Autora: Ste Pacheco | Beta: Babs | Capista: Ste Pacheco



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Prologue

“Era por volta das dez da noite quando Leonard voltava de mais um dia cansativo de trabalho. Lidar com os clientes desesperados da renomada farmácia local não era nada fácil. Todos os dias ele enfrentava algum problema diferente: fosse algum paciente reclamando a ausência dos efeitos desejados dos medicamentos, fosse o desespero pela cura de alguma doença rara, algum cliente implorando por um preço reduzido ou quem sabe alguma reação alérgica causada pelos produtos — e este último lhe causava uma tremenda dor de cabeça para resolver. Desde que seu chefe, o senhor O’Connell, havia viajado e lhe deixado no comando de tudo, ele não tinha sequer uma boa noite de sono sem pensar em todos os problemas que precisaria resolver no dia seguinte. Se ele soubesse pelo menos um décimo do que passaria aceitando aquele cargo, talvez não o tivesse feito e se sentido tão honrado por ser o escolhido. Em dias como aqueles em que estava vivendo, na verdade, ele havia recebido uma cruz para carregar.
Tentando afugentar aquele tipo de pensamento, Leonard soltou um suspiro resignado enquanto sentia seus passos diminuírem. Por mais pressa que ele sentia de chegar em casa, o cansaço lhe dominava e travava o trabalho de seus músculos, fazendo com que ele os sentisse queimando e latejando de dor, podia sentir o acúmulo de ácido lático gritando na forma de um princípio de câimbra que o fez bufar, enquanto que seus pés mal conseguiam mantê-lo de pé porque ele havia passado o dia todo sem se sentar por nenhum minuto e a preguiça era tanta que naquele dia ele nem ao menos se despediu dos outros funcionários antes de sair daquele lugar, que já não aguentava mais ver, mas era forçado porque dependia daquele emprego.
Seus pensamentos estavam concentrados em seu único objetivo: se jogar em sua cama e se render ao cansaço. Finalmente fechar os olhos, que pesavam e insistiam por um descanso, e relaxar sua mente, perturbada por todos os problemas enfrentados naquele dia. A exaustão era tanta que ele mal se importava com seus sentidos anuviados pela fome, que fazia seu estômago doer e uma pontada de enjoo lhe embrulhar, quase trazendo a bile até a garganta em uma típica contração reflexa. Merda! Ele odiava vomitar!
Mais um longo suspiro escapou de seus lábios e ele se praguejou mentalmente por isso, pois sentiu o enjoo aumentar, então respirou fundo, puxando a maior quantidade de ar que podia para oxigenar seu cérebro de forma apropriada, parando por alguns segundos e apoiando as mãos em seus joelhos quando a tontura aumentou. Estava se sentindo bastante patético e particularmente idiota por ter ignorado seu organismo por tantas horas e deixado seu horário de lanche de lado para atender a Senhora Crasswell, uma madame, que além de ser irritantemente barraqueira, era casada com um dos homens mais poderosos da cidade, o dono da maioria das terras naquela região, e que inclusive tinha seus olhos gananciosos vidrados na casa de medicamentos do senhor O’Connell. Leonard tinha receio do que seria de si se o chefe resolvesse fechar aquela venda, mas pelo amor que o outro demonstrava pela manipulação de produtos medicinais, o rapaz achava pouco provável que o Senhor Crasswell fosse bem-sucedido.
Embora antenado com os acontecimentos ao seu redor, Leonard às vezes podia ser tremendamente ingênuo.
Sua reflexão sobre o quanto era tolo e idiota foi interrompida quando a lamparina da rua deserta em que se encontrava piscou e apagou subitamente, lhe deixando apenas com a luz do luar para acompanhá-lo pelo restante do caminho.
— Perfeito! Como se já não me bastassem minhas pernas me deixarem à míngua! — a voz de Leonard ecoou, rouca e exausta, estreitando os olhos, já prejudicados pelo problema de visão que ele se recusava a corrigir com óculos de grau, tentando focar em algum pronto que pudesse orientá-lo e decidindo por segui-lo mesmo que não tivesse certeza. Ele fazia aquele mesmo caminho todos os dias nos últimos dois anos, jamais se perderia, por mais que sua casa não fosse exatamente perto de seu local de trabalho.
O barulho de seus pés se arrastando era a única coisa que podia ser ouvida àquela hora, já que uma boa parte da população da cidade já estava recolhida em suas residências, enquanto a outra desperdiçava seu dinheiro em algum cabaré lotado de belas donzelas. Se não estivesse tão cansado, talvez ele mesmo se presentearia com uma boa companhia para esquentar suas partes e satisfazer as necessidades que com toda certeza equivaliam a quase oitenta por cento de seu mau humor.
Uma risada falha e engrolada escapou de sua garganta, lhe fazendo tossir como se fosse um velho bêbado e ele pigarreou em seguida para se livrar da sensação incômoda. Como se não bastasse todas aquelas sensações que lhe faziam desejar morrer, ele suspeitava que uma constipação também começava a lhe acometer.
Mais alguns passos naquele martírio sem fim e ele se obrigou a diminuir ainda mais o ritmo, o que lhe deixou mais irritado consigo mesmo, então o clima deserto daquela rua e a ausência de ruídos lhe causou um certo incômodo no peito. Se sentindo bastante covarde por seus batimentos acelerarem e ecoarem em seus ouvidos de forma vergonhosa, ele quase gritou de forma triunfante quando teve sensação de que um vulto havia passado bem rente ao seu lado esquerdo, e ele o teria feito se a reação mais óbvia de seu organismo não houvesse sido a de paralisar todos os seus músculos.
Parecia que seu coração havia saltado até sua garganta enquanto ele tentava se mover sem o maldito sucesso, e como numa brincadeira de péssimo gosto, ele viu a lamparina piscar, acendendo por breves segundos e se apagando novamente. Aquilo só poderia ser coisa de sua cabeça, mas ele não questionaria, mesmo que aquele fosse algum sinal de que estava ficando maluco. Então Leonard olhou rapidamente ao seu redor, conseguindo enxergar pouquíssima coisa, mas constatando algo que o fez odiar a si mesmo novamente: ele havia conseguido se perder.
Tantos anos sempre pegando o mesmo maldito caminho e ele havia conseguido aquele feito em questão de minutos.
— Imbecil, babaca, idio... — definitivamente, ele estava ficando maluco.
Novamente, a sensação do vulto passando ao seu lado tomou conta de si, desta vez do lado oposto ao anterior e Leonard se preparou para praguejar novamente, imaginando uma série de xingamentos que agora seriam dirigidos ao seu chefe, porém não houve chance para tal. Agora ele tinha a sensação vívida de que algo havia passado por suas costas, estava lhe cercando, e em vão ele tentou olhar em volta para identificar o que poderia ser uma brincadeira de péssimo gosto, encontrando apenas o vazio e sentindo o vento frio lhe atingir o rosto.
Suspirou resignado e voltou a virar para frente, a fim de esquecer aquela paranoia repentina e se localizar para que finalmente pudesse ir para casa. Então seus músculos voltaram a paralisar e ele se sentiu tão gelado que naquele momento não lembrava da sensação aconchegante de suas extremidades aquecidas.
Um pouco adiante dele, em meio às copas das árvores, dois imensos olhos flamejantes o encaravam com ódio explícito. Seu corpo tremeu e seus joelhos fraquejaram, o que quase ocasionou sua queda, e ele engoliu em seco, sentindo um nó se formar em sua garganta. Nunca havia visto tal criatura, que ele consideraria humana, se não fosse pelo longo focinho e os dentes arreganhados, emitindo um rosnado que fez com que o corpo do rapaz tremesse ainda mais.
E conseguindo forças de um lugar que desconhecia, Leonard tornou a virar na direção oposta e correr desesperado, sentindo seus músculos protestarem, seus pulmões implorarem por oxigênio e seus olhos ficarem embaçados pela tontura, que não havia lhe abandonado por momento algum.
Leonard não teve tempo para ir muito longe. Não teve tempo ao menos para sonhar com sua salvação ou para ver o conhecido filme que dizem passar na cabeça das pessoas quando a morte lhe abraça. Ela veio brusca, num golpe doloroso e barulhento, que lhe lançou de cara na estrada de terra, num baque que lhe fez sentir o osso do nariz estalar enquanto que seu peito era poupado de ser esfolado por causa do tecido de suas roupas, mas isso pouco importava porque suas costas doíam feito o inferno. Cortes profundos haviam sido abertos em suas costas e ele sabia que era porque a criatura havia lhe acertado com suas garras. Tentou buscar ar, mas tudo que foi ouvido foi apenas um som semelhante a um ganido de sua parte e que foi sufocado por um uivo que cortou a noite.
A grande pata lhe atingiu a região lombar e ele sentiu que não aguentaria mais a dor quando sua coluna se partiu, lhe imobilizando da cintura para baixo. Num resquício de loucura, Leonard tentou se arrastar, gemendo torturadamente quando mais um golpe lhe atingiu a cervical, cortando de uma vez por todas o oxigênio e o fazendo por fim se render à morte.
A criatura não parou por aí. O corpo do rapaz foi virado em decúbito dorsal e suas vísceras não demoraram a ser expostas para que toda a essência vital de Leonard alimentasse a fome desenfreada daquela que dali para frente todos passariam a conhecer como a besta dos olhos flamejantes. Aquela que estaria presente nos contos das velhas senhoras, em volta de fogueiras e estampada nas manchetes dos jornais.
Quando a escuridão domina o coração dos mais frágeis e os gritos cortam a noite, a besta se levanta para aniquilá-los e satisfazer seus desejos mais selvagens.
Com o sangue dos inocentes tomando seus lábios, ela caminha sedenta por mais... Deixando um rastro sangrento de caos e destruição por onde passa.
O ser humano, diante de desafios como este, tem sua inteligência, que considera superior, posta à prova mais uma vez. Havia uma solução? Uma forma de parar aquela criatura?
A enorme poça do sangue de Leonard manchou a estrada que há muito tempo não havia visto um assassinato como aquele; várias horas depois, quando os passarinhos cantavam o despertar da aurora, o grito de uma donzela alertou a população.”



Chapter One — The Beast

Algumas semanas antes

O barulho da máquina de escrever ecoava por todo o recinto, intercalado por algumas pausas que se tornavam cada vez mais longas conforme as palavras fugiam de seus pensamentos. Um suspiro ecoou de seus lábios pelo que ele imaginava ser a milésima vez naquela tarde e, com um baque irritado nas teclas, o rapaz encarou a janela de seu escritório, encontrando um céu nublado e sem o mínimo resquício da luz do sol.
Totalmente inspirador.
Voltou seu olhar para onde deveria estar o seu trabalho e uma careta de frustração se formou em seu rosto. O papel estava preenchido por apenas três linhas.
Três linhas.
Três malditas linhas que não formavam nem cinquenta palavras.
E quanto mais ele tentava fazer com que aquelas míseras linhas evoluíssem para páginas, mais seu cérebro se embolava e mais frustrado ele se tornava. O que havia de errado com ele?
Já fazia semanas em que situações como aquela se repetiam e conforme aquilo se prolongava o dinheiro que possuía ia se esvaindo e ele sabia que uma hora ou outra chegaria ao fim. Então teria duas soluções para que não passasse fome: ou teria de arranjar um emprego em um botequim qualquer, ou sairia pedindo esmolas na rua, e a segunda opção parecia ser a mais provável se fosse levado em consideração que ele precisava pagar o aluguel da estalagem na qual morava desde que havia decidido se mudar para Loches, na França, com seu irmão mais novo.
As coisas não haviam sido fáceis para os dois rapazes desde muito jovens, quando um acidente misterioso levou consigo seus pais, deixando-os à mercê de uma tia solteirona e nada maternal, que os mantinha por perto por um simples motivo: a gorda herança dos .
Mas aquilo não durou muito tempo e assim que o mais velho completou seus dezoito anos, carregou o mais novo junto à uma mochila com tudo o que eles precisariam dali para a frente, inclusive os direitos da mulher em administrar tudo o que os rapazes possuíam. O problema era que já havia sido tarde demais e quase toda a herança havia sido torrada em coisas fúteis, o que deixou os dois irmãos com o suficiente para apenas se instalarem em uma nova morada. Dali para frente tudo havia ficado inteiramente por sua conta e risco.
Por muitas noites, o mais velho se perguntava se havia feito o certo ou se havia jogado todo o seu futuro e o de seu irmão pelo ralo. Em momentos como aquele não podia deixar de se sentir extremamente estúpido pela atitude adolescente e impensada. Não podia deixar seu irmão passar fome, não era para isso que ele havia enfrentado sua tia e os vários quilômetros que percorreram até chegarem ali.
Num ímpeto de raiva, levou as mãos aos cabelos e os puxou sem delicadeza alguma, grunhindo irritado e levantando bruscamente. As mãos imediatamente se ocuparam em derrubar cada objeto que aparecia em seu campo de visão, os vários papéis voaram em todas as direções e com enorme estrondo ele tratou de quase destruir seu instrumento de trabalho.
Encarou a máquina de escrever tombada no chão e mais um grunhido escapou de seus lábios.
— Que porra é essa aqui, ? — com um susto tão grande que fez o rapaz pular e encarar a porta em choque, a figura descrente de Alastair o encarava com uma expressão inquisidora.
então se deu conta do que havia acabado de fazer e mais um suspiro frustrado ecoou de seus lábios.
— O que faz aqui, Hughes? — chamou o outro pelo sobrenome, numa tentativa de demonstrar que não estava contente com a visita repentina. Naquele dia, pensava que quanto mais isolado estivesse de qualquer organismo vivo, melhor seria para ele. Estar bloqueado na escrita era tão inaceitável para ele que ele queria estar bloqueado para todo o resto. Maldita tendência ao drama!
— Aparentemente, estou aqui em boa hora. Visto o seu ataque gratuito aos seus pertences, meu convite para vir até a taverna beber até destruir seus miolos vem bem a calhar. Você está precisando — Alastair dizia, enquanto caminhava tranquilamente pelo cômodo, desviando dos pertences de , o encarando com o cenho franzido quando o outro recusou veementemente.
— Não vou a lugar algum. Tenho muito o que fazer, Alastair. Não posso perder meu tempo com bebidas — suspirou e se abaixou para começar a juntar e arrumar aquela bagunça. Quanto mais rápido o fizesse, mas rápido poderia voltar ao trabalho e talvez dessa vez conseguisse algum progresso.
— Mas pode perder tempo quebrando todas as suas coisas, como um adolescente revoltado com os pais? Pare de falar merda, ! E coloca a porra de um casaco porque está frio — revirou os olhos ao ver a expressão irônica de Alastair, desejando desferir um soco com toda a sua força no nariz do melhor amigo. Talvez se quebrasse seus ossos em pequenos pedacinhos o outro parasse de lhe incomodar e desistisse de torrar sua paciência.
Ou não. Alastair Hughes conseguia ser insuportável quando queria.
— Não posso me demorar muito, Alastair. Você sabe muito bem que...
— Você precisa de uma ideia para que volte a vender bem, feito o bastardo sortudo de antes. Já lhe ocorreu que uma boa caneca de cerveja e um belo par de peitos balançando em sua cara podem ser sua mais nova fonte de inspiração? Estou te fazendo um favor! Agora mexa logo esse traseiro daí, não tenho a noite toda pra esperar você sair da crise existencial — bufou, puxando a capa do amigo do cabideiro e atirando na direção de que a segurou por puro reflexo e a vestiu, bufando com irritação e seguindo Alastair para fora.
— Já te falaram que você é um filho da puta chato pra cacete? — resmungou, enquanto os dois seguiam pelas ruas frias em direção à taverna.
— Cale a boca, . Depois vai me agradecer — Alastair retrucou, risonho, puxando um cantil do bolso interno de sua capa e bebendo alguns goles. franziu o cenho, mas logo puxou o objeto da mão do outro, sentindo o gosto do uísque queimar sua garganta logo em seguida e depois devolvendo para Hughes, que apenas riu da expressão emburrada de .
Durante o trajeto, os dois se mantiveram calados, o que permitiu a refletir um pouco e chegar à conclusão de que Alastair estava certo. Sua obsessão com o novo livro era tanta nas últimas semanas que ele sentia sua cabeça doer constantemente, sem dar uma trégua, o que só piorava as coisas ainda mais para si. Talvez, se ele parasse um pouco de pensar sobre aquilo, as coisas acabariam se resolvendo e um plot genial resolvesse brotar do nada em sua cabeça, acompanhado pelo enredo que o traria de volta à ativa.
Era desanimador sentir vontade de rir ao pensar daquela forma. A verdade era que deveria ter desistido da escrita há muito tempo, tinha mais uma boca para alimentar e não podia se arriscar como estava fazendo ultimamente.
Era isso, ele pararia de escrever e buscaria um emprego decente antes que fosse tarde demais.
Adentrou a taverna com Alastair e logo identificou a bela figura ruiva, encostada no balcão do bar e quase fazendo o barman engolir seus peitos enquanto murmurava alguma coisa, que foi totalmente esquecida quando os olhos dela vagaram na direção da porta.
Alastair soltou um longo suspiro, o que fez rir, já um pouco mais descontraído do que antes. Ele realmente precisava relaxar, o amigo tinha toda razão, e quer maneira melhor de fazer isso do que assistir a garota esgotar cada vestígio da sanidade do filho do xerife?
! Finalmente saiu da toca. Já te falei o quanto fica gostoso com essa capa? — ele observou um copinho estendido em sua direção e encarou a ruiva dos pés à cabeça antes de pegar a bebida, virá-la toda de uma vez e se aproximar para receber o abraço da garota.
— Não adianta repetir isso toda vez que me vê, Clarissa. Não vou comer você — respondeu, em tom de brincadeira quando se desvencilhou da jovem, que apenas riu e passou a língua lentamente pelos lábios.
— Uma pena, eu duvido que isso estragaria nossa amizade, muito pelo contrário — ela o olhou sugestiva, então piscou na direção de Alastair, dando poucos passos para se aproximar do rapaz e lhe cumprimentando com beijo no rosto enquanto lhe sorria sedutora. — Boa noite, Alastair. É a você que devo agradecer pelo milagre?
Alastair arqueou uma sobrancelha, sabendo muito bem que a garota fazia de tudo para atrai-lo, e muitas vezes ela conseguia, ele não podia negar o quanto Clarissa era gostosa.
— Definitivamente. Que acha de me arrumar uma daquelas também? — indicou o copinho de dose que largava no balcão do bar e observou Clarissa aumentar seu sorriso e fazer um sinal para que ele lhe acompanhasse.
— Vamos lá, bonitão — e sorriu maliciosa enquanto ele a seguia.
balançou a cabeça negativamente, então seguiu até o balcão do bar, a fim de pedir algo para beber e relaxar mais. Sabia que os dois não demorariam muito, já que Alastair conseguia ser bastante idiota quando queria. Estava bastante claro para que sua melhor amiga mandava todos os sinais possíveis para demonstrar seu interesse em Alastair, mas, por mais que ele percebesse todos os sinais que faiscavam em sua direção, não tomava nenhuma atitude, o que fazia refletir se o rapaz fazia isso para incitar ainda mais a senhorita Buckigham, ou se o fazia porque não tinha interesse na moça. A última opção era a menos provável, Clarissa era uma das mulheres mais gostosas que eles conheciam e sabia muito bem disso, além de ser uma pessoa extremamente agradável, risonha e extrovertida, em quem confiava muitas vezes até mais do que em Alastair. Não sabia explicar, mas desde que se conheceram estabeleceram um vínculo bastante forte e duvidava que um dia seria quebrado. Ele também não queria, a amizade de Clarissa lhe fazia um bem inestimável.
Permaneceu por alguns minutos encostado no bar, perdido em seus próprios pensamentos, bebendo longos goles da caneca de cerveja que havia pedido, sentindo a temperatura da bebida refrescar sua garganta e espalhar a sensação de leveza por todos os seus poros. Tudo bem, dessa vez ele tinha que dar o braço a torcer e admitir que Alastair havia salvado seu humor. Não havia nada melhor do que aquilo e ele precisou de bastante determinação para conter a vontade de revirar seus olhos pelo prazer que aquilo lhe proporcionava. Por que ele estava tão puto mesmo?
— Não me diga que você vai ficar bancando o bom moço, ! Sabe que não combina com você! Cadê seu uísque? — a voz de Clarissa despertou o rapaz de seus pensamentos e ele deu um pequeno pulo que fez com que o conteúdo de sua caneca escorresse por seu queixo. Era impressão sua ou naquele dia em especial todos estavam empenhados em assustá-lo? Ele conteve um suspiro e passou a mão pelo local onde a bebida havia escorrido, enxugando enquanto encarava a senhorita Buckigham com uma sobrancelha arqueada.
— Preciso voltar ao trabalho ainda hoje, Clarissa. Não posso cair na farra e esquecer quem eu sou — sua voz soou mais desanimada do que ele gostaria, o que fez a garota revirar os olhos e bufar, fazendo sinal para que um dos garçons se aproximasse.
— Ah, cale a boca, . Você pode muito bem deixar esse seu livro de lado por uma noite. Não é como se uma história incrível fosse brotar no meio da madrugada. Quanto mais você forçar, pior será e eu não to nem um pouco afim de bancar a enfermeira. Por mais que eu deva ficar muito gostosa numa roupa daquelas e... — a garota disparou a falar, arrancando algumas risadas de , que acabou desviando sua atenção quando a música preencheu o ambiente. Um artista local havia recém iniciado sua apresentação e como um bom apreciador, ele manteve seus olhos ali, assentindo para uma coisa ou outra que ouvia a amiga dizer.
Clarissa empurrou outra dose na mão de e ele deu de ombros, resolvendo seguir o conselho da amiga e virando seu conteúdo, percebendo de imediato que era seu uísque preferido. Ele lhe lançou um sorriso de canto e viu a garota piscar em sua direção antes de se afastar para puxar Alastair de volta ao grupo.
— Vai me dizer que arrumou alguém tão rápido pra esquentar as partes, Hughes? — soltou, ouvindo o amigo rir com malícia assim que se encostou ao seu lado no balcão.
— Eu não duvidaria, se fosse você. As donzelas fazem fila para deitar nos lençóis do filho do xerife — o rapaz lançou uma piscadela na direção de antes de virar uma dose que havia trazido consigo, fazendo com que o amigo o encarasse sugestivo e soltasse uma risada baixa, balançando a cabeça em negação e imitando o gesto de Alastair. Clarissa apenas revirou os olhos e fez sinal para que o garçom enchesse mais seu copo, bufando segundos depois e puxando a garrafa das mãos do rapaz.
— Se não vai caprichar, deixa logo a garrafa aqui, meu bem — encarou o jovem com pouco caso e arqueou uma de suas sobrancelhas quando Alastair lhe encarou em dúvida. — O quê? — questionou, sem entender.
— Você é maluca — ele lhe disse, balançando a cabeça em negação e soltando uma risada baixa. Novamente, Clarissa revirou os olhos e encheu o copo do rapaz com o conteúdo da garrafa, virando para e fazendo o mesmo com o copo do amigo.
— Cala a boca e beba de uma vez. Quem sabe depois eu te mostre como me agradecer — ela lhe sorriu maliciosa e ouviu gargalhar logo em seguida, olhando para o rapaz e mostrando a língua para ele.
— Para que uma fila de donzelas, quando você tem Clarissa Buckigham te propondo um agradecimento especial? — disse, lançando um olhar sugestivo ao melhor amigo que lhe dizia claramente que ele estava jogando a moça em seus braços descaradamente. Clarissa em nenhum momento reprovou a atitude do rapaz, sabia bem dos interesses dela por Alastair e quando o amigo demonstrava atitudes como aquela sua vontade era a de pular em seu colo e enchê-lo de beijos.
— E que tipo de agradecimento seria esse, senhorita Buckigham? — Alastair questionou, virando mais uma vez o copo recém preenchido pela bebida e se aproximando devagar de Clarissa, de forma que seus corpos quase se tocassem. A moça lhe sorriu de canto e esperou ele diminuir a distância, inclinando minimamente seu tronco para encostar os lábios na orelha de Alastair e murmurar uma resposta, que foi bruscamente interrompida por um estrondo ecoando de algum ponto da taverna. Num ato reflexo, ela se afastou do filho do xerife e imediatamente olhou na direção do barulho, imitando a expressão confusa de , que tentava identificar o que diabos era aquilo.
Mais um estrondo pôde ser ouvido, como se cadeiras houvessem sido jogadas com violência e em seguida uma voz masculina gritava, com fúria, seguida dessa vez pelo som de vidro se quebrando.
— Última chance para dar o fora, moleque! — nenhum dos três conseguiu reconhecer a voz, então Alastair franziu o cenho, tentando se desviar de algumas cabeças que atrapalhavam sua visão.
— Ou você vai fazer o quê? Nada feito! É melhor você ficar longe dela! — fez uma careta ao identificar prontamente a voz que ecoou em resposta.
— Merda, Aeryn! — grunhiu, irritado, largando seu copo em cima do balcão e se adiantando para tentar chegar até o local da confusão, sentindo uma das mãos de Clarissa lhe impedir, tocando seu peito.
... — ela começou, mas logo em seguida mais um estrondo pôde ser ouvido e se desvencilhou da maneira menos rude que pôde, correndo logo em seguida e dando de cara com seu irmão mais novo embolado em uma briga com um outro rapaz que nunca havia visto. O outro tinha uma garrafa quebrada em mãos e tentava acertar Aeryn, que se esquivava e empurrava o outro contra as mesas sempre que tinha oportunidade.
simplesmente não conseguia acreditar na cena que estava vendo. Ao ver o irmão avançando como um louco na direção daquele desconhecido, ele sentia vontade de segurar os dois pelo pescoço e bater suas cabeças uma na outra, só assim quem sabe se dessem conta da cena ridícula que estavam fazendo.
Um grito feminino ecoou logo atrás de e ele identificou de imediato a garota irritantemente idiota que tentava se enfiar no meio dos dois rapazes para apartar a briga.
— Parem! Parem com isso! Solta ele... Aeryn! — a voz da moça expressava agonia. revirou os olhos e se adiantou no exato momento em que a garrafa quebrada era golpeada na direção de Aeryn. Um urro de dor ecoou de sua garganta quanto ele sentiu o vidro cravando em sua mão direita e rasgando sua carne e o ódio cresceu instantaneamente. Não bastava ele estar com aquele maldito bloqueio criativo, agora, por culpa de Aeryn , ele havia ganhado um belo rasgo em sua mão.
Ignorando a dor lancinante e o sangue que imediatamente começou a verter de seu ferimento, fechou a mão em punho e acertou em cheio o maxilar do outro, que soltou uma espécie de ganido assustado, sentindo seu osso estalar e se afastando imediatamente, largando a garrafa no chão e levando as mãos ao queixo.
virou furioso na direção de seu irmão mais novo e praticamente cuspiu as palavras em sua cara.
— Mas que merda vocês pensam que estão fazendo? — lançou um outro olhar rápido na direção do rapaz que brigava com seu irmão e seu sangue ferveu ainda mais, sua vontade era de quebrar o restante dos ossos de seu rosto. — Não importa! Apenas dê o fora da minha vista antes que eu termine de arrebentar a sua cara! — e sem discutir, ainda segurando o queixo, com uma expressão confusa, o rapaz irrompeu pela multidão, esbarrando em um Alastair surpreso, encarando a cena junto às outras pessoas amontoadas em volta da briga.
— o mais novo tentou dizer, com dificuldade devido ao ar que lhe era escasso no momento devido ao esforço físico de antes.
— Não quero ouvir uma palavra de sua boca. Eu devia quebrar sua cara também por se meter nessas merdas de novo, Aeryn! Que porra você tem na cabeça? Vá logo lavar o rosto! — grunhiu, sentindo o sangue escorrendo por seu braço e fazendo uma careta ao vê-lo pingar no chão do estabelecimento. Aeryn hesitou, encarando o irmão em dúvida e dando passos vacilantes em sua direção, porém Alastair pigarreou enquanto olhava com uma expressão de alerta para o melhor amigo.
— Vamos lá, cara. Chega de trazer problemas para seu irmão — se aproximou do garoto e o puxou pelo ombro para conduzi-lo até o banheiro. bufou irritado, então Clarissa entrou em seu campo de visão, se adiantando até ele com o que ele identificou como um pano branco.
— O espetáculo acabou, galera. Voltem a qualquer coisa que estavam fazendo. A não ser que queiram me ver costurando a mão do bonitão aqui — ela disse aos curiosos, que logo se dispersaram, então soltou um suspiro e fez um sinal com a cabeça para que lhe acompanhasse. Ele bufou, inconformado com aquela situação toda e acompanhou a garota até uma das mesas da taverna.
— Dá pra acreditar nisso? E quando eu digo que não quero sair de casa, você e Alastair vêm com aquele papo de que preciso me divertir! — revirou os olhos e fez mais uma careta quando Clarissa puxou sua mão para analisar o ferimento. A música local voltou a tocar minutos depois, o que fez com que os dois tomassem um pequeno susto.
— Ah não. Não vou deixar você se culpar e nem fazer drama com isso, ! O irresponsável foi seu irmão. E a idiota da Levinski, que não consegue ir a uma festa sem fazer dois babacas brigarem por ela — revirou os olhos, avistando a garota logo adiante, que estava do lado de fora dos banheiros, andando impaciente de um lado para o outro.
— Ele é meu irmão mais novo, Clarissa. Será que você não percebe que esse comportamento dele é minha culpa? Aeryn só tem dezessete anos! Eu devia deixar pra lá toda essa história de livro e cuidar direito do garoto. Sou a única família que ele tem. — a voz de misturava o ódio que ainda sentia com a decepção consigo mesmo. Definitivamente, ele estava falhando em seu papel como irmão e pai, levando em conta que ele havia criado o mais novo durante a maior parte de sua vida. Não era fácil para ele ter que admitir que tinha falhado e a quantidade, ainda que pequena, de álcool que havia ingerido parecia acentuar ainda mais seus sentimentos.
— Eu juro que se ouvir você dizer uma merda dessas outra vez, arrebento todos os seus dentes e rasgo o que falta de sua mão, ! — a ruiva o encarou com profunda indignação, apertando a mão do rapaz de propósito e o fazendo recolhê-la enquanto resmungava de dor. — Não seja estúpido desse jeito! Todo mundo sabe o quanto você faz por aquele garoto. Pare de se culpar! Droga, eu vou matar Hazel Levinski! — lançou um olhar mortal na direção da moça, que estava totalmente alheia ao que acontecia. abriu a boca para protestar, mas foi interrompido quando Clarissa voltou a fazer o curativo em sua mão. Ainda que improvisado, aquilo resolveria o sangramento por hora, mas ela sabia que ele precisava ir a um hospital. — Você vai ter que levar pontos aí — ela disse, fazendo uma careta porque sabia que o amigo detestava qualquer tipo de agulhas.
— Droga! Que merda eu fiz para merecer isso, caramba?! — exclamou, passando a mão saudável pelos cabelos e bufando, sentindo uma vontade súbita de fumar. Se não bastasse tudo o que estava passando, ele ainda tinha aquele vício nojento para sustentar. — Que se explodam esses pontos! Não vou passar o resto da noite costurando minha mão! Onde está aquela garrafa que você pegou do bar? — ele questionou, sabendo que soava extremamente bipolar, mas não dando a mínima para isso.
Clarissa apenas revirou os olhos, optando por não discutir com o rapaz, porque acabaria lhe arrastando para o hospital pelos cabelos. Na verdade, uma parte de si também comemorava o fato de ele decidir relaxar, já que antes ele não parava de falar na porcaria do livro.
Quando Alastair e Aeryn retornaram à mesa, no entanto, encontraram um gargalhando feito um louco enquanto virava o que deveria ser a quinta dose de uísque, lançando um olhar esperto em direção à Clarissa, porém ficando subitamente carrancudo quando avistou o irmão.
, me deixe explicar, eu... — o irmão mais novo começou a falar, completamente atrapalhado e nervoso com a possível reação do irmão.
— Não quero explicação nenhuma. Está bem óbvio que você estava brigando de novo por Hazel Levinski. Quantas vezes vou precisar repetir que essa garota não presta? — retrucou, em tom de irritação.
— Só porque ela não quis dar pra você, não quer dizer que não presta! — Aeryn retrucou, prontamente.
— E o que te faz pensar que nunca comeu a Levinski? — Clarissa saiu em defesa do amigo, num tom claro de deboche. Aeryn olhou um tanto surpreso para o irmão, que apenas deu de ombros e virou mais uma dose de uísque, deixando que um sorriso malicioso brotasse em seus lábios.
— Relaxa, irmãozinho. É toda sua — gargalhou ao ouvir o irmão bufar e se virou para puxar assunto com Alastair, só então percebendo que este encarava algum ponto do bar com um olhar vidrado.
acompanhou o olhar do outro, a fim de identificar o motivo de tamanho aturdimento, mas não precisou procurar muito, porque no momento seguinte o grito entusiasmado de Hazel ecoava pelo local. Ela disparou na direção da porta, esbarrando em Alastair e quase o carregando consigo antes de se atirar nos braços da loira dotada das curvas mais deliciosas que já havia visto.
E ele sabia perfeitamente a quem pertenciam aquelas curvas, assim como jamais esqueceria o timbre da risada que conseguiu distinguir, mesmo que a música dificultasse um pouco o processo.
Era ela.
.
Ele a reconheceria em qualquer lugar.
Talvez estivesse ficando louco porque aquilo não era possível. havia partido há um bom tempo e sido enviada para estudar em uma escola de freiras, onde os pais esperavam que ela tomasse jeito. Não, definitivamente, aquela não era .
— Vai ficar mesmo aí parado, com essa cara de bobo e fingindo que não me conhece, ? — e ele foi trazido à realidade, sentindo um sorriso torto moldar seus lábios ao perceber que a loira havia caminhado até ele e agora estava em sua frente.
— Só se eu fosse um grande idiota, — ele retrucou, se recuperando da surpresa e se aproximando da garota para envolver sua cintura fina com seus braços fortes, sentindo ela jogar os dela em seu pescoço e afundar o rosto em seus ombros.
— Senti sua falta — ela murmurou, num suspiro aliviado por finalmente estar de volta.
— Lhe garanto que eu senti mais — soltou uma risada rouca antes de eles se afastarem e analisou a loira de cima a baixo com pouca discrição. — O colégio de freiras lhe fez bem — soltou, passando a língua pelos lábios e descendo uma das mãos pela lateral da cintura da garota, que gargalhou gostoso antes de formar uma expressão um tanto carrancuda ao fitar algum ponto próximo a ele.
— Pena que velhos hábitos seus não mudaram nem um pouco — sabia muito bem ao que a garota se referia, ele ao menos precisou olhar para o lugar que encarava para saber que era onde Clarissa estava. Sabia também que sem dúvida alguma a melhor amiga partilhava a expressão da loira, o que só se confirmou quando esta passou pelo rapaz, lhe fazendo uma expressão de que iria vomitar pelas costas de enquanto se afastava para conversar com outros conhecidos espalhados pelo lugar. não sabia ao certo o motivo, mas as duas não se davam nada bem desde que ele as conhecia. Um dia teria cara de pau o suficiente para perguntar a uma das duas e insistir em uma resposta mais clara do que “é uma história longa”, mas por hora se contentaria com a irritante dúvida.
soltou uma risada baixa para disfarçar o desconforto enquanto formulava uma resposta.
— Bom, nem os seus — por fim, indicou Hazel com um aceno de cabeça, vendo a moça praticamente colada à Aeryn. Ainda se sentia irritado com a garota por fazer seu irmão mais novo entrar em mais uma briga.
— É sério isso? O que Hazel fez dessa vez para lhe deixar com essa cara? — ela questionou, encarando com confusão.
— Ah, você sabe, nada demais. Só fez com que meu irmão entrasse em outra briga idiota para disputá-la — revirou os olhos, voltando a pegar seu copo de bebida e o oferecendo a , que aceitou e virou uma dose, entregando o copo de volta a para que ele também bebesse, só então notando a faixa improvisada em sua mão.
— Deixa eu adivinhar, aí você resolveu bancar o irmão super-herói e foi defender Aeryn. Já não lhe passou pela cabeça que ele pode se virar sozinho? Vamos lá, ! Está na hora de você pensar mais em si mesmo — a garota disse, com uma ponta de irritação na voz. Por mais que estivesse longe de por alguns anos, o conhecia bem demais para saber que aquele também era um péssimo hábito que ele não havia abandonado. Em sua opinião, chegava a ser ridícula a forma como o rapaz deixava as coisas de lado apenas pelo benefício do irmão mais novo.
— Eu... — soltou um suspiro resignado, sabendo que a moça tinha razão, mas sentindo a vontade automática de protestar. — Não consigo — por fim, admitiu. — Aeryn precisa de mim, . Nós só temos um ao outro — sorriu fraco para ela.
— Outch! E eu sou o quê? Muito obrigada pela consideração. Já que sou nada, vou contar o que aconteceu comigo durante esse tempo fora para aquele seu amigo gostoso ali — indicou Alastair, que até então apenas observava a cena, bebendo sem conseguir desviar o olhar da loira por muitos segundos, o que deixou Clarissa, que vez ou outra olhava na direção dos três, mais irritada ainda. Maldita .
— Alastair Hughes. Não culpo por ter escondido você de mim assim, — o rapaz se aproximou dela, estendendo sua mão e sorrindo charmoso. A loira o retribuiu, analisando Alastair e rindo baixo ao aprovar a visão.
. E eu não sou o tipo de garota que possam esconder — piscou para Alastair e pegou o copo de , bebendo mais um pouco e deixando um sorriso esperto em seus lábios.
— Definitivamente, não é — murmurou, risonho, sentindo que seu humor ia mudando gradativamente graças à presença dela. Por muito tempo ele havia esquecido o quanto se sentia bem com a moça por perto, e pensar que agora teria aquilo de volta lhe trazia um certo alívio. — O que acha de parar com o drama e nos contar por que você foi expulsa do colégio de freiras? — questionou, arqueando uma sobrancelha.
— O que eu fiz? Nada demais. Apenas transei com um dos padres — retrucou, ao passar a língua pelos lábios, fazendo Alastair se engasgar com a bebida e soltar uma sonora gargalhada quando se recuperou.
— Disso eu não duvido nem um pouco — comentou, risonho, sabendo que a amiga brincava e esperando pela real resposta, que nunca veio porque desviou o assunto discretamente, engatando uma conversa onde contava detalhes de como havia sido sua vida durante aquele tempo todo.

•••

Em outro local da taverna, Amelie Dupont sentia seus olhos se fecharem involuntariamente, sentada em um dos bancos enquanto ouvia parcialmente a conversa dos amigos. Talvez ter saído escondida de seus pais não tivesse valido tanto à pena como ela esperava. A noite estava completamente entediante e nem beber havia melhorado seu humor.
Levantou do banco quando seus olhos piscaram demoradamente pela quarta vez e se ajeitou, alisando os cabelos e as roupas, notando que havia chamado a atenção dos amigos com o ato.
— Não consigo mais me manter acordada e meus pais não podem perceber que eu saí — começou se justificando. — Vou para casa.
De imediato, um dos rapazes se prontificou.
— Eu te levo, Amelie — era Pierre, que sempre demonstrava um cuidado maior com a garota, deixando que ficasse bem claro que nutria sentimentos por ela.
— Não precisa, Pierre. Vocês estão todos se divertindo, não irei atrapalhá-lo — tocou o peito do rapaz, espalmando sua mão quando ele fez menção de acompanhá-la.
— Eu insisto, Amelie. É perigoso para uma dama como você andar sozinha na calada da noite — ele protestou, vendo a loira negar veementemente.
— Por favor, não insista. Eu vim sozinha até aqui e sei me cuidar muito bem. Não sou nenhuma princezinha indefesa, Pierre — disse, um tanto irritada pela insistência do rapaz, que soltou um suspiro resignado e por fim concordou.
Amelie então se despediu do restante dos amigos e se afastou, ouvindo um último resmungo de Pierre.
Ainda não gosto da ideia de Amelie perambulando sozinha e desprotegida por aí — isso fez com que ela revirasse os olhos e apressasse seus passos antes que ele resolvesse ignorar os protestos dela e lhe acompanhar de qualquer jeito.
Desviou de alguns rapazes embriagados que tentaram agarrá-la e finalmente mergulhava na noite, sentindo o ar um tanto gelado devido ao sereno e soltando um suspiro enquanto seguia na direção de sua casa.
A caminhada não era muito longa, ela não fazia ideia do horário, mas sabia que precisava ser breve, pois não podia deixar que amanhecesse ou estaria encrencada.
O barulho de seus saltos baixos ecoava pela estrada de terra, que estava deserta, o que teria lhe assustado se ela não estivesse tão determinada a chegar em casa de uma vez.
Decidiu pegar um atalho que a levaria até sua casa com ainda mais rapidez, por mais que soubesse que aquela região era pouco iluminada e mantinha seus olhos atentos ao seu redor, sabendo que precisava ser cautelosa, embora achasse pouco provável que algo lhe acontecesse.
Faltava pouco para que ela chegasse ao final da rua, o que fez com que um suspiro aliviado escapasse seus lábios enquanto ela passava a mão pelos cabelos. Aquele trecho era um pouco mais escuro, porém ela não se importava muito com isso porque estava acostumada a passar por aquele local desde pequena.
Então, subitamente, seus músculos se retesaram e um frio percorreu sua espinha quando ela teve a impressão de que um vulto se movia por entre as árvores.
Parou, sentindo seus batimentos acelerarem imediatamente, encarando o local com desconfiança, esperando que fosse apenas coisa de sua cabeça e sentindo uma pontada de medo começar a lhe dominar quando ela percebeu que não estava enganada, realmente havia um vulto lhe encarando por entre as árvores.
Por que ela não conseguia se mover? Devia correr o mais rápido que pudesse. Ficar ali parada como uma estátua poderia lhe custar caro. Toda a sensação de segurança que ela sentia antes havia se esvaído em questão de segundos e as mãos dela começaram a tremer. Na verdade, parecia que seu corpo inteiro tremia.
Sua voz havia sumido, a garganta se fechado e seus pensamentos gritavam o mesmo mantra, na esperança de que em algum momento ela conseguisse reagir.

Mova-se. Mova-se, Amelie. Você precisa se mover.

Estaria ficando louca ou o que ouvia era um rosnado?
A resposta fez-se ouvir com mais nitidez, arrepiando ainda mais cada célula de seu corpo e seus lábios tremeram, numa vontade súbita de chorar porque ela não conseguia sair dali.
Seus olhos estavam arregalados na direção do vulto e apenas depois de alguns segundos naquela situação que ela se perguntou por que continuava parado ali em vez de seguir na sua direção para lhe fazer o mal que seu corpo gritava que faria.
E observando melhor o formato da sombra ela reparou, em choque, que não era um animal, como ela havia imaginado ao ouvir o rosnado.
Era humano.
Ou pelo menos era o que parecia, talvez o medo estivesse distorcendo sua visão, ela não saberia dizer.
O estalo de um galho pôde ser ouvido e ela engoliu em seco quando, como se lesse seus pensamentos, a criatura resolveu se mover, um brilho sinistramente alaranjado lhe denunciou os olhos, que lhe encaravam com uma expressão faminta.

Mova-se, Amelie! Corra! Você vai morrer!

Morrer.

Você vai morrer.

Então o alerta finalmente fez com que suas pernas se movessem e ela reprimiu um grito enquanto começava a correr, sentindo suas bochechas molhadas de lágrimas, só então notando que chorava de pavor.
Seus músculos protestavam enquanto ela buscava desesperadamente o resquício de luz ao qual não havia dado muita importância minutos antes.
Ela levou alguns segundos então para perceber que o vulto não havia lhe seguido, embora o olhar faminto houvesse lhe acompanhado, seu rosto se virava constantemente para trás, a fim de ter certeza de que se afastava e quando por fim ela se deu conta de que a iluminação havia se tornado mais forte e a sensação de proximidade com a criatura havia diminuído, ela também diminuiu seus passos.
Seu rosto se desviou para frente e novamente ela paralisou, dessa vez deixando o grito que havia reprimindo antes ecoar desesperado, cortando o silêncio da noite outrora tranquila.
Por pouco ela não havia tropeçado sobre o corpo estraçalhado de Leonard LeGrant.



Chapter Two — Full Moon

Os olhos claros de observavam os traços do rosto de com uma certa curiosidade, mas sem deixar de manter a discrição, porque ela não queria que ele notasse o quanto ela estava apreciando como todo aquele tempo havia o transformado e ao mesmo tempo mantido algumas características que eram tão únicas do rapaz. Ele levou mais uma dose de uísque aos lábios e seu maxilar travou um pouco enquanto ele saboreava o efeito do álcool em seu paladar, passando a língua pelos lábios ao largar o copo novamente sobre a mesa. Seria errado demais desejar estar no lugar daquele pedaço de vidro moldado como estava desejando naquele exato momento?
Apesar de toda aquela cumplicidade e amizade que os dois tinham, era catorze anos mais nova que , havia sido criada com o rapaz sendo o braço direito de seu pai e ela sempre o havia visto como o irmão mais velho e incrivelmente bonito, mas era só isso, sem nenhum tipo de desejo de tê-lo para si. Isso até ela ser mandada para aquele colégio de freiras.
nunca fora uma santa e odiava que tentassem mudá-la. Todas as tentativas frustradas de seu pai para que ela se tornasse uma “dama de respeito” só aumentavam seu profundo desgosto e quanto mais ele lhe reprimia e tentava controlar, mais ela fazia questão de mostrar que aquela era ela e não nada lhe moldaria. Ela não se importava com os rótulos que a sociedade lhe dava ou com os olhares atravessados que recebia nas ruas ao sair de casa, não se importava em parecer uma “vadia inconsequente”, como ela sabia que as pessoas lhe chamavam, ela simplesmente não havia nascido para abaixar a cabeça e seguir fielmente aquelas regras estúpidas. E toda aquela eterna estadia naquele colégio mais estúpido ainda com toda certeza não havia sido o suficiente para mudar seus pensamentos ou sua personalidade. Estava de volta e dessa vez ninguém lhe confinaria novamente.
Certamente, manter uma relação saudável e fraternal com , que estava mais gostoso do que nunca, estava passando muito longe de suas capacidades no momento, ela havia se surpreendido e estava tentada como nunca havia se sentido antes com relação a ele. O que diabos havia feito? Algum tipo de pacto ou ritual satânico? Maldição! Ela chegava a morder os lábios discretamente enquanto ainda o observava, sentindo o meio de suas pernas esquentar de maneira incômoda, como a adolescente virgem que ela havia deixado de ser há um bom tempo.
E quando desviava seu olhar, evitando aquelas sensações que a recém proximidade com estavam lhe proporcionando, encontrava uma belíssima distração a alguns metros de si. Uma que possuía um corpo de tirar o fôlego e uma autoconfiança irritante extremamente sexy ao mesmo tempo. Alastair conseguia ser tão charmoso quanto , e todo aquele ar de rapaz prodígio e que sabia muito bem o quanto era desejado pelos rabos de saia lhe atraía em bastantes proporções.
Mas, por outro lado, estaria ela sendo gulosa demais em desejar os dois, que eram melhores amigos inseparáveis segundo o que ela havia observado? Bem, ela nunca havia mencionado que não era, não é mesmo? Quem reclamaria de gula quando a deliciosa imagem de e Alastair Hughes em seus lençóis dominasse seus pensamentos? Exatamente, só sendo estúpida demais para não se deixar levar. Definitivamente, aquele era algum tipo de trabalho satânico realizado para lhe tirar o restante do juízo que já lhe fazia falta.
Um sorriso torto se formou nos lábios de quando esse pensamento passou por sua cabeça e pelo canto do olho ela percebeu que havia voltado a lhe encarar, observando os lábios dela com curiosidade devido à sua reação repentina.
— Posso saber o motivo de tanto divertimento? — ele questionou, ainda avaliando as expressões de , então a moça o encarou propriamente, arqueando uma sobrancelha e puxando o copo dele para beber mais um gole generoso de seu uísque.
— Nada demais, — ela fez um sinal de descaso. — Estava aqui lembrando de algumas coisas da época em que eu era a fedelha de quem você cuidava para ganhar uns trocados extras — deu de ombros, bebendo o restante do conteúdo do copo e notando a expressão de mudar de curiosa para uma nostálgica enquanto ele abria um sorriso agradável, assentindo antes de soltar uma risada baixa.
— Como o dia em que eu descobri que você entrava escondida na adega de seu pai para se embebedar com os vinhos mais caros dele? — soltou, arqueando a sobrancelha de leve, fazendo repetir o gesto e também rir um tanto mais alto que ele.
— Você era um pé no saco, eu queria quebrar uma daquelas garrafas em sua cabeça quando ameaçou contar tudo para meu pai. — mantinha seus olhos no rosto dele, revirando-os ao lembrar daquilo.
— Mas no fim das contas eu acabei não contando e nós passamos o resto da noite conversando sobre coisas idiotas. Você dormiu encostada em meu ombro e eu tive que te carregar na velocidade da luz até seu quarto, antes que seu pai chegasse e me matasse por embebedar a filhinha preciosa dele. — deixou que um tom debochado escapasse de seus lábios, enchendo seu copo novamente com o uísque para beber mais alguns goles. Sua tolerância era um tanto alta para o álcool, mas àquela altura ele já não respondia completamente por seus altos, sentia as coisas ao seu redor um tanto fora dos eixos e as palavras não encontravam mais barreiras para escapar de seus lábios.
— Ei! Não caçoe de meu pai! Ele não fazia ideia de que encontrar a filhinha bêbada seria o menor de seus problemas! — ela abriu um sorriso atrevido e piscou em sua direção antes de erguer o copo e beber com gosto.
— Como era o nome do moleque que você pulava a janela para encontrar? Thomas? — o rapaz questionou, enquanto largava o copo novamente sobre a mesa e ria de lado.
— Não, ! Thomas é meu amigo, pensar nele dessa forma é... Estranho — chacoalhou os ombros ao imaginar o quanto aquela situação seria bizarra. Garnet sim era o tipo de cara que, embora fosse extremamente bonito, ela nunca veria como algo além de seu melhor amigo desde que eram crianças. — Era Leonard LeGrant. Papai vivia dizendo que eu me casaria com ele quando tivesse idade. Ele só não imaginava o quanto nós já havíamos avançado os planos dele — riu maliciosa e voltou a pegar o copo de , que lhe lançou um sorriso torto em resposta.
— Leonard está tomando conta da farmácia local, pelo que ouvi dizer. Não a frequento muito, você sabe que minha saúde é impecável. Sei que ele continua sendo o queridinho de seu pai. Você acha que ele ainda tem essas intenções de casar vocês dois? — ainda não havia pensado naquilo, mas definitivamente não casaria com Leonard e nem com qualquer outro cara que o pai tentasse empurrar para ela.
— Se tiver, terá de perdê-las, . Não sou moça para casar e nunca serei. — percebeu a nota de irritação na voz da loira e a encarou com curiosidade.
— Por que diz isso, ? Casar talvez não seja o pesadelo que você imagina — ele tentou convencê-la, um tanto incerto.
— Ter mais um homem além de meu pai tentando me forçar a agir como eles acham que devo agir? Não, muito obrigada. Prefiro continuar com o título de vadia da cidade — piscou para , que apenas balançou a cabeça em negação. Ele não estranhava aquele tipo de reação da parte de , pois sabia e apreciava a personalidade da garota. Lembrava ele mesmo quando havia decidido seguir a própria vida e tomar conta de si mesmo, sem a influência da guardiã que marcava presença apenas para diminuí-lo e tomar conta do que lhe pertencia.
— Esqueci do quanto eu gostava dessa . Fico feliz que o colégio de freiras não tenha feito uma lavagem cerebral em você — ele disse, brincalhão, fazendo lhe dar um tapinha de leve enquanto ria junto ao rapaz.
— Você sabe que na verdade fui eu quem fiz lavagem naquelas freiras, não é? Quem disse que a vontade de Deus não pode ser feita com um pouquinho de diversão? — deixou que uma expressão travessa tomasse conta de seus traços e arqueou a sobrancelha, surpreso.
, o que exatamente você andou aprontando por lá? — viu a moça se aproximar um pouco mais dele e seus olhos foram guiados até os lábios da garota quando ela os mordeu de maneira pouco discreta, passando a língua por estes em seguida e levando uma de suas mãos ao colarinho do rapaz, o provocando e percebendo que sua atitude havia o desconcertado um pouco, embora ele fosse muito bom em disfarçar.
— E eu já não disse, ? Achou que eu estava brincando quando falei no padre? Ele era gostoso e eu sempre gostei mais de homens mais velhos — piscou significativa em sua direção, fazendo erguer uma sobrancelha e também passar a língua por seus lábios.
— Esse seu interesse por homens mais velhos pode te causar problemas, — ele soprou, com a voz rouca, de forma que pudesse sentir o cheiro de bebida misturada ao perfume tão característico do rapaz. Ela sorriu, satisfeita em vê-lo corresponder à sua investida e continuou a brincar com o colarinho de sua camisa, subindo um pouco as unhas compridas e arranhando de leve o pescoço dele.
— Eu adoro causar um problema, . Você sabe que de boa garota eu só tenho a cara — retrucou, desviando seu olhar dos olhos do rapaz apenas para analisá-lo engolindo em seco, seu maxilar travado espalhou arrepios por todo o corpo da jovem e ela desejava jogar para o alto todo aquele discurso de amizade e fraternidade para senti-lo lhe imprensando contra aquela mesa, pouco se importando com o público ao redor. No entanto, algo lhe fez voltar à realidade, talvez o mísero restante de consciência que lhe restava, e ela o soltou, bebendo mais um pouco de bebida para disfarçar e rindo baixo ao saber exatamente como desviar aquele assunto quando seus olhos localizaram o irmão mais novo de seguindo para fora do estabelecimento na companhia de Alastair. — Aeryn está de quatro pela Hazel. Você devia aproveitar e casar os dois, já que anda pensando em casamentos ultimamente — provocou, com ar esperto.
— Está brincando, não é? — ele a encarou com indignação. — Que tipo de irmão eu seria se lhe desse esse tipo de cruz para carregar?
— Você não deveria cuspir no prato que comeu, . Hazel não é esse demônio que você insiste em crucificar — defendeu a amiga, com um olhar de repreensão.
— E você não deveria defendê-la como defende, . Hazel não é esse anjo que você insiste em tentar me fazer engolir — ele retrucou, com acidez enquanto fingia não se importar com a forma que a amiga lhe encarava. Chegava a ser engraçado o poder que tinha de lhe fazer bem e ao mesmo tempo lhe irritar completamente. Ele tinha seus motivos para não querer que Hazel Levinski nem chegasse perto de seu irmão caçula e se ainda não soubesse quais motivos eram aqueles, não seria quem iria lhe contar, ela teria que descobrir por si mesma e ele sabia que ela era particularmente excepcional em descobrir qualquer coisa que desejasse.
— Tudo bem, não vou insistir nesse assunto, afinal, eu não sou a única que defende quem não merece — deu de ombros, lançando um olhar significativo na direção de , lhe fazendo revirar os olhos e abrir a boca para mandar a garota se calar, porque ele não deixaria de forma alguma que ela lhe dissesse algo sobre Clarissa. Seus pensamentos sobre como aquela rixa entre as duas lhe soava ridícula foram interrompidos quando, como se houvesse sido invocada, ele sentiu alguém encostar em seu ombro e a careta pouco controlada no rosto de denunciou que era a ruiva.
— Sem querer interromper os pombinhos, mas, , é melhor tirar Aeryn daqui antes que ele comece outra briga. Ele consegue ser um completo idiota quando Levinski está por perto. Sabe como são as influências, não é? — ela lançava um olhar debochado na direção de quando se virou para encará-la. Bufou, com irritação e acabou assentindo, levantando e tentando localizar o irmão mais novo com o olhar.
— E onde ele está? — questionou, não conseguindo ver Aeryn em lugar algum.
— Lá fora. Alastair conseguiu arrastá-lo para lá. Bebeu mais do que o fígado pode aguentar. — apenas assentiu e fez menção de seguir em sua direção, parando repentinamente e lançando um olhar na direção de .
— Vamos lá, . Sua casa fica a caminho da minha. Posso te deixar lá — ofereceu, indicando a saída da taverna com a cabeça. A loira hesitou, olhando com desdém na direção de Clarissa, que apenas bufou e revirou os olhos, caminhando na direção da porta sem esperar pelos dois, algo que não surpreendeu nem um pouco. Então acabou por dar de ombros e seguir o rapaz para fora, lançando alguns olhares pelo bar a procura de Hazel e lhe chamando com a mão quando avistou a garota.
— Já vai embora, ? Mal nos falamos! — a morena protestou, após praticamente correr para alcançar a amiga. parou por poucos segundos para dar atenção a ela e fez o mesmo, segurando a vontade de deixar a loira para trás ao ver a morena diante dos dois.
— Eu sei, Hazel. Mas me ofereceu carona e não posso recusar. Sabe como eu odeio andar por essas ruas sozinha à noite — fez um bico na direção da amiga, que suspirou, olhando para o rapaz de relance e contendo a vontade de revirar os olhos.
— Ora, vamos lá, amiga! Não é como se algo de ruim fosse acontecer nas ruas de Loches. Fique mais um pouco e eu a levo para casa. — Hazel insistiu, assumindo um tom de ironia ao mencionar as ruas da cidadezinha.
— Não tenho a noite toda para te esperar, . Meu irmão está embriagado lá fora, lembra? — se meteu na conversa, recebendo um olhar fuzilante de Levinski, mas não dando a mínima, mantendo seus olhos impacientes em .
está certo. Eu vou com ele, Hazel. Sem discussões sobre isso. Por que você não vem junto? Aeryn não está passando muito bem, talvez você devesse vir mesmo e ajudar a cuidar de seu namoradinho — ela puxou a garota pelo braço, notando o olhar fuzilante de e mal ouviu os protestos da amiga, sentindo o ar da madrugada um tanto gelado, embora pudesse notar que em breve os primeiros raios de sol surgiriam no horizonte.
— Ele não é meu namorado! — foi a única coisa que conseguiu distinguir entre os murmúrios de Hazel.
— Então pare de iludir o pobre garoto ou vai acabar quebrando o seu pescoço — ela disse, num tom baixo de alerta.
— Não tenho medo dele. Cão que muito ladra não morde. E uns tapas do não me fariam nem um mal, pra ser sincera — lançou um olhar malicioso na direção da amiga, que sorriu torto, contendo uma vontade súbita e estranha de fazer a amiga se calar.
Quando se aproximaram do pequeno grupo, Aeryn estava encostado em um pequeno muro, segurando o abdômen com uma expressão de quem poderia vomitar a qualquer momento. E não demorou muitos segundos para que ele voltasse a se curvar a colocar para fora toda a bebida que havia ingerido. As garotas não haviam notado a poça que já havia se formado até ele voltar sua atenção pelo local e em resposta Hazel fez uma careta, desviando o olhar para Alastair, que havia desviado do rapaz bem a tempo.
— Da próxima vez, seria interessante deixar seu irmão amarrado em casa, . Ele não sabe brincar de ingerir álcool — o rapaz disse, encarando o amigo com uma expressão engraçada.
— Vá se foder, Hughes. Meu irmão não é nenhum animal — reclamou, se aproximando do irmão e tocando seu ombro quando percebeu que este havia se afogado, dando alguns tapas em suas costas no intuito de ajudar com o processo.
— Então tem alguma coisa errada aí, sabe? Esse tipo de coisa é de sangue e tudo mais — Alastair continuou a falar, recebendo um empurrão de , que havia soltado o irmão ao ouvir o comentário, então lançou uma piscadela na direção de e Hazel, que soltaram risadinhas baixas pelo comportamento dos dois.
— Como você anda engraçadinho, Alastair. Depois que eu arrebentar sua cara, não adianta ir chorar pro papai xerife, viu? Acabo com sua raça — disse, em tom brincalhão de ameaça. — Agora faça algo de útil e me ajude a carregar Aeryn. Temos um bom pedaço de terra para andar e eu duvido que ele consiga caminhar por conta própria — Alastair retribuiu o empurrão pelos ombros e se prontificou a ajudar o caçula dos , se certificando de que ele havia parado de vomitar para passar o braço do rapaz por um de seus ombros, segurando-o com firmeza enquanto fazia o mesmo do outro lado.
— Senhoritas — Alastair olhou na direção das moças, que prontamente os seguiram quando eles começaram a caminhar, arrastando o jovem .
— Vocês vão mesmo carregando Aeryn daqui até em casa? Deviam deixar ele aí como castigo — Clarissa encarava a cena incrédula. Era o que ela teria feito só para ele aprender.
— Tenho outra escolha? — fez uma careta para a amiga enquanto eles começavam a caminhar pela estrada com certa dificuldade. Demorariam o dobro do tempo para chegar em casa, no mínimo.
— Por que não faz a namoradinha dele carregá-lo? — indicou Hazel com a cabeça.
— Você não está falando sério. Espero que não — Hazel retrucou, com arrogância.
— Ou o que, Levinski? Vai me bater? — Clarissa soltou, com deboche. Hazel abriu a boca para responder, mas as interrompeu, colocando uma de suas mãos na frente da morena quando essa fez menção de ir na direção da ruiva.
— Por mais que eu fosse adorar parar para ver essa cena maravilhosa de vocês duas caindo na porrada, nós já temos problemas demais por essa noite. Por que as duas não calam a boca para não termos que nos aturar mais do que o necessário? — sua voz soou controlada, embora ela estivesse bastante irritada com a presença da amiga de .
— Nunca pensei que diria isso, mas concordo com a . Quando menos eu aturar vocês duas, melhor. Só acho que você, Levinski, devia ajudar os rapazes a carregar Aeryn, afinal, era com você que ele esteve bebendo a noite toda. — Clarissa comentou mesmo assim, enquanto voltava a manter seus passos no mesmo ritmo que os dos rapazes.
— Aposto que ele não acharia ruim acordar com seus peitos na cara dele, Hazel. Bancar a enfermeira pode ser divertido, sabe? — Alastair disse, com a voz maliciosa, arrancando uma risada baixa de .
— Cale a boca, Hughes! — Hazel retrucou, não conseguindo acreditar que aquilo havia saído da boca dele. — Que atrevimento!
— Vamos lá, não é como se a ideia não te agradasse — comentou, ainda rindo e soltou uma exclamação quando Aeryn jogou seu corpo para frente, quase caindo ao tentar se desvencilhar dos rapazes.
— Que diabos você está fazendo? — questionou, parando e tentando impedir o irmão de se debater.
— Me soltem. — Aeryn disse, com a voz engrolada. — Não preciso que me carreguem.
— Meio tarde para dizer isso, bonitão — Clarissa soltou, irônica, rindo da atitude do garoto. Já fazia uns bons minutos que eles estavam caminhando com Aeryn nos braços e só agora ele havia se dado conta disso? Podia-se ver claramente que o rapaz era sem noção até mesmo quando não estava plenamente consciente e esse pensamento fez Clarissa rir mais ainda, recebendo um olhar feio de Hazel, mas novamente não dando a mínima para as reações da garota.
— Você é um imbecil — olhou sério para o irmão, que se sacudiu novamente, olhando com revolta para o rapaz, que por fim lhe soltou, já cansado do quanto havia se incomodado com o irmão naquela noite. — Deixe-o ir, Alastair. Estou começando a aceitar seu conselho de amarrá-lo. — Alastair assentiu e Aeryn cambaleou, quase caindo de frente. Seu queixo iria direto ao chão, mas ele conseguiu se equilibrar e logo eles retomavam seus passos, se distanciando aos poucos do centro da cidade.
Como habitual, utilizaram o atalho para cortar caminho e a quase ausência de luz teria lhes assustado se não estivessem acostumados com aquilo e o grupo não fosse tão grande.
Hazel havia se desvencilhado de e alcançado Aeryn, o garoto havia aceitado o braço da moça de forma bastante receptiva para quem não queria que lhe carregassem, mas naquele momento não iria implicar com isso. O cansaço começava a incomodar seus olhos e embora ele sentisse que precisava de umas boas horas de descanso, sabia que precisaria voltar ao trabalho no exato momento em que colocasse os pés em casa. Aquelas três linhas iriam evoluir ou ele não se chamava .
Talvez ele devesse mesmo procurar um novo nome depois dessa promessa. Balançou a cabeça, rindo consigo mesmo quando algo lhe chamou atenção.
Parou de súbito e assumiu uma posição de alerta, olhando ao redor com bastante atenção e fazendo os amigos pararem para lhe encarar com curiosidade.
— O que foi, ? — Clarissa se aproximou do rapaz, mas ele não lhe deu atenção. Em vez disso, voltou a caminhar e apressou seus passos. Depois de andar poucos metros, voltou a parar novamente e sua expressão era a de que estava procurando por alguma coisa.
— Que porra, , o que está acontecendo? — dessa vez era Alastair, com a voz impaciente. Novamente, ele não deu muita atenção aos amigos e franziu o cenho ao ouvir o que ele acabou murmurando apenas para todos ficarem quietos e o deixarem prestar atenção.
— Ouvi alguém chorando — prontamente, Alastair olhou em volta, como o amigo havia feito, tentando identificar a origem daquele barulho que parecia que somente conseguia ouvir.
— Cara, não tem ninguém chorando. Você deve ter bebido demais — tentou convencer , que balançou a cabeça em protesto.
— Não bebi coisa alguma. Tem alguém chorando. Podem estar precisando de ajuda e eu... — e com mais clareza ele conseguiu ouvir o choro, tendo uma impressão fraca de que o choro era feminino. — Por aqui — andou rapidamente mais uma vez, seguindo para fora da estrada de terra e ouvindo os amigos protestarem, tentando lhe impedir.
Nos primeiros metros, não distinguiu nada, nem mesmo uma sombra ou qualquer outra coisa. E enquanto caminhava, sem nem mesmo se importar se seus amigos lhe acompanhavam ou não, chegou a pensar que talvez ele realmente poderia ter bebido demais. Era estranho que os outros não tivessem ouvido o mesmo choro, mas ele não tinha tempo para questionar aquilo naquele momento, ele precisava se manter em foco.
Estava prestes a parar e refazer o caminho, quando mais uma fungada baixinha fez ele virar o rosto para o lado e então identificar a figura pequena e loira, agachada no meio do mato, em algo que ele levou alguns segundos para processar... um corpo.
Ele não conhecia a garota, que abraçava as próprias pernas e chorava enquanto se balançava, numa espécie de choque, mantendo seus olhos fixos no cadáver.
A cena do corpo não era muito agradável. A região do abdômen e do tórax estava bastante dilacerada, a carne rasgada com brutalidade, como se dentes houvessem lhe rompido com avidez e a região do pescoço também possuía um ferimento muito semelhante ao de uma mordida.
tentou se recuperar o mais rápido possível, então se agachou diante da garota, controlando a vontade de vomitar e a encarando com gentileza.
— Ei, o que faz aqui? Viu quem fez isso? — questionou, não recebendo reação nenhuma da moça, que continuava se balançando como se ele não estivesse ali.
Um gritinho exasperado denunciou que seus amigos haviam lhe seguido e ele ergueu seu olhar para estes, notando a expressão de choque nos olhos de e se voltando para Alastair.
— Precisamos chamar seu pai — o rapaz engoliu em seco e assentiu para , desviando seu olhar do corpo com dificuldade porque não conseguia acreditar no que seus olhos lhe mostravam.
havia sentido um solavanco em seu estômago, como se houvessem lhe socado e algo trancou sua respiração, lhe sufocando enquanto a vontade crescente de chorar surgia. Ela reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar, numa expressão que demonstrava um pavor que ela jamais havia visto em ninguém antes.
Ela não queria casar com Leonard, não queria que o pai lhe forçasse a fazer aquilo e faria qualquer coisa para se livrar disso, mas não desejaria jamais que ele morresse daquela maneira.
— Vocês ficam aqui com a garota. Eu e Alastair vamos atrás do xerife — Clarissa se prontificou e apenas assentiu, se agachando ao lado de e encarando a menina loirinha com uma expressão de dor.
— Meu nome é . Eu sei que essa cena é horrível, mas se você viu quem fez isso, pode ajudar bastante — ela tentou, com uma voz gentil também, não recebendo resposta e suspirando frustrada. — Façam o mais rápido possível.
Alastair apenas assentiu e levou Clarissa consigo. Aeryn e Hazel haviam sumido e estava torcendo internamente para que tivessem seguido para casa.
Durante todos aqueles anos em que morava em Loches nunca havia imaginado que encontraria algo do tipo, que aconteceria algo do tipo. Não havia explicação, aquele era o lugar mais seguro que ele conhecia, desde que se mudou não vira nenhuma notícia de assaltos ou assassinatos, aquilo era loucura. E a forma como o corpo estava mutilado a poucos metros dele indicava que Leonard havia sido atacado por algum tipo de animal, o que era mais estranho ainda. Haviam cervos nas redondezas, mas ursos ou animais do tipo não eram muito comuns naquela região. O que diabos estava acontecendo?
Seus olhos desviaram do corpo do rapaz e então se focaram no céu. Embora este já estivesse clareando aos poucos ele conseguia distinguir sem nenhum tipo de dificuldade a figura majestosa e brilhante da lua, completamente cheia, talvez um pouco maior do que de costume.
E uma ideia totalmente esquisita passou por seus pensamentos, mas ele a espantou. Que hora inconveniente para ele pensar em coisas fantasiosas como aquela. Sacudiu a cabeça, recebendo um olhar intrigado de e percebendo que ela estava se controlando para não desabar.
— Você está bem? — a pergunta era idiota, mas ele precisava fazê-la. apenas fez uma careta e respirou fundo, engolindo em seco antes de responder.
— É Leonard. O que você acha? — sua voz soou falha e quase chorosa, por mais que ela lutasse com todas as forças para manter o autocontrole.
— Eu sei, pergunta completamente estúpida — ele se praguejou mentalmente e fez uma careta, vendo assentir com a cabeça. — Se existia alguém nessa cidade que não merecia um destino como esse, era Leonard. O que você acha que o atacou?
— Eu não faço ideia. Mas vai pagar por isso. Definitivamente, ele não merecia — e ela desviou seu olhar de , voltando a olhar para a jovem e analisando os traços dela que podia identificar, percebendo que não lhe eram estranhos.
— Você é uma Dupont, não é? Minha mãe tem uma adoração pela sua. Sou uma . Filha de Valerie — a garota pela primeira vez se moveu, fazendo menção de erguer a cabeça para encarar . — Eu sei que você está assustada, mas se você viu algo, pode impedir que isso aconteça com mais alguém — tentou novamente, sabendo com mais certeza que tinha a atenção completa da garota.
— Sou Amelie e você... não acreditaria em mim — a voz de Amelie soou fraca, tremida, envolvida em temor e angústia.
— Por que não tenta pelo menos? — insistiu, sem parar de olhar para a garota, que soltou um suspiro, finalmente levantando o rosto para encarar com seus olhos inchados devido ao choro. As lágrimas continuaram escorrendo de seus olhos e ela passou a língua pelos lábios, olhando de relance para e evitando olhar o corpo de Leonard antes de começar a falar.
— Eu estava voltando da taverna esta noite. Pierre se ofereceu para me acompanhar, mas eu achei desnecessário. Não preciso de guarda-costas, sei me cuidar sozinha — Amelie começou, se perdendo um pouco em divagações, mas nenhum dos dois lhe interrompeu, não poderiam arriscar assustá-la e perder a informação que precisavam.
— Peguei este atalho porque, vamos lá, ninguém faz aquela volta toda estando morta de cansada como eu estava. E tudo correu bem, eu não sou nenhuma menininha que se assusta com a falta de luz, mas aí eu percebi que não estava sozinha... Não me preocupei no começo, porque poderia ser alguém que, como eu, estava apenas pegando um atalho, mas aí as coisas começaram a parecer estranhas quando eu percebi que não estava apenas tendo companhia em minha caminhada noturna. Eu me senti observada, tinha alguma coisa entre as árvores e eu tive medo. E quanto mais eu caminhava, mais eu sentia que algo me olhava e quando comecei a correr eu também ouvi... Eu ouvi... — Amelie começou a tremer, voltando a abraçar o próprio corpo e despertando um olhar de alerta de . se aproximou novamente e se agachou, tocando o ombro de Amelie e acariciando para tentar acalmá-la. Ao contrário do que ele imaginava que ela faria, ela não o afastou, embora soluçasse e sua respiração falhasse.
— O que você ouviu? — ele questionou, com a voz suave, lhe incentivando.
— Um rosnado. Eu ouvi um rosnado sinistro e quando eu olhei para as árvores era como fogo me encarando, a fome... A fome dominava os olhos dela e eu quase pude ver as presas abertas pra mim. Ela uivou quando nossos olhos se encontraram e eu... Eu senti tanto medo. Eu senti que era meu fim. Eu estava prestes a ser estraçalhada por ela, então eu corri. E quando eu pensei que estava salva dela eu o encontrei. Leonard não merecia isso, mas ela não liga para quem merece ou não. Ela devorou a carne dele porque era tudo o que lhe interessava. Não estou a salvo, ela vai me encontrar... Ela vai...
— Ninguém vai encontrar você, o xerife está chegando e vamos fazer de tudo para que fique segura — tentou tranquilizar a garota enquanto sentia sua cabeça dando um nó com todas aquelas informações. Ela não poderia estar falando sério, só podia ser algum tipo de alucinação. A garota talvez tivesse usado drogas ou se embriagado na taverna. pensava da mesma maneira enquanto encarava a garota com uma expressão preocupada, imaginando o quanto a experiência de encontrar aquele cadáver sozinha havia sido traumática, a ponto de fazer a garota imaginar coisas.
— Quando você menciona ela, o que exatamente quer dizer com isso? — questionou, ainda intrigada pelas revelações de Amelie.
— A besta. Quem mais poderia ser?



Chapter Three — Fear of the Dark

— Besta? , ela está delirando! — havia puxado o homem, afastando-os um pouco da garota enquanto lançava olhares receosos na direção dela. — Provavelmente o choque está afetando seus sentidos. Precisamos levá-la para outro lugar, esse aqui está me dando arrepios mesmo quase amanhecendo — olhou com urgência para , que assentiu, também olhando na direção de Amelie, mas com uma expressão de pena tomando suas feições.
— Pobre garota. Ela deve ter a idade de Aeryn. O que fazia fora de casa a esse horário também? — resmungou, recebendo um olhar feio de .
— Seu irmão também é menor de idade, querido — soltou, com ar de deboche, fazendo o mais velho bufar com irritação.
— Acha que não passa isso por minha cabeça a cada cinco segundos? Poderia ser Aeryn no lugar dessa garota. Ou pior, no de Leonard. Desde quando acontecem ataques pelas redondezas? Isso é loucura, . Loucura demais para se assimilar — levou as mãos aos cabelos cacheados, soltando o ar com resignação, deixando explícita cada gota de sua tensão.
— Ei! Me escute aqui — ela chamou sua atenção, fazendo com que fixasse seus olhos azuis nos dela, o que a deixou atordoada por alguns segundos, porém ignorou e prosseguiu ao ter toda a atenção dele. — Não é hora pra você surtar feito um garotinho de cinco anos. Vamos tomar conta da menina e depois você desabafa sobre seus problemas. Prometo até roubar uma garrafa daquele vinho do meu pai que você gosta — abriu um sorriso torto e piscou para ele, que acabou por retribuir fracamente e assentir logo depois.
Ela tinha razão, Amelie ainda tremia ali ao lado deles e eles precisavam fazer algo. Voltou então a se aproximar da garota e estendeu uma mão em sua direção.
— Venha conosco, Amelie. Iremos tomar conta de você. Pode confiar — a loirinha olhou para com os olhos repletos de pavor e negou com a cabeça, claro que não seria tão fácil.
— Ouça. Ou você vem ou fica aqui à mercê dessa besta maluca. Então, o que vai ser? — disse, com firmeza, perdendo a paciência embora conseguisse se colocar no lugar da menina sem muito esforço.
Mas diante de uma situação como aquela, ela sabia que permanecer tremendo no meio da mata não lhe ajudaria, só lhe exporia ainda mais ao perigo. duvidava que a tal besta voltaria (até porque não havia besta alguma), mas era melhor prevenir do que remediar, não era esse o ditado?
— Por favor, moça. Alastair foi atrás do xerife Hughes e com certeza você estará em segurança. — insistiu, ignorando a expressão de negação que a garota ainda exibia. Amelie continuava tremendo, chegando a sacudir o próprio corpo e tendo uma sensação horrível de que era observada.
— Eu... não consigo — sua voz ecoou fraquinha, até desesperada pelo medo, então o mais velho tomou a liberdade de tocar a menina nos ombros, que se encolheu de imediato e parou de negar com a cabeça, aceitando mesmo ainda estando assustada.
, entendendo o gesto de forma positiva, passou seu outro braço pelos joelhos de Amelie e sem esforço nenhum ergueu a loirinha no colo, lançando um olhar doído na direção de , que pegou a bolsa da garota do chão e assentiu em silêncio, não fazendo ideia do que dizer diante daquilo.
Talvez não fosse certo sair dali, afinal, aquela era uma cena de crime e Amelie era a principal testemunha do que acontecera, mas deixá-la ali, forçando-a a continuar naquele pesadelo parecia simplesmente errado aos olhos dos dois. sentia um buraco estranho no peito e seus olhos eram atraídos na direção do corpo de Leonard, mas ela se recusava a encarar aquilo. Sentia-se até doente por causa disso. O momento súbito de repulsa havia passado rápido demais para seu próprio gosto e isso lhe assustou. Sabia que tratava algumas coisas com uma frieza incomoda, mas aquilo era demais para sua compreensão.
Caminharam com a garota até reencontrarem a estrada de terra, então uma luz forte quase lhes cegou de súbito.
— Parados! Fiquem onde estão! — a voz era dura e autoritária, porém conhecida enquanto podia-se ouvir o som das armas sendo apontadas na direção deles.
— Xerife Hughes, somos nós! Graças ao anjo! — se aproximou do senhor, que lhe encarou com espanto ao reconhecê-la. Ela havia erguido as duas mãos, num sinal claro de que não estava armada, sentindo-se levemente preocupada porque não poderia imitar seu gesto.
— Senhorita , não sabia que estava de volta à cidade — o mais velho exclamou, franzindo o cenho e abaixando a pistola que havia posicionado para o caso de ser o assassino retornando à cena do crime, o tipo de situação que vez ou outra era forçado a enfrentar mesmo em uma cidade aparentemente tranquila como Loches. A loira então pôde respirar com mais tranquilidade por alguns segundos, abaixando também suas mãos, abrindo um meio sorriso para o senhor.
, o que diabos está fazendo aqui? — outra voz conhecida se fez ouvir, uma mais aguda e zangada que a do velho senhor Hughes. estacou onde estava e engoliu em seco ao reconhecer de imediato as duas figuras que se aproximaram, descendo da viatura do xerife.
— Mãe? Pai? O que vocês estão fazendo aqui? — ela retrucou, com o espanto evidente, o que fez arquear uma sobrancelha. Achava engraçado o modo como a garota se dirigia aos pais. Era como se ela fosse a mais velha e não eles, porém o que era engraçado para não era de tanto divertimento para o casal .
— Mais respeito, garota. Não está falando com aquela sua... amiguinha — a mãe deixou claro todo o seu desprezo por Hazel, o que fez esconder um sorriso de aprovação por ter sua opinião compartilhada. Suas feições, no entanto, se mantiveram neutras porque ele não queria provocar nenhuma reação de ira na amiga mais nova. — Estávamos feitos loucos procurando por você. Não basta tudo o que já nos fez passar e aqui está você, nos envergonhando de novo! Fugindo, se esgueirando de casa feito uma... uma... — Valerie então se calou, mordendo a boca para conter as próximas palavras, mas a filha não deixaria por aquilo mesmo, a conhecia o suficiente para prever isso.
— Uma o quê? Vamos, mamãe, continue! — se alterou, se aproximando da mãe com as feições indignadas, ignorando toda situação ao seu redor, esquecendo que estavam em uma cena de crime. Exatamente como o moreno havia previsto.
— Uma meretriz! — a mais velha explodiu em desprezo, se aproximando da loira e erguendo a mão para lhe desferir um belo tapa por se atrever a lhe falar com tanta audácia, mas o marido a impediu, segurando em seu braço e fazendo-a encará-lo revoltada. — Brandon!
Componha-se, Valerie! — soltou, entredentes, retribuindo o olhar da esposa com autoridade e ela prontamente lhe obedeceu, engolindo em seco e amolecendo a mão que Brandon segurava. Percebendo que ela havia cedido, ele a soltou e então desviou seu olhar para , que sentia suas bochechas pegarem fogo de tão vermelha que estava. Seu sangue fervia de ódio pelas atitudes da mãe, mas por hora não havia nada que ela pudesse fazer. — E você, mocinha. Eu esperava que suas férias no convento lhe colocariam algum juízo na cabeça. Estou profundamente decepcionado, Stonnnenberg.
— Que pena que não dou a mínima pra isso — ela soltou, em tom de desprezo enquanto encarava o pai com atrevimento.
Ao contrário de Valerie, Brandon não demonstrou se abalar com as palavras da garota, muito pelo contrário. Um sorriso quase irônico brotou nos lábios do mais velho e ele se aproximou da filha, erguendo uma das mãos para tocar seu rosto e rindo baixo quando a menina se encolheu, imaginando que levaria um tapa. Ele segurou em seu queixo com delicadeza e olhou nos olhos claros da moça com firmeza.
— Vá para casa, filha. Lá conversamos — e surpreendentemente as respostas se esvaíram dos lábios de . Ela apenas engoliu em seco, da mesma forma que Valerie havia feito pouco antes, então se desviou do toque do pai com uma expressão atordoada que deixou bastante intrigado. Era como se a menina na verdade tivesse medo do que as palavras do pai haviam proposto e imaginou que talvez houvesse outro significado para o que Brandon havia dito.
— Senhores, peço que se contenham, por favor. Estamos diante de uma cena de crime e ninguém está autorizado a sair daqui — Harrison Hughes finalmente se pronunciou, então indicou a que levasse Amelie até a viatura. A menina agarrou o colarinho do homem com mais força, como se implorasse para que ele não a soltasse, o que fez com que soltasse um suspiro, fazendo com que ela lhe encarasse.
— Não se preocupe, Amy. Não vou deixá-la aqui sozinha, mas precisa colaborar e entrar comigo na viatura. Nós vamos para um lugar mais seguro, tudo bem? — fixou seus olhos nos da loirinha, que engoliu em seco e tremeu a boca.
— Nenhum lugar é seguro, — a voz da menina soou fraquinha enquanto seus olhos assustados encaravam os dele de volta.
Depois daquele primeiro momento em que o pânico não lhe deixava confiar em ninguém, ela havia sentido uma necessidade esquisita de proteção e era como se somente fosse capaz de lhe proporcionar isso. De canto de olho, embora ainda imersa na agitação que os pais haviam causado, não gostava da aproximação de e Amelie. O pensamento sobre o assunto lhe fez revirar os olhos e desviar sua atenção deles para a equipe policial, que acatava prontamente as ordens do xerife.
— Quero que isolem o local imediatamente. Precisamos analisar o local antes que isso atraia a atenção de populares. Garnet, acompanhe Thompson e registre absolutamente tudo o que ele lhe passar. É de extrema importância que seja determinado se isso foi um ataque de animal ou, na pior das hipóteses, alguma forma estranha de assassinato. — rapidamente virou o rosto ao ouvir o sobrenome, só então percebendo que seu melhor amigo era um dos policiais que havia saído da viatura.
— Thomas? — ela praticamente correu na direção do rapaz, que fez uma careta de alguém que havia sido pego em flagrante.
— Juro que respondo o que quiser em uma outra hora, loira. Agora estou em serviço — indicou o xerife com a cabeça, puxando a caderneta do bolso e correndo na direção do policial Thompson para tomar nota de tudo que fosse necessário.
A moça mal teve tempo de responder, mas sorriu ao ver que o amigo estava trabalhando na polícia, exatamente como havia sonhado desde que era um garotinho. Será que os pais de Thomas finalmente haviam aceitado a vocação de seu filho mais velho? Esperava veementemente que sim.
Após ver suas ordens acatadas, Harrison foi em direção a Amelie, esperando poder lhe fazer algumas perguntas, mas a garota se recusou a falar, mordendo os lábios em um sinal de nervosismo enquanto balançava a cabeça em sinal negativo. havia conseguido convencê-la a entrar na viatura e prontamente sentou ao lado da menina, exatamente como havia prometido.
— É melhor que os levem até a delegacia. Mantenha-os lá até que eu chegue. Preciso fazer algumas perguntas e não deixe que meu filho saia de lá também, afinal, ele também estava presente nesse cenário de contos de horror — Hughes deu a ordem a Jean Deveraux e o policial assentiu de imediato.
— Vamos lá, meus jovens — chamou, se dando conta de que de jovem ali só faltava . Ela ergueu uma sobrancelha com o tratamento todo polido do policial e deu de ombros, caminhando até a viatura e sentando-se ao lado de Amelie, de forma que esta ficasse no meio. Deveraux então olhou na direção do casal , percebendo que só caberia um deles no veículo e Harrison fez um gesto impaciente.
— Apresse-se, Deveraux. A senhorita Dupont necessita de atendimento. Deixe que o casal vai comigo — mais uma vez o policial assentiu e questão de segundos depois as três testemunhas eram encaminhadas para a delegacia.
Durante o trajeto até o local, desviou sua atenção para as árvores, que aos poucos iam dando lugar às construções do condado. O amanhecer avançava, mas olhando para o céu ele ainda conseguia distinguir perfeitamente a lua cheia, o que fez um lampejo passar por sua mente e seus dedos coçarem como há um tempo não vinha sentindo.
Não era justo que sua inspiração houvesse voltado justamente em um momento como aquele.

•••

— Senhorita Dupont, sei que está sobre um grande nível de estresse, mas precisamos de sua colaboração para solucionar esse caso o mais breve possível. — Harrison Hughes começou, se sentando diante da garota na sala do interrogatório. Encarou a jovem com uma expressão amigável e lhe sorriu de forma bondosa. — Perdoe-me, mas prometo que não exigirei muito da senhorita. E se em algum momento se sentir desconfortável nós encerraremos, tudo bem?
Amy nada disse, apenas assentiu enquanto abraçava os próprios ombros, sentindo seu queixo bater enquanto tremia. Sentia um frio sobrenatural, por mais que o clima estivesse ameno, mas o médico que havia lhe examinado havia assegurado que tudo não passava de reações aos acontecimentos traumáticos. Ela gostaria muito de mandá-lo pastar com essas besteiras e a linguagem que ela não entendia.
— Ótimo. Por que não começa me contando o que fazia sozinha naquele local, senhorita Dupont? — questionou, fazendo a menina abrir a boca um tantinho indignada porque aquela sempre era a preocupação de todo mundo. Ela podia tomar conta de si mesma, o que havia de errado em andar sozinha?
Sua consciência soltou uma gargalhada irônica. Se não fosse a teimosia da garota, ela não estaria em uma delegacia naquele momento.
Ou talvez estivesse e o corpo envolvido em um saco preto fosse o de Pierre agora.
— Senhorita Dupont? — a voz do senhor lhe despertou e ela gaguejou para lhe responder.
— Eu estava voltando de uma pequena reunião com uns amigos na taverna — por algum desconhecido motivo ela não conseguia encará-lo nos olhos. Em vez disso, Amy mantinha a cabeça baixa, olhando para os dedos que torcia e estalava vez ou outra. Se era algum tique nervoso, ela não saberia dizer.
— Certo — Hughes prosseguiu, procurando manter o mesmo tom afável. — E nenhum de seus amigos se dispôs a acompanhá-la até sua residência?
— Não preciso de guardas até em casa, senhor Hughes. Posso tomar conta de mim mesma — ela disse, com certa insolência, mas ainda sem encarar o mais velho.
— A senhorita tem consciência do perigo que correu nesta noite, senhorita Dupont? — pela primeira vez, Harrison mudou seu tom para o de repreensão, o que fez com que a menina se encolhesse na cadeira. Seus olhos rapidamente se encheram de lágrimas e ela estremeceu, assentindo com a cabeça em um sinal de concordava com ele em relação ao perigo que havia corrido. — Veja bem, não estou duvidando de sua capacidade, mas nas circunstâncias atuais, não poderá repetir o feito de hoje, certo?
— C-claro, senhor — ela balbuciou, enxugando rapidamente uma lágrima que havia escorrido por sua bochecha direita.
— Agora, pode descrever o que exatamente a senhorita viu naquele beco? — pediu, voltando ao tom ameno e Amelie engoliu em seco, tomando coragem para então repetir a mesma história que havia contato a e .
E quando finalizou seu relato ela finalmente encarou o xerife Hughes. Apenas para constatar a mesma coisa que havia percebido nos olhares daqueles que haviam lhe socorrido.
Em suas mentes, não havia besta alguma.
Ninguém acreditava nela.

•••

Os pais de Amelie não mencionaram nada sobre o fato de ela andar sozinha por aquele beco e a menina lhes agradeceu mentalmente por isso. Estava cansada de dar explicações, exausta por tentar fazer com que acreditassem em suas palavras porque era completamente inútil. Não importava o que dissesse, estava só.
Durante todo o trajeto até sua casa, ela sentia seu corpo tremer. Não havia mais aquela sensação de ser observada, mas havia o medo. Seu cérebro jamais deixaria de lado as cenas presenciadas, disso ela sabia. Aquelas cicatrizes eram tão permanentes quanto todas as outras que ela guardava sob sua pele.
Aceitou de bom grado as gotas de calmante que a mãe havia aplicado na xícara de chá, que ela bebeu de forma automática, fixando seus grandes olhos em um ponto qualquer. O menor movimento lhe deixava em estado de alerta e ela viu pelo canto do olho quando seus pais se entreolharam, trocando ali um sentimento cúmplice de pesar.
Amelie não saberia dizer se foi porque desejava tanto conseguir relaxar ou se realmente o calmante era efetivo, mas poucos minutos depois que bebeu o chá ela sentiu seu corpo amolecer e suas pálpebras pesarem.
— Eu... — tentou falar, com a voz ainda fraquinha e a mãe se adiantou para ajudá-la.
— Quer descansar, não é? Vamos, meu amor, eu a levo até seu quarto — sorriu sem jeito para a filha e a conduziu pelo corredor, empurrando a porta escura e ajudando a garota e se deitar. Cobriu-a, contendo a vontade de chorar e questão de segundos depois viu que a menina havia adormecido.

•••

Seu sono era sem sonhos, exatamente do jeito que ela precisava.
Mas tão rápido como o adormecer ela sentiu seus olhos tornarem a se abrir, indo de encontro à escuridão que preenchia seu quarto.
Batimentos acelerados, mãos suando. Engoliu em seco e se moveu, sentando na cama e tateando o criado mudo a fim de acender a lâmpada do abajur.
Então sufocou um grito quanto sentiu que tocava um tufo de pelos, recolhendo o braço e abraçando o próprio corpo, voltando a estremecer por completo. Sua garganta secou e seus olhos se abriram mais, procurando em vão enxergar alguma coisa em meio à penumbra.
Vários segundos de silêncio quebrado apenas pelo som de sua respiração, suas unhas quase rasgando a pele de suas pernas e nada mais aconteceu.
Talvez a experiência traumática tenha lhe deixado paranoica demais. Talvez tenha sentido a textura do cobertor de pelos que ela sempre empurrava todo para um lado da cama, incomodada com algo tão quente tampando suas pernas por mais frio que o clima estivesse.
Afrouxou o aperto em suas pernas e tentou relaxar a postura, voltando a se inclinar para o criado mudo e não se surpreendendo quando dessa vez não havia nada para lhe assustar ali. Acendeu o abajur e rindo de nervoso serviu-se de um copo de água, bebendo o líquido com um certo desespero. A sede era até absurda se parasse para pensar que até então não havia sentido nada.
Sorveu mais alguns goles de água e quase se afogou quando ouviu, em claro e bom som.
Algo arranhando sua porta.
Não poderia ter imaginado isso também. Até onde sabia, sua mente era perfeitamente saudável e ver um cara morto não poderia ter lhe afetado tanto, certo? Certo.
Mas isso não lhe colocava em bons lençóis, muito pelo contrário, lhe deixava com uma opção ainda pior.
Tinha alguém ali com ela.
— Mamãe? — soprou, com sua voz quase inaudível e engoliu em seco para repetir com mais clareza. — Mamãe?
Sua resposta foi outra onda de silêncio, então com cuidado largou o copo que apertava entre os dedos de volta no criado mudo, tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Mordeu a boca quando percebeu que havia conseguido e mais uma vez ouviu o som de algo arranhando a madeira.
Rapidamente recolheu seu corpo de volta na cama, sacudindo de tanto que tremia e puxando as cobertas sobre si, cobrindo tudo o que podia, de seus pés à cabeça, como se isso fosse o suficiente para protegê-la se ela estivesse ali.
Era ridículo, não era nem lua cheia, ela devia estar sonhando e... Aquele som era o de passos?
— M-mamãe? — tentou outra vez, sentindo seus olhos marejarem. “Por favor, que seja só a minha mãe. Por favor, que seja só a minha mãe”, ela repetia o mantra movimentando os lábios sem deixar ecoar som até que um nó se formou na garganta e ela deixou escapar um gemido sofrido.
E de repente o ar ficou mais quente do que o normal, ainda mais abafado do que costumava ser quando ela inventava de se cobrir por inteira embaixo daquele cobertor um tanto pesado.
O rosnado veio baixinho, quase como se fosse soprado apenas para ela e com ele a sensação horrível de que o que quer que estivesse ali naquele quarto estava agora sobre ela, baforando sobre a presa antes de partir para o ataque.
O que está esperando? Acabe logo com isso, diabos!
Ela não queria morrer, era tão jovem, tinha tanto para fazer ainda, mas entre ficar ali, encolhida e indefesa, tremendo até os ossos, ela preferia entregar os pontos e morrer de uma vez.
Alguns fios de seus cabelos haviam ficado para fora do cobertor, já que estavam particularmente volumosos naquele dia e ela sentiu um arrepio aterrorizante quando sentiu alguns fios serem puxados devagar.
Por favor, acabe com isso!
Insistiu, sentindo a boca tremendo e as lágrimas tomando toda a extensão de sua bochecha. Aquela besta maldita gostava de brincar com a comida, era isso?
Mais uma vez ela riu de nervoso, achando seus pensamentos tão ridículos quanto ela com aquele pavor todo. E se fosse só coisa de sua cabeça? E se ela estivesse sonhando?
Então acorde, menina! Levante-se dessa muralha de cobertores que não vai te salvar em nada.
Num impulso de coragem, ela puxou as cobertas de seu rosto, encontrando de novo o vazio e soltando mais uma risada chorosa enquanto seu peito se sacudia, as ondas de alívio preenchendo seus pulmões.
Precisava voltar a dormir, o descanso traria toda a paz que ela necessitava, não era essa a proposta?
Pois bem, apagaria tudo novamente e dormiria sem todas aquelas paranoias já que, como ela sempre havia feito questão de deixar claro, sabia como cuidar de si mesma. Ela ficaria bem sim e pela própria conta.
Virou-se pela terceira vez na direção do abajur e apagou a luz, bem a tempo de ver a forma lupina parada bem ao lado de seu criado mudo.
Não conseguiu gritar ou emitir som algum. Num rompante, ela se levantou da cama, tropeçando nos cobertores e encontrando mais um esconderijo tão brilhante quanto o anterior.
Nunca imaginou que seu armário fosse grande o suficiente para abrigá-la por inteiro, mas não iria reclamar.
Ela se enfiou lá dentro, não se preocupando com o fato de não poder enxergar o exterior ou que logo o oxigênio iria lhe faltar. Se encolheu como uma bola, chorando copiosamente enquanto todos os seus poros estavam arrepiados pelo medo. O peito sacudia ruidosamente, procurando o ar que lhe era cada vez mais escasso enquanto que a sensação horrível de que não estava sozinha aumentava.
Deus, ajude-me! Não quero morrer e não tenho pra onde ir!
Ela não sabia se havia soltado aquilo em voz alta ou não, mas isso não importava mais. Era o fim da linha, não passaria daquela noite.
havia mentido para ela. Onde ele estava se havia prometido cuidar dela? No mínimo estava rindo da sandice dela ao lado daquela loira que havia fingido ser sua amiga. Maldita , maldito , maldita besta que lhe perseguia.
Estava próxima, a garota podia sentir e ouvir os passos arrastados até o armário. O rosnado dessa vez soou um pouco mais alto e as garras arranhavam o assoalho do quarto.
Arriscou aproximar o rosto do vão entre as duas portas, abrindo-o minimamente e dando de encontro aos olhos de fogo que ela jamais esqueceria.
Então Amelie Dupont gritou pela primeira vez, libertando todo o medo que sentia, encontrando a voz que pensava estar perdida de uma vez por todas.
— Socorro! Socorro! Socorro! — repetia, se debatendo pelo choro.
Amelie? Querida? — estava louca ou agora ouvia sua mãe?
— Não venha aqui, ela vai estraçalhá-la! — berrou, se sentindo bipolar e entrando em pânico com a ideia do que a besta faria aos seus pais se eles adentrassem aquele cômodo.
Socos foram dados na porta, os Dupont se encontravam desesperados do lado de fora enquanto o patriarca segurava um rifle em mãos.
Abra a porta, Amelie! Por que você se trancou, filha? — a senhora Dupont estava tão apavorada quanto a menina.
— Eu não... Eu não tranquei nada. Corram! — ela distinguiu outro rosnado, as batidas na porta se tornaram mais fortes.
Afaste-se! — era a voz do pai da menina, que havia tomado espaço para fazer a única coisa que poderia em um momento de desespero como aquele.
Um estrondo foi ouvido quando a madeira se arrebentou, no mesmo momento em que as duas portas do armário onde a garota se escondia foram escancaradas.
Então outro grito de Amelie Dupont ecoou pela casa quando sentiu algo atingindo seu rosto.
E os berros despertaram a vizinhança até então pacata.



Continua...

Nota da autora: Eu sei, demorei um século pra atualizar essa história e não sei nem como me desculpar com vocês, mas enfim, tenho uma explicação. Meu celular comeu o roteiro de Lycanthrope e eu fiquei tão frustrada que demorei meses pra desistir da ideia de apagar a história e voltar a escrever. Então aqui estou eu agora.
O que acharam do capítulo? Será que Amelie e a família escapam dessa? E o Graham tendo epifania do nada, quem se identifica? Haha.
Comentem aqui, recomendem pros amigos e leiam minhas outras histórias!
Beijos e até a próxima!

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Nota da beta: Eu tomei a péssima decisão de betar esse capítulo à noite, então estou indo dormir de luz acesa! Que capítulo!!
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.