Garota de Áries

Autora: Dani Tesfaye | Beta: Mily (Gaby até o capítulo 1)

Capítulos:
| 01 | 02 |


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01. Entre socos e encontros.

Quando eu era criança fiz aulas de Muay Thai durante alguns dias. Honestamente eu não sei o que me deu naquela época, mas eu simplesmente achava o máximo filmes de luta e teve um dia em que acordei decidido em me tornar Jean-Claude Van Damme. Felizmente ou infelizmente, violência nunca foi o meu forte e as aulas não duraram mais do que duas semanas, apesar do meu pai ter pagado dois meses adiantados.
Ainda me lembro dos olhos animados do meu pai ao escutar-me dizer que queria praticar algum esporte, de preferência que envolvesse dar chutes e socos no ar ou que simplesmente, afastasse os garotos que sempre me paravam para cometer algum ato de violência ou rir da minha cara na escola. Na mesma rapidez que eu decidi colocar o plano perfeito para acabar com o tormento que eu vivia na minha quinta série em prática, eu decidi desistir dele. Não sei muito bem como meu pai se sentiu após me ver chegar em casa e ouvir-me dizer que aquilo não era para mim, mas imagino que não foi algo fácil já que ele é totalmente obcecado por esportes e sempre sonhou ter filhos campeões em alguma modalidade que envolva força e um talento maior que o proposto ou natural. Agradeço pela existência do meu irmão mais velho, Jonas, que deixa o sonho do meu velho vivo e lhe rende uma boa fortuna todo mês ou quem sabe, todo dia.
Eu não reclamo, é esse dinheiro que paga a mensalidade da minha faculdade todo mês.
Um dos principais momentos em que me fizeram desistir da luta foi quando eu me questionei se seria capaz de machucar alguém, capaz de tirar sangue de uma pessoa, capaz de sentir tanta raiva a ponto de distribuir socos e chutes sem pensar duas vezes. No mesmo instante que as perguntas vieram em minha mente, lembrei de todas as vezes em que eu corri para os meus irmãos mais velhos quando alguma briga acontecia e de como eu me sentia zonzo ao ver sangue. Naquela mesma ocasião eu percebi que não, não conseguiria fazer aquilo, eu não era capaz de machucar nem mesmo um pequeno inseto muito menos um ser humano, mas mesmo não se importando muito com ironias ou se dando conta delas, admito que a palavra é a melhor forma de descrever algumas coisas que andam acontecendo na minha vida. Um exemplo disso é o fato de que eu detesto profundamente qualquer tipo de violência, mas o desprazer, desconforto e a profunda raiva que sinto ao ver injustiça me faz repensar algumas coisas e cometer atos sem medir as consequências.
O garoto de doze anos que jurou, sentado no banco azul daquele vestiário preenchido pelo vapor quente nunca ser capaz de machucar alguém, ficaria surpreso ao saber que essa foi a primeira coisa que se passou por sua cabeça após atravessar as portas de vidro desenhadas da cafeteria que ficava na faculdade e ver um brutamontes agarrando com força, os pulsos da sua suposta namorada ou ficante. A mesma avisava, repetidamente, que aquilo estava machucando e pedia para que ele a soltasse.
Briga de marido e mulher ninguém mete a fodida colher? Eu mandei para os infernos esse maldito ditado antes de simplesmente exigir que o babaca a soltasse e começar a brigar com o ele ali mesmo ao perceber que o cara não estava muito disposto a se afastar da garota.
Apesar do olho roxo, um machucado na testa, cantos da boca e a bochecha direita cortada, cabelo desgrenhados e roupa toda amassada não me arrependo do que fiz. Talvez eu só mudaria a forma de abordagem, tentaria conversar calmamente com o brutamontes ao invés de partir para violência, ou quem sabe eu decidisse continuar com as aulas de muay thai há oito anos atrás já que o babaca claramente levou a melhor no nosso duelo.
É nessas horas que eu me sinto profundamente grato pelo sistema de supervisão do campus, nesse momento eu poderia estar sangrando até a morte no chão sujo em frente à uma cafeteria e não na enfermaria, que além de conter uma paleta de cores reconfortantes e agradável aos olhos, também me permite olhar uma garota que, sinceramente, mesmo eu ainda não ter visto seu rosto, admito que ela é alguém muito boa de se olhar.
Assim que eu me recuperar do combate irei, pessoalmente, agradecer os guardas que afastaram o psicopata disfarçado de um imbecil que estava em cima de mim.
Quando entrei na enfermaria da universidade, seus cabelos , confusos entre o liso e o enrolado, que iam até a altura de seus seios fartos, cobertos possivelmente por um sutiã tomara-que-caia e uma blusa que deixava seus ombros à mostra rosa, foi a coisa que mais me chamou a atenção entre todas as outras coisas grandiosamente interessantes no local como: as paredes beges e azuis, armários brancos, frascos de vidro, pílulas, prateleiras, camas brancas e azul bebê compridas, seus seios fartos e a roupa que ela poderia estar usando por baixo do tecido rosa, mas diante de todas aquelas coisas e dela, algo conseguiu me deixar um pouco irritado e até mesmo decepcionado. O aparelho barulhento e irritante que a garota carregava em suas mãos fazia com que ela digitasse sem parar e não permitia que eu descobrisse os traços do seu rosto. Declarei meu ódio por celulares naquele momento.
Já pensando em fazer algo que chamasse sua atenção e eu pudesse olhar seu rosto, caminhei da forma mais barulhenta até a cama ao lado da qual ela estava sentada de lado, mas infelizmente meus pés pisando duro contra o piso branco e limpo não foram o bastante para tirar a sua atenção do aparelho do demônio.
Sentei de lado na cama também de proposito, ficando de frente para ela que até então não tinha notado minha presença.
Ao recordar a cena típica que sempre tem nas literaturas internacionais e nacionais, que o cara entra no cômodo e o cheiro amadeirado e gostoso do seu perfume invade as narinas e o ambiente, chamando a atenção da protagonista para ele, me irritei profundamente. Mais frustrante do que irá ser para a minha irmã ao me escutar dizer que eu comprovei que essa cena não acontece na vida real, está sendo para mim nesse momento, em que lembrei das gotas de perfume jogadas contra meu pescoço antes sair de casa e percebi que o meu aroma amadeirado não faz diferença nenhuma em momentos normais e casuais como: Eu quero ver o rosto dessa garota!
Ainda inconformado com a minha descoberta e as dores, que de repente comecei a sentir pelo corpo, desejei que a bateria do seu celular acabasse rapidamente, enquanto colocava o saco de gelo na testa e olhava para os lados. Foi só eu desviar minha atenção da garota por alguns segundos que logo em seguida, escutei o barulho do celular sendo bloqueado. Esperei algum tempo observando com bastante atenção as paredes do cômodo, admirando profundamente o trabalho do pintor, construtor, arquiteto e me perguntando o que aconteceria comigo se eu tomasse todos aqueles remédios que estavam na prateleira na parede para então, finalmente decidir olhá-la.
Desejei que ela voltasse sua atenção ao celular assim que pus meus olhos nela e encontrei suas íris, me encarando.
Ao contrário do que eu esperava, sua face era uma mistura de traços fortes, marcantes e delicados, o nariz detalhado, perfeitamente arrebitado, a boca delicada, vermelha, fina e o maxilar bem desenhado. Sua pele se destacava por ser dourada, revelando suas horas com o corpo exposto no sol, junto com seus olhos, que possuíam cílios pretos, longos e curvados que deixavam seu olhar mais profundo, intenso e ao mesmo tempo, conseguia exalar uma espontaneidade no brilho de sua íris. Não consegui decidir se ela fora moldada pelo criador ou pelo próprio demônio.
No mesmo tempo em que tinha uma delicadeza em sua aparência, também existia uma certa dureza, tensão, intensidade e seriedade. Era como se ela fosse malditamente perfeita para se colocar em um quadro. Detestei meu olho roxo, o resto dos meus machucados e nunca, desde que levantei do chão completamente ferrado e entrei na enfermaria me arrependi tanto de não ter agido de forma mais pacífica diante daquele babaca e é claro, de ter cancelado minhas aulas de muay thai.


02. Entre uma série, tatuagens e o seu oculto nome.

Sempre fui o tipo de cara que fala a coisa errada no momento errado. Ano passado, quando fui para a casa dos meus pais para um jantar em família, eu simplesmente senti a necessidade de perguntar se a namorada — que tinha acabado de virar noiva —, do meu irmão não estava grávida e se esse era o motivo pelo qual eles iriam se casar diante de toda a minha família. Um constrangimento surgiu naquele momento, mas Lydia com a leveza que só ela tem, gentilmente e sorridentemente, sem se deixar abalar pela pergunta me respondeu, dizendo que não.
Minha mãe foi muito esperta ao tentar mudar de assunto assim que toda a família abraçou e deu parabéns ao meu irmão e a minha cunhada, mas o que ela não esperava era que tivesse se sentido tão desconfortável com a pergunta que fez, ao ponto de bolar uma piada sem graça na intenção de descontrair o clima. Como de costume, minha ação não provocou o que eu queria.
Depois de algo envolvendo impotência sexual algumas risadas e a revelação de que meu irmão sempre disse não querer ter filhos, tudo foi por água abaixo.
Todo mundo levou a informação numa boa, soltaram risadas e até mesmo Lydia achou graça, porém algo tinha que dar errado e o resultado não podia ser diferente. Depois de rir, minha cunhada fez questão de dizer que Jonas tinha mudado de ideia e o caos aconteceu.
Meu irmão nunca foi mais esperto do que eu em coisas básicas da vida, mas sempre se saiu melhor quando se tratava de mulheres. Tudo o que eu aprendi na arte de ficar com alguém e flertar foi ele e Aaron que me ensinaram, acredito firmemente que eu não poderia ter tido professores melhores até o momento em que, entre todas coisas que ele poderia ter feito depois de escutar o que sua noiva disse, ele escolheu negar a sua afirmação.
Ali na mesa, na frente de todos, inclusive na frente das crianças, aconteceu a maior briga da história dos .
Eu sempre fui um babaca, um completo idiota, uma pessoa terrível, mas nunca me senti tão horrível como naquele dia ao notar que eu não sentia culpa alguma quando vi a briga acontecendo. Eu não seria capaz de me sentir culpado após ver Jonas, um ser tão explosivo e confiante se humilhando e mudando de ideia por Lydia, fazendo seu próprio orgulho e argumento cair ao chão. "O amor muda as pessoas porra nenhuma!". Era o que ele dizia antigamente.
Ele sempre teve a ideia de liberdade desde que teve sua primeira decepção amorosa e viveu livremente a partir desse dia, e até foi muito feliz. Ele costumava me contar algumas histórias que viveu em New York, todas elas, é claro, envolviam frustrações pelo público feminino, até conhecer Lydia e decidir não querer mais ninguém, perceber que o sentido das coisas já não eram as mesmas depois que ela apareceu e por mais que ele não quisesse, não tinha como lutar contra a correnteza que o levava para ela. Meu irmão sempre foi contra paixões desde que Yanca apareceu na sua vida e fez questão de destruí-la de uma forma tão simples que eu aposto que o próprio inferno deu risada ao assistir Jonas cair. Depois de alguns meses que eles ficaram juntos, Yanca simplesmente chegou à conclusão que ele não tinha nascido para ter um relacionamento e decidiu desistir dele. Isso o moldou completamente, mas quando Lydia apareceu algo de imediato mudou. E para a sua surpresa ao invés de desistir, ela decidiu ficar.
Me pergunto o que teria acontecido se ela decidisse ir.

Depois de alguns minutos em silêncio nos encarando, me senti exatamente como naquele dia. Eu simplesmente senti a necessidade de dizer algo quando me perguntei como deveria ser o som da sua voz e o que ela fazia ali distraída e sozinha, levando em consideração que ela não parecia estar ferida e muito menos com alguma dor. Normalmente os estudantes vêm na enfermaria para dormir, pedir algum remédio, pílulas anticoncepcionais, preservativos, concelhos ou para simplesmente matar o tempo conversando com Laraine, a enfermeira de meia idade que gosta tanto de bater um papo que a própria diretoria já desistiu de tentar impedi-la de deixar os alunos matarem suas aulas ali. Fiquei curioso em saber qual das seis opções formavam o seu caso.
- Você está grávida? – perguntei, chutando alguma das opções, chutando a pior das opções no caso. Exatamente como no dia do jantar, escolhi a coisa mais absurda para perguntar e falar a alguém que você não conhece. Eu mal consegui pensar direito, apenas falei sem constrangimento ou arrependimento na minha expressão, muito pelo contrário, eu tranquilamente esperava a resposta. Minha ex-namorada sempre disse que eu faço um primeiro contato de muito impacto. Passei a concordar com ela assim que a garota me olhou.
Ela cerrou os olhos escuros e profundos na minha direção, juntando as sobrancelhas em linha reta. Sua expressão era um misto de confusão e susto, como se a minha pergunta fosse um completo absurdo. Não iria ficar surpreso se ela resolvesse me ignorar e voltasse sua atenção no celular, eu até estava esperando que ela fizesse isso, apesar de ter acontecido o contrário.
- Você se envolveu com uma garota comprometida e o namorado dela descobriu? – sua voz um pouco rouca soou rígida e suave. A morena arqueou uma das suas sobrancelhas, me lançando um olhar que eu considerei ser desafiador. Conclui que minha aparência deveria estar muito assustadora para ela supor isso. Quase cogitei a opção de lhe contar o que realmente tinha acontecido, mas notei que ela não dava a mínima para isso, da mesma forma que eu não me importava se ela estava esperando um pequeno bebê ou não, eu só queria saber o motivo pelo qual o universo me mostrou ela e a colocou nesse quarto junto comigo justamente no dia em que me encontro no pior estado possível.
- Talvez – mesmo sabendo que sua pergunta fora retórica, a respondi e percebi uma certa surpresa em seu rosto. Ela provavelmente não esperava escutar mais minha voz no cômodo. Puxei um dos cantos dos meus lábios pulsantes, inchados e doloridos para cima, lhe dando um sorriso de lado assim que sua visão retornou para minha direção. – Você? – Fiz um sinal com a cabeça, indicando que queria a resposta da minha pergunta, enquanto arqueava uma das minhas sobrancelhas, imitando-a.
Ela ficou alguns segundos me encarando e provavelmente se perguntando qual era o meu problema antes de molhar os lábios vermelhos, passando a língua sobre eles e jogando sua cabeça para o lado, fazendo com que os seus fios escuros fossem para a mesma direção. Respirou fundo.
- Talvez – disse, dando de ombros e passando a olhar suas unhas compridas e vermelhas despreocupadamente, ignorando minha existência e deixando o silêncio se instalar.
Enquanto ela contemplava suas mãos bronzeadas, eu me concentrava em permanecer com o saco transparente de gelo na testa, limpar meus lábios pulsantes e inchados com o pequeno lenço umedecido que ganhei junto ao pacote de gelo na recepção da enfermaria e buscar discretamente mais detalhes nela. Depois de cinco minutos fazendo as três coisas, percebi que não adiantava ficar com o gelo na testa pois não melhoraria o machucado que ardia sem parar, o lenço umedecido já não era mais útil nem para limpar o próprio chão e os anéis que a garota usava em sua mão direita escondiam muito bem a aliança prata que a mesma tinha no dedo anelar.
Em alguns momentos ela chegou até a brincar com o anel, rodando-o no próprio dedo enquanto torcia os lábios e fazia uma expressão estranha; era uma mistura de melancolia, desconforto e, quem sabe, arrependimento. Logo, imaginei que o seu namorado deve ser aquele tipo de cara idiota, que se acha o centro do universo e não valoriza ninguém além de si mesmo, ou quem sabe ele é aquele tipo de cara que é muito bom para ela e para qualquer outra pessoa e isso faz com que ela pareça não gostar do objeto, muito menos querer usá-lo, ou talvez ela fez aquela expressão porquê gostava tanto de usar o acessório que doía, e eu pensei que não porque além de gostar de imaginar coisas, gosto de pensar em supostas situações que me dariam alguma vantagem no momento.
- Sabe quando a enfermeira chega? – perguntei, na tentativa falha de começar algum assunto, acorda-la de seus pensamentos e de saber quando eu poderia ir embora.
- Não – respondeu simplesmente, tão focada em suas unhas, na aliança, em qualquer outro acessório de suas mãos e nos cantos do quarto que nem se deu o trabalho de me olhar ao responder. – Ela costuma demorar para voltar quando sai nesse horário, principalmente quando briga com o Scott – acrescentou, revelando que tinha uma aproximação com a enfermeira que, acredito eu, já era para ter me atendido.
- Ótimo, detesto qualquer tipo de remédio para dores mesmo – murmurei, fingindo uma animação e olhando rapidamente para cima. Senti seus olhos voarem em minha direção, deixando suas mãos de lado. – E não é como se eu quisesse ir embora também.
- Está doendo muito? – sua voz soou gentil, demonstrando interesse nos meus hematomas doloridos e inchados.
- O necessário para eu desejar nunca mais entrar em uma briga. – Voltei a olha-la. A morena piscou algumas vezes, enquanto analisava meu rosto. Mordeu o lábio inferior antes de colocar as mãos nos joelhos e se aproximar um pouco do meu corpo à sua frente.
Quando eu tinha quinze anos, era um menino considerado bonito pelo público feminino da escola e tinha muitos hormônios à-flor-da-pele tive o meu primeiro "amor". Na verdade, não sei bem se foi amor o que senti por Sophie, mas sei que lembro do exato momento em que me "apaixonei" por ela até hoje, e de como eu fiquei nervoso e suei frio quando a vi pela primeira vez que a mesma mostrou seus dentes brancos. Também me lembro de como eu senti a necessidade de afastar todos os meus amigos que sentiram a mesma coisa perto dela. Eu estava sentado junto com meus amigos na mesa em que sempre sentávamos, conversando sobre a última festa que fomos e fingindo lembrar dos acontecimentos dela quando na verdade, a última lembrança que eu tinha era de uma loira balançando minha cabeça após eu beber tequila. Foi entre alguma risada escandalosa de Arthur e frases relacionadas a pimenta, roupas roubadas e piscina que a notícia de que uma garota nova estava no colégio chegou na nossa mesa, mais especificadamente em nossos ouvidos.
Pessoas novas chegavam e iam embora todos os dias no Dombosco, mas ninguém nunca se costumou com isso. O hobby favorito dos alunos era criar especulações sobre o motivo de fulano ter ido embora e ciclano ter chegado. Sophie em especial causou uma grande confusão na cabeça dos estudantes, e especialmente na minha. Ela tinha chamado mais atenção do que qualquer outra pessoa e tudo isso por possuir uma aparência que provocou inveja nas meninas e desejo nos meninos. Em um momento, ninguém ligava mais para Lydia e Seth que foram flagrados no banheiro feminino fazendo coisas que não deviam e o novo foco era Sophie Hernández. A tímida garota que estava colocando seus livros no armário no bloco B.
Eu, como o resto dos adolescentes com hormônios, não senti necessidade de ser o diferente e andar casualmente até o corredor do bloco B para conferir a garota. Não só andei como resolvi incorporar um verdadeiro maratonista e correr até lá; eu só não esperava que iria acabar esbarrando nela sem querer, enquanto cruzava o segundo corretor da direita do bloco C, como acontece em todos os filmes clichés de adolescentes.
O impacto da nossa batida foi tão forte que seu corpo foi para trás, caindo e eu me desesperei, agindo rápido e segurando sua mão, tentando evitar um desastre.
Normalmente existia um certo exagero e algumas mentiras sobre os novos alunos do Dombosco. Adolescentes amam inventar coisas e eu não ficaria surpreso se quando encontrasse com a garota nova descobrisse que ela não era metade do que estavam dizendo, mas quando a olhei soube que não era exagero e muito menos mentira. A menina realmente era muito bonita para a sua própria saúde e para a minha também. Eu não consegui pensar outra coisa ao ver seus cabelos ruivos e suas sardinhas na bochecha e nariz. Os traços eram tão delicados que chegavam a ser surreais. "Nossa, ela é bonita mesmo", foi a primeira coisa que me veio à cabeça, porque ela era realmente muito bonita, tinha uma beleza exótica e tão natural que nenhuma garota da escola era capaz de ter e que eu nunca tinha visto.
Senti o chão fugir dos meus pés ao notar a suavidade de sua pele e os seus olhos esmeralda subirem rapidamente indo de encontro com os meus. E como se o nosso encontro já tivesse sido escrito por alguém existente no universo há muito tempo, ela resolveu sorrir, no mesmo instante em que seu rosto corou por inteiro ao perceber minha visão fixa e alucinada nela. Uma onda de calor invadiu meu corpo inteiro antes do meu último pensamento me invadir. Acho que estou apaixonado. E de fato, eu estava.
Eu não consegui chegar a nenhuma conclusão que eu já não tivesse tido sobre ela quando a vi mais de perto, quando notei suas sardinhas marrom espalhadas pela bochecha e nariz, cobertas pela maquiagem e os sinais de suas expressões no rosto. Eu não senti nada meu soar ou o corpo queimar como aconteceu com Sophie, quando a garota movimentou seu rosto bonito próximo de mim. Eu não achei sua beleza algo surreal ou algo que eu nunca tinha visto. Ela era normal, incrivelmente normal e perfeita para se colocar em um maldito quadro, porém normal, nada de diferente tinha acontecido até o momento em que a vi colocar uma mecha de seus cabelos atrás da orelha coberta por um brinco e mais alguns furos, que carregavam seus piercings e vê-la passar a ponta de seus dentes brancos pelo lábio inferior seco e tudo ficar confuso. Minha boca formigou e isso foi o suficiente para que eu parasse de reparar na sua aparência de demônio para me perguntar: Será que o namorado dela vai se importar se eu tentar beija-la?
- Eu posso fazer um curativo e te dar algum remédio se quiser – sugeriu, sem tirar seus olhos dos meus machucados.
Foi impossível não imaginar besteiras assim que a escutei. Eu não me importaria nenhum pouco de brincar de médico com ela, jamais! Principalmente quando a minha imaginação fértil consegue vê-la lindamente em um uniforme de enfermeira. Agradeci aos céus por suas roupas justas que facilitavam a imagem do seu corpo em minha cabeça. Os cantos da minha boca chegaram até a se curvarem para cima, quase dando um sorriso malicioso, mas antes que eu completasse a ação, lembrei do namorado e me obriguei a pensar seriamente sobre a sugestão.
Eu sempre fui muito prevenido e até neurótico com algumas questões. Antes de dormir eu sempre checo duas vezes se a porta do meu apartamento está trancada, antes de comer algo da minha geladeira busco a data de validade do produto e garanto que nenhum carro está vindo dos dois lados antes de atravessar a rua. Ela claramente não tinha permissão para fazer aquilo, no máximo sabia como limpar meus machucados por causa de Greys Anatomy ou porque fez muito isso no namorado babaca, e mesmo sabendo que dependendo do que ela fosse fazer ali algo poderia dar errado, eu não conseguia me importar com isso. Minha mente estava presa com a sua imagem vestida de enfermeira e eu não sabia se estava bem com isso ou irritado. Estreitei meus olhos em sua direção, tentando a prestar atenção no real assunto ali e a vi revirar suas órbitas negras, soltando o ar de seus pulmões.
- Eu só vou limpar seus machucados, fazer um curativo e te dar um remédio para dor, não opera-lo! – exclamou, se levantando e passando a andar decidida.
Meus olhos a seguiram caminhar com confiança e um pouco de despojo até o outro lado do quarto, abrir o armário de vidro e tirar uma caixa de primeiros socorros, álcool e alguns lenços, junto com um frasco de pílulas brancas. Fez o caminho de volta, puxando uma cadeira de plástico de algum canto que eu não tinha notado, colocando ela na minha frente e se sentando na mesma. Colocou alguns dos objetos em cima de suas coxas cobertas por uma calça jeans azul clara e outros no colchão da cama. Assisti ela molhar um dos lenços com o álcool, passar em suas mãos delicadas e tirar alguns algodões da caixa de primeiros socorros. Ela agia como uma fodida enfermeira de verdade e aquilo estava sendo demais para mim.
Jogou alguns fios do seu cabelo para trás do ombro enquanto jogava sua cabeça para o lado e eu tive que mandar o seu namoradinho para o inferno.
Eu tinha que flertar com ela.

- Você não deveria vestir um uniforme de enfermeira ou algo assim? – perguntei travesso, usando um tom brincalhão, na tentativa de começar algum diálogo que não envolva perguntas estúpidas. Ela cerrou os olhos, abrindo a boca incrédula, como se estivesse perguntando para si mesma se eu realmente tinha dito aquilo. Bem, eu tinha. No minuto seguinte, a morena pegava um algodão que estava molhado com algum líquido marrom e o pressionava com força contra o machucado sobre a minha testa. – Outch – reclamei, levando minha cabeça para trás assim que a ardência do corte se intensificou e queimou. Acredito que ela não tenha gostado da minha brincadeira.
- Desculpe – disse calmamente, encolhendo os ombros e ignorando minha brincadeira. Afastou o algodão do meu machucado.
Comecei a repensar a sua sugestão.
- Você já fez isso alguma vez? – perguntei, realmente interessado na resposta e pensando seriamente se eu devia deixa-la continuar com aquilo. Torceu os lábios.
- Algumas vezes – deu de ombros despreocupada, levantando a mão que segurava o algodão para cima, na intenção de colocá-lo em cima do meu machucado de volta. Puxei minha cabeça quase que de imediato para trás.
- Eu espero que você saiba o que está fazendo e não esteja usando isso para bancar a Meredith. – Ela revirou os olhos, pegando no meu queixo e trazendo minha cabeça para mais perto dela.
- Eu estou limpando. É normal que doa e a Meredith é o personagem mais chato da série, eu estou mais para a Christina – argumentou, encostando o algodão novamente no meu corte, dessa vez com mais calma. Senti arder por alguns segundos, mas conforme ela ia deslizando o algodão sobre meu machucado, a dor ia diminuindo e, de repete, ela já não tinha mais a minha atenção assim que senti seu perfume suave preencher o local. Passei a focar nos movimentos e expressões que ela fazia enquanto se concentrava em terminar de limpar meu corte.
Reparei nas pequenas pintinhas espalhadas pela sua clavícula e no mesmo momento ela se esticou até a cama para pegar um band-aid pequeno e branco. Não pude deixar de notar o desenho que ficava próximo à sua nuca, quase o meio das costas.

Um carneiro inteiro preto estava tatuado na sua pele com chifres espirais, junto com três estrelas que ficavam há sua volta. Duas, uma em cima da outra estavam no lado direito do carneiro e a última no esquerdo. Sorri, olhando ela voltar ao normal na cadeira e colocar com cuidado o band-aid.
- Por que tá sorrindo?
- Qual é a do carneiro? – vi ela pronunciar um "o que", silencioso juntando as sobrancelhas confusa. Eu conseguia ver ela se perguntando da onde eu tinha tirado aquilo. – Sua tatuagem – expliquei. A garota girou a cabeça e puxou o ombro tatuado para frente, olhando a tatuagem e me revelando mais uma que ela tinha perto na orelha, que eram apenas algumas iniciais que eu não consegui identificar por causa do seu cabelo que cobriu as letras rapidamente quando ela voltou a olhar para frente. Estreitou os olhos.
- Significa o signo de áries – disse, dessa vez pegando um lenço que estava dentro da caixa e limpando algumas partes do meu rosto que, acredito eu, estavam com sangue.
- Você faz parte dessas pessoas viciadas em astrologia e horóscopo? – negou com a cabeça, ainda limpando algumas partes do meu rosto. – Sua cor da sorte de hoje é rosa? – caçoei, vendo ela rolar os olhos. – Você já encontrou alguém diferente ou está esperando ainda?
- O que as pessoas têm contra horóscopos? – Eu estava prestes a caçoar mais um pouco do assunto, quando sua voz soou me interrompendo.
- Talvez seja porque as previsões são óbvias. – Tirou o ar dos seus pulmões, balançando a cabeça negativamente.
- A vida é óbvia. Nós nascemos, vivemos e morremos. A única coisa que muda é os acontecimentos que ocorrem durante esse processo. – Eu notei uma certa dureza preencher seus olhos.
- Então por que as pessoas acreditam nisso se a própria vida já é óbvia? – Suspirou.
- Você acredita em algo? – Levantei minhas sobrancelhas, surpreso com a pergunta. Demorei algum tempo para responder.
- Não sei – disse finalmente, sendo sincero. A maioria da minha família era católica, eu até já cheguei a frequentar missas e minha mãe me obrigou a ir para a catequese quando era menor, mas nunca tinha me questionado sobre minha religião, nunca cheguei nesse ponto. – E você, no que acredita? – Não pude conter o interesse que surgiu ao querer saber aonde ela queria chegar com a pergunta que, obviamente não foi respondida como ela tinha previsto. A garota relaxou os ombros, mordendo os lábios e pegando o vidro de pílulas que estava em cima da cama.
- Eu acredito que essas pílulas iram cessar a sua dor e que você não vai se envolver com garotas comprometidas tão cedo depois disso. – Mudou de assunto, apontando para o meu roso e me entregando o frasco enquanto falava.
- Só se você prometer usar camisinha nas suas próximas relações sexuais e fazer o pré-natal da criança que está no seu ventre corretamente. – Brinquei e ela sorriu me relevando seus dentes alinhados brancos. Não pude deixar de notar as suas covinhas perto dos olhos e o modo como eles se fechavam quando ela sorria. Aquilo era contagiante, tão contagiante que eu me peguei quase sorrindo também.
- Você já considerou a possibilidade de eu estar matando aula? – o divertimento na sua voz fez com que eu me sentisse arrependido de não ter feito-a sorrir antes.
- Não. – Sim! – Você já considerou a possibilidade de eu ter caído em algum lugar? – aquela foi a maior besteira que já tinha saído da minha boca nesse dia.
- Não, até porque você não caiu e sim apanhou de alguém. – Me senti ofendido de como a frase soou óbvia e cheia de certeza entre seus lábios.
- Eu não apanhei! – exclamei, indignado. – Segundo Newton, a massa da sua mão aplicou uma força contra meu rosto, que reagiu e aplicando a mesma força contra a sua mão – sua gargalhada preencheu o cômodo e uma veia pequena saltou levemente na sua testa enquanto a mesma ria. Eu quis gravar e colocar como toque do meu celular.
- Não sou boa em física, mas eu tenho certeza que sim. É uma ótima explicação aliás. – respondeu, fingindo acreditar na minha fala depois de respirar fundo algumas vezes e concluir que conseguia falar. Reprimiu um sorriso que estava ameaçando escapar de seus lábios e eu me irritei com isso. Senti meu bolso vibrar e, já tendo consciência do que se tratava, resolvi ignorar, focando em me despedir da morena e descobrir seu nome, quem sabe até o seu número de telefone.
- Qual o seu nome? – dísparei, fazendo uma expressão séria. Ela me encarou incerta, juntando as sobrancelhas.
- Ahn... Christina. – Ergueu a cabeça e empinou o nariz teatralmente, passando a me olhar de cima. – Christina Yang. – Eu realmente não queria achar graça do momento, mas não me contive e acabei soltando uma risada fraca. Eu gostava de mistério.
- Ok – concordei, admirando o pequeno sorriso que permanecia em seu rosto. – Christina Yang. – A chamei, arqueado uma das minhas sobrancelhas.
- Sim – fixei minha visão em seus olhos.
- Eu agradeço pelo que fez doutora Yang, mesmo não tendo permissão para isso eu suponho.
- Não foi nada.- Ela abanou a mão no ar e eu sorri.
- Bom, agora que eu já fui devidamente diagnosticado por uma profissional experiente, acho que já posso ir – a vi piscar algumas vezes lentamente e desgrudar os lábios, abrindo-os enquanto prendia a língua no céu da sua boca e a soltava de lá, provocando um estralo.
- Pensei que não estivesse com pressa para ir embora. – E eu não estou!. Mais uma vez senti meu bolso vibrar e eu agradeci mentalmente por ter colocado o celular no vibratório, não iria saber reagir se a cada dois minutos ele começasse a se movimentar enquanto eu coloco meu plano para sair da enfermaria com algumas coisas descobertas sobre a garota em prática.
- Eu poderia ficar aqui brincando de médico com você e vendo seu rosto bonito o dia inteiro, acredite em mim – reprimiu mais um sorriso e eu vi as maçãs do seu rosto começarem a ficar lentamente vermelhas enquanto me ela olhava de um jeito estranho, quase demonstrando suspeita naquela frase, provavelmente se perguntando se o que eu tinha dito fora sério ou brincadeira, já que, de repente, entramos em um clima descontraído.
Eu só estava torcendo para que ela achasse que foi sério e não me mostrasse a aliança no dedo. Eu podia aceitar um fora sem as palavras "eu tenho namorado" saírem da sua boca.
Em um minuto seu rosto estava quase pegando fogo e no outro o divertimento em suas órbitas já estavam de volta. Acho que ela pensou que eu estava brincando, eu não estava.
A garota passou a mão nos cabelos, jogando os mesmos para trás e encolheu os ombros.
- Seus olhos também são muito bonitos – retribuiu o elogio –, mas eu acho melhor você ir.
- Se desfazendo dos seus pacientes doutora? Que atitude feia – cerrei os olhos em sua direção, vendo-a revirar as órbitas negras mais uma vez. Ela levantou da cadeira de plástico e pegou os objetos que estavam em seu colo, colocando-os na cama.
- Digamos que eu não tenho permissão para fazer o que fiz e se a Dora chegar aqui e ver isso eu estou ferrada – cruzou os braços e eu me levantei, sentindo pela terceira vez o meu celular vibrar na calça. Sempre detestei pessoas insistentes, não é à toa que o número da minha irmã está bloqueado da minha agenda. – E eu acho que tem alguém bastante interessado em falar com você – apontou para a minha calça, mais especificamente para o bolso dela. Me lançou um olhar esperto e eu retribui com um sem graça.
- Eu tenho certeza. – Coloquei a mão do bolso, tirando o objeto de lá. – Obrigado por isso mais uma vez – indiquei com o dedo o meu rosto. Ela sorriu, dando de ombros e passando a arrumar os remédios e as outras coisas que estavam na cama.
Girei meus calcanhares, virando de costas e começando a andar em direção a porta. Quando li o nome de Owen na tela desejei que fosse algo muito importante ou eu faria questão de colocar seu nome na boca de qualquer sapo que eu encontrasse na rua enquanto voltava para casa.
Atendi a chamada quando cheguei na porta, mas não coloquei o celular no ouvido, muito pelo contrário, antes de escutar qualquer merda que Owen tinha para me falar eu cheguei à conclusão que precisava fazer minha última tentativa com a morena. Então, sem pensar duas vezes, tampei a parte aonde eu sabia que Owen podia escutar minha voz com a mão e me virei, vendo ela colocando alguns frascos de vidro dentro da caixa de primeiros socorros.
- Ei! – a chamei e ela ergueu sua cabeça, passando a me olhar. – Não vai mesmo me dizer seu nome? – ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e molhou os lábios com a língua.
- Tente não brigar com ninguém na volta pra casa – falou simplesmente e eu tive a leve sensação de que ela também estava flertando comigo. Assenti com a cabeça, entendendo sua resposta.
- Tudo bem – curvei os cantos dos meus lábios para cima e lhe lancei um sorriso prepotente e decidido. – Eu descubro – pisquei e antes que a morena tivesse qualquer reação dei de costas, indo embora e colocando o telefone no ouvido.
Eu já tinha mandado seu namorado para o inferno de qualquer maneira mesmo.


Continua...

Nota da autora: (30/06/17) Twitter
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