Autora: Sephora McCall | Beta: Thay


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Capítulos:
| I | II | III| IV | V |


PARTE I

- Eu não vou ficar duas horas na companhia de .
- Você não tem escolha, senhorita .
A loirinha bufou, impaciente, suas mãos estavam trêmulas pelo grau de nervosismo que se esvaia dos seus poros e os dedos dos pés se contorciam dentro do par de nikes branquíssimos. Sua cabeça zunia como se estivesse prestes a entrar em combustão. Estalou os dedos das mãos, antes de aumentar o tom de voz algumas oitavas.
- Você não entende? Nós vamos nos matar.
Escutou uma risadinha embebida de ironia ao seu lado, mas fechou os olhos, buscando se acalmar e manter o controle das suas terminações nervosas. Ou não se responsabilizaria quando, em um pulo, se jogasse pra cima daquela criatura e lhe arrancasse os olhos amendoados.
- Não grite, senhorita . - o diretor Louis ralhou, do alto de sua autoridade, andando pela sala e estreitando os olhos para a garota em aviso. - Podemos resolver isso aqui sem nos exaltarmos, apesar de que eu mesmo já estou precisando juntar todas as minhas forças para não suspender os dois por algumas boas semanas a essa altura do campeonato. - maneou a cabeça, desabotoando seu paletó e empurrando o tecido cinza para trás quando enfiou as mãos nos bolsos da calça de mesma cor. - E sobre o possível duplo homicídio, bom... Vocês dois já não estão muito longe de chegar a esse ponto, não é mesmo? - arqueou as sobrancelhas, irônico.
A loira rolou os olhos em órbitas para o senso de humor do diretor, o qual julgava bastante desagradável e inconveniente, cruzando os braços ao tombar no encosto da cadeira.
- Então não facilite as coisas. - falou, como se fosse óbvio, franzindo as sobrancelhas paro o mais velho.
O homem passou alguns segundos olhando para ela, como se considerasse suas palavras, mas, então, como se houvesse esquecido que havia mais alguém ali durante todo esse tempo e só naquele momento tivesse se lembrando da terceira presença dentro da sala, olhou para um ponto ao lado da garota.
- . - pronunciou, encostando-se na beirada da sua mesa de mármore conforme analisava a figura estranha e um tanto quanto tenebrosa que sentava de maneira relaxada na poltrona ao lado daquela que sustentava em sua própria versão de garota mimada. Com os lábios rosados esticados em um bico e os braços cruzados abaixo dos seios, fitando o chão como se pudesse perfurá-lo apenas com a força do pensamento. - Não tem nada pra falar sobre... Isso? - perguntou, gesticulando com uma das mãos.
passou a língua por entre os lábios ressecados, umedecendo-os, e batucava os dedos com resquício de molho de tomate no braço da poltrona quando respondeu, de maneira seca e debochada:
- Não.
O diretor Louis suspirou, chegando a conclusão que não poderia fazer muito por aqueles dois, além do que já tinha em mente e era motivo para as reclamações de . Obrigá-los a ajudar na limpeza do refeitório e da piscina naquela tarde era o máximo do mínimo que poderia fazer para puni-los devidamente sem deixar margens para os outros alunos duvidarem de sua autoridade e imparcialidade - afinal, uma de suas melhores alunas estava ali.
- Não vejo o que mais posso fazer por vocês, obrigá-los a aprender a conviver um com o outro como pessoas civilizadas é a menor das punições.
- Acontece que não posso aprender a conviver com ele, diretor. Como você mesmo disse, convivência é para pessoas civilizadas. - a loira desenhou um sorriso cruel nos lábios quando virou a cabeça para o lado, focalizando no auge de sua expressão entediada e do seu porte relaxado. - não é nada mais que um animalzinho mal criado. Um cachorrinho. Não! - balançou a cabeça. - Um vira-lata. Um vira-lata que nem os próprios pais quiseram.
Não teve sequer um ou dois segundos daquele típico silêncio que serve como prévia para o caos. Não. levantou-se em um rompante ao escutar as últimas palavras da loira, avançando sobre ela com os olhos nublados e circulando seu pescoço com os dedos de uma das mãos, sem apertar, mas pressionando o suficiente para que sentisse o mais puro medo e arregalasse os olhos, juntando suas mãos à dele para tentar afastá-la do seu pescoço.
Mas ela não precisou juntar todas as suas forças no ato, antes que o desespero tomasse conta de todo o seu corpo, viu o corpo de ser puxado para trás e quando ele cambaleou nos próprios pés, caindo no chão em seguida, pôde vislumbrar o rosto de traços perturbados do diretor Louis.
Ela ainda tentava regular a respiração quando viu o homem se aproximar, afrouxando a gravata e se abaixando para ficar na sua altura.
- Você está bem? - perguntou, analisando seu rosto com exímia atenção.
- Sim. - respondeu, passando a mão pelos cabelos para organizar os fios que pudessem estar fora do lugar. Então seus olhos se desviaram para o garoto ofegante e de cabelos desgrenhados no chão. Vacilou por um milésimo de segundo ao ver seu estado precário, mas logo se recompôs, ajeitando a saia do uniforme de líder de torcida ao se levantar e se aproximando dele com passos firmes, mas inseguros.
- Qual é a merda do seu problema? - questionou, a voz trêmula e grave, fazendo com que o garoto erguesse os olhos para ela, as íris castanhas marejadas e perdidas. engoliu em seco antes de continuar, colocando o dedo em riste. - Você tentou me enforcar, seu animal!
- Mantenha a calma, senhorita . - escutou a voz do diretor e olhou para trás, irada.
- Mantenha a calma? Mantenha a calma? Ele quase me bateu! - esgoelou, apontando para enquanto encarava o diretor com as narinas infladas. - Ele tentou me enforcar! - então novamente olhou para o garoto, seus cabelos negros caiam sobre a testa. - Você é muito mais doente do que eu imaginava. - balançou a cabeça, desacreditada, e se inclinou sobre ele para sentenciar, enfática. - Fique. longe. de. mim.
Então arrumou a postura e direcionando um último olhar gélido para o diretor Louis, pegou sua mochila jogada no chão e saiu da sala, batendo a porta com força e não dando a mínima se o diretor ainda tinha algo para falar.
Não queria ouvi-lo.
Não queria ouvir ninguém.


odiava muitas coisas. Como cabos usb, homens com mais músculos no corpo que neurônios funcionando no cérebro, calcinhas fio dental, filmes de comédia e quando seu padrasto decidia cozinhar.
Mas nenhuma dessas coisas, ou qualquer outra coisa que causava uma careta de desgosto na mocinha, a tirava mais do sério do que .
parecia ter sido enviado a terra apenas para testar seu autocontrole importunando-a das piores maneiras possíveis, somente para depois esticar os malditos lábios pálidos em um sorriso prepotente e sair andando como se fosse o dono do pedaço. Quando não era grandes merda.
Nunca se bateram.
Sempre brigaram.
Desde o primeiro momento. Desde que, há oito anos, quando não eram nada mais que crianças enjoadas e com pose de superioridade, sentou no lugar de na sala de aula. E quando a garotinha de cabelos sedosos e brilhantes, fazendo um charme infantil, pediu para que ele saísse, o garoto apenas deu de ombros e respondeu-lhe com um curto e sonoro "não".
Não.
poderia jurar que ele sentia-se em êxtase sempre que pronunciava aquela simples e perigosa palavra. Deveria ser a sua favorita de todo o dicionário dos imbecis.
o odiou desde então. Afinal, ninguém poderia sair ileso depois de fazer chorar por duas horas seguidas no banheiro feminino.
O que ela fez?
Colocou cola no seu caderno. Destruindo todas as suas tarefas e anotações.
E a partir daí as coisas foram de mau para pior.
coloca chiclete no cabelo de . rabisca todo o rosto de enquanto ele dorme. passa lama na mochila de . faz um nó com os dois cadarços dos tênis de . derrama suco de laranja no cabelo de . corta a roupa da educação física de .
Etc, etc, etc.
Foram anos e anos alimentando o ódio um do outro, e as coisas se acalmaram apenas ao chegar da adolescência, onde as brigas foram trocadas por indiferença, as traquinagens por alfinetadas, e a necessidade de perturbar o outro foi substituída por interesses românticos e festas badaladas.
Então estava cada um na sua, preocupados com seus próprios problemas e vivendo suas próprias vidas.
Até o intervalo das aulas daquela segunda-feira.
Até ele lembrá-la da sua infame existência, como ela pensava.
E agora estava ali, alguns minutos depois do sinal que indicava o final da última aula ressonar pelas paredes e corredores do colégio, parada na frente do refeitório vazio com os braços cruzados e com os pés inquietos, olhando para os lados a espera do diretor Louis e do filho caçula do capeta.
Não, não conseguira se livrar da punição cruel e sem consideração criada pelo diretor, e ainda teria que, depois de quase ser enforcada, lidar com aquele maldito aspirante a gótico que não penteava os cabelos.
Ela podia pedir uma ordem de restrição pra ele, não era óbvio? Não tinha que ser obrigada a trabalhar ao lado daquela criatura violenta e claramente perturbada apenas porque causaram juntos algumas... Ahn... Sujeirinhas no refeitório.
Esperava que, pelo menos, mandassem o FBI com ele, para mantê-la minimamente segura.
- Senhorita . - escutou alguém chamar e olhou para o lado, avistando o diretor Louis ao lado de , esse com traços inexpressivos no rosto e com seu fiel escudeiro, um coturno velho e desgastado, nos pés, vindo em sua direção.
Tentou não deixar visível a angustia que sentiu ao pôr os olhos no garoto e no seu modo despreocupado.
- Diretor. - cumprimentou, seca, olhando para o homem com os lábios crispados e tentando não deixar seus olhos caírem na tentação de analisar com seu perfume de aroma amadeirado.
- Espero que esteja mais calma. - o mais velho falou, inclinando as sobrancelhas para ela. - E que não haja confusões pelas próximas horas. - avisou, olhando dela para .
- Não se preocupe. - forçou um sorriso amarelo. - Se ele ficar no seu devido lugar, não terei porque me lembrar da sua existência. - falou, olhando para o garoto do qual se referia de soslaio, percebendo quando ele revirou os olhos, com a única expressão que parecia capaz de transparecer, a de tédio.
O diretor limpou a garganta, trazendo a atenção de novamente para ele, com receio de que aquilo servisse de estopim para mais uma troca de farpas e para a formação de um pequeno caos.
Não esperava menos daqueles dois juntos.
- A inspetora Bennet ficará por perto, averiguando se tudo vai bem. - disse, olhando diretamente para , que deu de ombros, indiferente.
Como se aquela senhora do período jurássico pudesse fazer algo contra o brutamontes - versão sem músculos - do , pensou.
- Bom... Acho que já podem ir, o refeitório espera por vocês. - brincou, engolindo em seco quando fora graciosamente ignorado pelos dois alunos, que, como se tivessem combinado, reviraram os olhos e deram as costas para o homem, cruzando as portas do refeitório. - Tentem não usar da violência. - ainda gritou, passando o dedo por dentro da gola da camisa branca do terno, afrouxando-a, e, depois de olhar para os lados, constatando que não havia ninguém por ali, tomando o rumo da sua sala, torcendo para que os dois que deixou há pouco conseguissem manter um ao outro intacto.
Dentro do refeitório - que estava repleto de comida por todos os lados - e encontraram a inspetora, dentro do seu conjuntinho azul marinho e com o colar onde pendia seu apito que costumava irritar todos os alunos corredores à fora pendurado no pescoço, e uma das faxineiras, vestida em roupas comuns ao lado de utensílios de limpeza.
- Finalmente. Pensei que não chegariam nunca! - exclamou, arrumando os cabelos, parecendo ansiosa com a ideia de ter seu trabalho posto nas mãos de outras pessoas, principalmente aqueles dois, os responsáveis pela bagunça em que estava transformada o lugar. - Se aproximem, andem.
e trocaram um olhar breve, receosos, e se aproximaram da mulher. Ele com as mãos nos bolsos e ela apertando as alças da mochila que carregava nas costas.
- Ótimo. - a mulher sorriu, evidenciando as rugas que carregava no meio da testa e no canto dos olhos. - Aqui estão as coisas que vão usar na limpeza. Rodo, esfregão, panos, água e os produtos. - falou, indicando os utensílios com a mão. - Esfregão e rodo no chão, panos nas mesas. Na embalagem dos produtos tem as etiquetas indicando como usar cada um. E bom... - alargou o sorriso. - É isso. Não é difícil.
olhou para os lados, desfigurando a face numa careta de nojo ao verificar o estado das mesas e do chão.
- Há controversas. - murmurou.
A mulher riu, fazendo-a dar um pulinho assustado quando apertou sua bochecha com uma das mãos.
- Princesinha. Você vai aprender. Afinal, quer um marido, não quer? - juntou as sobrancelhas, sem acreditar no que ouvia. Mas a mulher não lhe deu tempo de rebater. - E você, rapagão, sabe pegar numa vassoura? - perguntou para , que arregalou levemente os olhos, fazendo soltar uma risadinha ao perceber a conotação distorcida que ele havia feito da frase da mulher. Engolindo-a quando ele olhou para ela com a sobrancelha esquivada. - Bom... Eu tenho que ir. Tomem cuidado com meu refeitório, hein? E não demorem porque depois ainda vão ajudar o velho Harold na piscina.
- Que saco! - praguejou, formando uma carranca enquanto observava a mulher se despedir da inspetora e sair pelas portas de vidro.
Seria uma longa tarde.
Os primeiros minutos foram os mais difíceis. Depois de travarem a batalha de abertura para decidir quem faria o quê, ficou com as mesas e - que tentava bravamente não espiar enquanto a loira se esticava sobre as mesas, ficando nas pontas dos pés e alongando as pernas, empinando o bumbum para cima - com o chão. Ele queria mandá-la para o quinto dos infernos na maior parte do tempo, mas não podia negar que a garota era linda em seu tamanho compacto e com suas curvas bem distribuídas.
, por sua vez, estava entretida no exercer da tarefa que lhe foi designada, fazendo algumas caretas enojadas e espirrando quando algum cheiro forte alcançava suas narinas sensíveis, mas sentindo-se orgulhosa por cada mesa que deixava brilhando.
Havia até esquecido da touca de plástico que segurava seus cabelos e os protegiam do perigo iminente resultante dos resquícios de espaguete e molho de tomate que havia por todos os lados. "Combina com você.", foi o que disse ao vê-la com ela, exibindo um sorriso arrogante embebido de deboche, que fez a garota erguer a mão no ar e lhe mostrar o dedo médio, somente para voltar a se preocupar com seu trabalho em seguida.
As quase duas horas que se sucederam até passaram rápido, foi o que pensou, quando finalizou a última mesa e viu guardar o esfregão no canto da parede, olhando para o chão recém limpo com um olhar cansado.
Quem diria que aquela pequena troca de farpas de mais cedo resultaria nesse trabalhão.
Quando tombou propositalmente no ombro de Scott, na hora do intervalo, fazendo com que o garoto perdesse o equilíbrio e derrubasse a bandeja que sustentava seu almoço no chão, ela não pensou muito quando o segurou pela braço antes que ele se afastasse com toda aquela arrogância descabida que lhe dava nos nervos, e olhou em seus olhos castanhos, que vacilaram quando desceram sobre sua figura, mas logo se estreitaram, tornando-se ameaçadores, aumentando o tom de voz consideravelmente quando falou:
- Qual o seu problema, seu babaca? Quebrou o pacto com o demônio e acordou virado?
Ele arqueou a sobrancelha.
- Vai se foder, . Ou melhor - sorriu, irônico. - Vai ser fodida pelo Scott.
Então arrancou seu braço do aperto da mão de e lhe deu as costas, jogando os cabelos para trás como se estivesse em um maldito comercial de shampoo.
ainda piscava quando ele começou a se afastar, sem acreditar nas palavras rudes e mal educadas do seu infortúnio particular. Mas quando percebeu que o deixaria sair ileso depois daquelas palavras ofensivas, naquela eterna pose de dono do mundo, procurou por qualquer coisa que pudesse usar como arma ao seu redor, encontrando um prato de espaguete de um aluno qualquer, que não protelou em pegar, e tomou impulso, apressando os passos para alcançá-lo.
Quando chegou a uma distancia que julgou suficiente para não errar o alvo, desenhou um sorriso macabro nos lábios avermelhados e encheu a mão com os macarrões melados de molho de tomate, sem se importar em sujá-las, e jogou nas suas costas.
interrompeu os passos quando sentiu o baque mudo de algo batendo contra os poucos músculos de suas costas e algo gosmento escorrendo pelo seu pescoço. Colocou a mão para trás, pegando um tanto de macarrão e trazendo em direção aos olhos, franzindo o cenho em confusão.
Então deu meia volta, procurando pelo responsável e suspirando profundamente quando encontrou com um prato em mãos e um sorriso vitorioso nos lábios.
- Pra você aprender a respeitar uma mulher. - ela ainda gritou, expulsando o resto de sanidade que ele ainda tentava manter e fazendo com que espremesse os fios de macarrão entre os dedos, encarando-a com ira brilhando nas íris castanhas.
avançou, tomando de um nerd o seu copo de suco e não dando tempo da loirinha sequer processar o que ele faria quando jogou o liquido vermelho no rosto dela, fazendo com que a garota contorcesse o rosto em uma careta e levantasse as mãos, soltando um gritinho agudo.
- Seu... - soluçou, limpando os olhos com os dedos. - Seu... - bateu o pé no chão, enraivecida. - Eu vou te matar!
E foi assim que uma insana guerra de comida teve seu início, misturando vingança e diversão em uma bagunça só.
Se soubesse no que aquilo daria... Talvez tivesse engolido a ofensa. Ou não.
Logo que terminaram os afazeres no refeitório os dois foram guiados pela inspetora, que estava ali observando tudo o tempo todo, para a área da piscina, onde um senhor esperava pelos dois com um sorriso simpático e acolhedor que sentiu vontade de retribuir. Ignorando quando sentiu a lateral do seu rosto esquentar sob o olhar curioso de .
Eles foram instruídos pelo mais velho. Primeiro limparam um antigo e empoeirado depósito, onde pareceu ter seu primeiro momento de gentileza e pediu a que se retirasse depois que sua rinite alérgica não lhe deu trégua - ou talvez ele apenas quisesse livrar da sua sequencia inacabável de espirros. Mas ela não demorou a acatar o pedido, aliviada por poder sair daquele cubículo fedorento, e logo tratou de se ocupar com a piscina, ficando sozinha com ela por alguns minutos até que também saiu do depósito, provavelmente ao terminar o trabalho.
Ele parecia exausto quando se sentou na beirada da piscina, livrando-se dos coturnos gastos e enfiando os pés na água cristalina.
usava uma espécie de pá com uma rede na ponta da haste para catar as sujeirinhas e insetos que por ventura caíam na piscina quando começou a prestar atenção no garoto.
Ele bagunçava os fios negros do cabelo com as mãos e olhava para dentro da piscina, talvez tentado a mergulhar e se livrar do calor que estava fazendo - não poderia culpá-lo, não sabia de onde estava tirando forças para se controlar e ignorar sua vontade de largar sua tarefa intermimada ali mesmo e se jogar naquela água fresca. Então, parecendo chegar a uma decisão, ele colocou uma das mãos no chão para apoiar o peso do seu corpo, pegou impulso e se levantou em um pulo.
franziu a sobrancelhas, parando seus movimentos, quando olhou para os lados e, como se estivesse em câmera lenta - ou talvez fosse só coisa da sua cabeça -, segurou na barra de sua camisa e a arrastou para cima, passando-a pela cabeça e jogando-a de lado.
A loira engoliu em seco quando pôde vislumbrar o tronco pálido e repleto de tatuagens do garoto, que subia e descia de acordo com sua respiração pesada. Era um conjunto estranhamente harmonioso, constatou. Os cabelos pretos que estavam sempre bagunçados com alguns fios caindo sobre a sua testa, eram até charmosos em sua particularidade, os olhos castanhos, sempre profundos e nublados, como se ele estivesse sempre mal humorado, que costumavam causar receio a ela, mas ali, emoldurados pelos cílios umedecidos, pareciam quase inocentes, as gotículas, que não sabia se eram restos da água da piscina com a qual refrescou o rosto ou do suor que seu corpo produzia e que faziam caminhos disformes na extensão do seu tronco, as tatuagens predominantemente na cor preta, que faziam do seu corpo magro e de músculos delicados - se é que alguém como poderia ter qualquer coisa delicada em si -, uma tela; uma tela onde ele pincelava símbolos e caligrafias quando bem queria.
Mordeu o lábio inferior, os olhos delineando de maneira ousada cada centímetro de pele do seu peitoral que alcançavam. Estava tão atenta àquela região que não percebeu quando olhou para ela, notando que tinha o corpo estudado por suas íris verdes, e prendeu um sorriso no canto dos lábios, satisfeito pelo feito.
Mas, então, ela acordou do transe. Contudo, não por mérito próprio. , com o ego amaciado por toda a atenção brevemente recebida, decidiu desapontá-la e sumiu das suas vistas, mergulhando na piscina em um salto perfeito e espirrando água para todos os lados, inclusive na loira, que soltou um gritinho esganiçado ao sentir os pingos batendo contra o seu rosto.
- Idiota. - xingou, vendo o corpo dele submerso cruzar a piscina e secando o rosto com uma das mãos.
levou poucos segundos para chegar ao outro lado da piscina e fazer o caminho de volta, chacoalhando os cabelos ao emergir e jogando os fios que caiam nos seus olhos para trás, logo buscando com os glóbulos castanhos.
Ele a encontrou entre resmungos, com a pá esquecida no chão e com as mãos secando os braços e pernas. Uma ideia maldosa cruzou sua mente em um relampejo enquanto ele a observava e esboçou um sorriso maldoso que a mocinha não teve a oportunidade de ver.
Então, contorcendo o rosto em uma careta fingida, gritou, assustando , que deu um pulo e pôs uma das mãos sobre o peito, arregalando seus olhos para ele e juntando as sobrancelhas ao ver sua careta de dor e o modo como ele se contorcia para segurar um dos pés debaixo da água.
- Câimbra. - ele gritou, sôfrego, parecendo sem fôlego ao tentar se arrastar para perto da beirada onde ela estava em pé, observando tudo com uma expressão assustada. - Por favor. - gemeu, esticando a mão que não estava ocupada sustentando seu pé em direção à garota.
deu alguns passos para trás, desconfiada, seus olhos passeavam pelos traços contorcidos do rosto de em uma analise clínica.
Será que...? Não! Ele não seria tão idiota a ponto de fingir uma câimbra.
Chacoalhou a cabeça, chegando à conclusão de que aquilo seria baixo demais até mesmo para o gótico das trevas e voltou os passos que havia dado para trás.
Soltando uma lufada de ar, esticou a mão direita, segurando a de e apertando-a entre seus dedos finos e compridos.
Mal teve o tempo de perceber o sorriso malicioso que ele desenhou nos lábios pálidos e quando se deu conta seu corpo já estava sendo puxado para frente e seus músculos se contraindo ao entrar em contato de maneira tão súbita com a água gelada. >br:Se atrapalhou um pouco enquanto tentava se equilibrar, batendo os braços de maneira desengonçada dentro da água e chutando o nada com os pés até conseguir firmá-los no chão e se impulsionar para cima, emergindo com os olhos apertados e a boca aberta em busca de oxigênio.
Tossiu algumas vezes, sentindo o nariz e a garganta arderem pelo volume de água engolido pelas narinas, e, então, abriu os olhos, seus pulmões trabalhando incansavelmente em busca de ar.
Apertou o nariz antes de falar, com certa dificuldade em pronunciar as palavras audivelmente, sem que elas saíssem apenas como fracas e sôfregas lufadas de ar:
- O que... Qual é... Que merda você fez?
estava parado feito uma estátua de mármore quando finalmente o encarou. Ela franziu as sobrancelhas ao perceber que seus glóbulos castanhos estavam nublados e distantes, mas não daquela maneira assustadora que fazia suas pernas tremerem, essa as deixavam moles como gelatina, mas por outro motivo, talvez, só talvez porque ele olhava em sua direção, mas... Com os olhos baixos o suficiente para ela constatar que não observavam nada acima do limite da água, que batia na altura do início do seu pescoço.
Seguindo a linha imaginária que saía das suas íris castanhas, desceu seus próprios olhos e engoliu em seco ao avistar o que tomara a atenção do garoto.
"Merda", pensou. Sua saia do uniforme das torcedoras estava erguida, para ser mais precisa, o babado azul marinho boiava na altura da sua cintura, deixando visível a calcinha de renda comportada que usava naquele dia, mas que pareceu ser suficientemente perturbadora para .
Sentiu as bochechas esquentarem quando novamente ergueu os olhos para ele, finalmente reconhecendo o que escurecia suas íris. Cobiça.
- Ei! - desceu as mãos trêmulas para a saia, apertando o tecido contra as pernas. - Perdeu alguma coisa aqui?
, parecendo finalmente acordar do transe, piscou algumas vezes, se situando, e tirou seus olhos das coxas, agora parcialmente cobertas, da garota.
- O que você pensa que está fazendo? - ela perguntou, esquivando uma das sobrancelhas com uma arrogância fingida. Podia sentir seu coração batendo acelerado, prestes a rasgar tudo dentro do seu peito. Mas jamais deixaria que ele percebesse como estava nervosa e vulnerável por sua causa.
respirou profundamente, esfregando o rosto com as mãos, e, sem se dar o trabalho de respondê-la, lhe deu as costas e começou a nadar em direção à beirada da piscina, apoiando-se no concreto para pegar impulso e pular para fora.
Então, com exímia agilidade, catou sua camisa e coturnos no chão, e, em passos rápidos e pesados, sumiu para dentro do colégio. Deixando para apenas a imagem de suas costas tatuadas se afastando para cada vez mais longe e dos cabelos úmidos que respingavam gotículas de água por onde seus pés passavam.
- Mas o quê...? Babaca! - ainda xingou, batendo as mãos fechadas em punho contra a água e grunhindo, enraivecida.


PARTE II

Duas da manhã, um remix de uma música qualquer da Demi Lovato no último volume e jovens suados roçando seus corpos cobertos de pouco tecido uns nos outros. costumava gostar daquela vibe insana quando tinha a ajuda do álcool para se soltar e esquecer-se do próprio nome e, inclusive, dos problemas. Mas o whisky que havia pegado no bar ainda brilhava na metade do copo que tinha em mãos para lembrá-la que seu nome ainda era e que aquele lugar, com aquele monte de pessoas desconhecidas se esfregando umas nas outras sem nenhum pudor em uma prévia do que fariam mais tarde, na privacidade dos seus quartos, era extremamente desconfortável para uma garota solitária e ranzinza.
Como era o seu caso, já que suas amigas haviam sumido por entre a multidão de corpos suados e provavelmente, àquela altura, já estavam tendo as goelas invadidas por línguas desconhecidas.
Não as julgava, era o que deveria estar fazendo. Contudo, estava ali, remoendo-se sabe lá de quê e espantando, com uma careta de desgosto, todos os garotos que ousavam se aproximar.
Nem Scott havia conseguido animar sua cara de velório e, assim como suas amigas, deveria estar enfiando a língua na goela de uma foda em potencial.
Suspirando profundamente, balançou a cabeça para afastar a linha de pensamento que se formaria em sua cabeça conforme se lembrasse de Scott e do dia odioso que tivera, e se desencostou da parede que dava acesso ao corredor dos banheiros, começando a andar por entre as pessoas, quase se desequilibrando nos próprios saltos quando alguém se chocava contra seu corpo miúdo e retesado, sem se preocupar em oferecer desculpas ou verificar se ela estava bem.
Quase sentiu orgulho ao chegar do outro lado com o copo de whisky intacto e sem nenhum dos pés torcidos, mas a satisfação veio mesmo quando pôde deixar o copo no balcão do bar e se deliciar com a possibilidade de sair do meio daquela verdadeira suruba transvestida de balada.
Não se preocuparia em avisar as amigas, provavelmente nem lembravam mais que ela estava ali. Por isso, fechando o sobretudo sobre o corpo com um laço e escondendo o vestidinho curto e justo de paetês que usava, deu os passos que a afastavam das portas de saída do pub, e sentiu uma rajada de vento lhe cumprimentar quando as cruzou, enfiando as mãos nos bolsos frontais do sobretudo para livrá-las do frio.
Encolhida, seus olhos passeavam pela avenida que se estendia à sua frente enquanto começava a tomar o rumo do meio fio, onde esperava não demorar muito a pegar um táxi, seus dedos apertados dentro dos bicos finos dos scarpins vermelhos que usava reclamando com fisgadas doloridas a cada passo que ela dava na calçada de relevo desregular.
Parando no meio fio, soltou uma lufada de ar, olhando de esgueira para alguns casais que trocavam saliva sentados por ali. Franziu as sobrancelhas e se perguntou se também costumava praticamente transar em público quando tinha os neurônios queimados pelo álcool.
Chegou à conclusão que sim com um manear de cabeça e teve que rir de si mesma, virando a cabeça para o outro lado para dar mais privacidade - se é que isso era possível -, para os casais.
Mas o arrependimento lhe estapeou quando seus olhos encontraram uma figura conhecida mais à frente.
Engoliu o sorriso ao reconhecê-lo com uma garrafa escura em mãos e cambaleando para longe dali.
Usava uma regata branca que batia na metade suas cochas cobertas pelos jeans escuro da calça e escondia os cabelos pretos dentro de uma touca ao que praticamente tropeçava nos próprios pés a cada novo passo que tentava dar.
estava muito bêbado enquanto buscava o próprio equilíbrio se apoiando com uma das mãos em muros, constatou . E ela completamente fora de si. Pois, como se não tivesse controle dos seus impulsos, sem sequer cogitar as consequências do que faria, olhou para os lados, verificando se havia alguém conhecido nos arredores, e cruzou o caminho que os separavam.
- ? - chamou baixinho quando o alcançou, tocando o ombro do garoto com uma mão, sentindo quando ele tremeu sob ela. virou o rosto para trás, com o cenho franzido e os olhos estreitados, e, então, desenhou um sorriso debochado nos lábios.
- . - pronunciou, forçando um tom de voz pomposo e maneando a cabeça em cumprimento formal meio desajeitado, provavelmente efeito do que quer que o tivesse deixado naquele estado. Cambaleando um pouco, ele se virou para ela - que trouxe sua mão de volta para dentro do bolso do sobretudo, sentindo-a ainda mais trêmula -, e deu uma risada divertidamente embriagada, erguendo a garrafa que segurava e tomando alguns goles profundos. - . - repetiu, enrolando um pouco a língua, por onde a palavra escorria com certa ironia.
revirou os olhos.
- O quão bêbado você está? - perguntou, analisando as expressões exageradas que ele fez ao ouvir a pergunta.
- Bêbado? Eu? - apontou o dedo indicado da mão que segurava a garrafa para si mesmo. - Quem disse que eu estou bêbado?
- Sinto informar, mas ninguém precisa dizer. - respondeu.
O garoto piscou algumas vezes, como se digerisse suas palavras, e esticou os lábios para frente, formando um bico.
- Desculpa. - sussurrou, repentinamente, olhando para com intensidade.
- Desculpa? - ela repetiu, confusa, e então chacoalhou a cabeça. - Vocês bêbados não fazem o menor sentido. - disse, arregalando os olhos levemente quando deu dois passos à frente e se inclinou na sua direção, cortando a diferença de altura entre os dois e deixando seus rostos a milímetros de distância. Engoliu em seco quando viu as írises castanhas descerem para sua boca por um instante enquanto seu dono franzia as sobrancelhas de maneira dolorosa.
- Eu sou um idiota. - soprou, o hálito alcoólico batendo contra o rosto da loira, e apoiou a mão livre da garrafa no ombro dela, que cambaleou para trás rapidamente mas conseguiu firmar os saltos no chão antes que caísse e levasse o beberrão junto com ela.
- Wow. - segurou seu braço, empurrando seu peitoral com a outra mão para que se mantivesse a uma distância segura. - Calma aí.
- Eu acho melhor você ir embora. - ele resmungou, embolando as palavras na língua e tentando se afastar, mas apertou seus dedos ao redor do braço do garoto e prendeu uma parte do tecido da camiseta que ele usava com a outra mão.
Sabia que não tinha nada a ver com as peripécias em que o garoto se metia, nem que tinha qualquer obrigação em ajudá-lo, mas não tinha força de vontade ou indiferença o suficiente para deixá-lo ali naquele estado caótico, apodrecendo na própria embriaguez e sem conseguir manter-se eretamente em pé nos próprios pés.
Provavelmente se arrependeria depois de colocar em palavras definitivas a ideia ousada que cruzou sua mente, mas quando olhou naquelas bilas cintilantes e carameladas não conseguiu pensar em nenhum motivo para não o fazer.
- Eu vou. - disse. - Mas você vai junto comigo.


Pegar um táxi com um bêbado não era lá a melhor coisa do mundo. Pegar um táxi acompanhada de bêbado era como viajar sem previsão de volta para o inferno.
O garoto não parou quieto durante todo o percurso por um mísero segundo, pedindo desculpas que não entendia a que se referiam e rindo de suas próprias piadas. Basicamente o pior tipo de bêbado que existe para a loira, o bêbado bipolar.
Horas com traços emburrados na face, horas com um sorriso embriagado delineando os lábios finos.
Naquele momento sua personalidade piadista e risonha era quem dominava sua capacidade criativa, para o desgosto de , que tinha que escutar sua fala embolada, enquanto servia de apoio para seu corpo que estava pesado demais para ser sustentado pelas pernas amolecidas e se virava para tirar o dinheiro do bolso e pagar o taxista, que observava tudo com um sorrisinho amarelo.
- . - ele soletrou, colocando o dedo em riste, com uma expressão intelectualmente cética na face. - Você é feliz - inclinou a cabeça para ter visão do rosto da garota - ... ?
- Obrigada. - disse, entregando a quantia cobrada pela corrida para o taxista. Então segurou a mão do braço de que estava sobre o seu ombro e aumentou a pressão que seu próprio braço fazia ao redor do tronco largo do garoto, guiando-o - talvez arrastando-o definisse melhor -, na direção de sua casa. - Seu senso de humor consegue piorar drasticamente quando o álcool afeta os seus neurônios. - olhou para o garoto, esboçando um sorrisinho de canto.
- Ei! - ele reclamou, bicudo. - Isso foi ofensivo.
- Ofensivo é você beber a ponto de não conseguir ficar em pé sobre os próprios pés. - rebateu prontamente, revirando os olhos.
- Eu não estou bêbado. - balançou a cabeça em um movimento exagerado. - Eu estaria - então novamente pôs o dedo em riste, como se o fazê-lo colocasse mais moral nas suas palavras vagas. - Se você não tivesse jogado minha garota pela janela do carro.
arqueou a cabeça para trás em uma gargalhada quando compreendeu ao que ele se referia.
- Sua garota?
- Sim. - estalou a língua nos dentes. - A vodka.
- Onde eu fui amarrar meu cavalo... - a loirinha balançou a cabeça, enfiando a mão na sua bolsa para pegar a chave de casa e abrir a porta. Com um girar e um clique destrancou a fechadura e empurrou a madeira branca, abrindo espaço para que não precisasse largar o beberrão para entrar. - Vamos. - fez força para puxar o garoto, mas não veio, estava estancado no mesmo lugar, olhando para os lados com as sobrancelhas juntas. - ? - tentou, não recebendo resposta. - O que você está procurando, criatura?
- O cavalo que você falou. - respondeu, inocente.
resmungou um "oh, meu deus" e ignorou os protestos do garoto quando começou a praticamente arrastá-lo para dentro, fechando a porta com o pé e jogando o corpo mole do moreno sobre o sofá, largando o seu corpo cansado no espaço que havia sobrado e soltando uma lufada de ar.
Não era sedentária, longe disso, os treinos com a equipe de torcida e as quase rotineiras visitas à academia serviam como prova, mas mesmo seus músculos experientes reclamavam pelo esforço feito, afinal, seus braços não eram feito de ferro e muito menos de algodão.
- Seu pai deve defecar dinheiro. - ouviu o garoto dizer, virando a cabeça para ele e encontrando-o com os olhos atentos nos detalhes da sala de sua casa.
- Minha mãe. - ela corrigiu, espremendo os lábios. Ele franziu o cenho, contorcendo o rosto em uma careta, e, então, rolou os olhos em órbitas, se perguntando como aquele garoto poderia ficar tão lerdo depois de alguns goles de bebida alcoólica. - Ela trabalha pra conseguir o dinheiro, ok? - explicou, como se falasse com uma criança. Se bem que se assemelhava muito a um estranho exemplar delas naquele momento. - Meu padrasto – fez questão de corrigir - cuida das coisas aqui em casa.
- Ah! - ele soprou, com a boca entreaberta. Então sorriu, sem nenhum motivo aparente.
- Você quer uma água? - perguntou, escolhendo ignorar os traços risonhos na face do garoto.
Ele balançou a cabeça de um jeito engraçado, acabando por arrancar uma risadinha contida dela.
- Quero minha vodka. - devolveu, alargando o sorriso e mostrando os dentes.
lhe repreendeu com o olhar.
- Nem nos seus mais profundos sonhos. Aliás, seu estado está caótico. - se levantou em um rompante, decidida. - Você precisa mesmo é de um banho. - afirmou, com as mãos na cintura de modo confiante.
Contudo, foi quem não pareceu muito animado com a ideia, fazendo uma careta preguiçosa ao escutar aquelas palavras e enfiando o rosto nas mãos.
- Não. - sua voz abafada resmungou.
- Não estou aberta para discussões, . Vamos, vamos, deixa de moleza! - bateu as palmas das mãos, fazendo o garoto soprar um palavrão baixinho. - Somente um bom banho para dar jeito nessa situação. - então o puxou pelos braços, precisando utilizar um pouco mais de força na tarefa, e o moreno gemeu em protesto quando finalmente cedeu à insistência da loira, arqueando a cabeça para trás enquanto ela o guiava praticamente à força a caminho do quarto de hóspedes, seus passos incertos fazendo com que se demorassem mais na subida do vão de escadas que ligava o térreo ao primeiro andar.
Ao chegaram ao destino, a garota o ajudou a se livrar da camisa, tentando não descer os olhos pelo peitoral tatuado e ignorar o sorrisinho prepotente que ele esboçava enquanto notava seu esforço para olhar para qualquer coisa que não fosse ele, e logo o empurrou para o banheiro, jogando-lhe uma toalha limpa, um sabonete lacrado, escova e creme dental.
Só soltou o ar que nem sabia estar preso nos pulmões quando ouviu, depois de longos minutos de embromação, o barulho da água da ducha batendo contra o chão.
Imaginou que ele precisaria de uma roupa limpa, então foi ao quarto dos pais e voltou com um calção e uma regata do padrasto em mãos, deixando as peças em cima da cama e saindo do quarto em seguida. Encostou as costas na porta fechada, avaliando o nível de encrenca em que estaria se metendo, mas acabou não encontrando motivos para se preocupar. pareceu bastante inofensivo nas últimas horas e, bom... Seus pais estavam em uma viajem que duraria todo o final de semana.
Tudo parecia colaborar para que não pudesse sentir arrependimento pela atitude que havia tomado. Então, não sentiria.


estava terminando de preparar um café preto na cozinha - já livre do sobretudo e dos saltos que tanto maltrataram seus pés -, quando desceu as escadas, o barulho que seus pés faziam conforme ele trotava em cada um dos degraus chamando a atenção da mocinha, que mordeu o lábio inferior num gesto involuntário ao pôr os olhos sobre o garoto.
Seus cabelos umedecidos estavam ainda mais escuros que o normal e estranhamente penteados para trás, restando apenas um ou dois fios soltos caindo na sua testa, o calção parecia folgado em suas pernas finais e a regata parecia capaz de vestir dois dele. No seu rosto sustentava traços relaxados, somente os olhos opacos indicando que ainda haviam resquícios da vodka no seu sistema, e sua coordenação motora ainda parecia estar falha quando ele entrou meio cambaleante pelo vão da cozinha
soltou uma risadinha divertida e lhe deu as costas, virando-se para o balcão e ficando na ponta dos pés para pegar uma xícara no armário.
- Você podia ser um pouco mais discreta. - ouviu ele resmungar, rabugento, e então o barulho da cadeira de madeira arrastando no chão.
- Desculpa. - pediu, voltando-se pra ele com a xícara em mãos e se aproximando da mesa, os lábios espremidos ao que tentava segurar o riso.
- Seu namorado é um armário ou o quê? - ele perguntou, sem enrolar a língua nas palavras - o que indicava uma melhora, mesmo que pequena -, fazendo com que ela franzisse as sobrancelhas, sem entender, enquanto derramava o líquido escuro da cafeteira dentro da xícara.
- Como? - questionou.
- Essas roupas largas e masculinas não são suas. - ele esclareceu, parecendo indiferente, e ela entreabriu a boca em uma exclamação muda.
- Bom, realmente não. - sorriu levemente. - Mas são do meu padrasto.
- Hum. - ele assentiu, tentando não transparecer a breve sensação de satisfação que lhe ocorreu.
- Tome. - ela disse, depois de um ou dois segundos de silêncio, empurrando a xícara para perto dele. - Vai ajudar na provável ressaca que você vai sentir amanhã. - explicou, fazendo com que ele arqueasse uma das sobrancelhas para ela.
- Quem é você e o que fez com ? - perguntou, debochado, mas levemente surpreso pela atitude gentil partida da garota.
revirou os olhos, prendendo um sorrisinho no canto dos lábios e sentindo suas bochechas esquentarem quando puxou a cadeira vazia ao lado dele para sentar.
- Posso perguntar o mesmo sobre você. - rebateu, desviando seus olhos para ele rapidamente. - Nada de alfinetadas ou de tentativas de homicídio. Quero dizer... já foram duas. Estou começando a acreditar que quer mesmo me ver morta. - brincou, mas o tom de voz um tanto quanto mórbido não deixando-a esconder seu ressentimento.
não respondeu a princípio, permitindo que um silêncio incômodo dominasse o cômodo por alguns minutos e a garota passasse a roer as unhas e encarar o nada, tentando não se deixar afetar pelo nervosismo que corria pelo seu corpo.
- Eu sinto muito. - ele acabou soprando, e ela sentiu a lateral do seu pescoço esquentar sob o seu olhar. Virou o rosto, levando seus olhos de encontro às írises castanhas que tanto a intrigavam, que naquele momento continham um brilho diferente. - De verdade. – continuou. - Não só pelos últimos acontecimentos. - coçou a garganta, desconcertado. - Por tudo. Eu sinto muito. Eu só... Eu só não consigo... Eu não consigo me controlar quando se trata de você. Você atiça os meus instintos mais primitivos.
desceu os olhos para as mãos, agora sobre seu colo, se perguntando se aquelas palavras que acabara de ouvir significavam o que ela pensava significar. Se ela o afetava, assim como ele fazia com ela.
- Eu também não fui exatamente legal com você. - escolheu dizer, seus dedos fazendo desenhos abstratos na parte do vestido que cobria parte das suas cochas.
- Nada justifica o modo como venho tratando você por todos esses anos, apesar de que você sabe muito bem como revidar à altura. - riu fraco, arrancando-lhe um sorriso torto.
- O seu café vai esfriar. - ela soltou, depois de um instante, em uma tentativa clara de mudar de assunto, não gostava muito do caminho que aquele diálogo estava tomando.
Ele assentiu, conformado, e pegou a xícara com as duas mãos, levando a louça aos lábios e bebendo alguns goles do líquido que continha, somente para devolvê-la à mesa no segundo seguinte com o rosto contorcido em uma careta.
- Está sem açúcar. - reclamou, testando o gosto na língua com desgosto.
- Bom, esse é o fator x. Ou prefere acordar fodido e com uma puta dor de cabeça? - esquivou uma sobrancelha, esperta.
- Dor de cabeça é superável. – replicou. - Mas eu é que não quero acordar fodido. - brincou, pegando a xícara novamente em um rompante e tomando o líquido com uma pressa teatral, arrancando uma risada divertida de .
- Vejo que o banho frio já diminuiu os efeitos do álcool nos seus neurônios. - constatou, irônica. - Se foram as piadinhas bobocas e voltaram as infames. Ah, e claro, você está falando coisa com coisa.
- Não sei não... Essa situação aqui é muito estranha pra ser real. - maneou a cabeça, se referindo a e a si mesmo e descansou a xícara, agora quase vazia, na mesa. - Posso estar tendo alucinações com a capitã das líderes de torcida. - esboçou um sorriso malicioso. - Pode ser o meu fetiche.
- Ok, me enganei. - gesticulou com as mãos. - Alguns neurônios ainda estão com mau funcionamento.
riu.
- É como dizem... Quando a bebida entra, a verdade sai. - estalou a língua nos dentes.
sentiu as bochechas corarem levemente e, meio perdida, desviou os olhos e se levantou em um pulo, pegando a xícara que ele havia deixado sobre a mesa e levando-a para a pia, virando-se de volta a tempo de ver o garoto imitá-la e devolver a sua cadeira para debaixo da mesa.
Seus olhos logo desceram pelos braços deste, onde singelos músculos eram expostos pela regata que usava. Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, encostando o bumbum na bancada da pia para se apoiar.
- Então... - soprou, pisando no pé esquerdo com o direito, desconcertada.
- Talvez eu devesse... - ele começou, apontando com o polegar para o espaço atrás de si. - Ir embora.
arregalou os olhos.
- Não! - soltou, antes que pudesse se conter. Fazendo com que ele arqueasse uma das sobrancelhas, surpreso. Então limpou a garganta, constrangida. - Quero dizer... Você ainda não está completamente sóbrio.
Ele riu levemente.
- Estou suficientemente para ter a consciência de que nunca estaríamos tendo essa conversa se estivesse completamente são. - retrucou. - E já consigo andar sobre meus próprios pés... - entortou os lábios ao trocar o peso do corpo de um pé para outro para comprovar suas palavras e se atrapalhar no caminho. - Eu acho.
analisou seus traços por alguns segundos, então sorriu, esperta.
- Você deveria ficar bêbado com mais frequência. - disse. - Definitivamente mais agradável do que quando está em plenas faculdades mentais.
- Aposto que sim. - coçou a nuca, desconcertado, uma risadinha escapando por entre os lábios finos.
mordeu o interior das bochechas, observando-o com cautela, porém total indiscrição. Os cabelos negros já começavam a secar, alguns fios já se destoando dos demais, acabando com a singular organização em que foram colocados. Ela aprovou, descendo agora os olhos pelos traços do rosto pálido, onde os olhos castanhos escuros que sempre pareciam frios, ali, emanavam um calor reconfortante, onde o maxilar marcado que só servia para deixá-lo com um ar ainda mais másculo estava travado, onde os lábios quase tão brancos como sua pele estavam comprimidos um contra o outro, revelando sua tensão. O maldito era bonito em sua estranhesa, não poderia negar. Aquele estilo punk gótico despreocupado tinha seu charme no final das contas.
- Perdeu alguma coisa na minha boca, ? - escutou a voz dele questionar, acordando do seu transe em um pulo e arregalando os olhos para um de sobrancelha arqueada e braços cruzados.
- Não! Sim... - chacoalhou a cabeça. - Quero dizer, não! - se atrapalhou, engolindo em seco ao vê-lo desenhar um sorriso malicioso nos lábios.
Procurou alguma desculpa esfarrapada nas embreagens de sua mente, mas não teve o tempo necessário, pois, como se fosse um leão faminto e estivesse se preparando para dar o bote na sua presa, descruzou os braços e começou a cortar a distância entre os dois com passos lentos e precisos.
sentiu sua pressão cair ao se dar conta de que ele ficava cada vez mais próximo de si e se espremeu ainda mais contra a bancada, sem conseguir entender aonde o moreno queria chegar. Seus dedos apertavam o mármore atrás de si a ponto de afastar o sangue que corria por eles, embranquecendo-os gradativamente.
Sentiu as pernas tremerem e o estômago embrulhar quando o corpo de finalmente parou, a centímetros do seu, seus braços passando ao lado do seu corpo para se apoiar na bancada, prendendo-a entre a pedra e o seu tronco, inebriando-a com o cheiro de erva doce que estava impregnado no seu corpo graças ao sabonete que ela havia lhe emprestado.
Umedeceu os lábios com a língua, chamando a atenção de novamente para lá, antes de falar em um tom de voz baixo e levemente rouco:
- Às vezes parece que você quer isso tanto quanto eu. - soprou, as íris castanhas delineando cada mínimo detalhe do rosto da menor com quase adoração.
- Eu... - pigarreou, se engasgando levemente. - Desculpe, o que você está dizendo?
revirou os olhos como se não pudesse acreditar que ela havia mesmo feito aquela pergunta.
- Que eu te quero, . - então soprou, fazendo com que ela engolisse a respiração, juntando as sobrancelhas grossas de maneira sôfrega. - É tão difícil entender que toda a maldita vez que eu ponho meus olhos sobre você eu só tenho vontade de me livrar de qualquer tecido insignificante que te cubra e te fazer minha?
balançou a cabeça, enviando ao cérebro uma rápida mensagem de que aquelas palavras que ouvira não poderiam passar de vergonhoso devaneio.
Soltou uma lufada de ar, antes de dizer, incerta, a voz trêmula:
- Acho que não escutei direito o que você acabou de dizer.
- Você nunca escuta o que eu digo, . Esse é o problema. - ele rebateu, falsamente desapontado, e, em um movimento brusco, enroscou um dos braços na cintura da garota, juntando seus troncos em um baque mudo, de forma que ela teve que abrir as pernas em automático para que ele ficasse no meio. - Talvez, então, eu tenha que te mostrar. - disse, simplesmente, e sentiu um arrepio atravessar sua espinha quando ele trouxe a outra mão que não pressionava o corpo dela contra o dele para a lateral do seu rosto, os dedos ásperos se embreando nos fios dos seus cabelos, e aproximou seus rostos, roçando seus narizes em uma pequena provocação e apertando os olhos quando juntou seus lábios aos dela.
Gélidos, fora a primeira característica que deu à textura macia dos lábios de . Eles eram gélidos, o suficiente para fazê-la tremer e o necessário para fazê-la soltar um gemidinho satisfeito e tirar uma das mãos do mármore para cravar as unhas na nuca do garoto. Sentiu que ele sorriu levemente quando ela o fez e, como se seu gesto quase involuntário tivesse servido de impulso, ele usou a língua para enviar-lhe um pedido mudo para que entreabrisse os lábios. E ela o fez, sem pestanejar, sentindo ondas elétricas correrem pelo seu corpo quando suas línguas entraram em contato, dando início a uma dança desengonçada e sensual. Soltou a outra mão, que já estava quase formigando de tanto que apertara o mármore por todo esse tempo, para pressionar os músculos do seu braço.
parecia faminto, beijando-a com uma intensidade que a mocinha não estava acostumada e tocando-a de maneira tão precisa que parecia conhecer cada parte do seu corpo, cada ponto de prazer que faria com que ela entrasse em estado de ebulição - mesmo quando estava em contraste com algo tão frio.
Ele apertava sua cintura com posse, como se a revogasse para ele, sem objeções ou hesitações, e naquele momento só queria poder gritar que não iria haver hesitações por parte dela, e muito menos qualquer objeção. Ele queria ser tomada por ele, mais, ser corrompida por ele, sem arrependimentos ou promessas desnecessárias.
Sentiu a respiração voltar quando ele separou seus lábios, dando tempo apenas pra ela vislumbrar o tom avermelhado que cobria toda a região da sua boca antes de agarrar seus cabelos e puxar, em um movimento bruto, mas indolor, sua cabeça para trás, e começar a distribuir beijos molhados por toda e extensão do seu pescoço.
soluçou quando sentiu a língua dele correr pela região atrás de sua orelha. Tentava regular a respiração, mas a cada novo toque dos lábios macios de engolia um montante de ar e se perdia nas sensações que seus beijos lhe traziam.
Ele não parecia ter qualquer interesse em se afastar dali tão cedo, mas não pôde controlar sua mão que estava agarrada a cintura da menor de descer sutilmente por sua lombar e se aconchegar em uma das bandas de seu bumbum, apertando-a levemente, como se pedisse permissão para estar ali. não apresentou objeção ao toque ousado do garoto, fazendo, assim, com que ele se sentisse livre para pressionar com mais afinco a carne coberta pelo tecido do vestido e aproveitasse para empurrar ainda mais o corpo trêmulo da loira contra o seu, fazendo com que ela apertasse os olhos e gemesse fraco ao sentir algo duro roçar contra sua intimidade que, devido ao fato do vestido está erguido até a altura dos seus quadris, estava coberta apenas pela seda da calcinha, que até ali já deveria estar encharcada.
Então, ainda de modo cauteloso, desceu a mão pela lateral da cocha de , alcançando a barra do vestido e beijando-lhe quase de maneira casta no encontro do ombro com o pescoço, para então erguer o rosto e encará-la, seus olhos analisando as expressões da mocinha conforme deslizava o tecido do vestido para cima, descobrindo seus quadris e então a calcinha de seda rendada, fazendo ele mesmo uma expressão sofrida ao modo que desceu os olhos rapidamente para espiar o que o vestido havia revelado, deixando-o dobrado um pouco acima do umbigo da garota.
Riu fraco, antes de novamente erguer as íris castanhas, nubladas pelo tesão, e juntar seus olhares, descansando sua testa contra a dela.
- O que eu faço com você, ?
mordeu o lábio inferior em um sorriso tímido e, desviando os olhar dos glóbulos castanhos de para focar na camiseta branca que o cobria, desceu as mãos pelo seu peitoral, parando ao chegar na barra desta e, então, subindo o tecido pelo seu tronco, despindo-o e jogando a regata pro lado ao passá-la pela sua cabeça. não sorria mais, agora seus traços eram sérios, parecia nervoso enquanto esperava pelas "coordenadas" da menor.
Mas estava perdida demais nos desenhos que embelezavam o tronco do garoto para perceber a analise que fazia de suas reações a ele. Hesitante, levou seus dedos que coçavam para tocá-lo até as tatuagens, delineando os desenhos com delicadeza e apreciação enquanto a respiração intensa de fazia com que seu peito se movimentasse repetitivamente.
Tinham muitos - um leão, uma rosa, um diamante, uma silhueta feminina e algumas outras formas -, mas uma águia enorme e um violino angular chamaram a atenção da mocinha. Talvez depois tivesse a chance de perguntar se tinham significados ou se eram apenas desenhos aleatórios.
Mas não agora, não quando seu corpo ansiava pelo dele e precisava urgentemente dar um jeito nisso. Tinha muito a fazer, inclusive, responder a pergunta que ele havia feito.
Arqueou a sobrancelha previamente, voltando a ligar seu olhar ao dele, e subiu com as mãos pelo seu peitoral, enroscando as curvas dos cotovelos no seu pescoço, desenhando nos lábios avermelhados um sorriso arteiro.
- Bom... - soprou próximo dos lábios dele, fazendo-o estremecer. - Dependendo de quais são as suas intenções... Você pode fazer o que quiser comigo, .
Ele riu, parecendo aliviado, e prendeu um sorriso no canto dos lábios antes de sussurrar.
- Minhas intenções? - lambeu os lábios da garota, puxando o inferior levemente, antes de finalmente responder: - Elas são as piores possíveis.
sorriu abertamente, soando malditamente fofa para , que quis apertá-la, mas, bom... Somente depois de transar com ela até estarem os dois impossibilitados de andarem sobre os próprios pés, claro.
- Sendo assim... Você pode fazer o que quiser comigo, .

PARTE III

A primeira coisa na qual reparou ao recobrar sua consciência foi no odor característico de nicotina que infestava tudo em sua volta, então, ao abrir os olhos devagar para acostumar as retinas com a luz fraca provinda das persianas das cortinas, reconheceu seu quarto. Piscou algumas vezes com típica lentidão e se espreguiçou por entre os lençóis que a cobriam parcialmente, constatando, também, que estava sobre a sua cama.
Seus músculos doíam, percebeu ao esticar as pernas, principalmente na região interna dos joelhos e no interior das cochas.
Estava quebrada, pensou, começando a ter a mente invadida por lembranças da noite anterior. , seus beijos ironicamente quentes e molhados, seus olhos amendoados que brilhavam quando a tinham como foco, seu sorriso malicioso sempre presente, o toque preciso de suas mãos por toda a extensão do seu corpo, a forma como ele brincava com a sua sanidade, como se soubesse exatamente o que fazer para que ela perdesse as rédeas do seu próprio corpo e da sua mente... Tomando os dois para si sem aviso prévio. Apesar de que, mais uma vez destacando a ironia que parecia fazer parte das suas nuances, ele sempre parecia preocupado em agradá-la e deixá-la confortável na sua presença, fazendo perguntas através dos seus gestos cautelosos e tomando cuidado para não ofendê-la com qualquer atitude precipitada. Ele ouvia o que seu corpo tinha a dizer e entendia como ninguém, sabendo perfeitamente do que ela precisava e, melhor, o que ela queria. Sempre pronto para oferecer seja lá o que fosse.
É quase como se ele fizesse sexo não para o próprio prazer, mas para dar prazer a quem o acompanhasse nessa aventura imensurável. Quase. Porque ela também lembrava muito bem da maneira como ele pareceu se deliciar enquanto a tinha nas mãos, seus olhos nublados de puro tesão e sua respiração pesada enquanto passeava com os dedos pelas suas curvas, e como foi incapaz de controlar o próprio corpo ao não conseguir se impedir de chegar ao clímax antes dela sentir o orgasmo produzir espasmos por todo o seu corpo.
A verdade era que o garoto ao qual costumava jogar manifestos de repúdio era uma caixinha de surpresas.
Surpresas essas que ela estava adorando descobrir, pensou, sorrindo abobalhada e enfiando o rosto entre as mãos, envergonhada pela facilidade com que permitiu que ele entrasse na sua vida e derrubasse todas as paredes que ergueu para mantê-lo afastado.
Mas espera aí! Estava toda encantada, se permitindo ter pensamentos positivos sobre seu infortúnio particular, que nem se dera conta de um pequeno - nem tanto - detalhe. Afinal, onde estava o protagonista dos seus devaneios?
Se sentou na cama em um rompante, segurando o lençol contra os seios desnudos e procurando com os glóbulos verdes ansiosos por nos metros quadrados do quarto. Estava completamente descabelada e com os olhos levemente arregalados quando encontrou a figura masculina em pé, de frente para uma das janelas do cômodo de decoração feminina, vestida nos seus jeans surrados e brincando com um cigarro por entre os lábios finos e embranquecidos, segurando a pequena, mas gradativamente fatal, droga com o dedo indicador e médio, daquele jeito que, apesar de estar assinando seu atestado de óbito, se tornava malditamente sexy.
Ele, aparentemente, não percebeu que ela acordara, com o olhar distante para fora da janela e perdido nos próprios pensamentos. Seu tronco despido brilhava sob a luz do sol, deixando-o um tanto quanto celestial quando a mocinha, prendendo o lábio inferior preso entre os dentes, passeou com os olhos por aquela região embelezada pelos desenhos aleatórios.
Depois de alguns segundos praticamente secando o garoto, decidiu se aproximar, arrumando os lençóis ao redor do corpo e saindo da cama, procurando não fazer qualquer barulho que lhe denunciasse no processo. Passou as mãos pelos cabelos, tentando ajeitar os fios disformes, ao que se pôs em pé e, com passos silenciosos e inseguros, começou a cortar os poucos metros que os separavam.
não percebeu sua proximidade até que ela, com certa hesitação, colocou a mão que não prendia o lençol ao redor do seu corpo sobre o seu ombro, sentindo-a tremer ao entrar em contato com a pele fria do garoto, que, em um rompante, virou o rosto para trás, encontrando-a. sorriu amarelo quando sentiu os músculos do garoto ficarem tensos sob o toque de sua mão.
- Hey... - soprou, incerta, se colocando ao lado dele e deslizando sua mão pelo braço rígido até que ela caísse ao lado do seu corpo.
- Não vi que tinha acordado. - ele afastou o cigarro dos lábios somente para dizer, voltando os olhos para a vista fora da janela em seguida e não demorando a prender uma das pontas da droga no interior de sua boca novamente.
estranhou sua atitude, mas decidiu não fazer conclusões precipitadas.
- Eu nem sei que horas são. - falou, rindo levemente enquanto passeava com os olhos pelos traços inexpressivos do rosto dele, esperando por um sorriso de canto ou até um breve olhar na sua direção. Mas nada veio. - Ei, está tudo bem? - acabou perguntando, sentindo sua voz tremular enquanto o fazia. estava se parecendo muito com aquela versão arrogante e mal educada que ela detestava e que ele a fez esquecer da existência naquela madrugada, e tudo que ela não queria era descobrir que ele vestiu uma máscara apenas para conseguir um momento com ela e que poucas horas depois voltaria a desprezá-la tão facilmente, como se tudo que viveram não significasse nada.
Ele não respondeu sua pergunta logo de cara, deixando-a agonizar na sua própria ansiedade enquanto trocava o peso do corpo de um pé para o outro em um tique costumeiro e analisava seu rosto em busca de respostas.
Então ela o viu, mais uma vez, afastar o cigarro dos lábios pálidos, soprando a fumaça lânguida e lentamente para a janela, e depois desviar as íris castanhas para ela por um ou dois segundos, coçando o topo do nariz com a ponta do polegar, antes de devolver a pergunta com uma indiferença cortante:
- Por que não estaria?
abriu a boca, prestes a rebater a grosseria gratuita, mas acabou por balançar a cabeça em negação, desacreditada. Já sentia os olhos marejarem e teve que juntar forças para não permitir que nenhuma gotícula ousasse descer pelo seu rosto, evidenciando sua vulnerabilidade frente a frieza que ele reproduzia.
Por que ele está fazendo isso?, era o pensamento que passava por sua cabeça enquanto ainda insistia em desenhar seus traços com os olhos, em busca de qualquer resquício do garoto que conheceu nessa madrugada. Mas aparentemente o velho e prepotente estava de volta no seu lugar.
- Tudo bem. - suspirou, enfim, se afastando e dando as costas para ele para esconder a dor que sentiria ao pronunciar cada uma das próximas palavras. Mas ela não poderia fraquejar, não com . Não novamente. - Você pode pegar as suas roupas - disse. - Se quiser pode até tomar um banho, tanto faz... E ir embora. Eu não vou te obrigar a ficar aqui ou qualquer coisa do tipo que você esteja pensando. - andou pelo quarto, sentindo sua mão tremer ao que a ergueu até seu rosto para enxugar uma lágrima solitária que escapou sem que se desse conta. - Você podia ter nos poupado desse constrangimento se só tivesse pegado suas coisas e dado o fora antes que eu acordasse. Não iria fazer muita... - um baque alto fez com que a mocinha interrompesse seu monólogo abruptamente, engolindo o restante da frase no susto e dando meia volta para procurar pelo responsável pelo barulho.
estava encurvado e sua mão estava fechada em punho contra o vidro da sua janela, seus cabelos caiam na frente do seu rosto e sua respiração era intensa ao que seu tronco se movimentava a cada lufada de ar que ele colocava para fora.
pensou em se aproximar, mas a voz rouca dele ressonou por todo o cômodo, mantendo-a no seu lugar:
- Será que você não entende? - ele questionou, parecendo perturbado enquanto praticamente cuspia cada uma das palavras que proferiu. - Eu não posso fazer isso com você.
- Não pode fazer o quê? - indagou, aumentando a voz, irritada. - O que você está dizendo?
- Eu estou dizendo que não posso te arrastar pra minha vida. - ele gritou, virando-se pra ela com ira brilhando nos olhos castanhos e fazendo com que a mocinha desse passos incertos para trás, assustada. - Não assim. - soprou, contorcendo a face em uma careta sôfrega. - Isso não está certo.
- Me arrastar pra sua vida? - juntou as sobrancelhas. - Mas do que você tá falando? A gente só transou, eu não estou te pedindo em casamento!
riu sem humor.
- Não é tão simples. - balançou a cabeça. Então o entendimento chegou a , fazendo com que ela comprimisse os lábios em uma linha fina e retesasse os músculos do corpo em prévia.
- Você se arrependeu, não foi? - perguntou, retoricamente, sentindo o coração apertar no peito. Mas resistiu bravamente, não se deixando vacilar. - É por isso que está desse jeito! Não se preocupe, pode admitir, eu não vou morrer porque fui rejeitada por , o gótico revoltado. - esbravejou, com ironia respingando de cada uma das palavras, sem titubear no porte ereto ou permitir que seus olhos se desviassem do rosto de traços cansados dele quando o mesmo a encarou, para não permitir que em hipótese alguma fosse capaz de tomar conhecimento da fraqueza que lhe rompia.
- Eu poderia me arrepender de muitas coisas, . Mas nunca, nunca, do que aconteceu aqui nessa madrugada. Nunca de você. - relaxou os ombros, como se tirasse um grande peso deles, optando por ignorar a maneira grosseira e mesquinha com a qual ela se referiu a ele.
se sentiu mexida com estas palavras e ainda mais com a maneira como ele olhou para ela ao dizê-las, não permitindo que ela duvidasse da sinceridade contida em cada uma delas, nem do brilho que cintilava nos seus olhos.
- Então por que está agindo dessa forma? - inclinou levemente a cabeça para o lado, expondo seus questionamentos internos, seus dedos se contorciam em volta de partes do algodão do lençol. - Por que está tentando me afastar?
maneou a cabeça, parecendo não ter uma resposta plausível para a sua pergunta, e desceu os olhos para o chão, desconcertado, dando meia volta e parando próximo da janela, onde apagou a bituca do cigarro que ainda carregava por entre os dedos magros e onde deixou a droga, desistindo de usar da nicotina para se livrar da angústia que o assolava.
observava cada um dos seus movimentos com olhos atentos, percebendo cada mínimo detalhe de cada um deles. Mordia o lábio inferior com força em um tão perceptível sinal do nervosismo que dominava cada fibra do seu corpo e quando estava prestes a chegar à conclusão de que ele iria se fechar em seu casulo novamente, deixando-a sem respostas e sofregamente frustrada, viu ele levar a mão trêmula que há pouco segurava o cigarro até os cabelos negros, adicionando um toque a mais de desordem na bagunça charmosa que os moldava quando a arrastou por entre os fios, e então, ainda sem coragem o suficiente para focalizarem a garota que estava o desarmando tão drasticamente, confessou, em uma sopro de voz tão baixo que teve que levar o ouvido um pouco mais para frente para distinguir suas palavras:
- Eu não sei. - engoliu em seco, sua face se contorcia de maneira que a mocinha chegou a se preocupar com ele. Mas não tinha coragem para se aproximar, deixando, então, que ele continuasse a expor o que se passava por sua mente visivelmente conturbada. - Talvez... - soltou uma lufada de ar, parecendo sofrer miseravelmente para pôr em palavras seus mais profundos sentimentos. - Talvez eu só goste de estar sozinho, talvez... Afastar a todos seja uma necessidade incontrolável.
- Não... - suspirou, incapaz de se conter ao sentir sua respiração desregular ao que escutou as palavras do moreno, franzindo o cenho e ousando cortar um ou dois passos da distância que os separava. - Você não precisa ficar sozinho.
- Você não me conhece.
- Ninguém escolhe a solidão por boa vontade. - a loirinha rebateu, arriscando mais dois passos e se deixando aproximar quando não ouviu - ou viu - objeções da parte dele, passando a segurar o lençol que cobria seu corpo apenas com uma das mãos enquanto usara a outra para colocar uma mecha teimosa do cabelo para trás da orelha. - Eu não preciso conhecer você para saber disso. - levou a mesma mão para o rosto quadrado e de formato angular do maior, produzindo um choque elétrico com o contato de suas peles, quando chegou perto o suficiente do garoto para sentir sua respiração pesada contra o seu rosto.
- Você é uma maldita teimosa. - ele murmurou, ainda tenso, mas permitindo que seus lábios finos espremessem um sorriso quase imperceptível no canto de sua boca pálida.
- Esquece essa ideia idiota de erro ou de qualquer coisa que você esteja pensando sobre o que fizemos nessa madrugada, e me deixa cuidar um pouco de você. - sussurrou, doce, seus olhos nos dele e sua mão fazendo um carinho leve na lateral do seu rosto. - Me deixa te conhecer... Sem compromisso, hum? Se por um acaso esse for o seu medo. - rolou os olhos em órbitas teatralmente, divertida.
- Não é possível que você não esteja com medo de todos esses... sentimentos... - colocou sua mão sobre a dela, um pouco mais complacente.
- Pode ter certeza que eu estou tremendo por dentro. - arregalou os olhos para dar ênfase, rindo levemente em seguida e sendo prontamente acompanhada por um ainda pouco ranzinza. - Mas eu preciso saber... Eu preciso entender tudo isso. - suspirou fraco. - Ou eu vou explodir.
ficou alguns segundos em silêncio, preso nos próprios pensamentos, então assentiu, esboçando um sorriso fraco e puxando sua mão para depositar ali um beijo cálido que a fez aquecer por dentro, repleta de alívio e de satisfação.
- Tudo bem. - foi a única coisa que ele disse, puxando-a para seus braços em seguida e juntando seus lábios em um beijo doce e casto, sem segundas ou terceiras intenções. Quer dizer, ele tinha apenas uma, fazê-la entender tudo que sentia por ela através do toque dos seus lábios, já que dificilmente conseguiria colocar em palavras da maneira certa, como ela merecia.
E sentiu tudo que ele queria lhe mostrar, mergulhando naquele beijo com tudo que tinha, colocando no ato íntimo e prazeroso todos os sentimentos confusos e embrulhados que nutria pelo garoto.

PARTE IV

Estavam enroscados um no outro sobre a cama de há quase uma hora. Ela mesma não conseguia para de sorrir feito uma boba enquanto tinha a cabeça descansada sobre o peitoral do garoto e os dedos finos da sua mão esquerda embreados nos fios ralos de cabelo da sua nuca, brincando com a região em um carinho gostoso e funcionalmente, para ele, relaxante.
Não trocaram muitas palavras desde que, aos beijos, foram parar novamente em meio aos lençóis de algodão dela, mergulhando em mais um momento de profunda intimidade e de toques precisos que fizeram a mocinha revirar os olhos quando espasmos deliciosos começavam a tomar conta de toda a extensão do seu corpo.
Mais uma vez não puderam resistir aos seus impulsos mais primitivos. Nem mesmo , com sua recém hesitação, conseguiu refrear a necessidade de tê-la em seus braços mais uma vez, só para ter mais uma chance de provar do gosto doce dos seus lábios e para confundir sua sanidade, transformando-a em resquícios da uma razão que fora tomada pelo desejo que corria por suas veias como o sangue drenado pelo seu coração, que batia dentro do peito desenfreado, como se quisesse avisar a ela que havia muito mais do que vil tesão naquela relação breve, não consumada e drasticamente inconstante.
estava arrebatada por esses diversos sentimentos e sensações desconhecidas, mas o que, de fato, a preocupava, era como se sentia bem em meio aos abraços firmes do moreno, como simples e estranhamente parecia certo estar ali com ele, como poderia ficar ali o dia inteiro e, provavelmente, nem se daria conta de que o tempo estivera passando.
Perdera a batalha para a resistência por W.O., não havia como voltar atrás. E se houvesse, dificilmente voltaria.
— Um dólar pelos seus pensamentos. — a voz de , levemente rouca pelo desuso, chegou até os seus ouvidos em um sopro de ar reconfortante e melodioso, fazendo com que ela se remexesse sobre ele, subindo mais o corpo para poder encará-lo frente a frente.
Esticou os lábios em um sorriso tímido enquanto suas íris verdes passeavam pelos traços do rosto masculino, se demorando um pouco mais nos lábios ocasionalmente avermelhados; sua mente trabalhando em uma resposta para a pergunta que ele fizera, sem pretensão de falar a verdade, afinal, não admitiria tão facilmente toda a confusão que havia se apossado de sua cabeça e do seu coração, já não bastava como se fizera fácil para o arrebatamento que ele lhe impôs tão graciosamente.
— Estava pensando em como nunca havia reparado no quanto você é bonito. — respondeu, enfim, usufruindo de uma verdade para inibir a mentira inocente e se sentindo plenamente satisfeita ao arrancar dele um sorrisinho constrangido, sua face ganhando alguns tons de vermelho na região das bochechas.
Por que, repentinamente, parecia saído de uma capa da GQ Magazine?, se perguntou, julgando-o adoravelmente sexy em sua versão envergonhada.
— Não se engane, você reparou. — ele falou, voltando para a sua pose indiferente, os rastros do lapso de timidez sumindo gradativamente enquanto ele transmutava o sorriso encabulado em um sorriso arrogantemente debochado. — Só não queria admitir — continuou — e estava ocupada demais misturando sua saliva a do Scott pelos corredores. — revirou os olhos, contorcendo a face em um careta emburrada.
entreabriu os lábios, ultrajada.
— Eu não sei o que mais me perturba nessa sua frase. — disse. — Se sua prepotência sufocante ou se essa cisma ridícula que você tem com o Scott.
— Sou apenas um reles constatador de fatos. — ele deu de ombros, apertando sua cintura com os braços levemente. — E, por um acaso, seu namoradinho sabe que você sempre quis trocar saliva com o cara que ele mais odeia? — perguntou, arqueando uma das sobrancelhas grossas e escuras, comicamente cético.
rolou os olhos em órbitas.
— Ele não te odeia. — esclareceu, fazendo o garoto desenhar um sorriso convencido nos lábios, satisfeito pela resposta conveniente que ela lhe deu. Ela piscou algumas vezes, confusa, procurando na própria mente o motivo para aquele sorrisinho prepotente que ele aderiu, até que, aos poucos, relembrando as exatas palavras que compuseram sua pergunta, crispou os lábios em uma linha fina, entendendo seu joguinho chulo. — Idiota. — ainda resmungou, arrancando dele uma risadinha divertida e sentindo o próprio rosto esquentar pelo deslize que cometera, mas se recompondo rapidamente para continuar a falar: — E ele não é meu namorado também.
— Ah, não? — ele perguntou, desconfiado, ainda com resquícios de riso na voz, analisando-a clinicamente.
— Não. — enfatizou. — A gente só... se diverte às vezes. — explicou, desconcertada, desviando os olhos do seu olhar curioso para seu peito, começando a fazer desenhos abstratos por cima das tatuagens que o compunham.
— Ontem você me disse que nunca transou com ele. — ele logo soltou, drasticamente direto – ou somente ridiculamente ansioso, pegando-a de surpresa.
Engoliu em seco, sentindo os lábios tremerem ao falar:
— Eu... sim, falei...
— E era verdade? — ele insistiu, com o olhar incisivo sobre sua face tensa.
suspirou, começando a se sentir incomodada e exposta com todas essas indagações, mas, ainda assim, respondeu:
— Sim, era. — balançou levemente a cabeça, voltando a conectar seu olhar ao dele, prendendo o lábio inferior com os dentes, nervosa. — Nós nunca chegamos aos... finalmentes.
— Mas então já passaram pelas preliminares?
! — exclamou, exaltada, erguendo as sobrancelhas de maneira enfática, finalmente desistindo de ter que lidar com aquela tonelada de perguntas inconvenientes que ele jogava sobre ela. — Eu não vou contar a toda a minha vida sexual pra você.
pareceu prestes a rebatê-la, mas se conteve em um suspiro, comprimindo os lábios de maneira tensa e acabando por assentir pomposamente em concordância.
— Desculpe... Isso foi invasivo.
— Me sinto impossibilitada de discordar. — disse , chateada, praguejando baixinho quando sentiu seus músculos reclamarem ao que apoiou as mãos no peitoral do garoto e fez esforço para se sentar, puxando um pouco de lençol para cobrir sua nudez e suspirando fracamente ao sentir as mãos dele se desfazerem do contato com sua pele.
Um silêncio incômodo predominou por longos e agonizantes aproximados dois minutos, onde juntou as pernas ao corpo, colando o início das cochas nos seios cobertos pelo lençol branco, e apoiou o queixo nos joelhos, abraçando as pernas em uma posição curvada; por sua vez apenas colocou o braço direito para trás da cabeça, apoiando-se nele enquanto esquentava a lateral do rosto da menor sob o seu olhar, parecendo analisá-la ao que se perdia em pensamentos.
Ela pôde escutar a sua respiração pesada antes que sua voz chegasse a sua audição de maneira cautelosa, mas suficientemente certeira:
— Meu pai não foi embora. — foram as palavras que retesaram todos os músculos de conforme ela as processou, seu coração entrando em disparada e seus ouvidos se apurando. — Todos pensam que... Assim como ela – sentiu a voz dele embargar quase imperceptivelmente ao citar indiretamente a mulher que o havia deixado –, ele juntou suas coisas e sumiu pelo mundo sem me dar explicações. Para essas pessoas, ele foi ainda mais cruel e desumano do que ela, mas eles não sabem de nada. Meu pai não foi cruel ou mesquinho... Ou irresponsável... Ele só foi fraco demais para aceitar perdê-la. Ele a amava tanto... Eu não posso julgá-lo, ninguém pode. Não quando facilmente faríamos o mesmo se estivéssemos no seu lugar... — inspirou profundamente, somente para, em seguida, soltar uma lufada com o ar que engolira. — Não quando tirar a própria vida deve parecer tão banal perto do completo desespero em que você se encontra.
engoliu em seco ao ouvir aquela última sentença, sem conseguir acreditar no que sua mente havia entendido das palavras que a formavam. Seu pai... Seu pai havia se matado?
Virou o rosto para ele, encontrando-o com o olhar sobre ela, mas parecendo distante. Com traços sôfregos na face pálida enquanto parecia revivenciar memórias dolorosas demais para que fosse saudável fazê-lo. Seu coração se quebrou em mil pedaços enquanto ela sentia a vista embaçar, turvando e fragmentando aquela imagem tão pequena e vulnerável do garoto.
... — soprou, incerta, se aproximando para levar uma das mãos ao seu rosto, sentindo ele estremecer sob seu toque sutil. — Eu sinto muito... Eu não sabia.
Ele balançou a cabeça.
— Não se preocupe, eu só... — riu de modo forçado. — Eu nem sei por que estou dizendo isso pra você. Eu nem devia...
— Ei. — sussurrou, aproximando seu rosto do dele para olhar bem dentro das suas profundas e, naquele momento, obscuras íris castanhas. — Não precisa sentir vergonha.
— Eu não...
— Nem receio. – o interrompeu, docemente, umedecendo os lábios antes de continuar. — Você pode falar sobre isso comigo se quiser... Se não tudo bem, mas não precisa guardar pra si o que te machuca. Vai doer menos se você dividir com alguém. — arqueou a sobrancelha languidamente delineada, sugestiva, sentindo ele roçar levemente o rosto contra a sua mão enquanto fechava os olhos por um momento, suspirando pesadamente em seguida.
— Aconteceu dois meses depois que minha mãe nos deixou... — recomeçou, fazendo sorrir levemente, encorajando-o. — Quero dizer... Foi gradativo. A cada dia ele parecia se afundar um pouco mais no poder anestésico e amnésico do álcool, e na própria desgraça, me levando junto com ele sem perceber. Eu nem tinha feito 12 anos quando começaram os boatos de que ele foi embora. — a menina assentiu ao se lembrar do que escutara pelos corredores da escola na época, impulsionando-o a continuar. — Quando as coisas começaram a desandar eu era só um menino que não sabia do paradeiro da mãe. Mas aparentemente não existe ferida que não possa ser agravada. Eu já estava mal o suficiente, mas não parecia o bastante pro mundo. Naquela sexta-feira... Quando eu voltava de uma festa qualquer, encontrei meu pai no porão... Pendurado pelo pescoço em uma corda... Sem vida... — sentiu os olhos arderem conforme o choro prendeu na sua garganta ao que ela viu espremer os lábios finos um no outro com força, provavelmente tentando avidamente segurar o próprio choro. — E tinha uma cadeira caída no chão em baixo dele. Eu... — ele apertou os olhos, deixando que uma mísera lágrima caísse por sua bochecha, revelando seu transtorno. logo tratou de secá-la com o polegar, sentindo o coração apertar dentro do peito. — Eu sequer chorei, eu não tinha mais forças para entrar em desespero... Eu já estava definhando por conta própria.
— Oh, ... Eu sinto tanto. — sussurrou contra seus lábios trêmulos, beijando-o levemente antes de puxá-lo para dentro dos seus braços finos, apertando-o contra seu tronco, tentando confortá-lo, quando ele se deixou levar e enfiou o rosto na curva do seu pescoço, enrolando os braços na sua cintura. — Eu não sei o que dizer... Eu fui tão idiota... Usando disso para ofendê-lo e diminuí-lo por todos esses anos. Eu sinto muito, .
— Não seja boba. — ele disse depois de alguns segundos, erguendo o rosto para olhar para ela, os fios escuros de cabelo caindo sobre a testa e a ponta do nariz avermelhada, assim como seus olhos. — Não precisa de tanto.
Ela balançou a cabeça em discordância, passando as mãos pelo seu rosto com preocupação, em um carinho reconfortante.
— Claro que precisa, eu fui uma grande idiota com você. Todos foram.
Ele suspirou com pesar.
— Não lhe contei a verdade para que sinta pena de mim, . — falou, duro, afastando as mãos da mocinha do seu rosto. — Só para que entenda que eu ainda tenho em mim os resquícios daquele garoto franzino e traumatizado, e que às vezes eu posso cobrar muito das pessoas. Por isso não posso permitir que se aproximem, eu não sou uma boa companhia pra ninguém. Os fantasmas do passado ainda me perseguem e eu não uso dos melhores métodos para me livrar deles.
— Eu não estou com pena de você. — ela retrucou, rapidamente. — Eu só... Eu só quero ajudar. Esses fantasmas... Você precisa tratar esse trauma.
Essas palavras tão inocentes e bem intencionadas pareceram acender a ira adormecida em , servindo de estopim para mais um caos que se armaria em volta deles.
— Está vendo? — ele vociferou quando se levantou da cama em um rompante, assustando a mocinha e deixando-a sem reação enquanto observava ele andar pelo quarto, parecendo desnorteado. — Eu não estou pedindo conselhos. A última coisa que pretendo fazer na vida é me enfiar no consultório de um psiquiatra, ou seja lá o que for, que acha que sabe como eu devo cuidar dos meus próprios problemas.
... — ela ainda sussurrou, saindo da cama com um montante de tecido e tentando se aproximar do garoto, mas ele ergueu a mão no ar, em um pedido mudo para que ela mantivesse distância.
— Eu não sou garoto pra você, . — sentenciou, convicto, voltando a encará-la, dessa vez com seriedade, seu maxilar travado. — Precisa entender isso de uma vez por todas. Você não vai conseguir me salvar ou qualquer baboseira desse tipo que deve está acreditando. Eu sou esse cara quebrado e potencialmente tóxico, não vou mudar, não se iluda com falsas esperanças. Não espere de mim algo que eu não posso oferecer.
, respirando por entre os lábios, desceu os olhos para o chão, incapaz de devolver as suas acusações ou rebater suas palavras definitivas, pois a verdade contida em cada uma delas a atingiu em um baque imobilizador, deixando-a envergonhada e sem jeito de frente para um enraivecido. Ela sabia que em todos os pequenos momentos que seus glóbulos verdes se pegaram analisando-o por aquelas últimas horas, carregavam neles muita esperança, expectativas que, no fundo, tinha consciência de que não seriam alcançadas.
Ela queria acreditar que podia salvá-lo dos seus fantasmas, do seu passado traumatizante e da sua necessidade de esquecer dos problemas através do uso excessivo de drogas ilícitas. Acreditava que poderia, com o tempo, transformá-lo na melhor versão de si mesmo, alguém feliz, com um desejo real de futuro, alguém que ela gostaria de ter por perto.
Mas a maneira como cortou as asas da sua imaginação, fazendo-a cair de maneira brusca na realidade fria e desconfortável, não deixou mais brecha para que colocasse fé em algo incerto e pouco provável.
Ela não conseguiria curá-lo, pelo menos era nisso que o garoto tentava fazê-la acreditar. Que não havia mais jeito para ele, que nada, nem ninguém, seria capaz de tirá-lo daquela vida miserável que escolhera para si, que usava para fugir do peso do passado que carregava nas costas magras.
Em meio a um suspiro quase conformado, voltou a erguer os olhos, procurando pelo moreno e encontrando-o com seus tênis e regata em mãos, olhando para ela com certa aflição, seu peito subindo e descendo conforme sua respiração pesada oscilava. Ela trocou o peso do corpo de um pé para outro, sentindo as pernas tremerem, como se fossem vacilar a qualquer momento na frente dele.
— Eu... — limpou a garganta quando sua voz saiu enrouquecida, apertando os olhos e pedindo forças a qualquer entidade sagrada que pudesse ajudá-la. — Nós podemos conversar, sim? Você está sendo precipitado. — sua voz saía calma, melodiosa, como se falasse com uma criança e precisasse fazer-se entendível. — Não precisa ser tão...
— Não. — ele a interrompeu, balançando a cabeça, repreensor. Ela o viu engolir em seco quando desceu os olhos para o chão, parecendo fugir do seu olhar.
... — sua voz tremeu ao repetir o chamado fraco. Deu um passo a frente, mas ele recuou logo em seguida, retesado.
— Eu sinto muito por isso, . — ainda encarava covardemente o chão quando falou. — Mas eu tenho que ir.
Então, sem se despedir, lhe deu as costas e sumiu pela porta do seu quarto. Deixando sozinha com o barulho irregular dos seus batimentos cardíacos, que pareciam a ponto de romper seu tórax e rasgar sua carne, pulando para fora do seu corpo, e com as rajadas frias de vento que invadiam o quarto pela janela.
Não se preocupou em enxugar a lágrima que brotou dos seus olhos, escorrendo melancolicamente por uma de suas bochechas, afinal, não tinha mais ninguém ali para vê-la.

PARTE V

já estava fatidicamente acostumada com a falta de discrição dos alunos do colégio North High, que sempre pareciam interessados em vigiar seus passos, mesmo quando ela fazia a mais banal das coisas, como andar pelo pátio aberto do colégio dentro do seu uniforme justo de líder de torcida, com os cabelos soltos batendo na altura da cintura fina, apertando as alças da sua mochila entre os dedos finos de unhas longas e vermelhas. Por isso, não se preocupava em lhes enviar olhares duros e ameaçadores, deixando claro seu desconforto em ser o centro das atenções, pois ele não existia mais, diferentemente de anos atrás, quando eles conseguiam irritá-la deveras com essa mania estranha. Hoje, ter cada um dos seus mais reles movimentos detalhadamente monitorados por aqueles desocupados, era somente mais uma parte insignificante do seu dia, tinha outras preocupações; naquela manhã de segunda-feira, então, tinha outros objetivos, ou melhor, outro objetivo, um objeto problemático, de mãos perigosamente ardilosas e de tronco tatuado, que derrubou todas as suas muralhas apenas com palavras certas e toques precisos. Teria ferido o seu orgulho, se ela ainda o tivesse, o maldito havia deixado-a tão a mercê das suas nuances pecaminosas, que nem se lembrava do significado da palavrinha burocrática.
Quando acordou naquela manhã, com uma ressaca moral ilícita e com o coração recém quebrado ainda trabalhando para juntar os caquinhos, enquanto encarava o teto branco do seu quarto e se perdia em lembranças dolorosas, decidiu que não poderia deixar as coisas como elas estavam e que precisava conversar com o responsável pela estreia da sua versão mais amargurada, pelo definhar do seu final de sábado e do tom melancólico que dominou o seu domingo.
Caminhava determinada por entre os rostos conhecidos, não se dando ao trabalho de devolver alguns sorrisos artificialmente simpáticos que recebia no percurso, não estava com tempo para falsas cortesias. Seus glóbulos verdes procuravam por uma única pessoa no meio da multidão, aflitos enquanto seu coração reverberava contra seu peito em batidas fortes e ansiosas, e seu lábio inferior já estava avermelhado por entre os seus dentes, que o mordiscavam sem pena da pele sensível daquela região.
Se há menos de uma semana atrás, alguém dissesse para que ela estaria prestes a entrar em desespero enquanto procurava pelo gótico trevoso de nome pelas dependências movimentadas do North High, ela provavelmente cuspiria seu energético na cara dessa pessoa e se romperia em uma gargalhada infinita e debochada. Mas agora estava ali, tropeçando em ombros dispersos enquanto passeava com os olhos pelo mar de estudantes, simplesmente porque precisava vê-lo novamente, ter alguns minutos para lhe falar o que tinha preso na garganta desde que ele saíra de maneira ressentida e descontrolada de sua casa no sábado. A forma como ele sumira pela porta do seu quarto ainda martelava na sua cabeça e machucava seu coração sentido, queria escutá-lo e ser escutada, esclarecer as coisas, mesmo que fosse somente, para no final, terminarem indo cada um para o seu lado.
Suspirou profundamente, parando no meio de um dos corredores, sua visão caindo para o chão de maneira exausta e sua cabeça doendo em um zumbido infernal.
Colocou a mente para trabalhar em busca de uma mínima lembrança que fosse que pudesse ajudá-la a ter ideia de onde o garoto costumava se esconder quando não estava tirando-a do sério ou se metendo em encrencas com os brutamontes do time de futebol.
Então, em um brilhante lapso, como se uma lâmpada animada se acendesse sobre a sua cabeça, foi tomada por uma recordação bastante conveniente que fez com que desse meia volta e retomasse parte do caminho que havia feito, pegando o rumo do esquecido banheiro masculino da antiga área de ciências biológicas, onde, por diversas vezes, viu o garoto ir, provavelmente para se livrar dos olhares julgadores dos outros alunos e poder se envenenar com suas drogas ilícitas.
A mocinha passou por um longo e silencioso corredor quando chegou à área negligenciada, onde pouquíssimos alunos eram encontrados, guardados na ocasional privacidade oferecida pelo lugar, fumando seus cigarros ou lendo seus livros. observara tudo com curiosidade, reconhecendo vagamente alguns rostos e tentando não transparecer seu receio quando algum deles se erguiam em sua direção, apenas para se contorcerem em caretas de evidente desgosto e desaprovação. Ela entendia as reações infelizes, aquele era o território proibido. Nem todos eram bem-vindos naquele corredor. Definitivamente, os que ali estavam, se perguntariam o que a aluna pródiga do North High fazia pelas redondezas e, pior, não gostariam nada da sua presença.
Tentou não passar muito tempo encarando ninguém, se preocupando apenas em não errar os passos pouco firmes e inseguros que desenvolvia e em manter a vista em um ponto fixo à sua frente, no caso, na porta branca de laterais desgastadas, onde partes da madeira se tornavam visíveis, do banheiro masculino, onde esperava encontrar o que procurava. Ou melhor, quem procurava.
A porta estava entreaberta, constatou ao alcançá-la. Estava tão ansiosa para descobrir se ela escondia em seus metros quadrados, que nem ousou parar para regular a respiração entrecortada ou para tentar controlar a tremedeira nas suas pernas, logo estava tocando levemente na madeira suja com as pontas dos dedos e empurrando-a para que se abrisse, ouvindo um ranger característico vindo dela ao que o banheiro, de aparência tão caótica quando o resto do corredor, lhe era revelado.
Hesitante, e incomodada com o odor que alcançou insolentemente suas narinas sensíveis, se pôs para dentro do cubículo em um passo lento e silencioso, procurando não alertar qualquer pessoa que estivesse ali de sua presença, mesmo que essa fosse . Queria surpreendê-lo, cortando suas chances de escapatória.
Quando passou pela porta, trazendo a mão que a empurrara para perto do seu corpo, sentiu todas as suas terminações nervosas se agitarem em apreciação e seu coração disparar com o que encontrou do outro lado, tornando seus batimentos cardíacos quase gritantes em meio ao silêncio melancólico que dominava aquele ambiente de estrutura precária.
estava de frente para o espelho de comprimento longo, mas não encarava seu reflexo, sua cabeça pendia para frente, deixando seus cabelos negros caídos na frente do rosto, e suas mãos apertavam com força o mármore da pia, embranquecendo as pontas dos seus dedos. Estava sem camisa, deixando a mercê dos glóbulos ousados de todas as tatuagens que decoravam harmoniosamente suas costas pálidas e de poucos músculos. A mocinha ofegou enquanto descia a visão pelos desenhos que compunham aquela região tão bela do corpo masculino, sentindo os dedos coçarem para tocá-los e levando-os para a barra do vestido que usava, apertando o tecido grosso com afinco para tentar controlar o impulso que corria em suas veias de simplesmente se lançar sobre o garoto e reviver todas as sensações que ele lhe proporcionara e ainda estavam tão vivas em sua memória, torturando-a drástica e esporadicamente.
Ele não havia notado sua presença enquanto parecia estar travando uma batalha interna, sua respiração pesada movimentando seus ombros em espaços de tempo sequenciados. não conseguia tirar os olhos de sua figura enquanto procurava algo para falar e se fazer notada, mas nada vinha em mente, nada além da curiosidade sobre os símbolos que o garoto tinha espalhados pelo corpo.
Talvez...
Talvez só devesse, então, expor o que tanto a intrigava.
- Eu sempre me perguntei se elas tinham algum significado. - foram as palavras que se desenrolaram por sua língua delicadamente, resultado do medo que tinha de todas as potenciais reações do garoto, mas, para a sua surpresa, não houve uma grande explosão, sequer um movimento brusco em sua direção.
Na verdade, conforme sua voz doce e melodiosa ressonou pelas paredes amareladas do banheiro, viu os músculos das costas do garoto se contraírem e então, como num deslize descomedido, sua respiração falhar, como se somente ela já fosse o suficiente para desestabilizado.
gostava muito da ideia, mas estava tensa demais para seguir aquela linha de pensamento, mesmo que sua mente trabalhasse para ler as reações do moreno, aquela linha era perigosamente tênue àquela que envolvia seus mais profundos e particulares sentimentos, e aquele momento ainda não era o propício para cometer sincericídio ou simplesmente se expor tão explicitamente.
- Eu imagino que você não esteja confortável com a minha presença. - falou, voltando a pressionar as alças da mochila que pesava em suas costas com as mãos rígidas, suas íris verdes analisando atenciosamente cada movimento respiratório que o garoto fazia. Seus dedinhos se contorciam dentro dos tênis que calçavam seus pés enquanto ela drenava ar para seus pulmões fracamente, torcendo para que suas pernas trêmulas não vacilassem e terminassem por levá-la de encontro ao chão gorduroso do lugar. - Mas eu precisava falar com você.
O corpo tensionado de não reagiu às suas palavras, fazendo-a voltar a maltratar o lábio inferior com aflição, ponderando se deveria ou não arriscar tudo e se aproximar. Contudo, não foi preciso juntar coragem para o feito, pois o garoto, sem mover um músculo ou virar o rosto em sua direção, fez-se ouvido em todo o pequeno, e pouco iluminado por pequenos vãos, ressinto:
- Você não deveria estar aqui.
precisou de alguns segundos para digerir suas palavras, não esperava ouvir sua voz tão cedo. Na verdade, quando não estava considerando que ficaria minutos a fio em um monólogo solitário, só conseguia imaginar ele segurando seus pulsos com força descomunal e jogando-a para fora do banheiro fedorento. Mas ele não o fez e ela só conseguia pensar que estava se esforçando muito para isso, para não destratá-la.
Sorriu levemente, sentindo-se um pouco mais à vontade e consideravelmente aliviada, ainda que sua respiração ainda fosse ruidosa e seu crânio ainda latejasse em uma dor incômoda.
- Bom... - olhou para os lados, visualizando as paredes amareladas e de pintura ressecada que os rondavam e contorcendo o rosto levemente maquiado em uma careta enojada. - Provavelmente. Mas eu precisava encontrá-lo e esse lugar pareceu conveniente.
suspirou pesadamente, parecendo exausto com a insistência da garota, e, então, finalmente, ergueu seu rosto, buscando por sua figura encolhida através do reflexo do espelho embaçado e permitindo que ela visse, através do mesmo, seus olhos estranhamente avermelhados, que agora a focalizavam, e seus lábios ainda mais empalidecidos que o normal. Sua aparência estava adoecida e juntou as sobrancelhas com preocupação, e um pouco de susto, ao constatar isso, dando dois passos para frente, mas se contendo quando ele estreitou os olhos de maneira repreensora para ela, em uma ordem muda de que não se aproximasse.
- ... - soprou, completamente confusa, passeando nervosamente com os olhos pela face límpida do garoto em busca de algo que esclarecesse os motivos para aqueles traços precários que ele carregava. - O que aconteceu com você?
- Eu agradeceria se você fosse direto ao ponto. - ele ignorou sua pergunta, parecendo exausto enquanto mantinha o contato visual com a garota pelo reflexo turvo do espelho.
- Eu andei pensando em tudo que você falou... - enfim, começou, consciente de que ele não lhe daria uma resposta para a pergunta invasiva que fizera - e da qual, no fundo, ela sabia qual era, mas sem conseguir disfarçar o quanto aquela imagem sôfrega e frágil do garoto a desestabilizava. - E cheguei à conclusão de que nós precisamos ter uma conversa mais calma.
- Acredito que já fizemos isso suficientemente.
- Desculpe, mas a maneira como você me jogou todas aquelas acusações e depois sumiu pela porta do meu quarto não me pareceu suficiente. - rebateu, prontamente, respirando profundamente para não deixar que as memórias daquele fatídico momento a afetasse ou, mais uma vez, o que era pra ser uma conversa civilizada, terminaria em um verdadeiro caos de tamanho sem precedente.
- Eu fiz o que precisava fazer.
não soube o que dizer em resposta àquelas palavras, contendo-se em um silêncio confortante para o garoto enquanto pensava sobre sua afirmação. Ela o entendia, no final das contas. Infelizmente, depois de passar tantas horas dos seus sábado e domingo perdida em uma análise minuciosa daquela breve trama em que se envolvera, sabia exatamente o que fazia o garoto relutar - hesitar, em aceitar a sua aproximação ou o seu interesse nele, ainda que também sentisse algo por ela - como ela sabia que ele sentia. tinha medo de que suas vidas fossem opostas demais para que pudessem se interligar em qualquer contexto, por mais desejado que isso fosse. A física explica a atração entre opostos, mas onde estava Coulomb para explicar como poderiam conviver um com o outro, sem que se quebrassem no processo, sem as perdas que poderiam acarretar um no outro, sem a carga de estar sempre pronto para se deixar de lado em pró do outro. A mocinha sabia como o garoto à sua frente via aquele potencial futuro, como algo incerto e repleto de curvas demasiadamente sinuosas, que assim como em estradas obscuras, poderiam acarretar desastres grandiosos demais para que pudessem lidar, ainda que conseguissem resistir. Agora, ela também o via, e sabia que era forte para enfrentá-lo, mas não, mesmo quando ela se oferecia para segurar sua mão, para ele, a caminhada era árdua demais, ainda que ela tivesse força pelos dois, ele precisava de coragem, e, esse aspecto, não era uma das maiores qualidades da mocinha.
No final, ele não queria tentar, e ela não podia fazer nada para mudar isso, por mais que tenha ido até ali com um resquício de esperança de as coisas pudessem funcionar para os dois.
- Você realmente acha que não tem jeito pra gente, não é? - acabou por perguntar, seus glóbulos verdes interligados aos olhos acastanhados dele.
suspirou pesadamente, parecendo afetado pela pergunta, e crispou os lábios em uma linha fina. Mas em nenhum momento deixou de encará-la.
- Eu sei que não. E, no fundo, você também sabe.
- Eu não sei de nada. - murmurou, teimosa, fazendo com que, em um gesto curioso, para ela, e incontrolável, para ele, os lábios pálidos dele decorassem sua face angular em um sorrisinho quase imperceptível.
- Você é a coisa mais linda, . - ele elogiou, se aproximando alguns passos. - Tem esses enormes olhos verdes que sempre dizem o que você tenta esconder, esse nariz arrebitado que combina com essa pose autoritária que me tira do sério, tem esses lábios vermelhos que conseguem quebrar a barreira do absurdo quando formam um sorriso. Você é perfeita. - mordeu o lábio inferior, charmoso, juntando seus corpos e levando a mão direita para a pele alva do rosto da menor, que suspirou e fechou os olhos, embriagada pelo aroma amadeirado do seu perfume misturado ao odor do tabaco proferido pelos seus lábios enquanto ele falava e acalentada pelo calor que emanava do seu corpo. - Perfeita demais para alguém como eu. demais para um maldito melancólico e derrotado como eu. - enfiou a mão pelos cabelos da sua nuca, embreando os dedos grossos e ásperos por entre seus fios sedosamente louros, pressionando sua nuca de forma que ela erguesse o rosto para ele. não abriu os olhos quando o sentiu aproximar o rosto do seu, esperando pelo beijo que não veio. somente brincou com as pontas dos seus narizes, inspirando o cheiro doce provindo da pele da garota para suas narinas.
- E se eu quiser alguém imperfeito? - ela perguntou, ainda de olhos fechados, enquanto se deliciava com seu carinho tão sutil. - E se eu só quiser um maldito derrotado e melancólico? Eu se eu for o suficiente para fazê-lo feliz?
riu com sua insistência.
- Então ele seria um maldito sortudo. - brincou, afastando-se um pouco para delinear os seus traços femininos com os olhos. - Mas as coisas não são tão simples. Ele já está quebrado em pedaços pequenos demais para que qualquer um consiga juntá-los.
- Mas eu não sou qualquer uma. - ela abriu os olhos, encontrando suas íris amendoadas, ao dizer.
Mais uma risada rouca e uma lufada embebida de tabaco lhe inebriou.
- Não. - maneou a cabeça levemente. - Não é. Mas as coisas continuam não sendo tão simples.
- Eu não vou conseguir te fazer mudar de ideia, não é? - indagou, ressentida.
- Não. - ele suspirou, depois de alguns segundos, tensionado.
- Então nós merecemos ao menos uma despedida. - sentenciou, por fim, se inclinando na ponta dos pés e, novamente, tocando seu nariz no dele, sentindo o mínimo contato enviar correntes elétricas para todo o seu corpo. O beijo não demorou a acontecer, afinal, ela não era a única em busca dele ali, mas foi aos poucos, em movimentos precisamente calculados e em vista de um futuro ironicamente certo, que peças de roupas foram sumindo e partes de pele foram aparecendo.
havia aceitado e entendido cada palavra do garoto, mas seu corpo era livre demais para desistir de provar ao dele que aquela combinação poderia fazer efeito, que aquela mistura que a química julgaria heterogênea, poderia se homogeneizar gradualmente, embalada por sentimentos controversos, mas profundos e indiscutivelmente sinceros.
Talvez, no fim, conseguisse convencê-lo, talvez não.
Talvez demorasse agonizantemente para que ele parasse de resistir aos sentimentos que lhe tomavam brutalmente, talvez não.
Mas realmente não se importava em quanto do seu tempo precisaria usar, afinal, é como dizem: "a pressa é inimiga da perfeição."


Fim

Nota da Autora: Oi, gente! Eu, definitivamente, não sei trabalhar com notas. Por isso, me limito a dizer um muito obrigada a quem se aventurar a ler esse conto sem pé nem cabeça (quê?) e pedir para deixarem um feedback para a moça aqui se tiverem aprovado a leitura.
Um beijo! ^^
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Nota da Beta: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA EU NÃO AGUENTO ESSES DOIS :( Ai gente, melhor casal. Queria que essa fic durasse pra sempre. Enrolei tanto pra betar o fim, mas ele precisou acontecer. Infelizmente. Amei cada pedacinho dessa fanfic, foi uma honra betar essa preciosidade <3
Qualquer erro é só me comunicar por email.