Autora: Andy R. | Beta: Babs



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Capítulo 22

— O que ele disse?

se levantou do banco assim que saiu da sala. Ela estava com a postura extremamente ereta e uma expressão de quem queria vomitar. Olhou para o detetive e fez sinal negativo com a cabeça, como se lamentasse:

— Ele não disse nada.

— Como assim?

— Nem uma única palavra. Apenas ficou ali, sentado, me olhando — um arrepio pareceu passar pela sua espinha.

— Não faz sentido.

concordou com a cabeça, silenciosa e pensativa. Parecia nervosa, inquieta, e não sabia dizer se era efeito colateral do dia estressante ou se a mulher estava escondendo algo. Decidiu, então, testá-la:

, pode me contar qualquer coisa. Confie em mim.

A psicóloga levantou os olhos, visivelmente em conflito com alguma voz interior. Olhou para os lados, para a porta da sala de interrogatório fechadas às suas costas e para o corredor vazio. Engoliu em seco quando uma dupla de agentes desconhecidos saiu de uma das salas e passou perto dos dois.

— Não aqui — disse. Parecia nervosa.

— Onde, então?

— Me encontre na Trafalgar Square, às 21:00.

Saiu antes que pudesse questionar, com pressa, quase angustiada, deixando curioso sobre o que ela poderia querer contar a ele que exigisse uma conversa em particular.

— Isso foi perda de tempo. — Aquela frase viera de Enzo, que saía da sala de observação. — Nada útil.

— O que houve lá dentro?

— Não importa. O médico chegou e está no andar de baixo. Levaremos o suspeito até a enfermaria para tentar remover aquela máscara. Espero que dê certo.

queria saber o que havia acontecido entre e o Homem Mascarado, mas Enzo não parecia nem um pouco propenso a revelar. O detetive imaginou que a conversa marcada por na praça teria alguma coisa a ver com o assunto, portanto deixou de lado, continuando:

— Eu não sei você, Enzo, mas estou louco para ver a cara do desgraçado.

O chefe, que já andava em direção ao elevador, parou e encarou :

— Você não vai ver a cara de ninguém, na verdade. Está fora do caso. Volte para a sua casa e aproveite as férias.

quase engasgou. Claro que achava que teria o direito de ver tudo de dentro e com prioridade, afinal ele era o . Mas estava suspenso e certos privilégios agora não passavam de boas lembranças.

— Isso não é justo! — protestou. — Eu o capturei! Marie estaria morta se não fosse por mim.

Enzo sorriu.

— Se está tão preocupado com Marie Spilman, , faça companhia à ela enquanto seus pais não chegam — apontou para a garota, que estava sentada no mesmo banco que estivera a tarde toda. — Garanta a segurança da donzela.

xingou baixo quando Enzo se afastou. Virou-se e começou a andar na direção de Marie, sentando-se ao seu lado no banco do corredor. A menina parecia estar com os pensamentos longe.

— Tudo bem? — perguntou. Ela fez que sim com a cabeça. — Você mandou bem naquele lance da árvore.

A pequena Spilman virou o rosto para ele lentamente, dando de ombros.

— Vi em Jogos Vorazes. É uma ótima tática de sobrevivência quando se está sendo caçado.

— Eu nunca vi esse. É o dos bruxos?

Marie franziu o cenho e riu. Um riso inesperado para o policial.

— O quê?! — ele perguntou.

— Você nunca viu Harry Potter? Tipo, "Harry" Potter!

— Não.

Esse é o dos bruxos.

— Então não tem bruxos em Jogos Vorazes — concluiu, e parecia uma revelação extraordinária.

Marie riu outra vez, mas agora não houve tempo para explicações, pois Constance Spilman apareceu no fim do corredor, andando de forma dura com os cabelos cor de fogo deixando rastros no ar. Estava acompanhada de um homem que julgou, pelo terno barato, ser o segurança.

— Vamos — ela ordenou que Marie levantasse. — Tenho que te tirar deste lugar.

A menina ficou em pé em um pulo, e a acompanhou um tanto mais lentamente, cumprimentando Constance e recebendo um olhar duro como resposta.

— Eu quero que você fique longe da minha filha. Está me entendendo?

O detetive a olhou surpreso e levemente confuso. Sua expressão deu a deixa que Constance precisava para continuar:

— Pessoas morrem à sua volta. Lugares explodem, assassinos simplesmente aparecem em escolas com segurança elevada. Você atrai problemas demais, , e já que não está mais na Scotland Yard, eu quero que fique longe da minha família!

estreitou os olhos, entendendo a situação. Constance parecia tão confiante que ele cogitou, por um segundo, levar como verdade tudo o que ela dizia, mas seu orgulho e sua língua afiada não permitiriam aquilo.

— Quer falar de perigo, Sra. Spilman? Por que não começamos com o fato de uma de suas filhas ser sido perseguida por um maluco de máscara pouco tempo depois da outra ter se suicidado? Me parece uma situação muito estranha para alguém que alega tão fortemente ser dona do sobrenome mais poderoso da cidade! A verdade, acredito, é que não sabe cuidar da sua própria família, e o que aconteceu hoje é a prova.

Constance segurou a mão da filha de uma maneira forte e protetora, olhando o detetive como se ele fosse a maior ameaça do mundo. Seus olhos ardiam com uma espécie de ódio que, para , deveria ter levado anos para ser acumulado.

— E o que sabe sobre cuidar de uma família? — perguntou a mulher, com o tom controlado. Ela não se exaltou, apenas lançou o questionamento de uma maneira que sabia que afetaria o detetive da pior maneira possível.

Quando ficou sem respostas, deixando bem claro que não esperava algo tão cruel, Constance se retirou, arrastando a filha consigo. Marie olhou para o detetive como se pedisse desculpas pela mãe, e ele sorriu como se dissesse que não era a sua culpa. Quando ficou sozinho, voltou a se sentar no banco, observando o chão encardido do prédio e imaginando como as coisas andariam dali por diante. Sua cabeça girava ao redor do que a matriarca dos Spilman poderia saber sobre a sua família e o quão demoníaca aquela mulher era.

Então, acordando-o, três homens uniformizados apareceram no fim do corredor, sendo guiados por Angelina. Pararam diante da porta da Sala de Interrogatório e receberam as ordens da mulher, que consistiam em escoltar o assassino mascarado até a enfermaria com todo o cuidado e apreensão do mundo. Os dois entraram na sala, e, quando voltaram a sair, traziam consigo o suspeito. Este ainda usava uma máscara e tinha sangue demais escorrendo pelo pescoço. Suas roupas pretas pareciam sujas, e ao passar, olhou para e piscou como se ambos compartilhassem um segredo.

não entendeu e preferiu ignorar, vendo-o sumir dentro do elevador, com as mãos algemadas e os braços na frente do corpo.

Angelina estava prestes a segui-los quando o detetive a chamou:

— Quanto tempo até retirarem a máscara?

Angelina pareceu se assustar com o som de sua voz.

— Pensei que já tivesse ido embora!

— Não fui. Quanto tempo?

— Eu não sei — respondeu. — O médico ainda precisa avaliar a situação.

concordou com a cabeça e jogou-se contra o encosto do banco. Parecia determinado a esperar até que a resposta acompanhasse o nome e o endereço do assassino.

— Eu não gosto da ideia de tê-lo vagando pelos corredores — comentou o detetive, já perdido em pensamentos, com o olhar vago.

— Temos tudo sob controle — assegurou Angelina. — Você precisa ir. Não tem permissão para ficar aqui.

levantou os olhos para ela, vendo-a lamentar.

— Eu preciso saber quem é — ele insistiu.

— E você vai. Mas não aqui e não agora. Ainda estamos na Scotland Yard e ainda existem algumas regras que você não quebrou.

— Posso quebrar mais uma — sorriu.

Angelina balançou a cabeça e começou a seguir o seu caminho em direção ao elevador, avisando antes de sair:

— Enzo estará aqui em um minuto.

revirou os olhos, um ato tão infantil que seria cômico para qualquer um observando. O detetive suspirou, sentindo a postura baixa como se admitisse derrota. Olhou ao seu redor em resposta à incrível falta do que fazer para mudar a sua situação dentro da polícia de Londres e, em meio aos pensamentos, acabou por achar uma ideia que não estava procurando.

Levantou-se em um pulo e correu para fora da Scotland Yard, atravessando a rua enquanto buscava o próprio celular dentro do bolso. Digitou um dos vários números que sabia de cor e alcançou a calçada oposta, parando em frente ao Starbucks paralelo à rua Victoria.

No telefone, forneceu a sua localização e pediu um encontro imediato.

...

Joseph Right chegou depois de quinze minutos.

Ele se sentou em frente à , numa das mesas do fundo do café, e olhou por cima dos ombros, como se alguém pudesse estar vigiando-o.

— Joseph, estamos em um café — disse , paciente. — Relaxa.

— Um café de frente para a Scotland Yard — ressaltou o garoto. — Às vezes eu acho que você me odeia.

sabia que aquela conversa não os levaria a nada, então optou por iniciar outra e ir direto ao ponto.

— Preciso que você entre no sistema de segurança da Scotland Yard.

Joseph parou de procurar espiões imaginários no mesmo minuto e encarou .

— O quê?

— É importante.

E realmente era, porque parecia a solução perfeita. Ninguém o deixaria entrar para ver, ninguém contaria a ele o que haviam descoberto. Portanto, quando estava sentado no corredor, do lado de fora da sala de interrogatório, tentando pensar em uma solução, viu a pequena câmera pendurada no canto de uma das paredes e pensou que aquele seria um ótimo meio de ver as coisas por dentro sem precisar discutir com ninguém.

— Você é maluco. — Joseph balbuciou.

— E você é o único hacker que eu conheço.

O mais novo suspirou e, depois de pensar um pouco, levantou-se da mesa.

— Preciso de alguns minutos — anunciou.

— Se você for pego, coloque a culpa em mim.

Joseph, que tinha cabelos louros e cacheados, ergueu a mochila preta para colocá-la nas costas, olhando e sorrindo de um jeito convencido.

— Eu nunca sou pego.

Saiu pela porta da frente e atravessou a rua. o observou contornar o prédio da Scotland Yard e sumir nos fundos que, o detetive sabia, não era deserto.

Passaram-se quarenta minutos até o retorno no amigo. já havia pedido café e o enchido com o pouco do uísque restante em seu cantil, tentando não se irritar com os adolescentes histéricos e produzidos que tiravam fotos ao seu redor.

Joseph sentou-se no exato momento em que beirava ao surto.

— Conseguiu? — perguntou o detetive, piscando forte e tentando se concentrar no garoto.

O problema era que o lugar tinha ficado consideravelmente cheio nos últimos minutos, e aquilo o incomodava.

Joseph tirou o notebook da mochila, abriu-o e começou a digitar desenfreadamente.

— Temos algumas restrições — disse ele. — Ou são câmeras desligadas, ou o meu vírus não as atingiu.

— Colocou um vírus na Scotland Yard?!

Joseph levantou os olhos e deu de ombros. ]

— É inofensivo — e depois completou baixo: — Se formos rápidos.

fez sinal para que ele continuasse e o menino virou a tela do computador para que o detetive a enxergasse. Retângulos com imagens em preto e branco apareceram um ao lado do outro, mostrando os corredores e as salas do prédio que passara os últimos dez anos decorando.

— Quero as imagens da enfermaria — orientou, e Joseph procurou até achar o que ele pediu. observou enquanto a gravação mostrava o cenário com macas e armários brancos. Havia quatro pessoas na sala, entre elas o assassino, o médico e dois seguranças.

Joseph se aproximou para ver melhor e fez o mesmo. Não havia nada interessante acontecendo ainda, mas o detetive sabia que a máscara seria retirada logo. Ele precisava saber como o assassino era.

O médico se aproximou do suspeito, que estava sentado imóvel na maca, e com uma bandeja de acessórios para auxílio, começou a retirar os pontos que juntavam a máscara à sua pele.

Vários minutos se passaram e ficava cada vez mais tenso. Havia sangue demais escorrendo e pontos demais para serem retirados. Joseph parecia prestes a vomitar ao seu lado, e foi quando o detetive achou que ele não fosse aguentar todo o sangue que o menino disse:

, olhe!

Apontando para um canto da tela, o hacker se levantou e, com movimentos afobados, começou a digitar. O vídeo sumiu atrás de uma tela preta e reagiu:

— Por que fez isso?! Ele estava quase retirando a máscara!

— Veja, olhe bem.

voltou a olhar para a tela do computador, procurando o que quer que estivesse ali para ser achado. Joseph continuava digitando e códigos apareciam na tela, mas um pequeno pedaço do vídeo permaneceu em meio aos números e comandos.

Ali, pôde perceber a falha. A mesma gota de sangue no pescoço do assassino que escorria pela terceira vez.

A droga da imagem está em loop!

— Exatamente — Joseph concordou, apertando as últimas teclas. Afastou-se e observou junto a a imagem que tinha começado a ficar diferente.

A enfermaria antes branca, limpa e clara, estava vermelha. Sangue jorrado no chão, poças vermelhas por todos os lados. Os dois seguranças estavam caídos, e o assassino levantava-se de cima do corpo do médico, segurando uma das ferramentas que o homem estava usando para retirar a sua máscara, esta completamente manchada de sangue.

arregalou os olhos. A imagem agora estava ao vivo. O assassino estava escapando.

— Droga, droga, droga!

Levantou-se da mesa e, correndo como nunca em sua vida, saiu do café e atravessou a rua. Buscou o telefone durante o caminho e discou o número de Angelina. Na entrada da Scotland Yard, não conseguiu passar pela catraca porque o seu cartão tinha sido desativado por Enzo.

— Senhor, eu sinto muito, mas não pode entrar — um segurança disse.

— O assassino está escapando! — tentou alertar, mas o outro não ouvia. — ACIONE A DROGA DO ALARME DE SEGURANÇA!

O segurança pareceu incomodado com a agitação de e pediu calma, tentando afastar o detetive. Seu telefone ainda chamava o número de Angelina. As pessoas no saguão olhavam a confusão, mas não escutavam as suas palavras. perdeu a paciência e desviou do segurança, agredindo-o com um soco no nariz quando foi necessário e pulando a catraca às pressas. Escutou os gritos que ordenavam a sua captura e continuou correndo, ignorando o elevador e subindo pelas escadas.

Ouvia os passos em uníssono atrás de si enquanto avançava cada vez mais. Agradecia internamente por saber de cor em que andar ficava a enfermaria, mesmo que aquilo só fosse possível devido ao fato de ele ter estado lá muitas vezes. Quando chegou ao seu destino, adentrou o cômodo com pressa, quase escorregando em uma poça de sangue. O cheiro era horrível. Três corpos tinham suas gargantas abertas.

Os seguranças que o seguiam pararam atrás de e ficaram chocados com a cena. O detetive sentia-se furioso, e gritou para que fechassem as saídas do prédio imediatamente. Todos obedeceram sem questionar.

chutou a porta em resposta à raiva. Não acreditava no que estava acontecendo. Não era possível que o assassino tivesse escapado antes mesmo da polícia poder ver o seu rosto.

Enzo apareceu correndo pelo corredor, com Angelina logo atrás de si. Ambos pararam em frente a porta, e andava em círculos em volta de si mesmo, com as mãos na boca e uma expressão de raiva e frustração no rosto.

— Voltamos à estaca zero — praguejou. — De novo!

...

Natallie abriu a porta, fechando-a com cuidado após entrar. Andou em silêncio para dentro da casa e largou a bolsa sobre o balcão da cozinha, enxergando em meio à penumbra, no sofá, um desmaiado sobre papéis e fotos de pessoas mortas.

Era uma visão estranha.

Andou até ele e retirou as pastas jogadas sobre o seu peito, como se o homem tivesse dormido lendo-as, e as colocou na mesa de centro. Cogitou acordá-lo para que dormisse em sua própria cama, mas parecia tão em paz que Natallie não teve a coragem necessária para o ato, optando por deixá-lo ali mesmo.

Deu uma olhada rápida nos papéis, ajoelhando-se no carpete frio e tentando fazer silêncio, e ficou horrorizada com as imagens em uma das pastas, que mostrava três homens mortos, caídos no chão em poças de seu próprio sangue, com as gargantas cortadas. Levou um susto quando o telefone do marido tocou. Olhou para o visor e viu que se tratava de um alarme, não de uma chamada.

acordou em um pulo, olhando à sua volta como se estivesse em uma situação de perigo. Natallie riu e deu-lhe um beijo quando o detetive percebeu que estava em casa, onde tudo sempre era seguro.

— Não deveria ver isso — aconselhou ao ver que ela segurava as fotos. — É cruel demais.

— É pessoal — ela respondeu. — Os cortes.

— Sim, eu tinha percebido. O assassino estava zangado porque estavam tentando retirar a sua máscara, então os matou de forma pessoal e vingativa. Um corte na garganta é a necessidade de sentir a morte. Mais do que isso seria o estrangulamento, mas acho que o nosso suspeito não estava com o tempo necessário.

— O que leva um ser humano a ser tornar um monstro desses? — perguntou ela, com a inocência de uma mulher que não consegue ver o lado ruim das pessoas.

sorriu, olhando-a na penumbra. Natallie parecia cansada em seu uniforme de enfermeira, mas mesmo assim disposta a tentar entender os problemas do marido.

— Preciso sair — disse ele, levantando-se. — Volto em três horas. Durma bem e não espere por mim.

Natallie concordou com a cabeça mesmo sabendo que ele não cumpriria o prazo. pegou as pastas sobre a mesa e as empilhou cuidadosamente. Colocou o casaco, os sapatos, deu um beijo na esposa e saiu às pressas, sentindo o corpo, antes quente pelo aconchego de sua casa, esfriar quando em choque com o ar frio de Londres.

Andou até o seu carro e o ligou depois da terceira tentativa de fazer o motor rodar. Raspou na guia da calçada antes de sair pela rua, andando em ziguezague por causa da sua incrível falta de coordenação motora atrás de um volante.

Precisava encontrar .



Capítulo 23

Quando saiu de seu apartamento para encontrar no local combinado, teve uma sensação estranha. Estava no corredor vazio do prédio trancando as portas com chaves barulhentas quando, de repente, sentiu um calafrio quase doloroso percorrer a sua espinha — algo que não sentia há muito tempo.

A sensação que a fez tremer dos pés à cabeça era como uma corrente de ar frio cortando o corredor e zumbindo em seu ouvido. Seus ombros ficaram tensos inconscientemente e os dedos apressaram-se no trabalho de voltar a abrir a porta, querendo se esconder dentro do apartamento que há muitos anos era seu maior forte contra os perigos que Londres apresentava.

Aquela cidade, apesar de linda, era traiçoeira e nunca enganou a psicóloga do mesmo jeito que enganava turistas e curiosos. Soube, desde o momento que chegara ali, que nada era mais sombrio que as vielas daquele lugar. Então, mesmo sabendo que precisava se encontrar com , hesitou. Abriu a porta do apartamento o mais rápido que pode e voltou para a segurança do seu lar, não fechando a porta somente porque um barulho lhe chamou a atenção.

Curiosa, voltou para o corredor lentamente, andando sobre os saltos de maneira cuidadosa, sem querer fazer barulho. A porta do apartamento do outro lado do corredor estava aberta, o barulho das dobradiças precárias ecoando por toda a extensão do andar.

A mulher se lembrou do Assassino Mascarado e da sensação de reconhecimento que tomou o seu interior quando sentou do outro lado da mesa da sala de interrogatório, naquele mesmo dia. Tinha certeza de que o homem da máscara era o mesmo rapaz aparentemente gentil que morava do outro lado do corredor, e por isso pediu um encontro com — o detetive saberia dizer se ela estava certa ou apenas confundindo fisionomias.

Se acusasse um homem inocente, as coisas poderiam acabar mal, mas a porta estava aberta e algo parecia errado demais para que ela ficasse quieta.

, então, atravessou o corredor e parou de frente para o apartamento, olhando o interior escuro com atenção. Os móveis delineavam silhuetas perfeitas, o ar frio da noite acompanhava o medo que ela sentia naquele momento. Estaria seu vizinho ali? Poderiam conversar? Se o homem agisse normalmente, significava que não era a mesma pessoa que havia atacado a mais nova dos Spilman; mas se não...

levou um susto. Respirou fundo e deu um passo para trás quando, sobre a poltrona em meio às sombras, dentro do apartamento, na sala, reconheceu um par de olhos brilhando na escuridão. Ela olhou o homem, seu vizinho, naquela situação macabra e aterrorizante, sentado sobre a poltrona com uma máscara negra cobrindo-lhe o rosto, e teve a certeza de que ele era a mesma pessoa que atacou Marie. Aquilo a fez congelar.

No minuto em que ele se levantou, a psicóloga virou para correr. Chegou ao seu apartamento quase tropeçando por causa dos saltos e tentou fechar a porta, sendo impedida por um braço humano entre o batente e a madeira. colocou toda a sua força para fazê-lo recuar, mas o assassino a empurrou, sendo inacreditavelmente mais forte do que ela, mas conseguiu impedir a sua entrada ao jogar o peso do corpo contra a porta.

Em meio à confusão, o homem tateava às cegas, buscando alcançar a mulher, e conseguiu agarrar uma mecha de seu cabelo em um momento de distração. gritou de dor e tentou se desvencilhar enquanto ele a puxava em sua direção, mas foi inútil. Então, movida pelo desespero, forçou uma fuga e alguns fios permaneceram nas mãos do suspeito quando ela se libertou.

conseguiu colocar o trinco na porta, e com o espaço de menos de um palmo para passar, o homem se jogou contra a madeira polida para tentar fazê-la ceder e cair. andou para trás em passos cegos e pensou no que fazer. Chamar a polícia demoraria muito, tentar escapar do terceiro andar poderia fazê-la quebrar vários ossos, lutar era impossível uma vez que a mulher não tinha a mínima ideia de como se defender.

As opções eram poucas ali e seu tempo estava correndo. Sua única esperança era a de um vizinho escutar a confusão e aparecer para ajudar, mas não contava muito com aquilo. Assim, ela decidiu correr até a cozinha e pegar uma faca para se defender. Podia não ser boa com lutas e autodefesa, mas qualquer objeto afiado a ajudaria naquele momento.

Como se cronometrado, a porta cedeu no momento em que ela pegou a arma, e o assassino adentrou o apartamento dando passos pesados e barulhentos. se escondeu atrás da bancada da cozinha, segurando a faca rente ao corpo, e fechou os olhos para escutar melhor os barulhos do homem se movimentando. Estranhamente, depois de dois ou três passos, o assassino parou. apurou os ouvidos e abriu os olhos, tentando conter a respiração acelerada, esperando que ele voltasse a andar para que ela soubesse aonde ele estava.

Ainda atrás do balcão, ela inclinou um pouco o corpo para a direita, tentando ver a sala de visitas. Não havia ninguém ali, mas desconfiava que ele não tivesse partido. A psicóloga voltou à sua posição original, escondida, e ao fazer isso, à sua esquerda, um movimento brusco a assustou, fazendo-a perder o equilíbrio e soltar a faca ao cair no chão.

O assassino estava ao seu lado, os olhos verdes atrás da máscara brilhando no escuro. Ele torceu o pulso da mulher quando tentou alcançar a faca perdida, tapando a sua boca com a mão enluvada quando ela fez menção de gritar. Jogou-a no chão e sentou-se sobre o seu corpo, passando as mãos ao redor de seu pescoço e apertando-o com extrema força.

sentiu a garganta queimar. Em poucos segundos respirar era uma missão impossível e o ar faltava em seus pulmões de uma maneira tão precária que a mulher começou a ver as coisas em tons de cinza. Rebateu-se no chão, tentando afastá-lo, mas o homem era muito mais forte e muito maior em forma física, deixando-a sem o mínimo resultado. A psicóloga procurou a faca caída ao chão e tentou alcançá-la com as pontas dos dedos. Era difícil porque a sua visão distorcida multiplicava o objeto e a fazia errar a direção. Quando finalmente conseguiu, fincou a arma pontuda no ombro do assassino e, quando ele soltou o seu pescoço, conseguiu empurrá-lo para longe.

levantou o mais rápido que pôde e tentou correr, mas flashes negros piscavam e sua cabeça doía. Ela se escorou em móveis e paredes para retomar os sentidos, não conseguindo pensar com clareza, muito menos gritar ou correr. Em alguns segundos saiu do apartamento e desceu as escadas, escutando o assassino segui-la de perto. Pulou degraus em conjunto, tentando não tropeçar, vacilar, cair, desacelerar; ela precisava chegar ao lado de fora.

No térreo, tudo estava vazio. Não havia nenhum morador, nem porteiro, nem zelador perto da entrada, e a mulher saiu correndo pela porta da frente, agradecendo internamente por não precisar destrancá-la. Quando pisou na calçada, sem casaco e sem cachecol, sentiu o corpo congelar de fora para dentro, um choque térmico que a desacelerou alguns segundos, mas teve breve efeito.

voltou a correr no mesmo instante em que ouviu a porta do prédio se abrir outra vez, mas bateu contra algo duro e quente e não conseguiu ir muito longe. Capmbell foi para trás com o impacto, vendo que havia esbarrado em um homem. Seu coração acelerou de puro terror quando percebeu as roupas completamente pretas, mas o rosto de , encarando-a confuso, quase a fez chorar de alívio.

— O que aconteceu? — perguntou ele.

não sabia se conseguia falar. Sua garganta estava seca, seus pulmões lutavam por ar. Ela apenas olhou à sua volta e viu o ser mascarado correr na direção contrária.

— O assassino — respondeu, apontando para o homem, que entrava em um veículo marrom. — Ele está aqui!

ignorou o som dos pneus do carro do suspeito para checar os danos que havia sofrido. Um trovão estalou às costas dos dois, prometendo uma tempestade, e aquilo a fez tremer tanto que seus dentes bateram uns contra os outros.

Você está bem? — perguntou .

A psicóloga o olhou por alguns segundos, sem responder. Ele estava eufórico do jeito mais controlado possível. segurou pelos ombros e repetiu a pergunta:

Ele te machucou?

A mulher fez que não de modo automático.

— Entre no carro — o detetive ordenou.

Só então percebeu o Dodger Charge incrivelmente bem cuidado parado na beira da calçada, a alguns bons metros da guia. Seu corpo todo respondeu àquela imagem como a garantia de que estava finalmente segura. A mulher não tinha mais que enfrentar aquela situação terrível sozinha. a levaria para a delegacia e lá poderia finalmente pedir a proteção que precisava.

entrou no lado do motorista e contornou o veículo, sentando-se no banco do passageiro. Colocou o cinto quando a aconselhou a fazê-lo, e se segurou com toda a força ao banco quando o detetive arrancou sem nenhum cuidado e muita velocidade. Só então percebeu que ele não a levaria para a delegacia e que, muito longe disso, preferia seguir o suspeito pela cidade ao invés de chamar reforços ou outras autoridades.

percebeu em poucos segundos que era um péssimo motorista. Não ligou nem um pouco para aquele fato, porém, uma vez que ele alcançou o carro marrom escuro do homem mascarado em poucos minutos.

Por conta do frio extremamente rígido, havia pouca gente na rua. esbarrava em guias por quase todas as curvas e o carro muitas vezes parecia estar prestes a capotar. O assassino fazia o mesmo e imaginou que aquela fosse uma característica digna de psicopatas.

Depois de mais alguns minutos, os dois carros invadiram uma rua comercial que, apesar de ter as lojas fechadas, tinha muitas pessoas em calçadas e atravessando as ruas. Estava havendo algum tipo de festival ali, e apesar da movimentação, contornou a situação bem — algo que não pôde ser dito sobre o assassino, que quase atropelou pelo menos três pessoas em dois metros —, até o momento em que uma criança apareceu no meio da rua aconteceu. freou de forma violenta e inesperada, e se não estivesse de cinto, provavelmente teria quebrado o nariz no painel do carro.

O barulho dos pneus cantando contra o asfalto estalou nos ouvidos da psicóloga, provocando susto, medo e preocupação. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, olhou para , vendo o homem segurar o volante com as duas mãos. O carro estava parado e ele olhava para a criança de forma assustada, como se não acreditasse que esteve tão perto de matá-la.

O farol iluminava a rua e as pessoas amontavam-se ao redor do veículo, curiosas, comentando e apontando.

A criança devia ter menos de cinco anos e sorriu para a luz dos faróis no momento em que a mãe chegou, eufórica, e a tomou nos braços. Atrás deles, daquela cena digna de filmes dramáticos, o carro do assassino sumiu dentro da noite, deixando apenas marcas de pneus e um extremamente irritado para trás.



Capítulo 24

Dois dias já haviam se passado desde que e perderam a chance de capturar o Assassino Mascarado e encerrar o caso sobre a morte de Sofia Spilman. Desde aquele dia, nenhum dos dois havia tomado a iniciativa de procurar o outro para qualquer tipo de conversa ou preocupação; nenhum deles poderia admitir sentir culpa por tal fuga, um lado remoendo o próprio orgulho e pouca velocidade e o outro tentando entender por que, afinal, teve de nascer natural e fisicamente mais fraca que seu agressor. Porque, talvez, se soubesse alguns truques de autodefesa, pudesse ter contido o assassino em dois tempos; e, talvez, se soubesse dirigir um pouco melhor, as coisas pudessem ter sido diferentes.

Mas elas não foram. E por isso cada um dos dois, apesar de não admitir, passaram a se torturar com hipóteses e finais distintos para aquela noite, até que um dos lados não aguentou e simplesmente tentou ocupar a cabeça com outros assuntos e problemas.

Essa pessoa, claro, não fora .

, ao contrário de , passara pelo menos quatro dias enfurnado dentro de casa, apenas fumando cigarros e limpando os cômodos esquecidos de seu lar repetidamente, arrumando suas coisas no escritório, escutando o seu álbum preferido do Pink Floyd e massageando a esposa todas as noites, querendo que, de algum modo, tudo aquilo o fizesse achar uma solução antes escondida e sorrateira — o que nunca aconteceu.

O máximo que o detetive conseguiu para aliviar a sua angústia foi um telefonema de Angelina Devens, que veio em uma sexta-feira estranhamente ensolarada — algo que já denunciava que o dia seria estranho, porque Londres nunca abrigava o sol.

— Fechamos o caso de Sofia Spilman — disse a mulher, do outro lado. — Achei que gostaria de saber.

...

não podia entrar na Scotland Yard e fuçar as investigações que corriam pelo lugar, afinal ainda estava suspenso, mas podia enrolar alguns guardas com papos aleatórios, usando uma simpatia que nunca foi sua, e conseguir subir um ou dois andares para encontrar Enzo West e sua equipe reunida no salão principal. Salão esse que encontrava-se imerso em puro caos com a notícia de que o assassino de Sofia Spilman havia sido capturado.

Não era preciso muita observação para perceber que metade dos telefonemas que os agentes daquela divisão recebiam vinham de repórteres e curiosos — algo que estava deixando a maioria dos funcionários sem paciência e completamente perdidos, afinal desde o encerramento do Caro Ryan que as coisas não ficavam tão movimentadas daquele jeito.

— Da próxima vez que o telefone tocar — disse a uma moça que havia acabado de bater o telefone na cara de algum blogueiro. — Diga que é de um Sex Shop e espere que eles mesmos desliguem.

, não precisamos da sua ajuda — disse Angelina, chegando com Steven e David e impedindo que a moça respondesse. — Só precisamos da sua assinatura nos relatórios que você esqueceu de assinar quando estava no caso. Então poderemos fechar todos os arquivos.

achou graça na primeira frase da mulher, principalmente porque a sensação que ele tinha era a de que o lugar poderia pegar fogo a qualquer momento. Apesar disso, não falou nada e apenas os seguiu, percebendo que Steven e David encontravam-se estranhamente calados durante todo aquele tempo. A situação foi estranha e se prolongou até que encontrassem Enzo e se isolassem dentro do escritório do chefe, que era o único local aparentemente calmo daquele andar.

— Como encontraram o assassino? — perguntou , encostando-se contra um dos balcões espalhados pela sala. Havia objetos sobre ele, mas o detetive não os derrubou, como geralmente fazia.

O detetive tentava mostrar-se indiferente e calmo, mas, no fundo, a curiosidade o consumia de um jeito que se igualaria ao dos repórteres importunos e desesperados. A diferença é que ele tinha o direito de saber. Gastara muito de sua pouca sanidade e saúde tentando entender o enigma por trás da morte da jovem Spilman.

— Recebemos o resultado de um exame — disse Angelina. — Havíamos achado digitais no corpo de Sofia, mas não geraram resultados no sistema. Essa semana, porém, algo apareceu.

— O que houve?

— Matthew Horan. O vizinho apaixonado que você disse ser inocente, foi preso por ultrapassar atirar o próprio carro contra uma loja de roupas do centro. Suas digitais foram tiradas e arquivadas e, quando refizemos a busca mais uma vez, combinaram com as encontradas no corpo da vítima.

— Mas nós tínhamos tirado as digitais dele, por que não combinaram antes?

— Erro do sistema — Angelina deu de ombros. — Não sabemos. Agora fizemos o teste mais de uma vez, e em todas deu positivo. É ele.

juntou as sobrancelhas:

— Bem, isso não o faz, necessariamente, um assassino. Eles eram amigos, Matthew pode ter tocado nela em algum momento.

— No pescoço? Com força?

só conseguiu sentir nojo. Puro nojo e revolta, que logo foram substituídos por uma série de dúvidas:

— Mas e o Homem Mascarado? Aquele garoto de 1,60 não é o nosso assassino.

A expressão de Enzo foi desanimadora.

— Se formos ser bem sinceros, nunca tivemos real prova de que esse cara está relacionado à morte de Sofia Spilman. Nada de DNA, nada de ligações. A identidade que nos forneceu é a de um homem que nunca ao menos foi visto perto de qualquer lugar que Sofia Spilman pudesse ter passado, muito menos dela própria. Ele pode ser apenas um maluco brincando com a Scotland Yard, e — cortou quando o mais novo estava prestes a protestar — isso não quer dizer que não iremos atrás dele. Só quer dizer que iremos por outros motivos.

não aceitou uma única palavra do que Enzo disse. Era inadmissível e completamente fora de contexto o Assassino Mascarado não ter nada a ver com a morte de Sofia Spilman. Não depois da explosão do consultório de , do atentado à vida de Marie Spilman e da morte dos dois irmãos Olsen. Ignorar todos aqueles fatos era uma extrema falta de lógica e ele não compactuaria com aquilo. Pelo menos não calado.

— Enzo, escute — começou. — Você sabe muito bem que isso não é o que parece. Sabe muito bem que as coisas não poderiam ser tão simples, não nesse caso. Eu sei que você está sob pressão e que a família Spilman vem te dando nos nervos e o pressionando por respostas, isso sem falar da mídia, mas você não pode simplesmente ignorar todos os outros fatos para ter um pouco de paz. Sabe que isso é errado e sem sentido, e sabe que Matthew Horan não é o assassino. Não foi só amor não correspondido, foi algo muito maior.

Quando terminou de falar, sentiu a tensão na sala aumentar consideravelmente. Enzo o olhava e estava escrito em cada tom castanho de sua íris escura que concordava com o que o mais novo acabara de dizer, mas havia algo no modo como ele brincava com a caneta em suas mãos que fez perceber, na hora, que achar o verdadeira assassino não era uma de suas alternativas para aquele problema. West estava desesperado para tirar aquele peso das costas e acabaria manchando a própria honra e profissionalismo para conseguir alívio. não podia aceitar aquilo partindo dele — que fora um modelo por tantos anos, um mentor sábio e moral.

olhou para trás, para os outros membros da equipe, e viu no rosto de cada um deles que todos compartilhavam, pela primeira vez na vida, a mesma opinião que ele.

Aquele só podia ser o motivo pelo qual estavam todos tão quietos inicialmente, quando chegou ali: encontravam-se contrariados, em dúvida, sem saber o que fazer. Desafiar o chefe não era uma boa opção, e, se o fizessem, se conseguissem reabrir o caso e começar a procurar de novo, o peso da falta de respostas e da impaciência dos que esperavam uma solução cairia inteiramente sobre eles.

Seria um inferno quando anunciassem a meia inocência de Matthew Horan, e por isso não falaram nada.

Parecia que era o único que não tinha medo do inferno.

O detetive se levantou, olhando para o chefe de um jeito que nunca olhara antes: decepcionado, inconformado. Não podia acreditar e não queria acreditar, mas teve que fazê-lo ao sair dali sabendo que Enzo continuaria com a sua decisão e que ele não poderia fazer nada. Teve que acreditar que tudo seria perdido e que o verdadeiro assassino continuaria solto porque as pessoas tinham medo da pressão e do que a mídia podia relatar. Era absurdo.

!

não parou de andar quando escutou Angelina chamar o seu nome. Estava furioso com ela também. A mulher estava participando daquilo, e era uma decepção ainda maior do que a que teve com o chefe. Angelina era sua parceira, achava que, dentro todos ali, a que mais se aproximava dele em questões intelectuais e morais. Como podia estar sendo tão... errada?

, testes de DNA não mentem — disse ela ao entrar com o parceiro no elevador. Queria que ele entendesse que apesar de tudo, as provas eram concretas. Angelina realmente acreditava que Matthew pudesse ser o assassino.

Pessoas mentem, Devens. É o suficiente.

— O que quer que façamos?! Já se passaram seis meses e não temos nenhuma resposta. Não podemos continuar assim e é mais do que plausível que Matthew Horan tenha matado Sofia Spilman.

— É mesmo? — praticamente gritou. — Então por que você não defendeu a sua preciosa teoria, se é que existe uma, quando estávamos na sala de Enzo?! Porque não discordou de mim? Por que não me fez ver a verdade, Devens? Porque sabe que é mentira! Sabe que é ridículo e que está cometendo um erro, portanto não me venha falar de provas e respostas, porque você não tem a coragem necessária para defender nenhum dos dois! É uma hipócrita assim como todos eles.

Não esperou o seu andar chegar. Assim que a porta abriu, saiu por ela como um furacão e seguiu o resto do caminho usando as escadas estreitas do prédio da Scotland Yard. Chegou ao térreo e partiu dentro de seu carro barulhento e mal estacionado, seguindo em direção a um endereço que, antes, já havia lhe causado problemas, mas que ele não parecia se importar.

...

Richard Volker era o nome do Assassino Mascarado, e ele vivia no apartamento em frente ao de , em Pimlico. sabia que aquilo não era coincidência. Sabia que o assassino não estava naquele prédio exatamente por causa de , mas por causa de Sofia. De algum modo, sabia, e poderia achar um jeito de descobrir e provar; só precisava entrar naquele apartamento e achar todas as respostas que eram-lhe negadas usando meios tradicionais e corretos de investigação.

— Você não aprendeu da primeira vez? — ouviu uma voz atrás de si.

Não precisou se virar para saber que era . A mulher provavelmente ouvira algum barulho no corredor e saíra para ver quem era o indivíduo ajoelhado de frente para a fechadura da porta do apartamento vizinho. Encontrara falhando ao tentar abrir, do jeito que fizera na escola de Marie Spilman, a tranca nada complexa e extremamente barata que se assemelhava à sua. Uma cena até engraçada, ela pensou, mas acabou não se deixando rir.

viu que o motivo de não obter sucesso vinha do nervosismo que fazia as suas mãos tremer, e por isso permaneceu séria. Algo o estava afetando tanto que a concentração sempre característica do detetive havia sido substituída por pura frustração, fazendo-o suspirar e sentar no chão, apoiando as costas contra a parede e notando pela primeira vez que a psicóloga ainda estava ali, parada, observando-o.

— Posso te ajudar em alguma coisa? — perguntou ele. — Algum tutorial de como não conseguir abrir fechaduras de terceira qualidade? Ou um guia turístico de Londres que a leve para uma rua movimentada e festiva, assim você pode escolher bem onde vai parar em uma perseguição.

— Uau — ela riu, abaixando à sua frente, ficando ambos da mesma altura. se equilibrava com demasiada perfeição sobre os saltos altos e negros, sorrindo ao levantar o tapete em frente à porta do apartamento vizinho e tirando de debaixo dele uma chave. — O que causou esse mau humor todo?

Exibiu a chave brilhante sob a luz, em frente ao próprio rosto, olhando-a com um sorriso vitorioso e simples ao mesmo tempo. Viu a expressão de mudar diante do reconhecimento e se levantou, vendo-o acompanhá-la, deixando o objeto pequeno e gelado na mão do detetive. sorriu e custou a agradecer, como se seu orgulho não permitisse.

— Pensei que você fosse bom em atividades lógicas — provocou ela.

— E eu pensei que você tivesse algum adolescente deprimido para atender. Já não está na hora? — rebateu, virando-se para a porta e já a abrindo. O apartamento escuro o acometeu e ficou alguns segundos esperando a visão acostumar-se com a falta de luminosidade.

— Saiba que a psicologia vai muito além disso, detetive. Ela é fundamental para vários conceitos sobre a nossa sociedade.

— Assim como álcool e filmes pornô. Sei bem.

suspirou e revirou os olhos, não deixando de acompanhá-lo quando adentrou o apartamento de Richard e acendeu a luz, que piscou duas vezes antes de perder força e iluminar apenas alguns tons do lugar. A mulher viu a poltrona que encontrara o assassino sentado e sentiu um calafrio subir pela própria espinha. Os hematomas ao redor de seu pescoço palpitaram.Era quase como se pudesse ver a cena na qual era atacada de novo.

— O que está procurando aqui? — perguntou ela.

parecia entretido demais com o apartamento para virar-se quando respondeu:

— Não faço ideia.

Os dois seguiram em silêncio por dois ou três cômodos, cada um fazendo as próprias anotações mentais, observando fatos distintos, montando teorias diferentes. já tinha conhecimento sobre a suposta conclusão do caso Spilman e concordava com o que pensava sobre o assunto. Vivera na pele o desespero de ter o Assassino Mascarado mexendo com a sua vida e sabia que nada daquilo teria-lhe acontecido se não fosse a psicóloga de Sofia Spilman.

— Eu sinto muito pelo que aconteceu com o seu caso — disse ela.

Estavam na cozinha do assassino e abria armários para ver o interior. Encontrou apenas panelas nunca usadas e pratos, mas não se decepcionou: já esperava por aquilo.

— O caso nunca foi meu — respondeu ele.

— Sempre foi seu. Sofia Spilman tornou-se sua responsabilidade no momento em que morreu, posso ver isso.

Ele parou, fechando um dos armários, e se virou para ela. A psicóloga estava perto por também querer ver o que tinha atrás daquelas portas, e mesmo com os saltos altos, encontrava-se ligeiros e consideráveis centímetros mais baixa que o detetive.

— Você está me analisando ou só testando a minha paciência? — perguntou ele.

— Estou tentando ser gentil.

— Não está funcionando.

— Como se você soubesse o que é gentileza.

a olhou por alguns segundos, então continuou a sua inspeção visivelmente tenso. não sabia se tudo aquilo era por conta do que havia acontecido no caso ou se ele só estava frustrado por não encontrar nada. Ficou ali por alguns minutos, já sem esperanças de que fosse descobrir algo, quando viu, sobre o balcão estilo americano, um quadro velho e virado de cabeça para baixo.

? — chamou.

O detetive parou o que estava fazendo e andou até ela, vendo por cima de seus ombros da mulher o quadro marrom que guardava a foto de uma casa de praia, em um lugar que ele sabia ser em Londres.

— Esse quadro... Essa foto... — balbuciou . — Essa é a casa de verão dos Spilman.



Capítulo 25

— Você não precisava ter vindo junto.

resmungava aquela frase a cada quinze minutos, no mínimo. Quando não estava fazendo aquilo, estava fuçando nos botões do rádio do carro, completamente inconformado com o fato de não tê-lo deixado dirigir. A psicóloga havia dito que, depois do evento em que ambos dependeram das habilidades de direção de para sobreviver, ela nunca mais iria ficar no mesmo carro que ele enquanto o detetive estivesse segurando o volante. Como ela era a única que sabia a localização da casa de praia dos Spilman — além de ter acesso às chaves de uma maneira que não colocasse ninguém na cadeia —, teve que aceitar a condição que ela impôs.

— Marie me confiou essa chave, e eu não a deixaria nas suas mãos — respondeu a psicóloga de maneira simples, sabendo que poderia ter só fornecido a localização e a chave para que o detetive fosse sozinho.

bufou, afundando no banco um pouco antes de perceber que haviam finalmente alcançado o destino daquela viagem. Aliviado, o detetive desceu do carro e sentiu o vento litorâneo gelar-lhe a alma e o corpo, fechando o zíper da jaqueta para tentar buscar um pouco mais de conforto. retirou os saltos, deixando os pés nus contra a areia, e os levou nas mãos até que os dois alcançassem a varanda da casa, onde os calçou sobre a madeira polida da parte da frente.

A Casa de Praia da família Spilman era linda, mas parecia ser pouco visitada e a pintura clara das paredes começava a descascar. A maresia tinha levado todo o glamour do ferro das grades e deixado as janelas aparentarem puro ferrugem; areia tomava o chão da varanda e fazia tudo aparentar ser sujo e abandonado demais. destrancou a porta da casa, e a seguiu para o interior da sala de entrada.

— Por que acha que o assassino teria um quadro de Sofia? — perguntou .

— Troféu? — arriscou . — Alguns assassinos gostam de ter algo das vítimas.

— Algo pessoal. Aquele quadro é muito genérico, não acha? Não parece um troféu.

A conversa parou por aí, porque no segundo seguinte eles ouviram um barulho na parte de cima da casa. pôs-se à frente de , como se quisesse protegê-la, e caminhou em direção às escadas, de onde vinham os ruídos. Ele nem tinha alcançado metade dos degraus quando Marie Spilman apareceu no topo, sorrindo como se fosse um enorme prazer encontrá-los ali e fazendo tanto o detetive quanto a psicóloga soltarem o ar preso nos pulmões. Os dois, principalmente , estavam extremamente tensos desde a noite em que o Homem Mascarado atacara .

— O que está fazendo aqui? — perguntou .

— É a minha casa. Ou quase — respondeu a garota, que descia os degraus rápido demais, quase pulando-os. — Eu quero ajudá-los. Conheço essa casa como ninguém e todos os esconderijos que Sofia poderia ter usado.

— Não achamos que tenha sido Sofia a passar por aqui.

— Mas foi, sim — retrucou, sentindo-se a dona da razão. — O carro dela está na garagem.

e se entreolharam, ambos sentindo que aquela poderia não ser uma notícia tão boa. Não tinham ideia do que o carro de Sofia estava fazendo ali quando o seu próprio corpo jazia em outro lugar há tanto tempo.

— Você o abriu? — perguntou . — Viu o que tinha no carro?

— Não. Eu sei que não se deve mexer nessas coisas que servem como provas.

não conseguiu conter o sorriso meio orgulhoso que tomou os seus lábios. A garota era realmente esperta. Mais esperta que muitas pessoas com quem o detetive havia trabalhado.

— Tudo bem, vamos dar uma olhada.

Os três se dirigiram à parte lateral da casa, que os levaria à garagem. Com o olhar, repreendia Marie por tê-los seguido até ali, já imaginando o escândalo que Constance Spilman faria ao descobrir que a filha mais nova tinha fugido de casa para ajudar a invadir um patrimônio da própria família. Já pouco se importava com a reação da mulher e apenas andava, curioso, em direção ao carro de pintura negra e modelo esportivo que acumulava areia sobre os vidros e lanternas.

buscou luvas no bolso da jaqueta e as vestiu, pronto para examinar o carro. Abriu a porta do motorista, mas não inspecionou nem metade do veículo. Algo dentro de sua cabeça dizia que a verdadeira descoberta estaria dentro do porta-malas — ao qual ele se dirigiu rapidamente, parando e o encarando um pouco antes de prosseguir. teve um mal pressentimento e abraçou Marie, confortando-a, pois sabia que a menina tinha sido afetada pela visão do carro da irmã e todos os amuletos que Sofia gostava de pendurar no espelho retrovisor.

respirou fundo e puxou o material pesado que compunha a porta traseira do veículo. Quando ele foi totalmente aberto, o detetive encontrou a certeza sobre algo que ele já sabia: Sofia Spilman tinha sido assassinada por algo muito maior que uma rejeição amorosa.

...

— Isso aqui não é O Clube de Caça ao Assassino de Sofia Spilman. Pode voltar para casa!

Marie cruzou os braços e bufou, jogando-se contra o saco transparente e extremamente barulhento que cobria o sofá. estava parada à sua frente, querendo convencê-la a voltar para casa e já ficando extremamente irritada com a teimosia da garota.

— Vocês duas podem, por favor, ficar quietas? — pediu , sentado no banco alto do balcão da cozinha.

O detetive largou os isqueiros velhos que tanto tentava fazer pegar sobre a madeira do balcão, irritado; ele precisava fumar e havia perdido a sua caixa de fósforos para a areia quase sufocante da porta de fora, praticamente se humilhando para os isqueiros que encontrou na cozinha dos Spilman, esperando que ainda funcionassem. Quando não funcionaram, ele se dirigiu para a mesa de jantar do outro lado da sala, espalhando pela superfície de vidro todo o conteúdo que havia acabado de encontrar no porta-malas do carro de Sofia Spilman. Precisava se distrair.

A caixa de papelão alta e pesada com várias fichas, relatórios, dados e fotografias que havia encontrado parecia ser um baú de tesouros. E era óbvio que todo o conteúdo dela fazia parte de uma investigação que ainda tentava entender. Ele queria muito que Sofia tivesse sido mais específica em suas anotações. olhou para Marie como se dissesse que a discussão ainda não havia acabado e andou até o lado de , olhando tudo o que o outro descobria com uma animação um tanto estranha, a concentração característica e irritante dele voltando a ser o seu ponto mais forte.

— O que é tudo isso? — perguntou a psicóloga.

— Eu não faço ideia. Mas vou descobrir.

Muitas das anotações estavam escritas à mão, outras tinham sido impressas. não sabia como começar a organizar tudo aquilo de um modo que fizesse sentido, mas o seu cérebro arquivava tudo de modo automático, tirando conclusões precipitadas.

— Você acha que ela fez tudo isso sozinha? — perguntou , erguendo uma das folhas e lendo-a.

— É óbvio que não — respondeu . — Isso foi organizado por duas pessoas diferentes, por isso está um caos. Ninguém quebra a própria linha de raciocínio organizando dois setores de maneiras tão distintas. Todos nós temos padrões e os seguimos, mas, isso... Isso segue dois padrões diferentes. Começando pela caligrafia.

pegou dois papéis e os colocou um ao lado do outro. Ali, era possível ver que uma das letras era mais arrastada que a outra.

— Quem organizou isso com Sofia era um homem, podemos ver pela caligrafia. Eu aposto que era Jared Norton.

balançou a cabeça como se fosse informação demais para ser processada e disse que levaria Marie para casa.

— Espere — ele a impediu, largando os papéis e virando-se para Marie. — Venha aqui.

A menina se levantou, ainda contrariada por não poder participar do jeito que queria, e andou até o lado do detetive. Ela encarou as fotos para as quais ele apontou e esperou pela pergunta:

— Conhece alguma dessas pessoas?

A pequena Spilman descruzou os braços e olhou para as fotos. Depois, voltou à postura mimada de antes, mas dessa vez exibindo um sorriso cínico.

— Isso depende de se eu faço parte do Clube de Caça ao Assassino de Sofia Spilman.

abriu a boca pra protestar, mas levantou a mão para que ela se calasse, respondendo:

— É claro que faz.

Marie voltou a apontar para as fotos, e fuzilou com o olhar, desacreditada.

— São membros das famílias mais ricas da cidade. Algumas eu não reconheço, mas a maioria é.

olhou bem para as pessoas das quais Marie se referia, separando as suas fichas, que por algum motivo existiam com informações demasiada estranhas.

— Pode levá-la para casa — disse para .

— O quê?! Você disse que eu poderia ficar! — Marie protestou.

— Eu disse que você fazia parte do Clube, e, veja bem, você faz! Só que do seu quarto, em Londres, onde a sua mãe não pode encher a minha paciência. Até mais.

Estava nos olhos dela todo o sentimento de traição que a menina reprimia. Era claro que não a deixaria ficar ali nem mais um minuto. Não quando ele não fazia ideia do tamanho do problema em que estava se metendo. Não valia o risco. Campell já havia sido atacada e mal havia feito parte das investigações; arriscar a vida de Marie não era uma opção. Ele não se importava se ela passasse a odiá-lo; pelo menos estaria o odiando em segurança.

apertou os ombros de Marie e a levou para fora da casa, deixando a analisar melhor os seus papéis e pistas. Ele parecia tão concentrado que nem ao menos notou quando a mais jovem dos Spilman surrupiou algo de seus bolsos.

...

enfiou Marie dentro do carro que a garota usara para chegar ali, que estava estacionado do lado de trás da casa. A menina sussurrou algo sobre ser uma completa injustiça, olhando sempre muito magoada para a porta de vidro pela qual era possível se ver o detetive que antes ela não odiava por completo. Quando voltou a entrar na casa, ainda tinha o cérebro infiltrado em arquivos e dúvidas. Ela parou ao seu lado e esperou que ele se virasse e finalmente notasse a sua presença.

— Onde está Marie? — perguntou ele.

— Você a expulsou, lembra?

— Não achei que ela se renderia tão fácil.

— Ela é uma boa menina.

Sentou-se na beira da mesa e apoiou o queixo sobre as palmas das mãos. permaneceu em pé, parecendo incansável, e não tirou os olhos do conteúdo da caixa nem por um segundo nos momentos que se seguiram.

— Por que Sofia teria fichas com informações sobre a vida dessas pessoas? — perguntou para si mesmo, em um sussurro. — É óbvio que estava os investigando, mas por quê? Do que ela desconfiava?

— Talvez fosse um passatempo — comentou , psicologicamente cansada.

— Duvido muito — e então começou a jogar tudo de volta na caixa, bagunçando toda a organização na qual se empenhara. — Preciso ir a essa faculdade. Você sabe qual o nome do lugar onde ela estudava?

Saiu antes de ouvir uma resposta, carregando a caixa de papelão até o seu carro e a apoiando contra o porta-malas, buscando as chaves nos bolsos. Quando não as encontrou, suspirou e o curto raciocínio que se seguiu mostrou-lhe a resposta que precisava para o fato de Marie Spilman ter aceitando a derrota tão facilmente.

Ela não tinha.

— O que foi? — perguntou , vendo a expressão de desgosto de .

— Marie roubou as minhas chaves — suspirou. — Estamos presos aqui.

...

— E se tentássemos pegar carona na estrada? — sugeriu.

— Estamos no meio do inverno, . Ninguém vem para o litoral neste período. Mas se você quiser congelar até a morte na beira da estrada, fique à vontade.

revirou os olhos e continuou a ler o seu livro. Mesmo no escuro, ela parecia empenhada em tentar não prestar atenção no modo como estava particular e irritantemente concentrado naquela noite, usando um lápis antes perdido em sua bolsa para fazer marcações quando necessário. Mesmo depois de horas ali, esperando que seus telefones mostrassem sinais de vida e pontos para ligações, a fome e o cansaço de não ter absolutamente nada para fazer além de escutar o barulho das ondas quebrando ao mar não pareceram afetar , e o detetive continuou implacável. Havia voltado a espalhar as provas pelo chão, sentando-se à frente delas e juntando as mãos embaixo do queixo numa pose pensativa que, no fundo, achou curiosa.

— Descobriu alguma coisa, Sherlock? — perguntou ela.

— Nada, minha cara Watson — respondeu, de repente animado.

— Então, por que está tão feliz?

— Porque Sofia Spilman era, provavelmente, a garota mais esperta que Londres teve o prazer de conhecer. Veja só.

Com a deixa, se levantou, e fez o mesmo, andando ao seu lado e espiando por sobre os seus ombros o papel amarelado no qual ele parecia ter achado a cura para o câncer. O detetive girou sobre os calcanhares, jogando o papel contra a luz, e então parou. apertou os olhos, mas não conseguiu enxergar nada. Estava em branco.

— O que você tanto olha? — decidiu perguntar.

não disse uma palavra, mas passou o papel para a mão da psicóloga e, pondo-se atrás dela, ajeitando-a em uma posição que favorecesse a descoberta, o detetive fechou um dos olhos e a instruiu a fazer o mesmo.

— Preste atenção. Bastante atenção.

E ela o fez. Demorou alguns segundos, mas encontrou o que ele havia descoberto e ficou completamente pasma com aquilo. Parecia óbvio, tão fácil que ela se sentiu uma tola. A pista estava escondida no papel amassado — mais especificamente nas linhas formando uma figura que nunca teria notado se não fosse o olhar minucioso de . Agora ela podia ver os traços no papel seguindo o contorno da lareira e da escada, praticamente desenhando a sala de visitas da casa de verão dos Spilman. riu do absurdo e da genialidade, sentindo também se entregar à diversão, atrás dela, com a sua respiração batendo contra o seu cabelo.

— Isso é incrível, ! Mas o que quer dizer? — perguntou.

— Eu acho que é um mapa — se afastou, buscando os outros papéis dentro da caixa e os colocando sobre a mesa.

o ajudou a espalhar todos pelo mármore claro, vendo que havia muitos em branco. Olhou cada um com muito cuidado para encontrar os desenhos escondidos dentro deles, procurando peças como se estivesse montando um quebra-cabeças. Em certo momento, conseguiram juntar as figuras de todo o andar térreo da casa, mas não encontraram nada que pudesse dizer algo significativo. Quando conseguiram as peças do segundo andar, sentiram a chama que os havia proporcionado animação se esvair, porque mais nada apareceu para ser descoberto. Ao terminar, sentaram-se exaustos nas cadeiras geladas e se entreolharam, um tanto decepcionados.

— Qual o sentido de tudo isso? — perguntou , olhando para quatro folhas de papéis que haviam sobrado do quebra-cabeças. — Isso não é algo fácil de se fazer. Dá muito trabalho para que Sofia tivesse gastado tanto tempo, principalmente para não nos levar a nada.

batucava os dedos na mesa, nervoso, agitado e irritado com todas aquelas pistas falsas. Sabia que Sofia não tinha feito tudo aquilo para nada; sabia que a menina era esperta demais e que talvez o problema fosse exatamente aquele: ela era mais esperta do que ele. não poderia desvendar os seus enigmas, não quando tudo ao que ele parecia se agarrar simplesmente se tornava um amontoado de pontas soltas.

— Pense, . Pense — exigiu de si mesmo, sussurrando para a noite fria. — Observe. Observe. Observe. Obs...

E então parou, como uma estátua, olhando para os papéis. Levantou-se e passou os dedos suavemente por uma das folhas, sentindo as linhas que formavam os desenhos. Virou-se para e pediu o lápis dela emprestado. A mulher correu para pegá-lo em sua bolsa e o entregou para o detetive, que com ele em mãos, apressado, passou a rabiscar os papéis, formando figuras cinzentas, como se o homem estivesse pintando uma moldura.

vira aquilo acontecer várias vezes: quando estava na faculdade, gostava de colocar uma das folhas de seu fichário sobre o emblema da escola, que estava cravado em todas as mesas de plástico do refeitório do lugar, e passar o lápis sobre ela e, como naquele momento onde a casa dos Spilman aparecia pouco a pouco nas páginas amassadas das pistas de Sofia, o emblema da escola ganhava vida.

— Não é a mesma casa — disse ele, vendo o desenho completo. — Ou é, mas não é como a conhecemos.

— O que você quer dizer? — ela perguntou, sentindo-se como uma pessoa que pega uma conversa no meio.

— Veja, , que é a mesma casa, mas não são os mesmos móveis, nem o mesmo modelo de lareira. Sofia desenhou todos os pequenos detalhes para que víssemos do que ela estava falando, para que soubéssemos que tínhamos que procurar exatamente aqui, nesta casa. O problema é que eu não conheço esse lugar, não sei sobre o que ela poderia estar falando ao desenhar esse modelo antigo da residência.

riu, mais nervosa do que animada.

— Não ajudou muito.

— Na verdade, muito pelo contrário, minha cara Watson — disse ele, sorrindo. — Pois me responda: qual foi a primeira coisa que Marie Spilman nos disse quando chegamos aqui?

pareceu confusa, mas logo se recordou e completou:

— Que conhecia essa casa como ninguém — e então riu. — A pista não é para nós, . É para a Marie!



Capítulo 26

— Espero que tenham aprendido a lição.

e estavam parados na varanda da casa de verão da família Spilman, observando a mais nova deles subir os últimos degraus. Marie girava as chaves do carro de por entre os dedos e sorria de um jeito que fez o detetive se esquecer do ódio que nutria pela garota para passar a admirar a sua audácia. Mas é claro que o sentimento durou pouco.

Em um minuto ele arrancava as chaves da mão dela e descia os degraus, indo ao dramático reencontro com o seu querido Dodger Charger 1970. Marie apenas observou, esperando que a bronca viesse. Tinha feito aquilo para ganhar algum tempo de vantagem, falando com os colegas de Sofia que estavam listados na aparente investigação da irmã. Daquele jeito, teria todas as informações antes de ; poderia usar ao seu favor.

— Eu só não entendo, , o motivo de você não ter feito uma ligação direta para sair daqui — a menina questionou. — Tenho certeza que você sabe esse truque.

— Eu dei a ideia, mas ele não escutou — disse , parecendo cansada. — E eu não sei fazer.

Do banco do motorista, respondeu de maneira mal-humorada:

— As portas estavam trancadas e eu não arriscaria danificar o meu carro porque uma Spilman não sabe ouvir "não"!

— Uma Spilman sabe ouvir "não" — rebateu Marie, ofendida, descendo os degraus para se aproximar e confrontá-lo. — Mas você não me disse "não". Você me enganou, e os Spilman não são enganados!

— Continue pensando assim e acabará como a sua irmã.

Notando que estava indo longe demais, se pôs na discussão e interrompeu uma resposta ácida de Marie, que ainda parecia rancorosa em relação ao detetive. também, olhando para o seu carro como se dissesse a ele que o protegeria pelo resto da vida mesmo que ninguém, de fato, tivesse ao menos tocado em sua lataria ligeiramente amassada e negra.

— Ainda bem que voltou, Marie, porque encontramos algo e precisamos de sua ajuda — a psicóloga disse.

A menina a olhou confusa, e então se lembrou do assunto, saindo do carro e parando de frente para as duas. Ele retirou um cigarro do maço que estava preso dentro do porta-luvas a tarde toda e o colocou entre os lábios, visivelmente aliviado, e então entendeu que todo aquele estresse e ansiedade era resultado da falta iminente de nicotina e álcool em seu sistema nervoso.

Os três voltaram para dentro da casa e mostraram à Marie tudo o que haviam descoberto. A menina estreitou os olhos para o desenho perfeito da casa e associou tudo, mas mesmo assim não entendeu o que a irmã poderia estar querendo dizer.

— Qualquer coisa — instigou , como o próprio demônio no ouvido da garota. — O que isso te lembra? Quando a casa já se pareceu com isso?

— Bem — começou Marie, um tanto pressionada. — Meus pais sempre tiveram essa casa, mas nunca a usaram. Um dia decidiram voltar a frequentar o lugar, mas não estava perfeito aos olhos da minha mãe, então tivemos que fazer uma reforma. Essa é a versão original da casa — apontou para os papéis espalhados sobre a mesa, e então o aspecto antigo dos desenhos fez tudo ganhar sentido para .

O quebra-cabeças completo mostrava uma imagem de um lugar repleto de móveis da era vitoriana — que eram realmente bonitos e diferentes dos atuais, muito mais modernos e brancos.

— O que vocês mudaram, exatamente? — perguntou o detetive.

— Tudo. A decoração, os móveis. Até mesmo a estrutura.

— Ótimo! — parecia animado. — Tente se lembrar das mudanças na estrutura.

— Eu não sei, . Foi há muito tempo. Eu ainda era pequena. Acho que foi no segundo andar, talvez na garagem.

— E isto? — ele pegou o conjunto de papéis que havia sobrado do quebra-cabeças de Sofia, mostrando a ela. — Te diz algo?

Marie observou tudo por um minuto. estava particularmente curioso com aquela parte do enigma. Todos as peças tinham um lugar específico para se encaixar, mas aquelas acabaram ficando de fora, por algum motivo, e ele sabia que era importante.

— Quando reformamos a casa, — disse a Spilman, — minha mãe trancou o sótão. Ela selou tudo porque odiava aquele lugar e os barulhos que o vento fazia quando passava pela pequena janela na parede norte. O problema é que está fechado com concreto e não temos como entrar sem danificar alguma coisa.

viu que estava disposto àquilo, então interveio na discussão:

— Sem chances, detetive. Invasão e destruição de patrimônio em um mesmo processo não seria nada vantajoso. Seja lá o que for que esteja naquele sótão, teremos que viver sem saber.

— Minha mãe não ficaria nada feliz de ver que a casa dela foi destruída, ainda mais depois de tanto trabalho com a reforma — concordou Marie. — Ela estará aqui no próximo final de semana, então também não teríamos tempo de consertar o que quer que precisasse ser consertado com a destruição.

concordou com a cabeça, juntando os papéis. Não havia descartado a possibilidade de entrar naquele sótão, mas esperaria que Marie Spilman fosse embora para agir de algum modo.

— Tudo bem, então. Enquanto não pensamos em algo, vamos para a segunda etapa do processo: a faculdade de Sofia Spilman — disse ele.

...

— Eu não vou entrar ali.

Joseph interrompeu o passo no momento em que o prédio da SLE entrou em seu campo de visão. parou ao seu lado, colocando uma das mãos no bolso direito de seu sobretudo e tragando o terceiro cigarro da última hora. Ele esperava aquela reação de Joseph, portanto não se surpreendeu quando o garoto se virou para ir embora e apenas o segurou pelo braço, fazendo-o trepidar antes de cair de volta no local de onde tentou sair: o meio do grande estacionamento da faculdade SLE, na manhã do dia seguinte à confusão com Marie Spilman e sua teimosia.

sabia que uma hora ou outra chegaria àquele ponto da investigação. Falar com os colegas de faculdade de Sofia Spilman provavelmente foi uma tarefa realizada por Angelina e os outros depois que deixou a Scotland Yard, mas mesmo assim ele não poderia deixar de fazer a sua própria investigação. Sabia muito bem qual a conclusão a que os outros haviam chegado e, por isso, tinha a certeza de que muita coisa precisava de uma investigação mais densa.

— Você vai, sim — respondeu , com uma certeza tão plena que fez Joseph se arrepender de ser tão flexível.

— Você sabe quantas vezes eu invadi o sistema desse lugar? Se me pegarem, eu nunca mais vou sair da cadeia.

— É exatamente por isso que te chamei. Preciso dos seus dons para conseguir algumas informações, e você tem experiência. Ninguém vai te reconhecer, Joseph, apenas se passe por um simples universitário. Pode fazer isso?

— Não.

— Ah, qual é! Eu estou te pagando pra isso.

— Dinheiro nenhum vale esse risco.

— Então o que vale?

Joseph se calou por um minuto. Responderia de imediato que nada realmente o faria arriscar a sua liberdade, mas, então, algo passou pela sua cabeça. Algo que talvez significasse que ele precisasse se pôr em risco duas vezes seguidas, mas que ainda assim valia a pena.

— Eu vou, mas você terá que arrumar um jeito de me fazer entrar no Museu Negro.

— No quê?

— No Museu Negro da Scotland Yard. Sempre quis conhecer.

sabia do que ele estava falando. O Museu do Crime da Scotland Yard, como era o seu verdadeiro nome, era o lugar no qual a polícia londrina guardou artefatos de crimes por mais de cem anos, e que só pessoas autorizadas podiam entrar. Ele entendia o porquê de Joseph querer conhecê-lo; havia muitas coisas interessantes por lá. Armas de crimes, recortes de jornais, roupas de assassinos. Sem falar das cartas do icônico Jack, O Estripador.

— Eu não sou mais da Scotland Yard, garoto.

— É, sim. Só está afastado. Eu tenho certeza que você consegue.

cedeu, concordando com a cabeça. Talvez pudesse cobrar alguns favores ou arrumar um jeito de burlar a segurança. Colocaria Joseph dentro daquele lugar — ainda mais depois de ver a felicidade do garoto com a confirmação. nem pensou na recompensa. Apenas achou que seria legal vê-lo se divertir depois de todos aqueles anos de suspeitas e olhares desconfiados. tinha a sensação de que Jopseh nunca fora, de fato, adolescente, porque nunca o vira fazer nada "normal". Talvez a perda dos pais o tenha feito amadurecer mais rápido, ou talvez a sua personalidade fechada e desconfiada não o deixasse se divertir tanto. O fato era que se aquele museu cheio de coisas de assassinos e ladrões pudesse fazê-lo ser menos Joseph por um tempo, por mais estranho e psicopata que o pensamento parecesse, daria um jeito de tentar.

— Qual o plano, então? — perguntou . Era uma das primeiras vezes em que Joseph tinha o controle dos passos e serviria apenas como distração.

— Mantenha o sistema da universidade aberto pelo maior tempo possível — respondeu. — Esse lugar tem uma segurança muito alta, eu nunca conseguiria copiar essas informações antes que me notassem. Preciso que um funcionário entre, e assim, eu entro com ele, como que em uma carona. O problema é que, quando ele sair, eu sairei também. Você precisa ganhar tempo.

— Sem problemas.

Os dois entraram na faculdade e Joseph rapidamente se camuflou por entre os jovens de sua idade. Ele se vestia como um universitário que não tinha tempo nem para dormir, com suas roupas amassadas e o cabelo louro bagunçado, então por isso ninguém o estranhou. se separou do menino assim que a sua deixa chegou, vendo-o subir as escadas que o levariam à secretaria.

— Posso ajudá-lo?

Virou-se para a voz atrás de suas costas. Uma moça o encarava, curiosa. Era loura, de óculos com armação escura e olhos claros. Aguardou uma resposta do detetive, que esperou Joseph sumir pelos lances de escadas antes de dar atenção à mulher:

— Sim — concordou. — Eu sou o pai de uma de suas alunas. Queria saber se ela veio para a escola hoje — e quando a mulher estava prestes a fazer uma expressão confusa, continuou: — Ela estava realmente muito estranha esta manhã e eu acho que pode ter passado mal no caminho.

— Siga-me, por favor.

O detetive andou atrás da mulher até que ela desse a volta em um balcão, que ficava nos extremos cantos do salão principal. Ele era de madeira e escondia um computador atrás de sua proteção, não permitindo que visse a tela em que a moça digitava a senha para acesso de funcionários.

— Os professores costumam realizar a chamada logo pela manhã, então os registros devem estar atualizados. Pode me dizer a turma e o nome dela?

fingiu confusão.

— O nome é Amanda Hallister, mas eu realmente não sei a turma. Ela mudou de horário no último semestre e eu me esqueci qual é a nova.

Ela o olhou de um jeito estranho.

— Você sabe o NI dela?

se lembrou dos números registrados nos arquivos de Sofia Spilman. Havia decorado aquele código porque sabia que perguntariam a ele para se certificarem de que o detetive a conhecia de verdade. Escolher uma das doze fichas da caixa de Sofia Spilman fora difícil, ainda mais porque todos as pessoas arquivadas eram normais ao extremo para qualquer tipo de suspeita. optou por Amanda Hallister no momento em que percebeu que a sua ficha era a mais descuidada de todas — como se Sofia tivesse gastado muito tempo nela, abrindo-a tantas vezes que o papel marrom ficou amassado e as bordas das folhas criaram orelhas.

Devia haver alguma coisa com aquela garota. precisava confiar em Sofia naquela vez.

Recitou o número decorado e viu a funcionária da faculdade repeti-los enquanto os digitava no campo de busca.

— Amanda Hallister, segundo semestre, turma três. Ela está presente — informou.

fingiu suspirar aliviado.

— Muito obrigada — e quando viu que ela estava prestes a sair do sistema, continuou: — Há como ver o número de faltas dela? Eu ando muito preocupado ultimamente.

Usou o seu melhor olhar de cachorro sem dono, o pai preocupado e distante da filha que precisava de informações do sistema da universidade para saber se ela estava frequentando a escola. A moça atrás do computador pareceu indecisa, como se não pudesse fazer aquilo, mas depois de um "por favor" baixo e calmo de , cedeu, voltando a digitar coisas em seu teclado.

— Ela tem estado presente em todas as aulas, senhor — disse e quase se sentiu aliviada, como se estivesse torcendo para que e sua filha estivessem bem.

— Muito obrigado — agradeceu, tentando juntar um nível extremamente alto de alivio. O detetive também era um bom ator, e por isso continuou com a conversa, distraindo-a de dar fim ao acesso. — Você a conhece? Amanda, digo. A vê por aí?

A mulher se inclinou e pôde ver o nome "Alessandra" estampado em seu crachá.

— Conversei com ela algumas vezes. Parecia uma boa menina. Há algo de errado?

— Não que eu saiba. É que depois que aquela moça morreu, Amanda começou a agir estranho. Você sabe se eram amigas?

— Amanda Hallister e Sofia Spilman? — Alessandra perguntou como se estivesse surpresa. — Não, nem um pouco. As duas se odiavam. Tiveram problemas por diversos motivos, uma vez. Nós até chamamos os pais delas. Você não veio?

gelou por um segundo. Se ele supostamente era pai de Amanda, deveria saber da briga que levou a filha à direção.

— Eu não fui um pai muito presente nos últimos anos — disse ele, esperando que a mulher interpretasse aquilo como um assunto delicado e partisse para outro. O que ela fez.

— Bem, não se preocupe. As notas de Amanda são ótimas. Ela deve estar apenas se sentindo mal por Sofia. Afinal, quem não se sente, não é?

concordou com a cabeça, pensando que o assassino provavelmente não estava se sentindo mal. Talvez "mal" não fosse algo que Amanda pudesse estar se sentindo naquele momento. Pensou em como aquele era um fato interessante na história — uma inimiga de faculdade? Como a Scotland Yard não investigou aquilo? Estavam ocupados demais inventando assassinos para dar importância a reais fatos, ele apostava.

Viu a tela do seu celular vibrar, o número criptografado de Joseph dizendo que estava tudo pronto. Ele se virou para Alessandra e a agradeceu. A mulher deu o seu cartão com o número de seu celular para ele. se retirou do salão principal e esperou pelo hacker enquanto tragava um cigarro dentro de seu carro velho e sujo — um contraste considerável naquele estacionamento cheio de veículos luxuosos.

— Conseguiu? — perguntou quando Joseph entrou no carro.

O menino fez que sim com a cabeça, exibindo um PenDrive.

— Você estava certo: a universidade tem uma rede social própria. Consegui tudo o que estava no perfil de Sofia e seus colegas, incluindo as conversas privadas, e, cara, eu acho que você tem muita coisa pra investigar aqui. Esses alunos são cheios de merda.



Capítulo 27

— Tudo bem, tudo bem. O Clube está formado. Todos os integrantes estão aqui. Vamos começar!

Parado no centro de sua sala de visitas, estava em pé diante de um quadro cheio de coisas embaralhadas e desconexas. e Marie encontravam-se sentadas no sofá baixo e extremamente confortável à frente do detetive, as duas o encarando com uma expressão confusa e desacreditada, estranhando o notebook na ponta do estofado, que tinha a tela acesa na imagem de uma silhueta.

— Nos chamou aqui para fingir que está em Ocean's Eleven? — perguntou .

— Seria 's Three, e é uma boa referência. Eu gostei. Agora somos duas garotas, um homem e um segredo — então olhou para o aparelho eletrônico sobre o sofá e completou: — E... Um Notebook, eu acho.

— Eu vou para casa — a psicóloga se levantou, pegando a bolsa.

a empurrou de volta para o seu lugar. caiu e revirou os olhos, vendo que ele estava disposto a deixar as gracinhas de lado para realmente explicar o que estava acontecendo. Não seria fácil lidar com naquele dia. Ele parecia animado demais quando começou a falar:

— O que acontece é o seguinte: a policia de Londres errou, e feio. Dessa vez, é imperdoável. Eu não posso deixar que a Scotland Yard faça isso, mas não estou mais dentro dela para realmente mudar alguma coisa, então decidi que vou achar o assassino de Sofia por conta própria, o que todo mundo já sabe. A questão é que eu não posso fazer isso sozinho. Eu sempre tive uma equipe, por mais aparentemente inútil que ela fosse. Há coisas que eu preciso de alguém para levar a culpa, então aqui estão vocês: Angelina, Steven e David em versão compacta, sem distintivo e sem meios de realmente me levar para a cadeira. O que acham?

Não esperou uma resposta e continuou:

— Então, hoje, eu junto a psicóloga de Sofia, que provavelmente sabe muito sobre ela, para que as suas informações acrescentem fatos à nossa investigação — olhou para . — Você conhecia os problemas de Sofia melhor do que ninguém, , e é nisso que vai se concentrar. Trouxe, também, Joseph — e apontou para o computador sobre o sofá.

Era ridículo, sim, mas o menino se recusou a aparecer ali pessoalmente. Ele não queria revelar a sua identidade, mas precisava do hacker para explicar todos aqueles esquemas tecnológicos que ele não entendia, então concordou em usar aquele método que o menino havia visto em algum programa de TV. Daquele jeito a sua identidade permanecia secreta.

— Isso é um computador — argumentou , olhando o objeto.

— Não — rebateu . — Isso é o Joseph. Diga "oi", Joseph.

Droga, cara, eu falei para você não dizer o meu nome! — o menino reclamou, sua voz saindo distorcida por causa de algum programa instalado no computador. Depois de uma pausa, o silêncio dando a um motivo para achar graça na situação, ele completou: — Oi.

Marie deu risada, e então se lembrou dela.

— E também temos a irmã da vítima, Marie Spilman. Você, minha cara, é provavelmente a pessoa mais importante deste grupo. Vimos na casa de praia que Sofia deixou todas as pistas para que só você entendesse, então será de suma importância que se concentre na situação. A justiça pela vida de sua irmã está em jogo.

Ela desmanchou o sorriso. O peso das palavras de caiu sobre seus ombros e logo ela percebeu que, se deixasse passar qualquer detalhe, poderia nunca encontrar o verdadeiro assassino de Sofia.

— E temos eu, claro. . E a minha presença aqui é óbvia. Agora, vamos começar!

Os três se reuniram ao redor do computador, e Joseph explicou tudo o que havia feito no sistema da faculdade. Quando ficou cansado da voz do mais novo, passou a organizar as impressões feitas das conversas de Sofia na rede social da faculdade, separando-as por ordem de importância, exausto só de pensar que não havia checado nem metade dos contatos da moça; Marie prestava atenção em cada palavra de Joseph; permanecia calada. Quando o menino terminou, contou a eles sobre a inimizade de Amanda e Sofia.

— Minha irmã me falou sobre essa menina, uma vez — comentou Marie. — Ela a odiava. Parece que brigaram por alguma espécie de artigo no jornal da universidade. O que é estranho, porque elas eram muito amigas e esse é um motivo extremamente fraco.

anotou aquilo ao lado de uma colagem com Sofia e Amanda, que estava no canto direito do mural que organizara. Escreveu "motivos: jornal da escola — artigo (?)" e então se virou para o computador, falando com Joseph:

— Você pode tentar achar esse artigo em algum dos arquivos que você pegou da universidade? Eu gostaria de dar uma olhada.

Só um minuto — respondeu. — Me dê uma data?

Marie pareceu pensar:

— Outubro de 2015.

— Marie, você sabe se poderia haver outro motivo para a briga? — perguntou .

— Não. Foi esse o motivo. Tenho certeza.

— E, , Sofia te disse algo sobre Amanda, alguma vez?

— Não que eu me lembre.

se sentou sobre a mesinha de centro e passou as mãos pelo rosto. Pensava em tantas linhas de raciocínio diferentes que as coisas dentro de sua cabeça viraram uma confusão sem começo, meio ou fim. Ele só parou quando ouviu a voz de Joseph informar:

Não há nada nos registros. Parece que deletaram qualquer indício de que esse artigo um dia existiu. A única coisa que sabemos é que foi escrito por Sofia, porque há o nome dela no jornal de Outubro, mas a coluna simplesmente não existe.

— Procure algo que Amanda tenha escrito nesse mês.

Há um guia de estudos. Nada relevante.

— Qual foi a próxima coisa que Sofia publicou?

Uma lista com os alguns lugares para se visitar aqui em Londres. Há três deles.

Então tudo ficou em silêncio. Ninguém tinha mais nada a falar. Nada a pensar. A única coisa que tinham eram mais dúvidas e a suspeita de que Amanda poderia ser a assassina de Sofia; o artigo escrito pela garota já morta incomodando a curiosidade de todos os que de repente pareciam depender daquela informação para viver.

Se, naquele artigo, Sofia tinha dito algo que Amanda não queria que ela dissesse, poderia ser motivo para uma briga grave. Ainda mais porque o jornal foi cancelado, o artigo que Sofia publicara provavelmente às escondidas jogado no lixo.

— Você falou com essa Amanda? — perguntou .

— Não. Eu apareci lá fingindo ser o pai dela, então seria meio estranho se a moça não me reconhecesse na frente dos outros. Não posso abordá-la na escola ou em qualquer lugar — principalmente para falar de Sofia. Se for culpada, Amanda entrará em pânico e chamará a policia. Eu não tenho mais a vantagem de não precisar temer a Scotland Yard.

— Bem, tem outro jeito — disse Marie, e todos a olharam esperançosos. — Todos da sala de Sofia iam a um pub quase toda sexta-feira, para comemorar o fim de semana chegando. Talvez ainda façam isso. Você pode encontrá-la por lá. Amanda estará bêbada e vulnerável demais para contar mentiras.

sorriu, concordando. Levantou-se e começou a escreve em seu mural, pedindo o endereço do lugar à Marie. Joseph puxou o histórico, preços e fotos do bar e os fez aparece na tela do computador.

As coisas estavam começando a melhorar.

...

— Sofia era uma suicida maluca! E uma vadia.

A frase veio no meio da madrugada fria da próxima sexta-feira, saindo por lábios pintados de um batom vermelho sangue retocado pelo menos três vezes nas últimas duas horas. observou enquanto Amanda Hallister ria junto a seus colegas, tirando sarro de sua última afirmação. Ela não parecia pensar bem no que dizia, e provavelmente era o efeito do álcool que ingerira nas últimas horas — quantidade que surpreendeu , afinal Amanda era uma garota de porte pequeno e não parecia ser capaz de tudo aquilo.

Amanda simpatizara com no momento em que o detetive a abordou no bar, apresentando-se de maneira calma e galanteadora como se realmente fosse ser apenas mais um estranho bonito e extremamente passageiro que a menina conheceria em um bar. A conversa se desenrolou por algumas horas, sempre com tentando se desvencilhar das investidas físicas da garota, mantendo o tom de flerte para não perdê-la por falta de interesse.

Em certo momento, Amanda o arrastou para o meio de sua turma de amigos da faculdade. não precisou se esforçar depois disso: ela repetia a todo o momento o fato de ser estudante de direito, como se precisasse escancarar aquilo para manter o seu ego inflado. Eventual e inevitavelmente, Sofia se tornou o assunto. E ele se surpreendeu com a frieza com a qual todos, não só Amanda, tratavam o tema.

— Por que diz isso? — perguntou , referindo-se à ultima afirmação da loura. No fundo, porém, ele sabia a resposta.

Sofia era bonita, inteligente e independente, e não seria surpresa nenhuma para saber que ela tinha uma extensa lista de admiradores. E que, claro, seria culpada e rotulada por esse fato.

— Ela estava com aquele Jared e continuava por aí, saindo com outros caras — balbuciou Amanda. Estava tão bêbada que era difícil para entender algumas de suas palavras.

— Com quem ela saía? — perguntou.

— Ela gostava de andar de moto com um garoto de fora, aquela merda de clichê que Sofia sempre gostou de viver — riu, mas parecia trágico. — Até para a morte ela arrastou a sua paixão pelo drama. Inacreditável.

— E Sofia e Jared estavam mesmo juntos? Ela, alguma vez, confirmou essa relação?

— Eu não sei — cuspiu ela, de repente agitada, e logo percebeu que Amanda poderia ter algum interesse amoroso no falecido Norton. — Mas espero que os dois estejam juntos, no inferno.

Naquele momento, os colegas de Amanda perceberam a seriedade da situação e pararam as suas piadinhas fúteis para observar a garota começar a tremer. Em seguida, os tremores se transformaram em soluços e a menina chorava descontroladamente, fazendo seus amigos trocarem olhares confusos como se nunca tivessem visto algo como aquilo acontecer. percebeu que ela devia ter uma personalidade forte e até mesmo fria, e que aquele comportamento era raro.

Amanda soluçava quando perguntou, com a voz macia:

— Sente falta dela?

A menina passou as mãos pelo rosto e o rímel manchou as suas bochechas. Seu nariz estava vermelho e o rosto inchado. Ela tinha a voz arrastada ao responder:

— Eu só queria ter acertado as coisas com ela. Eu só queria que ela tivesse me ouvido — e logo parecia estar falando consigo mesma. — Eu a alertei, mas Sofia era teimosa. Não me ouviu. Arrastou Jared consigo para as suas paranoias e não pensou em como as coisas acabariam mal.

O rosto de Amanda congelou, a expressão desesperada desmanchando-se aos poucos. Logo ela não parecia sentir nada, dizendo a frase seguinte de forma robótica e automática:

— Eu não consigo parar de pensar sobre como eu também estaria morta se eu e Sofia não tivéssemos brigado.

Ao fechar a boca, Amanda abaixou os olhos para a mesa e, depois de analisar a madeira abaixo do copo de bebida vazio, caiu no sono. se assustou com o baque e os amigos de Amanda olharam a cena por uns instantes antes dos risos histéricos dos jovens tomarem o ar do local. não saberia expressar com precisão o quanto queria poder bater em cada um deles naquele momento. A cena que acabara de presenciar tinha sido tão forte e triste que as vozes irritantes ao fundo o fazia ter a sensação de que aquele cenário estava de todo errado. Como se ele e Amanda fossem tão trágicos que não pertencessem àquele lugar cheio de pessoas felizes e músicas dançantes.

O detetive se levantou e deu a volta na mesa, pegando Amanda e colocando os braços da moça ao redor de seus ombros. Ela estava consciente o suficiente para conseguir andar com a ajuda de , portanto ele a guiou para fora do lugar, tentando manter uma conversa coerente para que ela não voltasse a dormir. A menina tentava não engasgar com os próprios fios loiros caindo sobre seu rosto, agradecendo-o, pedindo desculpas por motivos desconexos.

a colocou dentro de um táxi e esperou que Amanda dissesse o endereço para fechar a porta, anotando mentalmente a rua, número e bairro para poder visitá-la no dia seguinte, quando teria respostas melhores que apenas grunhidos bêbados. Ela o agradeceu pela janela aberta antes de o carro partir, sorrindo como se realmente confiasse nele.

Quando o táxi parou alguns metros à frente, em um farol vermelho, o detetive escutou o barulho dos saltos de traçando caminho até o seu lado.

— Ela provavelmente se apaixonou por você — disse a psicóloga, lamentando em seguida: — Coitada.

não se sentiu provocado pelo comentário. Não estava com humor para gracinhas, muito menos para responder à altura, apenas dizendo:

— Amanda não é a assassina.

— Sabíamos disso quando decidimos vir aqui — disse . — Joseph conseguiu recuperar as postagens do Snapchat dela, e as transmissões mostravam que ela estava exatamente neste bar, com os amigos, na noite do crime.

— Viemos porque precisávamos ter a certeza de que aquele artigo estava relacionado à morte de Sofia. Amanda disse tê-la aconselhado a não publicá-lo. O fato é que Hallister estava tentando proteger Sofia de algo, e por isso brigaram — e então, vendo Marie aparecer no meio das sombras da rua, o detetive completou, pensando em como tinha dito à garota que ela deveria ficar em casa: — Eu sei o quanto uma Spilman pode ser teimosa.

O táxi de Amanda continuava parado no fim da rua, e só então percebeu que ele não deveria mais estar ali. Olhou para , recebendo uma espécie de confirmação para as suas repentinas suspeitas. Marie parou ao lado dos dois e logo Joseph apareceu ao seu lado.

— Joseph, eu não pedi para você mantê-la em casa? — exigiu uma explicação.

O menino deu de ombros, respondendo de forma simples:

— Não posso controlá-la. Sinto muito. O máximo que posso fazer é segui-la.

— E você não tinha decidido não revelar a sua identidade?

Joseph olhou de relance para Marie, como se seu orgulho o estivesse impedindo de falar a próxima frase:

— Ela me encontrou.

— Como?

— No seu porão, — disse Marie, segurando o riso.

— Qual a graça? — Joseph pareceu ofendido.

A Spilman olhou para o menino e respondeu, sem esconder o tom de escárnio:

— Bem, com todo aquele lance misterioso de silhuetas e programas para mudar a voz eu esperava alguém mais inteligente e mais... — ela o olhou de cima abaixo. Joseph era muito bonito, e, por isso, Marie hesitou antes de dizer em voz alta que esperava um garoto cheio de espinhas e não uma réplica inglesa de um Deus Grego. — Nerd — decidiu, por fim.

revirou os olhos diante das faíscas que começavam a surgir entre os dois, uma mistura de ódio e tensão sexual que provavelmente estava presente na metade da população com menos de dezessete anos da Inglaterra, e então se voltou para o táxi, que continuava parado. Observou enquanto uma garoa fina começava a cair sobre a lata do veículo e então decidiu se aproximar, falar com o motorista para saber se havia acontecido algo com Amanda, mas parou no quarto passo.

A porta traseira do táxi havia sido aberta. Em meio à chuva cada vez mais forte, Amanda tropeçou para fora, segurando-se no vidro da janela antes de cair ao chão. , , Marie e Joseph correram no mesmo instante para encontrar a garota, e, por algum motivo, não se surpreendeu quando, ao chegar perto, identificou poças de sangue no chão e marcas de dedos vermelhos nas janelas.

Os quatro pararam por um segundo, apenas o suficiente para absorver todas as informações que a cena de Amanda Hallister jogada ao chão, coberta de sangue, dizia. E o tempo foi o suficiente para o táxi cantar pneu e sair a toda velocidade pelas ruas úmidas de Londres, ainda com a porta traseira aberta.

Enquanto se ajoelhava para ajudar a vítima, correu atrás do veículo por algumas quadras, mas, como em um Déjà Vu, foi deixado para trás, vendo apenas o reflexo do Assassino Mascarado no espelho retrovisor direito. Xingou baixo e voltou para encontrar os outros quatro, que estavam rodeando Amanda e tentando prestar socorros.

— Eu anotei a placa do carro, posso rastrear — disse Joseph assim que ele alcançou o grupo.

— O carro não é dele — respondeu, porque sabia que não era. O assassino nunca seria apenas um taxista, por mais que, em sua profissão, coisas estranhas virassem rotina. — O que temos que rastrear é o corpo do verdadeiro dono do carro! — completou, já com pena da vítima.

Ajoelhou-se ao lado de Amanda, onde tentava prestar algum tipo de socorro ao estancar o sangue que jorrava do ferimento visivelmente profundo na garganta da vítima. devia ter aprendido aquilo na faculdade, por mais que psicologia não fosse uma profissão tão violenta, e não se surpreendeu quando ela informou, com as mãos pintadas de vermelho e o olhar de alguém que acabara de sentir uma vida literalmente se esvair por entre os seus dedos:

— Me desculpe, detetive — sua voz estava trêmula. — Não há muito o que eu possa fazer. Ela está morrendo.



Capítulo 28

Em uma pequena fração de segundos, tudo o que lutou para esconder foi trazido à tona. Aquele ano cruel e pesaroso no qual foi torturado e perseguido pelas infames atitudes tomadas dentro do Caso Ryan, o efeito colateral dos resultados sobre as suas costas, o medo de que o mundo soubesse a verdade por trás da morte de seu melhor amigo... Tudo voltando em pequenos fragmentos, encaixando-se em partes distintas de seu cérebro da forma mais sorrateira e impertinente possível.

E tudo por causa de uma gota de chuva. Uma pequena reação de uma ação da natureza, que caía sobre o asfalto já úmido e fazia a poça de sangue espalhada pelo chão ficar cada vez mais diluída e fraca, sendo completamente tomada pela água. O cheiro que rodeava o ar era a definição perfeita de um Déjà vu, os sons das sirenes compunham o cenário que tanto temera nos últimos meses, e, então, como em uma vaga lembrança, a noite em que o caso Ryan foi encerrado tomou a sua mente.

Chovia do mesmo jeito.

O cheiro de sangue era forte.

nunca se esqueceria do terror que aquela cabana abandonada no meio da floresta causou em seu psicológico. Ele nunca se esqueceria da sensação horrível que o feixe branco da lanterna causou quando iluminou os corpos mortos, todos espalhados pelo local, sentados com as costas nas paredes, nus e ensanguentados. Havia três deles, e o homem já tremia e lamentava antes mesmo de verificar as expressões frias de seus rostos.

O detetive se aproximou, tentando não respirar fundo. Tremia tanto que a luz oscilava pelas paredes e não permitia a identificação exata das vítimas. Mas ele sabia quem eram, sempre soube, mesmo antes de entrar ali. Tinha a completa noção de que encontraria as crianças que tanto procurava, vivas ou mortas, e que não seria uma experiência prazerosa.

Viu os machucados espalhados pelos seus corpos, as marcas de tortura e de abuso. As crianças tinham expressões de horror congeladas em suas faces. Algumas ainda com os olhos abertos pareciam pedir ajuda. sentiu o gorfo aproximar-se de sua garganta, os olhos lacrimejando pelo odor forte, o som da chuva às suas costas engolindo a floresta em sombras que logo se tornariam sirenes de carros de polícia.

E então, um ruído em algum cômodo dentro da cabana.

Este fez acordar, olhando, por sobre os ombros, para as portas de madeira podre que rondavam a sala. Havia uma escada não muito confiável ao sul e uma janela o leste. levantou e deixou os corpos das crianças para trás, andando com a lanterna falha em mãos até a origem do som, que ele não sabia ser coisa de sua cabeça, efeito colateral da tempestade ou algo muito, muito pior do que qualquer um dos dois.

Entrou no primeiro quarto, sentindo o cheio de madeira molhada substituir o eflúvio dos cadáveres. Passou a lanterna pelas quatro paredes e não encontrou nada além de móveis velhos. Então, passou para a próxima, e então para a outra, encontrando sempre um amontoado decepcionante de vazios e madeira embolorada. Até que mais um ruído o acordou. Um rangido no chão do andar de cima, como alguém passando as unhas pela madeira. seguiu para a escada e subiu os degraus com cuidado e silêncio, deixando a imagem das quatro crianças pálidas e frias para trás. A lanterna ainda falhava, mas, no andar de cima, a lua, que de algum jeito conseguia passar pelas nuvens carregadas, iluminava um pouco do local. Os raios e trovões ajudavam tanto quanto atrapalhavam, lançando flashes brancos que o cegava.

Naquele andar, havia apenas uma porta. Uma única e solitária porta, que empurrou depois de uma longa exalação. Ele adentrou o quarto, que também tinha móveis velhos, e demorou para enxergar o homem jogado ao chão de madeira. Alguém aparentemente ferido que ele reconheceu ser Patrick Ryan, um velho amigo. Ele estava estranho, como se alguém o tivesse drogado, e se aproximou para erguê-lo e colocá-lo com as costas contra a parede, mostrando, então, que o sangue que o manchava não vinha de seu próprio corpo.

retirou as algemas do bolso de seu sobretudo e se aproximou para prendê-lo. Não tinha permissão para aquilo, afinal não estava mais no caso. Sabia, porém, que Angelina e Enzo entenderiam a situação e o encobririam caso fosse necessário. Não podia deixar Patrick escapar depois de tantos anos. Precisava ser firme, sem colocar nada a perder. Se controlar era a palavra chave naquela noite. Por mais que odiasse Ryan e o que ele havia feito, não podia matá-lo e muito menos agredi-lo.

o segurou pelos pulsos e completou a ação, erguendo-o logo em seguida. Quando o guiou para fora do quarto e desceu as escadas, as luzes vermelhas e azuis começaram a inundar cada canto da cabana. Ryan foi apto a ver o corpo das crianças quando isso aconteceu, ficando visivelmente assustado. Não parecia ter sido o assassino, mas, depois de tanto tempo, tantas pessoas inconfiáveis e tanta maldade, já não duvidava do que o ser humano era capaz.

Levou-o para fora do local, evitando olhar para as crianças, e o colocou dentro de uma viatura. Enzo, Angelina, David, Steven e Anderson estavam parados embaixo da chuva, observando-o com um olhar de tristeza que beirava à pena e consumia decepção. Ryan balançava a cabeça e negava o crime, pedia para que ele não piorasse as coisas. E então, quando o resto da equipe adentrou a cabana e viu o que tinha acabado de ver, as coisas começaram a se tornar reais. Tão reais que nunca voltaram a ser apenas lembranças.

?

abriu os olhos, vendo encará-lo de uma maneira preocupada. A chuva a deixara encharcada da cabeça aos pés, e nem mesmo o casaco que o detetive pusera ao redor de seus ombros pôde manter o frio de uma típica noite londrina.

balançou a cabeça, percebendo que havia ficado longe por muito tempo. A chuva causava aquele tipo de desconforto nele, o cheiro de sangue também. Era como um pequeno trauma crescendo em suas entranhas e o distraindo do mundo real.

— Você está bem? — perguntou a psicóloga, seus olhos castanhos tentando enxergar além das gotas grossas de chuva.

fez que sim com a cabeça e, segurando-a pelo braço, arrastou a mulher para debaixo do toldo que protegia a entrada do bar. Ali, a chuva não os alcançava, muito menos o cheiro aguado do sangue. O esconderijo se mostrou acolhedor até que mais uma viatura chegou e as luzes voltaram a incomodar os olhos do detetive.

— Estão levando Amanda para o hospital — disse ele, narrando a cena na qual a menina era posta em uma maca e carregada para uma ambulância. — Mas havia muito sangue.

— Acha que ela pode sobreviver?

— Sinceramente, não.

— Pobre garota — lamentou .

— É melhor irmos para casa.

não podia ser visto em mais uma cena de crime relacionada ao Caso Spilman, então preferia ir embora. Ofereceu uma carona a quando começou a andar. A mulher aceitou e o acompanhou pelo caminho até o carro, mas não ficou quieta por muito tempo:

— Onde estão Joseph e Marie?

suspirou antes de responder.

— Joseph dá um jeito de sumir sempre que a palavra "polícia" é dita. Deve ter levado Marie para casa.

— Ele... É um bom garoto?

O outro riu.

— Estamos sendo perseguidos por assassinos e você está preocupada com Joseph?

— Estou, sim. Quem nos garante que ele não tem nada a ver com isso?

A expressão de se fechou. Claro que ele entendia a desconfiança de , mas precisava defender Right e sua excentricidade. Ele podia ser um tanto maluco, fazer algumas coisas ilegais, mas, no geral, era uma boa pessoa.

Eu garanto — respondeu. — Joseph é o único de nós que não têm motivos para ser o assassino.

E com aquela frase, continuou a andar. ficou para trás, observando a silhueta do detetive sumir atrás da cortina de gotas grossas que havia se formado com o passar dos metros. Ela pensou no significado de sua frase, assustadoramente concordando com na sua filosofia.

Todos ali tinham um motivo para matar Sofia Spilman. Qual seria o dela?

...

Dias depois, do outro lado da cidade, Joseph e Marie montavam seus próprios quadros de suspeitos e pistas. Havia dois deles, um para o passado de Sofia e um mais recente — durante o período antes dela morrer. Suspeitos que ela conheceu quando mais jovem, na época em que ainda estava em casa, e suspeitos da faculdade, de sua nova vida, tinham fotos coladas por toda a lousa. Os dois jovens aspirantes a detetives fizeram conexões entre todas aquelas pessoas, e, por algum motivo, todas aquelas conexões acabava em uma única entidade.

— Amanda Hallister? — perguntou , levantando a sobrancelha. — Faz sentido.

— Todo mundo que Sofia conhecia, conhecia Amanda também — disse Joseph. — E as duas nem eram amigas de verdade.

— Eram antes de uma briga — relembrou, como se mandasse que ele prestasse muita atenção naquilo.

Aproximou-se dos dois quadros, um posto ao lado do outro, e viu as linhas de cor vermelha e azul que circulavam por cada um deles. Deduziu que azul fosse passado, vermelho presente e, as amarelas, que eram menos constantes, marcavam pessoas que já haviam morrido. Tinha também um terceiro quadro, esse quase vazio, que parecia ser dedicado à vida de Jared Norton.

— Nós sempre nos esquecemos dele — explicou Marie, vendo o olhar curioso do detetive. — Mas, assim como a minha irmã, Jared também foi assassinado.

concordou com a cabeça. Ficou em silêncio enquanto encolhia naquela velha e conhecida pose que sempre fazia inconscientemente, levando uma das mãos aos lábios ou ao queixo, a outra dando apoio ao cotovelo. Mostrava que ele estava intrigado.

— Vocês fizeram um ótimo trabalho. Eu conversei com Steven e David semana passada, parece que há um garoto que tanto Sofia quanto Jared conheciam. Ele saía com os dois direto, mas os pais das vítimas não sabem fornecer um nome. Apenas uma descrição. Será que Amanda também o conhecia? Pode ser o culpado.

— Como ele era? — perguntou Marie.

— Loiro, branco, não muito alto. Jovem.

Joseph foi até o quadro de Jared e fez uma menção a esse garoto. Desenhou uma silhueta e escreveu as características ao seu redor, um ponto de interrogação enorme pairando no fundo negro.

— Eu quero todas as fotos desse quadro. Suponho que as tenham no celular, então me mandem — disse , indo até Marie e a segurando pelos ombros em uma parabenização quase paterna de tão clichê. Estava realmente orgulhoso do trabalho deles.

Joseph e Marie se entreolharam quando o homem saiu. Pareciam orgulhosos do trabalho bem feito, algo que tinham montado sozinhos, com investigações escondidas de , por pelo menos uma semana. Passara-se um bom tempo desde o ataque à Amanda Hallister, e toda a Londres havia entrado em uma espécie de desespero conjunto — incluindo . Ele andava disperso e os dois adolescentes sabiam que precisavam agir enquanto ele se recuperava do trauma. Então fizeram um trabalho em segundo plano. Nada demais.

— Está com fome? — perguntou Joseph, fazendo-a acordar.

— Muita.

— Venha — e a puxou para as escadas, saindo do porão que usavam para se esconder.

A casa de Joseph era, no mínimo, macabra. Escura, sem móveis, apenas com alguns computadores no porão. Não havia uma geladeira, nem uma cama, muito menos fotos ou qualquer coisa que um ser humano normal poderia acumular. Marie se sentiu intrigada demais para não perguntar:

— Há quanto tempo mora aqui?

O hacker a olhou e riu. Estavam do lado de fora da casa, e ele trancava a porta. Marie olhou ao seu redor e percebeu que a rua era vazia em sua essência, sem um único vizinho para dar vida ao lugar.

— Eu não moro aqui, Spilman — respondeu o hacker.

— Não?

— É claro que não! Pensou que eu fosse o Drácula? — desceu os degraus, a menina o acompanhando. — Eu só uso esse lugar como uma espécie de escritório. Não posso fazer nada de ilegal na minha própria casa, seria arriscado demais.

Ela concordou com a cabeça.

— E onde você mora?

— Isso é segredo — sorriu quase como se lançasse um desafio a ela.

O céu estava estrelado naquela noite, e os dois conseguiam enxergar o caminho de pedras do pequeno jardim estilo americano com perfeição. Não havia obstáculos até a moto estacionada de frente para a casa, na calçada, mas havia a grama úmida pelas chuvas da última semana. Eles desviavam das poças sempre que uma aparecia.

— Isso é injusto — comentou Marie. — Você sabe onde eu moro!

— Todo mundo sabe onde você mora, Spilman — rebateu.

Marie sabia que ele tinha razão, então mudou de assunto:

— Seus pais sabem desse lugar?

A pergunta soou inocente na cabeça de Marie, mas Joseph demorou para responder. Quando o fez, levou as mãos aos bolsos de sua jaqueta e não a olhou nos olhos.

— Meus pais morreram em um acidente já faz alguns anos.

— Eu sinto muito.

— Muita gente sente — riu sem humor.

Havia certa mágoa em seu tom de voz, como se Joseph estivesse farto de pessoas partindo de sua vida, de tantos "sinto muito" que não possuíam nenhum significado real.

— Eu sei do que está falando — disse Marie, com sinceridade. — A pior parte da morte é a hipocrisia de quem nunca ligou para os vivos. Eu quase enlouqueci no funeral da minha irmã.

Os dois pararam por um segundo. Sorriam de uma forma mínima, quase imperceptível, como se aquele sentimento fosse algo restrito apenas a eles e ninguém mais fosse entender.

Provavelmente não iriam.

— Gosta de hambúrguer? — perguntou Joseph, e Marie soube que eles ainda tinham muito para conversar. — Ou você só come essas comidas estranhas de gente rica?

Marie riu.

— Hambúrguer está ótimo.

...

Alguns quilômetros adiante, adentrava o Cemitério de Highgate, onde o corpo de Sofia Spilman havia sido enterrado. Ele procurou pelo túmulo da garota e, quando o encontrou, retirou o celular de Marie do bolso, que havia furtado sem que a menina percebesse na hora em que a parabenizou, e fez uma ligação. apareceu cerca de vinte minutos depois, enrolada em um casaco grosso de cor escura. Tinha as mãos nos bolsos e o pescoço encolhido dentro da gola de lã.

— Você não podia ter escolhido um lugar mais macabro? — ela brincou, mas parecia mesmo com receio do local.

quase riu.

— É importante, confie em mim. Venha aqui e olhe isto.

parou ao seu lado, mas, ao contrário de , não sentou em uma das lápides de mármore. Para ela, era desrespeitoso e até macabro; para ele, não parecia ter importância. A mulher olhou para onde o detetive olhava: o túmulo de Sofia. Então o viu tirar um celular do bolso e entregar a ela.

— Pink e Cérebro estão investigando a morte de Sofia pelas nossas costas — disse, colocando as mãos nos bolsos do sobretudo quando a psicóloga segurou o aparelho. — Mas disso você já sabia, não sabia?

mordeu o lábio inferior. Pareceu envergonhada de ter omitido dele a informação de que Marie e Joseph investigavam a morte da mais velha dos Spilman por conta própria. Mas ela acompanhava tudo, e, de um jeito ou de outro, nunca pensou que chegariam a lugar algum. Pensou apenas que era uma boa maneira de Marie se distrair de toda aquela confusão e de, além de tudo, ficar mais íntima de Joseph. havia desenvolvido uma afeição pelo garoto e adoraria que ele virasse amigo dela; sentia que os dois precisavam um do outro.

— Eu sabia — confessou.

— É, eu também — sorriu o detetive. — Eles são péssimos mentirosos. Cinema? Joseph nunca iria a um cinema, nem mesmo pelos olhos verdes de Marie.

riu.

— Parece que somos todos mentirosos. Ainda assim, não entendo por qual motivo estou ao lado de um detetive bêbado, às dez da noite de uma sexta, segurando o telefone da adolescente mais rica da cidade. Pode me esclarecer?

É claro que reconheceria o celular de Marie. deveria saber.

— Você está aqui porque as investigações dos dois geraram um resultado, afinal. E pode ser dos bons — então apontou o celular com o queixo. — Há duas fotos aí, as duas da semana passada: uma da lápide de Sofia, a outra da de Amanda. Quero que olhe para todos os itens deixados no memorial e me diga caso encontre algo.

suspeitou, mas fez o que ele pediu. Observou as duas fotos e abusou do zoom fornecido pelo aparelho para vasculhar cada centímetro das duas imagens; quando finalmente encontrou o que procurava, sentiu o coração saltar dentro do peito. Olhou para em dúvida e ele concordou com um aceno breve de cabeça. Era exatamente o que ela estava pensando.

— Isso é uma máscara. A máscara do Assassino Mascarado! apontou para um objeto negro no canto da foto. De longe e para desavisados, pareceria apenas um pedaço de tecido dobrado perto de um amontoado de flores; mas conseguiu reconhecer, sempre a reconheceria. — E está nas duas. O que quer dizer?

— Eu acho que é uma ameaça — respondeu , apontando para a lápide à sua frente. Ali, entre alguns objetos ainda remanescentes, não encontrou a máscara da foto. Ela tinha sumido. — Alguém veio e deixou sobre a lápide de Sofia, como um aviso. E então, sobre a de Amanda; outro aviso.

— Para quem?

— Minha opinião? — se levantou, andando sob a luz do luar de um jeito dramático demais. — O garoto loiro. Aquele que Steven e David procuram. Ele é o elo entre Amanda, Sofia e Jared.

— Vocês não achavam que ele era o assassino? — pergunta . Era o que ela tinha ouvido falar uma semana antes.

— Não, eu acho que não. O Assassino Mascarado tem quase dois metros de altura e não bate com a descrição do adolescente que os pais de Jared deram.

— Então onde esse garoto se encaixa?

— No meu ponto de vista, só resta pensar que o garoto loiro fazia parte de alguma coisa que Sofia, Amanda e Jared planejavam. Agora, estão todos mortos, e só falta ele. Por isso não o achamos. Está se escondendo, sendo ameaçado. Com certeza foi ao enterro dos três colegas e, por isso, as máscaras: um aviso. O assassino sabia que o garoto estaria lá e sabia que ele entenderia o recado.

— Então ele já viu o Assassino Mascarado antes de tudo isso — deduziu . — Caso contrário não reconheceria a máscara, muito menos se sentiria ameaçado com ela.

concordou. Se os quatro estivessem fazendo algo que pudesse ser ilegal, o menino não procuraria a polícia após a morte de Sofia. Ele saberia que não teriam proteção ou defesa para ajudá-lo. O que ele faria, então? Fugiria e se esconderia enquanto os outros aliados — Amanda e Jared — eram mortos. Culpado, visitaria os túmulos deles em seus enterros — e o Assassino, sabendo disso, já deixaria um recado para ele.

— Pode ter sido na noite que Sofia morreu, talvez? — pensou . — Ou será que cruzamos com ele quando Amanda foi morta? Ele tem que ter visto o nosso psicopata maluco em algum lugar, de algum jeito — e então parou, pensando em alguma coisa. — Mas por que não foi morto? Ninguém que cruzou com aquele maluco sobreviveu. Isso está me matando de curiosidade!

Meu Deus comentou, perplexa. — No que Sofia se meteu? O que ela escondia? Eu mal posso acreditar na proporção que isso está tomando!

— Eu não sei, . Mas sei de uma coisa: — o tom conspiratório de um homem que já tem planos traçados tomou a voz do detetive. Ele sorriu. — O assassino vai matar de novo, e nós o impediremos dessa vez. Só precisamos seguir as pistas de Sofia e encontrar esse garoto, seja lá quem ele for, o mais rápido possível.



Capítulo 29

Quando os primeiros flocos de neve começaram a cair sobre Londres, não pôde vê-los. Estava ocupado demais divagando dentro de sua sala minúscula — aquela que ficava no segundo andar da casa que dividia com Natallie e a sua incrível capacidade de deixar qualquer lugar parecendo o único no qual você iria querer morar em toda a sua vida.

Naquela noite, o detetive pensava em todos os lugares pelos quais passara durante a sua existência e, no meio do devaneio, teve aquela já conhecida sensação que sempre chegava de forma repentina, sendo ela uma fração da saudade que sentia de sua última casa. As paredes amarelas da terraced house da rua Sete, o seu primeiro lar independente, longe das asas dos pais, sempre lhe foram acolhedoras demais. Na época em que vivia lá, era recém-casado e não trabalhava na divisão de homicídios da Scotland Yard, mas sim na Polícia Especializada, lidando com o Crime Organizado e outros problemas enfrentados pela cidade que a cada dia parecia guardar uma nova surpresa para o homem.

Aquela casa ficava a pelo menos cinco quilômetros de distância da Scotland Yard, e sempre achou que aquilo o ajudaria na separação do trabalho em casa. Mesmo assim, a construção precária guardou todas as memórias do jovem e inexperiente que ficara bons anos sendo apenas o novato, alguém que ajudava a carregar casacos e levava café aos superiores. Depois bradou tempos melhores, quando o futuro detetive foi promovido e entrou em casos importantes, realizando algumas prisões, ganhando medalhas e prêmios...

Até que aquilo aconteceu. E então a sua vida toda mudou. Ele saiu daquela casa, do seu emprego, e recomeçou do outro lado da cidade. Havia perdido muito para que continuasse a viver do mesmo jeito, com as mesmas lembranças, fazendo Natallie sofrer a cada segundo vivido sem ela. E tinha dado certo até ali, mesmo com revirando arquivos em alguns momentos, os dois haviam conseguido superar a perda e o luto. Pelo menos um pouco.

Até a morte de Sofia Spilman.

Quando a jovem garota ruiva morreu e aceitou o caso, o detetive não fazia ideia do que estava prestes a acontecer. Nunca poderia prever a quantidade de sangue, perdas, mistérios, enigmas, e momentos de loucura. Sua cabeça, naquela noite, viajava pelos anos anteriores ao misterioso assassinato da menina, quando a sua vida era mais simples, e estando tão imerso naquilo ele não escutou quando Natallie entrou em seu escritório e o abraçou pelo pescoço, apoiando o queixo em um de seus ombros e olhando a tela do computador no qual o detetive estava concentrado.

Ela reconheceu o arquivo com informações sobre a morte de Sofia Spilman — o mesmo que havia visto meses antes — e percebeu que ainda estava em branco. Natallie se sentiu mal por ele. Pareciam os acontecimentos do Caso Ryan se repetindo. Algo desesperador porque a mulher sabia como tudo havia acabado.

— Angelina já está aqui — disse, beijando-lhe a bochecha. — E o jantar já está pronto.

— Desculpe, eu não queria ficar nisso o dia todo. Acho que perdi o horário.

— Sem problemas — mentiu. — Agora vamos descer.

se levantou, com a esposa o puxando pela ponta dos dedos, deixando o escritório e toda aquela confusão de fotos e papéis para trás. Do lado fora ele foi acolhido pelo corredor escuro do andar de cima da sua casa, e mesmo que a falta de luz geralmente o deixasse claustrofóbico, se sentiu aliviado. Não havia percebido o quanto aquele escritório lhe fazia mal; tão tenso e amargurado que sentia-se outra pessoa ao se livrar dele.

Naquela noite em especial, um único e precário feixe amarelo de luz escapava de um poste e invadia o corredor da residência dos . Ele era o único funcionando corretamente naquela rua, e tudo porque a neve havia atingido mais de cinco centímetros e prejudicado a rede elétrica da cidade, fazendo com que mensagens de precaução fossem espalhadas pelas televisões e rádios. Nada havia realmente parado de funcionar, mas as pessoas precisavam ficar atentas aos seus aparelhos eletrônicos.

E foi só pensando em como aquela situação acontecia apenas uma vez ao ano que percebeu que era realmente Natal. Ficou tão óbvio! Natallie estava usando o seu vestido vermelho preferido e as casas de toda a rua brilhavam com luzes festivas; a neve já havia se acumulado nas beiradas das janelas, proporcionado a todos a sensação de que nunca mais poderiam sair de casa; pequenos enfeites nostálgicos tinham sido pendurados nas maçanetas, e só então ele notou que era mesmo Natal.

parou, fazendo Natallie se virar, e a puxou em um impulso que a fez ficar entre a parede e o corpo do marido. Ele sorriu lentamente, vendo-a gargalhar com a brincadeira, e a beijou como se aquela fosse a noite mais especial de suas vidas.

— O que foi isso? — Natallie perguntou, contente e curiosa quanto ao comportamento repentino.

balançou a cabeça. Tinha tanta sorte. Não podia deixar a sua mente ser levada por coisas como as que estavam acontecendo ultimamente. Ele ainda estava vivo, Sofia não era a prioridade de sua existência. E Melanie, por mais que doesse admitir, teria que ser deixada para trás.

— Eu te amo demais — disse, porque aquilo resumia tudo o que ele poderia querer passar. Natallie fechou os olhos e segurou o seu rosto entre as mãos, beijou-lhe a ponta de seu nariz e disse que também o amava.

Puxou-o para que continuassem o caminho e desceram as escadas, tão leves e felizes que Angelina Devens, que pendurava o seu casaco sobre o cabide na entrada da casa, ficou quase surpresa. Já fazia um tempo que não via com a postura tão relaxada e a expressão leve. O detetive andava sempre tenso e preocupado com tudo, fazendo as suas brincadeiras de mau gosto e aprontando tanto que ninguém diria que era uma pessoa quase sensível.

Naquela noite, ele parecia um homem comum. Alguém que comemora a noite de Natal porque realmente acredita no amor e na prosperidade, e aquilo a deixou tão feliz pelo amigo que Angelina suspirou aliviada. Andava preocupada com ele sem a Scotland Yard. Ana, namorada de Angie, não via há mais tempo ainda e não chegou a presenciar a sua pior fase, mas sentiu o mesmo que a companheira.

— Fico feliz que tenham vindo! — disse Natallie, e estava sendo sincera. Sabia que as coisas com a família das duas estavam complicadas desde que tinham assumido o relacionamento. Mesmo depois de anos, não conseguiam aceitar.

Além disso, Natallie realmente apreciava a companhia das outras duas. Gostava de tê-las para o jantar, conversar, saber o que acontecia com na Scotland Yard. Gostava de dividir taças de vinho e de falar sobre qualquer coisa, porque confiava em Angelina para cuidar de quando ela não estava por perto. Confiava muito mais nela do que nele quando se tratava da integridade física do homem, e sabia que Angelina morreria por ele tanto quanto morreria por ela. No início, Natallie a convidada por cortesia, educação e gentileza. Mas depois se apegou à mulher e as duas viraram boas amigas, tanto que os últimos seis Natais haviam sido com a sua presença e a de sua companheira.

Quando as convidadas de desfizeram dos montes de casacos necessários para enfrentar o frio fora da casa, Natallie as guiou para a sala da visitas. A lareira estalava naquele cômodo, deixando tudo laranja e aconchegante, e a árvore de Natal dos parecia um monumento.

Natallie e a haviam decorado de forma peculiar: os enfeites eram formados por miniaturas de tudo que amavam, desde chaveiros de estrelas e pequenos pudins de chocolate a fotos da família em cápsulas arredondadas. Havia também cartões recebidos de parentes distantes e alguns doces que os dois gostavam de roubar de vez em quando.

Angelina parou para observar cada detalhe da árvore e não deixou de dar risada com a miniatura de uma garrafa de Whisky pendurada em um dos galhos. realmente adorava beber, não era?

— Você quebrou algumas tradições aqui — disse Angelina. havia acabado de parar ao seu lado com uma taça vazia. Natallie queria abrir o vinho que havia comprado por seis libras em um posto de gasolina quando voltava do trabalho. Ela não gostava de ficar bêbada e dizia que o vinho ruim a impediria de passar da segunda taça.

— Só adaptamos um pouco a data.

Angelina riu, e se virou para Natallie quando ela pediu para que ele abrisse a garrafa de vinho. O detetive deixou Ana e a esposa na sala para ir até a cozinha com a amiga o acompanhando, prestando atenção quando ela falou de forma casual:

— Enzo está cogitando a sua volta.

não entendeu o ponto da amiga. As coisas entre Angelina e ele estavam um pouco estranhas desde que discutiram sobre o Caso Spilman — o que parecia insignificante naquele momento, pois nenhum dos dois realmente era do tipo que guardava mágoas, portanto, quando ela falou, olharam-se como se estabelecessem um acordo de paz e assim a situação ficou combinada.

— Jura? — não estava realmente surpreso. — Não fiquei sabendo de nada.

— Enzo é quase tão orgulhoso com você.

— E agora temos uma garota de recados?

— Só estou passando a informação.

Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas com a conversa paralela de Ana e Natallie se desenrolando ao fundo, na sala. procurava o saca rolha em uma das gavetas quando Angie se aproximou e falou como se estivessem compartilhando o maior dos segredos:

— Eu sei que você não desistiu do Caso Spilman.

continuou ocupando-se com a tarefa aleatória de remexer os garfos dentro da gaveta. Já tinha achado o que procurava, mas, de repente, sabia que não podia olhar para Angelina e mentir. Ela saberia. Era a única que sempre sabia quando o homem estava mentindo.

— Você está muito certa disso, não está? — rebateu. Perguntas contra perguntas viraram um hábito para ele.

— Ela não era a sua responsabilidade — disse a mulher. — Você não precisa fazer justiça pela morte de Sofia. Já fizemos isso.

— Não fizeram.

— Você sabe que sim. Ela não é a Melanie. Você não é um vingador, . A sua filha não vai voltar e você precisa aceitar que vingar a morte de Sofia Spilman não a trará de volta. Não é a sua obriga...

Naquele momento, bateu a gaveta do armário com tanta força que Angelina deu um pulo. Ana e Natallie viraram-se para olhar, ambas sentadas no sofá da sala, e Angie disse que ele já tinha nascido bêbado e não havia precisado do vinho para começar a errar as reações. a olhou de canto, sem virar-se realmente para encará-la, e respirava de um jeito tão forte que quase não conseguiu pronunciar as próximas palavras de uma maneira audível:

— Você não sabe nada sobre a minha filha.

— Sei o suficiente — respondeu, tão direta e convicta, nem perto de sentir medo da reação inesperada do parceiro. — Você tem esse complexo, , e ele está te matando. Deixe-o para lá. Não poderei te ajudar se estiver levando tudo pro lado pessoal. Preciso de você com a cabeça limpa.

conteve a respiração. Apertava o saca rolha com tanta força que alguns fios de sangue começaram a pingar no chão. Angelina esperou que ele entendesse o recado sem se movimentar, olhando-o com os seus grandes globos azuis.

— Por que eu precisaria da sua ajuda? — ele perguntou.

— Porque não se pode resolver um mistério sem a Scotland Yard por perto. Você sabe disso.

— Então... Acredita que Matthew não é o assassino?

Ela piscou. quase suspirou aliviado quando Angelina disse:

— Eu acredito em você. É o suficiente. Jantaremos hoje, como pessoas normais, e depois você vai me apresentar ao seu time. Eu vou trazer o meu. Resolveremos esse mistério juntos.

concordou com a cabeça, ainda um tanto nervoso. Angie se retirou da cozinha para se juntar à Ana e Natallie, na sala, deixando para trás, apoiado no armário, olhando a própria mão ensanguentada e tentando respirar com menos dificuldade diante de tudo. Não estava preocupado com a investigação, nem com Sofia, mas sim com o que Angelina havia dito sobre Melanie. Há muito tempo não ouvia aquele nome sair da boca de outra pessoa, então ele quase não parecia real. Como se tivesse se acostumado tanto com a ideia de uma lembrança que, quando a realidade veio tão forte, não conseguiu suportar o seu peso.

Era real. Tão real. Os cachos louros, a risada estridente. O vestido azul e branco igual ao de Alice, do filme Alice no País das Maravilhas. Tudo parecia real demais.

Ele balançou a cabeça, apertando as unhas contra os cortes nas mãos. A dor o fez voltar para a realidade. A sua sanidade parecia momentaneamente salva. Ele poderia aguentar mais algumas horas.

...

— Por que você está vestida assim?

Todos olharam para Marie Spilman quando ela entrou na sala. O que era de se esperar, porque a menina usava uma roupa com tema Natalino curta demais para o frio que fazia. Mesmo assim, Marie parecia confortável dentro de seu vestido vermelho cheio de plumas brancas e o gorro igual ao do papai noel. Por cima de tudo havia um casaco formal demais que identificou ser o uniforme da sua escola. suspirou como se não estivesse surpresa e Joseph quase engasgou com o refrigerante que tomava, proporcionando um pouco de diversão extra a , que adorava vê-lo nervoso por causa da garota.

— É para uma apresentação da minha escola — ela explicou, nem um pouco envergonhada. — Eu consegui fugir, mas preciso voltar em algumas horas.

— Tudo bem, sente-se — instruiu , sem muita paciência para detalhes.

Marie obedeceu e se sentou ao lado de Joseph, dando-lhe um beijo como cumprimento e saudando , que estava por perto, em pé, ajudando com alguns papéis que ninguém além deles saberia dizer o que eram.

Os quatro tremiam de frio no porão da falsa casa de Joseph, o lugar que haviam adotado para realizar os encontros e dividir teorias, pistas e informações. Faziam aquilo com mais frequência que o recomendado, e, como na última vez que se encontraram havia saído dali dizendo que tinha encontrado algo, todos estavam ansiosos, esperando que o homem contasse logo qual era a descoberta. Se surpreenderam quando três pessoas altas, usando preto e com cara de bravas desceram as escadas do porão e se juntaram a eles.

— Estes são Steven, Angelina e David — disse , apresentando-os aos outros.

Marie pareceu confusa, já sabia o que iria acontecer e Joseph... Bem, ele começou a surtar.

— Trouxe policiais para a minha casa?!

— Detetives — corrigiu Angelina.

— Dá no mesmo.

— Policiais não são investigadores, meu jovem. Detetives, sim.

— Os dois prendem.

— Isso pode ser verdade.

— A questão — interrompeu — é que esses três trabalham comigo há mais de dez anos. Eu confio neles, portanto vocês deveriam confiar também. Estamos perdendo boa parte da investigação sem as vantagens que a Scotland Yard proporciona. Precisamos deles.

— Cara, tem muito policial por metro quadrado. Eu preciso sair daqui — foi o que Joseph disse, levantando-se e saindo do porão.

Ele realmente tinha fobia de policiais. nunca entenderia completamente, mas parecia que, quando os pais do garoto morreram, Joseph teve alguns problemas com a polícia, os orfanatos para os quais fora mandado, e as autoridades que eram responsáveis por si. Talvez ele tivesse sofrido alguma agressão, abuso ou desmoralização. Ou talvez ele só estivesse com medo de ser preso. A questão é que não o impediu de sair, muito menos de ser acompanhado por Marie, e aceitou que o menino precisava de um tempo para se acostumar com a ideia.

— Ele está bem? — perguntou Angelina.

— Vai ficar — assegurou . — Mas você podia ter vindo menos "Homens de Preto", não? Até eu estou assustado!

Angelina revirou os olhos, mas também se sentia culpada por estar vestida de um modo tão dramático, com aquela formalidade de ternos e sapatos sociais. Era uma coisa muito difícil de se evitar uma vez que a mulher passava vinte horas de seus dias usando roupas como aquela. Já havia se acostumado.

— Vocês trouxeram o arquivo? — perguntou .

Angelina a olhou como se estivesse surpresa por vê-la ali, mas logo isso passou e ela tirou de dentro de sua pasta preta um amontoado de papéis brancos dentro de uma capa marrom e entregou tudo à psicóloga.

— Tudo o que temos sobre o Caso Spilman está aí. Há informações sobre as duas primeiras mortes, mas nada além disso. A Scotland Yard não considerou Amanda Hallister ou os irmãos Olsen vítimas do mesmo assassino. Não havia provas o suficiente, mas creio que vocês devem ter um motivo plausível para acreditar nisso.

— É o mesmo assassino — afirmou com convicção. Não queria contar o que aconteceu naquela tarde, quando Olsen disse a ele que Sofia previra a sua chegada. Parecia surreal demais, exagerado demais. Quase o obrigava se sentir culpado. Ele não queria admitir que não tinha ideia do que aquilo poderia significar.

Angelina concordou, e os cinco continuaram trocando pistas e informações pelo resto da madrugada. O frio fazia a pequena vidraça no topo de uma das paredes ficar completamente imersa em neve. Joseph tinha muitos aparelhos eletrônicos pelo porão, que brilhavam e emitiam luzes coloridas que poderiam facilmente passar por enfeites de Natal. O clima estava morno, quase agradável. Eles compartilhavam informações que deveriam ser pesadas, mas a reunião da equipe depois de tanto tempo deixou tudo um pouco menos desagradável.

era nova ali, acompanhando tudo com o olhar daquele mesmo jeito importuno e ousado de quando a viu pela primeira vez. Como se ela soubesse mais do que contava, como se o desafiasse. E só então ele percebeu que estivera errado o tempo todo; ela não o desafiava. Ela não escondia nada. apenas era inteligente demais para parecer normal, olhando tudo como se as coisas não passassem de um pequeno enigma que logo seria solucionado. Aquilo o incomodou no início, sim, porque não aceitava que alguém poderia achar o culpado antes dele. Mas agora ele via que aquilo era uma vantagem, porque estavam no mesmo time, do mesmo lado, e fariam tudo para atingir o objetivo em comum.

...

— Você sabe da tradição sobre o Visco? — perguntou Marie.

Joseph ainda estava nervoso, e apesar de a jovem Spilman não entender o motivo, sentiu que deveria tentar distraí-lo de alguma forma. Conhecia Joseph há algum tempo, e, em todo aquele período, nunca o vira daquele jeito. Ela sabia que tinha muito mais ali do que o simples medo de ser pego pela polícia, mas perguntar poderia assustá-lo ainda mais, então optou por outra dinâmica.

Estavam sentados na pequena escada de mármore localizada na frente da casa do garoto. A rua era cheia de árvores, quase sem vizinhos além de um ou dois, e parecia mais escuro ali do que em qualquer outro lugar do mundo. A neve ainda caía, pousando sobre os ombros dos dois, e era estranho perceber que ela não derretia tão facilmente quando atingia o hacker.

— Qual tradição? — ele finalmente respondeu, virando-se para ela. Seus olhos verdes ainda estavam um pouco arregalados, e Joseph tremia de frio. Havia pequenos flocos brancos por entre os seus cachos dourados.

— Algumas culturas acreditavam que o visco tinha poderes mágicos — disse ela. — Que era uma planta que representava paz, amor, boas vibrações. Coisas tão puras que, muitas vezes, usavam para produzir antídotos contra venenos.

Marie se levantou, puxando Joseph consigo. Começou a guiá-lo pela calçada, sempre agarrada ao seu braço para proteger-se do frio, continuando a contar a história sobre o visco. Joseph ouvia tudo atentamente, sentindo o calor da garota complementar o seu, e a imagem dos dois na rua poderia até mesmo ser engraçada para qualquer desavisado que os visse passando. Afinal, Marie ainda estava vestida de papai noel, com uma touca vermelha, e Joseph usava o seu moletom preto preferido — aquele que Marie sempre dizia que apenas um stalker compraria.

— Mas a minha história preferida sobre o visco é a da deusa nórdica do amor, Frigga, que teve um sonho terrível com a morte do seu filho, e, para garantir a sua segurança, recorreu aos quatro elementos e pediu para que todos os seres vivos e não vivos fizessem o juramento de que nunca o machucariam — àquela altura, Joseph havia se esquecido do que o atormentava. Apenas prestava atenção na história de Marie, no modo calmo e cativo como ela pronunciava cada palavra, tendo a sensação de que ela amava aquela história com todas as suas forças. — Mas ela se esqueceu do visco, pois o achava jovem e inofensivo demais, o que proporcionou a Loki, que você já deve conhecer de todos os seus filmes nerds, a oportunidade de pregar mais uma de suas peças malignas e matar o pobre Balder com uma lança coberta de visco.

— Não me parece uma história feliz — comentou Joseph, e ela riu, continuando:

— Há várias versões para esta história, e em algumas Balder permanece morto, mas a minha preferida é a que Frigga fica tão triste que os deuses resolvem trazer o seu filho de volta. Quando isso acontece, Frigga proclama que o visco é um símbolo de paz e que cada par que passa por debaixo de um deve se beijar para perpertuar o amor na Terra.

Marie parou de andar, declarando o fim de sua história, e Joseph pareceu contente. Aquilo certamente o distraiu do que se passava pela sua cabeça, o que o fazia extremamente grato. Principalmente porque, naquele minuto, ele só conseguiria pensar nela e em mais nada — e nem era pela roupa extravagante ou a touca vermelha, mas sim porque os olhos de Marie pareciam incrivelmente mais claros naquela noite. E também porque os flocos que caíam sobre o seu rosto o faziam reparar nas pequenas sardas que ela tinha sobre as bochechas.

Marie segurou as suas mãos, e ainda sorria. Joseph pareceu confuso até que ela levantasse o rosto, fazendo-o acompanhá-la, e ele visse que os dois estavam parados exatamente embaixo de um visco.

...

— Natallie não se importa de você estar aqui, digo, no Natal? — perguntou Steven.

Ele era o típico policial certinho e entediante que tanto gostara de evitar nos seus anos de Scotland Yard. E não que ele não gostasse de Steve realmente, mas, às vezes, desejava poder lhe dar um soco. Ele era como um dicionário de regras e clichês com cabelos loiros e gravata.

— Ela também está trabalhando — respondeu, paciente. — Enfermeira, sabe.

— Ah, sim.

Aquilo fez se perguntar o motivo de Steven estar ali. Ele parecia tão preocupado com a família de todo mundo que não imaginar o porquê de ele não estar com a sua parceira quase impossível. ficou curioso, e, como geralmente não gostava de se sentir assim sem obter uma resposta de imediato, perguntou:

— E a sua esposa? Ela não liga?

— Eu não tenho esposa.

— Você nunca teve ou ela morreu?

! — censurou Angelina, que estava sentada na mesa, ao lado de David. Os dois analisavam o quadro que Joseph e Marie haviam montado.

— O quê? Eu o conheço há anos e não sei nada sobre o cara.

— Está tudo bem — sorriu Steven, e era irritante o modo como ele parecia sincero. — A minha esposa faleceu há quase quatro anos.

— O que era? Câncer?

! — Angelina voltou a censurar, dessa vez mais baixo. Sentia-se mal por Steven.

— Demência — respondeu o rapaz. Ele parecia já ter se acostumado à ideia, mas pôde ver o modo como ele engoliu a seco quando falou. — Ela tinha vinte e sete quando morreu, e desde então não me casei outra vez. Gosto de ser fiel à ela.

ia murmurar algo como "que merda, cara"" quando uma voz o interrompeu:

— Olha quem nós encontramos congelando do lado de fora!

Todos se viraram para o anúncio animado de Marie Spilman, que trazia consigo uma Natallie completamente encharcada pelos flocos de neve derretidos. A mulher desceu as escadas do porão com cuidado enquanto tentava se acostumar com a pouca luz, e pareceu se surpreender com a quantidade de pessoas ali dentro.

— Uau! — disse, um tanto tímida — Estão todos aqui.

Angelina a saudou, e Joseph juntou-se a Marie e aos outros na grande mesa de madeira que ele tinha em frente ao quadro. David e Steven cumprimentaram a mulher, e deu-lhe um boa noite educado demais. Quando a sessão acabou, se levantou da cadeira e andou até ela.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou. — Você está bem?

— Estou ótima — respondeu, tranquilizando-o. — Eu só achei que tinha algo errado.

— É só trabalho, não se preocupe. Estamos tentando nos ajudar aqui.

Ela concordou com a cabeça.

— Eu sei, mas não estou falando disso — e então se virou para os outros. — Hoje é Natal! Não acham que deveríamos estar em outro lugar? É uma data especial demais para se afundar em morte e pêsames.

Naquele momento, todos pareceram não ter voz para discordar. O trio da Scotland Yard, o Hacker, a socialite e a psicóloga começaram a pensar nas palavras de Natallie, e todos, de uma maneria quase triste, concordaram com seu ponto de vista.

— Eu fiz um jantar especial que não foi aproveitado porque todos estavam com a cabeça em problemas aleatórios. Isso não está certo. Eu decidi faltar ao trabalho hoje porque, assim como vocês, mereço uma noite de paz. Deixem as investigações para amanhã, por favor. Quero que todos venham jantar conosco esta noite — pediu, e quando começaram a pensar que podia não ser uma boa ideia, ela completou. — Vocês são uma equipe agora, não são? Eu insisto. Quero conhecer todos os responsáveis pela vida do meu marido.

Angelina, David e Steven se entreolharam, lembrando-se de quando começaram a trabalhar com e a mulher fez a exata mesma coisa na noite de Natal. Ela parecia ter um espírito materno e cordial acirrado, vendo de longe que todas as pessoas daquele lugar não tinham realmente um destino para passar aquela noite. Ela sabia, de algum modo, que Steven era viúvo e Joseph órfão; sabia que David não tinha família na cidade e que Marie não queria ver os pais naquela noite. Provavelmente também sabia que era quase tão sozinha e desajustada como todos os outros ali, e tinha a certeza de que Angelina preferiria levar Ana para a casa dos , onde seria bem recebida, do que enfrentar o clima de tensão e descriminatório da casa dos seus pais.

Portanto, quando Natallie completou com um "eu insisto" daquela forma doce que só ela poderia dizer, todos se locomoveram, subiram as escadas e seguiram para os seus carros. Tudo foi muito calmo, com Marie ligando para os pais e dizendo que a neve a impediria de sair da escola, Joseph trancando a casa e desejando Feliz Natal aos pais antes de abandonar, pelo menos por aquela noite, a imagem do luto e da perda que a construção apresentava.

David dirigiu enquanto Angelina telefonava para casa e pedia a Ana que voltasse para a residência de , e Steven pegou a sua carteira para olhar a foto de sua amada uma última vez naquela noite. , que havia recentemente trocado a sua moto por um carro de pequeno porte, entrou no veículo e segurou o volante com força para não derrapar na neve ao sair, vendo Joseph seguir com Marie na garupa de sua moto e praticamente causar um acidente com toda a sua falta de coordenação motora, quase batendo contra o carro de Angelina.

Naquela noite, eles se reuniram na pequena casa dos , e pela primeira vez em muito tempo o lugar se encheu tanto de vida que nenhum dos envolvidos notou as horas passando, o vinho acabando e as luzes se apagando na rua, do lado de fora. O frio já não importava, os programas Natalinos e o especial de Natal de Doctor Who pareciam ser o suficiente para entretê-los, e, no fim da noite, quase de manhã, todos pareciam se sentir completos.

Pelo menos até a magia do Natal acabar e a realidade voltar a bater à porta, literalmente, quando o relógio marcou sete e meia da manhã.



Capítulo 30

"Não se assuste, detetive, mas preciso te contar uma coisa. Preciso que saiba que demorei muito para realmente confiar em você, e isso quer dizer que poucas pessoas nessa cidade são confiáveis. Mesmo aqueles que você acha que podem não ter nada a esconder, que têm boa reputação, que são boas pessoas...

Nada disso importa; ninguém é inocente. Não mais. Portanto, preste bastante atenção no que eu vou lhe dizer: Não há lugar algum em toda a Londres que seja seguro, exceto o céu. As estrelas são o único refúgio no qual você poderá sentar para ouvir o som do mar e contar segredos escondidos embaixo do assoalho. Preste atenção nisso. Olhe além do círculo. Não se preocupe com o homem da máscara — confie em mim quando digo que o sangue que ele derrama não é a prioridade. Ele não me matou. O meu assassino tem nome e endereço, e um rosto livre de furos de agulha. O meu assassino é alguém que você nunca poderá capturar, mas está tudo bem, porque preciso que faça outra coisa por mim.

Não se distraia com o caos ao seu redor. É o mesmo truque. Lembre-se disso. Concentre-se no que me fez ser morta, e não em quem me matou. Compre um celular decente, aprenda a dirigir e pare de beber. Eu não quero ter morrido em vão, . Faça valer a pena. Eu confio apenas em você.

S. S. "

— Tá bom, que porra foi essa?

A frase que saiu pela boca de Angelina Devens provavelmente se encaixaria nos pensamentos de todos os outros presentes na sala. A equipe ainda estava grogue e sonolenta, bocejando para lá e para cá ao se perguntar quem havia batido na porta da casa dos às sete horas de uma manhã de Natal.

A resposta era simples: um garoto de dezenove anos que quase não conseguia parar quieto diante do frio e da neve presa em suas botas. Ele trazia uma carta, mas não se lembrou de estranhar o envelope entregue em um momento tão importuno como aquele. A ressaca fazia os seus olhos doerem pela luz excessiva e o detetive só arrancou a encomenda das mãos do jovem, agradeceu e fechou a porta. Mais tarde, quando resolveu ler o que estava dentro do envelope, bebia whisky em uma xícara de café para tentar enganar Natallie e quase manchou o bilhete com a tosse surpresa que o assombrou ao entender o conteúdo. Não podia ser verdade.

abriu as cortinas, ligou a TV e o rádio e ficou pelo menos cinco minutos correndo para lá e para cá dentro da sua sala de visitas, onde todos os convidados da noite passada dormiam espalhados em sofás e colchões. O único que não estava presente era Steven, mas mandou uma mensagem de texto para que ele retornasse ao local. O homem partira na noite anterior de uma maneira educada, não querendo abandonar o lar e a memória da esposa morta em uma data tão importante. Mas já podia voltar. Coisas importantes haviam surgido.

— Parece um bilhete de Sofia Spilman.

Todos ainda estavam sonolentos demais quando escancarou o óbvio. Ninguém parecia ter uma reação muito adequada, escolhendo o silêncio. Precisavam pensar.

— Posso ver? — perguntou Marie, esticando a mão.

A pequena Spilman estava deitada no tapete felpudo e branco de Natallie. Havia brigado pelas almofadas com Joseph, mas perdeu em uma aposta e acabou ficando sem nenhuma — o que não foi um problema, pois ela usou o garoto como travesseiro. nem ao menos se surpreendeu quando viu que os dois tinham sido os primeiros a se retirar da mesa de pôquer montada depois de ceia. Quando foi desligar a TV para não ouvir aquela música de Natal irritante passando no especial da BBC, Marie e Joseph estavam deitados no tapete, dormindo, embolados um no outro para fugir do frio e nem ao menos se importando em estar no chão. Foi um ótimo motivo para revirar os olhos e voltar a jogar.

O detetive entregou o bilhete para a menina e esperou enquanto ela o lia.

— É a letra de Sofia.

soltou a respiração que vinha prendendo sem nem notar. Não sabia se deveria se sentir aliviado ou tenso. O conteúdo daquela nota o assustava, mas a ideia de ter novas pistas o intrigava. Sem falar da sensação estranha causada pelas milhares de dúvidas que aquele bilhete havia escancarado.

— Eu não sabia que conhecia a minha irmã — disse Marie.

— É porque eu não conhecia.

— Ela disse que confiava em você — ressaltou Angelina.

— Bem, Sofia poderia não tê-lo conhecido pessoalmente — argumentou Marie. — Minha irmã era muito esperta, talvez tenha usado um disfarce ou alguma coisa na internet.

— Internet? — zombou Joseph. — não sabe nem usar uma impressora!

— Mas ela sabia sobre o celular, as bebidas e o cigarro! — a menina insistiu.

— Tá bom — bradou Angelina quando uma discussão estava prestes a começar. — Quem, em toda a Londres, não sabe que é espiritualmente velho, bêbado e barbeiro?

Todos pareceram pensar naquilo, e acabaram concordando. apenas revirou os olhos. Estava perdendo o respeito ali.

— Bem, — ele mudou de assunto, — Sofia nos mandou não ser distraídos pelo caos.

— E pelo assassino mascarado — completou David. — Ou são a mesma coisa?

— O que pode ser pior que ele? — perguntou , falando pela primeira vez.

Um arrepio passou pela espinha de todos. Se o homem que havia matado mais de três pessoas não era motivo de preocupação, segundo Sofia, então o que deveria ser?

— Ela mandou uma mensagem neste bilhete. Algo importante. Precisamos descobrir o que é. — direcionou a conversa para outro ângulo. Não queria ninguém desesperado ali.

Todos se levantaram e andaram para a cozinha, onde tiraram fotos do bilhete para poder avaliar. ficou com o original, tanto por não ter um celular com câmera quanto por achar melhor, e enquanto tomava café — agora de verdade — procurou qualquer pista dentro dele. Dobrou o papel de todas as formas possíveis, procurou palavras invertidas, de trás para frente, em diagonal, com múltiplos significados... Mas aquela besteira de estrelas e assoalhos continuava a mesma merda sem sentido de antes.

Até que ele levantou e correu para o seu escritório. Parou em frente ao quadro que havia montado para o caso e tentou relacionar tudo o que já tinha acontecido até ali com o bilhete. Procurou palavras-chave, e encontrou quase quando perdia a esperança.

— Mar! — gritou quando desceu as escadas. Todos viraram os rostos para ele, cansados de procurar, assustados com a euforia do detetive. — A Casa de Praia da Família Spilman! Ela fala sobre ouvir o som do mar e ver estrelas. Estrelas são mais nítidas na costa, e temos o mar, claro.

— Então temos uma pista? — perguntou , e fez que sim com a cabeça, virando-se para a mais nova dos Spilman:

— Marie, desculpe, mas tem algo escondido no assoalho da casa da sua mãe, e eu estou pouco me importando com a reforma que ela fez...

— Não acho que destruir o assoalho da casa seja uma boa ideia.

— Se não encontrarmos nada, eu mesmo conserto o estrago — garantiu .

— É uma ideia pior ainda. — Marie reclamou, pensando em todas as habilidades que não tinha para cumprir o prometido.

...

Alguns meses depois, os integrantes do time original — , Marie e — passaram a tarde toda trancados dentro do carro do detetive, a viagem sendo resumida em Marie escolhendo músicas pop adolescentes e tomando comprimidos para dor de cabeça enquanto lia o bilhete milhares de vezes, sem parar. Tiveram que esperar o inverno acabar e a neve derreter para poderem arriscar uma viagem à costa, a ansiedade quase os matou. Quando o dia finalmente chegou, esperavam alcançar o destino antes do anoitecer, mas foram contrariados pelos sermões de sobre dirigir em alta velocidade e tiveram que acrescentar algumas horas ao cronograma da investigação.

Quando finalmente chegaram, estavam cansados, famintos e curiosos. Também sentiam um frio estranho na boca do estômago, como se estivessem prestes a mudar as próprias vidas para sempre. Aquilo, claro, assustou Marie, intrigou e animou , mas nenhum dos três comentou o que estavam sentindo. Internamente, preferiam não admitir que as coisas tinham ultrapassado investigações policiais para enigmas mais profundos. Era assustador.

foi o primeiro a se mover. Deixou as outras duas paradas em frente ao Dodger Charge coberto de areia e andou na direção da entrada da casa. O céu estava carregado de nuvens cinzas, a lua praticamente implorava por espaço atrás da chuva iminente que estava assombrando a costa. O clima não ajudava em nada a tarefa de tentar esquecer as sensações ruins, mas a porta da casa foi aberta, e um cheiro forte de sal e bolor inundou as narinas de de um jeito tão forte que ele teve que espirrar.

A sala estava igual à ultima vez em que estivera ali: abandonada. Mas de algum jeito, o lugar como um todo era bem diferente. Dessa vez parecia mais sombrio, como se carregasse mais responsabilidades. Como se guardasse a chave de todos os enigmas do universo, fazendo pisar na madeira com cuidado, levantando um pouco de pó e muita areia ao depositar os dois pés na sala de entrada.

Com o primeiro integrante dentro, as outras duas tomaram a coragem necessária. Abriram as janelas à procura de ar fresco e ascenderam as luzes. Quando terminaram, pegou o bilhete de Sofia e o leu novamente.

— Mar. Estrelas. Assoalho — pensou . — Acredito que tenhamos que procurar perto das janelas, onde se é possível ver estrelas.

Os três começaram, praticamente destruindo o chão da casa para encontrar qualquer coisa que pudesse estar escondida embaixo dele. xingou todos os deuses de todas as mitologias quando percebeu o vasto número de janelas que aquela casa tinha, pensando em como deveria ter trazido o Trio Scotland Yard e o Hacker para ajudar. Seria um trabalho bem mais rápido em equipe, e aquele fato o assustou, porque já fazia um tempo que ele realmente não precisava de outras pessoas para colocar seus planos em ação.

Já era tarde da madrugada quando contou cerca de quinze farpas de madeira presas em seus dez dedos e pelo menos cinco cortes nas costas das mãos, mas nenhuma nova pista. Parou, cansado, no segundo andar, onde a luz da lua iluminava o quarto vazio, e sentou com as costas na janela para acender um cigarro e tentar não surtar. A fumaça entrou e saiu de seus pulmões com as cinzas da parte consumida do tabaco caindo sobre o chão de madeira. Naquele momento, todos os machucados de pararam de doer por rápidos segundos.

apareceu no corredor, parando em frente à porta. A Casa não tinha luz alguma, por isso só pôde ver a sua silhueta, tendo que deduzir qual seria a expressão facial da mulher naquele momento.

Estaria cansada? Com raiva? Frustrada?

Provavelmente um pouco dos três. Mas nada que a impedisse de entrar e se sentar ao lado dele, observando o estrago feito na madeira do chão enquanto a sua respiração ofegante pelo esforço e pelo cansaço de subir as escadas ficava mais calma.

estava diferente naquele dia. Ela usava uma calça jeans e uma blusa simples de manga cumprida. Havia se desfeito das roupas de classe alta e dos saltos barulhentos que andava usando desde que ele a conhecera, mas não saberia dizer se ela havia cansado de toda aquela excentricidade ou se apenas tinha um guarda-roupa eclético.

— Restam duas janelas — disse ela.

Ele concordou com a cabeça. Sua mente estava em outro lugar.

— O que Sofia quis dizer com "é o mesmo truque"? — perguntou o homem.

— Achei que você soubesse.

— Não, não sei. E isso está me deixando louco. Ela sugeriu que já fui enganado deste mesmo modo antes, mas quando? Por quem? Por quê?

mordeu o lábio inferior. Aquelas perguntas estavam começando a lhe enlouquecer também. Sofia era tão inteligente. Tão enigmática. Como pudera ela não ver que havia algo muito errado até que fosse tarde demais?

Ouviu um grunhido sair da boca de e acordou apenas para vê-lo tirar uma farpa de pelo menos sete centímetros de dentro da palma de sua mão. Ele deu mais uma tragada em seu cigarro e observou por alguns segundos enquanto um pequeno fiapo de sangue escorreu pela sua pele. Depois retirou uma case de bolso interno de sua jaqueta e jogou um pouco do líquido sobre o corte. Não pareceu arder, apesar de saber que deveria.

— Como estão as suas mãos? — perguntou ele.

esticou os dedos sobre os joelhos dobrados e os analisou, colocando as mãos ao lado das de .

— Melhores que as suas.

E era verdade. Não só pelas farpas e cortes, mas pelo fato de ter as mãos extremamente calejadas e rudes. Eram quase o dobro das de , que pareciam infantis de tão pequenas e delicadas quando em comparação com as do homem.

— Genética — disse ele. — Sou bem maior que você.

— Nem tanto.

— Os seus saltos altos não são parte do seu corpo, . Não contam. Você continua mais baixa que eu sem eles.

riu.

— Mas eu sou mais inteligente.

se sentiu desafiado.

— É mesmo? E por quê?

— Porque estamos aqui há horas, , e eu acabei de pensar no lugar mais óbvio para procurarmos.

— Qual?

— O sótão.

...

Havia uma sensação na boca do estômago de que o fazia acreditar que algo de ruim iria acontecer. Ao analisar, percebera de uma maneira preocupante que, recentemente, os presságios ruins eram mais frequentes que os bons.

— Você tem certeza disso? — perguntou .

Ele fez que sim com a cabeça. Marie, ao seu lado, levou a mão ao rosto, mas o detetive manteve o foco na pequena janela no topo da casa de praia da família Spilman. Estavam nos fundos, do lado de fora, para poder observar melhor. Aquele era o sótão. O lugar que acreditava guardar os segredos que procuravam e o único que não podiam acessar, tudo graças às loucuras excêntricas de Constance Spilman. Ela tinha fechado todas os acessos disponíveis dentro da casa e, agora, aquela janela era o único jeito que ele tinha de entrar lá.

— Talvez não esteja lá — disse Marie.

— É claro que está! — ele deu uma última tragada no cigarro antes de jogá-lo sobre a areia. — Sofia já havia nos dito antes. No papel com os desenhos em riscas. Acredito que tenhamos recebido as pistas fora de ordem: o bilhete nos traria aqui, e o desenho nos levaria ao sótão. Por algum motivo, vimos o desenho primeiro e por isso não encontramos sentido nele.

Marie concordou com a cabeça, vendo lógica em tudo o que ele havia dito. O que não tinha lógica, porém, era o modo como ele planejava chegar à pequena janela no topo da casa. Parecia uma armadilha mortal sem um pingo de segurança, mas o homem insistiu que estavam no meio do nada e que nunca encontrariam uma escada para facilitar as coisas. A resposta foi jogar meia dúzia de pedras na direção da janela até conseguir quebrar o vitral. Então o detetive buscou o carro e o estacionou colado à parede da casa, subiu sobre o teto e pulou até alcançar a janela. Quando conseguiu, passou pelo buraco quase estreito demais depois de cortar a mão em alguns cacos que haviam ficado presos à moldura do vitral.

Dentro do sótão, uma cortina de poeira subiu quando ele aterrissou, formando uma nuvem ao seu redor. tossiu, seus pulmões já decadentes pelos anos de vício ao fumo falhando miseravelmente na ação de mantê-lo saudável durante aqueles segundos. Do lado de fora, Marie gritou, perguntando se ele estava bem.

— Ótimo — respondeu, irônico.

Pegou o seu celular do bolso da jaqueta e ativou a função mais moderna e atualizada do aparelho: a lanterna. Passou a luz ao redor do ambiente e viu vários amontoados de caixas e teias de aranha espalhados embaixo de quilos de pó e areia.

— Eu vou subir! — gritou Marie.

— Não se atreva! — o detetive a fez parar. — Se você encostar no meu carro, eu juro que te deixo aqui o final de semana inteiro apenas com os seus CDs de músicas ruins como companhia.

Quase pôde vê-la revirar os olhos e cruzar os braços. Sabia que Marie odiava quando o homem lhe dava ordens, mas a última coisa que precisava naquele momento era que a menina se machucasse com toda a falta de segurança que aquele plano transbordava. , que era adulto e experiente — tanto pela profissão como pelos planos infalíveis —, estava com a parte externa da mão praticamente rasgada apenas por se distrair em relação a alguns cacos de vidro. Imagine Marie Spilman!

Sem chances.

Puxou algumas das caixas que estavam mais próximas e as abriu, vendo o interior. Havia um monte de objetos antigos, coisas que ele reconheceu ser ursos de pelúcia e cadernos de desenhar, mas nada ali parecia ser de grande ajuda. Então se lembrou do bilhete, e, aparecendo na pequena janela, pediu para que lhe passasse o grande e pesado machado que haviam trazido para ajudar nas buscas. Com ele em mãos, começou a retirar a madeira perto da janela, e, ao não encontrar nada, continuou por toda a extensão do piso.

Dessa vez, estava sozinho. O processo demorou tanto que o céu começou a clarear. e Marie desistiram de esperar e voltaram para dentro da casa, procurando cobertores e abrindo os chocolates que haviam levado para comer. A bateria do telefone de acabou, mas os filetes de sol que entravam pela janela quebrada o ajudavam. As caixas de papelão a cada segundo pareciam maiores e mais cheias de tralhas. Ele estava ficando cansado.

Deviam ser nove horas da manhã quando ouviu um carro se aproximar da casa. Ele se esgueirou cuidadosamente até a janela apenas para confirmar a desesperadora suspeita de que algum membro da família Spilman havia resolvido passar por ali, naquela manhã. Mesmo de longe, pôde ver os cabelos ruivos de Constance brilhando através do vidro negro do carro. O tempo estava nublado, mas a mulher usava óculos escuros e roupas pretas. Parecia prestes a comparecer a um enterro, e o modo como conseguia ser assustadora em um cenário tão pacífico como uma praia era invejável.

se jogou no chão quando ela virou o rosto na direção da parte de cima da casa. Não sabia se ela o havia visto, mas apostava que não e torcia para estar certo — o que não faria muita diferença, no final das contas, porque tudo estava perdido desde o momento em que ela chegou ali.

Constance deu a volta e entrou pela porta da frente da casa. Lá dentro, Marie surtava internamente e tentava encontrar meios de explicar o estado deplorável e destruído da casa para a mãe.

— Mãe... — começou quando a mulher passou pela porta de entrada.

— Poupe saliva, Marie.

A menina se calou, abaixando a cabeça. , que estava do lado de dentro, saiu do corredor e parou ao seu lado. Constance levantou os olhos para ela como se estivesse surpresa e colou o ouvido em uma das poucas partes ainda inteiras do chão para tentar escutar o que estava acontecendo.

— O que faz aqui? — perguntou Constance. Sua voz fez e Marie estremecer em uníssono.

— Eu... Eu... — começou a psicóloga, mas não tinha a mínima ideia do que falar.

A situação constrangedora seguiu por mais alguns segundos. Era catastrófico demais que estivessem no meio da sala destruída da casa, onde não poderiam nunca ter a coragem necessária para mentir sobre a gravidade da situação.

— Eu dei uma festa! — disse Marie, erguendo a voz. Parecia confiante demais, e não pôde conter o olhar confuso que lançou para a garota.

Até mesmo , que havia levantado para sair e explicar por si mesmo a situação para Constance, parou no lugar em que estava quando o eco da voz da menina atingiu os seus ouvidos.

— O quê?

— Isso mesmo, mãe. Eu aproveitei que a casa estava nova e dei uma festa aqui. Infelizmente as coisas deram erradas. Tivemos algumas brigas e apostas, mas eu juro que não era pra sair do controle.

Constance tinha as sobrancelhas juntas, a expressão desacreditada de uma mãe decepcionada. Quando ergueu os olhos para , perto de perguntar o envolvimento dela nisso tudo, Marie completou:

— Consegui limpar tudo, mas entrei em desespero quando vi o que tinham feito com o chão. Então liguei para para pedir ajuda e ela veio até aqui. Estava me convencendo a voltar para casa e dizer a verdade quando você chegou.

Constance suspirou. Parecia não saber o que dizer ou sentir. Olhou à sua volta, para o chão estraçalhado e para a expressão merecedora de Oscar de Marie, e então finalmente respondeu, visivelmente decepcionada:

— Você está de castigo por um mês. E vai ficar sem receber mesada até ter pago todo o estrago que causou.

Colocou os óculos escuros no rosto, mas não antes de olhar para e lançar uma espécie de intimidação.

— Como soube que eu estava aqui?

Ela, que já estava na porta de saída, se virou e respondeu:

— O seu celular tem um rastreador, Marie Spilman.

A filha não deixou de sentir o queixo cair quando percebeu o que aquilo significava. Constance a estava espionando?! Aquilo era um absurdo! Uma completa invasão de privacidade. Marie começou a respirar com dificuldade sem ao menos perceber. Fechou as mãos em punhos e pensou em como a odiava, tudo antes de o sentimento ser destruído pela próxima frase, que, ela jurava, a atingiu mais forte do que se tivesse sido um tapa:

— Acabei de perder uma filha, Marie. E não consigo parar de pensar em como eu poderia ter feito mais por sua segurança. Sei que pensa que não a amo tanto quanto amava Sofia, mas quero sempre saber que você está bem, mesmo que isso signifique descobrir mentiras.

E então saiu. Marie ficou para trás, pensando em como havia deixado de vê-la no Natal sob a mentira de ter ficado presa na escola. Constance com certeza sabia que ela havia optado por passar a noite com supostos estranhos do que com a própria mãe. Aquilo a dilacerou por dentro, porque preferia que a mulher tivesse gritado ao invés de simplesmente sair, silenciosa, e deixá-la corroendo a própria culpa. Marie nem ao menos conseguiu se sentir aliviada quando a mãe partiu. Estava pensando em como conseguiria consertar aquele erro.

suspirou aliviada e , ainda no sótão, sentou e acendeu um cigarro assim que viu o carro negro sumir e levar a matriarca dos Spilman junto. Tinha sido por pouco. Ele quase havia perdido tudo. Constance não era a sua maior fã e ele sabia que, com um único motivo em mãos, ela faria da sua vida um inferno. provavelmente seria preso para o resto da vida. Sabia muito bem a influência que a família Spilman tinha em Londres.

Levantou-se, decidindo que não havia mais nada para se encontrar ali. Jogou o cigarro pela janela e enrolou a jaqueta no braço para se livrar dos cacos que o machucaram da primeira vez. Os pedaços de vidro caíram do outro lado da janela, e com isso a luz do sol passando pela moldura formou um círculo perfeito no chão. O detetive parou, olhando atenciosamente. A figura laranja estava bem afundo do sótão, tão longe que ele ao menos havia conseguido chegar até ali durante a sua escavação. Andou até o local, vendo os sapatos marcando perfeitas pegadas na madeira suja. O círculo agora estava na sua frente. O detetive se abaixou para passar a ponta dos dedos ao seu redor, delineando a forma, vendo que aquele pedaço do chão estava completamente violado por riscos e cortes feitos aparentemente com um estilete.

Esperançoso, foi até uma das caixas e pegou um dos cadernos de desenho antigos da família Spilman. Também procurou um lápis, e com os dois itens em mãos voltou até o local com o feixe de luz, colocou o papel sobre o chão e passou o grafite cinza sobre os riscos até ver que eles formavam, sim, algo.

E mais uma vez, mesmo morta, Sofia havia conseguido estar um passo à frente dele.



Capítulo 31

O sol estava em seu ápice quando pulou sobre o teto do seu carro, fugindo do mormaço que o sótão da casa de praia da família Spilman havia se tornado. Sua mão ainda sangrava, mas agora ele pouco se importava com aquilo. Só ligava para o pedaço de papel em suas mãos, a mais nova pista sobre o caso da morte de Sofia Spilman — e provavelmente a mais preciosa.

Aterrissou na areia fofa, vendo as marcas que o carro de Constance Spilman deixara no chão. O mar estava bem mais calmo do que durante a madrugada, o dia razoavelmente bonito; apesar daquilo, ninguém se sentia bem. A presença de Constance Spilman havia deixado o ar pesado demais para que a paz, geralmente encontrada em uma praia, os alcançasse.

— Tudo bem? — perguntou o detetive.

Tinha dado a volta na casa para encontrar e Marie em seu interior, mas assim que chegou na varanda se deparou com a mais nova dos Spilman sentada no último degrau da escada de madeira. Havia areia à sua volta e os seus cabelos não paravam quietos graças à brisa marítima que sempre acompanhava as manhãs e tardes na costa. A menina parecia triste — tão desanimada que o seu sorriso forçado não surtiu efeito no detetive. Aquilo o preocupou, porque ele sabia que ela era uma atriz boa demais para falhar tão miseravelmente no ato.

— Você acha que ela me odeia? — perguntou Marie, séria.

— Nunca.

Agora o detetive havia sentado ao seu lado. O dia era tão agradável que ele se desfez da jaqueta pesada que vestia para sentir o sol queimar os braços nus. A camiseta branca que usava por baixo parecia suja demais devido a todo o trabalho que havia tido durante as últimas horas, mas ninguém se importava com aquilo. Marie também não estava em suas melhores condições.

— Você tem filhos? — perguntou Marie.

Aquela era uma pergunta difícil de se responder. Sempre que ouvia aquela frase a sua cabeça girava e a sua mente imaginava o que poderia significar a expressão "ter filhos". Em sua concepção, era bem relativo.

— Eu tive uma filha.

— Sinto muito.

— Tudo bem.

Marie mordeu o lábio inferior.

— Ela algum dia te magoou? Você a perdoou?

A pequena Spilman parecia mesmo preocupada. E frágil. Tão frágil quanto o detetive nunca pensou que a veria. Soava impossível que qualquer membro daquela família tivesse fraquezas, mas ali estava: eles eram a kriptonita um do outro. Marie presenciara assassinatos sem ficar abalada, mas bastou uma frase de sua mãe para que caísse por completo.

nunca entenderia.

— Ela não teve tempo de me magoar, Marie. Mas acredite, nenhum filho jamais conseguiria o ódio eterno da mãe. Ela vai te perdoar — garantiu o mais velho.

— Você não entende... — Marie balançou a cabeça. Juntou as mãos acima do joelho e escondeu o rosto entre os braços, encolhendo-se. Parecia prestes a chorar.

sorriu.

— Eu não entendo o quê? — perguntou com calma. — Que ela não te perdoaria porque você é adotada?

A menina levantou o rosto para ele, seus olhos marejados arregalados em surpresa. Marie fungou para tentar conter o choro que insistia em vir, esquecendo-se da tristeza apenas durante o minuto em que o detetive explicou como sabia daquilo:

— Sua mãe e irmã são uma a cara da outra. Ruivas. Olhos verdes. Altas. Até mesmo as vozes são idênticas. Você...

— Eu sou o completo oposto — grunhiu.

— Fisicamente, sim. Mas tem a alma e as qualidades de uma Spilman, com certeza.

— Eu não sou filha dela. Não de verdade. Constance não vai me perdoar. Provavelmente se arrepende de ter me adotado — a menina voltou a entrar em desespero.

não deixou de rir. Era adorável, de verdade, e seria mentira dizer que não sentia inveja daquilo. Queria ter a sua filha para poder dar aqueles conselhos quando ela brigasse com Natallie; queria ter a sua filha para que Natallie lhe desse aqueles conselhos quando ela brigasse com . Infelizmente, a vida não era tão justa. Em compensação, ele tinha Marie e Joseph. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance por eles.

— Você já ouviu a expressão "pai é quem cria"? Acredito que sirva para os dois lados. Você é filha de Constance, e ela é a sua mãe. Nenhuma das duas e muito menos uma briga pode mudar isso.

Marie concordou com a cabeça lentamente, parecendo aceitar que um dia teria o perdão de Constance. sorriu diante de sua inocência e inexperiência. Sentia falta daquela época da sua vida, onde cada pequeno deslize parecia um caos completo. Seria bom ter como únicos problemas da vida as brigas com seus pais e os corações partidos. Infelizmente, a sua existência era moldada em algo bem maior que aquilo, e os seus obstáculos eram obstáculos de outras pessoas. Coisas que ele nunca poderia ignorar.

Levantou-se do degrau sujo, deixando a menina com os seus pensamentos. Dentro da casa, parecia pensativa demais sentada no sofá plastificado da sala.

— O que foi? — perguntou, curioso, sentando ao seu lado.

não desviou o olhar da janela empoeirada do outro lado do cômodo por um único segundo. Estreitou mais as sobrancelhas e respondeu calmamente:

— Essa coisa com o celular de Marie me fez pensar em algo.

— No quê?

— Quando o Assassino fugiu da Scotland Yard, ele conseguiu interceptar os sinais das câmeras do prédio, certo?

— Sim.

— E ele não poderia fazer isso sozinho, afinal estava sob vigilância de agentes o tempo todo.

— Sim...

— Constance colocou o rastreador no celular de Marie porque a conhecia. Era confiável. A menina nem imaginou isso. A mãe provavelmente usava o celular dela o tempo todo.

— Onde quer chegar?

— E se quem alterou as câmeras foi alguém de dentro? Quando procuraram suspeitos e checaram os vídeos das câmeras, , estavam procurando alguém diferente. Alguém de fora. E se esse alguém esteve lá o tempo todo? Como Constance, aproveitando-se da confiança para agir. Não é a primeira vez que o assassino está um passo à frente de nós. Parece que há uma pessoa o ajudando.

suspirou.

— Eu confesso que também pensei nisso — massageou as têmporas. — Mas quem dentro da Scotland Yard poderia fazer uma coisa dessas? Todos que tiveram contato com o assassino eram da minha equipe. Angelina, Steven, David e Enzo não teriam motivos para ajudar esse homem.

— Como você sabe disso? — rebateu. — Sofia nos mandou olhar além do círculo. Nos mandou não confiar em ninguém. Dentre todos os detetives da Scotland Yard, ela escolheu você para confiar, e deve ter um motivo. Você não se encaixa com ninguém, não precisa da sua equipe. Ela acreditou que seria uma vantagem, porque assim como Sofia, , você não confia realmente em ninguém.

não sabia o que responder. Arrumou a postura desleixada contra o sofá e apoiou os cotovelos nos joelhos, pensativo, imaginando se estava certa de alguma maneira. Teria sido realmente aquele o motivo de Sofia decidir confiar nele? Ou a menina sabia de mais coisas? A lógica de parecia plausível, quase certa, e ele virou o rosto para encará-la à procura de uma aproximação em sua teoria.

— Se temos um traidor na Scotland Yard, não podemos deixar que isso saia daqui — ele comentou, puxando o papel que trazia no bolso da calça.

Era a pista que havia encontrado no sótão. se aproximou para ver e esticou o papel sobre a perna esquerda. Estreitando os olhos, os dois viram que os riscos à grafite preto formavam um desenho que a maior parte das pessoas em seu círculo social deveria conhecer.

— É o mapa de Londres — explicou . — Há algumas marcações, como se Sofia quisesse nos levar a algum lugar.

sorriu, esperançosa.

— Bem, estão temos que planejar melhor as nossas viagens de carro. Teremos muitas delas.

...

— Por que mudou de ideia, ?

O homem estava parado em frente ao espelho estreito do quarto que dividia com Natallie quando a esposa lhe fez aquela pergunta. Tinha acabado de pegar um de seus ternos na lavanderia e tentava a todo custo não chorar de desespero com a sua imagem dentro dele. Aos seus olhos, era ridículo, e a única coisa que o fazia se sentir melhor eram os elogios descarados de Natallie, que alegava achar o visual sexy.

— Preciso voltar para a Scotland Yard uma hora ou outra — respondeu o homem. O curativo em sua mão direita dificultava o trabalho de dar o nó perfeito na gravata ao redor de seu pescoço. Ele já estava começando a ficar nervoso demais com aquilo.

— Pensei que só voltaria depois que o caso Spilman estivesse fechado. — Natallie chegou perto dele e deu um tapinha em suas mãos. — Vale mesmo a pena enfrentar Constance Spilman agora?

Era um eterno clichê que a esposa precisasse fazer aquilo por ele, mas não conseguia se concentrar. Já havia fumado um maço inteiro de cigarros desde a noite anterior, quando Enzo havia ligado para confirmar que o seu julgamento aconteceria no dia seguinte.

Desde aquela tarde na casa de praia da família Spilman, semanas antes, tinha decidido que voltaria para a Scotland Yard e investigaria de perto o possível traidor que havia lá dentro. Então ligou para Enzo, disse que iria às consultas que ele havia recomendado, e compareceu a todas nas três semanas que se seguiram. Tudo sendo um bom garoto, comportado demais, sabendo que West não negaria a sua volta se fingisse ter mudado.

Mas então os seus planos foram atrapalhados: Constante Spilman ficara sabendo da volta do detetive e fez o possível para atrapalhar a realização do ato. Pediu uma audiência em um tribunal usando ações do detetive ao longo do caso como justificativa. O incidente na casa dos Spilman fora o principal, além da invasão ao apartamento de . , agora, tinha que enfrentar aquilo. Ele só precisava ficar em uma sala com ar condicionado durante uma tarde toda e esperar que Enzo, seu psicólogo e o superintendente do comitê de segurança escutassem testemunhas para decidir se ele voltaria ou não ao trabalho.

— Eu preciso estar lá dentro pra resolver esse caso — disse o homem, agradecendo ao ver a gravata bem feita. — E você precisa ir trabalhar. Não pode se atrasar por minha causa.

— Não seria a primeira vez — a mulher riu e lhe deu um beijo rápido. — Boa sorte!

Quando saiu, a casa ficou silenciosa. tentou se distrair com mais cigarros e menos bebida — não podia chegar alcoolizado no julgamento, mas a case com um pouco de whisky sobre o armário do quarto o tentava. Até mesmo leu a mensagem de texto que Marie havia enviado lhe desejando boa sorte — o que ele nunca fazia, porque não sabia muito bem como funcionava aquela caixa de mensagens confusa do seu novo celular.

Ah, sim! Depois do bilhete de Sofia e a sua observação sobre o telefone precário do detetive, o homem se obrigou a atualizar o aparelho por um mais moderno. Aquilo fora um erro, claro, porque odiava o retângulo enorme que incomodava dentro dos bolsos; que não tinha botão algum e sempre estava vibrando por qualquer rede Wif-fi encontrada pelas ruas de Londres. Secretamente, ele ainda carregava o seu velho aparelho consigo. Mas não contava para ninguém, porque com certeza o julgariam por ser tão antiquado em um mundo tão moderno. Uma besteira.

sentiu uma repentina dor de cabeça, tendo que apoiar-se no espelho à sua frente para se manter em pé. Apoiou a testa contra o material frio e viu o reflexo de seu rosto ficar embaçado com a respiração quente tão próxima do objeto. Ele pensou no que aquele dia significava. Sabia que não era apenas sobre a Scotland Yard, mas sim sobre si mesmo, como um todo. Seu maior medo nos últimos anos fora descobrir que não era mais tão bom em fazer aquilo que sempre fora o mestre. Era uma maldição recorrente em sua carreira; assim como cantores tinham medo de perder a voz, detetives tinham medo de ficar para trás. Mas o pesadelo, que de primeira parecia distante para , havia se tornado cada vez mais real na vida do detetive, e mesmo depois da quase conclusão do Caso Ryan ele não se livrou do fardo daquele pensamento.

Naquele dia finalmente saberia se tudo era real ou apenas uma paranoia. Saberia se ainda tinha um futuro como detetive ou como policial, e saberia se estava pronto para enfrentar a dura verdade de que um de seus mais antigos colegas de trabalho era, na verdade, um traidor.

...

Old Bailey era certamente uma escolha extremamente dramática para a ocasião. tinha plena certeza que o seu caso de anos de transgressões às leis londrinas era grave, mas não tão alarmante ao ponto de ter um quase julgamento no prédio mais prepotente da cidade.

— O que estamos fazendo aqui? — perguntou o detetive à Angelina, que havia se oferecido para levá-lo até o local. Ela imaginou que vê-lo chegar quase subindo nos degraus de entrada não causaria um efeito positivo no júri. — Achei que tudo iria acontecer no prédio da Scotland Yard.

A mulher suspirou, tirando o cinto de segurança. Olhou para o ex-parceiro com um tipo de olhar estranho, como se pedisse desculpas, e o outro não entendeu até que um flash passasse pelo vidro esfumado do carro e o cegasse momentaneamente. Angelina também se assustou, xingando alto ao voltar a ligar o carro para se movimentar.

Era claro que aquilo aconteceria. não sabia como não havia pensado no problema antes. Estava nervoso demais para se lembrar que tinha uma certa fama ao redor de Londres, o que misturado ao seu envolvimento no Caso Spilman resultaria em muitos repórteres tentando retirar algo de seu julgamento.

— Todos acharam melhor que fosse aqui. Você não é um assassino, mas irritou muita gente. E Constance Spilman tem o poder necessário para fazer o julgamento ser aqui, se assim ela quiser — disse Angelina.

deu de ombros, aceitando a verdade. Não se importava realmente com os repórteres, principalmente porque sabia que boa parte da imprensa não poderia entrar no tribunal. Bebeu um pouco do whisky da case que havia trazido de casa. Odiava aquela prepotência, aquela claustrofobia causada em sua pele quando saiu do carro e uma pequena multidão se aglomerou à sua volta. Tudo o que fez, ao invés de se irritar ou mandar todos para o inferno, foi seguir seu caminho de maneira pontual, não dando respostas ou motivos para mais tabloides desnecessários. Aquilo pareceu irritar todos os repórteres mais do que se ele tivesse feito qualquer outra coisa, porque ficaram sedentos por declarações e manchetes. Uma pena.

Do lado de dentro, passou por todas as estátuas do hall para encontrar o banheiro. Lavou o rosto com água fria e tentou não estragar o maldito terno bem passado quando se inclinou sobre a pia para vomitar. Sentia-se realmente mal naquela tarde, mas não conseguiu colocar nada para fora do estômago. Deduziu que o medo e as dores musculares estivessem pregando peças em seu sistema nervoso. Parecia que tinha sido atropelado por um caminhão, e nem mesmo três maços de cigarros poderiam ajudá-lo naquela hora.

Quando adquiriu a confiança necessária, bebeu mais um pouco do whisky em sua case e saiu do banheiro. Sentia-se um pouco menos digno que o de costume, o que se intensificou quando viu todos os seus antigos colegas parados em grupinhos, todos cochichando entre si do lado de fora da sala onde o julgamento aconteceria. Era como um maldito filme adolescente composto por personagens infantis e pessoas sem caráter. Mas ele também não se importava com elas, porque no momento em que a raiva atingiu o seu ápice, o homem viu um grupo em especial, o único que realmente faria alguma diferença naquele dia.

Foi espontâneo. Tão rápido e sincero que o retardo do mal-estar físico e mental o impediu de ter uma reação digna. Mas ele retribuiu o abraço preocupado que Marie lhe deu, tão apertado que o homem parou de respirar por alguns segundos. Ela parecia mais tensa que ele, como se realmente achasse que estava tudo perdido. Ele entendia a sua preocupação, de verdade, porque via a si mesmo em Marie, anos atrás, achando que qualquer coisa burocrática realizada pelo governo levaria uma pessoa para a cadeia durante o resto de sua vida.

E, bem, ele poderia estar certo.

— O que faz aqui? — perguntou ao avistar .

— Vim depor a seu favor.

Ele riu. Era bem irônico, porque toda aquela situação estava acontecendo por causa dela. Não necessariamente por causa dela, tudo bem, mas pelo dia em que decidiu invadir o seu apartamento e violar mais de meia dúzias de leis para poder interrogá-la. Aquilo parecia ter acontecido há séculos. Tantas coisas haviam sucedido ao equívoco que aquele julgamento soava infantil e desnecessário. sabia que tinha muitas outras coisas com o que se preocupar, principalmente em relação à sua saúde e ao Caso Spilman.

— Você deveria fazer parte da acusação — ele lembrou. — Constante vai ficar maluca. Ela sabe disso?

— Por enquanto, não.

— Acha isso uma boa ideia? — perguntou, preocupado.

— Mais ou menos.

Os dois riram, deixando um pouco do desespero de lado. Só então viu que Joseph também estava ali, sentado em um banco ao fundo do salão, visivelmente tentando se esconder de tudo e de todos. Era engraçado e até mesmo comovente.

— Ele veio te dar uma força — disse Marie, orgulhosa. Aquilo deixou bem claro que quem convenceu o hacker a aparecer fora ela.

— Não posso depor — começou o menino. — Afinal um "ah, eu o conheci quando ele me pediu para invadir a rede social de uma adolescente morta! Mas, gente, não é preciso se preocupar, ele é um ótimo policial!" não te favoreceria muito. Só estou aqui como um amigo.

riu e o agradeceu. Era realmente uma grande prova de consideração o fato de Joseph ter entrado em uma instituição pública por livre e espontânea vontade — ou quase isso.

— Vai começar — todos pararam de rir e conversar para se virar para Angelina, que andava na direção do grupo. — Precisamos entrar.

...

Já havia passado quase uma hora, e continuava sentado ali, naquela cadeira alta ao lado de um advogado desconhecido, vendo rostos familiares passar à sua frente. Muitos de seus colegas de trabalho haviam comparecido para falar sobre . O mais engraçado era que ninguém sabia muito bem como começar a descrever o detetive. As pessoas pulavam das ofensas aos elogios em hesitações tênues demais, deixando o juiz e todos na sala confusos.

Passaram-se todos os testemunhos da acusação, e viu muitas pessoas com as quais teve que lidar em seus anos de carreira. Pais de vítimas, parentes, outros policiais, cientistas forenses... Muita gente que ele enganou ou adquiriu ódio eterno. Até que os depoimentos acabaram e o debate começou. Mais pessoas passaram por ali, e, então, foi a vez de , na defesa, após alguns conhecidos como Angelina e colegas fazerem a sua parte. A psicóloga sentou em seu lugar de um jeito calmo, tão digno dela que o detetive não conseguiu se surpreender. E então mais alguns minutos se passaram, perguntas eram feitas, e finalmente a acusação atingiu o ponto fraco:

— Srta. — começou o homem de terno parado à sua frente. — Temos registros de uma queixa feita por um de seus vizinhos. No documento, que havia sido esquecido na delegacia por... Imprudência de alguns oficiais, temos a informação de que invadiu o seu apartamento, abusando de seu poder em um cargo delicado. Isso é verdade?

demorou um pouco para responder. Em um segundo, dirigiu os olhos para e o viu aflito, com as mãos em par à frente do rosto. Ele a encarava, esperando uma resposta, e deu um mínimo sorriso de incentivo para que a mulher falasse a verdade.

— Sim — sua voz saiu fraca.

— E também é verdade que ele a forçou a se dirigir ao prédio da Scotland Yard de forma violenta?

juntou as sobrancelhas. Olhou confusa para e ele também estava um tanto atordoado.

— O quê?

— O detetive a forçou a se dirigir ao prédio da Scotland Yard de forma violenta? — repetiu de forma impaciente.

— Não... Eu...

— Então você foi por livre e espontânea vontade? A testemunha mentiu?

— Não, eu...

— Não pode mentir em um tribunal, Srta. .

— Eu sei. não me agrediu, ele apenas me escoltou.

— Então o relato da testemunha é falso?

— Sim, em partes.

— Haveria algum motivo para a senhorita estar defendendo o detetive ?

quase engasgou com a própria saliva, tossindo um pouco ao rebater:

— Perdão?!

— Temos relatos de uma fonte anônima que nos diz que você e o detetive se tornaram bem... íntimos, ultimamente.

— Ora, isso é um absurdo...

— Protesto! — o advogado de interviu.

Dali em diante não escutou mais nada. Apenas olhou para o rosto confuso e desesperado de , vendo-a se sentir extremamente mal pela confusão. não a culpava. Conhecia muito bem aquele tipo sujo de acusação, sempre pendendo para a desgraça alheia. Ao fim, a acusação não foi aceita, mas o peso permaneceu nos ombros de até o momento em que ela saiu de sua posição. E então foi a vez de , que, sentado ali, agora na frente de todos, começou a ver tudo ao seu redor girar.

— Detetive — começaram as perguntas. Pareciam traiçoeiras. — O senhor tem uma filha, certo?

Ele engoliu a seco antes de falar. Sua garganta parecia arranhar.

— Eu tinha, sim.

— E pode nos contar o que aconteceu com ela?

o fitou com os olhos castanhos repletos de uma espécie conhecida de revolta. Molhou os lábios com a ponta da língua ao procurar as palavras doloridas que evitara durante anos. O homem trincava o maxilar inconscientemente, nervoso, com raiva, sentindo-se fisicamente mal.

— Ela foi vítima de um assassino em série.

— Assassino esse que, depois, descobriu ser o seu melhor amigo, certo?

Mais uma vez, engoliu a seco.

— Sim.

— O mesmo amigo que você matou a sangue frio um ano atrás, certo?

balançou a cabeça.

— Foi legítima defesa.

— Havia alguma testemunha?

— Por Deus, eu sou um policial! — comentou, não levantando o tom de voz.

— Não agora, Sr. , então responda à pergunta.

— Não, não havia testemunhas.

— E seria possível que a morte de Patrick Ryan tivesse sido o efeito colateral de um pai sedento por vingança?

— Protesto! — interviu o advogado de .

Em um lapso, viu Constance Spilman sorrir minimamente, sentada em seu lugar de forma quieta. Parecia satisfeita, e o detetive se lembrou daquela noite em que a mulher o ameaçou com a história de que sabia o que realmente havia acontecido no Caso Ryan. Ela parecia certa de que era a dona da verdade. E provavelmente era, tinha provas. Poderia transformar a sua vida em um inferno.

abaixou a cabeça, sentindo o mundo ao redor se desmanchar. Não se importava com Constance, só com o incômodo de ter que falar sobre Melanie daquele jeito. Não podia vê-la sendo usada de uma forma tão suja para algo tão banal. Sentiu seu estômago revirar, dando um puxão interno. A visão de ficou embaçada, os dedos começaram a tremer violentamente. Seu braço parecia dormente, o seu peito queimava em pontadas quase insuportáveis de dor.

Ele se levantou cambaleando, fazendo um barulho estrondoso com a falta de jeito. Os dois advogados pararam a discussão para observá-lo, alguém o mandou sentar. estava vermelho, os olhos lacrimejando, o pulmão perdendo pouco a pouco o ar. Ele desceu do pódio e correu para fora da sala, escutando alguém às suas costas gritar para que chamassem uma ambulância, outra pessoa gritou para que chamassem um segurança.

se escorou pelo corredor vazio, passando por Marie e Joseph, que estavam esperando do lado de fora. A porta da sala se abriu e passou por ela. O homem não a tinha visto desde que estivera respondendo perguntas, mas suspeitava que testemunhas não pudessem assistir a todo o julgamento. Estava confuso demais para pensar naquilo. A dor o distraía, e ele cambaleou até o banheiro masculino, abrindo a torneira para jogar água no rosto. Tudo parecia queimar. Ele não sabia mais como controlar as próprias ações, sentindo as pernas vacilar e tendo que se escorar na parede para não cair com violência no chão. Ele caiu aos poucos.

Nesse momento a porta se abriu. entrou no local com o coque do seu cabelo se desfazendo a cada passo apressado que dava. Ela se ajoelhou ao lado do detetive e segurou as suas mãos, olhando-o de um jeito calmo e desesperado ao mesmo tempo.

— Você está tendo um infarto — disse. — , você tem que se acalmar! Fique comigo.

O detetive não conseguia identificar o que ela falava. Só via os seus lábios se mexendo, as mãos da psicóloga escorregando pelo seu pescoço para soltar a sua gravata, esperando que a falta do tecido o ajudasse a respirar. Nada mudou. continuo cada vez mais desesperado, as veias de seu pescoço saltando e as tentativas falhas de retomar o controle do corpo o desesperando.

não sabia o que fazer. Não lembrava do treinamento para aquilo. Apenas segurou as suas duas mãos e tentou fazer com que o homem continuasse acordado, mas foi inútil. o via cedendo, seus dedos cada vez mais quietos entre as suas mãos. tentava falar algo enquanto se abatia, mas a força era pouca e a voz parecia perdida.

Então ele rastejou com o seu último rastro de força, aproximando-se dela de um jeito quase assustador e colocando uma das mãos no bolso do próprio terno.

, o que você está fazendo?

Mas não ouve uma resposta apropriada. caiu sobre o seu colo, a mão que antes buscava algo nos bolsos escorregando sobre o piso frio do banheiro. viu o objeto que ele segurava. A sua case. E então a pegou, porque deveria ser importante e ele tinha desperdiçado segundos preciosos com aquilo.

Ela abriu a tampa e passou o nariz para sentir o cheiro do conteúdo. Era álcool. E não foi preciso mais nada para que ela entendesse o que o homem estava querendo lhe dizer:

tinha sido envenenado.



Capítulo 32

Na noite em que o Caso Ryan foi encerrado, teve a sua vida completamente bagunçada pelo caos, pelo arrependimento e pela mágoa.

Quando o seu amigo, Patrick Ryan, que era um jornalista famoso, o chamou para querer saber detalhes sobre a caçada ao assassino em série mais cruel que Londres havia visto desde Jack, o Estripador, o homem não imaginou o que aconteceria depois. Não imaginou que ser consultor em um caso fora de sua divisão — que na época era o Crime Organizado — faria com que a sua filha de apenas um ano virasse alvo do sádico que perseguia. Também não imaginou que descobriria que Patrick Ryan era esse sádico, e muito menos que ele tiraria tudo o que poderia ter de bom em sua vida.

Então, sim, naquela noite, quando entrou na cabana abandonada e precária em meio à chuva e ao frio noturno, ele procurou o rosto pálido de sua filha pela fileira de corpos encostados contra a parede de madeira. Era ilógico porque Melanie teria 15 anos àquela altura e todas as vítimas daquela sala eram crianças, mas mesmo assim ele ficou aliviado quando não a encontrou. Ou quase. O alívio passou assim que ele lembrou que muitas das vítimas do Dissipador, como a mídia o chamava, simplesmente não apareciam. Só o diabo poderia saber onde os corpos tinham ido parar. Mas tinha Patrick. Ele poderia interrogar e exigir uma localização para um enterro decente. Se preciso, torturaria o homem.

Vivera 14 anos naquela situação e não deixaria que tanto ele quanto outros pais e mães ficassem o resto da vida presos em tanta angústia. Não poderia suportar mais um dia com o fantasma de Melanie chorando em seus ombros, pedindo justiça. Ficaria louco.

Então quando Ryan foi preso e levado para a viatura policial parada de frente para a cabana, não tirou os olhos dele. Nem por um segundo. Seu peito ardia de raiva, a vontade de tirar o homem do carro e socá-lo até sentir que poderia matá-lo crescendo cada vez mais em seu interior. Todo o corpo do homem tremia, sua garganta coçava, e teve que sair da cabana para poder deixar as pernas fracas perderem a luta interna e levá-lo ao chão.

A chuva ainda caía, e ficou encolhido contra a parede de madeira por alguns segundos. Não conseguia parar de tremer. Não conseguia tirar a imagem das crianças de sua cabeça. Não conseguia pensar em Melanie, sua garotinha, sem querer gritar e bater em alguma coisa. Então ficou ali, sentindo a chuva cair sobre o seu rosto e esfriar as veias de sangue quente e raiva acumulada. Ele explodiria a qualquer momento. E ele explodiu. Exatamente quando um barulho alto irrompeu através das grandes árvores da floresta, fazendo-o levantar o rosto. Àquela altura o caos já havia se instalado. As pessoas se locomoviam, se escondiam, tentavam entender de onde tinha vindo o tiro que derrubara o policial deitado perto da viatura onde Patrick tinha sido posto.

Mas já sabia a resposta. Soube no momento em que viu uma silhueta correr por entre os galhos e a lama, perdendo-se na floresta.

Patrick Ryan havia fugido. E iria atrás dele.

...

— Taxus baccata — foi o que o homem disse.

Às costas de Angelina as pessoas passavam vestindo jalecos e carregando cadernetas. As paredes de vidro deixavam tudo menos claustrofóbico do que geralmente seria em um lugar tão escuro como aquele, mas ela não prestava atenção naquilo. Ouvia atentamente o cientista forense que ficara encarregado de analisar a bebida alcoólica dentro da case de . Queriam saber o que poderia tê-lo envenenado.

— O que é isso? — perguntou a mulher.

O laboratório forense da Scotland Yard não era conhecido por sua eficácia, mas naquele dia Angelina ficou surpresa.

— Uma árvore.

— Venenosa?

— A árvore em si não é venenosa, somente as folhas. Elas contêm substâncias químicas que em grandes quantidades podem ser fatais. Esta mesma planta é usada para produzir medicamentos que combatem o câncer. O nome do medicamento é Paclitaxel e a substância química responsável é o taxol. A árvore cresce em algumas regiões da Europa, mas Portugal é onde floresce mais. Quem fez isto teve muito trabalho.

— E ela é mortal?

— Com certeza. Paralisa o coração e pode facilmente matar uma pessoa se ela não receber o devido socorro.

Angelina concordou lentamente com a cabeça, vendo o homem pegar uma pasta e dar para ela.

— O que é isso? — perguntou.

— Tudo o que você precisa saber sobre o Teixo, como é conhecida popularmente.

A mulher agradeceu, dizendo que depois voltaria com mais perguntas. Saiu da sala e seguiu pelo corredor escuro até chegar ao elevador. Lá dentro, encostou as costas contra a parede e fechou os olhos. Sua mente vagou por todos os acontecimentos do dia. O desespero, a emergência, os repórteres querendo saber o que tinha interrompido o julgamento e, finalmente, entregando-lhe a suposta prova do envenenamento.

Saiu do prédio e entrou em uma das muitas ruas movimentadas do centro. Jogou a pasta entregue pelo cientista em uma lata de lixo na esquina do cruzamento, seguindo para o seu carro e se trancando dentro do veículo de vidros esfumados e ar condicionado fraco.

Tinha que fazer algumas ligações.

...

— Pai?

A voz veio leve e distante, quase como um sopro. Parecia uma miragem, principalmente quando abriu os olhos. Suas pupilas dilatadas moldaram-se ao seu estado de espírito, à iluminação. Os olhos sendo machucados pelas paredes extremamente brancas do quarto do hospital. Seu polegar se mexeu, a respiração ficou um pouco mais densa. E então ele conseguiu que a visão entrasse em foco.

Havia uma criança sentada nos pés da sua cama. Ela tinha cabelos curtos e castanhos, olhos redondos e escuros. Usava um vestido azul e branco igual ao da personagem do filme Alice no País das Maravilhas, sorrindo ao ver que o homem tinha finalmente acordado. se sentou na cama, sentindo o corpo doer. A criança engatinhou até que o homem a pegasse no colo. Então a menina sorriu, brincando com os fios de cabelo que caíam sobre o rosto do detetive, pulando e batendo palminhas quando assoprou-os para longe dos olhos.

Ele sorria inconscientemente. Verdadeiramente. Como um tolo.

— Eu achei que nunca mais te veria, Melanie — escutou o riso característico de qualquer criança ecoar pelo quarto. Era o melhor som do mundo. — Por onde esteve? Eu te procurei durante anos.

Com aquela última frase, a criança parou de sorrir, de pular e de brincar para observar o rosto do policial por alguns instantes. não entendeu até que refletisse sobre as próprias palavras. O teor de cada uma delas ecoando pelo seu cérebro, trazendo lembranças, fatos e constatações. Era doloroso.

Anos.

Muitos anos.

Ela não poderia continuar com a aparência de uma criança de um, por mais que o detetive quisesse. Era impossível e banal, e ele notou que tudo não poderia ser verdade. Era apenas uma ilusão, talvez um sonho. Provavelmente um deslize de sanidade, algo que ele teve certeza quando a criança derreteu em seus braços. Ela se transformou em pequenas partículas de pó, sujando o lençol branco, as mãos do detetive e o ar do quarto. Fez tudo parecer menos branco e pacífico que antes, quase transformando o cenário em um filme de terror.

abriu os olhos, pulando sobre a cama. Tudo estava limpo de novo. Os aparelhos produziam bipes às suas costas e as pessoas passavam pelo corredor do lado de fora. Natallie estava parada conversando com outra enfermeira quando percebeu que o marido tinha acordado. Ela parou o que estava fazendo, e, na hora, correu para dentro do quarto de uma forma quase desesperada.

— Você está se sentindo bem? Alguma dor? Enjoo? Consegue enxergar direito?

Ele apenas balançava a cabeça para responder. Sua língua estava seca, um gosto estranho afetando o paladar. A cabeça doía, claro, mas nada se comparava aos ataques de tontura que não paravam de chegar.

— Eu fui envenenado — concluiu, lembrando-se.

— É, você foi.

— Por quem?

— Não sabemos. Angelina está investigando isso.

balançou a cabeça mais uma vez. Natallie ficou em silêncio por alguns instantes antes de segurar a mão direita do marido com força, fazendo-o olhá-la preocupado. O homem franziu o cenho e estava prestes a tentar conversar com a esposa quando a mulher suplicou:

— Por favor, saia do caso.

— O quê?

Natallie estava chorando. Tentando não chorar, pelo menos, mas era possível ver que uma ou duas lágrimas desciam por sua bochecha. Ela estava com a cabeça baixa, as mãos apertando os dedos do marido. Suas palavras em conjunto soavam como uma oração, uma súplica, como se estivesse torcendo para forças maiores ajudarem-na naquilo.

— Você vai morrer, . Eu sinto isso. Olhe só! Quantas vezes parou no hospital nos últimos meses? Eu vejo que está bebendo mais, fumando mais. Não dorme e não come e toda semana quase é morto por algo ou alguém. Por favor, saia do caso. Deixe para outro detetive.

Ele fez que não com a cabeça. não podia deixar o Caso Spilman de lado, já havia se tornado uma responsabilidade e um peso. Isso sem mencionar o envolvimento pessoal que havia adquirido. Seu nome fora citado mais de uma vez. Sofia o conhecia, mandou bilhetes, contava com ele para que o homem descobrisse algo maior que os motivos de sua morte. Ele não poderia abandoná-la. Era impensável.

— Eu não posso — disse de forma simples.

Natallie finalmente levantou os olhos para ele. A mulher parecia magoada, com raiva. Quase como se não acreditasse. Soltou os seus dedos, o nariz vermelho, os lábios trêmulos. Passou as mãos pelo rosto e limpou o rastro gelado das lágrimas em sua bochecha.

— Eu não vou passar por isso de novo — disse. — Eu perdi Melanie para um caso seu, e não vou perder você para outro. Sinto muito, , mas não vou deixar Sofia Spilman levar tudo o que ainda existe de bom em mim.

não estava compreendendo, mas Natallie parecia clara demais. Anos antes, a mulher perdera a filha para algo que o detetive investigava; foi doloroso e insuperável; foi cruel, e ela achou que nunca fosse se recuperar — nunca se recuperou, de fato. Apenas aprendera a lidar. Outra vez, seria o fim. Ela não aguentaria ir ao enterro de ou de qualquer amigo. Não aguentaria mais uma noite esperando notícias do marido que fora envenenado ou atingido pela explosão de uma bomba. Não aguentaria vê-lo se matar pouco a pouco com cigarros e alimentação precária.

Não aguentaria.

— Natallie, o que...

— Estou fazendo isso porque te amo, . E porque devo me respeitar. Eu não posso me deixar morrer de novo, e não posso deixar que morra. Dito isto, não há como ficarmos juntos.

— Por quê? Do que você está falando?

O sorriso que Natallie deu foi quase cruel, e então veio a grande ironia:

— Use a lógica, detetive, e me diga se seria saudável permanecermos juntos. Você se mata toda vez que sai pela porta. Eu quero salvá-lo. É uma grande contradição.

Deus, ela parecia tão magoada! quase não conseguia olhá-la nos olhos. Parecia que ele a havia decepcionado. Ele teve certeza quando Natallie completou:

— Atrapalharíamos um ao outro. Eu não quero ser um obstáculo em sua investigação, sei o quanto é focado. Mas também não ficarei para assistir enquanto cava a própria cova.

Então suspirou, um pouco mais calma. Parecia a doce e racional Natallie outra vez.

— Vou ficar distante por um tempo. É isso.

Ela saiu do quarto tão rápido que não pôde dizer nada. Nem uma única palavra. Um pedido de desculpas, uma mudança de ideias. Nada que ele poderia ter feito para fazê-la ficar aconteceu. Aquilo era preocupante, cruel e necessário. Era... Estranho.

Em mais de vinte anos, nunca havia ficado sem Natallie. E agora estava sozinho. Por algum motivo, sentia que era a coisa certa. A mulher não queria perdê-lo da pior forma e decidiu se afastar para se acostumar com a ideia de sua morte... Bem, era peculiar. Mas ela tinha a certeza de que ele não sobreviveria, e no fundo também. Estava ali por sorte, e aquilo não iria se alongar.

começou a pensar em todas as pessoas mortas por causa do Caso Spilman. Se Natallie fosse a próxima ele nunca se perdoaria, então a deixou ir, porque pensou que a distância a manteria segura.

Aquilo era cruel, necessário e estranho.

Era banal.

...

Dentro de Old Baile, o único som presente no largo corredor do saguão era o tilintar oco dos sapatos de Angelina Devens. Não havia mais ninguém ali, nem mesmo funcionários. A Scotland Yard havia pedido a tarde para investigar algumas coisas, e, com alguma dificuldade, o pedido fora atendido. Mas é claro que aquilo não significava que as coisas seriam fáceis. O lugar era grande e tinha muitas câmeras para checar. As pessoas para entrevistar eram muitas. Eles nem sabiam por qual motivo ainda faziam aquilo, ninguém havia morrido. Talvez no fundo soubessem que tudo tinha relação com a morte de Sofia Spilman. Sempre souberam.

Angelina vasculhou o prédio todo com os seus olhos de águia, o azul intenso e as pupilas não deixando um único detalhe passar, a mente divagando em soluções, reações e defesas. Pensou em todo o julgamento, em como deveria ter acabado. Tinha certeza de que a decisão do júri seria a de que não poderia voltar ao trabalho — Constance garantiria aquilo. Mas... Ryan? Lembrar dele durante o julgamento fora cruel.

Patrick, que era melhor amigo de , ficou junto à equipe durante toda a investigação a respeito do Dissipador — ou pelo menos até que começasse a se preocupar com ele. Então as coisas começaram a ser escondidas, Patrick excluído com a desculpa de que ele era um repórter e partilhar informações seria antiético predominando mais do que conversas formais. E aí veio o sumiço de Melanie . ficou maluco, armou uma armadilha em um plano de mais de 14 anos e capturou o assassino que, ele sabia, era Patrick, sempre fora. Os corpos de algumas crianças foram desenterrados do assoalho e do terreno ao redor da cabana onde tudo aconteceu, mas outros nunca foram encontrados. Corpos como o de Melanie, que junto a outras três crianças nunca puderem descansar em paz.

Lembrar de tudo aquilo no meio do julgamento deveria ter sido doloroso e difícil para . A mulher nem poderia imaginar. Até pensou que tinha sido o motivo do infarto, mas não. De novo, Sofia Spilman estava envolvida, e agora Angelina tinha mais um mistério em mãos.

Voltou para o prédio da Scotland Yard sem qualquer avanço nas pistas sobre quem poderia ter envenenado o parceiro. Sabia, de qualquer jeito, que era obra do assassino mascarado. Não havia dúvidas, mas a contradição era grande. Afinal, o homem teve muitas chances de matar . Por que esperar até aquele momento?

Sentou em sua mesa no salão bagunçado da Scotland Yard, colocando os pés sobre os papéis jogados acima do teclado do computador. O barulho de fundo não a desconcentrava, David e Steven discutindo algum assunto aleatório não chamava a sua atenção. Naquele momento ela segurava o plástico transparente que continha a case de , onde o veneno havia sido depositado, e focava apenas naquilo. A mulher a examinou por horas, buscou muitas coisas. Até que não encontrar nada foi uma vantagem e ela se endireitou na cadeira, radiante, levantando-se apressada e dizendo para Steven lhe dar cobertura enquanto ela fazia uma visita a , no hospital.

— O que aconteceu? — perguntou o colega.

Ela respondeu sem ao menos parar de andar:

A case não é dele.

...

— Como eu não reparei? — foi o que perguntou, analisando a case.

Angelina deu de ombros.

— Tinha outras coisas em mente.

realmente tinha. Mas não notar que um objeto pessoal havia sido trocado por outro parecido era preocupante. Principalmente para um detetive.

— O problema é que isso pode ter acontecido a qualquer momento. Há quanto tempo essa garrafa está na minha casa? Eu nem sei. Ultimamente não a mantinha por perto.

E era verdade. Há muito tempo que não usava a sua velha case de bebidas furtivas. Não se lembrava da última vez que a teve em mãos. Só a usou naquele dia porque era pequena e discreta.

— Tentando parar de beber? — Angelina perguntou, surpresa.

— Não. Essa aqui é muito pequena e eu troquei por uma maior.

A mulher revirou os olhos e suspirou. Por que não havia imaginado?

— Bem, alguém trocou a sua verdadeira case por outra. Uma com um líquido venenoso. Obviamente alguém com acesso à sua casa.

suspirou. Sim, ele tinha pensado naquilo. E mais uma vez as palavras de sobre um suposto traidor voltavam para atormentar a sua sanidade. Mas era um fato, não era? Principalmente depois daquilo. No Natal, todos estavam em sua casa, andando livres, usando banheiros e acessando os quartos. não teria motivos para suspeitar de qualquer um deles naquele dia, mas agora tinha. E imaginar quem poderia ser lhe dava dores de cabeça.

— Vou pensar em alguém — respondeu, recostando-se no travesseiro grande. — Obrigado.

Angelina assentiu, levantando-se da poltrona. Pegou a case embalada das mãos do parceiro e olhou para o corredor do hospital, onde várias pessoas passavam distraídas.

— Está seguro aqui? — perguntou. — Com todas essas pessoas, nenhum segurança. Não entendo por qual motivo a Scotland Yard não mandou um guarda para cuidar de você! — pestanejou.

sorriu, tranquilo. Não era uma novidade.

— Porque eu sou um problema, Angelina Devens. Tive um infarto, tecnicamente. Não levei um tiro.

— Foi envenenado!

— Detalhes...

Ela bufou, indignada. Parecia tão... injusto! E cruel. já não se importava com a indiferença em relação a si. Não esperava que se preocupassem com a sua segurança depois de tudo que tinha feito para atrapalhar a Scotland Yard. Era bem odiado, aquilo era um fato. Não esperava nada de bom de Londres como um todo.

— Eu tenho que ir — disse a parceira, aproximou-se dele. achou que ela fosse lhe dar um abraço, mas Angelina recuou um pouco, parecendo incerta e quase desconfortável. Mais uma do tipo que não sabia demonstrar sentimentos. — Se cuida, por favor.

— Pode deixar.

E então saiu, deixando-o sozinho. automaticamente começou a pensar sobre quem poderia ter colocado o veneno em sua bebida. Com certeza havia sido na noite de Natal — o que não fazia tanto tempo.

Ele suspeitou de Steven, que fora o primeiro a ir embora. Talvez tivesse ficado nervoso por saber que iria matar o amigo e decidiu sair antes de tudo acontecer. Provavelmente achou que beberia o líquido naquela mesma noite. O detetive era conhecido por ser um bêbado, não era?

fechou os olhos. Queria dormir. Sua mente martelava. Pensava em quando voltaria para casa, sozinho, sem Natallie. Pensava em suas dores de cabeça, nas pistas do Caso Spilman, em Marie, Constance, e Joseph. Pensava em tudo aquilo, e só parou quando caiu no sono.

Pelo menos ali ele estava seguro.

...

— Este é o mapa que encontramos na casa de praia da família Spilman — disse , esticando um pedaço enorme de cartolina sobre a mesa da cozinha.

A casa dos agora era só a casa do . Tudo estava silencioso, morto, escuro e, mesmo assim, acolhedor. não se sentia desconfortável ali dentro, muito menos o próprio . Só era estranho, principalmente pelo fato de que as coisas de Natallie ainda estavam espalhadas pelos quartos e estantes. A ex-mulher passara para pegar algumas roupas, mas não levou nada além daquilo. soube que enquanto a situação permanecesse daquele jeito ele ainda teria a esposa de volta, algum dia. E ela sabia do mesmo. O problema era que dar esperanças um ao outro apenas os deixava mais estranhos, mas distantes.

não via Natallie há duas semanas. Aquilo era um fardo enorme para se carregar.

— E aqui está a impressão do jornal — disse , tirando outro papel da própria bolsa. — A matéria que Sofia escreveu para o jornal da faculdade, antes de morrer. Por que pediu para que eu trouxesse?

— Três lugares para se visitar em Londres — lembrou . Então, pegou uma caneta e ressaltou alguns pontos que já haviam sido marcados por Sofia no mapa que tinha sobre a mesa. — Pode ler as indicações da matéria de Sofia em voz alta?

Quando disse o primeiro, apenas circulou um ponto já marcado no mapa. E então o segundo e o terceiro vieram e a teoria apenas se concretizou. Ao final, tinham três pontos formando um triângulo no meio de Londres. sorria satisfeito, e , que já deveria ter se acostumado, observava estupefata.

Sofia Spilman e teriam formado uma bela dupla de detetives, era o que a psicóloga pensava.

— Acha que temos que ir a esses lugares? — perguntou .

— Parece que é exatamente isso que Sofia queria que fizéssemos.

Capítulo 33

"To find yourself just look inside the wreckage of your past
To lose it, all you have to do is lie"

"Para se encontrar apenas olhe dentro dos destroços do seu passado.
Para se perder, tudo o que você tem que fazer é mentir."

— Porra, ! O que você está fazendo aqui?!

O susto veio quando apareceu escondido atrás de seu sobretudo negro, deixando a gola cobrir uma parte de seu rosto enquanto os olhos castanhos escapavam e brilhavam sob o único feixe de luz que atravessava o quarto de Joseph Right. Apesar do drama, o detetive não fazia aquilo porque queria ser misterioso ou tentar armar uma cena. Ele estava se protegendo do frio daquela madrugada, que corroía os seus ossos, deixando o ar seco e os lábios trincados.

— Levante da cama, garoto. Descobri algo importante! — disse, animado de um jeito estranhamente carrancudo.

Joseph estava usando um de seus pijamas improvisados, algo composto por uma camisa velha do Star Wars e uma calça de moletom. Os pés descalços e desprotegidos pareceram extremamente pálidos quando o garoto os colocou para fora da cama, seus cabelos dourados e bagunçados caindo sobre o seu rosto e não deixando que visse o momento em que ele revirou os olhos.

— São três da manhã! Você não estava se recuperando de um envenenamento?

— Ninguém se recupera de um envenenamento. É só esperar sair de seu organismo.

— Tanto faz.

jogou uma muda de roupas sobre o menino, que não tinha os reflexos tão apurados quanto os do detetive e sofreu com a lesão quase insignificante do tecido contra o seu rosto. , então, colocou um cigarro entre os lábios e subiu as escadas do porão, saindo do local escuro, de tons marrons, e entrando no infinito de paredes brancas e cômodos vazios da casa acima do esconderijo de Joseph.

— Que desperdício — murmurou , deixando o cigarro atrapalhar a pronúncia. — O desgraçado tem uma casa três vezes maior que a minha e nem ao menos desfruta dela — e então gritou: — Você poderia montar um bordel aqui!

— Claro, . Seria ótimo para os negócios! — respondeu Joseph, subindo os últimos degraus e parando ao seu lado. quase se assustou com a proximidade da voz. Poderia jurar que o menino ainda estava no andar debaixo. — Estamos indo para onde?

— Você se lembra do jornal da faculdade de Sofia?

— Lembro.

— Lembra do que encontramos por lá?

— Sim — respondeu, e sorriu. — Não encontramos nada.

o olhou e suspirou, deixando de sorrir e começando a andar para a saída. Seu carro estava estacionado do lado de fora, e o detetive esperava que, com a falta de luz, Joseph não notasse que ele havia, sem querer, subido alguns centímetros da calçada.

— Nós encontramos coisas que achávamos não ter importância — disse ele, tentando fazer o hacker pensar.

— Tipo o quê?

— Eu gosto mais de você quando está sendo inteligente, Joseph. É só por isso que te aturo.

— Ninguém é inteligente às três da manhã.

Do lado de fora, o céu ainda estava escuro. Algumas estrelas podiam ser vistas atrás das nuvens carregadas, mas era difícil saber ao certo. Joseph ainda estava sonolento, o corpo quente antes acolhido pelas suas cobertas agora reclamando do frio repentino.

— Eu sou — respondeu , longe de ser modesto.

— Você não é humano.

— Humano ou não, a questão é que, naquele dia, vimos um artigo de Sofia Spilman no qual ela ressaltava três lugares de Londres que todo mundo deveria visitar.

— Tá, e daí?

— E daí, Joseph, — abriu a porta do carro, vendo o menino dar a volta para ocupar o lado do passageiro, — que é o jornal de uma faculdade. Um lugar cheio de gente jovem, a maior parte residente da cidade há anos. Para que eles precisariam de um guia turístico? E mais: esse tipo de artigo em uma faculdade é ridiculamente dispensável. Ninguém quer saber disso! As pessoas querem conteúdo de verdade.

— Então Sofia era uma péssima jornalista? — chutou Joseph. Suas mãos estavam sobre a lata do carro enquanto ele tentava enxergar as feições de , que acendia o cigarro, parado do outro lado.

— Sofia queria nos mandar para esses três lugares — foi o que respondeu.

...

— Ah, ele também invadiu a casa de vocês? — perguntou Joseph ao ver e Marie paradas sobre o meio fio da calçada.

A grande estação Waterloo se erguia às costas das duas. Tanto a mais velha quanto a mais nova tremiam de frio, e Joseph havia se juntado a elas naquele quesito. O carro de não o protegia mais dos ataques constantes que a temperatura investia, o cigarro aceso dentro do ambiente fechado não provocava mais uma elevação mínima de graus. Ele estava no frio de novo.

— Mais ou menos — respondeu . Ela queria muito ter ido para casa dormir, mas insistiu que deveriam investigar tudo naquela mesma noite.

Marie também se pronunciou, roubando toda a atenção do rapaz:

— Na minha, ele foi pego — riu a mais jovem Spilman. — Sorte que eu acordei antes que o nosso segurança chamasse a polícia.

— Eu estou ficando velho — murmurou . Já fazia tempo que as suas invasões não davam certo. — Preciso praticar mais. Não importa, estamos todos aqui.

— Então, esse é um dos três lugares? — perguntou Joseph.

fez que sim com a cabeça e olhou para a estação monumental à sua frente. Virou-se para a silhueta da London Eye brilhando às suas costas, menos de cinco minutos de distância dali, e suspirou diante da vista privilegiada que saberia nunca ter. Morar no subúrbio era uma maldição, e apesar de querer e poder, a sua falta de paciência com a cidade grande e seus moradores mesquinhos nunca o deixaria partir daquele bairro esquecido e desvalorizado de Londres.

Uma garoa fina começou a cair naquele momento, e Marie se encolheu dentro de seu casaco vermelho sangue — um de marca cara que na verdade nunca a aqueceria o suficiente. já tinha desistido de lutar contra o frio e apenas tentava prestar atenção enquanto explicava a ligação que haviam feito entre o mapa encontrado na casa de praia dos Spilman e os lugares sugeridos por Sofia em seu artigo.

— O que podemos achar por aqui? — perguntou Marie. — São três lugares públicos. Qualquer coisa que Sofia deixasse para trás seria encontrada por turistas.

entendia o raciocínio dela. Marie achava que a estação era o local que Sofia havia sugerido, mas não era. Apenas marcou o ponto de encontro ali porque sabia que o verdadeiro local poderia ser perigoso pela madrugada. Ele não queria arriscar.

— Nossa missão não é no metrô, pequena Spilman, mas sim no túnel da rua Leake. Acredito que Sofia nos deixou alguma coisa por entre os grafites e desenhos nas paredes, então teremos que procurar atentamente.

fez um sinal com a cabeça, indicando que todos deveriam segui-lo. Os três obedeceram sem questionar, cada um se encolhendo mais dentro de casacos, sentindo a umidade do túnel que os acometida aumentar a sensação térmica de que aquela era a madrugada mais fria do século.

Os quatro se separaram em duplas. Primeiro, Joseph e Marie; e . Mas então o detetive perdeu a paciência com o jeito sonolento da psicóloga e trocou de parceiro, passando a procurar com Joseph — até que ele se irritasse com o hacker também e o trocasse por Marie. Ela foi a única que ele realmente suportou, principalmente porque estava quieta. Daquele jeito a cabeça do detetive não doía e ele não precisava fingir prestar atenção em assuntos aleatórios. Estranhamente, depois de alguns minutos, foi o primeiro a falar.

— Fez as pazes com a sua mãe?

Marie tinha as mãos nos bolsos, olhando para as paredes à procura de algo que pudesse lembrar a irmã. Ela parecia tranquila, quase serena. Dez anos mais velha quando disse, contida:

— Há dois anos a minha mãe me levou para conhecer os meus pais biológicos.

balançou a cabeça. Não entendeu muito bem por qual motivo ela havia decidido lhe contar aquilo em um momento tão peculiar, então perguntou:

— E eles eram legais?

— Sim, sim — respondeu, sorrindo. — Pessoas simples, que moram ao leste da cidade. São ex-colegas de escola da minha mãe, e quando viram que não poderiam criar um filho, pediram para que Constance tomasse conta de mim. Quando cheguei lá a mulher me fez biscoitos. O homem me mostrou fotos de quando eu estava no hospital. O meu quarto ainda está montado até hoje, com um berço branco e algumas roupas de bebê.

— Você... — estava incerto. Parecia um assunto delicado que ela não costumava levar com ninguém. Estranhamente, em um dos momentos mais raros de sua vida, teve medo de dizer a coisa errada. — Queria ter crescido com eles?

— Não, muito pelo contrário — respondeu de imediato. — O que eu estou querendo dizer é: você tinha razão, . Constance é minha mãe e nada mudará isso. A nossa briga só serviu para que eu tivesse certeza, afinal ela me perdoou. Eu sei que a odeia, mas, no fundo, Constance é uma boa pessoa.

riu com sinceridade. Finalmente havia entendido. Ela conhecera os pais e mesmo assim não conseguia tirar Constante do posto de mãe porque, assim como o detetive havia dito, mãe e pai são aqueles que criam. Ficava feliz que Marie tivesse entendido aquilo.

— Eu não odeio Constance — disse , já um pouco mais relaxado. — É claro que é muito chato quando ela tenta fazer da minha vida um inferno, mas eu até que a admiro. É uma mulher forte em um mundo fraco. Consigo ver em seus olhos o quanto ela luta para manter tudo sob controle.

Marie riu também, concordando. Constance era controladora e rígida, mas uma boa pessoa. Quando pareceu ameaçar , o detetive sabia que ela só fazia aquilo porque a incompetência da Scotland Yard era predominante e a mulher sabia daquilo. teria feito a mesma coisa se tivesse tido a chance com Melanie.

Estava prestes e dizer que sempre tinha razão quando o detetive se distraiu com umas das paredes. Seus olhos ficaram estreitos, e ele inclinou o rosto para perto dos rabiscos e formas à sua frente. apontou para uma figura em especial, e Marie a olhou, demorando um pouco por causa da luz precária. Não pôde conter a sensação estranha de reconhecimento causada pelo desenho de um urso azul.

— Parece um dos ursos de pelúcia de Sofia! — exclamou, um tanto eufórica.

sentiu o coração pular. Ele estava certo! Eram pistas. Sofia havia deixado uma trilha de migalhas para o detetive seguir, e por mais que ele tivesse demorado para encontrar, finalmente havia conseguido!

— Sofia sabia desenhar? — perguntou , controlando a respiração.

Marie não parecia ter ciência do quão importante era aquela pergunta, respondendo ainda distraída enquanto analisava o desenho, passando as mãos pela parede:

— Não.

— Tem alguma ideia de quem pode ter feito isso para ela? — insistiu o detetive.

— Talvez Jared.

A euforia dentro de seu peito pareceu se esvair com aquela resposta.

— Esperava que pudesse ser alguém vivo — suspirou, decepcionado.

Ouviu os passos de e Joseph se aproximando, as luzes das lanternas reverberando pelo túnel e transformando tudo em caos. O urso azul ainda estava sob os cuidados dos olhos atentos de Marie. Ao pé da figura, a letra S aparecia duas vezes. Uma assinatura da garota morta que passaria despercebida para sempre, se não fosse aquele grupo.

— O que isso quer dizer? — perguntou , confusa. — Sofia jogou todas essas pistas na nossa direção, desde a casa de praia até aqui, e nós não chegamos a lugar algum! Parece tudo uma grande coincidência.

pensou com cuidado. Também cogitava aquilo, mas as coisas estavam começando a se encaixar. Aquilo era um ótimo sinal!

— Temos que procurar por esse urso — disse. — Sabe onde ele está, Marie?

— Acho que no sótão da mansão.

— Então você vai trazê-lo para nós. Tudo bem?

— Sim.

Era perfeito. Sofia havia selecionado cuidadosamente todas as pessoas em que confiava. De Marie ao detetive, cada peça do jogo se encaixava. O que um não podia fazer, o outro dava conta. A mesma coisa com e Joseph, que, por mais que não tivessem sido escolha de Sofia, ajudavam muito. Aquilo, por outro lado, fazia pensar na possibilidade de ter estragado tudo. Sofia tinha bons motivos para não confiar em ninguém e até morreu para compartilhar um segredo com . Teria ele traído a confiança dela ao trazer Right para a investigação? Seria ele o traidor?

não conhecia muito do garoto. E se todo aquele ar reservado não fosse apenas paranoia? E se ele tivesse motivos para querer ficar longe da polícia? E se ele conhecia Sofia de algum modo, ou estivesse sendo pago para vigiar as investigações de ?

O tinha por perto o tempo todo. Joseph estava lá no Natal. Estava quando as câmeras de segurança da Scotland Yard falharam e deixaram o assassino fugir.

?

piscou, vendo que Marie falava com ele.

— Qual é o próximo lugar da lista? — perguntou a menina.

O detetive demorou um pouco para voltar a se concentrar. De soslaio, olhou para Joseph, com as mãos nos bolsos e a atenção focada no mistério sendo desvendado. Ele parecia, de repente, ameaçador.

— Não muito longe — respondeu ainda distraído.

— Podemos ir agora?

— Por quê? Tem alguma teoria? — finalmente focou toda a atenção nela.

— Não. Apenas... Um pressentimento.

O clima ficou um pouco pesado depois daquilo. não sabia se deveriam continuar enquanto Joseph estivesse por ali. Por outro lado, sentia que o estava julgando precipitadamente. O que ele estava pensando? Conhecia o menino há anos. Podia confiar nele.

Não podia?

— Bem, então vamos — disse, por fim.

...

Do outro lado da cidade, Natallie tomava um copo de café quente na lanchonete do St. Marys Hospital. Seus ombros estavam tensos e seus olhos cansados demais para as próximas três horas de plantão que teria que cumprir. A mulher já não conseguia fazer nada além de bocejar a cada dez minutos e tomar mais café.

Às vezes sentia falta dos tempos em que trabalhava como Pediatra. Por mais que fosse cansativo, a paixão pelo cargo a motivava tanto que Natallie não chegava a reclamar. E não que ela odiasse a sua função de enfermeira, mas, sim, ela se questionava sobre a decisão de largar o que fez tão bem durante tantos anos. Por mais doloroso que aquele emprego pudesse ser, por mais que as lembranças que o acompanhasse parecessem insuportáveis, talvez ela devesse ter arrumado um jeito de lidar com tudo ao invés de fugir.

, não vai para casa? — ouviu uma voz atrás de si perguntar.

Virou apenas alguns centímetros do rosto para ver a sombra de Jack Winsterlock, um de seus colegas de equipe, se aproximar. Ele sentou na cadeira ao lado da sua e sorriu mais pelos olhos do que pela boca quando falou:

— O seu turno acabou há quarenta minutos.

— Estou de plantão hoje — respondeu, cansada. O homem a olhou confuso, pois era a terceira vez naquela semana, e Natallie completou: — não está em seus melhores dias com a Scotland Yard.

— De novo?

— De novo.

— Por que ele sempre arruma um jeito de ser demitido?

Natallie sentiu uma entonação estranha em sua voz, como se o homem estivesse jugando de algum modo. Ela não gostou nada daquilo, portanto desmanchou o sorriso fraco que havia tomado os cantos de seus lábios e largou a xícara de café pela metade antes de levantar da mesa e dizer:

— Porque ele é um homem justo, apesar de tudo, e não é corrompido pela má intenção dos outros.

Natallie e estavam separados, sim, mas ainda se amavam, de um jeito ou de outro. Ela não deixaria de ajudá-lo ou defendê-lo. Não deixaria de apoiá-lo.

Jack pareceu finalmente perceber o que tinha dito, fechando os olhos e balançando a cabeça. Começou um pedido de desculpas que foi cortado pela voz doce de Natallie dizendo que deveria voltar ao trabalho. O refeitório estava completamente vazio naquele horário, assim apenas a jovem moça de cabelos castanhos que trabalhava atrás do balcão escutou quando , mesmo com educação, se retirou e o deixou falando sozinho.

Jack passou as mãos pelos olhos e suspirou. Algumas das luzes do cômodo haviam sido apagadas para economizar energia e não desgastar tanto assim a atenção dos médicos que passavam por ali. O homem, que era cirurgião e estava na profissão há dezessete anos, já havia salvado centenas de vidas, mas nunca arrumava uma solução para a sua própria. Sua existência parecia ser movida pela paixão platônica que sentia por aquela mulher de cabelos cor de mel que, naquele momento, provavelmente o odiava. Algo que era engraçado, porque ele não estava acostumado a esse tipo de reação. Natallie só parecia ter olhos para uma pessoa, como se o resto do mundo não importasse, e às vezes ele acreditava que também não era essa pessoa.

Nunca saberia quem poderia ser.

Levantou-se da cadeira e saiu do salão, vendo a última luz sendo apagada às suas costas. No fim do corredor, Natallie havia parado para conversar com alguém que parecia ser um paciente. Algo que Jack automaticamente descartou quando viu o sobretudo marrom escuro que ele vestia, a pose de alguém que tinha anos de experiência em uma profissão que muitas vezes era inimiga da sua.

— Sra. , pode vir comigo? — ouviu-o pedir à Natallie.

A mulher balançou a cabeça, confusa, e perguntou o motivo.

— Há algo errado? está bem?

— Não há nada de errado com , Sra. . — Enzo West respondeu de forma direta, vendo que Natallie se exaltava em precipitações exageradas.

— Então o que aconteceu? — ela perguntou.

West suspirou e a encarou. Não sabia como começar a dar a notícia. Seus ombros doíam e o chapéu marrom estava molhado pela chuva que o pegou desprevenido do lado de fora. Sua voz foi macia, porém tensa, quando ele falou:

— Desde o julgamento do seu marido algumas coisas andam frenéticas em Londres. Com a citação do Caso Rayn, a mídia foi à loucura, e muitos fanáticos e justiceiros ficaram revoltados com a constatação de que corpos de crianças não haviam sido encontrados.

Natallie ficou aflita e ele continuou antes que ela surtasse mais ainda:

— Bem, algumas pessoas saíram para procurar — fez uma pausa, engolindo a seco. Quando continuou, não parecia o amigo e parceiro de , mas sim um estranho policial de Londres. — Encontraram os ossos de uma garotinha de um ano que pode ser a filha de vocês. Estou aqui para levá-la à Scotland Yard. Temos algumas roupas que pode reconhecer.

Natallie sentiu as paredes girando naquele momento. Um baque a atingiu tão forte que precisou dar um passo para trás e se apoiar na parede branca do corredor. Jack correu para ampará-la, segurando-a pelos ombros.

— Você ligou para o ? — perguntou a mulher, e Enzo negou.

— Não o achamos.

— Por favor, o encontre. Preciso dele aqui.

...

Do outro lado da cidade, e sua equipe de detetives amadores chegavam ao segundo dos três lugares listados por Sofia Spilman antes de sua morte. De certo, todos acharam que a descoberta de pistas seria o ponto alto, o auge daquela madrugada.

Obviamente, estavam errados.

Quando o telefone de tocou, algo no vento que circulava os quatro mudou. Tornou-se mais frio, constante. Praticamente gelou as suas almas e os seus corpos, fazendo com que o detetive demorasse um pouco para atender o chamado, tremendo de frio e batendo o queixo enquanto escutava a voz do outro lado dizer o que ele esperava para ouvir há mais de dez anos.

Continua...

Nota da Autora: Oi, gente, espero que tenham gostado! Não se esqueçam de comentar e entrar no grupo. Um beijo pra família do Ficcionando ❤
Grupo.

Confira outras fics da Andy.

Nota da Beta: Me digam que vocês estão anotando todas as pistas dessa historia!!
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.