Last Fragments

Autora: Luisa Mendes | Beta: Ste Pacheco

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Capítulo 1

MEUS PENSAMENTOS ESTAVAM a mil enquanto eu via pequenos pontinhos luminosos quando olhava pela janela do avião. Famílias, histórias e vidas que tinham todo um caminho pela frente, mesmo que fossem marcados por tragédias e desilusões.
Eventualmente, todos nós presenciaremos uma tragédia, seja conosco ou com as pessoas que convivemos, isso é um fato.
Perder os pais sem sombra de dúvidas é uma coisa dolorosa e que te marca de maneiras inimagináveis. Acordar todos os dias e não os encontrar à mesa enquanto preparam o seu café da manhã ou até mesmo nunca mais praticar violino, pois este simples instrumento vem carregado com memórias de uma época boa que nunca mais voltará, dói bastante.
Você vê sua vida desmoronando perante seus olhos. Tudo aquilo que antigamente lhe causava alegria ou qualquer sentimento semelhante a este, não passa de um mero borrão enquanto os dias, meses e anos se arrastam diante de você.
Com o tempo, fingir se torna sua válvula de escape, sorrir para as pessoas quando elas te perguntam se está tudo bem mesmo tendo a plena consciência de que nada está bem e que nunca mais estará se torna um hábito.
Falar a verdade agora parece uma opção inalcançável quando já se está tão acostumada a dizer o que as pessoas querem ouvir.
Você se obriga a continuar vivendo, não porque quer, mas porque precisa.
Até que um dia você descobre que ainda existe algo que pode compensar todos os seus erros ou que pode transformar tudo em um pesadelo caso você falhe.
E, mais uma vez, você está disposto a tentar fazer as coisas darem certo, não importando o que aconteça, nem quem se machuque no processo porque falhar não é uma opção.
Eu precisava de respostas.

Fui despertada de meu breve cochilo pela voz do piloto, que soava pelos alto-falantes anunciando que logo pousaríamos e alertando também que colocássemos os cintos. O frio na barriga foi quase inevitável quando o avião entrou em contato com a pista de decolagem, o que gerou um certo desconforto.
O alívio que senti quando pude sair do avião e esticar as pernas foi simplesmente estonteante, olhei ao redor, vendo uma garota com cabelos avermelhados que caíam em cascatas encaracoladas, segurando uma plaquinha com "Olívia White" escrito na mesma.
Sorri em agradecimento quando a aeromoça entregou minha mala, alegando que eu havia esquecido, e caminhei em direção à garota, que tinha um olhar perdido em seu rosto e que logo foi substituído por um enorme sorriso quando me aproximei.
Há algumas semanas a ideia de me mudar para New York parecia ser algo impossível de se concretizar, mas com um acordo certo isso se tornou possível, mesmo que para viver em New York sem Lewis ou Oliver no meu pé eu precisasse da companhia de alguém. E após olhar a ficha de várias garotas durante dias, Piper Williams parecia ser a pessoa certa para isso. "Senhorita White, espero que o voo tenha sido tranquilo." A garota sorriu.
"Por favor, me chame apenas de Liv." Disse, com um sorriso pequeno após colocar as malas no chão. "Digamos que passar quase oito horas presa dentro de um avião não é uma das melhores sensações." Sou sincera.
"Imagino que sim." Ela riu. "Bom, Senhorita White, o Senhor Lewis me informou que tudo o que você precisa já foi arrumado durante as suas oito horas de viagem." Ela deu um sorriso, o que me fez rir mesmo que brevemente.
Certamente Lewis havia assustado a garota com todas as suas exigências, o que eram, muitas vezes, consideradas exageros por mim. Entretanto, eu não o culpava, Lewis Turner foi como um pilar para o que sobrou da minha família durante esses longos seis anos que se arrastaram.
"Piper Williams, certo?", perguntei, enquanto rejeitava a sua ajuda com as bagagens. "Não precisa se incomodar. De qualquer modo, obrigada." Agradeço.
"Certo. Só coloque suas bagagens aqui." Piper disse, com certa preocupação, indicando para um carrinho comigo concordando lentamente. Não pude evitar de abrir um sorriso pelo modo como ela falava, tentando deixar tudo perfeito. "O que aconteceu, Senhorita White? Disse algo engraçado?" Piper disparou em perguntas.
"Não, está tudo bem." Assegurei, enquanto atravessávamos todo o lobby do aeroporto em direção às escadas rolantes. "Espero que Lewis não tenha te assustado."
"Digamos que o Senhor Lewis é bastante especifico." Ela abriu um sorriso sem jeito, demonstrando o seu desconforto.
"Lewis só está tentando cuidar de mim mesmo estando longe." Repito o que meu irmão costumava me dizer, enquanto caminhava em direção às portas de vidro, vendo as mesmas se arrastarem, possibilitando a nossa passagem. "E se esqueça das coisas que ele te disse. Somos só eu e você agora."
"Tem certeza disso, Senhorita White?", Piper perguntou, hesitante.
"Absoluta." Respondi, enquanto um sorriso brotou em seus lábios.
"Como quiser." A ruiva concordou, com um maneio, antes de acenar para um táxi. Não demorou muito para que o veículo amarelo estacionasse em nossa frente e um rapaz deixasse o mesmo enquanto recolhia minhas bagagens, colocando-as dentro do porta-malas.
Olhei para o aeroporto uma última vez antes de adentrar o veículo, tendo a plena consciência de que agora tudo seria diferente e eu conseguiria resolver todo esse quebra-cabeça que havia deixado o mundo dos White de cabeça para baixo mais uma vez.
"O que está achando de New York, Senhorita White?", Piper perguntou, após abrir sua bolsa, tirando de lá um pedaço de papel antes de entregá-lo ao motorista, que concorda lentamente.
"Por favor, Piper. Você pode me chamar apenas de Liv." Abri um sorriso enquanto pequenos flocos de neve entravam em contato com o vidro do carro. "Acho que posso me acostumar com toda essa movimentação."
"New York: a cidade que nunca dorme." Piper comentou, com um sorriso, o que me fez olhar para ela. "Com o tempo você acaba se acostumando." O táxi para e meu olhar se volta para o engarrafamento que se forma na extensão da rodovia. "Manhattan é uma das minhas partes favoritas daqui, mesmo com todo o trânsito."
"Felizmente, eu já estou acostumada com congestionamentos." Abri um sorriso fraco. "Acredite, em Londres é pior."
Piper concordou com um maneio, parando pensativa. "Desculpe a minha indelicadeza, mas o que a trouxe aqui?"
Desviei o olhar para os flocos de neve que estavam na janela enquanto um suspiro escapava por entre meus lábios.
"Céus, me desculpe. Eu não deveria ser tão intrometida." A voz de Piper me fez negar com um maneio enquanto o carro voltava a se movimentar.
"Algo aconteceu com pessoas que eu me importo e eu estou atrás de respostas."
"Tudo bem. Não farei mais esse tipo de pergunta." Ela se desculpou.
"Não se desculpe por isso." Disse, tentando ao máximo soar reconfortante. "Todos nós temos curiosidade."
"Obrigada por ser tão gentil, Senhorita White."
"Chegamos ao Upper West Side, Senhoritas." A voz do motorista me fez abrir um sorriso fraco enquanto vasculhava os bolsos de meu sobretudo, tirando alguns dólares de lá.
"Pelo trajeto e pelo transtorno com o congestionamento. Pode ficar com o troco."
"Obrigado." Ele agradeceu, descendo do veículo enquanto abria a porta para que saíssemos. Observei o prédio que se erguia diante de meus olhos, não deixando de reconhecer algumas coisas enquanto o motorista retirava nossas bagagens de dentro do porta-malas.
"Pensei que iríamos para o Upper East Side." Piper comentou, ao empurrar a porta de vidro com o motorista ao nosso encalço. Piper e eu agradecemos o mesmo, antes do motorista passar pelas portas de vidro e desaparecer do nosso campo de visão.
"Prefiro me manter longe de tanta extravagância mesmo que morar aqui seja o contrário do que eu realmente queria." Comentei, ao analisar a decoração do lobby do lugar. Cores variando entre dourado e branco, rosas em cada extremidade do local e uma quantidade absurda de pessoas andando de um lado para o outro.
"Compreendo." Ela abriu um sorriso fraco. "Volto em um instante." Piper disse, enquanto caminhava em direção ao que julguei ser a recepção.
Peguei meu celular pela primeira vez desde que adentrei o avião, notando inúmeras mensagens e e-mails com anexos. Soltei um suspiro, respondendo brevemente às perguntas de Lewis antes de guardar meu celular dentro do bolso de meu sobretudo.
Logo após, Piper parou em minha frente sendo acompanhada por uma senhora que possuía um largo sorriso amigável em seu rosto e tinha seu cabelo preso em um coque firme no topo de sua cabeça.
"Senhorita White." Ela abriu um sorriso ao me cumprimentar. "Sou Veronica Carter e fico extremamente feliz que tenha nos escolhido." Ela manteve o sorriso em seu rosto.
"Eu não...", fui interrompida.
"Tenho certeza que a Senhorita White também compartilha do mesmo sentimento." Piper sorriu.
"Bom, posso mostrar o seu quarto se assim desejar."
"Agrademos toda a sua gentileza, mas não precisa se incomodar." Piper sorriu enquanto a Senhora Carter entregava um punhado de chaves para ela. "Só precisamos que alguém leve as bagagens até o quarto da Senhorita White."
"Como quiser, Senhorita Williams." Veronica respondeu, calmamente, e seguiu em direção a dois homens.
"O que acabou de acontecer?", perguntei, ainda confusa pelo comportamento de Piper.
"Coisas envolvendo bajulações e autoconfiança, nada com que se preocupar." Piper abriu um sorriso enquanto seguimos rumo ao elevador, não demorou para que as portas de metal se arrastassem para o lado e logo nós entramos dentro do cubículo de metal.
"Espero que Lewis não tenha dado um jeito de exagerar." Disse, vendo Piper pressionar o botão que possuía o número 10 gravado.
"Bom, estamos indo para o décimo andar, então suponho que o Senhor Lewis tenha exagerado. Ainda possuo um fio de esperança que tudo seja apenas um mal-entendido." Soltei um suspiro, saindo do elevador, seguindo até a última porta presente ali.
"Tenho quase certeza que ele exagerou." Ela comentou assim que destrancou a porta e as luzes se acenderam automaticamente. "Isso é maior que a minha casa." Piper manteve seu olhar preso em toda a decoração, o que me fez rir. "Perdoe a minha extrapolação, Senhorita White."
"Não podemos simplesmente escolher outro lugar menor e mais simples?", mordi o lábio inferior, caminhando em direção às grandes janelas de vidro, observando a vista.
"Este lugar é a definição de paraíso." Piper disse, ao parar do meu lado.
"Isso é o contrário de ser discreta." Murmurei, indo em direção à porta, abrindo-a e permitindo que dois rapazes passassem com minhas bagagens em mãos. "Obrigada." Abri um sorriso pequeno, entregando alguns dólares para ambos.
"Aproveite a estadia, Senhorita White." Eles disseram, antes de deixar o apartamento comigo fechando a porta logo em seguida.
"Providenciarei a troca dos seus euros por dólares, imediatamente."
"Não precisa se incomodar com isso, Piper." Disse. "Ainda possuo os dólares que Lewis me deu."
"Sem problemas, providenciarei isso mais tarde." Ela disse, me fazendo concordar com um sorriso.
"Acha que pode se acostumar com tudo isso, Senhorita Williams?"
"Perdão?" Piper perguntou, com o cenho franzido.
"Lewis disse que você poderia morar comigo, certo?"
"Sim." Piper concordou, lentamente. "Mas receio que isso não será possível, Senhorita White."
"Não se preocupe, Piper. Eu sei sobre a sua mãe e fique tranquila, você pode passar o tempo que quiser com ela." Dei um sorriso reconfortante. "Mas caso queira ficar aqui, você é bem-vinda."
"Eu sinto muito, Senhorita White." Piper se desculpou, me fazendo negar com um maneio. "Posso garanti-la que isso não irá interferir em meu desempenho."
"Fique tranquila, Piper." Abri um sorriso, tentando tranquilizá-la. "Está tudo bem."
"Obrigada, Olívia." Ela disse, me fazendo abrir um sorriso. "Senhorita White." Ela logo tratou de se corrigir.
"Só Olívia, tudo bem?", perguntei e ela concordou. "Creio que devo ir ao Departamento de Polícia."
"Chamarei um táxi e posso te acompanhar, caso assim desejar." A ruiva sorriu, pegando seu telefone, apressando-se em ligar para algum táxi.
"Não precisa se incomodar." Disse, enquanto a observava falar calmamente com a pessoa do outro lado.
"O táxi já está à sua espera." Piper disse, deixando seu celular sobre a mesinha de centro.
"Obrigada, Piper." Agradeci. "Até mais tarde." Dei um meio sorriso antes de sair do apartamento e caminhar em direção ao elevador, entrando no mesmo, apertando o botão dourado que daria para o térreo.
Assim que cheguei ao hall de entrada, fui cumprimentada por Veronica, que me avisou que um táxi estava à minha espera, passei pelas portas de vidro e fui obrigada a fechar o sobretudo ao redor do corpo pelo vento gélido que serpenteava por todo o ambiente.
Entrei no táxi, não me preocupando em dizer o meu destino, pois sabia que Piper já cuidou disso e durante todo o caminho me ocupei em observar todas as paisagens e todo o movimento da "Cidade que nunca dorme" reconhecendo vários lugares. E diferente de minha vinda à cidade, não demorou muito para que o motorista anunciasse nossa chegada e surpreendentemente — ou nem tanto — Piper já havia cuidado de seu pagamento.
Agradeci o motorista, saindo do táxi enquanto meus olhos estavam fixos na enorme construção com janelas de vidro e uma porta escura. Eu podia sentir meu coração pulsar fortemente dentro de meu peito, o que me fez reconsiderar a minha ideia inicial e por um momento cheguei a cogitar desistir de tudo.
Respirei fundo ao subir o lance de escadas de concreto — sentindo minhas mãos geladas e tinha certeza que não era só pelo frio — pronta para adentrar o local onde todas as minhas dúvidas poderiam ser sanadas ou amplificadas.
Estava na hora de começar a resolver aquele quebra-cabeça.

Continua...

Nota da autora: Sem nota.

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