Uma Noite Com o Rei

Autora: Maraíza Santos | Beta: Mily

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Prólogo

Século VI a.C.

A pequena lia sentada no colo do seu pai com certo brilho em seus olhos. Tecer não era tão atrativo quanto ler e, mesmo sendo criança, entendia facilmente diversas frases escritas, tanto em hebraico como persa.
- ABIAIL! – Exclamou Mordecai, entrando rapidamente dentro da casa.
- O que há Mordecai? Aconteceu alguma coisa? – Perguntou Abiail preocupado.
- Os amalequitas! Eles estão matando e saqueando toda Israel! Vamos, temos que ir! Agora! – Disse ele, os chamando para fora e saindo pela porta.
- Vamos Lia! – Chamou Abiail, levantando-se de solavanco. – Não temos tempo de levar nada! – Ele a puxou para perto com em seus braços.
- Espera! Eu... – Ela perdeu a fala quando a porta de madeira foi escancarada.
Um homem com manchas de sangue em suas vestes entrou na casa segurando a espada suja de vermelho em sua mão direita. Seus olhos esbanjavam maldade nunca vista antes pelo casal de judeus. Lia sentiu calafrio quando ele sussurrou.
- Fica quietinha.
Imediatamente, Abiail colocou nos braços de Lia, e se prontificou à frente do homem, protegendo sua família. A criança olhava a cena assustada, não entendendo o porquê do que acontecia. Ela podia ver a roupa de seu pai molhada de suor em suas costas, demostrando o nervosismo que sentia. O judeu apertou os punhos, mesmo sabendo que tinha poucas chances de sobreviver – naquele momento, sua família estava em primeiro lugar.
O amalequita segurou os braços de Abiail sem dificuldade e, antes que pudesse se defender, o estrangeiro lhe enfiou a espada no peito empurrando cada vez mais fundo e descendo até os pés do pobre judeu.
Entretanto, Lia e sua filha não viram aquela cena. O tempo em que o amalequita focava em atacar Abial, fora suficiente para que ela saísse correndo com a menina de apenas cinco anos nos braços, acobertada pelo sobrinho de seu marido. O desespero pela cidade era enorme, os gritos de desespero ecoavam pelas ruas, enquanto muitos corriam descalços tentando salvar suas vidas em vão.
Sentindo o sangue latejar nos ouvidos e o coração quase sair do peito pela corrida, Lia se escondeu em um beco, tirou rapidamente o colar de seu pescoço e pôs na sua filha.
A menina chorava com os pequenos olhos arregalados. Estava tão eufórica quanto a mãe e a cena de mortes que vira no caminho era assustador.
- Prometa a sua mãe que nunca vai esquecer-se de onde você veio. – Disse ela a . Olhando para os lados, a menina concordou – Pegue-a Mordecai! – Gritou Lia, a entregando nos braços e o homem disparou e, logo desapareceu no final do beco.
A judia olhou pra trás ofegante, pronta para mais uma corrida, quando viu mais um amalequita com os olhos cheios de ódio e raiva andando em sua direção; em toda sua vida nunca havia visto alguém com tanta hostilidade em seus olhos. Ao tentar correr, sentiu uma forte facada em suas costas e, antes que caísse no chão, sentira outras por diversas partes do corpo.
- MAMÃE! – Berrou a criança, quando percebeu que sua mãe não os seguia.
Mordecai correu para não ser o próximo a morrer, abaixando com a mão a cabeça de para que ela não visse aquele caos. Chegando perto dos portões da cidade, avistou uma carroça de mercadores que estava pronta para sair depois de perceberem o que acontecia. Escondeu-se entre a palha junto com a menina e, assim que se acomodou, sentiu-se sair do lugar depressa.
- Calma, vai ficar tudo bem. – Falou Mordecai, acariciando os cabelos de sua prima, tentando acalmar a única pessoa da sua família que conseguiu se salvar.


Capítulo 1 – O banquete

15 Anos depois

Sentada em um pequeno banco, a jovem contava a história tão conhecida por ela para os pequeninos de diversos bairros de Susã. As crianças escutavam atentamente aquelas palavras, com medo de perder qualquer que seja o detalhe.
- ... E o Davi pegou uma pedrinha e rodou, rodou, rodou e foi bem na cabeça do gigante! – Disse , dando ênfase a cada palavra que dizia.
- E o que aconteceu? – Perguntou Ruben, um dos meninos ouvintes.
- Ele tombou! – Ela disse, fazendo caretas e as crianças riram.
As mães das respectivas crianças se aproximaram de forma sincronizada, chamando-os para o desfile que aconteceria em instantes. O imperador da Pérsia voltava de uma de suas campanhas com o exército e fazia questão de ostentar suas riquezas para todos. A cerimônia não passava de uma das suas demonstrações de grandeza e Susã – cidade capital da Pérsia – era seu lugar preferido para expô-la.
- – Chamou . – Você vai ver o rei?
se apaixonara por ela ainda adolescente, desde que Mordecai havia se tornado um dos judeus mais fluentes entre seu povo. A jovem era bonita e dificilmente se achava alguém que não simpatizasse com a moça tão jeitosa. Entretanto, o homem não sabia se ela correspondia a seus sentimentos.
- E eu tenho opção? – Indagou. Ela sempre achava aqueles desfiles supérfluos, mesmo que fosse interessante ver o rosto de quem era a autoridade de seu país. – Cadê a ? Ela não irá conosco? – Perguntou , olhando pros lados à procura de sua melhor amiga.
- Eu não a vi hoje... – Respondeu o homem, coçando sua barba. – Anda! Ou não conseguimos vê-lo de perto. – Apressou , a fazendo dá os ombros e seguir a multidão para as principais ruas da cidade.
Espremendo-se entre o povo, conseguiu ficar a frente para ver os cavalos dos principais generais do longo exército persa desfilarem a sua frente.
- Salve o rei da Pérsia! – Gritava o povo. – Salve , o Grande!
, porém, desviou a atenção para as crianças que corriam para a direita e esquerda, atravessando o espaço que deveria ser apenas para os cavalos do rei.
- Viva ao imperador da Pérsia! – Ela pode ouvir exclamar animadamente.
- Viva! – Responderam todos os outros, rindo logo depois.
O rei e seus conselheiros apareceram acenando pra multidão e os gritos se tornaram perturbadores fazendo as crianças pararem em seu canto. Porém, Ruben decidira correr para o outro lado bem a um metro de um dos cavalos. Sem pensar duas vezes, a jovem correu e abraçou Rubén o cobrindo com seu véu e transformando seu corpo em um grande casulo para proteger a criança. fechou os olhos com força, já sentindo a pancada que levaria da ferradura do cavalo.
Aos poucos ela abriu os olhos e olhou para cima, mirando a expressão confusa do rei que tentava controlar seu cavalo para que ele não avançasse. Ele se perguntava o que aquela mulher estava fazendo – fora questão de segundos, ou ele a esmagaria.
Com o coração palpitando no peito, saiu devagar, levando a criança até a mãe que parecia que morreria de susto a qualquer momento. A mulher agarrou seu menino, que parecia um pouco alheio ao que acontecia, agradeceu a jovem e passou a dar broncas na criança por causa daquela loucura.
Não demorou muito e o desfile continuou como se nada houvesse acontecido antes, contudo, ainda se podia ver o rosto um tanto perturbado do rei.
- você está bem? Eu fiquei preocupado! – Falou , ao encontra-la em instantes, sentindo seu coração bombardear o sangue mais rápido que o normal.
- Estou bem, nada pra se preocupar. – Ela respondeu sorrindo, mesmo que tivesse a impressão que seu corpo todo estava rodeado de placas de gelo.

olhava pros lados, certificando-se que ninguém a vira. Entrou em vários becos, se afastando cada vez mais do centro da cidade onde a maioria das pessoas se encontrava no momento. Sozinha em uma rua sem saída e escura bastante conhecida pela jovem, sentiu ser abraçada por trás por braços fortes familiares.
- Senti sua falta. – Escutou uma voz familiar. O hálito dele tocou em seu pescoço, a fazendo se arrepiar. A judia fechou os olhos se acomodando em seus braços.
- Também senti a sua falta, . – virou-se de frente para seu amado e esticou-se para tocar-lhe os lábios. Contudo, parou subitamente ao ver um corte sangrando na bochecha do amalequita.
- ? Onde você conseguiu esse corte? – Ela disse preocupada. O oficial amalequita apenas sorriu ao ver a preocupação de .
- Não é nada, foi uma brincadeira de mal gosto de Dalfom. – Justificou e selou seus lábios, antes que ela falasse mais alguma coisa.
necessitava sentir o gosto do beijo de e se deliciar com os carinhos que dava e recebia da judia. Deixou que seu corpo, o qual sempre estivera rígido e pronto para batalha, relaxasse ao sentir os dedos delicados de acariciar delicadamente seus bíceps.
Então, os jovens escutaram alguém gritar o nome da mulher, os fazendo se afastar rapidamente. Ao olharem para a entrada do beco, o desespero se instalou nos dois – Rute, mãe da judia, encarava-os de boca aberta. Seu esposo, Joel, odiava os amalequitas e fazia questão de deixar bem claro; ver sua única filha nos braços de um deles o faria morrer de desgosto, na melhor das hipóteses.
- Não, não, não! – correu em direção a mãe e quase se ajoelhou em seus pés. – Não fale ao meu pai, por favor! – Implorou desesperada. a acompanhou, se aproximando. Seus olhos mostravam a tensão que sentia ao pensar em como o pai de reagiria ao saber sobre seu caso.
- Por favor, senhora Rute, não fale nada para Joel, ele com certeza não aprovaria... – Ele pediu, segurando os ombros de sua amada, tentando – em vão – acalmá-la.
- Eu não posso mentir pra seu pai, ! Você sabe que isso é um pecado pro seu pai e... – Falava Rute com a voz trêmula, ainda nervosa pelo que viu.
- Não, mãe, a senhora não vai mentir pra meu pai, só não vai falar nada sobre isso. – Ela assegurou, tentando acalmar a mãe.
Rute não tinha nada contra os amalequitas, mas o seu marido, Joel, ainda tinha ressentimentos do massacre passado e ela não queria despertar a sua ira. Para ele nenhum amalequita poderia tem bondade ou ser diferente.
- Eu não falarei a ele. – Prometeu a judia. suspirou aliviada. – Agora você não se encontrará mais com esse amalequita! – Ela desfez o sorriso. Antes de replicar, contudo, olhou para que continuava atrás dela. O amalequita assendiu rapidamente.
- Sim, mãe, eu não vou me encontrar mais com o . – Ela garantiu.
A mulher sorriu satisfeita.
- Vamos saí daqui! Eu quero você longe dele. – Ela puxou sua filha com força – Você sabe o que seu pai vai pensar de você se souber? Deus me livre se ele descobre.
- Ele não vai, porque a senhora não vai contar. – Ela afirmou ainda nervosa; olhou pra trás e encontrou o olhar de .
Com certeza ela não desistiria do homem da sua vida.

Ainda no desfile, Mordecai observava os sete conselheiros do rei passarem, e os primeiros ministros: Memucã e depois Amã, o amalequita. Vagamente, o judeu podia identificar Amã entre os envolvidos na matança de vários judeus, onde morreu os pais de . O amalequita trazia consigo o ódio dos judeus e tentava passar aquela filosofia para cada um dos seus dez filhos; apenas um deles, , não parecia gostar da ideia e o homem não sabia ainda o motivo.
Enquanto Amã passava, todos se reverenciavam a ele, exceto Mordecai, Joel e entre outros judeus. Eles sabiam que o que o amalequita queria era uma adoração, não um simples ato de respeito, por isso não se abaixavam diante dele. Na crença dos judeus, apenas Deus deveria ser reverenciado.
“Judeus imundos”, pensava Amã. “Por mim estariam todos mortos”
- Convido a toda cidade, dos pobres aos nobres, de soldados a generais, de escrivães a conselheiros para irem hoje ao banquete e comemoração da soberania da Pérsia! – Exclamou o imperador , todos gritaram entusiasmados. O jovem rei sorrira ao ver que seu povo estava satisfeito.


Capítulo 2 – Fim do reinado de Vasti

- Primo Mordecai, por favor! – Repetiu enquanto os dois entravam em casa.
- , já lhe falei: você só vai pra Jerusalém se alguém te levar. Alguém de confiança. – Explicou Mordecai pela milésima vez. - Não se preocupe, Mordecai, eu irei me mudar junto com a minha família pra Jerusalém. – Falou Joel, um homem já com fios brancos em sua cabeça e de barba, um judeu nato. – Eu posso leva-la, prometo que cuidarei bem dela.
sorriu. O escrivão fitou sua prima e a Joel e relaxou os ombros derrotado. Por mais que quisesse que a moça realizasse seus sonhos, sabia o quanto sentia falta da prima que era quase como filha agora.
- Está bem. – Mordecai Rendeu-se. deu uns pulinhos em comemoração e , que parecia alheio a conversa, olhou-os assustado, sentindo seu coração se apertar no peito.
- Mas vocês vão quando? – Perguntou receoso pela reposta.
- Quando a próxima caravana vier. Isso vai ser a mais ou menos cinco meses – Respondeu Joel.
e sua mãe entraram na casa quase automaticamente e a judia se assustou com a animação da sua melhor amiga.
- O que houve pai? – Perguntou curiosa.
- Nós vamos nos mudar pra Jerusalém , isso não é demais? – Respondeu animada.
O rosto de se entristeceu no momento que escutou tais palavras; sua vida parecia se complicar cada vez mais.
- Você não tá falando sério! – Ela arregalou os olhos – Pai, não podemos nos mudar!
- Por que não? – Perguntou Joel, estranhando a atitude da filha – Eu já cansei dessa cidade imunda cheio de amalequitas! – Ele disse com cara de nojo.
- Bem, isso é muito bom, né, ? – Comentou Rute, lançando um olhar de aviso a sua filha. – Joel, temos que ir pra casa, já está ficando tarde.
- Você está certa. Até breve, Mordecai. – Despediu-se Joel, saindo.
- Bem, eu também vou indo. – Disse cabisbaixo.
Logo, apenas Mordecai e sua prima sobraram na casa. A única que parecia feliz com a notícia era que parecia não tirar o sorriso de seu rosto.

O rei entrava pelos corredores de seu palácio e cumprimentava seus oficiais com acenos enquanto entrava no salão real. O cômodo era grande e era repleto de cadeiras e colunas de pedra. Havia diversas janelas cobertas por cortinas do linho mais refinado e coloridos. No final da sala, acima de cinco degraus, o trono do rei recoberto de ouro e atrás havia o símbolo Persa marcado por gerações. O imperador andou até seu devido lugar.
- Rei . – Reverenciou um dos seus oficiais de mais confiança, Ananias.
- Ananias, quanto tempo não? – ele disse, sentando-se em seu trono.
- Senhor, a rainha Vasti deseja vê-lo. – Avisou Ananias.
- Mande-a entrar. – Falou ele, aconchegando-se.
A rainha Vasti era uma das mulheres mais linda do reino e fazia por merecer. Cabelos ruivos e ondulados, olhos verdes e uma postura de se admirar. Seu olhar esbanjava a soberania de uma rainha.
- Meu amado. – Disse ela, o reverenciando. – Bom ver que está de volta.
- Sim, claro que é. – Ele se levantou e foi em direção a sua esposa. Tocou no rosto sem nenhum defeito da rainha Vasti e a beijou.
- Eu estive organizando um banquete só para as mulheres dos oficiais, assim como você me pediu por carta. – Ela falou sorrindo ao se afastarem.
- Claro. – Respondeu o rei.
Ele não havia prestado atenção em nada que ela disse, estava apenas admirando sua beleza.
- Bem, eu preciso ir e descansar um pouco antes do banquete. – Falou o rei.
- Está certo. – Ela disse – Vou me retirar. Com sua licença. – ela o reverenciou mais uma vez e saiu pela porta.

- , tome cuidado! Você já sabe das regras, eu irei ao banquete do rei. – Falou Mordecai arrumando sua roupa e indo em direção à porta.
- Sim. – Respondeu ela saindo dos seus pensamentos.
Certificou que as portas estavam fechadas e foi ao seu quarto. tirou o colar que havia em seu pescoço, pôs perto da luz e viu seu quarto todo brilhando com o reflexo da estrela de Davi do colar. Então, lembrou-se da sua mãe e de toda aquela matança.

“Prometa a sua mãe que nunca vai esquecer-se de onde você veio”


- , que cara é essa? Aproveite o banquete! – Disse Mordecai, dando um gole em seu vinho.
- Não estou muito a fim. – Falou, desviando o olhar para o chão.
- Eu sei o porquê de você está assim. – Comentou Mordecai, colocando o copo na mesa.
- Sabe? – Perguntou , levantando os seus olhos.
- ... – Mordecai suspirou. – Você sabe que se a quisesse, eu já havia lhe dado em casamento. Sei que você daria todo amor pra ela, nem precisaria você dar dote algum, mas eu quero que ela se apaixone, não quero que ela se case a força.
- Eu entendo senhor, Mordecai. – Ele voltou a olhar para a comida.
Dentro do palácio estavam os nobres e o rei comendo e bebendo, e no harém estava às mulheres dos supostos nobres e a rainha Vasti. O rei mostrava a todos sua grandeza e suas riquezas, cada bracelete, cada colar, cada pedaço de ouro, prata ou qualquer objeto de valor.
- Mais vinho, por favor. – Disse o rei, já alterado pela bebida, ao Ananias.
Ananias chamou o copeiro, , que experimenta o vinho, depois de alguns segundos ele acena de uma forma, mostrando que o vinho não está contaminado.
- Meu rei – Reverenciou Amã, chegando perto dele.
- Sim, Amã, o que deseja? – Perguntou o rei.
- O senhor já nos mostrou todas as suas melhores riquezas, porém só falta uma. – Disse ele casualmente.
- Qual, Amã? – Perguntou o rei confuso, ele tinha certeza que havia mostrado todas as riquezas.
- Permita-me dizer, senhor rei, a sua mulher, rainha Vasti é uma das mulheres mais belas do reino persa. Nós queríamos apreciar a beleza dela, não é? – Ele virou-se para os nobres que gritaram animados. Muitos deles não haviam escutado o que Amã tinha falado, apenas gritaram por estarem bêbados.
- Pois bem, Ananias, chama a rainha Vasti. – Ordenou o rei.
Ananias foi até a porta do harém e mandou chamar Hegai, chefe do harém, pelo fato dele não ser eunuco, nem mulher, Ananias não tinha permissão para entrar.
- Sim, Ananias. – Disse Hegai
- O rei manda chamar a senhora Vasti. – Disse Ananias.
Hegai assentiu e entrou na casa das mulheres. Aproximou-se da rainha e se pôs ao seu lado.
- Senhora Vasti. – Reverenciou Hegai – O rei manda a chamar.
- Chamar? Agora? – ela o olhou com desdém – Desculpe-me Hegai, não posso deixar os meus convidados. Diga ao rei que não vou. – Ordenou Vasti, mexendo as mãos para que fosse.
O eunuco arregalou os olhos.
- Mas rainha... – Ele foi interrompido.
- Mas nada Hegai! Eu não sou um brinquedinho pra o rei mostrar aos seus súditos! Vá, vá logo! – Irritou-se Vasti, balançando as mãos, indicando a porta.
- Sim, senhora. – Ele a reverenciou e saiu de sua presença, imaginando o que aconteceria depois disso.
- Ela não vai, não pode deixar seus convidados. – Avisou Hegai a Ananias, imitando a voz da rainha.
- Como não? Ela tem que obedecer ao rei! – Protestou Ananias.
- Ela disse que não, não posso fazer nada. Aquela dali nunca me escuta. – Hegai deu os ombros e voltou ao harém.
Ananias andou pelo pátio que separava o palácio do harém, sentindo o estômago revirar. Ele sabia que algo de ruim estava para acontecer depois que a rainha rejeitou o pedido do rei. Receoso, o servo entrou na sala real, onde estava acontecendo o banquete.
- Rei, a rainha Vasti disse que não viria. – Cochicou Ananias.
- Como não? – O rei se levantou do seu trono, um pouco cambaleante, indignado.
- Ela falou que não pode deixar seus convidados. – Completou o servo.
- Isso é um absurdo! – Exclamou Memucã – Como pode a mulher do rei não o obedecer? Se isso se espalhar pelo reino, as mulheres irão se revoltar contra seus maridos, vão começar a desobedecê-los e, quando forem alertadas, usarão a desculpa que nem mesmo a rainha obedece a seu marido. – Completou Memucã. – Sugiro que o senhor dê alguma punição a ela.
- Sim. – Disse . A desobediência de Vasti havia despertado sua fúria – Eu quero Vasti fora do meu reino até amanhã! Ela está exilada de todas as 127 províncias da Pérsia. – Ordenou aos seus soldados.
sentou-se de novo no seu trono. Como pode desobedecer a ordem do rei?
- Não! Vocês não podem! Eu sou a rainha Vasti! Obedeçam-me! – Por todo o palácio se ouvia os gritos da antiga rainha persa.
E assim acabou o reinado de Vasti.


Capítulo 3 – Uma nova rainha para o rei

Algumas semanas depois

conseguia sentir o peso da responsabilidade e perigo de ser copeiro do rei: um gole e ele estaria morto. Mas sabia que precisava daquele emprego. Precisava manter Raquel, sua esposa, e Manassés, seu filho, com comida em casa. Conseguir aquele trabalho fora deveras complicado, pois a maioria dos servos do rei eram eunucos ou tinha sua vida dedicada a ele – nada de famílias por fora. Não podia brincar com a sorte, principalmente por estar atrasado naquele dia. Com passadas rápidas, o beduíno atravessava a multidão em direção ao palácio quando sentiu alguém puxar seu manto.
- Calma ! Por que dessa pressa? – Perguntou sorrindo.
- Estou atrasado! Se eu chegar tarde o rei me arranca a cabeça. – Explicou ele, fazendo uma linha imaginária em seu pescoço. O copeiro olhava para seu amigo em relance já que seus passos estavam rápidos.
- ? – Chamou Hadassa entrando na conversa. – Pensei que você já estivesse no palácio.
- Eu já estou indo na verdade. Até mais! – Se despediu, andando depressa.
Hadassa fitou suas costas, observando o tecido de sua túnica bater em seus joelhos enquanto andava até vê-lo desaparecer no fim da rua. A judia virou-se para , que desviou o olhar por encará-la sem descrição.
- Como vai, ? Parece abatido... – Comentou a moça.
- Nada. – Ele sorriu para ela, passando confiança. – As coisas estão indo bem, não é? Não tem o que se preocupar.
- Que bom! – Disse ela, aliviada começando a andar em direção às barracas de frutas que estavam perto. Arrumou o véu azul na cabeça enquanto via acompanhá-la ao seu lado.
- Então vamos encontrar .

O salão real estava repleto dos homens mais nobres de toda Pérsia. Muitos não prestavam atenção no que o rei e seus conselheiros julgavam, preocupados demais com o copo de vinho em suas mãos. O rei sentia-se exausto e, com isso, tombou a cabeça um pouco para direita e semicerrou os olhos, tentando concentrar-se no que o primeiro ministro, Memucã, dizia.
- Então, propúnhamos que você divida suas terras igualmente para seus filhos, assim, nenhum deles vão ter mais ou menos. – Disse Memucã ao camponês. – Proxi... – ele foi interrompido.
- Não, Memucã. – Disse . – Estou cansado. – E passou a mão pelo rosto, coçando os olhos e sua barba.
- Meu rei, desde que a o senhor expulsou Vasti do seu reino vejo a sua expressão tão cansada. – Comentou Amã, que estava do lado do primeiro ministro.
- Realmente. Tenho que concordar com você, Amã. – Disse outro conselheiro.
- O rei deve está sentindo falta dos braços de uma mulher. – Completou Memucã sorrindo.
O jovem rei riu envergonhado e se acomodou no trono. Aquela era uma das raras vezes em que demostrava alguma fraqueza.
- Sim, Memucã, às vezes eu me arrependo de ter feito aquilo com Vasti. – Declarou o rei com o olhar distante.
- Não, o senhor fez certo, oh rei! – Repreendeu o homem de cabelos e barba grisalhos.
- Poderíamos procurar outra rainha para o senhor. – Propôs Amã.
- Sim, mas como? - Perguntou , mostrando interesse pela proposta.
- Bem – Amã respondeu, tentando conter o sorriso venenoso –, o senhor poderia convocar todas as virgens bonitas do reino para escolher sua nova rainha. Se me permite, peça para que uma pessoa em cada província escolha as mais belas para serem trazidas ao palácio. Assim, seguiria a lei que diz que a rainha deve ser do seu reino.
- Essa me parece ser uma boa ideia. – Comcordou o rei. Ele retirou o anel do dedo anelar da mão esquerda que continha o símbolo persa. – Memucã, tome meu anel real e sele esse decreto. – Ordenou, entregando a joia na mão do conselheiro.
- Sim, meu rei. – Reverenciou Memucã, saindo logo em seguida.
Amã sorriu diabólico ao beber seu vinho antes intocado. Parecia que os deuses estavam ao seu favor.

Por toda cidade via-se pessoas gritando desesperadamente. As moças eram tiradas das suas casas sem se despedir das suas famílias, iam à força pelos soldados. O caos envolvia toda Susã e, ao perceber o que acontecia, Mordecai correu até a sua casa, a fim de esconder sua prima. Viu que Hadassa ainda estava em casa pela janela e suspirou aliviado. O escrivão entrara desesperado dentro do seu lar, assustando a jovem.
- O que houve Mordecai? – Perguntou Hadassa com o cenho franzido.
- O rei está tirando todas as jovens virgens das suas casas. Parece que quer torná-las todas suas concubinas! – Disse ele de forma desesperada. – Se esconda, vamos! – Enquanto ele a empurrava, olhava para porta à procura de um sinal de qualquer soldado.
Hadassa se escondeu atrás de uma das paredes da casa, se cobriu com um lençol e se encolheu perto dos sacos de roupa. No mesmo instante, entrou alguns soldados com um baque, quase quebrando a porta em pedaços.
- Onde está a jovem que mora aqui? – Perguntou o soldado carrancudo, sem cerimônia.
- Jovem? Que jovem? – Mordecai se fez de desentendido – Aqui só mora um pobre velho, você não vê?
- Eu não estou brincando! – Ameaçou o soldado, apertando com força o pescoço de Mordecai em um simples movimento. O escrivão começara a sentir falta de ar e seu rosto ficava todo vermelho, mas ele não cedia. Hadassa não seria tirada dele para ser uma concubina do rei.
Sentindo o coração palpitar de dor ao ouvir os gritos de Mordecai diminuir, Hadassa não via outra opção a não ser sair do esconderijo.
- NÃO, POR FAVOR! – Ela gritou, saindo de seu esconderijo. – Eu vou, mas não machuquem Mordecai!
Com um sorriso satisfeito, o soldado soltou o homem, que caiu com as pernas bambas.
- Ótimo. – Respondeu o soldado ríspido, pegando o braço de Hadassa com força e arrastando-a para fora de casa.
- Eu quero um minuto com ela. – Pediu Mordecai, entregando alguns dracmas agarrados na sua cintura para o soldado.
O homem do rei contou as moedas rapidamente.
- Um minuto. – Confirmou o soldado, andando em direção à porta.
- Hadassa, não diga a eles que é judia. – Ordenou Mordecai em um sussurro. – Quando alguém perguntar seu nome diga que é , que é seu nome traduzido para o persa. de Susã. Assim você estará mais segura e...
- Vamos! – O soldado puxou a jovem sem pestanejar.
Hadassa tentou gritar alguma coisa pra Mordecai, mas desistiu logo quando o soldado fechou a porta com força em seu rosto.

Desde que fora arrancada dos seus braços, Joel andava de um lado para outro desesperado dentro da casa de Mordecai enquanto Rute chorava. O escrivão, entretanto, fitava a demonstração de tristeza dos seus amigos, pensativo.
- Mordecai! – Gritava Joel em revolta – Como eles podem? Tirar nossas filhas como se elas não tivessem valor? Para depois se deitarem com o rei como prostitutas? Como pode?
- Joel, ele é o rei. – Aquela desculpa amargava na boca de Mordecai, mas, infelizmente, aquela era a sua realidade. Ele era o rei. Ele podia qualquer coisa.
A porta foi aberta com um estrondo e o escrivão começou a perguntar-se como a madeira ainda não estava estraçalhada – com certeza ela estava sendo mais forte do que qualquer um ali.
entrou ofegante e com suas vestes pingando a suor. Tentando regularizar a respiração, o jovem perguntou aflito.
- Onde está Hadassa?
- Ela se foi. – Disse Rute com lágrimas nos olhos – Igual a . – Ela olhou pra ele, caindo em um profundo choro outra vez.

Hadassa segurava a mão de que chorava desde que a encontrou no harém; uma casa enorme perto do palácio do rei. Ela e algumas jovens tentavam acalmar as virgens que estavam abaladas por terem se separado tão violentamente de suas famílias sem saberem ao certo o que faziam ali. A única coisa que elas sabiam era que o rei havia convocado as mais bonitas virgens do reino para ser escolhida como rainha, mas ninguém imaginava que seria daquele jeito tão bruto.
- Olá, moças! – Cumprimentou Hegai, um homem baixinho, de pele bronzeada e careca com pequenos brincos nas duas orelhas. – Por que desse chororô? Alegrem-se, vocês podem ser a próxima rainha do reino!<
- Vocês passarão um tempo aprendendo a se comportar na frente do rei e irei tratar da sua beleza. – Disse Zeres, uma mulher claramente beduína, ajudante de Hegai.
Hadassa sentou-se e deitou em seu colo ainda em soluços. Cada virgem se acomodou em algum canto na sala para ouvi as instruções dos dois, atentas e curiosas.
- Parem de chorar! – Hegai reclamou, colocando as mãos no ouvido – Você! Quem é você? – Disse Hegai a Hadassa.
A jovem olhou para os lados perdida e engoliu o seco ao responder.
- . de Susã. - Acalme sua amiga! – ele ordenou. – Bem, está tarde. Amanhã começaremos as preparações. Ainda há muitas outras garotas para chegar! – Disse Hegai, batendo palmas – Vão pra suas devidas camas.
No momento, Hadassa não sabia, mas havia acabado de esconder parte de sua identidade por um longo tempo.

O quarto das mulheres era enorme. Havia incontáveis camas cobertas de linho pelo cômodo e janelas abertas, cobertas apenas pelas cortinas. Havia tochas nas paredes para iluminar tudo e, aos poucos, uma a uma escolhiam o lugar mais confortável para elas.
- “ de Susã”, puf, papo furado. – Debochou , aconchegando-se na sua cama.
- Você sabe que são ordens do Mordecai. – Explicou ela em sussurros para que ninguém ouvisse.
- Eu estou com medo. – Suspirou , engolindo o choro. – E minha família? E ?
- Medo? Medo de quê? Tenho certeza que eles não vão fazer nada com nossas famílias... Ou fariam? – Perguntou confusa, quase já se desesperando. – E ? O que tem ele?
- Nada, nada, vamos dormir. – Falou de uma vez, se cobrindo com o cobertor.

Quando ouviu aquele plano ridículo de seu pai para conquistar o trono através de uma nova rainha, ele riu. Sua casa fedia a incenso que sua mãe insistia em pôr todos os dias e ele só queria deitar e dormir. Aquela ordem do rei o deixou dopado de trabalho para fazer, e apenas de pensar em nos braços do imperador, uma dor de cabeça horrível o atacava.
- Tafnes? Vocês só devem está brincando! – Comentou incrédulo – Com toda certeza ela não é virgem! Ah, faça-me um favor! – Completou revoltado.
- Quieto! – Falou Harbona, mãe de . – Eu conheço poções que deram impressão que ela é virgem.
- Por que tanta revolta, filho? Você não quer ser um dos maiores oficiais do reino? – Perguntou Amã, arqueando as sobrancelhas.
- Sim, mas não desse jeito. – Ele respondeu.
- Não se preocupe, pai, meu irmãozinho está se sentindo ameaçado, já que a moça que ele se encontrava a semanas atrás agora será do rei. – Falou Dalfom, irmão do oficial, de forma provocante. – Bem, se Tafnes não der certo, temos essa moça que estava cortejando.
O jovem amalequita sentiu o seu sangue borbulhar. Ele cerrou o punho pronto para socar seu irmão e descontar pelo corte em sua bochecha de mais cedo, mas ele sabia que não podia – não na frente de seus pais. Levantou-se irado e marchou sem dizer mais nenhuma palavra em direção ao quarto.


Capítulo 4 – Tafnes, a Egípcia

- , isso é suicídio! Eu não vou ajudá-lo. – disse pela milésima vez ao seu amigo.
O descendente de beduíno balançava a cabeça para os lados, negando toda a ideia absurda de seu amigo em invadir o harém para resgatar Hadassa. Pior mesmo seria se alguém pelas ruas e becos de Susã escutasse tal plano e falasse ao rei.
- É só você me dizer onde é o harém. Eu mesmo vou até lá e salvo a Hadassa. – Falou , tentando convencer o amigo.
Seu amor pela jovem lhe deixara cego para ver a realidade: ela não seria sua. Não importava o quanto se esforçasse, o coração da judia estava longe de ser alcançado por ele.
- , nem a Hadassa ia querer que você arriscasse sua vida assim por ela! E se os guardas te pegarem? O rei vai tirar a sua vida e a dela! Você quer isso? – Perguntou , ainda incrédulo com a ideia do amigo.
- Está bem. – Ele suspirou – Eu não vou fazer isso.
O jovem desviou o olhar ao mentir. Não se esqueceria daquela missão nem tão cedo e, mesmo que não tivesse a ajuda de seu amigo, seguiria com seu plano.

Pelos jardins extensos do palácio, o brutamonte de cabelos cacheados e barba segurava o braço de Tafnes, a fim de que ela andasse mais rápido. Dalfom olhava para os lados atento a qualquer som de guardas vindo. A egípcia de grandes olhos cobriu-se com seu véu, assim que sentiu os lábios do amalequita lhe dá um beijo rápido.
- Vá e tente se enturmar. – Ordenou, a empurrando para frente em direção à porta do harém.
Tafnes suspirou e entrou na porta que estava meio aberta junto com os eunucos pagos por Amã para se infiltrar. Foi em direção ao grupo de mulheres que estavam na sala principal do harém, onde Hegai ensinava as garotas com tanto afinco que não percebera a pequena movimentação.
- Ande levemente, como se estivesse pisando em penas. – Falava Hegai, mexendo os quadris, fazendo as garotas soltarem uma gargalhada alta.
O eunuco cruzou os braços emburrado.
- O que é que há? Já aprenderam é? Então venha, você! – Ele apontou a , que logo desfez o sorriso – Você mesmo, qual é o seu nome? E quem você é?
- . – engoliu o seco. – Sou judia. – Respondeu nervosa e se levantou, olhando para os lados.
- Venha cá e finja que eu sou o rei. – Falou ele, levantando o queixo.
andou até ele confiante, mas ao se distrair ouvindo risadinhas, tropeçou nos pés de Hegai e levantou o olhar para ele desajeitada.
- Não é assim! Se você fizesse essa falta de respeito com o rei, perderia a cabeça! – Repreendeu Hegai. – Todas vocês vão fazer isso até aprenderem. Vamos, você. – Apontou pra Tafnes. – Venha cá!
Tafnes levantou o olhar frio e saiu andando com passos pesados e, segura de si, curvou-se devagar e depois se levantou, ainda sem olhar nos olhos dele. Hegai se surpreendeu com a classe daquela garota. O eunuco olhou-a com atenção e pediu para ela olhar em seus olhos.
- Qual é o seu nome e de onde vens? – Perguntou Zeres.
- Tafnes, sou egípcia. – Respondeu ela.
- Você anda muito confiante para uma virgem qualquer, você não acha? – Disse Hegai desconfiado, a rodeando, enquanto prestava atenção em cada detalhe dela.
- Nós egípcias somos treinadas desde criança a andar com postura. – Explicou ela com firmeza.
- Olhos de gato. – comentou Zeres ao prestar atenção nos olhos dela. – Beleza típica egípcia.
Hegai a olhou desconfiado, mas deixou aquilo passar e semicerrou os olhos à procura de outra menina para intimidar.
olhava para a janela triste, pensando em como sua vida mudara nos últimos dias. Todo o seu sonho de ir à Jerusalém havia ido por água abaixo; ela nunca voltaria a sua cidade natal. Um espírito de revolta se estalava nela.
Quem o rei pensa que é? Ele é apenas um rei, não o dono do mundo! Ele não pode dormir com todas as mulheres virgens do reino como se fosse o único que importa nesse lugar!
- , o Hegai está te chamando. – Falou , a cutucando com o cotovelo.
- Parece que de Susã anda viajando em no mundo da deusa Hidra. – Disse Hegai, fazendo as garotas rirem.
- Desculpe, senhor Hegai, não vai acontecer de novo. – Desculpou-se .
Tafnes deu um sorriso venenoso.
- São essas garotas que eu estou disputando o reino? – Perguntou a egípcia para ninguém em particular.
- Venha cá, mostre o que você sabe! – Incentivou Hegai, a chamando com as duas mãos.
respirou fundo e andou calmamente, olhando para o chão até o eunuco. Ao perceber que estava à frente dele, o reverenciou e ficou de cabeça baixa. Hegai estendeu um pedaço de madeira que supostamente era o cedro do rei, tocou o objeto e olhou para ele. Sem saber exatamente o que fazer ao sentir o olhar meio pasmo do eunuco em sua frente, ela sorriu encantando todos que olhavam pra ela no momento.
.

O mês que se seguiu atormentou como nunca em sua vida. Ele conhecia bem Hadassa; ela era linda, atenciosa e adorável. Se o rei fosse burro o bastante, talvez ela virasse apenas uma concubina, mas o jovem tinha certeza que não – o imperador poderia ser qualquer coisa, menos idiota.
Hadassa seria rainha, ele tinha certeza disso.
Mas ele não podia deixar a mulher da sua vida fugir sem lutar e, em um ato de impulsividade, se levantou, batendo a poeira da roupa disposto a resgatar sua amada.
Era noite, todas as moças do harém dormiam. não conseguia dormir; seus pensamentos estavam turbulentos naquela noite. Aquele tempo que passara não a fazia se conformar com sua posição; queria sair correndo, mas sabia que seria impossível. Bufou enquanto ficava pensando o porquê de Deus ter a colocado ali.
pisava devagar pelos arredores do harém, aproveitando a escuridão que o escondia e a falta de vigilância dos guardas. Pôs-se atrás de uma coluna quando alguns oficiais passaram. Entrou devagar no harém e viu que estava tudo escuro.
Andou com o máximo de cuidado possível para não fazer barulho e entrou em um corredor. As tochas estavam apagadas e ele entrou na primeira porta que encontrou; viu um número infinito de camas em um dos cômodos. Pisou devagar e foi até uma das mulheres que dormia.
- Hadassa? – Perguntou ele, cutucando-a. A mulher não mexera nem um pouco, olhou melhor e viu que não era ela. E repetiu o ato até a segunda fileira de camas.
- Hadassa? – Perguntou mais uma vez. estava quase caindo no sono quando ouviu o seu antigo nome. Abriu os olhos e se assustou ao ver .
- ! – Ela sussurrou em desespero – O que faz aqui? Se te pegarem, você será morto!
- Hadassa, eu vim te salvar! – Respondeu ele sorrindo ao vê-la segurando seu rosto com as duas mãos.
- , meu nome é agora. – ele a olhou confuso. pôs suas mãos sobre as dele para que as tirasse de seu rosto. Sentou-se na cama.
- , você não devia está aqui! Saia o quanto antes, não quero que... – sussurrou olhando para os lados, tentando certificar-se que ninguém acordara.
Tafnes levantou-se assustada e, ao ver a sombra de e sua silhueta masculina, soltou um grito de susto.
- HOMEM NO HARÉM! HOMEM NO HARÉM! HOMEM NO HARÉM!
Automaticamente, várias garotas acordaram exasperadas e Hegai entrou no quarto com Zeres em seu encalço.
- O que está acontecendo aqui? – Gritou Hegai, entrando no quarto segurando uma lamparina.
Colocou a mão no peito sobressaltado ao ver em pé com os olhos arregalados e os pés presos ao chão.
- Guardas, prendam-no!
Os oficiais, que nunca eram autorizados para entrar no harém, a não ser por um motivo supremo, entraram em um estrondo e agarraram os braços do judeu, antes que ele conseguisse correr até a porta.
- Não! Não! Por favor, não! – Gritou , sendo pego pelos guardas.
- Porque você veio aqui, garoto? Você sabe que é proibido, isso é suicídio. – Alertou Hegai, balançando a cabeça.
- Eu vim resgatar a minha noiva! – Disse ele nervoso, olhou pra Hadassa que pôs a mãos na boca engolindo o choro.
- Quem é ela? Me diga! – Urrou Hegai com aparência nem um pouco amigável.
- Hadassa, mas ela não está aqui, por favor, me deixe ir! – Implorou .
- Leve-o para o rei ! – Ordenou o eunuco. se debatia em vão contra os guardas, gritando por misericórdia.
deixou lágrimas caírem, sentindo uma dor insuportável no peito. seria morto, ela tinha certeza disso. Seus joelhos cederam e ela caiu sentada na cama.
- , por que tá chorando? Você conhecia aquele rapaz? – Perguntou Tafnes desconfiada.
- Não, ela só está com pena dele e assustada. – Mentiu , aparecendo do nada ao seu lado e abraçando a amiga. Tafnes lançou um olhar insatisfeito com a resposta. Ai tem coisa.
A jovem judia deitou-se na cama e seus pensamentos vieram à tona. Não conseguiria dormir naquela noite, pois perturbava seus pensamentos sobre a quase certeira morte do , seu melhor amigo.


Capítulo 5 – Amalequitas não são bem vindos

As grandes portas do salão real foram abertas, revelando dois soldados que ficavam em serviço do harém. Suas pisadas fortes faziam barulho em toda sala chamando a atenção dos que estavam no recinto. Aquela hora da noite já haviam sido fechadas as grandes janelas que faziam a arquitetura do salão ficar cada vez mais tenebroso. O rei estava pronto para se retirar para seus aposentos e se assustou ao ver os soldados entrarem sem sua autorização.
- O que está acontecendo aqui? – indagou com a testa franzida ao ver um homem tentando se soltar dos seus soldados em desespero.
- Ele foi pego invadindo o harém, rei. Ele estava atrás da noiva dele. – Falou um dos soldados, jogando-o nos pés do rei sem nenhuma delicadeza.
- Isso é um absurdo! – comentou Memucã indignado. – Nenhum homem pode entrar no harém!
O imperador apoiou seu cotovelo no joelho, abaixando um pouco a cabeça. tremia e estava incapaz de levantar o olhar.
- Quem era sua noiva? – Perguntou.
- Hadassa... – Ele engoliu o seco, evitando o olhar do rei. – Mas ela não estava lá, meu rei, por favor, eu imploro, me deixe ir! – pôs seu rosto em terra desesperado.
Ele sabia que morreria, a sentença que o rei dava a afrontas como aquela eram sempre desastrosas. Lamentou-se por não ter ouvido os conselhos de seu amigo e sentia o peso das consequências em suas costas.
- Meu rei, se me permite... – Disse Memucã, aparentando estar mais calmo – Tenha compaixão com o jovem, ele queria apenas resgatar sua amada, por mais que tenha sido idiotice.
- Você está certo, Memucã. – Concordou o rei .
- Mas não podemos o deixar impune, meu rei. – Acrescentou Amã.
- Está certo. – O imperador coçou a barba. – Não irei manda-lo para à forca.
não evitou sorrir por alívio. Entretanto, sabia que o rei não havia acabado de falar quando ele puxou um pouco do ar para continuar.
- Por entrar no harém, o lugar onde apenas mulheres podem entrar, você será sentenciado a virar eunuco e trabalhar lá todo o resto de sua vida. – O jovem desfez o sorriso, sentindo o coração palpitar de terror.
- Não, por favor, isso não! Não! Não! – Gritava, enquanto era levado pelos guardas para fora do salão.
passava pelos corredores, vendo-se como o homem mais miserável do mundo, sua vida praticamente acabaria ali. Entrou no cárcere escuro e sombrio e pensou como seria se ele não tivesse tido essa ideia absurda de salvar Hadassa. Seus pensamentos foram interrompidos quando um soldado entrou na prisão com uma adaga em sua mão.

Era de manhã. Como de costume, todas as garotas estavam do lado de fora do harém comendo e tomando banho de sol. Apenas estava dentro da casa. Seus olhos estavam inchados por ter passado a noite toda chorando e, de vez enquanto, lágrimas ainda saiam do seu rosto. Ela desejava sair dali e ver pela última vez antes que fosse morto.
- Senhora Zeres mandou-lhe essas frutas. – Ouviu a voz de um dos eunucos e levantou a cabeça, já preparada para negar quando olhou para o rosto da pessoa atrás de si. De imediato, as lágrimas inundaram seus olhos quando o reconhecimento lhe atingiu.
- ... – Ela sussurrou, pondo suas mãos na boca para não voltar a chorar. – Isso tudo é culpa minha! – Disse em prantos. – Você devia casar, ser feliz, ter filhos e agora nem é considerado homem pela sociedade!
- Eu escolhi isso, Hadassa. – Ele se agachou na sua altura – Essa foi a minha escolha.
- É agora. – Ela desviou o olhar decepcionado.
- Eu queria te fazer feliz, queria que você me amasse, mas isso não é possível. – Ele segurou sua mão – Você nunca me amou do mesmo jeito, eu tenho que me contentar com isso. Agora percebo. – Ele se levantou. – Coma, não quero que você fique fraca. Com licença.
queria que tudo aquilo não tivesse acontecendo; queria não ter que ser concubina do rei pra sempre, queria está em Jerusalém agora, queria que o casasse com alguém que o amasse de verdade, mas seus desejos não iriam se realizar, afinal, por que Deus a colocou naquele lugar?

andava pelo jardim do palácio, se afastando aos poucos inconsciente. Observava as cores que deixavam tudo parecer mais colorido do que a barraca de tecidos de seus pais. Olhou pra trás por instinto e viu que já estava muito afastada das garotas, a ponto de quase não vê-las mais. Enquanto andava de costa sentiu bater em algo, ou melhor, alguém.
- ? – Ouviu uma voz familiar, a voz que ela havia apaixonado, a voz que tanto conhecia.
- ? – Ela o abraçou com todas as forças.
- Pensei que nunca mais ia vê-la! – Disse ele, a segurando pelos braços com um semblante feliz.
tocou no rosto de com as duas mãos e a beijou. O amalequita a empurrou em uma árvore tocando seus lábios com ferocidade. Não sabia o efeito que a saudades o causara até sentir as pequenas mãos de sua amada tocar-lhe.
arquejava e soltava gemidos ao sentir os lábios macios dele beijarem seu pescoço.
não aguentava mais aquele monte de tecido lhe impedindo de sentir o corpo da judia perto do seu e, assim que teve a oportunidade, desatou o nó da faixa que segurava seu vestido e se surpreendeu quando não o repeliu e sim o ajudou a se despir.

Depois de recompor-se e comer algumas tâmaras, decidiu conversar com e avisar para ela que continuava vivo; entretanto, mesmo esticando o pescoço e tentando encontrá-la naquele mar de mulheres não tinha nenhum sinal de sua amiga. Distraída, não percebeu quando a egípcia se pôs ao seu lado.
- , o que tanto procura? – Perguntou Tafnes.
- Nada. – Respondeu mecanicamente, ainda sem olhar para a egípcia.
Tafnes ainda estava pensando no que havia acontecido entre e o homem que havia entrado no harém. Aquilo estava a perturbando e a procura pelo “nada” da jovem apenas lhe fazia criar hipóteses em sua cabeça.
O rosto da judia se iluminou ao ver arrumando seu vestido.
- , onde você estava? – Perguntou , indo em direção à sua amiga.
- Eu? Por aí. – Ela respondeu ao ver que Tafnes mirava-as com seus olhos de gato.
Quando virou-se para checar o que sua amiga tanto fitava, Tafnes desviou o olhar para a mesa a dois metros dela.
puxou sua amiga para um lugar mais reservado no jardim onde ninguém poderia a escutar e sussurrou.
- Eu estive com o . – Disse animada. – Ele disse que vai me resgatar!
- , você está maluca? Por que continua a se encontrar com esse rapaz? Se o senhor Hegai descobrir? – Falou preocupada – Você quer que também seja eunuco, é? Ou pior, que ele seja levado à forca?
- Calma, ! – Respondeu - Relaxa. Espera! Eunuco... Também? O que você quer dizer com...
- Garotas, vamos entrar! – Interrompeu Hegai – Banho de mirra pra todas! – Disse animado.
As mulheres rapidamente entraram e foram até a grande piscina do harém. Apenas ao adentrar ao cômodo era possível sentir o delicioso perfume de mirra. Elas tiraram suas vestimentas com ajuda das servas e mergulhavam;
fechou os olhos e enfiou-se por meio da água. A jovem tentava esquecer tudo que estava acontecendo, o fato do ser eunuco e que não iria pra Jerusalém. Ela sempre pensava que encontraria o amor da sua vida, que seu coração seria conquistado por alguém antes de tudo. Era horrível pensar que seria forçada a dormir uma vez com o rei e nunca mais o veria, afinal, porque ela seria rainha? Com certeza Tafnes seria coroada. Por mais que ela não gostasse a ideia de tê-la como imperatriz, admitia que ela tinha a beleza que uma rainha deveria ostentar.

O imperador bocejou e se sentou largado no trono. Olhou para o lado e percebeu que Ananias aparecera em frente da porta de trás, um sinal discreto que alguém estava lhe esperando.
- Quem está lá fora? – Perguntou.
- O oficial veio da região do oeste falar com o senhor, meu rei. – Respondeu Ananias, se retirando logo após para chama-lo.
entrou no salão real com um sorriso no rosto, um sorriso bastante conhecido pelo que era amigo desde criança dele. Arrumou a espada que segurava na bainha e andou em passos decididos até o rei, fazendo uma leve reverência ao chegar perto.
- , quanto tempo, não? – Disse se levantando para cumprimentar o amigo. – Como vão as coisas por lá?
- Vai bem, imperador. – Respondeu, ele apertando sua mão.
- Ótimo, porque tenho uma proposta para você. – Falou - Eu quero pedir pra que você fique aqui e seja o capitão da guarda real. – Sorriu de forma persuasiva.
- Mas como ficarão as províncias do oeste? E Balak? Ele desistiu de seu trabalho? – Desatou em perguntar o oficial.
- Balak está velho, é mais do que a hora de se aposentar. Você ficará responsável pela segurança do palácio e da fortaleza de Susã e qualquer homem que você indicar se tornará chefe da guarda das províncias do oeste. – Explicou o rei sorridente.
- Tudo bem. Será uma honra servi-lo por aqui. – ele concordou profissionalmente.
- Quero que more aqui no meu palácio o quanto antes. Bigtã e Teres lhe levará para seus aposentos. Você e sua esposa serão bem recebidos. Já tem filhos?
- Eu ainda não sou casado. – Disse o oficial um pouco constrangido.
- Não? – O rei franziu o cenho. – Você ainda não se agraciou por nenhuma mulher? Há tantas no reino... Quem sabe você não encontra alguma por aqui? – Sugeriu o rei, cutucando o com o cotovelo – Bem, vá até e os seus aposentos, você deve está cansado de viagem. Bigtã! Teres! Vão! – Ordenou o rei, chamando os respectivos eunucos que aguardavam suas ordens no canto do salão.

Joel carregava alguns tecidos novos para levar a sua venda quando avistou Dalfom, um dos amalequitas, na sua barraca. Ele conversava algo com sua esposa de forma quase ameaçadora despertando uma fúria no judeu. Determinado em expulsá-lo, apressou o passo.
- O que faz aqui? Amalequitas não são bem-vindos! – Gritou Joel ao vê-lo. O amalequita olhou o judeu de cima pra baixo com nojo.
- É uma pena que sua filha não pensa isso. – Ele coçou a barba. – Eu só queria avisar que a sua querida filha estava se encontrando com meu irmão desde antes de entrar no harém. – Falou Dalfom extremamente cínico.
- Impossível! Minha filha... – Joel olhou para sua mulher. Rute estava assustada e olhou desconfiada para ele. – Você já sabia disso, Rute? Eu não acredito minha própria família está contra mim!
- O ar daqui está ficando poluído. – Dalfom fez uma careta e se retirou em seu andar pomposo.
O judeu fitou a sua esposa, atônito.
- Eu posso explicar. – Aquelas palavras a denunciaram.
estava se encontrando com uma daquelas amalequitas que ele odiava. Aquele fato fez seu sangue ferver e a dor do desapontamento perfurar seu coração.
- Cale a boca. – Resmungou o homem para sua mulher e jogou os tecidos em cima da barraca. Sentindo que iria explodir a qualquer momento, Joel saiu com passos pesados pela multidão do comércio, deixando sua esposa falando sozinha.

andava pelas ruas de Susã despreocupado. O movimento estava grande e vez ou outra ele parava para checar algumas frutas que eram vendidas apenas para conhecer melhor a cidade. Parou subitamente quando um homem com quipá passou como um raio em sua frente. Alguém, no entanto, não teve o mesmo reflexo, batendo com força em suas costas. Rapidamente o oficial se virou e segurou os braços da mulher que segurava um jarro em uma das mãos.
- Oh, desculpe-me. – Disse ele.
- Não foi nada. – Falou ela, evitando olhar nos olhos dele.
moveu sua cabeça para ver melhor seu rosto e se perdeu em olhos marcantes e sombrios, cheios de temor da mulher. Ela tinha um corpo esbelto e não parecia ser muito nova.
- Está tudo bem, não precisa ter medo. – Assegurou ele, a mulher soltou um sorriso tímido.
- Obrigada. – Ela levantou seus olhos e finalmente encarou-o.
- Eu... – Disse começando a se apresentar.
- ! – Alguém a chamou, uma voz alta e forte. – ! Onde você está?
- ? Esse é o seu nome? – Indagou o .
- É, esse... – ela olhava pra trás parecendo nervosa. - Eu tenho que ir. – apressou os passos, segurando o jarro contra seu corpo.
continuou olhando-a até se desaparecer em meio da multidão. Com certeza não tinha visto beleza igual em toda sua vida. Pensou em segui-la, mas juntou as peças: ela era uma moça casada só pelo fato de não está no harém junto com as outras mulheres virgens. Balançou a cabeça, pensando que assim pararia de criar teorias sobre a mulher que tinha esbarrado.
Não poderia estar mais enganado.


Capítulo 6 – A filha de Memucã

O jardim do palácio costumava ser sempre vigiado por guardas que perambulavam entre as árvore. Porém, na troca de guarda sempre, possibilitava alguns minutos até que tudo normalizasse. Sabendo disso, olhava para os lados para ter certeza que estava sozinho naquela parte desértica do jardim. O amalequita caminhou a passos largos até a porta do harém, repassando o plano para resgatar em sua cabeça – apenas conseguia pensar nela em seus braços desde a última vez que esteve a segurando como se sua vida dependesse dela.
- Onde você pensa que vai? – Perguntou Dalfom com a mão no peito de , assustando-o.
- A lugar nenhum. – Ele desviou de seu irmão e continuou andando.
- Se você fazer qualquer gracinha com a judia, eu conto tudo ao nosso pai e, com certeza, ele fará tudo pra que ela morra. – Dalfom falou cinicamente.
estremeceu, parando no meio do caminho. Virou o rosto e olhou para seu irmão com ódio. O amalequita nunca entendeu o porquê de seu irmão sempre querer estragar a sua vida.
- E o rei ia adorar saber sobre a nossa querida Tafnes, não é? – Ele sorriu sem humor – A sua querida Tafnes... Lembro-me do dia em que entrei em casa e você e Tafnes estavam, vamos dizer assim: com trajes deixando a desejar... – Ele soltou uma risada.
- Faça isso e eu lhe matarei! – Ameaçou Dalfom, apertando o pescoço de em um golpe rápido. – Você acha que eu ligo se você é meu irmão ou não? Eu não sou nenhum religioso! – Ele soltou o pescoço do seu irmão, fazendo o cair no chão e saiu andando sem olhar para trás.



olhava para os lados à procura da . Nas últimas três semanas, depois de comer, sumia e depois voltava com uma felicidade súbita. A judia sabia o que acontecia e não apoiava isso. Era bonito o amor dos dois, porém temia que alguém os descobrisse.
Diferente dos outros dias, se aproximou de com uma feição decepcionada.
- Aconteceu algo? – Perguntou a amiga preocupada.
- não veio. – Ela bufou.
- Vai ver entrou um pouco de juízo naquela cabecinha oca. – Comentou , indo em direção à mesa de comida que havia no meio do pátio do harém.
pegou um prato e olhou em volta da mesa ponderando no que comer, mas ao ver que o atrativo principal era porco, ela sentiu o estômago revirar por ter um animal tão imundo como aquele para comer.
- Argh, porco! – Resmungou ela, colocando o parto de volta do lugar.
- Não vai comer porco, ? – Perguntou Tafnes, curiosa. – tudo bem, porque ela é judia, mas e você?
- Eu só não estou com fome, Tafnes. – Respondeu firme.
Hegai bateu palmas, chamando a atenção.
- Meninas! – Ele disse – Entrem. Vamos ensinar a vocês mais sobre comportamento, entrem! – Incentivou, animado.



- Acredito que seja apenas isso, . – Concluiu o rei ao discutirem sobre a segurança do palácio durante a chegada dos líderes amonitas para uma reunião com o rei.
- Tudo bem. – Falou o capitão, fazendo um pequeno aceno com a cabeça.
Entretanto, ele continuou ali encarando o jovem imperador, se perguntando se tirar suas dúvidas sobre a mulher misteriosa que rondava em sua mente nas últimas semanas.
- Mais alguma coisa? – Indagou o rei, sugestivo.
- Bem... – Ele coçou a garganta. – Estava imaginando se o senhor não conheceria algum oficial casado com uma mulher chamada Tamar.
- Tamar? – Memucã, que parecia alheio à conversa, bebendo seu vinho, despertou um pequeno interesse. – Onde você a conheceu?
coçou a garganta se sentindo desconfortável.
- Há algumas semanas esbarrei nela sem querer. – Comentou, tentando demonstrar desinteresse em seu tom de voz. – Apenas fiquei curioso, ela parecia nobre.
- A única Tamar que conheço dessa cidade é a filha de Memucã. – Respondeu o rei. – Mas ela não é casada. Talvez você confundiu o nome dela.
- Tenho certeza que escutei chama-la de Tamar. – replicou.
- Ela estava sozinha? – Perguntou o primeiro ministro curioso.
- Sim, segurava um jarro de barro. – Explicou .
- São poucas informações, não acha? – Comentou o homem. – Talvez lhe apresente minha filha e você me dirá se é ela ou não.
assentiu.
- Tenho certeza que gostará de conhecer Tamar. Ela é uma mulher encantadora. – Disse um dos conselheiros, mexendo o pouco que restava do vinho em seu cálice. – E é solteira, aliás.
- Não se anime muito, capitão. Não é qualquer homem que casará com Tamar. – Advertiu Memucã, sádico.
O rei soltou uma risada.
- Bem, acho que isso é tudo. – Finalizou o rei.
acenou e saiu, pensando se comentar sobre Tamar naquele momento foi uma boa escolha.



Joel se sentia devastado – nunca imaginara que sua filha se envolveria com um amalequita. Aquele povo, desde a época de Moisés, perseguia os hebreus por pura ganância. Não havia um motivo para o ódio entre esses povos a não ser um sentimento de derrota que os filhos de Amaleque traziam em seu coração.
O judeu sabia que em algum momento ele teria que perdoar sua filha. Não podia odiá-la, era a única que poderia continuar sua descendência. Entretanto, pensar em casando-se com um amalequita lhe causava nojo e mal estar.
Por esse motivo, Joel decidira concentra-se em sua raiva e decepção pelas próximas semanas.

fitou as costas de sua amiga, procurando o brinco pelos arredores do harém. Ela pensou em se oferecer para ajudar, mas as palavras de naquela manhã a deixaram pensativa.
Não aguento mais ter você comigo apenas às escondidas!”, disse ele. “Mas meu irmão não está me vigiando, não posso fugir com você.
Ainda podia senti as suas grandes mãos calejadas segurando seu rosto.
‘‘Eu te amo e vou tirá-la daqui.
Era o que a judia mais desejava nos últimos dias. Se sentia sufocada no harém e, por mais que tivesse uma comida divina, não aguentava mais aquele lugar. Entretanto, pensar que estava arriscando-se depois do que tinha acontecido com a deixava apreensiva. Por ele, poderia esperar até a eternidade, desde que não machucassem seu amado.
Dentro do salão do harém vazio, procurava um dos seus brincos que tinha caído, impaciente. De repente, um gemido foi escutado pela judia. Curiosa, ela se aproximou das colunas do cômodo procurando de onde vinha aqueles barulhos. Sua curiosidade, no entanto, foi substituída por susto quando avistou Tafnes com o vestido levantado e as pernas ao redor da cintura de um oficial. Facilmente identificou-o como Dalfom, irmão de – conhecia aquele cabelo enroladinho de longe.
- Tafnes? – Falou com os olhos arregalados. Dalfom afastou-se de Tafnes assustado, sem saber o que falar para a judia.
- O que vamos fazer? Ela vai nos dedurar! – Disse Dalfom receoso, ignorando a presença da garota.
- Deixa que eu resolvo. – A egípcia falou entediada – Vai, vai, vai. – incentivou Tafnes, empurrando o amalequita. – E você – Ela se virou para . – Se você contar ao senhor Hegai... – Não se preocupa, Tafnes; eu não contarei nada ao senhor Hegai. – Ela respondeu rapidamente. Nunca foi dedo duro e sabia que não ganharia nada com isso.
- Que ótimo! Até porque imagina só a cara do Hegai ao saber que sua amiguinha judia está dando umas saidinhas, hein? – Falou Tafnes fazendo enrijecer. – Isso mesmo. Sei do que sua amiga tem com . – Concluiu, saindo de lá e com um sorriso debochado.
Com o coração acelerado, fitou as costas da egípcia desesperada. Ficar com a boca fechada nunca foi tão requisitado nos últimos tempos.


Capítulo 7 – Tempo

andava pelo jardim da casa de Memucã ansioso. Nunca tinha se posto àquela situação e ele só conseguia achar aquilo extremamente ridículo. Por que estava com as mãos suando, afinal? Por que estava exasperado enquanto pensava em uma mulher qualquer?
Quis dá um soco em seu próprio rosto por ter escolhido aquelas palavras.
Era claro que Tamar não era uma mulher qualquer.
Ele primeira vez que vira uma mulher e desejava aquilo; queria a cortejar, pagar seu dote e casar-se com ela. Esse era seu plano.
E depois do que o primeiro ministro o alertou, sua preocupação em o que fazer na presença da mulher aumentou gradualmente.
Tamar não era virgem, mas isso ele já tinha deduzido. Por mais que se sentisse incomodado com a ideia da sociedade a considerando desonrada e a olhando com desprezo, o capitão não se incomodava, principalmente depois de descobrir que a sua falta de castidade não vinha de uma atitude para envergonhar a sua família.
sentia o sangue ferver apenas ao imaginar que Tamar havia sido violentada ainda menina; uma criança! E o pior: por seu professor de harpa que pedira para casar-se com ela. Era confortador saber que Memucã não concordava com aquele costume e, por mais que ele não tenha confirmado, o capitão tinha quase certeza que fora ele quem encomendou a morte sem pistas do professor de música.
Aos olhos de a morte era tudo que homens perversos como aqueles mereciam.
Quando se virou, deteve-se nos olhos da mulher. Não havia muito temor como da primeira vez que a vira e ao ver a expressão de curiosidade de Tamar, soube na hora que ela o reconhecia.
- Esse é o amigo que eu falei, minha filha. – Disse Memucã.
- Capitão , prazer. – ele acenou. – Mas prefiro que me chame de oficial. Não consigo me acostumar com essa formalidade. – comentou.
- Prazer, meu nome é Tamar. – Respondeu, segurando seu olhar.
Os segundos se passaram constrangedores para o primeiro ministro que fitava a troca de olhar dos jovens em sua frente sem entender muita coisa. Era uma conversa silenciosa em busca de uma confiança pré-instalada neles. Tamar não esperava ver aquele homem de novo, mas deixara seus pensamentos levarem as possibilidades de encontro. Contudo, imaginava que o homem estranho era nada mais do que um mero oficial do rei que andava perdido pelas ruas de Susã. Seria mentira dizer que a mulher não sentiu feliz em saber que o reencontrara, principalmente porque ele fora o primeiro homem do rei que não a tratara de forma ofensiva. Não era de se admirar que ele era capitão, os outros soldados eram homens brutos e totalmente sem escrúpulos. Enquanto ouvia o diálogo entre seu pai e o homem, não conseguiu desviar de seus olhos. Tamar sentia uma coisa estranha no estômago ao perceber que ele a fitava do mesmo jeito e, mesmo com aquela postura séria, ela não se sentia repelida – pelo contrário, estava sendo atraída mais e mais a ele.
- Acredito que a mudança do dia do festival é algo vantajoso. – Comentou Memucã.
- Estou certo que sim – Respondeu o jovem capitão.
A mulher sabia o porquê de seu pai ter o convidado para conhecê-la e ideia não era de toda ruim. Tamar já havia passado da hora de se casar e todos sabiam que ela não era mais virgem – uma vergonha para sua família – entretanto, o primeiro ministro nunca a entregaria para um homem qualquer apenas para tirar o peso da família.
foi o primeiro pretendente que tivera que não a desagradara.
Antes que perceber-se, ela estava lá aceitando sofrer aquilo de novo, mas pelo seu pai. Precisava retribuir o favor de ter cuidado dela por tanto anos, mas antes, precisava tirar a prova a limpo.
- Oficial – chamou a mulher. – O que você acha sobre o papel da mulher na sociedade em que vivemos?
O capitão levantou as sobrancelhas, surpreso pela pergunta, enquanto o primeiro ministro deu uma risadinha ao ver que sua filha entendera o recardo – bastava agora o oficial responder certo.
- Acho que elas são cruciais para nossa sociedade. – disse ele, lembrando-se vagamente de ouvir essas palavras de seu pai já morto. – Não só na parte dos filhos e cuidar da casa, mas se elas não controlam, nós homens estaríamos perdidos. Aparentam ser frágeis, porém as aparências podem enganar.
- Que pensamento modernista, capitão. – Disse Memucã, fitando sua filha totalmente abalada pelas palavras do homem que acabara de conhecer.
O homem virou-se para Tamar e se segurou para perguntar se ela estava bem. A filha de Memucã parecia perturbada e tinha um brilho quase insano no olhar. Nunca imaginou que um dia escutaria aquelas palavras e a simpatia que sentia pelo capitão aumentou gradualmente.
Depois de se despedirem, no momento em que estava sozinha com seu pai, ela disse:
- É ele.
Seu pai coçou a barba branca com um sorriso conspiratório.
- Eu já sabia.



Aquele tratamento de beleza que as mulheres do harém passavam, deixava desconfortável. No começo era interessante e novo, mas com o tempo tudo ficou entediante. Sentia falta de passar as manhãs fazendo alguma coisa de útil em sua casa ou sentar para ler para as crianças da cidade. Ainda tinha a saudade que sentia de seu primo e pai adotivo. Não fazia a menor ideia de como estava lidando com a separação e o possível fato de nunca revê-lo.
Apenas em pensar nisso, sentia um tremor em seu corpo.
Estava ali para se deitar com o rei e depois ser esquecida pelos cantos do palácio. Nunca veria seu primo outra vez ou conheceria Jerusalém – aquela altura, não ir a sua cidade natal era o de menos. Pensar em ter que se entregar para um homem que não conhecia e idólatra.
Ao seu lado, mantinha-se calada enquanto as servas passavam um tipo de óleo em seu corpo. Desde o dia que avisara que não poderiam mais se encontrar, a jovem começou a ser mais cautelosa.
Tinha quase certeza que seus pais já sabiam sobre seu relacionamento; receio do que eles sentiam e falta que faziam lhe corroía por dentro. Entretanto, não perdera as esperanças em fugir do harém – nem mesmo cogitava a possibilidade de dormir com o rei, mesmo que já se passassem meses. Entretanto, havia uma pontada de medo de ser descoberta no fundo de seu coração, e ela faria de tudo para esconder.

Todos os dias Mordecai passava pelo pátio que separava o harém do palácio à procura de informações sobre e . havia se tornado o seu principal mensageiro, fazendo-o se sentir mais calma em relação a sua filha adotiva. Mesmo que não lhe chamasse de pai, fora criada como descendente seu. Desde sempre a menina tinha empatia com ele e, depois de perder seus pais, o primo foi tudo que restou de sua família. Naquele dia atípico, Mordecai levava alguns pergaminhos para os magos do palácio. Fazia apenas minutos que tinha se informado sobre como se sentia e estava grato por saber que ela estava bem.
No caminho do corredor, cumprimentava conhecidos e aqueles que desconhecia acenava por educação. Chegando perto da sala do curandeiro chefe e sua assistente, Amã saiu de uma das salas. Rapidamente os guardas o reverenciar em respeito, mas Mordecai continuou ali de cabeça erguida.
Havia algo em Amã que deixava o escrivão perturbado; talvez fosse aqueles olhos escuros e maldosos ou o seu andar pomposo pelos cantos. Nem mesmo o rei que era considerado um homem orgulhoso andava com tanta avidez.
Continuou andando ao seu destino quando sentiu a mão do ministro do rei segurar-lhe o ombro.
- Me reverencie! – Disse o homem com rispidez.
O escrivão era baixinho perto daquele homem com porte de guerreiro e o símbolo persa que carregava no peito, entretanto, Mordecai não se abalou e fitou seus olhos sem hesitar.
- Apenas devo-me reverenciar ao Deus vivo e ao meu rei em respeito. – Falou com a voz firme.
O corredor ficou silencioso e Amã enviou olhares para o judeu contendo toda sorte de palavras torpes. Vendo que Mordecai não se abalava, empurrou o seu ombro e saiu pisando duro pelo palácio.
O escrivão teve um pouco de dificuldade para manter o equilíbrio e acabou deixando cair três pergaminhos. A assistente do curandeiro apareceu e o ajudou a juntá-los.
- O senhor não deveria bater de frente com um homem como Amã, Mordecai. – Disse ela, assim que se levantaram.
era uma mulher bonita de traços beduínos, entretanto, não sorria muito. Havia se tornado viúva cedo e logo fora trabalhar no palácio para ficar mais perto de seu irmão.
- Tenho meus princípios. Não vou me submeter a essa afronta ao que acredito por causa de um homem qualquer. – Respondeu o escrivão, entregando todos os pergaminhos.
- Obrigada. – Agradeceu a mulher – Saagaz prometeu me entregar pessoalmente, mas ele está muito ocupado.
Mordecai deu um sorriso compreensivo se perguntando quando começaria a chamar seu irmão pelo nome que escolhera para si. Ananias um dia poderia se zangar por causa daquilo.



Memucã não se surpreendeu quando, semanas depois, o capitão da guarda real lhe procurou para saber qual o valor do dote de sua filha; também não ficou nem um pouco surpreso no momento em que dissera a Tamar e a vira fiar animada com aquela ideia.
A única coisa que não esperava foi o desejo do jovem capitão ao querer cortejá-la por mais um tempo. O primeiro ministro sabia que a parte do cortejo era a mais deliciosa fase da juventude, mas tinha consciência que passar por ela era torturante e enchia qualquer um de ansiedade – ainda mais um oficial, que costumava sempre se envolver com diversas mulheres. Decidiu, então, que aquele era apenas mais um costume das bandas do oeste que o capitão trouxera para a capital do Reino Persa.
Tamar, contudo, não poderia ter ficado mais encantada com a atitude do rapaz. Por mais que tivessem pouco tempo juntos, ele sempre mantivera as mãos atrás das costas, em uma distância razoável e mostrava gostar da companhia da mulher, mesmo em eventuais silêncios que os acompanhavam em seus encontros.
tentava ser o mais cordial possível e amizade e companheirismo cresceram no casal sem que dessem conta.
O capitão não estava com pressa para casar-se com ela, pois sabia que não se deitaria nem tão cedo com a mulher. Respeitaria seu tempo, seja ele qual for, pois, depois de conhecer a filha de Memucã, sentia uma necessidade estranha de protegê-la e a deixar confortável. Embora tivesse curiosidade de sentir o sabor de seus lábios e conhecer o que ela escondia debaixo de seus longos vestidos e véus, a boa educação que recebera do pai não o permitia tocar na moça sem seu consentimento.
Na última noite como noivos, o minuto em que os servos que os acompanhavam se distraíram, o capitão confidenciou.
- Esperarei o tempo que for preciso.
Tamar fez o parar para fitá-la. A mulher sentiu um alívio tão grande no peito que não conseguiu evitar o suspiro.
- Obrigada, oficial. – Dissera ela, o chamando pelo nome sugerido, mesmo que sentisse que capitão era o nome perfeito para chamar alguém como ele.
sorriu e esticou a mão para tocar seu braço para fazer um afago íntimo. Por reflexo, Tamar encolheu-se com aquele toque assim que sentiu os dedos calejados do homem tocar-lhe pela primeira vez. Assustado e com um sentimento recluso dentro dele, o capitão afastou rapidamente.
- Desculpe-me. – Disse às pressas.
A mulher quase chorou de frustração. Para ela, era ridículo ainda ter tanta dificuldade de receber um simples carinho, principalmente pelo homem que seria seu marido.
No outro dia, na pequena festa que fizeram em comemoração ao casamento, Tamar passou a maior parte do tempo com o sentimento de estar deslocada. O olhar acusatório que recebia das pessoas por não estar tendo um casamento de verdade lhe deixava desconfortável; mesmo que repetisse para si que não era sua culpa aquilo, às vezes achava que ela poderia ter evitado que tivesse acontecido isso.
Decidiu, então, manter-se ao lado do seu futuro marido que sorria como nunca. Sua gargalhada era ouvida nas conversas entre seus amigos, antigos oficiais, ao contrário de seus homens, que eram sempre cumprimentados seriamente por ele. A mulher deduziu que aquilo era como lidava com a autoridade, entretanto, fazia questão de ser simpática com todos os convidados do noivo.
Ela não poderia negar que sentia uma quentura entranha no peito quando, diante de todos, demonstrava orgulho em ter se casado com ela. Não sabia a mulher que cada vez que ela sorrira, fosse para os convidados ou para seu noivo, mais aumentava a certeza do capitão que casar com Tamar era a opção certa. Depois que a festa acabou e os dois receberam a bênção de Memucã e dos deuses, a levou para o palácio, onde estivera morando desde que se mudara para Susã. No caminho, em um silêncio confortável, Tamar não podia ficar mais nervosa. Sabia o que o capitão confidenciara, mas o medo de que ele tentasse alguma aproximação e ela recuasse como um filhote desprotegido lhe perturbava. Ao chegar aos aposentos de seu marido, admirou-se ao perceber que era quase do tamanho de uma casa – sabia que o palácio era enorme, mas não daquele jeito. apresentou os quartos, a pequena sala e uma cozinha pequena que aparentemente era intocada. Explicou que geralmente comia com o rei, por isso os servos geralmente não cozinhavam apenas para ele.
- Amanhã lhe apresentarei suas servas e elas buscarão suas coisas em sua casa, está bem? – Explicou o capitão.
A mulher concordou sem dizer nenhuma palavra quando ficaram em frente ao quarto bem arrumado coberto por lençóis vermelhos como sangue; o lugar onde os dois dormiriam.
Automaticamente, sentiu seu corpo ficar tenso e o coração palpitar no peito. Entretanto, não era uma sensação toda ruim. Dormir na mesma cama que alguém requeria uma intimidade e confiança que apenas marido, mulher, pais e filhos poderiam ter. Será que quando eles entrassem tentaria beijá-la ou agarrá-la? Ela sentiu um bolo subir a garganta com aquele pensamento.
Contudo, arqueou as sobrancelhas quando saiu de frente da porta, atravessando o corredor em direção ao outro quarto.
- Boa noite. – Desejou ele, abrindo a porta.
- Mas... Você não vai dormir comigo? – Perguntou confusa.
O capitão acompanhou sua expressão, não entendendo o porquê da sua pergunta.
- Pensei que preferisse ficar sozinha. – Respondeu, não entendendo a atitude de sua esposa.
Ela hesitou, analisando o caso.
Seu marido estava sendo tão cordial e bom com ela que parecia que ele era idealização de sua cabeça, não uma pessoa real. Aquele homem havia renunciado sua noite de núpcias por ela e, logo, constatou que nem mesmo a tocara! estava colocando os desejos dela acima de suas vontades e não havia atitude mais nobre do que aquela.
Poderia muito bem fazer um esforço ao menos uma vez.
- Acho que me sentiria mais segura se você dormisse comigo. – Comentou. – Na mesma cama, quero dizer.
travou uma luta interna para não comemorar na frente de sua esposa e parecer um idiota. Manteu a expressão neutra e deu os ombros, voltando ao quarto que pedira para separar para ela.
Deitados na cama, cada um para seu lado, o capitão se encolheu pela esquerda, querendo deixá-la mais confortável possível. Não sabia ele que Tamar fitava suas costas sem conseguir dormir nada, pois estava energética demais para pegar no sono. Pelo tecido fino da roupa de dormir, a mulher podia ver os músculos de seu marido tencionados de um jeito que nunca vira antes em outra pessoa e sem perceber, esticara a mão para tocar. Os dedos finos e delicados da mulher desenharam os contornos da pele do capitão que sentira um arrepio delicioso descer pela espinha. Nunca ansiara tanto por um toque quanto naquele momento, mas não sairia do lugar.
Minutos depois o toque pareceu mais fraco e logo parou. Tamar havia pego no sono mais rapidamente do que imaginara; a segurança de ter o corpo de alguém que confiava perto espantou seus pesadelos, enquanto seu marido se arrependia amargamente de ter aceitado dormir na mesma cama que ela.

estava altamente estressado nos últimos meses, mas a notícia que recebera mais cedo havia melhorado seu humor de forma que nem mesmo o vinho conseguia.
De acordo com as leis de purificação das mulheres, se passaram seis meses de banhos de óleo de mirra e mais seis de banhos com especiarias para purificação; as virgens do harém estavam prontas para dormirem com o rei.
Entretanto a animação do imperador foi momentânea. Se aquilo acontecesse há um ano, ele estaria mais do que pronto para dormir com as mulheres mais lindas do reino, mas algo mudara em si; ele sentia uma responsabilidade maior em suas costas desde que passara a prestar mais atenção no seu povo. Não podia escolher uma mulher qualquer para ser sua esposa. Embora fosse bonita, ter uma companheira ao seu lado era o principal objetivo; quem sabe até se apaixonar. Só de pensar em todas as mulheres que entrariam em seu quarto, as têmporas doíam; queria voltar atrás e não ter exilado Vasti por aquele motivo tão supérfluo. Vasti foi uma rainha bonita e os persas pareciam gostar dela, mesmo que tivesse uma postura pomposa. Deitado em sua cama com o quarto escurecido pela noite, o rei apenas decidiu esperar pelo que aconteceria.
O harém, contudo, estava um caos. As moças corriam pelos lados apressadas para o salão principal desde que Hegai convocara todas elas; algumas ainda continham cremes coloridos pelo corpo ou no cabelo e as servas aos seus pés pedindo para que voltasse a sala de banho.
flagrou a cena de Aisha, uma amonita, correr para o salão apenas com uma toalha que cobria até metade de suas coxas, esbarrando em , que segurava uma bandeja vazia. O eunuco ficou sem reação e as bochechas vermelhas como pimenta ao ver as pernas alvas e sedosas da moça, porém, ela nem pareceu perceber sua vergonha – estavam todas acostumadas em ver a nudez uma das outras. andou calmamente até o salão com três das sete servas que ganhara de Hegai, inclusive , uma jovem que se tornou mais do que uma serva para ela, – a judia ainda não entendia o porquê da preferência do eunuco-chefe em relação a ela, mas estava grata por alguém tomar conta de si naquele lugar estranho. Percebendo que todas as garotas estavam no cômodo, Hegai bateu palmas para que se calassem. O silêncio ansioso se apoderou das meninas que olhavam o eunuco com expectativa para o que diria; , no entanto, não se importava com o que acontecia ao seu redor, só queria sair, pois estava se sentindo enjoada demais com cheiro de diversos perfumes no ambiente.
- Como vocês sabem, hoje acaba o ritual de purificação de todas você. – Explicou o eunuco. – Amanhã pelo final da tarde uma de vocês entrará no quarto do rei e terá a honra de dormir com ele, se tornando uma de suas concubinas. Entretanto, se ele a chamar pelo nome para deitar-se com ele pela segunda vez, o rei a tornará rainha do Império Persa. mirou a animação das virgens, se sentindo traída. No dia em que foram arrancadas de casa, as moças preferiam jogar suas cabeças aos cães em vez de se deitar com rei, mas era só colocar a coroa e a riqueza que receberiam a se entregarem como meretrizes, que a avareza clamava mais alto.
- Irei sortear o nome de quem vai ser a primeira a se deitar com o rei. – Disse Hegai animado, pedindo para que Zeres se aproximasse com uma caixa cheia de nomes.
Um aperto frio em sua mão a fez vira-se para o lado, fitando sua amiga com o olhar temeroso e então uma informação recorrente invadiu seu cérebro.
não era virgem.
Exasperada e com medo de que algo acontecesse com sua amiga, começou a preferi que seu nome saísse ao de .
- E a nossa primeira garota é... – ele fez uma parada dramática. – Tafnes!
e soltaram um suspiro de alívio ao ouvir o nome da egípcia. Provavelmente nem precisariam se deitar com rei depois, pois, em suas cabeças, estavam diante da próxima rainha da Pérsia.


Capítulo 8 – Um plano: matar o rei

Tafnes passou a mão pela sua roupa vermelha enquanto olhava para o espelho da casa do tesouro. Seus braços faziam um pequeno barulho quando as pulseiras do pulso batiam umas contra as outras em seus movimentos. A egípcia estava repleta de joias e se sentia preparada para encontrar o rei. De postura ereta, Tafnes era relativamente alta e sua peruca preta batia em sua cintura.
- Eu já estou pronta, Hegai. – Confirmou Tafnes ao ver o eunuco pelo reflexo do espelho.
- O rei já vai lhe chamar. Espere apenas alguns minutos que Ananias já vem junto com os soldados. – Avisou o eunuco, ficando de lado de Tafnes.
A mulher mantinha o sorriso perverso de lado, imaginando quais artifícios usaria para agradar o rei. Soltou uma gargalhada infame e o eunuco olhou para ela sem entender o porquê do riso repentino. Tafnes não se intimidou com a careta confusa de Hegai e voltou a analisar o seu reflexo.
Em sua cabeça, aquela noite era a chance que estava esperando. Seria rainha da Pérsia e ninguém a impediria.

O rei sentia que sua cabeça poderia explodir a qualquer momento. Todos os problemas do povo o deixava agitado e o fato de que teria que escolher sua rainha também o deixava aos nervos. Entretanto, não era lá uma atividade ruim. Depois de tomar banho, vestiu-se com uma túnica e deitou-se exausto.
Ananias apareceu logo depois com as mãos escondidas atrás das costas e passos leves. Dispensou apresentações, pois o rei o direcionara um olhar assim que entrou no cômodo.
- Senhor, posso trazer uma das moças do harém? – Perguntou Ananias na porta de seu quarto.
- Sim. – Respondeu, não sabendo o que esperar daquela noite.

Dalfom não imaginou que os deuses o escutariam quando, ainda menino, pedira que morresse. Sempre o preferido, sempre o privilegiado – seus outros oito irmãos, entretanto, por serem velhos demais e já tomarem conta de suas próprias vidas, nunca prestaram atenção no queridinho da mamãe. Sendo os únicos que ainda moravam com os pais, Dalfom presenciou diversas cenas patéticas onde sempre era passado para trás pelo seu irmão caçula.
Seus pais eram cegos, não viam a fraude que seu irmão era.
Tempos atrás, quando decidira segui-lo após o treinamento, ele descobriu que os deuses lhe ouviam – e que a perdição de era uma judia imunda.
Era difícil não olhar para seu irmão sem esboçar um sorriso malicioso, sabendo que sua vida estava em suas mãos. Durante todo aquele tempo, se manter calado era penoso, contudo esperar pelo momento certo era crucial.
E, no dia em que as moças começariam a serem levadas ao rei, ele soube que aquele era o momento certo. Seu irmão parecia miserável apenas pela possibilidade de dormir com o rei naquela noite.

Harbona mexia seus braceletes se mostrando tediosa, enquanto observava a sua casa repleta de velas e quase escura, revelando que a noite já estava chegando. Seu cabelo cacheado e quase cinza demonstrava que um dia fora uma mulher jovem e bonita. Sua mãe deitou-se no sofá de lado fitando seu marido entrar na sala com um cálice de vinho.
- Pai, adivinha o que eu descobri? – Dalfom se acomodou na cadeira, chamando a atenção de todos na sala. , que permanecia calado, o olhou desconfiado.
- O que há, Dalfom? – Amã respondeu sem um real interesse.
- estava saindo com uma judia. – Seu irmão arregalou os olhos assustado ao ser exposto sem mais delongas. – E ela está lá no harém esperando ser chamada. – Dalfom fazia uma voz ridícula simplesmente tirando sarro de tudo que estava acontecendo. Gargalhou, jogando seus cachos, que herdara da mãe, para trás e se preparou para o discurso do patriarca.
Amã cuspiu o vinho que tomava e virou seu rosto com uma expressão raivosa. Seu sangue fervia e uma repugnância o atingia apenas ao imaginar seu filho trocando beijos com uma judia. Sua esposa, Harbona, estava chocada e a decepção estampada na face. Havia criado um projeto espetacular para e aquele envolvimento com uma judia era jogar tudo no lixo.
Raivosa, a amalequita virou seu rosto querendo acreditar que aquela história era mentira.
- É verdade, ? – Os dentes cerrados e os olhos impiedosos da mulher lhe dava uma aparência assombrosa, fazendo Amã e Dalfom desviar o olhar para o caçula da família.
A boca de estava entreaberta surpresa pela revelação de seu irmão. Depois de tanto tempo ele pensava que Dalfom estava apenas lhe lançando ameaças vazias; mas ali estava seu segredo exposto aos seus pais.
Entretanto ele não fugiria. Era homem e guerreiro; sabia que não fez nada de errado. Amar não era crime.
Fechando a boca, lançou o olhar desafiador para seus pais em silêncio; essa era a resposta.
Não sabia ele que aquilo era apenas o começo de seu inferno pessoal.

O rei estava sentado em sua cama quando Ananias anunciou que havia uma das virgens o esperando. Após permitir sua entrada, continuou deitado na cama na mesma posição. Observou os passos da mulher e se levantou, aproximando-se. Seu rosto estava coberto por um véu creme e o barulho das suas joias se chocando uma contra as outras – nada efetivamente novo. O imperador não entendia, contudo o porquê de seu incômodo por achar aquela cena tão comum.
- Pode levantar o rosto. – Ordenou o rei e segurou com dois dedos o queixo para vê-la melhor.
Ela tinha o rosto fino, pequeno e angular que fazia seus grandes olhos pretos se destacarem mais ainda. Os lábios carnudos em uma linha fina demostrando seriedade; extremamente atraente.
Beleza egípcia, constatou o rei.
- Qual é seu nome? – Perguntou o rei, mirando os seus olhos enquanto ela suavizava sua expressão.
- Tafnes, meu senhor. – Ela respondeu, soltando um sorriso sedutor e, aparentemente, inocente ao rei. – Será um prazer estar com o senhor essa noite.
Lentamente, a egípcia tocou no abdômen de , o fazendo seguir os movimentos da mulher com os olhos. Tafnes se esforçava para não demostrar que sabia o que estava fazendo; inocência era o que deveria apresentar. - O senhor, oh rei, parece um pouco cansado. – Sussurrou, o olhando nos olhos. pode sentir, naquele momento, o tanto que sentia falta de ter uma mulher tão perto de seu corpo. Calado, o rei segurou a mão da egípcia para que ela não continuasse. Assustada, buscou resposta nos olhos do imperador o que fizera de errado, mas o sorriso ladino a deixou aliviada.
Segurando o queixo de Tafnes, lhe beijou com menos voracidade que gostaria, temendo parecer bruto demais para a mulher. A egípcia sorria enquanto seguia o ritmo do rei aumentar gradativamente.
A excitação dominava as veias do imperador – o corpo implorando para que ele suprisse aquela necessidade de possuir uma mulher. Agarrou a cintura de Tafnes e apertando sua carne com os dedos, fazendo-a arquejar seu corpo para mais perto, pedindo por mais.
E o rei lhe daria mais e tudo o que ela pedisse naquela noite.

Tafnes foi acordada pelos sussurros de Ananias pedindo para que ela saísse. Seu desejo era proferir palavras rudes e o fazer deixar dormir mais um pouco – mas a visão do rei dormindo ao seu lado lhe encheu os olhos. Não perceberam qual parte da noite caíram no sono, pois estavam extremamente cansados. O eunuco do rei pediu para que ela pegasse os lençóis manchados de sangue no chão e o acompanhasse. Enquanto andava pelos corredores, enojada com o que carregava nos braços, se pôs a imaginar quais seriam suas primeiras ordens ao se tornar rainha.
Depois daquela noite peculiar com o rei, ela tinha certeza que seria chamada de novo. Já podia sentir o gosto do poder que teria a partir do momento que a coroassem.
No momento que pôs seus dois pés do salão, todos os rostos curiosos se viraram em direção a mulher. Com sorriso convencido, a egípcia andou tranquilamente até a mesa repleta de frutas perto das colunas do harém.
observava a cena evitando não revirar os olhos. Não conseguia acreditar nos comentários que ouvia das virgens do harém desde que Tafnes fora escolhida para ser a primeira a deitar-se com o rei – onde estava sua revolta de terem sido arrancadas de casa para se deitar com um desconhecido? Era possível que o poder e a chance de viver para sempre no luxo cegar seus valores? Enquanto Tafnes era rodeada por garotas fazendo perguntas sobre sua noite com o rei, a judia se viu expondo seus pensamentos a suas criadas, especificamente a . Contudo a resposta que recebeu da serva não foi o esperado.
- Desculpe-me, senhora, mas não acho que seja um total absurdo sua mudança de pensamento. – explicou, tímida. – Para algumas garotas isso não faria diferença: teriam que se casar com um desconhecido em troca de alguns talentos. Na verdade muitas estão em vantagem; mesmo se não se tornarem rainha, vão ser concubina do poderoso rei da Pérsia, podem se tornam mãe do herdeiro e isso já é invejável bastante.
Passeando seus olhos pelo salão, fitando sua amiga se mostrar desconfortável com a conversa das virgens com Tafnes, entendeu o ponto de vista de .
Ás vezes ela esquecia que nem todas as garotas tiveram a sorte de ter um pai como Mordecai e que muitas eram entregues sem seu consentimento a um estranho; tudo em troca de dinheiro. Seu olhar, então, recaiu mais uma vez nas garotas, mas dessa vez continha pena.

- Então, rei, essa será a próxima rainha? – Perguntou Ananias ao entrar no quarto minutos depois de levar Tafnes até o harém.
sentou-se na beira da sua cama passando as mãos no rosto, tentando manter-se acordado. A noite fora pesada para o rei. Sentia como se todos os cavalos do palácio haviam passado por cima de suas costas.
Ainda bagunçando seu cabelo, o imperador levantou o olhar para seu eunuco.
- Qual é o nome dela mesmo? – Perguntou, sonolento demais para pensar.
- Acredito que seja Tafnes, senhor. – Respondeu o servo.
- Tafnes... – Ele sibilou lentamente. – Ela não é confiável o suficiente para esse cargo. Bonita mulher, tenho que concordar, mas ela é exatamente o que uma concubina deve ser, não uma rainha. Talvez vou chamá-la no futuro quando escolher minha mulher. Ele deitou-se mais uma vez, massageando o pescoço.
- Acho que ela não era virgem. – Confidenciou ao seu servo de maior confiança.
Ananias arregalou os olhos.
- Mas como? – Ele lembrava de ver os lençóis sujos de sangue. Como ela não poderia ser virgem e ter sangrado mesmo assim?
- Ela sabia o que estava fazendo o tempo todo, me seduzia... – Murmurou o rei sem muita importância. – Por isso ela não é confiável para ser rainha.
O servo assentiu, ainda confuso com aquela acusação do rei. Se ela não fosse virgem seria um problema para Tafnes: morte na certa. Contudo, o rei não parecia se importar com a situação, algo bastante inusitado.
- Diga aos conselheiros que apenas irei mais tarde. — balançou a mão para que ele fosse embora. –Estou cansado demais para fazer outra coisa a não ser dormir.
Com aquela sentença, o imperador fechou os olhos, relaxando o corpo para voltar a dormir.

Na primeira semana dormir ao lado de foi extremamente difícil. Não que quisesse ter algo a mais com ela – esperaria o tempo de sua esposa. Ele havia sido apressado em casar porque a ideia de perdê-la para um novo pretendente o assustou por dias. Agora que a tinha, sentia uma vontade enorme de abraçá-la durante a noite, entretanto parecia inconveniente para seus primeiros dias casados.
Era horrível estar na mesma cama que a filha de Memucã quando ele desejava tanto lhe proteger, mas ele deveria fazer isso sem tocá-la. Um problema enorme para o capitão da guarda real quando ele nunca precisou ser delicado ou cuidadoso com o que tocava.
Destrutivo. Era o que era nas batalhas –ninguém o reconhecia quando havia uma espada em sua mão e um inimigo para enfrentar. Naquele momento, entretanto, ele estava sendo extremamente cuidadoso com como nunca imaginou ser com alguém em toda sua vida.
A filha de Memucã adorava tudo em seu marido, menos, é claro, o fato de apenas o ver de manhã no desjejum e à noite. amava conversar com o capitão; ele se mostrava divertido quando não se escondia por trás da seriedade tão sempre destacada em suas feições. Estava sendo difícil, entretanto ter que lidar com as servas do palácio. Quando morava com seu pai, era águia como a chefe da casa; mandava e desmandava, contudo sempre estava fazendo alguma coisa. Os empregados do palácio, porém queriam sempre fazer tudo sozinhos e isso a deixava cada vez mais irritada.
rira de sua irritação, mas prometeu que resolveria aquilo para ela.
E como ele havia prometido, aconteceu. Contudo saber que seus desejos poderiam se realizar tão facilmente a surpreendeu – não sabia, entretanto se isso era bom ou ruim.

Estava entardecendo, o rei e seus conselheiros estavam reunidos no salão resolvendo o ultimo caso daquele dia. Intrigados, todos escutavam com atenção o que Memucã dizia sobre a traição de dois eunucos.
Antes de sair de seus aposentos,, ele recebeu uma visita inesperada do primeiro ministro. Como o imperador suspeitava, o motivo não era nada bom: dois de seus eunucos de confiança foram pegos dando informações das reuniões secretas a alguns príncipes das províncias. Nada com consequências extremamente difíceis de serem contidas, mas a ideia de ter segredos serem revelados antes da hora deixara o rei irritadiço.
- Sinceramente, eu não esperava isso de vocês. – Comentou o primeiro ministro –Eunucos de minha confiança vendendo informações para os príncipes das províncias?
- Eu estou realmente decepcionado com vocês. – Falou o rei, mesmo que seu rosto denunciasse o contrário. A vida daqueles dois servos eram como grãos de areia para o rei; facilmente ele poderia acabar com sua existência.
Os dois eunucos se entreolharam, sem saída.
- Meu rei, seja um pouco compreensivo. – Amã declarou, fazendo todos os conselheiros lhe dessem atenção - Eles servem ao senhor há tanto tempo, e só foi essa vez que eles fizeram isso. Com certeza aprenderam a lição.
semicerrou os olhos, tentando entender a bondade repentina do segundo ministro.
- É rei, tenha piedade! – Disse Bigtã, um dos eunucos, ajoelhando e com o rosto virado para o chão.
- Nós não vamos fazer isso de novo. – Completou Teres com a voz falha como se cada palavra soasse como um tine que irritava o rei.
O jovem imperador respirou fundo, suavizando sua expressão. Encostou suas costas no trono e massageou suas têmporas.
Sentiu vontade de correr para sua cama e ficar lá o resto do ano, o estresse em ser rei parecia ter se tornado um grande saco de pedras que foram jogados em seus ombros. Começara a pensar que estavam certos em dizer-lhe que era muito jovem para ser rei. Abriu os olhos e viu todos olhando para ele esperando uma sentença.
- Pelos seus serviços no palácio e serem de confiança, acredito que essa será a única e última vez que vocês se envolvem com isso. – o rei lançou um olhar duro para os eunucos que assentiram. – E como sentença, terão que devolver todo dinheiro que conseguiram com esse ato.
Olhou mais uma vez para Amã, prestando bem atenção em sua expressão esperta. conhecia bem o seu tipo: loucos pelo poder, nunca satisfeitos por mais alto que estivesse. Poderia ser perigoso se não fosse sua ligação com os diversos povos recém conquistados; mantê-lo como aliado era a melhor opção – assim como manter o olho nele também era saudável.
- Sim, meu rei, obrigado – Agradeceu Teres com a felicidade eminente.
- Vão! – o rei mexeu uma das mãos os mandando embora. Bigtã e Teres se entreolharam mais uma vez e se viraram indo em direção à grande porta do palácio.

Dois homens altos e muito magros andavam em meio aos corredores do palácio, suas cabeças raspadas sinalizaram de longe que eram eunucos do rei. Algumas tochas já haviam sido acesas, avisando que a noite havia chegado. Em sussurros e passos apressados, eles pareciam nada satisfeitos com a sentença.
- Como ele pode? – Perguntou Bigtã, um deles. – Como se não bastasse ele ter nos tirado o direito de ter uma família!
- Todo dinheiro que nós ganhamos jogado no ralo, já estou farto desse rei. – Falou Teres entre dentes e fechando os seus dedos finos em sua mão.
- Nós podíamos matá-lo, não? – Sugeriu Bigtã em uma animação repentina.
- Colocaríamos veneno Oyad no vinho dele, pois demora para atacar, assim o tal do não morreria antes dele. – Projetou Teres rindo junto com Bigtã.
- Matar o rei? – Perguntou Amã, aparecendo de forma ameaçadora no meio do corredor.
Bigtã e Teres sentiram seus corações na boca ao vê-lo.
- Senhor, me desculpe, eu não queria falar isso – Disse Teres, tentando se desculpar. Se alguém soubesse desse plano seriam mortos de uma vez por tentativa de assassinato.
- Eu ouvi muito bem o que vocês disseram! – Amã sorriu de lado, coçando sua barba rala. – Esse veneno de quem vocês falam é caro? – Indagou Amã, interessado com voz baixa.
- É um pouco, senhor, por quê? – Teres levantou uma das sobrancelhas, ainda temeroso.
- Eu pago a vocês. Eu também quero a morte do rei. – Falou Amã, olhando pros lados – Aqui está. – Ele entregou os dracmas que segurava.
- Não podemos fazer isso de graça. – Falou Bigtã sorrindo, interessado naquele acordo.
- E eu posso dizer ao rei sobre o plano de vocês. – Amã riu sínico, fazendo os eunucos voltarem a ficar sérios. – Eu pagarei 10 mil talentos pra vocês, se fizerem tudo certo. - 10 mil pra cada um? – Perguntou Bigtã ganancioso.
- Não. – Respondeu Amã frio. – E saibam que, se algo der errado, vocês estão sozinhos nessa.
Amã se virou, dando o assunto como encerrado e foi andando, sabendo que havia dois pares de olhos o observando sumir entre os corredores do palácio.


Capítulo 9 – É a sua vez!

Sentada entre uma das árvores, olhava para cima tentando sentir-se menos enjoada. No céu não havia nenhuma nuvem e olhando para cima se pôs a pensar naquele dia.
Faziam dois meses que seu sangramento não viera e aqueles enjoos durante partes dos seus dias eram suspeitos. Nas últimas semanas, haviam acordado altas horas da madrugada sentindo um calor infeliz quando todas meninas morriam de frio.
Piscou os olhos tentando evitar as lágrimas repentinas.
Estaria ela grávida?
Carregar um bebê de um soldado em um harém de mulheres que supostamente eram virgens poderia ser sua sentença de morte e tal pensamento a fez estremecer.
cobriu o rosto com as duas mãos ao chegar naquela conclusão. Desde aquele decreto do imperador, tudo em sua vida começou a desmoronar; sentia falta da sua família, de e de como a única preocupação que tinha era esconder seu cortejo com o amalequita de seu pai.

não entendia o porquê de certas vezes se sentir tão ansiosa ou nervosa na presença de . Para ela já havia se passado o tempo de não está confortável perto dele, mas ela sempre demorava um pouco escolhendo as palavras que referiria para seu marido. Às vezes ela passava o dia colecionando assuntos para conversar com ele mais tarde, porém ao vê-lo entrar no quarto para tirar as sandálias sua mente se tornava vazia.
- Como você está? – perguntava o oficial.
- Bem – ela respondeu, se encolhendo na cama, na esperança de lembrar de qualquer assunto, tirando assim, o costumeiro silêncio.
- Ótimo – ele dizia com um sorriso polido, deixando a desconcertada.
E depois, ele saia para se banhar.
Naquele dia não foi diferente – a cena repetiu-se como nas últimas semanas, contudo, um pensamento diferente pairava sobre : Por que seu marido não tentou tocar-lhe desde o seu casamento? Ela arregalou os olhos assim que percebeu que ansiava calor humano
- Espera – falou impulsivamente, fazendo dar meia volta.
- Sim? – respondeu solícito, totalmente alheio aos pensamentos de sua esposa.
levantou-se e andou em direção a ele. O capitão tinha uma careta de confusão no rosto até sentir a mão delicada dela tocar sua pele. Era uma cena estranha: os dois em pé no meio do cômodo, a mulher hipnotizada pelo calor e o suor da face de sem explicações ou objetivos. Aos poucos os dois se aproximavam, fazendo o homem estremecer por dentro. não fazia ideia quanta falta ele sentia de estar tão perto de alguém daquele jeito. Por mais que dormissem na mesma cama todas as noites, o capitão nunca se sentira em um momento tão íntimo como aquele. Logo, a palma da mão da mulher acariciava a barba crescida e soltou um suspiro de aprovação, inalando o perfume de rosas que ela exalava.
Impulsivamente, o capitão abaixou o rosto para a pele do pescoço de sua esposa disposto a embriagar se com seu cheiro. Os segundos que se passaram foram surreais para ela: nada de repulsa. Apenas o toque delicado do nariz de e a descarga elétrica que percorreu pelo seu corpo. Ela se viu fechando os olhos e abraçando-o para que ele continuasse. Energizado pela presença daquela maravilhosa mulher, o capitão beijou a pele macia lentamente.
O ato, entretanto, fez todo o corpo de enrijecer e acordar para a realidade. Era como se transformasse uma criança de novo e o professor de música lhe tocasse com suas mãos sujas. Empurrou com força o corpo de , assustando o mesmo. Ao perceber que quem estava à sua frente era seu marido seu corpo encheu-se de vergonha.
- Dee-eesculpa... E-Eu... – A voz tremia e, sem encontrar uma desculpa plausível, se viu correndo para fora do cômodo, procurando ficar sozinha, deixando um homem desolado e se sentindo culpado para trás.

O chefe da enfermaria do palácio sabia o quanto odiava sair do escritório e andar pelo vasto território persa. Ela fora a primeira pessoa estrangeira que não pareceu impressionada com a grandeza da cidade de Susã. A verdade era que a mulher havia mergulhado tanto no mar de tristeza desde que seu marido morrera, que não conseguia encontrar um caminho para a superfície – e estar naquele país que transformara seu povo em escravos lhe deixava resignada. Não importava o fato de não ter sido o rei responsável pelo ataque ao seu povo, ou quão generoso ele fora com ela e seu irmão; ela não conseguia se sentir em casa naquele lugar.
Naquele dia atípico os serventes demoraram para levar seu jantar, a deixando irritada e com fome. Decidida a não ter que dormir de estômago vazio, a mulher fora à cozinha buscar qualquer coisa para comer. Os corredores estavam silenciosos e apenas se via guardas que havia acabado de trocar de turno olhando para frente seriamente. A cozinha estava quase totalmente escura, apenas uma tocha acesa no fundo do cômodo. Curiosa, andou em direção à chama, encontrando um homem de traços beduínos andando para um lado para outro tentando organizar três bandejas com comida.
A irmã de Ananias coçou a garganta chamando-lhe a atenção.
- Não quero parecer grossa, mas a comida está demorando um pouco hoje, não é? – comentou cautelosamente.
- Desculpe senhora, está demorando pois estou sozinho para fazer a entrega – explicou o homem, ainda trabalhando eficientemente.
- Então, vou esperar – disse sentando-se em uma das cadeiras ao redor da mesa da cozinha. A mulher cruzou as pernas e fitou as costas do servo, batendo os dedos freneticamente em sua perna. Minutos se passaram em silêncio até que ele virasse segurando duas bandejas.
- Deseja que leve isso até seu quarto? – perguntou o homem, virando-se para ela, revelando seu rosto.
abriu a boca, mas por alguns segundos nada saiu. O beduíno continha uma beleza única nunca vista antes por ela. Ele parecia um pouco mais jovem, mas, ainda assim, não era um tipo de pessoa que era visto todos os dias no palácio, onde os servos eram de sua maioria eunucos e feios.
- Não precisa, eu posso levar sozinha – levantou-se, pegando a bandeja.
O servo agradeceu pelo gesto de gentileza e pediu desculpas mais uma vez, entretanto, suas palavras mal foram ouvidas por .
- Qual é o seu nome? – ela perguntou, antes de seguir em direção aos seus aposentos.
- , senhora – o homem segurou o olhar, a fazendo sentir um incômodo na barriga.
- Obrigada, .
Então, ela se virou e continuou andando, deixando o homem com uma sensação estranha e a voz da mulher desconhecida ecoando em sua cabeça.

Naquele momento em que o sol sumia, geralmente, uma virgem já estava pronta para ir até os átrios do rei, contudo, naquele dia, estavam todos atrasados deixando o harém em um caos horrível. tentava conversar com suas servas, mas o barulho das mulheres tentando saber o que acontecera com Hegai ou quem seria a próxima a dormir com o rei estava atrapalhando a comunicação. Ela não via a hora que o eunuco entrasse e dissesse alguma coisa – a cabeça parecia explodir a qualquer momento com aquele barulho.
-, posso falar a sós com você? – pediu, depois de cutucar o ombro de sua amiga.
- Claro – respondeu, levantando-se e indo até uma das colunas um pouco afastadas do salão.
engoliu o seco e olhou para os lados, certificando-se que ninguém prestava atenção nas duas.
- Está tudo bem? – perguntou , estranhando o comportamento da amiga.
- Mais ou menos – respondeu a judia. – O negócio é que ultimamente eu...
- Meninas! – Hegai apareceu eufórico na porta do harém, batendo palmas para chamar atenção.
As duas mulheres viraram-se para ver melhor o eunuco, interrompendo a conversa por um momento.
- O rei chamou uma mulher pelo nome? – uma delas indagou com esperança.
- Infelizmente não, Diana. Demoramos porque o rei estava em um vilarejo e parecia que não chegar a tempo para dormir no palácio, entretanto, cá estamos – falou Hegai. – Nós faremos o sorteio agora; não podemos deixar o rei esperando.
Zeres apareceu com uma tigela repleta de papiros com os nomes das moças; papiros que diminuíram consideravelmente nos últimos dois meses. A sala se tornou silenciosa quando Hegai pegou um dos nomes delicadamente fazendo muitas prenderem a respiração de expectativa – exceto , que prendera a respiração de medo.
O rosto do eunuco se iluminou ao ler o nome e ele demorou alguns segundos para finalmente dizê-lo.
- , querida, é a sua vez! – ele disse com uma felicidade no rosto, mostrando seu favoritismo sem disfarce.
O barulho da bandeja caindo fez muitas mulheres gritar de susto e , responsável pelo acontecido, pediu desculpas envergonhado. soltou a respiração aliviada e, ao mesmo tempo, preocupada com sua amiga. Muitas das já concubinas do rei cochicharam com desprezo, certos de que a garota seria mais uma e as virgens ficaram ressentidas por não terem sua chance ainda.
No entanto, era a única que não se moveu; nem uma expressão em seu rosto arriscou. O coração estava acelerado e ela se sentia como um animal à caminho do matadouro.
Naquela noite dormiria com o rei.
Naquela noite ela perderia sua virgindade.
Naquela noite todos os seus sonhos seriam enterrados.


Continua...

Nota da autora: Olá, leitores! Espero que estejam curtindo a história!
O que estão achando? Como será o encontro com o rei? E a amiga dela, está mesmo grávida? Comentem! Sua opinião é extremamente importante.
Se quiser bater um papo comigo tem meu twitter e o ask.
Também tenho o grupo do fb onde publico spoilers e informações sobre a história.
Até breve!



Nota da beta: Se você encontrar algum erro me avise no email ou no ask. Você também pode saber quando essa fic atualiza aqui.