Autora: Ells Oliveira | Beta: Mily





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Capítulos:
| 01 | 02 | 03 | 04 – Parte 1 | 04 – Parte 2 | 04 – Parte 3 |

Prólogo

“Para o inocente, o passado pode guardar uma memória, mas para os desleais, é só uma questão de tempo antes do passado devolver o que eles realmente merecem.”(Revenge)

Sentia o sangue quente escorrer por entre seus dedos, enquanto tentava aprofundar com a faca um pouco mais no abdômen daquele homem que ela tanto repudiava. Os olhos verdes escuros arregalados a encaravam minimamente, como se arquitetasse as piores torturas que faria nela quando saísse daquela tortura violenta e dolorosa; narinas infladas e mandíbula travada numa clara força de respirar sem emitir gemido algum de dor; a garganta seca, olhos transbordando lágrimas, mãos trêmulas, o desespero crescendo á cada segundo dentro dela. Ela não era uma assassina como ele, ela nunca tinha matado ninguém até aquele momento, ela só queria uma chance de sair dali, de tentar viver a vida de uma forma que não fosse tão amarga como estava sendo desde que ela se entendia por gente; ela só queria correr e então, sentiu a forças que precisava nas pernas pra correr... E correu.
O sangue misturava com o suor de seu corpo. Sua blusa, até um segundo atrás clara, estava pregada em seu corpo ensopada com o sangue de quem ela mais amava. Apertou os braços finos e pequenos em volta daquele corpo já sem vida. Seu pai sempre lhe dizia que um abraço poderia curar feridas e até trazer uma vida de volta. Talvez sua ingenuidade de criança não a deixasse ver que não era aquele tipo de vida que o pai sempre falava. Sentia o choque passar por seu corpo, adormecendo qualquer indício de desespero e ou sentimentos que poderia expor. Ela não entendia como tinha acontecido aquilo, não entendia o porquê de ter acontecido aquilo, ela só queria fugir daquilo que estava a fazendo mal, queria correr até se cansar e perceber no final que nada daquilo era verdade e então, correu.
Seu corpo tremia enquanto tentava inutilmente conter seus soluços cada segundo mais agressivos, seu choro já não era mais escandaloso, seus gritos de desespero ficaram sufocados na garganta quando o choque e perplexidade bloquearam sua mente para qualquer coisa que não fosse ele, ali, deitado no chão com a cabeça em seu colo. Talvez as pessoas ao redor estivessem dizendo alguma coisa ou até chamaram algum socorro, mas já era tarde demais, o socorro não chegaria à tempo e já não importava o que elas diziam, ela não queria perder nenhum detalhe daquele rosto que nunca mais veria; sabia que, mesmo lutando contra, o tempo seria capaz de apagar o rosto dele de sua memória, as pontas de seus dedos passavam pacientemente por seu rosto.
Sua cabeça doía, seus olhos ainda estavam pesados pelo sono que pareceu durar segundos, seu corpo estava pesado e ela tinha a impressão de que se não levantasse dali em tempo recorde, tudo que tinha ingerido na noite anterior seria colocado pra fora e então, sua situação de ressaca ficaria pior do que já estava. Contou até dez e abriu os olhos de uma vez, tentando se acostumar com a claridade que entrava pelas cortinas completamente abertas. Conseguiu reconhecer o teto de sua casa e, imediatamente, sentiu um alívio correr pelas veias. Correu seus olhos por cada canto do teto, descendo pelas paredes, moveis até seus olhos focarem uma poça de sangue perto de sua mão. Encolheu os braços rapidamente, encarando a palma da mão á procura de algum corte, mas não tinha nada. Levantou um pouco rápido demais pra quem estava de ressaca e sentiu tudo á sua volta girar; Ignorou o momentâneo mal estar e procurou em seu corpo algum machucado que pudesse ter vazado tanto sangue daquele jeito, mas apenas encontrou sua roupa manchada com sangue. Fechou os olhos fortemente e respirou fundo, decidindo que era melhor tomar um banho. Se arrependeu no segundo seguinte quando, ao virar, viu um corpo estirado no chão, os olhos abertos, pele branca como um papel, sem as mãos e com um tiro na testa. Sufocou um grito e encarou a poça de sangue que escorria debaixo do corpo até onde estava deitada há pouco segundos e também um revolver. Sentiu o corpo tremer e os olhos ficarem arregalados a cada momento que sua mente conseguia distinguir o que estava acontecendo: tinha uma pessoa morta no chão de sua sala e ela ao menos sabia quem era, uma arma e ela estava suja com o sangue da pessoa. Sabia que não tinha sido ela quem fez aquilo, mas não se lembrava nem o que tinha feito na noite passada, não se lembrava nem como tinha chegado em casa. Sua mente projetava mil e uma coisas que poderiam ter acontecido, seu corpo parecia em inércia, ela tinha medo por não ter a plena certeza de que não tinha feito aquilo, tinha medo por pensar nas consequências que teria caso alguém visse aquele corpo ali. Ela precisava fugir, precisava correr pra longe dali... E então, correu.
Elas poderiam correr... Correr... Correr...
Talvez corressem para uma nova realidade, ou correriam para a morte, correriam em busca de respostas, correriam em busca de uma vingança, ou para uma nova vida, correriam do medo, correriam do passado, correriam para a luz no fim do túnel, mas por mais que corressem, nunca poderiam esquecer ao que as levaram para aquilo, por mais que corressem elas estivessem destinadas à sofrerem com aquilo pelo resto da vida.
Mas se escolhessem correrem para o amor, poderia ser a escolha que mudaria suas vidas para sempre.



Capítulo 1

Don't lose who you are, in the blur of the stars
Seeing is deceiving, dreaming is believing
It's okay not to be okay
Sometimes it's hard
To follow your heart
But tears don't mean you're losing
Everybody's bruising
Just be true to who you are
Who You Are- Jessie J

Montevidéu – Ano de 2000.

Ao sair do avião, sentiu o vento gelado passar por seus braços descobertos como se fossem pontas de agulhas perfurando sua pele; era uma dor quase prazerosa, porém, ainda um pouco incômoda. Passou os braços ao seu redor, sentindo grossas gotas de chuva que a acompanharam as quase vinte horas de viagem, tornando tudo tão assustador e prazeroso, um prazer psicótico e doente, mas era a única coisa que conseguia realmente sentir há dois dias: a dor. Dor na alma, dor no corpo; arriscou pensar até estar sentindo dor nas veias, nas células, dor por onde o sangue corria por debaixo da pele, dor que não passava, nem se derramasse mais lágrimas o que há dois dias se tornou bem frequente.
Caminhou a passos calculados para dentro do aeroporto, sentindo a calça roçar no ferimento em sua perna ainda em período de cicatrização, trazendo um pouco mais de dor. Era tão bom que arriscou crispar os lábios em um sorriso, mas seus músculos faciais estavam tão enferrujados, que também sentiu dor nas bochechas rosadas pelo frio. Passou pelas portas corridas do aeroporto, sendo seguida por Barth, um homem forte e alto, sobrancelhas grossas e de olhos fundos, cabelos tão pretos que pareciam ter alguns tons azuis. A pedidos da tia da menina, foi para o Brasil para tirá-la de lá antes que fosse morta. A única pessoa que teve contato nos dois dias, mas que parecia não se incomodar com a falta de modos da garota em não conversar e/ou parecer simpática, tornando os dois dias em um mar silencioso. encarou o tanto de gente, sentindo o peito apertar e a respiração ficar descompassada. Inconscientemente, apertou um pouco mais o ursinho de pelúcia que tinha entre os braços. Era muitas pessoas, algumas a olhavam, outras passavam por perto como se ela fosse um “nada”, alguns grupos de pessoas, outros casais, pessoas aparentemente inocentes, mas talvez eles estivessem ali, a observando, esperando o momento certo de atacar; atacar como fizeram com os que ela amava. Poderiam fazer com ela o que fizeram com os amores da sua vida ou pior.
Deu um pequeno pulo quando sentiu mãos grandes e quentes segurando seus ombros. Sentiu a garganta secar e o suor escorrer pela testa. Estava tão desacostumada com toques, que não conseguiu evitar um frio percorrer a espinha. Depois de alguns segundos tentando recuperar a respiração que nem sabia que tinha prendido, percebeu que Barth segurava seus ombros e a encarava com os cenhos franzidos, enquanto seus pés ainda estavam cravados no chão e seus olhos percorriam com atenção cada canto do aeroporto. Não poderia perder o juízo agora, não poderia perder o resto de sanidade que ela ainda conseguia manter para si; ficar louca era a última coisa que precisava em sua vida medíocre.
- Aconteceu alguma coisa senhorita? Viu alguma coisa?
Barth perguntou e ela negou com a cabeça respirando fundo e voltou a andar em direção à mulher alta vestida com roupas sociais pretas, acompanhada de mais dois homens do mesmo porte de Barth. A mulher cumprimentou a garota com um sorriso enviesado e se apresentou como Vivian Brenton, secretária da tia da garota e disse que a mulher não pôde ir, mas que a esperava ansiosamente.

Pouco mais de meia hora depois, andavam por uma estrada de chão com algumas poças de água que espirravam e faziam às janelas do carro ficarem respingadas de lama. O caminho parecia ser no meio de alguma mata, onde se via apenas árvores de vários tamanhos e espécies de alguns bichos. O lugar ficava longe da cidade e pensou se algum dia poderia sair dali sozinha sem se perder por aquele caminho confuso. Algum tempo depois, avistou uma torre alta e, como se fosse mágica, as árvores acabaram dando a visão de um pátio enorme com a grama aparada e tão verde que parecia ter sido pintada à mão; muros altos parecidos com castelos medievais e um portão grande de ferro com mais quatro guardas. Vivian disse alguma coisa a eles e, logo, abriram o portão. se assustou com todo aquele verde e com o tanto de árvore que tinha ali. Alguns grupos de meninas conversavam e, percebeu outras se alongando com uma mulher mais velha vestida como militar. O pátio grande tinha três prédios grandes e bonitos como toda aquela paisagem. Vivian a ajudou descer do carro e foram a um prédio maior e um pouco mais distante dos outros três, que percebeu ser a torre que viu ainda na estrada. Entraram em um elevador e foram para o terceiro andar, ainda em completo silêncio da garota que, só não era tão torturante, porque Vivian fazia questão de apresentar cada canto daquele lugar, dizendo que aqueles prédios eram onde ficavam as meninas e aquele que estavam eram dos professores e militares que ali moravam; disse a rotina de estudos e onde ela moraria e, que em cada prédio, tinha uma cantina que davam lanches regulados entre o almoço, café da manhã e jantar, até que chegaram ao quarto andar.
O barulho dos saltos de Brenton ecoava por todo o corredor, misturando com a voz fina num fingido pesar, que formava uma melodia incômoda para os ouvidos de qualquer um que apreciava aquele raro momento de silêncio, mas para ela não fazia muita diferença entre estar em um silêncio profundo ou no meio de uma gritaria como se estivesse em um show. Não fazia questão de escutar e absorver as palavras da mulher loira de olhos verdes. Todos dizem a mesma coisa, todos sentem muito, mas, na verdade, não sentem o tanto que demonstram. Ninguém sente e não adianta dizer “eu sei como é”, porque, na verdade, ninguém sabe. Por mais que, talvez, possa ter passado pela mesma coisa, a dor nunca é igual para ninguém. Talvez até sentem o tanto que demonstram, mas, que diferença faz agora? Já tinha acontecido tudo, sentimento de ninguém iria fazer o tempo voltar.
Encarou as unhas desejando com todas as forças que aquele corredor chegasse logo ao fim, a gritaria de seu coração e o silêncio de sua cabeça, contrastando com o cansaço de seu corpo, a deixava em um piloto automático há quase dois dias.
- Pronto senhorita , espere um pouco que verei se a doutora irá te atender agora. Ficará bem sem mim, ou quer que chame alguém pra lhe fazer companhia?
Encarou os olhos verdes de Vivian Brenton, se perguntando se aquela era mesmo uma pergunta a ser respondida, afinal, há dois dias estava sobrevivendo sozinha. Por que alguns minutos a mais isso poderia não acontecer? Talvez pensasse que ela poderia fazer alguma loucura, tentar se matar ou apenas se render ao desespero, mas seria só mais alguns minutos sobrevivendo, não ia fazer tanta diferença. Deu um sorriso enviesado, quase sombrio que não chegava à seus olhos, um sorriso morto do mesmo jeito que estava por dentro, mas, que diferença fazia se estava viva ou morta? Não mudaria a vida de ninguém, muito menos a dela.
A mulher que aparentava ser muito mais nova do que realmente era, deu um suspiro enquanto batia o nó dos dedos na grande porta de madeira que fechava o corredor, ainda com os olhos cravados na garota de longos cabelos negros, tão pequena que parecia quebrar a qualquer toque, os olhos também negros, mas tão opacos, que era difícil acreditar que pertenciam à uma pessoa viva. Mais difícil ainda acreditar que pertenciam àquela menina que passava as férias com a tia e com aquele olhar tão brilhante que conquistava a todos. Um murmúrio rouco e desanimado do outro lado da porta fez alguma coisa dentro de aquecer, uma parte tão pequena que, se não estivesse tão absorta em seus próprios sentimentos, poderia passar despercebida. Arriscou a curvar seus lábios em um sorriso, mas o que saiu na verdade foi uma careta.

Vivian a encarou com um sorriso sincero depois de alguns minutos dentro da sala conversando com a mulher e deu passagem para entrar na sala, fechando a porta logo em seguida e a deixando sozinha com a mulher que poderia ser facilmente confundida com ela se não fosse pela garota ser um pouco mais baixa e a mulher manter uma aparência mais velha e cansada, não pelos anos já vividos, mas sim pelos últimos acontecimentos.
- Sweet...
O sussurro saiu com certa dificuldade dos lábios ressecados e finos da mulher, um apelido que apenas há dois dias estava desacostumada a ouvir e que não trouxe a mesma sensação de conforto que estava acostumada. Parou no meio da sala, alguns minutos observando cada canto com a máxima atenção possível: uma sala comprida e espelhada, uma adega no canto direto com algumas bebidas e alguns porta-retratos que preferiu ignorar por hora, uma porta fechada que, com certeza, levava aos aposentos da mulher, alguns quadros pendurados, uma mesa grande e uma cadeira aparentemente confortável; tudo contrastando nas cores branco e marfim, até seus olhos encontrarem os olhos negros e sem vida de Elise rodeados por marcas roxas, mostrando claramente que não dormia há dias, estavam úmidos e vermelhos, indicando que há alguns minutos estava chorando. Admirou-se por saber que a mulher ainda tinha lágrimas, porque as delas tinha secado há algumas horas. A encarar também não trazia uma das melhores sensações, mas era impossível não se sentir ligada a aquele olhar.
- Sweet... Eu... Eu vou cuidar de você. Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Sem esperar respostas ou demonstração de sentimento, a mulher rodeou os braços na cintura da menina em um abraço quase maternal e, menos de dois segundos, sentiu sua blusa ser molhada pelas lágrimas de Elise.
Família , muito conhecida por ser uma família de militares. O patriarca, Joe , conheceu Sara em um dos treinamentos militares de seus pais. Depois de um tempo de namoro, casaram e tiveram dois filhos Elise e André . Seguindo a linha militar da família, Elise se casou com um militar também e, pouco mais de quatro anos de casados, Elise e o marido sofreram um atentando, levando ao falecimento do mesmo. Viúva, sem filhos e em uma depressão profunda, Elise resolveu ir embora do país e tentar a vida, mais uma vez, sozinha, mesmo com os protestos da família de que era muito nova e que poderia casar de novo. André morou com os pais até se casar com a filha de um militar, tendo dois filhos e , mas a esposa morreu ao dar a luz a filha mais nova. O amor materno ou a falta dele nunca foi um problema para , sua mãe era muito bem substituída pelos avôs paternos e maternos, seu pai, irmão e sua tia Elise que a tratava como filha. Depois da tragédia e reviravolta que sua vida tomou em menos de vinte e quatro horas, Elise se tornou a pessoa mais próxima que tinha e, sem saída, teve que fugir do seu país de origem e reconstruir a vida, ou, pelo menos, tentar.
- Você... Erm... Como...
Parou de falar, encarando a menina à sua frente com os olhos perdidos, se perguntando se aquela era mesmo uma pergunta a ser feita para uma menina de nove anos que presenciou um verdadeiro derramamento de sangue e teve que sair fugida de seu país. Perguntar se ela estava bem poderia até soar irônico.
- Vou ficar bem tia.
Sua voz calma e serena assustou Elise e a ela mesma, sempre ouviu falar que algumas pessoas que passam por tragédias em sua vida demoram a realmente cair na real e então, o desespero vinha. Já tinha dois dias que tudo aconteceu, ela não conseguia mais chorar, não se desesperava como era o “normal”. Dois dias é muito tempo, não é mesmo? Era pra ter dado uma sincope, ou não? Era como se seus pensamentos a levassem pensar que estava, mais uma vez, em frente à tia porque estava em mais uma de suas férias escolares.
- Sim, eu sei que vai, você é forte e vai superar tudo isso.
A mulher arriscou um sorriso e sentou em um sofá no canto da sala, levando a sentar do seu lado. Pegou a mão da menina e colocou entre as suas, observando por um tempo as unhas bem feitas da garota, mas, logo desviando os olhos para o colo da menina, que abrigava uma pequena miniatura de pelúcia fofa do gato Garfield que sorria mostrando quase todos os dentes. Lembrava de quando a menina tinha ganhado aquele urso, era um natal e há tempos a menina dizia que queria aquele gato, já que, por ser alérgica a um de verdade, queria ao menos um de brinquedo. Quando abriu o pacote rosa seu rosto se iluminou de uma forma tão graciosa, que era como se não tivesse esperado até a meia noite para finalmente atacar os vários pacotes coloridos que tinham debaixo do grande pinheiro enfeitado na sala. era uma garota que iluminava por onde passava, era como se o sol vivesse dentro dela, mas aquela de apenas nove anos que estava em sua frente, não era a mesma que tinha alegrado aquele natal e todos os outros. Aquela não carregava mais o sol consigo e sim, a tempestade, como se fosse um mar bravo, agitado pela chuva e vento, que poderia inundar e destruir tudo em sua frente a qualquer momento. Respirou fundo, voltando a procurar os olhos desfocados da menina.
- Seu ferimento está doendo muito?
A menina apenas negou com a cabeça, encarando a parte da coxa um pouco dolorida.
- Alguém te viu? Quando Matt foi fazer seu curativo, alguém viu?
franziu o cenho, tentando se lembrar quem era Matt até se recordar que era o homem gordo de olhar felino e médico da família.
- Não. Ele me disse que não contaria a ninguém e que, se alguém perguntasse, iria dizer que não sabia onde eu estava.
- Vou te levar a enfermaria para olhar esse ferimento. Matt disse que estava muito aberto e tem que tomar maiores cuidados.
A menina apenas suspirou dando de ombros. A dor de um ferimento era a dor mais simples que já tinha sentido em toda a sua vida.
- Sua marca. Acho melhor esperarmos até seus dezoito anos para fazer, você estará bem guardada aqui, não será preciso fazer antes.
concordou com a cabeça, ainda com os olhos desfocados. Elise suspirou, sentindo os músculos um pouco mais tensos que o normal.
- , você sabe que tudo que tenho é essa escola militar secreta, não tenho uma vida fora daqui que seja verdadeira. Dos portões dessa instituição pra fora, as pessoas me conhecem apenas como a viúva de Samuel Holsemberg, não sabem que sou uma militar e, muito menos, que tenho uma escola militar. Por isso e outros motivos ela é tão afastada da civilização, corro o risco de me descobrirem e sabemos que, se isso acontecer, pode ser perigoso pra mim e para todas as pessoas que trabalham aqui e para as meninas que vivem nessa escola há alguns meses seu pai me mandou uma carta dizendo que se alguma coisa acontecesse com ele e com nossos pais, você e deveriam vim para essa escola e viverem aqui. No momento não entendi muito bem, mas pelo visto ele já desconfiava do que estava para acontecer. Eu te amo como minha filha e agora só restou nós duas, eu não tenho mais a força pra lutar e exercer minha profissão como você tem e é por isso que não posso te manter na civilização, não posso alugar uma casa pra nós duas na cidade, não posso te manter alheia a outras pessoas que não sejam os professores e guardas dessa escola. Eu sei que não é o que está acostumada, mas você vai ter que viver aqui. Acho que por, pelo menos, alguns anos você estará segura aqui ou até descobrirmos quem fez aquilo.
- Eu já imaginava. De qualquer jeito, é melhor do que ficar no Brasil... A senhora realmente não sabe quem fez tudo isso? Não tem nem ideia?
A garota perguntou, forçando um pouco mais a voz, sentindo a garganta arder. A tia apenas olhou um ponto fixo na sala, de preferência uma foto que tinha seus avos paternos e maternos, seu pai abraçado a uma mulher de longos cabelos negros que com certeza era sua mãe, Elise e Samuel. Todos sorriam e pareciam ser a família perfeita, pareciam realmente felizes.
- Não faço a mínima ideia. Eles não deixaram rastros e a polícia brasileira já encerrou as investigações. O que você vai fazer? Vai continuar a nossa linha familiar não é, vai honrar o nosso sangue?
Não era como se tivesse escolha, não podia dizer a tia que não seria uma militar ou uma atiradora de elite como sempre foi treinada a ser e dizer que, na verdade, queria fazer outro curso qualquer, casar e ter filhos como qualquer outra mulher, mas, por um momento, se sentiu estranhamente perdida e vazia, como se não soubesse mais quem ela era, como se toda sua vida fosse apagada e estivesse apenas vagando sem um destino certo sem saber o que realmente fazer, sem saber qual era a sua função no mundo, ela só tinha uma estranha certeza que precisava continuar viva.
- Vou continuar respirando...



Capítulo 2

So you can keep me inside the pocket
Of your ripped jeans
Holding me close until our eyes meet
You won't ever be alone
Wait for me to come home
Photograph – Ed Sheeran

Bolton – Ano de 2007

olhou para o céu rosado dando indícios de já estar anoitecendo por detrás das grades da pequena janela da sala de interrogatórios. Sentiu a garganta apertar e mordeu os lábios fortemente, não se dando ao luxo de deixar o desespero falar mais alto.
Passavam horas, dias, anos talvez; não tinha controle do tempo, mas sabia que suas emoções eram insanas naquele lugar. Sentia a vida passar pelas grades daquela cela. Do que adiantava os bons sentimentos, quando se está aprisionada?
Ficava com o eco do julgamento soando em seus ouvidos, fazendo-a sentir que aquela era a condição que deveria aceitar. Mas, ela sabia que, em algum momento, provou a liberdade; ela provou a liberdade porque, se não tivesse provado dela, agora não estaria agoniada, sentindo que algo estava errado enquanto estava ali dentro.
Ela precisava sair dali. Ela queria sair dali.
Foi parar ali e nem sabia ao certo por qual motivo. Não sabia se foi pelos erros ou acertos, se pela sua bondade ou pecado, só sabia que as circunstâncias a mantinham naquele lugar opressor.

Tentou se mexer, mas a dor na costela não lhe permitia. A boca estava com gosto de ferrugem e seus olhos um pouco desfocados. Tentou encarar minuciosamente o lugar em que estava, mas a única coisa que via era a completa escuridão. Estava novamente no quarto escuro, sujo e nem sabia ao certo o por que seu corpo doía e seu nariz ardia com o cheiro forte de sangue, suor e mofo daquele lugar. Esticou o braço, tentando apoiar em alguma coisa e se levantar, mas as pontas dos dedos encostaram-se a alguma coisa molhada que a fez encolher as mãos rapidamente. Sentia cada milímetro de seu corpo reclamar, enquanto tentava respirar normalmente ao mesmo tempo, tentando fazer que seus soluços causados pelo choro nasalado não saíssem tão altos. Se a ouvissem chorando, poderiam fazer pior do que já fizeram.
Ouviu barulho de trincos sendo abertos e passos se aproximando. Instintivamente, se encolheu um pouco mais, não conseguindo conter um gemido de dor; seu corpo doía, sua cabeça doía, sua alma doía. Quando ouviu o barulho de trinco mais uma vez, sentiu que eles já estavam perto demais, mas não podia dizer ao certo. O silêncio voltou a fazer parte do lugar, enquanto tentava fazer com que seu corpo não tremesse tanto e, consequentemente, não doesse também. Porém, foi pega de surpresa, quando sentiu seu corpo sendo erguido do chão pelos cabelos e, sem perceber, um grito de dor se desprendeu de sua garganta, até tamparem sua boca.
- Será melhor para a bonequinha se ficar de bico fechado. Vou tirar a mão de sua boca e vai me prometer que irá ficar quietinha, sem dar nenhum pio.
acenou com a cabeça rapidamente, ignorando o ardor no pescoço e as lágrimas que dificultavam ainda mais sua visão. Ela reconhecia aquela voz que a dava calafrios: era da carcereira Lucrecia, uma mulher alta e gorda de olhos fundos cinza escuros, que parecia estar naquele lugar apenas para “cuidar” da “boneca de olhos cor de mel”, apelido que as outras detentas e carcereiras tinham dado a .
Antes mesmo de pensar em alguma coisa, sentiu seu corpo sendo arrastado pelos corredores daquele lugar imundo. Fechou os olhos rapidamente quando sentiu os olhos arderem ao entrar em contato com um lugar mais claro. franziu o cenho, se perguntando quanto tempo tinha ficado trancada naquele quarto. Se lembrava apenas que tinha sido levada para a sala de interrogatórios e, depois quando acordou naquela escuridão, não se lembrava do que a tinham perguntado e o que ela tinha falado. Mas, vendo pelo estado em que a deixaram, podia imaginar que não tinha contado nada do que eles tinham certeza que ela sabia. O problema era que ela não sabia de nada. Sentiu as gotas frias de um banho tanto desejado entrar em contato com suas costas nuas, causando dor como se fossem pequenas pontas de agulhas perfurando sua pele. Seus braços e suas pernas tinham grandes marcas roxas, arranhões e marcas de beliscos e tapas; seu cabelo estava grudado no couro cabeludo por uma mistura de suor e sangue. Enquanto lavava a boca mais e mais sangue saia, dando a impressão de que alguma coisa estava quebrada ou machucada dentro dela. Sentiu o choro ser sufocado mais uma vez em sua garganta e se xingou por ser tão fraca. Eles não poderiam a ver chorando, não poderiam perceber que estava com medo, ela só tinha que ser forte e continuar contando a verdade que eles achavam que era a mentira. Talvez, um dia, eles conseguiriam descobrir a verdade.
terminou seu banho e vestiu um conjunto de calças jeans e uma regata preta com um velho all star vermelho já quase sem cor. Não deixou de se espantar por terem lhe dado roupas novas que não eram os horrorosos macacões alaranjados que a deixavam parecendo uma laranja ambulante. Sem contar que Lucrecia não tinha a algemado como sempre fazia, apenas a seguia de perto; muito perto. Talvez fosse se encontrar com alguém importante, ou seria quem estava ali? Sabia muito bem que um poderia lhe dar essas ‘’mordomias’’, ou melhor, ela poderia estar sendo solta. Sem conseguir conter a felicidade pela última suposição, sentiu o coração dar um salto. Seria a melhor notícia dos últimos anos.
Sentou na maca da tão frequentada enfermaria, enquanto Úrsula, a pequena e magricela enfermeira, a encarava com um sorriso nos olhos. Era a única pessoa menos detestável daquele lugar; o problema era que Úrsula também não acreditava nela.
- Duas vezes só esse mês boneca.
- Não me chame de boneca.
murmurou automaticamente, enquanto encarava um ponto específico no chão, pensando na possibilidade de sair dali ou de ver seu tão amado . Eram sensações diferentes, claro; pensar na possibilidade de sair dali não chegava aos pés da sensação de ver , mas, ainda sim, era uma coisa gostosa de sentir. Úrsula deu um suspiro, colocando as luvas e embebendo um monte de algodão no álcool para limpar alguns cortes no supercílio, nariz, boca e corte um pouco fundo na bochecha da garota.
- Você deveria parar de bancar a forte, . Falar tudo o que sabe, com certeza, te tiraria daqui ou ao menos diminuiria sua pena.
Resmungou, quando a garota fez uma careta ao sentir o ardor no machucado. era uma garota linda de vinte e três anos, cabelos cacheados loiros até o meio das costas, olhos cor de chocolates tão claros que chegavam a serem um pouco hipnóticos, a pele tão branca, agora toda marcada pelo castigo por ter sido uma “criança mal”, como dizia o detetive Ardor sempre que a chamava para dar depoimentos que ela ao menos sabia o que falar.
- Não sei de nada Úrsula, de nada.
- Como não sabe, ? Você é filha de Donatela e Richard , os maiores traficantes de toda a Inglaterra. Como não sabe de nada? Não tem como não saber de nada. , não tem como você ser presa, sem ao menos saber o porquê. Você não estava tão bêbada ou drogada para não se lembrar de nada, eu sei que não estava.
A enfermeira se exaltou, terminando de fazer o curativo da menina e colocando uma cinta um pouco apertada por debaixo de blusa, tentando fazer com que se, a costela da menina tivesse realmente quebrado, não trouxesse grandes dores. Era o melhor que poderia ser feito em uma enfermaria no presídio de segurança máxima. A menina apenas a encarou, mordendo o lábio inferior, tentando engolir o nó na garganta que a sufocava há um bom tempo e foi de encontro á Lucrecia, que a esperava impaciente na porta da enfermaria.
A cada passo que dava, sentia a fresta de esperança lhe escapar do peito, como se fossem grãos de areia escapando pelos dedos. Ela não estava indo para sua liberdade, ela apenas estava indo para uma visita, como a carcereira tinha falado. Claro, a carcereira tinha falado. Como pôde deixar sua imaginação ser tão fértil ao ponto de montar uma coisa que ela sabia que não ia acontecer? Não era como se Donatela e Richard, ou como eles realmente se chamavam, fossem aparecer.
sentiu a garganta ficar seca e as pernas travarem, quando encarou o menino sentado de cabeça baixa, encarando atentamente a mesa em sua frente. Ela sentia tanta falta dele, falta do cheiro dele, do gosto, do toque. Era como se ela apenas vegetasse todos os dias e, quando estava perto dele, sentia a vida retornar aos poucos ao seu corpo.
- ...
- ... – murmurou, sentindo o nó em sua garganta apertar um pouco mais. levantou os olhos da mesa e encarou a garota minuciosamente por longos segundos ou minutos, quem sabe... Os olhos do garoto estavam vermelhos e rodeados por olheiras arroxeadas, os cabelos, antes sempre impecavelmente arrumados, agora estavam tão bagunçados, parecido com ninho de passarinhos. parecia pior do que as outras vezes que estivera ali durante todos aqueles anos. não pôde impedir de sentir as bochechas corarem, quando reparou o menino encarar pontos específicos do seu rosto, colo e braços onde a regata não cobria. Abaixou a cabeça devagar, tentando fugir do olhar instigante do amado. nunca a tinha visto daquele jeito. Sempre que aparecia, seus machucados já estavam quase cicatrizados e eram em lugares que poderia esconder ou simplesmente dizer que tinha se machucado por conta própria, graças a sua péssima coordenação motora. O que a fez lembrar que aquele não era o dia de visitas.
- Você... Você...
- Senti sua falta...
Murmurou um pouco rápido demais, tentando desviar a atenção de para seus olhos, o que não deu muito certo, e voltou novamente a abaixar a cabeça. olhou por entre os cílios, sentindo uma vontade insana de correr até ele e abraçá-lo até ouvir seus ossos estralarem, mas seus pés pareciam pregados no chão. ainda não tinha a encarado nos olhos, estava um pouco mais encolhido na cadeira, de olhos fechados, o rosto contorcido em uma careta, como se estivesse sentindo cólicas.
“Talvez estivesse com nojo de se aproximar”, pensou a garota e, inconscientemente, se encolheu um pouco com o pensamento. Mesmo estando presa, nunca deixava passar despercebidas sua vaidade e sua beleza. Sempre conseguia se arrumar um pouco mais e, às vezes, até conseguia trocar um pacote de biscoito ou algo do tipo por um esmalte, maquiagem ou até mesmo um pó descolorante com algumas presas e, agora, apareceu, a encontrando no pior dos piores momentos da vida da garota. Estava aos trapos por dentro e por fora, machucada e desarrumada; ele nunca chegaria perto dela daquele jeito.
levantou da cadeira e deu alguns passos pela sala, passando as mãos nos cabelos. Sua mente projetava mil e um motivos para estar daquele jeito, mas, o modo como fizeram para deixá-la daquele jeito, piscava em rosa neon em sua cabeça, trazendo uma agonia sufocante, enquanto tentava ignorar e formar alguma coisa coerente em sua cabeça. Ele não podia deixar que fizessem isso com ela, ela era seu tudo, tinha lhe dado uma das coisas mais importantes da sua vida mesmo sem ter a intenção. Era por ela que ele ainda existia, era por elas que, apesar de tudo, ainda valia a pena acordar.
Olhou por alguns instantes olhando para o chão, enquanto torcia e distorcia os dedos e caminhou a passos largos até ela. Sentiu o coração bater nos ouvidos quando inspirou e sentiu seu cheiro de morango.
“Céus, ela nunca perderia aquele cheiro”, pensou, antes de colocar o rosto da menina entre as mãos e encarar seus olhos brilhantes de medo. Antes de conseguir ao menos raciocinar pela aproximação repentina, sentiu os lábios de pressionar os seus e sua língua contornar calmamente o lábio inferior da menina. Automaticamente, fechou os olhos e agarrou a blusa do menino, o trazendo um pouco mais pra perto dela e abriu a boca, dando passagem para aprofundar o beijo calmo. Quando suas línguas se tocaram pela primeira vez, ambos deram um suspiro, como se estivesse encontrado o oásis no deserto. sentia a estomago dar cambalhotas e, onde as mãos de estavam, queimar. O polo norte parecia habitar em seu estômago e todo seu corpo tremia, enquanto mordiscava seus lábios. A garota sentiu as mãos do menino passar timidamente por seu corpo, parando em sua cintura e apertando, a trazendo um pouco mais pra perto. Assustada pela dor em sua costela, grunhiu e empurrou pelos ombros um pouco forte demais, fazendo o menino bater na mesa.
- O que...? Por quê?! Você não queria? Eu fiz alguma coisa errado? Eu... Eu...
- Não, não é isso... Erm...
voltou a encarar o chão novamente, envergonhada. Se visse como suas costas estavam, com certeza teria uma síncope e atacaria alguma policial ou alguém mais próximo. Sentiu a blusa ser erguida e a cinta ser tirada um pouco devagar. Prendeu a respiração, quando ouviu um soluço de horror de . Rapidamente o garoto voltou a colocar a cinta na menina e abaixou a blusa, ficando um tempo em silêncio.
- Desde quando? Desde quando eles fazem isso com você? Por que eles fazem isso?
- Eles querem que eu conte tudo que eu sei.
Resmungou, ainda encarando o chão, até segurar seu queixo, a forçando a encará-lo nos olhos. O menino não parecia bravo, mas tinha o maxilar travado e seus olhos transmitiam dor, como se fosse ele que estivesse sido espancado
- Você não sabe de nada; você é inocente e nós sabemos disso.
- Será mesmo?
- Como assim?
- Não me lembro de nada que aconteceu aquela noite. Ao menos lembro como voltei pra casa.
A garota suspirou, passando as mãos pelos cabelos e desconectou os olhos dos olhos confusos de , andando pela sala. O garoto encarava o lugar onde a menina estava, enquanto tentava entender onde a garota realmente queria chegar.
- Quando minha aula na faculdade acabou, Rachel me chamou para ir a uma boate que estava sendo inaugurada. A gente tinha brigado e eu ainda estava muito brava com você, então eu fui e lembro que bebi e dancei muito. Quanto mais eu bebia, mais Rachel me dava bebida. Algumas eram um pouco fortes demais e, logo, eu nem lembrava o que estava fazendo... Enfim, quando acordei, a polícia estava entrando na minha casa e tinha um corpo do meu lado e eu estava toda suja de sangue. Você realmente acha que eu não tenho culpa?
- Acho. Tenho certeza que você não teve culpa.
- ...
- , presta a atenção... Seus pais não estavam em casa, Estrela estava com a vizinha e você sabe que sua mãe não deixava ninguém cuidar da neta dela se não fosse ela. Seus pais nunca mais apareceram. Você acha mesmo que eles não têm culpa de nada? Que foi você quem matou aquela pessoa que ao menos sabe quem é? Você nem sabia que seus pais eram traficantes, nem sabia que o nome verdadeiro deles é Donatela e Richard. Quer mais provas de que não é mesmo a culpada?
- Eu não sei mais o que pensar. Não aguento mais ficar aqui. Eu tenho uma filha que eu não vejo há mais de dois anos, que eu não sinto o cheiro, que não abraço, que não ouço a voz, que não posso levar pra escola, que não vejo crescer e não posso cantar músicas de ninar ou acalentar quando acorda a noite de um pesadelo; que eu não vejo os olhos, que não vejo o sorriso...
A voz de fraquejou e suas pernas amoleceram, a fazendo cair no chão chorando como há muito não chorava. Chorava por estar no fim do poço, chorava por perder a liberdade, chorava por estar longe da filha, chorava por saber que chorava todos os dias por ela, chorava por não aguentar mais o que estava vivendo e não poder fazer nada. Sentiu os braços de em seu corpo e a ponta dos seus dedos acariciando seus cabelos e chorou mais ainda por saber que, a qualquer momento, teria que abrir mão dele. Ela não podia permitir que ele parasse sua vida por causa dela, que cuidasse de Estrela como se fosse filha dele e eles sabiam que não era. engravidou de Estrela aos dezessete anos quando em uma noite de bebedeira e muita insistência do antigo e ex-namorado, a menina acabou indo pra cama com ele, perdendo a virgindade e não usando proteção alguma. Quando descobriu que estava grávida e contou para o garoto, ele apenas disse que não tinha nada a ver e terminou o namoro. Alguns meses depois, conheceu através de alguns amigos e foi ele quem acompanhou de perto a gravidez, foi ele quem Estrela chamou de papai em suas primeiras palavras, era ele que fazia por Estrela o que qualquer pai fazia por um filho e, é por ele que o coração de batia descompassado. Mas, ela não podia permitir que parasse sua vida, seus sonhos e sua carreira por uma criança que não tinha vínculos sanguíneos nenhum com ele.
- Ela queria vir, mas não achei que seria uma boa ideia.
Disse depois de um tempo que o choro da menina cessou.
- Não quero minha filha nesse lugar.
- Ela te mandou um beijo e algumas coisas.
Disse com um sorriso enviesado, levantando do chão para pegar uma sacola que a menina ainda não tinha visto e tirou de lá um ursinho pequeno e algumas folhas desenhadas. segurou o urso como se estivesse segurando a coisa mais preciosa de sua vida. Na verdade, de certa forma era. ganhou o urso quando ainda era criança e não conseguia dormir sem ele. Quando Estrela nasceu o ursinho começou a pertencer à menina, pois, como a mãe, Estrela não conseguia dormir sem o urso. Ele tinha o cheiro da menina e aquilo confortava de uma forma inexplicável.
- Prince...
Sussurrou o nome que Estrela tinha dado ao ursinho, sentindo os olhos arderem. Era a coisa mais próxima que tinha da filha depois de tanto tempo, era como se ela estivesse ali.
- Mas ela dorme com ele e...
- Estrela não dorme com esse urso há um tempo. Na verdade, ela dorme abraçada com uma blusa sua.
abaixou os olhos, sentindo o coração bater nos ouvidos e um nó se formar em sua garganta.
- Tem o cheiro dela...
- Ela passou o perfume dela nele. Disse que do mesmo jeito que dorme sentindo seu cheiro, você também tem que dormir sentindo o cheiro dela. Ela te mandou esses desenhos que fez na escola e a professora disse que seria bom se você ficasse com eles.
Eram várias folhas desenhadas com traços ainda um pouco tortos, algumas estavam desenhadas e , outras Estrela também estava com eles, mas em todos os desenhos tinham rabiscos azuis como se estivesse chovendo. Logo, lembrou que, desde que nasceu, a filha tinha um apreço pela chuva. Entre todas as folhas, avistou uma foto: os olhos castanhos de Estrela brilhavam e seu sorriso perfeito com alguns dentes que ainda nasciam iluminava a foto, os cachinhos loiros como os da mãe, estavam soltos e com as pontas sujas de alguma coisa marrom do mesmo jeito da ponta de seu nariz. Como se a foto já não estivesse perfeita o suficiente, estava abraçado a Estrela, sem camisa, com o rosto também sujo.
- A gente estava tentando fazer um bolo, mas não deu muito certo.
Disse sorrindo, parecendo orgulhoso da travessura dos dois.
- Ela está tão linda.
O silêncio prevaleceu entre os dois. absorta demais na saudade que tinha da filha, que parecia bem mais esperta desde a última vez que a viu e preocupado com o real motivo que o levara ali em um dia que não era de visitas. Tinha adiado demais aquele momento, mas precisava falar antes que alguém chegasse e fizesse com que ele fosse embora, o que era de se espantar não terem feito isso ainda.
- Eu vou te tirar daqui esse final de semana.
se assustou ao ouvir sua voz, mas o susto não foi maior do que o de ao ouvir aquilo. Já tinham conversado tantas vezes sobre aquilo, que parecia claro demais que ela só sairia dali quando seus pais aparecessem.
- Benjamin...
- , é serio. Eu tenho que te tirar daqui. Meus pais não estão aceitando mais isso, eles querem que eu estude em Londres.
- Por que seria ruim alguém ver o filho do renomado Juiz com a filha de traficantes e que foi condenada por tráfico de drogas e homicídio.
resmungou e sentiu o peito apertar quando ficou em silêncio. Ela, por incrível que pareça, não estava assustada nem surpresa. sabia que a qualquer momento isso iria acontecer. O senhor não era bom o suficiente ao ponto de deixar que o filho parasse sua vida pra cuidar de uma filha que não era dele e manter um relacionamento com uma detenta; sabia que Estrela precisava dele, mas sabia também que Marieta, uma viúva sem filhos e antiga vizinha de poderia cuidar muito bem da menina, ela só não esperava que fosse tão rápido.
- A gente pode fugir e depois voltamos para pegar Estrela.
A menina o interrompeum, falando um pouco mais alto.
- Não. Não da mais. Eu não posso mais te prender a mim e a Estrela. Seus pais estão certos, você não pode parar sua vida por uma pessoa que nem tem vida mais. Eu não sou e não posso ser tão egoísta a esse ponto. Não dá mais... Não dá...
- Você vai aceitar isso? E a gente?
- Não posso não aceitar. Não tem mais “a gente”.
abaixou a cabeça quando não sentiu mais por perto. Era mil vezes pior dizer aquilo em voz alta, do que acordar no meio da madrugada, assustada por ter sonhado que a deixava.
- Eu...
- Melhor você ir.
- Não posso te dar adeus ou tchau. É insano pensar que, depois de tantos anos, isso acaba assim.
se ajoelhou em frente à , com as mãos na cabeça e os olhos vermelhos. O desespero do menino era palpável, mas não poderia se deixar abalar, ela só precisava saber que ele seria feliz.
- Até logo então.
juntos seus lábios furiosamente, se agarrando à ela. Sua bocas se moviam nervosamente e, enquanto passava as pontas dos dedos no couro cabeludo de menino, mordiscava seu lábio inferior e logo depois, aprofundava o beijo efusivo novamente, até que o ar em seus pulmões se tornou escasso. juntou suas testas e encarou o menino nos olhos com a respiração ainda pesada.
- Até logo...
sussurrou, levantando do chão e, a olhando pela última vez, pediu que a carcereira abrisse a porta e saiu. Então chorou, não se importou em demonstrar sua fraqueza. Ela amava aquele menino tanto, amava de um jeito que não amou nem o pai de sua filha. Ela só não poderia colocar esperanças no “até logo”; ela sabia que aquele até logo era um adeus não dito, o beijo dizia aquilo.

- ...
abriu os olhos, quando ouviu alguém falar seu sobrenome. Quanto tempo estava ali sem que nenhuma carcereira a chamasse? Até mesmo o detetive não tinha a procurado depois do último “interrogatório”. Quanto tempo estava ali? Anos? Meses? Dias? Qual foi a última vez que viu ?
- Sou eu...
Resmungou com os olhos apertados pela claridade que entrava pela fresta da pequena janela.
- Visita. Venha comigo.
estranhou, mas não contestou, tentou fazer com que sua mente não projetasse coisas que a dessem falsas esperanças, mas reparou que a mulher não a guiava para a tão famosa sala de visitas e sim para um corredor diferente, um que ela nunca tinha sido levada. Entrou por uma das portas que tinha uma sala grande e iluminada com apenas uma mesa grande e algumas cadeiras em volta, Úrsula estava em pé num canto da sala e, diferente de todas as outras vezes que tinha a visto, ela não estava de branco com o cabelo preso em um coque, Úrsula estava vestida elegantemente com uma roupa social e os cabelos soltos; conversava com um homem alto de cabelos grisalhos vestido de terno e gravata; o homem tinha os olhos claros e um sorriso carinhoso, enquanto conversava com Úrsula. Quando avistou parada no canto da sala, seu sorriso aumentou.
- Sente-se senhorita , vamos ter uma longa e agradável conversa.
mordeu a língua, tentando se conter em não fazer milhões de perguntas e sentou na cadeira, ficando de frente para Úrsula e o homem.
- Antes de tudo me chamo Ebert. Úrsula e eu somos do FBI.
- O que vocês querem comigo?
perguntou com a voz um pouco trêmula, com medo do que realmente queriam. As coisas já estavam ruins demais para ficarem pior.
- Por que veio parar aqui, ?
- Fui condenada por tráfico de drogas e homicídio.
Ebert assentiu fraco com os olhos ainda cravados em , coçou o queixo, levantando da cadeira e andou um pouco pela sala com as mãos na cintura e o cenho franzido, como se estivesse analisando a coisa mais importante do mundo.
- Você é culpada?
soltou um riso sarcástico ao ouvir a pergunta. Todos diziam ser “inocentes”. Por que ele estava a perguntando isso? Ela sempre disse ser inocente e estava ali há anos. Talvez se dissesse ser culpada, poderia mudar alguma coisa.
- Sou filha de Donatela e Richard ou como eles se chamam...
Deu de ombros, como se aquilo fosse a resposta que Ebert realmente queria e justificasse a sua prisão.
- Sei quem são seus pais. Sei também que isso não quer dizer que você seja o mesmo que eles. Eu sei por que, como e desde quando você está aqui, sei que tem uma filha e sei que tinha um namorado e que vocês eram estudantes de direito.
- Como sabe sobre minha vida?
- Vou direto ao ponto, . Vou te tirar daqui, mas você vai trabalhar pra mim e para algumas outras pessoas.
- Trabalhar? Pra você e algumas pessoas? Não pretendo sair daqui pra ser uma prostituta ou uma bandida, muito menos sair daqui sem antes provar minha inocência.
Úrsula e Ebert soltaram uma risada um pouco baixa e se entreolharam.
- Você entendeu a parte que dissemos ser do FBI?
Úrsula perguntou com um sorriso sincero nos lábios.
- Não entendo como vão me tirar daqui, se nem você, Úrsula, acredita na minha inocência e pra eu pagar a ”caridade” que estão me fazendo, querem que eu trabalhe pra vocês?
se exaltou, ficando de pé frente à Ebert.
- Me desculpe, acho que não fui claro. Nós temos provas da sua inocência. Na verdade, , estamos te observando há um bom tempo, só precisávamos ter certeza de que você seria a pessoa ou uma das pessoas que procurávamos. Eu e mais algumas pessoas queremos criar um grupo de policiais, de preferência só mulheres, como se fosse um esquadrão policial. Vocês vão trabalhar por conta própria, eu e as outras pessoas vamos apenas guiar vocês em cada “missão” que deverão trabalhar.
- Esquadrão policial? Missão?
perguntou, franzindo o cenho para cada coisa estranha que tinha ouvido em menos de dez minutos. Ora, aquilo não era um filme policial!
- Vocês vão trabalhar em vários países, irão resolver alguns crimes em um país, depois irão para outro; não vão se firmar em um lugar só. Você e as outras meninas que encontrarmos só precisam ter a consciência de que terão que trabalhar em grupo e que tratarão com os piores bandidos do mundo.
- Mas... Isso é estranho. Além do mais, não sou uma policial, não sei segurar uma arma, não sei nada sobre uma policial.
- Vocês serão um grupo, mas lógico que terão uma líder que está sendo capacitada para o treinamento de vocês. Tenho certeza que, em alguns meses, estarão prontas para “salvar o mundo”.
Disse a última parte com um pouco de deboche, mas, ainda sim, com um sorriso carinhoso.
- E a minha filha?
- Você poderá conviver com sua filha. Ela ainda continuará sob os cuidados da sua vizinha, mas iremos sempre estar por perto.
- Eu só preciso aceitar?
- Aceitar e esquecer o seu passado. Se por um acaso, Donatela e Richard entrarem no caminho de vocês, você não poderá agir pelo instinto vingativo; você será, além de tudo, uma policial... Aceita?
O homem estendeu o braço e, antes de pensar, apertou a mão do homem, mordendo os lábios para esconder um sorris. Ela não tinha muito o que pensar, iria sair dali, trabalhar com o que sempre quis e poderia ter sua filha por perto: era a melhor coisa que lhe acontecia em muitos anos.
- Aceito.



Capítulo 3

Esse capítulo contém cenas de estupro, violência, preconceito e que fique claro que a autora não é a favor de qualquer demonstração e ato de preconceito e ou algo do tipo. Se não gostar desses assuntos POR FAVOR, NÃO LEIA!

To be hurt, to feel lost
To be left out in the dark
To be kicked when you're down
To feel like you've been pushed around

To be on the edge of breaking down
And no one's there to save you
No you don't know what it's like
Welcome to my life

Welcome To My Life – Simple Plan

Liverpool – ano de 2007

Os dedos pareciam perfurar sua pele, o suor escorria por sua testa, seu coração parecia estar sendo pisoteado por um salto agulha, seu pulmão parecia ser esmagado e o ar não entrava e saía como devia, seu corpo doía, tudo doía. Tentava abrir seus olhos, mas suas pálpebras pareciam pregadas, até sentir uma dor um pouco mais aguda no bico de seu seio direto, uma mordida sem dó que parecia estar lhe arrancando o bico, aquela dor era mais do que conseguia suportar, o grito saiu perfurando sua garganta ecoando por todo o lugar e em um rompante conseguiu abrir os olhos. Estava em seu quarto, deitada em sua cama. Correu os olhos rapidamente para a porta, mas ela ainda se mantinha trancada. O quarto estava parcialmente claro pelo sol, que entrava pela fresta da cortina, e então deduziu que estava tendo um pesadelo, um pesadelo como tinha todas as noites.
Perguntava-se há quanto tempo tinha fechado os olhos, cinco minutos ou segundos?
Sentia os olhos pesados, e vários lugares de seu corpo reclamarem ao simples fato de respirar, tinha certeza de que quando abrisse os olhos a cabeça explodiria, o que não seria tão ruim, se de fato acontecesse. Mesmo ainda um pouco adormecida, conseguiu soltar um riso amargurado pelos seus pensamentos idiotas, nem para acontecer esse tipo de desastre ela servia, aliás, não servia para nada; nem para morrer na hora do parto, quando Luc, seu pai, propositalmente demorou para levar sua mãe ao hospital quando começou a sentir as dores; ou morrer quando, em uma das muitas agressões que a mãe sofreu durante anos de sua vida, Luck acertou a mãe na barriga quando era ainda um feto; não servia pra nada, era o que ouvia quase todos os dias de Luck e Brian, seu meio irmão.
Arrastou-se até o banheiro sentindo suas partes íntimas arderem a cada passo que dava, tirou a camisola do corpo e entrou debaixo do chuveiro colocando a água mais quente que seu corpo poderia suportar, manteve os olhos fechados até sentir seus dedos enrugados e perceber que se ficasse mais algum tempo ali dentro poderia se atrasar para ir à escola.
Abriu os olhos minimante e encarou seu corpo por onde as mãos escorregavam com o sabonete, sua pele negra contrastava com o roxo azulado de suas coxas, sua virilha tinha marcas de mordidas, e uma sequência de hematomas causados por arranhões e beliscos desenhavam seus braços, barriga e cintura, sentiu vontade de chorar. Então, antes que seu choro tomasse proporções que nem ela mesma conseguia controlar, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. Um pouco relutante encarou seu reflexo no espelho um pouco embaçado do banheiro e constatou que seu atual estado não era bom, havia manchas da maquiagem escura borrada, em consequência do banho, que desciam pelas bochechas dando uma aparência de uma gótica- suicida, os olhos inchados e vermelhos consequência da habitual crise de choro que tinha todos os dias antes de dormir, os cachos finos do cabelo faziam nós que com certeza demorariam um pouco para serem desembaraçados. Limpou o rosto com um creme removedor de maquiagem e encarou por um tempo um corte já um pouco cicatrizado na bochecha direita, deu um suspiro de amargura e alívio por não ter levado outra surra na noite anterior e não precisar mais se entupir de maquiagem para tampar o resultado de um soco que recebeu do pai, ou de faltar mais vezes à aula.
As provas tinham chegado e com ela o medo de de não conseguir recuperar todas as notas que tinha perdido, depois que sua mãe morreu os abusos de seu pai se tornaram diários, sua única salvação seria Brian, seu meio irmão fruto do primeiro casamento de Luck, que estaria de volta à cidade em poucos dias, mas Brian herdou o mesmo caráter negro do pai, com a condição de não denunciar seu pai pelos abusos sofridos por , Brian exigiu que a irmã também fosse pra cama com ele, Luck pareceu não se incomodar com o fato de dividir a menina com o filho. Desde então tem sido uma verdadeira escrava sexual...
Naquele dia, estudou mais do que estava acostumada e estava satisfeita por finalmente ter aprendido a matéria e com certeza conseguir uma nota boa, ir bem na escola era o único jeito que conseguiu pensar para sair logo de casa, depois da última revisão a menina trancou a porta do quarto e pegou no sono, acordou com a porta sendo esmurrada e quando abriu foi atingida por um soco que a fez cambalear um pouco pra trás e ainda um pouco grogue pelo sono cair no chão, antes que pudesse levantar sentiu o corpo de Luck sobre o seu, a boca deixar rastros de saliva em seu pescoço e os dedos apertar partes inconvenientes de seu corpo que infelizmente já lhe eram tão familiares.

Balançou a cabeça tentando fazer com que aquela lembrança se encaixasse no canto mais fundo de seu cérebro, enrolou a toalha nos cabelos para tirar o excesso de água, passou o habitual lápis preto e rímel marcando bem os olhos, vestiu uma calça jeans escura, blusa fina de mangas compridas com um capuz por cima da blusa de uniforme escolar e seu tão inseparável vans preto já um pouco velho, tirou a toalha dos cabelos observando seu cachos caírem por cima dos ombros indo um pouco abaixo dos seios quase na cintura, passou os dedos tentando desfazer os nós, depois de alguns minutos prendeu os cabelos jogando por cima dos ombros e colocando o capuz da blusa por cima, colocou a mochila nos ombros e saiu do quarto tomando o maior cuidado em não fazer barulho, porém antes que conseguisse descer o primeiro degrau da escada, sentiu as costas baterem na parede em um baque alto e sem conseguir conter deixou um gemido rouco de dor escapar.
- Brian?!
Balbuciou um pouco surpresa por ver o meio irmão acordado tão cedo, Brian tinha vinte anos, alto, moreno e de olhos verdes escuros iguais aos de e Luck, não trabalhava, não estudava, vivia apenas para fazer a vida da garota um pouco pior a cada minuto
- Ontem vi você e papai juntos...
Fechou os olhos com força quando sentiu uma mordida forte no pescoço, o garoto cheirava a bebida e cigarro, os olhos vermelhos e as palavras ditas um pouco arrastadas não escondiam que tinha mais uma vez se drogado.
- Tive vontade de entrar na brincadeira, mas sabe, não acho que seria tão legal quanto ter você só para mim.
Sentiu o corpo ser prensado um pouco mais na parede e as mãos do garoto apertar sem cuidado alguma sua bunda.
- Preciso.... Preciso ir pra... Para a escola.... Me solta.... Por favor.
Tentou ignorar o tremor na voz e o choro que ameaçava explodir a cada cinco segundos, tentou inutilmente empurrar o garoto pra longe, mas além de ser bem mais fraca e menor que ele, Brian apertou seu corpo um pouco mais no de prensando a menina mais contra a parede. As mãos do garoto deslizaram de seu rosto, passando pelos seios os apertando sem um pingo de cuidado, desceu pela barriga, cintura, abriu o botão da calça e começou a descer o zíper, sentia o rosto molhada por lágrimas que ela ao menos sentia ter derramado, sentia o corpo tremer e o estômago dar voltas enquanto uma voz gritava na sua cabeça ‘’vai deixar isso acontecer de novo? Vai se tornar mais infeliz do que já é? É tão fácil deixar que ele simplesmente te machuque mais uma vez, mais uma ferida para sua coleção, não é por que você não tem forças para lutar contra isso, você simplesmente não luta contra isso, por que já é impura o suficiente, já é infeliz o suficiente pra achar que algum dia poderá ter uma saída... A culpa de tudo é sua, você não deveria ter nascido mulher’’, sua consciência sempre ia contra ela, já estava acostumada com essa voz que sempre fazia a brecha de esperança se esconder, talvez a culpa de tudo aquilo fosse realmente dela, mas ela poderia escolher pelo menos uma vez se iria passar por aquilo ou poderia imaginar que poderia ou não escolher passar por aquilo, quando sentiu os dedos de Brian entrar em sua calcinha, uma força improvisada e completamente desconhecida por ela tomou conta de seu corpo e conseguiu empurrar o garoto um pouco mais forte do que imaginava conseguir, Brian cambaleou para trás e pareceu não perceber que estava próximo á escada, seus pés se enroscaram um no outro e em questão de segundos avistou o corpo do menino estirado no chão da sala ao pé da escada, o menino parecia não ter percebido o que tinha acontecido, seus olhos desfocados encaravam o teto e um sorriso psicótico emoldurava seu rosto, ofegou sentindo suas pernas tremerem pegando a bolsa que estava no chão e saiu de casa em passadas rápidas antes que Brian levantasse do chão.

Diminuiu os passos sentindo o pulmão queimar em busca de ar quando já estava a algumas quadras longe de casa. Sabia que precisava sair daquela casa, qualquer um que soubesse o que ela passava se questionaria o porquê ainda não ter fugido, mas era quase impossível fazer aquilo, Luck e Brian quase nunca a deixavam sozinha e quando saíam tratavam de deixar portas e janelas trancadas, ir para a escola seria a única saída que tinha para fugir se sua mochila não fosse revistada todos os dias e Luck não tivesse colocado seus capangas atrás dela. Por mais que odiasse lembrar daquilo Luck era seu pai e ele e Brian eram as únicas pessoas que tinha na vida. Se fugisse para onde iria? E sem dinheiro? Luck tinha poder o suficiente para lhe encontrar em qualquer lugar, além de tudo, tinha medo.
Colocou os fones de ouvido sentindo as batidas desesperadas de seu coração acalmar gradativamente quando a voz de Jessie alcançou seus tímpanos, aumentou o volume quando passou pelos portões do colégio, passar despercebida sabia que não era possível, mas os fones no volume máximo a impedia de ouvir as mesmas coisas que estava acostumada a ouvir todos os dias e sabia que naquele dia não seria diferente, deixou seus olhos vagarem pelo enorme gramado lateral do colégio até pararem na terceira árvore à direita, a maior e mais bonita da escola, mas não era bem a árvore que seus olhos fitavam, era o grupo de pessoas que estavam sentados em baixo dela, três meninas e dois meninos, pessoas que costumavam ser os melhores amigos de , que costumavam lhe arrancar sorrisos sem ao menos fazerem um esforço, que faziam parte de uma vida que não lembrava mais que já tinha vivido... Bia uma das meninas lhe encarava com um sorriso nos olhos, como se estivesse esperando que fizesse o que não fazia a alguns meses, Laura e Greg que conversavam animadamente pararam de falar a encarando em uma dúvida explícita se ia ou não ao encontro da menina, Ana encarava Bia com uma carranca bem conhecida por , como se Bia estivesse cometendo uma das piores infrações do mundo, mas o coração de apertou mais ainda quando seus olhos caíram no garoto sentado ao lado de Greg, ele arrancava a grama do chão despreocupadamente, mas estava visivelmente desconfortável, seus ombros tencionados, maxilar travado e o cenho franzido era uma expressão que achava particularmente adorável, sua vontade de dar um sorriso e encarar cada um nos olhos, pedindo desculpas por ter se afastado tanto e ao menos ter dado uma desculpa coerente para aquilo fez seu coração se apertar, mas então mais uma vez a voz gritava em sua cabeça...
‘Quer mesmo fazer parte de uma vida que não te pertence mais? Fazer parte da vida de pessoas normais? Quer destruir a vida delas como a sua ta destruída? Você é impura, indigna de qualquer amor, carinho, qualquer demonstração de afeto... Ninguém vai aceitar uma pessoa estragada como você. ’
Então deu meia volta entrando no colégio...
soltou um suspiro enquanto andava pelo corredor do colégio até chegar a seu armário, os olhares das pessoas faziam sua garganta secar, alguns ainda comentavam pela mudança repentina e grotesca da menina, outros apenas a olhavam decidindo entre sorrir ou lhe fazer careta, o segundo suspiro ficou engasgado em sua garganta quando viu um casal conversando próximo a seu armário, eles pareciam discutir, falavam baixo, mas não discretos o suficiente para que ninguém percebesse o que acontecia ali, não se importaria se fosse qualquer outro casal conversando, poderia ser qualquer outro, mas eram eles, logo eles.
Ela poderia dar meia volta e sair dali tranquilamente como se nunca tivesse entrado naquele corredor, poderia esperar pacientemente até que ‘o casal perfeito’ terminassem de discutir, ou poderia pegar seus materiais e simplesmente ignorar a presença dos dois, mas sabia que não era forte o suficiente, ela não conseguia ignorar a presença de sua ex-melhor amiga e o namorado repugnante dela, Sheron e Brad afetavam de um jeito que a incomodava, eles não á faziam bem, mesmo talvez Sheron não tendo tanta culpa de tudo o que aconteceu, era uma mistura de sentimentos que não conseguia controlar, mágoa, raiva, saudade, talvez ela também teve culpa do fim da amizade, no fim de tudo só queria entender de como tinha chegado aquele ponto. Respirou fundo algumas vezes, passando a mão na testa sentindo a palma úmida, ‘as coisas já estavam ruins demais para ser apenas o primeiro dia da semana’ pensou um pouco amargurada decidindo por pegar logo seus materiais e sair dali torcendo pra que eles não notassem sua presença, a garota se sentiu ridícula por acreditar que aquilo realmente aconteceria um encontro de , Sheron e Brad no corredor seriam uma ótima matéria para o jornal da escola e renderia uma boa fofoca para o mês inteiro.
O silêncio parecia ser geral, sentia as costas arderem por receber olhares de todos que estavam no corredor e do casal ao seu lado que tinham parado de discutir, seus dedos tremiam e com muito custo conseguiu abrir o cadeado de seu armário e pegar seus livros, inconscientemente ergueu o olhar para Sheron que encarava a parede atrás de Brad com os lábios espremidos e os dedos entrelaçados fortemente á barra do casaco do garoto, Brad a encarava com um meio sorriso atrevido, tinha vontade de se aproximar, sentia a garganta apertar em ansiedade por falar tanta coisa, mas também sentia raiva, mágoa, antes que não conseguisse controlar todas aquelas sensações saiu a passadas compridas do corredor indo para a primeira aula.

Os alunos não faziam questão de serem discretos ou falarem baixo, a cada passada sentia os olhares queimarem sua pele, seu cérebro trabalhava rapidamente e todas aquelas vozes especulando e espalhando fofocas a deixava tonta, ela não se importava de saber que as pessoas diziam ‘ e Sheron não são mais amigas por que Sheron preferiu o namorado’, mas se incomodava com as outras ‘verdades’ que tinham por trás daquilo, eram coisas que nem ela mesma sabia explicar e todas aquelas pessoas diziam, especulavam e espalhavam sem saber se de fato tudo aquilo tinha realmente acontecido. Não prendeu um suspiro ao avistar no fim do corredor do colégio a pequena porta que dava acesso à estufa da escola utilizada poucas vezes pelo professor de ecológica, se certificou de que o corredor estava realmente vazio com todos os alunos no refeitório, tirou à chave que tinha pegado escondido a um tempo da inspetora e tirado cópia do bolso abrindo a porta e entrando rapidamente, subiu a escada lentamente sentindo o típico aperto no peito cessar gradativamente, como se estivessem injetado morfina em suas veias, o cheiro das tulipas e margaridas que ela mesma tinha plantado impregnava o lugar lhe trazendo uma paz momentânea, até um cheiro um pouco mais forte e que infelizmente ela conhecia muito bem tomar conta de seu olfato, antes que conseguisse voltar os poucos degraus que já tinha subido sentiu os braços de Brad lhe segurarem fortemente pela cintura a tirando do chão e voltando a subir os poucos degraus que lhe restavam. sentia como se estivesse se afogando, seu estômago se contorcia, um nó apertava em sua garganta a impedindo de ao menos pedir para ser soltar, seu corpo se arrepiava de uma forma muito ruim e tudo que ela queria era sair daquele abraço, toque de pessoas alheias lhe causavam calafrios, poderiam falar ou fazer o que for com ela, mas lhe tocar era pior do que lhe ferirem com uma faca.
- Precisamos conversar...
Brad resmungou pressionando um pouco mais as costas da menina em seu peito forte, pincelando a ponta do nariz pelo pescoço da garota.
- Solta...
Um resmungo esganiçado desprendeu de sua garganta, fazendo o garoto se assustar e largar a menina um pouco mais forte a fazendo cambalear alguns passos.
- Garota, por que.... Por que você é tão estranha?
Perguntou com os olhos arregalados a olhando como se tivesse duas cabeças.
- Não gosto que me toquem.
A garota resmungou indo em direção à escada. Ficar ali com Brad lhe traria sérios problemas.
- Não era o que parecia a algum tempo atrás.
- Não era o que parecia?
A garota resmungou mal-humorada sentindo o estômago se contorcer com as lembranças que sua mente já não conseguia mais bloquear.
- Você sempre me agarrou a força Chilton
O acusou com os olhos atravessados desistindo de sair dali de vez. Brad a olhou um pouco desorientado como que se lembrasse daquilo doesse.
- Você só tinha olhos para aquele filhinho de papai do , ficavam desfilando juntos o tempo todo e se beijando na minha frente, na minha frente .
Elevou o tom de voz como se aquilo justificasse suas atitudes idiotas
- Nunca gostei de você e sempre soube disso.
- Mas, eu gosto de você... Sempre gostei.
- NÃO, VOCÊ NÃO GOSTA.
Gritou sentindo seus olhos arderem e seu estômago dar mais algumas voltas.
- Você nunca gostou de mim, eu era sempre um troféu a ser conquistado. Você nunca aceitou minha atenção ser dividida entre outras pessoas, sempre teve inveja do , por que ele sim tem de mim o que você nunca teve e nunca vai ter, você quer ser uma coisa que não é Brad e teve que apelar para algo ridículo, baixo, podre.... Você é podre Brad.
- Eu gosto de você sim.
Sibilou entre dentes apertando as mãos em punho.
- Você não olha para minha cara quando ta perto de seus amigos, sempre me tratou apenas como uma líder de torcida que deveria levar para a cama, e...
- POR QUE VOCÊ É NEGRA.
Gritou sobrepondo a voz da menina, fazendo-a se assustar e dar alguns passos para trás, não por ele ter gritado, mas pelo que tinha dito, era incrível, mas Brad conseguia lhe surpreender em suas babaquices, preconceito por ser negra já tinha passado por aquilo, e na verdade nem a afetava tanto, achava esse tipo de pessoa tão vazia que não merecia atenção por ter esse tipo de preconceito, como qualquer outro, mas, era errado ser negra?
- Você.... Você acha que o quê? Que vou sair gritando pela escola dizendo que sou apaixonado por você? Uma negra?
Disse a última palavra com uma careta de nojo, enquanto permanecia estática, seu corpo parecia não obedecer aos comandos de seu cérebro e sair dali. Poxa, já estava machucada demais para se dar ao luxo de escutar aquilo, será que suas coleções de marcas já não eram suficientes? Precisava de mais?
- Eu, Brad Chilton o filho do empresário mais rico dessa cidade, namorar uma negra filha de um advogado perdedor alcoólatra?
- Cala a boca...
- Fui eu sim que fiz tudo aquilo. Eu quem fez a Sheron escolher entre você e eu, eu que armei com as fotos, fui eu que fiz te trair, eu fiz terminar com você.... Foi tudo eu.
- Cala a boca...
- Eu sei de tudo, eu sei o que seu pai faz contigo, eu sei o que seu irmão faz contigo, eu tenho fotos, tenho vídeos. Eu sei que você se sub...
- CALA A BOCA.
sentiu um gosto amargo infestar sua boca, e as unhas furarem a palma de suas mãos fortemente fechadas em punho. Ouvir aquilo era apavorante, era muito pior do que conviver com aquela realidade a corroendo por dentro, como se colocassem no chão o muro de indiferença e uma falsa dignidade que dia após dia ela construía colocando pacientemente tijolo por tijolo, tentando esconder sua dor e sua realidade dos outros, mas aí chega um maldito bastardo e acha que tem o direito de dar um tapa na cara dela com uma verdade nua e crua.... Quem ele pensava que era?
- Você não tem o direito de dizer o que não sabe. Principalmente mentiras.
- Mentiras? Acho que você está enganada. O que seria mentira para você? Eu ter acabado com a amizade perfeita que você e Sheron diziam ter, ou você ser escrava sexual do seu pai e seu querido irmãozinho?
- Você o quê?
ofegou sentindo a visão escurecer e uma sensação estranha em seu corpo, como se o chão estivesse se abrindo e ela caísse, quando ouviu a voz de atrás de si.... As coisas estavam piorando a cada segundo que ela insistia em ficar ali com Brad, ela sabia que não deveria ter ficado ali.
''Claro que não. Estou ouvindo demais. Ele não pode estar aqui. É uma alucinação. Tem que ser uma alucinação''
Sua mente repetia como um mantra à medida que suas costas esquentavam mais e mais em lugares que com certeza ele passava os olhos.
- Eu fiz uma pergunta.
É uma alucinação...
- O que é isso que esse cara ta falando?
É uma alucinação...
- Aliás.... Por que você está aqui com ele?
É uma alucinação...
- Estou falando com você .
Não era uma alucinação...
- Oh-Oh acho que está na minha hora.
Ouviu Brad falar em sua frente, mas sua visão ainda estava escura demais e sua mente em choque para dar atenção ao que aquele bastardo dizia, mas sentiu com nitidez os dedos do menino lhe apertar os braços e a ponta do nariz do mesmo deslizar por sua bochecha, ela queria o empurrar, mas o medo de não saber o que Brad poderia falar ou fazer e até mesmo o medo que desenvolveu pelos meses de tortura psicológica, juntado ao choque de saber que estava bem atrás dela e que tinha escutado tudo, não a deixava reagir á mais aquele protótipo de abuso, apenas respirou fundo sentindo o estômago dar mais algumas voltas, fechou fortemente os olhos deixando uma única lágrima escorrer pela bochecha sendo rapidamente interrompida pelos lábios espinhentos de Brad.
- Eu te odeio...
Soprou num fio de voz ouvindo o menino soltar um riso baixo e atrevido.
- Eu sei...
Deixou um beijo molhado atrás da orelha dela e saiu cantarolando como se nada estivesse acontecido.
Filho da puta...
Não sabia ao certo se eram seus pensamentos tomando voz ou quem disse aquilo, mas lembrar que ele estava ali a deixava um pouquinho pior
- Acredito que.... Que... Não tenha chegado na hora certa.
Resmungou bufando alto alguns segundos depois por ter permanecido quieta e calada.
- Caramba .... Eu não bebi hoje, eu to conseguindo.... Estou a... Sei lá, dez horas sem fumar e beber, eu sei que estou lúcido, eu não estou delirando.... Eu ouvi, tenho certeza que ouvi.... Na verdade, eu não queria ter ouvido, nem queria ter essa certeza, mas...
- Eu não sei o que você está falando .
Sentiu uma gargalhada insana se desprender de sua garganta e ecoar pela pequena estufa depois que reparou o que tinha dito. Era idiota tentar desmentir uma coisa que eles sabiam que ele tinha ouvido e que ela sabia que era a verdade, para quê tentar desmentir uma coisa que ele também sabia que era verdade? Para quê tentar esconder o que Lucky e Brian fazem com ela? Nunca lhe fez bem contar para alguém esse tipo de coisa, mas para que não contar para a pessoa que costumava ser o amor da sua vida?
Ele sabia que ela era filha de uma mulher que não soube escolher um marido, que por culpa dessa mulher ela carregaria um trauma para o resto de sua vida, por culpa dela ela era abusada á anos e a mulher nunca teve coragem o suficiente para contornar a situação, por que era mais fácil ser agredida e ver a filha ser abusada e ter o que comer do que fugir
- Eu sou uma filha da puta miserável que não é digna de pena de ninguém, que carrega o fardo pelo resto da vida da mãe não ter mantido as pernas fechadas pelo menos uma mísera vez em sua vida, mas nem nela eu posso colocar a culpa por que...
Parou de falar por um tempo permitindo que mais uma gargalhada um pouco mais alta fosse ecoada por toda a estufa.
- Ela nem está viva para se defender e tudo que fez foi por amor.
Não conseguiu conter a ironia impregnada em mais um resmungo, enquanto sua voz fluía pelo lugar e seu olhar se mantinha perdido como se ao menos se desse conta do que falava
- E eu tenho medo, eu sei demais, se tentar fugir e Luck tentar me matar, ou se...
Como um estalo em sua mente tampou a boca arregalando os olhos não acreditando que realmente teve coragem de dizer tudo aquilo, de explicitar um ódio por sua mãe que nem ela mesma sabia que existia dentro de si, que extrapolou limites que ela mesma tinha imposto, era insano pensar que tinha falado tudo aquilo e mais insano ainda deduzir que poderia desmentir tudo aquilo que tinha falado. Era estranho sentir o corpo um pouco mais leve.
- Por que não me contou antes? A gente podia ter dado um jeito, mas.... Estuprada... .... Estuprada.... Estuprada.... Estuprada...
Sua voz aumentava gradativamente como se aos poucos ele desse conta da gravidade do que a menina tinha lhe contado com uma frieza irritante e apavorante.
Estuprada...
- Acho que não é preciso repetir isso por tanto tempo... A não ser é claro que queira que toda a escola fique sabendo.
Estuprada...
Não conseguiu refrear sua boca fechada deixando sua voz embebida por ironia deslizar por todo ambiente, deixando aos nervos, mas incapaz de ter uma resposta na ponta da língua que calasse aquele tom irônico que ele sabia muito bem que usava quando se sentia ameaçada, mas ameaçada por quem? Por ele? A pessoa que mais a queria bem? A pessoa que só não a ama mais por que a outra existe, apesar de ser um amor diferente, mas ainda assim dividia um espaço em seu coração com outra pessoa, mas não era o assunto do momento, ele estava assustado demais com a indiferença da menina.
Estuprada...
Piscou os olhos algumas vezes quando percebeu que estava á tempo demais repetindo aquilo e caminhava para longe dele, observando seu rebolado natural não conseguiu conter um suspiro.
Deus, ela é tão linda... Era destruída por dentro... Tão linda, mas estava sendo estuprada a tantos anos e nunca contou a ninguém... Carrega esse peso por tantos anos... Ela é tão linda.
Sem conseguir se conter, correu atrás dela, segurando seu braço com um cuidado como se fosse quebrar a qualquer toque brusco a puxando para si, firmando os braços em sua cintura e mergulhando as pontas dos dedos nos cachos amendoados que ele tanto amava, em questão de segundos o silêncio era preenchido por soluços, o choro tomando proporções altas á quase gritos, as lágrimas molhando a camisa branca do garoto. O abraço completamente inesperado por foi como um tapa lhe despertando o rancor e desespero pelo que estava vivendo, então veio o choro sôfrego e desesperado, era um choro de dor, só dor. Sua boca balbuciava coisas inaudíveis enquanto os soluços lhe tomavam o raso ar que entrava em seus pulmões, não era um choro normal, era um choro forte que fazia perder o ar, um choro incessante de revolta por tudo que passava á anos. Até que um tempo depois, para o alívio de , a garota se acalmou, limpou os olhos com a palma das mãos e respirou fundo tentando conter os poucos soluços que ainda a atingiam.
- ...
chamou em um sussurro agoniado enquanto a menina se afastava lentamente, ela o encarou por cima dos ombros com um sorriso contido e piscou os olhos afastando o resto das lágrimas.
- O que você vai fazer?
- Acabar com tudo.
Respondeu depois de alguns segundos pensando no melhor jeito de dizer que já estava cansada.
- Como? Deixa.... Deixe-me te ajudar.
- Acredite você não vai querer me ajudar pôr um fim nisso.
A menina resmungou mordendo os lábios tentando esconder um sorriso com um olhar travesso, uma menina completamente diferente da que conhecia e estava acostumado a conviver. Ele já nem tinha mais certeza se realmente não estava bêbado àquela hora do dia, sorria e por mais que o sorriso dela fosse uma das coisas que mais amava, aquele sorriso era recheado de uma pura e cristalina insanidade.
- , por favor.
contorceu o rosto como se estivesse com cólicas, tentou se aproximar, mas parou quando a menina recuou alguns passos soltando mais uma de suas gargalhadas insanas.
- Calma meu amor... Não vou matar ninguém.
Jogou os cabelos sobre os ombros e soltou mais uma gargalhada descendo rapidamente as escadas, mas dessa vez não reparou no rebolado natural da menina, o frio em sua espinha, lhe fez reparar que matar era uma coisa que aquela poderia fazer friamente.
- Eu te amo.
Resmungou um pouco alto, torcendo para que a menina escutasse e voltasse atrás do que estava pensando em fazer, ela apenas o olhou por cima dos ombros mordendo os lábios enquanto mais uma lágrima escorria por sua bochecha.
- Você não pode amar um lixo ambulante como eu.... Eu.... Eu não tenho nada mais para te oferecer , eu sou apenas um corpo vagando pelo mundo tentando descobrir qual é a minha função.

A escuridão já tinha tomado conta do quarto enquanto continuava deitada olhando para o teto, seu corpo tremia enquanto liberava o fluxo de lágrimas que segurou durante todo o dia no colégio. Uma parte de si, a menor delas se xingava por ter sido tão estúpida com , não ter aceitado a ajuda que ele lhe propôs, mas a maior parte de si dizia que era o certo a ter feito, não era como se fosse contar para e todos seus problemas fossem sumir, era complexo demais, quem acreditaria que o advogado da cidade e seu pai a estuprava há anos? E se Luck descobrisse que sabia de tudo? O que ele poderia fazer? era tudo que ela ainda tinha, ela não suportaria que algo acontecesse com ele, era demais para o resto de que ainda tinha dentro dela.
Muitas vezes se perguntava se sua mãe não tivesse aceitado todas as agressões, ela seria uma pessoa feliz? Ela não seria abusada? Ela continuaria sendo a líder de torcida, popular da escola e cheia de amigos? Ela seria a mesma menina ingênua e doce? Se estivesse fugido desde o princípio? Se não tivesse deixado o medo lhe abater, se tivesse imposto suas vontades?
Mas nada disso aconteceu, ela disse que colocaria um fim em tudo aquilo, mas como? Ela não sabia como seguir em frente, será que deveria esquecer-se de tudo e viver como se nada nunca tivesse acontecido? Ignorar suas feridas que pareciam que nunca iriam cicatrizar? Ela preferia ficar sozinha no quarto ouvindo música e olhando para o teto, ela passava mais tempo olhando para o teto do que dormindo, Luck e Brian tinham tirado tudo dela, tirado os sonhos, a inocência, sua essência tinha se perdido no meio de amontoado de órgãos que tinha se tornado, ela costumava a sonhar em ser uma juíza, mas aquilo também tinha se perdido dentro de si, costumava ser rodeada de amigos, por algum tempo até perguntavam a ela o que tinha acontecido, mas não ia falar. Quem acreditaria que estava sendo abusada pelo próprio pai? Alguns dias não queria acordar, para quê continuar vivendo? Ás vezes pensava que talvez tivesse dado a eles a impressão de que queria ter relações sexuais com eles, mas era tudo tão confuso, nada daquilo fazia sentido.
Viver junto com as pessoas que tomaram tudo dela, andando pela casa, andando pelas ruas do bairro, vivendo socialmente como se nada tivesse acontecido, a matava aos poucos, não comia, não dormia, não saia do quarto a não ser para ir à escola ou quando a fome realmente apertava.
mal estava viva.
Encarou a pequena bolsa jogada no canto do quarto, tinha amontoado um pouco de roupa dentro dela quando uma pontada de coragem lhe atingiu logo que chegou da escola, tinha menos de cem pratas guardado no fundo do guarda roupa, não conseguia ir muito longe, mas conseguia ao menos chegar à cidade mais próxima, mas a coragem passou logo quando Brian chegou da rua com os amigos, todos bêbados e drogados, algum tempo depois ouviu o barulho da porta da sala batendo e o silêncio voltou a casa, animada percorreu o corredor e desceu as escadas para apenas constatar o que no fundo já sabia a porta estava trancada assim como todas as janelas e a porta da cozinha que dava para a área de serviço.
Depois de algum tempo mergulhada em pensamentos que mesmo tentando não conseguia parar de pensar, sentiu o estômago reclamar de fome, já passava das oito da noite e não tinha comido nada o dia todo, forçou o corpo firmando os pés no chão, mas antes que conseguisse dar dois passos sentiu a visão escurecer, o quarto rodar e a cabeça doer fortemente, não se alimentava muito bem a algum tempo, comia quando tinha vontade e ás vezes à força de vontade em levantar da cama era nula e então voltava a dormir ignorando completamente a fome e a certeza de que para sair dali era preciso estar bem de saúde, respirou fundo algumas vezes e depois do mal estar ter passado, caminhou em passos curtos até o corredor, a casa estava escura e silenciosa e sentiu a espinha gelar, ela tinha fome, mas também tinha medo, Luck ainda não tinha chegado e poderia chegar a qualquer momento.
Soltou um suspiro sentindo a espinha gelar e o coração apertar, à medida que descia os degraus para o andar de baixo, aquela casa lhe causava calafrios!
Foi em rumo à cozinha acendendo algumas luzes pelo caminho, pegou do armário uma sacola de pão e foi até a geladeira pegando alguns ingredientes para fazer um sanduíche digno de sua fome, terminou de montar seu sanduíche e pegou um pouco de suco da geladeira, sentou na bancada da cozinha comendo calmamente, mas olhando frequentemente o relógio não deixando se perder nos minutos e ser pega de surpresa pela chegada de Luck, terminou de comer e levou o prato e copo a pia enxaguando e colocando no escorredor de vasilhas.
- ... ...
A voz alta e grave de Luck preencheu toda a casa fazendo dar um pulo de susto, antes que conseguisse correr ele já estava na cozinha, a olhando como um lobo encarava uma carne fresca, os olhos desfocados, o corpo um pouco curvado para o lado e o cheiro forte de bebida que fazia o estomago de revirar, lhe dava a certeza de uma coisa que ela já sabia...
Ele estava bêbado.... Muito bêbado.
Sem dizer nada, andou os poucos passos que o separava da menina e rasgou a camiseta branca de tecido fino, encarou os seios cobertos pelo sutiã de renda e abocanhou a parte que não era coberta em uma mordida forte, tudo tinha acontecido rápido demais, e só se deu conta que estava a sofrer mais um abuso quando sentiu os dentes de Luck apertarem a carne de seu seio, como se estivesse mordendo um pedaço de carne muito bem temperada.
soltou um grito de dor e empurrou Luck para longe fazendo que o mesmo batesse o quadril na beirada do balcão, tentou correr, mas antes que conseguisse dar dois passos Luck lhe segurou fortemente pelo braço lhe virando para ele e antes que conseguisse pensar em alguma coisa sentiu o rosto arder em um tapa forte que Luck lhe deu.
- Preste atenção numa coisa, vadia, eu vou lhe comer e você vai ficar quietinha.
Sussurrou em seu ouvido e passou a ponta do nariz pelo pescoço, trocando pela língua e logo depois pelos dentes, dando outra mordida que fez engasgar com os soluços de um choro desesperante que crescia dentro dela, fechou fortemente os olhos enquanto sentia as mãos de Luck apertarem sua pele e seus dedos beliscarem sua barriga.
Por favor, chega alguém...
Ele tem que parar de me machucar...
Para.... Por favor, para...
- Luck, por favor, para.... Por favor.
Não sabia ao certo quando seus pensamentos começaram a ter voz, mas deixava que aquelas palavras saíssem em um murmuro embolado, para quem sabe Luck tivesse um pouco de compaixão dela.
- Está doendo.... Por favor, para...
- Cale a boca, vagabunda.
Sentiu o rosto doer e um gosto de sangue tomar conta da boca depois do soco que ele lhe deu, seu estômago revirava e sua cabeça pesava à medida que as vozes mais uma vez falavam em sua mente lhe acusando por ser mais uma vez fraca e não conseguir impedir mais uma dor que Luck estava lhe causando.
As mãos de Luck desceram para o zíper de sua calça quando sentiu um gosto amargo na boca e o choro se intensificar, não só por dor, mas por raiva, ódio, um ódio que a fazia enxergar vermelho, um ódio que fazia seu sangue borbulhar e correr mais rápido pelas veias, um ódio que lhe causava revolta por estar vivendo tudo aquilo, apertou os dentes quando sentiu a calça escorregando pelas suas pernas e as unhas de Luck lhe arranharem as coxas, avistou á alguns centímetros a faca que tinha usado para cortar os ingredientes de seu sanduíche, ela só precisava esticar as mãos e então tudo aquilo acabava, o ódio ainda escorria como lágrimas pelas bochechas de , e ela tinha certeza que se pensasse mais um pouco não teria coragem de pegar aquela faca, poderia ser um ato idiota, mas ser estuprada e viver sendo estuprada e se submeter a todos os tipos de agressões todos os dias, aquilo sim era idiota, esticou um pouco o braço conseguindo alcançar o cabo da faca, apertou fortemente à faca entre os dedos trêmulos, fechou fortemente os olhos e inspirou profundamente, mordeu a língua e enfiou a ponta da faca no abdômen de Luck aprofundando à medida que sentia a pele do mesmo furar.
Sentia o sangue quente escorrer por entre seus dedos enquanto tentava aprofundar com a faca um pouco mais no abdômen daquele homem que ela tanto repudiava. Os olhos verdes escuros arregalados a encaravam minimamente como se arquitetasse as piores torturas que faria nela quando saísse daquela tortura violenta e dolorosa, narinas infladas e mandíbula travada numa clara força de respirar sem emitir gemido algum de dor.
Quando sentiu que não tinha como mais enfiar a faca e que o homem já tinha a soltado um toque de realidade a atingiu naquele momento a garganta ficou seca, olhos transbordando lágrimas, mãos tremulas o desespero crescendo a cada segundo dentro dela, ela não era uma assassina como ele, ela nunca tinha matado ninguém até aquele momento, ela só queria uma chance de sair dali, de tentar viver a vida de uma forma que não fosse tão amarga como estava sendo desde que ela se entendia por gente, olhou para o corpo de Luck no chão, suas mãos cobertas de sangue, sangue dele, entre os tropeços correu para o quarto, sua respiração saia entrecortada, seu peito doía, seu corpo tremia, ela precisava sair dali, passou os olhos pelo quarto se sentindo perdida, estava apenas com o resto da blusa, de sutiã e calcinha, precisava sair dali, mas não sabia nem como respirar direito, tentou esquecer que tinha acabado de matar uma pessoa e vestiu rapidamente uma roupa, pegou a bolsa com as poucas mudas de roupa, juntou as poucas notas de dinheiro que tinha na palma da mão e ainda entre os tropeços desceu rapidamente as escadas e não se atrevendo olhar em direção a cozinha foi em direção a porta saindo de casa se sentindo mais perdida do que nunca.
Olhou para a rua pouco movimentada se perguntando para onde iria, nunca tinha se sentido tão perdida em toda a sua vida e o que mais á assustava era não ter sentido remorso por ter matado uma pessoa, por ter matado seu pai, ela não se sentia arrependida.
Andou até o ponto de ônibus mais próximo, a única certeza que tinha era que precisava sair daquela cidade, se ficasse ali Brian e Luck poderiam achá-la e só Deus sabe o que seriam capazes de fazer com ela, a rua estava escura e não passava ninguém, não sabia a que horas tinha ônibus, mas se sentia estranhamente mais calma, ainda um pouco perdida e assustada por tudo que fez, mas uma estranha sensação de ter feito o certo lhe deixava tão calma que qualquer professor de yoga se assustaria.
- Finalmente nos encontramos, .
A garota deu um pulo quando ouviu a voz alta e grossa falar perto demais do seu ouvido, um homem estava sentado ao seu lado, a rua estava escura o que dificultava um pouco a visão de , mas tinha a certeza que nunca o tinha visto.
- Esperei tanto por esse momento.
O homem voltou a falar parecendo genuinamente feliz, franziu o cenho levantando do banco que estava sentada se afastando dele, o homem lhe encarava sorrindo, um homem que tinha certeza que nunca tinha visto. Tinha acabado de matar seu próprio pai, estava fugindo, um homem ao seu lado dizendo que á muito esperava encontrá-la, aquilo era no mínimo assustador.
- Ebert, não assuste a menina.
ofegou passando as mãos nos cabelos quando escutou agora, a voz de uma mulher, que, por incrível que pareça, sorria também.
- Céus! O que está acontecendo aqui?
Falou com a voz esganiçada apertando os dedos na alça da mochila, seu corpo tremia e ela sabia não ser de frio.
- Você assustou a menina.
A mulher ralhou batendo no ombro do homem que se levantou rapidamente olhando nos olhos parecendo realmente arrependido.
- Me desculpe, não era minha intenção.
Disse ainda sorrindo, o que começa a irritar profundamente...
Céus, eles não deixariam de rir nunca?
O homem lhe estendeu a mão, mas apertá-la era uma coisa que não iria fazer, tocar e ser tocada por uma pessoa alheia não.
- Ebert.
A mulher deu um gritinho esganiçado recolhendo as mãos de Ebert e entrelaçando ás suas.
- Esqueci.... Desculpe, eu n...
- Nos desculpe, . Ebert fica um pouco animado demais quando encontra o que quer.
Se não estivesse tão nervosa com certeza teria gargalhado. Era uma cena um pouco engraçada, Ebert era um homem alto e exalava poder, mas lhe encarava como um garotinho de cinco anos que fez uma travessura.
- Quem são vocês? Como sabem meu nome? O que querem comigo?
Murmurou sentindo o corpo ainda tremer e a garganta ficar seca.
- Meu nome é Ebert, e essa é Úrsula, somos agentes do FBI.
- Meu Deus...
Ofegou olhando para os lados procurando uma forma de fugir dali, mas seus pés pareciam pesar toneladas. Eles tinham descoberto tudo e agora com certeza seria presa.
Droga...
- Estávamos esperando já a algum tempo o momento certo para te encontrar.
Ebert continuou falando como se não percebesse o pânico nos olhos da menina.
- O momento? Certo?
- Sim. Não iremos te prender pelo que fez há alguns minutos atrás, na verdade iremos te ajudar a fugir.
Úrsula deu risadinhas e alguns pulinhos como se fosse uma adolescente marcando o primeiro encontro.
- Me ajudar? Fugir? Céus! Façam sentido, por favor.
Ignorou momentaneamente que eles sabiam o que tinha feito.
- Vou ser breve.
Resmungou Ebert, parecendo repentinamente mais animado.
- Quero que você trabalhe para nós. Você será uma agente especializada em alguns casos mais sérios, irá trabalhar com mais três mulheres. Olha que legal, irá realizar um sonho de criança, ser uma super-heroína...
não conseguiu se controlar e soltou uma gargalhada, o momento era completamente impróprio, mas nunca tinha ouvido tanta coisa estranha em tão pouco tempo em sua vida, mesmo que tenha se assustado por saber que ele sabia de uma fantasia de infância.
- te conhecemos a um bom tempo. Sabemos que sua mãe morreu a alguns anos, que seu irmão não é flor que se cheire, que sua vida amorosa é um pouco enrolada e que seu pai... Bem, Luck é...
- Como sabem de tudo? Como me conhecem?
- O que te falamos é a mais pura verdade . Estamos montando um esquadrão de melhores agentes, quero que você seja uma das minhas agentes, mesmo que seja completamente estranho agora, se você aceitar, podemos te explicar tudo.
- Mas... Isso é insano... É...
Bufou irritada sem saber o que falar.
- Iremos cuidar de você, , nunca mais irá te acontecer nada de ruim, você estará sob os nossos cuidados até estar pronto para fazer parte do esquadrão. Por favor, aceite.
Mesmo confusa sabia que era muito simples. Ela poderia dizer não e passar o resto de sua vida correndo o risco de Brian a achá-la e ou ser presa, não sabia para onde ir, como iria sobreviver, ou poderia dizer sim e ter uma certeza que nunca teve na vida, a certeza de estar protegida.
- Aceito.



Capítulo 4 – Parte 1

So I'm gonna love you
Like I'm gonna lose you
I'm gonna hold you
Like I'm saying goodbye
Wherever we're standing
I won't take you for granted 'cause we'll never know when
When we'll run out of time so I'm gonna love you
Like I'm gonna lose you
I'm gonna love you like I'm gonna lose you

Like I'm Gonna Lose You- Meghan Trainor Feat. John Legend

Roma- ano de 2003

Cabelos soltos caindo em cascatas pelos ombros chegando quase no meio das costas, vestido preto de renda justo batendo no meio das coxas com mangas até o cotovelo, um salto que a deixava uns bons quinze centímetros mais alta, os olhos livres de qualquer maquiagem, bochechas coradas naturalmente e os lábios marcados pelo batom vermelho. Estava bonita. sentia-se bonita. Talvez se Miguel estivesse ali teria feito algum comentário que o deixaria mais envergonhado que ela mesma e, então, lhe daria um sorriso perfeito e, subitamente, ela se animaria à ir a sua festa de despedida de solteira. Tomou o resto do vinho que tinha em sua taça, logo a enchendo novamente, olhou para o celular jogado em cima da cama com ansiedade quase saindo pelos poros, como se ele fosse tocar à qualquer segundo.
- Vai fazer uma semana.
Resmungou encarando a aliança grossa e brilhante na mão direita. Há quase um mês, Miguel precisou sair da cidade para investigar um dos chefes do tráfico de uma pequena cidade no subúrbio, sul da Itália e, por mais que ela tenha feito uma pirraça digna de uma criança de três anos, seu pai, Edgar, chefe do departamento investigativo da Itália e Gerard Basso, pai de Miguel e delegado da cidade, não voltaram atrás na decisão de mandar seu futuro marido para tão longe. Miguel também não pensou muito em aceitar. O que mais a perturbava era que, na última semana, não conseguiram manter contato como nos outros dias. Sabia que ele estava bem pelos relatórios diários que mandava para o departamento, mas não ouvir a voz dele a deixava angustiada.
- Por favor, , não é como se fosse um ano.
Dória chiou, terminando de prender os cabelos em um rabo de cavalo, a olhando irritada. deu de ombros, indo até a sacada de seu quarto, olhando para o enorme jardim. A noite estava fresca e a brisa balançava seus cabelos, embaraçando alguns fios. O cheiro das diversas flores espalhadas pelo jardim somando a segunda taça de vinho seria ótimo para acalmar sua inquietação. Seria se a cada segundo sua mente não fizesse questão de lhe lembrar que se casaria no dia seguinte.

Seria também se ao menos soubesse onde seu noivo estava. Como estava.
- Precisamos ir, estamos atrasadas.
Dória voltou a falar, agora mexendo em sua pequena bolsa e continuou olhando para o jardim, encarando minuciosamente uma pequena moita de flores coloridas, enquanto seus dedos brincavam na borda da taça.
Sentiria falta daquele jardim.
Talvez pudesse ter um em sua casa, depois que conseguisse fazer a cabeça de Miguel que uma casa seria melhor para criar os quatro filhos que eles adotariam do que um apartamento.
Miguel...
- Você está ouvindo o que estou falando?
- Desculpe.
Murmurou, sentindo o coração apertar dentro do peito.
Céus! Precisava falar com Miguel urgente, para o bem de sua sanidade.
Dória bufou baixinho revirando os olhos, escorando na sacada ao lado da irmã, pegando uma mecha do cabelo da mesma e entrelaçando entre os dedos, do mesmo jeito que faziam quando eram crianças e queria que ela lhe contasse algum segredo.
- O que está acontecendo?
ergueu os olhos para a irmã por algum tempo e se encolheu um pouco, se sentindo incomodada com o olhar de Dória. Franziu o cenho suspirando, não gostava de se sentir vulnerável e da sensação de estar perdendo o controle de alguma coisa que ao menos sabia o que era. Dória endireitou o corpo a olhando com os olhos bem abertos, como se fosse falar a coisa mais importante do mundo.
Dória era exatos quinze minutos mais velha que , e a semelhança física entre as duas eram assustadoras, mas personalidades completamente diferentes. Dória era carinhosa, atenciosa, tinha traços angelicais no sorriso, tinha sempre um olhar reconfortante e parecia ter uma luz própria que emanava felicidade, já emanava superioridade e poder, seu olhar efusivo e perturbador, o jeito irritadiço e a boca atrevida pioraram quando se tornou uma das melhores investigadora da cidade.
- Não quero ir a essa festa. Talvez...
Mordeu a língua, tentando conter um sorriso, quando escutaram as risadas de sua mãe e sua sogra no andar de baixo. Elas pareciam mais animadas para o casamento que os próprios noivos.
- Talvez fosse melhor eu ficar em casa para ajudar nos últimos preparativos para o casamento e, quem sabe, eu consiga falar com Miguel e...
- Definitivamente não.
Dória interrompeu, a puxando pela mão para fora do quarto.
- Sorella, eu tô com um pressentimento ruim.
Sussurrou apertando a mão da irmã um pouco mais forte. Realmente não queria ir e aquela sensação não ajudava em nada.
- Você vai se casar amanhã, é normal ficar nervosa e ter essas sensações. Lembra quando surtei no meu casamento?
Riu, fazendo rir junto. Seu coração ainda parecia estar sendo esmagado dentro do peito, mas tentou relacionar aquilo a seu casamento e não ao fato de Miguel estar sumido.
Céus! Casaria no dia seguinte. Lembrar daquilo lhe dava um frio estranho e bom na barriga.
- Eu acho que...
- Vamos, por favor. Se você se sentir mal eu juro que pode vir embora.

parou de contar, depois que recebeu o sétimo copo de bebida.
- São tão coloridos, e tem um gosto tão bom.
Resmungou, quando Gabriele, irmã de Miguel, a olhou com o cenho franzido quando pediu mais uma bebida daquelas coloridas.
O salão não era tão grande, parecia um clube para mulheres. Um bar em formato de ‘’L’’ ia de uma parede até a outra do outro lado do salão, algumas mesas e cadeiras no canto e bem no centro do salão, um pequeno palco em formato de círculo com um pole dance no meio, o palco se estendia como uma passarela reta até a outra extremidade do salão uma parede um pouco mais escura onde tinha uma porta preta que instigou a saber o que tinha por detrás dela, porém, antes que conseguisse dar dois passos, um grupo de mulheres a cercou, lhe parabenizando pelo casamento e engatando uma conversa que ela não conseguia prestar atenção. O lugar estava cheio de apenas mulheres, algumas delas tinha visto pela última vez em sua formatura no colegial. Não sabia que Dória ainda tinha contato de todas aquelas mulheres que costumavam ser suas melhores amigas na época da adolescência. Sentiu uma pontada de culpa por não está dando a devida atenção a elas, mas não tinha a mínima vontade de estar ali e aquela porta parecia estranhamente convidativa e aquela bebida... Hum... Era tão boa.
- Eu sei que passou muitos anos , que mudamos, amadurecemos e seguimos vidas diferentes, mas nunca pensei que seu namoro com o líder do grupo de xadrez do colégio fosse dar em casamento.
tirou a atenção da porta, olhando para a amiga com um sorriso enviesado. Lembrava que Daniele foi a que mais lhe criticou quando soube que ela tinha traído Enzo com Miguel. Na cabeça dela e na da metade dos alunos daquele colégio, a líder de torcida deveria namorar Enzo, o capitão do time de futebol e não Miguel, o nerd e líder do grupo de xadrez. agradecia aos céus por não ter a mente tão fechada a esse ponto.
- Encontrei Enzo esses dias.
Começou como quem não queria nada, se lembrando de quando foi buscar seus irmãos mais novos no colégio e ele também estava lá, esperando um de seus filhos.
- Parecia muito mais velho, está barrigudo e a mulher está grávida do quarto filho. Acho que tirei a sorte grande.
Encolheu os ombros, sorrindo pequeno, observando as luzes do salão diminuírem, ficando quase completamente escuro e a música alta e agitada ser trocada por uma baixa e sensual. sentiu o estômago se contorcer e a palma das mãos suarem. Estava se sentindo nervosa e ao menos sabia o motivo.
Precisava de uma nova bebida. Urgente!
Então a porta tentadoramente misteriosa foi aberta e de lá saíram três homens altos vestidos elegantemente de um blazer preto e com máscaras que tampavam até a metade do rosto, eles começaram a dançar no ritmo da música arrancando alguns risinhos e sorrisos atrevidos das mulheres.
Céus! Se Miguel visse aquilo, surtaria!
Pegou mais uma bebida gargalhando baixo quando um dos homens jogou a camisa recém-tirada em uma de suas primas, fazendo as bochechas da mesma corarem.
Então no meio de toda aquela dança, jogada de roupa e risadinhas atrevidas das mulheres, a única pessoa que parecia completamente fora do eixo naquele lugar saiu do mesmo lugar de onde os outros estavam, arrumando a máscara no rosto passando os olhos minuciosamente por todo o salão até pararem nos olhos brilhantes dela, os lábios crisparam em um sorriso tímido e nervoso enquanto caminhava em passadas pequenas pelo palco ainda encarando seus olhos, parou ao lado do cano de pole dance escorando um dos ombros cruzando os braços como se estivesse no ponto esperando um ônibus. sentiu o coração perder uma batida quando os olhos dele deixaram de encarar os seus para passearem por seu corpo de uma maneira evasiva e muito, muito tentadora, se permitiu passar os olhos pelos ombros largos e os braços fortes cobertos pelo blazer preto, a roupa justa cobria cada milímetro daquele corpo abençoado.
Gostoso!
Precisava muito de outra bebida.
Virou de costas escorando no balcão, pedindo outra bebida colorida. Olhou em direção ao palco por cima dos ombros e ele ainda a encarava com o mesmo sorriso. Passou a palma da mão na testa, tirando os fios de cabelo grudado pelo suor, sentindo o coração disparar no peito e um embrulho bem conhecido no estômago. Isso sempre acontecia quando seu corpo sabia que ele estava por perto e, aquele sorriso, aquele maldito sorriso que fazia coisas estranhas em lugares inconvenientes em seu corpo.
Gostoso!
Aquela sensação era muito, muito boa!
Segurou os cabelos desajeitadamente no alto da cabeça com uma mão, enquanto a outra apertava firmemente o copo tentando disfarçar o tremor ridículo que tomava conta de seu corpo. Os olhos estavam desfocados e o suor descia por seu pescoço, fazendo grudar mais alguns fios de cabelos que soltavam dos seus dedos. Remexeu o quadril mais rápido quando a música se tornou mais rápida, se virando para ele com o lábio inferior preso entre os dentes. Ela queria que ele soubesse que estava dançando para ele, dançar para ver os olhos dele brilharem por detrás daquela máscara, para ver o sorriso que ele dava só para ela. Soltou mais o corpo, permitindo que seus passos entrassem melhor no ritmo da música. Jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada quando sentiu aquela felicidade queimar em seu peito, sentindo a pele arrepiar por onde os olhos dele passavam nervosamente.
Ela amava tanto aquele peloso!
Olhou para o canto do salão onde Dória e Gabriele encaravam ambos com um sorriso cúmplice, enquanto presenciavam o flerte quase palpável de e o mascarado deliciosamente tímido.
- A ragazza aceitaria dar uma voltinha de carro comigo?
ofegou, sentindo o hálito quente dele em sua nuca. Sua pele arrepiou por onde as mãos dele passavam, parando em sua barriga e a trazendo para mais perto, forçando o quadril dela a voltar a dançar. Nem tinha se dado conta que tinha parado de se remexer.
- Não acho que seria uma boa ideia. Meu futuro marido não irá gostar nada. Além do mais, irei casar amanhã.
Brincou com um sorriso contido. A quem queria enganar? Ela queria ir, seu corpo implorava por mais daquele toque.
- Não acho que ele irá se importar. Pelo contrário.
Sussurrou, a virando de frente e roçando seus lábios, fazendo abrir a boca sedenta por sentir o gosto dele na ponta da língua. Voltou a olhar para o canto do salão, onde Gabriele acariciava a enorme barriga de seis meses distraidamente e Dória bebia, mas ambas tinham o olhar nos dois e sorrisos satisfeitos. não tinha nenhuma dúvida de que com certeza tinha a melhor sorella e a melhor cunhada do mundo.

O beijo era rápido e agressivo. A língua dele explorava por toda a boca dela, puxando mais o gosto para dentro de sua própria boca, tentando sentir na ponta da língua o gosto que ele tanto amava e sentia falta. Os dentes dela mordiam os lábios dele como se quisessem arrancar um pedaço, suas unhas arranhavam com força a nuca dele, não se importando se estava o machucando, se estivesse ele com certeza diria.
O que era pra ser uma voltinha de carro, se tornou, na verdade, uma corrida muito rápida até o apartamento de Miguel. A saudade que ambos sentiam eram demais para suportarem mais tempo sem grudarem seus lábios, sem ficar muito tempo com as mãos longe um do outro. firmou as coxas na cintura de Miguel para não cair, enquanto ele tirava as mãos da cintura dela para buscar as chaves do apartamento. Alguns minutos depois em busca da chave certa, entraram no apartamento e ele se jogou no sofá com as pernas dela ainda enroscadas em sua cintura, mantendo a língua deles entrelaçadas, Miguel puxou o cabelo dela pela nuca, descolando suas bocas em um estalo alto. Se encararam, olhando um nos olhos do outro e começaram a rir. Não tinha um motivo aparente, mas a felicidade que sentiam por depois de tanto tempo estarem juntos fazia seus olhos brilharem e o coração disparar no peito. Miguel se esticou para a pequena estante, ligando o som, fechando os olhos com um sorriso ainda nos lábios quando os primeiros acordes da música foram ouvidos.
- Pearl, me concede essa dança?
Resmungou, abrindo os olhos e sorrindo nervoso enquanto passava as mãos distraidamente pelas coxas descobertas dela. aumentou o sorriso e deu um beijinho na ponta do nariz dele, levantando do colo dele e lhe estendendo a mão.
rodeou os braços no pescoço e apoiou o queixo no peito dele, olhando para cima e procurando os olhos dele enquanto davam passos tímidos pela sala. Quando encontrou os olhos dele, sentiu o coração bater descompassado. Ele a olhava com um misto de adoração e amor, enquanto encarava cada ponto do rosto dela por onde os dedos dele passavam timidamente. A sobrancelha grossa, o nariz fino, as bochechas rosadas com algumas sardas e os lábios vermelhos. Seus dedos passavam por todo o rosto dela, como se quisesse guardar cada detalhe.
Ela suspirou, fechando os olhos fortemente, sentindo a angustia lhe tomar o peito novamente. Era uma dor forte que lhe tomava o ar. Ela amava tanto aquele peloso que pensar em viver sem ele doía. Duas lágrimas escorreram pela bochecha, uma de cada olho e, ela se sentiu ridícula por estar tão vulnerável. Ele estava ali, não estava? E estaria para sempre. Então por que aquela dor insistia em espalhar por seu peito lhe deixando fraca?
Sentiu os dedos de Miguel limpar suas bochechas molhadas e deixar um beijo casto em cada pálpebra.
- Por que você sumiu? Uma semana é muito tempo, Miguel.
Ele suspirou, lhe dando um beijo na testa e lhe apertando um pouco mais em seu peito.
- Teve uma tempestade um pouco forte demais, o celular ficou fora de área, perdemos conexão de internet. Quando consegui falar com meu pai, ele me mandou voltar, mas as estradas estavam interditadas e todos os voos atrasados. Por sorte, consegui um hoje e cheguei agora de tarde. Eu ia à sua casa, mas Dória e Gabriele pediram pra te fazer uma surpresa e enfim, estava eu mascarado em sua despedida de solteira.
Terminou com um suspiro tímido, enquanto sorria fraco com os olhos fechados, esfregando o rosto no peito dele como um gato manhoso, uma clara demonstração de que estava com sono.
- Você estará lá amanhã, né?
Perguntou inocentemente, parecendo realmente ter dúvidas sobre aquilo. Miguel sorriu pequeno, passando os dedos pelos cabelos dela.
- Pode ter certeza.

*Sorella – Irmã
*Peloso – Cabeludo
*Ragazza – Menina
*Marito – Marido
*Pearl – Pérola

Capítulo 4 – Parte 2

In the blink of an eye
Just a whisper of smoke
You could lose everything
The truth is you never know

Like I'm Gonna Lose You- Meghan Trainor Feat. John Legend


O vestido branco e justo até um pouco abaixo da cintura era tomara que caia e todo bordado de mini paetê e mini pérolas. O véu em renda com bordado de mini paetê e mini pérolas seguindo o vestido como uma capa móvel presa na lateral do busto, o que dava a impressão de ser um vestido com alça. O bordado era carregado no busto e tronco e algumas pérolas colocadas estrategicamente na saia; a calda era longa demais e tinha quase certeza que daria certo trabalho para entrar e sair do carro quando estivesse indo a igreja; a trança propositalmente desfiada jogada por cima dos ombros lhe dava uma aparência delicada, as bochechas estavam levemente coradas, os olhos marcados pelo delineador estavam mais brilhantes que o normal.
Estava pronta.
Pronta para casar.
Iria se casar em alguns minutos.
Em alguns pouquíssimos minutos.
Sentiu o coração dar um salto e a respiração ficar descompassada.
Céus, suas mãos estavam suando!
- Você está tão linda.
se assustou com a voz da mãe, mas sorriu quando viu os olhos da mulher passar por cada detalhe de seu vestido.
- A senhora também está linda.
Observou o vestido de seda verde água que fazia um contraste perfeito com os olhos azuis dela, e os cabelos loiros longos muito bem penteados em um coque. Ela realmente estava linda. Marieta riu baixinho, abanando as mãos.
- Nada se comparado à noiva, pode ter certeza.
Andou elegantemente em seus saltos altos até ela e pegou em suas mãos, sorrindo quando sentiu as mesmas geladas e percebeu a respiração de descompassada.
- Nervosa?
- Um pouco.
Balbuciou, tentando se lembrar das benditas aulas de yoga que Dória lhe obrigava a ir. Ela sabia que nessas aulas tinha aprendido a respirar direito, mas não estavam funcionando todas aquelas técnicas.
assentiu, fechando os olhos e tentando respirar direito, mas lá estava aquele maldito aperto no peito, aquele aperto que doía e fazia seu corpo ficar mole de um jeito incrivelmente ruim, que fazia sua respiração falhar e o choro vim rápido e forte como um tapa na cara.
- Eu... eu queria... Hmf... queria falar com... Com Miguel.
Resmungou, apertando as mãos em punho. Ela precisava encontrar alguma forma de fazer aquela dor passar.
- Claro que não. Vocês irão se ver daqui a alguns minutos e passarão o resto da vida juntos. Aguente só mais meia hora.
assentiu, andando pelo quarto e se xingando por ser uma noiva tão sensível e frouxa. A dor agora misturada com insegurança a fazia entrar em um pânico absurdo. Não era normal ficar tão paranoica daquele jeito. Era?
- E se... Se ele não estiver lá?
- Ele já está lá.
Marieta respondeu tranquilamente, terminando de ajeitar o véu no chão.
- Como tem tanta certeza?
- Gabriele já ligou nos avisando.
- Mas e se tiver acontecido algum imprevisto e ele saiu e ninguém viu?
- Não aconteceu nada. Ele está lá.
Disse firme e completamente séria, a encarando pelo reflexo do espelho. Respirou fundo apertando os dedos uns nos outros. A calma de Marieta começava a lhe irritar também.
- E se eu tropeçar no vestido e quebrar meu nariz ou m...
- Prometo que vou te segurar firme.
A voz de Edgar soou alta e divertida pelo quarto e, se fosse possível, se sentiu mais nervosa.
Estava chegando a hora.
Como que respirava mesmo?
Como mágica, Marieta apareceu em sua frente com um copo com água, ainda mantendo um sorriso calmo nos lábios, como se estivesse tudo sobre controle. Bebeu a água em grandes goles, sentindo passar com certa dificuldade pela garganta apertada.
- Estou casando minha segunda bambina em menos de um ano. Eu realmente estou gostando disso!
Sorriu, dando um beijo na testa dela, parando por alguns segundos para observar o vestido e depois seu sorriso nervoso.
- Cinco minutos. Nada mais que isso.
Estendeu o celular para , fazendo Marieta resmungar e franzir o cenho.
- Os noivos não podem ter contato nenhum hoje. São só mais alguns minutos.
- Eu não quero entrar na igreja com uma noiva quase dando uma síncope. Cinco minutos Mari.
Piscou para ela, puxando Marieta pela mão saindo do quarto. encarou o telefone, respirando fundo e discou o número de Gabriele. No segundo toque a mulher atendeu.
- Gabi, sou eu.
- ? O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Eu preciso falar com Miguel. Chame-o para mim, por favor?
- ...
- Só chama ele... Por favor.
Pediu com a voz esganiçada, começando a se sentir realmente apreensiva. A linha ficou muda por um tempo até ouvir a voz dele e, então, a calmaria de seu coração voltou.
- Pearl? Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? - Não... não aconteceu nada. É só que... que...
Fechou os olhos, mordendo a língua. Aquilo fazia tanto sentido na cabeça dela há alguns segundos atrás, mas agora parecia tão ridículo.
- Você não está pensando em fugir. Está?
Arregalou os olhos com a pergunta dele, aquilo definitivamente nunca tinha passado pela cabeça dela, mas então, não era só ela que tinha essas malditas inseguranças?
- Não, claro que não.
- Então o que foi?
Voltou a fechar os olhos, se xingando internamente por estar parecendo uma menininha insegura. Ora, ela era ! A mulher mais segura e independente de toda a Itália, mas não conseguiria sair do quarto sem fazer aquela pergunta esdrúxula para ele.
- Quando... Quando o pastor falar 'se tem alguém contra essa união que fale agora ou cale-se para sempre' promete para mim que uma mulher não vai aparecer com três bambinos dizendo que você é pai deles e que tem uma família perfeita e q...
Sua voz esganiçada e insegura foi interrompida por uma gargalhada alta e gostosa e, se fosse possível, se sentiu ainda mais idiota. Tinha a plena certeza que estava com as bochechas coradas de vergonha.
Ela nunca, nunca ficava com as bochechas coradas de vergonha!
- Se você acha que esse seria um motivo para desistir do casamento, pode arranjar outro.
- Jura?
Murmurou baixinho, ainda se sentindo envergonhada.
- Mulher, me caso com você hoje mesmo se um meteoro cair nessa cidade e destruir tudo, e se você disser que não vai vir mais, eu vou atrás de você e te faço dizer sim e assinar aqueles papeis. Nada Pearl, nada vai impedir de casarmos hoje.
Disse muito sério e sentiu o peito aquecer, tendo a plena certeza de que se por um surto de burrice sua dissesse que não iria mais se casar, ele iria sim atrás dela.
- Ás vezes sou tão ridícula.
- Você é o amor da minha vida. Agora mulher, venha logo, que eu preciso ter a certeza que está linda nesse vestido, e... Claro... Gostosa também.
Dessa vez quem gargalhou alto foi , e ela tinha quase certeza que as bochechas dele estavam coradas. Desligou o telefone, sentindo-se pronta para finalmente realizar mais um dos vários sonhos que realizou e irá realizar com Miguel.

A igreja estava toda decorada com tulipas, as mesmas flores usadas no buquê e estava cheia, muito cheia, mas e Miguel não conseguiam reparar muito bem em quem estava ali.
Ela estava linda demais naquele vestido para ele perder tempo olhando para outras pessoas que não fosse ela.
Ele estava deslumbrante demais naquele terno para que ela perdesse tempo olhando para uma tia que não via há quase dois anos.
Estavam em uma bolha, um momento só deles, que só eles sabiam o que realmente estavam sentindo. Os dedos deles entrelaçados encaixavam-se perfeitamente, a mão grande e quente dele cobria quase completamente a mão pequena e gelada dela, a palma da mão úmida dela fazia uma cosquinha gostosa na mão dele, desencadeando sensações que deveriam estar adormecidas no momento.
tinha certeza de nunca ter visto os olhos de Miguel brilharem tanto. Miguel tinha certeza que nenhum sorriso de era tão espontâneo como aquele. Naquela noite eles juraram em voz alta o que tinham jurado dentro de si há muito tempo, eles se amariam para sempre em qualquer circunstância.
Se amariam além da morte.
Por que Miguel Basso pertencia à e pertencia à Miguel Basso, nada e ninguém nunca poderia mudar aquilo. Nunca.
O sorriso que Miguel deu depois que o pastor disse o tão esperado 'pode beijar a noiva', se arriscou a pensar que fora o mais bonito, mas o sorriso que ele lhe deu quando desgrudaram os lábios fez borboletas dançarem em seu estômago e o ar lhe faltar por um segundo. Os dedos dele firmaram nos seus a puxando para fora da igreja e em meio a risadas de ambos e de toda a igreja, pararam na porta sorrindo cúmplices. Miguel segurou forte em sua cintura, a trazendo para mais pra perto e juntando novamente seus lábios, mas então, tudo começou a desmoronar.
Um barulho foi ouvido.
Era um tiro.
Depois outro.
O corpo de Miguel pesou sobre o de .
Já não era mais ele quem a segurava e sim ela quem o segurava. Os olhos dele arregalaram e a boca entreabriu, soltando um baixo gemido.
O corpo dele escorregou pelo de , deixando um rastro de sangue no vestido branco.
As coisas aconteceram rápido demais. não se importou que o vestido caro e tão branco estivesse todo manchado de sangue, não se importou em dar atenção para a gritaria e o desespero que estava em sua volta, não se importou com nada, por que ele estava ali, morrendo, no colo dela, o amor da sua vida estava morrendo e ela não conseguia fazer nada. Ela estava perdendo uma das melhores partes de si e não conseguiu fazer nada para impedir.
Acomodou a cabeça dele em seu colo, apertando os braços na cintura dele, deixando o choro escandaloso e sôfrego rasgar por sua garganta.
Não o tire de mim.
Balbuciou em meio ao choro alto, não sabendo muito bem a quem pedia aquilo, mas se fosse necessário, ela ajoelharia e imploraria para que ele ficasse com ela. Por que ela simplesmente não podia perdê-lo, ela não estava pronta para viver sem ele, para não tê-lo em seu dia a dia. Não tinham vivido juntos o suficiente ainda, não era justo perdê-lo.
Por favor, não o tire de mim.
Por favor.
Sentiu o choro se intensificar e a dor que sentia no peito desde o dia anterior aumentar dez vezes. Ela não podia perdê-lo, porque simplesmente não era nada sem ele; ele era necessário para sua sobrevivência. Como ela viveria sem ele? Sem os olhos? Sem os planos que faziam juntos? Não era justo que tudo terminasse daquele jeito, não era justo que ele fosse arrancado de si assim.
Eu não posso perdê-lo.
Sentiu o desespero inundar seu corpo como se estivesse afogando, o medo de não tê-lo nunca mais era esmagador, doía, machucava, sangrava.
- Pearl... Minha Pearl.
- Miguel... Por favor...
Balbuciou, abrindo os olhos com atenção para entender o que ele falava, os lábios dele se mexiam devagar tentando dizer alguma coisa, mas a voz não saia. Aquilo fez o coração já despedaçado de se quebrar ainda mais virando quase pó. Ele sabia quem tinha feito aquilo.
- Nat... Nathan... Seis... De...
- Não fala nada, por favor, não fala nada.
- Dez... Dezembro... Sessen... Sessenta e... Sete.
A voz dele falhou e ela passou os dedos pelos lábios dele para que parasse de falar, mesmo que ela soubesse que aquela seria a resposta de uma dos milhares de perguntas que tinha para quem tivesse feito aquilo. Seu corpo tremia enquanto tentava conter inutilmente os soluços cada segundo mais agressivos; seu choro já não era mais escandaloso, seus gritos de desespero ficaram sufocados na garganta quando o choque e a perplexidade bloquearam sua mente para qualquer coisa que não fosse ele ali, deitado no chão com a cabeça em seu colo. Talvez as pessoas ao redor estivessem dizendo alguma coisa, ou até chamaram algum socorro, mas já era tarde demais, o socorro não chegaria a tempo e, já não importava o que elas diziam, ela não queria perder nenhum detalhe do rosto que nunca mais veria. Sabia que mesmo lutando contra, o tempo fazia questão de apagar o rosto dele de sua memória. As pontas de seus dedos passavam pacientemente por cada traço daquele rosto que ela tanto amava, os cabelos negros em cachos grossos desalinhados, os olhos verdes que brilhavam para ela de uma forma graciosa perdia o foco pouco a pouco, os lábios carnudos já completamente esbranquiçados curvados em um sorriso quase imperceptível, a pele morena e úmida pelo início de uma febre, enquanto seu corpo lutava para sobreviver, até que seu último suspiro foi ouvido e sentiu como se estivesse afogando e não tinha a mínima vontade de voltar à superfície.
Passou as mãos trêmulas e sujas de sangue sobre o rosto dele para fechar seus olhos, o sentiu ser tirado de seus braços, mas não disse nada, encarou as mãos sujas de sangue com os olhos desfocados, sentindo o estômago embrulhar, o pavor e o medo tomando conta de cada célula, o choque bloqueando qualquer saída de desespero. Ela precisava gritar, chorar, precisava colocar para fora todos aqueles sentimentos ruins, todo o medo, o pânico, por que ficar guardado com aquilo dentro de si doía... Doía demais.
- Ele morreu.
Ouviu alguém dizendo e sentiu vontade de gritar, mas apenas continuou encarando as mãos sujas, sentindo alguém lhe abraçar de lado e deitar a cabeça dela no ombro.
Já poderia acordar agora né?
Aquilo era um pesadelo que toda noiva tinha um dia antes do casamento. Um pesadelo horrível, mas era só um pesadelo e ela acordaria e iria se casar.
Miguel não estava morto por que ele simplesmente não podia morrer.
Ela acordaria e ele estaria dormindo do lado dela como um anjo.
Ela tinha certeza que ele não tinha morrido, mas aquela dor era tão real.
- Vem querida, vamos embora.
Tudo não passava de um borrão por seus olhos, as pessoas interagiam entre si, falavam com ela, mas era como se estivesse em outra dimensão, seus sentidos pareciam não obedecer aos comandos de seu cérebro e tudo que ela queria era que aquele pesadelo passasse e ela acordasse com Miguel ao seu lado.
Porque ele não tinha morrido.
- Querida?
ergueu lentamente os olhos, reconhecendo a voz de sua mãe. Sentiu o coração perder uma batida quando encontros os olhos vermelhos dela e a maquiagem um pouco borrada. Olhou em volta reconhecendo seu quarto.
Como tinha chegado ali?
E por que Miguel não estava com ela?
Eram perguntas que realmente queria fazer, mas sua língua parecia pesar toneladas e aquelas perguntas estranhamente pareciam não fazer sentido.
- Figlia, você precisa tirar essa roupa.
Balançou a cabeça em concordância, com os olhos desfocados, não sabendo ao certo como reagir.
Tinha que se levantar para tirar roupa?
O cheiro forte de sangue fazia seu estômago embrulhar e uma vontade forte de chorar fazia sua garganta apertar, mas nada veio; ela queria chorar, sentia que seu corpo precisava liberar alguma coisa para que seu peito parasse de doer.
Mas chorar por quê?
Tinha casado com o amor da sua vida, por que doía tanto?
Por que aquela sensação de perda era fortemente esmagadora?
Marieta apertou os olhos, respirando fundo. Sua figlia precisava dela, sua bambina ruiva precisava de todos os seus cuidados e amor de mãe e, com certeza, daria aquilo a filha sem nem pensar, mas doía dentro de si vê-la tão perdida, vê-la sofrendo. Queria ter o poder de arrancar toda a dor que estivesse sentido e guardar dentro de si.
- Como ela está?
Dória entrou devagar no quarto, falando baixo, temendo estar acordando . Depois da tragédia, precisou exercer seu papel de médica da família e ir até a casa da família Basso para ajudar a acalmar Bruna, a mãe de Miguel e Gabriele que precisava de cuidados maiores por estar na reta final da gravidez. A confusão de policiais e paramédicos na porta da igreja era grande. Algumas poucas testemunhas diziam que um carro preto estava parado próximo a igreja e, logo depois do assassinato tinha sumido, mas nenhuma delas tinha certeza suficiente e eram informações vagas demais para a polícia. Edgar foi para o departamento policial contatar reforços para uma possível busca pela cidade, estradas, aeroportos e cidades vizinhas, mas não tinha muito a ser feito; era tudo vazio demais. Miguel não tinha histórico nenhum de que já tinha sofrido ameaças ou que estava sofrendo, o único forte suspeito era o traficante que estava investigando, mas os últimos relatórios sobre a investigação eram vazios demais, não deixando nada tão concreto para que começassem uma investigação, o colocando como um dos suspeitos.
Marieta suspirou com o coração apertado, sentando ao lado de .
- Está assim desde que a tiramos da porta da igreja. Não reage, não fala nada, parece até que está em outro mundo.
- Ela está em choque.
- Mas isso vai passar, né? Ela vai melhorar, porque minha figlia é forte e... E... Fala Dória, por favor fala.
Pediu angustiada com o silêncio da filha.
- É tudo muito recente mamma. Foi tudo muito rápido e ela não estava preparada, eu sei que ninguém estava, mas com ela é diferente, porque era... Miguel.
Miguel...
Ela não precisou dizer muita coisa para que Marieta entendesse tudo. Miguel era tudo para e Marieta entendeu por que Dória não disse se ela iria melhorar, por mais que ela fosse forte. Marieta sabia que toda força tinha um limite e temia do fundo do coração que aquele fosse o limite de sua figlia.
- Sorella?
Dória chamou baixinho e ergueu os olhos desfocados até ela, sentindo uma vontade quase incontrolável de abraçá-la e agarrá-la até que aquele pesadelo acabasse, mas seu corpo, como sua língua, parecia pesar toneladas.
- Você precisa tirar esse vestido, tomar um banho. Vai se sentir melhor.
Assentiu, ainda não sabendo ao certo o que fazer, permanecendo sentada e, às vezes, levantando e abaixando os braços quando seu cérebro captava a voz de Dória e conseguia discernir o que ela pedia.
Piscou os olhos assustada, quando sentiu o jato de água quente bater em suas costas, a água corria por seu corpo, levando embora o sangue seco que estava em seus braços e pediu fervorosamente para que levasse também aqueles sentimentos ruins que pareciam matá-la a cada segundo. Sentia as mãos de Dória lhe ensaboarem o corpo, depois a secando e a vestindo com um moletom velho e fofo. Quem deveria estar fazendo aquilo era ela; se sentia profundamente incomodada por ter a irmã fazendo aquilo, mas não sentia força e nem vontade de fazer nada.
Passou as mãos no rosto, as sentindo molhadas. Estava chorando e nem tinha percebido, e... Droga, chorar não estava melhorando nada.
Deitou na cama, fungando baixinho, se enrolando no edredom e abraçando um dos travesseiros, sentindo falta do corpo quente dele próximo ao seu.
- Figlia...
Um soluço escapou por entre seus lábios quando os braços de Marieta lhe acolheram em um abraço e ela se embolou no colo da mãe, lhe agarrando fortemente como um coala, pedindo internamente para que a mãe tivesse o poder de tirar aquela dor e aquele medo do mesmo jeito que fazia quando acordava de seus pesadelos de madrugada e ela lhe acalmava com um simples abraço e um cafuné.
- Toma isso. Você irá se acalmar e conseguirá dormir melhor.
Dória falou lhe estendendo um copo com suco.
Ela não queria tomar, queria ficar acordada.
Queria esperar Miguel acordada, por que claro... Ele iria voltar.
Mas estava sentindo o corpo tão pesado e aquela maldita dor estava lhe cansando tanto. Tomou o suco em um gole e, em menos de dois minutos, tinha pegado no sono, embolada no colo da mãe como se estivesse em um casulo.

- Como não existe? Tem certeza que é o lugar certo? É o mesmo endereço que tem nos relatórios de Miguel?
- Sim senhor, temos certeza. É um balcão abandonado igual a que tem nas fotos que Miguel tirou, mas não tem nada que indique que aqui eram guardadas drogas e que servia de ponto de tráfico.
- E os vizinhos? Perguntaram alguma coisa a eles?
- Perguntamos senhor, mas muitos preferiram não dizer nada e os poucos que disseram, deram respostas vazias e incertas.
- O que disseram?
- Que algumas semanas atrás algumas pessoas estavam frequentando o local, mas já tinha algum tempo que ninguém aparecia.
- Não disseram como eram as pessoas? Se eram só homens ou se tinham mulheres, se pareciam suspeitos, quantos eram?
- Não senhor. Estamos tentando uma licença para a polícia local para investigarmos melhor e chamar algumas pessoas para depor.
- Sim, façam isso e, se eles estiverem resistindo, eu mesmo entrarei em contato e mandarei que liberem a licença. Qualquer informação, me ligue.
- Sim senhor.
Edgar desligou o telefone em um suspiro, sentindo a cabeça latejar. O dia estava já anoitecendo e não dormia desde a noite passada, quando saiu da igreja e foi direto para o departamento. Não tinha passado em casa para trocar o paletó e nem para ver como sua figlia estava, quando ligou, Marieta lhe disse aos sussurros que ela estava dormindo em seu colo. Aquilo o aliviou um pouco, porque ninguém melhor para cuidar de sua bambina do que a mãe dela e, por mais que seu corpo pedisse por um descanso, ele sabia que não conseguiria descansar; a vontade de fazer justiça era mais forte que qualquer cansaço. Miguel era muito mais que seu genro, muito mais que um de seus melhores detetives, Miguel era como seu filho. Tinha esperanças que achassem algumas pistas no balcão abandonado, era o único lugar mais provável.
- Não acharam nada?
Gerard perguntou baixo e Edgar sentiu uma coisa estranha no peito quando encarou o amigo, que também usava a mesma roupa da noite anterior, os olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, roupa amassada e o olhar perdido.
- Não.
- Eles têm que achar alguma coisa. Tem que ter alguma coisa que nos leve até o culpado. Temos que fazer justiça pelo... pelo meu... Miguel.
Engasgou na última palavra, mas se recompôs rapidamente, limpando as lágrimas e erguendo o rosto. Seu filho merecia sorrisos e justiça, não mais lágrimas.
- Às vezes não acho que eles são os culpados.
- Por que não acha?
- Eles sabiam que Miguel não estava sozinho nessa investigação e, se fizessem alguma coisa contra ele, nós iríamos atrás deles. Fazer alguma coisa contra Miguel seria quase como assinar a própria morte.
- Faz sentido. Mas então quem seria? E por que não encontraram nada lá? Se eles fugiram, é por que tem culpa.
- Ou por que descobriram que estavam sendo investigados.
- Será que pediram a morte dele de dentro da cadeia?
- Pode ser, mas não acho que tenha alguém lá dentro que faça isso. Na verdade, acho que quem matou Miguel quer muito mais do que vê-lo morto.
- Talvez matou ele para atingir um de nós?
- Ou para atrair um de nós para o lugar que eles querem.
- Mas para qual lugar? Será que para o balcão abandonado? Qual de nós?
- Ainda não sei.
Resmungou, passando as mãos na testa enquanto a outra afrouxava o nó da gravata escorando as costas no encosto da cadeira de couro preta, precisava muito de um café, estava acostumado a passar a noite acordado investigando casos, mas passar aquela noite em claro estava sendo muito diferente e dolorida.
- Senhores, já retiraram a bala e o corpo de Miguel já foi liberado.
A voz baixa de uma das policias foi ouvida pelo silêncio incômodo da sala, Edgar assentiu com a cabeça, olhando para Gerard, que tinha os olhos cheios de lágrimas perdidos. Aquilo era horrível!
- Irei te acompanhar até em casa e levarei vocês para o velório.
- Não precisa, eu... Eu... A sua filha deve precisar de você... E... E...
- A minha filha tem a mãe dela e eu sei que vocês precisam tanto de mim quanto ela. Nós ainda somos uma família Gerard.
Tentou sorrir, enquanto Gerard passou as mãos pelos cabelos, ainda um pouco perdido. Ainda eram uma família. A memória de Miguel os ligariam para sempre.

suspirou, fechando fortemente os olhos, não queria estar ali, queria sumir, queria correr daquela dor, queria fugir de todos aqueles olhares, queria se esconder debaixo das cobertas e se embolar novamente no colo de sua mamma e voltar a dormir, porque quando dormia não sentia aquela dor, quando dormia sonhava com Miguel, e eram sonhos bons, poderia escolher dormir para sempre.
Encostou a cabeça nos ombros de Marieta e apertou os dedos de Bruna um pouco mais forte nos seus, fazendo a mulher dar um pequeno sorriso.
Bruna como estava a base de remédios. A mulher também parecia não acreditar que tinham levado seu filho, às vezes fechava os olhos e os abria rapidamente como se quisesse ter certeza de que aquilo não era um pesadelo, mas era tão surreal uma mãe estar enterrando o filho. Não era o certo. O filho que tinha que enterrar a mãe e não ao contrário. Era assim. Tinha que ser assim. Tiraram-lhe uma de suas pessoas mais preciosas, a melhor parte de si, e aquilo doía demais.
- Está se sentindo bem, querida?
Perguntou baixo para , reparando que a garota voltava a soluçar com a cabeça encostada no ombro da mãe. Por mais que queria passar um tempo maior com o que restava de seu filho, ficar ali já era tortura demais, aquele pastor poderia parar de falar logo e finalmente terminar aquela cerimônia e enterrar seu filho.
- Sim. A senhora precisa de alguma coisa?
Bruna passou os olhos pela igreja, à procura de alguém até que parou os olhos no canto suspirando um pouco aliviada. Gabriele tinha passado mal e quase desmaiado, com muito custo, o marido dela Enrico conseguiu acalmá-la sem que precisasse levá-la a um hospital. Gabriele era a parte sua que tinha lhe restado e carregava a preciosidade que Bruna sabia que iria ajudar muito para que se recuperasse da perda do filho. Não poderia acontecer nada com ela.
- Não, só estou um pouco cansada.
A cerimônia do velório foi demorada, mas passou como um borrão pelos olhos de . A ida até o cemitério achou que não conseguiria, era totalmente diferente ver Miguel em um caixão e ver Miguel sendo colocado debaixo da terra, como se fosse possível, a dor aumentava muito mais. Abaixou os olhos, permitindo escorar o corpo completamente em sua mãe, mordeu os lábios fortemente, tentando não deixar que seu choro saísse mais alto, mas sentiu as mãos de Marieta apertar sua cintura enquanto seu corpo estava curvado para frente em um choro forte que ela tentava fervorosamente conter. Apertou a flor que segurava entre os dedos fortemente, respirando fundo quando reparou Bruna, Gerard, Dória e Edgar parados ao seu lado.
- , se quiser te levarei para casa. Lucas está de carro, podemos te levar sem problemas.
Dória disse olhando para o marido que andava um pouco mais à frente com Gabriele e Enrico.
- Não... Estou bem. Podemos ir.
Assentiram e voltaram a andar, parando perto do caixão. A pedidos de Gerard, o pastor dessa vez disse poucas palavras, logo, permitindo que algumas pessoas jogassem um pouco de terra por cima do caixão e outras jogarem flores. deu alguns passos para frente e jogou também sua flor, fechando os olhos fortemente se sentindo tonta e então tudo escureceu.
Tudo que insistia em acreditar até aquele momento tinha desmoronado.
Ele tinha morrido mesmo.
Miguel nunca mais voltaria.


*Bambina- Criança
*Pearl-Pérola
*Figlia-Filha
*Sorella-Irmã
*Mamma-Mamãe

Capítulo 4 – Parte 3

I've been living with a shadow overhead
I've been sleeping with a cloud above my bed
I've been lonely for so long
Trapped in the past, I just can't seem to move on
Hugh Grant & Haley Bennett - A Way Back Into Love



Os dias para simplesmente passavam, se arrastando monotonamente sem que acontecesse algo de real importância para fazer com que ela se sentisse um pouco melhor, não sabia se chovia ou se fazia sol, não sabia quando tinha comido ou o que tinha comido, ás vezes tentava se manter acordada por algumas horas, mas logo depois voltava a dormir. Algumas vezes Marieta, Edgar, um de seus três irmãos ou até mesmo seu cunhado iam até seu quarto para vê-la, mas sempre fingia estar dormindo, se pudesse dormiria para sempre, se libertar das perguntas, das respostas, dos olhares, todos diziam que precisava ser forte, mas ela não queria ser forte, queria ser ela mesma e naquele momento não era forte, não queria acordar e passar os dias normalmente, por que não estava normal, nada estava normal e não estaria nunca mais. Quando algumas arrumadeiras á via acordada perambulando pela casa ou pelo quarto diziam que iriam arrumar a cama ela nunca deixava, dizia que voltaria logo á dormir assim que encontrasse os remédios receitados pelo médico que á fariam dormir.
Por vezes acordava de madrugada esperando na janela o dia que Miguel apareceria e dizia que era tudo uma brincadeira, eles brigariam, mas logo ficariam bem por que ele estaria ali e só aquilo importaria, mas então os dias passavam, tornando semanas e logo meses e ele nunca aparecia e a cada dia se afogava um pouco mais em sua tristeza, não queria aceitar o que estava diante de seus olhos há alguns meses.

Ele não voltaria.
Nunca mais


Aquele dia tinha acordado pior que qualquer outro, a cabeça doía como se estivesse levado várias pancadas, a noite passada tinha sido a mais perturbada depois daquele dia, recheada de pesadelos que a faziam acordar assustada, em uma das vezes seu choro foi alto acordando seus pais e só conseguiu acalmar quando Marieta lhe abraçou forte sussurrando que iria ficar tudo bem, e entre lágrimas e soluços torcia fervorosamente para que ficasse mesmo, por que ela já não aguentava mais aquela dor, e assim foi até que conseguiu pegar no sono e em todas as vezes que acordava depois de um sonho perturbado Marieta estava ali sussurrando que ficaria bem.
Tateou a mesinha que tinha ao lado da cama em busca dos comprimidos tomando dois deles com o restante da água que tinha no copo da noite anterior, antes que engolisse e voltasse a fechar os olhos para dormir um flash em seu cérebro á fez abrir os olhos rapidamente.
Nathan. Seis de dezembro. Sessenta e sete.
Era o que Miguel tinha lhe dito um pouco antes de morrer, era uma pista, Miguel sabia quem tinha lhe matado e aquilo era uma ótima pista para começar uma investigação. Levantou correndo em direção ao banheiro cuspindo todo o remédio, fechou os olhos fortemente se sentindo tonta por ter levantado depressa, respirou fundo passando a palma das mãos nas lágrimas que escorriam pelas bochechas e se olhou no espelho alguns minutos. Os cabelos desgrenhados, olhos vermelhos rodeados por olheiras arroxeadas, seus lábios rachados e a pele ressecada, estava péssima, mas aquilo não iria continuar. Nada, nunca tinha lhe derrubado e mesmo que tenha perdido o amor de sua vida e a dor ainda lhe dilacerasse o peito, iria erguer a cabeça. Por que era forte e iria mostrar sua força. Iria fazer justiça pela morte de Miguel.
Separou uma calça jeans skinning de lavagem escura, uma blusa soltinha de alças finas verdes e um casaco de couro. Tomou um banho demorado se vestindo rápido e passou uma maquiagem clara finalizando com um batom vermelho, olhou para a cama sentindo a vontade de ficar por ali crescer, mas ela precisava se reerguer, por ela e por Miguel. Procurou o celular pelo quarto suspirando aliviada quando o encontrou jogado no canto com carga depois de tantos meses esquecido, calçou os saltos descendo as escadas devagar ouvindo a conversa baixa de Marieta e seus irmãos, parou na porta da cozinha se sentindo estranha por depois de tanto tempo ter saído do quarto arrumada daquele jeito. Parecia errado querer continuar vivendo. Alguma coisa dentro dela dizia que deveria continuar chorando e sofrendo pela morte de Miguel. Deu alguns passos para trás voltando para o quarto até ouvir a voz de sua mamma e parar no meio do caminho.
- Figlia?
Marieta caminhou a passos rápidos para perto dela, tinha os olhos transbordando lágrimas e um sorriso feliz no rosto. A voz alta de Marieta chamou a atenção dos irmãos mais novos de que estavam sentados á mesa tomando café, eles á olharam com um sorriso e ela sentiu-se bem por ver que eles estavam felizes por á verem se reerguendo, mas alguma coisa dentro de si dizia que ainda era errado estar ali.
- Você levantou!
Laura uma menina de quatorze anos, loira e com os olhos tão azuis quanto os da mãe disse sorrindo enquanto dava pulinho no lugar parecendo realmente feliz em vê-la, sorriu fraco assentindo se sentindo um pouco incomodada.
- Você vai levar a gente para o colégio hoje?
Eduardo o irmão mais novo de onze anos de cabelos ruivos como os de e Dória perguntou parecendo realmente querer que a irmã os levasse do mesmo jeito que fazia antes de tudo.
- Espere Edu...
- Não mama, eu levo. Não tem problema, eu já estava de saída.
- Mas... Você vai trabalhar?
Perguntou sorrindo fraco pegando uma das mãos de á sentando em uma das cadeiras da mesa lhe dando um copo com suco.
- Acho que sim, ainda não sei. Talvez eu vá até a casa de Dória, ou visitar Bruna, realmente não sei.
- Não quer que eu vá contigo?
- Não precisa, acho que preciso fazer algumas coisas sozinha.
- Claro, do jeito que você quiser.
Marieta sorriu olhando para a filha por alguns segundos. estava longe de estar bem, mas estava se esforçando e iria ajudar sua filha naquilo, iria vê-la como sempre foi, os últimos meses foram angustiantes para a família, a incerteza de que ela iria mesmo melhorar corroia o peito de Marieta, mas então quando achava que tinha piorado ela se ergue e mesmo que não consiga demonstrar que estava tudo bem ela sabia que sua figlia estava forte novamente, a morte de Miguel não foi o limite.
Todo o caminho de casa para escola foi preenchido por conversas e gargalhadas de Laura e Eduardo demonstrando o quanto estavam felizes por terem a irmã de volta, como sempre foi, algumas vezes deixava-se levar pelas brincadeiras e conversas, mas o sentimento de culpa se espalhava por seu corpo se arrependendo por se permitir tentar voltar ser feliz. Ela deveria voltar para o quarto e sofrer com a morte de Miguel.
Quando os irmãos desceram do carro ela respirou fundo sentindo o coração bater descompassado, ainda não sabia ao certo como fazer aquilo, mas iria até o departamento e faria de tudo para pegar o caso de Miguel, iria investigar e acharia o culpado, era o mínimo que poderia fazer por ele.



Saiu do carro tentando manter a atenção em suas passadas rápidas que a levariam para a sala de Edgar, e não nas pessoas que perambulavam por ali e á olhavam como se tivesse duas cabeças, tinha tentado voltar a trabalhar alguns meses depois da morte de Miguel, todos diziam que trabalhar seria ótimo para esquecer tudo e ajudaria á melhorar rápido, mas cada canto daquele prédio ela via um pouco de Miguel, em menos de duas horas ali dentro ela se via quase louca, saiu de lá chorando jurando para si mesma que nunca mais pisaria os pés naquele lugar que tanto lhe lembrava o amor de sua vida, mas ali estava ela, se monitorando para não correr os olhos por cada detalhe, se obrigando á não sair dali e voltar para o quarto para se enfurnar novamente debaixo dos edredons. Bateu levemente na porta esperando a permissão de seu pai para que pudesse entrar.
- Atrapalho?
Perguntou sorrindo sem graça e Edgar assustou com a voz da filha, sorriu feliz ao vê-la aparentemente bem e foi lhe dar um abraço. Ter ali era uma coisa que definitivamente não esperava, mas lhe deixava genuinamente feliz.
- Claro que não. Você, seus irmãos e sua mamma não me atrapalham em nada.
Disse rindo arrancando uma risada baixa e fofa de que logo foi interrompida pela culpa. Ela deveria voltar para o quarto e sofrer com a morte de Miguel.
- Aconteceu alguma coisa?
Perguntou levando para sentar em um das cadeiras.
- Não... Eu acho que não.
Disse um pouco sem graça e confusa. De uma maneira muito estranha parecia que não pertencia aquele lugar, como se estivesse passado anos dormindo e quando acordasse tudo estava diferente, mas ela continuava a mesma. Aquela sensação era angustiante.
- Está pronta para voltar ao trabalho?
- Sim... Acho que sim. A verdade é que queria conversar sobre outra coisa, na verdade fazer um pedido.
- Diga...
Riu fraco enquanto sentava um pouco mais confortável na poltrona, coçou o queixo observando o nervosismo de . Vê-la nervosa era estranho.
- Eu quero investigar o assassinato de Miguel.
- Não.
A resposta veio rápida e curta e se remexeu inquieta, sabia que não seria fácil convencê-lo á lhe dar o caso, mas se ainda existisse alguma coisa da antiga dentro de si, ela sairia daquele departamento sendo a nova detetive do caso.
- Papá...
- , não. Você ainda está se recuperando, mexer com tudo isso não vai te fazer bem.
- Não vai me fazer bem? Não me faz bem é viver sem saber se a morte de Miguel será justiçada, viver sabendo que o assassino dele está solto por aí. Isso não me faz bem.
Aumentou o tom de voz se levantando da cadeira. Será que ele não entendia?
- Já temos um investigador nesse caso, posso te dar outro,mas esse não.
- E já acharam alguma coisa? Tem alguma pista?
perguntou e sorriu satisfeita minutos depois com o silêncio de Edgar. Ela sabia que as investigações estavam quase paradas, por que o investigador mesmo sendo um dos melhores não conseguia achar nada que tivesse um real fundamento, nada que tivesse raízes concretas o suficiente para começar uma investigação.
- Não importa. Você não vai pegar esse caso.
Afirmou a encarando sério, mas ele parecia não conhecer a filha que tinha, ela conseguia tudo que queria. Ainda existia sim alguma coisa da antiga dentro dela.
- Se o senhor não me passar aquele caso, eu vou investigá-lo por contra própria e o senhor sabe que eu vou encontrar o culpado.
Seria péssimo para Edgar se fizesse mesmo aquilo e achasse o culpado, ela estaria fora da lei, mas se achasse o culpado as coisas não ficariam boas para ele. E ele sabia que ela encontraria.
- Tenho medo de que você sofra mais.
- Acredite, não tem como sofrer mais do que já estou sofrendo.
- Tudo bem. Te entrego os relatórios do caso hoje á noite.
Disse baixo coçando a nuca e sorriu feliz, depois de tanto tempo parecia realmente ser a coisa certa a ser feita. Abraçou Edgar dando um beijo em sua bochecha e quando estava se preparando para sair deu de cara com um homem alto que exalava poder, mas tinha um sorriso simples nos lábios e os olhos transmitiam carinho fazendo uma coisa dentro de e remexer lhe dando uma sensação boa.
- Desculpe, não sabia que estava ocupado.
- Pode entrar, Ebert, estava apenas conversando com minha figlia.
Edgar sorriu e os olhos de Ebert foram parar em si, ele a olhou sério por alguns segundos, mas logo abriu um sorriso que faz inconscientemente sorrir também.
- Prazer, Ebert.
Disse estendendo a mão para que logo a apertou.
- .
- Essa é Úrsula.
Apontou para uma mulher pequena atrás de si que olhava distraidamente a sala, mas ao ouvir seu nome voltou os olhos para e Edgar, e estranhamente se sentiu encantada. Úrsula era menor que ela e tinha o rosto parecido com de uma fadinha das historias que sua mãe lhe contava quando era criança, tinha a achado tão fofa que sentiu uma absurda vontade de apertá-la até que seus olhos saltassem para fora.
- Prazer.
Apertou a mãos dos dois rapidamente encarando por alguns segundos, como se tivesse achado o que estava procurando á muito tempo.
- Na verdade acho que é muito bom estar presente nessa conversa.
Edgar disse arrumando a gravata enquanto Ebert assentia devagar, ela encarou os dois com o cenho franzido achando aquilo estranho.
- Por quê?
- Ebert e Úrsula têm uma proposta para te fazer.
- Proposta?
- Sim. Queremos que vá trabalhar conosco.
- Trabalhar? Com vocês? Onde?
- No departamento do FBI em Nova York.
- Nova York?
- Sim.
Disse sorrindo, mas parou logo que viu negar com a cabeça.
- Não.
- Figlia, vai ser bom pra você, sair daqui, trabalhar com outras pessoas, vai te fazer bem.
Claro que seria ótimo, ser chamada para trabalhar no FBI era ótimo, sair daquele lugar que tanto lembrava Miguel em parte era bom, mas não podia deixar todas as lembranças pra trás, não podia largar o caso dele.
- Peguei um caso para investigar agora, ele é muito importante para mim... Desculpem-me, mas não.
- , estamos querendo montar uma equipe policial, você e mais três mulheres, irão resolver vários casos em vários países, você pode continuar com sua investigação, quem sabe o destino coloca o assassino no seu caminho?
Úrsula disse baixinho e teve vontade de xingá-la por ser tão fofa e ter um jeito de falar tão diferente, como se vivesse uma aventura em cada palavra, se sentiu tentada á aceitar, mas aquilo parecia errado, parecia injusto ir e deixar toda aquela dor para os pais de Miguel carregarem sozinhos.
- Não acredito em destino.
- Leve meu cartão, pense, quando tiver a resposta me ligue, mas se me permite dizer, eu tenho a plena certeza que você irá aceitar.
pegou o cartão saindo quase correndo da sala se sentindo extremamente incomodada com a fofura daquela mulher.
Dirigiu até a casa de Dória remoendo toda aquela conversa que tivera mais cedo. Parecia errado aceitar, era como se aceitar fosse deixar para trás tudo que também se referia á Miguel, como se fosse ignorar os melhores anos da sua vida. A sensação de querer seguir em frente parecia extremamente errado e aquilo era horrível. Antes de descer do carro se encarou algum tempo no espelho, a que tinha visto mais cedo tinha a assustado, não queria ela de volta, nunca mais. Acenou para o porteiro do prédio e acelerou os passos para entrar no elevador junto com uma senhora, apertou o número do andar de Dória e esperou respirando fundo algumas vezes, tinha pavor de elevador, preferia as escadas, mas ainda sentia o corpo implorar para continuar deitada e subir os lances de escada até o sexto andar não parecia muito convidativo.
Apertou a campainha algumas vezes ate que um tempo depois ouviu um miado e o barulho de chaves. Dória abriu a porta com os olhos fechados, vestia uma camisa que cabia quase duas dela, tinha os cabelos desgrenhados e parecia ter passado a noite acordada.
- Te acordei?
Perguntou baixo vendo a irmã arregalar os olhos e abrir um sorriso.
- Não... Sim... Não importa. Eu não acredito que você ta aqui, vem entra.
A puxou para dentro do apartamento sentando de frente uma para outra no sofá grande. Dória a encarou por um tempo não acreditando que finalmente estava vendo sua irmã ali, a envolveu em um abraço apertado sentindo os olhos marejarem, temia nunca ter a irmã de volta e vê-la ali parecia um sonho.
- Ainda não acredito que você está aqui.
- Eu também não, na verdade ainda é um pouco estranho tudo isso, mas eu...
Parou por um instante ponderando se era bom contar a pista que tinha para Dória, mas preferiu guardar para si, ainda não era uma certeza.
- Eu peguei o caso de Miguel, eu vou investigar.
- Mas... Você não acha que isso pode te fazer mal?
- Não. Investigar e encontrar o assassino eu acho que é a única forma de tirar um pouco esse peso que to sentindo no peito. Eu quero fazer justiça Dória.
- Você vai conseguir. Eu sei que vai.
Disse sorrindo pegando nas mãos de entrelaçando entre as suas, ela tinha certeza que Dória lhe apoiaria em tudo que fosse fazer, mas o que ela diria se dissesse que estava pensando em ir embora? Será que iria apoiá-la?
- Lucas está ai?
- Não, já foi para o trabalho.
- E você vai trabalhar hoje?
- A não, fiz plantão e hoje é minha folga.
- Então aceitaria tomar um café comigo e quem sabe fazer algumas coisas diferentes?
- E essas coisas diferentes seriam?
- Ir á um salão cortar o cabelo...
Dória sorriu com os olhos brilhando, amava o cabelo comprido da irmã, mas mudar o visual ajudaria e muito em recomeçar.
- Gostei.
- E fazer uma ou duas tatuagens quem sabe.
Encolheu os ombros sorrindo fraco enquanto Dória arregalava os olhos
- Isso sim é uma coisa diferente. Só preciso tomar um banho, prometo que não demoro.
Disse enquanto corria pelo apartamento para tomar banho arrancando um riso baixo de que ignorava fervorosamente a culpa que fazia seu peito apertar. Precisava recomeçar e mesmo que talvez fosse do jeito errado, ela estava tentando.



Os cabelos repicados que agora batiam um pouco abaixo dos ombros junto com uma franja desfiada jogada de lado continuavam em sua cor normal, tinham mais balanço e a deixavam com uma aparência mais jovem, as tatuagens uma na costela abaixo dos seios com os dizeres "Una nuova speranza'' e um laço pequeno e delicado no dedo anelar esquerdo ainda estavam um pouco doloridos, mas a tinham deixado bastante satisfeita, queria ter Miguel marcado em sua pele e aquelas tatuagens estariam ali para o resto de sua vida.
- Cabelos cortados, tatuagens feitas, mas tenho a impressão de que quer me contar alguma coisa.
Dória sorriu enviesado enquanto bebericava seu suco de uva, por mais que quisesse passar o dia fazendo compras com a irmã, ela sabia que ainda não estava preparada para ter aquilo, então depois de muitos pedidos e milhões de promessas conseguiu convencê-la á pararem em um bistrô de comidas típicas, almoçarem juntas e logo depois irem embora. pensou por um tempo. Contar para Dória seria bom por que á cada segundo que se lembrava da conversa sentia mais atentada á aceitar, mas sentia também culpa.
- Fui chamada para trabalhar no FBI em nova York.
- FBI? Em Nova York? Mas isso é ótimo. Como aconteceu?
- Eu estava conversando com pappà hoje no departamento e chegou um conhecido dele junto á uma mulher. Parece que vão montar uma equipe de policiais e me querem nessa equipe, não entendi muito bem...
- Mas...
- Mas parece errado aceitar, parece que se eu aceitar eu vou estar rejeitando a dor de perder ele e parece errado não sofrer pela morte dele.
- Não pense assim, vai ser ótimo para sua carreira, vai te fazer bem.
- Mas e Bruna e Gerard?
- Se esse é o problema, vá conversar com eles, mas tenho certeza que eles dirão a mesma coisa que eu.



Arrependeu-se de estar ali no primeiro segundo que pisou na sala espaçosa da casa da família Basso. Aquele era o último lugar que deveria ir, guardava recordações boas, mas que no momento eram dolorosas. Os móveis não estavam mais na mesma posição de antes, mas cada canto, cada pequeno lugar daquela sala tinha histórias que por muitas vezes os olhos de Miguel brilhavam quando dizia que contariam para os filhos que iriam ter. Bruna estava demorando, a empregada disse que não demoraria á descer, mas já faziam mais de vinte minutos, não queria ficar muito tempo sozinha, aquelas lembranças faziam sua garganta apertar e o ar lhe faltar. Aquilo era angustiante demais.
Os olhos de marejaram, o estômago se contorceu e as pernas ficaram bambas. Não deveria ter ido naquela casa, não deveria ter saído da cama naquele dia. Era tudo um erro, ela nunca iria conseguir superar Miguel, nunca conseguiria seguir em frente, ele tinha feito parte de toda a sua vida e acordar sem ele, passar um dia sem ele, fazer planos sem ele era estranho, era incompleto. Ela tinha que sair dali.
- Querida, me desculpe à demora, mas esse garotinho precisava de um banho.
Bruna entrou sorridente segurando um garotinho gordo de bochechas rosadas e cabeludo, tinha a expressão muito séria e passava os olhos pela sala como se estivesse em um profundo tédio.
- Aconteceu alguma coisa ? Está se sentindo bem?
Perguntou com o cenho franzido observando as mãos de tremerem e os olhos marejados.
- Não aconteceu nada. Eu só...
As palavras morreram em sua boca quando seus olhos encontraram os olhos do garotinho. Aqueles olhos eram os mesmos olhos que ela passou a vida inteira venerando, se não soubesse que aquele menino era o filho de Gabriele ela poderia afirmar com toda a convicção de que era filho de Miguel. Ela precisava sair dali. Não podia ter pisado naquela casa tão cedo, não estava preparada ainda, eram lembranças demais, emoções que ainda não conseguia controlar e tudo aquilo á fazia mal.
- Eu preciso ir embora.
Balbuciou com os olhos marejados passando as mãos pelos braços se sentindo perdida.
- Não. Por favor, não vai embora.
Bruna pediu angustiada se aproximando devagar. negou com a cabeça limpando uma lágrima teimosa que descia pela bochecha não desviando os olhos dos olhos do garotinho que agora á encarava com atenção, como se á conhecesse á tempos.
- Não consigo...
Falou com a voz embargada e Bruna se aproximou mais um pouco.
- Sua mamma me ligou hoje, me disse que você tinha levantado, estava mais disposta. Fiquei com tanta vontade de te ver, depois de tudo aquilo nunca mais te vi e foi como tivessem arrancado Miguel de mim duas vezes. Quando Dylan nasceu achei que você viria vê-lo, mas você nunca aparecia e então eu ia te procurar, mas nunca conseguia te ver. Eu fiquei tão preocupada.
- Me desculpa.
Disse baixinho abaixando os olhos se sentindo a pior pessoa do mundo. Escondeu-se em seu mundo, mergulhando em sua dor, esquecendo-se que existiam pessoas que estavam sofrendo tanto ou mais que ela. Tinha sido egoísta, Miguel não tinha deixado apenas ela, tinha deixado pessoas que o amavam, que ele era o mundo delas.
- Não... Não quero que entenda o que eu disse como uma coisa ruim, não quero que se sinta mal, quero te mostrar que te amo como minha filha e que mesmo que Miguel não faça mais parte da nossa vida você ainda faz parte dela. Olha, Dylan tem os olhos dele.
Bruna se aproximou mais um pouco passando a mão que não segurava o garotinho por um dos braços de , a ragazza fungou ainda com os olhos baixos se negando á olhar de novo para Dylan, era perturbador demais, mas então o menino soltou um gritinho fino e jogou as mãozinhas nos braços de , ela ergueu os olhos rapidamente e sentiu o coração desacelerar aos poucos, os olhos dele já não á perturbavam mais, lhe traziam paz, a mesma paz que os olhos de Miguel lhe trazia, o garotinho tinha um sorriso preguiçoso nos lábios como se não quisesse rir, mais estava acontecendo algo de engraçado demais para que ele ficasse sério.
- Acho que ele gostou de você. Ao contrário de Gabriele e Enrico ele não é muito sociável, são pouquíssimas vezes que ele sorri para alguém.
Sem perceber estava com o menino nos braços sentada em um dos sofás, sorriu encantada quando Dylan coçou os olhinhos e bocejou. Olhou para Bruna sentada ao seu lado que encarava os dois sorrindo.
- Como à senhora está?
- Estou bem. Gabi deixa Dylan comigo enquanto ela e Enrico trabalham, ele me distrai muito. E você como está?
- Estou me recuperando.
- Isso é bom. Cortou o cabelo, está maquiada, isso é ótimo para sua recuperação. Está até mais bonita.
Gracejou arrancando uma risada baixa dela. Ela sabia que não estava linda, não tinha como estar mais bonita, mas ouvir aquilo animou um pouco .
- A senhora não acha errado?
- Errado?
Bruna franziu o cenho, achando estranho a mudança de assunto.
- Eu tentar seguir em frente sem o Miguel. A senhora não acha que eu deveria estar sofrendo a morte dele?
- Sofrendo? Mas... Claro que não! Você é nova tem que seguir em frente, Miguel não vai mais voltar e não é justo você ficar sofrendo por isso, ele está morto, mas você ainda está viva.
- Então... Se eu aceitar uma proposta de trabalhar em Nova York... Está... Está tudo bem?
- Dio mio, que maravilha! Lógico que vai estar tudo bem, tudo que eu mais quero agora é que você siga sua vida e seja feliz, eu sei que não vai ser com o meu Miguel, mas você vai conhecer alguém que te mereça, que vai te fazer tão bem quanto o meu bambino te fez. Mas me conta isso direito. Nova York é muito longe.
- Um amigo do meu pappà, ele trabalha no FBI e me convidou para trabalhar lá, mas eu disse que não aceitaria então não sei de muita coisa.
- Como não vai aceitar? Lógico que vai aceitar, isso será ótimo para sua carreira e sair daqui vai te fazer bem.
Esticou-se pegando o telefone e oferecendo para .
- Toma. Liga para eles e diga que vai sim. Isso é a melhor coisa que poderia ter acontecido nos últimos tempos.
Encarou o telefone ainda em duvida, mas logo pegou discando os números rapidamente enquanto Bruna pegava um Dylan já adormecido de seus braços. Depois de alguns toques que fez quase desistir e desligar o telefone a voz de Úrsula foi ouvida.
- Oi?
- Úrsula? Sou eu, .
- Oi , tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Tudo bem, eu só queria dizer a vocês minha decisão.
- Mas já? Se quiser alguns dias para pensar, nós ainda iremos ficar um pouco mais na cidade...
- Eu não quero pensar mais... Eu aceito.


Continua...

Nota da autora: A partir de agora a historia realmente vai começar. Elas vão se conhecer e vocês vão começar a entender bem a historia. Espero que estejam gostando até aqui e que continuem fazendo parte dessa aventura comigo.
Beijos, Ells.

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