Saco de Ossos

Autora: Andy R. | Beta: Babs

Prólogo:

Londres, anos antes.

Enzo West sabia muito pouco sobre o detetive . Se contasse a última semana, poderia dizer que estavam na mesma equipe há um mês, não muito mais que isso. O curto tempo, porém, não significava que Enzo não pudesse ter conhecido o pior e o melhor lado do novo companheiro de equipe.

era um homem extremamente peculiar. Cheio de energia, novo no cargo e ótimo investigador, não deixava detalhe sequer para trás e parecia levar todos os casos para o lado pessoal. Não se esforçou muito para agradar os novos colegas de equipe quando foi transferido para a Divisão de Homicídios, mas acompanhava o ritmo das investigações melhor que a maior parte dos novatos que Enzo vira passar por aquela parte da Scotland Yard.

Ele era muito ágil e dominava uma linha de raciocínio invejável para qualquer um naquela profissão, mas era pouco sociável e extremamente indelicado na maior parte das situações. Parecia o tipico jovem inexperiente e egocêntrico que adotava a pose de gênio incompreendido toda vez que alguém se mostrava menos brilhante que seu cérebro super-desenvolvido. Enzo conhecia muito bem o tipo.

Na noite em que a terceira vítima do Colecionador foi encontrada, estava do outro lado da cidade, trabalhando em um caso que havia sido deixado sob sua responsabilidade pelo próprio Enzo. West pensava que se se ocupasse com perguntas a respeito de outro mistério, não iria se meter no caso do maluco que deixava sacos de ossos para trás.

Obviamente, estava errado.

O Colecionador havia fascinado de uma maneira quase preocupante e o detetive sempre espiava os avanços das investigações. Parecia que, para ele, tentar desvendar aquele enigma era um ótimo passatempo. Enzo nunca procurou entender as suas motivações por medo do que poderia encontrar.

Já passava das duas da manhã quando o perímetro finalmente terminara de ser montado. As pessoas haviam sido afastadas de possíveis provas, mas para o azar da perícia havia chovido muito durante toda a noite e uma grande poça de água se misturava ao sangue dos restos do corpo da vítima, levando evidências ao bueiro mais próximo. West estava usando a sua capa de chuva transparente enquanto comandava os encarregados de montar a tenda sobre o que muitos poderiam chamar de cadáver, esperando salvar um pouco de sua integridade, quando parou ao seu lado e acendeu um cigarro.

— Mais uma vítima? — perguntou . Enzo sempre se surpreendia com o fato de sua aparência jovem não influenciar a frieza de suas palavras. parecia um experiente detetive de cinquenta anos toda vez que abria a boca; quando fechava, voltava a ser apenas o novato da divisão.

— Mais uma. — confirmou, mas logo acrescentou: — Você não deveria estar aqui, . Te coloquei no comando de outro caso.

fez uma careta. Os pingos da chuva forte escorriam pelos seus ombros e desciam por toda a extensão do sobretudo negro que ele usava, o cigarro úmido falhando por não resistir à água. era tão viciado em nicotina que não parecia se importar com nada daquilo e apenas soprava o pouco de fumaça que conseguia puxar contra o frio da noite.

— Ah, A Garota Desaparecida de Stockwell — disse com certo rancor. — Me deu trabalho, mas já sei o que aconteceu.

Enzo ficou curioso.

— De onde você tirou Stockwell?

— Logo, chefe, você saberá.

Enzo pensou em insistir, mas seria inútil. gostava do drama que cercava o decifrar de um enigma da maneira mais literal possível.

Há menos de duas semanas o detetive havia montado uma apresentação de slides com perguntas e eliminatórias feitas apenas para apontar um culpado no meio de uma multidão. Foi uma confusão quase irreparável que estragou a festa de 15 anos da namorada do assassino e que fez Enzo nunca mais duvidar dos limites artísticos de .

West não precisava de outro escândalo como aquele o assombrando em um intervalo tão curto entre ações, então deixou o mais novo companheiro de equipe trabalhar do seu próprio modo, pois daquele jeito ele parecia menos propenso a fazer besteiras.

Quando a tenda finalmente foi montada, e Enzo se acomodaram em seu interior para ver o corpo com mais atenção. Colocaram as capas higiênicas e as luvas e se abaixaram ao lado dos restos de pele sobre o chão. Havia resquícios vermelho do sangue remanescente pincelando o asfalto, fios de cabelo e unhas soltos ao redor do tecido escuro da pele da vítima e um cheiro realmente desagradável de morte e chuva impregnado no ar.

— Como alguém é capaz de fazer uma coisa dessas? — perguntou Enzo.

deu de ombros e puxou um pedaço de pele com uma das pinças plásticas fornecidas pela perícia. Ao observar melhor, percebeu que ela havia sido retirada do corpo da vitima do mesmo modo que alguém poderia retirar a casca de uma batata. Era nojento e perturbador.

não sabia qual era a intenção do assassino com aquilo, já que o principal foco de suas ações parecia ser o saco de ossos dramaticamente entregue para a polícia sempre que uma garota desaparecia.

— Estamos progredindo aqui — comentou de um modo sombrio. — Geralmente não recebemos nada que nos ajude a identificar a vitima. Dessa vez recebemos a pele das mãos... Há digitais ali. Ele está começando a quebrar padrões.

Quando Enzo murmurou algum som de entendimento, se levantou e deu espaço para o fotógrafo fazer o seu próprio trabalho. Precisando de ar e querendo fugir da recente aglomeração de pessoas dentro da tenda, voltou para a chuva e tentou não sentir nenhum tipo de revolta com os curiosos que se sobrepunham às faixas da polícia, querendo informações. Estava realmente frio para que aquilo fosse compreensível. , se tivesse a opção, estaria em casa, com sua esposa, e não tomaria chuva para encontrar a melhor visão de um cadáver qualquer.

O detetive se afastou da confusão, pensando sobre onde estaria a segunda remessa de presentes do Colecionador para a polícia. sabia muito bem que depois de rins, corações e pele vinha a cereja do bolo, o ápice do espetáculo esperado pelo público. Por isso foi mais afundo no beco, onde a luz era precária e as gotas de chuva que batiam sobre o telhado do prédio antes de atingir o chão eram menos constantes. Ali não havia ninguém, apenas o aspecto úmido de uma londrina noite fria.

Enzo, às suas costas, havia deixado a tenda também e chamava pelo nome do detetive, curioso, mas estava focado demais para desviar a atenção da trilha de sangue que parecia um caminho de migalhas de pão, muito tentador para ser ignorado.

Ele foi até onde começava a mancha vermelha escura e andou em passos cuidadosos por toda a sua extensão. Suas mãos estavam dentro de seu sobretudo, os cabelos molhados pela chuva caíam sobre os seus olhos e faziam pequenas gotas escorrerem pelo seu queixo.

Nada daquilo o atrapalhou, porém, quando precisou identificar o saco de tamanho médio e cor amadeirada posto atrás de uma grande lixeira industrial. Ele conhecia aquele método, por isso assobiou para que alguém fosse até ali coletar a prova.

Não era a primeira vez que aquele assassino deixava um saco de ossos para trás.



01 – O DIÁRIO

A fumaça que saiu dos lábios do homem sumiu dentro da noite fria em menos de um segundo, deixando para trás apenas o odor característico dos cigarros britânicos que gostava de fumar. Fora aquilo, a única coisa que entregava a presença do homem no estacionamento subterrâneo da sede do FBI em Las Vegas era o bater de pés extremamente nervoso que ele insistia em comandar. O barulho ecoava pela estrutura do prédio como o tic-tac de um relógio com defeito, alertando de que era muito tarde; sempre a esperava sair para levá-la para casa, batendo os pés quando a mulher se atrasava demais.

— Eu não preciso de um detetive bêbado me seguindo todas as noites, . — provocou. jogou o cigarro no chão, pisou sobre ele e riu.

— Eu concordo e acrescento que, na verdade, você precisa de um exército de s bêbados te seguindo todas as noites — respondeu, seu tom sarcástico soando forte demais. o olhou ofendida. — Eu não tenho culpa de que a parceira que me deram para o maior caso da minha carreira é um grande ímã para confusões. Tenho que ficar de olho em você.

— Você ainda acha graça na situação?

balançou a cabeça. Era difícil para saber quando o homem estava brincando ou não. Ele costumava ser frio em relação a alguns assuntos. A mulher sempre acabava tendo que perguntar para ter certeza, e sempre acabava se arrependendo daquilo.

Era assim há dois anos, desde que começaram a trabalhar juntos, e provavelmente seria para sempre. devia ter lido com mais atenção os avisos da Scotland Yard sobre o homem; agora, não tinha mais volta. Ela estava presa a ele e ele a ela até que o Colecionador fosse preso. E aquilo poderia nunca acontecer.

— Só estou dizendo que ser abordada por duas vítimas do Colecionador no mesmo mês é motivo para que eu tenha uma precaução dobrada a seu respeito — respondeu . Ele tinha um ponto.

Era realmente estranho o que vinha acontecendo com . A mulher nem ao menos sabia como explicar a situação quando alguém perguntava. Ela sempre acabava ficando confusa, tremendo ao se lembrar de quando estava chegando em casa e uma garota de dezessete anos caiu aos seus pés, manchando o tapete de boas-vindas da entrada principal de sangue. não conseguiu salvá-la e a garota morreu em seus braços, na porta da sua casa, enquanto pedia ajuda. A polícia foi chamada, uma busca foi feita ao redor local, mas nada realmente foi encontrado até a semana seguinte, quando o acontecimento se repetiu e uma segunda garota morreu nos braços de . Desde então mais nada havia perturbado a detetive, mas ela sabia que a paz não duraria muito.

— Eu acho que é tudo uma grande coincidência. Elas devem estar presas em algum local ao redor e, ao conseguir fugir, no meio do deserto e sem muitas opções, acabaram me encontrando.

O discurso era ridículo quando saía de sua boca, mas queria acreditar que era real. Se o colecionador estava mandando garotas para morrer em seus braços propositalmente, só queria dizer que ela era, de alguma forma, um alvo; e que mais presentes estavam por vir.

— Ele quebrou padrões por você, — repetiu com ênfase, querendo fazê-la ver o quanto aquilo era importante. — Isso não é coincidência — então a guiou para o banco esquerdo do carro.

A mulher ficou em silêncio dentro do veículo até que desse a volta e sentasse do outro lado. Era cansativo que todas as noites tivessem aquela conversa, mas parecia necessário. Quanto mais discutissem sobre as intenções do Colecionador, mais perto estariam de descobrir quais elas eram.

Quando saiu do estacionamento e tomou a rodovia principal, ligou o rádio para ouvir as notícias gerais. O costume havia nascido assim que ele chegara de Londres, na tentativa de se adaptar ao caos da América. As coisas andavam sempre muito rápidas por lá e o detetive queria tentar acompanhar todos os acontecimentos. O homem sentia falta de saber tudo sobre todos os cantos da cidade em que morava; a sensação de realmente pertencer a um lugar havia sumido desde que deixara a Scotland Yard. Buscar aquilo na América parecia um trabalho perdido. Mas ele tentava.

, com a mente em um lugar bem longe de Londres, apoiou a cabeça no vidro da janela e observou a areia do deserto sujar o para-brisa. Odiava a vista daquele lugar, o vazio enjoativo que só sumia quando as luzes da cidade brotavam no horizonte. Por outro lado, havia certa segurança na ideia de que estava sozinha, no meio do nada, sendo a única moradora de um condomínio ainda em construção no fim da rodovia principal. Era como se daquele jeito ninguém nunca fosse encontrá-la, apesar de já ter acontecido duas vezes.

— Talvez não seja o mesmo homem — pensou .

O psicopata que havia perseguido anos antes deixava sacos de ossos, não vítimas inteiras e vivas. Não fazia sentido que ele tivesse mudado tudo tão drasticamente. Tinha que ser um imitador ou até mesmo um mal-entendido no perfil traçado pela polícia. só não havia descartado completamente a ideia de que aquele era o mesmo homem que atuava em Londres, por causa de . Com a exceção de um homem chamado Enzo West, o detetive fora o único a ter um passado com o Colecionador. Aquilo fazia dele um perito no assunto e apenas uma pessoa que havia acabado de entrar na discussão.

— Garanto que é a mesma pessoa — respondeu com convicção. Só aquilo fora o suficiente para fazer confiar na palavra dele.

balançou a cabeça, vendo a sombra do condomínio surgir por entre a areia. diminuiu a velocidade para passar pelo portão principal, algo que a surpreendeu, porque nunca o havia visto ser cuidadoso na direção.

atrás de um volante tinha a sensatez e a noção de um elefante cego pilotando um avião, ou algo do tipo. A maior prova era o número de arranhões e amassados distribuídos pelo Dodger Charge que ele dirigia — um carro que o detetive procurou por meses quando chegou aos Estados Unidos e precisou de um veículo. Segundo , aquele era o único carro que ele sabia dirigir; imaginava como ele se saia com outros modelos...

As ruas de pedras do condomínio estralavam embaixo das rodas do carro, revelando o quão despreparado para receber visitantes o lugar era. Havia poeira e falta de iluminação por todos os lados, sacos de cimento e materiais de construção espalhados dentro de zonas específicas. morava ali há anos, e há anos o lugar estava em reforma. Por aquele motivo não havia vizinhos ou interessados na compra dos imóveis — o que a mulher achava bom, internamente, porque gostava da paz que a solidão proporcionava.

— Obrigada — agradeceu ao abrir a porta do carro. balançou a cabeça e observou através do vidro sujo de areia a mulher seguir para a porta de entrada da casa.

Todas as noites ele esperava que ela já estivesse lá dentro para sair. Então ele seguia pelas outras sete ruas do condomínio vazio, olhando o interior das casas nas duas primeiras noites e apenas o exterior nas posteriores.

suspeitava que o assassino estivesse por ali, em algum lugar, espreitando, esperando para trazer o caos à tona uma terceira vez; talvez até mesmo estivesse escondido ali, com suas vítimas, o tempo todo. Era o lugar perfeito, não era? Então por que não usá-lo? Ele parecia ser o tipo de pessoa destemida e ousada o suficiente para brincar com estando bem embaixo do nariz da mulher. Procurá-lo era o mínimo que podia fazer.

?

O detetive acordou, vendo que não havia entrado em casa. Ela estava parada de frente para a porta, olhando o chão, chamando o nome do parceiro de equipe em um tom atônito e quase alarmado. desceu do carro e correu até ela, seguindo o seu olhar para os próprios pés quando percebeu que ela estava vidrada.

— O que é isso? — ele perguntou.

balançou a cabeça e tirou um par de luvas do bolso interno do blazer negro que usava. Era um costume da profissão.

— Não faço ideia — ela respondeu. — Mas tem manchas de sangue.

Então se ajoelhou à frente do objeto e, já usando as luvas, recolheu o caderno gordo e sujo largado sobre o tapete de boas-vindas de sua casa, deixando terra junto às manchas de sangue já remanescentes no local. não havia tido tempo de comprar outro ou até mesmo de se incomodar com aquilo uma vez que quase não parava em casa — e nem tinha vizinhos para se assustar com o vermelho na figura convidativa do objeto.

A mulher folheou o caderno até a última página, parando nela por um tempo. ficou inquieto e curioso.

— O que está escrito? — perguntou.

— Parece que é um diário — disse ela, e, depois de olhar uma inscrição na contracapa, completou: — O diário de Christine Roberts.

O nome pareceu atingir os dois como um soco. Ele causava um pesar quase sufocante, deixando-os tensos ao pensar que Christine Roberts havia sido levada pelo Colecionador juhá quase dois anos, sendo a sétima vítima do homem que havia enganado tanto o FBI quanto a Scotland Yard. Aquele nome era o motivo de estar ali, fora de sua cidade natal, ajudando a polícia americana a capturar um problema inteiramente britânico. Ela havia sido a primeira garota de Las Vegas a ser levada dentro dos padrões do maníaco que muitos achavam ter morrido há anos; a primeira de três, e a única que ainda não havia sido encontrada.

— A nossa Christine?

sentiu um calafrio percorrer a sua espinha antes de responder. Christine não era deles; Christine não era nem de si mesma há pelo menos dois anos.

— A Christine do Colecionador de Ossos — respondeu, fechando o caderno e olhando para o detetive com um medo extremamente conhecido estampado nos olhos.



Continua...

Nota da Autora: Oi, gente, espero que tenham gostado! Não se esqueçam de comentar e entrar no grupo. Um beijo pra família do Ficcionando ❤
Grupo.

Confira outras fics da Andy.

Nota da Beta: OBA mais um mistério pra gente desvendar antes do Harry!! HAHHAHA comecem a anotar pistas!!!
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.