Autora: Ste Pacheco | Beta: Babs



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Capítulos:
| 01 | 02 | 03 | 04 |

Prologue

Verão de 1996

— Vamos, querida, ou vamos perder o voo — a voz doce da mulher mais velha soava, com cuidado. A pequena menina estava com seus braços ao redor do pescoço do amigo, abraçando-o e molhando sua camisa com as lágrimas que desciam intensamente de seus olhos. Seu peito se sacudiu num soluço inconformado. Por que ela tinha que se despedir dele? Aquilo não era justo.
— Por favor, mamãe, só mais um pouco — ela respondeu, com a voz fraquinha e embargada.
— Tudo bem, meu amor. Eu e seu pai estaremos esperando lá fora. Mas não demore, precisamos chegar cedo ao aeroporto — a mulher lembrou, então sorriu para o garoto ainda abraçado à filha, se despedindo rapidamente porque sabia que para ele nada mais lhe importava, então foi esperar a filha do lado de fora da casa junto ao marido, que trazia uma feição quase arrependida no rosto. Porém, era preciso. Uma oportunidade como a que ele havia recebido era irrecusável e a esposa não ofereceu objeções quando ele mostrou o que aquilo significaria em suas vidas.
— Ela vai ficar bem, querida. — o homem lhe disse, tentando confortá-la.
— Ela é jovem demais para já sofrer desse jeito — a mulher tentou argumentar, incomodada com toda aquela situação.
— Ela vai ficar bem, você vai ver — ele insistiu, tocando o rosto da mulher e sorrindo fraco.
Dentro da casa, as duas crianças ainda se abraçavam, deixando que toda a dor da despedida se esvaísse em lágrimas.
— Não acredito que você vai mesmo embora, minha menina — o garoto disse, cabisbaixo, a voz infantil entrecortada pelo choro.
— Eu não quero ir, meu príncipe — ela disse, em resposta, apertando os lábios para não soluçar mais alto.
— E eu não quero que você vá. Acha que se nós sairmos pelos fundos e você se esconder no meu porão, eles acabam deixando você ficar? — apertou mais a garota contra seu corpo, ouvindo a risada melodiosa dela ecoar baixinho. Doía demais pensar que teria que continuar sua vida sem ele, não achava que conseguiria, mesmo sendo um toco de gente, como seus pais diziam. Ele também estava aos pedaços, não suportava a ideia de vê-la partir daquele jeito. Ela era tudo o que ele tinha.
— Promete uma coisa? — ela se desvencilhou um pouco dele para encará-lo nos olhos.
— O quê? — ele questionou, sabendo que não importava o que ela iria lhe pedir, ele aceitaria sem pestanejar.
— Que você vai me esperar. Porque um dia eu vou voltar, príncipe. — a certeza estava explícita nas palavras dela e ele não duvidaria nunca daquilo. Sua menina jamais quebraria uma promessa e ele também não.
— Prometo, minha menina. Nem que eu tenha que esperar pra sempre... E aí, quando você voltar, nós vamos nos casar. Você... você quer casar comigo, não quer? — enxugou mais algumas lágrimas que caíam pelas bochechas dela e viu um sorriso lindo se formar em seus lábios.
— É claro que eu quero. Sim, nós vamos casar — ela riu baixinho, sentindo a sementinha de esperança esquentar seu corpo, gelado pela falta que já estava sentindo dele. — Eu... Eu nunca vou esquecer você — tocou o rosto dele com sua mãozinha e ajeitou os cabelos dele com cuidado. Ele fechou os olhos por alguns segundos, apreciando o carinho dela e sorrindo ao ouvir sua resposta.
— E nem eu de você. — aproximou seu rosto do dela e beijou sua bochecha com carinho. — Eu amo você.
— Também amo você — a menina respondeu, doce. Eram apenas duas crianças, mas suas palavras eram verdadeiras. Se amavam de forma pura, inocente. Para o amor não há barreiras, nem mesmo para crianças de tão pouca idade.
— Tome — ela se afastou um pouquinho mais e tirou o colar que carregava em seu pescoço, entregando-o para o garoto. Era uma corrente simples, de ouro com um pingente de coração.
— Não vou pegar seu colar — o garoto recusou, surpreso com a atitude dela. Aquele era um dos objetos favoritos da menina e ela o carregava onde fosse. Não era certo aceitá-lo.
— Por favor, príncipe. É só pra ter certeza de que não vai esquecer de mim — ela insistiu, com os olhos brilhantes de lágrimas novamente e ele hesitou mais uma vez. — Por favor — então ele assentiu, fazendo um sim com a cabeça e pegando o colar das mãos da menina.
— Como se eu precisasse disso — ela sorriu. — Mas vou ficar com ele e toda vez que sentir sua falta vou ficar horas e horas olhando pra essa corrente — fechou os dedos em volta do mesmo. — Melhor — então decidiu colocá-lo no próprio pescoço, vendo a menina ficar surpresa com seu ato. — Vou carregar você comigo para onde eu for.
— Promete que vai fazer isso mesmo? — ela pediu, ainda sem acreditar no que ele havia feito.
— Prometo se você também me prometer uma coisa. — remexeu seus bolsos e tirou de lá o que procurava. — Que toda vez que olhar pra isso — entregou-lhe um medalhão de bronze que tinha ganhado de seu pai. — Vai lembrar de mim também. E que vai carregá-lo também para onde for — ele mordeu o canto da boca e engoliu em seco enquanto aguardava a resposta dela.
— Eu prometo — ela apertou seus dedos em volta do medalhão e sorriu novamente, se aproximando e beijando a bochecha dele, como ele havia feito minutos antes.
Então mais uma vez eles se abraçaram, permanecendo assim por mais algum tempo, até ouvirem uma buzina vinda do carro dos pais dela. Era chegada a hora.
— Adeus, meu príncipe — ela se desvencilhou dele e se dirigiu até a porta.
— Adeus, minha menina — o garoto respondeu e lhe lançou um sorriso triste, acompanhando-a até o lado de fora da casa, onde a mãe da menina aguardava para trancar a porta. A criança então seguiu até o carro, deixando o menino para trás e acenando tristemente quando o carro entrou em movimento, partindo logo em seguida.
Naquele dia promessas haviam sido feitas. Um pacto selado. E por mais que o tempo se encarregasse de fazê-los esquecerem disso, um dia o destino estaria ali para trazer à tona as lembranças. Tudo no momento certo.



I. Opinion Overload

Inverno de 2006

Já passava das três horas da manhã quando o casal adentrou a delegacia de Vancouver, procurando o filho com olhares preocupados e se sobressaltando com um grito conhecido.
— Ah! Até que enfim vocês chegaram, hein? — a voz do rapaz ecoou, completamente alterada. Fazendo com que o mais velho lhe recriminasse ainda mais com o olhar.
, que porra você tem na cabeça, moleque? — o pai do garoto disse, visivelmente aborrecido com a atitude do jovem.
— Porra? Olha a boca, papai, ou vamos ter que lavá-la com sabão! — o garoto debochou, então começou a rir. Não restava nenhuma dúvida do estado de , estava bêbado. O pai então bufou, quase perdendo a paciência.
— Vamos de uma vez antes que você nos faça passar mais vergonha — a mãe do jovem apenas segurava a boca com uma das mãos, temendo desmoronar ali mesmo diante da cena que presenciava.
— Ah, o papai não quer passar vergonha, é? — então, rindo, subiu na cadeira onde antes estava sentado e começou a balançar os braços para que todas as atenções se voltassem para ele. — Hey, olhem só pra mim! Sou o filho desse idiota aqui, que coloca roupa social até pra vir buscar o filho no xadrez! — gritou e começou a rir novamente, arrancando risadas de e , os amigos que, assim como ele, haviam achado que a ideia de pichar os muros da escola era como encerrar o Winter Break em grande estilo.
— Calem a boca, todos vocês. Ou eu mesmo mando prenderem os três! — Christopher repreendeu-os, mas sem sucesso. riu mais ainda e ignorou o mais velho completamente.
— Galera, vamos lá pra casa, uh? Aí continuamos a farra — soltou, animado.
— Demorou, se pronunciou, com a voz tão embriagada quanto, e se levantou, cambaleando um pouco e se apoiando em , fazendo o outro gargalhar idiotamente. não deu a mínima se estava chapado, pulou do banco e ficou rindo dos outros dois.
— Não, ninguém vai pôr os pés na minha casa. Vamos embora, . Os pais deles já estão a caminho — tentou puxar o rapaz pelo braço, mas esse desviou e soltou um som de quem continha a risada.
— Eita, ele tá nervosinho, gente. — soltou e revirou os olhos para os amigos.
— Já chega, ! — Maggie perdeu a paciência com o filho e disparou na frente do marido, pegando o garoto pela orelha direita e o puxando por toda a delegacia.
— Ai, mãe! Caralho, isso dói! — reclamou, não conseguindo evitar a mãe e a acompanhando para fora do lugar.
— Ih, olha lá! A mamãe botou coleira nele. Cadê você fotografando isso, ? — comentou, enquanto quase engasgava de tanto rir da cena.
— E você acha que tá lidando com quem, ? — revirou os olhos, enquanto seguia Margaret e o filho, gravando tudo com a câmera do celular. — Hey, ! Quais são suas palavras de boas-vindas à Templeton? — zoou, vendo o amigo virar para ele, fuzilando-o com o olhar e soltando uma exclamação de dor em seguida.
— Vão se foder, losers! — berrou, fazendo e gargalharem ainda mais. virou a câmera para o outro amigo e esse sorriu irônico para a gravação.
— Sejam bem-vindos de volta. Esse ano vai ser louco, não digam que não avisei.
— Meninas, tá na área, aproveitem. Câmbio desligo — o garoto piscou para a câmera e encerrou o vídeo, vendo que os pais de já haviam dado partida no carro e se mandado dali. Deram de ombros e continuaram esperando agora pelos pais de .
Dentro do carro, segurava a orelha a massageava com uma cara bem feia enquanto fuzilava a mãe com os olhos.
— Não olhe assim para a sua mãe — Christopher soltou, repreendendo-o.
— Foda-se, você é um otário de merda — não se deu o trabalho de olhar para o pai, continuou como estava.
, eu já mandei você calar a boca — a mãe iniciou, com a voz calma, porém autoritária.
— Prêmio de pais do ano pra vocês — ironizou, revirando os olhos.
— Eu não vou mandar você calar a boca de novo, ! — o pai disse, irritado.
— Por que tão irritadinho, papai? O que foi que eu fiz? — o rapaz disse, cínico. Christopher olhou-o pelo retrovisor com uma expressão incrédula.
— E você ainda pergunta, moleque? Vai parar na porra da delegacia porque resolveu pichar o muro da sua escola com aqueles outros dois delinquentes e ainda me pergunta por que eu to desse jeito? Você é a porcaria de uma vergonha pra mim! — retrucou, não ligando a mínima para o que havia acabado de dizer, seus nervos estavam à flor da pele. Culpa do filho, que não lhe dava uma trégua.
— Christopher! — Maggie interveio, reprovando a atitude do marido.
— Não me venha com Christopher! Esse garoto só sabe incomodar. Não sei que merda eu fiz pra merecer isso. — levou uma das mãos ao rosto, esfregando a testa, nervoso.
— Você é um merda, não precisa ter feito nada — deu de ombros, sentindo a freada brusca que seu pai deu logo em seguida. Maggie conteve um grito, vendo o marido quase voar na direção do banco de trás, segurando o filho pelo peito e dando de dedo na cara dele.
— Basta! Mais uma palavra e eu vou ser o pai de merda que você tanto pede, moleque! Vou tirar você daquele tanto de merda que faz e te colocar em uma porra de um internato. É isso que você quer? — encarava o rapaz com fúria e pela primeira vez abandonou a expressão debochada, engolindo em seco e olhando assustado para o pai.
— Você não faria isso — tentou soar com segurança, mas sabia que o pai falava sério.
— Vai querer testar? Tem muito mais a perder do que eu, pode ter certeza. E se não acredita realmente, a partir desse trimestre eu quero você no Comitê Estudantil, só para começar. — a expressão do mais velho era a de quem realmente não estava brincando. Maggie assistia à cena, desistindo de interferir, sabia que o marido já estava resolvendo tudo.
— Comitê Estudantil? Tá brincando, né? Não pode me forçar a andar com aquele bando de idiotas! — protestou, indignado.
— E o que pretende fazer, ? Ficar vagabundeando por aí o resto do ano letivo, sem trabalhar, jogando naquele seu time de merda e fazendo farras às minhas custas? Não conte com isso. Vai entrar para o Comitê sim, está decidido. — o garoto se sentiu ofendido com as palavras do pai, mas engoliu a enxurrada de xingamentos que queria soltar. No fundo, o time de hóquei era mais importante do que a vontade de mandar o pai ir à merda.
— Dane-se — soltou, virando a cara para o pai, que sorriu em triunfo e finalmente soltou o rapaz.
— Foi o que pensei — se endireitou no banco do motorista e voltou a dar partida no carro, precisava chegar em casa logo e ir dormir, o dia seguinte seria cheio.
apenas revirou os olhos e ignorou o olhar da mãe em cima dele. Tinha perdido a porra da discussão com o pai e ele odiava perder qualquer coisa que fosse.
Assim que chegaram à casa, o garoto mal esperou a mãe acender as luzes e subiu para o quarto, batendo a porta enfurecido.
— Quem esse babaca pensa que é? Quem? Se ele acha que vou virar um idiota certinho, tá muito enganado! Ele vai é se arrepender de me obrigar a entrar nessa droga! — resmungou, se jogando na cama do jeito que estava. Primeiro, porque estava enfurecido demais para pensar em trocar de roupa e segundo, porque queria fazer de birra mesmo, só para irritar mais o pai. Aquele sorrisinho de triunfo lhe fez ter vontade de arrebentar a cara de Christopher .
suspirou e logo adormeceu, para acordar no primeiro dia da volta às aulas com uma ressaca daquelas.

•••

O despertador tocou, fazendo Joshua resmungar irritado e desejar jogar aquela porcaria longe. Merda, eu preciso dormir! Soltou um resmungo baixo e cobriu a cabeça com o lençol, se recusando a levantar e ignorando completamente que era o primeiro dia de aula depois do Winter Break.
A noite anterior havia sido boa até demais para o garoto. Ele, e haviam conseguido se infiltrar em uma festa de fraternidade e o resultado havia sido uma boa noite de sexo com Melissa Schevalieu, uma aluna do terceiro ano da Templeton e a garota mais gostosa da escola. Estava se sentindo foda pra caralho, mas a menina tinha dado uma canseira nele. Josh teria gargalhado, se as batidas insistentes na porta não clamassem por sua devida atenção.
— Joshua, levante logo, seu inútil! Mamãe quer nos deixar na escola hoje — disse, com uma voz de tédio, já imaginando quais seriam as respostas do garoto.
— Primeiro que eu levanto se eu quiser, trouxa. Segundo, eu não vou chegar de carona com a mamãezinha. Vá só você — ele resmungou, fazendo revirar os olhos e abrir a porta do quarto. Joshua levou um susto e pulou, se sentando na cama e bufando alto.
— Quem te disse pra entrar aqui, loser? — olhou para a garota furioso.
— Acredite, não é prazer nenhum entrar aqui no seu... Chama isso de quarto? Parece mais New Orleans pós Katrina — fez uma careta, olhando ao redor e encontrando várias roupas e embalagens de comida pelo chão. — Isso é uma camisinha? — olhou chocada para baixo e deu um pulinho ao perceber que quase havia pisado descalça naquilo.
— Se você não transa, a culpa não é minha. Dá o fora daqui! — retrucou, com ironia.
— Vocês homens e essa mania de achar que uma mulher não transa porque não sai por aí espalhando pra todo mundo como vocês. Já parou pra pensar no quanto você soa ridículo? — revirou os olhos novamente, ouvindo Joshua rir com sua resposta.
— Ridículo é você falando feito a loser que é. Não ouvi nada, sai daqui logo, ! Já falei que não vou a lugar nenhum com a mamãe.
— E quem te disse que você tem opções? Levanta logo essa bunda daí. Não vou me atrasar por causa do rei do colégio... Ah, é, você só é um lambe rabo do — gargalhou e bateu a porta do quarto ao ver que o rapaz lhe jogaria a primeira coisa que viu. Joshua praguejou alto quando percebeu que era o seu celular e riu ainda mais da estupidez do irmão.
Quando Joshua desceu até a cozinha, encontrou a irmã gêmea sentada no balcão, comendo uma tigela de cereal. Bufou, revirando os olhos para ela e tentou passar reto até a porta, mas ouviu um pigarro, que lhe fez suspirar derrotado e olhar na direção da mãe.
— Bom dia, filho. Vai querer cereal também? — a mulher perguntou, com uma voz afável.
— Eu só quero ir no meu carro, mãe. Prometi que ia dar carona pro hoje — reclamou, fazendo careta quando a mãe o fez sentar ao lado de e começou a arrumar o café do filho.
não tem carro? Achei que seria bom irmos todos juntos. É caminho do meu trabalho, Josh. — a mãe comentou, entregando o cereal para Joshua, que respirou fundo, tentando não demonstrar que aquilo lhe irritava.
— O pai dele precisou usar, não posso deixar o cara na mão. — deu uma colherada no cereal e continuou, com a boca cheia mesmo. — Olha, mãe, nós nunca fomos todos juntos, não acho que isso precise mudar agora. — viu pelo canto do olho que reprovava a atitude do irmão, mas não deu a mínima pra isso. A mais velha suspirou, se conformando com o que ouvia.
— Tudo bem, tem razão. Tolice minha achar que poderíamos agir como família pelo menos uma vez. Coma tudo, sim? — beijou a testa do garoto e sorriu fraco para a filha antes de se retirar a cozinha.
— Fecha a boca pra comer isso, idiota — disse, enquanto terminava e levantava para ir lavar a tigela. Só para provocar, Joshua mastigou um pouco e abriu a boca pra mostrar a ela o resultado. — Nojento — revirou os olhos. — Depois que nossa mãe morrer, não banque o filho pródigo — secou as mãos em uma toalha de mesa enquanto olhava séria para o irmão.
— Ela não vai morrer porque eu recusei uma carona para o colégio. Você é ridícula e dramática, já te disseram isso? — terminou de comer e largou a louça na pia, não se dando o trabalho de lavar, como havia acabado de fazer.
— Tá achando que tem empregada aqui? — olhou feio para o garoto.
— Não, mas eu sou homem e não preciso lavar louça. Isso aí você que tem que fazer — disse, com deboche.
— Eu não tenho que fazer porra nenhuma, seu machista de merda. Tomara que seu pau caia — jogou o pano em cima da pia e esbarrou no irmão antes de sair irritada.
— Esqueceu a mochila, gênio — Joshua berrou, rindo porque havia conseguido irritar a irmã de verdade. bufou, pisando forte de volta à cozinha e pegando a mochila sem nem o encarar.
— Tchau pra você também, irmãzinha — soltou, debochado, ouvindo uma buzina que indicava que a irmã pegaria carona com Mackenzie Sinclair. — Loser — resmungou, balançando a cabeça em negação.

•••

"Vão se foder, losers!"
— Cara, esse é o melhor vídeo de boas-vindas à Templeton que já existiu! — comentou, gargalhando da cara do amigo, que apenas revirou os olhos. , que tinha uma espécie de blog onde postava tudo o que acontecia na Templeton Secondary School, não havia perdido tempo, assim como boa parte dos alunos daquele lugar.
— Bem-vindo de volta, — duas garotas pararam em frente aos armários onde os rapazes estavam encostados e o garoto ergueu uma sobrancelha para elas, sorrindo de forma esperta e se aproximando.
— Eu é que digo, meninas. Mas tem um jeito melhor de dar boas-vindas. Querem que eu mostre pra vocês? — então, de repente, ele tinha abraçado uma de cada lado e caminhava para algum lugar.
— Filho da mãe, vai começar o ano trepando com duas no vestiário — xingou, ouvindo rir ao lado dele.
— Vamos lá, continue postando no seu blog. Quem sabe não consegue alguém pra trepar também — esbarrou o ombro nele de brincadeira, quase fazendo-o derrubar o celular de suas mãos.
então se juntou ao grupo, cumprimentando-os com um high-five e pegando o que precisava em seu armário.
— Que cara é essa, Abhrams? A noite foi boa, é? — disse, olhando malicioso para Joshua, que gargalhou, erguendo uma sobrancelha.
— Melissa era a maior gostosa, me diga você — os outros deram risada, então Josh prosseguiu. — Mas, velho, ela me deu uma canseira do caralho.
— Ih, não aguenta mais o tranco, é? — debochou, vendo o amigo lhe fuzilar com o olhar.
— Vem cá que eu te mostro quem aguenta o tranco ou não, — levantou as sobrancelhas sugestivamente para o garoto, fazendo com que a gargalhada de ecoasse em resposta.
— Opa, intimou! O que foi que eu acabei de falar sobre você arrumar alguém pra trepar, ? Eu sou Deus! — soltou a última frase em um grito, que atraiu a atenção de várias pessoas que estavam no corredor.
— Você é um grande imbecil, revirou os olhos para o amigo, que apenas riu ainda mais do jeito dele.
, você tá bem, cara? — questionou, ao reparar que o outro encarava um ponto fixo a poucos metros de onde eles estavam.
— Quê? Sim, estou ótimo. Bateu o sinal? — o garoto respondeu, olhando rapidamente para os amigos e voltando ao que fazia antes. estranhou a atitude do amigo e tentou descobrir para onde ele olhava de verdade.
— Mano, você tá esquisito. O que foi? — balançou uma mão na frente dos olhos de , que desviou e franziu o cenho para ele.
— Para, porra, não é nada — aquilo não fez com que eles parassem, muito pelo contrário. Todos haviam virado para entender para onde olhava e Joshua franziu o cenho ao notar que naquela direção estavam sua irmã e Mackenzie Sinclair.
— Não me diga que tá de olho na Sinclair, porque se estiver, você é doente — Joshua comentou, com uma careta de nojo.
— Ouvi dizer que ela tem um crush no comentou, rindo da cara do amigo ao ouvir aquilo.
— Tu é um otário, cara. Sério. — resmungou, irritado, mas não deixando de pensar que investigaria aquela informação a sério.
— Não, eu não to de olho nela, caras. Parem com isso — tentou disfarçar, desviando o olhar e coçando a nuca, incomodado.
— Então desembucha, cara, quem é ela? — Joshua insistiu, esperando a resposta do amigo, que fez mais uma careta porque realmente não queria ter que responder aquilo.
— Não é ninguém — disse, vagamente, então sentiu que o abraçava pelos ombros.
— Vamos lá, . Resolveu virar de garanhão da escola pra um merdinha que fica encarando as garotas de longe? Não to te reconhecendo. — os outros então o olharam como se fossem socá-lo ou algo do tipo se ele não dissesse de uma vez, então a porrada foi rápida e quase indolor.
. — cinco segundos de profundo silêncio, então Joshua explodiu em gargalhadas.
— Desculpa, eu devo estar sob o efeito da maconha ainda, porque juro que ouvi você falar o nome da minha irmã loser — tossiu algumas vezes, se afogando durante o riso.
— Não, cara, não ouviu errado. Eu disse que tava olhando pra sua irmã. Já reparou no quanto ela é bonita? — ousado até demais, mas ele sabia que Joshua não ligava para a garota.
— Você só pode ter ficado maluco, cara. A erva queimou todos os teus neurônios? Ou teu pau que tá te fazendo perder o juízo mesmo? Tu não pode estar falando sério — o garoto continuou rindo, e isso irritou .
— Acredita no que tu quiser, mano. Sua irmã é a garota mais bonita da escola, ela sendo loser ou a rainha da Templeton — deu de ombros e ele teria de fato ido na direção da garota, se não cruzasse o corredor, atraindo os olhares de todos os que estavam no local.
Ele não estava mais com as duas garotas penduradas em seu pescoço, mas ajeitava a braguilha da calça e caminhava como se estivesse em um daqueles videoclipes de boyband, com direito a ajeitada no cabelo e todas essas coisas. percebeu que havia acompanhado o garoto com o olhar e revirou os olhos para aquilo.
— Não contei pra vocês, mas meu pai quer que eu faça parte do comitê estudantil ou uma coisa do gênero. Vou dar uma festa lá em casa. Quem sabe eu não concorra a presidente dessa bosta? — anunciou, assim que parou diante dos amigos.
— E você teve essa epifania enquanto comia as duas garotas lá no vestiário? — lhe questionou, arqueando a sobrancelha e fazendo sorrir malicioso.
— Não, mas a loirinha lá é ótima, então eu não duvidaria se eu fosse você — todos gargalharam e então o sinal tocou, anunciando que todos deveriam ir para suas salas.
e Mackenzie passaram rapidamente por eles e a morena lançou um olhar irritado ao perceber que lhe encaravam.
— Perderam alguma coisa aqui, idiotas? — comentou, sarcástica.
— O sono. Alguém já avisou a vocês que o Halloween é só em Outubro? — Joshua retrucou, tão debochado quanto, provavelmente se referindo às roupas escuras que as meninas vestiam. Aquilo fez com que Mackenzie mordesse a boca e desviasse o olhar para os pés, chateada com o que havia ouvido. apenas revirou os olhos e puxou Mackenzie pelo braço, quase mandando ir tomar naquele lugar quando o garoto lhe lançou uma piscadela. Que diabos ele pretendia com aquilo?



II. Boom

As duas garotas entraram na sala de aula praticamente grudadas, então se dirigiram rapidamente para seus lugares de costume: as duas carteiras juntas, no meio do quadro e bem na frente da mesa do professor. Gregor Lebouf já estava aguardando a turma e abriu um largo sorriso para as meninas, sendo retribuído e virando na direção do quadro para começar a copiar o tema da aula do dia. O professor, novo demais na opinião das garotas, lecionava inglês e arrancava suspiros de toda a população feminina (e parte da masculina também) da Templeton Secondary School. Mas o cara era muito bem compromissado. Segundos alguns boatos, ele tinha um caso com Caitleen , a irmã mais velha de , mais conhecido como o garoto mais insuportável da face da terra, segundo a humilde opinião de Abhrams, porém não era como se o sentimento não fosse recíproco, na verdade.
Seguiram-se alguns minutos de paz, onde elas puderam se organizar do jeito que sempre faziam desde os primeiros dias na escola. Conversaram sobre algumas coisas sem muita importância e o último comentário de Mackenzie fez com que soltasse uma risada gostosa. E assim que o conhecido sexteto também adentrou a sala de aula, a morena mudou sua expressão bruscamente, revirando os olhos e bufando incomodada. Havia esquecido da má sorte tirada naquele ano. Ter que frequentar a mesma turma que o irmão babaca e sua tropa de neandertais era o pior pesadelo que ela poderia imaginar.
Ela enterrou a cabeça em seus braços, apertando os olhos como se aquele ato fosse o suficiente para fazer os garotos sumirem, mas as risadas escandalosas de e soaram como buzinas irritantes em seu ouvido. Como era mesmo o nome daquele negócio que os torcedores tocavam em partidas de futebol? Vuvu alguma coisa? Ah, não importava. conseguia sentir cada um de seus neurônios protestando contra o som estridente. Pena que naquela situação ela não tinha para onde correr.
— Merda, me diz que eu cuspi na cruz, Mackie. Só pode ser isso — a garota resmungou, num tom amuado, o que fez a loirinha soltar uma risadinha e abrir a boca para responder.
— Você banca a difícil agora, Abhrams. Quero ver se continuaria com essa frescura toda se eu te desse uns beijos — automaticamente, ergueu a cabeça para encarar o imbecil que havia dito aquilo e suas feições se tornaram extremamente irritadas quando ela reconheceu o garoto parado à sua frente.
— Vai sonhando, — os olhos da morena fuzilaram os de , que apenas riu em deboche, erguendo uma sobrancelha pra ela.
— Não faz assim, zinha, todo mundo sabe que esse seu ódio todo por mim é na verdade amor reprimido. — Ele realmente havia dito aquilo para ela? sentia que a qualquer momento poderia perder o controle e socar a cabeça do garoto contra uma das carteiras até rachar o crânio dele. Em vez disso, no entanto, a garota respirou fundo para conter aqueles pensamentos assassinos e preparou-se para dar a patada que o faria se arrepender por falar tanta merda.
— Deixa ela em paz, — então a menina sentiu seu pescoço estalar quando virou bruscamente na direção de . Ele de novo? Qual era o problema daquele garoto?
— Qual é, ? Vai bancar o sem graça agora? — interveio, olhando surpreso para o amigo. ia mesmo bancar o bom moço agora?
— Meio desnecessário pegar no pé da garota porque ela não quer você, — ele ignorou o comentário de e soltou, em ar de deboche. ergueu a sobrancelha de tal forma que essa quase sumiu por seus cabelos. O que estava acontecendo ali?
— Não acredito que você vai virar um babaca só porque quer a garota — resmungou, no mesmo tom do amigo, então deu de ombros, se afastando sem ao menos olhar para a morena, que automaticamente adquiriu uma expressão de surpresa e indignação ao mesmo tempo.
— Garanhão — soltou, só para provocar o garoto e olhou rapidamente na direção de Mackenzie, não se demorando muito e seguindo para seu lugar ao lado de . A loira teve uma reação instantânea, as maçãs de seu rosto enrubesceram e ela olhou para os dedos de suas mãos, que ela entrelaçava em seu colo.
— Não pense que vou te agradecer, . Você continua sendo um dos maiores idiotas dessa escola — a morena olhou para e soltou, em tom frio. Ele coçou a nuca, rindo do jeito defensivo da menina e deu uns dois passos na direção dela.
— Relaxa, . Sendo idiota ou não, acho que você não merece aqueles dois te incomodando logo na primeira aula — aquela resposta havia pegado de surpresa, mas ela nunca admitiria aquilo. , por um acaso, estava drogado?
— E aí, galera gostosa! — o grito de fez com que as duas meninas pulassem de susto e Mackie soltou um gritinho como reflexo, o que fez algumas pessoas rirem antes de voltarem a olhar curiosas para o garoto. — Tão ligados que o aqui fez aniversário sexta passada, não é?
— Uhul, gostoso! — berrou, apenas para zoar com o amigo.
— Calma aí, depois a gente fala da nossa comemoração particular, — piscou, mordendo o lábio para o loiro e arrancando risadas de algumas pessoas. — Bom, o negócio é o seguinte: festa hoje, minha casa, começa às nove e vai até o último sobrevivente aguentar o tranco. E se vocês têm essas frescuras de 'tenho escola amanhã', vão todos se foder, seus merdinhas — gargalhou ao terminar e ouviu assobios de todos os lados. Festa em pleno primeiro dia de aula? Quem acharia ruim?
— Você vai querer ir a essa festa, ? — Mackenzie cutucou a amiga, receosa porque já imaginava mais ou menos o que a garota responderia.
— Isso é sério, Mackie? — a morena revirou os olhos, mas pelo olhar pidão da colega ela não estava brincando.
— Sério, amiga. Vamos ou não? Por favor? — a voz dela soava do jeito mais persuasivo que Mackenzie conseguia.
A resposta de ficou perdida quando o professor soltou um pigarro e anunciou o início da aula. Agora todos estavam oficialmente de volta à Templeton.

•••

Fazia longos vinte e cinco minutos nos quais o Sr. Lebouf não parava de falar sobre alguma coisa relacionada à literatura inglesa. Qual era o problema dele? Por que começar a passar a maldita matéria logo na primeira aula do dia? Vamos lá, os alunos haviam acabado de voltar de férias. Aquilo não era justo.
Perdendo completamente a paciência em continuar ouvindo toda aquela baboseira, o rapaz apenas se levantou e saiu da sala, aproveitando o exato momento em que o professor virou para escrever na lousa, de forma que assim não pudesse ser percebido. Não que ele se importasse em ter que mandar o cara se foder, o que lhe renderia algumas horas de detenção, mas quanto antes escapasse daquele inferno melhor.
Seus passos foram apressados até a pesada porta de ferro que dava acesso às escadas e em questão de poucos minutos já estava no lugar que mais apreciava naquela escola: o vasto e silencioso terraço.
Encostou-se à parede um tanto distante da porta e sentou no chão, observando a paisagem que tomava conta do ambiente naquela hora da manhã. O inverno de Vancouver não era tão rigoroso, se comparado a outras cidades do Canadá, por isso a época da neve já havia passado, deixando apenas aquele frio agradável, frequentemente dominado pelas chuvas, mas que podia ser contornado com um moletom quentinho, como aquele que o garoto vestia.
Caçou o maço de cigarros e o isqueiro em um dos bolsos e logo tragava a fumaça do tabaco com gosto, fechando os olhos e se sentindo finalmente relaxado. Momentos como aquele lhe faziam até gostar de estar na Templeton e isso fez com que um sorriso irônico se formasse em seus lábios. Tudo bem, aquele lugar não era um inferno completo, ele tinha bons amigos, uma ótima reputação, não tinha do que reclamar da vida, a não ser...
Sua mão livre automaticamente tocou seu próprio peito, onde ele conseguia sentir o objeto mesmo que o tecido de seu moletom estivesse no caminho. Tratou então de colocá-la por dentro da blusa e puxou a corrente que envolvia seu pescoço, tirando-a e trazendo ao seu campo de visão.
Engoliu em seco quando seus olhos se fixaram no pingente de coração e uma expressão saudosa tomou conta de suas feições.
Vou carregar você comigo para onde eu for.
E ele cumpria aquela promessa desde aquele dia. Toda vez em que se via completamente sozinho podia passar um bom tempo admirando a pequena joia e deixando as lembranças tomarem conta de seus pensamentos. Era em momentos como aquele em que se permitia admitir o quanto aquela doce menina lhe fazia falta.

— Isso não vai dar certo, príncipe. Seu pai nunca vai deixar nós construirmos nossa casa no quintal — a menina estava parada logo atrás dele com seus braços estendidos para segurar os pedaços de madeira que o garoto lhe entregava.
— Claro que vai, você vai ver como vai — ele insistiu, colocando mais um graveto na pilha dela e se virando novamente para procurar mais. Foi quando ouviu um grito agudo vir da direção da menina, seguido pelo barulho de toda madeira indo de encontro ao chão. Sem pensar duas vezes, ele olhou na direção dela e a encontrou com uma expressão chorosa enquanto encarava a bagunça recém feita.
— Uma... uma aranha! — ela apontou, trêmula enquanto controlava o choro. Com uma expressão incrédula, ele se aproximou para juntar os gravetos do chão e deu risada da amiga.
— Não acredito que você derrubou tudo por causa de uma aranhinha boba! — ele disse, em um tom superior que deixou a menina bem irritada.
— Eu odeio aranhas! Queria ver se fosse com você! — soltou, com as feições emburradas.
— Comigo? Eu não tenho medo de aranhas. Sou homem — deu de ombros, se sentindo o máximo por dizer aquilo. A menina revirou os olhos e abriu a boca para lhe retrucar, mas não foi necessário. Segundos depois, o pequeno silêncio foi cortado por outro grito agudo, dessa vez vindo do garotinho. Ele não só havia soltado os gravetos como a menina havia feito, mas jogou o pedaço de madeira longe, fazendo-o atingir uma das janelas de casa, quebrando-a e fazendo o maior estardalhaço.
— Que nojo! Aquela aranha quase comeu minha mão — sua respiração estava entrecortada pelo susto e ele parecia a ponto de chorar. A menina apontou para ele com a mãozinha pequena e soltou uma gostosa gargalhada.
— Parece que homens também têm medo de aranhinhas bobas — soltou, com um ar convencido, mas segundos depois se aproximou do garoto, segurando sua mão e lhe sorrindo doce. — Ela mordeu você, príncipe?

Soltou a fumaça com força, rindo gostosamente ao perceber quais eram as lembranças que haviam dominado sua mente, então soltou um longo suspiro e apertou o pingente contra seus dedos, sentindo a dorzinha bem conhecida incomodar em seu peito.
Ele daria qualquer coisa para que pudesse vê-la novamente. Como ela estaria hoje? O que teria acontecido com ela? Estaria viva? Ainda gostava de garotos?
Revirou os olhos para seus pensamentos e riu, balançando a cabeça negativamente.
— Só você pra pensar essas merdas — murmurou, consigo mesmo, e mais uma vez se perguntou por que diabos não conseguia lembrar o nome dela.
Tudo bem que ambos eram muitos jovens, mas ele não podia ter esquecido. Isso era um insulto a ela e a tudo o que haviam vivido juntos.
Mas mesmo não lembrando do nome dela e mesmo não conseguindo imaginar como seria a aparência dela nos dias atuais, ele não iria deixar de cumprir aquela promessa que havia feito. Ele a levaria consigo para onde fosse e não deixaria que o avançar dos anos apagasse os momentos vividos com ela de suas memórias.
Tomou um susto e num pulo ficou em pé quando ouviu o barulho da porta pesada se abrindo. Tratou de apagar o cigarro e colocou a corrente em volta de seu pescoço rapidamente.
— Porra, aí está você. O que tá fazendo aqui? E que porra é essa no teu pescoço? — revirou os olhos ao ouvir as perguntas do amigo e tratou de arrumar o pingente para dentro da camiseta como estava antes.
— Não é da sua conta. Eu tava entediado e vim fumar. Sei que você me ama, mas eu preciso de espaço, baby — piscou para o amigo da forma mais gay que conseguiu, sorrindo ironicamente e fazendo o garoto imitar seu gesto de antes, também revirando os olhos e indicando a porta com um movimento de cabeça.
— Vamos logo, caralho.

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soltava gargalhadas, quase engasgando de tanto rir enquanto segurava o celular em mãos, filmando a cena maravilhosa diante de seus olhos. Mas ele não era o único que ria, seus cinco amigos formavam a rodinha que era complementada por grande parte dos estudantes da Templeton. Todos contemplavam o mais novo aluno, Jeremy Stuart, que sofridamente tentava limpar o que parecia ser tinta branca de seus óculos.
Ele tinha sido conduzido ao seu armário pelos caras que ele iludidamente pensou que seriam seus mais novos amigos. Quer dizer, havia sentado ao lado do garoto e não tinha feito nenhuma objeção quando o professor Clifford sugeriu que eles formassem uma dupla para as atividades práticas de química. Eles haviam sido bastante amigáveis com ele, amigáveis até demais.
— Você vai até a festa hoje, não vai, Stuart? — lhe questionou, enquanto eles caminhavam pelos corredores, atraindo os mesmos olhares admirados de sempre.
— V-vou — Jeremy confirmou, ajeitando os óculos na ponte do nariz e sorrindo sem graça ao perceber que havia gaguejado novamente.
— Relaxa, cara. Só vai ter bebida e mulher bonita. Se tu for alérgico a isso, a gente te dá um desconto e tudo mais — soltou, erguendo uma sobrancelha na direção do garoto e fazendo com que esse protestasse veementemente.
— Não, não. Não sou alérgico a isso, caras. Só a... a lactose e alguns frutos do mar, mas isso não vem ao caso e...
— Ótimo — sentiu o braço de envolver seus ombros e dessa vez sorriu mais empolgado. Ele não conseguia acreditar que o sexteto mais popular da escola estava sendo tão receptivo com ele. Tinha ouvido falar que todos que tentavam se juntar ao grupo haviam sofrido consequências vergonhosas, mas agora que estava conversando com os garotos, duvidava que isso fosse verdade.
— Hey, Mackie — cumprimentou a loirinha com um sorriso radiante, se afastando dos garotos para conversar com a garota, que no primeiro momento lhe encarou com uma expressão receptiva, mas abaixou o olhar ao perceber com quem ele estava.
— Oi, Jeremy — ela sorriu fraquinho. — Vejo que você fez amigos novos... Isso é bom — mordeu o canto do lábio ao olhar na direção de , mas desviou rapidamente ao perceber que o menino também lhe olhava.
— Sim, vem cá que vou te apresentar a eles — chamou a garota, que se encolheu ao mesmo tempo em que interveio, puxando um dos braços do loiro e levando-o de volta para o grupo, que estava parado a alguns metros.
— Regra número um, Stuart: se você quer ser um loser de primeira, é só andar com Mackenzie Sinclair — disse, como se estivesse ensinando a uma criancinha.
— M-mas... — ele viu erguer uma sobrancelha ao ser questionado, porém teve que insistir naquilo mesmo assim. Ele havia gostado de Mackenzie. — Qual o problema em ser amigo dela? — pela cara de espanto dos rapazes, aquela havia sido a pior pergunta que ele poderia ter feito.
— Qual o problema? Qual o problema? repetiu, em tom indignado. — Cara, aquela é a maior loser da escola. É esquisita pra caramba e faz umas bruxarias meio loucas. Eu já vi até boneco de voodoo cair de dentro do armário dela — completou, fazendo Jeremy arregalar os olhos e lançar um olhar rápido para Mackenzie com aquela informação. A menina respirou fundo e voltou a virar para seu armário, tentando ignorar as palavras que tinha acabado de ouvir e segurando a vontade de chorar. Não acreditava que pensava tudo aquilo dela.
— E aí, qual vai ser? Loser ou esquecer Mackenzie Sinclair? — lhe questionou, piscando para uma ruiva que havia acabado de passar logo atrás de Jeremy. O garoto engoliu em seco e se segurou para não olhar a menina novamente, sabia que hesitaria se o fizesse.
— Eu to com vocês, caras. Nada de... Nada de Mackenzie — tentou colocar um pouco de firmeza na voz e sentiu que lhe dava tapinhas nos ombros.
— Assim que se fala, brother — ouviu dizer, com animação e eles seguiram para o refeitório da escola.
Durante o intervalo, Jeremy ouvia com atenção a conversa dos garotos, que acertavam os últimos detalhes da festa de . Aparentemente, o negócio era só ele chegar lá mesmo, já que os outros tinham se encaminhado de arrumar muita bebida e uma música massa. Algumas garotas se aproximavam hora ou outra, olhando para Jeremy com curiosidade e ele podia até jurar que uma delas piscou para ele de forma sugestiva. Aquilo nunca havia acontecido com ele e isso o deixou bastante nervoso, a ponto de virar uma boa parte do refrigerante em suas calças.
Boa, Jeremy! Ótima maneira de tentar ser aceito!
Ao contrário do que esperava, no entanto, ninguém riu dele e lhe alcançou alguns guardanapos para que o garoto pudesse se limpar. Mais uma vez, o garoto sentiu uma pontada de desconfiança por estarem sendo tão legais com ele, mas provavelmente aquilo era paranoia de sua cabeça.
Foi depois do almoço agradável que ele percebeu que estava certo desde o início.
Parado diante de seu armário, com o sexteto parado logo atrás de si — Joshua havia se juntado ao grupo no final do horário de almoço e pelo jeito que suas roupas estavam ele provavelmente estava tendo algum flashback com Melissa —, que ele sentiu uma movimentação estranha dos colegas. tinha pegado o celular com uma certa pressa e havia trocado um olhar cúmplice com , mas Stuart ignorou a sensação e deu de ombros, abrindo seu armário e se arrependendo amargamente por aquilo.
No exato momento em que a porta se abriu, ele sentiu o líquido gelado lhe dar um banho, fazendo ele tossir descontroladamente quando entrou por sua boca e nariz. As risadas ecoaram automaticamente e a escola inteira parou para observar a cena. O gosto azedo foi identificado rapidamente pelo garoto, o que fez com que ele se sacudisse em agonia.
Jeremy Stuart havia tomado um banho de leite vencido.
Olhou para os seis garotos à sua frente, que riam como se não houvesse amanhã enquanto o filmava descaradamente. Seus lábios tremeram com a vontade de chorar feito um bebê e ele conseguiu reunir forças para que sua voz ecoasse de forma ainda mais vergonhosa.
— Por-por que vocês fizeram isso? — deu um passo à frente, se aproximando do garoto, com uma sobrancelha erguida.
— Porque você é um perdedor, Stuart. Bem-vindo à Templeton — soltou, com deboche, trocando um high-five com Joshua e rindo mais logo em seguida.
Qual é o problema de vocês? — uma voz furiosa interrompeu os garotos no exato momento em que eles haviam se preparado para sair do local. virou para trás, erguendo uma sobrancelha e desfazendo o sorriso presunçoso quando percebeu que era Abhrams quem estava lhes desafiando.
— Dá o fora, — Joshua foi na direção da garota, quase como se fosse bater na menina.
— Dá o fora você, idiota! Vocês acham o quê? Que bancar um bando de bullies filhos da puta vai mantê-los como reis da escola? Porque se depender de mim, não vai! — ela deu de dedo na cara de Josh, enquanto fuzilava cada um dos garotos com o olhar.
— Que medinho, hein, . Tenho certeza que nós precisamos nos preocupar com uma perdedora como você — soltou, com sarcasmo.
— Paguem pra ver, otários. O reinado de vocês está com os dias contados! — mais um pouco e certamente a menina avançaria nos garotos. — Um dia todo mundo vai enxergar a podridão de cada um de vocês! — fixou seus olhos em , que abaixou a cabeça e deu as costas pela menina, pela primeira vez se arrependendo de ter feito uma pegadinha daquelas.
— Vai contando com isso, feiosa — Joshua retrucou, acompanhando o amigo e vendo os outros fazerem o mesmo. Eles ainda trocavam risadas debochadas e falava com a câmera do celular.
Abhrams e a podridão da Templeton. Ta aí um nome legal pra postagem de hoje! — os outros gargalharam com isso.
— Vem, Jeremy, vamos limpar essa bagunça — a morena estendeu a mão para o garoto, que negou com uma expressão desconfiada e trêmula que fez revirar os olhos. — Eu não sou a rainha da escola. Você foi um babaca com a Mackie, mas eu vou ajudar você. — Jeremy ergueu o olhar ao perceber que a loira havia se aproximado para ajudá-lo também.
— Me... Me desculpe, Mackie — ele murmurou, com a voz fraquinha, os olhos do garoto estavam cheios de lágrimas e ele se odiava muito por estar naquela situação. Aqueles idiotas precisavam pagar por aquilo e um dia ele seria esperto o suficiente para conseguir.
— Não esquenta, Jer. Eu sei o quanto eles podem ser persuasivos — Mackenzie fez um gesto de pouco caso com as mãos e sorriu para o garoto, esperando que pudesse confortá-lo de alguma forma.
— Vocês dois são malucos de verem qualquer persuasão naqueles otários — revirou os olhos enquanto caminhavam até o banheiro masculino da escola e ignoravam os olhares surpresos dos meninos ao verem duas meninas ali dentro.
— Nem todo mundo é Abhrams, sabe? — Mackie soltou, fazendo a amiga revirar os olhos e rir. Jeremy até esboçou um sorriso também, concordando com o que a garota havia dito.
— Eu sou única, eu sei. E vocês me amam, mas tem uma coisa mais urgente que precisamos fazer — ela engoliu em seco, adquirindo uma expressão determinada enquanto os amigos lhe encaravam com certa ansiedade. — Nós vamos àquela festa hoje.



III. Kiss Me Like Nobody’s Watching

As coisas pareciam acontecer em câmera lenta enquanto as braçadas de atingiam a água com precisão. Suas pernas se batiam, impulsionando-o para frente e sua respiração era acelerada conforme ele avançava até a outra extremidade da piscina. Havia saltado há poucos segundos, seu corpo atingindo a água com um baque pouco silencioso e sem perder tempo ele começou a nadar.
Naqueles segundos, nada perturbava os pensamentos de , ele só tinha olhos para seu objetivo final e a sensação de poder que tinha era inexplicável. Era como se ali, dentro daquela piscina, ele estivesse onde pertencia. Seus pensamentos tomaram até um ar cômico porque dizer aquilo era o mesmo que chamá-lo de peixinho, o que imediatamente lhe trouxe lembranças de quando era bem novinho e sua mãe fazia questão de chamá-lo assim para quem pudesse ouvir. Não era seu apelido favorito, mas pensar que despertava o orgulho assim de seus pais lhe deixava contente. Bom, pelo menos a natação lhe salvava nesse quesito, porque nos outros, bem... sem comentários.
alcançou a borda da piscina, tocando-a como deveria e tomando impulso para nadar até a outra extremidade. Estava praticando o nado peito porque dali a algumas semanas precisava competir na modalidade de cem metros. Não tinha dificuldades com aquele nado, mas quanto mais ele treinasse, em menos tempo conseguiria completar o pequeno circuito.
Ele era o nadador com o tempo recorde da Templeton e quebrá-lo lhe deixaria ainda melhor no time, garantindo que permaneceria sendo o capitão durante aquele trimestre. O treinador não dava sossego a ninguém quanto a isso e fazia questão de manter seu posto, não havia nada de mais importante para ele naquela escola, nem mesmo o blog, que era seu maior sucesso por ali.
Acelerou o nado na reta final, voltando a sentir sua mão tocar a outra extremidade da piscina, então emergiu da água, se apoiando enquanto recuperava o fôlego, parando o cronômetro que havia deixado logo por perto. Tirou os óculos de natação e olhou para o marcador, conferindo seu tempo.
— Nada mal — murmurou, sorrindo pouco satisfeito. Ele havia chegado muito próximo de seu recorde, mas perto não era seu objetivo, ele teria que trabalhar melhor naquilo, tinha que se focar mais e parar de se distrair enquanto nadava. Podia se sentir o rei das piscinas da Templeton, mas um rei que não se distraía com pensamentos bobos do tipo... Uau, desde quando Abhrams era tão gata? E desde quando ela usava aqueles shorts minúsculos? — Caralho!
— Não vai me dizer que você também resolveu que quer a minha irmã — tomou um susto ao ouvir a voz de Joshua muito próxima dele, então se virou na direção do garoto, que estava parado diante dele na borda da piscina.
deu mais uma olhada rápida na direção da garota, que conversava com um garoto esquisito, provavelmente integrante daqueles clubes que ela participava, então sua mão, até então apoiada na borda da piscina, escorregou no exato momento em que a menina percebeu que lhe observavam e encarou de volta, ele sentiu uma dor ridícula no queixo ao batê-lo com força no azulejo e revirou os olhos, se despedindo do garoto com quem conversava e ignorando completamente a presença do irmão ao se afastar dali. Joshua soltou uma sonora gargalhada enquanto tentava se recompor.
— Cadê sua câmera pra registrar o quanto você é pateta, cara?
— Vai se foder, Abhrams! — soltou, puxando a toca de sua cabeça, massageando o queixo em seguida e se certificando de que não havia se machucado. — Aí, tá com ciúmes de sua irmãzinha, Josh? — não era do tipo que ficava emburrado muito tempo com as coisas, em questão de segundos já estava rindo e sacaneando quem estivesse ao seu alcance, a vítima da vez era o amigo. Se virou para a beirada da piscina e tomou impulso para sair, já que a visita de Joshua significava o fim de seu treinamento.
— Eu, com ciúmes daquela maluca? Tá me estranhando, cara? — Joshua se defendeu prontamente, fazendo uma careta e olhando feio para , que gargalhou mais do que o outro enquanto se colocava de pé ao lado da piscina.
— Já sei! Ela descobriu algum podre seu e agora você resolveu bancar o irmão protetor pra fazer ela ficar quieta! Boa tática, brother — tentou um high-five com Joshua, que fechou a cara de imediato.
— Odeio destruir essas suas viagens, mas tem as coisas de nerd dela pra fazer em vez de se preocupar com meus podres ou com você. Para de babar na garota, porque além de loser ela não vai te dar trela — Josh retrucou, rindo ao ver a careta disfarçada de ao ouvir aquilo.
— O que veio fazer aqui? Garanto que não foi pra comentar sobre para quem sua irmã dá trela — retrucou com ironia o garoto, que revirou os olhos com isso, tão parecido com a irmã que ficaria bem irritado se notasse. — Espera! Você veio me ver de sunga, não foi? Seja mais sutil, Josh — zoou, pegando a toalha e suas outras coisas para seguir até o vestiário.
— Tá perdendo o jeito com as piadinhas, . Vim falar que seu namorado anda atrás de você. Alguma coisa a ver com um bagulho que você sabe qual é — ergueu uma sobrancelha com ar sugestivo.
— Agora eu saquei, Abhrams. O seu ciúme é de mim — o encarou, sorrindo maldoso. — Não esquenta, docinho. Vem comigo que eu até deixo você me olhar tomando banho — estendeu a mão para Joshua, como se o amigo fosse pegá-la, e gargalhou alto quando recebeu um tapa no braço em resposta.
— Vai tomar no cu, !
— Também amo você, bebê.

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Mackenzie encarava seu reflexo no espelho enquanto segurava a barra do vestido rodado, curto e roxo. Uma careta havia se formado em suas feições e só piorava enquanto ela descia os olhos de seu busto na direção da sua cintura e quadris logo depois. Tirando o fato de que roxo era a cor favorita de Mackie, ela se sentia completamente ridícula naquela roupa. O salto alto preto, que lhe deixava extremamente desengonçada não ajudava muito e seus cabelos caíam pelos ombros em cachos cheios que na opinião dela deixavam seu rosto mais redondo do que já era.
— Vou morder a isca. Qual o problema, Mackie? — levou um susto ao ouvir a voz de e só então percebeu que a amiga lhe observava. Encarou os olhos verdes de pelo reflexo do espelho e soltou um longo suspiro enquanto seus braços envolviam seu defeito mais gritante, que sempre ficava ressaltado em suas roupas.
— O problema, , é que eu tô parecendo um botijão de gás com esse vestido. Olha só pra essa barriga! Melhor, não olha, não. Por que mesmo que eu dei essa ideia estúpida de ir a essa festa? Eu não tenho roupa! — caminhou até sua cama e sentou na beirada, com os olhos se enchendo de lágrimas.
soltou um longo suspiro, largando o delineador na penteadeira e indo até a amiga com toda a paciência do mundo, sentando ao lado dela e tocando os cabelos da loira para que esta lhe encarasse.
— Escute bem o que eu vou lhe dizer porque não vou repetir. Você é linda, Mackenzie Sinclair. Não sei de onde que tirou essa história de que é gorda e as roupas ficam feias em você. Esse vestido está adorável, você não tem do que reclamar, está perfeita e vai arrasar. Agora enxugue essas lágrimas porque eu também não vou refazer sua maquiagem — disse, fixando seus olhos nos de Mackenzie, que suspirou longamente, estremecendo com a vontade de chorar que só aumentava. Ela assentiu com a cabeça, mas sua garganta não deixou que ficasse calada.
— Mas, ...
— Não vou repetir, Mackie. Nós duas sabemos que você amou esse vestido e comprou só pra ir a essa festa. Engula esse choro e vamos nos divertir. Jeremy já avisou que tá a caminho — sorriu para a amiga, que assentiu novamente e enxugou as lágrimas dos olhos, tomando cuidado para não borrar a maquiagem que havia feito momentos antes.
Mackenzie descruzou os braços e passou as mãos pela borda do vestido, por fim levantando para colocar as joias que complementavam o visual. Ao ver que estava pronta, procurou não ficar muito tempo mais olhando para o espelho e desviou sua atenção para Abhrams, pensando que era muito fácil para sua melhor amiga falar de beleza, já que ela estava absurdamente bonita naquele vestido vermelho colado ao corpo, complementado por ankle boots poderosas e os cabelos cacheados combinando perfeitamente com o corte longbob assimétrico que ela havia feito há pouquíssimo tempo.
— chamou, com a voz um tanto fraquinha enquanto mexia com a alça da bolsinha que usaria.
— Ahn? — a amiga soltou, distraída enquanto colocava os brincos.
— E se me zoarem por estar vestida assim? — ela soltou, deixando toda a sua insegurança transbordar para a amiga.
— Aí você faz engolirem esse salto poderoso que eu te emprestei. Garanto que não falarão mais nada pelo resto da vida — piscou para a amiga, que arregalou os olhos e soltou uma risadinha surpresa, embora a outra não parecesse estar brincando ao dizer aquilo. Na verdade, Mackie duvidava que ela estivesse mesmo.
Uma buzina interrompeu a conversa das meninas e Mackenzie olhou pela janela, identificando Jeremy dentro do carro parado na frente da casa.
— É o Jer? — ouviu perguntar, então assentiu positivamente. — Então vamos — pegou sua bolsa e foi na direção da porta.
— Tem certeza, ? Sobre essa festa e tudo mais. — Mackie questionou, enquanto acompanhava a amiga até a saída.
— Tenho e você também tem. Vamos embora — segurou a mão da loira, começando a puxá-la para fora.
— Espera, eu preciso me despedir dos meus pais — tentou, vendo o olhar assassino que recebeu em seguida. — Tá bom, vamos.
Do lado de fora da casa, Jeremy não escondeu a aprovação ao visual das meninas e seus olhos pousaram em Mackenzie por mais tempo do que o recomendado, algo que não passou despercebido por .
— Ei, Jeremy — cumprimentou-o, contendo um sorriso malicioso. — Vai na frente, Mackie — incentivou a amiga, que a olhou com um espanto gritante.
— Não, vai você, — ela sussurrou, entredentes, mas logo em seguida viu Jeremy dar a volta no carro só para abrir a porta pra ela, o que fez suas bochechas enrubescerem.
— E aí, meninas. Vamos, Mackie, não vou morder você — o garoto disse, sorridente e a loirinha não teve como recusar, sentando no banco do carona e desejando fuzilar a melhor amiga por isso.
— Espero que tenha bebidas decentes na casa daquele idiota do comentou ao ver que Jeremy dava a partida no carro segundos depois.
— Ouvi dizer que as festas dele são arrasadoras — ele respondeu, olhando a morena rapidamente pelo retrovisor e voltando sua atenção para as ruas.
— Arrasada vai ficar a cara dele se mexer com meus amigos de novo — ela murmurou, arrancando risadas de Jeremy e um sorrisinho de Mackie.
— O que vai ser um pecado, porque o é um gato — a loirinha não conteve o comentário, tentando ignorar o quanto estava se sentindo pouco à vontade ao lado de Stuart.
— Ih, Mackie. Não esquece que ele é um dos reis da Templeton. Um imbecil de primeira. Vai destruir seu coraçãozinho. Mas espera, você não era crushada no ? — viu Mackenzie estreitar os olhos pra ela pelo retrovisor e Jeremy havia fechado a cara com a informação, o que quase fez a morena rir.
— Cala a boca, — Sinclair lhe recriminou, vendo mostrar a língua pra ela.
— Coloca alguma música aí, pelo amor de Deus, Jer. Aliás, você é que tá um gato com essa roupa. Quase me fez te pedir uns beijos — brincou com o menino, que sorriu um tanto sem graça e ligou o rádio para que eles já começassem a entrar no clima de festa.

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adicionou a última música que havia selecionado para a playlist daquela noite e se deu por satisfeito quando a barrinha foi preenchida, seguida pela notificação de que a transferência para a pasta desejada estava completa. Havia sido ele o responsável pelo som na festa de , mas ele não estava nem um pouco preocupado com isso. Sabia muito bem que não importava qual fosse sua escolha, toda Templeton aprovaria seu gosto impecável. Abriu um sorriso torto com isso, removendo o pen drive do computador e se virando na direção de , que estava literalmente esparramado em cima de sua cama, jogando uma bolinha de borracha contra a parede e pegando de volta como se aquilo fosse a coisa mais importante que ele precisava fazer naquele momento.
— Ouvi dizer que sua irmã e a loirinha vão vir à festa hoje — comentou, ao ver Joshua adentrar o cômodo carregando uma garrafa de cerveja, de onde já estava bebendo.
— Quando eu disse pra você e cuidarem das bebidas, não quis dizer pra beberem tudo ô, animal — resmungou, sem desviar o olhar da maldita bolinha.
— Vocês dois andam tão engraçadinhos. Mas você ouviu certo, , elas vêm mesmo. E estão trazendo Jeremy Stuart com elas — lançou um olhar entediado na direção do amigo.
— E você vai aceitar isso assim numa boa? Nada contra, mas não é tu que não suporta no mesmo cômodo que você? — estava genuinamente confuso, ainda mais quando viu Josh dar de ombros.
— Foda-se a minha irmã e os amigos losers dela, cara. Eles não vão sobreviver a uma festa do nem cinco minutos de qualquer maneira. Aposto uma garrafa de Daniels que eles vão chegar até a porta, entrar no máximo uns minutos e depois vazar — ele parecia bem confiante do que dizia.
— E se resolverem ficar hein, Abhrams? — apareceu na porta do quarto, também segurando uma cerveja e bebendo uns goles enquanto erguia uma sobrancelha para o moreno.
— Querem parar de beber a porra da cerveja toda? — em questão de segundos depois, soltou uma exclamação de surpresa ao sentir a bola de borracha bater com força em sua testa.
— Vai tomar no cu, ! — reclamou, massageando o local atingido enquanto encarava com uma cara feia, o rapaz apenas deu de ombros, voltando ao que fazia antes.
— E você vai continuar aí sem fazer merda nenhuma enquanto arrumamos a sua festa, ? — deixou escapar, aproveitando a indignação do colega.
— Parem de reclamar, idiotas. Eu já fiz minha parte. A escola inteira tá vindo pra cá e meus pais estão por aí gastando dinheiro — finalmente parou com o lance da bolinha, que já estava irritando pra caralho seus amigos, e se levantou da cama, caminhando até o espelho e ajeitando o cabelo.
— Não respondeu minha pergunta, Josh. E se a sua irmãzinha resolver ficar na festa? — insistiu, deixando quase óbvio que faria de tudo pra conseguir a irmã do outro.
— Digamos que ela irá se arrepender bastante. Ela e Mackenzie Sinclair. — Joshua tinha uma expressão quase diabólica, que fez com que os outros o olhassem desconfiados.
— Ih, cara, o que tu vai aprontar? — perguntou, estranhando o mistério todo do amigo.
— Vocês vão ver.

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Quando Jeremy parou o carro na frente da casa de , concluiu que definitivamente aquele não era lugar nem pra ele e nem para as duas meninas dentro do veículo. O que eles estavam pensando quando decidiram se juntar àquelas pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com eles? Não se encaixavam ali, onde algumas pessoas se agarravam sem pudor nenhum enquanto outras já cambaleavam completamente embriagadas. O cheiro de maconha quase gritou em suas narinas e quando ele se virou para encarar e Mackenzie, Stuart sabia que seus pensamentos eram compartilhados.
— Tudo bem, essa foi a pior ideia que eu já tive. Podemos dar meia volta e reassistir um daqueles filmes que eu tenho em casa. Certeza que minha mãe comprou umas besteiras pra roermos também e… — Mackie desandou a falar, mas se calou ao ver o sinal que fez com uma das mãos, ao mesmo tempo em que erguia uma sobrancelha.
— Nada disso. Nós perdemos algumas horas nos arrumando só pra vir a esse… — engoliu em seco, demonstrando que se esforçava pra manter aquelas palavras. Ela mesma sentia vontade de voltar correndo pra casa. — Essa festa.
… — Jeremy tentou intervir, mas a morena lhe calou.
— Jeremy Stuart, nem venha com desculpas. Será que vocês não percebem? Se sobrevivermos a essa noite, quem sabe teremos um semestre em paz, sem aqueles idiotas pegando no nosso pé — a cada palavra ela mesma tentava se convencer disso.
— Você não pode estar falando sério, . Nós três sabemos que eles não vão parar nem se nascermos novamente — Mackenzie disse, com resignação.
— Que seja. Eu não desperdicei meu tempo pra chegar aqui e voltar correndo pra casa. Esses babacas vão ter que me engolir.
E dizendo isso Abhrams abriu a porta do carro e ajeitou o vestido rapidamente antes de começar a caminhar para a entrada da casa, ouvindo os passos apressados dos amigos questão de segundos depois. Conteve um sorriso ao ver um de cada lado seu e tocou a campainha.
— Prontos? — os outros dois acenaram positivamente, ainda com a incerteza no olhar, e segundos depois a porta se abriu.

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Um urro de comemoração ecoou da mesa da sala de jogos, onde os jovens embriagados jogavam o famoso beer pong. erguia o braço de Joshua pra cima, incentivando os outros a lhe aplaudirem e era prontamente atendido. Toda Templeton estava presente e com toda certeza não negariam um pedido do grande . A popularidade do garoto poderia ser questionada por qualquer um, mas quem se importaria com aquilo recebendo um sorriso do garoto? Joshua, por sua vez, estava adorando tudo aquilo, assim como adorou o fato de o time adversário ter que beber outra vez, já que na jogada anterior o parceiro de havia errado.
, sua vez! — o garoto foi convocado e bebeu todo o conteúdo de seu copo antes de voltar a se aproximar da mesa, deixando um sorrisinho presunçoso nos lábios.
— Preparem-se pra beber, otários — comentou, olhando desafiador para os amigos. Joshua gargalhou daquilo e deu de ombros, comprando a ‘briga’.
— Manda ver — retrucou para , que soltou uma risadinha debochada e voltou-se para a mesa. Mirou um dos copos, se focando o máximo que podia então jogou a bolinha. O álcool já começava a afetar seu sistema, deixando as coisas ao redor um tanto nubladas, mas ele conseguiu seu objetivo sem grandes problemas e segundos depois também ouvia a ovação do público, que fazia um verdadeiro escândalo. Não era todo dia que se via uma disputa entre o rei e o garanhão da escola. Os estudantes estavam verdadeiramente empolgados.
e Joshua apenas reviraram os olhos porque havia se juntado ao coro enquanto estes tiveram também que virar seus copos.
— Trouxa — Josh resmungou, contrariado. Odiava perder o que quer que fosse. Então era a vez de acertar um dos copos, mas antes que ele pudesse fazer sua jogada, foi surpreendido.
— Porra, vocês podem gritar mais alto? Eu nem queria dançar nessa merda de festa mesmo — surgiu com uma garota baixinha em seu encalço. Ela riu escandalosamente do que ele dissera e viu-se claramente que estava alterada, o que fez com que erguesse uma sobrancelha na direção do amigo.
— Deixa de ser babaca, . — Joshua retrucou, com ar de riso e levou um soco no braço como resposta.
— Nasci assim. Agora sério, parem de bancar um bando de gorilas em abstinência. Não quero ter que expulsar todo mundo pra pegar carona com meus pais na delegacia de novo — tentou soar mais sério com os outros e recebeu um olhar de compreensão de , enquanto Joshua apenas revirava os olhos.
— Bancar o filhinho de papai não combina contigo, cara — soltou, com um ar debochado.
— Vai mesmo começar com isso, Abhrams? Apenas controla a droga dos seus hormônios! — olhou mais sério para o garoto, que prontamente se empertigou e se aproximou do outro, como se estivesse se preparando para brigar.
— Ei ei, calma aí, vocês dois! — se colocou no meio dos amigos, achando aquilo tudo muito ridículo.
estava alheio à cena, já que seus olhos castanhos se cravaram na entrada da casa. Ele achava que Abhrams não poderia ser mais bonita do que o costume, mas havia acabado de descobrir o quanto estava enganado. O vestido da garota coube como uma luva e o garoto estava literalmente babando na perfeição do contraste da pele morena com o vermelho. E com toda certeza não era só isso, as curvas da garota eram perfeitas e muito bem desenhadas. Não lhe surpreenderia nem um pouco se alguém de repente lhe dissesse que estava babando.
— Caralho — soltou uma exclamação de espanto e riu baixo quando percebeu o olhar irônico que a garota lhe lançou, atraída de súbito pelo olhar dele.

•••

havia pedido toda a paciência do mundo ao bom Jesus assim que notou o olhar embasbacado de quando a porta se abriu. E ela percebeu que não era a única incomodada com isso porque no mesmo instante Mackenzie havia se encolhido. Xingou o garoto mentalmente de todos os palavrões que fossem imagináveis por isso. Tudo o que ela não queria naquele momento era sua amiga chateada, porque era um idiota que não percebia a mulher maravilhosa que Mackie era. Qual era o problema daqueles garotos? Primeiro e agora ? Certeza que ela não só havia cuspido na cruz, ela tinha dançado a Macarena no funeral de Cristo.
— Olha só quem temos aqui! Sejam bem-vindos ao inferno! — a voz brincalhona de lhe despertou de seus pensamentos e ela percebeu que o garoto sorria abertamente para ela enquanto lhe encarava de cima a baixo.
— Disso eu não posso discordar. O cosplay do satã acaba de nos receber — retrucou, com azedume, estreitando os olhos na direção de , que piscou os olhos algumas vezes, surpreso pela reação dela. Uma gargalhada alta interrompeu qualquer que fosse a resposta do garoto no mesmo instante em que se encostou no batente da porta.
— Poderia ter dormido sem essa, cara. Mas olha só, Josh apostou que vocês não passariam por essa porta. Tô vendo que ele não estava errado — comentou, notando a expressão da garota, que gritava o quanto ela queria dar meia volta e se mandar dali.
— Claro que o namoradinho não viria abrir a porta sozinho, certo? Eu não sei vocês, mas eu vim conferir eu mesma se as festas do são tudo aquilo que a escola comenta. Vão deixar a gente passar ou terei que chutar as bundas de vocês? — não esperou que os garotos se mexessem, abriu espaço com uma das mãos, empurrando com os ombros e finalmente conseguindo adentrar a festa enquanto puxava Mackie pela mão.
Jeremy acompanhou as garotas e encarou os garotos com aquela expressão típica de quem está se contendo para não cair na gargalhada e assim que se viu livre o bastante, foi exatamente o que ele fez. Mackenzie também não aguentou e riu junto, olhando com admiração para a amiga.
— Caramba, ! Isso foi demais! — Stuart exclamou, alcançando o outro lado da amiga.
— Quero ser você quando crescer — Mackie comentou, sorrindo para a morena, que não se conteve e riu de volta, no exato momento em que sentiu que era observada. Sua cabeça se virou automaticamente na direção dos olhos castanhos e ela revirou os seus quando percebeu quem era.
— Esse garoto tá começando a me irritar! — comentou, fazendo com que os outros dois também olhassem para .
— Ele está interessado em você, . Devia dar uma chance — a loirinha comentou, soltando um suspiro empolgado só com a perspectiva de ver a amiga com alguém como .
— Você ficou maluca, Mackenzie? Aquele ali é o pior babaca da Templeton — olhou indignada para a menina, notando que Jeremy compartilhava de seu sentimento.
— Eu acho que ele não é tão ruim quanto aparenta... Nenhum deles é — Stuart teve um acesso de tosse ao ouvir aquilo e soltou a mão de Mackie para encará-la melhor.
— Ok, agora eu estou ficando preocupada. Alguém te drogou, Sinclair? Porque eu realmente não acredito que disse isso! — balançou a cabeça em negação, espantando as palavras da loirinha e respirou fundo. — Vamos lá, tô vendo que nós três precisamos encher a cara — então puxou os amigos até uma das mesas, onde haviam bebidas de todos os tipos.

•••

teve que desviar sua atenção de Abhrams para também se meter no meio de e Joshua, já que mais um pouco e os dois sairiam na porrada sem motivo nenhum, então segundos depois ele segurava pelo colarinho enquanto esse se debatia tentando sair.
— Me solta, porra! Aquele otário passou dos limites! — olhou enfurecido para , que bufou com aquilo.
— Passou dos limites como? , tu vai mesmo entrar na onda do Josh? O cara adora uma confusão, mas eu juro pra ti que se vocês se embolarem eu quebro a cara dos dois! — apontou o dedo na cara do garoto, que respirou fundo e sacudiu os ombros assim que lhe soltou.
— Você tá certo. Não vou me queimar na minha própria festa por causa do cara. Mas eu tô falando sério, mais uma e eu expulso esse mané daqui — soltou, em tom de ameaça, o que fez com que apenas desse de ombros.
— Daqui a dois minutos vocês já são melhores amigos de novo, então que seja... Agora vamos lá beber mais alguma coisa, essa merda toda me deu sede — indicou a mesa de bebidas com a cabeça e concordou, sem notar que a verdadeira intenção de era observar mais de perto.
Assim que os garotos se aproximaram, Mackenzie ergueu seu olhar, cutucando a amiga com uma cotovelada e bebendo longos goles do que havia preparado para ela no copo vermelho.
— Opa, vai com calma aí, mocinha. Ou vai ficar bêbada em dois segundos — a morena soltou, em tom de riso, o que atraiu também o olhar de .
Abhrams em uma festa minha. O apocalipse zumbi está se aproximando! — o garoto zoou, enquanto enchia um copo com cranberry vodka, entregando-o para ela em seguida.
— Só verificando se são lendárias como você e meu irmão se gabam. Mas eu ficaria com os olhos bem abertos só pra garantir — se surpreendeu ao ver que a menina não só havia aceitado o copo da mão de como havia lhe lançado um meio sorriso. Por que ela havia sorrido pra ele?
Aparentemente, Mackenzie e Jeremy haviam pensado a mesma coisa, já que ambos haviam se entreolhado e a loirinha indicou algum lugar para que se afastassem dali. havia soltado uma risadinha baixa e se aproximado mais da garota de forma sutil, o que deixou bastante irritado já que ele não havia escondido nenhuma vez que estava interessado na garota.
— E então, qual é a sua conclusão? Não vai me deixar curioso pra saber, não é? — ele fixou seus olhos nos da garota, sugerindo mais do que suas palavras queriam dizer.
não era boba, ela havia entendido perfeitamente e alguma parte sua tinha gostado daquilo, por mais que ainda achasse que era tão idiota quanto seus amigos.
— Acabei de chegar aqui. Só é justo você saber no final da noite, não acha? — a menina também deu um passo na direção dele e a essa altura simplesmente havia desistido de assistir àquela cena, pegando uma garrafa qualquer de cerveja e indo até algum sofá onde ele se jogaria emburrado.
— Bem pensado. Mas eu vou cobrar, não pense que vai fugir de mim, mocinha — o garoto piscou um olho para , que levou seu copo aos lábios e bebeu alguns goles da bebida que o garoto havia lhe entregado.
De canto de olho, ela percebeu a irritação de ao se afastar e algo dentro de si comemorou aquilo. Quanto mais longe ela estivesse de melhor seria. Ela simplesmente não entendia qual era a dele com todo aquele cavalheirismo e súbito interesse, porém também não queria saber. Na verdade, ela desejava que e seu sexteto explodisse, embora algo dentro de si insistisse em confessar que explodir poderia ser um tremendo desperdício.
— Não sou de fugir, . Estou bem longe de parecer alguma dessas meninas que caem nos seus braços — ela lhe lançou um sorriso esperto e fez uma careta.
— Outch! Assim você faz eu me apaixonar por você, Abhrams — ele então havia percebido o olhar breve que havia lançado a e aproveitou aquilo para soltar, em um tom um tanto maldoso. — Mas vou ter que discordar do lance de fugir. Me parece que você está fugindo do também tomou um pouco de bebida enquanto seus olhos estavam fixos em . Ela se surpreendeu pelo comentário dele, mas escondeu suas reações, erguendo uma sobrancelha e transformando suas feições em deboche.
— Seu amigo é um pé no saco, . Aquela cena toda de cavalheirismo não me compra, assim como a sua também não — ela levou uma de suas mãos ao colarinho da camiseta que o garoto vestia, o que o fez se aproximar mais um pouco da moça sem prestar total atenção ao que dizia.
— Assim você me magoa, . Todo mundo sabe que eu sou um perfeito gentleman — o garoto soltou, esbanjando todo o seu charme, o que fez olhá-lo fixamente nos olhos por alguns segundos e começar a rir sonoramente em seguida, inclinando a cabeça e depois balançando-a em negação.
— Continua sendo um idiota pra mim — ela disse, após se recompor do acesso de riso, fazendo com que abrisse a boca em um perfeito “O”, surpreso pela sinceridade escancarada da garota.
— Suponho que vou precisar mudar essa sua opinião então — falou, ainda meio desconcertado e falhando miseravelmente em esconder isso.
— Vai ser engraçado demais vê-lo tentar — disse, em tom insolente.
fez uma careta indignada e estava prestes a rebater o que ela dizia, provavelmente com uma de suas táticas de puxar a garota para dançar ou lhe servir mais um copo de bebida (embora odiasse essa última, porque garotas bêbadas não eram nada divertidas e sempre lhe causavam problemas), porém quaisquer fossem seus planos, caíram todos por água abaixo quando ele sentiu duas mãos tamparem sua visão e uma risadinha feminina soprar alterada em seus ouvidos.
— Adivinha quem é? Pensou que ia fugir de mim, zinho? — ele usou toda a sua força de vontade para não revirar os olhos ou bufar alto pela interrupção.
— Mallory — em vez disso, sua voz soou sem graça enquanto ele tirava as mãos da garota baixinha de seus olhos e encarava uma de sobrancelha arqueada. A morena se aproximou novamente de , mal olhando para a mocinha, largando seu copo vazio na mesa e tomando o copo do garoto de suas mãos, bebeu um longo gole e voltou a encará-lo.
— Como eu disse, idiota — soltou, com ironia e deu as costas para . Era impressão do garoto ou ela estava rebolando mais do que o normal só para provocá-lo?
— Mas o que foi isso, Benzinho? E por que você tava aqui com essa... essa garota? — dessa vez ele não escondeu e bufou alto, fazendo com que a menina tirasse suas mãos dele, já que ela insistia em pensar que segurar o cós de suas calças era sexy.
— Dá um tempo, Mallory. Você tá chapada — e se afastou da garota, passando feito um furacão por , que soltou uma risada bem satisfeita e levantou para seguir na direção onde havia ido. Aquela era a oportunidade que ele estava esperando para se aproximar da garota.
A morena havia reencontrado Mackenzie e Jeremy num espaço onde havia se formado uma pista de dança, mas eles não dançavam, estavam parados, um olhando para o outro de tempos em tempos e lançando sorrisos sem graça quando seus olhares se encontravam.
— Você também tá achando uma péssima ideia ter vindo até aqui, não é? — Jeremy questionou, tentando quebrar aquele silêncio desconfortável entre os dois, então Mackie sorriu, assentindo e percebendo que sua bebida havia acabado. Tomou um susto antes que pudesse dizer qualquer coisa ao garoto, já que empurrou mais um copo cheio em sua mão, pegando o vazio e deixando em um lugar qualquer enquanto sorria abertamente para os dois.
— Pelo jeito vocês estão se divertindo pra caramba sem mim — disse, com a voz risonha, o que fez Mackie revirar os olhos e reprovar sua atitude.
— Cala a boca, . Cadê o seu boy magia? — questionou, aceitando o copo da amiga e bebendo alguns goles da bebida, que fez com que umas caretas se formassem em seu rosto. Ela sentia que suas bochechas já estavam quentinhas e seu corpo estava mais leve. Não era acostumada a consumir bebidas alcoólicas, mas estava adorando aquela experiência.
— Que boy magia? — a morena olhou confusa para a loirinha, que estreitou os olhos em sua direção, ouvindo uma risadinha baixa ecoar do lugar onde Jeremy Stuart estava.
— Fala sério. Você tava toda derretida lá com o . Não negue, não! — apontou o dedo na cara da amiga, que soltou uma gargalhada alta com o que havia ouvido.
— Eu? Derretida por ? Em que universo você anda, Mackie? Não acredito que já está bêbada — balançou a cabeça em negação enquanto ainda ria. — é um idiota, assim como todos os outros amigos dele. Eu só dei papo a ele pra me livrar do . Você sabe que aquele rascunho de satanás anda no meu pé.
— E você tá ligada que falar nele é o mesmo que invocá-lo, certo? Olha só quem vem aí — Jeremy se pronunciou, inclinando a cabeça na direção de onde havia visto se aproximando.
— Fala sério! Vem comigo antes que ele me veja — puxou Jeremy pela mão, que puxou Mackie em seguida para o que parecia ser o ponto onde os adolescentes mais se aglomeravam.
A música estava um tanto abafada pelas conversas e gritos ao redor, mas então reconheceu a voz da cantora e a música que iniciara. Era Bubblegum Bitch de Marina and the Diamonds e não conseguiu se conter.
— Mackie, é a nossa música! — gritou, bem animada, soltando a mão de Jer e pegando na mão da amiga para que dançasse com ela. — Vamos lá, loirinha. Se solta! — incentivou enquanto rebolava os quadris para lá e para cá.
Mackenzie começou a se mover de um lado para o outro com uma certa timidez, mas logo foi se deixando levar pela música e quando se deu conta, pulava e cantava a letra bem alto. se abraçou nela por alguns segundos e elas cantaram juntas, gargalhando alto quando a música acabou e trocando um olhar cúmplice. Quando eram mais novas, elas costumavam performar aquela música na frente do espelho ou até mesmo na frente da câmera da mãe de Mackenzie. Provavelmente os arquivos ainda existiam para envergonhá-las na primeira oportunidade, mas isso não importava naquele momento. Tudo o que importava era a leveza que sentia e a vontade absurda de continuar deixando as próximas músicas guiarem os movimentos de seu corpo. E foi isso que ela fez, aproveitando cada batida que escutava e imitando , que não parava de rebolar um minuto sequer. Jeremy havia se juntado às garotas, dançando de um jeito desengonçado que arrancou mais umas boas gargalhadas das meninas. Nenhum dos três havia se divertido tanto na vida, disso eles tinham certeza.

•••

não conseguia parar de sorrir enquanto se movia, como se a música fizesse parte de seu corpo. Conseguia sentir alguns olhares sobre si, tendo plena consciência de que era sim bonita e desejada, porém aquele dia não era sobre isso, era sobre dançar até desabar exausta. Ela havia aceitado mesmo ir até aquela festa, então por que não a aproveitar ao máximo?
Odiava admitir, mas de fato os boatos sobre as festas de eram verdade. Eram de arrasar se você ignorasse, é claro, o número imenso de jovens vomitando ou transando pelos cantos da casa. Porém, a música estava ótima e ela podia beber o quanto quisesse, aquilo certamente gerava pontos positivos.
Olhou em volta, não lembrando em que momento exato ela havia perdido a melhor amiga, mas não ficou muito preocupada porque ela também não estava vendo Jeremy, o que queria dizer que os dois estavam juntos. Sorriu consigo mesma, imaginando que eles dariam um casal super fofo, então revirou os olhos ao perceber encostado em uma parede, olhando para ela como quem dizia que a conversa entre os dois não havia acabado. E como se provasse o ponto da garota, a tal Mallory voltou a se pendurar no pescoço dele, o que fez rir debochada e virar para outro lado, ainda dançando.
— Impressão minha ou você tá me evitando? — lógico que não desistiria fácil assim. A morena precisou de toda a paciência do mundo para não gritar para o garoto ficar bem longe dela. Em vez disso, ela sorriu bem sarcástica e soltou, com azedume.
— Não é impressão, não, . Não sei qual o jogo que você e seus amigos estão fazendo, mas eu não vou cair nessa — empurrou seu copo meio vazio contra o peito de e mais uma vez se esquivou dele, caminhando pela casa até achar um cômodo que não estivesse tão cheio.
Saiu pela porta da cozinha e sentou em uma escadinha que tinha por ali, respirando fundo enquanto levava as mãos à cabeça ao perceber que estava alterada pelo álcool.
Então ela levou um susto ao perceber alguém ao seu lado e a risada de despertou-a de quaisquer pensamentos que tivesse.
não vai desistir tão fácil, sabe? — virou o rosto para encarar o loiro, notando que alguma luz noturna havia ressaltado a cor dos olhos do rapaz. Maldita heterocromia! era definitivamente gostoso, mas ainda assim idiota como os outros, ela não podia esquecer disso.
— Pois se eu fosse ele, desistia. Daqui a pouco não vai me pegar em um bom dia, aí vai se arrepender — retrucou, seca, o que fez o garoto rir e levantar as mãos em sinal rendição.
— Calma aí, senhorita durona. Foi só um comentário. Eu não acho mesmo que você deva dar uma chance para o cara. é um babaca, provavelmente só quer adicionar você à coleção dele — se surpreendeu com a sinceridade do rapaz e continuou olhando para ele, agora com uma sobrancelha erguida.
— Aí você simplesmente entrega o garoto assim? Que tipo de amigo é você, ? — a garota riu, observando os traços do rosto dele.
— O que fala a verdade — ele deu de ombros e desviou o olhar do dela por alguns segundos, encarando o que parecia ser uma bela lua lá fora.
— Não entendo — a morena soltou, com sinceridade.
— Não precisa entender, . Sei que acha que somos todos idiotas só por sermos amigos do seu irmão. Mas quer saber de uma coisa? Eu não ligo — ele voltou a encarar a garota, então riu de suas próprias palavras.
— Você tá bêbado ou algo assim? Porque essa nossa conversa não tá fazendo o menor sentido — ela balançou a cabeça em negação, então riu também, sentindo-se estranhamente hipnotizada pelos olhos de . Maldita bebida.
— Pode até ser. Mas bêbado ou não, acho que uma garota linda como você seria mais idiota do que eu se caísse na trela do — o loiro deu de ombros e fez sorrir pela primeira vez afetada ao ouvirem lhe dizer que era bonita.
— Eu sei — isso não evitou é claro que ela concordasse com ele prontamente. — Mas me diz, tem alguém que você ache digno de Abhrams, ? — ela provocou, sorrindo agora com malícia para o rapaz. Ele não era bobo, entendeu de imediato o que ela queria dizer e não deu a menor importância ao fato de seu melhor amigo estar caidinho pela morena, geralmente ele não ligava mesmo.
— Hm, eu não sei. Ouvi dizer que tem o capitão do time de futebol. o nome dele, já ouviu falar? — o garoto se achegou mais para perto de , que não o impediu e copiou o gesto, tomada pelo que mais tarde ela julgaria ser o efeito de tudo que havia bebido naquela noite.
— O queridinho da Templeton? Pensei que ele só gostasse de certas líderes de torcida. Não que eu ache que elas são pouco, sabe? — completou, com uma voz esperta.
— Pensou errado, . Mas acho que já falamos demais, não? — copiou a expressão dela, levando uma de suas mãos até a nuca da garota, sem receber nenhuma rejeição da parte dela, muito pelo contrário.
— Com certeza, — riu baixinho, mas então sentiu seu riso ser calado pelos lábios dele, que tocaram os dela com certa sutileza, provando sua boca e esperando a permissão dela para explorá-la com a língua. Assim que o fez, sentiu-a se enroscar à dela com uma certa voracidade, que ela correspondeu surpresa por desejar tanto o beijo do garoto como estava desejando, assim como estava um tanto embasbacada pela rapidez com que as coisas aconteceram entre os dois. Ela não era assim, não mesmo. Era culpa do álcool, claro que era.
E quem a julgaria? Ela estava nos fundos da casa de , dando uns amassos em e ninguém precisava saber disso.
Agarrou os ombros largos do garoto e se deixou levar pela onda de sensações que os toques dele estavam lhe causando.

•••

Mackie não se deu conta de quanto havia bebido durante esse tempo, só sabia que seu copo havia esvaziado novamente e que Jeremy se afastou dela prometendo que traria mais pelo que imaginava ser a terceira, ou seria a quarta vez?
Ela segurava os fios loiros para cima, no intuito de aliviar o calor que sentia na nuca enquanto se movia de olhos fechados, sentindo a melodia lhe guiar quando então sentiu seu corpo retesar ao perceber que alguém havia se aproximado dela por suas costas e se movia junto com ela.
Não poderia ser Jeremy porque além de ele não ser nem uma versão canadense do The Flash, ela sabia que ele jamais seria ousado a ponto de se aproximar dela daquele jeito. E quando Mackie inclinou a cabeça para encarar quem havia invadido seu espaço daquele jeito, sentiu que tudo dentro de si congelava de surpresa. Olhou em volta, procurando a melhor amiga, mas então também se deu conta de que não via há algum tempo. Voltou então seus olhos para o garoto, arregalados pela surpresa.
— Calma aí, gatinha. Não vou te fazer nenhum mal — ele deu uma risada que não conformou Mackenzie nem um pouco, porque ela simplesmente não confiava nele. Nem poderia, porque cansou de contar quantas vezes aquele garoto havia lhe humilhado.
— Josh... Joshua. O que você quer? — gaguejou de início, mas então tentou soar mais firme, embora a tonteira por conta da bebida não estivesse lhe ajudando em nada.
— Por que tão assustada, Mackie? Só vim aqui trazer um recadinho de um amigo. Talvez você o conheça, sabe... Aquele que não vive sem a câmera e não perde uma boa piada — o coração de Mackenzie deu um salto quando ela entendeu prontamente sobre quem Joshua falava. — mandou dizer que você captou a atenção exclusiva dele nessa festa. Confesso que estou surpreso, Mackie. Ele quer encontrar você lá no andar de cima — a loira então tomou coragem o suficiente para virar de frente para o garoto e encará-lo nos olhos, encontrando-o com uma expressão um tanto maliciosa que causou arrepios na garota.
quer me encontrar? — questionou, completamente em choque, o que fez com que o moreno soltasse uma risadinha baixa.
— Ele está te esperando e algo que me diz que ele não quer só te encontrar. Ele quer ficar com você, Mackie. Te dar uns beijos, sabe? Só subir as escadas, na segunda porta à direita — indicou as escadas com um aceno de cabeça e a menina olhou nessa direção por poucos segundos, fazendo uma careta em seguida e voltando a olhar para Joshua com uma certa desconfiança.
— Isso é algum tipo de peça? Olha, é melhor eu ir. Talvez queira ir embora — sentia seu rosto queimando e se virou para de fato procurar pela amiga, porém sentiu Josh segurá-la pelo braço de forma delicada, quase gentil.
— Não se preocupe com minha irmã, Mackenzie. Vá encontrar o . Ele está caidinho por você, tenho certeza que ela não vai se importar — alguma coisa no modo como Joshua falou fez com que o coração da menina se agitasse e ela acreditou nas palavras dele, acenando positivamente com a cabeça e não ligando muito para nada ao seu redor enquanto caminhava na direção das escadas.
— Mackie! — ouviu a voz de Josh chamar sua atenção, então parou rapidamente para saber o que ele queria. — Não precisa bater na porta, tudo bem?
— Certo — ela concordou, então voltou a caminhar no meio dos adolescentes, sentindo que estava mais tonta do que imaginava.
Parecia que o coração dela ia saltar pela boca enquanto subia as escadas, quase correndo de excitação. Suas mãos suavam e de repente o vestido parecia apertado demais em seu corpo. Que ideia a dela de ir atrás de , com aquele corpo horrível no mínimo ele queria caçoar dela.
“Cale a boca, Mackenzie Sinclair.” Engraçado era sua consciência ter a voz de Abhrams.
Suspirou fundo então, parando em frente à porta do quarto que Joshua havia falado e encarando seu reflexo em um espelho que havia no lado esquerdo do corredor. Ajeitou as madeixas loiras ao perceber que seu cabelo estava bagunçado, então se voltou novamente para a porta e a abriu, sem bater antes como Joshua Abhrams havia lhe orientado.
O sorriso meio radiante e meio sem jeito que tomava conta das feições de Mackenzie se fechou imediatamente e seus olhos rapidamente se encheram de lágrimas quando ela se deu conta da cena naquele ambiente.
não estava esperando por ela de maneira alguma, não poderia estar já que a boca dele estava bem colada à de Jennifer Santana, uma garota do primeiro ano.
Na verdade, não eram só as bocas que estavam coladas, eles pareciam dois pedaços de velcro se grudando e soltando enquanto a menina soltava uns gemidinhos histéricos.
Nenhum dos dois se deu conta da presença de uma terceira pessoa no quarto, o que deixou Mackenzie aliviada porque poderia sair dali sem ser notada.
Mais uma vez, ela havia se iludido, porque assim que colocou a cara no corredor sentiu flashes contra seu rosto enquanto a gargalhada debochada de Joshua Abhrams ecoava em seus ouvidos.
— Achou mesmo que queria te pegar, loser? Já te falei que ninguém aqui curte Halloween como você! — ele disse, encarando-a com desprezo enquanto Mackenzie sentia as lágrimas escorrendo por seu rosto sem que ela pudesse controlá-las.
— Pare... Pare com isso! — resmungou, levando as mãos ao rosto e tentando se livrar do garoto.
— Que bebezona, ela tá chorando! — ouviu uma voz feminina. Era claro que Joshua não estava sozinho, uma boa parte dos adolescentes havia se reunido no corredor para presenciar a mais nova peça pregada por Joshua Abhrams.
Notou as feições conhecidas de em meio às pessoas, então não lhe restou dúvida alguma de que sabia muito bem o que se passava ali. Ele também havia participado da pegadinha.
— Sorria pra câmera, loser! Você vai ser a notícia do dia amanhã! — Josh estava filmando, o que fez com que um soluço alto ecoasse dos lábios de Mackenzie, enquanto ela empurrava as pessoas para sair logo dali.
Sentiu algo atingir suas costas e estourar ali, lhe deixando encharcada, então percebeu que haviam lhe atirado uma bexiga cheia de tinta.
— Loser! — o moreno iniciou o coro e os adolescentes continuaram ecoando enquanto Mackie se forçou a correr para escapar das próximas bexigas voando em sua direção.
Quando finalmente chegou às escadas, sentiu seus pés escorregarem e ela precisou se apoiar no corrimão para que não caísse. Outra bexiga de tinta atingiu sua cabeça antes que ela pudesse atingir a base da escada, então a tinta escorreu por seus cabelos e ela se pôs de novo a correr quando chegou ao final.
— O que tá acontecendo aqui? Mackie? — a loira não parou sequer para perceber de qual lado a voz de havia surgido, não importava, ela só queria sair dali.
Abriu a porta da frente como se sua vida dependesse disso, sentindo seus olhos embaçados pelas lágrimas e os pés doendo pelo esforço de correr usando saltos.
Mackenzie mal conseguia enxergar onde estava.
E por isso também não viu o carro que lhe atingiu no meio da rua.



IV. Farewell

estava totalmente envolvida, tanto pela sensação dos lábios de nos seus quanto pelos braços fortes do garoto, que lhe apertavam pela cintura com uma firmeza que ela já imaginava que ele tinha apenas olhando para o porte atlético do rapaz. O beijo dele tinha gosto de nicotina e a negra descobriu da melhor maneira que gostava bastante de senti-lo.
Nunca havia olhado para com nada além de aversão porque ele era um dos idiotas que andavam com seu irmão babaca. jamais desejara estar tão grudada quanto estava a ele naquele momento.
Parece que o jogo virou, não é mesmo?
Quase riu com aquele pensamento, deixando apenas que um sorriso se formasse entre o beijo e vendo retribuir na mesma hora, encarando os olhos verdes da menina em seguida e levando uma de suas mãos à bochecha de , acariciando sua pele negra enquanto voltava a desviar o olhar para a boca dela.
— Você é tão linda — soltou, com uma admiração boba e ela nada disse. Como provocação, Abhrams mordeu o lábio inferior, o que fez com que o loiro voltasse a beijá-la mais intensamente dessa vez.
sentia um calor gostoso tomar conta de cada poro de seu corpo, o que fazia ela apertar os ombros de e cravar suas unhas compridas e bem-feitas ali. Ele grunhiu baixinho entre o beijo e uma de suas mãos tocou as coxas da menina, que não se importou embora sentisse que seu vestido colado subia pouco a pouco.
Sugou o lábio dele com vontade, mordiscando de leve e sorrindo mais uma vez para o loiro quando ele se inclinou para alcançar seu pescoço.
Ela fechou os olhos, apreciando mais do que havia imaginado ao sentir a boca dele explorando sua pele quente com beijos molhados e deliciosos que faziam com que ela estremecesse toda, bagunçando os cabelos dele e se deixando levar cada vez mais.
Só mais um pouquinho e esqueceria completamente o significado da palavra “idiota” e aceitaria de bom grado ser levada para um dos quartos da casa de .
.
Por que o maldito olhar do garoto tinha que ficar perturbando sua mente em um momento como aqueles? Droga de garoto!
Mas mesmo dividida entre as sensações que os toques de lhe causavam e a confusão que deixara em sua mente, Abhrams ainda era perfeitamente capaz de distinguir os sons que se destacaram em meio à barulheira da festa. Eram dois deles, gritantes de tão característicos.
O primeiro era o de uma multidão de adolescentes entoando um coro que ela ouvia todos os dias. Loser! Loser! Loser! E esse fez seu coração se apertar.
O segundo foi o clique de uma câmera, mais próximo do que ela desejava, e esse fez seu sangue borbulhar de ódio.
Abriu os olhos rapidamente, em seguida empurrou com força para se afastar dele enquanto olhava na direção do som, procurando quem havia sido o desgraçado que tirou uma foto dela com .
Quando distinguiu a silhueta de , suas unhas se cravaram no loiro com mais força e ela o estapeou sem dó nenhuma.
— Idiota! Não acredito que caí na sua! — grunhiu, tomada pela raiva enquanto tentava se desvencilhar da menina.
, caramba, o que foi que eu fiz? — sua voz soava surpresa, mas ela não acreditaria naquela atuação barata. Empurrou o loiro com mais força, fazendo com que ele caísse do degrau onde eles estavam direto na grama. Levantou em seguida, ajeitando o vestido e lhe lançando um olhar assassino.
— Se colocar as mãos em mim novamente, eu corto suas bolas e te faço comer! — deixou-o com os olhos arregalados enquanto caminhava com pressa de volta para a festa, procurando com o olhar a origem de toda aquela algazarra que ainda entoava o coro de “Loser”.
, completamente embasbacado pelo ataque de fúria da menina, até abriu a boca para tentar protestar novamente, mas sua chance se esvaiu e a última coisa que ele viu foram os cabelos dela, ainda bagunçados pela sessão de amassos, balançando quando ela se virou com violência.

Alguma coisa no peito de a angustiava, e um pressentimento horrível do alvo das chacotas tomou conta da garota.
Enquanto ela passava feito um furacão por todos aqueles adolescentes, só havia um rosto em seus pensamentos: o de sua melhor amiga. Era como se elas estivessem tão ligadas uma à outra que o menor sinal de sofrimento afetava as duas ao mesmo tempo e pela forma como ela se sentia angustiada não lhe restava dúvida alguma.
— Jeremy, o que está acontecendo? — avistou o garoto, puxando-o pelo braço sem parar de caminhar e piscando os olhos porque de repente se sentia perdida naquela casa enorme.
— E-eu não sei, . Eu vim buscar umas bebidas e... — a negra não deixou que terminasse.
— Onde está a Mackie? — parou por alguns segundos, olhando significativa na direção do menino e sua resposta veio da pior maneira possível.
Num rompante, a loirinha passou por e os respingos de água atingiram a negra quando mais uma bexiga atingiu Mackenzie na cabeça.
— Mackie! — Abhrams se virou na direção da menina, se lançando sobre ela de forma protetora, mas já era tarde demais, assim como sua percepção tardiamente detectou que estavam diante do hall de entrada da casa.
Os cabelos de Sinclair esvoaçaram quase em câmera lenta, ouviu a risada debochada do irmão e jurou por todos os santos que acabaria com ele depois, mas naquele momento sua melhor amiga precisava dela. Então correu desesperada na direção da menina.
— Mackie! — o grito também veio tarde demais, mas a dor foi precisa como o carro que atingiu Mackenzie Sinclair em cheio, lançando-a por cima do capô e fazendo com que seu corpo batesse no chão em um baque surdo que nem a freada brusca foi capaz de abafar.
Não houve tempo de nada e a menina estava desacordada.
ameaçou se mover na direção de Mackenzie por mais que ainda estivesse me choque, mas estacou indignada com a cena seguinte.
Sem prestar qualquer socorro, o motorista do carro deu a ré para desviar do corpo e acelerou para dar o fora dali.
— Desgraçado! Desgraçado, filho da puta! Vou caçar você no inferno! — a voz da negra soou esganiçada e ela enfim conseguiu correr até a amiga, ameaçando tocá-la com as mãos trêmulas para acordá-la porque ela só queria isso, que Mackie acordasse. — Amiga, acorde, por favor! — porém, ela não respondia, já que não podia lhe ouvir.
Passos denunciaram alguém se aproximando e ela sentiu alguém segurá-la pelos ombros.
, você não pode tocar nela. Precisamos ligar para a emergência imediatamente — era Jeremy, com seus olhos marejados, porém fixos no olhar dela. Não conseguia encarar o corpo de Mackie.
— Eu não consigo, Jeremy, eu... eu só quero a minha melhor amiga de volta — então ela sentiu seu corpo se sacudir em desespero, tremendo tanto que pensou que explodiria a qualquer momento.
— Deixe isso comigo, ei! Calma, vai dar tudo certo — tentou tranquilizá-la enquanto pegava o celular e discava os números da emergência. — Alô? Eu preciso de uma ambulância urgente. Minha amiga foi atropelada...
A vista de estava embaçada pelas lágrimas e ela se obrigou a limpar com as costas da mão, mal se importando com a maquiagem que provavelmente ficaria borrada. Ela poderia parecer uma panda à vontade que não ligava. Nada mais importava a não ser Mackie.
Algumas vozes despertaram a atenção da garota e ao erguer o olhar ela percebeu que vários dos estudantes haviam se aglomerado diante da cena, curiosos, espantados e até com pena da menina caída no asfalto.
Mackenzie não merecia nada daquilo. Ela merecia todo o amor e carinho do mundo, merecia pessoas que valorizassem a garota maravilhosa que ela era e sabia exatamente a quem culpar por tudo aquilo.
Seu olhar foi puxado como um ímã na direção dos seis garotos, que estavam parados na calçada da casa de , olhando a cena com expressões que pareciam ser de choque, mas a negra não se deixaria enganar, não por eles.
Levantou e foi determinada até eles, observando com nojo que havia deixado a braguilha da calça aberta e se aproximava de Joshua, aquele que tinha o desprazer de chamar de irmão.
O rapaz ergueu uma sobrancelha pra ela em desafio enquanto segurava uma câmera desligada na mão e com um tapa fez voá-la longe.
— Estão contentes, seus vermezinhos egoístas? Vocês se acham tão maravilhosos, tão donos de tudo, mas na verdade vocês são a escória da Templeton! Eu tenho nojo de dividir a sala de aula com vocês e sabe do que mais? Joshua Abhrams, eu tenho vergonha de ter o mesmo sangue que você! — outro tapa, que dessa vez estalou no rosto do garoto enquanto os outros lhe encaravam espantados, as respirações trancadas com tudo o que acontecia. Então ela se voltou para os outros adolescentes. — E qualquer um de vocês que venera esses idiotas só comprova que essa sociedade é uma merda! — olhou de novo para os garotos e mesmo com as feições vermelhas pelo tapa, Joshua ainda lhe encarava com arrogância. — Eu não vou me calar, reis da escola. Vocês vão pagar por isso! — apontou na direção deles e então voltou para onde estava a amiga, vendo que Jeremy lhe encarava com pesar.
— Já acabou, perdedora? — a voz do irmão ecoou, mas dessa vez ninguém riu como era de costume e o som da sirene da ambulância se fez presente, deixando o clima de tensão pior do que já estava antes.
A pior parte para foi ter que ver as portas serem fechadas e levarem Mackie para longe dali sem que ela pudesse acompanhá-la porque não era parente.
Estão todos enganados, essas coisas se escolhe sim. Ela que é a minha irmã.

•••

Quando o som do despertador ecoou por todo o quarto, não soube definir o que era pior: ter passado a noite inteira em claro na sua casa, já que seus pais não permitiram que ela ficasse no hospital, ou ter que levantar da cama e ir para a escola.
Sentia-se quase ultrajada por ter que frequentar um lugar como aquele, ainda mais depois do que havia acontecido, mas ela não tinha escolha. Por mais compreensivos que seus pais fossem, prezavam por sua educação e ela própria tinha objetivos que somente a Templeton poderia lhe ajudar a alcançar.
Abhrams também não era do tipo que fugia diante das dificuldades. Não, ela as enfrentava de cabeça erguida.
Ela ainda aguardava por notícias sobre o estado de Mackie e sabia que os pais da garota não deixariam de lhe avisar na primeira oportunidade, sendo assim, respirou profundamente e levantou para tomar um banho rápido.
Minutos depois, pronta para ir à escola, ela encarou o próprio reflexo no espelho e suspirou pela milésima vez, levando uma de suas mãos até a corrente que usava sempre que podia. Apertou o pingente em seus dedos e inspirou o ar devagar, expirando segundos depois enquanto continha as lágrimas, que teimavam em querer saltar de seus olhos.
— Seja forte, . Nada vai te derrubar — recitou, encarando os próprios olhos e encontrando ali o brilho que precisava. Era uma garota determinada desde pequena e não iria permitir que aquela tragédia destruísse seu espírito. Além disso, Mackenzie precisava dela mais do que nunca, seguraria a barra pelas duas.
Abriu um pequeno sorriso de canto, colocando o pingente para dentro da blusa do uniforme e pegando a mochila de cima da cama para descer de uma vez, já que naquele dia ela precisaria pegar uma carona com a mãe ou teria que ir a pé.
E assim que saiu de seu quarto, tomou um pequeno e desagradável susto ao encontrar o irmão gêmeo encostado na parede de frente para a porta amarela.
— Bom dia, irmãzinha — ele soltou, com a voz carregada de sarcasmo.
— Fique longe de mim — murmurou, entredentes, encarando o garoto em completo ódio. Tentou se esquivar e seguir pelo corredor até a cozinha, mas foi impedida por Josh, que a segurou pelo braço sem muita delicadeza, de forma que a garota foi puxada na direção dele. Forçou um contato visual que ela não desejava e voltou a falar.
— Só quero deixar claro uma coisa, — seu tom de voz era desprezível. — Se você tentar qualquer coisa contra mim ou qualquer um de meus amigos, a cena que aconteceu com sua amiguinha vai ser fichinha perto do que vai acontecer com você. Não me subestime, eu irei destruir você e qualquer reputação que tenha. Estamos entendidos? — estava incrédula, mas em nenhum momento baixou a guarda ou deixou de encarar o irmão nos olhos.
— Em primeiro lugar, solte o meu braço ou farei você engolir cada um de seus dedos — seu tom de voz saiu calmo e mais controlado do que ela se sentia. Sacudiu o braço e fez com que o garoto o soltasse, apontando o dedo na cara de Josh e o fazendo recuar um pouco ao ir pra cima dele. — Em segundo, quem você pensa que é pra ameaçar a mim ou minha reputação? — esperou por uma resposta dele que não veio, porém o olhar irônico ainda estava presente. — Fique você sabendo que eu não tenho medo nem de você e nem dos seus amigos idiotas. Volte a me ameaçar e nós vamos ver quem acaba com quem, seu moleque mimado e desprezível! — então abaixou a mão e se afastou um pouco, pronta para finalmente sair dali, quando ouviu uma risada escapar dos lábios do irmão.
— Você é patética — ele disse, provocando-a.
— E eu não consigo acreditar que um dia dividi o útero da minha mãe com você... Você não é meu irmão, Joshua Abhrams. Minha irmã se chama Mackenzie Sinclair — e dessa vez conseguiu se afastar do garoto, passando como um furacão e indo até a cozinha sem lhe dar chance para mais insultos. Aquele era o tipo de discussão que não valia a pena, ela sabia disso, mas não queria dizer que ouviria quieta as ameaças do irmão.
não sabia a que altura Josh havia ficado daquele jeito.
Quando crianças, os dois eram unidos como todos os irmãos gêmeos costumam ser e de repente o garoto se fechara para ela. Hoje era alguém completamente estranho para a garota, alguém de quem ela queria a maior distância possível.
Seu peito doía de saudades do garotinho que ele um dia foi e às vezes ela se pegava triste com o rumo que as coisas haviam tomado.
Mas o destino nem sempre está em nossas mãos e algumas coisas nos são enfiadas goela abaixo. Reviravoltas que muitas vezes são dolorosas ou bem recebidas. O que nos resta então é apenas continuar erguendo a cabeça e seguindo em frente, aproveitando mais uma oportunidade de aprender e crescer.
Percebeu que estava parada por tempo demais com a geladeira aberta, então sacudiu a cabeça e pegou um iogurte, colocando um pouco em um copo para se forçar a beber mesmo que seu coração sangrando gritasse que ela não estava com fome. Precisava de mais força do que nunca e se recusar a comer não ajudaria sua melhor amiga.
Sorriu de forma quase chorosa para a mãe assim que essa adentrou a cozinha e correu em direção aos braços dela ao vê-los estendidos para si.
— Oh, meu amor, eu sinto tanto! — a mais velha entoou, apertando a menina contra seu corpo e afagando seus cabelos, tão cacheados quanto os seus.
— Ela vai ficar bem, mamãe. Tudo vai ficar bem — suspirou, deixando lágrimas silenciosas escaparem de seus olhos por breves segundos, mas enxugando-as logo em seguida quando se desvencilhou do abraço da mãe. — A senhora... — pigarreou para limpar a garganta. — Pode me dar uma carona até a escola? — pediu, ao encará-la nos olhos.
— Mas é claro que posso, querida. Onde está seu irmão? Podemos ir todos...
— Pode esquecer! — o garoto passou pela cozinha sem nem olhar na direção delas e saiu de casa, ignorando completamente a expressão de desapontamento da mais velha.
— Juntos — ela ainda completou, engolindo em seco e voltando a olhar para a filha. — Deve ter algo a ver com aquele trabalho que ele está fazendo, certo? Seu irmão anda tão tenso. É, é isso... Vamos? — sabia que a mãe dizia aquilo para convencer a si mesma por mais que não acreditasse em suas palavras, o que de certa forma lhe entristecia também. Onde Josh estaria com a cabeça?
Assentiu devagar para mostrar concordância e lavou rapidamente o copo que havia usado para tomar o iogurte, pegando a mochila e acompanhando sua mãe até a garagem.
— E o papai? — questionou, porque mais uma vez não havia visto sinal dele pela manhã.
— Foi chamado de emergência para cobrir o plantão de outro médico. Partiu pouco antes de você levantar e prometeu dar notícias de Mackenzie assim que possível — mais uma vez, a negra assentiu e elas entraram no carro.

O trajeto até a Templeton foi silencioso e a senhora Abhrams optou por manter o rádio desligado ao contrário do que fazia todos os dias quando dirigia até seu escritório. Entendia os motivos da filha se manter quieta e respeitava o tempo que ela precisava para organizar seus pensamentos, embora estivesse preocupada com seu bem-estar.
— Boa aula, querida — sorriu fraco para a garota ao parar diante da escola.
— Bom trabalho, mãe — lhe retribuiu, dando um beijo em sua bochecha e saindo do carro, caminhando para dentro do pátio sem olhar para trás.
A mais velha suspirou e deu partida em seu carro.

atraiu vários olhares enquanto caminhava pelos corredores da Templeton, o que estranhou de certa forma, franzindo o cenho assim que alcançou seu armário.
Abriu-o para pegar o livro da primeira aula e virou a cabeça rapidamente quando um grupo de garotas passou, lhe medindo de forma quase... invejosa?
Não acredito que ela conseguiu! — ouviu uma delas cochichar e fechou o armário com certa força.
— O que foi que vocês perderam aqui? — questionou, em tom alto e irritado, então a resposta surgiu soprando seu cabelo e parando displicente, se apoiando nos armários ao lado dela.
— Bom dia, . Você me passou pra trás, mas eu perdoo. Sou um cara legal — soltou, em um tom cafajeste que fez a negra revirar os olhos.
— Vocês tiraram o dia pra me atazanar, é isso? Saia da minha vida, ! — grunhiu, quase o estapeando ao erguer uma das mãos e tratando logo de sair dali. Entraria antes do horário na sala de aula, como já era de costume.
Mas o energúmeno saiu correndo atrás dela.
— Não precisa de tanta hostilidade, linda. Só pensei que podíamos aproveitar e mudar esse clima de ódio entre a gente — apontou para si mesmo e depois para ela.
— Aproveitar o que, ? Você quase matou minha melhor amiga. Eu nunca vou deixar de te odiar! — foi enfática, vendo o garoto abrir a boca para lhe responder e sentindo seu sangue ferver ao ver por quem ele foi interrompido.
— Deixa ela em paz, . , nós precisamos conversar — se colocou na frente da garota, que bufou por estar cercada pelas últimas pessoas que gostaria de ver na vida.
— Eu não tenho nada pra conversar com você, . Me dá licença — resmungou, ao notar que ele a impedia de entrar na sala de aula.
— Por favor, . Você só precisa me ouvir por dois segundos — o garoto insistiu, fuzilando com o olhar ao ouvir o amigo rir. A menina bufou mais uma vez, cruzando os braços com o livro entre eles e erguendo uma sobrancelha porque pretendia se livrar daqueles dois de uma vez.
— Você tem seus dois segundos, aproveite — soltou, com um tom ácido enquanto já sabia que na verdade ela não ouviria nada do que ele dissesse.
Nada poderia apagar o que havia acontecido naquele inferno de festa.
— Eu só quero que você saiba que eu... — Loser! Loser! Loser!
Quase em câmera lenta a negra desviou sua atenção para o maldito barulho que voltava a lhe perturbar.
Notou que vinha do celular de um dos alunos que passava por eles e num movimento febril pegou o próprio aparelho, digitando rapidamente o endereço daquela porcaria de blog da escola.
Sua boca abriu em um perfeito “O” e ela sentiu seu sangue borbulhar de raiva ao perceber do que se tratava.
Haviam gravado toda a humilhação de Mackie e postado na internet.
E logo abaixo do maldito vídeo estava uma foto dela beijando .
Agora fazia sentido todos os olhares que havia recebido desde que pisara na Templeton naquela manhã. Olhares esses que a acompanharam quando ela empurrou com força, fazendo o garoto tropeçar para cima de , e seguiu por todo o corredor, olhando em todos os cantos com fúria, procurando o autor daquela merda toda.
! — soltou, cheia de ódio quando viu o garoto saindo do banheiro masculino.
Ele mal teve tempo de processar que Abhrams estava lhe procurando.
No instante seguinte, sentiu seu rosto arder com a força do tapa que havia estalado em cheio em sua cara.
Rapidamente, seu rosto esquentou e ele sabia que devido à sua brancura ficara instantaneamente vermelho.
— Você ficou louca? — questionou, com a voz falha de surpresa.
— Você vai retirar aquelas postagens daquele lixo que chama de blog e vai fazer isso agora ou vai levar muito mais do que um simples tapa nas fuças! — uma roda de estudantes começou a se formar ao seu redor e as pessoas encaravam a garota com espanto porque sempre se mostrou bastante controlada.
— Do que você tá falando? Que postagens? Eu não... — ele foi soltando, embasbacado.
— Não se faça de idiota, . Como se não bastasse você quase matar Mackenzie, achou bonitinho postar aquele vídeo ridicularizando ela na internet? Que você era um idiota eu já sabia, mas jamais imaginei que fosse tão baixo... E pensar que considerei que você tinha algo de bom já que Mackenzie gosta de você! — não tinha intenção de revelar aquele segredo e sentiu seu coração sangrar por ter feito aquilo daquele jeito, mas a merda toda já estava no ventilador, o que mais ela faria?
abriu a boca, procurando algo que pudesse responder para acalmar a garota, mas sabia que nada do que dissesse mudaria as coisas.
— Está esperando o quê? Faça algo decente pelo menos uma vez na vida! — ela o pressionou e ele sentia que apanharia de novo a qualquer segundo se não atendesse ao seu pedido.
— Tudo bem, eu apago. Mas não fui eu que postei, . Eu não gravei o vídeo porque, se não percebeu, eu estou nele! — então a moça desviou seu olhar de forma atordoada, sentindo-se atraída por alguém a alguns metros lhe encarando com deboche.
Como ela não havia percebido antes? Aquilo tudo era obra de Joshua.
Respirou fundo e se recusou a pedir desculpas a . Ergueu a cabeça e caminhou determinada, passando pelo irmão e fingindo não notar a existência dele por hora.
Se ele queria guerra, era guerra que ele teria.

•••

estacionou em frente à sua casa, sentindo sua cabeça quase explodir e seus olhos arderem por mais que usasse óculos escuros.
Não sabia nem como havia conseguido ir à escola daquele jeito, a ressaca estava lhe deixando quase louco e toda aquela confusão que andou ocorrendo só serviu para piorar ainda mais seus sintomas.
Saiu do carro com a mochila pendurada aos ombros e fez uma careta com o barulho da porta do veículo batendo ao sentir uma fisgada atrás da nuca.
Àquela altura, as empregadas já teriam dado conta de arrumar toda a casa e seus pais não encheriam seu saco porque a “reunião” que ela havia dito que faria na verdade tinha envolvido bem mais do que “poucos amigos”.
Soltou uma risadinha baixa ao pensar naquilo e suspirou, parando na frente da porta para olhar do que se tratava a notificação que acabara de ouvir em seu celular.

“Ontem atrapalharam nossa noite com toda aquela confusão, mas hoje você não me escapa, baby.
Minha casa tá liberada e eu adoraria ‘estudar geometria’ com você, o que acha?
xoxo Mallory.”

— Será que essa é uma daquelas malucas que fazem voodoo com o cara quando ele diz não? — resmungou, consigo mesmo enquanto arregalava os olhos para a tela do celular. A marcação cerrada da garota estava começando a lhe assustar.
Não que Mallory não fosse exatamente o tipo de garota que agradava ao garoto, principalmente pela beleza física, mas ele havia descoberto que ela simplesmente não havia despertado seu interesse tanto assim e era certo que, mesmo se a confusão não tivesse acontecido, a noite dos dois teria acabado bem diferente dos planos da menina.
Decidiu, por fim, ignorar a mensagem e balançou a cabeça em negação ao ver que havia recebido uma notificação de mais uma publicação nova no blog da Templeton.
não tinha limites mesmo.
Mas assim que colocou seus pés para dentro de casa, o sorrisinho que moldava suas expressões desapareceu quando ele deu de cara com seu pai, parado no meio da sala e com um olhar quase assassino em sua direção.
— Pai, e aí! — tentou agir como se não soubesse do que se tratava e passou pelo mais velho, a fim de ir logo para o seu quarto, mas congelou no ato.
— Aonde você pensa que vai, moleque? — a voz de Christopher estava ainda com a ira contida e o garoto se virou na direção do pai prontamente, sabendo que todo o controle não duraria muito tempo.
— Para o meu quarto? — ainda assim o rapaz soltou, num tom carregado com toda a ironia que possuía.
— E acha que estou parado aqui no meio da sala feito um tonto só pra responder a esse seu cumprimento esdrúxulo? — a ironia foi devolvida com sucesso, mas fingiu não se importar.
— Cumprimento o quê? Desculpa, não falo seu idioma, senhor — rebateu, soltando uma risadinha cheia de sarcasmo.
A resposta, no entanto, veio numa ardência repentina que fez com que seu rosto se virasse com violência e sua cabeça latejasse como se algo tivesse lhe atravessado. Imediatamente, a região atingida esquentou e ele levou uma das mãos à bochecha, encarando então o mais velho com uma expressão assustada e magoada.
— Sua mãe não está aqui agora pra me impedir de te tratar como você merece, garoto. Nós vamos aproveitar e ter uma conversinha — se aproximou do filho de forma ameaçadora e o rapaz recuou um pouco, sentindo a barreira do orgulho ir se quebrando aos poucos quando seus lábios começaram a tremer.
Fazia tanto tempo que Christopher não fazia mais aquilo. Desde que...
Mas ele havia prometido.
Conseguia ouvir uma risadinha debochada caçoar dele em resposta ao pensamento.
Se nem o próprio era capaz de manter uma promessa, como ele podia esperar que o pai o fizesse?
— Eu estou falando com você, seu bostinha! — outro estalo e sua cabeça explodiu novamente, o outro lado ficando tão marcado quanto o anterior.
— Bosta é você, seu otário! — gritou de volta, encarando o pai com fúria e sentindo seus olhos se embaçarem pelas lágrimas.
— Você tem a empáfia de me enfrentar dentro do meu teto? Ficou a noite toda usufruindo do dinheiro que eu coloco dentro dessa casa pra comemorar a merda do dia em que sua mãe te pôs no mundo e você tem mesmo a cara de pau de me enfrentar? — Christopher foi para cima do rapaz, que recuou até onde pode, então sentiu o mais velho segurar seu pescoço com força quando se viu encurralado pela parede da sala. — Uma garota foi atropelada, mas tudo certo enquanto aproveita a grana do otário aqui, não é? Eu devia... — e apertou mais a garganta de , que sentiu seu organismo reagir de imediato ao ataque.
— A culpa não foi minha! Vai me matar porque eu nasci, Christopher? — se engasgou no meio das palavras, sentindo que ficava quase louco de tanta dor que sentia enquanto o ar lhe faltava aos pulmões.
— Talvez eu devesse mesmo. Ia acabar com o fardo de te carregar nas costas. Você não vai mudar, . Sua mãe é uma tola por esperar tanto de você — acusou, enquanto seu olhar de ódio estava fixo nos olhos de . Uma lágrima escorreu pela bochecha do menino, mas nem isso foi o suficiente para abrandar o coração de Christopher .
jamais entenderia o rancor que o pai sentia por ele.
E talvez também estivesse cansado de tentar entender.
— Christopher! — uma voz feminina e esganiçada irrompeu pela sala e no segundo seguinte o aperto na garganta de havia cessado, o garoto sentiu seu corpo desfalecer e começou a tossir desesperado em busca de oxigênio. — O que você está fazendo?
— Nada demais. Só estou colocando nosso filho em seu devido lugar, ou você achou que eu ia aceitar tranquilo o fato de a vizinhança inteira ter reclamado da bagunça que ele fez ontem à noite com o resultado maravilhoso de uma garota hospitalizada por que foi atropelada na frente de nosso quintal?
escutou um suspiro vindo de sua mãe e seu olhar foi dela de volta para aquele que chamava de pai.
Então ele soube naquele momento que as coisas só voltariam a piorar e que daquela vez ele não seria forte para aguentar tudo em silêncio.
Levantou num ímpeto, pegando a mochila que havia caído no chão durante toda aquela confusão com Christopher e secando as lágrimas de seu rosto com as costas da mão livre.
— Não precisa se preocupar com isso ou com o fato de eu usufruir da sua casa, senhor . Não serei mais um fardo em suas vidas e não vou voltar a ser a porra do seu saco de pancadas! E se a senhora — voltou a olhar para a mãe — for esperta, fará o mesmo que eu... Tô fora.
Então correu pra fora de casa, batendo a porta da sala e pisando forte no acelerador assim que alcançou e entrou em seu carro.
Aquela fuga havia sido completamente mal planejada, mas ele não tinha escolha. Talvez tentasse entrar na casa durante a noite pra pegar umas roupas, mas naquele momento ele só precisava estar o mais longe possível de seus pais.

•••

sentia como se seu corpo tivesse virado gelatina do tanto que ela tremia diante da porta do quarto de Mackenzie no hospital.
Os pais da loirinha haviam ligado há poucos minutos e dado notícias que acalmaram um pouco seu coração, mas ao mesmo tempo lhe deixaram preocupada: Mackie estava fora de perigo e poderia acordar a qualquer momento, mas a situação da garota era delicada porque ela havia sofrido um dano na coluna.
A ideia de que sua melhor amiga poderia não andar por causa de seu irmão fazia com que o coração de se apertasse tanto que ela se sentia sufocar. Nunca perdoaria o garoto, assim como não perdoaria os outros envolvidos.
Depois daquele dia, ela estava mais decidida do que nunca, odiava todos eles com toda a força de seu ser.
Engoliu em seco e deu duas batidinhas na porta antes de abri-la, dando de cara com o senhor e a senhora Sinclair e uma Mackenzie acordada, com feições de choro.
— Mackie! — a negra soltou, sentindo sua voz embargar e as lágrimas já brotarem de seus olhos.
— Eu não acredito que eles postaram aquilo, . Eu não acredito... que essa sensação das minhas pernas dormindo pode nunca mais ir embora! — ela soltou tudo, com a voz esganiçada ao sentir que a melhor amiga lhe abraçava.
afagou as costas da amiga, tentando não machucá-la porque sabia que ela estava frágil, mas ao mesmo tempo sentindo um desejo incontrolável de manter a amiga grudada a si. Só assim ela poderia protegê-la de todas as maldades daquele mundo.
— Eu sei, meu amor. Eu sei... Mas não se preocupe, eu e você vamos passar por isso juntas. Você... — se soltou um pouco da amiga para encará-la nos olhos. — Você vai recuperar os movimentos completamente e nós vamos sair chutando as bundas de todos aqueles otários. Eu estou com você, minha irmã. Sempre e pra sempre — reforçou, tentando repassar toda a segurança que ela sempre teve, mesmo em momentos como aquele.
Mas as palavras de não confortavam Mackenzie, como a negra esperava.
A menina começou a tremer e os soluços sacudiram seu corpo quando ela voltou a puxar a amiga para outro abraço.
não recusou o gesto e encarou os pais de Mackie com uma feição confusa, que foi retribuída por um olhar triste de ambos.
— O que foi, Mackie? Aconteceu mais alguma coisa? — questionou, com receio de que a pergunta fosse piorar o estado da menina.
— Eu... eu... eles — Mackie respirou fundo e mais uma vez as duas haviam se afastado para poderem se encarar. — Eles vão me tirar da Templeton, .
Uma careta se forçou nas feições da negra e os olhos verdes se estreitaram enquanto ela tentava entender o motivo real do desespero de Mackenzie.
Sair da Templeton era um mal necessário e se os pais de Mackie não tivessem tomado aquela decisão, a própria os encorajaria a isso, mas por que então aquela notícia parecia ser tão delicada?
A não ser que...
Seus olhos se arregalaram e ela desviou sua atenção para a mãe de Mackie.
— Quando vocês falam em tirar Mackenzie da escola, vocês querem dizer... — deixou no ar e imediatamente a senhora Sinclair completou com o que mais temia.
— Nós vamos nos mudar de Vancouver, . O melhor para nossa filha nesse momento é ficar bem longe de tudo o que aconteceu e ter um tratamento adequado. É por isso que vamos para perto do resto da nossa família, em Chicago.
sabia que eles tinham razão, mas não sabia se conseguiria aguentar ter alguém tão importante como Mackenzie arrancada de sua vida daquela forma.
Ela olhou atordoada para a amiga, que ainda soluçava com os lábios tremendo. As lágrimas já escorriam com mais intensidade pelas bochechas da negra.
Não conseguiria se despedir dela, jamais seria capaz disso.
A mera ideia fez com que sentisse como se fosse morrer.



Continua...

Nota da autora: Esse capítulo deixou meu coraçãozinho trevoso sangrando, sem mentira!
Comentem comigo o que vocês acharam? Alguma #TeamBenjamin depois dessas pequenas revelações?
Espero vocês no próximo! <3

xx Ste.

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Nota da Beta: Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.