Proteja-me do que Quero

Autora: Debby S. | Beta: Mily

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Prólogo

Ótimo. Aqui eu estava agora. Sozinha no lugar mais detestável do planeta, e pronta para me afundar no meu próprio poço de auto piedade. Meu momento absorto, infelizmente, se deu fim ao escutar um leve clamor do meu nome ao longe, que foi aumentando conforme os passos que pareciam se aproximar.
- ! – Meus ossos gelaram quando escutei aquela voz tão próxima a mim, foi quase como se eu literalmente tivesse sentido minha alma me deixar e voltar.
Eu estava ficando louca? Seria possível? Eu jurava que sentia sua respiração de tão perto que estamos, mas... Não podia ser ele aqui agora, podia? Minhas mãos começaram a tremer e eu sentia que minha pressão deveria estar despencando com meu nervosismo. Por Deus, eu iria morrer. Com medo não olhei para trás, e fingindo que não tinha escutado nada continuei parada, sem mover um único músculo.
Mas então uma mão quente encostou em meu ombro e eu fui obrigada a me virar só para enxergar um mundo inteiro novamente se desfazendo diante dos meus olhos.


Capítulo 1

Fechei os olhos enquanto permitia que o som do piano continuasse a me entorpecer. A melodia tão fascinante quanto à da minha música preferida, então eu ficava ali o observando, escondida como uma rata, ao longe. A sala de música do Instituto Épora nunca me pareceu tão grande e ao mesmo tempo tão pequena. Seus dedos dedilhavam as teclas com maestria e ele parecia estar tão entorpecido quanto eu, sabia disso mesmo só podendo ver sua nuca e seu cabelo, que apesar de todo bagunçado parecia perfeito. Sorri e revirei meus olhos, preferia o Apocalipse a ele descobrir que eu achava seu cabelo maravilhoso, ou o quão belo ele ficava sob aquele ponto de vista; tocando piano maravilhosamente bem diretamente iluminado pelos raios sol que atravessavam a janela, chegando até o garoto que já era insuportavelmente convencido e não precisava de minha ajuda para se achar ainda mais quente do que ele já sabia que era.
O carpete vermelho embaixo dos meus pés parecia o caminho ideal a se seguir, o caminho da perdição definitivamente; caminho este que me levava até . Sorri novamente. Qualquer um podia ver, estava escrito em sua testa e também em seu corpo todo o quanto a música levava seus pensamentos embora.
Quase dei um passo em sua direção, mas então me acovardei, voltando para trás e encostando a cabeça na parede. Mordi meus lábios ansiosa, tentando me conter, esperando para ver quando ele perceberia que eu estava aqui. Por mais que tentasse foi impossível segurar um suspiro, depois senti minhas bochechas quentes, com certeza coradas com o pensamento de que ele poderia ter escutado aquilo. Não gostava mesmo de parecer uma menininha boba suspirando pelos cantos, o que era exatamente o que estava sendo nesse instante. Aguardei um momento até me dar conta que o garoto a minha frente estava tão fora desse mundo no momento, que tudo ao seu redor se tornara imperceptível. Depois de algum tempo roubando aquele pequeno momento para mim, resolvi me fazer presente.
- Hrum hrum. – Cocei minha garganta, fazendo com que ele se virasse e me encarasse. Claro que ele me lançou aquele sorriso, o meu sorriso – pelo menos eu gostava de achar que sim, me aventurando a pensar que ele não dava aquele sorriso para qualquer coisa do sexo feminino que se movesse. Após apenas sorrir, o tolo virou-se para frente novamente e voltou a tocar, facilmente ignorando a minha presença. Delicada como um elefante, caminhei até ele, me sentando nas teclas do piano sem um pingo de pena e gargalhando em seguida com sua face de desaprovação e repreensão. – O que foi? Uma garota precisa de atenção , você deveria saber disso mais do que ninguém, afinal, você é ou não é o cafajeste mais cobiçado dessa escola? – Ergui uma de minhas sobrancelhas em desafio.
- A cada visita sua na sala de música algum instrumento diferente sofre, não me surpreende que o professor Carlos goste tanto de você. – Sorriu.
- Tenho certeza que ele gosta tanto de mim quanto eu gosto dele. – Pisquei.
Quando por um segundo, ambos ficamos quietos e ele me encarou. Eu sabia que o assunto surgiria.
- Você não veio à aula ontem. – Disse sem pestanejar. – Nem antes de ontem. – Seu semblante rapidamente mudou de um risonho para um preocupado comigo, o que era mais do que eu podia lidar. Não precisava de pena, principalmente vinda dele. Não suportava ter seus olhos me encarando, pedindo por respostas.
Eu o queria, muito! Mas não assim, não por consolo. Enfim, não importava, porque lá estava o assunto do qual eu vinha evitando a todo custo falar. Parado bem ali como se fosse algo palpável entre nós. Eu sabia que eventualmente ele ia me perguntar o que tinha acontecido, só não esperava que o menino fosse tão rápido no tiro.
- Não foi nada demais, sério. – Me apressei em falar, rolando os olhos em um descaso forçado.
Havia sim sido tudo demais, pelo menos para mim. Como dizia o ditado popular “quanto mais eu rezo, mas eu me fodo”. bem, devia ser algo parecido com isso de qualquer forma.
- Como ela está? – Perguntou, ignorando a mentira que eu havia contado.
Olhei em seus olhos, e por uma fração do tempo em que o encarei, morri de vontade de contar tudo nos mínimos detalhes. Quis ceder e me deixar levar. Acontece que não dava. No momento em que me abrisse com ele sobre os assuntos que tocavam mais fundo no meu coração estaria entregue, e eu realmente precisava de proteção. Não podia correr riscos, não com ele.
- Ela quem? – Me fiz de desentendida e o escutei bufar, seus lábios desviando minha atenção. Uma rota de fuga, por favor, qualquer uma. “Deus, se você existe nunca te pedi nada, só um plano para escapar dessa situação, por favor!”. De relance, olhei para meu pulso e vi meu belo relógio dourado ali. “Não precisa mais não, já consegui, mas valeu”. – Nossa! Olha essa hora, Alice vai me matar, você sabe como ela é... Certo? Certo. Então tenho que ir, te vejo mais tarde, ou qualquer hora por aí.
- ! – De jeito nenhum eu ia ter essa conversa com ele agora.
Ajeitei minha mochila no ombro, lhe dei um rápido e estalado beijo na bochecha antes de sair correndo tanto quanto uma maratonista profissional pela porta, deixando um irritado para trás.
Tinha caminhado tanto e tão bem, quem sabe isso não viraria um hobbie no futuro? Correr apenas para me distrair ajudaria na saúde também, contudo atualmente, em se tratando de corridas, eu só era profissional nesta quando a questão abordava fugir dos meus problemas, ou pelo menos tentar.
é o meu melhor amigo. Sempre foi assim. Pelo menos desde que consigo me lembrar. Ele esteve por perto por vidas inteiras e toda minha família era verdadeiramente apaixonada por ele. Infelizmente, isso incluía a mim. Todos o adoravam porque não sabiam de tudo que ele aprontava e ainda apronta como eu sei, não tenho certeza de que se soubessem de todos os podres e corações partidos que ele já deixou pelo caminho iriam gostar tanto assim dele. Por outro lado, pensando bem, eu sabia de tudo – ainda assim – o adorava.
O conheci no ensino fundamental. Eu era gordinha, meio nerd, e completamente estranha. As outras crianças, como a maioria das crianças, eram cruéis. Pequenos diabinhos. Todos os meninos adoravam implicar comigo, felizmente nunca fui do tipo que leva desaforo para casa, portanto, fazia da vida dos meninos um inferno tanto quanto eles faziam da minha. Tenho vergonha disso hoje em dia, retaliação nunca é a solução, mas... Bem... Foi necessário na época. nunca tinha sido um desses meninos, mas tão pouco falava comigo, as coisas mudaram quando tínhamos treze anos e ele se apaixonou perdidamente por uma das minhas melhores amigas, Giovanna.
Eu convivia com eles, saia com eles, às vezes até tinha que ficar de vela – o que era terrível e constrangedor, ainda mais porque sendo ele o primeiro menino que realmente conversava comigo, foi inevitável acabar gostando dele. A Gi, no entanto, nunca gostou tanto quanto ele gostava dela; ela foi o primeiro beijo dele, provavelmente sua primeira paixão, mas ele não havia sido o primeiro nada dela, talvez tenha sido por isso que eles eventualmente terminaram. Além de tudo, eu sabia exatamente a quem o coração da Gi sempre tinha pertencido, e não era a .
Como minha melhor amiga na época, ela sabia que eu tinha um crush nele, não devia ser difícil de notar, eu era nova, totalmente inexperiente em gostar de alguém, sequer sabia o que acontecia comigo quando o via. Só não podia parar de rir de suas piadas, ficava nervosa e ansiosa ao seu redor e conheci as famosas borboletas no estômago. Mas era um sentimento bom, gostava de quando ele estava perto, tentava sempre aparentar o meu melhor quando sabia que ia vê- lo e foi assim que no ano seguinte, cai em suas graças.
Eu tinha mudado muito desde o primário, fui cheia de fases na vida quanto a minha aparência. Primeiro gordinha demais, depois magra demais. Por fim, simplesmente parei de me importar com o que era o ideal para os outros e tentei focar em mim, em como eu me sentia bem comigo mesma. Passei por uns períodos desafiadores e meio obscuros até chegar a criar a consciência em mim mesma de que não importava o que os outros achassem feio ou bonito, importava apenas como eu me via e quais eram as minhas prioridades em relação a minha aparência. Meu irmão mais velho me ajudou muito nisso, ele era todo incentivos e elogios, sempre foi. É mais do que óbvio que como qualquer ser humano do mundo havia dias em que eu me achava um lixo, mas também havia dias em que eu acordava me sentindo a própria Cleópatra.
Então, quando tinha quatorze anos algo aconteceu entre nós dois da maneira mais boba possível. Um jogo de verdade ou consequência – ri sozinha ao me lembrar – nós tivemos que nos beijar e eu fiquei tão constrangida, afinal, aquele era ! O beijo tinha sido bom, levando em conta o quão eu estava constrangida, era delicado ao mesmo tempo em que possuía uma aspereza em seu toque que formava a combinação perfeita. Talvez por isso meus melhores beijos houvessem sido todos com ele. Todos do nosso grupo estavam lá aquela noite, a Lice, a Gi, o Gustavo, a Ana, o e eu. Enchemos a barriga de pizza e depois quando os meninos tiveram que ir embora para suas casas, nós permanecemos e fizemos nossa própria festa do pijama com a permissão dos pais da Ana.
Quando estava bem tarde a Gi recebeu uma mensagem do e advinha de quem ele estava falando? De mim! De como tinha sido ótimo, muito melhor do que ele esperava – ignorei a parte de que sua expectativa sobre mim não era boa e segui a vida. Eu não soube o que fazer quando ela contou na frente de todas as meninas, mostrando cada mensagem. Ele era ex dela, eu não estava sendo traíra, estava? Ela nunca sequer gostou dele.
Na época, de qualquer forma, nós dois resolvemos sair, ir ao cinema, essas coisas; ver no que ia dar. Eu não era acostumada a sair do jeito romântico com meninos, só era expert em falar coisas bobas; ainda por cima, tinha medo de que se meu pai descobrisse. Por mais que ele gostasse de , ficaria furioso com ele e comigo. Então, a toda saída nossa, eu levava pelo menos duas amigas minhas no enlaço. Nós já estávamos saindo há um mês quando ele se declarou por mim em uma mensagem. E eu?
Surtei.
E não foi de uma boa maneira. Hoje em dia me arrependo amargamente, acreditem. Mas eu simplesmente não sabia o que sentia por ele ainda, se estava apaixonada ou não, afinal, como era realmente estar apaixonada? Terminamos tudo.
Não foi de propósito, porém, devia ter imaginado.
Eu apenas falei que gostava dele, mas que não achava que fosse na mesma intensidade ou do mesmo jeito que ele gostava de mim. Imaginei que ia continuar tudo bem, que iriamos continuar saindo, mas aparentemente tudo terminou ali. Ele começou a sair com várias garotas, muito mais engraçadas, além de mais bonitas do que eu. Parecia que ele tinha me esquecido tão rápido que me magoava. Para onde tinha ido toda aquela paixão? Não conseguia entender porque ele tinha que se tornar um completo idiota comigo, mas pior mesmo foi quando ele parou de esfregar as meninas com quem saia na minha cara e implicar comigo voltando a me tratar como o que eu era, sua amiga.
Antes, quando ele fazia questão de me maltratar, eu sabia por fontes confiáveis – Gustavo – que era tudo apenas para me fazer ciúme e me irritar. Quando ele foi educado e gentil sabia que aquilo só significava uma coisa: ele tinha superado.
Quem sabe seja por isso que tenho tanto receio em confiar nele, e implico tanto com as coisas que ele faz, porque embora eu tente, não consigo esquecer aquele garoto que, diferente de todos os outros com quem já saí, não queria só os meus beijos ou o meu corpo, ele queria a mim, , com todas minhas qualidades, mas muito mais importante que isso, todos meus defeitos e eu estraguei tudo. Aparentemente, era minha especialidade.
- Ei, moça! Parada já! – Cambaleei para o lado com o forte impacto de Lice contra mim.
- Wow! Toma mais cuidado aí. – Falei depois de me recuperar e, antes de começarmos a rir.
- Tenho medo de que se te soltar agora nunca mais a verei pelos corredores dessa escola. – Seu tom, como sempre, era leve e divertido. - Posso saber o que andou aprontando sem mim? Se eu descobrir que foi algo envolvendo alguns shots de tequila você está morta. – Seu tom e olhar eram sérios. Qualquer um que não a conhecesse acharia que estava realmente brava, mas eu sabia que aquilo era um meio para um mesmo fim no qual todos pareciam estar interessados, conseguir fazer com que eu falasse.
- Estamos no último ano. Você não deve esperar nada de mim além de saídas na calada da noite envolvendo sexo, drogas e rock n’roll. – Usei meu melhor ar misterioso somente para depois rir incansavelmente com ela.
- Então, já está indo para casa? – Pausou. – Hoje tem conselho de classe. Uma bobagem, estamos no início do ano, na primeira semana ainda, as aulas acabaram de voltar e... Que idiotice a minha – bateu com a mão na testa. – É claro que não sabe. Eles apenas avisaram isso antes de ontem. De qualquer forma, devemos ser liberados assim que o intervalo acabar por conta disso.
Parei durante um momento para pensar no clima pesado lá em casa. Parecia que uma nuvem negra começava a pairar sob mim assim que punha um dos pés para dentro. Não queria voltar, não mesmo. Dois dias haviam sido mais do que suficiente, eu precisava respirar, pelo menos enquanto o Sol ainda estivesse no céu.
- Estava aqui pensando... Eu não poderia ir para sua casa, poderia? – Perguntei, aguardando o seu sim, pois ela sabia o quanto eu precisava daquilo.
- Claro! – Sorriu contente. – E podemos também comprar um grande pote de sorvete no caminho, estou morrendo de fome. Algumas rosquinhas também não fariam nenhum mal – Ri me lembrando da última vez que tinha visto Lice comer sorvete; assistíamos “Um amor para recordar”. A cena não havia sido nada bonita.
- Ótimo! Vou mandar uma mensagem avisando meus pais. – E assim o fiz. – Vou querer sorvete de chocolate!
Lice era linda, infelizmente acho que ela não via tanto isso nela mesma. Seu cabelo possuía cachos lindos que caiam como cascatas em suas costas, os lábios carnudos como o da Angelina Jolie que só ela seria louca o suficiente para não gostar. Aposto que todos os garotos que já saíram com ela discordavam.
Era o que havia restado de nós: eu, a Lice, o Gus e o . Ainda falava com a Gi e a Ana, mas no final do nono ano elas saíram do colégio para outro mais caro e com a reputação melhor, então o contato que tinha com elas não era mais o mesmo que o de antes. Ainda assim, amava todos eles com uma paixão eloquente. Eram meus. Sempre seriam... Também eram os melhores.
No caminho até sua casa não pude evitar transportar meus pensamentos para outro lugar, bem distante desse carro e desse mundo e olhando para janela, vendo mais e mais placas passarem, as pessoas andando pelas calçadas despreocupadas, comecei a me lembrar dele. Do seu sorriso, o mais divertido e engraçado do mundo, quando ele gargalhava, todos gargalhavam junto, era simplesmente inevitável, o som da sua risada enchia a casa inteira – sorri descontente ao me lembrar – seus olhos negros que todos diziam ser exatamente iguais aos meus. Que saudade eu sentia de Miguel. Do seu abraço apertado e caloroso, e como ele sempre estava disposto a me escutar e dar conselhos. Sentia falta de tudo, desde seu nariz com um calombinho, até o seu cheiro de cigarro.
O cheiro de cigarro que todo mundo achava apenas mais um hábito comum de um garoto irresponsável, adolescente. “Nessa idade é assim mesmo”, era sempre a mesma frase, vinda de todos. O pior era que eu tinha acreditado, assim como meus pais, ninguém via o que estava acontecendo com Miguel, ou se viam, preferiam ignorar.
Vivíamos embaixo do mesmo teto, conversávamos sobre tudo, ou pelo menos eu achava que fosse dessa forma; era tudo da minha parte, mas nunca da dele. Suas saídas pela madrugada que eu achava engraçado, divertido até, nunca pensei que era algo demais e que deveria contar para os meus pais.


Capítulo 2

Ao chegarmos à casa de Alice, cumprimentei o Sr. e a Sra. . O casal sempre fez o tipo adorável comigo, também não era para menos, me conheciam desde os meus sete anos.
Vergonhosamente já haviam me visto correr de pijamas por esta casa, sujar a roupa toda de diversos molhos de macarrão, e lasanha. Tudo isso muito mais vezes do que gostaria de lembrar ou até mesmo admitir.
Uma das coisas que mais amava aqui era o contente fato de que bastava passar pela porta para que se percebesse exatamente o tipo de lar no qual se encontrava. Um lugar onde não faltavam flores, em todo pequeno canto da casa a mãe de Alice fazia questão de por um vaso de planta, o que dava um frescor ao ambiente. O cheiro doce das flores misturado ao do tempero da comida caseira preparada, quase sempre, pelo seu pai tornava o lugar anda mais aconchegante. Impossível não sentir o calor e energia dessa família de descendência italiana.
Eu mais do que qualquer um saberia dizer isso, pois conseguia me lembrar muito bem de uma vez em que o tal calor e energia de um dos membros dessa família foi tão grande que passou a ser eletrizante e chegou a me seduzir. Havia sido aos quinze anos, a idade na qual eles me flagraram dando um beijo em – filhos deles, irmão da minha melhor amiga – na frente da casa, bem embaixo da linda macieira que ficava no jardim. Dois anos depois e cá estou.
Sei que isso soa meio brega, mas toda vez que olhava para aquela velha macieira sentia em meus ossos como se tivesse sido tudo apenas ontem.
– Como você está ? – Seu pai fez questão de me cumprimentar com um abraço apertado e um belo sorriso no rosto, daqueles tão brilhantes que, por pouco, não me deixou cega.
– Bene. – Fiz uso do meu italiano precário rindo, coisas que tinha aprendido nessa casa, apenas para agrada-los.
Puxar o saco dos pais dos amigos? Culpada!
Ah, quem nunca fez isso que atire a primeira pedra!
– Que tal um Tiramisù? Não fomos nós que fizemos! Comprei na padaria, então não garanto nada, mas... – Como sempre a Sra. tentava me encher de comida, eu detestava, claro.
Imagina se eu ia gostar de vir aqui, e ser empanturrada por boa comida? Quem em sã consciência gostaria disso?
É... Tudo bem. Eu desisti provavelmente desde o primeiro dia em que coloquei meus pés para dentro dessa casa. Quer dizer, ninguém pode me julgar, como eu poderia resistir? Alguém me explica, eu imploro! A mulher, com aqueles belos olhos grandes e escuros, me oferece comida com todo seu jeito delicado e eu digo não? Recusar não era comigo, principalmente porque comer é bom, mas comer uma boa comida italiana... É sem igual.
– Nada disso, nós temos coisas a fazer agora, depois falamos com vocês. – Lice se intrometeu e saiu a me puxar acima enquanto eu sentia meu estomago reclamar.
– Alice! – Ambos gritaram em uníssono, mas isso não adiantava muito com a minha amiga. Afinal, o que os seus pais não tinham do sangue quente italiano, Alice e o irmão ganharam em dobro. Resumidamente poderíamos dizer que ambos eram teimosos como uma mula.
Ultimamente Sandro e Andréia vinham sendo ainda mais gentis que o usual para meu gosto. Pena. Dava para notar nos olhos de ambos dos pais de Alice que era isso o que eles estavam sentindo. Já fazia um ano, mesmo assim, ninguém esquecia, não quando...
Fechei meus olhos, me dando um segundo para respirar fundo. Muitos dos dias eram bons. O único problema era que no momento em que passava a ser um dia ruim, era o pior.
Escutei o som alto de rock ressoar nos corredores do segundo andar e soube exatamente de que cômodo vinha à música. Nunca botei meus pés dentro do quarto dele, no máximo vi algumas coisas de relance. Sentia que conhecia cada canto dessa casa, menos um.
– Eu não acredito que ele está escutando essa merda alta desse jeito de novo! – Ela revirou seus olhos enquanto eu apenas ria.
era um ano mais velho que a gente, começava a faculdade esse ano, ele, ou bem, os seus pais, decidiram ano passado que era melhor que para todos que ele continuasse por aqui mesmo – o que talvez tenha resultado em algumas discussões na família –, mas nossa cidade não era a das maiores, portanto ele iria frequentar a Universidade de Monroe. Ela era boa e ficava na cidade vizinha, apenas meia hora de carro, então provavelmente seriam viagens de ida e volta todos os dias.
– Quando as aulas dele irão começar?
– Só daqui a um mês. – Reviramos os olhos juntas. – Vantagens de terminar o ensino médio. – Deu de ombros.
Eu odiava o irmão mais velho de Alice. Tudo bem, eu não o odiava, mas ele conseguia ser bem irritante quando queria, sempre foi assim. Aos quinze anos, quando o beijei – um dos piores erros da minha vida – não sabia o que estava fazendo, eu apenas o vi sentado lá fora, sozinho, então decidi caminhar até ele, sentar ao seu lado, e conversar sobre o clima, ou qualquer outra coisa que na minha cabeça fosse fazer com que ele me notasse, porque eu era ridiculamente carente assim. Acontece que no meio de palavras fúteis e perguntas tolas vindas de mim – tudo apenas para distraí-lo de qualquer que fosse seu problema – com aquele cheiro agradável das maçãs e da árvore, e o céu cheio de estrelas tão brilhantes como seus olhos pareciam estar naquela noite sob aquela luz em especial, nos beijamos.
Foi épico, perfeito e romântico. Um dos melhores beijos que já tive. Foi doce, sem maldade alguma – ok, talvez um pouco – independente disso, foi lindo. Ainda recordava de cada arrepio que percorreu meu corpo ao sentir o bater da brisa ali embaixo daquela árvore, o aperto da sua mão na minha cintura, o roçar de seus dedos por cima da minha blusa e o seu toque firme que segurava meus cabelos e minha cabeça exatamente na posição em que deveriam estar para que o nosso encaixe fosse mais que sublime.
Quando o beijo se encerrou, mesmo que sentindo meu coração conturbado e disparado no meio daquela encruzilhada, não pude evitar também sentir vergonha. Aquele garoto já havia me visto em tantas situações nada sexys e todas voavam para minha cabeça naquele exato momento. Pior foi a vergonha de quando ele me pediu desculpas. Ele se arrependia de ter me beijado. De repente ficou óbvio que o príncipe encantado pela luz do luar era um fantasma nada real. Este que estava precisando de consolo e eu, bem ali, disponível para seu bel prazer. Eu me recordo de ter imediatamente corrido para dentro sem sequer desejar boa noite. Quando entrei, a primeira coisa que reparei foi em sua mãe e seu pai parados ali fingindo não ter visto nada, mas pelo jeito que agiam, e que agiram durante o mês a se seguir inteiro, ficou claro para mim que eles deram uma espiada.
Eu também já tinha assistido em situações nada sensuais ao longo dos anos, mas uma curiosidade que ninguém podia negar era que ele podia fazer o que fosse e ser como fosse, continuava quente como o inferno.
Odiava compara-los, porque eu gostava de , muito para meu próprio bem, contudo se existe um único outro homem que eu teria sido capaz de gostar se não tivesse se tornado tão idiota, esse seria definitivamente . Ambos o oposto um do outro, porém, ao mesmo tempo cara e coroa da mesma moeda.
O primeiro tinha um olhar que nos acolhia e abraçava, acho que sempre iria amar a cor de seus olhos e achar para sempre os mais bonitos em quarteirões de distância, me perdia inteiramente neles. Já o outro vivia com sua barba sempre por fazer, e seus olhos penetrantes, vasculhavam até o fundo de sua alma sem hesitar, mas assemelhavam-se a espelhos, quando eu tentava encontrar algo perdido dentro deles, tudo que conseguia ver era o meu próprio olhar refletido, sua frieza e o seu mistério só o tornavam ainda mais atrativo. Quanto ao físico, bem, era um pouco mais alto que , mas de resto, seus corpos eram bem parecidos, os dois me agradavam muito, diga-se de passagem.
O irmão de Alice tinha sido extremamente próximo do meu. Quando tudo aconteceu minha família recebeu apoio de todos, inclusive e especialmente deles. No entanto, depois que a pior parte passou, era como se simplesmente não suportasse me ver, como se não tolerasse estar perto de mim. Passou a trocar apenas bons dias e boas noites comigo, se limitando ao mínimo de palavras e agindo sempre como se eu não tivesse presente. Alice não sabia o porquê, eu muito menos, mas também não fazia muita questão em saber, tinha e ainda tenho coisas maiores com o que me preocupar.
Entrei no quarto mais lilás e roxo da cidade, me jogando nos cobertores felpudos da cama sem necessidade nenhuma de convite. Eu já era da casa.
– Pode começar a abrir essa boca mocinha. – Ri desgostosa.
Não ia sequer ter tempo de inventar uma mentirinha?
Cansada cobri meus olhos com os braços.
– Francamente, me leve para Cancun, mas não me leve a mal pelo que estou prestes a dizer.
– Que é...?
– Por que você e tem que ser tão fodidamente pé no saco, e curiosos, e me conhecer tão bem? Eu entendo que vocês estão preocupados, mas tenha dó... Se eu tirar minha cutículas amanhã e mentir sobre isso, vocês provavelmente vão saber antes que eu possa soletrar m-a-n-i-c-u-r-e.
– Chequei ontem e você definitivamente não está me pagando para ser sua terapeuta, então como a consulta está sendo de graça, anda logo com isso. – E com uma voz esganiçada de criança continuou. – Abra seu coração pequena borboletinha. – Claro que fiquei rindo até meu estomago doer.
A primeira e única Alice . A garota que mais enchia de risadas, como um balão tomado por ar até estar pronto para subir ao céu o tão alto quanto pode e explodir, no meu caso, explodir em gargalhadas. Com bilhões de pessoas no mundo, qual era a probabilidade da sua alma gêmea estar bem ao seu lado nesse instante? Nesse exato segundo? E por alma gêmea eu quero dizer, alguém que te complete. Respondendo a pergunta: acredito que não tão altas. Sorte a minha encontrar-me bem ao lado de uma das minhas metades. Fui fundo dentro de mim buscando coragem até que as palavras começaram a fluir.
– Você sabe que minha mãe não está em seu melhor desde que... – Não conseguia, não dava.
Parecia que minha garganta fechava só de lembrar.
Não queria chorar, absolutamente odiava chorar, me fazia sentir vulnerável e fraca, porém, agora, continuar guardando tudo para mim exigia um tanto de trabalho árduo, e eu não achava que podia mais me conter.
– Eu sei. – Se apressou em falar para que eu não precisasse completar.
Continuei buscando manter meu estado de espírito de antes, fechei os olhos em uma tentativa falha de me acalmar para que pudesse desabafar tudo com ela sem chorar. Pensei na rua da praia, nas luzes do prédio, nas ondas do mar, nada fez efeito.
Então como um pássaro que voa em liberdade, eu tentei me libertar o melhor que pude de minhas amarras e confessar-lhe sobre tudo que ultimamente vinha me impedindo de voar.
– Minha mãe. – Engoli em seco antes de prosseguir. – Não é segredo para você que ela não tem estado bem. Ninguém está! Quero dizer, Miguel? Ele era o raio de sol que entrava na casa pela manhã, naturalmente engraçado, incrivelmente brilhante, ele é a pessoa que mais tentava deixar a todos contentes. Simplesmente amável.
– Eu sei querida. – Sussurrou e me acariciou o braço, segurei sua mão e apertei em retorno.
– Dito isto. – Soltei lentamente o suspiro que vinha segurando. – Eu tenho escondido de vocês o quão difíceis alguns dias realmente têm sido.
...
– Não, me deixe terminar primeiro. – Pedi a ela, que logo acenou positivamente e continuou a segurar minha mão. – A verdade é que ás vezes eu sinto vergonha de contar para vocês o quão disturbada minha vida tem sido. Alguns dias são bons – não sei se necessariamente bom, mas tranquilos – e outros, como essa última semana inteira foi, é quase insuportável.
– Você não precisa ter vergonha. Nós jamais te julgaríamos. – Afirmou com sua bela voz calma.
– Eu sei que não, é que eu não sei expressar o que sinto. Não é que não confie em vocês, mas não consigo me sentir a vontade falando sobre os danos da minha família. Eu queria ter o poder protegê-los contra eles mesmos. – Pausei. – Você entende que exige muito esforço da minha parte contar tudo assim? Ter que ficar relembrado à bagunça que minha casa está?
– Claro. – Seu sorriso foi doce e amigável.
– Obrigada. – Sussurrei e então dei início a toda história de leve tragédia que vinha me assolando, descrevendo como os últimos dias tinham sido um pesadelo. Como meu coração parecia inanimado, completamente acabado, mergulhado em um mar revolto cheio por angústias. – Minha mãe não quer saber de nada. Eu não sei se isso é só uma fase, se é algo que temos que lidar e depois vai passar... Não entendo. Eu também continuo triste, pela experiência que tive até hoje vejo, que a partir do dia que você perde alguém que ama tanto a ponto de achar que não cabe em seu coração, nunca mais vai estar cem por cento feliz. Haverá um segundo que seja em cada evento grandioso de sua vida que você gastará pensando “como eu queria que você pudesse viver isso aqui comigo”, e vai doer, muito!
Minhas mãos tremiam enquanto eu tentava conter as lágrimas que não escondiam querer se derramar na minha face, me sentia com algo não identificável preso na garganta e coração. Fechei os olhos, os apertando, um segundo depois externei a força que sabia que tinha dentro de mim para fora em forma de palavras.
– Só que já faz um ano e minha mãe parece continuar na mesma, nos dias ruins nem comer quer, diz sempre que está sem apetite, só fica na cama, sempre cansada. Meu pai acabou se irritando com ela, eles tiveram uma briga feia, o que só piorou o estado dela. Então, para se acalmar, ela foi tomar banho. – Engoli em seco antes de continuar lembrando daquele dia de terror e aflição que tinha vivenciado, foi puro pânico, e eu fui quase que totalmente inútil, não soube como agir e que atitude tomar, só fiquei parada, espantada demais enquanto meu pai corria de um lado para o outro e pegava seu telefone para telefonar a emergência. – O lance é que aparentemente ela desmaiou no banheiro por sua fraqueza, afinal, não estava se alimentando, e pelo calor da água, e tudo mais. – Respirei fundo. – O médico disse que é o provável, e eu acredito nisso, mas foi muito difícil.
Mais uma vez, com medo demais de pronunciar aquelas palavras, com meu corpo inteiro se rendendo e revivendo cada sentimento, senti o coração apertar.
– Alice. – Sussurrei. – Eu pensei... – Com minha voz embargada continuei. – Pensei que ela tinha tentado... Se matar.
Parando de tentar me segurar, comecei a chorar todos rios de lágrimas que guardava dentro de mim, toda aquela água turbulenta e turva que me atormentava deixava meu corpo, lavando minha alma. Alice me rodopiou com os seus braços e apertou tão apertado quanto era possível, mantendo todos meus pedaços juntos por um instante.
Na maior parte do tempo eu era forte, ou gostava de pensar que sim, mas às vezes tudo o que qualquer ser humano precisa é só... Deixar ir.
E foi exatamente o que tentei fazer em meio a soluços meus, e sussurros de Alice que, na tentativa de me confortar, dizia que aquilo já tinha passado e que tudo iria ficar bem agora. Depois de alguns minutos, me acalmei o suficiente para tentar voltar a falar e terminar de me explicar.
– Primeiro o clima estava tenso com meu pai não aguentando mais ver minha mãe se afundando em seu próprio mundo, o que só o fez ficar mais irritadiço do que o normal comigo. Como se não bastasse estar sofrendo o suficiente por ver minha família lutando tanto para se sustentar. – Deixei meus ombros caírem cansados. – Ai depois disso, de todo o desespero, de arrombar a porta do banheiro já aguardando pelo pior e ir às pressas para o hospital, tudo pesou mais, meu pai agora se sentindo culpado e impotente, já minha mãe achando que é a escória da humanidade por nos fazer passar por isso.
Senti Alice beijar o topo da minha cabeça e respirar fundo, secando rapidamente uma lágrima que também havia escorrido em seu rosto.
– E você? – Coçou a garganta, endireitando a voz falha antes de perguntar.
– Hum? – Como você está agora querida? Não deve estar sendo fácil. Você me contou como seus pais ficaram depois disso, mas e você? Pode me dizer a verdade, posso ver nos seus olhos que tem algo quebrado dentro de você.
– Há algo quebrado dentro de mim há muito tempo. – Ri desgostosa. – Estou parando de viver e começando a sobreviver eu acho.
– Nós vamos concertar isso. – Disse, enquanto me olhava nos olhos. – Juntas.


Capítulo 3

Enfim sábado. Foi a primeira coisa que surgiu entre meus pensamentos ao acordar estremecida com o som do celular na mesa de cabeceira. Quem estava me ligando tão cedo em pleno fim de semana? Apesar de que eu não tinha certeza, mas achava ser o início da manhã pela claridade do Sol entrando em meu quarto e esquentando meu cobertor mais do que deveria, me deixando com calor e a sensação pegajosa dos meus cabelos colando em meu pescoço. Ao olhar seu visor confirmei minha suspeitas de ser Alice.
– Alô. – Sussurrei com minha voz ainda rouca de sono arranhando minha garganta.
! Você não vai acreditar. – Sua empolgação me fez ter expectativa de boas notícias e então não consegui ficar mais tão brava por ter sido despertada.
– O que foi? Fala logo! – Pedi ansiosa.
– Advinha quem vai ser sua nova vizinha? – Podia imaginar a animação de Lice do outro lado da linha.
Ai. Meu. Deus.
– Oh meu Deus, você vai se mudar perto da minha casa? Diz que sim, diz que sim, por favor! – Fechei os olhos, apertando os e esperando ansiosa para que ela confirmasse.
– Sim!
– AAH! – Gritávamos em uníssono. – Ei, espera aí, quando foi que seus pais decidiram isso?
– Aparentemente, eles vinham tramando a coisa toda já há algum tempo. Só não conversaram comigo sobre para eu não criar expectativas caso não fosse acontecer. Ah ... Eu estou tão animada com isso, mal posso acreditar. – Suspirou e meus olhos se encheram d’água, não sabia se era certo ou errado pensar assim, mas pela minha cabeça passava o quanto seria bom ter um lugar de fuga, bastava atravessar a rua e pronto.
– Não sabia que meus vizinhos estavam de mudança, sequer há uma placa. – Comentei.
– O Sr. e a não mais Sra. Laurent estão se divorciando. Minha mãe a esta representando, e os dois pretendem vender a casa, quando soube qual casa era e onde estava localizada, ela acabou se interessando e comentou com meu pai, ele aprovou também a ideia. Acho que eles pensam que vai ser bom para todos nós uma mudança de vizinhança. Nosso bairro tem ficado meio violento ultimamente. Esses dias mesmo chegou machucado em casa por causa de um assalto. Foi à oportunidade perfeita.
– Não fazia a mínima ideia de que eles estavam mal das pernas. Sempre achei que formavam um casal tão lindo.
Desde pequenas morar perto uma da outra tinha sido um desejo constante meu e de Alice, acho que em algum ponto todos melhores amigos tiveram essa vontade. Depois da notícia, fiquei conversando alegremente com ela ao telefone. Constatei mais tarde que realmente ainda era sete horas da manhã, de um sábado, novamente ressalto. Sentia raiva por não ter aproveitado mais meu belíssimo sono, mas pelo menos eu ia conseguir aproveitar o dia. Fizemos um pouco de fofoca sobre a separação dos meus vizinhos e depois nos voltamos para outros assuntos.
Loucura. Pensei.
Você vive tão perto de alguém sua vida inteira, acha que sabe algo sobre eles, quando na verdade sabe menos do que nada. Parando para pensar o mesmo ocorria aqui em casa. O Sr. e a Sra. Laurent moravam tão perto da gente, porém não faziam ideia da insanidades cometidas por mamãe, ou Miguel, até mesmo das minhas fugas e do meu pai para uma realidade onde fingíamos que tudo era perfeito. Ele, é claro, tinha em seu espírito uma forma muito melhor que a minha em ignorar suas preocupações. Quanto a mim, bastava atuar fora de casa, aparentemente para ele também se fazia necessário interpretar seu papel dentro desta.
Ao desligarmos, eu fiquei sentada na cama analisando o que minha melhor amiga havia me dito e de uma hora para outra eu não me sentia mais tão feliz com a sua mudança. Ela estaria aqui perto o tempo todo e, por mais que eu soubesse que podia confiar nela com a minha vida, seus pais e seu irmão também estariam aqui. Não queria que a aproximação de nossas famílias fosse tanta a ponto deles poderem perceber a profundidade dos nossos danos. Um vaso quebrado pode ter todos seus pedaços colados, mas se você chegar perto, ainda assim conseguirá ver suas rachaduras. O raciocínio parecia ser simples assim.
Respirei fundo e mexi os ombros tentando relaxar. Você está pensando demais sobre isso, apenas deixe ser.
Talvez a proximidade deles até mesmo ajudasse! Quem sabe minha mãe e a Sra. não virassem amigas e isso as ajudasse? Sempre gostei do fato da mãe de Alice e Giovanna conversarem. Talvez o mesmo pudesse ocorrer com as nossas. Nem sempre as coisas são para pior, tentei me lembrar. Por hoje eu serie uma otimista, decidi, preferia acreditar no melhor.
Depois de me levantar da cama e tomar um banho fui até o quarto dos meus pais. Sorri ao ver minha mãe ainda em seu sono. Tão calma quanto poderia estar. O sorriso se foi lentamente no momento em que meu olhar recaiu sobre o outro lado da cama em que meu pai deveria estar deitado. Deveria.
Não iria acordá-la agora. Eu amava minha mãe e precisava dela de novo, precisava conversar com ela e abraçá-la. Queria ela cuidando de mim e não o contrário. Mas não bastava o quanto eu quisesse, nunca era o suficiente, porque agora mesmo, por exemplo, me encontrava em uma situação em que sequer podia desperta minha Bela Adormecida de seu sono, pois eu sabia que a realidade era mais do que ela podia suportar ultimamente. Então a deixava dormir para que não tivesse que lidar com o mundo real, e com sorte, quando ela acordasse esse seria um dos dias bons e não ruins como quando ela sonhava com meu irmão e acordava desesperada o procurando.
Tem gente que diz que existem coisas piores do que a morte. Todo dia eu me perguntava se nesse dizer continha verdade. Se minha mãe estivesse morta, ela talvez não sofresse tanto como agora, por outro lado, se meu irmão nunca tivesse partido, jamais estaríamos nessa situação. Então realmente não sabia qual das dores no mundo era a pior e preferia viver sem descobrir.
Possuía certeza sobre apenas um fato. Machucava diretamente minha alma ver minha mãe sofrer assim, doía dentro de mim cada vez que ela chorava sentindo falta dele. Toda vez eu também sentia um ódio que não era possível de ser sufocada, raiva da vida, do fato de que não podíamos todos ser fortes o suficiente para lidar com o que ela nos tinha feito. Parecia que todos nessa casa agiam como mortos-vivos desde o dia que ele partiu.
No entanto, mesmo com toda essa raiva não podia julgá-los, pois eu me sentia fora de órbita na maior parte do tempo também.

Quando era noite por uma raridade meu pai tinha jantado comigo e com minha mãe e tinha ficado um considerável tempo com ela, o que fez com que aquela chama de felicidade pipocasse dentro de mim. O quão idiota isso soava? Se sentir feliz simplesmente porque nada catastrófico aconteceu? Bem... Considerando a raridade de nada de ruim acontecer aqui em casa, um dia normal, era para mim como se fosse o melhor dia da minha vida.
Conversei com mamãe para sua distração depois que ela acordou. Vimos How I Met Your Mother, tomei o cuidado de escolher um episódio que fosse inteiramente engraçado, não que isso fosse difícil, eu simplesmente amava essa série. Li um pouco de um livro e agora estava aqui trocando mensagens com .

Como foi seu dia hoje?

Maravilhosamente maravilhoso. Com muita série e pipoca. Por onde andou você o dia todo?

Perguntei curiosa para saber se ela havia o passado com uma das garotas com quem ele saia.

Fiquei em casa entediado na maior parte do tempo. Depois o Gustavo veio para aqui e estávamos jogando até agora pouco”.

Não pude conter um riso imaginando meus dois melhores amigos jogando e, na maior parte do tempo, se gabando de ter ganhado um do outro, como sempre faziam.

E me deixe adivinhar. Agora vocês vão para alguma festa que alguém dessa idiota escola está dando?

Quando foi que começamos a ficar tão previsíveis? Deveria começar a me preocupar?

Revirei meus olhos, rindo. Previsíveis talvez, mas chatos jamais, então eu não achava que eles realmente tinham com o que se preocupar, contudo, eles não precisavam saber disso, precisavam?

Se eu fosse vocês estaria trabalhando arduamente para mudar isso”.

“Se você fosse a gente estaria pouco se fodendo para se os outros te acham previsível.” Verdade. “Por que não vem para a festa com esses idiotas previsíveis? Vai ser legal. A Lice é a anfitriã idiota, ela não te chamou?

Ela não tinha me convidado. O que só me deixou intrigada. Minha melhor amiga não me chamando para a festa? Quer dizer, se fosse a Gio ou a Gabi, eu entenderia já que andamos mais afastadas, mas Alice sempre me chamava. Aquilo fez com que uma insegurança tomasse lugar dentro de mim. Talvez ela soubesse que meus pais estavam ultra mega super relutantes em me deixar sair ultimamente e apenas não quis que eu ficasse na vontade.
Não.
Ela também sabia que eu dava meu jeitinho toda vez que queria ir. Dessa vez não seria diferente.

Acho que ela deve ter esquecido. Então, que horas vai ser?”

“Já deve ter começado, eu vou daqui a pouco”.

“Pode passar aqui para me buscar? Prometo que vou me aprontar o mais rápido possível”.

“Agora sim vai ficar bom. Uma festa sem não é festa”.

Ri enquanto ia correndo me arrumar. Ele estava certo. Nunca era uma festa antes se eu não lhes desse sobre o que comentar no dia seguinte e não vai ser a partir de agora que eu vou deixar passar a ser.

Ele estava errado. Já estava a meia hora sentada em um canto perto da piscina olhando todos se divertirem. Assim que entrei o e o Gus foram beber com os caras do time de futebol e me deixaram a própria sorte. Eu fui ao encontro de Alice que sim, não tinha me chamado.
Segundo a própria, ela não sabia o que tinha acontecido de errado e jurou que me mandou uma mensagem me avisando sobre. Não sabia se acreditava ou não, quer dizer, como ela convida praticamente a escola inteira para uma festa na sua casa, todos recebem a mensagem e só a minha da erro? No mínimo estranho. Ainda mais considerando que era uma festa de despedida da sua casa antiga que ela planejou aproveitando-se do fato de que os seus pais haviam ido visitar sua avó e só voltariam no domingo à noite.
Tá, eu podia estar sendo paranoica, ela podia estar sendo sincera, mas no meu íntimo uma voz gritava: que isso! A garota ia virar minha vizinha, me conhecia há anos e não tinha me convidado?! Não consegui acreditar nem por um segundo quando ela pediu desculpas, o que podia ser idiotice minha, mas... Tinha que ter coisa ali, eu só não sabia o que era. Ainda.
Outro saber pessoal meu também havia sido quebrado essa noite, ao contrário do meu achismo, tudo indicava eles tinham aprendido como se divertir sem minha ilustre presença. Esse “eles” infelizmente também incluía meus amigos. Mas como já dizia Platão “não deixe para amanhã o que você pode beber hoje”. É... Com certeza ele não disse nada nem parecido com isso, mas teria sido sábio da parte dele. Por isso aqui estava eu com meu copo na mão, infelizmente, ou felizmente, mais uma vez vazio.
Como eu vim de carro com os meninos não queria encher o saco deles para voltar, mas eu não aguentava mais ficar aqui. Então fui para dentro da casa com o intuito de achar um dos dois patetas, eu era a terceira. Passei alguns minutos os procurando e quando finalmente achei Gustavo e ele estava com as mãos enroscadas em uma garota que eu não fazia ideia de quem era. Foi mal amigo, mas...
– Gustavo, posso falar com você? – O vi revirar os olhos e afrouxar o aperto em volta da menina enquanto se virava para me fitar e não pude fingir que não estava me divertindo com sua irritação, pois eu estava, e muito.
– Claro! – Me fitou com um sorriso meio irônico no meio de seus lábios.
Garoto mau.
– Será que você ou o poderiam me levar de volta para casa? Não estou me sentindo muito bem... – Pedi com cautela, obviamente não queria receber um não como resposta.
– As chaves do carro estão com ele, mas eu não faço a mínima ideia de para aonde ele foi. – Suspirei exasperada com a falta de sensibilidade do meu amigo em me ajudar e fui procurar o aparentemente, inútil do .
Estava me virando e, depois de apenas alguns passos, o Gus surgiu ao meu lado como um fantasma, me dando um susto.
– O que foi? – Indaguei um pouco assustada coma situação repentina.
– Sabe o que é? Eu acabei de lembrar que o foi embora. – Minha boca deveria estar formando um perfeito O.
– Acho que ele não foi não, eu o vi agora a pouco conversando com a Alice. – A menina que eu ainda não reconhecia e que ele havia soltado durante um momento se pronunciou no meio da nossa conversa. Por que ela piscava tão rápida e irritantemente? Voltando a razão da situação, percebi então o quanto Gustavo de repente parecia irritado e fiquei confusa. Eu não o tinha obrigado a se desgrudar da garota, não estava entendendo qual era a dele.
– Viu? Ele ainda esta por aqui. Ele não iria embora sem me avisar. Eu vou encontrar ele, pode ficar aí curtindo. – Disse da maneira mais cínica que cabia ao momento e voltei a andar, mas novamente ele interrompeu meus passos.
– A Laura deve ter se confundido ok? Eu tenho certeza de que ele já foi. Se você puder esperar um pouco eu já vou. – Pausou e olhou para tal da Laura antes de retornar a mim. – Ou se puder pegar uma carona... – Revirei os olhos para logo depois ver o sorriso cafajeste que estava em seu rosto, por mais que eu estivesse com raiva... Um menino como o Gus simplesmente não existia.
Mas, eles não estariam perdoados tão cedo. Umas das poucas vezes que eu saia depois de tudo que tinha acontecido e era assim que eles faziam da minha noite a melhor possível. Correndo risco de ser pega pelos meus pais a troco de nada. Belo caminho este pelo qual estava indo...
– Tudo bem. Pode deixar que eu vou dar o meu jeito.
– Tem certeza? – Pelo seu olhar eu sabia, se a resposta fosse negativa ele me levaria para casa, mas eu não queria estragar sua noite então afirmei que sim, mesmo querendo voltar para casa e chorar como uma garotinha de raiva e meio que... Solidão.
Abracei meu corpo enquanto saia da casa. Fiquei perambulando pelo jardim da frente durante um bom tempo, meu salto afundando na grama fresca e molhada, olhando para o céu, observando as estrelas e sentindo a brisa da noite bater nos meus cabelos me causando cócegas, decidindo entre pegar um táxi ou esperar até que alguém que conhecesse saísse e pedir carona.
Foi logo quando olhei para aquela macieira no quintal de frente da casa e lembrei o que já havia me acontecido ali, me perguntando então se os futuros donos iriam deixá-la ou a cortariam, e desejei sua permanência, pensei em ir até ela uma última vez para o caso dela não agradar os novos moradores. No meio daquela consideração, vi o irmão de Alice, vestido como o próprio pecado, com uma jaqueta preta que lhe dava um ar de James Dean que me fez suspirar surpresa. As chaves do carro na mão... Destino ou sorte? Ri pensando comigo mesma. Aparentemente essa noite eu ia pegar o irmão de Alice, pegar carona com ele, é claro.


Continua...

Nota da autora: (21/07/2017) Olá de novo, tudo bem?
Não fiquem com vergonha, comentem, deixem suas opiniões e críticas. Obrigada por estarem acompanhando a fanfic! Dessa vez vou deixar o link de um grupo meu no facebook. Eu o criei faz pouquíssimo tempo então não tem quase ninguém ainda, mass se der certo deu, caso contrário excluo depois e faço a egípcia haha.
Espero que tenham gostado dos capítulos, me contem tudinho sobre o que acharam, beijos!!!



Nota da beta: Se você encontrar algum erro me avise no email ou no ask. Você também pode saber quando essa fic atualiza aqui.