Autora: Juliana | Beta: Babi S.

Esta página possui conteúdo indicado para maiores de 18 anos. Se você for menor de idade ou estiver acessando a internet de algum país ou local onde o acesso a esse tipo de conteúdo seja proibido por lei, NÃO PROSSIGA. O Ficcionando não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias postadas no site e nem por quem tem acesso a elas.

Capítulos:
| 00 | 01 | 02 | 03 | 04 | 05 |

Prólogo

Paris, França

Segunda, 13 de outubro de 2014.

Eu não podia acreditar que a estava realmente fazendo aquilo comigo, não em plena segunda-feira. Eu não estava nem aí que ela queria ficar com o David, ela que fizesse do jeito que ela mais gostasse, mas me arrastar para uma social — sabendo que eu trabalhava no dia seguinte — era maldade demais comigo. Não é como se eu realmente precisasse ir, meu sócio já tinha me liberado para faltar amanhã, mas eu me sentia muito mal por isso. Odiava deixar as pessoas na mão, e era como se eu fizesse isso — ainda que Henry soasse tão convincente quando dissera que eu deixaria a na mão se não fosse com ela hoje, e por isso eu acabei aceitando.
Levei quase quarenta minutos apenas para aceitar que eu tinha que tirar meu pijama extremamente confortável, já que começava a esfriar em Paris. Eu não tinha muito tempo até que ela passasse em casa para me buscar, e eu precisava estar, ao menos, apresentável. Encarei meu closet, procurando uma roupa para vestir, e, por muito pouco, não desisti. Encontrei uma blusa branca de botão e me pareceu perfeita por um instante. Combinei com um sutiã preto todo trabalhado, um jeans de lavagem preta e um salto na mesma cor. É, acho que daria para o gasto. Procurei algumas joias que complementassem o look e finalizei deixando o batom escolhido em cima da bancada. Corri para tomar um banho relaxante, esperando não me atrasar, já que a não pouparia nos comentários caso eu me atrasasse.
Não demorou muito para que eu ficasse pronta, e segundos depois o interfone tocou, indicando que era hora de sair. Peguei o que faltava, jogando tudo dentro da clutch escolhida e saí do meu apartamento. Fiz o trajeto inteiro do elevador encarando minha imagem no espelho, ajeitando os fios propositalmente soltos do meu rabo de cavalo. Não é como se eu estivesse incrivelmente linda, mas talvez eu estivesse quase isso.
Encontrei uma deslumbrante no hall do prédio, me esperando com um sorriso que ia de orelha a orelha. É, eu nunca seria capaz de negar algo para essa menina, não quando ela ficava assim, mais feliz do que mulher em liquidação de loja cara.
— Não me diga que toda essa perfeição é apenas para impressionar um certo zagueiro de cabelos cacheados. — falei segundos depois de cumprimentá-la.
— Preciso fazer direito, né... — ela respondeu, me fazendo gargalhar.
— Gosto assim, tem que conquistar pela beleza... Mas acho que eu vou subir para trocar de roupa, você está muito mais incrível do que eu, que estou só de jeans e camiseta. — comentei, mostrando minha roupa.
— Que nada, amiga, ‘tá gata... E vamos, que nós estamos atrasadas e o táxi está nos esperando. — ela falou, agarrando meu braço e me puxando para fora do prédio.
— Calma, , assim você me derruba... Não pretendo fazer igual você, amiga. Cair de cara está fora da minha lista de planos para hoje. — disse, cobrindo a boca, enquanto ela me fuzilava com os olhos.
— Engraçadinha você, não é?! Já pode trabalhar no Zorra Total, amiga... Agora vamos logo, porque eu quero te apresentar uma pessoa hoje. — ela falou, fazendo mistério.
— Iiih, lá vem você, de novo, com essa história de que eu preciso de homem. Se for pra isso, já fico por aqui mesmo. Você sabe muito bem que eu não preciso de nada disso, , e sabe que preciso menos ainda de um jogador de futebol. Me erra!
— Não cospe para cima, , pode cair na testa. — ela falou, rindo, e eu entrei no táxi contrariada.
Passamos o caminho inteiro com ela me atazanando, falando que eu tinha que conhecer um cara incrível, que cuidasse de mim. O que ela achava que eu precisava, um pai?! Por favor, , francamente. Ela falava e eu fingia que ouvia, mas meu pensamento estava longe demais. Eu tinha mania de divagar imaginando novos pratos para servir e aproveitei o trajeto do táxi para criar novas possibilidades na mente, nem sentindo o tempo passar. Eu nunca me cansaria de trabalhar, não fazendo o que eu lutei muito para conseguir. O respeito que eu tinha conquistado valia qualquer coisa na minha vida.
Logo o táxi estacionou na porta de uma casa e eu entendi que havíamos chegado. Pagamos o valor da corrida e saiu do carro desesperada. Eu apenas a acompanhei, encarando a fachada do local por um tempo. A casa (ou seria mansão?) parecia ter saído de um daqueles filmes de comédia romântica que toda mulher já assistiu um dia na vida. Eu poderia muito bem passar o resto da minha vida ali, sem reclamar.
— Vai ficar mesmo encarando a porta da casa, ? — perguntou, estalando os dedos no meu rosto.
— Seja o que Deus quiser, não é mesmo?! — falei, rindo, enquanto ajeitava meu cabelo pela última vez.
me arrastou porta adentro e eu apenas aceitei. Logo na entrada já fui apresentada para o David, que parecia esperar por ela ansiosamente. Foi questão de minutos até que ela me largasse sozinha naquela casa onde eu desconhecia metade das pessoas — simplesmente porque a outra metade vivia aparecendo na TV.
Caminhei até o bar improvisado, desviando das pessoas que pareciam não enxergar o mundo a dois palmos de distância. Agarrei o primeiro copo de tequila que vi na frente e virei a dose de uma vez, sentindo a garganta arder com a bebida. Na outra ponta do balcão, alguém levantou um copinho na minha direção, como uma saudação que eu reconheci muito bem. Não haveria mal algum flertar ali, não é?! Respondi a saudação e juntos viramos nossos copinhos de tequila, sem desviar o olhar um do outro. Ele me encarava de forma indecifrável, e tudo o que eu desejava naquele instante é que ele viesse mais perto. Entretanto, ele resolveu me testar, pegando um dos copos de uísque disponível na bancada e seguindo para o lado oposto de onde eu estava, me deixando confusa e levemente irritada, mas eu resolvi não me importar. Ele não parecia ser o cara mais maravilhoso da festa, e, mesmo que fosse, eu encontraria outro para divertir minha noite.
Passei a mão no primeiro copo de batida que eu encontrei, nem aí para o que havia ali dentro. O importante era que a mistura estava deliciosa, e o gosto suave do morango me conquistou no primeiro gole. Fiz o mesmo caminho por onde eu tinha vindo, chegando à sala principal da casa. Eu não fazia ideia de onde a estaria enfiada, e eu não fazia a mínima questão de saber. Contanto que aquele cabeludo não fizesse minha amiga sofrer, estava ótimo. Caso contrário, eu seria mais zagueira do que ele e lhe quebraria as pernas, de um jeito que, se fosse no futebol, me renderia um cartão vermelho no jogo e uma expulsão da liga que eu fizesse parte.
Eu caminhei sem rumo pela sala, conhecendo cada cantinho daquela casa, ainda mais encantada com toda a decoração que havia ali. Eu tinha meu olhar preso a um porta-retratos na estante, que ocupava uma das paredes do cômodo, quando esbarrei em alguém. Confesso que o pedido de desculpa chegou à minha garganta, mas, no instante em que eu senti o líquido gelado na minha blusa, eu fiz questão de engoli-lo. Minha Balmain novinha estava suja, e eu nunca perdoaria a pessoa que havia feito aquilo, não importava quem fosse.
— Puta que pariu! Você acabou de sujar minha blusa nova, infeliz. — eu praticamente gritei, encarando a mancha amarelada que havia ficado no meio do meu peito.
Perdon, eu no tuve a intenson de te suxar... No foi por maldadi, por favor. — Uma voz forte chamou minha atenção, misturando um portunhol que fez meu interior latino se derreter por um instante.
— Cara, essa blusa é caríssima, esperei anos para comprar uma dessa. Como você pode ter a coragem de sujá-la dessa forma? — falei entredentes, respirando fundo, me preparando para encarar a pessoa que havia me sujado.
Perdon, ya falei, no tuve a intenson. — O tom de voz pareceu mudar por um instante, e ele parecia bravo.
Forcei meu corpo a se desligar do sotaque maravilhoso que ele tinha para poder encará-lo nos olhos, e então percebi que essa foi a maior besteira que eu poderia fazer em toda a minha vida. Como uma música que eu havia ouvido há um tempo, “seus olhos são como voltar para casa”. Foi como se todas as coisas que eu nunca tiveram sentido antes tivessem me acertado em cheio, no intervalo do segundo em que eu fiquei perdida naqueles olhos. Olhos esses que me encaravam de forma indiscreta, tentando encontrar o que eu sabia ter encontrado, no instante em que levantei o rosto. Não sou do tipo que acreditava em amor à primeira vista. Poderia ser clichê o suficiente, mas isso era demais, até mesmo para mim. Quer dizer, era demais até aquele momento. Eu nem lembrava mais do que havia feito tudo isso acontecer, que se explodisse o mundo — encarar aquele olhar era a única coisa que eu gostaria de fazer, pelo resto da minha vida.
Em algum momento ele sorriu, e eu precisei me esforçar para não parecer uma adolescente de doze anos. Um sorriso envergonhado escapou, combinando discretamente com o sorriso largo que ele tinha nos lábios. Dentes brancos, alinhados. E aquela boca. Eu poderia perder uma vida inteira no meio daqueles lábios. Ele parecia tão tocável, tão beijável, e eu precisei controlar todos os meus instintos para não agarrá-lo ali mesmo. Não que aquilo não fosse o certo a se fazer, porque, com toda a certeza do mundo, não haveria nada mais certo do que aquilo. É só que eu não podia, não naquele instante.
— Você precisa de ajuda com a sua... Como se dice? — Ele me encarou, confuso por um instante, coçando a lateral da cabeça.
— É... Blusa. Se chama blusa. — Levei mais tempo do que gostaria para responder, procurando minha voz, que havia se escondido em algum canto obscuro dentro de mim.
Esto. Precisa de ajuda com a sua blusa? — ele perguntou, indicando a mancha com a mão, levemente envergonhado, e eu tive vontade de abraçá-lo apertado.
— Nada que um pouco de água na cozinha não resolva, eu acho. Não precisa se preocupar. — disse, tentando fugir dali o quanto antes, buscando um pouco de ar puro.
— Faço questão de ir com você, afinal de contas, fui eu que sujei. — ele falou, segurando meu braço.
E então um choque elétrico cruzou meu corpo, fazendo com que cada terminação nervosa entrasse em colapso. Um toque e meu corpo pareceu entrar em combustão instantânea, explodindo em faíscas. Controle esse emocional de doze anos, , é só um homem bonito, mais nada.
— Se faz tanta questão... Aproveita e me mostra onde é a cozinha, porque eu não sei. — comentei, sorrindo amarelo.
— É por aqui, vem comigo. — ele falou, me puxando pela mão.
Ele me levou por um corredor até então desconhecido, e cruzamos uma porta que, até então, estava fechada, revelando uma cozinha maravilhosa. Tudo ali parecia ser novo, e parecia pedir para que eu tocasse, mas me contive em focar meu olhar na pia, apenas para limpar minha blusa. Molhei um pano que encontrei ali, esfregando na mancha, mas estava praticamente impossível de limpar.
— Se importa se eu... Hum... Tirar a blusa para poder esfregar melhor? — Se eu tivesse um pouco de autocontrole, eu não ficaria vermelha por propor aquilo.
— Como você achar melhor. — Ele deu de ombros.
E então eu não estava nem aí para o aconteceria depois. Abri os botões da minha blusa, retirando-a por completo, e ouvi a respiração dele ficar descompassada por um instante, mas me esforcei para ignorar esse mero detalhe. Molhei o tecido, jogando um pouco de detergente em cima da mancha, esfregando com o máximo de força que as minhas mãos trêmulas conseguiram impor. Não demorou muito para que eu sentisse uma presença atrás de mim, e duas mãos seguraram as minhas, colocando um pouco mais de força, me ajudando a esfregar a blusa. Eu precisei respirar fundo para continuar o que eu estava fazendo.
— Como pode, uma mulher tão maravilhosa, tão segura de si, não conseguir esfregar uma blusa... Qual o problema, jovem... Eu nem sei seu nome, que falha a minha. — ele sussurrou no meu ouvido, me fazendo engolir em seco.
Colmenero. E eu sei esfregar uma blusa, se você não se importa... Já esfreguei panelas mais sujas do que isso, esfregar uma blusa não é impossível. — falei entredentes, tentando recuperar meu autocontrole.
— Bonito nome, jovem Colmenero, sensual como você. — Ele continuava a sussurrar no meu ouvido.
— Seria interessante você me dizer o seu, não acha? — Joguei levemente a cabeça para trás, repousando-a no ombro dele, e sussurrando as palavras lentamente.
— Achei que tivesse me reconhecido. — ele falou baixo, se aproveitando que meu pescoço havia ficado ainda mais exposto.
— Eu deveria? — Continuei com o tom baixo, mantendo como meu foco principal esfregar a blusa.
— Acredito eu que sim... Mas isso é só um mero detalhe. — ele sussurrou e depositou um beijo estalado no meu pescoço, fazendo com que eu me arrepiasse.
— Deixa eu tentar... Você tem jeito de jogador de futebol e, pela marra, deve ser artilheiro, ou seja, centroavante. Para estar nessa festa, suponho que também seja jogador do PSG. Minhas opções são poucas, e você, com certeza, não é o Ibra. — comentei, tentando chegar a uma conclusão plausível, enquanto ele ria suave contra o meu pescoço, tentando desviar meu foco.
— Posso dizer que você está no caminho certo, jovem Colmenero. Mais um pouco e eu não vou precisar me apresentar. — ele continuava murmurando, e eu já estava achando aquilo baixo demais.
— Pelo sotaque, suponho que você seja latino, como eu. Centroavante, artilheiro, latino... Tenho uma leve impressão de que você deve ser o Cavani. — sussurrei cada uma das palavras, citando o nome dele da forma mais sensual que eu consegui, e senti o corpo dele tremer em resposta.
— Mulheres latinas são sempre um pecado. — ele sussurrou de volta, enquanto levava uma mão para apertar a minha cintura.
— Suponho que você já tinha provado várias, mas nenhuma boa o suficiente como eu. — respondi suave, largando a blusa em cima da pia.
— Vamos ver então do que essa latina é capaz.
Em questão de segundos, ele já tinha me virado de frente, fazendo meu peito se chocar com o dele. Nos encaramos por uma fração mínima de segundos, e eu não esperei nenhum convite para puxar o rosto dele até o meu. Rocei nossos lábios por um instante, provocando, instigando, e ele pareceu entender o que tanto eu ensaiava. Com um puxão rápido, nossos lábios se encontraram, afoitos. Ninguém queria saber de calma, de reconhecer. Nosso beijo era estritamente sensual, sexual, provocante. Ele ainda abraçava minha cintura de forma possessiva, passando a ponta dos dedos naquela região, arrepiando meu corpo. Devolvi o carinho, enroscando meus dedos em sua nuca, puxando de leve os pequenos cabelos que nasciam naquela região. Ele arfava durante o beijo, e eu sabia que estávamos em êxtase total.
Não demorou muito para que puxasse meu corpo para cima, com uma mão só, me colocando sentada em cima da bancada. Minha reação foi instintiva, e eu abracei o corpo dele com as pernas, nos unindo. Nosso beijo já tinha subido de nível, e agora o foco principal era provocar, não importava quanto, não importava como. Logo a respiração ficou forçada, e eu lhe mordi o lábio, puxando para mim, enquanto buscava um pouco de ar. Cavani respirava de forma descompassada, o peito arfando rápido, e aquilo parecia sensual demais para que eu ficasse apenas admirando.
Puxei novamente seu rosto na direção do meu, passando a língua da forma mais sensual que consegui pelos lábios dele, antes de reiniciar nosso beijo. Ele não disse que queria saber do que aquela latina era capaz?! Pois eu lhe mostraria muito mais. Passei a mão pela barra da blusa dele, roçando de leve a ponta dos dedos naquela região, ameaçando puxá-la, sem realmente retirá-la, e ele suspirou frustrado, apertando com ainda mais força a minha cintura. Resolvi que prolongar aquela tortura só seria ruim para mim, então puxei com tudo a blusa dele para cima, afastando nossos corpos por um instante, apenas para que a camiseta dele fizesse companhia a minha dentro da pia. Passei rápido meus olhos pelo torço desnudo, levando a mão até parte do abdômen a fim de dedilhar aquela região. Desenhei cada gominho ali presente com a ponta da unha, enquanto ele fechava os olhos, e suspirava extasiado, deixando claro o que aquilo significava.
— Descobri seu ponto fraco, atacante? — sussurrei suave contra seu ouvido, mordendo o lóbulo da orelha dele, enquanto ele se arrepiava.
— Se eu contar, perde a graça... — ele respondeu pausadamente, respirando fundo, tentando assumir o controle.
— Já eu diria, o que deixaria tudo muito mais excitante. — continuei sussurrando, agora passando a língua de forma sutil por aquela região, ainda dedilhando o abdômen dele.
— Deixa que eu te mostro o que é excitante de verdade. — ele respondeu, seguro, enquanto puxava meu rosto para iniciar mais um beijo desesperado.
Cavani apertava com força a minha nuca, puxando a base dos meus cabelos, e eu suspirava extasiada com aquela atitude. Nunca fui do tipo que faz a linha comedida em situações como essa, e saber que ele também compartilhava do mesmo pensamento meio que me animou ainda mais. Éramos como vulcão em pleno processo de erupção, transformando tudo a nossa volta em lava. Cavani desceu a mão pelas minhas costas, tateando sutil até encontrar o fecho do meu sutiã, que ele desfez com apenas uma mão. Afastei minhas mãos do corpo dele, apenas para me livrar da peça que, repentinamente, começou a me incomodar, enquanto Cavani observava cada um dos meus movimentos, totalmente admirado. Ele encostou a mão na minha, e subiu pelo meu braço, desenhando um trajeto imaginário com a ponta dos dedos. Não demorou muito até que ele chegasse com a mão até o meu seio, que ele acariciou suave, me fazendo suspirar. Coloquei minha mão por cima da dele, apertando aquela região com um pouco mais de força e ele finalmente pareceu entender o recado.
Cavani passou a instigar aquela região, roçando a palma da mão, apenas para entumecer o bico, me fazendo suspirar extasiada. Ele aproveitou meu momento de total entrega para desenhar o trajeto desde a base da minha orelha até o princípio do vale dos meus seios com a língua, e eu precisei controlar o gemido alto que queria escapar a qualquer custo. Ele buscou meu olhar por um instante e, quando o prendeu ao seu, levou a boca até meu seio livre, me fazendo arregalar os olhos. Ele sorriu safado, enquanto prendia o bico entre os dentes e um gemido fraco escapou dos meus lábios, fazendo-o sugar meu seio por inteiro em resposta. Ele dividiu total atenção entre os dois seios, me obrigando a morder os lábios por diversas vezes, apenas para controlar a vontade que eu tinha de urrar com toda aquela situação.
Quando ele se deu por satisfeito, seguiu distribuindo beijos molhados e mordidas por toda a região da minha barriga, enquanto deitava meu corpo suavemente em direção à bancada da cozinha. Cavani dedicou atenção extra à área em torno do meu umbigo, me fazendo suspirar angustiada e depois mordeu a região que ficava logo abaixo, fazendo meu corpo desencostar da pedra de mármore da bancada. O gelado da pedra, em contraste com o meu corpo quente, me fazia ter noção do que realmente estava acontecendo ali.
Cavani continuou a trilha de beijos, até morder a barra do meu jeans, soltando o botão. Ele passou a língua por aquela parte até encaixar o zíper entre seus dentes, puxando para baixo. Assim que terminou de abrir minha calça, ele seguiu os beijos em direção à minha virilha, passeando de um lado para o outro, cobrindo toda a minha intimidade com beijos, me fazendo forçar a perna contra o rosto dele. Ele riu anasalado contra aquela região, fazendo de novo com que meu corpo se descolasse da bancada. Ele voltou a subir os beijos, novamente até a barra do meu jeans, puxando para baixo, tentando se livrar da peça que o importunava, e eu dei um jeito de descolar a bunda da bancada apenas para lhe ajudar no processo.
Ele então subiu as mãos pela parte externa da minha coxa, até chegar ao topo do jeans, retirando de uma vez a peça que nos atrapalhava. Cavani então me encarou desejoso, completamente satisfeito com a cena que via. Eu estava totalmente entregue, suspeitava que levemente ruborizada e praticamente nua, deitada contra a peça fria de mármore que revestia a bancada da cozinha, e eu sabia o apelo sexual que aquilo traria para a situação. Quando vi que ele voltaria com a trilha de beijos, resolvi encerrar toda aquela prévia por ali, sem ser capaz de suportar mais um instante, com o corpo tão distante do dele. Puxei com força uma parte do seu cabelo, obrigando-o a forçar o corpo dele contra o meu na bancada, encaixando nossos corpos, fazendo com que um suspiro extasiado escapasse de ambos os lábios.
Encaixei minha mão por entre nossos corpos até encontrar o fecho do cinto que ele usava, tentando me livrar o quanto antes daquela peça, que também só me atrapalhava. Ele tateou o próprio bolso por um instante, retirando de lá a carteira, e eu sabia muito bem o que ele procurava. Cavani puxou de dentro da mesma um pacote de camisinha e eu suspirei aliviada, enquanto ele ria suave da minha atitude. Ele largou o pacote próximo a nós dois e deixou que eu continuasse o que eu estava fazendo antes. Puxei a calça dele para baixo, levando junto a barra da cueca boxer vermelha que ele vestia, e ele riu anasalado da minha atitude apressada. Puxei o máximo que consegui com as mãos, completando com o pé, sem muito sucesso. Cavani, então, separou nossos corpos, apenas para terminar de retirar aquela peça, largando-a junto com a minha calça no chão da cozinha, e logo voltou a juntar nossos corpos, se roçando suave contra a minha intimidade, me fazendo arfar.
Ele me encarava de forma penetrante, forte, como se quisesse invadir a minha alma das formas mais absurdas possíveis, e eu não duvidaria que ele o fizesse, caso tivesse oportunidade. Ele ficou afastado de mim por tempo demais, e eu desencostei meu corpo da bancada, enquanto o abraçava no quadril, com as pernas, juntando de vez nossos corpos. Cavani então encaixou a mão na barra da minha calcinha, e eu apoiei minhas mãos em seus ombros, suspendendo meu corpo, para que ele retirasse a única peça que nos separava. Ele passou a mão pelo pacote de camisinha que estava em cima da bancada, e quando ia levá-lo a boca para abrir, eu travei seu movimento, retirando o pacote da mão dele, enquanto ele me encarava com um misto de confusão e desespero.
— Deixe-me fazer as honras, atacante. Faço questão. — expliquei da forma mais sensual que consegui, fazendo com que ele aliviasse o semblante no mesmo instante.
Levei a ponta do pacote até a boca, mordendo de forma sutil, até sentir a embalagem rasgar. Assim que o pacote abriu, puxei a camisinha com a ponta dos dedos, pressionando-a suave, exatamente como eu sabia que deveria ser feito. Encaixei-a, então, na ponta do membro dele, e enquanto eu mantinha seu olhar preso ao meu, tateei sutil aquela região, empurrando a camisinha do topo até a base, fazendo suspirar extasiado. Segurei-o então, guiando-o até a entrada da minha intimidade, e ele entendeu bem o que aquilo significava.
— Não, senhorita Colmenero, as coisas não funcionam dessa forma. — ele falou, provocador, enquanto puxava as minhas mãos para cima.
— E como elas funcionam, atacante? — questionei, um pouco frustrada.
— Elas funcionam assim... Só acontece quando você pedir. — ele respondeu como se contasse a coisa mais normal do mundo.
— E o que vai acontecer, se eu não pedir?! — encarei-o, decidida.
— Eu irei te provocar, até você se arrepender... — ele continuava falando suave, enquanto roçava a cabecinha contra a minha intimidade, me arrepiando.
— É isso que você chama de provocar? — Precisei me obrigar a continuar no controle, ainda que fosse extremamente impossível naquela situação.
— Não... Isso sim é o que eu chamo de provocar. — ele falou firme, enquanto me encarava seguro.
Cavani encaixou apenas a cabecinha na minha intimidade e eu arfei em resposta tentando, em vão, encaixar de vez os nossos corpos, mas ele foi mais rápido e segurou minha cintura firme, nos afastando de novo, enquanto eu suspirava frustrada.
— Já disse, Colmenero, só quando você pedir. — ele falou baixinho, bem próximo da minha orelha, me arrepiando por completo.
— Eu... quero... você. — respondi entredentes, tentando manter meu autocontrole.
— Muito pouco, minha cara... Eu sei que você pode muito mais do que isso. — ele continuava falando baixo, levando de vez o pouquinho de autocontrole que ainda restava.
— Eu quero você dentro de mim, Cavani, agora. Quero que você me foda em cima dessa bancada da cozinha. — eu disse com raiva, pronunciando cada palavra pausadamente, enquanto ele ria anasalado contra o meu pescoço.
E eu não precisei pedir de novo. Cavani me penetrou de uma só vez assim que eu terminei a minha frase, me fazendo travar o grito desesperado que queria escapar pela minha garganta. Ele então começou ditando um ritmo lento, quase que inexistente, e eu rebolei sensual em resposta, apenas para vê-lo morder o lábio, totalmente em êxtase. Cavani, então, assumiu uma postura totalmente oposta, apertando com força a minha cintura, aumentando o ritmo de forma quase desesperada. Ele levou a mão até a região da minha nuca, puxando meu corpo para trás, apenas para liberar a região dos meus seios, que ele resolveu cobrir com a boca, me fazendo perder os sentidos no mesmo instante.
Não demorou muito até que ele arfasse rouco contra meu seio, e eu sabia muito bem o que aquilo significava. Cavani já havia encontrado seu orgasmo, e passou a se dedicar única e exclusivamente a tentar me fazer gozar também. Ele levou a ponta do dedo até a minha intimidade, me tocando no mesmo ritmo em que me penetrava, enquanto ainda mantinha meu seio entre os lábios me fazendo gemer rouca em resposta. Eu sabia que meu limite estava próximo, já começava a sentir a câimbra característica na virilha quando a porta da cozinha abriu em um rompante, nos assustando.
, você está... AI, MEU DEUS! — travou na porta da cozinha, não poupando o grito estrondoso que escapou por entre seus lábios, no instante em que colocou os olhos na cena que acontecia dentro da cozinha.
, o que acont... Cavani? ? Eita que a coisa ‘tava boa — David apareceu por cima do ombro da , nos encarando de olhos arregalados.
— Eu não acredito no que eu estou vendo... — continuava me encarando bestificada, e eu sabia que meu rosto deveria estar roxo.
— E eu não acredito que você tinha que entrar justamente agora... Caramba, , para de roubar os meus orgasmos! — eu respondi indignada, quando a minha voz voltou a aparecer.
— Eu não tive culpa... Você tinha sumido, e eu queria saber se tinha acontecido alguma coisa... Caramba, eu só estava preocupada com você, vai que você tinha caído, quebrado alguma coisa e estivesse sozinha, desamparada...
, a sua amiga está muito bem, como você deve estar vendo. E ela nem se preocupou contigo... — David travou a fala desesperada da por um instante, já prevendo que o discurso desesperado dela continuaria por horas a fio. — E você, Cavani, francamente... Na próxima, pode pedir a chave de um quarto, eu não vou negar te emprestar. Agora, usar a minha cozinha para isso é demais, cara. — Eu não sabia se ele estava realmente indignado ou não com toda aquela situação, que no futuro seria cômica.
— Anda, , eu vou te levar para a casa. — entrou decidida na cozinha, caminhando até onde estávamos. — Tire essa mão cheia de dedos de cima da minha amiga, seu uruguaio. — ela esbravejou, puxando o Cavani para longe, mas se assustando assim que o fez. — Pensando bem... Melhor você ficar onde estava. — ela comentou nervosa, fazendo todo mundo gargalhar.
, saia já daí, não admito que você fique olhando outro homem nu. — David falou, indignado, puxando a pelo braço, para longe de onde estávamos. — Mas pensando bem... Você se deu bem, hein, uruguaio... Pegou um filé... — ele comentou, piscando para o amigo, me fazendo ficar roxa de vergonha.
— David Luiz Moreira Marinho, me respeita. Eu não comentei com a o quanto o seu amigo é bem dotado, então pare de comentar sobre o corpo dela. — respondeu direta, totalmente indignada, me fazendo gargalhar.
— Amiga, não queria falar nada, mas se você não queria comentar, acho que falhou na missão... — eu comentei, enquanto cobria a minha boca, apenas para ver a forma como ela ficava com vergonha.
— Vamos sair daqui antes que aconteça alguma besteira. E vocês dois, coloquem a roupa o quanto antes. Espero não precisar voltar aqui de novo, estamos entendidos?! — falou dura, e eu apenas assenti com a cabeça, enquanto ela puxava o David pela porta da cozinha.
Cavani afastou o corpo do meu suspirando fraco, e quando ele abriu a boca para dizer alguma coisa, eu cobri seus lábios com meu dedo, indicando que as palavras, naquele instante, se fariam desnecessárias. Ele pareceu aceitar a situação, afastando o corpo do meu para que eu me vestisse. Abaixei para pegar minha calcinha e minha calça, vestindo-as no mesmo segundo, enquanto Cavani fazia o mesmo nas minhas costas. Peguei meu sutiã de cima da pia, e ele me ajudou a fechá-lo. Nós sabíamos bem o quanto aquilo estava sendo frustrante para os dois.
Hoy no es un adiós, sino un hasta luego. — Eu falei suave, citando uma música que eu adorava.
— Eu não duvido disso, nem por um instante. — ele respondeu tranquilo, indicando que não terminaríamos por ali.
— Espero que os dois estejam devidamente vestidos. — falou, abrindo a porta de forma cautelosa.
— Não tenho como terminar de me vestir, amiga... Minha blusa está ensopada dentro da pia. — eu respondi frustrada, mostrando o tecido todo embolado e completamente encharcado.
— Não tem problema, você vai embora com o meu casaco. Anda, pega. —ela respondeu, retirando a peça do corpo e estendendo-a para mim.
— E o que eu faço com a blusa? — Cavani finalmente se pronunciou, segurando o tecido todo molhado.
— Guarda para me devolver, quando nos reencontrarmos. — eu disse suave, enquanto vestia o casaco que a tinha me cedido, e ele me encarou misterioso.
— Pode deixar, eu vou te devolver a camisa novinha. — ele falou, me encarando firme, e eu entendi o que aquilo significava.
— Eu não duvido disso. — respondi, sustando o olhar que ele me dava.
— Vamos, , chega de festa por hoje. — enlaçou a minha mão, me puxando para fora da cozinha, e eu apenas me deixei ser conduzida.
Passamos como flash pelo corredor que nos levou de volta à sala em que tudo aconteceu, e assim que eu encontrei o lado de fora da casa, suspirei aliviada. Nunca foi tão bom respirar ar puro, ainda que eu desejasse o ar que havia ali dentro. me encarava de lado, enquanto falava ao telefone, supostamente chamando um táxi que nos levaria para casa. Eu sabia muito bem o que aquele olhar significava. Ela estava cheia de perguntas para me fazer, e eu adoraria poder ignorá-la por um instante, mas eu sabia bem que aquilo seria impossível.
— Nem tenta, eu não vou responder nenhuma das suas perguntas, investigadora Ferreira. — eu disse, assim que ela largou o telefone e ameaçou começar com o interrogatório.
— Você vai responder sim, , nem começa. — ela respondeu, séria.
— Não aqui, não agora. Eu só quero chegar logo em casa, tomar um banho e descansar. Acho que eu mereço, né? — perguntei, segurando o riso.
— Só não vai sonhar com ele, viu?! — ela respondeu, gargalhando.
— Não posso prometer nada. — falei, cobrindo a boca.
Como um passe de mágica, o táxi apareceu na porta da casa do David, e tudo o que eu mais queria era chegar o quanto antes em casa. Encostei minha cabeça na janela, esperando o táxi sair, apenas para reconhecer um rosto que me encarava em uma das janelas superiores da casa, e eu sorri fraco assim que constatei que ele me admirava. Ele ainda estava sem camisa, e eu precisei conter um suspiro fraco que queria escapar. O táxi, então, arrancou, me deixando presa aos meus pensamentos, enquanto eu me obrigava a analisar os fatos.
Centroavante. Artilheiro. Jogador do PSG. Latino.
Sensual, gostoso, forte.
Encantador.
Desesperador.
Ele era tudo o que eu não queria conhecer. Ele era, sem dúvida alguma, tudo o que eu nunca esqueceria. E eu esperava que ele não me esquecesse também, não depois de tudo o que aconteceu.

Capítulo 01

– Cavani POV –

NY, Estados Unidos

Quarta, 31 de dezembro de 2014.

20h.

Eu não fazia ideia de que eu poderia ficar tão nervoso quanto eu estava. Eu já havia encarado a blusa branca que pendia livre na minha mão algumas vezes, sem realmente entender o que eu fazia ali. Quando perguntei ao David onde ele e os meninos passariam o Ano Novo, não achei que eu pudesse cometer a loucura de segui-los. Mas aqui estava eu, em Nova Iorque atrás deles e, por que não, dela. Atrás da mulher que vinha preenchendo meus sonhos dia após dia. Eu não fazia ideia de qual feitiço ela havia feito, mas ela havia me conquistado, e eu, naquela altura, faria qualquer coisa para vê-la de novo, nem que fosse apenas mais uma vez.
Meu celular vibrava desesperado e eu sabia perfeitamente que era o David, questionando onde eu estaria, já que a festa havia começado há mais de uma hora, e eu ainda não havia chegado.
— Diga, cabeludo? — perguntei assim que atendi a chamada.
— Por onde você anda, cara? A festa já começou há uma hora… — ele respondeu meio abafado, e eu quase não o escutei, tamanho era o ruído da festa.
— Estou a caminho, cara. — falei enquanto caminhava pelas ruas geladas de NY, tentando encontrar o endereço certo.
— Você disse isso uma hora atrás, Edinson. Tudo isso é nervoso? — ele questionou, firme, e eu gargalhei.
— Nervoso do quê? De uma festa? Me respeita, Luiz. — respondi, gargalhando, e ele bufou.
— Não é por nada não, Edinson, mas a está linda e chamando a atenção de todo mundo aqui. Se você ainda quiser uma chance com ela, acho bom se apressar ou vai perder a garota para algum americano metido a rico por aqui.
— E quem disse que eu vou pela ? — Tentei desviar o assunto. Odiava quando ele me pressionava.
— Tá bom então, fica aí enganando a si mesmo, enquanto eu vou aproveitar a festa, que está sensacional. Passar bem, Edinson. — ele disse antes de bater a chamada.
Encarei o telefone por alguns segundos, antes de bufar frente à afronta feita por David. Quem ele pensava que era para desligar o telefone na minha cara? Quem era ele para dizer que eu estava ali apenas por ela? Ok, isso não era tanta mentira assim, saber que passaria o Ano Novo em Nova Iorque me fez ter um motivo a mais para pegar aquele avião, no final das contas, mas ela não era a única razão de eu estar ali.
Continuei caminhando pela rua, seguindo sempre em frente, como o David havia me informado e, finalmente, encontrei o prédio indicado logo a minha frente, me fazendo suspirar aliviado. A ideia de ficar perdido em uma Nova Iorque fria não era agradável.
Passei pela porta de entrada apressado, agradecendo aos céus pelo aquecedor central do prédio estar ligado. Segui na direção da recepção e fui informado de que a festa estava acontecendo no terraço do prédio, e então caminhei até os elevadores, pegando meu celular no bolso, apenas para enviar uma mensagem para o David.

Já estou aqui. Estou subindo.

A mensagem não tardou a ser entregue e eu entrei no elevador, que havia acabado de parar no térreo. Segurei a camisa, que ainda se encontrava na minha mão, um pouco mais apertado, ciente do que eu havia ido fazer ali. Eu precisava entregar a camisa, como também precisava aproveitar a festa que estava acontecendo.
O trajeto do térreo até a cobertura só não foi silencioso graças à música ambiente que tocava no elevador, prendendo minha atenção por um momento. Não me dei conta de que já estava na cobertura até ouvir o sinal sonoro do elevador, indicando que era hora de encarar a festa e a realidade. Saí assim que a porta abriu, mas havia uma grande quantidade de pessoas à minha volta, fazendo com que eu precisasse me esforçar para encontrar um rosto conhecido. Eu finalmente o encontrei e precisei concordar instantaneamente com o que o David havia dito no telefone — ela estava maravilhosa.
estava encostada no parapeito da cobertura, dando alguns tapas animados na bunda da , que gargalhou em resposta, lhe mandando vários beijos antes de se afastar para algum lugar, que eu não fazia ideia de onde era. então prendeu o olhar na amiga, e eu o segui, apenas para vê-la dar um selinho animado em David, que pareceu sentir minha presença, virando na minha direção.
Eu não sabia para quem olhar, mas eu sabia que merecia mais a minha atenção do que meu amigo, então me virei para encará-la, desejando muito que ela sentisse a atração que eu gostaria que nossos olhares causassem.
Não sei dizer em qual momento ela notou minha presença, mas ela o fez, congelando seu olhar em mim, fazendo com que eu sorrisse em resposta. Já disse o quanto ela estava maravilhosa? Pois é, no instante em que ela me encarou, percebi que estava ainda mais. O cabelo, que agora estava loiro, adornava o contorno sutil do rosto, e alguns fios se perdiam dentro do decote ousado do vestido, que era perfeito, como ela.
mordeu, sem nem perceber, os lábios pintados de vermelho, fazendo com que eu encarasse aquele gesto mais fixamente, no exato instante em que senti dois tapinhas nas minhas costas. Isso faz com que eu precisasse quebrar nosso contato, apenas para encarar a pessoa que me chamava.
— Finalmente, Edinson. Achei que você não chegaria nunca, homem! — David comentou, animado, me puxando para um cumprimento.
— Eu disse que eu chegaria, David, você que é exagerado e não se controla. Parece até que nasceu de sete meses. — respondi, divertido, fazendo-o gargalhar.
— Acho que você se lembra da , né? Minha namorada. — David comentou, puxando a menina mais para perto.
— Finalmente posso te cumprimentar direito, Edinson... A outra vez não valeu. — ela falou, envergonhada, me fazendo rir.
— Eu não estava nos meus melhores trajes, peço perdão. Não tenho o costume de andar pelado por cozinhas alheias. — disse, tentando soar engraçado, mas sentindo o nervoso me corroer, querendo encarar o espaço nas minhas costas para ver se ela ainda estaria ali.
— Ainda bem, Edinson, ainda bem. — David respondeu, e eu gargalhei com o tom indignado que ele havia usado.
— Bom, não vamos tomar o seu tempo. Aproveite a festa, nos vemos mais tarde. — falou, e eu assenti.
— Obrigado. Até mais.
Agradeci mentalmente por aquela conversa ter terminado e me virei apressado, encarando o espaço onde ela estava, apenas para encontrar um vazio, que me deixou indignado. Por um momento, cheguei a cogitar que minha mente havia projetado a imagem dela ali, mas eu sabia que não.
Apertei com um pouco mais de força a camisa que ainda estava em minhas mãos e decidi que meu propósito naquela festa era encontrá-la. De qualquer jeito.

POV –

NY, Estados Unidos

Quarta, 31 de dezembro de 2014.

20h.

Eu estava gelada da cabeça aos pés, era fato. Não sabia se a culpa era do inverno nova iorquino ou do meu coração, que insistia em bater firme, indicando o que ainda estava por vir. Eu não fazia ideia do porquê do David ter feito aquilo, mas eu sabia que era total golpe baixo. Segundos antes de sair do quarto, David me disse que ele estava em NY e que iria participar da festa conosco. Não que houvesse um problema nisso, afinal, a festa era aberta e qualquer pessoa poderia acessá-la, mas saber que ele estaria ali, e que dividiria mais um pequeno espaço comigo, era meio absurdo.
Caminhei apressada até o parapeito do terraço do hotel em que estávamos, buscando encarar as luzes de Nova Iorque e tentando afastar qualquer ideia de que ele poderia cruzar a porta a qualquer instante, me fazendo perder o eixo. Eu não poderia ceder, já havia sido o suficiente na festa do David, e eu não precisava de mais uma dor de cabeça, não agora que eu estava totalmente focada na minha empresa e mais nada.
— Atrapalho? — uma voz sutil falou ao meu lado, me sobressaltando.
— Nunca, . — respondi, assim que me recuperei do susto.
— Você está pensando muito, … Alguma coisa que você queira me contar? — ela perguntou, encarando meu rosto.
— Deveria ter algo para contar? — questionei, divertida, fazendo com que ela levantasse uma sobrancelha em resposta.
, você não me engana. Você está elétrica desde que o David disse que o Cavani viria para esse Ano Novo. — ela comentou direta, me deixando momentaneamente sem fôlego.
— E o que isso tem de mais, ? Ele só vem compartilhar da festa com os amigos… Exatamente como eu estou compartilhando com as minhas amigas. — falei, tentando enrolá-la, mas eu sabia que seria sem nenhum sucesso.
— Vai ficar se enganando até quando, queridinha? — ela questionou irônica, me fazendo gargalhar.
— Ai, ! Vai atrás do seu homem e me deixa, vai… Tô aqui respirando uma brisa nova iorquina enquanto fico mentalizando Taylor Swift pra passar o tempo.
Welcome To New York? — ela perguntou, animada.
— Alguma dúvida? Agora chispa, anda, que eu quero ficar sozinha. — respondi, dando uns tapinhas na bunda dela, fazendo-a gargalhar alto.
— Ok, já entendi que sou desnecessária. Beijo, amiga, aproveita aí a vista… — ela disse, caminhando para longe de onde eu estava.
Acompanhei se afastar com o olhar, mantendo-a no meu foco de visão, vendo o exato instante em que ela se aproximou do David para lhe roubar um beijo, me fazendo sorrir com a felicidade dela. havia sido minha primeira amiga em Paris, e eu era grata aos céus por tê-la conhecido e por saber que ela era uma das, se não a minha melhor amiga. Se eu precisasse de um conselho, ela teria. Se eu precisasse de um puxão de orelha, ela teria também. era um anjo que havia sido posto na minha vida, e eu era grata por tudo isso.
Deixei que meu olhar continuasse vagando pelo salão, tentando afastar da minha vista a visão do casal apaixonado se beijando, e também porque eu sentia um par de olhos fixos em mim, fazendo com que eu fosse em sua direção.
Parado, na porta do elevador, estava ele, maravilhoso, exatamente como eu me lembrava. Cavani vestia um blazer preto, acompanhado de uma camisa branca, uma calça também preta e um sapatênis escuro, mantendo um look monocromático, que atraiu minha atenção. Ele sorriu no instante em que reparou que eu o havia encontrado. Senti-me congelar, por dentro e por fora. Reparei que ele me encarou de cima a baixo, exatamente como eu havia feito com ele, e então ele voltou o olhar para o meu rosto, se fixando em um ponto específico, e só então me dei conta de que eu mordia meus lábios ao encará-lo. Agradeci aos céus quando nosso contato visual foi quebrado, já que David e se aproximaram para cumprimentá-lo, e então eu aproveitei a deixa para me misturar entre as pessoas, buscando fugir do olhar dele, que parecia ver além da minha alma.
Eu queria encontrá-lo, era claro, mas, ao mesmo tempo, tinha medo do que isso poderia resultar.

22h.

Eu não fazia ideia de como eu conseguiria continuar evitando Edinson. O rooftop era grande, mas não o suficiente para fugir de uma pessoa a noite inteira, e eu sabia que uma hora o embate seria necessário. Caminhei em direção ao balcão, desejando apenas um drink gelado e alcoólico o suficiente para me fazer relaxar diante de toda aquela situação e que me fizesse aceitar que uma hora nós conversaríamos.
— Uma dose de uísque cowboy, por favor. — pedi assim que me aproximei da bancada do bar.
— Sim, senhora. — o barman concordou, caminhando em direção à enorme parede de bebidas para buscar o que eu havia pedido.
— Eu não faço ideia do que ela pediu, mas me veja uma dose também, por favor. — uma voz comentou as minhas costas, fazendo com que eu me arrepiasse.
O barman então concordou com um aceno de cabeça, servindo a mesma dose em dois copos, ao mesmo tempo em que eu precisei recuperar meu eixo por tê-lo escutado tão próximo, de forma tão inesperada.
. — ele disse meu nome devagar, como um brinde, assim que o barman deixou as doses de uísque à nossa frente.
— Edinson. — respondi ao brinde, deixando que seu nome brincasse entre meus lábios, e eu notei, pelo canto dos olhos, que aquilo mexeu com ele.
— Então você prefere uísque puro? — ele questionou, tentando puxar assunto, enquanto me via bebericar minha escolha, apreciando a queimação característica daquele tipo de bebida.
— Sinto lhe informar, mas se você mistura uísque com qualquer coisa, ainda que gelo, você está bebendo errado. — respondi pausadamente, depois de apreciar mais um gole da minha bebida.
— Mas ele é forte demais para ser bebido puro. — ele falou, incrédulo, e eu apenas gargalhei.
— Sinto muito se você não aguenta. Eu me nego a pegar um uísque caro como esse e misturar com alguma coisa que destrua totalmente o seu sabor. — disse, firme, encarando-o com uma sobrancelha levantada.
— Esqueci que seus gostos são peculiares. — ele respondeu, e eu podia jurar ter sentido ambiguidade na sua voz.
— Você ainda não viu nada… — Deixei minha fala morrer no ar enquanto o encarava de lado, e por pouco não cuspi o gole de uísque que eu havia tomado.
Cavani me olhava bobo, talvez até admirado e surpreso por perceber nas minhas palavras jogadas ao vento, que eu ainda o queria. Minha frase havia dado a ideia clara de que poderia haver mais uma vez, e ele sabia bem disso.
— Não vejo a hora descobrir todos esses gostos. — ele falou, galanteador, e por muito pouco eu não sucumbi ao desejo de arrastá-lo comigo para a primeira suíte vaga que houvesse naquele hotel.
— Para tal, você precisará me conquistar, meu bem. — disse, lhe piscando um olho.
— Será um prazer lhe conquistar, meu bem. Tudo por mais uma chance. — ele respondeu, firme, me fazendo encará-lo divertida.
— Se você conseguir um beijo meu durante os fogos, eu posso te garantir muitas quebras de rotina… — Deixei, mais uma vez, minha frase morrer no ar, e ele me encarou, me testando.
— Durante os fogos? Pois então está feito. Você passará a virada do ano com a boca na minha. — ele falou, decidido, me fazendo rir.
— Queria dizer que eu não sou tão fácil assim de conquistar. Aquilo na casa do David foi um pneu furado na estrada. — respondi, divertida, e ele me encarou ainda mais decidido.
— Acredite você ou não, eu gosto muito mais dos desafios. — ele disse, firme, antes de piscar um olho.
— Sou um desafio? — questionei, ainda que já soubesse a resposta.
— O melhor de todos os que eu já disputei. — Ele sorriu de lado, e a parte emocional do meu cérebro se derreteu instantaneamente.
— Bom saber disso, atacante. Espero que você seja capaz de concluir com sucesso esse desafio.
— Pode apostar que sim. — Eu podia ver a decisão brilhar nas íris escuras dele, me causando arrepios.
— Bom, se você me permite, eu preciso ir dar uma volta no salão, conhecer novas pessoas, me tornar um novo desafio. — comentei, divertida, assim que terminei minha dose de uísque, já me afastando do balcão.
— Não se esqueça, Colmenero, meia-noite sua boca estará na minha. — ele falou, firme, largando seu copo na bancada.
— Não me esquecerei, Cavani. — respondi, me afastando dele.
Caminhei por entre as pessoas, me afastando ao máximo possível do balcão e da promessa silenciosa que havíamos feito. Estava claro, cristalino — nós dois nos queríamos e nos realizaríamos mais tarde. Porque eu sabia que nenhum de nós teria força o suficiente para afastar o outro, caso o desejo pelo beijo acontecesse.
Eu simplesmente sabia que um sentimento havia nascido na cozinha daquela casa em Paris, e que ele continuaria crescendo por entre a brisa nova iorquina.

23h50.

Faltavam alguns minutos para a meia noite finalmente chegar e, desde a nossa conversa no bar, eu não havia encontrado mais com ele. Eu não sabia como Cavani havia feito isso, mas ele tinha sumido entre a multidão, e meu medo era de que ele houvesse desistido da promessa de passar a meia-noite comigo. Voltei minha atenção para o espaço à minha frente, uma visão privilegiada da Times Square, onde aconteceria a queima de fogos daquele ano, torcendo apenas para que ela acontecesse o quanto antes, e eu pudesse, finalmente, descansar.
apareceu ao meu lado com uma bandeja cheia de taças de champanhe e eu logo tratei de puxar uma, bebendo o conteúdo inteiro de uma vez só.
— Ei, a champanhe é para a hora da virada. Larga a taça. — ela falou, tirando a taça já vazia da minha mão, e me proibindo de pegar mais uma.
— Eu estou nervosa, , e você sabe que quando eu fico nervosa, eu preciso beber. — disse, agitada, revezando o peso do meu corpo entre as minhas pernas.
— O que está te deixando tão nervosa assim, ? Posso saber? — ela questionou, e eu vi David se aproximar, fazendo um gesto de silêncio com as mãos.
— Uma promessa aí, que eu não sei se será realizada. — respondi, enigmática, e ela abriu a boca para protestar, no instante exato em que David a segurou por trás, gritando em seu ouvido, me fazendo gargalhar.
— Seu filho da puta, você me assustou. — ela gritou em resposta, e eu gargalhei ainda mais alto.
— Ei, minha mãe não tem nada a ver com isso. — ele respondeu, rápido, levantando uma sobrancelha.
— Claro que tem… Se ela tivesse te dado educação, você saberia que não se deve assustar uma moça. — falou, irritada, e eu sabia que aquilo não acabaria bem.
— Ei, ei, pronto, passou. Bonzinhos, bonzinhos. Dá a patinha, dá? — disse, como se falasse com um cachorro, e os dois me mostraram a língua, rindo fraco.
— Você é idiota ou se faz, ? — foi a primeira a questionar, e David apenas concordou com um aceno de cabeça.
— Se eu não me metesse, vocês dois iam acabar se matando em plena festa, e eu não sou obrigada a ficar aturando discussão de relacionamento durante a virada de ano, com essa Nova Iorque maravilhosa brilhando aos meus pés. — respondi, direta. — Se for pra se matar, deixem para fazer isso depois que o ano entrar. Obrigada.
— Presta atenção, gente, vamos começar a contagem já, já. — Eduardo, um amigo do David que eu havia conhecido alguns dias antes, comentou se aproximando de nós, encarando o relógio.
— Essa marca de batom aí no seu queixo é de pré-Ano Novo, Dudu? — comentei, divertida, e ele me encarou petrificado.
— Que marca? — ele perguntou rápido, enquanto levava a mão ao queixo, esfregando a região.
— Ei, não esfrega, vai ficar pior… É batom vermelho, vem cá que eu limpo. — respondi, educada, pegando um dos guardanapos de pano que estavam na bandeja com as taças.
— Obrigado. — ele falou, se aproximando além do necessário para que eu pudesse limpar seu queixo.
Quem olhasse a cena de longe, acharia que aquilo significava mais do que realmente era, mas eu não me importava. Eu sabia bem que Eduardo não passaria de uma grande amizade que o futuro havia me presenteado, e isso nunca mudaria.
— Vai me contar quem fez isso? — questionei assim que terminei de limpar a mancha que havia ficado.
— Uma garota que eu conheci agora a pouco… Você não faz ideia do quão maravilhosa ela é. Tenho certeza de que vocês virariam melhores amigas caso se conhecessem. — ele disse, animado, me fazendo sorrir.
— Acho que temos tempo o suficiente para você chamá-la para passar a virada conosco, anda. Quero conhecer essa menina. — Eu sabia que minha animação momentânea havia contagiado não só a mim, como a ele.
— Pode deixar. — ele respondeu, apressado, enquanto se afastava atrás da menina.
Encarei o vazio onde Dudu estava segundos antes a tempo de ver puxar David para um beijo animado, enquanto os convidados finalmente se encaminhavam para a parte externa, onde já estávamos, para assistir aos fogos.
Varri o aglomerado de pessoas com o olhar mais uma vez, mas nada de encontrar aquele olhar que tanto me afetava. Desisti de encontrá-lo e foquei minha total atenção no show que passava lá embaixo, mesmo que eu não o escutasse. Qualquer coisa era melhor do que dar voz aos meus pensamentos confusos naquele instante.
Eduardo não demorou muito para voltar com a menina, que realmente era uma pessoa muito especial. Pensei ter o ouvido dizer que seu nome era , mas eu não tinha certeza. A contagem regressiva já se aproximava, e ele não aparecia para me encontrar.

– Cavani POV –

Eu não fazia ideia de onde ela estava, mas eu queria muito encontrá-la. Na realidade, eu precisava. Primeiro porque eu não era homem de quebrar promessas, e também porque eu precisava mostrar que eu realmente sentia algo, e que eu queria fazer com que ela se sentisse especial.
Só reparei que horas eram quando as pessoas começaram a caminhar para a área externa e eu os segui. Eu sabia que ela estaria ali, em algum lugar, e precisava encontrá-la antes que os fogos começassem.
Afastei os corpos das pessoas que atrapalhavam meu caminho, sempre me lembrando de pedir desculpas por isso, e cheguei à mureta que dava frente para a Times Square exatamente no instante em que eles iniciaram a contagem regressiva para a entrada do novo ano.

10!

Encarei os espaços vazios ao meu lado, procurando pelo rosto dela.

09!

Eu jurava tê-la visto próximo ao parapeito.

08!

Pedi licença para chegar um pouco mais para o lado, no exato instante em que reconheci aquela cascata loira, que havia ficado tatuada na minha mente.

07!

Mais alguns pedidos de licença, porém nem todos bem aceitos.

06!

Eu jurava poder sentir o perfume único que ela tinha, ainda que ela estivesse a alguns corpos de distância.

05!

Aumentei a pressão dos esbarrões, tentando chegar o quanto antes próximo a ela.

04!

. — chamei, apesar de saber que era quase impossível que ela pudesse me ouvir.
A contagem era alta demais, e a expressão que ela mantinha no rosto me garantia que ela não ouviria ninguém à sua volta.

03!

Esforcei-me para chegar ainda mais próximo, derrubando uma taça de champanhe no trajeto, fazendo com que minha camisa ficasse molhada.

02!

Eu estava perto, perto o suficiente. Ela estava a um esbarrar de dedos.

01!

Alcancei seu braço, ao mesmo tempo em que a multidão explodiu em gritos de “Feliz Ano Novo!”, junto dos fogos da Times Square.
virou na minha direção no exato instante em que meus dedos esbarraram nela, e eu vi seu rosto se iluminar assim que ela me reconheceu. Puxei-a para mais perto e, sem pedir licença, beijei aqueles lábios exatamente como eu havia planejado no dia em que embarquei para Nova Iorque. ficou atônita por alguns segundos, mas assim que entendeu o acontecia ali, correspondeu ao beijo de uma forma doce e sutil. Ela puxava os pequenos fios que se enrolavam na minha nuca, enquanto eu lhe apertava o rosto com uma mão e a cintura com a outra.
Ela logo tratou de colar nossos corpos, me fazendo sorrir entre o beijo, tamanha animação que eu sentia. Não era como se eu a conhecesse há anos. Sendo bem sincero, eu havia conhecido essa garota dois meses antes, mas ela havia arrebatado meu coração.
Separamos o beijo com alguns selinhos, ambos buscando um pouco de ar.
— Espero não estar muito atrasado. — comentei, no instante em que senti que minha respiração começava a se normalizar.
— Confesso que achei que você não apareceria. — ela falou, sincera, enquanto tentava ler meu olhar.
— Eu nunca quebrei uma promessa antes, . E mesmo sabendo que para tudo se tem uma primeira vez, não queria que fosse justamente hoje. — respondi, firme, e ela abriu aquele sorriso lindo, que me desmontava.
— Na verdade, Edinson, você quebrou uma promessa sim. Você disse que me devolveria a minha camisa, e nada dela aparecer… — ela falou, séria, e eu gargalhei.
— Seria essa a camisa? — questionei, levantando a camisa entre nós dois, fazendo com que ela me encarasse, abismada. — Eu te disse, , eu nunca quebrei uma promessa, e não será hoje que eu quebrarei.
— Então chega de papo, porque a virada já passou, e você me prometeu a virada inteira com os meus lábios no seu, e eu quero isso agora. — disse, firme, antes de me puxar novamente para um beijo.
era uma garota sem limites, e eu havia me apaixonado por ela exatamente por isso. Eu sabia que estava apaixonado, caso contrário, não trocaria meu Ano Novo em família pela loucura de caçá-la em uma festa em Nova Iorque.
despertava em mim meu instinto adolescente, livre e divertido. E eu sabia que nada daquilo seria em vão. Nunca fui de criar novelas na minha cabeça, mas eu sabia que, por ela, valeria a pena.

03h50.

Eu não fazia ideia de quanto tempo havia ficado beijando-a, mas eu sabia que era muito e que, ainda assim, não era o suficiente. Sabia que haviam nos fotografado, mas eu não estava nem aí. Eu me sentia bem, e era isso que importava no fim das contas.
Estávamos sentados em uma das mesas na área externa, jogando conversa fora, e vez ou outra discutindo sobre a relação que tinham David e , ou então conhecendo um pouco mais sobre a tal que Dudu quis nos apresentar. Eu não fazia ideia de como prestava atenção a qualquer coisa com sentada em meu colo, se mexendo vez ou outra para se acomodar. Eu acreditava que ela não o fazia por mal, mas, ainda assim, era quase impossível fazer meu corpo entender e não reagir.
Notei que ela esfregou a mão nos braços, numa falha tentativa de se aquecer, e só então me dei conta de que fazia frio. A sensação de tê-la comigo me aquecia e me fazia perder a noção real do que realmente acontecia. Afastei meu corpo do encosto da cadeira apenas para tirar meu blazer, e ela me olhou, tentando entender o que eu fazia.
— O que você está fazendo, Edinson? — ela questionou no instante em que me viu tirar o blazer, por fim.
— Te aquecendo. Seus braços parecem pedras de gelo. — respondi, sincero, tocando-lhe os braços, antes de passar a peça por cima de seus ombros.
— Mas aí você vai ficar com frio, não é justo. Pegue de volta, anda. — ela relutou, tentando tirar a peça para me devolver, mas eu a segurei em seus ombros.
, um cavalheiro nunca deixa uma dama passar frio. Ande, fique com o blazer. Eu estou mais acostumado às baixas temperaturas, não será nenhum problema suportar esse friozinho. — respondi, firme, e ela cedeu momentaneamente.
— Não seria melhor irmos para a parte fechada? — nos interrompeu, apontando para a parte coberta do salão, que devia estar mais quentinha.
— Só agora me dei conta de que são quatro horas dá manhã e que, segundo meu celular, está fazendo 10 graus. — David continuou, encarando a tela do celular.
— 10 graus e você não querendo meu casaco. Você ia ficar doente, . — disse, firme, enquanto ela me encarava de lado.
— Nada que eu já não tenha enfrentado antes, Edinson. — ela respondeu, me encarando nos olhos, e eu pude sentir uma pequena mudança de humor.
— Acho que devíamos era ir para os quartos. Já está tarde e amanhã é nosso penúltimo dia em Nova Iorque, temos que aproveitar. — Eduardo comentou, tentando desviar o foco do assunto.
me encarava dura, e eu podia sentir a pressão que havia em seu olhar. Era como se ela quisesse me dizer mais do que já havia dito, e eu lhe sustentei, respondendo o que quer que ela quisesse questionar.
Alguns instantes e a quebra de olhar se fez necessária quando pigarreou alto, chamando nossa atenção.
— Fica combinado assim, então. Nós vamos. — comentou enquanto se levantava, e eu não fazia a menor ideia de onde iríamos.
— Aonde? — questionou, sincera, e eu sabia que ambos não havíamos prestado atenção a nada do que era dito.
— Dormir agora para amanhã irmos às compras. — continuou, esperando uma resposta.
— E você acha que alguma loja abrirá? É primeiro de janeiro, as pessoas não costumam trabalhar. — respondi descrente, e ela pareceu pensar por um instante.
— Não tinha pensado nisso… Mas fazemos o teste. Se abrir, compramos. Se não abrir, só caminhamos pela rua. Nos divertindo. — ela falou, e eu pedi em silêncio para que nenhuma loja abrisse.
— Bom, agora vamos, que eu estou cansado. — David comentou, enquanto ficava de pé, sendo seguido de perto pelos outros.
ainda permaneceu sentada no meu colo, não demonstrando nenhum sinal de que se mexeria, me deixando intrigado.
? — chamou, estalando os dedos na frente dos olhos dela.
— Vão indo na frente, que daqui a pouco eu vou. — ela respondeu, dispensando os amigos com um aceno de cabeça.
— E você, Cavani? Vem conosco? — David questionou, me encarando, e quando eu abri a boca para lhe responder, se atravessou na minha frente.
— Ele vai ficar mais um pouquinho comigo, e já vamos. Boa noite, casais. — Ela falou, firme, e todos se despediram com um aceno de cabeça, sem dizer uma única palavra.
Encarei meus amigos indo embora, no instante em que ela soltou o próprio corpo no meu colo, apoiando a cabeça no meu ombro, e nos deixando totalmente conectados, apesar das roupas entre nós.
puxou minhas mãos até que elas se encontrassem em sua barriga, abraçando-a, fazendo um sorriso sutil aparecer em meus lábios.
— Obrigada por uma das melhores viradas de ano da minha vida. — ela comentou baixinho, e eu sabia bem que ela estava sendo sincera.
— Eu que te agradeço pela oportunidade de poder estar contigo essa noite. — respondi tão sincero quanto, antes de depositar um beijo sutil na pele exposta do pescoço dela, fazendo com que ela se encolhesse.
— Você faz com que eu me sinta especial, e isso é muito estranho. Eu só te conheço há dois meses, mas é como se eu te conhecesse uma vida inteira, Edinson. Isso me deixa maluca. — ela continuou falando, sincera, e eu queria poder olhar em seus olhos.
— Você fez algum tipo de feitiço, menina, é a única justificativa plausível para tudo isso que você despertou em mim. — Eu podia sentir meu coração acelerado e desejei que ela o sentisse também.
— Você é muito bobo, sabia? Mas eu gosto de você mesmo assim. — ela disse, sincera, virando meio rosto, se aconchegando na curva do meu pescoço.
— Você gosta de mim, é? — questionei, divertido, e senti o exato instante em que seu abdômen se contraiu, e eu sabia que era nervoso.
— Gosto. — ela respondeu baixinho, como se tivesse vergonha de admitir, me fazendo sorrir.
— Eu também gosto de você, mocinha. Gosto um pouco além do que eu pensei gostar, sendo sincero. — falei, terno, e ela deixou um beijo tímido no traçado da minha mandíbula.
— Eu também gosto esse mesmo tanto de você. Acredite ou não. — ela disse, e eu a abracei mais apertado. — Posso te fazer um pedido?
— Quantos você quiser, , estou pronto para te atender. — respondi, pomposo, e senti o exato instante em que a gargalhada se formou, antes que ela realmente saísse por entre seus lábios.
— Dorme comigo essa noite? Não quero mais me sentir sozinha. — ela falou baixinho, sincera, e a simples pergunta fez meu coração acelerar.
— Claro que durmo, . — respondi, doce, enquanto lhe fazia um carinho de ponta de dedos na barriga.
— Então vamos, porque já está tarde. — ela falou, animada, saltando do meu colo e me fazendo rir.
— Só falar em dividir a cama comigo que a mocinha já se anima toda, né? — disse, gargalhando, deixando que ela me puxasse pela mão.
— Nossa, Edinson, vou fingir que não entendi a mensagem sexual por trás dessa sua frase. — respondeu, revirando os olhos, mas eu sabia que ela estava mordendo o próprio sorriso.
— Vai dizer que você não aprovou a ideia?! A cama desse hotel é grande, mas eu quero ficar bem abraçadinho. — disse, divertido, e ela me encarou pensativa.
— Abraçadinho quanto? — ela questionou, manhosa, passando a unha de leve pelo meu ombro.
— Abraçadinho assim. — respondi enquanto a virava de costas e a puxava para um abraço, colando bem nossos corpos, arrancando dela um misturo de suspiro com um gemido, que eu sabia que vinha do fundo da garganta.
— Mas abraço com muita roupa não tem graça. — ela continuou com a fala manhosa, se encostando ainda mais em mim. — Se bem que está muito frio para ficar sem roupa.
— Ainda bem que o quarto tem aquecedor. Assim eu posso aproveitar ainda mais de você, diferente daquela vez na cozinha. — falei rouco contra seu ouvido, e ela se apertou ainda mais ao meu corpo, me fazendo suspirar.
— Vamos logo, antes que eu tire nossas roupas aqui mesmo. — ela comentou, decidida, antes de começar a caminhar em direção à parte interna do prédio comigo colado a ela.
— Seu desejo é uma ordem. — respondi, sincero, e a risada escapou por entre os lábios dela.
Agradeci aos céus quando encontramos o elevador vazio, e assim que a porta se fechou conosco do lado de dentro, encostei todo o corpo dela em uma das paredes, enquanto buscava seus lábios. levou alguns segundos para assimilar meu ataque e devolvê-lo com vontade. Puxei suas duas pernas para cima enquanto tateava a parede do painel de números, procurando o botão que travava o elevador. Assim que consegui meu feito, apertei suas duas coxas com vontade antes de lhe puxar o cabelo, deixando que eu tivesse livre acesso ao seu pescoço.
— Vamos para o quarto, Edi, não quero fazer isso aqui. — ela falou com a respiração entrecortada.
— Não sei se eu consigo. Preciso de você agora. — respondi, sem tirar a boca do meio do decote dela, fazendo com que ela soltasse uma risada nervosa.
— Consegue sim. Vem. — ela comentou, doce, virando a cabeça à procura do botão que eu havia pressionado pouco antes.
— Se eu sair daqui, quebraremos o clima. — disse, sincero, enquanto sentia o elevador voltar a se mexer.
— Eu te faço entrar no clima de novo rapidinho. — ela respondeu travessa, rebolando em meu colo, e eu respirei fundo.
— Me provoca só no quarto então. Por favor. — falei, sincero, antes de voltar a atacar o seu decote.
sorriu divertida, no exato instante em que a porta se abriu, revelando o andar do quarto dela. Ela ainda tentou descer do meu colo, mas eu não permiti.
Seguimos assim até encontrar a porta do quarto dela, que em segundos estava aberta. jogou algumas peças pelo caminho, se livrando dos próprios sapatos e do meu blazer, totalmente desnecessários. Caminhei com ela até a cama e então deitei seu corpo na mesma, e assim que ela estava confortável entre os travesseiros, desabotoei minha própria camisa branca, atirando-a em um canto qualquer do quarto.
Sem nem me dar conta, minha camisa caiu exatamente em cima da camisa que ela usava quando nos conhecemos, como se uma pertencesse à outra exatamente como nós, agora, nos pertencíamos. Nossas camisas emboladas no chão, exatamente como nossos destinos se uniram naquele instante.
Era pertencimento. Eu com ela, dela comigo. Era uma sensação estranha de nos pertencemos como nunca acontecera antes com mais ninguém. Eu sabia, lá no fundo, o que isso significava. Era pertencimento, pertencimento de outras vidas.

Capítulo 02

Paris, França

Segunda, 28 de maio de 2016.

Acordei para aquele dia, querendo que ele não existisse. Brigar com ele nunca me fazia bem, era fato, mas me deixava pior ainda quando isso acontecia um dia antes de um jogo tão importante para nós dois. Era o jogo que ele tinha esperado durante tanto tempo, era a chance perfeita que ele havia pedido a Deus, e eu poderia acabar arruinando tudo, com um capricho ridículo, mas que, na hora, me pareceu o certo. Não era como se ele tivesse muita opção no fim das contas, mas eu fazia parecer que ele tinha. A voz trêmula antes de desligar a chamada indicava que ele havia ficado mais sentido do que eu gostaria, e eu também fiquei. Por que eu era tão idiota?
Meu celular vibrava desesperado em cima da bancada, como se o mundo fosse acabar, e eu simplesmente o ignorei. Deviam ser as meninas, ou mesmo uma chamada dele, mas eu resolvi que não era hora de me importar com aquilo. Eu ainda não estava pronta para pedir desculpas por ter sido tão idiota.
Rumei até o banheiro para me arrumar, e a imagem que eu encontrei era pior do que eu havia imaginado. Eu estava um completo caco, exatamente como eu ficava toda vez que nós brigávamos. Eu odiava essa sensação de vazio que ficava, toda vez que eu dormia sozinha naquela cama que tinha o cheiro dele, depois das nossas brigas. Era como se um pedacinho de mim lembrasse a cada segundo que eu havia sido ridícula o suficiente para quase perder o homem da minha vida. De novo.
Terminei o que tinha para fazer no banheiro e, aos poucos, senti meus ânimos voltarem ao normal. Não é como se eu estivesse feliz de novo, mas eu me sentia plena o suficiente para aceitar que a merda era minha, e que eu teria que limpar sozinha toda a cagada que eu fiz dessa vez. Voltei para o quarto e reparei que meu celular continuava a acender de forma desesperada, e aquilo meio que me assustou. Eram só 9h da manhã em Paris, quem será que queria tanto a minha atenção?! O nome de David brilhava na tela, e eu sabia que aquilo era um péssimo sinal. Não importa quantas vezes eu brigasse com ele, tudo se tornava dez mil vezes pior quando o David se metia, disposto a ajudar o amigo. Na maioria das vezes ele nem me escutava direito, só me criticava até que eu me sentisse a pior das pessoas do mundo.
— O que houve? — eu perguntei assim que atendi a ligação.
— Como assim o que houve? Eu é que te pergunto o que houve, ... Por acaso você anda comendo merda por aí? — David e seu humor de cavalo.
— Você parece estar me ligando há horas, quero saber o que houve... Alguém morreu? — Odiava quando ele vinha com dez pedras para cima de mim, como se ele nunca errasse na vida.
— Sim, eu estou te ligando há horas, mas parece que a princesa tem um sono de pedra e só se preocupa com ela... — Eu podia sentir o cinismo atravessar o telefone e esbofetear a minha cara.
— David Luiz, se você me ligou para encher o meu saco em relação à minha briga com o seu amigo querido, perdeu seu tempo, viu?! Por que você não vai se preocupar com o seu relacionamento e esquece o meu? É tão mais útil quando cada um cuida da sua própria vida... Sério, o Edinson não tem mais cinco aninhos, ele sabe se virar sozinho. — Eu estava cansada daquela palhaçada de sempre.
— Eu sei que ele não tem mais cinco anos, queridinha... Mas, se não te avisaram antes, eu aviso agora... Hoje é o dia da final da Champions League e nós precisamos ganhar a qualquer custo... E não é fazendo o seu noivo chorar a madrugada inteira que você vai nos ajudar a vencer esse jogo, viu?! Assim, só por avisar mesmo. — O tom acusador que ele usava me puxou de volta para a realidade. Ele havia chorado a madrugada inteira, enquanto eu tinha dormido razoavelmente bem... Depois de também chorar um pouco, mas suponho que menos do que ele.
— Ele o quê? — Parabéns, David, você conseguiu o feito de me deixar culpada ao cubo, mais uma vez.
— Sim, , ele chorou a madrugada inteira por sua causa. Ele está extremamente culpado por algo que, com certeza, não é culpa dele. Mas você não pensa, não é mesmo? Você sabe como ele fica todas as vezes que vocês brigam. Você sabe que ele sofre, se magoa... E você continua fazendo as mesmas coisas. Às vezes acho que você sente prazer em fazê-lo sofrer, é impressionante... O Cavani não é um santo, eu sei, mas poxa... Confiar nunca é demais. — ele falava sincero, e aquilo me doía duas vezes mais.
A questão entre nós nunca foi a falta de confiança. Eu confiava no Cavani de olhos fechados e com as mãos e os pés amarrados. O problema eram as pessoas que o cercavam, aquele círculo maldito de modelos de corpos exuberantes, beleza típica de deusas, cabelos macios e sedosos, enquanto eu não passava de uma mísera mortal, agarrada a algumas estrias, celulites e um pote de chocolate. Eu nunca chegaria ao dedo mindinho daquelas mulheres, e isso me assustava, fazendo com que a minha defesa fosse duas vezes pior do que o meu ataque. Eu sabia que a culpa não era dele, mas acho que, às vezes, eu gostaria que fosse, sabe?! Cavani era o tipo de homem que nenhuma mulher no mundo acreditaria realmente existir, até que você o encontrasse. E quando você o encontra, sabe que existem mil outras mulheres mais bonitas que você, prontas para dar o bote, e você acredita que isso vai acontecer a qualquer segundo. Era extremamente complicado olhar as fotos e vê-lo abraçado a mulheres tão... maravilhosas. Eu tinha vergonha de acompanhá-lo aos eventos exatamente por isso... Era como se me escolher pudesse ser uma vergonha... Eu era tão comum perto de todas as mulheres que o mundo dele poderia oferecer, e acho que, toda vez que nós brigávamos, eu esperava que ele se desse conta disso. Eu esperava que ele aceitasse que eu era a escolha errada, mas ele sempre me mostrava que, de errado ali, só tinha a minha opinião. Mesmo depois de todas as brigas, ele nunca me negava o amor único que ele tinha. Eu poderia xingá-lo do que fosse, o quanto eu quisesse, que ainda assim ele sempre me devolveria com amor. Nossos amigos costumavam dizer que eu brigava sozinha. Mas dessa vez havia sido diferente. Ele havia devolvido toda a raiva que eu tinha jogado para cima dele. Ele parecia disposto a aceitar que não tinha mais jeito, e talvez nem tivesse... Eu queria acreditar que tinha, exatamente como queria acreditar que não tinha. Queria que ele se sentisse livre. E isso me doía.
? — A voz do David me trouxe de volta dos meus pensamentos.
— Oi, David, diga... — Minha voz mais pareceu um sussurro.
— O que houve entre vocês dois? Ele não quis me explicar direito a briga, só disse que vocês brigaram de novo, e que dessa vez foi feio... Ele nunca me explica direito o que acontece. Eu só tomo partido porque o vejo mal, e quero defendê-lo... Mas vejo que, dessa vez, ele não tá sofrendo sozinho...
— Nem eu sei o que acontece, David... Acho que... — Minha voz sumiu, dando lugar a um choro contido.
, você está... chorando? — David parecia incrédulo do outro lado da linha.
— Não, David, claro que não... — Mesmo sabendo que eu era péssima com mentiras, eu tentei.
, eu sei que eu estou longe de você e que estamos conversando por telefone, mas eu sei muito bem quando você chora. Não se esqueça de que eu também sou seu amigo, e que eu também te quero bem... — ele falava sincero.
— Ah, David, é mais complicado do que parece... Não quero tomar seu tempo com besteiras... Vai cuidar do seu amigo, certeza que ele precisa de você mais do que eu — respondi enquanto limpava minhas lágrimas.
, ele ‘tá sendo bem cuidado agora, pode ter certeza... Agora eu quero te ouvir, anda, me diga o que houve dessa vez, porque não parece ter sido pouca coisa... — ele falava tranquilo, me passando aquela paz única que só o David tinha.
— Sabe, David, saíram umas fotos do evento desse fim de semana, e uma delas mostrava mais do que eu gostaria de ver. Ele estava praticamente pendurado no pescoço de uma dessas loiras corpo de Barbie, no que parecia uma conversa animada ao pé do ouvido... Se ele soubesse o tanto de coisas que eu tenho que aguentar... Eu ando esgotada dessa coisa de ser noiva de um badalado atacante de um time fodido da Europa... Minha vida ‘tá do avesso, caramba. Até pouco tempo atrás, eu era só uma aspirante a gastrônoma, com o sonho de aumentar meu currículo, estudando na Le Cordon Bleu, ganhando conhecimentos extras em pâtisserie, pra ter um bom futuro... Estava tudo certo, eu tinha meus estudos, meu trabalho em Paris, eu teria a vida que eu tanto esperei, mas nada é fácil quando se trata de ... As coisas sempre tendem a sair do meu controle com mais naturalidade do que parece. E de uma hora para outra, eu deixei de ser só um nome promissor na gastronomia internacional para virar a noiva de Edinson Cavani, você tem alguma noção do que é isso? Às vezes eu meio que me arrependo de ter aceitado o convite da pra ir naquela social na sua casa... Uma simples festa e pronto, meu mundo virou de ponta cabeça, e eu nem tive tempo de apertar o cinto. Eu só queria voltar a ser uma pessoa normal, sem toda essa pressão que a mídia anda jogando em cima das minhas costas... — eu desabafei. Era como se um peso de dez mil toneladas tivesse sido arrancado das minhas costas.
— Eu queria ter as palavras perfeitas pra te dizer agora, irmãzinha, mas eu não sei o que te dizer... Eu imagino o quanto deve ser complicado... Minha vida também mudou de uma hora para outra, mas não da forma como você está vivendo... Deve ser horrível estar nos holofotes por tabela, e eu queria muito poder ajudar vocês dois... Mas, se você não se sente mais a vontade, fala isso para ele... Talvez o destino de vocês não seja esse de agora, infelizmente...
— David, tudo o que eu mais quero nessa vida é o Cavani, eu o amo como uma idiota, desde o primeiro momento em que o vi, na sua casa, segurando aquele copo de uísque que ele derrubou na minha blusa, por ser tão desastrado quanto eu... Eu o amo desde o primeiro momento, cara... Eu só queria que as coisas fossem mais simples, sabe?! Mas eu sei que elas nunca vão ser... — Eu me sentia uma derrotada por admitir aquilo em voz alta.
— Então deixe o amor vencer, . Para de besteira, garota... O Cavani te ama mais do que ama qualquer outra pessoa nesse mundo... Ele só quer te ver feliz e não pouparia esforço algum para tal, e eu sei que você também não pouparia, sei que você abriria mão da sua felicidade pela felicidade dele... A ‘tá vindo hoje ver o jogo, pega o jatinho com ela e vem também, tenho certeza de que vai significar o mundo para ele. Vocês quase não se expõem, exatamente por essa pressão infeliz da mídia. Faça essa loucura, por vocês... Ame como nunca amou, menina, se entrega de corpo e alma, e vem logo ser feliz... — Eu sabia que, do outro lado da linha, David sorria, se sentindo um verdadeiro gênio, e talvez ele fosse, no fim das contas.
— Vou falar com ela agora mesmo, David, obrigada por tudo... E desculpa por fazer isso com vocês, eu não pensei nas consequências... Tem algo que eu posso fazer para ajudar?
— Só entre nesse jatinho e vem pra cá, deixa que com o resto eu me resolvo depois... Só vem buscar tua felicidade.
— Obrigada, por tudo! Agora eu preciso ir, beijos mil...
E eu não esperei por uma resposta dele. A chamada nem tinha sido terminada direito, e eu já estava discando o número da , para lembrá-la de separar um lugarzinho para mim naquele voo.
Como era de praxe, o celular tocou até cair na caixa postal. Eu odiava a cada vez que ela fazia isso comigo. Enviei mensagem em tudo quanto foi meio, e recebi um positivo dela de volta, com um texto que dizia: “O David acabou de me avisar... Sairemos daqui depois do almoço... Se arrume e almoce conosco. E não, isso não é um convite, é uma intimação. Beijos, amiga...” Adorava esses cinco minutos malucos que só a tinha, eram por coisas assim que nossa amizade valia a pena no fim das contas. Ela, junto das meninas, eram as pessoas com as quais eu sabia que sempre poderia contar, nos momentos bons e nos ruins. Elas faziam os detalhes valerem a pena.
Não me restara outra opção se não aceitar o convite para o almoço de bom grado. Eu tinha certeza de que as meninas saberiam levantar o meu humor e acalmariam meu coração desesperado. Eu estava indo para o tudo ou nada. Como em um jogo de pôquer, era a minha vez de fazer a aposta, e eu não sabia se a minha mão estava tão boa assim, mas eu tinha que usar o vento ao meu favor. Só haveria uma chance para o all in, e eu sabia que aquela era a hora.
Separei tudo o que eu precisaria para aquela viagem de emergência. A já havia avisado antes que eles ficariam em algum hotel depois do fim do jogo, mesmo que o PSG não ganhasse, apenas por comodidade. Todos viajariam no dia seguinte, e eu acreditei que aquilo também se aplicaria a mim, a partir de agora. Deixei minha pequena mala na porta do apartamento e segui até a estante que ocupava a parede principal da sala, apenas para admirar nossa foto preferida. Aquela tinha sido uma das primeiras fotos que tínhamos tirado juntos, e eu me lembrava perfeitamente bem daquele dia.

– Flashback –

Era uma manhã de domingo, daquelas bem ensolaradas, coisa rara em Paris. Acordei ouvindo os tão sonhados passarinhos que acompanham qualquer mulher apaixonada em um filme daqueles bem melosos. E, como toda história apaixonada, meu passarinho tinha nome, sobrenome, apelido e tudo mais o que eu quisesse. Eu me sentia em uma daquelas releituras de conto de fadas, nas quais a princesa não é tão princesa assim, mas vive a magia toda da mesma forma.
Hoje era, oficialmente, o nosso primeiro mês juntos, e eu sabia que o destino nos reservava muitas coisas especiais. Cavani era mestre em surpresas e isso tinha ficado nítido nesse mês que havíamos passado juntos. Desde simples corações nas comemorações dos gols, até rosas inesperadas chegando de hora em hora na minha casa. Ele era o homem que habitava os meus mais bonitos sonhos, e eu me sentia incrível por todas as coisas que tínhamos vivido juntos, nesse pouco tempo.
Naquele dia, Cavani me buscou em casa para irmos almoçar no restaurante que tinha na torre. Ainda que ele falasse que a vista ali era mais bonita de noite, fomos almoçar porque ele tinha planos para o dia inteiro. E eu não duvidava daquilo. O almoço foi tão incrível que eu tinha as minhas dúvidas de se aquilo tudo era mesmo real. Me parecia mais um daqueles sonhos lindos que a minha mente tinha o prazer de me agraciar. Me peguei pensando o quanto aquilo era mais do que eu esperava, mais do que eu gostaria de viver. Ele era um príncipe, e eu tinha noção total de que era demais para mim. Porém, eu estava disposta a aceitar qualquer coisa, desde que ele segurasse a minha mão, com o cuidado, o carinho e o respeito com os quais ele a segurava agora.
Saímos do almoço e ele não me contou para onde íamos. Apenas me guiou até o carro que já nos esperava o mais próximo possível da torre, enquanto segurava com força a minha mão. Era incrível saber que ele não tinha vergonha de segurar minha mão para quem quisesse ver. Ainda que fôssemos reservados com o nosso relacionamento, eu me sentia maravilhosa, cada vez que ele demonstrava que havia me escolhido entre todas as outras possibilidades que a vida poderia lhe dar.
Cavani me levou até o carro, e, assim que entramos, ele me vendou sem dizer mais nada. Eu queria lhe fazer mil perguntas diferentes, mas concordei em segredo que palavras seriam desnecessárias. Eu confiava nele, até mesmo de olhos vendados. Se ele estivesse me levando para algo ruim, o aceitaria de bom grado. O amor tinha dessas coisas, não é mesmo?!
Não sei dizer quanto tempo levamos até chegar ao nosso destino final, mas não deve ter sido mais do que dez minutos. Assim que o carro parou, Cavani abriu a porta do lado dele e segurou minha mão, indicando que era hora de sair. Me atrapalhei inteira, já que estava vendada, e recebi uma risada gostosa de volta. Cavani não esperou um pedido de qualquer coisa, simplesmente passou os braços na curva do meu joelho e nas minhas costas, me suspendendo do chão. Caminhou comigo no colo por um tempo, enquanto um cheiro familiar de flores inebriava meu nariz. Eu não fazia ideia de onde estaríamos. Paris era recheada de pequenos parques e, no atual clima que fazia, qualquer um deles teria aquele cheiro familiar de flores, folhas e frutos.
Caminhamos mais um pouco, até que ele me colocou com todo o cuidado do mundo no chão, abraçando minha cintura por trás, e se curvando até que seu queixo encostasse a curva do meu ombro. Enrosquei meus braços entre os dele e recebi um carinho suave de volta. Não me preocupei em tirar a venda em nenhum momento. Eu só queria poder sentir um pouco mais daquela paz única que ele me passava, enquanto me segurava daquela forma. Eu estava mais entregue do que poderia, e até mesmo do que eu gostaria, mas eu não tinha medo disso. Cavani me despia dos meus medos. Com ele, eu sabia que poderia ser o que quisesse, que ele me aceitaria de qualquer forma.
— Pronta para tirar a venda? — ele questionou suave ao pé do meu ouvido, fazendo com que eu me arrepiasse.
— Com você, eu sempre estarei pronta, mi amor. — respondi na mesma suavidade.
Cavani afastou o corpo do meu e puxou o laço que ele tinha dado na venda, que caiu aos meus pés. Levei um tempo até que minha vista se acostumasse com a claridade do local, e então o reconheci. Estávamos no Jardin du Luxembourg, ou Jardim de Luxemburgo, um pequeno pedacinho de Florença, em pleno centro de Paris. Eu era encantada com aquele jardim, e ele sabia muito bem disso. Eu vivia falando da arquitetura do lugar, de suas cores, de seu aroma... Me senti uma idiota por não ter reconhecido apenas pelo cheiro único que aquele lugar tinha.
— Gostou da surpresa, pequeña? — Cavani me perguntou, enquanto me abraçava de novo, exatamente como antes.
— E tem como não gostar? Você sabe o quanto sou louca por esse lugar... Obrigada. — respondi enquanto tentava esconder minha voz embargada.
— Não precisa agradecer. Queria um lugar especial para passarmos a tarde, comemorando, em segredo, nosso primeiro mês juntos. E nada melhor do que no seu lugar preferido em Paris. — ele falou enquanto me virava de frente para ele.
— Como consegue ser tão perfeito, quase que 24h por dia? Você não cansa? — eu perguntei, sentindo algumas lágrimas escaparem, contrastando com o sorriso largo que eu tinha nos lábios.
— Sou apenas um reflexo seu, mi amor.
E então ele me beijou. Aquele beijo suave, puro e verdadeiro. Aquele beijo que falava do amor único que nós tínhamos. Eu poderia beijá-lo para sempre, e eu não me importaria. Com uma mão ele me segurava pela curva da cintura, abraçando minhas costas, enquanto a outra segurava meu pescoço, acariciando minha bochecha com o polegar. Eu tinha uma das minhas mãos perdida entre seus cabelos, enquanto a outra apertava de leve um dos ombros dele.
Assim que nos separamos, Cavani colou nossas testas, enquanto respirava com certa dificuldade. Eu estava inebriada com o amor que emanava de nós dois, se misturando à perfeição do lugar onde estávamos.
Ele nos guiou por vários caminhos desconhecidos naquele parque, e eu me deixava ser conduzida. A ideia de estar sobre os comandos dele me tranquilizava. Cavani era o homem dos meus sonhos, e eu nunca duvidaria ou questionaria isso.
Em certo ponto, na frente de um canteiro recheado de flores coloridas, Cavani travou o passo, indicando que queria ficar por ali mesmo. Me peguei admirando toda aquela beleza infinita, que brilhava em dourado, e nem percebi quando ele se ajoelhou ao meu lado, chamando minha atenção com um toque sutil na minha mão.
— Cavani, levanta desse chão, você vai se sujar todo... — Metade de mim era vergonha, e a outra metade era incredulidade. O que ele fazia ali?
— Eu não me importo. — ele falou sério, me encarando.
— Por favor, amor, levanta. — Tentei suspendê-lo pelos braços, sem sucesso.
, aqui estou, ajoelhado na frente dessa imensidão maravilhosa, apenas para lhe dizer o quanto sou grato por estar contigo há um mês. Parece pouco, não é mesmo? Mas, para mim, é mais do que o infinito. Sou tão grato pela vida ter me dado você... Tão única, tão sincera, tão envergonhada... Tão amor. Amor da minha vida. Não tenho palavras para agradecer tudo o que temos, tudo o somos, tudo o que vivemos. Seu apoio incondicional em todos os momentos, a forma como você me abraça apenas para me dar paz, a forma como me sorri, exatamente como faz agora... Faz com que eu me sinta vivo, amado... Como eu nunca fui antes. Você é a explicação sincera do porquê deu errado com todas as outras... Deu errado, porque a vida me preparava para saber reconhecer o certo, o meu certo. Deu errado porque a vida me preparou para te receber. A mulher que colocaria todas as minhas crenças, meus sonhos, meus ideais, minhas metas no chão, com um simples sorriso. Nunca agradeci tanto ter sido desastrado, nunca agradeci tanto a possibilidade de ter lavado sua blusa com uísque. Nunca agradeci tanto o destino. Obrigada por ser perfeita, por ser única... Por ser minha. — ele falava sincero, enquanto segurava a minha mão com força. Ele tremia de nervoso, e confesso que eu só permanecia em pé, porque estava com os olhos focados no dele.
— Eu não tenho palavras para responder essa declaração, meu... — Comecei a falar, mas fui cortada por ele.
— Eu ainda não terminei, mi vida. Te agradeço por termos algo tão nosso. E por mais que, para nós, isso seja mais do que oficial e mais do que verdadeiro, queria fazer isso da forma certa, da forma como nós merecemos. , aqui, com esse jardim maravilhoso como nossa testemunha, você aceita namorar comigo? Você aceita viver comigo, pelo espaço do nosso infinito particular? — E então ele puxou duas caixinhas do bolso, e eu senti meus joelhos fraquejarem.
— Eu... Eu... Claro que eu aceito. — respondi enquanto sentia as lágrimas me impossibilitarem de ver o sorriso maravilhoso que ele havia dado.
Então, ele se levantou para colocar um anel de prata no meu dedo anelar e uma corrente brilhosa no meu pescoço. Assim que terminou, ele me puxou para um abraço apertado, que demonstrava todo o sentimento que as palavras não tinham sido capazes de expressar. Coloquei o anel no dedo dele e depositei um beijo suave ali, demonstrando toda a pureza que nosso sentimento escondia.
Caminhamos mais um pouco até que ele escolhesse um banquinho para nos sentarmos. Assim que meu corpo repousou, recostado no peito largo dele, ele puxou o celular e tirou uma foto nossa. Assim, desprevenida. Assim, realista. Assim, demonstrando o amor que nós não tínhamos mais forças para esconder. Daquele dia em diante, aquela havia se tornado a minha foto preferida. Ele sorria sincero, encarando a câmera, enquanto eu o encarava. Eu poderia jurar ver corações saindo dos meus olhos. E eu sabia que também havia corações nos olhos dele.
Éramos o clichê mais convencional possível. Éramos amor, emanando sentimento por todos os poros.

– Flashback –

Não sei em qual ponto comecei a chorar, mas só me dei conta disso quando senti uma lágrima pingar gelada no meu braço esquerdo, sendo seguida por outras tantas, que eu simplesmente não consegui segurar. Ali, no meio da sala, deixei que toda a dor que eu sentia se transformasse em lágrimas. Lágrimas de desespero. O que havia acontecido conosco?! Onde estava todo aquele amor que sentíamos lá no começo? O desejo de ficar juntos, a paz de espírito que um dava ao outro... Éramos irreconhecíveis.
Por mais que eu tentasse enxugar as lágrimas, meu pranto não cessava de maneira alguma. Era inútil limpar o rosto, então, simplesmente aceitei. Aceitei o choro merecido, de alguém que poderia ter colocado tudo a perder por uma simples idiotice. Aceitei que o erro era meu. Logo eu, que era tão confiante, logo eu, que sempre tive certeza do amor que ele tinha por mim. Eu não me reconhecia, e era disso que eu tinha mais medo.
Meu pranto logo foi substituído pelo barulho contínuo de meus soluços, culminando com a falta de ar e o aperto no peito, que eu tanto detestava. Eu tinha a sensação de que me arrancavam algo a sangue frio, sem me questionar o que eu gostaria que acontecesse naquele momento. Minha única reação foi sentar no chão e abraçar meu corpo, até que a sensação de sufocamento fosse embora. Eu me sentia frágil, pequena... Inútil. E eu odiava toda aquela dor que eu mesma havia me causado. Me afundei nos meus próprios pensamentos destrutivos, me afoguei nas minhas inseguranças. Ele nunca teve culpa de nada, eu que sempre duvidei de mim. E agora, infelizmente, a vida me devolvia toda a dor que eu mesma havia me causado.
Se me perguntassem em qual momento elas haviam entrado em casa, eu não saberia dizer, mas assim que meu corpo foi abraçado, a única coisa que eu senti foi paz. Eu não precisava abrir meus olhos para reconhecer qualquer um daqueles abraços desajeitados que elas me davam. , , e , meu quarteto, meu ponto de paz. Ali, faltavam palavras e sobrava amor. Amor puro, amor de verdade. Amor de amiga, amor de irmã. Se me perguntassem qual foi a melhor coisa que a vida me deu, depois do Cavani, eu simplesmente recitaria esses quatro nomes até cansar. Ou melhor, eu nunca me cansaria, de qualquer forma.
Ficamos ali, abraçadas, o tanto de tempo que elas acharam necessário. Eu não as questionei, elas não me questionaram. Elas simplesmente sabiam o motivo de eu estar sentindo tudo aquilo. E elas não me julgaram, elas nunca o fariam. Eu era humana, e elas aceitavam isso. Não que elas apoiassem, mas elas nunca apontariam o dedo contra mim, não importa o que eu fizesse.
Senti uma mão suspender meu braço e me deparei com aquele olhar único que só a tinha, quando sentia que tudo o que eu precisava era de amor e carinho. Assim que me levantei, só fui capaz de abraçá-la o mais apertado que eu pude, enquanto as meninas faziam carinho na minha cabeça. Pude ouvi-la sussurrar um “vocês se amam, não desiste desse amor, por favor”, e eu sabia muito bem o que ela queria dizer com aquilo. Eu não desistiria dele, nunca. Desistir do nosso amor era o mesmo que abrir mão da minha existência. Quando escolhi estar com ele, abri mão de metade de mim para recebê-lo. Entretanto, depois de tanto tempo juntos, me dei conta de que substitui meu inteiro e entreguei tudo o que eu tinha dentro de mim, apenas para fazê-lo feliz. E, se eu abrisse mão disso tudo agora, era certo que eu poderia desistir de existir.
Assim que eu controlei meu choro, saímos quase que correndo para o almoço. Estávamos um pouco atrasadas e precisávamos ganhar tempo de novo. O percurso foi feito em um silêncio fora do normal. Eu não estava a fim de conversa, era fato, e elas pareceram aceitar aquela minha posição. Assim que entramos no restaurante, fomos indicadas para uma mesa de canto, a nossa preferida, naquele tão conhecido restaurante. Ali era servida a cozinha francesa de verdade, com o verdadeiro savoir-faire que os amantes da gastronomia procuram.
— Bom dia, senhores, já sabem o que vão pedir? — o garçom perguntou assim que se aproximou da nossa mesa. Todos me encararam, já que eu era a única ali que entendia suficientemente bem a gastronomia francesa para saber o que pedir.
— Eu gostaria de pedir côte de porc à la charcutière, truites aux amandes, escalope de foies gras a la mode du Périgord, coquilles Saint-Jacques e magret de canard aux raisins et sa garniture forestière. — eu respondi, fechando o cardápio em seguida.
— Os pratos vão servir a mesa inteira? — o garçom questionou.
— Sim, mas as porções podem ser praticamente a unitária mesmo. E nós dividimos os pratos aqui mesmo.
— Como a mademoiselle preferir.
Merci.
E então o garçom se afastou, e eu reparei que todos me olhavam na mesa, como se fosse um tipo estranho de E.T. que havia sentado com eles para o almoço. Só então lembrei que os pedidos foram todos feitos em francês e que, diferente de mim, eles não haviam estudado aquilo por um tempo, e não saberiam nem a metade do que eu havia pedido.
— Escolhi para o nosso almoço bisteca suína servida em um molho feito com o próprio suco da carne e pepinos fatiados, truta com amêndoas, fois gras, que é fígado de pato, que nessa preparação vem frito, com um molho de vinho do porto e maçãs. Pedi também coquilles de Saint-Jacques, que são vieiras servidas com diversos frutos do mar junto de cogumelos, envoltos em um molho feito a partir do cozimento de cada um desses ingredientes. E, para terminar, pedi magret de pato, ou peito de pato, servido com um molho à base de uvas e cognac, com a chamada guarnição da floresta, que nada mais é do que champignon, shimeji e funghi puxados na frigideira com manteiga e alho. Acho que vocês vão gostar das escolhas.
— Eu espero que sim... — Dudu respondeu, rindo, sendo seguido por toda a mesa.
Aguardamos por um tempo considerado dentro dos padrões da cozinha francesa, até que os pratos fossem servidos. A mistura de aromas presentes na mesa descansou um pouco a minha alma, depois de todo o tormento que eu vinha passando. Se havia alguma coisa que me acalmava, essa coisa era a gastronomia. Meu dia poderia ter sido um inferno — se eu pudesse gastar o resto que me sobrava cozinhando, a vida estaria salva.
Servi um pouco de cada coisa para que eles provassem de tudo, exceto os frutos do mar para a e a para a Mila, que continuavam avessas a qualquer coisa que tivesse nadadeiras ou que teimasse em existir embaixo da água. Eu havia prometido para mim que ainda as faria gostar das coisas derivadas do mar, mas era uma batalha praticamente perdida. Elas insistiam em dizer que aquilo era ruim e não havia santo que as fizesse mudar de ideia. Não que eu fosse desistir tão fácil, é só que não era hora de obrigá-las a comer algo que elas não queriam.
Devoramos nossos pratos em questão de minutos, já que, como sempre, os pratos servidos ali eram de extrema qualidade e de sabor inquestionável. Enquanto pagávamos a conta, pedi para que o garçom levasse meus cumprimentos ao chef do restaurante, que fez questão de vir à mesa quando soube que a grande, como o garçom havia chamado, Colmenero estava almoçando por ali. Depois de uma troca rápida de experiências sobre os pratos servidos, saímos do restaurante em direção ao aeroporto, onde o jatinho nos esperava.
Assim que colocamos nossos pés dentro do Charles de Gaulle, a bagunça tradicional do sétimo maior aeroporto do mundo em número de passageiros nos trouxe de volta à realidade. Andamos a passos largos até a área específica onde embarcaríamos rumo a Milão. Ali mesmo nos despedimos do Dudu e da Ninha, que não poderiam viajar conosco, já que ela estava com a gravidez avançada demais para que lhe permitissem viajar de avião. Ela garantiu que ficaria com os olhos colados na TV e que torceria muito, como se estivesse conosco, e eu a agradeci por isso.
Apresentamos todos os nossos documentos e logo nosso embarque foi autorizado. Fomos acompanhados até a área da pista do aeroporto, onde um comandante, aparentemente bastante conhecido pela , nos esperava. Fomos todos apresentados, e então entramos na aeronave, que não tardou a levantar voo. Aproveitei aquele momento para tentar descansar a mente, já que meu corpo dava sinais de que o dia ainda seria longo.

Depois de pouco mais de uma hora e meia de voo, a pequena aeronave pousou em solo milanês e eu agradeci por aquela mini tortura finalmente ter chegado ao fim. Eu não era de ter medo de avião, mas minha claustrofobia tomava as rédeas da situação toda vez que eu entrava em uma aeronave pequena, exatamente como aquela. Aprendi a controlar os surtos e já não chorava mais ou tremia, mas meu coração só descansava de verdade quando o avião chegava ao seu destino, e eu me descobria capaz de tocar novamente o solo.
Fui, como sempre, a primeira a deixar a aeronave e senti o aroma maravilhoso de uma das cidades mais lindas da Itália me abraçar por inteiro. Eu tinha recordações maravilhosas daquele lugar, daquele país, graças ao Cavani. Uma das nossas melhores viagens românticas foi para uma cidadezinha próxima a Milão. Passamos uma semana bebendo vinho, comendo queijo e fazendo o que nós sabíamos fazer de melhor: nos amar.
E, diferente da última vez que eu estive nesse mesmo aeroporto, hoje aquela viagem tinha um gosto mais amargo, mais indigesto. Eu não sabia bem o que aconteceria daquele ponto em diante, porém eu esperava que nosso amor sempre fosse maior que tudo o que existisse nesse mundo. Me abracei à ideia de que nosso amor havia crescido ainda mais naquela cidade, e que as recordações sinceras que aquele lugar nos trazia fariam com que tudo voltasse ao normal.
Não demorou muito até que nós estivéssemos nos nossos táxis, com nossas pequenas malas, a caminho do hotel que nos abrigaria naquela noite pós-jogo. Passei o percurso todo com o rosto colado na janela, admirando Milão passar como um borrão pelos meus olhos.
Assim que chegamos ao hotel, logo nos indicaram quais seriam nossas suítes e, assim que o check-in foi feito, subimos para nos trocar. Ainda faltavam umas três horas até o horário inicial do jogo, mas nós queríamos sair do hotel o quanto antes para entrarmos com tranquilidade no San Siro. Assim que eu entrei na minha suíte, larguei minha mala de qualquer jeito no meio do quarto e corri para tomar um daqueles banhos relaxantes, apenas para tirar o formato de “cadeira de avião” que havia grudado no meu corpo. Assim que terminei meu banho, vesti o roupão do hotel e segui até a área onde ficaria o quarto. Me joguei na cama, tomando cuidado para não relaxar demais e acabar dormindo, e liguei a TV para assistir ao noticiário. Antes de me mudar para França, eu havia passado alguns meses na Itália, aumentando meus conhecimentos sobre a gastronomia encantadora daquele país. Procurei algum canal de esportes que estivesse passando alguma informação sobre o jogo e não demorei a encontrar. Todos os canais dedicavam um espaço na sua programação para comentar o super clássico que aconteceria mais tarde. Paris Saint-Germain e Barcelona reeditariam a partida das quartas de final da temporada anterior, só que, dessa vez, em um confronto único, valendo a tão sonhada taça da liga dos campeões.
Como já era esperado, a maioria dos comentaristas locais dividiam os elogios entre o menino de ouro do ataque catalão, e quem eles consideravam como “Il Matador”. Meu coração se enchia de orgulho por ver que, mesmo depois de ter terminado sua passagem pelo time Azzurri há algum tempo, Cavani continuava sendo ídolo por ali, e era um nome lembrado com bastante carinho pelos comentaristas italianos.
Fiquei um tempo mais assistindo ao programa e quase perdi a hora de descer para me encontrar com os outros para ir até o estádio. Me troquei mais rápido do que eu normalmente faria, colocando a camisa vermelha do PSG, com o nome e o número do único homem que eu admirava dentro daquele elenco. Completei com uma calça jeans, um kimono branco, um vans azul, uma maquiagem leve e o cabelo solto, caindo em ondas largas pelas costas. Coloquei uma toca para abaixar um pouco do volume que estava no topo da minha cabeça e joguei algumas coisinhas dentro de uma pequena bolsa, pegando meu óculos, que estava jogado de qualquer jeito na mesinha do quarto. E, então, eu estava pronta para finalmente ficar cara a cara com o meu presente e o meu futuro.
Saí do quarto e esbarrei com as meninas no corredor, e de lá já fomos juntas até o saguão do hotel. A maioria dos familiares dos jogadores estava hospedada ali, e reconheci alguns rostos ali presentes. Mandei beijos para o sobrinho do David, que apontava para mim, me reconhecendo. Toda vez que eu via o Abner, meu coração dava uma acalmada sincera, e eu era preenchida pela paz única que só as crianças tinham. Cumprimentei alguns rostos conhecidos com um rápido aceno de cabeça, e então saímos do hotel em direção ao estádio. Dividi um táxi com a e o Matuidi, que não jogaria a tão esperada final devido a uma lesão na coxa, até o local do jogo, porque a iria junto da família do David e a Mila iria junto da família do Ibra.
O caminho até o estádio foi feito em silêncio, já que a tensão começava a tomar conta de todos ali. Apesar da minha paixão pelo futebol, eu detestava jogos decisivos, principalmente quando eles envolviam muito mais do que um simples troféu. Para o PSG, aquela poderia ser a sua primeira taça da champions, e isso já era um combustível e tanto para aumentar a tensão de todos os torcedores. Outro ponto que gritava era o favoritismo da equipe catalã contra nós, mas eu me negava a pensar nisso. Futebol não era resolvido com favoritismo extracampo, futebol era resolvido dentro das quatro linhas, onde o time que jogasse melhor levava e fim. E o PSG não viria para brincadeira, e isso havia ficado claro em todos os outros jogos disputados. O time finalmente havia encontrado sua raça, sua força de vontade, e aquilo bastava para encher a torcida de esperança.
Assim que o carro chegou aos arredores do estádio, fui surpreendida com uma festa absurda, que me deixou emocionalmente agitada. Aquela não era minha primeira partida de futebol, claro, e muito menos minha primeira final em um estádio, mas, ainda assim, eu me emocionava. Os cantos, a festa, as cores, o brilho... O futebol. Minha verdadeira paixão mundial.
O táxi parou o mais próximo possível do estádio, e eu praticamente pulei de dentro dele, sem nem esperar os outros me seguirem. Se eu pudesse, invadiria o vestiário, apenas para dizer para o Cavani o quanto eu o amava, e o quanto fui uma idiota por tudo o que eu fiz, mas eu sabia que aquilo era impossível.
Caminhamos a passos largos até o portão reservado aos convidados, quando a gritaria ficou ensurdecedora, e os cantos de Allez Paris dominaram a porta do San Siro. Ao longe, pude ver que o ônibus do PSG tentava furar a massa de torcedores, para conseguir, finalmente, chegar ao estádio, e meu coração pareceu rodopiar dentro do meu peito. Eu estava tão perto, e tão longe... Fiquei parada admirando toda aquela magia e senti meu coração se aquietar quando vi a sombra dos jogadores dentro do ônibus. Metade de mim queria que ele não me encontrasse no meio da torcida, mas a outra metade gostaria que sim. Deixei que o destino falasse por nós, como eu sempre fiz. Eu sabia que ele guardava as melhores surpresas, e que ele nunca falharia.
Assim que o ônibus passou e entrou no estádio, nos dirigimos ao portão, onde passamos pelo efetivo de segurança, e finalmente pudemos entrar. Não existiam palavras que pudessem explicar os sentimentos que preenchiam meu coração naquele instante. Seria sempre mais que orgulho, mais que realização. Não existia uma palavra sequer no dicionário que pudesse explicar o que eu sentia. Talvez amor, mas ela ainda seria pequena demais.
Caminhamos até a área externa do estádio para procurar nossos acentos. Ainda faltava mais de uma hora para começar o jogo, e eu sabia que não conseguiria ficar parada, quietinha, até o apito inicial. Não com toda aquela confusão que rodeava a minha cabeça.
Assim que encontramos nossas cadeiras, o mais perto possível do gramado, me larguei ali e fiquei admirando o lugar, filmando tudo para não esquecer de nenhum detalhe. Era mágico saber que eu fazia parte de tudo isso. Assim que apoiei a bolsa na perna, senti meu celular vibrar, e me questionei se eu deveria ou não ler a mensagem que eu havia recebido. E se fosse do Cavani?! Eu teria emocional o suficiente para ler o que quer que ele tenha escrito?! É claro que não. Entretanto, minha curiosidade era sempre maior que qualquer outro sentimento, e eu não ignoraria aquilo.

Te vi na porta do San Siro... Fico feliz por saber que você acatou minha ideia e veio também... E, principalmente, fico feliz de ver que você está usando a camisa dele...

Meu celular acusava de quem era a mensagem, mas eu nem precisava ler o nome do contato para saber que era do cabeludo da .

Você sabe se ele me viu?

Eu devia parar de ter esperanças.

Ele não disse nada, mas não posso afirmar, nem negar... Só acho que você poderia mandar uma mensagem de boa sorte... Você sabe como isso faz diferença...

Ele respondeu. E eu fiquei um tempo encarando o celular, travando uma batalha interna entre ceder ou não a tudo aquilo. Mas caramba, a quem eu queria enganar com esse discurso idiota de que eu não queria ceder a nada? Eu já havia cedido a tudo o que podia, o que não podia, e mais um pouco... Nosso amor merecia todas as chances desse mundo, e eu as daria, eternamente.
? — eu chamei, assim que percebi que ela havia largado um pouco do Tui.
— Diga, ... — ela respondeu com a atenção total em mim.
— Tira uma foto minha?
— Claro, amiga... Dá um sorriso aí... — ela respondeu, sorrindo.
— Não, menina, quero uma foto das costas da minha camisa e do San Siro no fundo... E tira com o meu celular. — eu falei, já entregando o celular com a câmera ativada.
— Ok, né... Estressada. — ela disse, rindo.
E então a foto foi tirada. A imagem era dominada pelo nome e pelo número presente na minha camiseta, exatamente o que eu queria que mais aparecesse. Anexei a foto a nossa conversa no Whats, decidida a fazer o que o David havia pedido. Se eu estava errada, tinha que assumir meu erro, e eu o faria quantas vezes fosse necessário.
Assim que a foto carregou, apertei para escrever uma legenda, e só então me dei conta de que eu não sabia o que escrever naquele momento. Eu não sabia quais palavras ele esperava ler, o que gostaria de receber. Sabia que ele gostaria de receber amor, e amor eu tinha de sobra... Então, legendei a foto com um simples coração. Eu entendia que aquilo transcenderia todas as palavras, em qualquer língua no mundo. O amor é a linguagem universal, e o nosso estava além das coisas desse mundo.
Não demorou muito até que a foto fosse enviada e que o status dele mudasse para online, deixando o sinal de visto em azul. Meu amor havia sido recebido com sucesso, ao mesmo passo em que eu havia sido ignorada. Não recebi nada de volta, nem um simples coração. E aquilo doeu, doeu como se fosse um tiro. Eu sabia, nosso amor morria aos poucos, e eu teria que lutar muito para nos salvar.
Resolvi abstrair, e, com isso, deixei o celular bem longe de mim. Sofrer não estava nos meus planos, e eu precisava controlar meu emocional para mais tarde. Eu sabia que o jogo não seria fácil, e, para ser sincera, eu nem esperava que fosse. Porém, eu sabia quem eram os merecedores, e acreditava fielmente nos planos de Deus.

Capítulo 03

Os minutos passaram voando, e só me dei conta disso quando os jogadores adversários despontaram na entrada do túnel, para o aquecimento antes da partida. Messi, Neymar e companhia logo começaram a fazer os aquecimentos de sempre, e eu fiquei assistindo um pouco nervosa. Não era como se eu desejasse o mal deles, muito menos queria que alguém distendesse um músculo de última hora e ficasse sem jogar... Ok, talvez eu quisesse, mas eu nunca admitiria isso em voz alta. Enquanto eu encarava o aquecimento adversário, senti as meninas ficarem tensas do meu lado, e então me dei conta de que havia chegado a hora. O time do PSG entrava em campo naquele instante, e, sem que eu conseguisse me controlar, meus olhos vasculharam o campo inteiro, à procura de uma única pessoa. E lá estava ele, com aquele sorriso único, fazendo alguma graça, que era correspondida pelo largo sorriso que o David tinha nos lábios. Eu ficava admirada com a forma com que ele conseguia ficar maravilhoso, mesmo com aquela roupa toda estranha, mesmo com aquele cabelo sedoso preso todo torto... E eu ficava ainda mais admirada com a forma com que meu coração batia acelerado toda vez que eu o via. Todo amor que eu sentia parecia aumentar o dobro toda vez que ele chegava. Meu amor nunca era menor que ontem, e, por incrível que pareça, nunca seria maior que amanhã.
Passei mais tempo do que gostaria o encarando, esperando ao menos um sorriso, iguais aos que ele distribuía para os companheiros de time. Mas eu permaneci esperando. Ele não me notou, ele nem sequer me procurou no estádio. “É só o foco, . Ele está focado na partida... Não o distraia, não o distraia”, minha mente fazia questão de repetir, como um mantra, apenas para me tranquilizar, para me garantir que tudo permanecia igual. “Ele te ama, sua boba, nunca duvide disso”, é, eu nunca duvidaria.
Não demorou muito até que o aquecimento terminasse e eles fossem encaminhados de volta até o vestiário. Seriam mais alguns minutos de tensão, de coração acelerado e de saudade. Aproveitei aquele curto espaço de tempo para buscar uma água e uma pipoca na lanchonete, apenas para me distrair e ocupar minhas mãos desesperadas, que não sabiam ficar paradas. Meu nervoso se refletia por todo o meu corpo, e sabia que, se eu não me acalmasse logo, acabaria passando mal.
Voltei rápido para o meu lugar a fim de não perder nenhum detalhe do jogo, que logo começaria. Assim que eu me sentei, recebi uma encarada da Mila, que parecia nervosa com alguma coisa, mas resolvi ignorar. Já bastava a minha tensão, compartilhar a dela só me deixaria mais tensa ainda. Distrai-me olhando o estádio ficar cada segundo mais cheio, até um grito conhecido chamar minha atenção.
— Seu filho da puta, olha por onde anda! — Eu conhecia muito bem aquela voz, e gargalhei antes mesmo de me virar para ver o que acontecia.
Assim que virei na direção da cena, vi uma extremamente revoltada, brigando com um gringo que parecia não entender nada do que acontecia ali. Quando encarei melhor a situação, percebi que a blusa dela estava molhada, e então entendi o que aconteceu. No mínimo, ela caminhava distraída pela escada e os dois esbarraram, virando todo o conteúdo do copo que ela tinha na mão, e, como ela odiava coisas desse tipo, sua única reação foi mandar o gringo passear. E eu a admirava muito por ser assim.
— O que houve, ? — perguntei assim que ela se aproximou.
— Aquele idiota... Esbarrou em mim e me molhou inteira, que inferno. Essa é a minha camisa da sorte... Eu não acredito! — ela falava, revoltada.
— Calma, menina, isso pode ser um sinal positivo. — era sempre a voz da razão.
— Isso é sorte, , muita sorte... E senta logo aqui porque o jogo já vai começar, anda... — eu falei, enfiando um punhado de pipoca na boca.
— Mas agora eu tô com frio... — Em questão de segundos, ela mudou de revoltada assassina de gringos para menina manhosa. Essa era a que eu conhecia.
— Caraca, , você só reclama. Pega meu casaco e senta logo, antes que eu te mande de volta para o hotel... Cacete. — e seu humor de cavalo... Como eu amava essas meninas.
Eu só sabia rir dessas malucas. Um dia eu entenderia como eu era capaz de cultivar amizades loucas como aquelas, amizades que faziam tudo valer a pena.
Conversamos por mais alguns minutos até a câmera focar a entrada do túnel, indicando que havia chegado a hora da decisão. Aos poucos, os jogadores iam aparecendo e formando a fila para dar início aos procedimentos. Logo a entrada foi permitida, ao som da música oficial da competição. Meu corpo inteiro se arrepiou aos primeiros acordes, e então eu percebi que não haveria mais volta. Um a um, os jogadores foram aparecendo e meu coração batia agitado por não vê-lo na fila. Ele não ia jogar?! Por quê?! Mas então, ele despontou como o último e meu coração relaxou. Ele estava sério, concentrado e incrivelmente sexy. Ali, ficava claro tudo o que eu sentia por ele. Ficava claro como meu coração batia desesperado, transformando orgulho em amor. Ainda que a taça não viesse, ele seria sempre o meu maior campeão. Eu tinha orgulho de quem ele era, de onde ele havia sido capaz de chegar. Eu me orgulhava de tudo o que tinha a ver com ele.
O cerimonial acabou, e então um time caminhou na direção do outro, para aqueles cumprimentos característicos. Logo o time ajeitou a formação em campo, e eu pedi a Deus para que protegesse todos os jogadores de todo o mal, e que Ele abençoasse tudo o que viria assim que o juiz apitasse. Minha prece foi rápida, simples e sincera, e eu tinha os olhos cheios de lágrimas quando acabei. Noventa minutos, esse era o tempo que me separava de tudo o que eu mais tinha medo. Talvez eu estivesse em pânico sem necessidade, mas meu coração não se acalmava de maneira nenhuma.
O estádio todo ficou em silêncio quando o juiz apitou, e eu vi Messi rolar a bola para o Neymar, indicando que a final havia começado. O time catalão não veio para brincadeira e, antes do primeiro minuto, eles já haviam acertado o passo e chegaram com tranquilidade ao gol francês. era puro nervoso ao meu lado, cada vez que a bola passava por David Luiz, sem que ele pudesse contê-la. era desespero puro a cada chance desperdiçada por Ibrahimović. E eu... Não havia palavras que pudessem qualificar ou quantificar o que eu sentia sempre que Cavani pegava na bola. Meu coração batia desesperado, e eu, que sempre critiquei uma mania antiga do meu pai, a repetia, sem sucesso. Eu chutava uma bola imaginária, tentando ajudá-lo a chegar ao tão esperado gol, mas nada aconteceu. E então, perto do fim do primeiro tempo, meu coração se apertou de uma forma absurda. Se eu não tivesse notado o auxiliar com a bandeirinha levantada antes de o lance terminar, com certeza teria cuspido meu coração na pessoa sentada à minha frente. Milímetros impediram Neymar de abrir o placar, deixando o jogo ainda mais tenso. Não demorou muito até que o juiz apitasse o fim do primeiro, e, lá no fundo, meu coração pedia por alguns minutos de paz.
Passei os quinze minutos do intervalo encarando o nada, querendo ser uma pequena mosca, apenas para saber o que se passava dentro do vestiário. Minhas mãos suavam, tamanho era meu nervoso, e eu sabia que aquilo não era nada bom. Eu ouvia as pessoas falando longe, enquanto minha respiração ficava um pouco descompassada. “Não corpo, por favor, não desmaia” era tudo o que eu pedia, e meu sistema nervoso pareceu me atender, fazendo com que tudo voltasse ao normal.
Beberiquei um gole da minha água assim que os jogadores começaram a voltar para o gramado. Diferente do que sempre acontecia, dois jogadores esperavam na linha lateral, indicando que Blanc já recomeçaria o segundo tempo com duas substituições. Rabiot e Lavezzi esperavam a autorização e senti que agora haveria mais uma pessoa nervosa entre nós. mordia o dedo indicador, enquanto respirava fundo algumas vezes. Não é como se eles fossem namorados ou algo do tipo, mas eles viviam um relacionamento estranho, que só eles entendiam, e eu não fazia a mínima questão de me meter. Levei um tempo para descobrir quem havia deixado o gramado, porém, assim que a placa subiu, confirmei minhas suspeitas. Verrati e Pastore nem voltaram do vestiário para o segundo tempo.
Alguns minutos mais e o juiz apitou o início do segundo tempo, com Ibra rolando a bola para Cavani. Naquela atual situação, não havia mais uma unha sequer para que eu pudesse roer, meu pacote de pipoca estava virado inteiro no chão, já que eu o derrubei quando levantei assustada no gol impedido do Neymar, e meu nervoso não diminuía. O tempo passava rápido, com chances incríveis desperdiçadas pelos dois times. A correria era insana dos dois lados, e, àquela altura do campeonato, todos já aceitavam que o jogo caminharia para a prorrogação. Eu já preparava meu coração para mais trinta minutos de tensão, e, por que não, para os pênaltis. Pelo jeito com que aquela partida caminhava, ela não acabaria tão cedo.
Quando a placa de acréscimo subiu, marcando 3 minutos a mais, eu senti meu corpo inteiro arrepiar, e uma sensação incrível se apossar de mim. Naquele instante, Ibra tinha vencido de Iniesta na corrida, deixando o meia catalão caído no meio do campo. Mais a frente, ele fez uma tabela com Lavezzi, que devolveu a bola na medida certa no bico da chuteira do sueco, que ainda teve tempo de tirar Piqué da jogada, e chutar com força no canto esquerdo do gol. Na hora em que o chute foi dado, fechei meus olhos, esperando que metade do estádio comemorasse. E metade comemorou, mas não na língua que eu esperava. Claudio Bravo, mais uma vez, havido sido herói e espalmou a bola para a linha de fundo, evitando um gol incrível, digno de um atacante ao nível de Ibrahimović. O juiz indicou a marca do escanteio, e eu vi vários jogadores se amontoarem dentro da área. Cavani, David Luiz, Thiago Silva, Lucas, Ibrahimović, Rabiot... Todos estavam dentro da área, aguardando o escanteio que seria cobrado por Lavezzi. O lance todo parecia acontecer em câmera lenta. O juiz autorizou a cobrança, que eu assisti com um olho aberto e o outro fechado, sem saber se eu aguentaria assistir aquele final de jogo. Meu coração batia acelerado, e um abafa pôde ser ouvido no estádio. Acredito que o lance todo tenha acontecido em menos de trinta segundos, mas eu poderia jurar que levou trinta horas para terminar. Um cruzamento perfeito, um cabeceio invejável, uma defesa digna de filme, um rebote matador, um golaço. Lavezzi cobrou o escanteio na medida na cabeça de David Luiz, que, como sempre, deu um chute com a cabeça, em cima de Bravo, que rebateu a bola nos pés do Cavani, que não teve dúvida antes de colocar a bola dentro da rede. O estádio, o qual havia se calado por alguns segundos, vibrou em festa e euforia. Era claro, aquele era o gol do título. Cavani correu para o fundo do campo, batendo a mão no peito com orgulho, sendo abraçado por todo o time em seguida. Meu coração se encheu em um alívio desconhecido, enquanto ele repetia sua tímida comemoração, levantando o dedo aos céus, e agradecendo a Ele por todas as bênçãos do dia de hoje. Esperei pela continuação da comemoração, que simplesmente não aconteceu. Cavani ignorou o coração e o beijo no dedo onde deveria estar a nossa aliança, e eu senti meus olhos se encherem de lágrimas. Minha alegria havia terminado ali. Ele havia deixado claro que não se lembrava de mim, e que aquele gol, que talvez fosse um dos mais importantes da sua carreira, não era dedicado a mim.
Meu único desejo, naquele momento, era fugir daquele estádio o quanto antes, mas eu não podia. Muito pelo contrário, me senti na obrigação de sorrir largo para as meninas do meu lado, como se tudo estivesse bem, quando eu sabia que não estava. Desde que assumimos nosso namoro, há mais de um ano e meio, Cavani nunca deixou de comemorar um gol sequer sem fazer o coração e beijar o dedo da aliança. Era uma regra que ele seguia a risca, religiosamente, jogo após jogo. Porém, hoje havia sido diferente. Meu coração estupido gritava que, com a euforia do jogo, ele poderia ter esquecido, mas que não era por maldade. Entretanto, minha mente ria em resposta, chamando meu pobre coração de tolo. Eu sentia o fim cada vez mais real, e eu me assustava com aquilo.
Daquele momento em diante, eu parei de prestar atenção nas coisas que aconteciam ao meu redor. Tudo pareceu ficar em câmera lenta, como um filme, do qual eu não fazia mais parte, do qual eu havia sido colocada para fora. Mas o pior de tudo era saber que aquele era o filme da minha vida. Eu estava tão aérea que só me dei conta de que o jogo havia acabado quando recebi um abraço apertado da , que eu não tive força alguma para responder. Ela, então, me encarou assustada, e me perguntou com o olhar o que acontecia, mas eu não quis dizer. Apenas dei um daqueles sorrisos de canto de boca, como que dizendo “não estou bem, mas prometo que vou ficar”, e ela acatou com um aceno de cabeça. Ela sabia que ali não era o lugar para explicações, e muito menos o momento para tudo aquilo. Abracei todos que vieram me abraçar, e comemorei do melhor jeito que eu consegui. Foquei-me em não encarar o gramado, em não procurá-lo com o olhar, não enquanto a dor fosse latente, pungente. Enquanto eu ainda estivesse com a sensação de que meu coração era esmagado, eu não queria encará-lo. Eu tinha medo do que poderia acontecer.
Não demorou muito tempo até que os jogadores fossem encaminhados para receber as medalhas. Encarei o gramado, evitando olhar de forma direta para qualquer pessoa em campo. Peguei meu celular de dentro da bolsa e tirei várias fotos daquele momento. Querendo ou não, eu era Paris, e precisava comemorar dignamente a conquista mais esperada da história. Meu celular explodia em mensagens de vários colegas, me parabenizando pelo título, como se eu tivesse entrado em campo junto dos jogadores. Passei o dedo rapidamente pela tela, apenas para ter uma noção de se todas as mensagens eram iguais, e uma chamou minha atenção. O nome da minha mãe brilhou no meio de todos os outros, e meu coração voltou a se desesperar com a mensagem que ela havia me mandado. “Filha, você e o Cavani terminaram? Ele não comemorou com o coração... O que...”, a mensagem ficou cortada, e eu agradeci aos céus por isso. Senti meus olhos se encherem de lágrimas mais uma vez, mas fiz questão de engolir cada uma delas. Ali, eu só choraria se fosse de felicidade. De tristeza, eu choraria mais tarde. Reuni forças de lugares ocultos e estampei meu melhor sorriso.
Talvez, no fundo, eu fosse uma masoquista nata, mas eu não me importava mais com aquilo. Coração bom é coração que se quebra em mil pedaços e continua batendo. Eu havia sobrevivido a tantas coisas, e meu coração nem estava quebrado, na verdade. Abri o editor de fotos e fiz uma montagem rápida com algumas fotos da comemoração, a minha foto antes do início do jogo e uma de nossas fotos preferidas. Assim que a montagem salvou, abri o Instagram e publiquei a montagem sem mencioná-lo no texto. No final das contas, eu sabia que as fãs fariam aquilo por mim, de qualquer forma. “Tu eres mi campeón y lo sabes bien... Eres el mayor trofeo que la vida me ha regalado... Te quiero.”, e eu queria chorar um oceano inteiro de lágrimas, mas eu as controlei novamente. Respirei fundo, esperando que meu coração encontrasse paz em alguma coisa, em algum mínimo detalhe, e aquilo não aconteceu.
Voltei meus olhos para comemoração, a tempo de ver o Platini passar a tão sonhada taça para as mãos do capitão da partida. David Luiz a encarou, como quem reconhece uma velha amiga, e lhe deu um beijo antes de levantá-la, repetindo um gesto bem conhecido da torcida brasileira. Minha mente viajou para 2002, quando Cafu ergueu a taça de campeão do mundo, dedicando o feito à sua esposa Regina. David repetiu o feito, apenas mudando o nome para quem dedicava tudo aquilo que vivia. Ao meu lado, explodia em felicidade, ao ler seu nome estampado nos lábios do noivo, em uma declaração de amor que perduraria a eternidade.
Vi a taça passar de mão em mão, sendo beijada por todos os jogadores, que a recebiam como uma velha companheira. Eu os encarava admirada, encantada, sentindo meu peito transbordar de orgulho. No meio da festa, Cavani comemorava feliz da vida, e eu desejei ter um pouquinho daquela felicidade para mim. Encarei minhas amigas, que agora estavam na beirada do gramado, abraçando seus respectivos e comemorando aquela vitória que era de todos. Não prestei muita atenção nas coisas que aconteciam ao meu redor, eu estava longe, e senti um toque sutil.
, você não vem comemorar conosco? — A voz doce da Carol me trouxe de volta a realidade.
— Claro que vou, Carol, você acha mesmo que eu ia deixar esse feito histórico passar? — respondi meio automática, e ela passou o braço pelo meu ombro, me encaminhando até a beirada do campo.
Quebramos todas as regras possíveis quando pulamos a mureta que separava a torcida do gramado, mas eu nem me importei. Todos os outros familiares já haviam feito isso de qualquer forma, e eu só repeti o gesto. Assim que coloquei meus pés na grama, dei um abraço apertado no David, lhe agradecendo por tudo. Depois do Cavani, ele era a pessoa mais especial que eu já havia conhecido, e era merecedor de todas as coisas boas que a vida poderia lhe dar naquele instante. Assim que nos separamos, ele me encarou de forma indecifrável, porém eu meio que entendi o que ele queria. Ele estava lendo todas as minhas reações, apenas para saber como eu me sentia naquele instante. E eu sabia muito bem que ele havia visto a dor que eu tanto lutara para esconder.
Afastei-me dele antes que as lágrimas se fizessem necessárias de novo e fui abraçar os outros brasileiros que estavam a minha volta. Todos eram só sorrisos, e eu fui capaz de sentir um pouquinho daquela paz que eu tanto procurava. Meu coração parou de dar rodopios nervosos, e eu sabia que, se nada desse certo, ainda teria boas amizades de quem me orgulhar no fim das contas.
Virei meu rosto procurando Cavani com o olhar, e o encontrei a alguns passos de distância de mim, me encarando de forma enigmática. Por mais que seu corpo falasse uma coisa, eu vi que seus olhos diziam algo completamente diferente. Lá no fundo, eu sabia que ele estava surpreso e feliz por me ver ali, mas eu também sabia que ele não demonstraria aquilo, não de forma fácil. Caminhei lentamente até ele, esperando um mínimo sinal de que eu não deveria me aproximar, no entanto ele nada fez. Continuou parado no mesmo lugar de antes, com o olhar fixo em mim. Caminhei mais depressa, então, com medo de que ele sumisse da minha frente como um fantasma. Quando finalmente parei na sua frente, me senti ficar minúscula, tamanha era a intensidade do seu olhar. Respirei fundo por um instante, antes de abraçá-lo com todas as minhas forças. Recebi um abraço com a mesma intensidade de volta, e meu coração encontrou o ponto necessário de paz. Eu poderia morrer naquele instante, eu não me importaria. Deixei uma lágrima tímida escorrer pelos meus olhos.
— Parabéns pela conquista, meu amor, você merece... — eu falei assim que separamos nossos corpos.
— Obrigado. — Ele estava frio, distante.
— Você sabe que é o meu orgulho, não sabe?! — Meu coração gritava em desespero na falha tentativa de encontrar alguma coisa que me falasse que nós estávamos em paz.
— Francamente, ?! Acho que não... — ele respondeu ainda mais frio, dando alguns passos para longe de mim.
— Eu te amo! — eu praticamente gritei, não me importando com as pessoas ao redor.
— Eu não tenho mais tanta certeza disso... — ele falou antes de me dar as costas e seguir para outra direção.
Meu coração.
Era como se tivessem enfiado uma faca nele e apertado até o fundo. Eu sentia o sangue escorrer, e a dor me rasgar por completa. Senti meu corpo fraquejar, e só não caí de joelhos ali mesmo porque fui amparada pelas mãos do Marquinhos, que passava próximo de nós, ouvindo sem querer a nossa conversa. Eu só fui capaz de abraçá-lo o mais apertado que consegui, pedindo aos céus que a dor parasse.
Por mais que a dor fosse alucinante, por mais ridícula que eu me sentisse, eu não desistiria, não daquela forma. Ainda havia uma chance, ainda havia um ponto entre nós que não estava totalmente resolvido, e que, se fosse explicado da forma correta, nos colocaria de volta nos eixos. Nós ainda tínhamos uma oportunidade, e eu lutaria por ela, como nunca lutei por algo na minha vida inteira.
Soltei-me do abraço que o Marquinhos me oferecia, disposta a invadir aquele vestiário e fazer um certo atacante entender que ele era o homem da minha vida, e que eu não o deixaria tão fácil assim. Caminhei decidida por um curto espaço de tempo, até um corpo parar na minha frente. Tive que frear minha caminhada para não chocar contra seu peito. Levantei os olhos e reparei quem me atrapalhava. Gregory Van der Wiel. Não que eu tivesse alguma dúvida, mas levantei o olhar só para confirmar. Cumprimentei-o pelo título com um aceno de cabeça e tentei me desvencilhar da parede que ele havia formado na minha frente, sem sucesso. Tudo o que eu mais queria evitar naquele instante era criar uma nova confusão, e estar próxima do cara que havia feito de tudo para tentar arruinar meu namoro e meu noivado, durante mais de um ano, não faria com que eu obtivesse um feito positivo. Eu sabia que o David e o Ibra deviam estar me encarando pelas costas, juntamente das meninas, sem entender muito bem o que eu faria a seguir. Talvez eles esperassem que eu simplesmente o ignorasse e que eu fosse capaz de seguir meu caminho. Era o que eu esperaria de mim, sem tirar nem por, mas não era o que eu faria. Não era o que ele me deixaria fazer.
... Quanto tempo não te vejo... — ele falou suave.
— Por que será, não é mesmo, Van der Wiel?! — eu respondi da mesma forma, carregando um pouco a mais na ironia não verbalizada.
— Problemas com o seu noivinho?! — Diferente de mim, ele não tinha problemas em assumir a própria ironia.
— Acho que isso não é da sua conta... — eu respondi a altura, estufando um pouco o peito.
— Pela sua reação, vejo que eu ainda tenho chances... — ele falou, enquanto passava a mão pelo meu queixo.
Minha única reação foi dar um tapa na mão dele, sentindo um ódio desconhecido transbordar pelo meu peito. Eu queria que a raiva passasse, eu não queria odiá-lo, mas ele parecia se esforçar em ser desagradável. Van der Wiel parecia ser uma pessoa legal, no fim das contas, entretanto, essa atitude dele, toda vez que chegava perto de mim, impossibilitava qualquer aproximação entre nós.
Ignorei qualquer tentativa de contato que ele voltou a esboçar e continuei minha caminhada decidida até o vestiário para procurar a razão de eu ainda permanecer ali. Caminhei um pouco confusa por todos aqueles corredores enormes, quase me perdendo por um instante. Porém, eu pude ouvir alguns gritos, e entendi que eu estava indo pelo lado certo. Os poucos jogadores que já haviam entrado para o vestiário faziam uma festa incrível. E eu queria ficar feliz com aquilo, mas eu não conseguia. “Coração bom é coração que se quebra em mil pedaços e continua batendo”, só que, dessa vez, meu coração estava quebrado e se negava a continuar batendo.

Capítulo 04

Assim que cruzei a porta do vestiário, vi vários rostos conhecidos, que me receberam com sorrisos e cumprimentos felizes. Eu estava feliz por eles, era claro, mas eu não estava com vontade de demonstrar isso. Eu só queria encontrar uma pessoa, eu só queria um abraço, eu só queria uma certeza. E eu tive uma certeza quando eu o encontrei. A certeza oposta a que eu gostaria.
Cavani estava encostado na parede oposta à entrada do vestiário, conversando animado com uma ruiva que eu desconhecia. Respirei fundo algumas vezes, colocando o maldito ciúme de lado. Tudo o que eu não precisava naquele instante era uma cena ridícula de ciúmes, que colocaria tudo a perder de vez. Controlei minha respiração, até o momento em que vi o desfecho daquela cena. Cavani agora estava abraçado com a ruiva, mas não era um abraço qualquer. Era um abraço daqueles que ele me dava depois de ficar longe por uns dias, quando viajavam para jogar. Era aquele abraço que ele tinha me dado quando me pediu em namoro. Era o abraço que ele tinha me dado quando me pediu em casamento. Era o abraço que ele dizia que era só meu. E era. Do passado mais dolorido que poderia existir no mundo. Se antes eu tinha dúvidas sobre meu coração estar quebrado e querendo deixar de bater, naquele instante, eu conquistei minhas certezas.
Aproximei-me cautelosa dos dois, eu não queria atrapalhar o momento e desencadear uma briga sem necessidade. Chamem-me do que quiserem, eu não me importava. Naquele instante, eu queria paz, eu queria a minha paz. E ela se chamava Cavani. Assim que ele me notou, por cima do ombro dela, fez questão de abraçá-la ainda mais apertado, colando com vontade o corpo no dela, e aquilo me desarmou. Que se exploda o desejo de não arrumar uma briga. Eu estava cega. Eu estava com ciúmes. Era meu noivo que estava ali, comemorando o título nos braços de outra, e aquilo eu não aceitaria. Nunca.
— Atrapalho? — perguntei, irônica, assim que eu me aproximei.
— Claro que n... — ela ia me responder, quando ele a cortou.
— Claro que sim... Se não está vendo, estou conversando com uma velha amiga... — Ele deu uma ênfase desnecessária na palavra amiga, deixando claro que era mais do que isso — Por que você não espera? Quando eu estiver sozinho, eu te chamo. — Ele me encarava com raiva, e eu precisei engolir toda a vontade que eu tive de chorar.
— Eu? Esperar? Ela que tem que esperar... Se você não se lembra, eu sou sua noiva, e você me deve um pouquinho de atenção... — Dor. Eu só sabia sentir dor.
— Na verdade, , você não tem o direito de me pedir nada, e você sabe muito bem disso... Só aceite que eu vou terminar de conversar com ela, e depois, se eu tiver tempo, eu te chamo... Tem um banco ali do outro lado, caso você queira se sentar... — Ele indicou o banco com a mão, e eu tive que controlar meus instintos para não lhe morder o dedo atrevido, que passou a centímetros de distância do meu rosto.
— Como é que é, Edinson? Você está MESMO — dei ênfase na palavra — Me mandando sentar naquele banco e ficar te esperando? — Respira, . Um, dois, três, quatro... Controla.
— Que bom que você entendeu, querida... Agora já pode ir, viu?! — A ironia escorria pela boca dele e acertava a minha cara com força enquanto ele indicava com a mão que eu era desnecessária ali.
— Pois eu não vou a lugar algum. Só vou sair daqui obrigada. — Cruzei meus braços na altura do peito, batendo o pé no chão com força. Um claro sinal de que eu estava muito brava.
— Pois então eu vou te ajudar com isso. Se não sai por bem, sai por mal. — ele falou enquanto agarrava meu braço com força, me puxando para longe da coleguinha ruiva, que ele sequer havia me apresentado.
— Me solta, você está me machucando... — eu falei, entre dentes, colocando raiva em cada uma das letras de cada uma das palavras.
— Mas é pra machucar mesmo... Te machucar da forma como você me machucou. — E então eu senti. A dor dele me atingiu como um raio.
— E você acha que apertando meu braço até que ele fique roxo vai devolver qualquer coisa que você tenha sentido? Você é mesmo um estúpido por achar isso. — Eu tentei parecer sensata.
— É, você nunca vai sentir um quinto da dor que me causou... — ele respondeu ríspido, enquanto soltava meu braço.
— Você acha que não tá doendo agora, não é mesmo? Você acha que só você é capaz de sofrer no mundo?! Por favor, Cavani... Não seja ridículo a esse ponto. — eu falei, cruzando meus braços na altura do peito, assumindo uma posição defensiva.
— Eu acho que não está doendo nem um pouco. Não se pode doer onde não se tem sentimento algum... Só sente dor quem sente amor, e eu acho que isso você nunca sentiu — Ele praticamente cuspiu as palavras na minha cara.
Eu estava sem reação. Eu preferia que ele tivesse acertado um tapa na minha cara em vez daquilo tudo. Um tapa teria doído menos, no fim das contas, porque seria a dor física apenas. Agora, aquelas palavras... Aquelas palavras doeriam por um bom tempo dentro de mim. Cada palavra havia me queimado feito brasa, e eu ficaria marcada para sempre. A dor que elas haviam despertado fez com que a raiva tomasse posse de mim. E, diferente de todas as vezes, eu não fazia a mínima questão de responder por mim.
— Como você ousa dizer que eu nunca senti amor? Você tem alguma noção do que você está falando? — Minha voz subiu de tom, sem que eu quisesse.
— Eu digo, e ainda repito, se for necessário. Você nunca me amou, não como eu te amei. — Ele também aumentou o tom de voz, começando a chamar atenção de todos a nossa volta.
— Eu sempre te dei tudo de mim, Cavani. Eu te dei o meu melhor para você me retribuir assim? Faça-me o favor, homem... Você sabe quantas coisas eu precisei abrir mão para estar do teu lado? Eu desisti de coisas sem nem pensar duas vezes... Você me pediu para largar a minha sociedade, uma coisa que eu sonhei por anos, para ficar contigo. Você disse que se eu largasse, seria a maior prova de amor, e eu fui tola por aceitar. E você, de quantas coisas abriu mão por mim?! Seria irônico, se não fosse deprimente. Abri mão do meu sonho pra viver o seu, e é isso que você me dá em troca... Fala que eu nunca te amei. — Eu estava fora de mim, era fato.
— O seu sentimento nunca foi amor, Colmenero, e você sabe muito bem disso... Você deve ter ficado comigo por pena... É, pena de fazer o pobre atacante sofrer... — Ele era irônico.
— Pena eu tenho de mim, sabia?! Não sei como eu pude acreditar em todas as coisas que você me disse... Você é idiota, um completo idiota. — Eu engoli cada lágrima que queria escorrer naquele instante. Ele não merecia me ver chorar. Ninguém merecia.
— Você acreditou porque elas eram verdadeiras... Eu sempre te amei, , desde o primeiro dia... Mas acho que, em algum momento, meu amor não foi suficiente para você... E agora, só resta isso, só resta a pena... — Ele me encarava firme.
— Acho que, se eu nunca te amei, você nunca me amou também... Somos uma mentira... Tudo o que nós vivemos até hoje foi uma completa mentira. Tenho pena sim, mas é de mim. Por ter dado tudo o que eu tinha a um relacionamento fadado ao fracasso. Nós não devíamos nem ter começado, no fim das contas... — Minhas palavras doíam muito dentro de mim, mas eu engoli cada gota de tristeza que eu sentia. Um dia, tudo isso me faria mais forte.
— Você acredita que somos uma mentira? — Ele pareceu recobrar a razão por um instante.
— Eu devia saber, uma coisa que começa errado só pode acabar errado. — eu falei em um sussurro.
— E quando nós começamos errado? Me diz! — Por um instante, eu achei que ele tinha recobrado a razão, mas descobri que não.
— Nós sempre estivemos errados. Tudo isso é errado. — falei, mostrando onde estávamos com a mão.
— Você que errou, todas as vezes. — ele disse, apontando o dedo na minha cara.
— Primeiro, abaixa esse dedo, porque homem nenhum aponta o dedo pra mim. — eu praticamente gritei, batendo no dedo dele — Segundo, eu fiz tudo por amor, eu dei tudo de mim por amor, então nunca diga que o erro foi meu. — falei entre dentes, sentindo toda a raiva.
— Se o erro não foi seu, foi de quem? Porque meu é que não foi. — ele disse, irônico.
— Claro, a culpa é sempre minha... Estranho seria se não... — Eu estava cansada daquela briga ridícula, que parecia não ter fim.
— Nada me tira da cabeça que você teve alguma coisa com aquele seu sócio... E, depois disso tudo, eu acredito mais ainda. — Ele cuspiu as palavras na minha cara.
— Como é que é? Você tá insinuando que eu e o Henry... Não, você não quis dizer isso. Diz que eu ouvi errado. — eu gritei, chocada.
— Você ouviu certinho... Foi tão fácil te ter... Ele deve ter tido da mesma forma. — ele falou leve, como quem conta uma novidade. E o barulho do tapa preencheu o vestiário, fazendo todos nos encararem. Minha mão ficou marcada no rosto dele.
— Você não pode ser tão baixo... Simplesmente não pode. — disse, com os olhos cheios de lágrima, cobrindo minha boca.
Bastou o tapa para que ele recobrasse o mínimo de consciência possível, encarando-me assustado. Eu sabia que aquele tapa tinha doido igual nos dois. Tinha doído em mim, porque significava tudo o que eu mais tinha medo. Aquele tapa era a gota d’água, aquele tapa significava o tão temido fim.
Cavani tentou chegar perto de mim para me abraçar, e eu só conseguia sentir nojo. De mim, dele, de nós dois... De tudo o que vivemos.
— Não encosta, eu não quero que você me toque... Não depois de ter me agredido de forma tão estúpida. Não tinha necessidade disso, não tinha necessidade nenhuma, e você sabe disso. — eu falei com a voz embargada, afastando meu corpo do dele.
— Eu... Eu não...
— Desculpa, Cavani, mas você quis sim... E eu não consigo mais... Eu não posso viver um relacionamento em que a pessoa olha na minha cara e diz que eu fui capaz de traí-la... Eu sei que, quando brigamos, eu falo coisas sem pensar, mas eu nunca duvidei do seu amor. Eu duvidei de mim, nunca de você... Colocaria as minhas mãos no fogo, se fosse preciso, para provar toda a confiança que eu sempre depositei em você... E você me devolve assim, dizendo que tudo o que eu senti não passou de uma enganação... Desculpa, eu não posso mais... Eu me rendo, eu desisto. — Minha voz continuava embargada, esganiçada. Eu estava sufocando, meu coração estava sufocando.
— O que você quer dizer com isso? — Ele me encarava incrédulo, sussurrando.
— Eu quero dizer que eu desisto... Eu desisto de nós dois... — eu falei, puxando a aliança do meu dedo e esticando-a na direção dele.
— Você está... Não, diga que não... — Ele passou a mão pelos cabelos, em um ato claro de desespero.
— Sim, eu estou terminando tudo entre nós dois... Vá ser feliz e vá procurar alguém que te ame, como você acha que eu nunca te amei... — eu disse, colocando a aliança em cima do banco.
Ele tentou me puxar pelo braço, mas eu consegui me desvencilhar e segui por onde eu tinha vindo. Meus olhos se encheram de lágrimas, que eu me proibi de derramar. Diferente do que eu esperava, ele não veio atrás de mim. Ele ficou lá, travado, encarando o vazio que eu deixei, enquanto eu ia embora para não mais voltar.
No corredor, esbarrei com nossos amigos, mas os únicos que perceberam que algo estava errado foram e David. Os dois tentaram me segurar ali, mas eu me desvencilhei de novo, agora correndo para o mais longe que eu poderia. Eles entenderam que eu não gostaria de ser seguida e que eu não explicaria o que havia acontecido. Eu não precisaria, no fim das contas. Todos que estavam dentro do vestiário já sabiam e já os colocariam a par de tudo.
Corri o máximo que consegui e, assim que encontrei a saída do estádio, respirei em paz. Uma chuva torrencial havia começado a cair, e eu senti que ela combinava com o meu interior devastado. Encontrei um táxi parado na porta e nem pensei em perguntar se ele estaria livre ou não. O motorista não pareceu se opor àquilo, e eu entendi que ele me levaria para onde eu quisesse. Pensei no aeroporto, mas eu não teria como pegar um voo para Paris naquele estado. Então, dei o endereço do hotel, e, assim que o carro deu a partida, me permiti chorar todas as lágrimas que eu havia segurado até aquele instante.
O caminho até o hotel passou mais rápido do que eu esperava, e logo eu estava no elevador a caminho da minha suíte. Eu só queria que o mundo acabasse ali, que não restasse mais nada. Eu não era mais nada. O melhor de mim havia ficado dentro daquele vestiário. Tudo o que eu carregava dentro de mim se dissipou como uma fumaça, foi levado pelo vento, banhado de dor. Eu não tive forças suficientes para abrir a porta do quarto. Eu sumiria, não haveria como permanecer aqui. Depois de algumas tentativas, a porta finalmente abriu, e a fechei com as costas, escorregando ali mesmo. Abracei minhas pernas, criando um casulo em torno de mim mesma, desejando que a dor fosse embora. Mas ela não ia. Ela permaneceria ali, viva, pungente. Matando-me aos poucos.
Não sei quanto tempo fiquei ali, eu não tinha forças para seguir adiante. Se eu me arrependia de ter feito o que fiz?! Amargamente. Eu queria voltar atrás, dizer que era idiota demais e que não queria ter feito o que fiz. Porém, eu não podia. Meu orgulho não me permitiria voltar atrás, não dessa vez. Logo eu, que sempre pedi perdão. O primeiro passo não seria meu. Se ele me quisesse de volta, ele teria que pedir, ele teria que fazer valer a pena, como pareceu não fazer nesse ano e meio que passamos juntos.
Tirei o prendedor do meu cabelo com um puxão, arrancando alguns fios de cabelo junto. Entretanto, aquela dor não era nada. Eu queria sentir a dor, talvez assim a dor do meu peito parasse de uma vez. Eu queria que ardesse na minha carne o dobro do que ardia meu coração. Eu queria fazer parar, mas eu não era capaz. Arranhei meu braço, sentindo a pele do local arder em resposta. Eu queria todas as dores físicas. Eu queria que ele tivesse me batido. Talvez não estivesse doendo tudo o que estava doendo agora.
Engatinhei até a cama e a escalei como uma criança. Lembrei apenas de tirar meus tênis antes de abraçar meu corpo novamente, sentindo os soluços desesperados aumentarem. Eu estava rouca, sem ar. Talvez eu estivesse morta por dentro. Talvez não, eu estava morta por dentro. Eu me sentia oca, vazia. Eu me sentia desesperada. Fechei os olhos, esperando encontrar um pouco de paz, mas o rosto dele aparecia na minha mente a cada tentativa. O sorriso, as lágrimas. Se eu esticasse o braço, talvez até pudesse tocar a imagem que aparecia ali.
Eu só precisava de paz. Eu só queria paz. Eu só queria viver em paz.
Meu corpo não aguentou mais a descarga de energia e apagou ali mesmo, comigo embolada em um casulo.

Acordei no dia seguinte me sentindo um caco. Esperei um tempo de olhos fechados, tentando me acostumar com a claridade que entrava, sem nenhuma necessidade, no quarto. Passei a mão direita no rosto e não senti o pinicar da aliança que deveria ficar ali. E, então, todos os momentos do dia anterior socaram a minha cara. Toda a dor, que parecia adormecida, voltou com o dobro de força, e eu senti meu coração ser despedaçado de novo. “Afinal, de quantas maneiras um coração pode ser destroçado e ainda continuar batendo?” Eu não queria nem imaginar. Eu só queria que a dor terminasse ali, na hora.
Apertei meus olhos mais uma vez e respirei fundo antes de levantar meu corpo da cama. Tudo o que eu queria era ficar ali para sempre, mas eu não podia. Havia uma vida e ela precisava ser vivida. Eu precisava buscar as minhas coisas na casa dele, eu precisava seguir em frente.
Encarei o relógio do quarto e vi que mal passava das seis da manhã, e isso era tudo o que eu precisava saber. Eu teria tempo suficiente para chegar a Paris e tirar tudo o que eu havia deixado na casa dele. Ele. Eu não podia sequer lembrar o nome, que um arrepio me cruzava a espinha. E a dor gritava dentro de mim.
Tomei um banho rápido, esfriando o corpo, a alma e o coração, e consegui pensar com mais clareza. Não que eu ainda duvidasse do fim ou de qualquer coisa do tipo, porque eu não duvidava. Eu só passei a aceitá-lo como quem aceita um velho amigo. Agora não havia mais um nós, eu seria apenas eu, e ele seria apenas ele. Seríamos separados o que éramos juntos. E isso me preocupava um pouco. Não é como se ele fosse indefeso, ou eu que fosse. É só que não era possível que pudesse existir algo separado depois de se completar de forma tão perfeita. Eu só queria voltar atrás. Eu só queria poder fazer algo que, no fim das contas, eu nunca seria capaz de fazer.
Ouvi meu celular tocar e estiquei o braço para pegá-lo, sentindo meu coração errar a batida algumas vezes quando vi o nome na tela. “Amor”. Era ele me ligando, e eu não queria atender. Eu não iria atender. Contive meus instintos de arremessar o celular contra a parede, assim eu nunca mais leria o nome dele. Demorou um tempo até que o celular parasse de tocar e eu resolvi passar o dedo pela tela para me atualizar das coisas. Vi que a foto que eu havia postado no Instagram tinha recebido infinitos comentários e curtidas, vi que havia milhares de chamadas perdidas de todo mundo que se pode imaginar, milhões de mensagens no WhatsApp, mas eu ignorei todo mundo. Eu não queria ter que explicar o que eu sentia. Não quando eu não conseguia explicar para mim mesma.
Voltei para o banheiro para trocar de roupa, vestindo a mesma calça jeans de ontem e um moletom largo. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo e coloquei um óculos escuro, que esconderia minha cara de choro por um bom tempo. Peguei tudo o que eu tinha deixado espalhado pelo quarto, guardando na pequena mala que eu tinha separado, e saí do quarto sem olhar para trás. Cruzei meus dedos para não encontrar com as meninas no corredor, e isso, graças a Deus, não aconteceu. Segui meu caminho até a recepção para fechar a conta e pagar a diária. Assim que tudo ficou acertado, esperei um táxi na porta do hotel. Tudo parecia partilhar da minha dor. Milão estava cinza, chuvosa... Eu diria chorosa, como eu. Uma das cidades mais bonitas que eu já conheci estava irreconhecível.
Exatamente como eu.
Um táxi parou na porta do hotel, e eu lhe passei o endereço do aeroporto. Passei o caminho inteiro com o rosto apoiado na janela, deixando meu choro silencioso se misturar, em um golpe de vista, com as gotas de chuva que escorriam pelo vidro. Nem me dei conta de onde estávamos até ver um avião ao longe ficar cada vez mais próximo. Meu destino estava logo ali. Meu destino era a minha solidão.
Paguei a corrida e praticamente pulei do táxi, puxando minha mala pelos corredores enormes do aeroporto até achar a companhia área que me levaria de volta para casa. Minha vontade era comprar uma passagem para o Brasil, eu precisava do colo da minha mãe, mas me contentei em comprar uma passagem de volta para Paris, e lá eu decidiria o que era melhor a se fazer. Meu celular continuava a vibrar desesperado na minha bolsa, e eu tentei ignorá-lo, mas se tornou impossível. “” brilhava na tela, e eu cheguei à conclusão de que deixá-las sem notícia era desumano. Eu não gostaria que o fizessem comigo.
— Oi, ... — Forcei minha voz para sair o mais natural possível.
— Onde você está, ? Estamos te ligando há horas, e você só rejeita essas chamadas... Estamos preocupados, caralho! — ela gritou do outro lado da linha, e meu coração se apertou. De novo.
— Eu estou... Em algum lugar, ... Não quero falar, por favor... — Controle as lágrimas, , no aeroporto não.
— Me dê aqui esse celular, , você está sendo amor demais, e ela não merece. — Reconheci a voz da , e um ruído mostrou que ela devia ter arrancado o celular da mão da . — Escuta aqui, mocinha, quem você pensa que é para sair do San Siro daquele jeito, sumir a noite inteira, não deixar uma notícia sequer, não avisar, nada?! Você não é a Candice Accola pra sumir quando der vontade, deixar todo mundo a ver navios, como se nada tivesse acontecido, entendeu?! Estamos indo no seu quarto nesse instante... Só pra você saber... — falava, brava, e eu tive vontade de rir no segundo em que ela me comparou com uma das mulheres que ela achava a mais surpreendente de todas.
— Não adianta me procurarem lá... Eu já saí do hotel... E, por favor, respeitem, eu quero ficar um pouco sozinha... Eu preciso de um tempo sozinha... Um mês, é tudo o que eu peço, e depois nós conversamos... Prometo não deixar vocês sem notícia, mas também não prometo avisar todo dia... Desculpa, só que eu tenho que desligar, eu preciso me recuperar... Diga a todas que eu as amo como uma doida, mas isso faz parte, eu preciso disso... Beijos, amo vocês... — eu falei rápido, impossibilitando que ela retrucasse com alguma coisa.
E, então, bati o telefone. Eu sabia que elas tentariam ligar de novo, mas eu rejeitaria. Eu precisava de um momento de paz, um momento só para mim. Desliguei o celular e joguei dentro da bolsa, enquanto ouvia meu voo ser anunciado. Passei novamente pela revista, fiz meu check-in e, em questão de minutos, o avião já estava levantando voo.
Em algumas horas o avião pousaria em Paris, e então eu buscaria um jeito de finalmente me recuperar. Eu sabia que não seria fácil, era verdade. O talho era profundo demais para fechar de forma tão fácil, porém ele fecharia. Eu encontraria uma forma de ficar bem, era o mínimo que eu merecia e o máximo que eu pediria naquela altura. Eu só queria ficar bem. Eu só queria sossego.
Sossego... Era tudo o que eu pedia.

Capítulo 05

Coloque para tocar: Let Me Go

Assim que o avião tocou o solo parisiense, eu senti meu corpo inteiro se arrepiar. Eu sabia bem que a terra do amor havia se tornado uma amarga lembrança, que surgiria cada vez que eu fechasse os olhos. A turbulência durante o voo e o céu fechado de Paris, visto da janela chuviscada do avião, só serviram para me provar que tudo estava mais errado do que eu poderia imaginar.
Assim que fomos liberados para deixar o avião eu agradeci aos céus por, finalmente, poder respirar ar puro. A garoa fina que caía insistente na pista me fazia ficar ainda mais melancólica e reavivava a dor, que seguia me agredindo com força, gelando meu interior, em um misto incompreensível, que eu já não sabia mais se vinha de fora para dentro, ou o oposto. Apertei o casaco contra o corpo, tentando aquecer minha alma e falhando miseravelmente.
Não demorei muito para conseguir pegar minha pequena bagagem, e logo eu estava em um táxi, a caminho da casa dele. Eu torcia para aquele sentimento de voltar para casa não me acertasse em cheio quando eu abrisse aquelas portas, mas eu sabia que seria quase humanamente impossível não sofrer. Havia muitas lembranças em jogo, havia muito mais do que apenas um homem e uma mulher, isso tudo envolvia dois corações castigados por todas as trapalhadas do destino. Envolvia dois futuros que antes convergiam, e que agora se afastavam cada vez mais. Envolvia todo o amor puro que nós sentíamos, e a forma como nos atrapalhamos, como nos afastamos, só piorava ainda mais a situação.
Assim que o táxi parou na porta do prédio que eu conhecia por inteiro, soltei um suspiro, respirando fundo e me preparando psicologicamente para o que aconteceria depois. Passei pela portaria como um raio, ciente de que o porteiro não me barraria nunca. O trajeto dentro do elevador parecia aterrorizante. Aquela caixa de metal parecia me apertar, como se pudesse me sufocar a qualquer instante, e eu sentia meu coração diminuindo, até só restar as batidas mais doloridas.
Assim que a porta do elevador se abriu na cobertura, eu respirei fundo, tentando ter força o suficiente para caminhar em direção à porta que eu tanto conhecia. A porta a qual ele me apertara tantas vezes, quando tudo o que sobrava era nossa vontade de amar. Passei a mão pela madeira levemente arranhada dos anos de existência, e eu pude sentir nossa história passando por entre meus dedos. Busquei a chave, que já estava pesando quilos extras no meu bolso, colocando-a na maçaneta e pedi a Deus para que eu tivesse estrutura emocional o suficiente para o que viria a seguir. Assim que a porta se abriu, uma lágrima escorreu e milhões de lembranças me acertaram como navalhas afiadas. Tantos sonhos compartilhados sentados no chão daquela sala, as vezes em que o amor falou mais alto no sofá, os momentos compartilhados na cozinha... As vezes em que fomos conjunto.
Abracei meu próprio corpo, enquanto sentia as memórias me consumirem por completo, culminando em um grito desesperador. Encarei a estante, carregada de lembranças, na medida em que as lágrimas caíam em cascata pelo meu rosto, minha alma clamando por socorro. Eu precisava sair dali o quanto antes, eu precisava de ar puro. Corri pelas escadas, indo direto para o quarto, e caí de joelhos no instante em que abri aquelas portas. A cama, nossa cama. Nosso amor tatuado em cada mínimo espaço daquele quarto, cada lembrança viva. Se eu fechasse os olhos, eu poderia me lembrar de cada momento que fora compartilhado ali. Caminhei de joelhos até o closet, e a primeira coisa que chamou minha atenção ali foi uma das camisas que ele mais amava vestir, e a que melhor cabia em mim, depois de uma noite de amor. Àquela altura eu não me importava com mais nada, eu estava extasiada. Puxei a camisa de qualquer jeito do cabide, e ela caiu no meu colo, o cheiro dele surgindo com força, me fazendo chorar ainda mais. Agarrada àquele pedaço de pano cheio de lembranças, arrumei forças para levantar e tirar todas as minhas coisas que estavam ali. Eu precisava encarar aquilo como se fosse um band-aid cobrindo um machucado — quanto mais tempo você leva para tirar, mais dor vai causar. Eu precisava puxar com força, rápido. E foi o que eu fiz.
Em questão de minutos, todas as minhas coisas estavam emboladas e fora do closet. Coloquei a camisa que eu mantive abraçada comigo de volta no cabide, fui até o banheiro e peguei tudo o que era meu que estava ali. Levei comigo um dos vidros de perfume que ele tanto usava, eu precisaria daquilo para continuar vivendo.
Corri pelos outros cômodos, juntando o que mais estivesse por ali, disposta a tirar daquela casa todas as lembranças de que um dia eu estive ali. Eu queria que minha existência passasse despercebida, como se ele nunca tivesse me conhecido. Eu queria lhe dar a chance de recomeçar, de ir atrás de algo novo, de viver de novo, mesmo que isso significasse abrir um talho eterno no meu coração. Eu o amava demais, e, quando amamos demasiadamente, não nos importamos que a felicidade do outro nos traga dor. Queremos apenas que o sorriso largo permaneça em seu rosto e que ele seja feliz, como poderia ser se ainda estivesse conosco.
O toque abafado do meu celular chamou minha atenção, e eu não fiz o mínimo esforço para ir atendê-lo. Deixei que o toque cessasse, e então fui até a bolsa ver de quem se tratava. O destino parecia não satisfeito com todas as peças que havia nos pregado, ainda precisava de mais aquela. A foto dele brilhava na tela, indicando que ele não desistiria tão cedo de conseguir falar comigo, e eu resolvi que, exatamente como um band-aid, eu precisava arrancar aquilo de mim. Deslizei o dedo para atender a chamada e, com a mão trêmula, levei o aparelho até a minha orelha, a tempo de escutá-lo pela primeira vez.
? — ele chamou, incerto. Talvez nem ele acreditasse que eu poderia atender. — , você ‘tá aí? , me responde, eu consigo ouvir a sua respiração. Por favor, fala comigo. — Ele parecia desesperado, e eu também estava.
— Oi. — Minha voz saiu trêmula, fraca, devastada.
— Você... Onde você está? — Aquela voz, a forma como ela parecia desesperada. Se eu fechasse os olhos, eu poderia imaginá-lo passando a mão nos cabelos, os olhos cheios de lágrimas...
— Não faz diferença onde eu estou. — respondi com a voz um pouco mais firme, a amargura pulando para fora de mim antes mesmo que eu quisesse.
— Claro que faz, por favor. Me diz onde você está, nós precisamos conversar, me deixa olhar nos seus olhos. — ele dizia nervoso, e eu sabia bem o que passava na cabeça dele naquele instante.
Cavani era tão intenso quanto eu, os sentimentos sempre à flor da pele. Ele sabia muito bem o mal que havia me feito, com aquelas simples palavras despejadas feito brasas na minha cara. Não era como se eu não as merecesse, mas, ainda assim, fora cruel demais.
Cruel como a vida era conosco. Cruel como eu havia sido.
— Não, nós não precisamos... Não faça isso doer mais do que precisa, por favor. — Minha voz transformava-se do nada, e agora parecia mais um sussurro desesperado, ciente de que mais um pouco e eu voltaria atrás.
— Você sabe que isso vai doer de qualquer jeito... Por favor, é tudo o que eu te peço. Eu estou em Paris, me deixa te ver, eu realmente preciso falar com você. — ele suplicou.
— Você sabe que não precisa. Tudo o que podia ser dito já foi dito, acabamos por aqui. — Tentei soar firme, mas aquilo estava me matando.
Ele estava em Paris, ele devia estar perto, e eu precisava sair dali o quanto antes. Caminhei uma última vez em direção à estante e joguei todos os porta-retratos que eu encontrei dentro de uma das sacolas que estavam no meu braço, tentando manter o foco na conversa com ele.
— Eu preciso te pedir perdão, eu falei...
— Não, Edinson, nós não precisamos passar por isso. Você falou o que estava no seu peito, eu entendo e respeito. Já foi, ficou pra trás. Nós ficamos. — respondi, minha voz sem vida.
, por favor! — ele suplicou, em um grito desesperado, dolorido.
— Adeus, Cavani. Eu te amo muito, e é exatamente por isso que eu te digo adeus. É por te amar tanto que eu te deixo livre. — Eu esperava que ele pudesse compreender meus sussurros.
, não diz adeus... — Ele havia começado a chorar, e aquilo era demais para mim.
— Adeus. Para sempre. — eu disse, antes de desligar a chamada, sem esperar nenhuma resposta.
Aquilo doía muito, mas era preciso respirar fundo e apenas continuar. Agora eu só dependia de mim mesma para seguir adiante. Eu dependia apenas do que eu sentia dentro do meu peito e da dor, que, um dia, eu esperava que fosse embora.
Saí daquele apartamento quase fugida, desesperada, enquanto carregava todas as minhas coisas comigo, ciente de que ele poderia chegar a qualquer momento. Chamei o elevador de serviço, que levou alguns instantes para aparecer, enquanto eu via o elevador social subir andar por andar, como se estivesse correndo, me fazendo agradecer a Deus quando o meu chegou antes do elevador ao lado. Eu entrei correndo, apertando todos os botões para que aquela caixa de metal saísse dali o quanto antes, as sacolas pesando nos meus braços. Fiz o trajeto inteiro em silêncio, segurando meu peito, como se aquilo pudesse diminuir a minha dor.
Eu sabia que havia deixado muito mais naquele apartamento do que havia ali antes. Deixei minhas frustrações ali dentro, deixei a tristeza descomunal que aquele fim precoce me causou. Deixei para trás todas as coisas, toda angústia, todo o medo. Abracei a saudade de peito aberto, e apenas aceitei que agora ela seria minha mais nova companhia. Ela seria minha aliada. A saudade provaria que tudo o que havíamos tido fora de verdade, e ela que me permitiria existir até que meu coração encontrasse paz.

– Cavani POV –

Voltar para casa parecia mais dolorido do que nunca. Eu sentia falta do corpo dela escorado no meu, enquanto sua mão prendia a minha, demonstrando que eu era seu porto seguro, e que ela se apoiaria em mim sempre que precisasse. Eu sentia falta de ficar com as costas tortas apenas para que ela pudesse achar uma posição confortável no avião. Eu sentia falta de seu sorriso, da forma como ela me olhava admirada e de como fazia o mundo inteiro brilhar mais forte. Era estranho pensar que eu veria o mundo de verdade, e não mais refletido pelo olhar sincero que só ela tinha. Entretanto, agora eu estava sozinho, e precisaria de muito para continuar.
Passei o voo inteiro camuflado na poltrona, mas eu sabia que era questão de tempo para que eu fosse descoberto e que aquilo ficasse pior do que já estava. Assim que cruzei o portão do desembarque, várias pessoas me reconheceram e vieram pedir fotos e autógrafos. Eu não poderia negar, eles não tinham nada a ver com o que acontecia no meu particular, e eu não poderia deixar que isso prejudicasse nossa relação. Eu apenas evitei ao máximo possível tirar os óculos escuros e esperei até que tudo aquilo terminasse. Um carro me esperava na área externa e, quando eu o encontrei, me esquivei de tudo que pudesse tentar me parar. Sinalizei para irmos direto para a minha casa, e então o carro seguiu na direção indicada. Eu sabia bem que uma enxurrada de recordações mostrariam-se para mim sem que eu pudesse filtrá-las. As emoções à flor da pele, o coração batendo cada vez mais devagar, quase em silêncio. Eu morreria aos poucos longe dela, ainda que eu precisasse continuar vivendo. E eu faria por ela o que eu sei que ela faria por mim. Eu a deixaria se recuperar e seguir adiante, ainda que isso significasse que ela precisaria existir longe de mim. Quando se tem amor, as coisas deixam de ser simples.
O carro logo se aproximou do prédio, e eu sinalizei para o porteiro com a mão no instante em que paramos na entrada da garagem. Então, o portão se abriu para nós, como mágica. Eu estava em casa, ainda que isso fosse dolorido e solitário demais para se imaginar.
Saltei do carro antes que ele estivesse parado por completo e corri em direção ao elevador, que nunca demorou tanto para chegar. Eu só queria estar em casa, eu só queria ficar bem.
Meu celular pareceu pesar no meu bolso por um instante, como se implorasse para que eu fizesse o inesperado, para que eu tentasse uma chamada, apenas para escutar a voz dela uma vez mais.
Eu não me importava de parecer tolo, não dessa vez. Eu precisava tentar, eu era louco por ela, qualquer pessoa no universo que conhecesse o amor saberia daquilo. Digitei os números do celular dela, que eu sabia de cor, e o telefone logo começou a chamar, me deixando desesperado. A chamada ficou muda por um instante, e eu tive que me certificar de que o que eu estava ouvindo era, realmente, a respiração dela, entrecortada, mas presente.
? — chamei, incerto, sem realmente acreditar que ela havia atendido a chamada. — , você ‘tá aí? , me responde, eu consigo ouvir a sua respiração. Por favor, fala comigo.
— Oi. — ela respondeu, a voz fraca, trêmula, e meu coração se apertou no peito.
— Você... Onde você está? — Eu não queria soar tão desesperado, mas quem eu queria enganar? Eu estava sim desesperado. A mulher da minha vida estava a um telefonema de distância.
— Não faz diferença onde eu estou. — ela respondeu com a voz firme, amarga, e eu senti mais um pedaço meu quebrar.
— Claro que faz, por favor. Me diz onde você está, nós precisamos conversar, me deixa olhar nos seus olhos.
Por um instante, tudo o que queria era olhar nos olhos dela e pedir perdão. Eu queria pedir perdão pela merda que eu havia feito, pelas palavras asquerosas que eu havia dito sem pensar. Como eu pude cogitar que ela tivesse algo com o ex-sócio? Eu era louco, era o mínimo. Nada me faria pensar naquilo, nada me faria acreditar naquilo. era a minha melhor verdade, meu sonho mais vivo. Ela precisava saber disso.
— Não, nós não precisamos... Não faça isso doer mais do que precisa, por favor. — O sussurro desesperado dela, de quem sabia que estava próxima de voltar atrás, me rasgava a alma.
— Você sabe que isso vai doer de qualquer jeito... Por favor, é tudo o que eu te peço. Eu estou em Paris, me deixa te ver, eu realmente preciso falar com você. — eu supliquei, tentando tudo o que eu tinha.
— Você sabe que não precisa. Tudo o que podia ser dito já foi dito, acabamos por aqui.
— Eu preciso te pedir perdão, eu falei...
— Não, Edinson, nós não precisamos passar por isso. Você falou o que estava no seu peito, eu entendo e respeito. Já foi, ficou pra trás. Nós ficamos. — ela me cortou, a voz sem vida alguma, fria, como eu nunca tinha visto.
, por favor! — gritei, desesperado, suplicante.
— Adeus, Cavani. Eu te amo muito, e é exatamente por isso que eu te digo adeus. É por te amar tanto que eu te deixo livre. — ela sussurrou, e eu só conseguir distinguir a palavra adeus, que me quebrou por completo, o fim finalmente aparecendo.
, não diz adeus... — Eu não havia percebido que as lágrimas escorriam pelo rosto até um soluço aparecer.
— Adeus. Para sempre. — ela respondeu, antes de bater o telefone na minha cara, fazendo-me encarar o celular desesperado.
Eu pensei em tentar ligar de novo, mais uma chamada, mantê-la falando comigo, a sensação de proximidade me trazendo vida, mas o elevador finalmente havia chegado, e eu aproveitei para subir o quanto antes para o meu andar. O elevador se arrastava, demorando infinitos minutos para me levar do térreo até a cobertura, meu coração apertando.
Assim que o elevador parou no meu andar, abri a porta de metal com pressa, como se isso pudesse mudar alguma coisa, mas eu sabia que nada de diferente aconteceria naquele instante. Caminhei apressado até a porta da minha casa e abri a mesma, desejando que nada além de paz viesse até mim. No entanto, fui surpreendido com aquele perfume que nunca sairia da minha mente. Ela havia estado ali, eu podia jurar até que ela havia acabado de sair dali, o perfume firme, presente, me fazendo rir nervoso, desesperado, estupefato com a audácia do destino.
Passei os olhos pela sala, tentando procurar sinais da presença dela, e encontrei minha estante vazia. Nossas fotos, a infinidade de porta-retratos que tinha ali havia desaparecido, agora só restavam buracos, só restava o vazio. Caminhei apressado até perto do móvel apenas para me certificar, e descobri que ela havia esquecido um único retrato, um que eu sempre guardava mais escondido. Era uma foto só dela, dormindo, com aquele aspecto angelical que me fazia admirá-la todas as noites, quando a encontrava ressonando tranquila. Ela tinha uma expressão de paz, e eu me lembrava de como éramos felizes ali. Abracei-me naquela foto, e deixei que a dor me atingisse por completo. Abracei aquela foto como se abraçasse o corpo dela, como se pudesse ter um pedaço dela ali comigo. Abracei o único fio de lembrança que havia ficado, o fio que me provaria que ela havia sido real, meu furacão particular.
Segui com a foto para o quarto, apenas para sentir ainda mais a presença do perfume dela. Caminhei em direção ao closet só para descobrir que o lado dela estava vazio. Não havia restado uma só lembrança dela. Uma única peça de roupa que falasse da existência dela, que mostrasse o que ela gostava, o que ela queria, quem ela era. Eu me sentia esvaziar a cada passo que eu dava, como se minha história estivesse se apagando aos poucos, como se pedaços desconhecidos dentro de mim estivessem rachando, sem que eu pudesse controlá-los.
Segui na direção do banheiro, e a única coisa que encontrei ali estava escondido na primeira gaveta da pia. Era um vidro de perfume novo, o preferido dela, aquele cheiro que preenchia meu pulmão com lembranças boas e que hoje seria sensação de saudade. Era para ser um presente, eu substituiria o dela quando acabasse, e agora ele havia se tornado a única lembrança de que ela realmente existiu.
Voltei para o quarto a passos trôpegos. Eu não tinha força para caminhar, apenas para fechar todas as cortinas, me recolhendo em um casulo escuro e frio. Eu queria ficar sozinho, queria amargurar que eu havia perdido a mulher da minha vida para uma sucessão de irresponsabilidades. Deitei na cama, abraçado à foto dela e ao travesseiro, que ainda guardava aquele cheiro familiar que ela exalava. Abracei os únicos pedaços dela que eu ainda tinha, e finalmente me permiti chorar. Permiti que minha alma se esvaziasse, e que toda dor que eu sentia se transformasse em lágrimas.
Um choro incontido, de quem queria chorar uma vida inteira, de quem queria se desfazer em lágrimas. Meu peito arfava desesperado e meu estômago embrulhava. Eu não conseguia imaginar como eu existiria em um mundo onde ela não estivesse. Eu tentava me lembrar de quem eu era antes de ela aparecer, mas não havia nada além dela dentro de mim. Eu não saberia o que fazer daquele dia em diante. Eu só esperava que a dor ficasse suportável, e que, um dia, nossa história pudesse ser contada sem que apertasse a minha alma, me sufocando. Eu só esperava que meu coração, mesmo quebrado, pudesse seguir batendo.
Um dia, eu sabia, a dor diminuiria, e restaria a saudade. Apenas a saudade que me provaria que realmente havíamos existido e que me permitiria acordar no dia seguinte com a certeza de que ela seria minha melhor lembrança, minha maior realidade e minha pior ausência. Até que um dia meu coração encontrasse a paz.

– Cavani POV –

Continua...

Nota da autora: (28/04/2017) Oi gente linda, tudo bom?
Não, isso não é uma miragem Brasil! Finalmente consegui trazer minha fic pro ficcionando, depois de tanto confabular sobre essa ideia com a Ba, que é a grande causadora de tudo isso (por sinal, a capa é obra dela, anjinho salvador <3)... É um prazer saber que você chegou até essa nota, e será ainda mais prazer ter você nos comentários, prometo responder com muito amor e carinho viu?!
Se você quiser saber mais sobre mim, é só procurar nos links abaixo, estou aberta para dúvidas, criticas, sugestões ou simplesmente um papo animado num fim de tarde... Vai ser MUITO legal!
Sobre as atualizações aqui, elas vão ser grandonas assim no começo, mas depois eu prometo retomar meu suspense que vocês começaram a conhecer mais pra frente, postando caps pequenos só pra deixar todo mundo tenso viu?! HAHAHAHAHA
No mais, é isso... Qualquer coisa, estou aqui!
Um beijo, um queijo e um cheiro,
Ju!

Twitter
Grupo do Facebook
Grupo do WhatsApp

Nota da beta: Será que estou ouvindo um coro de aleluia por essa fic finalmente estar no Ficcionando ou é só minha imaginação? 😂
Só queria avisar que essa fic é só tiro, porque dona Ju não tem piedade, não. Então podem ir preparando os coraçõezinhos! hahahaha. Logo, logo tem mais ❤


Se encontrar algum erro, me avise pelo e-mail.