Autora: Aurora Celina| Beta: Mily

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Prólogo

Aquela área estava calma. Não havia nenhum sinal de que ela tinha que agir, por isso ficou no canto, fingindo olhar pela janela enquanto o trem ia a toda sua velocidade. O comunicador em seu ouvido chiava, mas ela ignorava sabendo que era algum problema técnico e que Denny o consertaria o mais rápido possível. Sua respiração estava lenta, embora ela soubesse que estava ansiosa para que aquela missão tivesse seu fim e ela pudesse relaxar na banheira de seu novo apartamento sem se preocupar se o seu alvo era alguém extremamente perigoso ou não. Seus olhos passearam pelo vagão do trem que estava e viu poucas pessoas, constatando por fim, que estava calmo até demais. Não era preciso ser profissional. Até um aprendiz sentiria e saberia só de olhar que quando estava tudo calmo e fácil demais, tinha alguma coisa errada. Mas era sempre difícil adivinhar o que seria, portanto, ela passou a ficar inquieta, cutucando os dedos sobre as coxas dobradas.
escutou o choro de uma criança ecoar pelo lugar e deu um suspiro longo, verificando a criança e a mãe do outro lado. A mulher, por sinal, estava nervosa demais e pareceu não ligar que o bebê estivesse chorando.
- .
Escutou a voz de do outro lado do comunicador e revirou os olhos.
- Não por esse nome, .
O homem riu do outro lado, mas recuperou sua postura rapidamente.
- Oh, sim. Preciso que me diga como está a situação.
mordeu os lábios, passando os olhos mais uma vez pelo vagão. Não tinha nada de suspeito aos olhos dela. Porém, quando o motorista anunciou a estação, fazendo o trem parar antes que a agente pudesse dar a resposta, escutou um tiro ecoar, fazendo-a se abaixar e retirar sua própria arma da cintura. Olhou para trás e o choro da criança parecia ter aumentado. Mas pôde afirmar que não havia nenhum ferido, exceto que viu o atirador. As pessoas saindo ás pressas dificultavam sua posição de fazer alguma coisa, mas suas mãos foram rápidas ao atirar contra o criminoso que dava seus passos até a mulher com a criança no colo.
- , preciso de reforços aqui. Peça ao Denny minha localização e tente aparecer o mais rápido possível – ordenou contra o comunicador, tendo como resposta um murmúrio positivo do parceiro. andou devagar até o atirador, vendo que o tinha atingido na perna direita. Ela umedeceu os lábios, tentando se manter firme e pensar. O homem estava jogado no chão, gemendo de dor segurando uma das pernas. Viu a agente se aproximar e pegou sua arma de volta e mirou-a, mas a mulher fora mais rápida e disparou contra sua mão fazendo o gritar e em seguida, ser atingido com outro tiro, dessa vez no peito.
- Oh, Meu Deus!
guardou a arma, escutando a exclamação da mulher. Só havia elas ali, já que os outros se puseram para fora assim que o primeiro tiro foi ouvido. A agente andou até a mulher assustada e parou na sua frente.
- Você está bem?
- Sim, sim, eu... – a mulher tentou formular uma frase, mas estava assustada demais para tal ato. tentou acalmá-la, mas parecia ser uma tarefa difícil.
- Sinto muito que tenha presenciado isso, eu...
- Ele mereceu – escutou a voz da mulher cortar suas palavras e escutou a criança no colo dela voltar a chorar – Proteja-a, por favor. Ele não é o único, tem mais vindo... Tem mais e... Eles não irão parar. Por favor, proteja-a.
A agente estreitou os olhos, demonstrando confusão. Tentou compreender as palavras da mulher direcionando seus olhos á garotinha no colo dela, mas não conseguia entender. Antes que perguntasse alguma coisa, escutou o som de um tiro atravessar o vidro e atingir a mulher nas costas. gritou pela ação inesperada e observou que o tiro tinha vindo de algum ponto alto fora do trem.
- Não. Não!
- Proteja ela.
Foi o último pedido da mulher antes de vê-la fechar seus olhos. A agente se sentiu perdida, encarando o bebê, sem ter certeza do que deveria fazer em diante. Foi só então quando escutou outro tiro atravessar a janela, que ela pegou a menina dos braços da mãe e saiu do trem.
- ?
Seu comunicador estava chiando um pouco, mas ainda assim, ela compreendeu o que falava.
- Temos uma grande perseguição, . E, aparentemente, um bebê para proteger.



One

Os olhos dela tinham uma cor instigante e atraente. Do tipo que você podia ficar horas ali só olhando para aquele par de olhos inocentes que não fazia ideia da encrenca que estava. Para falar a verdade, nem eu sabia, mas isso eu deixava para depois. Eu estava sentada no sofá do meu novo apartamento e meu desejo de inaugurar o lugar tomando banho naquela grande banheira luxuosa do meu quarto foi por água abaixo, visto que eu estava com uma criança no colo e eu nem sequer sabia seu nome.
Escutei a porta ser aberta e tirei meus olhos da garotinha, olhando sob o ombro para verificar que quem tinha entrado era o .
- Ela está quieta há duas horas. Isso é normal, não é? – expus minha dúvida, tendo como resposta uma risada dele.
- Você acha que criança chora o tempo todo? – ele retrucou, com um humor novo na voz.
- Sim.
se sentou ao meu lado, afundando o sofá mais um pouco e eu me virei com a menina, estendendo-a para ele.
- O quê? – sua voz se fez em confusão e eu coloquei a bebê no colo dele, sem avisar.
pegou-a um pouco desajeitado, mas conseguiu segura-lá com cuidado sem que deixasse cair.
- Não aguento mais esses olhinhos que eu não sei a cor me encarando como se eu tivesse fazendo alguma coisa errada – expliquei.
Olhei ao redor do meu apartamento, vendo que tinha algumas coisas fora do lugar ainda, já que eu não tive tempo nenhum para a mudança.
- Âmbar – disse.
Virei meu rosto para ele, em confusão.
- A cor dos olhos dela é âmbar – ele explicou revirando os olhos – É raro, mas existe.
- Oh, que garotinha sortuda – exclamei.
- Não temos mais nenhuma informação sobre o ocorrido e nem sobre ela – ele começou, apontando com a cabeça para a menina em seu colo – Não sabemos o que aconteceu, mas não podemos ficar com a criança. Precisamos levá-la para algum orfanato.
Mordi minha bochecha por dentro, parecendo pensar. Um turbilhão de coisas se passou pela minha mente e eu balancei a cabeça devagar, como sempre fazia quando achava que alguma coisa não se encaixava. pareceu perceber minha hesitação, porque abriu a boca para falar:
- Vamos lá, ...
Peguei uma almofada, tendo a intenção de jogar nele, mas desisti quando lembrei que ele ainda estava com a menina no colo.
- Não me chame de ! – ralhei – E vamos lá digo eu. Porque diabos a mulher me pediria para protegê-la então?
- Há uma série de fatores para isso, mas que infelizmente não temos as respostas. Portanto, nós vamos levar esse bebê para o orfanato.
Eu me preparei para debater outra vez, sentindo que ainda assim alguma coisa não estava se encaixando, quando ele completou me fazendo desistir:
- Ordem de Philipe.
Joguei a almofada para o lado, dando de ombros. Eu nunca questionava as ordens de Philipe, principalmente porque eu sempre me encrencava quando fazia.
- Certo – pus um fim no assunto, me dando por vencida.
- Olhe, ela dormiu – o sorriso estava presente no rosto dele e eu mordi meu sorriso, me segurando para não soltar alguma gracinha. estava se divertindo com aquele momento e eu não estragaria para meu prazer.
- Pode levar com você – eu disse, me levantando do sofá – Eu não vou dormir com um bebê que pode me acordar com um choro no meio da noite.
- Insensível – ele murmurou.
- Eu escutei – avisei.
Deixei-o em paz e andei pelo apartamento, me sentindo livre e completamente feliz por finalmente ter um lugar ótimo para morar e sem dividir com ninguém – a época da faculdade me deixou traumatizada pelo resto da vida.
Eu corri para o meu quarto, como uma criança prestes a ganhar o presente desejado e entrei diretamente no banheiro, encarando a banheira bem á minha frente. Sorri dramaticamente e alisei a parte de cima, me sentindo tentada a tirar a roupa ali mesmo e entrar, para que eu finalmente matasse meu desejo de ficar relaxando ali dentro.
- Ande logo, consigo ver sua animação daqui – escutei a voz de atrás de mim e me virei para olhá-lo.
- Você acha mesmo que eu vou tirar a roupa na sua frente? – perguntei.
- Nós corremos perigos juntos, por que não posso te ver tirar a roupa? – argumentou, levantando a sobrancelha direita em um divertimento inexplicável.
- Saia daqui – mandei, soltando uma risada pela sua cara de pau e escutei um choro ecoar – Ei, não olhe para mim. Eu não sei acalmar bebês.
- Você ao menos tentou?
- ... – meu tom de aviso se fez presente e ele revirou os olhos, se dando por vencido.
Eu mandei um beijinho no ar, deixando que meu sorriso vitorioso se estampasse no meu rosto ao ver ele dar meia volta e sair dali. Voltei a olhar para a banheira e liguei a torneira para começar a encher.
- Ah, agora somos eu e você.

- Ei, por que o celular está apitando tanto? – perguntei, assim que eu saí da banheira enrolada no roupão e vi na cama com a menina.
- Philipe está nos chamando na agência – ele explicou.
- Agora? – fiz uma careta – É tipo... Dez horas da noite.
Ele deixou a menina de lado e se sentou na beira da cama com o celular em mãos. O meu ainda apitava, então andei até ele na cômoda pequena e bati, fazendo o desligar.
- O que você acha que ele quer? – continuei a perguntar, o qual deu de ombros apenas.
- Não sei, talvez tenha alguma informação no caso da Zune.
- Zune? – expus minha confusão ao nome.
- Ela – apontou para a menina, que estava com o pé pequeno na boca.
Eu encarei meu parceiro, como se o repreendesse pela sua atitude e ele me olhou de volta. Umedeci meus lábios, dando passos lentos até ficar na frente dele e coloquei minhas mãos sobre seus ombros.
- Você acabou de nomeá-la de Zune? – questionei com cuidado.
- Não sabemos o nome dela – se defendeu, me olhando nos olhos.
- Nós praticamente sequestramos essa criança, mas em minha defesa, a mãe me pediu para proteger. E não encontramos alguma família que ela venha a ter aqui e eu nem sei se ela corre mesmo algum perigo – dei de ombros – Então você chega aqui e diz que temos que mandá-la para um orfanato, mas acaba de nomeá-la de Zune?
- Qual seu problema? – ele provocou, tirando minhas mãos dos seus ombros.
- Meu problema? – trinquei os dentes, sorrindo raivosa – Nenhum. Você acaba de nomeá-la de Zune! Estamos há umas quatros horas com ela e você já está apegado, cruzes.
- Não tenho culpa se você é insensível – ele retrucou, em seguida sorrindo – E você está gostosa nesse roupão.
Dei um tapa em seu ombro, me afastando.
- Admito que ela é adorável, mas eu tenho pavor de crianças – me defendi.
soltou um suspiro e eu ouvi seu celular apitar mais uma vez. Peguei-o da sua mão e desliguei como fiz com o meu e o joguei em cima da cômoda.
- Vamos logo para a agência antes que eu enlouqueça com esses apitos irritantes – avisei.
Abri a porta do closet e encarei as inúmeras roupas organizadas que havia ali. Primeiro peguei uma lingerie e vesti ali mesmo, sem me importar e dar atenção se estava vendo ou não.
- Vamos levar a Zune?
- Pare de chamá-la assim. Não dê um nome para ela – reclamei – E sim, vamos levá-la.
Por fim, vesti um conjunto simples e ajeitei meu cabelo na velocidade da luz. Não quis me maquiar e nem me arrumar demais, então só calcei os saltos e esperei pegar a menina no colo – ela tinha o quê? Uns oitos meses? – e saímos juntos, me deixando trancar a porta.
O elevador demorou um pouco a chegar, mas quando chegou, veio vazio, o que eu agradeci mentalmente. A garotinha tinha as mãos pequenas ao redor do rosto de e ela sorria, deixando uma pequena baba escorrer do canto de seu sorriso.
- Urgh – fiz uma cara de nojo, apenas para provocar meu parceiro, que revirou os olhos em minha resposta e eu sorri.
- Não quer mesmo segurar ela? – ele tornou a perguntar.
- Não – respondi rápida, deixando claro o meu desejo de não manter contato com a menina. Os olhos dela eram mesmo instigantes.
O elevador apitou, indicando nosso andar e saímos juntos. Mas antes que pudéssemos completar o caminho, eu segurei o braço de , o fazendo parar de andar também. Ele me olhou confuso, questionando minha atitude, mas tudo o que eu fiz foi apontar com a cabeça, o mais discreto possível, para onde o porteiro estava. Ao redor dele, havia mais uns três caras que eu julgava estar tentando convencer o porteiro a os deixar subirem. Seria uma situação normal para qualquer um, mas meus olhos suspeitos captaram a arma em posse de cada um, o que só podia significar uma coisa: eles estavam atrás de alguém. E considerando o ocorrido de mais cedo com a bebê, eu não tive dúvidas de quem era o alvo. pareceu tirar a mesma conclusão que a minha, porque deu um passo devagar para trás.
- Não tem outra saída? – ele sussurrou, segurando a menina tão firme em seus braços que eu me perguntei se não estava a machucando.
- A escada de emergência. Dá para a garagem, onde está meu carro – lembrei, dando um passo devagar para trás, o acompanhando.
- Certo, não podemos chamar atenção, então... – ele avisou, se virando de costa para os homens – Devagar.
Eu assenti, engolindo a seco. Me virei como se não estivesse acontecendo absolutamente nada e coloquei meu melhor sorriso no rosto, vendo que a bebê me olhava por cima do ombro, retribuindo seu pequeno sorriso cheio de baba.
Que adorável.
foi na minha frente, seguindo para as escadas de emergência. Eu teria seguido sem problema algum, se não estivesse tão distraída olhando para a menina a ponto de trombar com outra pessoa na minha frente, me fazendo cambalear para trás. Por sorte, eu não tinha caído, mas para meu azar, a pessoa cujo eu trombei estava com alguma coisa de vidro que quando deu de cara com o chão, fez um estrondo tão grande e eu senti algum pedaço de vidro atingir a parte da minha coxa me fazendo soltar um gemido.
- Me desculpe! – percebi a mulher á minha frente, com um olhar desesperado – Eu não tinha te visto e...
- Tudo bem – respondi apresada, fazendo sinal para que seguisse em frente sem esperar por mim.
- São eles! – escutei a voz atrás de mim gritar e quando me virei para ver, observei os três caras apontarem para mim e começarem a passar pelo porteiro, tendo a arma em suas mãos agora.
- Caralho – xinguei baixinho, tirando meus saltos.
Comecei a correr, seguindo . Ele passou a segurar a menina com toda força e quando encontramos as escadas, começamos a descer com toda pressa e velocidade que possuíamos no momento.
- Diga que você está com as chaves – pediu.
- Eu preciso de uma arma! – exclamei indignada e isso resultou em a garotinha começar a chorar – Oh...
- Está na parte de trás da minha calça – ele avisou.
Segurando meus dois sapatos com uma mão só e deixando que ele corresse na minha frente, eu tentava tirar a arma da parte de trás da calça dele, mas as escadas dificultavam o processo. Quando escutei um tiro ecoar e atingir a parede a minha frente, eu empurrei com um pouco mais de força, o fazendo acelerar o passo.
- Droga – xingou ele – Eles estão perto.
O pedaço de vidro parecia ainda perfurar a fundo a minha pele e estava começando a arder, mas eu não tinha tempo para dar atenção aquilo no momento.
- Você não consegue fazê-la parar de chorar?! – exclamei, visilmente agoniada e atordoada pela situação.
- Ela está com medo, estamos correndo feito loucos – defendeu.
Finalmente, quando chegamos no fim das escadas de emergência e chegamos á garagem, eu conseguir tirar a maldita arma dele. me esperou localizar meu carro, e quando eu o fiz, voltamos a correr até chegar nele.
Tirei a chave do meu bolso com dificuldade, tentando manter a arma segura e ainda segurar os saltos. A menina ainda chorava e eu via a tentativa de de acalmá-la, mas parecia tudo em vão. Abri a porta do carro, deixando que ele entrasse no passageiro e eu entrei no banco do motorista, fechando a porta com força e jogando os saltos no banco de trás. Girei a chave no volante e quando apertei no acelerador, um tiro atravessou a janela de trás, fazendo eu e nos abaixar e eu finalmente dar partida no carro, nos tirando dali. Me permiti suspirar aliviada, soltando a arma no meu colo, mas eu ainda dirigia a toda velocidade, apenas para ter a certeza de que não estávamos sendo seguidos.
- Devagar, .
- . Pare de me chamar de – bufei, diminuindo a velocidade.
- É sexy.
- Não estou para gracinhas no momento, .
Ele bufou e a menina parou de chorar.
- É, como se não bastasse uma perseguição ser ruim, é ainda pior quando envolve um bebê.
Soltei um gemido, sentindo a dor na coxa voltar. Olhei rápido e vi o sangue escorrendo lentamente e eu senti me seguir com o olhar, porque em seguida, sua mão grande e quente pousou na minha coxa, acariciando o local um pouco acima de onde o vidro estava perfurando. Pigarreei, voltando minha concentração para o volante, mas ele não tirou sua mão dali.
- Não podemos voltar á agência – declarei, tentando me distrair da dor e de sua mão me acariciando.
Não me leve a mal, nós trabalhamos juntos há dois anos e nos tornamos uma espécie de bons amigos – que se provocam o tempo todo na brincadeira – mas eu também não podia negar a iminente tensão que se instalava em nós em horas inapropriadas, parecendo querer me castigar por todas as vezes que rejeitamos uma oportunidade de se pegar.
- Por que? – sua voz saiu baixa, enquanto ele alternava sua atenção a garotinha e a mim.
- É o primeiro lugar que vão nos procurar – expliquei.
- Mas o Philipe...
- , essa garotinha que está nos seus braços agora está correndo perigo e vimos isso agora á pouco – parei o carro em um sinal vermelho e olhei para ele – Eu não sei quem são esses caras e porque querem a Zune, mas se eles foram capazes de encontrar o lugar onde moro, são capazes de coisas piores, portanto, não vamos á agência.
- E para onde vamos? – ele questionou.
- Sinceramente, não sei – respondi frustrada – Mas precisamos de um lugar para ficar, por agora.
mordeu os lábios e inconscientemente, ele apertou a minha coxa no qual eu soltei um gemido de dor, trazendo-o de volta á realidade.
- Desculpa! – se apressou em dizer – Eu tinha esquecido.
Zune nos olhava curiosa, chupando um de seus dedos. Eu contorci meu rosto em uma careta, aceitando as desculpas dele e voltei a dirigir quando o sinal se tornou verde.
- Tudo bem.
- Não quer ir ao hospital?
- É só um corte – fiz pouco caso, dando de ombros.
- Nesse caso, eu tenho um lugar para passarmos essa noite – anunciou, tirando sua mão de minha coxa e eu estranhei a ausência – O resto podemos decidir depois.
- Isso significa que nós vamos proteger a Zune?
Ele me ofereceu um sorriso significativo, que eu pude ver de lado, já que eu não podia tirar os olhos da estrada.
- Você não disse que nomeá-la era sinal de apego? – se divertiu.
- Não estou apegada – balancei a cabeça, negando.
- Pise no acelerador, . Acabamos de iniciar a “Operação Bebê.” – disse, levando seus olhos para Zune dormindo em seu colo.
- Que ridículo – revirei os olhos.
Ele gargalhou e voltou a acariciar mina coxa, enquanto encostava a cabeça no banco. Eu pisei no acelerador e segui o caminho que ele me indicara.


Two

- Que lugar é esse?
Encarei o grande jardim pela janela do carro, mas não tive resposta para a minha pergunta. tinha saído do carro, me deixando falando sozinha. Tirei a chave do carro e saí também, parando ao seu lado na calçada, deixando o carro estacionado ali mesmo.
- É aqui que vamos ficar hoje – ele avisou.
Dei de ombros, seguindo seus passos até a porta da casa. Ele apertou o botão de campainha e em alguns segundos, uma mulher de estatura baixa e cabelos brilhantes atendeu a porta. Pude perceber que ela estava grávida, a julgar pelo tamanho da sua barriga.
- ! – ela exclamou animada e fez menção de abraçar ele, mas viu Zune nos braços – O quê...?
Ela virou seu rosto para mim, parecendo me notar. Seus lábios sorriram em compreensão, enquanto o meu se fazia em confusão.
- Oi, Laila – riu.
- Você teve filha e não me contou – ela ralhou, tirando os olhos de mim para encarar ele.
- Ah, não – me pronunciei pela primeira vez, compreendendo o que ela estava pensando – Nós não temos nada e ela não é nossa filha.
- Não? – perguntou, me deixando notar um desapontamento na sua voz – Entrem.
Deu espaço e nós entramos. Eu me sentei no primeiro sofá que vi, encarando o vidro na minha coxa.
- Essa é minha irmã – sentou ao meu lado com Zune – Laila, essa é a . Precisamos de um lugar para ficar essa noite.
Laila sorriu assentindo e apontou para Zune no colo dele, pedindo permissão para pegá-la. Ele deu a garotinha para a irmã.
- Vou colocá-la no berço da Anabela – explicou e olhou para mim – E esse corte pode infeccionar. Eu já volto.
E saiu, subindo as escadas. Eu olhei para meu parceiro ao meu lado, mordendo minha bochecha.
- Eu não sabia que tinha uma irmã – comecei.
- É, tem muita coisa que não sabemos um sobre o outro – me encarou, devolvendo a resposta no olhar.
Engoli a seco e preferi ficar calada. Passei a olhar a decoração da casa, observando o quão era imenso o espaço dali. Eu ainda podia sentir o olhar dele sobre mim, me questionando, observando. Estava começando a me incomodar, quando Laila voltou a aparecer, dessa vez segurando uma caixa de primeiro-socorro em mãos.
- Não tenho anestesia e isso vai precisar de pontos, então... Vai doer – avisou, se ajoelhando na minha frente, deixando a caixa no chão e começando a preparar.
- Ela é enfermeira – me avisou, como uma forma de me tranquilizar e sua mão procurou pela minha.
- Posso? – Laila me olhou.
- Sim – permiti, fazendo uma careta ao imaginar o quão doeria aquilo.
Laila passou algum tipo de remédio, usando luvas na mão. Assim que ela tocou no pedaço de vidro, puxando-o devagar, eu comecei a gemer baixo pela dor que estava causando. apertou minha mão, me reconfortando.
- Converse comigo – pediu.
Virei meu rosto para ele, tendo em mente que minha expressão não estava muito boa.
- O quê?
- Fale comigo sobre qualquer coisa – continuou – Não se concentre apenas na dor.
- Posso morder você? – perguntei. Ele me olhou como se eu fosse estranha.
- O quê? – repetiu minha pergunta de antes e eu senti um algodão molhado sobre minha coxa.
- Preciso morder alguma coisa quando ela puxar esse maldito vidro – expliquei.
Laila riu e se aproximou de mim, me oferecendo seu ombro. A irmã dele colocou seus dedos sobre o vidro de novo e dessa vez começava a puxá-lo. Eu mordi o ombro de , sem me importar se estava causando dor a ele ou não, precisava aliviar a minha. Quando Laila puxou de vez o pedaço de vidro, o local estava latejando e eu tirei minha boca do ombro dele, vendo a marca que meus dentes tinha deixado.
- Desculpe – pedi, achando graça.
- Sem problemas – ele acariciou a palma da minha mão com o polegar – Você está suando na testa e está escorrendo pelo meio do seu decote também.
Revirei os olhos pelo seu comentário, encostando minha cabeça em seu ombro.
- Vocês não têm nada, não é? – senti humor na voz de Laila ao perguntar.
- Não – respondemos juntos, fazendo-a rir.
- Tudo bem – deu de ombros e me olhou – Vou começar a dar pontos.
Assenti, deixando-a fazer seu trabalho.
- Vamos, se distraia – tentou – Isso deve doer, converse comigo, .
- Não me chame de – gemi ao sentir um tipo de agulha perfurar minha pele.
- Por que não posso chamá-la de ?
- Porque eu odeio meu nome – respondi, umedecendo meus lábios secos – Quem diabos coloca o nome da filha de ? Minha mãe só podia estar drogada.
Os dois presentes riram.
- Mas eu já falei que é...
- Sexy, eu sei – completei, sorrindo mesmo que ele não pudesse ver.
Estava sentindo meu corpo ficar quente e podia sentir o suor escorrer pela minha testa também. Minha visão ficou um pouco turva, mas eu não ligava.
- Você está tremendo – ele percebeu, apertando ainda mais minha mão sobre a sua.
- Por que nunca me beijou? – perguntei sem pensar.
A pergunta parecia ter pegado ele de surpresa e Laila nos olhou curiosa, mas não por muito tempo.
- Ahn... – ele gaguejou, parecendo não saber que resposta me dar – Você está ardendo em febre.
Levantei meu rosto para ele.
- Não fuja do assunto – retruquei, sentindo meu corpo mole.
- É sério, você está ardendo em febre mesmo – insistiu, tocando a palma de sua mão livre sobre minha testa, verificando minha temperatura.
- Não deve ser nada – minha voz saiu fraca e eu umedeci meus lábios.
Estava odiando me sentir indefesa e eu tentava não pensar na dor dos pontos na coxa. Meus olhos estavam ameaçando se fecharem, uma vez que eu estava começando a sentir frio.
- Tem um remédio na segunda porta da gaveta do banheiro – Laila começou a explicar a ele – Estou terminando aqui, mas ela precisa descansar. A febre é o resultado da dor que isso está causando a ela.
soltou minha mão, indo em direção ao banheiro que ela tinha dito. Eu encostei minha cabeça no sofá e fechei os olhos, inspirando, expirando.
Mas minha visão ficou turva e em seguida, eu vi tudo preto.

Me remexi, agoniada. Tinha algum peso sobre meu braço e eu abri meus olhos contra a minha vontade, apenas para ver que o peso era a cabeça de . Eu murmurei algo incompreensível, dando conta de que estávamos em uma posição estranha na cama. Não estranhava o fato de que dormimos juntos, já que tínhamos um nível de intimidade compatível.
Eu mexi meu braço dormente, o fazendo tirar sua cabeça de cima e em seguida, começar a abrir os olhos, preguiçoso. Levei minha mão até minha coxa ferida, sentindo os pontos com meus dedos.
- Ei, como está se sentindo? – escutei a voz dele perguntar, mais desperto agora.
- Bem – me levantei, ficando sentada na cama.
- Acho que você desmaiou ontem e Laila disse que essa era a única cama disponível. Tivemos que dividir – o sorriso maroto se fez presente em seus lábios e eu revirei os olhos, ajeitando meu cabelo bagunçado. Provavelmente minha cara ainda estava amassada de sono e minha expressão não devia estar amigável. Eu estava tentando me acostumar á claridade que entrava pela fresta da janela do outro lado, quando escutei a porta se abrir com um estrondo e Laila entrar por ela.
- Vocês não alimentam essa menina?
Eu olhei para .
- Eu não sabia que ela estava sentindo fome – me defendi, assim que vi que iria ficar calado.
- Ela estava morrendo de fome! – gesticulou suas mãos, mostrando como estava indignada e eu prendi o sorriso – Vocês são péssimos.
- Eu não sei o que ela come – continuei.
- Não importa, ela tem que comer de três em três horas – me ignorou, continuando seu sermão – Meu Deus, estou com pena dessa menina.
riu e eu estapeei seu braço, fazendo-o parar.
- Ei! – protestou.
- Levantem os traseiros dessa cama, vocês têm trabalho a fazer – ela apontou para nós dois – E a Anabele quer ver você antes de ir.
Laila saiu, nos deixando sozinho novamente onde eu pude rir.
- E eu não posso rir? – levantou da cama, cruzando os braços.
- Cale a boca – respondi – Quem é Anabele?
- Minha sobrinha – deu de ombros.
Passei a mão pelo meu rosto, tentando me despertar de uma vez.
- Você sabe o quanto é difícil conseguir um apartamento daquele? – fiz uma carinha triste – E agora eu nem posso voltar lá. Não é injusto? Mal aproveitei.
Ele riu novamente e caminhou para o banheiro.
- Pare de se lamentar e vamos – iniciou, falando um pouco alto para que eu pudesse ouvi-lo do quarto – Precisamos de roupas. Tenho algumas suas em casa, você acha arriscado nós irmos buscar?
- Nem sabemos com o que estamos lidando – mordi minha bochecha pensativa – E eu preciso mesmo de roupas. Você também guarda minhas lingeries?
Andei até o banheiro, me escorando na parede, observando ele lavar o rosto.
- O que você acha? – respondeu minha pergunta com outra.
Prendi meu sorriso travesso.
- Que você pega minhas calcinhas, fica encarando por alguns segundos e pensando algo como “Isso é tão sexy” – impliquei.
me olhou com uma careta de desaprovação e eu gargalhei, me sentindo bem melhor do que ontem. Assim que parei de rir, adentrei o banheiro. Aproveitei a torneira ligada e molhei meu rosto também e lavei minha boca. passou por trás de mim e eu o segui, pegando uma toalha que estava pendurada e passei a enxugar meu rosto molhado.
- Na verdade, tudo o que eu penso é em como consegue usar calcinhas tão finas – desabafou seu pensamento.
- Talvez queira testar um dia desses – balancei a cabeça, em concordância á minha ideia e joguei a toalha na cama – Onde estão meus sapatos?
- Lá embaixo, perto do sofá – ele procurava algo nas gavetas da cômoda – E não faz meu estilo.
- Imaginei – sorri.
Andei até o enorme espelho que tinha ali e verifiquei minha aparência. Ajeitei meu cabelo todo em um rabo de cavalo improvisado – já que eu não tinha jeito nenhum para penteados simples assim – e dei de ombros, voltando a olhar curiosa para o que estava fazendo. Assim que ele fechou uma das gavetas com uma força exagerada me fazendo dar um pulo de susto pelo barulho, eu franzi a testa com sua agressividade repentina.
- Ei...
- A Agência deve estar atrás de nós – ele me interrompeu, ficando de costas para a cômoda e olhando para qualquer ponto fixo que não fosse meus olhos – Eu sei que você disse que é pra deixar eles de fora, mas... Podem nos rastrear, você sabe disso, não sabe?
Eu engoli a seco, compreendendo a linha de seu pensamento. Por alguns segundos, eu achei a ideia completamente absurda, principalmente que nenhum de nós sabia daquilo.
- Você está sugerindo que...? – deixei minha dúvida no ar.
passou a mão pelo rosto, em uma tentativa de se despertar.
- Sim.
Eu cocei meu pescoço considerando a ideia. Não podíamos ser rastreado pela ASME* se iríamos prosseguir com toda a coisa de proteger a menina Zune. Eu estalei meus lábios, fazendo com que meu parceiro olhasse para mim e seus olhos me questionavam.
- Isso é loucura, – deixem meus ombros caírem, seguido de um suspiro – Não sabemos onde foi colocado, eles ocultam essa informação de todos.
- Não de quem foi responsável por colocar – seu sorriso voltou a aparecer, se tornando arrogante – Você lembra da Aline, não é?
- Seu casinho de 24h?
Ele riu, achando graça da forma que perguntei.
- 48h – corrigiu – Para sua sorte, ela foi uma das responsáveis e me disse onde nosso rastreador é colocado.
De repente, eu pareci bastante interessada e umedeci meus lábios.
- Você precisa que eu faça a pergunta? – incentivei.
- Não – negou, se aproximando alguns passos de mim. Estávamos parados no meio do quarto – Mas só vou te dizer se concordar em tirar comigo.
Ele estava me desafiando.
Me encurralando, impedindo que eu achasse alguma saída viável que não envolvesse cortar meu próprio corpo apenas para retirar aquele maldito rastreador.
E considerando que iria completar 24h que não entramos em contato com a ASME, Philipe já deve estar considerando nos procurar.
Como se não bastasse estar fugindo e nos escondendo de caras desconhecidos e assassinos, ainda seriamos fugitivos de um bando de agentes do qual fazíamos parte.
Isso só melhorava.
- Tudo bem. Eu tiro.


Three

- Você contou a sua irmã?
A estrada estava calma e eu dirigia na velocidade permitida. estava perdido em seus próprios pensamentos no banco ao meu lado, quando eu interrompi.
- Que temos um caso secreto? – alfinetou divertido, me fazendo revirar os olhos. – Sim, Laila sabe.
- Não acha arriscado? – mordi meu lábio, curiosa.
Virei o carro para a direta, entrando em uma rua fechada. Escutei o suspiro dele e aumentei um pouco a velocidade, já que tempo não era um luxo que teríamos por algum período.
- Ela está protegida – afirmou. – Você não contou a ninguém?
- Não tenho ninguém – dei de ombros.
Estacionei o carro em frente a uma casa grande e saí do mesmo, sendo seguida por ele. Eu travei o carro e encarei a casa à minha frente.
- Só temos alguns minutos – ele avisou, parando ao meu lado. – Só pegue o que realmente precisar.
Balancei a cabeça concordando e ele foi na minha frente. tirou a chave do bolso e abriu a porta com pressa, e logo entramos. Nós dois andamos rápidos até o andar de cima e, enquanto ele ia para seu quarto, eu segui para o quarto de hóspede que eu ficava toda vez que tinha que dormir aqui.
Estava do mesmo jeito que da última vez, exceto que a cama estava um pouco bagunçada. Eu ignorei qualquer detalhe que pudesse me distrair e fui até o closet, tirando uma bolsa pequena de lá e guardando algumas roupas e lingeries que eu tinha ali. Feito isso, eu me abaixei, ficando de joelho e abri a última gaveta, tirando de lá as duas armas que eu mantinha guardada para algum tipo de emergência e um pequeno aparelho eletrônico que me informava das seguranças do meu apartamento. Além disso, peguei meu precioso frasco de “Boa noite, Cinderela” e joguei dentro da bolsa também.
- Nós esquecemos nossos celulares no seu apartamento – apareceu na porta, já segurando sua bolsa.
Eu me levantei, fechando a minha e passando minha mente a limpo, para me certificar que eu não estava esquecendo nada.
- Esqueça, vamos ter que arrumar um novo – respondi.
Por algum motivo, eu estava ansiosa.
- Está pronta? – seu tom de voz foi cuidadoso, principalmente porque ele sabia que eu não estava de acordo com a ideia, mas que era necessária.
Eu assenti devagar, empurrando seu corpo da porta e passei na frente dele, sem realmente dar a afirmação que ele esperava. Quando eu estava descendo as escadas, ouvi o aparelho apitar alto e tirei-o da bolsa, sem parar de andar. vinha atrás de mim e eu julgava que sua expressão estava despreocupada. Peguei o aparelho, observando a tela toda em vermelho, um alerta urgente de invasão.
- Droga – xinguei, parando perto da porta. – Meu apartamento está sendo invadido. O que significa que...
- Minha casa é o próximo – completou. – Vamos, , estamos perdendo tempo.
Suspirei, jogando o aparelho de volta na bolsa e abri a porta, saindo e indo até o carro novamente.
- Eu não sei porquê eu perco tempo dizendo para você não me chamar de – revirei os olhos. – Dois anos disso e de nada adianta – tirei as chaves do meu bolso e joguei para ele, que pegou de surpresa. – Você dirige.
Entrei no banco passageiro e joguei minha bolsa no banco de trás, me encostando. Meus olhos ardiam um pouco. entrou logo depois e, em seguida, deu partida. Inquieto como era, ligou o rádio, onde passava alguma música agitada que eu não fazia ideia se conhecia ou não.
- Eu estava pensando e não consegui chegar a uma conclusão – comecei, olhando para a estrada conforme ele dirigia. – Por que alguém iria matar um bebê de oito meses?
A melodia da música aumentou e eu fiz uma careta, zelando pelos meus pobres ouvidos. Músicas agitadas demais geralmente me irritavam – a não ser que tocassem em alguma balada ou festa. Meu raciocínio trabalhava a mil, enquanto eu tentava entender minha própria questão e o mistério naquele caso em especial. Eu estava deixando missões e treinamentos importantes de lado na ASME para me dedicar a proteger a pobre Zune e cumprir o pedido de sua mãe, mas as peças do quebra-cabeça estavam espalhadas em vários lugares e, até que eu completasse todas, eu ficaria sem algumas respostas.
- Pode ser por vários motivos – ele aumentou a velocidade. Mais uma vez, o aparelho apitou e eu ignorei sabendo que vinha do meu apartamento.
- Eu paguei caro nessa porra de apartamento para ter que assistir de mãos cruzadas ele ser invadido e destruídos por idiotas imbecis – desabafei minha raiva, bufando em frustração. riu. – Voltando... Me diga um motivo.
- Eu não sei, não consigo pensar em um – continuou sua linha de pensamento – Quer dizer, é cruel demais mandar assassinos atrás de uma criança inocente seja lá por qual motivo for, certo?
- Somos agentes, – olhei para ele. – Mas estamos cegos nessa missão.
Escutei seu suspiro e ele não tirava os olhos da estrada.
- Vamos conseguir.

Simon Finch era o típico nerd. Hacker nas horas vagas. Passava várias e boas horas na frente de um computador e ganhava a vida assim, fácil. Nos conhecemos no bar, depois de e eu termos saído de uma missão complicada e fomos encher a cara em um bar qualquer da Califórnia. Consequentemente, Simon também estava lá a trabalho e dali em diante, nós três criamos um vínculo.
Ele abriu a porta com seu sorriso confiante e eu abracei seu corpo magro em um impulso. Simon ajeitou seus óculos que iam caindo pelo impacto do nosso abraço e ele riu quando o soltei.
- É muito amor – brincou, me deixando entrar depois de eu ter dado um tapa em seu braço.
e ele se cumprimentaram e, logo, ambos já estavam na sala também. O sofá grande e confortável pareceu me convidar a jogar-se contra ele e foi isso que eu fiz em seguida. Sentia minhas costas doerem e, quando isso acontecia, minha solução favorita era sempre ficar deitada.
- Ei, quase me esqueci! – exclamei, em um tom repentino, levantando apenas a cabeça para olhar os dois perto da porta. – Você não é médico então, por que estamos aqui?
A pergunta era especificamente direcionada à meu parceiro, mas Simon se deu ao trabalho de responder.
- Não sou eu quem vou tirar o rastreador de vocês – ele andou até o outro sofá. – É a Kaye.
Antes que eu pudesse perguntar quem era Kaye, o som de passos vindo das escadas me chamou a atenção e eu virei minha cabeça na direção da garota que estava caminhando até nós. A primeira coisa que me chamou atenção sobre ela era como seus cabelos podiam ser tão dourados. Muito dourados. Extremamente dourados.
Assim que ela terminou de descer as escadas, suas unhas era a segunda coisa chamativa. Estavam pintados de esmaltes vermelhos. Sua altura era um pouco maior que a minha, mas não pude constatar esse fato veridicamente, porque eu me recusava a sair do sofá e não aproveitar os poucos minutos que eu podia relaxar.
- Ahn... – escutei balbuciar e revirei os olhos, sabendo que provavelmente ele babava pela mulher.
Simon deixou uma risada ecoar e eu voltei a encostar minha cabeça sobre o sofá. Kaye sentou ao lado dele e empurrou meus pés, se sentando perto de mim. Eu resmunguei, desaprovando sua ação, mas coloquei meus pés de volta, dessa vez sobre suas pernas.
- Essa é a Kaye – a voz de Simon me chamou atenção e eu olhei para ele.
- Sou o – meu parceiro se apresentou.
- – sorri fechado, vendo que ela nos olhava com um misto de diversão.
- Prazer conhecer vocês – se pronunciou pela primeira vez. – Não sei se o Simon informou, mas eu sou cirurgiã e estou aqui para ajudar vocês a se livrarem do rastreador. Isso depende, é claro, de onde eles estão.
Automaticamente, levei meus olhos para com uma sobrancelha levemente arqueada. Ele também olhou para mim e umedeceu os lábios.
- No pescoço.
- O quê? – me levantei, ficando sentada.
Sem responder minha pergunta, ele direcionou a mão até a parte de trás do meu pescoço, indicando que o local era ali.
- Não é perigoso, não se preocupe.
Mordi meu lábio, dando de ombros e observei o casal à nossa frente.
- Você está de acordo com isso, ? – Kaye me perguntou.
Eu queria responder que não, mas a imagem de Zune sorrindo enquanto a baba escorria pela sua boca pequena me veio à mente.
- Sim. Faça o que tem que fazer.

Eu tinha insistido que ela não me desse anestesia e muito menos me dopasse. Mas, aparentemente, em uma cirurgia, eu não tinha palavra alguma contra ela. Kaye me informou que o procedimento durou quinze minutos e o rastreador já tinha sido retirado e foi um sucesso.
Uma hora depois, e eu estávamos na porta da casa de Simon agradecendo pela ajuda, mas, por algum motivo, senti que não seria a última vez naquela jornada que ele nos ajudaria em algo como esse tipo. Também pudera, Simon era de grande ajuda e tinha recursos únicos e ágeis, prontos para serem utilizados a qualquer momento. Bastasse uma ligação.
Assim que nos despedimos, nós seguimos para o carro estacionado. Deixei que dirigisse dessa vez também, já que eu aparentava estar em uma preguiça enorme.
- Qual nosso próximo passo? – perguntei. resmungou, parecendo pensar.
- Buscar a Zune na Laila e ir atrás de informações – informou.
- Atrás de informações? E vamos começar por onde se estamos tão cegos nessa missão? – deixei minha dúvida no ar.
- De algum lugar vamos ter que começar, – respondeu, concentrado em não tirar os olhos da estrada.
Agradeci que o rádio não estava ligado e pude tentar organizar meus pensamentos. Embora eu soubesse que era em vão, tinha que ter algo que nos desse inicio para descobrir quem estava atrás do bebê. Suspirei frustrada quando não obtive o sucesso que eu queria contra a minha mente e vi estacionar o carro.
Poucos segundos depois, estávamos na porta da casa de Laila. A irmã do meu parceiro entregou Zune a ele e me deu uma bolsa pequena, que continha alguns animais infantis estampado e eu soube que era pra Zune.
- Aí estão algumas roupas para ela e outras coisas que podem precisar – nos informou e, em seguida, deu um suspiro que eu julguei preocupado. – Ah, . Tenha cuidado, está bem?
lhe lançou um sorriso tranquilizante e abraçou a irmã meio desajeitado por conta de Zune dormindo em seus braços.
- Não fique se preocupando comigo, está bem?
Ela assentiu, se afastando. Em seguida, voltou sua atenção para mim.
- E só tire os pontos em uma semana, ok? – concordei. – Tomem juízo vocês dois!
Nós rimos.
- Obrigada, Laila – agradeci pela ajuda e até abraçaria ela, mas Anabele apareceu na porta.
A bochecha da menina estava corada e eu achei aquilo extremamente fofo. Ela segurou na barra da saia da mãe, seus cabelos cobrindo boa parte de seu olho direito.
- Titio, já vai embora? – sua voz saiu mansa.
levou seus olhos até ela e se abaixou, ficando da mesma altura da menina.
- Sim, meu amor – respondeu com um sorriso compreensivo. – Mas você sabe que eu sempre volto, não é?
Anabele balançou a cabeça positivamente.
- Ótimo. Agora venha aqui e abrace seu tio – chamou.
Ele segurou Zune com um braço e com a outra, abraçou sua sobrinha. Anabele me olhou por sobre o ombro dele e me deixou um sorriso, mostrando a janelinha do seu dente. Seus cabelos ruivos eram de dar inveja, eu não podia negar.
- Amo você – ela sussurrou para ele, assim que se separaram.
- Também amo você, minha princesa – ele beijou sua testa, como uma demonstração de carinho. – Agora cuide da sua mãe e do seu irmão, sim?
Ela voltou a segurar a barra da saia de Laila e nos acenaram um tchau, no qual retribuímos. Segurei a bolsa de Zune nos meus ombros e andamos até o carro novamente. Dessa vez, me deu a chave e resolveu se sentar no banco de trás com a menina dormindo em seus braços. Eu deixei a bolsa no banco da frente ao lado e entrei no banco de motorista, esperando que ele se ajeitasse atrás e só então eu pudesse dar partida.
Pela primeira vez, eu não sabia que rumo aquilo tudo ia dar, mas de uma coisa eu tinha certeza: Zune não podia estar em melhores mãos.


Four

O vento frio de agosto soprava em meu rosto.
As bancadas ao meu lado estavam vazias e eu agradecia por isso em silêncio, facilitava muito meu trabalho. Eu não fazia ideia de que horas eram, mas ainda era manhã.
- Aqui está, senhorita – a voz do homem despertou minha atenção e eu olhei para ele, pegando o copo que ele colocara para mim e agradeci, dando um meio sorriso.
Assim que ele deu as costas e me deixou sozinha, olhei o liquido preto do meu café no copo e beberiquei enquanto, mais uma vez, eu passava meus olhos pelo local. Estava calmo, e havia poucas pessoas frequentando o lugar.
- .
Meu comunicador chiou, me assustando, resultando em eu derramar um pouco do café na minha blusa decotada.
- Droga – murmurei, pegando papéis de guardanapo ao lado e comecei a limpar a sujeira. – O que você quer?
- Informações, oras – respondeu como se fosse óbvio. tinha pegado os comunicadores na casa dele. Depois que saímos da casa de Laila, passamos uma hora no carro e paramos em frente a um hotel pequeno e pobre, mas que daria pro gasto pela nossa estadia, já que agora não tínhamos lugar fixo para ficar.
- Está tudo calmo – observei mais uma vez antes de dar a informação tão precisa.
Eu depositei o café de volta no balcão, sem vontade de terminar de beber. Tirei do meu bolso o dinheiro e coloquei embaixo do copo, me levantando para sair do lugar. Porém, não tinha percebido que havia entrado um homem e ao ver minha tentativa de me retirar do local, ele segurou meu braço, me fazendo voltar a sentar no banco.
Eu abri minha boca em indignação pela sua ousadia de me tocar e encarei seu rosto, mas ele usava um boné e dificultava minha visão.
- Não grite – ele ordenou.
Quis rir.
- Imagine, não faz meu feitio coisa desse tipo – fui irônica, soltando meu braço de sua mão agressiva.
Tive que respirar fundo três vezes para lembrar que eu tinha uma faca pequena escondida na bota, por cima da minha calça colante. Eu desconfiava que aquele homem fosse um dos outros tantos. Seria difícil nos manter escondidos.
- ? – ouvi a voz do outro lado me chamar, mas ignorei. Isso pioraria a situação.
- Muito engraçada – o homem voltou a se pronunciar. Eu ainda não conseguia ver seu rosto – Eu vou ser bem direto: Me entreguem a menina e talvez saiam vivos dessa.
Fingi pensar e umedeci meus lábios. Reparei em sua mão posta sobre o balcão e ele não me encarava. Olhava diretamente para frente, mantendo sua pose firme, como se nada o atingisse. Ridículo. Babaca.
Devagar e o mais discreta possível, eu consegui retirar a faca da minha bota e segurei-a firme sobre minha mão direita.
- Eu odeio “talvez” – sussurrei perto o suficiente dele e sem que ele esperasse, eu enfiei a faca com força na sua mão depositada sobre o balcão. Me afastei quando fui obrigada a ouvir seu urro de dor. – Eu prefiro certezas.
Quando ele fez menção de revidar meu ataque, eu fui mais rápida retirando a faca da sua mão novamente e quando a outra mão livre dele fez menção de me dar um soco, eu desviei. Me afastei, saindo do banco e, segurando sua mão livre, eu empurrei contra o balcão e enfiei com duas vezes mais força, pela segunda vez, a faca em sua mão.
Não esperei pra saber sua próxima reação. Apenas me desviei dos gritos das pessoas e fugi dali, caminhando de volta em direção ao hotel.
Eu duvidava que qualquer lugar fosse seguro.

- Você tinha que ter me respondido! – esbravejou, ao mesmo tempo em que controlava sua voz.
- Eu não podia! – retruquei, fazendo gestos desnecessários com as mãos e bufei. – Tinha tudo sob controle e te responder daria outro rumo.
- Eu fiquei preocupado e... – antes que ele pudesse continuar, eu tinha me aproximado e segurei seu rosto com as duas mãos, fazendo ele me olhar.
- Ei, estou bem. Não estou? – encarei seus olhos cansados. – Sou bem treinada e sei me virar sozinha, portanto, não preciso que fique se preocupando comigo, está bem?
- Preciso que você aja como uma dupla comigo, – ele desabafou, tirando minhas mãos do seu rosto. – Às vezes você acha que pode dar conta sozinha.
- É porque eu posso – revirei os olhos para aquela discussão. Eu não estava afim de discutir com ele por dois simples motivos: um, ele estava cansado e quando ficava assim, suas ações e reações resultavam para que nós dois brigássemos mesmo que o motivo fosse bobo. Dois: eu estava com a cabeça quente e obviamente aquilo não daria em lugar nenhum.
Ele fez menção de abrir a boca para retrucar mais alguma coisa, mas antes disso, eu me recusei a ficar ali ouvindo parada e me dirigi ao cubículo que era chamado de banheiro. Minha expressão se fez em nojo ao notar o estado daquele lugar e passei a odiar nossa péssima escolha daquele hotel. Quando adentrei, liguei a torneira sentindo a água descer mais gelada que o normal e molhei meu rosto na esperança de que eu pudesse me despertar um pouco, já que eu não estava dormindo direito por esses dias.
Escutei o choro de Zune e respirei fundo, saindo do banheiro e vendo que já se voluntariou e pegou-a no colo, começando a andar para lá e para cá com ela. Andei até ele e pedi que ele parasse de se mexer.
- Você fica péssimo quando está cansado e sei que você não dormiu nada essa noite porque não senti seu corpo na cama – iniciei. – Portanto, eu vou ficar com ela e você vai tirar algumas horas de cochilo. Quando acordar, nós conversaremos.
- Você conseguiu informações? – ele me ignorou.
- Venha, Zune – peguei a menina dos braços dele, também ignorando sua pergunta. A garotinha não chorava mais e tinha seus dedos pequenos na boca, enquanto eu a deitava em meus braços. – Vá descansar, .
Fiz uma cara feia para ele, que mostrou os braços em rendição e me afastei, procurando sentar em uma poltrona desgastada que tinha ali. Fiquei de frente para a cama de casal do qual agora estava deitado e delineei um sorriso satisfeito nos meus lábios, assim que vi que ele seguiu minha ordem. Mas nem em um universo paralelo ele recusaria uma boa chance de descansar.

Zune tinha dormido nos meus braços depois de eu ter dado a mamadeira pronta que Laila deixou a ela. Meus braços tinham ficado dormente de tanto tempo que eu a estava segurando, por isso, eu coloquei ela ao lado de e deixei que os dois dormissem em paz. Peguei a bolsa dele, revirando as coisas que ele trouxera e peguei o mapa. Abri-a e coloquei no chão, me sentando no mesmo e passando meus olhos pelo local. Tirei uma caneta da mesma bolsa e risquei o local que estávamos. Não o hotel, mas o lugar. Em seguida, eu fiquei encarando os nomes ao redor, tentando conseguir algum tipo de ligação que eu não fazia ideia de qual fosse, mas eu tinha que tentar algo. Tinha que começar a descobrir algumas coisas.
Por um momento, comecei a xingar que não tínhamos trazido um celular ou algum notebook, eu estava precisando da internet no momento.
Respirei fundo e joguei a caneta sobre o mapa, pensando que eu estava longe de descobrir alguma coisa dessa forma. Portanto, eu me levantei e decidi relaxar meu corpo e mente. Peguei a toalha que o hotel disponibilizava e verifiquei se estava mesmo limpa – não podia me dar ao luxo, já que o estado era realmente crítico.
Entrei no banheiro já sabendo que a água estava gelada, então comecei a me despir. Mas resolvi ficar de calcinha e sutiã e descalça, adentrei o “box” e liguei o chuveiro, deixando ela cair sobre meu corpo, sem molhar meu cabelo. Eu estava de olhos fechados e de costas para a porta do banheiro – que não existia – fazia alguns segundos, quando senti alguém dedilhar os dedos sobre minhas costas. Parecia ser um toque cauteloso, carinhoso.
Eu não me assustei, porque eu sabia que só podia ser uma pessoa.
- Você me perguntou por que eu nunca te beijei – sua voz saiu baixa e mesmo assim eu não abri os olhos.
Agora estava sentindo vergonha de ter perguntado aquilo. Foi sem pensar e eu odiava falar as coisas sem pensar.
A água gelada ainda escorria, mas dessa vez, ele me ensaboava devagar.
- Sim – respondi, na falta do que dizer.
- Você é linda, uma pessoa forte e incrível e me pergunto que cara consegue resistir a você – ele estava com a voz de sono. – Mas toda vez que temos oportunidade, você está sempre bêbada e falando coisas sem sentido. E mesmo que eu sinta vontade de te beijar todas as vezes assim, não posso.
Engoli a seco, desligando o chuveiro. Abri os olhos e ele continuava me ensaboando e eu senti vontade de me virar e olhar seu rosto, mas não conseguia. Todas as suas palavras estavam me pegando de surpresa.
- Mas aí você beija outros caras e eles podem – continuou. – E eu só penso que eles não sabem aproveitar sua companhia de verdade. Não sou bobo e sei que você também só quer sexo com eles e acabou. Então, todas as vezes eu decido que eu não quero beijar a bêbada.
Minha respiração estava lenta e minha mente tentava processar o que estava acontecendo. parou de me ensaboar e me virou para si. Seus olhos me analisaram, minha boca estava entreaberta e eu conseguia pensar em mil palavrões diferentes para explicar porque eu não estava conseguindo falar com seus olhos sobre mim naquela situação.
- A que eu quero beijar está aqui agora – ele começou a me ensaboar novamente, começando pelos meus ombros e descendo até o meio dos meus seios, já que eu estava de sutiã – Sóbria, linda e sexy.
Eu quis rir, mas não achei apropriado, visto que sua expressão estava séria, então ele estava mesmo falando a verdade. Qual era o problema de ele me beijar bêbada?
- Eu não vejo problema nenhum em você me beijar bêbada – coloquei meus pensamentos em palavras, mas minha voz saiu tão baixa quanto a dele.
me mostrou um sorriso de lado. Seu rosto com a expressão de sono, exatamente como ficamos quando acabamos de acordar.
- Eu também não – concordou. Suas mãos desceram para minha barriga, ensaboando aquela área agora – Eu só te respeito. E quero que você lembre quando isso acontecer. De quantos caras você lembra de ter beijado ou transado quando estava bêbada?
Mordi meu lábio pensando. Ele tinha completa razão, eu mal lembrava. E se lembrava, vinha tudo borrado ou em partes, então eu não contava muito com uma lembrança.
- Poucos – resmunguei – Bem poucos.
Ele não respondeu. Ao contrário disso, desceu um pouco e ensaboou o resto do meu corpo com tamanha lentidão que eu comparei aquilo com uma tortura da parte dele sem necessidade. largou o sabonete no chão e se levantou novamente, ficando da mesma forma que estava antes na minha frente. A diferença era que ele não me tocava mais.
- Não vou negar que eu tenho curiosidade e, mais ainda, vontade de descobrir como é seu gosto, – engoli a seco, umedecendo meus lábios e automaticamente, eu liguei o chuveiro de volta e deixei que a água voltasse a escorrer pelo meu corpo, levando embora a sujeira que estava em mim.
Nunca desejei tanto que ele me beijasse naquele momento.
- Mas eu vou te beijar quando você achar que é o momento – finalizou.
Minha cabeça deu um giro rápido e eu cuspi a água que entrou sem querer na minha boca. O safado prendia um sorriso na minha frente, enquanto eu não sabia como reagir á sua última fala.
- O quê? – saiu sem querer, questionando a decisão dele.
- Eu falei algo errado? – ele fingiu não estar se divertindo com minha reação.
- Desapareça daqui antes que eu comece a pensar em inúmeros jeitos de te matar sem deixar rastros – falei, trincando meus dentes. Ele deu de ombros, totalmente descontraído e seu sorriso sapeca apareceu em seus lábios.
- Belo decote – anunciou antes de sair e eu bufei de raiva.
Agora tinha um momento para se beijar?

Depois do acontecido no banheiro, eu fingi que não estava afetada e muito menos frustrada. Eu apenas me vesti, um macacão simples e amarrei meu cabelo. Agora estava sentada na cama gasta, Zune estava acordada e balbuciava coisas que eu não entendia. Ela apenas ficava encarando o teto e uma vez ou outra se agitava, mexendo os pés e as mãos. Cheguei a encarar o teto por alguns segundos para entender o que tinha de interessante, mas desisti. Não entendia mente de bebê.
- Você pode brincar e conversar com ela, sabe? – a voz de me despertou e eu tirei os olhos de Zune.
- Ah, não – respondi, mantendo minha postura. – Ela está se virando bem sozinha.
Ele caminhou até a cama e se sentou na beira. Seus olhos me estudavam a procura de algo que eu pudesse estar escondendo. Mas na realidade, eu só estava cansada mesmo.
- E então? – finalmente perguntou.
Canalha.
Fingia tão bem quanto eu que não havia acontecido nada no banheiro.
De fato, não aconteceu mesmo.
Mas meu corpo estava ansiando, desejando, perguntando quando era o maldito momento. Seria agora? Mais tarde? Amanhã? Talvez nunca?
- Anh... – resmunguei, quando percebi que passei tempo demais calada e não respondi a sua pergunta. – Não consegui uma informação útil como estávamos esperando. A única coisa que sabemos, é que não importa que lugar vamos, vai ter sempre um. mordeu a parte interna da bochecha. Zune balbuciou mais uma vez e riu.
E eu gostei do som da sua risada.
- Então, em outras palavras, não temos nada?
- Não – neguei prontamente. – Não, não. Mas escute... Quando estávamos fugindo dos caras na saída do meu apartamento, eu reparei em uma coisa. Os braços deles eram tatuados com algum tipo de caveira sinistra misturado com uma cobra, eu não pude ver bem, mas a tatuagem ficava no lado direito do braço – comecei a explicar detalhadamente, buscando as informações na minha mente. – O mesmo cara que encontrei hoje, também tinha a tatuagem no lado direito do braço.
tinha um sorriso debochado no rosto e balançou a cabeça devagar. Ele entendia. Eu não precisava explicar o que estava pensando.
- A última vez eu vimos alguém assim, foi...
- Em Las Vegas – completei.
- Sim. São assassinos profissionais, agem em grupos como um tipo de gangue.
Meu corpo foi tomado por um tipo de arrepio. Os lábios dele se mexiam de uma forma tão... Ah, não.
- Arrume suas coisas, amor. Nós vamos para a Cidade do Pecado.


Five

A Cidade do Pecado.
Ah, sim.
Como pecado era uma palavra maravilhosa, carregada de seus significados proibidos. A primeira vez que pus meus pés lá, não me contive de tanta excitação. Eu poderia viver naquele lugar o tempo que eu quisesse. Diversão não me faltava, sem dúvida alguma.
Mas agora era diferente. Eu estava indo lá para uma missão da qual a ASME não tinha plena consciência e nenhum pingo de conhecimento e isso me dava um pouco de liberdade.
Pouco porque, dessa vez, tínhamos uma convidada que era menor de idade e exigia nossos melhores cuidados. Então, minha diversão estava um pouco limitada. Mas, nada tirava a excitação de meus olhos, meu corpo.
- Você está dizendo que eu tenho que trocar ela? – perguntei a , uma careta formada em meu rosto.
Ainda estávamos no hotel e ajeitávamos algumas coisas antes de pudermos ir para Las Vegas. O problema atual era que a Zune estava com um mau cheiro e tinha me informado que era preciso trocar a bebê.
- Sim – ele se divertia ás minhas custas e, por um momento, quis socar seu lindo rosto.
- Não sei trocar fralda – disse por fim, saindo de perto de Zune.
Andei até o outro lado do quarto, onde ele estava e tirei a bolsa que segurava de sua mão, indicando com a cabeça para Zune na cama.
- Você quer que eu a troque? – ele perguntou e eu assenti, como quem não quer nada. – O que te faz pensar que eu sei também?
- Você tem uma sobrinha.
- Não significa que cuidei dela – retrucou.
- Você não me engana – apertei os olhos em sua direção. Ele me escondia um sorriso.
- Ok, ok. Vamos fazer uma coisa – ele se rendeu, tirando a bolsa de minhas mãos e jogou no chão.
esfregou suas mãos e me olhou.
- Vamos fazer pedra, papel e tesoura. Quem perder, troca a fralda dela.
Eu não estava acreditando. Não percebi que estava gargalhando quando senti minha barriga doer e eu estar um pouco curvada, porque eu não queria acreditar mesmo que ele propôs aquilo. Eu fingi limpar uma lágrima do canto do olho direito e começava a me recuperar da minha crise de riso. Quando o olhei mais uma vez, ele estava de braços cruzados, me encarando como se quisesse dizer “Do que você está achando graça?”
- Você está falando sério, não é? – me vi perguntando. – Quer mesmo decidir isso no pedra, papel e tesoura?
- Ora, . Assim você me ofende – seu sorriso dizia completamente o contrário. – Eu levo essa brincadeira muito a sério.
Eu o encarei por breves segundos e estalei os lábios concordando. e eu escondemos uma de nossas mãos atrás das costas e contamos até três. Colocamos nossas mãos escondidas em posição e vimos nossas escolhas. Eu, pedra. Ele, tesoura.
- Você é muito idiota – ri mais uma vez de sua cara derrotada.
Ele resmungou algo em resposta, mas eu não entendi. Só o vi se virando e andando até a bolsa que Laila deu a Zune e ele começar a tirar as coisas necessárias para trocar ela.
Estava aliviada que ele estivesse fazendo aquilo, porque ao mesmo tempo em que eu não tinha experiência com nada de bebês, resultaria em algum desastre que eu não previa.

- Você não pode sorrir e fingir que somos uma família feliz? – sussurrou no meu ouvido. Ele estava atrás de mim, com Zune nos braços. A garotinha uma vez ou outra puxava os fios do meu cabelo e se divertia.
- Para quê? – sussurrei de volta, sem desviar minha atenção na fila á minha frente.
- Você ta com cara de quem vai matar um – ele riu, um riso baixo e melódico e eu revirei os olhos.
Ajeitei minha postura, dando espaço para que ele ficasse ao meu lado e a fila andou mais à frente. Só havia mais duas pessoas para que pudessem nos atender e eu fiz o que sugeriu; coloquei um sorriso mais falso já visto, mas, pelo menos, eu estava sem a cara “de que ia matar um”.
- Bem melhor – observou, sorrindo para mim.
Zune estava babando mais uma vez e me olhava com carinho nos olhos. Senti-me aquecida pela inocência de um ser tão pequeno e vi ela estendendo a mãozinha pequena para mim.
- Oh... – eu exclamei.
- Ela está pedindo seu colo – me esclareceu.
Eu o olhei por um breve momento e encarei Zune com um sorriso aberto. Por fim, toquei sua mãozinha e ela impulsionou seu corpo pequeno para que eu a pegasse.
me incentivou, por mais que eu não quisesse e então, quando percebi, eu já estava com ela no colo.
Seus olhos cor de âmbar me atraía de uma forma que me deixava fascinada.
- Converse com ela – instruiu.
- Você já ta me pedindo coisa demais – reclamei. Segurei Zune em pé, deixando que ela se apoiasse na minha barriga e delineei um sorriso nos meus lábios por aquele momento. – Ela nem fala.
Dito isso, Zune começou a balbuciar coisas que eu não entendia e mexia suas mãos na minha direção. Uma vez ou outra, ela voltava a prestar atenção em .
Aquela criança era a coisa mais inocente e bela que eu já tinha visto.
- Mas ela te ouve e te entende – pude sentir ele revirar os olhos ao meu lado.
Não tive tempo de responder, estava na nossa vez do atendimento. Estávamos no Banco. Decidimos que precisávamos de dinheiro e como eu tinha falado que tinha uma conta fora da agência, eu me ofereci para que pegasse o dinheiro. Era uma quantia... Grande, por assim dizer. Então, quando saímos do hotel com nossas coisas, viemos diretamente para cá.
- O que desejam? – a mulher tinha um olhar estranho para nós e como eu estava distraída com Zune, deixei que tomasse o rumo daquela conversa.
Zune colocou uma das mãos no meu nariz e puxou, me fazendo rir baixo. Eu a sentei em meu colo, de frente para mim. Ainda estava um pouco desconfortável, sentindo que eu não sabia lidar com ela, mas até agora ela não estava chorando, o que eu considerava um ótimo sinal.
- ? – chamou minha atenção – Ela precisa do número da sua conta.
- Sim, claro – falei, ajeitando a bebê em meus braços.
A mulher a nossa frente pigarreou e eu lancei meu olhar a ela, pensando que, ela estava incomodada com minha demora. Mas seu olhar duro estava em Zune.
- Algum problema? – questionei, em desafio.
Ela me olhou, arrumando seu sorriso sem graça e ajeitou sua pose sobre a mesa. Finalmente, soltou sua língua mostrando sua insatisfação:
- É filha de vocês?
me olhou confuso. Antes que ele abrisse a boca para responder, fui mais rápida.
- Por que a pergunta?
Vi ela engolir a seco antes de responder.
- Hm... Ela é... – seus olhos foram mais uma vez á Zune e eu a abracei em um instinto protetor. – Ela é negra. E vocês são brancos.
De fato, Zune era negra. Seus cabelos eram afros.
Seus olhos encantadores. Seu sorriso era contagiante e sua inocência me aquecia o coração. Era uma criança como qualquer outra, mas pela sua cor, provava ser destinada a ser julgada.
Naquele momento, conseguir imaginar perfeitamente uma maneira de matar aquela mulher por tamanha crueldade e preconceito a uma criança.
- Estou me perguntando... – lancei um sorriso psicótico a ela. – Se seu trabalho é se mostrar ser ridícula por tamanho preconceito e se achar no direito de julgar, ou se é nos atender da melhor forma possível, não importando cor ou gênero.
segurou uma risada.
- Desculpe, senhora – ele se dirigiu a ela. – Se não quiser conhecer a ira dessa mulher, sugiro que faça seu trabalho e nos dê o dinheiro.
Eu podia mesmo matar ela só com os olhos, podia...
- Ei, o que está fazendo? – sussurrei a , assim que vi a mulher se levantar, dizendo que ia imediatamente fazer a retirada.
A mão dele subia e descia pelas minhas coxas lentamente.
- Consigo ver fogo nos seus olhos, – ele segredou. – Lembre que precisamos ser discretos e não pode fazer nada contra essa mulher aqui.
Ele apertou minha coxa e me deu uma piscada, seguida de um sorriso cafajeste.
De repente, ficou difícil respirar.

- Ai, meu Deus, você tem certeza que esse avião não vai cair? – perguntei pelo que era a terceira vez.
ao meu lado, acariciou meu braço em uma tentativa de me acalmar. Zune dormia em seus braços.
- Relaxe, – tentou mais uma vez.
Não dava para relaxar em um avião, ele não sabia disso? Meu corpo estava todo tensionado e eu mal raciocinava, porque meu pensamento estava só na questão de que o avião podia cair a qualquer momento. Perguntei por que não podíamos ir de ônibus ou carro, algo do tipo, mas a resposta dele foi curta: demoraria mais.
Eu detestava aviões. - Não consigo – murmurei, a respiração começando a falhar.
- Jesus – ele sussurrou e segurou minha mão contra a dele. – Olhe para mim.
E eu olhei. Engoli a seco, tentando manter minha respiração normal, mas quando senti o avião decolar, fechei os olhos com força.
- Não, . Abra os olhos – ele ralhou.
Murmurei algo incompreensível e fiz o que ele mandou.
- Ótimo. Se concentre apenas em mim, não no avião, está bem?
Automaticamente, meus olhos foram para a sua boca e meus pensamentos voaram para a cena do banheiro. Ah, sim, claro. Eu podia me concentrar nele e no maldito momento que parecia me torturar a cada instante.
- Em mim, não na minha boca, – ele riu, chamando minha atenção.
- Ah, droga – xinguei, respirando fundo – É culpa sua.
Inspirei, expirei.
Sua mão acariciou meu polegar e eu me lembrei que ele ainda segurava minha mão, então relaxei.
- Algum de vocês desejam alguma coisa? – a aeromoça roubou nossa atenção.
- Não tem algum tipo de droga que me faça dormir durante toda a viagem? – perguntei, como uma criança desejando desesperadamente por aquele doce.
apertou minha mão com tanta força que eu soltei um “ai” baixo.
- Ela está brincando – ele respondeu a mulher e eu revirei os olhos. Eu não estava brincando coisa nenhuma. Eu queria mesmo aquilo.
- Então, não querem nada? – o sorriso simpático no rosto dela, de repente, me irritou.
- Não, obrigada – mais uma vez respondeu, sem me dar chance e a mulher assentiu, saindo de nosso campo de visão. - Você pode, por favor, se controlar?
Ele me encarou, seus olhos intensos e eu encolhi o ombro, como se dizesse que eu não estava nem aí.
- Você também não tem dormido muito, não é?
- Não, só dei uns cochilos aqui e ali – respondi.
- Então, por que não tenta dormir e relaxar um pouco agora? – insistiu e soltou minha mão.
- Porque estou apavorada. Estamos em um avião e, meu Deus, isso vai cair – confessei meu receio.
Ele soltou uma risada.
- Sempre tenho que lembrar de agradecer ao Philipe por ter me colocado como sua dupla, – ele falou. – Você é tão divertida.
Suspirei, revirando os olhos teatralmente, mas nos meus lábios possuía um sorriso satisfeito. Eu varri do meu pensamento que estávamos no avião e tentei me concentrar em qualquer coisa que não fosse isso, mas no que eu ia pensar?

Podia começar relembrando meus micos do passado. Ou talvez como eu me odiava usando aquele aparelho nos dentes horríveis. Podia até começar a contar como foi trágico na noite em que finalmente perdi a virgindade.
Olhei para a bebê no colo de e vi ela mexer os braços, logo em seguida, abrindo seus olhos pequenos. O vestido em seu corpo estava desajeitado e amassado e passou a atenção dos seus olhos à ela quando sentiu Zune começar a se mexer com mais frequência.
- Olha só quem acordou – ele murmurou com um sorriso na direção dela. – Aposto que você é bem mais corajosa e não tem medo de avião, hein?
Soquei o braço dele de leve e sussurrei um “idiota”. Zune coçou seus olhos com as duas mãos e procurou algo depois. Mas seus olhos foram na direção do meu parceiro e seu rosto se iluminou com um sorriso. então, levantou ela, fazendo-a ficar apoiada nas pernas dele enquanto ele a segurava pelos braços pequenos dela.
- Já que você não quer dormir – ele começou a falar para mim –, que tal se distrair com essa princesinha?
Eu ia falar que não. Que não queria segurar ela e muito menos ficar me distraindo com ela. Que eu não queria tanto contato assim, porque não queria ficar apegada. Mas não tive tempo de falar nada disso, ele colocou ela no meu colo antes de eu mesmo abrir a boca, então não tive outra escolha a não ser segurá-la.
- Como você é sortuda – murmurei para ela, abrindo meus lábios em um sorriso fraco. – Tão pequena e já vai conhecer uma cidade dos sonhos.
Ela sorriu para mim e eu contei como distração pelo resto da viagem.


Six

- Pare de cantar essa música, ralhou.
Soltei uma risadinha pela sua irritação e girei meu corpo no meio do lugar com Zune em meus braços, que riu.
- Pelo menos ela está se divertindo – parei de cantar e tentei acompanhar os passos dele, que segurava nossas coisas.
A viagem foi completamente tranquila – embora eu tivesse dado alguns pequenos surtos –, e agora estávamos no hotel, seguindo para a recepção.
Apesar de eu estar com a bebê nos braços, eu mantinha meus olhos atentos. Odiava surpresas e precisava estar preparada para alguma coisa inesperada.
- Quarto de casal? – me perguntou, esperando minha resposta, enquanto a mulher da recepção nos olhava.
- Sim – respondi, afastando meu rosto das mãos de Zune que insistia em me sujar de baba.
Deixei que resolvesse toda a coisa. Não tinha problema algum em dormimos na mesma cama. Como havia dito, economizava dinheiro até. E Las Vegas sempre me saia bastante cara.
- Vamos – balançou a chave na minha frente e Zune tentou pegar com suas mãos pequenas, mas ele tirou antes.
Seguimos direto para o elevador, que eu agradeci estar vazio e meu parceiro apertou o andar seis.
- Nada suspeito? – perguntei.
- Por enquanto, não – ele respondeu.
Dei de ombros e continuei segurando Zune com firmeza em meus braços. estava silencioso demais, mas não quis incomodar, por isso, fiquei calada o tempo todo que ficamos no elevador, quando o mesmo apitou indicando nosso andar. Ele saiu na frente e eu fui logo depois, o seguindo. Entramos na penúltima porta do corredor e quase chorei de alivio ao constatar que aquele quarto era o completo oposto do que estávamos antes, em Denver. Eu imediatamente corri para a cama de casal e coloquei Zune lá deitada. Escutei a risada fraca de pela minha empolgação, mas não liguei. Andei até o banheiro e fiquei maravilhada ao ver a banheira grande que estava ali.
- Você realmente não liga em pagar caro por um quarto assim, não é? – escutei a voz do meu parceiro atrás de mim.
Meus lábios se abriram em um sorriso de criança.
- Ah, não – respondi, dando de ombros. – Posso passar o dia aqui mesmo.
Me virei, encontrando ele encostado à parede da porta do banheiro.
- Vá, você está louca para fazer isso – declarou.
- Você olha a Zune? – perguntei, empolgada.
- São dez da noite, vou dar uma cochilada com ela, tudo bem?
Eu concordei com a cabeça e ele saiu sem dizer mais nada. Fechei a porta e voltei para a banheira, onde eu liguei a torneira e deixei que começasse a encher. Fui me despindo devagar, enquanto eu estava aliviada por finalmente poder relaxar um pouco.

Eu provavelmente tinha dormido por alguns minutos na banheira. O grito alto me fizera despertar e eu dei um pulo da água – morna, uma delícia, aliás –, e fiquei procurando desesperadamente uma toalha, encontrando um amontoado delas no armário do outro lado que tinha ali. Assim que me enrolei nela, eu saí do banheiro com pressa e escutei outro grito que eu julgava ser desesperado, assustado. E não podia ser da Zune.
Na cama, se debatia um pouco e eu me perguntei se o sono da bebê era tão pesado assim, porque ela não tinha sequer acordado. Minha testa se franziu em preocupação e eu andei ligeiramente até ele, segurando de leve o seu braço.
- – chamei baixo, mas parecia não ter efeito. A expressão dele estava sofrida, como se lutasse para sair de algum pesadelo. Foi então que ele começou a golpear com as mãos, me fazendo cair sentada no chão e bater a cabeça contra a escrivaninha que tinha ao lado da cama. Resmunguei um xingamento e gemi da dor que causou a minha cabeça.
Me mantive em pé ao lado da cama, tentando pensar no que fazer e me perguntando o que diabos ele estava sonhando.
- ! – coloquei um pouco mais de impacto na minha voz, querendo não gritar muito por causa da Zune.
Mas parecia não estar ouvindo nada e suas mãos continuavam socando o ar. Eu subi na cama, colocando minhas pernas a cada lado do corpo dele e desviava meu rosto dos golpes ao ar que ele dava e fiz um esforço para prender seus braços contra a cama. Olhei para o lado onde Zune estava e vi que ela continuava dormindo.
- ! – exclamei, colocando mais força nos meus braços contra os dele – , acorde. Está me assustando!
De repente, ele começou a ter dificuldade para respirar e arfava a cada meio segundo, me fazendo ficar com uma preocupação fora do normal. Eu nunca o tinha visto assim.
- ... – sussurrei, afrouxando o aperto dos seus braços, quando o vi abrir os olhos devagar.
Seu corpo parou de sacudir e eu respirei fundo, sem tirar meus olhos dos seus.
- ? – sua pergunta era confusa e a voz rouca.
- Ei, está tudo bem? – perguntei cautelosa.
- Sim, eu... – ele engoliu a seco e percebeu que eu estava prendendo seus braços. Olhou para meu corpo e constatou que eu estava sentada em cima dele apenas de toalha. Por um momento, aquilo me constrangeu, mas a minha curiosidade sobre ele falava mais alto.
- O que aconteceu? – me perguntou, como se simplesmente não soubesse mesmo o que tinha acabado de acontecer.
Eu soltei seus braços, umedeci meus lábios, pensando o que devia responder. Os olhos dele procuraram por Zune e um suspiro de alivio escapou dos seus lábios assim que viu que ela estava dormindo. Zune estava chupando um dos dedos e estava tão fofa dormindo daquela forma que eu podia facilmente associar a imagem dela a um anjo.
- Ahn... – limpei minha garganta, procurando as palavras certas – Você não lembra?
- Fica difícil me concentrar quando você está em cima de mim só de toalha e... Você está nua? – suas sobrancelhas se juntaram.
- Na verdade, estou – crispei meus lábios e saí de cima dele.
Me coloquei em pé ao lado da cama, enquanto eu o observava. Ele estava rígido, parecendo incomodado com algo.
- Certo, eu... Posso pensar nisso depois – ele se levantou, se pondo sentado na cama.
- Pensar no quê? – questionei.
- Em você nua.
Revirei os olhos e dei as costas para ele, procurando nossas coisas. Assim que achei as bolsas jogadas, revirei uma delas, tirando de lá meu conjunto de roupa e uma calcinha. Tive que ir ao banheiro para que pudesse me trocar em paz.
- Estou falando sério... Você parecia perturbado com algum tipo de sonho – saí do banheiro, jogando a toalha em qualquer canto.
não estava mais sentado. Sua expressão parecia mais normal agora, mas seu corpo estava em defesa. Eu o estudava, cada detalhe do seu rosto, cada movimento.
- Lute comigo.
Sua voz saiu com pressa e ele tirou a camisa, jogando-a no chão. Perdi-me nas linhas de sua barriga e em seu peitoral que parecia mais definido que o normal.
- O quê? – me vi perguntando, confusa com sua repentina decisão.
- Lute comigo – ele repetiu. – Como um treinamento, mas lute comigo, .
Eu balancei minha cabeça em negação, não conseguindo entender o que ele estava fazendo ou porque estava reagindo daquela forma. Tudo o que eu sabia, era que algo o atormentava, mas ele parecia não querer me falar. No entanto, por mais que meu estado fosse de negação iminente, ele tinha se aproximado mais rápido do que eu esperava e me encarava perto demais.
Porém, ele estava apenas pronto para atacar e, quando percebi o movimento da sua mão em direção a meu rosto e me abaixei, dando a volta pelo seu corpo. Minha respiração começou a ficar descompassada e eu estava atrás dele, esperando que ele se virasse.
- Você só quer lutar porque é mais fácil do que você falar – comecei. – Qual é o seu problema?
Ele não se virou. Muito pelo contrário. Continuava parado de costas para mim, as duas mãos fechadas em punhos. Foi então que eu reparei em algumas cicatrizes nas suas costas. Hesitante, eu me aproximei dele devagar, agoniada pela falta de resposta. Meus dedos tocaram a sua pele exposta e trilharam o caminho da cicatriz e eu senti o corpo todo dele ficar em alerta.
Minha boca estava entreaberta, soltando o ar que eu prendia a cada meio segundo. Meus olhos foram para as suas mãos ainda fechadas em punhos, e usei minha outra mão livre até a dele. Abri sua mão e encaixei a minha sobre a sua, apertando os nós dos nossos dedos.
- ... – sussurrei.
- Não faça isso – ouvi sua súplica e sua mão apertou a minha. – Não quero que você saiba.
- Mas eu nunca te vi assim – confessei. Meus dedos continuavam dedilhando suas costas – As cicatrizes...
- Não tem importância – me cortou.
- Então, o que está acontecendo, ? – questionei – Por que estava reagindo daquela maneira quando estava dormindo?
Ele apertou sua mão contra a minha com um pouco mais de força, mas não me importei. Encostei minha testa nas costas dele.
- , por favor – sua voz embargada me implorou. Ele estava chorando?
se virou, sem soltar nossas mãos e eu reparei em como os seus olhos estavam guardando dor naquele momento. Suas lágrimas desciam lentamente e meu coração se apertou. Eu nunca tinha visto ele assim de modo algum.
- Eu...
- Não me pergunte nada – me pediu.
- Mas ...
- Só fique comigo.
Eu arfei, soltando todo o meu ar que eu não sabia que estava prendendo. Seus olhos brilhavam devido às lágrimas que insistiam em descer sob seu rosto.
- Eu estou com você – afirmei – Estou sempre com você, .
Ele tentou sorrir, mas foi falho. Umedeci meus lábios, sentindo que ele estava frágil, então com nossas mãos ainda juntas, eu o guiei devagar até a cama, onde ele se sentou. Soltei minha mão da dele e pedi que ele se deitasse.
- Não vou conseguir dormir de novo – avisou.
- Eu estou aqui – minha voz saiu confiante.
me olhou por um breve momento e se deitou. Eu dei a volta na cama e empurrei Zune para o meio de nós e deitei do outro lado, juntando nós três. Beijei a testa do bebê de leve, sentindo uma paz por observá-la dormir.
Meu parceiro procurou minha mão e eu dei minha atenção a ele novamente, juntando nossa mão livre por cima de Zune. Depositei um beijo na palma da mão dele, enquanto ele me encarava sem nem piscar.
- Está tudo bem. Está... – mordi meu lábio, indecisa – Está tudo bem.
Mas a verdade, é que não estava. E por mais que ele não quisesse me contar o que estava acontecendo, eu entendia.
Eu também não queria que ele soubesse algumas coisas de mim.
Eu também tinha segredos.


Seven

- Ei, o que está fazendo?
Me virei bruscamente na direção da voz e vi entrar na grande sala. Minha garganta estava seca, implorando por água e eu sentia o suor escorrer na minha testa.
- Você acordou – ditei o óbvio, tirando as luvas da minha mão.
Ele assentiu e andou mais alguns passos até ficar de frente para mim.
- Onde está Zune?
Eu apontei para o canto da sala, onde Zune estava brincando dentro do cercado. Ele sorriu ao vê-la e voltou a olhar para mim.
- Você... – limpei minha garganta e firmei meus olhos nos seus – Você está bem?
- Por que não estaria? – seu sorriso vacilou e ele tocou de leve meu braço.
- Não tem que fingir comigo, – pedi.
Seus olhos denunciavam cansaço, enquanto seu corpo estava tenso demais. Não pude esconder minha surpresa quando ele me puxou para seu braço e escondeu meu corpo em um abraço inesperado. Senti seu perfume invadir minhas narinas e relaxei meu corpo, retribuindo seu abraço, colocando minhas duas mãos em volta do seu pescoço. me apertou contra ele, como se temesse que eu fugisse a qualquer momento e eu estava agoniada demais por ele estar assim.
- Eu estou bem – ele falou – Estou bem. Não preciso que fique se preocupando comigo, está bem?
Me soltou, deixando seu sorriso tentar me convencer e eu dei de ombros, em derrota. Não ia insistir em algo que ele não queria. Tudo tinha seu tempo.
- Tudo bem – concordei e de repente fui tomada por uma ideia divertida. – Hm, o que você acha de fazermos umas comprinhas para aquela princesa? Ela não tem nenhuma roupa, a não ser o que sua irmã deu.
Ele olhou para Zune de longe e sorriu.
- Antes, eu tenho um comentário a fazer – levantou o dedo indicador na frente do rosto e apontou para meu corpo de cima a baixo. – Você está muito gostosa nessa legging com esse top minúsculo. Eu já disse como ela deixa sua bunda maravilhosa? – pegou minha mão, me girando.
Eu revirei os olhos, seguida de uma risada.
- Ora, aí está o que eu conheço.
- E respondendo sua pergunta, acho uma ótima ideia de distração.

A loja estava com pouco movimento.
Eu segurava uma bolsa no meu ombro esquerdo, enquanto ao meu lado, estava com Zune nos braços, que viera o caminho todo balbuciando e batendo palmas com suas mãos pequenas. Ás vezes eu sentia que ela queria falar, mas sequer havia aprendido um A. Estávamos no corredor onde ficava a área das roupas femininas de bebês. As poucas pessoas sempre nos olhavam indiscretamente e eu sabia o motivo.
Não era pela cor dela, embora pudesse ser.
Mas Zune estava vestida de fantasia de abelhinha. Não tinha entendido por que Laila havia colocado uma fantasia de abelhinha na bolsa para Zune, mas me disse que ela deve simplesmente ter confundido. Não era a primeira vez que ela faria isso e como aquela era a única roupa disponível para a criança – todas as outras estavam sujas –, nós colocamos nela. Ok, ela tinha ficado a coisa mais fofa que eu já vi e dava vontade de apertar ela toda vez que ela sorria, mas eu me controlava porque eu não sou assim.
- Olhe, Zune – fez uma voz infantil, me fazendo rir. – Vestidos de princesas, o que acha?
Ele apontou para uma espécie de mesa funda, onde estava todos os tipos de vestidos jogados dentro, a maioria de princesas. Zune não olhava para onde ele apontava, mas mesmo assim, ele andou até os vestidos, segurando ela com um braço só e pegando um vestido azul com a outra.
- Esses vestidos são tão pequenos – comentei, admirada enquanto pegava alguns aleatoriamente apenas para observar.
- Cinderela, hein? – ele voltou a fazer a voz de criança colocando o vestido na frente de Zune, que pegou com as duas mãos. – Gostou?
Zune fez um barulho com a boca e jogou o vestido no chão, me fazendo rir.
- Acho que não – respondi.
- Tudo bem, a gente escolhe outro – ele insistiu.
Me abaixei para pegar o vestido jogado e coloquei de volta no lugar. dessa vez pegou um rosinha, com estampas brancas.
- E esse? – ele deu para ela segurar.
Zune balançou ele nas mãos, mas não jogou no chão.
- Boa garota. Vamos levar.
- Ai, – ri. – Não sabia que você era ótimo com crianças assim.
- Você ainda vai descobrir que eu sou bom em muitas coisas – ele piscou, deixando-me pegar no ar o duplo sentindo da sua frase.
Eu não respondi. Apenas ri e continuei a andar pela loja.
Peguei uma cestinha que encontrei pelo caminho e fui colocando algumas roupas que achávamos que cabia na Zune. Quando olhei para trás, vi que Zune estava pendurada sobre o pescoço de , enquanto ele falava com duas mulheres que riam de qualquer coisa vinda da boca dele.
Mordi meu lábio, fingindo olhar alguma peça de roupa, quando na verdade eu estava curiosa demais para saber o que tanto conversavam. Não pude nem sequer tentar ouvir, porque ele se despediu delas e veio até mim com seus dentes branco à mostra.
- Conseguiu uma noite? – provoquei.
- Senti ciúme na sua voz? – retrucou.
- Essa palavra, felizmente, não existe no meu vocabulário.
Ele tirou Zune de seu pescoço e deu de ombros, andando mais para frente de mim.
- Olha, tem conjunto para mãe e filha – ele chamou.
Andei até ele com a cesta em mãos e a bolsa de Zune pendurada no ombro.
- É lindo – observei o conjunto de macacão jeans do tamanho de mãe e outro do tamanho do bebê. – Mas eu não sou mãe dela.
- Não precisa ser – comentou. – Quem sabe quando precisaremos de algum tipo de disfarce?
Estreitei os olhos na sua direção. Olhei para a menina nos braços dele e ela encontrou meu olhar. Suas mãos estavam estendidas para mim e ela impulsionava seu corpo para sair dos braços de .
- O que...
- Ela está pedindo seu colo – ele me explicou.
Fiz uma expressão de entendimento e coloquei a cesta no chão. Peguei Zune para os meus braços e ela deitou sua cabeça no meu ombro.
Nunca lidei com tanta fofura. Desse jeito, não tinha nem como eu negar me aproximar dela.
- Então, ainda não quer levar o conjunto? – me perguntou.
- Eu odeio você – sussurrei para ele, dando as costas e indo diretamente para o caixa.
Ainda consegui ouvir sua risada atrás.

No final, embora eu achasse desnecessário, acabamos levando o conjunto. Zune tinha dormido nos meus braços e no caminho, e eu paramos para comprar um novo celular.
- Sabe do que eu estou precisando? – deixei no ar, depois que coloquei a menina na cama.
- De sexo? – ele arriscou, sem me olhar.
Estava concentrado em algo no celular, sentado em um sofá do lado da cama.
- Também – mordi minha bochecha. – Mas não é isso. Estou precisando mesmo é de folga. De uma boa massagem de relaxamento.
- Você pode ter isso – ele continuou.
- Se eu tivesse o luxo de ter tempo – retruquei, me jogando sobre a cama com cuidado para não acordar Zune.
- O que você está fazendo agora? – me perguntou.
Ainda não estava olhando para mim.
- Anh, nada? – encarei o teto – É, nada.
- Então venha aqui – ele me chamou.
Eu dei de ombros desajeitada e me levantei, andando poucos passos até ele. Eu tinha a intenção de ficar em pé ao seu lado, mesmo com ele sentado, mas ele bateu duas vezes com sua mão nas próprias pernas indicando que era para eu me sentar ali e assim eu fiz.
- Os caras que estamos atrás, e por algum motivo, também estão atrás de nós são chamados de KullKe – ele iniciou. – Nome estranho, não é? Parece ser uma mistura dos nomes relacionados à tatuagem que você viu em alguns deles.
- Como você descobriu isso? – minha curiosidade questionou.
Ele me puxou pela cintura para mais perto, fazendo minhas costas bater em seu peito. Quase agradeci, eu estava mesmo meio que escorregando pelo seu colo, mas estar tão perto assim ativava algo perigoso em mim.
me mostrou o celular.
- Pela ASME. Acessei os arquivos secretos sobre essa gangue – respondeu. – Consigo hackear alguns sistemas, sabia?
- A ASME tem um nível alto de segurança – falei, desconfiada.
- Está duvidando de mim? – me olhou, encarando meus olhos tão de perto.
- De forma alguma – sussurrei sem querer.
- Você pode sussurrar de novo? – pediu.
- O quê?
- O que acabou de sussurrar. Soou tão... Sexy.
- Concentre, – soltei uma risada, mostrando o celular a ele.
Ele assentiu rapidamente e voltou a mexer no celular, enquanto eu esperava. Minha cabeça estava começando a doer um pouco, mas nada que eu não aguentasse. Talvez fosse porque eu estava dormindo muito pouco, não saberia dizer.
- Tudo bem... Voltando. Como eu já citei os nomes estranhos que eles são chamados, tem uma coisa que me intriga – ele voltou a me olhar. Dessa vez estava sério e eu pude perceber que ele estava concentrado. – Eles atuam como um só, mas parecem estar com alguém nessa. Tem algo muito maior nisso tudo, então por que iriam querer a Zune?
O raciocínio dele ia á mil, assim como o meu. Eu podia imaginar mil coisas para caras como eles quererem um bebê, mas nada realmente chegava perto do que pudesse ser. Eu desejei que a mãe dela, onde quer que esteja agora, tivesse me dado algum tipo de informação. Alguma coisa que realmente me ajudasse a protegê-la de verdade.
- Não vamos descobrir na teoria – finalmente respondi. – Temos que pôr em prática. Onde podemos encontrá-lo?
- Nos melhores Cassinos de Las Vegas, amor. Onde mais?
Seus olhos brilharam de excitação. Me remexi em seu colo.
- A ideia é tentadora, mas... – envolvi uma de minhas mãos ao redor do seu pescoço. – Não temos com quem deixar a Zune.
- Se você tivesse deixado seu ciúme de lado, saberia que as duas mulheres com quem eu estava falando na loja eram babás – ele solucionou.
- E você acha que eu vou deixar a menina com uma desconhecida? – desafiei – E eu não senti ciúme.
- Não temos escolha, . Vamos ter que confiar.
Bufei, saindo do colo dele. Imaginei mil e umas possibilidades do que poderia acontecer se a Zune não estivesse conosco, mas sim com uma desconhecida que eu nem sequer sabia o nome. E vamos combinar que confiar não era um luxo que estávamos tendo nessa grande situação atual.
só podia estar louco.
Mas eu não tinha mesmo escolha.
Antes que eu pudesse retomar a discussão, porém, fui interrompida por batidas fortes na porta e levantou rapidamente para atender.
- Serviço de quarto – ele avisou. – Pedi nosso almoço.
Deixei que ele atendesse e dei uma olhada em Zune, que ainda usava a fantasia de abelhinha. Eu ri sem perceber e fui até ela, tendo cuidado para não acordá-la e tirei a roupa devagar. Ela se remexia algumas vezes, mas assim que terminei de tirar a roupa dela, deixando-a só de fralda, ela voltou a ficar quieta e dormir. Joguei a roupa do outro lado da cama e me sentei na beira, vendo trazer nosso almoço em um carrinho.
- Macarronada italiana – ele anunciou e o cheiro invadiu minhas narinas, me fazendo perceber o quanto eu estava mesmo com fome.
- Você sabe que ela também não comeu? – perguntei, começando a colocar o macarrão no prato.
- Eu sei – ele sentou ao meu lado, empurrando o carrinho para mais perto de nós. – Por isso eu pedi para ela também.
pegou uma mamadeira e balançou de leve me mostrando que era para Zune. Eu balancei a cabeça negativamente, rindo e bati nossos ombros.
Era bom ter um momento normal ás vezes.


Eight

- O que você acha?
parou de cutucar o celular para me olhar e sua boca abriu um pouco. Cocei meu pescoço, agoniada e desesperada por alguma aprovação. Estava me sentindo um pouco insegura com aquele vestido longo e chamativo.
- Você está deslumbrante – elogiou.
- Não acha que está exagerado? – duvidei, olhando o vestido no meu corpo. – O azul não ficaria melhor?
- Nossa, . Você está mesmo insegura com um vestido?
- Vermelho é bem chamativo – me defendi.
Ele riu, dando de ombros e voltou a fazer sei lá o quê no celular e eu finalizei meu cabelo. Assim que tínhamos decidido ir mesmo para o Cassino, eu procurei alguma loja e aluguei o vestido em algumas horas, já que eu não tinha trazido nenhuma roupa para uma ocasião como aquela. estava de terno, mas estava tão despojado sobre o sofá, sem se importar se amassaria a roupa ou não que eu nem liguei também.
- Estou pronta – anunciei.
Parei na frente dele e levantei um pouco o vestido, mostrando o coldre da arma que eu estava carregando escondida. Tinha um pequeno canivete também.
- Amém – ele comemorou, se levantando e guardando o celular no bolso. – Vocês, mulheres, demoram demais a se arrumarem.
- Temos que prezar nossa beleza – retruquei. – Não temos culpa.
Soltei uma risada, verificando uma última vez no espelho se a maquiagem não estava borrada.
- Vamos, ainda temos que deixar a Zune na casa da Amber.
- Ainda não gosto dessa ideia – murmurei contrariada.
Andei até a bolsa, tirando de lá uma pequena pulseira. Continha pedrinhas pequenas azuis e coloquei no meu pulso esquerdo.
- Já conversamos sobre isso. Agora podemos ir? – ele perguntou, segurando a bolsa de Zune pelo ombro.
Assenti, olhando ao redor apenas para verificar se não estávamos esquecendo nada. Peguei Zune na cama, segurando-a nos meus braços. Ela estava com o vestido que escolheu para ela e tinha um sapatinho dourado em seus pés que Laila havia deixado.
Nós seguimos o caminho todo pelo hotel até chegar ao táxi que estava nos esperando. Iríamos primeiro passar na casa da babá, – que descobri se chamar Amber –, deixar a Zune lá e depois eu e finalmente vamos para o Cassino. Eu esperava encontrar algumas respostas essa noite. Ou pelo menos tentar entender alguns porquês. Não era pedir muito, se eu parasse para pensar. Senti uma mão pequena me cutucar e olhei para Zune em meu colo. Ela sorria, me estendendo uma de suas mãozinhas e eu segurei-a, vendo que sua outra mão, segurava a de .
- Ela é inteligente – ele assumiu, sorrindo.
Eu ri, a observando em silêncio e seus olhos estavam me atraindo mais uma vez. A cor deles e de como eles ficava nela, me fazia gostar de olhar tanto para eles, por quanto tempo fosse. Era reconfortante.
- É – cortei o silêncio, enquanto o caro seguia rápido pelas ruas caóticas. – Já se perguntou qual será o nome verdadeiro dela?
- Pensei nisso – ele respondeu – Não consegui pensar em nenhum bom que não fosse Zune.
- Faz sentido – ri.
Zune começou a balbuciar coisas sem sentido, mas não soltava nossas mãos.
- Pode ser perigosa essa noite, você sabe, não é? – me perguntou, depois de um intervalo de silêncio desconfortável.
- Estamos em perigos constantes – confessei. – Qual a diferença?
- Achei que por um momento, você pudesse estar insegura – admitiu.
- Eu estava insegura apenas em relação ao vestido – retruquei, em minha total defesa. – E também não estou confiando em deixar Zune com uma desconhecida.
- Caso não tenha percebido – ele me olhou, mas não ousei olhar de volta –, também somos desconhecidos para ela.
- É diferente.
Ele abriu a boca para responder, mas o taxista interrompeu, avisando que tínhamos chegado. me olhou, esperando alguma atitude minha.
- O quê? – perguntei confusa.
- Você precisa soltar ela para que eu possa levar – ele explicou, apontando com a cabeça para minhas mãos, que seguravam Zune com firmeza. Eu nem tinha percebido que estava a segurando assim.
- Ah – exclamei em entendimento. – Tudo bem.
Olhei da janela o grande prédio a nossa frente e umedeci meus lábios devagar, sem tirar o batom.
- Fique bem, abelhinha – consegui dizer, antes de entregar ela a e ele sair do carro, sumindo da minha vista com ela.
Minhas mãos nervosas encontraram uma a outra e eu suspirava a cada minuto, esperando que meu parceiro voltasse logo.
- Primeira vez que contratam uma babá? – a voz do taxista me chamou atenção, tirando os devaneios perigosos da minha mente.
Ele me olhava pelo espelho.
- É o que parece – soltei uma risada nervosa.
Eu estava me sentindo estranha. Cruzes.
- Entendo – ele voltou a falar, me mantendo distraída. – Minha mulher ficou pior que você. Não conseguiu deixar nossa menina com uma babá por mais de duas horas – ele riu, provavelmente lembrando-se do acontecido.
Adoraria que minha situação fosse semelhante a da mulher dele, mas se eu abrisse a boca para dizer o real motivo de eu ter que deixar a Zune com uma desconhecida, talvez ele me expulsasse do táxi.
- Espero ultrapassar o limite de duas horas – comentei, fazendo o rir novamente.
Senti que ele ia falar algo mais, mas a porta do carro foi aberta e entrou, se sentando ao meu lado.
- E aí? – perguntei.
- Está tudo bem, – ele riu. – Ela não chorou.
- Não foi isso que eu perguntei – trinquei os dentes.
- Está tudo bem – ele se aproximou, segurando uma de minhas mãos e sua boca encostou-se à minha bochecha. – Não há nada de errado lá, eu prometo.
Sussurrou para mim e eu me acalmei. Engoli a seco, sentindo seu perfume e sua boca estava muito perto.
Agora seria um bom momento para beijá-lo?
- Senhores? – ouvi a voz do taxista novamente e nos afastamos.
- Por favor, podemos seguir – instruí, um pouco desnorteada. – Cassino Langue’s.
Encarei os olhos excitante de e temi pela minha sanidade pelo resto da noite.

Ele mantinha uma de suas mãos firmes nas minhas costas, na base da cintura. Foi necessária uma cena improvisada para que pudéssemos entrar sem que encarar a fila enorme que estava lá fora. Por dentro, o local estava muito bem iluminado e eu podia ver e notar a clara excitação em cada rosto que passavam por nós. Respirei devagar, caminhando com ao meu encalce até o bar que continha por ali.
Minha boca estava seca, implorando por líquido.
- Duas tequilas, por favor.
pediu e nos sentamos no banco. O barman assentiu e saiu de nossa vista, o que me deu carta branca para visualizar melhor o lugar. Não estava cheio. Eu diria que estava razoável, mass ainda assim, a maioria eram ricos.
Tinha mais ou menos dois homens ao meu lado esquerdo, um pouco longe e havia mais três depois de . Não me pareceu suspeito de imediato, então eu não fiquei encarando muito tempo.
- Você vai se arriscar? – começou um assunto, apontando para as mesas de jogo logo à nossa frente.
- Ah, não – eu neguei. – Não sou muito boa em jogos de sorte.
O barman voltou com duas taças, colocando na nossa frente e eu agradeci, fazendo-o sumir de nossas vistas novamente. Peguei minha taça, levando-a a minha boca e tomei dois goles, saboreando o gosto da bebida.
- Sabe, ... – bebeu um gole de sua bebida, segurando a taça com cuidado. – Eu tenho uma noticia não muito boa.
- Você é gay? – fingi decepção, colocando a mão no peito.
Ele revirou os olhos com um sorriso divertido no canto dos lábios.
- Não, felizmente – ele olhou ao redor, parecendo procurar algo. – Mas sei que você não vai gostar, de qualquer forma.
- Desembuche – pedi, apressada.
Tinha um palco no fundo do lugar, onde havia um pau de pole dance, mas não havia sequer uma dançarina no lugar. Perto do palco, continha um sofá, uma mesa no centro e alguns homens de idade estavam despojados ali, jogando algum tipo de jogo que envolvia cartas. O que me chamou atenção foi os dois homens fortes que se mantinham em pé, cada um de cada lado, como se fossem o segurança.
E a mesma tatuagem nos braços.
- Tudo bem – suspirou e retirou o celular do bolso, fazendo minha atenção se voltar para ele novamente. – Enquanto você estava se arrumando, eu entrei em contato com Simon. Pedi que ele usasse as habilidades dele e me desse um resultado em questão de minutos. Você sabe que ele consegue.
Bebi mais um gole, umedecendo meus lábios e coloquei a taça no balcão, prestando atenção no que meu parceiro falava.
- Resultado de quê? – perguntei.
- De onde deveríamos começar – explicou. – Ele me mandou vários arquivos com as informações que conseguiu.
me ofereceu o celular, que peguei rápidamente. Meus olhos captaram os arquivos na tela e abri o primeiro que pude. Tinha o título de nome da gangue e algumas informações úteis sobre eles e os outros arquivos seguiam disso.
- Não estou entendendo, – confessei, devolvendo seu celular.
- Tudo bem, você está na pasta errada – ele revirou os olhos.
Olhou mais uma vez ao redor e prendeu o sorriso quando se virou para mim. - Há uma mulher de vestido preto na mesa à direta, logo à frente – ele disse e eu olhei discretamente. – Seu nome é Sunie Walker, filha de um dos maiores empresários do mundo inteiro.
Ela estava acompanhada de duas mulheres e um homem, que ria de algo que uma delas comentou.
- O nome dela está ligado ao... KullKe – ele fez uma careta ao pronunciar o nome baixo. – Não é horrível dizer esse nome? Alguém não tinha bom gosto.
Soltei uma risada, balançando a cabeça e pedindo que ele continuasse.
- O que eu quero dizer – bebeu mais da sua bebida –, é que ela pode ser um alvo para você.
Eu pisquei três vezes, tentando entender a lógica de sua frase, mas eu acho que meu cérebro estava lento demais para processar informações em curto prazo. Então me pronunciei.
- Para mim? Por que não pode ser para você? Você é ótimo com mulheres.
De algum modo, ele riu.
- Aí é que está a má noticia, – ele se divertiu – Ela é lésbica.
Eu abri e fechei a boca inúmeras vezes. Encarava com fervor nos olhos, mas para variar, ele se divertia com minha reação.
97% dos homens fantasiavam com duas mulheres.
Eu não duvidava nem um pouco que ele fazia parte desses 97 e também não tinha certeza se a porcentagem estava certa, já que eu não saí por aí fazendo pesquisa de campo. Olhei para a direção da mulher mais uma vez e repassei a informação na minha cabeça.
- Como vou fazer isso? – perguntei, frustrada e pedi outra bebida ao barman com uma porcentagem maior de álcool.
- O quê? – perguntou – Levá-la para cama?
- Dá para me levar a sério? – pedi, irritada. – Eu não faço ideia de como vou chegar nela. Além do mais, não é como se ela fosse me falar tudo de uma vez.
- Meu Deus, relaxe ! – ele riu, acariciando meu braço – Seu problema é não saber seduzir ela?
- Não vai me levar a sério, não é? – olhei para ele.
O barman trouxe minha bebida, depositando o copo perto de mim. Eu peguei, encarando o líquido colorido.
- O que é isso? – perguntei em uma careta. O barman ia abrir a boca, mas eu fiz que não com a cabeça – Não importa.
Era doce, mas forte ao mesmo tempo e eu engoli tudo rápido.
- Eu só estou tentando ajudar – continuou, tirando a mão de mim.
- Certo – eu assenti. – Eu não faço ideia de como seduzir ela. Ela gosta de sexo casual? Não quero grude atrás de mim depois.
Ele riu mais uma vez.
- Tudo bem. Você pode fingir que ela é eu – ele deu de ombros, como se fosse uma coisa normal.
- Como assim? – perguntei, deixando o copo de lado.
Ele se aproximou mais um pouco, deixando nossos rostos a poucos metros de distância. Eu engoli a seco, soltando minha respiração lenta.
- É fácil você me seduzir, não é? – ele começou. – Você também está louca para me beijar, não negue. Então, você pode fingir que a boca dela é a minha – ele pegou minha mão e colocou meus dedos em seus lábios.
Eu entreabri minha boca, para que eu pudesse respirar com mais facilidade e meus dedos pareciam criar vida própria, porque eles estavam desenhando o lábio de .
- Pode fingir que o corpo dela é o meu – tirou meus dedos de seus lábios e desceu para seu peitoral. – E então, você pode seduzi-la imaginando que sou eu.
Eu tirei minha mão do peito dele e me virei, pegando o copo e bebericando todo o conteúdo, fazendo meus olhos arderem.
- Eu odeio você – pronunciei, antes de me levantar e deixar ele sozinho ali.


Nine

Duas mulheres.
Duas mulheres a cercavam, deixando que meu plano – que eu não tinha –, estivesse indo por água abaixo e eu não fazia ideia do que fazer. Me recusava a voltar para o bar e pedir ajuda daquele canalha que não facilitava nenhum pouco em meu trabalho.
Eu estava a ponto de arrancar os cabelos. Meu corpo estava começando a ficar tenso e o estresse ameaçava me dominar. Tudo isso porque eu não fazia ideia de que porra eu ia fazer. Minhas mãos coçavam para que eu matasse ali mesmo, me vingando por ele ter me jogado na cova dos leões, mas eu respirei fundo e recuperei minha postura, continuando a andar pelo lugar com uma taça em mãos, mas ao mesmo tempo, sem tirar os olhos dela. Pior que eu tinha que admitir que ela era mesmo bonita e atraente.
Pena que não fazia nenhum pouco meu tipo.
- Você parece um pouco perdida.
Uma voz se pronunciou atrás de mim e eu me virei para ver quem era, dando de cara com um homem mais ou menos da minha idade – embora um pouco mais alto que eu -, usando um terno cinza e segurando um copo em mãos. Seus cabelos estavam em um estilo bagunçado, esbanjando seu charme atrás de seu sorriso caloroso.
Meu interior gritava “sexo!”, porque era exatamente isso que eu estava precisando naquele momento. Eu estava tanto tempo olhando-o, que eu quase me esqueci de responder.
- Perdida não é exatamente a palavra – levei a taça que eu segurava a meus lábios e bebi um pouco daquela bebida doce. – Talvez eu só esteja um pouco entediada.
Ele riu, se aproximando mais e ficando a pouca distância de mim.
- Sou Gustav – se apresentou, estendendo sua mão livre para mim.
- – aceitei sua mão, apertando-a levemente.
- Então, ... – ele bebeu os últimos goles de seu copo e depositou na mesa ao lado – Posso te mostrar o paraíso e mudar sua ideia de tédio?
Umedeci meus lábios, maliciando sua frase com um duplo sentido que foi inevitável que eu não percebesse. Gustav estendeu sua mão para mim e eu aceitei, deixando meu copo de lado junto com o dele. Conforme ele me guiava pelo lugar, eu aproveitei para dar uma espiadela no bar, onde ainda estava. Ele me encarava curioso e levantou o copo no ar, como se esperasse que eu falasse alguma coisa, mas eu só dei as costas e continuei seguindo Gustav pelo cassino. Agradeci mentalmente também que eu não estava com o comunicador, bem capaz que iria falar alguma coisa só para me provocar.
Gustav deu meia volta em uma mesa, onde tinha alguns homens e idosos jogando roleta. Ele parou e se virou para mim.
- Que tal tentar algum desses jogos? – me perguntou, apertando minha mão delicadamente.
Eu balancei a cabeça, negando.
- Não sou boa em jogos de azar, então eu passo – respondi.
Olhei para onde a mulher estava e ela sequer havia saído do lugar, me fazendo suspirar discretamente frustrada por não conseguir pensar em algo para conseguir chegar nela.
- Então o que você está fazendo aqui, afinal? – Gustav tornou a perguntar, chamando minha atenção para si novamente.
- Ok, você me pegou agora – soltei uma risada. – Talvez minha curiosidade fosse alta demais e eu não podia ir embora de Las Vegas sem antes conhecer um Cassino por dentro.
Minha resposta fora péssima, mas pelo menos ele sorriu. Eu não conseguia colocar meu cérebro para trabalhar naquele momento com tanta coisa a pensar e organizar.
Precisava de um plano. Não estava nem conseguindo me manter concentrada no fato de que Gustav fazia meu interior e o corpo inteiro gritar por uma boa noite de sexo maravilhoso e sabia que eu iria me arrepender no dia seguinte por recusar, então soltei minha mão da dele devagar. Ele estava sendo uma ótima distração de fachada, mas eu precisava agir.
Infelizmente, não tinha a noite toda e me recusava em deixar a Zune com uma babá que eu sequer conhecia.
Vi a oportunidade aparecer quando Sunie, a mulher que me apresentou como um possível alvo, se levantou da mesa acenando para os demais que ainda estavam ali e caminhava com toda sua elegância até o bar do outro lado, bem longe de . Gustav depositou sua mão em meu braço, acariciando o local e eu olhei para ele, que sorria compreensivo para mim.
- Entendi – foi tudo que ele me disse e eu fiz uma careta confusa. Entendeu o quê, criatura?
- O quê?
Ele apontou com a cabeça para a mulher que eu estava olhando antes e eu fiz um “ah” inaudível.
- Você podia ter me dito que... – ele sussurrou a última frase só para mim – é seu tipo.
Certo.
Respira fundo, .
Não pense em assassinar seu parceiro.
Ele só está querendo ajudar e descobrir informações tanto quanto você.
- Ah – exclamei em entendimento e soltei um sorriso sem graça na direção do Gustav.
Tão lindo.
Tão gostoso.
E entendeu tudo errado.
- É uma informação pessoal e eu não digo de cara assim – expliquei, sorrindo amarelo.
- Tudo bem, . Você ainda pode se divertir. Ela está sozinha – ele informou, apontando para o bar, onde ela estava sentada sozinha.
- Sinto muito.
Foram minhas últimas palavras em sua direção, antes de eu dar as costas e seguir para o bar. Eu andava devagar, tentando demonstrar confiança e não tropeçar nos próprios pés e nem no pano do vestido longo.
Logo, me sentei na cadeira vazia ao seu lado e em alguns segundos, veio um barman me atender.
- Eu, anh... – limpei minha garganta, pensando no que falar. – Eu quero... Quero um... Qualquer coisa que tenha álcool.
O barman balançou a cabeça e saiu da minha frente. Eu podia sentir o olhar da mulher ao meu lado sob minha nuca.
Alguém não tinha um manual de como seduzir as mulheres?
Eu suspirei, me endireitando na cadeira e engoli a seco.
- Adoro vermelho.
A voz dela se pronunciou, me fazendo virar a cabeça tão rapidamente que meu pescoço estralou e eu fiz uma careta pela dor que se alastrou naquela área especifica.
- É bem chamativo – foi tudo o que eu consegui dizer.
Ela deu de ombros e se virou para o lado, ficando de frente para mim. Seu vestido preto, também longo, tinha uma faixa aberta na sua coxa direita, deixando toda a sua perna á mostra e não pude evitar dar uma olhada indiscretamente.
- Você é? – interrompeu meu momento de observação e o barman trouxe minha bebida. Eu o despachei com as mãos, sem o agradecer apenas para que ele sumisse dali rápido.
- Cali – menti meu nome, apenas por precaução. Não podia me dar o luxo dela saber quem eu era de verdade, apesar de que ela pode muito bem gravar meu rosto – Sou Cali. E você?
- Sunie – respondeu, sem tirar os olhos dos meus – Sunie Walker.
O peso do seu sobrenome me fazia pensar o quão ela era importante naquele lugar e me fez questionar qual era a participação dela nisso tudo. Peguei o copo ao meu lado e bebi metade de uma vez.
Nunca desejei tanto que fosse no meu lugar. Pelo menos o filho da puta saberia o que fazer.
- É um prazer, Sunie – desenhei um sorriso que eu julgava ser sexy em meus lábios.
Walker tinha uma beleza única, odiava admitir. O preto de seu vestido combinava com o constate de sua pele e olhos – embora esse último eu estivesse um pouco longe para ter certeza da cor. Ela se levantou do banco e se aproximou de mim, ficando alta a meu ver, justamente porque eu continuava sentada. Ela segurou meu queixo com uma das mãos e levantou para que eu pudesse olhar exclusivamente para ela. Não saberia dizer se foi de propósito ou não, mas Sunie virou o copo e derrubou o pouco da sua bebida em meu decote, sujando meu vestido de vodca.
- Ops! – exclamou falsamente e eu umedeci meus lábios entendendo sua intenção.
- Tudo bem – falei, retirando sua mão no meu queixo e coloquei meu copo de volta na bancada, passando minhas duas mãos pelo local molhado.
Mas era inútil tentar secar.
- Eu tenho vários vestidos novos no quarto, se quiser me acompanhar – sua voz sussurrou.
Eu queria recusar, mas não estava ao meu alcance. Podia ser uma chance.
Levantei meu olhar de volta para ela e lembrei que eu tinha uma arma calibre 38 presa no coldre debaixo do meu vestido.
- Será um prazer.
Os olhos dela eram verdes, por sinal.
Foi preciso descer uma escada, na direção do palco de pole dance e embaixo havia várias portas numeradas. Ela segurou minha mão e me guiou para a última porta do corredor estreito, onde estava em vermelho ardente o número 69.
Bem sugestivo. Bastante explicativo. Um pouco assustador imaginar.
Sunie abriu a porta e deixou que eu entrasse primeiro, soltando minha mão e eu tive que me segurar para não deixar meu queixo cair boquiaberto. O quarto, na verdade, era uma espécie de sala conjunta. Tinha um sofá grande na parede perto da porta, enquanto uma mesinha de centro enfeitava o meio. A cama de casal ficava mais para frente e sobrava um espaço enorme. Tinha várias outras decorações que completavam o lugar, mas eu ficaria o tempo inteiro citando só eles aqui.
Ouvi o clique da porta e percebi que ela tinha trancado.
Minha mente me mandava imagens e eu estava começando a desconfiar se não foi muito fácil que ela me notasse ou que eu tivesse conseguido a atenção dela tão rápido. Talvez ela estivesse só desesperada para transar? Ou ela podia saber quem eu era de verdade?
- Sabe... – ela se pronunciou com a voz baixa, dando meia volta e parando de frente a mim. – Eu adoro jogos de seduções, podia ficar a noite inteira aqui só com você.
Suas unhas, pintadas de azul escuro, pousaram em minhas bochechas, descendo para meus lábios e eu prestava atenção.
- Mas, infelizmente, eu tenho uma reunião de negócios – ela continuou.
- De madrugada? – abri a boca, em dúvida.
- Dinheiro não tem hora, minha querida – respondeu, tirando as mãos de mim e se virou seguindo na direção do frigobar. – Fique á vontade. Quer uma taça de vinho?
- Aceito.
Eu caminhei devagar até a cama de casal, passando meus olhos detalhadamente pelo lugar, á procura de algo que fosse suspeito. Mas a frustração tomou conta de mim quando não encontrei nada.
- Aqui – me ofereceu a taça e se sentou ao meu lado na ponta da cama.
Eu sorri, pegando a taça da mão dela e levei até minha boca, deliciando o sabor do vinho entre meus lábios. Seus olhos se mantinham firme sobre os meus e eu estava começando a me sentir estranha.
Talvez gostando daquele clima todo. Ou talvez, porque eu nunca fiquei com uma mulher, de fato.
- Então, Cali, o que você faz? – ela me perguntou, tão perto de mim que eu quase me assustei.
Odiava enrolação.
- Por que não pulamos as perguntas e vamos direto ao ponto? – sugeri.
Você pode fingir que a boca dela é a minha.
Encarei a boca dela, os lábios tão finos pintados de vermelho e a voz de me veio á mente. Ela sorriu devagar, bebendo mais um gole do vinho, enquanto eu engolia a seco me perguntando por que diabos eu dei a ideia.
Ai meu Deus. Nunca beijei uma mulher antes.
Mas lábios eram lábios, não eram?
- Relaxe, Cali – percebi que estava tensa quando ela tirou a taça da minha mão e colocou em cima do cômodo ao lado junto da taça dela. – Eu só mordo se pedir.
Eu soltei uma risada, achando graça.
Pode fingir que o corpo dela é o meu.
Então, automaticamente com a voz de na minha cabeça, eu encarei o corpo dela descaradamente. Sabia que só seduzir aquela mulher não me ajudaria em nada, porque ela não ia me falar tudo o que eu deveria saber, já que eu era uma mera desconhecida para ela. Uma conquista, talvez e nada mais. Mas eu também sabia que conquistar me traria uma vantagem, eu só precisava saber usar no momento certo.
- Eu... – ela tentou se pronunciar, mas foi interrompida pelos meus dedos, que pousaram nos seus lábios.
Eu encarei seus olhos, umedecendo meus lábios.
- Shhh... – sussurrei.
Tomei coragem e desci devagar minhas mãos até os ombros dela, onde eu depositei a mão de cada lado e lentamente, fui descendo a alça do seu vestido. Me aproximei mais de seu corpo e deixei que meus lábios roçassem de leve no seu e senti ela suspirar. Eu sorri provocando e entreabri meus lábios, quando ela fechou os olhos e eu finalmente a beijei.
Foi uma mistura diferente. Um arrepio se alastrou por todo meu corpo. Uma sensação desconhecida me invadiu.
Suas mãos se encaixaram na base da minha nuca e puxou meus cabelos com uma força gostosa. Eu aprofundei o beijo e fiquei por cima dela, deitando-a sobre a cama de colchão fofo.
Percebi que, por mais que eu quisesse odiar admitir, eu estava gostando.
Mas então um clique me veio á mente, me trazendo a lembrança de que eu carregava uma arma e um canivete por debaixo do vestido e se continuasse da forma que estava, ela descobriria. Então, tão rápido quanto a beijei, eu saí de cima dela, a fazendo criar uma feição confusa em seu rosto e eu tentava recuperar meu fôlego. Me sentei na cama novamente.
- O que... Você nunca ficou com uma mulher, não é? – ela perguntou, sem se levantar.
O problema não era esse, mas também não menti na resposta da pergunta.
- Não.
Ouvi seu suspiro e cutuquei minha pulseira, lembrando do porquê eu estava a usando. Levantei da cama e andei até a cômoda, onde estavam nossas taças de vinho inacabadas.
- Mas não é essa exatamente o problema, eu só... Fui rápido demais – menti, apenas para continuar a falar e mantê-la ocupada.
Fiquei na frente das duas taças e com minha mão direita, segurei uma pedrinha da pulseira no meu pulso esquerdo, abrindo-a devagar para que não derramasse todo pó no chão. - Eu estava gostando – ela confessou, sem cerimônia.
Com cuidado, eu derramei o pó dentro de uma das taças e fechei o traço da pedrinha, deixando a pulseira em paz. Peguei a taça que estava com Boa Noite, Cinderela e balancei um pouquinho para que se misturasse ao vinho.
- Eu sei que sim – me virei segurando as duas taças na mão e andei até ela, me sentando ao seu lado na cama. – Mas ir devagar também é gostoso.
Ofereci a primeira taça a ela, que aceitou com seu sorriso sedutor nos lábios. Eu bebi do meu, enquanto observava ela beber do dela e eu torcia para que o plano da minha cabeça desse certo. Eu precisava que desse.
- Sabe, você disse que tinha vestidos para me oferecer – lembrei. – Caso tenha esquecido, esse aqui está sujo e com cheiro de bebida barata.
Ela deixou que meus ouvidos fossem preenchidos com o som da sua risada e bebeu todo o resto que faltava do seu vinho, deixando a taça vazia de lado na cama. Minha cabeça começava a doer um pouco, surtindo os efeitos dos alcoóis que eu ingeri desde que cheguei aqui.
- Sim, eu disse – me respondeu.
Se levantou da cama sem que eu esperasse e andou até o outro lado do enorme quarto. Ela clicou em um botão ao lado e uma porta colada a parede se abriu, revelando um escritório totalmente organizado. Tive que me segurar mais uma vez para que meu queixo não fosse ao chão.
- Venha aqui – ela chamou.
Não pensei duas vezes e mesmo com a taça ainda em mãos, eu fui atrás dela, seguindo escritório adentro. Ela virou à esquerda e apertou algum outro botão, que revelou outra porta, e dessa vez havia um closet com todo tipo de vestido.
Todos os tipos de vestidos.
Não era encantada por moda, mas entrar ali era o paraíso.
- Você pode escolher algum e experimentar aqui mesmo – ela quebrou o silêncio de admiração – Tenho certeza que qualquer um ficará bem em seu corpo. Eu posso esperar na cama.
Olhei para ela e flagrei-a encarando meu corpo de cima a baixo. Abaixei-me, deixando a taça no chão e fui andando devagar, passando meus olhos pelos vestidos. - Sim, você pode esperar na cama.
Ela concordou quando eu peguei um vestido de alça fina, longo e azul. Quando olhei para trás, ela tinha sumido.
Nunca desejei tanto que eu estivesse com o comunicador para que eu pudesse pedir algum tipo de ajuda a . Mas eu trocar o vestido era o tempo de a droga começar a fazer efeito nela. E então, eu podia dar continuidade ao que eu viera fazer.
Tic-Tac, .


Ten

Uma coisa que eu aprendi durante os aperfeiçoamentos das minhas técnicas para me tornar uma agente foi que, se algo está fácil demais, tem alguma coisa errada.
Embora eu estivesse um pouco zonza, eu colocava minha mente para trabalhar e meus pensamentos se embaralharam naquilo tudo e eu estava com uma sensação angustiante. Tinha alguma coisa errada, eu só não sabia o quê.
Depois de um bom tempo enrolando, eu coloquei o vestido escolhido e andei devagar de volta ao quarto, onde encontrei Sunie apagada na cama, totalmente desajeitada. Então, como um desafio, minha mente me pregou a peça de que eu tinha muito pouco tempo e comecei a procurar com pressa por todo o escritório organizado. Algumas gavetas estavam totalmente trancadas, o que me fazia bufar de frustração e voltar a estaca zero.
Odiava isso.
Eu sentei na cadeira, batendo minhas mãos de leve em cima da mesa e peguei os papéis que estavam postos um em cima do outro ali. Sem intenção alguma, eu passei as folhas. Uma foto caiu do meio delas e eu me abaixei para pegar no chão, tendo a revelação que quem estava na foto era Zune com a mãe e um homem que eu nunca tinha visto na vida. Nem mais gordo, nem mais magro.
- Droga – murmurei, colocando a foto em cima da mesa e tentei abrir a única gaveta trancada com cadeado, mas não tive sucesso. – Vamos, tem que ter alguma coisa.
Falei sozinha, enquanto tentava pensar em um jeito de abrir aquela gaveta e descobrir o que Walker tanto guardava. Tirei meus saltos, jogando-os em qualquer canto e me levantei da cadeira, passando meus olhos por todo lugar, cada prateleira, até que consegui achar um clip de papel. Desdobrei a parte comprida do clip duas vezes, fazendo uma parte dela se projetar para fora e eu pude inserir a parte reta na fechadura.
Demorou mais de dois minutos até que eu consegui dobrar em 90 graus e pudesse abrir aquele maldito cadeado. Joguei o clip com o cadeado no chão e puxei a gaveta para frente, pegando todos os papéis que havia ali. Os arquivos estavam denominados como “altamente secreto” e isso foi o suficiente para que minha curiosidade fosse ativada.
O nome Juliette Walker estava em destaque na primeira folha, ao lado de uma foto de Zune dormindo em um berçário e descobri que o verdadeiro nome dela era aquele, mas essa informação não foi a que me chamou atenção. Por que diabos a Zune teria o mesmo sobrenome da Sunie?
Passei os olhos pelo resto das folhas, concluindo que todas as informações que havia ali, eram tudo sobre Zune. Única e exclusivamente sobre ela. Não tive tempo de reunir mais nada, porque ouvi um barulho vindo da porta e joguei todos os arquivos para dentro da gaveta. Eu me levantei, ficando totalmente em pé e descalça. Como um reflexo de defesa, eu retirei a arma do coldre debaixo do meu vestido e fiquei em posição, andando devagar até voltar para o quarto. Sunie continuava desacordada, na mesma posição e não havia ninguém ali. Mas duas batidas discretas na porta me pôs em alerta.
- Senhorita Walker? – uma voz grossa chamou, cessando as batidas na porta. – Sinto atrapalhar, mas sua reunião já vai começar. Gostaria de lembrar que você odeia se atrasar.
A maçaneta da porta girou, me fazendo observar que ele tentava a todo custo abrir a porta, já que não estava obtendo resposta nenhuma da mulher. Eu suspirei, olhando por alguns segundos para ela e não consegui pensar em como me livraria do homem por detrás da porta.
- Walker, não podemos começar a reunião sem você – outra voz falou, um ar sério de autoridade. – Temos um novo cliente. E uma informação que vai gostar de saber – ele se calou por um momento, talvez pensando se daria a informação ou não. Eu fiquei tensa por todo esse silêncio – Temos um capturado. Um intruso.
Minha respiração se alternou e meu coração se apertou por pensar em . Ele não podia ser o intruso. Não podia ter sido capturado. Isso complicaria muito nossas chances de sair daqui.
- Tem alguma coisa errada – a voz continuou a falar mais baixa para o outro homem – Avisem aos outros.
Destravei a arma no exato momento em que ele arrombou a porta, derrubando a madeira no chão. Eu não atirei, porque ele foi rápido demais e chutou a arma da minha mão, fazendo-a cair para o outro lado e quando partiu para cima de mim, desviei para o lado, acertando-o na barriga. Mas ele era rápido e insistente e se recuperou do golpe no mesmo minuto, avançando na minha direção. Eu corri para cima dele, fazendo com que ele me pegasse pela cintura com as duas mãos e eu segurei nos seus braços fortes, me impulsionando e dei um giro sobre o corpo dele e o derrubei no chão. Fiquei em pé, respirando rápido e procurei a arma com os olhos, mas não fiquei olhando por muito tempo. Voltei minha atenção para o homem deitado no chão, com meu pé em cima do seu peito. Antes que eu abrisse a boca para perguntar qualquer coisa, ele pegou meu pé, fazendo um golpe ágil e me derrubou para trás, do qual eu caí e bati com as costas no chão. Gemi, sentindo a dor do baque e vi-o em pé, pronto para me dar mais um golpe enquanto eu estava indefesa, mas eu girei para o lado, desviando de seus pés. Eu me levantei, colocando minhas duas mãos sob o chão impulsionando, e assim que ele chegou perto de mim, eu o acertei no rosto, fazendo-o cambalear para trás, mas sem derrubá-lo. - Você é boa, admito – a sua voz invadiu o silêncio e cortou meus ouvidos e eu deixei meus olhos em atenção sobre ele. – Uma pena eu não poder dizer o mesmo sobre seu... Namorado? Parceiro? Tanto faz – ele limpou o sangue que escorria ao lado da sua boca e umedeceu os lábios. – Mas você deve achá-lo atraente ensanguentado, não deve?
- Cale a boca – trinquei os dentes, fechando as mãos em punhos.
Eu devia me acostumar com esses tipos de provocações, mas a imagem de cheio de sangue me subiu na mente e era impossível que eu ficasse serena.
O homem loiro riu, deixando o som de ruído de seu riso invadir minha audição.
- Entendo – ele completou e sem que eu esperasse, avançou para cima de mim.
Ele me girou e me prendeu contra seu corpo, me deixando de costas para ele e colocou meus braços presos atrás do meu corpo.
- Vamos ver o que ele vai achar de você apanhando também, hm? – ele sussurrou atrás de mim e mesmo que minhas mãos estivessem doendo, eu só fiz uma careta.
A raiva que me dominava espantava qualquer dor que me ameaçasse e eu bati minha cabeça contra a dele, escutando seu gemido de dor e ele afrouxou o aperto das minhas mãos involuntariamente, o que eu pude deixar a situação em meu favor e me virei, pegando seu punho e girando para baixo. Eu escutei seu grito de dor e tirei meu canivete preso debaixo do meu vestido, enfiando-o diretamente no seu peito. Ele não soltou nenhum som, mas caiu no chão com os olhos arregalados e eu assisti satisfeita. Pensando bem, eu e devíamos ter ficado com o comunicador.
Deixei o homem de lado e peguei minha arma, escutando passos vindos do corredor para o quarto. Eu me escondi atrás da porta, esperando que alguém entrasse. Um homem de estatura baixa entrou primeiro, posicionado com sua arma, à procura. Eu fui mais rápida, antes que ele se virasse, e bati com a arma em punho na sua cabeça, o vendo cair desmaiado do chão. Abaixei-me pegando a arma dele e fiquei usando as duas, uma em cada mão. Assim que o outro entrou, eu atirei sem esperar, deixando ele caído no chão duro e fui andando pelo corredor. Quando mais dois apareceram, eu apontei minhas duas armas para ambos e atirei duas vezes nas pernas deles, fazendo com que os dois, ao mesmo tempo, caíssem de joelhos no chão, gritando de dor.
Patéticos.
Porém, eu não tinha visto um escondido e senti um golpe nas minhas costas, e quando me virei, ele chutou minha perna, mas errou a direção e acertou exatamente a coxa que estava com pontos e a dor foi excruciante. Eu quis gritar.
- Maldito – xinguei.
Joguei as armas no chão, sendo dominada cegamente pela raiva e ele se afastou, o que me ajudou para que eu caminhasse na direção dele e quando fiquei uma distância segura dele, eu chutei seu queixo com toda força. Ele caiu para trás, inesperado pela minha ação e seus olhos mal se abriam. Peguei a arma da mão dele.
- Onde está ele? – questionei, ansiosa por uma resposta.
Ele abriu os olhos, me olhando por alguns segundos.
- Não sei de quem você está perguntando – respondeu, com um pouco de dificuldade. Eu apontei a arma para seu peito e ele engoliu a seco.
- Não estou para gracinhas – ameacei, umedecendo meus lábios. Minha coxa latejava – Não vou repetir a pergunta.
- Espere! – pediu, quando sentiu a arma sendo pressionada contra seu peito – Há uma saída de emergência. Entrando no corredor dela, você verá uma única porta. Ele está lá, só não garanto que vivo.
Engoli a seco com suas últimas palavras.
não estava nem louco de me deixar sozinha nessa bagunça. Nenhum pouco louco, aliás.
Sem paciência alguma para lidar com o homem na minha frente, eu dei uma coronhada na sua cabeça, deixando ele desmaiado ali junto com os outros. Joguei a arma da minha mão ao chão e voltei a andar pelo corredor, pegando de volta as duas que eu joguei no chão antes. Os dois homens com as pernas machucadas estavam suando e me olharam com atenção, antes de decidir que não iriam me atacar. Com essa decisão, eu apenas desenhei um sorriso debochado nos meus lábios na direção deles e passei direto por eles. Eu estava descalça e quando olhei para minha coxa, percebi o vestido manchado de sangue. Continuava latejando e eu tinha certeza que os pontos tinham se desfeito. Por um momento, encarando aquele corredor vazio, eu me permiti encostar-se à parede e passei a mão na minha coxa apenas para perceber que sangrava demais. E que eu não podia aparecer daquele jeito no grande salão. Ia chamar muita atenção.
Dei um suspiro longo e destravei as duas armas, tentando pensar em como eu ia sair dali direto para a saída de emergência. Recusava-me em deixar aqui sozinho.
E ainda tinha a Zune.
A pobre Zune que eu não fazia ideia se estava bem ou não.
Desencostei-me da parede gelada e passei o braço pela minha testa, tirando os fios de cabelos grudentos. Olhei atenciosamente para o lugar que eu estava e reparei que a iluminação estava fraca. Tinha um elevador no final do corredor e eu, mais uma vez, me perguntava como eu iria chegar até . Devagar, eu andei até o elevador e constatei que ele estava funcionando e apertei o botão, esperando que ele chegasse logo. Não demorou mais que um minuto, quando as portas se abriram e eu entrei, apertando o botão do térreo.
Provavelmente, lá devia ter uma saída de emergência.
Eu estava esperando as portas se fecharem, quando vi dois homens correrem na direção do elevador e eu me desesperei, passando a apertar o botão freneticamente. Quando a porta estava se fechando, um deles atirou e mesmo que eu tivesse desviado para o lado, a bala atravessou minha outra coxa boa e eu soltei um grito pela dor inesperada. Caí sentada no chão, sentindo o elevador se movimentar e coloquei as armas ao meu lado. Arranquei um pedaço de pano do vestido longo azul e amarrei em volta da minha coxa, para que eu não perdesse tanto sangue.
Por Deus, eu precisava sair viva dessa.
O elevador se abriu, revelando um térreo totalmente vazio e quase chorei de alivio. Levantei com um pouco de dificuldade, pegando as armas de volta e saí do elevador mancando. Minha garganta estava seca e eu umedeci meus lábios, desejando que eu pudesse me jogar em uma cama e descansar por uns dias.
Eu merecia, fala sério.
Eu estava em alerta. Meu corpo todo estava em alerta. Pronta para me defender e fui andando com a perna doendo. Avistei um acionador de incêndio e tive uma ideia para chegar até a saída de emergência. Eu teria que passar pela grande sala até o palco de pole dance, do lado oposto que Sunie me levou ao quarto. Era ali que ficava a saída, mas não podia atravessar o lugar com todo aquele tanto de gente para atrapalhar, então sem pensar, eu acionei o alarme de incêndio e contei mentalmente de um até dez.
Bem devagar.
Um, dois, três...
Ouvi os barulhos e me escondi entre um corredor e outro, espiando a grande porta que também era uma saída e vi algumas pessoas saírem correndo desesperadas.
Coloquei uma arma de volta ao meu coldre por debaixo do vestido que restara e a outra segurei atrás de mim, com a mão nas costas. Tentando não parecer que estava mancando – mas totalmente sendo falha essa tentativa – eu caminhei em direção a multidão que saía apressada. Enfiei-me no meio deles, entrando de volta para o salão de jogos e suspirei de alivio ao constatar que a saída de emergência era mesmo ao lado oposto do pole dance. Vi uma mulher gritar algo e quando olhei para frente, onde ela estava, ela apontava um dedo em riste para mim e percebi ela levantar a arma que segurava, apontando na minha direção. Com minhas duas mãos firmes, atirei nela primeiro e o som do tiro pareceu espantar as últimas pessoas que restavam ali. Sem querer me arriscar para mais um confronto, eu forcei a dor da minha perna e comecei a correr até a saída. Soltei um gemido de dor, me encostando á porta de ferro, mas minha mente me pregava que eu não tinha muito tempo. Eles sabiam que eu estava aqui e mandaria mais atrás de mim.
Por isso, contando, eu tinha apenas alguns minutos para tirar e sumir dali.
Eu empurrei a porta de ferro com força e entrei.
O corredor estava mal iluminado. Uma das armas não tinha mais bala, por isso, com a única que me restava, eu joguei a outra fora e apontava para frente, sempre em defesa. Andava devagar, mancando ainda e mesmo com a dor nas minhas duas pernas, eu não estava disposta a desistir. Mesmo com a pouca luz, pude enxergar uma porta no fim do corredor. A única, como o homem havia me dito.
Apreensiva e dominada pela ansiedade, eu continuei meu caminho até a porta. Mas como eu esperava, tinha alguém vigiando do lado de fora.
- Quem é você? – ouvi a pergunta ser direcionada e mal enxergava o homem à uma distância de mim.
Apontando a arma em riste na sua direção, eu respondi:
- Isso não importa – fiz pouco caso. – Eu só preciso tirar alguém daqui.
Ele deu um passo para frente, se mantendo em alerta. Pude ver que ele era um pouco mais alto que eu e estava segurando uma arma de fogo: um rifle 22. Mas para a minha surpresa, ele não atacou. Pelo contrário, abaixou seu rifle e sua feição se transformou em reconhecimento.
- Você demorou – ele soltou suas palavras, me deixando ainda mais confusa.
Mas eu continuava apontando a arma, desconfiada e decidida. Engoli a seco e vi uma sombra aparecer ao lado dele.
- Abaixe a arma, – uma voz feminina ditou no escuro. – Eu achei que nunca fosse me convidar para a festa.
Então, ela deu dois passos para frente me deixando ver seu rosto com um sorriso satisfeito e eu abaixei a arma, exclamando em surpresa:
- Lexie?!


Eleven

Branco, branco, azul, branco.
O quarto estava exatamente dessa cor. Doía meus olhos ver tanto branco em um lugar só, mas aquilo só podia significar uma coisa: Hospital. Mexi meus dedos devagar, sentindo uma sensação de dormência por todo meu corpo e então abri os olhos. O tanto de branco ali quase me cegava por um momento e eu respirava por uma máscara. Agoniada, eu puxei a máscara do meu rosto. Tentei me sentar, mas uma mão me impediu e eu vi Lexie aparecer na minha frente.
- Não se mova tão rápido – sua voz estava carregada de seriedade.
- Como? – questionei confusa. – Como você sabia?
Ela tinha um rosto redondo e seus cabelos curtos, até o ombro, estavam em ondulações vermelhas. Sabia que constantemente ela vivia mudando a cor dele, então eu estava sempre acostumada, apesar de quase nunca nos víamos. Só em situações extremamente importantes, como essa.
- O me comunicou de alguma forma – ela explicou, bufando. – Não é a primeira vez que isso acontece e eu nunca entendo o porquê você não pede minha ajuda.
- Você sabe que eu não posso – respondi, respirando fundo.
- Por causa do Mike? – ela perguntou com um tom de voz cuidadoso e eu a encarei.
A simples menção do nome me trouxe uma lembrança imensurável, carregada de saudades e dor. Eu desviei o olhar dela e reparei que minha perna que fora baleada estava enfaixada, enquanto a outra estava com um curativo onde estavam os pontos.
- Onde está o ? – perguntei a primeira coisa que me perturbava naquele momento, mudando totalmente de assunto. – E a Zune?
– A menina está bem. Está na ala pediatra.
- Por que ela está na ala pediatra? – consegui me sentar com um esforço e encarei Lexie a minha frente.
- Precisei de uma desculpa para que a deixasse aqui, ou seria levada pelo Serviço Social – ela explicou com atenção e eu suspirei. – E o – ela voltou a responder, sem que eu a olhasse – está estável, mas ainda não acordou. O médico disse que é normal, mas a cirurgia foi difícil.
Gemi em resposta, não satisfeita com aquela noticia. Não era justo que aquilo tivesse acontecido com ele. Encostei minha cabeça na cama e fechei os olhos por um momento, expirando, inspirando, expirando, inspirando.
- Onde vocês estavam com a cabeça que foram se meter com os Kullke e Sunie Walker? – a voz de Lexie continha uma curiosidade sem tamanho, mas também tinha uma pintada de sermão.
Eis duas coisas que você precisava saber sobre ela: Lexie Sharp é assassina de aluguel. Obviamente, esse não é seu nome verdadeiro. Fomos amigas por um longo período de tempo, antes de seguirmos caminhos completamente opostos. Mas uma sempre sabia o paradeiro da outra.
- O que você sabe sobre eles? – abri os olhos, sendo atraída pela sua curiosidade e a forma que ela fizera a pergunta.
Sharp revirou os olhos por eu ter ignorado sua pergunta, mas mesmo assim, ela deu de ombros.
- Além de que eles são perigosos? – ela respondeu em um tom de ironia óbvio. – E que vocês são loucos?
- Olha, tivemos motivos – me defendi –, e dos bons. A criança que chamamos de Zune e que agora está na pediatria? Estamos protegendo-a.
- Mas não podem fazer isso sozinhos! – exclamou, gesticulando com as mãos. – , me escute.
- Não, me escute você! – me exaltei, olhando a com os olhos queimando. – Se tem informações que podem me ajudar, tem que me dizer. Eu preciso descobrir por que querem matar essa criança. Lexie umedeceu os lábios e suspirou, me encarou por alguns segundos, talvez decidindo se ia mesmo compartilhar o que sabia comigo ou simplesmente me ignoraria, como fazia na maior parte. Assim que ela abriu a boca, a porta se abriu, nos interrompendo. Um homem de jaleco branco entrou e, de início ele pareceu surpreso, mas logo fechou a porta atrás de si e eu tentei me recompor quando ele deu passos até minha cama com seu sorriso típico no rosto.
Detestava médicos.
- Olá, senhorita – cumprimentou, olhando na ficha que segurava em suas mãos. – Sou o Doutor Harper, como está se sentindo?
- Bem – menti, dando de ombros.
- Alguma dor nas pernas? – perguntou novamente.
- Não.
Lexie andou para o outro lado da cama e cruzou os braços, observando entediada o médico fazer o trabalho dele.
- Não temos muita informações sobre você – o doutor voltou a falar e parou de escrever, colocando sua atenção sobre mim. – Exceto que veio parar aqui com ferimentos graves de tiros. Eu chamaria a policia, pois é o procedimento legal do hospital, mas sua amiga aqui me convenceu que não seria necessário.
Eu umedeci meus lábios, assentindo para ele com um sorriso falso no rosto. A última coisa que eu precisava era de policiais me interrogando.
- Então, senhorita...
- – interrompi-o. – Pode me chamar de .
- Sim, claro. , preciso que me diga... – meu nome soava horrível no sotaque dele. – É necessário eu cumprir o procedimento legal do hospital?
Eu apostava que minha expressão no rosto já diria a resposta, mas como eu não queria parecer uma suspeita e contrariar o homem que se denominava médico, eu preferi responder de uma maneira simplesmente educada – e curta.
- Não.
Ele concordou.
- Eu espero que tenha feito a escolha certa – respondeu. – Se estiver sentindo alguma dor ou desconforto, peça para uma enfermeira me chamar.
- Obrigada. Mas eu poderia ver o e a Zune? – pedi.
O médico pareceu ponderar meu pedido e olhou brevemente para Lexie, que deu de ombros.
- Tudo bem, pedirei para uma enfermeira lhe acompanhar – ele concordou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
- Onde estamos? – questionei á Lexie, incomodada com o sotaque que o médico carregava.
- No Texas.
- Você nos trouxe para o Hospital do Texas? – impliquei. – Não tinha lugar mais perto?
Ela sorriu. Mas era um sorriso docemente triste.
- Você sabe por que eu te trouxe especialmente aqui.
- Não vou fazer isso, Lexie – neguei. – Não consigo.
- Por favor, – implorou. – É seu irmão, ele não iria querer viver assim.
Meus olhos começaram a arder e eu estava odiando ela por me pedir aquilo. Meu coração estava apertando e meus pensamentos voaram para longe. Eu sentia tanta falta dele.
- Você está sendo egoísta e sabe disso – declarou, vendo que eu não responderia uma palavra mais e me deixou sozinha no quarto, batendo a porta quando saiu.
Não deu tempo que eu ao menos quisesse ficar um pouco sozinha. Uma enfermeira entrou com uma cadeira de rodas e eu protestaria dizendo que eu não precisava daquilo e podia muito bem andar sozinha, mas as minhas duas pernas diziam o contrário, então eu me poupei esforços e deixei que ela me conduzisse pelo hospital com a cadeira de rodas. Foi necessário nós entrarmos em um elevador e parar em um andar acima. A enfermeira me guiou para uma sala, cujo corredor estava vazio. Ela abriu a porta e me colocou perto da cama de .
- Deixarei você sozinha – avisou, e eu assenti sem olhá-la. – Qualquer coisa, você pode chamar.
Ouvi o barulho de a porta ser fechada assim que ela saiu e pude me concentrar totalmente no homem que estava deitado naquela cama. estava com um fio no nariz, e o soro estava ligado ao seu braço. Umedeci meus lábios, sentindo minha garganta seca e meu coração pesar por ter que vê-lo naquela situação. Era injusto. Eu continuaria repetindo isso.

"Havia, pelo menos, quatro homens caídos no chão. Foi o que eu consegui contar assim que entrei pela porta e joguei a arma em qualquer lugar. Meus olhos encontraram deitado no chão duro e eu corri até ele, ainda mancando.
- ! – exclamei, quando cheguei até ele, me ajoelhando ao seu lado. O simples ato de mover as pernas fez minha coxa latejar mais ainda e eu contorci meu rosto em uma careta sofrida. abriu os olhos devagar e quando me viu, desenhou um sorriso pequeno em seus lábios. O lado direito de sua sobrancelha estava cortada, havia um pequeno corte em sua bochecha também, mas o que mais me preocupou, foi a quantidade de sangue que saia de seu ombro, onde ele segurava com a mão esquerda.
- Sabe o que eu estava pensando, ? – ele me perguntou, um pouco grogue.
Eu balancei a cabeça, negando e minhas mãos tocaram seu rosto. Meus toques eram delicados e ver ele machucado naquele nível, me deixava extremamente agoniada e culpada.
- Que você nunca me disse seu sobrenome – completou, me fazendo sorrir involuntariamente.
- Isso não é importante agora – sussurrei e ele tossiu um pouco.
- Você está machucada também, não é? – perguntou novamente e eu concordei com um aceno de cabeça. – Sinto muito, . Eu pensei que...
Ele engoliu a seco, com dificuldade e tirou sua mão do sangramento. Pude ver que era uma ferida à bala e sangrava demais.
- Não, ! – pedi desesperada ao o ver fechar os olhos devagar. – Não faça isso, fique comigo. Por favor, fique comigo!
Implorei, chacoalhando seu corpo. Senti duas mãos me puxarem para trás e mesmo com minhas tentativas de me soltar, foi em vão.
- Temos que sair daqui, – escutei a voz de Lexie dizer. – Vocês estão perdendo muito sangue. Por favor, me deixe te ajudar.
Mordi meu lábio, segurando o choro que ameaçava sair. Ela me soltou lentamente, temendo que eu fizesse algo, mas eu só fiquei quieta. Vi o mesmo homem que vigiava a porta andar até e pegá-lo.
- Não toque nele! – mandei, gritando aos quatros ventos.
O homem me olhou assustado pela minha reação e eu senti Lexie acariciar meus braços.
- Tudo bem, – ela acalmou. – Só vamos tirá-los daqui. Por favor, mais uma vez, me deixe te ajudar.
Balancei a cabeça concordando e ela deu alguma ordem para o homem, que levou para fora. Eu me levantei com dificuldade e ela me segurou quando eu quase caí para trás. Minha visão estava ficando turva e as dores nas pernas estavam se intensificando ainda mais.
- Deixe o resto comigo, – Lexie pediu. – Prometo que vão ficar bem. Pode levá-la.
E antes que eu desmaiasse, senti alguém me pegar por trás. E depois não vi mais nada.
"

- Storm – toquei a palma da sua mão, querendo estar mais próxima. – Meu sobrenome é Storm.
Uma parte de mim queria que ele estivesse me ouvindo e a outra parte queria que ele acordasse logo. Acariciei sua mão, suspirando enquanto eu o encarava. Sua expressão estava serena e seu ombro onde fora baleado, estava enfaixado. Um corte mínimo desenhava sua bochecha, com um curativo na sobrancelha. Escutei a porta ser aberta novamente e a enfermeira de antes entrou, dessa vez, com Zune nos braços.
- Me pediram para trazer ela para você – ela comentou e se aproximou de mim.
Zune sorriu, abrindo os braços para que eu a pudesse pegar e meu rosto foi iluminado com um sorriso involuntário.
- Ei, abelhinha – peguei-a para o meu colo, tendo cuidado para que ela não pesasse tanto sobre minhas coxas. – Olha só você.
A enfermeira deu um último sorriso enquanto nos observava e se virou para ir embora.
- Descobri que seu nome, na verdade, é Juliette – comentei com ela e sua mãozinha tocou minha bochecha. – Mas Zune combina mais com você, não é? – ela levou sua mão livre á boca, enquanto sorria. – O concordaria.
Encostei minha testa na dela, sorrindo. Nossos narizes se tocaram e eu ri, fazendo-a pular em uma das minhas coxas.
- Ah, Zune – gemi e ela abriu ainda mais o sorriso, entendendo que eu provavelmente tinha gostado da brincadeira dela.
- Olha só quem disse que não ia se apegar – me assustei ao ouvir a voz fraca de se pronunciar e quando olhei, ele estava com os olhos abertos, tentando se acostumar.
Sua boca curvada em um meio sorriso e eu segurei Zune mais forte, com uma mão empurrando a cadeira mais para frente.
- !
- Oi, . Sonhei com você.


Twelve

- Você lembra-se de alguma coisa? – o médico questionou.
- Não muito – respondeu, sem tirar a atenção de Zune, que estava em seus braços.
Eu continuava sentada na cadeira de rodas um pouco afastada, esperando o médico fazer o trabalho dele. Mas meu parceiro parecia não querer facilitar, porque todas as suas resposta estavam sendo curtas. O Dr. Harper assentiu devagar e, sem dizer nenhuma palavra, saiu do quarto me dando um aceno com a cabeça ao passar por mim. Eu empurrei a cadeira para perto da cama dele novamente.
- Você se lembra de alguma coisa? – repeti a pergunta e ele levantou o olhar para mim, enquanto segurava Zune sentada em seu colo.
- Sim.
- Inclusive de ter chamado a Lexie? – ele soltou uma lufada de ar.
- Precisávamos de ajuda, não íamos conseguir sair de lá sozinhos – foi sincero, me deixando sem saída a não ser concordar. – Olha onde estamos agora.
- A ideia foi sua – respondi.
- Não vai me culpar agora, vai? – Zune estava começando a dormir em seus braços.
- Não, eu só estou dizendo que... – suspirei, deixando meus olhos sobre ele. – Não podemos fazer isso sozinhos.
- Não está pensando em...? – ele iniciou, quase lendo meu pensamento.
- Estou, – afirmei. – É nossa única chance.
- O que você descobriu? – me perguntou e eu me lembrei da foto. Lembrei do arquivo e de algumas informações que continha nele. Quando abri a boca para responder, Lexie entrou pela porta, já soltando suas palavras.
- Que essa garotinha que está em seus braços é irmã da Walker – ela soltou, e sem esperar que fizéssemos nossas expressões, continuou. – Eu não sei qual o tipo de negócio que ela tem e nem como é a relação dela com o pai, mas essa garotinha está prestes a herdar um império inteiro.
- Como? – questionou, confuso.
- O nome dele é Carter Walker. Ele tem uma legião de empresas e é, tipo, muito rico – Lexie continuou, alternando o olhar entre e eu. – Ele foi diagnosticado com câncer há dois anos e se envolveu com uma funcionária. O problema é que a filha é envolvida com gangues perigosas e maníaca por controle. Nunca consegui descobrir como ela ganha a própria riqueza, mas isso não vem ao caso. O fato é que, o pai está em estágio terminal e passou tudo para o nome da Juliette. Sunie Walker só pode herdar as coisas do pai se a menina passar tudo para o nome dela ou se morrer – ela deu uma pausa, respirando fundo. – E como a primeira opção está descartada, só resta a segunda.
- Como você sabe tudo isso? E quem é Juliette? – tornou a perguntar.
Lexie revirou os olhos e se aproximou, empurrando os pés dele para o lado e se sentou na beira da cama.
- Eu sei sobre muitas coisas – ela deu uma explicação vaga, sem se prolongar. – E Juliette é o nome verdadeiro dessa menina.
- Isso é tão... – tentei completar a frase, mas nenhuma palavra me veio à mente.
- É por isso que não podem fazer isso sozinhos – Lexie voltou a falar. – Ela não vai parar agora que sabe quem são vocês.
O ambiente foi carregado de silêncio tenso. Meus pensamentos estavam desorganizados e tudo o que eu queria era só sair daquele hospital de uma vez. Estava completamente agoniada de ficar aqui sem fazer completamente nada, a não ser fritar meus próprios neurônios de tanto pensar.
- E ... – Sharp fez um olhar sugestivo para mim e eu sabia sobre o que ela ia falar.
- Você pode nos deixar á sós? – perguntei apressada e ela soltou uma lufada de ar, sabendo que eu estava fugindo do assunto. – E levar a Zune de volta para a ala pediátrica?
- Tudo bem – ela deu de ombros em rendição e pegou a menina com cuidado, que estava dormindo no colo de .
Assim que ela saiu, eu levantei da cadeira de rodas, me apoiando na cama. segurou meu braço com cuidado e me ajudou a sentar.
- Há um motivo para que eu nunca chamei a Lexie – comecei, respirando fundo. – Éramos amigas no passado e ela, bem... Ela namorava meu irmão.
- Você tem um irmão? – ele perguntou. – Eu não sabia.
- Eu pedi que a ASME deixasse algumas informações sobre mim totalmente secretas – expliquei. pegou minha mão, fazendo carinho na palma da minha mão. – E, , ele está aqui.
Minha respiração estava um pouco falha e meus olhos estavam querendo se encher de lágrimas. Ele notou, porque apertou minha mão um pouco forte.
- O que aconteceu? – questionou com cuidado, enquanto me olhava com carinho.
- Um acidente – respondi resumidamente, sem ter vontade de explicar a história toda. – O médico tentou salvá-lo, mas uma parte de seu cérebro inchou demais e ele entrou em coma. Está vivendo por aparelhos há dois anos.
- E a Lexie acha que...
- Que está na hora de eu me despedir – completei, em um maneio de cabeça triste. – Como posso deixá-lo ir embora?
se remexeu na cama, vindo para mais perto de mim e me puxou devagar para me apoiar nas costas dele. Eu aceitei e ele me abraçou, colocando as mãos sobre minha barriga, enquanto eu sentia as lágrimas silenciosas caírem por minhas bochechas.
- Sei que você quer ser forte o tempo todo e eu entendo isso. Entendo mesmo – ele sussurrou. – Mas pode chorar comigo aqui, . E você tem que pensar no que seu irmão iria querer. Você acha que ele gostaria de viver dependente de aparelhos?



- Aqui está.
A enfermeira me colocou um prato de comida e eu fiz uma careta, pensando seriamente que aquela comida devia estar ruim. Era quase uma regra de hospitais todas as comidas serem ruins então, ao invés de minha barriga se animar com a possibilidade de que eu ia comer, meu estômago apenas se embrulhou com a ideia. Dei um olhar à enfermeira que indicava que estava tudo bem deixar aquilo ali, mas eu não ia comer de jeito nenhum.
- Tudo bem, você precisa comer – ela voltou a falar e eu notei que não sabia seu nome. – Tem algo que gostaria que eu trouxesse?
- Qual seu nome? – perguntei, fazendo menção de sair da cama, quando ela veio correndo e me impediu. – Ei, relaxe.
- Mia – me respondeu e se afastou um pouco, se certificando que eu não ia me levantar.
- Então, Mia, já que me perguntou – olhei-a, balançando minhas pernas devagar apenas para calcular a intensidade de dor que eu estava sentindo. – Eu gostaria mesmo de um X-burger com Milkshake.
- Eu posso buscar – ela se ofereceu, dando um meio sorriso e eu ri.
- Sei que pode, mas quero que me ajude aqui – pedi, estendendo uma de minhas mãos a ela.
Mia apenas me encarou, o olhar sério de acusação de que não podia me ajudar a andar quando eu ainda estava com ferimento nas pernas e os pontos podiam quebrar mais uma vez. Mas eu insisti, balançando minha mão na direção dela e ela suspirou, encolhendo os ombros e trazendo seu corpo magro até perto do meu. Ela segurou minha mão com delicadeza, enquanto com a outra eu me apoiava no ombro dela e me levantei por completo.
- E então? – ela questionou receosa.
- Me ajude a andar.
- Senhorita, aconselho que não é a melhor hora a fazer isso – ela me alertou e eu apenas dei de ombros, insistindo na minha decisão. – Você é mesmo difícil.
Soltando uma lufada de ar reprovadora, ela me ajudou. Eu dei um passo devagar com a perna esquerda e senti uma pontada de dor pelo esforço que eu estava fazendo. Mas eu precisava voltar a andar, nem que fosse o mais devagar que eu conseguia. Movi minha outra perna, enquanto ela também dava passos para trás me ajudando. Mas a dor estava aumentando a cada passo e peso que eu colocava em cada pena.
- Não, me traga de volta para a cama – pedi apressada.
Voltei para cama em passos lentos, para que não piorasse. A dor estava pior na coxa baleada e eu soltei um suspiro frustrada. Se eu não voltasse a andar normalmente logo, não iria conseguir daqui a pouco tempo.
- Eu avisei – Mia me culpou e eu olhei com cara feia para ela, que levantou os braços em rendição.
- Vou mesmo querer o Milkshake.
Ela riu e assentiu. Quando se virou para ir embora, eu a chamei.
- Será que você poderia me levar para ver... – pigarreei, limpando minha garganta. – O Mike Storm?
Mia me olhou com compreensão nos olhos. Me perguntei se ela sabia.
- Sim – permitiu. – Você quer ir agora? Eu posso te levar.
Ansiosa e ao mesmo tempo receosa, eu concordei com um aceno de cabeça. Ela pegou a cadeira de rodas que estava ali e me sentou nela. Em seguida, me levou pelos corredores do hospital, me fazendo notar que a essa hora do dia não era muito cheio. Na verdade, era bem calmo. Bastante calmo até. Mia nos guiou pelo elevador, apertando um andar que eu não prestei atenção e esperei apreensiva. Não demorou mais que dois minutos – embora parecesse uma eternidade lá dentro – para que o elevador se abrisse. A enfermeira continuou me guiando para a última porta do corredor que estávamos. Sem esperar, ela abriu a porta e eu engoli a seco, me perguntando se eu devia mesmo entrar.
- Está tudo bem – a voz dela me despertou dos meus devaneios. – Pode ir.
- Você acha que... Devo me despedir? – perguntei, umedecendo meus lábios e encarei os olhos sinceros dela.
- Se baseie no que ele iria querer – me aconselhou e eu assenti, finalmente entrando.
Era a segunda vez que eu ouvia aquilo. E talvez eu devesse parar de pensar no que eu estava querendo e começasse a pensar nas coisas que ele considerava importante. Eu deveria me importar com o que ele iria querer que eu fizesse. Empurrei minha cadeira, me aproximando da cama que ele estava e a imagem que eu estava tendo dele me doeu o coração. Ele estava ligado á inúmeras máquinas, além de estar com um tubo pela boca.
- Ei, Mike – murmurei, com a voz embargada e toquei sua mão, que estava um pouco gelada. – Devo ser a pior irmã do mundo.
Sorri tristemente e sem humor algum. O garoto que eu costumava conhecer e que tentava me proteger a qualquer custo, não estava mais ali. Seu sorriso alegre havia completamente sumido e eu tinha que me conformar que nunca mais iria escutar o som da sua risada novamente. Nem que ia escutar ele dizendo que me amava e que eu era a coisa mais importante que ele precisava proteger. Quando eu menos esperava, a porta se abriu e outro médico – que não fosse o Dr. Harper – entrou.
- Desculpe atrapalhar seu momento, realmente não é minha intenção – ele começou a falar, fechando a porta atrás de si e se aproximou mais um pouco. – Mas é tão raro ele receber visita e quando descobri que você é a irmã dele, bem...
Eu mal visitava o Mike, era verdade. Desde que eu tinha transferido ele de Londres para cá, ficava difícil que eu pudesse vir. Mas eu tinha deixado o telefone para me ligarem caso ele tivesse alguma melhora ou reação.
Nunca ligaram.
- Você é? – perguntei, limpando as lágrimas.
- Ah, sim. Sou o Doutor Michael – ele estendeu sua mão para mim e eu a apertei em cumprimento.
- Ele não teve nenhuma melhora, não é? – o médico me olhou com empatia e se abaixou, para que pudesse ficar na altura que eu estava.
- Não – sua sinceridade me atingiu em cheio. – E, sinceramente, tem que começar a pensar sobre a decisão de mantê-lo vivo pelas máquinas – continuou, sua voz soando delicadamente cuidadosa. – É um pouco cruel permitir que alguém viva assim, quando na verdade, todos nós sabemos que ele se foi há algum tempo.
Ele deu um sorriso culpado e triste e eu segurei minhas lágrimas, me recusando a chorar na frente dele. Seus olhos azuis transpassavam uma sensação de calma e ele se levantou.
- Sei que ele é seu irmão e eu sinto muito.
- Obrigada – agradeci. Me virei para Mike mais uma vez e me parecia, pela primeira vez, errado ele estar ali.
Ele sempre fora aventureiro e detestava estar preso. Sentia como se ele estivesse se sentindo assim. Preso por aquelas máquinas.
- Eu amo você – sussurrei na direção dele com um sorriso sincero, enquanto a imagem dele criança aparecia na minha mente. – Tudo bem, pode desligar as máquinas. Ele está pronto para ser livre.


Thirteen

- Ei, vá devagar!
O barulho do vaso pequeno se chocando ao chão foi o suficiente para que relaxasse um pouco. Ele estava curvado com as mãos nos joelhos, seu sorriso rebelde e sexy pintado nos lábios, enquanto seus olhos pegavam fogo na minha direção. Eu não estava diferente. Tinha certeza que pegava fogo – mais por dentro do que por fora – porém, se continuássemos naquele ritmo, não sobraria um quarto de hospital inteiro para nenhum paciente.
- Storm – seus lábios repuxaram meu sobrenome de uma maneira extremamente sexy e eu balancei a cabeça, como se reprovasse.
- Você ouviu – consegui dizer.
Tirei a faixa de esparadrapo da minha mão e andei até a cama, me sentando nela. Eu estava suando e meu corpo implorava por um bom banho gelado.
- Sim – ele respondeu, ajeitando sua posição e repetiu o mesmo gesto que o meu, jogando o esparadrapo de sua mão no chão – Um pouco irônico para a situação.
Seu comentário me fez rir e eu levantei os olhos para observá-lo. Seus músculos estavam contraídos e a visão de seu corpo sem camisa me era bastante agradável. Aparentemente, ele estava se recuperando bem e até minhas coxas estavam melhores. Estávamos aqui há cinco dias e eu estava sendo consumida pelo estresse, então eu e ele decidimos passar um tempo juntos treinando. O quarto era pequeno para nós dois juntos, mas de qualquer forma, aquilo ajudava a me manter distraída.
- Não, – neguei, quando percebi que ele se aproximava perigosamente.
O suor respigando pela sua testa, seu cabelo molhado e o sorriso de lado deixavam minha sanidade totalmente em perigo. Cinco dias no hospital esperando que Lexie voltasse – ela foi embora depois de descobrir que eu assinei a desligada dos aparelhos de Mike – e me deixando com meus nervos á flor da pele, implorando por contato humano, por sexo. Ele não ajudava nem um pouco e eu sabia que era questão de pouco tempo até que eu enlouquecesse de uma vez.
- Estou preocupado com você, – ele sussurrou, se encaixando no meio das minhas pernas.
O cheio de suor invadiu minhas narinas e eu arfei um pouco desconcertada.
- O quê?
O sorriso não estava presente mais no rosto dele. Seus olhos estavam nublados, me passando um carinho através deles e sua mão tocou meu rosto. Eu respirei fundo, deixando minha defensiva de lado e decidi apreciar seu toque.
- Você perdeu seu irmão e não falou mais sobre isso – ele me encorajou, seus olhos me incentivando. – Me preocupo que esteja tentando ser forte o tempo todo sozinha.
Ele depositou um beijo na ponta do meu nariz e eu prendi minhas pernas na sua cintura, aproveitando o cuidado que ele estava tendo naquele momento.
- Estou bem – tentei soar firme.
O tempo todo, desde Mike ter ido, eu não havia parado sequer um minuto para pensar nisso. Distraía-me da melhor forma que eu conseguia para que eu não me segurasse no pensamento do meu próprio irmão e desabasse como na noite da minha decisão. Eu havia chorado tanto que pedi a Mia que me desse algum remédio que me fizesse dormir. Obviamente, eu dormi por horas. Mas não fez a dor sumir.
- Sou eu, – seu polegar passeou pela minha bochecha. – Quer mesmo mentir para mim?
- Não tenho nada para falar sobe o Mike, está bem? – respondi, tentando fazê-lo entender que eu não queria falar sobre aquele assunto. – Eu estou bem.
Seus olhos pegaram fogo na minha direção. Suas mãos desceram para minha coxa e ele poderia fazer todos os movimentos que necessitasse, seus olhos não se desgrudavam dos meus. Nós dois recusávamos a quebrar o contato visual tão intenso naquele momento. Ele pareceu engolir minha resposta, um pouco contrariado, mas também sabia que não adiantaria nada me pressionar para falar.
- Suas coxas estão melhores? – soprou sua pergunta contra minha boca, um pouco próximo demais.
Antes que eu abrisse a minha boca para dá-lo uma resposta, o som foi abafado por um gemido assim que o senti apertar minha coxa esquerda. Não saberia dizer se foi de dor ou prazer. Talvez fosse ambos.
- Eu consigo andar, é suficiente – consegui responder sem que minha voz falhasse.
Inconscientemente, eu levei minha mão até onde a dele estava pousada e coloquei a minha por cima da dele. Ele deu um sorriso de lado, acompanhando meu movimento. Com minha outra mão livre, eu toquei seu ombro machucado, que ainda estava enfaixado com um curativo melhor. Passeei dali até a sua nuca, onde eu deixei que minhas unhas grandes fizessem seu trabalho e o arranhasse um pouco. Meu corpo estava quente em contraste ao seu contato e sua boca entrou em contato com minha pele, depositando um beijo molhado em meu pescoço. Aquele ato me arrepiou e fez nosso contato visual ser quebrado e eu pude fechar os olhos por um momento, para que eu tivesse o prazer de aproveitar aquilo o máximo que eu pudesse. Eu estava quebrada e precisava que ele juntasse cada caco jogado ao chão e me consertasse novamente. Nossas mãos juntas sob minha coxa, se entrelaçaram e eu apertei os nós dos nossos dedos apreciando o contexto de sua pele.
- Abra os olhos, – ele pediu, se afastando do meu pescoço e assim eu o fiz.
estava radiante. Minha respiração estava descompassada e eu quis tanto que ele me beijasse agora. Desejei saber seu gosto na minha boca, desejei saber a sensação de ser tomada em seus braços, desejei, mais do que nunca, que ele me desejasse tanto quanto eu o estava desejando.
- Eu... – minha mente apagou a frase que eu estava programada a falar, quando eu percebi a intensidade de seu olhar sobre mim. Umedeci meus lábios secos, sentindo um incômodo nos meios das pernas. Retirei minha mão de sua nuca e toquei seus lábios delicadamente, desenhando-os.
- Você será a minha ruína, Storm – e mesmo que sua voz tivesse saído rouca, seu sorriso pequeno brilhava.
Ele pareceu carregar um segredo pesado, que não queria compartilhar comigo. Eu encarei suas íris e quando nossos rostos estavam próximos, preparados para o tão esperado beijo, eu escutei o clique da porta soar e em seguida ela se abrir. se afastou tão rápido de mim que eu fiquei tonta, tentando me recuperar do susto. De repente, o sentimento de frustração tomou conta do meu corpo e eu mandei meus hormônios irem à puta que pariu. No meu pensamento, eu estava xingando até a última geração a pessoa que ousou nos atrapalhar, mas assim que eu me dei conta que não entrou ninguém, eu olhei para a porta confusa. Minha expressão se suavizou e um sorriso involuntário apareceu em meus lábios quando vi que ao chão, estava Zune engatinhando até nós.
- Vou te perdoar, abelhinha – brinquei, saindo da cama e me coloquei de pé.
Zune se sentou no chão, olhando para mim e , que agora tinha se virado e visto ela com um sorriso contagiante em seu rosto. Logo atrás, entrou a doutora pediátrica com seu cabelo platinado e o sorriso entediado no rosto.
- Desculpe atrapalhar, mas ela estava chorando e eu achei bom trazer ela para vocês um pouco – sua voz melódica tomou conta do ambiente e eu pude notar que desde que ela dera o passo para dentro do quarto, não tirou os olhos de . Até suas palavras eram diretamente dirigidas a ele. Revirei os olhos, sem me importar se estava sendo discreta ou não e nem me dei ao trabalho de responder, apenas voltei a olhar para Zune e a chamei com as mãos estendidas. Ela bateu as mãos uma na outra e voltou a engatinhar na minha direção e assim que ela chegou perto, eu me abaixei e a peguei no colo, distribuindo beijos por todo o seu rosto, enquanto sua risada preenchia meus ouvidos.
- Tudo bem – respondeu a Dra., que assentiu com a cabeça e lançando uma piscadinha nada discreta para ele, ela saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Meu parceiro apareceu ao meu lado, um pouco próximo demais e segurou minha cintura de leve, apenas para soltar mais uma de suas provocações no meu ouvido.
- Espero que não esteja molhada – ele mordeu o lábio, prendendo o riso e eu não ousei olhá-lo. – Olá, Zune.

Eu estava no meu quarto, dessa vez. Me acostumei o suficiente para que pudesse chamar de meu e, agora sozinha, me perguntava porque ainda não nos deram alta. Eu estava bem, sem nenhum sintoma de dor e já andava, apesar de mancar ás vezes, mas ainda assim bem. também estava recuperado, mas o médico disse que era bom que ele passasse alguns dias para ter certeza antes de nos deixar ir. Não fazia sentido, mas mesmo assim, nós concordamos. Era visível a minha louca vontade de ir embora desse hospital. Também me agoniava que Lexie não tinha dado nenhum noticia depois de Mike ter finalmente ido. Cinco dias deveria ser suficiente para que ela resolvesse sei lá o que fosse ou qual conflito interno ela estava lidando.
- Aqui está.
A voz de Mia me despertou e eu olhei seu rosto sereno, coberto por um sorriso gratificante e olhos extremamente curiosos. A enfermeira me ofereceu uma bandeja com um prato de sopa e um copo de suco de lado, do qual eu fiz uma careta em resposta.
- De novo? – perguntei, soando desgostosa.
A simples ideia de comer alguma comida do hospital me fazia ter ânsia. Eu sinceramente preferia ficar com fome a comer aquilo que eles denominavam comida. Estava mais para algum tipo de gororoba misturada com qualquer ingrediente que eles tivessem.
- Você precisa se alimentar – ela insistiu, colocando a bandeja na cama ao meu lado.
- Você já comeu isso? – perguntei, levantando o olhar novamente para ela. Mia balançou a cabeça, negando minha pergunta. – É horrível.
Sua risada preencheu o ambiente e eu revirei os olhos, tentando não olhar para a sopa ao meu lado. Respirei fundo, encarando os pontos na minha coxa e um curativo pequeno na outra. Minha vida estava de ponta cabeça e eu não fazia ideia dos próximos passos. Uma decisão me rodeava pelos últimos dias e a imagem de Zune apareceu na minha mente, como se reforçasse qual decisão eu deveria tomar. Era meio óbvio, até.
- Isso significa que você não vai comer? – ela tornou a me perguntar, com desgosto na voz por eu me recusar a me alimentar.
- Sim.
Em silêncio, ela pegou a bandeja de volta e saiu do quarto. Saí da cama e antes que eu pudesse pensar em andar, escutei a porta ser aberta de novo e, dessa vez, a imagem de se projetou na minha frente. Uma linha fina de preocupação se enrugou na sua testa e eu percebi que ele estava vestido dessa vez. me olhou por breves segundos em silêncio e eu encarei de volta, sustentando o seu olhar por tempo suficiente.
- Ela está no meu quarto – ele anunciou. – Pedindo para falar com você.
Espremi meus lábios, processando a informação e balancei a cabeça.
- Por que ela simplesmente não veio até aqui? – questionei.
- Isso você tem que perguntar a ela – ele soltou a maçaneta da porta, deixando-a entreaberta e adentrou o quarto de vez. – , você está pensando em pedir ajuda da ASME, não está?
Mordi minha bochecha, pensando na resposta. Eu não tinha deixado claro a ele sobre minha decisão, mas de alguma forma, ele sempre parecia saber. Gostaria de culpar a língua grande da Lexie por ter soltado a informação para ele, talvez. No entanto, eu suspirei deixando meus ombros caírem.
- Não vamos conseguir sozinhos – finalmente admiti, em um fio de voz cortante. – Precisamos de ajuda.
- Mas não precisa ser necessariamente da Agência – ele se opôs contra. – Você foi a primeira a descartar a ideia de pedir ajuda.
- É diferente. A situação mudou agora – expliquei, a linha de raciocínio parecendo perdida.
- Tudo bem – derrotado, ele aceitou a decisão silenciosa sobre nós. Seus olhos me marcando tão profundamente que eu desviei o olhar. me deu espaço para passar e eu saí do quaro, seguindo o caminho pelo corredor até o quarto dele. Tentei ver pelo vidro do lado de fora, mas estava tudo muito embaçado e minha visão não contribuiu, então eu apenas abri a porta e entrei sem cerimônia.
- Achei que não fosse voltar – comuniquei meu pensamento, batendo a porta atrás de mim.
Não havia luz iluminando aquele local em especial, mas a luz do corredor entrava pela janela descoberta e eu pude visualizar perfeitamente o tom de vermelho caindo em ondas pelos ombros dela.
- E eu não ia – ela concordou, sem se virar para me olhar.
Lexie estava estranha. Sentada de costas para mim e encarando a parede ao lado da cama, sua voz parecia carregada de mistério. Eu fiquei em silêncio, ouvindo só o som da minha respiração e sentindo as batidas frenéticas do meu coração contra meu peito.
- Eu prometi ao Mike que cuidaria de você, sabe? – ela continuou. – Embora você não precise de mim para se defender.
Pude vê-la dar de ombros e finalmente, ela se levantou, se virando na minha direção. Seu rosto não expressava nada e seus. olhos estavam mais escuros que os normais. Quando fiz menção de ascender a luz do quarto, sua voz me cortou.
- Não.
- O que está acontecendo, Lexie? – disparei a pergunta, tentando entender todo aquele mistério e por que ela estava agindo tão estranha.
Lexie deu um suspiro longo. Andou um pouco mais para frente, onde a luz fraca que entrava pela janela iluminava uma parte de seu corpo. O movimento de suas mãos me deixou alerta e ela abriu o casaco que vestia, mostrando que por debaixo estava usando apenas um sutiã de renda vermelho. A cor combinava com seu tom de pele e cabelo, mas não foi isso que mais me chamou atenção. A barriga dela estava riscada com tinta azul e quando apertei meus olhos para ver o que estava escrito, minha respiração passou de calma para muito desesperada.
"Eles estão aqui."


Fourteen

- Como vamos sair daqui?
A voz parecia distante. Meus pensamentos não estavam presentes naquele momento, mas a informação fazia meu cérebro pegar fogo e eu estava completamente fora do controle. Não podia me sentir assim, eu tinha que me manter calma. De repente, comecei a respirar devagar e tentar lembrar-se de qual pergunta me foi feita. Meus olhos se direcionaram para Lexie na minha frente e outra pergunta se formou diante de mim. Parecia estranho questionar tal coisa, mas não podia negar que também era bastante justificável e plausível que eu duvidasse.
- Na verdade – consegui abrir a boca, mesmo a voz saindo baixa –, como eles descobriram que estamos aqui?
O revirar de olhos dela não me surpreendeu nem um pouco. As reações de Sharp eram bastante previsíveis quando alguém duvidava descaradamente dela. Eu nem precisaria de muito esforço para fingir que engoliria qualquer desculpa, principalmente porque ela não ia dar alguma.
- Eles me seguiram – curta e direta, sua resposta se manteve neutra.
- Não há como... – tentei continuar, mas ela me interrompeu indelicadamente.
Pelo menos agora eu conseguia processar a informação de forma clara.
Eles estão aqui.
- Não há tempo para isso, – seu semblante ficou sério. – Precisamos fugir.
Uma situação de emergência. Quantas vezes eu tinha passado por aquilo? Suspirei e assenti devagar, concordando meio contrariada com ela. Lexie conseguiu sorrir, tombando a cabeça para o lado. Não pude esquecer que ainda estava meio escuro. Fui treinada para nunca me deixar levar pela emoção do momento, tal como a adrenalina e o medo. O medo nunca era por mim. E era meio impossível não deixar que esses sentimentos me dominassem – ou a qualquer outro – justamente naquela situação.
- Preciso de uma arma – solicitei, sem pensar muito.
- Debaixo do colchão, no seu quarto, há três – ela informou. – Você só precisa chegar lá.
Eu não tinha tempo nem de perguntar como ela sabia ou tinha feito aquilo. Algumas coisas eu não precisava saber mesmo. Ansiosa, eu só assenti com a cabeça em confirmação.
- E você? – perguntei.
- Não se preocupe comigo – respondeu e pude ver um resquício de sorriso no seu rosto. – Eu vou distraí-los. Só pegue a criança e saiam daqui. Você sabe o que fazer.
- Obrigada – me pronunciei. – E sinto muito.
Pelo Mike. Eu sentia muito por ela e pelo Mike. Mas a julgar por sua expressão, ela sabia disso. Só balançou as mãos e me mandou ir embora e agir o mais rápido possível. Eu desejei que ela se protegesse, mas logo depois me dei conta que eu não precisava desejar isso. Ela sabia se virar muito bem. Dando as costas, eu abri a porta com a maior cara de tristeza, como se nós duas tivéssemos brigado e eu não tivesse gostado nenhum pouco disso. Andei devagar, sem forçar muito a minha perna e mantive meus olhos alertas a cada pessoa a minha volta. Mas como diabos eu ia saber quem são eles?
- Até que enfim eu te achei! – Mia se manifestou e apareceu de repente na minha frente, me assustando por breve segundos. – Preciso de você.
- Sou só uma paciente – me adiantei em dizer, passando direto por ela. – Não vejo porque você iria precisar de mim.
Conseguia ver que ela deu um meio sorriso pela minha resposta, mas ela parecia mesmo decidida e se colocou na minha frente, me impendido de continuar a andar em paz. Minha cabeça estava fervendo.
- Na verdade, eu me pronunciei mal – ela se desculpou, fazendo uma cara de culpada, mas logo se recompôs. – É o que precisa de você.
Alguma coisa em mim mudou. Talvez fosse minha expressão ou o fato de que meu coração se acelerou mais rápido que o normal na menção do nome dele. Será que tinham o capturado?
- Fala logo, Mia! – pedi, na beira do desespero.
A enfermeira pediu que eu a seguisse de volta para meu quarto, onde ele estava e eu não pensei duas vezes. Mesmo que eu estivesse mancando um pouco, consegui ir ao ritmo rápido de seus passos e assim que cheguei ao meu quarto, abri a porta, vendo que estava sendo mantido preso na cama e dois homens, um de cada lado, tentavam contê-lo.
- O quê...?
- Não sabemos o que aconteceu – Mia me explicou – Estava tudo bem, mas quando eu entrei aqui novamente, ele estava deitado na cama gritando e depois começou a atirar coisas em mim quando o toquei.
- Saiam daqui – minha voz soou firme e Mia me olhou como se eu fosse louca. – Saiam daqui!
Meu grito pareceu despertar os dois enfermeiros que o seguravam. Eles olharam para Mia, provavelmente esperando alguma ordem dela e eu lancei um olhar como se implorasse que eles fossem embora. Ela suspirou e balançou a cabeça afirmando e os dois homens foram embora, sendo seguida por ela que fechou a porta atrás de si. Engoli a seco, andando rápido até . Ele não estava mais se debatendo, mas o suor escorria pela sua testa e sua boca estava tremendo. Suas palavras eram sussurros misturados a dor e eu não conseguia entender nada. Acariciei seu braço com cuidado, sabendo que aquele era mais um de seus pesadelos do qual ele não me contava sobre o que era.
Eu queria entendê-lo.
- ... – chamei com calma. – Por favor, acorde.
Desamarrei as cordas que o prendiam como se ele fosse completamente louco e balancei seu corpo de leve para que ele acordasse. Mas minha tentativa foi inútil e eu suspirei, vendo a expressão sofrida dele em seu rosto.
Levei minha mão até seu cabelo, onde eu fiquei mexendo um pouco. Seu corpo estava tenso e aquilo tudo estava me agoniando.
- ! – chamei um pouco mais alto dessa vez e bati mais forte em seu braço.
De repente, começou a se mexer de novo, tentando se levantar.
- , pare! – gritei, chacoalhando seu corpo.
Senti meu corpo ser empurrado para trás e o impacto com o chão me fez soltar um gemido de dor. Minhas costas latejavam um pouco e eu o vi se levantar bruscamente, se sentando na cama. Seus olhos se abriram e a primeira coisa que viu, foi eu jogada ao chão. Eu quis ficar ali, sem coragem de me levantar.
fez uma expressão de culpa no rosto e se apressou em me ajudar a levantar, mas eu balancei a cabeça dizendo que ele não fizesse isso.
- ... – sua voz estava embargada e rouca. – Desculpe. Não queria fazer isso.
- O que está acontecendo com você? – minha pergunta foi direta, sem dar chance dele saber se eu aceitei seu pedido de desculpa.
Ele deu um suspiro longo e passou as mãos pelo cabelo, tentando tomar uma decisão que parecia extremamente difícil em sua visão. Voltou a olhar para mim e se sentou ao meu lado, segurando minha mão sobre a sua.
- Não se preocupe comigo, querida – seu rosto mascarou um sorriso fingido, e eu comecei a chorar em silêncio.
- Pare – pedi, virando o rosto. Tentava controlar minhas lágrimas e nem eu mesma entendia porque chorava. – Pare de fingir.
Ele beijou minha bochecha e eu fechei os olhos. Abraçou meu corpo contra o seu, como se tentasse me proteger de alguma coisa que não fosse ele mesmo.
- Eu disse que você não precisa ser forte o tempo todo – suas palavras foram sussurradas contra minha pele, numa sinceridade tão profunda que eu coloquei minhas mãos sobre os braços dele.
- Você também não precisa – retruquei.
Estava me sentindo destruída e não ficava assim desde a noite que decidi desligar os aparelhos do meu irmão.
respirou na minha pele e minha respiração ficou muito lenta e tive que abrir a boca um pouco para que conseguisse continuar respirando sem dificuldade alguma. Senti outro beijo na minha bochecha e abri os olhos, virando meu rosto para ele e soltando minhas mãos de seus braços. Nossos olhos se encontraram e as faíscas de dor que continha no seu, estava refletindo no meu. Eu queria tanto entendê-lo. Queria tanto entender porque ele estava tão quebrado.
- ... – ele não tirava os olhos de mim.
Eu também não me atrevia a tirar os olhos dele. Levei minha mão e acariciei sua bochecha esquerda e seus lábios limparam minhas lágrimas insistentes. Éramos um só naquele momento, e estávamos quebrados.
> Parecia tão errado, mas eu queria tanto beijá-lo agora. Perguntava-me se esse era o maldito momento que ele dizia tanto.
- Você está pensando demais e...
E então eu o beijei.
Saciei minha vontade, silenciei meus pensamentos gritantes e o beijei. Suas mãos apertaram minha cintura, me cercando como se ele tivesse medo que eu o deixasse. Que eu fugisse.
O beijo, do contrário que eu esperava, não estava sendo selvagem. Era calmo e delicado. Era... Sentimental.
Mas quando sua língua se encontrou com a minha, senti a necessidade de me empolgar um pouco. O momento não era apropriado, mas eu não queria ligar muito para isso. Enrosquei meus dedos em seu cabelo, aumentando o nível de intimidade entre nós. Ele me abraçava de todo jeito. Mantinha seus braços sobre mim como torres. E eu desejei que ele nunca me soltasse.
Mas como meus pedidos geralmente nunca eram atendidos, um alarme estridente soou por todo o hospital. Assustamos-nos e nos afastamos tão rápidos que fiquei um pouco sonsa. O gosto do seu beijo ainda se fazia presente em meus lábios.
Ah, droga.
A Zune.
- Temos que ir – anunciei, me levantando do chão.
Tentei me recompor e lembrei que ele não sabia o que estava acontecendo, porque meu cérebro fez o lindo trabalho de esquecer a informação – muito importante, por sinal. Não me perdoaria de jeito nenhum se algo acontecesse a Zune.
Responsabilidade é uma droga.
- O quê? – tentei ouvir atentamente suas palavras, mas o som do alarme estava muito alto.
Eu andei até a cama, levantando o colchão e encontrei lá as três armas que Lexie disse que estaria. Peguei duas e joguei uma para e nem foi preciso explicar nada, pois sua expressão indicava total entendimento da situação e sabíamos que o alarme tinha a ver com a Sharp.
- Temos que pegar a Zune – repeti e quando me virei para pegar a terceira arma, a porta foi aberta bruscamente, revelando um homem com uma espigada.
Antes que ele mirasse em um de nós, foi mais ágil e atirou primeiro. Eu assenti para ele e nós dois começamos a correr contra o tempo até o andar da pediatria. O elevador não estava funcionando e as pessoas nos olhavam apavorados. Optamos por subir pelas escadas, mesmo que fosse cansativo e começamos a subir de dois em dois degraus. Tinha um homem alto descendo na direção contrária e percebi que ele era um dos outros e como eu estava na frente e ele estava muito perto para que eu atirasse, eu dei um chute sobre seu peito, fazendo-o cair para trás e ir rolando escada abaixo. Conseguimos chegar ao andar, mas observamos que tinha mais três esperando na porta da sala do berçário. Engoli a seco, limpando meu rosto e escondi a terceira arma na parte de trás da calça.
- Espere aqui – pediu e seguiu na minha frente.
Eu o esperei. Vi ele nocautear dois deles e quando o terceiro homem rechonchudo apontou a arma para ele, eu atirei antes. Atingi suas duas pernas, enquanto ouvia-o gritar. entrou primeiro na sala e logo atrás estava eu, e nós dois procurávamos pela Zune.
- Abelhinha! – exclamei de alívio quando a avistei na terceira fila, atrás dos outros.
seguiu meu olhar e andamos até ela. Eu dei a arma a ele e a peguei no colo, enquanto ela sorria abertamente e batia a palma da mão na minha bochecha. Automaticamente, eu me senti um pouco melhor e, naquele momento. eu soube que se algo tivesse acontecido a ela, eu não suportaria.
- Olha só, eu vejo um sinal de apego aqui – comentou, apenas para implicar, como sempre fazia.
Mas era bom se sentir normal outra vez. Se não fosse o caos no meio de nós, talvez aquele momento tivesse durado um pouco mais que o previsto. Mas o hospital estava uma bagunça e tínhamos que sair daqui antes que a polícia local chegasse.
- Cale a boca – retruquei, fazendo-o rir um pouco – Vamos sair daqui logo.
- E a Lexie? – perguntou, beijando o topo da cabeça de Zune.
- É a Lexie. – respondi, como se aquilo fosse óbvio e bastasse. – Ela se vira melhor que nós dois juntos.
Ele deu de ombros, discordando, mas mesmo assim me seguiu. Com uma mão, eu segurava a Zune e a outra, apossava a arma com cuidado. passou na minha frente, indicando que era melhor caso aparecesse mais deles. O caminho até as escadas de volta até foi mais tranquilo e eu me senti um pouco mal por deixar as outras crianças para trás, mas sabia que todos eles estavam seguros. Menos Zune. O corpo de estava um pouco curvado e suas sobrancelhas estavam arqueadas como sempre ficavam quando ele estava completamente concentrado no que fazia. Zune deitou a cabeça no meu ombro, e sua mão ficou cutucando minha orelha do outro lado. Coitadinha, mal sabia nossa situação. Sendo pega de surpresa, quatro homens estavam subindo as escadas com tamanha velocidade que mal deu tempo de começar a pará-los. Não foi possível usar a arma porque um deles chutou a mão de , fazendo-a cair para longe de si. Meu peito subia e descia em uma velocidade de luz e Zune parecia sentir meu nervosismo, porque começou a ficar inquieta.
- Olá, belezinhas – um dos homens se aproximava de nós, enquanto eu dava passo para trás.
Engoli a seco, e ergui a arma na sua direção, mas ele fez a mesma coisa que fizeram com e minha arma foi parar longe do meu alcance. Por instinto, segurei a menina mais forte em meus braços. estava ocupado com os outros três, então o homem avançou para cima de mim e tomou Zune a força, enquanto eu gritava que não. De jeito nenhum eles iriam levá-la. Então quando ele a tinha nos braços e eu escutei o choro dela, me olhando e esticando seus braços para mim, pedindo que eu a pegasse de volta, eu chutei-o bem no meio das pernas dele. Quando o homem se curvou, eu peguei Zune de volta e tirei a arma da parte de trás da minha calça. Escondi o rosto dela no meu pescoço e atirei na cabeça do homem e continuei a andar, atirando no outros dois que estavam lutando com . O que restou, empurrou escada abaixo. Meu parceiro recuperou a arma dele e a minha que estavam jogadas sobre o chão.
- Eu... – ele estava sem fôlego e eu meio que achei graça. Zune parou de chorar. – Vamos logo sair daqui.
- Sério? Você parece cansado – zombei.
- É impressão sua.
- Ainda consegue acabar com alguns? – impliquei, seguindo o caminho devagar. O elevador parecia estar funcionando e só havia duas enfermeiras ali, que correram para a sala onde estavam os bebês. – Você mal consegue andar. Quer parar para respirar um pouco?
- Sério, se você não calar essa boca, eu vou atirar em você – ele resmungou e eu ri.
Entreguei Zune a ele e peguei a outra arma. Queria ter me despedido da Mia, que apesar de me tirar do sério ás vezes, era uma boa garota e só tentava me ajudar. Talvez eu mandasse um cartão pedindo desculpas.
E agradecendo. E afinal, o elevador tinha voltado a funcionar.


Extra

Dois anos atrás.

Ponto de vista do

- Mais uma, Joe.
O homem me olhou como se me repreendesse mentalmente. Eu dei de ombros.
- Tem certeza, ? – questionou, como se eu não tivesse sóbrio o suficiente para saber minhas decisões.
De fato, eu não estava. Perdi as contas de quantas doses de sei lá qual bebida eu já tomei. Eu balancei a cabeça afirmando e ele desistiu, indo pegar mais um copo para mim. O bar estava quase vazio. Ainda havia algumas pessoas dançando e casais sem rumo se pegando sem se importar se alguém estava vendo ou não. Meus olhos ardiam um pouco e eu me sentia sujo. Minha barba estava grande e eu nunca gostava de deixá-la crescer. Os fios do meu cabelo também tinham crescido uma quantidade que me deixava parecendo um moleque do ensino médio que não sabia o que estava fazendo com a própria vida. Mas desde que ela se fora, eu parecia ter perdido meu rumo. Não tinha mesmo ideia de como voltaria a viver. Eu nem ao menos superei.
Fazia quatro meses.
E a culpa fora toda minha.
- Aqui está.
Joe me trouxe a bebida e eu virei o copo de uma vez, sentindo meus olhos arder. Não estava acostumado a beber tanto. Tirei algumas notas e deixei no balcão de Joe, sem conferir se o dinheiro estava certo. Apenas me dirigi à saída e chamei um táxi, pedindo que o motorista me levasse direto para casa.



Minha cabeça estava prestes a explodir. O sol que entrava pela fresta da janela estava começando a me incomodar e quando fiz menção de voltar a dormir, o telefone tocou. Fui obrigado a levantar e, xingando até a última geração o ser humano do outro lado, eu atendi ao telefone.
- Quanto mau humor essa hora da manhã, – respirei fundo ao reconhecer a voz do meu chefe.
Passei a mão pelo rosto, em uma tentativa bruta de me despertar. Parecia impossível.
- Senhor – me desculpei pelos xingamentos, mas ouvi sua risada indicando que ele compreendia. – Aconteceu alguma coisa? - Agente – ele tornou sua seriedade e eu sabia que vinha sermão por aí. – Entendo que você está em uma fase difícil de sua vida e lamento pela sua esposa. Talvez você não fosse a pessoa certa a estar naquela missão.
Aquela maldita missão, no qual a minha decisão tirou a vida da minha mulher para salvar outros milhares. É claro que ele entendia que eu estava em uma fase difícil da minha vida.
- Mas já faz quatro meses e estamos precisando de você de volta - continuou, enquanto eu permanecia calado. – Não podemos perder um de nossos melhores homens, agente. Você entende?
Não.
Não entendo por que eu ainda não posso continuar enfiado no meu maldito luto e me afogando nas mágoas, enquanto eu me afundava cada vez mais num poço sem fundo. Queria mandar para o inferno que eu fosse um de seus melhores homens, eu não estava pronto para qualquer missão que fosse. Mas algo em mim pareceu despertar. Ela não iria querer que eu chegasse nesse estado. Se pudesse, me pediria para seguir em frente. Então eu suspirei, engolindo a seco e ignorando minha cabeça latejar.
- Estarei aí em uma hora, senhor.
Desliguei o telefone. O porta-retrato que estava ao lado parecia encarar a minha mais profunda dor, então, em um surto de raiva, eu o joguei contra a parede e vi o se estilhaçar em pedaçinhos de vidro pelo chão. Aliviado, entrei no banheiro disposto a enfrentar a água gelada e ainda conseguir atrasar a uma hora que eu havia confirmado. Na Agência, estava tudo agitado. Um sentimento estranho me invadiu e eu tentei ignorar, mas parecia que eu estava ali pela primeira vez. As pessoas que passavam por mim me cumprimentavam por educação e me olhavam surpreso uma vez ou outra. Talvez porque esperassem que eu demorasse mais tempo fora do lugar.
Era compreensível.
Eu usava o uniforme de costume. A cor azul escura se fundia com a cor da minha pele e eu achava que combinava, portanto, eu só usava os uniformes que fossem daquela cor. Não estava fazendo frio, mas achei apropriado usar a jaqueta de couro preta por cima.
Também não estava em posse de nenhuma arma.
Assim que cheguei à sala de Philipe, meu chefe, eu bati até escutar um pedido para que eu entrasse. Até a sala parecia diferente. O astral que o dominava era de pura determinação e eu estreitei os olhos, não decidido se aprovava ou não.
Estava em uma constante dúvida e quase arrependido de voltar a colocar os pés ali.
- Agente !
Balancei a cabeça em cumprimento e me sentei na cadeira á frente de sua mesa. O sorriso no rosto dele estava sendo uma tortura para mim. Talvez fosse melhor ele não sorrir daquela maneira.
- Como está? – sua pergunta, então, considerei uma ofensa.
- Bem – no entanto, resolvi ser educado na mentira.
- Fico feliz de ouvir isso – ele parecia sincero. – Temos uma missão para você. E sua nova dupla.
Me endireitei na cadeira e me perguntei se eu tinha ouvido bem. Não a parte da missão, embora eu devesse protestar, mas a parte de nova dupla. Eu sempre trabalhei bem sozinho e ele sabia disso, então porque diabos eu iria precisar de uma nova dupla?
- Antes que abra a boca para protestar, – ele levantou um dedo indicador, autoritário, e eu soube que ele estava determinado na sua escolha. – Ela é nova e está precisando de alguém mais experiente no ramo para guiá-la. Então, não. Não vou mudar minha escolha de ser você.
Ela?
Agora eu virei babá?
- Ela? – consegui perguntar, controlando minha raiva.
- Sim, ela – afirmou, mexendo em alguns papéis em cima da sua mesa. Ele pegou um envelope e me ofereceu, no qual eu peguei sem cerimônia alguma.
Abri e me deparei com alguns arquivos, com foto dela do lado. Passava a imagem de ser inteligente e determinada. Um pouco teimosa, talvez...
. 24 anos. Americana. Contratada para trabalho em campo e terrivelmente boa com armas. Capacidade de tomar decisões extremamente difíceis em situações de risco. De repente, eu parecia uma criança empolgada. Mas jamais transpareceria isso a Philipe.
- Sei que está empolgado para vê-la, agente – o sorriso voltou ao rosto dele. – Ela está na sala de armas. Não a assuste.
Apesar de tudo, eu gostava do meu chefe. Me levantei, com os arquivos dentro do envelope.
- Obrigado, Senhor – balancei a cabeça e saí da sala.
A sala de armas ficava no quinto andar. Decidi ir pelas escadas e ajeitei minha camisa, que estava desabotoada e amassada. Esperava que ela não me decepcionasse, porque eu tinha expectativas de que ela poderia me distrair sendo minha parceira nas missões. Eu não sei qual foi a intenção de Philipe quanto a isso, ele sabia que eu não tinha a menor vocação de ser supervisor de novato nenhum. Mas a ficha dela era surpreendentemente boa, então foi meio que impossível que eu não ficasse empolgado.
Durante quatro meses, nem empolgado eu me sentia.
Nem um maldito sorriso eu dava. Mas quando eu entrei na sala de armas e a porta fez um barulho estridente e ela se virou assustada na minha direção e apontou a arma, apertando o gatilho, eu sorri. Não antes de desviar do tiro, é claro.
- Ai, meu Deus! – sua voz chegou até mim e eu a vi soltar a arma no chão e vir correndo até mim. – Você está bem?
Ela tirou os óculos do rosto e seus olhos pareciam carregado de culpa. A garota era encantadora.
- Estou bem – tranquilizei-a.
Seus olhos se desviaram para a pasta na minha mão.
- Isso é sobre mim? – apontou, questionando.
- Sim.
- Então você é meu novo supervisor?
- Não gosto dessa palavra – admiti, o que a fez rir.
- Como você prefere? – tirou as luvas da mão e andou para trás, ainda de frente para mim.
- Parceiro é uma boa – elogiei a ideia e segui seus passos. – Então você é a .
Seu rosto se contorceu em uma careta e eu fiquei confuso. Tive que olhar na pasta novamente para ver se não tinha errado o nome dela, mas eu não tinha.
- Falei alguma coisa errada? – perguntei.
Reparei que ela estava usando o uniforme habitual, só que ao invés de calça de coro, ela usava uma saia um pouco curta e um cropped, todos da cor preta.
- Não gosto do meu nome, mas prefiro que me chamem de – admitiu, mordendo o lábio.
Pintei um sorriso nos lábios, indicando que eu entendi.
- Bem, é uma pena – lamentei. – Porque eu adorei seu nome.
- Então vai ficar me chamando de ?
- É bom se acostumar – pisquei na sua direção e ela fez uma expressão de reprovação. – A propósito, eu sou o .
Reprovação essa que me permitiu descobrir que provocá-la era extremamente divertido. E eu estava certo quanto a ela. era inteligente e determinada. E só um pouco – muito – teimosa.


Continua...

Nota da autora: Oi, pessoal!
Qualquer coisa que queiram falar comigo, é só chamar na ask: @AuroraCel.
Beijão.

Nota da beta: Se você encontrar algum erro me avise no email ou no ask. Você também pode saber quando essa fic atualiza aqui.