Gelben Wand

Autora: Roxy Hoult | Beta: Mily



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Capítulos:
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Capítulo 1

O estalar rítmico das pancadas era captado por seus ouvidos e transmitidos a mente em forma de dor. Os gritos guturais do namorado não a amedrontavam mais, simplesmente não surtiam efeito. Seu corpo era gradativamente tomado pelo torpor, e os hematomas vermelhos afloravam-se majestosos sobre sua pele. Ela ergueu os olhos quando sentiu um tênue filete de sangue rasgar o canto de sua boca, e estremeceu ao se deparar com o olhar perverso do homem que lhe batia. Era ali o fim da linha, sem direito a luz no fim do túnel ou ao precipício sob seus pés. O beco sem saída era Thomas, os grilhões em seu calcanhar.
Podia se questionar sobre quem saberia do trágico caminho pelo qual seguia, mas ela sabia, conteve os impulsos de culpar-se, pois ela sabia. Tanto sabia que chegara até ali, aturdida, a mercê. Era um fato, as piores coisas da vida vinham de graça.
De súbito, o punho de seu agressor arrancou seus devaneios, repentinamente deformando sua face ao clamar por atenção. As mãos de Thomas contornaram seu pescoço em um toque áspero, o olhar recaindo na postura da mulher trêmula, acanhada, de pálpebras contraídas; em dor. Na medida em que o ar esgotava em seus pulmões os movimentos do corpo cediam, a consciência largava-se ao vento. A vida, um passado distante, dançava em seus olhos, migrava de gargalhadas a lágrimas em uma brincadeira de criança extenuando-a. Estava cansada, engolia choros e palavras, continha impulsos e emoções, contentava-se à espera de uma salvação que não viria por tampouco existir, recusando admitir para si mesma que nenhum pó de pirlimpimpim lhe traria liberdade, que a tempestade não se tornaria uma chuva de doces ao estouro de um balão. Havia se arrastado por tempo demais, e o medo, as desculpas para não agir estavam escassas, ou nem mesmo estavam. Traçava ruínas a procura das migalhas de si, mas nada havia ali. Por vezes a sombra da mulher que um dia foi não se encontrava, não se reconhecia, deformava-se. As rosas daquele jardim haviam murchado.
Sentiu o corpo desmontar-se ao chão, e ali, anestesiada em um instante de horror, mirou o rosto de Thomas a procura dos sinais que havia negligenciado. Faziam meses, mas pareciam décadas. Com algum esforço podia ouvir o sibilar das vozes a dizer que tudo não passava de um romance; Thomas era apenas um romântico apaixonado. gostaria de acreditar que hoje o reconheceria, e fugiria, mas os sinais em sua face, hoje escancarados, antes não eram assim tão claros; ofuscados da a entender por acaso, mascarados, expressões inexpressivas, um punhado de antônimos, hipérbatos e paradoxos. E o homem sorria, tão contraditoriamente sorria. Via-a tão inquebrável como qualquer coisa frágil, um brinquedinho inerte, insosso, irracionalmente sedutor; sua por completo, em carne e alma, pura, destroçada tal que incapaz de sobreviver longe do seu abraço; carente e deixada às traças por todos, mas não por ele. Ele a protegia de si, do mundo, ou pelo menos assim o dizia, justificava, tentava, tentava fazer entender, como tentava; mas ela sabia, sabia que não havia de quem se proteger senão dele: Thomas; uma porcaria de nome e sobrenome sem valor, em realidade, um idiota.
Dobrou os nós do dedo em ânsia e sob os lábios rachados murmurou seu hino. rezaria se soubesse; era preciso nada mais do que trinta segundos de coragem, nada mais que a adrenalina percorrendo seu corpo. 30 segundos de coragem. Mecanicamente, apoiou os cotovelos na parede e impulsionou com dificuldade o corpo enfraquecido; travava consigo uma luta condicionada pela dor. Amargurava-se, mas era tarde demais para lamentações, o homem a contemplava com curiosidade, e dali soube que não havia retorno. Thomas tocou seu rosto como prestes a acariciá-la, quase gracioso, surpreso pela nova cena à crônica ultrapassada que encenavam todos os dias. Ela era óbvia e de fato uma personagem em estrutura de carbonos. havia saltado de um livro direto a seus braços, mas ao contrário do que fantasiava ela não pensava muito para se elaborar. O mantra ecoava em sua mente, e isso era tudo que sempre precisava; impulso. Acertou Thomas com um chute entre as pernas, vislumbrando com louvor a face que se contraia em indignação. Fez menção a mover-se, correr, livrar-se; e fora rápida, mas não o bastante. Thomas a agarrou pelos calcanhares e puxou-a contra si, os braços envolvendo o mármore estático de sua pele, curvando-a a sua malevolência. Ergueu-se soberbo desferindo chutes contra a oval forma assumida pela mulher que se protegia com as mãos, mergulhada entre os joelhos que se partiam. Suspendeu-a pelos cabelos examinando-a com interesse; o escárnio estampado em seu rosto. Achava-a notável, às vezes tão bela e contida em seu papel, solicita as suas obrigações, mas por vezes demente: selvagem como seus antropófagos ancestrais, incivilizada pelas deficiências de seu sexo; uma espécime curiosa de alguém que beirava a estupidez. E era tão bonita, mesmo assim, mesmo naquele estado, os lábios contorcidos em um traço, manchados de sangue, banhados por lágrimas; em visível conflito, lutando para acreditar que sabia o que estava fazendo.
- Tom? – O sussurro choroso escapou por seus lábios. – Eu, eu s-sinto muito Tom. Não d-devia ter questionado voc... – Engoliu o sangue – T-enho medo Tom, por favor, n-não me machuca, eu faço. Ju-juro m-mesmo Tom, eu faço.
- Medo? – Riu incrédulo.
estremeceu. Havia algo naquela risada. Algo, um detalhe extremamente asqueroso que fazia com que se contorcesse ao som daquela voz, daquela entonação. A fala era de quem personificava o diabo, as palavras escolhidas a dedo para apavorar e amplificá-lo, enaltecê-lo; a cada pausa lhe diminuía, a cada significado que não compreendia. Era uma maldita presa.
- Te fiz uma pergunta . – O homem brandiu ríspido.
No piscar dos olhos, os dedos de Thomas revelaram o ás oculto em sua manga, e antes que sequer pudesse esboçar uma reação, seu corpo trêmulo e enfermo contorceu-se nos braços do homem. O grito escapou involuntário de seus lábios e as bochechas rapidamente se preencheram de um tom avermelhado. Os músculos se contraíram, e uma dor excruciante envolveu-os, rasgando-os, um por um, infinitas vezes em cinco segundos jamais antes tão longos. Repentinamente, a mulher tornou-se lânguida, e assim, por um triz um cadáver, desabou sobre os músculos de seu carrasco com um único murmúrio dúbio escapando de seus lábios.
- N-na-da, n-ada Tommy.
- Tommy? – Um riso trespassou seu semblante – Acha que sou mesmo assim tão estúpido? – Puxou-lhe para junto de si – A boneca é você ... – Ele brincou rumorejando em seu ouvido. Os dedos ásperos caindo na cintura da mulher, dançando acima de seu ventre. – Linda… E ainda sim, não mais que uma piranha ardilosa. Não passa de uma vadia, Hoult... Não é? A minha vadia, a minha puta, a minha mulher – Thomas cuspiu, empurrando-a em direção ao quarto. – Você não precisa me dar o que é meu .
As mãos arrancaram-lhe brutas a camiseta e eufóricas apertaram seus seios sem menção a carinho, sem migalhas do tal amor de verdade. Thomas suspirou em um relance, um sorriso maldoso ao canto da boca.
- Eu pego de qualquer jeito.
Havia luxúria. Dominação. Possessão. Havia pânico. gemeu agoniada, caída em círculos mais uma vez. E então, em súbita revelação compreendeu, ela, a presa exposta na sala de estar; havia se tornado exatamente aquilo que Thomas ansiava: submissa, e não havia volta, enfiava-se compulsiva em uma prisão na triste ilusão que se resguardava. Daquele dia em diante caminhava para a morte guiada por um homem que a cada segundo perdia maior controle de si e não podia mais.
- T-Thomas? – Titubeou, interrompendo os toques que a violentavam.
Os orbes do homem queimaram sua pele, o olhar confuso escaneando suas expressões, mas não se importou, sorriu um sorriso para o qual não existe tradução; leve. focalizou a única coisa que importava, não hesitou. O baque fez com que o homem se retraísse, e como se o tempo congelasse contemplou a garrafa a se espatifar em milhares de pedacinhos; o líquido escorrendo-lhe a pele em um ato dramático. Um tênue sorriso escapava dos olhos da mulher, era livre? Não sabia, mas gostava da sensação. O corpo de Thomas pendia mole na lateral da cama, por infortúnio ainda vivo; com sorte, ainda que esta nunca repousasse sobre seus ombros, não lhe procuraria novamente.
Quis não procurar por nada, nem um ínfimo dólar, não respirar por sequer mais um segundo o ar putrefato de sua cela, correr o mais rápido que podia tão longe quanto possível, quebrar para sempre as correntes que atavam seus pulsos, mas ao fitar o inconsciente a sua frente soube que seria burrice. Não tinha para onde ir, não sabia onde queria chegar, mas não importasse aonde, sem dinheiro não iria muito longe; se seria caçada, não seria uma presa fácil, levaria tudo que pudesse: o salário, as armas, as economias; só não deixaria, porém nada de si, nenhuma pista. Precisava de tempo, certeza de que o homem não teria condições de encontrá-la tão facilmente, ou pelo menos não tão cedo. Com ironia em seus atos, a mulher o algemou a cama e sem mais delongas buscou por seus pertences. Fez uma pequena mala, algumas mudas de roupa, alguns medicamentos e produtos de higiene, uma única foto e a lágrima inerente a ela, o fantasma daquela gargalhada ecoando em sua mente.
Saiu pela casa como um furacão, pegando notas espalhadas, a carteira de Thomas e uma blusa qualquer para cobrir-se. Por último, foi à cozinha, onde em um esconderijo péssimo o homem mantinha os papéis amarelados que atestavam sua existência, seu único elo com o mundo real, um lugar curioso, visto que era o que mais frequentava; concluiu que o homem de fato nunca a conhecera. Deus! Será que Thomas sequer um dia ouviu a mulher falar com paixão sobre seu futuro, passado ou presente? tinha como palpite que não. Não importava. O badalar do relógio fez com que se desequilibrasse e da cadeira despencou de encontro ao chão frio. O ponteiro era claro, hora de ir. Já em pé, a porta de seu inferno pessoal olhou pela última vez a foto antiga entortada na parede. e Thomas pareciam felizes, um casal tão provável quanto o retorno do sol após a gélida indesejada das gentes. Ela achava que estava construindo uma vida, uma família, e ali estava; hoje, Maio de 2016, cidade natal de Thomas McQuire, um lugar que não poderia ser corretamente nomeado; as coisas afinal mudavam. Não teve dúvidas do destino que tomava, nas mãos apenas uma singela bagagem; a cidade de sua infância lhe acolheria melhor. Levou a foto consigo e correu. Correu em seus sonhos, despertos por uma pitada de esperança. Disparou pela rua, por que sua sanidade literalmente dependia daquilo.
Correu.


Continua...

Nota da autora: (31/08/17) Ei moças! Primeiramente muito obrigada por estarem lendo a fic! É minha primeira no site e na vida que finalmente saiu do papel, então espero que vocês gostem dela tanto quanto eu estou amando escrevê-la. Tem muita coisa boa planejada – eu acho pelo menos – para acontecer e vocês vão perceber que os primeiros capítulos vão ocorrer num período de tempo muito curto, uns seis capítulos pra dois dias, mas é super necessário pro desenvolvimento, portanto não desistam de mim, nem dessa linda! A fic não é movida a comentários, mas seria muuuuito gratificante saber o que vocês estão achando e tudo mais, é uma puta motivação! Por enquanto eu não tenho nenhuma página nem nada pra fic, mas dependendo da aceitação eu crio um e tals, qualquer coisa é só chamar no roxyhoultt@gmail.com. É isso, muito obrigada amoras!
Beijookas!



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