Autoras: Babi Sotello e Lari Carrião | Beta: Babi S. | Capista: Júlia Dellaretti

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Capítulo Um

POV

- Mais duas, por favor - pedi ao barman que atendia o balcão do lado em que estávamos.
- , acho que já estou bêbada - falou e eu ri fraco. - A que ponto chegamos... Bebendo por causa de babacas egoístas.
- Se ainda está falando deles, é porque precisa beber mais. - me virei para encará-la e eu já não sabia se tinha sido tão boa ideia assim sair de casa, mesmo tendo escolhido um bar nada popular e sem chances de encontrarmos alguém conhecido.
O barman colocou mais dois copos em nossa frente e levantei para, ironicamente, brindarmos.
- Ao esquecimento dos homens, os seres mais confusos do planeta! - disse ao erguer o seu copo e levei o meu ao dela. Mas, para minha surpresa, outro copo se juntou ao brinde e tanto eu como minha amiga encaramos o cara que devia ser da nossa idade.
"Será que ele era gay? Até os gays estão sofrendo por homem?", foram meus primeiros pensamentos.
- Ao esquecimento das mulheres, que só nos fazem de trouxa - ele disse e virou sua dose, seja lá do que fosse.
Dei um gole do meu copo e notei que ainda o encarava, incrédula.
- É sério? Mulheres que fazem vocês de trouxa? - ela riu, mas acho que por efeito da bebida.
- Quer apostar qual história é pior? - ele levantou as sobrancelhas, desafiando, e eu preferi observar.
- Um babaca que esconde que voltou com a namorada há cerca de dois meses e continua com minha amiga como se nada tivesse acontecido. - ela apontou para mim e rolei os olhos. Eu não tinha me incluído nessa aposta de quem se encontrava mais fodido. - Outro babaca que não queria nem relacionamento casual, mas não queria me perder e, em menos de duas semanas, conheceu umazinha e já está em um relacionamento sério. - ela sorriu, agora sem mostrar os dentes. - Tá pior do que a gente?
- Três meses com uma garota, completamente apaixonado por ela, incluindo ela em todos os meus planos, apresentada a minha família, que resolveu que não sabe o que quer, mas que tem um carinho muito grande por mim. Só não quer se prender... - ele não olhava para nenhuma de nós e o silêncio se instalou.
- Então, vamos beber - falei a primeira coisa que veio à mente. - Porque está bem claro que relacionamentos não foram feitos para dar certo com qualquer um. - virei o resto do copo e logo outro homem apareceu.
- , quanto você já bebeu? - ele colocou o copo do amigo no balcão.
- Nada, comparado com o quanto eu quero beber. - o amigo do garoto, que agora sabíamos que se chamava , negou com a cabeça.
- Depois você bebe, agora nós temos que tocar. - ele passou o braço pelos ombros do tal e saíram sem falar nada com a gente.
- Tá né... Gente estranha. - dei de ombros, querendo mais uma bebida.
- , você sabia que ia ter apresentação aqui hoje?
- Não tinha ideia. - me virei para encarar o local onde os instrumentos estavam sendo colocados.

Alguns minutos depois, o quase bêbado e seu amigo estavam no palco com mais dois integrantes. Eles se apresentaram, mas confesso que não prestei muita atenção. Meu celular vibrou e me arrependi de ver de quem era a mensagem.
- Não entendo, sério. - desabafei, mostrando a tela do aparelho para a .
- Ele pelo menos se mostra arrependido... - rolei os olhos.
- Grande bosta.
- Vai responder?
- Não. Pelo menos não agora. - bebi mais um pouco do meu copo.
O pessoal do bar parecia conhecê-los, pois se juntaram em frente ao palco. Assim que ouvi a música, aproveitei para tentar relaxar e não pensar em nada que estava me chateando nos últimos dias. A banda estava tocando covers e vi acompanhando algumas musicas. Eles pareciam ser bons.
- Acho que não quero mais beber - disse, depois de nem sei qual copo.
- Também parei. Isso vai dar uma ressaca amanhã...
- Ainda bem que é domingo. Trabalhar de ressaca não é nada bom.
- Nada de ressaca é bom, .
- Verdade. - ri como se fosse uma piada. - Estou ruim mesmo. Já quer ir embora?
- Por mim, pode ser... - ela começou a dizer e algo na música que eles tocavam agora me fez virar novamente para eles e prestar atenção. estava do mesmo jeito.

Don't try to make me stay
Or ask if I'm ok
I don't have the answer
Don't make me stay the night
Or ask if I'm alright
I don't have the answer

O rapaz que resgatou o tal começou cantando e ri fraco ao perceber o quanto o que ele falava se encaixava no que estávamos passando. Talvez mais gente estivesse mal com relacionamentos.

Heartache doesn't last forever
I'll say I'm fine
Midnight ain't no time for laughing
When you say goodbye

Um dos outros dois começou a cantar e a voz dele chamou minha atenção, eu não tinha reparado antes. Por acaso, era muito bonito também. Balancei a cabeça em negação.
- Nem esqueceu um e já está achando o outro bonito... - falei sozinha. - Já ouviu essa? - perguntei, ainda sem tirar os olhos deles.
- Não. - ela negou com a cabeça. - Deve ser de autoria própria. Eles falaram algo antes de começar a cantar essa.
- Então acho que tenho uma música nova pra minha lista de fossa. - sorri fraco.
- Ai ai...

It makes you lips so kissable
And your kiss, unmissable
Your fingertips so touchable
And your eyes irresistible

- Retiro o que disse - falei assim que me olhou. - Não é de fossa. - ela riu.

I've tried to ask myself
Should I see someone else?
I wish I knew the answer
But I know, if I go now, if I leave
And I'm on my own tonight
I'll never know the answer

Midnight doesn't last forever
Dark turns to light
Heartache flips my world around
I'm falling down, down, down
That's why...

I find your lips so kissable
And your kiss, unmissable
Your fingertips so touchable
And your eyes irresistible

It's in your lips and in your kiss
It's in your touch and your fingertips
And it's in all the things and other things
That make you who you are and your eyes, irresistible

It makes you lips so kissable
And your kiss, unmissable
Your fingertips so touchable
And your eyes irresistible

- Eles são bons - falei e notei que eles agradeciam e saíam do palco. E, quando olhei as horas, me surpreendi.
- Acho bom a gente ir agora - disse, olhando para a saída do bar. - O que você acha? Assim, a gente não sai quando estiver muito deserta a rua. Não quero ser assaltada.
- Tudo bem. Acho que só quero dormir. - peguei meu cartão e entreguei para ela. - Você sabe a minha senha. Pague, por favor, enquanto eu vou ao banheiro. Não consigo esperar chegar em casa. - me levantei, sentindo um pouco de tontura, mas fiz meu caminho até o banheiro.

- Ué, será que ela já saiu? - perguntei para mim mesma ao notar que um casal se pegava onde antes nós estávamos. Espera aí! Era a ? - ? - chamei quando cheguei mais perto, atrapalhando o beijo.
- , esse é o...
- Cara que tem tanta sorte quanto a gente no amor - a interrompi.
- - ela continuou. - , essa é a - ela disse, com certa dificuldade.
- Muito prazer - murmurei só pra não ser mal educada. - Vamos, já chamei o táxi.
- Tchauzinho. - ela beijou a bochecha dele antes de sair e eu rolei os olhos, a puxando pela mão.
- Não acredito que você estava beijando o carinha da banda! - eu disse, desconfiada. - Vai se arrepender disso depois, não vai?
- Sei lá. Nem sei o que aconteceu. - comecei a rir.
- Como assim?
- Eu estava pagando as nossas contas num minuto e no outro ele estava lá do lado, e depois você já estava me chamando pra ir embora.
- Certo... - encerrei o assunto quando entramos no táxi.
O trajeto foi rápido, já que quase não havia trânsito. Paguei e desci depois de .
- Nossa, de repente me deu um sono. - ela bocejou enquanto entrávamos no elevador.
- Vai dormir o dia todo amanhã. - apertei o 11 e o 12.
- Com certeza. - o elevador parou e ela desceu. - Boa noite. - mandou beijos no ar.
- Boa noite. - ri. - Qualquer coisa, interfone. - o elevador subiu para o meu andar e, depois de alguns minutos, eu finalmente consegui abrir a porta.
Soltei minha bolsa no sofá e tirei meus sapatos ao longo do caminho até o quarto. Troquei de roupa sem saber exatamente o que estava fazendo e me joguei na cama. Eu precisava dormir.

Segunda era um dia bom, eu só tinha três turmas, todas de alemão e eram só à tarde. Depois de dar um jeito no apartamento, comer uma pizza que estava na geladeira e separar os materiais que precisava para as aulas, fui tomar um banho e me arrumar para sair.
Chequei meu celular ao sair de casa. Nada. E isso era uma surpresa.
- O que você queria, ? Ele tem uma namorada - murmurei pra mim mesma.

Como esperado, todas as aula ocorreram conforme eu havia preparado e eu não tinha mais nada para fazer o resto do dia. Juntei minhas coisas e caminhei até a biblioteca.
- Como está minha bibliotecária favorita? - tirou os olhos do computador e os rolou. Coloquei minhas coisas no balcão e ela me olhou feio.
- Você sabe que não pode colocar suas coisas aí - ela disse, séria.
- Alguém não está de bom humor... O que foi? - ela olhou à nossa volta e eu acompanhei seu olhar, vendo pouquíssimos alunos espalhados em toda a área de estudo. - Estamos falando baixinho, me conta.
- Ressaca, talvez. - ela deu de ombros. - Não sei, estou meio sem paciência pra tudo hoje. - olhei as horas.
- Calma, está quase na hora de você sair. A gente pode fazer alguma coisa - ofereci na tentativa de manter meus pensamentos sobre um certo alguém bem longe.
- Pode ser. Preciso terminar uma coisa antes. - concordei com a cabeça e ela voltou a mexer no computador.
Ouvi o barulho de um celular vibrando e, mesmo não querendo atrapalhar no trabalho, minha curiosidade me fez tentar pegar minha bolsa por cima do balcão.
- É o meu, - ela disse, ainda sem olhar para mim.
- E não vai ver quem é? Se for o Edward eu vou quebrar a cara dele! - falei um pouco alto para uma biblioteca e alguns alunos reclamaram.
- Não é ele.
- E como você sabe se você nem olhou?
- Porque eu sei. - a encarei com a sobrancelha arqueada.
- Fala as coisas direito! - reclamei.
- Eu sei que não é o Edward porque eu sei que é o .
- ? O cara do bar? - arregalei os olhos e, mais uma vez, tinha falado alto. Eu estava surpresa.
- Para de gritar, . - ela quase esboçou um sorriso. - Sim, o cara do bar.
- Você tem o número dele? Você passou seu número pra ele? - perguntei, boquiaberta. - Por que você não responde ele?
- , uma pergunta de cada vez - ela disse e eu agradeci por ver a outra mulher que trabalhava no lugar da chegar.
- Te espero lá fora. - peguei os materiais que ela tinha me entregado e caminhei para a saída. E, logo, ela apareceu.
- Não precisa repetir as perguntas! - ela disse quando ameacei abrir a boca.
- Ok. - eu ri e esperei.
- Eu não tinha o número dele e eu realmente não lembro de ter passado o meu. Mas também nem lembro de como a gente acabou se beijando, então...
- Não lembrou de nada? De verdade? - ela negou com a cabeça. - E porque está ignorando o rapaz?
- Porque não tenho nada pra falar com ele. - rolei os olhos.
- Ele não acha isso.
- Não interessa o que ele acha. Eu estava bêbada e não quero lembrar do que aconteceu.
- Falando nisso, você nem me contou se o beijo foi bom. Antes de eu atrapalhar, é claro. - ela riu.
- Eu não lembro.
- Como assim?
- Depois que eu dormi, não lembro de muita coisa.
- Fala com ele, !
- Não. Vou falar o quê? Que me arrependi e colocar a culpa na bebida?
- É uma opção... - ri. - Mas tem certeza que se arrependeu?
- Nem comece.
- Ah... Vai que é o destino colocando uma pessoa boa na sua vida. Você não acredita em destino?
- Acredito, mas de homem eu quero distância! E dessa vez é pra valer. Eu não vou gostar de alguém tão cedo.
- Vai ignorar o coitado então? Se ele está mandando mensagem é porque gostou de você.
- Você não estava lá não quando ele contou que tem mais azar que a gente quando se trata de relacionamento?
- Nada a ver...
- Mas e você? Respondeu o Andrew? - fiz uma careta.
- Infelizmente... E antes não tivesse, porque fui ignorada. Ele deve ter passado o fim de semana com a outra lá.
- Talvez seja melhor cortar tudo isso de vez.
- Provavelmente, mas não estou pronta pra isso ainda.

Depois de lancharmos, fomos para casa e, apesar do convite para ver um filme, eu fui para o meu apartamento.
Estava mudando de canal sem realmente prestar atenção na televisão quando tive uma ideia. me mataria se soubesse, mas ela não precisava saber. Busquei meu notebook no quarto e abri uma aba de internet, procurando pelo bar que havíamos ido. Comemorei ao achar o número e liguei.
- The Red Wine. Boa noite. Em que posso ajudá-la?
- Boa noite. Eu estive aí ontem e teve um pessoal tocando... - me senti meio idiota, mas não adiantava desligar agora. - Eu queria saber se eles têm previsão de tocar de novo.
- Eles sempre tocam por aqui, mas não tem data fixa não. O Robert sempre marca direto com o sobrinho dele, a gente só sabe no dia mesmo.
- Ah... - fiquei um pouco desapontada. - Obrigada mesmo assim.
- Se você quiser, eu posso te passar o número do estúdio.
- Estúdio?
- Sim. O é dono de um estúdio. - deduzi que devia ser o sobrinho do tal Robert, que devia ser o dono. - Talvez alguém do estúdio saiba te informar.
- Acho que vou tentar sim. Pode falar o número. - anotei no computador. - Muito obrigada.
- Não por isso. Até logo. - finalizei a ligação e coloquei o número do estúdio no celular.
Se não queria ver o que o destino colocava na frente dela, ela precisaria de um empurrãozinho. Agora era esperar o dia seguinte e ver se meu plano daria certo.

Sabe quando você desliga o despertador para dormir mais cinco minutinhos, só que acaba dormindo mais que isso inexplicavelmente? Isso aconteceu, dormi quinze minutos a mais do que eu podia e isso resultou em ir trabalhar sem comer nada. E, para minha ansiedade, só conseguiria colocar meu plano em prática ao final da tarde.
Depois de duas aulas de português e uma de alemão, fui até um restaurante próximo ao campus, pois a comida de lá não era muito interessante e, por ter andado um pouco, meu tempo ia ser muito curto até a próxima aula.
Peguei meu celular e não tinha nada de bom. Voltei a guardá-lo e retornei para as duas aulas que eu ainda tinha pela frente. Para minha sorte, as turmas pareciam ser boas, e nos outros dias da semana eu tinha somente duas ou três aulas.
Assim que os alunos começaram a sair de sala, eu juntei minhas coisas e, quando vi que estava sozinha, peguei o telefone para fazer a ligação que eu tanto ansiava.
- Estúdio Four, em que posso ajudar? - já não tinha gostado da voz da mulher. Mau sinal.
- Boa tarde, eu gostaria de falar com - disse, tentando parecer simpática.
- Ele não pode atender no momento. O que deseja? - falar com ele... Foi o que pensei, mas engoli a resposta mal educada.
- Olha... Qual o seu nome?
- Jessy. - ela respondeu sem interesse.
- Então, Jessy... O senhor Robert me passou esse número porque preciso tratar de um assunto com - menti e torci para que ela não duvidasse.
- O que tiver que falar pra ele pode falar pra mim. Sou eu que resolvo as coisas pra ele. - eu nem conhecia a garota e já não tinha gostado dela. O que custava me passar pra ele?
- Isso é só com ele. Tem outro número que eu posso falar com ele? - a ouvi suspirar.
- Vou transferir a ligação. - ela disse e comecei a ouvir a música de espera.
- Inacreditável... - murmurei e ri fraco em seguida. - Tudo isso pra no final transferir a ligação?
- Pois não?
- ?
- Não, é o . Quem é?
- Meu nome é , e eu consegui o telefone com o pessoal da administração do The Red Wine, espero que não tenha problema. - ele riu. Ele estava rindo de mim?
- Você teria conseguido no Google, mas em que posso ser útil? - eu e minha mania de me explicar demais.
- Bom, na realidade eu esperava falar com o , é sobre uma apresentação que ele fez no bar no sábado.
- Ah, eu faço parte do grupo, acho que você pode falar comigo. - me dei por vencida.
- Isso talvez soe um pouco estranho, mas fiquei sabendo que você e seus amigos - embora eu não fizesse ideia de qual dos outros três era esse - cantam regularmente no bar e eu queria saber se você já tem a data da próxima apresentação. - ele riu e até eu acabei rindo. - Okay, isso soou bem ridículo.
- Na verdade, não estou acostumado com isso. Achei que ia falar de alguma coisa sobre o estúdio.
- É... Não falei qual era o assunto para a secretária. Ela pareceu bem intimidadora.
- A Jessy tem disso mesmo. Mas ainda não temos uma data certa não. Não costumamos dar mais de dez dias entre uma apresentação e outra lá, então até a semana que vem tocaremos novamente.
- Hum...
- Temos uma fã ou posso saber o motivo real das perguntas?
- Então... - comecei a responder meio envergonhada. - Digamos que eu não estava em condições de perceber muita coisa na sexta. - ri. - Já seu amigo...
- Amigo?
- Ou talvez tenha sido minha amiga - ponderei. - Não sei muito bem como aconteceu.
- Que amigo?
- , eu acho. - ele agora gargalhava. - Está rindo de mim?
- Não! Claro que não. Fiquei sabendo que o bebeu muito, ele está meio mal e...
- É, ele contou pra gente.
- Ah, então era com você que ele estava bebendo quando fui resgatá-lo no bar. - então sabia quem a gente era, pelo menos por alto, já que nem havia olhado para a gente.
- Sim, ele apareceu do nada entre eu e minha amiga. E depois você o buscou.
- Hum… Me desculpe por nem ter falado nada. Essa cena já tinha acontecido alguns dias antes. Mas você ligou porque ele bebeu com vocês? - ele parecia confuso.
- Não, por causa do que aconteceu depois.
- E o que aconteceu depois? Porque sinto que você sabe mais do que eu do que rolou lá.
- Eu fui... Chamar um táxi - era melhor do que falar que tinha ido ao banheiro. - E, quando voltei, minha amiga e ele estavam se beijando.
- O quê? Você está falando sério?
- Sim...
- E o safado escondeu isso de todo mundo?
- Isso eu já não sei. Eu sei que ele tentou falar com minha amiga ontem e eu queria ver vocês cantando novamente.
- Quer ver a gente ou o ?
- Eu? Com certeza vocês. - dessa vez eu não ia beber tanto.
- Sendo assim, posso anotar seu telefone? Assim, quando eu souber, posso te mandar uma mensagem avisando.
- Por mim, tudo bem. - Jessy provavelmente não gostaria disso, pensei. E passei o número.
- Certinho. Quando marcarmos com o Robert, eu aviso.
- Muito obrigada! Até lá.
- Até. - desliguei o telefone.
Será que isso tinha soado muito estranho? Dei de ombros e caminhei até a saída, totalmente distraída com o próximo encontro de e . Ela iria me matar.

O resto da semana passou sem grandes acontecimentos. não havia me mandado nada e também não soube se tinha tentado falar novamente com . Eu tinha me aproveitado dessa situação e, embora sentisse vontade de falar com Andrew, tinha me segurado. não precisou nem fazer esforço para não pensar no Edward. Na verdade, só descobriu que ele era mais babaca do que havíamos achado esse tempo todo.
- Sábado me dá uma preguiça tão grande - ela falou, deitada no sofá no meu apartamento. - E não acho que esse filme vai ser grande coisa.
- Muda de canal, vê se tem algum show bom passando. - joguei o controle para ela e ela encontrou um do Simple Plan. - Amo esse show - comentei quando eles começaram minha música favorita. - Aumenta aí.
- Você tá surda? Já está alto. - joguei uma almofada nela.
- Eu gosto dessa aí. Aumenta logo. - comecei a cantar como se estivesse num show. - Nem ouse filmar minha performance! - disse quando ela pegou o celular.
- Excelente ideia, mas só ia ver as horas. - na mesma hora meu celular vibrou em cima da minha barriga.

: Oi, fã. É o . Vamos tocar no Red quinta que vem.

Rolei os olhos e comecei a rir. Ele estava se achando.
- Me fala que você não está rindo do Andrew. - fez uma cara de desgosto.
- Não é ele não. Recebi uma piada boba aqui.

: Okay. Vou ver se apareço. Obrigada.
: Tá se fazendo de difícil, é?
: Difícil?
: fã: vou ver se apareço.
: Hahahaha Menos. Bem menos.

- Com quem você tanto fala aí? Pelo visto tá mais interessante do que o final do show.
- Besteira.

: Tá ocupada hoje?
: Depende...
: Sendo difícil de novo? Haha
: Vamos tocar pra um evento de caridade, iniciativa de um time de futebol.

Não tinha nem pensado numa resposta e veio mais uma mensagem.

: É um evento social. Consigo dois ingressos pra você e sua amiga agora. E aí? O que me diz?

Com certeza era melhor do que ficar em casa, mas tudo dependia dela.
- zinha. - ela me olhou, desconfiada.
- O que é? Você só me chama assim quando quer alguma coisa. - rolei os olhos.
- Não precisa estragar assim...
- O que foi, ?
- Vamos sair hoje?
- Sair pra onde? Não estou podendo gastar assim não.
- Acabei de ganhar dois ingressos pra um evento social de caridade de um time de futebol.
- Como assim acabou de ganhar?
- Um conhecido acabou de me mandar uma mensagem perguntando se eu topo. - ela continuou com o olhar desconfiado. - Dá pra parar de me olhar assim?
- Assim como?
- Assim. Desconfiando de mim. - fiz drama. - Eu nem gosto muito de futebol, pensei foi em você. Sei que você gosta e, sendo um evento social, devem ter uns jogadores... - deixei no ar.
- Social... Que tipo de roupa social?
- Isso é um sim, né?

: Guarde esses ingressos. Nós vamos.

não fazia nem ideia do quanto isso ia ser muito melhor do que meu plano inicial.

Capítulo Dois

POV

Tirei algumas notas da carteira para pagar o motorista e lancei um olhar de canto para , que, pelo rolar de olhos que me deu em resposta, pareceu entender que nossa volta para casa sairia do bolso dela. Descemos do táxi e só então pude notar aonde havíamos ido parar.
- , quem te deu os ingressos para esse evento mesmo? - questionei, desconfiada. Aquela história ainda estava muito mal contada.
- Um conhecido. Já te falei.
- Que conhecido é esse? Você nunca falou que conhece alguém que tenha relação com o Brentford - acusei.
- Você não conhece, . E nem eu sabia disso - ela disse, pegando o celular dentro da bolsa. - Na verdade, nem sabia que esse time existia!
- É um time da segunda divisão. Você é uma vergonha para o futebol inglês - impliquei com ela, desistindo de insistir no assunto, mesmo que suas respostas não tivessem me convencido nem um pouco.
- Você sabe que meu negócio é o futebol alemão - ela deu de ombros.
Enquanto ela digitava alguma coisa no celular, provavelmente avisando ao tal conhecido que havíamos chegado, observei a fachada do clube e as pessoas que chegavam, todas bem vestidas. Apesar de há muitos anos não disputar a primeira divisão do futebol inglês e não possuir nem metade do dinheiro que os grandes clubes londrinos possuíam, Brentford F.C. era um time de tradição. Eu, como uma inglesa apaixonada por futebol, sabia bem disso.
Notei um rapaz sair pelo portão do clube e sorrir em nossa direção, em seguida acenando para nos aproximarmos. Tive a certeza de já ter visto seu rosto antes. Segui em direção à entrada do clube, buscando em minha memória, sem sucesso, qualquer lembrança que pudesse me ajudar a descobrir de onde eu o conhecia.
- Os ingressos dessas duas belas moças.
O segurança pegou os ingressos que o rapaz estendia e nos desejou uma boa noite, dando espaço para que passássemos pelo portão.
- E aí, ?
- Oi, . Me chame de , por favor. Essa é a minha amiga - disse após cumprimentá-lo com dois beijos nas bochechas.
- Olá, . Muito prazer.
- Prazer - sorri e me aproximei para também cumprimentá-lo com beijos nas bochechas.
A sensação de que o conhecia de algum lugar só crescia e eu estava cada vez mais agoniada com isso. nos chamou para entrar no clube, então o seguimos.
- Vocês podem sentar comigo e meus amigos - disse, trocando olhares com .
Achei aquilo bastante esquisito, mas já nem me importava mais. Quando chegássemos em casa, teria que explicar toda aquela história, começando por quem era aquele tal .
O salão do clube estava repleto de mesas, nas quais os convidados se dividiam com as atenções voltadas para um pequeno palco onde um homem segurava uma camisa do Brentford F.C. toda autografada. Imaginei que estivesse acontecendo um leilão, já que, até onde eu havia sido informada, aquele era um evento de caridade.
Quando finalmente paramos em frente a uma mesa, levei um choque ao notar um dos três garotos que ali estavam sentados. Ele levantou da cadeira em que sentava em um pulo, parecendo tão surpreso quanto eu. Desde o início, toda aquela situação em que minha amiga estava me metendo estava estranha, mas aquilo era o fim da picada. O que , o cara que eu havia beijado no bar e me mandava mensagens desde então, estava fazendo ali? Minha ficha, então, finalmente caiu. Era do bar que eu conhecia o tal . Ele era um dos caras da banda, assim como os outros dois garotos - além de uma garota que eu nunca havia visto na vida - que nos encaravam com curiosidade. Uma irritação subiu pelo meu corpo e, se fosse possível matar alguém apenas com o olhar, estaria morta e enterrada naquele momento. Seu sorriso amarelo me fez ter certeza de que ela havia captado minha mensagem: que diabos está acontecendo?

[Flashback on]

Digitei a senha do cartão de com menos rapidez do que costumava. Estava tão bêbada que mal lembrava meu próprio nome. O débito foi autorizado e o barman devolveu o cartão junto com a nota fiscal. Joguei ambos dentro da minha bolsa, com medo de que, devido ao meu estado mental, acabasse perdendo o cartão e minha amiga me esfolasse viva, e observei pela minha visão periférica alguém parar ao meu lado.
- Você - falei ao me deparar com o cara de mais cedo. - Pensei que fosse a .
- Já vão embora?
- Acho que já bebi o suficiente por hoje.
- Uma pena. Achei que você pudesse me fazer companhia essa noite.
Aquilo havia sido uma cantada? O álcool me impediu de entender o significado daquela frase e do sorrisinho que surgiu em seus lábios, antes de ele se virar para o barman e fazer seu pedido. Após alguns segundos, decidi quebrar o silêncio constrangedor que se instalou entre nós.
- Então, além de ser feito de otário por mulheres, você canta.
- Canto com mais frequência do que sou feito de otário por mulheres - ele disse e deu um gole em sua bebida. - Ainda não sei seu nome.
- . E o seu é - falei e ele assentiu com a cabeça. - A apresentação de vocês foi bem legal, .
- Obrigado - sorriu. - Sabe o que mais seria bem legal, ?
- O quê? - questionei, desconfiada.
- Ter seu número.
É, mesmo bêbada só pude chegar a uma conclusão: aquilo definitivamente havia sido uma cantada. Rolei os olhos. Homens sempre tão ridículos… Antes que eu pudesse pensar, estava com o celular de em mãos e salvando meu próprio número em seus contatos. Sim, eu poderia salvar um número totalmente aleatório para me livrar dele, já que essa era a minha única vontade naquele momento, mas algo no jeito que ele me encarava me impediu de fazer isso. Ou talvez fosse apenas a bebida fazendo com que minhas ações traíssem meu cérebro.
- Essa sua pinta é bem sexy - ele falou, chamando minha atenção. Levantei meus olhos para seu rosto e o encontrei mais próximo do que eu esperava e encarando minha boca. Ou melhor, a pinta em cima da minha boca.
Não pude deixar de lembrar da primeira vez que Edward comentou sobre minha pinta e das incontáveis vezes que me chamou de “Pintinha Sexy” só para me irritar. Tal lembrança, que eu preferia ter enterrado junto com todo o sentimento que tinha por ele, fez meus olhos arderem. Antes que lágrimas surgissem em meus olhos, fiz a primeira coisa que passou pela minha cabeça: descontei toda minha frustração nos lábios de .

[Flashback off]

- Você não contou como as conheceu, - , a namorada de , outro dos garotos da banda, disse. Ela era a garota desconhecida sentada à mesa, mas logo foi devidamente apresentada, assim como e , os dois que eu e ainda não conhecíamos.
- Foi no The Red Wine… Né? - falou, sem um pingo de convicção, trocando olhares com pela milésima vez naquela noite.
- Mas você não as conheceu naquele dia - se pronunciou, parecendo confuso. - Eu as conheci no Red. Você não.
- Na verdade - minha amiga atraiu todas as atenções para si -, eu gostei muito da apresentação de vocês no The Red Wine e quis saber quando vocês tocariam lá de novo. Consegui o telefone do estúdio e falei com o . Foi assim que nos conhecemos.
Para mim, estava claro que aquela era só uma desculpa para encobrir suas verdadeiras intenções ao entrar em contato com . Seria bom estar rezando e pedindo a Deus que perdoasse seus pecados, porque daquela noite ela não passaria. Sim, ela era minha melhor amiga, mas desde quando ela estava autorizada a se meter daquele jeito na minha vida?
- Parece que temos nossa primeira fã, caras - brincou e bagunçou levemente o cabelo de , que o olhou com cara de poucos amigos enquanto ajeitava os fios desarrumados. - Até convidei elas para virem hoje só por causa da nossa apresentação.
- Menos, .
- Bem menos, - se esticou por cima do namorado para dar um tapa na testa de . - Eu sou a primeira fã de vocês, esqueceu?
- Você não conta, é namorada do . Nunca diria que somos ruins - ele explicou.
- Ah, eu diria sim - disse e deu uma piscadela.
- Esqueci que você é a delicadeza em pessoa - falou, rolando os olhos.
- Não fala assim da minha lindinha - repreendeu o amigo e beijou a bochecha da namorada. Os outros garotos fingiram ânsia de vômito, arrancando risos de mim e das meninas.
- Vocês vão na quinta ao Red? - perguntou animada, olhando para mim e . - Seria tão legal não ser a única garota do grupo, só para variar.
- Talvez… - minha amiga respondeu, incerta, após me encarar por alguns segundos e não ser encarada de volta. Respondi balançando meus ombros, apenas por educação, já que minha vontade de ir ao The Red Wine e ter que encarar novamente era inexistente.
A noite estava sendo até divertida, nossos novos conhecidos eram legais e engraçados, mas estava em meus planos nunca mais encontrar na minha vida e havia me deixado sem saída. Desde que nos sentamos à mesa eu mal havia aberto minha boca, a não ser quando alguém se dirigia a mim, e cada vez que meu olhar se cruzava com o de eu tinha vontade de cavar um buraco no chão para enfiar minha cabeça. Como se não bastasse a vergonha pela cena que se repetia constantemente em minha cabeça de nós dois nos beijando no bar, eu ainda estava praticamente ignorando suas mensagens há dias. Eu estava tão constrangida que havia, inclusive, mentido para minha melhor amiga sobre não lembrar de como beijei ele e em que momento passei meu número.
- Vamos ao banheiro, meninas? - nos chamou, levantando. Eu e concordamos e a acompanhamos até o banheiro feminino. - , segura minha bolsa, por favor?
Enquanto estava em uma das cabines, parecia bastante entretida com seu reflexo no espelho, retocando a maquiagem que ainda estava em perfeito estado. Ela, claramente, estava me evitando.
- Por que você fez isso? - perguntei, chamando sua atenção. largou as coisas em cima da pia e se voltou para mim.
- Me desculpa - disse e soltou um longo suspiro. - Eu só queria te ajudar, dar um empurrãozinho. Talvez eu tenha exagerado um pouco me intrometendo assim, mas foi com a melhor das intenções.
- Um pouco? - questionei, chocada. - Estou fugindo do cara há dias e você me obriga a encontrar ele! Se pelo menos tivesse me avisado que ele estaria aqui… Mas nem isso você foi capaz de fazer!
- Você jamais viria se eu te contasse, ! E eu precisava fazer alguma coisa. O parece ser um cara legal - ela tentou argumentar. - Ele pode ser justamente o que você precisa, e como vai saber se não der uma chance?
- Eu não quero dar uma chance. Será que você ainda não entendeu isso?
- Deixa de ser cabeça dura!
- Sou cabeça dura, eu sei disso. Mas quando resolvo deixar de ser cabeça dura, só me ferro - falei, começando a ficar exausta daquela discussão. - Então, muito obrigada, mas prefiro continuar assim.
bufou, percebendo que não conseguiria me fazer mudar de ideia. A porta da cabine em que estava se abriu e a mesma saiu, demonstrando em seu rosto estar espantada com nossa discussão.
- Não posso deixar vocês sozinhas uns minutinhos que já querem se matar? - ela brincou, tentando descontrair o clima pesado do ambiente. - Posso ajudar em alguma coisa? Pelo que entendi, o está criando confusão.
- Na verdade, a quem criou a confusão - corrigi. - Com uma melhor amiga dessa, quem precisa de inimigo, não é mesmo?
- Não fale coisas que você pode se arrepender depois, - soou um tanto magoada.
- Se acalmem, vocês duas - interveio antes que eu dirigisse mais palavras afiadas à minha amiga. - Me expliquem onde exatamente o entra nessa briga de vocês.
Suspirei e decidi explicar a história desde o princípio.
- Nós fomos ao The Red Wine, certo? - ela concordou. - Estávamos chateadas por causa dos caras que a gente gostava, histórias que não vêm ao caso agora, então decidimos sair para beber e esquecer quão babacas são os homens. Enquanto bebíamos, se meteu na nossa conversa.
- É, o é assim mesmo - riu. - Ele estava chateado por causa de uma garota com quem ele vinha ficando há uns meses e não quis assumir relacionamento sério com ele.
- Ele contou isso e sentou para beber com a gente - continuei. - Mas o o chamou para a apresentação da banda e não vimos mais ele…
- Até o momento que eu peguei vocês quase se engolindo no bar - me interrompeu, falando com ironia.
- Espera! - exclamou, surpresa. - Era você a garota que ele beijou naquele dia? Eu vi vocês se beijando, mas ele pediu para não contar para nenhum dos meninos.
- Ótimo. A situação só melhora - falei rolando os olhos. - Enfim… Sim, nos beijamos e, não lembro como, dei meu número para ele. Eu estava muito bêbada e não lembro bem o que aconteceu - optei por seguir mentindo sobre esse detalhe. - Desde então ele me manda mensagem quase todo dia e, mesmo eu respondendo sem a menor simpatia, ele não desiste!
- Isso é a cara do - disse em meio a risos. - Ele não vai desistir. Pode apostar.
- É bom que desista, para o bem dele - cruzei os braços, quase indignada. Alguém poderia ser trouxa àquele ponto?
- Ok. E por que vocês duas estavam discutindo?
- Porque a resolveu tomar decisões por mim - acusei.
- Eu só quis ajudar - ela se defendeu. - O me pareceu um cara legal, e por ter acabado de passar por uma decepção amorosa também, achei que eles dois poderiam se dar bem.
- Você pode achar o que quiser, mas não tem o mínimo direito de se meter na minha vida assim. Me trazer para esse evento sem dizer que ele estaria aqui foi o fim da picada, .
- É até engraçado ouvir isso, já que todos estamos aqui por causa dele - riu levemente.
- Como assim? - questionei.
- Somos convidados dele. Ele é jogador do Brentford.
- Mais essa agora - murmurei. Só para completar, estávamos no evento às custas do cara que eu estava ignorando. Como conseguiria olhar para a cara dele sabendo disso? - Mas ele não é cantor?
- Ele participa da banda mais como hobby - explicou. - Na verdade, o sonho dele desde criança é ser jogador de futebol. Ele dá duro para conseguir um contrato com um time da primeira divisão.
- Acho que vou embora - falei.
- O quê? Por quê? - com os olhos arregalados, perguntou. - Tudo bem, eu entendo que você está chateada com a . Mas já que estamos aqui, vamos aproveitar! Os garotos vão tocar daqui a pouco.
- , eu já estava super constrangida de ter que encarar o - confessei. - Como vou encarar agora, sabendo que foi ele quem nos deu esses ingressos?
- Que besteira, - ela abanou o ar. - Duvido que a presença de vocês esteja incomodando o . Principalmente a sua presença.
- Agora sim me sinto bastante tranquila - ironizei.
- Está decidido. Todas nós iremos ficar - sorriu e se aproximou para pegar sua bolsa, que eu ainda segurava. - Vou retocar meu batom e nós vamos voltar para a mesa, como se nada tivesse acontecido.
Sem muita escolha, acabei concordando. Aproveitei para também verificar se estava tudo ok com minha aparência e ignorei a tentativa de de falar alguma coisa comigo.
- Acho que vou tomar um ar - eu disse, quando estávamos voltando para a mesa. Precisava de mais uns minutinhos para criar coragem e encarar novamente.
concordou e seguiu seu caminho em direção à mesa em que os garotos estavam sentados. Enquanto caminhava em direção à porta que levava a uma área externa do clube, senti o olhar de queimar minhas costas, mas quando dei uma rápida olhada para trás ela seguia pelo mesmo caminho que havia feito. Sentei em um banco e comecei a repetir mentalmente que aquilo tudo não tinha nada demais, quem sabe assim eu não acreditasse? Ainda queria matar por ter agido daquela forma, pelas minhas costas, mas agora que a cagada já estava feita, eu teria que lidar com ela. Eu iria voltar para a mesa, conversar com o pessoal, assistir à apresentação dos garotos, ir embora e depois nunca mais ver nenhum deles, especialmente . Não era tão difícil assim, certo?
Senti meu celular vibrar dentro da bolsa e suspirei ao ver a notificação da mensagem que havia acabado de chegar.

: Cadê você?
: Vim tomar um ar.

Digitei a resposta, não querendo dar explicações e abertura para ele achar que tinha algum tipo de intimidade comigo. Alguns segundos depois o celular vibrou novamente.

: Posso te fazer companhia?

Rolei os olhos. Não estava claro que eu não queria nenhum tipo de aproximação com ele?

: Não precisa. Daqui a pouco estou voltando.
: Ok. Se você não quer, não irei insistir.

Me senti um pouco mal ao ler sua resposta. Gostaria de não precisar ser tão grossa. Alguns instantes depois, entretanto, escutei passos e me virei para encontrar parado na porta, fazendo com que toda a pena que eu havia acabado de sentir fosse embora como em um passe de mágica. Que ingenuidade a minha pensar que ele seria tão compreensivo assim. Mas logo ele voltou para dentro do clube, sumindo do meu campo de visão. Agradeci a Deus por aquilo. Ainda não estava pronta para lidar com ele.
Aproveitei que ainda não queria voltar à companhia dos outros e desbloqueei meu celular novamente para dar uma olhada no feed de notícias do meu Facebook e passar o tempo. Enquanto olhava as fotos que uma prima minha havia publicado de seu filho recém-nascido, ouvi passos novamente e olhei para a porta, por onde , à contragosto, era empurrado por . Enquanto caminhava em minha direção, o amigo permaneceu na porta, nos observando.
- Posso? - ele indicou o lugar vago ao meu lado e eu balancei a cabeça, concordando. Que outra opção eu tinha? - Desculpa por isso - ele riu um tanto sem graça.
- Ele te obrigou a vir aqui? - perguntei, dando uma leve espiada em , que continuava a nos observar.
- Mais ou menos isso. Ele pediu para eu vir perguntar se você está bem.
Puta merda! Por que não era babaca, como todos os outros homens, para facilitar o meu lado?
- Fala a verdade - disse, se aproximando de mim e abaixando o tom de voz. - Rola alguma coisa entre vocês?
- ! - o repreendeu, provavelmente por não ter conseguido escutar o que o amigo tinha falado, e não pude deixar de rir da sua cara de pau.
- Não - respondi em tom de obviedade e recebi um olhar de descrença em resposta. - Ok. Nos beijamos no dia que nos conhecemos. Mas foi só isso, eu nem conheço direito. Para você ter uma ideia, eu descobri hoje que ele é jogador de futebol - expliquei. - Seu amigo vem me perseguindo há dias porque não quer entender que eu não quero nada com ele - falei a última parte quase sussurrando, para evitar que escutasse.
- Isso é péssimo - olhou rapidamente para o amigo. - tem essa facilidade de se apegar às garotas, sabe? Não é à toa que vive quebrando a cara. Pensei que depois do que aconteceu com a Katherine ele ia tomar jeito, mas já está fazendo tudo errado.
- Eu não quero magoar ele, . É por isso que estou tentando demonstrar desinteresse, mas continua insistindo. Também passei por uma decepção amorosa recentemente e não estou no clima de sair com ninguém, mesmo sem compromisso - tentei explicar meu lado, que parecia estar compreendendo. - Quer saber de uma coisa? Vou dizer isso para ele. Ei, , vem aqui! pareceu se assustar com minha atitude, mas não hesitou em se aproximar.
- Escuta ela. Sem drama, cara - falou para o amigo se levantando. - Vejo vocês lá dentro - piscou para mim, antes de voltar para dentro do clube.
- Senta aí - apontei o lugar novamente vago ao meu lado. - Não sei como te dizer isso sem soar arrogante, mas eu não estou interessada, .
Ele deu um sorriso desanimado e olhou para as próprias mãos.
- Desculpa se eu te dei abertura para achar outra coisa. Sei que te beijei e dei meu número, mas eu estava bêbada e não tinha nem ideia do que estava fazendo - tentei me explicar, sabendo que também tinha minha parcela de culpa.
- Tudo bem. Já estou acostumado a receber esse tratamento das mulheres - ele disse rindo levemente, e só não me ofendi com tal comentário porque percebi o tom de brincadeira em sua voz. - Pelo menos você está sendo sincera.
- O problema não é você, sabe? Você parece ser um cara legal… Droga. Isso está parecendo aquelas desculpinhas esfarrapadas que as pessoas usam para dar o fora em alguém, né? - perguntei e ele assentiu com a cabeça, prendendo o riso. - Juro que não é isso. Você nem imagina o quanto eu não suporto essas desculpas ridículas. O problema é que eu não estou pronta ainda para sair com alguém, mesmo sem compromisso. Não sei se já superei o Edward completamente e preciso botar minhas ideias no lugar antes de abrir espaço para outra pessoa.
- Eu entendo, . Desculpa se tenho sido chato te mandando mensagens, prometo que vou maneirar. Você me pareceu ser legal e uma mulher de atitude, além de ser uma gata, e acho que fiquei mais gamado do que deveria - senti minhas bochechas esquentarem com tamanha sinceridade. - Realmente quero te conhecer melhor, mas não vou te pressionar. Você decide.
- Obrigada - sorri com sinceridade e alívio. - E desculpa por ter respondido suas mensagens com tanta antipatia. Acho que podemos ser amigos. Tudo bem por você?
- É claro.
Confesso que o sorriso em seus lábios e aqueles olhos tão bonitos me encarando de tão perto quase me fizeram voltar atrás em minha decisão. Quando eu estava dando a conversa por encerrada e decidindo me levantar e voltar para dentro do clube, me chamou a atenção.
- Mas, antes de sermos amigos oficialmente…
E então ele me pegou de surpresa envolvendo meu rosto com suas mãos. Arregalei os olhos ao sentir seus lábios pressionando os meus. Em seguida acariciou meus lábios com sua língua e eu não tive outra escolha a não ser corresponder ao beijo. Ou talvez eu não tivesse vontade suficiente de optar por outra escolha.
- Você me beijou, eu te beijei. Estamos quites - ele disse, se levantando. - Acho que já está na hora da nossa apresentação. Vamos entrar, amiga?
Não pude deixar de rir, aceitando a mão que ele estendeu para me ajudar a levantar. É, talvez não fosse ser um sacrifício assim tão grande receber e responder com boa vontade as mensagens de .

Capítulo Três

POV

Olhei seguindo para fora do salão, mas da mesma forma de antes ela continuava me ignorando. Me dei por vencida e voltei para a mesa atrás de . Me sentei novamente ao lado de , que me encarava.
- Cadê a ? - perguntou antes que falasse qualquer coisa.
- Foi tomar um ar - foi quem respondeu e me senti aliviada.
- O que aconteceu naquele banheiro? - parecia gostar do mal feito pela forma que continuava me olhando.
- Não aconteceu nada - desconversei.
- Não tem nem duas horas que te conheci pessoalmente e já sei que você é uma péssima mentirosa. - ele riu de mim.
- Ai… - resmunguei. - Acho que não pensei que ela reagiria tão mal a tudo isso. - dei de ombros e parei de falar quando vi tentando tirar da cadeira.
- Anda, , levanta daí e vai logo lá fora pra mim.
- Vou lá fazer o quê? Acabei de conhecer a menina e você quer que eu me meta na vida dela?
- Não é se meter! - ele se justificou. - Só quero saber se está tudo bem. - lançou um olhar para mim e eu voltei a dar de ombros. Se ela havia reclamado tanto de eu me meter, ela que se resolvesse com ele então.
- Vai ficar me devendo uma. - se levantou e foi empurrado por até a área externa.
- Onde paramos? - voltou a falar comigo.
- No fato de meu plano ter dado errado.
- Então você não quis conhecer nossa música? - tive a sensação de que ele estava magoado, mas a mesma passou quando o vi segurando o sorriso.
- Quis sim, eu estava muito bêbada e só fui prestar atenção de verdade na apresentação na última música. Gostei muito dela e queria ver uma apresentação inteira.
- E agora você está falando a verdade.
- Sim, estou. Mas tinha a parte do plano também. - me senti um pouco infantil colocando isso para fora. - Achei que tinha rolado alguma química entre eles, porque eles ficaram lá no bar e depois achei que ele tinha se interessado, porque ele estava mandando mensagens pra ela. Ela não foi honesta comigo, deu a entender que estava ignorando ele e eu quis intervir. Não queria que ela perdesse a chance de conhecer uma pessoa legal.
- Tenho duas coisas a dizer.
- Estou ouvindo.
- A primeira é que fui cúmplice dessa armação toda e nem sabia. - ia explicar essa parte, mas ele levantou o indicador mostrando que não tinha terminado ainda. - A segunda é que não adianta você ficar com essa carinha. Ela está chateada agora, mas vai acabar passando e você está perdendo a chance de aproveitar a festa.
- Você está certo, mas ter ela me ignorando assim é estranho. E sobre o plano, acabei te usando mesmo sem a intenção.
- Sem intenção… Sei. - empurrei ele de leve.
- É sério! Minha ideia era levá-la ao bar quando vocês tocassem e se ela me perguntasse eu diria que era uma coincidência. Claro que correria o risco de eles nem se encontrarem.
- Iríamos encontrar vocês sim. Pelo menos eu ia querer saber quem era você.
- Estava curioso a meu respeito, ?
- Claro que sim! - ele me olhou da cabeça aos pés e, mesmo levando na brincadeira, eu fiquei um pouco sem graça.
- De qualquer forma, quando você nos convidou para esse evento, você elevou meu plano de nível. Ela não desconfiaria disso até estarmos aqui, e como ela ama futebol as chances de ela recusar eram mínimas.
- Fui usado, mas vou superar. - ele fez drama.
- Vamos nos preparar? - falou atrás de mim e eu tive certeza que a voz que eu tinha gostado enquanto cantavam no Red Wine era a dele.
- Resolveu a gayzisse do ? - perguntou, se levantando.
- Deixei os dois lá.
- Ai que orgulho, nossa primeira fã vai nos ver! - disse e piscou os olhos repetidamente como aqueles personagens de desenho quando estão apaixonados ou querem algo.
- Se você disser mais uma vez que ela é a fã número um, eu juro que você deixa de ser integrante da banda! - ameaçou com o indicador no rosto dele.
- Tá bom, tá bom. - ele ergueu os braços, se rendendo. - Minha, minha fã número um, já que acabamos de ver que você não é nem um pouco minha fã - provocou e saiu antes dos outros.
- Anda , vamos lá pra frente. - me esperava em pé.
- Lá pra frente? - perguntei, incerta. Não havia ninguém em pé, estávamos num evento e não em um show.
- Claro! Como vai apreciar estando aqui e sentada?
- Isso aqui está muito formal pra gente fazer isso.
- Que nada, daqui a pouco mais gente se aproxima. Anda que sua amiga já está indo lá com o . - olhei para frente e vi e andando juntos e sorrindo, os dois.
- Acho que se resolveram. Talvez ela não me ignore mais. - ilusão a minha. Quando percebeu minha chegada, fechou a cara de novo. Suspirei frustrada. estava certo, era minha culpa e a única coisa que eu podia fazer estando lá era aproveitar o resto da minha noite.
- Está tudo bem? - , que tinha se colocado entre nós duas, perguntou e respondeu tão baixo que não cheguei a ouvir e me foquei nos quatro rapazes que subiam ao palco.
Eles se posicionaram e, depois de se apresentarem e agradecerem a oportunidade de participar do evento, eles começaram a cantar e agora eu realmente podia falar que tinha gostado deles, já que não tinha nada de álcool no meu sangue. Eles cantavam e faziam gracinhas o tempo todo, pareciam crianças. Percebi que as pessoas estavam se dispersando e logo mais atrás havia uma fila. Entendi que o jantar tinha sido servido, só não entendi por que não esperaram os meninos terminarem, já que haviam anunciado a última música. Essa também não era um cover e não era a do bar, isso eu tinha certeza. Depois de agradecimentos deles e do organizador do evento, os meninos saíram lá de cima e logo estavam conosco.
- Gostaram? - foi quem perguntou.
- Sempre gosto.
- Você não, né, estava falando da e da . - cruzou os braços.
- Sério, ? Até você vai ficar nessa do ? - tentou prender o riso, sem sucesso.
- Não, eu só queria saber a opinião de quem não acompanha a gente sempre, igual a você - ele tentou amenizar e soltou os braços.
- Eu gostei muito. Vocês são bons nisso! - elogiei.
- Gostei também - disse.
- Fiquei até curiosa sobre as outras músicas de vocês.
- Sempre tocamos uma no final das apresentações. É só ir em todas, .
- Claro, . Minha meta de vida agora é seguir vocês! - mostrei língua.
- Tudo muito fofo isso aí, mas eu quero comer.
- , seu esfomeado! - deu um tapa na cabeça dele.
- Ei! Por que estou apanhando?
- A gente comeu antes de vir, nem deu tempo de dar fome!
- Gastei muitas calorias ali em cima. - apontou para o palco. - Preciso reabastecer. - foi com a mão de novo para bater em .
- Amor, ele quer me bater. - se escondeu atrás de , que rolou os olhos.
- Eles sempre se comportam como se tivessem oito anos de idade? - olhava a cena segurando um sorriso.
- Quase sempre. - sorriu e todos fomos jantar.

O jantar, assim como todo o evento, estava bem sofisticado e delicioso, assim como os doces que foram servidos depois. Eu estava satisfeita e, tirando a parte de uma amiga chateada comigo, tinha sido melhor do que ficar em casa, e eu estava começando a sentir aquela preguiça que vem depois de comer.

- Vamos dançar?
- Só se for pra devolver a comida… - disse passando a mão na barriga. - O único lugar que me atrevo a ir é minha cama.
- Quem mandou comer esse tanto. - contou vitória. - Quer dançar? - me olhou e normalmente eu devolveria o olhar, falando pra ela ir sim, no entanto me limitei a sustentar seu olhar.
- Não… Estou fazendo digestão ainda.
- Vou ter que dançar com o mesmo? - fez uma cara fofa e eu quase aceitei.
- Claro que não, porque eu vou dançar com a . - ele estendeu a mão na minha direção.
- Sinto muito, mas não vou dançar.
- Não precisa ter vergonha de não saber dançar, eu te ensino.
- Se ache menos, ! - disse mais alto, do outro lado da mesa, e todos rimos.
- Eu sei dançar, ok? Só que amo cereja e já nem sei quantos bombons desse aqui eu comi.
- Realmente, você comeu bastante. - arregalei os olhos pra ele.
- E isso é algo que você deveria falar para ninguém. - sorriu sem mostrar os dentes e estendeu a mão onde antes tinha a de . Acabei aceitando e segui para a pista de dança com e reclamando logo atrás de nós.
Agradeci mentalmente por não estarem tocando músicas para se dançar em casal, assim nós três dançávamos juntos. Ou tentávamos, já que não levava o menor jeito para dança e em mais de um momento eu parara de dançar para rir dele.
- Olha só quem resolveu se juntar a nós. - olhei na direção do olhar de e vi e vindo, juntos.
- É sério que ela está grilada com você porque teve que encontrar com ele? - balançou a cabeça e eu dei de ombros.
- Não sei de mais nada. - continuei dançando.
- Que bom que mudou de ideia.
- Não mudei, é insistente demais. - os meninos riram e devia ser tipo uma piada interna. - Fiquei com dó do e da ouvindo ele tentando me convencer e achei melhor vir logo.
- Se você já estava rindo de ver o que o chama de dançar, aguarde até dançar também. - falou baixo próximo ao meu ouvido, me fazendo rir. me lançou um olhar curioso e apenas neguei com a cabeça.
estava certo, não saberia dizer quem venceria uma competição de dança entre e , mas eu estava me divertindo bastante. nos deixou, alegando que estava precisando de água, e foi junto com ele. Ao invés de voltarem, foi quem saiu também. Depois da terceira música sem nenhum deles voltar, eu e fomos para a mesa e só e estavam lá.
- Cadê o resto? - perguntou enquanto eu tomava um pouco de água.
- Já foram embora - respondeu sem vontade.
- O que aconteceu? - me sentei.
- Eu vim beber água com a e estava praticamente dormindo em cima da mesa, aí disse que eles iam embora e pediu pra ir com eles.
- Ela foi embora sem falar comigo? - perguntei num tom alterado.
- Sim. Quando eu ia lá te avisar, o chegou e viu ela indo embora sem se despedir dele também e ficou todo nervoso e bravo comigo, como se fosse minha culpa. - o final foi diretamente para , e eu tinha entendido o motivo da cara ruim dele.
- Não acredito que ela foi sem falar comigo… - repeti, ainda sem acreditar. Peguei meu celular e não tinha nada, nem dela e nem de ninguém. - Que ótimo. - murmurei.
- A gente te deixa em casa, sem problemas.
- Não precisa, , não tem nada a ver com o ir embora em si. - ele sabia e eu não ia explicar mais nada. - Mas, de qualquer forma, eu já vou. - Me levantei da mesa procurando por contato de algum táxi nos contatos do celular.
- Qual o endereço? - estava sério.
- Não vou atrapalhar o resto da noite de vocês, eu pego um táxi.
- Que resto de noite? - ele riu irônico e me senti um pouco culpada. Disse o endereço e quem me levaria seria o , porque era caminho da casa dele. Me despedi dos dois e pedi desculpas pelas surpresas da noite.
- Vai ficar em silêncio o caminho todo? - deu o sorriso fofo de novo e acabei sorrindo junto.
- Só estava pensando como as coisas podem sair tão diferente do que a gente pensa.
- Acontece, ninguém prevê o futuro. - assenti e não falei mais sobre o assunto. - Ainda não sei o que você faz… - agradeci mentalmente pela mudança de assunto.
- Dou aulas de alemão e português na universidade, e a é bibliotecária lá também.
- Estamos convivendo com pessoas cultas então.
- Menos, . E você?
- Eu sou sócio do no estúdio, mas disso você já sabe. - concordei. - Nos conhecemos no Red, eu vivia por lá tentando achar o que fazer da minha vida e um dia ele pediu pra se apresentar lá. As músicas dele eram bem parecidas com o estilo que eu gostava e, conversando, a ideia do estúdio surgiu.
- Bom que deu certo, a maioria de sociedades que conheço acabou dando errado. - fiz careta. - E os outros?
- Fomos atrás deles depois de um tempo. Nós estávamos trabalhando em algumas músicas e algo estava faltando. Bem clichê isso, mas foi verdade. Um primo do fez uma festa e, de madrugada, o violão acabou comigo e estava cantando. Outras pessoas começaram a acompanhar as músicas e fomos atrás, ver se alguma delas tinha interesse de trabalhar com a gente. Acabamos com , que na verdade é jogador e usa a música como hobby, e o que dá aulas de violão e guitarra.
- Vocês são tipo super-heróis. De dia uma coisa e a noite outra.
- Tipo isso.
- É ali. - apontei para o prédio e ele estacionou. - Muito obrigada pela carona. - dei um beijo em seu rosto antes de sair do carro. Já estava quase entrando quando ele me chamou.
- Você falou sério quando disse que queria conhecer nossas outras músicas?
- Falei sim.
- Qualquer dia, passa lá no estúdio e eu mostro pra você.
- Combinado! - disse, animada. - Boa noite, . - mandei um beijo no ar e entrei.

Era a terceira vez que ligava para e chamava até cair na caixa postal. Isso já passava da conta. Eu entendia o fato de ela se chatear por eu ter me metido na vida dela, mas, analisando a noite passada, ela nem tinha achado tão ruim no final, o que me levava a não entender até quando ela ia me ignorar. Eu tinha mandado uma mensagem assim que cheguei e achei que a falta de resposta podia ser porque ela já estava dormindo. Mandei outra quando acordei e também nada de resposta. Agora estava ligando e já era a terceira vez e nada. Ela ia falar comigo, por bem ou por mal, porque isso já era infantilidade. Ela podia até não me desculpar, mas ela ia ouvir o que eu tinha para dizer. Analisei a roupa que eu estava vestindo e não fiz muita questão de melhorar, afinal, eu só ia descer um andar.
Toquei a campainha e ouvi alguns passos, porém nada de atender a porta.
- , eu sei que você está em casa, eu consigo ouvir a televisão ligada. Será que dá pra abrir essa porta e conversar comigo? - nada de resposta de novo. - Não vou sair daqui enquanto você não abrir. - me encostei na porta e quase caí quando a mesma se abriu.
- O que você quer?
- Conversar… Pedir desculpas. - continuava parada do lado de fora.
- Estou ouvindo.
- Vai me tratar assim agora? Fala sério! - elevei o tom de voz. - Eu entendo você estar chateada comigo, de verdade - voltei a falar normal. - Confesso que nem me coloquei no seu lugar e não imaginei que você acharia tão ruim, mas nós somos amigas e ter você me ignorando assim não dá. Me desculpa por ter me metido na sua vida assim e por ter escondido minhas reais intenções de sair, eu realmente achei que estava ajudando…
- Eu estou chateada mesmo, você não tinha esse direito. Eu ainda não estou cem por cento com a história com o Edward e você tentou colocar outra pessoa na minha vida sem se preocupar se eu estava pronta para isso. Aliás, você sabia que eu não queria ninguém na minha vida e mesmo assim foi atrás!
- Eu não faria isso se não achasse que pudesse dar certo! - rebati. Eu não tinha agido tão ingenuamente assim. - Na primeira oportunidade, ele já se abriu. E, se ele tinha se dado mal num relacionamento por querer assumir, as chances de você se magoar com ele por exatamente isso seriam nulas.
- , isso foi exatamente o que eu pensei do Edward e você sabe. - ela respirou fundo. - Ele se abriu e contou pra mim as coisas ruins que ele tinha passado quando tinha gostado de alguém e eu acreditei piamente que ele não teria a capacidade de fazer isso comigo. E no final foi exatamente o que ele fez.
- Você pode comparar os dois o quanto quiser, mas você não precisou nem de um encontro pra beijar o e as pessoas não se beijam daquele jeito se não existir vontade ou química. Então eu interferi sim na sua vida, e estou pedindo desculpas porque não aguento mais isso entre a gente. - apontei de mim pra ela. - Não me desculpe se não quiser, mas você está sendo extremamente infantil com tudo isso. Me ignorando por ter te feito encontrar com ele de novo e andando junto com ele praticamente metade da festa. O até duvidou de que fosse esse o motivo de você me ignorar.
- , hum… - ela fez uma cara de "estou sabendo" e riu.
- Eu abro meu coração aqui e tudo que você escuta é o nome do … - rolei os olhos falsamente, sabendo que já estávamos bem.
- Me desculpa pela reação exagerada. Eu…
- Tá tudo bem, cabeça dura. - a abracei sabendo que ela não era muito fã e entrei no apartamento, me jogando no sofá.
- Mas então… Você e o ... - comecei a rir.
- Não tem eu e o .
- Não mente pra mim, . Eu vi vocês dois trocando olhares suspeitos quase a noite inteira. - gargalhei.
- Não viaja, . Trocamos olhares tentando não nos perder na mentira, só isso.
- Pode ser só isso pra você, mas não estou convencida não, fã - ela o imitou e continuei rindo.
- E você e o ? O que tá rolando, afinal?
- Não está rolando nada, concordamos em ser amigos.
- E acha que vai dar certo? Ele ficou todo griladinho por você ter ido embora sem se despedir, descontou no , coitado.
- Eu sei que ele ficou grilado, mandou mensagem eu ainda estava no carro vindo pra cá.
- Mas isso eu vou concordar que foi sacanagem, você me deixar lá assim.
- Você estava se divertindo e o já estava dormindo lá, só aproveitei que a tinha oferecido carona. - não ia implicar mais com isso. - Falando nisso, como você voltou?
- Com o . - sorri sem perceber.
- Dois, ?! Quem diria…
- Larga de besteira, !
- Aham, e esse sorriso na sua cara é porque, então?
- Por nada, ué. Não posso nem sorrir mais…
- Fala logo, . Se você falar, eu te conto uma coisa também.
- Que amiga mais interesseira. Ou seria chantagista? - ganhei uma almofadada na cara. - Agora é que não falo mesmo.
- Chata. - joguei a almofada de volta.
- Não tem nada pra falar, sério. Só peguei carona com o e lá na festa você viu o tempo todo. A única coisa diferente foi que ele me convidou pra ir conhecer o estúdio dele e do qualquer dia.
- Olha só, pra quem queria distância de homem… Já está até de encontro marcado.
- Isso não é um encontro e eu quero distância de relacionamento, não de homem propriamente dito. Só que diferentemente de você, eu não estou fechada para a vida, se aparecer alguém legal, eu abro exceção.
- Quero até ver. Só questão de tempo até você ficar com algum deles.
- Tá louca, ?!
- Só não sei qual deles vai ser. - ela ficou pensativa. - Vou ter que analisar melhor os dois pra fazer minhas apostas.
- Fala o que é que você ia me contar ao invés de gastar neurônio pensando em coisas impossíveis. - ela me olhou e achei que ela ia voltar atrás.
- Eu e o nos beijamos.
- Isso não é novidade, né, eu vi! Não só vi, como atrapalhei.
- Não, ! Ontem. - a encarei espantada e logo comecei a rir.
- Qual é o mundo paralelo em que você vive onde as pessoas decidem ser amigas e se pegam?
- Mundo de .
- Tá vivendo no mundo dele, é? - foi minha vez de fazer cara, insinuando coisas.
- A gente decidiu ser amigos sim, só que, antes da gente entrar no salão de novo, ele me beijou e disse que estávamos quites.
- Quites? Como assim?
- Eu o beijei no bar e ele me beijou ontem.
- Você o beijou?! - gritei. - Você disse que não lembrava.
- E não lembro. Mas foi o que ele me disse quando disse que estávamos quites e eu acreditei.
- Já que dessa vez não estava bêbada, me conte como foi beijar o .
- Não é da sua conta!
- Se você acha que é só você que vai fazer apostas, está muito enganada. Aposto como você e o se pegam de novo em breve. A menos que o beijo dele seja ruim, portanto, responda a minha pergunta.
- Não foi ruim. Satisfeita?
- Muito.

Capítulo Quatro

POV

Eu saía da biblioteca, depois de mais um dia de trabalho, quando senti meu celular vibrar dentro da bolsa. Peguei o aparelho e bufei ao ver a notificação da mensagem que tinha acabado de chegar.

: Nos vemos hoje à noite?

Sem ao menos me dar o trabalho de visualizar a mensagem, guardei o celular de volta na bolsa. Eu não estava nem um pouco a fim de sair naquela noite e tinha diversos motivos para isso. Primeiramente, não queria ter que encarar e aquela amizade que ele estava querendo me enfiar goela abaixo. Não que eu fosse tão presunçosa assim, mas sabia que era questão de tempo para ele voltar a dar em cima de mim. Ok, talvez eu estivesse sendo um pouco presunçosa. Mas, se ele não ficasse me encurralando daquele jeito, talvez eu ficasse mais tranquila e não temesse a cada segundo a possibilidade de ele pensar que eu já estivesse preparada para seguir em frente. Edward já quase não fazia parte dos meus pensamentos, mas eu ainda estava muito desiludida com o sexo masculino para partir para outra. Além disso, era quinta-feira e no dia seguinte eu teria que acordar cedo para trabalhar. Definitivamente não estava a fim de ir para o The Red Wine assistir a apresentação da banda dos garotos, voltar tarde para casa e ainda ter que aturar no meu pé a noite inteira.
O celular vibrou novamente e, antes de sair pelo portão da faculdade, peguei o celular novamente.

: Não quero saber, ! Esteja pronta às 19h. Passo no seu apartamento.

Bufei mais uma vez, irritada. também estava me pressionando para sair naquela noite. Decidi responder as duas pedras no meu sapato quando chegasse em casa e caminhei para o ponto de ônibus.

Eu comia um sanduíche enquanto assistia ao time belga Anderlecht enfrentar um dos meus rivais ingleses, Tottenham, pela fase de grupos da UEFA Europa League. Meu vício por futebol me fazia assistir ao jogo que fosse, do campeonato que fosse, mesmo que não tivesse nada a ver com o Chelsea, meu time do coração. Aquilo era tudo que eu precisava para passar uma noite agradável em casa. Algo gostoso para comer, futebol na televisão e um livro novinho da Juliet Marillier esperando para ser lido quando o jogo acabasse.
A campainha tocou e fui obrigada a deixar o prato com o sanduíche em cima da mesinha de centro, já sabendo que era vindo, inutilmente, me buscar para sairmos. Abri a porta e me deparei com ela toda produzida, bem mais do que eu esperava.
- Está querendo chamar a atenção de alguém, é? - eu disse, franzindo o cenho. - ? Ou seria do ? - questionei, rindo.
- Não quero chamar a atenção de ninguém, engraçadinha - ela deu uma risada irônica. - Posso saber por que você não está arrumada?
- Porque não vou. Já falei - dei de ombros.
- ! - ela exclamou com indignação. - Não quero ir sozinha!
- Não fui eu quem entrei em contato com a banda para saber quando eles se apresentariam de novo no bar. Logo, não tenho nada a ver com isso - falei, vendo ela rolar os olhos. - Se quer tanto vê-los novamente, vá sozinha.
- Você ainda tem a coragem de dizer que é minha melhor amiga - ela disse, cruzando os braços. - Sério, . Vamos!
- Não, . Estou cansada, amanhã tenho que trabalhar cedo e não estou nem um pouco a fim de ter que aturar o chato do - enumerei meus motivos extremamente relevantes para ficar em casa.
- Não precisa aturar - ela começou, com um sorriso esperto. - Vocês podem ficar se pegando a noite toda. Não é uma ótima ideia?
- Não - foi tudo o que me dei o trabalho de responder, diante daquela brincadeira tão desnecessária.
- Tudo bem - falou em meio a um suspiro, se dando por vencida. - Pelo menos a estará lá e vou ter uma companhia feminina. Logo ela vira minha melhor amiga, ouviu?
- Não ligo - dei de ombros, fingindo que realmente não me importava. Na realidade, se ousasse me trocar pela , ela não viveria para desfrutar dessa nova amizade.
- Tchauzinho, amiga ciumenta. Fique aí sozinha assistindo futebol. Que noite maravilhosa, hein? - ela rolou os olhos e se aproximou para me dar um abraço.
- Bem melhor do que aturar homem chato no meu pé! - eu brinquei e arranquei uma gargalhada da minha amiga.
Observei entrar no elevador e fechei a porta do meu apartamento. Voltei para o delicioso sanduíche que ainda me esperava na mesinha de centro e, assim que minha bunda encostou no assento do sofá, o Anderlecht marcou o primeiro gol da partida e comemorei. Chupa, Tottenham!

POV

Minhas pernas balançavam constantemente sem eu nem me dar conta. Estava morrendo de ansiedade para saber se mudaria de ideia e apareceria no The Red Wine naquela noite. Antes que eu pudesse pensar duas vezes, estava sempre mandando mensagens para ela, querendo conversar e saber como estava sendo o dia dela. Eu nem me lembrava mais de Katherine e do quanto ela havia me feito sofrer quando não quis assumir um relacionamento sério comigo. Eu havia me sentido um lixo, o cara mais trouxa do planeta, e agora já nem me lembrava mais o motivo disso tudo. Desde que vi e no bar, antes mesmo de saber seus nomes, achei terrivelmente bonita e eu só queria que ela me notasse e quisesse passar uma noite comigo. Fiquei indignado por vê-la sofrendo daquele jeito pelo tal Edward, um grande de um retardado. Porque, vamos combinar, para ter jogado fora a chance de ficar com uma garota como , ele só podia ser muito retardado. Para minha surpresa, não apenas pude fazer ela me notar, mas também consegui um beijo! Meus amigos me alertavam toda hora que eu devia ir com calma e tentar não me apegar demais a ela, mas eu apenas os ignorava. Eu não estava me apegando a ninguém, só precisava dar mais do que uns beijinhos naquela garota.
- , você pode parar de balançar as pernas? - , sentado ao meu lado, questionou impaciente.
Nós estávamos sentados em uma mesa do The Red Wine, esperando pela hora em que começaria nossa apresentação.
- E também de olhar de cinco em cinco segundos para a porta - disse rindo.
- E vocês podem parar de encher meu saco? - perguntei ironicamente.
- Isso tudo é por causa daquela garota do evento do Brentford? Qual o nome dela mesmo? - questionou, olhando para a namorada.
- - respondeu, com um sorriso travesso nos lábios. - está gamadão na .
- Não estou gamado! - eu exclamei. - Ela é gostosa e quero pegar ela. É bem diferente.
- Sim - falou, cheio de ironia. - Katherine também era gostosa e você queria apenas pegar ela.
- Cala a... - comecei, rolando os olhos, mas interrompi minha fala quando notei uma movimentação na porta do bar e reconheci . E, para a minha decepção, ela estava sozinha.
A garota passou os olhos rapidamente por todo o ambiente e, quando nos viu, veio em direção à nossa mesa.
- Oi, pessoal - ela sorriu e cumprimentou todos com beijos no rosto.
- Senta aqui, - indicou a cadeira vaga ao seu lado, que logo foi ocupada pela recém-chegada.
- Cadê a ? - eu falei, deixando que as palavras saíssem pela minha boca antes que eu percebesse.
me encarou, perceptivelmente prendendo o riso, e eu odiei aquela reação. Mais uma para rir da minha cara…
- Não diga que ela não vem! - exclamou. - estava pretendendo fisgar a sua amiga de vez hoje, cantando uma música bem romântica para ela...
- I wanna fuck you - completou a zoeira iniciada pelo outro e arrancou risos de todos. Menos de mim, é claro, que apenas soltei a risada mais irônica que consegui. Eles riram mais ainda.
- Odeio vocês - falei, irritado.
- Infelizmente, ela não vem, . Praticamente implorei para ela vir comigo, mas ela preferiu ficar em casa assistindo a Europa League - disse com uma careta.
Tudo bem, trocar uma apresentação nossa por futebol não era algo tão condenável assim… Mas aquilo não estava certo! Eu havia me arrumado e colocado meu perfume mais caro especialmente para ela. Estava preparado para cantar e surpreendê-la, inclusive tinha pedido para os garotos colocarem mais músicas de minha autoria na setlist. tinha que estar lá naquela noite.
- Vou convencê-la a vir - peguei meu celular em cima da mesa e me levantei.
- Essa eu quero ver - pude ouvir dizer, depois de soltar uma gargalhada.

POV

, definitivamente, era a criatura mais irritante da face da terra.
Eu ainda não acreditava que estava saindo de casa, depois de preparar tudo para uma noite tranquila e agradável em casa, descansando depois de uma semana intensa no trabalho que ainda nem havia acabado. Tudo por culpa daquele maldito jogador de futebol metido a cantor. Enquanto eu assistia ao final do jogo, que, para a minha felicidade de torcedora do Chelsea, estava terminando com uma derrota do Tottenham, escutei meu celular tocar insistentemente e me surpreendi ao constatar que estava me ligando. Ele não deveria estar em cima do palco cantando com seus amigos?
Atendi, curiosa para saber o que ele gostaria de falar comigo naquele momento, e me surpreendi quando ele praticamente implorou para eu ir assistir à apresentação deles no The Red Wine. Apesar de ele ter insistido diversas vezes para que eu fosse, não imaginava que minha presença seria tão importante assim. Quando seus argumentos bobos (como: “todo mundo está aqui se divertindo e você em casa, sozinha”) acabaram, ele começou com os argumentos altamente apelativos (como: “preparamos um show especialmente para você e , e você vai fazer essa desfeita?”). No final, depois de mais de dez minutos tentando fugir pela tangente, eu acabei ficando com pena e resolvi que não custava nada ir, apenas por educação.
Me olhei de cima a baixo no espelho do elevador e constatei que eu estava, pelo menos, apresentável. Tendo que me arrumar às pressas, tomei um dos banhos mais rápidos da minha vida, peguei o primeiro vestido que vi ao abrir o armário e o primeiro par de sapatos de salto que encontrei e combinavam com o vestido. O penteado e a maquiagem ficaram o mais simples possível, mas eu estava bonita. Ainda bem que a genética dava um empurrãozinho naqueles momentos de desespero. Saí do prédio e, por sorte, consegui um táxi facilmente.
Quando adentrei o bar, os garotos já estavam no palco, cantando um cover de Sugar, do Maroon 5, e comecei a achar que ir até ali não tivesse sido tão ruim assim e eu até conseguiria me divertir um pouco. Não pude deixar de imaginar que devia estar amando a apresentação deles, pois nós eramos um tanto fanáticas pelo Maroon 5. Enquanto minha amiga era completamente louca pelo Adam Levine, eu morria de amores pelo guitarrista James Valentine. Não demorei para avistá-la sentada em uma mesa, ao lado da garota que havíamos conhecido uns dias antes, a .
- Oi, meninas - eu disse, sorridente, quando me aproximei delas.
levantou os olhos até meu rosto e franziu a testa. Ela estava, perceptivelmente, muito confusa em me ver ali.
- ? O que você está fazendo aqui? - ela questionou. Como se algo tivesse dado um estalo em sua cabeça, ela abriu a boca, chocada, e parecia já ter chegado a uma conclusão. - Não acredito! te convenceu a vir!
olhou de mim para ela e começou a rir.
- Isso não me admira nem um pouco - disse e se levantou para me cumprimentar com um beijo na bochecha. - Senta aí. O show está ótimo!
Me sentei na cadeira vaga ao lado da minha melhor amiga e olhei para o palco, onde os meninos ainda cantavam a segunda metade de Sugar. Olhei para cada um deles, analisando sua performance. Tínhamos visto eles se apresentando no evento de caridade do Brentford F.C., mas, ali no bar, eles pareciam estar em casa. Era bastante diferente vê-los cantando novamente ali, agora conhecendo e tendo conversado com todos. Se eu já tinha os achado talentosos antes, estava mais certa ainda disso agora. Quando meu olhar parou em , notei que ele me encarava enquanto cantava “there ain't no other way, ‘cause, girl, you're hotter than the southern California day”. Senti minhas bochechas corarem e desviei meus olhos dos dele. Ele estava usando Maroon 5 como cantada… Sério, ?
- Me conta, amiga! O que disse para te fazer mudar de ideia? - questionou, aproveitando que a música tinha acabado e teríamos alguns segundos para conversar sem precisar berrar tanto, enquanto os garotos anunciavam a próxima música.
- Ele me ligou - eu disse e ela assentiu, provavelmente já ciente dessa parte. - E ficou usando tudo que é tipo de argumento para me fazer mudar de ideia. Quando percebi que ele não ia desistir, achei melhor vir de uma vez.
- é assim mesmo, - falou, rindo e balançando a cabeça em negação. - Quando ele quer algo, não desiste até conseguir.
Senti uma cotovelada vinda de e a encarei com a cara fechada, enquanto ela estava com um sorriso provocativo.
- Não é tudo o que você gosta? - ela perguntou. - Caras decididos e que não tem medo de arriscar…
- Sim, gosto de caras assim - respondi. - Mas não de caras chatos que não entendem que não quero nada com eles!
- Não quer nada com eles. Sei… - disse e trocou um olhar cúmplice com .
Percebi que as duas tentavam se manter sérias, então, sem ânimo para contestá-las, apenas bufei e voltei a prestar atenção na apresentação dos garotos. A próxima música foi uma autoral, que eles anunciaram como tendo sido escrita por . É, para um jogador de futebol metido a cantor, até que ele sabia escrever umas palavras bonitinhas…

Depois de finalizarem a apresentação, os garotos voltaram para a mesa e , e ficaram surpresos ao me verem ali. , entretanto, me mostrou um sorriso irritantemente convencido. Um pouco bonitinho, também. Mas eu jamais admitiria isso, então esqueça esse último comentário. Ele fez questão de se sentar ao meu lado e, insistentemente, passar mais de uma hora puxando papo comigo. Sem muita escolha, acabei me deixando levar e até estava me divertindo com as coisas engraçadas que ele dizia. Não havia sido tão ruim assim sair de casa naquela noite de quinta-feira, afinal.
- Vou pegar alguma coisa para beber, - avisou, chamando minha atenção. - Vem comigo?
- Acho melhor não. Vou trabalhar amanhã - expliquei, fazendo uma careta.
- Uma cervejinha não vai fazer mal - ele disse, se levantando. Segurou meu braço e deu alguns leves puxões. - Vem, vamos beber. Até parece que você não gosta. No dia que nos conhecemos você encheu a cara.
- Hoje é um dia bem diferente, - comecei, tentando livrar meu braço de sua mão. - Não preciso esquecer babaca nenhum e, principalmente, eu trabalho no dia seguinte.
- Então você já esqueceu o babaca, é? - ele perguntou, interessado demais para o meu gosto, ainda sem me soltar.
- Vou fingir que não escutei essa pergunta - respondi, rolando os olhos.
- Vamos, - deu mais alguns puxõezinhos no meu braço, me incentivando a me levantar, e eu bufei, irritada. Entretanto, dei graças a Deus por ele não ter insistido em saber se eu já tinha esquecido Edward ou não. Eu já estava quase superando toda aquela história por completo, mas ainda não queria dar abertura para tentar alguma coisa. Não estava com vontade de me envolver com ninguém.
- Será que os dois pombinhos podem se decidir logo? - perguntou alto, já um pouco alterado pela bebida. - Queremos continuar nossa conversa em paz.
Só naquele momento reparei que estávamos chamando a atenção da mesa toda e corei por isso. Maldito , sempre tão inconveniente! Já que ele não me soltaria até eu fazê-lo companhia no bar, me levantei e ele, finalmente, libertou meu braço. Mais uma vez ele tinha conseguido o que queria devido à sua insistência. Eu me perguntava até que ponto ele conseguiria, com aquela estratégia, me fazer mudar de ideia… Seguimos juntos até o bar, onde ele pediu duas cervejas. Meio a contragosto, já que eu realmente pretendia não ingerir álcool naquela noite, aceitei a cerveja e decidi tomar o conteúdo da garrafa bem lentamente, para evitar que acabasse extrapolando meu limite. , em compensação, pedia uma garrafa atrás da outra, enquanto conversávamos.
- Quer mais uma cerveja, ? É por minha conta - ele ofereceu ao notar que o conteúdo da minha garrafa já estava no final.
- Não, obrigada. Já falei que preciso trabalhar amanhã - eu disse pela milésima vez. - Já bebi uma garrafa, fique feliz!
- Tudo bem, então - ele falou, finalmente se dando por vencido. - Você ainda não me disse com o que trabalha. Deve ser algo importante, para fazer tanta questão assim de se manter sóbria.
- Todo trabalho tem sua importância, mas não é questão de ser um trabalho “importante” - fiz gesto de aspas com os dedos. - Só acho pouco profissional ir trabalhar de ressaca. E bem desconfortável também. Enfim… Sou bibliotecária na Biblioteca Central da Universidade de Londres.
- Uau! Você deve ser bem inteligente - a admiração era bastante perceptível em sua voz. A embriaguez também. - Deve ler bastante.
- Gosto bastante de ler sim, mas, antes que você cogite essa possibilidade, eu não passo meus dias lendo todos os livros da biblioteca - eu falei rindo, já acostumada com essa ideia louca que as pessoas têm de que os bibliotecários conhecem todos os livros da biblioteca de cor. Se fosse assim, não existiriam inúmeros métodos de catalogar e classificar livros.
- Não importa, você deve ser inteligente de qualquer jeito - ele deu de ombros. Notei que ele parecia pensar em algo, enquanto me observava atentamente. Seus olhos desceram pelo meu corpo e senti um leve frio na barriga. - Pensei que só existissem bibliotecárias velhas e chatas, com uma verruga na ponta do nariz. Você é uma bibliotecária bem gostosa, uh? - disse e, em seguida, deu um gole em sua cerveja.
Ri, um pouco embaraçada. A naturalidade com que ele falava aquele tipo de coisa ainda me assustava e eu, honestamente, duvidava que um dia conseguiria me acostumar.
- Estereótipos… Infelizmente, existem muitos - eu disse, ignorando o fato de ele estar, claramente, dando em cima de mim novamente.
- Sou jogador de futebol - ele falou. - Qual é o estereótipo de jogadores de futebol?
- Eu sei que você joga pelo Brentford. nos contou - expliquei. - E canta como hobby... Como assim? - perguntei, rindo.
- Meu sonho é ser jogador de futebol desde criança. Foi incrível conseguir ser contratado pelo Brentford, mas eu quero muito mais. Estou trabalhando duro para conseguir um contrato com algum time da primeira divisão, inclusive - ele contou com um brilho nos olhos. - E gosto de cantar com meus amigos, então não abro mão disso. É divertido.
- Legal… - sorri para ele. Sempre achei emocionante ver pessoas falando com tanta paixão sobre seus sonhos. Conhecer aquele lado de foi interessante. - Sobre o estereótipo de jogador de futebol, acho que você também foge do padrão.
- Ah, é? E qual seria esse estereótipo? - questionou com curiosidade.
- Barriga sarada, coxas grossas e durinhas… - falei sem conseguir me manter séria. Ainda não havia o visto sem roupa para ter certeza, mas, mesmo que não fosse do tipo bombado, ele parecia ser bem gostosinho. Eu estava apenas zoando com a cara dele.
Espera aí. “Ainda não havia o visto pelado”, ? Que papo era esse?
- Você nunca viu nem apertou minha barriga ou minhas coxas para saber - ele disse, abrindo um sorriso malicioso. - Mas podemos resolver esse problema agora mesmo.
- Vai sonhando, - soltei uma gargalhada. - Mas não preciso ver ou apertar para ver que suas coxas são metade das do Eden Hazard, por exemplo.
bebeu o restinho da cerveja contida na garrafa que ele segurava e a deixou em cima do balcão. Se levantou do banco em que estava sentado e puxou minhas pernas até que pudesse se posicionar no meio delas. Pega de surpresa, não tive reação para impedir aquelas ações, e fiquei ainda mais estática quando ele espalmou suas mãos nas minhas coxas descobertas pelo vestido e aproximou seu rosto perigosamente do meu. Ao sentir sua respiração bater na minha pele, prendi a minha por impulso.
- Não preciso ter as coxas do Eden Hazard para te deixar assim. Qual é a vantagem, então? - ele sussurrou.
Deixou claro que aquela havia sido uma pergunta retórica quando grudou seus lábios aos meus e, deixando uma das mãos ainda em minha coxa, colocou a outra em minha bochecha. Ele entreabriu a boca e passou a ponta da língua pelos meus lábios, fazendo um calafrio correr pelo meu corpo. Antes que eu pudesse pensar, estava dando espaço para que sua língua invadisse minha boca. O beijo tinha gosto de cerveja, o que me fez sugar sua língua, querendo sentir aquele gosto ainda mais. Nos beijamos por algum tempo, um explorando a boca do outro, até eu me dar conta da besteira que estava fazendo.
- ! - eu exclamei, o empurrando pelo peito. - Achei que eu tinha deixado claro que ainda não estou pronta para isso. Nós combinamos ser apenas amigos!
- O que tem? Não podemos ser amigos e nos beijar às vezes? - ele questionou, dando uma de esperto para cima de mim. - E não vem com essa. Você estava adorando!
- Não, não podemos nos beijar às vezes - falei, demonstrando toda minha indignação, ignorando a segunda parte de sua fala. De fato, eu estava gostando um pouquinho daquele beijo, mas quem ele pensava que era para se dar o direito de usar isso como argumento?
- Ok - ele deu de ombros, com um sorriso travesso nos lábios. Semicerrei os olhos, desconfiada, pois imaginei que ele fosse continuar me pressionando.
Em um rápido movimento, ele segurou meus braços e capturou meus lábios mais uma vez. Me beijou por alguns segundos, rindo, até que me soltou e eu o empurrei novamente. Me levantei do banco, em seguida.
- Você é impossível, ! - exclamei, irritada, e voltei para a mesa em que os outros continuavam sentados, batendo os pés.

Capítulo Cinco

POV

Que o não me escutasse falando isso, mas eu com certeza já era fã dos quatro garotos no palco. Eles estavam na segunda música e eu não sabia quem admirava mais, parecia tão natural e eu não estava arrependida de estar ali naquela quinta, mesmo abandonada pela melhor amiga. Eu estava bem mais animada que , imagino que eu estava curtindo uma novidade ainda e ela já deveria ter visto tantas vezes que era só mais uma apresentação. tinha algo que o fazia se destacar no palco, incluindo as gracinhas constantes, mas era a voz de que insistia em me chamar a atenção.
Eles haviam anunciado o cover de Sugar e ria da minha empolgação, mas a surpresa foi maior ao ver ao meu lado. Claro que conseguiria convencê-la, embora ela insistisse que só estava lá para ele a deixar em paz. Eles anunciaram que a próxima música era de autoria própria, chamada Through the Dark, e eu continuava empolgada, afinal, a primeira música que me fez olhar para eles não tinha sido cover. A música tinha uma batida mais animadinha e, se eu tivesse bebido mais um pouco, era provável que estivesse dançando. Senti me cutucar de leve e apontar com a cabeça de para . quem cantava agora e cantava encarando ela.

You tell me that you're hurt, it's all in vain
But I can see your heart can love again
And I remember you laughing
So let's just laugh again

podia tentar me convencer o tanto que quisesse de que não tinha gostado, eu jamais acreditaria vendo a expressão em seu rosto, além de que a letra tinha sido super propícia para a situação e eu me arriscaria a dizer o que ela estava pensando. A última música era um cover, como na outra noite eles foram muito aplaudidos, depois agradeceram e logo estavam na mesa conosco. Eu me sentia como uma mãe orgulhosa e ri com meus pensamentos.
- Ah, agora eu entendi por que o cantou uma parte da música fora do tempo. - foi o primeiro a zoar, sendo repreendido por , nos fazendo rir e o mesmo fazer uma careta.
- Não errei nada, - ele reclamou.
- Você errou sim - fez questão de afirmar.
- Se você fez isso, nem deu pra perceber. - eu não tinha percebido nada diferente.
- Não precisa passar a mão na cabeça dele não, - voltou a falar.
- Não deu pra perceber porque o ritmo dela é acelerado - disse e se sentou na cadeira à minha frente, depois de ter cumprimentado . Os outros também a cumprimentaram e se sentaram em volta da nossa mesa, cada um pegando uma garrafa de cerveja.
- Para que fazer planos quando o próprio pode fazer o serviço, né, ? - passou o braço pelos meus ombros.
- Realmente, não achei que ninguém pudesse tirar ela de casa essa noite - provoquei. - E você é bem folgado, hein? - ele deu de ombros e continuou com o braço onde estava.
- Eu sei que eu sou demais - se gabou.
- Menos, querido. Bem menos. Só era o jeito mais eficaz de te fazer parar de falar no telefone.
- Mas o que achou de hoje, ? - encarei após a pergunta.
- Que vocês são ótimos. Não dá nem pra acreditar que é só hobby - falei com a mesma empolgação de antes. - Poderia ouvir vocês o dia todo. - sorri.
- E você, ? - murchou ao perceber que tinha sido ignorado.
- Cara, eles parecem que estão numa bolha. - fez careta.
- Aposto que, se a gente falar mal deles, eles nem vão escutar.
- ! O que deu em você hoje? - tentou soar séria, mas ria conosco.
- Sobre o que eles estão discutindo? - perguntei baixo.
- Pode gritar, aposto que eles não vão escutar - insistiu.
- está tentando convencê-la a beber. - , que estava mais perto dos dois, respondeu.
- Partindo do princípio que ele a convenceu a vir aqui quando nem a conseguiu, acho que aceitar uma bebida vai ser o de menos. - ponderou e concordei.
- Então vamos ficar em silêncio encarando eles e ver quanto tempo eles demoram pra perceber.
- , gostei. - sorriu e passou a encarar os dois, assim como todos nós.
- Alguém está marcando o tempo? Será que já deu um minuto? - eu queria zoá-la por isso depois, mas resolveu atrapalhar.
- Será que os dois pombinhos podem se decidir logo? - perguntou alto. - Queremos continuar nossa conversa em paz. - seguramos o riso.
se levantou e foi com ela até o bar.
- Muito fácil de convencer, não disse?
- Muito fácil de ser convencida pelo , isso sim, .
- Quanto tempo vocês acham que vai demorar para eles se pegarem? - soltou.
- Eles já se pegaram, esqueceu?
- Não esqueci, . - ele rolou os olhos. - Mas aquele dia não conta. Quanto tempo vocês acham que vai demorar? - repetiu a pergunta.
- Nadinha - respondeu e me virei seguindo o olhar dele.
- Não acredito! - exclamei com as mãos na boca.
- Droga, a aposta perdeu o sentido então.
- Já sei - se manifestou. - É só mudar a aposta. Quem acha que eles vão se pegar na próxima vez que se encontrarem?
- Bom, se considerar que eles se beijaram em todas as vezes que se encontraram até hoje… - dei de ombros.
- Como é? - os três gritaram e riu, desconfiei que tivesse contado para ela.
- Todo aquele doce lá no evento e eles tinham se beijado? - me encarou e eu concordei.
- Então eu aposto que vão se pegar na próxima vez que se encontrarem - voltou ao assunto inicial. - Tem praticamente cem por cento de chance de acontecer.
- Para a aposta ser justa, precisamos de um jurado, porque eu não quero vigiar nenhum dos dois para saber se ganhei ou não. - ponderou.
- E eu acho que a tem que compartilhar as informações com a gente - reclamou.
- Que informações? - o encarei rindo.
- Ah, você é amiga da , deve ter informações valiosas para nós.
- E vocês são amigos do . - não tinha entendido o ponto dele ainda.
- Mas homens não conversam sobre essas coisas - ele disse em tom de obviedade. - Mulheres sim. Então, antes de apostar, quero saber o que a acha de tudo isso.
- Não vou dedurar minha amiga assim, . - ri alto e deu um tapa leve na cabeça dele.
- Ai - reclamou. - Só conta então se você acha que tem chances de eles ficarem de novo.
- Então pra que a aposta? - foi quem zoou.
- Ok, uma informação pra vocês - falei baixo como se fosse um segredo e eles se calaram. - Lá no evento eles tinham combinado que seriam só amigos.
- Rá! Conta outra, .
- Não estou mentindo, .
- Então vem aqui, nós somos amigos, vou te beijar também. - ele se aproximou e eu o empurrei, rindo.
- Sai daqui, . Vai pensar na sua aposta. - balancei a cabeça, em dúvida pela primeira vez sobre o comportamento de .
- Mas eu já falei no que vou apostar. Aposto que eles vão se pegar na próxima vez que se encontrarem.
- Eu também. - levantou a mão.
- Eu acho que não - disse convicto e eu fiz uma careta. - Mas ainda quero um jurado pra essa aposta.
- A - sugeri. - Ela sabia que tinha beijado a aquele dia em que se conheceram, ela pode descobrir.
- Você sabia e não me contou? - a olhou indignado.
- Amor, você realmente não entende o significado de segredo? - rolou os olhos.
- Continuando, então temos a e a de juradas. - encarei procurando o motivo para mais de um jurado. - Se a consegue informações do lado do , você consegue do lado da . Fica muito mais justo.
- Ok. - dei de ombros.
- E quando eu ganhar o que acontece? - perguntou confiante.
- Você não vai ganhar.
- Ganhar o que? - perguntou, aparecendo com uma emburrada ao seu lado. Segurei a vontade de rir.
- Fala sério, sua amiga é bipolar ou então o beija mal pra caramba! - sussurrou no meu ouvido e acabei rindo. - Estavam na maior pegação e agora está assim… - o empurrei, notando a cara que minha amiga fazia para mim.
- Escolhi meu presente de aniversário e o quer um igual. - foi provavelmente a primeira coisa em que pensou, era uma desculpa horrível, porém não percebeu nada de errado. Imagino que já estava alterado pela bebida.
- Que cara ruim é essa, ? - repetiu, agora em voz alta e eu tomei a garrafa da sua mão.
- Acho que já está bom de cerveja por hoje. - coloquei a garrafa do outro lado da mesa. Troquei olhares com a e entendi que ela queria ir para casa. - Meninos, foi tudo lindo, mas nós trabalhamos amanhã e eu preciso dormir um pouco. Vamos, ?
- Vamos sim. - ela levantou e a puxou para sentar de novo.
- Você chegou depois, vai embora depois também. - se fosse possível matar com um olhar ela o teria matado naquele momento.
- Não força, . - deu uma piscadinha e me peguei encarando ele.
Nos despedimos de todos com abraços e ocasionais beijos e, para nossa sorte, alguns táxis estavam disponíveis do lado de fora do local. O caminho inteiro foi silencioso e eu não tinha ideia do que poderia ter acontecido. Só tinha uma certeza: dessa vez a culpa não era minha. Paguei o táxi e, quando estávamos no elevador, decidi falar.
- O que foi que aconteceu? - ela ainda parecia emburrada.
- tem sérios problemas com limites. Ele concordou em ser meu amigo e fica me beijando.
- Mas você parecia estar aproveitando… - fui fuzilada com o olhar e ergui meus braços em sinal de rendição.
- E você e o ?
- De novo isso?
- Você acha que eu sou cega, mas eu não sou. Vi ele com o braço em seus ombros e falando juras de amor ao pé do ouvido. - gargalhei.
- Que imaginação fértil. Estava mais pra fofoca ou cochicho do que juras de amor. - o elevador parou no andar dela e eu agradeci. Se demorássemos mais um pouco, ela repetiria o discurso, só que sobre .
- E o , hum? - eu estava errada, ela só soltaria a porta do elevador quando falasse tudo.
- O que tem o ?
- Está interessado em você. - rolei os olhos. - Você é muito sonsa para não ter percebido ainda.
- , que tal soltar a porta e a gente acabar com essa conversa? - sorri esperançosa.
- Você não percebeu nenhum dos olhares dele?
- Que olhares?
- Quando o passou o braço por seus ombros, por exemplo.
- Não viaja, . Boa noite. - mandei um beijo e ela soltou a porta do elevador, deixando que o mesmo parasse no meu andar.

Exatamente uma semana tinha se passado desde o encontro no The Red Wine. Eu havia recebido algumas mensagens aleatórias de e havia me mandado uma avisando que tocariam de novo, mas a semana de provas se aproximava e eu tinha muito o que fazer, por isso respondi que não conseguiria ir. Não sabia se havia falado com algum deles, provavelmente teria falado com , ou ele com ela, já que parecia extremamente insistente. Não tinha tido muito tempo de falar com ela durante a semana e, quando li uma mensagem de , desci até o apartamento dela, sabendo que ela deveria ter chegado do trabalho. Toquei a campainha três vezes seguida por pura implicância.
- Que desespero é esse? Quem está morrendo? - rolei os olhos.
- Você está de mau humor até hoje? - fiz uma careta e ela riu.
- Só estou cansada e, quando penso que vou tomar um banho e relaxar, uma louca toca minha campainha desesperadamente.
- Quanto drama! Tome um banho rápido, nós vamos sair - anunciei.
- Não vou ao The Red Wine essa semana não, e nem adianta insistir.
- Quem está falando em The Red Wine? Nós vamos fazer compras! - disse animada. Tinha um bom tempo que não saia para compras.
- Compras? Numa quinta? - confirmei com a cabeça. - A menos que você tenha um encontro, não vamos fazer compras.
- Não tenho um encontro. Vamos fazer compras para o aniversário do . Você não leu a mensagem da , não?
- Eu li sim, a sua é que deve ter vindo faltando a parte que fala que a festa é sem ser nesse, no outro fim de semana.
- Sai dessa TPM, . Já cansei… - cruzei os braços emburrada.
- Por que tem que ser hoje? - pelo tom da pergunta, ela estava se sentindo culpada e eu provavelmente a convenceria.
- Porque eu trabalhei demais essa semana e tem séculos que não faço compras. - tentei uma cara convincente. - Eu pago um milkshake - ofereci.
- Você vai pagar o que eu quiser comer, isso sim. - ela ria.
- Então vai logo tomar seu banho, porque a busca pelo biquíni perfeito nos espera.

- , já pensou que tipo de roupa você está procurando? A gente não tempo muito tempo até o shopping fechar.
- Eu sei, mas acho que talvez eu compre só um biquíni mesmo. A menos que eu encontre um vestido perfeito. E você, alguma ideia?
- Não tive muito tempo para pensar, você me pegou de surpresa.
- Vamos entrar aqui, então. - a puxei para a primeira loja que poderíamos encontrar o que procurávamos.
Após alguns minutos rodando pela loja, eu tinha separado alguns shorts, blusas e vestido, mas nenhuma roupa de banho tinha me atraído. tinha algumas peças na mão, acho que tinha tido mais sorte do que eu nessa primeira loja. Seguimos para o provador e, depois de mostrarmos todas as roupas uma para a outra, eu tinha decidido que não levaria nada dali.
- Acho que vou levar esse short - ela disse, devolvendo as outras peças ao atendente. Era um short jeans de cintura alto e tinha ficado bom nela.
- E não tem risco de não combinar com o resto que você escolher. - seguimos até o caixa e, depois que ela pagou, seguimos para a próxima loja. Era uma exclusiva de roupa de banho e eu tinha esperança de que comprasse algo ali.
- Boa noite, como posso ajudá-las? - uma atendente se aproximou de nós.
- Boa noite. Estamos procurando biquínis para uma festa na piscina. - respondeu enquanto eu já olhava alguns na arara mais próxima.
- Vocês tem alguma preferência de cor ou modelo?
- Eu gosto de coisas mais coloridas, pode ser estampado - minha amiga respondeu primeiro.
- Eu não gosto de rosa, nem amarelo. Vou dar uma olhada nesses aqui. - a vendedora assentiu e foi pegando alguns pacotes para nos mostrar. - O que achou desse? - cutuquei minha amiga mostrando um roxo com verde.
- Não gostei muito não. Mas coloca no corpo e vê se você gosta. - neguei e devolvi para o lugar.
- Achei meio morto, quero algo mais alegre.
- Você está é querendo chamar a atenção de uma pessoa aí… - ela soltou como se não quisesse nada e, para minha sorte, a vendedora começou a mostrar o que tinha separado para nós. Eu tinha descartado alguns de cara e, dos que experimentei, não senti que era o que eu queria. estava em dúvida entre dois, um florido que tinha ficado muito bom nela e um listrado de vermelho e branco.
- , qual você gostou mais?
- Leve os dois, faço um preço ótimo para você - a vendedora disse do lado de fora do provador e ela rolou os olhos.
- Pelo seu rosto, acho que você gostou mais do florido, então voto nele.
- Vou levar o florido. - ela entregou para a atendente.
- E você? Não vai levar nenhum? - fiz uma careta e vi um chapéu lindo.
- Quero aquele chapéu. - apontei para o mesmo e ela pegou. Me olhei com ele no espelho e gostei mais ainda. - Vou levar. - sorri para a atendente.
- , mais chapéus? Você tem muitos.
- Eu sei, , mas não tenho nenhum branco assim. Vou levar. - pagamos, agradecemos e procuramos mais uma loja.
- Olha. - ela a pontou para o interior de uma loja de departamento e pude ver modelos de tops cropped. - Vamos entrar? Acho que vou encontrar um para usar com esse short. - dei de ombros e a acompanhei.
- Enquanto você olha os tops, vou olhar os biquínis daqui - avisei e fui para o lado oposto. Azul sempre me chamou a atenção e de cara separei três modelos que gostaria de experimentar. Já os vestidos não me atraíram e eu decidi que usaria algum do meu próprio guarda-roupa. Voltei para o lugar onde tinha visto pela última vez, mas ela não estava por ali, imaginei que estivesse experimentando e me dirigi ao provador.
- , está aqui? - perguntei andando pelas cabines.
- Aqui - ela respondeu abrindo a porta de uma delas e saindo com um top quase transparente.
- Uau! Depois sou eu que quero chamar a atenção de alguém. - ri alto e ela me deu um tapa. - vai ficar de quatro quando te ver usando isso.
- Para de besteira, . Vou estar com o biquíni por baixo, não tem nada demais.
- Com biquíni por baixo ou não, ainda vai ficar de quatro.
- Achou alguma coisa?
- Vou tentar esses aqui. - mostrei por alto e entrei na cabine ao lado. Depois de vestir todos, eu já tinha meu preferido. Ele não era bem um degradê, mas misturava uns quatro tons de azul e branco e eu estava satisfeita. - Acho que encontrei - falei mais alto.
- Então sai daí e me deixa ver. - abri a porta e saí, parando em frente ao espelho maior.
- Ficou ótimo, . De verdade.
- Também achei.
- E o vestido? Não encontrou nenhum? - neguei.
- Acho que vou com algum que eu já tenho mesmo. Estou feliz com essas aquisições, e estou morrendo de fome - respondi, saindo com minhas roupas.
- Não se esqueça que concordou em pagar o que eu quiser comer.
- Duvido que vá querer algo tão diferente do que sempre comemos.
- Então, aonde vamos agora? - ela perguntou ao sairmos da loja.
- Pode escolher, estou boazinha hoje.
- Acho que quero McDonald’s mesmo.
- Sabia. - mostrei língua e ela me empurrou com o ombro. - Mas me conta, ainda está falando com você? Essa semana foi tão corrida que não tive notícias de ninguém.
- Ele ainda manda mensagens e eu continuo sem responder algumas.
- Que maldade, . O garoto está apaixonado.
- Ele me quer na cama dele, isso sim.
- E você não quer? - arqueei as sobrancelhas sugestivamente.
- Não vou nem te responder, senhorita tenho dois no meu pé e não percebo.
- Não tenho dois no meu pé.
- Se eu pegar seu celular agora, aposto que encontro mensagem de e de .
- E o que isso prova?
- Então tem mesmo? - ela tinha jogado verde e eu caí como uma patinha.
- Mas não é nada demais, fala coisas aleatórias e só me avisou que eles iam tocar.
- também me mandou uma falando da apresentação, mas como você nem tinha dito nada, aproveitei para dizer que eu não podia.
- E dessa vez ele não insistiu? Estou desapontada. - fiz uma cara triste e só então lembrei da aposta dos outros.
- Do que é que você está rindo?
- Nada não, lembrei de umas besteiras dos meninos.
- Maluca… Compre logo nossos lanches que também estou com fome.

Capítulo Seis

POV

O táxi parou em frente a uma bela casa de dois andares, com tijolinhos cor de ferrugem por toda sua extensão e janelas brancas. Levantei os óculos escuros por alguns segundos para observar a casa com mais clareza e fiquei de boca aberta. Já imaginava que tinha uma boa condição financeira, já que era sócio de um estúdio e, assim que soube que a festa surpresa de seria na piscina da casa dele, não me surpreendi. Mas, para um solteiro de 20 e poucos anos, ele de fato deveria ter bastante dinheiro. Afinal, eu, também com meus 20 e poucos anos, tinha apenas um singelo apartamento de dois quartos e nenhum carro na garagem. Aquela casa deixava meu imóvel no chinelo, e eu não tinha dúvidas de que o carro dele também humilharia a vaga vazia na garagem do meu condomínio.
- , você precisa casar com esse garoto - falei assim que pisamos na calçada e o motorista arrancou com o carro.
- Oi? Que garoto? - ela questionou, confusa.
- O ! - disse e dei um tapa na testa dela. - Que sorte você tem por ele estar caidinho por você… Olha essa casa!
- É, tenho que concordar que é bem bonita… e grande - falou, mas em seguida rolou os olhos. - Mas para de gracinha, ! Não tem ninguém caidinho por mim. E deixa de ser tão interesseira.
- Isso, continua se enganando. Logo, logo vou poder dizer “eu te avisei”... - falei, dando de ombros. - E não estou sendo interesseira. Se for para aturar homem maluco que não sabe o que quer da vida, que seja um que tenha uma casa dessas.
Após minha fala, nitidamente me referindo às nossas últimas e catastróficas experiências amorosas, permaneceu me encarando, de braços cruzados.
- Ok, estou sendo um pouco interesseira - eu disse, fazendo questão de frisar o “um pouco”. - O melhor mesmo é esquecer que homens existem.
- Sei bem como você está fazendo de tudo para esquecer que homens existem - falou, parecendo estar prendendo o riso. - Dando uns pegas no todas as vezes que vocês se veem... Ótimo jeito de esquecer os homens.
Rolei os olhos enquanto ela gargalhava.
- Hoje isso não acontecerá - afirmei, cheia de certeza, pois estava decidida a não deixá-lo montar em cima de mim mais uma vez. Por mais que tal pensamento tenha me levado a imaginar montado em cima de mim, literalmente, e feito um arrepio subir por todo meu corpo. Droga! Eu não tinha culpa se o maldito beijava tão bem. Mas, para o bem de todos, era bom que eu não voltasse a provar aquele beijo.
- Você não pode garantir que ele não vá te beijar de surpresa de novo - ela disse, ainda se divertindo.
- Se ele fizer isso, vai ser arrepender.
Já irritada com aquela conversa, abri o pequeno portão, que estava apenas encostado, e segui pelo caminho de pedras que nos levava até a casa. Me senti desfilando em meio àquele jardim tão verde e bem cuidado, vestindo meu look recém-adquirido: um short jeans de cintura alta e um top cropped quase transparente, que deixava o biquíni florido à mostra. Pelas janelas, pude observar a movimentação na parte interna da casa. Sentindo a presença de minha amiga ao meu lado, toquei a campainha. Em poucos segundos, um sorridente e sem camisa apareceu na nossa frente.
- Oi, meninas - ele disse, sorrindo ainda mais. - Que bom que chegaram. já está trazendo o .
Sem me demorar observando o tronco nu de , por mais que aquela barriga sarada implorasse por isso, olhei para minha amiga e tive que me controlar para não soltar uma gargalhada. olhava para embasbacada, sem se decidir se encarava seu rosto ou apreciava a pele descoberta do garoto, enquanto apertava o chapéu branco em suas mãos. Pelo visto, não era apenas que estava caidinho por ela. O contrário também.
- Olá, - falei, sorrindo, ao perceber que a garota ao meu lado estava hipnotizada demais para tomar iniciativa. - Que casa linda!
- Obrigado - ele disse, rindo e dando espaço para que entrássemos na casa. - Eu cresci nessa casa. Recentemente meus pais se mudaram para Wolverhampton e acabei ficando por aqui.
Agora que tudo estava explicado, eu até me sentia um pouco menos fracassada por ter mais ou menos a mesma idade de e não ter uma casa como aquela.
- Legal - eu disse e notei que continuava quieta.
Dei um passo para o lado, me aproximando dela, e a cutuquei discretamente. Como se tivesse sido despertada, ela ajeitou a postura e pigarreou.
- Oi, - ela falou com um fraco sorriso nos lábios.
- Oi, - ele falou e, para a minha surpresa, se aproximou para cumprimentá-la com beijos nas bochechas.
Fiquei sem reação ao notar que ele, de fato, só iria cumprimentar ela e, para completar, nos guiou até a porta de vidro que dava até os fundos da casa, puxando um assunto qualquer com ela e esquecendo completamente da minha existência. Eu realmente precisava concordar com minha amiga. não estava caidinho por ela... Ele estava estatelado no chão.
Decidi aceitar que estava sendo excluída da conversa e apenas segui os dois até o quintal. Quando passamos pela porta de vidro, não pude evitar ficar mais uma vez de queixo caído quando o par de sandálias nos meus pés afundaram na grama verdinha e fofinha. Mas não perdi muito tempo analisando as plantas perfeitamente bem cuidadas do quintal de , meus olhos logo notaram a piscina, já ocupada por alguns desconhecidos, e eu tive vontade de tirar a roupa ali mesmo e pular naquela água que parecia estar uma delícia. À minha direita, pude observar mais alguns desconhecidos em volta de uma churrasqueira, conversando alto em meio a risadas, enquanto, à minha esquerda, encontrei uma mesa com diversos doces e salgados, com um bolo de aniversário no centro e, à sua volta, adivinhe… Mais desconhecidos!
Finalmente, quando olhei para a frente de novo, me deparei com um rosto conhecido saindo da piscina. Meus olhos desceram e subiram pelo seu corpo sem que eu ao menos pudesse controlá-los. Ele jogou os fios de cabelo encharcados que cobriam seus olhos para o lado em um gesto extremamente sexy e eu perguntei a Deus por que ele estava fazendo aquilo comigo. Quando ele olhou, na ordem, para , e, por último, pousou seus olhos em mim, eu percebi que estava há alguns segundos sem respirar.
- Nossas fãs finalmente chegaram! - , com um sorriso enorme no rosto, exclamou e foi em direção à para cumprimentá-la. Em seguida, ele se aproximou de mim e eu congelei em meu lugar ao sentir os lábios dele, molhados, na minha bochecha. - Oi, .
- Oi, - eu falei. Naquele momento percebi como eu estava agindo como uma menininha, encantada por qualquer conquistador barato, e quis dar uns tapas em meu próprio rosto.
- Um amigo nosso está fazendo churrasco. Quer? Vou pegar para a gente - disse, gentilmente, e, sem esperar por resposta, se virou para seguir em direção à churrasqueira. Foi impedido de andar por mim, quando o segurei pelo braço.
- Antes de qualquer coisa, quero te dar um aviso - eu falei, tentando soar o mais séria e ameaçadoramente possível. - Sem gracinhas hoje. Não pense que você pode me beijar quando bem entender. Você não pode.
encarou minha mão prendendo seu braço e subiu os olhos até os meus, cobertos pelos óculos escuros, com uma expressão indecifrável no rosto. Uma vontade de saber ler pensamentos cresceu em meu peito.
- Tudo bem, - ele disse em meio a um suspiro. - Nada disso irá se repetir.
- Ótimo - falei e soltei seu braço.
Tirei os óculos escuros do rosto e os pendurei na minha blusa, reparando que o olhar de acompanhou meu movimento.
- Para de olhar para os meus peitos! - exclamei e dei um tapa estalado em seu braço.
- Eu estava tentando identificar o que é a estampa do seu biquíni - ele tentou se defender, aos risos, e não tive como não rir junto. - Eu juro!
- Sei… - falei, cruzando os braços. - Estou esperando o churrasco.
- Vem, vou te apresentar à galera.

A campainha soou pela casa e fez todo mundo parar o que estava fazendo e se entreolhar. O aniversariante havia acabado de chegar.
- Pessoal, tentem se esconder e fiquem em silêncio - sussurrou, fazendo gestos com as mãos para nos dispersarmos.
Enquanto ele passava pela porta de vidro e adentrava a casa, os convidados tentavam sair do campo de visão de quem estivesse na sala de estar. Deixei, em cima de uma mesa, o prato com uma porção de alguns tipos variados de carne do churrasco que estava sendo feito por um amigo da época de escola de , e senti a mão de pegar a minha.
- Vem, vamos nos esconder ali - ele falou, me puxando na direção de uma espreguiçadeira.
Olhei para trás, com a intenção de pedir socorro à , que ria de mim enquanto era puxada por para trás de um vaso de plantas. Eu com certeza faria questão de implicar com aquela cretina mais tarde. Como se não bastasse , ela estava cada vez mais amiguinha de também.
- Quem disse que eu queria me esconder com você? - questionei, aos sussurros, mas me deixando ser puxada para trás da espreguiçadeira, onde nos agachamos.
Me sobressaltei quando aproximou seu rosto e sussurrou, com os lábios quase tocando meu ouvido:
- Você fica bem mais bonitinha de boca fechada.
Em vez de perder meu tempo pensando em uma resposta àquela provocação, simplesmente dei um empurrão em e ri quando ele se desequilibrou e caiu de bunda no chão. Ele abriu a boca, provavelmente para reclamar, mas foi interrompido pela gritaria que tomou conta do ambiente quando , de olhos arregalados, passou pela porta de vidro seguido por e . Aproveitei a confusão para sair do meu esconderijo.
- Que filhos da mãe! - o aniversariante exclamou, rindo. - Não acredito que caí naquela história de “tarde do videogame”.
- Gostaria de dizer que a ideia foi minha, antes que alguém leve os créditos - disse alto, arrancando algumas gargalhadas.
- Claro que foi você, meu amor! - exclamou, envolvendo a namorada em um abraço apertado e a tirando do chão. - Obrigado. Você é a melhor!
- Feliz aniversário! - ela disse em meio a risos e, em seguida, beijou os lábios do garoto.
Quando largou , foi bombardeado com abraços e felicitações. Me aproximei de e , enquanto esperava minha vez de parabenizar o aniversariante.
- Se prepare, porque vai ter volta - escutei a voz de dizer ao meu lado.
- Estou morrendo de medo - falei, rindo, encarando seu perfil. Ele estava tão sério que senti um leve frio no estômago.
Sem me encarar, ele passou na minha frente e pulou em cima de , dando um abraço apertado no amigo.
- Piscina! - gritou, chamando a atenção de todos. - O aniversariante quer dar um mergulho na piscina!
bem que tentou fugir, mas teve seus braços imobilizados por , enquanto o pegou pelas pernas e, com a ajuda de e mais três amigos deles que eu não sabia o nome, foi carregado até a piscina, onde o jogaram sem dó nem piedade. O aniversariante, que vestia calça jeans, já que não havia sido avisado sobre a festa na piscina, xingava os amigos em meio a gargalhadas de todos os presentes. E meu abraço de “feliz aniversário” teve que esperar por mais alguns minutos.

- Querem mais? - questionou, estendendo um prato no qual ela tinha colocado alguns cupcakes.
- Agora não, ainda nem terminei o meu - respondi, mostrando o cupcake que estava pela metade.
- Quero sim. - se esticou e pegou mais um.
- Gostaram? Foi minha mãe que fez - ela disse, deixando o prato de lado. - Sou louca pelos cupcakes dela.
- São uma delícia - minha amiga disse com a boca cheia. - Esse é de limão? Que gostoso!
- É sim. Tem de chocolate também - respondeu.
- Amei esse de floresta negra - eu disse. - Separa um de limão e um de chocolate, por favor. Vou comer depois.
levantou o polegar em concordância e continuou comendo seu cupcake de chocolate.
Nós três estávamos na beira da piscina, tentando conversar em meio à gritaria e à música que rolava alta. Na piscina, os garotos tentavam jogar uma espécie de polo aquático com alguns amigos que eu ainda não havia decorado o nome, mas o resultado era um completo desastre. Estava sendo arriscado ficar por ali, já que volta e meia eu, e tínhamos que desviar da bola que era arremessada em nossa direção, mas as risadas que o jogo estava rendendo faziam valer a pena. Minhas pernas balançavam na água, enquanto eu ainda não tinha tido coragem de tirar a roupa e entrar na piscina, já que me meter no meio daquele jogo maluco não parecia muito seguro. Mas eu estava louca para dar um mergulho.
- Nossa! - a voz de fez eu me sobressaltar. - Quem é aquele cara? - ela questionou, agora em um tom de voz mais baixo.
- O loiro? - perguntou, olhando para a direção que os olhos de apontavam.
Curiosa, me virei para conseguir enxergar o mesmo que elas e me espantei quando vi o tal loiro conversando com um grupinho de garotos e garotas. Definitivamente, o cara a quem se referia era o loiro.
- Sim - minha amiga concordou. - Olha aquela barriga, pelo amor de Deus.
- É o Bryan, primo do - respondeu. - Ele é um gato mesmo. É modelo.
- Ah, então está explicado… Só não sei como eu não tinha reparado nele ainda - falou.
- De que planeta aquele cara saiu? - perguntei de olhos arregalados. Aquele era o cara mais bonito que eu via em tempos. Ele não era tão forte, mas tinha o corpo bem definido, pele bronzeada, cabelos lisos e loiros… Eu nem ao menos tinha preferência por loiros, mas quase sentia a baba escorrer pelo meu queixo. Entretanto, o que senti, de fato, foram duas mãos apertando minhas panturrilhas por debaixo d’água. Olhei para a frente, assustada, e me deparei com .
- Vocês, mulheres, não podem ver um cara sarado, né? - ele perguntou, balançando a cabeça em negação.
- Não é todo dia que vemos um cara gostoso desses, né? Temos que aproveitar - alfinetei, me recusando a perder aquela oportunidade.
, ainda com as mãos nas minhas panturrilhas, me encarou por algum tempo, com um sorriso de canto. O olhar dele era tão penetrante que eu quase desviei, sem graça.
- Pena que ele é gay - ele disse, soltando uma risadinha.
- O quê?! - , exclamou, se engasgando com o pedaço de cupcake que tinha na boca e, em seguida, tossindo descontroladamente.
- Você está de brincadeira - falou, descrente, dando tapinhas nas costas de para ajudá-la a se desengasgar.
- Isso tudo é recalque? - eu perguntei, o encarando, sem conseguir conter uma gargalhada. - Pensei que você se garantisse mais do que isso, .
- Eu me garanto sim, . Afinal, não foi ele quem você agarrou na primeira vez que viu - ele retrucou, dando de ombros.
Tentei dar um chute nele, mas ele segurou minhas pernas, rindo.
- Sério que o Bryan é gay? - perguntou, já recuperada do engasgo. - nunca me contou isso.
- Juro que é - respondeu. - Nós estávamos numa boate, uma vez, e eu vi com meus próprios olhos ele ficando com um cara.
- Meu Deus - disse, espantada. - Nem imaginava isso.
- Como não se desiludir, desse jeito? - questionou, chateada, e deu mais uma mordida em seu cupcake como forma de consolo.
- Alcança uma cerveja pra mim, por favor - pediu, apontando para as garrafas que os meninos haviam deixado atrás de mim.
- Me obrigue - falei, observando a boca do garoto à minha frente abrir em sinal de indignação, me fazendo rir. Peguei a garrafa e a entreguei a ele.
- Vocês não vão entrar? - perguntou ao se aproximar da gente e se apoiar na beira da piscina. - A água está ótima.
- Você só quer vê-las de biquíni - acusou, após dar uma longa golada na garrafa de cerveja. - Também quero.
Rolei os olhos, demonstrando meu tédio.
- É verdade - o outro concordou. - Estou louco para ver a sem esse vestidinho - disse, com um sorriso sacana nos lábios.
- Babaca - minha amiga falou após soltar uma gargalhada e dar um tapa na cabeça do engraçadinho.
Observei aquela cena atentamente, refletindo sobre quanto tempo levaria até rolar alguma coisa entre aqueles dois. Eu também apostava em , é claro, mas me parecia do tipo que tomaria uma atitude mais depressa do que o outro.
- Vamos entrar, meninas? - questionou. - Melhor aproveitarmos que o jogo acabou. Daqui a pouco eles inventam mais uma brincadeira maluca.
Só naquele momento notei que o jogo de polo aquático realmente tinha acabado, e só Deus sabia qual havia sido o time vencedor. A maioria dos garotos saía da piscina, procurando por outras coisas para fazer ou pelos comes e bebes providenciados por , que estavam uma delícia.
- Vamos! - respondeu, animada, e se levantou, assim como , para tirar a roupa que vestia.
Minha amiga levantou o vestido azul, logo o tirando e revelando o biquíni degradê de tons azuis e branco que vestia por baixo. Fiz questão de procurar pelos possíveis pretendentes de minha amiga e me surpreendi quando encontrei , que conversava com dois amigos no lado da piscina oposto ao que estávamos, a secando. Ele a encarava tão descaradamente que até mesmo os garotos com quem ele conversava pararam para observar , e pude notar que um deles fez algum comentário e acabou por levar um soquinho no ombro dado por . Situação bastante suspeita, não? Procurei pelo segundo pretendente, mas , infelizmente, havia se distanciado de nós para nadar.
Percebendo que também se livrava do short que vestia, ficando apenas de biquíni cor de vinho, segui os passos delas e tirei meu top cropped. Fiquei de pé para poder tirar meu short jeans com mais facilidade, e, com as mãos preparadas para abrir o botão, notei que observava cada movimento meu atentamente, com a garrafa de cerveja nos lábios. Confesso que achei sexy a possibilidade de me despir em frente a ele, mesmo que eu estivesse de biquíni por baixo, e senti um leve arrepio correr pelo corpo, mas logo ele percebeu que estava sendo nada discreto e desviou o olhar. Fiz com que o short deslizasse pelas minhas pernas e, sem perder tempo, pulei na piscina logo após e . Fiquei submersa por alguns segundos, me refrescando na água, que estava em uma temperatura bastante agradável para aquele dia de sol. Quando voltei à superfície, fui surpreendida por um jato de água diretamente no meu rosto e me protegi com as mãos.
- ! - exclamei, irritada. - Você está louco?
- Eu falei que ia ter volta - ele disse, rindo, estapeando a água para que mais jatos me atingissem.
Mergulhei e nadei para longe dele. O que não adiantou muito, pois ele me seguiu.
- Você quer parar com isso? - questionei, sentindo mais jatos no rosto. - , me ajuda.
Me intrometi no meio da conversa de com os garotos desconhecidos e fui para trás dele, o segurando pelos ombros, para me proteger.
- Qual foi, ? - repreendeu o amigo ao sentir a água atingi-lo em cheio. - Vocês parecem duas crianças.
- Isso é para ela aprender a não ser tão engraçadinha comigo - disse, rindo.
- Deixa que eu te ajudo - um dos amigos de falou e pulou em cima de para tentar afogá-lo.
Dei graças a Deus por eles começarem com aquela guerrinha e aproveitei a deixa para nadar até onde , , e conversavam e riam. Não demorei a me juntar ao papo e escutar contar sobre suas peripécias como ótimo nadador que era.

Algum tempo depois, nós já havíamos cansado de ficar na piscina, e eu estava com , cada uma de nós deitada em uma espreguiçadeira. Estávamos aproveitando o sol para tentar pegar uma corzinha, já que dias ensolarados como aquele eram coisa rara em Londres. Meus olhos estavam fechados enquanto eu cantarolava a música da Katy Perry que tocava. Estranhei o silêncio de , já que ela costumava ser tagarela demais para permanecer tantos minutos calada, e abri os olhos para checar o que estava acontecendo. A encontrei mexendo no celular, e a expressão em seu rosto me dizia que, seja lá o que fosse que ela estivesse vendo na tela do aparelho, não estava a agradando nem um pouco. Ela estava tão concentrada no aparelho que não notou quando me estiquei, nem um pouco discreta, e pude ver que ela falava com ninguém mais, ninguém menos do que Andrew.
- ! - exclamei, em tom de repreensão, a fazendo se assustar. - Não acredito que você ainda tem falado com esse cara.
- Oi? - Ela bloqueou a tela do celular e o deixou de lado. - Tenho falado com quem?
- Andrew - acusei, olhando torto para ela. - Não precisa mentir, eu vi que você estava falando com ele.
Ela suspirou e passou as mãos no rosto.
- É complicado, .
- Complicado? - questionei, indignada. - Ele te enganou, . Não merece que você fale com ele nunca mais!
- Eu sei, não estou dando muito papo - ela tentou se defender. - Mas ele tem me mandado mensagens e fico sem graça de ignorar.
- Sem graça? Lembre-se que ele não ficou nada sem graça quando decidiu não te falar que tinha voltado com a namorada e continuou saindo com você. - Bufei, irritada.
- Não dá,
Ela mordia os lábios, com uma expressão desolada no rosto, e aquilo me irritou mais ainda. Quando eu ainda saía com Edward, ela vivia dizendo para eu ignorá-lo e esquecer que ele existia, pois todo aquele sofrimento não valia a pena, e agora ela estava ali… Sem conseguir ignorar Andrew, que não merecia nem um pingo de compaixão. Eu estava tão irritada que achei melhor levantar da espreguiçadeira e ir para longe de , senão falaria coisas que poderiam magoá-la.
Atravessei o quintal, sem saber ao certo para onde estava indo. e estavam se beijando na beira da piscina e não quis atrapalhá-los. e bebiam e conversavam com alguns amigos, e também fiquei sem graça de me meter na conversa. E … Minha irritação aumentou ainda mais quando o vi conversando, cheio de intimidade, com uma garota. Ela fazia questão de tocar nos braços dele, enquanto falava e ria, cada vez mais próxima. Ela estava, claramente, se jogando para cima dele, que, por sua vez, não fazia nada para impedir aquela situação. Muito pelo contrário, o sorriso no rosto de dava a entender que ele estava adorando. Não sei por que eu ainda me surpreendia com aquilo. Uma hora, estava dando em cima de mim, e, como não havia conseguido nada, estava caindo em cima da primeira que apareceu. Era exatamente por causa daquilo que eu tinha certeza de que estava ótima por não estar de rolo com ninguém.
Me sentei em uma cadeira e, por sorte, não tinha ninguém por perto. Eu estava irritada demais para querer socializar naquele momento. Não sei quantos minutos fiquei sentada ali, analisando minhas próprias unhas enquanto sentia a raiva se esvair aos poucos. Só me dei conta de que um bom tempo havia se passado quando senti a presença de alguém.
- Aconteceu alguma coisa, ? - perguntou, puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado. Me limitei a negar com um balanço de cabeça, sem encará-lo. - Por que está aqui sozinha, então?
- Só vim espairecer - respondi.
- Então aconteceu alguma coisa - ele acusou.
Suspirei, finalmente o encarando. Pude ver preocupação em seus olhos e me surpreendi por isso. Ele não devia estar preocupado em ir atrás da amiguinha dele?
- Lembra do tal Andrew, que escondeu da que tinha voltado com a namorada? - perguntei e , em seguida, assentiu. - Então… Ele ainda tem mandado mensagens para ela, e o pior é que ela tem respondido - expliquei, indignada.
- Mas não é por educação?
- Educação? Uma pessoa que te engana por meses merece que você trate ela com educação? - questionei, ainda mais indignada. Pela expressão de , pude perceber que ele, agora, concordava comigo e não iria se opor. Não esperei por uma resposta e continuei a falar: - O que mais me irrita, na verdade, nem é o fato de ela ainda falar com ele. O problema, nessa história toda, é que quando eu “estava” com o Edward - fiz questão de fazer gestos de aspas, pois, no fundo, eu nunca estive com Edward de fato -, ela vivia me perturbando para cortar relações com ele, porque aquilo só me traria sofrimento e que ele não merecia que eu me importasse tanto. Ela estava certa, é claro, mas por que ela não vê que esses mesmos conselhos se aplicam a ela?
- É assim mesmo, - disse. - É fácil dar conselhos, porque a gente não está na pele da pessoa. Quando é com a gente, é quase impossível seguir esses mesmos conselhos.
Suspirei, sem saber o que dizer. Infelizmente, aquele maldito estava certo.
- Posso te perguntar uma coisa? - ele questionou.
O encarei e me arrependi amargamente em seguida, pois ele me analisava atentamente, o que me deixou um pouco sem jeito.
- Se eu puder responder… - falei, dando de ombros.
- O que exatamente aconteceu entre você e esse Edward?
Aquela pergunta me pegou um tanto desprevenida. Confesso que me surpreendi por vê-lo interessado naquela história. Ele, definitivamente, devia ir procurar a amiguinha dele.
- Por que você quer saber?
- Só gostaria de saber o que aconteceu que te impede de ficar comigo - disse, despreocupadamente, e eu quase me engasguei com minha própria saliva. - E, quem sabe, eu não possa te ajudar a superar?
Pela primeira vez, naquele tempo que eu conhecia , mesmo que nossa convivência tivesse sido muito pouca até aquele momento, pude enxergá-lo como um cara que não estava apenas querendo me levar para a cama. E foi por isso que decidi desabafar com ele.
- Conheci o Edward há alguns meses num jogo do Chelsea, no Stamford Bridge - comecei a contar a história triste. - Como eu tinha ido ao jogo sozinha e ele também, e estávamos sentados um ao lado do outro, começamos a conversar sobre os lances do jogo. No final, ele acabou pedindo meu número. Conversamos por mensagens durante semanas, até que ele me chamou para sair e eu aceitei. Nós jantamos e conversamos por horas, até que ele foi me levar em casa e me beijou. Depois disso, nós continuamos trocando mensagens todos os dias, quase o dia inteiro, e continuamos saindo e ficando de vez em quando. Naquele ponto, eu já estava de quatro por ele, o que nem foi tão difícil de acontecer, já que nós tínhamos tanto em comum e ele parecia tão diferente dos caras que eu conheço. Mas, então, um belo dia, ele simplesmente me mandou uma mensagem dizendo que a gente não poderia continuar a ficar, porque ele me via apenas como uma amiga. Disse, inclusive, que sou uma ótima amiga. E sabe o que eu fiz? - questionei, notando que estava um pouco indignado com aquela parte da história.
- Mandou ele se foder? - perguntou, me fazendo rir.
- Era o que eu deveria ter feito - falei. - Mas não. Eu me declarei para ele.
- Puta que pariu, ! - exclamou. - O que esse cara tem que eu não tenho, hein? Me diz que eu dou um jeito nisso agora mesmo.
Gargalhei e estalei um tapa no ombro dele.
- Continuando… - eu disse, me recuperando dos risos. - Eu me declarei, disse que estava apaixonada por ele, e ele disse que estava feliz por uma garota tão legal gostar dele e que me admirava por ter tido coragem de me abrir sobre meus sentimentos, mas que isso não mudava a decisão que ele tinha tomado. Ele falou que estava já há algum tempo sem conseguir ter sentimentos mais profundos por alguém, que estava passando por muitos problemas e que tudo que ele podia me oferecer era a amizade dele.
- Esse cara é gay - afirmou. - E um completo babaca. Com certeza tinha mais coisas por trás disso, que desculpinhas esfarrapadas.
- Exatamente. Claro que não era só isso - concordei. - Mas, depois disso, cometi meu segundo erro. Eu admirava tanto ele, que decidi passar por cima do meu orgulho e tentar manter uma amizade. Afinal, apesar de nos beijarmos com certa frequência, nós éramos amigos.
soltou uma risadinha irônica, que chamou a minha atenção, e eu o encarei, questionando com o olhar qual era o motivo daquela reação.
- Você sabe que ele nunca foi seu amigo, né? - ele perguntou, me fazendo entender a risada irônica.
- Levei um tempo para me dar conta disso, mas hoje eu sei - respondi. - Por mais algumas semanas, continuamos conversando, teoricamente sendo apenas amigos, mas ele ainda me tratava como se ainda estivéssemos ficando. A impressão que eu tinha, era a de que estava sendo mantida como uma opção reserva, pra caso ele não encontrasse nenhuma garota melhor do que eu.
- Que ilusão achar que poderia encontrar alguém melhor do que você - disse, galanteador, e eu rolei os olhos com aquela cantada barata, fazendo-o rir. - Só falei verdades. Mas que babaca, porque com certeza ele estava te deixando como uma opção reserva mesmo.
- Pois é… - falei em meio a um suspiro. - Nesse meio tempo eu sofri tanto… Era difícil enxergar ele como um amigo, cada dia que passava eu gostava mais dele, mesmo sabendo que não era recíproco. Mas eu achava que me afastar seria um caminho mais fácil, mas que ao mesmo tempo seria o desperdício de uma grande amizade. E, mesmo com a me dizendo todo dia para parar de falar com ele, que aquilo não estava me fazendo bem, eu segui com essa ilusão de que um dia eu deixaria de gostar dele e, então, poderíamos ser melhores amigos. - Naquele ponto, eu já sentia meus olhos marejarem. - Bom, seguimos nisso até, do nada, ele começar a ignorar minhas mensagens e dar a desculpa de que não tinha visto. Eu, que já estava com uma autoestima quase inexistente, comecei a questionar o que de tão errado tinha comigo para não ser digna nem da amizade dele.
- , fala sério! - interrompeu meu discurso, indignado. - Não tem nada de errado com você. Ele que é maluco.
- Eu sei, - eu disse, sorrindo, feliz por vê-lo preocupado em me fazer mudar de ideia. - Minha autoestima já voltou a ser altíssima.
- Bom saber, não vou ficar te elogiando tanto - ele falou, rindo e me fazendo rir também.
- Alguns dias depois, apareceu no Facebook que ele estava em um relacionamento sério.
abriu a boca, chocado.
- Você está brincando.
- É verdade, eu juro - falei. - Nesse dia eu chorei tanto, de raiva. Percebi que ele estava ignorando minhas mensagens porque tinha arranjado alguém e, portanto, não tinha mais por que me manter como opção reserva.
- Que filho da puta - disse.
- Fiquei com raiva de mim mesma por ter perdido meses da minha vida com um idiota desses. Mas sabe que foi melhor assim? - questionei, deixando confuso. - Agradeço por ele, finalmente, ter mostrado quem realmente era. Foi bem fácil deixar de falar com ele depois disso. Deletei ele de todas as redes sociais, excluí o número dele, e nunca mais chorei por ele. Eu me dei conta de que tinha me apaixonado por uma ilusão e, com isso, foi bem fácil deixar de me importar com ele.
- Que bom, - falou, sorrindo. - Pelo menos você conseguiu superar esse babaca.
- Sim - retribuí o sorriso.
- Agora, sabendo dessa história, eu entendo qual é a sua preocupação - ele continuou. - Mas eu jamais faria isso com você.
Aquelas palavras adentraram meus ouvidos e senti meu coração disparar. E agora? O que eu deveria responder? Eu nem ao menos sabia se era certo confiar naquelas palavras ou se era melhor desconfiar da possibilidade de elas serem apenas um atalho para me levar para a cama mais rápido. Os olhos dele me observando de tão perto fizeram meu estômago se revirar. Meus olhos desceram para a boca dele e foi impossível não recordar as vezes que aqueles lábios estiveram grudados aos meus. Uma vontade de experimentar aquele beijo maravilhoso novamente se apoderou do meu peito e eu torci para ele, mais uma vez, ser petulante e me beijar de surpresa. Entretanto, a vontade de beijá-lo foi substituída por uma grande decepção quando observei ele se levantar da cadeira e sair caminhando pelo quintal, bagunçando seus fios de cabelo e sem olhar para trás uma vez sequer.
- Para, ! - a voz de gritando me fez desviar os olhos de .
Minha amiga era carregada por para a piscina, onde foi jogada. Em poucos segundos ela emergiu da água, e ouvir a gargalhada alta que ela soltou fez um alívio tomar conta do meu corpo. Que bom que tudo estava bem.
Eu só teria que lidar com aquela vontade de beijar .

Capítulo Sete

POV

- Anda, ! Troca logo de canal! - reclamou, se deitando no outro sofá, já que eu ocupava um, totalmente espaçosa.
- Mas é o Depp, . Capitão Jack Sparrow me seduz. - pisquei várias vezes na tentativa de ser meiga e ela me deixar ver o filme.
- Já vai começar a reprise de The Voice, larga de ser irritante. - jogou uma almofada em mim.
- Se já é a reprise mesmo, você vê na internet depois. - mostrei língua e continuei segurando o controle, sem mudar.
- Claro, porque esse filme é inédito e você nem sabe as falas de cor…
- É o Depp, vale o esforço. - pisquei com um olho, sabendo que ela queria me enforcar.
- Lá tem o Adam, vai logo. - mudei de canal e ela soltou o ar aliviada.
- Que fique claro que só mudei de canal porque é quase uma troca justa Johnny pelo Adam.
- Que seja. - encarou a TV um pouco emburrada e joguei a almofada de volta nela.
Antigamente eu era mais interessada nesses programas, mas, de um tempo para cá, eu passava mal de tão nervosa, torcendo pelos que eu achava que mereciam ganhar e, quando não ganhavam, era como se fosse alguém que eu realmente conhecesse e eu sofria junto, por isso decidi que não acompanharia mais. Estava quase cochilando quando ouvi um gritinho de .
- O que foi, maluca? - virei meu rosto preguiçosamente na direção dela.
- Esse menino é a cara do ! - ela disse e automaticamente meu olhar focou-se na TV. - Há! Sabia que você ia acordar na hora!
- Larga de ser retardada! - rolei os olhos ao notar que não tinha nada a ver e ela ria de mim.
- Então alguém gosta de olhar o
- Larga de ser retardada - repeti, segurando o riso. - Se tivesse falado isso de qualquer pessoa que eu conheço eu provavelmente olharia.
- Não sei porque você insiste em mentir pra mim quando vocês claramente se secaram, e muito, ontem na festa.
- Você anda com uma imaginação tão poderosa. - antes que ela voltasse a falar, eu continuei: - Eu sei que o encarei bastante, mas eu não esperava aquele corpo abrindo a porta pra gente. E nem tente negar que eu sei que você também não esperava encontrar aquilo.
- É, não esperava mesmo, mas ele praticamente me ignorou e só tinha olhos para você.
- Você está louca, nada disso aconteceu.
- Aconteceu sim, mas você estava na bolha com ele e nem notou!
- Não é verdade.
- Que ele te trata diferente de mim? - concordei com a cabeça. - Então da próxima vez repare. - ela sorriu sem mostrar os dentes. - Qualquer um percebe isso, pergunta pra pra você ver.
- Falando em … - me lembrei da aposta dos meninos e, como não tinha ficado muito tempo com ela, não sabia se algo tinha acontecido entre ela e . - Você e o se beijaram na festa?
- Nada a ver com a essa pergunta sua, mas ok. Não, ele finalmente decidiu respeitar minha decisão. Por quê?
- Nada. - sorri sozinha, imaginando a cena dos meninos quando soubessem que tinha ganhado a aposta.
- Tá certo que esse sorriso aí é por nada.
- Só curiosidade, . Eu quase não fiquei com você ontem e não vi se rolou alguma coisa. - ela pareceu acreditar, e era bom que acreditasse ou me mataria caso soubesse da aposta.
- Vou começar a ficar com ciúme do - ela declarou após um tempo em silêncio e eu apenas a encarei. - Ele te monopolizou ontem praticamente a festa inteira, toda hora te jogando na piscina ou levando coisas pra você, conversando com você, e você ainda insiste que ele não tem interesse em você.
- Porque ele não tem! - nesse instante meu celular apitou e comecei a rir ao ver o nome de na tela.
- Do que você está rindo agora? - mostrei o celular pra ela. - Nossa, não morre mais. O que ele quer? Está te chamando para sair? - arqueou a sobrancelha, sugestiva, e neguei ao ler.
- Mais uma das mensagens nada a ver que ele manda.

: Oi, o que está fazendo?
: Vendo The Voice com a . Por quê?

A resposta não veio e eu nem me assustei, esse era . Voltei a fechar meus olhos e não sei por quanto tempo cochilei, acordei com o interfone tocando e foi até lá atender. Olhei as horas e não tinha dormido mais que quinze minutos, fechei os olhos novamente, tentando voltar ao sono em que estava.
- ! Você não fez isso! - ela voltou nervosa da cozinha e me assustei.
- Provavelmente não fiz mesmo, mas do que está falando? - me sentei e prendi meu cabelo novamente.
- Você chamou e os outros para virem aqui? - ela ainda tinha a voz alterada.
- O quê? Claro que não! - minha voz soou nervosa também. - Eles estão aqui?
- Sim, o porteiro acabou de anunciar que e mais dois homens estão aqui.
- Eles estão subindo? - agora eu estava desesperada. - Preciso trocar de roupa. - levantei com pressa para ir até meu apartamento.
- Não senhora, não vai se arrumar. - ela segurou meu braço.
- , olha isso. - apontei para a minha roupa. Eu estava com um short jeans desbotado e um tanto curto e uma blusa de ombro caído roxa.
- Não dá tempo, . E eu não vou recebê-los aqui sozinha e não estou muito diferente de você. - ela vestia uma blusa estampada e um short preto.
- Vou pelo menos lavar o rosto. - segui para o banheiro e não havia muito o que eu pudesse fazer, só lavei o rosto e voltei para a sala a tempo de ouvir a campainha. fez uma careta e eu rolei os olhos.
- Olá! - um muito animado estava na frente dos outros e segurei o riso. - Viemos fazer uma surpresa. - beijou a bochecha de e ela deu passagem. Me abraçou em seguida.
- Conseguiram - respondi. - Além de atrapalharem meu sono de beleza.
- Coitadinha da - me zoou, entrando depois de e cumprimentando nós duas com um abraço.
- Eu juro que avisei que não era uma boa ideia vir sem avisar - argumentou, entrando por último, um pouco sem graça, cumprimentando com um beijo.
- Estamos só brincando - minha amiga respondeu e eu me lembrei do surto ao atender o interfone. Não era brincadeira.
- Oi, . - ele sorriu e então me deu um beijo na bochecha, passando o braço por meus ombros enquanto seguíamos para a sala. Notei o olhar de como quem diz “Viu, ele te trata diferente”, porém, resolvi ignorar.
- Como sabiam que estávamos aqui? - minha amiga perguntou, pegando o controle para colocar em um canal de música.
- A disse - respondeu e me olhou, incrédula.
- Eu? Eu nem falei com vocês.
- Você falou para o que estava assistindo The Voice, dá na mesma. Isso é programa de se fazer em casa. - olhei feio para , que deu de ombros com cara de desculpas.
- Podiam ter avisado, nós estaríamos mais apresentáveis. - ainda estava incomodada com minha cara de sono.
- Como se não estivessem… - rolou os olhos para o meu drama.
- Vocês estão sempre lindas - disse e, apesar do plural, ele encarava fixamente, deixando claro que aquele elogio era para ela, e tive que cutucar para que ele não começasse a rir.
- E o ? Por que não veio com a ? - mudei de assunto.
- Hoje era comemoração particular do aniversário, se é que me entende. - fez uma cara safada e dei um tapa em seu braço.
- E a melhor coisa que acharam pra fazer foi invadir a minha casa? - tentou parecer brava, mas eu sabia que ela estava feliz por eles estarem ali. Ou pelo .
- Credo, falando assim vou achar que não somos bem-vindos - entrou na brincadeira e foi a vez de ela ficar um pouco sem graça.
- O que temos de comida por aqui?
- ! - o repreendeu e acabamos rindo.
- É um folgado mesmo. Além de invadir minha casa, quer atacar minha geladeira…
- Posso? - ele tinha um olhar esperançoso e eu tive certeza que ele era uma criança ainda.
- Não vai achar nada lá, eu e a quase nunca comemos em casa.
- Pizza então, que tal? - olhei para cada um deles, esperando uma resposta.
- Eu quero de calabresa! - foi o primeiro a se manifestar.
- Eu quero de frango.
- Vocês deveriam deixar as meninas escolherem - censurou os amigos.
- Não sei por que, somos visitas - falou em tom de obviedade e balançou a cabeça sem acreditar naquilo.
- E você, ?
- Qualquer um, pizza é pizza.
- ?
- Quatro queijos, como sempre.
- E quantas serão? Vocês tem cara de que comem bastante. - mostrei língua para provocar.
- Claro que comemos, como você acha que mantemos esses corpinhos? - levantou sua camiseta, mostrando a barriga. Não era tão definida como a de , que tinha me deixado boquiaberta no dia anterior, mas não era de se desprezar também.
- Ei, sem strip-tease na minha sala! - falou alto e colocou uma mão na frente dos meus olhos.
- Apenas garantindo que você não tenha pesadelos - falou baixo, próximo ao meu ouvido, e senti um arrepio, que tentei disfarçar.
- Só estou te mostrando que não fico tão atrás dos seus jogadores. - piscou para , que abriu a boca, mas não falou nada.
- Acho que estamos por fora - disse, já sem a mão de na minha frente. - Quantas pizzas?
- Umas três é mais do que suficiente - respondeu, já que e estavam discutindo algo sobre futebol ou jogadores e tentava entender o assunto deles.
Peguei o telefone para fazer o pedido e segui para a cozinha, pegando os pratos, talheres e copos para arrumar a mesa.
- Quer ajuda? - olhei para trás e vi passando pela porta.
- Claro, pode levar essas coisas pra mesa, por favor?
- E eu? - apareceu. - Desisti de entender sobre o que conversam, nem consegui atrapalhar.
- Ei, , volta aqui! - o chamei, aproveitando que também estava na cozinha.
- O que foi?
- Queria informar que, segundo as minhas fontes, você ganhou a aposta. - sorri e fez uma careta.
- Não acredito. - tinha uma expressão de incredulidade no rosto.
- Pode acreditar, me disse que respeitou o pedido dela e que não se beijaram.
- Sabia que eu ia ganhar. Falta saber o que eu vou ganhar como prêmio, isso sim.
- Precisamos do lado da outra jurada.
- Qual é, , você nem queria jurada para começo de conversa.
- Mas agora eu quero, quero saber o que o vai contar pra .
- E eu quero saber o que eu vou ganhar.
- Isso depende do também, ele também faz parte da aposta - entrei na discussão dos dois. - Acho justo esperarmos a com os outros fatos.
- Por que você defende ele? - apontou para o amigo.
- Não estou defendendo ninguém. Não acabei de vir te contar que você ganhou? - nesse momento a sensação de que compartilhava dos pensamentos de sobre e eu se apoderou de mim e balancei a cabeça.
- Então acho que mereço pelo menos um abraço.
- Merece sim. - fui até ele, que já estava de braços abertos, e nos abraçamos. Por que ele tinha que estar tão cheiroso?
- Já coloquei o resto das coisas na mesa - disse assim que soltamos do abraço. - Quem quer ir atrapalhar aqueles dois comigo?
- Vai na frente. - eu não queria atrapalhar e, para minha sorte, o interfone tocou na mesma hora. Abri a porta e segui para as escadas de incêndio.
- Aonde você vai? - perguntou, curioso.
- Pegar dinheiro lá em casa. - voltei a andar, mas alguém me segurou.
- Não precisa, eu pago.
- , vocês são visita, não vai pagar nada. - tentei convencê-lo, mas ele não me soltou.
- , nós já viemos de surpresa e não sei nem porque eles inventaram isso de comida, nós comemos antes de vir.
- Mesmo assim.
- Não seja teimosa, . - ele sorriu daquela forma que eu tinha certeza que fazia ele conseguir o que ele queria e o entregador apareceu. Me dei por vencida e ele sorriu ainda mais. Ele pagou e eu levei as pizzas para a mesa enquanto ele levava as bebidas.
Nos sentamos na mesa e comemos e conversamos por um longo tempo. O assunto que todos participavam mais era claramente música, de futebol e voltavam para sua bolha. Eu gostava, mas só do alemão. Eles acabaram perguntando sobre nossos trabalhos e, nos últimos dez minutos de conversa, estava me fazendo de dicionário de alemão.
- E prato?
- Gericht.
- Mesa?
- Tisch.
- Cadeira?
- Stuhl.
- Violão?
- Chega, . - deu um tapa na cabeça dele. - Que coisa mais chata. Se ela dá aula disso na universidade, é óbvio que ela sabe essas palavras.
- Não estava duvidando que ela sabia, estava aprendendo.
- Aham, repete alguma delas então - desafiou e fez uma careta.
- Você atrapalhou meu aprendizado. - foi impossível não rir dessa bobeira toda, até que um celular tocou e se afastou para atender.
Senti um misto de curiosidade e outra coisa que não sabia o que era, mas que me incomodou. Será que ele tinha uma namorada? Não fazia sentido, ela estaria presente no aniversário do ou nas apresentações. Ele voltou à mesa e acordei dos meus devaneios, sua cara não era das melhores.
- Eu vou ter que ir - ele disse, pegando o prato num sinal de que levaria para a cozinha.
- Deixa isso, a gente leva - disse e ele o fez.
- Ir pra onde? - fez a pergunta que eu estava louca para saber a resposta.
- Para o estúdio, Jessy ligou e disse que preciso resolver umas coisas.
- No domingo? Depois das sete? Fala sério! - não parecia acreditar.
- Preciso ir também?
- Não, . É problema com pagamento de clientes meus.
- E qual a diferença de fazer hoje ou amanhã cedo? - o olhar de para mim era vitorioso e eu me arrependia de não ter ficado calada.
- Eu sei que você não quer que eu vá embora, . - ele sorriu e eu comecei a juntar os pratos, evitando olhar para minha amiga. - Mas é que preciso impedir que eles recebam o trabalho, já que não recebemos por ele e algumas coisas são programadas e só eu ou o podemos alterar.
- Entendi.
- Vocês vão agora?
- Não estava pensando não, quer meu carro emprestado? - ofereceu.
- Não, eu peço pra Jessy passar aqui. - reprimi uma careta.
Eu não gostava dela e nem a conhecia, mas a primeira impressão dela já não tinha sido boa, e agora eu tinha certeza de que não gostava dela. Ela fazia o que queria com o , isso sim. Mas, afinal, isso não devia me incomodar. se despediu dos amigos e depois abraçou .
- , vou levar isso pra cozinha. - ela pegou os pratos da minha mão. - Acompanha o até a porta, por favor. - lancei um olhar feio a antes de ir até a porta com ele.
- Prometo que compenso vocês da próxima vez - ele disse, esperando o elevador.
- Bom trabalho - desejei quando o elevador parou no andar.
- Obrigado. Tchau, . - ele se aproximou e beijou minha bochecha. Realmente beijou e não sei quanto tempo os lábios dele ficaram pressionados em meu rosto, mas um formigamento estranho estava no local depois que ele se afastou.
- E agora? Ainda vai falar que ele não te trata diferente? - falou atrás de mim enquanto eu trancava a porta e eu pulei com o susto.
- Não me assusta assim - reclamei e fingi que nem havia escutado.
- Não me ignora, . - ela me empurrou de leve enquanto eu levava alguns copos para a cozinha.
- Ele não me trata diferente.
- E aquele beijo infinito na porta do elevador?
- Você estava me vigiando? - dei um tapa no braço dela.
- Só um pouquinho. Mas o fato é que só você ganhou beijo.
- Porque nem está na cara que o quer você e que se o te beijar o bate nele - a zoei, sabendo que era uma saída.
- Não acho que seja isso, mas vou deixar em aberto - ela disse, caminhando para a sala, e eu a segui.
- O que estão fazendo de bom? - me sentei ao lado de de propósito, fazendo com que ela sentasse ao lado de .
- Procurando algum filme bom para assistir. - respondeu com o controle na mão. - Já viram esse? Kingsman?
- Não - respondemos ao mesmo tempo.
- Então vamos ver hoje, começa em vinte minutos. - ele colocou o controle na mesa de centro.
- Aqui tem pipoca?
- , não acredito nisso... Você acabou de comer cinco fatias de pizza! - neguei com a cabeça.
- Pipoca não é para matar fome, . Pipoca nem enche, e filme que se preze tem que ter pipoca. - rolei os olhos.
- Eu não tenho não, . Não gosto muito.
- Na sua casa tem? - ele me olhou, esperançoso.
- Não sei. Você quer mesmo isso? - ele assentiu e eu me dei por vencida.
- Vou com você.
- Não precisa, .
- Quero conhecer seu apartamento. - ele saiu na minha frente e apenas o segui. - Até que enfim! - ele disse baixo assim que fechei a porta.
- Até que enfim o quê?
- Fala baixo. - ele me puxou até as escadas e subimos para meu apartamento. - Eu não quero pipoca, óbvio que não, se eu comer qualquer coisa agora eu vou passar mal.
- Então por que a gente está aqui? - respondi ao entrar na cozinha.
- Para deixar os dois pombinhos sozinhos. - me olhou como se eu fosse retardada.
- Fala sério! - me sentei no sofá.
- Eu só te mandei aquela mensagem mais cedo para ver se o calava a boca. Não aguentava mais ele insistindo.
- Ele tá mesmo a fim dela?
- Ele é uma incógnita, . - ele se deitou no sofá em que eu estava e colocou a cabeça no meu colo.
- E você é um folgado - brinquei, mas acabei levando minha mão aos cabelos dele.
- Ainda topa ver aquele filme do ?
- Por que não? - ele ligou a TV no mesmo canal. - , acabei de lembrar de uma coisa. - ele me olhou, esperando que eu falasse. - acha que você está a fim de mim. - ri.
- E você está rindo do que? - ele riu junto. - Quem disse que não estou? - parei de rir e o encarei séria. - Tá, eu não estou, mas poderia estar.
- Mané. - dei um tapa nele e encerramos o assunto com o começo do filme.

-Ai! - acordei com um grito vindo da cozinha e me levantei do sofá correndo. Ao chegar na cozinha, me deparei com uma pocinha de sangue.
- Ai meu Deus, ! O que você fez? - perguntei, assustada, não gostava de ver sangue.
- Foi só um cortezinho bobo, - ele respondeu com a mão embaixo da torneira, lavando o sangue, e eu pude ver um corte razoável na lateral de sua mão.
- Bobo nada, olha o tanto de sangue aqui. - fiz careta. - Você deve ter acertado um lugar que não devia e é por isso que crianças não devem ficar na cozinha com objetos cortantes.
- Se acalma, . Daqui a pouco para de sangrar. - rolei os olhos e saí da cozinha, buscando um esparadrapo ou coisa parecida no banheiro.
- Só tem esparadrapo aqui, será que serve pra alguma coisa?
- Na verdade acho que você estava certa. Acho que tem que dar ponto, porque não parou até agora.
- Viu, teimoso. Se tivesse me escutado, a gente já estaria chegando em um hospital agora. - peguei um pano e joguei pra ele. - Aperta isso na sua mão, já vou chamar um táxi.
- Pra que táxi? Meu carro está aí na porta.
- E duvido que você vai conseguir dirigir com a mão assim. Vai é sujar o carro todo.
- Você dirige, ué. - caí na gargalhada.
- Tá brincando, né?
- Eu sei que você tem habilitação. Larga de drama e vamos logo.
- Como assim você sabe que tenho habilitação?
- Eu vi na sua bolsa um dia - ele comentou como se não fosse importante.
- ! Você mexeu na minha bolsa?
- Não exatamente, só que ela estava quase saindo e eu fiquei curioso pra ver sua foto.
- !
- Tá, tá, desculpa! Agora vamos que isso está doendo.
- Eu não quero bater o seu carro, ! - foi a vez dele de rolar os olhos. Me dei por vencida e fui dirigindo o carro dele, morrendo de medo.
- Vira aqui. - ele apontou para o lado contrário.
- O hospital é ali, ó. - mostrei, fazendo o meu caminho.
- Mas eu não quero ir nesse hospital. - inacreditável. - Quero ir no St. Thomas.
- , o St. Thomas é do outro lado da cidade - reclamei. - Larga de ser mimado. Até chegar lá, já vão ter passado das duas da manhã. Eu havia dormido depois do segundo filme e perdido a noção do tempo.
- É que lá eles já tem meu histórico. Toda vez que tenho algum acidente, eu vou lá. - resolvi me calar e mudei meu trajeto.
- Posso, pelo menos, saber o que você estava tentando fazer para se cortar assim?
- Eu ia abrir um saco de marshmallows…
- Você fez esse estrago pra abrir um saco de marshmallows? - balancei a cabeça sem acreditar.
- Estava difícil de abrir - ele se defendeu e eu fiquei quieta.
Depois de alguns minutos em silêncio no carro, nós chegamos. Deixei ele na porta e estacionei um pouco mais à frente da entrada. Entrei no hospital e o vi sentado, aguardando. Me sentei ao seu lado ainda em silêncio.
- Obrigado. - ri fraco.
- Ai , só você mesmo pra fazer isso comigo. De nada. - ele soltou o pano da mão e passou o braço por meus ombros, me dando um meio abraço, e encostei a cabeça em seu ombro e bocejei. - Está doendo ainda?
- Um pouco.
- . - a voz que o chamou parecia ter dito o nome dele com o sorriso, o que me fez levantar o olhar e procurar a pessoa. Era uma linda mulher e, pelo jaleco, eu pensei que fosse a própria médica. Notei o sorriso dela para ele e o dele para ela. Com certeza tinha algo ali.
Tentei prestar atenção no filme que passava na TV enquanto esperava, mas não era interessante. Me ajeitei melhor na cadeira e estava quase cochilando quando ele apareceu.
- E aí? - ele se sentou.
- A vem me chamar pra dar os pontos daqui a pouco.
- , hum? - o olhei, segurando um riso, e ele me empurrou de leve.
- , vamos? - a mesma moça passou por nós, entrando em outra sala.
- Vai querer que eu entre com você pra não desmaiar? - zoei.
- Pentelha. - ele se levantou, sorrindo, e aquele sorriso não era pra mim.
- Boa sorte. E não grite muito alto. - mostrei língua e voltei a me encostar na cadeira.

Capítulo Oito

POV

Pelas minhas contas, Kingsman já passava na televisão há mais de uma hora. O filme já devia ter passado da metade e e ainda não haviam dado as caras novamente. Estar, pela primeira vez, sozinha com no meu apartamento, nós dois sentados lado a lado no sofá, estava sendo uma experiência agoniante. Eu tentava não pensar no que aquilo poderia resultar, tentava prestar atenção no filme, mas frequentemente puxava algum papo bobo para quebrar o silêncio um tanto desconfortável que se instalava no ambiente.
- Esses dois foram colher o milho para fazer a pipoca ou o que? - questionei, chamando a atenção de , que naquele momento parecia prestar atenção no filme.
- Como assim? - ele perguntou, rindo.
- Olha o tempo que eles estão demorando! Quando eles voltarem, nem vai precisar de pipoca mais. O filme já vai ter acabado.
- Sério? Nem reparei.
- Você só pode estar brincando - falei, abrindo a boca, incrédula. Era impossível ele não ter reparado no sumiço de e . - Espera aí! Entendi tudo!
- Entendeu? - me encarou, com os olhos arregalados.
- É tão óbvio. Eles estão se pegando - eu disse, com um sorriso esperto nos lábios.
- Ah... - ele suspirou. Pode ter sido apenas impressão minha, mas sua expressão pareceu ser de alívio. - Por que você acha que eles estão se pegando?
- Porque, desde que eles se conheceram, é todo amiguinho da . Pode até ser coisa da minha cabeça, mas ele parece a fim dela - expliquei.
- Será? - ele questionou, ponderando o que eu havia acabado de falar. - Você tem razão, eles podem ter dado um perdido na gente para se pegar.
- Você sabe de alguma coisa, ? Me conta! - exclamei, me ajeitando no sofá, extremamente interessada na conversa. - já deve ter comentado alguma coisa a respeito da com você, né?
- É, acho que ele já falou que acha ela bastante atraente… - ele disse, pensativo.
- Viu! Aposto que o interesse dele é mais do que uma simples amizade - eu falei, dando um sorriso esperto e fazendo rir. - E o ? Você sabe alguma coisa?
- O ? - ele perguntou, franzindo o cenho em sinal de confusão.
- Já o peguei dando umas secadas nela e reparei que ele trata nós duas de um jeito diferente. Ele é simpático comigo, mas, com ela, ele é mais atencioso - eu expliquei.
- Secadas? Sério? - ele perguntou, intrigado.
- Sim! Pode reparar, ele seca a mais do que eu seco a bunda do Hazard - falei, propositalmente para provocá-lo, e ri quando ele rolou os olhos. - Por que você está parecendo mais surpreso com o estar interessado na do que com o estar? - questionei, achando a reação dele um tanto estranha.
- Eu estava zoando sobre o . Ele nunca fez nenhum comentário suspeito e eu conheço ele, sei como ele age quando está a fim de uma garota e posso afirmar que com a é apenas amizade - ele disse e eu peguei a almofada mais próxima e taquei na cara dele. - Que violência é essa?
- Você estava zoando com a minha cara! - acusei, realmente ofendida. Eu queria informações que pudessem comprovar minhas suspeitas, não zoações.
- Desculpa, - ele fez um biquinho que eu poderia ter achado fofo se não estivesse brava. - É que você fica tão bonitinha formulando essas teorias, não quis cortar teu barato.
- Palhaço - murmurei, cruzando os braços. - Pensei que eu ficasse bonitinha calada - falei, me lembrando de ele ter afirmado tal coisa na festa do .
- Isso também. Mas sabe quando você fica linda? - ele questionou e se ajeitou no sofá, apoiando o cotovelo no encosto e ficando de frente para mim. Rolei os olhos, já sabendo que uma cantada de pedreiro viria a seguir. - Quando está enfiando a língua na minha boca.
Abri a boca, chocada, e peguei a mesma almofada que tinha tacado nele anteriormente e bati com ela algumas vezes nele, que ria e tentava se proteger.
- Calma, sua maluca!
- Eu não sou maluca, você que é um abusado! - exclamei.
- Estou tentando flertar com você, mas você não colabora - ele disse, ajeitando o cabelo quando parei de atacá-lo com a almofada.
- Flertar? Você chama isso de flertar? - questionei, rolando os olhos. - Isso foi grosseiro. Se você dissesse que eu fico linda sorrindo ou algo assim seria muito mais bonitinho.
- Então você quer que eu flerte com você! - ele falou em um tom acusatório, apontando para mim com um dedo.
- Cada um entende o que quer, né? - bufei. - Voltando ao que interessa… O , então, segundo você, é só amigo da mesmo, certo?
- Acho bastante provável que seja só amizade sim.
- E o ? É muito absurda a ideia de ele estar a fim dela?
- Um pouco. Ele não tem se interessado por mulheres desde que… - ele disse, mas subitamente se calou, como se tivesse dito mais do que podia.
- O é gay?! - berrei, com a voz esganiçada.
- Não! - ele exclamou, aos risos. - Não é isso. É que aconteceu uma coisa, que eu não sei se posso te contar, é pessoal demais - explicou. - Bom, o que importa é que, desde que isso aconteceu, ele se fechou completamente para relacionamentos amorosos e vive para o estúdio. Se você viu ele secando a , é, no mínimo, curioso. Vou sondar ele.
- Isso! - falei, me animando por, possivelmente, estar arrumando um cúmplice. Eu não via a hora de provar para que eu estava certa desde o início. Se minha teoria com o tinha poucas chances de ser verídica, então seria a com o que eu esfregaria na cara dela. - Já que você é amigo dele, tenta descobrir o máximo de informações que você conseguir, e depois me conta tudo.
- O que eu ganho com isso?
Observei ele sentar-se mais para frente, se aproximando de mim, até suas pernas encostarem nas minhas, descobertas pelo short que eu vestia. O sorriso sacana nos lábios dele me fez sentir uma pontada no estômago. Eu mordia de leve meu lábio inferior, mas o que eu queria mesmo era morder os lábios dele. Me matava estar assumindo aquilo para mim mesma, depois de tanto me fazer de difícil e, no fundo, ainda estar com um pé atrás em relação a ele. Mas, céus, como eu queria beijar novamente!
- Minha gratidão - respondi e ri ao vê-lo fazer uma careta.
- Posso confessar uma coisa? - ele perguntou e eu assenti com a cabeça, curiosa. - Eu que convenci e a virem aqui hoje - começou e eu abri a boca, surpresa. Na verdade, eu nem sabia por que aquilo estava me surpreendendo. Claro que teria dedo dele… - Ainda não sabemos quando vamos nos apresentar no Red novamente e eu não teria nenhuma desculpa para te ver.
- Não sei o que dizer - ri levemente, um pouco embaraçada.
abriu um sorriso ainda maior, provavelmente contente por ter me deixado sem palavras, e levou uma das mãos até o meu cabelo, começando a mexer nele carinhosamente.
- E o combinado era tentar me deixar sozinho com você mesmo - ele continuou. - Eu estava louco para te beijar na festa do , sabia? Foi torturante, você estava linda e eu tive que manter distância. Depois que você me contou sobre aquele babaca do Edward, você nem imagina o quanto quis te beijar.
- Por que não beijou? - questionei, mas logo me arrependendo ao ver a expressão de surpresa que tomou conta de seu rosto. - Quer dizer, não é como se você fosse de fazer cerimônia para me beijar, né? Muito pelo contrário.
- Por causa daquilo que você me disse no começo da festa - ele falou, dando de ombros. - Se você quer tempo, vou tentar não forçar a barra - explicou, e eu até achei bonitinho ele estar preocupado. Tudo bem que ele havia demorado para entender o recado, mas, pelo menos, entendeu. - E você não tem ideia do quanto quero te beijar agora.
- E por que ainda não beijou?
Sim, dessa vez eu estava tentando jogar uma indireta. Foda-se minha aversão momentânea a relacionamentos. Um cara lindo e, o mais importante, que beijava bem para caramba, estava dando em cima de mim constantemente. Não tinha mal nenhum dar uns beijinhos nele, certo? esticou o pescoço, alarmado, e eu podia apostar que ele estava decidindo se aquilo havia sido um sinal verde ou não.
- Eu adoro essa música! - exclamei ao escutar a música que tocava na televisão. Os créditos de Kingsman apareciam na tela. Rolei os olhos para mim mesma quando percebi que havia acabado de cortar totalmente o clima. - Get Ready For It, do Take That!
- Você gosta deles, é? - ele perguntou, interessado.
- Você está brincando? Amo esses caras! - falei animada. - The night is young, until it's over, until it's over. The night is young - cantei junto, observando a televisão.
- Como cantora você é a melhor bibliotecária do mundo, né? - falou, gargalhando.
Peguei a almofada que já estava quase sendo intitulada a almofada oficial para bater em , e taquei nele novamente, mas sem deixar de rir junto. Eu sabia que era verdade, eu cantava muito mal.
- Ainda está com vontade de me beijar? - perguntei com uma súbita cara de pau, farta de tanta enrolação. arregalou os olhos e riu.
- Claro que estou.
Sem perder mais tempo, me aproximei ainda mais, colocando minhas pernas por cima das dele, e , instintivamente, colocou uma de suas mãos na minha cintura. Segurei seu rosto pelas bochechas, com as palmas das mãos abertas, e o puxei até conseguir encostar seus lábios nos meus. Por alguns segundos, ficamos apenas com as bocas encostadas. Percebi que estava permitindo que eu assumisse o comando. Aprovando sua atitude, dei uma leve mordida no lábio inferior dele, o que o fez entreabrir os lábios, mostrando que queria mais. Aproveitei a brecha para adentrar minha língua e procurar pela sua. Logo estávamos nos beijando calmamente, um apreciando o gosto do outro, e não sei dizer ao certo por quantos minutos ficamos ali. Mas foi bom. Muito bom.
- Não vai ficar com raiva de mim, né? - ele perguntou, quase sussurrando, quando finalmente nos separamos. - Dessa vez foi você que me beijou.
Me recusando a responder aquela pergunta, apenas ri e o beijei novamente. Eu não sabia até quando estaria disposta a seguir com aquilo, mas queria aproveitar o máximo possível.

POV

Eu estava entre as pernas de , finalmente. Bom, não exatamente como eu gostaria, mas tê-la sentada no meu colo, com uma perna de cada lado do meu corpo, enquanto nos beijávamos calorosamente, era o suficiente, por ora. Sinceramente, nem nos meus melhores devaneios o dia terminaria daquele jeito.
Algumas horas antes, estávamos na casa de - eu, e o dono da casa, é claro - jogando videogame, mas tudo que eu conseguia pensar era em como eu queria ver novamente. Eu passaria as próximas semanas envolvido com os treinos do Brentford F.C., já que teríamos um jogo importante em breve, e não acharia nenhuma desculpa para marcar um encontro com o pessoal e chamar ela e . Já que e estavam cada vez mais amigos, tive a brilhante ideia de aparecermos de surpresa no prédio delas. e acharam a ideia bem inconveniente, é claro, mas, depois de muita insistência, consegui convencê-los. Porém, minha intenção era apenas ter mais uma oportunidade de vê-la e de me aproximar dela. Um amasso no sofá certamente havia superado todas as minhas expectativas.
- Quer comer alguma coisa? - questionou com a voz fraca quando paramos de nos beijar, ambos buscando ar.
“Você”, pensei.
Mas achei que não era uma boa ideia dizer aquilo em voz alta. Senti meu estômago roncar, me fazendo notar que realmente estava com fome, já que haviam se passado algumas horas desde que comemos pizza. Pigarreei antes de responder:
- Se tiver algo que não dê muito trabalho…
Ela se levantou do meu colo e eu me controlei para não puxá-la de volta, já que estava longe de me sentir saciado. Em vez disso, encarei as coxas dela, lembrando que há poucos minutos minhas mãos passeavam por ali livremente, e ri comigo mesmo. Segui até a cozinha e permaneci apoiado no portal enquanto a observava abrir a geladeira e analisar seu conteúdo.
- Vai um sanduíche? - ela perguntou, olhando rapidamente para mim.
- Tanto faz, - respondi, dando de ombros.
- Então vai ser sanduíche.
mostrou um sorriso tão bonito que me deu vontade de agarrá-la novamente, e pegou algumas coisas na geladeira, inclusive uma das duas garrafas de Coca-Cola que compramos junto com as pizzas que havia sobrado. Ela deixou tudo em cima da bancada e, em seguida, foi até um armário, logo retornando com dois pratos e um pacote de pão de forma.
- O que será que aqueles dois estão fazendo até essa hora? - questionou, pegando fatias de pão para começar a montar os sanduíches.
- Sério que você está pensando neles? - rebati. - , qual foi? Você estava me pegando há dois minutos. Que se danem e !
Ela me deu uma rápida olhada e gargalhou.
- Você se acha, né, ?
Me desencostei do portal e caminhei até ela. Apoiei minhas mãos na bancada, a deixando presa entre meus braços.
- E você me adora, pode confessar - sussurrei e distribuí alguns beijos atrás de sua orelha. se encolheu, rindo, e percebi que havia conseguido fazê-la se arrepiar. Fiz com que ela largasse a preparação do sanduíche e se virasse para mim, e aproximei nossos rostos.
- A fome pode esperar um pouquinho - falei com meus lábios roçando nos dela. - O que você acha?
- Acho que estou ferrada - ela disse e soltou uma leve risada. - Agora você não vai querer parar de me beijar.
Afastei meu rosto para poder observá-la, com a boca aberta em sinal de indignação.
- Você está absolutamente correta - falei e, em seguida, ri, sendo acompanhado por ela.
A segurei pela nuca e aproximei nossos rostos novamente, logo grudando meus lábios aos dela. Conforme nos beijávamos cheios de vontade, eu sentia que estava cada vez mais confortável e entregue ao momento, o que me dava coragem de, aos poucos, ousar nas carícias. Enquanto uma das minhas mãos brincava com seu cabelo, a outra acariciava sua cintura. Levei minha mão até suas costas e passei por baixo da blusa que ela vestia, e, em seguida, decidi arriscar brincar com o cós do short dela.
segurou meu pulso e levantou minha mão até que ela estivesse espalmada nas costas dela e cortou o beijo, se separando minimamente.
- Muito cedo para mãos bobas, - ela disse em tom de alerta.
- Mas o que tem demais? - perguntei, inocentemente. - Você pode botar a mão onde quiser.
- Vou enfiar a mão é na sua cara se continuar de gracinha.
Levantei as mãos em sinal de rendição, rindo.
- Que violência, - falei e dei um sorriso esperto ao ter uma ideia. - Vem cá.
A segurei pelos cotovelos e fiz seus braços me envolverem, e deslizei minhas mãos por eles até chegar nas mãos dela. A gargalhada de ecoou pela cozinha quando espalmei suas mãos na minha bunda.
- Viu? O que tem demais?
- Você é muito abusado - ela falou, ainda rindo, tentando puxar as mãos que eu prendia ali. Chupei seus lábios rapidamente em resposta.
- Pode apertar, não tem problema - falei e a beijei novamente.
Enquanto nos beijávamos, fiz os dedos dela espremerem minhas nádegas, e ela acabou por rir em meio aos beijos. Alguns minutos depois, quebrei o beijo e, finalmente, liberei suas mãos, que prontamente me empurraram para longe pelo peito.
- É melhor você não me fazer me arrepender disso - avisou. Apesar da seriedade em sua voz, eu sabia que ela, no fundo, estava se divertindo em ficar comigo naquela noite.
- Depois de hoje você nunca mais vai se lembrar da bunda do Hazard - brinquei e a observei rolar os olhos.
- Sonha, .
voltou-se para a bancada novamente e voltou a preparar nossos sanduíches.
- Quer ajuda?
- Não precisa - ela respondeu, sorrindo.
- Vou ligar para o enquanto isso, então. Já está tarde e eu vim de carona com ele.
Ela assentiu e eu voltei para a sala em busca do meu celular, lamentando por aquilo tudo já estar acabando. Se eu pudesse, ficaria ali beijando por mais muito tempo.

POV

Eu apertei a bunda de .
Ok, obviamente o partido não tinha sido tomado por mim, mas, mesmo tendo os movimentos dos meus dedos controlados por , pude sentir a maciez de sua bunda. E, céus, que bunda! Claro que eu jamais admitiria isso em voz alta e, inclusive, achava que estava sendo abusadinho demais, mas eu estava adorando passar aquelas horas com ele.
- No hospital? - escutei a voz de , vinda da sala de estar, dizer com surpresa. - O que vocês foram fazer no hospital?
Arregalei os olhos. O quê? e estavam no hospital? Peguei os pratos com os sanduíches prontos e rumei para a sala apressadamente, encontrando sentado no sofá. Deixei os pratos em cima da mesa de centro e, curiosa, encarei , que mostrou um sorriso de agradecimento enquanto proferia diversos ahams em resposta para o que estava sendo dito por ao celular.
- Você é um desastrado, - ele falou, rolando os olhos. - Cuidado para não cortar o pinto fora, qualquer dia desses.
Franzi o cenho, estranhando aquela afirmação, mas acabei rindo junto quando gargalhou.
- Ok. Venham logo. Já são quase 3h da manhã e precisamos ir embora - disse e eu me assustei. Olhei para o relógio pendurado na parede da cozinha, que eu conseguia enxergar de onde estava, e me surpreendi ao constatar que de fato já era aquele horário. Eu estava tão entregue aos beijos de que nem percebi o tempo passar. - Tchau.
finalizou a ligação, deixou o celular em cima da mesa de centro e me encarou.
- O que aconteceu? - perguntei, ansiosa.
- se cortou e precisou ir ao hospital levar alguns pontos - ele respondeu, dando de ombros. - Normal. Ele é um desastrado, vive se machucando.
- Coitado, . Não fala assim! - exclamei e dei um tapa em seu ombro. - Deve ter sido feio, seja menos cruel.
- Está com peninha dele, é? - questionou, se esticando para pegar um dos sanduíches e, em seguida, deu uma mordida generosa. - E se fosse eu? Ia cuidar de mim até eu melhorar, dando muito amor e carinho, né?
- Não fala de boca cheia - o repreendi. - E se eu fosse você não pagaria pra ver.
Antes de me sentar ao lado de para também comer meu sanduíche, fui até a cozinha e servi dois copos de Coca-Cola. Comemos enquanto conversávamos sobre coisas aleatórias e sempre fazia questão de dizer suas gracinhas que nem me deixavam sem graça mais. Acho que eu estava começando a me acostumar com aquele jeito divertido e assanhado dele. Quando acabei de comer, senti o sono começar a dar o ar da graça, e aproveitei as coxas de como travesseiro. Confesso que, me sentindo cada vez mais leve com ele mexendo no meu cabelo e volta e meia depositando beijos estalados nos meus lábios, foi difícil não pegar no sono. A campainha tocando acabou me despertando e me obrigou a levantar e ir abrir a porta.
- Até que enfim - falei, dando passagem para e entrarem no meu apartamento.
- Não está sendo fácil ser amiga dessa criança - disse em meio a um suspiro.
- Como você está, ? - questionei.
- Tudo ótimo - respondeu, mostrando a mão enfaixada e um sorriso enorme nos lábios.
Olhei torto para ele, estranhando aquela alegria toda depois de ter acabado de levar pontos. Mas, não pude deixar de notar as covinhas que se evidenciaram com aquele sorriso e tive vontade de apertar as bochechas dele.
- Que fofo! Você tem covinhas! - exclamei, fechando a porta.
levantou em um pulo do sofá e praticamente atacou , colocando as mãos em frente à boca dele.
- Jesus Cristo - falei, arregalando os olhos. - Pra que isso?
- Você não tem ideia de quantas garotas já se apaixonaram por esse sorriso - disse. - Não queremos correr esse risco, né?
Eu e nos entreolhamos e caímos na gargalhada.
- Tarde demais, querido - eu disse e, em seguida, o empurrei até que ele soltasse o amigo e abracei , encarando com um sorriso travesso nos lábios.
- Foi mal, cara. Elas me amam - falou, entrando na onda, e retribuiu o abraço, mostrando a língua para o outro.
rolou os olhos, enquanto ria da nossa brincadeira.
- Vocês dois - ela começou, apontando para mim e -, são duas figuras.
- Vamos embora, - ele disse, dando tapinhas no ombro do amigo para que ele me soltasse. - Já está tarde.
- Vamos - concordou e, antes de me soltar do abraço, depositou um beijo na minha bochecha. - Tchau, . Desculpa aparecer na sua casa sem avisar e, ainda por cima, te fazer aturar esse chato até essa hora.
- Imagina. Depois a gente se acerta - falei, insinuante, piscando um olho, o fazendo rir.
bufou e, enquanto se despedia de , me puxou e grudou seus lábios aos meus. A ação me pegou desprevenida, mas não deixei de corresponder ao beijo quase violento de tão intenso. Não sei qual era a intenção dele com aquilo, mas, se queria me deixar de pernas bambas, havia conseguido. Quando nos separamos, notei que e nos observam de olhos arregalados e a minha vontade foi a de cavar um buraco no chão e enterrar minha cabeça. Soltei uma risadinha sem graça, enquanto se despedia de na maior naturalidade do mundo. Em seguida, ele abriu a porta e puxou para o corredor.
- A gente se vê, meninas - disse, antes de entrar no elevador, que já estava no andar, seguido pelo amigo.
- Aleluia! - pude ouvir exclamar assim que a porta do elevador se fechou.
Fechei a porta do meu apartamento, sabendo que não iria embora naquele momento. Não sem antes me interrogar.
- Não acredito! Vocês se pegaram! - ela gritou, aos risos.
- Fala baixo - repreendi. - Quer acordar o prédio inteiro?
Ainda rindo, ela me puxou até que sentássemos no sofá.
- Você sabe que isso tudo foi um plano do , né? - ela questionou e eu assenti. - O que te fez mudar de ideia?
- Vai que ele é contratado por um time grande no futuro? Vou poder me gabar - brinquei, dando de ombros, e rindo em seguida.
- Finalmente, ! - exclamou, rindo. - Já estava na hora de você deixar de ser retardada e aproveitar a oportunidade. Vai que dá certo…
- Tira o cavalinho da chuva, - disse, a olhando torto. - Não vou criar expectativa nenhuma, nem mesmo expectativa de ficar mais vezes com ele. Eu não me surpreenderia se ele nunca mais me procurasse, agora que conseguiu o que queria.
- parece um cara legal, não acho que ele faria isso.
- Ele tem um pinto no meio das pernas. Isso é motivo suficiente para eu não duvidar de nada - falei, fazendo minha amiga rir alto.
- Você viu o pinto dele, foi? - ela questionou com um sorriso esperto.
- Cala a boca - rebati, rindo. - Não chegamos nesse nível. Só ficamos nos pegando no sofá.
- Nesse sofá? - perguntou, fazendo uma expressão de nojo. Quando assenti, ela saiu correndo para o outro sofá. - Nunca mais sento aí!
- Lindinha, me peguei com o Edward em ambos os sofás, infelizmente - falei, rindo. Quando vi que ela se levantou e estava prestes a sentar no chão, acrescentei: - No chão também.
- Porra! - ela exclamou, ficando de pé. - Tem algum lugar dessa casa que você não tenha transado com o Edward?
- Estou só brincando - respondi em meio a risos. - Não transei tantas vezes assim com o Edward. Apesar de que eu preferia que nunca tivesse acontecido nada, mas tudo bem - falei e soltei um longo suspiro.
- Logo, logo te faz esquecer que esse babaca passou pela sua vida um dia - disse, voltando a se sentar ao meu lado no sofá.
- Será? - perguntei, a encarando. - E você? Quando vai dar uma chance para o ? Ou para o , claro.
- Não começa. - Bufou. - Para de falar besteira e me conta o que rolou entre você e .
- Tudo?
- Tudo!
Naquele dia, acabamos indo dormir com o sol já surgindo no horizonte.

Capítulo Nove

POV

Eu estava me amaldiçoando por ter esquecido de guardar o celular na bolsa antes da aula começar, já que ele não parava de vibrar no bolso de trás da minha calça jeans, e eu sabia que não era ligação pela falta de padrão. Quase na metade da aula, passei um exercício para os alunos e, num rápido movimento, o guardei na bolsa, sem ao menos ver quem era. Se fosse , ele podia se considerar um homem morto.
Nesse dia eu saía na mesma hora que e, por isso, costumávamos voltar juntas para casa. Faltando alguns minutos para terminar oficialmente a aula, eu liberei os alunos e caminhei para a sala dos professores para registrar minha saída com o crachá de professor e guardar alguns materiais que só voltaria a usar na próxima aula. Ajeitei minha bolsa no ombro e tirei meu celular enquanto ia até a porta da universidade, no nosso ponto de encontro. Parei no meio do corredor ao ver a quantidade de notificações de mensagens e ligações, todas de Andrew. Ele só podia estar maluco!

Andrew: Hey, . Tudo bem?
Andrew: Tenho uma coisa pra te contar! Podemos nos encontrar?
Andrew: Vai me ignorar?
Andrew: Me responde, .
Andrew: Tenho uma surpresa também.

Isso era uma surpresa e tanto, estávamos sem nos falar por quase duas semanas, mas a surpresa maior veio quando olhei para frente e o vi parado, sorrindo para mim, e não consegui não sorrir de volta. Ele realmente não me ajudava em nada na tarefa de esquecê-lo e eu era mesmo uma idiota, só isso explicaria o fato de eu ainda ter esperança e dar bola para alguém como ele. Olhei para trás, verificando se não estava por ali, ela seria capaz de armar um barraco se me visse falando com ele.
- Você me ignorou - ele reclamou enquanto me abraçava e me deu um beijo na bochecha em seguida.
- Eu estava trabalhando! - dei um tapa no braço dele. - Algumas pessoas não vivem de estudar, sabia? Elas têm regras a serem cumpridas no trabalho. - ele rolou os olhos.
- Posso falar agora? - assenti. - Eu estava com saudade. - o olhei desconfiada.
- Veio aqui pra falar isso, Andrew?
- Não estraga o clima, .
- Que clima, Andrew? Não existe clima, não existe nada, eu nem devia estar aqui falando com você. - tinha recobrado o juízo.
- Vim te dizer que você estava certa. - meu coração deu um pulo e tive que segurar para não sorrir. - Não foi justo ter escondido isso de você, eu reconheço e não quero te perder. Os dias que a gente não se fala são tão estranhos, fico sempre com aquela sensação de que tem algo faltando.
- Você não está zoando comigo, está? - minha cota de ser inocente com ele já tinha estourado e em muito.
- Claro que não. Vou inclusive te levar para jantar no Ledbury e, se você não entrar no carro agora, nós vamos perder nossa reserva.
- Você não pode estar falando sério.
- Por que não?
- Porque aquilo lá é uma fortuna.
- E daí? É o seu restaurante preferido e você merece.
- Eles nunca vão me deixar entrar lá vestida assim.
- Essa é sua desculpa?
- As pessoa se produzem para jantar lá, Andrew.
- , para de se preocupar tanto e curte o momento. É o Ledbury. - me dei por vencida e entrei no carro.

Andrew tinha acabado de pedir a sobremesa e só então me lembrei que tinha deixado minha amiga plantada, ela provavelmente estava me odiando e me senti culpada. Para melhorar, quando peguei o telefone para mandar uma mensagem, minha bateria tinha acabado e fiz uma careta.
- O que foi, ? Algum problema?
- Esqueci de avisar para a que não voltaria com ela, ela deve estar grilada e minha bateria acabou.
- Usa o meu. - ele estendeu o aparelho e eu recusei.
- Ela não gosta de você, vai me matar quando eu aparecer em casa. - ele me olhou ultrajado. - E nem faça essa cara que ela tem todos os motivos para isso. Na verdade, nem eu deveria gostar mais de você. - e quando a conversa ia piorar, a sobremesa chegou, salvando a noite.

- Obrigada. - sorri ao entrar no carro, esfregando minhas mãos por causa do frio. Ele percebeu e ligou o aquecedor do carro, ainda no estacionamento.
- Sabia que tem um jeito muito mais fácil de esquentar? - ele tentou soar inocente, se aproximando de mim e eu entrei no jogo.
- Tem? Não estou lembrando de nada agora. - fiz uma cara pensativa e a próxima coisa que senti foram os lábios dele nos meus.
Céus, como eu sentia falta disso! Minhas mãos foram logo para o pescoço dele e as dele para a minha cintura, me puxando como podia para mais perto. Mordi o lábio inferior dele quando senti as mãos dele dentro de minha blusa, passeando pelas minhas costas e brincando com o fecho do meu sutiã. Separei nossas bocas e ele me olhou, esperando uma explicação, retribuí o olhar enquanto tirava as mãos dele das minhas costas.
- Entendi, minha casa. - ele riu fraco e eu balancei a cabeça, agradecendo por ele morar a duas quadras de distância do restaurante. Esse era um grande passo, eu geralmente cortava o clima antes que chegássemos aos finalmentes.
Durante o curto caminho, sua mão não saiu da minha coxa e as intenções não tinham como ser mais claras. Desci do carro e corri pela garagem até o elevador apenas para provocá-lo e, assim que a porta se fechou, ele me encurralou entre ele e a parede. O olhar dele transmitia desejo e o meu talvez não estivesse muito diferente. Ele beijou o canto da minha boca e trilhou um caminho de beijos até meu pescoço, enquanto eu o arranhava por cima da camiseta.
A porta do elevador se abriu e ele me guiou sem parar com as provocações, destrancando a porta com facilidade e me seguindo até a enorme cama de casal no quarto. Encaixado entre minhas pernas, ele se apoiava nos cotovelos enquanto nos beijávamos e a primeira peça a sumir de vista foi a camiseta que ele vestia. Passei as unhas levemente pelas costas dele, sabendo que causava arrepios nele e, num movimento rápido, sem cortar o beijo, eu estava por cima. As mãos dele brincavam com a barra da minha blusa e foi a segunda peça a voar pelo quarto. Distribuí beijos pelo pescoço dele, alternando com leve mordidas até chegar à orelha.
- É tão bom saber que estou com um homem livre - murmurei e percebi sua expressão confusa. Não! Ele não podia ter feito aquilo comigo. - Você terminou seu namoro, certo? - tentei controlar a voz e as lágrimas que se formavam.
- É… Hum… Não. - ele se encolheu quando acertei um tapa em seu rosto. - Você está louca?
- Eu? Você é impossível, Andrew! - gritei, as lágrimas desciam livremente pelo meu rosto, enquanto eu buscava pela minha blusa em algum canto do quarto. - Você mentiu pra mim - vociferei com o dedo apontado na cara dele.
- Quando? - ele se levantou da cama, meus dedos estavam marcados em sua bochecha.
- “Vim dizer que você estava certa e que não quero te perder” - repeti as palavras dele com raiva e ele riu.
- E aí você deduziu que eu tinha terminado - ele concluiu e me senti ainda pior por estar chorando na frente dele.
- Nunca mais me procure, Andrew. - ele caminhou em minha direção e fez menção de segurar meu braço, mas o impedi. - Não me encoste. Nunca mais.
Corri até a sala, pegando minha bolsa e saindo do apartamento o mais depressa possível. Senti um alívio momentâneo pelo elevador ainda estar no andar, mas o desgosto pelo que havia acabado de acontecer voltou a me dominar assim que coloquei os pés fora do prédio.
Estava frio e eu chorava compulsivamente. Me forcei a continuar andando para o caso de ele aparecer, e, assim que julguei estar a uma boa distância do prédio dele, peguei meu telefone para chamar um taxi, só então lembrando que estava sem bateria. Me amaldiçoei novamente por fazer escolhas tão ruins na vida. Chorei ainda mais, apenas querendo que aquela dor aliviasse, e nem prestei atenção no caminho que estava fazendo.

POV

Estava trabalhando até tarde com naquela noite, tínhamos propostas para analisar e contratos para fechar que não podiam mais ser adiados. Estava concentrado nas cláusulas de um deles quando o telefone de tocou e o entreguei para ele sem nem olhar quem ligava.
- Que estranho - ele disse antes de atender e eu parei de ler e o encarei curioso. - Oi, , tudo bem? Não, não sei da não. Espera ai, deixa eu ver com o se ele sabe de alguma coisa. - ele desencostou o telefone da orelha. - Teve notícia da hoje?
- Não, por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Ele não falou com ela hoje também não. - ele ignorou minha pergunta, mas eu não tinha um pressentimento muito bom. - Ok, qualquer coisa me liga. Tchau.
- O que aconteceu? - repeti com certa preocupação.
- tinha combinado com a de irem embora juntas do trabalho, mas, quando ela saiu, já tinha ido embora. Ela foi pra casa e a não estava lá e não apareceu ainda.
- E alguém tentou ligar?
- Sim, mas vai direto para caixa postal. Ela está preocupada porque não costuma fazer isso.
- E o que ela vai fazer?
- Esperar mais um pouco, se não tiver notícias ela liga de novo. - assenti e tentei voltar minha atenção ao contrato, porém não consegui.
- .
- Hum - respondeu sem me olhar.
- Por que eu saberia da ? - ele levantou o olhar para mim, segurando um sorriso.
- Porque você está interessado nela. - fiquei surpreso pelas palavras.
- O quê? Não! - neguei rápido demais.
- Eu já reparei suas olhadas para ela, . Não negue. - fiquei sem reação momentaneamente.
- Que história é essa, ?
- Isso é você que tem que me contar. - ele riu. - Acho que ninguém mais percebeu, fique tranquilo.
- Você que está todo grudado nela e eu que tenho algo pra contar?
- Ciúmes, ?
- Por que teria, ? Não nego que olhei algumas vezes para ela, é meio impossível não olhar, na verdade. - me lembrei dela no aniversário do em minha casa. - Ela é muito bonita. - dei de ombros.
- Sim, ela é, mas pode ficar tranquilo, não estou no seu caminho. - ele riu da minha cara.
- Vamos voltar ao trabalho, ainda tem coisa demais pra fazer. - ele concordou, pegando um novo contrato para analisar.
Quando li o mesmo parágrafo pela quarta vez foi que percebi que não ter notícias estava me incomodando mais do que eu queria admitir. Passei as mãos pelo rosto e me levantei, avisando que ia buscar água. apenas acenou com a cabeça sem desviar os olhos do trabalho. Respirei fundo assim que saí da sala e bebi um copo de água gelada, tentando tirar ela da minha cabeça, em vão. Era muito estranho eu estar tão agoniado assim por notícias de , quando há tanto tempo eu não me preocupava com alguém dessa forma. Ninguém, na verdade, ninguém desde… Louise. Esse pensamento me deixou ainda mais agoniado e as palavras de voltaram a ecoar na minha cabeça. “Você está interessado nela.” Será que ele estava certo e eu nem ao menos percebia? Lutei contra esse pensamento e, quando ia entrar na sala, quase fui derrubado por , que saía como um tiro da sala.
- O que aconteceu? - a feição dele não era nada boa.
- Vem comigo. - ele me entregou minha carteira e celular, que estavam dentro da sala e trancou a mesma.
- O que aconteceu, ? - a sensação ruim voltou e eu já sabia que era algo com a .
- não consegue achar a , ligou para a polícia, mas eles só podem começar as buscas depois de 24 horas do desaparecimento. Falei que nós vamos ajudar a procurar.
- Claro, vamos sim. - caminhei ao seu lado para fora do estúdio.
- Aonde você está indo?
- Para o carro - respondi o óbvio.
- Não, você vai comigo. Eu dirijo e você procura. - o segui até o carro dele.
- Alguma ideia de onde começar a procurar? - peguei meu celular, verificando que ainda tinha bateria.
- foi para a casa da , eles vão procurar perto do prédio delas e da faculdade, e eu tenho um plano. - o encarei com a sobrancelha levantada. Sem me dizer mais nada, conectou seu telefone no som do carro e ligou para um número que não me era familiar.
- Grande ! A que devo a honra? - o cara riu alto do outro lado.
- Estou precisando de um favor, Ethan. - ele parou de rir ao ouvir com um tom sério.
- Claro, do que precisa?
- Você ainda encontra pessoas? - olhei confuso para ele. Que assunto era esse?
- Não tanto quanto antes, mas posso tentar. Quem é a gata? - não gostei nada da forma que ele se referiu a . Claro que ele não fazia ideia de quem ela era, e ainda ia me explicar quem era esse cara.
- É uma amiga, ela sumiu já tem algumas horas, não estamos conseguindo falar com ela. Se o celular tiver sem bateria você ainda consegue?
- Dependendo do tempo que a bateria acabou, eu vou conseguir só a última localização dela.
- Já é alguma coisa - murmurei sem saber se algum dos dois tinham me ouvido.
- Me passa o número e quando eu conseguir alguma localização te mando por mensagem.
- Valeu, cara. Te devo mais essa. - soltou o ar aliviado.
- Com certeza deve. - o desconhecido riu e desligou em seguida.
- Quem é esse? E que plano é esse? Como você conheceu um cara assim? - despejei as perguntas de uma vez.
- Calma aí, . - moveu rapidamente os olhos da rua para mim, voltando a encarar a pista logo em seguida. - Esse cara se chama Ethan, estudamos juntos no Ensino Médio e ele era quase um hacker na época, sempre conseguia encontrar coisas que não devia, aí começou a trabalhar com isso, encontrar pessoas que estavam devendo a outras, caras com amantes para esposas, coisas assim. - parou de falar quando o celular vibrou, indicando uma mensagem, e eu o peguei, lendo o endereço.
- Mas ele fala aqui que já tem um tempo que não tem sinal dela, mais de três horas.
- Melhor nem falar com a então. - concordei. - Viu, minha ideia nem foi tão ruim.
- Pode tirar essa expressão convencida da cara, ter esse endereço não é garantia de nada.
- Mas se considerar que não é nem perto da universidade e nem da casa delas, já é alguma coisa.
- É… - suspirei quando os pensamentos ruins voltaram. - . - me olhou rapidamente, indicando que eu continuasse. - A tem alguma ideia do que pode ter acontecido? Digo, a não foi sequestrada ou algo assim, né?
- Para falar a verdade, acho que a nem pensou exatamente nessas coisas e eu que não ia dar ideia, ela já estava bem preocupada. - ficamos em silêncio até ele voltar a falar. - Mas não vejo sentido em sequestrarem a , . - eu devia estar com uma cara péssima para ele tentar me “consolar”.
- Pelo GPS é bem aqui. - olhamos para fora da janela.
- Um restaurante? - perguntou, incrédulo. - Juro que se a tiver aí dentro eu…
- Não tem ninguém, , eles estão trancando. - preferia que ela estivesse lá, mas, se ela tinha estado lá, eu podia descartar sequestro.
- E agora? Vagamos pela redondeza? - dei de ombros e ele voltou a dar partida no carro.
Já estávamos passando pelas ruas como se andássemos em círculos, encontrar a assim dependia única e exclusivamente da sorte. Conferi meu celular e nenhuma notícia nova por ali. Bufei, frustrado.
- Nada ainda? - Não, . Já estamos andando a quase trinta minutos e nada. - foi quando olhei pela janela e vi alguém. Uma pessoa de costas, encolhida, com a cabeça baixa, andando na direção oposta do carro. - ! - gritei, assustando ele. - É a . - ele diminuiu a velocidade e olhou para onde eu apontava.
- Não dá pra saber, cara. Está muito longe.
- Eu tenho certeza, . - disse com uma convicção que eu não devia ter, podia ser qualquer pessoa, mas algo me dizia que era ela sim. - Vira aqui.
- Não dá, é contramão. - não escutei mais nada, tirei o cinto e saí do carro, correndo em direção àquela pessoa.
- ! - gritei quando já estava mais perto. - ! - chamei de novo e dessa vez a pessoa parou de andar, mas não se virou de imediato. Respirei aliviado quando se virou e pude constatar que era ela, e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela havia se jogado contra mim, num abraço desajeitado. Levou alguns segundos para que eu enfim reagisse, a envolvendo em meus braços, porém fui pego de surpresa com o choro mais alto. Eu nunca sabia o que fazer com alguém chorando.
- - chamei baixo. - Você está… Machucada? Fizeram algo com você? - ela só balançou a cabeça negativamente e pelos faróis vi o carro de se aproximando. - Vai ficar tudo bem. Vamos pra casa. - ela afrouxou um pouco os braços, permitindo que caminhássemos até o carro.
Abri a porta e entrei depois dela, atrás. Neguei com a cabeça para que não falasse nada e logo já estávamos em movimento de novo. Ela havia voltado a se encostar em meu ombro, meu braço ainda em volta dela, fazendo um carinho em sua cabeça, o choro havia parado. Parados num sinal vermelho, vi com o celular na mão e deduzi que ele havia mandado uma mensagem para .
Logo estava estacionando em frente ao prédio, desci primeiro e a postura dela já foi diferente. Eu não a conhecia o suficiente para dizer, mas ela parecia envergonhada pelo que tinha acontecido.
- Não precisam subir comigo, já fizeram muito - ela disse, encarando o chão.
- Imagina, . - a abraçou por um tempo e, quando se separaram, a vi enxugando algumas lágrimas. - Vamos ficar com você só até a chegar, ela não deve demorar.
Fizemos o caminho até o apartamento em silêncio, ela ainda preferia encarar o chão. Troquei um olhar com meu amigo sem que ela percebesse e ele entendeu o recado. Se confiava mais nele, era melhor deixar ele tentar saber o que tinha acontecido. Eu apostaria meu carro que era por causa de relacionamento, vê-la assim me lembrou do quanto fiquei abatido quando Louise me deixou.
- Deixa eu fazer isso, . - ele pegou as chaves na mão dela e destrancou a porta, a levando com ele para o sofá.
Segui para a cozinha, nunca tinha estado ali, mas era exatamente igual ao de . Abri alguns armários até encontrar o lugar dos copos, peguei um e coloquei água. Mexi em outros lugares, encontrando o açúcar e uma colher. Não sabia se aquilo fazia algum efeito de verdade, mas era a única coisa que tinha em minha mente. Voltei para sala, encontrando deitada no sofá com a cabeça no colo de .
- Aqui, . Bebe isso. - entreguei o copo para ela depois que ela se sentou no sofá. Pelo olhar de , entendi que ela não tinha falado nada.
- ! - gritou quando entrou no apartamento e a abraçou, ela voltou a chorar e a amiga foi com ela para o quarto.
- O que aconteceu? - externou a dúvida de todos nós.
- Talvez a tenha mais sorte, porque não falou nadinha pra gente.
- Não falou nem pra mim, . - apareceu antes do que esperávamos.
- Ela dormiu? - olhei para o corredor.
- Acho que ainda não, mas disse que quer ficar sozinha.
- Acho melhor irmos embora - concordou se levantando do sofá.
- Vai ficar bem só você com ela? - perguntou todo preocupado e, em outra circunstância, eu adoraria zoá-lo.
- Vou sim. - ela sorriu para ele e o abraçou. - Meninos, muito obrigada. De verdade. - abraçou e depois eu.
- , se precisar de alguma coisa…
- Pode deixar, . Eu vou atrás de vocês se precisar.
Já estávamos no elevador quando ouvimos ela chamar o .
- Onde encontraram a ?
- Umas quadras perto de um restaurante. Como é o nome, ?
- Ledbury - respondi, notando a expressão de mudar completamente.
- Filho da puta - ela xingou, mas a porta já estava fechando e não ouvimos mais nada.

Capítulo Dez

POV

Eu estava muito preocupada com . Desde o dia em que ela sumiu sem dar notícia alguma sobre seu paradeiro, ela andava desanimada e com os olhos constantemente vermelhos e inchados. Ela tentava esconder, mas eu sabia bem que ela estava chorando pelos cantos. O pior é que, mesmo eu insistindo para ela desabafar e me dizer o que tinha acontecido, ela se recusava a falar qualquer coisa sobre o assunto. Eu sabia que tinha a ver com Andrew, para variar, só restava saber o que aquele maldito tinha feito dessa vez. Ver minha amiga naquele estado estava sendo péssimo, eu já não sabia mais o que fazer.
Como foram as aulas da manhã? - perguntei, em uma tentativa de puxar assunto, observando cutucar a comida com o garfo.
- Normal… - respondeu sem nem ao menos me encarar.
Nós estávamos no restaurante da universidade, almoçando juntas, como costumávamos fazer quando ambas trabalhávamos em horário integral. Mas, diferente dos costumeiros almoços em que nós duas tagarelávamos tanto que demorávamos um tempão para terminar de comer, naquele dia nós comíamos em silêncio. Não por minha culpa, é claro, já que eu tinha tentado iniciar uma conversa incontáveis vezes, mas parecia realmente não estar no clima para socializar. Exausta daquela situação, larguei os talheres no prato e encarei minha amiga.
- , você não pode ficar assim para sempre - falei em meio a um suspiro. - Eu sei que tem dedo do Andrew nessa história e, se não quiser, não precisa me contar, mas você precisa superar e seguir em frente.
Notei que os olhos dela marejaram quando falei o nome daquele canalha.
- Amiga, você é uma mulher incrível. O único que saiu perdendo nessa história foi esse otário - eu disse, mesmo já tendo dito aquilo milhares de vezes antes. - Você saiu ganhando! Quem precisa de um encosto desses na vida? Você merece um cara muito melhor do que esse traste.
Eu não sabia dizer se meu discurso estava surtindo efeito, mas deu uma fraca risada e eu acabei rindo junto.
- O que foi?
- Você sempre tem um adjetivo diferente para xingar ele, é engraçado - ela explicou.
- E não é nem metade do que esse palhaço merece ser xingado.
Bufei e ri mais um pouco. Estava aliviada por ter, pelo menos, feito me responder com mais do que uma palavra.
- Promete que vai se animar e deixar essa história para trás? - questionei.
- Vou tentar - ela respondeu e largou o garfo no prato para dar um gole no suco de uva.
- Você não vai tentar, você vai conseguir! - exclamei. - Até eu, que passei meses chorando por aquele outro idiota, já mandei ele para o inferno. Não vale a pena a gente ficar se deprimindo por causa de alguém que não se importou nem um pouco com nossos sentimentos.
Ela assentiu com um aceno de cabeça, mas não disse mais nada. Eu sabia que, bem lá no fundo, minhas palavras tinham a feito refletir, mas ela parecia ainda bastante desanimada.
- Não vai comer mais? - perguntei e ela negou com a cabeça. - Então vamos logo escovar os dentes. Já está quase na hora de voltar ao trabalho.
Fomos juntas até o banheiro, onde fizemos nossa higiene bucal pós-refeição e aproveitei para passar um batom marrom nos lábios. Acompanhei minha amiga até as escadas que levavam para as salas de aula e fiz questão de me despedir com um abraço. Acredito que, depois de tantos anos de amizade, ela já sabia disso, mas nunca é demais lembrar as pessoas importantes em nossa vida de que estamos aqui para o que elas precisarem. Quando segui pelo caminho que levava até a biblioteca, senti meu celular vibrar dentro da bolsa e parei em um canto para atender a ligação de um número que eu não tinha gravado em minha agenda.
- Alô.
- Oi, . Aqui é o .
- Oi, . Tudo bem? - falei, mesmo achando estranho o fato de estar me ligando.
- Tudo certo. E com você?
- Tudo bem, tirando o fato de que estou super preocupada com a ... - respondi, suspirando.
- Na verdade, foi por isso que te liguei. Ela parecia realmente arrasada naquele dia, então queria saber se tudo ficou bem.
- Bom, ela não quis me contar o que aconteceu, mas tenho certeza de que tem a ver com Andrew.
- Aquele cara com quem ela ficava que tinha uma namorada? comentou sobre ele…
- Esse mesmo - confirmei. - Enfim, não sei o que rolou dessa vez, mas parece que ela teve uma recaída e está deprimida de novo. Tento animar ela falando besteiras, mas nada ajuda muito.
- Que droga…
- Pois é. Eu já não sei mais o que fazer - falei e soltei um longo suspiro.
- Tem alguma coisa que eu poderia fazer para ajudar?
A ligação já havia me deixado bastante surpresa, mas aquela pergunta me surpreendeu ainda mais. era tão educado e prestativo que era até difícil acreditar que um cara daquele existia. E pensar que, em vez de estar agarrando ele, estava chorando por Andrew, me fazia ter vontade de dar três tapas no rosto dela. Uma ideia, então, surgiu na minha cabeça.
- Se você puder, pode aparecer mais tarde lá na casa dela. Provavelmente vou estar por lá também e, de repente, a companhia de uma pessoa diferente pode animá-la.
- Claro! Dou um pulo lá sim. Espero que isso realmente ajude.
- Então está combinado.
- Obrigado pelas notícias, . E me desculpa por ligar assim de surpresa, peguei seu número com o . Perguntei ao se ele tinha notícias da e ele disse que ela não tem respondido as mensagens dele, então fiquei preocupado.
- Ela não tem falado direito nem comigo. Mas tudo bem, não precisa se desculpar. Somos amigos, você está autorizado a ter meu número - falei, rindo, e ele riu junto. - Agora preciso desligar, tenho que voltar ao trabalho. Até mais tarde, .
- Até, . Beijo.
Finalizei a ligação e voltei a caminhar em direção à biblioteca, rindo discretamente.
Então quer dizer que estava preocupado com ? Interessante…

Aproveitando que o movimento na biblioteca estava fraco naquela tarde, eu estava mexendo no computador atrás do balcão, registrando no sistema uma pilha de livros que tinham sido adquiridos recentemente. Catalogar livros exigia muita concentração - pois qualquer errinho poderia fazer com que fosse impossível localizar o exemplar no sistema e aquilo acabaria tornando o livro inutilizado -, então, eu estava tão compenetrada naquele trabalho, que me assustei quando uma voz adentrou meus ouvidos.
- Tem aquele livro de capa azul com letras amarelas aqui na biblioteca?
Olhei para cima e me surpreendi quando encontrei parado do outro lado do balcão. Não tinha nem quinze minutos que ele havia me mandado uma mensagem perguntando o que eu estava fazendo, mas jamais imaginaria que ele apareceria ali na universidade. Entretanto, acabei rindo do que ele havia dito, pois, alguns dias antes, eu havia comentado como achava irritante quando alunos chegavam na biblioteca procurando livros "azuis", "vermelhos", "amarelos"... Eles achavam o quê? Que nós, bibliotecários, sabíamos de cor a cor da capa de cada livro presente na biblioteca?
- O que você está fazendo aqui? - questionei.
- Vim ver a bibliotecária mais gata da Universidade de Londres - ele respondeu, se curvando por cima do balcão.
- Deixa a Senhora Johnson, a bibliotecária-chefe, escutar isso - falei, rindo.
- Não posso demorar muito, tenho que voltar para o treino daqui a pouco - falou e só então reparei que ele vestia o casaco do uniforme do Brentford F.C. e tinha uma mochila pendurada nas costas. - Alguma chance de você largar isso aí e a gente ir dar uns amassos no banheiro?
Botei a mão na boca para abafar uma gargalhada.
- Não tem a mínima chance de isso acontecer, bonitão.
- Droga. Eu tinha esperança - ele falou, fingindo desapontamento. - Me conta, . Você deve receber um monte de cantadas dos alunos, né? - questionou, olhando à sua volta.
- Recebo algumas sim - respondi e ri quando ele fez uma careta. - Mas você não veio até aqui para saber das cantadas que levo, certo?
- Certamente não. Preferia viver acreditando na ilusão de que sou o único que deseja seu corpo nu - disse, me fazendo rir e balançar a cabeça em negação. Que figura esse ! - Vim te chamar para o treino aberto que vai ter no sábado. Eu sei, poderia ter feito isso por mensagem, mas, já que tive esse tempinho livre, por que não vir aqui te dar um oi?
- Treino aberto? Legal - falei, animada. - Vários jogadores gostosos... É claro que eu vou.
- Retiro o convite - disse, rolando os olhos.
- Você é um dos jogadores gostosos, ... - sussurrei e pisquei um olho, com um sorriso malicioso nos lábios.
- Convite refeito - ele falou, rindo. - Os caras também vão, então pode chamar a .
- Ok. Vou obrigá-la a ir, ela precisa se distrair.
- Como ela está, falando nisso? Já te contou o que aconteceu?
- Ainda está péssima, e não falou nada - eu disse, suspirando. - Nós almoçamos juntas, tentei falar algumas coisas para a consolar, mas não sei se adiantou muito. Ah, o me ligou. Convidei ele pra ir lá na casa dela mais tarde me ajudar a animá-la.
- Boa ideia - disse, sorrindo. - é uma ótima companhia nesses momentos. Quem sabe ele não consegue fazê-la desabafar? Ele é muito bom com conselhos.
- Seria ótimo - falei e olhei para as duas pilhas de livros em cima do balcão. Eles haviam sido devolvidos por alunos naquele dia e eu estava adiando ao máximo levá-los de volta para as estantes. - Não quer me ajudar a levar esses livros de volta para o lugar? O carrinho quebrou e está no conserto, então vou ter que carregar isso tudo sozinha - expliquei e finalizei com um biquinho.
- Vim até aqui ser explorado - ele disse, bufou e, em seguida, tirou a mochila e a entregou para mim, para que eu a deixasse em cima da mesa.
pegou a pilha maior e, juntos, fomos carregando os livros e os colocando em seus devidos lugares.
- Tem câmera aqui? - perguntou, após eu devolver o último livro à estante.
- Nesse corredor não. Só nos corredores de obras raras - respondi, arqueando uma sobrancelha em sinal de dúvida. Antes que eu pudesse questionar o porquê daquela pergunta, fui prensada contra a estante.
- Eu não poderia deixar a oportunidade de te pegar na biblioteca passar - ele sussurrou e colou os lábios aos meus.
Prontamente correspondi ao beijo. A possibilidade de sermos pegos ali por algum aluno ou, pior, por minha chefe, me fazia beijá-lo com urgência, como se a intensidade fosse fazer o beijo terminar mais depressa. Mas, muito pelo contrário, só me dava cada vez mais vontade de beijá-lo.
- Você está muito gostosa com essa roupa - ele disse, se afastando por dois segundos, provavelmente se referindo à saia lápis de cintura alta que eu vestia e fazia minha bunda parecer maior.
Logo os lábios de estavam unidos aos meus novamente e suas mãos explorando meu corpo. Ele me empurrava contra a estante, pressionando seu corpo ao meu, e nossos quadris estavam tão colados que foi impossível não sentir ele começar a ficar realmente excitado.
- Acho melhor pararmos por aqui - falei com a voz fraca após finalizar o beijo, o empurrando levemente, pois até eu estava quase perdendo o juízo e levando aquilo adiante.
- É melhor mesmo - ele disse, respirando com dificuldade, e mordendo o lábio inferior. - Preciso ir embora.
Assenti com um balanço de cabeça e me ajeitei rapidamente. Quando fui tomar a iniciativa de voltar para o balcão, me puxou e me beijou rapidamente.
- Você acabou de realizar uma das fantasias de todo cara - ele sussurrou. - Dar uns amassos na biblioteca.
Ri do comentário e puxei para fora daquele corredor. Entrar ali, definitivamente, nunca mais seria a mesma coisa.

À noite, no apartamento de , nós assistíamos à televisão em silêncio, que ocasionalmente era quebrado por alguma piadinha feita por mim e uma risada da minha amiga em resposta. O interfone tocou e ela me lançou um olhar cortante, pois já sabia que era . Eu havia contado sobre a ligação e ela pareceu surpresa em saber que ele estava tão preocupado, mas quis me matar quando falei que tinha o convidado para ir até ali. Logo a campainha tocou e abriu a porta.
- , não precisava ter se incomodado. Eu estou bem, que é uma exagerada - ela falou, dando passagem para ele adentrar o apartamento.
- Não é incômodo algum - disse e a cumprimentou com um abraço. - Trouxe pra você.
- O quê?! Não precisava! - ela exclamou e pude ver entregar uma caixa de bombons para . Céus, tinha como alguém ser mais fofo do que essa criatura?
- Claro que precisava - disse, sorrindo.
- Obrigada. - retribuiu o sorriso.
- Imagina. Só de ver você sorrindo já valeu a pena - ele falou e, só então, pareceu notar minha presença. - E aí, ? Tudo bem?
- Tudo ótimo, - eu respondi e me levantei para cumprimentá-lo com dois beijinhos nas bochechas. - Obrigada por ter vindo, essa chatinha precisa se distrair mesmo. Quem sabe com você ela não é mais educada que comigo?
riu e mostrou a língua, em seguida o puxando para se sentar no sofá. Observei os dois sentados lado a lado e, pelo jeito que olhava para , soube que algo estava mudando entre aqueles dois. E eu é que não ia ficar ali de vela, não é mesmo?
- Gente - comecei, chamando a atenção dos dois -, tenho exercícios do curso de francês e vou para casa adiantá-los. Foi um prazer te rever, . A gente se vê no treino do sábado - falei, sorrindo.
- Tudo bem, . Até sábado - ele disse.
Acenei para os dois e saí do apartamento. Eu sabia que tinha entendido muito bem que eu havia deixado os dois sozinhos propositalmente, pois eu não fazia curso de francês nenhum, apenas estudava sozinha uma vez na vida e outra na morte. Prendi o riso até chegar no meu apartamento.

- Vem logo, ! já está lá em baixo nos esperando. - escutei a voz de se aproximar do quarto, enquanto eu terminava de alisar meu cabelo com a chapinha. - Pra que isso tudo? Você está indo assistir ao treinar, não indo se casar com ele! - ela disse e eu fiz uma careta.
- Querida, não importa para onde estou indo, tenho que estar sempre linda - falei, me fingindo de esnobe. Na verdade, nem eu sabia por que estava tão preocupada em estar impecável, já que tinha me visto com roupa de andar em casa, sem maquiagem e com o cabelo preso em um rabo de cavalo preguiçoso, e mesmo assim não tinha perdido o interesse em mim. Não que eu estivesse me arrumando para ele, é claro, mas eu adorava ouvi-lo dizer que eu estava linda. Ou “gostosa”, já que isso era mais a cara do . - Vamos - eu disse, desligando a chapinha da tomada e pegando minha bolsa.
- Ainda acho que você está arrumada demais - ela falou, me olhando de cima a baixo. - vai estar todo sujo e suado, e você parecendo uma bonequinha.
Olhei para baixo, observando meu vestido de alcinha rosa bebê, com algumas flores em um tom de rosa mais escuro e folhas verdes estampadas. É, talvez eu devesse estar vestindo um short jeans, como , mas quem se importa?
- Vamos logo - falei e saí do apartamento puxando .
Depois que tranquei a porta, descemos pelo elevador tagarelando coisas aleatórias. Depois que deixei e sozinhos no apartamento dela, ela andava bem mais animada. Não que estivesse totalmente recuperada, pois ainda ficava cabisbaixa de vez em quando, mas eu tinha notado uma diferença considerável. Ela havia jurado de pés juntos para mim que não rolou nada além de uma longa conversa entre os dois e que , inclusive, tinha dado alguns conselhos para ela, mas se recusou a contar o que eles tinham conversado, então, não pude deixar de imaginar em minha cabecinha fértil várias cenas do que realmente tinha rolado entre aquelas quatro paredes. Na minha hipótese favorita, eles faziam um sexo selvagem no sofá, mas eles eram caretas demais para isso ter realmente acontecido. Não que eu possa falar qualquer coisa, já que também era careta e jamais faria isso no lugar deles.
Saímos do prédio e demos de cara com o carro de estacionado. abriu a porta do banco de passageiro e entrou, em seguida estalando um beijo na bochecha de , enquanto eu entrava no banco de trás.
- Oi, - me limitei a cumprimentá-lo com um sorriso, já que não sabia se tinha a mesma intimidade que tinha para beijá-lo na bochecha. Vai que eles realmente fizeram sexo selvagem no sofá, né? Nunca se sabe, as aparências enganam…
- E aí, ? - ele retribuiu o sorriso. - Nossa, isso tudo para o ? Não sei se ele merece, hein?
- Não falei que você se arrumou demais? - acusou, olhando para trás.
- Coisas fofas, tenho cara de quem se arruma pra homem, por acaso? - perguntei, rolando os olhos. - Eu quis me arrumar, com licença.
Os dois riram e deu a partida no carro. O clube do Brentford F.C. não era muito longe, então logo estávamos chegando. estacionou o carro em frente ao clube, atrás do carro de , que também havia acabado de chegar. Nós o cumprimentamos e seguimos todos juntos para dentro do clube, rumando para o campo, após um segurança indicar o caminho que deveríamos fazer. Os jogadores já estavam no campo, se aquecendo, e a arquibancada não estava tão cheia. Haviam alguns poucos torcedores vestidos com a camisa do time e observando atentamente o treino, então não foi difícil avistar e .
- Oi, gente! - se levantou e cumprimentou cada um de nós e, em seguida, o namorado fez o mesmo. - Adorei seu vestido, .
- Obrigada - agradeci, sorrindo.
- Viu, ? também veio de short jeans - falou.
- Não vou ficar discutindo isso, - retruquei, bufando.
Todos nos acomodamos em um degrau da arquibancada e, sentada ao lado de , fiquei discutindo sobre futebol com , que também se mostrava bastante fanático, enquanto os jogadores ainda se aqueciam. Eu observava ao longe, fazendo, junto aos companheiros de equipe, os exercícios que o preparador físico indicava. De vez em quando, ele olhava em nossa direção. Quando eles terminaram de se aquecer, veio correndo em nossa direção e segurou na grade que separava o campo da arquibancada.
- Prestem bastante atenção - ele gritou, chamando a atenção de todos, inclusive dos torcedores desconhecidos. - Hoje vocês vão aprender como se joga futebol de verdade.
Dito isso, ele voltou correndo e rindo para junto dos outros jogadores, enquanto nós gargalhávamos dos torcedores, que gritavam animados. Não pude deixar de notar como ele ficava sexy vestindo o uniforme e chuteiras. Céus… Quando eu havia ficado tão gamada em ? Fiquei curiosa ao vê-lo conversando com um outro jogador e olhando em nossa direção, mas logo voltou a falar, dessa vez sobre futebol espanhol, e deixei para lá. Percebi que conversava animadamente com , sem nem parecer que há poucos dias estava deprimida e mossilábica, e lamentei por não conseguir escutar a conversa deles. Eu não sabia que mágica tinha feito, mas… meus parabéns a ele.
- , senta aqui - falei ao perceber que ele estava calado, sendo excluído da conversa dos dois pombinhos. - Agora a só quer saber do e fica aí fazendo pouco caso de você - eu disse alto, para que minha amiga escutasse, e arranquei risadas de todos.
Menos de , claro, que me mostrou a língua. se levantou e veio se sentar ao meu lado.
- O que eles estavam falando? - sussurrei para que apenas ele me escutasse.
- Sobre tocar violão - ele disse.
- Tocar violão? Que sem graça - falei e olhei para e novamente. - Você acha que está rolando um clima entre eles?
- Se eu acho? - ele questionou, rindo. - Eu tenho certeza, .
- Sério? - abri a boca, surpresa. - Você está sabendo de alguma coisa que eu não sei?
- Provavelmente não - ele respondeu, dando de ombros. - O que eu sei é que o está caidinho por ela. Não que ele tenha dito, é claro, mas parece que sim…
- Agora me conta uma novidade, .
Rolei os olhos, mas, em seguida, gargalhei.
No campo, metade dos jogadores colocavam coletes para diferenciar os dois times. Eu estava morta de curiosidade para ver se jogava bem. Ninguém precisava saber que eu já tinha visto alguns vídeos dele no YouTube e constatado que ele era um ótimo jogador, certo? Certo.

POV

O sol estava forte naquela manhã de sábado. Eu corria e fazia os exercícios de aquecimento para mais um treino da maratona que vínhamos fazendo durante toda a semana. Aquele, entretanto, seria aberto ao público. Um jogo importante estava cada vez mais próximo e nosso foco era total, pois ele seria um dos jogos que seriam decisivos para conquistarmos uma vaga na primeira divisão do futebol inglês. Para mim, que sonhava desde a infância em ser uma lenda do futebol, seria uma chance de ouro. Além de poder disputar a liga de futebol de maior expressividade do mundo, a Premier League, eu também teria a chance de mostrar meu futebol para um público maior e, quem sabe, eu não recebesse uma oferta de algum dos clubes gigantes?
Pude ver quando e chegaram acompanhados de e e, sem que eu ao menos percebesse, estava procurando pela bibliotecária. Mesmo de longe, não tive como não notar como ela estava linda, já que ela se destacava com seu vestido curto e colorido. só podia estar fazendo aquilo de propósito. Ela me enlouquecia mais a cada dia e eu apenas me perguntava aonde aquilo ia parar. Assim que terminamos de nos aquecer, corri até a grade que separava o campo da arquibancada.
- Prestem bastante atenção. Hoje vocês vão aprender como se joga futebol de verdade - gritei, fazendo a arquibancada em peso me encarar.
Rindo, voltei correndo em direção aos outros jogadores. Aquela seria a primeira vez que me veria jogando futebol, então eu precisava jogar bem para impressioná-la, e sabia que não seria uma tarefa fácil, pois, às vezes, eu até achava que ela sabia mais de futebol do que eu.
- Quem são aquelas duas garotas que estão com seus amigos? - um companheiro de time me perguntou.
- Amigas nossas - me limitei a responder.
- Aquela de vestido... - ele começou, olhando para a arquibancada - É sua namorada?
- Não - respondi, sentindo uma vontade de socar o rosto dele até o sorrisinho malicioso que surgiu em seus lábios sumir.
- Ótimo - disse, parecendo satisfeito.
- Ela não ser minha namorada não significa que não estamos juntos e, muito menos, que ela vai querer alguma coisa com você - alertei, dando, em seguida, dois tapas com mais força do que o necessário no ombro dele.
Antes que ele falasse mais alguma coisa que me irritasse, me virei e caminhei para longe, indo para a minha posição no meio-campo. Eu nem sabia se eu e estávamos juntos, de fato, mas eu não daria a chance de ele sequer pensar em dar em cima da garota com quem eu vinha ficando.
Para a minha sorte, o treino havia sido um sucesso. Não fiz nenhuma besteira e, ainda por cima, consegui fazer umas gracinhas que levaram a torcida ao delírio. Marquei dois gols e ainda dei assistência para outros três. Meu time, os “sem colete”, ganhou com o placar de 7-4. Quando o técnico nos dispensou, fui até a arquibancada e, antes de ir falar com meus amigos, parei para tirar fotos e autografar camisas de alguns torcedores que haviam ido nos assistir. Nossa torcida não era das maiores, mas, sem dúvidas, era das mais apaixonadas.
- , o primeiro gol que você marcou… que golaço, cara! - exclamou e me cumprimentou com um rápido abraço de lado.
- Podia ter feito mais uns três, né? - implicou comigo e soltei uma risada irônica como resposta.
- Se fosse você, teria feito nem um - rebati.
Fui cumprimentando cada um deles e, quando chegou a vez da , ela se esquivou.
- Primeiro toma um banho, né? Você está um nojo, - ela disse, fazendo uma careta.
- Vai dar uma de patricinha agora, é? - questionei.
Antes que ela pudesse fugir de mim, a puxei pela cintura e grudei nossos lábios. Mesmo que ela tenha relutado por alguns segundos, acabamos nos beijando mais euforicamente do que eu pretendia.
- Tem crianças aqui, sabia? Arrumem um quarto! - exclamou, fazendo todos rirem.
Contra minha vontade, finalizei o beijo.
- Não resisti. Você está linda, - sussurrei para que apenas ela me escutasse.
Ela abriu um sorriso muito bonito e mordeu o lábio inferior, mas não disse nada.
- Vou tomar um banho e já volto, galera - avisei a todos. - A gente pode almoçar no restaurante do clube.
Todos concordaram e corri para o vestiário. Antes de eu tirar a roupa e entrar no chuveiro, meu celular apitou e o peguei para checar a nova mensagem.

: Você também está lindo. Aliás, você fica um gato de uniforme. ;)

Gargalhei ao terminar de ler a mensagem e digitei rapidamente uma resposta.

: Você diz isso porque ainda não me viu vestindo nada, babe. Ainda. ;)

Deixei o aparelho de lado e, com pressa, tirei a roupa e tomei um banho rápido. Eu só queria almoçar logo e ter algumas horas a sós com .

Capítulo Onze

POV

- Vocês foram ótimos! - parabenizamos os meninos assim que se juntaram a nós, depois de tocarem.
Já era quinta-feira e era a primeira vez que nos víamos depois do treino de futebol do . Claro que comentou desse treino durante todos os dias e de como ele era um excelente jogador e outras coisas que eu não fazia a menor questão de saber sobre ele.
- Obrigado - eles disseram juntos.
- Ué, cadê o ? - senti falta dele.
- Foi encontrar com uma garota, se não me engano - respondeu.
- Conte-me mais sobre isso! - minha voz soou mais alta do que era normalmente.
- Ciúmes, ? - perguntou e eu rolei os olhos.
- Claro que não, por que teria?
Na verdade, podia até ser um pouco de ciúmes, mas eu não admitiria. E também não era como se eu gostasse dele além de amizade. No fundo eu não queria perder o amigo, e queria que ele tivesse me contato a respeito.
- Ah, sei lá… Vocês…
- Sou amiga dele como sou de vocês. - me calei quando o vi chegando com uma mulher muito bonita, de mãos dadas. Ela me era estranhamente familiar.
- Oi, gente! - ele disse bem animado. - Essa é a . - acenamos para ela, que parecia um pouco tímida, e só então eu me lembrei que ela era a médica que havia atendido ele no hospital. - Esses são o , e . , namorada dele, e e , nossas amigas. - ela acenou de volta e ele puxou a cadeira para ela se sentar. Até que era um cavalheiro quando queria.
Pedimos algumas bebidas e começou com o interrogatório.
- E aí, , o que achou da nossa apresentação?
- Gostei muito, vocês são bem talentosos. - ela sorriu para ele e o sorriso de quase não cabia no rosto.
- Como vocês se conheceram? - foi direto e ganhou um beslicão de . Segurei o riso.
- Lembra daquela vez que tentei andar de skate e quebrei o pulso? - atraiu os olhares para ele e os garotos assentiram. Provavelmente algo que acontecera antes de conhecermos eles. - Quando fui ao St. Thomas ela me atendeu. - Eu tinha entendido tudo, não tinha nada a ver com terem uma ficha completa dele nesse hospital. Ele queria que eu o levasse lá porque ele seria atendido por ela. O encarei e ele sorriu, sabendo que eu tinha entendido. Que pilantrinha! - Depois teve aquela outra vez que tropecei na escada e torci o tornozelo, e o dia que me cortei na casa da . - ele enumerou nos dedos.
- é paciente assíduo do hospital. - ela o encarava de forma tão fofa que qualquer sentimento ruim que eu tivesse tido já não existia mais e eu estava feliz por ele. - O pessoal já manda ele direto para o meu consultório. - nós rimos novamente.
- Na madrugada que a me levou, eu pedi o telefone dela e aqui estamos. - ele parecia orgulhoso do seu plano.
Nós conversamos, bebemos e rimos por quase uma hora, eu já estava com dor das bochechas de tanto rir, ainda não tinha me acostumado a sair com eles e parecia gostar da companhia deles também.
- Eu já vou - disse, se levantando, e começou a se despedir de cada um.
- Está cedo. - tinha acabado de encarar o relógio de pulso.
- Eu sei, mas amanhã é dia de plantão e preciso dormir um pouco. Vocês não fazem ideia de quantos desse aqui aparecem por lá. - ela apontou para e rolou os olhos, sorrindo em seguida e nos fazendo rir novamente. - Mas foi ótimo conhecer vocês. Boa noite.
Nos despedimos dela e a acompanhou até a saída.
- Pelo menos isso, né? - eu e concordamos com e logo ele estava de volta.
- Não acredito que você trouxe ela aqui no primeiro encontro - disse, rindo.
- Ué, o que tem? - os outros pareciam não entender o raciocínio feminino.
- Geralmente o primeiro encontro como casal pede algo mais… Particular? - encarei as meninas em dúvida da palavra.
- Eu a trouxe pra ver a gente tocar. - os meninos concordaram entre si.
- Sim, . Mas, além de te ver tocar, ela já conheceu seus amigos super normais - provocou.
- Ainda mais ela sendo médica, duvido que frequente um lugar como o Red - completou.
- Acho que vocês estão viajando - se manifestou.
- Só porque deu certo comigo sem um encontro decente, não quer dizer que as mulheres não esperem outra coisa - argumentou com o namorado e vi murchar.
- Hey… - cutuquei suas costelas. - Não quer dizer que não vai dar certo. - sorri para ele. - Além do que você pode compensar no próximo - sugeri e ele pareceu se animar.
- E você pode acreditar nela - disse. - Completamente.
Todos olharam para ela, esperando explicação, enquanto eu pensava seriamente em sumir ou bater nela.
- Como assim? - foi o primeiro a fazer a inevitável pergunta. Olhei para minhas mãos sobre minhas pernas. Eu sempre fazia graça sobre o assunto, mas não quer dizer que não sentisse. Se ela já não estivesse deixado a birra com de lado, me atreveria a dizer que ela estava se vingando pelo meu plano de unir os dois, mas não era o caso.
- A participou dos piores primeiros encontros que eu já tive notícia. - levantei meu rosto e sorri amarelo, fingindo que nada tinha acontecido.
- É sério? - perguntou e eu quis matar o casal.
- Infelizmente… - dei de ombros. - Pelo menos já soube na hora que não era pra mim. E não foram só primeiros encontros. - balancei a cabeça em negação, me lembrando de alguns.
- Conta aí, - disse.
- É, conta - pediu e eu sabia que não ia ter muito para onde escapar.
Respirei fundo e comecei:
- Eu realmente não dei sorte. Deixa eu ver por onde eu vou começar… - pensei um pouco, tentando me lembrar de quando foi a primeira vez que tinha acontecido. - Ah. Essa é mais antiga, foi a primeira cronologicamente falando, eu acho. - sorri. - Eu conheci um cara pela internet, trocamos telefone e ficamos conversando por uns 3 meses, até que ele me chamou pra sair. - era engraçado ver todos eles concentrados em mim como se a história fosse ótima. - Eu aceitei, mesmo não podendo ficar muito tempo. Como era de dia, pensei que tomaríamos um sorvete, ou algo do tipo, mas ele me convidou para ir ao parque. Não achei que era uma boa ideia, porque ele podia ser um maníaco e me sequestrar, só que sou muito curiosa e queria mesmo conhecê-lo, então eu fui e até que foi tudo legal. Conversamos por duas horas, mas ele não era exatamente o que eu esperava e eu não sabia se ia querer encontrá-lo de novo. Nos despedimos e eu fui embora.
- Não omita detalhes, . - fuzilei com o olhar.
- Que detalhes? - perguntou e eu acabei ficando vermelha.
- A gente se beijou antes de eu ir embora. - vi que ia perguntar e me antecipei. - Não, não foi bom. - me olhava como quem pedia desculpa e meu coração bateu diferente, talvez estivesse certa e algo realmente estivesse mudando. - Continuando… Eu fui pra casa e ele foi pra sei lá onde e não nos falamos mais pelo resto do dia. Quando foi à noite, apareceu no meu Facebook que ele estava “em um relacionamento sério” e, mesmo sabendo que ele não devia nenhuma satisfação a mim, fui atrás dele. Parem de me olhar assim! - reclamei. - Não gosto de ser centro das atenções.
- Continua, - pediu com um sorriso travesso e comecei a achar que ele e estavam juntos nessa missão de me fazer passar vergonha.
- Eu mandei uma mensagem pra ele perguntando por que ele não havia sido honesto comigo, porque, se eu soubesse que ele já estava de rolo com alguém, eu não teria saído com ele. E aí ele desconversou e veio me perguntar se eu estava com ciúme e se eu queria namorar com ele.
- Que louco! - ria, ou melhor, gargalhava.
- Que desesperado, isso sim! - disse. - Pedir alguém em namoro no primeiro dia que se conheceram de verdade.
- Bom, eu falei que não queria, que a gente tinha acabado de se conhecer e que não fazia o menor sentido, e não nos falamos mais.
- Louco! - repetiu.
- E isso é só a ponta do iceberg. - de novo me ajudando.
- Sério? - me olhou de novo e me senti constrangida. Ele precisava parar de me olhar daquele jeito. Já era difícil não o olhar o tempo todo.
- Sério. - sorri fraco. - Depois desse, teve outra pérola, mas nem chegamos a nos encontrar.
- Ah, conta aí - pediu.
- Quer se divertir às custas da desgraça alheia, é? - o olhei com a sobrancelha arqueada.
- Somos seus amigos. - tinha uma cara que não me convencia.
- O que não quer dizer que não vão se divertir às minhas custas…
- Por favor. - e eu conseguia resistir ao charme do ?
- Tá bom - me rendi. - Também o conheci na internet e nem lembro quanto tempo tinha, mas ele não me chamava pra sair nunca e eu já estava meio cansada disso. Acabei mandando uma indireta pra sairmos pra comemorar meu aniversário e ele tinha topado, mas fiz uma viagem e nos veríamos quando eu voltasse. Durante a viagem, vi que ele tinha colocado uma frase tosca no status do WhatsApp e acabou o resto do encanto que tinha.
- Qual frase? - a curiosidade de foi mais rápida.
- “Não tô comprando amor, mas putaria eu pago à vista”. - mudei o tom de voz propositalmente.
- Que babaca - foi a vez de se expressar.
- Foi honesto, pelo menos - ponderou e o olhou séria. Se não ficasse na dele ia sobrar para ele.
- Enfim, eu perguntei o que era isso e ele disse que era uma aposta com o primo dele, que o primo dele tinha duvidado que ele teria coragem de colocar lá, algo assim. Já sem paciência, eu mandei: “espero que o prêmio dessa aposta tenha valido a pena” - mudei o tom de voz novamente. - E, quando ele disse que tinha valido, nunca mais falei nada também. Fim. - ninguém riu dessa vez, não era engraçada.
- Muito babaca. Como você arruma uns caras desses, ? - tocou na ferida, eu realmente nem sabia por que tinha me sujeitado a isso. - Até eu sou melhor que esses aí.
- Tá dando em cima da minha amiga, ? - perguntou séria e caímos na gargalhada.
- Ela é minha amiga também, não preciso da sua permissão pra dar em cima dela e nem de ninguém. - a olhou com superioridade e piscou pra mim.
- Na boa, quantos anos esse cara aí tem? - cortou a brincadeirinha de num tom mais sério e recebi um olhar de que preferi ignorar, sabendo das teorias dela.
- Hum… Ele é da minha idade, foi quando fiz 23, ano passado.
- Fala sério, até eu que fiz 22 agora não faria algo assim. - não podia admitir, morreria se soubesse, mas ouvir isso tinha sido bom.
- Pois é, mas é página virada. De alguém assim a melhor coisa é a distância.
- Agora vem o melhor deles! - anunciou e eu já tinha decido não me importar muito.
- E por melhor você quer dizer pior, certo? - disse, se sentindo inteligente.
- Óbvio!
- Prossiga, então. - gostava muito de se divertir às custas dos outros.
- Estou de olho em você, . - apontei para ele. - Esse eu conheci por um aplicativo de encontros mesmo, não me julguem! - ergui as mãos e sorri. - Ele era mais velho, então já tinha descartado essas coisas infantis que tinham acontecido antes, ele era formado em Direito e me chamou pra sair no dia seguinte.
- Você sempre aceita sair tão fácil assim com as pessoas? - perguntou, porque se for assim o ...
- Deixa ela terminar! - falou mais alto, cortando o amigo, e senti meu rosto esquentar.
- Não prestou atenção? Com os outros ela conversou meses antes de sair ou tentar sair. - zoou e, mesmo sem saber se havia sido de propósito, agradeci mentalmente.
- Esse eu só aceitei porque estava com muita raiva do anterior, e sim, eu aprendi a não tomar mais decisão quando eu estiver frustrada com alguma coisa. Enfim, nós íamos ao cinema e ele queria um filme que parecia legal, combinamos de nos encontrar lá, apesar de ele ter se oferecido para me buscar, porque eu não quis passar meu endereço pra alguém que eu não conhecia. Acontece que, quando cheguei ao ponto de encontro na hora marcada, ele não estava lá.
- Fala sério! Você não pode ser tão azarada assim! - estava indignada.
- Você não viu o final ainda - ponderou.
- Vou ficar traumatizada então
Ignorei a conversa e continuei:
- Eu pensei seriamente em voltar pra casa, mas ele mandou uma mensagem dizendo que tinha se atrasado e que já estava a caminho e eu resolvi esperar.
- Algo me diz que isso foi uma péssima ideia - concluiu novamente.
- E como foi! Quando ele apareceu, eu não acreditei que era a mesma pessoa das fotos, e agradeci por ter conseguido disfarçar minha surpresa. Pelo menos até ele abrir a boca, porque, quando o fez, eu me arrependi de não ter voltado pra casa enquanto foi tempo.
- Voz chata? - perguntou.
- Sem conteúdo? - arriscou.
- Mau hálito! - e falaram ao mesmo tempo e fizeram um high five, fazendo todos nós rirmos.
- Meu Deus, como vocês são bestas! Voz muito, muito chata! - olhei para . - E totalmente sem conteúdo, mas isso eu percebi depois de um tempo tentando conversar com ele. Quando fomos comprar os ingressos, ele sugeriu outros filmes e cometeu erros ortográficos inadmissíveis lendo os nomes nos cartazes, ainda mais para uma professora. E, pra completar... - fiz um leve suspense.
- Tem mais? - sussurrou para , que confirmou com a cabeça.
- Ele quis comprar cerveja e comprou um copo enorme às quatro da tarde, ficou surpreso quando eu não aceitei e, quando fomos entrar na sala do filme, nos barraram porque é proibido entrar no cinema com bebida alcoólica. Ele não queria jogar fora e não dava pra beber tudo de uma vez, ou seja, perdemos o começo, mas pelo menos o filme foi bom e ele nem tentou nada, nem chegou perto de mim. - suspirei, me lembrando o quanto me senti aliviada por isso.
- Gay... - e falaram ao mesmo tempo.
- Quando acabou o filme, ele perguntou se eu queria lanchar, mas tudo o que eu queria era ir embora, acabei inventando uma desculpa qualquer. Depois disso, ele ainda me mandou mensagens de bom dia ou boa noite, por quase um mês.
- Poxa. Que zica! - disse e concordou.
- Agora acabou, certo? - perguntou cauteloso e neguei com a cabeça.
- Mas acho que já deu por hoje. O próximo nem tem emoção.
- Acho que você devia contar - comentou como quem não quer nada.
- . - o olhou sério e eu segurei o sorriso idiota que queria se apossar do meu rosto.
- Se é o último, por que não agora? - não deixou passar.
- Esse não teve graça, ele é primo de uma amiga minha e ficou insistindo pra sair comigo, mas eu não queria porque não sentia nada por ele, nem vontade de sair, nada nele me atraía mesmo, então em nem via motivos. Fui vencida pelo cansaço e ele insistia que queria ir ao cinema, mas minha experiência com cinema ainda era recente e acabei aceitando sair pra comer, só que o lugar era uma espelunca. Jamais comeria algo de lá por escolha própria, fiquei morrendo de medo de passar mal depois. Até um McDonald’s teria sido melhor. Fim. - relaxei na cadeira mesmo sem saber se abrir minha vida assim tinha sido uma boa ideia. Aposto que cada um deles tinha conclusões a meu respeito.
- E qual deles era o que você estava brindando com a aquele dia? - mais inconveniente impossível.
- Nenhum desses, mas não é algo que eu queira compartilhar, por enquanto. - meu olhar se fixou no de e me senti confortável.
Dessa vez ninguém falou nada. Eu estava bem melhor agora e o grande responsável por isso era . Claro que sempre estava lá pra mim e tinha me aguentado em crise todas as vezes e eu era muito grata a ela, mas, em relação ao Andrew, fora a conversa com que havia me ajudado a superar. Diferente do que achava que tinha acontecido no dia da visita dele em meu apartamento, nós apenas conversamos, e muito. A forma como ele havia colocado os argumentos me levava a acreditar que ele mesmo já tinha passado por uma desilusão, mas ele não se abriu e eu não seria indiscreta. O importante é que ter o ponto de vista de um homem como ele sobre a minha situação me fez enxergar as coisas de forma diferente e querer passar por cima.
- Acho que depois de ouvir isso eu nem devia ter bebido aquele dia. - me fez rir.
- E você achando que as mulheres fazem os homens de otários - minha amiga disse e eu só pensei no quanto homens são inocentes quando querem.
- Lembrei de mais um! - eu disse depois de beber o resto que havia em meu copo.
- Tem? - me olhou surpresa e os meninos zoaram.
- A coisa tá séria, nem a tá sabendo - provocou.
- Sabe sim, só não está lembrando. Esse trabalhava perto de onde a gente mora eu o conheci por acaso numa fila de um restaurante. - lembrei do quanto tinha sido inusitado meu encontro com Lucas. - Eu nem lembro, porque começamos a conversar, sei que acabamos almoçando juntos e trocamos telefones. Nós conversávamos praticamente todos os dias e criei coragem de chamá-lo pra sair novamente, ele acabou recusando. Continuamos conversando até que um dia, absolutamente do nada ele nunca mais me respondeu.
- Como assim? O que você falou pra ele? - me encarava pensativa. - Não consigo pensar em nada pra alguém sumir assim…
- Não falei nada demais, mandei um “boa noite”, se não me engano, ou um “tudo bem?” e nunca tive resposta.
- Você gostava dele - disse e não era uma pergunta.
- Um pouquinho - menti e dei de ombros.
- Deu pra perceber.
- Cala a boca! - dei um tapa na cabeça dele.
- É, , acho que agora você só vai conhecer caras se passarem pela nossa avaliação primeiro - propôs.
- Super apoio essa ideia! - me olhava contente. - Só vão chegar perto de você se passarem por nós.
- Pobre … - fez uma cara triste e fingiu limpar uma lágrima.
- Não se preocupem, já me conformei com a falta de sorte nesse campo da vida. Até o meu amor platônico casou.
- Aí é sacanagem! - falou mais alto e a encarou com a sobrancelha arqueada.
- Então minha namorada tem um amor platônico e eu nem sabia…
- Quem casou? - perguntou num tom despreocupado que não combinava com sua feição no momento, mas levei na brincadeira.
- O Adam.
- Levine? - ele fez uma careta.
- Claro! Aquele cara é… - não completei minha frase para minha própria segurança.
- Moço! Traz mais uma bebida pra essa moça aqui, por minha conta. - havia apontado para mim enquanto conversava com o barman.
- Não se iluda, tudo que bebi já está na sua conta. - pisquei e me levantei para ir ao banheiro, deixando minhas coisas na mesa.
Quando voltei, vi que meu celular estava na mão de .
- O que você pensa que está fazendo com meu celular? - lancei um olhar para , ela não devia deixar isso acontecer.
- Ele tava vibrando toda hora, aí eu queria ver quem era - ele disse meio sem graça, devolvendo o celular.
- O que você fez?
Meu olhar agora era muito sério, eram mensagens de Andrew, minhas conversas com ele, como tinha desbloqueado meu telefone? Encarei novamente, só ela ali sabia minha senha. Balancei a cabeça em negação e, quando ia falar algo, o telefone começou a tocar. Era Andrew. Dei as costas para a mesa e caminhei para fora do bar, atendendo a ligação que sabia que não traria nada de bom.
- Oi. - atendi sem vontade.
- Oi, ? Oi? - fechei os olhos com força. O que eles tinham aprontado enquanto eu havia saído da mesa?
- É, é o que eu digo quando atendo o telefone - disse sem paciência alguma.
- Quem está com você?
- Como assim, Andrew?
- Eu te liguei quando você não respondeu nenhuma mensagem minha e um cara atendeu seu telefone. Quem é ele?
- Não é da sua conta.
- Porra, ! É da minha conta sim. Você fala tudo aquilo pra mim, faz eu me sentir super culpado enquanto você tá com outro! - eu realmente não entendia o motivo daquela conversa naquele tom comigo.
- Eu só te disse verdades e se você se sentiu culpado foi por culpa sua, culpa de suas atitudes. E não que seja da sua conta, estou com amigos. - ouvi um riso irônico.
- Amigo… - ele repetiu.
- É Andrew, amigos. - frisei o S ao final da palavra. - exatamente como você disse que me via.
- Não foi isso que ele me disse ao telefone.
- Não interessa o que o ou o Papa falou pra você, se você não vai acreditar em mim, pra que me ligou?
- É então…
- Cala a boca! Não me venha colocar como a errada da história. Aliás, me faça um favor, me esqueça! Pare de ficar atrás de mim e vá ficar atrás da sua namorada. - desliguei o telefone e por pouco não o joguei na rua. Só agora eu percebia que estava chorando e não sabia quando tinha começado.
- Ótimo - murmurei, voltando para dentro do bar.
Tentei limpar meu rosto antes de chegar à mesa, não queria falar com nenhum deles agora, mas, se eu fosse para o banheiro, eles provavelmente me veriam. Sem prestar atenção, trombei em alguém e me desequilibrei, e, se a pessoa não tivesse me segurado, eu provavelmente teria caído.
- Desc… ? - olhei para cima e eram as mãos de que seguravam meus braços. - O que aconteceu? - ele me encarava assustado e eu tentei limpar novamente meu rosto.
- Não aconteceu nada. - fui um pouco grossa, e nem assim ele me soltou.
- O que estava fazendo lá fora?
- Tentando resolver a gracinha que vocês fizeram enquanto fui ao banheiro. - me soltei. - Aposto que se divertiram bastante.
- Do que você está falando? - ele continuava me olhando daquela forma preocupada e eu só queria sumir.
- Estou falando de vocês mexerem no meu celular e atenderem ligações enquanto eu não estava - repeti, irônica, e com mais detalhes.
- Eu não estava lá, quando você foi ao banheiro eu fui conversar com meu tio na sala dele. - ele apontou para a sala da administração. - Ia voltar pra mesa agora, quando trombei em você. - me senti culpada por ser rude e preferi ficar em silêncio do que falar qualquer outra coisa. - O que eles fizeram?
- Aparentemente falaram com alguém que não deveriam - respondi o mínimo que podia e, quando vi que ele ia falar alguma coisa, falei primeiro. - Olha, foi sim com o Andrew e eu realmente não quero falar disso agora. Desculpa. - encarei o chão.
- Tudo bem. Quer ir pra casa? Eu posso pegar suas coisas pra você…
- E o quão infantil seria isso?
- Quem se importa? - ele deu de ombros. - Se foi o suficiente pra te fazer chorar, deixa eles se sentirem pelo menos um pouco culpados.
Ponderei o que ele falou. Eu tinha me aberto para todos e, depois do que tinha acontecido, eu não queria encontrar ninguém e muito menos falar com alguém.
- Posso te pedir um favor?
- Claro.
- Eu tenho um dinheiro aqui. - tirei algumas notas do bolso. - Vou pegar um táxi e vou pra casa. - fui andando em direção à saída do bar. - Você leva minhas coisas com você quando você for?
- Não quer que a leve? - neguei com a cabeça.
- Se tiver dedo dela nisso, como eu acho que tem, não quero falar com ela e vou precisar das minhas coisas.
- Tudo bem. - acenei para um táxi e ele parou.
- Obrigada. - me despedi e ganhei um beijo na testa. Ele abriu a porta do carro e eu entrei.
- Como vai entrar em casa?
- Tenho uma chave reserva lá. - ele se afastou e o carro entrou em movimento.

Paguei o motorista e desci do carro com vontade de chorar de novo, o que não deixei que acontecesse até que eu estivesse no meu apartamento. Peguei a chave que eu deixava no vaso de flores e abri a porta, correndo para o quarto e me jogando na cama. Eu só queria desaparecer. Como não era possível, me contentei em colocar o celular no modo “não perturbe” e o deixei bem longe de mim, adormecendo rapidamente.
Acordei e não fazia ideia das horas, passaria o dia na cama sem problemas se meu estômago não insistisse em protestar por comida. Me levantei preguiçosamente, peguei uma roupa qualquer no armário e fui ao banheiro. Eu estava destruída. Ri do meu reflexo no espelho e logo fui para o banho, quando saí estava melhor.
Fiz um macarrão simples para comer quando vi que já passava das 15h, e, depois de lavar toda a louça suja, fui para a televisão, evitando ao máximo que os pensamentos da noite passada voltassem à minha mente. Estava distraída quando o interfone tocou e fiquei receosa de ser , eu ainda não queria falar com ela, mas podia ser outra coisa. Era o porteiro avisando que estava no prédio e permiti que ele subisse, provavelmente viera devolver minhas coisas que eu nem tinha lembrado até ouvir o nome dele.
O esperei na porta do apartamento e logo ele estava em minha frente.
- Oi. - ele sorriu fraco. - Como você está?
- Não pensei muito sobre isso - admiti.
Naquele momento ele era a única pessoa que eu não me importaria de ver, mas eu estava um pouco envergonhada de ter deixado Andrew se meter na minha vida mesmo depois de todo o esforço de para me fazer superar.
- Você não atendeu nenhum de nós, fiquei preocupado e resolvi vir. - estava preocupado comigo, isso não devia acontecer.
- Nem sei onde meu celular está, deve ter até acabado a bateria. Eu não queria ver nada. - dei de ombros.
- De qualquer forma, eu tinha suas coisas pra devolver. - ele me entregou minha bolsa.
- Obrigada. Fico te devendo uma.
- Imagina… - ele continuou, me encarando, e eu estava ficando sem graça. Talvez ele esperasse que eu o convidasse para entrar, o que não aconteceu. -
- Hum.
- Você quer sair comigo? Sei lá, um jantar, talvez? - fui pega totalmente de surpresa, mas logo entendi do que se tratava.
- Você não precisa fazer isso, .
- Fazer o que, ? - ele me olhava confuso.
- Eu sabia que depois de ontem era só uma questão de tempo até alguém ter dó de todo o meu azar e me chamar pra sair.
- Não tem nada a ver. - nem escutei o que ele disse e continuei.
- Como namora, e estão de rolo, sobrou pra você. Não se preocupe, não precisa se importar e nem ter dó de mim, pode até levar um tempo, mas eu sei que vou superar, como fiz tantas vezes - disparei a falar.
-
- Sério, . Obrigada pela intenção, eu acho, mas não quero nem imaginar um encontro por um bom tempo. - ele me olhava ainda e eu não tinha ideia dos seus pensamentos. - Me desculpa, mas acho que é melhor você ir. Vou acabar te ofendendo de alguma forma se continuar falando.
Ele não disse nada, me deu as costas e eu fechei a porta. Senti uma coisa muito ruim na hora e comecei a chorar ali mesmo. O que estava acontecendo comigo?

Capítulo Doze

POV

Minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. Eu nem tinha bebido tanto no dia anterior, não estava sofrendo de ressaca. Estava sofrendo de preocupação e culpa. Quando o celular da vibrou incessantemente, não aguentou de curiosidade e olhou o visor para descobrir que era Andrew. Eu nem pensei duas vezes ao falar para atender a ligação. Minha intenção, de fato, era que Andrew pensasse que era o novo rolo de e a deixasse em paz de uma vez por todas, mas jamais imaginaria que minha amiga voltaria a tempo de nos pegar no flagra e se chatearia tanto com aquela pequena invasão de privacidade.
Para completar, ainda tivemos que levar uma bela bronca de , que disse que havíamos extrapolado todos os limites ao fazer aquilo. Estava na cara que ele estava sabendo dos fatos recentes melhor do que eu e aquilo me incomodava um pouco, apesar de apreciar a preocupação dele com minha amiga. Enquanto nos dava uma lição de moral, estava constrangido demais para sequer se defender e acabou tomando as minhas dores e se meteu no meio da confusão. No final, acabei mandando os dois calarem a boca e disse que eu me resolveria com depois. Preciso nem dizer que, depois disso, a noite acabou para todos, né?
Coloquei um pouco de água em um copo para me ajudar a engolir o comprimido de Aspirina e, após tomar o remédio, deixei o copo dentro da pia. Voltei para a sala de estar a tempo de ouvir meu celular apitando. Por dois segundos pensei que pudesse ser , mas não me surpreendi ao encontrar notificações do WhatsApp de mensagens de . A primeira era uma mensagem de voz. Me joguei no sofá e apertei o botão para escutá-la.
- , me tira do tédio - ele começou a falar e dava para ouvir uma algazarra ao fundo. - Estamos no ônibus, indo pra Brighton, e ainda falta mais de uma hora de viagem. Me conta, você já falou com a…
- Está falando com a namoradinha, é? - uma voz desconhecida, que julguei ser de um dos companheiros de time do , o interrompeu em tom de gozação.
- Porra, Kane, dá licença! - escutei a voz de falar sem paciência e, em seguida, uma gargalhada ao fundo. - Já falou com a hoje, ? Está tudo bem?
O áudio chegou ao fim e eu balancei a cabeça em negação enquanto ria levemente. Em seguida, passei os olhos pelas outras mensagens.

: O jogo é às 17:30.
: Assista.
: Ou irá sofrer as consequências.

Rolei os olhos com aquela tentativa totalmente falha de ameaça e digitei uma resposta.

: Vou ter que te aturar pela TV também? Já não basta pessoalmente?
: Tudo bem, eu faço esse sacrifício.
: E não, não falei com a ainda.

Embaixo do nome dele apareceu “gravando áudio…” e eu esperei até a mensagem de voz estar disponível.
- Sacrifício é assistir jogo do seu timeco, bonitinha - ele dizia em um tom falsamente irônico e deu uma pausa de dois segundos. Eu sabia que ele estava fazendo uma careta. - Falei com o agora há pouco e ele disse que estava indo devolver as coisas da . Se você quiser, eu peço pra ele conversar com ela e limpar a barra de vocês.
Em vez de digitar minha resposta, segurei o botão para também gravar um áudio.
- Não precisa, eu me viro com ela. Não é a primeira vez que a gente briga, sabe? Só estou um pouco chateada porque sei que vacilamos feio. Daqui a pouco vou dar um pulinho lá no apartamento dela. Mas obrigada pela preocupação.
Enviei o áudio e, dessa vez, recebi uma mensagem de texto como resposta:

: Que voz rouca sexy é essa? Tô até arrepiado.

Não consegui responder antes de soltar uma gargalhada que fez minha cabeça doer ainda mais.

: Seu conceito de sexy é estranho. Essa é a voz de alguém que tá morrendo de dor de cabeça.
: Tadinha de você. Isso tudo é saudade de mim?
: Logo estarei em Londres novamente, não precisa se preocupar.
: Me erra, .
: Eu sei que você tá louca pra repetir aqueles pegas de ontem.

Confesso que senti um arrepio com a lembrança de nós dois nos despedindo no carro dele, após ele me dar uma carona até em casa. Como estava se tornando cada vez mais comum, não conseguíamos nos beijar sem, dali a pouco, estarmos em um intenso e maravilhoso amasso. Mordi o lábio inferior enquanto digitava minha resposta.

: Eu não ligaria de repetir…
: Posso passar na sua casa mais tarde, quando voltar pra Londres?
: Vou pensar no seu caso. ;)

Estranhei a pequena demora de para responder, mas logo entendi quando surgiu uma imagem na tela. Fiz o download da foto e logo com a cabeça apoiada na janela do ônibus e fazendo bico apareceu. Como legenda, ele colocou: “Por favor. Nunca te pedi nada”. Mesmo com os fios de cabelo desarrumados e o cansaço estampado no rosto, foi impossível não achá-lo lindo naquela foto.

: Ai que susto. Me avisa antes de mandar foto dessa cara feia.
: Sei que você se amarra.
: Manda uma foto sua também.
: Manda nudes.

Abri a câmera frontal do celular e tirei uma das selfies mais toscas da minha vida, no melhor estilo duck face. Em seguida, a enviei para ele e a resposta não tardou a chegar.

: Que vontade de beijar essa boquinha.
: HAHAHAHA
: Melhore suas cantadas, .
: Vou tentar falar com a . Bom jogo pra você, vou tentar assistir. Até mais tarde!
: Isso quer dizer que posso passar aí mais tarde?
: ;)

Bloqueei o celular com um sorriso no rosto. Eu ainda não sabia que rumo aquele relacionamento com estava tomando, mas não queria pensar sobre isso. O que eu sabia era que estava sendo divertido passar o tempo com ele.
Levantei-me do sofá e, depois de prender meu cabelo em um coque, deixei o apartamento. Subi pelas escadas de incêndio, pois me recusava a pegar o elevador para subir apenas um andar, e, antes de sair no corredor do andar da , me surpreendi com o que escutei.
- Você não precisa fazer isso, - escutei a voz da minha melhor amiga dizer e arqueei a sobrancelha, totalmente confusa.
- Fazer o que, ? - rebateu, tão confuso quanto eu, pelo visto.
- Eu sabia que depois de ontem era só uma questão de tempo até alguém ter dó de todo o meu azar e me chamar pra sair.
Espera.
Para tudo.
tinha chamado para sair?!
- Não tem nada a ver… - o coitado tentou falar, mas foi interrompido.
- Como namora, e estão de rolo, sobrou pra você. Não se preocupe, não precisa se importar e nem ter dó de mim, pode até levar um tempo, mas eu sei que vou superar, como fiz tantas vezes - ela disparou a falar e eu não me aguentei e abri uma frestinha da porta da escada, encontrando uma ofegante de tão nervosa e um estático, com as mãos nos bolsos.
-
- Sério, . Obrigada pela intenção, eu acho, mas não quero nem imaginar um encontro por um bom tempo. Me desculpa, mas acho que é melhor você ir. Vou acabar te ofendendo de alguma forma se continuar falando.
Logo que terminou seu discurso, deu as costas, chamando o elevador em seguida, e ela bateu a porta.
Eu estava chocada.
Que raios ela tinha na cabeça para dispensar a o cara mais legal que havia aparecido na vida dela nos últimos tempos? Ok, eu também resisti bastante até, finalmente, dar uma chance para o . Mas ele sequer havia me chamado para um encontro, já que sempre estava muito ocupado falando sacanagens ou com a língua enfiada na minha boca. Enquanto isso, estava ali, lindo e fofo, e havia levado um fora! Eu estava bem indignada.
- - sussurrei antes que o elevador chegasse e ele fosse embora. Ele olhou para os lados em alerta, ainda sem perceber minha presença. Abri mais um pouco a fresta da porta e sussurrei mais uma vez: - Aqui, .
Ele, finalmente, olhou para a porta da escada e me viu.
- ?
- Cala a boca - o repreendi, ainda sussurrando. - Anda. Vem logo.
Meio desconfiado, ele caminhou até a escada e se juntou a mim. Sem esperar que ele dissesse qualquer coisa, fiz o caminho de volta ao meu apartamento, sendo seguida por .
- O que está acontecendo, ? - ele questionou assim que adentramos minha sala de estar.
- Eu vi o fora que você levou e vou te ajudar - falei e indiquei o sofá. - Senta aí. Quer beber alguma coisa?
- Álcool - ele falou e soltou um longo suspiro. - Só álcool vai fazer eu me sentir um pouco melhor nesse momento.
- Você é bem amigo do mesmo, hein? Que drama - eu disse, fazendo uma careta.
Me sentei ao seu lado no sofá e analisei atentamente seu perfil. Ele parecia bastante abalado, encarava o chão como se houvesse algo extremamente interessante lá.
- - o chamei e ele virou a cabeça lentamente até me encarar. - Quais são suas intenções com minha amiga?
- As melhores possíveis, - ele disse e, para mim, soou bastante sincero. - Ela entendeu tudo errado, achou que chamei ela pra sair por pena, porque ela contou daqueles encontros desastrosos que ela teve ontem.
- Não foi por pena, então? - eu perguntei, estreitando os olhos.
- Claro que não! - ele exclamou, ofendido. - Há muito tempo eu não me interesso por alguém. Não tenho tido motivos para acreditar em relacionamentos desde que… - disse e fechou os olhos, balançando a cabeça em negação. - Não importa.
Porém, minha curiosidade já havia sido despertada. já havia comentado por alto que havia passado por alguma experiência ruim no passado e agora o próprio estava confirmando. Senti minha língua formigar de vontade de questioná-lo a respeito do assunto, mas me faltou cara de pau suficiente para tal.
- Você... - comecei, um pouco hesitante - Você sente alguma coisa por ela?
- Eu não sei - ele disse, pensativo. - Desde aquele evento do Brentford, quando conheci vocês duas, a despertou em mim uma curiosidade. Ela me instiga a querer conhecê-la melhor, descobrir quem é a que ela esconde atrás desse muro que ela construiu… - ele dizia e, para mim, era bem óbvio o que estava acontecendo. - É um pouco revoltante saber que machucaram tanto ela, uma mulher tão incrível. Eu só quero fazê-la se sentir bem.
Um sorriso tomou conta dos meus lábios.
estava gostando da . Gostando de verdade. Podia não estar apaixonado, mas eu tinha certeza que aquilo era apenas questão de tempo. Dava para ver no modo como ele falava, o brilho nos olhos dele, quão arrasado ele parecia estar por ter levado aquele fora…
Eu, definitivamente, precisava fazer alguma coisa. Tanto quanto mereciam, para variar, viverem bons momentos com pessoas legais.
- A gente vai dar um jeito nisso - falei, sorrindo, e dei um tapinha no ombro dele.
- Deixa pra lá, - ele disse e soltou um suspiro derrotado. - Eu devia ter esperado mais um pouco para chamá-la pra sair. Acabei estragando tudo, ela não vai mudar de ideia.
- - falei, firme. - Você é um homem ou um rato?
Ele me encarou e riu.
- Você e o são perfeitos um para o outro, sabia?
Rolei os olhos com essa pérola proferida por ele.
- Por favor, não me venha com essa. - olhei torto para ele.
- É sério, . Vocês tem algumas semelhanças que chegam a me assustar um pouco - falou, rindo. - Você acha que… vocês dois têm futuro?
- Qual foi, ? O assunto era você e , não eu e .
- Eu acabei de me abrir sobre a , por que você não pode se abrir sobre o ?
Permaneci, por alguns segundos, o encarando e ponderando quão seguro seria me abrir para .
- Tudo bem - falei, me dando por vencida, ele não tinha cara de quem levaria tudo o que eu falasse para o amigo depois. - Eu não estou criando expectativas, sabe? Acho que já levei tapas na cara o bastante da vida.
- Mas você sente alguma coisa por ele?
- Não sei - eu disse, brincando com o celular nas minhas mãos. - Ele tem aquele jeito atrevido e engraçado. - me lembrei das gracinhas que ele sempre me dizia. - Aquele sorriso. - a imagem de um sorridente surgiu na minha mente e eu quis estar vendo aquele sorriso pessoalmente. - Aquelas coxas, aquela bunda…
- Ok, - disse, rindo. - Não quero saber sobre a bunda do meu amigo.
- Pois deveria querer ter uma igual - eu disse, cruzando os braços. - O que a vai apertar aí? - questionei, mas não consegui controlar a gargalhada que escapou pelos meus lábios. acabou rindo junto, mesmo após ser chamado de desbundado. - Se você contar para o que eu elogiei a bunda dele eu te mato, ouviu?
- Pode deixar - ele falou e fingiu estar fechando a boca como um zíper.
Por algum tempo, ficamos em silêncio, até eu decidir retomar o assunto e quebrá-lo.
- Está sendo legal ficar com ele. Apesar de ser uma criatura irritantezinha, o é divertido - eu disse, sorrindo. - E beija bem pra caramba - confessei e riu pelo nariz, balançando a cabeça em negação. - Mas acho que isso que a gente está tendo se resume a uma pegação louca. Não quero gostar dele e acabar me ferrando depois, por isso estou mantendo meu pé no chão. Mas quem sabe onde isso vai dar, né? - dei de ombros.
- Torço por vocês. Você apareceu e fez ele parar de choramingar pela Katherine - falou, sorrindo. - Sinceramente, eu não sei o que o rolo de vocês significa pra ele, mas ele parece estar curtindo tanto quanto você.
Meu celular apitou e vi que tinha novas mensagens de , além da que havia acabado de chegar.
- Seu amigo não morre mais - falei e abri as mensagens, escutando a risada de .

: É sério. Isso foi um sim? Se eu chegar aí e for enxotado, você vai ver.
: , espera eu chegar em Brighton pra ir falar com a .
: Não me deixa aqui sozinho nesse ônibus entediante.
: Não acredito que você me deixou falando sozinho! Vai ter que me recompensar com muitos beijos mais tarde.

Gargalhei e ignorei todas as mensagens dele. Abri a câmera frontal do celular e me aproximei de para tirarmos uma selfie. Mesmo estranhando, deu um sorriso constrangido enquanto eu apontava para ele com o dedo indicador. Enviei a foto para com a legenda: “Temos um desafio para hoje à noite”.
Como estava online, ele logo respondeu:

: Mas eu prefiro ménage com duas mulheres.
: Vai se foder, .

Respondi, gargalhando, e mostrei a mensagem para , que também riu. Logo outra mensagem dele apareceu na tela.

: O que vocês estão fazendo aí?
: Resumindo a história: quando fui falar com a , acabei escutando chamá-la pra sair, e ele acabou levando um fora bem no meio da cara. Chamei ele pra conversar e ele se abriu, parece que tá realmente interessado na (não que isso seja novidade pra mim, né? hahaha). Falei que vou ajudá-lo. E você também vai!
: ALELUIA
: Nem tô acreditando que ele criou coragem de chamar ela pra sair!
: Você sabia que ele tá a fim dela e não me falou nada, seu cretino?
: Eu não ia dedurar meu amigo, né?
: Aff, tudo bem.
: A gente precisa pensar em um jeito de juntar esses dois.
: Acho isso lindo, chego a sentir lágrimas nos olhos de tão emocionado que estou, mas não sei se quero perder minha noite de sexo selvagem com você pra dar uma de cupido do e da .
: Sexo só nos seus sonhos eróticos comigo, querido.
: Tenho muitos, inclusive.
: Sou obrigado a me aliviar sozinho. Você não tem pena de mim não? :(
: Me respeita, . Não te dou essas intimidades.
: Vai ajudar ou não?
: Não é intimidade que eu quero que você me dê mesmo…
: Ajudo, né? Fazer o quê?

- O que vocês tanto conversam aí, hein? - questionou, fazendo eu me lembrar da presença dele.
- Estou convocando para também te ajudar com a .
- Sério que você vai fazer isso?
- , você e terão um encontro ou eu não me chamo .
Ele ficou me encarando, perceptivelmente duvidando da minha capacidade. Ah, não me conhecia. Mas iria conhecer e me agradecer mais tarde.

- Você não tem coração, ? - questionei assim que a porta do apartamento foi aberta.
- Eu não tenho coração? - ela rebateu, ultrajada. - Você e que não têm limites.
- Não estou falando disso. - fiz uma careta e me meti na pequena brecha que ela deu, adentrando o apartamento.
bufou e bateu a porta com força.
- Do que você está falando, sua maluca? - ela questionou e saiu batendo os pés no chão, rumo à cozinha.
A segui e adentrei a cozinha a tempo de vê-la encher um copo com o que parecia suco de laranja.
- Estou falando do - eu disse e cruzei os braços. - Você deu um fora no coitado.
arregalou os olhos e se engasgou com o líquido que bebia. Começou a tossir enlouquecidamente e precisou de alguns segundos para se recuperar.
- Como você sabe? - ela perguntou ao mesmo tempo assustada e curiosa. - Ele te contou?
- Vi com meus próprios olhos. Eu ia vir até aqui me desculpar, mas acabei escutando a conversa de vocês dois.
- Mais uma vez você invadiu minha privacidade - ela me acusou, estreitando os olhos.
- Para de drama, . - rolei os olhos, entediada. - Você sabe muito bem que eu e só queríamos ajudar. Falei pra ele atender a ligação e fingir que era seu namorado só para o Andrew se tocar e sair da sua vida de uma vez por todas.
- Mas vocês não tinham o direito de mexer nas minhas coisas e se meter na minha vida desse jeito.
- Jura? E aquele dia que você me obrigou a reencontrar o sem nem saber para onde eu estava indo? - soltei uma risada irônica. - Sendo que eu deixei claro que não queria saber dele. Não seja hipócrita.
ficou em silêncio e se aproximou da pia para ensaboar, enxaguar o copo, e deixá-lo no escorredor de pratos.
- Você está adorando ficar com o , não está? - ela quebrou o silêncio e me encarou. Em seu rosto eu conseguia ver que ela já não estava tão chateada assim comigo e com .
- Não interessa, . Você me enfiou ele goela abaixo - eu falei enquanto a seguia até a sala de estar. - Eu sei que foi errado mexer no seu celular, e deixar o atender à ligação foi pior ainda. Mas foi com boas intenções e não vai se repetir, ok?
Ela soltou um longo suspiro e se jogou no sofá.
- Tudo bem, eu não conseguiria ficar chateada com vocês por muito tempo mesmo - ela falou e esboçou um pequeno sorriso. - Espero que, pelo menos, o Andrew me deixe em paz agora.
- Se não deixar, a gente bola um plano, que tal? - eu disse, sorrindo, enquanto me sentava ao seu lado no sofá. Porém, logo fiquei séria novamente ao me lembrar da cena de um cabisbaixo no meu apartamento. - Por que você não aceitou sair com o ? Você é louca?
- Eu não quero que ele saia comigo por pena, - ela respondeu em meio a um suspiro.
- , qual é o seu problema? - eu questionei enquanto gesticulava com as mãos, mostrando minha indignação. - O tem interesse em você desde muito antes de saber sobre seu rolo com o Andrew ou qualquer um dos seus encontros que foram completos desastres.
- Como você tem tanta certeza? Ele te falou alguma coisa? - ela perguntou, me olhando com interesse.
Entretanto, eu não falaria nada sobre minha conversa com o em respeito à confiança que ele havia depositado em mim. Eu poderia abrir a mente da de outras formas.
- E precisava falar? Sempre esteve estampado na cara dele! - exclamei e ela rolou os olhos, mas não retrucou. - Ele te trata de um jeito diferente e não me venha com aquela baboseira de que é porque o é a fim de mim. Dá pra ver um brilho nos olhos dele quando você está por perto, ele está sempre preocupado e querendo te agradar. Não foi à toa que aquele dia ele veio aqui e te trouxe até chocolate, né?
Ela escutava às palavras que eu dizia sem me encarar, brincando com a barra da saia que ela vestia. Eu sabia que ela estava refletindo sobre o que eu estava falando.
- E eu não sei como foi a conversa de vocês aqui - continuei meu discurso -, mas você não pode ignorar que ele te ajudou a superar o que quer que tenha rolado com o Andrew naquele dia.
- O Andrew... - ela começou, mas eu a cortei.
- Não precisa falar sobre isso. Só vai servir pra eu ter mais ódio dele do que já tenho - eu disse, rindo. - Sabe, se você realmente não quer sair com o , tudo bem, mas você poderia ter sido mais delicada com ele, . Uma pessoa que só quer o seu bem, que te ajudou tanto, e você fala daquele jeito? Ele ficou arrasado.
- Eu fiquei nervosa, não imaginava que ele ia me chamar pra sair! - prontamente se defendeu. - Ele me pegou de surpresa, o que você queria que eu dissesse?
- Sério, ? - rolei os olhos, entediada. - Ele todo atencioso com você... É óbvio que tinha um interesse por trás.
- Você acha que fui muito cruel? - ela perguntou, fazendo uma careta que demonstrava todo seu arrependimento.
Lancei um olhar descrente para ela.
- Cruel? Você foi uma ogra com o coitado!
- Ai, . Não fala assim - ela choramingou.
- Você vai pedir desculpas pra ele. Ele não mereceu aquela grosseria - eu afirmei. - E também vai dar uma chance pra ele argumentar antes de dar um fora.
- Bendita melhor amiga que fui arranjar - ela disse e bufou. - Vou pensar, tudo bem?
- É sério, . O é um rapaz tão legal, você devia dar uma chance - eu falei, quase indignada. Era difícil acreditar que alguém pudesse ter coragem de dispensar um cara como aquele. - Até eu estou dando uma chance para o , que é todo errado!
soltou uma gargalhada.
- Até parece que você não está adorando dar uns pegas no .
- Claro que estou - eu confessei, com um sorriso malicioso. - Mas ele é um abusado, não posso dar muita liberdade. Hoje ele teve um jogo em Brighton e se ofereceu pra vir me visitar quando voltar - falei e apertei o botão do celular para checar as horas. - Já deve estar chegando, inclusive.
- Hum - ela murmurou com um ar sugestivo e um sorriso irritante nos lábios. - E o que vocês dois vão fazer aí, sozinhos?
- Só uns beijinhos, ok? - me defendi, cortando seu barato.
- Tem certeza?
- Claro que tenho - respondi, rolando os olhos. - Ainda está muito cedo pra fazer mais do que isso. Ele vai ter que ralar muito e mostrar que vale a pena.
- Quero só ver... - falou, rindo e demonstrando que não estava acreditando nem um pouco nas minhas palavras.
- Tomei vacina anti-trouxismo, querida. Não vou cometer o mesmo erro que cometi com o Edward - eu disse e apenas soltou um risinho. O celular vibrou na minha mão e encontrei uma mensagem de avisando que estava com o carro parado em frente ao prédio, me esperando para irmos até uma lanchonete, já que ele estava morrendo de fome. - Ele chegou, . Pensa aí na possibilidade de dar uma chance para o .
- Eu falei que vou pedir desculpas, não que vou dar uma chance - ela fez questão de deixar claro.
- Deixa de ser boba, amiga. Dispensar um cara desse - falei, me levantando do sofá, e comecei a enumerar nos dedos as qualidades de : - Bonito, gostoso, decente, legal, prestativo...
- Me poupe, - ela me cortou, rolando os olhos, e se levantou para me empurrar em direção à porta. - Vai logo, teu jogador tarado está esperando.
- Pensa com carinho, - falei antes de abraçar minha amiga e deixar seu apartamento.
Não que ela fosse ter muita escolha. Eu ainda não sabia qual seria o plano, mas daria um jeito de aqueles dois terem um encontro inesquecível. E esperava ter a ajuda de , meu cúmplice, nesse desafio.

- E como, exatamente, eu vou ajudar?
pegou um guardanapo e limpou a boca, que estava toda lambuzada pelo molho do cachorro-quente. Enquanto ele devorava o lanche, eu contava sobre os acontecimentos do dia e sobre a minha vontade de ajudar e a terem um encontro inesquecível, sem deixar de mencionar que ele estava convocado a participar daquela empreitada.
- Nesse momento, dando ideias - respondi e dei um último gole na minha Coca-Cola.
Os olhos dele se voltaram para a janela e ele parecia pensativo.
- Que tal um jantar num restaurante caro? - ele questionou, voltando a me encarar, e fiz uma careta de descontentamento em resposta.
- Isso não impressiona ninguém em um primeiro encontro, .
- Então o pode trazer a pra comer cachorro-quente - ele disse com um sorriso exagerado, abrindo os braços.
- Não, isso faz mais o seu tipo do que o do - eu rebati com um sorriso irônico.
Confesso que foi uma singela alfinetada, já que, até o momento, não tinha me chamado para um encontro propriamente e nem parecia que ia chamar.
- Ei, ! Estamos num encontro? - perguntou, colocando as mãos no rosto e fingindo surpresa. - Mas eu nem disse se aceitava.
- Você pode levar alguma coisa a sério só um pouquinho? - questionei, lançando um olhar cortante em sua direção, e ele cruzou os braços, emburrado.
Após algum tempo em silêncio, novamente pensativo, disse:
- Cinema? - ele questionou e eu bufei.
- Deixa pra lá, . Eu vou ter alguma ideia - falei, conformada de que nada sairia daquela conversa, me levantei do banco estofado vermelho e coloquei meu celular no bolso traseiro da calça jeans.
- Qual é o problema de cinema? - ele perguntou, me seguindo para fora da lanchonete.
- Tirando que o casal perde duas horas vendo um filme em vez de conversar e se conhecer melhor, não tem nenhum problema - falei, deixando bem clara minha opinião sobre ir ao cinema em um primeiro encontro, enquanto caminhávamos em direção ao carro de , estacionado em uma das cinco vagas em frente à lanchonete.
- Já levei algumas garotas ao cinema e posso te garantir que a última coisa que fizemos foi assistir ao filme.
Quando o encarei, estreitando os olhos, ele gargalhou com vontade.
- Já percebi que você não leva jeito pra encontros.
Quando terminei de falar, fui surpreendida por suas mãos me puxando até que estivéssemos um de frente para o outro, com os corpos grudados.
- Mas tem outra coisa que eu levo muito jeito, - ele sussurrou contra a minha boca e eu fechei os olhos em reflexo. - Ninguém é perfeito, né?
- Nem tanto assim… - soprei, sentindo seus dentes mordiscarem meu lábio inferior.
Sua boca se colou à minha e, conforme eu sentia sua língua contornar meus lábios, senti aquela vontade sufocante de beijá-lo crescer no meu peito. Eu ainda não havia me acostumado com aquele sentimento que esgotava meu autocontrole e se apoderava das minhas ações. Entreabri meus lábios para que nossas línguas se encontrassem e pudéssemos aprofundar o beijo, e levei uma das minhas mãos até sua nuca. Enquanto nossas línguas se embolavam em um beijo cada vez mais intenso, senti suas mãos apertarem minha cintura e, em passos lentos, me guiou até que eu estivesse prensada contra a porta do carro.
- Quero ver dizer que não sou bom nisso - ele sussurrou, descendo seus beijos até o meu pescoço ao mesmo tempo que adentrava meu moletom com uma das mãos e fazia minha barriga se encolher com o contato de seus dedos gelados com a minha pele quente.
- Aquele beijo no seu carro foi um pouquinho melhor - falei com o intuito de o provocar, me referindo a quando nos cumprimentamos em frente ao meu prédio.
Depois de bufar, chocou seus lábios aos meus, dando início a um beijo quase violento.
- Tem um motel no fim da rua! - ouvimos uma voz gritar ao longe e, prontamente, nos afastamos.
Um grupo de adolescentes se afastava pela calçada aos risos.
- Ai, que vergonha - eu disse, sentindo minhas bochechas corarem, e empurrei pelo ombro.
- Que moleques abusados - ele falou, rindo.
Abri a porta e me enfiei dentro do carro, ainda envergonhada por ter protagonizado aquela cena. não demorou a se acomodar atrás do volante, parecendo ter achado aquela situação bastante divertida.
- Você não acha que a gente devia seguir a sugestão daquele garoto? - ele questionou em um tom malicioso.
- Acho que você devia calar a boca - retruquei, rolando os olhos.
- Vem calar, babe - falou, fazendo meus lábios formigarem de vontade de voltar a beijar os dele.
Entretanto, tudo o que fiz foi deixar um sorriso travesso surgir no meu rosto. Olhei para de canto de olho e pude vê-lo retribuir o sorriso antes de perguntar o que achei da partida do Brentford F.C. contra o Brighton & Hove Albion F.C. de mais cedo e dirigir rumo ao meu apartamento.

Capítulo Treze

POV

Eu já estava péssima por ter praticamente enxotado do meu apartamento alguns dias atrás, e o enorme discurso de não parava de se repetir na minha cabeça. Eu tinha mesmo reagido de forma exagerada quando ele apareceu na minha porta, tentando nada além de me ajudar, e eu o repeli; foi com esse pensamento que eu dei o braço a torcer e decidi ir até ele e pedir desculpas decentes.
Ao final da última aula do dia, juntei meus materiais e segui até a área dos professores. Coloquei todos os livros e exercícios recolhidos no meu armário, já que meu destino era o estúdio e não meu apartamento, e mandei uma mensagem para , avisando que iria, finalmente, atrás de . Pelo que eu sabia, o Four não era tão longe da Universidade e, como o tempo estava bom, aproveitei para uma caminhada.
Suspirei ao ler o nome no letreiro do outro lado da rua. A verdade é que eu estava com medo da reação dele quando eu me desculpasse. Eu realmente esperava que ele não estivesse com muita raiva de mim, e tinha repetido bastante nos últimos dias que ele não estava, já que tinha um sentimento diferente por mim. Eu continuava negando, como sempre, e meu medo era que ele me afastasse justamente para evitar que esse tal sentimento se tornasse mais forte. O que eu queria, afinal?
Reconheci o carro do do outro lado da rua e sorri sozinha, lembrando das inúmeras mensagens pedindo desculpas que tinha recebido dele desde que o mesmo atendera meu telefone no bar. Eu tinha me feito de difícil em relação às mensagens, mas era praticamente impossível ficar com raiva dele. Agora que finalmente tinha aceitado que não havia nada além de amizade entre nós, ele era um assunto bem menos constante, mas, em compensação, qualquer brecha era motivo para cair em ou .
Entrei no estúdio me amaldiçoando pela falta de foco, já que durante todo o caminho eu havia me distraído ao invés de formular uma desculpa boa o suficiente. Mas não dava pra mudar de ideia, não depois de duas noites sem dormir direito, me sentindo culpada. Eu precisava falar com ele e tinha que ser pessoalmente. Respirei fundo e caminhei confiante até a mesa da recepção, para minha surpresa vazia, mas logo uma mulher alta, ruiva e com um corpo perfeitamente desenhado dentro de um vestido preto que a fazia parecer uma modelo, apareceu.
- Pois não? - ela disse com um sorriso perfeito. Balancei a cabeça colocando meus pensamentos em ordem.
- Boa tarde. - tentei ser educada, mas sentia um nervosismo que não sabia explicar. - Eu gostaria de falar com o .
- Ele não está. - seu tom mudou e seu sorriso sumiu. - Posso ajudar? Sou em quem resolvo as coisas dele. - ela ainda tinha um ar superior e eu me lembrei de ouvir as mesmas palavras quando liguei para o estúdio e acabei falando com . Forcei minha mente a lembrar o nome dela, ela não ia me dobrar como havia feito da outra vez.
- É Jessy, não é? - falei para conferir, mas a cara que ela fez foi o suficiente para confirmar. - É realmente algo que eu preciso resolver com ele.
- Acho melhor voltar outra hora, porque ele não está aqui. - algo me dizia que aquilo não era verdade.
- Então vou sentar aqui e esperar, porque se ele marcou comigo ele vai aparecer. - joguei verde, torcendo para que ela não desconfiasse. Não que fosse totalmente mentira, já que ele realmente tinha me convidado para conhecer o estúdio. As circunstâncias eram diferentes, mas ela não precisava saber.
- Como qui... - ela rolou os olhos e foi interrompida por , que saía de alguma sala lá dentro e vinha acompanhando um cara de terno.
- ? - ele me olhou e abriu um sorriso em seguida.
- Oi. - disse meio sem graça, já que tinha ignorado as mensagens insistentes dele.
Ironicamente, a única pessoa que eu realmente tinha tratado mal era o único que não tinha nada a ver com o acontecimento.
Ele acompanhou o rapaz até a saída do estúdio e logo já estava ao meu lado.
- Veio matar a saudade de mim? - ele brincou e eu sabia que era só questão de tempo até eu perder a pose de séria e começar a rir.
- Ainda estou chateada com você, vim para falar com o , mas a Jessy - pronunciei o nome com desdém - disse que ele não está.
- Mas ele está gravando com o Nick. - olhou confuso para Jessy. Ótimo, ela realmente tinha mentido pra mim. Eu mal a conhecia e já não gostava.
- Eu disse que ele não estava disponível no momento, ela deve ter entendido errado... - Jessy se pronunciou e abri a boca para contestar, mas fechei em seguida.
- Vamos lá, te deixo na sala dele. Eu preciso falar com você. - ele não tinha mais o ar brincalhão nesse momento e eu o acompanhei, não sem antes notar o sorrisinho petulante no rosto da tal Jessy. Qual era o problema dela?
- O que foi? - perguntei quando ele abriu a porta de uma sala e entrou depois de mim. Ele me encarou e coçou a nuca se mostrando tenso antes de começar a falar.
- Eu queria me desculpar de novo, pessoalmente. Eu não devia ter feito aquilo, achei que ia acabar te ajudando se ele sumisse da sua vida, já que você parece triste sempre que o assunto chega nisso. - fiquei calada, eu nem esperava por um pedido de desculpas tão formal e muito menos que ele fosse falar na questão de sentimentos, pois nossas conversas não eram assim.
- Está tudo bem, . - o tranquilizei. - Talvez até tenha sido bom no final das contas… - dei de ombros, avaliando meus dias sem sinal do Andrew.
- Então posso te levar pra comer quando acabar minhas coisas aqui? - seu olhar continha algo que não soube precisar, hesitação talvez, e como não tinha compromisso e nem carona, concordei.
- Não precisava fazer isso, eu já te perdoei. - dei de ombros. - Mas já que ofereceu, eu aceito.
- Valeu, . - ele sorria verdadeiramente e, por um momento, achei que tinha algo por trás desse convite. - Vou terminar minhas coisas. - beijou minha bochecha e saiu da sala em seguida, me deixando sozinha.
Me sentei no sofá de couro preto por alguns minutos que pareciam infinitos, meu nervosismo estava de volta e tentei aliviar caminhando em círculos pela sala enquanto tentava pensar no que eu precisava dizer a ele.
- , eu sinto muito... Não! Muito brega. - suspirei e neguei com a cabeça. - Eu não queria ter dito aquelas coisas... - fiz um careta. Isso era discurso ensaiado, eu precisava ser natural. Rolei os olhos com meus pensamentos. Por que eu estava me importando tanto? Era só pedir desculpa e ir embora. Não era tão difícil, era?
- , eu queria te falar...
- ? - pulei de susto ao ouvir meu nome e o vi parado na porta. Droga!
- Você me assustou. - sorri sem graça e olhei para o chão.
- Não era a intenção. - ele permaneceu no lugar. - Impressão minha ou você queria me falar alguma coisa? - ele repetiu minhas palavras com um traço de humor que me fez levantar o olhar. Ele me olhava e vi um esboço de sorriso em seus lábios. Ele não me odiava, afinal.
- Queria... Quero. - corrigi. - Eu sinto muito pela forma que te tratei no outro dia. - ele ficou em silêncio e eu puxei o ar antes de continuar. - Eu não tinha a intenção de dizer aquelas coisas, muito menos pra você, que só foi me ajudar... Acho que estava com muita coisa na cabeça e fiz o que sempre faço, me afasto. - soltei o resto do ar que ainda tinha e o encarei esperando que ele falasse algo. O nervosismo estranho estava lá de novo, causando uma reviravolta no estômago.
- Você veio até aqui só pra me pedir desculpas? - ele sorriu e caminhou até onde eu estava.
- É... Eu meio que me senti culpada, meio não, bastante! E precisava falar com você, saber que estava tudo bem. - dei de ombros sem entender a necessidade de me explicar dessa forma.
- Não precisava. - ele ainda sorria. - Mas se te deixa melhor, esta desculpada.
- Bem melhor. - continuamos nos encarando por um tempo, aqueles olhos me prendiam e, então, deixei a vergonha de lado e fiz o que eu queria fazer. Fiquei na ponta dos pés e o abracei com os braços em volta do pescoço dele, logo senti os braços dele envolvendo meu corpo e sorri.
- Você gosta bastante de abraços inesperados, hum? - realmente não era a primeira vez que eu agia assim com ele.
- Isso não é totalmente verdade. - disse afastando meu rosto já que ele não havia me soltado.
- Ah, não? - ele questionou com uma expressão divertida.
- Não. - afirmei convicta. - Gosto de abraços inesperados seus. - frisei a última palavra e voltei a esconder meu rosto em seu pescoço, ouvindo sua risada. - São aconchegantes.
- Mas que notícia ótima… - fomos interrompidos por batidas na porta anunciando que alguém estava nos vendo e fiz questão de nos afastar.
- , o Thomas está na linha e… - foi a vez de ele interrompê-la.
- Estou ocupado aqui, Jessy. Diga que retorno daqui a pouco, por favor.
- Mas , ele disse que…
- Você é boa em inventar desculpas, dobrá-lo não será difícil.
Onde estava toda a pose de confiante dela? Ok, ainda estava ali, mas ali, na frente do , não era nem metade do que ela havia sido na recepção. Ela não falou mais nada e se retirou.
- Vou te deixar trabalhar. - dei um beijo em sua bochecha e ia saindo da sala quando ele me chamou.
- ... - me virei. - Agora aceita sair comigo ou vai despejar mais palavras em mim? - ele parecia feliz e eu não sabia se ele estava brincando ou não. Mordi minha boca enquanto tentava encontrar uma resposta que não o magoasse.
- , eu... - seu sorriso murchou um pouco e me senti culpada de novo. - Não me sinto pronta pra isso, por enquanto. - ele fez menção de abrir a boca, mas continuei. - Não é você, eu só… Eu quero ter um tempo pra colocar minhas ideias e sentimentos no lugar. - estava confusa demais com a vida, comigo, com tudo que eu vinha sentindo nos últimos dias.
- Tudo bem, . Eu entendo e respeito seu tempo. É só que… - ele coçou a nuca mostrando-se sem jeito e eu o incentivei a continuar.
Eu tinha me jogado para um abraço pela segunda vez, ele poderia falar o que quer que fosse.
- Eu não quero esperar demais e ver alguém tendo essa oportunidade antes de mim. - tive a impressão de vê-lo corar levemente.
- Pode deixar, você vai saber. - pisquei para ele.
- E volte quanto quiser, você ainda precisa conhecer o estúdio e ainda tem aquelas musicas pra mostrar. - ele lembrou e eu concordei com um aceno.
- Virei. - mandei um beijo e saí de vez da sala. Um pensamento praticamente gritava dentro de mim enquanto fazia meus passos até a recepção: me xingando por não ter aceitado novamente o pedido para um encontro.
- Vamos? - um sorridente me esperava na porta. - Até amanhã, Jessy. - acenei um tchau pra ela e segui ao lado de guardando meus pensamentos.

- E então? A que devo a honra de desfrutar desse delicioso hambúrguer gourmet? - encarei antes de dar uma nova mordida no sanduíche.
- Além de ser minha ilustre companhia? - ele respondeu depois de beber um pouco de refrigerante.
- Você não me chamou aqui só pra te fazer companhia, pra isso você teria chamado a . - ponderei.
- Você está certa. - ele confessou e mordeu um pedaço. - Eu fiquei com aquilo na cabeça, de não ter sido uma ideia boa para um primeiro encontro e tal. - disse depois de engolir.
- Já te disse que isso é besteira, . - sorri pela preocupação dele. - Se ela não tivesse gostado da ideia ela teria inventado uma desculpa e não teria ido.
- Certeza? - ele me olhou com cara de dúvida.
- Bom, certeza não dá pra ter, mas estou respondendo por mim. - dei de ombros. - Se o convite não fez o meu tipo, eu invento alguma coisa e digo pra marcarmos depois, se eu realmente quiser sair com a pessoa.
- Certo, supondo que ela tenha gostado, o que sugere para um segundo encontro? - ri fraco ao notar a necessidade de impressioná-la existente no tom de voz dele.
- Quais as opções você já analisou? - perguntei depois de beber mais um pouco. - Não adianta nada eu dar ideias se for algo que você não vai estar confortável em fazer. Vai por mim, isso de tentar ser o que você não é nunca dá certo! - ele concordou, balançando a cabeça.
- A primeira coisa que pensei foi num show, mas acho que séria a mesma coisa do primeiro, então descartei. - concordei com a cabeça para que ele continuasse. - Depois pensei em um jantar ou um piquenique, alguma coisa que pudéssemos aproveitar a companhia um do outro.
- Olha só! Quem diria que poderia ser tão romântico assim… - brinquei e ele mostrou a língua pra mim. - Eu não acho a ideia do show ruim, porque você não vai estar tocando e sim aproveitando com ela. Mas concordo que isso possa ser uma ideia pra uma segunda parte ou terceiro encontro. Quanto as outras duas, acho que no fundo você sabe o que escolher. - o sorriso dele se ampliou e eu soube que estava certa.
- Falando em encontros, quando vai sair com o ? - engasguei no mesmo instante com o refrigerante.
- Como assim? - consegui perguntar depois de normalizar a respiração.
- Ah, você também? - ele fez uma cara emburrada.
- Eu também o que, ? - me fiz de desentendida.
- Você e o ficam nessa aí de fingir que nunca perceberam como um mexe com o outro, acham que eu sou retardado, só pode. - ri da cara de criança que ele fez.
- Talvez seja porque…
- Nem venha você com isso, . - me interrompeu. - A pode até aceitar esse papinho seu, mas eu não acredito nisso.
- , eu estava com o… - fui cortada novamente.
- Nem fale o nome desse estrupício na minha frente, você sabe que eu poderia ter acabado com ele.
- Sei , mas esquece isso. - pedi não querendo voltar a pensar no desfecho da história.
- Esquece você também, . Você estava apaixonada pelo que você imaginava e gostava dele e não por quem ele é. - suspirei sabendo que ele estava certo, assim como já havia dito tantas outras vezes. - E sei também que o mexe com você já tem um tempo, mesmo com o babaca ainda na jogada.
- Ai, você já está exagerando! Você me espionava? - perguntei sem me dar conta que tinha acabado de confirmar o que ele estava dizendo.
- Confessa que estou certo, então? - um sorriso convencido brotou nos lábios dele e eu joguei um guardanapo amassado nele.
- Que seja. - senti meu rosto esquentar.
- Eu não te espionava, só que os casais estavam sempre ocupados e eu acabei reparando algumas vezes que você encara ele. Mas, quando ele encara de volta, você disfarça. E que quando vocês conversam seus olhos ficam diferentes, até você se tocar e se segurar para não mostrar nada. - eu estava em completo choque, como ele sabia tudo aquilo sobre mim? Só então percebi que ainda estava boquiaberta e fechei a mesma.
- Estou chocada. - senti meu celular vibrar sobre a mesa e sorri ao ler o nome dele. - Seu amigo não morre mais.

Jessy POV

Assim que passou com a tal para o interior do estúdio, me levantei da recepção e fui até o banheiro feminino, onde poderia pensar sem ser interrompida. Me encarei no espelho. Pose confiante, corpo perfeito, roupas perfeitas… Eu não podia estar me sentindo intimidade por aquela mulher. Ri fraco para meu reflexo.
- Você continua na frente, Jessy. Só não seja descuidada. - disse completamente satisfeita. - Qual a probabilidade de ela ter alguma coisa com o ? Nenhuma! Ela é tão sem gracinha e tão ingênua. Se não fosse o aparecendo eu a teria enxotado daqui rapidinho. - ajeitei meus cabelos e sai do banheiro.
Vinte minutos depois e eu não tinha conseguido me concentrar em nada. Ela ainda estava lá dentro e algo me dizia que não era bom, sabe como é, intuição feminina. Ultimamente eu já tinha escutado e conversarem sobre algumas garotas, mas eu não tinha prestado atenção em nomes, já que não dava a mínima para a vida do fora dali e, bem, eu não precisava me preocupar com o , já que desde o fatídico acontecimento ele não se interessava por ninguém.
É claro que eu sabia que ele eventualmente voltaria a se interessar por alguém, e esse alguém seria ninguém mais e ninguém menos que eu. Ele perceberia que eu estive sempre presente quando ele precisou, além de todos os meus excelentes atributos, e não precisaria procurar longe para perceber que eu era a pessoa certa. Então por que a presença dessa desconhecida me incomodava tanto? Suspirei tentando terminar de responder o e-mail na minha frente.
Ela não era cliente do estúdio, se fosse eu saberia, já que eu controlava minuciosamente a agenda dos dois e fazia questão de mandar as possíveis ameaças para o , mas também não podia ser pessoal, porque há algum tempo eu já controlava várias coisas pessoais do . Dei um tapa com força na mesa, agradecendo mentalmente por não ter ninguém na recepção no momento. Eu iria até lá e descobriria o que estava acontecendo, seja ela quem for, não pode e não vai se aproximar do meu .
Me levantei e caminhei fazendo o mínimo de barulho possível pelo corredor, normalmente não perderia minha pose confiante, mas nesse momento eu ia investigar e precisava ser cautelosa. Passei pela sala do e o vi de costas, ao telefone, o que significava que ela realmente estava com o . Senti a raiva tomando conta de mim, mas nem se comparou ao que vi quando parei na frente da sala do . Os dois estavam abraçados, intimamente abraçados, eu podia concluir ao vê-lo com os braços ao redor da cintura dela, a mantendo perto dele, os dois rindo e ela com a cabeça no pescoço dele. Agora sim eu estava irada. Respirei fundo apenas para não puxá-la dali pelos cabelos e dei batidas na porta aberta com mais força que o necessário e eles se afastaram. Inventei a primeira desculpa que pude.
- , o Thomas está na linha e…
- Estou ocupado aqui, Jessy. Diga que retorno daqui a pouco, por favor. - ele me interrompeu, eu nunca havia sido interrompida assim antes.
- Mas , ele disse que… - insisti.
- Você é boa em inventar desculpas, dobrá-lo não será difícil. - e me deu as costas.
Fingi sair dali, sem me mostrar afetada pela situação, mas parei no corredor tentando ouvir alguma coisa. Sabe aquele ditado que diz que quem procura acha? Meio segundo depois pude ouvir a convidando para sair e, por mais que eu quisesse sair dali e descontar minha raiva, eu precisava ouvir a resposta dela. Era um não, pelo que eu havia entendido, e ela iria sair da sala a qualquer momento, então voltei para a recepção fingindo concentração.
Isso não ficaria assim, mas não ficaria mesmo. Mas eu não faria um barraco sem motivos no meio do trabalho, eu bolaria meu plano e ele seria perfeito. Essa garota ia voltar para o lugar dela.
- O que tem de tão divertido nesse computador, Jessy? - perguntou ao meu lado e levei a mão coração pelo susto.
- Isso não se faz, . - lancei um olhar duro a ele.
- Você está com um sorriso malicioso, pensei que eu pudesse saber. - ele levantou a sobrancelha num olhar safado e começou a gargalhar em seguida.
- Você é louco, . - neguei com a cabeça e voltei a encarar a tela.
- A já saiu? - evitei uma careta ao ouvir ele a chamando pelo apelido. Ela era íntima dos dois. - Vamos sair pra comer. - ele contou como se eu me interessasse.
- Aquela garota que você levou para sua sala? - me fingi de desinteressada e ele assentiu. - Ainda não passou aqui.
- Ela está vindo. - ele anunciou e reprimi a vontade de rolar os olhos na frente dele. - Vamos? - perguntou passando o braço pelos ombros dela antes de se despedir de mim.
Qual era a dessa garota? Ela está de rolo com os dois? sabe disso? parecia apaixonado ultimamente, aposto que ela está pegando o e enrolando o .
Fui até a sala de , minha intenção era apenas sondar, ele sabia que podia contar com a minha amizade e com certeza escaparia alguma coisa sobre a garota. Para a minha surpresa, ele não estava na sala dele, mas encontrar o celular dele em cima da mesa me deu uma ótima ideia. Coloquei-o discretamente entre os papeis em minha mão e segui para o banheiro, tendo a certeza de que estaria segura.
Ele não sabia, mas eu sabia a senha para desbloquear o aparelho e logo estava nas mensagens. E a conversa dos dois não estava muito da frente. Li as mais recentes e realmente não tinha nada demais nem nada que me interessasse, e então comecei a escrever a primeira, dando o primeiro passo no meu plano.

: Então é assim, ? Você se recusa a sair comigo e sai com o no instante seguinte.

Ri, torcendo para que ela respondesse algo, mas quando a resposta não veio, resolvi mandar mais uma.

: Eu me esforçando e respeitando o seu espaço, mas na verdade o problema sou eu, né?
: Aproveite seu tempo com o e pode me esquecer, porque eu cansei. Se você queria tempo, é o que vai ter. Tempo infinito.

Depois de seis minutos sem nenhuma resposta, acabei desistindo de esperar e resolvi apagar as provas. Deletei as três mensagens que tinha enviado e refiz meu caminho, deixando o celular exatamente aonde eu havia pegado.

POV

Não havia ficado muito mais no estúdio depois da visita inesperada que havia me feito. Não que eu duvidasse que ela pedisse desculpas ou se sentisse culpada, na verdade ela parecia assumir a culpa até quando não era dela, como com o filho da puta do tal Andrew, mas daí a aparecer no estúdio só para saber se eu não estava com raiva dela tinha feito meu dia melhor do que eu esperava. Talvez isso fosse até incentivo da , eu não duvidaria depois da conversa no apartamento dela, ela deveria ter dado um baita sermão na .
Assim que cheguei em casa tomei e um banho, liguei a TV e deixei num canal de clipes enquanto preparava um sanduíche para comer. Voltei para a sala com o prato e um copo de suco e foi inevitável não pensar nela novamente quando o clipe de Sugar começou a passar e Adam Levine apareceu na tela.
- O que é que essa garota está fazendo comigo… - murmurei, sentindo o sorriso tomar conta do meu rosto e dei uma mordida no sanduíche.
Pouco tempo depois, eu havia terminado de comer e estava deitado no sofá assistindo Sem Escalas. Apesar de não ser um fã de suspense, o filme havia prendido a minha atenção e eu estava curioso para ver as peças se encaixando. Estava tão concentrado que dei um pulo quando ouvi meu celular vibrar sobre a mesa de centro. Me sentei e desbloqueei a tela ao ver que era uma mensagem da .

: , quer me explicar porque falou aquilo pra minha amiga?

- Mas o quê? - reli a mensagem e continuei sem entender. Enviei uma resposta.

: Qual parte? Ter chamado ela para sair de novo?
: O QUÊ? Você a chamou pra sair de novo?
: Aquela cretina não me contou isso!
: Sim, chamei e ela fugiu, de novo. :/
: E aí você manda ela te esquecer? Que tática é essa? Andou ouvindo conselhos do por acaso?
: Eu não mandei ela me esquecer, falei que ia esperar o tempo dela!

Já nem lembrava que tinha um filme passando, as mensagens da não faziam sentido e eu estava ficando nervoso. De onde ela havia tirado aquilo? Era uma brincadeira de muito mau gosto.

: Ou desaprendi a ler, ou você disse isso sim.

Enviou a mensagem e uma imagem em seguida, era um print da minha conversa com a , mas eu nunca havia enviado nada daquilo.

: Isso está errado, . Não mandei mensagem pra desde aquele dia. E Não falei com ela depois que nos despedimos lá no estúdio.

Procurei minha conversa com a e não havia nenhuma daquelas mensagens, tirei outro print e mandei para a .

: Não sei o que aconteceu, mas não mandei nada disso.
: A deve estar com raiva de mim.
: Calma, ! Respira! Hahaha
: Vou conversar com a .
: Mas me conta isso direito, a te pediu desculpas?
: Sim, e quando achei que era um momento bom, eu a convidei novamente para sair e ela pediu um tempo.
: Ou seja, já sei como vamos fazer esse encontro de vocês sair.
: Como?
: A precisa ser intimada e não convidada. E esse encontro vai sair ou não me chamo ! =P

Capítulo Catorze

POV

Eu devia ter prestado atenção nos sinais. Desde que coloquei os pés para fora da cama e pisei em um brinco que caiu no chão e passou despercebido, me fazendo soltar um grito de dor, os sinais de que alguma desgraça aconteceria naquele dia estavam lá. Fui tomar banho e a água estava tão quentinha e convidativa que demorei mais do que deveria e, quando saí do chuveiro, constatei que estava atrasada. Me arrumei correndo, enquanto preparava meu café da manhã, e queimei as torradas. Quando fui sair de casa, o elevador demorou tanto que resolvi descer pelas escadas do prédio e, ao chegar na portaria, tive que subir novamente porque percebi que havia esquecido o celular em cima da cama.
Ao chegar na biblioteca, ganhei um belo esporro da minha chefe pelo atraso e, para completar, o sistema saiu do ar e tive que fazer todos os cadastros e empréstimos manualmente, como se ainda estivesse nos tempos da antiga Biblioteca de Alexandria. No almoço, coloquei um pedaço de empadão de frango no prato e estava com tanta fome, já que não havia tomado café da manhã direito, que dei uma garfada generosa e só percebi que havia uma azeitona escondida ali quando o gosto amargo me atingiu em cheio. E azeitona é, provavelmente, a coisa comestível que eu mais odeio. Para completar, ao voltar para a biblioteca, tive que ajudar com boa vontade e toda a simpatia do mundo um professor a achar um livro, sendo que ele não fez a mínima questão de ser educado comigo, como se a culpa do sistema estar fora do ar fosse minha.
Quando, finalmente, meu expediente acabou, saí da biblioteca às pressas, já que ainda precisava passar no mercado e dar uma limpeza na casa, pois receberia a visita de e naquela noite. Havíamos combinado com o para ele distrair pedindo conselhos para o encontro com a - que, na verdade, já estava todo resolvido, mas minha melhor amiga não precisava saber desse detalhe -, enquanto nós três planejávamos o encontro de e . Eu estava tão distraída e apressada que dei um pulo de susto quando reconheci a figura escorada no portão da universidade.
- O que você está fazendo aqui, Edward? - perguntei com rispidez. - Vou precisar desenhar pra você entender que é pra esquecer que eu existo?
Ele não me disse nada por alguns segundos, ficou me olhando com uma cara de babaca que me fez bufar e me virar para seguir meu caminho. Porém, ele me segurou pelo braço e eu, prontamente, me livrei de seu toque.
- A gente pode voltar a se falar?
A pergunta dele me atingiu em cheio. Por dois segundos, pude ver arrependimento em seu olhar, mas, em seguida, todos as noites que passei em claro e chorando copiosamente por ele vieram à minha cabeça e soltei uma gargalhada sarcástica antes de dizer:
- Não.
- Vamos conversar, pelo menos - ele disse e soltou um longo suspiro. - Você nem me deu a chance de me explicar, .
- Não me chama de . Não me chama de nada - eu disse entredentes e respirei fundo. - Me esquece, Edward. Finge que nunca nos conhecemos. Não tenho a mínima intenção de voltar a falar com você, estou ótima sem você na minha vida.
- Só me deixa explicar melhor o que aconteceu e, se você realmente quiser isso, eu nunca mais te procuro.
As palavras dele adentraram meus ouvidos e, como que em reflexo, senti um aperto no coração. Ele não poderia, depois de tudo aquilo, ainda mexer com meus sentimentos... Poderia?
- Nunca mais? - eu perguntei com desconfiança e ele assentiu com a cabeça. Ponderei, por alguns instantes, e acabei decidindo que perder cinco minutos do meu dia ouvindo as desculpas esfarrapadas do Edward não atrapalharia tanto assim meus planos e, como bônus, eu ainda me livraria dele de uma vez por todas. - Cinco minutos. Vamos para a praça.
Caminhamos juntos até uma praça próxima à Universidade de Londres, já que o meu local de trabalho não era o lugar ideal para aquele tipo de conversa, e eu tentava manter a maior distância possível.
- Você não vai se sentar? - ele questionou após sentar-se em um banco e reparar que eu permaneci de pé e braços cruzados. Neguei com a cabeça e, depois de suspirar, ele se levantou e ficou de frente para mim. - Sinto sua falta, . Do seu bom humor, das suas brincadeiras, das nossas conversas sobre futebol, dos seus conselhos... Nunca pensei que em poucos meses uma garota se tornaria tão importante na minha vida. Estou perdido sem você.
Pisquei os olhos algumas vezes, sem saber o que responder. Eu era observadora e possuía uma enorme facilidade de ler as pessoas simplesmente pela expressão em seus rostos, e eu poderia apostar que ele estava sendo sincero. Apesar disso, eu não era o tipo de pessoa que perdoava fácil. Me magoar era uma tarefa complicada, já que eu costumava ser bastante compreensiva e me colocar em segundo plano. Mas, quando alguém chegava a ferir meus sentimentos pra valer, provavelmente nunca mais conseguiria conquistar minha simpatia novamente. E Edward não tinha nada de especial para ser a primeira exceção.
Eu analisava seu rosto e não sentia nada. Era como se eu nem conhecesse ele, como se nunca tivesse vivido nem os bons e nem os maus momentos que vivi ao lado dele. Ele me parecia um cara comum, como qualquer outro, e eu até me perguntava que bruxaria havia me feito achá-lo tão bonito um dia.
Edward não tinha aquele mesmo olhar atencioso e cheio de malícia que tinha, e nem o sorriso travesso ou a voz que eu poderia escutar por um dia inteiro e não enjoaria. Só de lembrar da existência de , eu sentia uma enorme ansiedade de vê-lo, uma vontade de ouvir as gracinhas dele, mesmo que às vezes me irritassem, de beijá-lo até que ficássemos completamente sem ar... É, talvez, em um dia que já me parecia tão distante, eu tivesse sentido aquilo tudo por Edward. Ou melhor, pela ilusão que eu tinha dele. Em contrapartida, mais transparente do que , era impossível ser. Eu já tinha conhecimento de alguns defeitos de e a maioria deles me deixaria de mau humor se fossem os defeitos de outra pessoa, porém, sendo os defeitos dele, para mim não fazia a mínima diferença. Era impossível negar a existência dos sentimentos que eu já tinha por . E não era de uma ilusão que eu gostava.
- E eu nunca pensei que em poucas semanas um garoto se tornaria tão importante na minha vida - murmurei, pensando alto, e Edward me encarou, confuso, já que não entendeu minhas palavras. - Sinto muito, mas foi você quem pediu por isso.
- Por favor, . Não tem um dia que eu não lembre de você e me sinta mal por tudo o que te fiz passar - ele falou e deixou os ombros caírem em sinal de exaustão. - Não estou mais com a Miranda. Meu namoro com ela só me fez perceber como você é a pessoa certa, tudo que eu sempre quis pra mim.
Para o meu alívio, as palavras dele não despertaram sentimento algum em mim. Eu só conseguia pensar em e no quanto eu queria vê-lo dali a algumas horas.
- Fico feliz que você tenha se arrependido e espero que não faça as mesmas sacanagens com outras mulheres com quem você venha a se relacionar - eu falei e sorri sem muita vontade. - Seja menos egoísta, se lembre que as pessoas têm sentimentos e que elas não estão disponíveis para quando você quiser ou precisar delas - eu dizia e ele me olhava sem demonstrar qualquer sentimento. - Mas entre a gente não vai rolar mais nada, nem amizade. Eu não quero. E adoraria se você nunca mais me procurasse.
Ao terminar de falar, simplesmente dei as costas para ele e segui em direção ao ponto de ônibus. Me sentia aliviada. Pude fazer minhas compras no mercado e varrer a casa sem nem lembrar da existência de Edward. Eu acreditava que ele havia entendido o recado e que não precisaria mais me preocupar com ele. Entretanto, ao sair do banho, o interfone tocou e o porteiro avisou que um tal de Edward havia deixado um buquê de rosas para mim na portaria. Toda a irritação que senti ao longo do dia inteiro voltou em um passe de mágica e eu tentava decidir qual era o nível de retardamento daquele idiota.

POV

- Boa noite, Senhorita . Os senhores e estão aqui na portaria - o porteiro dizia ao interfone e, após escutar a resposta vinda do outro lado, ele assentiu, botou o aparelho de volta no gancho e se voltou novamente para a gente. - Podem subir. Vocês poderiam aproveitar e levar esse buquê que deixaram aqui para a Senhorita ?
Lancei um olhar torto para as flores que o porteiro estendeu.
- Claro - falei, por fim, e aceitei o buquê estendido, mesmo que um tanto desconfiado. Em seguida, nos distanciamos do senhor grisalho. - Leva isso, senão vou tacar na primeira lixeira - falei, enquanto caminhávamos em direção ao elevador, e estendi o buquê para , que o pegou prendendo o riso.
- Ciúmes? - ele perguntou em um tom de divertimento.
Chamei o elevador e o lancei um olhar cortante.
- Só acho um pouco ofensivo a garota com quem estou ficando receber das minhas mãos rosas que sabe-se lá quem mandou.
soltou uma risada fraca.
- Achou que não ia ter concorrência, né?
O elevador chegou e a pergunta de ecoava na minha cabeça. Apertei o botão correspondente ao andar de e me encostei na parede, refletindo sobre aquelas palavras. Eu não havia parado para pensar sobre aquilo até aquele momento, mas, na minha cabeça, era como se eu fosse o único o homem na vida de , assim como ela estava sendo a única mulher na minha vida naquele momento, mesmo que não estivéssemos tendo nada sério. Eu sentia um sentimento estranho dentro de mim ao imaginar que pudesse ter algum tipo de concorrência. Ainda mais se o concorrente mandasse flores.
- Quem será que mandou isso aí? - questionei, apontando com o queixo para o buquê.
- Tem um cartão - disse e só então notei um pequeno envelope branco. - Quer dar uma espiada no que está escrito?
- Não, deixa quieto - falei, fazendo uma careta. - Não sei se quero ler o que tem escrito aí.
balançou a cabeça em negação, rindo, e, assim que a porta do elevador se abriu, caminhamos em direção à porta do apartamento de . Toquei a campainha e, em poucos segundos, a porta foi aberta, revelando a dona do apartamento com os fios de cabelo úmidos e cheirando a shampoo e sabonete. Não contive o sorriso bobo que surgiu em meus lábios. Ultimamente, aquilo vinha acontecendo bastante.
- Deixaram isso pra você lá embaixo - estendeu o buquê e o arrancou das mãos dele, bufando. Não pareceu se surpreender, o que me levou a crer que ela já estava ciente sobre aquilo.
- Ele só pode estar querendo testar minha paciência - ela resmungou e, após pegar o pequeno envelope branco, tacou o buquê de qualquer jeito sobre a mesa de jantar.
Eu e nos entreolhamos e, como se estivéssemos pisando em ovos, adentramos o apartamento. Fechei a porta atrás de mim, enquanto observava passar os olhos pelo que estava escrito no cartão, e senti a curiosidade crescer dentro de mim.
- Quem mandou esse buquê? - antes que eu me desse conta, minha voz ecoou pelo apartamento.
- Adivinha - respondeu em um tom impaciente e bufou mais uma vez. Em seguida, leu em voz alta: - Quando te vi, me dei conta de como senti sua falta. Se você me der uma segunda chance, prometo que não irei te decepcionar. Beijos, Edward.
Ela terminou de ler o conteúdo do cartão e um silêncio se instalou no ambiente. Eu sentia o olhar do queimando meu rosto, mas não consegui encará-lo de volta. Um sentimento incômodo preencheu meu peito e eu tive vontade de socar a cara daquele idiota do Edward. Quem ele pensava que era para dizer que sentia falta da ? E, pior, em que mundo ele vivia para achar que merecia uma segunda chance?
- Hoje eu estava saindo da universidade e me deparei com esse imbecil me esperando no portão, e ficou insistindo até eu aceitar conversar com ele - ela começou a contar e eu trinquei os dentes e cerrei os pulsos involuntariamente. Era inacreditável demais ouvir que ela havia dado uma chance para ele se explicar. - Me falou um monte de…
- Tanto faz, - eu a cortei, não tinha o mínimo interesse de saber sobre as juras de amor que ele tinha feito para ela. - Não viemos aqui pra falar sobre o seu namoradinho. Temos um encontro pra planejar.
Respirei fundo, sem ter coragem de encarar qualquer um dos dois, mas me senti aliviado por não ter finalizado sua história. Entretanto, fui pego de surpresa quando as benditas rosas se chocaram contra meu braço e uma irada surgiu na minha frente.
- Por que você está falando assim comigo, seu idiota? - ela gritou e me deu um empurrão. - Vocês, homens, são um mais ridículo do que o outro.
Eu fiquei sem reação quando vi seu rosto assumir um tom avermelhado e algumas lágrimas escorrerem pelas suas bochechas. Ela as secou grosseiramente com os dedos e caminhou batendo os pés pela sala de estar, logo sumindo pelo corredor. Olhei para , que me observava tão confuso quanto eu.
- O atual com ciúmes do ex… isso é muito clichê, - meu amigo falou e riu, balançando a cabeça. - Espero que vocês esteja preparado para a primeira DR.
Senti a mão de me dar três tapinhas no ombro e, em seguida, ele sentou-se no sofá, cruzando as pernas.
- Você acha que eu devo…? - questionei, apontando na direção do corredor com um aceno de cabeça.
- Vai lá, eu espero - ele disse e cruzou as pernas. Parecia estar se divertindo com a situação. - Qualquer coisa eu chamo a ambulância pra vir te buscar.
- Idiota - murmurei, rolando os olhos.
Antes de caminhar pelo corredor em busca de , não deixei de pisar nas rosas com gosto. Era a primeira vez que eu ia até aquela parte do apartamento e lamentei por ser naquela condição. Fui até o cômodo que tinha a luz acesa e, quando cheguei na porta aberta, descobri que era o quarto de . Encontrei a garota sentada na cama, chorando com as mãos no rosto, e senti meu coração doer com aquela cena. Ela não demorou a notar minha presença e se levantou apenas para bater a porta bem na minha cara, impedindo que eu adentrasse o quarto.
- , abre essa porta, vamos conversar - eu falei, batendo na madeira, e conseguia ouvir a gargalhada de ao longe. - Me desculpa. Não foi minha intenção ser tão babaca, eu só fiquei nervoso por ele ter tido a cara de pau de ir atrás de você depois de ter te feito passar por aquilo tudo. - soltei um longo suspiro por não obter resposta. - , por favor.
Levei a mão à maçaneta e abri a porta devagar. estava sentada na cama, de braços cruzados, e seu rosto ainda estava vermelho, apesar de ela não estar mais chorando.
- Posso entrar?
- Você é tão tosco, - ela disse em um tom de voz calmo e eu me dei a liberdade de adentrar o quarto e me sentar ao seu lado no colchão.
- Quer conversar sobre esse ressurgimento do Edward? - questionei apenas por educação.
- Agora você quer conversar, é? - ela me alfinetou.
- Eu quero que o Edward se exploda, - falei com sinceridade. - Se você quiser desabafar, eu escuto. Meu único desejo é te ver bem.
- Ele disse que terminou o namoro, deu um monte de desculpinha esfarrapada, e pediu para a gente voltar a se falar - ela disse, dando de ombros, e eu a encarei com curiosidade.
- E o que você disse? - questionei, temendo a resposta.
- Mandei ele esquecer que eu existo - respondeu, simplesmente, e eu me senti aliviado. - Você realmente achou que eu fosse cair nesse papinho dele?
Ela me fitava tão acusadoramente que eu quase me senti envergonhado.
- Desculpa - sussurrei, me sentindo culpado por realmente ter pensado aquilo.
- Tudo bem - disse e suspirou. - Eu estava nervosa porque meu dia foi uma porcaria, e por ele ter a ousadia de me procurar depois daquilo tudo e ainda me mandar flores. Ele realmente achou que eu fosse querer alguma coisa com ele? - ela questionou, mas não pareceu querer uma resposta. - E, para completar, tem essa bendita TPM. Juntou isso tudo e a sua estupidez, acabei explodindo.
Ficamos nos encarando por um instante, até que eu sorri e a puxei pela nuca até que seus lábios se chocassem aos meus. Ela tentava me empurrar para longe ao mesmo tempo que gemia alguma coisa sem sentido, mas sua relutância foi para o espaço quando a fiz se deitar no colchão e intensifiquei o beijo, que foi correspondido à altura. Nos beijamos por algum tempo e, a cada vez que ela me puxava mais em direção a si, eu sentia mais vontade de que algo além de amassos rolasse entre a gente. Quando o ar começou a faltar, quebramos o beijo.
- Seu dia acabou de melhorar 100% - sussurrei em um tom de divertimento contra os lábios de , que soltou uma risada sarcástica. - O que você acha de a gente estrear a sua cama, uh?
- Eu vou estrear é a minha mão na sua cara - ela falou, rolando os olhos. - Sai de cima de mim. O está esperando a gente.
- Posso falar pra ele ir embora e deixar a gente à vontade - brinquei, me sentando na cama e a deixando livre para se recompor.
- À vontade pra quê? - perguntou, debochada, prendendo o cabelo em um coque. - Te boto pra fora à base de vassouradas, . Você não me provoca.
A puxei para mais um beijo, porém, fomos interrompidos dessa vez.
- Desculpa atrapalhar a pegação, mas eu realmente estou precisando de ajuda - falou, parado na porta.
- Caramba, ! Maior empata foda você, hein? - reclamei e gargalhei quando estalou a mão no meu braço.
- Vamos, a gente tem muito o que pensar - ela disse, me puxando na direção da porta do quarto. - Minha amiga merece o melhor encontro de todos.

POV

- Tem certeza de que ela vai gostar disso, ? - questionou após eu expor minhas ideias.
- , querido - comecei em um tom de voz debochado, mostrando um sorriso repleto de ironia -, você está falando com a melhor amiga da . É claro que tenho certeza de que ela vai amar. Ela pode até ir meio receosa a esse encontro, mas, chegando lá, vai deixar qualquer insegurança de lado.
- O problema é ela chegar lá, né? - ele rebateu, suspirando. - Ela deve estar me odiando por causa daquelas malditas mensagens. Já perdi a pouca chance que eu tinha com ela.
Fitei enquanto ele, sentado no meu sofá, passava as mãos pelo rosto em um sinal de quase desespero. Foi impossível não sentir um pouco de pena dele, já que, mesmo depois de eu ter conversado com , ela não parecia acreditar que aquelas mensagens não foram enviadas por ele. Entretanto, ela não estava nutrindo ódio algum por , como o mesmo pensava, as mensagens acabaram por fazer minha melhor amiga se sentir culpada por achar que estava o fazendo criar esperanças e, no final das contas, o muro que a impedia de dar uma chance para acabou crescendo ainda mais. Eu não tinha ideia de quem poderia ter sido o autor daquelas mensagens ridículas e infantis, mas, sinceramente, acreditava em . Era possível ver em seus olhos a vontade que ele tinha de confortar e fazê-la acreditar que ele jamais seria como Andrew ou qualquer outro babaca que passara pela vida dela anteriormente.
Meu olhar se cruzou com o de , que estava esparramado no meu outro sofá e, pela expressão em seu rosto, não tinha a mínima ideia de como confortar o amigo.
- Ela só está um pouco chateada, mas nada que não possa ser resolvido com um passeio e uma conversa. Esse encontro vai esclarecer as coisas - falei em um tom de voz calmo e mostrei um sorriso encorajador.
- Mas, , eu não posso obrigá-la a sair comigo - ele ressaltou.
- Eu não diria que a palavra certa para definir é obrigar - disse e ri levemente. - Você vai organizar tudo e ela vai ficar tão derretida que não vai ter como recusar. Não estaria sugerindo isso se não visse que ela tem vontade de sair com você, apesar do medo. Eu mesma não gosto de caras que forçam a barra.
Senti um frio na barriga quando me dei conta do significado das minhas próprias palavras e do quão controversa eu estava sendo. havia forçado a barra e me feito mudar de ideia, eu estava adorando ficar com ele. Talvez fosse uma exceção, ou talvez fosse a prova de que eu precisava ser menos teimosa e cabeça dura… Ok, acho que fico com a primeira opção.
Não pude saber se também se dera conta das minhas palavras, pois agora ele mexia no celular e sequer parecia prestar atenção em qualquer outra coisa.
- Essa vai ser minha última tentativa - declarou, dando-se por vencido, e eu o abracei de lado, soltando um gritinho animado.
- Vai dar certo, . Pense positivamente.
Depois de combinarmos cada passo que seria dado para que o bendito encontro se realizasse, anunciou que estava indo embora e, para minha surpresa, disse que o acompanharia. Não pude evitar a decepção por não ter ao menos alguns minutos a sós com naquele dia, mas disfarcei meu descontentamento e os acompanhei até a porta. Eu não havia notado nada de errado, até que se despediu com o selinho mais chocho de todos os tempos e me peguei imaginando se ele havia entendido o que eu disse como uma indireta.

Capítulo Quinze

POV

Eu não fazia ideia de a quanto tempo estava ali, parada, sentada no sofá, encarando o vaso com tulipas vermelhas na mesa de centro da sala. havia dito que me faria mudar de opinião sobre encontros e que meu problema estava nas pessoas em que eu escolhia ter encontros e não nos encontros em si, que tudo o que eu precisava era aceitar sair com ele uma vez. Confesso que, se essas palavras viessem de outra pessoa, eu a consideraria prepotente, mas era impossível pensar isso sobre . E o fato era que eu havia, enfim, concordado com um encontro com ele e, desde esse dia, alguém sempre comentava como o humor dele estava diferente. Eu negava, claro, eu não queria nem acreditar na possibilidade de ele estar diferente porque eu aceitei sair com ele, mas nesse momento, encarando as seis tulipas e o cartão ao meu lado, eu não sabia o que pensar.

Espero que tenha gostado. Preferiria ter te entregado em mãos, mas os planos para mais tarde funcionarão melhor assim.
Um carro irá te buscar às 16h, não se atrase.
.

Balancei a cabeça, deixando os pensamentos de lado e indo atender a porta quando ouvi a campainha.
- O que está fazendo de pijama até agora? - perguntou com certo desespero, entrando no apartamento.
- Hoje é sábado. - dei de ombros como se não fosse importante.
- Exatamente, hoje é sábado, o sábado de sair com o e, se não me engano, você tem menos de duas horas pra ficar pronta. - ela sorriu, querendo me empurrar para o banheiro, mas não me mexi.
- Eu não vou, .
- COMO É? - gritou.
- Eu não vou - repeti. - Ele está esperando muito desse encontro e eu não posso fazer isso com ele.
- Fazer o que, ? - ela cruzou os braços e me encarou séria.
- Dar esperança - respondi, frustrada. - Eu só aceitei sair com ele porque você insistiu - confessei. - E eu achei que ia ser algo simples, mas já recebi flores - apontei para as tulipas - e um carro vai me pegar aqui em menos de duas horas.
- Ele te mandou tulipas? - o ânimo na voz dela era palpável e eu apenas assenti. - ! Ele te mandou tulipas vermelhas! - o sorriso dela era enorme, como se ela quem tivesse recebido as flores.
- Eu sei, . Você não prestou atenção em mais nada que eu falei? - perguntei, contrariada.
- Prestei, você está com frescura e quer fugir do primeiro encontro decente da sua vida. - abri a boca, indignada, mas ela continuou: - Você sabe o que as tulipas vermelhas significam?
- Nem ideia.
- Significam declaração de amor. - abri a boca novamente.
- Agora que não posso fazer isso mesmo! - minha voz soou um pouco desesperada.
- , me dê um bom motivo. - ela estava séria.
- Você prestou atenção no que você disse? Declaração de amor - repeti, tentando imitá-la, e ela rolou os olhos.
- E dai?
- É o nosso primeiro encontro e ele já está declarando o amor...
- Para de besteira! Não vou nem te deixar continuar falando. não mandou essa flores pra dizer que te ama, para de paranoia. Me recuso a acreditar que você quer cancelar o único encontro com um cara decente que te apareceu em anos.
- Mas, ...
- Mas nada, . Você vai a esse encontro que ele planejou com carinho pra te surpreender, vai ficar feliz por ter recebido tulipas e não rosas como todos fazem e vai aproveitar o fim de tarde com uma pessoa que gosta de você. - eu abri a boca para interromper, tinha dedo dela no meu encontro, ou a mão inteira, mas ela não permitiu. - A menos que você me diga que ele não mexe com você. - ela me encarou com um sorriso convencido. - Se esse for o caso, penso em te deixar desistir.
Fui pega de surpresa. Claro que mexia comigo, não enxergava um mundo onde ele não mexesse com alguém. Educado, atencioso, inteligente, fofo... Eu só me recusava a admitir em voz alta o que ela tanto queria ouvir de mim.
- Fala - ela me desafiou.
- Não. - neguei com a cabeça.
- Não o que, ? - o sorriso continuava lá, irritante.
- Não vou dizer isso.
- Por que não? - insistiu.
- Porque não é verdade, ok? - respondi me dando conta de que tinha admitido o que ela queria. - É óbvio que ele mexe comigo. - suspirei.
- Bom, agora que a verdade foi dita e você não tem mais argumentos idiotas para querer não ir, vai se arrumar.
- Não posso. - sentei no sofá e abracei minhas pernas evitando olhar para minha amiga. Ela suspirou audivelmente.
- Qual o problema agora, ? - ela se colocou na minha frente, fazendo com que eu a encarasse e eu apenas neguei com a cabeça. - Não! - ela me olhou acusadora. - Não me diga que você está naquela paranoia de idade de novo! Ou então que é tudo por causa daquela sua promessa imbecil de que não ia se envolver com ninguém por pelo menos um ano.
- Eu não posso fazer isso, . Eu me apego fácil, você sabe disso. Todas as vezes que me envolvi com alguém rápido assim eu só saí na pior. E ainda tem o fato de eu ser mais velha mesmo.
- não é nenhum desses babacas, por que é tão difícil pra você entender isso? Você é só dois anos mais velha, larga de besteira.
- Eu também pensei isso de todos os outros e olha onde estou. - eu sabia que meus argumentos na realidade eram ridículos e que eu só estava com medo. - Se eu sair com ele hoje vai ser impossível não ficar mais apaixonada por ele.
- Ai meu Deus! - ela deu um gritinho e só então me dei conta do que tinha falado, voltei a apoiar minha testa nos joelhos escondendo meu rosto. - Mais apaixonada? Quer dizer que você já está apaixonada pelo ! - a empolgação dela não ia sumir tão cedo.
- E tem como não ficar? - minha voz saiu abafada por eu ainda estar escondendo o rosto. - Ele é uma das pessoas mais apaixonantes que eu já conheci na vida. - me atrevi a olhar para ela e o sorriso dela era maior do que eu esperava. - Para de me olhar assim. - ela gargalhou e eu optei por colocar o resto do meu medo pra fora. - Eu não posso correr esse risco, . A última coisa que eu queria era me apaixonar depois de tantas experiências frustradas e aí aparece alguém como o só pra colocar tudo isso à prova.
- , me escuta. - a encarei. - Só vai se arrumar, porque você já perdeu mais meia hora nessa gracinha aqui.
Acabei me levantando e indo para o quarto sem ter ideia do que vestir.
- Só espero não me arrepender - murmurei, sabendo que ela me escutaria.
- Eu prometo que você não vai se arrepender - ela falou isso com tanta convicção que parei de andar e ela trombou em mim. - Ei! - reclamou. - Por que parou do nada?
- Por que você insiste tanto nisso de que eu não vou me arrepender e de que não é igual aos outros? - ela foi pega de surpresa, pude ver pela sua expressão.
- Porque ele não é. - ela tentou escapar.
- , sério… - eu não ia desistir, não agora que tinha visto sinais de que ela realmente sabia de algo que eu não sabia.
- Não posso te falar - ela confessou entrando no meu quarto e entrei logo atrás.
- Pode sim - insisti.
- Nem eu devia saber disso, não posso te contar. - continuei olhando pra ela, ela ia acabar falando. - , você tem que me prometer que não vai dar com a língua nos dentes!
- Você fala como se eu contasse segredos toda hora. - rolei os olhos.
- Eu sei que o não vai te decepcionar como os outros fizeram porque… - ela parecia nervosa. - Porque ele está arriscando muito mais do que você pensa ao querer esse encontro.
Agora eu estava confusa.
- Arriscando mais?
- O já esteve noivo, .
Meu queixo caiu e meus olhos com certeza estavam arregalados.
- Como é? - eu só podia ter ouvido errado. Ele tinha só 22 anos, como ele podia ter sido noivo?
- Eu não sei de muita coisa, foi o que deixou escapar e nem deu muitos detalhes.
- Ele só tem 22 anos, como pode ser sido noivo? - ela riu do desespero em minha voz.
- Parece que ele tinha uma namorada desde os 17 anos, eles namoraram por três anos e ficaram noivos. Estavam noivos há quase um ano quando ela terminou tudo.
- Por quê?
- Isso eu não sei. Só sei que o disse que ele ficou arrasado por um bom tempo e foi quando ele focou completamente na música e no estúdio. E, ao que tudo indica, você é a primeira pessoa depois disso tudo que ele pareceu disposto a ter um encontro.
- Ótimo! - reclamei. - Agora ainda tem a pressão de ser um encontro perfeito.
- Nem comece. Primeiro que você nem sabe disso e segundo que ele só quer passar um tempo com você.
- Tem dedo seu nisso, não tem?
- Não vou responder.
- Já respondeu. - sorri abrindo meu armário sem ter nem ideia do que deveria vestir, já que não sabia aonde iria. - E já que você sabe mais do meu encontro do que eu, escolha uma roupa adequada enquanto tomo meu banho.

Milagrosamente, eu tinha ficado pronta pouco antes da hora em que o tal carro me buscaria. havia separado um vestido tomara que caia branco com pequenas flores na cor laranja, solto depois da cintura e um palmo acima do joelho. Eu tinha feito uma leve maquiagem, já que estávamos saindo de dia, e tinha escolhido deixar o cabelo liso. Calcei sapatilhas pretas, coloquei um brinco e passei meu perfume preferido antes de deixar o quarto.
- Tem certeza que está adequado? - dei uma voltinha na frente dela.
- Está sim. - ela piscou. - Vai seduzir o . - rolei os olhos.
- Acho melhor eu descer e esperar o tal carro lá embaixo - disse, pegando minha bolsa na mesa. Ela concordou com a cabeça e me seguiu. Tranquei a porta e entramos no elevador.
- Bom encontro. - ela sorriu e eu percebi que estava nervosa. - E não me volte pra casa sem dar ao menos um beijo nele! - eu ri e dei um tapa de leve nela, antes de ela descer no andar dela.
Me olhei no espelho do elevador só pra garantir que estava tudo certo, respirei fundo e saí, notando um carro preto na porta do prédio.
- Senhorita ? - o motorista que estava de fora do carro perguntou e concordei.
- Sou eu. - tentei sorrir, imaginando por que tinha mandado realmente um motorista para me buscar.
Ele abriu a porta para que eu entrasse e logo estávamos atravessando as ruas de Londres. O caminho foi mais silencioso do que eu esperava, tocava uma música qualquer no rádio em volume baixo e aos poucos fui percebendo que estávamos próximos da Westminster Bridge. Olhei pela janela e, quando vi a London Eye, senti um arrepio; se nosso encontro fosse lá, os planos do eram mais românticos do que eu imaginava. Porém, o motorista virou em outra rua e eu soube que nada tinha a ver com a London Eye.
- Pronto, senhorita - o motorista disse, estacionando o carro e abrindo a porta pra mim em seguida.
- Muito obrigada. - sorri e ajeitei meu vestido, só então percebendo onde eu estava.
Era o Sea Life, o aquário mais perfeito que eu conhecia. Pelo menos eu tinha achado perfeito nas duas vezes que meus pais tinham me levado quando ainda era criança. Sorri sozinha, constatando que era ideia de . Eu havia comentado recentemente o quanto tinha vontade de voltar ao aquário após tantos anos e ela devia ter dado a dica a , que, por sinal, estava vindo em minha direção com um sorriso de tirar o fôlego. Ele vestia uma camiseta preta e jeans claros, e meu sorriso bobo estava no meu rosto.
- Oi - ele disse, beijando minha bochecha em seguida.
- Oi - repeti o que ele havia feito e ele colocou uma mão nas minhas costas, me conduzindo pela entrada que estava praticamente vazia. - Obrigada pelas flores, são lindas. - lembrei de agradecer e pude ver que ele estava satisfeito.
- Que bom que gostou. Preferi te entregar antes porque ficar andando com elas aqui atrapalharia o passeio - ele fez questão de explicar e eu comprovei que acharia tudo o que ele fizesse fofo demais.
- Não acredito que nosso encontro vai ser aqui. - dei uma volta olhando o primeiro túnel do aquário e, se ele continuasse me olhando e sorrindo daquela forma, eu provavelmente não prestaria atenção em nada além dele. - Começou bem, senhor - elogiei e o puxei pela mão para começarmos o trajeto.
A primeira parte do aquário era o Nemo’s Kingdom, eu tinha dado cinco passos apenas e estava apaixonada pelos peixes palhaços em meio às anêmonas. Tinha lido as informações na placa perto do vidro falando sobre os tentáculos das anêmonas serem venenosos e sobre os peixes palhaços não serem exclusivamente brancos e laranjas, dentre outras curiosidades. Aos poucos fui notando os outros peixes como o borboleta-bicuda, que tem uma mancha que parece muito com olhos na cauda para enganar os predadores, peixes anjo-imperador listrados de amarelo azul e branco, e, para minha felicidade, achei alguns peixes como a Dory do filme. Dei alguns passos para trás e peguei o celular para tirar uma foto, percebi que me olhava parecendo satisfeito e eu me sentia uma criança naquele lugar.
- Não ria de mim! - reclamei depois de tirar a foto.
- Você não faz ideia da graça que fica admirando tudo isso. - desviei meu olhar, voltando a encarar o vidro.
- Que peixe mais esquisito - comentei, apontando para um deles. - Você já tinha visto?
- Não e vou confessar que não entendo nada de peixe ou criaturas marinhas.
- Você nunca veio aqui? - perguntei, disfarçando o espanto.
- Não que eu me lembre, talvez tenha vindo com meus pais…
- Olha! É uma mini-lagosta! - percebi que estava empolgada demais ao ver o mesmo olhar no rosto dele e balancei a cabeça, podendo ouvir ele rir. Voltei a segurar em sua mão a fim de continuar a caminhada pelos túneis.
O segundo habitat era de cavalos e dragões marinhos, não me lembrava de tê-los visto fora da televisão.
- Pela cara que você fez acho que não é muito fã desses.
- Esses dragões são esquisitos, mas os cavalos são bonitinhos, olha esse pequenininho.
- Quer que eu tire uma foto? - neguei com a cabeça e tirei outra foto.
- Vou tirar só deles mesmo, quando estivermos nos animais que mais gosto eu deixo você tirar. - pisquei e voltei a andar, percebendo que estar de mão dadas com ele não me incomodava.
- E quais são os animais que você mais gosta?
- Você vai descobrir… ! Pinguins! - eu estava maravilhada ao vê-los em uma fila em cima do gelo, pulando na água em seguida.
- Acho que já descobri. - o empurrei com o ombro.
- Pinguins são um deles sim, olha que graça eles nadando. - encarei , que não parecia ver tudo aquilo que eu achava.
- Você não gosta muito disso, né? - perguntei e soou mais chateado do que eu pretendia. Se não gostava, por que ele havia me trazido, então?
- Estou gostando sim. - me fez cócegas e voltei a sorrir. - Eu só não sou tão empolgado. - ele deu de ombros. - Posso tirar a foto agora? - concordei com um aceno e me posicionei na frente do vidro.
Depois de mais alguns minutos vendo os pinguins brincarem, seguimos para a próxima atração, as tartarugas.
- Gosta dessas também?
- Sim, olha aquela em cima da pedra. Deve ser filhote.
- Não sabia que elas ficavam desse tamanho. - disse quando uma nadou bem próxima ao vidro.
- Você gostou delas. - eu me senti vitoriosa. - Posso tirar uma foto?
- Não. - fiz careta.
- Por que não?
- O que eu vou fazer com uma foto dessas?
- Se lembrar de que veio aqui…
- Pra isso eu já tenho a sua com os pinguins. - desviei o olhar ficando sem graça com a resposta.
- Eu quero uma foto sua aqui mesmo assim. - dei de ombros com o celular na mão.
-
- … - o imitei. - É só uma foto.
Ele se deu por vencido e eu tinha amado a foto. Ele acabou tirando outra foto minha e voltamos a andar pelo local.
O próximo não me atraiu muito, era mais o habitat do que criaturas, eu tinha conseguido identificar algumas estrelas do mar, tinha achado um caranguejo em meio às anêmonas e passamos para o próximo túnel sem fotos.
- Águas-vivas. - andava na minha frente agora e eu percebi que os animais que chamariam a atenção dele seriam os que eu tinha certo medo de ver.
- Gosta delas? - perguntei um pouco distante do vidro.
- São interessantes, parecem bonitinhas e inofensivas, mas fazem um estrago. - tirei uma foto sem que ele visse enquanto ele admirava o tanque, tinha ficado linda, como eu achava que todas as fotos dele eram.
Algum tempo depois, já tínhamos passado por lulas, polvos, jacarés e crocodilos e arraias, e era a parte em que conseguíamos ver o próprio Tâmisa pelos vidros. Eu amava aquele azul, era tudo tão lindo, e, quando vi, já tinha tirado várias fotos minhas e do rio.
- O que está fazendo? - perguntou quando o abracei e caminhei até o vidro.
- Tirando uma foto de nós dois. - agradeci por ele estar atrás de mim e não ver meu rosto, provavelmente um pouco vermelho. Eu não me reconhecia ali, com ele, solta e sem preocupações, e por hora preferi ignorar e seguir.
- Acho melhor se eu tirar essa foto. - ele pegou o celular da minha mão e realmente tinha ficado melhor, meu braço era muito curto para uma selfie boa.
De repente, notei que não havia ninguém naquela parte além de nós dois e era muito estranho.
- , não está achando estranho só ter nós dois aqui não? - perguntei, olhando para os outros túneis, tentando ver alguém.
- Não, é que o parque fechou há 10 minutos. - olhei para ele como se ele tivesse problemas.
- E o que ainda estamos fazendo aqui? - comecei a procurar uma saída e ele segurou meu braço.
- , calma. O parque fecha uma hora mais cedo quando tem evento, por isso está vazio.
Continuei encarando , esperando a explicação por estarmos lá ainda e ele estava sorrindo!
- O que foi? - me sentia perdida.
- Não tem evento nenhum, eu “reservei” como um evento para que a gente pudesse aproveitar o… O passeio.
Com certeza não era aquilo o que ele ia falar, mas meu cérebro tinha parado no “eu reservei”. Ele me olhava esperando uma reação e eu não sabia como exprimir tudo o que eu senti naquele momento. tinha realmente planejado tudo e não tinha ideias de como agradecê-lo por realmente ser o melhor encontro da minha vida.
- Você não tem juízo nenhum, né? - tentei soar séria, mas seria impossível tirar o sorriso do meu rosto pelo resto do dia. - Reservar um evento em todo o aquário só pra gente… - Deveria ter sido uma fortuna, mas achei mais educado não falar isso.
- E teria reservado antes se soubesse que ia te ver com esse sorriso.
Senti meu rosto esquentar e olhei para o chão, já que nem assim meu sorriso diminuiu. Sua mão, que até então segurava meu braço, foi para minha cintura, nos deixando mais próximos do que já estávamos, e não tive escolha a não ser voltar a encarar seus olhos, que sorriam. No instante seguinte, meus braços já estavam apoiados em seus ombros e nossos rostos bem próximos. Eu sentia uma ansiedade fora do normal, era como se meu estômago realmente tivesse borboletas e eu sentia que meu coração batia tão forte que até os peixes escutavam, no entanto, não tive tempo para pensar sobre nada disso, pois tudo sumiu da minha mente e da minha volta quando seus lábios encostaram nos meus.
separou seus lábios, fazendo com que os meus também se separassem e então aprofundou o beijo que foi prontamente correspondido por mim. Era um beijo calmo e muito, muito bom e eu esperava que fosse o primeiro de muitos. Não sei quanto tempo havia se passado quando nos separamos e eu estava mais sem graça do que estava antes, mas não desviei o olhar. Dei um selinho e voltei a caminhar com ele de mãos dadas. As palavras de ecoaram em minha cabeça e eu ri.
“E não me volte pra casa sem dar ao menos um beijo nele!”
- O que foi? - ele me olhou, curioso.
- Vai por mim, você não vai querer saber. - ele deu de ombros e eu parei de andar no meio do caminho, fazendo com que ele trombasse em mim. Pelo horário, a água já estava bem escura e as luzes de dentro do aquário não iluminavam como o sol do dia.
- O que foi, ? - perguntou ao ver minha careta.
- Tubarões - murmurei. Eu sabia que eles não passariam do vidro, mas mesmo assim eu não me sentia bem e senti um arrepio.
- Eu te protejo deles. - ele fez uma pose de galã, arrancando um riso de mim e em seguida passou um braço por meus ombros, entrando para ver os tubarões.
Não tinha sido tão ruim quanto eu esperava e, como eu tinha imaginado, estava fascinado pelas criaturas mais medonhas do aquário e eu tinha até tirado algumas fotos dos bichos e dele.
- E agora… - ele fez suspense. - A melhor parte! - ele colocou uma mão tapando meus olhos e me guiou com a outra, andando de costas.
- , você vai cair.
- Não vou não, agora é a hora da surpresa e você não pode ver. - forcei minha mente a lembrar do que ainda não tínhamos visto e não consegui pensar em nada.
- Nossa, esse túnel é mais longe do que os outros?
- Não, é só porque o melhor realmente vem no final. - e, dizendo isso, tirou a mão dos meus olhos e eu estava cercada por golfinhos.
Levei as mãos ao rosto em surpresa. Até onde eu sabia, lá não tinha golfinhos e eu sempre fui apaixonada por eles. Caminhei até o vidro ainda sem acreditar, olhando todos aqueles golfinhos brincando e nadando, tirei fotos e deixei tirar como ele queria e sabia que tinha passado mais tempo lá do que nos outros habitats. Ele tinha um sorriso vitorioso no rosto e, quando dei por mim, já estava abraçando ele.
- Obrigada! Foi realmente o melhor encontro da minha vida - declarei, sorrindo.
- E quem disse que acabou?
- Não acabou? - o olhei surpresa e ele voltou a me guiar pelo local. Subimos um lance de escadas e eu pude ver que tinha um tanque à nossa frente e, dos dois lados, haviam cadeiras dispostas como arquibancadas, além de que podíamos ver o céu.
- Bem-vinda ao show dos golfinhos.
Fomos andando até o melhor lugar de ver o show, segundo . Deviam caber umas mil pessoas ali e ele tinha reservado só para nós dois. Preferi ficar em pé para ver melhor e me abraçou por trás. Logo um casal com uniformes do aquário apareceu e, com os sinais que davam, os golfinhos realmente davam um espetáculo, sendo recompensados com comida quando concluíam a tarefa, e eu estava maravilhada. Comecei a caminhar para mais perto do tanque, com atrás de mim.
- , acho que não é bom chegar tão perto.
Assim que ele acabou de falar, os golfinhos terminaram o show, espirrando água para todos os lados e por pouco não me molhando em cheio. Haviam me molhado, mas muito pouco, e tudo o que eu fiz foi rir. Tirei mais fotos do tanque, conseguindo pegar parte do céu estrelado daquela noite. Caminhei até ainda encarando o céu.
- Obrigada, ! Foi perfeito, melhor do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar.
- Para mim também - ele confessou e colei novamente meus lábios aos dele, fazendo o que eu mais tinha vontade naquele momento.

Ao sairmos do aquário, ele disse que queria me levar para comer uma coisa e eu agradeci mentalmente por entrarmos numa lanchonete simples e aconchegante ao invés de um restaurante chique e caro. Ele havia cumprimentado alguém mais ao fundo, mas não pude ver, e nos sentamos em uma das mesas.
- Já conhecia aqui? - neguei com a cabeça. - Você vai comer o melhor hambúrguer da sua vida aqui.
- Não sei não... Já comi muito sanduíches maravilhosos por aí - o desafiei.
- Aguarde e verá.
Ele acenou para um dos atendentes e confirmou que ia querer “dois do de sempre”, refeição surpresa para mim.
A conversa estava leve, como sempre, e os pratos chegaram mais rápido do que eu esperava. Não pude deixar de arregalar os olhos ao ver o tamanho do sanduíche e a quantidade de batatas que o acompanhavam, além dos copos de refrigerante.
- ! - exclamei com a surpresa. - Eu jamais conseguirei comer um hambúrguer desse tamanho! - ele riu.
- Se eu fosse você não diria isso antes de experimentar. - ele piscou com um olho e, mesmo que fosse algo completamente inocente, eu me peguei admirando seus traços.
- Na verdade não sei nem como você consegue comer tudo isso - disse antes de colocar um pedaço na boca. - Meu Deus, ! Isso é delicioso. - coloquei outro pedaço na boca, só então notando que estava com fome.
- Eu te disse.
- Mas ainda não acho que eu consiga comer tudo isso.
Ficamos um pouco em silêncio enquanto comíamos e eu acabei parando primeiro, me sentindo mal por deixar comida no prato, mas bem satisfeita.
- Você vem muito aqui?
- Depois que a... - ele pareceu um pouco sem graça levando uma das mãos à nuca em um sinal de desconforto. - Depois que passei a me dedicar exclusivamente ao estúdio ficou mais prático comer aqui. Essa lanchonete é de um grande amigo do meu pai.
Ele voltou a comer e eu assenti, tomando um gole do refrigerante. Eu tinha percebido como ele tinha reformulado a frase, lembrando-me das palavras de , ele havia se dedicado ao estúdio depois que o seu noivado chegara ao fim. Não me sentia mal por ele não compartilhar aquilo comigo, afinal, não era mesmo apropriado para um primeiro encontro.
Depois de insistir muito com sobre eu estar realmente cheia e não querer nada de sobremesa, nem o milkshake que ele queria que eu experimentasse, combinamos que viríamos outro dia para tomar o famoso sorvete e agora fazíamos o caminho até meu apartamento.
Quase sem carros nas ruas, chegamos ao prédio após duas músicas. A tarde/noite havia sido ótima e eu não entendia o nervosismo que sentia no caminho de volta. Me sentia como a Cinderela, perto do fim do encantamento, mesmo que tivesse garantido que não brincaria comigo apenas para provar que primeiros encontros bons existiam.
- Qual o problema? - o ouvi perguntar enquanto soltava o cinto de segurança.
- Nenhum, por quê?
- Você costuma ser mais falante.
Não queria que ele tivesse percebido e coloquei uma mecha do cabelo atrás da orelha.
- Acho que estou cansada. - sorri e me aproximei para me despedir dele. - Obrigada de novo por hoje.
Depositei um beijo em sua bochecha, ou achei que o tinha feito até sentir os lábios macios dele novamente nos meus. Automaticamente, levei minhas mãos à sua nuca e senti as dele em minha cintura. O beijo não era como os primeiros, embora ainda calmo, era como se estivéssemos receosos antes e agora estivéssemos mais à vontade. Quando nos afastamos, mantive o sorriso no rosto, confiante de que eu não estava em um conto de fadas.
- Boa noite, .
Levei a mão para abrir a porta, mas ele me impediu, voltando a me virar para o lado e me beijando mais uma vez, dessa vez mais urgente e curto, como se quisesse guardar aquilo sem saber quando aconteceria novamente. Sorri com meus pensamentos, dessa vez abrindo a porta e saindo do carro.
- Boa noite, .
Corri para dentro ao sentir o frio da rua e ele partiu. Dentro do elevador, me encarei no espelho, vendo o sorriso bobo pregado no rosto, sorriso que permaneceu da mesma forma até que adormeci.

Capítulo Dezesseis

POV

- Boa tarde. Vim devolver esse livro.
Desviei os olhos da tela do computador e encontrei uma garota do outro lado do balcão. Ela tinha fios de cabelo ruivos que formavam cachos definidos e belíssimos e, nos lábios, um sorriso cordial. Retribuí o sorriso e peguei o livro de Sigmund Freud sobre a teoria da sexualidade, logo concluindo que a ruiva simpática provavelmente era aluna do curso de Psicologia.
- Obrigada - falei, deixando o livro de lado.
Enquanto buscava por aquele exemplar no sistema para registrar a devolução, notei que a garota caminhou até um um rapaz que a esperava na porta. O que mais me chamou a atenção, na verdade, foi a camisa de listras horizontais brancas e azuis que ele vestia, uniforme do Queens Park Rangers. Ri sozinha ao lembrar do tweet que havia postado mais cedo debochando dos Rangers pela derrota no dia anterior que podia acabar deixando o Brentford como líder isolado do campeonato da segunda divisão inglesa quando a rodada se encerrasse. Os dois times eram o maior rival um do outro, o que acabava deixando o final da temporada ainda mais emocionante.
O casal se beijou rapidamente e saiu da biblioteca de mãos dadas. Escorei minhas costas na cadeira, suspirando longamente enquanto checava o celular apenas para me decepcionar mais uma vez por não encontrar nenhuma notificação. Bufei e larguei o aparelho de qualquer jeito sobre a mesa. Estava achando impressionante como tinha tempo para ficar de bobeira no Twitter, mas, para me mandar uma mensagem, estava sempre ocupado.
Já era sexta-feira e não nos falávamos desde domingo à noite, quando tentei arrancar dele alguma informação sobre o que havia achado do encontro com . No fim das contas, tudo o que consegui foi uma resposta extremamente vaga sobre ele ter adorado e estar planejando um segundo encontro, pois logo disse que teria um treino pela manhã e precisava dormir. Minha amiga ficou eufórica com a resposta, bem diferente de mim, que só conseguia pensar em quão distante estava; mas, como a covarde que sou, acabei não fazendo nada para mudar a situação. Aquele silencioso era novidade para mim e eu estava descobrindo que não sabia lidar com todo aquele espaço entre a gente.
O celular vibrou, chamando minha atenção, e o peguei depressa. Fiz uma careta quando não me deparei com a mensagem que queria receber, era apenas avisando que estava me esperando no portão da universidade. Só então me dei conta de que meu expediente já havia se encerrado há mais de 10 minutos. Logo me pus a arrumar minhas coisas e, em seguida, me despedi dos meus colegas de trabalho e caminhei apressadamente até onde minha melhor amiga me aguardava.
- Até que enfim! - exclamou assim que eu estava próxima o suficiente. - Vamos logo, o ficou de passar lá no prédio daqui a uma hora pra buscar a gente.
- Buscar a gente pra quê? - questionei, confusa, a seguindo pela calçada.
- O jogo do , ué. O que mais seria? - ela respondeu com obviedade e acabei ficando ainda mais confusa. Minha amiga notou, pois se virou para mim enquanto atravessava a rua a passos largos, indo na direção do ponto de ônibus. - O não te falou sobre o jogo de hoje?
Abri a boca algumas vezes, sem saber ao certo o que falar. Eu até sabia que o Brentford jogaria naquele dia e estava planejando assistir pela televisão, já que o estádio deles não ficava próximo à minha casa, mas sequer imaginava que havia nos convidado para ir à partida. E eu estaria mentindo se dissesse que não ter recebido o convite do próprio não me incomodou profundamente.
- Não, ele não falou - respondi baixinho, por fim.
franziu o cenho, me fitando.
- Que estranho - ela disse, mas, alguns segundos depois, deu de ombros. - Tanto faz. Ele provavelmente sabia que você ficaria sabendo por mim.
- Ou, talvez, ele não queira minha presença - rebati, fitando minhas sapatilhas pretas de bolinhas brancas que eram uma gracinha.
- , - falou em um tom de repreensão. - Não começa a se martirizar com uma besteira dessa. Ele deve estar ocupado com os treinos e não deu pra falar.
- Eu não ligo - falei, tentando soar indiferente. - Os homens são todos malucos, já estou acostumada.
Escutei minha amiga suspirar, mas notei que o ônibus chegava ao ponto e, sem dar oportunidade para que ela dissesse qualquer coisa, subi no mesmo.
não voltou a tocar no assunto durante todo o caminho até em casa, acredito que tenha notado a minha falta de vontade de conversar sobre aquilo. Quando cheguei em casa, fui tomar banho e me arrumar para ir ao jogo. Sabia que não teria muito poder de escolha, teria que ir por bem ou por mal.

- Caramba, eles precisam chutar de fora da área - falei, já agoniada com a falta de finalizações desde o início do jogo. - Vai ser impossível passar por essa defesa, olha como eles estão recuados.
- Não vai ter outro jeito mesmo - , que estava sentado ao meu lado, concordou. - Se ficarem nessa de querer entrar com bola e tudo esse jogo vai acabar sem gol nenhum.
- Parece que eles estão segurando a bola na grande área pra descolar um pênalti - disse. Estava na fileira de trás com .
- Esse é o jeito mais preguiçoso de fazer gol, fala sério - falei, rolando os olhos. - Se eu fosse técnica já tinha mandado eles chutarem de longe, é muito mais bonito e eficiente.
Nos minutos seguintes, o jogo não mudou muito de cenário. O Brentford tentava penetrar a pequena área com toques curtos, estilo de jogo que certamente era inspirado no Barcelona da época que foi treinado pelo Pep Guardiola e na Seleção Espanhola que ganhou a Copa do Mundo. Era um futebol bonito de se ver, não nego, mas que tornava o jogo ainda mais complicado quando contra um time que estava praticamente com o ônibus estacionado em frente ao gol. Estava mais do que claro que não levar gol era a principal prioridade do outro time, o problema era que um empate por 0x0 não seria muito útil para o Brentford.
Olhei para trás e vi e conversando baixo, eu nem conseguia entender sobre o que conversavam. Os dois estavam bem próximos, de mãos dadas, estavam agindo como um casal fofo e apaixonado e aquilo estava me entediando. Não me entenda mal, eu estava feliz por ver os olhos da minha melhor amiga brilharem como jamais havia visto brilharem antes. E os de não estavam muito diferentes. Como eu já esperava, eles estavam se dando muito bem, já até pareciam um casal de namorados. Eu não havia os visto se beijando ainda, fora o selinho com que se cumprimentaram quando entramos no carro do , mas a forma como eles conversavam e sorriam um para o outro, como se não existisse mais ninguém no mundo, deixava claro que algo forte estava nascendo entre os dois.
O que me incomodava era perceber que, mesmo depois de tantas semanas ficando com , nós ainda não havíamos feito nenhum progresso como um casal. Eu gostava do jeito despreocupado dele e de suas provocações, mas, vendo a forma como estava tratando a depois do encontro, uma vontade de receber aquele mesmo cuidado, aquele mesmo carinho, crescia dentro de mim. E isso era extremamente frustrante; nós sequer havíamos tido um encontro!
- Que golaço, porra!
Levei um pequeno susto com o berro de e, em seguida, a torcida preencheu o Griffin Park, estádio do Brentford F.C., com uma gritaria contagiante. No campo, pude ver sendo cumprimentado pelos companheiros de equipe e bufei, irritada por ter perdido o gol.
- Caramba, , que batida de falta foi essa? Parecia o Cristiano Ronaldo! - exclamou com empolgação, me fazendo soltar um riso sem graça.
- Pois é… - eu disse baixo, mas acabou que sequer deu atenção.
voltava para o campo do Brentford para a saída da bola e olhou na nossa direção. Senti um frio na barriga, pois parecia que ele olhava diretamente para mim, mas, por conta da distância, não pude ter certeza. Ele abriu um sorriso e levantou o polegar, cumprimentando , que ainda berrava feito um maluco. Quem não o conhecia, certamente estava achando que era um torcedor fanático do Brentford e fã número um do .
Alguns minutos depois do gol do , o time adversário conseguiu empatar o jogo com um gol de cabeça durante uma cobrança de escanteio. O empate persistiu até o fim do segundo tempo, quando um zagueiro do outro time cometeu uma falta boba dentro da grande área e, com um pênalti, o Brentford conseguiu uma vitória por 2x1 sofrida e, finalmente, liderava a tabela do campeonato sozinho. A dificuldade só fez com que a vitória fosse ainda mais comemorada pela torcida.
- Esse jogaço merece uma comemoração no Red. O que vocês acham? - perguntou, passando o braço pelos ombros de e a puxando para mais perto dele.
Já havíamos deixado a arquibancada e estávamos em um corredor do estádio onde o acesso era restrito. Esperávamos por , que estava no vestiário e ainda participaria da coletiva de imprensa sobre a partida. Mesmo sem saber se teríamos motivos para comemorar ou não, todos estávamos arrumados para sair depois do jogo.
- Concordo que a gente precisa comemorar, mas que tal um local diferente? - rebateu com uma careta. - Não me levem a mal, mas a gente vai ao Red quase toda semana.
- Também acho. Até eu já estou enjoando - disse, rindo.
- O que vocês sugerem? - questionou, olhando de uma para a outra.
- Sei lá, podemos ir a alguma boate - respondeu e, com um sorriso animado, continuou: - Estou com vontade de dançar.
- Tem aquela perto da minha casa - sugeriu. - Uns amigos meus frequentam, deve ser legal.
- Por mim, tudo bem. Não tenho plantão nessa madrugada, preciso aproveitar - falou, rindo.
- Só tem um probleminha, gente. Hoje é sexta e, provavelmente, vai lotar - disse, atraindo as atenções para si. - Acho melhor a gente ir logo, senão vamos passar a noite na fila e não vai dar pra aproveitar nada.
- A gente pode ir na frente e a fica aí esperando o boy magia dela, né? Acho justo - brincou e eu apenas o lancei um olhar entediado, fazendo ele gargalhar.
Por dentro, entretanto, eu estava em pânico só de pensar em ter que encarar sem nenhum apoio moral depois de tantos dias sem falar com ele. Eu deveria colocá-lo contra a parede ou fingir que ele não estava agindo como um completo babaca?
- Vão vocês quatro. Eu e ficamos aqui fazendo companhia pra - disse e, quando a encarei, ela me mostrou um sorriso cúmplice que prontamente retribuí em agradecimento.
Ainda não havíamos tido a oportunidade de conversar, mas ela provavelmente tinha notado que algo não estava certo entre eu e o .
Quando os dois casais se retiraram, logo peguei meu celular para me distrair. e estavam entretidos em uma conversa e preferi não atrapalhar, já que não estava no clima para bater papo.
Algum tempo depois, surgiu no fim do corredor com alguns colegas de time e, antes de se juntar à gente, se despediu deles.
- E aí? Como está se sentindo sendo o novo líder do campeonato? - falou em um tom divertido, fazendo sorrir ao cumprimentá-lo com um abraço rápido.
- Confesso que a ficha não caiu ainda - ele respondeu e se aproximou de para beijá-la nas bochechas. Voltando a fitar o amigo, continuou: - Só mais duas rodadas pra gente ir pra primeira divisão e, se Deus quiser, levantar o troféu. Parece até um sonho.
- Você merece, cara - disse e deu um tapinha no ombro de . - A gente decidiu ir comemorar a vitória numa boate, , e as meninas até foram na frente pra garantir nosso lugar na fila. Vamos?
coçou a nuca, parecendo hesitante, e seu olhar se cruzou com o meu por dois segundos.
- Beleza - respondeu, por fim, mesmo que não parecesse muito animado para ir à boate.
saiu puxando pelo corredor e me senti trêmula ao me ver sozinha com . Nos encaramos silenciosamente por alguns segundos, até se aproximar e me puxar pela nuca para grudar nossos lábios. Apesar de todo aquele clima estranho entre a gente, ele me beijou com a mesma intensidade de sempre, que me fazia querer beijá-lo mais e mais. Quando nos separamos, ele abriu a boca como se fosse falar algo, mas acabou fechando-a e entrelaçou sua mão à minha.
- Você vai comigo no meu carro, né? - ele questionou, me guiando pela mesma direção por onde e haviam seguido.
- Tanto faz - respondi indiferente, dando de ombros.
Estava amolecida pelo beijo, mas não seria o suficiente para apagar aqueles dias que estava sendo ignorada da minha memória. não podia simplesmente agir como se nada tivesse acontecido.
Depois disso, o silêncio voltou a se instalar entre a gente e não nos abandonou quando nos acomodamos nos bancos do carro de e ele dirigiu pelas ruas de Londres. O álbum do Coldplay que botou para tocar tornou o caminho até a boate um pouco menos constrangedor.

Eu devia ter ido para casa quando tive a oportunidade. Cheguei a tal conclusão ao perceber que não queria dançar, não queria beber e, para completar, a música alta e o ambiente lotado estavam me incomodando. O tédio me consumia. As meninas estavam na pista de dança e, mesmo sentada em uma mesa na companhia dos garotos, eu não me sentia muito à vontade para participar da conversa. E olha que eles conversavam sobre futebol e eu adorava conversar sobre futebol.
estava sentado ao meu lado e um dos braços dele estava sobre meus ombros, de forma que nossos corpos estavam bastante próximos. Aquela situação estava me incomodando. Ele agia como se estivesse tudo bem, como se não estivesse me tratando com indiferença há quase uma semana inteira e aquilo me preocupava. Eu precisava de sinceridade, não queria cair novamente na mesma armadilha de estar com um cara que às vezes estaria comigo, às vezes não.
Me remexi para me soltar de e ele retirou o braço, me possibilitando levantar. De pé, me estiquei para pegar minha bolsa, que estava em cima da mesa, e notei que me encarava com curiosidade.
- Vou ao banheiro - anunciei e ele apenas assentiu com a cabeça.
Quando adentrei o toalete feminino, logo me arrependi. Havia ido até ali apenas para escapar da confusão por alguns minutos e acabei por encontrar outra confusão. O banheiro estava lotado; parte das mulheres estava em uma fila para usar uma das cabines, parte estava retocando a maquiagem em frente ao espelho. Me juntei ao segundo grupo para checar se meu visual estava ok e não demorei a sair de lá. Ao tomar o caminho de volta à mesa, senti dois braços me agarrarem por trás e soltei um gritinho.
- Que susto, seu maluco! - exclamei quando me virei e me deparei com . Entretanto, estava aliviada por não ser um estranho.
Ele riu abertamente e me puxou para mais perto, até me envolver em um abraço desajeitado. Tentei me soltar, mas ele começou a distribuir um monte de beijos pelo meu rosto, me fazendo rir e, consequentemente, relaxar. Deixei que ele unisse nossos lábios e iniciasse um beijo entusiasmado que correspondi com o mesmo fervor.
Nossas línguas se embolavam conforme as mãos de passeavam pelas laterais do meu corpo e eu acariciava seus ombros e nuca, me fazendo esquecer completamente do incômodo que eu sentia anteriormente.
Não sei quanto tempo ficamos ali no meio da boate trocando beijos e carícias, talvez tenha durado duas ou três músicas, mas só recobrei a consciência quando se afastou e saiu andando, me puxando pela mão. Subimos uma escada que levava ao segundo andar da boate, onde tinha um bar e o ambiente estava um pouco mais tranquilo. Ele se sentou em um banco e eu imitei seu gesto, enquanto o via pedir duas cervejas, que logo foram postas no balcão. Não estava muito a fim de beber qualquer coisa alcoólica, mas acabei dando algumas goladas no copo servido pelo barman.
- Por que você está me ignorando?
O questionamento de chamou minha atenção e eu levantei os olhos na direção dele, enquanto colocava o copo de volta no balcão. Pude perceber que ele estava confuso com a indignação que eu demonstrava em meu rosto.
- Eu estou te ignorando? Eu? - perguntei, soando ofendida.
- Você não falou comigo direito desde que nos encontramos no estádio - ele se explicou e eu abri a boca ainda mais indignada.
- Faz dias que você não fala direito comigo e sou eu quem está te ignorando? Me poupe, !
Me virei para frente sem me importar em disfarçar minha irritação e peguei o copo e o levei à boca.
- Ai, merda - escutei dizer em meio a um suspiro. - Eu não estava te ignorando, . Claro que não.
Terminei de engolir a cerveja e pus o copo no balcão com mais força do que deveria.
- Ah, não? Quer dizer que eu sou louca e estou imaginando coisas?
- Não! - ele prontamente exclamou. - Pensei que, sei lá… você quisesse um pouco de espaço. Não quero que você fique comigo só porque estou forçando a barra.
Confesso que levei alguns segundos para digerir as palavras de . Como desconfiei, parecia que ele realmente havia entendido o que falei para sobre não gostar de caras que forçam a barra como uma indireta.
- Mas você também não fez o mínimo esforço pra falar comigo - ele voltou a falar, dessa vez em um tom acusatório.
- Claro que não! Você queria que eu ficasse correndo atrás de você que nem uma idiota? - questionei e, ao vê-lo abrir a boca para falar, o interrompi antes que ele começasse. - Você precisa achar um meio termo, . Realmente odeio me sentir forçada a ficar com alguém, mas também não gosto nem um pouco de ser ignorada. Pra ficar com alguém desse jeito que a gente está ficando, prefiro ir pra balada todo fim de semana e pegar um monte de desconhecidos sem compromisso. Pelo menos esses caras deixam bem claro o que querem e não vão me fazer de trouxa.
- Eu quero ficar com você, ! Pensei que isso estivesse bem claro.
- Não, não tem nada claro aqui - eu disse, balançando a cabeça negativamente. - Depois de agir de um jeito estranho comigo por dias, você vem me beijar como se a gente tivesse algum compromisso, como se eu estivesse disponível pra quando você quiser ficar comigo. E se eu quisesse ficar com outro cara hoje?
- Você quer ficar com outro cara? - rebateu em um tom chocado. Parecia até mesmo um pouco ofendido.
- Não, . Eu só quero que você se posicione - eu disse e soltei um longo suspiro.
- Você quer oficializar o que está rolando entre a gente, é isso? - ele questionou e eu apenas o fitei em silêncio. Depois de respirar fundo, ele questionou com a voz mais mansa: - Namora comigo, ?
Confesso que meu coração bateu um pouco mais forte. Até certo ponto, era o que eu queria. Meus sentimentos por já começavam a ser mais do que uma simples atração física, mas eu ainda estava insegura a respeito de relacionamentos. Edward também me fez acreditar que gostava de mim e, no final das contas, me dispensou na primeira oportunidade. Eu tinha tanto medo que aquilo acontecesse de novo. Precisava de algo mais concreto, precisava ter certeza de que estava fazendo a coisa certa.
- Não desse jeito. Preciso mais do que alguns amassos pra ser conquistada - falei, por fim, me levantando e pendurando a bolsa no ombro.
permaneceu me fitando, a expressão em seu rosto indecifrável. Mostrei um sorriso fraco antes de dar as costas e seguir pela boate, rumo ao primeiro andar. Preferi ir embora sem avisar o resto do pessoal. Eles saberiam por , de qualquer forma, mas pelo menos eu já estaria longe o bastante para não ter que lidar com questionamentos.
Eu só esperava, lá no fundo do meu coração, que realmente estivesse disposto a me conquistar, pois eu estava mais do que disposta a me deixar ser conquistada.

Continua...

Nota da Babi: (12/10/2016) Pois é, gente. Parece que agora o jogador vai ter que ralar pra esse jogo virar hahaha. E o produtor e a PP dele in love? Valeu a pena a espera, né? :P
Quem quiser, pode chamar no Twitter: @babisotello. E não deixem de entrar no grupo do Facebook!
Beijos e até breve!

Nota da Lari: (12/10/2016) Eu bem que falei que esse jogador precisava de umas aulas com o produtor, né... Olha se isso é um pedido de namoro decente! hahaha
Enquanto isso o outro casal está nas nuvens, porque a vida é assim, quando um se acerta o outro se desentende. Quero só ver o que o jogador vai arrumar para reconquistar a pp dele. Se você tem ideia do que ele vai fazer ou sugestão, escreve no comentário pra gente!
Beijos e até mais

You Make Me Wanna (One Direction/Finalizada - Especial de fim de ano de IDWBIL)
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