O Plano de Bürki

Autora: LaBerg | Beta: Ste Pacheco

Capítulos:
| 01 | 02 |

Parte I

18 min. — Faça-a notá-lo constantemente (use todas suas artimanhas).

salta no sofá, gritando de frustração ao ver seu time errar um lance perfeito.
— Oh, diabo!
Rápido como num piscar de olhos, um ponto oitenta e sete metros de altura oculta a visão do jogo. Estarrecida, ela repara no homem só de toalha na sua frente.
— Ô, Bürki — Ela agita as mãos, exasperada. — Não sei se você sabe, mas você não é fantasma não, cara. Faça a gentileza de tirar seu traseiro da frente da tevê!
— Olha esse linguajar, .
Seu espetacular sorriso sarcástico se espalha por seus lábios pintados com batom em tom alaranjado.
— Sei ser pior, quer testar? — Ela ri, ele nega. — Ótimo! Agora, dê. O. Fora. Chapa! Você está me interrompendo. É pecado me interromper de ver o Maples, quantas vezes eu tenho que dizer isso?
O goleiro faz bico.
— Mas você está aqui para cuidar de mim — Ele aponta para a mão danificada. — , eu estou com fome!
Aí, o narrador anuncia ponto dos Maples e ela salta do sofá, rapidamente empurrando Roman com o quadril e vendo o replay do lance.
— Isso! — geme em êxtase, saltitando para trás em comemoração. — Vai, Maples. Mostra pra esse time lixo como se jo.
Então a imagem some.
— Mas… o quê?
toca a tela, querendo chorar, mesmo que esteja absolutamente confusa com a parada brusca de transmissão. TV pifou? Problemas na emissora? Ela alisa a sobrancelha, com a outra mão no quadril.
A manivela acoplada em sua mente gira, gira e gira, até que um estralo nas engrenagens a faz olhar para o lado e contemplar a cena de Bürki com o cabo da tv na mão sem dano, girando-o devagar enquanto tem o ombro apoiado na parede.
— Você não fez isso — sussurra , puta da vida, pronta para agarrar o pescoço do guarda-redes.
Ele sorri como uma criança pega no flagra, mas que não tem nem uma gota de arrependimento. Até mesmo encolhe os ombros e faz cara de cão sem lar.
— Hora da comida?
— Hora do seu óbito, maldito — pragueja, em troca, expirando ruidosamente.
— Olha o linguajar.
— Que seja, Bürki! — Ela aponta para a televisão, um tanto exasperada. Completamente fora de controle, sendo mais honesta consigo mesma. — Eu nunca te impeço de ver seu time jogar, cara. Me dá um desconto! Eu estou te aguentando desde o dia que aconteceu seja lá o que for com a sua mão. Faça as contas. Eu estou sendo babá e isso está me deixando louca, camarada. É pedir muito que você colabore comigo e me deixe um tempo em paz, Roman? Eu te imploro. Será que você pode me aju. — A boca dele para em cima da dela, quase as unindo, e abre os olhos, estupefata. Como ele chegou aqui assim, tão rápido? Empurra-o pelos ombros, depressa, no impulso do reflexo. — Roman, inferno!
Algo brilha nos olhos dele.
— Faz nove dias que você está cuidando de mim, .
De queixo caído, o alfineta com os olhos, pensando ser mais do que impossível perder a cabeça em tão poucos dias.
— Impossível — cochicha. — Parece que já se passaram décadas.
— Dramática.
— Oh, fique de boca fechada, Bürki. Eu estou a ponto de explodir, não vem com gracinha agora, não! — Ela se volta para a televisão, abrindo os braços e envolvendo o eletrodoméstico. — Eu já volto, tá bom, bonita? Sente falta, não. É bem rapidinho. Vapt vupt.
Roman se atreve a abrir a boca, mas ela o coloca na mira do seu olhar assassino e ele espreme os lábios, quietinho. beija a tela, abandona a tevê, afaga sua lateral, olhando-a com carinho. Depois se afasta, com olhos tristonhos e vai até o corredor, na direção da cozinha. O guarda-redes seminu a segue em seu trajeto, logo atrás dela.
— Vai se casar com a.
— Calaboca!

Parte II

36 min. — Faça o caso (perdido) dar as caras.

Esparramada no sofá, de ponta cabeça, ela mira a cena à sua frente. Ver sua mãe toda cheia de cuidados com seu ex a estressa. Nem com ela sua mãe teve tanto cuidado!
“Roman, filho, está com muita dor?”, “Filho, fiz aquela comidinha que você ama, você quer um pouquinho?”, “Roman, você está tãããão pálido, será que não é melhor chamar o médico, filho?”.
Em menos de uma hora, Roman Bürki escutou mais vezes a palavra filho vinda da icônica Maristela Mikulski do que a própria filha dela escutou durante sua vida inteira. Isso é um absurdo!
Basta ter que aguentar o goleiro durante o dia, à tarde e à noite. Pela santa!, ela quer explodir em mil pedaços de ciúmes.
— Para de fuzilar seu ex — o irmão mais velho da longa linhagem -Mikulski se joga no sofá ao seu lado. — Mesmo sendo a única menina de sete, mamãe nunca te dará o nível de amor que dá aos seus garotos. Confie em seus olhos, irmã, ela ama mais seu ex-genro do que você.
— Vá a merda, Jared.
Como castigo, ela recebe um tapa nas coxas, que estão sobre o encosto do sofá.
— Filho de urubu — joga as pernas para frente, dá uma cambalhota e para de pé no meio da sala. Olha seu irmão com sarcasmo e não se contém em destilar seu veneno. — Sei que tenta me atingir com esse assunto delicado de amor materno, porque o papai nunca sequer te ensinou o simples ato de se barbear — pisca maliciosa. — Enquanto isso, ele me levava a todos os jogos do Maples. Só eu e ele.
Há faíscas de ira dentro das íris cinzentas dele e ela sorri alegre por ter plantando isso lá. Vê-lo cheio de raiva é o motivo do seu nascimento, é o que determinou aos seus tenros cinco anos. E desde essa idade vem executando um excelente trabalho em deixá-lo à beira do colapso.
— Dessa vez, pequena corvo — Jared determina, entregando a vitória do jogo predileto deles: quem ofende mais. Os olhos cerrados, avaliando-a. — Apenas dessa vez. Não use esse sorrisinho de triunfo.
Com um expirar delicado, dá de ombros, fitando o horizonte teatralmente.
— Perdão, — sorri de bochecha a bochecha. — Não tem como contê-lo.
Ágil, Jared se lança sobre ela, mas ela se esquiva, já preparada para o ataque. De pé, ele tenta de novo e falha mais uma vez quando joga o ombro para trás, escapando do soco por um triz.
O delay da reação de Maristela demora para ter fim, mas acontece, interrompendo-os. Seu grito é capaz de ensurdecer até o motorista distraído que passa pela rua. Ambos os filhos encolhem os ombros e protegem os ouvidos.
— Parem vocês dois, imediatamente — exige ela, em sua pose de major severa. — Seja lá o que você fez, senhorita , não é hora de atiçar seu pobre irmão. Deixe-o em paz — o alvo de crítica abre a boca, pronta para fazer sua própria defesa, mas Maristela levanta um dedo e se cala imediatamente. — Faça a gentileza de ir até a cozinha. Busque água para todos nós. Seja útil, menina.
— Certo — sopra, fervendo em si mesma para não deixar seu orgulho sobressair.
O sutil movimento de Bürki se mexendo atrai os olhos dela, que rapidamente prevê sua intenção. Com um leve meneio de cabeça, nega a ajuda do guarda-redes — ela não sente a menor vontade de fazer os desejos da sua mãe, mas é capaz de fazer uma tarefa simples (mesmo que sua intenção seja só enrolar) — e, então, se põe a cantar iodelei, só para irritar Maristela, ao passo que saltita com rumo à saída.
— Jesus, não. Por favor, sem Oesch’s die Dritten, ! — suplica sua mãe, gemendo em agonia ao por as mãos sobre os ouvidos. — Pode cantar ópera, mas sem iodelei!
se cala, feliz por atingir seu objetivo; ter sua mãe fora dos eixos. Rindo sapeca, anda até a cozinha, assobiando o ritmo de uma ópera. Lá, em frente à geladeira, seus pés se entrelaçam enquanto os olhos se mantêm fixos na tarefa de esquadrinhar cada item lá dentro. Uma garrafa atrai seus olhos. Ora, é o que tem pra hoje.
Com o vinho em uma mão, nas pontas dos pés descalços, cruza a cozinha até os armários e os bisbilhota. Barra de chocolate, cacau puro, pó de café e… Batatas.
Logo, ela dedica sua atenção a ação de despejar o vinho em uma xícara com o slogan do time auri-negro, concentrada o suficiente para não desperdiçar uma gota sequer da sua bebida predileta. Enfim, com batatas chip em uma mão e a xícara na outra, traça o trajeto de volta para a sala, bebendo o vinho.
Já na sala, distraída, ela tira os olhos da borda do fim da xícara e olha para cima, repara que tanto seu irmão quanto sua mãe se foram e que… oh-oh, inferno!
Rapidamente, seus olhos se fecham para não ver a cena proibida para exs. Alguns calafrios nadam por seu corpo, fazendo-a tremer. Pela santa! Isso é extremamente nojento. O impulso de cuspir o que bebe quase a vence, mas ela respira fundo, desliza a borda da xícara para longe dos seus lábios e toma o que tem na boca, mesmo que pareça estar com amigdalite de tão difícil que é a tarefa de engolir.
— Minha nossa! Você é… você é — Gritinho histérico. — Deus, di Marzo!
Suas pálpebras se abrem para contemplar a figura da jovem que tinha a língua na boca do seu ex, na sua frente. A mulher se treme toda, com os olhos brilhando de admiração.
decide ser simpática — usando seu arsenal disponível de quase um por cento reabastecido com o vinho — e solta uma das suas respostas espertinhas.
— Ainda não sou Deus, mas estou quase lá — e pisca um olho de brinde. — Fã?
— Mas é claro. Quem não é fã de uma lenda como você? — Ela cobre as bochechas com as mãos, fazendo um barulho estranho com seus lábios fechados que faz retroceder um passo, temerosa. — MEU DEUS! É você mesmo. Posso te abraçar, por favor? Por favor.
Embora assustada, mexe lentamente a cabeça, concordando. Em um piscar de olhos, a mulher se joga contra ela, quase a fazendo ir de encontro à parede por perder ligeiramente o equilíbrio.
Puxando ar numa respiração profunda — aparentemente, a desconhecida tem a força de lutadores de MMA —, fita o goleiro, com o nariz franzido. Ele está tão estático quanto ela e abre os braços, deixando claro que também não está entendendo nada.
Quem é ela?, mexe os lábios, sem emitir som algum. Bürki tosse.
— Debra, vejo que já conhece . , essa é Debra Satterlee — faz as apresentações. — Minha… Hummmm.
— Seu atual caso — completa Debra, afastando-se de e sorrindo como se tivesse o Papai Noel na sua frente. A visita inesperada estende a mão, prende o cabelo no topo da cabeça e usa a mão livre para se abanar. — Jesus, isso parece um sonho.
esconde o riso com a xícara. Aproveita essa desculpa para beber mais um pouco. Será um longo dia...
— Minha família não perdia uma competição sua. Até fomos ao Rio, na sua aposentadoria, seu último dia com uma espada na mão, — Debra rapidamente oculta a boca e seus olhos se esbugalham, como se tivesse cometido um erro gravíssimo. Então, diz aos sussurros: — Posso te chamar de ?
Engolindo mais um tanto de vinho, sinaliza para o sofá.
— Sinta-se à vontade para me chamar apenas pelo nome, se é isso que te perturba. Só não use mais o di Marzo, certo? Deixei de usá-lo. Que tal sentarmos?
Aquele som estranho novamente é reproduzido pela jovem fã.
— Você é tão gentil e educada — elogia Debra, andando e olhando para trás. não sabe se é para verificar que ela a segue ou se o nível de fanatismo é tão alto que pode se encaixar na classificação de obsessão.
sorri por educação, porque o impulso dentro dela de sair correndo para se esconder, é enorme. Os olhos verde musgo do atual caso do seu ex a assusta.
— Sim, sim. Meu pai sempre deixou claro que seus filhos deveriam ser dignos de realeza — Ela senta no sofá, de frente para o casal. Cruza as pernas elegantemente, lançando o seu olhar mortal para Roman que abafa o riso com a mão. Maldito! Ela se volta para a fã concentrada nela e oferece as batatas. — Aquele inglês cabeça-dura. Bom, que seja, está servida?
Debra dispensa a oferta com um abanar de mão indiferente.
— Merle Rowtreen, certo?
— Exato — pesca uma batata chip do tubo, concentrada na ação.
— Sua madrasta, Antonella di Marzo, é quem te deu o sobrenome e a cidadania italiana.
Como está com a boca cheia, a mão do alvo do inquérito oculta seus lábios para não cuspir o conteúdo de dentro da sua boca ao murmurar:
— Nossa, estou perplexa. Não vou mentir — confirma, simpática. — Você não poderia estar mais certa.
— Sou jornalista e, ? ! — Afobada, a atual companheira do guarda-redes salta do sofá e vai acudir a ex-namorada, que se engasga miseravelmente com míseros farelos de batata indo para o lugar errado. Roman cai na risada, até abraça a cintura. Maldito seja! — Deus do céu, Rommy, querido, me ajuda aqui.
Bürki ofega em busca de ar, soltando pequenos suspiro entre respirações bruscas.
— Jornalista é o maior trauma que a tem, Debra — explica ele.
— Oh, Deus, perdão. Se eu soubesse… — Não completa a frase, mesmo que continue a dar palmadinhas nível MMA nas costas da outra. se recupera o suficiente para estapear gentilmente a mão da fã e se aprumar no sofá. — Como se sente?
Em frangalhos, como se tivesse na rota de colisão de um carro, mas engole essa resposta, sorri simpática e faz sinal com o polegar de está tudo ok.
Ao se ver em uma distância segura do perigo que é a senhorita UFC, ela dá liberdade ao ar trancafiado nos pulmões. Sob o olhar atento da sua fã, engole alguns mililitros de vinho, faz uma respiração profunda e depois sorri.
— Jornalista é uma palavra proibida para mim, por assim dizer — esclarece. — Tive muitos… Hãm, como posso dizer? Incidentes com essa categoria de ser vivo.
Debra se volta para Roman com um amplo sorriso.
— Ela não é um charme, amor? — diz, para se jogar para frente em seguida, esmagando sua boca na de Bürki. Ele mantém os olhos abertos, fixos na figura da , enquanto ela coloca o dedo dentro da boca.
3-6-1.

54 min. — Quando a guarda ficar baixa, parta para o ataque (plante a confusão).

Grunhir está na função repetir desde quando seu cérebro saiu do seu estado letárgico. Mãe, maldita seja você que me fez mulher!, pragueja ao abrir os olhos, encolhendo-se até se resumir a uma estúpida bola de músculos, ossos e nervos. Cheia de dor. Logo, rápido como a duração de uma chuva de verão, aparecem os indícios que os hormônios tomam controle do seu corpo dolorido.
O primeiro indício aparece quando faz uma busca em seu celular, atrás de fotos do seu portfólio de medalhas. Sei lá quantas copas do mundo, alguns Grand Prix, um número absurdo de torneios e quatro olimpíadas. Um talento na esgrima de espadas, como papai insiste em dizer ao ver suas fitas de competições antigas.
O segundo é quando vê e revê imagens do seu pai e da sua madrasta — a saudade de repente vem forte o suficiente para arrancar lágrimas dos seus olhos geralmente desérticos.
O último é quando, de banho tomado e com seu macacão-pijama com desenhos de guarda-chuvas, ela procura o paradeiro de Roman por toda a casa. Caçá-lo é um indício, já que ela o vem evitando desde a visita do atual caso dele. Se Bürki quer grude, que compre chiclete e cole na boca!
Aos bocejos e coçando os olhos, ela encontra-o sentado no chão, com suas costas contra o sofá, jogando videogame. para na frente dele, tira o controle da sua mão e se esparrama sobre ele — com os braços ao redor do pescoço do jogador, as pernas entre as coxas abertas de Bürki e o nariz roçando na divisória do clavícula e ombro, procurando o cheiro dele.
? — mesmo hesitante, ele a abraça, com o controle de volta ao comando das suas mãos. O jogo não tem mais sua atenção, no entanto.
Com um ronronar, se encolhe em si mesma, ficando em posição de feto nas coxas dele. Aí sai o grunhido doloroso e Roman pega o som, rapidamente entendendo a situação.
— Vai ficar tudo bem, carinho — promete, largando o controle para acolhê-la em um abraço. — Quer seu remédio agora? Toalhas quentes? Seu chá? Ou talvez aquele chocolate quente que você ama.
Encurralada em seu próprio mundo de dor, ela não sabe mais quais botões acionar para falar, então só se encolhe ao sentir a pontada sem dó nem piedade da cólica e se aconchega mais no corpo do goleiro, buscando calor. O apelido que Bürki se referia a ela quando ainda namoravam não passou batido, mas fez uma nota rápida de atazaná-lo mais tarde, depois da maldita cólica passar. Depois cuidaria disso, agora… Oh, mas que dor do inferno!
— Quer que eu chame Antonella? Sua madrasta virá até aqui em duas passadas — Ele afaga suas costas, calmamente.
nega.
— Tá em Gênova.
— Isso faz nós nos fios soltos — declara, rindo e esse som parece acalentar , que usa o pescoço dele para aquecer a ponta do seu nariz gelado. — Como o porquê da ilustre presença da sua mãe. Se Nella tivesse aqui… — Bürki solta o ar entre os dentes, fazendo um som engraçado.
— Mais atrativo que final de Super Bowl? — ela quer saber.
— Não, não — Roman a envolve com mais força e se prepara para levantar. — Isso é mais local, sabe? Muito U.S.A. Ver sua madrasta enxotar sua mãe daqui seria algo como as finais de Copa do Mundo. Isso é universal. Atrativo para todos, até para quem nem sabe o que é futebol.
, no entanto, se afasta dele ao menor indício de movimento e arregala os olhos, com firmes meneios de negação.
— Você não está pensando em.
O guarda-redes cabeça-dura força as pernas e com o auxílio do sofá, se põem de pé, sem soltá-la. Ela olha o chão e espia Bürki de soslaio, de queixo caído.
— Maluco. A sua mão!
Aquele sorrisinho de menino aparece devagar nos lábios dele.
— Vai bem, obrigado pela sua gentileza em perguntar — cochicha.
revira os olhos.
— Que seja, não sou eu que estou com a mão toda fodid.
— Olha o linguajar — interrompe a tempo, com seu olhar severo.
— Bürki, você não é o meu pai!
O goleiro pisca um olho.
— Graças a Deus, não? Tenho que agradecer por isso toda noite quando rezo.
Pronta para retrucar, ela separa os lábios, mas logo os espreme ao sentir pontadas na região da barriga e abraça Roman mais forte, querendo descarregar a dor em algo.
— Você precisa de um desvio de atenção — Ele determina, percorrendo o corredor em gentis passadas para não se mexer muito e incomodar . — Il volo, Sarah Brightman ou os três tenores?
geme em frustração.
— Não me fale de Il volo — pausa para liberar um suspiro classe apaixonado. — Cara, se eu soubesse que Gianluca Ginoble fosse se tornar o que é hoje… Pela santa! Que pecado.
— Serve esse suíço com bons reflexos que te carrega? — se insinua, com uma sobrancelha arqueada e um sorriso preso no canto da boca.
Ela ignora com sucesso sua sutil investida ao começar a cantarolar The Lumineers. Roman não aceita ser jogado de escanteio, no entanto, e se esforça para encontrar em seu disco rígido o ranking de quais assuntos chamam a atenção da mulher em seus braços.
, carinho — chama. — Lembre-se dos seus papéis de origami. Que tal usá-los agora para se distrair?
se cala, considerando a sugestão e colocando mais um carinho repetido na sua coleção de apelidos da época de namoro. Algo infantil enche seus olhos ao fitar o guarda-redes.
— Parece tentador.
— Eu sei.
Confusa, ela franze o nariz.
— Sabe o quê?
Bürki só sorri de canto, mergulhando-a no mar de cobertas da cama dele. O jogador ostenta seu olhar profundo hipnótico ao deslizar para cima dela em seus joelhos e palmas das mãos.
Por ter acontecido tudo de repente, só pode levantar as mãos antes inúteis e fixá-las contra os ombros dele. Sua respiração, porém, é impossível de retomar o controle.
Roman sorri.
— Que eu pareço tentador.
Ela pisca, pisca, pisca.
— O quê? — sopra.
A resposta dele vem em ações. Ele flexiona os braços até ter seu nariz com o dela, então, fecha os olhos enquanto desliza seu rosto para o lado e raspa sua barba contra a bochecha de . Roman se dedica a deixá-la arrepiada quando move uma mão e leva seus dedos até o primeiro botão do macacão de dormir dela.
— Sabe, — Bürki degusta uma faixa de pele do maxilar dela ao lamber devagar. — É bom saber que ainda provoco reações em você, .
— Reações? — cochicha.
— Sim — Ele desabotoa mais um, não se faz de rogado e infiltra sua mão até tê-la sobre o coração que bate depressa dentro dela. — Isso aqui parece o bastante para eu saber que ainda sente algo por mim.
Então, Roman se afasta o suficiente e fica cara a cara com ela. Ela mantém os olhos fechados, o que o faz sorrir e se aproximar, até ter sua boca sobre a dela.
— Sinto sua falta, carinho.
Ali, no quarto dele, com o cheiro do guarda-redes impregnado no ar, o que a deixa um tanto quanto tonta, seu ex abre seus lábios e a beija depois de mais de um ano e meio separados. E ela permite.
Assim como permite mais um e outro, e mais outro beijo. E até dormirem abraçados — Bürki a cobre com seu corpo, como se fosse uma muralha para impedi-la de fugir.
Grande erro.
3-4-3!

72 min. — Confunda seus sentimentos (dica: não deixe que ela descubra sua real intenção).

Tamborilando os dedos ao som de con te partirò emitidos por seus fones de ouvido, ela destina o restante da sua atenção ao jornal. Ler notícias a acalma, principalmente aquelas que dá enjoo de tanto desgosto.
Sua mente trabalha a todo vapor. Ao despertar e tatear a cama, ela supôs que encontraria um delicioso corpo inerte entre os tecidos, mas o que achou foi o enorme nada. Roman também não deixou rastro que indicasse sua presença recente em nenhum dos outros cômodos da casa que ela percorreu até o banheiro. Meus parabéns, isso é por ter sido trouxa e se deixar levar pela tentação dos beijos e carícias do ex!
Depois de visitar o banheiro, foi até a cozinha, faminta. E encontrou um enorme vaso de copos-de-leite e tulipas arco-íris. Ora, suas flores preferidas. Ela sorriu. Mas a felicidade não durou muito, porque ela leu o bilhete.

Foi uma noite incrível, carinho. Volto de tarde, Debra me convidou para tomar café e almoçar na casa dela. Com todo amor, seu Roman.

Mas que cafajeste! Se é meu, por que está com outra?
Agora, depois de esmurrar a parede por alguns segundos a fim de choramingar por ter os nós dos dedos doloridos, ela está deitada de forma inapropriada no corredor da biblioteca estadual, batucando os indicadores contra a capa de um jornal qualquer. Com os pés cruzados contra a estante e as costas no chão, suas mãos seguram sua fonte de notícias acima da sua cabeça.
Sabia que não deveria ter ido atrás dele quando recebeu a primeira ligação da família Bürki. Era uma enrascada. Ter que escolher entre a espada e o goleiro, no dia que Roman foi contratado pelo Borussia, foi péssimo, mas ter que cuidar dele está sendo um desafio e tanto. Seja como for, precisa dar o fora dali enquanto é tempo. Agora não tem sua carreira para impedi-la de viver ao lado dele em Dortmund, o que torna tudo mais perigoso. Ex serve para ficar no passado, não mais que isso. Se bem que...
Diabo, mulher, foco! Exige de si mesma. Bürki e não existe mais e fim.
Imersa em seu mundo, ela só nota estar em rota de colisão ao sentir um peso morto em cima da barriga. Não dói, no entanto. coloca o jornal para o lado e olha para baixo. Para assistir uma pequena criança estarrecida com grandes olhos, fitando-a com pavor.
sorri simpática.
— Olá, você.
Ela tira os fones, encarando o garoto que ainda se mantém estático com notável medo sobre sua barriga, abrindo e fechando a boca, como um peixinho.
— Ömer — alguém repreende.
A criança levanta a cabeça e pisca confusa para a mulher à sua frente, faz o mesmo e se dá um tapa por não ter reação imediata. Então ela segura o menino, recolhe as pernas, levanta a cabeça e o ajuda a ficar de pé. Ömer, já com os pés no chão, estica a mão, a segura pelo ombro e se esforça para ajudá-la a se colocar de pé — mesmo que sua força seja nula para içá-la, ela admira o ato.
— Obrigada — agradece de pé, mas logo se volta para quem possivelmente é a mãe dele. — Seu filho tropeçou em uma lombada pelo caminho. Peço desculpas por isso, — sorri sem graça ao apontar por sobre o ombro, para as diversas pilhas de livros e jornais logo atrás. — Eu admito que foi de enorme malcriação da minha parte sequer cogitar a ideia de deitar justo aqui — explica-se, com medo dela chamar a atenção do pequeno.
Olhando para baixo, vê olhos verdes a fitando com pesar. Cheios de culpa. Ela tem o impulso de abraçá-lo, mas se contém.
— A culpa não é toda sua — diz a mãe, olhando o filho de soslaio. — Biblioteca não é local para brincadeira, mas tenta dizer isso para ele — e aponta o filho com o queixo, sorrindo, o que faz soltar o ar em alívio e desativar alarmes internos de uma possível mãe furiosa à vista. — Sou Tuğba — sua boca se mantém aberta, mas som algum escapa por algum tempo até que ela engole e completa: — Şahin.
— se apresenta, apertando a mão estendida. Ela pisca um olho, torce os lábios e vê o garoto mais uma vez, antes de propor: — Sinto que preciso recompensar essa cena. Já tomaram café-da-manhã?
Algo reluz nos olhos do menino.
? — Ömer sinaliza com a mão para ela se aproximar dele e senta sobre os calcanhares, sem entender o pedido. Ele acolhe seu rosto entre as pequenas mãos e o vira de um lado para o outro, até que arregala os olhos, se afasta, oculta a boca e fala, abafado: — Você é a mulher da espada! di Marzo.
Ela franze o nariz, rindo.
— Parei de usar esse sobrenome quando dei adeus à esgrima, garoto — pisca. — Quer tomar café comigo?
Ömer concorda veemente.
— Então, — Ela olha Tuğba, que parece um tanto fora de órbita. — Peça a sua mãe.
— Mãããe!

⚔⚽⚔

lambe os dedos, rindo consigo mesma por estar sendo tão indelicada. Se estivesse ali, seu pai a faria pagar vinte flexões por fazer tal ato que vai contra toda as aulas de etiqueta que ele se empenhou em ensiná-la.
— Tenho que concordar — ela aponta para seu prato. — São os melhores waffles, sem a menor dúvida!
— Eu te disse — Ömer diz, de boca aberta, o que faz sua mãe repreendê-lo com o olhar. — Foi sem querer, mamãe. Desculpa. — Ele olha e cochicha com a mão sobre a boca: — Ainda tem sorvete e calda de chocolate!
Ela arregala os olhos, imitando-o, e balança a cabeça para concordar. Satisfeito com a reação dela, ele volta a comer, mergulhando em seu próprio mundo. passa o papel na sujeira que vê na bochecha do menino, voltando a olhar Tuğba depois.
— Você tem jeito com crianças.
— Eu e meus irmãos somos em sete — conta ao dar de ombros e vigiar Ömer com o canto do olho antes de destinar total atenção a mãe dele. — Você pode imaginar a quantidade absurda de sobrinhos que tenho.
Tuğba sorri.
— Posso sim — Ela mordisca seu waffle, mastiga, engole e volta ao bate-papo. — Sabe, uma vez li que você morava na Itália com sua madrasta e o seu pai — diz, devagar. — Te encontrar aqui é uma surpresa agradável. Desde a olimpíada do Rio, Ömer só sabe pedir a mim e ao pai dele que o coloque em aula de esgrima. Por sua causa.
— Te garanto que não vai se arrepender. Sou o que sou por causa da esgrima — espia seu pequeno fã. — Moro em Gênova, realmente. Estou aqui para ajudar um… Hãm, bem, amigo de longa data — pontua com um riso desleixado, quase nervoso. Seriam amigos com benefícios depois da noite passada?
recolhe mais um pouco da gororoba que se formou no prato e enfia na boca. Assim é melhor. Sem maneiras de falar, sem pensamentos bobos. Tuğba parece se interessar pelo assunto.
— Desde quando está aqui?
— Para ser sincera, perdi a noção do tempo — pausa para mastigar. — Tudo que me lembro é de vir para cá assim que a família Bürki me ligou, depois disso, só me dediquei a aguentá-lo com a mão machucada que ganhou em algum jogo do time que faz parte — suga o lábio para não rir sozinha e dar a impressão de ser insana. — Tarefa difícil, a propósito. Quase missão impossível.
A mulher perde a fala.
— Tuğba? — estala os dedos.
— Você disse Bürki?
— Exato.
— Isso explica muito — Tuğba solta os talheres, rindo com malícia enquanto volta a encostar as costas no encosto do assento. — Hoje levei meu marido para o treino. Alguns jogadores estavam em volta de Roman e escutei algo como: a noite foi boa, que arranhado é esse na clavícula? Eu não entendi direito, mas nem liguei. Agora… Tudo faz sentido.
sorri apenas por educação enquanto analisa a novidade.
— Você está se referindo a Roman Bürki? — questiona, para ver se ouviu direito.
— Esse mesmo.
— E ele está no treino?
Tuğba nega.
— Não, não. Nuri, meu marido, me contou que Roman vai ficar oito semanas fora. Então, deve ser exames apenas. Ele não te contou?
Em sua própria confusão de emoções, ela nega lentamente. Mentir pra quê?
— Acordei tarde, não o vi — sorri com técnica, atuando uma alegria que não sente de verdade naquele momento.
4-2-3-1!

Fim de jogo.

Roman tentou mais de cem vezes. Obteve caixa postal, mensagens não lidas e silêncio absoluto de . O guarda-redes não sabe em qual parte houve o desvio direto para o fracasso. Teve um, porém.
Cada ações e possíveis reações do seu plano foram pensadas, repensadas e planejadas. Ensaiou com seu pai a voz que deveria usar ao ligar para sua ex, além das palavras certas que a faria sair depressa do Nepal e ir imediatamente para solo alemão. Treinou seu irmão para buscar no aeroporto com mais desespero do que a situação previa. Essa partida era dele.
Seria o seu jogo da vida que faria a mulher da sua vida cair de volta onde ela pertence: ao lado dele. Seriam dias que formariam os seus noventa minutos mais importantes. Tudo foi feito como planejou. Até os quarenta e cinco do segundo tempo, onde tudo deslanchou e ela não estava mais em casa quando ele chegou depois de uma bateria de exames para o departamento médico do clube.
Mas é o que dizem: sorte no jogo, azar no amor. E ele está contando com isso enquanto salta de pé para pé em território português, aquecendo-se para a partida contra o Benfica.
Tudo o que tem são os talvez. Talvez deveria ter deixado óbvio que a queria de volta. Talvez não era hora de tentar reaproximação, mesmo que a aposentadoria dela fosse um sinal claro para ele que sim, era a hora. Talvez a fuga escondida de seja um não muito claro.
Seja o que for, quase dois meses se passaram e nada de . Nem sequer um impossível, mas agora tão irresistível, sinal de fumaça.
— Não é hora para devaneios — repreende a si mesmo ao ouvir o apito que dá início a partida.
Horas depois, no fim do jogo, ele percebe que não. Aquilo de azar no amor, sorte no jogo é uma grande idiotice. Tudo está indo de mal a pior e nada parece estar na trajetória certa. E o um a zero para o time da casa é o indício.
Se no vestiário Roman classificou como clima ruim, no avião, de volta a Dortmund, está nível sessão de terapia para depressivos. Ninguém se dá ao luxo de sorrir e nem tem motivo para tal feito.
Ele se empurra para dentro de casa assim que isso é uma possibilidade. Solta a mala e fecha a porta com as costas, cabisbaixo. Embora esteja com a mão novinha em folha, sua vida parece estar indo ao fundo e além.
Lembrando-se da sua recuperação, Roman também relembra da sua garota. E ali saca seu celular e desliza o dedo pela tela, longo indo atrás do número dela. Já que o dia terminou tão ruim, não custa nada tentar mais uma vez.
Com os olhos no chão, ele coloca o celular no ouvido e quase que instantaneamente uma música instrumental de ópera rompe a quietude da casa. Bürki reage imediatamente e olha para o sofá a tempo de ver de óculos de grau, xícara em uma mão, almofada nas pernas cruzadas e celular na outra mão.
— Caraaaa, você sabe ser estraga prazer até quando não quer — Ela sobe os olhos até estar fixos nele. — Eu estou dando consecutivos xeque no computador. No nível difícil. Será muito pedir que me deixe finalizar isso daqui, parça?
Roman gagueja: — ?
Ela sorri esperta.
— Quem é vivo sempre aparece, não é o que dizem?
— Você não é do tipo que representa o que dizem por aí — retruca, desligando a chamada inútil e sorrindo como realeza em espetáculo de bobo da corte.
— Depois de dias a fio pensando em você, eu passei a reconhecer que eles estão certos quanto a isso.
Ela olha ao redor, ele a acompanha e vê bugigangas que são a cara dela espalhadas por sua sala. Burki engole saliva, ansioso para que se explique.
— E eu decidi por conta própria, e sem pedir autorização, passar algumas temporadas aqui — coloca a xícara em frente à boca e sobe uma das sobrancelhas ao murmurar: — Problemas?
Roman sorri eufórico.
— Nenhum — agita a cabeça veemente, como uma criança e expõe seu melhor sorriso. — Não mesmo.
Talvez aquilo que dizem sobre sorte no amor, azar no jogo, não esteja errado, afinal. Decide ao saltar sobre , que grita histérica e derrama café no sofá.
— Sai de cima, Ogro! Ah, olha o que você fez! Eu não vou limpar isso não — fecha a cara e revira os olhos. — Você é pesado, sabia?
Ele sorri cheio de graça: — Cala a boca e me beija, resmungona.
suspira.
— Só porque eu quero, não porque você mandou!
— Eu não mandei.
— Você não disse por favor — justifica-se, com aquela sobrancelha em pé de novo.
— Sério? — Roman questiona, faz que sim com a cabeça. Ele faz cara de tédio, mas faz o que pedem: — A senhorita poderia me beijar, por favor?
— Agora sim — e ela o beija.

Continua...

Nota da autora: Sem nota.

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