Proteja-me do que Quero

Autora: Debby S. | Beta: Mily

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Prólogo

Ótimo. Aqui eu estava agora. Sozinha no lugar mais detestável do planeta, e pronta para me afundar no meu próprio poço de auto piedade. Meu momento absorto, infelizmente, se deu fim ao escutar um leve clamor do meu nome ao longe, que foi aumentando conforme os passos que pareciam se aproximar.
- ! – Meus ossos gelaram quando escutei aquela voz tão próxima a mim, foi quase como se eu literalmente tivesse sentido minha alma me deixar e voltar.
Eu estava ficando louca? Seria possível? Eu jurava que sentia sua respiração de tão perto que estamos, mas... Não podia ser ele aqui agora, podia? Minhas mãos começaram a tremer e eu sentia que minha pressão deveria estar despencando com meu nervosismo. Por Deus, eu iria morrer. Com medo não olhei para trás, e fingindo que não tinha escutado nada continuei parada, sem mover um único músculo.
Mas então uma mão quente encostou em meu ombro e eu fui obrigada a me virar só para enxergar um mundo inteiro novamente se desfazendo diante dos meus olhos.


Capítulo 1

Fechei os olhos enquanto permitia que o som do piano continuasse a me entorpecer. A melodia tão fascinante quanto à da minha música preferida, então eu ficava ali o observando, escondida como uma rata, ao longe. A sala de música do Instituto Épora nunca me pareceu tão grande e ao mesmo tempo tão pequena. Seus dedos dedilhavam as teclas com maestria e ele parecia estar tão entorpecido quanto eu, sabia disso mesmo só podendo ver sua nuca e seu cabelo, que apesar de todo bagunçado parecia perfeito. Sorri e revirei meus olhos, preferia o Apocalipse a ele descobrir que eu achava seu cabelo maravilhoso, ou o quão belo ele ficava sob aquele ponto de vista; tocando piano maravilhosamente bem diretamente iluminado pelos raios sol que atravessavam a janela, chegando até o garoto que já era insuportavelmente convencido e não precisava de minha ajuda para se achar ainda mais quente do que ele já sabia que era.
O carpete vermelho embaixo dos meus pés parecia o caminho ideal a se seguir, o caminho da perdição definitivamente; caminho este que me levava até . Sorri novamente. Qualquer um podia ver, estava escrito em sua testa e também em seu corpo todo o quanto a música levava seus pensamentos embora.
Quase dei um passo em sua direção, mas então me acovardei, voltando para trás e encostando a cabeça na parede. Mordi meus lábios ansiosa, tentando me conter, esperando para ver quando ele perceberia que eu estava aqui. Por mais que tentasse foi impossível segurar um suspiro, depois senti minhas bochechas quentes, com certeza coradas com o pensamento de que ele poderia ter escutado aquilo. Não gostava mesmo de parecer uma menininha boba suspirando pelos cantos, o que era exatamente o que estava sendo nesse instante. Aguardei um momento até me dar conta que o garoto a minha frente estava tão fora desse mundo no momento, que tudo ao seu redor se tornara imperceptível. Depois de algum tempo roubando aquele pequeno momento para mim, resolvi me fazer presente.
- Hrum hrum. – Cocei minha garganta, fazendo com que ele se virasse e me encarasse. Claro que ele me lançou aquele sorriso, o meu sorriso – pelo menos eu gostava de achar que sim, me aventurando a pensar que ele não dava aquele sorriso para qualquer coisa do sexo feminino que se movesse. Após apenas sorrir, o tolo virou-se para frente novamente e voltou a tocar, facilmente ignorando a minha presença. Delicada como um elefante, caminhei até ele, me sentando nas teclas do piano sem um pingo de pena e gargalhando em seguida com sua face de desaprovação e repreensão. – O que foi? Uma garota precisa de atenção , você deveria saber disso mais do que ninguém, afinal, você é ou não é o cafajeste mais cobiçado dessa escola? – Ergui uma de minhas sobrancelhas em desafio.
- A cada visita sua na sala de música algum instrumento diferente sofre, não me surpreende que o professor Carlos goste tanto de você. – Sorriu.
- Tenho certeza que ele gosta tanto de mim quanto eu gosto dele. – Pisquei.
Quando por um segundo, ambos ficamos quietos e ele me encarou. Eu sabia que o assunto surgiria.
- Você não veio à aula ontem. – Disse sem pestanejar. – Nem antes de ontem. – Seu semblante rapidamente mudou de um risonho para um preocupado comigo, o que era mais do que eu podia lidar. Não precisava de pena, principalmente vinda dele. Não suportava ter seus olhos me encarando, pedindo por respostas.
Eu o queria, muito! Mas não assim, não por consolo. Enfim, não importava, porque lá estava o assunto do qual eu vinha evitando a todo custo falar. Parado bem ali como se fosse algo palpável entre nós. Eu sabia que eventualmente ele ia me perguntar o que tinha acontecido, só não esperava que o menino fosse tão rápido no tiro.
- Não foi nada demais, sério. – Me apressei em falar, rolando os olhos em um descaso forçado.
Havia sim sido tudo demais, pelo menos para mim. Como dizia o ditado popular “quanto mais eu rezo, mas eu me fodo”. bem, devia ser algo parecido com isso de qualquer forma.
- Como ela está? – Perguntou, ignorando a mentira que eu havia contado.
Olhei em seus olhos, e por uma fração do tempo em que o encarei, morri de vontade de contar tudo nos mínimos detalhes. Quis ceder e me deixar levar. Acontece que não dava. No momento em que me abrisse com ele sobre os assuntos que tocavam mais fundo no meu coração estaria entregue, e eu realmente precisava de proteção. Não podia correr riscos, não com ele.
- Ela quem? – Me fiz de desentendida e o escutei bufar, seus lábios desviando minha atenção. Uma rota de fuga, por favor, qualquer uma. “Deus, se você existe nunca te pedi nada, só um plano para escapar dessa situação, por favor!”. De relance, olhei para meu pulso e vi meu belo relógio dourado ali. “Não precisa mais não, já consegui, mas valeu”. – Nossa! Olha essa hora, Alice vai me matar, você sabe como ela é... Certo? Certo. Então tenho que ir, te vejo mais tarde, ou qualquer hora por aí.
- ! – De jeito nenhum eu ia ter essa conversa com ele agora.
Ajeitei minha mochila no ombro, lhe dei um rápido e estalado beijo na bochecha antes de sair correndo tanto quanto uma maratonista profissional pela porta, deixando um irritado para trás.
Tinha caminhado tanto e tão bem, quem sabe isso não viraria um hobbie no futuro? Correr apenas para me distrair ajudaria na saúde também, contudo atualmente, em se tratando de corridas, eu só era profissional nesta quando a questão abordava fugir dos meus problemas, ou pelo menos tentar.
é o meu melhor amigo. Sempre foi assim. Pelo menos desde que consigo me lembrar. Ele esteve por perto por vidas inteiras e toda minha família era verdadeiramente apaixonada por ele. Infelizmente, isso incluía a mim. Todos o adoravam porque não sabiam de tudo que ele aprontava e ainda apronta como eu sei, não tenho certeza de que se soubessem de todos os podres e corações partidos que ele já deixou pelo caminho iriam gostar tanto assim dele. Por outro lado, pensando bem, eu sabia de tudo – ainda assim – o adorava.
O conheci no ensino fundamental. Eu era gordinha, meio nerd, e completamente estranha. As outras crianças, como a maioria das crianças, eram cruéis. Pequenos diabinhos. Todos os meninos adoravam implicar comigo, felizmente nunca fui do tipo que leva desaforo para casa, portanto, fazia da vida dos meninos um inferno tanto quanto eles faziam da minha. Tenho vergonha disso hoje em dia, retaliação nunca é a solução, mas... Bem... Foi necessário na época. nunca tinha sido um desses meninos, mas tão pouco falava comigo, as coisas mudaram quando tínhamos treze anos e ele se apaixonou perdidamente por uma das minhas melhores amigas, Giovanna.
Eu convivia com eles, saia com eles, às vezes até tinha que ficar de vela – o que era terrível e constrangedor, ainda mais porque sendo ele o primeiro menino que realmente conversava comigo, foi inevitável acabar gostando dele. A Gi, no entanto, nunca gostou tanto quanto ele gostava dela; ela foi o primeiro beijo dele, provavelmente sua primeira paixão, mas ele não havia sido o primeiro nada dela, talvez tenha sido por isso que eles eventualmente terminaram. Além de tudo, eu sabia exatamente a quem o coração da Gi sempre tinha pertencido, e não era a .
Como minha melhor amiga na época, ela sabia que eu tinha um crush nele, não devia ser difícil de notar, eu era nova, totalmente inexperiente em gostar de alguém, sequer sabia o que acontecia comigo quando o via. Só não podia parar de rir de suas piadas, ficava nervosa e ansiosa ao seu redor e conheci as famosas borboletas no estômago. Mas era um sentimento bom, gostava de quando ele estava perto, tentava sempre aparentar o meu melhor quando sabia que ia vê- lo e foi assim que no ano seguinte, cai em suas graças.
Eu tinha mudado muito desde o primário, fui cheia de fases na vida quanto a minha aparência. Primeiro gordinha demais, depois magra demais. Por fim, simplesmente parei de me importar com o que era o ideal para os outros e tentei focar em mim, em como eu me sentia bem comigo mesma. Passei por uns períodos desafiadores e meio obscuros até chegar a criar a consciência em mim mesma de que não importava o que os outros achassem feio ou bonito, importava apenas como eu me via e quais eram as minhas prioridades em relação a minha aparência. Meu irmão mais velho me ajudou muito nisso, ele era todo incentivos e elogios, sempre foi. É mais do que óbvio que como qualquer ser humano do mundo havia dias em que eu me achava um lixo, mas também havia dias em que eu acordava me sentindo a própria Cleópatra.
Então, quando tinha quatorze anos algo aconteceu entre nós dois da maneira mais boba possível. Um jogo de verdade ou consequência – ri sozinha ao me lembrar – nós tivemos que nos beijar e eu fiquei tão constrangida, afinal, aquele era ! O beijo tinha sido bom, levando em conta o quão eu estava constrangida, era delicado ao mesmo tempo em que possuía uma aspereza em seu toque que formava a combinação perfeita. Talvez por isso meus melhores beijos houvessem sido todos com ele. Todos do nosso grupo estavam lá aquela noite, a Lice, a Gi, o Gustavo, a Ana, o e eu. Enchemos a barriga de pizza e depois quando os meninos tiveram que ir embora para suas casas, nós permanecemos e fizemos nossa própria festa do pijama com a permissão dos pais da Ana.
Quando estava bem tarde a Gi recebeu uma mensagem do e advinha de quem ele estava falando? De mim! De como tinha sido ótimo, muito melhor do que ele esperava – ignorei a parte de que sua expectativa sobre mim não era boa e segui a vida. Eu não soube o que fazer quando ela contou na frente de todas as meninas, mostrando cada mensagem. Ele era ex dela, eu não estava sendo traíra, estava? Ela nunca sequer gostou dele.
Na época, de qualquer forma, nós dois resolvemos sair, ir ao cinema, essas coisas; ver no que ia dar. Eu não era acostumada a sair do jeito romântico com meninos, só era expert em falar coisas bobas; ainda por cima, tinha medo de que se meu pai descobrisse. Por mais que ele gostasse de , ficaria furioso com ele e comigo. Então, a toda saída nossa, eu levava pelo menos duas amigas minhas no enlaço. Nós já estávamos saindo há um mês quando ele se declarou por mim em uma mensagem. E eu?
Surtei.
E não foi de uma boa maneira. Hoje em dia me arrependo amargamente, acreditem. Mas eu simplesmente não sabia o que sentia por ele ainda, se estava apaixonada ou não, afinal, como era realmente estar apaixonada? Terminamos tudo.
Não foi de propósito, porém, devia ter imaginado.
Eu apenas falei que gostava dele, mas que não achava que fosse na mesma intensidade ou do mesmo jeito que ele gostava de mim. Imaginei que ia continuar tudo bem, que iriamos continuar saindo, mas aparentemente tudo terminou ali. Ele começou a sair com várias garotas, muito mais engraçadas, além de mais bonitas do que eu. Parecia que ele tinha me esquecido tão rápido que me magoava. Para onde tinha ido toda aquela paixão? Não conseguia entender porque ele tinha que se tornar um completo idiota comigo, mas pior mesmo foi quando ele parou de esfregar as meninas com quem saia na minha cara e implicar comigo voltando a me tratar como o que eu era, sua amiga.
Antes, quando ele fazia questão de me maltratar, eu sabia por fontes confiáveis – Gustavo – que era tudo apenas para me fazer ciúme e me irritar. Quando ele foi educado e gentil sabia que aquilo só significava uma coisa: ele tinha superado.
Quem sabe seja por isso que tenho tanto receio em confiar nele, e implico tanto com as coisas que ele faz, porque embora eu tente, não consigo esquecer aquele garoto que, diferente de todos os outros com quem já saí, não queria só os meus beijos ou o meu corpo, ele queria a mim, , com todas minhas qualidades, mas muito mais importante que isso, todos meus defeitos e eu estraguei tudo. Aparentemente, era minha especialidade.
- Ei, moça! Parada já! – Cambaleei para o lado com o forte impacto de Lice contra mim.
- Wow! Toma mais cuidado aí. – Falei depois de me recuperar e, antes de começarmos a rir.
- Tenho medo de que se te soltar agora nunca mais a verei pelos corredores dessa escola. – Seu tom, como sempre, era leve e divertido. - Posso saber o que andou aprontando sem mim? Se eu descobrir que foi algo envolvendo alguns shots de tequila você está morta. – Seu tom e olhar eram sérios. Qualquer um que não a conhecesse acharia que estava realmente brava, mas eu sabia que aquilo era um meio para um mesmo fim no qual todos pareciam estar interessados, conseguir fazer com que eu falasse.
- Estamos no último ano. Você não deve esperar nada de mim além de saídas na calada da noite envolvendo sexo, drogas e rock n’roll. – Usei meu melhor ar misterioso somente para depois rir incansavelmente com ela.
- Então, já está indo para casa? – Pausou. – Hoje tem conselho de classe. Uma bobagem, estamos no início do ano, na primeira semana ainda, as aulas acabaram de voltar e... Que idiotice a minha – bateu com a mão na testa. – É claro que não sabe. Eles apenas avisaram isso antes de ontem. De qualquer forma, devemos ser liberados assim que o intervalo acabar por conta disso.
Parei durante um momento para pensar no clima pesado lá em casa. Parecia que uma nuvem negra começava a pairar sob mim assim que punha um dos pés para dentro. Não queria voltar, não mesmo. Dois dias haviam sido mais do que suficiente, eu precisava respirar, pelo menos enquanto o Sol ainda estivesse no céu.
- Estava aqui pensando... Eu não poderia ir para sua casa, poderia? – Perguntei, aguardando o seu sim, pois ela sabia o quanto eu precisava daquilo.
- Claro! – Sorriu contente. – E podemos também comprar um grande pote de sorvete no caminho, estou morrendo de fome. Algumas rosquinhas também não fariam nenhum mal – Ri me lembrando da última vez que tinha visto Lice comer sorvete; assistíamos “Um amor para recordar”. A cena não havia sido nada bonita.
- Ótimo! Vou mandar uma mensagem avisando meus pais. – E assim o fiz. – Vou querer sorvete de chocolate!
Lice era linda, infelizmente acho que ela não via tanto isso nela mesma. Seu cabelo possuía cachos lindos que caiam como cascatas em suas costas, os lábios carnudos como o da Angelina Jolie que só ela seria louca o suficiente para não gostar. Aposto que todos os garotos que já saíram com ela discordavam.
Era o que havia restado de nós: eu, a Lice, o Gus e o . Ainda falava com a Gi e a Ana, mas no final do nono ano elas saíram do colégio para outro mais caro e com a reputação melhor, então o contato que tinha com elas não era mais o mesmo que o de antes. Ainda assim, amava todos eles com uma paixão eloquente. Eram meus. Sempre seriam... Também eram os melhores.
No caminho até sua casa não pude evitar transportar meus pensamentos para outro lugar, bem distante desse carro e desse mundo e olhando para janela, vendo mais e mais placas passarem, as pessoas andando pelas calçadas despreocupadas, comecei a me lembrar dele. Do seu sorriso, o mais divertido e engraçado do mundo, quando ele gargalhava, todos gargalhavam junto, era simplesmente inevitável, o som da sua risada enchia a casa inteira – sorri descontente ao me lembrar – seus olhos negros que todos diziam ser exatamente iguais aos meus. Que saudade eu sentia de Miguel. Do seu abraço apertado e caloroso, e como ele sempre estava disposto a me escutar e dar conselhos. Sentia falta de tudo, desde seu nariz com um calombinho, até o seu cheiro de cigarro.
O cheiro de cigarro que todo mundo achava apenas mais um hábito comum de um garoto irresponsável, adolescente. “Nessa idade é assim mesmo”, era sempre a mesma frase, vinda de todos. O pior era que eu tinha acreditado, assim como meus pais, ninguém via o que estava acontecendo com Miguel, ou se viam, preferiam ignorar.
Vivíamos embaixo do mesmo teto, conversávamos sobre tudo, ou pelo menos eu achava que fosse dessa forma; era tudo da minha parte, mas nunca da dele. Suas saídas pela madrugada que eu achava engraçado, divertido até, nunca pensei que era algo demais e que deveria contar para os meus pais.


Capítulo 2

Ao chegarmos à casa de Alice, cumprimentei o Sr. e a Sra. . O casal sempre fez o tipo adorável comigo, também não era para menos, me conheciam desde os meus sete anos.
Vergonhosamente já haviam me visto correr de pijamas por esta casa, sujar a roupa toda de diversos molhos de macarrão, e lasanha. Tudo isso muito mais vezes do que gostaria de lembrar ou até mesmo admitir.
Uma das coisas que mais amava aqui era o contente fato de que bastava passar pela porta para que se percebesse exatamente o tipo de lar no qual se encontrava. Um lugar onde não faltavam flores, em todo pequeno canto da casa a mãe de Alice fazia questão de por um vaso de planta, o que dava um frescor ao ambiente. O cheiro doce das flores misturado ao do tempero da comida caseira preparada, quase sempre, pelo seu pai tornava o lugar anda mais aconchegante. Impossível não sentir o calor e energia dessa família de descendência italiana.
Eu mais do que qualquer um saberia dizer isso, pois conseguia me lembrar muito bem de uma vez em que o tal calor e energia de um dos membros dessa família foi tão grande que passou a ser eletrizante e chegou a me seduzir. Havia sido aos quinze anos, a idade na qual eles me flagraram dando um beijo em – filhos deles, irmão da minha melhor amiga – na frente da casa, bem embaixo da linda macieira que ficava no jardim. Dois anos depois e cá estou.
Sei que isso soa meio brega, mas toda vez que olhava para aquela velha macieira sentia em meus ossos como se tivesse sido tudo apenas ontem.
– Como você está ? – Seu pai fez questão de me cumprimentar com um abraço apertado e um belo sorriso no rosto, daqueles tão brilhantes que, por pouco, não me deixou cega.
– Bene. – Fiz uso do meu italiano precário rindo, coisas que tinha aprendido nessa casa, apenas para agrada-los.
Puxar o saco dos pais dos amigos? Culpada!
Ah, quem nunca fez isso que atire a primeira pedra!
– Que tal um Tiramisù? Não fomos nós que fizemos! Comprei na padaria, então não garanto nada, mas... – Como sempre a Sra. tentava me encher de comida, eu detestava, claro.
Imagina se eu ia gostar de vir aqui, e ser empanturrada por boa comida? Quem em sã consciência gostaria disso?
É... Tudo bem. Eu desisti provavelmente desde o primeiro dia em que coloquei meus pés para dentro dessa casa. Quer dizer, ninguém pode me julgar, como eu poderia resistir? Alguém me explica, eu imploro! A mulher, com aqueles belos olhos grandes e escuros, me oferece comida com todo seu jeito delicado e eu digo não? Recusar não era comigo, principalmente porque comer é bom, mas comer uma boa comida italiana... É sem igual.
– Nada disso, nós temos coisas a fazer agora, depois falamos com vocês. – Lice se intrometeu e saiu a me puxar acima enquanto eu sentia meu estomago reclamar.
– Alice! – Ambos gritaram em uníssono, mas isso não adiantava muito com a minha amiga. Afinal, o que os seus pais não tinham do sangue quente italiano, Alice e o irmão ganharam em dobro. Resumidamente poderíamos dizer que ambos eram teimosos como uma mula.
Ultimamente Sandro e Andréia vinham sendo ainda mais gentis que o usual para meu gosto. Pena. Dava para notar nos olhos de ambos dos pais de Alice que era isso o que eles estavam sentindo. Já fazia um ano, mesmo assim, ninguém esquecia, não quando...
Fechei meus olhos, me dando um segundo para respirar fundo. Muitos dos dias eram bons. O único problema era que no momento em que passava a ser um dia ruim, era o pior.
Escutei o som alto de rock ressoar nos corredores do segundo andar e soube exatamente de que cômodo vinha à música. Nunca botei meus pés dentro do quarto dele, no máximo vi algumas coisas de relance. Sentia que conhecia cada canto dessa casa, menos um.
– Eu não acredito que ele está escutando essa merda alta desse jeito de novo! – Ela revirou seus olhos enquanto eu apenas ria.
era um ano mais velho que a gente, começava a faculdade esse ano, ele, ou bem, os seus pais, decidiram ano passado que era melhor que para todos que ele continuasse por aqui mesmo – o que talvez tenha resultado em algumas discussões na família –, mas nossa cidade não era a das maiores, portanto ele iria frequentar a Universidade de Monroe. Ela era boa e ficava na cidade vizinha, apenas meia hora de carro, então provavelmente seriam viagens de ida e volta todos os dias.
– Quando as aulas dele irão começar?
– Só daqui a um mês. – Reviramos os olhos juntas. – Vantagens de terminar o ensino médio. – Deu de ombros.
Eu odiava o irmão mais velho de Alice. Tudo bem, eu não o odiava, mas ele conseguia ser bem irritante quando queria, sempre foi assim. Aos quinze anos, quando o beijei – um dos piores erros da minha vida – não sabia o que estava fazendo, eu apenas o vi sentado lá fora, sozinho, então decidi caminhar até ele, sentar ao seu lado, e conversar sobre o clima, ou qualquer outra coisa que na minha cabeça fosse fazer com que ele me notasse, porque eu era ridiculamente carente assim. Acontece que no meio de palavras fúteis e perguntas tolas vindas de mim – tudo apenas para distraí-lo de qualquer que fosse seu problema – com aquele cheiro agradável das maçãs e da árvore, e o céu cheio de estrelas tão brilhantes como seus olhos pareciam estar naquela noite sob aquela luz em especial, nos beijamos.
Foi épico, perfeito e romântico. Um dos melhores beijos que já tive. Foi doce, sem maldade alguma – ok, talvez um pouco – independente disso, foi lindo. Ainda recordava de cada arrepio que percorreu meu corpo ao sentir o bater da brisa ali embaixo daquela árvore, o aperto da sua mão na minha cintura, o roçar de seus dedos por cima da minha blusa e o seu toque firme que segurava meus cabelos e minha cabeça exatamente na posição em que deveriam estar para que o nosso encaixe fosse mais que sublime.
Quando o beijo se encerrou, mesmo que sentindo meu coração conturbado e disparado no meio daquela encruzilhada, não pude evitar também sentir vergonha. Aquele garoto já havia me visto em tantas situações nada sexys e todas voavam para minha cabeça naquele exato momento. Pior foi a vergonha de quando ele me pediu desculpas. Ele se arrependia de ter me beijado. De repente ficou óbvio que o príncipe encantado pela luz do luar era um fantasma nada real. Este que estava precisando de consolo e eu, bem ali, disponível para seu bel prazer. Eu me recordo de ter imediatamente corrido para dentro sem sequer desejar boa noite. Quando entrei, a primeira coisa que reparei foi em sua mãe e seu pai parados ali fingindo não ter visto nada, mas pelo jeito que agiam, e que agiram durante o mês a se seguir inteiro, ficou claro para mim que eles deram uma espiada.
Eu também já tinha assistido em situações nada sensuais ao longo dos anos, mas uma curiosidade que ninguém podia negar era que ele podia fazer o que fosse e ser como fosse, continuava quente como o inferno.
Odiava compara-los, porque eu gostava de , muito para meu próprio bem, contudo se existe um único outro homem que eu teria sido capaz de gostar se não tivesse se tornado tão idiota, esse seria definitivamente . Ambos o oposto um do outro, porém, ao mesmo tempo cara e coroa da mesma moeda.
O primeiro tinha um olhar que nos acolhia e abraçava, acho que sempre iria amar a cor de seus olhos e achar para sempre os mais bonitos em quarteirões de distância, me perdia inteiramente neles. Já o outro vivia com sua barba sempre por fazer, e seus olhos penetrantes, vasculhavam até o fundo de sua alma sem hesitar, mas assemelhavam-se a espelhos, quando eu tentava encontrar algo perdido dentro deles, tudo que conseguia ver era o meu próprio olhar refletido, sua frieza e o seu mistério só o tornavam ainda mais atrativo. Quanto ao físico, bem, era um pouco mais alto que , mas de resto, seus corpos eram bem parecidos, os dois me agradavam muito, diga-se de passagem.
O irmão de Alice tinha sido extremamente próximo do meu. Quando tudo aconteceu minha família recebeu apoio de todos, inclusive e especialmente deles. No entanto, depois que a pior parte passou, era como se simplesmente não suportasse me ver, como se não tolerasse estar perto de mim. Passou a trocar apenas bons dias e boas noites comigo, se limitando ao mínimo de palavras e agindo sempre como se eu não tivesse presente. Alice não sabia o porquê, eu muito menos, mas também não fazia muita questão em saber, tinha e ainda tenho coisas maiores com o que me preocupar.
Entrei no quarto mais lilás e roxo da cidade, me jogando nos cobertores felpudos da cama sem necessidade nenhuma de convite. Eu já era da casa.
– Pode começar a abrir essa boca mocinha. – Ri desgostosa.
Não ia sequer ter tempo de inventar uma mentirinha?
Cansada cobri meus olhos com os braços.
– Francamente, me leve para Cancun, mas não me leve a mal pelo que estou prestes a dizer.
– Que é...?
– Por que você e tem que ser tão fodidamente pé no saco, e curiosos, e me conhecer tão bem? Eu entendo que vocês estão preocupados, mas tenha dó... Se eu tirar minha cutículas amanhã e mentir sobre isso, vocês provavelmente vão saber antes que eu possa soletrar m-a-n-i-c-u-r-e.
– Chequei ontem e você definitivamente não está me pagando para ser sua terapeuta, então como a consulta está sendo de graça, anda logo com isso. – E com uma voz esganiçada de criança continuou. – Abra seu coração pequena borboletinha. – Claro que fiquei rindo até meu estomago doer.
A primeira e única Alice . A garota que mais enchia de risadas, como um balão tomado por ar até estar pronto para subir ao céu o tão alto quanto pode e explodir, no meu caso, explodir em gargalhadas. Com bilhões de pessoas no mundo, qual era a probabilidade da sua alma gêmea estar bem ao seu lado nesse instante? Nesse exato segundo? E por alma gêmea eu quero dizer, alguém que te complete. Respondendo a pergunta: acredito que não tão altas. Sorte a minha encontrar-me bem ao lado de uma das minhas metades. Fui fundo dentro de mim buscando coragem até que as palavras começaram a fluir.
– Você sabe que minha mãe não está em seu melhor desde que... – Não conseguia, não dava.
Parecia que minha garganta fechava só de lembrar.
Não queria chorar, absolutamente odiava chorar, me fazia sentir vulnerável e fraca, porém, agora, continuar guardando tudo para mim exigia um tanto de trabalho árduo, e eu não achava que podia mais me conter.
– Eu sei. – Se apressou em falar para que eu não precisasse completar.
Continuei buscando manter meu estado de espírito de antes, fechei os olhos em uma tentativa falha de me acalmar para que pudesse desabafar tudo com ela sem chorar. Pensei na rua da praia, nas luzes do prédio, nas ondas do mar, nada fez efeito.
Então como um pássaro que voa em liberdade, eu tentei me libertar o melhor que pude de minhas amarras e confessar-lhe sobre tudo que ultimamente vinha me impedindo de voar.
– Minha mãe. – Engoli em seco antes de prosseguir. – Não é segredo para você que ela não tem estado bem. Ninguém está! Quero dizer, Miguel? Ele era o raio de sol que entrava na casa pela manhã, naturalmente engraçado, incrivelmente brilhante, ele é a pessoa que mais tentava deixar a todos contentes. Simplesmente amável.
– Eu sei querida. – Sussurrou e me acariciou o braço, segurei sua mão e apertei em retorno.
– Dito isto. – Soltei lentamente o suspiro que vinha segurando. – Eu tenho escondido de vocês o quão difíceis alguns dias realmente têm sido.
...
– Não, me deixe terminar primeiro. – Pedi a ela, que logo acenou positivamente e continuou a segurar minha mão. – A verdade é que ás vezes eu sinto vergonha de contar para vocês o quão disturbada minha vida tem sido. Alguns dias são bons – não sei se necessariamente bom, mas tranquilos – e outros, como essa última semana inteira foi, é quase insuportável.
– Você não precisa ter vergonha. Nós jamais te julgaríamos. – Afirmou com sua bela voz calma.
– Eu sei que não, é que eu não sei expressar o que sinto. Não é que não confie em vocês, mas não consigo me sentir a vontade falando sobre os danos da minha família. Eu queria ter o poder protegê-los contra eles mesmos. – Pausei. – Você entende que exige muito esforço da minha parte contar tudo assim? Ter que ficar relembrado à bagunça que minha casa está?
– Claro. – Seu sorriso foi doce e amigável.
– Obrigada. – Sussurrei e então dei início a toda história de leve tragédia que vinha me assolando, descrevendo como os últimos dias tinham sido um pesadelo. Como meu coração parecia inanimado, completamente acabado, mergulhado em um mar revolto cheio por angústias. – Minha mãe não quer saber de nada. Eu não sei se isso é só uma fase, se é algo que temos que lidar e depois vai passar... Não entendo. Eu também continuo triste, pela experiência que tive até hoje vejo, que a partir do dia que você perde alguém que ama tanto a ponto de achar que não cabe em seu coração, nunca mais vai estar cem por cento feliz. Haverá um segundo que seja em cada evento grandioso de sua vida que você gastará pensando “como eu queria que você pudesse viver isso aqui comigo”, e vai doer, muito!
Minhas mãos tremiam enquanto eu tentava conter as lágrimas que não escondiam querer se derramar na minha face, me sentia com algo não identificável preso na garganta e coração. Fechei os olhos, os apertando, um segundo depois externei a força que sabia que tinha dentro de mim para fora em forma de palavras.
– Só que já faz um ano e minha mãe parece continuar na mesma, nos dias ruins nem comer quer, diz sempre que está sem apetite, só fica na cama, sempre cansada. Meu pai acabou se irritando com ela, eles tiveram uma briga feia, o que só piorou o estado dela. Então, para se acalmar, ela foi tomar banho. – Engoli em seco antes de continuar lembrando daquele dia de terror e aflição que tinha vivenciado, foi puro pânico, e eu fui quase que totalmente inútil, não soube como agir e que atitude tomar, só fiquei parada, espantada demais enquanto meu pai corria de um lado para o outro e pegava seu telefone para telefonar a emergência. – O lance é que aparentemente ela desmaiou no banheiro por sua fraqueza, afinal, não estava se alimentando, e pelo calor da água, e tudo mais. – Respirei fundo. – O médico disse que é o provável, e eu acredito nisso, mas foi muito difícil.
Mais uma vez, com medo demais de pronunciar aquelas palavras, com meu corpo inteiro se rendendo e revivendo cada sentimento, senti o coração apertar.
– Alice. – Sussurrei. – Eu pensei... – Com minha voz embargada continuei. – Pensei que ela tinha tentado... Se matar.
Parando de tentar me segurar, comecei a chorar todos rios de lágrimas que guardava dentro de mim, toda aquela água turbulenta e turva que me atormentava deixava meu corpo, lavando minha alma. Alice me rodopiou com os seus braços e apertou tão apertado quanto era possível, mantendo todos meus pedaços juntos por um instante.
Na maior parte do tempo eu era forte, ou gostava de pensar que sim, mas às vezes tudo o que qualquer ser humano precisa é só... Deixar ir.
E foi exatamente o que tentei fazer em meio a soluços meus, e sussurros de Alice que, na tentativa de me confortar, dizia que aquilo já tinha passado e que tudo iria ficar bem agora. Depois de alguns minutos, me acalmei o suficiente para tentar voltar a falar e terminar de me explicar.
– Primeiro o clima estava tenso com meu pai não aguentando mais ver minha mãe se afundando em seu próprio mundo, o que só o fez ficar mais irritadiço do que o normal comigo. Como se não bastasse estar sofrendo o suficiente por ver minha família lutando tanto para se sustentar. – Deixei meus ombros caírem cansados. – Ai depois disso, de todo o desespero, de arrombar a porta do banheiro já aguardando pelo pior e ir às pressas para o hospital, tudo pesou mais, meu pai agora se sentindo culpado e impotente, já minha mãe achando que é a escória da humanidade por nos fazer passar por isso.
Senti Alice beijar o topo da minha cabeça e respirar fundo, secando rapidamente uma lágrima que também havia escorrido em seu rosto.
– E você? – Coçou a garganta, endireitando a voz falha antes de perguntar.
– Hum? – Como você está agora querida? Não deve estar sendo fácil. Você me contou como seus pais ficaram depois disso, mas e você? Pode me dizer a verdade, posso ver nos seus olhos que tem algo quebrado dentro de você.
– Há algo quebrado dentro de mim há muito tempo. – Ri desgostosa. – Estou parando de viver e começando a sobreviver eu acho.
– Nós vamos concertar isso. – Disse, enquanto me olhava nos olhos. – Juntas.


Capítulo 3

Enfim sábado. Foi a primeira coisa que surgiu entre meus pensamentos ao acordar estremecida com o som do celular na mesa de cabeceira. Quem estava me ligando tão cedo em pleno fim de semana? Apesar de que eu não tinha certeza, mas achava ser o início da manhã pela claridade do Sol entrando em meu quarto e esquentando meu cobertor mais do que deveria, me deixando com calor e a sensação pegajosa dos meus cabelos colando em meu pescoço. Ao olhar seu visor confirmei minha suspeitas de ser Alice.
– Alô. – Sussurrei com minha voz ainda rouca de sono arranhando minha garganta.
! Você não vai acreditar. – Sua empolgação me fez ter expectativa de boas notícias e então não consegui ficar mais tão brava por ter sido despertada.
– O que foi? Fala logo! – Pedi ansiosa.
– Advinha quem vai ser sua nova vizinha? – Podia imaginar a animação de Lice do outro lado da linha.
Ai. Meu. Deus.
– Oh meu Deus, você vai se mudar perto da minha casa? Diz que sim, diz que sim, por favor! – Fechei os olhos, apertando os e esperando ansiosa para que ela confirmasse.
– Sim!
– AAH! – Gritávamos em uníssono. – Ei, espera aí, quando foi que seus pais decidiram isso?
– Aparentemente, eles vinham tramando a coisa toda já há algum tempo. Só não conversaram comigo sobre para eu não criar expectativas caso não fosse acontecer. Ah ... Eu estou tão animada com isso, mal posso acreditar. – Suspirou e meus olhos se encheram d’água, não sabia se era certo ou errado pensar assim, mas pela minha cabeça passava o quanto seria bom ter um lugar de fuga, bastava atravessar a rua e pronto.
– Não sabia que meus vizinhos estavam de mudança, sequer há uma placa. – Comentei.
– O Sr. e a não mais Sra. Laurent estão se divorciando. Minha mãe a esta representando, e os dois pretendem vender a casa, quando soube qual casa era e onde estava localizada, ela acabou se interessando e comentou com meu pai, ele aprovou também a ideia. Acho que eles pensam que vai ser bom para todos nós uma mudança de vizinhança. Nosso bairro tem ficado meio violento ultimamente. Esses dias mesmo chegou machucado em casa por causa de um assalto. Foi à oportunidade perfeita.
– Não fazia a mínima ideia de que eles estavam mal das pernas. Sempre achei que formavam um casal tão lindo.
Desde pequenas morar perto uma da outra tinha sido um desejo constante meu e de Alice, acho que em algum ponto todos melhores amigos tiveram essa vontade. Depois da notícia, fiquei conversando alegremente com ela ao telefone. Constatei mais tarde que realmente ainda era sete horas da manhã, de um sábado, novamente ressalto. Sentia raiva por não ter aproveitado mais meu belíssimo sono, mas pelo menos eu ia conseguir aproveitar o dia. Fizemos um pouco de fofoca sobre a separação dos meus vizinhos e depois nos voltamos para outros assuntos.
Loucura. Pensei.
Você vive tão perto de alguém sua vida inteira, acha que sabe algo sobre eles, quando na verdade sabe menos do que nada. Parando para pensar o mesmo ocorria aqui em casa. O Sr. e a Sra. Laurent moravam tão perto da gente, porém não faziam ideia da insanidades cometidas por mamãe, ou Miguel, até mesmo das minhas fugas e do meu pai para uma realidade onde fingíamos que tudo era perfeito. Ele, é claro, tinha em seu espírito uma forma muito melhor que a minha em ignorar suas preocupações. Quanto a mim, bastava atuar fora de casa, aparentemente para ele também se fazia necessário interpretar seu papel dentro desta.
Ao desligarmos, eu fiquei sentada na cama analisando o que minha melhor amiga havia me dito e de uma hora para outra eu não me sentia mais tão feliz com a sua mudança. Ela estaria aqui perto o tempo todo e, por mais que eu soubesse que podia confiar nela com a minha vida, seus pais e seu irmão também estariam aqui. Não queria que a aproximação de nossas famílias fosse tanta a ponto deles poderem perceber a profundidade dos nossos danos. Um vaso quebrado pode ter todos seus pedaços colados, mas se você chegar perto, ainda assim conseguirá ver suas rachaduras. O raciocínio parecia ser simples assim.
Respirei fundo e mexi os ombros tentando relaxar. Você está pensando demais sobre isso, apenas deixe ser.
Talvez a proximidade deles até mesmo ajudasse! Quem sabe minha mãe e a Sra. não virassem amigas e isso as ajudasse? Sempre gostei do fato da mãe de Alice e Giovanna conversarem. Talvez o mesmo pudesse ocorrer com as nossas. Nem sempre as coisas são para pior, tentei me lembrar. Por hoje eu serie uma otimista, decidi, preferia acreditar no melhor.
Depois de me levantar da cama e tomar um banho fui até o quarto dos meus pais. Sorri ao ver minha mãe ainda em seu sono. Tão calma quanto poderia estar. O sorriso se foi lentamente no momento em que meu olhar recaiu sobre o outro lado da cama em que meu pai deveria estar deitado. Deveria.
Não iria acordá-la agora. Eu amava minha mãe e precisava dela de novo, precisava conversar com ela e abraçá-la. Queria ela cuidando de mim e não o contrário. Mas não bastava o quanto eu quisesse, nunca era o suficiente, porque agora mesmo, por exemplo, me encontrava em uma situação em que sequer podia desperta minha Bela Adormecida de seu sono, pois eu sabia que a realidade era mais do que ela podia suportar ultimamente. Então a deixava dormir para que não tivesse que lidar com o mundo real, e com sorte, quando ela acordasse esse seria um dos dias bons e não ruins como quando ela sonhava com meu irmão e acordava desesperada o procurando.
Tem gente que diz que existem coisas piores do que a morte. Todo dia eu me perguntava se nesse dizer continha verdade. Se minha mãe estivesse morta, ela talvez não sofresse tanto como agora, por outro lado, se meu irmão nunca tivesse partido, jamais estaríamos nessa situação. Então realmente não sabia qual das dores no mundo era a pior e preferia viver sem descobrir.
Possuía certeza sobre apenas um fato. Machucava diretamente minha alma ver minha mãe sofrer assim, doía dentro de mim cada vez que ela chorava sentindo falta dele. Toda vez eu também sentia um ódio que não era possível de ser sufocada, raiva da vida, do fato de que não podíamos todos ser fortes o suficiente para lidar com o que ela nos tinha feito. Parecia que todos nessa casa agiam como mortos-vivos desde o dia que ele partiu.
No entanto, mesmo com toda essa raiva não podia julgá-los, pois eu me sentia fora de órbita na maior parte do tempo também.

Quando era noite por uma raridade meu pai tinha jantado comigo e com minha mãe e tinha ficado um considerável tempo com ela, o que fez com que aquela chama de felicidade pipocasse dentro de mim. O quão idiota isso soava? Se sentir feliz simplesmente porque nada catastrófico aconteceu? Bem... Considerando a raridade de nada de ruim acontecer aqui em casa, um dia normal, era para mim como se fosse o melhor dia da minha vida.
Conversei com mamãe para sua distração depois que ela acordou. Vimos How I Met Your Mother, tomei o cuidado de escolher um episódio que fosse inteiramente engraçado, não que isso fosse difícil, eu simplesmente amava essa série. Li um pouco de um livro e agora estava aqui trocando mensagens com .

Como foi seu dia hoje?

Maravilhosamente maravilhoso. Com muita série e pipoca. Por onde andou você o dia todo?

Perguntei curiosa para saber se ela havia o passado com uma das garotas com quem ele saia.

Fiquei em casa entediado na maior parte do tempo. Depois o Gustavo veio para aqui e estávamos jogando até agora pouco”.

Não pude conter um riso imaginando meus dois melhores amigos jogando e, na maior parte do tempo, se gabando de ter ganhado um do outro, como sempre faziam.

E me deixe adivinhar. Agora vocês vão para alguma festa que alguém dessa idiota escola está dando?

Quando foi que começamos a ficar tão previsíveis? Deveria começar a me preocupar?

Revirei meus olhos, rindo. Previsíveis talvez, mas chatos jamais, então eu não achava que eles realmente tinham com o que se preocupar, contudo, eles não precisavam saber disso, precisavam?

Se eu fosse vocês estaria trabalhando arduamente para mudar isso”.

“Se você fosse a gente estaria pouco se fodendo para se os outros te acham previsível.” Verdade. “Por que não vem para a festa com esses idiotas previsíveis? Vai ser legal. A Lice é a anfitriã idiota, ela não te chamou?

Ela não tinha me convidado. O que só me deixou intrigada. Minha melhor amiga não me chamando para a festa? Quer dizer, se fosse a Gio ou a Gabi, eu entenderia já que andamos mais afastadas, mas Alice sempre me chamava. Aquilo fez com que uma insegurança tomasse lugar dentro de mim. Talvez ela soubesse que meus pais estavam ultra mega super relutantes em me deixar sair ultimamente e apenas não quis que eu ficasse na vontade.
Não.
Ela também sabia que eu dava meu jeitinho toda vez que queria ir. Dessa vez não seria diferente.

Acho que ela deve ter esquecido. Então, que horas vai ser?”

“Já deve ter começado, eu vou daqui a pouco”.

“Pode passar aqui para me buscar? Prometo que vou me aprontar o mais rápido possível”.

“Agora sim vai ficar bom. Uma festa sem não é festa”.

Ri enquanto ia correndo me arrumar. Ele estava certo. Nunca era uma festa antes se eu não lhes desse sobre o que comentar no dia seguinte e não vai ser a partir de agora que eu vou deixar passar a ser.

Ele estava errado. Já estava a meia hora sentada em um canto perto da piscina olhando todos se divertirem. Assim que entrei o e o Gus foram beber com os caras do time de futebol e me deixaram a própria sorte. Eu fui ao encontro de Alice que sim, não tinha me chamado.
Segundo a própria, ela não sabia o que tinha acontecido de errado e jurou que me mandou uma mensagem me avisando sobre. Não sabia se acreditava ou não, quer dizer, como ela convida praticamente a escola inteira para uma festa na sua casa, todos recebem a mensagem e só a minha da erro? No mínimo estranho. Ainda mais considerando que era uma festa de despedida da sua casa antiga que ela planejou aproveitando-se do fato de que os seus pais haviam ido visitar sua avó e só voltariam no domingo à noite.
Tá, eu podia estar sendo paranoica, ela podia estar sendo sincera, mas no meu íntimo uma voz gritava: que isso! A garota ia virar minha vizinha, me conhecia há anos e não tinha me convidado?! Não consegui acreditar nem por um segundo quando ela pediu desculpas, o que podia ser idiotice minha, mas... Tinha que ter coisa ali, eu só não sabia o que era. Ainda.
Outro saber pessoal meu também havia sido quebrado essa noite, ao contrário do meu achismo, tudo indicava eles tinham aprendido como se divertir sem minha ilustre presença. Esse “eles” infelizmente também incluía meus amigos. Mas como já dizia Platão “não deixe para amanhã o que você pode beber hoje”. É... Com certeza ele não disse nada nem parecido com isso, mas teria sido sábio da parte dele. Por isso aqui estava eu com meu copo na mão, infelizmente, ou felizmente, mais uma vez vazio.
Como eu vim de carro com os meninos não queria encher o saco deles para voltar, mas eu não aguentava mais ficar aqui. Então fui para dentro da casa com o intuito de achar um dos dois patetas, eu era a terceira. Passei alguns minutos os procurando e quando finalmente achei Gustavo e ele estava com as mãos enroscadas em uma garota que eu não fazia ideia de quem era. Foi mal amigo, mas...
– Gustavo, posso falar com você? – O vi revirar os olhos e afrouxar o aperto em volta da menina enquanto se virava para me fitar e não pude fingir que não estava me divertindo com sua irritação, pois eu estava, e muito.
– Claro! – Me fitou com um sorriso meio irônico no meio de seus lábios.
Garoto mau.
– Será que você ou o poderiam me levar de volta para casa? Não estou me sentindo muito bem... – Pedi com cautela, obviamente não queria receber um não como resposta.
– As chaves do carro estão com ele, mas eu não faço a mínima ideia de para aonde ele foi. – Suspirei exasperada com a falta de sensibilidade do meu amigo em me ajudar e fui procurar o aparentemente, inútil do .
Estava me virando e, depois de apenas alguns passos, o Gus surgiu ao meu lado como um fantasma, me dando um susto.
– O que foi? – Indaguei um pouco assustada coma situação repentina.
– Sabe o que é? Eu acabei de lembrar que o foi embora. – Minha boca deveria estar formando um perfeito O.
– Acho que ele não foi não, eu o vi agora a pouco conversando com a Alice. – A menina que eu ainda não reconhecia e que ele havia soltado durante um momento se pronunciou no meio da nossa conversa. Por que ela piscava tão rápida e irritantemente? Voltando a razão da situação, percebi então o quanto Gustavo de repente parecia irritado e fiquei confusa. Eu não o tinha obrigado a se desgrudar da garota, não estava entendendo qual era a dele.
– Viu? Ele ainda esta por aqui. Ele não iria embora sem me avisar. Eu vou encontrar ele, pode ficar aí curtindo. – Disse da maneira mais cínica que cabia ao momento e voltei a andar, mas novamente ele interrompeu meus passos.
– A Laura deve ter se confundido ok? Eu tenho certeza de que ele já foi. Se você puder esperar um pouco eu já vou. – Pausou e olhou para tal da Laura antes de retornar a mim. – Ou se puder pegar uma carona... – Revirei os olhos para logo depois ver o sorriso cafajeste que estava em seu rosto, por mais que eu estivesse com raiva... Um menino como o Gus simplesmente não existia.
Mas, eles não estariam perdoados tão cedo. Umas das poucas vezes que eu saia depois de tudo que tinha acontecido e era assim que eles faziam da minha noite a melhor possível. Correndo risco de ser pega pelos meus pais a troco de nada. Belo caminho este pelo qual estava indo...
– Tudo bem. Pode deixar que eu vou dar o meu jeito.
– Tem certeza? – Pelo seu olhar eu sabia, se a resposta fosse negativa ele me levaria para casa, mas eu não queria estragar sua noite então afirmei que sim, mesmo querendo voltar para casa e chorar como uma garotinha de raiva e meio que... Solidão.
Abracei meu corpo enquanto saia da casa. Fiquei perambulando pelo jardim da frente durante um bom tempo, meu salto afundando na grama fresca e molhada, olhando para o céu, observando as estrelas e sentindo a brisa da noite bater nos meus cabelos me causando cócegas, decidindo entre pegar um táxi ou esperar até que alguém que conhecesse saísse e pedir carona.
Foi logo quando olhei para aquela macieira no quintal de frente da casa e lembrei o que já havia me acontecido ali, me perguntando então se os futuros donos iriam deixá-la ou a cortariam, e desejei sua permanência, pensei em ir até ela uma última vez para o caso dela não agradar os novos moradores. No meio daquela consideração, vi o irmão de Alice, vestido como o próprio pecado, com uma jaqueta preta que lhe dava um ar de James Dean que me fez suspirar surpresa. As chaves do carro na mão... Destino ou sorte? Ri pensando comigo mesma. Aparentemente essa noite eu ia pegar o irmão de Alice, pegar carona com ele, é claro.


Capítulo 4

– Ei! ! – Chamei alto o suficiente para que ele pudesse ouvir. Este que parou abruptamente e me encarou parecendo no mínimo curioso. Caminhei pela grama até ele, mesmo sentindo seu olhar pesando sobre mim fui depressa com medo que me ignorasse como normalmente fazia e eu ficasse sem carona. Chegando perto não soube o que falar, é claro que eu só tinha que perguntar se ele podia me dar uma carona, mas as palavras pareciam tão difíceis de sair. – Hm... Então, tudo bem?
– Hm... Então, tudo bem? – Me imitou com tom de voz debochado e eu revirei os olhos, irritada, mas no fundo me segurando para não rir da sua gracinha.
Bastou isso para que eu desembestasse a falar, se ele não ficava apreensivo, nervoso, ou o que quer que fosse perto de mim eu também não deveria ficar.
– Eu só vi que você estava saindo e queria saber se podia me dar uma carona até em casa.
– Deixa eu adivinhar. – Revirou os olhos. – Você veio de carona com os babacas dos seus amigos e agora que quer ir embora eles desapareceram?
– Claro que não. – Minha voz saiu fina como sempre quando eu mentia. Eu sabia que aquilo era um pouco de verdade, mas ele não precisava saber, principalmente porque ele deduzir que meus amigos eram babacas sem saber de nada me irritava, por isso usei um tom ofendido para que o fizesse entender que de forma alguma aquilo era verdade.
– Pode mentir se quiser. – Riu em deboche. – Mas então, você vai querer a carona ou não? – Perguntou com o seu tom claramente insatisfeito.
– Sim. – Disse com cautela me segurando para não lhe mandar a merda, aquele garoto conseguia me tirar do sério facilmente, apesar de tudo eu realmente não dava a mínima para isso agora.
Não queria ficar irritada com ele, só queria ir para casa, logo. Isso era o quão ruim e deslocada eu estava me sentindo aqui, a ponto de aguentar suas tolices só para poder ir para casa.
Ele assentiu e então começamos a caminhar em silêncio até onde o seu carro estava parado, a brisa da noite brincando com meus cabelos, a todo o momento os tirando do lugar. Não que eu ligasse, pois na verdade me achava bonita com cabelo bagunçado pelo vento – coisa rara para a maioria acredito – é que o estilo certinha não me agradava tanto, preferia que minha imagem externa refletisse a interna, logo podemos concluir que eu achava extremamente divertido e sexy o visual louca, confusa e precisando de ajuda.
Não consegui segurar uma leve risada anasalada de meus pensamentos e observei de canto de olho me espiando, talvez achando que eu tivesse rindo dele. Não o faria, mas ele merecia.
Entrando e me sentando no banco de couro me senti invadida por um pouco dele. Queria que pudéssemos ser amigos, nunca entendi essa implicância desmedida que havíamos estabelecido, apenas não fazia sentido.
Fechei meus olhos e senti o aroma de seu perfume me invadir, o cordão pendurado no retrovisor. Ele parecia ser inteiro o carro, ou o carro era inteiro ele.
– Então, você ficou com o carro antigo do seu pai?
– Sim, agora que vou começar a fazer faculdade em Moonroe ficou mais viável ter meu próprio carro. – Deu de ombros. – De qualquer forma, não é algo que caiu do céu, não sou um playboyzinho, vou pagar a ele.
– Não disse que você era playboy por isso. – Apertei meus olhos.
– Mas foi o que pensou. – Afirmou ao me encarar de volta.
Decidida a não dar-lhe corda deixei que ele pensasse o que preferisse desviando o rumo do assunto.
– Gostei. Um Impala parece fazer muito mais o seu estilo do que o do seu pai. – Pausei. – Ou talvez eu esteja assistindo demais a Supernatural e acabei me convencendo que esse tipo de carro é para garotos com jaquetas de couro e que se acham engraçadinhos. – Afirmei irônica e escutei sua risada ressoar baixa enquanto ele revirava os olhos.
– É... Tanto faz. – Suspirei cansada de tentar manter uma conversa com o garoto que insistia em sempre fingir imparcialidade ao que se tratava de mim.
Pelo menos quando debochávamos um do outro eu sentia que existia.
– Você ainda se lembra de onde eu moro?
– Claro.
E isso foi tudo o que havia sido dito durante alguns minutos. O carro foi ligado e começamos a nos mover, logo passei a ver a imagem dos postes borrados passarem pela janela e não podendo me conter com minha enorme boca, comecei a pensar em alguma coisa para falar quebrando aquele silêncio ensurdecedor que havia sido formado.
– Hm... Então, você e Alice vão se mudar para minha rua. – Esperei algum comentário da sua parte e quando nenhum surgiu continuei. – A vizinhança é boa. Além disso, eu sempre quis que uma amiga minha morasse perto da minha casa, vai ser legal e também... – Parei ao ver seus dedos saindo do volante e indo direto para o rádio o ligando em uma estação de rádio qualquer.
Bufei e cruzei os braços.
Insuportável.
Eu ia continuar quieta, juro, mas quando o olhei de soslaio e vi o irritante sorriso irônico que seus lábios seguravam, simplesmente não pude me conter. Qual era o problema dele comigo?
– O que há de errado com você? – O encarei com os nervos a flor da pele e o vi o seu olhar surpreso diante minha reação. – Isso é com todo mundo ou só comigo?
– Não faço ideia do que você está falando.
Ah sim... Aposto que ele não sabia!
Uma ova, isso sim.
– Eu definitivamente nunca te fiz nada, então por que você mudou tanto e ficou tão idiota?
– Eu não estou fazendo nada. – Pausou. – É você que fica aí com esse ar de superioridade, você sempre foi assim. Estou te dando uma carona e ainda quer reclamar?
– Não é que eu esteja reclamando, é que você não era assim, e você sabe disso. – Minhas mãos estavam tremulas, simplesmente não paravam quietas no meu colo e eu não conseguia desviar o olhar delas agora.
– Eu sempre fui assim. – O observei dizer com o cenho cerrado.
A sua expressão era tão dura e fria como a de uma estátua de mármore e eu sabia que não importava o que eu diria, porque o garoto ao meu lado não iria deixar uma estranha como eu se entranhar em seus pensamentos. Mesmo sabendo de tudo isso, parecia que eu nunca iria querer parar de descobrir mais sobre ele. Minha curiosidade era infinita. O irmão gato da minha amiga sempre seria um empecilho na minha paz, parte da minha curiosidade preferia acreditar que vinha por ele ter sido amigo do meu irmão.
Eu sempre achei que sabia muita coisa sobre Miguel, e por fim, descobri que a quantidade de coisas que eu não fazia ideia provavelmente era muito maior das que eu possuía consciência, talvez por isso me atraísse tanto, conhecê-lo soava quase como conhecer mais do mundo de Miguel. Por outro lado, sendo honesta, minha curiosidade vinha desde que eu bati os olhos nele, quando sequer imaginava nas tramoias que o futuro me guardava. Ele me atraia. Seu jeito de quem não dava a mínima me fascinava. Eu queria aquilo para mim, aquele sentimento, aquela liberdade.
– E se isso for verdade, então por que você é assim? – Sem coragem de olha-lo nos olhos deixei que as palavras fluíssem.
– Porque sou. – Cuspiu as palavras com seu tom de voz irritado causando arrepios por todo meu corpo. – Não vejo nada de errado comigo, mas pelo visto você tem alguns pontos a fazer sobre isso. – Ele parecia realmente incomodado, o que me fazia acreditar que havia sim um motivo, ele apenas não queria me falar, o que faz sentido, eu também não era uma a compartilhar muitos segredos com ele ou qualquer um.
– É que às vezes você é desnecessariamente rude. Quer dizer, a Alice não é assim, então não entendo porque você é. – Escutei sua risada sarcástica soar alta no carro.
– Hm... Então se eu fosse mais como seus amigos eu seria melhor? Talvez como ou Gustavo? Ah é, eu esqueci que foram eles que te largaram sozinha no meio da festa.
– Eles não fizeram isso! – Neguei com vivacidade em minha voz. – E esse não é o ponto. – Olhei para janela fugindo de seu olhar antes de finalmente ter coragem de me virar encontrando sua face brevemente desviada do caminho, dividida entre mim e a rua. Senti minha boca ficar seca. – Esquece. – Pedi. – Você não vai entender o que eu quero dizer de qualquer forma.
E o que eu queria dizer? Foi o que me perguntei.
Tinha uma pista da resposta, mas admiti-la para mim mesma seria quase como entregar meu coração a tortura. Não me importava que ele fosse rude, debochado, irônico, ou o que preferisse ser com os outros, apenas não queria que ele fosse assim comigo.
Isso era doentio.
Tá! Tudo bem, ele nunca havia me feito mal propriamente dito, mas nós tão pouco nos tratávamos bem já por algum tempo, só ficávamos naquele um cutuca o outro bobo sem motivo, e para que? Por Deus, alguns minutos dentro de um mesmo espaço e tempo e ele já estava me levando à loucura. Eu não conseguia evitar querer ser dele, não era algo racional, era completamente físico. Ele era um imã, logo, era impossível evitar ser atraída.
Encostei a cabeça na janela enquanto vi pingos de chuva começarem a molhar a rua e tentei convencer a mim mesma que era isso, apenas atração.
– Admiro a lealdade que você tem com eles. – A pronuncia de sua voz fez com que eu desencostasse do vidro surpresa e me acomodasse no banco. – Mas... Alice é minha irmã, eu a conheço e não se deixe enganar, ela pode ser sorrateira quando quer. Assim como e Gustavo estão bem longe de ser exatamente um modelo a ser seguido. – Riu desgostoso. – Não sei nem porque estou falando isso para você. Você os conhece, é igual a eles.
– O que você quer dizer com ser “igual a eles”? – Fiz aspas com os dedos e o olhei irritada. – Isso não tem que ser ruim.
– Quero dizer que a pouco mais de um ano atrás você estaria naquela festa, provavelmente se divertindo com tudo que agora te irrita. Você sabe como era e o que fazia, sabe também que estava longe de ser boazinha. Você era tão dissimulada quanto qualquer um deles.
Não podia acreditar no que meus ouvidos tinham acabado de escutar. Como ele podia falar mal de mim e da própria irmã? Falar mal do e do Gus até vai lá, eles nunca tinham sido exatamente grande amigos mesmo. Agora, falar mal de Lice e ter coragem de falar mal de mim, bem... Para mim?
– Desculpa. – Balancei a cabeça. – O que você acabou de dizer? – Olhei esperando que ele se corrigisse.
– Você sabe muito bem o que eu acabei de dizer, eu não vou retirar aquilo. – Deu de ombros com os olhos ainda completamente concentrados na estrada. – Pelo menos você não pode sair por aí me acusando de ser mentiroso. – Assim que aquele maldito sorriso pregou em seus lábios, imediatamente tive vontade de virar a mão no seu rosto e beijá-lo ao mesmo tempo, quem sabe... Mas só com o intuito de tirar aquele sorriso dali, claro!
Nada mais, nadica de nada.
– Sincero? – Perguntei incrédula. – Olha, eu estava tentando ser legal aqui, mas já que é para ser honesta, então por que você não para de olhar para o próprio umbigo um pouco e deixa de ser tão egocêntrico? Fica na cara o tempo todo o quão superior você acha que é, e ainda falar de mim... Mas adivinhe, tenho novidades... Eu não me acho superior e você certamente não é! – Tá, aquele surto tinha sido meio infantil, mas merecido.
– Eu olho para meu próprio umbigo? – Riu desgostoso. – Você sequer sabe o que está acontecendo a sua volta com seus amigos e sua família e sou eu que deveria parar com isso. Claro!
– Lamento informar que você está errado. Não tem nada que eu não saiba sobre quem eu amo! É claro que todos no mundo inteiro têm pequenos segredos. Eu tenho. Mas sabemos tudo que importa um sobre o outro e isso basta.
– Eu não estaria tão certo disso.
– Se você está tentando por duvidas sobre eles na minha cabeça não vai conseguir, confio em todos com a minha vida. – E eu realmente queria dizer aquilo, minha confiança naqueles que eu amava era algo muito forte dentro de mim, principalmente depois do último ano.
Eles permaneceram ao meu lado, me ajudaram em tudo.
Ele falava que eu não sabia o que estava acontecendo a minha própria volta, e talvez estivesse certo, mas não era porque as pessoas nas quais eu confiava estavam escondendo coisas de mim. Eu estive afastada, no momento em que isso ocorre a gente sabe que inevitavelmente vai acabar perdendo uma coisa ou duas no meio do caminho.
– Então sinto muito por você. – Agora, aquilo sim tinha me irritado.
– Qual é a sua? Se tiver alguma coisa para me dizer apenas diga logo. – Buscando calmaria da minha ansiedade respirei fundo. – O que você sabe que eu não sei?
– Achei que se eu estava tentando por duvidas na sua cabeça não ia conseguir. – Imediatamente me acalmei, era só um jogo, ele só estava jogando comigo. Esse era ele fazendo o que ele fazia de melhor, zices. – Eu não sei de nada. – Vi seus dedos apertarem mais duro o volante. – Mas isso não significa que não há algo para se saber.
Ficamos em silêncio durante algum tempo. Por mais que eu tentasse evitar pensar sobre aquilo o desgraçado realmente tinha conseguido por uma pulga atrás da minha orelha.
– Hrum. – O ouvi coçar a garganta. – Chegamos.
Senti a velocidade do carro diminuir enquanto virávamos a esquina da rua na qual eu morava, aos poucos em frente a minha casa, já ia me preparando para pular para fora do carro e enfrentar a chuva que tinha começado.
! – Aí não, meu apelido não... Ele não podia fazer isso comigo porque eu esquecia todos os motivos pelos quais ele era errado e sentia vontade de pular no seu colo ali mesmo, no carro.
De repente uma imagem mais que agradável minha e dele fazendo em seu carro surgiu na minha cabeça e eu senti minhas bochechas ficarem quentes.
– O que foi?
– Não leve tão a sério as coisas que eu disse. Você está certa sobre mim até certo ponto, eu sei ser bem babaca às vezes. – Ele não ia pedir desculpas, eu sabia que não, aquilo era o máximo que ele conseguiria por hoje, e eu meio que estava ok com aquilo, pelo menos ele tentou.
– Não leve tão a sério? – Forcei uma risada pelos meus lábios. – Sabe o que mais? Você disse que sentia muito por mim, mas eu é que sinto por você. No fim do dia eu tenho meus amigos, que ao contrário do que você pensa, não são maus para mim, mas e você? Tem a quem? – Minha garganta doía de vontade de chorar. Eu tinha acabado de provar que ele estava certo fazendo um discurso sem finalidade alguma senão ataca-lo. – Boa noite. – Disse em um sussurro o vendo olhar duro em minha direção. Finalmente saltei fora do carro para longe dele.
Abri a porta de casa lentamente com medo de seus rangidos e subi na ponta do pé até estar em meu quarto e poder relaxar. Depois de trocar de roupa me joguei embaixo do meu cobertor e parei para pensar sobre fatos que tinham acontecido hoje. Minha melhor amiga não tinha me convidado para a sua festa e eu ainda não tinha engolido aquela desculpa dela, meus melhores amigos me chamaram apenas para me deixar sozinha, e ...
Fui para cama exausta e achando que ele estava certo. E se ele não estivesse apenas querendo me provocar? E se, na verdade, aquilo fosse um alerta honesto?
Talvez eu fosse uma vadia tão louca ao ponto dos meus melhores amigos não me quererem mais por perto.


Capítulo 5

Duas semanas se passaram desde a festa. Eu eventualmente acabei desculpando Alice por não ter me convidado, mesmo que ela nem soubesse que precisava de algum perdão da minha parte. Talvez ela estivesse falando mesmo a verdade, a mensagem poderia ter apenas não chego até mim. De qualquer forma, minha versão preferida era a que ela era honesta e foi a qual eu escolhi, as outras opções pareciam extremamente desagradáveis.
Já era sábado de novo, e olhando pela janela pude ver o céu azul que dominava a paisagem. Contudo, apesar do dia se mostrar lindo e amanhã ser a mudança de Alice, pressentia que aquele não seria o meu melhor dia. O latejar da minha cabeça só reforçava esse sentimento de que estava começando a manhã com o pé esquerdo.
Aliás, o que falar sobre essa expressão "preconceituosa"? Por que acordar com o pé esquerdo tinha que ser algo ruim? Abaixo a opressão contra canhotos! Ri internamente. Eu fazia tudo com a mão direita na verdade, mas na hora de escrever era com a mão esquerda, é engraçado como algo bobo como uma troca de mão podia causar tanto alvoroço antigamente. Lembro que quando era pequena minha vó vivia tentando trocar o lápis para minha outra mão, ela fez isso com meu irmão também que de canhoto passou a ser destro, mas comigo não teve jeito. Eventualmente ela desistiu e passou a elogiar muito quem era canhoto para todo mundo, dizia que tínhamos letras mais bonitas e coisas desse tipo. Ela era uma vovó onça, não era perfeita, mas defendia a família com unhas e dentes.
Eu tinha que visita-la qualquer hora dessas, era provavelmente a pessoa mais perto de sã e ainda completamente amável da família .
Foi com esse pensamento e o intuito de vê-la em breve que levantei para começar o dia. A primeira coisa que eu fiz foi ir até o quarto de dona Olívia – muito conhecida popularmente também como mamãe. Abrindo a porta do quarto devagar fiquei surpresa quando não a encontrei na cama e senti meu coração começar a acelerar.
– Mãe! – Imediatamente gritei por ela.
– Estou aqui embaixo ! – Tremendamente aliviada escutei sua resposta ligeira e desci as escadas correndo com a curiosidade me atiçando.
Quando a vi sentada no balcão da cozinha com café da manhã exposto, tive vontade de saltar de alegria. Aquela era a minha mãe – com suas bochechas coradas, mãos macias e o cabelo cheirando a shampoo de morango – tentando dar o seu melhor para parecer bem para mim, no momento não me importava que ela não estivesse cem por cento, porque tudo que eu conhecia agora era aproveitar os momentos bons, só eu sabia o quanto eles se esvaiam rápido.
A felicidade dela era sempre inconstante, todos andávamos em cordas bambas ao seu redor, um passo em falso bastava para cair. Ocasionalmente ela parecia alegre, só que a superficialidade do seu estado de humor era tão frágil que qualquer cuidado parecia ser pouco. Tudo o que eu mais almejava era que aquilo fosse verdade, que ela realmente estivesse feliz por dentro, mas quando eu olhava nos seus olhos tudo que conseguia ver era vazio.
– O que é isso?
– Acordei me sentindo disposta e resolvi preparar o café da manhã na mesa, gostou? – Naquele momento seu sorriso pareceu iluminar a casa inteira.
Agradeci internamente a qualquer Deus que existisse, se é que existia algum, e pensei positivamente que talvez ela estivesse melhorando.
– Se eu gostei? Eu amei! – Ri – Mas então, me diz o que mais você fez para comer aí.
E foi assim que tivemos um ótimo café da manhã. Nem ousei tocar no nome do meu pai. Esperava que ele também tivesse desfrutado disso tudo, mas se ele não houvesse, eu sabia que ela ia ficar triste quando eu a recordasse de seu nome, então apenas preferi deixar em off.
Mais tarde resolvi insistir que ela entrasse na piscina comigo, uma das minhas várias táticas para distrai-la quando estávamos sozinhas em casa. Argumentei sobre o tempo quente e em como daqui a pouco ficaria frio, chovendo, e ela iria se arrepender de não ter entrado. Não que eu realmente acreditasse naquilo, mas contanto que ela fosse convencida e entrasse, por mim estava tudo bem.
E ela entrou, passamos a tarde tomando suco e folheando revistas enquanto pegávamos sol e nadávamos. Eu amava os dias bons com a minha mãe e fazia tempo que um não era tão bom quanto esse. O que eu esperava que fosse apenas uma prévia dos vários dias bons que ainda estariam por vir, e não apenas um evento ao acaso.
Quando já estava escurecendo subimos para tomar nossos banhos, depois de terminar eu a deixei ter o seu momento sozinha, em especial porque eu também precisava do meu. Logo estava deitada passeando pelo twitter e instagram do meu celular. Quando uma mensagem de Alice surgiu na tela fui ver o que era.
“Ei, fazendo alguma coisa? Tudo bem por ai?”
“Sim, sim tudo bem. Não estou fazendo nada. Você já está empacotando suas coisas para mudança ou ainda enrolando?”. Disse e então esperei a tela acender novamente trazendo outra de suas mensagens.
“Como você adivinhou? Eu realmente podia já ter empacotado tudo.”
“Ah sim, porque você é tão organizada e disposta, aposto que nem está falando comigo agora só para usar de desculpa com os seus pais, imagino que esteja os dizendo sobre como eu tenho alguma emergência e você precisa me responder enquanto eles fazem todo o trabalho.”
Ri sabendo que tinha grandes chances de estar certa. Analisando a situação nesse aspecto costumávamos ser bem correspondentes, ainda assim, a garota do outro lado do telefone definitivamente conseguiria chutar minha bunda em uma competição das mais preguiçosas.
“Droga! Amo mais do que você possa imaginar como você me conhece direitinho e não se importa que eu te use para não arrumar as coisas aqui em casa.”
“Não é isso que amigos supostamente devem que fazer? Não sabia que existia outra opção além de ajudar nas falcatruas. Aliás, já que há, eu deveria ligar para seus pais agora mesmo e te entregar?”
“Nem precisa, meu irmão já está me atormentando aqui, definitivamente desnecessário, depois nos falamos.”
Podia imaginar perfeitamente a feição irritada de Alice com seu irmão apesar de estar através da linha. que, não tão por acaso, vinha dominando meus pensamentos nos últimos dias, só a menção dele foi o suficiente para que minha cabeça voltasse a viajar em sua direção e tudo sobre o que havíamos conversado no carro há duas semanas. Tinha sido inevitável me perguntar durante alguns momentos se ele estava realmente certo, como quando notei uma reação estranha de meus três amigos essa semana, nunca antes percebida por mim.
Tem essa menina lá na escola, que é tida meio como "perdedora", a Karen. Nessa semana ela estava passando no refeitório, ela já tinha pegado sua comida assim como a maioria dos alunos quando, sem querer, tropeçou e derrubou tudo na mesa a qual estávamos sentados, bastou isso para que a confusão se instaurasse.
Nós estávamos tendo almoço no grande refeitório do Instituto Épora, o lugar bem iluminado pelas grandes janelas brancas que o cercavam, com enormes mesas redondas, além de ser extremamente ruidoso pelos seus alunos que não paravam de conversar, especialmente naquela hora, momento em que ficava mais lotado. Aquela escola era cheia de panelinhas, existiam ali diversos grupos, mas basicamente a divisão mais clara a se observar era a entre os vencedores e os perdedores. O que era cruel, levando-se em conta que a maioria dos chamados perdedores não fizeram nada realmente ruim para merecer o título.
Foi naquele momento que Karen passou com sua bandeja na mão. De cabeça baixa, ela não conseguiu ver que uma cadeira estava arrastada apesar de por todo lugar terem avisos de “ao levantar encoste sua cadeira na mesa para que não ocorram acidentes”, claro que ninguém parecia dar a mínima para o aviso, mas bem, deveriam. Chamem de certinha, mas eu o seguia. Claro que ela tropeçou, e a sua infelicidade foi cair com tudo para cima da nossa mesa.
Na mesma hora que isso aconteceu vi Alice e Gustavo, as duas pessoas entre as quais ela caiu levantarem-se encontrando o olhar um do outro, que apesar de estarem estupefatos pareciam compartilhar cumplicidade.
De repente o refeitório inteiro parecia estático, todos parando de fazer o que fosse e ficando quietos para que não perdessem nenhum detalhe da cena que estava por vir. Por que todos tinham que ser tão desumanos?
Sua biscatinha! Olha só o que você fez. – Foi a primeira frase que Alice pronunciou e também a que logo me assombrou. Como ela podia ter dito aquilo em alto e bom tom na frente de todos? Ela era sempre assim? Mais importante que isso, será que eu costumava ser assim como afirmava?
M-e-e-e desculpe. – A garota, que era muito bonita por sinal, murmurou ao meio de gaguejos.
Apesar do jeito acanhado e do moletom largo xadrez que não lhe favorecia em nada, já que em minha opinião era horrível, eu conseguia ver por detrás daqueles óculos olhos marcantes, além de suas sardas que eram bem fofas, e o cabelo castanho dava o toque final a aparência doce que ela mantinha apesar da situação, sem parecer se esforçar nada. Por um segundo a invejei e admirei, o seu tipo de beleza não era forçado.
Presta atenção por onde anda garota quatro olhos. – Gustavo disse, parecendo mais rude do que eu já havia o visto sendo. Seu rosto estava vermelho e ele parecia extremamente irritado. – A menos é claro, que queira ter mais problemas comigo. – E isso foi a última coisa que ele disse antes de sair pisando duro, indo em direção as portas que o levariam para fora dali direto para o corredor.
Ok, o show acabou. – Alice disse alto. – Podem voltar ao que estavam fazendo, inclusive você, mas não sem antes tirar essa imundice da nossa mesa, claro. – Seu sorriso pareceu sádico naquele instante.
Por que ninguém dizia nada? Por que eu não falava nada também? Por que sequer Karen reagia? Como se Lice mandasse nela ela começou a limpar nossa mesa.
Quer saber? Nem isso você sabe fazer direito, a situação está ficando ainda pior. Só saia daqui. – Fez gestos a espantando com as mãos.
Dava para ver o quão humilhada ela se sentia enquanto os outros a sua voltam riam e faziam piadas. Ela não tinha obrigação de limpar nada e eu não fazia ideia de como ela conseguia ser forte o suficiente para ainda estar ali de pé sem simplesmente surtar. Uma culpa avassaladora começou a me consumir enquanto ficava com vontade de chorar por ela.
Logo em seguida a fala de Alice a menina saiu do refeitório sem nem tentar comer de novo, também teria perdido a fome se estivesse em sua posição. Mesmo depois que ela saiu não tive coragem de me levantar contra aquilo, não disse absolutamente nada.
Ei. se pronunciou e eu dei Graças a Deus pensando que ele iria me entender, iria dizer algo. – Aquilo foi um pouco demais e meio que... do nada não acha? – Finalmente alguém que estava pensando o mesmo que eu, me da um beijo na boca agora pelo amor de Deus menino. – Qual o nosso problema com a menina?
Nosso problema. Sim, porque pateticamente seguíamos a linha de um por todos, todos por um. Então se o problema era de um de nós, era de todos.
Eu entendo porque não gostamos de várias pessoas aqui. A Leah costumava ser uma vadia com a , o Caio foi um babaca com você naquela festa... Mas eu não me lembro dela fazendo nada. – Ele continuou tentando, aos poucos, por Lice contra a parede e descobrir qual era o problema, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que o problema não tinha nada a ver com ela, era com Gustavo. O que só me deixava mais intrigada.
Ela só é uma fracassada a mais, não quero ter ninguém assim por perto, quer dizer, ela podia ter sujado minha roupa, e pior, meu cabelo.
E ali estava. Seus gestos exagerados e sua voz fina que a entregavam em sua mentira para mim. Hábito costumeiro quando ela estava nervosa. A delatava totalmente.
Então por que o Gus saiu daquele jeito? – Questionei e a vi revirar os olhos forçadamente.
Não importa ok? Já foi. Céus... Como vocês são chatos. – Bufou.
Nos conhecíamos bem o suficiente para que eu soubesse que se o problema fosse com Lice ela não iria poupar a garota de xingamentos e histórias terríveis quando lhe perguntássemos. Mas ainda assim, o que possivelmente ela tinha feito de tão ruim para merecer ser humilhada publicamente?
Mesmo que aquela não fosse a reação que eu queria que nenhum deles tivesse, me deixou feliz em saber que não estava nesse barco contra a Karen. A perfeita reação seria se nós dois virássemos o bichão para cima da minha amiga e do Gustavo que se sentiriam tão culpados que iriam até a menina pedir desculpas.
Acho que o perfeito nunca aconteceria...
Fiquei pensando sobre a cena durante o decorrer dos próximos dias e a cada vez que pensava me sentia pior por não ter feito nada para ajudar. Eu era suja e fraca. parecia soar cada vez mais certo nos meus pensamentos. Talvez ele visse o tempo todo o que eu me recusava a enxergar.
Tentei me lembrar de algum instante em que eu tinha humilhado alguém publicamente, tratado mal, ou apenas sido má. Primeiro foi difícil, todas situações que vinham a minha mente as pessoas, na verdade, mereceram o que ganharam de mim. Foi assim que eu fui percebendo as coisas fúteis pelas quais eu já havia rebaixado alguém, achando que elas “mereciam”, então um momento surgiu a minha mente, depois outro e mais outro. No segundo em que a possibilidade de recordar de mais um me caçou, fugi como a bela covarde que era e fui tentar me distrair lendo um livro.
O único problema que encontrei foi que quanto mais eu lia, mais as palavras pareciam passar pelos meus olhos sem ganhar nenhum significado com a minha falta de concentração. Quando finalmente desisti e decidi que já estava tarde o suficiente para dormir o fechei deixando jogado pela cama, e então encostei minha cabeça na macia fronha do meu travesseiro branco. Não obtive sucesso algum, apenas imagens e mais imagens me vinham à cabeça até que uma em especial surgiu. Ao me lembrar daquela em especifico meu coração disparou, não fui hábil o suficiente para guiar meus pensamentos para outros lugares, meu corpo estava quente e meu cabelo colava no pescoço me deixando extremamente incomodada.
Eu não podia ter esquecido daquilo, mas foi exatamente o que aconteceu e agora que me recordava entendia o porquê daquelas opiniões que antes eu achava toscas do .
Eu realmente era uma vadia.

Continua...

Nota da autora: (31/08/2017) Olá mais uma vez, como vocês estão? Não se escondam haha.
Comentem, deixem as opiniões e as críticas construtivas, aceito tudo de bom grado. Obrigada por estarem acompanhando a fanfic! Aqui o link do meu grupo no Facebook recém criado. Ainda não sei se ele vai dar certo, mas, haha! Espero que tenham gostado dos capítulos, me contem tudinho sobre o que acharam.



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