Haunted Eyes

Autora: Cris Turner | Beta: Babs



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Capítulos:
| 01 | 02 | 03 | 04 |

Prólogo

Quando estávamos no deserto, lembro de ter olhado a imensidão de areia escaldante e ter pensado que nunca tinha visto nada tão poderoso. Quando aquela força dourada se levantava, não havia nada que o homem pudesse fazer senão buscar abrigo até que ela se aquietasse. Talvez por isso fraquejasse todas as vezes que os olhos dourados dela me encaravam, porque eles me lembravam as areias do deserto que ousei enfrentar... E, assim como o abrasador Saara que demandava sem aceitar nenhuma desculpa, seus olhos exigiam um pedaço de mim que não podia mais dar a ninguém.
Seus olhos, como o deserto, me hipnotizavam como uma antiga canção cantada em um idioma morto por sua antiguidade, que ninguém conseguia entender, mas podiam sentir. Eu sentia em minha pele.
Sentia que aquela melodia me chamava, que tentava espantar as sombras que haviam se tornado minhas companheiras. Minha sereia cantarolando para me trazer de volta do fundo do mar.



Capítulo Um

– Oi – a voz de estava séria, inflexível. – , quero que conheça meus amigos. Estes são Rave, Duke e Dylan. – Voltou sua atenção para as três pessoas à nossa frente e completou: – Esta é minha esposa, .
De todas as coisas inéditas que tinha feito nos últimos dias – e definitivamente foram muitas –, entrar em um cômodo que sabia estar cheio de algumas das pessoas mais importantes da vida do meu novo marido definitivamente estava no topo.
Os dois dias em que me encontrava neste país não foram suficientes para sequer começar a me acostumar ao ritmo frenético da cidade, quanto mais ao modo supersônico como minha vida havia virado de cabeça para baixo. E de repente estava me dizendo que sua amiga havia combinado um jantar e que aquela seria a oportunidade perfeita para que fossemos apresentados. Devo ter ficado muda de choque e demorado um momento a mais para responder, pois ele logo acrescentava que poderíamos ficar em casa, caso eu não me sentisse confortável com a situação. Com a voz suave com que ele sempre falava comigo, como se só minha opinião importasse.
Como se eu pudesse falar não para um pedido tão simples da pessoa que havia literalmente entrado em uma pequena guerra com o único objetivo de me salvar...
Por isso, então, estava agora naquela sala, tensa como um pedaço de madeira, enquanto forçava um sorriso que tinha certeza de que mais parecia uma careta de choro, e tentava controlar meus nervos.
– Esposa?
Um deles perguntou e me arrependi prontamente de não ter controlado melhor meu reflexo e ter virado para ver quem havia falado. Não me considerava uma pessoa exagerada, então, quando a única palavra que passou em minha cabeça quando realmente prestei atenção no homem foi “tanque”, era porque definitivamente não havia um adjetivo melhor para descrevê-lo.
Ele me lembrava um tanque do exército.
Não porque fosse feio. Longe disso. Inclusive era provavelmente um dos homens mais bonitos que já tinha visto, mas… enorme. Muito alto, mais alto que , que já era alguns bons centímetros maior que eu, e muito forte. E pensar que achava a aura de meu marido intimidante...
Provavelmente teria dado um passo para trás e colocado entre nós dois se a loira baixinha que estava ao lado do Tanque não tivesse lhe dado uma cotovelada nem um pouco discreta e lhe lançando um olhar repreendedor. Foi literalmente como assistir um picolé derreter em um dia de sol. O cara se virou para ela, revirou os olhos e soltou o ar pesadamente, mas, ao voltar a me encarar, já não lançava adagas de gelo, apesar de manter a expressão séria.
, – ela deu um passo para frente depois de ter domado a fera – meu nome é Ravenna Reid, mas pode me chamar de Rave. Este é meu namorado, Duke Knight, e nosso amigo Dylan Chase.
O loiro deu um passo para frente, sorrindo muito mais amigavelmente – e um tanto quanto paquerador, se me arrisco dizer.
– Olá, Darlin’. É um prazer conhecê-la. E tenho certeza de que falo por todos quando digo que adoraríamos ouvir a história de como vocês se casaram – e aqui ele desviou o olhar para e quase pude sentir em minha pele as palavras que eles trocaram sem dizer uma única sílaba. – Mas primeiro um vinho – concedeu, diplomático, voltando sua atenção para mim e o sorriso fácil para os lábios.
– Eu pego. – Rave apressou-se em oferecer, ansiosa para se livrar do clima esquisito que havia se instalado e que parecia longe de se dissipar.
Sortuda. Queria poder fazer o mesmo.
Ao invés disso, entretanto, deixei que me conduzisse até o sofá. Não deixei de apertar sua mão durante nenhum momento, inclusive quando nos sentamos. Detestava me sentir insegura daquele jeito. Não queria ninguém para lutar minhas batalhas por mim, mas, naquele momento, não se tratava sobre ser forte. Não se tratava de enfrentar alguém ou algo, mas de não decepcionar aquele que fizera tanto por mim em tão pouco tempo.
– E então… o casamento?
Knight falou, um tanto quanto brusco, mas não exatamente rude. Ainda assim tomei um pequeno susto, o que fez com que lançasse um olhar reprovador para o amigo, enquanto Chase preferiu um olhar do tipo mais descrente – e quase pude ouvir ele querendo dizer “cara, deixa que eu falo”. Duke se limitou a ficar em silêncio, mas tinha certeza de que ele provavelmente estava travando os dentes em desagrado, mesmo que sua expressão continuasse tão impassível quanto antes.
– O que ele quis dizer foi que estamos um pouco surpresos por não termos sido convidados para o casamento. Teríamos adorado ter visto a noiva incrivelmente bela que tenho certeza que você foi, Darlin’.
E por um segundo inteiro minha mente foi ofuscada pelo sorriso brilhante que Dylan faiscou para mim. Precisei reconhecer que sua estratégia era realmente muito boa. Não era justo alguém ter esse tipo de poder sobre os outros. Quem precisaria de torturadores se você podia simplesmente enviar Dylan Chase para te hipnotizar até que estivesse cantando todas as respostas que ele queria ouvir?
– E-eu… eu… – e mais uma espiadela naqueles olhos azuis e de novo havia perdido o fio do raciocínio.
Franzindo o cenho, virei para . Ao invés de encontrá-lo impaciente ou irritado, seus olhos mostravam uma calma reconfortante. Ele estava me assegurando que confiava em mim, que eu conseguia fazer aquilo. Era tudo o que precisava. Com um suspiro, comecei a recitar a história que havíamos criado com tanto cuidado:
– Foi meu irmão, Joe, quem nos apresentou – engoli em seco, deixando que as palavras saíssem sem pensar porque pensar trazia dor. – Nos conhecemos, nos conectamos e o resto é história.
– Joe? – Duke franziu o cenho. – Joe Williams?
Assenti devagar, sentindo aos poucos a ponta de meus dedos formigando, enquanto o doce entorpecimento me abandonava. Lento, porém letal, podia sentir o veneno correndo por minhas veias, chegando até meus pulmões e os contraindo até que mal pudesse respirar.
– Não sabia que Joe tem uma irmã.
Foi o aperto de em minha mão que me obrigou a continuar. Não porque estava me incentivando, como há um segundo, mas por saber que ele estava se fechando em si mesmo, como parecia fazer toda vez que esse assunto surgia. Seu olhar estava perdido, vazio onde um segundo atrás apenas existia determinação. Era eu quem precisava ser forte naquele momento. Afinal, por mais que doesse em mim, doía ainda mais nele. E ambos sabíamos disso.
– Meia-irmã – corrigi, ainda que tenha saído em um sussurro. – Nós descobrimos não faz muito tempo. E… – engoli em seco.
E eu realmente não conseguia falar sobre isso ainda.
Não importava quantas vezes havia repassado o discurso em minha cabeça, as palavras simplesmente não saíam. E tudo piorou, se é que isso é possível, um pouquinho mais quando Dylan, daquele jeito suave que parecia lhe ser intrínseco, falou:
– Ele era do 22, não é? Acho que cruzamos com o destacamento dele umas duas ou três vezes. Bom garoto. Como ele está?
Sabia que ele tinha as melhores intenções do mundo, mas teria doído um pouquinho menos se tivesse enfiado uma faca cega em minha barriga.
– Ele … – ergui o olhar para o teto, tentando conter as lágrimas que surgiam no canto dos olhos. – Joe… Joe faleceu.
– Faleceu? – Duke repetiu, em um reflexo, chocado.
Vi pelo canto dos olhos que Ravenna, carregando uma garrafa de vinho em uma das mãos e taças em outra, parou de supetão no portal da sala. O assunto tão delicado obviamente havia feito o clima da sala cair uns bons três graus. Ninguém sabia exatamente o que dizer a seguir, mas eu tinha certeza de que precisávamos abandonar aquele tópico rápido. Não tanto pelas fisgadas ruins que sentia em meu peito, mas pela dor que sabia que meu marido estava sentindo. Sofria pelo homem incrível que sabia que meu irmão havia sido, mesmo nunca tendo o encontrado pessoalmente, mas não tinha direito de ser a fraca ali. Enquanto doía em mim pelo irmão que tive por tão pouco tempo, sofria pelo melhor amigo com quem nunca mais conseguiria conversar, que nunca mais veria.
– Foi um acidente – mal reconheci minha própria voz.
Percebi que estava mais próxima de , não sabendo ao certo qual de nós dois se aproximou, buscando por um pouco de consolo, ainda que fosse apenas na forma de calor humano. Tentava me lembrar de que as coisas iriam melhorar, de que a mão de entre as minhas não ficaria gelada para sempre como estava naquele momento, que nós não estávamos mais presos naquele lugar esquecido por Deus.
– E não quero falar sobre isso, se não se importa.
– Claro que não nos importamos. – Reid escolheu aquele momento para abandonar sua posição de estátua perto da porta e colocar as taças e o vinho sobre a mesa de centro antes de se sentar ao lado de seu namorado. – Nem um pouco. Inclusive, acho que um pouco de um bom… – ela abaixou a cabeça e franziu o cenho ao ler o rótulo. – Casas del Bosque – falou para si mesma, estranhando cada palavra. – Nem ideia do que isso significa – levantou a cabeça, mas ainda parecia conversar mais consigo do que conosco. – Ava disse que é chileno. E disse que é bom. Francamente, eu não gosto muito de vinho, mas abrimos algumas exceções de vez em quando. Menos para vinhos brancos. Ucky – sacudiu a cabeça com uma expressão de nojo. – Vinho branco é horrível. Tinto é até aceitável. Você gosta de vinho?
Pisquei algumas vezes, meio tonta pela velocidade com que ela falava. Não sei se estava mais surpresa por Reid conseguir manter uma linha de raciocínio falando tão rápido ou por sua habilidade em limpar o ambiente, que apenas há um segundo estava tão pesado. Talvez todo mundo estivesse tão desnorteado quanto eu, e por isso o assunto pesado havia se desvanecido. Afinal, francamente, era bem difícil manter seus pensamentos em ordem e acompanhar o ritmo Reid. Me perguntava se ela era assim sempre – ou se eu queria descobrir a resposta para isso. De qualquer maneira, agradecia sua intervenção. Ainda mais quando voltou a falar:
– Vinho está ótimo, Rave.
– Para mim também – apressei-me em concordar e aproveitei para aceitar uma taça das mãos dela e usar a desculpa de passá-la para meu marido para ver como ele estava.
Havia um sorriso cansado em seus lábios, mas o que me surpreendeu mesmo foi encontrar o cachorro preto deitado do outro lado de e com a cabeça em seu colo. O outro cachorro, por sua vez, estava deitado aos pés dele. Sei quanto estranho isso soa, mas pude jurar que o cachorro no colo de meu marido me lançou um olhar rápido e que naqueles segundos ele encarou minha alma. Mas foi tudo bastante fugaz e fiquei com a impressão de que tinha imaginado tudo. O que definitivamente não era minha imaginação foi que os cachorros não estavam apenas sendo carinhosos. Eles eram inteligentes. Sabiam que precisava de consolo. Meu marido levantou a cabeça para me encarar quando lhe passei o vinho e uma intimidade tangível passou por nós. Daquele tipo palpável, forte e que se constrói tendo como base o companheirismo que sobreveio a tragédia, daquele tipo que infelizmente só criava uma pequena fagulha em seus olhos chocolate, que tinha certeza de que antes eram doces.
Ele soltou minha mão para segurar o cristal, deixando que a outra continuasse fazendo carinho no cachorro.
– E como esse carinha chama?
Ergui a mão, hesitante, mas parei a meio do caminho, virando-me para Ravenna em busca tanto de autorização quanto de uma confirmação de que seu cachorro era dócil. Ela me olhou por sobre seu próprio copo, e assentiu enfaticamente. Confiando minha segurança naquela em que havia acabado de conhecer – o que aparentemente vinha acontecendo certa frequência – deixei meus dedos correrem o pelo macio.
– Esse é Cookie – a voz rouca de Knight soou em algum lugar atrás de mim. – E aquele, Scott.
– Eles são adoráveis – me abaixei um pouquinho para também acariciar Scott, que levantou a cabeça, preguiçoso, e me olhou como se estivesse sorrindo.
– Você não é daqui, não é, ?
– Uh? – levantei a cabeça ao ouvir a pergunta de Dylan. – Foi meu leve sotaque que me entregou? – sorri ao encarar seus olhos azuis da cor do céu, aproveitando para tomar um gole de minha bebida.
Era muito bom. A tal Ava, fosse quem fosse, entendia de vinhos.
– Não realmente. Seu sotaque é quase imperceptível – concedeu, ainda que eu soubesse que ele estava apenas sendo educado. – É apenas que, quando você passa tanto tempo no Oriente Médio quanto nós passamos, acaba por aprender a identificar esse tipo de coisa mais facilmente.
– Você está apenas sendo gentil, mas vou aceitar sua mentira – pude sentir o canto de meus lábios se erguerem em um sorrisinho. – Eu morei nos Emirados Árabes a maior parte de minha vida.
Os três assentiram e então Duke estreitou os olhos para seu amigo.
– Então é lá onde você esteve, Puppy?
– Puppy? – não pude evitar a pergunta, franzindo o cenho ao me virar para meu marido.
lançou um olhar assassino para os outros dois homens, que, agora, obviamente tentavam morder uma risada.
– Sim, era lá.
– E por que não nos avisou?
– Porque não era da sua conta.
– Seu merdi-
– O que Duke está querendo dizer, – Ravenna interrompeu as palavras do namorado ao literalmente tapar a boca dele com a mão, – é que ficamos preocupados – ela retorceu a mão sobre o braço dele, beliscando-o. – Não é mesmo, amor?
Tinha certeza de que Knight não tinha sentido nem mesmo o mais leve incômodo, mas ele teve a decência de retorcer de leve os lábios – era provavelmente o mais perto que ele chegaria de uma careta – e balançou a cabeça em concordância. Era absolutamente fascinante observar os dois interagindo. Ele era bons vinte centímetros mais alto e vários quilos – de puro músculo – mais pesado do que ela, mas se derretia como massinha nas mãos da namorada. Interessante não só porque nunca tinha presenciado aquele tipo de relacionamento, mas também porque, mesmo na minha ignorância, tinha certeza de que aquele tipo de relacionamento era raro.
– Isso. – Duke continuou depois de um momento. – Então não faça de novo, garoto. Aliás, se você tivesse chegado atrasado para esse jantar, eu teria arrancado suas bolas.
Tentei não reagir, mas senti meus olhos se arregalando e inconscientemente me aproximei mais de meu marido, pateticamente tentando protegê-lo. Pensei que eles eram bons amigos, mas a ameaça parecia muito real. Foi a gargalhada gostosa de Chase que cortou o clima repentinamente pesado.
– Não dê atenção a ele, . Duke fala assim o tempo todo. Ele costumava ser nosso capitão na marinha e ainda acha que pode nos dar ordens ou fazer algum tipo de ameaça efetiva – deu de ombros, revirando os olhos. – É como uma segunda natureza. Você vai se acostumar com esse jeito mal-humorado. Mas não se preocupe. Eu sou adorável o suficiente para compensar – passou a mão por seu peito. – E sexy – lançou-me uma piscadela.
Antes que pudesse reagir, uma almofada passou voando ao lado de minha orelha para acertar Chase direto no rosto. Pude ouvir alguma coisa bem parecida com “merdinha” sendo abafada quando ele foi atingido, mas Dylan se limitou a colocar a almofada ao seu lado.
– Ele não consegue aguentar a verdade – falou com um suspiro, como se isso fosse um fato inconvenientemente óbvio.
– Fascinante, Chase. Realmente fascinante – foi a resposta entediada de meu marido.
– Se os dois patetas terminaram, gostaria de passar para o jantar.
Ravenna, que parecia tão entretida quanto eu, limitou-se a sorrir contra sua taça de vinho que parecia praticamente intocada, enquanto assistia os três.
– Patetas?
– E por que você está tão preocupado com comida?
– Espera um pouco. – Dylan franziu o cenho por um momento para imediatamente arregalar os olhos quando compreensão iluminou seu rosto. – Não é o jantar, é a sobremesa. É uma torta Merthier, não é?
Mesmo sem olhar, pude ver se empertigar ao meu lado, repentinamente muito mais interessado no assunto.
– Torta Merthier?
– Isso não é da sua conta, Puppy. Nem da sua, Pateta. – Duke fez questão de acompanhar um olhar assassino para cada um dos amigos. – E não tem sobremesa nenhuma.
– Você está mentindo.
– Bastardo egoísta!
– Se você segurar ele, – Dylan começou com um olhar calculado e o tom completamente sério, – consigo pegar a torta.
– Vocês não vão chegar nem perto da porta. – Knight sibilou.
– 50/50?
– Eu vou me sentir muito bem quando quebrar os seus dentes perfeitos, Chase, e...
– 50/50.
– ...vou quebrar seu braço, Puppy, de um jeito que você nunca mais vai conseguir jogar aquela bola curva de que tanto se orgulha.
– Feito.
Absolutamente chocada, observei Ravenna se mover mais rápido do que qualquer um dos homens, em um pulo ficando de pé no meio da sala, os braços erguidos paralelos ao quadril e as mãos espalmadas.
– Chega! – rugiu, bastante autoritária para quem parecia mais uma fadinha. – Nem pensar. Da última vez que vocês resolveram bancar os pouco civilizados na minha sala, quebraram um vaso de estimação. Prometeram nada de brigas dentro de casa.
Eles continuaram na mesma posição belicosa.
– E eu fiz três tortas – murmurou, revirando os olhos.
Isso acalmou os ânimos instantaneamente. Eles voltaram a se acomodar no sofá e falou calmamente:
– E o prédio? Conseguiu alugar?
– Nah. – Chase sacudiu a cabeça. – Nós decidimos que compensava comprar.
Pisquei devagar, tentando não parecer tão chocada quanto me sentia ao observar como eles podiam ir de “prontos para voar na garganta uns dos outros” em um segundo para, no segundo seguinte, imediatamente voltar a uma conversa sobre amenidade como se nada tivesse acontecido. Meu queixo, entretanto, certamente estava caído, uma vez que Ravenna me lançou uma piscadela cúmplice e um dar de ombros quando voltou a se sentar, pegando de novo a taça de vinho – que, pensando agora, não havia visto quando ela se livrara.
– Amanhã vamos supervisionar a equipe de limpeza.
Apesar de minha curiosidade, mantive os lábios cerrados. Não queria me intrometer no assunto que era obviamente importante para eles. Fui bastante surpreendida, entretanto, quando o senhor-impassividade-em-pessoa virou-se para mim falou com bastante naturalidades:
– Nós compramos um prédio para ser a sede da empresa de segurança que estamos fundando. Contratamos uma empresa terceirizada de limpeza e vamos dar um jeito no lugar. Não é velho, mas está fechado há algum tempo.
Engoli em seco para criar coragem para o que estava prestes a fazer. Quando isso não deu certo, tomei em um único gole todo o vinho que restava em minha taça. Só então e, torcendo para não estar ultrapassando limites, murmurei:
– Eu adoraria ajudar, se vocês não se importarem.
Hesitante, fiz contato visual com os três, porém, apesar de nenhum deles demonstrar descontentamento, ninguém respondeu. Era óbvio que eles esperavam por um ok daquele que mais me conhecia. Mal percebi que não respirava ao me virar para encarar meu marido. Estava aterrorizada com a possibilidade de encontrá-lo irritado por minha intromissão, não porque estivesse com medo ou algo parecido, apenas não podia suportar a ideia de decepcioná-lo – não quando lhe devia tanto.
Ao invés de qualquer sentimento negativo, todavia, encontrei-o me olhando de cima, os cílios pesados e os olhos de chocolate com um brilho quente que não tinha visto antes.
– Seria ótimo tê-la conosco lá amanhã, – falou em um sussurro caloroso, que, de tão íntimo, fez minhas bochechas corarem.
Senti seu braço, que antes estava no encosto do sofá, descer para meus ombros.
Era ótimo estar ali com eles. Com ele.


Capítulo Dois

– Aqui é bem grande.
Tirei minha atenção da vista da janela, virando-me para encontrar minha esposa entrando na sala.
Minha esposa.
Palavras estranhas. Ainda precisava de certo esforço para pronunciá-las em voz alta. Talvez se não tivesse sido tão inesperado, talvez se não fosse sob circunstâncias tão extenuantes, talvez se ela não me olhasse como a porra de um herói. Não fossem tantas variáveis, talvez pudesse usar aquelas duas palavras sem que elas fechassem minha garganta.
atravessou o cômodo até parar ao meu lado.
– Essa é sua sala?
Assenti, evitando seu olhar. Reconhecendo seu esforço para criar um diálogo, limpei a garganta para acrescentar:
– A de Duke fica do outro lado do corredor e a de Chase, à esquerda. Você chegou a ver o cômodo menor? Lá será uma copa – continuei. – A sala aqui ao lado será para reuniões.
– Parece um bom plano – balançou a cabeça.
Intrigado, observei enquanto ela passava a ponta do tênis repetidamente sobre um ponto qualquer no chão, enfiava as mãos nos bolsos de seu casaco azul e finalmente levantava a cabeça. Seus olhos castanhos dourados me prenderam como areia movediça e por pouco não perdi o que ela dizia em seu tom sempre baixo:
, posso te perguntar uma coisa?
– Hmm… Claro – cocei a nuca.
– O que exatamente é a Thermopylae?
– Como assim? – franzi o cenho.
– Digo, – engoliu em seco, – entendo o básico. A ideia de uma empresa de segurança, mas… como exatamente vocês vão fazer as coisas funcionarem? Se não se importa em me contar, é claro – acrescentou rapidamente.
Em uma outra oportunidade – em uma outra vida que já não era mais a minha – teria considerado adorável seu jeito tímido ao falar comigo, mas não agora, não quando precisávamos construir ao menos um mínimo de confiança.
– Você pode me perguntar o que quiser, . Sempre – parei por um segundo, pensando por onde poderia começar. – Duke odeia o pai.
Observei-a arquear uma elegante sobrancelha e me senti um idiota pela brusquidão.
– Ele não fala sobre isso. Nunca. São assim que as coisas são – encolhi os olhos, desviando o olhar para parede acima de seu ombro. – Desde que Chase e eu o conhecemos. Depois de nós três pedirmos baixa, Duke foi trabalhar com o pai – sacudi a cabeça, não podendo evitar um sorriso amargo. – Foi um desastre. Não sei todos os detalhes, e os que sei, não são meus para contar. Nós bebemos a noite inteira para comemorar quando ele se demitiu – daquela memória eu gostava. – Tom, o dono do bar, precisou ligar para que Rave fosse nos buscar depois de Chase ter tido a brilhante ideia de flertar com uma moça acompanhada do namorado e dos quatro irmãos. Foi uma pena. Duke e eu estávamos prontos para assistir alguém socar aquele sorriso idiota da cara dele. Até pedimos alguns amendoins. Rave e Tom não apreciaram nosso senso de humor – podia sentir o sorriso no canto da minha boca.
– Sem condições de sequer explicar onde morávamos, Rave colocou nós dois para dormir nos sofás da casa deles. Na manhã seguinte, enquanto ela preparava nosso café da manhã, e depois de gritar por cima de nossas ressacas sobre sermos inconsequentes por tentar vagar pela noite sem controlar nossos próprios pés, ela resmungou sobre imaginar o caos que seria se nós trabalhássemos juntos agora. Sendo sincero, eu não ouvi muita coisa. Só queria que ela ficasse quieta até que minha cabeça parasse de latejar. Chase, por outro lado, ouviu muito bem. O filho da mãe escuta tudo – lancei-lhe um olhar significativo, esperando que ela entendesse o conselho velado que estava lhe dando. – E ele cozinhou aquela ideia por alguns dias, como uma de suas mil estratégias. Então, na próxima vez que fomos ao The Hook’s, ele a jogou sobre nós dois. Não – sacudi a cabeça, passando a mão sobre o rosto. – Isso não é preciso. Ele nos vendeu a ideia, fez com que quiséssemos tentar. Às vezes realmente queria saber como ele consegue levar todo mundo na conversa. O babaca pode vender gelo para um esquimó, Saara.
? – sussurrou.
Franzindo o cenho, olhei para baixo e para ela. Seus olhos de deserto estavam áridos e tristes, e eu não tinha nem ideia do motivo.
– Meu nome é – se é que era possível, seu tom diminuiu ainda mais.
Podia sentir a careta em meu rosto se aprofundar. Era óbvio que eu sabia o nome dela. Ele estava gravado em minha mente, queimando como brasa a cada segundo, como um lembrete indelével de tudo que tinha acontecido nesse último mês.
– Sei disso.
. Não Sarah.
– Sarah? – repeti, completamente perdido de para onde essa conversa tinha caminhado.
Meus olhos se arregalaram de leve quando, alguns segundos depois, ao repassar nosso diálogo em minha mente, percebi o que havia deixado escapar.
– Não! Não Sarah. Saara – corrigi. – Como o deserto.
– Como o deserto? – repetiu, piscando devagar e recuando um pequeno passo para trás.
Um bolo se formou em minha garganta por tantos motivos diferentes. Primeiro, porque havia deixado aquele apelido escapar, quando obviamente não tinha intenção de nem mesmo chamá-la assim em meus pensamentos graças às repercussões que isso tinha; Segundo, e mais importante, porque sabia que aquilo só fazia sentido para mim.
E tive bastante certeza de que esse era o caso, ao ver o jeito ferido como me encarava agora.
Merda!
Antes que pudesse me explicar, porém, Knight, mais carrancudo do que o normal, entrou na sala, os braços cruzados.
– Puppy, a equipe de limpeza chegou.
– Que foi que aconteceu dessa vez?
– Nada – grunhiu.
– Ora. – Rave também se aproximou, saltitando de leve, naquele que parecia ser seu jeito normal de andar, até parar ao lado do namorado e passar o braço por sua cintura, apesar de Duke continuar fingindo que ela não estava ali. – Está de mau humor porque eu disse que ele não pode contratar um decorador para a sala dele.
– E eu repito, Ravenna Reid, – lançou-lhe um daqueles olhares gelados que fazia a maioria dos homens recuar, – por que não?
Revirando os olhos, ela se aconchegou ainda mais contra ele. Knight relutou apenas por um segundo antes de passar o braço pela cintura dela, como se mesmo irritado com ela, não conseguisse ficar sem tocá-la.
– Porque isso estraga toda a diversão! – A última palavra saiu mais aguda do que as outras. – Sabe quantas vezes uma oportunidade como essa surge? Além disso, já te disse que fiz um curso de design de interiores – comentou, bastante satisfeita consigo mesma.
– Você assistiu a tutoriais no youtube sobre como decorar cômodos.
A careta de indignação de Rave foi impagável.
– De onde tirou isso? Você nem sabe o que é o Youtube, Duke!
– Claro que eu sei – franziu o cenho. – Vejo vários vídeos lá!
– Ah é? – afastou-se um passo e cruzou os braços, um sorriso no canto dos lábios enquanto lhe lançava um olhar desafiador. – E o que você assiste?
Se aquilo não fosse tão absolutamente improvável, poderia jurar que tinha visto um tom vermelho em suas bochechas.
– A questão não é essa, Ravenna Reid. O que estamos, de fato, discutindo, é como a ideia de decorarmos tudo nós mesmos é idiota.
– Duke, só porque você não gosta de fazer compras, não significa que essa atividade, ou a ideia, seja idiota.
– Ravenna Reid, amor, vamos ser razoáveis – mudou de estratégia, amaciando o tom. – Tentar decorar todo o prédio, vai atrasar nosso cronograma em semanas.
– Não seja ridículo, Duke. É óbvio que não quero decorar o prédio inteiro.
Knight mal tinha conseguido dar um suspiro de alívio, quando sua namorada emendou:
– Só a sua sala – bateu a mão espalmada de leve no peito dele duas vezes de maneira condescendente antes de sair.
Ok. Aquela era a gota final. Não conseguindo mais reprimir a risada, joguei a cabeça para trás e comecei a gargalhar. Aqueles dois eram um entretenimento muito mais cômico do que qualquer programa que já tinha visto.
– ‘Tá rindo do que, pateta? Se eu tenho que decorar minha sala, você também tem.
Parei de rir imediatamente.
O quê? Por quê? Que culpa eu tenho se sua mulher quer decorar a sua sala?
– Não vou ser o único a fazer isso. Você e Chase estão nessa enrascada comigo.
E, como se isso acabasse com a conversa, girou nos calcanhares e deixou o cômodo.
– Babaca – bufei.
Meu ouvido treinado percebeu o passo praticamente inaudível de para o lado e para longe.
!
, minha esposa, que havia se encolhido ao máximo quando Reid e Knight entraram, tentando se fazer de invisível, porque certamente não acreditava pertencer ali.
Conosco.
Sim, talvez aquela não fosse a situação ideal, e talvez se minha linha do “normal” tivesse continuado como estava, nunca a conheceria, mas essa era agora nossa realidade agora e a adaptação seria um fiasco se deixasse que ela se escondesse em si mesma a cada minuto.
– Eles formam um casal interessante – murmurou, mudando o peso de um pé para o outro, a voz automática de quem falava apenas para preencher o silêncio.
, eu estava falando sob-
– Darlin’! – O sotaque idiota de Chase causou uma segunda interrupção. – Aí está você! – e daquele jeito folgado de sempre, parou ao lado dela e jogou o braço sobre seu ombro.
Qualquer dia desses seus modos folgados iriam lhe custar seu rosto bonitinho.
Minha esposa, entretanto, não parecia se incomodar. Corando, ela não fez qualquer movimento para se afastar.
– Precisa vir comigo e me salvar do tédio – exagerou, colocando a mão sobre o peito. – Supervisionar uma equipe de limpeza está longe da minha expertise e da minha vontade. Definitivamente não é o que eu gostaria fazer em um sábado de manhã, ou em qualquer período. Porém, – abriu um sorriso de lado que acreditava ser irresistível, – como alguém tem que supervisionar a dupla dinâmica Knight- para que eles não destruam nosso prédio antes mesmo de ele começar, cá estou. Você seria minha companhia para essa árdua tarefa, Darlin’?
Chase iria negar até a morte, mas eu tinha certeza de que seu sotaque imbecil era forçado. Nem os primeiros habitantes do Texas arrastavam tanto as sílabas.
– Oh… eu… hmm… – titubeou, ainda com as bochechas vermelhas, revezando o olhar entre nós dois.
– Perfeito – faiscou outra vez seu sorriso de comercial de creme dental como se ela tivesse concordado com seu discurso ridículo. – Podemos aproveitar a ocasião para você me contar porque alguém tão maravilhoso como você, Darlin’, se contentou com Puppy – em meio a mais um de seus falatórios intermináveis, guiou minha esposa para fora da sala, mas não antes de acrescentar. – Você obviamente é muita areia para o caminhãozinho dele.
Ela me lançou um olhar incerto por sobre o ombro antes de deixar o cômodo, mas como não tinha nenhuma razão legítima – além de Chase ser um idiota que se achava a reencarnação de Casanova – para impedi-los, enfiei as mãos nos bolsos da calça e os segui.

xxx

Depois de um tempo ponderei que Dylan tinha o dom para aumentar em seu favor cada situação em que ele se encontrava, distorcendo de pouquinho em pouquinho a realidade se esta não lhe conviesse. Às vezes, porém, ele era bem preciso.
Aquela era uma dessas vezes.
Nunca me senti tão entediado quanto no dia em que precisei supervisionar o trabalho da equipe de limpeza. Boa parte das primeiras horas, passei remoendo a certeza de que estar ali era totalmente desnecessário. Nas demais, resmunguei sozinho sobre a tarefa ingrata entre uma resposta e outra às perguntas escassas que alguma funcionária fazia. Desencostando da parede onde me escorara nos últimos minutos, aproximando-me de Reid, que encarava, com o cenho franzido, uma prancheta.
– Rave, poderia fazer a gentileza de me lembrar o porquê de estarmos aqui? Essas mulheres claramente sabem o que estão fazendo.
– O que-Oh! – levantou a cabeça. – O porquê de estarmos aqui – olhou para a prancheta e de novo para mim, parecendo levar um minuto para situar minha pergunta. – Ah sim. Sim – balançou a cabeça. – Estamos aqui porque Duke é um maníaco por controle, e miséria adora companhia.
– Faz sentido – assenti, observando enquanto Knight conversava com a encarregada da equipe de limpeza.
– E como tem se adaptado?
Deixei meu olhar vagar pelo espaçoso hall de entrada do prédio até chegar ao canto onde Chase finalmente parara de fingir fazer algo útil e mostrava algo no celular para minha esposa, que ria e sacudia a cabeça. Meus lábios se repuxaram em um sorriso pequeno.
– Bem. Surpreendentemente bem.
– Merè disse que grand-mère detestou NY quando eles se mudaram para cá. Disse que era tudo sem charme. Mas, cá entre nós, difícil qualquer outro lugar ter o mínimo de elegância da Riviera.
– É complicado, Rave – cocei a nuca, procurando um jeito de dizer o que pretendia. – não gostava muito de onde morava.
É. Certo. Aquele era um jeito bonitinho de colocar as coisas.
– Sempre é complicado – murmurou, compreensiva, pousando a mão em meu braço. – O importante é se vale a pena.
E por um milésimo de segundo o rosto de duas pessoas diferentes passaram diante de meus olhos. Mudei minha atenção para a parede ao longe.
– Sim, vale a pena – foi o que consegui murmurar por entre minha mandíbula travada.
Com um sorriso triste, Ravenna deu algumas batidinhas reconfortantes em meu ombro.
– Se eu puder ajudar em alguma coisa, , eu estou aqui.
Assentindo, mantive meu olhar na parede branca recém-pintada, concentrando-me nas pequenas coisas que me davam um senso de normalidade, que me mantinham no lugar, como uma âncora fazia com um navio, para que eu não me perdesse dentro da minha própria mente.
Concentrava-me nas paredes brancas recém-pintadas, no cheiro de alvejante do chão, na corrente de ar que entrava pela janela.
Com respirações profundas e contadas, consegui me manter onde estava, na realidade.
Felizmente, depois disso, não tive outro incidente, e, sendo sincero, o tempo até correu mais rápido quando Duke cansou de fingir que entendia de gerenciamento de limpeza e se sentou ao meu lado no chão e, com as costas encostadas na parede, discutimos algumas das contratações que pensávamos fazer. Quando a equipe avisou que tinha acabado e que poderíamos trancar tudo, tinha certeza de que todos estavam exaustos e famintos.
– Vocês gostariam de ir lá para casa? – Ravenna perguntou quando nos encontramos na calçada em frente a fachada recém-reformada. – Podemos esquentar uma das pizzas caseiras que fiz e congelei ontem.
O rosto de Knight imediatamente se fechou em uma careta insatisfeita, enquanto cruzava os braços e nos lançava olhares significativos. Duke obviamente não entendia o conceito de dividir comida que levava a marca Reid de qualidade. Rave achou por bem lhe dar uma cotovelada nas costelas. Obviamente não teve nenhum efeito físico, mas a intenção ficou clara para todos – inclusive para Duke, que, após revirar os olhos, voltou para sua expressão fechada de sempre, mas abandonou a carranca.
– Oh, Darlin’, eu adoraria – jogou o braço sobre o ombro de Ravenna, que, assim como antes, imediatamente corou, dando um sorrisinho de quem se encontrava meio desnorteada.
Às vezes me perguntava seriamente se Chase era o cara mais corajoso da América ou só se ele era suicida mesmo – depois de ver o jeito assassino como Duke encarava nosso amigo, tive a certeza de que era o segundo caso. Qualquer dia desses Dylan teria seu traseiro chutado de maneira épica.
E eu estaria ali para assistir bem de perto.
Sorrindo, satisfeito com esse pensamento, voltei a prestar atenção na conversa.
– E você, ? ?
Abaixei o olhar para minha esposa, que me lançou um sorriso cansado.
– Obrigado, mas vamos ter que deixar para próxima, Rave. Ainda precisamos pegar o metrô e um cochilo também cairia bem agora.
– Você também não está cansado não, Chase? – Duke rangeu os dentes.
Dylan e seu instinto suicida ignoraram completamente o aviso velado na voz de Knight, estalando a língua e respondendo:
– Nah. Prefiro pizza. Além do mais, minha casa também é para o sul.
Sacudindo a cabeça, coloquei a mão espalmada na base das costas de minha esposa e trocamos palavras de despedida. A estação não era longe e não precisamos tentar preencher o silêncio.

xxx

Já em casa, também foi em silêncio que preparamos alguns sanduíches. Foi quando nos sentamos na pequena mesa para duas pessoas na cozinha meio apertada, com nossos sanduíches recém preparados, que me lembrei de nossa conversa inacabada.
– chamei depois de um gole d’água.
Ela levantou a cabeça, tirando a atenção de suas mãos, que pareciam ser tão interessantes naquele momento. Esperou pacientemente que eu juntasse as palavras.
– Eu… eu… quando te chamei de Saara. Não tive a intenção de te ofender.
Não tive a intenção de deixar o apelido escapar.
– Você disse que era por causa do deserto.
Assenti.
– Por quê? – franziu o cenho. – O Saara não se estende pela Arábia Saudita.
Oh, sim. Eu sabia bem em que países aquela imensidão dominava grandes porções de território. Havia estudado suas características em uma patética tentativa de dominá-lo o suficiente para que sobrevivêssemos.
– Eu sei – respondi gentilmente.
Abandonei o restante de meu sanduíche sobre o prato, repentinamente sem apetite.
– Chase, Duke e eu estávamos no mesmo destacamento das forças especiais da marinha. Não posso fornecer detalhes, porque até hoje eles são confidenciais, mas nossa primeira missão foi em… em um ponto do Saara – aquele era um bom meio termo, onde poderia responder sua pergunta sem comprometer detalhes sigilosos. – Passamos semanas e semanas naquele lugar esperando ordens. A maior parte do tempo era absolutamente sufocante. O calor, o vento, o ar seco que descia por nossas gargantas e parecia arrancar pedaços. Porém havia momentos, raros momentos, em que era possível apreciar a beleza que aquela indomável força da natureza era. Ou talvez só estivéssemos tentando nos apegar a alguma coisa que parecia ser mais sólida do que nós mesmos. Duke e Chase nunca me contaram qual era a âncora deles. É o tipo de coisa que a pessoa guarda para si mesmo. Mas a minha… eu… – engoli em seco.
Às vezes tinha a ilusão de que quanto mais tempo passasse, mais fácil seria falar sobre o assunto. Doía exatamente como doía quando ainda estávamos naquele lugar esquecido por Deus.
Felizmente não soltou a frase clichê “você não precisa falar sobre isso se não quiser”. Talvez ela já me conhecesse o suficiente para saber que não falaria de nada se não quisesse. Passando a mão sobre o rosto, soltei o ar pesadamente antes de continuar:
– A areia – resolvi ser mais direto. – Seus olhos são da cor da areia do Saara.
– Oh – murmurou depois de um tempo, assentindo.
Sentindo-me meio sufocado, levantei-me, recolhendo seu prato vazio e o meu ainda meio-cheio para pia.
– Não se preocupe. Não vai acontecer de novo – limpei a garganta enquanto deixava a água cair sobre a louça. – Não vou te chamar assim de novo.
Ouvi a cadeira se arrastar no chão e sabia que ela estava em pé em algum lugar atrás de mim, pois não havia escutado nenhum outro movimento. Estava esfregando o último copo quando ela voltou a falar, a voz soando clara pela cozinha silenciosa:
– Eu gosto. Pode me chamar assim.
Dessa vez ouvi seus passos quando ela deixou o cômodo. Foi só depois que me lembrei.
Depois de ter terminado de arrumar as coisas pela cozinha e de ter escovado os dentes no banheiro do corredor e de ter trocado o jeans pela calça de moletom que agora me obrigava a dormir. Depois de me espremer mais uma noite no sofá da sala. Depois de algumas horas encarando o teto branco, sentindo o corpo pesado de cansaço, mas a mente ainda trabalhando freneticamente.
Foi só então que percebi que não tinha falado que seus olhos me lembravam da cor da areia do Saara – e que aquelas areias eram a coisa mais bonita que já tinha visto na vida.



Capítulo Três

— Tem certeza de que essa é uma boa ideia? — perguntei pelo que era provavelmente a quarta vez, mas não conseguia me livrar daquela sensação de que estava cutucando não a onça, mas sim o Rei da Selva com a vara curta.
— O quê? — Rave levantou os olhos violeta do tapete pendurado em que passava a mão. — Ah, sim. Não se preocupe. Duke só resmunga. Ele nunca realmente está bravo. É manso como um gato.
Pisquei devagar, agradecida por ela ter me dado às costas, assim não via a expressão atônita que muito provavelmente havia tomado conta do meu rosto. Não conseguia, afinal, imaginar um cenário em que aquela frase refletia a verdade.
Manso como um gato?
Que tal manso como um leão? Um leão faminto… ou talvez um tigre dentes de sabre…?
— Hmm… OK — murmurei depois de um tempo, dando alguns passos para acompanhá-la quando passou a examinar o próximo tapete. — Mas… ele não tinha dito que preferia que um decorador arrumasse a sala dele?
A pergunta foi retórica. Eu me lembrava muito bem de Knight ter dito com todas as letras para a namorada não decorar a sala dele, mesmo assim, dois dias depois, nos encontrávamos na mais sofisticada loja de móveis que já tinha visto.
— Duke nunca sabe o que quer. Só falou aquilo porque agora fica cismado sempre que eu assisto qualquer tutorial no YouTube. Só porque outro dia eu estava assistindo um sobre como costurar e decidi praticar na cortina — falava tudo com muita naturalidade, gesticulando com as mãos enquanto andava e observava os exemplares. — Aí costurei uma cortina na outra e quando fui tentar separar não achei a tesoura e tentei usar um fósforo e saiu um pouquinho de fumaça. Mas Duke fez um escândalo. Nossa — virou-se para mim e revirou os olhos. — Ele falou muito. Bom, de qualquer jeito, isso não vem ao caso.
Rave deu de ombros, bastante calma, como se não tivesse acabado de contar que quase tinha colocado fogo em sua casa.
— Esse é lindo! — exclamou de repente. — Que tal se levarmos?
Olhei do tapete laranja para o qual ela apontava e de volta para seu rosto. Sim. Com certeza, ela estava falando sério. O que significava que eu precisava encontrar um jeito delicado de dizer que achava que laranja berrante não parecia ser a cor de Knight.
— Não sei se ficaria muito bom na sala dele. Acho que talvez faria o cômodo parecer menor.
Não tinha nem ideia do que estava falando, mas esperava que a convencesse, não que a ofendesse.
— Você tem razão — murmurou, ainda com a mão sobre o queixo e um olhar analítico sobre o laranja.
Não. Quem tinha razão, pelo jeito, era Duke — sobre Rave não entender nada de decoração.
— Quem sabe uma coisa mais neutra? Talvez preto ou marrom? — apontei para os dois tapetes mais à frente.
— Você tem razão! — e lá estava de volta aquela animação. — E então podemos comprar aquele sofá azul Frozen.
— “Azul Frozen”?
— É. Azul igual ao do letreiro do filme.
— Você sabe que esse não é o nome, certo? — arqueei a sobrancelha.
— Mas qual seria a graça nisso? — deu um sorriso de lado. — Agora, — bateu o dedo indicador no queixo algumas vezes, — onde é que aquele sofá estava mesmo? Acho que foi bem lá no começo.
Passou o celular pelo código de identificação pregado em um pequeno papel no tapete, reservando-o, então segurou meu pulso e me puxou para frente da loja de novo. Tenho que admitir que, depois que ultrapassei meu temor sobre como Knight reagiria ao mini arco-íris que Rave pretendia montar na sala dele, pude aproveitar melhor a companhia dela. Ravenna Reid não se encaixava na imagem que eu tinha de uma psicóloga, mas era preciso admitir que ninguém era vinte e quatro horas a sua profissão. Talvez ser elétrica daquele jeito fosse uma forma de escape. De qualquer jeito, sabia que não podia julgar. Afinal, ela me retribuía muito bem o favor, em nenhum momento me enchendo com perguntas que sabia que seriam bastante pertinentes, mas que não tinha nenhuma vontade de responder. Foi por aquela sensação confortável em que nos encontramos, duas horas depois das compras dela, na cafeteria a poucas quadras da loja.
— inclinou-se para frente, apoiando as mãos espalmadas na mesa entre nós. — Quais são as chances de deixar que eu decore a sala dele também?
Tentei não arregalar os olhos, mas assim que aquela pergunta preencheu o espaço entre nós, só conseguia imaginar meu marido em uma sala branca com um sofá estampado de preto e branco — como que para imitar uma vaca — e um tapete rosa chiclete. Aquilo definitivamente não combinava com ele, e, como meu trabalho era protegê-lo, joguei o amigo dele às feras:
— Talvez seja melhor você se concentrar na sala de Duke primeiro.
Ela parou por um momento, analisando o que eu tinha dito, chegando ao ponto de levar o cappuccino aos lábios, tomando um gole como se estivesse sorvendo minhas palavras.
— Ah, sim — murmurou, colocando a caneca de volta ao pires. — Acho que você tem razão. Vou fazer Duke engolir as palavras sobre eu não saber o que estou fazendo.
Assenti repetidamente para esconder meu pequeno suspiro de alívio. Aproveitando o momento, falei:
— Rave, queria agradecer por ter me ligado. Tenho passado bastante tempo dentro de casa desde que cheguei.
Reid abriu um sorrisinho triste com os lábios cerrados.
— Não é fácil, né?
— Não — sacudi a cabeça.
— Se você não se importa que pergunte, o que costumava a fazer quando morava na Arábia Saudita?
Correr.
Fugir
Me esconder.

Engolindo em seco, preferi meias verdades:
— Nada fixo durante muito tempo.
Ou nunca.
— Algumas vezes fiz faxinas, outras dei algumas aulas particulares… também trabalhei em algumas lojas.
— Aula de que?
— De inglês e, às vezes, matemática.
Como havia tantas perguntas em seus olhos violeta, decidi continuar:
— Não foi nada profissional. É só que… sempre gostei de números. Além disso, inglês era uma moeda de troca bastante valiosa em um país onde menos da metade da população sabe um segundo idioma. Felizmente sempre conseguia encontrar algum gerente que precisava que seus funcionários falassem com turistas.
Tomei um gole de meu café, ponderando que, agora que parava para analisar, não sabia ao certo como me sentia ao olhar para trás e para aquele aspecto em particular da minha vida. Não sabia se era raiva, se era algum tipo de saudosismo agridoce ou se era apenas vontade de esquecer…
— E para crianças?
— Não — sacudi a cabeça. — A maioria não queria uma criança ensinando outra criança. Os donos de comércio só aceitavam porque era mais barato.
— Com quantos anos você… digo, uma criança? — embolou-se nas palavras, mas eu sabia exatamente o que ela queria perguntar.
— Comecei a dar aulas quando tinha doze anos.
— Doze anos? Isso não é… Digo, você era tão nova…
— A necessidade sempre é a melhor professora — encolhi os ombros. — Minha mãe também estava sempre fazendo malabarismos entre os bicos que conseguia arrumar. Precisava ajudar com as coisas… então… bem… foi assim que as coisas foram.
Repentinamente exausta com aquele assunto que tão rapidamente conseguia sugar minhas energias, empurrei o pedaço de bolo no prato a minha frente com o garfo.
— O café está muito bom, mas preciso acrescentar que isso aqui — apontei com o garfo — definitivamente não merece uma estrela em algum catálogo gastronômico.
Ravenna piscou devagar, provavelmente surpresa com a mudança um tanto quanto brusca de tema, porém foi rápida em se recuperar, logo acrescentando:
— Pois é. Tá… tá meio borrachudo — enfiou os garfos algumas vezes como que para provar seu ponto. — Mas suponho que nem todos podem ser Avalon Appleby.
— Isso é um lugar?
Rave levantou a cabeça, encarou-me por um segundo, depois jogou a cabeça para trás e soltou uma boa gargalhada.
— Eu vou adorar contar isso a ela — falou entre uma risada e outra. — Desculpe, desculpe. Não estou rindo de você, . Não é isso. É só que… Ava adora falar sobre como tem certeza que fui batizada como Ravenna porque deveria ter sido naquela região da França que meus pais me fizeram. O que, deixa eu te dizer, não faz sentido nenhum porque os vovô e vovó Merthier já tinham se mudado para cá há tempos quando meus pais se conheceram — balançou a mão, como que para dispensar a ideia boba. — De qualquer jeito, Avalon Appleby é minha melhor amiga. Ela é uma chef maravilhosa, especializada em confeitaria. A Appleby’s fica perto de casa. É ótima. Está sempre lotada. Uma pena que esteja sempre um caos.
— Um caos?
— Bom, não sei se essa é exatamente a palavra para descrever o que a confeitaria vem se tornando. Ela tem crescido muito. Parece que há clientes novos todos os dias e cada vez mais Ava, Stella e Bruce, os dois funcionários dela, não estão dando conta. Ainda mais porque os dois trabalham meio-período. Eles obviamente precisam de ajuda par-
Parou de falar de supetão, arregalando os olhos violeta e chegando até mesmo a se afastar para descansar as costas no encosto de seu assento. Durante todo o tempo, encarou-me como se eu tivesse acabado de lhe oferecer o caminho até o final do arco-íris.
— Ravenna?
, diga-me uma coisa, você já pensou em que pretende trabalhar por aqui? Ou... não sei. Digo, não estou tentando dizer que você tem que trabalhar. Ou só… que… Oh, céus — passou a mão pelo rosto. — Eu estou só me enrolando cada vez mais, não?
— Está tudo bem. Eu entendi. Tudo certo — falei devagar, sorrindo. — E, respondendo à pergunta, tenho pensado bastante nisso, mas não sei nem por onde começar. Não quero falar sobre isso com , porque… bem, ele já tem tanta coisa em mente com a Thermopylae… — com os antebraços sobre a mesa, abri as mãos que nem percebi que tinha fechado, como se assim conseguisse pudesse me livrar, nem que fosse um pouquinho, daquela impotência toda.
— Ah, sim. Entendo.
Ela assentiu, mas sabia que eram apenas palavras educadas. Rave não entendia porque não queria recorrer ao meu marido, e não poderia culpá-la. A situação era tão mais complexa do que mesmo uma imaginação fértil poderia recriar. Aceitava, então, suas palavras porque sabia que ela dizia com toda a sinceridade que poderia ter.
— Além disso, meu currículo não é impressionante. Um bando de trabalhos temporários e a falta de um diploma de ensino superior não é muito chamativo.
— Talvez… eu… Ava, minha amiga, como disse, está muito sobrecarregada na confeitaria. Ela realmente precisa de ajuda.
Tendo uma boa ideia de onde ela estava querendo chegar, comecei a sentir meu estômago revirar de nervoso, ainda que racionalmente estivesse tentando não criar expectativas.
— Acho que seria uma solução perfeita. Se você quiser, então, poderia te apresentar a ela? Claro que não posso garantir nada — acrescentou rapidamente. — Até porque Ava é bastante desconfiada de… bom… basicamente todo mundo, mas acho que vale dar uma chance. O que você acha?
Frases educadas como “não quero incomodar” ou “você não precisa se preocupar comigo” trovejaram em minha mente por um segundo, mas logo depois vieram lembranças dos últimos dias, quando praticamente decorei a programação de todos os canais da TV aberta e das três vezes que limpei nosso pequeno apartamento de cima a baixo e, ainda assim, morri de tédio. Sabia que se continuasse tanto tempo dentro de casa, iria enlouquecer, definhar. Não podia continuar tão desnorteada assim. Por isso, então, ao invés de pequenas mentiras inofensivas, decidi-me pela verdade:
— Eu ficaria muito, muito grata.
O sorriso que ela deu foi tão grande quanto o que devia ter em meu rosto. E, naquela hora não sabia, mas foi precisamente ali que nascia nossa amizade e uma parte inteiramente nova da minha vida.

xxx

Avalon Appleby tinha os cabelos muito pretos, o rosto muito bonito e os olhos muito desconfiados.
Chegamos quase na hora de fechar, mas a tempo de ver a loucura a que Ravenna se referia. A mulher atrás do balcão se desdobrava para correr até a parte de trás para trazer novos produtos, atender aos clientes e gritar instruções para o adolescente que parecia perdido sobre de qual cliente cobrar no caixa. Passamos os próximos quinze minutos sentadas em uma mesa perto da janela observando como ela ficava visivelmente mais exausta a cada minuto. Assim que o último cliente saiu e ela trancou a porta, quase pude ouvir seu suspiro de alívio, apesar da distância. O adolescente desapareceu pela porta dos fundos, provavelmente para ajudar a limpar as coisas, e só então Avalon se arrastou até nossa mesa.
— Oi, Ava. — Ravenna logo falou. — Quero que conheça minha amiga.
Foi quando seus olhos azuis pousaram em mim, só agora parecendo perceber que eu também estava ali. Imediatamente esticou as costas, abandonando qualquer traço do cansaço que estava presente a nem um minuto atrás, enquanto toda sua postura se transformava para defensiva.
— Avalon Appleby — estendeu a mão.
— ficando de pé, aceitei o cumprimento.
Ao nos sentarmos outra vez, soube exatamente como crianças que iam para sala do diretor se sentiam. Foram cinco segundos de um silêncio bastante tensos antes de Ravenna outra vez pular em meu resgate:
— Ava, acabou de se mudar para cá. E ela realmente precisa de um emprego. Você sabe como as coisas não estão fáceis hoje em dia. — Reid falava muito rápido, toda atenção na amiga enquanto evitava meu olhar. — E como as coisas estão bem pesadas aqui, agora que Stella e Bruce só podem ficar meio-horário por causa da faculdade, pensei que ela talvez pudesse dar uma mão aqui até encontrar outro emprego.
Tinha bastante certeza de que aquilo não havia sido o que combinamos, mas, como ela parecia saber o que estava fazendo, permaneci calada, apenas esperando o resultado que teríamos.
Assim que Ravenna terminou de falar, contudo, tivemos mais alguns momentos de silêncio em que as duas pareciam estar tendo uma conversa silenciosa, só então Avalon voltou a pousar sua atenção para mim.
— Aqui é bastante trabalho — seu tom era impessoal, quase robótico. — Além disso, o tempo todo tratamos com pessoas, o que é sempre um desafio. Você estaria disposta?
— Sim — não hesitei, nem por um segundo desviando o olhar.
— Ótimo. Então esteja aqui às seis e meia. Abrimos às sete. Te explicarei o básico, e depois vemos como as coisas vão correr. Posso te pagar dez dólares por hora. Oito horas por dia, uma hora de almoço e vinte minutos de intervalo. Soa bem?
Ainda que não fosse uma proposta ótima, ainda seriam oitenta dólares diariamente a mais do que recebia hoje, quando não tinha qualquer fonte de renda independente.
— Soa perfeito.
Assentindo, ela se levantou. Entendendo a deixa, Rave e eu também nos levantamos. Murmurando um agradecimento e despedidas, deixamos a Appleby’s. Nem mesmo tínhamos nos afastado da porta quando ouvi várias trancas sendo giradas. Quando os “cliques” pararam, Ravenna se virou para mim, falando mil palavras por minuto:
, desculpe, desculpe. Eu sei que fiz parecer que você estava precisando de um favor. Não tinha qualquer intenção de… não sei… de fazer você se sentir como se estivéssemos lhe fazendo um favor. E, sim, eu sei o quão idiota isso soa quando acabei de dizer que fiz exatamente isso — começou a gesticular com as mãos. — É que Ava, além de exausta por trabalhar mais do que é humanamente saudável, também é muito cabeça dura. Se a deixássemos saber que você quem estava fazendo um favor… porque, sejamos sinceras, por mais que você precise desse emprego, Ava precisa ainda mais de ajuda para tocar a Appleby’s, demoraria muito mais tempo para convencê-la. Precisei de meses para convencê-la a contratar Bruce.
— Está tudo bem, tudo bem — apressei-me. — Não me ofendi. Está tudo certo.
— Sério? — suspirou, alívio claro em seu tom. — Nossa. Por um segundo pensei que você iria me odiar, o que tornaria as coisas bem esquisitas quando formos sair todos juntos, porque, não sei se você percebeu, mas aquele três são como um tipo novo e moderno de casal casado há uns 30 anos. Discutem o tempo todo, mas não ficam três dias sem se encontrarem e levariam uma bala um pelo outro... inclusive já levaram.
— Não. É. ‘Tá tudo certo.
— Isso é um alívio — esticou a mão e segurou a minha. — Estou tão feliz por ter dado certo.
— Também estou.
Ela sorriu antes de consultar o relógio de pulso.
— Está realmente tarde. Vou te acompanhar até a estação de metrô.
— Não precisa — sorri, agradecida. — Eu lembro o caminho.
— Tem certeza? Você não fez esse trajeto só no dia do almoço lá em casa?
— Tenho um excelente senso geográfico — encolhi os ombros. — Não se preocupe — acrescentei. — Tenho certeza.
— Ok — murmurou ainda meio incerta, mas, provavelmente ponderando que já tinha se intrometido demais por um dia, não discutiu. — Então uma última coisa: Ava é uma boa pessoa, mesmo com seu comportamento paranoico e temperamento meio difícil.
Limitei-me a sorrir, acenando com a mão antes de tomar meu caminho. Ravenna não precisava justificar a amiga para mim, até porque podia reconhecer o problema. Avalon Appleby estava fugindo.
De alguém… de alguma coisa… O que quer que fosse, a aterrorizava até a alma.

xxx

Era por volta de oito da noite quando cheguei em casa. estava lavando louça quando passei pela porta.
— Boa noite — sorriu por sobre o ombro. — Como foi o dia com Ravenna?
— Ela é uma pessoa bem… interessante — ri, colocando a bolsa sobre uma das cadeiras.
— Bastante interessante — assentiu, virando-se para secar a mão em um pano. — Uma vez Duke comentou que chegou em casa e encontrou os cachorros com glitter verde sobre os pelos. Depois de perguntar, Knight descobriu que era por causa do St. Patrick’s Day. Mas isso não foi o interessante. Não — sacudiu a cabeça. — O interessante foi o fato de que ela tinha comprado um macacão verdade e um chapéu, e realmente esperava que Knight vestisse — riu, sacudindo a cabeça. — Desde que éramos garotos, moleques na faculdade, a única coisa que já vi Duke se vestir foi de Duke. O cara nunca chegou perto de uma fantasia. E lá estava ela com uma fantasia comprada de leprechaun.
Tentei imaginar Duke Knight em um uniforme verde e segurando um pote de ouro, mas desisti depois de um segundo. Minha imaginação não era fértil o suficiente. Apesar que…
— Acho que se existe alguém capaz de persuadi-lo a se vestir assim, esse alguém seria Rave.
— Disso não duvido nem por um segundo — esticou o pano sobre a pia, dando-me uma pequena piscadela.
Engoli em seco, tentando pensar em qualquer outra coisa que não fosse como ele ficava bonito naquele raro momento relaxado. Infelizmente minha falta de reação causou um silêncio esquisito e logo se fechara em si mesmo de novo.
— Eu… — limpou a garganta. — Eu preparei alguns sanduíches. Estão no forno.
Olhei para o forno e de volta para ele, mas meu marido já estava se retirando para o banheiro enquanto murmurava um rápido “boa noite”. Fechando os olhos com pesar, arrastei os pés para me forçar a comer um dos sanduíches. Não lembro o gosto, o cheiro, ou qualquer outra coisa do tipo. Apenas me lembro de empurrar para dentro de minha boca pedaço a pedaço.
Lembro do apartamento silencioso.
Lembro de sentir que o homem de quem eu carregava o sobrenome podia muito bem estar na Costa Oeste, e não a três metros, que a distância que nos separava seria a mesma.
Lembro de ter sentido pena de mim mesma.



Capítulo Quatro

— Você tem que ver a sala do Duke!
Levantei a cabeça do currículo que analisava, deparando-me com Chase parado na porta da minha sala. O divertimento pingando em suas palavras e aquele olhar que ele sustentava — o mesmo que ele sempre trazia ao conseguir que alguém fizesse exatamente o que ele tinha planejado — me disseram que Knight estava ferrado.
Empurrei a cadeira para trás, levantando devagar. Aquilo devia ser interessante.
Em silêncio, o segui até o final do corredor. O que encontrei fez a interrupção valer muito a pena. Parado em cima de um tapete preto enorme, meu melhor amigo, de costas para nós, encarava o sofá azul piscina de tonalidade mais chamativa que já tinha visto na vida. Ao perceber que estávamos ali, mesmo não tendo feito nenhum barulho, Duke se virou, absolutamente furioso.
! Que porra é essa? — abriu o braço, indicando o sofá atrás de si. — Que merda esse decorador achou que estava decorando? Um salão de beleza?
— Hey, cara, calma aí — confuso, franzi o cenho. — Eu dei instruções bem específicas. Na minha sala está tudo certo. Não sei o que aconteceu aqui. Chase?
— A minha sala está ótima.
Ele estava visivelmente tentando não rir, e é claro que Knight percebeu.
— Seu merdinha.
Ele avançou em direção ao bobo alegre, e Chase — e seu instinto suicida — pensou que seria uma boa ideia soltar uma gargalhada. Antes que conseguisse alcançá-lo, contudo, o babaca, ligeiro como sempre, conseguiu pular para o lado, erguendo as mãos espalmadas.
— Hey, hey. A culpa é da sua mulher.
Ele ainda ria, mas a menção à Ravenna o fez parar imediatamente. Felizmente Dylan pareceu recobrar o pouco de juízo que ainda tinha e continuou, ainda que entre uma risada e outra:
— Ela me ligou e disse que faria uma surpresa. Mas eu não sabia que ela iria fazer… bom… isso — olhou para o elefante branco, ou melhor, azul, na sala. — Rave só falou que não precisaria mais do decorador para sua sala, e eu repassei a informação.
Cruzando os braços, balancei a cabeça enquanto assistia a tudo aquilo. Era óbvio que Chase tinha uma ideia muito precisa do que Reid iria aprontar. Ele sempre conseguia pensar dois passos adiante de qualquer pessoa. Tão grande quanto sua esperteza, contudo, era seu prazer em irritar Duke, então estava bem claro o porquê de, ao invés de piscar os olhos azuis para convencer a loira de que aquela era uma péssima ideia e poupar toda o problema, estarmos agora discutindo o valor das cores neutras.
— Você é um filho da mãe — rangeu os dentes, ainda decidindo se devia abandonar a ideia de quebrar a cara de Chase.
— Ah, Duke. Não seja mau perdedor — repuxou os lábios em um sorriso enorme. — Afinal, tenho certeza de que nossos clientes vão adorar ouvir a história sobre o porquê de você ter uma peça tão… excêntrica — subiu e desceu as sobrancelhas repetidas vezes de maneira sugestiva.
Idiota.
Qualquer dia desses eu iria deixar que Chase perdesse alguns de seus dentes perfeitos, mas não seria hoje. Quando Duke avançou como uma pantera dando o bote, dei um passo para esquerda e usei o antebraço em seu peito para pará-lo.
— Acredite, Duke, sei que ele merece, mas acho que esse tempo seria melhor utilizado se fossemos tomar café naquela cafeteria da esquina. Eu realmente estou com fome — acrescentei depois de alguns segundos de silêncio, onde Knight continuou encarando o bobão sem amor à vida.
Finalmente, ele voltou sua atenção para mim, virando a cabeça devagar até que eu fosse o alvo de seu péssimo temperamento.
— A próxima vez que você se meter, vai ter o mesmo destino dele — indicou Dylan com a cabeça. — Vou limpar o chão com esses rostinhos bonitos de vocês.
Dizendo isso, ele deu as costas e em um segundo já estava a meio caminho da porta. É claro, entretanto, que Chase não conseguia manter a maldita boca fechada:
— O chão ou esse tapete ridiculamente grande?
Tentando manter um amigo longe de uma prisão federal, e o outro longe do cemitério — e também porque aquilo seria terrivelmente gratificante — virei-me para trás e afundei meu punho cerrado em seu estômago. Chase se dobrou para frente, as mãos, em reflexo, cobrindo o lugar atingido enquanto ele tossia, sem fôlego.
Não pude evitar um sorriso presunçoso.
Muito, muito gratificante.
— Que porra foi essa, garoto? — ofegou, ainda meio curvado.
— Isso fui eu ajudando a manter o seu rosto intacto, Pretty Boy. Apesar de você não merecer — bati a mão em seu ombro de maneira condescendente. — Agora aprenda a manter essa boca enorme fechada por pelo menos quinze minutos enquanto tomamos um café.
Chase revirou os olhos, mas teve um pequeno e raro momento de bom senso, mantendo-se calado. Como a tensão ainda era sufocando demais para nos fecharmos no cubículo do elevador, ainda que por míseros três andares, Duke empurrou a porta corta-fogo da escada e descemos a passos rápidos. Já na rua movimentada, decidi que era seguro trazer o assunto à tona novamente:
— Duke, cara, eu posso chamar a decoradora de novo. Ela arruma tudo em menos de um dia. Amanhã mesmo já tá tudo certo.
Ele parou abruptamente de andar, virando-me para me encarar com a expressão totalmente fechada.
— Não — latiu, imediatamente voltando a andar.
Com o cenho franzido, o segui para dentro do café. Knight já estava no balcão fazendo seu pedido. Parei ao seu lado.
— Por que não?
Ele levantou a atenção do copo onde colocava mais açúcar do que provavelmente seria saudável.
— Porque foi Ravenna Reid quem fez — dizendo isso, como se explicasse a um idiota uma verdade óbvia, deu-me as costas em direção a uma das mesinhas.
— Ele está completamente domado. — Chase apoiou os braços no balcão, parando ao meu lado enquanto nós dois assistimos nosso amigo se afastar.
Seu tom era o de alguém que simplesmente constata um fato, não havia qualquer juízo de valor.
— É. Está sim — concordei, assentindo algumas vezes. — Combina com ele.
Chase apenas sorriu antes de pegar sua caneca de chocolate quente fumegante e também se dirigir à mesa. Revirando os olhos, enfiei a mão no bolso para tirar algumas notas.
— Deixaram você com a conta outra vez, ?
— Eles sempre deixam, Helena. Sempre — sacudi a cabeça para a barista que sorria para mim do outro lado do balcão.
Ultimamente não tinha vontade de manter nem mesmo pequenas conversas triviais como aquela, mas a adolescente era educada demais para que eu a ignorasse como vinha fazendo com praticamente todo o resto da sociedade. Ela até mesmo já havia decorado nossos pedidos diários — e também o fato de que meus amigos babacas sempre me deixavam com a conta e a responsabilidade pela gorjeta. Com uma das mãos peguei minha própria caneca cheia de simples café preto — uma vez que, diferentemente dos dois, não tinha interesse em desenvolver algum problema de saúde pelo excesso de açúcar — e, com a outra, coloquei uma nota de cinco dólares no pote de vidro sobre o balcão, antes de me juntar à mesa.
— Você já terminou de olhar os currículos, Puppy?
Reprimindo uma revirada de olhos pelo apelido idiota, respondi à pergunta de Duke:
— Selecionei alguns homens. Vamos precisar de quantos para a refinaria? — virei-me para Dylan.
Ele passou a mão pelo queixo, pensativo por um momento.
— Calculei entre vinte e vinte e dois. Com o sistema de câmeras que Tej está arrumando, conseguimos patrulhar o perímetro e ter uma resposta rápida com um número mais reduzido. Também é mais eficiente.
— Tenho pessoas o suficiente — assenti. — Inclusive, dois deles seriam ótimos para operar o sistema eletrônico. Vou falar com Tej para que ele mantenha tudo num nível suficiente para intermediários.
Tej Johnson, ou TJ, também era um antigo companheiro de nosso batalhão, e que havia pedido baixa alguns anos antes para se dedicar à computadores. O cara fazia mágicas com qualquer tecnologia, mas a vida de civil não lhe caiu muito bem e não demorou muito para que estivesse em condicional por ter sido pego hackeando o sistema de duas empresas de investimentos. Mas talento é talento, e amizade é amizade, então lhe ofereci a posição para administrar a parte tecnológica da Thermopyle — e isso foi um excelente investimento. Tej se mantinha longe de confusões e nós conseguimos oferecer um plano de ação mais eficaz aos nossos clientes.
— Tej nunca mantém nada em um nível intermediário. — Knight resmungou, tomando um gole de café.
— Em um intermediário no sentido operacional, não no sistema em si.
— Tej nunca mantém nada em um nível intermediário — repetiu como se não tivesse dito nada.
— Isso porque você mal sabe como funciona o Google, Duke. — Chase falou, condescendente.
— Isso não é verdade — cerrou os dentes. — O problema é que Tej parece falar o tempo todo em códigos e sobre códigos. Afinal de contas, o que porra é uma variável essencial para que a modificação do sistema se efetive na hora de alterar?
Virei para Chase e nós dois sacudimos a cabeça antes de nos virarmos para ele.
— Nem ideia.
— É, pois é, também não sei.
— Vocês também acham que às vezes ele inventa umas coisas que não existem só para tirar uma com a nossa cara?
— Com certeza.
— Sem dúvida nenhuma.
— Qualquer dia desses podíamos desligar aquele negócio da internet e ver se ele sobrevive.
— O roteador? — esclareci.
— É, é. Isso. Tanto faz. — Duke resmungou, para logo depois abrir um sorriso que me lembrou bastante do de Chase quando o filho da mãe estava planejando algum jeito de tornar nossa vida mais difícil. — Só por vinte minutos.
— Ele vai ficar completamente desnorteado — comentei, interessado.
— Sem saber o que o atingiu. — Dylan agora trazia um daqueles sorriso.
— Vamos fazer isso amanhã.
E naquele momento, entre uma conspiração e um gole de café, quase me senti normal outra vez. Nem que fosse por um minuto, nem que fosse uma ilusão.

xxx

Já passava das nove da noite quando conseguimos terminar de selecionar quem seria contratado e o papel que cada um teria na segurança da refinaria. Mais de doze horas naquele prédio e, ainda que não fosse nem de longe a condição mais adversa que tínhamos enfrentado, ainda pude ouvir minhas costas estalando ao levantar pela primeira vez em horas. Talvez estivesse fora de forma.
— Acho que esse primeiro plano de ação merece uma cerveja para comemorar. — Chase murmurou quando saíamos da sala de reuniões e ele apagava a luz. — O que me dizem? The Hook’s?
— Não posso. Ravenna Reid vai cozinhar hoje — olhou para o relógio em seu pulso enquanto descíamos as escadas e soltou um suspiro pesado. — E ela disse que eu tinha que estar em casa hoje às sete e meia. Que merda — passou a mão pelo rosto.
Ignorando os resmungos de meu melhor amigo, estava prestes a concordar com qualquer álcool que pudesse colocar as mãos, quando Dylan falou:
— Acho que vou ter que me acostumar com a vida doméstica de vocês. Agora que até Puppy encontrou uma mulher louca o suficiente para casar com ele — sacudiu a cabeça, pensativo. — Vou começar a me planejar melhor. Descobrir o dia que as patroas não marcaram coisas. Talvez eu mande mensagens para elas perguntando — coçou o queixo, pensativo.
— Mensagem? — franzi o cenho. — Como assim mensagem? Você tem o número de ?
— Claro que tenho. e eu somos amigos.
Por motivos puramente de curiosidade quase científica, um dia gostaria de saber como ele conseguia o número de mulheres de maneira tão fácil. Isso era ridículo. Francamente. Se a pessoa tivesse dois cromossomos X, Chase conseguia fazer com que ela sentisse como se estivesse fazendo um grande negócio ao passar todos os contatos possíveis a ele.
Filho da mãe manipulador.
— Tanto faz, Chase. — Duke resmungou. — Preciso ir embora. Você tranca tudo. Até amanhã — girando sobre os calcanhares, partiu em direção ao seu carro.
— Você vai ficar assim também, Puppy? — indicou o caminho de Knight com a cabeça
— Assim como? — arqueei a sobrancelha. — Feliz?
— Hey, hey, Mama Knight. Relaxa — ergueu as mãos espalmadas. — Não estou criticando nossa criança. E concordo, ele está feliz. Só estava me perguntando se você também ficaria assim, preso a horários. Porém suponho que realmente seja uma pergunta idiota. Relacionamentos pressupõem esse negócio de companheirismo e todo essa coisa supervalorizada.
Pensei em como minha esposa me fazia sentir diversas coisas, mas que conforto não era uma delas. Empurrando aquele pensamento para o fundo da mente, decidi pontuar:
— Não que você saiba, não é mesmo, Chase? Afinal, seu relacionamento mais duradouro é com o espelho que você beija toda manhã antes de sair de casa.
— Idiota — rápido, colocou a mão em meu ombro, empurrando-me para trás e nós dois rimos.
Andamos lado a lado até meu carro, que era o mais perto. Depois disso tive apenas o silêncio como minha companhia até abrir a porta de casa. estava colocando alguns pratos na pequena mesa quando cheguei.
— Boa noite — sorriu.
Mesmo do outro lado do cômodo e sob a luz fraca, podia ver o quão cansada ela estava. Não exausta como no dia em que nos conhecemos — absolutamente drenada pelo medo e pelas descargas repetitivas de adrenalina. Não. Cansada daquele jeito como se fica quando o dia havia sido produtivo ao ponto de sentir uma moleza gostosa.
Ela ficava ainda mais bonita daquele jeito.
E eu me senti um babaca, por só perceber agora o quão infeliz ela estava por ficar em casa o dia inteiro. Decepcionei de novo ao não perceber que, como qualquer outro adulto funcional, ela não tinha qualquer intenção de se afogar no tédio todos os dias. Não fosse Rave, talvez continuasse cego para o óbvio.
O peso da culpa que há certo tempo sentia sobre meus ombros aumentou um pouco mais, como se uma mão forte estivesse me empurrando para frente. Aceitando que aquela sensação não iria embora, soltei o ar pesadamente em um suspiro.
— Boa noite.
— Fiz batatas assadas e alguns filés de frango — olhou para baixo e para mim outra vez. — Nada muito elaborado — murmurou quase em tom de desculpas.
— Está ótimo. Um banquete. Tudo que comi hoje foram alguns sanduíches que consegui surrupiar da marmita que Duke trouxe — assegurei, sentando-me quando ela também o fez. — Você sabe que não precisa cozinhar, certo?
De novo ganhei um daqueles sorrisos com os lábios cerrados, cansada.
— Sei sim. Mas eu gosto. Não sou muito boa — encolheu os ombros. — Mas me viro um pouquinho.
Coloquei porções generosas no prato, o cheiro gostoso fazendo meu estômago roncar. Só depois de comer uma colherada para ter mais credibilidade, respondi:
— Isso está ótimo — fui sincero nas palavras e na vontade com que levei mais uma colherada à boca. — Muito bom mesmo. Obrigado.
Foram alguns segundos de silêncio, até que meu cérebro tentou me salvar de parecer ainda mais babaca e me lembrou de perguntar:
— Como foi seu primeiro dia?
— Foi… — pensou por um momento. — Foi muito bom, na verdade. Ava é uma pessoa peculiar, mas justa.
— Peculiar? — franzi o cenho, parando meu garfo a meio caminho da boca. — Duke disse que ela é intrometida e esquecida.
Ela piscou devagar, provavelmente não esperando uma opinião tão bruta, mas só estava repetindo o que Knight dissera, e ele nunca foi conhecido por seu tato social.
— Esquecida?
— Aparentemente ela não consegue acertar o nome dele.
— O nome do Duke? — franziu o cenho, provavelmente imaginando como alguém conseguia errar algo de duas sílabas.
Dei de ombros. Também não conseguia compreender.
— E na Thermopylae, como foi?
Tinha tanta coisa que queria dizer. Gostaria de contar como cada vez que dispensava um currículo receava estar fechando mais uma porta para alguém que já tinha levado outras portadas na cara depois de servir seu país. Queria comentar como, apesar disso, ainda restava o contentamento por ter a oportunidade de ajudar ao menos alguns de meus companheiros de arma. Também precisava tirar de meu peito como não havia percebido antes o quanto não havia conseguido me adaptar a ser um civil… o quanto muitos de nós não conseguiam.
Talvez compartilhar o quanto Thermopylae era importante porque lá não me sentia preso. Não me sentia como se não me encaixasse mais.
Como um barulho mais alto de escapamento de carro não me fazia pular no lugar achando que estávamos caindo em alguma armadilha que custaria a vida de todo meu pelotão.
Como as coisas pareciam fazer algum sentido agora.

Porém nada disso era possível, porque não éramos um casal de verdade. E, por mais que seus olhos me sugassem… me hipnotizassem devagar para que eu contasse tudo, não podia.
Não podia porque não era sua responsabilidade.
Não podia porque não havia esse tipo de companheirismo.
Não podia porque não merecia carregar mais esse peso.
Não podia porque não fora nada disso que prometera a ele e a mim mesmo.
Foi por isso que, ao invés de esticar a mão e sentir o calor de sua pele, engoli em seco e deixei que o gelo, com o qual tinha me revestido nos últimos meses, voltasse a tomar conta. Um brilho estranho passou pelos olhos dela e soube que ela podia perceber o exato momento em que tinha me afastado, tanto física quanto emocionalmente.
Recolhi meu prato e o levei a pia.
— Estava ótimo. Muito obrigado, . Você deixa seu prato aqui do lado que eu vou limpar tudo.
Ouvi quando ela se levantou, mas depois nenhum outro barulho, então sabia que ela estava atrás de mim. Ainda assim, não foi fácil ouvir sua incerteza quando disse:
, está tudo bem?
Fechei os olhos por um momento, engolindo em seco. Impressionante como você sempre consegue se sentir ainda pior, não importa quão fundo já esteja.
Forcei um sorriso ao olhar sobre o ombro e para minha esposa.
— Sim, claro. Tudo ótimo.
Nós dois sabíamos que aquilo era mentira, e nós dois sabíamos que não havia nada que pudesse ser feito.



Continua...

Nota da Autora: Sobre esse capítulo, o que acharam? 😀 😀 Meus três fofos estão adoráveis, não? hahah Me deixem saber o que vocês acharam ❤ E a atualização saiu rapidinha, né? (de novo um obrigada a Babs, que betou tudo em menos de uma hora) Inclusive vou começar o capítulo 05 ainda hoje.
Obrigada por tudo, amores. ❤
>>> CONHEÇA A HISTÓRIA DE RAVENNA REID E DUKE KNIGHT EM BLACKBIRD

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Nota da beta: Eu nunca fico bem depois de betar essa fic, porque eu só queria MAAAAAAIS!
Se encontrar algum erro me avise por aqui ou por aqui.