dito.

– Um namoro de quase seis anos, então? – Senti minhas sobrancelhas arquearem e ele parou, não expressou reação nenhuma. não arregalou os olhos, não mexeu as sobrancelhas, suas costas não se ergueram (que é o que ele acontece quando ele ouve algo que não espera), ele ao menos me olhou. Apenas ficou parado por quase um minuto completo, até eu voltar a falar: – Har...

– Como soube disso?

– Não importa como eu soube. O importante aqui é você saber que estou do seu lado e que pode me contar o que está acontecendo de tão ruim em sua vida para você aparentar estar tão triste quando hoje era para ser um dos melhores dias da sua vida. – As palavras embolaram em minha boca, mas tinha certeza que ele havia entendido tudo.

– Sim, nós namoramos. – Concordei com a cabeça e esperei que continuasse, mas ele se calou.

– Por favor, .

– Não vamos poder falar sobre isso hoje. Eu tenho um show para fazer e, como você disse, hoje era para ser um dos melhores dias da minha vida. – Ele levantou com rapidez e eu fiz o mesmo.

– Você está sempre dizendo que não pode falar sobre isso agora, não pode ser aqui, não poder ser num avião, não pode ser na sua casa, então onde é que pode? – Segurei-o pelo pulso e tentei fazê-lo olhar para mim, mas não deu certo. – Eu só quero que você tire tudo isso de dentro de você, Harry. Quero que se liberte.

– Sei que está tentando me ajudar, . Agradeço muito por tudo o que fez e preciso dizer que, em um mês, você fez com que eu me sentisse muito melhor que no ano todo. – Um sorriso fraco abriu seus lábios e ali eu vi que ele dizia a verdade. – Mas quero te pedir para parar de fazer tantas perguntas sobre esse assunto – suas mãos pousaram delicadamente em meus ombros e ali ficaram durante todo o seu discurso, segurando meu corpo para mantê-lo parado em sua frente. – Sei que é chato estar pedido isso, já que fui eu que te coloquei nessa posição, mas preciso que fique assim. É uma história longa e dolorosa, eu prometo contá-la quando estiver pronto para reviver tudo, mas esse momento não é agora. – Soltou um suspiro no mesmo momento em que suas mãos caíram ao lado de seu corpo alto e lágrimas invadiram seus lindos oceanos verdes disfarçados de olhos.

¹ Barossa Valley: uma das mais antigas e refinadas regiões vinícolas do país e do mundo.


Continua...

Nota da Autora: (09/08/2017) Sem nota

Nota da Beta: Hey! Caso encontre algum erro avise-me no e-mail. Obrigada!

Capítulos 1-4 foram revisados por Karolline Guimarães.
Capítulos 5-9 foram revisados por Thaynarra Ramalho