Autora: Cris Turner | Beta: Babs



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Capítulos:
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Prólogo

Quando estávamos no deserto, lembro de ter olhado a imensidão de areia escaldante e ter pensado que nunca tinha visto nada tão poderoso. Quando aquela força dourada se levantava, não havia nada que o homem pudesse fazer senão buscar abrigo até que ela se aquietasse. Talvez por isso fraquejasse todas as vezes que os olhos dourados dela me encaravam, porque eles me lembravam as areias do deserto que ousei enfrentar... E, assim como o abrasador Saara que demandava sem aceitar nenhuma desculpa, seus olhos exigiam um pedaço de mim que não podia mais dar a ninguém.
Seus olhos, como o deserto, me hipnotizavam como uma antiga canção cantada em um idioma morto por sua antiguidade, que ninguém conseguia entender, mas podiam sentir. Eu sentia em minha pele.
Sentia que aquela melodia me chamava, que tentava espantar as sombras que haviam se tornado minhas companheiras. Minha sereia cantarolando para me trazer de volta do fundo do mar.



Capítulo Um

– Oi – a voz de estava séria, inflexível. – , quero que conheça meus amigos. Estes são Rave, Duke e Dylan. – Voltou sua atenção para as três pessoas à nossa frente e completou: – Esta é minha esposa, .
De todas as coisas inéditas que tinha feito nos últimos dias – e definitivamente foram muitas –, entrar em um cômodo que sabia estar cheio de algumas das pessoas mais importantes da vida do meu novo marido definitivamente estava no topo.
Os dois dias em que me encontrava neste país não foram suficientes para sequer começar a me acostumar ao ritmo frenético da cidade, quanto mais ao modo supersônico como minha vida havia virado de cabeça para baixo. E de repente estava me dizendo que sua amiga havia combinado um jantar e que aquela seria a oportunidade perfeita para que fossemos apresentados. Devo ter ficado muda de choque e demorado um momento a mais para responder, pois ele logo acrescentava que poderíamos ficar em casa, caso eu não me sentisse confortável com a situação. Com a voz suave com que ele sempre falava comigo, como se só minha opinião importasse.
Como se eu pudesse falar não para um pedido tão simples da pessoa que havia literalmente entrado em uma pequena guerra com o único objetivo de me salvar...
Por isso, então, estava agora naquela sala, tensa como um pedaço de madeira, enquanto forçava um sorriso que tinha certeza de que mais parecia uma careta de choro, e tentava controlar meus nervos.
– Esposa?
Um deles perguntou e me arrependi prontamente de não ter controlado melhor meu reflexo e ter virado para ver quem havia falado. Não me considerava uma pessoa exagerada, então, quando a única palavra que passou em minha cabeça quando realmente prestei atenção no homem foi “tanque”, era porque definitivamente não havia um adjetivo melhor para descrevê-lo.
Ele me lembrava um tanque do exército.
Não porque fosse feio. Longe disso. Inclusive era provavelmente um dos homens mais bonitos que já tinha visto, mas… enorme. Muito alto, mais alto que , que já era alguns bons centímetros maior que eu, e muito forte. E pensar que achava a aura de meu marido intimidante...
Provavelmente teria dado um passo para trás e colocado entre nós dois se a loira baixinha que estava ao lado do Tanque não tivesse lhe dado uma cotovelada nem um pouco discreta e lhe lançando um olhar repreendedor. Foi literalmente como assistir um picolé derreter em um dia de sol. O cara se virou para ela, revirou os olhos e soltou o ar pesadamente, mas, ao voltar a me encarar, já não lançava adagas de gelo, apesar de manter a expressão séria.
, – ela deu um passo para frente depois de ter domado a fera – meu nome é Ravenna Reid, mas pode me chamar de Rave. Este é meu namorado, Duke Knight, e nosso amigo Dylan Chase.
O loiro deu um passo para frente, sorrindo muito mais amigavelmente – e um tanto quanto paquerador, se me arrisco dizer.
– Olá, Darlin’. É um prazer conhecê-la. E tenho certeza de que falo por todos quando digo que adoraríamos ouvir a história de como vocês se casaram – e aqui ele desviou o olhar para e quase pude sentir em minha pele as palavras que eles trocaram sem dizer uma única sílaba. – Mas primeiro um vinho – concedeu, diplomático, voltando sua atenção para mim e o sorriso fácil para os lábios.
– Eu pego. – Rave apressou-se em oferecer, ansiosa para se livrar do clima esquisito que havia se instalado e que parecia longe de se dissipar.
Sortuda. Queria poder fazer o mesmo.
Ao invés disso, entretanto, deixei que me conduzisse até o sofá. Não deixei de apertar sua mão durante nenhum momento, inclusive quando nos sentamos. Detestava me sentir insegura daquele jeito. Não queria ninguém para lutar minhas batalhas por mim, mas, naquele momento, não se tratava sobre ser forte. Não se tratava de enfrentar alguém ou algo, mas de não decepcionar aquele que fizera tanto por mim em tão pouco tempo.
– E então… o casamento?
Knight falou, um tanto quanto brusco, mas não exatamente rude. Ainda assim tomei um pequeno susto, o que fez com que lançasse um olhar reprovador para o amigo, enquanto Chase preferiu um olhar do tipo mais descrente – e quase pude ouvir ele querendo dizer “cara, deixa que eu falo”. Duke se limitou a ficar em silêncio, mas tinha certeza de que ele provavelmente estava travando os dentes em desagrado, mesmo que sua expressão continuasse tão impassível quanto antes.
– O que ele quis dizer foi que estamos um pouco surpresos por não termos sido convidados para o casamento. Teríamos adorado ter visto a noiva incrivelmente bela que tenho certeza que você foi, Darlin’.
E por um segundo inteiro minha mente foi ofuscada pelo sorriso brilhante que Dylan faiscou para mim. Precisei reconhecer que sua estratégia era realmente muito boa. Não era justo alguém ter esse tipo de poder sobre os outros. Quem precisaria de torturadores se você podia simplesmente enviar Dylan Chase para te hipnotizar até que estivesse cantando todas as respostas que ele queria ouvir?
– E-eu… eu… – e mais uma espiadela naqueles olhos azuis e de novo havia perdido o fio do raciocínio.
Franzindo o cenho, virei para . Ao invés de encontrá-lo impaciente ou irritado, seus olhos mostravam uma calma reconfortante. Ele estava me assegurando que confiava em mim, que eu conseguia fazer aquilo. Era tudo o que precisava. Com um suspiro, comecei a recitar a história que havíamos criado com tanto cuidado:
– Foi meu irmão, Joe, quem nos apresentou – engoli em seco, deixando que as palavras saíssem sem pensar porque pensar trazia dor. – Nos conhecemos, nos conectamos e o resto é história.
– Joe? – Duke franziu o cenho. – Joe Williams?
Assenti devagar, sentindo aos poucos a ponta de meus dedos formigando, enquanto o doce entorpecimento me abandonava. Lento, porém letal, podia sentir o veneno correndo por minhas veias, chegando até meus pulmões e os contraindo até que mal pudesse respirar.
– Não sabia que Joe tem uma irmã.
Foi o aperto de em minha mão que me obrigou a continuar. Não porque estava me incentivando, como há um segundo, mas por saber que ele estava se fechando em si mesmo, como parecia fazer toda vez que esse assunto surgia. Seu olhar estava perdido, vazio onde um segundo atrás apenas existia determinação. Era eu quem precisava ser forte naquele momento. Afinal, por mais que doesse em mim, doía ainda mais nele. E ambos sabíamos disso.
– Meia-irmã – corrigi, ainda que tenha saído em um sussurro. – Nós descobrimos não faz muito tempo. E… – engoli em seco.
E eu realmente não conseguia falar sobre isso ainda.
Não importava quantas vezes havia repassado o discurso em minha cabeça, as palavras simplesmente não saíam. E tudo piorou, se é que isso é possível, um pouquinho mais quando Dylan, daquele jeito suave que parecia lhe ser intrínseco, falou:
– Ele era do 22, não é? Acho que cruzamos com o destacamento dele umas duas ou três vezes. Bom garoto. Como ele está?
Sabia que ele tinha as melhores intenções do mundo, mas teria doído um pouquinho menos se tivesse enfiado uma faca cega em minha barriga.
– Ele … – ergui o olhar para o teto, tentando conter as lágrimas que surgiam no canto dos olhos. – Joe… Joe faleceu.
– Faleceu? – Duke repetiu, em um reflexo, chocado.
Vi pelo canto dos olhos que Ravenna, carregando uma garrafa de vinho em uma das mãos e taças em outra, parou de supetão no portal da sala. O assunto tão delicado obviamente havia feito o clima da sala cair uns bons três graus. Ninguém sabia exatamente o que dizer a seguir, mas eu tinha certeza de que precisávamos abandonar aquele tópico rápido. Não tanto pelas fisgadas ruins que sentia em meu peito, mas pela dor que sabia que meu marido estava sentindo. Sofria pelo homem incrível que sabia que meu irmão havia sido, mesmo nunca tendo o encontrado pessoalmente, mas não tinha direito de ser a fraca ali. Enquanto doía em mim pelo irmão que tive por tão pouco tempo, sofria pelo melhor amigo com quem nunca mais conseguiria conversar, que nunca mais veria.
– Foi um acidente – mal reconheci minha própria voz.
Percebi que estava mais próxima de , não sabendo ao certo qual de nós dois se aproximou, buscando por um pouco de consolo, ainda que fosse apenas na forma de calor humano. Tentava me lembrar de que as coisas iriam melhorar, de que a mão de entre as minhas não ficaria gelada para sempre como estava naquele momento, que nós não estávamos mais presos naquele lugar esquecido por Deus.
– E não quero falar sobre isso, se não se importa.
– Claro que não nos importamos. – Reid escolheu aquele momento para abandonar sua posição de estátua perto da porta e colocar as taças e o vinho sobre a mesa de centro antes de se sentar ao lado de seu namorado. – Nem um pouco. Inclusive, acho que um pouco de um bom… – ela abaixou a cabeça e franziu o cenho ao ler o rótulo. – Casas del Bosque – falou para si mesma, estranhando cada palavra. – Nem ideia do que isso significa – levantou a cabeça, mas ainda parecia conversar mais consigo do que conosco. – Ava disse que é chileno. E disse que é bom. Francamente, eu não gosto muito de vinho, mas abrimos algumas exceções de vez em quando. Menos para vinhos brancos. Ucky – sacudiu a cabeça com uma expressão de nojo. – Vinho branco é horrível. Tinto é até aceitável. Você gosta de vinho?
Pisquei algumas vezes, meio tonta pela velocidade com que ela falava. Não sei se estava mais surpresa por Reid conseguir manter uma linha de raciocínio falando tão rápido ou por sua habilidade em limpar o ambiente, que apenas há um segundo estava tão pesado. Talvez todo mundo estivesse tão desnorteado quanto eu, e por isso o assunto pesado havia se desvanecido. Afinal, francamente, era bem difícil manter seus pensamentos em ordem e acompanhar o ritmo Reid. Me perguntava se ela era assim sempre – ou se eu queria descobrir a resposta para isso. De qualquer maneira, agradecia sua intervenção. Ainda mais quando voltou a falar:
– Vinho está ótimo, Rave.
– Para mim também – apressei-me em concordar e aproveitei para aceitar uma taça das mãos dela e usar a desculpa de passá-la para meu marido para ver como ele estava.
Havia um sorriso cansado em seus lábios, mas o que me surpreendeu mesmo foi encontrar o cachorro preto deitado do outro lado de e com a cabeça em seu colo. O outro cachorro, por sua vez, estava deitado aos pés dele. Sei quanto estranho isso soa, mas pude jurar que o cachorro no colo de meu marido me lançou um olhar rápido e que naqueles segundos ele encarou minha alma. Mas foi tudo bastante fugaz e fiquei com a impressão de que tinha imaginado tudo. O que definitivamente não era minha imaginação foi que os cachorros não estavam apenas sendo carinhosos. Eles eram inteligentes. Sabiam que precisava de consolo. Meu marido levantou a cabeça para me encarar quando lhe passei o vinho e uma intimidade tangível passou por nós. Daquele tipo palpável, forte e que se constrói tendo como base o companheirismo que sobreveio a tragédia, daquele tipo que infelizmente só criava uma pequena fagulha em seus olhos chocolate, que tinha certeza de que antes eram doces.
Ele soltou minha mão para segurar o cristal, deixando que a outra continuasse fazendo carinho no cachorro.
– E como esse carinha chama?
Ergui a mão, hesitante, mas parei a meio do caminho, virando-me para Ravenna em busca tanto de autorização quanto de uma confirmação de que seu cachorro era dócil. Ela me olhou por sobre seu próprio copo, e assentiu enfaticamente. Confiando minha segurança naquela em que havia acabado de conhecer – o que aparentemente vinha acontecendo certa frequência – deixei meus dedos correrem o pelo macio.
– Esse é Cookie – a voz rouca de Knight soou em algum lugar atrás de mim. – E aquele, Scott.
– Eles são adoráveis – me abaixei um pouquinho para também acariciar Scott, que levantou a cabeça, preguiçoso, e me olhou como se estivesse sorrindo.
– Você não é daqui, não é, ?
– Uh? – levantei a cabeça ao ouvir a pergunta de Dylan. – Foi meu leve sotaque que me entregou? – sorri ao encarar seus olhos azuis da cor do céu, aproveitando para tomar um gole de minha bebida.
Era muito bom. A tal Ava, fosse quem fosse, entendia de vinhos.
– Não realmente. Seu sotaque é quase imperceptível – concedeu, ainda que eu soubesse que ele estava apenas sendo educado. – É apenas que, quando você passa tanto tempo no Oriente Médio quanto nós passamos, acaba por aprender a identificar esse tipo de coisa mais facilmente.
– Você está apenas sendo gentil, mas vou aceitar sua mentira – pude sentir o canto de meus lábios se erguerem em um sorrisinho. – Eu morei nos Emirados Árabes a maior parte de minha vida.
Os três assentiram e então Duke estreitou os olhos para seu amigo.
– Então é lá onde você esteve, Puppy?
– Puppy? – não pude evitar a pergunta, franzindo o cenho ao me virar para meu marido.
lançou um olhar assassino para os outros dois homens, que, agora, obviamente tentavam morder uma risada.
– Sim, era lá.
– E por que não nos avisou?
– Porque não era da sua conta.
– Seu merdi-
– O que Duke está querendo dizer, – Ravenna interrompeu as palavras do namorado ao literalmente tapar a boca dele com a mão, – é que ficamos preocupados – ela retorceu a mão sobre o braço dele, beliscando-o. – Não é mesmo, amor?
Tinha certeza de que Knight não tinha sentido nem mesmo o mais leve incômodo, mas ele teve a decência de retorcer de leve os lábios – era provavelmente o mais perto que ele chegaria de uma careta – e balançou a cabeça em concordância. Era absolutamente fascinante observar os dois interagindo. Ele era bons vinte centímetros mais alto e vários quilos – de puro músculo – mais pesado do que ela, mas se derretia como massinha nas mãos da namorada. Interessante não só porque nunca tinha presenciado aquele tipo de relacionamento, mas também porque, mesmo na minha ignorância, tinha certeza de que aquele tipo de relacionamento era raro.
– Isso. – Duke continuou depois de um momento. – Então não faça de novo, garoto. Aliás, se você tivesse chegado atrasado para esse jantar, eu teria arrancado suas bolas.
Tentei não reagir, mas senti meus olhos se arregalando e inconscientemente me aproximei mais de meu marido, pateticamente tentando protegê-lo. Pensei que eles eram bons amigos, mas a ameaça parecia muito real. Foi a gargalhada gostosa de Chase que cortou o clima repentinamente pesado.
– Não dê atenção a ele, . Duke fala assim o tempo todo. Ele costumava ser nosso capitão na marinha e ainda acha que pode nos dar ordens ou fazer algum tipo de ameaça efetiva – deu de ombros, revirando os olhos. – É como uma segunda natureza. Você vai se acostumar com esse jeito mal-humorado. Mas não se preocupe. Eu sou adorável o suficiente para compensar – passou a mão por seu peito. – E sexy – lançou-me uma piscadela.
Antes que pudesse reagir, uma almofada passou voando ao lado de minha orelha para acertar Chase direto no rosto. Pude ouvir alguma coisa bem parecida com “merdinha” sendo abafada quando ele foi atingido, mas Dylan se limitou a colocar a almofada ao seu lado.
– Ele não consegue aguentar a verdade – falou com um suspiro, como se isso fosse um fato inconvenientemente óbvio.
– Fascinante, Chase. Realmente fascinante – foi a resposta entediada de meu marido.
– Se os dois patetas terminaram, gostaria de passar para o jantar.
Ravenna, que parecia tão entretida quanto eu, limitou-se a sorrir contra sua taça de vinho que parecia praticamente intocada, enquanto assistia os três.
– Patetas?
– E por que você está tão preocupado com comida?
– Espera um pouco. – Dylan franziu o cenho por um momento para imediatamente arregalar os olhos quando compreensão iluminou seu rosto. – Não é o jantar, é a sobremesa. É uma torta Merthier, não é?
Mesmo sem olhar, pude ver se empertigar ao meu lado, repentinamente muito mais interessado no assunto.
– Torta Merthier?
– Isso não é da sua conta, Puppy. Nem da sua, Pateta. – Duke fez questão de acompanhar um olhar assassino para cada um dos amigos. – E não tem sobremesa nenhuma.
– Você está mentindo.
– Bastardo egoísta!
– Se você segurar ele, – Dylan começou com um olhar calculado e o tom completamente sério, – consigo pegar a torta.
– Vocês não vão chegar nem perto da porta. – Knight sibilou.
– 50/50?
– Eu vou me sentir muito bem quando quebrar os seus dentes perfeitos, Chase, e...
– 50/50.
– ...vou quebrar seu braço, Puppy, de um jeito que você nunca mais vai conseguir jogar aquela bola curva de que tanto se orgulha.
– Feito.
Absolutamente chocada, observei Ravenna se mover mais rápido do que qualquer um dos homens, em um pulo ficando de pé no meio da sala, os braços erguidos paralelos ao quadril e as mãos espalmadas.
– Chega! – rugiu, bastante autoritária para quem parecia mais uma fadinha. – Nem pensar. Da última vez que vocês resolveram bancar os pouco civilizados na minha sala, quebraram um vaso de estimação. Prometeram nada de brigas dentro de casa.
Eles continuaram na mesma posição belicosa.
– E eu fiz três tortas – murmurou, revirando os olhos.
Isso acalmou os ânimos instantaneamente. Eles voltaram a se acomodar no sofá e falou calmamente:
– E o prédio? Conseguiu alugar?
– Nah. – Chase sacudiu a cabeça. – Nós decidimos que compensava comprar.
Pisquei devagar, tentando não parecer tão chocada quanto me sentia ao observar como eles podiam ir de “prontos para voar na garganta uns dos outros” em um segundo para, no segundo seguinte, imediatamente voltar a uma conversa sobre amenidade como se nada tivesse acontecido. Meu queixo, entretanto, certamente estava caído, uma vez que Ravenna me lançou uma piscadela cúmplice e um dar de ombros quando voltou a se sentar, pegando de novo a taça de vinho – que, pensando agora, não havia visto quando ela se livrara.
– Amanhã vamos supervisionar a equipe de limpeza.
Apesar de minha curiosidade, mantive os lábios cerrados. Não queria me intrometer no assunto que era obviamente importante para eles. Fui bastante surpreendida, entretanto, quando o senhor-impassividade-em-pessoa virou-se para mim falou com bastante naturalidades:
– Nós compramos um prédio para ser a sede da empresa de segurança que estamos fundando. Contratamos uma empresa terceirizada de limpeza e vamos dar um jeito no lugar. Não é velho, mas está fechado há algum tempo.
Engoli em seco para criar coragem para o que estava prestes a fazer. Quando isso não deu certo, tomei em um único gole todo o vinho que restava em minha taça. Só então e, torcendo para não estar ultrapassando limites, murmurei:
– Eu adoraria ajudar, se vocês não se importarem.
Hesitante, fiz contato visual com os três, porém, apesar de nenhum deles demonstrar descontentamento, ninguém respondeu. Era óbvio que eles esperavam por um ok daquele que mais me conhecia. Mal percebi que não respirava ao me virar para encarar meu marido. Estava aterrorizada com a possibilidade de encontrá-lo irritado por minha intromissão, não porque estivesse com medo ou algo parecido, apenas não podia suportar a ideia de decepcioná-lo – não quando lhe devia tanto.
Ao invés de qualquer sentimento negativo, todavia, encontrei-o me olhando de cima, os cílios pesados e os olhos de chocolate com um brilho quente que não tinha visto antes.
– Seria ótimo tê-la conosco lá amanhã, – falou em um sussurro caloroso, que, de tão íntimo, fez minhas bochechas corarem.
Senti seu braço, que antes estava no encosto do sofá, descer para meus ombros.
Era ótimo estar ali com eles. Com ele.


Capítulo Dois

– Aqui é bem grande.
Tirei minha atenção da vista da janela, virando-me para encontrar minha esposa entrando na sala.
Minha esposa.
Palavras estranhas. Ainda precisava de certo esforço para pronunciá-las em voz alta. Talvez se não tivesse sido tão inesperado, talvez se não fosse sob circunstâncias tão extenuantes, talvez se ela não me olhasse como a porra de um herói. Não fossem tantas variáveis, talvez pudesse usar aquelas duas palavras sem que elas fechassem minha garganta.
atravessou o cômodo até parar ao meu lado.
– Essa é sua sala?
Assenti, evitando seu olhar. Reconhecendo seu esforço para criar um diálogo, limpei a garganta para acrescentar:
– A de Duke fica do outro lado do corredor e a de Chase, à esquerda. Você chegou a ver o cômodo menor? Lá será uma copa – continuei. – A sala aqui ao lado será para reuniões.
– Parece um bom plano – balançou a cabeça.
Intrigado, observei enquanto ela passava a ponta do tênis repetidamente sobre um ponto qualquer no chão, enfiava as mãos nos bolsos de seu casaco azul e finalmente levantava a cabeça. Seus olhos castanhos dourados me prenderam como areia movediça e por pouco não perdi o que ela dizia em seu tom sempre baixo:
, posso te perguntar uma coisa?
– Hmm… Claro – cocei a nuca.
– O que exatamente é a Thermopylae?
– Como assim? – franzi o cenho.
– Digo, – engoliu em seco, – entendo o básico. A ideia de uma empresa de segurança, mas… como exatamente vocês vão fazer as coisas funcionarem? Se não se importa em me contar, é claro – acrescentou rapidamente.
Em uma outra oportunidade – em uma outra vida que já não era mais a minha – teria considerado adorável seu jeito tímido ao falar comigo, mas não agora, não quando precisávamos construir ao menos um mínimo de confiança.
– Você pode me perguntar o que quiser, . Sempre – parei por um segundo, pensando por onde poderia começar. – Duke odeia o pai.
Observei-a arquear uma elegante sobrancelha e me senti um idiota pela brusquidão.
– Ele não fala sobre isso. Nunca. São assim que as coisas são – encolhi os olhos, desviando o olhar para parede acima de seu ombro. – Desde que Chase e eu o conhecemos. Depois de nós três pedirmos baixa, Duke foi trabalhar com o pai – sacudi a cabeça, não podendo evitar um sorriso amargo. – Foi um desastre. Não sei todos os detalhes, e os que sei, não são meus para contar. Nós bebemos a noite inteira para comemorar quando ele se demitiu – daquela memória eu gostava. – Tom, o dono do bar, precisou ligar para que Rave fosse nos buscar depois de Chase ter tido a brilhante ideia de flertar com uma moça acompanhada do namorado e dos quatro irmãos. Foi uma pena. Duke e eu estávamos prontos para assistir alguém socar aquele sorriso idiota da cara dele. Até pedimos alguns amendoins. Rave e Tom não apreciaram nosso senso de humor – podia sentir o sorriso no canto da minha boca.
– Sem condições de sequer explicar onde morávamos, Rave colocou nós dois para dormir nos sofás da casa deles. Na manhã seguinte, enquanto ela preparava nosso café da manhã, e depois de gritar por cima de nossas ressacas sobre sermos inconsequentes por tentar vagar pela noite sem controlar nossos próprios pés, ela resmungou sobre imaginar o caos que seria se nós trabalhássemos juntos agora. Sendo sincero, eu não ouvi muita coisa. Só queria que ela ficasse quieta até que minha cabeça parasse de latejar. Chase, por outro lado, ouviu muito bem. O filho da mãe escuta tudo – lancei-lhe um olhar significativo, esperando que ela entendesse o conselho velado que estava lhe dando. – E ele cozinhou aquela ideia por alguns dias, como uma de suas mil estratégias. Então, na próxima vez que fomos ao The Hook’s, ele a jogou sobre nós dois. Não – sacudi a cabeça, passando a mão sobre o rosto. – Isso não é preciso. Ele nos vendeu a ideia, fez com que quiséssemos tentar. Às vezes realmente queria saber como ele consegue levar todo mundo na conversa. O babaca pode vender gelo para um esquimó, Saara.
? – sussurrou.
Franzindo o cenho, olhei para baixo e para ela. Seus olhos de deserto estavam áridos e tristes, e eu não tinha nem ideia do motivo.
– Meu nome é – se é que era possível, seu tom diminuiu ainda mais.
Podia sentir a careta em meu rosto se aprofundar. Era óbvio que eu sabia o nome dela. Ele estava gravado em minha mente, queimando como brasa a cada segundo, como um lembrete indelével de tudo que tinha acontecido nesse último mês.
– Sei disso.
. Não Sarah.
– Sarah? – repeti, completamente perdido de para onde essa conversa tinha caminhado.
Meus olhos se arregalaram de leve quando, alguns segundos depois, ao repassar nosso diálogo em minha mente, percebi o que havia deixado escapar.
– Não! Não Sarah. Saara – corrigi. – Como o deserto.
– Como o deserto? – repetiu, piscando devagar e recuando um pequeno passo para trás.
Um bolo se formou em minha garganta por tantos motivos diferentes. Primeiro, porque havia deixado aquele apelido escapar, quando obviamente não tinha intenção de nem mesmo chamá-la assim em meus pensamentos graças às repercussões que isso tinha; Segundo, e mais importante, porque sabia que aquilo só fazia sentido para mim.
E tive bastante certeza de que esse era o caso, ao ver o jeito ferido como me encarava agora.
Merda!
Antes que pudesse me explicar, porém, Knight, mais carrancudo do que o normal, entrou na sala, os braços cruzados.
– Puppy, a equipe de limpeza chegou.
– Que foi que aconteceu dessa vez?
– Nada – grunhiu.
– Ora. – Rave também se aproximou, saltitando de leve, naquele que parecia ser seu jeito normal de andar, até parar ao lado do namorado e passar o braço por sua cintura, apesar de Duke continuar fingindo que ela não estava ali. – Está de mau humor porque eu disse que ele não pode contratar um decorador para a sala dele.
– E eu repito, Ravenna Reid, – lançou-lhe um daqueles olhares gelados que fazia a maioria dos homens recuar, – por que não?
Revirando os olhos, ela se aconchegou ainda mais contra ele. Knight relutou apenas por um segundo antes de passar o braço pela cintura dela, como se mesmo irritado com ela, não conseguisse ficar sem tocá-la.
– Porque isso estraga toda a diversão! – A última palavra saiu mais aguda do que as outras. – Sabe quantas vezes uma oportunidade como essa surge? Além disso, já te disse que fiz um curso de design de interiores – comentou, bastante satisfeita consigo mesma.
– Você assistiu a tutoriais no youtube sobre como decorar cômodos.
A careta de indignação de Rave foi impagável.
– De onde tirou isso? Você nem sabe o que é o Youtube, Duke!
– Claro que eu sei – franziu o cenho. – Vejo vários vídeos lá!
– Ah é? – afastou-se um passo e cruzou os braços, um sorriso no canto dos lábios enquanto lhe lançava um olhar desafiador. – E o que você assiste?
Se aquilo não fosse tão absolutamente improvável, poderia jurar que tinha visto um tom vermelho em suas bochechas.
– A questão não é essa, Ravenna Reid. O que estamos, de fato, discutindo, é como a ideia de decorarmos tudo nós mesmos é idiota.
– Duke, só porque você não gosta de fazer compras, não significa que essa atividade, ou a ideia, seja idiota.
– Ravenna Reid, amor, vamos ser razoáveis – mudou de estratégia, amaciando o tom. – Tentar decorar todo o prédio, vai atrasar nosso cronograma em semanas.
– Não seja ridículo, Duke. É óbvio que não quero decorar o prédio inteiro.
Knight mal tinha conseguido dar um suspiro de alívio, quando sua namorada emendou:
– Só a sua sala – bateu a mão espalmada de leve no peito dele duas vezes de maneira condescendente antes de sair.
Ok. Aquela era a gota final. Não conseguindo mais reprimir a risada, joguei a cabeça para trás e comecei a gargalhar. Aqueles dois eram um entretenimento muito mais cômico do que qualquer programa que já tinha visto.
– ‘Tá rindo do que, pateta? Se eu tenho que decorar minha sala, você também tem.
Parei de rir imediatamente.
O quê? Por quê? Que culpa eu tenho se sua mulher quer decorar a sua sala?
– Não vou ser o único a fazer isso. Você e Chase estão nessa enrascada comigo.
E, como se isso acabasse com a conversa, girou nos calcanhares e deixou o cômodo.
– Babaca – bufei.
Meu ouvido treinado percebeu o passo praticamente inaudível de para o lado e para longe.
!
, minha esposa, que havia se encolhido ao máximo quando Reid e Knight entraram, tentando se fazer de invisível, porque certamente não acreditava pertencer ali.
Conosco.
Sim, talvez aquela não fosse a situação ideal, e talvez se minha linha do “normal” tivesse continuado como estava, nunca a conheceria, mas essa era agora nossa realidade agora e a adaptação seria um fiasco se deixasse que ela se escondesse em si mesma a cada minuto.
– Eles formam um casal interessante – murmurou, mudando o peso de um pé para o outro, a voz automática de quem falava apenas para preencher o silêncio.
, eu estava falando sob-
– Darlin’! – O sotaque idiota de Chase causou uma segunda interrupção. – Aí está você! – e daquele jeito folgado de sempre, parou ao lado dela e jogou o braço sobre seu ombro.
Qualquer dia desses seus modos folgados iriam lhe custar seu rosto bonitinho.
Minha esposa, entretanto, não parecia se incomodar. Corando, ela não fez qualquer movimento para se afastar.
– Precisa vir comigo e me salvar do tédio – exagerou, colocando a mão sobre o peito. – Supervisionar uma equipe de limpeza está longe da minha expertise e da minha vontade. Definitivamente não é o que eu gostaria fazer em um sábado de manhã, ou em qualquer período. Porém, – abriu um sorriso de lado que acreditava ser irresistível, – como alguém tem que supervisionar a dupla dinâmica Knight- para que eles não destruam nosso prédio antes mesmo de ele começar, cá estou. Você seria minha companhia para essa árdua tarefa, Darlin’?
Chase iria negar até a morte, mas eu tinha certeza de que seu sotaque imbecil era forçado. Nem os primeiros habitantes do Texas arrastavam tanto as sílabas.
– Oh… eu… hmm… – titubeou, ainda com as bochechas vermelhas, revezando o olhar entre nós dois.
– Perfeito – faiscou outra vez seu sorriso de comercial de creme dental como se ela tivesse concordado com seu discurso ridículo. – Podemos aproveitar a ocasião para você me contar porque alguém tão maravilhoso como você, Darlin’, se contentou com Puppy – em meio a mais um de seus falatórios intermináveis, guiou minha esposa para fora da sala, mas não antes de acrescentar. – Você obviamente é muita areia para o caminhãozinho dele.
Ela me lançou um olhar incerto por sobre o ombro antes de deixar o cômodo, mas como não tinha nenhuma razão legítima – além de Chase ser um idiota que se achava a reencarnação de Casanova – para impedi-los, enfiei as mãos nos bolsos da calça e os segui.

xxx

Depois de um tempo ponderei que Dylan tinha o dom para aumentar em seu favor cada situação em que ele se encontrava, distorcendo de pouquinho em pouquinho a realidade se esta não lhe conviesse. Às vezes, porém, ele era bem preciso.
Aquela era uma dessas vezes.
Nunca me senti tão entediado quanto no dia em que precisei supervisionar o trabalho da equipe de limpeza. Boa parte das primeiras horas, passei remoendo a certeza de que estar ali era totalmente desnecessário. Nas demais, resmunguei sozinho sobre a tarefa ingrata entre uma resposta e outra às perguntas escassas que alguma funcionária fazia. Desencostando da parede onde me escorara nos últimos minutos, aproximando-me de Reid, que encarava, com o cenho franzido, uma prancheta.
– Rave, poderia fazer a gentileza de me lembrar o porquê de estarmos aqui? Essas mulheres claramente sabem o que estão fazendo.
– O que-Oh! – levantou a cabeça. – O porquê de estarmos aqui – olhou para a prancheta e de novo para mim, parecendo levar um minuto para situar minha pergunta. – Ah sim. Sim – balançou a cabeça. – Estamos aqui porque Duke é um maníaco por controle, e miséria adora companhia.
– Faz sentido – assenti, observando enquanto Knight conversava com a encarregada da equipe de limpeza.
– E como tem se adaptado?
Deixei meu olhar vagar pelo espaçoso hall de entrada do prédio até chegar ao canto onde Chase finalmente parara de fingir fazer algo útil e mostrava algo no celular para minha esposa, que ria e sacudia a cabeça. Meus lábios se repuxaram em um sorriso pequeno.
– Bem. Surpreendentemente bem.
– Merè disse que grand-mère detestou NY quando eles se mudaram para cá. Disse que era tudo sem charme. Mas, cá entre nós, difícil qualquer outro lugar ter o mínimo de elegância da Riviera.
– É complicado, Rave – cocei a nuca, procurando um jeito de dizer o que pretendia. – não gostava muito de onde morava.
É. Certo. Aquele era um jeito bonitinho de colocar as coisas.
– Sempre é complicado – murmurou, compreensiva, pousando a mão em meu braço. – O importante é se vale a pena.
E por um milésimo de segundo o rosto de duas pessoas diferentes passaram diante de meus olhos. Mudei minha atenção para a parede ao longe.
– Sim, vale a pena – foi o que consegui murmurar por entre minha mandíbula travada.
Com um sorriso triste, Ravenna deu algumas batidinhas reconfortantes em meu ombro.
– Se eu puder ajudar em alguma coisa, , eu estou aqui.
Assentindo, mantive meu olhar na parede branca recém-pintada, concentrando-me nas pequenas coisas que me davam um senso de normalidade, que me mantinham no lugar, como uma âncora fazia com um navio, para que eu não me perdesse dentro da minha própria mente.
Concentrava-me nas paredes brancas recém-pintadas, no cheiro de alvejante do chão, na corrente de ar que entrava pela janela.
Com respirações profundas e contadas, consegui me manter onde estava, na realidade.
Felizmente, depois disso, não tive outro incidente, e, sendo sincero, o tempo até correu mais rápido quando Duke cansou de fingir que entendia de gerenciamento de limpeza e se sentou ao meu lado no chão e, com as costas encostadas na parede, discutimos algumas das contratações que pensávamos fazer. Quando a equipe avisou que tinha acabado e que poderíamos trancar tudo, tinha certeza de que todos estavam exaustos e famintos.
– Vocês gostariam de ir lá para casa? – Ravenna perguntou quando nos encontramos na calçada em frente a fachada recém-reformada. – Podemos esquentar uma das pizzas caseiras que fiz e congelei ontem.
O rosto de Knight imediatamente se fechou em uma careta insatisfeita, enquanto cruzava os braços e nos lançava olhares significativos. Duke obviamente não entendia o conceito de dividir comida que levava a marca Reid de qualidade. Rave achou por bem lhe dar uma cotovelada nas costelas. Obviamente não teve nenhum efeito físico, mas a intenção ficou clara para todos – inclusive para Duke, que, após revirar os olhos, voltou para sua expressão fechada de sempre, mas abandonou a carranca.
– Oh, Darlin’, eu adoraria – jogou o braço sobre o ombro de Ravenna, que, assim como antes, imediatamente corou, dando um sorrisinho de quem se encontrava meio desnorteada.
Às vezes me perguntava seriamente se Chase era o cara mais corajoso da América ou só se ele era suicida mesmo – depois de ver o jeito assassino como Duke encarava nosso amigo, tive a certeza de que era o segundo caso. Qualquer dia desses Dylan teria seu traseiro chutado de maneira épica.
E eu estaria ali para assistir bem de perto.
Sorrindo, satisfeito com esse pensamento, voltei a prestar atenção na conversa.
– E você, ? ?
Abaixei o olhar para minha esposa, que me lançou um sorriso cansado.
– Obrigado, mas vamos ter que deixar para próxima, Rave. Ainda precisamos pegar o metrô e um cochilo também cairia bem agora.
– Você também não está cansado não, Chase? – Duke rangeu os dentes.
Dylan e seu instinto suicida ignoraram completamente o aviso velado na voz de Knight, estalando a língua e respondendo:
– Nah. Prefiro pizza. Além do mais, minha casa também é para o sul.
Sacudindo a cabeça, coloquei a mão espalmada na base das costas de minha esposa e trocamos palavras de despedida. A estação não era longe e não precisamos tentar preencher o silêncio.

xxx

Já em casa, também foi em silêncio que preparamos alguns sanduíches. Foi quando nos sentamos na pequena mesa para duas pessoas na cozinha meio apertada, com nossos sanduíches recém preparados, que me lembrei de nossa conversa inacabada.
– chamei depois de um gole d’água.
Ela levantou a cabeça, tirando a atenção de suas mãos, que pareciam ser tão interessantes naquele momento. Esperou pacientemente que eu juntasse as palavras.
– Eu… eu… quando te chamei de Saara. Não tive a intenção de te ofender.
Não tive a intenção de deixar o apelido escapar.
– Você disse que era por causa do deserto.
Assenti.
– Por quê? – franziu o cenho. – O Saara não se estende pela Arábia Saudita.
Oh, sim. Eu sabia bem em que países aquela imensidão dominava grandes porções de território. Havia estudado suas características em uma patética tentativa de dominá-lo o suficiente para que sobrevivêssemos.
– Eu sei – respondi gentilmente.
Abandonei o restante de meu sanduíche sobre o prato, repentinamente sem apetite.
– Chase, Duke e eu estávamos no mesmo destacamento das forças especiais da marinha. Não posso fornecer detalhes, porque até hoje eles são confidenciais, mas nossa primeira missão foi em… em um ponto do Saara – aquele era um bom meio termo, onde poderia responder sua pergunta sem comprometer detalhes sigilosos. – Passamos semanas e semanas naquele lugar esperando ordens. A maior parte do tempo era absolutamente sufocante. O calor, o vento, o ar seco que descia por nossas gargantas e parecia arrancar pedaços. Porém havia momentos, raros momentos, em que era possível apreciar a beleza que aquela indomável força da natureza era. Ou talvez só estivéssemos tentando nos apegar a alguma coisa que parecia ser mais sólida do que nós mesmos. Duke e Chase nunca me contaram qual era a âncora deles. É o tipo de coisa que a pessoa guarda para si mesmo. Mas a minha… eu… – engoli em seco.
Às vezes tinha a ilusão de que quanto mais tempo passasse, mais fácil seria falar sobre o assunto. Doía exatamente como doía quando ainda estávamos naquele lugar esquecido por Deus.
Felizmente não soltou a frase clichê “você não precisa falar sobre isso se não quiser”. Talvez ela já me conhecesse o suficiente para saber que não falaria de nada se não quisesse. Passando a mão sobre o rosto, soltei o ar pesadamente antes de continuar:
– A areia – resolvi ser mais direto. – Seus olhos são da cor da areia do Saara.
– Oh – murmurou depois de um tempo, assentindo.
Sentindo-me meio sufocado, levantei-me, recolhendo seu prato vazio e o meu ainda meio-cheio para pia.
– Não se preocupe. Não vai acontecer de novo – limpei a garganta enquanto deixava a água cair sobre a louça. – Não vou te chamar assim de novo.
Ouvi a cadeira se arrastar no chão e sabia que ela estava em pé em algum lugar atrás de mim, pois não havia escutado nenhum outro movimento. Estava esfregando o último copo quando ela voltou a falar, a voz soando clara pela cozinha silenciosa:
– Eu gosto. Pode me chamar assim.
Dessa vez ouvi seus passos quando ela deixou o cômodo. Foi só depois que me lembrei.
Depois de ter terminado de arrumar as coisas pela cozinha e de ter escovado os dentes no banheiro do corredor e de ter trocado o jeans pela calça de moletom que agora me obrigava a dormir. Depois de me espremer mais uma noite no sofá da sala. Depois de algumas horas encarando o teto branco, sentindo o corpo pesado de cansaço, mas a mente ainda trabalhando freneticamente.
Foi só então que percebi que não tinha falado que seus olhos me lembravam da cor da areia do Saara – e que aquelas areias eram a coisa mais bonita que já tinha visto na vida.



Capítulo Três

— Tem certeza de que essa é uma boa ideia? — perguntei pelo que era provavelmente a quarta vez, mas não conseguia me livrar daquela sensação de que estava cutucando não a onça, mas sim o Rei da Selva com a vara curta.
— O quê? — Rave levantou os olhos violeta do tapete pendurado em que passava a mão. — Ah, sim. Não se preocupe. Duke só resmunga. Ele nunca realmente está bravo. É manso como um gato.
Pisquei devagar, agradecida por ela ter me dado às costas, assim não via a expressão atônita que muito provavelmente havia tomado conta do meu rosto. Não conseguia, afinal, imaginar um cenário em que aquela frase refletia a verdade.
Manso como um gato?
Que tal manso como um leão? Um leão faminto… ou talvez um tigre dentes de sabre…?
— Hmm… OK — murmurei depois de um tempo, dando alguns passos para acompanhá-la quando passou a examinar o próximo tapete. — Mas… ele não tinha dito que preferia que um decorador arrumasse a sala dele?
A pergunta foi retórica. Eu me lembrava muito bem de Knight ter dito com todas as letras para a namorada não decorar a sala dele, mesmo assim, dois dias depois, nos encontrávamos na mais sofisticada loja de móveis que já tinha visto.
— Duke nunca sabe o que quer. Só falou aquilo porque agora fica cismado sempre que eu assisto qualquer tutorial no YouTube. Só porque outro dia eu estava assistindo um sobre como costurar e decidi praticar na cortina — falava tudo com muita naturalidade, gesticulando com as mãos enquanto andava e observava os exemplares. — Aí costurei uma cortina na outra e quando fui tentar separar não achei a tesoura e tentei usar um fósforo e saiu um pouquinho de fumaça. Mas Duke fez um escândalo. Nossa — virou-se para mim e revirou os olhos. — Ele falou muito. Bom, de qualquer jeito, isso não vem ao caso.
Rave deu de ombros, bastante calma, como se não tivesse acabado de contar que quase tinha colocado fogo em sua casa.
— Esse é lindo! — exclamou de repente. — Que tal se levarmos?
Olhei do tapete laranja para o qual ela apontava e de volta para seu rosto. Sim. Com certeza, ela estava falando sério. O que significava que eu precisava encontrar um jeito delicado de dizer que achava que laranja berrante não parecia ser a cor de Knight.
— Não sei se ficaria muito bom na sala dele. Acho que talvez faria o cômodo parecer menor.
Não tinha nem ideia do que estava falando, mas esperava que a convencesse, não que a ofendesse.
— Você tem razão — murmurou, ainda com a mão sobre o queixo e um olhar analítico sobre o laranja.
Não. Quem tinha razão, pelo jeito, era Duke — sobre Rave não entender nada de decoração.
— Quem sabe uma coisa mais neutra? Talvez preto ou marrom? — apontei para os dois tapetes mais à frente.
— Você tem razão! — e lá estava de volta aquela animação. — E então podemos comprar aquele sofá azul Frozen.
— “Azul Frozen”?
— É. Azul igual ao do letreiro do filme.
— Você sabe que esse não é o nome, certo? — arqueei a sobrancelha.
— Mas qual seria a graça nisso? — deu um sorriso de lado. — Agora, — bateu o dedo indicador no queixo algumas vezes, — onde é que aquele sofá estava mesmo? Acho que foi bem lá no começo.
Passou o celular pelo código de identificação pregado em um pequeno papel no tapete, reservando-o, então segurou meu pulso e me puxou para frente da loja de novo. Tenho que admitir que, depois que ultrapassei meu temor sobre como Knight reagiria ao mini arco-íris que Rave pretendia montar na sala dele, pude aproveitar melhor a companhia dela. Ravenna Reid não se encaixava na imagem que eu tinha de uma psicóloga, mas era preciso admitir que ninguém era vinte e quatro horas a sua profissão. Talvez ser elétrica daquele jeito fosse uma forma de escape. De qualquer jeito, sabia que não podia julgar. Afinal, ela me retribuía muito bem o favor, em nenhum momento me enchendo com perguntas que sabia que seriam bastante pertinentes, mas que não tinha nenhuma vontade de responder. Foi por aquela sensação confortável em que nos encontramos, duas horas depois das compras dela, na cafeteria a poucas quadras da loja.
— inclinou-se para frente, apoiando as mãos espalmadas na mesa entre nós. — Quais são as chances de deixar que eu decore a sala dele também?
Tentei não arregalar os olhos, mas assim que aquela pergunta preencheu o espaço entre nós, só conseguia imaginar meu marido em uma sala branca com um sofá estampado de preto e branco — como que para imitar uma vaca — e um tapete rosa chiclete. Aquilo definitivamente não combinava com ele, e, como meu trabalho era protegê-lo, joguei o amigo dele às feras:
— Talvez seja melhor você se concentrar na sala de Duke primeiro.
Ela parou por um momento, analisando o que eu tinha dito, chegando ao ponto de levar o cappuccino aos lábios, tomando um gole como se estivesse sorvendo minhas palavras.
— Ah, sim — murmurou, colocando a caneca de volta ao pires. — Acho que você tem razão. Vou fazer Duke engolir as palavras sobre eu não saber o que estou fazendo.
Assenti repetidamente para esconder meu pequeno suspiro de alívio. Aproveitando o momento, falei:
— Rave, queria agradecer por ter me ligado. Tenho passado bastante tempo dentro de casa desde que cheguei.
Reid abriu um sorrisinho triste com os lábios cerrados.
— Não é fácil, né?
— Não — sacudi a cabeça.
— Se você não se importa que pergunte, o que costumava a fazer quando morava na Arábia Saudita?
Correr.
Fugir
Me esconder.

Engolindo em seco, preferi meias verdades:
— Nada fixo durante muito tempo.
Ou nunca.
— Algumas vezes fiz faxinas, outras dei algumas aulas particulares… também trabalhei em algumas lojas.
— Aula de que?
— De inglês e, às vezes, matemática.
Como havia tantas perguntas em seus olhos violeta, decidi continuar:
— Não foi nada profissional. É só que… sempre gostei de números. Além disso, inglês era uma moeda de troca bastante valiosa em um país onde menos da metade da população sabe um segundo idioma. Felizmente sempre conseguia encontrar algum gerente que precisava que seus funcionários falassem com turistas.
Tomei um gole de meu café, ponderando que, agora que parava para analisar, não sabia ao certo como me sentia ao olhar para trás e para aquele aspecto em particular da minha vida. Não sabia se era raiva, se era algum tipo de saudosismo agridoce ou se era apenas vontade de esquecer…
— E para crianças?
— Não — sacudi a cabeça. — A maioria não queria uma criança ensinando outra criança. Os donos de comércio só aceitavam porque era mais barato.
— Com quantos anos você… digo, uma criança? — embolou-se nas palavras, mas eu sabia exatamente o que ela queria perguntar.
— Comecei a dar aulas quando tinha doze anos.
— Doze anos? Isso não é… Digo, você era tão nova…
— A necessidade sempre é a melhor professora — encolhi os ombros. — Minha mãe também estava sempre fazendo malabarismos entre os bicos que conseguia arrumar. Precisava ajudar com as coisas… então… bem… foi assim que as coisas foram.
Repentinamente exausta com aquele assunto que tão rapidamente conseguia sugar minhas energias, empurrei o pedaço de bolo no prato a minha frente com o garfo.
— O café está muito bom, mas preciso acrescentar que isso aqui — apontei com o garfo — definitivamente não merece uma estrela em algum catálogo gastronômico.
Ravenna piscou devagar, provavelmente surpresa com a mudança um tanto quanto brusca de tema, porém foi rápida em se recuperar, logo acrescentando:
— Pois é. Tá… tá meio borrachudo — enfiou os garfos algumas vezes como que para provar seu ponto. — Mas suponho que nem todos podem ser Avalon Appleby.
— Isso é um lugar?
Rave levantou a cabeça, encarou-me por um segundo, depois jogou a cabeça para trás e soltou uma boa gargalhada.
— Eu vou adorar contar isso a ela — falou entre uma risada e outra. — Desculpe, desculpe. Não estou rindo de você, . Não é isso. É só que… Ava adora falar sobre como tem certeza que fui batizada como Ravenna porque deveria ter sido naquela região da França que meus pais me fizeram. O que, deixa eu te dizer, não faz sentido nenhum porque os vovô e vovó Merthier já tinham se mudado para cá há tempos quando meus pais se conheceram — balançou a mão, como que para dispensar a ideia boba. — De qualquer jeito, Avalon Appleby é minha melhor amiga. Ela é uma chef maravilhosa, especializada em confeitaria. A Appleby’s fica perto de casa. É ótima. Está sempre lotada. Uma pena que esteja sempre um caos.
— Um caos?
— Bom, não sei se essa é exatamente a palavra para descrever o que a confeitaria vem se tornando. Ela tem crescido muito. Parece que há clientes novos todos os dias e cada vez mais Ava, Stella e Bruce, os dois funcionários dela, não estão dando conta. Ainda mais porque os dois trabalham meio-período. Eles obviamente precisam de ajuda par-
Parou de falar de supetão, arregalando os olhos violeta e chegando até mesmo a se afastar para descansar as costas no encosto de seu assento. Durante todo o tempo, encarou-me como se eu tivesse acabado de lhe oferecer o caminho até o final do arco-íris.
— Ravenna?
, diga-me uma coisa, você já pensou em que pretende trabalhar por aqui? Ou... não sei. Digo, não estou tentando dizer que você tem que trabalhar. Ou só… que… Oh, céus — passou a mão pelo rosto. — Eu estou só me enrolando cada vez mais, não?
— Está tudo bem. Eu entendi. Tudo certo — falei devagar, sorrindo. — E, respondendo à pergunta, tenho pensado bastante nisso, mas não sei nem por onde começar. Não quero falar sobre isso com , porque… bem, ele já tem tanta coisa em mente com a Thermopylae… — com os antebraços sobre a mesa, abri as mãos que nem percebi que tinha fechado, como se assim conseguisse pudesse me livrar, nem que fosse um pouquinho, daquela impotência toda.
— Ah, sim. Entendo.
Ela assentiu, mas sabia que eram apenas palavras educadas. Rave não entendia porque não queria recorrer ao meu marido, e não poderia culpá-la. A situação era tão mais complexa do que mesmo uma imaginação fértil poderia recriar. Aceitava, então, suas palavras porque sabia que ela dizia com toda a sinceridade que poderia ter.
— Além disso, meu currículo não é impressionante. Um bando de trabalhos temporários e a falta de um diploma de ensino superior não é muito chamativo.
— Talvez… eu… Ava, minha amiga, como disse, está muito sobrecarregada na confeitaria. Ela realmente precisa de ajuda.
Tendo uma boa ideia de onde ela estava querendo chegar, comecei a sentir meu estômago revirar de nervoso, ainda que racionalmente estivesse tentando não criar expectativas.
— Acho que seria uma solução perfeita. Se você quiser, então, poderia te apresentar a ela? Claro que não posso garantir nada — acrescentou rapidamente. — Até porque Ava é bastante desconfiada de… bom… basicamente todo mundo, mas acho que vale dar uma chance. O que você acha?
Frases educadas como “não quero incomodar” ou “você não precisa se preocupar comigo” trovejaram em minha mente por um segundo, mas logo depois vieram lembranças dos últimos dias, quando praticamente decorei a programação de todos os canais da TV aberta e das três vezes que limpei nosso pequeno apartamento de cima a baixo e, ainda assim, morri de tédio. Sabia que se continuasse tanto tempo dentro de casa, iria enlouquecer, definhar. Não podia continuar tão desnorteada assim. Por isso, então, ao invés de pequenas mentiras inofensivas, decidi-me pela verdade:
— Eu ficaria muito, muito grata.
O sorriso que ela deu foi tão grande quanto o que devia ter em meu rosto. E, naquela hora não sabia, mas foi precisamente ali que nascia nossa amizade e uma parte inteiramente nova da minha vida.

xxx

Avalon Appleby tinha os cabelos muito pretos, o rosto muito bonito e os olhos muito desconfiados.
Chegamos quase na hora de fechar, mas a tempo de ver a loucura a que Ravenna se referia. A mulher atrás do balcão se desdobrava para correr até a parte de trás para trazer novos produtos, atender aos clientes e gritar instruções para o adolescente que parecia perdido sobre de qual cliente cobrar no caixa. Passamos os próximos quinze minutos sentadas em uma mesa perto da janela observando como ela ficava visivelmente mais exausta a cada minuto. Assim que o último cliente saiu e ela trancou a porta, quase pude ouvir seu suspiro de alívio, apesar da distância. O adolescente desapareceu pela porta dos fundos, provavelmente para ajudar a limpar as coisas, e só então Avalon se arrastou até nossa mesa.
— Oi, Ava. — Ravenna logo falou. — Quero que conheça minha amiga.
Foi quando seus olhos azuis pousaram em mim, só agora parecendo perceber que eu também estava ali. Imediatamente esticou as costas, abandonando qualquer traço do cansaço que estava presente a nem um minuto atrás, enquanto toda sua postura se transformava para defensiva.
— Avalon Appleby — estendeu a mão.
— ficando de pé, aceitei o cumprimento.
Ao nos sentarmos outra vez, soube exatamente como crianças que iam para sala do diretor se sentiam. Foram cinco segundos de um silêncio bastante tensos antes de Ravenna outra vez pular em meu resgate:
— Ava, acabou de se mudar para cá. E ela realmente precisa de um emprego. Você sabe como as coisas não estão fáceis hoje em dia. — Reid falava muito rápido, toda atenção na amiga enquanto evitava meu olhar. — E como as coisas estão bem pesadas aqui, agora que Stella e Bruce só podem ficar meio-horário por causa da faculdade, pensei que ela talvez pudesse dar uma mão aqui até encontrar outro emprego.
Tinha bastante certeza de que aquilo não havia sido o que combinamos, mas, como ela parecia saber o que estava fazendo, permaneci calada, apenas esperando o resultado que teríamos.
Assim que Ravenna terminou de falar, contudo, tivemos mais alguns momentos de silêncio em que as duas pareciam estar tendo uma conversa silenciosa, só então Avalon voltou a pousar sua atenção para mim.
— Aqui é bastante trabalho — seu tom era impessoal, quase robótico. — Além disso, o tempo todo tratamos com pessoas, o que é sempre um desafio. Você estaria disposta?
— Sim — não hesitei, nem por um segundo desviando o olhar.
— Ótimo. Então esteja aqui às seis e meia. Abrimos às sete. Te explicarei o básico, e depois vemos como as coisas vão correr. Posso te pagar dez dólares por hora. Oito horas por dia, uma hora de almoço e vinte minutos de intervalo. Soa bem?
Ainda que não fosse uma proposta ótima, ainda seriam oitenta dólares diariamente a mais do que recebia hoje, quando não tinha qualquer fonte de renda independente.
— Soa perfeito.
Assentindo, ela se levantou. Entendendo a deixa, Rave e eu também nos levantamos. Murmurando um agradecimento e despedidas, deixamos a Appleby’s. Nem mesmo tínhamos nos afastado da porta quando ouvi várias trancas sendo giradas. Quando os “cliques” pararam, Ravenna se virou para mim, falando mil palavras por minuto:
, desculpe, desculpe. Eu sei que fiz parecer que você estava precisando de um favor. Não tinha qualquer intenção de… não sei… de fazer você se sentir como se estivéssemos lhe fazendo um favor. E, sim, eu sei o quão idiota isso soa quando acabei de dizer que fiz exatamente isso — começou a gesticular com as mãos. — É que Ava, além de exausta por trabalhar mais do que é humanamente saudável, também é muito cabeça dura. Se a deixássemos saber que você quem estava fazendo um favor… porque, sejamos sinceras, por mais que você precise desse emprego, Ava precisa ainda mais de ajuda para tocar a Appleby’s, demoraria muito mais tempo para convencê-la. Precisei de meses para convencê-la a contratar Bruce.
— Está tudo bem, tudo bem — apressei-me. — Não me ofendi. Está tudo certo.
— Sério? — suspirou, alívio claro em seu tom. — Nossa. Por um segundo pensei que você iria me odiar, o que tornaria as coisas bem esquisitas quando formos sair todos juntos, porque, não sei se você percebeu, mas aquele três são como um tipo novo e moderno de casal casado há uns 30 anos. Discutem o tempo todo, mas não ficam três dias sem se encontrarem e levariam uma bala um pelo outro... inclusive já levaram.
— Não. É. ‘Tá tudo certo.
— Isso é um alívio — esticou a mão e segurou a minha. — Estou tão feliz por ter dado certo.
— Também estou.
Ela sorriu antes de consultar o relógio de pulso.
— Está realmente tarde. Vou te acompanhar até a estação de metrô.
— Não precisa — sorri, agradecida. — Eu lembro o caminho.
— Tem certeza? Você não fez esse trajeto só no dia do almoço lá em casa?
— Tenho um excelente senso geográfico — encolhi os ombros. — Não se preocupe — acrescentei. — Tenho certeza.
— Ok — murmurou ainda meio incerta, mas, provavelmente ponderando que já tinha se intrometido demais por um dia, não discutiu. — Então uma última coisa: Ava é uma boa pessoa, mesmo com seu comportamento paranoico e temperamento meio difícil.
Limitei-me a sorrir, acenando com a mão antes de tomar meu caminho. Ravenna não precisava justificar a amiga para mim, até porque podia reconhecer o problema. Avalon Appleby estava fugindo.
De alguém… de alguma coisa… O que quer que fosse, a aterrorizava até a alma.

xxx

Era por volta de oito da noite quando cheguei em casa. estava lavando louça quando passei pela porta.
— Boa noite — sorriu por sobre o ombro. — Como foi o dia com Ravenna?
— Ela é uma pessoa bem… interessante — ri, colocando a bolsa sobre uma das cadeiras.
— Bastante interessante — assentiu, virando-se para secar a mão em um pano. — Uma vez Duke comentou que chegou em casa e encontrou os cachorros com glitter verde sobre os pelos. Depois de perguntar, Knight descobriu que era por causa do St. Patrick’s Day. Mas isso não foi o interessante. Não — sacudiu a cabeça. — O interessante foi o fato de que ela tinha comprado um macacão verdade e um chapéu, e realmente esperava que Knight vestisse — riu, sacudindo a cabeça. — Desde que éramos garotos, moleques na faculdade, a única coisa que já vi Duke se vestir foi de Duke. O cara nunca chegou perto de uma fantasia. E lá estava ela com uma fantasia comprada de leprechaun.
Tentei imaginar Duke Knight em um uniforme verde e segurando um pote de ouro, mas desisti depois de um segundo. Minha imaginação não era fértil o suficiente. Apesar que…
— Acho que se existe alguém capaz de persuadi-lo a se vestir assim, esse alguém seria Rave.
— Disso não duvido nem por um segundo — esticou o pano sobre a pia, dando-me uma pequena piscadela.
Engoli em seco, tentando pensar em qualquer outra coisa que não fosse como ele ficava bonito naquele raro momento relaxado. Infelizmente minha falta de reação causou um silêncio esquisito e logo se fechara em si mesmo de novo.
— Eu… — limpou a garganta. — Eu preparei alguns sanduíches. Estão no forno.
Olhei para o forno e de volta para ele, mas meu marido já estava se retirando para o banheiro enquanto murmurava um rápido “boa noite”. Fechando os olhos com pesar, arrastei os pés para me forçar a comer um dos sanduíches. Não lembro o gosto, o cheiro, ou qualquer outra coisa do tipo. Apenas me lembro de empurrar para dentro de minha boca pedaço a pedaço.
Lembro do apartamento silencioso.
Lembro de sentir que o homem de quem eu carregava o sobrenome podia muito bem estar na Costa Oeste, e não a três metros, que a distância que nos separava seria a mesma.
Lembro de ter sentido pena de mim mesma.



Capítulo Quatro

— Você tem que ver a sala do Duke!
Levantei a cabeça do currículo que analisava, deparando-me com Chase parado na porta da minha sala. O divertimento pingando em suas palavras e aquele olhar que ele sustentava — o mesmo que ele sempre trazia ao conseguir que alguém fizesse exatamente o que ele tinha planejado — me disseram que Knight estava ferrado.
Empurrei a cadeira para trás, levantando devagar. Aquilo devia ser interessante.
Em silêncio, o segui até o final do corredor. O que encontrei fez a interrupção valer muito a pena. Parado em cima de um tapete preto enorme, meu melhor amigo, de costas para nós, encarava o sofá azul piscina de tonalidade mais chamativa que já tinha visto na vida. Ao perceber que estávamos ali, mesmo não tendo feito nenhum barulho, Duke se virou, absolutamente furioso.
! Que porra é essa? — abriu o braço, indicando o sofá atrás de si. — Que merda esse decorador achou que estava decorando? Um salão de beleza?
— Hey, cara, calma aí — confuso, franzi o cenho. — Eu dei instruções bem específicas. Na minha sala está tudo certo. Não sei o que aconteceu aqui. Chase?
— A minha sala está ótima.
Ele estava visivelmente tentando não rir, e é claro que Knight percebeu.
— Seu merdinha.
Ele avançou em direção ao bobo alegre, e Chase — e seu instinto suicida — pensou que seria uma boa ideia soltar uma gargalhada. Antes que conseguisse alcançá-lo, contudo, o babaca, ligeiro como sempre, conseguiu pular para o lado, erguendo as mãos espalmadas.
— Hey, hey. A culpa é da sua mulher.
Ele ainda ria, mas a menção à Ravenna o fez parar imediatamente. Felizmente Dylan pareceu recobrar o pouco de juízo que ainda tinha e continuou, ainda que entre uma risada e outra:
— Ela me ligou e disse que faria uma surpresa. Mas eu não sabia que ela iria fazer… bom… isso — olhou para o elefante branco, ou melhor, azul, na sala. — Rave só falou que não precisaria mais do decorador para sua sala, e eu repassei a informação.
Cruzando os braços, balancei a cabeça enquanto assistia a tudo aquilo. Era óbvio que Chase tinha uma ideia muito precisa do que Reid iria aprontar. Ele sempre conseguia pensar dois passos adiante de qualquer pessoa. Tão grande quanto sua esperteza, contudo, era seu prazer em irritar Duke, então estava bem claro o porquê de, ao invés de piscar os olhos azuis para convencer a loira de que aquela era uma péssima ideia e poupar toda o problema, estarmos agora discutindo o valor das cores neutras.
— Você é um filho da mãe — rangeu os dentes, ainda decidindo se devia abandonar a ideia de quebrar a cara de Chase.
— Ah, Duke. Não seja mau perdedor — repuxou os lábios em um sorriso enorme. — Afinal, tenho certeza de que nossos clientes vão adorar ouvir a história sobre o porquê de você ter uma peça tão… excêntrica — subiu e desceu as sobrancelhas repetidas vezes de maneira sugestiva.
Idiota.
Qualquer dia desses eu iria deixar que Chase perdesse alguns de seus dentes perfeitos, mas não seria hoje. Quando Duke avançou como uma pantera dando o bote, dei um passo para esquerda e usei o antebraço em seu peito para pará-lo.
— Acredite, Duke, sei que ele merece, mas acho que esse tempo seria melhor utilizado se fossemos tomar café naquela cafeteria da esquina. Eu realmente estou com fome — acrescentei depois de alguns segundos de silêncio, onde Knight continuou encarando o bobão sem amor à vida.
Finalmente, ele voltou sua atenção para mim, virando a cabeça devagar até que eu fosse o alvo de seu péssimo temperamento.
— A próxima vez que você se meter, vai ter o mesmo destino dele — indicou Dylan com a cabeça. — Vou limpar o chão com esses rostinhos bonitos de vocês.
Dizendo isso, ele deu as costas e em um segundo já estava a meio caminho da porta. É claro, entretanto, que Chase não conseguia manter a maldita boca fechada:
— O chão ou esse tapete ridiculamente grande?
Tentando manter um amigo longe de uma prisão federal, e o outro longe do cemitério — e também porque aquilo seria terrivelmente gratificante — virei-me para trás e afundei meu punho cerrado em seu estômago. Chase se dobrou para frente, as mãos, em reflexo, cobrindo o lugar atingido enquanto ele tossia, sem fôlego.
Não pude evitar um sorriso presunçoso.
Muito, muito gratificante.
— Que porra foi essa, garoto? — ofegou, ainda meio curvado.
— Isso fui eu ajudando a manter o seu rosto intacto, Pretty Boy. Apesar de você não merecer — bati a mão em seu ombro de maneira condescendente. — Agora aprenda a manter essa boca enorme fechada por pelo menos quinze minutos enquanto tomamos um café.
Chase revirou os olhos, mas teve um pequeno e raro momento de bom senso, mantendo-se calado. Como a tensão ainda era sufocando demais para nos fecharmos no cubículo do elevador, ainda que por míseros três andares, Duke empurrou a porta corta-fogo da escada e descemos a passos rápidos. Já na rua movimentada, decidi que era seguro trazer o assunto à tona novamente:
— Duke, cara, eu posso chamar a decoradora de novo. Ela arruma tudo em menos de um dia. Amanhã mesmo já tá tudo certo.
Ele parou abruptamente de andar, virando-me para me encarar com a expressão totalmente fechada.
— Não — latiu, imediatamente voltando a andar.
Com o cenho franzido, o segui para dentro do café. Knight já estava no balcão fazendo seu pedido. Parei ao seu lado.
— Por que não?
Ele levantou a atenção do copo onde colocava mais açúcar do que provavelmente seria saudável.
— Porque foi Ravenna Reid quem fez — dizendo isso, como se explicasse a um idiota uma verdade óbvia, deu-me as costas em direção a uma das mesinhas.
— Ele está completamente domado. — Chase apoiou os braços no balcão, parando ao meu lado enquanto nós dois assistimos nosso amigo se afastar.
Seu tom era o de alguém que simplesmente constata um fato, não havia qualquer juízo de valor.
— É. Está sim — concordei, assentindo algumas vezes. — Combina com ele.
Chase apenas sorriu antes de pegar sua caneca de chocolate quente fumegante e também se dirigir à mesa. Revirando os olhos, enfiei a mão no bolso para tirar algumas notas.
— Deixaram você com a conta outra vez, ?
— Eles sempre deixam, Helena. Sempre — sacudi a cabeça para a barista que sorria para mim do outro lado do balcão.
Ultimamente não tinha vontade de manter nem mesmo pequenas conversas triviais como aquela, mas a adolescente era educada demais para que eu a ignorasse como vinha fazendo com praticamente todo o resto da sociedade. Ela até mesmo já havia decorado nossos pedidos diários — e também o fato de que meus amigos babacas sempre me deixavam com a conta e a responsabilidade pela gorjeta. Com uma das mãos peguei minha própria caneca cheia de simples café preto — uma vez que, diferentemente dos dois, não tinha interesse em desenvolver algum problema de saúde pelo excesso de açúcar — e, com a outra, coloquei uma nota de cinco dólares no pote de vidro sobre o balcão, antes de me juntar à mesa.
— Você já terminou de olhar os currículos, Puppy?
Reprimindo uma revirada de olhos pelo apelido idiota, respondi à pergunta de Duke:
— Selecionei alguns homens. Vamos precisar de quantos para a refinaria? — virei-me para Dylan.
Ele passou a mão pelo queixo, pensativo por um momento.
— Calculei entre vinte e vinte e dois. Com o sistema de câmeras que Tej está arrumando, conseguimos patrulhar o perímetro e ter uma resposta rápida com um número mais reduzido. Também é mais eficiente.
— Tenho pessoas o suficiente — assenti. — Inclusive, dois deles seriam ótimos para operar o sistema eletrônico. Vou falar com Tej para que ele mantenha tudo num nível suficiente para intermediários.
Tej Johnson, ou TJ, também era um antigo companheiro de nosso batalhão, e que havia pedido baixa alguns anos antes para se dedicar à computadores. O cara fazia mágicas com qualquer tecnologia, mas a vida de civil não lhe caiu muito bem e não demorou muito para que estivesse em condicional por ter sido pego hackeando o sistema de duas empresas de investimentos. Mas talento é talento, e amizade é amizade, então lhe ofereci a posição para administrar a parte tecnológica da Thermopyle — e isso foi um excelente investimento. Tej se mantinha longe de confusões e nós conseguimos oferecer um plano de ação mais eficaz aos nossos clientes.
— Tej nunca mantém nada em um nível intermediário. — Knight resmungou, tomando um gole de café.
— Em um intermediário no sentido operacional, não no sistema em si.
— Tej nunca mantém nada em um nível intermediário — repetiu como se não tivesse dito nada.
— Isso porque você mal sabe como funciona o Google, Duke. — Chase falou, condescendente.
— Isso não é verdade — cerrou os dentes. — O problema é que Tej parece falar o tempo todo em códigos e sobre códigos. Afinal de contas, o que porra é uma variável essencial para que a modificação do sistema se efetive na hora de alterar?
Virei para Chase e nós dois sacudimos a cabeça antes de nos virarmos para ele.
— Nem ideia.
— É, pois é, também não sei.
— Vocês também acham que às vezes ele inventa umas coisas que não existem só para tirar uma com a nossa cara?
— Com certeza.
— Sem dúvida nenhuma.
— Qualquer dia desses podíamos desligar aquele negócio da internet e ver se ele sobrevive.
— O roteador? — esclareci.
— É, é. Isso. Tanto faz. — Duke resmungou, para logo depois abrir um sorriso que me lembrou bastante do de Chase quando o filho da mãe estava planejando algum jeito de tornar nossa vida mais difícil. — Só por vinte minutos.
— Ele vai ficar completamente desnorteado — comentei, interessado.
— Sem saber o que o atingiu. — Dylan agora trazia um daqueles sorriso.
— Vamos fazer isso amanhã.
E naquele momento, entre uma conspiração e um gole de café, quase me senti normal outra vez. Nem que fosse por um minuto, nem que fosse uma ilusão.

xxx

Já passava das nove da noite quando conseguimos terminar de selecionar quem seria contratado e o papel que cada um teria na segurança da refinaria. Mais de doze horas naquele prédio e, ainda que não fosse nem de longe a condição mais adversa que tínhamos enfrentado, ainda pude ouvir minhas costas estalando ao levantar pela primeira vez em horas. Talvez estivesse fora de forma.
— Acho que esse primeiro plano de ação merece uma cerveja para comemorar. — Chase murmurou quando saíamos da sala de reuniões e ele apagava a luz. — O que me dizem? The Hook’s?
— Não posso. Ravenna Reid vai cozinhar hoje — olhou para o relógio em seu pulso enquanto descíamos as escadas e soltou um suspiro pesado. — E ela disse que eu tinha que estar em casa hoje às sete e meia. Que merda — passou a mão pelo rosto.
Ignorando os resmungos de meu melhor amigo, estava prestes a concordar com qualquer álcool que pudesse colocar as mãos, quando Dylan falou:
— Acho que vou ter que me acostumar com a vida doméstica de vocês. Agora que até Puppy encontrou uma mulher louca o suficiente para casar com ele — sacudiu a cabeça, pensativo. — Vou começar a me planejar melhor. Descobrir o dia que as patroas não marcaram coisas. Talvez eu mande mensagens para elas perguntando — coçou o queixo, pensativo.
— Mensagem? — franzi o cenho. — Como assim mensagem? Você tem o número de ?
— Claro que tenho. e eu somos amigos.
Por motivos puramente de curiosidade quase científica, um dia gostaria de saber como ele conseguia o número de mulheres de maneira tão fácil. Isso era ridículo. Francamente. Se a pessoa tivesse dois cromossomos X, Chase conseguia fazer com que ela sentisse como se estivesse fazendo um grande negócio ao passar todos os contatos possíveis a ele.
Filho da mãe manipulador.
— Tanto faz, Chase. — Duke resmungou. — Preciso ir embora. Você tranca tudo. Até amanhã — girando sobre os calcanhares, partiu em direção ao seu carro.
— Você vai ficar assim também, Puppy? — indicou o caminho de Knight com a cabeça
— Assim como? — arqueei a sobrancelha. — Feliz?
— Hey, hey, Mama Knight. Relaxa — ergueu as mãos espalmadas. — Não estou criticando nossa criança. E concordo, ele está feliz. Só estava me perguntando se você também ficaria assim, preso a horários. Porém suponho que realmente seja uma pergunta idiota. Relacionamentos pressupõem esse negócio de companheirismo e todo essa coisa supervalorizada.
Pensei em como minha esposa me fazia sentir diversas coisas, mas que conforto não era uma delas. Empurrando aquele pensamento para o fundo da mente, decidi pontuar:
— Não que você saiba, não é mesmo, Chase? Afinal, seu relacionamento mais duradouro é com o espelho que você beija toda manhã antes de sair de casa.
— Idiota — rápido, colocou a mão em meu ombro, empurrando-me para trás e nós dois rimos.
Andamos lado a lado até meu carro, que era o mais perto. Depois disso tive apenas o silêncio como minha companhia até abrir a porta de casa. estava colocando alguns pratos na pequena mesa quando cheguei.
— Boa noite — sorriu.
Mesmo do outro lado do cômodo e sob a luz fraca, podia ver o quão cansada ela estava. Não exausta como no dia em que nos conhecemos — absolutamente drenada pelo medo e pelas descargas repetitivas de adrenalina. Não. Cansada daquele jeito como se fica quando o dia havia sido produtivo ao ponto de sentir uma moleza gostosa.
Ela ficava ainda mais bonita daquele jeito.
E eu me senti um babaca, por só perceber agora o quão infeliz ela estava por ficar em casa o dia inteiro. Decepcionei de novo ao não perceber que, como qualquer outro adulto funcional, ela não tinha qualquer intenção de se afogar no tédio todos os dias. Não fosse Rave, talvez continuasse cego para o óbvio.
O peso da culpa que há certo tempo sentia sobre meus ombros aumentou um pouco mais, como se uma mão forte estivesse me empurrando para frente. Aceitando que aquela sensação não iria embora, soltei o ar pesadamente em um suspiro.
— Boa noite.
— Fiz batatas assadas e alguns filés de frango — olhou para baixo e para mim outra vez. — Nada muito elaborado — murmurou quase em tom de desculpas.
— Está ótimo. Um banquete. Tudo que comi hoje foram alguns sanduíches que consegui surrupiar da marmita que Duke trouxe — assegurei, sentando-me quando ela também o fez. — Você sabe que não precisa cozinhar, certo?
De novo ganhei um daqueles sorrisos com os lábios cerrados, cansada.
— Sei sim. Mas eu gosto. Não sou muito boa — encolheu os ombros. — Mas me viro um pouquinho.
Coloquei porções generosas no prato, o cheiro gostoso fazendo meu estômago roncar. Só depois de comer uma colherada para ter mais credibilidade, respondi:
— Isso está ótimo — fui sincero nas palavras e na vontade com que levei mais uma colherada à boca. — Muito bom mesmo. Obrigado.
Foram alguns segundos de silêncio, até que meu cérebro tentou me salvar de parecer ainda mais babaca e me lembrou de perguntar:
— Como foi seu primeiro dia?
— Foi… — pensou por um momento. — Foi muito bom, na verdade. Ava é uma pessoa peculiar, mas justa.
— Peculiar? — franzi o cenho, parando meu garfo a meio caminho da boca. — Duke disse que ela é intrometida e esquecida.
Ela piscou devagar, provavelmente não esperando uma opinião tão bruta, mas só estava repetindo o que Knight dissera, e ele nunca foi conhecido por seu tato social.
— Esquecida?
— Aparentemente ela não consegue acertar o nome dele.
— O nome do Duke? — franziu o cenho, provavelmente imaginando como alguém conseguia errar algo de duas sílabas.
Dei de ombros. Também não conseguia compreender.
— E na Thermopylae, como foi?
Tinha tanta coisa que queria dizer. Gostaria de contar como cada vez que dispensava um currículo receava estar fechando mais uma porta para alguém que já tinha levado outras portadas na cara depois de servir seu país. Queria comentar como, apesar disso, ainda restava o contentamento por ter a oportunidade de ajudar ao menos alguns de meus companheiros de arma. Também precisava tirar de meu peito como não havia percebido antes o quanto não havia conseguido me adaptar a ser um civil… o quanto muitos de nós não conseguiam.
Talvez compartilhar o quanto Thermopylae era importante porque lá não me sentia preso. Não me sentia como se não me encaixasse mais.
Como um barulho mais alto de escapamento de carro não me fazia pular no lugar achando que estávamos caindo em alguma armadilha que custaria a vida de todo meu pelotão.
Como as coisas pareciam fazer algum sentido agora.

Porém nada disso era possível, porque não éramos um casal de verdade. E, por mais que seus olhos me sugassem… me hipnotizassem devagar para que eu contasse tudo, não podia.
Não podia porque não era sua responsabilidade.
Não podia porque não havia esse tipo de companheirismo.
Não podia porque não merecia carregar mais esse peso.
Não podia porque não fora nada disso que prometera a ele e a mim mesmo.
Foi por isso que, ao invés de esticar a mão e sentir o calor de sua pele, engoli em seco e deixei que o gelo, com o qual tinha me revestido nos últimos meses, voltasse a tomar conta. Um brilho estranho passou pelos olhos dela e soube que ela podia perceber o exato momento em que tinha me afastado, tanto física quanto emocionalmente.
Recolhi meu prato e o levei a pia.
— Estava ótimo. Muito obrigado, . Você deixa seu prato aqui do lado que eu vou limpar tudo.
Ouvi quando ela se levantou, mas depois nenhum outro barulho, então sabia que ela estava atrás de mim. Ainda assim, não foi fácil ouvir sua incerteza quando disse:
, está tudo bem?
Fechei os olhos por um momento, engolindo em seco. Impressionante como você sempre consegue se sentir ainda pior, não importa quão fundo já esteja.
Forcei um sorriso ao olhar sobre o ombro e para minha esposa.
— Sim, claro. Tudo ótimo.
Nós dois sabíamos que aquilo era mentira, e nós dois sabíamos que não havia nada que pudesse ser feito.



Capítulo Cinco

— Eu pedi para que você colocasse os cupcakes de red velvet atrás dos de laranja. Como os de red velvet vão sair de qualquer jeito, chamamos atenção para os de outros sabores, assim temos mais chance de vender os dois. Tudo se trata de estratégia, entendeu?
Assenti devagar, engolindo em seco. Minha chefe era bastante intimidante. Então, em momento como aquele, quando ela me olhava direto nos olhos e falava tudo no mesmo tom gelado, sem qualquer flexão em nenhuma das palavras, eu precisava me controlar para não recuar um passo — ou talvez sair correndo. Já tinha conhecido muitas pessoas aterrorizantes na vida, mas nenhuma delas conseguia ser tão eficiente em suas palavras. A calma fria era apenas na superfície, podia ver toda a inconstância por debaixo.
Era a calma antes da tormenta, precisa e com o conhecimento essencial do que poderia causar com a força de uma tempestade, caso precisasse. Avalon Appleby ia direto para a jugular.
— Ótimo. Poderia reorganizar então, por favor?
Assenti rapidamente repetidas vezes. Percebi que não estava respirando quando ela se afastou e eu soltei o ar pesadamente, aliviada por não estar mais sob escrutínio. Logo me virei para a bandeja, mudando os bolinhos da maneira como ela havia determinado.
— Não leve para o lado pessoal.
O cupcake tremeu em minha mão e fechei os olhos por um segundo para controlar o jeito como meu coração pulou no peito.
— Bruce — virei a cabeça para encarar o adolescente ao meu lado. — Quantas vezes já te pedi para não chegar de fininho?
— Algumas vezes — murmurou, pensativo.
Deus abençoe esse menino. Ele era extremamente gentil e prestativo — quando não estava tentando, na surdina, mandar mensagens para a namorada pelo celular —, mas não era a mais brilhante das mentes.
— De qualquer jeito, — continuou — como estava dizendo, não leve para o lado pessoal. Ava é ótima, mas desconfiada. O primeiro mês que passei aqui, sentia ela me olhando por sobre o ombro o tempo todo, como se estivesse esperando que eu tivesse algum segredo obscuro que explodiria a qualquer momento. Por um tempo acho que ela realmente pensou que eu fosse sair correndo vestido de Batman ou algo do tipo — enquanto recordava, de novo aquele tom pensativo.
— Não acho que Ava acredite que você seja o Batman, Bruce. Nem mesmo acho que ela imagine que seu nome seja em homenagem a ele.
Ele piscou os olhos castanhos.
— Por que não? — franzindo o cenho, confuso. — Você sabe que é por causa dele.
Senti meus olhos se arregalarem levemente.
— Sério?
— Sim — assentiu. — Meu pais adoram a D.C. Meu irmão se chama Arthur.
Sabia que ele esperava algum tipo de reação, mas não conseguia ligar os pontos e entender porque o nome deveria significar alguma coisa.
— Aquaman! — exclamou, incrédulo, depois de alguns segundos. — Arthur Curry. Aquaman!
— Ah, sim. Sim, sim. Sei.
— Bem legal, certo? — felizmente não precisei responder antes que ele continuasse. — Exceto que eu gosto mesmo é da Marvel. Preferia chamar Tony, ou talvez Loki.
— Com certeza essa foi a segunda opção dos seus pais — murmurei, condescendente, voltando ao trabalho. — Loki. Definitivamente a segunda opção.
— Você acha mesmo?
Revirando os olhos, abaixei-me para colocar a bandeja recém-organizada de volta para dentro da vitrine. E, por sorte, fui poupada de responder aquela pergunta quando o som da porta se abrindo interrompeu nossa conversa e Bruce foi se dedicar ao cliente.
Apesar do desvio que tivemos no tema, o começo foi bastante proveitoso. Agora estava um pouco mais aliviada. Ao menos o problema não era comigo. E, se seguisse o padrão, só tinha mais dois dias para passar no teste “um mês” de confiança. Só precisaria aguentar mais alguns dias de olhares gelados e palavras cortantes.
Decidida a esquecer o problema, entretanto, voltei ao caderno de pedidos que estava conferindo antes de Appleby resolver chamar minha atenção. Entre os garranchos que Bruce produzia quando era aquele que atendia o telefone ou abria o e-mail, e as anotações apressadas que Avalon deixava ao preparar os pedidos, sentia-me uma tradutora de hieróglifos ao organizar e precificar tudo. Felizmente números eram algo que vinha fácil para mim, então não se tratava de uma tarefa impossível. Estava concentrada, a mão direita na testa enquanto fazia algumas contas à mão mesmo, em um papel qualquer que encontrara, quando ouvi:
— Com licença?
Levantando o olhar, encontrei um rosto amável e conhecido.
— Bom dia, senhora Matthews — sorri, afastando para o lado o caderno, os papéis e as canetas que usava. — Como posso ajudá-la hoje?
A idosa sorriu de volta, apertando o casaco mais contra si mesma. Ela era tão adorável, sempre usando um conjunto de saia longa e casaco da mesma cor — isso sem contar a pequena bolsa quadrada, também combinando. Confesso que toda vez que a via, lembrava-me da Rainha Elizabeth II.
— Oh, querida. Você parece tão cansada. Está tudo bem?
A genuína preocupação com que ela fazia aquela pergunta todos os dias que nos víamos era tocante.
— Estou sim, senhora Matthews. Obrigada por perguntar. Acho que voltar à rotina de trabalho sugou um pouco minhas energias.
— Sabe, querida, — murmurou, muito suavemente — uma mulher recém-casada deveria ter um brilho no rosto, e esse brilho não devia ser de cansaço — acrescentou com um tom preocupado.
Torcia para ser os olhos da experiência e da sabedoria que a fazia ver através de mim tão claramente. Não podia me dar ao luxo de ter outras pessoas percebendo que as coisas entre meu marido e eu não eram… normais.
Sorrindo com os lábios fechados, preferi desviar da resposta, perguntando, ao invés:
— A senhora vai querer o de sempre?
— Sim, querida. Dois cookies de avelã e um chocolate quente — assentiu. — Vou me sentar perto da lareira. O dia hoje está frio, não é mesmo?
— Bastante, senhora Matthews, bastante.
— O frio é triste, mas sempre podemos nos aquecer.
E, com aquelas palavras que claramente queriam dizer mais do que aparentavam, a idosa se afastou para a mesa que adorava. Não pude evitar um suspiro triste ao me abaixar para arrumar seu pedido. De repente sentia mais frio do que o normal.
.
Dessa vez dei um pulinho no lugar.
— De novo, Bruce? Que coisa mais chata! — rangi os dentes.
— Desculpe, desculpe — ergueu as mãos espalmada, genuinamente arrependido. — É que Ava nunca se assusta. Ela sempre sabe quando estou chegando, então me esqueço que você não consegue fazer isso.
— Ok. Certo — murmurei enquanto colocava o prato com os cookies sobre a mesa, voltando-me depois à máquina para fazer chocolate quente. — Mas o que você queria me dizer?
— Você acha que hoje vamos sair mais cedo?
E lá estava de novo a mente brilhante de meu jovem amigo.
— Não, Bruce. Fechamos às seis em ponto se não tiver nenhum cliente aqui dentro, caso contrário, estendemos até o último sair.
— Sério? — sua expressão se mostrou absolutamente inconsolável — Mas hoje é sábado!
— Estou bem ciente de que dia é hoje, Bruce — ri.
— Stella disse que sempre fechamos mais cedo no sábado — só faltou bater o pé no chão para demonstrar seu descontentamento.
— Acho que ela disse isso só para que você trocasse de turno com ela.
— Oh! Hey, hey! — franzia o cenho, indignado. — Não acredito que Ella fez isso comigo!
— É para isso que servem os amigos — com o prato e a caneca em mãos, encolhi os ombros, andando alguns passos de costas e empurrando a porta do balcão com o pé. — Agora, que tal atender ao casal que acabou de se sentar? Assim o dia passa mais rápido.
— Mas são apenas oito e meia da manhã!
Sacudindo a cabeça, divertida com todo seu inconformismo tão cedo, deixei-o sozinho para levar o pedido da senhora Matthews. Não querendo interromper sua leitura, coloquei as coisas mais para o lado da pequena mesa redonda e silenciosamente já me retirava. Tinha acabado de anotar o pedido de duas clientes que se acomodaram havia alguns minutos quando a porta de abriu mais uma vez. Girando sobre os calcanhares, fiquei bem surpresa ao encontrar meu marido — surpresa ao ponto de demorar para perceber que atrás dele, de mãos-dadas, vinham Knight e Ravenna. Eles se separaram, e Duke foi direto para uma das mesas perto da janela enquanto Ravenna seguia em direção ao balcão. Notei esses fatos, entretanto, em segundo plano, pois meu cérebro estava focado no fato de que estava vindo direto para mim.
— Hey — sussurrei.
— Oi. Tudo bem?
Assenti, um sorriso pequeno nos lábios.
— O que faz por aqui à essa hora?
Não queria parecer intrometida, mas minha curiosidade é maior. Ele olhou por cima do ombro rapidamente e logo me encarou de novo.
— Duke tinha algumas anotações sobre possíveis candidatos que podemos contratar. Caixas de arquivos, na verdade.
Franzindo o cenho, tombei a cabeça para o lado, tentando lembrar se Knight não tinha carro. Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele acrescentou:
— Ele poderia levar tudo sozinho, mas faz uns dias que ele tem agido de maneira estranha, meio avoado, então Chase e eu decidimos que é melhor não deixar ele dirigir. Até porque o carro dele atinge 150 km/h em três segundos, ou coisa parecida.
— Ah, sim. Entendi. E você vai querer alguma coisa? — apontei para trás e para o balcão.
— Só um café.
Assentindo, caminhei para buscar os novos pedidos, passando por Reid, que estava voltando. Mesmo no meio segundo em que nos encaramos, pude perceber que havia alguma coisa errada. O sorriso que me deu foi forçado e não senti aqueles estalinhos de energia que ela parecia emanar, como fogos de artifício ambulantes, sempre que ela estava por perto. Avalon estava atrás do balcão, provavelmente abandonando seu posto na sala de trás para trocar algumas palavras com Rave.
Desconectando a jarra de vidro da cafeteira, servi uma caneca, dispensando açúcar e adoçantes, pois já havia percebido que gostava dele preto. Ava colocou duas outras canecas, que identifiquei como chá de maçã e chocolate quente com extra chantilly, na minha frente sobre o balcão.
— Poderia levar esses dois também?
— Claro.
Ajeitei tudo sobre a bandeja, mas logo já os descarregava sobre a mesa.
. — Knight assentiu e se virou para mim apenas o necessário para o cumprimento, logo voltando a encarar a paisagem para fora da janela como fazia um segundo antes.
Ravenna, por sua vez, observou o namorado com o cenho franzido e, parecendo não encontrar a resposta que procurava, soltou um suspiro pesado, e só então levantou a cabeça para me dar um sorriso triste.
— Oi, .
— Rave. Tudo bem?
Minha preocupação era genuína, e não apenas porque ela foi uma das únicas pessoas que se preocupou comigo, mas porque Ravenna era aquele tipo de pessoa que atraía outras. Alegre como uma manhã de sol, era fácil perceber quando havia alguma coisa errada. E, verdade seja dita, observar seus olhos violeta ficarem opacos era deprimente.
— O qu-Ah sim. Sim, sim. Tudo ótimo — forçou um sorriso, mas ainda pude ver como ela estava distante e o jeito como seus olhos passaram por Duke rapidamente.
Troquei um olhar com , mas, apesar de claramente também perceber o clima estranho, ele parecia tão confuso quanto eu. Impotente, não pude fazer nada além de deixar a bebida e me retirar em silêncio.
Passei todo o curto período de tempo em que eles continuaram na mesa lançando olhares furtivos naquela direção, tentando adivinhar como as coisas estavam evoluindo, mas não havia qualquer interação. Knight continuava olhando pela janela, Rave olhava para o chá com a típica expressão derrotada de quem estava sentindo pena de si mesma, e — alheio a tudo, ou apenas tentando fugir do clima pesado — digitava freneticamente no celular. Com parte da atenção sobre os três, só percebi que a senhora Matthews estava na minha frente de novo quando quase trombei na delicada senhora em meu caminho de volta para entregar a anotação do pedido à Bruce.
Senhora Matthews! Que susto. Desculpe — apressei-me. — Não vi a senhora aqui.
— Ah, sim. Sim — assentiu, sorrindo cúmplice. — Eu percebi que você está com a cabeça em outro lugar. Em outra pessoa — inclinou-se um pouco para o lado para olhar atrás de mim.
Oh-ow.
Tinha uma noção bastante apurada de para onde aquela conversa estava indo...
— Quem é aquele formoso jovem que você observa com tanta atenção?
— Oh. Hmm… É — limpei a garganta. — Meu marido.
, querida! Mas ele é tão bonito! — colocou a mão ao lado do queixo, o sorriso aumentando ainda mais.
Como uma adolescente, senti minhas bochechas esquentarem.
Sim, ele é. O homem mais bonito que já tinha visto.
Quase de maneira automática, olhei rápido por cima do ombro para onde ele estava. Só então respondi um tímido:
— Obrigada.
— Vocês vão fazer bebês tão bonitos.
Não pude evitar arregalar os olhos com seu gritinho animado, e, verdade seja dita, também, graças às imagens que aquilo trouxe à minha mente. Imagens impróprias para aquele horário, imagens impróprias para o relacionamento que tínhamos.
— Oh. Hmmm… obrigada? A senhora vai levar uma fatia de bolo para o senhor Matthews? — completei, não sabendo o que dizer.
— Ah, sim, sim. Claro — assentiu, não prestando muita atenção. — Vou querer de limão desta vez. E também um desses cupcakes de laranja. Estão tão bonitos.
— Vou buscar.
Aproveitando a oportunidade, saí rápido dali e, tão rápido quanto, embalei as guloseimas e marquei tudo em um papel para fazer a conta do valor total. Nesse meio tempo, a adorável senhora se aproximou do balcão, ainda sorrindo. Depois de entregar a embalagem e receber o valor, preparei três cappuccinos para viagem para outro cliente e só então tive uma pequena pausa.
— Saara?
Virando a cabeça, encontrei do outro lado do balcão. Como resposta, dei-lhe um sorriso.
— Aqui — passou uma nota de vinte dólares. — Pode cobrar os três, por favor.
Bati na máquina o chá de Ravenna e o chocolate quente de Knight, e lhe devolvi o troco. Ele olhou para baixo e franziu o cenho.
— Desconto de funcionários — encolhi os ombros.
Ele abriu um pequeno sorriso de lado.
— Estamos indo. Era Chase quem deveria trazer Duke hoje, mas tenho certeza que ele vai conseguir me manipular para que eu faça a tarefa dele. De novo — sacudiu a cabeça. — Então queria saber se você quer carona?
— Adoraria.
Era uma interação pequena e não tinha nenhum significado maior, mas a ideia de passar tempo com ele fazia meu estômago revirar de um jeito gostoso.
— Ótimo — assentiu. — Por volta das seis e meia?
— Perfeito.
Ele me deu mais um daqueles pequenos sorrisos fechados e já se afastava quando olhei por sobre seu ombro e vi que a senhora Matthews ainda estava aí, perto da porta, ainda nos encarando. Meus dedos se fecharam ao redor de seu pulso.
— Que foi?
Sinceramente, também não sabia ao certo o que estava fazendo, porém, meu instinto estava dizendo que um movimento errado — ou nenhum movimento — e teria que dar muitas explicações.
— Eu… — engoli em seco. — Tem uma cliente aqui que está sempre me perguntando sobre nosso casamento. Ela é uma senhora adorável, mas… não sei. Às vezes parece que ela sabe.
Entendimento passou por seu rosto, mas ele não se mexeu.
— Ela está perto da porta.
Dessa vez foi determinação que faiscou em seus olhos. Inclinando-se para frente, ele encostou os lábios nos meus. Foi rápido. Menos de um segundo, mas senti como se o chão estivesse ondulando sob meus pés. Era a primeira vez que ele me tocava daquele jeito e, ainda que não fosse na situação ideal, ainda pegaria o que podia ter.
— Até mais tarde — murmurou, pensativo, antes de ir embora.
Não lembro se respondi ou não, não lembro de ter conferido se a senhora Matthews viu o que queria ver, não lembro do que se passou no resto do dia. Só lembro do jeito como meus lábios formigaram por horas e da dorzinha gostosa que meu coração sustentou — feliz pelo que aconteceu, mas com saudade do que poderia ser.

xxx

Estava fechando o zíper da bolsa quando batidinhas no vidro da porta me fizeram levantar os olhos. Diferente do que pensei, entretanto, não se tratava de meu marido, mas sim de Rave. Recriminando meu emocional bobo, que tinha se alvoroçado por nada, caminhei até a entrada e destranquei a fechadura para que Reid entrasse, imediatamente voltando a passar a chave. Avalon comeria meu fígado se sequer imaginasse que deixei a confeitaria aberta naquele horário.
— Boa noite, — passou a mão pelo rosto, parecendo absolutamente exausta. — Ava está aqui?
— Ela subiu para buscar alguma coisa, mas já deve estar descendo para terminar de conferir o caixa.
— Ah, ok — pude literalmente ver seus ombros tombarem para frente em sinal de derrota. — Vou esperar por aqui — deixou a bola sobre o balcão, ao lado da minha, e se sentou em um dos bancos altos.
— Claro — assenti. — Posso ajudar em algo?
— Não, não… é só… — pareceu pensar um pouco e soltou um suspiro antes de continuar. — Duke está tão estranho já faz alguns dias. Mais quieto do que o normal. Está me evitando… parece perdido dentro da própria cabeça. E ele não me conta nada. Não sei se aconteceu alguma coisa, ou se eu fiz alguma coisa. Estou preocupada. Essa incerteza é horrível — passou a mão repetidas vezes pelo braço, como se buscasse se aquecer.
Não pude fazer nada além de escutá-la. Queria dizer que entendia o que ela estava passando, que sabia como não saber era pior do que qualquer outra coisa, mas seria ineficaz. Somar reclamações não resultaria em uma solução. Além disso, ela não parecia estar precisando daquele tipo de solidariedade, mas sim de conforto, então coloquei a mão em seu ombro e falei:
— Tenho certeza de que é alguma coisa passageira.
Ela soltou mais um suspiro e continuou em silêncio. Felizmente Ava escolheu aquele momento para voltar.
, achei aquele caderno de que est— ela parou de andar e de falar assim que deu três passos depois da porta que separava as escadas para seu apartamento e o salão da confeitaria, e seu olhar pousou na amiga. — Hey — aproximou-se rapidamente. — O que aconteceu? — olhou de Ravenna para mim e de novo para a amiga.
Encolhi os ombros, não era um assunto meu para contar. Além disso, não tinha certeza se as duas me queriam ali enquanto conversavam. Felizmente novas batidas na porta indicaram que meu marido tinha chegado. Levantei a mão espalmada para ele, indicando que esperasse um momento.
— Rave, tenho certeza de que deve ser alguma coisa relacionada a Thermophylae. Com a empresa começando, eles devem estar tendo alguns imprevistos. Logo passa.
Ela levantou os olhos violeta, que continuavam opacos, e me deu um sorriso triste. Com um suspiro inaudível, chateada por não poder fazer mais nada, despedi-me:
— Rave, vou deixar vocês conversarem. Se eu puder ajudar em qualquer coisa, por favor, não hesite em ligar.
Balancei a cabeça para Avalon, que, ainda passando a mão nas costas de Reid de maneira reconfortante, respondeu do mesmo jeito. Peguei minha bolsa sobre o balcão e saí da confeitaria.
— Oi — murmurei, reprimindo um arrepio quando o vento passou por mim.
— Olá. — olhou por cima de meu ombro, franzindo o cenho. — O que aconteceu com Ravenna? Ela está bem?
Ouvi os cliques das fechaduras e me segurei para não virar e também olhar para o que ele via. Sabendo que ela precisava de privacidade, entretanto, dei alguns passos para a rua, afastando-me da confeitaria.
— Não sei. Eu… — virei-me para ficar de frente para ele. — , você acha que Duke está estranho?
Surpreso, ele jogou a cabeça para trás.
— Estranho? Duke? De onde essa pergunta está vindo?
Mordi o lábio inferior, indecisa entre a lealdade que devia ao Girl Code, e a que devia ao meu marido. Decidindo, soltei um suspiro:
— Rave acha que Duke está estranho. Eu só… só queria ajudar. Não sei. Então… você sabe se..?
Ele passou a mão pelo rosto.
— Não sei o que está acontecendo, Saara. Duke está realmente estranho esses dias, mas ele nunca foi de conversar muito. Nunca deu qualquer tipo de satisfação. Mas… tenho certeza que eles vão resolver o que quer que tenha acontecido. Knight é louco por ela. Então acho que nós dois não devemos nos envolver nisso.
Assenti. Ele tinha razão. Não era justo que lhe questionasse sobre seu irmão, assim como também não seria apreciável que repassasse informações que por acaso Reid me desse.
— Você está certo. Melhor… — parei de falar, outra vez tremendo pelo frio. — Melhor não nos metermos.
— Você está bem?
— Sim, sim. É só um pouco de frio.
Sem dizer nada, sem nem mesmo hesitar, como se fosse uma ocorrência comum, estendeu o braço e o pousou sobre meu ombro, puxando-me para o seu lado. Pasma, troquei as pernas ao colidir com seu peito forte, mas descobri imediatamente que ali era o lugar mais confortável que já tinha experimentado na vida. Complacente, passei o braço ao redor de sua cintura, imediatamente mais aquecida.
— Melhor?
Levantei a cabeça para encarar sua expressão preocupada.
— Perfeito — sussurrei, aconchegando-me ainda mais contra ele, o mais discretamente possível respirando sua colônia que era a mistura perfeita entre o cheiro de couro e pitadas de limão.
Parecendo completamente alheio ao jeito como, com um simples gesto, tinha outra vez tirado meu mundo do eixo, virou-se para a direita e me puxou junto. Acompanhando seu passo, deixei que me guiasse, pela calçada.
— Estacionei o carro em frente ao prédio de Knight.
— Dylan conseguiu te enganar para trazê-lo de volta?
Assentiu.
— O filho da mãe sempre consegue nos enganar para fazermos o serviço dele. Quando estávamos na base em… bom… o lugar não vem ao caso, havia um esquema rígido de tarefas. Era por rodízio, assim ninguém ficava preso à serviço de lavanderia. Chase nunca, nem uma única vez, ficou com essa tarefa. Ele sempre conseguia convencer alguém que era a vez dessa pessoa. Fez isso comigo duas vezes. Até Duke caiu nessa. E o pior é que a escala estava impressa é pregada na parede
Apesar do discurso meio indignado, podia ouvir a admiração em sua voz, e também traços de diversão. Era bastante claro que meu marido adorava o amigo, ainda que se metesse em ciladas por causa dele.
— Esperto — comentei, sorrindo mais pelo momento gostoso em que estávamos do que pela história em si.
— Bastante esperto.
Fiquei verdadeiramente triste quando chegamos ao carro e precisamos nos separar. Surpreendentemente, entretanto, não se retraiu em si mesmo como costumava fazer sempre que saíamos da nossa pequena “normalidade". O clima continuou leve durante todo o caminho no carro e, pela primeira vez, quando nos despedimos para ir à cama, não senti como se tivesse que recomeçar do zero amanhã de novo.
Tinham sido dados pequenos passos, mas percorridos distâncias enormes. Um beijo rápido, um abraço e conversas leves e pela primeira vez não me senti uma farsa.
Na manhã seguinte, porém, minhas emoções ficaram em suspenso quando fui nas pontas dos pés até a cozinha para começar o café. Fazia tudo o mais silencioso possível, mas, como sempre, levou apenas alguns segundos de movimentação para que meu marido levantasse. Sempre me sentia meio culpada por acordá-lo, mas não importava o quão silenciosa fosse, bastava abrir a geladeira e ele já acordava. Virando as panquecas, prendi o fôlego enquanto esperava.
— Bom dia — ouvi a porta de um armário se abrir e depois fechar. — Estamos ficando sem xarope de bordo. Vou comprar quando sair do trabalho. Você quer alguma coisa?
Das outras vezes que precisamos comprar mantimentos, ele também tinha me perguntado o que queria, mas sempre de maneira formal, como se estivesse executando uma tarefa da qual não podia se livrar. Nunca daquele jeito tão casual e agradável. Engolindo o “não, obrigada” automático que já estava na ponta da língua, respondi:
— Sorvete de pistache? — olhei por sobre o ombro, tirando a última de uma série de panquecas.
— Sorvete de pistache? — sorriu, divertido. — Ok. Sorvete de pistache então.
Apaguei o fogo e deixei a espátula sobre a pia. Colocando o prato cheio de panquecas ao lado do prato de bacon, sentei-me. pegou o potente mel e a jarra de suco antes de se juntar a mim.
— E como estão os novos contratados?
Tentando iniciar uma conversa, joguei a pequena informação sobre a qual ele tinha comentado de maneira passageira outro dia. Terminou de mastigar devagar antes de responder:
— Eles estão se adaptando. No próximo mês um grupo embarca para o Texas para nosso primeiro contrato. As coisas estão andando rápido. Se tudo der certo, poderemos contratar mais algumas pessoas, o que é ótimo.
Sorrindo, assenti, feliz por eles.
— E na confeitaria, como vão se coisas?
— Bom… — ponderei por um segundo. — Minha chefe não está me vigiando como um falcão a cada segundo do dia, apenas esporadicamente a cada duas horas então, é… acho que estou fazendo progresso — ri.
— Tão controladora assim?
— Não é questão de ser controladora, é só… — fui compelida a defendê-la. — Acho que é difícil para ela confiar em outras pessoas, principalmente com a confeitaria que é o sonho da sua vida.
— É. Talvez você tenha razão. Consigo entender — tomou um gole de suco. — Mas se ela estiver enchendo seu saco, você sabe que não precisa ficar lá, certo?
— Eu sei. Obrigada.
— Conheço muitas pessoas, tenho certeza que poderíamos encontrar algum lugar legal para você trabalhar. Não precisa se submeter a nada.
Sua preocupação, com cenho franzido e palavras sérias, era incrivelmente adorável, então juntei coragem e cobri sua mão que estava sobre a mesa com a minha.
— Está tudo bem. Eu gosto de lá. As coisas estão caminhando bem agora.
Ainda não completamente convencido, ele assentiu. Abandonando o assunto, mudando para algo mais doméstico como o horário do lixo e se tínhamos lembrado de separar a reciclagem. Ao sair para o trabalho e deixar meu marido em casa, uma vez que ele só precisava sair dentro de duas horas, estava contente.
Contente de verdade.
Tão contente que me fugiu completamente o problema de Ravenna até Ava destrancar a porta da confeitaria para mim. Sua expressão preocupada colocou o sentimento gostoso em segundo plano enquanto eu também me preocupava.
— Rave deu notícias? — perguntei ao passar por ela para ir até a parte de trás para buscar a bandeja de canecas.
— Não — deixou de trancar a porta, pois já era quase horário de abrir, e se juntou a mim atrás do balcão, pegando o saco de confeiteiro e voltando a colocar coberturas sobre os cupcakes. — Mas ela disse que passaria aqui hoje cedo para contar se houvesse algo de novo.
Como se a menção ao seu nome a atraísse, a porta de entrada se abriu bruscamente e, como um furacão, Ravenna entrou a passos rápidos, só parando ao estar no meio do salão. Ela se balançava sobre os próprios pés como se não pudesse conter a emoção, apertando firme a bolsa de mão na frente do corpo. Franzindo o cenho, sabia que Appleby deveria estar tão confusa quanto eu, enquanto nós duas, em silêncio, assistíamos Reid. De repente, com um sorriso enorme, faiscando todos os dentes, ela levantou a mão esquerda e soltou um gritinho excitado e agudo de estourar o tímpano:
— EU VOU ME CASAR!



Capítulo Seis

— Filhos da puta, eu vou casar!
A voz de Duke retumbou na sala de conferência, fazendo com que Chase e eu levantássemos a cabeça de supetão. Não que não tivéssemos ouvido desde que ele entrou no corredor, a surpresa veio por causa da notícia.
— Casar? — Chase virou a cadeira para encará-lo enquanto eu continuava um tanto quanto embasbacado, apenas encarando meu amigo, que mantinha os braços abertos e um sorriso enorme no rosto.
— Ravenna aceitou se casar comigo! — jogou-se na cadeira da cabeceira da mesa. — Ravenna aceitou se casar comigo — repetiu como se não acreditasse.
Dylan e eu trocamos um olhar como que para confirmarmos que ambos estávamos presenciando isso, então ficamos em pé quase que ao mesmo tempo e do lado da cadeira de Knight. Enquanto Chase batia repetidas vezes nas costas de Duke, eu segurei em seus ombros e nós dois o sacudimos de um lado para o outro. Sua gargalhada espelhava a nossa.
— Casar! Duke Knight casado!
— Quem diria que nosso capitão arrumaria uma patroa para aguentar todo esse mau-humor.
— Chega, chega — nos empurrou para longe. — Seus imbecis — sacudiu a cabeça, rindo, enquanto voltávamos a nos sentar.
— Você comprou um anel? — Chase, sempre muito curioso, não demorou a se intrometer. — Por favor, me diga que você não se esqueceu de comprar um anel — virou-se para mim. — Lembra aquela vez que ele se esqueceu de comprar um presente de Natal para a Rave?
— Imbecil — assenti solenemente.
— Mas eu aprendi, babaca. Comprei o do ano passado com meses de antecedência.
— E não fez mais que a porra da sua obrigação. — Dylan sorriu.
— Você vai calar a boca e me deixar responder a sua pergunta ou tem mais algum comentário engraçadinho para fazer?
Chase levantou as mãos espalmadas em sinal de rendimento, mas seu sorriso de canto de lábios dizia claramente que ele ainda estava considerando a questão.
— Eu dei o anel da minha mãe.
Aquilo limpou o ar de toda brincadeira que ainda pudesse existir.
— Sua mãe?
Tive o cuidado de manter minha preocupação disfarçada. Duke não gostava que tratássemos o assunto de sua família com luvas de seda, mas sabíamos muito bem que era tabu. E a questão era ainda mais delicada quando envolvia a sra. Knight.
— Ela gostava do anel de noivado que o velho deu a ela — encarava a mesa a sua frente com um olhar perdido. — Quando ela… — limpou a garganta. — Quero dizer, ela me fez prometer que um dia daria o anel a mulher com quem quisesse me casar. Nunca pensei que realmente faria isso algum dia.
Duke certamente parecia estar falando mais consigo mesmo e, talvez por isso, eu não soubesse ao certo o que responder. Felizmente a boca grande de Dylan tinha suas vantagens.
— Menos mal então. Caso contrário, pobre Ravenna. Lembra aquela vez que ele queria comprar aquele terno branco? — de novo olhou para mim.
— Nossa — sacudi a cabeça, forçando o sorriso mais sincero possível e entrando naquela história para distraí-lo um pouco. — Terrível. Você não vai tentar usar um terno branco no seu casamento, não é mesmo, Duke Boy?
Knight revirou os olhos, mas dava para ver que a postura já não era tão defensiva.
— O pior foi a gravata azul para completar. Se alguém te desse um microfone, você podia subir no primeiro navio que passasse e começar a cantar no palco.
Dessa vez eu sorri de verdade. Imaginar Duke Knight, em um palco, cantando, era um exercício para mente — afinal era algo tão provável quanto encontrar um urso polar dançando tango em Miami Beach —, mas o resultado era terrivelmente engraçado.
— Ele com certeza iria cantar Twist and Shout! — completei.
— Vocês são uns merdinhas — falou sério, mas havia diversão ali também. — Resmungando porque estão com inveja porque eu tenho uma mulher incrível que vai carregar meu nome daqui alguns meses — relaxou as costas no encosto da cadeira e cruzou os dedos atrás da cabeça, sorrindo muito satisfeito consigo mesmo.
— Isso não faz nem sentido. Puppy é casado — apontou para mim.
— Exato. Eu tenho uma mulher incrível que carrega meu nome — falei, calmo. — O único que está com inveja é o Chase.
— Hey!
— Isso faz sentido.
— Hey! Pois saibam, imbecis, que não tenho nenhuma intenção de me casar. Não quero fazer isso com a humanidade!
— Olha só, Puppy. Chase finalmente conseguiu pensar em alguém além dele e resolveu não se reproduzir, a fim de poupar a humanidade.
— Não é nada disso, babaca — apressou-se em emendar, ainda que soubesse que nós sabíamos o que ele quis dizer. — Estou dizendo que não posso decepcionar as mulheres desse mundo maravilhoso ao privá-las da possibilidade da minha companhia.
— Você sabe que não é realmente um presente ao Universo, certo?
— Depende do ponto de vista, Puppy — mostrou os dentes muito brancos em um daqueles sorrisos folgados.
Limitei-me a revirar os olhos.
— Vamos sair para comemorar! Cervejas no The Hook’s! — continuou. — Nós pagamos! Certo, Puppy?
— Sim. Nós pagamos — assenti. — Vai ser um prazer.
Duke repuxou a boca em um pequeno sorriso e aquilo foi confirmação suficiente. Fiz uma nota mental para me lembrar de mandar uma mensagem a avisando que iria me atrasar.
— Agora que vocês já fofocaram o bastante, no que estavam trabalhando?
Empurrei para ele os documentos que estavam na minha frente.
— Nós temos um problema.
Duke franziu o cenho.
— Problema?
— Aparentemente o contador que Dylan indicou não é grandes coisas. Fomos notificados do não-pagamento de três tributos devidos no mês passado.
— Notificados? Pelo Fisco?
— Claro que foi pelo Fisco, Knight. Quem você achou que seria, a Oprah?
Duke virou a cabeça para lançar um olhar cortante a Chase.
— Não leve para o lado pessoal — intervim. — Ele entra neste humor toda vez que alguém menciona o tal contador.
— Você também não estaria saltitando se o cara que você indicou tivesse se esquecido dos mais básicos de seus serviços. Se ele esqueceu isso, imagina a confusão que os pagamentos devem estar. Isso é um pesadelo. Vamos precisar ligar conferir cada depósito.
— Você acha que ele estava nos roubando? — Knight franziu o cenho.
— Não — sacudiu a cabeça. — Ele é só incompetente mesmo. Não acredito que estivesse propositalmente tentando nos ferrar — virou-se para mim com um olhar acusador. — A culpa é toda sua, Puppy.
— O quê? Minha? — repeti, incrédulo.
— Claro que é sua. É você quem conhece todo mundo. Não é possível que não conheça um contador. Se tivesse arrumado alguém, eu não teria que ter me envolvido e agora não estaríamos com duas multas exorbitantes.
— Alguém mijou no seu café, Chase? Deixa de ser exagerado. As multas são bem razoáveis e não vão nem arranhar nosso capital.
— De qualquer jeito, a culpa é sua.
— Ora, seu merd-
— Calem a boca vocês dois — Duke grunhiu. — Parecem duas crianças. Crianças irritantes — respirou fundo. — Agora… , você não consegue um contador novo?
— Como eu expliquei a Chase meses atrás, — depois de falar essa parte de maneira seca e encarando este meu amigo, virei-me para Duke, — conheço alguns, mas todos eles estão sobrecarregados. Posso cobrar um favor e pedir para eles nos encaixarem por esses meses, ao menos para resolver essa questão mais iminente. Mas vamos precisar de alguém de modo permanente.
— Certo — assentiu. — Você fale com quem quer que seja então. Isso vai nos dar algum tempo até contratarmos um novo contador. Chase, você fica encarregado de reunir os contatos dos contratados que foram pagos segundo instruções do tal contador. Não podemos correr o risco de alguém não receber o combinado. Vocês sabem que reputação é tudo nessa linha de negócios. Mais alguma coisa?
— Precisamos de um assistente.
Knight contorceu a boca em desagrado, mas depois de alguns segundos, rendeu-se:
— Tudo bem. Vou falar com Rave. Ela sempre conhece pelo menos cinco universitários que precisam de um trabalho por meio-período.
— Parece bom — concordei, então, só para irritar meu amigo, acrescentei. — Assim Chase pode voltar a se preocupar em colar fotos no seu quadro branco — para agravar um pouquinho, emendei um sorriso condescendente.
Verdade seja dita, todos naquela sala sabiam exatamente que Dylan pensava melhor visualizando os problemas e era por isso que ele organizava as coisas em um quadro, onde criava suas estratégias geniais. Francamente brilhantes, de verdade. Fomos salvos inúmeras vezes pelos estratagemas dele, mas… também era verdadeiro que não gostava nem um pouco de me dizerem que eu não estava fazendo meu trabalho. Então, sim, eu pegava no pé dele de vez enquanto.
Colar fotos? Eu vou é colar seus dentes na sua testa e-
Acho — Knight elevou o tom para interromper o rumo da conversa — que já terminamos por hoje.
Pretty Boy se levantou e saiu da sala apressado, mas não sem antes mandar o dedo do meio em minha direção ao passar pela porta enquanto Duke estava de costas para ele. Sacudindo a cabeça com um sorriso divertido, juntei os papéis em minha pasta e já estava me levantando quando Knight segurou a parte de trás de meu colarinho e me puxou de forma abrupta para sentar de novo.
— Que porra é essa?
— Senta aí, Puppy. Preciso te perguntar uma coisa.
Sem paciência, puxei o braço para o lado a fim de levar minha camisa para longe de sua mão.
— Que foi?
— Eu preciso que você veja uma coisa — tirou o celular do bolso e, com os antebraços apoiados na mesa, começou a passar o spolegares na tela. — Só tenho que achar a merda do aplicativo que… — franziu o cenho, falando consigo mesmo. — Por que eles não fazer essas porcarias mais fác-Achei! Olha — virou o celular para mim.
Ainda sem entender o que estava acontecendo, abaixei o olhar para a tela. Era a foto de uma caixa quadrada de veludo preto e dentro dela estava um enorme anel solitário de corte oval.
Levantei a atenção de volta para meu amigo, que agora estava claramente ansioso.
— E então?
— Então o quê?
— O que você acha?! — respondeu, exasperado, como se eu não estivesse sendo razoável ali.
— É bonito…?
— Você acha? Mesmo? É suficiente… é bom o suficiente?
Inspirei profundamente, olhando para o teto por um segundo.
— Duke, eu não estou conseguindo acompanhar. Por que você está me mostrando um anel de noivado?
— É o anel que dei a Ravenna. Eu… sempre quis dar o anel que foi de minha mãe, mas não quero que ela se decepcione, entende? — pela primeira vez na vida, vi Knight se embolar entre uma palavra e outra. — É que… bom, as mulheres dão muito importância para esse tipo de coisa. Rave disse que adorou, mas ela jamais me diria se não tivesse gostado — soltou a respiração pesadamente e depois passou a mão pelo cabelo, frustrado.
— Acho que Chase seria muito mais útil para esse tipo de opinião, Duke. Você sabe que ele parece ter algum tipo de radar sobre tudo que as mulheres gostam. É como se ele fosse a droga da versão real daquele filme do Mel Gibson.
— Mas você que é casado, entende dessas coisas.
.
É claro.
Deveria ter percebido. Ainda assim, entretanto, havia caminho direto para aquela armadilha.
— Eu… — engoli em seco. — É um ótimo anel, Duke. Tenho certeza de que é ótimo.
— Ótimo, ótimo! — com um sorriso enorme, guardou o celular e se levantou. — Valeu, Puppy.
E, rápido assim, ele se levantou e saiu da sala de conferência, não tendo nem ideia de que me fizera perceber um fato que me assombrou com mais força do que qualquer fantasma poderia ter reunido.

xxx

— Ned, cara, te devo uma — comentei assim que passei pela porta, realmente agradecido.
— Ah, não é nada, .
Sorrindo estendeu a mão e eu imediatamente retribui o cumprimento. Apesar de suas palavras, entretanto, sabia que sim, aquilo era, sim, muita coisa. Ned, vestindo suas calças sociais, sapatos bem polidos e terno de três peças, estava obviamente exausto. E, apesar de ter trabalhado o dia todo com os mil detalhes que a gerência de uma joalheria deveria ter, ele ainda havia atendido meu pedido para me receber depois do horário.
— O que você está procurando hoje? Talvez outro par de brincos? — andou até estar do outro lado de um dos elegantes balcões de vidro. — Ou um colar para combinar com os antigos? Tenho aqui u-
— Na verdade, estou procurando um anel de noivado — interrompi meu velho amigo abruptamente, afinal, ou falava aquela pequena frase de uma vez ou ela me faria engasgar e nunca passariam por minha boca.
Ned arregalou os olhos, levantando a atenção do balcão que examinava há um momento. Anos na profissão, entretanto, o impediram da indiscrição de fazer qualquer comentário.
— Claro. Nós temos alguns ótimos aqui. Você tem algo em mente? Nós temos algumas peças mais clássicas — gesticulou para os mostruários. — Ou algo mais moderno? Quantos quilates? Prefere um solitário ou algo encravado?
Minha cabeça estava girando. Clássico? Encravado? Que porra…?
Inspirei profundamente, empurrando de volta a onda aterrorizante de um sentimento muito parecido com pânico que estava crescendo em minha barriga em uma velocidade impressionante. Queria poder dizer que o embrulho em meu estômago se devia às cervejas que tomara há pouco com os rapazes, mas estaria mentindo. Sabia que a responsável, na verdade, era aquela sensação terrível de estar perdido… não ter ideia do que fazer.
Sentir-se impotente.
E não apenas porque não sabia escolher qual anel seria mais adequado, mas também pelo significado por de trás disso. Não saber qual anel de noivado queria dar a minha esposa — e só o fato de comprar essa joia à alguém que já carregava esse título já era basicamente ridículo, pois demonstrava o quão atrasado eu estava — era terrivelmente humilhante. Eu deveria saber se ela gostaria de um anel maior ou menor, se ela preferia um diamante clássico ou alguma outra pedra preciosa. São coisas que um marido ao menos teria alguma ideia sobre.
Soltei a respiração pesadamente. Precisava de ajuda, mas não podia assumir isso em voz alta, afinal, as explicações seriam mais difíceis do que o pedido de ajuda. Forçando os pensamentos frenéticos a se acalmarem — ou se acalmarem o máximo possível — voltei a prestar atenção em Ned:
— Você se importa se eu der uma olhada para ver se encontro algo?
Sempre profissional, de novo o joalheiro não comentou sobre meu comportamento estranho. Talvez noivos com expressões verdes de nervoso fosse algo mais comum do que poderia imaginar.
— Claro que não, . À vontade.
Com os joelhos meio bambos, em passos curtos e lentos, comecei a olhar os anéis. Não tinha nem ideia de como os caras que vão pedir as mulheres em casamento — de verdade — fazem. Era aterrorizante. E se ela jogasse o anel na minha cara? E se ela decidisse que eu estava sendo hipócrita? Ou que estava tentando lhe dar uma recordação permanente de algo que definitivamente não tínhamos?
Eu não… não queria que ela me odiasse.
Engolindo em seco pelo que parecia ser a trigésima vez naqueles poucos minutos, tentei me concentrar em mais algumas joias faiscantes, mas todas elas pareciam padecer do mesmo defeito: não eram o suficiente. Não conseguia imaginar minha esposa usando nenhum deles.
A parte da minha mente que sussurrava há horas todas as coisas que podiam dar errado naquela ideia agora me diziam que não achar o anel era algum tipo de sinal do cosmo para que eu abandonasse a ideia completamente — e, sendo sincero, estava me rendendo a esta perspectiva.
Em uma última tentativa, entretanto, notei, no canto de um dos mostruários, algo que finalmente chamou minha atenção.
— Ned? Este aqui.
— Boa escolha, — comentou ao colocar o anel escolhido sobre o balcão de vidro. — Diamante Canário. Cinco quilates. Muito especial. Este corte em formato quadricular e a pedra maior cercada por esses diamantes de meio quilate destacam ainda mais a beleza.
Imaginava que tudo que Ned estava dizendo fazia sentido em algum nível, porém não estava muito interessado. Não eram as especificações técnicas que chamaram minha atenção, mas sim o jeito como aquela cor me fazia lembrar as areias do deserto.
Os olhos de .
— Vou levar, Ned.
Retirei da carteira um cartão que mantinha praticamente escondido e entreguei a um empolgado joalheiro. Pela expressão em seu rosto, poderia imaginar que o valor não seria nem um pouco insignificante, mas queria o anel, e talvez comprar uma coisa boa com aquele dinheiro ruim desse algum equilíbrio à minha consciência. Tirar um bem de algo nascido podre. Parecia justo.
A eficiência de Ned também ficou clara na rapidez como que ele arrumou tudo para que eu fosse embora.
Dali até chegar em casa não demorou muito tempo. Da garagem até a porta de casa, todavia, parecia haver quilômetros.
A pequena caixa no bolso de meu casaco parecia pesar toneladas e talvez fosse isto que estivesse arrastando meus pés. Errei a chave na porta duas vezes antes de conseguir entrar. estava no sofá individual da sala, sentada sobre as pernas enquanto lia um livro que não consegui identificar de longe.
— Hey — levantou a cabeça e me deu um sorriso, colocando um marcador no livro e o deixando de lado.
— Boa noite.
— Como foi com os rapazes?
— Foi… foi interessante — completei depois de pensar por um momento. — Um tipo de comemoração excepcional. Falando nisso, você sabia que Duke havia feito o pedido?
Não pareceu surpresa quando falei que me atrasaria.
Não que ela reclamasse de qualquer coisa ou me cobrasse explicações, mas, na maioria das vezes, pedia, se possível, para que lhe desse notícias porque ela ficava preocupada — coisa que não fez dessa vez, dizendo apenas que me divertisse.
— Sabia — assentiu, um sorriso pequeno no canto dos lábios. — Ravenna foi à Appleby’s ontem para nos contar, — fez uma pequena pausa, — bom, na verdade, foi contar a Ava. Como eu estava lá, fiquei sabendo das boas novas também.
Franzi o cenho, um pouco confuso.
— Oh, oh…! — exclamou depois de alguns segundo de silêncio, então ergueu a mão direita espalmada e sacudiu a cabeça repetidas vezes. — Eu não te contei porque não queria tirar isso de Duke.
— Faz sentido — assenti. — Obrigado.
Em resposta, ganhei um sorriso. Provavelmente acreditando que a conversa tinha acabado, abriu o livro outra vez. Aquilo me deu um tempo para respirar fundo e passar as mãos suadas discretamente por minha calça jeans. Engolindo o nervosismo, voltei a falar:
— Saara? Eu…
Precisei parar por um segundo quando ela levantou cabeça para me encarar. estava tão relaxada, as bochechas meio coradas e um sorriso preguiçoso — de quem tinha todo o tempo do mundo para me ouvir — me faziam pensar em lareiras crepitando e noites de inverno. E isto, por certo, não me ajudava a manter a objetividade
— Digo, quando Duke me perguntou sobre o anel que deu à Rave, eu percebi que… percebi que nunca cheguei a lhe dar um.
— Me dar um? — tombou a cabeça para o lado, confusa.
Não encontrando as palavras certas e sabendo que o gesto seria autoexplicativo, tirei a caixinha de dentro do bolso e, meio hesitante, estendi à minha esposa. As linhas de expressão de seu rosto se acentuaram quando, incerta, ela pegou o presente em suas mãos. Tive o cuidado de manter a expressão inescrutável enquanto esperava que abrisse o presente — e estava indo muito bem até que depois de este fato se concretizar, seguir-se um silêncio prolongado.
Um silêncio constrangedor.
Abri e fechei as mãos em punhos alguma vezes, tentando aliviar a ansiedade.
Por que ela não dizia nada?
— Saara... — sacudi a cabeça. — , eu… você não gostou? Podemos comprar outro. Ou, se você não quiser, claro, não precisa usar. Eu só queri-
Parei de falar abruptamente ao vê-la levantar a cabeça para me encarar. E posso dizer com segurança que nunca me senti tão impotente como naquele momento, quando seus olhos de deserto olharam fundo no meu por toda uma eternidade para só então lágrimas grossas começarem a cair enquanto ela estourava em soluços pesados de cortar o coração.



Capítulo Sete

Sabia que queria me dizer alguma coisa quando permaneceu sentado em silêncio no sofá à minha frente encarando o nada com uma expressão vazia. Sabia que essa alguma coisa era importante porque a única outra vez que o tinha visto assim foi no dia em que me contou o que tinha acontecido com meu irmão e o que nós precisaríamos fazer. O que não esperava, todavia, era que ele me desse um presente.
Quando levantei a tampa da delicada caixa, senti meu cérebro parar de funcionar, entrando em pane para que eu não entendesse o que exatamente aquele anel significava. Foi a primeira reação que tive. Infelizmente, aquela autodefesa não durou muito. Quanto mais encarava o brilho da pedra amarela, mais o formigamento em meu corpo aumentava.
Vagamente percebi que não estava conseguindo respirar direito.
— Saara...
Não fosse recomeçar a falar, não sei quanto tempo teria permanecido naquele pequeno ataque de pânico.
, eu… você não gostou? Podemos comprar outro. Ou, se você não quiser, claro, não precisa usar. Eu só queri-
Sua boca mexia, mas não conseguia distinguir o sentido. Eu só… só…
Para meu mais absoluto terror, as emoções explodiram de uma vez na forma de lágrimas. E soluços. Por entre meus olhos embargados, pude ver o rosto de se contorcer em uma careta de agonia.
Tentei puxar o ar para dentro a fim de controlar as lágrimas, mas não houve efeito nenhum – senão, talvez, me fazer engasgar de maneira ridícula. Meu marido, provavelmente pensando que eu estava a segundos de precisar de uma ambulância e ajuda profissional, mudou de lugar, sentando-se no braço de meu sofá. Ele trouxe as mãos para perto de minhas costas e ombros algumas vezes apenas para recuar de novo, e imediatamente depois repetir o processo. Estava tão perdido quanto eu.
? , linda, você não precisa usar. Foi uma péssima ideia. Vou me livrar dele. Podemos jogar fora se você quiser — sua voz estava estrangulada em cada palavra, mas ao menos meu marido conseguiu se decidir por colocar a mão esquerda no meio de minhas costas, seu calor ultrapassou o pano fino de minha blusa e imediatamente me arrepiei. — Mas, por favor, pare de chorar. Eu não… não sei o que fazer quando você… Eu só… por favor.
Apesar dos nervos em frangalhos, dessa vez consegui compreender o que ele dizia. Preferia, contudo, não ter entendido, pois agora me sentia ainda pior.
— Eu só… — Senti seus dedos brincarem com a uma mecha de meu cabelo, em um gesto suave que claramente tinha a intenção de me acalmar. — ...pensei que você gostaria de um destes. Mesmo nosso casamento não sendo exatamente normal, não acho justo que você não pudesse ter e… ah, merda, eu estou não estou soando como um esnobe pomposo, estou?
Um anel de noivado. tinha me comprado um anel de noivado.
Depois de tudo o mais que ele tinha feito. Depois de cruzar o mundo, de sacrificar sua liberdade, de voluntariamente entrar em um esquema que poderia levá-lo à cadeia, de me acolher em sua casa, de me proporcionar a oportunidade de ter amigos e um emprego normal… depois de ter feito muito mais do que qualquer pessoa faria, ou deveria fazer, por uma estranha, ele ainda havia se preocupado em me comprar um anel de noivado.
— E juro que também não tenho qualquer pretensão de te impor alguma coisa… Merda! Você pode jogar o anel, e a caixa, na minha cara, mas só, por favor… por favor, pare de chorar. Eu estou preparado. Vamos lá.
Virando a cabeça para olhá-lo, tomei mais uma surpresa — em meio as muitas que pareciam estar ocorrendo naquela noite — ao encontrá-lo cerrando os olhos com força, os lábios também apertados enquanto ele realmente esperava que lhe agredisse fisicamente. A situação era tão inacreditável, que não pude deixar de soltar uma pequena risada.
— com a manga da blusa, limpei a lágrima que ainda escorria por minha bochecha. — Você não achou que eu realmente fosse te bater, não é?
Incerto, ele abriu um olho e só depois o outro.
— Não sei. Parecia justo.
— Não. Não parece justo. E esse anel, — engoli em seco, tentar normalizar minha voz, mas grata por ao menos ter parado de chorar, — também não é justo.
cerrou os olhos com pesar por um instante, mas antes que pudesse me explicar, ele já estava se desculpando mais uma vez:
— Você tem toda razão, Saara, quero dizer, — corrigiu-se imediatamente. — Não é justo que eu ache que… — passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Na verdade, sendo sincero, não sei o que achei, o que pensei. Só não queria te privar de mais isso. Sei que têm sido alguns meses difíceis.
parecia saber de muitas coisas, já o que eu sabia? Sabia que me sentia uma completa idiota, uma farsa aproveitadora ao ouvi-lo falar deste jeito.
O que eu não sabia? O que responder, o que pensar, como controlar a vontade de cair no choro outra vez. Definitivamente não sabia muitas coisas.
Tampouco sabia como em um instante tinha estado no momento mais desesperador da minha vida, e, no seguinte, conheci o cara mais incrível desse planeta. Tinha certeza de que não fiz nada espetacularmente impressionante para merecer aquilo, então o sentimento de ser uma aproveitadora continuava pesando meu estômago.
, nã-não é isso. Eu não estou preocupada comigo — a posição em que estávamos era um pouco incomum, tendo-o em outro nível de altura, uma vez que ele estava sentado no braço de meu sofá, mas podia olhar em seus olhos e também pareceu certo, quase automático, pousar a palma da mão em sua coxa. — Eu não queria que você tivesse que se preocupar com mais isso.
— Mais isso? — franziu o cenho. — Como assim? Eu não estou entendendo.
— Você já fez muita coisa, . Já fez mais do que o suficiente, mais do que poderia te pagar em duas vidas — odiava como minha voz soava pequenininha, assustada até para meus próprios ouvidos. — Não quero que você ache que tem mais alguma obrigação comigo…
— Saara, de que você está falando? O que eu fiz? Isto é por causa do anel? Você não tem que usá-lo, de verdade.
Precisei engolir em seco, minha garganta subitamente fechada. Com os olhos arregalados, relaxei os dedos que nem percebi que tinha contraído e, como consequência, afundado as unhas na coxa de meu marido. Meu orgulho, ainda meio abrasado, resistia, e me impediu de listar em voz alta as várias coisas que apareceram de imediato no topo de minha mente, mas precisava responder sua pergunta.
, você não precisa dizer em voz alta para que eu tenha noção das diversas concessões que teve que fazer para que eu estivesse aqui agora. Você não pediu para estarmos nesta situação. Não fosse — fiz uma pequena pausa, não sabendo ao certo como continuar, — o que aconteceu com Joe, você não estaria preso a mim e tendo sua liberdade cerceada, ou sua cama roubada — a última parte acrescentei tentando desanuviar um pouco o clima pesado que se instalou.
Foi como soprar a chama de uma vela. Com a mesma eficiência, a emoção que existia em seus olhos sumiu, e pude senti-lo se afastar de mim quilômetros, ainda que estivesse exatamente no mesmo lugar.
— Não! — não pude evitar o pequeno grito, tampouco o jeito como pressionei a palma da mão em sua perna na tentativa de fazê-lo voltar para mim. — Não, não, não. Eu não sei o que você entendeu, , mas definitivamente não foi o que eu quis dizer.
Ele piscou algumas vezes, mas voltou a me encarar. Ainda que meio nervosa e atropelando todas as palavras, decidi usar a oportunidade.
— Eu só não quero me sentir um fardo ainda maior. Não quero que você acabe me odiando.
Rápido e efetivo como uma guilhotina, eu tinha vocalizado meu maior medo para o cara que era meu marido e que definitivamente não precisava que eu acrescentasse ainda mais drama à sua vida.
— Um fard-Não! Não. , claro que não — sacudiu a cabeça, incrédulo. — Você tem pensado assim desde quando? Desde que chegamos?
Encolhi os ombros, olhando para o chão.
— Saara — o toque gentil das pontas de seus dedos em minha bochecha me fez levantar a vista para encará-lo novamente. — Nunca te considerei um fardo. Nem por um segundo. Sei que não foram as circunstâncias ideais, porém eu tive uma escolha. E eu escolhi estar aqui — sua voz era um sussurro reconfortante e o toque se transformou em um carinho por minha orelha. — Não quero que continue pensando essa besteiras sobre fardos, certo? Pode fazer isto para mim, menina bonita?
Incapaz de dizer qualquer coisa, apenas assenti repetida e lentamente. Para ser sincera, todavia, teria concordado com qualquer coisa que me pedisse se ele o fizesse usando aquele tom baixo em sua voz suave. Seus olhos chocolate também eram bem eficientes em me deixar desnorteada.
— Podemos ser amigos.
Finalmente entendi o que as pessoas queriam dizer com sentir como se levassem “um balde de água fria na cabeça”.
— Amigos — usei bastante energia e força de vontade para manter meu tom normal. — Claro.
Sorrindo, ele afastou a mão e precisei reprimir o instinto de inclinar o rosto para não perder o seu toque.
— Quanto ao anel, você não precisa usar. Foi uma ideia idiota.
se moveu para pegar a caixinha de veludo que eu segurava na mão que não estava sobre sua coxa, porém minha reação foi reflexa. Pulei para o lado, fechando as duas mãos sobre meu presente, trazendo-o na altura dos ombros e me inclinando para frente a fim de protegê-lo..
— Não! Ficou maluco? É meu.
Ele se afastou, confuso.
— Mas pensei que você tinha detestado.
— Claro que não. É maravilhoso.
E era mesmo. Era o mais bonito que já tinha visto.
— Mas você começou a chorar.
Senti minhas bochechas queimarem. Homens podiam ser tão indelicados às vezes.
— Isso não vem ao caso — resmunguei, ríspida.
— Mulheres — revirou os olhos, murmurando de maneira condescendente.
— Hey! — bati as costas dos dedos em seus ombros em um pequeno tapa. — Que comentário sexista.
— Estava brincando, estava brincando — segurou minha mão, rindo. — Ah! E aí está — sorriu satisfeito, olhando em meus olhos.
— Está o quê?
— A cor em seu rosto. Prefiro assim.
Sacudindo a cabeça, sorri. Meu marido também podia ser bem doce às vezes.
— Saara, como decidimos por ficar com o anel, — coçou a nuca, hesitante, quase tímido, — gostaria que eu, bem, quer que eu… — apontou para a caixinha e depois para minha mão, claramente não encontrando as palavras para o que queria dizer.
Demorei dez segundos inteiros para entender a que ele se referia.
— Oh! Não, não, não. Imagina, . Você não precisa fazer isso. Sério. De verdade.
— Achei que já tínhamos estabelecido que eu não estou fazendo nada que não queira fazer — lá estava aquele pingo a mais de charme em uma voz que em seu normal já era tão agradável aos ouvidos. — Vamos lá! — virou a palma da mão para cima. — A experiência completa.
Descobri que não estava pronta para largar minha caixinha de veludo. Gostava dela. Hesitei por um segundo antes de ceder. Com um sorriso ainda maior do que antes, ele a abriu e me estendeu a mão. Engolindo em seco e torcendo para que não estivesse tremendo muito, coloquei a mão na sua. Em silêncio e com extrema gentileza, ele deslizou o anel para junto da minha aliança de casamento, e a simplicidade elegante desta e a beleza inigualável daquele formavam um par fascinante.
— Me lembra a cor de seus olhos — sussurrou, quase que para si mesmo, observando o próprio polegar deslizar sobre o diamante dourado em meu anel.
E com aquelas poucas palavras, estava me derretendo de novo por meu marido e seu jeito adorável, negligenciando o fato de que o marido não era meu de verdade e que, assim, não tinha direito de me aproveitar de seu jeito adorável.

xxx

Estava usando grande porção de força de vontade. Juro que estava. Mas era mais forte que eu. Mesmo na manhã seguinte, não conseguia impedir que meu olhar caísse sobre meu mais novo anel a cada vez que movia minha mão esquerda para qualquer coisa. Fosse embalando um cupcake, devolvendo o troco ou esperando a máquina encher uma caneca de capuccino, lá estava eu roubando alguns momentos para apreciar quão incrível ele era. Cada espiadinha resultava em um sorriso idiota, então não foi de todo surpreendente quando Bruce veio me perguntar sobre.
— Oww… — inclinou-se sobre o balcão. — Você não estava usando esse anel semana passada. Estava? — franziu o cenho e coçou a cabeça, duvidando da própria afirmação.
Alguém deveria informar a família desse garoto que o tempo que ele passa nos videogames estava afetando seus neurônios.
— Não, não estava usando — ri.
— Ah, sabia! — estalou o dedo e deu uma piscadela. — Achei difícil mesmo não ter notado essa pedra. É enorme.
— É. Suponho que sim.
Não tinha pensado por esse ângulo, mas, sim, realmente era grande.
? — chamou depois de algum tempo, quando terminei de ajeitar as canecas e xícaras dos novos pedidos sobre a bandeja que ele tinha deixado sobre o balcão.
— Hmm?
— Se você já era casada, — começou devagar, claramente ainda construindo o raciocínio, — por que só agora você tem um anel de noivado? Dá para fazer isso de comprar o anel depois? Estou perguntando para referências futuras, é claro — apressou-se em acrescentar, como se eu tivesse ameaçado sair correndo para contar a sua mãe ou algo do tipo.
— Bruce, — parei de descoxar a tampa do pote de grãos de café para olhá-lo, — você tem dezenove anos, é calouro na faculdade. A única coisa que deveria estar pensando no momento é em se mexer e levar este pedido — bati o indicador na bandeja cheia — à mesa, antes da chefe perceber que você está enrolando, entendeu? Nada de anéis, e definitivamente nada de casamento, certo?
— Ok, ok — levantou a bandeja. — Sim, senhora.
Aproveitando que ele tinha se afastado para fazer o que eu sugeri — e que isto me daria uns três minutos sem me sentir como se estivesse jogando “20 perguntas” —, comecei a passar os pedidos do caderno para o computador. Avalon não tinha gostado muito da ideia quando a apresentei, mas depois de duas semanas consegui provar que o controle de estoque era muito mais eficiente quando as encomendas também estavam digitalizadas. Quase como se tivesse a chamado, Ava veio da cozinha trazendo uma travessa de canolis de manteiga de amendoim recém recheados.
— Estou terminando mais uma fornada de chocolate chips cookies — passou a transferir os produtos para a prateleira de cima dentro do balcão.
— Estão vendendo bastante.
Detestava essas conversas vazias com Avalon, mas a mulher tinha paredes mais grossas do que castelos medievais. Tinha que derrubar tijolinho por tijolinho. Participar — ainda que basicamente só ouvindo — da conversa com Ravenna e ela ontem ajudou, contudo. Ao menos agora ela iniciava tópicos que não começavam com reprimendas sobre eu ter esquecido alguma recomendação a respeito de como fazer isto ou aquilo.
— Campeões de venda — concordou depois que pensei que o assunto já tinha morrido.
— Junto com os cupcakes red velvets — acrescentei de maneira completamente irrelevante, na tentativa de que pudéssemos avançar para alguma coisa um pouco mais profunda, como o clima de hoje talvez.
— É. As pessoas gostam dos clássicos. ?
— Sim? — desviando a atenção da tela do computador, olhei por cima do ombro.
Minha chefe tinha acabado a tarefa que executava antes e agora se ocupava apenas em me olhar com curiosidade.
— Não pude deixar de ouvir o que Bruce lhe perguntou.
— Sobre anéis e propostas de casamento? Não se preocupe. Tenho certeza de que ele não pretende se comprometer com ninguém.
— Não — sacudiu a cabeça. — Não isto. Sobre seu anel novo.
Ah! Ah, sim. Agora sabia a que pergunta ela se referia. Inconscientemente, passei o polegar sobre a jóia em questão. Devo ter demorado tempo demais olhando o nada porque de repente ela emendou:
— Não precisa me contar se não quiser.
Talvez o número de vezes que tinha falado sobre isso nas últimas doze horas tivesse tornado mais fácil, ou talvez só quisesse falar com alguém que não estivesse me perguntando o preço do pedaço de torta de maçã. Não que meu marido me desse o tratamento do silêncio, mas era diferente conversar com alguém que não está legalmente ligado a você. Levei mais um momento para ponderar por onde poderia começar.
— Quando nos casamos, foi tudo uma correria. Questão de horas, para ser franca.
— Paixão fumegante, hein?
Perguntou enquanto servia duas canecas de café depois de dar uma espiada no salão e conferir que tínhamos apenas cinco clientes e que Bruce estava de olho neles.
— Alguma coisa do tipo. Obrigada — agradeci ao segurar entre as mãos a caneca que ela deslizou sobre o balcão. — Como aconteceu tudo muito rápido, não houve tempo para toda as… etapas, entende?
— Uhum — assentiu ao bebericar um pouco de sua bebida. — Então agora que as coisas estão mais calmas, ele resolveu comprar um anel? — perguntou ao afastar a caneca dos lábios.
— Foi uma surpresa, mas é tão bonito — suspirei, erguendo a mão para apreciá-lo outra vez.
— É lindo mesmo. E a festa? Suponho que também teve que ser rápida.
— Na verdade, não pudemos fazer nenhuma comemoração.
Porque estávamos ocupados correndo para deixar a Arábia o mais rápido possível.
— Entendo — murmurou como que para si mesma, observando a caixa registradora com um olhar pensativo enquanto batia o dedo indicador devagar contra a louça de seu copo. — Uh! — exclamou de repente. — Melhor eu voltar aos cookies — dizendo isto, girou sobre os calcanhares e voltou para a cozinha.
— Bom dia.
Uma voz feminina desconhecida chamou e me virei para encontrar uma nova cliente. Tomando o restante de meu café em um gole, coloquei a caneca de lado.
— Olá! Bom dia. Como posso ajudá-la?
— Quero um bagel, por favor, e um chocolate quente.
E assim o resto do dia passou, entre pedidos e pagamentos. No caminho de casa, depois de pegar o metrô, decidi parar no restaurante mexicano a uma quadra de nosso apartamento. Alguns minutos depois, carregando a sacola com nosso jantar, cheguei em casa. estava saindo do banheiro, os cabelos molhados e apenas com a calça de moletom cinza que usava para dormir.
— Hey. Como foi seu dia?
Precisei engolir em seco e passar a língua por meus lábios secos. Meu marido deveria saber que não podia sorrir assim quando seu tanquinho estava totalmente exposto — era uma combinação fatal ao coração de uma mulher.
— O de sempre. Nada muito agitado hoje em dia nas confeitarias — brinquei. — Trouxe nosso jantar — levantei a sacola para que ele visse. — Tacos! Que tal?
— Sério? Você é incrível! — abaixou-se para dar um beijo rápido em minha têmpora e pegou nosso jantar de minhas mãos. — Estou faminto! Estava prestes a descongelar uma lasanha, mas isso aqui é muito melhor — colocou a sacola sobre a mesa da cozinha e começou a tirar as embalagens.
Precisei respirar fundo, ainda meio tonta pelo beijo e por sua colônia gostosa, que parecia ter criado uma nuvem ao meu redor, antes de poder me juntar a ele.
— E o seu dia, como foi?
— Não tão “de sempre”.
— É? — ri. — Por quê?
— Nós tivemos um problema com o contador e meu amigo só vai poder pegar o trabalho a partir de semana que vem, mas precisamos revisar os pagamentos feitos com urgência. O problema é que aparentemente ninguém naquela empresa sabe fazer contas que envolvam mais de três casas decimais — resmungou frustrando enquanto abria as gavetas a procura de algo.
— Ah… — murmurei, pensativa.
— Que foi? — voltou a me encarar depois de pescar um pacote de guardanapos.
— É só que… se for apenas conferir os pagamentos, eu posso fazer isto. Não envolve cálculos sobre os tributos devidos, então só vou precisar do recibo do depósito e da informação de quantos vocês combinaram previamente. Não é difícil.
— Tem certeza? — franziu o cenho.
— Oh! Se você acha que não é uma boa ideia, tudo bem também. Pensei que talvez pudesse ajudar, mas se você acha melhor não, sem problemas.
— Não, não — apressou-se. — Ajudaria muito. É só… é matemática, números. Digo, por que alguém voluntariamente gostaria de mexer com isto?
Não pude evitar uma pequena risada. Já tinha ouvido aquilo algumas vezes na vida.
— Eu gosto de números — encolhi os ombros. — E então, o que me diz?
Assim que fiz a pergunta, levei um dos tacos de carne assada aos lábios. Mastiguei devagar enquanto esperava por uma resposta. Meu marido, contudo, continuou me encarando, um sorriso bobo no rosto.
? E então? O que você acha?
— É uma ideia incrível. Amanhã mesmo trago os papéis.
— Combinado então. Estes tacos estão ótimos — dei outra mordida.
— Imagino — riu, depois deu uma espiada na televisão desligada na sala. — Hoje é dia de basquete. Lakers. Quer comer na sala?
Assenti, sorrindo.
— Vou pegar umas cervejas. Você poderia ir ligando a TV?
Peguei as embalagens de plástico que continham nosso jantar e as levei para sala, colocando sobre a mesinha de centro antes de fazer o que ele pedira, zapeando os canais até encontrar o jogo. Com as duas cervejas na mão, se sentou ao meu lado.
— Obrigada — agradeci quando ele me passou a bebida.
E foi assim que passei a melhor noite em muito tempo: comendo tacos, tomando cerveja, assistindo um jogo do qual não entendi as regras e, principalmente, sentindo o calor do corpo de meu marido tão perto... e tão longe.



Capítulo Oito

— Puppy, — Duke chamou ao abrir a porta de minha sala abruptamente, — não marque nada para sábado. Nós vamos sair.
E, como se isso fizesse todo o sentido, deu-me as costas e saiu de novo.
— Knight! Knight, hey! — revirando os olhos ao perceber que ele não voltaria, empurrei a cadeira para trás e me levantei. — Knight, porra! O que tem sábado?
Encontrei-o saindo da sala de Chase, que, tão confuso quanto eu, também o seguira para o corredor.
— Duke, como assim, cara? Eu tenho um encontro sábado.
Sem paciência, ele se virou para Dylan.
— Eu te dei a impressão de que sua presença era opcional? Erro meu.
Eu adorava esses pequenos momentos do meu dia em que podia apreciar a expressão embasbacada de Chase e presenciá-lo ficar sem resposta.
— O que tem sábado? — cruzei os braços ao encostar no batente da porta.
— Meu encontro! — Chase gritou lá de trás, indignado, mas nós dois o ignoramos completamente.
— Ravenna quer fazer uma comemoração de noivado. Então nós vamos a um restaurante.
— Mas isso não é o tipo de coisa em que você tem que fazer um jantar enorme acompanhado de toda pompa e luxo?
Não entendia muito de etiqueta da alta-sociedade, mas tanto Knight quanto Reid nasceram em berço de ouro. Eles certamente conheciam os detalhes e burocracia sobre isto. O jeito como Duke retorceu os lábios em desagrado me disse que ele sabia a que me referia.
— Nós não queremos nada dessa merda. Apenas sair com boa companhia e em busca de boa comida. Só isso.
— Não parece muito com um jantar de noivado — acrescentei, pensativo, mas ainda assim grato por evitar os canapés ruins e as conversas hipócritas que pareciam ser mandatórias nas festas em que Duke nos relatava ter ido.
— Não parece em nada. E, francamente, acho todo o conceito de “jantar de noivado” idiota.
— Então por que temos que ir? — Chase, que tinha ficado em silêncio até agora, aproximou-se. — Afinal de contas, cheguei a mencionar que meu encontro é com uma modelo?
— Ninguém se importa, Chase — respondi calmamente. — Agora, Duke, preciso confessar que também não entendi a finalidade. Esse tipo de coisa não é comemorado principalmente com a família?
— Suponho que sim — deu de ombros. — Porém meus sogros estão em Montana e eu não chego nem a três metros de distância do velho.
Fez-se um pequeno silêncio onde esperei que Knight completasse o pensamento, mas ele se limitou a acrescentar:
— Olha, , se tem uma coisa que aprendi na vida é que Ravenna Reid foi feita para ser amada, não entendida. Então nós três estaremos presentes no jantar que ela quer. Com sorrisos no rosto — lançou um olhar ameaçador à Chase. — Entendido?
Knight não usou a voz que costumava usar aos nos dar ordens quando era nosso capitão, mas chegou bem perto — e esse fato me disse exatamente quão sério ele estava.
— Por mim… — encolhi os ombros.
Não estava realmente a fim de uma festa, mas não seria nenhum sacrifício incomensurável. Chase, por sua vez, estava claramente contrariado, e ainda pude ouvir alguns de seus choramingos antes de dar um passo para dentro e fechar a porta de minha sala.
— Ela desfilou para a Victoria’s Secret. VS!
Rindo, voltei a analisar nossos possíveis novos clientes. Sábado definitivamente seria um dia interessante, principalmente porque tinha um bom palpite de que Chase, em toda a sua esperteza, ainda não tinha desistido da discussão. E, assim foi, quarta-feira:
“Duke, se eu mandar um presente, eu posso não ir? Não que eu não queira ir, mas é que Vivi só vai estar aqui sábado, domingo ela viaja para Milão. Domingo! É isso. Domingo é um dia tão melhor do que sábado. Tenho certeza de que deve ser sinal de boa sorte em alguma cultura fazer a comemoração no domingo.”
Quinta-feira...
“Eu sei, Duke. Só estou dizendo que, uma vez que vamos ter que ir nessa comemoração, ao menos podia ser no The Hook’s. Lá é ótimo! Tem comida também. Você já experimentou as asinhas de frango? São fantásticas!”
Sexta:
“Eu não tenho que usar terno, né? Não é idiota, Duke. É uma pergunta absolutamente pertinente. Não sei onde estamos indo. Se fosse no The Hook’s, saberia o que usar. Porra, Knight, é sério. É traje social?”
Não sei bem o que houve depois, porque tinha ouvido a conversa da cozinha quando tinha ido buscar café, mas, com o barulho de coisas se chocando que se seguiu àquela última pergunta e, depois, o modo como Chase apareceu para procurar gelo, tive uma ideia bem boa. Foram dias interessantes, mas sábado enfim chegou.
Infelizmente sabia desde a hora em que tinha acordado que não seria um dia bom. Desde que as coisas começaram a ficar realmente sérias na marinha, que descobri quão feio o mundo podia ser, havia dias bons — por sorte, a maioria deles — e dias ruins. Aquele era um dia ruim. Não tinha vontade de fazer qualquer outra coisa senão ficar encarando a parede e praticar os exercícios de respiração. A certeza de que esta não era uma opção, entretanto, me fez recorrer à forma possível de anestesia. E agora, com uma calça jeans e camisa social, estava sentado no sofá da sala, com a atenção na TV desligada, os antebraços apoiados nas coxas e um copo de uísque na mão direita.
— Ok. Estou pronta — ouvi a porta do quarto se abrir e a voz de atrás de mim. — Desculpe a demora.
Tomando o restante da bebida de uma vez, coloquei o copo sobre a mesa de centro e me virei, apenas para ficar sem ar. Já tinha visto minha esposa em muitas situações, mas só agora havia percebido que nunca a tinha visto arrumada para sair. Senti-me como um homem sedento observando uma miragem em meio ao deserto implacável.
Ela estava com um vestido preto simples de alças e que chegava até a metade de suas coxas e tênis branco. Ela poderia estar indo em qualquer lugar, dia ou noite, não fosse sua maquiagem. Não entendia do assunto, mas sabia apreciar algo bem feito.
Preto emoldurando dourado.
— Está muito exagerado? — levantou a mão como se fosse tocar a bochecha, porém recuou no último segundo. — Pensei em usar um pouco de sombra branca, mas eu realmente gosto de preto. Mas se tiver exagerado, posso tirar o contorno embaixo dos olhos. ? — chamou depois de um momento, quando fiquei em silêncio ao invés de responder suas perguntas.
Não entendi nada do que ela se propôs a fazer, mas sabia que era contra porque modificaria o que via agora — e o que eu via agora era… incrível.
— Não. Eu… não — balbuciei por fim. — Você está linda — consegui falar, meio sem fôlego, meio bobo.
As bochechas dela se coloriram em um delicioso tom vermelho e precisei piscar devagar para espantar alguns pensamentos totalmente inapropriados para o momento, ou para qualquer momento.
— Ah! Ok. Obrigada — passou a mão pela alça da pequena bolsa sobre seu ombro. — Podemos ir?
— Sim, sim. Claro — balancei as chaves na mão.
A viagem levou cerca de vinte minutos. Felizmente o GPS indicou um caminho sem trânsito, mas não havia vagas na frente do restaurante italiano em que seria o jantar. Só consegui estacionar a quase duas quadras de distância e nós caminhamos em silêncio. Era para ter sido algo simples, sem grandes acontecimentos, mas era um dia ruim.
A merda de um dia ruim.
Um estampido alto e subitamente não estava mais nas ruas civis da América, mas em meio a lugares que serviriam perfeitamente como exemplo concreto da definição de “inferno” que a maioria das pessoas tinha em mente. Não me dei conta de que tinha me movido, de que o mais puro instinto de sobrevivência guiou minhas ações. Foi a mistura de falta de fôlego e de medo em sua voz ao chamar meu nome que me trouxe de volta. Piscando algumas vezes, franzi o cenho e olhei para baixo, encontrando a expressão confusa, temerosa de , suas mãos apoiadas em meu peito.
Levei um longo momento para perceber que havia empurrado minha esposa contra a parede de um prédio qualquer em uma tentativa de protegê-la da ameaça com meu corpo. Horrorizado ao perceber que apertava contra os tijolos com força, provavelmente impedindo que ela respirasse direito, dei alguns passos para trás, colocando distância entre nós. Ela tentou disfarçar as tossidas curtas que deu por reflexo para normalizar a respiração, porém ouvi perfeitamente — e me senti um idiota ainda maior.
, tu-tudo bem?
Era minha vez de não conseguir respirar direito ao ter outra percepção: mesmo me esforçando, não conseguia recordar o que aconteceu entre o barulho e agora. A ideia que tinha provavelmente era bem acurada e o jeito como a pele de seu braço direito estava se avermelhando serviu de prova. Tive vontade de vomitar ali mesmo na calçada. Eu havia feito aquilo, havia puxado minha esposa com força e machucado sua pele tão suave. E, pior ainda, havia feito aquilo para nada, porque não existia ameaça alguma. Apenas minha mente me fazendo prisioneiro outra vez.
A bile subiu por minha garganta de novo.
Não conseguia nem mesmo pedir desculpas, só mantinha o olhar fixo na faixa avermelhada em seu braço, como se ao olhar por tempo suficiente, talvez aquela coisa horrorosa sumisse e eu não me sentisse o maior babaca da terra… e talvez não me odiasse.
? ! — baixou a atenção para ver o que eu tanto encarava e franziu o cenho. — , por que… o que tem…?
Apesar da vergonha queimando meu estômago, precisava me desculpar. Forcei meu olhar para longe do vermelho em seu braço e engoli em seco.
— Eu sinto muito, . Eu sinto tanto. Não há absolutamente nenhuma desculpa por eu ter apertado seu braço, mas eu pensei, eu juro, juro que pensei que fosse uma… — passei a mão no rosto, tão absolutamente envergonhado — ...pensei que fosse uma bomba. Eu… sei que soa idiota, mas pensei que o barulho era uma bomba. Absurdo, não é? — forcei uma risada, que acabou saindo seca e oca. — Provavelmente foi o escapamento de um carro e… — não conseguia nem terminar de falar.
Ela estreitou os olhos, olhou de mim para a rua, depois para a parede e voltou sua atenção para mim de novo, visivelmente refletindo sobre o que eu disse e o que tinha acontecido.
.
Senti como se uma mão gelada estivesse apertando minha garganta. Ela nunca havia dito meu nome daquele jeito tão sério e, ao mesmo tempo, tão inconformado.
— Voc-você achou que tinha tido uma bomba, e seu primeiro instinto foi tentar me proteger, e você ‘tá me pedindo desculpas por causa disso? — olhou para o próprio braço por um segundo, ao terminar de cuspir as palavras.
Titubeei. Aquilo não era o que esperava ouvir.
— Mas… isto é imperdoável — apontei para o machucado.
Ela deu um passo para frente e encostou a mão em meu bíceps. Precisei reprimir a vontade de me esquivar de seu toque.
— Sim, . Eu não conseguiria perdoar se você tivesse tentado me machucar, mas você fez o completo oposto, não? — tentou dar um sorriso franco. — Além disso, e acredite porque estou dizendo a verdade, você não me machucou. Tomei um susto, é verdade, mas foi apenas isto. Susto. O jeito como me puxou, foi firme, não forte. E só ficou assim — apontou o braço — porque minha pele é sensível. Não está nem doendo.
Não estava convencido e ela sabia. Deu mais um passo para frente e subiu a mão para minha nuca.
, eu estou falando a verdade. Não há nada a ser perdoado. Estão tira essa bobagem da sua cabeça. Você confia em mim? — acrescentou depois de um instante.
Podia ver a sinceridade em seus olhos de deserto, assim gradualmente pude relaxar.
— Confia em mim, ? — repetiu, seus dedos agora começaram um leve carinho em minha nuca.
— Confio, — respondi em um murmúrio.
— Ah! — arqueou uma sobrancelha. — .
Dessa vez sorri.
.

xxx

— Pois é verdade, Darlin’ — escutei ao me aproximar da mesa após voltar de uma ligação. — Ganhei esse roxo quando salvei duas senhorinhas de serem assaltadas na rua ontem. Eram cinco deles, é claro, senão teria saído sem nenhum arranhão. Se fosse um combate justo, é claro.
Minha esposa ouvia aquelas baboseiras com atenção, aceitando cada palavra que o idiota fornecia. Às vezes eu tinha certeza que Chase fazia algum tipo de bruxaria ou sei lá. Como as mulheres acreditavam naquilo?
“Duas senhorinhas”? Sério?
E Saara é uma mulher inteligente. Imagina o papo que ele conseguia passar nas mais ingênuas… “Olá, esse olho roxo consegui ao me chocar com um prédio enquanto voava de Washington para New York depois de apagar o incêndio em vinte e oito casas.” Tudo isso dito em palavras arrastadas naquele sotaque idiota dele.
Revirando os olhos, sentei-me ao lado de minha esposa.
— Você conseguiu esse olho roxo quando Duke perdeu a paciência porque você estava sendo mais insuportável do que o normal — comentei calmamente.
Chase abriu a boca absolutamente surpreso, e Saara se virou para mim, confusa.
— Puppy! Seu merdinha. Cale a boca, porra — resmungou, ainda um tanto quanto desnorteado com a minha sinceridade.
Ignorando-o, olhei para minha esposa, sorrindo de canto dos lábios.
— Querida, quantas vezes já lhe disse para não encarar a serpente direto nos olhos? Ela te hipnotiza.
Dylan franziu o cenho e pareceu ponderar por um segundo.
— Só não lhe dou uma resposta mal-educada, , porque ainda estou em dúvida se deveria me sentir ofendido ou não.
— Definitivamente ofendido — ofereci, condescendente.
— Mas eu gostei da comparação. , Darlin’, você se sente hipnotizada? — encarou-a enquanto sussurrava as palavras.
Passei a mão sobre o ombro de minha esposa, que outra vez estava corando, e a puxei para mais perto de mim.
— Quer colorir o outro olho de roxo também, Chase? Para combinar, para os dois ficarem iguais.
— Nada, Puppy — sacudiu a cabeça, ainda sorrindo… sempre sorrindo. — Não precisa. Estou bem assim — passou a mão pelo queixo e lançou uma piscadela para . — Não é mesmo, Darlin’?
— Imbecil — resmunguei para mim mesmo, sacudindo a cabeça e tomando um gole de meu whiskey.
Sabendo que Dylan continuaria com suas baboseiras, voltei minha atenção a Kinight.
— Duke, hey!
Apesar de a distância nos separando ser literalmente de uma mesa, ele demorou um momento para responder, ocupado que estava em sussurrar alguma coisa à Ravenna.
— Que foi? — franziu o cenho.
Eu estava com fome. Fazia meia-hora que estávamos sentados sem nem mesmo qualquer aperitivo.
— Podemos fazer o pedido?
Olhou para a noiva.
— Rave?
— Ava disse que está chegando — respondeu depois de checar o celular. — O trânsito ficou mais pesado do que o normal porque tinha um carro quebrado na Madison.
— Ravenna Reid, você tem certeza de que ela não se esqueceu?
— Amor, já expliquei mil vezes que Ava não tem problemas de memória.
— Faz dois anos que conheço sua amiga, amor, e até hoje ela acha que meu nome é Leonard.
Ravenna desviou o olhar e mordeu um sorriso, mas Duke pareceu não notar e continuou falando.
— Você acha que é por causa das Tartarugas Ninjas?
— Definitivamente — respondi, assentindo solenemente, apesar de a pergunta não ter sido para mim.
— Não, amor. Não é por causa delas. Mas, se serve de consolo, — emendou depois de me lançar um olhar gelado por eu estar rindo, — tenho certeza de que Chase seria Donatello e , Raphael.
— Hey! Me deixa fora disso.
— Não. — Knight comentou, pensativo. — Não, não. Isto faz sentido.
O que não fazia sentido era o porquê de estarmos tendo aquela conversa. Como a opção, entretanto, era tentar me incluir na conversa que os dois casais amigos de Rave — e que nunca tinha visto antes na vida — sentados à minha direita estavam tendo, preferi me manter em silêncio.
O complicado de se ficar dentro da própria cabeça por muito tempo, contudo, é que você começa a encontrar problemas.Todas as preocupações com a Thermophylae ainda não estar estabilizada no mercado, todas as coisas que poderiam dar errado com o requerimento de no departamento de imigração — e como isto faria com que eu decepcionasse Joe outra vez.
Senti minhas mãos esfriarem e minha mente começar a seguir por um caminho muito obscuro. Antes que pudesse me perder, todavia, uma morena baixinha veio apressada em direção à nossa mesa. Levei um momento para perceber que a reconhecia das vezes em que a vi de relance quando fui buscar na confeitaria.
— Olá, olá. Boa noite — murmurou apressada enquanto passava as mãos sobre os cabelos pretos meio desgrenhados. — Desculpe a demora — sentou-se na cadeira vaga entre Ravenna e Dylan. — O motorista errou o caminho e precisei correr um quarteirão para chegar aqui. E, Rave, cheguei a uma conclusão, não importa quão maravilhoso eles sejam, Jimmy Choo não foram feitos para correr, apenas para serem apreciados.
Reid passou o braço sobre o ombro da amiga e deu um beijo em sua bochecha antes de se afastar um pouco.
— Sem problemas. Estávamos esperando por você.
— Desculpe por isso — repetiu. — Vocês devem estar com fome. Oh, hey, Leo.
Lançou um sorriso meio diabólico a Knight, que, por sua vez, me olhou de maneira significativa, como se dissesse “viu, eu disse, não disse?”. A chefe da minha esposa então cumprimentou os dois casais que eu não conhecia pelo nome, e voltou-se para nós.
, — assentiu.
— Ah! Isso é ótimo. — Rave acrescentou. — Então você só não conhece Dylan, certo, Ava?
Como que esperando a deixa, Chase se meteu na conversa.
— Olá, Darlin’. Meu nome é Dylan.
Appleby se virou para ele e eu vi a coisa mais fascinante acontecer bem diante de meus olhos. Pela primeira vez desde que o conhecia, observei Chase faiscar seus dentes perfeitos em um sorriso galante para alguém do sexo feminino e não fazê-la corar. Na verdade, sendo mais preciso, vivi para presenciar uma mulher que estava sendo alvo de boa porção do charme que Chase podia criar naturalmente tombar a cabeça para o lado, arqueando a sobrancelha.
— Olá, Dylan. Meu nome é Ava — respondeu, pouco impressionada. — E eu não sou sua Darlin’.



Capítulo Nove

Desde o dia em que conheci Avalon Appleby, soube que ela era diferente. Eu havia aprendido a esconder minhas emoções porque sabia bem como elas podiam ser usadas contra nós; como, infelizmente, eram mentiras necessárias. Do pouco que sabia sobre Knight, podia afirmar que ele também havia aprendido a deixar a expressão inescrutável para se proteger emocionalmente — afinal, ao que parece, o pai dele era um velho horroroso. Ava, entretanto, era outro nível.
As paredes espessas que ela criou não eram para manter os sentimentos longe da equação, era para manter toda emoção longe do cotidiano. Tirando o carinho que ela tinha por Ravenna, o jeito sempre educado com que tratava todos os clientes e a maneira meio maternal com que tratava Stella e Bruce, não havia qualquer brecha entre as pedras de sua parede. Ainda assim, foi surpreendente observá-la interagindo com Chase.
Duke Knight era muito bonito. Meu marido é o homem mais incrível que já vi na vida. E, ainda assim, Dylan Chase constantemente me arranca alguns suspiros. Com um charme que lhe era intrínseco, ele não era forçado. Um sorriso fechado e uma piscadela e eu já estava corando como uma boba, ainda que não tivesse qualquer interesse sexual por ele. Já tinha tentado permanecer impassível, mas, como meu marido tinha descrito, era como ser hipnotizada e, assim, minha força de vontade não tinha muita validade. Encontrava consolo no fato de que Ravenna — e a garçonete, e a recepcionista, e mesmo as mulheres acompanhadas em outras mesas — também não era imune.
Avalon Appleby, contudo, não parecia estar nem um pouco impressionada. Já eu, admito, estava prestando atenção naquela conversa abertamente. Afinal, tão interessante…
Ainda mais quando Chase parecia não ter levado a resposta dela como um soco em seu ego, como eu pensei que aconteceria. Ao invés disso, ele tombou a cabeça para o lado e alargou o sorriso.
— Não é minha Darlin’? Tem certeza?
Ela se inclinou um pouco para frente e manteve os olhos nos dele, abrindo seu próprio sorriso meio debochado antes de responder.
— Não.
Eles se demoraram ali, presos naquele momento, ignorando o resto de nós, presos em si mesmos e no clima que tinham criado. Isso me lembrava de uma vez quando era adolescente e, nas ruas de Riad, encontrei um encantador de serpentes. Ele era de Marrakesh e estava mostrando seus truques em busca de alguns trocados. Não tinha dinheiro sobrando, mas isto não me impediu de apreciar o show por alguns poucos minutos.
O que chamou minha atenção, entretanto, foi o jeito como a serpente e o encantador pareciam fascinados um pelo outro, criando um equilíbrio estranho, mas que funcionava para os dois. Sei que era uma metáfora estranha, mas ao observar Ava e Dylan interagirem, um encarando o outro em absoluto silêncio, não conseguia pensar em nenhuma outra comparação pertinente.
— Não tem certeza, Darlin’? — arrastou ainda mais as palavras em seu sotaque quente.
— Não sua sua Darlin’ — corrigiu em um sussurro.
— Podemos pedir agora?
A voz determinada de Knight me fez pular da cadeira. Estava tão envolvida naquela atmosfera que crepitava ao redor dos dois, que me desliguei completamente de todo o resto. Pisquei algumas vezes e olhei para o lado, tentando não me sentir envergonhada, mas era um tanto quanto impossível, pois, por um momento, fui quase uma voyer, tamanha intimidade que os dois criaram.
Felizmente Duke, acostumado a tomar as rédeas das situações, trouxe a normalidade de volta.
— Sim. É. — limpou a garganta. — Vamos fazer os pedidos. Saara? — virou-se para mim, o cardápio em mãos.
Ainda meio desnorteada, analisei as opções, escolhendo qualquer coisa. Meu marido repassou a informação para a garçonete enquanto eu tomava um gole generoso de meu vinho, um tanto quanto afoita.
, — Knight chamou, fazendo com que me virasse imediatamente para ele, engolindo em seco, — gostaria de aproveitar essa oportunidade para agradecer por você ter se disponibilizado a conferir os pagamentos. Foi de grande ajuda. Economizamos bastante tempo.
— Sem problemas — sorri. — Fico feliz em ajudar. Gosto dessas coisas.
Ravenna também mudou seu foco de atenção para mim.
— Duke comentou mesmo que você gosta de matemática. Mas matemática pura ou aplicada?
— Aplicada — respondi sem hesitar. — Ainda que não tenha tido muitas oportunidades para realmente aplicá-la, acho interessante as questões de impostos e a matemática por de trás disto.
Knight pareceu tão surpreso que, por um momento, sua expressão inescrutável vacilou e pude ver que ele não me entendia.
— Você gosta de impostos? — então franziu o cenho para a noiva, como se estivesse precisando de confirmação de que não tinha sido o único a ouvir isto.
— Não — ri. — Não foi isso que eu disse. Ninguém gosta de impostos. O que quis dizer é que o sistema por trás deles é interessante.
Pelo jeito como todos continuavam me encarando, estava óbvio que ninguém compartilhava meu interesse.
— Porém, nunca tive nenhum curso específico sobre a matéria, tampouco posso dizer que entendo alguma coisa sobre o sistema fiscal americano. Então existe a possibilidade de que, sim, eu esteja sendo meio ingênua, mas acho tudo tão intrigante.
Duke agora tinha arregalado os olhos para Rave, certamente chegando a conclusão de que eu havia perdido o juízo. Antes que ele pudesse comentar, entretanto, Reid lhe deu uma cotovelada não muito discreta. Estava bastante claro que ela provavelmente machucou mais a si mesma, mas conseguiu alcançar seu propósito de mantê-lo de boca fechada. Aproveitei para mudar o tópico da conversa.
— E como anda o novo secretário?
— Oh, sim. Esse é um ponto interessante. — Chase resolveu voltar ao mundo dos presentes. — Darlin’, — virou-se para Ravenna, — você por acaso conhece algum universitário comum?
— Como assim?
— Bom… Sua secretária é viciada em falar com o namorado dela, que, aliás, trabalha com a e queria se chamar Loki, e nosso novo secretário, segundo suas próprias palavras, “ vive zen, em sintonia com a natureza”.
— Tenho certeza que você está exagerando, Chase — franziu o cenho.
— Na verdade, amor, ele está certo. No primeiro dia ele se apresentou como Sunset e censurou Puppy por ele estar tomando café, que, segundo ele, era um droga que prejudica a nossa conexão com o universo.
Ravenna piscou devagar, processando a informação.
— O garoto tem doze anos e acha que sabe alguma coisa — meu marido respondeu.
— Então vocês dois estão na mesma faixa etária, Puppy — Dylan sorriu, muito satisfeito consigo mesmo.
— Bom, suponho que deveria ter desconfiado. — Ravenna bateu o indicador contra o queixo algumas vezes, um tanto quanto atrasada na conversa. — Foi Bruce quem o indicou.
— Isso explica muita coisa. — concordou, talvez recordando as histórias que contei sobre o comportamento meio lento, mas doce de meu colega. — Menos como você sabe de tudo isso, pretty boy.
— Eu presto atenção no que minhas queridas dizem — lançou-me uma piscadela e depois fez o mesmo para Rave.
E lá estava eu corando novamente, acompanhada por Reid, enquanto minha chefe apenas revirou os olhos. Pela expressão de Duke, podia garantir que não tinha exagerado ao dizer que Chase gostava de rir na cara do perigo.
— Por que eles te chamam de Puppy? — a voz de Avalon voltou ao normal, não mais uma mistura entre ironia e sussurros que faziam pensar em seda e mel.
— Porque ele é adorável como um. Lembra um filhotinho.
Chase chegou mesmo a esticar a mão, parecendo pronto para apertar as bochechas de , mas foi interceptado no meio do caminho com um tapa impaciente de meu marido.
— Tente fazer isso outra vez e eu quebro seus dedos — sorriu sem mostrar os dentes. — Um por um.
Chase não pareceu muito assustado, mas se afastou. Mesmo com a explicação, não entendia o apelido. “Puppy”?... filhote? Podia encontrar muitos adjetivos para meu marido, mas aquele definitivamente não era um deles. Que tal rápido como uma lebre? Silencioso como um jaguar? Ou mesmo feroz como um tigre?
É. Com certeza. Puppy não.
Mas quem era eu para tentar entender as piadas internas de uma amizade tão longa? Depois disso a conversa se voltou aos dois casais — que descobri se chamarem Verônica e Andrew e Mary e Nicole —, e às lembranças que eles tinham de quando cursaram a faculdade de psicologia com Ravenna.
Em meio a uma risada e outra, pois aparentemente 90% das histórias que envolviam Reid eram hilárias, sentia uma pequena fisgada de anseio no peito. Podia imaginar como a experiência de ir para faculdade era maravilhosa, mas, acima disto, os frutos que um diploma poderia trazer — frutos que nunca poderia apreciar.
Engolindo em seco, tentei não sentir pena de mim mesma, ser grata pelo que tinha. Afinal, as coisas agora eram boas, muito boas, e podiam ter sido tão ruins, ao invés. Estremeci de leve só com o pensamento e se virou para mim, uma pergunta muda no olhar. Sacudi a cabeça e forcei um sorriso.
Pouco depois nossos pratos vieram e, com eles, novas reposições de nossas bebidas. Avalon levantou sua taça de vinho tinto.
— Proponho um brinde ao nosso casal. Que eles sejam felizes e que eles continuem sendo… — ponderou por um momento. — Ravenna e Duke.
De alguma forma, tinha certeza de que aquela era a melhor maneira para descrever os dois: Ravenna e Duke. Únicos demais para se encaixarem em outro adjetivo.
— À Ravenna e Duke! — Verônica também ergueu seu copo e todos nós a acompanhamos.
Era adorável observar como Knight ainda mantinha a mesma linguagem corporal fechada para o mundo, mas, a cada vez que sua atenção pousava em Ravenna, era possível enxergar o carinho em seus olhos.
— Beijo! — Nicole gritou, animada, depois de seu gole. — Queremos ver um beijo.
Rave abriu um sorriso enorme antes de se virar para o noivo e puxar as lapelas de sua camisa para que ele abaixasse a cabeça. De muito bom grado, Knight encostou os lábios nos dela. Foi um beijo rápido, mas os dois se afastaram com sorrisos discretos de canto dos lábios.
— Queria aproveitar a oportunidade para felicitar nossos amigos que também são recém-casados. — Duke começou, olhando para nós dois. — Aos — ergueu sua cerveja de novo.
Um tanto quanto sem-graça, juntei-me ao brinde. Com uma espiada rápida, constatei que fazia o mesmo.
— Beijo! Queremos ver um beijo!
O gritinho animado veio de Ravenna, mas poderia ter vindo da rainha ou do diabo da Tasmânia e o efeito teria sido o mesmo. Congelei no lugar, o vidro contra os lábios, grata por já ter engolido o vinho, senão provavelmente teria engasgado. Não estava preparada para aquilo, nunca pensei que nós dois seríamos o centro das atenções. Não me sentia confortável sob o holofote, não sabia como reagir.
Sem respirar, virei-me para meu marido, abaixando o copo para mesa. Torci para não aparentar o pavor que sentia, torci para que ele não estivesse tão apavorado quanto eu. Foi um medo infundado. estava tão em controle quanto sempre. Quando seus olhos chocolate encontraram os meus, senti a calma que ele transmitia, senti em minha pele.
Confia em mim?
Podia ler a pergunta em seus olhos com a mesma clareza como se ele a estivesse sussurrando em meu ouvido. Ele estava me devolvendo a pergunta que lhe fiz mais cedo. Sua mão subiu para minha bochecha e pareceu levar toda uma eternidade do momento em que ele abaixou a cabeça até o instante em que senti sua boca contra a minha.
Uma parte de mim pensou que seria algo brando como quando a senhora Matthews estava nos observando, mas… não. Daquela vez foi como apenas sentir a brisa bagunçando as pontas do cabelo, apenas um pequeno aperitivo do que poderia ser. Agora… agora me senti puxada direto para o olho do furacão.
Talvez tivesse a intenção de manter as coisas mais simples, porém no momento em que ele mordiscou meu lábio inferior e eu soltei um suspiro em resposta, sabia que nós dois tínhamos atravessado o limite até agora estabelecido. Inclinei-me para frente e, com a calma de quem tem habilidade, ele me beijou devagar. Eu derreti lentamente, arrebatada pelas pequenas explosões de prazer em cada centímetro de minha pele. Minha mão agarrou o pano de sua blusa como se fosse a âncora que me impedia de sair flutuando. Porque era assim que me sentia: flutuando.
Naquele momento seu calor, o cheiro inebriante de sua colônia, sua força, a vontade com que ele me beijava… tudo meu. Tudo verdadeiramente meu.
De olhos cerrados, senti seus lábios dando pequenos beijos até chegar em minha orelha, onde ele puxou o lóbulo entre os dentes.
— Hey! Vocês dois! Vamos manter as coisas classificação etária livre aqui, hein!
A voz divertida de Nicole me trouxe de volta com a mesma eficiência de alguém espetando um alfinete em um balão. E foi assim também que me senti como se estivesse voando sem direção pelo cômodo. Pisquei devagar, voltando à realidade no mesmo ritmo com que aquelas pequenas faíscas deixavam de aquecer minha pele. Virei a cabeça, ainda buscando me situar, e encontrei expressões divertidas no rosto de cada uma das pessoas na mesa.
Minhas bochechas pinicavam de tão vermelhas e abaixei o olhar.
— Isso sim que eu chamo de beijo! — Verônica exclamou, rindo. — Amor, quando a gente casar, quero ser assim — falou para Andrew, que apenas se limitou a arquear a sobrancelha, divertido.
— Vamos comer.
Knight, obviamente tendo outras prioridades, intrometeu-se. Felizmente isso serviu para que a mesa voltasse a pequenos assuntos paralelos. colocou a mão sobre a minha e deu um pequeno aperto reconfortante. Depois disso as coisas passaram rápido demais para que meu cérebro em estado de gelatina absorvesse.
?
Avalon chamou quando estávamos do lado de fora do restaurante, eu esperando buscar o carro, ela esperando Knight e Rave terminarem a conversa com o dono do lugar, que era um velho conhecido dele, para pegar uma carona.
— Sim?
— Fui eu quem comentou com Ravenna sobre a questão da festa de vocês. A correria e etcetera — disse quase que em tom de desculpas. — Não pensei que ela comentaria com Duke. Não. Isso não é verdade. Sabia que ela provavelmente contaria a Knight. Eles não gostam de omitir coisas, ainda que sejam coisas que nenhuma outra pessoa considera omissão. Vai entender — deu de ombros. — De qualquer jeito, o que quis dizer é que não pensei que ele traria o assunto à tona na frente de tanta gente.
Ah. Então foi ela? Pensei que tinha comentado com Knight.
— Tudo bem — ofereci um sorriso pequeno. — Não foi nenhuma mentira.
E os resultados foram bastante agradáveis. Reprimi a vontade de levar os dedos aos lábios, que ainda formigavam de um jeito gostoso. Não queria, ou melhor, não sabia como conversar sobre isto, então resolvi mudar o foco, torcendo para que não estivesse esticando demais os limites da pequena intimidade que tínhamos criado:
— Dylan pareceu gostar de você.
Ela se virou para a rua e deu um sorriso meio enigmático, ainda encarando os carros que vez ou outra passavam.
— Dylan gosta do jogo, não dos jogadores. E eu não gosto de nenhum dos dois. Não tenho tempo para esse tipo de coisa. Muito para se preocupar, muito o que fazer…
Conseguia me identificar com esse sentimento. Também tinha deixado de fazer muita coisa durante muito tempo porque não era indicado, porque era perigoso, porque ele podia nos achar. Não havia percebido o quanto aquilo era terrivelmente triste até presenciar outra pessoa sofrendo do mesmo mal. Infelizmente não era algo que alguém pudesse ajudar, tinha que vir de dentro, então apenas enfiei as mãos no bolso e, em silêncio, acompanhamos o trânsito.
Quando estacionou na nossa frente, despedi-me de Appleby com um aceno de cabeça. Entrar no carro foi a parte boa porque imediatamente me vi envolvida outra vez por sua colônia, mas foi a única. O silêncio foi pesando com a mesma intensidade com que a quilometragem aumentava. Apreensiva, prendia a respiração quando entramos em casa.
Assim que se virou para mim, sabia que iríamos ter uma conversa. Assim que vi a expressão em seu rosto, sabia que não gostaria do assunto.
— Saara, — começou, muito sério — eu sinto muito pelo que aconteceu. Sei que não é desculpa, mas fui pego de surpresa. E… — inquieto, andou de um lado para o outro, coçando a nuca — não tinha o que fazer. Queria poder dizer que não vai voltar a acontecer, mas é impossível. O que posso prometer, entretanto, é encarar isto da melhor maneira para manter certo senso de normalidade: como amigos.
O peso em meu peito aumentou tanto que por um momento pensei que alguma coisa estava comprimindo meus pulmões. Foram os anos de luta, os anos em que me obriguei a colocar um pé na frente do outro e continuar caminhando para muito além do que achei que conseguiria, que me possibilitaram manter a compostura. Era terrivelmente decepcionante ver algo bom chegar tão perto, literalmente tê-lo ao alcance das pontas de seus dedos, só para depois assistir aquilo ser picotado na sua frente.
Amigos.
— Sim. Claro — cada palavras saiu com a mesma maciez que teria se eu estivesse engolindo quadradinhos de chumbo. — Amigos.
— Certo. Ótimo — forçou um sorriso, parando de andar. — Assim as coisas não ficaram estranhas.
Mais estranhas, você quer dizer.
Ao menos supunha que era melhor do que sermos estranhos sob o mesmo teto, que era nossa situação nas primeiras semanas.
— Claro. É a coisa racional a se fazer — acrescentei, apenas porque o silêncio parecia ainda pior.
Foram com novos sorrisos forçados e um clima pesado que nos despedimos aquela noite. Cada um para o seu lado, cada um na sua.

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E assim se passaram os próximos dias. Estranhando a situação e nos estranhando. Apesar do que pensei antes, havíamos regredido. Talvez voltado à Era dos Dinossauros tamanho o regresso. Desde aquele sábado fatídico, há duas semanas, cada um ficava no seu canto. Não havia mais jantares em noites leves, não havia conversas bobas ou toques gentis.
E aquilo estava me deixando maluca.
Não queria nada daquilo. Não queria me esgueirar por minha casa, receando encontrar meu marido porque sabia que qualquer encontro seria estranho. Não queria voltar para uma casa silenciosa e… triste.
Acima de tudo, entretanto, sentia saudades de .
Como minha casa, eu também estava ficando triste. Encontrava refúgio apenas nos números que revisava toda noite para Thermopylae e nas conversas amenas na Appleby’s. Mas não era suficiente.
Com um suspiro, passei a mão pelo rosto. Devia ser grata pelo que tinha e parar de reclamar. Talvez as coisas se resolvessem… ou talvez fosse isso que estivesse repetindo de maneira inútil para mim mesma há dias.
Distraída por estar sentindo pena de mim mesma, pulei no lugar ao ouvir um barulho estridente. A panela que lavava escapou de minhas mãos e caiu dentro da pia com um pequeno baque. Demorei um momento para perceber que o som desconhecido era a campainha. E então senti como se alguém estivesse derramando água gelada em minha espinha.
Medo.
Algo que não tinha sentido desde que pousamos nos Estados Unidos. O primeiro sentimento sentido por nossos ancestrais. O mais puro e paralisante medo.
Não havia motivo para alguém surgir de surpresa em nossa porta com boas intenções.
A campainha soou de novo. E uma terceira vez.
Obviamente quem quer que fosse não iria desistir. O mais silencioso possível, andei até a estante em nossa sala e abri a maleta que tinha me mostrado. Tirei a Glock .38 e, lembrando das instruções que tinha decorado, coloquei o pente de balas e destravei a arma. Com passos pequenos e inseguros, caminhei até a entrada, para então abrir a porta apenas o suficiente para ver quem estava do lado de fora, a arma em minha mão esquerda e escondida pela madeira e por minha perna.
— Pois não? — resignada, olhei para os dois homens de terno parados em minha soleira.
Saab? — o da direita, mais alto, perguntou.
Meus dedos se fecharam com mais força no cabo da arma. Engoli em seco.
, na verdade — corrigi automaticamente.
Ele abriu o sorriso mais gelado e condescendente que já tinha tido o desprazer de presenciar.
— Sim. Entendo. Senhora , — levou a mão ao bolso e tirou uma carteira com distintivo e sua foto, — somos os agentes Whitaker e Toomes — apontou para o careca ao seu lado e guardou o distintivo de volta no bolso do terno. — Imigração. Podemos entrar?



Capítulo Dez

Saara estava me enlouquecendo.
Andrea tinha adotado como meta de vida me enlouquecer.
Desde o dia, há duas semanas, em que eu tinha sugerido mantermos tudo estritamente platônico, cada segundo havia sido um pequeno inferno.
Não.
Isso não é muito preciso.
Desde o dia, há duas semanas, quando havia lhe beijado, cada segundo havia sido um pequeno inferno.
Acreditava ser um homem com certa experiência de vida. Já tinha visto muito do pior da humanidade e já tinha visto flores nascerem no brejo, então considerava relativamente difícil ser surpreendido de verdade.
O pedido de casamento de Duke me surpreendeu, o casamento relâmpago de Chase me surpreendeu, beijar minha esposa me surpreendeu. Talvez não seja justo colocar todos esses casos na mesma categoria, afinal, os dois primeiros não me fizeram perder o fôlego e me esquecer de onde estava. Tampouco fizeram meu cérebro entrar em curto-circuito e abandonar toda a sensatez em uma ideia que teria consequências... penosas.
Sendo justo, havia percebido o tamanho do erro assim que abri minha boca grande para sugerir que mantivessemos a amizade. Como, todavia, qualquer outra opção não era viável ou mesmo possível, me mantive firme em minha decisão.
E paguei por isso com grandes porções de insanidade.
De dia minha mente rondava outros tópicos, mas sempre voltava para minha mulher.
O que ela estava fazendo? O que estaria pensando? Estaria tão frustrada quanto eu ou nem se importava?
Sacudi a cabeça, inconformado. Chase estaria rolando de rir no chão se pudesse ver o que estava pensando.
Às noites, porém, eram bem piores. Enquanto acordado, podia ao menos tentar me manter ocupado. Quando o sono vinha, não era pacífico. Mesmo tentando torrar toda energia física na academia que tínhamos montado no porão do prédio da Thermopylae, ainda não conseguia descansar direito ao fechar os olhos no sofá de nossa casa porque minha imaginação criava cenários e ocasiões diferentes. E o resultado era sempre o mesmo: acordava molhado de suor e duro.
Depois vinha a vergonha. Eu deveria estar ajudando , não imaginando como ela ficaria em uma das lingeries que outro dia tinha visto sem querer em meio às roupas separadas para lavar, ou imaginando como ela ficaria sem nada… Todos os meus banhos agora eram congelantes, quase uma forma de autopunição. O problema é que a cada dia até mesmo essa forma de entorpecimento estava se tornando mais fraca, como se estivesse me tornando imune. Então só me tornava cada vez mais… perdido.
Não sabia o que fazer porque não havia o que fazer.
Como um covarde, nos últimos três dias, quando a vontade de ficar mais perto de minha esposa se tornou quase insuportável, havia passado cada vez mais tempo na Thermopylae, tentando trabalhar como louco para que a loucura dentro de mim não me consumisse. Afinal, não poderia classificar como outra coisa senão loucura querer algo quando obviamente estava tão longe de seu alcance, de suas possibilidades.
Além de tudo isso, porém, cada pequeno gesto dela adicionava um pouco mais ao meu sofrimento. Não que estivesse fazendo qualquer coisa propositalmente. Acho que não sobreviveria se ela estivesse realmente se esforçando. Porque, afinal, sua voz suave falando sobre qualquer amenidade — e que, nos últimos tempos, infelizmente, se resumia apenas à nossa lista de compras —, o jeito como seu quadril se movia enquanto ela cozinhava, a maneira como seus olhos se iluminavam quando ela estava escolhendo um livro para ler já me faziam ficar desnorteado, imagina se ela quisesse me provocar...
O barulho alto de uma porta batendo me fez voltar à realidade, onde meus e-mails estavam abertos, ainda sem resposta, porque eu tinha obviamente passado o tempo todo dentro da minha própria cabeça, de novo sob os efeitos do feitiço no qual minha esposa nem mesmo sabia que tinha me colocado.
— Merda — passei a mão pelo cabelo e depois bati a palma sobre o tampo de madeira da mesa algumas vezes, tentando limpar a mente.
Para ajudar ainda mais, a parte burocrática do negócio era terrivelmente entediante. Tínhamos novos clientes prontos para firmarem contratos, mas não podíamos aumentar os negócios por falta de pessoal — e isso incluia nosso não-existente contador fixo. Então precisava usar todo meu, segundo Chase e sua boca grande, “charme para se tornar amiguinho de todo mundo” para acalmar os nervos e não queimar pontes — o que significava que minha caixa de e-mails estava lotada o tempo todo.
Bom… supunha que deveria agradecer por pelo menos não ter que lidar com os contratos e com a parte legal. Nossa advogada, dra. Lisbon, tinha por volta de nossa idade, era particularmente bonita e me dava bastante medo. Não sabia como Duke conseguia discordar dela em qualquer assunto, um olhar gelado e eu colocaria o rabo entre as pernas e abaixaria as orelhas. Realmente. A mulher poderia ter sido um general militar com facilidade.
Tampouco estaria ansioso para fazer o trabalho de Dylan. Gráficos, esquemas e todos aqueles micro detalhes com que ele tinha que se preocupar a cada novo contrato que assinávamos definitivamente não era minha área. Preferia opinar antes ou depois sobre o plano, a logística de como chegaríamos/chegamos à ele não me interessava nem um pouco.
Chegando à conclusão de que todos estávamos presos à burocracias bem chatas, decidi finalmente começar a fazer minha parte. Foram necessárias duas horas para terminar tudo e, com uma espiada rápida no relógio do computador, notei que faltavam dez minutos para as cinco da tarde — ou seja, praticamente o horário que costumava ir embora antes de toda aquela confusão que tinha aprontado com minha esposa.
Se fosse ontem, provavelmente procuraria outra coisa para fazer ao invés de ir para casa e testar meu autocontrole mais um pouco, mas a tarefa a que tinha me dedicado nas últimas horas era tão incrivelmente maçante que só conseguia pensar em um banho — quente, dessa vez. Depois de juntar tudo e apagar as luzes, passei pelo corredor de nossas salas e me despedi de Chase, que ainda trabalhava e notei que a sala de Duke já estava fechada.
— Josh?
Ele levantou os olhos, as pálpebras pesadas de sono.
— Sunset, , Sunset — me corrigiu, bastante convicto para quem há um segundo estava caindo de sono.
Revirando os olhos, continuei:
— Certo, Sunset, ou seja lá o que vocês crianças estão se chamando hoje em dia, preciso que você imprima 2 cópias de tudo, grampeie e coloque de volta em minha sala, por favor. Amanhã vou destacar algumas partes antes de entregar a Dylan e Duke.
— Pode deixar, chefe — sorriu ao pegar o pendrive de minha mão. — E aproveito para pontuar que você não tomou café hoje. Cara, esse é um excelente jeito de se reconectar com sua possibilidade de conversar com o universo.
Se não tivesse me perdido no meio da conversa graças à lerdeza entediante com que ele falava cada sílaba, teria considerado aquele papo bem estranho. Como, porém, mal tinha ouvido, respondi apenas:
— É. Pois é. Boa tarde, Sunset. Até amanhã — e saí ligeiro dali, antes que ele pudesse começar alguma outra conversa sobre os malefícios do açúcar ou sobre curvas que os astros tinham feito na noite anterior.

xxx

Era bem patético ficar alguns segundos encarando a madeira da porta de sua própria casa. Podia colocar essa ação junto com várias outras que tinham se acumulado nas últimas semanas, tais como fingir ler um livro em meu próprio sofá e mentir já ter jantado só para evitar uma conversa vazia em minha própria mesa.
Soltando o ar pesadamente e decidindo parar de sentir pena de mim mesmo, girei a chave, entrei em casa... e tomei um susto quando imediatamente senti um corpo se chocando contra o meu. Foi o cheiro gostoso de seus cabelos que me fizeram reconhecer quem era antes que meus reflexos pudessem empurrar a pessoa para longe. Seus braços subiram para se cruzarem ao redor de meu pescoço e, atônito, não tive reação quando ela ficou nas pontas dos pés e pressionou os lábios contra os meus em um beijo rápido.
— Oi, amor.
Havia bastante confiança em suas palavras, mas já havia ouvido este tom quando lhe contei o que tinha acontecido com Joe. tinha insistido que estava tudo bem, que ela não precisava de minha ajuda, mas eu conseguia perceber o pequeno tremular que seria imperceptível a outras pessoas. Minha esposa era forte como aço, mesmo quando o mundo parecia estar desmoronando ao seu redor. Sua força não me surpreendia nem um pouco, o que eu não conseguia entender era o porquê de ela estar precisando exercitá-la ali e agora.
— Como foram as coisas? Nós temos visitas.
O jeito como ela disse a última palavra me fez entrar em alerta. Meu braço passou por sua cintura quando ela se colocou ao meu lado.
, esses são os agentes Whitaker e Toomes. Eles são da imigração.
Agora que minha atenção não estava mais em minha esposa angustiada, pude ver os dois homens desconhecidos sentados em nossa pequena mesa de quatro lugares, parecendo tão fora de lugar quanto humanamente possível.
— Boa noite — inconscientemente, meu aperto aumentou ao redor de minha esposa.
Os dois se levantaram. O careca, acredito que tenha identificado como Toomes, apoiou a mão sobre a mesa, fazendo as duas frágeis xícaras que estavam na frente dos agentes dançarem no lugar.
? — Whitaker, contudo, foi quem se aproximou e apertou minha mão. — Nós viemos fazer algumas perguntas, se não se importa.
Apesar do tom conciliador, era óbvio que não tínhamos realmente uma escolha.
— Por favor — apontei para um dos nossos sofás de dois lugares.
Depois de eles se sentarem, nós dois nos acomodamos no sofá em frente. Tive a certeza de pousar minha mão esquerda sobre a de .
— Como estávamos explicando a sua esposa, senhor , nós recebemos o pedido de green card dela. — Toomes apoiou os cotovelos sobre as coxas, assumindo a conversa. — Como é de praxe, estamos aqui para uma entrevista preliminar, uma coisa mais informal.
O sorriso gelado que ele deu contradizia suas próprias palavras. Nada de informal. Era claramente uma armadilha disfarçada.
— É claro — devolvi o sorriso com tanta animosidade quanto ele me oferecia. — Em que podemos ajudar?
Eles fizeram uma pausa calculada para nos deixar nervosos, tomando mais tempo do que o necessário para tirar seus blocos de anotações e canetas do bolso dos casacos.
— A senhora morava na Arábia Saudita, certo?
— Correto.
— E vocês se casaram lá há cerca de 5 meses.
Assenti. Ele abaixou a cabeça e leu alguma coisa em suas anotações antes de continuar.
— E, antes de voltarem para América, conseguiram autorização na embaixada para que a senhora pudesse vir também. Ficamos curiosos para saber como exatamente vocês conseguiu isso? Afinal, bem sabemos que os funcionários da embaixada não são conhecidos por sua grande rapidez.
Tentou colocar leveza nas palavras, como se estivéssemos compartilhando segredos entre amigos, mas era tão forçado quanto o resto de seu discurso.
— Como tenho certeza que seus arquivos devem mostrar, — tentei manter a diplomacia, — é filha de Bill Williams, um americano. Como seu pai lhe garantia o direito à requerer sua nacionalidade e, levando em consideração as… demais circunstâncias, eles tiveram a grandeza de acelerar a papelada.
As mãos de estava gelada sob a minha e sabia que aquela parte da conversa era a mais delicada. Não pude deixar, entretanto, de me sentir orgulhoso pelo jeito como ela se mantinha composta, aparentando serenidade e confiança.
— Ah, sim — balançou a cabeça, condescendente. — Entendo. O que não entendo, entretanto, é o porquê de você não ter usado sua linhagem hereditária para garantir entrada e estadia em nosso país. Afinal, se seu pai realmente era Bill Williams, — inclinou-se para frente, aquele sorriso lento e venenoso se fazendo presente mais uma vez, — não seria muito mais fácil adotar o sobrenome dele, e não do seu marido? — terminou, lento, como se estivesse saboreando cada gota de veneno que colocou nas palavras.
Senti cada músculo em meu corpo se retesar. Foi preciso usar toda a concentração que aprendi nos treinos na marinha para reprimir a vontade que tive de deformar a cara daquele bosta com um soco.
O jeito como seu sorriso desagradável se alargou me disse que ele sabia exatamente quanto de esforço eu estava fazendo para me controlar… e que estava se divertindo com isso. Respirei fundo e não sei como as próximas palavras conseguiram passar por meus dentes cerrados, afinal, o aperto estava tão firme que minha cabeça começava a doer:
— Meu sogro infelizmente faleceu há três anos, quando sofreu um ataque cardíaco repentino e fulminante. Na época, meu cunhado decidiu por bem cremar o pai. Tivemos o bom-senso de não desperdiçar o dinheiro dos contribuintes com petições que sabíamos que não levariam a lugar algum.
— Bons samaritanos, não é mesmo? — murmurou zombeteiro, mas fingiu ter deixado aquele comentário calculado escapar sem querer, mudando rápido o enfoque para outro tema. — Mas com a ciência avançada dos dias de hoje, seria plenamente possível a comprovação desse suposto parentesco fazendo uma comparação dos irmãos. Por que motivo essa não foi uma opção?
Foi como se ele estivesse tentando enfiar uma faca cega em minha barriga, empurando a ponta pela pele… centímetro a centímetro. Por um segundo várias cenas passaram em frente aos meus olhos com a clareza de um filme. Fui trazido de volta para a realidade quando Saara mexeu a perna para encostar a coxa na minha e senti seu calor.
Era ela quem estava sendo minha âncora, quando, na verdade, era quem tinha o direito de estar desabando. Virei a cabeça em sua direção, mas minha esposa estava encarando os agentes, o queixo erguido.
— Imagino que seus bancos de dados estão um tanto quanto defasados, não? Ninguém lhe informou que registramos a morte de meu irmão na embaixada?
O filho da puta fingiu ler alguma coisa em suas anotações e olhou para seu parceiro, que estava quieto até o momento:
— Não sabia. Você sabia, Tommy?
Whitaker, que estava bastante confortável com as costas apoiadas no sofá, franziu o cenho de modo zombeteiro para o colega, e sacudiu a cabeça.
— Não. Não sabia não. O que aconteceu, senhora ?
De novo, era óbvio que eles estavam jogando com a gente, fingido-se de ignorante para construir armadilhas nas quais esperavam que caíssemos.
— Ele estava no mercado de Riad quando um maníaco achou por bem se explodir e levar consigo quantos inocentes conseguisse.
Ainda podia ouvir o zumbido em meus ouvidos e por um segundo me senti tão perdido quanto naquele dia.
De novo, foi Saara quem me trouxe de volta, dessa vez mudando a posição de sua mão para entrelaçar nossos dedos.
— É mesmo? Que terrível — sacudiu a cabeça, sua voz tão inflexível quanto antes. — E o que ele fazia lá?
— Foi me visitar.
Respondia tudo com a elegância e sobriedade de uma rainha, nunca demonstrando nada além de sinceridade — ainda que estivesse contando meias-verdades —, nunca se encolhendo apesar das perguntas francamente acusatórias.
— Visitar você? E quanto tempo ele estava na Arábia quando o… incidente aconteceu?
— Três dias.
— Só três dias e ainda assim ele conseguiu estar bem no meio de tamanha tragédia. Que grande coincidência.
Estava prestes a responder, mais precisamente a chutar esses merdas para fora de minha casa e que o distintivos deles fosse para puta que pariu, quando minha esposa voltou a falar:
— Acredito, agente Toomes, que esteja entendendo mal seu tom — as palavras se tornaram arrastadas e confesso que não tão claras quanto antes, a raiva fazendo seu sotaque normalmente imperceptível se tornar pesado. — Por um segundo, cheguei a pensar que, embaixo do meu teto, em minha casa, você insinuou que meu irmão estava envolvido com algum dos vermes responsáveis não só pela morte dele, mas de várias outras pessoas — fez uma pequena pausa. — Mas foi só uma confusão minha, não é mesmo?
Seu tom era gelado, glacial, mas, paradoxalmente, podia sentir sua raiva vindo como ondas poderosas. Minha esposa iria transformar tudo em terra arrasada usando gelo e fogo.
Os agentes pareceram também perceber que a falsa calmaria havia acabado. Eles se empertigaram, endireitando as costas e, quando Whitaker abriu a boca, ficou claro que eles adotariam a estratégia pacificadora:
— Claro, senhora . Nós não queremos insinuar nada. Foi apenas um mal entendido.
— Um mal entendido, é claro — seus lábios se apertaram em sinal de desprezo.
— Ótimo — de repente ela estava de pé, surpreendendo, assumo, nós três. — Que bom que deixamos isso bastante claro.
Levantei-me para me colocar ao seu lado, tendo a certeza de mostrar que nós dois formamos uma frente unida
Contrariados, eles também se levantaram.
— Acredito que esteja ficando tarde — , ainda parecendo a única a ser coerente, continuou falando de maneira firme. — Tenho certeza de que qualquer outra questão em que tenha restado alguma dúvida pode ser deixada para uma segunda oportunidade, não é mesmo?
Sem dar espaço para que eles protestassem, Saara já tinha aberto a porta e indicado o caminho da rua com a cabeça e um sorriso tão artificialmente doce que poderia matar alguém por excesso de glicose no sangue. Sua voz e postura não deram qualquer abertura para discussão. Toomes se virou para mim, quase como se esperasse que eu interviesse.
Claro, seu merda, vou intervir sim. Escolher vocês ao invés de minha esposa.
Cruzei os braços, quase torcendo para que eles desafiassem Saara e eu pudesse chutar os dois para fora — exatamente como queria ter feito desde o primeiro minuto. Como não tinham autorização judicial, estaria no exercício do meu direito ao expulsá-lo de minha propriedade.
Em silêncio, eles escolheram a opção sábia e sairam. Antes de se dar por vencido, entretanto, Toomes decidiu que precisava ter a última palavra:
— Nós vamos nos ver de novo, senhor e senhora . E talvez poderemos, enfim, esclarecer outras questões interessantes.
nem mesmo esperou ele se virar antes de bater a porta, aproveitando para trancar as duas fechaduras, quase como se isso fosse suficiente para manter aquilo que os dois agentes representavam para longe de nós.
Quando ela se virou para mim, toda a pose que ela tinha mantido se despedaçou. Seus olhos da cor de deserto estavam tão desolados quanto a imensidão dourada podia ser.
— Eles vão descobrir tudo — sussurrou sem fôlego, então levou a mão trêmula para cobrir os lábios. — , o que vamos fazer?
Quase não consegui entender as palavras abafadas por sua palma e enroladas pelo nervosismo que trazia seu sotaque a tona. Como o mais completo imbecil, não conseguia reagir. Impotente, observei minha esposa começar a andar de um lado para o outro, murmurando para si mesma frases em árabe que não consegui entender entre outras em inglês:
— Eu não posso voltar para lá… Ele não… Mamãe disse que iríamos…
Não encontrava sentido em suas palavras. Aliás, sendo mais preciso, não conseguia encontrar sentido em nada. Estava entorpecido. Foi só quando ela parou de andar e levantou a cabeça para me encarar de novo que meu mundo pareceu voltar ao eixo.
, o que vamos fazer?
Havia tanto desespero em seus olhos, tanto medo… Minha próprias emoções também se tornaram incontroláveis. Senti o pavor gelado fechar minha garganta e aquilo se multiplicou quando meu cérebro chegou a conclusão de que essas últimas semanas não seriam nada se comparadas ao que aconteceria se fosse deportada. A sensação de impotência se multiplicou até se tornar insuportável, como se devorasse cada pedaço da minha pele devagar.
, o que vamos fazer? — repetiu, ainda mais inconsolável, com a voz ainda mais pequenininha.
— Nós vamos… — sentia meu peito subir e descer fora de ritmo, a ansiedade não permitindo que conseguisse respirar direito, ofegava como se tivesse corrido uma maratona. — Nós vamos resolver isso. Vamos… vamos dar um jeito. Vamos…
Passei a mão pelo rosto, tentando controlar o impulso.
— Mas primeiro…
Avancei a passos largos. Alguma coisa em minha expressão a fez dar um passo para trás, recuando até estar com as costas contra a parede. Não estava em minha sanidade perfeita para falar qualquer coisa, só precisava… precisava ter a certeza de que ela estava ali comigo.
Suave, cheirosa e incrível como ela sempre tinha sido.
Ali, comigo.
Subi a mão até que meus dedos estivessem entre seu cabelo, a outra, em seu queixo. Saara levantou a cabeça para me encarar com seus olhos de deserto. Abaixei-me até que meus lábios estivessem sobre os seus e dessa vez não havia nada de lento. Beijei-a com força, apertando-a contra meu corpo, mordiscando seu lábio e o puxando entre os dentes. Beijando-a com toda a vontade que tinha acumulado durante esses dias, beijando-a como queria ter feito há meses, beijando minha esposa como ela merecia ser beijada.



Continua...

Nota da Autora: Olá, amores. Estavam com saudades do nosso casal poder? heheh
Espero que tenham gostado do capítulo. Obrigada por todo o carinho ❤
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Nota da beta: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA O SHIP ACONTECEU. COMO EU AMO SAEB AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
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