Autora: Cris Turner | Beta: Babs



Capítulos:
| 01 | 02 | 03 | 04 | 05 | 06 | 07 | 08 | 09 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 - parte I |
| 15 - parte II | 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 |


Prólogo

Alcancei minha bolsa dentro do meu armário e a joguei sobre o ombro.
- Vejo você em casa - acenei para Lorelai quando passei pela porta da pequena livraria onde nós duas trabalhávamos.
Era quase seis e meia da tarde. Meu turno havia acabado há pouco e o dela apenas começara. Caminhando por entre as ruas lotadas, puxei meu celular do bolso traseiro e verifiquei se havia alguma mensagem ou e-mail precisando de resposta. Como sempre, não havia nada. É certo que a faculdade de medicina prejudica a sua vida social, mas aquilo já era ridículo. Eu estava em Londres há cinco meses e meus únicos amigos eram minha colega de quarto (que também era minha colega de trabalho) e o namorado dela.
Patético. Eu sei.
Torci os lábios em uma careta de desagrado e guardei novamente meu celular.
Quando levantei a cabeça, avistei uma Starbucks a poucos metros. Acelerei o passo e logo estava dentro daquele ambiente familiar. Minutos depois saía com um copo de café na mão. Tomei alguns goles e meu humor melhorou alguns graus. Desci para o metrô, andei duas estações e depois voltei para a rua. Agora só mais uns quinze minutos de caminhada e eu estaria em casa para mais uma super divertida noite de sexta-feira mergulhada em um dos meus livros sobre anatomia humana.
Patético. Eu sei.
Meu celular apitou o sinal de mensagem de texto. Puxei o celular e destravei a tela. "Não se esqueça de comprar leite" era o que dizia. Revirei os olhos e beberiquei um pouco do meu café. Estava digitando a resposta para Lorelai quando um grito estridente de puro pânico assustou todos ao redor. Levantei a cabeça por reflexo. Duas mulheres do outro lado da pista de automóveis olhavam horrorizadas para uma menininha que disparava em direção a elas. Uma das mulheres, em um ato de desespero, fez menção de tentar alcançar a garotinha. A mulher, contudo,nunca chagaria a tempo de evitar uma tragédia - havia seis faixas de carros a toda velocidade separando as duas. Arregalei os olhos.
Senti o copo de café e meu celular escaparem por entre meus dedos. E, no segundo seguinte, eu estava correndo em direção à garota e para dentro do trânsito furioso de Londres.



Capítulo Um

Lutei por um instante contra minhas pálpebras pesadas. Meu corpo inteiro doía. Eu me sentia mais cansada do que jamais estive na vida. Levei minhas mãos aos olhos e os esfreguei, falando com a voz ainda grogue:
- Lorelai, você não tem ideia de com o que eu sonhei - ainda de olhos fechados graças ao cansaço, estiquei os braços por sobre a minha cabeça. - Eu sonhei que tinha uma garotinha correndo por entre os carros e que eu tinha corrido para tentar salvá-la.
- ?
Abri os olhos rapidamente ao ouvir uma voz gentil que definitivamente não pertencia a minha colega de quarto. E meu espanto só aumentou quando reparei no lugar onde estava. Era tudo branco e silencioso, o total oposto do que meu dormitório era nas primeiras horas da manhã - quando todos se aprontavam para as aulas do dia.
- O que diabos está acontecendo? - soltei um gritinho histérico.
- Querida, por favor, acalme-se - a mesma voz falou.
Virei para o lado e focalizei a pessoa que falava comigo. Era uma mulher que aparentava ter quarenta e poucos anos. Seu rosto era estranhamente familiar.
- Quem é você? E por que eu estou em um hospital? - perguntei ao perceber os pacotes de soro.
- Querida, você não se lembra? - uma segunda voz feminina falou.
Como foi que eu não percebi a outra mulher no quarto? Ela aparentava ter a mesma idade da primeira mulher.
- Quem são vocês? - estava quase chorando agora, a confusão pesava em meu estômago, deixando-me tonta.
- , acalme-se, por favor. Iremos explicar tudo a você. Eu sou e essa é minha amiga - a primeira mulher disse. - Você não estava sonhando. Há pouco mais de três horas, minha filha mais nova soltou a mão da babá e atravessou correndo a rua para tentar chegar até nós duas.
Flashes de imagens trovejaram em frente aos meus olhos.
Uma garotinha correndo. Eu estava correndo. A buzina de um carro. E o impacto doloroso antes de tudo sumir na escuridão.
- Oh! - levei minha mão direita á boca para conter a exclamação de susto e só então percebi os arranhões que a cobriam. - Ela está bem?
As duas olharam interrogativamente para mim.
- A garotinha... digo, a sua filha. Ela está bem? - perguntei com a voz trêmula e impaciente.
abriu um sorriso meigo e pude ver lágrimas formarem-se em seus olhos.
- Sim, ela está bem. Graças a você - falou com a voz embargada. - A babá dela é uma senhora de idade e não pode correr para alcançá-la, mas você conseguiu - ela colocou uma mão sobre a minha e apertou-a gentilmente. - Muito obrigada. Eu serei eternamente grata a você.
- Imagina... - falei, um tanto quanto sem graça. - Qualquer um teria feito o mesmo.
- Não, não teria não - dessa vez foi quem falou. - O que você fez foi muito corajoso. Você correu bem para frente de um carro para ajudar uma pessoa que você não conhecia. Você empurrou Emily e a jogou na calçada, mas o carro atingiu você. Eu sinto muito por isso.
Arregalei os olhos, só agora digerindo realmente a gravidade da situação.
- OH MEU DEUS! Como eu estou? Foi muito grave? Eu vou morrer? - cuspi as frases, enquanto tentava mexer meus braços e pernas para ter certeza de que eles ainda estavam no lugar.
Foi quando eu senti. Ou, melhor, não senti minha perna esquerda.
- MINHA PERNA! O QUE HOUVE COM A MINHA PERNA?
- Querida, por favor, acalme-se. Eu já chamei o médico. - falou, apertando o botão ao lado da cama.
Estava prestes a cair num choro incontrolável quando a porta se abriu e por ela passou um médico segurando uma prancheta.
- DOUTOR! O QUE HOUVE COM A MINHA PERNA? EU NÃO CONSIGO MEXÊ-LA!
- Senhorita , por favor, acalme-se - falou, muito calmo. - Você não consegue mexê-la por que ela foi engessada.
Quando a última palavra penetrou em meu cérebro foi que eu consegui recuperar um pouco de controle emocional. Quebrada. Minha perna estava apenas quebrada.
- Foi só isso? De verdade? Nada mais grave? Eu não sofri um traumatismo ou uma concussão? - disparei em cima do médico. - Houve perda de sangue? Isso afetou meu cérebro de alguma maneira? O fluxo de oxigênio não foi interrompido? Há chances de...
- Querida, por que você não respira fundo e deixa o doutor Carter falar o que houve? - falou gentilmente, pondo a mão em meu ombro na tentativa de me acalmar.
Fiz como ela disse e o médico falou:
- Obrigado, senhora - depois olhou para mim com um sorriso divertido. - Você sabe coisas demais para uma leiga.
- Eu estou cursando o primeiro ano de medicina - falei orgulhosa de mim mesma. - Ah! Desculpe pelo interrogatório, doutor - senti minhas bochechas arderem. - É que a gente vê tantos casos naqueles livros que acaba ficando um pouco paranoica.
- Sem problemas - sorriu novamente. - Eu já passei por isso também - checou a prancheta em suas mãos. - , os resultados dos seus exames mostraram que não há nada de errado com a senhorita além de uns pequenos arranhões e da perna quebrada. O carro que a atingiu devia estar numa velocidade mais baixa.
- Ele estava freando para tentar não atingir Emily, mas não foi o suficiente para parar a tempo. - nos informou, a expressão séria.
Doutor Carter acenou com a cabeça, em sinal de entendimento.
- Por sorte nada de mais grave aconteceu.
Sorri, aliviada.
- Então, quando eu posso tirar o gesso? Daqui duas semanas?
- Receio que haja um problema quanto a isso.
Franzi o cenho sem compreender o que ele queria dizer.
- Como assim? - foi quem perguntou.
- Senhorita , você quebrou a perna em três lugares diferentes...
- TRÊS? - gritei.
- ...e isso significa que terá que ficar com o gesso por, no mínimo, três meses - continuou, ignorando totalmente meu grito de espanto.
- TRÊS MESES? - gritei, exasperada. - O senhor ficou maluco?!
Ele me lançou um olhar compreensivo.
- Sinto muito. Vou deixá-las a sós para que possam conversar.
- Espera um pouco... - exclamei enquanto ele caminhava para fora do quarto. - Doutor, doutor! Volte aqui! - chamei, mas ele já fechava a porta.
- Como assim três meses?! Como eu vou entrar no meu dormitório durante esse tempo? Como eu vou contar pros meus pais que eu quebrei a perna? - escondi o rosto nas mãos, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto me afundava em problemas.
- , vai dar tudo certo. Você gostaria que nós chamássemos alguém da sua... - começou.
Só então eu percebi uma coisa.
- Como você sabe o meu nome? - olhei em seus olhos claros.
- Você derrubou sua bolsa quando foi ajudar Emily. Nós a pegamos para você - apontou para um canto do quarto onde havia um sofá e, ao lado desse, uma mesinha sob a qual reconheci minha bolsa. - Infelizmente tivemos que abrir sua bolsa para procurar seus documentos para interná-la aqui. Nós pedimos desculpas por isso - franziu os lábios, parecendo descontente consigo mesma.
Fiz um gesto com a mão para mostrar que suas desculpas não eram necessárias. Alguém vendo a foto horrorosa do meu passaporte parecia ser o menor dos meus problemas no momento.
- Não tem problema - tentei forçar um sorriso, o qual desapareceu imediatamente devido ao que ela disse a seguir.
- Infelizmente, o seu celular se quebrou quando caiu no chão.
Aquela foi a gota d'água.
Senti um bolo se formar em minha garganta e as lágrimas começarem a surgir em meus olhos. Todos os eventos daquele dia desabaram em mim de uma vez. O medo de não conseguir salvar a garotin... Emily, a adrenalina daquele momento, acordar em um lugar desconhecido, cercada por pessoas desconhecidas, ter quebrado a perna e finalmente o meu celular quebrado - o que resultava em mais um gasto.
Lágrimas começaram a correr em meu rosto e imediatamente estava ali, passando os braços por mim em um abraço maternal enquanto sussurrava que tudo ia ficar bem. Aos poucos fui me acalmando, porque meu lado lógico - o qual sempre predominou em meu consciente - dizia que chorar não iria resolver nada.
Respirei fundo, estava prestes a agradecer o abraço quando a porta do quarto foi aberta violentamente e cinco meninos passaram como um furacão por ela.
- MÃE! - dois deles gritaram ao mesmo tempo.
O de cabelo mais claro seguiu direto para , a qual me soltou e jogou os braços ao redor do seu filho. O outro correu para . Os três restantes revezaram a atenção entre os amigos e eu. Olhei aquela cena sem entender nada. E por que eu tinha a impressão de já ter visto esses garotos antes?
Franzi o cenho, analisando atentamente os cinco garotos no quarto. Eu tinha certeza agora. Eu já tinha visto eles. A questão era onde.
- Mãe, como a senhora me manda uma mensagem dessas? O endereço do hospital, o número do quarto e a palavra urgente embaixo? - soluçou o garoto nos braços de . - Eu pensei que alguma coisa grave tinha acontecido.
Onde foi que eu os vi...? Onde foi...?
- Vocês quase nos mataram do coração - a voz rouca do garoto que abraçava soou pelo quarto.
- Nós quase enlouquecemos. O trânsito não andava e nós estávamos do outro lado da cidade - um dos três garotos comentou.
- Por isso levamos tanto tempo pra chegar aqui - outro garoto.
- E o pior de tudo é que vocês duas não atendiam o celular. Nós ficamos muito desesperados - o último deles completou, passando a mão pelo cabelo.
Então o reconhecimento estalou em minha cabeça.
- É ISSO! - gritei, atraindo todos os olhares para mim, inclusive o olhar daqueles abraçados as suas respectivas mães, os quais só agora pareceram perceber que eu também estava no quarto.
- Eu sei de onde conheço vocês!
Apontei para os meninos, praticamente pulando na cama, tamanha minha excitação por finalmente ter lembrado. Meu caráter meio perfeccionista não me deixava desviar de um problema enquanto não o resolvesse. E, quando eu conseguia resolvê-lo, sempre era envolvida por uma alegria quase infantil.
- Eu sei de onde conheço vocês! - repeti, abrindo um sorriso de contentamento. - São vocês que cantam a música sobre a menina jogando o cabelo!



Capítulo Dois

Todos eles me lançaram sorrisinhos divertidos.
- Sim, somos nós - um dos três garotos confirmou. Ele parecia ser o mais sério do grupo.
- One Way? Certo?
- Quase - o filho de respondeu, sorrindo. - É One Direction. E quem é você?
- - respondi, corando de vergonha por ter errado o nome da banda deles.
- Prazer, - sorriu outra vez, os braços ainda firmes ao redor da mãe. - Eu sou . E esses são , - apontou para o filho de - , e .
Todos eles acenaram para mim ao ouviram seus nomes. Foi só depois de apresentar-me todos que eu não conhecia, que pareceu perceber uma coisa. Ele franziu o cenho e olhou para mim e depois para a mãe dele.
- Mãe, por que nós estamos aqui? Aliás, por que vocês estão aqui? E onde está Emily?
respirou fundo e começou a explicar:
- Filho, nós quatro estávamos em uma avenida quando e eu resolvemos atravessar para o outro lado e visitar uma loja. Quando estávamos esperando o semáforo ficar vermelho para atravessarmos de volta, Emily nos viu do outro lado da avenida e soltou a mão da sra. Smith - ela parou para ganhar fôlego e coragem para continuar.
inconscientemente apertou os braços da mãe, empalidecendo ao imaginar o pior.
- Filho, filho, está tudo bem - sua mãe começou a falar freneticamente. - Emily está bem. Não tem nenhum arranhão.
relaxou o aperto em volta da mãe e pude jurar ver uma umidade suspeita rondando aqueles bonitos olhos dele - lágrimas de alívio que ele teimosamente segurou. Abri um pequeno sorriso ao vê-lo bancando o forte para não preocupar a mãe.
- Está tudo bem graças a essa jovem - ela soltou-se do filho e colocou uma sobre meu braço.
Senti o sorriso morrer em meus lábios quando cinco pares de olhos totalmente incrédulos se cravaram em mim. Eu não gostava muito de ser o centro das atenções.
- Não... não, não, não. Não foi bem assim... eu estava só...
- Foi exatamente assim - dessa vez foi quem me interrompeu. - Nós duas não podíamos fazer nada - engasgou um pouco nas palavras amargas. - Foi a pior sensação do mundo. Pura impotência – sacudiu a cabeça. - Mas saiu correndo bem a tempo de empurrar Emily para calçada. E por causa disso o carro a atingiu.
Um silêncio pesado preencheu o quarto.
- Pode me chamar de - tentei me apegar ao mais irrelevante de seu pequeno discurso a fim de quebrar o clima estranho.
Não funcionou. Todos continuavam num silêncio mortal, apenas me encarando. Mordi o lábio inferior e alisei a manta branca que estava sobre mim, subitamente considerando-a a coisa mais interessante do mundo.
- Qualquer um teria feito o mesmo... - tentei novamente, ainda alisando a manta.
- Não - sacudiu a cabeça. - Aquele foi o ato mais corajoso que eu já vi na vida.
- Qualquer um teria... - comecei novamente, mas fui interrompida por uma parede de músculos se jogando em cima de mim.
- Muito obrigado - sussurrou com intensidade, abraçando-me da melhor maneira que podia considerando que eu estava parcialmente deitada numa cama, tendo apenas as costas encostadas em dois travesseiros.
- Está tudo bem. Tudo bem. Sua irmã está bem - falei com o resto de fôlego que tinha, pois seu peso e a força do abraço estavam quase me esmagando. - Eu... não con-consigo res-pirar.
Ele levantou-se em um pulo.
- Desculpe. Desculpe - apressou-se.
- Não... não tem problema - falei, puxando o maravilhoso oxigênio para dentro dos meus pulmões. - Eu entendo a sua reação. Sei como família é importante.
- Ah! Falando nisso, querida, nós quase nos esquecemos de perguntar - começou. - Você não gostaria de ligar para algum familiar e avisar que você está aqui? Eles devem estar preocupados.
Senti meu coração apertar um pouco com o sentimento de saudade.
- Eles estão no Brasil - abri um sorrisinho triste.
- Ah! Então é de lá o seu sotaque! - exclamou.
Isso fez-me sorrir de verdade. Aquele garoto era tão fofo e espontâneo. Dava vontade de apertar aquelas bochechas fofinhas.
- Oh! Entendo, querida... - falou, recolocando a mão sobre meu ombro e o apertando, tentando me confortar.
- Isso não é problema. É apenas saudade - comentei, olhando para ela. - Eu sempre fui bastante independente. Problema mesmo vai ser subir para o dormitório com essa per... - parei no meio da sentença ao perceber que estava jogando minhas desventuras em cima deles.
É que a mãe de tinha aquela aura maternal que envolve a gente e nos sentimos como se estivéssemos falando com nossa própria mãe.
- Qual dormitório? - indagou ao perceber que eu não continuaria minha linha de raciocínio.
- Não é nada... Esqueça o que eu disse - sacudi a cabeça.
- , por favor, nos diga o que está acontecendo. - pediu.
- Sério. Não é nada demais. Eu só estava pensando alto.
- Por favor - pediu mais uma vez.
E no segundo seguinte eu já estava falando porque era totalmente impossível alguém resistir àquela carinha de animalzinho de estimação que ele estava fazendo.
- Eu ganhei uma bolsa de estudos para medicina na faculdade de Londres. Foi por isso que eu saí do Brasil e vim para cá faz cinco meses - todos eles acompanhavam atentamente minha explicação. - E eu moro no terceiro e último andar de um dos dormitórios da faculdade. O problema é que lá não tem elevador.
Eles me olhavam sem entender nada. Revirei os olhos e continuei, batendo de leve no gesso da minha perna:
- E agora... com a perna desse jeito...
Compreensão se espalhou pelos rostos de todos.
- Não tem como você pedir para trocar por um dormitório no primeiro andar? - indagou.
- Não - torci os lábios em sinal de desagrado. - As regras são claras: não há troca de dormitórios durante o ano letivo sob nenhuma hipótese.
- Mas e a faculdade? É longe do dormitório? - franziu o cenho, parecendo preocupado.
- Não é tão longe. Vinte minutos de caminhada. E lá tem elevador.
- Como você pretende andar vinte minutos com a perna desse jeito? Gesso pesa, sabia? Você por acaso pratica algum exercício físico? - disparou, olhando-me atentamente.
- Bom, eu não... o caso é que eu sou meio sedentária, entende? - corei um pouco.
Sabia que devia ter entrado na academia esse ano ou no ano passado... ou em qualquer um dos outros anos em que essa foi a minha promessa de ano novo. Vai ver isso era castigo do universo por eu não ter cumprido minha promessa... Payback is a bitch.
- Nenhum dos seus amigos tem carro? - foi a vez de perguntar.
Todos os meus dois amigos?, ironizei mentalmente.
- Não. Eles não têm nem carteira. Eu vou dar um jeito. Sério, gente - completei ao ver os olhares preocupados ou de piedade que eles me lançavam.
- Eu tenho uma ideia! - exclamou de repente, saindo de seu estado silencioso e pensativo. Estado esse que parecia estranho nele. Tão estranho que até mesmo eu que acabara de conhecê-lo podia dizer que o silêncio era uma coisa atípica nele.
- Nós temos um quarto extra em nosso apartamento, não é mesmo, ? - olhou para o amigo.
Franzi o cenho, revezando meu olhar entre os dois garotos. A situação não poderia ficar mais confusa. e ficaram em silêncio por um momento, parecendo imersos numa conversa silenciosa. Então, depois de alguns segundo, ele balançou a cabeça afirmativamente e o rosto de iluminou-se em um sorriso imenso. Tombei a cabeça para o lado.
- O que isso tem a ver com a situação? - perguntei, tentando soar o menos rude possível.
- Tem tudo a ver com a situação! - sua animação era tanta que ele parecia prestes a anunciar a cura do câncer. - Você vai morar com a gente até tirar o seu gesso!



Capítulo Três

Eu tento levar a vida de maneira descomplicada, sabe? Sou adepta de pequenas coisas que deixam a vida menos estressante – até porque fazer faculdade de medicina já usa toda a sua cota de estresse – coisas tais como: não dirigir no trânsito maluco, não falar alto porque ninguém gosta de gritos estridentes, não julgar as pessoas pela aparência porque elas são enganosas... Coisas desse tipo.
Foi graças a esses meus princípios que eu tentei não formar um juízo sobre quando ele apareceu no meu quarto de hospital de maneira impetuosa e usando uma calça vermelha demais. Mas até eu admito que por vezes nossos princípios estão errados e as primeiras impressões estão corretas. Foi por isso que eu falei com um sorriso forçado:
- Claro. – balancei lentamente a cabeça algumas vezes.
Depois virei para e falei – ainda com o sorriso falso e tentando não mover os lábios – a primeira impressão que tive sobre o filho dela:
- Acho que seu filho está precisando buscar ajuda profissional. Talvez ele esteja com uma noção errada da realidade – usei eufemismos e mantive o sorriso forçado, não querendo que o Maluco-da-calça-vermelha ouvisse e surtasse de vez.
Penso, todavia, que não fui tão discreta quanto pretendia porque assim que terminei de falar o quarto explodiu em gargalhadas.
- , eu posso ouvir o que disse e também posso garantir que não sou louco. – afirmou em meio a risadas.
A risada deles me mandou para o limite da paciência e, como consequência, eu resolvi mandar a cautela pro espaço:
- Não é louco? NÃO É LOUCO? – fui aumentando o tom a cada palavra. – VOCÊ ACABA DE CONVIDAR UMA ESTRANHA PARA MORAR NA SUA CASA E NÃO É MALUCO? E O PIOR DE TUDO É QUE VOCÊ AINDA PARECE PENSAR QUE EU VOU ACEITAR!
Eles ficaram em silêncio. O único som no quarto era minha risada histérica.
- , você precisa se acalmar. Respire fundo, sim? – falou, envolvendo completamente minha pequena mão que estava sobre a cama com a sua forte e grande.
E eu me vi fazendo exatamente o que ele pedira.
- Assim mesmo. Isso mesmo. – a voz rouca dele continuou.
Depois de recobrar o controle, desviei minha atenção para .
- Desculpe – murmurei baixinho. – Eu não tinha direito de gritar com você. Mas tem que concordar comigo que sua piadinha foi bem sem graça, não?
Os bonitos olhos do filho de estavam grudados nos meus – eles me analisavam atentamente enquanto eu esperava sua reação.
- Você tem um irmão, ?
- Qu-que ?
- Você tem um irmão? – repetiu pacientemente.
- Não. E também não vejo a relevância dessa pergunta – franzi o cenho.
- Pois você tem um agora – sorriu, apontando para si mesmo. – Você salvou a vida da minha irmã. Isso faz de nós dois seus irmãos agora.
- Não faz não... – apontei o óbvio.
Se ele estava tentando me convencer de que não era maluco, estava fazendo um péssimo trabalho.
- Claro que faz. Tenho certeza de que está escrito em algum lugar. Não é mesmo? – buscou apoio nos amigos.
Todos eles acenaram com a cabeça e completou:
- Na verdade, como é nosso irmão e agora você é irmã dele, então você é irmã de todos nós! – exclamou alegremente.
Meu queixo caiu e eu comecei a piscar repetidamente.
- Sabe, eu estava errada. Você não é louco, . Você e o resto da sua banda são totalmente insanos!
E eu estava começando a me desesperar novamente.
- Querida, a ideia dele é boa. - começou.
- Até tu, Brutus? – perguntei incrédula.
- Ouça, querida. Você está com a perna engessada. Não tem como você subir as escadas de seu dormitório ou caminhar até o prédio onde tem aula.
- Mas eu...
- Por favor, querida, deixe-me terminar.
Fechei a boca no mesmo instante. Aquela aura maternal que ela tinha fazia com que eu me sentisse na presença da minha própria mãe.
- Os meninos estão em um pequeno período de pausa agora. Duas semanas eles têm. Depois eles vão começar a gravar o segundo CD deles. Isso vai levar uns... três meses, ?
Ele acenou com a cabeça.
- Isso é a cronologia perfeita! – ela terminou. – E eles podem levar e buscar você na faculdade. Todos eles têm carro e carteira de motorista.
Mordi o lábio inferior, tentando encontrar a melhor maneira de falar o que precisava ser dito.
- Eu... eu agradeço muito a oferta, mas eu não posso aceitar.
- Por que não? É perfeito! – dessa vez foi quem interveio.
- Não é que eu esteja desconfiando de vocês ou algo assim... – olhei para cama e respirei fundo. – Mas eu acabei de conhecê-los. Será que vocês não entendem? – passei a mão pelo cabelo, frustrada. – Eu sou uma estranha e você me convida para morar com você? Sim. Parece ser a solução perfeita, mas como eu vou saber que vocês não são psicopatas ou algo assim?
- Você está certa. – respondeu com sua voz profunda. – Não é certo confiar em estranhos.
Senti uma pontada de alívio por finalmente alguém estar entendo o meu ponto de vista.
- Mas eu acho que você deveria aceitar passar esses meses com a gente.
Revirei os olhos. Estava bom demais para ser verdade...
- Eu não vou...
- , você não percebeu? Nós somos mundialmente famosos. – continuou.
- Não se sinta ofendido, mas eu não ligo a mínima se vocês são os Beatles. Isso não vai me fazer mudar de ideia.
Ele sorriu de lado, divertido.
- Você não entendeu. O que eu quis dizer é que há fotógrafos atrás de nós o dia inteiro, então é impossível que sejamos psicopatas. Se nós pisamos fora da linha um pouquinho que seja, no minuto seguinte está tudo na internet. Isso pode não ser o suficiente para convencê-la, mas você devia pensar no assunto – ele terminou.
- Você pode contar aos seus amigos onde vai ficar. – acrescentou. – E eles podem visitar você todos os dias.
Revezei meu olhar entre os garotos, o cérebro trabalhando a mil para processar tudo que eles falavam.
- E nós cinco até podemos gravar um vídeo dizendo que se alguma coisa acontecer com você, nós somos os culpados. E deixamos com os seus amigos e se você não ligar todos os dias, eles podem colocar na internet ou entregar para a polícia e...
Arregalei os olhos.
- Ok, . Acho que ela já entendeu. – interrompeu o amigo. – Desculpe por isso, ele anda assistindo muitos filmes policiais ultimamente. – falou mais baixo, perto do meu ouvido e senti arrepios correndo pela minha coluna.
- , você pode ao menos tentar. – falou, esperançoso. – Você fica alguns dias lá em casa e, se não gostar, nós pensamos em outra coisa. Por favor. – suplicou.
- Eu não sei... – falei, cada vez menos segura sobre o que fazer. - Por que você insiste tanto? Isso não vai complicar a vida de vocês?
- Você salvou a vida da minha irmã, . – ele parou um minuto, a voz estava carregada de emoção. - É o mínimo que eu posso fazer. E, mesmo que você não aceite ficar lá em casa, não vai ficar livre de mim. Nós somos irmãos agora. Lembra? – abriu um sorriso genuíno, uma única lágrima escorrendo pela bochecha.
Aqueles bonitos olhos dele eram tão verdadeiros. Não conseguia imaginá-los magoando alguém...
Cerrei as pálpebras por um momento. Talvez eu estivesse prestes a cometer o maior erro da minha vida, mas alguma coisa me dizia que eu precisava fazer aquilo e foi por isso que eu voltei a encará-lo e falei:
- Tudo bem.
- Tudo bem? – perguntou confuso.
- Tudo bem. Eu vou morar com vocês.
E no seguinte segundo ele estava mais uma vez me esmagando entre seus braços fortes.
- , você está sufocando a . – apontou, preocupação em sua voz.
Soltou-me imediatamente.
- Desculpe, maninha. Eu fiquei meio empolgado. – passou a mão no cabelo, constrangido.
Acenei com a cabeça, achando estranho o jeito que ele me chamou, mas, pelo pouco que o conhecia, dava pra perceber que não adianta discutir. Observei o resto do quarto e todos eles tinham sorrisos enormes.
- Vai dar tudo certo, . – assegurou.
- É claro que vai. – eu quase podia ouvir o sorriso na voz rouca de . – Bem-vinda à família One Direction, . – ele apertou minha mão de leve.
E foi só então que eu percebi que não tinha soltado minha mão durante todo aquele tempo.



Capítulo Quatro

- ...e nós também podemos assistir vários filmes. – finalmente terminou a enorme lista sobre as coisas que iríamos fazer agora que iríamos morar no mesmo apartamento. – Vai ser tão divertido, sis. – ele tinha um sorriso imenso no rosto e falava como a animação de uma criança.
Limitei-me a balançar a cabeça, concordando.
- Claro, claro. Só temos que lembrar que preciso estudar. Certo? –apontei o óbvio.
- Ah! Isso aí também. – falou, com indiferença. – Nós podemos arrumar um tempinho para isso. Então, como eu estava dizendo... – e continuou o discurso que professava antes de ter sido interrompido.
Eu parei de prestar atenção.
“Um tempinho”? O cara definitivamente era maluco. Olhei ao meu redor para ter certeza de que os outros garotos – e tinham saído para ir à cafeteria – compartilhavam da minha opinião quanto a sanidade do amigo deles. estava com a cabeça baixa - mais interessado em seu iPhone, estava com a mão sobre a barriga reclamando para sobre estar com fome e assistia televisão. Nenhum deles pareceu surpreso com a longa “lista de atividades divertidas” que estava montado.
Revirei os olhos. Talvez aquilo fosse normal. Provavelmente eu é que teria que me acostumar com tudo aquilo. Era só... muita informação para absorver ao mesmo tempo. Isso sem contar a sensação estranha que estava me incomodando já fazia algum tempo: a sensação de que estava esquecendo alguma coisa importante.
- E eu já ia me esquecendo! – exclamou de repente, interrompendo o próprio monologo interminável. - Nós vamos levá-la para passar um dia conosco no estúdio!
- Isso seria ótimo. – sorriu, juntando-se a conversa.
- No estúdio tem comida.
- , pela última vez: se você está com tanta fome assim pode ir à cafeteria e comprar algo! – respondeu, esfregando a têmpora com as duas mãos.
- Já disse que estou com preguiça. Por que você não vai buscar comida pra mim, ?
Ele não respondeu, limitando-se a revirar os olhos em sinal de impaciência.
- É sempre assim? – perguntei baixinho ao .
- Não. – sacudiu a cabeça, sorrindo. – Normalmente é pior.
Franzi o cenho.
- É. é um poço sem fundo. – a voz rouca de soou ao meu lado. Virei o rosto e me deparei com aqueles olhos maravilhosos dele.
- Isso me lembra... – o objeto da nossa conversa interrompeu os próprios resmungos e aproximou-se lentamente da cama onde eu estava, a expressão no seu rosto era séria. – Você sabe cozinhar, ?
Sério? Toda aquela seriedade dele era só para me perguntar se eu sabia cozinhar?
- Sim, eu sei cozinhar.
- Que tipo de comida.
- O tipo brasileiro...? – minha resposta era tão óbvia que soou como uma pergunta.
Seus olhos brilharam.
- Nós seremos melhores amigos! – afirmou enquanto me abraçava da melhor maneira que podia.
Eu sempre pensei que os europeus eram um povo de pouca demonstração física de afeto. E, levando em conta meus meses de faculdade, parecia que essa teoria estava certa. Mas o One Direction parecia fugir totalmente a regra. Em menos de três horas na companhia deles, um deles resolveu que eu seria a sua “irmã” e o outro declara que será meu melhor amigo.
Esquisito. Muito esquisito.
Ao menos não era um esquisito assustador – ponderei, tentando olhar o lado positivo da situação.
Dei um tapinha nas costas de – que ainda me abraçava – e falei:
- Certo. Seremos sim. – concordei porque não adiantava discordar mesmo.
Ele me soltou.
- O que exatamente você vai cozinhar primeiro quando estivermos na sua nova casa? Porque, você sabe, tem que ter um jantar de boas vindas.
- E vou ter que cozinhar meu próprio jantar de boas vindas? – arqueei a sobrancelha, tentando não rir.
- Bom, eu não tinha pensado nessa parte. – franziu o cenho e uma coloração de rosa surgiu em suas bochechas, mas ele se recuperou logo. – Bom... não vejo problema em...
- É claro que você não vai ter que cozinhar seu jantar de boas vindas, . – interrompeu o amigo. – é quem vai cozinhar.
Encarei incrédula o meu mais novo “irmão”. Eu pensei que ele fosse se oferecer para fazer o jantar, não oferecer outra pessoa.
- Quê foi? – perguntou, não entendo minha surpresa.
- Tudo bem, . – falou. – Ele sempre faz isso. E eu adoro cozinhar. – sorriu.
Prendi meu olhar no dele. Como ele sabia exatamente o que eu estava pensando?
- Sempre faço o quê?
Desviou o olhar para respondeu ao amigo:
- Nada, não. E sobre aquela visita ao estúdio de que você estava falando? – mudou de assunto.
- Ah, sim. É verdade!
rapidamente começou outro discurso sobre o que faríamos no estúdio e e – que finalmente largara seu celular – se juntaram a conversa. Sorri, feliz pela mudança de assunto ter surtido efeito. Aquela “transmissão de pensamento” entre e eu havia me assustado um pouco. Meus amigos sempre diziam que era muito difícil alguém conseguir ler minhas expressões faciais, imagine então saber exatamente o que eu estou pensando. Por sorte ninguém percebeu minha surpresa frente aquele fato. Bom, era nisso que eu acreditava até ver um silencioso olhando atentamente para e eu com um sorriso de quem sabia muito da vida.
O que será que ele estava pensado? Queria ter o poder Edward-Cullen-ler-mentes do para saber.
Voltei minha atenção à conversa que se desenrolava na minha frente. Era uma conversa bem mais simples e sem significados ocultos.
- ...então você vai conhecer outras músicas nossas, não é, ?
Acenei com a cabeça.
- Quais você já conhece?
- A do cabelo.
- What makes you beautiful.
- Foi o que eu disse.
- Qual outra?
Pensei durante um momento ou dois.
- Provavelmente eu conheço outras, só não me lembro no momento. Ou não sei que a música é de vocês.
- Sério?
- Claro que é sério, . Por que eu mentiria pra vocês?
- Uma fã conseguiu sair com o uma vez usando essa ideia.
- Ideia? Como assim? – não estava entendendo mais nada.
- Ela fingiu que não conhecia a gente.
Pensei em expressar minha indignação e deixar bem claro que não estava fingindo coisa nenhuma, mas a curiosidade para saber mais sobre o encontro de foi maior.
- Deu uma de stalker. – continuou.
- E conseguiu um encontro com o aqui. – foi a vez de falar, passando o braço sobe o pescoço de , o qual parecia bem desconfortável com o assunto da conversa.
- Mas o encontro não durou muito porque a garota não era boa atriz e ele percebeu que ela era uma fã mentirosa.
E aqui havia mais uma surpresa para o meu dia.
- Suas fãs realmente fazem esse tipo de coisa? – falei lentamente, tentando imaginar a situação.
Todos eles sacudiram a cabeça, muito sérios.
- Lembra aquela menina que se escondeu na lata de lixo? – comentou, a expressão distante, lembrando do fato de que falava.
- Uma garota... se escondeu... num lixo por vocês? – estava tão chocada que nem conseguia organizar uma frase direito.
- Foi. Nós estávamos passando e...
foi interrompido pelo barulho que a porta do quarto fez ao se chocar contra a parede. Uma garota estonteante passou por ela, a expressão aflita enquanto olhava de um lado para o outro.
- ! – ela se jogou nos braços do garoto – O que aconteceu? Eu estava fora da cidade fotografando e só agora pouco vi sua mensagem. O que aconteceu? A Emily está bem? E ? E ?
Por que pessoas que eu não conhecia – e que possuíam a beleza de deuses gregos antigos – continuavam a entrar de maneira tão abrupta no meu quarto?
abraçou forte a garota, e começou a falar devagar, tentando acalmá-la:
- Está tudo bem, amor. Não aconteceu nada com elas. Estão todos bem. Graças a .
Do jeito que ele falava era como se eu tivesse salvado o mundo de passar pela Segunda Guerra Mundial. Tão exagerado...
- Quem é ?
- Oi. Sou eu.
A garota se virou, parecendo só agora se dar conta de que existiam outras pessoas no quarto além do garoto que ela abraçava. Ela me olhou sem falar nada, esperando uma explicação.
- A se jogou na frente do carro e salvou a Emily de ser atropelada.
- Eu só fiz o que qualquer um teria feito.
A garota abriu um sorriso imenso para mim e estendeu a mão.
- Olá, . Muito prazer, eu sou a . Obrigada por ter salvado a minha cunhada.
Apertei sua mão e sorri também. olhou para o namorado e disse:
- Amor, você podia ter me ligado para avisar o que aconteceu. Aquela mensagem não explicava nada e você não atendia o celular. Quase morri de preocupação.
E foi nesse segundo que aquela incômoda sensação de esquecimento fez sentido.
Arregalei os olhos e senti que empalidecia.
Ela ia me matar.



Capítulo Cinco

- , você está bem? – franziu o cenho ao perceber que provavelmente toda a cor havia fugido do meu rosto.
A atenção de todos no quarto mais uma vez se voltou para mim. Eu inspirava e espirava rápido, tentando controlar o nervosismo.
- ?
- E-eu... eu estou bem – consegui murmurar. – , será que você pode me emprestar seu celular?
- Claro – ele colocou a mão no bolso, pegou seu iPhone e deslizou o dedo sobre a tela algumas vezes antes de me entregar o objeto.
- Não que eu não queira que empreste o celular nem nada. E eu também não quero te ofender. – falava devagar como se ele estivesse pisando em um terreno perigoso. - Só por curiosidade mesmo... Onde está seu celular?
O canto do meu lábio se levantou involuntariamente e formou um sorriso em que não se mostrava os dentes. Aquele garoto simplesmente era a coisa mais fofa que eu já tinha encontrado. Sério que ele estava todo preocupado achando que sua pergunta me ofenderia? Eu tinha vontade de apertar aquelas bochechas rosada dele.
- Não me ofendeu, . me disse que meu celular quebrou quando eu derrubei minha bolsa ao correr para Emily.
- Que chato. – ele resmungou.
Dei de ombros. Já havia me acostumado com a ideia mesmo. Meu celular não era grande coisa mesmo.
- Eu posso fazer uma ligação?
Olhei para , que estava ao lado de um pensativo , só agora percebendo que não havia pedido a autorização necessária.
- Claro – olhou para mim como se eu fosse maluca por ter feito tal pergunta.
Eu acenei com a cabeça, agradecendo e digitei o único número britânico que eu havia decorado. Eu respirei fundo, reunindo coragem e levei o aparelho ao ouvido. Logo depois do primeiro toque uma voz desesperada respondeu do outro lado da linha:
- ALÔ? QUEM É? ? É VOCÊ?
- Oi, Lorelai, sou eu.
- ! – ouvi uma comoção ao fundo e uma voz masculina falando alguma coisa para minha amiga. – , VOCÊ ESTÁ BEM? ONDE VOCÊ ESTÁ?
- Eu estou... – pensei um pouco – bem.
- VOCÊ ESTÁ BEM? BEM? ENTÃO POR QUE SUA VOZ ESTÁ ESQUISITA? - a voz estava quase histérica agora e pude ouvir mais da voz masculina que por certo pertencia a Mark, talvez tentando acalmá-la.
- Sério, amiga. Eu estou...
- VOCÊ FOI SEQUESTRADA? É POR ISSO QUE SUA VOZ ESTÁ ESQUISITA? MARK, CHAMA A POLÍCIA! POR QUE ESTÁ DEMORANDO TANTO? MARK... o que você pensa que está fazendo... – a voz dela foi se distanciando. – NÃO! Sou eu que estou falando com... Me devolve...
Franzi o cenho. O que diabos estava acontecendo?
- ? – a voz do cara que até poucas horas atrás era meu único amigo inglês soou em meu ouvido.
- Mark? Está tudo bem ai?
- Tudo bem aqui? É claro que não. Lorelai está histérica. Ela surtou quando chegou ao apartamento e não encontrou você e... NÃO, LORELAI! – mais uma vez sua atenção não estava em mim. - Eu vou falar com ela. Você não está em condições de manter uma conversa séria no momento. Eu vou perguntar. Eu vou perguntar. , onde você está?
Eu respondi.
- Certo. Nós dois estamos indo. Chegamos em meia-hora.
A última coisa que ouvi antes de ele desligar o telefone foi minha amiga gritando: “COMO ASSIM NO HOSPITAL?”
Meu rosto se contorceu em uma careta ao pensar que eu teria que enfrentar a ira dela em poucos minutos. Devolvi o celular a e o agradeci. Todos eles olhavam para mim.
- Está tudo bem, ? – ele perguntou.
- Sim, sim. Por que a pergunta?
- Digamos que nós ouvimos uma voz acalorada saindo do telefone. – pareceu preocupado.
- Ah, sim – acenei com a cabeça em entendimento. – Aquela era minha amiga e colega de quarto, Lorelai. Digamos que ela não tem medo de expressar seus sentimentos. Ela está vindo pra cá. Não tem problema, né?
- Problema nenhum.
- Expressar seus sentimentos? – me olhava, divertido.
Mordi o lábio, pensando em como explicaria minha excêntrica amiga.
- É. Ela não tem medo de deixar o mundo saber como ela se sente. Seja raiva, impaciência ou, no caso, preocupação – tombei a cabeça para o lado. – Suponho que isso seja uma faca de dois gumes. É ótimo para a futura profissão dela, mas ela é uma droga no pôquer. Nunca ganha nenhuma partida.
- Ela não será uma advogada, então. – riu. Ela estava sentada no colo de na poltrona ao lado da cama.
- Não – ri imaginando minha amiga em um tribunal. Com certeza, seria uma cena bem engraçada. – Ela cursa artes plásticas.
- Sério? Deve ser muito legal – sorriu. – Eu curso filosofia em Manchester.
- Imagino que seja. Se você tem dom para isso. Filosofia? – confesso que estava um pouco chocada. - Eu poderia jurar que você era modelo.
O sorriso dela aumentou.
- Eu sou modelo. Mas, depois de muito planejamento feito com a ajuda de , eu consegui dar um jeito de fazer os dois.
Impressionante. A garota além de linda era inteligente.
- Qualquer dia desses você poderia me dar umas dicas sobre planejamento. Eu mal consigo administrar o meu trabalho e a faculdade. E eu moro na mesma cidade em que traba...
Fechei os olhos com pesar e esfreguei as mãos sobre o rosto.
- Que droga! – resmunguei. – Esqueci completamente do meu emprego.
Senti uma mão no meu ombro. Imediatamente eu sabia que a mão não pertencia a , pois não senti nenhum arrepio.
- Vai dar tudo certo, . Nós estamos aqui com você agora. – sorriu, tentando me confortar. – Pare de se preocupar tanto assim.
Abri um sorriso pequeno ainda olhando para ele. Apesar de tudo, parecia que eu havia encontrado amigos novos - amigos de verdade. Outra mão tocou meu outro braço, demandando minha atenção. E mandando choques prazerosos por toda minha pele.
- E onde você trabalha, ? – a voz de estava tensa.
Olhei para ele, tentando entender o porquê de seu tom esquisito, mas ele não olhava para mim e sim para . O que tornava tudo ainda mais confuso.
- Eu trabalho numa livraria pequena no centro.
- Então você gosta de livros? – interviu na conversa, tentando quebrar a tensão que se instalara.
-Sim. Eu adoro livros. Prefiro livros a música ou internet.
- Eu também adoro livros. Os clássicos são meus favo...
- Eu tenho o pressentimento de que isso vai mudar. – estava convicto.
Olhei interrogativamente para ele.
- Você vai morar três meses com cinco músicos. Vai ser meio difícil não se apegar a música.
Sorri. Acho que ele tinha razão. Afinal eu realmente iria passar três meses morando... peraí. Espera um pouco.
- Morando com cinco músicos? Eu pensei que era só você e .
- Sim. Mas nós passamos tanto tempo juntos que é como se todo mundo morasse lá em casa.
Concordei lentamente com a cabeça. Ao menos teoricamente eu só atrapalharia a vida caseira de dois deles.
- Entendo – voltei minha atenção para . – Você estava dizendo que prefere os clássicos?
Mas antes que ele pudesse responder, a porta do quarto se abriu de maneira normal – pela primeira vez desde que eu havia acordado. Meu sangue congelou por um minuto, meu cérebro conjurando maneiras de fugir da minha amiga histérica. Felizmente, contudo, quem entrou no quarto foram e , cada uma delas equilibrava uma bandeja contendo quatro copos com logotipos da Starbucks e um saco com o mesmo logotipo.
- Crianças, nós trouxemos...
foi interrompida por , que até então estava sentado no sofá do outro lado do quarto assistindo TV, avançando comicamente em um dos copos e na sacola que carregava.
- Oh meu Deus! Vocês leram meus pensamentos. Eu estava com fome – suspirou ao tomar um gole. – Eu amo tanto vocês. Tia – deu um beijo na bochecha dela – e Tia – na bochecha desta também. - Viu, ? É assim que pessoas que se importam com você se comportam. Elas vão à cafeteria e compram coisas pra você.
- Isso não é da cafeteria, . - revirou os olhos.
deu uma mordida no muffin de chocolate antes de responder:
- Você estendeu o que eu quis dizer.
e apenas riam enquanto liam os nomes em cada copo antes de entregar aos seus respectivos donos. As duas com certeza sabiam as bebidas favoritas de cada um.
- Mãe, você contrabandeou Starbucks pra dentro de um hospital? – arqueou a sobrancelha quando sua mãe lhe entregou seu café.
- Talvez sim. Talvez não – soltou uma gargalhada. – e eu estávamos lá e pensamos que vocês crianças também iriam querer algo. Só nos esquecemos de pedir permissão médica para isso – deu de ombros. – Mas não é como se a fosse pegar uma infecção ou algo do tipo por causa disso.
Ela tinha razão. Não é como se eu fosse ficar doente porque tinha gente no meu quarto bebendo café. Fui surpreendida pela mãe de Emily que me estendeu dois copos de café e o saco que ela carregava.
- Querida, nós não sabíamos do que você gostava, por isso compramos um café preto normal e um chocolate quente. Qual você prefere?
Engoli o bolo que se formou em minha garganta. Elas realmente eram pessoas especiais. Acho que fiquei tempo demais olhando para aqueles copos porque a voz de soou no quarto:
- Mas se você quiser outra coisa, é só falar – estava hesitante.
Levantei o rosto e imediatamente percebi o que tinha de errado.
- Não... não é isso – apressei-me em corrigir minha falta de educação. – É só que eu não estava esperando por isso... – mordi o lábio inferior, pensando numa maneira melhor de explicar. – Eu não esperava que vocês...
Acho que não havia uma maneira educada de dizer que eu não esperava que elas fossem tão gentis a ponto de se lembrarem de trazer algo para mim também.
- Bobagem. – fez um gesto com a mão, mostrando que minhas palavras não eram necessárias. – Você é parte da família agora.
Não sabendo como responder aquele comentário, limitei-me a pegar o chocolate quente e tomar um gole.
- Está muito bom. Obrigada. Foi muito gentil – verbalizei meu pensamento anterior.
As duas mulheres mais velhas sorriram e foram se sentar perto de para assistir TV.
- Então você prefere chocolate quente? Pensei que fosse café. Afinal, o melhor café é colombiano, não? É do lado do Brasil, não é? – bebericava sua bebida no mesmo lugar em que ele estava desde que havia chegado: ao lado da minha cama.
- , você vai comer esse muffin?
Ela deu uma mordida no bolinho e soltou um suspiro de contentamento, olhando para a cara de e suprimindo a risada. Ele entortou o nariz.
- Você é uma pessoa cruel, .
Soltei uma risada. Ele então voltou seu olhar esperançoso para mim.
- ?
Revirei os olhos e entreguei-lhe o pacote que estava em minha mão. Ele praticamente saltitou até mim e me abraçou meio de lado, mantendo o olhar em enquanto falava de maneira lenta e brincalhona:
- Você é oficialmente minha irmã favorita, .
- Ahan, sei.
Ele me soltou e foi mastigando o muffin de volta para o sofá. Balancei a cabeça sorrindo e voltei minha atenção para :
- Desculpe. Você estava falando sobre o café colombiano?
Ele acenou com a cabeça.
- Sabe, essa história de café colombiano é meio que uma lenda mundial, sabe? O melhor café do mundo é brasileiro.
Ele arqueou a sobrancelha.
- É mesmo?
- Ahan. O melhor do mundo – levei o copo à boca.
A porta do meu quarto mais uma vez foi escancarada.
- !
Engasguei com o chocolate que estava na minha garganta.



Capítulo Seis

- ... e você tem alguma ideia de como eu me senti idiota quando eu tive que ligar pra polícia e avisar que você apareceu. Porque, antes de você fazer o imenso favor de me ligar pra informar onde estava, eu tinha ligado pra avisar os tiras que você tinha desaparecido!
Lorelai andava de um lado para o outro enquanto cuspia esses sussurros furiosos para mim. Eu estava de cabeça baixa apenas ouvindo e revirando os olhos sem que ela me visse porque senão o sermão ininterrupto dela nunca terminaria. Talvez eu devesse ser grata por, ao menos, ela ter parado de gritar. Fato que só ocorreu depois de uma enfermeira entrar no quarto e ameaçar expulsá-la do hospital. O problema é que não parecia que ela iria parar de reclamar sobre “meu comportamento impulsivo - que poderia ter me matado - e irresponsável – que poderia ter matado ela de preocupação”. A falação havia começado logo depois de eu ter explicado o que havia acontecido e onde eu passaria os próximos três meses. E não havia parado até agora. Isso já fazia quase meia-hora. e ficaram tão desnorteados depois dos primeiros dez minutos do discurso de Lorelai Blake que se ofereceram para levar , e para jantar num restaurante que eu nunca havia ouvido falar. Eles convidaram , e . apenas lançou um olhar engraçado e balançou a cabeça. murmurou alguma coisa sobre não deixar sua irmã sozinha com a protagonista dos filmes Anjos da Noite e continuou sentado, os braços firmes ao redor da namorada. foi a única que recusou educadamente o convite. Então estávamos nós quatro quietos de um lado do quarto de frente para minha amiga e, sentado no sofá do outro lado, com o cotovelo sobre a coxa e o queixo apoiado na mão, olhando para tudo de maneira entediada estava Mark.
- Mark tinha um trabalho para fazer hoje, sabia? – ela continuava a gesticular furiosamente enquanto falava e arrastava as pesadas botas pretas. – Ele não foi. Por que será, né? POR QUE SERÁ QUE ELE NÃ...
- OKAAY, Selene... – se desvencilhou da namorada e se levantou.
e eu soltamos uma risadinha ao mesmo tempo em que minha amiga latia:
- Meu nome é Lorelai.
Sinceramente, agora que mencionou e, olhando Blake de alto a baixo, ela parecia mesmo a personagem principal daqueles filmes. As botas sobre a calça, o sobretudo, a blusa e os cabelos lisos cortados na altura do queixo eram todos pretos e contrastavam bastante com a pele muito branca e os olhos azuis dela. Como ela tinha alma de artista, dizia que tinha que experimentar todos os tipos de cultura social. Dois meses atrás ela estava no modo hippie. Acho que esse mês era o tipo punk. Eu havia desistido de entender o porquê desse comportamento, mas eu entendia que isso a inspirava a criar coisas diferentes o que era bom pra ela. Então, como amiga, eu aceitava aquilo que era bom pra ela sem questionar.
- Foi o que eu disse – resmungou de maneira atrevida. – Nós já entendemos que você ficou preocupada e a já disse que sente muito por tudo. E você poderia fazer o favor de parar de tentar convencê-la a não morar conosco. Isso já é um fato. E até você tem que concordar que essa é a melhor opção no momento. Então, será que dá pra você se acalmar e parar de falar?
Lorelai engasgou em surpresa. Mark se levantou e foi para o lado da namorada, encarando de maneira pouco amigável. se levantou e também se posicionou em defesa do próprio namorado. se moveu um pouco, ficando entre mim e eles quatro.
- Hey, gente. Vocês ficaram malucos? – eu estava um tanto desesperada para acabar com o clima pesadíssimo que se instalara.
Eles continuavam se encarando.
-Estamos todos do mesmo lado, lembra? Do meu lado!
Nada ainda.
Então resolvi apelar para o que seria a única chance de evitar uma discussão acalorada:
- ? Por favor?
Os ombros tensos dele relaxaram e ele se moveu de volta para o lado da minha cama.
- Já chega – seu tom profundo continha uma advertência. – Vocês vão perturbar a com essa briguinha infantil. Lorelai, nós entendemos sua preocupação, mas você está exagerando – virou-se para seu amigo. – , isso não é jeito de falar com Lorelai. Os dois estão errados e essa discussão acaba aqui. Estamos entendidos?
Os dois casais tiveram a decência de olharem para baixo parecendo envergonhados. Minha amiga e meu mais novo irmão murmuraram desculpas entre-dentes, não parecendo satisfeitos com isso. Blake passou por e e me abraçou. Eu retribuí.
Eu havia recebido mais abraços ingleses hoje do que nos cinco meses em que estava na Inglaterra.
– Você tem certeza sobre isso? – sussurrou no meu ouvido.
- Ahan.
Ela se levantou e forçou um sorriso pra mim.
- Blake, será que você poderia empacotar as coisas da para nós buscarmos amanhã? – apesar do uso do sobrenome, foi cuidadosamente educado. – Ouvi minha mãe comentando que ela vai receber alta amanhã.
Vi ela morder a resposta rude que ela gostaria de dar.
- Claro – sua voz era forçada, mas pelo menos ela estava tentando. – Que horas você vai passar lá no dormitório?
- Às dez horas está bom pra você?
Ela acenou com a cabeça.
- pode passar nosso endereço e você pode me passar o seu quando for buscar as coisas dela – ela respirou fundo e encarou seriamente e . – Se vocês fizerem qualquer coisa para machucá-la, eu vou destruir a carreira de vocês, entendeu?
- LORELAI! – repreendi, envergonhada.
- Se um de nós fizer algo assim, você tem a minha palavra de que eu a ajudarei com esse seu plano. – falou mortalmente sério, não desviando os olhos dos dela.
- Acho bom mesmo – ela pegou sua bolsa que estava no sofá perto da janela e se virou para mim. – Eu vou falar com a Sra. Park para ver o que dá pra fazer em relação ao seu emprego – se aproximou novamente e deu um beijo na minha testa. – Qualquer coisa é só me ligar.
Mark se aproximou também e repetiu o gesto de sua namorada, depois bagunçou meu cabelo, soltando uma risadinha.
- Se cuida, .
Retribuí o sorriso.
Eles acenaram mais uma vez e saíram pela porta. Felizmente sem lançar mais nenhuma ameaça.
- Desculpe por isso – murmurei.
Eles sacudiram a cabeça. O celular de apitou.
- Ela está certa. – falou suavemente. – Nós somos estranhos e ela estava te protegendo.
Estava aliviada por eles entenderem o lado dela.
- me mandou uma mensagem avisando que eles estão lá em baixo na recepção – guardou o celular novamente. – Como o horário de visitas está acabando, nós precisamos ir embora. Tia se voluntariou para ficar aqui com você esta noite, . Você não se importa?
Tantas pessoas entraram nesse quarto e ficaram tanto tempo que eu quase me esqueci de que estava no hospital. Acho que as regras eram outra se você estivesse em um hospital de gente super-rica – porque, analisando esse quarto, esse seria um bom jeito de classificar esse hospital.
- Eu ficaria agradecida por isso.
Não queria ficar sozinha ali. Por mais que parecesse um quarto de hotel, ainda era um hospital. E como qualquer médico – no meu caso, futura médica – eu não lidava bem em ser a paciente. Ou estar doente, de uma maneira geral...
- Combinado então. – sorriu e se abaixou para dar um beijo na minha bochecha. – Tchau, sis. Te vejo amanhã bem cedo.
- Tchau, . Até amanhã. Eu venho te ajudar com a mudança.
sorriu e acenou pra mim enquanto seu namorado a puxava pela mão para fora do quarto.
Ficaram no quarto então: , um silêncio esquisito e eu. Resolvi seguir pelo caminho mais seguro:
- Então...
Fiz uma pausa, olhando para qualquer ponto no quarto menos pra ele. Não sabia exatamente porque, mas me causava reações esquisitas.
- Você vai estar no apartamento amanhã quando eu chegar?
- Não.
Essa resposta curta me fez virar em reflexo e encará-lo, franzindo o cenho.
- Oh – desapontamento me atingiu, mas eu não tinha o direito de pedir para que ele estivesse lá.
- Eu vou vir buscar você –tinha um sorrisinho atrevido.
Foi impossível não sorrir de volta.
- Tchau, – deu um beijo na minha testa e saiu do quarto.
Aquilo tudo ficava mais interessante e confuso a cada minuto.

xxx

- Isso vai ser tão divertido. – estava praticamente saltitando no banco.
Por um momento aterrorizante eu pensei que ele fosse recomeçar aquela lista interminável de atividade que ele tinha planejado para nós realizarmos durante esses meses. Felizmente, contudo, estava sentada ao lado dele dessa vez e calou o namorado com um beijo. Talvez aquela fosse uma situação rotineira. Talvez houvesse algum tipo de sinal e quando ela visse o sinal, encontrava um jeito de distraí-lo. Talvez o sinal fosse o fato de ele começar a ficar inquieto demais.
Preciso me lembrar de nunca, de maneira nenhuma, dar cafeína a ele. Imagina o desastre.
Graças à intervenção de , o trajeto continuou em um silêncio confortável com apenas o som do rádio tocando baixinho ao fundo. Eu não me importava com o silêncio. Provavelmente eu deveria estar usando esse tempo de quietude pra pensar se realmente tinha tomado a decisão certa, mas nunca fui o tipo de pessoa que ficava remoendo o passado. Eu havia feito uma escolha e agora tinha que conviver com isso. Não que estivesse me arrependendo. Na verdade, era o total oposto. Enquanto o carro ridiculamente caro de rodava pelas ruas de Londres, parecia que minha certeza de estar fazendo o correto aumentava junto com a quilometragem do carro.
Estávamos nós quatro no veículo. E eu estava tão grata por não ter que ficar mais nem um minuto naquele hospital/quarto-de-hotel-cinco-estrelas e estaria mentindo se dissesse que não estava grata por ter pagado a conta da minha internação. É claro que insisti em pagar porque eu detestava ficar devendo favores, mas ele me ignorou, não se dignando a nem mesmo responder meus apelos depois de ter deixado bem claro que era o mínimo que poderia fazer. Eu argumentei dizendo que já iria passar um tempo na casa deles sem pagar nada, mas ele se fingiu de surdo e disse que já tinha ajeitado tudo na recepção e que aquela discussão era inútil.
Eu desisti daquilo e admito que um peso saiu das minhas costas. Não havia nenhuma maneira de eu arcar com aquela despesa extra. Iria compensá-lo de outra maneira. Acho que me lembro de ouvi-lo mencionar que não cozinhava muito bem. Essa era uma boa ideia: eu iria cozinhar para eles sempre que possível. Acredito que eles não iriam se importar. Bom, pelo menos parecia gostar dessa ideia.
Então, depois de desistir de lutar uma batalha perdida, sentei na cadeira de rodas e deixei que me empurrasse até onde o carro estava estacionado. Antes que eu pudesse protestar ou sequer piscar, havia me erguido em seus braços e me colocado no banco do passageiro. Não pude deixar de notar os músculos deliciosos daqueles braços que ficavam a vista graças à camiseta branca de mangas curtas que ele usava. Fiquei tão desnorteada por um momento que só reclamei da disposição de lugares quando já estávamos a caminho da minha nova casa. pacientemente me explicou que eles haviam empurrado o banco dianteiro para trás para criar mais espaço para minha perna engessada. Eu disse, então, que aquilo não era necessário porque o espaço anterior parecia ser mais do que suficiente e que mesmo o banco traseiro parecia ter um espaço confortável. Foi a vez de falar, reclamando que, por mais que já gostasse da sua nova irmã, preferia sentar juntinho da namorada. Namorada a qual desde que eu havia sido colocada no carro mantinha um sorrisinho esperto, o que me fazia pensar que ela havia percebido o porquê da minha falta de concentração – e essa crença foi a responsável por eu ter passado uns bons minutos quieta olhando para a janela. Foi quando eu percebi que não tinha colocado o cinto. Franzindo o cenho, resolvi isso. Imediatamente depois, relaxou a postura e acelerou um pouco o carro.
Arqueei a sobrancelha. Será que ele estava preocupado em levar uma multa? Pouco provável. Era rico demais para isso. Então... Por quê?
me distraiu depois com um assunto qualquer... o que nos levava a situação de agora: o silêncio confortável em que e eu estávamos e os sussurros dos dois enamorados no banco de trás. Deixei meus olhos vagarem pelo interior do carro, o qual era, sem sobra de dúvida, o automóvel mais caro em que eu já tinha entrado. Eu gosto de carros, então entendia uma coisa ou outra, mas não identifiquei o modelo – o qual tinha 100% de chances de ser o mais novo do mercado. Estava admirando o painel quando minha atenção foi atraída para as mãos de que batucavam o volante no ritmo da música. Elas eram grandes e masculinas. Nunca fui uma garota que reparava muito em mãos masculinas, mas essas definitivamente eram dignas de atenção. Isso sem contar aqueles braços mara...
- Chegamos! – anunciou, já saindo do carro.
Eu nem mesmo percebi que o tínhamos parado em uma garagem coberta. Abri a porta e já estava lá para me ajudar a sair. Pensei que meu “irmão” iria me entregar minhas novas muletas – que ele também insistiu em pagar – mas não fui colocada no chão.
- , o que você está fazendo? – arqueei a sobrancelha olhando para aquele rosto que era ainda mais perfeito de perto.
- Carregando você. – abriu um sorrisinho.
- Você não precisa. Sabe disso, não sabe?
- Eu sei que não preciso. Isso não significa que eu não queria.
Senti minhas bochechas avermelharem e, quando olhei para trás para ver se o casal nos seguia, tinha mais uma vez aquele sorriso de quem sabia demais.
Abaixei a cabeça. me olhou interrogativamente enquanto entravamos no elevador. Retribui o olhar, não entendo o porquê de ele estar me olhando desse jeito.
- , por acaso você tem medo de alturas?
- Não, . Por quê?
- Então por que você está segurando tão firme no ? – soltou uma gargalhada.
deu uma cotovelada nele, mas o sorrisinho nunca abandonava seu rosto.
Meu queixo caiu tanto pela falta de sutilidade dele quanto pelo fato de eu ter inconscientemente apertado meu braço em volta do pescoço de durante o trajeto. Afrouxei o aperto, corei ainda mais e vi o cantor que me carregava aumentar ainda mais o sorriso.
As portas do elevador se abriram e felizmente fui poupada de responder a pergunta indiscreta.
O casal saiu na frente de mãos-dadas, ambos ainda rindo e abriram a segunda porta do corredor. E, pouco antes de me carregar para dentro do apartamento, sussurrou em sua voz maravilhosa:
- Bem-vinda a sua nova casa, .
E eu soube que a partir daquele momento minha vida nunca mais seria a mesma.



Capítulo Sete

No segundo em que entramos no apartamento, uma voz desconhecida gritou:
- !
E, antes que pudesse tentar identificar quem me chamava, senti um peso extra colidir comigo. cambaleou um pouco, mas se recuperou rapidamente.
- EMILY! – repreendeu. – Você poderia ter derrubado os dois.
- Está tudo bem, tia – a voz gostosa dele soava tão perto do meu ouvido que tornava impossível me concentrar em qualquer outra coisa. – Ems, espera só um minuto, tá?
Ele se moveu e logo me colocou sentada sobre o sofá mais confortável que eu já experimentara na vida. Agradeci mentalmente por, mesmo tendo quebrado a perna em três lugares, esses três lugares terem sido todos abaixo do joelho. Então, consequentemente, o gesso só chegava até meu joelho – o que facilitava muito a minha vida. Depois de me acomodar foi que pude captar o que acontecia no resto do cômodo. O casal de namorados estava acomodado em outra poltrona e estava em pé ao lado deles, segurando a mão de uma garotinha. Reconheci os cabelos dela, não apenas como sendo da mesma cor dos de , mas também como aqueles que eu vi no dia anterior antes de ser atropelada.
- Olá, Emily.
Sorri e pareceu tomar isso como uma autorização e soltou a mão da filha. A irmã mais nova de se aproximou de mim, sem qualquer timidez e se sentou do meu lado. Agora eu estava entre ela e – que havia se acomodado ali assim que deixou de me carregar.
- Oi, . Como você tá? O que é isso? – apontou para o meu gesso.
- Eu quebrei a perna, Emily. E agora tenho que usar isso até ela ficar boa de novo.
Ela franziu o cenho, depois falou muito séria:
- Foi porque o carro bateu em você, por isso você quebrou a perna?
- Na verdade, eu es-
Tentei responder, mas acho que uma resposta era necessária. Ela não esperou por uma e logo continuou:
- Primeiro eu fiquei brava com você por ter me empurrado. É muito feio empurrar os outros, sabe? A Melanie empurrou Tracy outro dia e a professora teve que chamar a mãe dela. Melanie ficou bem encrencada. Então, quando você me empurrou eu não gostei e sabia que você ia ficar bem encrencada. Eu ia contar pro meu irmão e ele ia ficar muito bravo com você. sempre diz que eu sou a princesinha dele e que nunca ia deixar ninguém me machucar. E ralei o joelho quando você me empurrou no chão – apontou para o curativo rosa sobre seu joelho. – Ele também diz que eu só vou poder namorar quanto tiver 31 anos senão ele vai ficar muito bravo – franziu o cenho, pensativa. – Mas ele tem uma namorada e não tem 31 anos – a atenção dela se alternou entre e eu. – Você é namorada do ?
Três coisas aconteceram ao mesmo tempo em reação a pergunta dela: soltou uma gargalhada, gritou o nome da filha em tom de repreensão e eu comecei a murmurar uma desculpa qualquer, o rosto vermelho.
- Oops – ela levou a mão até a boca, dando uma risadinha contagiante. - Mamãe ficou brava – seu olhar ficou distante como se ela estivesse lembrando algo. – Ah! Estava brava também quando você me empurrou, mas depois mamãe me explicou que você fez aquilo para que eu não me machucasse.
Então ela se jogou em cima de mim, o que me fez perder o equilíbrio outra vez. Mãos grandes ampararam minha cintura. Arrepios subiram por minha coluna.
- Obrigada, – seus bracinhos estavam em volta do meu pescoço. – Você pode ser minha irmã agora.
Soltei uma risadinha:
- Meu Deus! Você é igualzinha ao .

xxx

Depois de Emily terminar mais alguns longos monólogos sobre os mais variados assuntos – eu já sabia tudo sobre Melanie que era “a melhor amiga do mundo” e Jake que “pediu pra ser meu namorado, mas eu só posso namorar quando tiver 31 anos porque disse que meninos têm piolhos e que ia pegar piolhos se namorasse antes disso”. Também sabia sobre como Sra. Kisley era “uma professora legal mesmo usando aqueles vestidos amarelos” e “ninguém fica bem de amarelo” e como Mozart, o cachorro do pai deles era “preguiçoso demais e, sim, eu também acho esse um nome idiota para um cachorro, mas a mamãe disse que era nome de um músico famoso”, então ela perguntou que se fosse pra ser o nome de um cantor famoso porque não podia ser “Justin” – assegurei que sim, nós podíamos ser irmãs agora. Ems, como ela me disse para chamá-la, ficou contente com minha resposta e já estava prestes a começar novos super divertidos planos para nossa recém-criada amizade – e isso me soou tão familiar – quando anunciou que elas teriam que ir embora para se encontrarem com , que havia ficado no hotel em que estavam hospedadas, terminando de arrumar as malas, para pegarem o avião de volta pra casa. Emily resmungou muito sobre querer ficar ali conosco e só concordou em partir quando sua mãe prometeu que elas voltariam logo para nos visitar. Depois de se despedirem de todos, elas foram embora.
Ela tinha muita personalidade para alguém com seis anos de idade.
- , preciso dizer que você se saiu muito bem em sua primeira passagem pelo mini-furacão . – comentou enquanto colocava três controles remotos dentro de uma gaveta. – , quantas vezes eu preciso dizer pra você guardar os controles quando desligar a televisão? – franziu o cenho para o namorado. - Você já quebrou dois.
- Desculpe, amor. Eu vou guardar da próxima vez.
Ela revirou os olhos.
- Foi o que você disse da última vez.
- tem razão, . Você acompanhou o ritmo de Emily muito bem. – comentou. – Só ficou perdida umas duas vezes com as constantes mudanças de assunto dela.
- Obrigada. – acenei com a cabeça, divertida. – Mas tenho certeza que isso é mais um ritmo do que apenas Emily.
- Concordo plenamente. - ele gargalhou.
- Hey! O que você quis dizer com isso? – brincou.
- Absolutamente nada. – ergui as mãos em sinal de rendimento. – Aliás, nem sei do que você está falando.
- Essa sua cara de inocente não convence ninguém, . Sorte sua que você não decidiu ser advogada.
- Tem certeza disso, ? Eu costumo ganhar as partidas de pôquer que jogo.
- Tá valendo, . – ele esfregou uma mão na outra, um brilho competitivo nos olhos. – Eu vou buscar o baralho.
Já ia se levantando quando colocou a mão sobre o ombro dele.
- Talvez depois, amor. Agora nós vamos ajudar a arrumar as coisas dela no novo quarto.
- Sim, senhora. – levantou-se em um pulo, segurou a mão dela e saiu correndo por um corredor, arrastando a namorada junto.
Balancei a cabeça e fiz menção de levantar. Imediatamente estava em pé ao meu lado, oferecendo seu braço para que eu o usasse como apoio. Assim que fiquei em pé, ele me estendeu as muletas que tinha deixado perto do sofá em que havia sentado. Ajeitei-as em baixo do braço e soltei o peso, testando-as sem sair do lugar. Não era uma sensação ruim, mas também não era nada agradável. Acho que uma boa palavra para descrever a experiência seria “esquisito”... Bom, eu teria três meses para me acostumar a isso. Respirei fundo e dei o primeiro passo. andou ao meu lado, havia um pequeno espaço entre nós, mas sabia que qualquer passo em falso que eu desse, ele estaria perto o suficiente para me ajudar. Mesmo ele tentando disfarçar, eu praticamente podia sentir seus olhos calculando cada movimento meu, tentando prever e prevenir um erro que pudesse me levar ao chão. Sua preocupação era fofa.
- Eles formam um belo time, não?
- Oi? – balancei a cabeça, tentando clarear os pensamentos e entender sobre o que ele falava.
- e – fez um gesto, indicando o corredor pelo qual o casal havia seguido e para onde nós nos dirigíamos. – Ele é muito agitado e ela já é mais calma. Eles se equilibram. Não pensei que fosse funcionar tão bem quanto os apresentei.
- Foi você quem os apresentou?
- Foi – soltou uma risadinha. – É uma história bem engraçada na verdade. Qualquer dia eu te conto.
- Por que não agora?
- Nós temos muito tempo, apressadinha. – apertou a ponta do meu nariz de leve.
Torci meus lábios numa careta. Ele gargalhou e eu sorri. Resolvi mudar de assunto:
- Então você acredita que os opostos se atraem?
- Eu nunca tinha olhado para o relacionamento deles por esse ângulo especifico, mas, já que você mencionou, sim, acredito que sim – deu um sorriso de lado. - Afinal, é isso que melhor definiria o equilíbrio sobre o qual falei, não?
- Não sei se acredito muito nisso.
- E por que não?
- Não sei – dei de ombros. – Talvez seja clichê demais.
- Sabe, tenho uma amiga que diz que clichês não são ruins e que eles viraram clichês porque acontecem muito ou muitas pessoas gostam deles. O problema, segundo ela, é que muitos são mal escritos.
- Isso quer dizer que você procura um clichê bem escrito pra você?
- E por que você acha que eu estou em busca de amor?
- Não estamos todos?
- Boa resposta. E, quanto a sua pergunta, sim, acho que estou sim.
- E como ela seria?
- Tirando todas as qualidades normalmente citadas? – franziu o cenho. – Inteligente.
Aquilo me surpreendeu.
- Inteligente?
- É. Sabe, eu não sou estúpido nem nada parecido, mas também nunca fui o cara mais brilhante da minha turma. Então minha garota ideal seria muito inteligente.
- Inteligente do tipo doutora em física quântica?
- Inteligente do tipo médica.
Aquilo me fez parar de andar, mas não tive a chance de perguntar nada porque aparentemente nós havíamos chegado e apareceu na minha frente com cara de quem estava aprontando algo. usou essa interrupção para deslizar para dentro do quarto e perguntar a o que ele poderia fazer para ajudar.
- Oi, .
- Oi, ? – minhas sobrancelhas arquearam. – O que você está escondendo? – me referi ao fato de ele estar com as duas mãos atrás das costas.
- Surpresa, sis. – seu sorriso era imenso ao me entregar uma caixa retangular não muito grande embrulhada com papel de presente.
Minha sobrancelha subiu ainda mais, se é que isso era possível.
- , o que é isso?
- Um presente, boba – empurrou na minha mão. - Aqui, pega!
Ainda um tanto desconfiada, fiz um malabarismo com as muletas e consegui rasgar o papel de embrulho para revelar um iPhone 5 novinho. Meu queixo caiu e tive que piscar algumas vezes pra ter certeza de que não estava alucinando graças as pílulas para dor que o Dr. Carter tinha me dado antes de eu ter alta do hospital.
- O que significa isso?
- Bom, alguns anos atrás um cara genial resolveu criar um telefone que não precisava ficar fixo em casa. Ele chamou essa maravilhosa criação de celular, o que nos leva até o dia de hoj-
- ! Estou falando sério!
Ele apagou o sorriso divertido que sustentava e sua expressão se suavizou com carinho.
- Eu ouvi você comentando com sobre o seu celular ter se quebrado ontem quando você correu para salvar Emily, então, comprei um novo.
- Não posso aceitar isso. E, além do mais, meu antigo celular era um modelo muito mais antigo do que um iPhone. Não precisa se preocupar com isso. Vou comprar um novo assim que possível.
Tentei empurrar a caixa de volta pra ele, , contudo, ignorou tanto o meu gesto quanto minhas palavras.
- Deu pra salvar o chip antigo. Já o coloquei no seu celular, por isso a caixa está aberta. Espero que você não se importe com isso.
- Não vou aceitar – mais uma vez tentei fazê-lo pegar a caixa. – Aliás, por que você está me dando isso?
- É o mínimo que eu posso fazer, sis. Seu celular não teria sido destruído se você não tivesse se atirado na frente de um carro para salvar minha irmãzinha.
Abri um sorrisinho triste, deixando a atitude defensiva de lado ao ver quão abalado ele ficava só de falar sobre esse assunto.
- Mas não preciso do melhor celular que existe.
- É o mínimo que eu posso fazer.
- Foi isso que você disse sobre a conta do hospital e sobre eu vir morar aqui com vocês sem pagar qualquer coisa.
- É a verdade – deu de ombros. – E para que serve o dinheiro que eu ganho senão para fazer as pessoas de quem gosto felizes?
- Nós nos conhecemos ontem, , você nem pode gostar tanto assim de mim. E você já fez coisas demais para mim.
- Sei que isso soa clichê, mas eu tenho uma amiga que diz que cli-
- Se for a mesma amiga de , ele já me contou a opinião dela sobre clichês – interrompi, pois sabia que, como parecia ser normal para os , ele iria se perder em um assunto paralelo.
- Então, o que eu estou tentando dizer é que somos amigos agora e você fez mais por mim do que eu jamais poderei pagar de volta.
Sorri, compreensiva.
- Eu também gosto de todos vocês, , mas você não me deve nada.
Talvez sentido que eu iria recusar o presente, seu rosto se fechou em uma careta triste. Soltei pesadamente o ar dos meus pulmões, derrotada, falei:
- Tudo bem. Mas se eu ficar com o celular, você promete parar de me comprar coisas?
Uma expressão alegre voltou imediatamente para seu rosto e percebi que tinha caído em uma armadilha. Mas que espertinho filho-da-mãe...
- Ótimo! Deixe-me ajudá-la com isso - pegou a caixa e entrou no quarto.
- , você promete?
- Prometer o que?
- !
De maneira cautelosa, agora que não tinha ao meu lado, entrei no quarto a fim de perseguir meu mais novo irmão e arrancar dele a promessa que queria ouvir. Não cheguei a alcançá-lo, já que ele estava do outro lado do quarto, perto de uma penteadeira ao lado de uma porta, conversando com o amigo enquanto ambos abriam uma das três grandes malas que havia no quarto e me interceptou no meio do caminho.
- ! Aqui! – indicou a minha esquerda. – Vem aqui comigo. Quero que veja algo.
Soltei um suspiro resignado e a acompanhei, dando finalmente uma boa olhada no cômodo onde estava. O quarto e os móveis eram todos brancos, exceto pela parede vermelha em que a cabeceira da imensa cama de casal – a qual era ladeada de ambos os lados por um criado-mudo - estava encostada e, um pouco acima desta, havia três pequenos quadros que continham fotos em preto e branco de pontos turísticos de Londres. Sobre a cama estavam vários travesseiros cobertos com fronhas brancas de detalhes vermelhos e também um edredom branco. Na parede do lado esquerdo da cama estava o guarda-roupa e um espelho de corpo inteiro, o qual possuía uma intrincada e bonita moldura com aspecto antigo. Do lado direito tinha uma porta - onde eu supunha levar a um banheiro - a cômoda e os dois garotos. me levou para a parede que ficava oposta a cama. Lá havia uma escrivaninha e reconheci meu laptop sobre ela. A janela do quarto ficava um pouco a direita desse móvel e era coberta por uma cortina vermelha. Mas não era nada disso que queria me mostrar.
- Então... o que você acha? – apontou para um mural de fotos de fundo vermelho que eu não tinha reparado ainda.
Lá estavam todas as fotos que eu havia revelado para trazer do Brasil. Senti um leve aperto no meu coração me ver sorrindo naquelas imagens que pareciam tão distantes agora. Não que eu não estivesse feliz. Era só... diferente.
- O que você acha?
- Tá lindo, . Obrigada – murmurei, tentando conter as lágrimas.
- Fui eu quem fiz – balançou um pouco sem sair do lugar, orgulhosa de si mesma. – Menos essa parte – apontou para o canto direito do mural onde havia uma foto do One Direction que claramente havia sido tirado por um profissional em um ensaio fotográfico. - Aquilo foi – baixou o tom de voz. - Tentei dizer pra ele que uma foto dessas no mural pareceria coisa de fã maluca e não de alguém que é amiga deles, mas acho que já deu pra você notar como ele é. Ficou resmungando uns dez minutos na minha cabeça – revirou os olhos e estalou os dedos algumas vezes tentando demonstrar uma quantidade de tempo - até que me venceu pelo cansaço. Tinha uma minha aí também, mas, como eu tenho senso do ridículo, tirei quando ele não estava olhando. Teremos muitas oportunidades para tirar uma foto juntas e depois colocá-la ai.
Acenei com a cabeça, rindo. Aquilo era a cara do namorado dela. encostou o ombro no meu e falou baixinho:
- Você não acha que aqueles dois estão quietos demais? – seu tom era brincalhão, mas continha uma pontada de preocupação.
Mordi o lábio, entendendo o que ela queria dizer. Acenei com a cabeça e deu um giro de 180° já que estávamos de costas para o resto do quarto. Quando tentei fazer o mesmo, dei uma pequena escorregada.
- Calminha aí, garota. Se você cair, me mata – sua testa estava franzida, uma mão segurava a minha sobre a parte de apoio da muleta e a outra estava em volta da cintura.
- Estou bem, – soltei uma risadinha. – Sério. Não precisa se preocupar. Ainda estou me adaptando a isso aqui. Um tombo ou dois serão normais.
- Está brincando, certo? – soltou uma risada nervosa. - vai surtar se você cai- ! !
Acompanhei a linha de visão dela e descobri o porquê do grito. Os dois encontraram a mala que continha minhas roupas intimas. estava usando meu sutiã roxo sobre sua blusa e estava com o vermelho sobre a cabeça. Um apontava para o outro rindo como idiotas. Eles nem mesmo tiveram a decência de parecerem constrangidos por ter chamado a atenção deles. Senti minhas bochechas esquentarem e a vontade de gritar com eles fez meu sangue ferver ainda mais, minha voz, contudo, ficou presa na garganta tamanha era a vergonha que sentia. Felizmente, minha “cunhada” tomou o controle da situação. Ela marchou até os dois, os quais finalmente pararam de dar risadinhas e agir como dois macacos abestalhados.
- Já chega, né? – puxou o sutiã da cabeça de e arrancou o outro do namorado. – Os dois palhaços pra fora, já! Vocês não fizeram nada, só atrapalharam.
- Mas, amor...
- Fora. Agora.
Eles olharam para mim, buscando algum tipo de apoio. Quanta audácia! Ainda nem tinha voltado à cor normal e eles já agiam como se não tivessem feito nada errado. Estreitei os olhos e bufei. Os dois entenderam o recado e saíram do quarto de cabeça baixa.
- E vou usar o seu cartão de crédito pra comprar sutiãs novos pra , ! – , ainda segurando meu sutiã roxo, apontou ameaçadoramente para o namorado pouco antes que este fechasse a porta.
Quando finalmente ficamos sozinhas, recuperei minha fala.
- Obrigada, , mas não precisa me comprar sutiãs novos.
- Claro que precisa. Talvez assim esses dois idiotas aprendam a não mexer nas coisas dos outros. – Ela colocou outra mala sobre a cama e a abriu, tirando algumas blusas de dentro dela. – Eu disse pra eles “peguem as blusas da mala azul e coloquem na segunda gaveta” – resmungou mais para si mesma enquanto fazia exatamente o que tinha os mandado fazer. – E o que eles fazem? Abrem a mala roxa e bagunçam tudo ainda mais! – voltou à mala, pegou mais uma pilha de blusas e colocou em outra gaveta. – Será que eles não entendem inglês? Ou fazem isso só pra me irritar?
Ela estava mais zangada do que eu, então tentei começar em tom conciliatório:
- Hey. Não foi tão ruim assim e...
- A questão não é essa – me interrompeu. – Tem vezes que penso que eles fazem esse tipo de coisa só pra me irritar. Custa fazer o que eu pedi? Mas que saco!
- Hey. Hey. Calma, . Não foi pra tanto também – falei pacientemente, rezando para que isso não aumentasse ainda mais a raiva dela.
Funcionou.
largou as calças que tinha na mão de volta pra dentro da mala e se sentou na cama, apoiou os cotovelos sobre as cochas e o queixo sobre a mão.
- Você tem razão – sustou o ar pesadamente. – Estou exagerando. É só que... me deixa frustrada quando peço alguma coisa à e ele me ignora – passou as mãos pelo cabelo. – E, sim, tenho noção de quão controlador isso soa, mas eu já melhorei muito. Antes de conhecer , admito que era meio maluca controladora... agora só sou uma meio controladora – soltou uma risadinha forçada.
Sentei ao lado dela e coloquei as muletas no chão.
- Você não é controladora – segurei uma das mãos dela e a apertei de maneira reconfortante. - Talvez só um pouquinho preocupada demais...?
Dessa vez ela abriu um pequeno sorriso verdadeiro.
- Obrigada. Você é uma boa pessoa.
- Sou eu quem deve agradecer. Você arrumou tudo aqui pra mim e eu nem pude ajudar em nada porque ia ser meio difícil equilibrar as roupas, as muletas e a mim mesma ao mesmo tempo – tentei fazer uma piadinha.
- Imagina, . É pra isso que servem os amigos – empurrou meu ombro de leve com o dela.
Meu sorriso cresceu mais um pouco.
- E, pra falar a verdade, isso nem foi tão ruim assim – levantei meu sutiã que estava na cama do meu lado.
- É... Até que foi engraçado. – começou a rir.
- Você viu quando ... – apontei pra minha cabeça e comecei a gargalhar.
- E ... – gargalhou – colocou assim – colocou as mãos sobre os seios.
Agora nós estávamos uma encostada no ombro da outra enquanto riamos igual a duas bobas durante alguns minutos. Quando finalmente nos acalmamos o suficiente pra formar frases inteiras, ela falou:
- Só não podemos contar pra eles que não estamos bravas de verdade senão vão querer sair daquele jeito pela rua.
- Eu entendo – dei uma piscadinha.
E agora também entendia perfeitamente o que quis dizer quando afirmou que esses dois namorados se equilibravam. suavizava o jeito meio controlador da namorada e ela, por sua vez, mantinha-o na linha. Um belo relacionamento.
Sorri outra vez.



Capítulo Oito

Assim que saímos do meu mais novo quarto, depois de algumas horas em que arrumou todas as minhas roupas e nós conversamos bastante, um cheiro maravilhoso me atingiu.
- Uau – respirei mais algumas vezes. – De onde vem esse cheiro?
- É . – murmurou, distraída.
Parei de andar, olhei pra ela e franzi o cenho. deu mais alguns passos antes de perceber que eu não a acompanhava. Virou e me encarou de maneira de maneira interrogativa. Fiquei em silêncio enquanto ela levou um segundo ou dois pra entender a situação.
- Ah... – soltou uma risadinha. – Não o ... O que eu quis dizer é que ele está cozinhando.
- Ah, sim – acenei com a cabeça e recomecei a andar.
- Ele é um excelente cozinheiro. Será que ele tá fazendo lasanha?
- É boa?
- Boa? Aquela lasanha é épica – deu um beijo nos dedos em um gesto tipicamente italiano de apreciação.
Acho que épica não era um adjetivo bom para a tal lasanha, talvez hipnotizante fosse melhor, pois a próxima coisa que percebi foi minha nova amiga me deixando sozinha no corredor. Pisquei algumas vezes, surpresa, então soltei uma risadinha e resolvi fazer como ela e seguir o cheiro da comida. Estava a alguns metros do que supunha ser a porta da cozinha quando ouvi algumas vozes abafadas vindas de dentro daquele cômodo:
- Como assim você a deixou sozinha lá, ?
- Eu...
- , onde você está indo? – era . – Isso tudo vai queimar.
- Foda-se. Ela pode cair e se machucar seriamente.
A porta se abriu e eu estava a centímetros dele, mas sua cabeça estava virada para o lado enquanto continuava falando:
- Isso foi muito irresponsável da sua parte e se ela - virou-se de frente – ! – me analisou de alto a baixo. – Está tudo bem? Você se machucou? – colocou as mãos nos meus ombros e, como parecia acontecer cada vez que ele me tocava, arrepios subiram por minha nuca.
- Eu...
Eu não consigo pensar direito com você tão perto. Como diabos alguém podia ser tão bonito?
- ?
Sacudi a cabeça.
- Eu... estou bem, .
surgiu ao lado do melhor amigo e passou o braço sobre os ombros dele.
- Viu, cara, ela está bem. Não precisava ter surtado. Agora será que dava pra você voltar a cozinhar? Não queremos que o jantar de boas-vindas dela seja estragado, certo?
As mãos dele lentamente escorregaram para longe de mim, mesmo assim ele não se moveu, os olhos fixos em mim. Acenei com a cabeça e sorri sem mostrar os dentes, assegurando que estava tudo bem. , ainda com o braço ao redor do amigo, o puxou para longe. manteve sua atenção em mim enquanto dava os primeiros passos, mas logo resmungou alguma coisa e voltou para frente do fogão. Lentamente, segui os passos deles, observando esse novo ambiente. Era uma bonita cozinha toda em inox e branco, espaçosa e com eletrodomésticos de última geração. Alcancei a ilha que tinha no meio dela e me sentei em um dos bancos altos ao lado de , deixando as muletas encostadas no móvel.
- Desculpe, . Eu não devia tê-la deixado sozinha.
Fiz um gesto com a mão, dispensando as desculpas dela.
- Está tudo bem.
- Não. tem razão. Você teve muito pouco tempo pra se acostumar a andar desse jeito e poderia ter caído e se machucado seriamente.
Falava baixo, suspeito que com receio do objeto de nossa conversa ouvi-la e recomeçar o sermão.
- Não tem problema – e, não querendo continuar falando sobre isso, mudei de assunto. – o que você está fazendo ai? O cheiro está ótimo.
- LASANHA! – gritou. – , você vai adorar! bear aqui faz uma lasanha que é épica!
- Ouvi dizer mesmo – sorri. – Você precisa de ajuda ai?
- Imagina, . Você não vai cozinhar seu próprio jantar de boas vindas. Além do mais, eu estou de ajudante de cozinheiro aqui. – mais uma vez se intrometeu.
- Amor, você não fez nada além de atrapalhar. – tomou um gole de vinho da taça de vidro que estava na frente dela.
- Hey! Namoradas supostamente devem apoiar seus namorados.
- Namorados supostamente deveriam parar de tentar fingir que sabem cozinhar.
Revirei os olhos.
- , - enfatizei o nome, – você precisa de ajuda?
- Obrigado, , mas tem razão quanto a não deixar você cozinhar seu próprio jantar de boas-vindas – ele virou a cabeça pra olhar pra mim, já que estava de costas. – Isso seria pouco cavalheiro da minha parte, não? – deu uma piscadinha.
Prendi a respiração. E dei um sorriso tímido de volta.
- ...e eu vou provar pra você que estou ajudando – falou de maneira atrevida, mas carinhosa com a namorada, dando um rápido selinho nela antes de se virar e voltar pra perto do fogão.
Foi só então que percebi que eles não tinham interrompido a “discussão” deles.
- Dê-me isso, .
Tentou pegar a colher com que mexia a panela no fogo. segurou o cabo da panela e ignorou totalmente o amigo, levando a colher para longe do alcance deste.
- Acho que falta sal – pegou um pote pequeno que estava ao lado do fogão e tirou uma boa porção com uma colher. - Eu vou colocar sal – aproximou a colher da panela.
ficou imóvel e virou bem devagar a cabeça na direção do amigo.
- , se você gosta da sua mão atada ao seu braço, afaste-se agora. Não vou deixar você estragar o jantar de hoje.
- Que calúnia! Me sinto ofendido! – colocou a mão no peito de maneira teatral. – Jamais estragaria nad-
- Amor, se você chegar perto desse molho de novo, vou entrar em greve.
Foi muito cômico como , com uma expressão de puro terror, soltou o pote de sal sobre o balcão como se o objeto tivesse queimando-o e pulou pra longe do fogão.
- Se você quer realmente ajudar, por que não pergunta a se ela quer beber alguma coisa?
- tem razão, amor. É uma opção bem mais segura.
Ele revirou os olhos com o tom meio zombador da namorada.
- , minha irmãzinha linda que não fica me criticando, ao contrário dos outros dois ingratos aqui, você gostaria de beber alguma coisa? – caminhou até a geladeira e abriu uma das portas inox. – Nós temos chá gelado, água, suco de laranja, cerveja, vinho, Coca-Cola, vodca, uisq-
- Coca-Cola seria ótimo – interrompi.
Ele pegou uma lata do refrigerante depois andou até um dos armários pregados na parede a um metro e pouco do chão e de lá pegou um copo.
- Os copos ficam aqui, sis. Os pratos ali – apontou para outro armário. – E talheres ali naquelas gavetas. Junk food fica naquele armário maior ali no canto. Nós queremos que você se sinta em casa. Pegue qualquer coisa que você queira.
- Exceto por aquele armário. – apontou para um armário não muito longe da geladeira.
- Exceto por aquele armário. – completou rapidamente. – Aquele é o armário do .
- Armário do ?
- É. Todos nós temos um desses em casa. – acenou com a cabeça e tomou outro gole de sua bebida. – Quando vamos fazer compras no supermercado, sempre compramos algumas coisas a mais tipo Nutella, Doritos, KitKat...
- Só comida super saudável – ele ironizou, interrompendo a namorada, ao colocar um copo grande cheio de refrigerante e uma latinha na minha frente.
- E cerveja porque fica insuportável quando fica com fome – ela continuou como se não tivesse sido interrompida.
Assenti, levando meu copo aos lábios.
- , VOCÊ TÁ FAZENDO LASANHA? – a voz de soou do outro lado da porta pouco antes dele passar correndo pela porta.
Ele se jogou sobre o nosso cozinheiro que tinha acabado de virar de frente para nós e enxugava a mão num pano.
- , EU TE AMO!
Tentava dar beijos no rosto do amigo que o empurrava pra longe.
- Que nojo, . Me solta – ele ria.
Todos nós gargalhamos diante daquela cena que era tão incomum pra mim, mas que provavelmente era algo normal pra eles.
- Ele sentiu o cheiro lá do corredor. – acrescentou, sentando-se no banco ao meu lado.
- Uma coisa que deveria ser estudada pela ciência, sério. – completou, dirigindo-se à geladeira e colocando lá uma torta de chocolate de aparência deliciosa que trazia nas mãos. – Ele queria um pedaço da sobremesa que compramos, mas eu a protegi com a minha vida, – sussurrou pra mim.
Rindo, coloquei a mão sobre seu bíceps – que, aliás, era enorme – e falei:
- Muito obrigada, , tenho certeza que seu ato de bravura será recom-
- Payne, já está tudo pronto. – surgiu do nada atrás de , me interrompendo. – Você me ajuda a arrumar a mesa, sim? – colocou uma mão em cada ombro do amigo e o arrastou para longe sem nem mesmo esperar uma resposta.
Franzi o cenho porque a ajuda requisitada por parecia desnecessária já que estava muito interessado em arrumar logo a mesa quadrada de oito lugares que havia ali. O garoto corria de um lado pro outro colocando os pratos quadrados e os copos de vidro na frente destes. estava circulando o móvel, colocando os talhes logo depois de seu companheiro de banda ter arrumado os pratos. , que havia se levantado e ido a geladeira, agora colocava sobre a mesa três garrafas de Heineken de tamanho médio e duas latas de refrigerante que de alguma maneira ele conseguiu equilibrar nas mãos. colocou uma travessa de lasanha sobre um descanso para panelas enquanto colocava outra sobre outro descanso. Era interessante observar a sincronia com que eles se mexiam - quase como um relógio. Nenhuma vez eles tropeçaram um no outro ou atrapalharam o que o outro fazia. Talvez fosse algo aprendido com a banda ou talvez fosse só a amizade deles mesmo. De qualquer maneira, percebi que precisava assistir a um show deles. Vou pesquisar na internet depois.
- VAMOS COMER! – já estava sentado e começava a se servir.
Estava prestes a me levantar quando um braço forte serpenteou ao redor da minha cintura.
- Eu te ajudo, . – estava sorridente ao meu lado.
Sorri também, levando minha mão ao redor do pescoço dele afinal era muito fácil ficar distraída com aquele cheiro maravilhoso dele. E distração poderia levar a uma queda – o que seria patético.
- Não precisa se sentir obrigado a me ajudar a toda hora, senhor Chef – começamos a andar para a mesa. – Eu posso usar as muletas.
- Seria desperdício de energia usar as muletas em um trajeto tão curto. E eu não me sinto obrigado a nada. Gosto de ajudar.
- Você quis dizer que gosta de ajudar a , né, ? Pelo que me lembro você nunca foi tão prestativo assim e-aaaai, amor! – Ele se interrompeu, olhando para a namorada com uma expressão de dor.
Pelo que pude perceber, tinha enfiado as unhas na coxa dele e agora o encarava com um sorriso falso e as sobrancelhas levantadas.
- Por que você não pega mais um pouco de vinho pra mim, amor?
- Claro, amor. – pareceu muito satisfeito de ter que se levantar e ir buscar a garrafa de vinho.
puxou a cadeira pra mim e, depois que sentei, ele voltou à ilha, pegou meu copo e colocou na minha frente antes de sentar-se ao meu lado. , então, colocou um pedaço de lasanha no seu prato. Senti minha boca salivar ao olhar para o prato dele. O problema é que, no lugar em que estava, não conseguia alcançar a comida.
- ... ummm... será que você poderia... ummm – apontei pro meu prato.
- Claro.
Ele rapidamente preencheu meu prato com uma boa porção de comida. Cortei a lasanha e levei a boca. E quando aquele sabor explodiu na minha boca... Fechei os olhos e quase soltei um gemido de apreciação. Quando abri os olhos novamente, todos olhavam pra mim. Até mesmo havia parado de discutir com sobre quem devia pegar outro pedaço de lasanha primeiro: o último reclamava que o primeiro já havia pegado três pedaços. Não sabia por que todos eles me olhavam, mas não me preocupei com isso. Precisava fazer algo mais importante. Virei para o lado e encontrei aqueles lindos olhos dele, que no momento continha uma mistura expectativa e apreensão, me observando atentamente.
- , essa lasanha – apontei bobamente para meu prato – é a melhor coisa que já comi na vida.
O sorriso que ele abriu iluminou seu rosto inteiro, mas antes que pudesse responder, , que estava sentado na minha frente, falou:
- Épica, não é?
Olhei pra ele e acenei com a cabeça enfaticamente:
- Épica.

xxx

- Vamos assistir a um filme de comédia. – exclamou, se aconchegando no tórax do namorado.
Nós estávamos na sala agora. Cada um tinha um potinho de sobremesa na mão. E, depois de provar aquela torta de chocolate, admito ter ficado feliz por tê-la protegido. Não chegava nem perto de ser tão boa quanto a lasanha, mas estava deliciosa. estava em pé, ao lado da televisão ligada, procurando na estante que continha dezenas de capas de DVDs um filme para nós assistirmos. estava sentado a minha esquerda e , a minha direita. estava no outro sofá de dois lugares e, antes de ser eleito para colocar o filme no DVD player, estava ao lado dele.
- Não! – protestou. - Vamos assistir terror!
- Vocês dois sabem muito bem que é minha vez de escolher. – parou de mastigar para reclamar.
- Acho que a é quem deveria escolher o filme. – se intrometeu na discussão. – Afinal, o jantar é pra ela, não?
Virei pra ele e sorri agradecida, só então percebendo o quão perto ele realmente estava. Nossos ombros quase se tocavam.
- Obrigada, , mas não precisa. Pode ser qualquer coisa.
Não queria mudar ainda mais a rotina deles.
- Não, sis, ele tem razão. O que você quer assistir?
Mordi o lábio inferior. Não queria me intrometer, mas também não queria me fazer de rogada, então falei:
- Será que tem aquele filme com a Jennifer Aniston e o Adam Sendler? É meio antigo...
- Esposa de Mentirinha? Também estou querendo ver esse filme há tempos.
- Isso!
- Acho que está no lado direito, . – apontou para a prateleira, depois deu um beijo no cabelo da namorada e a puxou mais contra si, o braço esquerdo nunca deixando de circular os ombros dela.
foi para onde o amigo tinha apontado e começou a procurar. Deixei meus olhos vagarem distraidamente pela sala até que a voz que vinha da televisão chamou minha atenção:
“Integrantes do One Direction foram vistos hoje saindo do hospital particular Royal London Hospital”
A bonita e super maquiada garota loira que narrava a reportagem deu lugar a uma foto de , e na frente de um grande prédio branco.
Abri a boca, chocada. Acho que ainda não tinha dimensionado o quão famoso esses cinco realmente eram. Agora, contudo, vendo eles na televisão, realmente entendi o que eles quiseram dizer com “mundialmente famosos”.
A mulher voltou ao plano principal:
“Fontes oficiais da banda confirmaram que eles estavam visitando um amigo que havia sofrido um pequeno acidente de carro. Também foi oficialmente confirmado que o amigo deles está bem e já recebeu alta. Fontes extra-oficiais, contudo, nos informaram que todos os integrantes da banda apareceram para visitar esse amigo – ela fez sinal de aspas com os dedos – e passaram horas no hospital. Outra fonte extra-oficial nos afirmou que o paciente do quarto visitado era uma estudante da Universidade de Londres. – virou um pouco de lado, mudando de câmera – Então, directioners, quem será a garota misteriosa que fez One Direction cruzar metade da cidade só para visitá-la... e que valeu horas do tempo de folga dos meninos? Será mesmo uma amiga... ou será que é algo mais? – mudou de câmera de novo – Depois dos comerciais: Justin e Selena terminaram de vez?” Uma propaganda sobre detergente apareceu logo depois das palavras dela.
Pisquei algumas vezes, tentando digerir aquilo, depois virei a cabeça um pouco e encontrei os olhos preocupados de .
- Vocês... vocês estavam na televisão – apontei bobamente para o eletrodoméstico, rompendo o silêncio que só agora percebi ter se instalado na sala.
- Sim – balançou a cabeça vagarosamente. – Como você se sente sobre isso?
- Como... como eu me sinto? – franzi o cenho, não entendendo nada.
- É. Nós queríamos te manter longe dos holofotes por mais tempo, mas ospaparazzi são impossivelmente chatos.
Virei para e tentei brincar para que não percebesse o quanto suas palavras tinham me machucado:
- Uou... Não sabia que era tão feia assim pra vocês terem vergonha de serem associado a minha pessoa.
- O QUÊ? rugiu, segurando meus ombros firmemente e me forçou a olhá-la no olhos. – Não repita uma coisa dessas nunca mais.
Seu tom era tão mortalmente sério que eu não pude fazer nada além de balançar a cabeça, concordando.
- O que quis dizer, , é que não queríamos que você sofresse tão cedo a pressão de ser associada conosco e, assim, manter a sua vida o mais perto do que ela era antes de ontem à tarde. – tentou cortar a tensão que se instalara.
- Não queríamos perturbar a sua vida. Estamos preocupados com você, não com a nossa imagem. - falou baixinho, parecendo triste.
É claro que eles estavam preocupados comigo. Desde que os conheci, eles foram prestativos e amáveis comigo. Eu não tinha direito nenhum de julgá-los e fazer acusações ridículas.
- Me desculpe. Não tinha direito nenhum de dizer aquilo – falei baixinho. - Foi inadequado e rude – virei para ele. - Me dá um abraço?
- hug! – ele saltou do sofá e se jogou em cima de mim.
- Desculpe, bear - sussurrei, apertando-o.
- Sem problema, melhor amiga.
- Vou te compensar cozinhando um doce brasileiro bem famoso, certo?
- Eu te amo, linda – me apertou forte também.
- Tá bom, tá bom. Já chega disso. – empurrou o companheiro para longe - Vamos assistir ao filme.
foi gargalhando de volta para sofá em que estava antes. Pude ver que, enquanto estava ocupada me desculpando com meu mais novo “melhor amigo”, havia se sentado e os trailers de outros filmes já passavam. Talvez fosse melhor deixar o assunto anterior morrer, mas tinha uma dúvida que estava me incomodando:
- Como é que eles sabem tanto sobre... mim e o hospital?
- Eles pagam algumas pessoas... outras só querem ver o circo pegar fogo e tem gente que só gosta de fofoca mesmo. – deu de ombros. – Não temos muita certeza, mas eles sempre conseguem a informação. Eles descobriram ontem a noite onde estávamos, então, hoje de manhã pedimos ao três para saírem pela porta da frente e assim atrair a atenção deles. Foi por isso que ninguém nos viu saindo pela garagem.
- Entendi.
- O twitter deve estar enlouquecendo agora.
- Eu não poderia saber – comentei, distraída. – Não tenho twitter.
- COMO ASSIM VOCÊ NÃO TEM TWITTER? – estava com os olhos arregalados e a boca aberta.
- Já disse que prefiro livros a televisão e internet – dei de ombros. – E também nunca tive uma vida interessante o suficiente para escrever sobre ela no twitter.
- Isso é inaceitável – levantou-se e começou a se dirigir para fora da sala. – E agora você vive com a gente – sua voz foi ficando cada vez mais distante. – Sua vida vai ficar super interessante.
Olhei de maneira interrogativa para que se limitou a dar de ombros. Nesse momento, retornou, digitando freneticamente num iPhone.
- Aqui, sis – me entregou o celular. – Já criei um twitter pra você e conectei no seu celular novo.
Olhei pra baixo, encarando a tela do aparelho.
- Também já estou seguindo nós seis. E a sua sen-
- @drathirteen? – arqueei a sobrancelha.
- Do House, sabe?
- É claro que eu sei – revirei os olhos. – Adoro House. Estou perguntando por que você escolheu esse nome de usuário?
Foi a vez de ele revirar os olhos antes de falar monotonamente como se fosse óbvio:
- Porque você é médica e...
- Estudante de medicina.
- ...você é gost- deu um tapa da cabeça dele – linda. Você é linda. Você é médica e linda como a Thirteen. E a senha é émeufavorito.
Soltei uma risadinha.
- Obrigada... eu acho.
- , umm... quando eles descobrirem, porque, sejamos realista, eles vão descobrir, que era você no hospital e que você tá morando aqui agora... nós temos algumas fãs que... ummm.. – ficava emendando uma frase sem sentido em outra.
Encarei-o, as sobrancelhas levantadas, observando-o com expectativa que ele fizesse algum sentido.
- O que está querendo dizer, , é que nós temos algumas fãs que não tem muito senso de respeito ao próximo e twittam algumas coisas bem rudes. – explicou. - E nós não queremos que você fique chateada se elas mandarem algo desse tipo pra você.
- Eu não ligo muito para o que os outros pensam de mim.
- Nós também pensávamos assim também. Mas elas podem ser bem cruéis. – tinha um sorrisinho triste enquanto vagarosamente levava o que parecia ser a sua ultima colherada de torta à boca.
- Bom, pelo menos por enquanto, vocês não tem que se preocupar com isso. Elas não sabem quem eu sou e também não faço ideia de como usar o twitter. Então, até eu aprender a usar aquele site ou até elas me acharem, não precisam se preocupar com isso.
Murmúrios de concordância encheram o cômodo.
- Vamos assistir ao filme então? – tentei aliviar a tensão do ambiente.
Alguém usou o controle para tirar o filme da pausa – nem mesmo havia percebido que estava pausado. Todos nós rimos muito o filme inteiro e, quando este acabou, “nossos” três convidados se despediram e foram embora, prometendo voltar amanhã bem cedo.
- Nós vamos dormir também. – se levantou, se esticou toda, estalando os músculos. – Você precisa de ajuda com alguma coisa antes, ?
Percebi que ela se referia a trocar de roupa. Olhei para o vestido que usava e calculei que não seria tão difícil trocá-lo por uma camisola.
- Não precisa não – sorri. – Obrigada.
- Vou acompanhá-la até o quarto. – se levantou e me estendeu a mão.
- Claro que vai. – deu uma piscadinha e gargalhou. – Vamos, amor – puxou a namorada sorridente e saiu do cômodo.
Senti meu rosto ficar vermelho, mas tentei ignorar enquanto andávamos. Deixou-me ir apoiando só na muleta, mas, mais uma vez, ficou perto o suficiente caso algum imprevisto acontecesse.
- Obrigada, . Por tudo – agradeci quando paramos na frente da porta.
- Não precisa agradecer. Qualquer coisa que você precisar, o meu quarto e ali – apontou para porta na frente da minha. – e estão ali – mostrou a porta a direita da minha. – E o número de nós seis já está no seu celular.
Sua preocupação era muito fofa.
- Vou ficar bem. Obrigada.
Abaixou-se um pouco e deu um beijo na minha testa.
- Boa noite, .
- Boa noite.
Entrei, fechei a porta e encostei as muletas na parede. Depois de procurar um pouco achei minha camisola. Não foi muito fácil trocar de roupa, mas também não foi tão difícil. Perdi equilíbrio uma vez, contudo, consegui me apoiar antes de ir para o chão. Felizmente, tomei banho antes de sair do hospital - embrulhar o gesso em plástico para não molhar parecia ser bem chato quando uma enfermeira me mostrou como fazê-lo. Deitei na cama com cuidado e me envolvi naquele edredom fofinho. Era engraçado como a vida podia mudar tão drasticamente de maneira tão repentina. Ontem mesmo eu estava reclamando sobre quão monótona minha vida era e hoje ela não podia estar mais longe disso.
Dormi com um sorriso nos lábios.


Capítulo Nove

Ao acordar de manhã, levei alguns aterrorizantes segundos pra me situar. Quando finalmente lembrei onde estava, meus ombros relaxaram novamente e puxei o edredom sobre o ombro, me aconchegando melhor. Quis ceder à tentação e voltar a dormir, mas o plano que tinha formado ontem – cozinhar para eles sempre que possível - continuava cutucando o fundo do meu cérebro. Preguiçosamente, estiquei meu braço e alcancei meu iPhone. Era oito da manhã – o que, nos domingos, era igual a 2 da madrugada, mas isso me dava o tempo extra necessário para preparar o café da manhã. Não que usasse todo esse tempo pra cozinhar, o problema era minha lenta locomoção atual. Empurrei os cobertores para o lado, sentei na cama e estiquei os braços. Puxando as muletas para mim, levantei e saí do quarto. Pensei em mudar de roupa, mas logo descartei essa ideia – daria um trabalho dispensável no momento e minha camisola não era nada supersexy ou reveladora. Na verdade, minha “camisola” não era exatamente isso, era uma camiseta masculina preta de manga curta que chegava até um pouco acima do meu joelho. Adoro dormir com ela, era muito confortável.
O mais silenciosamente possível, caminhei até a cozinha. Abri a geladeira e, usando minhas recém-descobertas habilidades de equilibrista, comecei a pegar os ingredientes que precisaria para preparar panquecas, ovos mexidos, french toast e bacon. Precisei fazer três viagens, mas logo estava tudo sobre a ilha no meio da cozinha. Olhei em volta, tentando me lembrar de onde havia dito que os utensílios estavam dispostos nos armários. Logo encontrei e peguei os pratos, tigelas e talheres necessários para o preparo e distribuição da refeição. Tive problemas, contudo, para encontrar as panelas – só depois de abrir dois armários diferentes encontrei o que procurava. Quando finalmente consegui reunir tudo que precisava, comecei a preparar a massa das panquecas. Deixei escapar um sorrisinho, me lembrando de enquanto cozinhava. O garoto havia me perguntando se sabia cozinhar, percebo agora que lhe disse uma meia verdade. Sim, eu sabia cozinhar comida brasileira, mas também havia aprendido várias comidas gringas porque Lorelai não conseguiria cozinhar algo comestível nem mesmo pra salvar a própria vida e sempre me convencia a fazer nossas refeições. Então, eu procurava as receitas na internet, o que acabou por incrementar meu cardápio pessoal.
Franzi o cenho, como será que minha amiga estava se virando sem mim lá? Provavelmente iria sobreviver de fast-food e congelados durante esses três próximos meses. Ou iria fazer Mark cozinhar pra ela... Ri sozinha, imaginando meus dois desastrados amigos na cozinha. Sacudi a cabeça, deixando a massa de lado. Quebrei alguns ovos sobre uma tigela, acrescentei um pouco de sal e depois virei sobre o azeite quente na frigideira. Mexi até atingir a consistência certa, então despejei sobre outra tigela e deixei no canto. Comecei a preparar o bacon e simultaneamente, numa terceira frigideira, comecei a fazer as panquecas. Depois de terminar os dois, fiz as torradas. Felizmente já tinha muita prática em preparar esses pratos, mesmo nunca tendo feito em tanta quantidade, mas isso me deu a vantagem de fazer tudo bem rápido - o que impedia que a comida esfriasse e, assim, não ficasse horrível. Ajeitei toda mesa e estava colocando a caixa de suco de laranja – não tinha laranjas pra eu fazer um suco fresco - sobre a mesa quando ouvi do lado de fora:
- , que cheiro é esse? – a voz de ainda estava meio embolada pelo sono. – Você está se superando, – abriu a porta - e est-! – exclamou quando me viu.
, vestida em uma camisa masculina que deduzi pertencer ao namorado, vinha logo atrás dele, os cabelos desgrenhados, tentando esfregar o sono para longe dos olhos.
- , eu não sei o que você fez, mas o cheiro está bom demais... Hey! Você não é o .
- Não – ele concordou. – É a garota dele.
Minhas bochechas ficaram escarlates na mesma hora.
- , se você continuar fazendo esse tipo de comentário, nunca mais vou cozinhar pra você.
Levantou as mãos em sinal de rendição.
- Eu só digo a verdade, somente a verdade e nada além da verdade.
- Sério, amor, você está assistindo Law&Order demais – puxou uma cadeira e se sentou, colocando uma das torradas na boca. – ! – praticamente gemeu. – Essas são as melhores torradas que já comi na vida.
- Quero provar também – ele pegou a metade que sobrara na mão da namorada.
- Hey! Essa era minha!
- Nunca pensei que fosse dizer isso, mas você faz torradas melhor do que o . – disse, puxando outra da tigela.
Eleanor balançava a cabeça enfaticamente, concordando.
- Sinto me honrada, , mas acred-Hey! – exclamei ao vê-lo pegar a terceira torrada. – Deixe algumas para o resto de nós. nem mesmo acordou e você já está acabando com o café da manhã.
- Falando em , de quem é essa camisa, ? – falou, um sorrisinho divertido nos lábios e um brilho esperto nos olhos.
O namorado dela e eu engasgamos de choque na mesma hora - só que logo percebi não pelo mesmo motivo.
- Como foi que não notei isso antes? – resmungou pra si mesmo, me analisando de alto a baixo.
- Não é nada di... – comecei a explicar.
- Deus! Sei que ele tem toda aquela fama, mas nunca pensei que era tão rápido assim. – falava rapidamente, dando passos lentos em direção a mim, se sentindo um detetive de Law&Order. – Como foi que vocês fizeram com o gesso? – olhou pra baixo. – Isso com certeza atrapalha. Não dá pra ficar rolando na cama e...
- ! – berrei, sentindo a cor subir por minhas bochechas.
- O quê? Que foi?
Eleanor gargalhava. Fiz uma careta. Se não tivesse usando esse gesso, já teria voado no pescoço dele.
- Pelo visto, vou ter que ir até a outra fonte pra saber os detalhes sórdidos – colou a mão no queixo, pensativo. – Hora de acordar o .
Como se respondesse a um chamado, – usando somente uma boxer preta – passou pela porta. Perdi o raciocínio enquanto analisava a barriga tonificada dele.
- Não precisa, amor. Já estou acordado.
A voz dele estava ainda mais profunda – se é que isso é possível – devido ao sono.
- Ótimo! – esfregou uma mão na outra. – Agora você pode nos contar como você e ...
- . – falei em tom de aviso.
- ...fizeram ontem à noite quando...
- De quem é essa camiseta?
O tom sério de interrompeu o amigo. Seus olhos, que estavam fixos em mim, mostravam um brilho perigoso.
- Bom dia, – tentei brincar.
- De quem é essa camiseta? Você disse que não tinha nenhum irmão. Então, de quem é essa camisa?
Olhei pra baixo, encarando minha camiseta e pensando que se fosse uma pessoa normal que compra camisolas normais, não estaria numa situação constrangedora como essa.
- É minha – respondi. – Acho mais confortável que pijamas, então comprei essa camiseta pra dormir.
Os ombros dele relaxaram visivelmente e ele pareceu um pouco desconfortável.
- Você é esquisita, sis. – fez uma careta zombadora, brincando. E, simples assim, toda tensão do cômodo se dissipou.
- Bom, eu fiz café da manhã hoje... então, - apontei para mesa – que tal comermos antes de ficar frio?
Virou a cabeça, só agora percebendo a mesa. Franziu o cenho.
- Não precisava ter se incomodado.
Sentei-me à mesa, ao lado de , que estava sentando de frente a namorada, me sentindo meio sem graça. Será que ele estava bravo por ter cozinhado sem ter perdido permissão? Peguei uma das torradas, tentando disfarçar.
Ele puxou a cadeira em frente a mim.
- Não quis dizer que não queria que cozinhasse – seu tom era gentil. – Só que não precisava ter se dado ao trabalho.
- Parem de falar e comam. – falou entre uma garfada e outra dos ovos mexidos. – Comam comida, viu? Não se comam e...
Engoli com dificuldade a torrada em minha garganta, corando novamente.
- Tá bom, amor – colocou a mão sobre o ombro dele. - Você já a assustou o suficiente. Se continuar a constrangendo, acho que vai desistir de ficar aqui.
- Obrigada, .
esticou as mãos e preencheu o prato com um pouco de tudo que preparei. Foi a minha vez de encará-lo com ansiosamente quando o vi levar o garfo à boca. Será que ia gostar? Ele fechou os olhos por um segundo, mas logo os abriu em um estalo, me encarando diretamente.
- Perfeito – abriu um sorriso. – Está muito bom mesmo.
Sorri de volta.
- Sério? Então vocês gostaram?
- Claro que sim, cunhadinha – franziu o cenho. – Como você conseguiu cozinhar? – tomou um gole de suco.
- Com um pouco de esforço e muita força de vontade – provei um pouco dos ovos mexidos e eles realmente estavam muito bons.
- Não que nós não gostamos da comida, porque está maravilhosa e não que não estejamos agradecidos, mas não precisava ter se dado todo esse trabalho – mais uma vez o tom gentil.
- Está tudo bem, . Eu queria fazer – sorri.
, que, até agora estava muito ocupado comendo três das cinco panquecas que tinha colocado no prato, engoliu o que tinha na boca e falou risonho:
- Só que você vai estar em apuros quando descobrir que você pode cozinhar tão bem assim. Ele não tem vergonha de pedir que cozinhe pra ele em toda oportunidade que tiver.
- Acho que posso lidar com isso. Gosto de cozinhar e gosto dele. Não me importaria de cozinhar sempre que ele pedisse e-
- Por favor, nunca mais repita essas palavras. – me interrompeu, quase desesperadamente. – Ele vai te trancar na cozinha e nunca mais deixar você sair de lá!
- Conheço alguém que gostaria de trancar você em outro lugar da casa. – gargalhou.
- Mas do que diabos você está falan-
- Nós vamos ao apartamento de hoje – dessa vez foi quem me interrompeu. – Temos essa tradição de sempre assistir a um filme aos domingos quando estamos em casa.
- E cada vez é no apartamento de um - ela completou. - É a vez dele.
- Não que eu esteja reclamando, porque gosto de assistir filmes, mas nós já assistimos ontem. Vocês não querem fazer outra coisa? Vocês não precisam ficar dentro de casa só por minha causa. Estou acostumada a ficar sozinha.
- Então pode tratar de desacostumar. – parecia decidido. – Agora você é nossa amiga – falou, como se aquilo explicasse tudo.
- Ontem nós assistimos ao filme porque parecia ser uma boa junto com seu jantar de boas vindas – mordeu a torrada que tinha na mão.
- E vamos hoje à casa dele porque é nossa tradição. – terminou.
Balancei a cabeça, concordando. Decidi mudar de assunto:
- Então, me contem como é ser famoso – revezei meu olhar entre os três.
- Ah, little sister, você vai descobrir rapidinho – riu um sorrisinho enigmático.

xxx

Revirei os olhos, batendo meu pé direito no chão repetidamente em sinal de impaciência.
- É sempre assim? – indiquei com a cabeça o corredor que levava aos quartos. – Vocês combinam um horário pra sair e os dois ficam enrolando no quarto?
- Sim, sempre é. – balançou a cabeça, sentando no braço do sofá, me olhando. – Só não sei se “enrolando” seria um bom verbo pra definir o que eles estão fazendo agora.
- Sabe, paciência é uma das virtudes que nunca fui capaz de desenvolver... – resmunguei pra ele num tom obviamente falso de animação. - E ! NÓS ESTAMOS INDO SEM VOCÊS! – gritei para o alto.
Não houve resposta.
- Vamos, . – abri a porta.
- Estamos aqui. Estamos aqui. – andava a passos rápidos, sorrindo enquanto tentava ajeitar o cabelo que estava todo embaraçado.
- Onde é o incêndio, ? Pra quê a pressa? – vinha logo atrás, também sorria e nem tentava arrumar o cabelo que estava pior do que o da namorada.
Sex hair. Quão previsível. Revirei os olhos.
- Incêndio? Não sei onde, mas espero que vocês tenham apagado o fogo.
Sabia que não tinha tanta convivência com eles para poder fazer esse tipo de comentário, mas era tão fácil me sentir confortável ao redor dos meninos e de , que as palavras simplesmente escapuliram.
- Apagar o fogo? – meu “irmão” fez uma careta falsamente horrorizada, então puxou a namorada pela cintura e a apertou firme contra ele. – NUNCA! Talvez controlado a chama momentaneamente. Se é que você me entende – deu uma piscadinha.
- Poupe-me, . – se levantou e parou ao lado da porta. – Ninguém quer saber detalhes da sua vida sexual.
- Credo, . Isso é frustração, sabia? Falta de sexo faz isso. Aliás, faz quanto tempo que você nã-
- Já chega. Vamos de uma vez. – puxou o namorado pra fora do apartamento.
Sacudi a cabeça. E os segui ainda a tempo de escutar ele sussurrando:
- ...mas que diferença faz, amor? Ele pode escutar mesmo! As paredes não são à prova de som.
Como não queria saber mais sobre o assunto do qual eles conversavam, parei de andar e esperei por , que estava trancando a porta.
- Então... mora longe? – perguntei quando ele me alcançou e começamos a andar.
- No andar de baixo.
- Ah! E os outros meninos também moram aqui?
- mora aqui – apontou pra outra única porta do corredor. – E Liam mora ao lado de .
Balancei a cabeça. Chegamos ao elevador, onde o casal já estava e, segundos depois, estávamos na frente do apartamento. tentou abrir a porta, mas estava trancada, então achou que seria divertido ficar tocando a campainha repetidamente até alguém aparecer. Uma garota abriu a porta. Ela tinha cabelos e olhos castanhos. E, assim como , parecia que tinha saído direto de um catálogo da Victoria’s Secret.
- , eu ouvi da primeira vez – ela torceu os lábios.
- Kimberlee! – puxou-a para um abraço de urso. – É que eu estava ansioso pra ver você... – falou num tom galante, mexendo as sobrancelhas repetidamente algumas vezes.
- Você não muda mesmo, – o empurrou pra longe, rindo.
- Você sabe que me ama, Kim.
- Tanto faz – revirou os olhos, o sorriso nunca abandonando os lábios. – Vamos entrando porque vocês, só pra variar um pouco, estão atrasados de novo.
Ela deu um passo pra trás e todos nós entramos. No segundo que passei pela porta, a garota me abraçou.
- Você deve ser a – falou ao me soltar. – Sou Kimberlee. me contou o que você fez. Foi muito corajoso.
- Obrigada, mas só fiz o que qualquer um teria feito.
- Ele também afirmou que você diria isso.
- É um prazer conhecê-la – falei sincera.
- Amor, onde você colocou o sal? – a voz de vinha de algum dos cômodos mais ao interior do apartamento.
- Na prateleira de cima – se virou para gritar a resposta.
- Não tô achando.
- Tô indo aí – gritou de volta. – O que seria dos homens sem a gente? – deu uma risadinha. – Por favor, , fique a vontade. A casa é como se fosse de toda família e você agora faz parte dela – sorriu outra vez e foi atrás do namorado.
- ’s girl? – perguntei a que era o único ao meu lado já que e o namorado desapareceram assim que entramos.
Ele balançou a cabeça, concordando.
- Eles namoram já há algum tempo – franziu o cenho, pensativo. – E são outro bom exemplo de equilíbrio.
- Sério? E por quê?
- é mais quieto, sabe? Mais na dele. Já a Kim é mais expansiva.
- Entendo.
- LINDA!
vinha correndo em minha direção e, pelo jeito, ele não iria conseguir parar e tempo e nós dois acabaríamos no chão. Felizmente, no último segundo, ele conseguiu desacelerar e apenas se chocou contra mim mais forte do que o normal.
- linda, minha melhor amiga do mundo – falava com um sorriso imenso enquanto me abraça. - Estava com tantas saudades de você.
Franzi o cenho e olhei pra , esperando algum tipo de explicação. Ele deu de ombros, rindo.
- Por quê você es-
- Eu te amo, sabia? – me interrompeu.
- Ok, , - coloquei as mãos sobre o tórax dele, empurrando-o um pouco, mas ele manteve suas mãos na minha cintura, – por que você es-
- Ele escutou quando e eu estávamos contando a sobre o café da manhã que você fez, .
Torci os lábios, tentando conter um sorriso.
- Ah! Está explicado – apertei as bochechas dele. – Sabia que você é muito interesseiro, ?
- Não, veja bem, - falou, segurando minhas mãos na altura de seus ombros e gargalhando ao ver que eu não estava brava, – não é isso.
- Não?
- Claro que não.
- , pare de importunar a e venha me ajudar a pegar as coisas ou você pode dizer adeus àqueles cupcakes que eu prometi.
- Você está com ciúmes, Kim.
- Como é que é? Agora definitivamente você pode dizer adeus aos cupcakes.
Ele arregalou os olhos, me soltou e saiu correndo a fim de seguir a voz feminina.
- Calma, Kim, eu estava brincan-
- Pobre, – voltei minha atenção a . – Ela foi bem malvado ao ameaçá-lo com comida – riu um pouco.
- Por que vocês dois ainda estão aí na porta? – também colocou outras duas tigelas de pipoca sobre a mesa. - Vamos sentar.
indicou com a mão para que eu passasse primeiro. Tão cavalheiro.
Usei o tempo que levaria andando até o sofá pra observar melhor o ambiente em que estava. As paredes eram brancas e havia um quadro de um desenho meio abstrato de uma montanha-russa em uma parede e, alguns metros ao lado dele, tinha um portal que eu supunha levava à outra sala e daí pra cozinha. Havia um sofá de três lugares de frente para grande televisão sobre um painel de madeira, de ambos os lados do sofá maior tinha dois sofás de dois lugares, e o da esquerda claramente fora mudado de seu lugar original para ficar de frente para televisão e num ângulo quase paralelo ao do móvel maior. Os estofados dos sofás eram em um tom caramelo escuro. A mesinha de centro, as almofadas sobre o sofá, o painel e o rack que ficava abaixo deste eram todos em marrom meio vinho. Alguns vasos de tamanhos e formas diferentes decoravam a superfície do rack. Na parede à direita do portal, havia cortinas que chegavam até o chão e eram da mesma cor das almofadas.
- Pode se sentar mais pra esquerda, ? – pediu quando estava prestes a me sentar.
Franzi o cenho, estranhando a pergunta.
- Claro.
Sentei-me a extrema esquerda do sofá de três lugares, deixando as muletas no chão, mas de maneira que não atrapalhasse a passagem de ninguém. Só então percebi que havia um colchão de solteiro aos pés do sofá da esquerda.
- Trouxe os cobertores. – falou alegremente e colocou um cobertor sobre cada sofá e um sobre o colchão.
- Já disse que estava brincando, . – Kim surgiu outra vez pelo portal, carregando um saleiro e guardanapos desta vez.
- Promete? – perguntou, pegando um tanto de pipoca da tigela que segurava abraçada ao corpo e colocando na boca.
- Prometo – ela revirou os olhos e, depois de colocar os objetos que trazia sobre a mesinha, deitou no colchão.
Contente com a resposta, o garoto foi se sentar no sofá da direita, ao lado de , que bebia um pouco de Coca e observava tudo com um sorriso nos lábios.
- Cadê o outro casal? – perguntei, percebendo que tudo estava mais quieto, pois não estava no cômodo.
- Acho que está na cozi-
- !! – ouvi gritar. - Já disse pra parar de pegação na minha cozinha.
balançou a cabeça em descrença, o sorriso se transformando em um sorrisinho enquanto falava:
- Têm dias que eles parecem malditos coelhos. Não podem manter as mãos longe um do outro nem por um segundo. Aposto que foi por culpa deles que vocês se atrasaram hoje.
Balancei a cabeça e, segundos depois, e , ambos corados e com a respiração ofegante, andaram até o sofá da direita e lá se acomodaram com ela sentada entre as pernas dele e o cobertor sobre ela. vinha marchando logo atrás, a expressão fechada, um DVD na mão. Ele foi até a frente da sala e colocou e arrumou tudo para começarmos a assistir o filme, depois ele se deitou ao lado da namorada e a abraçou pela cintura. Kim sorriu ao pousar a cabeça sobre o tórax do namorado e puxou o cobertor sobre os dois.
- , me passa essa almofada aí do seu lado? – o dono da casa pediu.
entregou-lhe a almofada e ele a colocou sob a cabeça.
- Amor, vai buscar outra lá dentro – Kim falou, mas não se mexeu para deixá-lo sair. – Onde vai deitar?
- Não tem problema, Kim. Vou deitar aqui mesmo – e, dizendo isso, deitou no meu colo.
Olhei pra baixo surpresa, encontrando os lindos olhos dele me encarando de volta. Ergui as sobrancelhas.
- Você se importa? – a voz dele estava rouca como sempre, mas agora ele parecia um garotinho de cinco anos pedindo pra ganhar um cookie antes do almoço.
Não resistindo a fofura dele, respondi:
- Não, não me importo.
Ele abriu um sorriso imenso e virou de frente para a televisão, pegando a última tigela de pipoca e colocando-a encostada na barriga.
-Três casais na sala. – falou devagar, olhando ao redor do ambiente.
- e eu não s - comecei a protestar.
- Parece que você e eu sobramos, . – continuou como se eu não tivesse falado nada e passou o braço direito sobre o ombro do amigo.
- Mas pelo menos temos pipoca – levantou sua tigela e apontou para o pote no colo do amigo.
soltou uma gargalhada e concordou com a cabeça.
- , e eu temos pipoca e garotas. – e como para provar seu ponto, deu um beijo no cabelo da namorada e depois enfiou um tanto de pipoca na boca.
abriu a boca, fingindo estar horrorizado e colocou a mão sobre o coração.
- Golpe baixo, .
- Life is a bitch – deu de ombros.
- Que filme vamos assistir?
- Provavelmente alguma coisa de suspense policial já que foi que escolheu. – respondeu. – Quer pipoca? – virou um pouco a cabeça pra olhar pra mim.
- Não, obrigada. Tô sem fome.
deu de ombros e voltou a atenção para a televisão. Vi Kim cochichar algo para o namorado e ele respondeu, mas não pude entender o que.
- Como assim “A casa dos sonhos”? – dessa vez ela falou alto o suficiente, levantando a cabeça no tórax do namorado, mas manteve as mãos sobre ele. – Amor, você sabe que eu não gosto de suspense. Fico ansiosa demais para ver o final.
- Achei que fosse só eu – comentei, olhando para ela.
Ela virou a cabeça e me olhou um tanto preocupada.
- Você também? Sabe, eu até que gosto, mas tenho vontade de pular logo pro final porque eu fico muito ansiosa.
- Eu também! Uma vez, meu pai e eu-
- Hey! – senti uma pipoca atingir minha bochecha. – Vamos ficar quieta vocês duas? – me olhava em um falso tom bravo. – Quando for a vez de vocês, nós assistimos o que vocês quiserem. Amigos são para isso.
Kimberlee começou a retrucar, mas apertou o abraço em volta da cintura dela e colou os lábios dos dois, sussurrando alguma coisa que a fez sorrir e depois voltar à posição interior.
Eles formavam um belo casal. Balancei a cabeça e comecei a assistir ao filme. E, minutos depois, eu já estava totalmente ansiosa pra saber o final.
- Ai meu Deus! – meio que sussurrei, meio que gritei, levando as mãos à boca ao ver uma cena particularmente tensa do filme.
Permaneci nessa posição por alguns segundos, os olhos vidrados na tela até que se mexeu e resmungou alguma coisa. Abaixei a vista e encontrei-o me olhando com uma careta de desagrado.
- Que foi? – perguntei baixinho para não atrapalhar os outros.
- Por que você parou de me fazer cafuné?
Ele apertou os lábios, parecendo uma criancinha a quem foi negado um biscoito e ficou tão fofo que levei um segundo para registrar o que ele tinha falado.
- O quê? – franzi o cenho. – Eu não estava te fazendo cafuné.
- Estava sim. Desde o começo do filme.
Senti minhas bochechas esquentares porque aquilo devia ser verdade.
- Desculpa, ... Eu nem percebi.
Ele sorriu sem mostrar os dentes.
- Tudo bem. Eu gosto. É tão... – foi a vez dele franzir o cenho – natural – deu um sorriso de lado e se virou de lado outra vez.
E eu fiquei ali, olhando para ele sem saber exatamente o que aquela conversa significava – se é que havia algum significado. Pouco depois, senti os dedos dele se fecharem ao redor do meu pulso. Ele levantou minha mão direita que estava apoiada em seu ombro – pois não havia outro lugar onde eu pudesse descansá-la confortavelmente – e posicionou sobre sua cabeça. não virou para olhar para mim enquanto fazia isso, mas algo me dizia que havia um sorriso em seu rosto.
E, sentindo aqueles fios sedosos entre meus dedos, tive que concordar com ele. Era como se tivesse feito isso inúmeras vezes antes e, talvez por isso não tenha notado que fazia cafuné nele. Era simplesmente... natural.



Capítulo Dez

- E aí, como passou a segunda noite no apartamento dos Backstreet Boys?
Revirei os olhos ao ouvir o tédio na voz de Lorelai.
- Foi boa. Eles são muito legais. Quando você conversar com eles, vai gostar dos garotos.
Minha amiga não levantou os olhos do caderno em que riscava um bonito desenho da árvore a nossa frente. Estávamos sentadas num dos bancos perto do prédio da faculdade de administração. Na segunda-feira, coincidentemente, nossas aulas terminavam no mesmo horário, então sempre sentávamos num daqueles bancos para esperar por meia-hora enquanto Mark ainda estava tendo aula. Hoje, contudo, eu estava esperando um dos meninos passar para me levar de volta para casa.
-Não, obrigada – colocou o lápis que estava usando dentro do estojo e pegou outro. - Só quero ter certeza de que você está segura – começou a colorir o desenho.
- Por isso você me ligou ontem só às dez da noite?
Lorelai corou.
- Ummm... Veja bem, só liguei esse horário porque Mark e eu ficamos... distraídos.
- Ahan. Sei.
- De qualquer jeito, quase me esqueci de te dizer que falei com a Sra. Parker – minha amiga finalmente levantou a cabeça e me encarou, descansando a mão que segurava o lápis sobre o caderno. – Ela disse que você pode usar esses três meses como se fossem as suas férias, mas quando você voltar vai ter que pegar turnos extras e trabalhar nos finais de semana.
Olhei fixamente para Lorelai, não acreditando na minha sorte.
- Tá falando sério?
Acenou com a cabeça.
- Como foi que você conseguiu isso? Jurava que ela ia me demitir.
- Do mesmo jeito que consegui o emprego pra você. Todos me amam.
Arqueei a sobrancelha.
- Ok. Ok – levantou as mãos em sinal de rendimento. – Ela estudou com a minha mãe no ensino médio, então apelei para o lado emocional dela.
- Que feio, Blake. Quer dizer então que você é manipuladora?
- Se você não gosta dos meus meios...
- Eu não disse isso – soltei uma risada. – Você sabe o que dizem: Não odeie o jogador, odeie o jogo.
Ela deu de ombros e sorriu, voltando a desenhar.
- Sábias palavras, . Sábias palavras – trocou de lápis mais uma vez. – Estive pensando e você tem muita sorte – colocou um pouco de cabelo atrás da orelha, nunca desviando os olhos da bonita árvore que tomava formas cada vez mais perfeitas a cada segundo.
- Esteve pensando, sério? Achei que usava todo seu tempo livre se agarrando com Mark ou desenhando.
- Nossa. Você tá ficando engraçadinha, igual aquele seu novo amigo.
- ?
- Aquele com a calça vermelha que parece meio viado.
Senti-me meio ofendida.
- Ele namora uma modelo, sabia?
- Tanto faz.
Balancei a cabeça.
- Mas, e aí, sobre o que você estava falando sobre eu ter sorte?
- Ah, sim... Você tem sorte por seus instintos suicidas...
- Meus “instintos suicidas”? – arqueei a sobrancelha.
- ...terem aflorado no verão porque senão você ia congelar – levantou um pouquinho a barra do meu vestido com a ponta do lápis que usava. – Você é a pessoa que mais sente frio que eu conheço.
- Eu sou brasileira. Você não tá entendo. Lá o frio não é frio.
- Você tem noção de que não está fazendo sentido nenhum, né?
Sacudi a cabeça, rindo.
- O que eu quis dizer é que o clima aqui é mais drástico do que o de onde eu morava. Aqui quando é frio é muito frio e quando é quente é muito quente. Lá era bem mais ameno.
- Ah, sim.
- Falando nisso, você não está com calor, não? – falei, olhando de alto a baixo para as roupas inteiramente pretas que ela usava.
- Não.
Dei de ombros.
- Ah, esqueci de comentar – mais uma vez levantou a cabeça, seus olhos tinham um ar divertido. – Sabia que você está em toda internet?
Levei um segundo para entender o que ela tinha falado.
- O que foi que você disse?
- É. Você é superfamosa agora, apesar de eles não saberem que é você – tinha um ar divertido no rosto.
- Você tem noção de que não está fazendo sentido nenhum, né? – imitei o tom dela
Lorelai empurrou meu ombro de leve, rindo.
- O tópico mais comentado no twitter ontem era “1DsMisteryGirl”. Está todo mundo tentando descobrir quem você é. Acho que também vi uma revista adolescente comentando sobre isso no Facebook.
Arregalei os olhos.
- Tá falando sério? E... E desde quando você é tão ligada em redes sociais?
Blake revirou os bonitos olhos azuis.
- Por que eu inventaria algo assim? E sempre gostei de redes sociais. Pra falar a verdade, você é a única adolescente que conheço que parece ser alérgica a elas. Ou a internet num todo. Você é meio esquisita – falou, brincalhona.
- Certo, Selena - falei mexendo as sobrancelhas. – Eu sou a esquisita.
- Hey! Você tá passando tempo demais com o viado.
- Blake...
- Tá bom, tá bom. Esqueci que ele agora é seu amiguinho. De qualquer maneira, como eu estava dizendo, , você tem consciência de onde se meteu, certo?
- Como assim?
- Estou dizendo que você pode dar adeus a sua privacidade quando aquelas fanáticas que eles chamam de fãs descobrirem quem você é.
- Não acho que vai ser tão intenso assim.
- Às vezes você é tão ingênua que chega a ser engraçado.
- Gostava mais quando você tava na onda hippie. Você era bem mais alegre naquela época.
- Acostume-se. Eu me acostumei com suas ideias malucas tipo ir morar na casa de uma boyband da qual nunca ouvi falar.
- É. Acho que é pra isso que servem os amigos.
- Amigos também servem pra fazer apostas, certo.
- Acho que sim... – não estava entendo a brusca mudança de assunto.
- Então aposto cinquenta libras que você vai sair na capa de alguma revista adolescente no segundo em que sua “identidade secreta” – fez aspas com as mãos – for revelada.
Ah, sim. Ela não havia mudado de assunto coisa nenhuma. Mas, antes que pudesse responder, outra voz surgiu em nossa conversa:
- Aposto 60 que ela vai ser capa de, no mínimo, 3.
Mark sentou-se ao lado da namorada e passou o braço sobre os ombros dela.
- Oi, amor. – Lorelai deu um selinho nele e depois sorriu.
- HaHaHa. Vocês são tão engraçadinhos. Sério. Um verdadeiro casal comédia.
- Só enxergamos a verdade, – ele deu uma piscadinha. – Amor, vamos?
- , você não se importa de esperar sozinha? É que... você sabe, meu turno na livraria começa mais cedo hoje.
- Sem problemas. já deve estar chegando. Aproveita e agradece a Sra. Parker por mim, por favor.
- Ok. Nos vemos amanhã?
Acenei com a cabeça.
- Se cuida, baixinha. – Mark colocou a mão sobre minha cabeça e bagunçou meu cabelo como se eu fosse um cachorro.
- Hey!
Minha amiga pegou a mochila dela, onde havia colocado o material que estava usando para desenhar, e eles começaram a se afastar abraçados. Ambos riam da minha cara de indignada.
Puxei meu novíssimo celular de dentro do bolso e deslizei o dedo sobre um aplicativo e outro enquanto esperava minha carona chegar. Passei uns dez minutos assim até ouvir o ronco potente de um motor. Virei em direção ao som e vi um carro esporte estacionar a alguns metros de onde eu estava. Vi um dos meus novos amigos saltar do automóvel e olhar freneticamente de um lado para o outro. Passei a mochila por meus ombros e peguei as muletas para levantar. Assim que comecei a andar em sua direção, ele me viu e veio correndo.
- . ! Estou atrasado. Eu sinto muito – deu um beijo na minha testa. – Deixa que eu levo isso pra você – tentou pegar minha mochila.
- Pode deixar, . Acho que é mais fácil eu carregar até o carro.
- Sim... ok. Você é quem sabe – começou a andar do meu lado. – Mas, sério, , desculpe. Era para eu ter chegado há 15 minutos. me ligou há mais de uma hora pra eu vir buscar você, mas tinha umas fãs quando estava saindo do restaurante.
- Não tem problema – sorri. – Mas cadê o ?
Ele me lançou um olhar engraçado antes de responder.
- Ah! Você queria que ele tivesse vindo te buscar, né, dona ?
Balancei a cabeça, rindo.
- Você é bobo, . Só estou perguntando por que ele disse hoje de manhã quando me trouxe que voltaria para me buscar.
- Sei... – soltou outro sorrisinho de lado. – Nosso empresário chamou ele e para uma conversa, então ele me ligou.
- Ah.
Caminhamos em silêncio até o carro dele que, assim como o de , devia ser muito caro. Quando estava confortavelmente instalada e avançávamos na direção da minha nova casa, tive que perguntar algo que estava me incomodando:
- Se é uma conversa com o empresário, por que vocês três não estão lá com eles?
Ele ficou em silêncio.
- É sobre mim, não é?
Permaneceu em silêncio quase como se eu não tivesse dito nada. Estava prestes a repetir a pergunta quando ele falou:
- Sim.
Mordi o lábio inferior, me segurando para não expressar em voz alta as perguntas que rondavam a minha cabeça: “Era ruim?”, “Eu teria que ir embora da casa deles?”, “Não poderíamos mais ser amigos?” Preciso confessar que meus medos não eram baseados apenas em meu conforto, mas também no fato de que, mesmo tendo convivido com eles apenas por três dias, já achava o mero pensamento de não sermos mais amigos aterrorizante.
- Não se preocupe, – ele envolveu minha mão, que estava sobre meu colo, e a apertou de maneira reconfortante. – Vai dar tudo certo.
Tentei sorrir quando ele virou a cabeça rapidamente para o meu lado antes de voltar a mão sobre o volante e a atenção para estrada. O resto do caminho foi feito em silêncio. Acho que nenhum de nós queria falar e fingir que estava tudo normal. Quando chegamos ao prédio, insistiu em me acompanhar até a porta do apartamento. Depois de usar a chave que me dera, abri a porta e virei para me despedir de meu amigo. Ele me envolveu em um abraço gostoso.
- Quer ficar lá em casa até eles chegarem?
Isso me fez sorrir.
- Você sabia que é a coisa mais fofa do mundo? – me afastei um pouco para apertar as bochechas dele.
Niall também abriu um sorriso grande antes de colocar as mãos sobre as minhas ainda em seu rosto.
- Sério. Quer ir pra lá?
- Obrigada, mas acho que vou ficar por aqui mesmo. Tenho que terminar uns trabalhos – baixei minhas mãos.
- Ok. Se precisar de qualquer coisa, sabe onde me encontrar – deu uma piscadinha.

Xxx

Tentei estudar alguma coisa, mas desisti depois de ler o mesmo parágrafo pela quinta vez sem entender nada. Depois peguei o trabalho que deveria entregar na próxima semana. Levei duas horas inteiras para escrever poucas palavras. Tentava fingir que não estava ansiosa por saber o resultado da reunião dos garotos, mas falhava terrivelmente porque esse problema estava martelando na minha cabeça e me impedia de me concentrar em qualquer coisa.
Isso chegava a ser engraçado. Pateticamente engraçado. Eu havia resistido a vir morar com eles e agora só a possibilidade de ser obrigada a ir embora tão cedo já era o suficiente para me atormentar.
Joguei a caneta sobre meu caderno e passei a mão pelo cabelo, frustrada. Pensei em assistir televisão ou talvez procurar algum show dos garotos na internet, mas descartei a ideia imediatamente. Precisava de alguma coisa que realmente me interessasse e foi por isso que acabei na cozinha, revirando os armários em busca dos ingredientes necessários para fazer Chocolate Chip Cookies com nozes. Mas, logo vi que precisava de algumas coisas que não havia na dispensa deles. Mordi o lábio, ponderando se deveria guardar tudo novamente e desistir da ideia. Sacudi a cabeça, havia outra opção, porém.
- ? – falei depois de procurar o número dele em meu iPhone.
- Sim, quem é?
Minha mente “maligna” funcionou na velocidade da luz.
- AI MEU DEUS! É O DO ONE DIRECTION! AAAAH! VOCÊ TÃO LINDO. NÓS FOMOS FEITOS UM PARA O OUTRO! – gritei, tentando segurar a risada.
- Ummm... Eu... Obrigado – sua voz era soa estranha e hesitante. – Como foi que você conseguiu esse número?
- ISSO NÃO IMPORTA. O IMPORTANTE É QUE EU TE AMO. VAMOS CASAR!
- Eu fico muito lisonjeado, mas, uummm... eu tenho que desligar agora. Obriga-
Não consegui mais segurar a gargalhada.
- Hey... garota, você está bem?
- Ai, bear, você é tão fofo.
- Hey... espera um minuto... ?
Levei alguns segundos para controlar a gargalhada e falar:
- Sério que você achou que eu fosse uma fã?
- Bom, já aconteceu antes. Na verdade, precisei trocar meu número umas cinco vezes por causa disso. E não tinha o seu número.
- Imaginei. salvou seu número pra mim.
- Ah, certo. Mas a que devo a honra da sua ligação?
- Preciso de um favor. Será que você pode ir a um supermercado comprar umas coisas para mim?
- Por quê? Você está cozinhando? O que você está cozinhando? Eu também qu-
- Oooh... Calminha aí. Se você comprar o que quero, prometo que levo um pouco pra você.
- Feito. Mas você não me disse o que está cozinhando.
- Não, não disse. Um pouco de surpresa faz bem às vezes, não acha?
- Odeio surpresas por que você não diz de uma vez o q-
- Obrigada, . Vou te mandar uma mensagem de texto com o que preciso. Beijos.
Assim que desliguei o celular, escrevi os ingredientes que faltavam e mandei para ele. Menos de meia-hora depois, entrava no apartamento trazendo uma sacola consigo.
- Você é um anjo, – dei um beijo na bochecha dele. – Obrigada.
- Será que agora pode me contar? – falou, colocando as compras ao lado do fogão.
- Nope – estalei o “p”. – Quanto eu te devo? – fiz menção de ir buscar minha bolsa.
- Assim você me ofende, – colocou a mão sobre o coração.
- Sabe, só porque vocês são milionários, não precisam ficar pagando pelas coisas que eu quero comprar – falei, enquanto tirava as coisas de dentro da sacola e as ajeitava do lado do outros ingredientes.
- Você pode me pagar com comida. – colocou a mão sobre a barriga e sorriu. – Aliás, aposto que os... Como chama mesmo o que você está fazendo?
- Boa tentativa. Agora você precisa ir para eu poder cozinhar – coloquei a mão sobre seu peito e o empurrei de leve.
- Eu vou, mas eu volto – engrossou a voz e depois correu para fora do cômodo.
Soltei uma risadinha enquanto começava a massa. Acrescentei todos os ingredientes, sem nunca parar de bater a massa com uma colher grande. Em um momento pensei em usar uma batedeira que vi em um dos armários, mas isso diminuiria o tempo de preparo e inversamente aumentaria meu tempo vago – justamente o que não queria. Liguei o forno e o ajustei na temperatura correta, depois untei uma assadeira e comecei moldar os cookies. Quando acabou o espaço sobre a assadeira, coloquei-a no forno e untei outra assadeira, dando uma rápida olhada no relógio na parede para saber quanto tempo ia demorar para que a primeira leva ficasse pronta. Só depois de preencher cada uma das assadeiras quatro vezes foi que a massa acabou. Precisei de três potes grandes de vidro para guardar tudo. Mordi um cookie e soltei um suspiro de apreciação. Estava no ponto certo e muito gostoso. Ainda mastigando, coloquei as vasilhas sujas na pia e comecei a lavar. Faltava só uma assadeira e algumas colheres quando ouvi a porta da frente abrir. E de uma só vez, todas as preocupações voltaram a desabar sobre mim.
- ? – ouvi a voz profunda de chamar.
- Na cozinha – continuei lavando para me manter ocupada.
- O que você está fazendo ai? O cheiro tá ótimo – ele apareceu, carregando duas sacolas brancas com logotipos que eu não reconheci.
- Cookies – apontei para os potes.
- Uau. Você vai alimentar o exército com eles?
- Eu... ummm... acho que me distrai um pouco e exagerei nas contas, mas podemos levar para os garotos.
acenou com a cabeça, deixando as sacolas em cima da mesa e abrindo um dos potes para pegar um biscoito.
- Gostou? – perguntei ao vê-lo colocar o que parecia ser o quinto biscoito na boca.
Ele engoliu e depois caminhou até onde eu estava secando as mãos num pano e me deu um beijo na testa.
- Estão ótimos. Uma delícia. Mas eu trouxe o nosso jantar – fez um gesto com a cabeça na direção da mesa. – Você gosta de comida mexicana?
- Gosto – consegui murmurar mesmo estando um tanto distraída pela proximidade dele.
- Ótimo. Você vai para a sala e eu levo as coisas – afastou-se e pegou dois pratos.
- Dois pratos? Onde está ?
- Foi levar para Manchester depois da reunião. Ele vai ficar lá alguns dias. Nós temos duas semanas de folga, lembra? – abriu uma gaveta e pegou os talheres, depois pegou as sacolas. – Vamos?
Peguei as muletas e o segui até o outro cômodo. Ele estava colocando a comida e os utensílios sobre a mesinha de centro.
- Ela queria se despedir, mas vocês acabaram se desencontrando.
- Uhum – murmurei, mordendo o lábio para não deixar as perguntas que estavam na ponta da língua escaparem.
encheu o próprio prato e se sentou.
- Você não vem?
- Uhum – coloquei as muletas no chão e me acomodei ao lado dele.
Peguei meu prato, mas meu apetite havia sumido graças à preocupação. Não percebi que estava idiotamente parada olhando para o nada com um prato vazio na mão até que parou de mastigar e olhou pra mim:
- , você não gosta? – apontou a comida. – Nós podemos pedir outra coisa. Que tal pizza? – segurou o prato em uma das mãos e pegou o celular com outra. - Tem uma pizzaria aqui perto que vende uma pi-
- Não, . Não é isso – apressei-me em corrigir a situação, colocando a mão sobre seu antebraço para impedi-lo de continuar a ligação.
Ele franziu o cenho, lançando-me um olhar curioso.
- Então o que é?
Julgando que seria criancice adiar esse conversa, comecei:
- comentou hoje que você e tiveram uma reunião com o empresário de vocês hoje. E eu era o assunto principal.
continuou em silêncio, esperando eu continuar o raciocínio, então, reunindo coragem, completei em um fôlego só:
- Eu vou ter que ir embora?
Dessa vez ele arregalou os olhos e me encarou como se eu fosse uma alienígena.
- Você... Você ter que ir embora? Do que está falando?
- Bom, suponho que o empresário de vocês não está muito satisfeito comigo morando aqui – emendava uma frase na outra num ritmo muito mais rápido do que o normal. - E vocês tiveram essa reunião... só queria que soubesse que entendo se não puder mais ficar aqui. me convidou para morar aqui no calor do momento e não quero atrapalhar a vida de vocês. Sei que tem coisas que podem causar uma má impressão na mídia e nã-
- Hey. Hey – foi a vez dele colocar a mão sobre meu ombro. – Respire fundo, tá bem?
Seguindo a dica de que esse foi o jeito educado de ele mandar eu me calar, esperei que continuasse a falar.
- Não sei de onde você tirou essa ideia, – havia um sorriso gentil em seus lábios. - Jamais expulsaríamos você daqui. Você é família agora, lembra?
Pisquei devagar, absorvendo as palavras que, embora não quisesse admitir, me causaram um grande alívio.
- Então por que ele chamou só vocês dois?
- Porque ele queria conversar sobre você ficar aqui.
Parecia estar dando voltas e voltas ao redor do assunto, o que me deixava cada vez mais ansiosa.
- Será que dá pra você falar de uma vez? – lati.
E imediatamente depois coloquei as mãos sobre a boca. Ele caiu na gargalhada.
- !
- Desculpe. É que você fica fofa com essa carinha de preocupada – apertou meu nariz de leve.
- Não tem graça, – estapeei a mão dele para longe.
- Voltamos a usar sobrenomes? Sinto que deveria ficar assustado – provocou.
Bufando, coloquei o prato de lado sobre o sofá e fiz menção de me levantar. Odiava quando alguém tentava me tratar como criança.
- Hey, hey. Desculpe – ele segurou meu pulso e seu tom era sincero dessa vez. – Não percebi que você estava tão preocupada assim.
Encarei o espaço acima da cabeça dele, em um gesto infantil de mostrar desagrado.
- Nós combinamos na reunião o que dizer quando a imprensa conseguir identificar você.
Isso me fez baixar a vista.
- E...?
- E ficou acertado que nós vamos dizer que você é uma velha amiga da família que sofreu um pequeno acidente e precisava de ajuda para se locomover durante uns dias. O único problema é que pode haver uma brecha pra especulações já que você é brasileira – coçou a nuca, pensativo. – Então é mais difícil as pessoas acreditarem que vocês já se conheciam antes.
- Bom, meu avôs maternos eram escoceses. Eles se mudaram para o Brasil alguns anos depois da minha tia mais nova nascer. Ela até voltou a morar na Escócia depois que se casou. Talvez dê pra usar isso para maquiar a história.
- Sério? – abriu um sorriso enorme. – Isso é ótimo! Torna tudo mais acreditável. E ela se casou com um escocês?
- Não. Casou com um ex-agente do FBI que ela conheceu numa viagem para os Estados Unidos.
- Deixa eu ver se entendi – arqueou a sobrancelha. – Sua tia, que é escocesa, mas foi criada no Brasil, casou com um americano e voltou a morar na Escócia?
Concordei com a cabeça.
- Minha família sempre foi... pouco convencional – falei, pensando mais nos meus pais do que em Tia Claire. – Eles se conheceram, se apaixonaram, se casaram em Vegas e, como tio Ryan tinha decidido sair do FBI e tia Claire queria voltar para Escócia, eles resolveram se mudar para lá. Ele tem uma empresa de segurança e tia Claire é advogada.
- Ah, sim. Entendi.
Engoli em seco e voltei ao assunto mais importante:
- Então não vou ter que ir embora?
- Claro que não, tolinha – levantou-se e deu um beijo na minha testa. – Agora será que dá pra você comer pelo menos um pouquinho.
Esbocei um sorriso e acenei com a cabeça. Agora que sabia que não estava mais prestes a ser expulsa, meu estômago resolveu sair da greve e exigir atenção.
- Vou ligar pros caras e contar dos seus avós. Vai dar tudo certo.
xxx

- Gostei dessa música – mordi o cookie em minha mão sem desgrudar os olhos da televisão.
- É More Than This – falou, ainda mastigando os três cookies que havia colocado de uma vez na boca.
- Ah, . Que nojo - coloquei a mão sobre a boca dele, rindo. – Não fale com a boca cheia.
Engoliu e também soltou uma risadinha, corando.
- Desculpe. Mas é que isso é muito bom – pegou o último cookie do prato sobre a mesinha e enfiou na boca.
Depois de terminarmos de jantar e de ter telefonado, nós estávamos prestes a assistir um pouco de televisão quando perguntei se a banda dele tinha gravado algum DVD. então me contou sobre Up all night e, depois de implorar um pouco, concordou em assisti-lo comigo. Em algum momento entre a segunda e a terceira música, foi à cozinha e encheu um prato com os cookies que eu havia feito. Agora estávamos apenas na música oito e ele já tinha esvaziado o prato que reabastecera há menos de cinco minutos.
- Vou buscar mais cookies.
Segurei seu pulso para impedi-lo de levantar.
- Não vai não.
- Por que, ?
- Você já comeu muito. Já está bom por hoje.
- Ah, . Eles estão muito bons. Não seja má – fez um beicinho.
Soltei uma risada, apertando as bochechas dele.
- Nope. Chega de cookies pra você.
- Mas por quê?
Ele parecia um garotinho de oito anos.
- Porque não tem só você pra comer os cookies.
Ele olhou em volta.
- Só estamos nós dois aqui. Eu divido com você.
- Não estava falando de mim, seu bobo. Quero levar um pouco pros meninos também.
- Ah, ... O que os olhos não veem , o coração não sente. É só a gente não contar pra eles que tinha.
- ! Que feio! - o empurrei de leve. – E isso é impossível porque prometi pro que levaria um pouco pra ele.
- Por quê?
Acho que nunca ouvi tantas vezes essa pergunta.
- Porque ele foi muito gentil ao ir comprar os ingredientes que faltavam aqui.
- Por que você ligou pra ele e não pra mim?
- Porque você estava em reunião, lembra? – expliquei pacientemente.
- Ah... é verdade – balançou a cabeça. – Amanhã nós vamos ao supermercado.
- Para...?
- Comprar coisas.
- Essa parte eu entendi, gênio. Tô perguntando se você quer comprar alguma coisa especifica.
- Não sei. Você quem vai escolher.
- Eu?
- É. Pelo que pude perceber, você gosta de cozinhar e não quero que você deixe de cozinhar porque está faltando alguma coisa.
Sorri.
- Vai me deixar pagar?
- Veremos.
Revirei os olhos.
- , acho que tô com sono. Posso deitar?
- Pode – respondi devagar, dividida entre a incerteza do motivo de ele estar me pedindo permissão sendo que estávamos na casa dele e o desapontamento por ficar sozinha enquanto ele ia dormir no quarto.
Mas logo soltei uma exclamação de surpresa quando pousou a cabeça sobre o meu colo. Baixei a vista e o encontrei sorrindo. Arqueei a sobrancelha.
- Você disse que eu podia deitar.
- Achei que você estava falando que... – sacudi a cabeça. – Deixa pra lá – voltei a atenção à televisão que agora exibia a metade final de outra música.
- ?
Baixei a vista novamente.
- Nem mais um cookie?
- Não – ri. – , você não prefere dormir na sua cama?
- Não. Estou bem confortável aqui. Mas sabe o que seria melhor ainda?
- Um cookie?
- Cafuné.
Senti minhas bochechas corarem e logo tentei disfarçar.
- Você é folgado, não?
- Por favor?
Soltando o ar dramaticamente, levantei a mão e afundei naqueles cabelos gloriosos dele, deslizando meus dedos sobre os fios macios. me olhou por mais um momento antes de fechar os olhos devagar e abrir um sorriso preguiçoso. Fiquei tentada a manter a vista nele e esquecer de vez o que estava assistindo, mas percebi que seria muito constrangedor se ele abrisse os olhos e me encontrasse observando-o, por isso forcei minha atenção para longe dele e de voltar ao eletrodoméstico.
- Agora entendo por que o twitter é tão importante pro – comentei ao vê-los lendo tweets das meninas no show.
limitou-se a ronronar alguma coisa em resposta como ele fazia sempre que eu falava algo. Sinceramente tinha minhas dúvidas se ele estava totalmente acordado. A única vez que realmente falou foi quando decidi parar de fazer cafuné porque achei que ele já tinha dormido. Digamos que sua reação foi veemente contra esse meu ato – ou a falta dele. Então eu havia voltado a fazer cafuné e só pararia com o final do DVD que não devia estar muito longe. Enquanto os observava cantar, entendi porque eles eram tão famosos. Os garotos realmente eram talentosos. Estava calmamente divagando ao som de uma música nova deles quando a porta de entrada foi aberta bruscamente. Pulei de susto, quase derrubando do sofá.
- . ! – vinha correndo até nós, o celular na mão, mas parou de repente, observando curiosamente a nossa posição.
- Que foi, porra? Pra que gritar? – resmungou e passou a mão sobre os olhos, virando em direção do amigo.
Ah! Então ele estava mesmo dormindo.
- O que vocês estavam fazendo?
- Sexo selvagem – respondi sem titubear. – O que mais seria?
Os dois ofegaram, surpresos.
- Estávamos assistindo a TV, idiota, e dormiu – revirei os olhos.
- Sei – respondeu com um sorrisinho malicioso.
- Há algum motivo em especial para você ter vindo aqui gritar na minha casa, ? – Harry não se dignou nem mesmo a abrir os olhos.
Acho que ele não acordava de muito bom humor.
- Você veio buscar os cookies? Eu ia levar até a sua casa.
- Cookies? Era isso que você estava fazendo? Onde eles estão?
Sem esperar por uma resposta, correu até a cozinha.
- Agora nós nunca vamos saber o que ele veio fazer aqui – falou baixinho.
Dei de ombros. Uma hora ele teria que voltar. Abriu os olhos de repente, levantando-se em um sobressalto.
- Espera aí. Ele vai comer tudo! – correu atrás do amigo.
Soltei uma gargalhada. Nunca havia conhecido garotos como eles. Segundo depois, arrastava o amigo de volta de volta para a sala. Esse último mastigava algo e abraçava firmemente contra o corpo uma vasilha de plástico cheia de cookies.
- Nossa, . Isso aqui tá bom demais.
- Ah, . Que nojo – fiz uma careta. – Mastiga de boca fechada.
empurrou os ombros do amigo e o fez se sentar ao meu lado e depois se sentou do outro lado do companheiro de banda.
- Então, ...? – comecei.
- O quê? - enfiou outro cookie na bica.
Revirei os olhos.
- Você queria nos dizer alguma coisa?
- Por quê?
- Talvez porque você apareceu aqui do nada gritando nossos nomes? – perguntei retoricamente.
Acho que o cérebro dele priorizava a comida.
- Ah, sim! Sim. – acenou com a cabeça repetidamente e puxou o celular do bolso. – Vocês precisam ver isso.
Por questão de educação, fingi interesse no que ele mostrava, olhando de relance. No segundo seguinte não precisei fingir mais nada. Minha atenção estava completamente na tela do iPhone dele. Estiquei a mão com a intenção de agarrar aquele aparelho, mas Harry foi mais rápido.
- Oh! Então eles descobriram você, .
Me estiquei sobre , puxando a mão de que segurava o celular para mais perto de mim.
- “Revelada a amiga misteriosa do One Direction?” – finalmente consegui ler a manchete.
- É do site da Sugarscape. – explicou enquanto eu observava várias fotos dele comigo. – Mas já está em todo twitter.
Eram fotos de hoje quando ele tinha ido me buscar na faculdade. Pude ver uma foto onde ele beija minha testa, uma de nós enquanto conversávamos, outra de um sorrindo para o outro, uma em que eu entrava no carro dele e, a medida que rolava a tela para baixo, apareciam mais e mais fotos. Devia ter no mínimo umas quinze delas. Meu queixo caiu.
- “Directioners ao redor do mundo, vocês se lembram de que no final de semana One Direction foi clicado no Royal Hospital? Nossos repórteres identificaram a amiga misteriosa do One Direction como sendo , estudante de medicina da Universidade de Londres. Mais informações a qualquer minuto.” - leu.
- Eles foram rápidos, né? – conseguiu libertar uma das mãos e usá-la para enfiar outro cookie na boca.
- Isso é estranho – soltei a mão de e voltei a me endireitar em meu lugar.
Não ia me fazer de idiota perguntando porque o súbito interesse da mídia na minha pessoa. Eu agora tinha ideia de quão famoso eles eram e que isso refletia em querer saber o que eles faziam na vida pessoa e com quem eles se relacionavam.
virou pra mim, franzido o cenho e estava prestes a falar alguma coisa, mas me adiantei e murmurei, olhando preocupada para o que podia ler em sua expressão:
- Hey. Não precisa ficar assim. Tá tudo bem. Sabia que ia acontecer isso.
- Mas você disse que era estranho.
Soltei uma risadinha, sem desgrudar os olhos dele.
- É porque nunca passei por isso.
- Ah, entendi – esboçou um sorriso.
- OOOOH. – falou de boca cheia de novo. – tem razão. Vocês formam um casal tão fofo – tentou fazer uma vozinha de criança, apertando o meu nariz.
- Será que dá pra você parar de falar de boca cheia? – dei um tapa de leve na bochecha dele, tentando disfarçar o quão corada estava.
- Acho que é um bom momento para soltar o nosso comunicado oficial. Eles já devem ter feito as modificações pra encaixar a parte da família da sua mãe – franziu o cenho. – Tem certeza que eles não vão desmentir a história? Porque é capaz de eles lerem sobre isso na internet.
Soltei uma gargalhada imaginando meus pais acessando a internet. Porém, me apressei a responder por que percebi que eles não faziam nem ideia de como minha família era.
- Não há com o que se preocupar – fiz um gesto de descaso com a mão, mas pensei por um minuto. – Vou ligar pra tia Claire só por garantia, mas ela não gosta muito da imprensa, então está tudo bem.
- Vou ligar para o John e pedir pra ele liberar o comunicado.
não se incomodou em sair da sala enquanto falava ao telefone. Dois minutos depois ele desligava, dizendo que estava tudo certo.
- Quer dar uma olhada no seu twitter?
- Por quê? Não tenho nenhum seguidor além de vocês cinco, e Kim e nada de interessante para escrever no momento – dei de ombros.
- Então acho que é hora de mudar isso. Vem aqui.
levantou-se e fez um gesto para que eu o imitasse. Entendi que ele queria que mudássemos de lugar.
- Vamos tirar uma foto!
- Pra quê?
- Pro twitter. Eles já sabem que você é mesmo. Vamos mostrar qual é seu twitter.
Dei de ombros. Acho que literalmente era uma daquelas situações do tipo “Tá no inferno, abraça o capeta”. posicionou o iPhone na nossa frente e bateu a foto e depois mostrou para nós. Tinha ficado ótima. Os dois tinham me surpreendido beijando minha bochecha cada um de um lado e eu tinha um sorriso grande nos lábios. digitou um pouco e virou o celular pra mim:
“One Direction Mistery Girl? HAUAHA Conheçam nossa amiga @drathirteen”
Naquele momento, não acreditava que minha vida poderia mudar mais do que já tinha mudado. Claramente não tinha ideia do que uma reportagem, algumas fotos e um tweet podiam fazer.



Capítulo Onze

Encarando a tela do notebook a minha frente, batia a mão de leve sobre a escrivaninha, esperando a chamada de Skype se completar. Logo o rosto sorridente da minha vizinha e amiga apareceu na tela.
- ! Oi!
- Oi, Linda, tudo bom? – sorri.
- Tudo bem – falou apressada. – Amiga, o que é aquilo no twitter? Como você conheceu os meninos?
- Você é fã deles?
- Claro que sim. Eles são ótimos e muito lindos. Você tem que me apresentar o . Nós vamos casar e ter cinco filhos.
- Ok... – estendi a palavra. – Você fica mais esquisita a cada dia que passa.
- Vou ignorar o que você disse porque você vai me apresentar meu homem.
Revirei os olhos.
- Por mais que eu te ame, Linda. Eu realmente preciso de um favor.
- Diga, coisa chata.
- Preciso que você pegue seu iPad, vá lá em casa e me ligue para eu poder falar com a minha mãe.
- Claro, mas não dá pra você mesma ligar pro Skype da sua mãe?
Não contive uma gargalhada.
- Linda, você consegue imaginar a minha mãe num computador por vontade própria? Você sabe que meus pais são tecnofóbicos naturebas. Eles nem mesmo tem um computador. A coisa mais tecnológica lá em casa é a televisão, e porque pedi uma de aniversário. Não sei o que seria da minha vida se tia Claire não tivesse me dado meu laptop – estremeci.
- Ah! É verdade – ela sacudiu a cabeça. - Quase me esqueci disso – levantou-se. - Vou lá agora e te ligo daqui uns cinco minutos.
- Tudo bem. Das outras vezes que precisei falar com eles foi a sua irmã quem me ajudou.
- Mas eu sou sua favorita, né, maravilhosa? A favorita que você vai arrumar para o e assim poderemos cas-
- Tchau, Linda. Obrigada.
Ela acenou rindo e desliguei a chamada. Poucos minutos depois, aceitei outra chamada e o rosto da minha mãe apareceu na tela. Ela estava com uma faixa colorida sobre os longos e brilhantes cabelos pretos também pude ver seus vários colares – seus companheiros sempre presentes – sobre a blusa roxo beterraba.
- Oi, filha. Como você está? Você precisa ver como nosso jardim está bonito. Está tão colorido e seu pai comprou umas er-
- Mãe! – interrompi, suavemente. – Estou bem. Tá tudo bem aqui. Eu só tive um pequeno acidente e-
- Acidente? – franziu o cenho. – Foi grave?
- Não é só qu-
- Ah! Que bom. Eu vou mandar pensamentos de luz para você. Então, as sementes que o seu pai comp-
- Mãe! Eu vou precisar desligar agora, só liguei mesmo pra avisar que vou ficar na casa de uns amigos por um tempo. Então, se você precisar falar comigo, pede pra Linda que ela consegue me achar.
- Ok, filha – sorriu.
- Tchau, mamãe. Manda um beijo pro papai.
- Tchau. E não se esqueça das sementes. Seu pai está saudando o sol. O dia está tão lindo, não acha? Acho que você devia deixar esse computador e ir saudar o sol. Madri tem uns dias tão bonitos, não?
Revirei os olhos. Bom, acho que devia ficar satisfeita por pelo menos ela ter falado uma cidade na Europa. Na última vez que liguei, ela comentou sobre como Chicago estava fria naquela época do ano. Eu nunca estive nos Estados Unidos.
- Você devia deixar um pouco essas fórmulas de física e matemática. Não sei pra que tanta conta. Não sei pra que faculdade! Você vai usar esse diploma de engenharia para melhorar o universo como?! Eu acho que vo-
- Mãe! – interrompi de novo. – Tem gente me chamando aqui. Depois eu ligo, ok? Beijos. Tchau.
Encerrei também essa chamada. Soltando um suspiro pesado, massageei minha têmpora. Não sei por que me ocorreu por um momento ficar preocupada sobre o que eles diriam a respeito do meu “acidente”. Era como falar com uma árvore.
Soltei um risinho sem vontade. Pelo menos ela ia gostar da comparação...
Meus pais sempre foram muito excêntricos. Eles viviam como hippies modernos em casa, mas tinham empregos estáveis por causa da loja deles de produto natural. A maior característica da nossa pequena família era, contudo, o fato de que eu não poderia ser mais diferente deles - toda séria e responsável enquanto eles estavam sempre surfando, adorando o sol e praticando a cultura do desapego. Tive que aprender a me virar sozinha. No dia em que contei que minha bolsa tinha sido aprovada e que iria me mudar para Inglaterra em um mês, eles me abraçaram, disseram que iriam sentir saudades e depois me entregaram uma lista sobre sementes de plantas típicas da Europa que eu deveria levar quando fosse visitá-los. Simples assim. Nem mesmo perguntaram em que cidade eu iria ficar. Desconfio de que, se não tivesse mencionado sobre Londres em uma das nossas conversas, eles continuariam sem saber. Descobri, contudo, que isso não fazia muita diferença, pois eles nunca lembravam mesmo. E quando tia Claire reclamava que não me davam atenção o suficiente – não que tivessem essas conversas na minha frente, mas eu havia escutado uma ou outra através das portas – eles respondiam que “criaram a filha para o mundo, não para prendê-la em casa” e que eu era capaz de cuidar de mim mesma. Então meus pais me mandavam dinheiro todo mês e me “deixavam viver a minha vida”. Não que estivesse reclamando. É bom ter liberdade, mas, de vez em quando, faz falta ter alguém ali pra segurar a sua mão nas horas difíceis. Talvez seja por isso que tenho a tia Claire, que não poderia ser mais diferente de sua irmã. Quando ficou sabendo sobre meu intercâmbio, ela quis saber até o nome da minha futura colega de quarto e voou da Escócia para me receber em Londres. Éramos mais parecidas e, se eu não tivesse tantas semelhanças físicas com minha mãe, poderia jurar que era filha da tia Claire.
Resolvi poupar tempo e fazer o que era preciso de uma vez só. O som de chamada ecoou no quarto enquanto esperava a outra pessoa atender. Mas, dessa vez, era apenas uma chamada de voz.
- Hardy.
Tive que conter o sorriso ao ouvi-la tão séria.
- Tia Claire!
- ? Querida! – mudou imediatamente para o tom acalorado que estava acostumada. – Não vi que era você.
Isso não me surpreendeu - ela nunca olhava, pois dizia que só quem ela queria atender tinha aquele número, então realmente não importava.
- Sem problemas, tia. Como estão as coisas ai? E o tio Ryan? Tudo bom?
- Está tudo ótimo. Seu tio está bem, também. E, você, como está? Quando você vem nos visitar?
- Tudo bem. E eu vou assim que possível – respirei fundo. – Mas, na verdade, hoje estou te ligando pra contar uma coisa.
- Sério, querida? O que foi? – agora estava levemente preocupada. – Aconteceu alguma coisa?
- Na verdade, aconteceu.
- Você está me assustando – agora era o tom Dra. Hardy, advogada bem sucedida. – O que foi que aconteceu?
- Antes de contar, preciso que você saiba que está tudo bem agora e não há motivos para você surtar por cau-
- O que foi que aconteceu, ? E não me faça repetir essa pergunta outra vez.
Engoli em seco. Esse era o tom Eu-sou-a-Dra.-Hardy-e-vou-massacrar-você-no-tribunal - bem assustador, na minha opinião.
- Bom... eu meio que... na verdade, eu estava indo...- gaguejei. – ai tinha um carro e...
- Um carro? – sua voz ficou mais suave, voltando ao modo preocupado. - , respire fundo, se acalme e me conte direito essa história.
Respirei fundo.
- Tia Claire, um carro bateu em mim, mas EU ESTOU BEM – completei rapidamente ao ouvi-la engasgar. – Eu tô bem. Só que quebrei a perna e agora não estou mais no dormitório da faculdade porque seria muito difícil me movimentar lá com todas aquelas escada.
- Como assim um carro bateu em você? Isso não faz sentindo algum...
Devia saber que ela não ia se contentar com um relato mal contado.
- Tinha uma garotinha, tia. Não podia deixar que ela fosse atropelada.
- ENTÃO VOCÊ SE JOGOU NA FRENTE DE UM CARRO?
- Não foi bem assim e-
- Olha, não vou te passar um sermão sobre como essa foi uma atitude idiota e inconsequente porque eu sei que você não conseguiria ficar parada vendo uma criança ser atropelada. Mas vai ter que me prometer que não vai fazer isso de novo. Nunca mais. Ou vou ser obrigada a acionar meus contatos pra te transferirem pra cá, onde eu possa ficar de olho em você.
Sabia que aquela não era uma ameaça vazia.
- Prometo, tia. E não é como se eu gostasse de ter quebrado a perna...
- Ótimo! Agora me explique exatamente isso da sua perna e de você não estar mais no seu dormitório.
- Bem... como você sabe, não há elevador no prédio onde moro, então eu vou passar uns dias aqui na casa do primo da Lorelai.
Ela precisava de uma história bem contada, não uma que fosse verdadeira. Estava apenas editando uns pedaços.
- Primo? Um garoto? Quantos anos ele tem?
- É um ano mais velho do que eu, tia.
Uns minutos se passaram e sabia que ela estava considerando tudo que havia ouvido.
- Certo. Confio em você. Sei que tem mais juízo do que aquela avoada da minha irmã.
Soltei um silencioso suspiro de alívio. Não teríamos outra daquelas conversas constrangedoras. Ainda não havia me recuperado totalmente da conversa sobre sexo.
- Tia, só tem mais uma coisa que preciso pedir pra senhora.
- Claro, , é só dizer.
- O primo de Lorelai, , ele é meio famoso.
- Famoso? Como assim “famoso”? , com que tip-
- Não, tia – interrompi. – Ele faz parte de uma banda.
- Uma banda? Ah! Não é daquele tipo de banda de rock que se envolve com drogas, né?
- Claro que não! Ele faz parte da One Direction. Já ouviu falar?
- Acho que sim. Vagamente.
- Então, é uma banda pop. São cinco garotos. E não, nenhum deles usa drogas, mas são muito famosos. Tipo, mundialmente famosos. E a mídia vai ficar em cima agora que eu estou aqui, vão ficar criando histórias que não são verdade e não quero que você acredite nelas.
- , querida, eu conheço você. E não sou ingênua o suficiente pra acreditar em tudo que saí na televisão ou internet.
Até que ela estava aceitando tudo surpreendentemente bem.
- Mas tem muita gente que acredita e, por isso, nós pensamos em uma pequena mentirinha pra não pensarem que sou uma desconhecida tentando prejudicá-lo ou me aproveitar do dinheiro dele. Os empresários deles soltaram uma nota, falando que nossas famílias eram velhas conhecidas. Como o lado Campbell é escocês... deu pra usar essa desculpa.
- Sim, sim, claro... – murmurou distraída, a voz meio abafada.
Franzi o cenho.
- Então se alguém perguntar, você vai confirmar a história, certo?
- Claro qu-que sim – ofegou. – Escute, querida, seu tio está me chamando. É nosso aniversário de casamento. Será que eu posso te ligar depois? – a última palavra soou mais como um gemido.
Arregalei os olhos, finalmente entendo porque ela estava aceitando tudo tão bem: aquele dia era o seu favorito do ano. E, nos últimos minutos da nossa conversa, ao que parecia, havia outra pessoa em quem sua atenção estava focada.
Eca! Não queria nem imaginar o que eles estavam fazendo.
- Ok, tia. Te amo. Tchauzinho.
Encerrei a chamada. Agora só faltava contar a Lorelai sobre o mais novo membro da família dela. Sacudi a cabeça, rindo. Aquilo seria interessante.

xxx

Segurando meu resumo de embriologia médica precariamente contra a barra de apoio para mão das muletas, eu andava nos corredores da faculdade em direção a minha próxima aula. Devia ter enfiado aquele maço de papéis dentro da mochila, mas o tempo era escasso agora que tinha que me movimentar com as muletas. Na pressa de sair da sala e chegar a tempo na outra aula, acabei deixando meu resumo para fora, e agora estava gastando mais tempo do que se tivesse usado a mochila. É aquela velha história de barato que sai caro. Ainda me amaldiçoando por esse erro estratégico, não vi quando alguém esbarrou em mim do lado da perna que não estava engessada. Perdi momentaneamente o equilíbrio, mas me estabilizei a tempo de não cair no chão, mas meus papéis seguiram esse caminho e se espalharam.
- Droga – resmunguei, olhando aquela bagunça.
Levantei a vista bem a tempo de encontrar o olhar debochado de duas garotas. Elas me olhavam de alto à baixo com um sorrisinho superior, como se tivessem me medido e me descartado como sendo “não digna”. Arqueei a sobrancelhas. Só podia ter sido uma das duas.
- Foram vocês que esbarraram em mim?
O sorrisinho imbecil se alargando foi a única resposta que obtive. E a única que precisava.
- Não vão me ajudar a pegar?
- Por que faríamos isso? – respondeu uma, a voz pingando desprezo.
- Porque foram as duas idiotas que fizeram isso.
Elas trocaram um olhar rápido e deram de ombros.
- Naah... – a outra puxou a palavra num gesto debochado de dizer “não”. – Esse não é um motivo bom o suficiente.
- E como exatamente vocês esperam que eu me abaixe e pegue sozinha? – estava ficando com raiva.
- Isso não é problema nosso. E quanto a como você vai pegar isso?! – olhou para o chão e voltou a rir.
Começaram a se afastar na direção oposta a que me dirigia.
- É quase um mistério, garota – completou a frase depois de ter dado uma (ridícula) pausa dramática.
- Um mistério bem patético – completou a outra.
Ainda pude ouvir o som das gargalhadas delas quando viraram a direita e sumiram do meu campo de visão.
-Que vadias filhas da mãe – xinguei em português, passando as mãos sobre os cabelos e soltando um suspiro pesado.
Como eu iria juntar tudo isso novamente? Descer até o chão não seria problema. O difícil seria levantar com os papéis e usando só as muletas como apoio.
Derrotada, soltei o ar com força e estava prestes a abaixar quando uma voz bonita me fez parar.
- Pode deixar que eu te ajudo.
Uma bonita ruiva se aproximou e rapidamente juntou todo meu material, entendendo-o para mim com um grande sorriso.
- Obrigada – sussurrei, aliviada. – Eu... eu estava andando e duas malucas – olhei para a direção que elas tinham ido, ainda achando a situação um tanto quanto inacreditável – esbarraram em mim e – fitei os papéis e depois a garota – falaram umas coisas sem sentido e saíram rindo. Não entendi nada.
Ela abriu um sorriso sincero e deu de ombros.
- Tem louco pra tudo nesse mundo – respondeu.
Assenti com a cabeça.
- Eu sou – estendi a mão.
A ruiva demorou alguns segundos para reagir. Segundos em que seus olhos verdes passaram analisando atentamente meu rosto. Foi meio constrangedor, mas finalmente ela pareceu voltar à realidade, sacudindo a cabeça e sorriu novamente.
- Annie – apertou minha mão.
- Você faz medicina? – perguntei, tentando ser simpática.
Quem sabe conseguiria outra amiga, afinal, já estava atrasada demais para a aula mesmo.
- Sim. Estou no segundo período. Acho que nós temos algumas aulas em comum.
Agora que ela tinha mencionado, lembro de que certa vez reparei no bonito cabelo dela. Era um marrom bem avermelhado. Lindo.
- É verdade! Acho que já vi você na sala de Psicologia.
- Exatamente!
Foi quando percebi algo.
- Nossa! Estou te atrasando. Você deve ter aula agora.
Ela soltou uma risadinha alegre.
- Não se preocupe! Tenho esse horário livre. Estava indo encontrar meu namorado.
- Então estou prendendo você aqui e te atrasando!
- Não tem problema, sério. Se eu não vou até ele, ele vem me encontrar.
- Se você diz, eu acredito – falei, meio incerta. – Então, quer tomar um café?
- Claro! Eu adoraria. Pode ser naquela Starbucks ao lado do prédio de Direito?
Fiz um cálculo mental, visualizando o percurso que faríamos. Não era tão longe, afinal o Direito ficava aqui ao lado.
- Claro. Vamos lá.
- Quer que eu leve esses papéis pra você?
- Ajudaria bastante. Muito obrigada.
Enquanto andávamos, Annie me falava um pouco sobre a vida dela, mas seu tom mudou quando começou a me contar sobre o namorado, Finnick, que cursava arquitetura, seus olhos se iluminaram. Era visível quão apaixonada ela estava. A ruiva era tão fofa - me lembrava de algodão-doce - e parecia ser tão genuína que me vi torcendo para que o tal de Finnick fosse digno do sentimento.
- Você se importa se eu me sentar aqui? – perguntei, mas já me acomodava em uma das cadeiras perto da porta assim que entramos.
- Claro que não – colocou meu resumo sobre a mesa e sua bolsa em uma cadeira de frente para mim. – Quer que pegue alguma coisa para você?
- Você pode comprar um Baunilha Latte pra mim? – peguei a minha carteira e puxei uma nota de cinco libras.
Ela pegou o dinheiro e foi para o caixa. Aproveitei para guardar meus papéis na mochila e observei a hora em meu celular. Ainda tinha uns minutos até ter que encontrar a Lorelai. Pouco depois, ela estava de volta e deslizou minha bebida sobre a mesa.
- Mas e você, , está gostando de Londres? – perguntou, sentando-se.
Franzi o cenho.
- Como você sabe que eu não sou daqui?
Ela não respondeu imediatamente e bebericou um pouco da própria bebida antes de responder.
- Seu sotaque.
Balancei a cabeça, aceitando a resposta, mas não muito certa de que esse era o único motivo. Comecei, então, a falar um pouco sobre como meu país era. Minutos depois ouvi a porta se abrindo, mas não prestei muita atenção até que vi todas as garotas no meu campo de visão se virando para encarar a pessoa que tinha entrado. Por curiosidade, procurei quem era e me deparei com um dos caras mais bonitos que já vi na vida. Era alto, musculoso e de perfil atlético. Seus cabelos eram cor de bronze e tinha incríveis olhos verde-mar. E ele vinha na nossa direção. Arregalei os olhos.
- , o que é que você está...
Annie foi interrompida quando o Deus Grego colocou as mãos sobre os ombros dela. Ela olhou para cima e abriu um sorriso imenso.
- Oi, amor.
- Oi, linda – ele se abaixou e deu um selinho nela.
O recém-chegado puxou uma cadeira, aproximou-a da de Annie e passou o braço sobre os ombros dela. Só então pareceu perceber que eu também estava ali.
- Oi – sorriu, amigável.
- Amor, essa é a . , esse é meu namorado, Finnick.
Ele olhou para mim e depois para minhas muletas e uma expressão de entendimento apareceu em seu rosto. Virou-se para namorada e eles pareceram ter uma conversa silenciosa antes de Annie assentir com a cabeça.
Toda essa movimentação pareceu estranha.
- Prazer em conhecê-la.
Sorri.
- Digo o mesmo. Annie falou muito sobre você.
Seu sorriso se alargou e deu um beijo na bochecha dela.
- Mandei uma mensagem para ele enquanto estava na fila. Espero que não se importe.
- Claro que não. Estava curiosa para conhecê-lo.
E agora que o fiz, estava feliz por perceber que ele também estava apaixonado por ela. Era como se o mundo dele girasse em torno dela.
- Odeio ser estraga prazeres, mas preciso ir terminar uma maquete mais tarde e passei aqui para ver se você quer dar uma volta antes disso, Annie.
A ruiva mordeu o lábio inferior, indecisa. E imediatamente soube que ela se sentia culpada por me deixar sozinha para ir com o namorado. Sorri de maneira encorajadora antes de falar:
- Sem, problemas. Também preciso ir. Minha amiga já está saindo da aula e tenho que esperar minha carona.
Sorriu, aliviada.
- Me passa seu celular – ela me entregou o celular quando já estávamos do lado de fora da cafeteria e logo digitei meu número. – Vamos marcar de fazer alguma coisa essa semana.
Sorri, concordando.
Despedimo-nos e eles seguiram de mãos dadas na direção oposta a minha. Estava na metade do caminho quando meu celular começou a vibrar. Parei de andar e atendi.
- Alô?
- Oi, – a voz animada de respondeu. - Já estou te esperando aqui na frente do seu prédio.
- Estou chegando. Só um minuto –respondi e já desliguei sem nem esperar por uma resposta.
Odeio deixar os outros esperando. Comecei a andar o mais rápido. Ao chegar ao gramado do prédio da minha faculdade, reconheci rapidamente o Range Rover e estava me dirigindo para lá quando escutei:
- ! !
Parei de andar e virei para ver quem me chamava. Ao reconhecer Lorelai, recomecei a andar. Se ela quisesse falar comigo, teria que me alcançar.
- ! – sua voz se aproximou e logo ela estava ofegante ao meu lado. – Não me ouviu chamando, não?
- Ouvi, mas estou com pressa. já chegou e você sabe como eu detesto deixar os outros esperando.
- O quê? – sacudiu a cabeça, ainda andando ao meu lado. – Sim, eu sei que você odeia... Isso não é importante agora. Nós temos que conversar. Eu ouvi...
Interrompi minha amiga, pois naquele exato momento chegamos ao lado do carro de .
- Sim. Vamos conversar. Me ligue mais tarde.
Já estava com a mão sobre a maçaneta quando Lorelai agarrou o meu cotovelo. Isso me fez realmente prestar atenção nela pela primeira vez naquele dia. Seu rosto estava mais pálido do que o normal e suas roupas pretas pareciam sufocá-las, não fisicamente, pois eram iguais as outras dessa fase punk, mas emocionalmente. Quase como se ela estivesse desestabilizada ao ponto de suas próprias roupas a incomodarem. Ela não olhava diretamente para mim, mas sim de um lado para o outro como que procurando algo. Ansiosa. Ela estava ansiosa.
Comecei a ficar preocupada. Na fase punk, a emoção predominante era a indiferença em relação ao resto do mundo. Essa ansiedade estava muito deslocada.
- Que foi, amiga? Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Eu tô bem. E você? Você está bem?
- Claro que sim. Por que não estaria?
Ela arqueou a sobrancelha e ficou surpresa com a minha resposta.
- Eu... eu...
Quase pude ver as engrenagens na cabeça dela girando.
- Não. Quero dizer, sim... Digo, não, não há nenhum motivo para você não estar bem.
- Você está começando a me assustar. O que diabos está acontecendo?
- Não. Nada está acontecendo - apressou-se a responder.
- Blake, quantas vezes vou precisar dizer que você não sabe mentir?
- Eu... É... eu... – soltou o ar pesadamente. – Você tem razão. É que eu briguei com Mark e queria falar sobre isso.
Não estava mentindo, eu sempre sabia quando ela mentia, mas aquilo não parecia ser toda verdade.
- Tem certeza de que isso é tudo? – analisei-a atentamente.
- Sim. Isso é tudo.
- Okaay – estendi a palavra. – Vou só avisar Harry que vou para casa mais tarde – virei o corpo para o carro com a intenção de fazer exatamente isso e mais uma vez ela segurou o meu braço.
- Não precisa – quase gritou. - Foi só uma das nossas brigas. Você sabe – deu de ombros.
- Não importa. Vou com você.
Ela sacudiu a cabeça enfaticamente.
- Sério. Não precisa. Nós vamos conversar. Vai ficar tudo bem.
Agora ela parecia desesperada para que eu fosse embora de uma vez. Esquisito. Muito esquisito.
- Tem certeza?
- Sim, sim. Claro. Nos vemos amanhã. Qualquer coisa eu te ligo.
Ela abriu a porta e praticamente me empurrou para dentro do carro. Então abriu a porta traseira, colocou as muletas lá e bateu a porta com força. Depois Lorelai parou ao lado da janela do passageiro, a qual agora estava abaixada.
- Tchau, . Se divirta hoje fazendo compras – depois olhou para além de mim. – Tchau, Nick Carter. Tome conta dela ou meu punho vai tomar conta do seu rosto, entendeu?
- Blake! – repreendi, sentindo minhas bochechas corarem.
Contundo, admito estar um pouco aliviada por minha amiga estar agindo mais de acordo consigo mesmo - até mesmo fazendo piadinhas sobre os Backstreet Boys. Mas ela estava séria e não usava a zombaria com a qual normalmente se dirigia a eles ou sobre eles. Não tive muito tempo para analisar aquele tom brusco porque imediatamente depois ela já tinha voltado ao normal:
- A gente se fala, amiga. Te vejo depois.
Fiquei parada por uns segundos, o cenho franzido, só observando-a se afastar. Estava tão absorta tentando descobrir o que estava errado naquela situação que pulei de susto ao sentir uma mão sobre meu ombro.
- Ah! - coloquei a mão sobre o peito, virando para encarar .
Quase tinha me esquecido onde estava.
- Desculpe! Não quis assustá-la – levantou as mãos em sinal de rendição.
Ele vestia uma camiseta branca, jeans escuros e um tênis também branco. Ou seja, roupas totalmente normais e, mesmo assim, ele estava ridiculamente bonito.
- Não. Tudo bem. A culpa não foi sua. Falando nisso, desculpe o atraso – senti minhas bochechas corarem.
- Não tem problema, . Só quero saber se você está bem mesmo?
Um verdadeiro cavalheiro. Nem mesmo ficou perguntando o porquê do atraso.
- Sim. Tá tudo bem. Mas, de verdade, desculpe o atraso. Você tá me fazendo um favor e eu fico te atrasando.
- Já disse que não tem problema. Vivo para servi-la, milady.
Desviei os olhos dos dele, sentindo minhas bochechas ficarem ainda mais vermelhas.
- Você é bobo, .
- Só para você.
Sua última fala foi um sussurro e, apesar de ouvi-lo, fingi que não.
- Podemos ir?
- O que você quiser, minha bela dama – disse, ligando o carro e começando a dirigir.
- Por que você está com essa de “milady” e “dama”?
Ele soltou uma gargalhada e passou uma mão sobre o cabelo, bagunçando-a ainda mais.
- e eu estávamos vendo uns filmes medievais.
- Eram bons?
Ele virou um pouco de lado e me encarou com uma interrogação.
- Os filmes – falei o óbvio. – Os filmes eram bons?
- Ah! – fez uma curva. – Sim. Eram bons. Tinha briga e mulheres. O que mais é preciso em um filme?
- Homens... – resmunguei, revirando os olhos e dando uma espiada pela janela.
Percebi, então, que não conhecia aquela rua. Ou aquele bairro.
- Nós estamos fazendo um caminho alternativo?
- Um caminho alternativo...? – franziu o cenho. – Ah! Não. Nós vamos ao supermercado. Eu te disse que iríamos, lembra?
- Mas você vai me deixar pagar pelo que eu quero comprar?
Esperei alguns segundos, mas não houve resposta.
- Harry, você vai me deixar pagar? – coloquei a mão sobre seu ombro, assim ele não podia fingir que não me ouviu.
- O quê?
Revirei os olhos.
- Vai me deixar pagar pelo que eu quero comprar no supermercado?
- Chegamos! – falou animadamente, parando o carro e evitando mais uma vez me dar uma resposta.
xxx

Peguei o pacote de cenoura e coloquei sobre a pilha de outros produtos dentro do carrinho. Comecei a procurar por laranjas.
- ?
Virei para trás e encontrei caminhando na minha direção, a cabeça abaixada enquanto olhava para dois pacotes de M&M’s, um de chocolate branco em uma mão e outro de chocolate normal na outra. Parecia uma criança.
- Eu sei que você falou só um tipo de M&M’s, mas eu não consigo escolher entre esses dois.
Minha proibição quanto ao chocolate devia-se ao fato de que, assim que passamos pelo corredor de doces, imediatamente começou a pegar praticamente um item de cada prateleira. Só não encheu o carrinho com aquilo porque eu havia entrado na frente e olhado feio para ele até que entendeu a mensagem e, derrotado, começou a devolver quase tudo. Disse, então, que ele podia levar cinco tipos de doces e um tipo de cada, nada de duas barras de Laka, por exemplo. É claro que era o popstar quem iria pagar por aqueles produtos, mas sou estudante de medicina então não podia deixá-lo se empanturrar de tantas coisas não-saudáveis. Não queria que ele desenvolvesse algum tipo de doença graças a isso. E também havia o fato de que seria enlouquecedor aguentar se ele tivesse acesso àquele estoque de açúcar. Energia demais para alguém que nem mesmo precisa dela para ser totalmente enérgico.
Era isso que tinha nos levado àquele dilema. Ele estava tão seriamente indeciso, o cenho franzido, o lábio inferior entre os dentes que chegava a ser fofo. Peguei meu iPhone e tirei uma foto. Depois de pensar por um momento, acessei o twitter e digitei:
“dúvida cruel, não?!” anexei a foto.
Satisfeita com o que tinha feito, falei alegremente:
- Twitter!
Ele levantou a vista e olhou para o aparelho que estendi em sua direção. Deu um sorrisinho de lado ao ver a própria foto e o tweet.
- Achei que você não gostava de internet.
- Mas gosto menos ainda de deixar coisas incompletas – dei de ombros. – Já que fez esse twitter pra mim e aquilo leva meu nome, é minha responsabilidade. Então vou fazer direito – guardei o celular outra vez.
- Boa resposta – se aproximou. – Mas acho que a verdade é que você só estava procurando um motivo – seu tom lento e sua voz profunda deixava tudo ainda mais envolvente a cada passo que dava em minha direção – para colocar uma foto minha no seu celular – mais um sorrisinho sexy.
Fiquei uns segundos ali: a cabeça meio levantada enquanto ficava presa naqueles lindos olhos. Só desviei a vista quando o sorriso dele se alargou e se transformou numa risada.
- Idiota! – empurrei-o de leve, rindo também.
- Bravinha – apertou meu nariz de leve, o que parecia estar se tornando um hábito.
Puxei as muletas e virei de lado. Ele se colocou na minha frente.
- Mas, sério, qual dos dois eu levo? – levantou as duas mãos para mostrar os pacotes de M&M’s.
Tinha me esquecido desses chocolates.
- Se eu deixar você levar os dois, promete manter em uma dose saudável de açúcar?
Ele piscou devagar, absorvendo o que eu disse então soltou uma gargalhada.
- Já está nos conhecendo direitinho, não é, dona ?
Dei de ombros, sorrindo de lado.
- Eu sou esperta.
- E convencida.
- Realista.
- Se eu concordar com você, posso levar os dois?
- Já te disse minha condição. Cumpra-a e seja recompensado.
Ele arqueou a sobrancelha e me lançou um sorriso safado.
- Tem noção de quão pervertido isso soou?
Senti que corava e fiquei como uma idiota, abrindo e fechando a boca sem achar uma resposta adequada. Ele se abaixou até encostar os lábios no meu ouvido.
- Não precisa ficar com vergonha – de volta o tom sedutor. – Eu adoro dirty talk.
Agora meu rosto estava tão vermelho que tinha certeza de que não era saudável.
- E-eu... eu...
se afastou, então, como se nada tivesse acontecido. Demorei alguns segundos para reagir.
- Vamos levar os dois! Caso encerrado – um sorrisinho esperto enquanto ajeitava os pacotes dentro do carrinho.
Balancei a cabeça e resmunguei:
- Pega a porcaria da laranja aí do seu lado. E vamos embora. Já pegamos tudo que precisávamos.
Sua risada nos acompanhou durante todo o percurso até o caixa enquanto me limitava a resmungar baixinho coisas como “babaca”. Fiquei observando as prateleiras sem prestar atenção em nada enquanto Harry colocava os produtos sobre o balcão do caixa. Queria ajudar, mas as muletas me impediam. Passei os olhos sobre balas, chicletes e itens do tipo.
- Tem certeza de que não quer mais nada, ? – ele perguntou, a carteira já aberta na mão.
- Não – sorri de leve. – Obrigada.
Voltei a atenção às prateleiras. Dessa vez reparei numa revista de fofoca adolescente que estampava a foto que havia postado no twitter e se podia ler em letras garrafais “One Direction’s Mistery Girl. Saiba tudo sobre – a garota sobre quem todos estão falando”. Com os olhos arregalados, estendi a mão para apanhar a revista, mas uma parede de mais de 1,70m se interpôs no meu caminho.
- ! ... e-eu estou... nós estamos... – gaguejei, apontando bobamente para o peito dele, tentando, na verdade, mostrar a revista que estava atrás dele.
- Vamos embora – sorriu de maneira forçada e começou a me guiar delicadamente na direção da saída.
- Mas... mas nós estamos naquela revista?! – olhei para trás, ainda andando sem coordenação total.
- É. Eu vi – fez uma careta. - Mas aquela revista é lixo puro. Nada de útil.
Percebi pelo seu tom que não havia espaço para discussão. Ele estava mais determinado do que quando discutimos se me deixaria pagar pelas compras. Ao passarmos pelas portas automáticas, ainda estava imersa nesses pensamentos, talvez por isso não tenha percebido a movimentação estranha ali. Mas fui logo puxada para o presente quando uma voz gritou:
- Ali estão eles!
E foi quando estourou um pequeno caos.
- ! Aqui, !
- Vocês estão namorando, ?
- É verdade que ela está grávida?
- , você está dando o golpe do baú?
- Você e estão tendo um caso, ?
- , é verdade que a banda está se separando?
- Sorria, . Sorria aqui pra mim, boneca.
Vozes gritavam de todos os lados e flashes estouravam repetidamente na minha frente, me fazendo perder o foco. Eram vários homens munidos de câmeras e eles estavam me fechando. Eu tentava ir para o lado a fim de escapar daquelas luzes que me cegavam. De repente Harry não estava mais ao meu lado, me senti completamente desnorteada. A respiração ficou presa no meu peito, o qual parecia mais apertado a cada instante. Virei a cabeça de um lado para o outro, freneticamente procurando-o, mas tudo que via eram aqueles caras com essas malditas câmeras. Sentia meu corpo começar a tremer, o pânico acelerava meu coração a cada passo que aqueles homens davam em minha direção. Nunca fui claustrofóbica, mas estava começando a entender o que as pessoas que sofriam dessa fobia sentiam. Tudo se tornou ainda pior quando alguém, pela segunda vez naquele dia, esbarrou em mim, agora, contudo, não fui rápida o suficiente. A muleta deslizou para o lado e estava me levando junto. O que me impediu de passar por uma cena embaraçosa e potencialmente perigosa foi o braço forte que circulou minha cintura.
- Pra trás, agora.
não precisou gritar aquelas palavras. Seu tom era baixo e suas palavras eram claras e frias como um gelo. Havia uma ameaça silenciosa ali, quase como se ele estivesse desafiando aqueles homens a desobedecerem.
“Vamos lá. Não façam o que estou dizendo e vocês vão ver o que vai acontecer.”
Naquele momento, ele parecia perigoso e protetor. Preciso admitir também que nunca pareceu mais gostoso - mesmo minha mente embaçada pelo medo conseguiu perceber aquele fato.
- Vamos embora, - ele murmurou, seu tom suavizando drasticamente, quando ninguém se atreveu a contrariá-lo.
Na verdade, eles abriram caminho para que passássemos, não fazendo nem menção de tentar tirar outra foto.
só voltou a falar quando estávamos dentro do carro e acelerando para longe daquela pequena multidão.
- Bando de abutres inconsequentes – rosnou por entre os dentes cerrados. – Eles podiam ter machucado você – bateu a mão com força sobre o volante.
Queria falar alguma coisa para acalmá-lo, queria dizer que estava tudo bem, que eu não havia me machucado. Queria dizer qualquer coisa, mas nada saía. As palavras estavam presas na minha garganta, sepultadas por baixo de uma sensação de pânico. Talvez eu fosse claustrofóbica ou talvez tenha sido a constatação de quão impotente estava naquela situação. Sempre fui independente, sempre cuidei de mim mesma porque, afinal, com os pais que tinha não podia esperar muito além de frases encorajadoras do tipo “O sol vai iluminar seus problemas e eles irão embora”. Nada concreto. Toda vez, contudo, que enfrentava uma situação, havia me preparado antes. Figurativamente, é claro, mas havia me preparado. Já passou pela minha cabeça o que fazer em caso de ser roubada ou como agir caso o namorado de uma amiga ou até mesmo o meu cometesse traição. Admito que certa vez já imaginei como me salvar caso eu vá em um cruzeiro e ele afunde. Mas eram somente ocorrências, por mais impossíveis que algumas possam parecer, que podiam realmente acontecer um dia.
Ser cercada por paparazzi enquanto eles gritavam perguntas insanas e me empurravam de um lado para o outro definitivamente nunca tinha cruzado minha mente. E de repente eu era de novo aquela garotinha de seis anos na porta da escola esperando a mãe porque ela tinha esquecido o horário de término das aulas outra vez. Não sabia o que fazer, estava desamparada.
Sacudi a cabeça, tentando me controlar, mas não estava adiantando. Ainda tremia. Patético. Minha consciência gritava:
“Deixa de ser frouxa. Já passou. Você está segura. Já passou. Você já é bem crescidinha, não é mais uma criança. Respire fundo. Recomponha-se.”
E eu não conseguia. O que tornava tudo ainda pior, quase num ciclo vicioso: tentava melhorar e como não conseguia, piorava, o que me assustava mais ainda.
Vagamente percebi que havíamos parado e que tinha saído do carro. Ele me puxou delicadamente e me carregou até chegarmos à sala do apartamento. Não acendeu a luz e sentou no sofá comigo em seu colo, minhas pernas esticadas na minha frente sobre o sofá. me embalou para frente e para trás devagarzinho, murmurando palavras inteligíveis de conforto contra o meu cabelo. Não tinha parado de tremer ainda, mas estava melhorando. As lembranças do passado não mais se misturavam com o presente e já podia me situar melhor. Aos poucos, enquanto me forçava a respirar fundo várias vezes, fui retomando o controle.
Ainda meio assustada, mas infinitamente melhor do que há minutos, percebi quão ridícula era a situação. não era minha babá e não precisava ficar me confortando enquanto eu agia como uma idiota medrosa. Tentei me afastar, mas os braços dele envolta da minha cintura me impediram. Ele parou de se mexer e senti seu olhar em mim. Juntei coragem e ergui a cabeça para encará-lo também. Seus olhos estavam tristes, tão tristes que pareciam apagados.
Ergui a mão e toquei sua bochecha.
- Desculpe – murmurei.
Uma careta de confusão tomou seu belo rosto e sussurrou em resposta:
- Por que você está pedindo desculpas? Sou eu quem devia estar pedindo perdão.
Franzi o cenho.
- Você não teve culpa, . Não é como se você tivesse ligado para eles e os chamado para que eles montassem aquele circo na frente do supermercado.
- Mesmo assim. Se não fosse por mim, eles n-
- Se não fosse você, ainda estaria na minha entediante vida e com uma perna quebrada, para piorar tudo.
Cobriu minha mão que estava em seu rosto com a sua própria mão e me olhou atentamente.
- Por que você não está brava? Você praticamente surtou!
Corei ao ouvir aquela verdade. Não era uma acusação ou uma repreensão. Estava simplesmente constatando um fato, o que não tornava nada menos humilhante.
- Não sabia que você era claustrofóbica – falava baixinho, como se cada palavra fosse dolorosamente arrancada dele. – Eu sinto muito – manteve a vista fixa a minha. – Eles me empurraram para o lado assim que saímos e não conseguia chegar perto de você por mais que tentasse. Foi horrível – sua voz quebrou.
Meus dedos se mexeram de leve sob os deles, fazendo um carinho sob sua bochecha. Queria confortá-lo, deixá-lo saber que a culpa não era dele, mas não conseguia contar os detalhes da minha infância ou da minha família ainda. Não estava preparada para isso. Mastiguei meu lábio inferior enquanto pensava sobre o que conseguia falar.
- Não foram exatamente os paparazzi.
- Como assim?
- É que eles trouxeram algumas lembranças ruins – desviei o olhar. – Da minha infância – completei, baixinho.
Senti-me grata quando ele não fez perguntas, limitando-se a puxar delicadamente meu rosto para que voltasse a encará-lo. Engoli em seco.
- Não acho que seja claustrofóbica e esse tipo de surto não vai acontecer novamente se outros paparazzi aparecerem. Prometo.
Estaria preparada da próxima vez.
De repente um pensamento totalmente novo me ocorreu e, horrorizada, baixei a mão lentamente para longe de seu rosto.
- ! Isso vai aparecer na internet amanhã e eu vou fazer vocês passarem vergonha! – falei freneticamente, tentando me levantar outra vez a fim de me afastar dele e quem sabe assim absorver mais aquele fato humilhante.
Outra vez fui impedida.
- Você é única, . Ao invés de ficar brava por causa daqueles brutos ou chateada porque te expus desse jeito, você está preocupada com como os caras e eu vamos aparecer na internet?
- Não sou criança, . Nem por um segundo acreditei que seria poupada da tumultuada vida de vocês. Aceitei as consequências assim como os benefícios no momento em que concordei em vir morar aqui. É só que... – mordi o lábio inferior à procura das palavras – não estava preparada para aquilo. Meu dia foi longo e aquilo não ajudou muito.
- Tem certeza de que foi isso? Tem certeza de que está melhor?
Acenei com a cabeça, já completamente calma.
- Quer que eu faça um chá ou alguma coisa?
- Não é necessário.
- Quer falar sobre o seu dia? - outra vez a careta de preocupação.
- Não. Nós podemos... – me abaixei lentamente, encostando a cabeça perpendicularmente contra seu tórax. – Nós podemos só... ficar aqui por um instante?
- Claro que podemos, linda. – ajeitou seus braços envolta de mim, me puxando para mais perto e simultaneamente se ajeitando melhor no sofá.
- O que você quiser, – sussurrou.
Por impulso virei a cabeça um pouco e depositei um beijo na base do seu pescoço. Senti que ele estremecia. Feliz por essa reação, voltei a me aconchegar contra aquele homem. Apertei a mão contra a lapela do casaco, o qual ele tinha vestido momentos antes de entramos no supermercado, e afundei meu nariz contra seu peito, absorvendo aquele delicioso perfume dele.
Ali, então, ficamos sentados não sei por quanto tempo. Estava envolta por um gostoso e reconfortante calor e pela recém-descoberta – e pouco familiar - sensação de segurança que estar em seus braços me proporcionava. Não me lembro de ter fechado os olhos e nem de ter dormido tão bem em toda a minha vida.



Capítulo Doze

- ...não sei, cara. Ela simplesmente surtou.
- Igual ao na primeira vez em que ficamos presos numa multidão de fãs?
Lentamente as vozes distantes começaram a penetrar no meu cérebro sonolento.
- Não. Quem dera tivesse sido assim. Pelo menos eu saberia o que fazer. Foi muito pior.
- Como assim muito pior? Você tem noção do que eu passei naquele dia?
- Claro que ele tem, . Todos nós passamos por aquilo e todos estavam lá. Mas o que você quer dizer com muito pior, ?
Abri os olhos e constatei que estava deitada no sofá da sala, as luzes apagadas. Levantei devagar, alcancei as muletas que estavam ali perto e fui, o mais silenciosamente possível, para a porta da cozinha, de onde vinham as vozes. Pude ver quatro dos cinco garotos da banda. e estavam de costas para mim, mas podia ver os outros dois. Eles estavam sentados em volta da ilha e ninguém tinha me visto ali na porta.
- E-eu... – passou as mãos sobre o rosto, cansado. – Ela só ficou lá... parada enquanto aqueles filhos-da-mãe a cercaram.
- Talvez ela só tenha entrado em choque. – abaixou a cerveja que estava tomando e olhou atentamente para o amigo. - Aconteceu o mesmo com , lembra? Ela ficou com aquela cara esquisita e-
- Ou a Kristine! Nossa... ela ficou furiosa. – completou risonho, a expressão distante como quando se está recordando de algo.
- Exatamente! – interrompeu, seu tom enfático e mais agudo do que o normal. – Ela ficou com medo, ficou ansiosa... sei lá. Ela teve uma reação! A só ficou lá... parada. O rosto dela estava liso – puxou o cabelo, frustrado. – Parecia uma boneca. Foi horrível.
Forcei-me a engolir o bolo que havia se formado em minha garganta. Não queria escutar mais nada. Não queria que eles pensassem que eu era uma pirralha que precisava de supervisão constante. E, principalmente, não queria que se sentisse obrigado a ser minha babá. Talvez um pouco de distância fizesse bem. Afastei-me um pouco da porta e depois fiz bastante barulho, fingindo estar chegando àquele cômodo pela primeira vez depois que acordara.
Dessa vez, ao aparecer no portal da cozinha, todos olhavam para mim, um silêncio mortal presente. Sério que era assim que eles disfarçavam alguma coisa? Nunca fui genialmente boa em detectar sarcasmos nem nunca fui muito perceptiva – e isso me custou algumas discussões com Lorelai –, mas precisava ser um imbecil completo para não notar o gigante elefante branco no cômodo. Era quase como se eles tivessem pulando e gritando coisas do tipo “estávamos falando de você agora mesmo, mas vamos fingir que não porque você não pode saber sobre o que falávamos”. Sorte deles por serem cantores e não atores porque senão iriam morrer de fome. Ok. As qualidades de atuação dos garotos eram não-existentes, mas era hora de testar as minhas. Forcei um sorriso e fingi que não tinha notado o que era impossível de passar despercebido.
- Ah! Oi, garotos. Vocês estão aqui! – forcei um sorriso.
Ninguém respondeu. Eles estavam me olhando como se esperassem que a qualquer momento eu fosse me jogar no chão e começar a chorar copiosamente. Odiava aquilo. Odiava aqueles olhares que eram uma mistura de pena e apreensão. Já havia recebido muitos daquele tipo de tia Claire quando ela comparecia nas minhas apresentações escolares e depois explicava pacientemente o porquê de meus pais não estarem lá também. Odiava que sentissem pena de mim. Era humilhante.
Agarrando a única opção que tinha, voltei a me fazer de idiota:
- E então? Vocês estão com fome? – cheguei mais perto deles, sem nunca apagar o sorriso falso. – Aliás, que horas são?
limpou a garganta antes de me responder.
- São sete e meia da noite.
- Nossa! Dormi bastante. Acho que a faculdade está me esgotando.
Ainda me olhavam, agora mais confusos do que apreensivos.
- Okaaay... Eu vou comer alguns cookies – me virei para o balcão onde tinha deixado os potes com os biscoitos. – Alguém quer?
- Eu quero, linda. Eu quero! – já gritava animadamente, uma das mãos levantadas, como quando um aluno queria fazer uma pergunta.
- Você fez cookies? – perguntou.
- Os melhores que já experimentei. – respondeu. – E olha que tenho bastante experiência com isso, se é que você me entende – deu uma piscadinha, as sobrancelhas arqueadas e uma pose de ator pornô.
E, simples assim, toda a tensão se dissolveu.
- Deixa que eu pego. – se levantou. – Por que você não se senta?
Lá estava ele outra vez, bancando a babá. Não precisava de sua ajuda, podia fazer aquilo sozinha. Mordi o lábio inferior, segurando a resposta dentro da boca. Fui me sentar junto com eles, mas tomei o cuidado de evitar o banco ao lado do dono do apartamento e escolhi aquele próximo de . O problema foi que, quando colocou os potes sobre a ilha e voltou a se sentar, percebi que seu lugar era diretamente em frente ao meu. Puxei um dos potes para mim e vi que fazia o mesmo com o outro. Não querendo cair no silêncio constrangedor outra vez, virei um pouco para o lado – numa tentativa de evitar os belos olhos de – e falei:
- E então? Vocês vão viajar também nessas pequenas férias? – peguei um cookie.
- E- vofaçarcêecook.
- Ah, ! – franzi o cenho. - De novo? Quantas vezes vou ter que te falar para mastigar de boca fechada?
- Desculpa, . – falou, nem um pouco arrependido e logo encheu a mão de cookies e colocou na boca outra vez.
Revirei os olhos.
- Eu não. Preciso arrumar algumas coisas no meu apartamento. - também se serviu de alguns biscoitos. – Redecorar, sabe? Você pode me ajudar, né, !? – começou a mastigar uns biscoitos. – Nossa! Isso aqui tá muito bom.
- Obrigada – sorri.
- Tá gostoso mesmo – foi a vez de elogiar.
- Eu disse, não disse?
- , tá bom já, né? – puxei o pote que ele monopolizava para longe de suas mãos. – Você levou um só pra você e já comeu muito hoje. Vai ter uma crise de açúcar ou alguma coisa assim.
- Mas ...
- Já disse que não – estreitei os olhos. – Agora responda a minha pergunta.
- Mas eu já respondi que também não vou e que por isso você podia cozinhar pra mim.
- Ah! Então foi isso que você grunhiu?!
Ele fez uma careta de falso ofendido, colocando a mão sobre o peito.
- Assim você me ofende! Só te perdoo se você me der uns cookies.
- Boa tentativa, mas não. Sem mais cookies pra você.
- Não se pode dizer que não tentei – deu de ombros. – Mas isso não significa que você não vai cozinhar para mim, não é linda? – piscou os olhos de maneira exagerada.
- Ok, eu pos-
- Não se sinta obrigada a nada. – interrompeu, falando pela primeira vez desde que voltara a se sentar. – Você não precisar cozinhar para ninguém.
Franzi o cenho. Sabia que ele não tinha a intenção de me ofender e queria me poupar de tarefas da casa, mas não pude evitar sentir uma pontinha de raiva ao vê-lo, mais uma vez, agindo como se tivesse obrigação de cuidar de mim.
- Tudo bem. Eu não me importo – falei, mais seca do que pretendia.
Pude ver seus olhos se arregalarem de surpresa antes de eu voltar minha atenção para :
- Mas o que você disse sobre redecorar seu apartamento?
- É que foi a minha mãe quem arrumou tudo e, agora que finalmente temos uma folguinha, ‘tava a fim de mudar as coisas. Deixar mais a minha cara, sabe?
Balancei a cabeça concordando.
- Queria poder ajudar, mas não tenho nenhum senso de decoração e estilo. Talvez você possa pedir para .
- Mas ela vai demorar pra voltar e eu queria fazer isso ainda essa semana – formou um biquinho adorável.
Soltei uma risada.
- Sorry, babe – apertei sua bochecha, rindo. – Talvez da próxima vez.
- Hey! , você pode chamar a Kristine para te ajudar! – interrompeu a conversa que estava tendo com o outro amigo para dar a sugestão.
soltou uma gargalhada que logo se tornou em uma expressão pensativa, a qual, por sua vez, transformou-se em um sorrisinho malvado.
- Essa vai ser ótima! Quer apostar quanto tempo eles passam junto sem se matarem? Aposto que não dura dois dias! – ele estendeu a mão para o amigo.
- Dois dias? Eles se matam em menos de duas horas. – fez menção de apertar a mão do amigo, mas deu um tapa nela, afastando-a para o lado.
- HAHAHA – fez uma careta. – Vocês são tão engraçadinhos. Uma comédia. Deviam largar a banda e trabalhar com o Alar Carr.
- Ahh... Ficou bravinho, foi? – mexeu no cabelo dele, rindo.
- Ah, bebê. – , também rindo, se esticou para apertar a bochecha do amigo. – Você não gosta quando falamos de vocês dois, né? Só porque todo mundo sabe que essas brigas de vocês é tudo tensão sexual reprimida.
A careta indignada de foi tão engraçada que tive que me reprimir para não fazer o mesmo que e e rolar no chão de tanto rir.
- Idiotas. – bufou e depois tomou um longo gole de cerveja. – Vocês não sabem o que dizem. Nós nos odiamos.
- O que vocês odeiam é o fato de que não conseguiram se pegar direito ainda.
- É verdade. – balançava a cabeça várias vezes, concordando. – Você tá precisando pegar ela de jeito e-
se esticou para dar um tapa na cabeça do amigo.
- É da minha melhor amiga que vocês estão falando. Não quero ter essas imagens mentais.
- Não querendo interromper o papo Macho-Man de vocês, mas quem é Kristine?
olhou pra mim e piscou os olhos devagar como se tivesse esquecido que eu também estava ali.
- Esqueci que você ainda não conhece a Kristine, – deu uma risadinha sem graça.
Arqueei a sobrancelha, ainda esperando a resposta para minha pergunta.
- Ah, sim! Kristine é uma amiga de infância do . Ela se mudou pra Londres junto com a família mais ou menos um ano antes de irmos para o X-Factor. Kristine acompanhou o nosso aqui durante o programa e ele nos apresentou. Depois disso ela virou nossa melhor amiga.
- De todos nós. – concordou. – Apesar do fato de ter uns momentos de posse e achar que é só melhor amiga dele – bebeu um pouco mais da própria cerveja.
Senti uma pontada esquisita no peito e olhei de esguelha para , que olhava para o amigo com o cenho franzido.
- Ela não é minha melhor amiga. – resmungou, segurando a garrafinha de cerveja perto da boca. – Eu nem gosto dela.
fingiu uma tosse que soou estranhamente como as palavras “frustração sexual”. lançou um olhar assassino ao amigo, mas não falou nada.
- Eu achei que eu fosse sua melhor amiga, – fingi uma careta de tristeza.
- Sabe o que é, ? É que a Kristine me dá cookies.
- Que ela compra, né? – interveio. - Porque ela tem um dom bem limitado para culinária.
- Você é estraga prazeres, ! Eu ‘tava quase conseguindo mais um cookie.
- Não ‘tava não – soltei uma risadinha. – Esses aqui são dos meninos e do .
- Isso é tão injusto!
- Você sabe o que a Kristine sempre fala sobre isso, não?
- Life’s a bitch. riu, dando uma piscadinha.

xxx

A viagem de carro para a faculdade de manhã foi repleta por um silêncio constrangedor, o mesmo silêncio que tinha caído entre nós dois depois que os meninos tinham ido embora. Era pesado, sufocante e eu tinha vontade de rompê-lo. Não queria aqueles olhares furtivos que trocávamos e aquela expressão interrogativa no belo rosto dele. Também não queria que ele ficasse mastigando o lábio inferior enquanto me olhava daquele jeito que alguém te olha quando quer falar alguma coisa. Era horrível. Sabia que não entendia a situação em que estávamos e eu tinha vontade de explicar, mas ao mesmo tempo percebia que isso faria com que parecesse uma menininha mimada. Ele estava me ajudando e eu ficava reclamando? Não era muito justo. Aliás, aquilo tudo era injusto e um tanto quanto patético. Precisava arrumar um jeito de consertar as coisas. Um que envolvesse uma retomada à normalidade de meu “relacionamento” com , mas também impedisse que ele se preocupasse tanto com os meus problemas. Assim que encontrasse uma solução que abarcasse esses dois itens, iria trabalhar na coragem para falar com ele sobre isso. Nesse meio tempo, teríamos que suportar aquele clima esquisito.
Quase pulei para fora do carro assim que ele estacionou.
- E-eu... huuum... Obrigada – falei, olhando para a porta fechada ao invés de para ele. – A gente se vê depois.
Virei e comecei a caminhar o mais rápido possível para longe dali. Não estava muito longe da entrada do prédio quando Lorelai apareceu do nada na minha frente.
- Mas que diabos?! – gritei, parando no último segundo para não bater nela. – Ficou maluca? Já é difícil andar com isso aqui sem você surgindo do além para atrapalhar meu caminho.
- Precisamos conversar – ela estava mortalmente séria.
- Lorelai, por mais que eu ame você e tal, eu tenho aula agora e tenho certeza que o Mark não tá te traindo com a vadia da sala dele. Isso é só a sua imaginação fértil te pregando uma peça... outra vez.
Ela sacudiu a cabeça e me olhou com uma expressão incrédula.
- O quê?
- Não é sobre isso que você quer conversar?
- Claro que não. Você sabe que faz tempo que não tenho o que você gosta de chamar de “ataque ridículos e infundados de ciúmes”.
- Bom, isso é verdade – concordei depois de analisar os fatos passados. – Então sobre o que você quer falar?
- É uma coisa muito importante.
- E não dá pra esperar até depois das aulas?
- Não – seu tom não deixava espaço para discussões.
- Ok. Você venceu. Vamos à Starbucks, então.
- Não – apressou-se em dizer quando viu que eu tentava dar a volta nela. – Vamos ali do lado.
- Ok – suspirei. – Tanto faz.
Lorelai foi na frente e nós acabamos sentadas em um banco mais afastado do prédio principal da minha faculdade. Olhei para minha amiga, arqueando a sobrancelha enquanto ela ficava lá, parada e em silêncio. Aquilo estava muito esquisito, até mesmo para os parâmetros dela.
- , eu... e-eu não sei como falar sobre isso... – abaixou a cabeça e brincou com os dedos como se fossem as coisas mais interessantes.
Arregalei os olhos quando percebi o que acontecia.
- OH MEU DEUS! VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA! – apontei para ela, chocada.
- É o quê? – Lorelai me olhou, incrédula. – Gráv- claro que não! – sacudiu a cabeça. - Ficou maluca?
Suspirei, aliviada.
- Mas se não é isso, por que você está agindo toda esquisita e parece super preocupada desde ontem?
Ela respirou fundo.
- Eu estou preocupada com você!
Franzi o cenho.
- O quê? Preocupada comigo? Por quê?
- , você tem dado uma olhada no twitter? Ou mesmo na internet em geral?
Pensei por um momento.
- Bom, eu postei uma foto ontem. Isso conta? Você sabe que não gosto da internet.
- É. Eu vi a foto. Eu, seus trezentos mil seguidores e todo o resto do mundo adolescente.
- Trezentos mil? – meu queixo foi para o chão.
- É. Trezentos mil ontem antes de você postar aquela foto. Agora deve estar chegando a meio milhão e subindo.
- Mas... por quê? Só porque eu sou amiga dos meninos?
- Claro que sim, . Eles querem saber tudo sobre você. Estão escavando tudo que encontram sobre você. Eu vi informações sobre as suas aulas, sobre sua cidade no Brasil e até sobre Mark e eu eles estão falando.
- Você e Mark? E-eu sinto muito. Não pensei sobre como isso afetaria voc-
- Deixe de bobeira. Nós não nos importamos com isso.
- Mas não foi por isso que vocês brigaram ontem?
- Brigamos ontem?
- É! Quando eu estava indo embora você queria falar sobre a briga de vocês – falei o óbvio.
- Ah, isso! Não. Claro que não, né, . Nós não brigamos por isso. Nós tivemos um desentendimento sobre como falar sobre isso com você. Eu queria uma abordagem mais direta.
Como a que você estava fazendo agora, pensei.
-... e ele queria ser mais suave e chamar você pra jantar e delicadamente falar sobre isso. O que não faria o problema desaparecer. Mas nem precisava falar sobre briga nenhuma. Queria conversar sobre o que estamos falando agora, mas você estava tão alheia ao assunto que resolvi deixar pra depois. Sabe que por um momento até achei que você estava em negação.
- Em negação?
- É. Fingindo que o problema não existia, sabe?
- Fingindo?
Ela me ignorou e continuou falando:
- Mas percebi que você realmente não sabia sobre como a internet tava pegando fogo por sua causa.
- Pegando fo-
- Cala boca e me deixa falar.
Levantei um pouco as mãos em sinal de rendimento. Ela passou as próprias mãos sobre o rosto e soltou um suspiro.
- O que eu estou tentando dizer é que acho que subestimamos o quão “famosa” – fez o sinal de aspas com os dedos – você se tornaria. Pensei que você fosse aparecer em algumas revistas, teria alguma coisa na internet também, por que eles são famosos, mas isso já está ficando ridículo! As redes sociais tão inundadas com informações sobre você. Aquelas fãs meio malucas deles só falam sobre você.
Mordi o lábio inferior.
- Fazer o que, né... – dei de ombros.
- “Fazer o quê?” – me olhou, incrédula. – Você tem noção de que isso só vai crescer mais e mais, né? Eu vi algumas malucas fazendo ameaças de morte!
- O quê? Que ridículo! Quantos anos elas têm?
- Isso não importa. O que eu quero é que você entenda o tamanho dessa situação. Não é uma coisinha que vai sumir com o tempo. Eles vão continuar falando e falando sobre você e vão inventar coisas. Não quero que isso afete seu psicológico e sei lá... você comece a tomar antidepressivos ou alguma coisa assim.
- Não vou tomar antidepressivos!
- Você sabe que não estou exagerando. Há milhares de celebridades que surtam por causa de toda a atenção.
- A diferença é que não sou famosa.
Agora ela ficou exasperada.
- Abre os olhos, . Você é famosa sim. Famosa por tabela, que seja! - fez um gesto com as mãos em sinal de impaciência. – Ou você já se esqueceu de todos aqueles paparazzi de ontem? Por que se você esqueceu, há centenas de fotos na internet sobre isso!
- Ah, você viu aquilo... – olhei para o chão.
- Eu e o resto do planeta, né? , - suavizou o tom, – você parecia uma boneca lá parada, sem reação.
Tentei não me encolher como se tivesse levado um tapa ao ouvi-la dizer o mesmo que .
- Eu sei. Reagi mal àquela situação, mas foi porque não estava preparada.
Ela respirou fundo, parecendo procurar por paciência.
- Ok. E quanto às meninas que agora te odeiam porque pensam que você tá pegando o amor da vida delas? – seu rosto se contraiu em uma careta de desprezo.
- Vai ficar tudo bem. Não é como se elas tivessem do meu lado.
- Você é idiota ou o quê? – literalmente bufou. – Volta para realidade – estalou os dedos na frente do meu rosto várias vezes. – É exatamente como se eles estivessem ao seu lado. Cada segundo da sua vida vai ser observado e julgado.
Engoli em seco.
- Ok. Talvez seja um pouco pior do que imaginei, mas é melhor que a alternativa.
- Alternativa?
- É. Você sabe como minha vida era tediosa.
- Sim. Então você resolveu pular da calmaria direto para o olho da tempestade? – a cada palavra sua voz ficava mais alta. - Tão inteligente da sua parte – terminou com uma risadinha irônica.
- Será que dá pra parar? Não é como se eu tivesse escolhido tudo isso. Não pulei na frente do carro para chamar atenção.
Blake mordeu o lábio inferior, como se reprimisse a si mesma para não falar mais.
- Certo. Desculpe. Você tem razão – apertou com o indicador e o dedão a ponte de seu nariz e olhou para o céu por um momento. – Preciso te contar mais uma coisa.
Esperei por uns segundos até que ela voltou a olhar para mim e, com um suspiro, falou:
- Todo mundo aqui está falando sobre você.
- Como assim?
Ela passou a mão na testa e fechou os olhos por uns segundos.
- Toda universidade está falando sobre você, . Ao que parece todos aqui sabem quem você é e só falam sobre isso. E eles não estão falando bem, amiga.
E foi como em um daqueles filmes. Cenas de ontem relampejaram na frente. Aquelas duas ordinárias que quase me derrubaram e Annie, que, percebo agora, tinha realmente me reconhecido.
“É quase um mistério, garota”... Mistério... garota... Mistery Girl... One Direction’s Mistery Girl.
E a compreensão me acertou como se tivesse levado uma martelada na cabeça. Apoiei os cotovelos sobre as coxas e depois abaixei a cabeça entre as mãos.
Era por isso que as ordinárias tinham esbarrado em mim e era por isso que a ruiva tinha me reconhecido. Por que elas sabiam quem eu era.
E agora estava cheia de perguntas. Queria saber, por exemplo, se Annie tinha se fingido de legal ou o que todos estavam falando. Perguntava-me também quais rumores estavam sendo espalhados e quanto mais de falsidade ainda teria que aturar. Estava, porém, mais preocupada em saber se a partir de agora teria que tomar cuidado redobrado porque algumas pessoas queriam – literalmente – me jogar de cara no chão. Era tanta coisa zunindo em meu cérebro que precisei respirar fundo algumas vezes e levantar as mãos para massagear as laterais da minha cabeça.
Mais uma vez tive que recorrer ao controle que construí ao longo do tempo. Empurrei todos esses pensamentos caóticos para o fundo do meu cérebro para analisá-los com mais calma depois. Sozinha.
E, quando ergui a cabeça para encarar minha amiga outra vez, já tinha reprimido todas as dúvidas e preocupações que tinha.
- Acho que vou ter que lidar com isso então – dei de ombros.
- É isso? É só isso que você vai falar? – perguntou, os olhos arregalados com incredulidade.
- E o que exatamente você quer que eu faça, Lorelai? - tinha noção de que meu tom era mais agressivo do que o necessário. – Hun? Qual a brilhante ideia que você tem? Quer que eu pare de conversar com os meninos que se tornaram meus amigos porque um bando de gente que não conheço me aterrorizou até esse ponto?
- “Seus amigos”? , você não passou nem uma semana com eles!
- E você não passou nem duas horas, então não me venha falando se devo ou não ser amiga deles. Não sou criança. E já tomei minha decisão.
Vi minha amiga abrir a boca para discutir ou talvez para me mandar uma resposta do tipo “faz o que você quiser então”, mas, pela primeira vez em muito tempo, assisti ela resistir ao impulso de dizer o que pensava. Ela fechou os olhos e quase podia ouvi-la contar mentalmente até 10.
Soltou o ar pesadamente antes de voltar a me encarar.
- Ok, então. Você tem razão. Não é criança e é inteligente o suficiente para tomar as próprias decisões. Mas ainda preciso perguntar. Você tem certeza de que é isso que quer? Você não está tão envolvida com eles. Ainda dá pra te tirar dessa.
Suavizei meus dentes cerrados, afinal, ela só estava preocupada.
- Sim, amiga, eu tenho certeza do que estou fazendo. Além do mais, você sabe que não fujo das coisas. E um bando de adolescentes não vai me impedir de falar com meus amigos. Não vou mudar minha vida por elas ou pela mídia. Já tive que me adaptar a diversas situações, essa é só mais uma delas.
Lançou-me um olhar superior, de quem sabia muito na vida, contudo, não disse nada.
- Bom, - suspirou de novo, – se é isso que você quer, então eu vou estar aqui com você.
Assenti com a cabeça, agradecida, e senti um pequeno sorriso crescer. Ela retribuiu.
- Nossa... Acho que foi tanta emoção fluindo hoje que vou conseguir pintar uns três quadros inteiros – deu uma gargalhada forçada, tentando desanuviar o clima. – Nem vou dormir.
Agarrei a chance de mudar de assunto porque esse, assim como tinha acontecido ontem, estava me esgotando.
- Pelo menos algo de bom – tentei sorrir. - Agora preciso te contar uma coisa – mexi minhas mãos sobre o colo.
- Falei com a tia Claire.
- Você contou para a senhora Hardy? – franziu o cenho.
Não importava quantas vezes minha tia tenha dito a Lorelai que podia chamá-la de Claire, Blake continuava usando o sobrenome dela. Certa vez perguntei o porquê e ela respondeu que minha tia podia ser a segunda pessoa mais assustadora que ela conhecia. A primeira era sua própria tia.
- Meus tios não são desligados da realidade mundial como meus pais. Não é como se não existisse a possibilidade de eles me verem numa revista. Não podia arriscar.
- E como foi que ela reagiu? Não consigo imaginar sua tia concordando com essa história maluca de você morar com um desconhecido. Ela te ameaçou com uma transferência para Escócia de novo?
Assenti com a cabeça.
- Mas não foi tão ruim assim.
Lorelai arqueou a sobrancelha.
- Talvez porque eu não tenha contado a verdade inteira.
- Como assi- Espera ai! Você mentiu para sra. Hardy?
- Não menti, eu... Tá bom, eu menti.
- OH MEU DEUS! Você realmente mentiu pra sua tia! – agora ela olhava de um lado para o outro, parecendo nervosa e um pouco assustada. – Você é louca? Tem noção de que ela nunca perdeu um caso? E ela é advogada criminal! Ela foi eleita cinco vezes, nos últimos cinco anos, a melhor advogada mulher do Reino Unido!
- Se controla, mulher. Não precisa ficar assustada assim. Tia Claire não vai te matar. Ela é advogada, não mafiosa. E, peraí... como é que você sabe de tudo isso?
- Você sabe que meus tios também têm suas fontes e minha mãe encheu o tio Tony até que ele fez uma pesquisa sobre você. Sabe, com você sendo minha colega de quarto e tal.
- Muito justo. E agora que você parou com o seu surto de medo irracional, eu – aumentei o tom nessa sílaba ao vê-la abrir a boca para retrucar – posso te contar o que disse.
Ela ficou pensativa, provavelmente ponderando qual tinha mais valor no momento: seu direito de réplica ou sua curiosidade. A última venceu quando ela revirou os olhos e resmungou:
- Ok. O que você disse?
Mordi o lábio inferior, tentando segurar o sorriso.
- Disse que já conhecia os meninos porque um deles era primo de uma amiga minha.
Ela franziu o cenho.
- Não estou entendendo.
- Falei para tia Claire que o era seu primo.
Soltei uma gargalhada na mesma hora em que ela gritou “VOCÊ O QUÊ?”

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- Fala de uma vez, – falei, decidida, virando um pouco o corpo para o lado a fim de olhar meu amigo.
- Hein? – olhou para mim, a expressão distante, antes de se voltar para estrada.
- Não sou a pessoa mais perceptiva do mundo, mas até eu sei quando alguém está aéreo porque tem coisas de mais na cabeça. Você quer falar sobre isso?
Ele franziu o cenho, ainda olhando para frente.
- Não é nada importante. Mas eu tenho uma pergunta para você.
Notei sua não tão suave mudança de assunto, mas fingi que não.
- Manda – brinquei, batendo a mão de leve sobre o painel a minha frente e no ritmo divertido que tocava no rádio.
- Por que você tá saindo mais cedo? E, você sabe que não me importo de te dar carona sempre que precisar, mas estou curioso para saber por que você não ligou para o ?
Minha mão parou, suspensa sobre o painel, sem voltar ao batuque que antes fazia.
- Lorelai precisava conversar e perdemos a noção do tempo. Perdi a primeira aula e o começo da segunda. Então preferi vir embora – contei a verdade, não entrando em detalhes.
- E quanto à segunda pergunta?
Soltei um suspiro. Pelo visto, meu proposital esquecimento não havia matado aquela questão.
- Acho que já estou incomodando o suficiente – dei de ombros, virando para janela.
Minha voz saiu mais amarga do que o normal, mas felizmente ele parecia estar preocupado com outra coisa e não notou.
- O quê? Você não está incomodando ninguém – mesmo ao tentar me “consolar”, ele soava distante.
Franzi o cenho e, outra vez, virei para olhá-lo. mantinha seu olhar na rua em que seguíamos e seus movimentos eram automáticos.
- ? Hey, ? !
- Oi! Que foi?
- Por que você está no mundo da lua hoje?
- Eu nã-
- Ah, ! Não me diga que não é nada. Nos conhecemos a pouco tempo, mas até eu posso dizer que tem alguma coisa errada.
Ele sacudiu a cabeça e passou uma mão pelo rosto.
- Não é nada importante. É só uma coisa que o me falou hoje.
- E o que seria isso?
Não queria ser irritante, mas estava ficando preocupada. Ele parecia cada vez mais tenso.
- Não é nada, sério. Ele me disse que tem uma surpresa pra mim, mas estou com um mau pressentimento.
Arqueei a sobrancelha em um pedido mudo por mais informações.
- Agora não – respondeu, apertando o controle remoto para abrir o portão da garagem. – Já chegamos. Depois a gente conversa mais.
Parei de insistir. Ele iria falar se quisesse. Talvez durante o percurso ele me contasse.
Ele não falou uma palavra. Então fiz uma última tentativa:
- Vamos entrar, – convidei quando abri a porta de casa. – Eu vou te fazer um chá e um café pra mim e podemos conversar. Não precisa ser nada importante. Vamos falar sobre temas neutros. Você pode me contar sobre a banda e eu te falo sobre meu país. Acho que nós dois precisamos de uma conversa.
Ele abriu um sorriso cansado.
- É uma ótima ideia.
Sorri em resposta e ele começou a murmurar algumas coisas sobre os shows que eles tinham feito. O clima estava bem mais agradável. Isso durou até chegarmos à sala. parou de falar no mesmo minuto em que nos deparamos com a cena que ali se passava. estava sentado sobre a barriga de uma menina, uma perna de cada lado da cintura dela enquanto a prendia em cima do tapete em frente da televisão. Ele fazia cócegas na barriga dela e ela respondia tentando inutilmente empurrar o tórax dele com as duas mãos. As gargalhadas de ambos enchia o cômodo.
O barulho das chaves de caindo no chão foi o que atraiu a atenção deles para nós. arregalou os olhos e logo se levantou, estendendo a mão para que a garota fizesse o mesmo. Agora podia observá-la melhor e notar o rosto fino emoldurado pelos cabelos castanhos com mechas loiras. Ela vestia um short jeans, botas sem salto na cor preta e uma blusa branca por baixo da jaqueta preta desabotoada. Seus olhos castanhos quase parcialmente cobertos por uma franja de lado me analisavam atentamente e a boca perfeitamente desenhada se curvou em um sorriso esperto de lado quando sua análise pousou sobre a minha perna engessada. Aquela avaliação na qual fui submetida não durou mais do que alguns segundos depois dos quais a garota se virou para Harry e eles trocaram um olhar em que visivelmente muito se foi dito sem que fosse preciso uma única palavra – coisas das quais qualquer outra pessoa que não eles nunca teria acesso.
Não gostei nem um pouco do sentimento que surgiu em mim e fez meu estomago revirar ao presenciar aquele grau de intimidade. Senti minhas bochechas esquentarem enquanto uma raiva estranha e inexplicável borbulhava em meu peito. Não sabia o porquê daquilo, mas me desagradava terrivelmente a proximidade deles. Fui puxada para fora dos meus pensamentos confusos quando ouvi a voz tensa de latir:
- O que diabos você está fazendo aqui?



Capítulo Treze

Virei um pouco a fim de olhar para o meu amigo. Seus punhos estavam cerrados e ele parecia ainda mais alto enquanto respirava fundo várias vezes. Seu rosto também estava corado e mantinha um olhar furiosamente fixo na garota ao lado de .
- Senti saudades também, – ela foi sarcástica.
E o clima ficou ainda mais pesado. tentou quebrar isso:
- Hey, . Você viu quem veio nos visitar? – passou o braço sobre os ombros da garota, apertando-a ao seu lado afetuosamente.
E o sentimento desagradável em meu peito ardeu ainda mais.
- E a que devemos a honra da sua presença ilustre? – usou o mesmo tom que ela.
- Antes de responder a suas perguntas educadas, acho que devo me apresentar, não é mesmo? – olhou para ele e depois pousou sua atenção em mim.
Ela se aproximou lentamente, ainda me analisando como se eu fosse um experimento de laboratório muito interessante. Foi quando ela parou na minha frente que pude perceber quão bonita ela era. Seus traços eram finos e sua beleza era elegante.
- Sou Kristine Green. – estendeu a mão.
Fiquei alguns segundo ali, apenas olhando para ela antes de finalmente responder ao seu gesto.
- .
Sorriu de lado e apertou firme minha mão.
- Prazer em conhecê-la.
- Agora que você já fingiu ser educada, será que pode me responder o que está fazendo aqui?
O sorriso dela cresceu e se tornou malicioso antes de virar a cabeça lentamente para olhá-lo.
- Olá, . Sentiu minha falta? – ignorou a pergunta dele.
- A cada dia que se passa você está mais engraçadinha, não, Green?
- Só para você, amor – jogou um beijo para ele e depois soltou uma risadinha sarcástica.
A careta de se tornou ainda mais acentuada, mas antes que ele pudesse abrir a boca para retrucar se aproximou de nós e, mais uma vez, passou o braço sobre os ombros dela.
- Kristine vai passar alguns dias aqui conosco. Isso não é ótimo?
- Perfeito. – respondeu entre os dentes cerrados. – Percebeu que a faculdade era demais para você e decidiu abandonar?
Uma faísca relampejou nos olhos dela.
- E depois eu que sou a engraçadinha, né, ? Mas, não. Essa é a semana de Cultura e Conhecimento em Oxford. Com ênfase na parte da cultura – revirou os olhos - e eu não participo de nada – deu de ombros.
- Por quê? Sua veia cultural e artística é tão pronunciada.
Nunca tinha ouvido falar tão secamente com alguém e estava começando a me sentir constrangida em meio àquele fogo cruzado. Levantei a vista para , que parecia mais entediado do que constrangido.
- Você sabe que guardo meus escassos momentos criativos para ocasiões especiais.
- Tão especiais que praticamente nunca aparecem, não é mesmo?
- Talvez, mas, olha, então você deve ser muito sortudo! – cada sílaba pingava ironia. – Vim especialmente para exercer esse meu dom.
- Como assim?
- Devia um favor a e ontem, enquanto conversávamos mencionei que tinha esses dias de folga, ele falou que você precisava de ajuda redecorando. E você sabe o quanto gosto desse tipo de coisa – agora o sorrisinho dela era malvado.
- O quê? Você está achando que vai me ajudar a redecorar meu apartamento? Ficou maluca, garota?!
- Vamos começar logo, – passou por ele, esbarrando em seu ombro, o que foi meio cômico porque ela devia ter uns 10 centímetros a menos de altura do que ele. - Quanto mais rápido terminarmos isso, mas cedo eu fico livre de você e posso curtir um tempo com meus amigos.
- Aonde pensa que vai? – se virou e começou a segui-la pelo corredor que levava a saída do apartamento.
- Você sabe que não quebro minhas promessas e prometi a que ajudaria você a redecorar seu apartamento.
- Tive um mau pressentimento quando comentou que tinha uma surpresa – resmungou, vencido.
Arregalei os olhos, surpresa com o quão rápido ele havia se deixado convencer.
– Queria que você fosse menos irritante.
Suas vozes foram se distanciando.
- Queria ter uma Ferrari.
- Se eu te der uma Ferrari, você me deixa em paz?
- Boa tentativa, mas não – soltou uma gargalhada sincera. – Até depois, . . – ela gritou já do lado de fora.
Ainda pude ouvir alguns resmungos inteligíveis de antes de ele fechar a porta com força. Fiquei ali por uns segundos, olhando para o caminho que os dois tinham seguido e tentando entender o que tinha acontecido. Quando finalmente desviei minha atenção para , encontrei-o olhando para mim divertido.
- É seguro deixar aqueles dois sozinhos?
- Não realmente. Mas sabe se defender – riu.
Revirei os olhos e passei por ele em direção à cozinha. Aquela sensação esquisita ainda fervia em meu estomago e precisava de um pouco de café para pensar. Vi um bule cheio e puxei uma caneca, enchendo-a com o líquido quente. Sentei-me num dos bancos da ilha e tomei um gole. E quase cuspi tudo.
- Que porcaria é essa? – resmunguei em português, levantando a caneca na altura dos olhos, encarando-a de maneira desconfiada. – Isso não é café de verdade. É um insulto!
- O quê você disse? – se jogou na cadeira a minha frente, sorrindo.
Abaixei a caneca.
- Uhuum... Disse que esse café está... huum... – procurei uma palavra para não ofender ninguém – diferente do que estou acostumada.
- Tá horrível, né?
Mordi o lábio inferior.
- É. Tá sim.
Ele soltou uma gargalhada e eu o acompanhei.
- Foi Kristine quem fez. E os dotes culinários dela são bem limitados.
E rápido como tinha chegado, o sentimento de cumplicidade que tinha se instalado ali se evaporou. Olhei para baixo, a caneca entre as mãos. limpou a garganta.
- Que tal um pouco de chá de maçã?
Pensei por um segundo ou dois, mas não achei nenhuma desculpa para recusar seu convite, então assenti. Pouco depois colocou uma caneca na minha frente e voltava a se sentar, bebericando de sua própria caneca. Olhei para o lado, deslizando uma das mãos por aquele objeto e tentando ignorar o silêncio constrangedor.
- Não teve aula hoje?
- Umm? – perguntei, distraída – Ah! Sim, sim, eu tive aula hoje, mas decidi vir embora mais cedo. E falando nisso, desculpe por ter interrompido – forcei as palavras para fora da minha boca.
- Interromper? – franziu o cenho, pensativo. – Ah! Você está falando sobre Kristine e eu? – começou a rir.
Revirei os olhos e foquei minha atenção na parede ao lado. Não gostava de ser motivo de riso de ninguém.
- ? Hey, ?
Agindo com muita maturidade, ignorei seus chamados e meus lábios se repuxarem em uma careta. Só voltei a olhá-lo quando senti que ele brincava com alguns fios do meu cabelo, enrolando uma mecha entre seus dedos. Estapeei sua mão para longe, mas ele se limitou a rir e voltou a capturar aquele pedaço de cabelo.
- Você ficou com ciúmes, ? – mantinha um sorrisinho divertido e olhava para a mecha como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
Estapeei sua mão de novo e dessa vez ele soltou meu cabelo e se encostou em sua cadeira, rindo.
- Ciúmes, ?
Quase cuspi as palavras, o coração disparado em parte porque ele tinha razão, o que – feliz ou infelizmente - significava que agora eu podia identificar aquele sentimento esquisito que tinha me incomodado, e em parte porque ele era abusado o suficiente para apontar isso na minha cara.
- E-eu não fiquei com ciúmes – resmunguei, tentando disfarçar. – E por que eu ficaria com ciúmes?
Ele apoiou o cotovelo sobre a bancada entre nós e o queixo sobre a mão.
- Tem razão. Não há motivos para ter ciúmes. Kristine e eu somos só amigos.
- Já disse que não estava com ciúmes.
- Pois pareceu.
- Você tá se achando muito engraçadinho hoje, .
- Só para você, amor – repetiu as palavras da amiga, mas não com o tom sarcástico que ela tinha usado.
Revirei os olhos. O clima constrangedor havia se dissolvido outra vez apesar do assunto. E isso era engraçado e aterrorizante ao mesmo tempo. Era como se o ponto de equilíbrio entre nós fosse aquele clima gostoso e agradável e, mesmo quando supostamente deveríamos estar nos estranhando, éramos puxados de volta àquele equilíbrio. E de repente tudo estava bem de novo.
- Mas, diga-me, por que você não ligou para mim?
- O quê? – perguntei antes de bebericar o chá, que estava bem melhor do que o café.
- Por que você não me ligou para ir buscar você?
- Você ficou com ciúmes, ? – imitei seu tom e suas palavras, aproveitando para desviar o assunto.
- Talvez – voltou a brincar com meu cabelo.
Franzi o cenho, não esperando aquela resposta.
- Mas isso não responde a minha pergunta.
Olhei para a caneca, calculando se valia a pena me fingir de desentendida. Soltei um suspiro. Não havia encontrado uma resposta que me levasse àquele ponto ideal – que envolvia a normalidade da nossa relação e que também o impedisse de se preocupar comigo - sobre o qual refletira hoje de manhã no carro, mas nunca fui de fugir.
- Não queria incomodar – dei de ombros, fingindo que aquela possibilidade não doía.
Ele soltou meu cabelo e se levantou. E me machuquei um pouquinho mais ao vê-lo deixar o assunto de lado tão rapidamente. Franzi o cenho quando ele se sentou ao meu lado.
- Por que você acha que está incomodando, ? – fixou seus olhos nos meus, estava muito sério.
- Simples questão de fatos. – virei para frente outra vez e bebi um pouco mais de chá, que agora já estava esfriando.
De alguma maneira, conseguiu virar o banco em que estava sentada a fim de que eu ficasse de frente para ele.
- Pare de fingir que o assunto não é importante.
Mordi o lábio inferior.
- Não estou fingindo. Não é importante.
Não para você, pelo menos.
- É claramente importante para você, então é importante para mim também.
Foi impossível não sentir minha guarda baixar um pouco. Sorri fraco.
- Você é bom demais pra mim, – coloquei a mão sobre a bochecha dele. – E esse é o problema.
Franziu o cenho e cobriu a minha mão com a sua.
- Não estou entendo.
- Compreensível. Eu acho que não estou fazendo muito sentido.
Respirei fundo e afastei minha mão de seu rosto. Fugindo tanto fisicamente quanto figurativamente.
- Não quero... não, eu quero que você saiba que você não tem que ficar tomando conta de mim.
- Tomar conta de você?
- É, . Não precisa ficar agindo como minha babá. Você tem mais o que fazer e-
- Sua babá? – murmurou devagar como se só tivesse escutado isso.
Como eu iria explicar?
- Você, sabe...
Sua expressão se fechou e ele ficou mortalmente sério.
- Não. Eu não sei.
Engoli em seco, percebendo que ele não iria facilitar em nada para mim.
- O que estou tentando dizer é que você não precisa ficar se ocupando comigo. Tenho certeza de que você tem coisas melhores para fazer do que ficar se preocupando comigo. Posso cuidar de mim mesma.
- Então... – seu tom era baixo e cortante - o que você está tentando dizer é que quer que eu pare de me intrometer na sua vida.
Arregalei os olhos e sacudi a cabeça. Ele estava entendo tudo errado.
- Não. Não é isso. – atropelei as palavras – Quero que voc-
Fez menção de se levantar, mas coloquei minha mão sobre o braço dele. tirou sua mão de debaixo da minha, mas continuou sentando.
- ...pare de me intrometer. Já entendi, – sibilou entre os dentes.
Senti a cor lentamente fugir de me rosto assim como a situação fugia do meu controle.
- , escuta! – outra vez me atropelava verbalmente, mas estava começando a ficar desesperada para fazê-lo entender. – Você não está entendo. Aliás, você está literalmente invertendo a situação.
Suas mãos relaxaram dos punhos em que tinham se fechado.
- Não entendi.
- Claro que não! Senão não estaria falando essas besteiras.
- Eu estou falando besteiras? – soltou uma risadinha irônica, passando a mão sobre o cabelo em um gesto de frustração.
- Será que dá pra me deixar falar?
- Ótimo! Fale! – cruzou os braços e me olhou com uma mistura de raiva e mágoa.
Decidi não responder a essa provocação em forma de resposta seca porque podia entender sua frustração. Também estava experimentando uma mescla de sentimentos.
- Tente compreender, - passei as mãos sobre o rosto, cansada, – estou fazendo isso para o seu bem. Será que não entende? Olha o que aconteceu ontem mesmo! Você teve que lidar com minha bagunça emocional. Você não precisava daquilo e não precisa ficar se preocupando comigo. Não quero ser um fardo – completei baixinho.
Pelo menos não para você também, completei em pensamento.
- Um fardo? – repetiu devagarzinho e incrédulo, descruzando os braços e me olhando como se eu fosse maluca.
- É. Um fardo – dei de ombros como se aquilo não me afetasse. – Não quero ficar atrasando sua vida.
Seria cômico não fosse trágico o fato de ele ficar repetindo o que eu falava.
- Atrasando a minha vida? – seu tom era calmo, mas podia quase sentir o aço sob a seda.
Era a calmaria antes da tempestade.
- , você precisa entender que eu sempre fui independente e-
- E essa é a sua justificativa pra ficar agindo assim?
Abri e fechei a boca repetidas vezes, assustada com sua brusquidão.
- Você é independente e por isso resolveu agir de maneira super madura e me ignorar ontem à noite e hoje de manhã, é isso? Ao invés de vir falar comigo você resolveu agir igual à criança? E eu aqui todo preocupado pensando qu-
- E-eu...
Ele esfregou as mãos sobre o rosto e se levantou.
- Olha... Depois a gente conversa, certo? – sua voz estava cansada. – Eu preciso... absorver essas novas informações – a última palavra foi sarcástica.
- , e-
- Agora não, . Depois. Mas não se preocupe. Não estou fugindo dessa conversa. Já passei da idade de fazer isso – saiu do cômodo e logo ouvi uma porta batendo.
Suas últimas palavras atingiram o alvo. Era como se ele tivesse me estapeado. Sentia-me pequenininha, patética porque sabia que ele tinha razão. Não havia percebido até que esfregasse isso na minha cara, mas realmente havia agido como criança. Sempre me orgulhei de ser independente, de agir de maneira consciente, de ser a adulta da casa e sempre segui esses princípios. Dessa vez, contudo, admito que errei. Deveria sim ter conversado com e não ter me escondido e o ignorado. Afinal, ele não havia feito nada de errado. Muito pelo contrário, o garoto só estava tentando ajudar.
Fácil perceber isso agora, né?, pensei ironicamente, Agora que praticamente soletrou isso pra você.
Não tinha desculpas para justificar minha imaturidade nessa questão. Talvez pudesse dizer que acreditava estar fazendo a coisa certa, mas a verdade estava mais próxima do fato de que embaçava meu bom senso. Massageei minha testa, piscando devagar ao perceber que deveria ir atrás dele e tentar retomar a conversa. Precisava me desculpar e também me explicar. Queria que ele entendesse que estava tentando não envolvê-lo nos meus problemas.
Soltei o ar pesadamente e me levantei com a intenção de ir procurá-lo em seu quarto.
- ? – bati na porta de leve.
Nenhuma resposta.
- ?
Ainda nada.
Sabia que ele estava ali porque o barulho de porta batendo tinha vindo de dentro da casa e não da porta da frente. Chamei-o uma terceira vez e mesmo assim ele não me respondeu. Senti minha culpa aumentar ainda mais ao perceber que ele não estava só bravo, mas também chateado. Era compreensível, afinal eu havia causado uma “quebra de confiança” na nossa relação.
Espalmei a mão sobre a madeira lisa a minha frente e abaixei a cabeça, pensando em uma maneira de fazer com que ele saísse do quarto e falasse comigo. Não queria que ficasse remoendo a situação. Por experiência própria, sabia o quão nocivo era aquilo. Estava claro que ele não iria abrir a porta para mim. Precisava chamar alguém. Mas quem? Talvez ou... não. Um estalo em minha mente e eu sabia exatamente quem chamar. Não era minha opção favorita, mas provavelmente a que daria um resultado. Dei a volta e fui para fora do apartamento e em direção ao vizinho. Bati nessa porta também e outra vez não tive resposta por isso resolvi tentar a maçaneta, descobrindo-a destrancada.
- ? Kristine? – chamei ao encontrar o silêncio daquela casa.
Houve um baque de alguma coisa caindo no chão e depois ouvi:
- Seu idiota! Como se atreve?
- Garota maluca! Foi você quem começ-
- Calado! Você não ouviu alguém nos chamando?
As vozes foram se aproximando de mim a cada frase.
- Que importa isso? Quem você pensa que é pra me mandar ficar calado na minha própria casa?
- Vai se f-!
Kristine apareceu no corredor que levava aos quartos e parou de discutir com quando me viu parada. Estava surpresa por me ver ali, mas confesso que eu estava ainda mais surpresa com o que via. Green passava as mãos repetidas vezes sobre os cabelos bagunçados e sobre a blusa amarrotada. Seus lábios, assim como os de , estavam inchados e ele também procurava ajeitar a própria camiseta. Não precisava ser um gênio para perceber o que eles estavam fazendo.
- Tudo bem? – arqueei a sobrancelha para .
- Que foi? – resmungou.
- Nada – dei de ombros, segurando o riso. – Nada mesmo.
- Então? – perguntou ele, lançando-me um olhar significativo.
- Então o quê?
- Você veio aqui nos fazer companhia?
Ah! Isso! Por um minuto me esqueci dos problemas eminentes.
- Não... eu. Eu... – respirei fundo. – Desculpe interromper o que quer que vocês estavam fazendo...
Isso me fez ganhar uma careta de e as bochechas de Green se coloriram.
- ...mas eu preciso falar com a Kristine.
“Comigo?”, “Com ela?”, eles exclamaram ao mesmo tempo e surpresos.
- É. Será que pode ser?
- Uhumm... Claro. Vamos conversar lá fora? – completou ao olhar para que estava completamente alienado ao fato de que aquela seria uma conversa particular e continuava de braços cruzados, nos encarando.
Dirigimo-nos para fora do apartamento, mas Kristine se virou antes de fechar a porta completamente, a mão ainda sobre a maçaneta e falou:
- Não tente encomendar a cor do sofá enquanto eu estiver fora, . Porque senão eu vou ligar lá cancelando e ainda te faço passar vergonha. Não vai ser aquele vermelho escuro horroroso.
- Você não manda em mim, mulher!
- Não sei por que você insiste em discutir. Sabemos muito bem quem vai ganhar.
- Como você consegue ser tão insupor-
- Já volto, . Tente não transformar essa casa em um monumento à cafonice enquanto eu estou fora.
- Por que você não vai se fu-
Kristine bateu a porta, rindo baixinho. Foi só então que ela voltou a me dar atenção.
- E ai, ? Sobre o que você quer conversar? – perguntou, sorrindo.
- Eu... uhuum... e eu estávamos conversando e-
Engasguei nas palavras, orgulhosa demais para admitir que estava errada mesmo já tendo admitido isso pra mim mesma. Kristine só ficou ali, olhando-me pacientemente, o que fazia com que eu me sentisse pior ainda porque seria mais fácil não gostar dela se ela fosse uma vadia.
- Nós tivemos um desentendimento... E ele se trancou no quarto e não quer sair e nem falar comigo. Será que você poderia ir lá falar com ele?
- Claro – sorriu, triste. – Foi feio, né?
- O quê foi feio?
- O desentendimento de vocês. Foi feio. só se tranca no quarto quando a discussão é feia. Ele faz isso para não dizer nada que se arrependa depois.
- Como assim?
Ela mordeu o lábio inferior e percebi que estava ponderando sobre se deveria ou não responder a pergunta. Depois de um segundo ou dois, ela continuou:
- vive de bem com a vida. Poucas coisas realmente o incomodam ao ponto de fazê-lo perder de vez a paciência. E quando isso acontece porque ele discutiu com alguém, ele tende a abandonar a conversa e se trancar no quarto. Parece criancice, mas é na verdade um gesto bem adulto porque ele faz isso para não dizer alguma coisa de que se vai se arrepender depois. Digamos que perde o filtro entre a boca e o cérebro quando fica com raiva. Sempre foi a assim.
Lembrei-me de como ele parecia perigoso – e gostoso - ao mandar os paparazzi se afastarem de mim. Entendia o que ela queria dizer sobre ele perder aquele filtro. Arregalei os olhos, sentindo-me pior ainda ao calcular, então, que havia o irritado tanto quanto aqueles paparazzi. Kristine interpretou mal minha reação porque voltou a falar apressadamente:
- Mas é claro que não precisa ter medo dele e não estou dizendo que ele está com raiva de você! – sacudiu as mãos. - faz isso quando está chateado também. Depois tudo fica bem. Ele normalmente só precisa de um tempo pra esfriar a cabeça. Mas vou lá falar com ele. Tenho certeza de que não é nada muito grave – pude perceber que ela só estava tentando me apaziguar.
- Obrigada, Kristine – murmurei quando ela começou a se afastar.
A garota virou o rosto e sorriu para mim antes de voltar a andar.

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Por que estava demorando tanto?, me perguntei pela décima vez.
Já fazia duas horas que estava sentada naquele sofá, batendo os dedos ritmicamente e de leve sobre aquele móvel em sinal de estresse e impaciência. A cada dois minutos olhava para o corredor, esperando que um dos dois aparecesse ali. Queria conversar com , mas ficaria contente de ter algum tipo de informação proveniente de Green. Qualquer coisa era melhor do que ficar naquela incerteza horrível. E o pior de tudo é que aquela situação me fazia sentir ainda mais chateada comigo mesma por ter afastado ontem. Ele provavelmente também deveria ter se sentido assim... meio perdido por não saber o que estava acontecendo.
Apoiei os cotovelos nas coxas e esfreguei as mãos sobre o rosto. Estava me sentindo tão cansada. Precisava estudar, mas não estava no clima para isso. Tinha que arrumar a bagunça que fiz.
Quinze minutos depois, quando finalmente ouvi o barulho da porta sendo aberta, quase pulei para ficar em pé. Foi Kristine quem surgiu no corredor. A expressão no seu rosto não me causou muito otimismo.
- Teimoso – sacudiu a cabeça, a voz baixinha e um sorrisinho triste. – Muito teimoso. Ele pediu para chamar você.
Queria perguntar o que aquilo significava, mas antes que tivesse a chance, Kristine saiu outra vez do apartamento. Suspirei e fui em direção ao quarto dele. Encontrei-o sentado em sua cama, os olhos no chão. Calculando que seria melhor sentar também, me acomodei na cadeira da sua escrivaninha e a virei a fim de encará-lo.
- .
Chamou-me baixinho e com uma única palavra eu sabia que as coisas continuavam muito erradas. Era meu apelido, sim, mas nunca tinha o pronunciado daquele jeito.
- , eu queria me desculpar.
- Não precisa, . Kristine já me explicou que você gosta de ficar sozinho para pensar. E percebi que realmente estava sendo imatura.
Ele franziu o cenho e balançou a cabeça devagar.
- É verdade, eu gosto. Mas não era sobre isso que estava falando.
Não? Ótimo! Significando, então, que além de tudo, eu ainda estava passando vergonha. Senti minhas bochechas arderem.
- Estou me desculpando por todas as vezes que me intrometi na sua vida.
Falava como um robô e, a cada palavra que escutava, minha garganta parecia se fechar um pouquinho mais. Não percebendo meu desconforto, continuou:
- Não foi minha intenção. Estava tentando ajudar, mas claramente não foi isso que aconteceu. - Mais uma vez eu me senti quase entorpecida, sabendo que deveria fazer alguma coisa, contudo, não conseguia reagir. Dessa vez não podia culpar ninguém além de mim mesma. A bagunça que tinha formado era muito maior do que havia calculado.
- De qualquer maneira, queria que soubesse que não irá acontecer outra vez – falou sem emoção, seus belos olhos me encaravam, mas era como se não me atravessassem sem realmente me ver.
Ainda alheio a minha falta de reação, ajeitou os ombros, que tinham permanecidos curvados durante todo o tempo, levantou-se e abriu um sorriso forçado dizendo:
- Era isso. Agora acredito que não teremos mais esse tipo de problema e tudo pode voltar a ser como antes.
Sabia, contudo, que nada voltaria a ser como antes. Não se deixássemos as coisas assim. Mal resolvidas, mal interpretadas, mal entendidas. Engoli em seco a fim de desobstruir minha garganta e, assim, falar alguma coisa... qualquer coisa.
- Eu vou sair agora. Volto mais tarde – pegou a jaqueta que estava em cima da cama e saiu do quarto sem se despedir direito.
E eu fiquei ali, sentada, piscando devagar e com uma única pergunta rondando meu cérebro de novo e de novo: O que foi que eu fiz?
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Não chorei. Poucas coisas me faziam chorar. Aquela não foi uma delas, mas foi por pouco. Ainda persistia o sentimento pesado em meu peito - e que deixava minha boca e meus pensamentos amargos – instalado desde o momento em que me deixou sozinha em seu quarto. Fiquei lá, uns dez minutos olhando para o vazio até que criei forças para me arrastar até a sala e ficar sentada no sofá. E era na sala escura em que estava agora, remoendo cada minuto da nossa conversa e procurando exatamente em que ponto as coisas tinham dado tão erradas. Mais do que isso, todavia, procurava entender o porquê de eu estar assim, o porquê de me afetar tanto.
Fechei os olhos com pesar.
Não entendia também por qu-
- ?
Encolhi os ombros, assustada ao ouvir a voz de vir da entrada do apartamento. Tentei dissimular as emoções que provavelmente transpareciam em meu rosto e controlei minha voz antes de me virar em sua direção:
- Oi, ?
Ele estava com as mãos nos bolsos frontais de sua calça jeans e parecia quase tão cansado como eu me sentia. Sabia que ele havia usado a chave que tinha. Todos eles tinham a chave um das casas dos outros.
- está aqui?
Meu estômago revirou só de ouvir seu nome. Engoli em seco.
- N-não. Ele saiu. Já faz um tempo.
Comprimiu os lábios, travou a mandíbula, franziu o cenho e ficou sério.
- Sabia! – murmurou para si, mas ele não parecia nem um pouco feliz por estar certo sobre seja lá qual fosse a questão.
- Quer assistir a um filme? – perguntei, cansada de ficar sozinha e de ficar pensando. – Ah! – exclamei, me lembrando. - Você está ocupado, né? Escolhendo as coisas para o seu apartamento.
- Na verdade, eu adoraria assistir a um filme – foi até a prateleira e começou a analisar os títulos ali.
- Cadê a Kristine? – franzi o cenho.
- Ela saiu. Já faz um tempo.
Suas palavras, tão parecidas com as que eu tinha usado, não foram acidentais. Meus ombros se curvaram quando somei dois mais dois e cheguei à conclusão óbvia de que os dois estavam juntos – onde quer que estivessem.
- Ah! – suspirei.
- Pode ser esse aqui? – perguntou, levantando um DVD qualquer.
- Aham. Claro – respondi sem nem olhar.
se sentou ao meu lado e nós dois ficamos metade do filme ali, sentados e olhando para a TV sem realmente ver nada. Mesmo distraída com as perguntas que rondavam minha cabeça – Por que eles estavam juntos? Onde? O que estavam fazendo? – ainda pude perceber a linguagem corporal dele. Meu amigo estava tão aéreo quanto eu. Quando aquele DVD acabou, ele se levantou e mecanicamente colocou outro filme. E, em algum momento daquela nova história ficcional, encostei a cabeça no tórax dele e passou o braço sobre meus ombros. Talvez nós dois precisássemos de calor humano. Eu, pelo menos, com certeza precisava de um pouco de consolo. Estava cansada demais para manter a pose de forte. A TV ainda zumbia baixinho em uma cena de ação qualquer quando a porta da frente se abriu em um estrondo e vozes abafadas chagaram até nós:
- Fica quieto, . – Green sussurrava, exasperada.
- Por que, Kitty-Kitty? – a voz dele estava arrastada enquanto tentava rir e falar ao mesmo tempo.
- Porque a provavelmente já está dormindo! – respondeu pacientemente.
- Ah! A ... a ...Shiiiiiu. Não podemos atrapalhar a , não é mesmo? – agora já não havia qualquer traço de riso. – E-eu já atrapalhei muito a , né, Kit-Kat? Nós brigamos, sabe?
- Sim, eu sei, .
Os sons de passos era alto, se aproximando cada vez mais, e algumas vezes ouvia risadinhas do , algumas mais tristes que as outras. Era óbvio que ele estava alcoolizado. Podia perceber isso só de ouvi-lo.
- Sabe por quê, Kitty-Kitty?
- Sim, eu sei, – a voz dela pingava paciência. - Nós já falamos sobre isso. Será que dá pra você andar? Eu não consigo arrastar você, sabe?
Chegaram ao portal da sala, mas não perceberam nós dois ali, observando-os.
- É mesmo, Kitty. Nós já falamos sobre isso, né? – soluçou, soltando uma gargalhada logo depois. - Vo-você é minha melhor amiga do mundo. Você é linda. Eu te amo! Te amo sim – esticou a última palavra. – Te amo, Kit-Kat.
Abraçou a garota apertado.
- Também amo você, – sua voz saia abafada enquanto tentava empurrá-lo para longe já que ela não tinha conseguido desviar o rosto de seu tórax antes do abraço. – Agora você precisa dormir! – falou, ajeitando o cabelo quando finalmente conseguiu se afastar o suficiente para respirar. – Vamos!
Kristine segurou no braço dele para firmá-lo e se virou com intenção de que ficassem na direção do corredor que levava aos quartos. Mas, na metade da volta, seu olhar pousou em nós e ela parou de repente. quase caiu com a manobra que, no estado em que estava, provavelmente foi muito brusca.
- Você parou, Kitty-Kitty – riu, se equilibrando. – Por qu-
se interrompeu ao seguir a linha de visão dela. Ele se endireitou, quase como se subitamente tivesse ficado sóbrio. E agora e eu recebíamos esses olhares fixos e gelados. Na verdade, percebi depois de um segundo, aqueles olhares estavam mais especificamente no braço de sobre meus ombros, o qual agora parecia pesar uma tonelada. Ele deve ter percebido isso também porque lentamente – quase como um especialista desarmando uma bomba, isto é, como se qualquer movimento errado pudesse disparar o caos - se afastou de mim, mas os olhares que lançava ao casal a nossa frente também não eram nada amistosos. Minha expressão não devia estar muito diferente da dos outros três.
Estava com ciúmes, confesso. Não queria que ele tivesse saído com essa... garota – mesmo ela sendo “a melhor amiga” dele – enquanto estava bravo comigo. Não queria ouvi-lo chamando-a de linda. Não queria presenciar o aparentemente perfeito relacionamento deles enquanto eu havia danificado o que tinha com .
Nós quatro passamos alguns segundos naquele clima belicoso até que falou secamente:
- Desculpe. Nós não tínhamos intenção de interromper.
- É. Não foi nossa intenção. – Kristine concordou em um tom gelado que muito me lembrou de tia Claire quando ela estava no tribunal. – Boa noite. Vamos, .
Ele nem pestanejou antes de segui-la. Meu coração ficou pequenininho ao perceber que os dois iriam dormir no quarto dele. Acho que só voltei a respirar novamente ao ouvir duas portas batendo com força. Ela iria dormir no quarto de e não com ele. Esse fato me causou um estremecimento de alívio, mas quase imediatamente voltei a me sentir meio enjoada. Não precisava estar passando por nada daquilo se não tivesse bagunçado tanto nosso relacionamento. E, mais uma vez, aquela maldita pergunta retórica rondou minha mente:
O que foi que eu fiz?



Capítulo Catorze

Nunca gostei de filmes de suspense porque sempre fico muito ansiosa, mas isso nunca me impediu de assistir a esse tipo de filme. É quase um sentimento masoquista. Eu ficava lá, em frente à TV, os nervos à flor da pele enquanto esperava o assassino surgir de um lugar inesperado e atacar o personagem principal. Aquela musiquinha que sempre toca durante esse tipo de cena parecia rastejar para dentro da minha pele, sufocando-me lentamente em uma mistura esquisita de curiosidade e medo. E era exatamente assim que me sentia agora. A diferença era que agora eu encarava na tela do meu computador não um filme, mas uma pesquisa do Google.
Suponho que os eventos que me levaram a estar ali, sentada na cama, de madrugada com as luzes do meu quarto apagadas e encarando o monitor do meu notebook também devem ter contribuído para os sentimentos desagradáveis que agora me castigavam. Afinal, depois da chegada de Kristine e – o que, por si só, já queimou horrivelmente no meu peito – ainda teve aquele momento constrangedor entre e eu – no qual nenhum dos dois entendeu o que tinha acontecido, e que acabou em uma despedida rápida e em meu novo amigo também desaparecendo pela porta a fim de ir para a própria casa. Depois disso, tentei dormir, mas foi impossível. Era tanta coisa rondando minha cabeça que o sono foi espantado para longe, apesar de estar emocionalmente exausta.
E, em um momento de teimosia que não me era atípico, resolvi levantar da cama e iniciar aquela pesquisa que agora tanto me incomodava. Antes tivesse ficado olhando para o teto, mas não, ao invés disso eu havia digitado “Kristine Green” no maior site de pesquisas do mundo. Era óbvio que esperava alguns fatos sobre ela já que as fãs dos garotos aparentemente se penduravam em qualquer detalhe da vida deles, mas fiquei surpresa com o resultado. Não havia “alguns fatos”, mas sim a vida dela inteira esquadrinhada. Havia vários tumblrs dedicados inteiramente à ela com dezenas de fotos e vários detalhes sobre onde ela estudava, quem eram seus amigos, seus hobbies e até mesmo sobre seu tipo sanguíneo. Além disso, havia centenas de fotos dela com os meninos, mas principalmente com . Eles estavam sempre sorrindo e em várias delas ele tinha seu braço sobre os ombros dela. Pateticamente meu ciúme foi aumentando a cada foto nova e a cada fã que escrevia sobre como sonhava que os dois formassem um casal porque eles seriam “o casal mais fofo do universo”. Talvez o pior fosse o fato de que eu concordava com essas fãs, eles realmente formariam um casal perfeito. E isso me apavorava. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia parar de procurar mais e mais informações sobre e ela. Minha curiosidade me envenenava aos poucos.
Uma hora se passou e nenhuma prova cabível de um relacionamento amoroso entre eles apareceu, mas isso não impediu as dezenas de fotos em que eles se olhavam com um carinho imenso. Era visível o quanto eles se importavam um com o outro. Suspirando, abaixei a tela do meu notebook e o empurrei para o lado. Deitando outra vez em meu travesseiro, tentei ignorar a ardência em meu peito que só havia aumentado depois daquela minha ideia infeliz de usar o Google para cavar informações sobre alguém que eu conhecia pessoalmente. Não sei quanto tempo fiquei encarando a escuridão, mas lembro de que entre um momento e outro tomei a decisão de nunca mais pesquisar na internet sobre algum conhecido meu. E também decidi que precisava descobrir o que diabos sentia por . Decisões muito importantes para um estado de semi-inconsciência. Vai ver é por isso que dizem que tentar resolver problemas de madrugada nunca dá certo.
Ao ser acordada na manhã seguinte por meu despertador, depois de aproximadamente três horas de sono, atrasei o máximo que pude para sair do quarto. Levei um tempo excessivamente longo para pentear meu cabelo e para escovar meus dentes, por exemplo. Não queria sair pela porta, não queria encarar a realidade em que estava chateado comigo e em que eu estava naquela situação com ele. Só quando não havia mais nenhuma desculpa para me prolongar ainda mais no quarto, foi que relutantemente abri a porta e fui para cozinha. Esperava encontrá-lo lá, assim como todas as outras manhãs, preparando meu café-da-manhã. Porque era isso que ele fazia. Sempre me esperava com um sorriso no rosto e com uma mesa farta – não importava quantas vezes eu insistira dizendo que poderia preparar meu próprio dejejum, que ele não precisava se preocupar com isso. Sua resposta era sempre a mesma “Eu gosto de cozinhar, e gosto de te ver sorrindo”. E em cada segundo, cada passo até a cozinha, fiquei acalentando uma esperança infantil de que ontem simplesmente desapareceria, levando junto os problemas que trouxe. Esse tolo sentimento se desfez, junto meu apetite, quando me deparei com o café-da-manhã pronto, como sempre, mas nem sinal dele. Havia, porém, um bilhete sobre a mesa e perto do meu lugar costumeiro.
, precisei sair cedo hoje. Niall irá levar e buscar você hoje. xx
Observei meus dedos se fecharem sobre o pedaço de papel. Soltando um suspiro pesado, joguei-o sobre a mesa e fui para o quarto a procura do meu celular. Precisava de uma distração. Pediria a para me levar para faculdade uma hora mais cedo do que o normal. Quem sabe algum tempo de estudo na biblioteca servissem como refúgio contra todos os pensamentos e sensações contraditórias que estava sentindo.

xxx

Se já não estivesse tão chateada antes de ir para faculdade, meu humor teria piorado drasticamente durante aquela manhã. Eu podia literalmente sentir a atenção dos meus colegas em mim. Eles olhavam, cochichavam e apontavam como se eu fosse um freak show com o único propósito de entretê-los durantes as aulas chatas de anatomia. Limitei-me a ignorá-los. Minha cota de paciência já havia se esgotado naquele dia e queria evitar ainda mais drama. Quando o horário final veio e passou, esperei todos saírem antes de me levantar. Preferia evitar episódios como aquele com as duas vadias que haviam derrubado minhas anotações no outro dia. Quando cheguei do lado de fora do prédio, Lorelai estava me esperando.
- Oi, – sorriu.
- Oi, amiga. Como você está? – respondi apaticamente.
- Eu estou muito bem, mas pelo jeito você não, né?
- Por que diz isso? Eu estou ótima – tentei forçar um sorriso, mas tenho certeza de que saiu como uma careta.
- Claro que sim – ela revirou os belos olhos azuis. – Nick já está chegando?
- Ele não vem hoje – e aqui meu tom saiu meio rouco. – é quem vem me buscar e ele me mandou uma mensagem avisando que está preso no trânsito e que ainda vai demorar uns quinze minutos.
- Ótimo! Vamos conversar então.
E no segundo seguinte ela estava segurando meu braço e me guiando de maneira precária até um banco que estava perto.
- E sobre o que você quer falar?
- Nós duas sabemos que isso não é sobre mim, . Me diga o que aconteceu pra você estar nesse humor depressivo.
- Já disse que não aconteceu nada – olhei para uma árvore ao longe. – E onde está Mark?
- Não tenta mudar de assunto. Você sabe que isso não funciona comigo. E não vamos sair daqui até você me contar o que aconteceu. Agora comece a falar ou, quando o pretty boy chegar aqui, vai ter que ficar esperando. E você já pode imaginar a confusão que a carinha famosa dele vai provocar aqui.
- Você sabe que esse seu tom irônico para se referir a eles é totalmente desnecessário, né? Você poderia tentar aprender o nome deles.
Ela deu um sorriso esperto.
- E qual seria a graça nisso?
Sacudi a cabeça, soltando uma risadinha.
- E então? – estreitou os olhos.
Suspirei. Conhecia bem aquele brilho determinado dela. Blake não iria desistir até saber o último detalhe.
- Depois daquela... situação com os paparazzi na outra noite. Eu tive um momento.
- Você sabe que esses eufemismos não funcionam comigo, né? Sei que você tá querendo dizer que surtou depois de ser atacada por aqueles malucos com câmeras.
- Lorelai!
- Que foi? Você sabe que eu estou falando a verdade.
Revirei os olhos e me abstive de responder.
- O importante é que me ajudou e você sabe que detesto dever favores.
- Você quer dizer que depois que você superou seu momento de surto você isolou ele porque odeia depender de alguém.
Pisquei devagar, o queixo caído ao ouvir minha amiga descrever crua e exatamente o que havia ocorrido.
- C-como você...?
- Sensibilidade de artista somada com preocupação de amiga. E também não é tão difícil adivinhar. Você faz isso todas as vezes que sente que alguém está invadindo essa bolha de independência que criou para si. Até agora não entendi como aceitou ir morar com eles. Talvez realmente por falta de opção. Ou talvez você estivesse dopada pelos remédios pra dor – deu de ombros. – Mas o que aconteceu depois? Vocês discutiram?
Contei a ela sobre a discussão e sobre o que havia acontecido depois dela. Lorelai ficou calada o tempo todo e quando terminei, ela se levantou em um pulo e estalou os dedos.
- Está bem claro o que temos que fazer. Nós vamos achar essa Green vadia e depois nós va-
- Você não vai usar nenhuma técnica que a senhora DiNozzo te ensinou, Blake – revirei os olhos, tentando conter uma risadinha.
Era por isso que éramos tão amigas. Ela sempre conseguia me fazer rir, mesmo nos piores momentos.
- Mas tia Ziva me ensinou a não deixar nenhum rastro! Eles nunca vão saber que fomos nós.
Revirei os olhos.
- Não.
- Posso então só der-
- Não!
Voltou a se sentar.
- Por quê?
- Porque não é certo.
Foi a vez de ela revirar os olhos.
- E a razão verdadeira?
- Porque se descobrir, ele nunca mais vai falar comigo.
- Mas isso é um bônus! Ok, ok. Isso não foi muito legal. – ela completou ao receber um olhar atravessado da minha parte. – Mas diz muita coisa.
- Como assim?
- , você gosta dele? E não se faça de idiota quando for responder.
- E-eu q-quero dizer...E-eu... Por que você está perguntando isso?
- Só responda a pergunta. Você sabe que não precisa mentir para mim.
Olhei para o céu e depois para uma árvore qualquer. Não havia respostas ali, assim como não havia respostas na minha mente para aquela pergunta. Só dúvidas.
- Eu não sei – respondi, fraco, desviando a vista para o chão. – Realmente não sei. Eu detesto vê-lo com Green. Não gosto de quão próximos eles são, não gosto que ele a chame de linda enquanto ainda está brigado comigo. me acusou de estar com ciúmes, e está certo – ponderei por um segundo. – Na verdade, ele não poderia estar mais certo sobre isso. Mas é ridículo! Não faz nem um mês que nos conhecemos. É impossível que eu... – parei de falar, as palavras entaladas na minha garganta.
- Impossível o que, ? Impossível que você sinta ciúmes? Impossível que você goste dele?
- Não sei. Não sei – passei as mãos pelos cabelos, puxando-os pra trás em frustração. - E por que você está agindo assim, hein? Você não era contra toda essa ideia de One Direction?! E agora fica aí, tentando, sei lá, arrumar a minha vida amorosa.
Lorelai só ficou ali, encarando-me serenamente enquanto eu perdia o controle.
- Sim, não sou a favor dessa amizade com eles. Acho que em algum momento as coisas vão dar muito errado, mas talvez eu esteja errada – deu de ombros. – Não os conheço e não tenho razões concretas para gostar deles. E, antes que você fale alguma coisa, admito também não ter muitas razões para desgostar deles – acrescentou quando eu abri a boca para dizer exatamente aquilo. – Voltando à questão principal, você tem que se lembrar de que sentimentos não são lógicos.
- Sei disso.
- Ótimo! Então talvez seja a hora de você encarar os seus.
- Que sentimentos? Eu nunca dis-
- Ora, não se faça de boba, garota. Você sabe exatamente sobre o que eu estou falando. Ficar fugindo ou fingindo que não é com você não vai adiantar nada. Ainda mais com você morando com ele.
Respirei fundo.
- Ok. Você tem razão. Talvez eu esteja tentando ignorar essa confusão sentimental pela qual estou passando. Mas você pode me culpar? Como eu posso estar gostando de um cara em tão pouco tempo?!
Ela sorriu de lado.
- Talvez você e Nick Carter sejam feitos um para o outro.
- Você sabe que isso é tudo baboseira para vender livros de romance. Essas coisas não existem de verdade.
- Tem certeza? – arqueou a sobrancelha.
- Claro que sim!
- Então qual é sua explicação para o que você está sentindo, hein? Todo o ciúme e essa tristeza por vocês terem brigado? Vai dizer que ele é irresistível?! – ironizou.
- E-eu...
Fui salva de ter que respondê-la quando apareceu ao meu lado, falando animadamente:
- Oi, linda. Está pronta para irmos para casa? – depois virou para minha amiga. – Oi, Lorelai.
Ela acenou com a cabeça e respondeu:
- Como vai, Brian?
- Brian? – ele perguntou, confuso.
- Não pergunte – respondi, levantando e ajeitando as muletas.
pegou minha mochila e me despedi de Blake. Já havíamos nos distanciados alguns metros quando ela gritou:
- Hey, !
Virei-me.
- Pense no que eu disse. Fugir não vai adiantar.
Revirei os olhos e voltei a andar. Bem típico de Lorelai querer um final dramático para nossa conversa.
- O que ela quis dizer com isso? – perguntou ao abrir a porta do carro para mim.
Dei de ombros, me acomodando no banco.
- Não sei.
Ele me lançou um olhar calculado, como se soubesse exatamente a que ela tinha se referido. , porém, não disse nada e fechou a porta, deu a volta e sentou-se no banco do motorista.
- E ai? Como foi seu dia? Estudou muito? – perguntou ao ligar o carro.
- É.
Minhas engrenagens cerebrais estavam girando.
- E a aula foi interessante?
- É.
Sentia as palavras vindo para minha boca e me via numa ânsia desesperada para contê-las. Concentração, concentração.
- Muitos trabalhos para essa semana?
- É.
Eu não ia perguntar, eu não ia perguntar...
- Por que você decidiu fazer medicina? – vagamente percebi uma risada em seu tom.
- É.
Eu não ia perguntar, eu nã-
- O que a Kristine e o tem?
virou a cabeça para me encarar, atônito quando minha explosão verbal ressoou entre nós.
- O quê?
- Eles se pegam?
- Quê? De onde estão surgindo essas perguntas?
- Curiosidade – tentei soar casual, mas não fui muito convincente. - Agora será que você pode respondê-las?
- Ok, senhorita agressividade. Sim, eles se pegam.
- O quê? – sussurrei.
Ele explodiu em gargalhadas.
- Claro que não – ele falou entre uma risada e outra. – Eles são como irmãos. Você devia ter visto a sua cara quando achou que eles tinham um caso.
Dei um tapa ardido no braço dele.
- Isso não teve graça.
- Ai, ! – resmungou, se afastando em reflexo. – Você está muito violenta hoje. O que foi que aconteceu?
- Nada – cortei aquele assunto e fiz questão de voltar para o que realmente me interessava: - Mas eles já ficaram?
- Não. Por quê?
Ignorei sua pergunta.
- Então por que tem na internet toda essa torcida para que eles fiquem juntos? E por que tem gente que jura que eles são um casal, mas que escondem isso da mídia?
- Como você sabe disso?
- Será que dá pra você parar de responder minhas perguntas com outras perguntas?
- Uou! Você caiu da cama hoje, foi? Seu humor está terrível. Não conhecia esse seu lado. Ou será que é dia de ser brusco com o ? Porque também es-
Ele parou no meio da frase e quase pude ver seu cérebro fazendo conexões. , estão, desviou os olhos da estrada por um segundo para me encarar. Havia um brilho esperto ali e um sorrisinho malicioso.
- Vocês brigaram! É por isso que ele pediu para que eu viesse buscá-la e é por isso que vocês dois estão insuportáveis hoje.
Não me ofendi com sua colocação. Nem eu estava me suportando hoje.
- Essa não é a questão! Vamos voltar ao assunto principal!
- Não. Nã-nã-ni-na-não – ele riu. – Não até você me contar o que aconteceu ontem.
Senti meu rosto se contrair em uma careta indignada e até pensei em alguns bons argumentos para gritar e defender o retorno ao assunto do meu interesse, mas isso levaria tempo e queria minhas respostas antes de chegarmos em casa. Por isso respirei fundo e falei rapidamente:
- É. Nós tivemos um desentendimento ontem.
riu ao ouvir meu eufemismo para discussão de ontem.
- Foi sobre o quê? A Kristine? Por isso você quer saber tanto sobre ela?
- Não, não foi por causa dela e não, eu não vou te dizer sobre o que nós discutimos. Agora é sua vez de me responder por que, se os dois não são um casal, tem tanta coisa na internet sobre eles sendo um casal?!
- Não vou mentir e dizer que entendo exatamente o que se passa na cabeça dos caras que escrevem sobre fofoca ou das nossas fãs, mas, do pouco que eu entendo, há essas fofocas jornalísticas porque eles querem vender revistas e há fãs que realmente acreditam que eles fariam um bom casal e torcem para que eles fiquem juntos. Isso acontece com todos nós, na verdade. Certa vez li nos trending topics do twitter que ela e eu formaríamos um casal perfeito. Mas não é só com ela, sabe? Eles já falaram que mesmo estava namorando ou deveria namorar aquela cantora ou formaria um casal lindo com aquela atriz. Entende?
Assenti, absorvendo todas aquelas palavras. O problema agora, contudo, era que não tinha muita certeza se aquelas informações me causavam alívio ou me deixavam ainda mais preocupada. Alívio porque aquela era uma evidência mais confiável de que os dois realmente eram só amigos, porém, também ficava evidente que as fãs deles tinham opiniões bem concretas sobre quem seria uma boa escolha para eles. E eu tinha noção de quão importante elas são para os meninos. E se elas me odiassem? Isso afetaria minha amizade com todos eles? E, pior, isso afetaria meu relac-
Sacudi a cabeça, espantando aquela última ideia antes que ela tomasse uma forma concreta.
- Ok. Acho que consigo ver a lógica por trás disso.
Ficamos em silêncio por um segundo ou dois. Havia, contudo, mais uma dúvida que me rondava desde ontem.
- , o que o e a Kristine são?
Ao que parece, minha pergunta não foi tão vaga quanto achei que seria, pois ele logo respondeu:
- Aqueles dois são orgulhosos demais pra admitirem que gostam um do outro.
- Então eles têm uma coisa?
- Essa é uma boa definição – ele fez a última curva antes da rua de casa. – Eles discutem quase sempre, o que, pra mim, só pode ser tensão sexual reprimida. De vez enquanto eles se pegam, mas não tem nada oficial porque nenhum dos dois quer ser o primeiro a admitir que gosta do outro.
- Foi por isso que você a convidou para vir pra cá?
Ele assentiu.
- Esporadicamente um de nós três tem que interferir para que eles se vejam antes que um deles fique insuportável demais por sentir muitas saudades.
- Um de vocês três?
- não gosta de se envolver muito nisso. Ele diz que não gosta de interferir na vida da Kristine, mas nós sabemos que na verdade é ciúmes.
Franzi o cenho.
- Mas você não acabou de dizer que eles não te-
- Ciúmes de irmão mais velho, . Não precisa se preocupar.
- Eu não estou preocupada.
- Claro que não – ironizou.
- Não mesmo.
- Ok. Já chegamos – exclamou ao parar o carro na sua vaga da garagem.
Revirei os olhos e abri a porta. já estava lá me esperando para entregar minhas muletas. Agradeci e fomos para o elevador, mas, ao invés de irmos direto para o nosso andar, apertou o botão para pararmos no andar abaixo do nosso dizendo que tinha que pegar uma coisa na casa de . Resolvi acompanhá-lo para dizer um “oi”. Nós chegamos, todavia, até a metade do caminho porque, ao passar pela porta entreaberta da casa de , ouvimos:
- ...que você quer dizer com isso? – a voz do dono da casa era fria, perigosamente fria.
- Exatamente o que você entendeu! – uma voz feminina ironizou.
Franzi o cenho e olhei para , uma pergunta muda nos olhos. Meu amigo sibilou “Kristine”. Assenti e, com uma expressão que era um misto de curiosidade e culpa, nós viramos a cabeça e voltamos a prestar atenção naquela conversa alheia.
- Você está ficando maluca!
- Maluca? – a voz dela foi aumentando a cada sílaba. – Não era isso que você queria?! Que eu fosse embora? Ótimo! Estou fazendo o que você quer! Eu vou embora!
- E a sua promessa? – ele não subiu o tom, mas havia uma nota estridente ali. – Não disse que era uma mulher de palavra?
- Ora! Não se atreva a me questionar! – Kristine estava praticamente gritando agora. – Vou falar com . Ele vai entender. E, afinal de contas, você não queria que eu desaparecesse? Por que está criando tanto caso agora?!
- Porque não gosto de gente covarde!
- COVARDE? COVARDE? Vai se fuder, ! Não vou ficar aqui fazer todo o trabalho enquanto você fica vendo filminho com a !
- Ah! Então esse é o problema? Eu estar assistindo a um filme com a ? E você, hein? Onde você estava? Você saiu com o ! Me deixou aqui sozinho pra sair com ele! – agora havia um pouco de ressentimento.
- Ele é meu amigo e precisava de mim! O que você queria que fizesse?
- QUE NÃO FOSSE CORRENDO IGUAL A UM CACHORRINHO TODA VEZ QUE ELE CHAMASSE!
- O QUÊ? QUER SABER?! EU VOU EMBORA. VOCÊ ESTÁ SENDO RIDÍCULO!
e eu pulamos de susto e tentamos nos afastar da porta quando passos pesados começaram a vir na nossa direção. Não nos movemos rápido o suficiente, contudo, porque logo Kristine apareceu em nossa linha de visão. Por sorte ela não pareceu perceber que estávamos ali, pois estava de cabeça baixa e resmungando. apareceu logo depois dela e imediatamente segurou o pulso da garota, fazendo com que ela desse a volta e a prensou contra a parede. Desviei o olhar quando eles começaram a se beijar ardorosamente.
- Acho que isso responde a suas perguntas – sussurrou, rindo ao puxar a porta para fechá-la discreta e silenciosamente a fim de não perturbá-los e proporcionar mais privacidade.
Revirei os olhos, mas secretamente estava um pouco mais aliviada. Afinal, Kristine não iria ficar com enquanto estivesse com .
- Vamos lá falar com e levar você, senhorita não-mais-rabugenta para casa.
Não pude evitar um sorriso.

xxx

Depois daquele momento “intromissão na vida alheia”, preciso confessar que estava mais leve e aquele nó no estômago que havia me acompanhado durante todo o dia se desfez. Aproveitei as horas de silêncio em casa para estudar tudo que tinha ficado atrasado. E era na minha escrivaninha em que me encontrava quando ouvi a porta da frente abrir. Levantei-me e fui atrás do som que vinha da cozinha. Torci para ser . Queria conversar e consertar a situação esquisita que tinha ficado entre nós. Encontrei-o de costas para mim, mexendo em alguma coisa sobre a pia.
- Pensei ter ouvido você chegando.
se virou e me encarou sem qualquer tipo de expressão.
- Desculpe. Não sabia que você estava em casa – voltou a ficar de costas para mim.
- Sem problemas. Estava só estudando – dei alguns passos em sua direção.
- Então atrapalhei de novo, né? – resmungou baixinho.
Soltei um suspiro frustrado e decidi ignorar aquelas palavras.
- Então... Conseguiu fazer o que você precisava fazer hoje de manhã?
- O qu- Ah! Sim, sim. Deu tudo certo.
Mordi o lábio inferior e tentei começar um assunto neutro, torcendo para encontrar uma abertura a fim de não surgir com o assunto desagradável de uma vez.
- Como foi seu dia?
Ele resmungou alguma coisa em resposta, não se dignando a virar para mim ou parar de fazer o que quer que estivesse fazendo. Mais uma tentativa:
- Precisa de ajuda aí?
Dei a volta na ilha e encostei-me a ela, ficando mais perto dele. Coloquei as muletas encostadas ao meu lado, pretendendo deixar as mãos livres para ajudar.
- Não, obrigado.
Ok. Do jeito difícil então.
- Nós precisamos conversar.
- Sobre? – suas costas ficaram ainda mais tensas.
- Você sabe muito bem sobre o quê.
- Sabe, acho que ontem nós já conversamos demais.
- Verdade! Na conversa de ontem você me acusou de agir como criança. Meio hipócrita isso, não?
Isso fez com que ele se virasse pra mim, e algo faiscou brilhou em seus olhos. Ele estava com raiva. Ótimo! Porque agora eu também estava.
- Como é? – arrastou as palavras.
- Você me ouviu muito bem. Está agindo como um hipócrita. Fala que eu ajo igual criança, mas depois se esconde no quarto, se recusa a falar comigo e hoje me ignora!
Agora não era mais só raiva em seu rosto. Era algo perigoso. Lembrei-me imediatamente daquele dia com os paparazzi. E, como daquela vez, estava muito gostoso. O único ponto ruim era que agora eu era o alvo de seu temperamento divergente.
- É mesmo? – falou baixinho e deu um passo em minha direção. - Foi isso que eu fiz, ? – mais um passo. – E agora vai quer conversar sobre isso? – parou na minha frente, muito perto.
Esticou os braços e os apoiou sobre a bancada em que eu estava encostada, um de cada lado, me cercando. Arregalei os olhos, surpresa, mas não tentei me afastar. Não conseguia. Limitei-me a jogar a cabeça para trás a fim de olhá-lo nos olhos.
- O que vo-você... que é v-você fazendo... você...
Tentei formular uma frase, mas aquela proximidade me deixava tonta. Apoiei as mãos sobre seus ombros. soltou uma gargalhada baixinha e rouca.
- O que estou fazendo?
Chegou mais perto ainda. Agora estava me prensando contra a bancada.
- Estou conversando com você. Era isso que você queria, não? – abaixou a cabeça e seu hálito de menta bateu em meus lábios. - Conversar. Vamos conversar. Qual o assunto? O fato de que você me considera um estorvo ou que você e estavam todos aconchegados ontem? Quer falar sobre isso? Sobre quão adorável aquela cena foi?
Suas palavras penetravam no meu cérebro, mas faziam pouco sentido, pois Harry havia se aproximado tanto que seus lábios tocavam de leve nos meus a cada nova sílaba. E a sensação era tão boa que me deixava sem reação. Eu só conseguia ficar ali, parada, sentido os choques deliciosos, mesmo sabendo que deveria reagir, que precisava responder.
- Eu saí chateado. Queria um pouco de espaço, queria te dar espaço.
Apertou-me ainda mais contra a bancada, colocando uma de suas pernas entre as minhas, mas tomando cuidado para não atingir o gesso. Em nenhum minuto seus olhos deixaram os meus.
- Mas você não precisava de espaço, não é mesmo? – sussurrava cada letra contra minha boca. - Não queria ficar sozinha...
Vi minhas mãos passearem por seus ombros até se unirem ao redor do pescoço dele. Não me lembro de tê-las mexido. Era como se meu corpo tivesse vontade própria, a qual era clara: ficar o mais perto possível de .
- Mas talvez eu devesse ter percebido que o problema era comigo. não parece atrapalhar você. Não é mesmo, ?
O uso de meu sobrenome disparou um alarme. E finalmente compreendi as palavras dele. Sentindo a raiva substituir todo aquele sentimento gostoso de segundos atrás, apoiei minhas mãos espalmadas sobre seu tórax e o empurrei. cambaleou para trás ao ser pego de surpresa pela minha súbita mudança de atitude.
- Que você pensa que está fazendo? – cuspi as palavras, fervendo de raiva. – Tá achando que isso é algum tipo de brincadeira? Pois saiba que não sou uma das suas amiguinhas nem uma dessas groupies que você pega durante os shows. Você nunca mais vai falar assim comigo! Eu exijo respeito!
Ele piscou várias vezes, olhando-me incrédulo. Seu rosto então se suavizou e toda frieza ali presente desapareceu, sendo quase imediatamente substituída por um legítimo desespero.
- , e-eu... eu sinto muito.
Fez menção de dar um passo pra frente, mas desistiu. Provavelmente minha expressão denunciava o quão pouco bem-vindo aquele gesto seria. Eu estava tremendo de raiva.
- Desculpe. Não queria ter dito nada disso. Não podia ter... – passou a mão sobre o cabelo. – É que eu estava tão...
- Tão o quê, hein? O quê? Que é que você pensa que te dá o direito de falar assim comigo? Como se eu fosse um brinquedinho para você manipular, COMO SE EU FOSSE UMA QUALQUER! - berrei, batendo a mão sobre a bancada. - VOCÊ PASSOU DOS LIMITES E-
Meu desabafo furioso foi interrompido por uma voz conhecida vindo da porta da cozinha:
- Uou! Que é que está acontecendo aqui?



Capítulo Quinze – parte I

Tanto quanto eu viramos a cabeça subitamente em direção àquela voz. estava parado no portal do cômodo, os braços cruzados e a expressão séria enquanto nos encarava de maneira interrogativa.
- E então? Não vão me responder? O que está acontecendo aqui? – repetiu.
Por um segundo achei que tivesse imaginando-o parado ali na porta. Quem sabe fosse minha mente irada me pregando uma peça a fim de enganar minha raiva, tentar dissipá-la antes que eu falasse uma besteira da qual me arrependeria depois. Porque era isso que acontecia nas raras vezes em que alguém me tirava do sério. Não me orgulho disso, aliás, tenho vergonha de quando percebo meu controle escapando por entre meus dedos. De novo me recordei daquela situação com os paparazzi. E, tal como daquela vez, senti meus sistemas de autodefesa emergirem. Pisquei várias vezes, voltando à realidade e acalmando meus nervos. Respirei fundo e engoli minha raiva. Ajeitei as muletas e fui em direção ao recém-chegado.
- Oi, ! – meu tom forçadamente relaxado não soou convincente nem em meus ouvidos.
Não era como se não tivesse sentido saudades, mas aquele sentimento ruim ainda revirava meu estômago e sentia meu rosto queimar. Achei que tinha conseguido disfarçar a situação e evitar perguntas quando ele pousou os braços ao meu redor, me abraçando.
- Oi, .
Não podia ver, mas tinha a leve impressão de que estava trocando um olhar com seu melhor amigo por sobre a minha cabeça.
- Senti saudades – falei quando nos separamos.
- Eu também. Mas não tente mudar de assunto.
Afundei meus dentes em meu lábio inferior. Ele havia descoberto minha estratégia inicial, o que não me deixava alternativa senão apelar para o plano B de todo mundo: negar até a exaustão.
- Não sei do que você está falando.
Ele arqueou a sobrancelha.
- Sério? Sério que você vai fingir que não estava gritando a plenos pulmões? Dava pra escutar lá de fora – apontou a porta atrás de si. – E o clima nessa cozinha está muito pesado.
Olhei para o lado, observando o mármore sobre a ilha da cozinha enquanto minhas bochechas voltavam a corar. Não sabia que tinha falado tão alto. Soltei um suspiro.
- Ok. Sim, nós brigamos, mas já passou. Tá tudo bem.
Nem mesmo consegui forçar um sorriso dessa vez, pois não estava nada bem. E não sabia quando e nem como as coisas se consertariam.
- Não me diga que está tudo b-
O provável protesto dele foi interrompido por pronunciando-se pela primeira vez desde que o amigo chegaram:
- Deixa quieto, . Isso não é assunto seu.
Sua voz estava mais rouca do que o normal e pude identificar uma nota de pesar nela, mas não me virei para olhá-lo. Ainda estava com raiva. , por sua vez, cravou um olhar indignado no melhor amigo?
- Não é assunto meu?! Não vejo como isso poderia ser mais assunto meu do que já é. Vocês dois – e aqui me lançou uma olhadela – são meus amigos e estavam praticamente iniciando a III Guerra Mundial aqui na cozinha.
Revirei os olhos. Que exagero.
- Bom, pra ser bem sincero, - franziu o cenho e pensou por um segundo, – a estava iniciando a III Guerra Mundial. Você só estava aí parado com cara de quem acabou de receber a notícia que o Natal foi cancelado.
De onde é que ele tira essas metáforas?! Sacudi a cabeça e me concentrei no que era importante:
- Hey! Eu não es-
- Não foi culpa dela. – me interrompeu.
- Posso muito bem me defende sozinha. Obrigada – sibilei venenosamente, com a vista ainda fixa em .
- É disso que estou falando! – agora toda brincadeira abandonara e ele estava muito sério. – Você não consegue nem olhar para ele e é para eu não me intrometer?!
Nenhum de nós dois respondeu e desviei minha atenção para o teto, não querendo encará-lo também agora... nem ele nem as verdades que falava. soltou um suspiro audível ao não receber outra resposta que não o silêncio.
- Ok. Já chega. Eu tentei do jeito fácil, mas pelo visto vai ter que ser do jeito difícil então.
Aproximou-se de mim e, num movimento rápido, passou o braço por trás dos meus joelhos e outro na minha cintura. As muletas caíram e fizeram um barulho alto quando ele me pegou no colo. Aquilo me foi tão surpreendente que levei uns cinco segundo para conseguir reagir. aproveitou esse tempo para sair da cozinha e caminhar em passos rápidos até o corredor que levava aos quartos.
- Que porra você pensa que está fazendo? Me põe no chão. Agora!
Esperava uma negação, mas virou a cabeça pra mim e sorriu.
- Tá bom.
E logo depois fui colocada sentada sobre a minha cama e imediatamente saiu apressado do quarto. Fiquei parada no mesmo lugar, encarando a porta aberta e ainda tentando entender o que havia acontecido. Ele tinha desistido da ideia de se intrometer no meio da minha briga com ?! É. Essa parecia ser a resposta, mas era esquisito - foi fácil demais. Um momento atrás ele estava decidido a ser o salvador da pátria e trazer a paz de volta para a casa. E eu que pensava já estar acostumada a imprevisibilidade das pessoas de tanto conviver com Lorelai, mas, aparentemente, meu novo irmão era pior do que ela nesse quesito. Estranho... muito estranho.
Estava prestes a gritar para que ele trouxesse minhas muletas para que pudesse me locomover quando retornou. O problema é que dessa vez ele trazia arrastado pelo colarinho da blusa. Empurrou um atônito para se sentar ao meu lado e correu de novo para porta, parando somente por um instante para mexer na maçaneta do lado de dentro. Um segundo tarde demais foi que decifrei por que ele tinha nos levado para dentro do quarto, por que tinha mexido na maçaneta e por que agora sustentava aquele sorrisinho malvado.
- , NÃO SE ATREVA! – berrei.
A porta batendo e o barulho da chave girando foi a resposta que obtive. Isso pareceu tirar do estupor, que se levantou em um pulo e correu para sacudir a porta, mas rapidamente chegou a mesma conclusão que eu. Seu amigo havia nos trancado ali dentro.
- ! Abre a porta. Isso não tem graça!
- Tem sim – a voz abafada dele respondeu. – E vocês só vão sair quando se resolverem.
- ! – grunhiu.
- Lembrem-se de que foram vocês que me obrigaram a fazer isso.
Pude ouvir a gargalhada divertida dele se afastando.
- ! – gritou de novo.
- Ele não vai ceder – falei, massageando as têmporas. – Vamos ligar para algum dos meninos vir aqui destrancar a porta.
- Meu celular ficou na cozinha.
Ótimo!
- O meu também - murmurei. – Quantos anos ele tem? Cinco?!
- !
- Já disse que ele não vai ceder – repeti. - Pelo menos não agora. Vamos ter que esperar um tempo. A teimosia dele é maior do que a pouca razão que a idade mental dele permitiu desenvolver.
Ele deu uma um soco de leve na porta e seus ombros se curvaram em derrota. Soltou o ar pesadamente e foi se sentar na cadeira de minha escrivaninha. Uma pequena e constrangedora eternidade se passou antes que quebrasse o silêncio esquisito entre nós:
- , eu realmente sint-
- , será que podemos falar disso depois? Não quero brigar de novo. Acho que já atingimos a cota de brigas do mês nesses dois dias.
Apoiei os cotovelos sobre minhas coxas e o queixo sobre as mãos. De cabeça baixa e encarando o chão, senti o peso de tudo que aconteceu curvar minhas costas. Estava mentalmente exausta. Aquele dia fora longo demais e, ao mesmo tempo, muito curto para tanta confusão. Não queria ouvir as desculpas esfarrapadas dele e ficar com raiva novamente. Talvez depois fosse capaz de lidar com a reviravolta horrorosa que minha tentativa de fazer emendas tinha tomado.
- Ok. Acho que então podemos... – sua voz foi diminuindo a cada palavra até sumir.
Ele mesmo cortou suas palavras fracas, substituindo-as por um sonoro e decidido:
- Não!
Levantei a cabeça, assustada com a súbita mudança.
- Não? Não o quê?
- Não, nós não vamos conversar sobre isso depois.
A resposta dele me fez franzir o cenho.
- Realmente não estou a fim de discutir de novo.
se levantou e sentou-se ao meu lado. Não queria olhar para ele porque sabia que, no minuto em que aqueles belos olhos me atingissem, estaria perdida e iria ceder.
- Por favor?
Mantive meus olhos no chão e mordi a língua para não reagir a seu tom suave.
- , olha para mim.
Pretendia seguir meu plano de ignorá-lo, mas senti sua mão grande e quente envolver as minhas, que só então percebi que estavam unidas em aperto de aço – pura tensão. Assisti seu polegar começar um carinho circular sobre as costas da minha mão. Pouco a pouco, a cada novo círculo que ele fazia, aquele nó em meu peito se desfazia e minhas mãos relaxavam. Era automático. Aparentemente eu não conseguia ficar chateada com ele. Levantei a cabeça e encontrei-o olhando atentamente para mim.
Estava cansada. Tão cansada.
Agindo por instinto, querendo um consolo, encostei a cabeça em seu ombro. Talvez depois pudesse culpar a exaustão por aquele gesto de fraqueza, mas agora simplesmente não me importava. Só queria descansar. Mas, pelo visto, não iria nos deixar sair dali por um tempo e não iria desistir da tal conversa. Era como naqueles dias em que está ventando demais e você tem que andar contra ele, sentindo o vento bater em seu rosto de novo e de novo. A cada novo passo você é empurrada para trás. Era cansativo e frustrante – exatamente como eu me sentia agora. Ainda encarando-o, soltei um suspiro e deixei o vento me empurrar de vez, isto é, desisti. Engraçado. Quando eu quis conversar, ele fez uma cena digna de circo, mas quando ele quer conversar eu me resigno a ouvir? Quase não estou me reconhecendo.
- Eu desisto, – suspirei. – Fala. Fala o que você quiser – sussurrei.
Senti-o ficar tenso, mas em nenhum momento deixou de acariciar minha mão. Quase como se inconscientemente estivesse me mostrando que mesmo nos momentos mais difíceis ele continuava me apoiando. E quando começou a falar, seu tom era suave, gentil:
- Não quero te chatear ainda mais, . Só quero que a gente resolva tudo. Descobri que odeio discutir com você. Sim, poderíamos falar sobre isso depois, mas não quero ficar guardando. O problema só vai ficando cada vez maior.
Nisso eu concordava com ele.
- Te devo desculpas pelo modo como agi agora na cozinha – suas palavras eram doídas. - Pelo jeito que falei com você e por não ter deixado você falar. Eu sinto muito mesmo.
Não passou despercebido o fato de que ele não se desculpou por quase ter me beijado. Agora, contudo, havia coisas mais importantes.
- Por quê?
- Oi? – perguntou, surpreso como se não esperasse nenhum tipo de resposta.
- Por que você fez aquilo? Por que falou aquelas coisas?
- Sei que isso não é desculpa e não pretendo me justificar, mas é como se... não sei. Há situações em que eu não consigo controlar a minha boca idiota. E, quando eu vejo, já falei besteira. Ou, no caso, uma idiotice absurda.
“Digamos que perde o filtro entre a boca e o cérebro quando fica com raiva. Sempre foi assim.” A voz de Kristine ressoou em minha mente. Naquela hora não havia entendido, mas as coisas faziam um pouco mais de sentido agora. Não machucava menos, todavia.
- Você está com raiva de mim?
- O quê? – o choque dele foi tamanho que quase pulou da cama, fazendo-me desencostar a cabeça de seu ombro e soltar nossas mãos. Com o movimento, virei para encará-lo e, como previra, fiquei presa em seus olhos.
- Por que eu estaria com raiva de você? De onde você tirou essa ideia absurda?
- E-eu... – fiquei tão perdida com seu tom decidido que me engasguei. – Digo, Kristine disse que você fica assim quando está com raiva.
Os cantos de seus lábios se repuxaram em um sorrisinho fraco.
- Kristine me conhece bem. Tem boas intenções. Um pouco intrometida, mas boas intenções. E, não, eu não estou ou estava com raiva de você. Em nenhum momento fiquei com raiva de você.
Reprimi um estremecimento de alívio. Só que isso levava a uma dúvida: Se ele não estava com raiva, então por quê? Repeti isso em voz alta. , então, abriu um sorrisinho triste e olhou para o teto antes de falar:
- Não estou orgulhoso disso. Mas sou homem o suficiente para admitir que estava com ciúmes.
Para minha sorte, ainda estava com a atenção grudada no teto e por isso não viu o que provavelmente foi uma careta bem ridícula se formando em meu rosto quando meus olhos se arregalaram e minha boca se abriu demais frente à sua resposta. Quando ele brincou sobre isso ontem antes de tudo começar a dar errado, achei que era isso... uma brincadeira. Agora, porém, ele estava mortalmente sério. E pouco a pouco toda aquela surpresa foi sendo substituída por uma alegria inesperada. Sim, eu estava feliz por ele estar com ciúmes. Engraçado como você pode passar por diferentes picos emocionais em um único dia.
Arranhei a garganta, testando mentalmente as palavras que precisava dizer. “Precisar” era exatamente a palavra chave. Eu não queria, mas precisava. Precisava falar a verdade porque senão nunca resolveríamos aquilo realmente e, ao mesmo tempo, sabia que não haveria volta, que estava me expondo mais do que gostaria. Meus instintos mais enraizados de sobrevivência empurravam meus lábios de encontro um ao outro, tentando me calar, tentando me mandar de volta para aquele casulo de proteção onde as coisas eram mais fáceis, sem complicações. Onde eu não deixo outras pessoas se aproximarem demais assim elas não me decepcionariam. Ao mesmo tempo, contudo, algo – e não conseguia definir exatamente o quê – me dizia que estava tudo bem, que um pouco de confiança ali e agora eram certo. Respirei fundo, o ar se prendendo em minha garganta. Sentia as batidas de meu coração retumbarem com força em meu ouvido quando abri a boca para me tornar um pouco mais vulnerável:
- Também estava com ciúmes – murmurei, encarando seu lindo perfil e quase rezando para que ele não me escutasse.
Claro que não tenho essa sorte toda. Assim que terminei de falar, virou a cabeça em minha direção. Preferia que o teto tivesse continuado a exercer aquela aparente atração sobre ele.
- O quê?
Ótimo. Teria que repetir?! Revirei os olhos, minhas bochechas se colorindo frente seu intenso olhar.
- Você ouviu.
- Acho que não, hein.
Havia um vestígio de sorriso em sua voz.
- Deixa de ser bobo – empurrei meu braço contra o dele de leve.
Ele soltou uma pequena gargalhada rouca.
- Mas já disse que não precisa ter ciúmes da Kristine. Ela é a irmã mais nova que eu nunca tive.
tinha que arrumar um jeito de falar de novo sobre o fato de eu estar com ciúmes, não?
- E não há motivo para ter ciúmes de Liam – zombei.
- Muito bom. Agora que estabelecemos que nós dois fomos uns idiotas.
- Fale por si mesmo – interrompi.
Arqueou a sobrancelha frente meu resmungo.
- Certo. Você tem razão.
- Como disse? – colocou a mão em concha ao lado do ouvido naquele gesto universal para tentar ouvir melhor.
- Disse que você deveria procurar um especialista em audição porque a sua está uma porcaria.
- Engraçadinha você, não?! – apertou meu nariz de leve.
Estava com saudades daquele gesto carinhoso com o qual havia me acostumado. Queria continuar naquela bolha agradável, mas sabia que tinha algo mais a ser dito:
- Você também merece desculpas – falei, abaixando os olhos para o chão outra vez. – Nada disso teria acontecido se eu tivesse me expressado melhor quando conversamos ontem.
- , eu-
- Por isso eu peço desculpas agora – continuei, ignorando sua tentativa de interrupção. – Não quis dizer que você estava me atrapalhando. Não é isso. É só... complicado. Eu... – engoli em seco e procurei pelas palavras certas.
- Tá tudo bem, – sua mão voltou a cobrir a minha e imediatamente recomeçou aquele carinho. – Esquece isso.
- Não. Eu... – as palavras continuavam presas em minha garganta. – Não quero que pense que o problema é com você. Não é. Eu-
- Shiiu – sussurrou, soltando minha mão para passar o braço sobre meu ombro. – Não precisa, sério – me apertou contra si de maneira reconfortante.
- Um dia – levantei a cabeça para encará-lo. – Um dia eu conto.
- Só se você quiser, .
- Obrigada.
- Pelo quê?
- Por não fazer perguntas.
- Mas eu tenho perguntas.
Tenho certeza que ele pode sentir meus ombros se retesarem.
- Quais?
Não queria, porém, saber a reposta.
- Várias. Por exemplo, quem matou John Kennedy? Como foi possível colocar um homem na lua? Existe vida em Marte? Como consegue comer tanto e não engordar?
Depois da primeira pergunta eu já estava rindo e a tensão em meus músculos já tinha se dissipado.
- Você é bobo, – repeti.
- Tenho outras mais, mas não consigo lembrar nesse exato momento. Certas coisas me distraem – flertou. – Só consigo lembrar a principal pergunta.
- Por que o céu é azul e não rosa? – brinquei.
- Essa é importante, mas não agora. Agora só quero saber o que você quer fazer até aquele inútil que tem a cara-de-pau de se autodenominar meu melhor amigo resolver deixar a gente sair?
Cobri a boca com a mão para disfarçar um bocejo.
- Cansada?
- Emocionalmente.
Deu um sorrisinho de lado.
- Quer dar um cochilo?
- Acho que é uma boa ideia – reprimi outro bocejo.
Ele se afastou e se levantou. Franzi o cenho.
- Aonde vai?
- Deitar no chão – respondeu como se fosse óbvio. – Só vou precisar de um travesseiro.
Puxou a ponta de um travesseiro e rapidamente agarrei a outra ponta. arqueou a sobrancelha em uma fofa careta de confusão.
- Não? Não vai me emprestar um travesseiro? – riu.
Sacudi a cabeça, mordendo o lábio inferior para não rir também. Puxou de leve o travesseiro, mas eu segurei firme.
- Nope – estalei o “p”.
- Meio egoísta, hein?
- Nope.
- Não você não vai me emprestar ou não você não é egoísta?
- Não, você não precisa deitar no chão – soltei o pedaço de tecido que estava segurando e ele cambaleou para trás, surpreso. – Pode deitar aqui comigo - dei dois tapinhas leves no colchão.
Sua única reação foi arregalar ainda mais os olhos. Soltei uma risadinha. Apoiei a mão sobre a cama e levantei, ou melhor, fiquei em pé me apoiando na perna não engessada. Não foi uma ideia muito inteligente porque o gesso era mesmo pesado e cambaleei um pouco para o lado. imediatamente passou o braço por minha cintura a fim de me servir de apoio. Em silêncio nos guiei até a cabeceira e me sentei e depois, vagarosamente, me arrastei para o outro lado do colchão, deixando um espaço para ele. continuou em pé e me encarando com incerteza.
- Tá falando sério?
- Por que não estaria?
deu de ombros e tirou os sapatos para finalmente aceitar meu convite e deitar. Para quem estava tão em dúvida, ele se moveu bem rápido. Talvez estivesse com medo de que eu mudasse de ideia.
- Podemos dormir agora? – perguntei ao encostar a cabeça no travesseiro.
- É uma boa ideia.
Seu sussurro foi a última coisa que ouvi antes de apagar em um sono sem sonhos. Fui despertada horas depois pelo som de vozes:
- ...são tão fofos. Tô quase tendo uma crise glicêmica.
- Merece uma foto. Vamos mandar para a tia .
Me remexi um pouco, levantando a cabeça do que pensei ser meu travesseiro, mas que descobri, ao abrir os olhos, ser na verdade a curva do ombro de . Ainda sonolenta, não percebi o quão potencialmente constrangedora aquela situação era e inocentemente apoiei meu queixo sobre o peito dele para encontrar e na porta do meu quarto. Os dois nos encaravam rindo e apontando os celulares.
- Vamos colocar no twitter!
A última palavra me estalou para fora daquele estado de semiconsciência.
- Que porra é essa? – resmunguei, apoiando uma mão sobre a cama para me sentar.
acordou durante o processo.
- , o q-
- Você não vai colocar isso no twitter! – grunhi. - Aliás, o que vocês dois estão fazendo aqui?
Ao me ouvir, parou de passar as mãos sobre os olhos e rapidamente se sentou também, procurando o destinatário das minhas falas.
- Que é q-
- Você é mal-agradecida, sis. Nós viemos trazer suas muletas que você esqueceu na cozinha. – falou, erguendo uma muleta em cada mão.
- Que eu esqueci? Você não tem vergonha nessa sua cara?
- E encontramos essa cena adorável. – continuou a fala do amigo como se eu não tivesse dito nada.
- , pega a droga da muleta pra mim. Já estou cansada de ficar aqui no quarto.
Imediatamente ele se levantou para obedecer.
- O relacionamento já evoluiu assim? Já tá mandando nele e tudo? – gargalhou.
deu um soco no ombro do amigo em seu caminho de volta. Assim que recuperei a posse de minhas muletas e de cabeça erguida, comecei a andar para fora do quarto.
- Qual é, ?! Não está brava comigo, né? – riu quando passei por ele sem me virar para encará-lo. – Fiz um favor para vocês. Viu? Está tudo bem agora! Você nem pareceu cansada de ficar aqui no quarto. Ou chateada. Estava até bem descansada e confortável. Se é que você me entende, sis.
E por essa resposta espertinha, meu novo irmão ganhou um intencional pisão com o final da muleta sobre seu pé.
- ! Que merda! Ai que dor! – se abaixou para esfregar o pé.
Já no corredor ainda pude ouvir as gargalhadas de , mas fingi que não ao continuar minha caminhada. Assim como fingi não ouvir agradecer discretamente . O sorriso que isso me causou, contudo, não pode ser evitado.

xxx

- Não! Não! SEU IDIOTA FILHO DA MÃE!
Revirei os olhos ao ouvir mais uma dos acalorados xingamentos de . Ele e estavam sentados no chão, jogando FIFA enquanto e eu estávamos sentados do sofá maior. Descobri que eles eram bem competitivos. E que eu estava ficando bem entediada.
- E como está , ? ? ?
- Hey!
Ele resmungou quando empurrei sua coxa com o pé esquerdo, só então desgrudando os olhos da tv e virando-se para mim.
- Te fiz uma pergunta!
- É. É. Está ótima – murmurou sem prestar atenção, já voltando a atenção para o jogo.
E foi assim que minha primeira tentativa de conversa e de espantar o tédio afundou. Na segunda tentativa, quis me levantar e quem sabe estudar um pouco mais. , contudo, protestou dizendo que eu era uma irmã insensível que não queria ficar perto dele quando finalmente tinha a chance. Querendo que ele parasse de falar asneiras, concordei em continuar lá. A terceira tentativa envolvia olhar o twitter – sim, eu estava nesse nível de tédio –, mas logo lembrei que meu iPhone continuava na cozinha e a preguiça de ir buscar era grande demais. O que finalmente surtiu efeito foi a quarta tentativa:
- Eu quero jogar – falei abruptamente, interrompendo a fila de impropérios que desferia por ter perdido aquela partida.
Os três se viraram para mim e me lançaram olhares que seguramente poderiam ser um pouco menos surpresos se eu tivesse dito que estava grávida.
- Você quer jogar FIFA?
- Não, . Quero te jogar pela janela, mas isso pode me trazer complicações com a lei, então aceito jogar só FIFA mesmo.
- Ouch, sis! Por que tanta maldade com seu pobre irmão?
- Você me trancou no quarto.
- Achei que já tivéssemos superado isso.
Revirei os olhos em resposta ao seu falso tom magoado.
- E ai? Posso jogar ou não?
- Claro. Joga comigo. Sai, . – empurrou o amigo para o lado e pegou o controle.
resmungou alguma coisa sobre mal perdedores, mas se moveu para dar espaço para que eu sentasse entre os dois. Até que a partida não foi tão difícil. O que foi complicado foi ficar sentada tão perto de depois daquele momento esquisito em que acordei para descobrir que estava dormindo nele. No começo achei que aquele clima estranho estava só entre nós, contudo, pelos olhares furtivos que estava nos mandando, a estranheza entre nós dois estava afetando as outras duas pessoas no cômodo.
- Ganhei! UHUL! E é assim que se joga, . Você é muito ruim! – riu.
- Eu deixei você ganhar.
Mentira.
- Não deixou nada. Deixa de ser má perdedora.
- Tipo você?!
- O que você quis dizer com isso? – fingiu estar sério.
- Nada. Nadinha. Que tal uma revanche?
- Adoraria. Mas por que você não joga com o ?
Minhas bochechas instantaneamente se tornaram vermelhas. E o clima, que havia se suavizado nos últimos minutos, voltou a ficar esquisito.
- Hmm. Eu não sei porq-
- ! Eu tô com fome. Cozinha alguma coisa pra mi- ! – Kristine apareceu na porta do apartamento, esfregando a mão sobre a barriga, mas logo se interrompeu ao ver .
- Kitty, você está aqui! – ele abraçou a garota quando ela se jogou em cima dele.
- E você também! – ela riu, apertando o amigo.
- Sério que ele está aqui? Pensei que fosse uma miragem. Ainda bem que você esclareceu isso. Espero termos sempre você por perto pra atestar o óbvio, Green.
veio andando pelo menos caminho que ela havia feito há pouco. Ele tinha as mãos nos bolsos e parou ao lado do sofá, olhando para os dois.
- Você é insuportável, sabia disso, ? – Kristine virou a cabeça para lançar lhe um olhar feio.
- Você já disse isso uma ou outra vez. E eu continuo não me importando – abaixou-se um pouco para que seus olhos ficassem no mesmo nível dos dela e abriu um sorrisinho.
- Idiota – resmungou.
- Pirracenta.
- Pirracenta? Ora seu-
- Kristine! – chamou. – O que você estava dizendo sobre estar com fome?
Ela revezou a atenção entre o melhor amigo e , quase como se pesasse se valia a pena responder à questão do primeiro ou se era melhor voltar a xingar o segundo. Seus olhos brilharam maliciosamente por um instante e logo percebi que a razão por isso era por ela ter conseguido um modo de conciliar as duas alternativas ao falar:
- Sim, estou com fome. Por que na casa daquele inútil ali – apontou para – não tem nada para comer e ele não sabe cozinhar nada.
- Por que eu tenho que cozinhar? Eu já estou fornecendo a matéria-prima e ainda tenho que fazer o trabalho?
- Você por acaso está dizendo que eu tenho que cozinhar por que eu sou mulher? – ela se levantou.
Arregalei os olhos. Aquela “discussão” deles estava evoluindo muito rápido para que eu acompanhasse.
- Você é louca, sabia? Em que momento eu falei alguma coisa parecida com isso? É tudo paranoia sua porque você não sabe nem ferver água.
- Repete! – agora Kristine estava marchando em direção a ele.
, talvez prevendo que as coisas iriam ficar físicas – só não sabia se isso significava que eles iriam se matar ou se agarrar – pulou para ficar no meio dos dois.
- Uou. Vocês dois estão cada dia pior. Por que não se acalmam e nós podemos pedir comida mexicana?
- tem razão. – concordou. - Mas acho que hoje estou a fim de pizzas. Tem um lugar a dois quarteirões daqui que é ótimo.
- Sei qual é. Só que eles não entregam.
- Não tem problema. pode ir buscar.
- Impressionante como você é folgado, . – sacudi a cabeça, inconformada.
- Tem razão. Melhor ele não ir sozinho. Obrigado por se oferecer, – sorriu malvado.
- O quê?! Não me ofereci para nada.
- Não era você quem estava preocupada com ele? Pois essa é a solução perfeita.
- Por que você não vai? Eu estou com a perna quebrada não vou ficar andando por aí.
- Vocês vão de carro e porque alguém tem que ajudar a controlar o casal número 2 ali – apontou para um ponto atrás de si, onde Kristine e haviam voltado a discutir e tentava intervir mais uma vez.
- Eu ajudo – falei sem pensar.
Ele me lançou um olhar expressivo como que dizendo “sério?”
Fiquei sem resposta. Bufei, derrotada.
- Tá bom.
, sorrindo, ficou de pé e me ajudou a levantar também.
- Quero pizza de calabresa. – gritou quando estávamos quase na porta.
- Não. Melhor de frango! – foi a vez de Kristine.
- Credo. Essa é horrível. Traz de mussarela.
- Você é horrível.
- Sério? Essa é sua resposta? Criança!
- E voc-
- Será que você dois podem parar de brigar e irem se agarrar em algum canto!? Francamente. O que está acontecendo com os casais dessa casa?! Vocês dois só brigam e aqueles dois agora ficam agindo como se não se conhecessem. Ridículo. Eu não tenho idade para-
A voz de sumiu quando fechou a porta do apartamento com as bochechas tão coradas quanto as minhas.
- Hmm. Vamos?
Assenti.
Engraçado quão constrangedor o clima estava entre nós agora. Estava me sentindo uma pré-adolescente com o primeiro namoradinho. Não conseguia nem olhá-lo sem corar. Outra vez não estava me reconhecendo. Esses pensamentos rondavam minha mente enquanto ele dirigia e quando paramos, já tinha tomado uma decisão. Não era covarde e queria que as coisas voltassem ao normal. Fui eu quem o chamara para deitar ao meu lado, então não havia motivo para agir como se tivesse sido culpa do acaso. Não iria estragar nossa relação por uma bobagem qualquer, não quando tivemos tanto trabalho para resolver os desentendimentos de ontem, não agora que as coisas pareciam estar se encaixando... não agora que finalmente estava começando a aceitar aquela mescla de sentimentos conflitantes que ele despertava em mim.
estacionou em frente a um estabelecimento com uma grande placa em verde e vermelho escrita “Tony’s”. Pelo que pude ver pela grande janela do lugar, Tony’s era decorada como uma típica lanchonete americana dos anos 80. Ao sairmos do carro e enquanto andávamos, tomei fôlego e coragem para começar uma conversa:
- Esse lugar é bom mesmo?
Não, não escolhi falar sobre o assunto que havia nos levado àquele constrangimento todo porque não queria falar sobre isso e por achar que ambos estávamos transformando uma coisa menor em algo de proporções estratosféricas. Contrariando o bom senso, bem no fundo, sabia que não havia motivos para nos envergonharmos de termos sido flagrados dormindo abraçados. E não tinha a ver com o fato de que já dormira nos braços dele outra vez – naquela fatídica noite envolvendo os paparazzi – pois aquela havia sido quase uma situação extrema enquanto hoje fora uma escolha. Não. Tinha a ver com o fato de que não sentia que era errado abraçá-lo. Por mais maluco que possa parecer, me sentira bem... como se fosse certo acordar todos os dias daquele jeito. Explicações racionais para isso? Ainda estou procurando. A falta de racionalidade, contudo, não me forçava a negar que aquela sensação de pertencimento estava lá, me confortando a cada vez que me via nos seus braços.
- É ótimo. Espere só até experimentar. Você vai adorar.
Ele sorriu ao responder. Pude perceber sua surpresa por provavelmente não esperar que eu fosse lançar o primeiro parafuso para remendar a judiada ponte entre nós.
- Não preciso experimentar para saber que é excelente. Confio em você.
Por um segundo, ao ver seu sorriso se ampliar absurdamente e a maneira como seus olhos brilharam, quase acreditei que sabia o quão difícil aquelas últimas palavras eram para mim e as valorizava como tal. Isso era impossível, todavia. Não tinha como ele saber quão poucas vezes eu havia dito aquilo. Mas aquele sorriso dele foi tão bonito e tão sincero que percebi que não importava ele não saber o quão importante era esse momento em que tive a realização de que realmente confiava nele. não fazia ideia de que naquele instante havia renunciado um pouco à racionalidade para seguir aquela intuição que me diziam que ele era digno de confiança, que podia lhe mostrar um pouco mais de mim e que não seria decepcionada por isso.
Sem responder e ainda com um sorriso estupidamente adorável, ele me estendeu a mão e respondi seu gesto, mas, quando ele recomeçou a andar, fui obrigada a puxar minha mão, fazendo-o parar. virou para trás com uma expressão confusa extremamente fofa. Arqueei a sobrancelha e olhei para minha perna engessada. Compreensão se espalhou por seu rosto.
- Oh!
- Que tal assim? – perguntei, elevando seu braço e passando-o por meus ombros.
O sorriso bobo voltou e pude sentir meus lábios se alargarem em um muito parecido com o dele. Com alguma dificuldade, não tanto pelas muletas, mas pelo fato de que ficamos como dois idiotas nos encarando, entramos na lanchonete/pizzaria. E quase instantaneamente fomos puxados bruscamente para fora da nossa bolha de contentamento assim que passamos pela porta e gritos femininos escandalosos nos atingiram. Segui o som estridente e encontrei um grupo de cinco garotas e todas elas olhavam diretamente para mim.



Capítulo Quinze - parte II

Meus olhos se arregalaram, de tão surpresa que estava com aquilo. E meu espanto só fez aumentar quando elas começaram a praticamente correr em nossa direção. Quase simultaneamente ao primeiro passo delas, Harry reagiu e se colocou na minha frente, agindo como escudo entre nós. Admito ter ficado grata por seu gesto protetor. Aquela era outra situação para qual não havia me programado e eu odiava esses momentos.
- Olá, meninas – a voz rouca dele continha um toque a mais de doçura.
Provavelmente algo adquirido com a experiência de ser famoso e lidar sempre com pessoas.
- . OH MEU DEUS!
- EU TE AMO!
- CASA COMIGO, !
- AQUELA É A !
- VOCÊS ESTÃO NAMORANDO?!
- POSSO TIRAR UMA FOTO?!
As perguntas voavam e fiquei zonza com isso. , por sua vez, continuava muito calmo e composto, respondendo cada pergunta com paciência. Assisti uma depois da outra abraçá-lo, algumas delas com lágrimas escorrendo pelo rosto, e depois se posicionarem para uma foto. Cheguei um pouco para trás, não querendo atrapalhar, mas, assim que me mexi, uma delas – que já tinha tirado uma foto com seu ídolo - se virou e me lançou um olhar penetrante. Estufei o peito, pronta para as palavras grossas que ela provavelmente soltaria – assim como aquelas duas no corredor da faculdade –, mas novamente fui surpreendida quando ela abriu um sorriso e se aproximou devagar, quase tímida.
- Oi, .
Franzi o cenho de leve ao ouvir meu apelido, não por desgosto, mas sim por ela sequer saber quem eu era. Entendia a noção de reconhecimento delas em relação a mim como sendo uma amiga dos meninos, contudo, não esperava que soubessem meu nome ou me identificassem corretamente. Mistery Girl, talvez, mas não o meu nome. Ela pareceu perceber isso e se apressou em consertar:
- Nossa! Desculpa. Eu quis dizer – falou, corando.
- Não. Imagina. Não é isso. Pode me chamar de . Eu só estranhei o fato de você saber quem eu sou. Como você se chama?
A garota soltou um suspiro de alívio, recuperando-se bem rápido:
- Ah! Claro que conheço você. Você é linda – gesticulava o tempo todo. - Isso é o máximo. Você é linda, . Eu já disse isso. É que eu tô meio nervosa. Meu nome é Keira. Eu te sigo no twitter e você é tão legal. Será que você poderia me seguir também? Significaria muito para mim. Por favor? – me estendeu um pedaço de papel.
- E-eu...Hmm.. claro – respondi meio incerta, pegando o papelzinho.
Não entendia os motivos dela, mas podia ver que ela falava a verdade.
- OH MEU DEUS! – soltou outro gritinho. – Muito obrigada. Melody nunca vai acreditar. Falando nisso, eu totalmente apoio você o . Melody acha que você ficaria melhor com o , mas sempre soube que ela estava errada. Principalmente depois de testemunhar o climinha entre vocês – deu uma piscadela. – O casal mais fofo ever.
Corei frente suas palavras. Sabia que as fãs dos meninos eram diretas, mas não sabia o quanto. Felizmente fui poupada de mais momentos constrangedores quando voltou a aparecer do meu lado:
- Vamos, ? – falou suave, mas seus olhos estavam na garota e seu sorriso não era o mais natural.
- Sim. Vamos.
colocou a mão na minha cintura e me direcionou para o balcão. Antes de me afastar muito virei para trás e me despedi:
- Tchau, Keira.
- AH! VOCÊ LEMBROU MEU NOME! – gritou. – Melody vai morrer de inveja!
Limitei-me a acenar e continuar andando. Assim que estávamos a uma distância segura - ao entramos na fila do caixa - para não sermos ouvidos, perguntou totalmente preocupado:
- O que ela disse? Ela foi rude?
Franzi o cenho - ainda um pouco perdida – e sacudi a cabeça.
- Não, não. Na verdade, ela me elogiou.
As sobrancelhas dele subiram um pouquinho em surpresa, mas seus ombros relaxaram.
- Sério? Isso é... hmm... ótimo.
- Meio inesperado, hein? Achou que fosse levar alguns insultos?
- Não é isso. Não quero que você pense que todas as nossas fãs são ruins. Não é isso de maneira nenhuma. É só que algumas são intensas.
- É. Eu sei – murmurei, ausente.
- Como assim você sabe?
Mordi a língua. Não queria contar sobre as duas idiotas na faculdade. Não queria estragar o clima gostoso que estava entre nós e sabia que isso aconteceria, porque sabia que ele iria se culpar. Optei por uma mentira branca:
- Vocês me falaram sobre isso, lembra?
- Sim. Mas parece que você sabe por experiência própria.
- Claro que não, . Que ideia... – forcei um sorrisinho e desviei os olhos.
- Tem certeza? – perguntou, pouco convencido.
- Tenho – mordi o lábio inferior e levantei a cabeça para olhá-lo.
Adorava o fato de ele ser alguns centímetros mais alto do que eu.
- Ela até pediu para que a seguisse no twitter – olhei para o papel em minha mão. – Só não entendi muito bem o porquê.
Ele seguiu minha linha de visão e abriu um pequeno sorriso.
- É. Elas gostam disso.
- Sim. Elas gostam de você e os meninos seguindo elas. Mas por que pedir para mim?
- Por que você está associada a nós.
Arqueei a sobrancelha e resolvi provocá-lo um pouco:
- Então esse seria o único motivo?
- Claro que não, linda – falou, colocando a mão sobre meu ombro e abaixou a cabeça, encostando a boca no meu ouvido. – Você sabe que é incrível.
Minhas bochechas mais uma vez se tingiram de vermelho e um arrepio desceu por minhas costas.
- Você é bobo, - empurrei seu ombro de leve.
- Você me deixa bobo.
Não pude evitar uma risada.
- Essa é seu melhor xaveco?
- Nem de longe.
E de repente toda a brincadeira havia sumido e o ar ficou mais pesado, mais quente.
- Sério? Adoraria conhecer mais então.
- Não se preocupe. Você vai – e nas últimas palavras sua voz foi ainda mais rouca.
A atendente chamando por nós nos obrigou a terminar aquela interessante conversa.
- Vamos querer uma de frango, uma de mussarela, duas de peperonni e duas de calabresa – informou à mulher do outro lado do balcão. – Você quer do que, ?
- Gosto de mussarela.
- Então é só isso mesmo. – finalizou o pedido e pagou por ele.
- Nós vamos embalar para o senhor. Por favor, aguarde aqui ao lado.
Movemo-nos para onde ela tinha indicado.
- Só embalar? Não vamos precisar esperar ser feito?
- Aqui é quase um fast food de pizza. Não sei como eles fazem, mas é muito rápido.
Nem dois segundos depois de ele ter terminado de falar, um garoto apareceu e estendeu uma grande sacola para . Com um agradecimento, nos dirigimos à saída.
- Queria poder oferecer ajuda para carregar.
- Está duvidando da minha masculinidade, mulher?! – grunhiu, sorrindo.
- Não, Tarzan – ri.
- Está sim. Pois saiba que eu carrego isso aqui e você ao mesmo tempo!
- Tá bom - revirei os olhos.
- Vem aqui então! – aproximou-se mais, passando a sacola para o braço esquerdo.
- Não! – dei dois passos para trás, ainda rindo.
- Ah, ! Como vou provar minha masculinidade então? – abriu uma careta falsamente magoada.
- Tenho certeza que você vai pensar em outra coisa – recomecei a andar.
- É. Acho que já tenho algumas ideias.
Ignorei sua última sentença e aproveitei para entrar no carro. colocou as pizzas no porta-malas, minhas muletas no banco traseiro e depois tomou seu lugar de motorista. O caminho de volta para casa foi muito mais rápido e tranquilo. Provavelmente porque agora já não tinha todos aqueles pensamentos desagradáveis me oprimindo. Dessa vez esperei para que ele me ajudasse a descer do carro. Ajeitei as muletas e pretendia andar até o elevador, mas logo percebi que continuava na minha frente e, portanto, estava encurralada entre o banco do carro, a porta aberta e ele.
- ? Tudo bem? – ergui os olhos para encontrar os dele.
Havia um brilho diferente ali. Determinação.
- Estive pensando – deu um passo para frente, encostando seu corpo no meu.
Tive um pequeno déjà vu. Outra vez, no mesmo dia, nos encontrávamos naquela situação.
- M-mesmo? – de novo ele me roubava a capacidade de raciocinar direito.
- É. Estive pensando em um jeito de unir os dois desafios que você me propôs.
- Desafios? – a palavra escapou mecânica e fracamente de minha boca.
- Exatamente – abaixou a cabeça. - Já sei um jeito de demonstrar minha masculinidade e meu melhor xaveco.
Suas palavras deveriam ser engraçadas, mas o clima ali não pedia por risos. Pisquei devagar, a mente embaçada.
- Sabe?
Meu vocabulário fora reduzido a repetições de uma única palavra. Ridículo. Curiosamente esse fato não me incomodava.
- Sei. E tem outra coisa muito importante que devemos considerar – sussurrou, seus belos olhos nunca abandonando os meus.
- O quê?
- teve o trabalho de planejar muito indiscretamente uma saída entre nós dois – falou em falso tom sério.
- Acho que não deveríamos desperdiçar todo o esforço dele – levantei o braço esquerdo, deixando a muleta cair de qualquer jeito no chão, para colocar a mão em sua nuca, fazendo um carinho.
- Acho que você tem razão.
Abaixou-se ainda mais e o encontrei no meio do caminho. E dessa vez, quando seus lábios encostaram-se nos meus, eu não o empurrei para longe, mas sim me empurrei contra ele. Senti uma mão abraçar minha cintura e a outra se enroscar no meu cabelo. Clichê, eu sei, mas quando ele começou a me beijar, senti aquelas famosas borboletas no estômago. Nunca tinha acreditado que elas realmente existissem, mas agora podia atestar a veracidade delas. Porque a cada novo movimento da boca dele sobre a minha, a cada novo beijo carinhoso que compartilhávamos ali naquele estacionamento, elas se faziam presentes. Tão reais quanto meu coração disparado e a maciez do maravilhoso cabelo dele sobre meus dedos. Em algum momento, a outra muleta também perdeu seu ponto de apoio e foi para o chão e, com isso, deixei minha mão direita sobre seu ombro. Era quem me mantinha de pé agora – não só por minha perna quebrada, mas também pelo fato de elas terem amolecido frente a mescla de sentimentos que crescia em meu peito e rodopiava para minha cabeça. Beijar era uma experiência boa demais.
Mais rápido do que gostaria, tivemos que nos afastar. Ofegante, me afastei o pouco necessário para olhá-lo nos olhos – que faiscavam de uma maneira satisfeita.
- Uou – foi o que consegui murmurar.
se limitou a abrir um sorrisinho de lado.
- Mas não sei se estou muito convencida quanto a suas habilidades – provoquei.
Ele arqueou a sobrancelha, não entendo a que me referia.
- Sua masculinidade e seu xaveco, sabe?
- É mesmo? – abaixou a cabeça, encostando os lábios no meu pescoço.
Minha pele inteira se transformou em um arrepio de prazer. E ele nem mesmo havia me beijado naquela parte sensível. Lutando por um pouco de concentração, voltei ao que estava falando:
- M-mesmo. Talvez pre-precise de outra amostra. Para ter certeza, sabe?!
Sua risada rouca ressoou contra minha pele e dessa vez ele começou a distribuir pequenos beijos ali. De maneira suave, uma carícia suave – e já foi mais do que o suficiente para me fazer fechar os olhos e ser tomada por aquelas sensações deliciosas outra vez.
- Adorei sua ideia, linda – sussurrou, levantando a cabeça. - Mas precisamos voltar. Devo ter recebido umas vinte mensagens perguntando onde estamos.
Revirei os olhos.
- Ok. Povo esfomeado – resmunguei baixinho.
Ele soltou outra risada fraca e apertou meu nariz de leve.
- Você fica ainda mais adorável com essa careta emburrada.
Isso me fez revirar os olhos outra vez.
- Absolutamente adorável – me deu um selinho rápido.
Não pude evitar um pequeno sorriso. cuidadosamente se afastou e coloquei uma mão sobre a porta para me apoiar enquanto ele recuperava as muletas para mim. No caminho para o elevador, voltou a pousar seu braço em volta dos meus ombros.
- Acho que não devíamos contar a que o plano dele funcionou – comentei. - O ego dele não precisa de mais esse incentivo. Vamos deixá-lo se esforçar mais um pouco.
- Definitivamente – riu.

xxx

- Eu não fiz nada disso! – Kristine protestou, o rosto vermelho de raiva ou de vergonha.
- Fez sim! Fez sim que eu vi! – respondeu, mastigando a pizza de boca aberta.
Reprimi a vontade de mandá-lo mastigar de boca fechado.
- Não e não! – bateu a mão no braço do sofá.
- Na verdade, Kitty, você fez sim. – se intrometeu, um sorriso maldoso. – A menina estava lá abraçando e você tropeçou nela de propósito. Só porque ela não o largava.
Green abriu e fechou a boca repetidamente e depois a travou em uma linha séria, lançando um olhar raivoso para o menino.
- Não foi nada disso que aconteceu – sibilou, cruzando os braços.
e gargalhavam. , por sua vez, tinha um sorrisinho arrogante – que havia aparecido em seu rosto no momento em que Kristine escolhera sem hesitação se sentar ao seu lado – que se tornava um pouco mais safado a cada nova palavra daquele relato. e eu – sentados lado a lado também, mas mais perto do que aqueles dois – só observávamos enquanto apreciávamos nossos respectivos pedaços de pizza que, aliás, era muito boa mesmo.
- ! – ela latiu. - Faça alguma coisa com seus amigos idiotas.
- Quê? – perguntou, desatento.
- !
- Que foi?
- Em que mundo você está?
-Desculpa, Kitty. O que você disse?
Green lançou um olhar desconfiado para ele.
- Você está distraído – sussurrou, quase que como para si mesma.
- É verdade, . Por que você está tão distraído? – concordou.
Quase lancei um comentário qualquer para tirar o foco de cima de . Não queria que eles chegassem à conclusão correta do que tinha acontecido entre nós dois. Queria manter aquilo como nosso por mais um tempo. Meu desejo, todavia, não foi atendido porque vi Kristine revezar o olhar em mim e o melhor amigo. Quase pude ver a matemática funcionando na cabeça dela e percebi o momento exato em que o entendimento a atingiu. Ela arregalou os olhos por um segundo, mas rapidamente disfarçou, voltando à expressão neutra – pelo que eu fiquei grata. Ao menos ela não parecia ter tendências fofoqueiras.
- Que foi que aconteceu, cupcake? – falou, afinando a voz.
Antes que ele pudesse inventar uma resposta, Kristine se levantou de repente e falou decidida:
- ! Vem me ajudar a pegar minhas coisas para levar ao apartamento do .
- Ah, Kitty. Não pode ser depo-
- Agora, ! – sentenciou, girando em seus calcanhares e indo em direção aos quartos.
resmungou alguma coisa sobre pessoas mandonas, mas se levantou, colocou o prato vazio sobre a mesinha de centro e arrastou os pés atrás da melhor amiga. Acompanhei-o com os olhos até ele sumir de vista e quando virei a cabeça para encarar os outros ocupantes do cômodo encontrei-os com a vista fixa em mim, curiosos. Sabia que o próximo passo seria me bombardear com perguntas sobre , então resolvi atacar primeiro, usando isso como fuga e para sanar a curiosidade que as palavras de Green haviam trazido:
- Cadê ?
Eles foram pegos de surpresa e se entreolharam.
- Ele está mesmo muito quieto. – comentou, preocupado.
- Mais do que o normal. – assentiu, o tom igual ao do amigo.
- E ele não quer falar sobre isso.
- Tô achando que tem a ver com a Kim.
- Provavelmente. Eles estavam meio esquisitos esses dias.
- Vocês sabem se ele está em casa? Talvez eu possa ir lá e ver se ele quer conversar comigo. Alguma vezes é melhor conversar com alguém mais externo a situação.
- Externo a situação? – arqueou a sobrancelha.
- É – dei de ombros. – Vocês conhecem bem a Kim e eu só conversei com ela algumas vezes. Quem sabe isso faça diferença. Não sei.
- Até que não é uma ideia ruim, . E sim, ele está em casa – foi quem respondeu e, assim como os outros, ele estava preocupado.
Enfiei o último pedacinho de pizza que estava em minha mão na boca e amassei o guardanapo, jogando-o dentro de uma das caixas vazias. Levantei-me o mais rapidamente que pude. O humor deles tinha me atingido e agora também sentia uma pontada de preocupação no meu estômago. Impressionante o quão rápido você pode se apegar a algumas pessoas. Logo estava em frente a porta dele, esperando alguém responder ao toque da campainha. abriu e sorriu cansado para mim.
- Oi, .
- Hey, – falei baixinho. – Tá ocupado?
- Não, não – sacudiu a cabeça.
- Será que a gente pode conversar um pouco?
Ele franziu o cenho – provavelmente estranhando minha sugestão.
- Sim, sim, claro. Entre, por favor – deu um passo para trás, desobstruindo a passagem.
- Se for uma hora ruim, eu posso voltar depois – apontei para porta atrás de mim.
- Não. Não é isso – correu a mão no cabelo e passou por mim, indo se sentar no sofá. – É que tô cheio de coisa na cabeça – colocou os cotovelos sobre as coxas e cruzou os dedos, olhando para o vazio em frente.
Sentei-me ao lado dele e apertei seu ombro de leve.
- É. Nós percebemos isso – declarei, ainda baixinho. - , não quero me intrometer, mas vim aqui saber se você quer conversar sobre isso.
Ele ficou calado por um momento ou dois, imóvel, e já estava começando a pensar que tinha cruzado o limite da nossa recente amizade quando ele soltou um suspiro e esfregou as mãos sobre o rosto.
- Kim e eu terminamos.
Fiquei grata por ele não estar olhando para mim e sim para o tapete. Dessa maneira ele não viu minha sobrancelha se erguer inconscientemente frente aquela notícia inesperada. É verdade que não conhecia muito bem a garota, mas Kimberlee e ele pareciam um casal sólido. Realmente não esperava por isso.
- E meu pai vai se casar de novo com uma antiga vizinha nossa. Uma antiga vizinha que tem uma filha. Filha essa que é minha ex-namorada.
E por essa eu esperava menos ainda.



Capítulo Dezesseis

- E aí ele me contou que o pai dele vai casar! – comentei exaltada, batendo a mão na mesa da lanchonete para enfatizar minha história.
A menina da mesa ao lado virou para me olhar, franzindo o cenho. Lorelai, que estava sentada de frente para mim, contudo, limitou-se a levantar os olhos entediados da revista da qual ela virava a página. Então, estendeu a mão para o pote que estava sobre nossa mesa e colocou uma pipoca na boca, mastigando-a vagarosamente antes de falar, entediada:
- Sério? Que interessante!
- Lorelai!
- Que foi?! O cara não pode aguentar o fato de que o pai quer reconstruir a vida e a chata sou eu?!
- Você está especialmente insuportável hoje, sabia?
- Você é especialmente insuportável todos os dias.
Revirei os olhos frente sua resposta infantil, mas decidi não retrucar, atendo-me ao fato de que podia ler minha amiga muito bem e saber quando alguma coisa estava errada.
- O que aconteceu?
- Nada – encheu a mão de pipoca, colocou essas também na boca e abaixou os olhos outra vez para a revista.
Ok. Tentei a abordagem boazinha e não funcionou. Do outro jeito então:
- O que aconteceu, Blake? – puxei a revista bruscamente das suas mãos, colocando-a no banco vazio ao meu lado.
- ! – soltou um gritinho.
Esperei alguns segundos antes de ela finalmente se render e soltar um suspiro:
- Mark e eu brigamos muito feio. Ele nem dormiu lá em casa hoje. Foi para o próprio dormitório. E ele não dormiu lá desde que você se mudou para a casa dos Backstreet Boys.
- O quê? Por quê?
- Não sei – puxou os cabelos em um gesto de impaciência. – Começou com uma discussão idiota sobre eu não guardar meus sapatos e ele tropeçar neles e acabou no fato de eu não gostar daquela velha insuportável da mãe dele. Nós estávamos discutindo no meu quarto e de repente ele saiu batendo a maldita porta – apontou para a porta da lanchonete.
Me servi de algumas pipocas, aproveitando o tempo para pensar no que dizer.
- Pelo que me contou, acho que o problema não foi exatamente a discussão de ontem. Talvez vocês dois estejam com coisa demais na cabeça. Não sei. Parece uma daquelas discussões por gatilho.
- Discussão por gatilho? – arqueou a sobrancelha.
- É – dei de ombros. – Você sabe. Aquelas discussões que começam por um motivo idiota quando a pessoa está acumulando muita coisa durante muito tempo e tudo explode de uma vez por causa de um gatilho, um fator estressante.
- Até que dessa vez você parece ter razão. – Lorelai assentiu, pensativa. – Acho que é isso mesmo. Vou conversar com ele mais tarde.
- Boa ideia. Vocês fazem as pazes e depois nós podemos sair à noite. Ou, melhor ainda, vocês podem ir lá para casa. Conhecer como é e posso pedir para o fazer lasanha.
- Ah! A famosa lasanha Carter. – Lorelai revirou os olhos.
Ela não acreditou em mim quando lhe contei o quão boa aquela receita é.
- Exatamente. Vocês jantam lá e aí você finalmente vai parar com esse ar de deboche toda vez que eu falo que das coisas que ele cozinha.
- Já percebeu o quão defensiva você se torna cada vez que eu falo do seu queridinho? – um sorrisinho esperto apareceu no rosto dela. – Aliás, pode ir me contando.
- Contando o quê? – mesmo enquanto falava já podia sentir minhas bochechas se colorindo e as suspeitas dela aumentando.
- Não se faça de boba, . Esse seu arzinho de felicidade contaminou o ar inteiro no segundo em que você passou pela porta dessa lanchonete. Ficou cheio de glitter rosa – abanou o ar, como se estivesse espantando o dito glitter. – Me deu até enjoou.
- Essa sua fase dark me dá enjoo.
- Touché – sorriu. – Agora pode ir falando.
- e eu nos beijamos semana passada – falei rápido.
- Sabia! Sabia! Mas conta isso direito. Quero os detalhes sórdidos – apoiou o cotovelo sobre a mesa e o queixo na a mão, comendo pipoca e me encarando como se eu fosse um filme interessante. – E por que você só está me contando isso agora? - franziu o cenho.
Não pude evitar uma risadinha. As mudanças de humor dela eram engraçadas.
- Esses dias foram muito corridos. Quase não nos vimos, lembra?
- Verdade! Nem me lembre. Finalmente acabou. Não dormi o suficiente nesses últimos dias – esfregou os olhos. – Malditas provas.
- Sei como se sente – suspirei.
- Mas vamos falar de coisas mais interessantes. Quem beijou quem? Você o beijou ou Nick Carter te beijou? – comeu outra pipoca.
- Foi uma coisa mútua.
- E vocês se beijaram só essa vez?
- Não! Digamos que se tornou algo rotineiro.
- Rotineiro do tipo entediante?
- Não! Rotineiro do tipo todos os dias.
- Essa sua habilidade de descrição clínica é sua mesma ou você adquiriu quando entrou na faculdade?
Lancei um olhar mal-humorado sobre ela.
- Qual é! Você faz uma história interessante parecer um tratado sobre biologia biomolecular.
Minha careta se aprofundou.
- Você nem sabe o que é biologia biomolecular.
- Verdade. Mas parece ser bem chata.
- Você é chata.
- Nem tanto quanto a sua história.
- Se você quiser, eu paro. A interessada em saber é você.
Levantou as mãos em sinal de rendimento.
- Tudo bem, tudo bem. Foi mal. Por favor, continue – falou, mordendo o riso.
- Como eu estava dizendo antes de ser rudemente interrompida por seus comentários não solicitados, nós nos beijamos. Foi na garagem.
- Que romântico – suspirou falsamente, batendo as pálpebras repetidas vezes.
Revirei os olhos e resolvi ignorar, continuando:
- Foi espontâneo e não foi, sabe? Não sei explicar. É como se... não sei – as palavras faltavam.
Lorelai, em um momento de generosidade, mudou o rumo da conversa com uma pergunta mais direta:
- E ele beija bem?
- Nossa. Você não tem nem ideia. Foi bom demais. Diferente e... foi como se já tivéssemos feito isso dezenas de vezes – soltei uma risadinha. – Isso não faz muito sentido, né?!
- Não muito, . A não ser que... – ela parou no meio da frase.
- A não ser que o que, Blake? Detesto essas suas pausas dramáticas.
- Sei que isso vai parecer bem irônico vindo de mim, mas você deveria considerar a possibilidade de ele ser o cara.
- “O cara”?
Não estava entendo onde ela queria chegar.
Lorelai soltou um suspiro impaciente e revirou os olhos.
- É! Você sabe! Aquelas coisas melosas como Mr. Right, sua metade da laranja, alma gêmea.
Encarei-a por alguns segundos antes de começar a gargalhar. Lorelai continuou impassível, esperando pacientemente eu terminar meu ataque de riso.
- Desculpe, desculpe – falei, me recuperando. – Você tem razão, afinal de contas.
Isso fez com que ela arqueasse a sobrancelha.
- Tenho?
- É claro. Esse papo realmente parece irônico vindo de você.
- HAHAHA – minha amiga fingiu uma risada. – Agora que você já se divertiu, deveria realmente considerar o que eu disse.
- Você estava falando sério? – franzi o cenho.
- Não – respondeu, séria. – Eu gosto de brincar com assuntos sérios – revirou os olhos.
- Você está falando sério! – descansei as costas no encosto da cadeira, surpresa. – Oh! Nesse caso, acho tudo que você disse uma besteira muito grande – joguei a pipoca para dentro da boca.
Ela revirou os olhos.
- Já conversamos sobre isso no outro dia. E você deixou bem claro o seu ceticismo nesse assunto, mas, então, outra vez eu te pergunto: Como você explica o que vocês têm? Amor à primeira vista? – arqueou a sobrancelha de maneira irônica.
- Não! Eu... eu não sei explicar.
- Exato! Você não conseguia explicar naquele dia e não consegue explicar hoje. Sabe por quê? – perguntou retoricamente. – Porque não tem uma explicação racional para isso.
- Concordo com essa parte do irracional, mas daí partir para “escrito nas estrelas”?! – fiz o sinal de aspas com os dedos. – Não – sacudi a cabeça. – Definitivamente não.
Lorelai me lançou um olhar condescendente.
- Sabe, , minha mãe costuma dizer que fingir que o Destino não existe não vai impedi-lo de achar você.

xxx

A batida na porta do quarto fez com que eu desviasse a atenção das linhas de farmacologia. Estiquei os músculos cansados e resmunguei uma autorização para pessoa entrar.
- ? Está ocupada? – perguntou, encostando-se no batente.
- Mais ou menos.
- Ah! Eu volto depois então – começou, já saindo.
Soltei uma risadinha, ainda olhando por sobre o ombro.
- , se você for esperar eu terminar farmacologia, nós só vamos conversar daqui alguns anos.
Ele abriu um sorrisinho de lado e entrou no quarto, fechando a porta.
- Não gosto muito da ideia. Na verdade, algumas horas sem falar com você já me soa ruim.
- Sei disso – sorri, convencida, girando a cadeira para ficar de frente para ele.
- Ah é? Por quê?
- Porque eu sou legal assim mesmo.
Ele arqueou a sobrancelha, rindo.
- Se eu concordar com você, ganho um beijo?
- Você se vende por pouco, sabia?
- Pouco? Não – abaixou-se, colocando uma mão em cada descanso de mão da minha cadeira e se inclinando em minha direção. – Um beijo seu é muito.
Não pude evitar uma risada.
- Bobo - sussurrei, puxando-o para um beijo.
Quando nos separamos, se endireitou.
- Já percebeu que você adora me chamar de bobo? – sussurrou, apertando meu nariz.
- Já percebeu que você adora apertar meu nariz?
Ele arqueou a sobrancelha e me lançou um olhar curioso.
- Eu não faço isso – cruzou os braços.
- Claro que não – revirei os olhos. – Onde você estava?
- Nós já estamos nessa fase? – fingiu surpresa, colocando a mão sobre a boca.
- Fase? Que fase?
- Você sabe. Um ficar querendo saber onde o outro está.
Fui obrigada a rir.
- Depois não quer que eu te chame de bobo.
Ele deu um sorrisinho.
- Estávamos vendo umas coisas das gravações. Vamos começar as gravações na próxima semana.
- Ah! É verdade – assenti. - me falou alguma coisa sobre isso ontem. E como foi lá?
- Entediante. Como foi sua aula?
- Interessante – respondi no mesmo tom que ele.
- Você está me imitando?
- Talvez.
- Eu não gosto disso – brincou.
- É? E o que vai fazer a respeito então? – ri.
- Cócegas! – anunciou, já entrando em ação.
Nem tive tempo de reagir antes de me encontrar em um ataque de risos. Inutilmente tentava empurrar as mãos dele para longe da minha barriga. Ainda estava nessa luta inglória quando uma voz na porta nos interrompeu:
- Vocês são ou não adoráveis?
Nós dois estacamos no lugar - minhas mãos sobre seu tórax, suas mãos sobre minha barriga enquanto se inclinava em minha direção e eu fazia o mesmo só que em direção oposta – e viramos a cabeça para encará-lo. tinha um sorrisinho esperto no rosto, os braços cruzados enquanto se encostava no batente da porta. Durante alguns segundos nós três ficamos em silêncio, um olhando para o outro até que a mais nova pessoa no cômodo resolveu se manifestar:
- Vejo que o relacionamento evoluiu esses dias. Não é mesmo, senhores?!
A pergunta foi tão inesperada que só pude responder:
- O quê?
- Não se faça de boba, sis. Eu sei de tudo.
Por um momento pensei que tinha estragado nosso pequeno estratagema de enganá-lo mais um pouco para não alimentar o seu já superdesenvolvido ego. Uma rápida olhada para , contudo, e percebi que estava blefando.
- Claro que sabe, senhor Vidente – revirei os olhos. – Até pediria para você ler a minha mão se eu acreditasse nesse tipo de bobagem.
Desencostou-se da porta.
- Digo duas coisas para você, senhorita pouco crédula – levantou dois dedos. – Um: Destino não é besteira – abaixou um dedo.
Por que todo mundo ficava falando essa bobeira de Destino hoje?!
- Dois: Se vocês não estão num relacionamento, por que não se afastaram até agora?!
Queria dizer alguma coisa para apagar o ar de riso em seu rosto, mas notei que ele tinha razão porque e eu não havíamos nos movido desde que ele entrou no quarto. Depois de uma troca de olhares constrangedora, nós nos separamos rapidamente. E claro que usou isso contra nós.
- AHÁ! É disso que estou falando. Quem não tem culpa não se comporta assim – gesticulou para nós dois.
- Claro, claro. Você tem toda razão – revirei os olhos. - Nós dois estamos abusando da nossa vida sexual muito ativa.
- Eca, sis. Eu não quero saber os detalhes. Isso é nojento! – fez uma careta. – Só quero a confirmação de que eu tenho razão, como sempre – terminou, convencido.
E era exatamente por isso que não contamos para ele. Provavelmente seria ainda pior quando ele descobrisse, mas, nesse meio tempo, ainda era divertido deixá-lo no escuro.
- Já entendemos, . Você prevê o futuro e está sempre certo. Vou votar em você para o Parlamento. – zombou. – Agora o que você veio fazer aqui?
- Procurar você, é claro! Você disse “vou perguntar se a quer comer alguma coisa também” – arranhou a garganta para imitar a voz rouca dele – e não voltou mais. Tô esperando faz uns dez minutos.
- Nossa! Que eternidade – ironizei.
- Eu tô com fome!
- , eu não queria ter que ser eu a te falar isso, mas, cara, você precisa aprender a cozinhar – ri
- Nem tente, . Faz anos que digo isso a ele e não adianta nada.
- Estou sentindo um complô aqui. E vocês nem são oficiais ainda.
- Exatamente, . Nós planejamos nossa vida pensando em você! – revirei os olhos.
- AHÁ! Já estão usando o plural.
Joguei as mãos para o alto em um gesto de desistência. Não é possível ganhar uma discussão desse homem.
- Agora que já estabelecemos que vocês dois estão mentindo para mim ao negar o relacionamento que têm. Será que você pode ir fazer os nossos lanches, ?
- Tanto faz. – deu de ombros e foi em direção à porta.
, contentando-se com a resposta que obteve e provavelmente com fome demais para exigir alguma coisa mais educada, sorriu e desapareceu pelo corredor. Assim que teve a certeza de que o amigo tinha saído, virou-se de novo e disse:
- Você aceita um lanche também, ? Eu posso trazer aqui para você ou te chamar quando estiver pronto.
Um cavalheiro nato. Meu coração derreteu um pouquinho mais.
- Muito obrigada, mas não. Não estou com fome.
- Ok – sorriu e me deu uma piscadinha antes de voltar a andar para a porta.
Foi quando me lembrei.
- – chamei quando ele já estava entrando no corredor.
voltou a se virar, apoiando uma mão sobre a maçaneta da porta ao olhar para mim, esperando.
- Eu convidei Lorelai e Mark para jantarem aqui em casa. Tem algum problema?
Não houve resposta, ele se limitou a ficar ali me olhando com um sorriso enorme. Esperei alguns segundos antes de chamar:
- ? Que foi?
- Nada. É só que eu adoro o jeito como você se diz “aqui em casa”. Me faz pensar em... – suas palavras foram diminuindo de volume até sumirem.
Minhas bochechas se avermelharam e minha garganta arranhou um pouco quando perguntei:
- Faz você pensar em quê?
- Nada.
Acompanhei como sua língua seguir o contorno de seus lábios. Dessa vez era eu quem perdia o foco.
- Você disse que convidou quem?
Sacudi a cabeça para me concentrar.
- Conv- Lorelai! Convidei Lorelai e Mark para jantar hoje. Tudo bem?
- Claro. Tudo certo.
- E tem mais uma coisa. Eu talvez... talvez não... tenha falado para ela que você faria lasanha – completei, um tanto quanto embaraçada.
- Quanto a isso... – coçou a nuca, procurando as palavras certas. – Digamos que a lasanha é guardada para ocasiões muito especiais. Será que poderia ser outra coisa?
- Oh! Entendo. Claro que sim. Qualquer coisa está ótimo. Só queria que eles viessem conhecer aqui e que vocês se conhecessem melhor.
- Certo. Vou cozinhar alguma coisa então.
- Quer ajuda?
- Não, obrigado. Mas aceito uma recompensa mais tarde – lançou-me um olhar malicioso e um sorrisinho safado.
Sacudi a cabeça, rindo.
- Vou pensar no seu caso.
- Pense com carinho.
- Sempre penso assim.
Deu mais um piscadinha antes de sair e fechar a porta. Girei a cadeira de volta para mesa e recomecei meus estudos. Tinha lido duas linhas quando escutei o grito abafado de :
- Como assim a Rainha do Submundo vem jantar?

xxx

Terminei de digitar a resposta para minha amiga e coloquei o celular de volta no bolso do casaco.
- Eles estão no elevador – murmurei.
jogou a cabeça para trás, encostando-a no sofá e gritou em direção a cozinha:
- , a Senhora das Trevas está chegando. Ainda dá tempo de benzer pelo menos a sala.
- !
Ele revirou os olhos e deu de ombros. Meu “irmão” estava meio emburrado há algumas horas, desde que ficou sabendo da novidade sobre nossos convidados para o jantar. Ficou reclamando e resmungando durante um bom tempo e, ao perceber que suas lamúrias não seriam ouvidas, sentou-se no sofá e cruzou os braços. Uma criança fazendo pirraça, era isso que ele parecia.
A campainha soou. Pensei em pedir para abrir a porta - mas isso iria gerar outras reclamações - então preferi me levantar e eu mesma fazer isso. Mark e Lorelai estavam lá. Um contraste interessante entre o vestido e sapatos de salto totalmente pretos dela e a camisa azul e a calça jeans dele.
- ! – Mark se apressou em me abraçar. – Estava com saudades.
- Também estava.
Minha amiga e eu também nos cumprimentamos antes de eu convidá-los para entrar. Fechei a porta e me virei para ser mergulhada diretamente no clima constrangedor onde o casal, ainda parado muito perto da porta, encarava – que tinha se levantado, mas ainda mantinha os braços cruzados – e , que saíra da cozinha enxugando as mãos.
- Okaay... – limpei a garganta. – , , vocês certamente se lembram de Lorelai e Mark.
Ninguém se mexeu. Acho que a primeira e única vez que realmente tinham se falado havia sido mais dramática do que pensei. Lancei um olhar de súplica para . Ele soltou o ar pesadamente e caminhou até ficar de frente para os dois.
- Claro que lembramos. Como vai? – estendeu a mão para Mark.
- Muito bem. E você? – aceitou o cumprimento.
- Bem também – sorriu e virou-se para minha amiga, repetindo o cumprimento. – Lorelai.
- Nick – ela respondeu, sorrindo adocicado demais.
Revirei os olhos. Claro que ela não iria cooperar totalmente. , ainda em seu lugar distante e perto do sofá, acenou com a cabeça para Mark. Isso deslocou a atenção de Blake.
- Olá, A.J. – dirigiu-se a . – Como vai?
- Perfeitamente bem – respondeu no mesmo tom que ela. - E você, Selene?
Observei minha amiga morder a resposta mal-educada que tinha na ponta da língua. Melhor assim. Afinal foi ela quem começou com os apelidos, não é?! Antes que outro silêncio esquisito baixasse no cômodo, anunciou:
- O jantar está servido. Vamos nos sentar? – forçou um sorriso e caminhou até , colocando as mãos sobre os ombros dele a fim de empurrá-lo em direção a cozinha.
Mark logo seguiu os outros meninos, mas Lorelai ficou para trás para me acompanhar. Andamos a passos lentos.
- Então... Há alguma razão em especial pela qual você convenientemente não mencionou que o mais novo adorável membro da sua família estaria aqui também?
- Ele mora aqui. Achei que estava implícito – dei de ombros.
- Você sabe que nós dois nos estranhamos.
- Ajudaria se você o chamasse pelo nome correto.
- Posso chamá-lo de Lunático da Calça Apertada – zombou, arqueando a sobrancelha. – Que tal?
Sacudi a cabeça. Não duvidava nem por um segundo que ela faria exatamente isso.
- Vamos continuar com A.J., então.
- Pensei que diria isso.
Ao entramos na cozinha já se encontrava sentado na cabeceira, estava de frente para Mark e cada um dos dois tinha uma cadeira vazia ao seu lado. Nós nos sentamos onde seria esperado.
- Ah! Que delícia. – Blake olhou para a refeição a sua frente e depois levantou a vista para mim, sorriu sugestivamente. – Fish and chips.
Depois virou para sussurrar não tão discretamente para o namorado:
- Sabia que aquela história de lasanha era balela.
Revirei os olhos.
- Não é balela. Você que não merece comer lasanha – respondi, ardida.
- Merecer? Tá falando sério? – riu.
- Esquece – sacudi a cabeça, decidindo abandonar o assunto. – Vamos jantar.
Todos concordaram com essa sugestão – provavelmente porque nos daria uma desculpa para não ter que manter um diálogo – e logo estávamos com os pratos cheios. Alguns segundos de paz reinaram. Isso, claro, até resolver começar um assunto:
- Então, Mark, o que você estuda? – perguntou entre uma garfada e outra.
- Arquitetura.
- Ah! Interessante. – também se envolveu. – E o que você pretende fazer quando terminar a faculdade?
- Pretendo continuar no escritório onde trabalho agora. É muito bom.
Minha amiga sorriu e colocou a mão sobre o ombro dele.
- Nem todos nós podemos nos tornar cantores ricos – murmurou, provavelmente para si mesma, mas todos ouviram.
- Lore-
- Concordo, Selene. – me interrompeu, o tom cínico. – E nem todos tem o seu dom artístico. Então, diga-nos, onde você busca inspiração? Poesia? Natureza? Forças ocultas?
Houve várias reações diferentes a sua pergunta. Eu balancei a cabeça em incredulidade, tentou não rir, Mark parecia entediado e Lorelai o fulminou com os olhos antes de responder:
- Em vários lugares, mas recentemente tenho buscado novas fontes. Talvez você possa me ajudar, A.J. Letras ruins e cores sempre fornecem bom material para inspiração. Sabe o que dizem... O fracasso de um é o sucesso de outros – piscou os olhos inocentemente.
Esfreguei uma mão sobre o rosto. Isso estava desmoronando mais rápido do que eu imaginava ser possível.
- Amor... – Mark murmurou, em tom de aviso.
Contudo, pela expressão de ultraje de , a discussão estava longe de acabar. E o clima estava cada vez mais pesado.
- Claro, claro. Vou pegar um dos meus fracassos número um de venda e emprestar para você pintar um quadro que só vai ficar pendurado no seu quarto ou na casa de seus pais.
Lorelai apertou a mão sobre o garfo que segurava.
- Melhor um fracasso por mérito próprio do qu-
- CHEGA! – bati a mão sobre a mesa. – Eu convidei vocês para um jantar para se conhecerem melhor porque vocês são partes importantes da minha vida. E o que fizeram?! Hein?! – meu tom automaticamente aumentava um pouco a cada palavra. – Se comportaram como crianças! Transformaram uma refeição em um campo de batalha! – levantei-me, puxando as muletas de qualquer jeito para me equilibrar.
Respirei fundo e olhei para o teto por um segundo antes de voltar a encará-los.
- Quer saber?! Esqueçam! Essa foi uma péssima ideia. Melhor ir cada um para o seu canto.
E, com o máximo de dignidade possível, andei para fora do cômodo, ignorando os chamados dos dois. Fiz questão de bater a porta com força ao entrar em meu quarto. Sentei na cama e joguei as muletas no chão de qualquer jeito.
Francamente. Que desastre! E pensar que achei que era possível que eles se comportassem de acordo com a idade que tinham. Perdi até o apetite, o que era o mais desagradável, pois aquele peixe muito bom.
Soltei um suspiro pesado e apoiei os cotovelos sobre as coxas, massageando as têmporas. Uma pontada de dor começava a surgir na minha nuca. Maravilha. Era só o que me faltava. A porcaria de uma dor de cabeça. Ela até já começava a martelar.
- ?
Sacudi a cabeça, percebendo que, na verdade, as marteladas não eram efeitos da dor, mas sim batidas na porta do quarto.
- . É o . Posso entrar?
Resmunguei qualquer coisa inteligível, mas que ele deve ter interpretado como uma autorização porque logo depois a porta abriu.
- Hey, linda. Como você está? – perguntou, fechando a porta outra vez.
- Com dor de cabeça – coloquei a mão no pescoço e girei a cabeça para tentar aliviar a pressão do estresse sobre aqueles músculos.
Ele tinha uma expressão compreensiva, aquela que as pessoas usam quando são simpáticas aos sentimentos alheios, ao se aproximar e sentar-se ao meu lado. Lentamente empurrou minhas mãos para longe e as substituiu pelas suas, massageando devagar os nós que ali estavam e que causavam o incômodo. Um gemido quase escapou.
Aquilo era tão bom.
Sentia a tensão abandonando meu corpo.
- E as crianças? – perguntei de má vontade.
- Depois de tentarem discutir de quem era a culpa e chegarem a conclusão de que era do outro, Mark levou Blake embora e foi para o quarto. Eles até queriam vir aqui conversar com você. E discutiram sobre isso também. Mas consegui convencê-los a deixar que eu viesse.
- Ah! Você é um anjo. Muito obrigada.
- Por nada, linda – parou a massagem por um segundo para dar um beijo casto em meu pescoço.
Arrepios desceram pelo meu pescoço. E a vontade de gemer tornou-se ainda mais intensa.
- Você foi ótimo hoje, . Desculpe por ter estragado o jantar que você teve tanto trabalho para fazer.
Ele voltou à massagem, mas dessa vez se concentrou em meu pescoço.
- Engraçado. Do jeito que eu lembro não foi você que começou uma discussão idiota.
- Mas foi a minha ideia idiota que tornou possível a discussão idiota.
- E se a mãe de Hitler não tivesse nascido, a II Guerra não teria acontecido, não é mesmo?! A culpa não foi sua, mas se você ainda insistir nisso, posso pensar em uma ou duas maneiras de você me recompensar.
Outro beijo, dessa vez embaixo da orelha. E mais outro. parou totalmente a massagem e começou a distribuir beijos por meu pescoço. Fechei os olhos, aproveitando as sensações deliciosas.
- Ah é? Recompensas? Mark também se comportou bem. Vou ter que recompensá-lo tamb-Ah!
Nem tive tempo de terminar a brincadeira porque logo me encontrei com as costas sobre o colchão e o rosto bravo de a poucos centímetros do meu.
Soltei uma risadinha.
- Não tem graça – resmungou.
- Bobo – respondi, colocando as mãos sobre seu pescoço e o puxei para baixo, colando nossos lábios.
apoiou o peso sobre o cotovelo ao lado do meu rosto e passou a mão sobre meu cabelo. Ele me beijava devagar, paciente, carinhoso. Passeei uma mão por suas costas enquanto a outra continuava acariciando aqueles maravilhosos cabelos dele. Sugou meu lábio inferior e o mordeu, puxando-o devagar.
Arrepios e mais arrepios. E meu coração não poderia se acelerar mais. Ou era isso que eu pensava até que ele se levantou um pouco, colocou uma mexa do meu cabelo atrás de minha orelha e sussurrou:
- Linda.
E aí o tum-tum-tum retumbou com tanta força contra meu peito que pensei que , no outro cômodo, poderia ouvir. Fiquei tão derretida com o jeito que ele me olhou e a maneira como disse aquele elogio que não reagi. Só fiquei ali, meu olhar preso no dele enquanto o ar parecia se magnetizar ao nosso redor. se abaixou outra vez e acreditei que iria ganhar outro beijo, mas ele afundou o rosto na curva do meu pescoço. Respirou fundo. Ficamos abraçados assim por um tempo.
- Preciso ir – sua voz saiu abafada.
- Já? – sussurrei.
- Prometi ao que depois de falar com você iria falar com ele. Se demorar muito, ele pode desconfiar.
Sentia seu hálito de menta bater em minha nuca e em meu cabelo.
- Acho que vamos ter que contar para ele. Por mais divertido que seja assistir ele tentar nos pegar no flagra, é inconveniente ter que ficar se escondendo na própria casa.
- Concordo.
- Mas não hoje. Hoje ele não merece.
Ele sacudiu um pouco em mais uma risada rouca. Ele me deu mais um selinho de despedida. Depois que saiu do quarto, me aprontei e fui dormir, o que, surpreendentemente, não demorou muito para acontecer. Tudo graças a . Ele me acalmava. Dormi tão bem que só acordei com o segundo despertador programado. E isso acabou me atrasando totalmente. foi quem me levou a faculdade.
Caminhava distraidamente pelos corredores vazios, debatendo se deveria entrar atrasada na primeira aula ou se era melhor ir para a biblioteca, quando senti alguém me empurrar contra a parede. O impacto contra o concreto fez com que a muleta direita escorregasse de minha mão. Apoiei uma mão na parede e segurei firme na outra muleta para me virar e ver o que diabos tinha acontecido. Encontrei uma garota com os braços cruzados e que me lançava um olhar extremamente raivoso.
- Sua vadia! – sibilou.
- Como é? Querida, eu nem conheço você!
Para falar a verdade, ela até me parecia familiar.
- Não mude de assunto! Eu conheço você!
- Ah! É verdade. Você é uma das imbecis que me empurrou semana passada. Veio pedir desculpas? Ou veio explicar que você tem um problema irritante de controle que te impulsiona a empurrar pessoas aleatórias nos corredores?
Deu alguns passos na minha direção. Ela estava com ainda mais raiva.
- Pare de falar. Você vai ouvir. Eu quero você longe do meu , ouviu?! Ele é meu. Você já deu um jeito de morar com ele, mas não vai se envolver com ele. Entendeu, biscate? Eu vi as fotos de vocês abraçados. Acho bom você parar com isso se sabe o que é bom para você.
Aquela situação era tão ridícula, tão coisa de novela brasileira, que não pude evitar a risada que explodiu em minha boca. O problema é que não medi as consequências dessa reação. Agora a maluca estava furiosa e descontrolada. A risada morreu em meus lábios enquanto eu assistia com horror ela levantar a mão para me esbofetear.



Capítulo Dezessete

Senti-me uma total e completa idiota enquanto assistia, imóvel e com os olhos arregalados, a mão daquela maluca se aproximar mais e mais do meu rosto. Estava a centímetros do alvo quando uma outra mão surgiu pela direita e interceptou a dela. Foi tão rápido que nem vi direito o que aconteceu. Só sabia que em um instante estava prestes a levar um tapa no rosto e no seguinte minha quase agressora se encontrava com frente de seu corpo totalmente pressionada conta a parede enquanto uma Lorelai Blake furiosa torcia o braço com que ela tentou me agredir contra as costas da garota.
- O que você pensa que está fazendo? – o sussurro de Lorelai contra o ouvido da garota foi muito baixo, tanto que se não estivesse tão perto não teria ouvido.
- AI. AI. SUA MALUCA. ME SOLT-
Ela se interrompeu para soltar um gemido de dor quando Blake, girou o braço dela um pouco mais. A garota se jogava contra a parede, a mão livre socando o concreto enquanto tenta se afastar o máximo possível de minha amiga.
- Não foi isso que perguntei. Responda a pergunta.
O tom dela era tão frio que até eu me arrepiei de medo. A garota deve ter percebido que o melhor era cooperar e, com a voz tremida, respondeu:
- E-eu... eu só queria que a brasileirinha de merda deixasse o meu homem em paz. M-minhas amigas e eu sabemos que ela não é boa para ele.
- É mesmo? E para isso você pretendia bater nela? – o mesmo tom gelado. – Para que ela deixasse o seu homem em paz? Alguém com quem você provavelmente nunca falou?! Você é patética, garota, mas eu vou te fazer um favor e te deixar ir embora sem arranhões hoje. Mas eu tenho um recado para você e que você precisa transmitir para essas suas chamadas amiguinhas. Você vai prestar atenção no recado e vai repassá-lo à suas amigas? – sussurrou, tão fria que queimava. - Vai? – voltou a forçar um pouco mais o braço dela quando a garota voltou a responder.
- SIM. Sim, eu vou. Por favor, me solte.
- É o seguinte, garota. Se você ou qualquer outra pessoa levantar a mão contra minha amiga outra vez, vão ter que se entender comigo. Vão ter que passar por mim. Como já disse, dessa vez vai passar, mas se tentar agredi-la outra vez e, ainda por cima, por causa de um motivo tão ridículo quanto o que você alegou, eu vou quebrar o seu braço. E não vai ter médico nesse planeta que coloque ele no lugar. Pelo menos não do jeito que era antes – soltou uma risadinha cruel antes de finalmente soltá-la.
A garota cambaleou uns dois passos, batendo na parede e, quando conseguiu voltar a se equilibrar, correu por alguns metros antes de se virar, segurando o pulso dolorido na mão. Agora que estava em uma distância segura de Lorelai, a ousadia parecida ter retornado porque ela cuspiu, tremendo de raiva:
- Eu vou te processar por agressão, sua maluca. Meu pai é advogado.
Suas palavras me tiraram do estado de estarrecimento.
- Advogados? Você quer falar sobre advogados? Ótimo! Claire Hardy. Já ouviu falar, não? – assisti ela empalidecer, o que foi resposta suficiente. – Minha tia. Se você sequer contar o que aconteceu aqui para alguém, se falar uma palavra além do aviso que ela mandou você passar, minha tia vai triturar você e seu papai no tribunal por calúnia. Entendeu, garota?
Mesmo de longe pude ver o lábio dela tremer como se quisesse falar algo, mas, se fosse esse o caso, ela desistiu, deu a volta e correu para longe. Assim que ela virou para a direita, sumindo das nossas vistas, voltei-me para minha melhor amiga.
- Isso realmente aconteceu? – sussurrei, um tanto quanto perdida.
- Aconteceu sim – sua voz voltara ao tom de sempre. – E eu sabia que alguma coisa assim aconteceria mais cedo ou mais tarde.
- O que você quer dizer com isso?
- , seu namorado t-
- Ele não é meu namorado.
- Tanto faz – fez um gesto de descaso com a mão. - Como estava dizendo, Carter – frisou seu apelido, revirando os olhos – e os amiguinhos dele têm, literalmente, milhões de fãs e, vamos encarar a realidade aqui, algumas delas são completamente malucas – apontou para o espaço vazio por onde aquela garota tinha sumido. – Quanto tempo achou que demoraria até um membro do grupo Louca Obsessão viesse atrás de você?
- E-eu...
- Ok. Vou te dar um desconto nessa. Nem mesmo eu pensei que elas viriam fisicamente atrás de vocês. Muitos xingamentos no twitter sim, mas te atacar no meio do dia e no lugar onde você estuda? Isso não é coragem. É estupidez pura.
Sacudi a cabeça, respirando fundo. As coisas que ela dizia faziam muito sentido. Só uma coisa não se encaixava.
- Como você surgiu aqui bem na hora? Você tem aula agora!
Não que eu estivesse reclamando, afinal, queria aquelas unhas compridas dela bem longe de mim.
- Obrigada pela informação relevante – zombou. – E, respondendo a sua pergunta, eu estava te esperando.
- Me esperando? – franzi o cenho. - Por quê?
Lorelai soltou um suspiro e olhou para o teto. Depois de alguns segundos, nos quais ela provavelmente estava engolindo o orgulho, respondeu:
- Depois de irmos embora da sua casa, Mark me fez ver que ontem à noite eu talvez tenha me comportado de maneira pouco adequada.
Sabia que tinha a intervenção de Knight nessas desculpas. Meu amigo era muito mais racional que a namorada.
- “Pouco adequada”? – arqueei a sobrancelha, incrédula. – É assim que você chama a palhaçada que fez ontem? – tentei cruzar os braços da melhor maneira possível.
Ela revirou os olhos.
- Ok, ok. Tudo bem. Eu não deveria ter começado uma discussão.
- E?
Lançou-me um olhar impaciente, mas eu não tinha qualquer intenção de facilitar as coisas para ela.
- Também não deveria ter falado aquelas verdades para o A. J.
- E?
- Nem ter caído nas provocações dele e ter continuado a briguinha infantil, como Mark chamou.
- E?
Tentei soar séria, mas já estava com vontade de rir. Contudo, não podia perder a oportunidade, afinal, ver Blake constrangida por algo e se desculpando era um fato raro.
- Tá bom, né!? – bufou. - Você já entendeu que eu sinto muito por ter contribuído para estragar o jantar, por ter desrespeitado você e o Carter, por ter envergonhado o Mark e por fazer pouco caso da sua tentativa de fazer com que nos conhecêssemos melhor – falou de uma vez. – E é isso. Se quiser aceitar as desculpas, tudo bem. Se não quiser, tudo bem também – deu de ombros e olhou para o lado, tentando parecer indiferente e agir de acordo com o seu lado “Dark”.
Mas eu conhecia bem minha melhor amiga, sabia que ela tentava salvar um pouco do orgulho que perdeu ao assumir que estava errada. Por isso, apesar de ela merecer sofrer um pouquinho mais, engoli o riso em minha garganta e falei:
- É. Tanto faz.
Ela voltou sua atenção para mm, os olhos faiscando de indignação e o queixo caído. Provavelmente esperava uma resposta mais delicada ao seu pedido de desculpas. Blake abriu a boca e ensaiou algumas palavras de reclamação, mas rapidamente voltou a cerrar os lábios. Sabia que eu estava sendo bem generosa em desculpá-la tão facilmente. Não querendo abusar da sorte, ela respirou fundo e falou, adocicando o tom:
- Estou perdoada, então?
Esperei mais uns segundinhos.
- É. Está sim – sorri de lado.
- Bom, é o mínimo que você pode fazer, né!? Afinal, eu acabei de salvar a sua vida.
Soltei uma risada. E aí estava de novo a melhor amiga que eu amava. Blake no modo culpado era divertido, mas meio esquisito.
- Salvar minha vida? Por favor! Eu teria me virado muito bem sem você – provoquei.
- Sério? – arqueou a sobrancelha. – Porque não era isso que parecia. Aliás, do meu ponto de vista, você estava prestes a levar um de direita muito bom antes de eu aparecer e salvar o dia.
- Eu iria reagir. Só fiquei surpresa. Nunca pensei que seria atacada pela fã de alguém.
Nem por paparazzi.
- Ahan. Sei. Você estava é congelada de susto. Nem lembrou aqueles golpes básicos que eu te ensinei.
- Eu fiquei surpresa, não assustada e estou com a perna quebrada, gênio. Sem contar que esse foi o meu primeiro “ataque” – fiz o sinal de aspas com as mãos. – Tenho certeza de que você também não foi um Jackie Chan na primeira vez que entrou em uma briga.
- Isso não é desculpa. Uma vez tia Ziva derrubou três caras com o dobro do tamanho dela enquanto estava com as mãos algemadas. E a outra garota ficou bem pior do que eu na primeira vez que entrei em uma briga.
- Nossa! Porque a comparação realmente é realista, né?! Eu, com certeza, deveria ser capaz de fazer a mesma coisa que a senhora DiNozzo. Afinal, eu também sou uma agente federal que também acontece de ser ex-agente do Mossad.
- Não precisa ser tão irônica.
- Você provoca.
- A questão é que você deveria ter alguma reação à ameaça eminente – continuou, ignorando totalmente meu último argumento. – Quando sua perna melhorar, nós vamos recomeçar aquelas seções de treino.
Resmunguei baixinho coisas ininteligíveis ao ler em seu rosto todos os estratagemas que ela estava bolando. Essas sessões de treinamento já eram uma tortura antes. Imagina agora que ela acha que meu tempo de reação era uma porcaria?! Provavelmente seria pior do que ser atropelada por aquele carro. E o mais desagradável é que não poderia fugir delas porque, se Blake tivesse mesmo razão, outras malucas poderiam vir atrás de mim e eu precisava me defender.
- O que você está resmungando aí?
- Nada. Nada não – desconversei.
Aquele tom dela me assustava. Lembrava-me demais de Ziva DiNozzo.
- Acho bom mesmo.
- Ok. Sessões novas de treinamento. Combinado – olhei no meu relógio de pulso. – Mas ainda temos uma hora antes da próxima aula. Tá a fim de ir à Starbucks?
- Boa ideia.
Estávamos quase chegando à porta de saída quando Lorelai parou de andar de repente e se virou para mim.
- Você fez A. J. se desculpar também, né? – perguntou, muito séria.
Aquele era o tipo de pergunta que só havia uma resposta certa e ela era “sim”, mas isso seria uma mentira. Então optei pela verdade, mesmo essa não sendo exatamente o que minha amiga queria ouvir:
- Eu farei. Não se preocupe.
Voltamos a andar.
- Promete que vai fazer ele se rastejar?
- Lorelai!
Passamos pela porta.
- Que foi?! Ele merece! Ele foi muito pior do que eu.
- Tenho certeza de que vocês empataram nesse quesito.
- Óbvio que não! Me recuso a ser incluída em qualquer categoria em que aquele ser também esteja presente.
- Se você não se comportar, vou mandar seu currículo de segurança para os meninos. Quem sabe eles não te contratam e você pode passar mais tempo com as suas pessoas favoritas no mundo.
- E me tornar uma piadista sem graça igual a você? Não, obrigada.
- Como se você precisasse de ajuda nesse quesito.
- Deveria ter deixado a maluca ter de dado uns tapinhas. Você tá merecendo.
Dei um tapa ardido em seu ombro. Ela nem se piscou. Maldito treinamento DiNozzo.
- Viu?! Era algo assim que você deveria ter dado na garota.

xxx

- Então, linda, por que você não me conta o que aconteceu ontem à noite? – perguntou imediatamente depois de nos cumprimentarmos e assim que entrei no carro dele.
- Quê?
- Eu fui ontem à casa de vocês em busca de uma refeição grátis.
- Como se você não pudesse pagar por uma refeição.
- Não posso pagar para cozinhar para mim. Acredite. Eu já tentei.
- Ah!
- Então – girou o volante para fazer uma curva. – Eu cheguei alguns minutinhos atrasado e...
- Por que você estava atrasado?
- Eu talvez... talvez não... tenha tirado um cochilo que durou uma hora a mais do que o previsto. Mas, voltando ao assunto principal, quando cheguei à sua casa, estava sentado de cabeça baixa no sofá enquanto , que estava em pé, passava um sermão daqueles nele. Até saí de fininho. Não queria que sobrasse para mim também. E fiquei curioso até agora para saber o que aconteceu.
- Por que você não perguntou enquanto me levava para faculdade?
- Você já estava resmungando porque estava atrasada e parecia preocupada com outras coisas. Não queria ficar te enchendo de perguntas – deu de ombros.
- Ahh! Você é tão fofinho, – apertei sua bochecha.
Ficou corado e estapeou minha mão para longe. Não pude evitar uma risada.
- Deixa de enrolar e responde minha pergunta.
- Você sabe que eu convidei Lorelai e Mark para jantar, certo?
- Ahan. Dessa parte eu fiquei sabendo. apareceu lá em casa para resmungar sobre isso porque, segundo ele, não poderia falar sobre isso com você por razões óbvias e também não podia reclamar para o já que estava do seu lado porque vocês estão se pegando.
- Nós nã-
- Sério que você vai mentir na minha cara, ? – me interrompeu, rindo.
- Eu não... – sacudi a cabeça. – Como é que você...?
- Como eu sei? Sério, ? Você e o são péssimos em disfarçar as coisas. Quase dá para ver os coraçõezinhos flutuando ao redor de vocês.
- Pare de exagerar! Nós não somos tão melosos assim.
- Não. Na verdade vocês são sim – paramos em um semáforo e ele olhou para mim com um sorriso esperto. – E você está confessando então? Que vocês dois são um item agora.
Não tínhamos certeza se éramos um “item”. Definitivamente não éramos oficiais. Pensei por um segundo antes de responder:
- É. Nós estamos... juntos.
- SABIA! – bateu a mão no volante, rindo. - me deve 50 pratas.
- Vocês apostaram se e eu iríamos ficar?
- Claro que não, . Isso já era óbvio. Nós apostamos se demoraria mais de um mês.
Senti-me ofendida.
- Vocês acham que eu sou fácil?
Sua expressão se fechou no mesmo instante em que aquelas palavras deixaram minha boca.
- Acho que essa foi uma das maiores besteiras que já ouvi. Nós apostamos porque, como já disse, a química entre vocês é muito visível. Dá para perceber de longe.
Fiquei bem mais aliviada com aquela explicação.
- Hmm. Entendi.
- E vocês formam um casal bonitinho. Meloso, mas bonitinho – deu uma piscadinha.
Bati minha mão em seu ombro, sorrindo.
- Vira para frente e dirige porque o semáforo já está verde.
Ele obedeceu, mas claro que tinha que fazer mais um comentário espertinho:
- Você é mandona assim com o teu homem?
- Vai a merda.
- Ok. Ok – gargalhou outra vez.
Os poucos segundos de silêncio confortável foram quebrados por :
- ?
- Oi?
- Será que dá para você terminar a história antes de chegarmos em casa?
- Ah! Verdade. Tinha esquecido.
- Porque não é você que está curioso.
Ignorei seu resmungo infantil e contei o que tinha acontecido ontem.
- Acredita?! – perguntei ao terminar meu relato. – Foi como entrar direto em uma briguinha de jardim de infância.
- Isso explica porque estava tão bravo.
- Falando em , por que ele não veio me buscar hoje?
- Por que, ? Eu não sirvo mais? – fingiu-se de ofendido. – Não esperava isso de você! Arrumou um cara e esqueceu-se dos amigos.
- Limite-se a responder a pergunta, – ri.
- Nós estamos finalizando as últimas reuniões para começar as gravações mais cedo. e ele estão lá agora.
- E vocês estão animados para gravar?
- Muito. Estamos tendo várias ideias para umas músicas novas.
virou a última esquina antes do nosso prédio.
- Isso é ótimo.
- Seu querido está participando muito desse processo.
- Sério? Que bom!
abriu a garagem do prédio e colocou o carro na vaga.
- Está cheio de inspiração e de tes-
Dei um tapa em sua nuca antes que ele terminasse a frase.
- Cadê o respeito?
- Desculpe, – passou a mão pelo cabelo, um sorrisinho envergonhado. – Estou passando tempo demais com .
- Percebo.
me ajudou a sair do carro e me acompanhou até em casa, mas recusou o meu convite para entrar porque precisava resolver algumas coisas da banda. Ao abrir a porta, quase perdi o equilíbrio quando pulou na minha frente, me assustando.
- Mas que porra foi essa? Quer me matar?
Essa parecia estar sendo a ideia do dia.
- ! Foi mal. Foi péssimo. Desculpe. Eu não tive a intenção – ele falava bem rápido. – Eu só queria-
- Calma! – interrompi seu discurso afobado. – Respire fundo e comece de novo.
- Certo - inspirou uma lufada de ar. – Como foi seu dia? – abriu um sorriso de falsa inocência.
- Sério? É isso que você tem para me falar?
Revirei os olhos e passei por ele, indo para meu quaro. Pelo jeito o pedido de desculpas que esperava teria que ser adiado por mais um tempo. Cambaleei de novo quando, mais uma vez, bloqueou meu caminho.
- ! Espere! Eu queria... – coçou a nuca, desviando os olhos dos meus para o chão – queria me desculpar por ontem à noite. Por ter deixado sua amiga me irritar ao ponto de cair nas provocações dela e estragar nosso jantar.
Engraçado como suas palavras eram semelhantes as de Lorelai.
- Eles eram meus convidados, ! Eu sei que essa não é realmente a minha casa e talvez eu devesse ter pedido sua permissão antes de chamá-los para vir aqui, mas eu conversei com e ele disse que não tinha problema. E você fez com que eles se sentissem como intrusos. Fez com que eu me sentisse uma intrusa – confessei, baixinho.
Não tinha falado isso nem para e não sabia ao certo porque estava contando isso a . Acho que ele precisava saber que me magoou, mesmo que não soubesse realmente o quanto doía e o quão fundo ele tinha cortado. Quem sabe assim as coisas melhorassem.
- Não, não, não! Oh meu Deus! Não. Não – colocou as mãos sobre meus ombros. – Você não precisa pedir permissão para chamar quem você quiser para vir aqui. Essa é a sua casa também e eu sinto muito se fiz você se sentir como se não fosse bem-vinda. Me comportei como um idiota e me arrependo. Por favor, por favor, sis, você pode me perdoar?
Pretendia passar mais um tempo torturando-o, mas nunca o vira tão sério e seu arrependimento era genuíno.
- Ok – assenti, devagar. - Mas promete isso não vai se repetir?
- Prometo – desenhou um X com o dedo sobre o coração.
- E promete não discutir de novo com Lorelai?
- Prometo tentar.
Arqueei a sobrancelha.
- Ah, ! Ela provoca.
- Tudo bem. Você tem razão nesse ponto.
- Estamos bem então? – perguntou, incerto, mexendo os pés nervosamente.
Não queria mentir e, por isso, considerei sua pergunta por um instante ou dois. Sim, o que ele fez doeu, mas não queria guardar mais magoa pelo mesmo motivo. Isso era tóxico. Também havia o fato de que havia pedido desculpas, diferentemente dos outros e, se havia perdoado Lorelai, seria incoerente não perdoá-lo também – mesmo que as porções de culpa não fossem iguais.
Soltei o ar pesadamente.
- Sim, estamos bem.
me abraçou da melhor maneira possível.
- Não quero brigar de novo, sis.
- É só você se comportar.
Mesmo ao dizer aquelas palavras já sabia o quão improvável elas eram, mas amizade era isso e não iria fingir que eu era perfeita e não errava. Talvez eu estivesse exagerando um pouco. Não era como se ele fosse o responsável pela II Guerra Mundial ou alguma coisa assim. Chegando a conclusão de que provavelmente estava mesmo exagerando, decidi fazer uma oferta de paz:
- Quer assistir a um filme?
- Adoraria – sorriu, aliviado.
Foi em direção a prateleira cheia de DVDs.
- O que você quer ver?
- Qualquer coisa. Escolhe você.
escolheu uma comédia qualquer e nos sentamos no sofá para assistir. Estava na metade final do filme quando a porta se abriu e passou por ela. Ele estava ainda mais gostoso do que o normal. Sua calça era de um jeans escuro, uma blusa azul por baixo de jaqueta de couro preto e tênis brancos completavam o visual. Tive que controlar o suspiro quando ele sorriu pra mim e murmurou um “hey” enquanto passava os dedos sobre seus cabelos já bagunçados. E lá estava de novo aquela eletricidade que flutuava entre nós, mas dessa vez ela durou bem menos já que resolveu nos interromper:
- E eu também não ganho um “oi”, ? – falou com a voz melosa enquanto batia os cílios repetidamente.
- – resmungou o cumprimento. – Vejo que vocês se acertaram – comentou, tirando a jaqueta e jogando-a sobre o encosto de outro sofá.
acenou freneticamente enquanto eu apenas sorria.
- Que bom. Muito bom. Mas você não se esqueceu de nada, ?
franziu o cenho e depois olhou para mim, uma interrogação em seus olhos. Dei de ombros.
- Você e tem a reunião em meia-hora. Lembra?
Ele nem respondeu na pressa de sair correndo porta a fora.
- É. Eu acho que ele esqueceu – ri.
gargalhou também, se aproximando. Ergui a cabeça e ele se abaixou, colocou uma mão de cada lado do meu rosto e me deu um beijo calmo e doce.
- Fiquei com saudades – sussurrou contra meus lábios.
- Eu também.
Sentou-se ao meu lado, sorrindo, mas podia ver as linhas de cansaço em seu rosto. Afastei-me um pouco, sentando na outra ponta do sofá. se virou para mim e olhou para o espaço entre nós e depois de novo para mim com a expressão perdida. Contive uma risadinha e a vontade a apertar suas bochechas. é totalmente adorável.
- Vem – bati as mãos no colo. – Deita aqui.
- Cafuné? – seus olhos brilharem com a possibilidade.
- Cafuné.
abriu um sorrisão e fez o que eu disse.
- Como foi seu dia? – perguntou quando já estava acomodado em meu colo e eu passava as mãos por seu cabelo macio.
O rosto da garota da faculdade passou por minha mente por um segundo, mas a possibilidade de contar aquele ocorrido para era nula. O problema era meu e eu o resolvi. Com a ajuda de Lorelai, é verdade, mas era diferente. E, mesmo que a situação diretamente estivesse relacionada a ele, ainda era um problema meu.
- Normal – respondi baixinho. – E o seu? – queria tirar o foco de mim.
ronronou alguma coisa ininteligível e tive que pedir para que ele repetisse.
- Disse que está muito melhor agora.
Aquele estalinho agradável no peito se fez presente.
- Bobo.
Me abaixei com a finalidade de dar-lhe um selinho, mas tinha outros planos e colocou a mão sobre a minha cabeça, me mantendo no lugar para um beijo mais longo. Esse foi mais quente – movia seus lábios devagar sobre os meus, sugando-os calmamente antes de aprofundar o beijo. Não resistindo a tentação, deslizei pequenos beijos por sua bochecha até chegar a sua orelha e mordiscar seu lóbulo, ganhando um gemido rouco e um suspiro de satisfação. Com um sorrisinho, voltei a me endireitar, encostando-me no sofá.
- Volta aqui, – resmungou, ainda de olhos fechados.
- , você está exausto. Durma um pouco.
- Mas eu quero falar com você – protestou enquanto reprimia um bocejo. – Eu quero... ficar aqui com você – as palavras ficavam cada vez mais espaçadas e lentas.
- Eu vou estar aqui quando você acordar – murmurei, continuando o cafuné do jeito que sabia que ele gostava.
- Promete? – sussurrou, já meio dormindo.
- Prometo.

xxx

Andava o mais rápido possível para fora da faculdade. Estava sendo impossível me manter no horário nesses últimos dias. Ontem não cheguei a tempo de assistir a primeira aula e hoje estava atrasada para ir para casa. Justo no dia em que viria me buscar.
Porra. Maldito professor de fármaco.
Só esperava que ele tivesse bom-senso o suficiente para ficar dentro do carro senão os jardins da faculdade virariam um circo com garotas desesperadas se amontoando ao redor dele. Garotas furiosas que provavelmente me odiariam. E eu já tinha atingido minha cota de drama essa semana.
A boa notícia era que, quando finalmente cheguei onde costuma estacionar seu carro, pude ver que ele estava dentro do carro. A má notícia era que Lorelai estava inclinada na janela do motorista conversando com ele e eu não conseguia imaginar como aquilo poderia não levar a um desastre. Apressei ainda mais o passo.
Para reforçar meu mau pressentimento, assim que entrei no campo de visão dos dois, eles se calaram.
- Oi – cumprimentei, chegando ao lado da minha amiga. – Aconteceu alguma coisa?
Estava ficando preocupada com as expressões fechadas dos dois.
- Alguma coisa errada? Não. Claro que não. – Blake forçou um sorriso. – Estava passando e vi Nick sentado aqui sozinho. Não pude deixar de falar um oi.
Arqueei a sobrancelha. Essa baboseira não era nem ao menos razoável quanto mais crível.
- Então. Preciso ir agora. Até depois, . Nick – acenou já se distanciando.
Dei a volta no carro e entrei no banco do passageiro. ligou o carro e acelerou para longe do estacionamento em nenhum momento se virando para me encarar.
- Hey. Tá tudo bem? – fiz um carinho em seu ombro.
Senti seus músculos ficarem ainda mais tensos.
- Sim – falou, seco.
- ? Que foi?
- Agora não, . Em casa a gente conversa.
Mordi o lábio inferior para manter as perguntas em minha boca. Ele já estava descontente e isso era visível pela maneira como suas mãos apertavam o volante com força. Não queria irritá-lo ainda. O carro já rodava rápido, e velocidade e irritação nunca eram uma combinação agradável. O silêncio tenso se manteve durante todo o caminho até em casa – inclusive enquanto estávamos no elevador. Ele me conduziu até meu quarto e se virou para mim, muito sério, os braços cruzados depois de fechar a porta.
- , você não tem nada para me contar? – sua voz estava inflexível e seu rosto, inescrutável.
- Não – respondi sem hesitar.
Será que ele estava pensando que eu o traí ou alguma coisa assim?! Não estava entendo a situação toda.
- Então nada aconteceu ontem? Nada importante?
E de repente eu sabia exatamente a que ele se referia.
Porra, Lorelai! Será que ela não conseguia manter sua boca fechada?!
- Não foi nada.
- Como não foi nada, ? - a calma deu lugar à raiva e ele deu alguns passos em minha direção. – Você quase apanhou por minha causa e não foi nada?!
Apertei a ponte do meu nariz, olhando para cima. Agora era eu quem estava ficando brava.
- Eu não iria apanhar. Sei me defender.
- É. Lorelai falou sobre isso. Disse que você pode se defender, mas que não tem experiência real com isso. Só treinos. E ainda está com a perna quebrada então, por favor, me esclareça como exatamente você iria se defender – começou a andar de um lado para o outro.
- Daria um jeito, . Eu sempre dei um jeito.
- Entendi essa parte. Estou querendo saber é como você faria isso!
- Por que você está levantando seu tom de voz para mim, hein?! Isso nem é assunto seu.
- O quê? – soltou uma risada descrente e passou a mão sobre o cabelo. – Não é assunto meu? Você quase apanhou de uma fã minha. Não vejo como isso poderia ser mais assunto meu.
- Por que você está tão bravo?! E se eu tivesse te contado? Que diferença isso faria?
Voltou a se posicionar na minha frente, estava furioso. Sua respiração saia em ondas. Ele se abaixou até que seus olhos ficaram no nível dos meus.
- “Que diferença isso faria?!” – cuspiu, indignado. – Em primeiro lugar: confiança. E em segundo, o problema não era só seu. Você não tinha o direito de me excluir!
- Te excluir?! Isso não tem nada a ver com você! O problema era meu – bati a muleta no chão, com raiva. – E eu resolvi. Como sempre fiz.
Ele olhou para o teto, como se pedisse paciência aos céus e passou a mão sobre o cabelo outra vez. Talvez tivesse percebido o quão exaltado nós dois estávamos. Não que eu não tivesse essa ciência, mas não conseguia me acalmar – por mais que me esforçasse. Ele havia tocado num ponto sensível. Quando voltou a olhar para mim, realmente estava mais calmo. Um autocontrole que eu achei impressionante – ainda mais ao lembrar o que Kristine falou sobre como ele perdia o filtro entre o cérebro e a boca quando ficava irritado.
Seu tom saiu mais suave:
- Eu só estou tentado te proteger, amor – colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. – Você é importante para mim.
Senti meu corpo ficar imóvel enquanto um formigamento esquisito se espalhava por meu corpo. Meus lábios se colaram um no outro e tive que me esforçar para conseguir separá-los a fim de sussurrar:
- Do que você me chamou?



Capítulo Dezoito

Surpresa se espalhou por seu rosto.
- E-eu... o que você disse? – pude ver que estava genuinamente confuso.
Passei a língua sobre meus lábios secos.
- Perguntei do que você me chamou? – minha garganta continuava árida.
ainda não tinha se mexido, estava quieto e só me encarando. Claramente o próximo passo teria que ser meu se quisesse respostas.
- Eu ouvi... eu... você me chamou de a-
A palavra ficou presa. Não conseguia continuar a frase. Sentia-me patética e pequenininha com o coração ainda disparado e a respiração descompassada.
E assustada. Estava assustada com minha própria reação.
Felizmente não precisei dar explicações mais elaboradas, pois entendeu o que eu queria dizer. E agora ele parecia ainda mais chocado.
- Eu disse isso alto? – sussurrou.
Assenti, devagar, meu olhar nunca abandonando o dele.
De pálido, passou a corado de vergonha. Ele olhou para o alto por uns segundos e depois para mim outra vez – quase como se esperasse que eu e minha pergunta inconveniente tivéssemos desaparecido.
Cruzei os braços.
Mais sorte da próxima vez, rapaz. Eu não sairia dali sem uma explicação.
Ele engoliu em seco antes de finalmente recomeçar a falar, titubeando entre uma palavra e outra:
- Eu... eu não sabia que.... eu não pretendia... – olhava para qualquer lugar menos para mim enquanto coçava a nuca e lutava para colocar algum nexo em suas frases.
Um peso desconfortável se instalou sobre meu peito. Se é que era possível, estava mais perdido do que eu. Agora não se tratava mais de mim.
Queria respostas? Sim. Mas havia coisas mais importantes no momento.
Dei um passo a frente e coloquei as mãos sobre suas bochechas, forçando-o a abaixar a cabeça para me olhar.
- Hey – falei, baixinho. – O que aconteceu? Conversa comigo.
Ele cobriu uma das minhas mãos com a sua e soltou o ar pesadamente.
- Há alguns dias eu comecei a te chamar assim na minha mente. E ficava me controlando para não falar em voz alta. Não queria te assustar, . Só que dessa vez... escapou. Talvez porque eu estivesse assustado. Não sei. Eu realmente não sei. Desculpe – desviou o olhar de novo e soltou uma risadinha sem-graça. – Pareço um idiota.
Minhas mãos se relaxaram sobre seu rosto enquanto era assaltada pela surpresa de novo.
Ele me chamava assim em pensamento? Aquela ideia era totalmente inesperada. As coisas estavam mais confusas agora do que há alguns minutos. Precisava de um tempo para analisar aquilo, para decifrar o sentido escondido ali.
Talvez, contudo, eu estivesse exagerando afinal era uma pessoa calorosa. Talvez fosse assim que chamasse todas as suas amigas mais próximas. Descartei essa teoria idiota quase que imediatamente. Só estava tentando me enganar. Sabia que ele não chamava qualquer um assim, que era uma coisa especial. Mas então isso significava...
Sacudi a cabeça discretamente. Havia mais a se considerar do que apenas a minha vontade de correr para um lugar seguro e dissecar cada pequena ação que havia nos levado aquele momento.
Também existia a possibilidade de que eu fosse uma maluca que não entendia muito bem a dinâmica de um relacionamento saudável - se bem que aquilo não era nada oficial. Nós não éramos oficiais. Mesmo que estivéssemos acabado de entrar em uma fase de apelidos carinhosos e melosos.
Engoli todas as minhas dúvidas e perguntas. Elas poderiam ficar para depois. Agora precisava de conforto e nós dois precisávamos conversar.
Segurei sua mão e o levei até que nós dois estivéssemos sentados em minha cama.
- Hey – chamei, baixinho e ele finalmente voltou a olhar para mim. – Tá tudo bem. Você... você pode me chamar assim se quiser.
- Não precisa ficar com pena de mim, . Não vai acontecer de novo – tentou se levantar, mas segurei firme suas mãos, empurrando-as para baixo para tentar impedi-lo de se mexer.
- Deixa de ser bobo – falei, firme. – Ninguém está com pena de ninguém.
- Ah, ! Eu não sou idiota. Está na cara que você ficou desconfortável.
- Não é isso... – mordi o lábio inferior pensando em como explicar. – É só que ninguém nunca me chamou assim.
“Querida” e “linda” sim, é claro. Afinal não era inexperiente no que diz respeito ao sexo oposto, mas nunca tinha ficado tempo o suficiente com alguém para ouvir aquele tipo de apelido. Não que e eu estivéssemos juntos por muito tempo. Bem, honestamente estávamos juntos há muito pouco tempo, mas o que me assustava não era o apelido, mas sim o fato de que ele não parecia esquisito. Soava natural.
Era tudo tão confuso.
- Como assim? - franziu o cenho. – Você nunca teve um namorado?
Tive que conter o riso. Mesmo em um momento delicado como aquele, conseguia ser adorável.
- Não. Quer dizer, eu já tive um namorado.
- Então por quê?
Entendia o fato de que “amor” era um termo carinhoso usado entre namorados e entendia a curiosidade dele. O que me intrigava era o porquê de ele não perceber que aquele era um assunto delicado e deixar para lá.
- É... complicado.
Minha pobre tentativa de explicação pareceu irritá-lo.
- “Complicado”? Outra vez essa é a sua resposta? – desentrelaçou nossas mãos e se levantou. – Você nunca me conta nada. “Isso é complicado” é sempre sua resposta para tudo.
Senti como se um balde de água fria tivesse sido virado sobre minha cabeça. Agora não estava mais perdida, confusa ou surpresa. Estava tão ou mais irritada do que .
Ele até mesmo teve o nervo de afinar a voz em uma porca imitação do meu tom.
- Não sabia que isso te aborrecia tanto! – sibilei, me afastando também. – Que pesava tanto para você. Se é assim por que nós nã-
- Não! – me interrompeu, taxativo. – Nem vem querendo pular fora do que nós temos. Eu não vou deixar.
- E o que nós temos, hein? Alguns beijos escondidos e discussões! – sabia que estava falando besteiras e sendo mesquinha, mas não conseguia evitar.
Isso era tudo culpa dele. Se não tivesse insistido nesse assunto imbecil sobre a garota na faculdade, nós não estaríamos brigando.
- Não estou acreditando no que estou ouvindo. Não se atreva a diminuir o que temos! – agora estava ficando vermelho de raiva
- Você não manda em mim – resmunguei infantilmente, erguendo meu queixo.
– Isso está ficando ridículo e estamos nos desviando do que realmente importa.
Nisso eu tinha que concordar. Estávamos brigando por tantas coisas que já tinha perdido o foco principal da conversa.
Respirei fundo, tentando me acalmar e vi fazer a mesma coisa.
- Sinto muito – murmurei, desviando o olhar para o chão e esperando que ele entendesse que estava me desculpando pelo comportamento infantil há pouco.
Senti o colchão afundar quando voltou a se sentar ao meu lado.
- Me desculpe também – passou o braço pela minha cintura e me puxou para mais perto de si. – Não tinha o direito de te pressionar. Não precisamos conversar sobre isso se não quiser.
Ele estava disposto a ceder um pouco e parte de mim quis aceitar aquela concessão e deixar por isso mesmo, mas não era justo. Se quisesse que as coisas funcionassem entre nós, não poderia só receber, teria que colaborar também, precisava ceder e foi por isso que comecei a falar, baixinho:
- Não é que eu não queira te contar – olhava para minhas mãos. – É que às vezes nem eu mesma entendo. É verdade que ninguém nunca me chamou assim porque nunca deixei ninguém chegar tão perto. E agora a gente tem uma coisa tão boa entre nós, mas parece tão cedo e rápido que... não sei... – cortei a frase.
Não queria admitir que estava assustada.
me apertou ainda mais contra si.
- Também me assusto – murmurou contra meu cabelo como se lesse meus pensamentos. – Parece que a gente se conhece faz tanto tempo.
Assenti quase que imperceptivelmente. Concordava com ele.
- Por mais cafona que isso possa parecer, eu-
- Deve ser cafona mesmo para até você admitir que é cafona – não pude evitar o comentário acompanhado por uma risadinha quando ele soltou um muxoxo indignado.
- O que você quer dizer com isso, senhorita espertinha? – apertou meu nariz de leve.
- Nada não. Continue a história.
- Ahan. Sei que não é nada. Mas, como estava dizendo, aquele dia, no hospital, quando nos conhecemos, pareceu... pareceu que não era a primeira vez que eu te via, sabe?
Aquele era o clichê dos clichês, mas me tirou as palavras porque tinha pensando a mesma coisa a primeira vez que seu olhar cruzou com o meu naquele dia. Era muita informação para um dia só. Virei um pouco a cabeça e afundei meu rosto em seu peito, inspirando profundamente aquele perfume delicioso dele enquanto meu braço se enrolava ao seu redor.
- Sei – sussurrei, minha voz saindo ainda mais baixa por se abafar contra sua camiseta.
Por um segundo pensei que ele não tinha ouvido minha resposta, mas me apertou de maneira reconfortante e falou:
- Nós podemos continuar esse assunto depois. Mas não dá para ficar adiando a conversa que estávamos tendo antes.
Reprimi uma revirada de olhos. Estava esperando que ele tivesse esquecido esse incidente, mas era óbvio que não era meu dia de sorte. Felizmente agora estava mais calma para lidar com o problema em questão.
Na verdade estava exausta demais para outra briga. Virei a cabeça, dessa vez encostando minha orelha contra seu peito. As batidas do coração dele ressoavam em meu ouvido enquanto aguardava sua pergunta.
- Por que você não me contou? – sua mão acariciava meu braço.
- , eu já disse. Era um problema meu. Eu sempre resolvo meus problemas, sempre foi assim.
- Se é mesmo assim, por que Lorelai sabia? – seu tom não era de acusação, ele estava simplesmente anunciando um fato.
- Porque ela é intrometida – brinquei.
- Isso nós já sabíamos.
Soltei uma risadinha.
- Não. De verdade. Ela estava lá quando aconteceu. Ela interviu.
Assim como tia Claire. E era exatamente por isso que não ficava brava com ela - porque inconscientemente estava comparando-a a minha tia.
- É? Por que segundo minha fonte, Blake salvou sua vida.
- Ela te disse isso? – levantei a cabeça, indignada, para encontrá-lo olhando para baixo, para mim, com um sorriso divertido.
- Disse sim – assentiu. – Se me lembro bem, as palavras exatas foram – ele limpou a garganta antes de começar uma imitação bem decente do tom agudo que Lorelai adota quando está brava - “Carter, eu sei que, por algum motivo além da minha compreensão, você tem milhões de fãs e isso é problema seu... ou delas, ou dos pais delas. Sei lá. Mas quando elas surtam, ainda mais do que o normal, e atacam fisicamente minha melhor amiga, aí o problema passa a ser meu. E você decididamente não vai gostar da maneira como eu lido com meus problemas. Não vai ser discreto e não vai ser bonito. Então você dê um jeito nisso antes que tenha que salvar outra vez.” Aí ela olhou bem nos meus olhos, me deixando meio assustado confesso – voltou a seu tom normal para acrescentar esse detalhe –, e disse “estamos entendidos, Nick?” e quando concordei com a cabeça, porque estava sem palavras para responder, ela deu dois tapinhas no meu ombro e murmurou “ótimo. Não queria ter que quebrar o seu braço também”.
Quando terminou de falar, muitas coisas passaram por minha cabeça tais como o fato de eu precisar ter uma conversa séria com minha amiga sobre aquela tendência dela de ameaçar pessoas, mas acabei falando:
- Como você consegue se lembrar de tudo isso?
arqueou a sobrancelha, incrédulo.
- Sério? De tudo o que eu acabei de falar você se apega à minha habilidade de memorizar as coisas?!
Fui obrigada a concordar. Minha colocação foi ridícula. Comecei a rir e afundei meu rosto em sua blusa, meu corpo sacudia com gargalhadas. Senti a mão dele passear por meu cabelo enquanto algumas gargalhadas roucas também vertebraram por seu peito.
- Você é impossível, .
- Ai! Desculpe, desculpe – murmurei quando consegui me controlar, afastando-me outra vez. – Você tem razão – deslizei meus dedos por meu cabelo, tentando ajeitá-los. – Lorelai é meio exagerada – falei, torcendo para que essa explicação ridícula fosse o suficiente.
- ... – chamou em tom de aviso.
- Tá bom. Tá bom. Você venceu. Vou te contar o que aconteceu. Que chatice! – resmunguei baixinho.
- Eu ouvi isso.
Revirei os olhos.
- Não pressione a sorte – grunhi. – Então, ontem eu perdi a hora e cheguei atrasada na faculdade e essa garota me empurrou e começou a falar que eu tenho que ficar longe de você porque você é dela e mais algumas bobeiras desse tipo. Ela levantou a mão para me bater, mas Lorelai chegou antes e... lidou com a situação. Mas se ela não tivesse aparecido eu teria dado um jeito.
- Ahan. Acho que já estabelecemos essa parte em que você mesma lida com seus problemas.
Ignorei seu tom sarcástico e a revirada de olhos.
- Que bom então. Porque é a verdade – reafirmei teimosamente.
- Certo, certo. Mas você tem que concordar que essa situação em especial também me diz respeito, não é mesmo?!
Respirei fundo e apertei minha mão sobre o tecido de sua blusa.
A palavra “ceder” ecoou algumas vezes em minha cabeça, me influenciando e quando abri a boca foi para murmurar um relutante:
- É.
- Então se outra coisa desse tipo acontecer você vai me contar?
- Tá. Eu conto. Se você concordar que isso não foi culpa sua.
- Como você... – sua voz foi abaixando até desaparecer.
- Como eu sei que você está se culpando? Está escrito por todo o seu rosto – deslizei meu polegar sobre seus lábios lentamente, nossos olhares fixos um no outro. – Não foi culpa sua. Eu não te culpo e você também não deveria se culpar.
soltou o ar pesadamente e assentiu, mesmo visivelmente contrariado.
- Feito. É um trato então.
Até que tinha saído daquela situação embaraçosa mais fácil do que pensei.
- Ótimo. Agora vem aqui para a gente selar isso – segurei em seu colarinho e o puxei para baixo, colando sua boca na minha.
Senti sorrir contra meu lábios antes de sua mão se enroscar em meu cabelo e guiar minha cabeça a fim de que ele pudesse aprofundar o beijo. E mais uma vez os arrepios tomaram conta da minha pele e todas as preocupações desapareceram por um tempo e tudo que importava estava ali, me aconchegando em seus braços.

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- Sabe o que eu aprendi com tudo isso?
falou, interrompendo a quietude na qual assistíamos ao filme Busca Implacável deitados em minha cama. Seu braço servia como meu travesseiro e eu o abraçava pela cintura. Um cobertor estava jogado sobre nós. Estava contente e quentinha. Quase valia a pena brigar para ter uma recompensa como essa.
- Não sequestrar a filha de um ex-agente secreto? – perguntei, distraída, ainda olhando para a tela.
soltou uma risada rouca.
- Não, . Aprendi que não quero fazer parte da Lista Negra Blake.
Foi minha vez de rir. Virei a cabeça, esquecendo o final do filme e apoiando o queixo sobre seu tórax.
- De onde surgiu isso?
- Só estava pensando aqui. Aliás como foi que ela aprendeu a brigar?
- A tia dela é ex-agente do Mossad.
- De onde?
- Serviço secreto israelense.
- Nossa! – soltou um assovio admirado. – Definitivamente assustadora.
- Ela me ensinou uns golpes. Disse que eu deveria saber pelo menos o básico para me defender – dei de ombros e voltei a me deitar.
- Bom – buscou minha mão com a sua e entrelaçou nossos dedos. - Fico menos preocupado assim.
Meu coração sofreu um solavanco. sempre sabia o que dizer para me fazer sentir como uma boba.
- Falando em preocupação, , você tem conversado com esses dias? – perguntei, tentando soar casual.
- Não – suspirou. - Eu tentei, mas ele está evitando todo mundo.
Esperava que ele não dissesse isso. Torcia para uma resposta que envolvesse “sim, conversei e está tudo bem”, assim não teria que colocar em prática a resolução na qual cheguei depois de muito pensar no outro dia. Não queria dar uma de fofoqueira e repassar a informação que me confiou, mas estava ficando sem opções. Depois daquele dia em sua casa, tentei conversar com ele sobre aqueles problemas e se recusou. Tentei de novo e ganhei outras recusas com um “já estou resolvendo tudo, ” de brinde. Quisera ficar satisfeita com aquilo, contudo era óbvio que as coisas não estavam se resolvendo e ele só estava tentando fugir do assunto.
Não gostava de me intrometer na vida alheia, mas estava na hora de uma intervenção e eu não conseguiria fazer isso sozinha.
Observei meus dedos brincarem com os dele, pensando nas palavras certas.
- , aquele dia em que fomos buscar pizzas, enquanto você ajudava Kristine com as malas dela, os meninos pediram para eu ir à casa de para conversar. E ele me contou o porquê de estar tão preocupado. Você ficou sabendo que ele e Kim terminaram?
- Ele comentou vagamente sobre isso semana passada.
- Então. Ele falou sobre isso, mas minha intuição me diz que seu comportamento esquisito tem mais a ver com o casamento.
- Sua intuição? – riu.
- Deixa de ser bobo – deu um cutucão nas suas costelas e ele gemeu de incômodo.
- Peraí! Que casamento? Kim vai casar? Por isso eles terminaram?! – ofegou, surpreso. – Isso é terrível! A garota terminou com ele para casar com outro! Pobre – disparou em um tom que misturava pesar e raiva. – Eu preciso ir lá! Dar apoio.
Tentou se levantar, mas o empurrei para que voltasse a se deitar.
- ! Meu amigo precisa de mim!
Revirei os olhos.
- Agora você está sendo só burro mesmo, – me acomodei outra vez contra seu tórax. – É óbvio que Kim não vai se casar. Isso não tem nem lógica!
- Não? Mas então o que um casamento tem a ver com o fim do namoro de ? E com o fato de ele estar de péssimo humor nesses dias?
- Eu teria contando se você não tivesse me interrompido com suas teorias idiotas.
soltou um muxoxo indignado e resmungou:
- Desculpe, vossa alteza. Por favor, continue a sua tão estimada história.
Dei um beliscão em sua mão por seu comentário espertinho antes de entrelaçar nossas mãos novamente.
- O senhor vai casar de novo com a mãe de uma ex dele e-
- Papa vai casar com a mãe da Kim! – falou, horrorizado.
Revirei os olhos, suspirando.
- Francamente, . Eu fico cada vez mais admirada com essa sua genialidade. Você deveria escrever uma novela das nove.
- Novela das nove? Que diabos é isso? – perguntou, curiosidade em sua voz.
- Coisa brasileira. Depois te explico. Agora vamos focar nos fatos importantes. O senhor vai casar com a mão de uma ex-namorada dele que não é a Kim.
- Ah! Entendi. Isso faz bem mais sentido.
- Não diga – ironizei.
- Você está cheia de respostas espertinhas hoje, não é mesmo, dona ?
Fui idiota o suficiente para ignorar o aviso em sua voz e soltar outra daquelas retrucadas da qual ele falava:
- Não precisa de muito esforço para ser mais esperta que você.
- Agora estou ofendido – falou em um falso tom magoado. – Isso merece uma revanche – completou, imediatamente começando a fazer cócegas em minha barriga.
Em meio a gargalhadas que não podia conter, tentava me desvencilhar, mas era muito mais forte e mais rápido, mesmo tomando todo o cuidado necessário para evitar a perna engessada.
- Pare com isso. Pa-pare! – exclamei entre uma risada e outra.
abriu um sorriso enorme antes de finalmente parar.
- Sua esperteza não te salvou agora, não é mesmo, espertinha?
- Bobo – empurrei-o de leve pelo ombro. – Mas, sério, vamos voltar ao assunto .
- Eu não sei o que fazer, linda – passou o braço sobre meus ombros.
- E eu que não sabia nem o que dizer quando ele me contou?! – resmunguei, voltando a me aconchegar em seu abraço.
- Mas você realmente acha que tem a ver com isso?
- Por quê? Você acha que pode ser outra coisa? Alguma coisa com a banda?
Ele ficou em silêncio por um momento, pensando.
- Não – falou com sinceridade. – Não tem nada de errado com a banda.
- Fãs?
se retesou imediatamente e quis me chutar por ser descuidada e trazer aquele tópico de novo. A fim de distraí-lo, virei a cabeça e distribui alguns beijos castos por seu pescoço até sentir que ele relaxava.
- Não. Está tudo muito calmo ultimamente. Até mesmo as revistas parecem mais preocupadas com você do que conosco.
Revirei os olhos.
Ótimo saber disso, . Fico muito tranquila com toda essa atenção midiática.
- Então, eliminando o aspecto trabalho só sobra outros dois: família e vida amorosa. E parece que esses dois de juntam na questão do casamento – conclui. – Será que ele ainda gosta da ex?
- Não sei – murmurou, pensativo.
- Ele já falou para vocês sobre ela?
- Não. Pelo menos não para mim. Acho que você deveria falar com ele.
- Eu? – perguntei, surpresa, levantando a cabeça para encará-lo.
- Você, claro. Não é você que é a esperta dessa relação? – apertou meu nariz de leve, caçoando.
- Claro que eu sou, mas você é amigo dele há muito mais tempo – apontei o óbvio e voltei a me deitar contra seu pescoço.
Aquele lugar estava rapidamente se tornando meu lugar favorito no mundo.
- Tá bom. Eu vou – resmungou.
Contive uma risadinha. Nem precisei insistir muito.
- O problema é como vamos abordar o assunto.
- “Abordar o assunto”? – segurou meu queixo e me virou em sua direção. – Já te disse o quão bonitinho é esse seu jeito de falar difícil? – bateu seus lábios de leve nos meus e estava sorrindo quando se afastou. – Mas não entendi essa sua preocupação.
Fiquei de lado, apoiando-me sobre o cotovelo para encará-lo.
- E depois você ainda tem dúvida do por que eu sou o cérebro aqui! – provoquei e ganhei um beliscão de leve na barriga. – O que estou dizendo é que você não pode chegar nele e falar “e aí, , a me contou que você tá cheio de problemas. Quer falar sobre isso?” – engrossei a voz e passei a mão pelo cabelo do jeito que costuma fazer.
fechou a cara e resmungou:
- Eu não falo assim e nem faço isso – apontou para o meu cabelo.
- Claro que não faz – revirei os olhos.
- E por que não podemos contar para ele que você em contou?
- Porque assim ele não vai me contar mais nada, vai se fechar ainda mais em si mesmo.
- Ah! Você tem razão – ficou em silêncio por um segundo, pensativo. – Que tal se nós o embebedássemos? Ele é um bêbado falante.
- Até que essa não é uma má ideia. Mas precisa ser só você. Ou você e o . Se eu estiver junto depois ele pode ficar chateado comigo por não tê-lo impedido de falar.
- É. Acho que você está certa.
- Meu bem, eu estou sempre certa.
puxou uma mexa do meu cabelo de leve.
- Você parece a Kristine falando assim.
Soltei o ar pesadamente e olhei para o lado.
- Você ainda está com ciúmes dela?
- Não – lati.
- Está sim – gargalhou.
- Calado – belisquei seu braço.
- Linda – entrelaçou os dedos em meu cabelo e me puxou para si, virando um pouco o corpo de modo a me empurrar de costas no colchão e ficar parcialmente sobre mim, sua perna no meio das minhas.
mordiscou meu lábio inferior e daí desceu beijos por minha bochecha e depois por meu pescoço, onde se ocupou de distribuir beijos mais fortes - que logo se tornaram chupões. Mordi o lábio inferior, tentando conter um gemido. Deslizei as mãos por suas costas, segurando no pano de sua camiseta enquanto o mundo girava ao meu redor, calor me invadia e arrepios explodiam por toda a minha pele.
Qualquer pensamento que não fosse foi totalmente expulso da minha mente.
Depois de um tempo se divertindo em deixar marcas vermelhas por meu pescoço, ele voltou sua atenção para minha boca e assim passamos vários minutos. Vários calorosos minutos. Quando nos separamos, seus lábios estavam tão vermelhos e inchados como sentia que os meus deveriam estar.
- Isso é bom – sussurrei, corada.
Ele abriu um sorriso convencido de lado.
- Concordo plenamente, .
Franzi o cenho. Era esquisito ouvi-lo me chamar assim agora que tinha provado a alternativa. Engolindo um pouquinho do meu orgulho, falei:
- Prefiro “amor” – minhas palavras mal foram audíveis.
- O quê? – perguntou, confuso.
Engoli em seco. Não dava para ser tudo fácil.
- Você me chamou de – abaixei o olhar para a gola de sua camiseta, minhas mãos em seus ombros. – Prefiro quando me chama de amor.
Senti-o ficar rígido por um segundo e me enchi de coragem para olhá-lo, esperando fervorosamente que ele não me chamasse de maluca ou bipolar. E quando me fixei em seus olhos, encontrei outra vez aquele sentimento intenso que me deixava perdida. Era como se ele estivesse me falando milhares de coisas sem pronunciar uma única palavra.
- Ok, amor... – sussurrou, ainda sério. – Também prefiro assim.
Mais do que aquele apelido carinhoso, o que fez as borboletas voltarem ao meu estômago foi o fato de ele não pedisse a mesma coisa em troca. entendia que eu precisava de tempo.
- Um dia – sussurrei, torcendo para que ele soubesse do que eu falava.
E meu mundo ficou um pouquinho mais iluminado quando ele sorriu, sincero, e respondeu no mesmo tom que o meu:
- Eu sei.

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- Amor, você está com sono? – perguntou, brincando com alguns fios do meu cabelo.
- Não. Por quê?
- Nós ficamos em casa o dia inteiro. Estava pensando em dar uma volta por aí. O que você acha?
Abri um sorrisinho de lado, decidindo provocá-lo um pouco.
- Você está enjoado de mim, é isso?
- O quê? Não! Claro que não.
Soltei uma risadinha – e não me orgulho de assumir que soei exatamente igual à uma daquelas meninas bobas.
- Ah! Outra vez essa seu comentário espertinho?! – apertou meu nariz.
Sorriu, batendo sua mão para longe.
- Eu adorei a ideia. Vamos pegar um dos seus carros ridiculamente caros.
- Hey! Eu entendo da arte.
- A arte de comprar carros?
- Claro! Eles são meus bebês.
Revirei os olhos. Garotos e seus brinquedos.
- Ok. Vamos lá buscar um dos seus bebês – levantei do sofá e esperei que ele fizesse o mesmo.
- Amor, você poderia ser a mãe deles – levantou-se e passou o braço sobre meus ombros. - Já que eu sou o pai – faiscou seu sorriso para mim.
Meus olhos se arregalaram e caí na gargalhada.
- Você machuca meus sentimentos ao renegar nossas crianças, amor. Nunca pensei que seria um pai solteiro.
Revirei os olhos, ainda rindo e o empurrei para o lado a fim de colocar minha jaqueta. Saímos de casa e entramos no elevador.
- Se eu aceitar essa adoção, quando tirar o gesso vou poder dirigir nossos bebês?
Ele passou o braço outra vez por sobre meu ombro e me trouxe para o mais perto possível sem atrapalhar as muletas.
- Sua interesseira! – riu. – Não pode aceitar só pelo amor à arte?
Fingi pensar por um segundo.
- Não – respondi, rindo.
Chegamos à garagem.
- Como não, amor? Olha essas belezuras! – apontou para os quatro veículos um ao lado do outro. – Olha essa aerodinâmica – passou a mão sobre o capô de um deles, me olhando.
- Ok. Ok. Você venceu. Eu, você e sua frota de carros podemos ser uma linda família feliz.
- Você é linda! – caminhou até parar na minha frente, segurou meu rosto e me deu um selinho.
Abraçou-me pela cintura e apontou para um Porsche classic.
- Aquele ali é o mais novo, apesar de parecer maduro para a idade. Comprei faz uns três meses. Nosso primogênito é aquele – apontou para um Range Rover preto.
Estava dividida entre soltar uma gargalhada e chamar um psiquiatra.
- Okaaay... – estiquei a palavra. – Podemos ir agora? Tenho certeza que nossos bebês vão ficar bem enquanto saímos por um tempo.
- Nós vamos ter um momento diversão mamãe-e-papai? – laçou um sorriso malicioso e um olhar sacana.
Dessa vez não contive a gargalhada.
- Oh Céus! Vamos logo, Casanova.
- Ter a nossa diversão?
- Quem sabe mais tarde – dei uma piscadinha. – Agora vamos levar uma das crianças para passear.
juntou seus lábios em um biquinho de pirraça.
- Deixa de ser bobo e vamos antes que fique muito tarde. Amanhã acordamos cedo.
- Você não é divertida, – resmungou, tirando a chave do bolso e destravando o carro sedã ao lado do “primogênito”.
- Ahan. Tá.
Foi quando abriu a porta para mim que percebi uma coisa.
- Cadê sua jaqueta, ? – franzi o cenho. – Você não vai sair sem blusa. Está um arzinho frio e não quero te ver doente.
Abriu um sorrisinho sapeca.
- Isso é bom.
- Sair sem blusa? – arqueei a sobrancelha.
- Ter alguém para cuidar da gente.
Imediatamente senti minhas bochechas se colorirem.
- Eu-hmm... eu...
Eu não sabia o que dizer.
- Não mude de assunto – murmurei depois de alguns segundos, olhando para seu queixo para evitar seus olhos. – Cadê sua blusa?
Ele soltou uma risada rouca, provavelmente percebendo minha tentativa tosca de mudar um pouco de assunto.
- Tem uma aqui – abriu a porta traseira e tirou um moletom azul de lá de dentro. – Feliz? – sorriu depois de colocar o agasalho.
Assenti, colocando as mãos sobre a gola de seu moletom e o puxando para baixo a fim de lhe dar um beijo rápido nos lábios.
- Vamos logo – falei ao empurrá-lo de leve quando nos separamos.
Ele me ajudou a entrar no carro e guardou as muletas no banco de trás, rapidamente tomando seu lugar no banco do motorista. Logo estávamos rodando pelas ruas iluminadas de Londres. Entre uma esquina e outra, ao passar a marcha, a mão dele deslizou do câmbio para minha coxa. Meus olhos se arregalaram de surpresa encarando sua mão e depois me voltei para encarar seu perfil. Ele estava tenso, os olhos fixos na estrada, provavelmente com medo de que eu o estapeasse para longe. Eu, contudo, não tinha a intenção de fazer isso. Não com aqueles arrepios deliciosos estourando pela minha pele.
Sem dizer uma palavra, voltei a virar para frente, mas de esguelha pude ver um sorrisinho se formando em seus lábios.
Mais alguns minutos de carro e parou em frente a uma sorveteria. Virei em sua direção, franzido o cenho.
- Sorvete? À essa hora?
- O sorvete daqui é ótimo.
- E com esse vento gelado?
- Mas, amor... – falou, manhoso, apertando minha coxa.
- Tá bom – respondi, vencida. – Mas se você ficar doente, não me peça para cuidar de você.
E lá estava aquele biquinho de pirraça outra vez. Mordi um sorriso. Ele ficava adorável assim.
- Vai cuidar sim – se aproximou, colocou a mão na lateral do meu rosto e usou-a para me inclinar um pouco para o lado de modo eu tivesse melhor acesso ao meu pescoço, onde distribuiu alguns beijos demorados.
Tive que me conter para não ronronar.
- Tá bom. Tá bom – deslizei a mão por seu cabelo e o puxei para longe. – Eu cuido. Agora vamos antes que fique ainda mais tarde e ainda mais frio.
- Estraga prazeres – resmungou, abrindo a porta.
Esperei ele dar a volta no carro e me ajudar a sair. Já na sorveteria, me levou até uma mesa no canto e me acomodei lá, de frente para o resto da loja.
- Do que você vai querer?
- Chocolate e morango.
- Ok. Já volto – sorriu e foi para o caixa.
Observei fazer o nosso pedido e observei também, enquanto ele esperava o atendente entregar o que pedira, uma garota se aproximar. Não pude ver seu rosto, mas ela possuía um longo cabelo preto e usava uma saia minúscula e saltos enormes. Não tenho problema nenhum com minissaias e saltos altos. Eu os adoro, na verdade. Meu problema é quando a garota que os usava começava a passar a mão no meu homem. Sobre o braço dele, sobre o ombro dele.
tentava sutilmente se esquivar, constrangido, mas ela não se dava por vencida. Engoli o gosto amargo em minha boca, controlando aquele sentimento horrível em meu peito porque sabia que a atirada provavelmente era uma fã. Não queria problemas com as fãs deles.
Respirei fundo algumas vezes e já estava me acalmando. já estava com nossos potes de sorvete na mão e se despedia da garota. Tudo corria muito bem.
Até que a morena se virou um pouco e pude ver o rosto dela - era bonita – então ela deu um sorrisinho de lado, colocou a mão sobre o ombro dele outra vez e subiu para o cabelo de . Senti a bile subir para minha garganta e meu rosto ferver. Senti tanta raiva que meu sangue borbulhava e minha vista embaçou.
Aquele cabelo é meu.
A. PORRA. DAQUELE. CABELO. É. MEU.
Antes que soubesse o que estava acontecendo, me vi de pé, muletas à postos e fumegando na direção dos dois.



Capítulo Dezenove

Acho que minhas intenções de arrancar o braço da garota fora estavam estampadas no meu rosto porque, assim que me aproximei o suficiente para que me visse chegando, a cor sumiu de seu rosto e ele deu um pulo para longe do alcance da oferecida. A garota, contudo, não pareceu entender o claro recado e fez menção de voltar a acariciá-lo. Eu, contudo, agindo mais rápido do que julgaria ser possível tendo em vista as muletas, enfiei-me no meio deles.
O choque no rosto dela foi engraçado o suficiente para quase me fazer rir. Quase.
O fato de ela tentar passar a mão no meu homem tirava toda a graça da situação.
- Com licença? – falou com a voz esganiçada depois de se recuperar do choque.
A resposta mal-educada estava na ponta da língua quando senti a mão dele em meu ombro. Queria me encolher para longe. Estava chateada por ele ter deixado a biscate chegar tão perto, mesmo sabendo que era irracional ter ciúmes das fãs deles.
Engoli em seco e forcei um sorriso, pensando rapidamente em um plano.
- Olá. Você quer que eu tire uma foto de vocês dois? – meu tom era robótico.
Ela imediatamente fechou a cara e tive certeza de que iria ganhar uma negativa rude quando resolveu que era hora de intervir:
- Acho uma ótima ideia – passou por mim e se postou ao lado da garota, mas a uma distância segura.
A morena me entregou o celular sem olhar para minha direção, preocupada que estava em babar em cima do . Revirei os olhos e tirei uma foto deles, trincando os dentes quando a vi passando o braço pela cintura dele. forçou um sorriso. Imediatamente depois, empurrei a droga do celular no peito dela e agarrei a manga da blusa dele.
- Infelizmente temos que ir agora. Tchauzinho.
Antes que ela pudesse reclamar, já estávamos do lado de fora.
- , me espera, amor.
Assim que a perua sumiu de vista, eu larguei de sua blusa e comecei a andar para o carro, deixando-o para trás.
- !
Ignorei seus chamados e continuei andando até que ele se postou na minha frente.
- Amor!
- Agora não, .
- Agora sim! – falou, firme.
- Sobre o que você quer falar, ? Sobre como a noite está bonita? Sobre os problemas do ? Sobre o aquecimento global? – olhei para os lados, gesticulando. - Ou talvez sobre o fato daquela oferecida passar a mão em você? – sibilei.
arregalou os olhos e seus lábios se contorciam em uma tentativa meia-boca de não rir.
Além de tudo ele tinha a coragem de rir?
Sentindo a raiva borbulhar, dei a volta nele e continuei andando. Não tinha dado dois passos quando outra vez ele estava lá para bloquear meu caminho.
- ...
Desviei o olhar para o lado, decidida a ignorá-lo.
- , por favor...
- Amor!
Ok. Aquilo era golpe baixo. Voltei minha atenção para ele.
- Que foi? Veio rir de novo?
Ele teve a decência de tentar disfarçar o divertimento que estava em seu rosto.
- Desculpe, amor. Não estou rindo de você, juro. É só que... você fica ainda mais adorável quando fica com ciúmes – conseguiu segurar os dois potes de sorvete em uma mão para, com a outra, apertar meu nariz.
- Não estou com ciúmes – estapeei sua mão para longe.
- Não? – arqueou a sobrancelha. – Então o que é toda essa hostilidade repentina?
- Respeito aos bons costumes – falei a primeira mentira que apareceu.
- Ok. E como seria isso? – fingiu acreditar, dando corda para que eu me enforcasse.
- Não gosto de amostras de afeto tão fogosas assim.
- Tão fogosas? – agora o sorriso quase ganhava seu rosto.
Eu podia quase ouvir a gargalhada que ele segurava.
Rangi os dentes.
- A garota estava toda em cima de você! Se esfregando em você! – bati o dedo em seu peito. – Uma pouca vergonha!
- Uma pouca vergonha? Amor, ela mal colocou a mão em mim. Só no meu cabelo – como para enfatizar, deslizou os dedos pelo cabelo.
- EXATAMENTE! – exclamei, batendo uma das muletas no chão.
arregalou os olhos, surpreso com minha reação.
- Amor... – fez uma pausa, obviamente medindo suas próximas palavras. – Elas são nossas fãs, são a razão de eu poder fazer o que eu amo. Não posso ignorá-las.
- Não seja ridículo, – revirei os olhos. – Não tenho problema nenhum com as suas fãs e jamais tentaria afastá-las de vocês. Meu problema é quando começam a mexer com o que é meu. E esse cabelo – apontei – é definitivamente meu – aproximei-me mais para agarrar a sua blusa e puxá-lo para baixo. – Entendeu?
tombou a cabeça para o lado, um sorrisinho sapeca.
- Esse cabelo? – passou a mão por seus fios. - É seu?
Puxei-o ainda mais para baixo e para frente ao mesmo tempo em que me inclinava para frente, meu nariz quase encostando no dele.
- É. É sim. É meu – sibilei, muito séria. – Algum problema?
O sorriso dele aumentou até quase não caber em seu rosto e por alguns segundos apenas ficou lá, parado e me encarando de maneira meio vesga - já que estávamos tão perto.
- Não. Problema nenhum – sussurrou antes de vencer o pouco espaço entre nossos lábios.
Minha mão escorregou da sua blusa para seu ombro e as dele foram para o meu pescoço, os polegares acariciando minhas bochechas enquanto ele me beijava devagar. Podia sentir seu sorriso. Apoiei a muleta contra o corpo e puxei seu cabelo, afastando-o de mim.
soltou uma risada rouca e breve.
- E quanto ao “respeito aos bons costumes”? – ironizou, tentando imitar minha voz.
Franzi o cenho, voltando à realidade. Reprimi, então, o tapa que queria dar em seu ombro, concentrando-me no assunto em questão:
- A próxima biscate que eu vir passando a mão no seu cabelo vai sair machucada, entendeu?
mordeu o lábio inchado e assentiu solenemente antes de voltar a abaixar a cabeça em busca de outro beijo. Virei o rosto.
- Nem vem, engraçadinho.
- O quê? Por quê?
- Não sei – bati o dedo no queixo, fingindo pensar. – Talvez porque você deixou outra mulher passar a mão em você ou talvez por ter rido de mim depois. Ou, quem sabe, por causa dessa imitação ridícula que você acabou de fazer. E, por falar nisso, eu não falo daquele jeito agudo.
Em seu favor, ao menos tentou não rir da minha resposta patética e dita sem pensar. Claro que ele não conseguiu e em poucos segundos estava gargalhando outra vez. Senti vontade de gritar.
Aquela parecia estar sendo a rotina daquela noite. Ele rindo e eu ficando frustrada.
Dei-lhe as costas e caminhei até o carro. Infelizmente minha saída dramática foi estragada pelo fato de ter que esperar destravar a porta do carro, o que ele não fez, justamente para me alcançar mais uma vez.
- Amor, espera – encostou-se contra o carro em um ângulo de 90° enquanto me mantive encarando a janela do automóvel. - Eu estou confuso.
- Claramente – virei a cabeça um pouco para ele, ironia óbvia em meu tom. - Claramente você está confuso se acha que pode deixar outra garota passar a mão em você, e que iria ficar por isso mesmo.
- Eu... hmm... – murmurou. – Isso não é justo – resmungou baixinho depois de um tempo. - Essa é claramente – me olhou de maneira significativa ao dizer essa palavra – uma daquelas ocasiões em que qualquer resposta é errada.
Sim, era uma dessas situações, mas não iria facilitar para ele.
- Talvez seja errada porque você sabe que está errado.
- Mas, , a culpa não foi minha. Eu tentei me afastar educadamente.
- E não fez um bom trabalho, não é mesmo?
- Eu não sabia que você iria ficar tão brava – falou, olhando para o chão.
- Como não sabia? Por acaso você ficaria feliz se eu deixasse outro cara apertar meu nariz do jeito que você faz?
Sua cabeça se levantou de supetão, os olhos se queimaram sobre os meus.
- Você não deixaria – rosnou.
- Exatamente! Eu não deixaria, mas isso não pareceu impedir você, não é mesmo?
- Não é a mesma coisa! – protestou veemente, desencostando-se do carro e chegando até mesmo bater o pé no chão para enfatizar seu ponto.
Revirei os olhos frente seu momento criança mimada.
- Claro que é a mesma coisa. É a nossa coisa. É a minha mania de passar a mão no seu cabelo e é a sua mania de apertar o meu nariz. É a nossa coisa – gesticulei para o espaço entre nós dois. – Então não é justo quando você deixa que a nossa coisa vire a sua coisa e a da... daquela coisinha lá – apontei para a sorveteria.
- Mas eu não fiz de propósito!
Arqueei a sobrancelha e me virei para ficar de frente para ele. Teria cruzado os braços se isso não causasse mais trabalho do que estava disposta a gastar por causa dele agora.
Depois de alguns segundos ele entendeu o recado e finalmente começou a dizer o que deveria ter dito desde o começo:
- Ok, ok. Desculpe. Desculpe, amor. Não vai acontecer de novo.
- Acho bom.
soltou o ar pesadamente, mas não respondeu. Abri um sorrisinho de lado e peguei meu potinho de sorvete de sua mão. Já estava meio derretido, mas sorvete é sorvete. Afastei-me um pouco do carro para que ele entendesse a dica para abrir a porta para mim. Ele agiu como o cavalheiro que era, mas parei no meio do caminho entre sentar no banco e ficar em pé do lado de fora ao vê-lo sorrindo. Franzi o cenho.
- Que foi?
- Nós acabamos de ter nossa primeira DR, amor.
Arqueei a sobrancelha e não pude evitar uma risada.
- Essa não foi uma DR, .
- Não? Como não?
- Você vai saber quando estivermos tendo uma DR, – me acomodei no banco e empurrei as muletas contra o peito dele. - Acredite. Você vai saber.

xxx

Uma semana depois do acontecimento na sorveteria, coloquei os pés pela primeira vez no estúdio de gravação dos garotos. Digamos que não estava no melhor dos humores naquele dia. Não que não quisesse conhecer onde One Direction fazia sua mágica, não era isso. O problema era que não gostava nem um pouco quando alguém me coagia a fazer as coisas - ainda mais quando era coação daquela que te vence pelo cansaço. E foi exatamente isso que fez: azucrinou-me durante sete dias até que finalmente concordei em ir com ele num dia em que ele e fossem gravar.
“Vamos, sis. Por favor! Vamos fazer uma surpresa para o nosso ”, foi o que ele repetiu de novo e de novo até que concordei, apesar de toda matéria que tinha que estudar e todos os trabalhos que tinha que terminar.
Então depois de um caminho um tanto quanto turbulento – digamos apenas que não é o motorista mais paciente que já conheci – finalmente estávamos naquele famoso prédio. Tudo impecavelmente arrumado e equipado com a última tecnologia disponível. Meu irmãozão, como ele adorável chamar a si mesmo, cumprimentou diversas pessoas até que, depois de pegarmos o elevador, chegamos ao sétimo andar e ele me conduziu até a terceira porta no longo corredor. Assim que entramos, minha atenção foi imediatamente para aquele do outro lado do vidro que separava o cômodo em duas partes.
estava com os olhos fechados, uma mão sobre o fone em seu ouvido enquanto cantava sua parte do que provavelmente seria o próximo grande sucesso da banda. O som de sua voz rouca chegava em mim como ondas e não pude evitar o sorriso bobo. Sei que ele é um grande cantor e algumas vezes já tive o privilégio de ouvi-lo cantar em meu ouvido, mas a sensação era boa toda vez. Sempre me causava um arrepio bom. Talvez porque me recordava das vezes em que ele sussurrava uma música para mim e depois terminava com o beijo no ponto sensível atrás da minha orelha. Ou talvez só porque a voz dele fosse uma delícia de ouvir de qualquer jeito.
Continuei lá, parada e encarando-o como uma boba até que segundos depois seus olhos se abriram e seu olhar caiu sobre o meu. Um sorriso de lado apareceu em seu rosto e ele cantou as últimas duas estrofes:
- You and I. Oh, you and I.
Assim que ele terminou, uma voz grave e desconhecida soou bem ao meu lado:
- Muito bem, . Agora a outra parte!
Pulei de susto, o que fez com que caísse na gargalhada. Desviei a atenção para o dono daquela voz e encontrei um homem de meia-idade sentado na cadeira em frente ao painel cheio de botões dos quais eu desconhecia a utilidade. Ele tinha os cabelos entre o preto e o grisalho e uma barriga meio avantajada. Suas roupas consistiam em uma calça jeans e uma camiseta preta. Despojado.
, usando de um pouco de bom-senso, postou-se ao meu lado e falou para o homem:
- Ross, essa aqui é a – colocou o braço sobre meus ombros. – , esse é o Ross, o homem responsável pela mágica por trás dos nossos CDs. Também conhecido como nosso produtor.
- É um prazer – estendi a mão.
Ao responder meu gesto, pude perceber que seu olhar passeou pela perna engessada que meu vestido azul deixava à mostra.
- A famosa do ?
Senti minhas bochechas se colorirem, mas felizmente fui poupada de responder já que se intrometeu:
- Eu, particularmente, prefiro o título de “irmã mais nova do ”, mas esse aí também serve para descrevê-la – deu uma piscadinha para mim. – Não é mesmo, sis?
Ross soltou uma gargalhada.
- É um prazer conhecê-la, . Já ouvi falar muito de você. Garota corajosa – sacudiu a cabeça, o tom impressionado.
Eu nunca sabia o que responder quando as pessoas insistiam em trazer o quase acidente de Emily à tona outra vez.
- Qualquer um teria feito o mesmo – falei, baixinho e logo me apressei em mudar de assunto. – Vocês estão gravando uma música nova?
- Sim, linda – aquela voz rouca soou pertinho e senti o braço de ser empurrado para longe e imediatamente ser substituído pelo de .
Virei a cabeça e encontrei seu sorriso a poucos centímetros.
- Gostou?
Não conseguia pensar direito quando ele estava tão perto. Tão lindo.
- Gostei do quê?
- Da música.
- Ah! Sim. Gostei – sorri.
- Ótimo! – seu sorriso se alargou.
- ! – Ross nos interrompeu. – Já viu sua garota. Agora volte para lá! Nós não terminamos ainda.
resmungou alguma coisa que não consegui identificar e depois abaixou seus lábios sobre os meus em um beijo rápido.
- O dever me chama, amor. Você me espera?
Assenti.
- Vou embora com você. Não quero arriscar minha vida outra vez com o senhor Fúria Sobre Rodas ali – mexi a cabeça em direção ao amigo dele.
- Hey! Eu dirijo muito bem – o objeto de nossa conversa retrucou. - Os outros que dirigem mal.
Preferi nem mesmo responder tamanha inverdade. pareceu compartilhar da minha resolução e simplesmente sacudiu a cabeça para ele antes de me dar um beijo na bochecha e voltar para a cabine de gravação.
- Ainda vai levar uma meia-hora, . – Ross informou, o tom gentil. – Temos um sofá ali – apontou para o fundo da sala – se você quiser se sentar.
- Boa ideia. Obrigada – agradeci e me encaminhei para o confortável sofá vermelho de três lugares.
não demorou a se sentar ao meu lado.
- , eu não dirijo mal. Você sabe disso – juntou os lábios em um biquinho de pirraça.
- Claro que sei, big bro – dei umas batinhas em seu joelho. – Você só precisa trabalhar nessa sua raiva.
Ele arqueou a sobrancelha.
- Eu? Problemas para controlar a raiva? Talvez seja algo de família então – falou, enigmático, lançando-me um olhar condescendente.
- De família? Isso foi uma indireta?
Estava confusa.
- Não. Nada não – sacudiu a cabeça e se levantou. – Vou buscar um refrigerante. Quer alguma coisa?
- Quero uma Coca-Cola – coloquei a mão no bolso. – Espera. Vou te dar o dinheiro.
revirou os olhos e saiu andando. Soltei um muxoxo. Eles nunca me deixavam pagar nada. Absolutamente nada. Outro dia, quando precisei ir à livraria comprar um livro novo os sistemas cardiovascular e respiratório me deu uma carona e, assim que encontrei o que procurava, pegou-o da minha mão e literalmente correu para o caixa. Todas as minhas tentativas de pagá-lo de volta foram completamente ignoradas.
Queria poder pagar alguma coisa de vez enquanto. Sentia que estava abusando da boa vontade deles.
Sacudi a cabeça e peguei meu celular, pretendendo trocar algumas mensagens com Lorelai. Ela estava estranhamente quieta nesses últimos dias. Não cheguei a digitar a primeira mensagem antes de sentir que estava sendo observada. Levantei a cabeça e encontrei outro homem desconhecido me analisando atentamente. Esse, contudo, era bem diferente de Ross. Mais novo, o porte mais elegante – que se refletia em seu terno impecável e em suas calças e sapatos sociais – e muito mais sério.
Ele caminhou com passos determinado até mim e sentou-se no lugar que antes ocupava. Tive o pressentimento de que não gostaria de saber o motivo pelo qual ele estava ali – não que ele parecesse se importar o que eu queria.
- Você deve ser a . Eu sou Ethan. É um prazer conhecê-la pessoalmente.
Apertei sua mão estendida.
- Eu...
Eu estava intimidada, e isso cortava o fluxo normalmente bem eficaz entre meu cérebro e minha boca.
Engoli em seco e me concentrei, tentando pensar em um jeito educado de dizer que não fazia a mínima ideia de quem ele era.
- Eu sou o chefe da assessoria de imprensa dos garotos.
Assenti.
- Você sabe como a imagem é importante para todos os famosos, certo?
Assenti outra vez e procurei deixar meu rosto o mais impassível que consegui. Não queria que ele percebesse o quanto seu tom professoral estava começando a me irritar.
- E é por isso que estamos sempre de olho nas redes sociais tanto quanto monitoramos a impressa para uma medição mais precisa de como está à opinião do público sobre os meninos individualmente e sobre a One Direction em si. Foi assim que descobrimos o pequeno incidente na sorveteria semana passada.
Tive completa certeza de que a surpresa que aquelas palavras me causaram apareceu em meu rosto. Talvez por isso, Ethan completou:
- Aparentemente algumas fãs viram vocês lá e tiraram algumas fotos do que depois pareceu ser uma discussão. Quando vocês estavam caminhando para o carro de . Felizmente ninguém foi capaz de ouvir sobre o que vocês falaram, mas havia várias ideias no twitter sobre uma possível briga a respeito das fãs deles. Sobre você estar com ciúmes ou alguma coisa assim. Claro que não foi isso que aconteceu – seu tom condescendente por de trás daquelas palavras dizia que ele sabia que fora exatamente aquilo que aconteceu, mas que estava sendo gentil o suficiente para fingir que não.
- É. Não foi isso – murmurei como uma idiota.
- Sim, é claro – assentiu. – Mas esses pequenos boatos falsos podem crescer e virar um desastre de grandes proporções, o que seria péssimo para todos nós.
Não estava seguindo o raciocínio dele. Não entendi o porquê de toda aquela conversa. Ele queria que eu me afastasse dos meninos? Meu coração falhou uma batida só com o mero pensamento dessa possibilidade.
Não queria me afastar deles. Não agora... e provavelmente nunca mais.
- Não me entenda mal – continuou, totalmente alheio a minha crise de pânico interna. – Nós achamos ótimo quando um deles está namorando e ela é aprovada pelos fãs.
- Não estamos namorando – corrigi automaticamente.
Lançou-me um olhar impaciente.
- Sim, sim. Que vocês tenham seja lá o que vocês jovens chamam hoje em dia – sacudiu a mão em um gesto de descaso. – Como estava dizendo, nós achamos bom isso. Geralmente resulta nos meninos mais contentes, inspiração para músicas e mais publicidade ainda. O problema começa quando aqueles pequenos boatos que mencionei surgem. Eu vi que você tem uma conta no twitter – falou, de repente.
E eu fiquei ainda mais confusa. O que o meu twitter tinha a ver com todo aquele discurso sobre o bem maior da One Direction?
- Sim, eu tenho.
- Mas você quase nunca o usa.
Não havia uma pergunta ali, então não me incomodei em responder.
- Senhor, eu não estou entendo o caminho dessa conversa.
- Direta. Gosto disso. Pois bem. Tenho certeza que uma garota esperta como você já percebeu que sua vida privada não é mais tão privada. E há certos sacrifícios que precisam ser feitos uma vez que você se torna parte do círculo íntimo da maior boyband do mundo.
- Você está tentando dizer que não posso sair em público com eles, é isso?
Ele arqueou a sobrancelha em resposta ao meu tom agressivo.
- Não, jovem. Não é isso que estou dizendo. O que eu estava esperando que você pudesse fazer é usar mais as redes sociais, principalmente o twitter. Isso te mostra como alguém mais acessível, mais... usando termos bem simples... mais legal. E isso gera boa publicidade. Está me entendendo, ?
Assenti. Não parecia de todo tão ruim. Mesmo eu não gostando que me digam o que fazer.
- Posso fazer isso.
- Ótimo – levantou-se. – Muito bem – caminhou alguns passos antes de se virar para mim. - Estaremos de olho então – dessa vez o sorriso dele não estava ali e o tom era um pouco mais ameaçador do que deixava qualquer pessoa confortável. – Para ter certeza de que tudo está correndo conforme o planejado.
Definitivamente uma ameaça.
Não desviei o olhar. Não mostrar medo.
“Não deixe que eles saibam que te intimidam. Essa é a primeira vantagem deles”, era o conselho de tia Claire. E ela está certa. Claire Hardy está sempre certa.
Seus lábios se levantaram em um pequeno sorriso e por um segundo pude ver admiração em seus olhos antes de ele me dar as costas e deixar o cômodo.
Lancei um olhar sobre Ross para ver se ele tinha presenciado toda aquela situação, mas o homem estava totalmente concentrado em seu próprio trabalho.
Não que isso fizesse diferença.
Com poucas palavras, o tal Ethan conseguiu estragar meu dia. Meu dia leve e descompromissado havia acabado de se tornar um dia para analisar problemas que eu nem sabia que tinha. Aquele, contudo, não era o lugar para isso, e foi por essa razão que guardei o celular no bolso e forcei um sorriso quando se aproximou trazendo meu refrigerante.
Foi por isso também que murmurei uma resposta vaga qualquer quando ele me perguntou se estava tudo bem.
Virei para o lado e fingi prestar atenção em cantando. Nenhuma nota, contudo, penetrou em meu cérebro. Triste esses momentos da vida em que as preocupações obscurecem a arte.

xxx

Em nossa viagem de volta para casa, consegui evitar todas as perguntas feitas por sobre o porquê de eu estar tão calada. Felizmente tinha ficado no estúdio para gravar. Inquisição feita por um só já era ruim o suficiente, dois inquisidores e eu terminaria com uma dor de cabeça. Eles iriam me espremer até conseguir algum tipo de resposta, o que era justamente o que não queria, visto que o problema era meu e não fazia qualquer sentido preocupá-los.
De alguma maneira consegui convencê-lo de que eu estava bem e de que ele precisava ir atrás de aquela noite para ter a conversa que estávamos adiando faz tempo. Pelo menos não o mandei para longe por um motivo fútil. Estava realmente preocupada com . Ele estava cada mais se fechando em si. Era completamente horrível assistir seu amigo se afastar cada vez mais de tudo. Não que fosse uma mudança brusca. Na verdade, era bem sutil – tão sutil que os meninos pareciam nem perceber. Homens não percebiam essas coisas, mas eu podia ver claramente. Assistir de camarote a esse distanciamento acontecendo a cada vez que ele não aparecia para um jantar ou todas as vezes que ele passava alguns minutos encarando o vazio.
Infelizmente eu sozinha não estava conseguindo ajudá-lo.
Droga!
Eu não estava nem mesmo conseguindo entender o que estava acontecendo. não me contava. Era por isso que precisei envolver os meninos. Só esperava que conseguisse arrancar a verdade ali.
Balancei a cabeça e me sentei na cama, colocando as muletas ao lado. Tantos problemas e um único dia. Era como se um problema puxasse o outro. Foi só surgir aquilo com Ethan e imediatamente estava de volta àquela questão com .
Desgraça pouca é bobagem.
Soltei o ar pesadamente. Não havia mais o que fazer a respeito de meu amigo – pelo menos não até que voltasse com novidades, então era hora de cuidar da minha outra preocupação.
Puxei o meu iPhone e me conectei no twitter. Imediatamente meus olhos se arregalaram. Mais de um milhão de seguidores.
UM. MILHÃO.
E isso era ainda mais surpreendente levando-se em conta o fato de que eu havia mandando um total de dois tweets, os quais, aliás, acabei de descobrir que haviam sido reproduzidos mais de dez mil vezes.
Ok. Engolindo a surpresa, cliquei nas notificações e – surpresa de novo – haviam centenas delas. Mirei as primeiras para responder.

@drathirteen onde você compra suas roupas?
Oi, @itsmyname eu compro em vários lugares diferentes, mas adoro as roupas da #Ments
@drathirteen diga olá para Itália, por favor. Eu te amo.
@queenme Olá, Itália. Minha melhor amiga é metade italiana. Haha País do coração <3
Por que você some, @drathirteen? Para que twitter se não usa? Queria tweets.
@LucyH desculpe o sumiço. Prometo tentar aparecer mais por aqui.
@drathirteen você é linda demais! Você e o seriam o casal mais lindo do mundo.
@luluzherin muito obrigada. Você é linda também. Hahaha e eu somos apenas amigos.
Conta pra gente @drathirteen se o dorme de meias.
@iftheysay HAHAHAHA boa pergunta. Vou perguntar para ele e te conto.

E havia várias assim. E cada era uma surpresa maior. Perguntavam-me o que eu comia, o que eu vestia, o que eu gostava de fazer e outros detalhes assim. Não entendia o interesse sobre a minha vida, mas passei mais de uma hora respondendo às perguntas desse tipo, acreditando que logo terminaria. Contudo, a cada tweet que eu respondia, outros três surgiam. Tentei também responder algumas curiosidades inofensivas quanto à vida dos garotos. A bateria do meu celular já estava no limite quando resolvi parar.
As respostas dadas e a quantidade delas deviam ser o suficiente para deixar Ethan satisfeito e, olhando por outro lado, isso de Twitter até que havia sido uma experiência interessante. Descobri que, de fato, várias pessoas estavam interessadas na minha vida. Algumas delas eram muito gentis e diversos profiles denominados “Summer uptades” haviam sido criados. Um deles, aliás, tinha, além de fotos minhas que nunca percebi terem sido tiradas e outras informações triviais sobre minhas aulas, minha cor favorita, onde eu nascera no Brasil. Meus olhos se arregalavam um pouquinho mais a cada vez que lia um conhecimento sobre a minha pessoa sendo estampado nas páginas da internet. Se eu fosse um pouquinho paranoica, ficaria com medo, mas tinha coisas mais importantes com quais me preocupar – e entendia que era uma maneira de mostrar afeto.
É claro que nem tudo eram flores. Havia muitas pessoas que adoravam insultar outras a troco de nada com palavras como “@drathirteen vadia. Se aproveitando da grana dos meninos” ou “@drathirteen sua biscate gorda, volte para sua casa e pare de incomodar o ” ou ainda “Prostituta @drathirteen Aposto que empurrou a Emily na frente do carro só para depois posar de herói”. E também havia aqueles que tinham certeza que eu estava em um relacionamento a três com e : “@drathirteen dando para dois ao mesmo tempo. Vadia sortuda”
Seria cômico não fosse trágico. Ou talvez fosse cômico e trágico. Cômico porque eu não me importava com nenhuma daquelas acusações ridículas ou com aquelas grosserias gratuitas. Há muito tempo renunciei a esse luxo de me importar com a opinião alheia, o que, de certa forma, era meio óbvio visto que não teria aceitado me mudar para a casa de dois caras que não são meus familiares se me preocupasse com boatos.
E era trágico pensar que várias pessoas desperdiçavam horas de seus dias pensando em insultos e jogando-os contra quem eles nem mesmo conheciam pessoalmente. Triste pensar o quanto isso poderia afetar alguém que se importasse.
Arqueei minhas costas cansadas e peguei o livro que havia deixado ali ao lado, sobre a cama, quando aparecera com aquele papo de irmos ao estúdio. A internet já me cansara demais hoje.
Melhor me concentrar na boa e velha farmacologia. Por pior que a matéria fosse, ao menos ela não iria me pressionar – como Ethan – ou me ignorar – como – ou, pior ainda, me encher de insultos vazios – como dezenas de pessoas desconhecidas.
Em um evento até então praticamente inédito desde que me mudara, consegui terminar de ler os capítulos e fazer os exercícios da matéria que precisavam ser feitos sem que ninguém aparecesse para me interromper. Fechei o caderno e peguei as muletas para buscar um pouco d’água na cozinha. Estava encostada na ilha, o copo esquecido encostado nos lábios enquanto encarava o vazio sem pensar em nada quando ouvi a porta da frente se abrir e logo depois meu nome ser chamado por .
Franzi o cenho. Não se lembrava de ter combinado nada com .
Coloquei o copo sobre o balcão e fui até a sala. A visão que lá me esperava era, no mínimo, surpreendente. estava empurrando um risonho para se sentar no sofá – ou pelo menos essa parecia ser a intenção, mas acabou caindo deitado de lado sobre as almofadas. lançou um olhar frustrado sobre o amigo e levantou a cabeça, sua atenção caindo em mim.
- ! – chamou, aliviado. – Acho que nunca fiquei tão feliz por vê-la!
Meu nome deve ter chamado a atenção de porque ele levantou precariamente a cabeça e exclamou com um sorriso:
- Amor!
Sua voz estava embargada.
Bêbado.
Voltei a olhar para e arqueei a sobrancelha em uma pergunta silenciosa.
- Sei lá o que aconteceu – deu de ombros. – me ligou e disse que e estavam se embebedando na casa dele e se recusavam a ir embora. Então fui lá buscar esse aí enquanto colocava para dormir. Mas agora esse aqui é seu problema.
- E como exatamente você quer que eu o coloque na cama? – lancei um olhar significativo para minha perna engessada.
- Ah! Esqueci-me disso. Você quer que eu-
- , le-lembra aquela vez que colocaram gelatina na sua bota? – interrompeu. – FUI EU! – gritou, achando tudo muito engraçado.
O rosto de se fechou em uma careta.
- Acho que ele merece ficar aqui mesmo. Nada melhor que uma dor nas costas para curar a bebedeira.
Assenti, tentando conter a risada.
- Até depois, – começou de costas para a porta. – Ah! E se você puder, evite conversar com ele. tem a tendência a uma brutal honestidade quando está bêbado – virou-se e rapidamente saiu do apartamento.
Acho que ele mesmo não queria ter que lidar com essa sinceridade toda.
Revirei os olhos e fui me sentar ao lado no pequeno espaço do sofá que não ocupava. Ele não perdeu tempo para descoordenadamente colocar a cabeça no meu colo. Abaixei a vista e encontrei-o me encarando e sorrindo.
- Oi, amor.
- Oi, – não pude evitar sorrir também.
Suas bochechas coradas e os olhos meio fechados o deixavam adorável.
- O que aconteceu? – perguntei, passando os dedos por seu cabelo.
- Aconteceu onde? – murmurou, distraído, fechando os olhos.
- Na casa do , bobo.
- ! Be-bebidas.– tropeçou na palavra. - Muitas bebidas aconteceram na casa do . O levou uma tequila que ele comprou no México a última vez que... – as palavras foram abaixando até sumirem.
- A última vez que o quê? – puxei seu cabelo de leve para que ele prestasse atenção em mim.
- Que o quê? – perguntou, confuso, abrindo os olhos e olhando para os lados.
Respirei fundo. Melhor esquecer aquela pergunta. Ele não estava em condições de responder muita coisa e eu queria me concentrar – ou fazê-lo se concentrar – naquilo que era mais importante.
- O que aconteceu na casa do ? Além das bebidas – completei quando percebi que ele iria falar sobre o álcool de novo.
- ‘tava lá.
Acho que, além de sincero, era um bêbado disperso.
- Sei – murmurei, desistindo de saber o que aconteceu enquanto ele estava naquele estado. - E o que mais vocês fizeram?
- Videogames! – falou, animado, mas logo a animação deu lugar a um franzir de cenho. – ganhou todas. Ele é chato – juntou os lábios em um biquinho.
Suprimi um “onw” e abaixei a cabeça para dar-lhe um beijo rápido e desfazer aquele bico. Senti o gosto inconfundível de vodca.
- Volta aqui, amor – tentou colocar a mão na minha nuca e me puxar de volta para si, mas sua coordenação não estava firme o suficiente para tanto.
O máximo que ele conseguiu foi bater a mão na minha testa.
- Ai! – resmunguei de brincadeira.
- Oops – riu. - Desculpe, amor. Vem aqui para eu dar um beijinho para sarar.
Revirei os olhos.
- Você é que está precisando ficar bem. Vai ter uma dor de cabeças daquelas amanhã. Que tal dormir um pouco?
- Mas eu não terminei de contar o que nós fizemos.
Tinha mais?
- Ok. Então me conta.
- Teve videogame e depois pizza.
Um típico dia de garotos então. Espero que isso não o tenha distraído do seu objetivo.
- Que legal – murmurei, distraída, olhando os fios de seu cabelo deslizaram por entre meus dedos.
- Não foi tão legal.
- Não? Por quê?
- Porque eu fiquei com saudades.
- Saudades do ?
Esses dois pareciam grudados. Um não podia ir a nenhum lugar sem o outro.
- ? Não! Você é boba, – soltou um risinho.
- Não ri de mim, seu bêbado – dei um beliscão do seu braço, rindo também. - De quem então?
- Da minha linda – dessa vez ele conseguiu entrelaçar a mão no meu cabelo e me puxar para baixo. – Linda, linda, linda – murmurou várias vezes baixinho contra meus lábios antes de me dar um beijo.
Mesmo alcoolizado, ele conseguia beijar muito bem. Soltou um resmungo quando me afastei.
- Também fico com saudades, bobo. Mas agora é hora de dormir. Amanhã nós conversamos mais.
- Mas, ....
E esse foi o primeiro de alguns resmungos e de várias tentativas de me fazer permanecer no lugar. Só depois de algum esforço – e graças ao fato de suas forças não estarem em seu potencial total – consegui me levantar e convencê-lo a ficar deitado no sofá.
- , amanhã você me beija de novo? – perguntou quando me abaixei uma última vez ao lado dele para depositar um beijo de boa noite em sua testa. - Eu gosto quando você me beija – falou preguiçosamente quando me levantei. – Gosto muito.
Sorri em resposta.
- Também gosto – murmurei depois de um tempo, mas ele já tinha fechado os olhos.
Talvez estivesse dormindo.
Dei-lhe as costas e estava prestes a sair da sala quando ouvi:
- Gosto muito. Gosto muito de você, . Acho que...
Meu coração parou por um segundo esperando que ele completasse aquela frase, porém, felizmente, o cansaço pareceu tê-lo vencido. Ainda meio sem fôlego por causa das últimas palavras dele, caminhei cegamente até o quarto, onde me revirei a noite inteira. Apenas alguns minutos de sono foram tudo que consegui. No outro dia acordei no mesmo horário de sempre, o que era uma porcaria já que obviamente não tinha dormido o suficiente e aquela era a manhã feita para dormir até mais tarde. Dia de aulas vespertinas, afinal.
Havia coisas demais da minha cabeça, contudo. Pensamentos demais zunindo de um lado para o outro para permanecer deitada. Precisava me distrair. E foi por isso que levantei e fui para cozinha. Dessa vez não estava lá – provavelmente com ressaca demais para se levantar e preparar o café-da-manhã como todos os dias - então me pus a cuidar dessa tarefa. Estava terminando as panquecas quando , com os olhos entreabertos e o cabelo mais bagunçado do que o normal, entrou na cozinha. Mesmo minha atenção tendo se focado em seu tórax nu e em suas calças de moletom que se segurava precariamente em sua cintura, os ecos de ontem à noite se fizeram presente em minha cabeça.
Piscando algumas vezes para voltar ao foco, dei-lhe as costas e me concentrei em tirar as panquecas prontas da frigideira e colocá-las em um prato. Senti ele se aproximar.
- Bom-dia, amor – deu um beijo em minha bochecha antes de se afastar para abrir a geladeira.
- Oi – respondi, desligando o fogo e colocando o prato sobre a mesa. – Como está sua cabeça? Doendo muito?
- Muito – resmungou, abrindo uma garrafa d’água e tomando o líquido ali direito, sem copo. – E minhas costas também. Achei que nosso sofá fosse melhor para dormir.
- Era o esperado. Já tomou um remédio?
Assentiu devagar.
- Ok. E agora você pode me contar o que aconteceu para você chegar em casa carregado ontem?
Nenhum tipo de acusação ali, apenas uma pergunta.
- Ah! Então aquilo foi verdade. Achei que só tinha sonhado com você – respondeu depois de abaixar a garrafa, as bochechas um pouco coradas. – Que vergonha. Por favor, não me diga que falei demais ontem.
- Ouvi sobre essa sua tendência à verdade induzida pelo álcool. Mas não se preocupe. Você não falou nada demais.
- Ótimo – murmurou, aliviado antes de tomar mais um pouco de água.
- Mas fiquei sem saber o que aconteceu ontem – falei, apoiando a mão sobre uma das cadeiras. – O plano funcionou?
- Não exatamente - ele passou a mão pelo rosto. – Eu chamei para ir lá também para não ficar muito óbvio que tinha ido caçar informações. Acontece que meu plano de embebedar só o deu totalmente errado assim que apareceu com aquela garrafa de tequila. Eu gosto de tequila, gosto muito. E eles sabem, então não tinha como falar que não queria beber. Ainda mais aquela. Uma mexicana que ele comprou na nossa última viagem. Muito boa.
Assenti, rindo.
- Entendi o problema com a execução, mas e quanto aos resultados?
- Estou chegando lá, apressadinha – caminhou até onde eu estava e apertou meu nariz. – Paciência é uma virtude.
- Nunca foi minha virtude favorita.
- Ah é? E qual seria então?
- Castidade – abri um sorrisinho sarcástico.
arregalou os olhos em horror.
- Nem brinca com isso, amor.
- Então, a não ser que você queira pagar para ver, ou, melhor, pagar para não ver, acho bom começar a falar sobre o que eu estou perguntado. Detesto esses suspenses.
- Você é malvada, – se jogou em uma cadeira com uma careta.
Arqueei a sobrancelha. Ele revirou os olhos, mas começou a falar:
- Ok. Pulando os detalhes, já que você está tão ansiosa – enfatizou. – Consegui arrancar algumas poucas informações.
- Ok...
- Descobri que o que está incomodando não é o casamento.
- Não? – me inclinei sobre a cadeira em direção a ele, totalmente surpresa.
- Não – sacudiu a cabeça e começou a se servir de um pouco dos ovos e bacon que preparei. – Ele disse que está tudo bem com a tal ex que agora vai ser irmã dele... qual o nome dela mesmo? – enfiou uma colherada de bacon na boca enquanto pensava. – Ah! Georgia... não, não – engoliu a comida. – Georgina! Disse que não tem nenhum problema com a Georgina, que até são amigos.
- Mas então o quê?
- Tentei especular sobre a Kim então, mas isso não deu muito certo. Ele ficou bem irritado e começou a fumar, parou de beber e ficou resmungando coisas desconexas. E, quando eu o pressionei um pouquinho mais, ele começou a falar algumas coisas. Falou que... – parou no meio da frase, ficando sério de repente.
- Falou o quê?
me olhou nos olhos e levou o copo de suco de uva – que há pouco havia enchido – aos lábios. Era um claro artifício para ganhar tempo.
Não estava gostando do rumo que aquela conversa estava tomando. O ar na cozinha tinha ficado mais pesado, mais sério. Tinha o pressentimento muito concreto de que não iria gostar de sua resposta e por um segundo desejei poder retirar a pergunta.
- Felizmente apareceu lá e me trouxe para casa antes que eu pudesse responder. Porque provavelmente teríamos brigado. Não tenho muita paciência quando estou naquele estado.
- Responder o quê?
- disse que eu estava sendo muito intrometido e que eu não tinha esse direito porque... – outra vez se interrompeu.
- Fala de uma vez, ! – exclamei, exasperada.
O medo do desconhecido era pior do que o arrependimento de perguntar o que não devia. E nunca fui covarde. Queria respostas.
Ele respirou fundo e olhou para o lado.
- Disse que eu não tinha o direito de ficar me intrometendo nos assuntos dele quando o que nós dois temos – voltou seu olhar para o meu – é tão confuso.
- Confuso?
- É... Nós... não sei. Mas entendi o que ele quis dizer. Não somos namorados, mas somos mais do que simples amigos que se pegam.
Era exatamente o caminho que achei que essa conversa estava tomando. O caminho que temia que ela tomasse. Senti meus ombros travarem de tensão e minha respiração começar a sair aos trancos.
- Eu não quero que as coisas fiquem confusas – passou a mão pelo cabelo. – Você é importante para mim, .
Por favor, não. Por favor, não diga o que estou pensando que você vai dizer.
Meu coração estava disparado.
- , eu quero o poder te chamar de minha namorada. Quero que sejamos oficiais. Então... – abriu um sorrisinho sapeca – quer ser minha namorada?
E o pânico que senti ao ouvir aquelas palavras foi tão grande que a bile subiu a minha garganta e por um segundo o mundo ao meu redor escureceu.

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Esse capítulo é dedicado a Luara Zambon – que teve a incrível ideia de me mostrar os looks que ela imagina para a Summer; a Valéria Aleixo – que criou looks incríveis para Summ; e a Kalini – que também foi lindamente participar dessa ideia. Muito obrigada. Vocês são lindas.



Capítulo Vinte

Se não estivesse com a perna engessada, agora provavelmente estaria andando em círculos em uma típica e um tanto quanto clichê maneira de tentar aliviar a impaciência. Como essa opção estava inviável no momento, tive que me contentar em bater a mão repetidamente contra a coxa enquanto olhava o tic-tac do relógio de cabeceira de Mark. Não entendia a demora de Lorelai. Eu havia dito para Mark encontrá-la e mandá-la para casa – dele - com urgência. Precisava de em um lugar privado para conversar e o elevador do dormitório dele funcionava.
Tive que me segurar para não pular para ficar em pé quando ouvi o barulho da maçaneta girando. Também contive o sermão sobre se atrasar para uma emergência quando vi que ela carregava cinto sacolas de compra verdes com um emblema redondo no meio que imediatamente reconheci como sendo da loja Mints.
- Que diabos é isso?
Lorelai manteve a cabeça baixa, concentrada em passar todas as sacolas pela porta enquanto falava:
- Você que me explique – colocou algumas sacolas no chão. – Eu cheguei em casa e tinha isso aqui me esperando na porta no nosso apartamento. Tem um cartão com o seu nome em uma delas – soltou as outras sacolas que faltavam. – São todas suas. E todas lotadas de roupas.
Blake mexeu os braços um pouco para aliviar o peso que as sacolas deveriam ter causado.
- Quando Mark me mandou uma mensagem dizendo que você queria me ver aqui, resolvi trazer essas porcarias – chutou uma das sacolas e ignorou meu murmúrio de protesto por seu gesto. – O que obviamente foi uma péssima ideia. Elas estão muito pesadas. Depois você pede para Carter levar isso para um dos cinquenta carros dele.
Senti um puxão desconfortável em meu peito.
- não tem cinquenta carros – murmurei. – E não foi ele quem me trouxe ou quem vai vir me buscar.
Aquilo fez Lorelai levantar a cabeça e me encarar com um olhar desconfiado. Também foi só então que realmente prestei atenção nela. Seus cabelos que antes eram completamente pretos, agora estavam mais claros em um tom acastanhado e com alguns fios amarelados. Suas roupas pretas também deram lugar a um vestido branco om detalhes vermelhos até os joelhos com um colete jeans sem manga sobre ele. Botas marrons sem salto e de cano baixo completavam o visual.
Ah! Uma nova fase então. Já estava demorando para que ela deixasse a fase punk. Infelizmente, ao que parecia, seu humor ainda não tinha mudado para o modo hippie.
- Por quê?
- Por que você aderiu ao estilo hippie de novo?
- Não seja ridícula. Isso – passou a mão pelo vestido - não é hippie, é boho chic. Eu nunca repito um visual. E não fuja da minha pergunta. Por que Nick não te trouxe hoje? E quem te trouxe então?
- .
- O esquisito?
- Hey! Ele não é esquisito. Ele é só... na dele. Quieto.
- Quando eu os conheci, ele era “quieto” e “na dele” – fez o sinal de aspas os dedos indicador e médio –, agora ele é só esquisito mesmo.
Ela tinha razão. estava me deixando mais preocupada a cada dia, mas infelizmente tinha outros problemas mais imediatos me corroendo agora.
- não faz perguntas. Por isso ele me trouxe – voltei a sentar na cama.
De repente toda aquela carga emocional que estava se acumulando nos últimos dias caiu sobre mim.
- E por que você está evitando perguntas? – caminhou até sentar-se ao meu lado. – Que foi que aconteceu?
Soltei um suspiro pesado, pensando em uma maneira de resumir tudo.
- Foi o Carter, não foi? O que ele fez? – levantou-se outra vez. – Eu vou ensinar-lhe uma coisa ou outra... ele vai ver só – já estava a meio caminho da saída quando consegui me levantar e me interpor entre ela e a porta.
- Lorelai, não. Sério. Ele não fez nada errado – falei, odiando o quão baixo minha voz soava.
Blake, em silêncio, me olhou longamente por alguns segundos antes de soltar um suspiro e sentar na cama, gesticulando para que eu ocupasse o lugar ao seu lado. Depois que voltei a me sentar, não nos encaramos. Eu estava olhando para o espaço vazio na minha frente, encarando um ponto qualquer enquanto meus pensamentos viajavam a uma velocidade rápida demais para ser confortável. Lorelai estava em uma posição parecida, mas sei que ela apenas esperava por alguma manifestação minha.
Fiquei grata por ela não me pressionar.
Não sei quanto tempo ficamos ali envoltas naquele silêncio. Para ser bem sincera, eu não queria falar. Nunca quis falar, não sobre esse tipo de coisa. Não sobre meus problemas. Contudo, minha resolução de não me envolver demais com alguém já tinha ido para o espaço assim que e eu começamos... o que tínhamos.
Soltei um suspiro.
- Ele me pediu em namoro – engasguei nas palavras.
- Pediu você em namoro? Mas vocês já não estavam namorando?
Continuei mantendo minha vista no nada.
- Não. Nós não estávamos namorando.
- Sério? Porque não parecia que vocês não estavam namorando. Podia jurar que era o contrário, na verdade.
- Eu realmente não preciso das suas ironias agora, Blake.
- Ok, ok. Você está certa. Desculpe.
Mais alguns segundos quietos.
- Mas se ele pediu para oficializar tudo, por que você está assim?
- Eu... eu...
Eu não conseguia explicar. As palavras não saiam. Não o motivo, mas ao menos conseguia explicar as objetividades da situação.
- – colocou a mão sobre meu ombro, apertando-o de maneira reconfortante. – , o que aconteceu?
- Eu não respondi – murmurei, olhando, agora, para minhas mãos.
- Como assim você não respondeu? Você deixou Carter falando sozinho? – deu uma risadinha, provavelmente pensando que aquela alternativa era tão ridícula que merecia uma risada.
Respondi com uma estremecida. Não tinha orgulho de ter feito aquilo.
- Ai meu Deus! Você o deixou falando sozinho! – o tom dela passou para abismado, o que não fez nada para que eu me sentisse melhor.
- Eu congelei, ok? Eu congelei! Não esperava por aquilo. Entrei em pânico e passei a evitá-lo desde então.
- O que você quer dizer com “desde então”?
- Faz dois dias – murmurei, sentindo uma pontado no meu peito ao pensar que fazia tanto tempo que não o via.
- Dois dias? – engasgou. – Você deixou isso cozinhar durante dois dias?
- Não foi minha opção! Eu tentei falar com ele, mas não quis ouvir.
- Falar sobre esse fiasco?
- Não! – exclamei, horrorizada. – Não sei... – esfreguei a mão sobre a testa.
- É claro que ele não iria querer falar sobre qualquer coisa, ! Óbvio que ele não iria querer falar sobre o tempo ou sobre a faculdade - a incredulidade era tanta que por vezes sua voz falhava.
Aquelas palavras fizeram com que eu me virasse para ela, franzindo o cenho.
- Como você sabe que eu tentei falar sobre outro assunto?
- Porque eu conheço minha melhor amiga. E você está errada, .
- Mas pelo menos eu tentei! Eu o procurei para tentar consertar as coisas e ele me ignorou.
- E com razão! O cara te pediu em namoro. Tem noção de quanta coragem precisa para isso? E o que você fez? Não respondeu, evitou-o e depois fingiu que nada tinha acontecido. Carter tem todo o direito de estar chateado, de estar machucado.
Olhei para baixo, sentindo-me ainda mais culpada do que antes.
- Não quero que ele fique chateado, mas você sabe que nunca gostei de rótulos. Estava tudo tão perfeito, tão certo e agora ele quer estragar tudo – o bolo na minha garganta fazia com que as palavras saíssem cortadas.
- “Estragar tudo”? – repetiu, surpresa outra vez. – , olha aqui. Olha para mim – colocou a mão sobre as minhas.
Soltei um suspiro antes de fazer o que ela pedia.
- , amiga, como assim estragar tudo? – agora seu tom era gentil, como se estivesse falando com um gatinho assustado. – Ele te pediu em namoro. Quer tornar tudo mais firme entre vocês, tudo oficial, certo. Como isso pode ser errado?
Olhei para o teto, estava tão triste, tão drenada que não tinha nem vontade de chorar.
- É... complicado, Lorelai.
- Eu sei que é – apertou minha mão de maneira reconfortante. – Fale comigo, me conta. Para que eu entenda.
Não.
Eu não falava sobre isso. Com ninguém. Nem mesmo com ela.
Sacudi a cabeça.
- Ok, tudo bem. Não precisa me contar. Não para mim, mas você precisa falar com ele. Carter merece uma explicação.
Ela tinha razão. Meu peito só pesava um pouco mais a cada segundo.
Deitei minha cabeça no seu ombro e o silêncio caiu sobe nós outra vez. Agora, contudo, sentia-me um pouquinho melhor do que quando tinha chegado. Era por isso que amizade era importante.
Não sei quanto tempo ficamos paradas, quietas e olhando para o vazio. Ou quantos minutos se passaram enquanto Lorelai falava alguma coisas genéricas e avulsas para tentar me distrair. Só dei-me conta da passagem do tempo quando me ligou para perguntar se eu estava pronta para ir para casa.
Minha melhor amiga ainda perguntou se queria ficar ali, disse que poderíamos dormir na casa de Mark e expulsá-lo para nossa casa. “Uma noite das garotas, sem problemas”, ela disse, mas neguei depois de agradecer. Podia até ter me tornado uma covarde, contudo, não era uma fugitiva. Não tinha chegado a um ponto tão baixo. Pelo menos não ainda. Blake, então, carregou as sacolas – que insistiu que eu deveria dar um jeito porque elas ocupavam espaço e tinham o meu nome - pelo elevador e até o carro esportivo de . Despedi-me de minha amiga apenas com um sorriso fraco antes de me acomodar no banco de couro.
Pensei de maneira não relevante que, entre todos os carros incríveis dos meninos, estava ficando mal-acostumada em relação a automóveis.
e eu não trocamos nenhuma palavra durante o percurso inteiro, os dois absortos em seus próprios problemas. Parte de mim – a parte que se preocupava com os amigos – queria perguntar o que havia de errado com ele, mas seria hipocrisia demais, pois não queria ouvir a mesma pergunta de volta.
Só quando estávamos no elevador é que o clima ficou esquisito demais, então finalmente paramos de evitar o olhar um do outro e resolveu quebrar a quietude:
- Comprou bastante coisa, hein – murmurou, olhando para as diversas sacolas da Mints em suas mãos, sacolas que ele insistira em carregar todas.
- Na verdade, eu não comprei nada – falei tão baixo quanto ele. – Para ser bem sincera, não sei o que é isso tudo. Lorelai disse que apareceu lá em casa. Mencionou também que tem um bilhete – olhei por cima das sacolas.
- Acho que é esse aqui – ele se abaixou um pouco e fez um malabarismo para enfiar a mão esquerda em uma das sacolas e puxar um pedaço de papel timbrado com a logomarca da loja.
nem mesmo tentou ler o que estava escrito, imediatamente me estendo o objeto.
- Hmm... – murmurei enquanto passava os olhos pelas letras ali e senti meus olhos se arregalarem.
- Bom, - tossi para limpar a surpresa da garganta, - aqui está dizendo “Querida, senhorita , ficamos muito satisfeitos em saber que a senhorita aprecia nossa marca, por favor, aceite algumas peças de nossa nova coleção ainda não lançada. Sentir-nos-íamos muito honrados se você as aceitasse. Com admiração, atenciosamente, Addie Mints” – quase não consegui terminar de ler as duas últimas palavras já que meu queixo deveria estar em algum lugar perto do chão.
Levantei a cabeça e encontrei com um raro sorriso.
- Addie Mints? – aquilo saiu em um meio-termo entre um sussurro e um grito. – A Addie Mints? Addie Mints me mandou uma carta escrita à mão! – franzi o cenho e abaixei a vista para o papel outra vez. – Por que Addie Mints me mandou uma carta e roupas?
- Vou arriscar e dizer que você deve ter mencionado em algum lugar que usava roupas dessa marca.
- Como você- Sim! – sacudi a cabeça, concentrando-me no mais importante. - Perguntaram-me sobre isso no twitter e eu respondi.
- Então está explicado! Isso – levantou as sacolas. – É o que eles fazem. Você agora é uma de nós, alta exposição midiática e tudo mais. Assim eles dão presentes para ganhar a propaganda que não podem comprar.
Pisquei devagar, tentando absorver tudo.
- Mas eu não sou famosa. Eu não consigo influenciar ninguém ao ponto de grandes marcas me darem presentes. Muito menos tantos presentes – gesticulei para as diversas sacolas. – E também não sei se quero ganhar essas coisas. Não quero dever favores a ninguém. Vou devolver tudo.
- Não precisa devolver, sério. É você quem está fazendo um favor para elas. Se gostar, fique com as roupas. Se não gostar, doe – deu de ombros. – É isso que fazemos.
- Mas... – murmurei bobamente, mas a porta do elevador se abriu, anunciando nosso andar.
- Não fique se preocupando com isso, . A vida tem problemas bem maiores para nos estressarmos.
E, com aquelas palavras sábias, caminhou até abrir a porta da minha casa e gesticular para que eu entrasse primeiro. Ele perguntou se queria que deixasse tudo no meu quarto, mas neguei. Então, com um sorrisinho fraco, meu amigo se despediu e foi embora.
Soltei um suspiro, encarando a madeira da porta pela qual ele havia acabado de passar. Precisava de um pouco d´água, minha garganta estava seca. A caminhada para a cozinha foi interrompida, contudo, por saindo do corredor que dava para os quartos. Foi como um daqueles momentos de filmes. Nós paramos no meio do caminho e ficamos alguns segundos em silêncio, nos encarando.
A diferença era que apostava que nos filmes os personagens não se sentiam tão... mal. Tinha certeza de que o estômago da mocinha não revirava de maneira tão horrorosa e que os olhos do mocinho não ficavam tão vazios.
Pois era assim que estávamos agora. Queria me encolher pelo jeito como me encarava, como se eu fosse uma desconhecida. sempre me olhava com carinho, mesmo quando discutíamos. Agora, contudo, não havia nem sombra daquele sentimento ali. Aliás, era como se não houvesse sentimento nenhum. Nada.
Vazio.
- ... – sussurrei.
- Sim? – sua voz também não continha aquele tom gostoso que adorava.
- , eu-
Eu não fazia nem ideia do que dizer.
Engoli em seco.
- Podemos conversar?
Sua expressão não se alterou.
- Conversar? Você quer conversar agora? Mas não queria conversar há dois dias. Engraçado – coçou o queixo, fingindo friamente refletir sobre aquela questão
Obviamente ele sentia que a situação era tudo, menos engraçada. Descobri que não gostava quando estava sendo sarcástico. Não combinava com ele.
- , eu, por fa-
Alguma coisa passou rápido por seus olhos, mas não consegui identificar antes que o vazio voltasse.
- Olha, eu realmente não tenho tempo agora – olhou para o relógio em seu pulso. – Quem sabe depois.
Antes que pudesse responder, já estava sozinha outra vez naquele cômodo. O revirar horroroso em meu estômago e o peso no meu peito aumentaram e de repente não queria nada além de me deitar no meu quarto e fingir que esses últimos dias não haviam existido. Caminhei lentamente até meu quarto e já estava prestes a mergulhar na cama quando a porta do meu dormitório bateu com força.
Por um segundo pensei que era e uma pitada de esperança surgiu em meu peito, pitada essa que sumiu imediatamente quando encontrei Kristine Green de braços cruzados e, mesmo a alguns metros de distância, pude reconhecer a fúria em seu rosto.
- Kristine, eu não estou a fim de-
- Senta aí – cuspiu.
A surpresa ao ouvir aquelas palavras raivosas foi tão grande que superou o entorpecimento que estava sentindo. Arregalei os olhos.
- Como é qu-
- Mandei sentar! – falou entre os dentes e marchou alguns passos em minha direção.
Ainda em choque, acabei por sentar na cama. Estava aturdida demais para fazer qualquer outra coisa.
- Ótimo. Agora nós duas vamos ser bem honestas e bem rápido.
Antes que eu pudesse perguntar o que droga estava acontecendo, ela começou a despejar:
- O que merda você estava pensando, hein? te pediu em namoro e você não respondeu? Saiu para o seu quarto como se ele tivesse perguntando se você queria uma xícara de chá? Sem responder nada! – cuspiu a última palavra como se estivesse queimando em sua boca.
Kristine não estava gritando, mas tinha tanto veneno nas suas palavras que eu preferia que ela estivesse berrando aos quatro ventos. Gritos não me intimidavam, o jeito que ela estava falando, contudo, fazia com que arrepios horríveis descessem pelas minhas costas.
E na mistura daqueles sentimentos ruins, senti-me invadida por ela saber daquilo.
- Ele te contou isso?
- Ele me cont- CLARO QUE ELE ME CONTOU! – bateu o pé no chão.
Green estava com tanta raiva que aquele sentimento ruim estava chegando a mim em ondas.
Parou por um segundo e levantou os olhos para o teto e respirou fundo, provavelmente tentando se controlar antes de me olhar de novo, com tanta raiva quanto antes:
– É claro que me contou, . Ele me conta tudo. Sempre. Mas talvez você queira saber como ele me contou – abaixou-se um pouco, as mãos na cintura. – me ligou às duas da manhã. Duas. Da. Manhã. E ele levou três minutos para conseguir falar alguma coisa. Eu já estava trocando de roupa para pegar o carro para vir para cá. Você tem noção de como eu me senti ao ficar esperando meu irmão me contar o que estava acontecendo? Melhor, você tem noção de como ele se sentiu? – trincou os dentes.
- E-e-u
- Pois eu te explico. Te explico como é ter um bolo na garganta tão horrível, tão desesperador que você não consegue nem falar – ela gesticulava tanto que pensei que ela estava se controlando para não me atacar fisicamente. - Te explico como é se sentir tão impotente que nem mesmo sua voz você consegue controlar. Era isso que você queria saber? Hein?
Não precisava que ela me explicasse aquele sentimento, pois era exatamente pelo o que estava passando agora.
- E sabe o que aconteceu quando ele finalmente conseguiu falar? Eu não reconheci a voz dele. Eu não consegui reconhecer a voz do meu melhor amigo de tão quebrada que estava! Se eu me senti um lixo só de imaginar o que ele estava passando, me diga, doutora , como é que estava se sentindo? Como ele ESTÁ se sentindo!
Agora havia lágrimas no canto dos olhos dela.
- Olha, , eu não sei o porquê de você ter feito o que fez e, para ser bem sincera, isso não me interessa – passou as costas das mãos pelos olhos com força. – Mas você vai consertar, entendeu? – apontou para o chão. – Você vai consertar! Sabe por quê? – perguntou retoricamente, mas, mesmo assim, parou de falar por uns segundos.
A única coisa que consegui fazer foi sacudir a cabeça.
Green soltou uma risada seca.
- Sabe, uma vez, quando e eu tínhamos catorze anos, eu tive meu primeiro namorado. Depois de um tempo ele me traiu, quebrou meu coração – olhou para o lado, a expressão longe, provavelmente recordando os fatos que narrava. – quebrou a mão ao socá-lo.
Não estava entendo a ligação entre a anedota e a situação.
Voltou a olhar para mim
- Meu melhor amigo nunca se firmou com ninguém, nunca gostou de ninguém ao ponto de querer namorá-la. Não até você – estreitou os olhos. - Sempre me orgulhei de saber julgar o caráter de alguém e, por isso, quando ele pediu minha opinião, aprovei você. Não é possível que eu tenha errado tanto com alguém.
Gaguejei qualquer coisa que nem mesmo eu entendi e logo Green levantou a mão para que eu me calasse outra vez.
- Você não precisa explicar nada para mim. Aliás, eu nem quero ouvir. Mas você vai explicar para o – abaixou-se até que seu olhar ficasse no mesmo nível que os meus. – Entendeu? – sibilou, ríspida.
Não pude fazer nada além de balançar a cabeça. Sentia-me estúpida por estar me curvando às palavras dela, mas o fazia porque tinha ciência de que ela estava falando a verdade. Sabia que ela estava certa e eu, errada.
Kristine voltou a se endireitar e girou os calcanhares e caminhou até a saída do quarto.
Já com a mão na maçaneta, virou-se outra vez para mim:
- Eu sempre desejei nunca ter que retribuir o favor que me fez ao quebrar o nariz do imbecil do meu ex. Mas isso não vai me impedir de fazê-lo se for preciso. Não me obrigue a usar essa retribuição em você.
E, com um último olhar gelado, Green saiu do meu quarto, batendo a porta.
De maneira automática levantei e passei a chave na fechadura antes de deixar que meus joelhos cedessem e eu caísse sentada outra vez sobre a cama. Apoiei os cotovelos sobre as coxas e enfiei as mãos nos cabelos, sentindo que minha cabeça pesava toneladas e toneladas.
A respiração era difícil e saía aos trancos. O mundo parecia girar um pouco mais ao meu redor enquanto eu me sentia uma das piores pessoas nele.
Lorelai, e Kristine tinham razão. Todos estavam certos, exceto eu.
Não devia ter deixado sem resposta e não deveria tê-lo ignorado por dois dias, ter me escondido em meu quarto como uma covarde quando ele tentou falar comigo.
Não conseguia nem mesmo me reconhecer. Nunca fugi dos meus problemas, nunca fiquei assim por outra pessoa. Nunca senti aquele peso tão ruim que parecia que iria me esmagar a qualquer momento. E não era peso na consciência, não. Aquilo eu poderia aguentar. O que machucava era aquela aflição terrível que parecia escancarar meu peito.
A dor era tanto minha por ter percebido agora o quão imbecil fora quanto um reflexo da dor que deveria estar sentido. Não queria ter machucado , nunca quis. Não sabia, contudo, o quanto machucá-lo me machucaria também.
Ofeguei, olhando para os lados.
Eu estava me sentindo claustrofóbica, como se tudo estivesse fechando em cima de mim. Paredes físicas e metafóricas. Minha mão se agarrou com força sobre o tecido da camisa que cobria meu peito, puxando-o para longe. Até aquela camiseta larga estava me sufocando.
Precisava fazer alguma coisa antes que entrasse em colapso total. Por um segundo pensei em procurar e tentar conversar, mas mesmo meu cérebro embaçado no momento conseguiu perceber que aquela não era uma boa ideia.
Precisa, todavia, falar com alguém.
Não.
Não alguém. Só havia uma pessoa com quem falar, a única pessoa que me entenderia.
Minhas mãos tremiam visivelmente quando meus dedos deslizaram pela tela do iPhone.
Levei o aparelho à orelha e rezei para todas as entidades possíveis para que o destinatário da chamada me atendesse. Quando finalmente houve uma resposta, só consegui sussurrar duas palavras antes de, pela primeira vez em mais de dez anos, cair em um choro compulsivo:
- Tia Claire.



Capítulo Vinte Um

Claire Hardy sempre foi uma pessoa prática. Poucas coisas abalavam a expressão impassível que ela usava tanto na vida profissional quanto na pessoal. Tão centrada e focada que alguns diriam que ela poderia ganhar muito dinheiro como jogadora de pôquer se já não o fizesse como a maior advogada britânica atual. Nunca foi impulsiva, então, quando tive que passar os dez primeiros minutos daquela conversa telefônica tentando convencê-la de que não era necessário pegar o primeiro avião para Londres, foi que percebi o quanto a situação toda estava destorcida.
Assim que tia Claire se inteirou do lamentável estado emocional que me encontrava, já pude ouvi-la gritar ao fundo para que sua secretária conseguisse um voo imediatamente ou para pedir o jatinho de um de seus clientes emprestado. Segundos depois ela voltou sua inteira atenção para mim, perguntando repetidamente o que estava acontecendo. Eu só conseguia murmurar palavras desconexas, tentando explicar o inexplicável caos em meu peito. Sabia que precisava me controlar o suficiente para ter uma conversa descente, que toda aquela lamúria incompreensível só estava deixando-a ainda mais preocupada. Então, usando aquele tipo de força de vontade que você só descobre que tem em um momento de necessidade, respirei fundo algumas vezes e passei os dez minutos mais longos da minha vida persuadindo-a de que só precisava conversar um pouco, de que uma viagem era desnecessária. Relutantemente, ela deixou que eu ganhasse aquela pequena discussão. O engraçado era que podia sentir sob seu tom o quanto a doutora Hardy se rebelava com a ideia de perder qualquer tipo de embate, mas que se resignava frente ao fato de que minha tia Claire sempre viria antes de sua faceta Tubarão Hardy.
Ela provavelmente percebera que estava ficando ainda mais perturbada tendo que lidar com mais aquele assunto. Tia Claire suspirou no telefone e pediu para que eu contasse, então, o que estava acontecendo e o que ela poderia fazer para consertar as coisas. Assim como fiz com Lorelai, preferi cortar o assunto para que ele ficasse mais apresentável. Contudo, diferentemente do que aconteceu com Blake, assim que terminei o relato sobre o que havia acontecido dois dias atrás, não houve uma reação explosiva.
Não.
A pessoa que eu mais respeitava no mundo ficou em silêncio por alguns segundos.
E eu soube que ela entendeu todo o significado por trás das minhas ações.
Esperava por um discurso de consolo ou repreensão ou talvez qualquer coisa parecida com isso. Enfim, esperava um discurso – não que quisesse ouvir um - mas fui surpreendida mais uma vez com o dom das palavras que minha tia sempre possuiu. Depois de tudo que falei, ela tinha apenas duas frases. Poucas palavras que significaram mais do que uma homilia inteira. Tia Claire, com aquela voz límpida de sempre – e aqui até pude imaginar o olhar de compaixão que ela lançaria sobre mim se estivesse ali comigo – e disse: “Vocês não são eles, minha querida. Não deixe que os erros deles estraguem sua vida”.
Meia hora de conversa e catorze palavras que fizeram com que eu passasse o resto do dia deitada na cama, remoendo minha vida inteira, decidindo o que faria com o resto dela. Eu tinha duas opções bem claras. Podia conversar com sobre coisas da qual nunca falei com ninguém ou podia me fechar em mim mesma. De novo.
Podia lidar com a pressão de decidir entre duas escolhas bem delineadas e viver com as consequências de minhas ações. O problema era que, agora, a única coisa clara ali eram aquelas duas opções, tudo o mais era um borrão. Conseguia enxergar o agora, o que poderia escolher, mas não conseguia imaginar nada que viria disso. Nada vinha em minha mente. Só havia o aterrorizante vazio.
Era isso que eu sentia, ou, melhor, não sentia. Nada. Vazio. Era horrível e trazia novas lágrimas aos meus olhos - como se, agora que havia permitido que aquela umidade traiçoeira descesse por meu rosto, ela não pudesse ser paradas.
Uma mistura caótica de lágrimas e pensamentos confusos. Era nisso que eu havia sido reduzida.
Patética.
Como havia chegado a esse ponto? E para quê? Por quê?
Aquelas eram só mais algumas das várias perguntas que me rondavam. Não me surpreenderia se alguém dissesse que realmente podia ver aquelas nuvenzinhas de desenho girando ao meu redor.
Minha cabeça parecia pesar quilos, mas aquilo não era pior do que aquela dor horrível em meu peito. Em certo momento cheguei a olhar por baixo da minha blusa para me certificar de que não havia um machucado aberto sobre a pele.
Horas de solidão e nenhuma resposta satisfatória já estavam me levando a um desespero completo até que ouvi uma porta bater ao longe.
Pulei na cama, assustada ao lembrar que o resto do mundo estava seguindo seu ritmo normal do lado de fora da segurança das paredes do meu quarto. Aquilo, contudo, foi mais benéfico do que todos aqueles minutos sentada no escuro. Era como se o baque de madeira contra madeira fosse um tapa de bom-senso direto em meu rosto. Um choque de realidade que trouxe meu raciocínio lógico de volta. E de repente eu sabia o que fazer.
Agarrei as muletas e quase escorreguei duas vezes na pressa de sair do quarto e encontrar quem havia chegado em casa. Encontrei revirando a geladeira.
- ! – chamei, minha voz saindo mais rouca do que o normal graças ao tempo que ficara sem utilizá-la.
Ele se virou devagar, um sanduiche na mão.
- Oi, si- suas palavras de boca cheia foram interrompidas assim que ele colocou os olhos sobre mim.
A expressão surpresa em seu rosto teria sido cômica se meu estado não estivesse tão trágico. Tinha noção, contudo, que não poderia culpá-lo pelo olhar analisador que ele me lançava.
Eu era a plena definição de bagunça. Os cabelos desgrenhados de tanto puxá-los, os olhos inchados de tanto chorar e as roupas amassadas por ter ficado encolhida na cama por tanto tempo.
- , cadê o ?
- Sis, o que acont-
- Agora não! , cadê o ? – sibilei, não me preocupando nem um pouco em ser rude.
- Acho que ele está no quarto dele, mas o que-
Suas palavras ficaram perdidas no ar, pois já tinha saído em direção ao cômodo que ele indicara. Entrei no quarto sem bater, tranquei a porta e guardei a chave no bolso antes de vasculhar o quarto com os olhos. Encontrei-o sentado na cama de cabeça baixa e encarando o celular. Felizmente estava sozinho – não queria ter que lidar com o furacão Green outra vez.
- , eu já disse que não estou a fim de conversar – resmungou, ainda sem olhar para mim.
Sua voz estava tão oca quanto a minha.
Engoli em seco, reunindo a coragem que havia me levado até ali.
- Eu não sou o .
Aquilo fez com que ele levantasse a cabeça imediatamente. Surpresa brilhou por um segundo em seus olhos antes de apagar para dar lugar à frieza.
- Bom, , não estou a fim de conversar – e, dizendo isso, voltou sua atenção para o aparelho em sua mão, dispensando-me.
Arqueei a sobrancelha.
Mas não. Ah não! Isso não iria ficar assim. Sem chance. Não depois de todas aquelas horas que fiquei sofrendo para tomar uma decisão.
Caminhei até onde ele estava e puxei o celular de sua mão, jogando-o por cima de meu ombro e reprimindo um sorrisinho satisfeito ao ouvir o baque que o objeto fez ao cair no chão.
ergueu o queixo e me encarou embasbacado, piscando várias vezes.
- Que pena que você não quer conversar. Então vai só ouvir. Você queria saber o que está acontecendo, não queria?! Pois bem. Vou te contar.
E foi mais ou menos naquele minuto que 80% da coragem que eu tinha reunido se esvaiu. Orgulhosa que sou, contudo, continuei ali, encarnado aqueles olhos maravilhosos dele e deixando que as palavras rasgasse seu caminho para fora da minha garganta:
- Você se lembra de quando te contei sobre meus avós maternos, sobre eles serem escoceses?
franziu o cenho, assentindo devagar, provavelmente não entendendo o porquê de começar assim.
- Naquele dia eu disse também que minha família era pouco convencional.
Assentiu outra vez.
Olhei para o lado, soltando um suspiro. Aquilo era bem mais difícil do que eu imaginava. Precisava me sentar, algum apoio era melhor do que a instabilidade que minhas pernas estavam sofrendo – instabilidade essa que não tinha nada a ver com o gesso. Caminhei devagar e tateei o colchão até me acomodar num lugar a uns dois palmos de onde ele estava. Mantive meu olhar sobre a cortina azul arriada ao lado da janela quando recomecei a falar:
- Aquele dia eu não me referia tanto aos meus tios, mas sim aos meus pais.
Suspirei.
- Eles nunca foram do tipo que você usaria como exemplo de família comum. Na verdade, até meus cinco anos eles não eram nem casados. Apesar disso, éramos relativamente normais. Minha mãe trabalhava em uma agência de viagem e meu pai trabalhava em uma empresa de telecomunicações. Eles tinham suas peculiaridades, mas, como disse, nada muito incomum. As coisas corriam bem até que, pouco antes do meu aniversário de seis anos, eles decidiram tirar umas férias na cidade vizinha. Foram duas semanas ao invés de uma. Durante esse tempo fiquei na casa da minha tia e não recebi qualquer notícia deles – olhei para minhas mãos sobre meu colo, soltando uma risadinha seca. – Ainda lembro a primeira vez que os vi depois daquelas semanas. Quase não reconheci meus próprios pais. Nada mais de terno e gravata e vestidos sociais, ao invés disso agora havia camisetas largas e vestidos enormes e com cores berrantes. “Nós temos boas notícias, ”, eles disseram, “descobrimos várias coisas, querida”. E foi com essas palavras que eles começaram o discurso que virou minha vida de cabeça para baixo – agora as palavras saiam automáticas e não me lembrava da última vez que tinha piscado, quase um robô. – Eles tiveram algum tipo de descoberta cósmica – outra vez aquela risadinha amarga – e perceberam que aquilo de vida “ditada pelas ordens restritivas da sociedade opressora” não era para eles – fiz sinal de aspas com o dedo indicador e o médio. – Eles haviam se casado na praia e agora teríamos umas mudanças. Não era ótimo, querida? Vamos viver na praia, . Vamos poder apreciar o sol e a natureza, filha – tinha a vaga consciência de que meu tom de voz se tornou inflexível ao soltar aquelas últimas frases, que minha voz estava mais fria do que o normal, mas estava absorta demais naquelas lembranças para me importar. – Nenhum dos dois percebeu que estava apavorada por mudar para uma cidade onde não teria minha tia Claire todos os dias. Nenhum deles se importou. Afinal eu era apenas uma criança e eles estavam fazendo isso em nome do melhor para o cosmo.
A passagem na minha garganta e os dutos lagrimais em meus olhos começaram a funcionar em grandezas inversamente proporcionais. Na medida em que um se fechava, o outro se abria.
- Apesar de todos os argumentos de minha tia sobre não ser saudável mudar a minha rotina de modo tão drástico ou sobre o fato de eles não poderem se demitir desse jeito porque não conseguiriam se sustentar, nos mudamos para uma casa perto da praia e eles passaram a vender sementes e ervas medicinas. Tia Claire vinha nos visitar no mínimo três vezes por semana, dizendo que estava com saudades, mas hoje percebo que ela fazia isso para ter certeza de que eu estava sendo bem cuidada, que tinha comida na mesa. Minha tia, no começo, se preocupava com o fato de que o novo negócio dos meus pais poderia falir a qualquer momento. Felizmente ou não, isso não aconteceu. Essa onda verde tinha acabado de chegar e todo mundo queria ser saudável. Tínhamos dinheiro, é verdade, mas eles entravam cada vez mais nessa coisa de serem hippies modernos e com isso nos afastávamos. Eu queria de volta ao menos o pouquinho de estabilidade que tinha antes deles resolverem jogar minha vida em espiral enquanto eles queriam adorar o sol, a lua e sei lá mais o que. Não me leve a mal, não queria que meus pais desistissem da vida que tinham escolhido para si. Só queria que eles lembrassem que também tinham responsabilidades como pais.
Passei a mão pelo cabelo, meus ombros caindo para frente com o peso das minhas próprias palavras.
- Várias vezes eu fiquei esperando mais de duas horas na porta da escola porque minha mãe tinha se esquecido de ir me buscar. Várias vezes tive que ligar para minha tia, fazê-la sair de casa, na cidade vizinha, para ir me buscar porque eles me esqueceram na porta da escola. Eu me sentia mal duas vezes quando isso acontecia. Primeiro porque meus próprios pais davam preferência às horas sagradas de regar tal semente especial vinda da Tailândia sobre ir buscar a filha quando ela tentava se educar para ser alguém melhor na vida. E me sentia péssima por incomodar minha tia de novo e de novo – passei a mão na testa, estava suando frio.
Senti se aproximar um pouco, provavelmente sentindo pena. Meu estômago se revirou. Odiava que sentissem pena de mim.
- Não precisa ter pena de mim – vocalizei meu pensamento, tentando manter a voz neutra. - Não faltou amor. Eles eram bem carinhosos. Mas nunca foram... pais. Era como se tivesse dois tios daqueles bem doidos, sabe? Que você adora encontrar nos feriados, mas com quem a convivência era esquisita – dei de ombros, soltando o ar pesadamente. – Depois de um tempo fiz amizade com uma vizinha, Linda, e a mãe dela sempre me dava carona. Apesar disso, demorei muito tempo para me acostumar com aquele novo jeito deles. Precisei crescer muito rápido porque a responsável na casa era eu. Quando completei onze anos e passei a entender um pouco mais da vida, era eu quem lembrava que era preciso pagar as contas, as datas necessárias. Imagino que só não precisei cuidar da parte financeira porque meu pai gostava dessas coisas envolvendo matemática – sorri fraco ao recordar meu bom e velho pai e seu espírito livre.
- Eles também não acreditavam em limites ou em coisas tecnológicas. E isso também foi difícil para mim, por mais incrível que pareça. Como já disse, não queria amigos ou tios moderninhos, queria uma família como a das outras crianças, queria que meus pais me dissessem que eu não poderia ir a tal lugar e não que “devemos criar os filhos para o mundo e deixar que eles desenvolvam suas próprias convicções” – tentei imitar a voz da minha mãe. – A primeira vez que minha mãe disse isso foi quando minha tia foi tirar satisfação com ela pelo jeito que eu estava sendo criada. Foi a primeira vez que vi tia Claire gritar. Ela estava furiosa – dei de ombros. – De qualquer jeito, eu tinha uns treze anos nessa época. Tudo bem liberal lá em casa, menos, é claro, quando se tratava das tecnologias do mundo. Verdadeiros tecnofóbicos, meus pais. Para me conectar ao resto do mundo como qualquer outra adolescente dependi outra vez de Claire.
Agora ele se aproximou ainda mais de mim, o calor de seu corpo irradiava par ao meu, mas, mesmo assim, sentia frio.
- No final levou vários anos para que me conformasse com o fato de que as coisas nunca voltariam a ser como antes, que aquela história “de viver a vida ao máximo de acordo com os ensinamentos da natureza” nunca passaria. Então me adaptei – dei de ombros outra vez, passando a mão pelo jeans do meu short. – Outro baque aconteceu quando tia Claire se casou e foi morar a um oceano de distância. Ela chegou a me perguntar se eu queria ir junto com ela, mas não iria me impor a recém-casados, mesmo tio Ryan sendo tão legal como é. Cerca de quatro anos depois, consegui a bolsa para estudar aqui. E o resto você já sabe.
O silêncio não durou mais do que alguns segundos, mas parecia que me esmagaria por toda eternidade.
- – ele chamou baixinho, colocando a mão em meu rosto e me virando para ele.
O peso em meu peito diminuiu um pouco ao encontrar seu olhar tão calmo, cheio de um sentimento de carinho. Não queria encará-lo, contudo, qualquer coisa era melhor do que o vazio com que tinha me deparado ao entrar no quarto.
- ...
- Não, shiu... – sussurrou devagar, passando os dedos pelas minhas bochechas, limpando as lágrimas que eu nem percebi que haviam caído.
Queria me abaixar, deitar sobre seu peito e esquecer tudo, abandonar o assunto, mas sabia que se fizesse isso deixaria coisas inacabadas entre nós e isso seria prejudicial. Decidi, então, chegar para trás, afastando-me tanto física quanto figurativamente.
- Não, deixa... deixa eu terminar de contar.
relutou por um segundo antes de assentir e também se afastar o mínimo necessário.
- Foi por isso que eu desenvolvi essa... – gesticulei com a mão, procurando uma palavra – essa fobia... essa, sei lá, aversão a palavra “relacionamento”. Houve outros caras antes. Nós tínhamos uma... coisa, mas sempre que chegava perto de se tornar sério ou quando eles mencionavam a palavra “namoro”, eu terminava tudo. Desistia. Deixava-os e não olhava para trás. Não via problemas nisso. Não que eu fosse uma vaca sem coração, eu sentia falta deles, mas era isso. Uma lembrança boa que incomodava de saudade um pouquinho quando recordava.
Voltei a encarar a cortina.
- O pior talvez é que eu sabia que fazer aquilo não fazia sentido. Sabia que era totalmente irracional culpar a instituição do casamento ou do relacionamento em geral por meus pais terem passado a se preocupar mais com as boas vibrações do universo do que comigo ao terem se casado. E saber que estava agindo sem razão, sem um motivo concreto era desesperador. Mas eu não conseguia fazer nada. O pânico era maior do que qualquer raciocínio que eu pudesse fazer. E, para ser bem sincera, acho que eu não tentava realmente. Era bom, era gostoso, mas não valia todo o trabalho, então eu simplesmente desistia quando eles batiam nessa parede que eu havia construído. Era fácil. Agora não é mais – virei para ele.
estava perto e muito, muito sério. Seu olhar imediatamente atraiu o meu e foi ali que minha atenção permaneceu durante minhas próximas palavras:
- Não é fácil. É difícil, é aterrorizante – a palavra saiu estrangulada. – Totalmente aterrorizante pensar que você também estava indo embora, que eu estava te deixando ir embora porque eu sou uma medrosa. Então eu não vou desistir – tentei firmar a voz. – E se você queria desistir, o problema é seu – bati o dedo em seu peito várias vezes, meu lábio inferior tremia e eu tentava engolir o choro. – Porque não vou deixar. Não vou desistir de nós dois e não vou deixar você fazer isso. Não quando doí tanto – parei de cutucá-lo para bater o pulso contra meu peito.
Aquele sentimento sufocante estava de volta. Era só pensar em se afastando que aquela coisa horrorosa se apoderava outra vez do meu peito.
Ouvi vagamente, ao longe, chamar meu nome, mas estava perdida demais em meus próprios pensamentos. Apesar das minhas palavras, sabia que não estava sendo justa. Precisava pensar primeiro nele.
Primeiro nele porque... porque...
Por quê?
Meu lado racional – que aparentemente havia voltado a funcionar depois da ligação com tia Claire – trabalhou por poucos segundos antes de voltar com a resposta.
Resposta que era óbvia e talvez por isso tenha surgido tão rápido em minha mente quando finalmente criei coragem para procurá-la.
Ofeguei.
Oh, céus!
Bati o pulso de novo contra o peito.
Outra vez a sensação de estar afogando. Dessa vez, contudo, havia também um sentimento diferente, algo caloroso que se espalhava por todo meu corpo enquanto eu finalmente reconhecia o porquê de tudo isso. O porquê de importar mais agora do que outros importaram antes.
Eu o amava. Amava-o mais do que minha teimosia, mais do que minha covardia, mais do que meu orgulho e amava-o mais do que minhas dúvidas sobre a racionalidade de se apaixonar tão rápido por alguém.
Amava-o demais para deixar que ele se envolvesse demais com uma bagunça que eu sou.
- Mas você tem que ir agora... porque eu sou uma bagunça – vocalizei meus pensamentos, minha voz saindo abafada quando enfiei o rosto nas mãos. – Você merece coisa melhor.
Um soluço escapou da minha garganta. E imediatamente ouvi murmurar:
- É engraçado.
E talvez por aquilo ter sido uma das poucas coisas que realmente não esperava ouvir foi que levantei a cabeça de uma vez, virando-me para olhá-lo.
- O que você disse? – franzi o cenho, piscando repetidamente.
- Disse que é engraçado – seu som era suave, conciliador como se tivesse falando com um animalzinho assustado. - Engraçado como você adora me chamar de bobo, mas agora é você quem está dizendo bobagens.
- Bobagens? – murmurei, não entendo nada.
- É verdade. Acho que essa palavra não caiu muito bem aqui. Que tal “idiotices completas”? Ou, quem sabe, “a coisa mais idiota que ouvi”?
Dessa vez não fui capaz de falar nada, só fiquei olhando-o como uma imbecil, abrindo e fechando a boca repetidas vezes.
- , vem cá – passou seu braço por minha cintura e me puxou até que encostei meu ombro em seu braço.
- Não, – murmurei.
Coloquei minha mão sobre a sua e tentei - não de maneira muito convicta – me afastar. Ele ignorou minhas palavras, abaixando a cabeça para encarar minha mão que agora estava sobre a sua. Encarei seus cabelos por alguns segundos antes de também abaixar a vista à procura do que ele achava tão interessante. Poucos segundos depois, seu polegar começou a acariciar as costas da minha mão e foi como se pequenas fagulhas irradiassem do ponto em que ele tocava para o resto do meu corpo.
Dois dias e eu já havia sentido falta daquelas sensações como uma viciada em abstinência.
- Eu adoro suas mãos – murmurou, rouco, ainda sem me olhar. – São tão macias. Adoro quando você as usa para puxar meu cabelo quando eu te beijo.
O ar estava ficando preso em meu peito.
- Mas, acima de tudo – parou por um segundo para levar minha mão contra seus lábios e depositar ali um beijo casto - adoro quando você inconscientemente entrelaça sua mão na minha quando estamos assistindo televisão.
Agora eu já nem me lembrava de como respirar direito.
- , eu… eu - titubeei.
Levantou a cabeça para me encarar de novo, o que não foi muito do meu agrado, pois eu devia estar com uma expressão idiota.
- Gosto do seu cabelo – enrolou uma mecha em dois dos seus dedos, passando agora sua atenção para o que estava fazendo. – Gosto de enrolá-lo na minha mão e de quando você o deixa solto, mas também adoro quando você prende ou quando faz uma trança.
Engoli em seco, cada vez mais surpresa e cada vez mais curiosa.
- , o que você está fazendo? Do que você está falando? – sussurrei.
Não que não estivesse gostando de seus gestos e elogios, mas aquilo não era o que estava esperando quando fiz o discurso sobre o meu passado. Essa indefinição estava me deixando muito ansiosa. E meus nervos não podia levar mais nenhum baque, eles já estavam fragilizados demais.
Ele soltou meu cabelo e me olhou nos olhos de novo.
- , vêm aqui – colou a mão em minha cintura e chegou para trás até encostar as costas na cabeceira da cama, me puxando com cuidado para junto de si.
Deixei que ele fizesse o que queria, confusa demais para reagir e, em silêncio, nos acomodou até que eu estivesse entre suas pernas, com as costas contra seu peito. Suas mãos pousaram sobre minha barriga.
- Por que eu estou falando isso? Porque são verdades, diferentemente das idiotices que você estava falando há um minuto. Como assim “você merece coisa melhor”? Nunca pensei que fosse ouvir uma coisa dessas vindo de você, amor. Afinal, você é a inteligente aqui. Minha inteligente do tipo médica – suas palavras soavam perto do meu ouvido e vários arrepios surgiam. – Mas chega até a ser coerente, não? Você está agindo de maneira tão diferente do seu normal que talvez eu deva fazer o mesmo.
Minha mente exausta não trabalhava com a atenção necessária para entender a que ele se referia.
- Estou dizendo que se você vai agir como irracional, eu serei o racional. E meu ato como ser mais racional dessa relação é te proibir de dizer qualquer merda sobre arrumar alguém melhor. Aliás, por que você disse isso? Nunca pensei que você tivesse esse lado inseguro assim, .
Engoli em seco outra vez.
- Não é isso. Não estou fazendo manha. É só que...
- Só que o quê? – apertou de leve minha cintura para enfatizar.
- Pare de me distrair, ! – dei um tapa em sua mão, mas ela permaneceu no mesmo lugar. – E pare de desviar o assunto. Eu tenho bastante confiança em mim mesma e é por isso que assumo que nosso... nosso... relacionamento...
A última palavra engasgou em minha garganta por uns segundos. E, quando hesitei, pude sentir se retesar.
- ...que nosso relacionamento – repeti, aquilo estava se tornando um pouco mais fácil a cada vez - pode não dar certo.
- E amanhã o mundo pode acabar graças a uma guerra nuclear surpresa, mas isso não vai te impedir de acordar e manter sua rotina, não é mesmo?
- Não estou me referindo a isso, , mas sim ao fato de que meus pais são uma bagunça. Eu sou uma bagunça. Olha só como eu reagi quando você fez o pedido.
- Você não é uma bagunça, – seu tom se amaciou e senti que ele agora acariciava a pele exposta na minha cintura. – Não vou mentir. Seus pais, pelo que você me contou, parecem ser meio exóticos.
Não pude evitar um sorriso ao ouvir o adjetivo. Aquele era um jeito bem diplomático de se referir a eles.
- Mas isso não quer dizer que você seja uma bagunça, amor. Sim, você surtou com o pedido e isso foi péssimo.
Foi a minha vez de me encolher. Saber aquilo não tornava mais agradável ouvir sobre.
- Não estou falando isso para te fazer sentir culpada, linda. Só acho que devemos ser sinceros agora, então não vou mentir que não doeu. Porque doeu. Doeu pra caralho.
- Doeu em mim também. Doeu quando percebi que agi como uma vadia cruel, doeu quando percebi que tinha te machucado, mas o que mais doeu foi ter percebido que você estava desistindo – odiei o quanto a minha voz estava baixinha e assustada.
- Desistindo? – seu tom continha um toque de surpresa.
- É, . Eu posso não entender muito de relacionamento, mas entendo de desistir deles. E era isso que você estava fazendo, me ignorando quando tentei conversar. Se recusando a me ver.
- Desistindo? – ele repetiu, rindo.
- Isso não tem graça, idiota - empurrei meu cotovelo contra sua barriga e, com satisfação, ouvi seu resmungo de dor.
- Ai, amor! - resmungou. – Ok, ok. Desculpe. Mas é que é engraçado ouvir que você realmente achou que eu fosse desistir. Essa ideia é bem ridícula, ainda mais vinda de você, . Como eu poderia desistir? Isso nunca foi nem mesmo uma opção. Eu só precisa de um tempo para pensar e me acalmar um pouco. Você sabe que tenho essa mania de falar merda de cabeça quente, então preferi esperar um pouco.
Mordi a infantil exclamação de “mas me ignorou mesmo assim”, afinal não estava em posição de exigir nada depois da maneira como reagi ao pedido dele.
Virei um pouco o corpo para encará-lo melhor.
- Mas desistir? Desistir nunca – sacudiu a cabeça. - Desde o dia em que coloquei meus olhos em você. Naquele hospital. Você estava toda desgrenhada e meio histérica.
Senti que corava. Ele deslizou o dedo indicador devagar por minha bochecha, me encarando atentamente.
- E, mesmo assim, eu sabia que você era a pessoa mais bonita que já havia visto na minha vida.
Agora o que eu sentia eram meus dentes se afundando em meu lábio inferior, meu estômago revirar com borboletas e meu coração disparar.
- Deixa de ser mentiroso, – tentei disfarçar. – Eu estava horrorosa naquele dia.
me olhou longamente antes de começar a falar, com a voz mais profunda do que o normal:
- Você acredita no Universo, ?
Franzi o cenho.
- Claro que acredito. Teve o Big Bang, - comecei a gesticular com as mãos, simulando uma explosão ao fechar as mãos em punho e depois abri-las rapidamente, - depois vieram as partículas e-
- Não isso, amor – riu, cobrindo minhas mãos com as suas e as abaixando até que estivessem de volta sobre minha barriga. – Estou me referindo às coisas como aquela frase “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.
- Francamente, . Eu acabei de te contar sobre as bobeiras dos meus pais e você vem me perguntar se eu acredito nisso?! Você escutou alguma coisa sobre o que disse? – falei, entre brava e decepcionada.
- Eu ouvi tudo, . Prestei atenção em tudo – assegurou veementemente. – E eu também era cético quanto essas ideias de destinados um ao outro e blá blá blá, mas eu simplesmente não consigo achar outra coisa para explicar isso – apontou para mim e depois para si próprio.
Evitei pensar no quanto suas palavras pareciam com as que Lorelai havia atirado em mim há meses.
- Já ouviu falar sobre aquela coisinha que os romântico chamam de “amor”?
abriu um sorriso lento e preguiçoso.
- E você se inclui nessa categoria, na dos românticos?
- Não... – deixei a palavra pender no ar alguns instantes – não até recentemente.
- O que você quer dizer com isso?
- Você quer ouvir as palavras, não é mesmo? – mordi um sorriso. – Vai me fazer dizer as palavras – sacudi a cabeça, virando o corpo para, da melhor maneira possível, apoiar minhas mãos sobre seu tórax.
- Não – entrelaçou os dedos no meu cabelo e manteve seu olhar no meu. – Só se você quiser – deu um beijo rápido e mordeu meu lábio inferior por um segundo. – Você quer? – sua mão deslizou por meu ombro até parar em minha nuca, onde ele começou a fazer carinho devagar.
Engoli em seco e me senti como uma pessoa encurralada entre um precipício e uma parede de fogo. Em minha metáfora mental, haveria um lago no fim do precipício. Pular era a única saída, o único jeito de uma possível chance de viver, mas a altura era aterrorizante.
Contudo, não havia o que pensar. Só o pulo.
E foi isso que eu fiz.
Eu pulei.
- Eu amo você, .
Foi como se antes houvesse um elefante sentado sobre meu peito e agora ele tivesse desaparecido. Sentia-me mais leve, conseguia até mesmo respirar melhor agora, mas isso não era principal.
Não.
Foi o brilho nos olhos dele assim que terminei de falar que valeram cada centímetro de queda.
E o beijo que ele me deu depois também foi uma recompensa deliciosa. Deliciosa, quente e muito, muito firme.
E foi apenas o primeiro.
A mão em minha nuca fez pressão para que eu me aproximasse enquanto ele fazia o mesmo. E por alguns minutos ele me beijou como nunca antes tinha feito. Quando finalmente nos afastamos, apoiei o queixo sobre seu peito e olhei para cima.
- Eu também amo você – sussurrou, deslizando os dedos por meu cabelo. – Fico feliz por finalmente poder dizer em voz alta.
Franzi o cenho.
- Como assim?
- Bom... faz uns dias que eu queria dizer isso – passou a língua devagar pelo lábio inferior. – Mas sabia que você não iria querer ouvir isso, pelo menos não até agora.
Minha mão se fechou sobre o pano preto de sua camiseta enquanto eu respirava fundo e sentia meu coração se encher ainda mais de amor por aquele homem na minha frente.
- Eu amo você – sussurrei de novo.
Ficava cada vez mais fácil dizer aquilo, cada vez mais certo.
sorriu preguiçoso antes de apertar o meu nariz de leve. Sorri de volta, pensando em o quanto tinha sentido falta daquele gesto nos dois últimos dias. , então, olhou-me em silêncio por alguns segundos e soube que ele estava pensando sobre o que falaria a seguir.
- Hey, linda – segurou, com carinho, meu rosto. - Não quero te pressionar e não precisamos falar disso se você não quiser, mas... se você quiser... quando você quiser, pode falar comigo sobre seu pais. Ou sobre o que você quiser – acrescentou a última parte rapidamente ao ver que eu franzia o cenho.
Soltei uma risadinha, derretendo por ele ser tão fofo.
- Não precisa ficar assim, . Você pode falar a palavra “pais” sem problemas. Não vamos colocá-la sob censura, ok? Até porque já te disse que não foi de todo mal. Espera. Meus braços estão doendo.
Girei o corpo para voltar a encostar minhas costas em seu peito.
- Nós podemos falar sobre meus pais se você quiser, , e você pode me perguntar sobre eles também. Não tem problema. Descobri que não tem problema falar com você – enfatizei – sobre isso – dei de ombros.
- Já disse, amor, não precisa falar se você não quiser.
Apertei a mão sobre sua coxa que me cercava.
- Você é um bobo, . Por acaso acha que faço alguma coisa que não quero fazer?
Ouvi uma gargalhada rouca.
- Tem razão, amor. Minha senhorita independente – puxou de leve uma mecha do meu cabelo. – Mas, então, me diga... ou não me diga.
- Ah! Você só quer saber como vai ser quando tiver que lidar com seus sogros, hein? – brinquei.
- Talvez – havia um toque se seriedade ali.
Tive que rir de sua preocupação infundada.
- Não se preocupe, . O máximo que eles vão querer fazer é ler a sua aura ou alguma coisa assim.
- Nada de interrogatórios ou ameaças sobre eu estar corrompendo a filinha deles?
- Não. Não deles, pelo menos. Já da tia Claire... – deixei aquelas palavras no ar e virei bem a tempo de ver sua expressão horror.
- Acho que preferia enfrentar seu pai.
- Acho que essa seria uma opção mais segura – ri. – Mas, não, sério.
Pensei por um momento sobre o que diria.
- Agora, em uma análise mais objetiva, até que teve suas vantagens ter sido criada da maneira como eu fui criada.
teve a delicadeza de não soltar uma exclamação espantada do tipo “sério?”. Limitou-se em ficar em silêncio, apenas esperando que eu continuasse meu raciocínio.
- Naquela época foi uma merda ter várias crianças da escola me encarando por causa das minhas roupas de um estilo mais... hippie, se assim poderíamos chamar aquelas coisas horrorosas. Eram uns panos roxos e amarelos e rosas – gesticulei no ar, rindo ao me lembrar daquelas roupas que minha mãe pensava serem maravilhosas. – Horrorosas. Nossa. Elas eram muito feias mesmo – ri outra vez.
Felizmente podia tirar alguma risada disso agora, diferentemente daqueles dias. Pensando nessa parte, deixei o sorriso morrer e continuei:
- Crianças podem ser bem malvadas, sabia? E no começo eu fui a esquisita da classe. Então levou um tempo até que elas se acostumassem com minhas roupas chamativas e, durante esse tempo, elas tinham alguns comentários bem ruins para jogar em cima de mim a cada novo dia.
- Sinto muito por isso, amor – deu um beijo reconfortante no meu ombro.
- Tudo bem. Já passou. E depois elas se acostumaram comigo e perdeu a graça. Mas isso é útil para nós.
- Para nós?
- É – dei de ombros. – Como aprendi desde cedo a não ligar para os comentários horríveis de pessoas que não me conhecem, consigo facilmente ignorar a língua ferina de algumas das suas fãs.
- Como assim? Ah não! Twitter?
- É – dei de ombros. – Mas está tudo bem.
Virei a cabeça para trás e sorri para ele ao sentir que ele ficara tenso ao ouvir minha confirmação. forçou um sorriso antes de dar um beijo rápido em meus lábios.
Voltei a posição anterior e continuei encarando a parede ao falar:
- Sério. Eu não ligo. Não me afeta. Eu nem mesmo fui pega de surpresa por isso. Lorelai comentou que isso poderia acontecer e eu não ligo muito para internet mesmo. Então, para mim, isso é quase indiferente. E não podemos esquecer que tem algumas fãs que são bem legais.
- Sim, amor. Claro. Mas não queria que algumas poucas te magoem.
- Está tudo bem, sério. Eu não fui pega de surpresa, então não tem problema. Meu problema são essas surpresas inesperadas demais. Coisas totalmente imprevisíveis me fazem balançar de um jeito nem um pouco agradável. Faz com que eu me lembre dos primeiros dias na escolinha nova e, consequentemente, dos primeiros dias da vida nova dos meus pais. Não tinha controle nenhum sobre aquilo... e também não tenho controle sobre surpresas, então não gosto muito desse tipo de coisa – murmurei. – Foi por isso que eu surtei naquele dia dos paparazzi do lado de fora do supermercado – acrescentei, decidindo que era melhor falar tudo de uma vez. – Eu nunca pensei que passaria por alguma coisa como aquela então estava totalmente despreparada. Todas aquelas pessoas gritando perguntas e me olhando foi como estar de volta no primeiro dia de aula na escola nova e vestindo aquela combinação horrorosa de cores. Mas agora já me preparei mentalmente e não vai acontecer de novo.
Sabia, mesmo sem me virar para olhar, que o rosto de estava fechado em uma careta de preocupação.
- Desculpe por isso também, . E pelo twitter eu nã-
Virei-me de modo a sentar transversalmente para ele – meu ombro contra seu peito e minhas pernas sobre uma das suas. Agora estava praticamente em seu colo. Coloquei a mão sobre seus lábios para que ele parasse de falar.
- Já disse que não tem problema, amor.
Assim que terminei de falar nós dois congelamos, minha mão ainda em seu rosto.
Foi quem reagiu primeiro. Ele pegou minha mão e deu um beijo na palma antes de afastá-la para falar:
- Acho que o dia chegou, hein – referiu-se à minhas palavras naquele primeiro dia em que me chamou daquele jeito.
Seu tom foi uma tentativa de brincadeira para dissipar o clima esquisito que se instalou. Mas foi uma tentativa frustrada porque a intensidade com que ele me olhava e o rugido do sangue correndo pelas minhas veias deixava tudo sério demais, importante demais.
- É – assenti bobamente, meu olhar fixo no seu. – Sim. Chegou sim.
- Isso é... isso é ótimo – ofegou na última palavra.
espalmou suas mãos em minhas costas e me puxou para mais perto de si antes de me beijar. Firme e de uma maneira tão deliciosa que até me inclinei para trás. Depois de um tempo ele decidiu descer os beijos por meu pescoço. O ar começou a faltar em meus pulmões e o clima estava ficando cada vez mais quente, mas quando tentei chegar ainda mais perto dele, o gesso em minha perna se fez presente para dificultar o processo.
Por um segundo odiei aquela porcaria. Resignadamente, enfiei minha mão em seu cabelo e o puxei para longe.
- Assume então que você gosta quando te chamo de amor, amor? – perguntei, acariciando sua nuca.
sorriu preguiçoso.
- Tanto quanto você gosta quando eu te chamo assim.
- É? – arqueei a sobrancelha. – E como você sabe que eu gosto tanto assim? – provoquei.
- Porque eu te sinto aqui – segurou minha mão sobre seu peito e eu senti as batidas do coração dele.
Fiquei sem palavras, totalmente surpresa e encantada.
- Você é meu clichê favorito, – sussurrei.
Ele me respondeu com um sorriso ainda maior e um aperto de leve em meu nariz.
- Acho que agora nós somos seu clichê favorito, não é mesmo, ?
- Hey! Eu não sou um clichê.
- Claro que é! Se eu sou, você também é. Estamos nessa juntos agora, senhorita .
- Ok, amor – ri, sacudindo a cabeça. - Mas, diga-me, senhor Clichê, não vai me pedir em namoro outra vez? Estou esperando meu pedido oficial.
- Não – sorriu.
- Não? Não vai me pedir de novo? – perguntei, achando graça na situação.
- Nope – sacudiu a cabeça. – Vou esperar o momento certo.
- E esse momento não é o certo?
- Não, esse é o momento perfeito. Só não é o momento perfeito para isso.
- E quando vai ser então?
- Não sei ao certo, mas nós vamos saber. Assim como eu soube que você seria importante para mim naquele primeiro dia no hospital. Eu olhei para você, , e soube. Eu soube – repetiu baixinho.
continuou me olhando nos olhos enquanto dizia aquilo e senti todo aquele sentimento bom que vinha sentindo desde o momento em que nos acertamos se expandir como nunca. Meu coração parecia falhar algumas batidas de tão rápido que estava e aquelas famosas borboletas no estômago faziam uma festa enquanto arrepios desciam sem parar por minhas costas.
E, usando as palavras dele, foi quando eu soube. Soube que queria passar o resto da minha vida com ele. E se aquilo era obra de uma entidade divina, uma jogada do cosmo – como acreditam meus pais – ou se era pura interferência do Destino, eu não sabia. Mas aquilo não importava. Porque o importante eu sabia.
Eu amava . E aquilo era tudo o que eu precisava saber.



Epílogo

Não pude evitar o sorriso imenso que apareceu em meu rosto assim que o vi caminhar em minha direção. O mesmo sorriso meio assim de lado, o mesmo cabelo macio que adorava um cafuné e aqueles olhos lindos que eu amava tanto. Quando ele me alcançou, colocou os braços ao meu redor e me abraçou firme. Correspondi ao gesto de carinho.
- Hey, babe, como foi seu dia?
Mas antes que ele pudesse responder, fomos interrompidos por uma voz feminina:
- Doutora ?
Tirei os olhos do meu filhote e virei a cabeça em direção à voz.
- Bom-dia, Miss Meyer – cumprimentei a professora de piano de Austin. – Pois não?
- Poderíamos conversar um minuto?
Aquilo me deixou alarmada.
- Sim, claro. Austin, espere a mamãe aqui, ok? – apontei para a cadeira ao lado e ele se sentou. – Aqui – entreguei meu celular depois de colocar no joguinho de dragões que ele adorava. – Joga um pouquinho enquanto isso.
Ele sorriu outra vez aquele sorriso e deu um beijo em minha bochecha, agradecendo rapidamente antes de voltar sua completa atenção para o jogo. Nós duas nos afastamos alguns passos para fora do alcance de seus ouvidos, mas tive a certeza de mantê-lo em minha linha de visão.
- Aconteceu alguma coisa, senhorita Meyer? – perguntei, receosa, lançando uma olhadela rápida sobre a mulher antes de voltar minha vista para Austin e escanear seu corpinho em busca de algum machucado visível.
- Oh, não, não, doutora – apressou-se em dizer. - Não é nada sério. É só que... a senhora se lembra de Aisla King?
Sim, eu lembrava vagamente, então levei um momento para vasculhar meu cérebro de maneira a colocar um rosto no nome.
- Aquela garotinha ruiva que faz aula antes de Austin? – perguntei, franzindo o cenho.
Aquele era provavelmente o caminho mais inesperado que essa conversa poderia tomar.
- Sim, ela mesma – assentiu. – Hoje a babá dos King se atrasou e ela acompanhou um pouco da aula de Austin enquanto esperava.
Permaneci em silêncio, esperando que ela continuasse o raciocínio mais esquisito que tinha presenciado desde que Louis decidira me contar sobre o porquê de pensar que comprar um pônei para sua esposa como presente de casamento era uma boa ideia.
- Ele tinha acabado a primeira canção e me virei apenas por um segundo para pegar a outra partitura e quando voltei para olhá-los foi bem a tempo de ver a senhorita King dando um beijo nos lábios do senhor .
Arregalei os olhos e virei o rosto de volta para ela, a jovem moça tinha minha total atenção agora.
- Como assim? Você está dizendo que uma garotinha de uns seis anos beijou meu filho?
- Na verdade, ela não tem a mesma idade que o senhor . Ela tem cinco anos.
- Isso não explica a situação.
- Sim, claro, doutora – sacudiu a cabeça e vi que ela estava em busca das melhores palavras. – Eu conversei com os dois e expliquei a Aisla que aquilo não era correto e perguntei o porquê de ela ter feito o que fez. Aisla então disse que viu sua mãe beijando seu pai nos lábios hoje e que por isso a senhora King lhe explicou que era assim que cumprimentávamos aquele que amamos quando o espírito natalino chega. E a pequena senhorita King argumento que “ama” – fez o sinal de aspas com os dedos – Austin e gostaria de se despedir dele apropriadamente já que ficaria, segundo as palavras dela, muito, muito tempo sem vê-lo devido aos feriados.
Pisquei devagar, absorvendo a informação.
- Mas eu já esclareci tudo com ela – apressou-se a dizer. – Aisla prometeu não fazer isso novamente. Estou informando a senhora porque esse é o correto a ser feito, mas tenho certeza que não teremos outro incidente como este.
- Ok – falei devagar, ainda no processo de absorção. - São apenas crianças. E a garotinha não tem culpa se a mãe não foi feliz na explicação que deu. Desde que isso não aconteça novamente, acho que está tudo bem. Nenhum dano permanente.
Assisti o alívio se espalhar pelo rosto da morena à minha frente. Talvez ela estivesse esperando algum tipo de processo por negligência, mas aquilo seria um exagero para a ocasião e eu também estava envolvida pelo dito sentimento dos feriados.
- É uma promessa, doutora . Isso não vai acontecer novamente – sacudiu a cabeça veementemente.
- Ok. Boas festas, senhorita Meyer.
Estendi a mão e ela logo se apressou em apertar e murmurar um cumprimento de volta, ansiosa para que fosse embora antes de mudar de ideia. Apressei o passo para longe dela e de volta para Austin. Assim que viu que me aproximava, ele pulou da cadeira e me entregou o celular.
- Aqui, mamãe.
Nenhum tipo de reclamação, nenhuma birra por ter que interromper seu joguinho. Ele tinha exatamente o mesmo caráter calmo do pai dele.
- Vem, filhote. Vamos para casa.
Imediatamente ele esgueirou sua mão para a minha e assim caminhamos até o luxuoso Land Rover preto que havia comprado – depois da interferência da opinião do meu querido marido e seu amor por essa marca de carro. Acomodei-o em sua cadeirinha no banco traseiro e tomei meu lugar na direção. Esperei alguns metros antes de lançar uma espiadela nele através do retrovisor e falar:
- Austin, querido, a senhorita Meyer contou para mamãe que Aisla esteve na sua aula hoje – toquei no assunto para ver como ele reagia.
Precisava ter a certeza de que meu filho não tinha ficado traumatizado ou alguma coisa assim. Já me bastava meu homem sendo atacado por garotas desconhecidas, não precisava que meu filho também passasse por isso.
- É. Ela é esquisita.
Assim que terminou de falar arregalou os olhos e tampou a boca com suas mãozinhas.
- Mãe, não conta pro papai que eu falei isso. Por favor? – pediu, lançando aquele olhar pidão que era exatamente igual ao da pessoa a quem agora ele pedia para deixar de fora da conversa.
- Por que, querido?
- Papai disse que não podemos falar assim das damas.
Mordi o sorriso ao ouvir a seriedade com que ele repetia os ensinamentos do pai. Meu peito, contudo, enchia-se de orgulho pelos valores estarem sendo passados para próxima geração.
- E seu pai tem razão – respondi, parando em um semáforo e aproveitando para virar para trás e encará-lo. – Mas acho que podemos deixar essa passar se você prometer que não falará mais esse tipo de coisa.
- Sim, mãe, prometo – assentiu devagar.
- Ótimo, querido. Mas por que você não gosta da sua coleguinha?
- Porque ela fica me abraçando. Isso é yuck – sacudiu a cabeça. – Meninas são yuck.
- “Yuki”? – repeti, rindo. – Então a mamãe também é yuck?
- Não! – exclamou, arregalando os olhos – Você não é yuck, mamãe.
Virei para frente outra vez ao ver que os carros ao lado começam a se movimentar.
- Mas a mamãe é uma menina – respondi, acelerando o carro.
- Não. A senhora é uma mãe.
- E a Eve? Eve é yuck?
- Às vezes – murmurou meio culpado, olhando para baixo.
Outra vez tive que engolir a risada que queria soltar. Não poderia encorajá-lo.
- Ok, querido, mas e hoje, o que aconteceu hoje? – decidi voltar ao assunto principal.
- Ela me beijou do jeito que você beija o papai e Fall beija Noah. Yuck! – acrescentou a última parte com uma careta. – Mas eu não podia empurrá-la porque papai disse que cavalheiros não fazem isso – acrescentou solenemente
- E seu pai tem razão, Austin. Então conversei com a senhorita Meyer para que ela não deixe que isso aconteça novamente, ok, querido?
- Ok, mamãe. Podemos ir na casa do tio hoje?
A maneira abrupta com que ele mudou de assunto me tranquilizou. Dos seis anos que conhecia meu filho, sabia que aquilo significava que ele não dava importância para o assunto que descartara.
- Vamos ver, querido – murmurei, fazendo a última curva antes de parar na garagem da nossa casa antes de abrir o portão e estacionar o carro no lugar correto.
Peguei minha bolsa e tirei meu filhote da cadeirinha e, no minuto que o coloquei no chão, ele correu para dentro de casa. Segui o mesmo caminho, mas em passadas normais.
- NOAH! Quantas vezes tenho que te dizer para trancar a porta quando passar? – gritei assim que passei pelo batente.
Vários anos depois e ainda mantinha enraizada aquela fixação brasileira por portas trancadas.
- Desculpe, mãe – sua voz rouca respondeu de algum do andar de cima da casa. – Não vai acontecer de novo.
- Acho bom! – resmunguei, mesmo sabendo que seria inútil.
Ouvi um latido animado e logo o cachorro que meu filho mais velho havia ganhado da tia Lola estava correndo escada abaixo para me cumprimentar.
- Hey, Nick – cocei atrás da sua orelha.
Lorelai escolheu o nome do pastor alemão. Ela achou aquela piada hilária e dizia que fazia com que ela se lembrasse de como tudo tinha começado. Nick soltou mais alguns latidos felizes antes de voltar correndo para perto de seu dono. Ele nunca ficava muito tempo longe de Austin. Deixei a bolsa sobre o sofá e fui até a cozinha em busca de alguma bebida gelada. Encontrei meu marido sentado em um dos bancos altos, folheando uma revista que estava sobre a ilha no meio do cômodo.
- Hey, babe – coloquei a mão em seu ombro e bati os lábios nos seus quando ele virou a cabeça para mim.
- Oi, amor. Como foi seu dia? Cuidou de muitos corações hoje?
- Tive minha cota de corações por hoje – respondi, abrindo a geladeira em busca de uma caixinha de suco de uva.
- Agora só o meu, né?
Ri, sacudindo a caixinha antes de colocar o canudo e me sentar de frente para ele.
- Sim, amor. Claro. Agora só o seu – tomei um pouco da minha bebida e lhe dei uma piscadela.
- Você conseguiu ver o ensaio de Austin hoje?
- Não – suspirei. – A última consulta demorou mais do que o previsto e só cheguei faltando apenas alguns minutos para o final da aula – olhei para o lado, me sentindo culpada.
- , hey, não é como se você estivesse faltado de propósito. Ele sabe que você estava ocupada salvando vidas – envolveu minha mão com a sua e a apertou de leve. – Ele adora contar para todo mundo como a mãe é uma heroína de verdade, salvando o dia de várias pessoas.
Ri, pensando em quão exagerado meu marido era.
- Bobo como sempre, .
- E você adora.
- Amo – corrigi.
- Há mais de vinte anos – completou.
- Há mais de vinte anos que você é um bobo? – arqueei a sobrancelha.
revirou os olhos.
- E há mais de vinte anos que você é espertinha.
Abri um sorriso antes de beber mais um pouco de suco.
- Mas só faz seis anos que você é o herói de Austin.
- Pare de falar bobagens, – resmunguei com uma pontinha idiota de ciúmes. - O garoto te idolatra e é igualzinho a você. Não só fisicamente.
Não que eu estivesse reclamando, afinal amava o fato de meu filho – ou, melhor, dos meus filhos – serem cópias perfeitas do pai. Noah ficava cada vez mais parecido com o que eu tinha conhecido. Já Austin era idêntico às fotos de criança que minha sogra me mostrara. Os mesmos olhos, o mesmo cabelo... até o jeito de andar era igualzinho.
- Bom, , - frisou o nome que eu tinha orgulho de carregar há anos, – quem está sendo bobo agora?
- Ele tem o seu nariz e Noah tem a sua boca. E os dois herdaram sua inteligência, ou você acha que só com os meus genes nosso primogênito seria aceito em Economics and Management em Oxford?
Como sempre acontecia quando ouvia sobre aquela conquista do meu garoto, meu peito se encheu de orgulho.
- E Austin pode até ter o meu amor pela música, mas é preciso muito foco e disciplina para tocar piano. Esses dois atributos também certamente não vieram de mim. Também não vamos nem começar a falar sobre de onde saiu a beleza de Eve. Essa parte é mérito meu – ajeitou o colarinho da própria blusa propositalmente em um gesto de convencimento.
Revirei os olhos, rindo.
- Ok, ok – ergui as mãos em sinal de rendimento, rindo.
Apesar de gostar de ouvir aquilo, precisava contar os eventos importantes do dia.
- Vamos chamar de empate – decidi diplomaticamente. – Mas antes de encerrar esse assunto preciso te dizer que seu filho mais novo também herdou seu imã para...
- Mulheres bonitas? – completou com um sorriso sapeca.
Aquilo era quase o que eu diria - sem a parte do “bonitas”, é claro – mas não daria o braço a torcer.
- Imã para problemas, . Para problemas.
Ele riu.
- E por que você diz isso, menina bonita? – passou a mão de leve por meu queixo.
- Porque uma coleguinha das aulas de piano dele o agarrou hoje.
Meu marido arregalou os olhos.
- Como assim?
- É! Eu sei – assenti repetidamente, tomando mais um gole de suco antes de continuar. - Essa foi minha reação também.
Repeti para ele o que a professora de piano tinha me contado.
- Como se já não bastasse eu ter que lidar com aquelas garotas te agarrando e as líderes de torcida se jogando em cima de Noah, agora também terei que lidar com crianças se atirando no meu bebê. No meu bebê! – repeti, entre horrorizada e divertida.
Não ajudou em nada ver que meu marido tentava segurar uma gargalhada. Inclinei-me sobre a bancada para dar um tapa em seu ombro.
- Isso não é divertido, !
- Ai, amor! Isso dói! – esfregou a parte que tinha atingido. – Mas você tem que pensar pelo lado positivo, pelo menos Noah agora é problema de Fall, não nosso.
- Você não está ajudando o seu caso – estreitei os olhos.
Dessa vez ele riu abertamente.
- Desculpe, desculpe. Mas não dá para fugir do charme . Ele vem do nascimento.
E aqui estava a oportunidade perfeita para virar o jogo.
- Quer dizer que Eve também tem esse charme e está tudo bem se tivermos garotos fazendo filas por ela aqui na porta de casa? – arqueei a sobrancelha, um sorriso malvado no rosto.
Com satisfação vi sua expressão divertida sumir e dar lugar a uma careta de desagrado.
- Isso não tem graça, – seus lábios até mesmo se juntaram em um bico de pirraça.
- Está vendo o que eu passo?
- Nada de filas de garotos. Nada de garotos. Ela é muito nova ainda! – sacudiu a cabeça de maneira decidida. Resolvi não discutir aquele ponto outra vez, precisava escolher minhas batalhas e o próximo tópico já seria um ponto de discordância.
- Tá bom, tá bom. Mas, amor, mudando de assunto, marquei com a Lou para você cortar o cabelo amanhã.
- O quê? Não, amor! – resmungou. – Não quero cortar o cabelo. Eu gosto dele assim – passou a mão por seu farto cabelo que já estava bem maior do que o normal.
- Está parecendo sujo e descuidado. Eu te disse enquanto você estava na América para cortar o cabelo e você não o fez. Não pense que me esqueci disso!
abaixou o olhar, envergonhado por ter sido pego.
- Eu esqueci – murmurou, brincando com a folha da revista e mentindo muito mal.
- Então agora que você está em casa, eu vou te lembrar – falei, condescendente, ficando de pé.
- Mas, ... – olhou-me outra vez.
Lancei um olhar significativo para ele.
- Sim, ?
- Eu não quero – continuou resmungando, esticando as palavras.
Quando ele falava assim soava igualzinho ao nosso filho mais novo.
- Não foi uma opção, amor – coloquei a mão em seu ombro e o acariciei de leve para dar uma suavizada nas palavras duras.
E lá estava de novo o biquinho de pirraça.
- Tá bom, tá bom – me puxou para mais perto, abraçando-me pela cintura. - Posso ao menos ganhar um beijo? – apoiou o queixo sobre meu peito enquanto me olhava.
Abri um sorriso preguiçoso, abaixando a cabeça e quando nossos lábios se encontraram lá estavam novamente as borboletas no estômago e aquele calor delicioso no meu peito. Meu marido me beijou devagar, deslizando suas mãos quentes por minhas costas.
Eram os mesmos arrepios e as mesmas sensações gostosas que me tomavam desde o primeiro dia que ele me beijara naquela garagem.
Era exatamente a mesma coisa.
- YUCK! PAI, MÃE!
Ou quase a mesma coisa...

xxx

- NÃO! JÁ DISSE QUE NÃO!
- VOCÊ É MUITO NOVA!
- CALE A BOCA, NOAH! ISSO NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ!
Assim que passei pela porta de casa pude ouvir os gritos que vinham do andar de cima. Revirei os olhos, tendo uma boa ideia do motivo da discussão, afinal só havia uma razão que poderia levar e Noah a levantarem a voz com a princesa deles. Soltei um suspiro e coloquei as sacolas dos presentes recém-comprados no chão antes de subir as escadas para enfrentar o campo de guerra.
- ISSO NÃO É JUSTO! – Eve gritou outra vez.
O volume aumentava um pouco mais a cada metro que eu avançava em direção à suíte principal.
- CLARO QUE É! VOCÊ SÓ TEM DEZESSEIS ANOS!
- MAS, PAI, EU NÃ-
- JÁ DEI MINHA ÚLTIMA PALAVRA, EVELYN!
- VOCÊ ESTÁ SENDO UM HIPÓCRITA E-
- Hey, hey, hey - entrei no cômodo e encontrei e Noah lado a lado e ambos de frente para Eve. – Que diabos está acontecendo aqui?
Todos eles ficaram em silêncio por um segundo, todos os três estavam em pose de enfrentamento. Minha filha foi a primeira a reagir.
- MÃE! – ela correu para se jogar nos meus braços.
- Oi, querida. O que aconteceu? – murmurei, alisando seu bonito cabelo loiro. – Eve, você está chorando? – arregalei os olhos ao perceber o seus olhos inchados e vermelhos.
- Mãe, o papai é muito injusto – soluçou, me abraçando mais forte.
Lancei um olhar significativo para meu marido furioso por sobre a cabeça dela, esperando por uma explicação.
- Evelyn tem um namorado! – exclamou como se aquilo explicasse todo o seu ponto de vista, os punhos cerrados ao lado do corpo.
Então eu estava certa.
- E? – perguntei depois de alguns segundos de tenso silêncio.
- E o que, mãe? – meu filho se intrometeu, indignado. - Ela tem um namorado!
- Estou falando com o seu pai, Noah. E não use esse tom comigo se você sabe o que é bom para você.
Ele resmungou alguma coisa, mas não respondeu, limitando-se a cruzar os braços e manter uma careta fechada.
- ?
- Ela tem um namorado, ! Ela é muito nova para isso! Ela não tem autorização para ter um namorado!
Foram tantas exclamações em tão poucas palavras que quase me perdi.
Assim que meu marido terminou de falar, Eve soltou mais um soluço forte antes de finalmente conseguir se pronunciar em palavras entrecortadas:
- Mãe... eu só queria... apresentá-lo formalmente... – afastou-se um pouco para passar as mãos pelo rosto, tentando limpar as lágrimas, mas mantive meus braços ao redor da sua cintura para reconfortá-la. - E o Noah escutou quando fui falar com papai e de repente estavam os dois gritando comigo. É tão injusto! – queixou-se, novas lágrimas caindo.
- Oh, querida.
Reprimi – porque sabia que isso não ajudaria - a vontade de dizer que ela deveria ter vindo falar comigo antes de soltar a bomba sobre o pai.
- Por que você não vai para o seu quarto? Vou conversar com o seu pai.
“Mas não tem o que conversar sobre isso!” o protesto de meu filho foi ao mesmo tempo do de seu pai reclamando que “não iria convencê-lo do contrário”.
Evelyn ignorou os dois e fez o que eu disse.
- Você também, Noah! – apontei com o polegar por sobre o meu ombro e em direção à porta.
- Mas, mãe!
- Noah William ! Ninguém ficou te enchendo o saco quando você veio nos contar que estava namorando Autumn, não é mesmo? Então com que direito você vem reclamar agora? Qual é a diferença entre você e sua irmã, hein?
- É diferente! Eu não tenho dezesseis anos.
- Mas Fall também tinha dezesseis anos quando vocês começaram a namorar. Então, repito, qual é a diferença? – cruzei os braços.
- Não é certo! Ela é muito nova para namorar algum cara!
- Algum cara?- perguntei, chocada. - Você nem mesmo se preocupou em perguntar quem ela está namorando? - Por quê perguntaria? O importante não é isso!
- Não acredito que estou ouvindo uma coisa dessas. Seu pai e eu te criamos melhor do que isso! Te criamos para não julgar sem antes saber dos fatos.
- Mãe, eu-
- Vá para o seu quarto antes que eu perca a paciência de vez – falei, inflexível. - Depois conversamos.
Meu filho me lançou um olhar indignado, mas fez o que eu mandei. O espertinho propositalmente deixara a porta aberta ao passar, a clara intenção de ouvir a conversa. Fui até o batente e bati a porta, trancando-a, depois caminhei até nossa cama e me sentei.
- Senta aqui, amor – bati na cama.
Tinha decidido por uma abordagem mais suave com meu marido, já que, apesar de não ter se manifestado tanto quanto nosso primogênito, ele também estava revirando de raiva.
Afinal eu sabia perfeitamente bem de quem Noah tinha herdado todo aquele sentimento “protetor”.
arrastou os pés e sentou-se ao meu lado esquerdo, emburrado e de braços cruzados. - , eu já tomei uma decisão.
Soltei um suspiro e coloquei minha mão sobre as suas. Por um segundo só observei nossas mãos. Ali estavam as três joias que eu nunca tirava exceto por motivos de trabalho. O diamante enorme que havia colocado em meu dedo quando havia feito o pedido, a aliança que havia ganhado um lugar no mesmo dedo no dia do nosso casamento. E, por último, havia a primeira joia que ele me dera: a pulseira de prata cheia de pingentes.
Deslizei o dedo sobre cada um daqueles adornos. Cada um era uma lembrança da nossa vida - tanto que uma pulseira haviam se tornado dez, das quais eu usava três por vez. Sempre três, contudo. Todos os dias desde que havia me dado a primeira delas com o pingente de floco de neve no primeiro natal que passamos juntos. Era a maneira de que eu o acompanhasse em cada uma das inúmeras viagens que ele fazia. Havia uma memória por trás de cada um daqueles pequenos enfeites.
- Você viu o que ela estava usando, amor? – perguntei finalmente depois de alguns minutos em silêncio.
- Uma saia curta demais? – resmungou.
- A saia dela estava em um tamanho descente, amor, e você sabe disso, mas não sobre o vestuário de Eve que estou me referindo.
- Então sobre o quê? – virou-se para mim, franzindo o cenho, confuso.
- Eve estava com a pulseira que você deu para ela.
Ainda lembrava perfeitamente bem do dia em que fomos ao consultório de minha colega obstetra para descobrir o sexo do nosso segundo bebê. Assim que saímos, fez questão de parar na mesma joalheria que havia comprado meu presente de natal anos atrás e encomendou uma igual para nossa menininha que nem ao menos havia nascido. A partir daquele dia, depois de cada viagem ele voltava com um pingente para mim e outro diferente para Evelyn. Dessa maneira, construiu aquela pulseira por anos até que decidiu presenteá-la em seu décimo terceiro aniversário. Depois daquele dia, assim como acontecia comigo, a joia nunca mais deixara seu pulso.
- E o que isso tem a ver com o problema em questão?
- Primeiro, querido, não existe um problema – murmurei suavemente. – Eve não veio nos contar que está grávida, não está roubando de casa para comprar drogas, não faz parte de uma gangue e não foi expulsa da escola. Esses – enfatizei – sim seriam problemas. O fato de ela ter um namorado é a coisa mais natural que poderia acontecer nessa idade.
- Nessa idade? Ela é muito nova! Muito nova para ter um namorado.
Ignorei suas palavras rosnadas e continuei:
- Amor, o que estou tentando dizer, é que... – respirei fundo, pensando em uma abordagem melhor – por que você acha que ela veio contar primeiro para você que tinha um namorado?
- Quer dizer que você não sabia?
Sacudi a cabeça.
- Não. Eu não tinha nem ideia. Eve é inteligente o suficiente para deduzir que havia uma grande chance de que você ficasse chateado com ela, mas, mesmo assim, ela veio aqui te contar. Não pediu para que eu fizesse isso. E você sabe o por quê?
Podia ver que a curiosidade estava começando a sobrepor-se sobre a raiva.
- Porque você é a pessoa que ela mais ama nesse mundo, , a pessoa que ela mais respeita. Por que acha que a primeira palavra dela foi “papa” e foi para você que ela andou para nos primeiros passinhos que deu? Quando você está viajando, ela sente sua falta quase tanto quanto eu sinto. Você diz que eu sou o herói de Austin, mas é você quem é adorado aqui nessa casa – acariciei sua mão. – Por isso ela veio te confiar que estava namorando. Ela podia se esgueirar por aí com o tal garoto, mas, ao invés disso, contou para você. Para nós. Não escondeu nada e preferiu ser sincera, como nós a criamos para ser. Você deveria estar orgulhoso e não criticando e gritando com ela.
Meu marido se encolheu um pouco e sabia que agora tinha conseguido fazer com que ele raciocinasse.
- E você acha justo o fato de que aceitamos a namorada de Noah sem pestanejar, mas que agora, quando Eve vem até nós esperando o mesmo tratamento, você a recrimina?
- Mas é diferente. Nós conhecemos Fall. Ela é uma excelente pessoa. É nossa afilhada!
- E como você sabe que o namorado de Eve não é um bom garoto também? Você nem mesmo se preocupou em perguntar o nome dele!
olhou para o teto e eu sabia que ele estava com o coração na mão.
- Eu não gosto disso... Ela... cresceu tão rápido – as palavras saíam com dificuldade e seu tom estava mais agudo do que o normal. – Parece que foi ontem mesmo que ela era a garotinha que me prometera que nunca iria se casar e sempre viver conosco.
Abri um sorriso fraco e saudosista.
- , Eve não está indo embora, você não está perdendo nossa filha. Ela só está descobrindo a vida, descobrindo sentimentos novos. Isso não quer dizer que ela vai abandonar você ou qualquer um de nós. Ninguém nunca vai tomar seu lugar.
Ele abaixou o olhar e me encarou de maneira tão vulnerável que quis abraçá-lo e protegê-lo de todos os males do mundo, inclusive de todas as suas próprias dúvidas bobas que o corroíam.
- Tem certeza?
- Oh, babe! Claro que tenho certeza – usei minha mão direita para fazer um cafuné em seu cabelo que agora estava em um corte bem melhor.
Ele olhou para o lado outra vez e sabia que não estava totalmente convencido.
- , você se lembrando de quando Noah e Autumn começaram a namorar? Lembra como Louis teve aquela crise? Todas aquelas coisas que ele disse sobre o relacionamento dos dois ser quase um incesto por eles serem praticamente primos e todas aquelas outras coisas sem sentido?
Meu marido assentiu.
- Aquilo foi um mecanismo de defesa, assim como o que você está desenvolvendo agora. Ele também estava com medo de Autumn se distanciar dele e que talvez Noah quebrasse o coração dela. Mas eles já estão juntos há quase dois anos e os dois estão mais felizes agora e o relacionamento da nossa afilhada com o pai não mudou nada. Deve até ter melhorado, já que Fall está amadurecendo – continuei deslizando os dedos por seus fios. - Eles fazem bem um para o outro, e tudo porque Louis conseguiu enxergar por cima dos próprios medos. Você tem que fazer isso agora, amor. Tem que dar uma chance ao namorado de Eve. Pode fazer isso por mim? Ou, melhor, por nossa filha?
outra vez voltou seu olhar para o meu, abrindo um pequeno sorriso de lado.
- Você sempre saber o que dizer, não é mesmo, ?
- Eu tento – dei uma piscadinha.
Meu marido segurou delicadamente em minha nuca e me puxou para perto.
- Por isso que me casei com você.
- Sério? – sussurrei. - Achei que fosse por todo o meu charme incrível e minha modéstia incomparável.
- Isso também.
Riu contra meus lábios antes de mordeu meu lábio inferior e o puxar devagar entre seus dentes. Logo depois me afogou naquela mistura de sentimento incríveis que sempre me arrebatavam quando ele me beijava daquele jeito profundo.

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Assim que a campainha ecoou por nossa casa, Noah pulou do sofá, um sorriso maligno no rosto, apressando-se para fora da sala-de-estar.
- Senta ai, garoto – mandei com um arquear de sobrancelha antes que ele pudesse alcançar o corredor de saída. – Sua irmã vai atender.
- Eu só quero ajudar, mãe.
Mandei um olhar significativo para ele, o qual respondeu com resmungos inteligíveis antes de virar-se para o pai em um pedido silencioso.
, que estava sentado ao meu lado no sofá maior com o braço sobre os meus ombros, limitou-se a falar:
- Você ouviu sua mãe.
Seu tom era calmo, mas sabia que estava sendo forçado. Meu marido não gostava nem um pouco da ideia de que seriamos apresentados formalmente na ceia de véspera de Natal. Aliás, ele não gostava nem um pouco da ideia de ser apresentado ao namorado dela – mesmo tendo amolecido quanto à ideia, ainda não era seu pensamento favorito, ainda mais no seu dia favorito do ano. Ao menos ele estava tentando, o que já me deixava muito orgulhosa.
Depois da nossa conversa há cinco dias, ele tinha saído do nosso quarto e ido ao quarto de Eve. Eles tiveram uma longa conversa sobre esse assunto, estabelecendo alguns limites e se desculpou pelo jeito rude com que tinha falado antes. Quando ele retornou para o nosso quarto e perguntei como tinha sido, virou-se para mim, sorriu de leve e, tentando conter as lágrimas, disse que Eve ainda estava usando a pulseira. Meu coração tinha se aquecido naquele momento por saber que o laço entre pai e filha estava intacto e provavelmente mais firme do que antes.
Era por isso que agora ele, apesar de relutante, tinha aceitado a presença do garoto em nossa ceia e estava se comportando o suficiente para tanto. Todos tínhamos passado o dia com os nervos exaltados. Meus garotos resmungando e Eve e eu, preocupadas.
Tudo, então, havia culminado para aquele momento em que a campainha tocava e sabíamos que do outro lado estava a pessoa que esperávamos por conhecer há quase uma semana.
Evelyn desceu as escadas voando para ir abrir a porta para o namorado. Alguns segundos de silêncio depois, ouvimos:
- Mãe, pai? Vocês poderiam vir aqui por um segundo?
Estava claro que ela queria nos apresentar sem ter seu irmão super protetor lançando olhares desagradáveis sobre o pobre rapaz. Levantei do sofá e estiquei a mão para meu marido. soltou um suspiro profundo antes de entrelaçar seus dedos no meu e levantar também. De mãos dadas caminharmos até onde nossa garotinha nos esperava.
Confusa fiquei, contudo, quando, ao chegarmos lá, encontramos um rapaz que conhecíamos muito bem. e eu trocamos um olhar desentendido.
- Henry? – meu marido perguntou, analisando o filho de sua melhor amiga da cabeça aos pés.
- Olá, senhor – falou, formalmente para logo depois se virar para mim. – Doutora .
- “Senhor ”? “Doutora ?” Desde quando isso? – arregalei os olhos.
Sempre fomos “tio ” e “tia ” e, por isso, estava entendendo cada vez menos aquilo até que meu olhar caiu sobre a mão entrelaçada de nossa filha com a de nosso afilhado. Imediatamente percebi que ela segurava a mão dele do mesmo jeito que eu segurava a de , isto é, com a outra mão livre envolta do pulso dele. E assim que o segundo de surpresa passou por mim e entendi o que estava acontecendo, quem era o namorado de Eve, tive que engolir a gargalhada de alívio.
Estava extremamente feliz por todas as preocupações de meu marido terem sido infundadas. , todavia, parecia ainda não ter percebido o que estava – literalmente – bem na sua frente.
- Henry? Como vai, filho? – bateu a mão que não segurava a minha no ombro do garoto. – Como estão seus pais? Você sabe que é sempre bem-vindo em nossa casa, mas hoje estamos no meio de um encontro importante. O namorado – ele ainda engasgava nessa palavra - de Eve vai chegar daqui a pouco, então por que não vai se sentar com Noah na sala enquanto esperamos aqui? – sugeriu, ainda na doce ignorância.
- , querido, não acho que Henry tenha vindo ver Noah - apertei sua mão de leve.
Meu marido se virou para mim, franzindo o cenho.
- Como não? Então por que...
Foi deixando as palavras morrerem e eu quase pude ver as engrenagens girando em sua cabeça. Virou-se, então, para o casal e de novo para mim.
Assenti devagar.
- Oh! – foi tudo que ele conseguiu dizer.
Felizmente fomos salvos de um silêncio constrangedor pelo filho de se pronunciando:
- Senhor , eu gostaria de formalmente pedir sua permissão para namorar Eve.
Admirei a coragem de Henry por manter sua voz firme, mesmo sendo visível seu nervosismo. Tanto quanto seu namorado, Eve também estava com os nervos em frangalhos e prendeu a respiração enquanto aguardava a resposta do seu pai.
Apertei de leve a mão dele outra vez.
- Eu... Claro, filho. Claro – sua voz começou meio incerta, mas se estabilizou o bastante para soar bem decidida no final.
Colocou, então, a mão sobre o ombro dele e o apertou naquele cumprimento masculino. Três tipos de sorriso surgiram em resposta ao seu gesto. O de Eve foi de felicidade, o de Henry de alívio e o meu, de orgulho.
- Queridos, por que não vão para sala e aprontam a mesa? Acho que já podemos jantar Entendo que depois vocês dois vão para a casa dos , correto?
Os dois assentiram.
- Pois bem. Noah vai encontrar Fall na casa dos também, então não queremos que ninguém se atrase.
Eles sorriram e se apressaram para fora do cômodo. Assim que eles estavam fora de nossas vistas, fiquei de frente para meu marido e apoiei as mãos sobre seu peito. ainda estava meio desnorteado, mas automaticamente me abraçou pela cintura.
- Viu, amor, não foi tão ruim assim, não é? – perguntei baixinho, alisando sua blusa.
- Henry? – falou, olhando para a porta por onde nossa filhota tinha passado. – Eve está namorando Henry! O nosso afilhado, ! – falou mais para si mesmo do que para mim.
- Eu sei, amor. E isso não é ótimo?
- Ótimo?
- Ótimo, claro. Nós o conhecemos desde que ele nasceu, conhecemos os pais dele, sabemos que ele é um ótimo garoto e tenho certeza que vai tratar nossa garotinha muito bem.
Respirou fundo e finalmente voltou seu olhar para o meu.
- É. Você tem razão, .
- Eu sempre tenho, babe – fiquei na ponta dos pés para encostar os lábios nos dele.
- Mas ainda não estou feliz por ela estar indo para casa dele depois da ceia.
- Sei que não, amor. Mas ao menos é a casa da sua melhor amiga.
- É... – murmurou.
- E fico feliz por você não estar repetindo aquele discurso idiota sobre incesto.
soltou uma gargalhada rouca, me puxando um pouco mais para perto.
- Você acha que vai dar certo? Os dois, eu digo. Não quero que nossa filha se machuque.
- Talvez, querido. Se esse for o destino deles.
- Destino? – franziu o cenho para mim. – Pensei que não acreditasse nessas coisas.
- Também não acreditava em casamento e olha só onde estamos – dei de ombros, rindo.
Mas aquela era apenas uma parte da verdade. É claro que era, no final a razão maior por eu ter deixado minha teimosia e antigas crenças – ou a falta delas – de lado. Foi, contudo, um processo demorado e que aconteceu ao longo dos anos. Foi em cada dia desses mais de vinte anos que passamos juntos, em cada risada, em cada dia de amor, em cada vez que fizemos amor. Foi também em cada briga, em cada desentendimento, em cada noite que ele me apoiou quando chegava exausta da residência e depois do plantão, em cada dia que chorei de saudades porque ele estava do outro lado do mundo cantando. Tudo contribuiu para o desenvolver e o fortalecer do sentimento que havia trazido para o centro do meu mundo e que fazia com ele fosse o meu sol, irradiando força e amor para mim a cada momento em que passamos juntos. E, no final, eu havia usado minha racionalidade para chegar à irracional conclusão de que meu marido estava certo, que ele sempre esteve certo.
Não havia explicação lógica para como um simples acidente de carro havia me levado diretamente para aquela que havia se tornado a pessoa mais importante da minha vida. Não havia ciência que elucidasse como uma única pessoa poderia mudar tanto a vida de outra - e para melhor. Não havia, enfim, outro jeito de exemplificar como me sentia quando estava com ele, como ele me fazia sentir que não fosse invocar aquele mito sobre almas gêmeas.
Não. Não era um mito, havia descoberto. Era verdade.
E, por isso que agradecia todo dia quando olhava para minha família, meus amigos e para a vida que tenho hoje. Agradecia por tudo de maravilhoso que tinha e inconscientemente também agradecia por aquele dia do acidente.
Sentia-me grata até mesmo por aquele carro que me atropelou e – quando finalmente me rendi àquela crença – também pelas forças ocultas do Universo e por tudo que elas me trouxeram. No final, então, sentia-me abençoada pelo Destino e por ele ter se mexido para interferir na minha vida... ou, melhor, por ele ter me atingido em cheio.
Atingida pelo Destino , pensei, rindo.
Entrelacei, então, o braço no de para segui-lo para nossa sala para mais uma ceia de véspera de Natal na nossa casa. E, quando ele olhou para mim e apertou meu nariz de leve, sorrindo, meu coração falhou uma batida mesmo após todos aqueles anos. Tive, então, a certeza de que aquela daria uma boa história.
Uma jovem, um jovem e o resto da vida deles.
Atingida pelo Destino.
É. Definitivamente uma boa história.



Fim!

N/A: Hey, babes. Agora acabou mesmo. Queria agradecer a toda e cada pessoa que comentou depois de ler essa minha humilde história. Obrigada de verdade por me estimularem a continuar escrevendo. Isso é muito importante para mim. Obrigada, obrigada, obrigada. Obrigada por acompanharem Summer e Harry, obrigada pelas teorias sobre um possível caso de amor entre Louis e Lorelai. Obrigada porgostarem dos meus personagens e das minhas histórias. HBD é meu bebê e tenho muito orgulho dele. Espero que vocÊs tenham se divertido tanto quanto eu me diverti escrveendo e rindo com vocês no grupo ou em cada comentário - seja na rede social que for.
Espero te encontrar na segunda parte dessa trilogia, a qual, não, não é a continuação dessa história, mas que, com certeza, terá a perticipação desses personagens
Obrigada por tudo, vocês são lindas. E obrigada principalmente a minha gêmea, Babs, muuuito obrigada, sis linda por sempre me apoiar em cada loucura de escrita nova que eu tenho e por sempre, sempre me incentivar e ajudar com cada detalhe das histórias. Love you, sis
P.S.: Ainda teremos outtakes e já temos especias de HBD no grupo do Facebook.
E agora temos Meio Amargo que, nas palavras da minha Babs, "mas tem MA, onde vc pode acompanhar um casal diferente e AINDA dar uma espiada no casal de HBD!"

Confira aqui outras fics da Cris.

Links:
Grupo da Fanfic | trailer de Hit by Destiny
@turnercris (talk to me) | Meu ask
Acompanhe Meio Amargo!

N/B: Esse final foi muito perfeito! Nem acredito que acabou!!!! Só não vou dizer que vou sentir saudades porque a gente pode conferir um pouquinho mais desse casal fofo em Meio Amargo! E quero ver um monte de comentários para fazer minha sis mega feliz!!!
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