Autora: Nessy | Beta: Babs | Capista: Annie B.



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Prólogo

Aquela era sem dúvida a decisão mais difícil da minha vida.
Qual sapato eu uso?
Observei todos aqueles pares, marca por marca. Christian Louboutin, Charlotte Olympia, Prada, Miu Miu, Jimmy Choo, Betsey Johnson, Gucci...
Céus, como é difícil ter que escolher um só!
Joguei-me em minha cama macia, coberta por lençóis de seda e bufei alto.
Odiava quando meu pai inventava jantares de última hora, eu não tinha nem tempo de ir ao salão!
Agora eu estava ali, com a decisão mais difícil do planeta para ser tomada e sem ter meu cabelo ou minha unha feita.
Tinha um pouco mais de uma hora para me arrumar para aquele jantar. Tinha que estar perfeita, menos que isso era inaceitável.
- Certo, respire fundo e ponha em prática o que Pierre a ensinou, – disse em voz alta.
Pierre havia sido meu estilista por uns bons três anos e suas escolhas eram perfeitas. Meu Deus porque eu fui demiti-lo por ter me furado com a agulha? Nem havia saído sangue.
Caminhei decidida até meu closet, mas assim que meus olhos caíram em todos aqueles sapatos, sabia que não conseguiria sozinha. Mas quem me ajudaria? Fora eu, as únicas pessoas em casa eram os empregados e eu preferia dar uma gafe a pedir uma opinião a um subordinado.
Fechei os olhos resolvendo tirar na sorte, estiquei minha mão direita e tateei uma das prateleiras até pegar um sapato. Abri os olhos e o olhei, o sapato de saltos era preto, o bico redondo e a sola era vermelha. Um Miu Miu, ótima escolha.
Agora precisava de um vestido que combinasse com o sapato. Fui até o outro lado do closet e fiz o mesmo processo para a escolha do vestido. Sorri satisfeita para o Chanel em minha mão, mesmo de olhos fechados eu tinha um ótimo gosto.
Deixei o vestido negro em cima da cama antes de ir até meu banheiro, eu adoraria tomar um banho de banheira relaxante e me preparar para exibir minha beleza e riqueza na cara de todas as pessoas que estivessem nesse jantar. Era como estar em uma selva, onde as esposas troféus exibiam as joias dadas por seus maridos velhos e feios. Uma queria mostrar que tinha uma vida melhor que a outra. Eu não ficava atrás, mas minha vantagem sobre elas, era que eu não precisava dormir com um velho feio para ter todas aquelas coisas. Eu era rica, meu pai era rico e eu não precisava de um velho que me bancasse. Na verdade eu não precisava de ninguém. Tudo o que eu tinha era meu por direito.
Isso me fazia ser superior a elas.
Pode me chamar de fútil, patricinha, mimada, ou o que quiser, eu não ligo. Não poderia negar. Só quem tem o tanto de dinheiro que tenho sabe como é boa a vida que levo.
Não me imagino levando uma vida sem luxos, céus, que terrível, prefiro morrer a viver “humildemente”, como os pobres falam.
Oh, bem lembrado. Tenho horror a pobre, falo mesmo.
Se ser pobre fosse bom, porque eles viveriam tentando ganhar dinheiro pra enriquecer? Não acredito que uma pessoa pobre possa ser feliz, eu nunca seria feliz com pouco, nunca seria feliz se não pudesse ter minhas roupas de grife, minhas joias, meus carros, minhas viagens.
Nem ao menos me preocupo com o futuro, porque a grana que vou herdar vai dar até para meus bisnetos viverem com muito luxo, sem precisar trabalhar.
Quando ouço alguém dizer que dinheiro não traz felicidade, já sei que é um pobre falando. Pra mim dinheiro traz muita felicidade e se a pessoa acha que não, certamente é porque ela simplesmente não o tem.
Nunca fui de pisar em ninguém, meu pai nunca permitiu, mas também nunca me misturei com a ralé. Prefiro pessoas com o mesmo nível social que o meu. Afinal, porque eu iria querer ter amizade com pessoas que não poderiam frequentar os mesmos lugares que eu frequento?
Minha vida é ótima assim, nunca vou precisar me preocupar com nada.
Nunca.



Um

Alguém teria que pagar por aqueles quatro dias de férias perdidos.
Eu estava furiosa.
Como meu cartão havia sido recusado? Como?
Papai nunca cancelaria meu cartão, não sem falar comigo pelo menos. Aquele não era o tipo de castigo que ele costumava aplicar.
Papai não me castigava nunca.
Aquele com toda certeza havia sido um problema com o banco e eu exigiria que papai tomasse uma providencia. Meu cartão ser recusado era um absurdo sem tamanho. Mais absurdo que alguém da classe C usando Chanel.
Deixei que o motorista cuidasse das minhas malas e entrei em casa indo direto ao escritório de meu pai. Ele faria o banco se retratar formalmente comigo.
Abri a grande porta de mogno bruscamente enchendo meus pulmões para começar a externar toda minha indignação, mas estaquei quando encontrei o cômodo vazio. Papai devia estar na empresa, eu poderia dar meia volta e mandar o motorista me levar até lá, mas estava necessitando de um bom banho.
Subi as escadas vagarosamente enquanto montava um discurso em minha cabeça, eu perturbaria tanto papai que ele iria transferir nossa fortuna para outro banco.
A porta do meu quarto estava aberta e se Mary ainda o estivesse arrumando para minha chegada eu faria um escândalo enorme. Me enchi de surpresa quando entrei e meu pai estava sentado na ponta de minha cama com o rosto entre as mãos.
- Pai? - chamei e ele ergueu seu rosto em minha direção.
Seu rosto não estava liso como todos os dias, uma barba rala o deixava com um ar simples que não combinava com meu pai. Seus olhos estavam vermelhos e havia um certo desespero em suas íris. Algo estava errado.
- Pai, aconteceu alguma coisa? – perguntei jogando minha bolsa em um canto qualquer e correndo em sua direção.
- Me desculpe, princesa – juntei as sobrancelhas me ajoelhando a sua frente.
- O que está acontecendo? – segurei seus pulsos impedindo que ele tapasse o rosto novamente.
- Fiz uma enorme besteira, sou um inútil – meu coração estava começando a se apertar.
- Não diga isso, você é o máximo. É dono de uma das maiores transportadoras do país – sorri em sua direção e tudo o que ganhei de volta foi seu olhar sério e até desapontado.
- , querida. Fiz um grande investimento errado – ele respirou fundo. – Tive que abrir falência e o banco irá tomar a empresa – engoli em seco.
- Como assim falência? – me levantei de súbito colocando a mão na testa. – Ok, não pode ser tão ruim. Ainda temos as propriedades, e apesar de não entender sobre o negócio imobiliário, sei que valem muito. Estamos salvos – disse feliz jogando as mãos para cima.
- Como eu queria que você estivesse certa – conseguia ouvir certa decepção em sua voz e me obriguei a pensar que as coisas não poderiam ser tão sérias quanto a expressão de meu pai demonstrava.
- Eu perdi tudo, meu anjo. Tudo – ofeguei sentindo meu coração bater mais rápido.
- Como assim tudo? Isso não é possível, temos uma fortuna imensa. Não tem como perdê-la do dia para a noite – não era possível, aquilo só podia ser uma pegadinha.
Era isso, meu pai sabia do meu interesse em ser uma celebridade e estava fazendo uma pegadinha comigo para que eu pudesse engrenar no meio artístico.
- Certo, onde estão as câmeras? – perguntei olhando ao redor. – Essa foi muito boa, eu quase tive um infarto, mas acabou a graça – meu pai se levantou e caminhou em minha direção em passos decididos.
- Isso não é uma brincadeira, – disse segurando meus ombros. – Nós fazemos parte da classe C agora – aquilo foi o fim do mundo para mim.
O chão pareceu desaparecer enquanto a bile subia por minha garganta. Olhei fundo nos olhos de meu pai vendo o quão sério eles estavam. E a realidade me atingiu, nós estávamos pobres. Eu, Maddox, agora fazia parte da classe C.
Nunca.
Por mais que meu pai tivesse perdido tudo, eu nunca faria parte da classe C, da ralé, da pobreza. Eu havia nascido para a nobreza.
- Você pode pegar seus pertences, pelo menos isso eu não consegui tirar de você – meu pai deu um sorriso desgostoso.
- E as joias? – senti as lágrimas se acumularem em meus olhos, mas as segurei.
- Todos os seus pertences, são seus – ele disse se afastando de mim.
- Os carros também? – perguntei esperançosa, as coisas não estavam tão ruins então.
- Não, . Os carros ficam, você só pode levar seus pertences pessoais – ele passou a mão pela nuca. – Tudo o que estiver dentro do seu quarto é considerado pessoal. Arrume suas coisas – ele foi até a porta e a abriu.
- Para onde nós vamos? – perguntei em um fio de voz.
- Eu não sei – sussurrou antes de sair e fechar a porta atrás de si.
Olhei ao redor observando meu quarto enquanto sentia o choro subir cada vez mais pela garganta. Corri até minha cama me jogando nela e deixando que o choro finalmente saísse. Eu havia perdido tudo, tudo.

...

Pela primeira vez na minha vida eu estava totalmente assustada.
Papai havia saído há duas noites e não tinha retornado. Seu celular estava desligado e nenhum dos empregados sabia me dizer onde ele estava. Nem mesmo na empresa.
Minhas malas estavam todas no canto do meu quarto esperando para que papai fosse pegá-las, e eu o esperava para que fizesse algo quanto ao modo que o homem fardado, que havia saído há alguns minutos, havia me tratado.
Parei de andar quando a porta do meu quarto se abriu e Mary entrou com aquela expressão de pena estampando seu rosto desde o dia em que eu havia chegado de viagem.
- Senhorita, seu pai está te esperando no escritório - ela disse cuidadosa e senti um certo alívio tomar conta do meu sistema nervoso.
- Faz tempo que ele chegou? Por que não me avisaram antes? - perguntei enquanto disparava para fora do quarto.
Não esperava que Mary respondesse alguma das perguntas, tudo o que eu queria era falar com papai e descobrir que ele tinha encontrado uma solução para o nosso problema.
- Ele chegou agorinha, senhorita. – Mary me seguia de perto, mas eu confesso que não dava muita atenção.
Desci as escadas de dois em dois degraus e quando cheguei ao fim dela, quase corri para o escritório de papai.
- Onde você estava? – disse alto enquanto abria a porta bruscamente e parei assim que pude ver dentro da grande sala que era o escritório de meu pai.
Ele não estava sozinho e sua aparência me fez não prestar atenção na pessoa que o acompanhava. A barba em seu rosto estava um pouco mais grossa, e olheiras fundas se destacavam em seu rosto o deixando pelo menos uns dez anos mais velho.
- Nós precisamos conversar – ele disse em um tom levemente seco.
- Vou deixar vocês a sós – a mulher que estava ali disse caminhando até mim.
Ela tinha os cabelos até o queixo, seu rosto era fino e os olhos eram e expressivos. Parecia uma pessoa elegante vestida em um terninho cinza, a mulher sorriu quando passou por mim e escutei o barulho baixo da porta sendo fechada.
Papai suspirou e passou as mãos pelo rosto se apoiando em sua enorme mesa de madeira que ficava exatamente no meio do cômodo que era repleto de estantes e vários outros objetos.
- Veio um homem aqui e foi super grosso comigo, você tem que fazer alguma coisa quanto a isso - disse dando dois passos em sua direção.
- A moça que estava aqui, o nome dela é Megan e ela é minha amiga. Eu preciso fazer uma viagem e você vai ficar com ela enquanto isso – ele disse ignorando totalmente o que eu tinha dito.
- Como assim ficar com ela? Não posso ir viajar com você? Para onde você vai?
- Não, não pode. E eu vou tentar acertar as coisas.
- Vai tentar recuperar nosso dinheiro? – perguntei cheia de esperança e poderia passar noites pensando no modo como os olhos do meu pai brilharam e jamais conseguiria decifrar o que eles queriam me dizer.
- Vou tentar resolver tudo – ele deu de ombros. – Enquanto isso a Megan vai cuidar de você.
- Eu posso ficar aqui só com os empregados pai, eu já sou grandinha – disse cruzando os braços, não precisava de babá.
- Não dá para você ficar aqui, . O homem que esteve aqui, veio trazer a ordem de despejo e eu estive fora porque estava arrumando um lugar para você ficar. A Meg vai levar você para casa dela. Ela é de confiança e vai cuidar muito bem de você até eu retornar – ele disse usando o tom paciente que sempre usava para falar comigo quando o assunto era muito sério.
- Mas eu nem a conheço – resmunguei e papai respirou fundo esfregando as mãos no rosto.
- Querida, dessa vez você não tem escolha. Suas coisas já estão prontas?
- Já – disse desanimada.
- Não quero que você se preocupe com nada por enquanto, tudo bem? – ele disse segurando meus ombros.
- Tudo bem – respondi o abraçando.
- Vamos – ele se afastou e andou até a porta.
Eu não estava pronta para ir.
Não estava pronta para deixar minha casa, meu quarto, minha hidromassagem, meus carros, minha piscina, minha sauna. Por Deus, não estava pronta para deixar a minha vida e principalmente todo o meu conforto.
E, então, enquanto seguia papai para a sala minha ficha caiu.
Era óbvio que não deixaria o conforto, papai mesmo tinha dito que a tal de Megan era uma amiga, e nosso círculo de amigos era muito seleto. Era muito provável que eu não chegasse a sair de Belgravia*.
Assim que cheguei ao hall de entrada, que era onde Megan nos esperava, examinei a mulher com cuidado.
Seu cabelo era bem tratado, as unhas bem feitas e seu vestuário apesar de não ser composto por nada de grife, era elegante. Certo, talvez eu saísse de Belgravia, quem sabe minha nova residência não seria em Kensington ?
Sendo assim eu poderia aguentar um tempo até que meu pai voltasse, ele não deveria demorar, sendo esperto como era, logo contornaria a situação e nós poderíamos voltar a ficar juntos e viver como antes
Subi para o meu quarto a fim de conferir se não estava esquecendo nada e, quando minhas malas foram levadas ao carro de Megan pelos empregados, peguei meu celular e carteira e os joguei dentro da minha bolsa e olhei ao redor admirando meu quarto uma ultima vez. Sentiria falta daquele espaço.
Quando retornei ao hall, papai conversava com Megan e Mary e sorri para a ultima sabendo que não a veria por um bom tempo. E esperava que quando papai conseguisse recuperar nossa fortuna ele a contratasse novamente.
- Ah querida, se cuide. - Mary me abraçou com a voz chorosa.
Deixei meus braços ao lado do corpo, não sabia o que fazer. Eu não tinha esse tipo de contato com os empregados e pensei seriamente em afastar a mulher rechonchuda, mas quando ergui meus braços para afastá-la, Mary soluçou audivelmente. Então ao invés de afastá-la, abracei-a de volta um pouco sem jeito.
- Você pode ir visitar a a hora que quiser Mary – papai disse assim que a mulher se afastou enxugando as lágrimas na manga do uniforme.
Olhei de meu pai para ela dando um sorriso um tanto nervoso, não era que eu não gostasse de Mary, mas não era como se ela pudesse me visitar. Eu não me misturava com os empregados.
- Vamos? – Megan disse e logo depois deu um abraço em Mary.
Acompanhei Megan e papai até a porta sorrindo enquanto fazia planos para o fim de semana e de como iria para o colégio na segunda, talvez Megan pudesse me emprestar um carro. Odiava ser levada ao colégio pelo motorista.
Assim que passei pela a porta meus pés se congelaram no chão e meu sorriso sumiu completamente quando me deparei com o carro no qual Megan arrumava minhas malas, para que elas coubessem no porta malas.
Que droga era aquilo?
Imaginei aquele treco desmontando no meio do caminho. E se alguém me vir nele? Meu Deus, eu quis chorar e espernear. O carro não era mal cuidado, mas era bem velho e duas portas.
Devia ter uns bons dez anos. Senti meu pai me empurrar de leve, meus pés pareciam colados no chão.
- Filha, seja boazinha, ela e a família estão sendo muito legais. Por favor.
Família? Ai meu Deus.
Já podia imaginar umas cinco crianças sujas correndo pela casa.
Meu pai me levou até aquilo, abriu a porta e eu entrei meio que automaticamente. Quando ele bateu a porta, juro que achei que ela iria cair e fiquei com medo de encostar em qualquer lugar, mesmo o carro sendo cheiroso e aparentemente limpo.
Papai se inclinou na janela do carro colocando a cabeça para dentro.
- Vou manter contato. Eu te amo – disse dando um beijo em minha testa.
Eu estava em estado de choque e quando dei por mim, já havíamos saído há muito tempo de Belgravia.
Conforme ela fazia um caminho que eu desconhecia por completo eu procurava tentar me localizar pela cidade. Estava claro que estávamos indo para uma área na qual eu nunca havia estado antes e isso começava a me deixar ainda mais apavorada com o que estaria me esperando.
-Você tem alguma dúvida? - Megan perguntou me tirando de meus pensamentos.
- O quê? - disse confusa.
- Tem algo que gostaria de me perguntar? - havia muitas coisas que eu gostaria de perguntar a ela.
A maioria eu sabia não ser nem um pouco educada, então optei pela mais fácil e a que poderia me interessar mais.
- Como vou fazer com a escola? - pelo visto Megan morava bem longe e eu não tinha um carro e mesmo que ela me oferecesse o seu, eu nunca apareceria com aquilo na escola.
- Seu pai me pediu para te matricular na escola em que meus filhos estudam, acho que vai gostar de lá, é uma boa escola – sorriu para mim, tentei retribuir, mas acho que fiz uma careta.
- Quantos filhos você tem? – perguntei para não ficarmos sem papo, e não ficar um clima desconfortável.
- Dois, um menino, um ano mais velho que você e uma menina, um ano mais nova – seu sorriso se alargou, não sei se por falar dos filhos ou porque eu demonstrei algum interesse na vida dela. – Tenho certeza que vão se dar bem.
Eu esperava que não fossem dois pirralhos mulambentos, isso sim. Pra mim bastava que não enchessem meu saco.
Quando começamos a entrar na área pobre da cidade comecei a me desesperar e segurei um gemido de desgosto para não ser rude.
Quando o carro parou em frente à casa fechei meus olhos fortemente, logo os abrindo e vendo que ainda estava tudo ali. Não era só um pesadelo.
A casa não era tão pequena, tinha até dois andares, mas não tinha uma aparência legal. Não tinha grandes janelas nem um jardim florido. Não tinha nenhuma sacada aparentemente e eu duvidava que houvesse alguma piscina.
Só saí do transe em que eu me encontrava, observando a casa, quando escutei Meg chamar meu nome com a porta do carro já aberta.
Saí tentando sorrir e olhava para os lados enquanto caminhávamos até a porta. Era tudo completamente diferente do meu mundo. Até o cheiro era diferente.
Ela abriu a porta me deixando passar primeiro, entrei e parei logo na entrada mesmo, ela passou por mim caminhando até o pé da escada onde parou, e eu que a seguia, parei ao seu lado e olhei em volta.
Sem dúvidas era muito diferente da minha casa, se as luzes não estivessem acesas eu acharia que nem energia elétrica tinha ali.
- ? ? Venham aqui – ela gritou, e segurei uma careta. Era muita falta de etiqueta falar alto, imagina gritar.
Uma menina com cabelo castanho escuro e mechas da cor rosa desceu as escadas correndo e parou alguns degraus a nossa frente. Ela sorriu pra mim e tentei retribuir. Vi seus olhos descerem para minha roupa e depois para meus sapatos, deixando seu sorriso ainda maior.
- Gostei dos sapatos, são lindos – disse me olhando com os olhos brilhando, sorri com mais vontade.
- Obrigada, são Jimmy Choo – se ela esperava um “Qualquer dia te empresto” estava enganada, isso é tão pobre.
- essa é , minha filha. – Meg sorria e a menina também.
- Pode me chamar de – ela disse sem tirar o sorriso da cara. Reprimi a vontade de revirar os olhos para ela e retribuí o máximo que consegui. Passei meus olhos pela sala, achando tudo muito simples, era tão diferente da minha casa. Ouvi passos lentos e direcionei meu olhar para a escada.
Foi então que eu o vi.
Ele veio pela lateral da escada, os cabelos bagunçados e emaranhados, com alguns fios caindo pela testa. A boca era rosada de um tom natural, o que era muito atraente. Tinha olhos incrivelmente e rosto bonito, marcante. Desci meus olhos para seu peito nu, já que ele usava apenas uma calça jeans deixando a boxer com desenhos aparecendo, e encarei as entradas salientes que terminavam em algum lugar escondido pela calça. Ele estava descalço e parecia ter acabado de acordar.
- , você poderia ter colocado uma camiseta! Agora que temos a em casa, quero mais respeito – ah, se a Meg soubesse que eu não estava nem ligando para respeito a essa altura! Por mim, ele poderia tirar o resto também...
Ele passou a mão pelo cabelo e me segurei para não babar, o que parecia tremendamente difícil no momento. Quando ouvi a voz rouca e máscula saindo de sua boca, eu quase caí dura.
- Desculpa mãe, não sabia que ela já estava aqui – me olhou e sorriu, o sorriso mais lindo que eu já havia visto na vida. O tipo de sorriso que te faz sorrir junto sem ao menos perceber.
Seus olhos desceram para o meu corpo e eu ficaria até entusiasmada se o sorriso bonito e cativante não tivesse se transformado em um sorriso debochado.
- , esse aqui é meu filho mais velho, – pela segunda vez ela havia me chamado de , como se em algum momento eu tivesse te dado tal liberdade.
- Oi – disse simplesmente desviando meu olhar para o chão depois que acenou com a cabeça.
Quando voltei a olhar o garoto a minha frente, ele ainda me encarava com aquela expressão estranha que eu não conseguia ler. Isso fez com que me sentisse acanhada por estar em sua presença.
- Que tipo de roupa é essa que você está usando? – ele indagou me olhando com as sobrancelhas erguidas e mais uma vez não consegui compreender sua expressão, mas o deboche em sua voz ficou bem evidente.
- ! – Megan disse alarmada e o garoto deu de ombros.
Olhei para mim mesma e não entendi qual o problema dele com a minha roupa. Um vestido Dolce & Gabbana da última coleção lançada, que particularmente realçava meu busto, coisa que eu adorava.
- O que é que tem? É um Dolce & Gabbana original! - ele riu, o que fez com que eu ficasse com raiva.
Ele estava rindo de mim? Quem aquele desvalido pensava que era para rir de mim?
- Ah sim, e você achou que estava indo para onde? - bufei alto e quando ia responder-lhe que ele não tinha senso de moda algum, sua mãe nos interrompeu.
- , me ajude tirar o resto das coisas do carro e , ajude a colocar sua mala no quarto! – Meg disse autoritária, porém sua voz era suave.
- Claro, mãe – foi tudo que ele disse, puxando a alça da mala de minha mão e subindo a escada. Fiquei com medo de segui-lo e aquela escada cair com nosso peso, de tão velha que parecia, mas mesmo assim o fiz.
- Ei, é difícil me esperar? Não tenho como correr com salto, sabia?
- Ok, lady, então tire o salto. – ele murmurou sem se virar, entrando pelo corredor e parando em frente à primeira porta.
O encarei incrédula, mas tudo que ele fez foi abrir a porta e entrar, sem nem ao menos me olhar.
Entrei no quarto observei o lugar.
Estava até arrumadinho, mas não era nem ¼ do meu antigo quarto e a decoração era um pouco masculina demais, paredes nuas em azul e branco.
- Ok, onde fica meu banheiro? Eu gostaria de relaxar num banho, estou cansada - sentei-me na cama e cruzei as pernas, observando-o colocar a mala num canto do quarto e se virar para me encarar.
- Ahn? O banheiro fica no corredor, a porta do meio. Você, minha irmã e eu vamos dividi-lo, portanto, nada de banhos exageradamente demorados. Mamãe tem o dela no quarto, então, somos apenas nós três mesmo - abri a boca em choque.
- O QUE? DIVIDIR? Eu não divido nada, ainda mais meu banheiro! - ele revirou os olhos e respirou fundo, parecendo buscar paciência. Ora, faça-me o favor, quem deveria estar irritada era eu!
- Olha, não sei o que você esperava, mas é assim que as coisas funcionam aqui, ok? Não somos seus empregados, aqui você é igual a nós. Facilite e pare de dar chilique por nada! - desviei o olhar sentindo-me péssima.
Céus, meu pai me enviou para o inferno!
Eu fui uma filha tão ruim? Eu tinha certeza que ele tinha vários conhecidos ricos como nós que não se importariam em cuidar de mim por um tempo, então por que ele me tinha largado ali?
- Será que poderia me dar licença para eu me arrumar e tomar um banho? – resmunguei irritada, dando a entender que o queria fora do quarto.
Ele me olhou estranho, mas logo assentiu, saindo do quarto em silêncio.
Algo me dizia que eu ainda não tinha visto nada.

__________________
*Belgravia é um bairro central de Londres, na City de Westminster e do Royal Borough of Kensington e Chelsea. O lugar é notável pelos custos de seus imóveis residenciais, e é um dos distritos mais ricos do mundo.



Dois

Terminei de arrumar a roupa que eu tinha escolhido para usar após o banho, um short simples, o mais simples que eu tinha, para não me sentir tão deslocada no meio daqueles pobres e não deixá-los envergonhados por usarem trapos.
Escolhi uma camiseta básica, meio esportiva, da Nike, que era a blusinha mais sem graça que eu tinha. Peguei meu chinelinho de dedo com diamantes incrustados na tira e sorri, ele era meu chuchu. Adorava coisas brilhantes.
- ? – ouvi meu nome sendo chamado e algumas batidas leves na porta.
- Entre.
Megan colocou a cabeça para dentro, sem entrar no quarto, sorrindo amigavelmente para mim.
- Querida, vou ao mercado, gostaria de algo especial?
- Ah, claro! – me animei por ela ter ao menos se lembrado de mim. – Se puder trazer frutas frescas, colhidas hoje, eu agradeceria - seu sorriso diminuiu um pouco.
- Meu anjo, temos muitas frutas na cozinha, basta ir até lá...
- Ah, mas não são frescas, certo? Eu quero de hoje - ela abriu e fechou a boca um pouco desconcertada e então me olhou procurando as palavras.
- , não podemos desperdiçar comida apenas por um capricho seu. Temos frutas em casa, não vou comprar mais, sinto muito. Sinta-se à vontade para ir até a cozinha e pegar alguma para você.
Ela me deu um sorriso brando, como se me pedisse desculpas com ele também, então saiu, me deixando estática.
Céus, eles comem frutas velhas? Que tipo de pessoa faz isso?
Bufei alto, pensando em como aquilo não poderia ficar pior.
Peguei minha nécessaire, com meus perfumes e cremes para o corpo, minha roupa e então saí do quarto, procurando o banheiro. Fui até a porta que tinha me indicado e tentei abri-la. Com um pouco mais de força consegui e, quando entrei, me senti paralisada.
- O QUE É ISSO? – gritei irritada, me sentindo bastante ultrajada com o que estava vendo.
- O que foi? Aconteceu algo? Você se machucou? – apareceu arfando ao meu lado e me encarou assustada.
- O que está acontecendo? – a voz de chegou aos meus ouvidos logo depois, mas eu não conseguia articular palavra alguma.
Meu Deus, o que era aquilo?
O banheiro era um quadrado minúsculo, com um chuveiro horroroso de aspecto de filme de terror. Aquilo poderia explodir em cima da minha cabeça.
- O que foi, ? – agora parecia irritado, me puxando pelo braço para que eu o encarasse.
- O que é isso? – finalmente consegui falar, sentindo meus olhos se arregalarem por conta própria.
- Isso é o banheiro. E é nisso que você vai tomar banho. Qual o seu problema? - ele me encarava furioso e sua irmã apenas observava a situação, parecendo não saber o que falar.
- Eu não vou tomar banho nisso! Eu mal entro aí dentro! Onde está a banheira? Eu só tomo banho de banheira! - ele gargalhou e quem se irritou fui eu. Imbecil, além de pobre era um idiota.
- Banheira? Nós não temos banheira – me puxou rudemente pelo braço, entrando comigo no banheiro, por mais que eu tentasse recusar. – Isso – apontou para o chuveiro – é o chuveiro e é isso que você vai usar para tomar banho. Agora chega de ser fresca, que inferno garota! Toma seu banho logo e pare de encher o saco! – ele gritou comigo e depois saiu, batendo a porta com força e me deixando presa naquele cubículo.
A porta se abriu logo depois e entrou, parecendo envergonhada.
- , sinto muito pelo meu irmão, ele anda irritado ultimamente, não é nada pessoal e...
- Seu irmão é um bruto, . Não tem classe nenhuma, parece um selvagem.
Ela baixou a cabeça e eu me senti mal. A garota não tinha culpa pelo irmão ser um idiota, e, até aquele momento, ela tinha sido a que mais tentara fazer com que eu me sentisse bem.
- Olha, não se preocupe, ok? Eu vou tomar banho nisso aqui mesmo e acabar logo de uma vez com essa tortura. Não se culpe pelo seu irmão.
Ela concordou com a cabeça e saiu batendo a porta lentamente.
Respirei fundo olhando para aquele box e criei coragem para me despir e entrar naquilo.
Minha vontade de tomar banho era maior do que meu nojo por aquele lugar.
De banho tomado e com aquela roupa “simples”, desci as escadas e encontrei todos sentados à mesa, me esperando. Meg já tinha chegado e me encarou sorrindo, aparentemente aprovando o jeito com que eu me vesti, tentando ficar ao máximo parecida com um deles sem perder a classe.
Sorri falsamente de volta e me sentei com eles. parecia nem ter notado minha presença, mas parecia feliz por me ver ali.
- , eu comprei algumas coisas para você. – Meg disse animada. – Seu pai me passou uma lista com tudo que você não come e com as coisas que você mais gosta e farei o possível para que você se sinta em casa, ok?
- Ah, claro. Obrigada por tudo, Meg – respondi educadamente
Ela começou a servir o jantar e me esforcei pra comer sem fazer cara feia. Era um simples macarrão com molho, coisa mais nojenta, mas eu tinha que fingir que estava tudo bem.
Comi pouquíssimas garfadas, me demorando absurdamente na mastigação enquanto eles conversavam.
levantou dizendo que ia à casa de um amigo, nem me importei em prestar atenção no nome, e então saiu da mesa.
- , querida, o que acha de fazer companhia para a enquanto eu arrumo a cozinha, hm?
olhou esperançosa para mim, praticamente implorando com os olhos para que eu tivesse uma reação positiva e, como uma boa atriz, sorri parecendo satisfeita, colocando meu prato de lado.
- Será ótimo mãe, garanto que a vai amar conhecer meu quarto! – ela saltitou feliz até perto de mim. – , vem, vou te mostrar minhas coisas!
A pirralha irritante tagarelou o caminho todo até seu quarto, falando vários ‘, ’ em suas frases, acabando com a minha paciência. Como se ela fosse minha amiga.
Tudo que eu conseguia pensar era: “Deus, o que eu fiz para merecer? Combinei zebra com floral alguma vez? Eu sempre me vesti tão bem!”
Quando entramos no quarto, minha boca se abriu de surpresa.
Era tudo tão rosa, tão fofo que, mesmo sendo minúsculo, eu adorei.
As paredes eram pintadas de rosa e decoradas com bailarinas que pareciam ter sido pintadas a mão. Era aconchegante e no exato minuto que entrei, me senti em casa.
Ok, só por alguns segundos, até eu dar alguns passos e perceber que mal cabiam duas pessoas lá dentro.
Mas ainda assim era adorável.
Minha atenção se voltou para as prateleiras escoradas ao lado da cama e vi vários troféus, assim como algumas medalhas e peças de roupas coloridas. Peças de roupas que pareciam...
- Você dança? – perguntei, observando os variados collants coloridos e algumas sapatilhas no chão.
- Ah, sim. Eu amo dançar – ela disse envergonhada.
Fui até a cama e me encantei com a maciez, o quarto dela, sem dúvidas, era a melhor parte da casa.
- Eu dançava também, quando era menor. Minha mãe era professora, me ensinou tudo que sabia.
- Sério? Você não dança mais? – parecia curiosa, mas ao mesmo tempo cuidadosa.
- Depois que ela morreu, não senti mais vontade de dançar. - abriu a boca pretendendo falar algo, mas desistiu e apenas balançou a cabeça positivamente, dando a entender que me compreendia.
Conversamos por mais algumas horas e comecei a me assustar com a facilidade que aquela garota se abria. Eu já sabia de praticamente tudo sobre sua vida.
- Acho que ele nunca tentou se aproximar desse jeito por causa do – fez um biquinho quando terminou de falar do tal de .
- E o que tem o ? – perguntei meio confusa.
- Ele é ciumento e certamente não iria gostar se um de seus amigos se “engraçasse” comigo – ela deu de ombros.
- Ele não precisa saber – eu disse.
era uma pessoa bem fácil de conversar, pela primeira vez na minha vida havia prestado atenção em tudo o que outra pessoa estava me falando mesmo não sendo do meu interesse.
Talvez, fosse o modo como ela tentava me agradar que me fazia ter simpatia por ela. Isso me lembrava que apesar de não estar em minha mansão, ainda teria alguém que me serviria de muito bom grado.
- Vou dormir, ainda tenho que terminar de arrumar as minhas coisas – ou as que não precisariam ficar fora das caixas por falta de espaço pelo menos.
- Posso te ajudar amanhã, se quiser – era disso que eu estava falando.
- Claro, aí conversamos mais – disse sorridente me levantando. – Boa noite.
- Boa noite – respondeu ainda mais sorridente e fechei a porta, me arrastando para o “meu” quarto.

...

Acordei sem nenhuma vontade de levantar, eu poderia pedir meu café na cama. Mas aquele cheiro de casa velha me lembrava de que eu não estava na minha casa e não teria empregados para fazer o que eu mandasse.
Me remexi incomodada, sentindo aquele lençol com cheiro de amaciante barato pinicar minha pele, eu necessitava de lençóis de seda. Quem consegue ter um sono agradável de beleza em lençóis de linho como aquele? É impossível.
Joguei o edredom para o lado me levantando de uma vez, talvez eu devesse visitar Shelly, quem sabe ela não me convidaria a passar uns tempos com ela? Quase ri com esse pensamento, jamais daria o gostinho a ela de rir com a minha situação.
Coloquei meu roupão de seda rosa por cima do baby doll e peguei a nécessaire em cima da cômoda respirando fundo para encarar o que eles chamavam de banheiro. Para mim se parecia mais com um armarinho de vassouras.
Quando cheguei a cozinha, Meg estava na frente do fogão e a mesa estava vazia. Como assim? Eu nem tinha tomado café ainda.
- Bom dia – ela disse sorrindo para mim.
- Bom dia – respondi educadamente sentando em uma cadeira.
- Quer tomar café? Tem leite na geladeira e frutas na fruteira – ela apontou uma bacia em cima do balcão, a qual olhei com nojo.
A porta da frente bateu e não demorou muito para que o filho de Meg entrasse na cozinha com um uniforme de futebol que o deixava especialmente gostoso, era uma pena que estivesse todo suado, nojento.
Ele largou a mochila no chão e foi até Meg estalando um beijo em sua bochecha. Muito nojento.
- Oi, querido, como foi o treino? – ela perguntou carinhosa.
- Normal – ele deu de ombros se virando para mim, desviei meus olhos sentindo aquele acanhamento que havia sentindo quando o vi pela primeira vez, e eles acabaram pousando em uma maçã vermelhinha que estava na fruteira. Fui até lá e a peguei, não era fresca, mas eu estava com fome.
- Não vai falar com a ? – Meg disse enquanto ia até a geladeira e pegava uma garrafa de água.
- Oi, – ele falou antes de colocar a garrafa na boca, esse garoto não tinha educação? Pessoas normais colocariam a água em um copo.
- Oi – respondi indo até a pia lavar a maçã. – Pode cortar para mim? Eu gosto em cubinhos – estendi a fruta para Meg, ela me olhou por alguns segundos antes de abrir uma gaveta, pegar uma faca e me entregar.
- Aqui, querida – peguei o objeto de suas mãos e o olhei com as sobrancelhas juntas. – Estou atrasada. , a comida está pronta e hoje é dia de faxina – disse antes de sair da cozinha.
- Vai ficar olhando ou vai comer? – parou ao meu lado deixando a garrafa na pia.
- Como eu vou comer? – alguém tinha que cortar a fruta em cubinhos para mim, já não bastava ser uma maçã velha.
sorriu pegando a maçã de minha mão. Parece que ele tem educação, afinal.
- Assim – ele disse e mordeu a minha maçã, a devolvendo em seguida. Abri a boca ultrajada com sua atitude enquanto saía da cozinha como se nada tivesse acontecido.
Eu não iria comer restos obviamente, então joguei a maçã no lixo e fui até a sala procurar alguma coisa para fazer até criar coragem o suficiente para comer o almoço que Meg havia preparado.
Me joguei no sofá zapeando pelos canais da TV, pelo menos ali havia TV a cabo e poderia ver os desfiles mais importantes. Acabei me distraindo com o Fashion Police e nem vi a hora passar.
- Hey, Lady, vamos limpar a casa – olhei para que estava parado ao meu lado com uma sobrancelha levantada.
- Ok, bom serviço – sorri falsamente voltando a prestar atenção na TV.
- Acho que você não entendeu, quando eu disse vamos, estava me referindo a você também – soltei uma risada debochada.
- Vai nessa, garoto, isso são coisas que empregados fazem, não eu.
- Aqui você vai ter que fazer, dividi as tarefas. Você vai limpar o seu quarto e o banheiro – ele disse com a mão na cintura.
- Nunca! Espera sentado – esbravejei, ele rolou os olhos e saiu da sala, finalmente entendendo que uma dama da alta sociedade como eu, jamais pegaria em uma vassoura ou qualquer coisa do tipo.
Isso era um insulto, onde lá se viu Maddox limpando banheiros? Nem nos meus piores pesadelos.
- Aqui está o que você vai precisar, acho melhor começar pelo banheiro. – disse deixando um balde no chão perto de mim.
- Eu não vou limpar nada, garoto, você vai perder seu tempo.
- , por favor, custa ajudar? – ele disse tentando soar calmo, o que quase me fez rir.
- Olha bem pra mim, você acha mesmo que eu vou limpar um banheiro fedorento? Não mesmo. Não estou habituada a fazer esse tipo de coisa, diferentemente de você. Depois que terminar, de um jeito no meu quarto, por favor – finalizei em uma voz doce desligando a TV enquanto me levantava.
agarrou meu braço me olhando furiosamente.
- Ou você vai ajudar por bem ou por mal – ele começou a me puxar para fora da sala.
- O que você pensa que está fazendo, seu animal? Me solta – eu gritava tentando a todo custo não deixar com que ele me arrastasse. me agarrou pelas pernas me jogando em seu ombro.
Eu gritava e dava socos desajeitados em suas costas enquanto ele subia as escadas.
- O que está acontecendo? solta ela - gritou quando todos os degraus ficaram para trás.
- , socorro, seu irmão vai me matar, me ajuda – eu gritava me debatendo, até que ele parou me colocando no chão.
- Você só sai daí, quando o banheiro estiver brilhando, entendeu, princesa? – e dizendo isso me empurrou para dentro do banheiro batendo a porta com força.
- Eu não vou ficar nesse banheiro fedorento - gritei tentando abrir a porta sem nenhum sucesso. - Abre essa porta, garoto - comecei a chutar a madeira o mais forte que eu conseguia.
- , abre a porta, deixa de ser criança - escutei esbravejar e por um momento achei que o garoto iria obedecer.
- Vou abrir quando ela terminar - escutei a voz do garoto divertida do outro lado.
- Me deixa sair agora - dei outro chute na porta.
- Não - ele disse e riu. - Se você se apressar, rapidinho vai poder sair.
- , abre a porta e deixa a sair. - exigiu mais uma vez. - Eu vou ligar para a mamãe.
- Eu falo que é mentira, se eu fosse você ocupava meu tempo indo fazer suas obrigações. Não vou abrir agora.
- ? , volta aqui. O que pensa que está fazendo? - e não consegui escutar mais nada por que as vozes ficaram distantes demais.
O que eu tinha feito para aquele garoto?
O que eu tinha feito para estar passando por tudo aquilo? Aqueles dois dias estavam sendo os piores da minha vida.
Olhei ao redor procurando um canto para me sentar, mas minhas escolhas eram o vaso ou o chão. Então preferi ficar em pé, era a opção mais aceitável. Já sabia que não iria adiantar gritar.
Eu queria chorar.
Chorar por estar sendo humilhada por um garoto que não chegava nem perto do meu nível social. Humilhada por ter sido jogada em um banheiro fedorento e feio e trancada ali como se fosse uma prisioneira.
Mas eu não iria chorar, quando aquele garoto me deixasse sair, iria erguer meu nariz e ser totalmente indiferente a sua presença.
Minha vingança seria friamente calculada.
Não tinha ideia de quanto tempo eu estava em pé naquele banheiro, esperando que a razão voltasse a cabeça de e ele me soltasse. poderia tê-lo enfrentado e tomado a chave de sua mão, mas eu não poderia culpá-la. Ela nunca conseguiria medir forças com , se nem eu havia conseguido, quem dirá que parecia uma bonequinha de porcelana de tão pequena e frágil que parecia.
Me desencostei da parede quando a porta foi aberta bruscamente, endireitei minha postura para enfrentar , mas foi quem colocou a cabeça para dentro do banheiro.
- Você está bem? – ela perguntou um pouco insegura.
- Estou – respondi esticando o pescoço para ver se não seria surpreendida pelo ogro.
- O não está aqui. Ele não está em casa – ela disse e deu espaço para que eu passasse. – Me desculpe por isso, às vezes eu acho que meu irmão manteve a mentalidade nos doze anos, de tão infantil que pode ser às vezes. Vou contar pra minha mãe quando ela chegar e ela vai cuidar disso – disparou a falar enquanto eu ia e parava na porta do quarto destinado a mim.
- Tudo bem , não precisa dizer para a Megan – eu disse e ela juntou as sobrancelhas. – Não quero já chegar causando confusão – disse, mas eu queria sim que ela contasse.
- Você quer fazer alguma coisa? – perguntou claramente querendo me agradar.
- Na verdade eu queria descansar um pouco, ler um livro – dei de ombros.
- Não quer comer nada? – ofereceu e vi que ela poderia fazer qualquer coisa que eu pedisse.
- Na verdade não, mas eu estou morrendo de sede – entrei no quarto e me sentei na cama.
- Eu fiz uma limonada, quer um pouco?
- Ah obrigada, não gosto com muito gelo – respondi e ela sorriu saindo do quarto em seguida.
Passei o resto da tarde tomando limonada e comendo cookies que me trazia enquanto eu lia a ultima edição da Vogue. Até consegui me sentir em um ambiente familiar com alguém me servindo.

...

Contrariando todas as minhas expectativas, não falou para Megan sobre o ocorrido daquela tarde. Ela realmente tinha levado a sério o que eu tinha dito e não tinha falado uma mísera palavra. não seria punido pelo que tinha me feito, não pela mãe dele pelo menos.
Depois de nós três termos jantado, já que estava na rua até aquele horário, estávamos na sala assistindo um filme que havíamos pegado pela metade e que eu tinha certeza que não me deixaria dormir a noite de tão assustador que era.
A porta de entrada bateu com força, fazendo com que Megan desse um pulo ao meu lado e um grito de pavor ficasse entalado na minha garganta.
- O que foi? – perguntou levantando uma sobrancelha quando chegou a sala e viu que as três pessoas ali, olhavam em sua direção.
- Pode ter mais cuidado ao fechar a porta? – Megan disse um tanto alarmada.
- Desculpa, foi sem querer – o garoto encolheu os ombros e voltei a prestar atenção na TV. - O que vocês estão vendo? – ele perguntou se aproximando do sofá que ficava de frente para a TV e onde eu , e Megan estávamos praticamente espremidas, e se abaixou colocando a cabeça entre a minha e de Megan.
No primeiro momento enrijeci o corpo ainda mais, com medo de que ele pudesse arrancar minha cabeça a qualquer momento e então eu respirei fundo. Me perguntei que perfume aquele garoto usava. Era um cheiro gostoso e diferente, além de um leve toque de nicotina, que acho que Megan também notou.
- Você andou fumando? – ela virou o rosto na sua direção.
- Não – ele respondeu com naturalidade e eu mantive meus olhos na TV. – – ele completou devido ao silencio da parte de Megan.
- A mãe dele sabe? – a olhei rapidamente, surpresa com a naturalidade da qual ela falava sobre aquilo.
Quer dizer, drogas não são um assunto muito natural, não é? Bom, podia não ser para mim, mas certamente no gueto, que era onde eles moravam, devia ser um assunto bem normal.
- Não sei. – respondeu e até eu consegui detectar a mentira em sua voz.
- Ah, tá bom. – Megan disse irônica e voltou a prestar atenção na TV bem na hora em que a perna de um dos personagens foi puxada pelo nada. deu a volta e se deitou no sofá vazio parecendo interessado no que assistíamos.
Alguns minutos depois estava praticamente agarrada a mim, enquanto eu me encolhia vergonhosamente no sofá, com os dois pés em cima dele e o único som que podíamos ouvir era o da TV. Eu só consegui respirar aliviada quando os créditos do filme subiram pela tela e Megan ascendeu a luz.
- Acho bom todo mundo ir dormir, amanhã vocês tem aula – ela disse e não movi um músculo até que o fizesse.
Megan foi a primeira a deixar a sala e aproveitei a hesitação de , para observar esticar os músculos antes de se levantar e olhar com curiosidade em nossa direção.
- Não vai me dizer que está com medo, ? – ele perguntou e um sorriso diabólico se formou em seu rosto.
- Qual o problema? – ela perguntou de volta se levantando também.
- Nenhum, eu te levo pro seu quarto – ele disse e olhou para mim rapidamente.
Antes mesmo que eu pudesse me levantar, passou o braço pelos ombros de e a arrastou para fora da sala.
Traidora.
Era isso que ela era.
Foi o meu braço que ela esmagou o filme todo e na hora que mais preciso, ela sai com o ogro e me deixa para trás, na escuridão e com a casa em completo silencio.
Ok, para com isso, .
Você não precisa de ninguém, é só um filme e nada vai acontecer. Respirei fundo e me levantei do sofá.
Eu estava morrendo de sede, então fui para a cozinha e acendi a luz antes de entrar. Não havia nada ali como o esperado. Fui até o armário rapidamente e peguei um copo, o enchi com água da torneira mesmo e bebi o mais rápido que consegui.
Quase engasguei quando a luz da cozinha se apagou e fechei os olhos sentindo meu coração bater mais rápido.
Não seja boba, é claro que é o imbecil do querendo te assustar.
- , para. Não tem graça – disse esperando ouvir uma risada ou qualquer coisa.
Nada.
Eu me recusava a abrir os olhos e muito menos a me mexer.
Com a mão tremula coloquei o copo em cima da pia e respirei fundo, eu tinha que sair dali. Me virei devagar, ainda com os olhos fechados.
Contaria até três, abriria os olhos e sairia correndo. Era idiotice, nem na minha casa que era um milhão de vezes maior que aquela, eu tinha todo esse medo. Mas minha casa não se parecia com um cenário de filme de terror.
- Um, dois, três – sussurrei e abri os olhos enquanto disparava para fora da cozinha.
Enquanto subia os degraus correndo, vi que a luz do corredor de cima estava acesa, o que me deu um certo alivio.
Quando alcancei o topo da escada eu juro que ouvi um barulho vindo lá de baixo, o que me fez ficar cega por chegar ao meu quarto logo. Praticamente joguei meu corpo para frente quando meu pé pisou no último degrau.
Me choquei com alguém e senti as mãos grandes e firmes em minha cintura evitando que a lei da física me fizesse rolar escada a baixo.
- Tá doida? – perguntou enquanto me ajudava a me ajeitar. – Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou parecendo preocupado enquanto analisava meu rosto.
- A luz da cozinha se apagou sozinha – eu disse mais baixo tentando não parecer insana.
- Ah, não diga – ele debochou.
- Estou falando sério – eu disse e ele deu um sorriso, aquele que havia dado a minutos atrás na sala. – Foi você? – tampou a boca com a mão e começou a rir.
- Você tinha que ver a sua cara – ele disse entre risos.
- Como você é infantil, garoto – disse brava, mas na verdade estava morrendo de vergonha.
- Que seja, foi engraçado.
- Não, não foi – cruzei os braços.
- Pra você, não mesmo – ele ainda tinha um sorriso no rosto.
- Eu poderia ter morrido – eu disse e ele rolou os olhos.
- Não exagera, foi só uma brincadeira.
- Imbecil – disse e esbarrei nele enquanto ia para o meu quarto.
Bati a porta sem o menor cuidado, eu estava com raiva. Muita raiva.
O que esse garoto tinha contra mim? Eu não tinha feito nada para ele.
Primeiro me tranca no banheiro e depois me faz achar que tem algum fantasma, ou algo idiota desse tipo atrás de mim.
Eu mesma devia ter contado a Megan sobre o episódio do banheiro, não ficar esperando que o fizesse.
Eu devia ter contado, vai que a Meg é daquelas mães que espancam os filhos? Me pareceu que o Shrek tinha medo dela e todas as mães do gueto batem em seus filhos, não é? Pelo menos é assim nos filmes.
Fato é que fui dormir com sede de vingança aquela noite e não sossegaria enquanto não me vingasse de .



Três

O vestido que vestia parecia de noiva e um campo florido era tudo que eu via ao redor, o vento bagunçava meus cabelos e trazia o aroma bom até meus pulmões enquanto o Sol mantinha minha pele aquecida. Sorri com o brilho que o Sol causava em uma hidromassagem enorme bem no meio daquele campo florido.
Céus, um banho de banheira era tudo o que precisava, passei a caminhar mais rapidamente tentando alcançar o mais brevemente possível o paraíso. Meu coração batia mais rápido a cada passo dado que me levava ao encontro daquela banheira extraordinária.
Sorri respirando fundo absorvendo o cheiro de morangos que a espuma fazia enquanto colocava meu pé no primeiro degrau e então alguém agarrou meu pulso, me fazendo gritar pelo susto.
A pessoa me puxava para o lado oposto da banheira enquanto eu gritava e tentava me manter no lugar, não conseguia ver seu rosto e quanto mais distante a banheira ficava, mais apavorada me sentia.
A pessoa conseguiu me afastar do meu paraíso e com isso o Sol se foi, dando lugar a escuridão total, meu vestido digno da realeza se transformou em um pedaço de trapo imundo e as flores do belo campo apodreceram.
Soltei mais um grito sendo jogada dentro de um cômodo escuro e fedido, encarei novamente a pessoa encontrando um sorriso perverso em seu rosto.
- Bem vinda ao inferno, princesa. – disse antes de fechar a porta e me trancar ali.
Joguei meu corpo contra a madeira dando socos e chutes enquanto gritava para que me soltasse e a única resposta que tinha, era sua gargalhada sombria do outro lado.
Senti as lagrimas caírem de meus olhos antes de minha voz mudar bruscamente, era uma voz masculina rouca que gritava agora, e não era mais o nome de que saia de minha boca, era meu próprio nome.
Dei um pulo na cama ouvindo as batidas em minha porta e a voz do Shrek me gritando. Tirei meu tapa olho do rosto caminhando lentamente até a porta, a abri dando de cara com o ser maligno arrumado e com uma mochila no ombro.
- Já estou acordada, para de fazer escândalo seu animal - usei o tom mais furioso que conseguia àquela hora da madrugada.
- Melhor a madame se apressar, ou vamos nos atrasar para a escola. – disse em tom debochado.
- Vou me arrumar e já estou indo – já ia fechando a porta quando ele impediu.
- Se apressa, eu adoraria te deixar para trás, mas minha mãe me mata se fizer isso. Você tem dez minutos – bati a porta na cara dele e andei tranquilamente até meu projeto de armário para escolher a roupa que usaria.
Depois de tomar banho e me arrumar fui até a cozinha tomar meu café, que na minha antiga casa seria uma barra de cereal, um suco natural e alguma fruta fresca, mas ali naquela casa, com certeza eles comiam ovos com bacon, um suco artificial ou um cereal vagabundo com leite.
Me sentei em uma cadeira ao lado de sob o olhar debochado de , peguei somente um copo de leite.
- Hum, sua roupa está er... Muito bonita. – Sorri para satisfeita, ouvi o risinho idiota do Shrek, mas ignorei.
- Obrigada, é meu primeiro dia tenho que causar uma boa impressão – joguei meu cabelo para o lado.
- Vamos, já estamos atrasados. – saiu da cozinha fazendo com que se apressasse jogando sua mochila rosa em seu ombro.
Terminei de tomar meu leite, peguei meu fichário rosa e minha bolsa dando tchau para Meg.
estava encostada em um carro mais velho que o de Meg se fosse possível, minha vontade de entrar naquilo era nula.
- É nisso que vamos para a escola? – perguntei me aproximando de , mas ela não pode responder, porque foi mais rápido.
- Isso é um Chevy Impala SS 1967, uma raridade – ele parecia orgulhoso daquela banheira ambulante, fiz minha melhor expressão de desdém.
- Bom se é uma raridade e se é um Impala sei lá o que de 1967, ele deveria estar em um museu. Eu que não vou chegar no colégio nisso aí – eu o estava irritando, ponto pra mim.
- Vá andando então, boneca, a escola é só a uns oito quarteirões daqui – sorriu me dando as costas e entrando no 1967. continuava parada na mesma posição. – entra ou eu vou te deixar ai também – disse o ser repugnante, sorriu desconcertada em minha direção e entrou no carro.
ligou o motor enquanto eu pensava nas minhas opções, quando ele acelerou corri até a porta com medo que ele realmente me deixasse para trás.
- Uma das duas passa para o banco da frente, por favor – o energúmeno disse vendo que eu e estávamos no banco traseiro, nem dei bola, nunca andei no banco do carona, não seria naquele momento que iria começar.
- Pode ir você, . – disse achando que eu queria mesmo me sentar ali.
- Pode ir, eu só sento no banco traseiro – sorri simpática.
- Tá achando que sou seu motorista, princesa?- me olhava pelo retrovisor, sorri sarcástica.
- Quem vai dirigindo é você, então acho que a resposta é óbvia – desviei minha atenção as minhas unhas o ouvindo bufar.
- , vem logo pra frente, não estou com paciência hoje – nossa eu estou morrendo de medo, ser do inferno.
se apressou em ir para a frente e fomos o caminho todo em silencio. tentava puxar algum assunto com a gente, mas o ogro do irmão dela sempre dava uma resposta atravessada.
Eu ainda não entendia o que aquele garoto tinha contra mim. Ele não tinha feito questão de ser simpático nem uma vez sequer. Se bem que poderia ser inveja, porque eu era rica e maravilhosa enquanto ele era um pé rapado infeliz.
Quando nos aproximamos do colégio fui ficando aterrorizada, os carros eram ainda piores do que o que eu me encontrava, e as roupas? Meu Deus, só poderiam ter sido compradas em um brechó.
O carro foi estacionado, peguei minha bolsa deixando meu fichário no banco, abri a porta e saí, nem olhei ao redor antes de me debruçar para pegar meu fichário, minha bolsa enroscou e travei uma luta com o carro pra poder sair de vez.
Passei a mão pela minha roupa e ajeitei meu cabelo, parou ao meu lado acompanhado por .
- Você precisa de ajuda para ir à secretaria e achar sua sala? – o Shrek estava tentando ser educado?
- Posso me virar sozinha – ajeitei minha bolsa em meu braço enquanto revirava os olhos e saía de perto. – você vai comigo? – ela que mexia em sua mochila me olhou.
- Achei que não queria ajuda – sorriu sem graça.
- Você pode vir comigo se quiser, não queria a companhia do seu irmão. Ele é um bruto – começamos a andar na direção da escola, eu sentia os olhares sobre mim, mas nem ligava, eu sei que sou fashion e linda. Eles deviam estar todos com inveja do meu terninho Armani.
- O é legal, , tenta ter mais paciência com ele – revirei os olhos, claro que ela iria defender o irmão, ele não é legal. Como uma pessoa legal tranca a outra no banheiro?
- Olha, vamos mudar de assunto? Tem meninos bonitos nessa espelunca? – perguntei olhando ao redor fazendo uma careta.
- Não sei se os meninos daqui vão te agradar – ela disse e pensei em como ela estava errada, um dos meninos daquele lugar com certeza me agradava.
Uma pena ele ser terrivelmente imbecil e parecer ter uma aversão inexplicável a mim.
Fomos conversando até a secretaria, peguei meus horários e a senha do meu armário depois que a secretária me entregou alguns livros. Quando estávamos perto do meu armário o sinal tocou avisando o início das aulas. me ajudou a guardar alguns livros apressadamente.
- Eu não posso te levar até sua sala, ou vou me atrasar . Consegue ir sozinha? - eu queria que ela me ajudasse a achar minha sala sim, mas sorri concordando. Afinal, fazia o possível para que eu me sentisse bem.
- Não quero que se atrase, eu me viro, já fez demais por mim, . Vai pra sua aula. Nos vemos no almoço? – pisquei em sua direção e ela sorriu.
-Sim, me encontre aqui no seu armário, até mais, boa sorte – saiu acenando.
Olhei para o papel em minha mão para ver que aula teria no primeiro tempo. Filosofia, que ótimo. A única matéria em que tinha dificuldade.
Para minha sorte no papel também havia o número da sala. Caminhei pelo corredor imenso procurando e quando finalmente achei, já estava morrendo de sede.
Abri a porta que não estava totalmente fechada, entrei sendo cuidadosa para não chamar a atenção da sala que estava completamente silenciosa, e empurrei a porta para que ela se fechasse, mas coloquei força demais e ela acabou batendo. O que fez com que todos os alunos e a professora me encarassem, sorri amarelo.
- Aluna nova? – perguntou a mulher idosa, na minha opinião, de óculos fundo de garrafa.
- Sim, desculpe o atraso, eu não achava a sala – caminhei até ela, entregando o papel da minha transferência.
- Muito bem, senhorita Maddox, pode se sentar e copiar o texto que está no quadro – sorri tentando parecer doce. Nunca que ia copiar aquele texto enorme.
- A senhora poderia tirar uma cópia do texto para mim? – deixei o sorriso ficar maior enquanto ela me olhava com a sobrancelha erguida.
- Não prefere que te mande por e-mail, querida? – me animei com sua pergunta, a escola pública não poderia ser tão ruim assim. Os meus colegas de classe riam por algum motivo que eu não estava interessada.
- Ah, muito obrigada, vou anotar meu e-mail – já ia caminhando até sua mesa, quando a velha fechou a expressão e falou alto demais, me assustando:
– Eu não sei como era sua antiga escola, senhorita Maddox, mas aqui na nossa escola você terá que copiar a matéria como todos os seus colegas de turma, você não é melhor nem pior que ninguém. Agora faça o favor de se sentar e copiar tudo para me entregar no final da aula. – me virei para o bando de pobres daquela sala que ria como se tivesse um palhaço ali na frente, se bem que aquela professora me lembrava muito um.
Enquanto procurava com os olhos um lugar para me sentar, dei de cara com me encarando de forma estranha e por algum motivo aquilo me fez ficar sem graça. E por pura coincidência o único lugar vago era a seu lado.
Revirei os olhos indo até a cadeira.
Com alguma dificuldade consegui tirar um lencinho higiênico da minha bolsa, o passei pela cadeira para desinfetar, e depois pela mesa o levando até o lixo em seguida.
Eu sentia que a atenção da sala inteira estava em mim e eu não dava a mínima, já estava adaptada a ser o centro das atenções.
Voltei à mesa arrumando minhas coisas e enquanto tirava minha caneta de pompom rosa do estojo para começar a copiar, senti os olhos de em cima de mim me deixando mais uma vez desconfortável. Eu sabia que ele não gostava de mim, então por que ele ficava me olhando o tempo todo? Com uma coragem repentina o olhei de volta.
- Tá olhando o quê? – ele apenas revirou os olhos e voltou a prestar atenção no que estava fazendo.

...

Minhas aulas seguintes foram igualmente torturantes quanto a primeira e tive mais duas com , depois não o vi nem nos corredores.
Ignorei perfeitamente bem as pessoas que tentaram um contato comigo, por favor, eu nunca iria me misturar com aquela gentinha.
Encontrei me esperando perto do meu armário como o combinado, ela parecia radiante pelo horário do almoço ter finalmente chegado. Claro, pobres adoram comer de graça.
Ela me contava detalhes de sua manhã enquanto caminhávamos em direção ao refeitório. Tinha que admitir que estava com um pouco de medo de saber como era esse lugar.
Entramos na fila da cantina e quase vomitei quando olhei para a lavagem a minha frente dentro de uma panela em cima de um adesivo escrito: picadinho de carne.
Acabei com uma bandeja com água, uma maçã – que certamente não estava fresca, mas eu estava com fome – uma salada de frutas, e alguns tomates.
- Onde vamos nos sentar? – perguntei para mais nova olhando ao redor. Esse povinho parecia um bando de animais, as mesas estavam lotadas, alguns corriam de um lado ao outro. Argh.
- Eu geralmente almoço com meu irmão e os amigos dele, assim ninguém perturba e podemos comer em paz – disse caminhando ao meu lado.
- Que seja – pude avistar com mais três garotos em uma mesa, eles conversavam e riam a todo o momento.
Ele tinha um sorriso bonito e quando ria, parecia que era uma risada gostosa.
Quando chegamos à mesa, já foi logo se sentando perto de um dos meninos o cumprimentando com um sorriso imenso, imaginei que aquele era o tal de que ela tanto tinha falado. Ela acenou com a mão para os outros garotos na mesa e me perguntei como ninguém ali percebia a troca de olhares entre ela e .
Passei um lencinho higiênico na mesa e no banco antes de me sentar.
- , esses são , e . – apresentou os garotos que estavam na mesa, sorri tentando ser simpática, afinal eu ainda tinha educação e não era porque estava na classe C, que não iria usá-la.
Se estivesse em meu antigo colégio, estaria sentada com o time de basquete, comendo minha salada de peixe e conversando com minhas amigas sobre a última coleção da Victoria Secrets.
- E então novata, veio de que escola? – um dos garotos perguntou, eu acho. Duvidava muito que ele não soubesse, claro que deve ter dito tudo sobre mim para eles.
- Do Louisian High School. – Sorri orgulhosa, eu amava tanto meu antigo colégio.
- E você era líder de torcida, namorava o capitão do time de futebol e essas coisas? – o garoto que gostava perguntou.
- Não, nunca achei graça em time de torcida. Ficar sendo jogada de um lado para o outro não é comigo – entortei a boca o encarando.
- Eu tenho vontade de participar do time de torcida. – disse colocando um pedaço de sei lá o que era aquilo que ela estava comendo, na boca, sorriu carinhoso para ela.
- Para quê? Pra ficar andando com aquelas saias minúsculas por aí? – disse ácido e tive que olhar para ele.
- E qual o problema? – perguntei deixando meu almoço de lado. – Eu dou todo o apoio , você sabe dançar e é muito bonita. Consegue até ser a capitã – não disse por gentileza, mas sim para irritar . – O que você acha, ? – ficou vermelha e o garoto parecia surpreso.
- É, o que você acha, ? – ok, pelo tom de voz de , percebi que ele não era bobo e notava sim o comportamento dos dois perto um do outro.
- Eu concordo com ela. – me apontou nervoso e sorriu se encolhendo.
- Concorda com o quê? De que a minha irmã é muito bonita? – o garoto se engasgou.
- Acho que ele concorda com tudo o que eu disse, inclusive que ela é muito bonita. Aliás, acho que a grande maioria dos garotos dessa escola também concorda e eu não vejo problema nisso – disse sorrindo satisfeita por estar conseguindo irritar .
- E quem foi que pediu sua opinião mesmo? – ele perguntou me encarando.
- ! – ralhou.
- Não preciso de permissão para dar a minha opinião, ainda mais da sua – dei de ombros.
- Vai ter teste para a equipe, – outro garoto, se eu estava certa falou, claramente cortando o assunto entre eu e .
- E como você sabe disso? – perguntou de uma maneira estranha.
- A Lindsay me disse, ela vai fazer o teste – ele deu de ombros.
- Por que ela ainda tenta? Ela não vai passar, está para nascer alguém mais desengonçada que ela. – disse.
E depois disso eles entraram em um assunto totalmente aleatório e como eles falavam todos quase ao mesmo tempo, só consegui distinguir que estavam fofocando sobre a vida inútil de alguém. E isso era a única coisa que eu tinha certeza que se encaixava em qualquer classe social, em todas elas se falava sobre a vida alheia.
Eu poderia até me interessar pela fofoca, mas óbvio que a vida de uma garota sem graça que nunca colocou a mão em uma roupa de grife, não me interessava.

...

Por mais incrível que possa parecer estava agradecida por estar de volta à casa de Megan, não que o lugar fosse agradável, bem longe disso. Mas com toda certeza era mil vezes melhor que estar naquele colégio cheio de animais. Aliás, animais não, com certeza animais são mais inteligentes que aquele bando de vândalos.
Acho que não podia culpá-los também, a maioria não tinha condições de pagar uma educação boa.
Mas minha alegria de estar na casa de Megan, também se dava ao fato de que estava sozinha. estava na aula de balé, Shrek estava trabalhando assim como a mãe deles. Então eu tive a casa para mim pelo resto da tarde.
Claro que seria muito melhor se pelo menos tivesse alguém ali para me preparar um suco ou um lanche no final da tarde, mas eu poderia esperar até que Meg ou chegasse para isso.
A TV mudou o canal, colocando no início do desfile da Dolce & Gabbana que eu havia reservado.
Me ajeitei animada no sofá enquanto os primeiros vestidos começavam a surgir e eu já fazia uma lista em minha cabeça de quais eu iria querer.
A porta de entrada bateu, mas não me dei o trabalho de me virar ou perguntar quem era, certamente não era um ladrão. Quem iria querer roubar uma casa como aquela? Exatamente, ninguém.
Mas não tive como ignorar quando surgiu na sala apressado, jogando a mochila no chão, o casaco no sofá e chutando para fora de seus pés seus All Stars surrados, antes de se jogar ao meu lado no sofá e pegar o controle da TV mudando de canal como se eu não estivesse ali.
- O que é que você pensa que está fazendo? – minha voz se elevou algumas oitavas.
- Assistindo televisão – ele nem sequer me olhou para responder.
- Estou assistindo o desfile - peguei o controle que ele havia deixado entre nossos corpos e mudei o canal. O garoto me encarou levantando uma sobrancelha.
- Estava – deu um sorrisinho antes de arrancar o controle da minha mão.
- Deixa de ser mal educado garoto, cheguei primeiro e vou ver o desfile. Arruma algo de útil pra fazer – voltei a pegar o objeto de sua mão e mudar de canal.
Só deu tempo de ver o vislumbre de um vestido divino antes da tela voltar a mostrar muitos homens correndo atrás de uma bola.
- Não vou perder a final do campeonato, porque a princesa quer ver o desfile. Quer ver roupa? Vai ao shopping. Agora fica quietinha – típico de pobre ir ver roupas que jamais poderão comprar em vitrines de lojas.
- Me devolve essa droga de controle agora – rosnei já me lançando em sua direção, afastou o objeto para longe e com um de seus braços me manteve afastada.
- Não – respondeu com a voz calma me empurrando levemente com o braço antes de virar o corpo em minha direção. - Eu quero ver o jogo e eu vou ver, sabe por quê? Porque você está na minha casa, não na sua – tinha um tom de maldade palpável em sua voz.
Ele queria me magoar? Fazer com que eu me sentisse mal?
O encarei por alguns segundos antes de me levantar e correr para o quarto, minha cabeça trabalhando a mil enquanto eu tentava deixar a raiva de lado.
queria ver o jogo? Ele veria o jogo, mas iria pagar por tudo o que estava fazendo comigo. Pelas palavras rudes e mal educadas que proferiu a mim desde quando colocou seus olhos em mim sem ter qualquer motivo para fazer isso.
Já havia ficado claro para mim que tanto , quanto Megan estavam fazendo o impossível para que eu me sentisse bem ali. Megan queria que eu me sentisse em casa, bem diferente do ogro do filho dela, que parecia tirar seu tempo livre para encher meu saco ou me trancar no banheiro.
Qual seria a reação de Megan ao saber o modo como falara comigo há minutos? O que ela faria quando visse o quanto aquelas palavras me magoaram?
Ela gritaria com ele? Bateria nele? O deixaria com os olhos roxos como eu vira mães do gueto fazer com seus filhos em filmes?
Um sorriso se desenhou de forma natural em meu rosto.
Certo, eu precisava começar a chorar imediatamente, mas o que me faria chorar? Minha raiva também não era tanta a esse ponto.
- Pense em algo triste, o importante é chorar copiosamente – era o que Morgana dizia em suas aulas de teatro.
Respirei fundo e comecei a pensar em minha mãe. Sua ausência durante todos esses anos seria a única coisa que poderia me fazer chorar naquele momento, e até me fazer esquecer meu objetivo com aquelas lágrimas.
Me joguei na cama abraçando o travesseiro quando o primeiro soluço alto ecoou pelas paredes, enquanto as lágrimas despencavam como cachoeira de meus olhos.
Lembrar das tardes no estúdio de dança que mamãe tinha em casa estava doendo, muito.
Não sei há quanto tempo estava chorando, mas meus olhos estavam ardendo e os sentia inchados quando a primeira batida na porta foi ouvida. Passei as mãos pela bochecha e fiquei de costas para porta.
- Entra – minha voz saiu entrecortada.
- ? – quando ouvi a voz de me lembrei do porquê me lembrar de coisas que sabia que faria meu coração doer em saudade.
- Hum – resmunguei sem me virar e um sorriso pequeno se fez presente em meu rosto.
- Minha mãe está te chamando para jantar – sua voz entregava que ela ainda não havia notado que eu estava chorando.
- Estou sem fome, . Obrigada – funguei no final da frase, ela tinha que perceber que eu estava chorando.
- Está tudo bem? – dei outro sorriso mínimo e deixei algumas lágrimas escorrerem quando senti seu peso na cama.
- Está sim, pode ir jantar. Não se preocupe comigo – mais uma fungada e sua mão estava em meu cabelo.
- Quer conversar? – quase me senti culpada, mas precisava me vingar de . Era uma necessidade colocar aquele mendicante no lugar dele, que era obviamente, muito abaixo de mim.
- Não, tudo bem. Não quero te incomodar, se desculpa com a Meg por mim, por favor – eu poderia dizer a ela, mas não tinha contado a Megan sobre o episódio no banheiro. Então, certamente não falaria aquilo também.
- Certo, se precisar de alguma coisa e quiser conversar, estou aqui – concordei com a cabeça dando outra fungada.
Ouvi a porta do quarto sendo fechada e cruzei os dedos para que ela fizesse exatamente o que eu esperava que fizesse. Se não agisse como o esperado, meu plano iria por água abaixo.
Esperei pelo que pareceu incontáveis minutos até que batessem na madeira de novo. Com a mesma voz sofrida de antes, autorizei a pessoa a entrar e solucei ao invés de sorrir.
- ? – era Megan. – Querida, está tudo bem? Está sentindo alguma coisa? – disse se aproximando e senti seu corpo afundar uma parte do colchão vagabundo.
- Está tudo bem – resmunguei apertando os olhos, tentando não sorrir com a preocupação evidente em sua voz.
- Não pode estar tudo bem, você está chorando – sua voz era suave e senti seus dedos em meu cabelo.
Megan passou a fazer um cafuné suave e me senti novamente culpada. Mas já havia ido até ali, tinha que continuar com o plano.
- É só que... – fiz uma pausa dramática. – É só que, eu me sinto como uma intrusa, sabe. Eu sei que estou abusando da hospitalidade de vocês e por Deus, Meg, a última coisa que quero é fazer com que seus filhos se sintam mal na própria casa deles. Não quero ser um estorvo para vocês e muito menos tirar a liberdade de seus filhos – disparei em um único fôlego, sem deixar de fungar no final.
- Querida, por favor. Você não é um estorvo e muito menos uma intrusa. Da onde tirou isso? Quero que se sinta em casa aqui, não dessa maneira – me virei para Megan antes de me sentar na cama.
- Você é um anjo, Meg. De verdade – ela sorriu. – Mas eu sei que seus filhos se incomodam com a minha presença e se sentem “invadidos” por mim – meu lábio inferior tremeu e ela juntou as sobrancelhas.
- Alguém te disse ou fez algo, ? – ela estava muito séria, ótimo. – ou , te fizeram algo? – neguei com a cabeça.
- Não, Meg. Já me sinto um grande incomodo, de maneira nenhuma quero que brigue com um de seus filhos por minha causa – abaixei a cabeça olhando para meus dedos. Céus, eu precisava de uma manicura urgentemente, minhas unhas estavam semelhantes a de lavadeiras.
- , me diga o que houve? Eu preciso saber se algum deles tem sido indelicado com você – ela respirou fundo. – Eu prometi a seu pai que iria cuidar muito bem de você e se não se sentir assim, vou estar descumprindo minha promessa.
- Não foi nada demais, Meg – era hora de começar a falar.
- Quem disse e o que foi? – ela já tinha sacado que alguém não foi legal comigo naquela casa.
- O , ele não parece gostar muito de mim sabe? – eu a olhei novamente. – Talvez ele só me trate estranho porque tenha ciúmes de você – eu sorri de leve para passar a impressão de que achava mesmo aquilo. – Mas, ele me disse algo hoje e acho que está certo.
- O que disse? – ela praticamente rosnou e eu gargalhei por dentro.
- Ele só me lembrou que estou aqui de favor.
- Como é? – ela quase gritou.
- Calma, Meg – a segurei pelo braço quando ameaçou se levantar. – Ele não disse exatamente essas palavras – respirei fundo sabendo que teria que continuar. – Eu queria ver TV, ele também – funguei mais uma vez. – Então ele disse que eu não podia escolher o canal, porque estou na casa dele, não na minha – solucei e foi o que bastou para Megan se levantar e sair do quarto marchando como um soldado a caminho da batalha.
Caí para trás na cama tapando o rosto com as mãos, hoje iria ter barraco naquela casa. É assim que pobre fala, não é?
Estava ansiosa para ouvir os gritos, choros e ver o olho roxo de . Seria muito divertido. Aquele ogro iria aprender que não se mexe com uma Maddox.
Me virei na cama ainda esperando. Cadê os gritos? Os sons de espancamento? Os pedidos de ajuda por parte do Shrek? Megan não iria dar uma surra nele?
O tempo passou e a casa continuou naquele silencio perturbador e já estava quase desistindo de esperar e saindo do quarto para ver o que tinha acontecido. Afinal, eu poderia mesmo estar magoada com as palavras de e tinha todo direito de dizer isso para Meg.
Alguém bateu na porta no exato momento em que me sentei na cama decidida a me levantar e ir ver o que tinha ou estava acontecendo.
- Entra – mandei, deveria ser ou Meg, o que era ótimo já que eu saberia o que tinha acontecido e nem ia precisar me mexer para isso.
- Posso entrar? – dei um pulinho quando escutei a voz de e o encarei assustada e receosa. Pelo histórico dele, era bem capaz que tentasse me matar com o travesseiro.
Dei de ombros me encolhendo na cama, onde Meg estava com a cabeça em deixar esse orgo ir até meu quarto sozinho?
- Você está bem? – concordei com a cabeça enquanto se aproximava da minha cama, eu estava morrendo de medo dele, isso sim. – Me desculpe por hoje mais cedo – ergui uma sobrancelha e ele se sentou na ponta da cama.
- Hum? – perguntei só para ter certeza de que tinha ouvido direito.
- Não devia ter falado aquilo. Não quero que se sinta mal aqui em casa – ele passou a mão no cabelo e suas bochechas ficaram vermelhas. Ele ficava ainda mais bonito daquele modo. – Deve estar sendo difícil para você e eu não estou tornando as coisas fáceis. Não vou mais implicar com você – ele estava se desculpando e quando notei sua expressão totalmente culpada não consegui me segurar e comecei a rir.
Caí para o lado tampando a boca para que ninguém escutasse, eu queria muito saber o que Meg tinha feito para estar ali se sentindo a pior pessoa do mundo.
- Do que está rindo? – perguntou apertando os olhos.- Para quem estava chorando totalmente magoada, você está muito felizinha não acha?
- De você. Você é patético, – ri mais um pouco. – O que a Meg te fez? Quero saber a parte mais interessante da história.
- Eu não acredito – ele se levantou ficando de frente para mim.
- Não acredita em quê? Você realmente achou que aquele seu papinho me magoou? Olha bem pra mim, Shrek, pessoas como eu não se deixam abalar por vermes como você. Eu sei que meu lugar não é nesse buraco e não fico ofendida muito menos magoada de alguém reconhecer isso – falei com ar de deboche enquanto o via ficar ainda mais vermelho.
- Eu cheguei até a achar que você era uma patricinha mimada quando te vi, mas agora te vendo assim, tô vendo que você é muito pior do que eu pensava – ele parecia horrorizado.
- Olha a minha preocupação pelo que você pensa de mim! – apontei para meu rosto e sorri.
- Vai se foder, garota – ele disse antes de bater a porta do meu quarto. Voltei a cair na gargalhada. Céus, tinha sido melhor do que pensei. Foi ótimo olhar para a cara de merda que ele fez.
Preciso dizer que depois disso tive a melhor noite de sono naquela casa? Não fiz questão de ir atrás de e saber o que tinha acontecido, não saberia disfarçar a satisfação que estava sentindo.



Quatro

- O tá estranho. - disse assim que nos sentamos na mesa do refeitório lotado.
O dia estava especialmente mais frio e as pessoas evitavam o lado de fora da escola e tudo o que eu conseguia pensar era na quantidade de bactérias que estavam sendo soltas no ar.
- Ele é estranho - dei de ombros espetando um tomate.
- Não, hoje ele está ainda mais estranho. Quero dizer, ele não nos trouxe pro colégio, não veio se sentar com a gente - e eu realmente não ligava para aquilo.
- Por que eu acho que o único motivo pelo qual você se importa se o seu irmão se senta com a gente ou não, é porque isso influencia se o senta com a gente? - ela ficou vermelha e sabia que tinha acertado.
- Acho que ele ainda está chateado por ontem - juntei as sobrancelhas confusa. - O .
- E porque você acha isso?- perguntei interessada, ainda não sabia se o ogro havia falado sobre a nossa conversa para e Megan, já que Meg estava estranhamente calada quando nos levou ao colégio aquela manhã.
- O é uma ótima pessoa, . Ele se sentiu muito mal quando a mamãe conversou com ele. Eu sei o que ele disse, mas sei que ele só disse por que achou que não iria te magoar - fiquei com vontade de dizer que realmente não me magoou, só o pensamento de que aquele garoto pudesse me magoar, me fazia ter vontade de rir.
- Você parece tão inatingível, que tenho certeza que ele achou que você não iria dar importância - e tanto ele quanto ela estavam certos, eu não dava a mínima e era inatingível quando algo lançado pela rale era jogado contra mim.
- Ele deve estar envergonhado – sorri contendo a vontade que tinha de gargalhar. – Mudando de assunto, você acha que sua mãe se importaria se eu quisesse fazer algumas mudanças no quarto? - tinha que aproveitar que Megan provavelmente estava se sentindo mal pelo ocorrido.
- No seu quarto? – a garota sorriu e a imitei mais para não fazer uma careta. Meu quarto, aquela espelunca?
Até parece.
- É, eu acho ele um pouco masculino. – comentei abrindo minha garrafa de água.
- O quarto era do meu irmão.
- Ah, era do ? – ela deu de ombros e permiti que meu sorriso desmanchasse.
- Sim, mas ai aparentemente ele precisava de mais privacidade e convenceu a mamãe a deixá-lo se mudar para o porão – sorri, pelo menos o garoto sabia onde era o lugar dele. Lugar de rato é em porão.
- E ele levou todas as coisas dele? – eu queria mesmo perguntar se ele havia levado o colchão. Se fosse o mesmo, poderia estar cheio de pulgas.
- Levou, eu acho. – Deus, eu teria que achar um jeito de desinfetar meu colchão.
- Então, você acha que Meg vai concordar?
- Com certeza. O que pretende fazer no quarto? – seu tom de voz era completamente animado.
- Eu quero pintar aquela parede azul. Pintar de rosa talvez, e colocar meus objetos de decoração pelo quarto, eles estão todos nas caixas ainda.
- Você pode falar com ela hoje, aí já podemos começar amanhã. – disse e sorri animada. Óbvio que eu não faria nada, somente a instruiria para que deixasse o quarto do modo como eu desejava.
O sinal que anunciava o fim do almoço tocou e rapidamente nos levantamos, a mais nova não parava de tagarelar sobre como seria divertido pintar e arrumar meu quarto e tudo o que eu fazia era concordar e sorrir. A garota foi comigo até a porta da sala onde seria minha próxima aula. E dei graças a Deus quando ela finalmente seguiu seu caminho.
O restante das aulas foram monótonas e chatas, especialmente as que eu já estava avançada na matéria.
Acelerei meus passos em direção ao estacionamento quando o som alto do trovão ecoou pelos corredores. Que fosse rápido o suficiente para que, quando a chuva caísse, eu já estivesse bem confortável embaixo do meu edredom, quem sabe lendo algum livro.
estava sozinha encostada na porta do carro quando me aproximei, mas nem sinal do Shrek.
- Tô quase ligando pro , estou congelando. Quero ir pra casa – resmungou assim que parei ao seu lado.
Ficamos alguns minutos esperando, batia os dentes e tentava se abraçar de todos os jeitos para não passar mais frio. Também, com aquele casaco vagabundo que devia ter sido comprado em um brechó, não é de se espantar que estivesse com frio.
- Até que enfim você apareceu, sua irmã está congelando e quero chegar em casa antes de começar a chover – disse quando se aproximou o suficiente. Ele levantou uma sobrancelha e se aproximou de mim.
- E por que você ficou me esperando mesmo? – perguntou sério colocando os braços atrás do corpo.
- Por que eu vou embora com vocês?! – rolei os olhos impaciente. Além de mal educado era burro também?
- Quem disse? Eu não vou mais te dar carona nem pra vir a escola, nem pra ir embora – Abri a boca chocada.
- E espera que eu vá como? – cruzei os braços.
- Se vira, princesa. Você pode ir andando – respondeu dando um sorrisinho irônico.
- , do que você está falando? – se aproximou.
- Vai nessa, Shrek, estou de salto – seu sorriso ficou imenso.
- Problema seu, o carro é meu e você não vai entrar nele. Devia ficar agradecida por não ter que entrar no carro do verme aqui – sorri para ele.
- Awn, ele ficou ofendido? – que patético.
- Do que vocês estão falando? – parecia desesperada.
- Chame do que quiser – ele deu de ombros chegando muito perto de mim. – Fica reclamando que está morando em um buraco e dizendo o quanto é superior a gente, mas adivinha? Se a minha mãe não tivesse feito caridade, estaria na rua pedindo esmola – engoli em seco olhando pela primeira vez aqueles olhos de perto.
- Vou embora a pé.– disse me afastando, mas me segurou.
- Não, , claro que não. É longe e vai chover – ela argumentou.
- No meu carro ela não entra. – foi categórico.
- ela vai tomar chuva, deixa de ser criança. – ralhou.
- Olha para a minha cara de preocupação – ele apontou o rosto com o dedo e sorriu. Aff, invejoso.
- Tudo bem , vou andando – empinei o nariz.
- Eu vou com você – ela disse dando um passo em minha direção.
- Não vai não. – a segurou.
- Claro que vou. – teimou, o deixando sério.
- , entra nesse carro agora – ela engoliu em seco e me olhou com um pedido de desculpas em seu rosto antes de entrar no carro.
Respirei fundo andando para fora do estacionamento, quando passou por mim, buzinou duas vezes acenando com a mão. Engoli toda a minha vontade de mandar o dedo do meio a ele, minha elegância ainda estava intacta.
Já estava andando a mais de trinta minutos quando me dei conta de que não tinha ideia de que caminho deveria seguir. Eu mal sabia fazer o caminho a pé da minha antiga escola a minha antiga casa, na qual morei desde que nasci, sozinha. Imagina o caminho da casa de Megan. Com meus dentes batendo e joelhos tremendo me dei conta que estava perdida.
Meus dedos dos pés doíam tanto que eu sentia vontade de chorar, sem contar o casaco ficando cada vez mais pesado e gelado em meu corpo, mas cada vez que eu passava por maus elementos fumando embaixo de tendas ou telhados para se proteger da chuva, sabia que a dor nos meus pés era o menor dos meus problemas.
Suspirei quando entrei em uma rua deserta, não estando exatamente certa se aquilo era bom ou não.
Eu poderia me sentar na guia e descansar um pouco, quem sabe até a chuva parar ou alguém sentir minha falta? Ri sozinha e sem humor, quem daria a minha falta? Ninguém daria, se meu próprio pai não estava dando até ali.
Meu pai.
Meus olhos arderam, já tinha alguns dias que não nos falávamos. Certo, não eram tantos dias assim, mas na nossa situação atual ele já deveria ter ligado para saber como eu estava, não é?
Mas ele não tinha ligado, não tinha sequer se dado ao trabalho de saber como eu estava.
Meu sexto sentido me fez perceber um carro se aproximando e virei meu corpo minimamente vendo o automóvel vermelho diminuir a velocidade. Meu coração acelerou e senti vontade de começar a correr.
Eu seria assaltada, possivelmente sequestrada ou até morta e ninguém saberia.
Minha foto apareceria nos noticiários, esperava que escolhessem uma das minhas melhores fotos, e meu pai se culparia para todo sempre por ter me largado na casa de Megan junto com o filho psicopata dela.
Tentei andar tão rápido quanto os saltos dos meus sapatos permitiam enquanto o carro se aproximava cada vez mais, e tinha certeza que estava parecendo uma pata despenada fugindo do abate.
- Hey? – mantive meu rosto e olhos na rua, me recusando a olhar para o carro e para a pessoa que falava comigo.
- Hey, você é surda? - senti todos os meus músculos se retesarem em medo e meu coração querendo sair pela boca e me deixar ali sozinha para morrer.
- Hey, garota – a mulher, sim era mulher, gritou e buzinou me fazendo dar um pulinho.
Reuni toda a coragem que existia dentro de mim e olhei para o lado encontrando uma menina com cabelos enrolados e olhos castanhos curiosos olhando em minha direção.
- Você não é a garota que está morando com o ? – perguntou e parou o carro, também parei com a menção do nome conhecido.
- É, eu estou morando na casa dele – disse abraçando meu corpo e dando graças a Deus por a chuva estar escondendo minhas lagrimas.
- O que está fazendo por aqui? E na chuva? – ela me olhou de cima a baixo. – E pelo jeito você está vindo do colégio – ela juntou as sobrancelhas.
- não quis me levar de volta para sua casa – empinei o nariz enquanto a garota levantava uma sobrancelha. – E eu estou perdida – encolhi os ombros.
- Entra aí – ela fez um movimento com a cabeça. – Te levo até a sua casa – quando ela falou que me levaria pra casa, por um momento eu tive esperança que pudesse ser minha casa de verdade, onde eu realmente pertencia. Mas eu sabia que aquela não era mais a minha realidade.
Hesitei por um momento.
A garota parecia ter a minha idade e parecia conhecer , mas eu não a conhecia e muito menos sabia se ela era membro de alguma gangue. Ela poderia muito bem estar querendo me sequestrar para vender meus órgãos para o mercado negro.
Mas era entrar no carro dela ou ficar em uma rua desconhecida com pessoas estranhas e, o pior, na chuva.
- Obrigada – disse depois de respirar fundo e dar a volta no carro e entrar pela porta do carona a qual a garota se esticou para abrir.
- Você está um bocado longe de casa, hein – ela disse e sorriu. – Sou Mayh.
- Maddox – disse tentando parar de tremer.
- Eu sei – a encarei sem entender. – O falou de você.
- Hum – não sei dizer ao certo como me senti com aquela informação, afinal, não sabia se ele tinha falado bem ou mal de mim. Mas desconfiava que fosse a segunda opção.
- Porque ele te deixou para trás? – ela perguntou curiosa.
- Porque ele não gosta de mim – resmunguei abrindo minha bolsa, queria verificar meu celular, apesar de já desconfiar que o tinha perdido.
- O que você fez pra ele? – insistiu em um tom estranho e olhei para a garota. – O não ia te deixar a pé só por não gostar de você. Ele é meio implicante às vezes, mas não é o tipo de pessoa que faz algo assim só por não gostar de alguém.
- Não fiz nada, pelo contrário. Foi ele que fez as coisas para mim, desde que pisei na casa dele – fiz uma careta revirando os livros molhados dentro da bolsa atrás do meu celular.
- Você não quer me contar. Tudo bem – rolei os olhos ainda olhando dentro da bolsa e peguei meu celular úmido.
Apertei o botão de liga e desliga e a tela continuou preta me fazendo ter certeza que ele havia pifado.
- Ótimo – exclamei irritada.
- Queimou seu celular? – Mayh perguntou pegando o aparelho de minha mão. – Nossa, esse modelo é caro – ela fez uma careta antes de devolver meu iPhone. De onde ela vinha, claro que acharia meu celular caro.
- Perdi a matéria do semestre – resmunguei.
- Mas você não entrou na escola esses dias?
- Sim, mas na minha antiga escola estava estudando as mesmas matérias, um pouco adiantada até – suspirei pensando no quanto de matéria me fez perder.
- Estamos no mesmo ano, posso te emprestar a matéria. – Mayh sorriu e sorri de volta um pouco mais aliviada.
- Obrigada – disse e avistei o barraco de Meg.
Mayh estacionou o carro e se virou pegando uma mochila vermelha no banco traseiro.
- De quais precisa?
- Todas – ela fez uma careta.
- Você vai ter algum trabalho – ela riu voltando a fuçar dentro da mochila. – Vou te emprestar algumas agora e depois você pega o resto, pode ser? – podia né, eu diria o quê? Não, eu quero tudo agora?
- Sim. Obrigada pela carona e pela matéria – sorri do modo mais agradecido que conseguia, não estava acostumada a pedir nada a ninguém. Eu não precisava pedir nada a ninguém na verdade, as pessoas que faziam as coisas por mim eram pagas para isso.
- Espera – ela disse quando abri a porta do carro e pegou algo dentro da mochila e me estendeu um guarda-chuva, como se eu precisasse, já estava encharcada.
- Para não molhar meus cadernos – ela sorriu e peguei o guarda-chuva de sua mão e, só depois que saí do carro e estava embaixo do objeto, ela me passou três cadernos com capas cheias de desenhos.
- Obrigada – respondi antes de bater a porta do carro e caminhar o mais rápido que conseguia até a porta de entrada.
Meus dedos pediam que eu mandasse os sapatos para longe o mais rápido possível, mas só faria isso quando estivesse em meu quarto.
Girei a maçaneta e me atrapalhei um pouco para entrar com o guarda chuva e cadernos, mas consegui.
- Meu Deus, . Você está bem? – veio da cozinha parecendo um pouco desesperada.
- Parece que você saiu de um lixão. – disse e começou a rir.
Minha vontade era de ir até ele e enfiar minha mão em seu rosto de um modo que a marca dela ficasse ali bem nítida, mas a única coisa que fiz foi respirar fundo e ir até a escada. Estava ciente de que me seguia, mas não queria falar com ela nem com ninguém, não queria que ninguém notasse qualquer resquício de choro que poderia haver em meu rosto ou em meus olhos.
- , fala comigo. – pediu assim que entrei em meu quarto, parei segurando a porta e me virando para ela.
- Não quero conversar agora, – talvez eu tenha sido um pouco grossa, mas também não me importei com aquilo. Eu realmente precisava relaxar e ela tinha que entender que eu precisava ficar sozinha.
- Tudo bem. Tome um banho e vista roupas quentes – mexi a boca tentando sorrir e fechei a porta.

...

Fiquei em silencio durante todo o jantar, eu não contaria a Meg o que tinha me feito e pelo visto também não. Ela era cúmplice do irmão, afinal de contas.
ficava me olhando com ar de deboche enquanto eu fingia não notar sua presença ali. Só conseguia pensar que meu pai estava me castigando ao ter me deixado ali, nós tínhamos muitos amigos ricos.
- Mãe, preciso te falar uma coisa. – quebrou o silencio e todos a encaramos.
- O que foi querida? – Meg parecia preocupada.
- fez a vir para casa a pé, embaixo daquela chuva – ela disse de uma vez e Meg soltou o garfo que fez um barulho agudo ao bater no prato, que não era de porcelana francesa, aliás.
- Como é? – ela quase gritou encarando o filho que parecia não ligar.
- Não quero ela no meu carro – ele deu de ombros.
- Você não tem que querer, sua obrigação é levar e trazer as meninas da escola, – me encolhi instintivamente ao perceber o tom autoritário que Meg usava.
- Minha obrigação? Que tipo de obrigação eu tenho com essa garota? Ela não é nada minha – ele respondeu indignado.
- Abaixa esse tom para falar comigo, mocinho. – encolheu os ombros e abaixei meu olhar para o prato.
- O carro é meu, não vou levar nem buscar essa nojenta pra lugar nenhum – ele disse e se levantou quase derrubando a cadeira antes de sair da cozinha apressadamente.
Meg se levantou e foi atrás de , encarei e ela só deu de ombros. Me levantei querendo ir para o quarto, pelo jeito teria barraco aquela noite.
- Eu achei que já tínhamos conversado ontem, . Custa você ser um pouco mais compreensivo? – estanquei perto da escada assim que escutei a voz alta de Megan, que vinha da sala.
- Compreensivo? Por quê? Essa garota é uma burguesinha escrota.
- Pode parar de dizer coisas desse tipo. – Meg o cortou.
- Só estou falando a verdade. Você não percebe a cara de nojo que ela faz pra tudo? Acha mesmo que ela ficou magoada por ontem? Acha que ela é grata a você? – gritou. – Só você e ainda não perceberam. Por que o pai dela deixou ela aqui? Sabe por que o Patrick não aguentou a pressão? Por que ele conhece a filha dele, o próprio pai dela sabia que não iria suportar a filha quando tivesse que aturar ela dentro de casa. Quando ele não tivesse mais o dinheiro pra enfiar nela e a manter longe – meus olhos se encheram de lagrimas.
- ! – Megan advertiu.
- O quê? É a verdade, não é? Não sei por que você finge que não é isso.
- Já chega, vai pro seu quarto, agora. Um mês de castigo. – Megan disse firme.
- Ótimo. – gritou e me virei para as escadas esbarrando em antes de subir os degraus correndo.
Me joguei na cama depois de trancar a porta deixando as lagrimas caírem.
Quando ele não tivesse mais o dinheiro pra enfiar nela e a manter longe.
Por isso meu pai havia me mandado para casa de Megan? Por que ele não me suportava e não tinha mais dinheiro para me entreter?
Isso não podia ser verdade, papai me amava e por isso não se negava a me dar nada e nem em me deixar viajar para onde eu quisesse, e não para me manter longe.
Passei metade da minha noite em claro chorando enquanto analisava lembranças tentando achar qualquer pista de que meu pai me “queria” longe. Se eu fosse analisar as tantas viagens que fazia por ano, poderia ter essa impressão, afinal, eu nunca passava nenhuma das minhas férias em casa. Eu e papai mal nos falávamos para dizer a verdade.
Fechei os olhos respirando fundo e decidi que não iria me deixar abalar por aquilo, certamente aquele garoto estúpido deduziu que eu escutaria o que ele estava gritando. Tudo bem que meu pai e eu ainda não havíamos nos falado, mas fazia muito pouco tempo que eu estava na casa de Megan e ele com toda certeza estava ocupado tentando recuperar nossa fortuna. Eu poderia falar com ele quando quisesse, e faria aquilo no dia seguinte.

...

Na manhã seguinte me preveni colocando um par de tênis da Nike e tive que mudar todo o meu modelito, usando uma calça jeans e uma blusinha também da Nike.
A mesa estava em um silencio mórbido quando desci para tomar café da manhã, havia perdido uns bons trinta minutos tentando esconder minhas olheiras com maquiagem.
Como não sentia fome só me sentei em uma cadeira vazia e esperei.
Megan nos acompanhou até o carro de , acredito que para se certificar de que eu entraria no carro. O que não faria diferença, já que ele poderia me deixar em qualquer esquina que ela não veria, mas não foi isso que ele fez.
O caminho foi silencioso e eu não estava ligando para isso, talvez estivesse chateada por eu não ter conversado com ela na noite anterior. Mas, por mim, ninguém mais tocaria no assunto: Maddox foi humilhada por um ninguém.
não me olhou por nem um segundo e quando estacionou o carro saiu batendo a porta com força demonstrando toda sua irritação.
- , você pode me emprestar seu celular? – mordi o lábio inferior.
- Claro – ela disse colocando a mochila em frente ao corpo e abriu um dos bolsos tirando de lá um aparelho rosa.
Foi inevitável não fazer uma careta quando ela me entregou o celular. Por Deus, nem tela touch aquilo tinha. Em que idade as pessoas daquela casa viviam? Um iPhone custava uma miséria.
- Obrigada – falei, já discando os números que sabia de cor.
Sequer chamou antes de cair na caixa postal, desliguei e refiz a chamada e de novo foi direto na caixa de mensagens.
- Vou tentar mais tarde – tentei sorrir enquanto entregava o aparelho a ela.
Tudo em que eu conseguia pensar eram nos gritos de dizendo que meu pai não me suportava e que me queria longe.
Era difícil imaginar que aquilo não era verdade, quando não conseguia sequer falar com papai por telefone.
Respirei fundo tentando pensar com coerência.
Foram só duas tentativas frustradas, eu poderia ligar depois e papai, com toda certeza, me atenderia ou até mesmo me ligaria de volta quando visse que eu havia tentado entrar em contato. E eu faria com que ele colocasse em seu devido lugar pelo que havia me feito.



Cinco

’s POV

"Eu sei que meu lugar não é nesse buraco."
Eu não conseguia parar de pensar naquela frase. E aquilo estava me incomodando mais do que eu gostaria de admitir e muito mais do que deveria. Eu não deveria deixar que as asneiras que aquela garota dizia me afetassem. Eu sabia que tudo o que ela queria era um modo de se sentir superior para se sentir mais confortável em um lugar ao qual eu tinha certeza absoluta que nunca se imaginou estar.
Aquilo tudo só serviu para fazer com que minha antipatia instantânea pela garota aumentasse gradativamente.
Quando minha mãe disse que a filha de Patrick iria morar na nossa casa, eu achei que ela fosse parecida com a Mayh, uma garota normal que se vestia e agia como todas as outras pessoas. Mas assim que coloquei meus olhos nela vi que minhas expectativas estavam completamente erradas, só de olhar para o modo como ela estava vestida percebi que ela era bem diferente das pessoas da "classe" dela que eu conhecia. E suas atitudes seguintes me fizeram detectar exatamente o tipo de pessoa que ela era. Seu ataque quando descobriu que teria que dividir um banheiro com outras pessoas fez um painel com letras enormes brilhar em minha cabeça. A palavra egoísta e todos seus sinônimos se alternavam nesse painel com intensidade.
Cheguei a achar que ela fosse ao menos parecida com Patrick, até descobrir que ela nem filha dele parecia ser, a garota era um poço sem fundo de arrogância.
Eu sempre fui implicante e isso somado a antipatia com a garota, me fazia ter uma vontade absurda de irritá-la para ver se minha implicância tinha algum fundamento ou era só uma primeira má impressão. É, não era. Meu pré julgamento estava certo e ela era exatamente como eu imaginei que seria quando abriu a boca para dizer: "É um Dolce & Gabbana original." Ah, por favor! Quem é que se importava com aquela merda?
Aí a garota passou a tarde toda "chorando" por um comentário propositalmente maldoso que eu fiz e eu realmente me senti mal.
Odeio ver mulheres chorando e odeio ainda mais ser o causador do choro. Me senti realmente mal e tentei consertar as coisas só para ver ao vivo e a cores se comportar de um jeito que eu só havia visto as vilãs das novelas toscas que assistia se comportarem. E isso fez com que me sentisse um babaca.
Mas eu devia ter imaginado o tipo de pessoa que ela era quando minha mãe veio com aquela conversa de que só deveria saber o que Patrick tinha dito a ela, o que eu desconfiava que era nada. Era impossível alguém ficar tranquilo quando a pessoa que deveria ser a mais importante da sua vida, está tão atolada em problemas. Ou ela simplesmente não dava a mínima para os problemas do pai o que, pelo modo como ela manipulou minha mãe, não me surpreenderia.
Fiz uma careta quando a vi entrar no refeitório com , estava começando a me sentir desconfortável com o modo como minha irmã parecia adorar aquela garota. Ela certamente não seria uma boa influência para , que sempre fora tão ingênua. Pelo menos minha irmã mais nova parecia ter entendido que eu não queria passar mais tempo que o necessário perto de , já que ela não se sentava mais comigo durante o almoço.
- Porque a não senta mais com a gente? – usou seu tom mais casual, mas eu sabia que ele tinha muito mais interesse do que queria demonstrar.
- Porque ela adotou a pobre menina rica – disse juntando as sobrancelhas quando vi que Mayh se aproximou das duas e começou a falar com alegremente, como se a conhecesse há muito mais tempo do que certamente a conhecia.
Óbvio que Mayh não a conhecia o suficiente para estar com aquela expressão boazinha no rosto. com toda certeza não era o tipo de pessoa com a qual Mayh se daria bem. Ela era o completo oposto de e todo mundo sabia que Mayh abominava pessoas como Maddox.
- Ela não deve ser tão ruim assim, . Até a Mayh está batendo um papo com ela. – falou observando Mayh e Maddox conversando.
Para mim parecia óbvio que estava tentando se ver livre de Mayh o mais rápido possível, mas o modo como minha amiga falava sem parar me dava a certeza que ela não estava notando todo o desinteresse de no que ela tinha a dizer.
Assim como minha mãe e não notavam aquele desinteresse e olhar superior que ela lançava cada vez que as duas tentavam conversar com ela. Talvez só eu notasse a cara de tédio que a garota fazia pra todo mundo que tentava ser ao menos legal com ela. E isso me enervava.
- Por que você tem toda essa implicância com a garota? - perguntou olhando as meninas na fila da cantina.
- E desde quando o precisa de algum motivo para ter implicância com alguém? Só eu sei o que sofri com esse boiola na segunda série, eu tinha vontade de sair correndo toda vez que ele olhava pra mim sorrindo estranho. - falou de boca cheia.
- Mas você é uma bicha mesmo, , por isso ele implicava com você. A primeira vez que ele tentou destruir meu Wolverine, tomou um tapão na orelha e nunca mais mexeu comigo. - debochou sorrindo.
- É, e agora você tem medo até de chamar a irmã dele pra sair. Muito macho você. - devolveu voltando a encher a boca de batata frita.
- Não sei do que você está falando. - disfarçou e me fez rir a primeira vez no dia.
Todo mundo sabia que ele gostava da e por mais que soubesse disso, não admitia. Não sei se ele tinha medo de mim ou de perder minha amizade, mas eu acreditava na segunda opção.
- Eu sei que o é chato, mas desde quando ele implica com garotas bonitas? - perguntou com naturalidade e eu rolei os olhos rindo. Ele nunca iria falar daquela maneira se Mayh estivesse na mesa.
- Ela é muito nojenta – eu disse olhando a garota com um desinteresse imenso.
estava longe de ser feia à primeira vista e era certamente uma das garotas mais bonitas que eu já tinha visto, e eu sabia que isso se devia aos cuidados que ela com toda certeza tinha com sua aparência. Mas eu nunca fui o tipo de pessoa que conseguia sequer se relacionar com alguém que tinha uma personalidade tão horrível.
- E desde quando a garota ser nojenta começou a ser empecilho para alguma coisa? – perguntou confuso.
- Ela é bem insuportável, em um nível extremo.
- Parem de falar de mulher, a senhora está vindo aí e todo mundo sabe que ela detesta que falemos sobre garotas gostosas perto do namorado dela. - disse em um tom alto o suficiente para que nós três escutássemos e baixo o suficiente para que Mayh não o ouvisse.
- Oi, meninos. - Mayh chegou sorridente colocando sua bandeja em cima da mesa antes de estalar um beijo na boca de .
- O que você trouxe pra mim? - perguntou puxando a bandeja da namorada enquanto Mayh abria uma garrafa de suco.
- , encontrei sua amiga ontem - ela disse enquanto puxava sua bandeja de volta.
- Que amiga? - perguntei confuso apoiando o braço na mesa.
- A que está morando na sua casa, a - ela disse me fazendo perder o interesse na conversa. Sem nenhuma dúvida eu não queria passar meu almoço falando de Maddox.
- Achei que fosse alguém importante - rolei os olhos me encostando na cadeira. - Ela não é minha amiga.
- Eu percebi. Fala sério, , mandar a garota embora a pé e na chuva é sacanagem. Ainda mais com aquele salto imenso e sem saber o caminho da sua casa - ela disse e eu ri baixo.
- Não acredito que você fez isso. Que sacanagem. - disse parecendo horrorizado.
- Sacanagem nada, quem sabe assim ela aprende a ser mais humilde. Onde você achou ela?
- Estava indo pra casa do fazer o trabalho e vi ela na rua mancando em cima do salto e toda encharcada – ela disse e eu ri alto imaginando a cena.
- Eu daria tudo para ter visto isso – falei ainda rindo.
- Por que você não me contou isso? – perguntou a Mayh se intrometendo na conversa.
- Porque você ia correndo falar pra ele e eu queria falar – ela se virou para mim novamente. – Ela estava morrendo de medo, , passou por essa sua cabeça que a garota poderia ser assaltada? Andando com todas aquelas roupas e acessórios de marca que eu posso te garantir que são caros? – ela estava querendo me deixar com peso na consciência, mas dessa vez não ia rolar.
- Mas ela não foi. Quem sabe agora ela passe a se emperiquitar menos? – levantei as sobrancelhas e ela rolou os olhos.
- Meu bem, você olhou bem para a bolsa ou a calça que a garota está usando? É uma Prada legitima e uma Seven jeans, querido - ela disse com obviedade e eu ergui uma sobrancelha, como se eu estivesse interessado em saber quanto custava uma calça ou uma bolsa. - Você sabe quem é o pai dela, não é? Com toda certeza não tem como essa menina se vestir “humildemente”. Ela só deve ter roupas de grife. – tinha a boca levemente aberta.
- E quem é o pai dela? – perguntou interessado.
- Patrick Maddox. – Mayh respondeu colocando a garrafa de suco na boca.
- Esse nome não faz diferença pra mim. – respondeu o que provavelmente os outros dois também estavam pensando.
- Porque vocês não conhecem o mundo de onde ela veio. – Mayh deu de ombros. - No mundo de onde essa garota saiu o pai dela é muito importante. O pai dela é super prestigiado na alta sociedade. – Mayh explicou e foi bombardeada de perguntas sobre a alta sociedade e parei de ouvir a conversa propositalmente voltando a passar os olhos pelo refeitório em busca de .
As duas estavam sentadas não muito afastadas de onde eu estava e tinha aquela expressão de nojo enquanto olhava ao redor com receio, como se ela fosse pegar alguma doença caso alguém encostasse nela.
- Você vai? - dei um pulo na cadeira quando enfiou o cotovelo na minha costela.
- Outch, vou onde, porra? - perguntei no tom mais grosseiro que conseguia colocando a mão no lugar onde seu cotovelo esteve há poucos segundos.
- Na festa da Laura, está todo mundo falando sobre isso - ele disse rolando os olhos.
- Eu estou de castigo - respondi fazendo uma careta.
- Uma festa não vai ser a mesma sem você. - resmungou.
- Valeu mesmo. - fez um joinha para .
- Nenhuma festa é a mesma se faltar alguém que está nessa mesa - ele se corrigiu. - Melhor assim?
- Bom mesmo. - resmungou fazendo um biquinho para .
- Gay. - Mayh rolou os olhos. - Porque você está de castigo?
- Briguei com a minha mãe - dei de ombros tentando não demonstrar a importância que dava por ter brigado com minha mãe.
Eu não estava chateado por estar de castigo, estava irritado por ter brigado com a minha mãe. Ela era minha melhor amiga, ela sabia de tudo o que acontecia na minha vida e nós nunca ficávamos naquele clima estranho no qual estávamos desde a noite anterior.
E a culpa era de quem?
Eles continuaram falando um monte de besteiras e coisas aleatórias e eu fiquei calado o restante do intervalo remoendo a briga com a dona Megan. Eu não queria ter que me desculpar, porque não achava que devia me desculpar por não querer servir de motorista para a pessoa mais odiosa da face da terra.
Quando o sinal anunciou o fim do almoço me levantei da cadeira acenando para meus amigos sem ver se algum deles estavam retribuindo e saí na direção oposta da que deveria ir. E por mais que meus quatro melhores amigos estivessem na mesa e eu tenha crescido com dois dos garotos que estavam ali, a única pessoa que veio atrás de mim foi Mayh.
Ela me conhecia bem demais para ir calada até as arquibancadas do campo de futebol que era onde nós costumávamos matar aula. Quando já estava embaixo da arquibancada joguei a mochila no chão e me sentei na grama e logo Mayh estava de frente para mim, me olhando com olhos especulativos e muito curiosos.
- Desembucha – ela disse quando eu permaneci em silencio.
- Hum? – me fiz de desentendido e ela rolou os olhos.
- O que aconteceu, ? O que a garota te fez? – eu não queria conversar sobre aquele assunto.
- Já disse que nada. Não gosto dela e pronto – dei de ombros.
- Ah tá bom, . Eu ouvi você conversando com o sobre ela – juntei as sobrancelhas muito confuso. – Você estava falando que viu ela em uma festa e como ela era bonita e gostosinha – ela fez uma careta e eu dei risada.
- Desculpa, mas eu acho que você sonhou com isso – disse ainda rindo.
- Não sonhei nada, foi há uns dois anos, . Eu lembro que o perguntou se você tinha “chegado junto” e você disse que ela nem tinha te visto – eu estava impressionado com a memória da minha amiga.
- Nossa, eu me lembro disso – falei me lembrando do que ela estava falando.
Foi em sua festa de quinze anos e havia sido a primeira e única vez que vi a filha de Patrick.
- É por isso que você não gosta dela?
- Por isso o quê?
- Eu lembro que você disse pro que ela nunca daria mole para você. – Mayh deu de ombros e eu sorri.
- Nossa, você tem uma memória de elefante, nem eu lembro de ter conversado com .
- Eu me lembro porque fiquei morrendo de raiva do papo de vocês, eu já estava afim do naquela época. E então, é por isso que você não gosta dela? Você está a fim dela e ela te ignora ou coisa do tipo? – analisei o rosto de Mayh e percebi que ela não acreditava naquilo realmente.
- Não tem nada a ver, só acho ela muito nariz empinado – ela ergueu uma sobrancelha.
- Esse nariz empinado significa ela não me deu bola?
- Não. Você sabe que eu não sou assim. Por que não deixa isso pra lá?
- Porque te conheço o suficiente para saber que você pode ser implicante e até meio infantil, mas você nunca iria deixar uma garota andar a pé oito quarteirões na chuva. Poderia ter acontecido algo com ela – nos encaramos por alguns minutos.
- A gente brigou e ela falou umas coisas meio nada a ver – falei e Mayh fez sua típica expressão de “eu sabia”.
- E o que ela disse?
- Você não vai querer saber – ela cruzou os braços.
- Ah, eu quero sim, anda, me conta.
- Certo, mas isso vai ficar entre a gente – eu disse e ela concordou com a cabeça.
Contei para ela desde o primeiro dia em que botou os pés na minha casa. O jeito como ela torcia o nariz para tudo e o chilique que ela deu só porque o banheiro não tinha trezentos metros quadrados e uma hidromassagem. O jeito como ela dizia as coisas, como se tivesse querendo dar ordens.
Quando comecei a falar do dia do jogo, Mayh assumiu uma postura tensa que qualquer pessoa notaria a metros de distância.
- Que escrotinha, . Você devia ter contado pra sua mãe – ela disse irritada.
- Para quê? Para ela ficar chateada? Minha mãe não ia colocar a na rua, ela nunca faria isso.
- Que ela ligasse para o pai dessa mocreia então, e exigisse que ele viesse levar essa ridícula embora. – Mayh se levantou e começou a andar de um lado para o outro.
- Ela nunca ia fazer isso, as coisas são mais complicadas do que parecem – ela parou de andar e me olhou. – Não posso te contar tudo, desculpe.
- Ainda assim você devia ter contado para a sua mãe.
- Como eu disse, minha mãe ficaria chateada, mas continuaria tratando-a do melhor jeito possível. O Patrick precisa da minha mãe e ela nunca iria negar ajuda a ele. – Mayh mordeu o lábio inferior deixando claro em sua expressão que queria saber todos os detalhes.
- Por quê? – ela finalmente perguntou quando viu que eu não falaria mais nada.
- É uma história longa.
- Tenho tempo – ela disse e se sentou na minha frente de novo.
- Mas eu não – olhei no relógio. – Senhorita Martin vai passar matéria de prova, tenho que ir – me levantei pegando a mochila.
- Eu vou cobrar essa história, você sabe como eu sou curiosa – ela também se levantou e saímos de debaixo da arquibancada.
- Qualquer dia eu te conto. E você já sabe, essa conversa fica entre a gente – avisei mais uma vez.
- Tudo bem, mas se eu soubesse teria deixado ela a pé aquele dia – ela disse e eu ri.
Fomos cada um para sua aula e meu tempo de paz longe da Maddox estava chegando ao fim, mais duas aulas e eu teria que olhar pra cara enjoada dela.

...

Estava esperando e dentro do carro, minha vontade de largar a segunda para trás era enorme, mas se fizesse isso minha mãe arrancaria minhas bolas. Vi as duas vindo em direção ao carro, parecia estar falando no celular e minha irmã andava tranquila ao seu lado.
Quando se aproximaram nem as esperei entrar para ligar o carro e mordi minha língua para não soltar um palavrão quando Maddox bateu a porta com força demais.
- Obrigada, - ela disse entregando o celular da minha irmã.
- Nada? - perguntou quando pegou o aparelho.
- Não, tento mais tarde. Ele deve estar ocupado - tive que olhar para a garota no banco traseiro pelo espelho retrovisor e fiquei realmente surpreso em não encontrar a expressão superior em seu rosto e sim uma que quase se assemelhava com tristeza. Bom, isso realmente não me importava, por mim ela poderia ficar triste e infeliz pelo resto da vidinha insignificante dela.
- , me leva direto pro estúdio, tenho aula agora. - pediu e sem dizer nada desviei o caminho. Fomos em silencio por todo o caminho e agradeci por isso, não sei se aguentaria escutar a voz de sem querer estrangulá-la.
me deu um beijo no rosto e disse um tchau rápido para Maddox antes de saltar para fora e bater à porta do carro. Olhei mais uma vez pelo retrovisor encontrando concentrada em suas unhas. Nem fodendo eu serviria de motorista para ela.
- Passa para o banco da frente - falei a encarando pelo retrovisor e tudo que ela fez foi olhar as unhas da outra mão. - Tá surda? - perguntei tentando manter a paciência.
- Não vou na frente com você - disse sem deixar de olhar os dedos.
- E nem no meu carro se não passar para a frente - se ela me irritasse muito a largaria a pé de novo e enfrentaria a fúria da minha mãe.
- Você não ousaria desafiar Meg - ela disse convencida, me encarando pelo espelho e soltei um dos meus sorrisinhos maldosos. Aqueles que faziam chorar mesmo antes que eu me aproximasse de suas bonecas, só porque sabia exatamente o que aquele sorriso significava.
- Quer pagar para ver? Pensando bem, se da escola até a minha casa você já conseguiu se perder, imagino que daqui seria bem possível que não consiga nunca mais voltar - fingi pensar por alguns segundos. - Quem sabe alguém não te sequestre para vender no mercado negro antes mesmo que você consiga andar alguns metros? - aumentei meu sorriso quando seus olhos se arregalaram e o pavor ficou nítido em sua expressão. Uma reação obviamente exagerada.
- Eu espero a sair da aula - ela empinou o nariz e levantei a sobrancelha.
- Tem razão - concordei e liguei o carro. - Melhor te levar pro meio do nada - ri baixo quando a garota praticamente pulou em direção a porta. Acelerei o carro quando suas mãos alcançaram a maçaneta me divertindo com o desespero dela.
era sem dúvidas uma pessoa muito fácil de se colocar medo e tenho certeza que era medrosa daquele jeito por ter vivido em seu mundinho confortável a vida inteira. E vê-la desesperada me divertia muito mais do que ela podia imaginar.
Ela abriu a porta e saiu rápido do carro. Mordi o lábio inferior, profundamente tentado a sair dali o mais rápido possível, quem sabe fazer ela correr atrás do carro. Mas se fizesse isso, infelizmente as coisas só iriam piorar em casa.
- Imbecil - reclamou batendo a porta com força.
- Eu ainda posso te abandonar em qualquer matagal - avisei saindo com o carro.
- Seria um favor que me faria - ela disse e rolei os olhos mordendo a língua para não falar tudo o que eu sabia sobre sua "vidinha perfeita" .
Com toda certeza ela estava alheia a maioria do que eu sabia e eu poderia até fazer ela chorar de verdade daquela vez.
Mas eu só sabia de tudo porque minha mãe havia me contado a história toda em detalhes. Ela e Patrick eram muito amigos e essa era uma das razões de ele ter confiado a preciosidade dele a ela. Além de saber que estaria segura, sabia também que ela continuaria alheia da realidade que a cercava há tantos anos.
Minha mãe havia confiado em mim e me contado tudo, não podia quebrar essa confiança, por mais que a vontade de falar fosse muito grande. Então só ignorei a garota ao meu lado e se ela permanecesse de bico fechado como estava, essa tarefa seria incrivelmente fácil.

...

Se fosse uma noite comum eu e mamãe estaríamos fazendo piadinhas sobre o dia de e enchendo o saco dela, mas aquela não era uma noite comum e o clima estava pesado na mesa da cozinha. E cada vez que olhava para minha mãe calada, me lembrava que havíamos brigado por culpa de e toda vez que olhava para aquela expressão de nojo em seu rosto , minha vontade era de colocar minhas mãos em volta do seu pescoço e apertar até que ela ficasse roxa.
- Megan? - fiz uma careta quando escutei a voz de , não era nem proposital, mas cada vez que ela abria a boca eu conseguia lembrar do tom de voz que ela usara comigo. Que era o mesmo que ela usava para falar com a minha mãe e a minha irmã.
Como se ela fosse uma rainha sendo obrigada a falar com seus subordinados, ou uma santidade sendo obrigada a viver em meio a pecadores. Como se nós fossemos seres estupidamente tão inferiores a ela, que era algum tipo de sacrilégio ficar no mesmo cômodo que nós.
Não me incomodaria se essa atitude fosse só comigo, mas essa atitude era direcionada especialmente para minha mãe e e nenhuma das duas pareciam perceber.
- Sim?- eu sabia pelo tom de voz da minha mãe que ela estava tão chateada quanto eu, e ela não precisava dizer mais que uma palavra.
Nós nunca brigávamos e eu nunca havia falado com ela alto demais.
- Você tem falado com meu pai?- pelo modo como mamãe pegou o copo e levou a boca, percebi o quanto aquela pergunta a pegou de surpresa.
- Tenho, por quê?
- Porque tentei falar com ele o dia todo e não consegui - encarei a garota surpreso por ela ter se lembrado do pai. - Você sabe onde ele está? O que está fazendo? - rolei os olhos, não tinha nem se dado ao trabalho de saber o paradeiro do pai dela até aquele momento?
- Ele está tentando resolver a situação de vocês. Falo para ele te ligar, caso você não consiga falar com ele - minha mãe deu aquele sorriso que ela sempre dá quando quer encerrar um assunto.
- Ele deixou algum dinheiro para mim com você?
- Claro - olhei para minha mãe e levantei as sobrancelhas quando ela me olhou rapidamente.
- Você poderia me dar? Meu celular pifou e preciso de outro - bufei discretamente. Ela estava mais preocupada com um celular novo que com o pai.
Entendi bem porque Patrick a preferia deixar alheia as coisas que estavam acontecendo com ele. A garota claramente se preocupava mais com a última coleção de alguma marca idiota que com os problemas do pai.
- Tudo bem - minha mãe disse desconfortável e eu não via a hora de poder ir para o meu quarto e não ter mais que olhar na cara de por aquele dia.
- Vou estudar - dei a primeira desculpa na qual pensei e levantei pegando meu prato.
Já fazia mais de vinte minutos que estava olhando para o teto, nunca me incomodou ficar em casa quando era minha escolha ficar. Mas odiava ser obrigado a ficar em casa.
Os castigos que minha mãe me aplicava se resumiam a não poder sair. Eu ainda podia ver TV ou jogar o tempo fora fuçando na internet, mesmo que fosse escondido, mas a única coisa que eu queria era poder sair, só porque era a única coisa que não podia fazer. Realmente, minha mãe me conhecia.
- Entra - chiei quando ouvi duas batidas na porta e me sentei olhando para aquele mesmo ponto.
- Temos que conversar - minha mãe disse enquanto entrava e se ela fosse me passar mais um sermão de como eu deveria ter mais sensibilidade com a situação da pobre menina rica, utilizaria o método de fingir que a ouvia.
Ela se sentou na beirada da cama e me encostei a parede esperando, mamãe suspirou e sua expressão era cansada.
- Você vai ter que comprar outro celular para a - ela disse e ri de incredulidade.
- Por quê? - mesmo que minha resposta fosse não, quis saber.
- Porque eu desconfio que o celular dela pifou por causa da sua brincadeirinha - sua expressão se tornou séria.
- Eu não vou dar um celular para ela.
- Não é você quem decide isso, , você vai dar e pronto - eu sempre acatei as ordens da minha mãe, mas ela estava começando a querer demais.
- Desculpa mãe, mas eu não vou gastar um centavo com ela. Nem que eu fique o resto da vida de castigo - ela suspirou passando a mão pelo cabelo.
- Você vai sim, ela não precisaria de um celular novo se não fosse por você. Com tudo o que está acontecendo e com a apresentação da chegando, eu não tenho como tirar dinheiro do nosso orçamento para dar um celular para ela - minha mãe disse calma, tentando me convencer.
- E por que não disse a ela que Patrick não deixou dinheiro nenhum para ela? Aliás, a sabe que o pai dela faliu, né? - levantei as sobrancelhas.
- Ela sabe, mas não acho necessário ela saber a gravidade da situação ainda. Patrick não quer isso - ela negou com a cabeça.
- E qual o problema de ela saber? A garota é de vidro? Ela até poderia trabalhar - minha mãe quase riu.
- Patrick não quer que ela saiba e eu devo isso a ele. Você sabe - sim, eu sabia. Nós devíamos muito à Patrick.
- É a primeira e última vez que compro alguma coisa para ela.
- Obrigada, querido - ela se esticou e apertou meu queixo antes de se levantar e sair.
Por mais que quisesse bater o pé e dizer que não compraria celular nenhum, não podia. Minha mãe tinha muita gratidão para com Patrick e eu já havia jurado a mim mesmo, anos atrás, que jamais desapontaria minha mãe.

’s POV

Eu estava morrendo de sono por ter ficado acordada até de madrugada copiando a matéria que havia me feito perder e como se fizesse de propósito, tivemos que sair mais cedo de casa porque ele tinha que terminar um trabalho com alguém que não me interessava.
Estava quase dormindo apoiada no meu armário quando percebi a aproximação de alguém. Me virei e vi Mayh se aproximar e parar encostada no armário ao lado do meu.
- Bom dia – disse educada e sorrindo levemente. Ela não retribuiu a educação muito menos o sorriso.
- Quero minhas coisas de volta – ela disse seca.
- Como assim? – perguntei confusa.
- É burra ou surda? Quero as minhas coisas de volta. Meus cadernos e meu guarda-chuva – ela cruzou os braços.
- Eu ainda não terminei de copiar a matéria.
- Não me interessa – ela me cortou.
- Tudo bem – disse e coloquei minha bolsa dentro do armário para ter apoio. Peguei os dois cadernos e o guarda-chuva e entreguei a garota.
- Mais uma coisa – ela deu um passo em minha direção me assustando. – Acho bom você descer o narizinho quando for falar com , o meu amigo. Eu sei por que você não quis me contar o que aconteceu aquele dia, mas eu já sei de tudo.
- Foi ele quem começou a me perturbar – eu disse empinando o nariz.
- Não me interessa, você é uma cínica. Nós não cuspimos na cara de quem nos estendeu a mão, garota. A Meg te leva para a casa dela quando ninguém mais te quis, e você fala mal da casa dela, chama o filho dela de verme – ela se afastou e me olhou de cima a baixo. – Está explicado porque nem seu pai te quis – ela disse e saiu pelo corredor.
Aquelas palavras foram como um tapa na minha cara.
Senti meus olhos arderem e tudo o que eu conseguia pensar eram em suas palavras.
Minha garganta ardeu, mas eu me recusava a derrubar uma lagrima por causa daquela pobretona, quem era ela para insinuar qualquer coisa sobre o meu pai?
Fechei meu armário engolindo todas aquelas lagrimas estúpidas e sem fundamento e fui até a sala da minha primeira aula disposta a passar uma borracha no que aquela garota sem classe havia me dito.
deve ter dado drogas a ela em troca desse pequeno favor.

...

“Está explicado porque nem seu pai te quis.”
“Porque ele conhece a filha dele, o próprio pai dela sabia que não iria suportar a filha quando tivesse que aturar ela dentro de casa.”

Essas palavras não saíam da minha cabeça e eu já não conseguia saber quem falou o quê. Não conseguia mais formular argumentos contra aquelas palavras, a única coisa que poderia negativar o que os dois tinham dito, era conversar com meu pai. Ter a certeza de que ele se importava comigo e que logo voltaria.
Fiquei tão perdida em meus próprios pensamentos que dei um pulo na cadeira quando o sinal tocou.
Eu não queria sair para o pátio e ver todas aquelas pessoas mal vestidas me olhando como se eu fosse um ET só porque minha roupa era claramente melhor que a delas, não queria ter que lidar com toda aquela gentalha. Não naquele dia.
Vi parado no meio do corredor conversando com um garoto que eu nunca tinha reparado antes, ele estava com uma das mãos no bolso da calça e com a outra mexia nos cabelos. Ele ria com o garoto e de repente aquela noite começou a pesar.
Talvez eu tivesse pegado um pouco pesado demais com ele.
Ele tinha ido se desculpar e tentar ser legal comigo e eu tinha sido horrível, por mais que eu estivesse em um nível muito mais alto que ele, eu tinha sido horrível. Papai apontaria o dedo para mim e teria vergonha de dizer que eu era sua filha se ouvisse as coisas que disse a . Papai não gostava que ninguém pisasse em ninguém.
Um esbarrão e meus livros no chão me tiraram daquele pensamento. Eu estava pronta para fazer um escândalo, mas as palavras ficaram presas na garganta quando vi quem era o garoto abaixado juntando meus livros. Eu não precisava que me odiasse, aparentemente, ela era a única que faria qualquer coisa para me ver bem.
- Desculpa – disse entregando meus livros.
- Tudo bem, eu estava distraída – tentei sorrir, eu estava distraída sim, mas ele também devia estar.
- De qualquer forma eu poderia ter te machucado – ergui uma sobrancelha, ele se achava tão forte assim?
- Eu estou bem – assegurei.
- Certo, até mais então - ele disse e saiu e foi então que algo me ocorreu.
- Hey, espera – disse mais alto e ele voltou a se virar para mim. – Em qual ano você está?
- Último.
- Você tem a matéria do último semestre? – eu torcia para uma resposta positiva.
- Acho que a maioria, mas eu acho que o tem a matéria toda – ele disse coçando a nuca.
- Ele não vai me emprestar – eu sorri.
- E por que não? – perguntou curioso.
- A gente brigou – sua expressão se tornou compreensiva.
- Ah, sim. Mas se você pedir, ele te empresta sim. Eu posso emprestar, mas não tenho tudo. Eu geralmente pego tudo com ele depois.
- Eu posso pegar com você, depois que você pegar com ele – o garoto deu uma risadinha.
- Eu geralmente pego em cima da data da prova, mas posso te emprestar o que tenho e você pode ver com o ou o se eles tem a matéria toda – ele disse e colocou a mão na testa. – Pede pra Mayh, ela tem a matéria toda e vocês se falam.
- Eu acho que ela não gosta muito de mim – dei um sorriso sem graça.
- Certo, eu consigo a matéria para você – ele disse e deu uma piscadinha.
Ele era realmente bonito, mas assim que processei a tal piscadinha dei um jeito de sair dali. Se tinha uma coisa que eu não era mesmo, é fura olho de ninguém.
- Obrigada, até mais – saí quase correndo para a minha próxima aula, que era com .
O que não fazia nenhuma diferença, já que não nos falávamos.
Todas as aulas que eu tinha antes do almoço passaram rapidamente, como se cada uma delas não durassem mais que cinco minutos, o que era bom, porque se continuasse nesse ritmo, logo eu estaria longe daquele lugar.
Tinha um grupinho perto do carro de e quando me aproximei mais entendi o porquê de não ter me esperado quando o sinal bateu.
Mayh estava ali e quando me aproximei, ela me olhou de cima a baixo fazendo uma careta e como ela estava me tratando daquele jeito, decidi que iria devolver a educação.
- Só acho que você vai perder possivelmente a melhor festa do ano – o garoto que estava abraçando Mayh disse.
- Desde quando? – perguntou com ar de deboche cruzando os braços e sorriu para mim.
- E você novata? Vai? – passou seu braço por meu ombro e no mesmo momento me senti incomodada pelo modo como me olhou.
- Onde? – perguntei sem graça tentando achar um jeito de me afastar sem ser sem educação.
- Na festa da Laura.
- Duvido que ela tenha sido convidada. – Mayh disse um pouco ríspida e a olhou levantando uma sobrancelha.
- É, eu não fui convidada – disse e discretamente me esquivei do braço de , indo para o lado de .
- Todo mundo sempre está automaticamente convidado para as festas da Laura – o garoto ao lado de disse, não me recordava de seu nome. - Você tem que dar um jeito de ir , não vai ser a mesma coisa sem você.
- Eu estou de castigo, . – falou parecendo um pouco impaciente.
- É, culpa de certas pessoas. – Mayh disse em tom agressivo e ergui uma sobrancelha.
- Mayh! – disse parecendo dar bronca.
- Que seja, vejo vocês depois – ela disse e saiu andando.
- O que foi que deu nela? – o garoto que a estava abraçando perguntou antes de ir atrás da garota.
- Eu também vou indo, minha mãe está esperando. , vai querer carona? – o tal de disse.
- Sim, até amanhã. – deu uma piscadinha para mim e beijou no rosto.
Os dois garotos se despediram de com um abraço desajeitado e saíram de perto de nós.
fazia questão de me ignorar e eu estava começando a achar que estava indo pelo mesmo caminho, já que ela não me dirigiu uma única palavra durante todo percurso até a sua casa e quando o carro foi estacionado e eu desci, nenhum dos dois falou comigo.
Mais uma vez estava sozinha na casa de Meg e dessa vez com a preocupação de que poderia estar com raiva de mim por causa de .

...

Tudo o que eu precisava naquela tarde era de um bolo de laranja e uma caneca de chocolate quente feito por Mary. Há alguns dias, tudo o que eu precisava fazer para comer o bolo era ir até a cozinha e dizer para minha governanta o que eu queria. Já pelos meus últimos dias, duvidava que voltaria a comer um dos meus pratos favoritos tão cedo.
De qualquer forma eu estava morrendo de fome, então fui até a cozinha tentar achar algo aceitável para comer e que não fosse necessário usar o fogão, já que não havia ninguém na casa.
Abri a geladeira e fiquei surpresa ao encontrar uma torta de morangos com uma aparência além do agradável que me deixou com água na boca. Coloquei a torta em cima da mesa e fui até os armários procurar por um pratinho e talheres e quando os achei, voltei para a torta. Me servi com um pedaço e me sentei na cadeira para comer.
Coloquei um pedaço do doce na boca e me surpreendi por estar realmente bom. Há muito tempo eu não comia uma sobremesa tão boa, com certeza o sabor superava os dos doces que já havia comido no Café Marly em Paris.
Estava terminando meu segundo pedaço quando a porta da sala bateu e foi questão de segundos até e entrarem na cozinha, ela com um collant preto e uma saia rosa por cima, me lembrando muito o jeito que minha mãe se vestia para deixar o estúdio. vestia a mesma roupa que havia ido para a escola e fiz questão de fingir que ele não estava ali.
- Hey – me cumprimentou muito educada se sentando na cadeira vazia ao meu lado.
- Hey – respondi sorrindo o tanto que eu conseguia.
fez questão de retribuir meu tratamento e fingiu que eu não estava ali.
Claro que eu deveria ficar agradecida por isso, não queria que ele ficasse me perturbando, mas por algum motivo que eu ainda desconhecia não queria que ele ficasse me ignorando ou fingindo que me ignorava. Vi pela minha visão periférica que o garoto pegou alguma coisa no armário e saiu da cozinha enquanto mexia em sua mochila e logo depositou uma caixa branca em cima da mesa.
- Seu celular – ela disse sorrindo e peguei a caixa na mão.
Então havia sido por isso que Megan havia me perguntado sobre meu celular pifado pela manhã, para me comprar outro.
E não era exatamente o que eu estava esperando.
Ok, não era nada parecido com o que eu esperava.
O celular era idêntico ao meu antigo e eu esperava no mínimo um modelo mais novo.
- Obrigada – eu disse mais para ser educada.
Não precisava agradecer uma coisa que havia sido comprada com meu dinheiro, certo? E a Megan poderia ter me dado o dinheiro que eu mesma compraria e poderia comprar algo ao meu gosto.
- A torta está boa? – a garota perguntou já se servindo de um pedaço.
- Está ótima, quem fez? – perguntei me levantando com a caixa na mão.
- A senhora Milles – ela disse e juntei as sobrancelhas. – Ela mora a duas casas daqui e faz essa torta pro desde que ele tinha uns oito anos. Patrick também adorava essa torta – ela disse distraída e conseguiu chamar minha atenção.
- Patrick? Meu pai? – perguntei voltando a me sentar e deixando a caixa totalmente de lado. hesitou por uns segundos.
- É – ela disse ocupando a boca com o doce em seguida.
Eu achava estranho as pessoas chamarem meu pai pelo primeiro nome, ainda mais quando essa pessoa era do nível social de .
- Meu pai vinha aqui? Muito? – de repente eu estava ansiosa para saber sobre aquilo.
De repente me dei conta que havia partes da vida do meu pai que eu desconhecia, tipo o fato de ele aparentemente frequentar uma casa na área pobre da cidade.
- Sim, ele já veio aqui algumas vezes. Ele vinha conversar com a minha mãe – ela deu de ombros.
- Frequentemente? – perguntei olhando ao redor sem conseguir imaginar a figura elegante e prestigiosa de meu pai naquele lugar.
- Não, só algumas vezes – concordei com a cabeça.
- Eu vou subir. Você guarda as coisas? – me levantei apontando a torta em cima da mesa.
- Sim – ela sorriu e peguei meu iPhone para sair da cozinha.
- A. – disse dando meia volta. – Eu quero te dizer que não precisa se preocupar, não vai rolar nada entre eu e – disse e sorriu sem graça.
- Olha, tudo bem se você quiser ficar com ele, eu não tenho a menor chance mesmo – juntei as sobrancelhas.
- Do que você está falando? – perguntei confusa.
- Eu não tenho chances, , sou mais nova e você é mais bonita e tal – ela deu de ombros. Certo, eu sempre tive uma boa autoestima, mas não era feia, muito pelo contrário.
- Não tem essa de uma ou outra ser a mais bonita, não fale besteiras. Tenho certeza que nenhuma garota gostaria de disputar o coração de um cara com você – disse e ela deu um leve sorriso e eu estava me sentindo desconfortável.
Claro que eu não precisava agradá-la, mas por que não o fazer? Até aquele momento ela havia sido legal comigo, então por que não ser legal com ela pelo menos uma vez?
- Obrigada, mas se vocês estiverem a fim um do outro não tem problema, é sério.
- Eu não vou ficar com ele – garanti e ela sorriu. – Vou subir.
Assim que saí da cozinha os pensamentos sobre meu pai e seu sumiço estranho tomaram conta da minha cabeça.
Eu sabia que meu pai confiava em Megan, se não, não teria me deixado com ela, mas eu nunca iria imaginar que meu pai pudesse ter esse tipo de amizade com ela, em que até seus filhos ele conhecia.
“Quando ele não tivesse mais o dinheiro pra enfiar nela e a manter longe.”
Meu estomago congelou. E se fosse verdade? Aparentemente conhecia meu pai bem o suficiente para poder afirmar o que tinha dito.
Mas meu pai diria algo desse tipo sobre mim? Quer dizer, eu nunca fui um fardo na vida do meu pai e disso eu tinha certeza. Papai nunca diria algo parecido ou faria aquilo, eu deveria é parar de tirar conclusões baseadas em coisas que uma pessoa que claramente não gosta de mim diz, e tentar conversar sobre o assunto com meu pai.
Assim que coloquei a mão na maçaneta da porta do meu quarto, a porta do banheiro foi aberta sem nenhuma delicadeza e a visão seguinte me fez congelar meus movimentos. saiu de dentro do banheiro segurando a toalha em uma das mãos e vestindo somente uma bermuda preta.
A última coisa que eu queria era que ele me pegasse o secando, mas não tinha como tirar meus olhos de seu tronco nu ou das entradas salientes. Ele me ignorou passando por mim rapidamente enquanto deixava para trás um cheiro gostoso de sabonete e menta.
Virei o rosto na direção em que ele ia e apreciei suas costas, o garoto tinha as costas bonitas e largas e eu queria contornar os músculos dela com as pontas dos meus dedos. Suspirei e constatei que já deveria estar dentro do meu quarto tentando ligar para meu pai.
Eu não deveria ficar reparando nos atributos físicos de , ele não gostava de mim e eu devia odiá-lo por tudo que já tinha me feito. O fato de eu o achar gostoso, muito gostoso, não queria dizer que eu gostasse dele, não é?
Eu definitivamente deveria parar de pensar naquilo e me concentrar em tentar falar com meu pai.

...

Devo ter passado no mínimo uns vinte minutos tentando falar com papai, e a falta de resposta estava começando a me deixar irritada.
- Assim que ouvir esse recado pode me ligar? Preciso falar com você – resolvi deixar uma mensagem.
Me joguei na cama e passei a observar o teto, eu queria muito voltar a ter minha vida. Mas dessa vez eu não queria ter as viagens, ou os carros ou as roupas. Se fosse antes, eu saberia que meu pai estava em seu escritório ou no quarto, e eu poderia ir vê-lo a hora que quisesse.
Agora eu nem sequer conseguia falar com meu pai por telefone e me recusava a achar que essa falta de contato tinha a ver com algo que tinha dito antes, afinal, o que aquele garoto sabia sobre mim? Sobre meu pai ou sobre qualquer coisa da minha vida?



Seis

Tomar umas duas ou três taças de Moet & Chandon Dom Perignon Charles & Diana 1961*, era tudo o que precisava para relaxar e nada melhor que uma festa para isso. Seria sonhar alto demais que na festa que teria dali a dois dias, teria aquele espumante? A dona da festa ao menos sabia o que era um espumante? Um de qualidade, não aquelas cidras que pobres tomam em datas comemorativas. Se é que alguém naquela escola sabia o que era um Moet & Chandon Dom Perignon Charles & Diana 1961.
Mas com espumante ou não, eu queria ir aquela festa, mesmo sabendo que nada lá me interessaria. Eu só precisava ficar uma noite afastada da casa na qual estava sendo obrigada a viver e fingir que nada na minha vida havia mudado. Eu merecia isso, merecia por todo estresse que estava passando.
E só depois de uma noite fingindo que nada havia mudado, eu voltaria a pensar em onde papai estava e o porquê de eu não conseguir ao menos telefonar para ele. Mesmo que fizesse isso quase a todo momento nos últimos dois dias.
Só tinha um único problema nos meus planos para o fim de semana: Eu não tinha ideia se Megan me deixaria ir.
Eu nem sabia se precisava pedir permissão a ela para começo de conversa.
Não estava acostumada a pedir permissão para ninguém, nem para papai. Eu sempre tive tudo o que queria a hora que queria, o máximo que tinha que fazer, era comunicar a papai que iria sair ou qualquer outra coisa.
O que papai gostaria que eu fizesse?
Pedisse permissão a Megan, ou simplesmente a dissesse que estava indo a uma festa quando já estava saindo de casa?
Ele com certeza não se importaria se eu pedisse permissão ou não, mas se eu optasse pela segunda opção, poderia não ter como chegar a festa. Quem sabe Megan poderia até emprestar o carro para que eu fosse? Mesmo que fosse uma das maiores vergonhas da minha vida chegar em um carro feio como o dela em um lugar público, era melhor que ter que pegar um ônibus.
Poderia também convidar , ela devia saber onde a garota que estava dando a festa morava, além de ser uma companhia para a noite. Não é legal ir para uma festa sozinha, sem ter alguém para falar sobre as roupas das pessoas, que eu já sabia que seriam uma pior que a outra.
Então com o intuito de agradar Megan, tomei banho cedo e resolvi que a ajudaria a colocar a mesa para o jantar. Por Deus, aquilo já seria demais, portanto era o máximo que poderia oferecer.
Megan estava lavando a louça quando cheguei a cozinha e me obriguei a colocar um sorriso no rosto antes de anunciar minha presença.
- Boa noite - disse me aproximando da mesa.
Ela me olhou surpresa e sorriu animada.
- Boa noite, como foi seu dia? - perguntou me pegando de surpresa.
- Ah, foi normal - disse erguendo um ombro. - Precisa de ajuda para colocar a mesa? - poderia ter perguntado só se ela precisava de ajuda, mas ela poderia dizer que sim e me colocar para lavar ou enxugar a louça. Ew.
- Ah, claro - ela parecia satisfeita quando sorriu para mim e me controlei para não rolar os olhos.
- E então, você já se inscreveu para alguma atividade extra curricular no colégio? - ela perguntou enquanto ia até o forno.
- Ainda não, não sei bem o que quero fazer - disse sem nenhum interesse em ter aquele assunto.
- Já pensou no time de torcida? Você dança, não é?
- Dançava - corrigi. - Não gosto de time de torcida. Estou pensando em tentar entrar para a comissão de baile de formatura.
- Ah, esse ano você se forma. Assim como o , finalmente - ela disse animada. - Está ansiosa para seu baile?
- Não muito - eu estava no meu antigo colégio, mas duvidava que na minha atual escola ao menos fosse ter uma comemoração descente por falta de verba.
- Ah, mas você tem que se animar, só se forma no colégio uma vez. Eu me lembro do meu baile, foi perfeito - ela sorriu com um ar sonhador e temi que quisesse me contar detalhes sobre seu baile.
- Falando em baile, vai ter uma festa esse fim de semana, na casa de uma amiga do colégio e eu gostaria de ir - usei um tom inocente aproveitando para desviar do assunto baile de formatura de pobre.
- Eu não sei, – ela parou tudo o que fazia e ficou me olhando.
- Por quê? Eu já fui a festas antes e sei lá, vai ser bom para me enturmar – argumentei tentando uma resposta positiva. Obvio que eu não fazia questão de me juntar com aquela gentinha.
- Com quem você vai? – ela perguntou desconfiada.
- Com a – disse rápido.
- Não sei, vou pensar e te digo – mantive o sorriso no rosto mesmo morrendo de vontade de dizer que ela não mandava em mim e eu iria para onde eu quisesse.
- Ok – terminei de arrumar a mesa e me sentei esperando que e se juntassem a nós.
Megan havia feito uma torta de frango para o jantar que foi quase todo calado, com exceção de alguns comentários de sobre o balé.
Eu queria perguntar a Megan se ela me deixaria ir na festa ou não. Tinha milhões de coisas para fazer antes da festa, precisava que ela me desse uma resposta. Ainda assim fui dormir sem saber se ela diria sim ou não, e acabei decidindo que não importava se ela deixaria ou não.
Então, na sexta pela manhã desci as escadas em direção a cozinha decidida a dizer a ela que iria na festa e que precisaria do dinheiro que meu pai havia deixado com ela para ir ao salão. Mas antes de entrar na cozinha escutei a voz de Megan e estanquei meus passos para escutar o que ela estava falando.
- Quero que fique de olho nas duas.
- Eu realmente prefiro ficar em casa que ter que dar uma de babá para a Maddox – ouvi reclamando com a mãe, e soube que estavam falando sobre a festa.
- , por favor, você pode voltar a agir como o rapaz responsável e adulto que eu sei que você é, e parar com essa implicância infantil com a ?
- Ok, mãe, mas eu realmente não sei se estou a fim de ir nessa festa.
- Faz um esforcinho, vai ser bom pra se enturmar – ela argumentou.
- Por favor, - foi quem falou dessa vez.
- Tudo bem, mas já vou avisando que não vou ficar grudado nela – aquela era a minha deixa para entrar na cozinha.
- Bom dia! – entrei sorridente me sentando na cadeira. – Meg, será que você podia me dar algum dinheiro? – perguntei enquanto me servia de leite.
- De quanto precisa? – me animei com sua resposta.
- Umas 500 libras está bom, só vou fazer as unhas e dar um jeito no cabelo. – se engasgou com o suco que tomava.
- Que tal eu te dar 20 libras? – Meg disse e eu fiz uma careta.
- 20 libras não paga nem o taxi.
- A pode te levar no salão daqui do bairro. – Megan barganhou.
- Obrigada, mas eu prefiro o salão que estou acostumada a frequentar – sorri o mais meiga que consegui. Não precisava ficar justificando a ela como gastava o dinheiro que meu pai tinha deixado para mim.
- , 500 libras é muito – ela estava bem sem graça.
- Tenho certeza que papai não vai fazer conta.
- Se você der 500 libras para ela, eu também vou querer. – disse e Megan rolou os olhos.
- Sinto muito, , mas não disponho desse dinheiro no momento. – Meg sorriu abertamente.
- Tudo bem, a gente pode ir no banco - falei e escutei rir.
- Na verdade não podemos – ela se levantou levando a louça que tinha usado para a pia e eu fechei minha expressão.
- E posso saber por que eu não posso usar o meu dinheiro? - perguntei com raiva, quem ela pensava que era para querer controlar meu dinheiro? Nem papai tentava fazer isso.
- Talvez porque você não o tenha? – disse agressivo.
- ! – Megan ralhou.
- O quê? É melhor ela saber logo de uma vez, assim ela para de te pedir dinheiro. – mantinha uma expressão inocente no rosto.
- Como assim? Do que ele está falando? – perguntei, confusa, a Meg que olhou para o filho como se fosse matá-lo.
- Não é bem assim – ela disse passando a mão pelo cabelo.
- É exatamente assim. – a cortou. – Seu pai faliu e como consequência disso, não deixou dinheiro para você, . O celular que a te deu, foi eu que comprei, porque minha mãe me obrigou.
Eu estava paralisada, como assim meu pai não tinha me deixado um centavo?
- , você poderia ser mais sensível? - Megan disse com a voz estrangulada.
- Eu não fui suficientemente sensível? – ele colocou a mão no peito teatralmente. – Desculpe, , mas é isso, nada de salão para você.
- Chega, ! – dessa vez a voz de Megan estava firme.
- Isso é verdade, Meg? Meu pai não me deixou um misero centavo? – ela abriu a boca olhando para seu filho.
- É – ela afirmou sem graça, mas eu é que nunca estive tão constrangida em toda a minha vida.
- Ok, eu posso lidar com isso – disse e me levantei da mesa saindo da cozinha.
Na verdade eu não conseguiria lidar com aquilo. Céus, como papai pode fazer aquilo comigo? Sabendo de todas minhas necessidades?
Eu nunca precisei pedir nada nem para o meu pai, sempre fui independente.
Talvez não totalmente independente, mas nunca precisei pedir o que quer que fosse para ninguém. A não ser que quisesse algo que ultrapassasse o limite do meu cartão. O que dificilmente acontecia.
O que eu iria fazer sem nem um centavo? Eu precisava fazer as unhas, depilação, o cabelo, bronzeamento artificial, limpeza de pele, dentre tantas outras coisas. Aquela era a pior coisa que poderia me acontecer depois de ter ficado sabendo que papai tinha falido.
Peguei meu celular e disquei seu número, tinha que saber o porquê de ele ter me deixado sem nenhum dinheiro. E assim como das outras vezes, tudo o que tive como resposta, foi aquela voz irritante me dizendo para deixar um recado.

...

Se naquela manhã eu estava bem humorada por ter uma festa para ir, naquela tarde eu era o mau humor em pessoa. Meu cabelo estava uma droga, minhas unhas horrendas e eu não tinha dinheiro para ir o salão. De que me adiantava ter um vestido perfeito para festa e não ter minha unha ou o cabelo feito?
Ri ao pensar nisso, há alguns meses estava brava pelo mesmo motivo, porém na ocasião, era tempo que me faltava para ir ao salão, não dinheiro.
Abri o guarda roupa só para me despedir do vestido que usaria, não iria de jeito nenhum a essa festa, não parecendo uma andante. A primeira coisa que vi foi o vestido que usei na festa de quinze anos de Mackenzie Dowson.
Era um longo vermelho da Versace, tinha sido amor à primeira vista, uma pena eu só tê-lo usado uma única vez. Uma das empregadas foi demitida por tê-lo colocado por engano na caixa de doações que fazíamos todo ano.
Era isso.
Eu poderia vender algum vestido meu, ou poderia até vender aquele vestido, já que era um dos únicos que eu tinha guardado na minha última limpeza de guarda roupa. Era aquele Versace ou outro muito preferido.
Eu só precisava arrumar um jeito de chegar ao centro comercial.
Droga, nem dinheiro para o taxi eu tinha.
Peguei o vestido e o coloquei dentro de uma sacola o enfiando na bolsa, daria meu jeito de vender aquele vestido ou não me chamaria .
Fui direto ao quarto de e bati na porta entrando assim que ela autorizou.
- Hey, tá a fim de sair? – perguntei da porta mesmo.
- Pra onde? – ela deixou de lado o caderno.
- Eu preciso ir até o centro comercial daqui, você poderia me levar e a gente dá uma volta. – abriu um sorriso enorme.
- Uma boa ideia, a gente pode ir no shopping. Espera, vou me trocar bem rápido - ela disse apressadamente e fechei a porta a esperando no corredor.
rabiscou um bilhete para Megan e saímos pela rua do bairro.
- Você quer ir no shopping ou no centro?
- Qual é mais perto e podemos ir a pé? – perguntei dando um sorriso amarelo.
- Os dois são um pouco longe, mas vamos de ônibus.
- Eu não tenho dinheiro agora para o ônibus – disse fazendo uma careta enquanto sentia minhas bochechas arderem, eu nunca tinha andado de ônibus.
- Sem problemas, eu pago.
- Depois eu te devolvo – disse me sentindo cada vez mais envergonhada.
- Até parece. E então, Shopping ou centro? - olhei para a garota sorridente ao meu lado e não consegui me lembrar de quando uma das minhas amigas fez algo por mim sem esperar nada em troca.
Ou até mesmo se alguma delas já tinha feito tanto esforço ou ficado tão feliz em sair comigo somente pela companhia.
- Onde eu acho uma loja de penhores? – ela juntou as sobrancelhas.
- Acho que no shopping tem. Vamos fazer assim, vamos ao shopping e se lá não tiver o que está procurando, vamos ao centro – ela disse animada entrelaçando seu braço ao meu.
Andamos até o ponto de ônibus e não parecia intimidada com as pessoas estranhas que passavam pela gente.
O ônibus não demorou a chegar e foi segurando firme minha bolsa que entrei naquilo. Não estava lotado como eu achei que estaria e não consegui identificar o que seria pior, colocar a minha mão naquele corrimão cheio de bactéria e ir em pé me arriscando a levar um tombo, ou me sentar em um assento que diversas pessoas já haviam se sentado. Por fim me sentei ao lado de .
- Eu tenho que te agradecer – ela disse.
- Por quê?
- Graças a você, vou na minha primeira festa. nunca quis me levar, ele diz que é responsabilidade demais cuidar de mim, mas eu sei que ele nunca me levou porque vai para essas festas para transar com as vadias do colégio – ergui uma sobrancelha. – O disse que qualquer coisa ele poderia ficar comigo na festa – ela sorriu.
- Seu irmão viu o pedindo pra ficar com você? – perguntei sorrindo de leve, eu percebia como e tentavam disfarçar a troca de olhares sempre que estavam perto um do outro. E como fazia questão de não deixar os dois um minuto sequer sozinhos.
- Mas ele não pediu pra ficar comigo – ela disse ficando vermelha.
- Ah, pode apostar que pediu e de forma bem direta, o seu irmão não disse nada quanto a isso?
- Ele não disse isso perto do . – colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha a deixando com um ar ainda mais inocente.
- Mais uma prova das intenções dele – a cutuquei com o ombro rindo.
Ficamos dentro do ônibus cerca de vinte minutos e quando descemos perto do shopping, tive a certeza de que eu não tinha estado em todos os shoppings de Londres.
Andamos por alguns minutos e finalmente encontrei o que eu procurava, e realmente não entendia como alguém comprava coisas em uma loja de coisas usadas no shopping. Apesar de que, pela localização daquele lugar, eu duvidava que tivesse alguma marca original ali.
- Em que posso ajudá-las? – a senhora atrás do balcão disse assim que nos aproximamos, parecia entretida com alguns vestidos hippies.
- A senhora compra coisas, certo? – disse colocando minha bolsa em cima do balcão.
- Exato – ela sorriu.
- Bem, eu tenho um vestido aqui que queria me desfazer – disse e tirei meu Versace da bolsa o desembrulhando. – Foi usado uma única vez. – se aproximou curiosa.
A senhora pegou o vestido e o olhou de todos os ângulos.
- Te dou cinquenta libras por ele – eu ri.
- É original, nem pensar que ele vale só isso. Paguei mais de mil libras nele – disse já colocando a mão no meu vestido.
- Certo, então pode achar alguém que pague mais – ela disse mal educada.
- Ótimo, aposto que eu consigo umas quinhentas libras nele. Aliás, quanto foi que o moço ofereceu naquela loja mesmo, ? – olhei para garota ao meu lado.
- Seiscentas libras – sorri por ela ter entendido.
- Te dou cem libras – a senhora disse me impedindo de embrulhar novamente o vestido.
- Quinhentas.
- Duzentas.
- Quatrocentas.
- Trezentas libras e essa é minha oferta final – eu tinha que pensar rápido.
- Fechado – eu nem tinha percebido que tinha vendido meu vestido por miseras trezentas libras.
A senhora abriu o caixa que tinha ali e tirou as notas e as contou na minha frente no balcão, antes de me entregar as trezentas libras. Ela puxou o vestido de minha mão e eu o segurei, ela puxou de novo e me recusei a soltá-lo, ela sorriu e puxou uma última vez e o deixei ir.
Saí da loja sentindo vontade de chorar.
- Eu não acredito que você vendeu mesmo aquele vestido. – disse.
- Eu preciso de dinheiro para ir ao salão, claro que com o preço que o vendi, o Francis está fora de cogitação – disse desanimada.
- Tem alguns salões legais aqui no shopping. Quer ver algum? – dei de ombros, era o jeito.
Andamos por vários corredores e finalmente achei um salão meia boca, mas as unhas, não iria adiantar, eu teria que fazer no Francis.
- Eu quero que tire as pontas do meu cabelo, mas só as pontas – eu disse assim que sentei na cadeira. – Se cortar meu cabelo todo, eu te processo – a mulher fez uma careta, mas fez exatamente o que eu pedi.
- Vamos onde agora? – perguntou quando saímos do salão.
- Procurar uma loja de produtos de beleza, preciso comprar cera para fazer depilação – disse e saímos de braços dados pelo shopping.
Saímos do shopping com algumas sacolas e me recusei a pegar outro ônibus, então entramos em um dos taxis que estavam por perto.
- Você já sabe com que roupa vai na festa? – perguntou depois de dizer o endereço ao motorista.
- Tô pensando em usar um Chanel. E você?
- Não tenho ideia – ela disse desanimada
- Se quiser ajuda... – dei de ombros.
- Acho que vou aceitar.
- Você acha que a Meg me empresta o carro dela para ir até o centro de Londres amanhã? - perguntei a .
- Acho que sim, mamãe não vê tantos problemas em emprestar o carro dela se você tiver carteira de motorista, já o é muito chato – ela rolou os olhos.
- Eu já percebi – resmunguei e prolongamos algum assunto até que estivéssemos em casa.

...

- Nunca. - quase gritou em meio a gargalhada sem nenhum humor que soltava.
- , por favor, eu vou precisar do meu carro. - Meg disse, mas ela não estava sendo autoritária dessa vez, ela estava tentando convencê-lo com uma voz doce.
- Por que ela não vai de ônibus? Eu nem sei se essa garota sabe dirigir - ele balançou a mão em minha direção.
- Eu tenho licença - falei pela primeira vez desde de que a briga para ver quem me emprestaria um carro começou.
Megan precisaria usar o carro para resolver alguma coisa do trabalho e estava sendo egoísta.
- Que seja, se ela bater meu carro, quem vai pagar? - ele levantou uma sobrancelha.
- Ela não vai bater seu carro. - Megan disse com obviedade.
- Ah, mãe, desculpa aí, mas não vou emprestar não.
- Então leva a gente. - disse, ela estava louca para conhecer o Francis e seu salão.
- É, leva elas então. - Meg sorriu batendo os cílios.
- Nunca - ele respondeu rolando os olhos.
- , querido, se você levar elas ao salão eu diminuo seu castigo em três dias. - Megan disse e o garoto a olhou de lado.
- Uma semana - ele devolveu e ela pensou por uns segundos.
Cadê a Megan autoritária que só de dizer o nome do garoto daquele jeito mandão já o fazia fazer qualquer coisa?
- Fechado - ela pegou sua bolsa de cima da cadeira. - Nos vemos mais tarde.
- Se apressem. - disse se levantando e saindo da cozinha.
Como eu e já estávamos prontas, fomos para a sala esperar o garoto se arrumar, dez minutos depois estávamos dentro carro a caminho do Francis. Eu na frente com o Shrek, porque se recusou a ir no banco do carona e eu resolvi não irritá-lo. Sem Megan por perto, ficaria difícil obrigar o garoto a me levar onde fosse.
- Quanto tempo você pretende passar nesse salão? - me olhou rapidamente.
- O tempo que for necessário - respondi sem vontade.
- Necessário pra quê? Se for pra dar um jeito na sua cara, vai ficar a eternidade lá e não vai adiantar - ele disse debochado e fez com que me sentisse mal.
- Ai, , que piadinha estupida - contive a vontade de me virar para ver a expressão de , que não devia ser nada boa, já que sua voz era séria de um jeito que eu nunca tinha escutado.
- E quem disse que foi uma piadinha? Eu falei sério - ele disse e deu um sorrisinho irônico.
- Como você é idiota, . Seu estupido. - cuspiu as palavras.
- Quanto ela está te pagando para sair em defesa dela? Ou você está fazendo de graça na esperança de ter um pouquinho da simpatia dela? - devolveu tão estupido quanto a irmã.
- Quanto você está ganhando pra ser escroto? - perguntou e ficou entre os bancos da frente.
Pisquei várias vezes esquecendo que tinha ficado tão incomodada com o comentário imbecil de . estava definitivamente comprando uma briga com o Shrek por mim?
- Tudo bem, . Os comentários idiotas do seu irmão não me afetam - disse quando percebi que ele responderia e os dois começariam a brigar ali do meu lado. E claro que ele me chamar de feia me incomodava, quem não se incomoda com uma pessoa bonita te chamando de feia?
- Ah não? Nossa, se te afetasse iria mudar a minha vida - ele disse rolando os olhos.
- Você já se olhou no espelho? - perguntou e eu ri.
- Todos os dias, eu sou lindo. Sorte a sua ter puxado a mim, irmãzinha - ele mandou um beijo para ela pelo retrovisor.
- Você se acha. - disse bufando.
- Eu não, elas me acham. A também, não é Maddox? - ele disse e deu um tapa na minha coxa me fazendo ficar dura no banco.
Não tinha doído obviamente, mas o modo como ele deu o tapa como se fossemos algum tipo de casal, me deixou mais nervosa que o recomendável.
- Viu, quem cala consente - ele debochou.
- Você é ridículo - resmunguei passando a olhar pela janela.
Meu estomago dava voltas e eu não fazia a mínima ideia do porquê. Muito menos do porquê de estar tão nervosa.
De repente uma vontade nada agradável de ter as mãos grandes de em minha perna começou a me atormentar.
Eu já não conseguia sequer escutar o que e estavam falando, enquanto tentava não pensar em como seria a sensação das mãos de na minha cintura.
Céus, eu conhecia aquela sensação que tentava me assolar, já a tive algumas vezes e por Deus, eu não poderia sentir aquilo.
Não por .

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*Moet & Chandon Dom Perignon Charles & Diana 1961. £ 2.576
Em 1981, o Dom Pérignon foi escolhido como o Champagne oficial para o casamento de Lady Diana Spencer e príncipe Charles. Magnuns de Dom Pérignon Vintage 1961, o ano que Diana nasceu, foram servidos no dia, ostentando uma insígnia especial criada apenas para a cerimônia. Tempos depois, um número limitado de garrafas normais desse Champagne foram liberadas para comemorar a ocasião, atualmente vendidas por um preço médio de £ 2.576.

Fonte : Vinhos e mais vinhos.



Sete

A cama de estava abarrotada de roupas e a garota andava de um lado ao outro em seu quarto minúsculo.
- Eu não tenho roupa – ela disse jogando as mãos para cima.
- Certo, o que você quer vestir? – perguntei remexendo suas coisas atrás de algo realmente descente ali.
- Eu não quero nada vulgar, mas também não quero nada inocente demais – resmungou se sentando na cama.
- Deixa eu ver se consigo montar um look legal – eu poderia oferecer um de meus vestidos a ela, mesmo sendo alguns centímetros mais alta e meu quadril ser um pouco mais largo que o dela. Mas eu nunca emprestava minhas coisas para ninguém, o que era meu, era meu e somente meu.
Peguei uma saia vermelha de cintura alta e coloquei de lado sem deixar de vasculhar as roupas, encontrei uma blusa de botões branca um pouco transparente.
- Agora só precisamos de um sapato – disse indo até a parte onde as caixas de seus sapatos ficavam.
Comecei a abrir as tampas e quando cheguei na terceira, meus movimentos cessaram por completo.
Aquele sapato era perfeito.
Perfeito para o vestido que eu vestiria naquela noite.
- Que sapato lindo – disse pegando o objeto nas mãos.
- Nem combina com a roupa que você escolheu – ela disse abrindo as tampas das outras caixas.
- Combina com meu vestido – disse mais para mim mesma.
- Pode usar se quiser. – disse sem dar muita importância. – O que acha desse? – Ela me mostrou um sapato de salto Anabela fechado.
- Lindo também – disse devolvendo o sapato que estava em minha mão em sua devida caixa.
- Você não vai usar o sapato? – perguntou indo com uma das caixas até sua cama.
Eu já tinha um sapato separado para usar naquela noite, mas meu vestuário parecia incompleto sem o sapato de .
- Você não se incomoda? – me virei em sua direção a vendo dobrar peça por peça de roupa.
- Com o quê? – ela perguntou de volta.
- Em emprestar as suas coisas.
- Não, por que deveria? É só um sapato, me incomodaria emprestar meu namorado – ela deu de ombros.
Eu queria pegar emprestado o sapato, mesmo que aquilo fosse a coisa mais pobre que eu poderia fazer na vida, mas estava receosa que depois quisesse algo meu emprestado.
- Tem certeza? – mordi a bochecha.
- Tenho, se quiser usar pode usar, realmente não ligo – eu queria saber se ela não iria querer nada meu depois.
- Eu não gosto de emprestar minhas coisas – disse mexendo meu pé e ela me olhou rapidamente.
- É sério, , eu realmente não me importo. Você pode usar o que quiser do meu guarda roupa, é só me pedir antes – ela me sorriu meiga e peguei a caixa com o sapato, já que meu recado estava dado.
- Certo, vou me arrumar. Te vejo daqui a pouco – disse e saí do quarto de .
Depois de tomar banho fiz todo o meu ritual de beleza e quando estava colocando o vestido bateu na porta dizendo que estava nos apressando. Não sabia do que ele estava reclamando, já que era graças a mim que iria nessa festa.
Ignorei o chamado e coloquei meu vestido azul tomando todo cuidado para não borrar minha maquiagem. Coloquei os sapatos de que serviram perfeitamente em meu pé e borrifei um pouco do meu J’adore L’Eau Cologne e me olhei no espelho uma última vez arrumando meus cabelos.
Ignorei celular e qualquer coisa que não tivesse onde levar, e saí do quarto.
- Estou pronta – disse assim que parei na porta da sala.
- Até que enfim – disse desligando a TV e se levantando.
Ele ao menos me olhou quando passou por mim, estava logo atrás dele e tenho que dizer que ela estava simplesmente linda e nem parecia que tinha dezesseis anos. O casaco que ela adicionou ao visual caiu como uma luva.
- Você está linda, – ela disse sorridente.
- Você está maravilhosa – sorri e me aproximei mais. – O vai babar em você – suas bochechas ficaram um pouco mais vermelhas.
- Se vocês não vierem agora, ninguém vai mais. – disse mal humorado e rolei os olhos seguindo para a porta.
Abracei meu corpo assim que o vento gelado me atingiu, nada que eu não soubesse que iria encontrar, eu sabia que estaria frio lá fora, mas dentro da casa onde a festa seria e no carro não estariam.
A casa da tal da Laura ficava em um bairro de classe média perto do bairro em que Megan morava, o que era uma surpresa para mim. Onde eu morava as classes não se misturavam daquela maneira.
Quando estacionou, me dei conta que talvez a escola toda poderia estar ali de tantos carros que havia na rua.
- Nada de bebidas alcoólicas, ouviu ? – disse apontando o dedo para a irmã.
- Eu sei, eu sei – ela disse abrindo a porta do carro.
Como se fosse combinado eu e saímos juntos do carro, ele vestia uma jaqueta de couro preta, calça jeans e um all star branco. Ele se virou para mim sem interesse nenhum, os cabelos caídos na testa. era totalmente pegável, mesmo sendo um completo imbecil. Um suspiro ficou preso na minha garganta.
- Não beba nada que alguém que você não conheça te dê – ele disse sério e rolei os olhos.
- Eu não sou nenhuma criancinha não, – respondi e senti meu rosto esquentar quando ele me olhou de cima a baixo. – Já estive em festas antes – continuei olhando para outro lado.
- Às duas encontro você aqui, se não estiver te deixo para trás. não sai de perto de mim – ele disse e soube que ficaria perto dele também, já que eu ficaria a festa toda com .
Entramos atrás de e a música estava alta demais, por onde passava, cumprimentava as pessoas, algumas meninas faziam questão de encostar nele e quando dei por mim estávamos perto do grupo de amigos dele.
Mayh me olhou de cima a baixo e virou a cara cumprimentando ; o namorado dela, , acenou com a mão e quando dei por mim segurava minha mão e deu um beijo na minha bochecha. me cumprimentou da mesma forma e fez questão de ficar entre mim e me passando um copo vermelho.
Fiquei segurando o copo me sentindo um peixe fora d’água, já que a rodinha de amigos havia se fechado e eu estava de fora, nem me dava atenção enquanto falava.
A festa em si não era diferente das que eu frequentava, gente bebendo e se esfregando, algumas pessoas drogadas possivelmente, algumas dançando, outras conversando.
- Eu preciso de uma bebida. , vamos atrás de uma bebida. – Mayh disse alto puxando o garoto pela mão.
- Cansei das mesmas garotas nas festas. – disse entediado.
- Hoje temos a e a como novidade. – disse abraçando a nós duas pelo pescoço.
Esse garoto me deixava desconfortável com a mania de me tocar, não queria que achasse que ele queria algo comigo.
- O que dá no mesmo. – deu de ombros olhando ao redor antes de encarar a bunda de uma loira vestida em uma micro saia que passou pela gente.
- , eu estou com sede. – reclamou e nós tínhamos acabado de chegar e eu já estava entediada.
- Vou pegar refrigerante para você, vem. – a puxou pela mão e os segui.
Fomos para a cozinha onde pegou uma das garrafas de refrigerante e despejou um pouco em um copo para . se encostou na bancada e coloquei o copo que estava em minha mão ali.
- O que mais tem pra beber aqui fora cerveja e refrigerante? – perguntei mesmo achando que ficaria sem resposta.
- Uma variedade imensa de bebidas, recomendo que fique na cerveja ou no ponche. – disse simpático.
Fui até a geladeira e a abri sem cerimônia encontrando várias latas de cerveja, nunca gostei de cerveja e não tomava um gole sequer, fechei a geladeira e fui atrás do ponche. Estava fraco e resolvi ficar com um copo até achar outra coisa para beber.
Quando todo mundo estava com um copo na mão, voltamos para sala ficando em outro canto. e cochichavam quando alguma menina que eles julgavam bonita passava, e ficavam trocando olhares e eu já queria sumir dali e tentar achar alguém menos entediante.
- Eu quero sair daqui. – reclamou impaciente.
- Eu também.
- não vai me deixar sair de perto dele – nos olhamos por alguns segundos.
- Deixa comigo – disse e dei alguns passos na direção do garoto que encarava algum ponto e como também olhava na mesma direção, imaginei que fosse mais uma garota.
Cutuquei e ele se virou em minha direção e fez uma expressão de tédio.
- Eu vou dar uma volta com a – eu disse alto e ele deu um meio sorriso charmoso, que me deixou sem graça.
- Ela não vai sair de perto de mim. – cruzou os braços.
- Eu não sei se você percebeu, mas ela é minha única companhia e você não querer desgrudar dela, significa que eu vou ter que ficar grudada em você, e isso é um tédio.
- Eu não vou deixar a minha irmã solta em uma festa onde tem um monte de gente bêbada e descontrolada.
- Ela vai estar comigo – coloquei a mão na cintura.
- Para mim é a mesma coisa que nada.
- , não vai acontecer nada, eu não quero passar a noite inteira olhando pra sua cara – ele rolou os olhos e se aproximou de .
- Fica de olho na – ele cutucou o garoto e acenou para o seguir.
- Obrigada. – disse animada.
- Vamos dar uma volta – nós andamos pela casa toda, demos de cara com diversas vezes, em uma delas ele estava prestes a engolir uma garota que eu nunca vi, e acabamos no jardim em um dos bancos.
e tentavam não me isolar, mas a tensão entre eles estava tão intensa que estava me incomodando ficar perto deles.
- Vou beber alguma coisa, já volto – me levantei e me segurou pela mão.
- Quer que eu vá com você? – olhei para , depois para ela e sorri.
- Eu já volto – não esperei uma resposta e saí dali o mais rápido que consegui.
Quando passei pela sala vi se agarrando com a mesma garota de minutos atrás e ignorei indo para a cozinha. Havia algumas garrafas em cima da bancada que não estavam ali antes e algumas jarras com líquido coloridos.
- O que você quer beber? – olhei para o garoto loiro ao meu lado.
- Eu não sei, o que é bom aqui? – ele riu e colocou um cigarro na boca.
- Tudo, gata. Quer? – ele apontou o cigarro para mim.
- Não, eu não fumo – olhei para a bancada. – O que me recomenda? – perguntei , mas ele não respondeu. Pegou um copo e colocou um liquido meio esbranquiçado nele.
- Você vai adorar esse – me estendeu o copo.
Dei o primeiro gole e o liquido desceu queimando minha garganta, mas tinha gosto de Yakult.
- Isso é bom – disse tomando mais um pouco e ele sorriu de forma estranha.
Terminei a bebida e me servi de mais um pouco, mesmo estando forte era gostoso e docinho. No terceiro copo entendi que o garoto iria ficar me empurrando bebida e saí da cozinha afim de dar uma volta pela casa.
e já não estavam mais no banco e também não estava mais se agarrando com a garota em nenhum lugar visível. Vi Mayh aparentemente brigando com o namorado e voltei para a cozinha. O garoto loiro já não estava mais lá.
Me sentei em um banquinho e enchi um copo com uma bebida amarela que tinha ali. Tinha gosto de suco de maracujá e não parecia ter nada alcoólico nela. No quarto copo senti uma alteração em meu corpo e resolvi parar. Peguei uma bebida marrom e coloquei no copo e o gosto era incrível. Doce de leite. E mesmo sabendo que ali tinha álcool não consegui tomar um copo só.

’s P.O.V

Lucy já havia ido embora há algum tempo, não fazia ideia de onde estava, havia passado por mim alguns segundos atrás em direção a sala, Mayh e brigaram e foram embora e estava escondida em algum lugar com .
A casa já não estava mais tão cheia e a maior parte das pessoas que estavam ali ou estavam muito bêbadas ou engolindo alguém.
Não me preocupava o sumiço de , já que ela estava com e eu sabia que mesmo que ele estivesse enfiando a língua na boca da minha irmã, ela estava segura com ele.
O que estava me preocupando na verdade era uma que dançava no meio da sala como se o mundo fosse acabar dali a poucos minutos. Não que eu me importasse com ela, mas a garota parecia extremamente bêbada e eu sabia perfeitamente bem o que acontecia com as garotas que bebiam ao ponto de desmaiar nessas festas. E não é só porque não a suportava, que deixaria alguém se aproveitar dela.
Fiquei de olho em só para ter certeza de que ela estava apenas se divertindo e não bêbada como aparentava.
A garota desceu rebolando até o chão antes de parar, tirar os sapatos e jogá-los em um canto da sala. Foi nesse momento que percebi o quão bêbada ela estava. Uma garota que "higieniza" lugares para se sentar, não ficaria descalça em um chão completamente imundo e possivelmente vomitado em total consciência.
Rolei os olhos, pelo jeito eu teria que dar uma de babá com a garota. Odeio gente que não sabe beber e ainda assim o faz.
Andei em direção a garota que voltara a dançar e descer até o chão não se importando se alguém veria o que tinha embaixo do vestido.
Segurei seu braço, e se virou para mim jogando o cabelo para o lado.
- Vamos embora - gritei em seu ouvido.
- Por quê? Agora que a festa tá ficando boa - sua voz saiu arrastada e ela fez um biquinho.
- Já passou da hora. Vamos procurar a - ela me olhava de um jeito estranho e deu um grito quando um hip hop começou a tocar.
- Eu amo essa música - ela gritou voltando a se mexer desengonçada. – Vem, , dança comigo. Mexe esse corpinho lindo. Uhul - levantei uma sobrancelha e chacoalhou os braços.
- Dança comigo - ela gritou e agarrou minha camiseta me puxando para mais perto. Era só o que me faltava.
- Vamos embora, - disse firme segurando seus pulsos.
- Ah, só mais essa música - ela disse voltando a fazer um biquinho e me fez soltar seus pulsos. - Por favor? - ela mordeu o lábio inferior e passou os braços por meu pescoço. Só esperava que ela não estivesse tentando ser sexy, porque se estava, não estava nem perto de conseguir. Talvez se fosse outra garota no lugar dela, eu achasse aquilo sexy.
- Vamos embora, agora - disse enquanto tirava seus braços do meu pescoço. Segurei em seu pulso sem colocar força e saí puxando-a.
Maddox me seguia ainda se balançando desajeitadamente e até tropeçando, e ao invés de seguir com o plano inicial de procurar , mudei de direção e fui até a porta de entrada saindo com a garota para fora. Fui até o carro e o abri colocando sentada no banco do carona antes de me encostar na lateral do carro tirando meu celular do bolso.
Mandei uma mensagem para dizendo que estava a esperando no carro. parou na minha frente assim que coloquei o aparelho de volta no bolso.
- Não quero ficar sozinha - ela se aproximou demais. – Por que não fica no carro comigo? - colocou a mão no meu peito e a deslizou até meu pescoço.
Juntei as sobrancelhas encarando seu rosto, seus olhos estavam desfocados e a maquiagem um pouco borrada e ela mantinha um sorriso grogue no rosto.
- O que você está fazendo? - perguntei confuso.
- O que parece? - ela disse colocando as mãos em meu cabelo.
Não tive tempo de falar mais nada, quando dei por mim, já tinha me puxado bruscamente e sua boca estava colocada na minha. Fiquei sem ação por alguns segundos, totalmente surpreso com a sua atitude. Coloquei as mãos em sua cintura e a afastei com o máximo de delicadeza que consegui. Beijá-la estava, sem dúvida, fora de cogitação.
Não porque ela estava bêbada, simplesmente não queria beijá-la. Não tinha vontade nenhuma de beijá-la.
- O que você pensa que está fazendo? - minha voz saiu um pouco alta.
- Te beijando, ué - ela respondeu voltando a se aproximar, mas a parei ainda segurando em sua cintura.
- Para, - quase gritei.
- Por quê? Você não quer?
- Não, eu não quero - a garota não se abalou.
- Mas eu quero - ela fez outro biquinho e já estava começando a me irritar com isso. - Você é tão irritantemente bonito.
- Eu não gosto de você e não vou ficar com você - segurei em seus braços e a afastei ainda mais.
- Mas você não precisa gostar bobinho - ela riu. - Eu também não gosto de você – ela disse e deu um passo na minha direção.
Eu ia xingá-la, mas se inclinou e começou a vomitar quase nos meus pés, dei um passo para trás, mas quando vi que ela estava se inclinando demais, voltei a me aproximar. Sorte a de eu ter conseguido segurá-la antes que caísse de cara no próprio vomito.
Com algum esforço a coloquei de volta no carro e mandei uma mensagem a e o mandei levar para casa. Precisava colocar na cama antes que minha mãe voltasse da sua noite das garotas. Se ela visse naquele estado, quem ia se foder pela irresponsabilidade da burguesinha, seria eu.

...

Quando estacionei o carro na garagem, estava completamente apagada no banco, eu não sabia dizer se ela estava dormindo ou desmaiada. Talvez ela estivesse em um coma alcoólico, mas não acho que ela tenha bebido a esse ponto.
Dei a volta no carro e abri a porta do carona começando a chacoalhar pelo ombro, tentando manter a delicadeza que teria se fosse qualquer outra garota ali. Mas tudo o que vinha de Maddox eram resmungos, não teria outro jeito a não ser carregá-la no colo até o quarto.
Que maravilha, a garota não deveria ser nem um pouco leve.
Fui até a porta e destranquei deixando aberta antes de voltar para o carro, foi um pouco difícil tirar a garota de lá de dentro, mas assim que a peguei em meus braços vi que o trabalho de levá-la até a cama, não seria tão difícil.
Quando estava no meio da escada mexeu minimamente o corpo e suas mãos ameaçaram ficar firmes em minha nuca, mas não durou muito, só o suficiente para que ela levantasse a cabeça e encaixasse o rosto em meu pescoço. Acharia que ela ainda estava desacordada se seus lábios gelados não tivessem tocado meu pescoço e ficado por ali.
Congelei na escada quando senti a ponta da sua língua no meu pescoço e apertei os olhos me segurando para não deixá-la na escada ir para o meu quarto, não queria que ela colocasse a boca em mim e o fato de não poder afastá-la me deixava agoniado.
Tentei subir os degraus restantes depressa sem tropeçar e acabar rolando escada a baixo com ela no colo.
- Acho que já pode descer – disse colocando no chão, ela se agarrou ao meu pescoço e permaneci com o braço em volta de sua cintura a ajudando a ficar em pé.
- Consegue andar?
- Hum? – ela resmungou de olhos fechados.
- O que foi que você andou bebendo, garota?
- Hum – rolei os olhos e tive que segurá-la mais uma vez.
Peguei no colo mais uma vez e graças a Deus a porta do quarto dela estava aberta, fui até a beirada de sua cama e me ajoelhei no colchão para evitar jogá-la ali. Me inclinei por cima de , puxando meus braços assim que seu tronco encostou no colchão. Fiquei em dúvida se deveria esperar e me certificar de que ela não acabaria afogada em vomito, mas esse pensamento sumiu quando os braços da garota se apertaram em meu pescoço quando tentei me levantar.
Usei uma mão como apoio e com a outra tentei tirar os braços de Maddox do meu pescoço e para quem estava bêbada, ela estava um pouco forte demais.
- Me solta, garota.
- Fica aqui – ela disse e passou as pernas na minha cintura.
Arregalei os olhos, eu estava entre as pernas da , ela estava de vestido, que provavelmente estava em sua cintura àquela altura e se minha mãe chegasse naquela hora, iria cortar meu pau fora.
Fiz um movimento realmente ninja e rapidamente tirei suas pernas do meu quadril e me levantei sem me importar se iria machucá-la, estava passando dos limites. Rápido demais ela estava ajoelhada na cama e agarrava minha camiseta, porra pra quem estava bêbada, Maddox estava com ótimos reflexos. A não ser que ela não estivesse bêbada, mas ela estava fedendo a álcool.
- Fica comigo. Não quero dormir sozinha – ela fez um biquinho colando seu corpo no meu e agarrei seus pulsos.
- Melhor você deitar e dormir, – disse tentando fazer com que ela soltasse a minha camiseta. Seria fácil se eu usasse força, o que eu estava evitando por motivos óbvios.
- Deita comigo? - pediu manhosa.
- , isso é ridículo. Vai dormir vai. Amanhã eu tenho certeza que você vai se envergonhar disso - era esperado que ela ficasse pelo menos.
- Não vou, eu não me envergonho das coisas que eu quero. E eu quero você – ergui uma sobrancelha achando aquela informação interessante.
Pessoas bêbadas tendem a ser sinceras e pelo modo que a garota mordia o lábio inferior e tentava colar seu corpo no meu, ela estava sendo bem sincera e isso me fez sorrir. Até alguns dias atrás eu era um verme que vivia em um buraco e naquele momento eu poderia levá-la para a cama se quisesse.
Ela não estava com o nariz empinado e não tinha sombra daquele ar superior em seu rosto e se eu quisesse poderia fazer engolir todas as tentativas de ofensas que ela já me fez.
- Não vai rolar – seus dedos estavam frouxos em minha camiseta por ter achado eu ficaria com ela e consegui me afastar.
- Para de fugir, – ela disse um tanto irritada quase caindo da cama quando tentou me segurar.
- Para de se oferecer pra mim, Maddox - retruquei perdendo a paciência. - Eu não vou ficar com você - ela arregalou os olhos e cheguei a achar que estava magoada, se estivesse também o problema não era meu.
- Meu Deus - ela colocou a mão na boca. - Você é gay.
- Claro que não - ela parecia ter descoberto a América.
- Não precisa mentir para mim, . Não sou preconceituosa - rolei os olhos. - É um desperdício, mas se essa é sua opção... - ela deu de ombros.
- Eu não sou gay – ainda perdi meu tempo respondendo.
- A Meg já sabe? - parecia que ela nem tinha me ouvido.
- Vai dormir, - andei para a porta.
- Meu Deus, o Shrek é gay - a ouvi dizer e rir em seguida. Bati a porta do quarto sem mais nenhuma paciência, vamos ver se a hora que a bebedeira passar ela vai se lembrar de algo.
Desci as escadas sorrindo. Seria interessante lidar com a partir daquele momento.



Oito

Minha cabeça doía muito.
Parecia que alguém estava com as mãos nela espremendo com muita força até conseguir fazer um suco dos meus miolos.
Droga.
Fora a dor de cabeça eu estava morrendo de frio e percebi ser a falta de algo me cobrindo. Me sentei esfregando os olhos e quando foquei minha visão, vi que ainda usava o vestido da festa da noite anterior.
Como eu havia parado na minha cama?
Eu não me lembrava disso, não me lembrava nem de como havia ido embora. Pensando melhor, qual era a ultima coisa da qual me lembrava?
Ah, claro.
Eu tinha saído de perto de e com a desculpa de ir pegar uma bebida para dar mais privacidade a eles. Depois de algumas bebidas, tomei alguns copinhos da bebida marronzinha com gosto de doce de leite e o resto era um buraco enorme.
Me levantei indo até o armário e separei uma roupa, necessitava de um banho. Peguei minha nécessaire e marchei para fora do quarto.
Necessitava de uma aspirina também, mas não desceria enquanto não estivesse apresentável.
Antes que eu pudesse colocar a mão na maçaneta da porta do banheiro, ela se abriu e arregalou os olhos.
- Você esta horrível. Mais do que já é - ele fez uma careta e quis morrer por alguém ter me visto antes que eu tomasse um banho.
- Licença? Preciso tomar um banho - respondi mal humorada.
- Realmente precisa - ele disse e rolei os olhos, na verdade eu estava envergonhada por ele estar me vendo naquele estado, justo ele.
- Licença - pedi mais uma vez e ele saiu do banheiro e só ali notei que ele estava sem camisa.
- Ah, ? - ele chamou e me virei sem paciência para olhá-lo.
estava com o celular apontado para mim e escutei o barulho de uma foto sendo tirada.
- Só quero guardar esse momento - ele sorriu de lado e fiquei furiosa.
- Me dá isso - minha voz saiu estrangulada e fui para cima dele.
levantou os braços e comecei a pular me enroscando nele, tentando pegar o celular. Ele ria enquanto eu tentava segurar minhas coisas e pegar o aparelho em sua mão.
- Para de me agarrar - ele disse colocando a mão em meu ombro.
- Me dá isso, .
- Não - ele riu.
- É sério, me dá senão...
- Se não você vai fazer o quê?- ele sorriu mais uma vez e voltei a tentar pegar o aparelho.
- Para de ficar me agarrando, garota - falou impaciente, mas com certa diversão na voz. - Eu devo ser irresistível mesmo, está tentando me agarrar desde ontem - ele disse debochado e fiquei imóvel.
- O quê? - ele levantou a sobrancelha.
- Hum, aminésia pós-porre.
- Do que você tá falando? - perguntei um pouco alarmada demais.
- Vai lavar essa sua cara feia, pra ver se da uma melhorada nela. Se a ver isso - apontou meu rosto - vai ter pesadelos pro resto da vida - disse e saiu pelo corredor e fiquei parada por alguns segundos pensando no que ele havia dito.
Até que decidi que ele estava apenas tentando me distrair.
Me olhei no espelho e quase tive um ataque, meu rosto estava borrado de rímel e eu tinha batom até no queixo. Sobre meu cabelo prefiro não comentar. Eu estava horrenda e tinha uma foto minha daquele jeito.
Eu tinha a obrigação de pegar aquele celular, antes que fizesse alguma gracinha com a minha foto.
Depois do banho fui atá a cozinha e comecei a vasculhar as gavetas atrás de uma aspirina ou qualquer outra coisa que fizesse minha cabeça parar de doer. Eu não sabia nem se Megan guardava remédios na cozinha.
- Está procurando o quê? – perguntou abrindo a geladeira.
Ele vestia um moletom azul e um gorro na cabeça.
- Aspirina – respondi tirando meus olhos dele, mas percebi se aproximar muito.
Ele parou com o corpo quase colado no meu e esticou o braço abrindo uma porta do armário acima da minha cabeça.
- Minha mãe guarda os remédios lá no alto, longe do alcance de crianças, por mais que ela não tenha mais nenhuma em casa – ele disse enquanto ficava quase na ponta do pé para pegar uma caixa.
abaixou o rosto na direção do meu e ficou muito perto, ele estava incrivelmente cheiroso.
- Obrigada – eu disse e tratei de olhar para a caixa em cima da bancada.
- Uh, ela sabe agradecer – ele disse debochado e permaneceu perto de mim, tão perto que me deixou nervosa.
Tão nervosa que minhas mãos estavam levemente tremulas.
Que merda estava acontecendo?
- Dá para você se afastar? – eu disse e por reflexo coloquei minha mão em sua barriga para afastá-lo. Era incrivelmente firme.
Arregalei os olhos e recuei minha mão voltando a prestar atenção na caixa.
Meu corpo ficou rígido quando senti a respiração do garoto bater em minha orelha.
- Engraçado, ontem você estava me querendo muito perto – ele disse baixo e riu.
Fechei meus olhos e apertei a embalagem do remédio que estava em minha mão. Ele não ia conseguir fazer aquilo comigo.
- Não sei do que você está falando – eu disse e finalmente achei a aspirina.
- Eu acho que sabe – falou mais uma vez debochado e deu um largo passo para trás.
Eu ia questioná-lo pra saber exatamente o que tinha acontecido noite passada, mas assim que abri minha boca, Megan entrou na cozinha.
- Bom dia, crianças – cumprimentou sorridente colocando uma cesta em cima da mesa.
- Bom dia – respondemos juntos e Meg deu um beijo em .
Fui até a pia e peguei água para engolir a aspirina e quando me virei para os dois novamente, Megan estava colocado algumas coisas dentro da cesta, desde bolo a frutas.
- Você podia me deixar ir na casa do disse fazendo uma expressão bonitinha para Megan.
- Você ainda está de castigo, o trato foi uma semana a menos.
- Mas eu fui para uma festa ontem – ele disse abrindo bem os olhos e foi aí que reparei que estava reparando demais nele.
- Mas foi uma condicional para que você cuidasse das meninas.
- Então estica minha condicional para ir a casa do , afinal, ontem eu passei a noite toda de olho nas meninas – ele deu um sorrisinho fechado para Megan que me faria ceder no mesmo minuto se estivesse no lugar dela.
- Ok, condicional estendida, mas quero você em casa antes das seis – ela disse com um sorriso gentil. – Me ajude a levar isso para o carro.
- Meg, tem falado com o meu pai? – me aproximei da mesa e notei que ela tentou parecer relaxada.
- Você ainda não conseguiu falar com ele? – ela não me olhou, mas sentia os olhos de em mim.
- Não e você disse que diria a ele para me ligar – ela colocou um pano em cima da cesta e me olhou.
- Vou falar com ele, prometo – ela pegou a cesta e deu na mão de . – Tem lasanha no forno, devo voltar depois das seis, se comportem – ela disse antes de sair pela porta da cozinha sendo seguida por .
Fiquei levemente curiosa para saber onde ela estava indo, mas decidi que se eu não estava incluída em suas atividades, elas não me interessavam. Mas o celular que deixou em cima da mesa me interessava muito.
Praticamente pulei em cima da mesa agarrando o celular com força, eu precisava me livrar da foto infeliz que ele tinha tirado de mim há poucos minutos. Nem me liguei de que estava segurando um iPhone muito mais moderno que o meu de tanto nervoso. Fui até a pia ficando de costas para a porta para ter mais tempo para me livrar da foto e apertei o botão que acendia a tela. E tudo que vi na minha frente foi a tela de bloqueio com senha.
Eu tentaria de tudo, mesmo que travasse a merda do celular. Se isso acontecesse estava valendo também, assim minha foto jamais sairia dali.
- Coisa feia mexer nas coisas dos outros. – disse bem perto do meu ouvido enquanto puxava o celular de minha mão.
Me virei em sua direção ainda na esperança de ficar com o aparelho, mas ele já estava longe.
- Você pode, por favor, apagar aquela foto? – fiz algum esforço para soar o mais educada possível.
- Não – curto e grosso.
- O que você quer em troca da maldita foto, ?- ele deu um sorriso maldoso.
- Não sei, acho que fico satisfeito em guardar a foto, ela pode me ser útil – ele deu de ombros.
- Anda, me diz o que é? Todo mundo tem um preço – tentei assumir uma postura firme e o sorriso em seu rosto sumiu.
- Apesar de achar que você ia adorar, eu não quero me aproveitar de você e acho que mesmo que eu tivesse um preço, você não tem dinheiro para pagar – ele deu de ombros.
- Idiota, só nos seus sonhos eu iria querer algo com você – ele rolou os olhos.
- De qualquer forma, eu não vou apagar a foto. Mas já que você deu a ideia, vou pensar em algo que você possa fazer para que a única pessoa a ver essa foto seja eu – ele sorriu e levantou as mãos na altura do ombro. – E não se anime, não vou pensar em nada que envolva eu e você em uma cama juntos ou trocando bactérias por saliva – ele piscou e senti minha auto-estima cair muitos níveis.
Não estava acostumada a ser “rejeitada” por garotos e, foi muito mais incomodo do que eu poderia achar, ser rejeitada por .

...

Bati na porta do quarto de assim que saiu de casa.
Precisava saber o que tinha acontecido noite passada que havia deixado tão esquisito e tão... Próximo. Como se soubesse que aquela proximidade iria me deixar nervosa, só para logo depois me rejeitar, deixando bem claro que não queria nada comigo. E Deus sabe que, apesar de tudo, eu pegaria .
Precisava de ajuda também para recuperar a foto, com a nova ameaça de , tinha certeza de que ele usaria a foto para me humilhar um pouco mais.
- Posso entrar? – coloquei a cabeça para dentro do quarto, e ela me olhou sorrindo.
- Claro – ela se sentou na cama deixando um livro de lado.
- Eu queria conversar um pouco – sorri fechando a porta e indo até sua cama.
Os olhos de brilharam e sabia que ela me contaria em detalhes sobre a festa e . Eu ouviria com paciência, se ela me escutasse primeiro.
- Eu estou com uma coisa na cabeça – disse me sentando em sua cama.
- O quê?
- Bom, eu não me lembro o que aconteceu ontem depois que saí de perto de vocês. – arregalou os olhos.
- Como assim não se lembra, ? – perguntou alarmada e fiquei com medo de que começasse um escândalo.
- Eu me lembro de ter tomado uma bebida com gosto de doce de leite e depois disso as coisas ficam meio confusas até desaparecerem totalmente – expliquei abaixando a voz para ver se ela fazia o mesmo.
- mandou uma mensagem dizendo que era para eu vir com o , porque você e ele estavam vindo na frente – mordi a bochecha tentando juntar as informações que eu tinha.
- E ele não disse mais nada? – ela juntou as sobrancelhas.
- Não, quando eu cheguei perguntei por você e ele disse que você já estava dormindo, que não estava se sentindo muito bem.
- Hum, eu acho que tomei um porre – passei as mãos pelo cabelo nervosa. A unica coisa que se passava pela minha cabeça era que eu tinha ficado com .
Mas porque raios eu não me lembrava desse detalhe tão importante?
- Foi seu primeiro? Eu nunca tomei um porre.
- É, foi meu primeiro. Não imaginei que aquelas bebidas docinhas de ontem tivessem tanto teor alcoólico – expliquei enquanto ela só concordava com a cabeça.
- O não deveria ter te deixado beber – ela disse pensativa e rolei os olhos.
- Qual é, ? Sou bem grandinha e posso me responsabilizar pelos meus atos, seu irmão não é minha babá e nem quero que seja. Quem bebeu fui eu e ele não tem culpa – por mais estranho que fosse “defender” aquele ogro, eu estava sendo apenas sincera.
Mas eu ainda precisava saber o que tinha acontecido depois que ele me levou embora. E pelo visto era o unico que sabia e eu estava com certo receio de perguntar a ele e depois da informação de que tinhamos voltado sozinhos da festa, estava até com um pouco de medo de saber.
- Certo, certo - ela chacoalhou as mãos. - Me conta, se interessou por alguém da festa ontem?
- Eu acabei de dizer que não me lembro de nada - eu nem havia reparado naquelas pessoas a não ser nos amigos de .
- Verdade - ela mordeu o lábio inferior e suspeitei que ela quisesse falar sobre sua noite.
- E como foi com o ? - perguntei surpreendentemente curiosa.
- Ah, foi boa - ela deu de ombros sorrindo. - Foi como eu sempre imaginei, sabe? - e ali começou um monologo quase interminável, mas muito interessante e até engraçado.
- Eu nunca imaginei que o Shrek fosse deixar você e o sozinhos - disse quando ela me contou do beijo quase casto que deu nela quando a deixou em casa.
- Ah o é amigo dele, nem imagina que rolou algo. - falou quase ingenuamente e dei uma risadinha sarcástica.
- Você realmente acha que seu irmão ainda não percebeu o modo como você e se olham, ou o modo como agem perto um do outro? - para mim era bem obvio que os dois se gostavam e tinha a leve impressão que para as outras pessoas também.
- Você acha que ele percebeu alguma coisa? - perguntou alarmada.
- Para mim essa coisa que rola entre vocês é bem obvia e pelo jeito como seu irmão observa vocês, acredito que seja para ele também - dei de ombros.
- Isso não é bom - ela começou a roer uma unha.
- Se fosse ruim, vocês não teriam ficado ontem. Mudando totalmente de assunto, mas continuando falando do inútil do seu irmão. Preciso de ajuda.
- Em quê?
- Primeiro preciso saber se você esta disposta a conspirar contra o ? – ela juntou as sobrancelhas. – Não é nada demais.
- Certo, o que está pegando? – pessoas da classe C e suas gírias.
- Seu irmão tem uma foto muito comprometedora da minha pessoa e eu preciso dela de volta ou que ela seja eliminada. – arregalou os olhos.
- Que tipo de foto? – pela cautela e expressão em seu rosto, soube que estava pensando besteira.
- Uma em que eu estou horrorosa. Eu estava com o rosto todo borrado hoje de manhã, com batom até na orelha e ele tirou uma foto, . Se ele espalhar essa foto, vou morrer solteira porque ninguém vai me querer – meu lábio inferior tremeu levemente e sua expressão se encheu de compaixão.
- O nunca espalharia sua foto, – ela segurou minha mão. – Já tentou pedir a foto para ele?
- Seu irmão não gosta de mim – ela concordou com a cabeça, nossa, estava realmente na cara que não gostava de mim. – Já pedi a foto e ele não quer me dar. Como minha amiga, você tem que me ajudar a pegar a foto de volta – os olhos da garota brilharam.
- Onde está a foto? – ela perguntou com firmeza na voz.
- No celular dele, que tem senha – eu disse desanimada.
- Tenho quase certeza de que senha é, só precisamos do celular – abri um dos maiores sorrisos da minha vida e omiti o fato de que se ela não soubesse a senha eu tentaria o que viesse em minha cabeça só para travar o celular de .
- Você já almoçou? – ela perguntou se levantando e calçando os chinelos.
- Ainda não, estou um pouco enjoada – disse fazendo uma careta.
- Vem, vamos comer. Vai ser bom você comer algo, e tem sorvete pra a sobremesa – ela disse me puxando pela mão.

...

Minha tarde ao lado de se resumiu em comer e ver tv, eu precisava voltar a correr ou logo, logo estaria acima do peso.
A porta da sala bateu e não demorou muito para se jogar no sofá livre como ele fazia todas as vezes que pisava naquela sala e enquanto observava seu perfil comecei a pensar em todas suas atitudes naquela manhã. Eu precisava saber exatamente o que tinha acontecido noite passada, mas por mais esforço que eu fizesse, nada além de um imenso borrão preto me vinha a mente.
Tentei até refazer meus passos pelas lembranças, mas nada de muito relevante me vinha a cabeça. Se um dia eu cheguei a duvidar de uma amnésia pós porre, agora eu tinha absoluta certeza que isso realmente existia.
Talvez fosse melhor que eu não me lembrasse mesmo, talvez fosse tão ruim que eu me arrependeria de tanto esforço para lembrar.
tirou o gorro da cabeça e enfiou os dedos em seus cabelos que estavam secos e bagunçados. Seus dedos se mexiam como se ele estivesse fazendo cafuné em si mesmo e isso me fez suspirar sem nem perceber, eu poderia fazer carinho na cabeça de se ele pedisse. Talvez eu até tivesse feito noite passada, por Deus, se eu realmente fiquei com eu tinha que ter enfiado meus dedos em seus cabelos, seria inadimissivel que eu não tivesse feito.
Precisava admitir que era exatamente o meu tipo, se eu o visse na rua olharia duas, três vezes para ele, por que eu estava pensando naquilo, afinal?
Não era como se houvesse alguma possibilidade de acontecer alguma coisa entre mim e , até porque eu nunca admitiria em voz alta que eu ficaria com ele.
Mordi o lábio inferior colocando meus olhos na tv, eu não podia ficar pensando aquelas coisas. Nós certamente não tinhamos ficado, ele nem gosta de mim e eu também não gosto dele. Não é?
É, eu não gosto, definitivamente não gosto. É impossivel gostar de alguém em tão pouco tempo. Mesmo ele sendo bonito, cheiroso e gostoso. O máximo que eu poderia sentir era uma atração fisica, certo? Certo.
- ? ? - estalou o dedo em frente ao meu rosto e notei que estava distraída demais com meus próprios pensamentos e com os olhos focados na cabeleira de .
- Oi? – olhei para seu rosto.
- Você quer ir tomar banho primeiro? – juntei as sobrancelhas sem entender. – Todos os domingos nós vamos comer fora e a mamãe já deve estar chegando.
- Ah, pode ir na frente – sorri e ela se levantou saindo da sala em seguida.
não mexeu um músculo e me perguntei o que eu ainda estava fazendo ali, não tinha interesse nenhum no que estava passando na tv e tinha plena certeza de que eu e o garoto que ainda acariciava os cabelos, não iríamos bater um papo. Então me levantei e saí da sala indo até meu quarto, já que iríamos sair , iria gastar meu tempo escolhendo uma roupa.
Me lembrei que tinha que devolver o sapato de quando separei um peep toe para calçar. Olhei embaixo da cama e não o achei e não me lembrava onde tinha deixado o sapato.
Coloquei a mão na cintura esfregando a testa enquanto olhava ao redor tentando inutilmente encontrar o sapato e me toquei de que havia me dito que havia me levado para casa.
Desci as escadas rapidamente,como a sala estava vazia, fui direto para a cozinha. Eu precisava achar o sapato de antes que ela soubesse que o perdi.
- ? – chamei assim que o vi de costas para a porta, eu ia continuar falando, mas as palavras ficaram entaladas na minha garganta quando ele se virou de frente para mim.
Seus cabelos estavam muito mais bagunçados do que quando alguém acaba de acordar e ainda estava com a garrafa de água na boca, e um biquinho em seu rosto. Ele era lindo.
O garoto levantou uma sobrancelha me questionando e tive que olhar para qualquer outro ponto da cozinha para conseguir falar qualquer coisa coerente.
- Cadê meu sapato?
- E como é que eu vou saber? – ele respondeu meio estúpido.
- Você não viu onde eu o deixei, a gente voltou da festa juntos, não foi? – disse e tive que olhar rapidamente para seu rosto. deu aquele meio sorriso que me fazia ficar em duvida entre sair correndo ou grudar minha boca na sua.
- Uh, eu sabia que você se lembrava exatamente das coisas que aconteceram ontem.
- Se eu me lembrasse de alguma coisa, saberia onde o sapato está – respondi grossa cruzando os braços.
- Você jogou ele em algum canto da sala na festa – ele deu de ombros e sorriu satisfeito enquanto eu arregalava meus olhos.
- Você tem o telefone da dona da casa?
- Se eu tiver, te daria por quê?
- Porque eu preciso recuperar o sapato.
- O sapato já era, se ninguém levou embora, deve ter ido para o lixo – andei de um lado para o outro mexendo nos cabelos.
- Quando achamos uma coisa que não é nossa, devemos procurar o dono. Não levar para a casa ou jogar no lixo – disse desesperada.
Eu nunca tinha emprestado um alfinete de alguém e na primeira vez que empresto algo, o perco.
- Querida, tinha um monte de gente desconhecida naquela festa. Acha mesmo que ninguém pode ter levado seu sapato? - abri a boca e fechei.
Ia dizer que isso só acontecia no subúrbio, que se fosse de onde eu vim eu teria o sapato de volta, mas engoli as palavras. Não era totalmente verdade, talvez eu não tivesse mesmo o sapato de volta, e eu sabia que se ofenderia com o que eu ia dizer e surpreendentemente, eu estava preocupada demais se ele se importaria ou não.
- O que eu vou fazer?
- Fala sério, aposto que você tem mais sapatos do que pode contar – ele debochou.
- O sapato é da .
- Agora ela aprende a não emprestar as coisas dela para os outros, ainda mais pra alguém tão irresponsável – ele disse e saiu da cozinha.
Eu tinha que fazer alguma coisa, só não sabia direito o quê.
Eu podia perguntar a Laura na escola se ela tinha achado o sapato, se tinha mesmo o perdido, teria que dar um jeito de dar outro para e enquanto isso ela não precisava saber do meu pequeno problema.

...

Duas pizzas estavam sobre a mesa na qual nós estávamos sentados no Domino’s, sem duvida a melhor pizzaria do planeta.
Megan e seus dois filhos conversavam sobre tudo o que eu não imaginava que pais e filhos conversavam. E tinha sido assim desde que saímos de casa depois que Megan chegou e tomou um banho rápido e se trocou ainda mais rápido.
Confesso que estava me sentindo totalmente deslocada e até um pouco melancólica, não conseguia me lembrar qual foi a ultima vez em que eu e papai havíamos conversado de verdade nos últimos anos.
Meg tinha total atenção dos seus filhos e eles tinham a dela, e me peguei pensando se seria assim se mamãe estivesse viva.
Eu sabia que sim, nossos piqueniques nas manhãs de sábado eram uma das únicas coisas que me lembrava sobre ela.
- E a sua semana, ? – Megan perguntou e eu não sabia o que dizer.
Diria que foi um inferno?
- Foi normal, nada de muito emocionante – dei um sorriso que achei ser simpático o suficiente e cutuquei o pedaço de pizza no meu prato, me sentindo sem graça com o silencio que pairou na mesa. Silencio que foi quebrado por logo em seguida.
Eles continuaram a conversar entre si e às vezes e Meg tentavam me incluir na conversa, mas após duas ou três palavras minhas, eu estava fora de qualquer assunto que eles poderiam ter.
Isso era meio triste na verdade, você está ali, mas é como se não estivesse ou como se você fosse insignificante. E eu nunca me senti daquela maneira, ainda mais quando estava rodeada de pessoas de uma classe inferior a minha. Eles deveriam se sentir insignificantes em minha presença e não o contrário.
Mas a verdade é que estava me sentindo tão deslocada que isso estava me fazendo mal, aquele não era o meu lugar. Tudo o que eu queria era me esconder no meu quarto, me afundar nas cobertas e ler algum romance.
Mas não foi para a casa que eu fui, foi para a casa de Megan que não tinha nem um terço do conforto que estava acostumada. Não tinha as pessoas que eu estava acostumada a ter ao meu redor.
Por isso quando chegamos em casa, a saudade que sentia de meu pai foi esmagadora e eu sequer sabia do que sentia saudade. Não era diferente de todas as outras noites de domingo, ou todas as outras noites de todos os dias da semana. A única diferença era a casa em que eu me sentia sozinha.
Meg colocou só a cabeça para dentro do quarto quando deu duas batidas e resmunguei qualquer coisa para que abrisse a porta.
- Hey, tenho algo para você – ela disse ainda com aquele sorriso feliz que não saía do seu rosto desde que estávamos na pizzaria.
- O que é? – deixei a escova de lado, mas não me levantei da cama.
- É do Patrick – ela disse erguendo um envelope branco enquanto caminhava em minha direção.
- Porque ele não me liga? – disse agarrando a carta.
- Eu não sei – ela disse, mas seus olhos diziam o contrario.
- Certo – disse e esperava que ela me desse privacidade.
- Se quiser escrever algo para ele, é só me entregar que eu mando – ela disse e concordei com a cabeça.
- Megan? – chamei e ela parou na porta. – Você esteve com meu pai?
- Não – ela sorriu e concordei sabendo que ela estava mentindo. A carta não era endereçada, só não sabia por que ela estava mentindo.
Esperei Megan sair do quarto e abri o envelope tirando a folha simples de caderno que estava dobrada. Assim que a desdobrei, reconheci a letra do meu pai.
Não estava tão caprichosa quanto de costume e estava até um pouco tremula, mas sem duvidas havia sido meu pai quem escrevera aquela carta.

“Oi, querida.
Como você está? Espero que esteja tudo bem.
Acho que daqui algumas semanas já estarei de volta, nós teremos que conversar sobre algumas coisas.
Espero que tenha feito amizade com os filhos da Meg, são ótimos. é um ótimo garoto e acho que vocês se deram bem, não?
Espero que tenha se adaptado a nova escola. Amo você.
Papai.”

A carta era crua, como se ele só tivesse a escrito para me dar uma resposta a todas as ligações fracassadas e não tivesse sumido há alguns dias, como se não tivesse sentido a minha falta.
Parecia até que tinha se referido a com mais afeição que a mim.
Uma lagrima caiu na pequena carta em minha mão, eu não queria chorar e não queria pensar no que eu já tinha ouvido falar sobre meu pai em relação a mim, mas com a menção do garoto na carta era impossível não imaginar que ele poderia saber muito mais sobre a minha vida do que eu gostaria.
Chegar a essa conclusão fez com que me perguntasse se eu estava sentindo falta do meu pai até aquele momento, ou se tudo o que eu buscava com as ligações fracassadas a ele, fosse a certeza de que eu voltaria a ter todo o conforto que ele me proporcionava.
Essa conclusão conseguiu me entristecer ainda mais.
Eu não tinha a ligação com meu pai que achei que tinha a minha vida toda.
Eu nem sabia onde ele estava e ele não fazia questão de dizer.
Eu nunca tive duvidas de que dinheiro traz felicidade e estava vivendo um momento na minha vida em que tinha todas as provas disso.
Se Patrick não tivesse perdido nosso dinheiro eu não teria tempo de sentir a falta dele, estaria muito ocupada com a quantidade de peças disponíveis do lançamento de alguma grife, escolhendo o restaurante em que iria jantar com meus amigos, escolhendo o estilista que faria meu vestido pro baile de formatura, escolhendo o meu presente de formatura.
Mas Patrick perdeu tudo e tudo o que eu tinha para ocupar meu tempo era pensar que estava morando na casa de uma família que eu não conhecia, mas que pareciam íntimos do meu pai, pensar que essas pessoas sabiam onde ele estava e eu não. Megan não só sabia, como tinha estado com ele.
Tudo o que eu conseguia pensar era que meu pai não queria me ver e eu não fazia ideia do motivo.
Então tudo era verdade?
Tudo o que tinha dito a mãe dele era verdade ? Tudo o que papai queria era me manter afastada já que ele não tinha mais dinheiro para ocupar meu tempo?
Eu poderia confrontar Megan, mas eu tinha absoluta certeza de que ela não me contaria nada, já era outra historia.
E eu faria qualquer coisa para que me contasse tudo o que sabia.



Nove

Eu tinha um plano naquela manhã.
E o plano era arrancar toda a verdade que sabia sobre o paradeiro do meu pai, qualquer que ela fosse.
Na minha cabeça parecia tudo muito fácil, eu só precisava pressioná-lo e ameaçá-lo até que ele me contasse toda a verdade. Mas eu sabia que a realidade seria muito diferente.
- ? A gente pode conversar? - perguntei parando ao lado do seu armário, ele me olhou de cima a baixo e tirou um livro que, pela capa, reconheci como sendo de literatura.
- O que você quer? - eu não sabia porque ainda me surpreendia com a grosseria daquele garoto.
- É particular e vai levar mais que alguns minutos.
- Ah não vai dar, eu tenho aula - ele levantou uma sobrancelha e bateu a porta do armário.
- Por favor, literatura nem é tão importante - eu estava me controlando para não começar a gritar com ele.
- Eu não vou matar aula pra conversar com você - ele disse e se virou para me deixar ali, mas agarrei seu braço.
- É muito importante mesmo. - fechou os olhos respirando fundo e quando os abriu olhou da minha mão para meu rosto.
- Eu duvido muito que o que é importante para você, é para mim. Ainda mais ao ponto de matar aula - ele disse e puxou o braço. - E não toque em mim sem a minha autorização.
- Ok, mas a gente pode conversar depois? - perguntei soltando seu braço.
- Vou pensar no seu caso. - deu uma piscadinha e se virou disparando pelo corredor.
Eu sabia que não seria fácil, mas também não esperava encontrar tanta hostilidade vinda dele. Me virei no corredor e vi Laura mexendo em seu armário, talvez fosse uma boa hora para perguntar sobre o meu sapato. Me aproximei da menina magrela e parei ao seu lado.
- Oi, Laura. - disse sorrindo amigavelmente.
- Oi.
- Você por um acaso achou um par de sapatos de salto azul na sua casa depois da festa? - a garota fechou o armário e se virou para mim.
- Não, não achei nada - ela sorriu falsamente.
- Se você achar pode me dizer? - dei meu melhor sorriso falso, já que era assim que ela queria.
- Claro, querida - ela disse e tocou meu ombro antes de me deixar sozinha.
Ali eu tive absoluta certeza de que nunca mais veria aquele par de sapatos.
Tudo o que me restava era ir para a minha aula e arrumar um jeito de conversar com sem que Megan desconfiasse de alguma coisa. Eu sabia que ela tinha autoridade o suficiente sobre o filho para o proibir de me dizer qualquer coisa.
"Podemos conversar na hora do almoço?"
Joguei o bilhete na mesa de que ainda se sentava ao meu lado na aula de filosofia, a professora Margareth tinha a estranha mania de exigir que todos os alunos se sentassem sempre no mesmo lugar.
"Não." Reprimi a vontade de amassar o papel e jogar na cabeça de .
"Por quê?"
"Eu podia dizer que é porque eu vou comer, mas é porque eu não quero mesmo conversar com você."
"Qual o problema em conversar comigo?"
Eu tinha que ter paciência se quisesse conversar com ele."Eu geralmente não tenho paciência pra gente chata, mas eu acho que você já percebeu isso." Bufei batendo a mão de leve sobre a mesa.
"É um assunto do seu interesse."
", princesa, entenda que nada que venha de você me interessa. Agora para de mandar essas porras desses bilhetes estúpidos e chatos."
Eu li aquele bilhete do jeito que diria."Quero saber onde está meu pai e eu sei que você sabe." Resolvi que seria direta, mesmo que estivéssemos conversando por bilhetes.
Observei o garoto abrir a folha com raiva, quase a rasgando e juntar a sobrancelha enquanto lia. Ele fez um gesto com as mãos como se perguntasse "o quê?". Parece que eu tinha conseguido chamar sua atenção.
- Vocês querem compartilhar comigo e com a turma o que de tão importante estão discutindo, senhor e senhorita Maddox? - se virou para frente assim que escutou a voz da professora.
- Não, nós não queremos. Até porque não é da conta de ninguém - eu disse cruzando as mãos em cima da mesa enquanto sorria simpática.
- Maddox. - rosnou em minha direção e eu vi Margareth ficar vermelha.
- Realmente suas vidinhas fúteis não me interessam, senhorita Maddox - ela disse indo até a porta a abrindo. - Por isso exijo que os dois se retirem da minha aula, podem passar na sala do diretor Calvin - rolei os olhos e comecei a juntar minhas coisas.
- Senhora Roberts, foi ela quem começou a me perturbar com bilhetinhos. - resmungou.
- Não me interessa quem começou, os dois para fora. Depois da aula vou pessoalmente averiguar se passaram na sala do diretor - eu já estava de pé, eu nem gostava daquela mulher. - E se não passaram, vou suspender os dois - ela disse com um sorrisinho satisfeito naquele rosto feio.
juntava suas coisas com raiva e saiu marchando da sala de aula. Aquela era minha chance de conseguir conversar com ele.
- , espera - corri tentando alcançá-lo, ele parou se virando bruscamente.
- Viu o que você fez? - perguntou estúpido.
- Você liga? Essa aula é um porre - rolei os olhos.
Ele balançou a cabeça e voltou a andar apressado fazendo com que eu quase corresse para acompanhá-lo.
- E então? Você vai me falar onde meu pai está? - ele continuou calado. - Você pode me responder? Eu sei que você sabe onde meu pai está - ele virou em um corredor e continuou a andar me ignorando completamente.
- Você é muito mais mal educado do que eu imaginava, não é nada elegante deixar uma dama falando sozinha, - eu dava pequenas corridinhas para conseguir acompanhar o garoto. - Você está bravo por ter sido expulso da aula? Se me disser onde meu pai está e tudo o que você sabe, eu falo pra bruxa que a culpa é toda minha. - parou de andar bruscamente mais uma vez e se virou para mim com o rosto levemente vermelho e as veias do pescoço saltadas.
- Dá pra você calar a boca? Você diz que eu fui mal educado, mas você não tem a mínima ideia do que essa palavra significa. Não sabe porque nunca recebeu educação, a professora Margareth não é bruxa e você devia ter mais respeito com alguém mais velho que você.
- Onde está meu pai? - ignorei todo seu discurso e ele rolou os olhos. - É tão simples, é só me dizer onde ele está e eu paro de te perturbar.
- Que bom que você sabe que perturba, mas ainda assim é inconveniente.
- Você sabe onde ele está, não sabe? - ele deu um sorrisinho mínimo.
- Você realmente não tem nenhuma ideia de tudo o que aconteceu fora da sua bolha da felicidade nos últimos, sei lá - ele deu de ombros -, três anos? - arregalei os olhos.
Três anos passam muito rápido, mas ainda assim é muito tempo.
- Sério? Eu nunca achei que a expressão "além do próprio umbigo" faria tanto sentido algum dia pra mim - ele disse fazendo um biquinho e balançando a cabeça afirmativamente.
- Onde ele está?- perguntei tentando parecer firme e não demonstrar meu nervosismo.
- Não fale comigo como se mandasse em mim, não sou seu empregado para receber ordens.
- Mas você sabe, o que custa me dizer? - cruzou os braços.
- Você sabe como é a sensação de querer muito uma coisa e não ter?
- Não, eu sempre tenho tudo o que eu quero – falei e ele sorriu
- Bom, a sensação é essa. Comece a se acostumar com ela.
- , por favor, eu preciso saber onde meu pai está. O que aconteceu, eu nem sei como nós... - engoli em seco, era difícil dizer aquilo. - Como nós falimos. Eu faço o que você quiser se me disser o que sabe.
- Acontece que se eu quiser alguma coisa sua, eu não preciso te dar o que quer. Até porque eu tenho uma foto sua bem interessante no meu celular - ele sorriu cínico.
A maldita foto, com tudo o que tinha acontecido naquele domingo, me esqueci dela.
- E por que você acha que eu me importo com isso? - quem sabe se eu mostrasse desinteresse, ele até apagasse a foto.
- Fora o seu desespero tentando pegar a foto, ao ponto de tentar me escalar? Eu tenho certeza que você é fútil o suficiente para abominar que alguém veja aquela foto além de mim - ele riu e se virou dando dois passos, mas parou se virando novamente em minha direção.
- É bom que você invente uma historia muito boa para o diretor que me livre da culpa de ter sido expulso da sala de aula - ele disse em tom de aviso.
- Ah é, e por que eu faria isso? - cruzei meus braços erguendo o queixo.
- Porque eu tenho o numero de telefone desse colégio inteiro. Uma das vantagens em ser o melhor atacante do time - ele deu de ombros. - E se não fizer o que estou mandando, o colégio inteiro vai ter visto a sua foto, antes mesmo que saia da sala do diretor - ele abriu um sorriso contente e saiu pelo corredor.
Eu estava ferrada.

...

Eu estava olhando para o homem que olhava para com interesse.
Por Deus, quando a professora nos mandou para a sala do diretor, eu imaginei um cara de óculos, baixinho e barrigudo. Não um homem que tinha por volta dos trinta anos, um maxilar quadrado com a barba rala e que parecia ter acabado de sair de um comercial de cuecas.
- , eu estou muito surpreso em te ver aqui. O que aconteceu? - o diretor perguntou e percebi que a voz dele fazia jus a toda sua beleza.
- Foi um mal entendido. - disse e o diretor sedução olhou para mim.
- É, foi um mal entendido com a professora Margareth. Eu...- eu não sabia mais o que falar, não com aqueles olhos acizentados olhando para mim cheios de interesse.
Cheguei a ficar levemente sem graça.
- Na verdade, a senhorita Maddox começou a me mandar bilhetinhos românticos no meio da aula. - disse e arregalei os olhos. - Eu juro, senhor Calvin, que eu tentei fazer ela parar, mas a professora viu antes. Ai a Maddox respondeu a professora e aqui estamos nós - eu queria matar .
- A senhorita respondeu um professor, senhorita Maddox? - voltar a olhar para o professor, dessa vez um tanto assustada com seu tom de voz.
- Eu estava nervosa, ela queria que eu dissesse para toda a turma o que tinha no bilhete - fiz uma expressão sofrida e tive que "admitir" indiretamente que o conteudo dos bilhetes era romântico, mesmo não sendo.
- Vocês sabem que não podem receber advertências se quiserem uma bolsa na universidade, não é? - hunf, até parece que eu precisaria de uma bolsa.
- Eu sei, mas eu juro que a culpa foi dela. Nós não somos amigos, ela me persegue. Tem alguma possibilidade de eu conseguir um mandado de restrição contra ela na escola? - o diretor riu e abri minha boca ultrajada. estava começando a exagerar.
- Eu espero que isso não se repita, porque se acontecer de novo, vou ter que advertir vocês. Se mandem - o diretor disse e se levantou.
- Não vai mais acontecer - ele disse para o diretor e me levantei seguindo para a porta, e antes de sair dei uma ultima olhada no diretor sedução.
Talvez algumas visitas à sala do diretor não fossem ruins.
- Mandado de restrição? Você se acha, até parece que ele acreditou em alguma palavra do que você falou lá dentro - resmunguei.
- Metade das garotas dessa escola me amam, então sim, ele acha que você é uma delas.
- Até parece que uma garota como eu iria querer algo com você - disse erguendo o queixo mesmo que não estivesse vendo.
- E eu agradeço todos os dias por isso. Agora para de me seguir - ele disse e virou em um corredor qualquer.
Eu estava muito irritada com tudo.
não estava disposto a me dizer tudo o que eu queria saber sobre meu pai, ele tinha uma foto minha em seu celular e a foto não era nada sexy. E para completar o pacote, eu tinha que contar a que tinha perdido seus sapatos.

...

Lidar com seria fácil, ou pelo menos eu esperava que fosse.
Eu não tinha dinheiro para dar outro sapato a ela, mas tinha uma infinidade de marcas no meu quarto e ela poderia escolher qual quisesse.
Esse seria o preço que eu pagaria por ter perdido algo que não era meu, porque se eu tivesse ido com algum sapato meu, seria algo meu que seria perdido e isso tinha muita lógica na minha cabeça.
- Hey, pode vir comigo rapidinho? – apanhou a taça de sorvete em cima da mesa e me seguiu até o quarto.
Eu tinha arrumado todas as caixas de sapatos pelo quarto com um dos pares em cima de cada caixa para que ela pudesse escolher um.
parou no meio do quarto com a confusão estampada em seu rosto e comecei a falar antes que ela me perguntasse o que estava acontecendo.
- Eu estou tão envergonhada em ter que te dizer isso, . Eu nunca emprestei um lápis de alguém e quando emprestei, eu perdi – ela arregalou os olhos. – Eu perdi seu sapato, eu sinto muito. Eu tirei ele para dançar, eu acho, eu nem me lembro o que aconteceu. Deixei ele na casa da Laura e ela me disse que não sabe dele – disparei a falar e garota somente me olhava. – Pode me chamar de irresponsável.
- , respira – ela disse colocando a mão em meu ombro. – Está tudo bem – ela disse, mas eu vi em seus olhos que não estava tudo bem.
- Olha, você pode escolher qualquer sapato – gesticulei com os braços os sapatos espalhados pelo quarto e seus olhos brilharam.
- Até parece, . Não precisa me dar um de seus sapatos.
- Eu perdi seu sapato, faço questão que escolha outro para substituir – com certeza cada sapato ali valia o triplo do sapato que eu havia perdido, mas eu não tinha dinheiro para comprar outro.
- Tem certeza? – ela mordeu o lábio inferior, deixando a taça de sorvete em cima da mesinha de cabeceira.
- Absoluta, pode escolher qualquer um – disse sorrindo, mas por dentro estava morta de medo que ela escolhesse algum dos meus pares favoritos.
Droga, eu devia ter tirado meus favoritos dali.
andou de um lado ao outro passando os olhos por todos os sapatos, até que se abaixou pegando um Jimmy Cho.
- Posso ficar com esse? – suas bochechas estavam vermelhas e seus olhos brilhantes. Brilhantes de um jeito que eu não me lembrava já ter visto antes.
- Pode – sorri aliviada por não ser um favorito e a garota sorriu de verdade, um sorriso lindo e enorme. Daqueles que te dá vontade de sorrir também.
Senti algo estranho.
Eu nunca tinha colocado um sorriso como aquele no rosto de alguém. A única pessoa da qual eu me lembrava que sorria daquela maneira, era minha mãe. Desde sua morte, nunca mais vi alguém sorrir daquela maneira por algo que eu havia feito.
- Eu gostei desse desde a primeira vez que o vi – ela disse contente. – Você chegou com eles – suas bochechas ficaram vermelhas mais uma vez.
- Agora ele é seu – falei sorrindo e fiquei com vontade de dizer que ela podia escolher outro, mas essa vontade passou quando ela se levantou com a caixa de sapato nas mãos.
- Bom, obrigada - ela disse tímida e eu não entendi.
Ela não tinha que me agradecer, eu só estava devolvendo algo que havia pegado emprestado.
- Quer ajuda para arrumar? – ela perguntou apontando o restante das caixas.
- Por favor – sorri animada, pelo menos não teria que fazer tudo sozinha.
Nós terminamos de colocar todas as caixas em seu devido lugar em menos de dez minutos e depois disso ficamos deitadas na cama olhando para o teto enquanto falávamos sobre assuntos totalmente aleatórios e acabei contando a sobre minhas viagens.

...

Depois do jantar, Meg subiu para o quarto dizendo que ia trabalhar, foi para o quarto dele e eu e ficamos na sala folheando revistas de fofocas e falando mal ou bem das roupas das celebridades.
- , eu vou na sorveteria com os meninos, quer ir? – apareceu na sala vestindo um casaco por cima do moletom.
- Quero, me dá dez minutos para me arrumar? – ela perguntou se levantando e ele deu de ombros se sentando no braço sofá. – Você não vem, ?
- Ah, eu não sei. Não fui convidada – eu queria ir, sair um pouco daquela casa, ver pessoas que não fossem do ambiente escolar, mas queria também que insistissem para que eu fosse. Queria que me convidasse para ir também, já que eram os amigos dele e ele obviamente tinha incluído a irmã no passeio.
- Não mesmo – ele disse e deu um tapa em sua cabeça.
- Eu estou te convidando, só vai ter meninos com a gente e vai ser bom ter uma amiga por perto – ela disse sorrindo para mim.
- Já que é assim, mas só vou porque você está insistindo – falei me levantando do sofá e fui para o quarto trocar de roupa.
Coloquei uma roupa simples e quente e em menos de trinta minutos eu estava pronta com resmungando na minha orelha. Ele falou com Megan, que parecia feliz em ver nós três saindo juntos, e saímos da casa.
Ao invés de irem para o carro eles foram para a rua me deixando confusa.
- Nós não vamos de carro? – perguntei enquanto enlaçava meu braço.
- Não, vamos andando – ela deu de ombros.
- Por quê?
- Porque é a menos de quatro quarteirões daqui, não tem necessidade de ir de carro e gastar gasolina. – disse seco.
- Nossa, quanta pobreza – disse rolando os olhos e ouvi segurar uma risadinha.
Ele me ignorou e fomos em silencio durante todo o caminho. Não sei como eles não tinham medo de andar por aquelas ruas escuras com tanta gente estranha.
Em pouco menos de dez minutos chegamos à sorveteria que estava até que bem movimentada.
Os amigos de ainda não estavam lá quando chegamos e procuramos uma mesa para esperar por eles.
- , o que você vai querer? – perguntou apoiado em uma das cadeiras.
- Eu quero Milk shake de morango – ela disse animada.
- E você, ? – foi realmente uma surpresa ele ter me perguntado.
- Não estou certa se quero algo daqui – torci o nariz olhando em volta.
O lugar parecia limpo, ainda assim não ficava em uma das áreas mais bonitas da cidade. O garoto bufou visivelmente impaciente.
- Por quê? – perguntou desentendida.
- Porque você acha? Ela esta com nojinho – debochou.
- Eu quero água – eu disse e ele riu visivelmente sem vontade.
- Eu não acredito que você saiu de casa para tomar água – ele disse ainda rindo.
- E daí? Você perguntou o que eu queria e eu respondi – disse nervosa e balançou a cabeça, mas foi até o balcão.
- Como eu devo agir perto do ? – perguntou alarmada assim que se certificou que o irmão não poderia nos ouvir.
- Do mesmo jeito que você agiu no colégio, ué – dei de ombros estranhando.
- Você acha que ele vai querer ficar comigo? Eu não vou saber o que fazer.
- Duvido que ele tente alguma coisa perto do seu irmão, mas se ele tentar você só retribui, se for isso que quiser – disse tranquila tentando passar aquela tranquilidade pra a garota.
- Eu estou nervosa, não sei nem com que cara olhar pra ele.
- , só relaxa – dei dois tapinhas em seu braço.
Minutos depois voltou com o Milk shake de , uma garrafinha de água e uma segunda taça de Milk shake.
- Obrigada.– disse pegando a garrafa.
A porta da sorveteria se abriu e por ela passaram e conversando animados, imediatamente se interessou pela mesa e enfiou o canudo do Milk shake na boca.
- Hey! – foi o primeiro a se manifestar dando um beijo estalado na bochecha de e achei que a garota fosse engasgar.
me cumprimentou da mesma maneira enquanto somente acenou com a mão. O dois foram direto para o balcão, mas não deu para eu e conversarmos, já que tinha ficado ali.
- Se você for ficar com o , leva ela junto. Foi você quem quis trazer. – disse acenando com a cabeça em minha direção e arregalou os olhos.
- Não sei do que você esta falando – ela disse olhando para outro lado.
Ele soltou uma risadinha irônica, mas não falou mais nada até que seus dois amigos estivesse de volta a mesa e fez questão de se sentar ao lado de .
- Alguém sabe o que tá rolando entre a Mayh e o ? – foi a primeira coisa que perguntou quando se sentou na mesa.
- Acho que eles estão em crise, estão tão estranhos ultimamente. – disse pensativo e quando olhei para tive certeza que ele sabia exatamente o que estava acontecendo.
- Desde a festa da Laura, alguém sabe se aconteceu alguma coisa lá? – entrou na conversa enquanto eu e apenas escutávamos.
- Não foi na festa, eles já chegaram estranhos na festa. – deu de ombros.
- Vocês deviam parar de especular, sabe? Se eles não falaram nada é porque não querem que a gente saiba o que está rolando entre eles. Daqui a pouco volta tudo ao normal. – disse e eu sabia que ele só estava dizendo aquilo porque sabia exatamente o que estava acontecendo entre os dois.
- Eu ainda não acredito que você ficou com a Lucy na festa, cara. – disse e fez uma expressão maliciosa.
- Você ficou com a Lucy? Eu não acredito, ! – exclamou revoltada.
- E o que tem? – ele perguntou de volta.
- Você sabe o que dizem dela? Como você teve coragem de beijar ela? – fez uma careta de nojo.
- O que dizem dela? – eu nem sabia quem era a menina, mas pela careta que fez, me interessei para saber a fama da menina.
- Todo mundo chama ela de boqueteira – ela colocou a língua para fora.
- E por que você acha que o ficou com ela? – disse em tom de obviedade.
- Você sabe o que dizem do ? – disse e riu. – Como você teve coragem de beijar ele - ele imitou a careta de nojo da irmã.
- Mas eu não faço boquete no primeiro que me dá um sorriso. – disse ofendido.
- É, pro não basta sorrir. – provocou.
- Tem que chamar pra sair. – entrou na provocação.
- Fazer um carinho. – falou já rindo.
- Óbvio, não sou do tipo fácil. – disse com a voz afetada e juntei as sobrancelhas olhando para ele enquanto as pessoas da mesa começavam a rir.
Uma risada mais estranha e escandalosa que a outra, chamando muita atenção para a mesa em que estávamos. Me senti um peixe fora d’água por não estar achando nenhuma graça em tudo aquilo. Eles continuaram fazendo mais um monte de piadinhas.
- E você? Não fala não? – perguntou para mim.
- Ninguém esta falando comigo – dei de ombros brincando com a garrafa na minha mão.
- Claro que estamos, aqui todo mundo fala com todo mundo – ele disse simpático.
- Eu desconfio que nossos assuntos não interessam a ela, . – se meteu e eu fiz uma careta.
- Eu nem sei do que vocês estão falando para inicio de conversa.
- Você já esteve em Paris? - perguntou interessado.
- Claro que já, gosto muito de Paris. Eu ia todo ano na semana da moda – respondi animada.
- lembra quando a gente foi? Eu achei que sua mãe nunca mais ia te deixar sair de casa. – disse soltando risadinhas.
- Vocês já foram para Paris? – perguntei realmente surpresa.
- Claro que já. Foi uma viagem e tanto. A gente foi escondido dos nossos pais. – parecia empolgado enquanto mantinha um sorriso fechado no rosto.
Ele parecia ter boas lembranças daquela viagem, mas não queria compartilhar comigo.
- A ex do fez ele a levar para conhecer o namorado francês. – gargalhou e olhei para .
- Essa parte da historia você poderia deixar de fora – ele juntou as sobrancelhas.
- Ah, fala sério. Tirando o seu chifre histórico, foi a melhor viagem das nossas vidas. – e estavam concentrados em sua própria bolha e nem prestavam atenção no que falava.
- É, acho que eu deveria agradecer a Melody. – deu de ombros.
- E por que você a levou para conhecer o outro namorado? – me olhou e juntou as sobrancelhas.
- Porque eu não sabia que ela tinha um namorado na França?! Eu sei que pareço ser bem imbecil, , mas acredite, eu não sou – ergui uma sobrancelha.
- Que seja, foi o acontecimento das nossas vidas. – disse sorridente.
- Por quê? O que tem de tão maravilhoso em ir para Paris? – perguntei, mas me arrependi. É claro que para gente pobre, ir para Paris era um acontecimento historico.
- Porque a gente meio que fugiu de casa.  Nós quase não tínhamos dinheiro para ir, quem dirá passar uma semana na cidade, e foi isso que tornou as coisas melhores. A gente foi pra muito lugar bacana e chegamos a trabalhar por lá. A melhor parte foi quando a tia Meg foi buscar a gente, ela colocou o no trem, pelas orelhas. – gargalhou e soltou um risinho. – Nós tínhamos uns dezesseis anos, e você? Qual foi a viagem da sua vida? – ele perguntou bem interessado e fiquei muda.
Qual tinha sido a melhor viagem da minha vida? Um acontecimento histórico? Nas viagens eu costumava ir a restaurantes, shoppings, boutiques, ficar nos hotéis e sempre estava sozinha.
- Eu não sei, foram tantas – disse e sorri contente. Eu diria que não tinha nenhuma historia para contar?
- Ah, conta uma aí – insistiu.
- Ah, eu não sei se me lembro de uma tão interessante quanto a de vocês  – disse um pouco sem graça, odiava ser pressionada. Eu nunca era pressionada.
- Ah para, grandes historias sempre devem ser lembradas – pressionou mais um pouco.
- , para. Você não vê que nunca aconteceu algo fodástico na vida dela? - disse e fechei minha expressão.
- Como é que você sabe? – perguntou murchando sua expressão também.
- É fácil perceber – estreitei os olhos para .
- Fodástico do tipo levar um chifre e ainda levar meu namorado pra conhecer a amante? É realmente nunca tive aventuras desse tipo – disse e riu.
- , por favor, eu agradeço a Melody todos os dias por isso. Se não fosse ela, eu jamais teria ido para Paris com os meus melhores amigos e nunca teria uma historia legal para contar para os meus filhos. Agora entenda , a é de uma classe superior a nossa e na classe dela não tem espaços para historias legais, nem para amizades como as nossas. As pessoas do mundo perfeito dela são tão entupidas de dinheiro que não precisam de mais nada para ser feliz. Não é, ? – sorriu irônico.
- Vocês viram qual vai ser o tema do baile de formatura? – perguntou animado e riu virando o rosto na direção do garoto.
Percebi que era assim, se algum tipo de conflito se instalava perto dele, ele rapidamente tentava mudar de assunto para deixar o clima mais agradável.
Nós tínhamos ficado tão absortos naquele assunto, que ninguém percebeu que e saíram sorrateiramente da mesa e da sorveteira.
e entraram em uma conversa sobre baile de formatura, par, rainha do baile, lideres de torcida que eu fiz questão de não prestar atenção.
Parecia que o filho mais velho de Megan queria esfregar na minha cara o quão infeliz eu era, só por eu ser rica. Quando na verdade o infeliz era ele, e só usava esse negocio de melhores amigos e historias legais para mascarar o quanto era infeliz. Aposto que se alguém perguntasse o que ele queria ser, ele ia dizer uma profissão que pudesse dar muito dinheiro.
Rolei os olhos comigo mesma, melhores amigos.
Meu melhor amigo era meu cartão de credito.
Ele pelo menos nunca iria contar meus segredos por aí.

...

Eu estava rolando na cama há uns bons dez minutos, ainda mais frustrante era não saber o motivo de não conseguir dormir.
Fiquei de barriga para cima na cama e bufei alto.
Talvez eu precisasse fazer algumas compras para aliviar todo o estresse, mas como eu faria compras se papai não tinha me deixado um misero centavo? Talvez fosse uma boa ideia vender mais alguma coisa que eu não usava do meu guarda roupa, mas o quê? Eu poderia precisar de qualquer coisa a qualquer momento.
Decidi que tomar um pouco de leite poderia me ajudar a dormir. Mamãe sempre me dava um copo de leite quente antes de dormir.
Ela dizia que era para me ajudar a dormir e garantir que minha noite de sono fosse tranquila. Era incrível como eu sempre conseguia lembrar detalhes pequenos sobre ela, sendo que, quando ela morreu, eu era muito nova. Mas quando se tratava de coisas grandiosas que ela havia feito, eu simplesmente não conseguia lembrar com tanta riqueza de detalhes.
Me levantei colocando meu robe de seda e fui para a cozinha tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Medi o leite no copo antes de colocá-lo em um leiteira que achei no armário, eu era um verdadeiro desastre na cozinha, pelo fato de eu nunca ter precisado frequentar uma para cozinhar ou qualquer coisa desse tipo. E como sentia falta desse tempo.
Mas o meu leite eu sabia esquentar, ninguém sabia deixar o leite com o mesmo sabor que mamãe deixava, então eu mesma preferia esquentar. Era como se aquilo pudesse me aproximar dela.
- O que você está fazendo? – dei um pulinho quando ouvi a voz atrás de mim.
- Você realmente está tentando me matar de susto – disse sem nem me virar, pela voz masculina, sabia ser .
- O que está fazendo? – perguntou de novo e me virei em sua direção, me arrependendo rapidamente de ter feito.
parecia não gostar muito de camisetas, já que vivia sem elas, mesmo Meg o dizendo para passar a usá-las com mais frequência agora que eu estava ali. Não que eu estivesse reclamando, mas era realmente difícil pensar coerentemente com ele exibindo o tanquinho o tempo todo.
- Leite – disse e voltei a olhar a panela no fogo.
- Está fazendo leite? – ele foi até a geladeira e abriu.
- Esquentando leite, tenho cara de vaca agora para “fazer” leite? – resmunguei e parou ao meu lado e deu uma risadinha. Desliguei o fogo e coloquei o leite no copo.
- Tem certeza que quer uma resposta para essa pergunta? – juntei as sobrancelhas e me virei para ele.
- Você é incrivelmente...
- Gostoso, é eu sei. Você já disse isso – ele me cortou e piscou pra mim e eu ri. Ainda que meu riso tenha sido nervoso.
- Você se acha mesmo, não é? Da onde eu venho, caras como você, do seu nível social, só me servem. Não misturo meus genes com pessoas inferiores – empinei o nariz e fiz minha melhor cara de superioridade.
- Engraçado você dizer isso, princesa. Porque depois da festa de sábado, você bem que tentou misturar nossos genes – ele disse e se aproximou ficando realmente perto e conseguindo finalmente me deixar nervosa.
- Bem que você queria, eu nunca iria querer nada além de distancia de um ser repugnante como você – eu gostaria de poder me afastar quando ele sorriu de lado.
- Tem certeza? – ele disse e como se não bastasse seu corpo estar tão perto do meu, aproximou também o rosto e eu tinha certeza que ele iria me beijar. – Se eu quisesse mesmo, nossos genes já estariam todinhos misturados – nossos narizes se tocaram e colocou os dedos no meu rosto e prendi a respiração esperando. – Mas acontece que eu não quis e não quero – ele segurou meu queixo com os dedos e se afastou sorrindo. – Bem que você queria que eu tivesse tanto mau gosto – ele piscou mais uma vez e saiu da cozinha me deixando morrendo de ódio.
Virei o leite na pia e marchei para o meu quarto.
Eu queria poder quebrar tudo o que eu visse pela frente, mas não queria dar mais aquele gostinho a . Como eu podia estar tão atraída por um garoto em tão pouco tempo?
Arregalei meus olhos.
Eu estava atraída por ? O garoto que só me deu patadas desde que colocou seus olhos em mim?
Isso tudo era culpa do papai, eu jamais precisaria passar por aquilo se ele não tivesse me mandado para a casa de Megan.
Peguei um dos meus cadernos e uma caneta, abri em uma folha em branco e passei a escrever.

“Como você ousa me mandar um bilhete tão cru? Sabe a quanto tempo estou tentando te ligar? Por que uma completa estranha pode te ver e tudo o que eu recebo é um bilhete escrito de má vontade? Você disse que eu não precisava me preocupar com nada, mas não me deixou um centavo! Eu estou chateada, Patrick, muito chateada. Você disse que ia manter contato e quando manda um bilhete fala mais sobre o filho tosco da Megan. Acho que você não liga mais para mim, que me abandonou. Afinal daqui a pouco eu serei maior de idade e você não terá mais nada para se preocupar. Se a mamãe estivesse viva, ela não teria me abandonado e estaria aqui comigo ou em qualquer outro lugar.
E respondendo sua pergunta, não que eu ache que isso te importe: EU NÃO ESTOU BEM.”

Uma lagrima caiu no papel e tratei de tirá-la de meu rosto, eu não podia chorar, não naquele momento.
Tudo o que eu queria era que papai atendesse meu pedido e me tirasse daquela casa, de perto de que só infernizava a minha vida de todas as maneiras possíveis.
Eu odiava com todas as minhas forças.
Droga, eu sabia que não era verdade, ele me atormentava demais, mas eu não conseguia odiá-lo.
Quanto mais me importunava e esnobava, mais eu o queria.



Dez

Eu nunca havia me sentido tão mal na minha vida, como estava naqueles últimos dias.
Minha aparência nunca me incomodou tanto como naqueles últimos dias.
Nunca me senti tão rejeitada como naqueles últimos dias.
Aqueles malditos dois últimos dias.
Dois dias que tinha dito que ficar comigo seria muito mau gosto, dois dias em que eu fiquei remoendo e me sentindo péssima. E a única coisa que poderia me animar um pouquinho, eu já fazia todos os dias.
Eu já me preocupava em me arrumar, em andar com os cabelos sempre limpos e bem cuidados, com as unhas bem feitas, com roupas em bom estado, raramente usava tênis e nunca saia de casa sem maquiagem. Nunca tive problemas com a minha aparência e tudo o que podia pensar naqueles últimos dois dias, é que eu poderia ser um pouco mais alta, um pouco mais magra, meus cabelos poderiam ser um pouco mais claros, ou mais curtos, meu nariz podia ser um pouco mais fino, meus lábios um pouco mais cheios, meus seios um pouco menores.
E o que me irritava profundamente, era que todos esses pensamentos se resumiam na opinião de .
Ok, ele era lindo, mas era só um garoto idiota e infantil que parecia ter estacionado na terceira série. Ele era pegável, mas nada na minha vida iria mudar se eu nunca o beijasse. Seria só mais uma boca para beijar. Ainda que uma boca gostosa, seria só mais uma boca.
Rolei na cama pela vigésima vez e resolvi me levantar quando vi que não iria mais conseguir voltar a dormir. Ainda faltavam algumas horas para a aula e eu poderia aproveitar esse tempo para voltar a ficar em paz com a minha aparência.
Acendi a tela do celular, só para ter certeza que não iria tropeçar na cama de . Meu quarto estava interditado após ter uma das paredes pintadas. A proposito, tinha feito um excelente trabalho, a pintura havia ficado ótima e eu nem tinha precisado me sujar de tinta.
A casa estava silenciosa e andei apressadamente para o quarto, onde eu poderia ascender a luz. O cheiro da tinta já estava fraco e eu esperava dormir ali naquela noite. Não que não tivesse sido divertido ficar no quarto de , mas eu odiava dormir no chão, tinha medo de baratas e ratos ou qualquer outro animal nojento que poderia surgir.
Separei minha roupa, peguei minha nécessaire e fui para o banheiro.
Abri a porta bruscamente e parei com a boca levemente aberta.
estava no banheiro só de toalha, em frente ao espelho mexendo nos cabelos molhados, ele olhou em minha direção e ergueu uma sobrancelha.
- Não sabe bater? - ele perguntou alto o suficiente para que eu escutasse.
- Não sabia que o banheiro estava ocupado - respondi e olhei rapidamente para o chão, tentando não olhar para seu tronco nu e úmido, só tentando.
- O banheiro não é só seu, você tem que bater - ele disse e pegou o celular em cima da pia antes de andar em minha direção.
- É cinco da manhã, como eu ia saber que você estava tomando banho? - ele parou na minha frente e segurei a respiração.
- Vai ver você estava querendo me ver pelado. - fez um som estranho com a boca.
- Ah claro, o sonho da minha vida é te ver pelado. Oh, por favor, fique nu - disse irônica e rolei os olhos, fazendo questão de colocar minha melhor expressão de desprezo no rosto.
sorriu de lado cruzando os braços e tive vontade de pular em cima dele.
- Se você continuar me assediando desse jeito, vou ter que contar pra minha mãe, . Sei lá o que você pode fazer comigo quando eu estiver dormindo.
- Te sufocar com o travesseiro quem sabe - falei entre dentes e coloquei um dedo no queixo. - É uma ideia a se pensar - sorri para ele e riu.
- To morrendo de medo, agora se me der licença - ele disse e colocou a mão na minha cintura me empurrando delicadamente para o lado e passando por mim, fazendo questão de esfregar o peito em meu braço.
Eu iria precisar de um banho frio.

***

Aquele ginásio estava lotado e poucas pessoas faziam questão de fingir que escutavam alguma coisa que o diretor sedução dizia no microfone e ele parecia saber perfeitamente daquilo. Ainda assim, ele continuava falando sobre como era importante ajudar e blá, blá, blá.
Eu só conseguia prestar atenção em seus movimentos e em sua voz. Se eu fosse um pouco mais velha com toda certeza iria paquerar.
- Não acredito que você também tem uma queda pelo diretor. - cochichou depois de escutar meu suspiro.
- Ele é muito lindo.
- Uma pena que seja tão mais velho.
- Você também? - me virei para ela.
- Óbvio, ele é lindo e eu perderia uns cinco minutos com ele, talvez quinze, trinta... - ela riu safada.
- Deixa o saber disso - a cutuquei com o ombro rindo.
- Não vejo porque ele se importaria. - voltou a prestar atenção no diretor Calvin.
- Por que vocês estão juntos?
- , a gente ficou o quê? Umas três vezes? - ela apoiou o queixo nas mãos, desanimada.
- Isso já é alguma coisa. Sem contar que ele fica te mandando mensagens - dei de ombros.
- Por falar nisso, sabe quem fica me encarando? - ela se virou para mim novamente.
- Quem?
- A Laura, desde a festa na casa dela, ela me encara de cima a baixo e faz uma careta assim. - a imitou.
- Inveja, .
- Inveja do quê? Eu sou do segundo ano, ela é do terceiro, líder de torcida, toda pra cima.
- Como se você não fosse linda e outra, eu acho essa garota horrível - voltei meus olhos para o diretor que agora falava sobre alguma coisa como natal e eu estava totalmente perdida em seu discurso.
- É, mas o ficava com ela.
- Sério? Que nojo. Vai ver é por isso que ela te encara tanto. Ela deve achar que está vivendo em algum filme adolescente - dei de ombros e o diretor encerrou seu discurso.
- Você acha que ela pode tentar alguma coisa? - perguntou alarmada e eu não sabia se ela também achava que estava vivendo em um filme adolescente, ou se tinha medo de apanhar.
- Duvido que seu irmão deixe aquela feiosa tentar qualquer coisa contra você, mas se mesmo assim ela tentar. Dá um soco naquele nariz horrendo dela. - riu.
- Soco? Eu juro que nunca pensei que ia escutar isso de você - ela se levantou rindo e a acompanhei.
- Soco, tapas só vão dar abertura pra ela dar outro de volta, um soco no nariz iria acabar com ela e evitar um barraco ainda maior.
- Quem é você e o que fez com a ? - me segurou pelos dois braços.
- Ainda sou eu, só que uma pessoa uma vez me disse que se eu quisesse me defender de alguém, era só socar o nariz da pessoa - disse e sorri me lembrando de uma das poucas viagens em que eu e papai fizemos juntos.
Foi quando eu fui para o colegial, ele disse que eu merecia uma viagem perfeita.
Foi o único final de semana que passamos juntos e foi ele quem me disse aquilo.
Eu precisava dar um jeito de falar com ele, eu tinha escrito a carta, mas não estava certa se queria mandá-la. Eu sabia que era um bilhete amargurado da minha parte e um meio que usei para descontar a raiva que estava sentindo por ter me rejeitado daquela maneira. Mas também não conseguia pensar em nada bom o suficiente para escrever.
- , dá uma licencinha? Preciso falar com a nossa hospede um minutinho - me assustei ao perceber o braço de em meu ombro, ainda mais quando percebi que ele me arrastava para fora do ginásio.
- Onde você está me levando? - seria basbaquice minha esperar que fosse para algum cantinho para que ficássemos sozinhos?
- Nós vamos participar do programa. - disse enquanto me "arrastava" para Deus sabe onde.
- Mesmo minha resposta sendo não, que programa? - me soltou e parou a minha frente.
- O que você estava fazendo enquanto o Calvin falava? - Calvin? Que intimidade era aquela?
- Estava conversando com a sua irmã, porque quando ele falou a palavra albergue, meus ouvidos se fecharam totalmente para o que ele estava dizendo - cruzei os braços e sorri sem mostrar os dentes.
- Certo, é um programa para ajudar os desabrigados e adivinha? Nós vamos participar. Vai valer pontos pra faculdade.
- Nós? Você vai, né? Só de pensar na palavra albergue me dá alergia.
- Acho que você não entendeu direito, eu não estou perguntando se você vai, estou te comunicando - comecei a rir com vontade.
- O que tinha no cereal que você comeu de manhã? Não vou a lugar algum.
- Ah, você vai - ele cruzou os braços.
- E quem você pensa que é para dizer o que eu vou fazer ou não?
- A pessoa que tem uma foto super sensual sua.
- Se você espalhar essa foto, eu conto pra Meg - empinei o nariz.
- Conta, eu falo que é mentira. Em quem será que ela vai acreditar? Acho que é em mim - ele sorriu estufando o peito.
- A foto foi tirada na sua casa, então acho que existe a possibilidade de ela acreditar em mim.
- Eu juro que nem desconfiava que você era tão ingênua, Maddox. Primeiro que vai ser minha palavra contra a sua. Segundo, o que você acha que a minha mãe faria? Me expulsaria de casa? Me bateria? - ele riu alto. - O máximo que ela faria, seria me deixar de castigo, um mês. E pode apostar que esse seria o pior mês da sua vida. E a foto já estaria espalhada mesmo.
- Por que você quer tanto que eu vá? Não vai contar pontos pra sua faculdade - pior que entrar em um albergue era aquela foto espalhada por aí.
- Pela sua companhia que não é. Mas acho que vai ser interessante você conhecer a miséria de verdade, quem sabe assim você não fica um pouco mais grata por tudo o que minha mãe e a fazem por você. Porque acredite, princesa, se não fosse a minha mãe, seria num lugar como aquele que você estaria - tentei não deixar com que suas palavras me abalassem.
- Quando é e que horas? - ele sorriu.
- Assim que eu gosto. Hoje, às sete esteja pronta - ele piscou e me deixou sozinha.
Certo, eu tinha até às sete da noite para me preparar psicologicamente.
Que Deus me proteja.

***

Minhas mãos suavam frio, estava morrendo de medo do que me esperava nesse albergue. Milhares de imagens passavam por minha cabeça e elas não eram nada agradáveis e eu sabia que elas faziam jus ao lugar onde estava me levando naquele segundo.
Precisava lembrar a que ela havia prometido me ajudar a recuperar aquela foto, não podia ficar a mercê das vontades de o resto da vida. Se suas vontade fossem outras pelo menos. Cravei as unhas na palma de minha mão por ter tal pensamento.
Orgulho, .
Cadê a porra do seu orgulho?
Até palavrão eu estava pensando, pelo menos não estava falando. É muito deselegante falar palavrão.
Judith, minha professora de etiqueta, faria uma reclamação formal com papai, se soubesse que eu estava pensando em palavrões. Por que eu estava pensando em coisas totalmente sem nexo? O nervosismo?
- Chegamos. - anunciou contente desligando o carro e gemi de desgosto. - Se anima, se você se comportar ganha recompensa.
- Não sou cachorro para ganhar uma recompensa por me comportar - falei brava e ele riu, rolei os olhos.
- Você não quer um carinho? - perguntou debochado abrindo a porta do carro.
- Nem que você fosse a reencarnação do Adam Levine - disse também abrindo a porta e saindo do carro.
- Não disse que seria eu a fazer o carinho, mas eu entendo que tenha pensado que fosse eu. Você deve sonhar com isso todas as noites. - estava tão contente que até parecia que tinha ganhado na loteria, ou tinha visto o passarinho verde.
- Rá, rá. Próxima piada. O que te faz pensar que eu tenho, sei lá, algum tipo de atração por você? - perguntei enquanto dava a volta em seu carro.
- Não tem nada que me faça pensar - ele disse e começou a caminhar em direção a um prédio onde alguns andarilhos entravam, do outro lado da rua. - Depois da ultima festa eu tenho certeza - arregalei meus olhos.
- Não sei do que você está falando. Você sabe que eu estava muito bêbada, né? - falei apressadamente.
- É, eu percebi, mas sabe como é. O álcool entra a verdade sai - nós nos aproximamos do beco, que aparentemente, era onde ficava a porta por onde os voluntários tinham acesso ao abrigo.
- Eu espero que você não tenha se aproveitado - eu sabia que ele não se aproveitaria, mas tinha que me defender de alguma forma.
parou bruscamente e me olhou nos olhos antes de dizer.
- O que exatamente você está insinuando? - engoli em seco. - Não sei o tipo de pessoas que frequentam os lugares onde você esta acostumada a ir Maddox, mas eu não sou do tipo que se aproveita de uma garota bêbada e nem que precisa disso. Muito menos de você, se eu não quero nada com você sóbria, imagina bêbada e vomitada - ele disse e mais uma vez me deixou sozinha sentindo o peso de suas palavras.
Mas dessa vez a vontade de chorar ficou comigo.
Só não sabia ao certo se por ter sido rejeitada pelo o que poderia ser a milésima vez, ou pelo que eu própria havia insinuado sobre ele. Eu não tinha motivos para insinuar aquilo. nunca tinha me desrespeitado, nunca tinha sequer me olhado diferente.
E agora eu podia adicionar mais um item com o qual eu me sentia mal.
Eu podia pedir desculpas e até o agradecer por ter me levado para casa naquela noite, quando nem eu mesma me lembrava de ter sequer saído da festa.
Mas nunca pediria desculpas a .
Entrei no prédio e a primeira pessoa que vi, foi Mayh conversando com . Ela estava com uma aparência péssima, só para constar, e assim que me viu, fez uma careta e disse algo para , que olhou para mim e riu dizendo alguma coisa para a garota. Me aproximei, me recusando a ficar sozinha naquele lugar.
- Vocês tem que assinar a ficha que está com o diretor gostoso, estou falando do diretor Calvin. Caso você tenha alguma duvida. - Mayh disse para e deu as costas.
- O que exatamente a gente vai fazer? - perguntei para o garoto.
- Eles estão aqui para comer, o que você acha que é? - ergui uma sobrancelha.
- Você tem sempre que ser tão grosso? Eu te fiz uma simples pergunta.
- Perguntas idiotas, merecem respostas estupidas.
- Você é estupido o tempo todo - resmunguei.
- Faz parte do meu charme - ele deu uma piscadinha. - Precisamos achar o diretor, vem - andamos pelas pessoas que estavam ali, a maioria do colégio, e finalmente achamos o diretor.
Ele estava conversando com uma senhora baixinha e gordinha e uma mulher que parecia ter saído de um comercial de lingerie.
- Hey, senhora Calvin, senhor Calvin. - cumprimentou e me perguntei porque não imaginei antes que um homem daquele poderia ter uma esposa tão bonita quanto.
- Oi, , quanto tempo. Como está? - ela perguntou doce.
- Bem e a senhora? - disse sorridente.
- Bem também, e quem é essa mocinha linda? - sorri satisfeita e quando fui responder ela completou. - É sua namorada? - franzi o nariz e escutei a risadinha do diretor.
- Ela é uma das alunas da escola, Kamille - o diretor respondeu. - Que bom que chegaram, podem assinar essa ficha e a senhora Martin vai se encarregar de vocês - o diretor falou e entregou um papel a .
- Até mais crianças. - Kamille disse seguindo o marido para longe da gente.
Depois que assinamos a ficha, a senhora baixinha nos levou até o que poderia ser meu pior pesadelo. O salão onde a comida seria servida.
O que eu posso dizer?
Havia uma fila de pessoas sujas e vestidas em trapos, algumas seguravam cobertores velhos e o lugar não tinha um cheiro agradável. Era um cheiro estranho de sujeira, suor e comida que estava começando a me embrulhar o estomago.
- Você vai entregar a bandeja, ok? - a mulher que nos acompanhava disse delicadamente e apenas acenei com a cabeça. - Pode ir lá para aquela ponta. Você vai colocar um prato, uma tigela, talheres e um pãozinho na bandeja e entregar para quem estiver na sua frente - ela sorriu e puxou para o lado oposto em que estávamos.
Olhei ao redor um pouco assustada com o falatório no ambiente e reconheci algumas pessoas da minha turma e até pessoas de séries anteriores. Respirei fundo, me arrependendo em seguida quando aquele cheiro azedo entrou em minhas narinas, e resolvi que pelo menos não seria obrigada a servir comida, talvez nem precisasse falar com aquelas pessoas.
Ergui o queixo e caminhei a passos decididos até a mesa encostada a parede onde as bandejas estavam.
De frente para o salão, havia dois balcões de self-service, onde algumas pessoas já estavam preparadas para começar a servir.
- Você vai montar as bandejas? - um garoto magrelo, alto e esquisito perguntou rudemente.
- É, sou eu - fui tão rude quanto.
- Ótimo, se apresse. Eles estão com fome - ele disse e saiu de perto de mim sem nem ao menos ver a careta que fiz.
Peguei a primeira bandeja e a coloquei em cima da mesa a minha frente, fazendo exatamente o que a mulher havia me dito, e assim sucessivamente. As bandejas desapareciam da minha frente e eu sequer sabia se era um homem ou uma mulher que havia pego. Não estava fazendo nenhuma questão de olhar para as pessoas que passavam por ali, não queria saber a aparência delas. A única coisa que eu podia ver eram suas mãos, aliás, poucas eram limpas e as unhas eram quase cem por cento sujas. Que nojo.
- Pode colocar mais um pão? - a voz me chamou atenção e encarei as mãos pequenas em cima da mesa segurando as pontas da bandeja.
- O quê? - perguntei confusa olhando o rosto da garotinha em minha frente. Seus cabelos eram negros como carvão e a pele branca como uma folha de papel, os olhos verdes como esmeraldas brilhavam pidões.
- Pode colocar mais um? Eu gosto desse pão - ela sorriu, um sorriso angelical mesmo que dois dentes estivessem faltando.
- Claro - respondi e coloquei mais dois pães em sua bandeja.
- Obrigada, que Deus te abençoe - ela disse animada e foi para a próxima mesa.
Aquilo me sufocou, eu queria sair dali o mais rápido possível
. - Obrigada - uma mulher, muito parecida com a menina, disse quando pegou sua bandeja e sorri sem graça.
Mesmo tentando evitar a todo custo olhei em direção ao balcão de comida e a garotinha estava ali, sua bandeja estava no suporte e ela estava nas pontas dos pés tentando ver o que era colocado em sua tigela. Ela usava uma calça legging rosa desgastada, um suéter azul desbotado e uma sandalinha de dedos que de longe, vi que eram pequenas demais para seu pé.
Senti o nó na garganta apertar e fechei os olhos tentando parar de encarar a garotinha.
Deus, tinha como a noite ficar pior?
Abri os olhos e olhei para o homem a minha frente, ele me olhava sorrindo com malícia e no seu sorriso também faltavam alguns dentes, duvido que fosse pelo mesmo motivo da garotinha. Coloquei a bandeja em sua frente e a arrumei o mais rápido que conseguia sem quebrar nada.
- Obrigado, amor - o homem disse e consegui sentir seu hálito podre, ele ainda passou a língua nos lábios antes de sair da minha frente.
Céus, eu iria vomitar.
- Hum, arrasando corações. - sussurrou no meu ouvido e riu.
- Idiota - me virei para ele que já se afastava segurando uma bandeja com pratos. Eu nem tinha visto de onde ele tinha surgido.
Finalmente a fila estava acabando e perdi a garotinha de vista. Eu queria mais que tudo ir embora e nunca mais por os pés naquele lugar, mas se eu tinha entendido bem, eu ainda teria longas noites naquele albergue ou em qualquer outro.
O programa não era você ser voluntário por uma noite, era acumular horas com trabalho voluntário. Por Deus, eu preferia me juntar ao clube de economia doméstica que estar ali uma vez por semana, até conseguir recuperar minha foto.
Foram as duas horas mais longas de toda a minha vida e quando finalmente acabou, corri para a área onde só os voluntários tinham acesso.
- Hey, princesa, me ajuda a recolher os pratos. - falou assim que colocou seus olhos em mim.
- Nem morta - disse e tentei passar por ele, que me segurou pelo braço.
- Vai sim, se não ajudar, eu digo para a senhora Martin que você quer lavar os pratos da próxima vez - ele ergueu a sobrancelha.
- Você ainda me paga - esbravejei e ele rolou os olhos.
- Tá, tá. Vamos - falou sem paciência e saiu andando na minha frente.
O certo era, quando a pessoa terminasse de comer, deixar a bandeja em cima de uma mesa no salão, mas óbvio que a maioria só comeu e foi embora deixando os pratos onde comeram para trás. Tentei recolher todos rapidamente e encontrei na ultima mesa a ser limpa.
- Você deu o seu telefone pro gatão lá? - ele perguntou de forma relaxada.
- Que gatão?
- O que te chamou de amor. Ele tá na sua, - ele disse e riu.
- Nem que fosse o único ser da face da terra - fiz uma careta de nojo.
- Não fala isso, do jeito que você é linda, ele é o melhor partido que você pode conseguir - ele ergueu as sobrancelhas e larguei a bandeja na mesa.
- Quer saber, acaba essa merda sozinho. Não sou obrigada a ficar escutando asneiras - empurrei a bandeja em cima da mesa e me virei para sair.
- ! - ele disse em tom de aviso. - Volta aqui!
- Se eu não voltar vai fazer o quê? Espalhar minha foto pelo colégio? Pois que espalhe, não tenho pretensão nenhuma em ficar nesse buraco muito tempo. Não tenho medo de que as pessoas riam de mim por causa de uma foto estupida, muito menos que elas me evitem por isso. Aliás, não sei se você já percebeu, mas eu as evito. Sabe por quê? Porque meu pai pode estar falido, mas eu ainda sou uma Célérier Maddox, uma das famílias mais importantes desse país. Agora se me der licença - falei e sai rebolando dali com um sorriso no rosto.
Estava me sentindo até mais leve.
Como eu não havia pensado naquilo antes?
Se achasse que aquela foto não tinha importância para mim, logo ele não teria com o que me controlar.
Fiquei o esperando do lado de fora do prédio, não sem antes me certificar que havia movimento ali, não ficaria completamente sozinha em um beco.
Durantes os minutos que fiquei ali o medo começou a surgir, e se realmente espalhasse aquela foto?
Eu estava perdida, não podia demonstrar fraqueza, ou ele perceberia que meu discurso não tinha passado disso.
Eu não tinha medo que me evitassem, tinha medo que a foto virasse um viral e até meus antigos colegas a vissem. Suspirei decidida a manter a pose, tinha que pensar que eu realmente não ligava.
saiu do prédio mexendo em seu celular e rindo.
Foi o que bastou para me desesperar.
Minha foto estava ali e ele devia estar falando dela com alguém. Eu não pensei, só segui meu instinto de leoa para defender a cria. Péssima comparação, eu sei.
- Me dá isso - disse e pulei em cima de .
- Outch, tá ficando louca? - ele perguntou assustado tentando se equilibrar enquanto tentava me afastar.
- Me dá isso agora, ou eu juro que te mato, garoto - minha voz estava esganiçada e a expressão em seu rosto era totalmente confusa.
- Por que você quer meu celular? Para - eu ainda tentava pegar a qualquer custo o aparelho, como mantinha as mãos atrás do corpo, consequentemente eu o abraçava.
- Não vou permitir que você espalhe a foto, nem que pra isso eu precise arrancar seus dedos.
- Ah! - falou calmo e riu. - Calma aí, eu não espalhei nada e nem vou espalhar- parei estática com a informação. - Ainda - ele sorriu e o pouco do alivio que comecei a sentir, se foi.
- Eu ainda vou destruir essa foto, . Nem que seja a ultima coisa que eu faça na vida- ameacei.
- Claro, até lá, você pode só não me contrariar. Eu sei que você é fútil demais para levar a sério seu próprio discurso, senhorita Célérier - pronunciou meu sobrenome do meio errado e juntou as sobrancelhas. - Como se pronuncia isso?
- Célérier! - corrigi carregando no sotaque francês. - Você vai me pagar caro! - ameacei em seguida.
aproximou o rosto do meu.
- Estou louco pra você cobrar - disse e se afastou me dando as costas.



Onze

Naqueles últimos dias papai havia me mandado outra carta por Megan, e ela não estava muito diferente da primeira. A única diferença era que ele não citava .
Eu queria escrever algo para ele, mas não sabia exatamente o que dizer.
Eu poderia dizer que descobri que era uma pessoa totalmente sozinha, que não tinha amigos, já que ninguém que tinha o meu numero de telefone tinha me ligado naquele período de tempo.
Claro, a fofoca de que Patrick Maddox tinha falido deve ter se espalhado mais rápido que fogo em gasolina pelos lugares que frequentávamos, ninguém estava mais interessado na gente. Eu fazia planos para quando papai voltasse com nossa fortuna.
Eu daria uma festa e convidaria todos eles, esfregaria na cara de todos que os Maddox nunca seriam inferiores a eles.
Eu via como era próxima dos amigos do irmão dela, eles não eram apenas isso, eram amigos dela também. Várias noites eu fiquei sozinha em casa imaginando como seria se estivesse em Paris ou Veneza, enquanto os dois estavam na casa de algum amigo. sempre me convidava, mas eu não me sentia à vontade em ir.
Eu poderia dizer que não me sentia à vontade porque eles eram inferiores, mas essa não era a verdade. Ok, talvez não a verdade toda.
Me incomodava os assuntos totalmente baixa renda que eles tinham durante o almoço no colégio, eu nunca me encaixava. Eu nunca tinha algo para falar ou para contar.
Eles nunca haviam estado nos lugares onde eu estive, não conheciam as pessoas das quais eu tinha fofocas para contar, todos os meus assuntos os deixavam totalmente de fora e isso fazia com que eles só ouvissem quando eu falava e ficassem com aquela expressão de: nossa, ela realmente acha isso interessante?
Por serem pobres, nunca que os últimos lançamentos da Chanel, Versace, Prada, Miu Miu, Dior, seriam um assunto interessante.
Mas era isso que eu gostava de conversar e, no mundo que estava acostumada, as pessoas se entretinham falando sobre isso, porque não havia mais nada de interessante para se ser conversado.
Ninguém estava interessado se os pais de alguém estavam se separando, ninguém convidava ninguém para ir ver filmes em sua casa a menos que a sala de cinema tivesse sido reformada.
E o que eu faria no meio deles? Se eu não tinha paciência nem de ouvir que o castigo de havia sido injusto, que a mesada era dele e ele podia torrar ela toda em um par de tênis? Ou então escutar reclamar que não sabia para qual faculdade ir. Realmente eu não tinha paciência para dramas de adolescentes pobres, simplesmente porque esses dramas nunca existiram na minha realidade.
Não sabe que universidade cursar? Vai viajar, curtir a juventude.
Seus pais reclamam de como você gasta sua mesada?
Para começar, o que é uma mesada? Eu nem sabia o significado dessa palavra até me explicar e ainda me perguntar por que meu pai não me dava uma.
E para que eu precisaria de uma, se eu tinha um American Express Black Centurion*? E quando dei essa resposta na mesa do almoço na escola, todos que estavam nela ficaram me olhando em silêncio como se eu fosse um ET.
Era por isso que eu não queria ir nas reuniões deles, eu me sentia deslocada, sem contar o fato de que, mesmo sendo as mesmas pessoas, eles estavam juntos, guardavam segredos um dos outros e não espalhavam para o primeiro que passava e eu não tinha nenhum amigo assim de Belgravia.
Talvez fosse a junção de todas essas coisas que tenham me levado a fazer o que fiz aquela tarde.
Não me sentia só solitária, me sentia uma pessoa rejeitada por tudo e todos e isso incluía papai. E eu sabia exatamente que uma maratona de compras me faria esquecer de tudo aquilo. E foi exatamente o que eu tentei.
Vendi um colar de pérolas e um de meus sapatos, mas assim que entrei na primeira loja meus olhos foram parar direto no suéter azul e aquilo me fez me lembrar da garotinha do suéter que ia todas as quartas no abrigo para comer. E em todas as noites ela me pedia para colocar um pão a mais em sua bandeja e me agradecia como se eu tivesse mudado a sua vida. Achei injusto gastar o dinheiro que havia conseguido vendendo minhas coisas em um vestido ou sapato que eu não precisava porque não teria onde usar.
Aquilo teria me feito rir, eu, Maddox pensando em injustiça.
Realmente, todas aquelas noites montando bandejas naquele abrigo afetaram meu cérebro.
Então eu saí da loja e fui para uma outra onde só haviam roupas infantis, o dinheiro deu para comprar um suéter novo, um casaco quente, uma calça, e uma sandália nova que julguei servir perfeitamente na menina. E ainda sobrou uns trocados e me deu aquela vontade de passar em um supermercado e acabei comprando um pacote do pão que era servido no abrigo, tudo o que restou do dinheiro das coisas penhoradas, foi o dinheiro do ônibus.
Eu ainda não estava acreditando no que tinha feito.
Aquela não era eu. Não no meu estado perfeito pelo menos.
Estava começando a achar que aquele ultimo mês, em que passei na casa de Megan, estava começando a me afetar.
Peguei a sacola com as coisas que tinha comprado e a enfiei na mochila com cuidado para que não fizesse tanto volume, mas que também não destruísse nada, a fechei e rumei para sala onde me esperava com a expressão fechada.
- Você nunca consegue ficar pronta no horário? - reclamou se desencostando do sofá.
- Não - disse já indo para a porta.
- Por que a mochila? - ele perguntou apontando para o objeto pendurado em meu ombro.
- Não é da sua conta - respondi grossa e fui para o carro.
Naquele ultimo mês também tinha aprendido a me comportar como , se ele era rude comigo o tempo todo, eu também seria durante o tempo em que não conseguia fugir dele. Claro que continuava me chantageando com a foto e me torturando com suas provocações baratas.
Me dei conta de que não sabia como ia entregar os presentes da menina quando parou o carro em frente ao abrigo, no mesmo lugar de sempre. Por um lado era simples, eu poderia entregar no salão, mas não queria que ninguém me visse fazendo aquilo. Não que eu não estivesse acostumada a fazer caridade, mas eu não as fazia pessoalmente. Era sempre um cheque em meu nome, algumas roupas ou cesta de comida. Já entregar pessoalmente era diferente, era como se alguém pudesse perceber que aquilo me incomodava, que mesmo que a situação da garotinha não afetasse a minha vida, eu me importava. E Maddox não se importa com os outros.
- Hey, tá nesse mundo? - estalou os dedos na frente do meu rosto e só então percebi que estava totalmente absorta em meus pensamentos.
O ignorei e saí do carro segurando a alça da mochila com firmeza, ainda buscando um meio de fazer o que tinha de fazer sem que ninguém notasse. Ignorei todos os presentes como sempre fazia e fui direto ao meu posto sentindo uma ansiedade gigante por algum motivo que eu desconhecia. Passei meus olhos pela enorme fila procurando a garotinha do suéter.
A cada nova pessoa que pegava uma bandeja, minha ansiedade aumentava. Seria possível que justo naquele dia a menina não tinha ido? Eu tinha gastado meu dinheiro pra nada? Que droga.
Até que aquela voz doce e cheia de delicadeza entrou em meus ouvidos, com a já tão costumeira pergunta.
- Pode colocar mais um? - quando olhei para a garotinha encontrei o mesmo sorriso de todas as quartas.
- Claro - disse e arrisquei sorrir um pouco mais abertamente. - Como é seu nome?
- Margot, e o seu?
- Maddox - respondi colocando mais um pão na bandeja. - Eu tenho um presente para você - disse depois de me inclinar em sua direção, seus olhos verdes brilharam. - Mas não sei se é apropriado entregar ele aqui - olhei ao redor e a mãe da menina se aproximou.
- Ela está te chateando ? - ela perguntou cuidadosa e eu cheguei até a achar que a pergunta era direcionada a Margot, mas quando ergui meus olhos sua expressão era apreensiva.
- De maneira nenhuma - sorri sem graça.
- Está atrapalhando a fila, Margot - a mulher disse.
- A vai me dar um presente - a mulher olhou de mim para a garota. - Mas não pode ser aqui, acho que é segredo.
Vi a expressão da mulher se tornar preocupada, claro que se preocuparia, uma estranha oferecendo presentes em segredo é realmente preocupante.
- Posso entregar depois do jantar? A senhora deve estar junto, obviamente - me defendi antes mesmo que ela protestasse.
- Não precisa se incomodar - ela disse tentando fazer com que Margot andasse.
- Não é incomodo nenhum, como eu disse, a senhora pode vir junto. Eu realmente quero presentear Margot. Me encontrem perto da entrada dos voluntários depois do jantar. Lá é movimentado.
- Vai demorar muito aí? Tô com fome - alguém gritou na fila e a mulher se aproveitou da reclamação para sair de perto de mim.
Ótimo, pelo visto eu tinha realmente gastado meu dinheiro para nada. Isso que dá se preocupar com a gentalha.
A reação negativa de mulher ao meu ato de gentileza só serviu para aflorar minha irritação, eu queria mandar todas aquelas pessoas comerem caladas e sumirem todas da minha frente, mas infelizmente tive que ficar quieta até que tudo chegasse ao fim.
Mesmo sem ter qualquer esperança de que a mulher e Margot fossem me encontrar, saí o mais rápido possível do salão sem que ou qualquer outra pessoa pudesse ver e fui até onde tinha escondido minha mochila para pegá-la antes de seguir para a porta que dava no beco.
Me encolhi no casaco olhando esperançosamente para a rua, se elas viessem, que viessem logo, não podia correr o risco de alguém me pegar ali.
Margot foi a primeira a aparecer puxando sua mãe pela mão e senti um certo alivio quando as vi, abri o sorriso mais simpático que eu possuía e que só era direcionado a pessoas especiais e dei poucos passos em direção a elas.
- Que bom que vieram. Meu nome é - disse para a mãe da menina e como não obtive resposta coloquei a bolsa na frente do corpo.
A mulher tentou ser discreta, mas notei seu movimento quando ela tentou puxar Margot para trás de seu corpo afim de defendê-la quando eu abri a mochila e enfiei minha mão dentro dela. Já Margot estava empolgada demais para perceber qualquer ato protetor da mãe.
- É bem simples, mas eu acho que pode ser útil - disse tentando deixar a vergonha que se apoderou de mim de lado.
Estendi a sacola com as roupas na direção de Margot que a pegou e abriu com pressa. A menina abriu a boca e sorriu quando viu o suéter.
- Olha, mamãe, que lindo - ela o esticou na frente do corpo e sua mãe sorriu sem graça em minha direção.
- E como sei que você gosta, comprei um saco desses só pra você. Já que aqui eles regulam - disse ainda mais sem graça estendendo o pão para a mulher que o pegou, agora parecendo muito envergonhada por ter me julgado errado.
- Muito obrigada, . Não precisava.
- Eu sei, mesmo assim eu queria dar isso para Margot - eu disse e olhei para a menina que agora esticava a calça em suas pernas.
- Muito obrigada, de verdade. Agradece, Margot - ela disse para a menina que me olhou e esticou os braços.
Se fosse qualquer outra pessoa ali eu daria um sorriso falso para me esquivar do abraço, mas ela era tão pequena e seus olhos tão inocentes e dóceis, que me inclinei em sua direção e recebi seu abraço.
Seus braços eram pequenos, mas aconchegantes e me senti bem. Seu abraço era tão confortável que senti um nó se formar em minha garganta. Eu nem saberia dizer há quanto tempo estava esperando e precisando de um abraço como aquele. Não conseguia me lembrar qual fora a última vez que alguém tinha me abraçado de maneira tão reconfortante.
Engoli aquela bola indesejável que estava presa em minha garganta, dizendo a mim mesma que tinha que soltar a menina, mesmo que eu quisesse ficar em seus bracinhos pequenos e gentis, eu tinha que soltá-la. Então, com algum esforço, me afastei engolindo o nó na minha garganta, o obrigando também a levar as lagrimas junto consigo. Margot deu um beijinho tímido em meu rosto e se afastou sorridente.
- Bom, nós vamos indo. Está frio e ficando tarde. Obrigada pelo presente, mais uma vez - a mulher disse e fez menção de se afastar.
- Obrigada, que Deus te abençoe. - Margot disse e seguiu a mulher para a rua. - Até quarta - ela se virou dizendo antes de virar a esquina.
Fechei a mochila e olhei para trás, me certificando que estava sozinha. Corri para dentro do prédio que estava um caos e me sentei na primeira cadeira vazia para esperar . Me peguei sorrindo, ainda sentindo aquela sensação gostosa comigo. Eu me sentia em paz e leve como a muito tempo não me sentia.

***

Incomodada.
Era assim que me sentia enquanto aquela garota me olhava com a curiosidade estampada na testa, do outro lado do refeitório.
Por que ela me encarava tanto afinal? Será que ainda não tinha esquecido daquele episódio lamentável de um mês atrás?
- Vou ao banheiro - disse para , mas foi a mesma coisa de não dizer nada, já que ela estava muito entretida no que quer que fosse que falava ao pé de seu ouvido.
Rolei os olhos sem paciência e arrastei a cadeira propositalmente para me levantar, mas nem o barulho irritante foi capaz de furar a bolha na qual os pombinhos se entretinham. Eles estavam tão grudados naqueles últimos dias que se pareciam com gêmeos siameses.
Fui a passos apressados até o banheiro sujo da escola publica, não estava mais suportando ter que olhar para todas aquelas pessoas sem um pingo de educação. Meu Deus, um mês naquele inferno e nenhum sinal de mudança.
Algumas das adolescentes patéticas daquele lugar se aglomeravam em frente ao espelho retocando suas maquiagens baratas, arrumando seus cabelos mal cuidados enquanto falavam sobre garotos. Todas patéticas.
Abri uma das cabines e entrei tapando meu nariz, obviamente que não usaria aquele banheiro, só queria fugir de tudo e de todos. Queria fechar meus olhos e fingir que minha vida não tinha dado um salto mortal carpado nos últimos dias. Naturalmente não consegui segurar a respiração por tanto tempo e tive que respirar aquele ar poluído. Queria me encostar na parede, mas não tinha coragem, não queria acabar pegando uma doença e acabar em um hospital publico, que deveria ser ainda pior em questão de higiene e cuidados. Céus, porque meus pais tinham que ser filhos únicos? Certamente se tivesse tios ou avós, não estaria precisando passar por tudo aquilo.
Apoiei o braço na porta e recostei minha testa nele fechando meus olhos. Eu sentia falta de papai, sentia falta de muitas coisas, mas a falta de papai era quase insuportável. Cheguei a sorrir fechado enquanto me perguntava exatamente de que maneira ele me fazia falta.
Não era como se jantássemos juntos todos os dias, como se saíssemos juntos todos os fins de semana. Só saíamos juntos quando ele tinha algum jantar ou coquetel importante e que ele deveria levar a família. Ainda assim eu queria escrever algo para meu pai, contar como eu me sentia, mas acima de tudo queria poder contar sobre . Dizer como ele me perturbava com piadinhas escrotas e o modo como ele dava a entender que queria me jogar em uma parede qualquer e me beijar como se fosse seu ultimo beijo, só para depois rir e desdenhar das minhas reações. Desdenhar de mim, para dizer o quanto me achava sem graça e nada bonita. Mas eu sabia que não me sentiria confortável em dizer a papai como me sentia, assim como sabia que as coisas que eu queria conversar sobre , eram coisas para serem conversadas com uma amiga. Essa que eu não tinha e a única pessoa que poderia me ouvir era irmã do garoto e estava ocupada demais com o amigo do irmão. Vida de merda a de pobre mesmo.
Abri meus olhos quando os barulhos cessaram, provavelmente o sinal iria tocar e eu não sentia vontade de ir para a aula, mas não me animava ter que ficar no banheiro para matar aula. Me desencostei da porta e saí da cabine afim de higienizar meu braço e ir para a sala já que não tinha jeito. Parei em frente a pia e abri a torneira enquanto pegava sabão na saboneteira.
A porta de uma das cabines foi aberta e por puro reflexo olhei no espelho para ver quem era, dando de cara com aquela garota novamente. Qual é? Ela estava me seguindo agora também? Rolei os olhos e voltei a prestar atenção em minhas mãos.
- Nossa, não sabia que você frequentava o banheiro da escola - disse de forma debochada e a ignorei. - Eu te vi ontem - ela disse e cessei meus movimentos.
- Não me surpreende, nós estudamos juntas - falei também em deboche e fechei a torneira ficando de costas para a garota para poder enxugar minhas mãos e braços.
- Não no colégio, te vi no beco ontem - congelei meus movimentos, isso não podia estar acontecendo.
- Não sei do que está falando - dei de ombros e sequei as mãos apressadamente.
- Estou falando de ontem, quando você deu as coisas para Margot - ela disse e me virei para ela.
- O quê? Vai, pode rir, ou tirar com a minha cara, espalhar para o colégio inteiro - disse nervosa e ela juntou as sobrancelhas.
- Do que você está falando, sua louca? Não vou rir de você - ela cruzou os braços. - Foi muito legal da sua parte, poucas pessoas fariam o que você fez, na verdade a maioria está ali para conseguir pontos para a faculdade - ela rolou os olhos.
- Tá, tá, tá. O que você quer para ficar de bico fechado? - perguntei e mais uma vez Mayh juntou as sobrancelhas e riu.
Eu tinha certeza que ela queria algo, queria me chantagear como fazia só porque sabia de algo vergonhoso meu. Era assim que as coisas funcionavam, não eram? Eles só se aproximavam quando queriam algo.
- Você é muito estranha, não quer que as pessoas saibam que por trás dessa capa de Patricinha de Bervely Hills, existe uma garota de coração bom?
- Não era você que adorava me ameaçar na porta do meu armário? O que você quer garota?
- Já que está oferecendo, quero conversar. Na verdade preciso conversar - ela disse passando as mãos pelo rosto. - Estou passando por um momento difícil - eu ri.
- Não sou terapeuta - disse e dei as costas para ela.
- Cadê a garota gentil de ontem? - ela perguntou me fazendo voltar a olhá-la.
- Nunca existiu - dei um sorrisinho cínico.
- Se você sair por essa porta, eu faço o espalhar a sua foto - ela disse e meu corpo inteiro congelou.
- O quê? - quase gritei. - Como você sabe dessa foto? - foi a sua vez de sorrir cínica.
- Ele me mostrou e, olha, vou confessar que até eu me cagaria de ter aquela foto espalhada. Bem capaz de ninguém querer ter nada com você por puro medo de te encarar pela manhã - senti meus olhos arderem e uma vontade incontrolável de pular em seu pescoço e quebrá-lo.
- Vai em frente, peça a ele. Ele nunca vai perder a preciosa arma que tem contra mim - ergui o queixo e ela rolou os olhos.
- Queridinha, pode apostar que não tem nada que eu peça ao chorando, que ele não faça sorrindo - senti ainda mais raiva daquela pobretona patética. Raiva pelo jeito que ela falara de , como se ele fosse capaz de qualquer coisa só para vê-la feliz.
- Você quer conversar agora? - perguntei e Mayh sorriu vitoriosa.
- Seria ótimo, vamos - disse e passou por mim saindo do banheiro.
A segui a contra gosto, maquinando alguma forma de fazê-la pagar por aquilo, de fazer pagar por aquilo. Agora além das suas chantagens, seria obrigada a aturar as dela também. Ou então suas sessões de tortura onde ela queria se lamentar pelo fim do namorinho dela.
Mayh andou até o campo de futebol e se enfiou embaixo das arquibancadas. Ela se sentou na grama e preferi ficar em pé.
- E então? - perguntei cruzando os braços.
- Acho que você sabe que eu e terminamos, não é? - rolei os olhos.
- E o que exatamente eu tenho com isso? Sua vida amorosa não me interessa - não resisti, eu tinha que dizer aquilo.
- É exatamente por isso que você é a melhor pessoa para eu conversar e desabafar. Você vai ser neutra porque não se importa. Estou cansada de escutar a mesma ladainha em todas as festas que eu vou e passo a noite toda chorando porque vi o se esfregando em alguma biscate.
- E você quer escutar o quê? Que seus problemas sentimentais não me importam? Que eu não dou a mínima se você está sofrendo por um garoto imbecil? Porque é assim que as coisas são.
- É melhor isso que um monte de baboseira. Do tipo, ele gosta de você Mayh, só está chateado - ela claramente tentou imitar alguém.
- Não sei quem foi o imbecil que te disse isso, mas acho que está errado. Se o seu ex gostasse de você não ficaria se esfregando em metade da parte feminina desse colégio - ela fez uma careta. - Ele está querendo te ferir e você está dando esse gostinho para ele. Já te falaram que homem é igual biscoito? Vai um e vem oito? Se ele não quer, tem um monte que vai querer.
- Eu não sei se quero algum pretendente - ela apoiou o queixo na mão.
- Então você vai ficar infeliz até o ano letivo terminar.
- Eu sei que o é muito jovem ainda e está só aproveitando que está solteiro para fazer tudo o que quer e aproveitar - rolei os olhos.
- E você vai esperar e receber ele de braços abertos quando ele se cansar? - ri irônica.
- Fui eu quem pisei na bola, me sinto culpada - ergui uma sobrancelha e fiquei levemente curiosa para saber exatamente o que tinha acontecido entre eles. Mas não me rebaixaria perguntando.
- Sei, ainda assim, quem está perdendo noites de sono chorando é você. Se ele está perdendo noites de sono, é com outra coisa - ela riu amarga.
- Eu sei e tudo o que eu consigo imaginar é isso.
- Se você tem certeza que é só uma fase e ele vai voltar, por que fica nessa depressão toda?
- Eu não sei se ele vai voltar. O foi meu primeiro amor - ela sorriu de maneira meiga. - E acho que é minha alma gêmea - sorri por um momento.
- Isso é muito bonitinho, querida. Mas acorda para a vida. Você pode gostar dele, mas ergue a cabeça e segue em frente. Existem coisas muito piores que terminar com o namoradinho.
- E o que poderia ser muito pior? Ficar pobre? - ela ergueu a sobrancelha debochada.
- Com certeza, ou perder sua mãe ou seu pai. Mas você sobrevive a isso, continua com a cabeça erguida, mesmo que algumas pessoas a sua volta tentem te deixar lá embaixo. Mesmo que as pessoas tentem fazer com que você se sinta insignificante. Quando você perde alguém essencial e insubstituível pra sua vida e sobrevive, sabe que pode sobreviver a qualquer outra coisa. Mesmo que todos os sorrisos perfeitos que você coloque no seu rosto sejam falsos, mesmo que sua única felicidade tenha desaparecido, mesmo que você se sinta sozinha - suspirei. - Você sobreviveu e não é qualquer merda, nem um ser insignificante para a humanidade que vai te fazer abaixar a cabeça. - Mayh mantinha uma sobrancelha erguida.
- Uau. E eu achando que era a única deprimida aqui - ela havia notado meu desabafo. - Acho que você tem razão, eu errei? Errei, mas isso não justifica o que o está fazendo comigo. E se ele me ama como disse que me amava, ele vai ter que me perdoar - comecei a rir.
- Você vai implorar pelo perdão dele? - perguntei ainda rindo. - Vai se ajoelhar também? Essa eu quero ver. - Mayh também começou a rir.
- Não, vou mostrar para ele que não vou esperar a vida inteira. Que a vida segue, mesmo sem ele nela e se ele me ama mesmo, vai me querer de volta antes que eu escape de vez - disse com convicção. - Não vai? - perguntou em duvida.
- Não sei, mas se não quiser, é só mais um sinal de que não era para ser - dei de ombros.
- Mas eu quero que seja.
- Eu também quero voltar para a minha mansão, mas adivinha? Tá mais difícil que conseguir um exclusivo da Carolina Herrera.
- Certo, vou começar hoje. Depois da aula vou embora e dormir o dia todo e amanhã, amanhã é outro dia e eu vou ser a mulher mais bonita que já pisou nesse colégio - rolei os olhos.
Vai sonhando, a mulher mais bonita que já havia pisado ali era eu.

's POV

Aquela expressão depressiva estava começando a fazer parte de Mayh e era estranho vê-la daquela forma.
- Onde você se meteu? - perguntei assim que ela se sentou ao meu lado.
- Estava por aí - ela deu de ombros.
- Com a ? - fiz uma careta e ela sorriu.
- Como você sabe? - ergueu uma sobrancelha.
- Vi vocês duas no corredor enquanto estava indo pra aula, estava com ela então?
- Qual o problema? - odiava quando Mayh me respondia com outra pergunta.
- Nenhum, achei que você não gostasse dela. Sempre a trata mal - dei de ombros.
- Pois é, mas aí hoje eu acordei e percebi que ela nunca me fez absolutamente nada, então por que não começar a socializar com ela? - disse amarga.
- Fez para mim, e aparentemente até semana passada isso era motivo suficiente para você.
- E o fez e continua fazendo para mim, mas para você isso não parece ser motivo o suficiente para evitá-lo - suspirei já exausto de ter aquela conversa com ela, nós a tínhamos praticamente todos os dias.
- Eu cresci com ele, Mayh, estou tentando não misturar as coisas. Vocês dois são meus amigos e eu queria que continuasse dessa forma - expliquei pela milésima vez.
- Eu sei e respeito isso, você não precisa tomar as minhas dores - ela disse. - Assim como eu não preciso tomar as suas, certo?
- Certíssimo, eu nunca pedi que tomasse as minhas, pedi?
- Não, eu as tomei porque quis. Na verdade, achei a garota bem hipócrita também, teria tomado a de qualquer pessoa - ela deu de ombros.
- Então, por que quer ser best dela? - juntei as sobrancelhas.
- Com ela eu posso conversar - ela encolheu os ombros.
- Comigo também, com o , .
- Eu sei, mas é diferente. Ela não é amiga do . - Mayh riu. - Nem minha amiga. Ela não dá a mínima, ela não vai se importar em dar uma opinião sincera só porque pode me magoar. Ela é a única pessoa que eu posso conversar que não vai arrumar desculpas para o e vai contestar as que eu arrumar para as atitudes dele. E o mais importante, ela não vai espalhar nada por aí, porque ela não da a mínima nem para mim, nem para o resto desse colégio - ela falou rápido e de uma vez.
- Você acha a Maddox confiável?
- Não sei, , você é meu melhor amigo, mas é o melhor amigo do também. Eu só precisava conversar com alguém que não fosse o melhor amigo do meu ex. E não tem ninguém nesse colégio fora você, a e os meninos que não sairiam espalhando por ai. Só a .
- E você confia nela? - eu não queria, mas tive que rir.
- Não confio, mas se ela soltar uma palavra do que eu falei, arrebento ela - ergui uma sobrancelha.
- Fica esperta, não confia nela. Ela é falsa, dissimulada e uma ótima atriz - avisei.
- , esqueceu que eu convivi e convivo com muitas pessoas iguais e até piores que a ? Eu vou saber lidar com ela. Se a Maddox der um fora comigo, e não precisa ser dos grandes, eu cutuco onde mais dói - ela deu um sorrisinho maldoso e eu sorri não sabendo se aquilo era uma coisa muito bacana.
Não tinha contado nada do que eu sabia para Mayh, mas ela tinha contatos suficiente para descobrir algumas coisas sozinha.
Comecei a me arrepender de ter tido aquela conversa sobre com ela.
Não era para Maddox saber de muitas coisas, especialmente as que mais iriam doer. Não pela boca de terceiros, pelo menos.

__________________
*Para ter uma ideia melhor da megalomania que é o cartão: o item reportadamente mais caro comprado com um destes foi um jato particular, ao custo de US$ 30 milhões!
Requerimentos básicos:
Gastar pelo menos US$ 250.000,00 dólares por ano.
Pagar uma taxa de adesão de US$ 5.000,00
Pagar uma anuidade de US$ 2.500,00



Doze

- Vamos , . Vai ser divertido! - estava há mais de meia hora tentando me convencer a acampar.
Seria uma ótima ideia ficar um fim de semana afastada daquele ambiente, naqueles dois dias eu poderia fingir que iria voltar para Belgravia e não para a casa de Megan. O problema é que eu odiava acampar. Mato e insetos definitivamente não me atraem.
- , eu já disse que não estou afim - disse já perdendo a delicadeza que usei para repetir aquela frase umas trinta vezes.
- , tudo o que você tem feito nesses últimos dias é ficar enfornada dentro de casa. Você precisa sair um pouco, se socializar com pessoas da sua idade. - Credo, parecia uma velha falando. - Por que quer tanto que eu vá? - cruzei os braços e ela rolou os olhos.
- Para você se divertir um pouco - dei um sorriso cínico.
- Tem certeza que não é para sua mãe dar permissão para você ir? - disse irritada.
não estava sendo uma pessoa das mais atenciosas comigo desde que começou a se pegar com , quase nunca insistia para que eu fizesse algo com ela quando sua saída já estava garantida. Para mim era óbvio que ela precisava que eu fosse para poder ir.
Ela abriu a boca de forma ultrajada.
- Eu não acredito que você pensa assim. Eu já tenho permissão pra ir, se você não percebeu nós estamos combinando esse passeio a semana toda. Quero que você vá para se divertir um pouco, mas se você não está afim, tudo bem - ela deu de ombros.
- Eu vou para ficar isolada? Porque eu não sei se você percebeu, mas ninguém gosta de mim.
- Eu gosto de você e os meninos não tem nada contra você. Você que está sempre ignorando todo mundo, - ela estava brava, mas eu não me importava e por isso ri.
- Eu ignoro todo mundo? Você só solta a língua do quando seu irmão está perto, e só solta para focar no mundo particular de vocês e sou eu que ignoro todo mundo?
- Você ignora sim, largou o falando sozinho ontem na hora do almoço, o então, você não dá nenhuma chance do garoto de falar com você. Se isolar só vai te deixar ainda mais deprimida - argumentou passando a mão pelo cabelo.
- E quem disse que eu estou deprimida?
- Ninguém precisa dizer, dá para perceber. Você fica com o olhar longe e vazio - ela suspirou. - Olha, eu sei que você está passando por momentos difíceis, mas se fechar para si não vai ajudar. Os meninos são pessoas legais e agradáveis, mas se você não der uma chance para eles, nunca vai saber como eles podem ser uma distração legal nas horas difíceis.
- Você vai me deixar sozinha. Está vendo? Era disso que eu estava falando, você vai ficar com o e esquecer que queria tanto que eu fosse.
- Eu não vou te isolar, prometo que vou ficar o tempo todo com você. - disse suavizando sua expressão.
- Eu odeio mato, !
- Vai ser tão divertido que você nem vai notar que está no meio do mato. Por favor, .
- Eu odeio mato! - repeti tentando fazê-la entender.
- Vamos, por favor. Eu juro que vou ficar a todo momento com você e vai ser muito legal, a gente vai se divertir. Ou você prefere ficar aqui sozinha? Porque a mamãe vai ficar o fim de semana todo fora - ela deu de ombros e suspirei.
- Ok, mas se você me largar por um segundo, vai ter que dar um jeito de me tirar de lá - ela deu um gritinho e bateu palmas antes de me abraçar desajeitadamente.
- Arruma suas coisas, partiremos amanhã de manhã - disse e saiu do quarto saltitante.
Certo, porque eu tinha concordado com aquilo mesmo? Céus, nem consigo me reconhecer mais.

***

Eu havia perdido metade da minha noite arrumando minha mala para o acampamento, em vários momentos enquanto colocava todas as formas de repelentes que tinha dentro da mala pensei em desistir, mas Deus sabe que eu não aguentava mais olhar as paredes daquele quarto, daquela casa, daquele colégio, das casas daquele bairro xexelento em que Megan morava. Eu precisava estar em qualquer outro ambiente ou ficaria louca.
Só não esperava que as cinco da manhã, estaria esmurrando a porta do meu quarto berrando que eu já estava atrasada.
Pelo menos dessa vez Megan abriu a porta de seu quarto com raiva e o mandou calar a boca, ou ele não iria apenas se atrasar, como também não ia para o maldito acampamento com os amigos. Foram essas suas palavras e essa atitude já fez meu humor melhorar muito, ainda mais quando sussurrou um : "Você tem cinco minutos", antes de sair com o rabinho entre as pernas pelo corredor.
Com uma calma que não cabia em mim, peguei minhas coisas e rumei para o banheiro. Saí do banho e comecei meu ritual de beleza, naquela manhã estava me sentindo bem com a minha aparência e decidi que precisa cuidar ainda mais dela.
A porta do banheiro foi aberta bruscamente e um grito ficou entalado na minha garganta quando congelou com a mão na maçaneta me olhando como se eu fosse algum ser de outro planeta. Seus olhos estavam arregalados e sua boca levemente aberta e ele definitivamente não estava olhando para o meu rosto. Levei alguns segundos para me lembrar que tudo o que eu vestia era minha lingerie.
- Por que você ainda não saiu e fechou essa porta? - disse alarmada pegando a toalha em cima da pia para tentar me cobrir.
- Hã? - foi tudo o que ele disse olhando para meu rosto com uma expressão que me faria rir se eu não estivesse tão envergonhada.
- Sai daqui, Shrek - quase gritei.
- Merda, tranca a porta da próxima vez - ele disse e saiu batendo a porta.
Meu rosto estava queimando e agradeci aos céus por só usar Victoria Secrets.
- Preciso que alguém me ajude com a mala - disse assim que cheguei a cozinha e encontrei e colocando várias coisas em uma caixa térmica.
- Mala? - perguntou levantando uma sobrancelha.
- É, mala. Esperava que eu levasse minhas coisas em um saquinho de supermercado? - ele rolou os olhos, mas deixou o que estava fazendo para pegar minha bagagem.
- Que seja, já estamos atrasados - disse passando por mim.
O segui até o quarto que estava com a porta aberta, ele parou no meio do quarto e olhou ao redor.
- Cadê a mala? - perguntou colocando as mãos na cintura.
Por Deus, ele estava com problemas de visão? A mala estava bem ao seu lado, perto da cama.
- É essa aí do seu lado, idiota - disse e fui até a cama para pegar minha bolsa.
- Você está brincando, né? - perguntou sério e neguei com a cabeça colocando a bolsa no ombro enquanto checava as horas no meu celular.
- Não, é só essa mesmo. Acho que estou levando tudo que preciso - ele deu uma risadinha.
- Só? Olha o tamanho disso, está achando que vamos ficar lá quanto tempo? É só um fim de semana.
- É, só. Ainda estou deixando para trás um dos meus modelitos e sapatos preferidos - disse indo para a porta do quarto.
rolou os olhos, mas pegou a mala e a puxou para fora, fechei a porta e o segui até a escada. Ele parou e tentou levantar a mala.
- Caralho, garota, colocou o que aqui dentro? Chumbo? - perguntou levantando a mala com dificuldade.
- Deixa de ser fracote, nem está pesada - debochei sorrindo cinicamente.
- Se dê por satisfeita de eu não te fazer descer a mala, ou não jogar esse treco daqui de cima. Seria mais prático - por mais que eu quisesse xingá-lo, fiquei quieta. ainda estava na metade dos degraus e eu não duvidava que se dissesse algo, ele realmente jogaria minha mala.
Depois de colocar tudo no porta malas, se sentou ao meu lado no banco do motorista e colocou o cinto. havia insistido para ir no banco traseiro, disse que estava com sono e iria dormir.
- Tem certeza que não está esquecendo nada, ? - ele perguntou e ela negou com a cabeça. - Coloca o cinto, - disse antes de colocar um óculos escuro no rosto e ligar o carro.
Pelo amor de Deus, nem havia amanhecido direito. Ele queria o quê? Me matar do coração?
Andamos alguns quarteirões e então parou em frente a uma casa de cerca branca, onde esperava na frente com uma mochila no ombro. Entendi porque fez tanta questão de ir no banco traseiro.
deu um bom dia preguiçoso e se acomodou ao lado de , para podermos seguir caminho.
Quando finalmente saímos do bairro pude suspirar aliviada, enquanto o subúrbio ficava para trás eu já podia me sentir como eu mesma novamente. Andamos cerca de vinte minutos até entrarmos em um bairro nobre que eu nunca havia estado antes. Sabia que ali moravam pessoas com condições muito melhores que a das pessoas dentro carro, aquele tipo de imóvel não era encontrado em qualquer lugar.
- Onde estamos? - perguntei me inclinando para poder ver todos os lados.
- Vamos pegar a Mayh. - disse sem interesse.
- Tem certeza que não estamos no lugar errado? - disse o olhando rapidamente.
- Absoluta - ele disse e parou em frente a uma casa onde Mayh conversava com .
Ele buzinou e a garota olhou em nossa direção colocando a mochila no ombro antes de dizer alguma coisa a .
Os dois vieram em nossa direção e enquanto Mayh entrava na parte traseira, espremendo o casal que já ocupava ali, se inclinou na janela quase se jogando em cima de mim.
- Você me segue ou eu te sigo? - ele perguntou a .
- Acho melhor você me seguir - o garoto respondeu e só acenou saindo em seguida.
Quando ele já estava em seu carro, saiu e passou por eles e aí entendi porque Mayh estava com a gente. Seu ex estava acomodado no outro carro.
Falando em Mayh, como assim aquela pobretona morava em um bairro nobre? O pai dela era traficante ou coisa assim?
Mesmo com a curiosidade a flor da pele fiquei na minha, mesmo sendo um bairro nobre, não era nada comparado a Belgravia.
Saímos da cidade e entramos em uma estrada, que pelo horário estava praticamente vazia. Mayh estava com seus fones de ouvido e olhos fechados, e também estavam com fone de ouvido, porém eles dividiam um. Cada vez que avançávamos na estrada a velocidade do carro aumentava me deixando cada vez mais apreensiva. Que droga ele estava fazendo?
- Pode ir mais devagar? - reclamei, mas ele não diminuiu.
- Não - respondeu.
- Por que a pressa? Vai mais devagar, por favor - pedi com a voz fraca.
- Não estou com pressa, estou no limite de velocidade - disse tranquilamente e segurei o banco do carro.
- Vai mais devagar - pedi mais uma vez.
- Eu odeio que me digam como eu devo dirigir.
- Por favor, eu odeio carros em alta velocidade - fechei os olhos encostando a cabeça no banco.
- Você tem fobia ou algo do tipo?
- Não, mas alguma vaca pode aparecer na nossa frente - o idiota riu.
- Não tem vacas por aqui, se isso te deixa mais tranquila.
- Me deixaria bem tranquila se você fosse um pouco mais devagar - quase gritei.
- Então você vai continuar nervosa - sorri amargurada, como não adivinhei que ele diria algo parecido?
Permaneci de olhos fechados e alguns minutos depois senti a velocidade do carro diminuir. Abri meus olhos e vi que começamos a ficar rodeados de árvores e logo começamos a fazer curvas. Dei graças a Deus por ter o bom senso de fazer as curvas sem achar que estava em Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio.
Mais uma estrada que parecia interminável e entramos em uma outra estrada, de terra dessa vez. O que me obrigou a fechar a janela para não ter meus cabelos cheios de pó.
Mato nos rodeava de todos os lugares e comecei a me arrepender de não ter ficado em casa.
Quando aquele matagal se abriu, revelou uma espécie de campo ou clareira, ou sei lá o que, mas que pelos troncos posicionados estrategicamente, percebi que era usado para acampamento ou para sabe-se lá o quê.
Saí do carro e me espreguicei discretamente, Mayh praticamente correu para se sentar em um dos troncos e como os meninos começaram a tirar as coisas do carro, segui para lá também.
A garota estava encarando o nada e não fiz questão de atrapalhar sua tarefa, nós havíamos conversado uma vez, isso não nos tornava colegas.
- Devia ter ficado em casa - ela disse após alguns minutos de puro silencio, só com as vozes e risadas das pessoas ao fundo.
- Por que veio? - perguntei sem interesse.
- Porque nossos acampamentos são divertidos - ela deu de ombros. - Mas eu sei que vai ser estranho com o aqui. Não sei se consigo ignorá-lo.
- Tenta se lembrar qual foi a última menina que ele fez questão de pegar na sua frente - dei de ombros. Não precisava estar conversando com ela, mas estava fazendo exatamente o que disse que não faria e eu não estava afim de ficar sozinha.
- Acho que isso pode funcionar - ela disse e deu um tapinha em sua mão. - Argh, odeio insetos - disse abriu a mochila tirando de lá um vidrinho de repelente.
- Esse é um dos meus preferidos, ele tem um cheiro bom - falei enquanto Mayh o passava.
- Minha mãe odeia o cheiro - ela riu. - Sou proibida de usar ele dentro de casa.
E ficamos ali sentadas no tronco falando sobre repelentes, perfumes, sapatos e mais um monte de coisas que eu sequer imaginava que ela fosse interessada, enquanto as outras pessoas montavam barracas e afins.

***

- Eu não vou lá sozinho. - disse de boca cheia.
- Deixa de ser boiola, é logo ali. - disse enquanto colocava mais suco no copo de .
Confesso que no inicio estava com um pouco de nojo de comer o que eles haviam levado, mas depois de provar o sanduiche de atum da mãe de , resolvi que a comida era mais gostosa que meu nojo e minha fome era maior.
- Então porque você não vai, senhor machão?
- Porque da ultima vez eu fui.
- Mas o estava com você - eles estavam em uma discussão interminável de quem iria pegar a lenha para acender uma fogueira à noite.
Um ficou jogando para o outro, até que decidiram que estavam em um rodizio e estava com medo de entrar no mato sozinho.
- E ele pode ir com você. - disse doce.
- Eu já fui da ultima vez. - reclamou.
- Eu não vou sozinho. - decretou.
- Então a gente fica sem fogueira - falei pela primeira vez desde que nos sentamos à mesinha desmontável que havia trazido.
Todos eles olharam para a minha cara e me concentrei no segundo sanduiche que estava comendo.
- A Mayh pode ir com você. - soltou inocentemente.
- Não ando com traíras. - disse e até eu senti a tensão se instalar.
- Chega, eu a vamos buscar. - Mayh disse brava e se levantou, no começo de sua frase achei até que eles iriam começar a colocar as coisas em pratos limpos bem ali na nossa frente.
- Quem disse que eu vou me enfiar no meio do mato? - perguntei imediatamente e ela voltou a se sentar.
- Querem saber, pode deixar que eu vou. Só vou terminar de comer. - disse de modo descontraído tentando amenizar o clima tenso que ainda pairava por ali.
E agora eu estava curiosa para saber o que tinha acontecido entre Mayh e , traíra é uma palavra forte e varias cenas se formaram em minha cabeça. Cenas do tipo a pegando na cama com outro.
- Onde é o toilet? - perguntei me levantando e todos, sem exceção nenhuma, começaram a rir. Até . - O que foi? A palavra toilet é engraçada? - perguntei empinando meu nariz.
- Tá vendo aquela árvore? O toilet é logo atrás dela. - disse em tom irônico.
- Para, . Desse jeito a menina vai achar que tem mesmo um banheiro aqui. - Mayh disse se recuperando.
- Espera, não tem um banheiro aqui? - ergui minha sobrancelha.
- O que você acha, lady? - disse. - Estamos no meio do mato - bufei, e eu achando que já conhecia boa parte do inferno morando com Meg.
- Vem, , eu te levo para fazer o que precisa. - se levantou.
- Me leva onde? - Na moita pra fazer xixi. - disse com naturalidade e fiz uma careta de desgosto.
- Acho que estou bem aqui, obrigada - falei e me sentei.
- Você não vai usar o banheiro enquanto estiver aqui? - perguntou confuso.
- Que banheiro? - perguntei de volta.
- , você precisa ir. Não pode ficar segurando. - disse doce me estendendo sua mão.
- Nem vai conseguir segurar por muito tempo. - Mayh deu de ombros.
E droga, elas tinham razão, especialmente Mayh, eu já estava no meu limite de tão apertada.
Fechei os olhos e respirei fundo.
- Não acredito que cheguei à esse ponto - disse e me levantei segurando na mão de .
Ela foi até sua mochila e pegou um rolo de papel higiênico antes de seguirmos para árvore da qual havia falado. Passamos pela árvore e andamos um pouco mais.
- Aqui ninguém vai te ver. Não que eu ache que os meninos vão te espiar, mas aqui é seguro. Eu fico vigiando, ok? - ela disse e se virou de costas para mim depois de me entregar o papel.
Olhei ao redor com receio, olhei para o chão para ver se não tinha nenhum inseto nojento se rastejando por ali. Que Deus me ajude. Abri o botão da minha calça e baixei o zíper, dei mais uma olhada ao redor e no chão e abaixei minha calça antes de me agachar. Céus, eu não estava fazendo aquilo.
Se alguém sequer imaginasse aquilo, minha vida estaria arruinada.
Tentei ser rápida para a experiência ser menos traumatizante, mas havia bebido muito suco.
Assim que terminei tudo, ergui minha calça e a fechei apressadamente.
- Como vou lavar minhas mãos? - perguntei assim que me recompus e me olhou.
- Tem uma garrafa de água no acampamento - assenti e seguimos para fora da mata.

***

Estava tão absurdamente frio que nem a fogueira estava ajudando, eu agradecia por ter escolhido um dos meus melhores casacos. se espremia em e Mayh em , enquanto tomava vodka dizendo que era para se manter aquecido.
Eu queria me espremer em alguém também, ou em , mas me mantive em minha pose me contentando em me espremer em meu casaco.
- Certo, vamos animar isso aqui. Vamos jogar o jogo da verdade. - disse animado.
- Não estou afim. - Mayh respondeu acida.
- Por que a gente não joga eu nunca? - sugeriu quando notou que seria mal educado.
Era essa a ideia de acampamento divertido deles? Fala sério.
- Eu topo. - Mayh disse animada.
- Eu também. - e responderam juntos.
- Por mim tudo bem. - deu de ombros.
- Que seja. - disse de má vontade e a única que ficou sem dar a resposta fui eu.
- Certo, vamos encher os copos. - Mayh disse animada quase correndo até o saquinho de copos plásticos.
- Hum, como se joga isso? - eu nunca nem tinha ouvido falar naquele jogo.
- Cada um fica com um copo de bebida na mão, aí alguém diz algo que nunca fez, ou que já fez. E quem fez também toma um gole da bebida. Entendeu? - explicou sorrindo.
- E que bebida vai ser essa? - perguntei olhando ao redor.
- Vodka. - levantou o copo que segurava.
- Não vou tomar isso puro não. - reclamou fazendo uma careta.
- Vamos misturar com refrigerante. - disse e se levantou indo ajudar Mayh.
Quando todos nós já estávamos com um copo na mão, menos que possuía uma garrafinha de água, exigências do Shrek, começamos o jogo. O primeiro foi .
- Eu nunca fiquei com a Claire - ele disse e todos os meninos sem nenhuma exceção tomaram de suas bebidas.
- Já que o assunto é a Claire, eu nunca comi a Claire. - disse e gargalhou e mais uma vez todos os meninos tomaram de suas bebidas.
- Eu nunca comi a Benson. - disse e fiz uma careta, eles iam ficar falando sobre aquilo?
Mas ninguém tomou nada e chegou a vez do , eu esperava que ele não disse nada sexual.
- Eu nunca fumei maconha - ele disse e somente eu e não levamos nossos copos a boca. Então chegou a vez dela.
- Eu nunca beijei Janet Benson - ela disse com ar debochado e a olhou de um jeito assustador antes de tomar de sua bebida.
- Ah, tá brincando. - disse e começou a rir histericamente enquanto os outros o acompanhavam.
- O bigode dela te machucou? - Mayh perguntou quase chorando de tanto rir.
- Foi na sétima série, ok? - ele disse bravo e eles continuaram rindo.
O que era ótimo, já que eu não tinha ideia do que iria dizer e eu era a próxima.
- Sua vez, . - disse se controlando e mordi o lábio em duvida.
- Hum, eu nunca... - droga. O que eu já tinha feito que eles também já pudessem ter feito? - Eu nunca... - eles se inclinaram em minha direção. - Eu nunca fui para o paraíso com o Mark - disse e sei que ninguém entendeu absolutamente nada, mas para minha surpresa, Mayh imitou meu gesto e levou seu copo a boca.
- Foi pro paraíso? - perguntou confuso.
- Paraíso, sete minutos no paraíso. - Mayh disse risonha e se virou para mim. - Não acredito que você também já foi com o Juez, dizem que ele trapaceia para levar as meninas - ela disse rindo levemente e sorri.
- Ele tentou te beijar? - perguntei ainda surpresa por ela conhecer pessoas do meu nível social.
- Não só tentou me beijar como perguntou se podia apertar meus peitos - ela disse rindo e a acompanhei, não estava me sentindo mais ridícula por ter dito algo que provavelmente não seria interessante a ninguém. Finalmente tinha alguém ali que falava a minha língua, ou a entendia.
- Ele também me perguntou isso, ele é nojento - eu disse e ela concordou.
- Muito nojento, deve ser por isso que ainda é virgem - ela debochou.
- Tudo bem, tudo bem. Vamos continuar com o jogo? - disse mal humorado. - Sua vez, Mayh.
- Certo. Eu nunca transei com mais de uma pessoa ao mesmo tempo - ela disse e apenas , e tomaram.
Mais algumas rodadas e , Mayh, e estavam bêbados. Os olhos de estavam vermelhos , mas ele parecia bem. - Eu queria ser uma fada, mas não rolou. - Mayh fez um biquinho triste, estávamos em uma conversa bêbada (da parte deles) do que queríamos ser quando pequenos.
- E você, ? O que você queria ser? - perguntou com a voz mole e fiquei em duvida se dizia a verdade ou não.
Aquele assunto era um pouco delicado para mim por vários motivos que eu não gostava nem de pensar neles, mas como eles estavam bêbados, não prestava atenção e estava no banheiro, resolvi dizer a verdade.
- Eu queria ser bailarina - como a minha mãe, completei em pensamento encarando meus dedos.
Eles já estavam em outro assunto, ninguém perguntou nada e eu ainda estava encarando meus dedos. Quando era menor e frequentava o estúdio da minha mãe, eu queria mais que tudo ser bailarina como ela, queria ser como ela, para que mamãe tivesse orgulho de mim. E agora nem vontade de dançar tinha.
Balancei a cabeça espantando aqueles pensamentos, eu não podia tê-los ali, não quando eles me deixavam em um estado de espirito lamentável, não na frente de um monte de desconhecidos. Aqueles pensamentos e sentimentos eram para eu ter quando estivesse no conforto da minha privacidade.
Quando levantei meu rosto, Mayh me encarava com uma expressão estranha e por isso desviei os olhos para qualquer outro lugar e meus olhos caíram em , que também me olhava.
Seus olhos estavam pesados, ainda assim pude ver curiosidade neles. piscou vagorosamente antes de desviar seus olhos dos meus. Aquilo poderia não significar nada para ninguém, mas para mim significaram um infinito de coisas que eu jamais poderia colocar em palavras ou explicar todas elas. Entre elas foi me sentir interessante aos olhos de , aquela havia sido a única vez em que ele havia me olhado com aquele interesse e curiosidade genuínos. E aquilo era de certa forma reconfortante, foi como se eu pudesse, talvez em um futuro distante, tê-lo para mim. Que eu poderia despertar nele o tipo de interesse que ele despertava em mim.
Ri comigo mesma, sem me importar se alguém notaria esse gesto, afinal, poderiam achar que eu estava bêbada.
Todo aquele ambiente novo estava realmente fazendo algo comigo, eu jamais teria tanto interesse em se o visse na rua, não por ele ser feio, o que obviamente ele não era. Mas o modo como se vestia e sua classe social ofuscariam qualquer traço de charme ou beleza que ele pudesse possuir. Jamais daria chance para um garoto pobre se aproximar de mim. Ele nunca poderia me levar aos lugares onde eu estava acostumada a ir e eu teria vergonha de apresentá-lo as minhas amigas.
Mas quanto mais os dias passavam e mesmo sendo odiável comigo na maioria deles, mais eu queria me aproximar e descobrir como seria deslizar meus dedos por seus cabelos, estar envolta em seus braços grandes e sentir seu cheiro de perto. Uma realidade cada vez mais distante.
- Eu estou com sono, podemos dormir? - resmungou chamando a atenção de todos.
- Como vão ficar as barracas? - perguntou com um sorrisinho grogue no rosto, acho que ele achou que em alguma realidade muito paralela, ele e dividiriam uma barraca.
- Eu e a vamos dividir uma. - cortou as asinhas do garoto.
- Eu fico com a Mayh. - disse e o silencio pairou no ar.
- Quem disse que eu quero dividir algo com você? - Mayh retrucou após o silencio constrangedor.
- Você não vai dormir com o ou o . Tira seu cavalinho da chuva. - disse estupido.
- Eu posso dormir com quem eu bem entender, . Não é assim que funciona?
- Eu e o dividimos uma barraca, sem problemas. - disse assustado.
- Eu e a Mayh dividimos, outra. - foi categórico e a garota bufou fingindo desagrado.
Claro que se ela realmente não quisesse dormir com o ex, bateria o pé até o final. Mas, tinham apenas três barracas e ninguém tinha se importado comigo.
- Eu vou dormir onde? - perguntei quando todos já estavam se levantando.
- Dorme aí fora. - deu de ombros e o estapeou.
- Para de ser imbecil. Pode vir com a gente, , a barraca dá para três pessoas. - disse com delicadeza.
- Você acha mesmo que eu vou dormir com ela? Vai sonhando. - retrucou e riu.
- Então você pode dormir aqui fora, ou com os meninos. - disse.
- E por que ela não dorme aqui fora ou com os meninos? - ele cruzou os braços e a essa altura todos já tinham parado para assistir a pequena briga.
- Porque é você quem está reclamando da solução. - levantou uma sobrancelha.
- Claro, o sonho dela é dormir comigo - abri minha boca ultrajada.
- Como é que é? - gritei me aproximando a passos apressados. - Não fale como se eu estivesse implorando para dividir a porcaria de uma barraca com você, seu energúmeno. Se você quer tanta distancia, vai dormir com seus amigos e eu durmo com a . Até onde eu sei, não te pedi para ficar na nossa barraca.
- Sua barraca? A barraca é minha.
- Seja educado uma vez na sua vida inútil e ceda a barraca para as damas - falei ainda um pouco mais alto que o normal.
- Não estou afim de ceder nada para você. Você vai pra barraca do e do e fim de papo - cerrei meus olhos, o Shrek não gostava de ser contrariado, especialmente por mim.
- Você perdeu o juízo, ? Não tem cabimento a dormir com os meninos. - saiu em minha defesa.
- E o que tem demais? Nenhum deles vai colocar a mão nela se ela não quiser.
- Tudo bem, então eu vou para a barraca dos meninos. - cruzou os braços e os outros fizeram uns sons estranhos.
- Você está louca se acha que vai dormir com o , você fica comigo. - falou autoritário.
- Ué, eles não vão colocar a mão em mim sem minha permissão, então qual o problema? - sorriu cínico.
- O problema é que o tem sua permissão para tocar em você.
- Então vai você dormir com eles e nos deixe na barraca - me intrometi.
- É. - concordou.
- Não, se eu estiver na barraca deles o pode facilmente escapar no meio da noite para a sua barraca, mas comigo nela, eu duvido que ele se atreva a sequer te chamar.
- Eu não vou fazer isso não, cara. - se defendeu, mas foi perfeitamente ignorado.
- E eu posso escapulir para a barraca dele. - teimou e passou a mão pelo cabelo nervoso.
- Você não vai fazer isso sabendo que o está lá e tem a língua maior que o corpo, você dorme comigo e ponto.
- E a ? - ela disse e ele olhou de mim para ela.
- Que seja - abanou o ar com a mão e se afastou.
Ótimo, tudo o que eu precisava era passar uma noite inteira dividindo um espaço minúsculo com .

***

- Eu odeio dormir no meio, . Você sabe que me sinto sufocada. - reclamou.
- , você disse que não tinha cabimento a dormir com o e o , mas tem cabimento ela dormir comigo? - só nós três ainda não estávamos dentro da barraca.
- Ele tem razão - falei morrendo de medo de ter que ficar ao lado dele a noite inteira. Céus, nem dormir eu conseguiria se isso acontecesse.
- Mas gente, eu me sinto sufocada, chega a ser fobia. - se defendeu. - O não vai colocar a mão em você sem sua permissão, - mas eu poderia colocar a minha nele, riu. Que eu não tenha dito isso em voz alta.
- Mas e se ela colocar as mãos em mim sem a minha autorização? - ele colocou as mãos na cintura e ergueu uma sobrancelha.
- Duvido que ela faça isso, deixa de ser convencido - ela disse e concordei com a cabeça, estava nervosa demais para falar qualquer coisa.
- É, , deixa de ser viado e entra logo nessa porra dessa barraca que essa discussão já esta me irritando. - gritou. - Parece que esta com medo de dormir com a garota - completou e foi puxado com violência para dentro de sua própria barraca.
- Eu quero dormir, vou entrar e me acomodar. Beijos. - disse e se jogou dentro da barraca.
Eu e nos olhos por alguns segundos, os dois claramente constrangidos e nervosos, mas acredito que o meu nervosismo era por um motivo bem diferente do seu. Ele rolou os olhos.
- Que seja - ele disse e foi entrar na barraca. - Não coloca as mãos em mim - disse antes de entrar.
Respirei fundo e entrei também, estava no canto direito virada de costas, mas eu sabia que ainda não estava dormindo, estava no canto oposto tirando o casaco.
Deus, que ele não tire a blusa para dormir.
Mas foi exatamente o que ele fez.
Céus, estava muito frio, congelante.
Como aquele garoto achava que eu conseguiria dormir ao seu lado se ele ficasse sem camisa?
Minha noite seria imensamente muito longa.

***

Estava dura no saco de dormir olhando para o teto da barraca, os zumbidos de pernilongos não me incomodavam, não quando eu tinha total ciência de que mesmo que estivesse coberto até o pescoço, ele estava sem camisa por baixo do edredom.
Meu estômago flutuava cada vez que ele se mexia e sua pele roçava na minha e todas essas vezes eu tentei ir mais para o lado, mas estava ali, mais espaçosa do que eu poderia imaginar.
se remexeu e sua bunda quase me lançou para cima de , droga, ela nem era tão grande assim. Respirei fundo, eu podia passar ilesa por aquilo.
Com a delicadeza necessária afastei a garota obtendo o espaço que foi possível.
Minha melhor chance era me virar de costas para e foi exatamente o que fiz. Funcionou nos primeiros cinco minutos, mas comecei a ficar cansada da posição e me virei novamente. Se eu me virasse para ele, só precisava manter a distancia necessária certo? Certo.
Mas pensei por tempo demais e resolveu se virar na minha direção também. Não consegui tirar os olhos de seu rosto sereno. Como é possível uma pessoa ser tão bonita até dormindo? Nada de boca aberta, nem baba escorrendo dos lados.
Sua respiração quente, regular e calma batia em meu rosto e não me incomodava, era como uma carícia suave e gostosa. Seus cabelos estavam caídos na testa e tive vontade de tocar neles.
tinha um sono pesado?
Se eu tocasse nos cabelos dele, ele iria acordar e me pegar no flagra tornando nossa convivência ainda mais insuportável?
- ? - sussurrei e o cutuquei de leve na testa.
O garoto nem se mexeu.
Fechei meus olhos contando até três antes de os abrir e erguer minha mão tremula, eu precisava fazer, precisava tocar seus cabelos. Talvez eu tivesse algum problema por ter tara no cabelo de alguém. Fato é que quando a pele da palma da minha mão tocou a superfície de seus fios, foi incontrolável. Simplesmente afundei meus dedos em seus cabelos agarrando alguns fios. Seu cabelo era fino e macio como eu jamais poderia imaginar.
- Hum - ele resmungou e meus movimentos cessaram imediatamente.
Fiquei sem reação e não consegui tirar a mão, se mexeu e fechei meus olhos achando que ele poderia ter acordado. Se isso tivesse acontecido, eu teria a desculpa de estar dormindo e sonhando. Ele iria usar aquilo contra mim de qualquer forma, mas seria menos constrangedor. Ele se moveu como se estivesse se acomodando perto de mim e voltou a ficar parado.
Abri apenas uma brecha de um olho só para ter certeza de que ele realmente ainda estava dormindo e encontrei seu rosto bem perto do meu. A centímetros na verdade, um movimento e eu poderia encostar minha boca na sua, meu braço estava quase em volta de seu pescoço e eu tinha que sair daquela posição antes que fizesse alguma besteira, da qual tinha certeza que me arrependeria pelo resto da eternidade.
Com cuidado afastei minha mão e me virei para tentando manter distância do corpo de .
Fechei os olhos pedindo para Deus para que eu pegasse no sono o mais depressa possível, não sabia se conseguiria me controlar por muito mais tempo. E então todos os meus temores se concretizaram e todas as minhas preces foram atendidas. passou seu longo e forte braço pela minha cintura colando seu corpo inteiramente no meu, enquanto enterrava o rosto em meus cabelos. Senti sua respiração em minha nuca arrepiando cada centímetro do meu corpo e apertei os olhos, os mantendo fechados. Torci os dedos dos pés e comecei a contar carneirinhos, que em algum momento da contagem viraram zinhos, e nem sei quando peguei no sono.



Treze

Não sei exatamente o que me acordou.
Pode ter sido a luz do sol que passava livremente pelo tecido da barraca, ou pode ter sido a súbita percepção de que eu estava abraçado a algo quente e macio. Ainda de olhos fechados puxei fosse lá o que eu estivesse abraçando para mais perto e um cheiro gostoso invadiu meus sentidos. Um cheiro que eu tinha certeza nunca ter sentido antes, era doce e cítrico ao mesmo tempo, uma combinação perfeita para me fazer respirar fundo e mover o rosto para ainda mais próximo ao cheiro. Abri os olhos devagar apreciando o aroma e quando consegui focalizar minha visão, admito, não consegui me mover um milimetro ao notar que a coisa quente, macia e cheirosa que eu estava abraçando, era a .
Eu poderia tê-la jogado longe se não estivesse em estado de choque, mas a única coisa que consegui fazer foi continuar olhando para seus olhos levemente assustados. Ela não fez a mínima questão de fingir que ainda dormia e se tivesse feito assim, seria mais fácil me afastar e fingir que nada tinha acontecido.
Mas eu ainda podia fingir que nada tinha acontecido, era uma certeza que jamais iria tocar no assunto e eu fazia questão de esquecer que aquilo tinha acontecido.
A garota se mexeu minimamente, quase como se tivesse medo que eu me afastasse e eu quase sorri com seu receio, mas o movimento de sua mão em meu peito fez com que eu me lembrasse que já deveria estar bem longe dela.
Recolhi o braço que envolvia seu corpo e esfreguei o rosto calmamente enquanto me afastava ainda mais devagar, com o intuito de fingir que nada tinha ou estava acontecendo. Me sentei no colchão e procurei o moletom o vestindo assim que o encontrei e, sem direcionar mais nenhum olhar para a garota deitada ao meu lado, saí da barraca.
Todo mundo já estava na mesa que havia levado, tomando café da manhã e, pela cara de paisagem que fazia e a expressão mal humorada estamapada no rosto de Mayh, sabia que o clima por ali estava ainda mais tenso que dentro da barraca.
- Bom dia. - foi a primeira a falar e resmunguei alguma coisa em resposta ignorando o braço de em volta de sua cintura.
O namoro dos dois me incomodava, não que tivesse pedido permissão para namorar , mas eu preferia acreditar que ele faria isso em breve, já que não desgrudava dela.
- Dormiu bem? - Não contente com meu resmungo ela voltou a falar e pelo sorrisinho debochado em seu rosto, sabia exatamente ao que ela se referia.
- Não que eu ache que você se importe, mas não. Minha noite foi péssima - me joguei no banquinho mais próximo morrendo de vontade de sumir dali.
Não que eu não gostasse da companhia dos meus amigos, mas o clima não era dos melhores e pela expressão de todos, exceto e , sabia que todos naquela mesa tinham notado que a noite de e Mayh não tinha sido das melhores.
Talvez não a noite, a manhã seguinte seria o mais correto. E como tanto eu, quanto e conhecíamos bem demais , sabíamos exatamente o que tinha acontecido. Eles transaram e ele disse um monte de coisas bonitinhas que todo homem diz para uma garota quando esta afim de sexo e, mesmo sabendo que ele estava bêbado e querendo só transar, a Mayh fingiu que tudo o que ele disse iria continuar valendo e foi até o fim. Eles acordaram e ele disse para ela que ainda não a tinha perdoado, que era melhor que continuassem como estavam. Ela ficou puta, os dois brigaram, ele disse um monte de asneiras que não pensava que fossem realmente verdades e estragaram o domingo de todo mundo. Obvio que os dois iam ficar se alfinetando o dia todo, fazendo comentários cada vez mais desagradáveis um do outro enquanto tentavam provar não só para quem estava perto, mas para si mesmos que não se importavam um com o outro.
- Quero ir embora. - Mayh disse após um longo período de silencio, sua voz neutra sem demonstrar nenhum tipo de sentimento.
- Por mim a gente pode ir agora. - disse já se levantando.
Ele sempre era o que tentava achar a forma mais fácil de lidar com problemas, por mais que esses problemas não fossem dele ou não o afetassem. Sempre mudando de assunto ou direcionando a atenção de todos do foco e daquela vez não foi diferente.
- A gente ainda tem que desmontar as barracas. - disse olhando fixamente minha irmã comer um pedaço de pão.
- Sejam rápidos, quero estar em casa antes das seis. - Mayh disse e se levantou rapidamente saindo em seguida.
me olhou com uma expressão de quem implorava para que eu fosse falar com ela, ele sabia exatamente a merda que tinha feito e esperava que eu consertasse as coisas por ele. Mas também sabia que a ultima coisa que ela precisava naquele momento era conversar com ele, pelo menos enquanto ele estivesse agindo como o carinha babaca que queria aproveitar a adolescência.
- Já disse que você é um babaca? - perguntei a que só rolou os olhos.
- Bom dia - minha atenção foi diretamente para garota que estava em pé perto de .
Seus cabelos estavam presos e seu rosto não possuía nenhum vestígio de maquiagem, seus olhos e boca estavam levemente inchados e ela parecia ainda mais bonita daquele modo.
- Vou falar com a Mayh, vão arrumando as coisas - me levantei rapidamente a fim de cortar aqueles pensamentos com .
Até a noite anterior eu não conseguia ver beleza na garota, de nenhum modo. Ela tinha um corpo bonito, era sim gostosa e mesmo toda sua arrogância não fez com que ela ficasse menos gostosa, mas isso nunca foi capaz de me afetar. Garotas e mulheres gostosas existem em todo lugar.
Talvez ter visto a garota só de calcinha e sutiã tivessem me ajudado a ter esse tipo de pensamento, ter uma noção do tamanho dos seus peitos e ficar imaginando que ela devia gostar de amarelo, só porque sua lingerie era daquela cor. E nesse exato momento consegui visualizar a imagem da garota só de calcinha e sutiã na minha frente e depois me questionar se ela estava usando aquilo na noite da festa quando queria dormir comigo.
- Mayh! - berrei quando senti meu corpo quente, sabia exatamente o que significava aquela reação e eu definitivamente não queria tê-la por Maddox.
Minha amiga que estava sentada na grama se virou em minha direção um tanto assustada com o grito, já que não havia necessidade de eu ter gritado. Tentei me concentrar no rosto neutro de Mayh tentando tirar o monte de imagens com da minha mente, imagens que fariam minha mãe me capar se soubesse que elas sequer chegaram a passar pela minha cabeça.
- O que houve? - Mayh perguntou assim que me aproximei.
- Eu que pergunto, o que rolou ontem? - me sentei ao seu lado tentando colocar toda minha concentração na conversa que teríamos.
- Não quero falar sobre isso - ela disse dando de ombros.
Não forcei a barra, sabia que ela me diria o que tinha acontecido quando estivesse mais tranquila, então ficamos em silêncio observando as árvores ao nosso redor.
- Então o que houve? Está nervoso assim por quê? - ela me perguntou depois de algum tempo, obviamente tentando mudar de assunto. Mas ela estava certa e eu odiava o fato de ela me conhecer daquela maneira.
- Não estou nervoso - foi minha vez de dar de ombros.
- Te conheço, , tem alguma coisa te incomodando. O que é?
- Não tem nada me incomodando, você é que deveria me contar o que está te incomodando - respondi e ela suspirou.
- Você sabe o que me incomoda, mas não quero falar sobre isso. Você vai repetir o que já me disse milhões de vezes e quer saber? Eu não quero ouvir.
- Você está errada, eu não sei o que aconteceu. Mas se aconteceu o que estou pensando, acho que você deveria dar um tempo. Parar de tentar se desculpar com o , você não fez nada de errado e ficar se desculpando só vai fazer ele achar que está certo.
- E você não acha que ele está? - ela perguntou de volta, seu rosto demonstrando esperança por haver a possibilidade de alguém entendê-la.
- Sinceramente? Não, eu não acho e já disse isso pra ele.
- E se fosse você no lugar dele? Ia continuar achando que ele está fazendo tempestade em copo d'água? - ela perguntou e levei alguns segundos para responder, já que queria dar uma resposta realmente sincera.
- Sinceramente, acho que qualquer pessoa no lugar dele ficaria chateado. Mas tentaria ouvir a historia toda e acabaria entendendo - falei e ela ficou quieta por alguns segundos, com certeza pensando sobre o que eu havia dito.
- Eu realmente não consigo achar uma coerência pra isso, . Por mais que eu tente - ela suspirou. - Foi há muitos anos e, além disso, eu e o não tínhamos absolutamente nada um com o outro, ele nem demonstrava interesse em algo mais sério. Eu não tinha como adivinhar que ele não estava aproveitando - ela disse nervosa e para mim pareceu mais um desabafo que ela deveria fazer ao .
- Acho que vocês estão muito ligados ao passado, deveriam aproveitar mais o presente e esquecer toda essa historia - disse dando de ombros e Mayh deu um sorriso fechado.
- Você deveria dizer isso pro - ela resmungou.
- Já disse, mas ele finge que não escuta. Deixa ele fazer a birra dele, daqui a pouco a razão volta a tomar conta da vida dele de novo.
- Por que eu nunca quis ficar com você mesmo? - ela perguntou deitando a cabeça em meu ombro.
- Porque eu não te quis - brinquei sabendo que nunca conseguiria ver Mayh com outros olhos e vice-versa.
- Você não é a ultima Coca-Cola do deserto, . Você precisa de mais modéstia e você é meio orelhudo - ela resmungou rindo em seguida.
- A Maddox me acha a ultima Coca-Cola do deserto - soltei sem querer e olhei de lado para Mayh que levantou sua cabeça no mesmo instante em que assumia uma postura rígida.
- Como? Me conta essa historia aí? Vocês andam se pegando? Você gosta dela? - a encarei e encontrei uma Mayh confusa, assustada e ansiosa.
- Obvio que não - fiz uma careta para enfatizar o quanto me causava repulsa só a ideia de me pegar com Maddox. Ok, poderia não ser uma ideia assim tão repulsiva, mas definitivamente não estava nos meus planos me pegar com .
- Tem certeza? - Mayh perguntou desconfiada enquanto analisava meu rosto.
- Absolutamente, eu nunca iria querer nada com ela - dei de ombros.
- Por que eu tenho a impressão que você está mentindo para si mesmo, ? - ela se virou para mim cruzando os braços e eu sabia que se desviasse meus olhos por um milímetro, ela encheria meu saco eternamente.
- Porque você é paranoica, é uma mulherzinha que acredita em contos de fadas. A garota é uma arrogante escrota, por que raios eu iria querer alguma coisa com ela? - Mayh ficou pensativa por alguns segundos.
- Tá aí, já parou pra pensar que é meio que um conto de fadas ao contrário? Tipo uma Cinderela ao contrário - ela disse e rolei os olhos.
- Eu realmente espero que você não diga que eu sou o príncipe encantado dela - os olhos da minha amiga brilharam.
- Mas ao invés do sapatinho de cristal, você colocaria um Vans falsificado no pé dela e ela daria um chilique - ela disse e riu.
- Você viaja, garota - neguei com a cabeça.
- Ah, , ela é gostosinha, como vocês dizem - ela me empurrou levemente com o ombro. - Já te disseram que existe uma linha tênue entre o ódio e o amor? - ela levantou as sobrancelhas duas vezes.
- Eu não a odeio - afirmei.
- Não parece - retrucou.
- Só não gosto dela, simples assim.
- Ok, e o que te faz achar que para ela, você é a ultima Coca-Cola do deserto? - perguntou curiosa.
- Ela tentou ficar comigo depois da festa da Laura - dei de ombros.
- Mentira? - ela gritou. - Como você não me contou isso? Deus, quantas oportunidades eu tive de zoar essa garota e não sabia - ela disse rindo.
- Melhor deixar esse assunto entre a gente - falei e Mayh ficou assustadoramente quieta. - Mayh? Essa historia fica entre a gente, ouviu?
- Tá, tá. Vamos ver se eles já terminaram? Quero ir para a casa - disse se levantando e eu sabia que aquela historia não ficaria entre a gente.

's P.O.V

Joguei o lápis em cima da mesa em sincronia com o pulinho discreto que dei na cadeira quando o sinal que encerrava a aula bateu. Estava absurdamente distraída naquela manhã e tentava enganar a mim mesma fingindo não saber o motivo.
Claro que não tinha absolutamente nada a ver o fato de eu e termos dormido de conchinha no sábado, nem que ele havia ficado absurdamente estranho depois disso.
Eu jurava que ele não me deixaria em paz, que ficaria jogando aquela noite na minha cara em cada ínfima oportunidade. Então me armei e esperei, esperei e esperei por algo que não veio. Quando chegamos em casa no domingo ele apenas tomou banho e se trancou no quarto até a hora em que saímos para jantar e quando voltamos, se trancou no quarto novamente e só vi sua cara naquela manhã de segunda feira.
Gostaria de pensar que eu tinha causado aquela reação de isolamento, que ele tinha ficado tão absurdamente abalado com as sensações de ter dormido comigo que o tivesse feito se enclausurar em seu espaço e rever o modo como me via. Era loucura, afinal, aquilo era coisa da minha cabeça. Dividir um colchonete com havia sido algo espetacularmente bom para mim, para ele deveria ter sido espetacularmente o oposto.
- Está indo para onde? - Mayh parou na minha frente sorridente e eu nem tinha notado que havia saído da sala de aula e andava pelo corredor em direção a sei lá onde.
- Para minha próxima aula - respondi automaticamente e ela piscou os olhos devagar.
- É hora do almoço e o refeitório definitivamente não é para lá - apontou atrás de si com o polegar. - Acho que isso quer dizer que você está meio dispersa hoje, hã? - disse se sentindo esperta.
- Mais ou menos, não dormi direito - falei e dei de ombros antes de refazer o caminho que tinha feito sem ao menos me dar conta.
- Acho que o acampamento tirou toda sua concentração - deti meus passos por um milésimo de segundo, apenas o suficiente para que somente eu percebesse.
Meu coração acelerou com o medo de mais alguém além de mim notasse minha pequena queda por .
- Não sei do que você está falando - disse enquanto andava ignorando qualquer pessoa que cumprimentava Mayh.
- Estou dizendo simplesmente que ficar doze horas no meio do mato e ter que fazer xixi na moita devem ter te traumatizado ao ponto de fazer com que se desligue do mundo real - juntei as sobrancelhas mesmo que não estivesse olhando a garota que estava ao meu lado, tentando entender o que ela queria dizer com aquilo.
- Pode ser - concordei apenas para finalizar o assunto.
- Decidi que vou tratar o do mesma forma que ele está me tratando. E pra comemorar, vamos ás compras - ela disse e por um minuto senti algum tipo de animação. Só até lembrar que eu certamente não fazia parte do seu nós.
- Divirtam-se - disse sem vontade.
- Como assim divirtam-se? Você vai comigo - ela disse meio ultrajada.
Eu realmente não a entendia, ela não gostava de mim e, de repente, depois de algumas conversas sobre seu ex-namorado, repelentes, perfumes e sapatos ela havia mudado de ideia?
Ok, eu não gostava de no inicio também e as coisas haviam mudado certo?
Será que da parte dele as coisas poderiam mudar também?
- E então? - ela perguntou enquanto adentrávamos o refeitório.
- Então o quê? - perguntei de volta passando os olhos pelo lugar enquanto dizia a mim mesma que estava apenas procurando um lugar calmo para me sentar e não procurando por .
- Depois da aula vamos ao centro? - uma tarde inteira de compras poderia me trazer um pouco de paz no meio de todo o turbilhão de sentimentos que me assolava desde o dia anterior.
O único problema é que não tinha dinheiro.
- Acho melhor deixar para a próxima - respondi com desânimo.
- Sério que esté recusando uma tarde de compras? - O que eu poderia dizer? Que não tinha dinheiro?
- Tenho que estudar, a semana de provas vão começar e se eu quiser estar longe daqui ano que vem, tenho que me sair bem - dei de ombros já na fila.
- Não acredito que vou ter que ir com a minha mãe de novo. - Mayh disse com um tom de voz cansado. Como se ir às compras com a mãe fosse a coisa mais horrível do mundo.
Por favor, se não tivesse perdido todo o meu dinheiro daria toda minha fortuna por uma tarde com a minha mãe. Uma tarde como as que tínhamos antes de ela partir.
Uma tarde de compras com papai também seria uma ideia esplendorosa. Ele se sentaria nas lojas e ficaria dizendo como os vestidos eram curtos para o clima frio de Londres.
Suspirei, papai havia parado de mandar notícias, talvez por eu não ter escrito nada para ele. Eu estava sendo uma péssima filha por não estar tentando falar com ele? Ou ele estava sendo um péssimo pai por ao menos ter ligado para falar comigo?
- Terra chamando. - Mayh estalou seus dedos em frente ao meu rosto. - Tem certeza que não quer ir?
- Tudo bem, mas não posso demorar, tenho que estudar - ela deu pulinhos animados e tudo o que me restou fazer foi rolar os olhos enquanto entrava na fila para pegar a comida. Acabou que meu rolar de olhos serviu para a fila também.

***

Céus, eu sei que eu sou muito enrolada quando estou fazendo compras, mas Mayh conseguia me superar nesse quesito. A garota demorou mais de uma hora em uma única loja para escolher um único sapato.
Ok, talvez fosse só o fato de que estava ali somente para olhar e não para comprar que tenha feito com que o tempo demorasse tanto para passar. Eu sempre imaginei que vida de pobre era um pesadelo, mas naquele momento eu poderia dizer que tinha absoluta certeza disso. Não tem nada mais frustrante que ver todos aqueles modelos e não poder levar sequer um.
- Pronto, você quer comer alguma coisa agora ou vamos em mais uma loja primeiro? - Mayh perguntou enquanto saíamos.
- Na verdade, eu acho melhor já irmos indo, eu tenho que estudar - falei concluindo que ir às compras e não comprar nada era um saco. Agora eu podia entender porque papai se recusava a me acompanhar.
- Ah, mas só fomos em uma loja até agora - ela fez um biquinho.
- E você ficou uma eternidade lá dentro. Se não tivesse demorado tanto pra escolher um único par de sapatos poderíamos ter ido à outra loja - dei de ombros.
- Ah, vai me dizer que você escolhe super rápido seus sapatos e roupas? - ela perguntou erguendo uma sobrancelha.
- Na verdade, eu só levo o tempo de experimentar para ver se serve ou fica bom - dei de ombros.
- E você nunca fica em duvida? - perguntou com deboche.
- Não existe duvida quando você pode levar a loja inteira - dei de ombros novamente.
Dúvida sobre o que comprar certamente não fazia parte do meu vocabulário. Eu costumava comprar tudo o que achasse bonito, ficando bom ou não em mim.
- Ah, esqueci que você pode comprar o shopping se tiver vontade.
Podia, pensei assim que Mayh terminou sua frase e fiquei imensamente agradecida por ela não ter se corrigido.
Andamos em silencio por alguns minutos, mas só até alcançar a praça de alimentação e Mayh praticamente me obrigar a me sentar ali. Enquanto ela optou por um BigMac eu não abri mão da minha salada.
- E então, o que aconteceu no acampamento? - perguntei mexendo nas folhas em meu prato. - Entre você e , até ele estava tenso - completei quando ela me olhou em dúvida.
- A gente transou - ela deu de ombros. - Ele disse coisas bonitinhas pra me iludir e acabou conseguindo - ela riu sem humor. - E no dia seguinte não quis nem conversar sobre a gente.
- Que chato - falei tentando ser discreta sobre o que realmente achava.
- Escroto da parte dele na verdade. Escroto que ele queira me tratar como as vadias que ele come - quase me engasguei com o vocabulário da garota.
- É, muito escroto.
- Foi por isso que decidi não ser mais otária, se pra ele o que aconteceu anos atrás é tão importante, eu é que não vou ficar correndo atrás de quem não me quer por perto.
- E o que aconteceu anos atrás? - perguntei por pura curiosidade mesmo. Não que a vida amorosa dela me interessasse, mas já que estávamos falando sobre aquilo, que ela me contasse a historia toda.
- O foi pra um acampamento de ferias nos EUA e eu acabei indo a uma festa e ficando com outro garoto - ela disse olhando fixamente para o lanche em suas mãos, como se tivesse vergonha de dizer aquilo em voz alta. Confesso que também teria.
- Você traiu ele - falei com nojo e ela me encarou.
- Na verdade, não. Ou eu sempre achei que não - ela passou a mão pelo cabelo. - Não fazia nem um mês que estávamos saindo e nem na minha casa ele tinha ido ainda. Não como namorado e ele nunca tinha falado em namoro. Quando eu soube que ele ia para a Califórnia eu fiquei louca imaginando todas as garotas mais bonitas que eu teria naquelas praias e em como ele iria aproveitar - sua expressão era de pura tristeza, como se aquilo estivesse acontecendo naquele exato momento.
- Você é linda. - Mayh olhou para minha mão em cima da sua com as sobrancelhas juntas e tratei de tirá-la dali e me endireitar na cadeira.
- Aí eu fui nessa festa, bebi além da conta e acabei vendo um casal se beijando. Como o menino me lembrava o , acabei montando mil historias mirabolantes na cabeça e acabei ficando com um garoto.
- E porque só agora o tá todo revoltado?- estava totalmente confusa.
- Porque ele só ficou sabendo agora. Quando ele voltou de viagem e me pediu em namoro não achei que fosse importante contar - ergui uma sobrancelha.
- E como ele descobriu? - falei e tomei um pouco da minha água.
- Eu não sei, a única pessoa que sabia disso era o , mas eu sei que ele nunca falaria nada - disse com convicção.
- Ele e todo mundo que estava na festa - dei de ombros.
- Te contei um segredo, agora me conte um - sua expressão mudou radicalmente, agora ela me olhava com animação.
- Não tenho segredos. - Mayh seria a ultima pessoa com a qual eu compartilharia meu único segredo.
- Até parece, todo mundo tem segredos - ela sorriu sapeca. - E você e o ? - engasguei com a água tornando o sorrisinho de Mayh ficou ainda mais evidente.
- O que tem? Não sei do que você está falando - disse nervosa.
- Hum, eu acho que sabe. Como foi na barraca? - a encarei com os olhos arregalados.
- Como? - perguntei quase desesperada, pelo modo como ela me olhou parecia que já sabia de tudo.
- Ah, sei lá, vocês tem uma química - ela deu de ombros. - Deve ter sido uma noite bem tensa.
- Não tem química nenhuma e nem nada de tenso em dormir em uma barraca com o - o garfo tremulava levemente em minha mão e achei mais seguro o deixar de lado.
- Hum, não sei. O modo como vocês se olham - ela fechou somente um olho fazendo um biquinho e eu já estava completamente desesperada. Minha queda por não poderia estar tão evidente assim.
- Não tem nada demais, eu o olho com desprezo - tentei disfarçar mexendo em meu celular.
- Ele estava bem nervoso ontem, mas não quis me contar o motivo. Desconfio que tenha a ver com o que aconteceu na barraca - ela deu de ombros como quem não quer nada.
- Duvido que estivesse nervoso por minha causa, ele não gosta de mim e você sabe bem disso - respondi com o tom de voz neutro propositalmente.
- Mas você sente alguma coisinha por ele? - especulou.
- Nada além de repulsa - fiz uma careta.
- Que pena, o vai ficar decepcionado - ela disse triste e entortou a boca.>br: - Como assim? - não era para ter soado com tanto interesse.
- Ah você sabe, quando os garotos implicam tanto com a gente só pode significar uma coisa - ela enrolava uma mecha de cabelo nos dedos.
- O que? Acho que não estou acompanhando.
- Quando um garoto implica demais com a gente sem um motivo plausível, só pode significar que ele está a fim de você e está tentando chamar sua atenção - meu coração se aqueceu enquanto sentia o sorriso involuntário desenhar meu rosto ao ouvir aquilo.
- Você acha? - meu sorriso se desmanchou quando a expressão da garota se tornou vitoriosa.
- Eu sabia! Você gosta do ! - ela deu um tapinha na mesa e me desesperei.
- Obvio que não, você está louca? - minha voz saiu esganiçada.
- Você não me engana, . Eu conheço o sorrisinho que estava no seu rosto, fiquei com um igualzinho quando o disse que estava apaixonado por mim e queria me namorar. Quem diria, a patricinha apaixonada pelo "verme", essa vida é realmente irônica - ela ria.
- Você só pode estar doida, não estou apaixonada por aquele ogro pobretão - cuspi as palavras com repulsa.
- Meu Deus, você está caidinha por ele - abri minha boca para contestá-la. - Precisamos fazer alguma coisa a respeito disso!
- Como é? - praticamente gritei.
- Ué, você o quer. Tem que ir atrás do que quer e conquistar o .
- Eu nunca vou entender a mente de um pobre. Até uns dias atrás eu era a pior pessoa do mundo e agora você quer que eu conquiste aquele que você julga seu melhor amigo? - rolei os olhos, meu coração batendo tão rápido como nunca achei que fosse capaz de bater.
- Eu odiava a garota que disse coisas horríveis ao meu melhor amigo quando ele realmente tentou ser legal com ela, mas aí eu vi essa mesma garota dando comida e roupas para um desabrigado. Alguém que ela nem conhecia, você não pode ser uma má pessoa e ter feito o que fez para a Margot. Desconfio que você só tenta se proteger do mundo atrás dessa imagem de patricinha escrota.
- Você não me conhece, não pode criar teorias sobre a minha personalidade. É psicóloga agora? - a encarei séria, quem ela pensava que era para tentar traçar minha personalidade e sentimentos?
- É não conheço, mas seu gesto para com a Margot me deu curiosidade em te conhecer. Em conhecer esse seu lado gentil - ela deu de ombros. - Acho que o também gostaria de conhecer a garota gentil que existe aí dentro.
- Você fantasia demais, já te disseram isso? - perguntei com deboche.
- Já, mas minha intuição me diz que estou certa.
- Não estou apaixonada pelo . Fui clara ou quer que eu desenhe? - perguntei ríspida e tudo o que ela fez foi sorrir.
- Olhe nos meus olhos e diga que você não sente nada por ele e eu nunca mais toco no assunto. Agora se você sente alguma coisa, nem que seja somente atração me diga porque eu posso te ajudar e eu vou - analisei seu rosto.
Mayh parecia sincera e seus olhos estavam firmes nos meus, sua expressão não mostrava nenhum resquício de dúvidas do que ela falava. Respirei fundo.
Sabia que ela estava certa, mas admitir para alguém que mexia comigo era como dar um tiro no ouvido, ainda mais para Mayh que era sua melhor amiga e me odiava. Possivelmente os dois ririam na minha cara. Eu nunca confiava nas pessoas e não me parecia uma brilhante ideia confiar na garota que me ameaçou na porta do meu armário, mas assim como a dela, minha intuição me dizia que eu podia dizer o que tivesse vontade sobre e ela iria me entender.
- E como eu poderia fazer para que o me olhasse de outra forma? - acabei por tentar.
Mesmo sem saber se ela só faria uma piada sobre mim, mesmo sem saber se ela correria para falar para sobre o que falamos e ele me importunasse o resto da vida. Tentar sem saber se um dia eu daria um beijo em . Valia me arriscar e tentar e ter a certeza de que jamais o teria daquela forma, que passar o resto da vida no "se".
Mayh sorriu tão largamente que achei que seu rosto se partiria no meio.
- Tenho alguns planos.



Catorze

- Você reparou em como a Mayh está estranha? - nem fez questão de me direcionar um bom dia.
- Não notei diferença no comportamento dela - respondi, mentindo em partes.
Mayh só havia mudado suas atitudes com duas pessoas do colégio. Uma delas era e a outra . O jeito como ela passara a ignorar a presença de era totalmente compreensível, já o modo como ela e Maddox pareciam não se desgrudar desde que voltamos do acampamento, era totalmente incompreensível.
- Claro que ela está diferente, eu a conheço muito bem - só quando ele disse aquilo que o encarei, parecia pensativo. Como se, se perguntasse se ela estava estranha só com ele ou com todo mundo.
É, era só com ele mesmo.
- Comigo e com o resto do mundo ela continua a mesma - dei de ombros respondendo sua pergunta muda.
- Eu não entendo porque só comigo - tive que rolar os olhos.
- Tem certeza? Porque eu acho que até o zelador sabe os motivos, por que não é mais de um, não é? - ele fez uma careta.
- Não acho que ela tenha motivos, ela só está colhendo o que plantou - ele deu de ombros antes de cruzar os braços e se virar em direção ao quadro negro. - O que foi? - perguntou quando me ouviu rir.
- E o que foi exatamente que ela plantou? Porque até onde eu sei, ela não fez nada demais.
- Ela só ficou com outro cara. Isso não é importante? - ele disse nervoso.
- Seria, se tivesse sido mês passado. Vocês nem namoravam, - retruquei e ele voltou a se virar em minha direção.
- Você sabe quantas garotas eu dispensei no acampamento por causa dela? E enquanto isso ela estava fazendo o quê?
- Você diz como se tivesse deixado bem claro para ela que estavam namorando - falei já começando a ficar nervoso.
- E quem disse que eu não falei?
- É, você falou. Só quando voltou do acampamento. Pelo amor de Deus, , assume logo que você está usando essa historia toda como desculpa pra comer metade das meninas que te dão mole - já nem sabia mais há quanto tempo eu estava com vontade de dizer aquilo para ele.
- É isso que você acha?
- É isso o que todo mundo acha. E é exatamente isso que a Mayh começou a achar ou a ter certeza. Já que você a conhece tão bem assim, devia saber que se nada disso a afeta mais é porque ela não dá mais a mínima. E a gente sabe o que isso significa - avisei.
Eu sabia que Mayh só estava tentando seguir em frente e parar de correr atrás de quem não a queria, mas alguém precisava fazer enxergar que ele estava sendo um completo babaca.
- Eu não consigo esquecer, cara. Toda vez que eu fecho os olhos eu vejo a Mayh se pegando com aquele babaca e me dá uma vontade louca de enfiar a mão nele.
- Acho que você se importa mais com quem a Mayh ficou do que realmente o fato de ela ter ficado com alguém.
- E você não iria se importar? Porra, , todas as garotas dessa escola cortariam os pulsos pra cair na cama dele. Eu disse todas, não uma parte - rolei os olhos mais uma vez.
- E ainda assim ela escolheu ficar com você e na boa, ela estava muito bêbada - tentei dar um apoio moral, mesmo eu achando ridículo seu ponto de vista.
- Pessoas bêbadas tendem a fazer o que sentem vontade quando estão sãs e não têm coragem. Você me ensinou isso.
- E você acha que se para Mayh ele fosse tão maravilhoso, ela não teria ficado com ele em sua perfeita consciência? - só negava com a cabeça, mas sabia que não estava concordando comigo.
- Quantas vezes eu vi os dois rindo? De certo era de mim - perdi a paciência.
- De certo era mesmo, , de certo quando você deixava ela em casa, ele corria lá pra dormir com ela - disse de modo irônico. - É da Mayh que está falando, percebe como você consegue ficar cada vez mais babaca quando o assunto é ela? Enfia na sua cabeça que ela não foi obrigada a ficar com você todo esse tempo. Foi de livre e espontânea vontade, ela sempre foi educada e nunca teve motivos para tratar o cara mal. Agora fica aí arrumando desculpa pra mais uma noitada com alguma piranha por aí enquanto tá perdendo a garota que você gosta - odiava ter que dar sermão em qualquer um dos meus amigos, mas às vezes eles pareciam que imploravam por um.
Eu sabia que não era ninguém para ficar dando sermões, mas eu me sentia na responsabilidade de apontar o erro deles e tentar ajudá-los a corrigir.
Sabia que todo meu discurso tinha causado algum efeito quando ele se calou e ficou encarando o nada e minha atenção foi desviada para a porta quando escutei a risada de Mayh e vi que, pasmem, ela ria de alguma coisa que dizia toda sorridente.
O sorriso dela era bonito, nunca a havia visto sorrir daquela forma.
Não era aquele sorriso debochado, falso ou desmerecendo alguém.
Ela se sentou na minha frente e nem por um segundo olhou em minha direção, como eu sabia disso? Porque eu não tirei meus olhos de por nem um segundo. Ela me parecia diferente.
Ainda era a mesma patricinha fresca que limpou a cadeira antes de se sentar, mas definitivamente algo estava diferente.
- Bom dia - só fui reparar realmente na presença de Mayh quando ela beijou minha bochecha. - E ai, ? - cumprimentou o ex como se eles não nutrissem sentimentos um pelo outro.
Ele deu um joinha e Mayh se sentou em sua frente.
Voltei a prestar atenção em , agora em seus cabelos que caíam pelas costas perfeitamente penteados e brilhosos. Eu sequer sabia se ela lavava os cabelos todos os dias, mas eles pareciam limpos de qualquer forma.
Quando o professor entrou na sala desviei minha atenção para ele e fiquei realmente aliviado por não ter mais dirigido meu olhar para Maddox, se o fizesse, teria certeza de que havia alguma coisa muito estranha comigo.
Tentei me concentrar na aula, mas não parava de mexer no cabelo o jogando para tudo que é lado, me irritando infinitamente. Bufei, a cutucando com uma caneta e ela se virou em minha direção com cara de nada, minha boca se abriu para pronunciar as palavras, mas elas pareciam ter ficado entaladas em algum lugar em minha garganta. Eu percebi porque ela estava diferente.
não estava usando maquiagem, ou não aparentava estar pelo menos. Isso não a deixava feia. Seu rosto sem a maquiagem pesada que ela passava toda manhã, carregava uma inocência que eu duvidava que ela tivesse.
- Que foi? - perguntou em tom de voz baixo deixando seus olhos em uma fenda.
- Tá com piolho? Para de jogar essa juba para todo lado que está me irritando - tentei ser o mais mal educado que eu podia.
- Piolho? Nem sei como é a aparência de um bicho nojento desse. Tá incomodado? Para de prestar atenção em mim - disse e se virou para frente antes de me ver rolando os olhos.
Bem que ela queria que eu ficasse reparando nela.
Dois segundos depois lá estava ela revirando o cabelo de novo, me levantei o suficiente para aproximar meu rosto perto de sua cabeça.
- Se você não parar eu juro que vou grudar um chiclete bem aí no meio - falei baixo e voltei a me sentar.
Na mesma hora a menina colocou seus cabelos para frente me fazendo sorrir e ele permaneceu assim até o fim da aula.
Depois do que pareceu uma eternidade, finalmente eu estava no refeitório tendo meu merecido descanso. Avistei Mayh, e entrarem no refeitório, mas ao invés de se dirigirem a nossa mesa como o de costume, elas se sentaram no canto oposto do ambiente.
- Estão vendo? Acho que ela está me evitando. - reclamou olhando exatamente para onde eu olhava segundos antes.
- Você acha? Eu tenho absoluta certeza. - soltou com uma pitada de deboche escondido atrás de um meio sorriso.
- Ela não está te ignorando não, cara - olhou com certo alívio para . - Pior, ela está sendo indiferente, pode começar a se preocupar - emendou em seguida deixando a expressão de assustada.
- E por que eu deveria me preocupar com a indiferença dela? - ele perguntou tentando parecer que não se importava.
- Ah, essa até eu sei. Posso falar? - disse se sentindo muito esperto. - Porque se ela é indiferente, quer dizer que ela não se importa e se ela não se importa... - deixou no ar para que concluísse sozinho.
- É porque você perdeu - fiz questão de dizer.
Ouvi o risinho de ao fundo e bufou impaciente.
Voltei a olhar para a mesa onde as meninas estavam, falava alguma coisa enquanto Mayh que estava de costas para nossa mesa se olhava no espelho. Claro que ela só estava disfarçando tentando ver se olhava para sua direção.
prestava atenção em minha irmã e ria ou comentava alguma coisa de vez em quando e, claro, mexia no cabelo.
Aquela garota estava mexendo tanto nos cabelos que eu estava começando a ficar com vontade de enfiar os dedos ali e saber o porquê de ela não parar de fazer aquilo.

's POV

- Ele está olhando. - Mayh disse cortando levemente o discurso de em como a escola deveria ter uma nutricionista adequada.
- Quem? - eu e perguntamos ao mesmo tempo, mas só a Jones olhou em direção à mesa dos meninos.
- O... - disfarçou e me deu um olhar que com toda certeza queria me dizer alguma coisa, mas eu não conseguia compreender, então juntei as sobrancelhas.
- O também, acho que estão falando da gente. - disse e Mayh ergueu uma sobrancelha em minha direção me fazendo entender que quando ela disse que ele estava olhando, ela estava se referindo ao e não ao ex.
- Agora não - ela disse quando percebeu que eu iria olhar de volta. - Discretamente - disse após alguns segundos.
- Por que estão falando em códigos? - perguntou curiosa.
- Não estamos falando em códigos - respondi depois de dar uma breve checada na mesa onde os meninos estavam e sorri ao constatar que realmente olhava para mim.
Ok, talvez ele não estivesse olhando exatamente para mim, mas eu preferia acreditar que era.
- Estão sim, o que eu não posso saber? - ela insistiu e eu e Mayh nos olhamos quase que dialogando com os olhos.
- Não tem nada que você não possa saber, . Nós realmente não estamos usando códigos - respondi e ela deu um sorriso duro.
- Eu sei reconhecer uma conversa sutil entre garotas, . Não sou tapada - confesso que fiquei levemente assustada com um leve tom de grosseria em sua voz. - Você está afim de um deles - ela disse e arregalei os olhos enquanto Mayh se engasgava. - Podem conversar abertamente, estou me retirando - disse e se levantou saindo em seguida.
Confesso que fiquei com pena por sua postura magoada.
Não que ela não fosse minha amiga, mas eu realmente não queria dizer à ela que estava afim de seu irmão.
- Não sabia que a era tão observadora. - Mayh comentou baixo, quase que para si mesma.
- Acho que ela ficou chateada - disse encolhendo os ombros.
- Bom, você que sabe se diz para ela que está afim do . Ela pode até te ajudar - falou finalizando sua refeição.
- Nem morta, mais alguém além de mim saber isso já é bastante constrangedor - falei e ela só deu de ombros.
- Acho que já conseguimos chamar a atenção dele.
- O negócio do cabelo não funcionou - entortei a boca. - Ele disse que se eu não parasse ia grudar um chiclete no meu cabelo - Mayh riu.
- Então funcionou, acredite em mim. Se ele não estivesse reparando não iria se incomodar. Temos que partir para a próxima fase do plano.
- E qual seria? - estava me sentindo no jardim de infância, como se nunca tivesse seduzido ninguém antes.
- Fazer o te desejar - ergui uma sobrancelha. - Vamos ser sinceras, ele não vai muito com a sua cara - fiz uma careta. - Você tem que despertar tesão nele, assim ele vai te desejar - Mayh deu de ombros fazendo parecer simples.
- E como eu faço isso? Desfilo só de lingerie na frente dele? - ela rolou os olhos.
- Não. Primeiro porque o não é muito chegado em meninas oferecidas, o que não quer dizer que ele não as leve para a cama - fiz uma careta. - E segundo, nós queremos que o desejo evolua, queremos que ele passe a te ver com outros olhos. Você vai ter que ser sutil. Invista nas roupas curtas, mas não que mostrem demais, naquelas que aguçam a curiosidade. Não abuse de decotes, deixe que ele veja só o topo dos seus seios, e o mais importante: Desfile na frente dele com qualquer baby-doll azul. ama azul.
- Como você sabe das preferências dele? - perguntei desconfiada e ela deu um sorriso.
- Linda, sou a melhor amiga dele - falou e deu uma piscadinha.
Se fosse em qualquer outra situação eu saberia exatamente o que fazer e não teria vergonha de colocar em prática tudo o que ela estava me dizendo.
O problema era que eu estava absurdamente acanhada, morrendo de medo do que ele poderia pensar naquela situação e até mesmo de possíveis comentários grosseiros vindos dele. O que não seria nenhuma surpresa.
- Respira fundo e faz o que te falei. E o mais importante, seja indiferente à ele - aconselhou.
Vou tentar.
Disse a mim mesma.

Estava há mais de meia hora respirando fundo encostada na porta do quarto tentando tirar coragem de algum lugar, para sair pela casa à procura de . Meu baby-doll não era indecente, mas o shortinho era um pouco curto demais, talvez no tamanho exato que Mayh havia indicado. O decote era um pouco exagerado, mas nada que chamasse a atenção de Megan caso ela me encontrasse andando só com ele pela casa.
Escutei a porta do banheiro sendo fechada e decidi que iria sair do quarto no exato momento em que a escutasse sendo aberta novamente. Só rezava para que a pessoa que estivesse no banheiro fosse .
O tempo passou rápido e logo a porta estava sendo aberta, respirei fundo uma ultima vez dizendo a mim mesma que se não saísse daquele quarto naquele momento, nunca mais sairia.
Abri minha porta de uma só vez e praticamente me joguei para fora pedindo mentalmente para ser e não qualquer outra pessoa daquela casa.
Senti meu rosto esquentar assim que me vi frente a frente com o garoto que empacou próximo à mim. me olhou de cima a baixo de uma forma que ele julgou discreta e passou a mão no cabelo enquanto desviava seus olhos para algum ponto na minha cabeça.
- Eu... Preciso... Hum - ele gaguejou agora olhando para o meu rosto e voltou a passar a mão no cabelo enquanto seu rosto todo se enrubescia e aquilo inflou meu ego e de repente eu não estava mais envergonhada.
- Sim? Precisa? - incentivei cruzando meus braços, o que fez com que meus seios ganhassem destaque.
juntou as sobrancelhas e seus olhos observaram meu decote por alguns milésimos de segundos.
Então ele rolou os olhos e passou por mim à passos apressados.
No primeiro momento eu não sabia bem se eu ia atrás para tentar atiçar mais um pouco, ou se eu simplesmente me enfiava dentro do meu quarto.
Optei por me enfiar no quarto e mandar um sms para Mayh, assim que deixei o celular na cama ouvi batidas na porta. Resmunguei e ela foi aberta.
- Mamãe está chamando para jantar - colocou apenas a cabeça para dentro.
- Hey - a chamei quando já estava quase saindo. - Não quer entrar? A gente pode conversar um pouco.
- O jantar está pronto - ela disse com a voz neutra.
- Sim, mas eu queria conversar. Não quero que se sinta excluída - disse me sentando na cama, entrou no quarto e fechou a porta.
- Eu achei que fossemos amigas, sabe. Mas você falou para a Mayh que está afim do e não para mim, ela nem gostava de você até o acampamento.
- Como é? - quase gritei.
- Ela nem gosta....
- Por que você acha que eu estou afim do energúmeno do seu irmão? - a cortei.
- Porque é obvio - ela rolou os olhos.
- Você está enganada, eu não estou afim do seu irmão - exagerei na expressão de asco.
- Ok, já entendi que a Mayh é sua verdadeira amiga - disse e foi para a porta.
- , para. Você também é minha amiga. Eu não estou afim de ninguém.
- O jantar está pronto - disse e saiu batendo a porta.
Me joguei na cama e peguei o celular mandando outra mensagem para Mayh.

"Mais uma Jones me odeia :("
Mas não tive resposta dela até a hora em que fui dormir.

's POV

Me revirei para o lado, mas não estava adiantando muito. O sono não vinha nunca e meu corpo já estava ficando dolorido de tanto me revirar.
Talvez eu devesse tomar um pouco de água e ver se aquele calor absurdo que estava sentindo cessava um pouco.
A casa estava silenciosa e parcialmente escura e aquele aroma doce e cítrico tomava conta de todo o ambiente.
Não fiz questão de ascender as luzes e só peguei a garrafa de água na geladeira, depois de tomar todo o conteúdo a depositei na pia e me virei para voltar ao quarto. Dei de cara com parada na porta da cozinha com aquele pijama azul, eu até cheguei a abrir a boca para falar alguma coisa, mas ela foi mais rápida.
- Eu não aguento mais - juntei as sobrancelhas e ela praticamente se teletransportou para perto de mim.
E antes que pudesse questioná-la, grudou a mão na minha nuca e me beijou. Fiquei sem ação por alguns segundos, só até ela descer as mãos suaves pelo meu tronco. Agarrei sua cintura e girei nossos corpos a encostando na pia. Ela ergueu a perna agarrando minha cintura e desci a mão por seu corpo alisando sua perna e apertando sua coxa.
começou a dizer meu nome enquanto me chacoalhava.
- ? Acorda moleque, vamos nos atrasar - abri os olhos assustado dando de cara com .
- Hum? - perguntei confuso.
- Vamos nos atrasar - ela juntou as sobrancelhas. - Por que você estava gemendo? Estava tendo sonhos nojentos né? Aff - falou e fez uma careta.
- Não ferra, - falei irritado.
- Anda logo, não quero me atrasar - disse antes de sair irritada e bater a porta.
Me sentei na cama e esfreguei o rosto respirando fundo enquanto uma única perguntava martelava em minha cabeça.
Por que inferno eu tinha tido aquele tipo de sonho com ?



Quinze

Não era possível que dentre todas aquelas roupas , não houvesse nada que eu pudesse usar que ornasse com meu humor. Quando até o clima frio daquela manhã parecia consequência do sentimento de vazio que reinava em toda a minha alma.
- Eu sei que tem algo aqui! - exclamei revirando as roupas dentro do pequeno guarda roupa que havia no quarto onde Megan havia me hospedado.
Eu sequer sairia de casa se não achasse o modelito adequado, não naquele dia. Alguém bateu na porta bruscamente me assustando e eu sabia que estava atrasada pro colégio. Então deduzi que só poderia ser uma única pessoa.
Meus nervos estavam a flor da pele, então marchei até a porta com uma vontade arrasadora de comprar uma briga histórica, mas quando a abri dei de cara com .
Senti minha expressão se suavizando imediatamente e se não fosse seu modo grosseiro de falar, poderia tê-la abraçado e deixado toda a minha angustia sair por meus olhos de forma escandalosa.
- Por que será que eu sabia que a madame ainda não estava pronta? Anda logo, estamos atrasados! - falou quase gritando e meu rosto no mesmo instante se transformou em uma mascara de rancor.
- Foda-se! - exclamei e bati a porta em sua cara.
Quando tudo o que podia ver era a madeira marrom e não mais os olhinhos arregalados da menina, fechei os olhos respirando fundo. Eu nem queria sair de casa, mas eu precisava ir para o colégio.
Voltei ao guarda roupa e comecei a jogar as roupas no chão e então bem lá no fundo, achei o que procurava. Peguei o conjunto totalmente preto e o vesti o mais rápido que consegui. Corri até o banheiro e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo desajeitado e retornei ao quarto me abaixando na cama e puxei debaixo dela o baú de madeira confeccionado especialmente para mim.
A chave que o abria ficava em um compartimento secreto no próprio objeto, um compartimento que eu saberia abrir de olhos fechados. Quando abri o baú não olhei nada dentro dele propositalmente, minhas mãos foram diretamente ao objeto de meu desejo. O peguei e coloquei delicadamente dentro da bolsa.
Peguei a caixinha que continha meus óculos de sol preferidos, que usava somente uma vez por ano, a abri e o peguei, o colocando no rosto. Estava pronta para encarar aquele dia. Sozinha como sempre.
Quando cheguei a cozinha, e ainda estavam ali, e surpreendentemente a única pessoa que parecia estar insatisfeita com meu atraso, era a mais nova.
- Estou pronta - minha voz parecia inaudível para mim mesma.
- Não vai comer nada antes de sair? - Megan perguntou de forma carinhosa e neguei com a cabeça.
- Ótimo, podemos ir? - disse já se levantando e fez o mesmo rolando os olhos para a irmã.
Fomos em silencio o caminho todo e tive certeza que estava derramando todo seu ódio em cima de mim.
- Demorou tanto para estar que nem uma mulamba? - comentou antes de abrir a porta e sair do carro de forma brusca.
que já tinha aberto sua porta, parou todos seus movimentos e olhou de sua irmã para mim com a expressão confusa. Esperei por um comentário maldoso vindo dele também, mas tudo o que o garoto fez foi dar de ombros.

...

Saí em disparada pelos corredores do colégio procurando uma única pessoa, aquela que seria minha salvação. Quando finalmente achei Mayh, desisti de falar com ela.
estava tagarelando alguma coisa para ela enquanto ela mantinha uma expressão que eu conhecia bem, descaso. Fiquei impressionada com a frieza em seu rosto e decidi que era melhor falar com ela outra hora, para me certificar que sua frieza não seria direcionada a mim também.
Em todas as aulas que antecederam o almoço não tirei o capuz do moletom da cabeça somente esperando que aquele período torturante do dia acabasse. Se eu conhecesse alguma parte segura daquela escola onde pudesse matar aula sem ser pega, eu certamente o faria.
Quando o sino que anunciava o almoço finalmente se fez ser ouvido, mandei uma mensagem para Mayh, para que ela me encontrasse perto do banheiro. Quando me aproximei pude ver que ela já me esperava.
- É você mesmo? - disse apertando os olhos quando me aproximei. - Quando eu disse para ser menos extravagante, não estava dizendo para deixar a vaidade de lado. Assim nem o mendigo da esquina vai olhar para você.
Fiz uma careta perante seu comentário, o que menos me importava naquele dia era se ou qualquer outra pessoa iria me achar bonita.
- Preciso de um favor - fui direta e senti meu rosto esquentar. Nunca precisei pedir nada a ninguém até aquele momento.
- Certo, o que aconteceu? - perguntou curiosa.
- Pode me emprestar seu carro depois da aula? - ela juntou as sobrancelhas.
- Empresto se me disser o porquê.
- É um assunto muito pessoal, vai emprestar ou não?
- É para comprar drogas ou fazer algo ilícito? Por isso não quer dizer? - rolei os olhos.
- Não, mas se não quiser emprestar tudo bem, eu me viro - disse e girei meu corpo para sair dali.
- , espere! - Mayh me segurou pelo braço. - Tudo bem, te empresto o carro. Aconteceu alguma coisa? - sua expressão parecia preocupada.
- Não, só preciso resolver umas coisas. Prometo que até as oito te devolvo abastecido.
- Não precisa abastecer, meu pai encheu o tanque ontem. Falando em ontem, como foi com o ? - perguntou animada e curiosa.
Não estava com vontade de falar sobre , mas também queria evitar perguntas desnecessárias.
- Eu fiz o que você falou - falei.
- E ele? - ela estava quase pulando ao meu lado e contive a vontade de rolar os olhos.
- Sei lá, acho que não deu certo - dei de ombros.
- Por que acha que não deu certo?
- Sei lá, parecia que ele tinha visto um ET. Ele ficou vermelho e gaguejando - suspirei. - Acho que isso nunca vai dar certo.
- Já deu certo, você não percebe? O tá caidinho por você - disse animada e dessa vez tive que rolar os olhos.
- Não vamos exagerar, sabemos que isso só seria possível nos meus sonhos - retruquei mau humorada.
- Vamos continuar com os planos. Você tem sido mais gentil com ele?
- Nem falei com ele ontem, Mayh. Fiquei a maior parte do tempo no meu quarto e você sabe muito bem que quem é grosseiro é ele e não eu - desabafei.
- Falando nisso, por que mais um te odeia?
- Obrigada por ter me respondido ontem mesmo - ironizei.
- Desculpe, meus pais queriam ter uma noite em família e celular é proibido. Quando vi sua mensagem você já devia estar dormindo. O que aconteceu? - falou e enganchou seu braço no meu, praticamente me rebocando em direção ao refeitório.
- Acho que a está brava comigo, acho não, tenho certeza. Ela me chamou de mulambenta hoje - fiz uma careta. - E de madame também.
- Nossa, a ? - até ela estava espantada.
- É, ela disse que estou excluindo ela. Não é verdade.
- Ela disse isso por você não dizer que está afim do . Talvez você devesse tentar conversar com ela, explicar as coisas.
- Eu vou tentar, mas não quero que ela saiba que eu tenho uma queda pelo irmão dela, que constrangedor.
- Não é bom que ela fique com raiva de você, nem magoada. Isso não ajuda a conquistar o e ela pode até ajudar - parei bruscamente e a olhei ofendida.
- Não quero ficar bem com a para ter algum beneficio com o . Eu... gosto dela. Ela é o mais próximo de amiga que eu tive até hoje - disse e voltei a andar.
- Vou relevar porque você disse até hoje, porque acho que depois de todos os planos maquiavélicos e depois de três horas no telefone discutindo seu futuro com o eu acho que mereço o credito de amiga - ela disse e mesmo não estando com nenhum humor para socializar com ninguém, a segui até o refeitório e deixei que ela continuasse a imaginar um futuro para mim e o garoto que mais me atormentava no universo.

...

Mayh estava me esperando no estacionamento e não estava sozinha, e conversavam animadamente com ela enquanto me aproximava.
Parei ao lado de Mayh, torcendo para que não precisasse pedir as chaves de seu carro na frente dos meninos.
- E aí, , quer ir lá pra casa jogar uma partidinha de vídeo game? - me abraçou pelos ombros e eu estava tão carente, que passei meus braços por sua cintura e descansei minha cabeça em seu tronco me aconchegando em seu abraço que parecia o melhor do mundo.
- Não posso, tenho um compromisso - disse com a voz suave.
- , você me dá uma carona? - Mayh disse revirando sua bolsa.
- Por quê? Não está de carro? - ele perguntou com os olhos fixos em mim e que agora tinha seus braços envoltos em meu tronco.
Estava tão bom que eu quase o convidei para ir comigo.
- Vou emprestar meu carro para a . - Mayh disse e também olhou de um jeito estranho para mim e , que estávamos calados.
- Você vai ter coragem? Se ela destruir seu carro, ela não tem mais dinheiro pra pagar. - estava claramente tentando me provocar, mas se naquela manhã eu estava doida para comprar uma briga com ele. Naquele exato momento, em que a hora estava se aproximando, tudo o que eu queria era manter meu coração em paz.
- Onde está seu carro, Mayh? Quero ir logo para devolver no horário que prometi - o ignorei usando toda minha força de vontade para sair do abraço de .
Eu certamente o abraçaria mais vezes.
- Está perto do estacionamento dos professores - ela disse me estendendo seu chaveiro do Piu-Piu.
- Você tem permissão para ir sei- lá onde? - perguntou mau humorado.
- Permissão de quem? Sua? - falei e dei uma risadinha irônica. - Acho que não preciso dela, não é? - peguei as chaves da mão de Mayh e cruzei os braços.
- Da minha não, mas da permissão da minha mãe, que é responsável por você enquanto seu pai não quer saber de você, precisa sim - ele disse ácido e por mais que eu soubesse que ele só queria me atingir, senti meus olhos se encherem de lagrimas e o choro fazer certo esforço para sair.
- ! - Mayh e disseram ao mesmo tempo.
- Te levo o carro no horário combinado - falei para Mayh com a voz entrecortada virando as costas e andando a passos apressados para onde ela tinha dito que o carro estava.
Me recusei a derrubar uma lagrima sequer, eu sabia que ele estava certo. Papai sabia que eu precisava dele, especialmente naquele dia e nem um telefonema ele havia dado. Apertei o botão que acendia o celular só para ter certeza que não havia uma ligação perdida sua, mas tudo o que havia ali era uma notificação de uma nova mensagem de Mayh.
"Sinto muito."
Era tudo o que havia escrito. Guardei o celular e apertei o botão que destravava as portas de seu carro vermelho.
Liguei o radio deixando tocar as musicas do pen drive que estava ali, mas não prestei atenção em nenhuma musica durante o caminho. Na verdade a única coisa que eu notava durante o percurso, era única e exclusivamente a rua a minha frente que me levava ao meu destino.
Quando cheguei, adentrei pelos enormes portões de aço que estavam abertos e olhei rapidamente ao redor notando as árvores que quase cobriam totalmente o lugar, não precisava observar o caminho que estava tomando, só ia ali uma única vez por ano e ainda assim poderia fazer todo o percurso de olhos fechados.
Estacionei o carro cuidadosamente e fechei os olhos me preparando. Quando os abri, peguei minha bolsa no banco do carona e a abri tirando o objeto que era quase o mais importante da minha vida. O apertei entre meus dedos e saí do carro olhando sempre em frente.
Caminhava sem pressa nenhuma, aquela era o tipo de coisa que eu gostava de fazer com toda a calma que eu pudesse. Ao contrario do que qualquer pessoa pudesse pensar, não era como se eu não quisesse estar ali.
Quando meus olhos reconheceram o que conheciam tão bem, me senti em paz.
Me aproximei apertando o objeto entre meus dedos, que se não fosse seu material, poderia amassar deixando as marcas das pontas dos meus dedos tatuadas ali.
Me sentei com cuidado, observando que apesar de toda a situação na qual eu e papai estávamos, tudo continuava do mesmo modo. Muito bem cuidado e com as tulipas cheias de vida bem em cima da lapide de mármore.
Sem dizer uma única palavra, abri a tampa da caixinha de musica e a bailarina saltou de dentro dela começando seu giro delicado, coordenado ao som da musica igualmente delicada que saía dela.
Não queria, mas duas lagrimas desceram por meu rosto quando posicionei a caixinha de musica entre mim e a lapide. Não gostava de chorar quando ia ali, sabia que mamãe não gostaria de me ver chorando. Ela só queria que eu sorrisse.
"Seu sorriso ilumina meus dias, querida. Nunca deixe de sorrir, mesmo que você queira chorar."
Essas foram suas ultimas palavras para mim e por mais que eu chorasse em meu quarto escondida por noites a fio, não me permitia chorar em seu tumulo.
- Eu deveria desabafar com você? - disse e sorri. - Sabe onde papai anda? Ele veio aqui esse ano? Foi ele que trouxe as tulipas? Ou foi a floricultura? - seria perfeito se ela pudesse me responder. - Você acha que eu fiz as coisas erradas? Papai está tão distante, sempre esteve. Desde que você partiu.
Uma das coisas que me orgulhou durante alguns anos na minha vida, era o fato de eu ser muito parecida com mamãe.
Não na aparência, mas nossos trejeitos e personalidades eram idênticos. Nossos gostos também, era como se tudo o que ela era, tivesse sido passado para mim nos mínimos detalhes. Era como se ela vivesse em mim.
Durante os primeiros anos que sucederam sua partida, eu me orgulhava de ser exatamente como ela. Eu achava que aquilo faria com que papai se aproximasse ainda mais de mim. Que supriria e fecharia o buraco que mamãe deixou quando se foi.
"A mamãe não vai voltar mais para casa. Ela foi morar com o Papai do céu."
Aquelas foram as palavras mais tristes que ouvi na minha vida. Por meses eu rezava dia e noite e pedia para o papai do céu deixar minha mãe voltar para a casa, até perceber que ela não voltaria. E quando comecei a perceber que papai se afastava cada vez mais, senti a revolta tomar conta de mim. Ele me evitava e eu não sabia o que tinha feito de errado.
Eu tentava de todas as maneiras trazê-lo para perto, mas parecia que quanto mais eu me esforçava, mais ele se afastava. Foi quando aquela conversa com vovó pareceu trazer a solução de todos os problemas.
- Tudo o que eu mais quero é que ela seja feliz - eu podia ouvir meu pai falando aquilo como se estivesse ao meu lado. Eu conseguia lembrar perfeitamente do timbre de sua voz e da felicidade que aqueceu meu coração. - Mas ela é tão parecida com a Scarlet, não estou conseguindo lidar, mãe.
E a solução para todos os meus problemas estava ali.
Naquele momento eu sabia que se quisesse ter meu pai por perto, não poderia me parecer com mamãe. Não me lembro do restante da conversa, não me lembro de ter ouvido. Só me lembro que a única coisa que se passava pela minha cabeça era que eu tinha que ser diferente de mamãe. E então ele iria me amar.
Na minha infância parecia funcionar, eu tinha total atenção de papai. Mas os anos passaram e minha adolescência chegou. Papai me entupia tanto de presentes, que tudo o que eu tinha parecia pouco e eu queria mais, mais do seu amor.
Queria continuar recebendo tudo o que seu amor podia me dar e me comprar. E a cada novo diamante, nova viagem, novo cartão de credito sem limite que ele me dava, eu me afastava mais da imagem de mamãe e me aproximava mais do amor de papai.
E agora todo seu amor tinha ido embora, ele parecia ter sumido no meio de todo aquele caos que nossa vida se tornou. Era como se junto com nossa fortuna tivesse ido também sua capacidade de me amar e tentar me fazer feliz.
- Você sabe todas as coisas que eu estou passando, não preciso te contar. Eu só queria entender, sabe? Entender por que o papai me abandonou. Queria que você estivesse aqui também - sorri mesmo sem ter vontade. - Eu não queria que você tivesse ido embora. Se você estivesse aqui as coisas seriam muito melhores, você não me abandonaria. Eu sei que não. Posso só ficar aqui quietinha? Não estou muito afim de falar, não tenho nada para falar, aliás - ri sem humor.
Fiquei ali tentando trazer para a superfície as lembranças que se perderam no infinito da minha memoria. Tentando lembrar dos pequenos detalhes dos domingos de manhã, dos detalhes das conversas que tínhamos quando ela ia me ajudar a tomar banho.
Eu daria qualquer coisa para ter tudo aquilo de volta.
Mas eu não tinha nada para dar em troca daqueles momentos simples e únicos que mamãe me proporcionara nos poucos anos que tivemos juntas.
A bailarina continuava girando no ritmo da musica que não tinha fim e a única coisa que eu fazia era olhar fixamente a lapide e o que havia escrito nela.
"Mãe, filha, esposa e bailarina espetacular."
Não consegui sentir a enxurrada de lagrimas que caíam sem parar por meu rosto. Elas me faziam ter raiva. Eu nunca chorava quando ia ali, sempre me mantive firme diante de seu ultimo pedido. Me manter sorrindo, pelo menos ali em seu tumulo.
Mas graças a negligencia de papai, minha vida estava um turbilhão nos últimos meses e não consegui honrar o ultimo pedido de mamãe aquele ano. Isso me fazia sentir raiva de Patrick, muita raiva.
E nem sequer um telefonema foi dado, nenhuma palavra de conforto naquele dia tão delicado.
Meu celular vibrou no bolso da calça e automaticamente minha mão voou em sua direção, esperando que meus olhos encontrassem o nome de papai na tela.
Estava decepcionada mais uma vez, o nome de Mayh estava ali, anunciando que era sua a mensagem e não de Patrick.
"Está tudo bem? Estou realmente preocupada, já são quase nove. Não precisa trazer o carro hoje, pego no colégio."
Olhei para o céu notando a escuridão, não havia notado o tempo passar.
Passei a mão pelo rosto e senti meus olhos ardendo. Por mais que eu quisesse continuar ali, precisava ir embora.
Provavelmente Megan já estaria se descabelando sem noticias minha, mesmo que não tivesse tentado me contatar pelo celular.
Fechei a caixinha de musica e me levantei devagar.
- Eu te amo - disse com a voz baixa antes de dar as costas e retornar ao carro.
A viagem de volta pareceu muito mais longa que a de ida, mesmo sabendo que levei o mesmo tempo para fazer o percurso.
Estacionei o carro atrás do de Megan quando cheguei e fiquei um tempo olhando para as luzes da casa acesas. Suspirei e coloquei os óculos escuros que havia sido de mamãe no rosto. Meus olhos deviam estar tão inchados como estavam ardendo.
Depois de acionar o alarme do carro, segui a passos preguiçosos até a porta de entrada, já me preparando para ouvir o chilique de Megan e alguma piadinha de e provavelmente de .
Quando abri a porta já consegui ouvir vozes vindas da sala, fui até lá para dizer que já havia chegado.
- Cheguei - falei me encostando no batente da porta, minha voz rouca quase não saiu.
Os três que estavam ali presente, fazendo algo que não prestei atenção para identificar.
- Guardei seu jantar no micro-ondas, toma um banho e se alimente - fiquei muda de surpresa com a delicadeza que havia em sua voz, mais ainda com o sorriso carinhoso que ela dirigiu a mim.
Estava esperando por hostilidade por estar na rua até aquela hora e não ter dado nenhuma satisfação.
- Obrigada - foi tudo o que consegui responder, estupefata demais com toda aquela delicadeza e nenhum comentário mau educado vindo de seus filhos.
Ainda fiquei alguns segundos parada sem saber o que fazer, até minha cabeça começar a doer.
Peguei minhas coisas no quarto e fui para o banheiro.
Minha solidão era tanta, que até a água quente parecia me confortar. Não há nada mais triste na vida que a solidão.
A não ser a falta de dinheiro.
Quando você tem mais do que pode gastar, fica tempo demais ocupada para ter tempo de pensar que ninguém notou seu estado de espirito e se preocupou em perguntar se você precisa de alguma coisa, ou como você está.
E você acaba se acostumando com isso. Não é preciso ninguém sentindo pena, quando você pode afogar suas magoas em roupas, sapatos, joias e viagens.
Talvez meu banho tenha demorado um pouco mais que o planejado, mas quando voltei para o quarto, a maior parte do peso que sentia em meus ombros havia sumido. Exceto a tristeza e solidão, essas ainda estavam dentro de mim, mas eu sabia que uma boa noite de sono seria suficiente para trancar esses sentimentos em um lugar profundo.
Já estava sentada na cama com o cobertor cobrindo minhas pernas, quando Megan deu duas batidas na porta, antes de abri-la e entrar. Ela segurava uma caneca vermelha e caminhou em direção à minha cama se sentando na beirada sem dizer uma palavra.
- É chá de canela, sei que é seu preferido - disse me estendendo a caneca fumegante.
Aquelas palavras foram o suficiente para meus olhos se encherem de lagrimas. Eu tomava aquele chá todo ano, naquela data. Me acalmava e me ajudava a dormir.
- Obrigada - falei pegando a caneca de sua mão.
- Não vou perguntar se está bem - ela falou e fiquei encarando o interior da caneca em minhas mãos. - Porque eu sei que não está. Mas eu quero que você saiba que eu estou aqui para o que precisar, não hesite em pedir - concordei com a cabeça, sem coragem de olhar para ela.
- Obrigada.
- Tenho uma coisa para você, faz um tempo que está comigo, mas ele pediu para te entregar hoje. Se quiser escrever de volta, me dê que eu levo para ele - ela disse e puxou de trás de si um envelope branco, me entregando em seguida.
Não precisava perguntar para saber de quem era.
- Vou te deixar descansar - ela sorriu e se aproximou depositando um beijo em minha testa, antes de sair do quarto.
Ela não olhou para trás para ver a lagrima que escorreu por minha bochecha. Encarei o envelope que agora estava em meu colo e suspirei. Seria inteligente ler o que havia ali antes de tomar o chá, já que esse tinha um efeito calmante em mim.
Coloquei a caneca em cima da mesinha de cabeceira e peguei o envelope tendo que rasgá-lo, já que estava lacrado.
A caligrafia de papai estava quase impecável como costumava e no primeiro momento eu só olhei o papel, sem ler absolutamente nada.

"Oi, meu amor. Como você está? Como tem sido seus dias?
Você não me respondeu, espero que não esteja muito brava comigo.
As flores estavam lá? Nunca me perdoaria se pelo menos isso não pudesse acontecer, eram as preferidas dela.
Sei que hoje não é um dia fácil para você, acredite, para mim esse dia é tão torturante quanto todos os outros. Gostaria de estar aí para poder te abraçar e enxugar suas lagrimas. Eu sei que você chora até cair no sono nessa data tão triste e melancólica para nós dois. É eu sei...
Não posso estar aí por um motivo maior. Não posso te explicar tudo, mas sei que quando puder o fazer, você irá entender.
Estou pensando em você enquanto escrevo isso e enquanto você está lendo.
Espero te ver em breve e te ver sorrindo e feliz.
Eu sei que não tenho sido um exemplo de pai para você e sua mãe deve estar em pedaços enquanto acompanha o desastre paterno que me tornei. Sei também que você deve estar furiosa com tudo o que aconteceu e tem acontecido. Magoada, com raiva, triste e solitária. Mas tudo isso está acontecendo para eu ser o pai que eu e Scarlet idealizamos que seria.
E eu serei.
Te prometo.
Te amo e sempre te amei.
Papai."

Meu choro era tão alto quanto um grito de desespero.
Tudo o que eu queria era que ele estivesse ali para me abraçar até que o sono viesse e me vencesse em uma batalha a qual eu não resistiria e desistiria fácil, só para fugir da realidade.
Eu queria responder a carta dele, mas não iria conseguir. Não naquele momento.
Deitei e me encolhi em posição fetal deixando a carta e o chá de lado. Eram tantas emoções juntas e tantas frustações guardadas que tudo o que que queria era sumir.
E fiz exatamente o que papai disse que faria.
Agora eu sabia, ele sempre esteve lá ouvindo minhas lagrimas.



Dezesseis

’s POV

Aquela manhã com toda certeza estava diferente de todas as outras.
A começar por com aquela aparência frágil e desprotegida, de tal modo que eu nunca tinha visto ninguém antes na minha vida. Ela nem ao menos se parecia com a garota que chegou em minha casa.
Seu rosto estava visivelmente muito maquiado, mas nem toda aquela maquiagem disfarçava seus olhos. Simplesmente porque não havia nada neles. Eles estavam apagados, sem vida e ainda assim ela parecia mais bonita que o normal.
Nenhum sorriso, nem mesmo daqueles arrogantes. Nenhuma palavra, exceto o quase inaudível bom dia, que claramente soltou por mera educação.
Eu não deveria me importar, mas não conseguia ignorar.
Fiquei observando-a enquanto ela caminhava até o carro de Mayh, queria me aproximar e dizer alguma coisa, alguma palavra de conforto, mas eu sabia que mesmo estando no seu pior dia, ainda seria arrogante o suficiente para transformar minha solidariedade em raiva.
Então só segui para o meu carro e fui para o colégio, imaginando que até o final do dia, Maddox estaria desfilando por aí com aquele nariz empinado como sempre.

não parava de se lamentar a manhã inteira de como estava começando a achar que tinha se precipitado em relação à Mayh.
E eu ainda estava preocupado com e eu nem ao menos sabia o porquê de toda aquela preocupação, nem deveria me importar se ela estava bem ou não. Talvez eu só estivesse achando estranho vê-la andando com a cabeça baixa, como se o chão a interessasse muito.
Ela não merecia nenhuma compaixão, claramente era o tipo de pessoa que sentia prazer em pisar em tudo e em todos para se sentir superior e importante, um dia ruim não deveria desencadear algum tipo de solidariedade em mim, ela nem merecia esse tipo de sentimento vindo de mim nem de ninguém.
E, então, enquanto eu caminhava com para o campo, aquele dia se tornou o mais bizarro da minha vida.
E, como se para dar um verdadeiro nó na minha cabeça sobre tudo o que eu achava de Maddox, aquela cena bizarra se desenrolava bem diante dos meus olhos.
simplesmente não desgrudava da menina, e eu já podia imaginar o olho roxo que ficaria ali. Enquanto Laura agarrava o cabelo de , Maddox fazia exatamente o mesmo. Mas ao contrário da primeira, segurava seu cabelo para distribuir socos em seu rosto sem nem mesmo ver onde acertava.
Toda aquela gritaria próxima ao campo; minha irmã puxando o cabelo de Jane como se fosse arrancá-lo da cabeça da garota, para que essa soltasse os cabelos de Maddox; mas nada chamava mais minha atenção na cena que se desenrolava na minha frente do que socando Lara.
Cheguei a arregalar meus olhos e pensar em quantas vezes eu poderia ter tido um olho roxo, simplesmente porque a patricinha sabia muito bem como socar alguém. E como sabia.
Eu sabia que teria que fazer alguma coisa, quem tentava separar não tinha nenhum sucesso e ninguém mais tentaria.
Então caminhei a passos rápidos até as garotas e agarrei pela cintura a erguendo do chão para tirá-la de perto de Laura.

’s POV

Três horas antes

Eu estava errada.
Uma noite de sono não havia sido o suficiente para me tranquilizar.
Mal dormi na verdade, quando meus olhos se arregalaram bruscamente, o dia nem havia amanhecido e quando peguei o celular vi que ainda nem eram cinco da manhã.
Não conseguiria dormir mais, mesmo que minha vontade fosse que aquele colchão me engolisse. Olhei para a mesa de cabeceira e vi a caneca e a folha de papel ali, exatamente do jeito que havia deixado. Meus olhos voltaram a se encher de lagrimas e um sentimento estranho transbordou meu coração.
No começo não soube identificar exatamente o que era aquilo. Só conseguia pensar no porquê de papai escrever uma carta ao invés de estar ali pessoalmente me abraçando. Por que a Megan sabia exatamente onde encontrá-lo e eu não? Por que uma completa desconhecida e sem nenhum tipo de laço de sangue poderia vê-lo, tocá-lo e conversar com ele, e eu que era sua única filha não?
Como ele poderia ser tão frio em relação a mim a esse ponto?
Então aquela lagrima desceu e descobri o que havia transbordado. Era raiva.
Patrick havia feito com que eu quebrasse a promessa que havia feito silenciosamente a mamãe de não chorar. Fechei os olhos e engoli aquele choro.
Patrick realmente achava que um pedaço de papel poderia me confortar mais que sua presença?
Havia sido sempre assim, não é? Ele sempre usara pedaços de papel para me confortar, a diferença é que os que ele usava antes, poderiam me comprar coisas.
Céus, como ele pode ter me deixado no momento em que eu mais precisava?
Respirei fundo, tentando achar algum tipo de pensamento lógico que pudesse explicar sua ausência, mas infelizmente tudo o que eu podia era pensar que ele nunca me suportou, como dizia.
E com isso veio o pensamento de que ninguém me queria por perto, me odiava, Megan só me aturava porque, até onde eu sabia, adorava meu pai. Ela adorava Patrick, não a mim. , que até então parecia que nutria algum tipo de simpatia por mim, havia passado a me ignorar.
O que eu havia feito de errado? Por que ninguém podia gostar de mim? Por que todos me abandonavam?
Minha garganta doía com a vontade de gritar o mais forte e alto que conseguisse, afim de colocar para fora toda aquela angustia que queimava minha pele.
Depois de vários minutos tentando fazer exercícios de respiração para me acalmar, desisti de ficar ali e fui para o banheiro. O banho era para ter sido relaxante, mas não chegou nem perto disso. E quando me olhei no espelho, concluí que a melhor coisa que poderia ter me acontecido era ter acordado muito cedo. Poderia investir na maquiagem pesada para sair de casa, pelo menos isso.
Quando finalmente desci para o café, desisti de comer qualquer coisa junto ao trio , soltei um bom dia forçado e corri dali, só porque não queria ter que fingir que, aquele silencio fúnebre na mesa da cozinha, não tinha a ver comigo.
E lá estava eu sentada em um banco pichado, comendo a barra de cereal que havia encontrado em minha bolsa, tentando parecer o mais natural possível.
Eu queria poder fingir que estava tudo bem, mas eu sabia que não estava. Alguma coisa se remoía dentro de mim e, por Deus, eu queria extravasar.
Soltei um suspiro de alivio que mais se pareceu com um gritinho estranho, quando vi Mayh caminhar em minha direção. Ela com certeza parecia muito melhor que eu.
- Que rosto rebocado é esse? Não combinamos de que você usaria pouquíssima maquiagem? - jogou sua bolsa ao meu lado e se sentou.
Por um momento um sorriso mínimo se desenhou em meu rosto. Eu gostava de toda energia que ela conseguia emanar, do modo como ela era espontânea e parecia feliz, mesmo com todo caos em sua vida amorosa.
- Eu estava necessitando de uma maquiagem bem feita. Acredite em mim, se não fizesse isso - apontei meu rosto. - Até o Shrek fugiria.
- E o Shrek é o ? - perguntou realmente confusa.
- Ele também - dei de ombros.
- Está tudo bem? Foi tudo bem ontem? - perguntou delicada e em sua expressão vi o mesmo que tinha visto no rosto de Megan na noite anterior. Uma preocupação genuína.
Algo se aqueceu dentro de mim e tive vontade de abraçá-la. Há muitos anos não via aquele olhar verdadeiramente preocupado com meu bem-estar nem mesmo de meu pai, quem dirá de "estranhos".
- Vai ficar, como sempre - disse com um sorriso fechado e forçado. Mesmo que sua presença estivesse me trazendo um pouco de conforto, algo me incomodava.
- Se precisar de alguma coisa é só falar, nem que seja só para conversar. Ok? - concordei com a cabeça e por mais que as palavras estivessem borbulhando em minha boca, não consegui formar uma palavra sequer.
Estava começando me sentir incomodada e desconfortável, eu queria mentir para mim mesma e dizer que não sabia o que era, mas sabia exatamente do que se tratava.
- Adivinha quem resolveu me mandar mensagem ontem? E até me ligou por não ser respondido? - ela ergueu uma sobrancelha.
- - respondi automaticamente.
- Exato - ela sorriu
- Você falou com ele? - perguntei tentando me distrair com o assunto que certamente se estenderia por toda manhã.
- Óbvio que não. Eu disse que iria tirá-lo da minha vida e é isso que eu farei - ela disse obstinada.
- Acho que eu deveria fazer isso também - olhei minhas unhas tentando me concentrar na conversa que estávamos tendo e tentando deixar de lado tudo que estava se passando por dentro de mim.
- Mas vocês nem começaram. Você é dessas que desiste?
- Você sabe que ele jamais vai olhar para mim - dei de ombros.
- Ele já olha, . Só é orgulhoso demais para admitir que quanto mais você o esnoba, mais ele gama. Tenho certeza que quanto mais você esnoba o , mais vontade ele tem de rolar com você por aí. Só é orgulhoso demais para admitir. Homens - ela rolou os olhos.
- Estou em um momento que se levar um passa fora, morro de depressão - disse, mas eu sabia que estava mentindo. Estava em um momento que se levasse um fora, seria capaz de quebrar o nariz do garoto.
Essa era a verdade.
- Se levar um passa fora, o que acredito que não vai acontecer, você parte para outra. O é um cara muito legal, mas existem outros por aí - aquilo pareciam mais palavras de consolo, mas preferi ignorar.
O ambiente começou a lotar e em poucos minutos estávamos no corredor tentando não chegar atrasadas em nossas respectivas aulas.
Trombei algumas vezes com pelo corredor, mas ela sequer olhou para a minha cara. O que me deixava levemente mais deprimida. Estava começando a não ver a hora de me formar logo e ir para a faculdade.
Então eu me lembrava de que não tinha mais dinheiro para pagar a universidade, por sorte sempre fui estudiosa, e poderia fazer como os menos favorecidos e tentar uma bolsa. Deus, quando eu podia imaginar que viveria em meio a tanta pobreza.
E, para alegrar ainda mais meu dia, teria aula de educação física. Se eu já adorava estudar com aquela gentalha, imagine como eu amava fazer educação física com eles. Que na sua maioria usavam desodorantes baratos, especialmente os meninos.
Mayh tagarelava algo sobre esmaltes ao meu lado. Eu estava nervosa e irritada, não estava mais conseguindo dar a atenção devida à ela naquele momento.
Eu sabia que a qualquer momento poderia explodir e estava me segurando com todas as forças para que isso não acontecesse perto dela e com ela.
Já tinha perdido todos, não poderia perder Mayh também.
Passei meus olhos pelo campo e avistei perto das arquibancadas, achando estranho ela estar ali. Mais estranho ainda ela estar discutindo com uma das garotas do time de torcida, enquanto suas seguidoras praticamente rodeavam , em poses totalmente ameaçadoras.
- O que a está fazendo aqui? - Mayh colocou meus pensamentos para fora. - E discutindo com a Laura?
Meu sangue voltou a borbulhar da mesma forma que naquela manhã e nem percebi que já caminhava até . Minha visão ficando turva e tudo o que eu podia pensar era: Só espero que seja uma tentativa de intimidação por parte delas.
Por algum motivo, mesmo me maltratando, não conseguiria admitir uma daquelas dançarinas de cabaré colocarem um dedo nela.
disse alguma coisa para a garota, que por seus gestos paracia um aviso e deu as costas. A menina agarrou o cabelo de e a puxou de volta.
Então entendi o que Bella Swan disse com ver vermelho.
Entendi perfeitamente.
Não sei ao certo como me aproximei, só sei que, quando vi, já tinha metade do cabelo da garota em minha mão e fiz parte do que aprendi nas aulas de defesa pessoal. Soquei a cara dela.
Senti meu cabelo sendo puxado, mas não senti dor.
Então tudo o que queimava dentro de mim naquelas últimas horas vieram à tona.
Eu não via, não ouvia e não sentia nada. Só mantinha minhas mãos fechadas.
Uma segurando o cabelo da garota e a outra fechada da maneira correta acertando seu rosto. Só conseguia sentir meu sangue esfriando à medida que sentia minha mão acertar a garota e tenho certeza que estava quase sorrindo enquanto aquele alivio tomava conta de cada centímetro de mim.
Alguém agarrou minha cintura e me puxou, minha mão fechada em punho ao redor do cabelo da garota se manteve firme e soquei algo muito duro que deve ter machucado minha mão. Me impulsionei para a frente e puxei a garota pelos cabelos dando um chute para trás e a pessoa me soltou.
Posso ter socado a garota que ousou colocar as patas em por segundos, minutos ou horas, só voltei a mim quando ele passou seus braços por minha cintura.
Eu reconheceria aqueles braços e aquele abraço firme e delicado em qualquer situação.
E mesmo com a mente turva de ódio, minha mão naquele cabelo ensebado se afrouxou e deixei que girasse meu corpo de tal modo que seu próprio corpo ficasse entre eu e a garota.
- Sua vadia - a ouvi gritar enquanto meu coração batia tão forte, que parecia que iria sair pulando por todo o campo.
Eu estava em uma mistura de alivio e ódio.
Sim, ódio.
Ódio pela vida por ter me tirado minha mãe, ódio por me desprezar, ódio por ser uma criança birrenta e ciumenta me ignorando, ódio daquela garota que ousou colocar as mãos em e, principalmente, ódio por Patrick ter me abandonado em todos os momentos em que mais precisei dele.
E alivio por ter finalmente colocado todo aquele ódio para fora. Finalmente percebi quanta raiva havia dentro de mim. Quanto ódio se acumulou dentro do meu coração por todos esses anos.
De repente toda a raiva que as pessoas tinham por mim pareceram somente um reflexo de todo ódio que eu sentia pelo mundo.
estava me abraçando por trás tão forte, que minhas costas estava colada em seu peitoral de músculos delicados, enquanto meu corpo tremia com a expectativa de poder socar a garota mais um pouco.
Minha respiração estava acelerada e em meio a toda gritaria escutei aquele apito estridente e avistei uma mulher que tinha uns dois metros de altura, se aproximar.
- Você, você, você, você e você. Pra diretoria agora! - gritou nos apontando um por um.
Passei as mãos pelo cabelo, ajeitando-o e sentindo como elas estavam tremulas. ainda me abraçava e eu já não sabia se minha respiração estava irregular por isso, ou por estar socando alguém há poucos segundos.
- Sua filha da puta - a garota teve a audácia de gritar enquanto a arrastava e foi automático o modo como me joguei para socá-la mais um pouco.
Mas me apertou ainda mais e fiquei dividida entre o ódio de uma pobretona chamar minha mãe de puta e o modo firme como o garoto me segurava e como seu corpo estava quente.
- Porra, sossega, ! É exatamente isso que ela quer - ele meio que sussurrou em meu ouvido me chacoalhando para tentar me controlar. Foi o que bastou para que me aquietasse e dei graças a Deus por ele continuar me segurando, ou me esborracharia no chão.
- Pra diretoria, agora! - gritou a mulher mais uma vez. - E o resto de vocês, para a aula - as pessoas começaram a se dispersar.
Os braços de se afrouxaram e senti um fio de tristeza, por sorte, na mesma hora passou ao nosso lado arrastando a ruiva maldita e fingi que ia pular em cima dela, fazendo com que o garoto atrás de mim voltasse a me agarrar com força e um sorrisinho maldoso se desenhar em meu rosto discretamente.
Só notei que e Mayh também iam para a diretoria quando as duas passaram por mim e .

E foi assim que acabei na diretoria.
Sentada em uma das cadeiras ao lado de Mayh, permaneceu meio que ao meu lado e na minha frente ao mesmo tempo, com medo que eu atravessasse a sala como uma leoa raivosa tentando proteger a cria. A cria no caso era .
A ruiva não parava de bater o pé no chão, enquanto segurava uma bolsa de gelo em seu rosto. ao seu lado com a expressão furiosa, mas pronto para não deixá-la apanhar mais.
- Entrem - o diretor gostosão apareceu na porta e ordenou a todos.
Seguimos para dentro de sua sala e eu e a ruiva nos sentamos uma ao lado da outra, em frente ao diretor.
- Alguém pode me explicar o que aconteceu? - perguntou e já imaginei que ia começar o falatório confuso, mas a única que cacarejou foi a galinha ao meu lado.
- Essa louca me atacou no campo - disse com a voz chorosa e fui obrigada a rir.
- Eu te ataquei? - perguntei em tom de deboche. Minhas mãos coçando, uma vontade incontrolável de enfiar a mão na cara da garota novamente.
- É, ela veio para cima de mim, senhor Calvin - rolei os olhos.
- A Laura bateu na , diretor - Mayh falou com raiva.
- Como? - perguntou e sua voz estava tão medonha que arregalei os olhos.
- É mentira - a ruiva do meu lado disse com ar de inocência.
- Eu não quero saber de violência na minha escola. Não me interessa quem começou - o diretor cortou. - As senhoritas Maddox e Raven estão dispensadas da aula por hoje, levaram uma advertência também e vou conversar com seus responsáveis. As duas, e Mayh vão para a detenção por uma semana. E da próxima vez que isso acontecer é expulsão para todo mundo, não importa o motivo ou quem começou. Estamos entendidos? - falou com uma voz firme e cortante.
Veio a vontade de chorar.
Mal sabia ele que meu pai não se importaria com uma expulsão. Ele nem se importava em como eu estava, nunca se importou. E eu já havia constatado o quão triste era.
Provavelmente todos ali levariam bronca de seus pais, até mesmo Laura. Menos eu.
Há algum tempo eu me sentiria muito especial por isso, mas ali naquela sala eu sabia que eu era a menos especial dali. A que menos importava, a única que ninguém perderia sequer um segundo se preocupando.
- e , obrigada por interferirem e evitar que maiores danos fossem causados - falou olhando a garota do meu lado. - Podem ir.
Com certo esforço me levantei e segui os outros para fora. Sempre olhando para os meus pés.
Certo alivio corria por minhas veias, aquele ardor tinha desaparecido, aquele grito entalado já não estava mais presente, mas a solidão. Ah, a solidão, ela ainda estava em pé, firme e forte lutando contra a paz que tentava segurar minha fúria, que insistia em se debater em seus braços.
- Não acredito! Que porra foi que aconteceu? - parou no corredor com os braços cruzados.
Seu tom de voz duro e alto fez com que eu saísse da bolha em que estava e encarasse as pessoas à minha volta.
- Você sabia que a Laura andou escrevendo no banheiro da escola que eu sou uma putinha? - também cruzou os braços.
- Você devia ter me falado. - disse visivelmente nervoso. - E não ter ido lá bater na menina.
- Você está defendendo aquela pobretona? - perguntei quase entrando na frente de .
- E você? Tem ideia do que pode acontecer se ficar socando as pessoas como um animal, ? Se alguém te socasse assim, seu papai iria processar, não é? - perguntou irônico, fechei minhas mãos em punho no mesmo momento em que cerrava meus olhos e abria minha boca para respondê-lo. Se ele tocasse no nome do meu pai mais uma vez aquele dia, eu quebraria aquele nariz dele.
- Ela estava me defendendo, . Coisa que você devia estar fazendo. - tomou a frente mais uma vez.
- Eu nem sabia o que estava acontecendo - ele se defendeu.
- Agora sabe, então pare de defender a piranha da Laura e fique do meu lado.
- Não quero você em confusão, da próxima vez, fale comigo primeiro. - falou e se virou para mim. - E você se cuida, elas podem querer socar você também, da minha irmã eu cuido, mas você, eu quero mais que se foda - ele disse e dei de ombros fingindo que não me importava.
Com elas realmente não me importavam, mas me importava o modo como ele me desprezava.
Assisti sair a passos apressados enquanto o corredor caía no silencio profundo. me olhou e seguiu o mesmo caminho do irmão sem dizer uma palavra.
- Caralho! - gritou. - Você soca como um boxeador - completou animado.
- Estou chocada! - Mayh disse com os olhos arregalados.
- É – falei, sentindo as palavras de entaladas em minha garganta.
O corredor estava em silencio novamente e olhei para e Mayh com os olhos ardendo antes de sair correndo apressada. Estava na hora de soltar o restante da minha angustia.
Não sei como fui parar ali.
Uma hora eu estava no corredor com Mayh e e na outra eu estava no banheiro, com aquelas malditas lagrimas caindo, lutando para fechar a porta daquele cubículo fedido. Desisti de tentar fechar a porta e me encostei na parede, sabendo que me arrependeria daquilo mais tarde. O primeiro grito escapou quando braços me envolveram, perdi as forças nas pernas e me deixei desabar, mas não encontrei o chão porque a pessoa me segurou.
- Shiii, está tudo bem, estou aqui - era e minhas lágrimas se tornaram ainda mais fortes, se é que aquilo era possível.
Sua mão acariciava minhas costas enquanto ela dizia palavras de conforto que, com todo seu perdão, eu não conseguia ouvir.
De repente havia mais dois braços em volta de mim e mais palavras se misturando as de , mas consegui reconhecer a voz de Mayh. E mais uma vez não sei quanto tempo passou e nem como saí de dentro da cabine individual e fui parar no chão daquele banheiro imundo nos colos de Mayh e .
Não sabia o que me doía mais naquele momento, mas já conseguia sentir o conforto dos braços as duas.
- Ela te machucou? - perguntou delicada quando meu choro já se tornara silencioso.
- Claro que não né, . Ela nem teve tempo e espaço pra isso. - Mayh respondeu com uma risadinha discreta.
- Estou bem - funguei.
- Você está chorando de raiva, né? Eu também faço isso. - disse e Mayh me olhou significativamente.
Ela sabia que havia outro motivo para o meu choro, não era só a indiferença de , mas aquilo havia ajudado infinitamente.
Me sentei reunindo forças para levantar.
- Vou precisar tomar banho com álcool, nem acredito que estava deitada aí - apontei o chão enquanto usava a outra mão para secar o rosto. - Ainda bem que essa maquiagem não sai com água - completei e as duas riram.
- Acho melhor a gente ir, daqui a pouco a aula termina e não só os corredores vão ficar cheios, mas esse banheiro também. E a mamãe já deve estar chegando - disse se levantando.
Me olhei no espelho e mais uma vez constatei os milagres da maquiagem. O único sinal de que eu havia passado os últimos minutos chorando eram meus olhos vermelhos e inchados. De resto não havia um cílio fora do lugar.
Fechei os olhos respirando fundo e quando os abri aquela mascara arrogante inatingível estava de volta a seu lugar e eu não pretendia mais tirá-la dali, por nada, nem ninguém.



Dezessete

Estava tão puto que conseguia sentir meu sangue queimando e minhas mãos tremiam tanto, que seria incapaz de segurar um copo de água.
Eu adoraria ter nascido mulher a essa altura.
Fui para o banheiro masculino sabendo que não ousaria entrar ali, não estava nem um pouco afim de conversar com ela, ou despejaria toda a minha raiva em cima dela assim como havia feito com . Eu sabia que ela estava defendendo a minha irmã e deveria ter sido mais delicado com ela, mas eu não estava em um momento no qual saberia identificar o que era ou não delicadeza.
Eu precisava me acalmar e ir atrás da Laura, para me certificar de que aquela história havia acabado, e sabia que ela não sairia do colégio enquanto sua mãe não fosse buscá-la.
Meu celular vibrou e antes mesmo de pegá-lo já sabia quem era. E confirmando todas as minhas expectativas era uma mensagem da dona Megan.
"O que exatamente aconteceu?"
Eu conseguia ver sua expressão raivosa, suas bochechas deveriam estar vermelhas, seus lábios fechados em uma linha fina e as mãos tremulas.
"Elas estão bem, depois explico."
Mandei em resposta e abri a torneira da pia do banheiro. Joguei água no rosto e tentei maquinar uma forma de fazer com que Laura fosse mais "cuidadosa" em relação às pessoas das quais eu gostava.
Fui direto para a enfermaria onde sabia que ela estaria fazendo a caveira de Maddox e de . A porta estava aberta e dei uma olhada dentro da pequena sala onde havia um armário, uma maca e uma cadeira. Laura estava sentada na maca segurando uma bolsa de gelo junto ao rosto, que estava abaixado. Como ela estava sozinha, me aproximei devagar sem fazer questão de ser silencioso, ela levantou seu rosto em minha direção e fiz uma careta ao ver o curativo em sua sobrancelha e seu nariz que parecia cinco vezes maior.
- O que você está fazendo aqui? Veio se desculpar? - ela quase conseguia ser tão arrogante quanto .
- Me desculpar? Pelo que exatamente? - dei um sorriso irônico.
- Por isso? - ela apontou seu rosto e fiquei com vontade de rir.
- Você mereceu. Coloque um dedo na minha irmã de novo e eu acabo com você - eu estava sério e a vi enrijecer seu maxilar.
- E o que você vai fazer? - ela ainda tentou se manter naquela postura arrogante, mas parecia mesmo um animal acuado.
- Eu acabo com a sua vida, Laura, se você duvidar, pode ter a petulância de chegar perto da e da de novo - dei um passo em sua direção tentando parecer mais ameaçador desse modo.
Quem me conhecia bem, sabia que eu jamais teria coragem de encostar em um fio de cabelo dela, mas a própria Laura não sabia disso. O que já era um ponto para mim.
- Não que eu ache que a precise de proteção - continuei debochado. - Mas seria ótimo para você ficar o mais longe que esse colégio permitir, das duas. Fui claro o suficiente para você? - eu sabia que ela queria retrucar de alguma maneira, mas não podia.
Laura sabia que naquele colégio eu tinha mais força do que ela e que se resolvesse disputar cabo de guerra comigo, ela perderia em dois segundos.
- Eu não quero ser expulsa - deu de ombros como quem não se importava.
- Acho muito bom que você ignore a existência da e da , assim todo mundo pode se formar em paz, certo? - eu não precisava defender Mayh, Laura não teria insanidade suficiente para tentar nada com ela.
- Ótimo - disse me afastando quando ela tornou a dar de ombros.
Eu esperava que toda a minha pose de macho alfa tivesse funcionado e ela ficasse na dela e não importunasse nenhuma das meninas. Saí da enfermaria e fui para o estacionamento esperar por mamãe.
Tudo o que eu vi foi mamãe sair de dentro do colégio seguida por e , que mesmo parecendo estar levando uma bronca mantinha o queixo nas nuvens e a expressão fechada e no fundo parecia estar satisfeita. Já , andava com os braços cruzados e cabeça baixa. Minha mãe olhou em minha direção e fez um sinal com a cabeça indicando que era para ir para a casa e assim o fiz.
Eu queria ser uma mosca para ver o que estava acontecendo dentro do carro enquanto dirigia para casa. Queria saber se dona Megan estava sendo mais severa com , ou estava agindo da mesma forma com as duas.
Mas quando cheguei fui direto para o meu quarto, sabia que se ficasse ali sobraria para mim, até porque eu iria me meter para defender as duas.
Pouco tempo depois, mamãe entrou com os cabelos bagunçados, as bochechas coradas e os lábios em uma linha fina.
- Como foi que isso aconteceu? Onde você estava? - ela disse após andar de um lado ao outro por exatos dois minutos.
- Eu estava na aula - dei de ombros.
- , você tem noção do que aconteceu? E se aquela menina prestar uma queixa? O que eu vou dizer ao Patrick?
- Mãe, a estava se defendendo e defendendo a . Ela não tem culpa se a Laura não soube se defender - falei tentando soar o mais natural possível.
- Violência não é a solução.
- E você queria que as duas apanhassem? - ela passou as mãos pelo cabelo.
- Claro que não, mas não tinha necessidade da praticamente espancar aquela menina - rolei os olhos quando ela não estava me olhando. - Vou ter que conversar com o Patrick sobre isso.
- Não é como se ela saísse espancando todo mundo. Ela viu a garota batendo na e se intrometeu, ela não foi bater na menina sem motivo nenhum - até eu me surpreendi por estar defendendo a Maddox.
- Ainda assim, . Você viu o rosto da menina?
- Ah mãe, pelo amor de Deus. Nem é para tanto, o rosto da Laura ficou como o de alguém que arruma briga achando que está em vantagem. O que ela não sabia era que a , aparentemente, tem certa técnica - dei de ombros e ela riu sem achar nenhuma graça.
- Certa técnica? Ela fez aulas de defesa pessoal por anos. Isso que me preocupa, o que poderia ter acontecido se você não estivesse lá para separar.
- Outra pessoa iria separar, simples assim - eu sabia que ela estava preocupada, mas eu realmente não achava que fosse alguma espécie de ameaça. Prova disso foi as tantas vezes que eu a atazanei e ela nunca me deu um soco no olho.
- Vou deixá-las de castigo, é o que eu tenho que fazer - ela disse nervosa.
- Não acho a melhor forma de resolver. Conversa com elas, faz com que elas entendam que não é legal usar a violência. Até porque se a não tivesse lá, poderia ser a no lugar da Laura - vi em sua expressão que ela sabia disso tão bem quanto eu.
E eu estava aliviado por estar lá, Laura nunca foi o tipo de pessoa que procurava confusão sozinha, logo nunca teria enfrentado apenas ela.
- Não vou te deixar me influenciar - ela disse apontando em minha direção enquanto saía do quarto e sorri sabendo que já a tinha influenciado.

Era sábado de manhã e eu estava feliz por estar em casa, por não ter que acordar cedo para trabalhar ou para ir à escola. O que não significava que eu não acordei cedo de qualquer maneira.
A casa estava quase silenciosa, exceto pelo barulho da tv, que indicava que alguém estava assistindo desenhos animados. Minha primeira parada foi na cozinha, onde eu sabia que encontraria café preto. Peguei o pacote de biscoitos que estava aberto em cima da mesa e fui para a sala. A primeira coisa que eu vi foi o cabelo de , que estava deitada no meu sofá, a centímetros do chão. Tentei com certa dificuldade ignorar suas longas pernas esticadas no sofá. Ela usava uma meia vermelha um pouco acima do joelho e enrolava uma mecha do cabelo nos dedos.
- Você poderia se dar ao trabalho de fechar o pacote de biscoito - disse me sentando no sofá.
- Bom dia para você também - ela disse, mas não me olhou.
Desde o dia em que brigou com Laura, quase voltara a ser como antes. Quase, porque ela ainda estava diferente. Ela não falava comigo mais que o necessário e nunca, absolutamente nunca, respondia às minhas provocações. Ela também evitava o contato tanto físico quanto visual comigo. Não que antes tivéssemos muito contato físico.
Ela tentava parecer arrogante o tempo todo, mas ainda assim parecia tentar fingir que eu não existia. O que eu tenho que admitir que me incomodava de certa maneira.
- Onde está minha mãe? - a eu sabia que estava no balé.
- Foi no mercado e depois vai pegar a no balé.
- E por que você não me deu o prazer de ter ido junto e me poupou o trabalho de ver sua cara logo de manhã? - falei encarando seus cabelos e ela riu.
- Não quer ver minha cara? Se tranca no quarto, querido - deixei o pacote de biscoito ao meu lado no sofá e o café em cima da mesinha e me levantei indo em sua direção.
Quando me aproximei vi que o controle estava em cima de sua barriga e me esforcei para manter os olhos no objeto e não em suas pernas. O peguei e mudei de canal voltando para o meu lugar. No mesmo segundo ela se levantou.
- O que você pensa que está fazendo? - esbravejou e quase sorri.
- Mudando de canal, desenho é coisa de criancinha - fixei meus olhos na tv.
- Coisa de criancinha é você pegar essa merda e mudar de canal - ela parou na minha frente e a encarei. Sinceramente nem parecia que a garota havia acabado de acordar. - Devolve - esticou a mão em minha direção colocando a outra na cintura e eu ri.
- Não, a casa é minha e eu que decido o que quero assistir - ela sorriu e colocou a outra mão na cintura.
- Pouco me importa se a casa é sua, sinceramente ainda bem que não é minha. Agora tenha educação e me dá esse controle por bem ou eu pego ele por mal - comecei a rir forçadamente.
- Eu gostaria de te ver tentar. Agora sai da minha frente, coisa chata - e então ela veio.
A garota praticamente se jogou em cima de mim e eu não tive tempo de segurar o controle remoto. Sua rapidez com a minha surpresa a fez balançar o objeto na mão com uma expressão de vitória no rosto. Me levantei e o tomei de sua mão, a garota ficou vermelha e antes que eu pudesse tirar o controle de seu alcance ela agarrou meu braço.
- Solta, que isso é meu - ela estava começando a ficar irritada.
- Não tem seu nome nele, foi minha mãe quem comprou a tv, então ele é meu - falei rindo.
- Seu moleque infantil - ela fazia força para manter minha mão ao seu alcance e tudo o que eu conseguia fazer era rir.
- Desiste, , está claro quem vai ganhar essa guerrinha. Está se cansando à toa - ela beliscou minha barriga e conseguiu pegar o objeto de minha mão.
- Idiota - resmungou antes de se virar e tentar sair. Tentar, porque a segurei.
Se minha mãe tivesse chegado naquela hora, eu não saberia explicar a cena que ela iria encontrar. Eu abraçando por trás, enquanto ela se debatia numa tentativa inútil de esconder o controle remoto.
Ela tropeçou e nós caímos, eu por cima dela e a única coisa que escutei foi seu gritinho e o baque surdo do seu corpo batendo no chão. A sorte dela, e minha também, é que ela não deu um beijo no chão. Rolei para o lado o mais rápido possível e me sentei.
- Você está bem? - perguntei enquanto ela também se sentava.
- Seu estupido, olha o que você fez - sua voz estava chorosa e ela esfregava o pulso.
- Você se machucou? - automaticamente peguei seu braço para analisar seu pulso.
- Estou bem - sua voz estava suave e olhei seu rosto, ela tinha uma sobrancelha erguida e soltei seu braço como se tivesse levado um choque.
Me levantei rápido e passei a mão pelo cabelo, me lembrando silenciosamente que eu não precisava e não deveria ter nenhuma preocupação em relação a ela, muito menos demonstrar algum cuidado com ela.
- Não quero mais ver tv - disse e voltei para o meu quarto.
Me joguei na cama e encarei o teto por um tempo indeterminável, tentando esvaziar a cabeça de qualquer pensamento que pudesse me trazer confusão.
A não era uma pessoa bacana e já tinha mostrado isso milhares de vezes, mesmo que algumas atitudes suas mostrassem que ela ainda era um ser humano, o que eu havia visto ela fazer por alguém, exceto ter defendido ? Absolutamente nada.
E era por isso que eu sentia culpa por achá-la bonita. Ela não era uma boa pessoa, sua personalidade era horrível, nossa relação era péssima e eu ainda a achava bonita.
Dizem que a beleza vem de dentro, que se a pessoa for horrível por dentro a casca se torna feia, mas com ela não funcionava dessa forma.
Ninguém que eu conhecia e que também a conhecia a detestava tanto quanto eu. Devia ser porque ela sempre foi horrível comigo, não com as outras pessoas.
Pensar demais em estava me dando dor de cabeça, eu sei que achar alguém bonito não quer dizer absolutamente nada além de que você acha a pessoa bonita e pronto. Isso não queria dizer que eu quisesse realmente algo com ela. E eu não queria. Afinal, se eu quisesse. eu teria. E tanto eu quanto ela sabíamos disso.
E ao constatar aquilo, caí num sono tranquilo.

’s P.O.V

Ele só queria me irritar.
Eu estava cansada de saber isso, e ainda assim ele conseguia o que queria.
Por que eu não podia simplesmente ignorar por completo a existência daquele ser? Por que minha pele ainda formigava todas as vezes que ele me tocava? Meu corpo esquentava toda vez que ele estava sem camisa, eu sentia vontade de suspirar quando seus cabelos estavam bagunçados, por quê?
Eu deveria simplesmente ignorar tudo aquilo e fingir em período integral que ele não existia e com isso também ignorar completamente qualquer tipo de provocação que ele me fizesse. Simplesmente me fingir de cega, surda e muda para tudo o que ele fizesse e falasse com o intuito de me provocar. E isso era a todo e qualquer minuto.
- Você já teve algum namorado? - me puxou de volta a realidade, ela estava pintando as unhas dos pés.
Na verdade, não entendia muito bem porque ela insistia em pintá-las, as sapatilhas detonavam suas unhas. Não só as unhas, eu costumava fazer uma careta quando via os pés das bailarinas que eu conhecia, isso incluía mamãe. Eu os achava feios, mesmo que eu já tivesse tido vontade de ter os pés daquela maneira. Isso significaria que eu também seria uma bailarina e consequentemente que mamãe estava viva.
- Namorado de verdade não - dei de ombros jogando a revista que eu fingia ler ao meu lado na cama.
- Como assim de verdade? Já teve muitos imaginários? - ela riu.
- Não. De verdade que eu digo é mais de uma semana - eu não me interessava muito pelos garotos que eu conhecia, eles pareciam todos iguais. Aliás, não costumava gostar de ninguém que eu conhecia.
- Ah, não podemos chamar de namoro esses encontros seguidos - ela disse com ar de mulher experiente.
- E então, podemos chamar de namoro esse seu lance com o ? - ela deu de ombros.
- Eu gostaria, mas não sei se essa palavra se encaixa, afinal, ele nunca tocou no assunto.
- Não se preocupe, aposto que o vai fazer ele tocar no assunto em breve - ela fez uma careta.
- Eu não quero que ele faça nada por se sentir na obrigação. Se fosse para forçar a barra, eu mesmo já teria falado com ele sobre namoro - ergui uma sobrancelha.
- E por que você nunca falou? Já faz algum tempo que vocês estão se pegando. Acho que não seria forçar a barra, ele pode só estar indeciso.
- E por que você não fala para o que está afim dele? - acredito que meu rosto tenha ficado da cor de um papel.
- Porque eu não estou afim dele?! - respondi e voltei a pegar a revista.
- Ha, ok então. Só acho que como sua amiga, tenho a obrigação de dizer que não importa o quanto você negue, sua cara toda vez que ele está por perto entrega tudinho - meu corpo inteiro se congelou.
- Eu acho que você está vendo coisas - mesmo minha voz tendo falhado, tentei parecer o mais convicta possível.
- Só acho que você deveria tentar falar com ele - rolei os olhos.
- Digamos que eu realmente estivesse. O que seria somente uma suposição, por que você acha que eu teria alguma chance? Não ficou claro o suficiente para todo mundo que ele me odeia? - ela parou de prestar atenção nas unhas e me olhava com aquele risinho vitorioso.
- Digamos que eu acho que se você forçasse a barra um pouquinho, mesmo ele te "odiando" ele ficaria com você - ela disse. - Claro, supostamente.
- Por que você acha isso? Tipo, eu não ficaria com uma pessoa que eu odeio - ela levantou uma sobrancelha.
- Não estamos falando de um ódio real, como se você tivesse matado nossa mãe. Estamos falando de teimosia e orgulho por parte do . Você nunca fez nada que pudesse deixá-lo realmente ofendido - fiquei alguns segundos em silêncio tentando entender o ponto de vista dela.
- Digamos que as coisas vão um pouco mais além do que mera implicância dele - sorri meio sem graça.
- Fala sério, , eu tenho certeza absoluta que precisa de muito para o meu irmão ter ódio de alguém. Ele pode não gostar de você, o que seria facilmente mudado. Eu mesmo não gostava da Mayh quando a conheci e não gostava do também. Ele me enchia a paciência - ela rolou os olhos e voltou a prestar atenção nas unhas.
- Eu acho que não tem nenhuma chance de haver um futuro para mim e o .
- Eu sabia que você estava afim dele - ela não desviou os olhos de seu trabalho.
- Por isso eu não estou afim dele, não sou masoquista - completei como se ela tivesse me cortado.
- Ok então - ela finalizou e passei a contar quantas bailarinas havia em suas prateleiras, só para não ficar pensando no que ela tinha dito.
Por que eu era obrigada a estar ali mesmo?
Ah sim, Mayh havia feito chantagem comigo. E não, não tinha sido chantagem emocional. Ela simplesmente tinha a foto que tirara de mim um tempo atrás e me ameaçou com ela, exatamente como ele. Porém a condição dela para não espalhar aquilo para o resto do mundo, era eu concordar em ir àquela festa pavorosa.
Eu estava furiosa.
Ela conversava com um carinha cheio de correntes de ouro, que eu tinha sérias desconfianças de que eram falsificadas, ao menos que ele fosse um traficante, enquanto eu estava em um canto, me mantendo segura diante de toda aquela mundiça.
Ela tinha me arrastado para uma boate, bem diferente das que eu conhecia, claro. Ela havia falsificado carteiras de motorista para nós duas para que, segundo ela, tirasse da cabeça de uma vez por todas e não caísse na tentação de ceder aos convites dele de conversarem.
Ela mentiu gloriosamente para Megan dizendo que eu dormiria na casa dela enquanto nos olhava com uma expressão desconfiada. Uma expressão que dizia que ele sabia perfeitamente que ela estava mentindo.
Já estava quase passando mal com o calor, o cheiro nojento de suor e as cantadas indecentes que estava recebendo.
As garotas do lugar estavam vestidas com bermudas que deveriam ter furtado dos irmãos, primos, ou seja lá de quem, algumas com micro vestidos, outras com calças que pareciam ter sido lavadas um bilhão de vezes. E os garotos? Todos cheios de correntes, tatuagens, calças quase no joelho e eu estava com os olhos arregalados vendo todos eles beberem, dançar e usar drogas como uns loucos.
Eu queria sumir dali.
- Vamos dar uma volta. - Mayh surgiu ao meu lado falando muito alto e super animada.
- Você tá é doida, não vou me enfiar nesse meio - ela rolou os olhos e desconfiei que ela já estava bêbada.
- Qual é, , vamos dar uma puti volta e ver se achamos uns gatinhos. Faz quanto tempo que você não beija na boca? - fiz uma careta para a sua pergunta, sua sugestão e o nome que ela deu àquela volta.
- O que seria uma puti volta? - perguntei deixando todo nojo escapar pela minha boca. Eu jamais chegaria perto de qualquer pessoa ali dentro. Ela riu histericamente.
- Puti volta é puti volta - ela abanou o ar com as mãos. - Não sei bem o que é, vi em um programa de tv - ergui uma sobrancelha.
- Acho melhor a gente ir embora - disse louca para me livrar dali.
- Não, olha, então me espera aqui. Eu já volto - e saiu sem me dar uma chance de resposta.
Olhei para todos os lados e já estava ficando claustrofóbica ali dentro, sem contar a vontade de ir ao banheiro que estava ficando insuportável. Uma garota com o cabelo cor de água de salsicha passou me olhando de cima a baixo e fiz de conta que não vi. Por favor, pelo nível do lugar não me surpreenderia se todos ali estivessem armados e eu acabasse levando um tiro ou uma facada.
- Oi gatinha, o que uma princesa linda como você faz aqui sozinha? - não demorou até chegar alguém até mim, como muitos outros já tinham feito.
Olhei bem para o rosto do cara, seus olhos estavam vermelhos, seu hálito cheirava a álcool e ele fumava um cigarro de maconha.
- Estou esperando meu namorado - disse a primeira coisa que veio na minha cabeça.
- E ele largou você aqui? - disse tragando o cigarro ao qual encarei com nojo. - Quer dar um tapinha? - perguntou erguendo o cigarro.
- Não, obrigada - dei um sorriso forçado e aquele animal soltou toda aquela fumaça em meu rosto. - Acho que vou atrás do meu namorado - disse tentando sair, mas ele me bloqueou.
- Fica aqui, eu te faço companhia. Vamos dançar - disse e começou a rebolar na minha frente, ou tentou pelo menos, enquanto tentava chegar mais perto.
Eu estava com medo de enfiar um soco no nariz dele, tinha descoberto que socos podem ser libertadores, e ele puxar uma arma para mim.
- Acho melhor eu ir - disse e tentei passar novamente, mas ele me segurou.
- Qual é, gata? Não quer ficar perto de mim? Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele apertou meu braço.
Passei os olhos pelo lugar tentando encontrar Mayh, um segurança, um anjo ou qualquer pessoa que pudesse me tirar daquela situação em segurança. E então eu o vi.
Eu queria gritar para chamar sua atenção, ou então ir correndo até ele. O cara me chacoalhou levemente e olhei seu rosto procurando as palavras certas para ele me soltar. E então olhei para as pessoas novamente, sentindo um alivio imenso quando vi que ele vinha em minha direção. Mesmo que sua expressão demonstrasse o quanto ele estava puto.
O cara afrouxou sua mão em meu braço e quando chegou suficientemente perto, me desvencilhei do cara quase me jogando em .
- Ah você está aí - disse e o abracei escondendo meu rosto em seu peito, ele estava incrivelmente cheiroso.
- Que merda é essa? - escutei por cima da música alta.
- A mina é sua? Foi mal, achei que ela estava mentindo - escutei a voz do cara bem perto e apertei um pouco mais meus braços em volta de .
- É, é minha - ele disse enquanto devolvia meu abraço.
Sorri ficando um pouco mais alegre naquela noite ao escutar aquilo, era prazeroso escutar falando que eu era dele.
Ele me afastou pelos ombros e olhou bem em meu rosto, pelo modo como os seus olhos analisavam os meus, ficou claro que ele achava que eu podia estar bêbada ou drogada.
- Cadê a Mayh? - ele perguntou sério e parou ao nosso lado.
- Eu não sei, ela me chamou para dar uma p... volta, como não quis ir, ela foi sozinha - não iria dizer na frente de que era uma puti volta, seja lá o que aquilo fosse.
- Vamos atrás dela e vamos embora. - falou passando a mão pelo cabelo, visivelmente preocupado.
- Podemos esperar ela aqui, ela vai voltar - eu disse já aterrorizada por ter que me enfiar naquele monte de gente.
- Melhor a gente ir atrás dela. - disse, também preocupado.
- E se ela voltar? - perguntei o obvio.
- Fica aqui com ela, eu vou atrás da Mayh. Se ela aparecer você faz ela esperar eu voltar. Se ela não aparecer e eu não achar ela, a gente manda o DJ chamar no microfone. - disse e concordou com a cabeça.
ficou ao meu lado encostado na parede e com as mãos no bolso, algumas meninas passavam e o olhavam como se ele fosse o pedaço de carne mais gostoso do açougue, e sinceramente? Ele era mesmo, pelo menos ali naquele lugar. Aquilo me incomodava ao extremo, mas fiquei na minha tentando não dar munição para o seu ego.
Eu estava parecendo um imã para aquele povo molambento, não demorou cinco minutos e outro cara parou perto de mim e automaticamente dei um passo em direção a . Ele veio com o mesmo discurso de todos os outros, mas dessa vez estava ao meu lado e antes que o cara pudesse colocar as mãos em mim, ele passou seu braço por meu ombro e me puxou para mais perto.
- Foi mal - o cara disse se afastando e dei graças a Deus por ele estar ali.
Não demorou muito para Mayh aparecer quase histérica em nossa frente, carrancudo logo atrás. Ela estava fora de si, se divertindo como nunca vi alguém em sã consciência se divertir.
- Ah meu Deus, vocês estão juntos? - gritou juntando as mãos e arregalei os olhos. - Preciso registrar esse momento - completou vasculhando a bolsa.
- Vamos embora, Mayh, você não deveria nem estar aqui. - esbravejou e ela deu total atenção a ele.
- Você que não deveria estar aqui. Eu posso ir onde bem quiser e entender - ela gritou chamando a atenção das pessoas a nossa volta.
- Mayh, é melhor a gente ir. - interviu saindo de perto de mim e tocando o ombro dela.
- Não quero ir embora, estou me divertindo como nunca antes - ela sorriu meio grogue.
- Você está drogada? - foi quem perguntou incrédulo. Ela arregalou os olhos.
- Obvio que não - disse ofendida.
- Mayh, por favor, vamos - ela olhou para e depois para mim.
- Vocês são todos um saco, não querem que eu me divirta, querem ficar me controlando. - passou a mão pelos cabelos e era visível que estava perdendo a paciência.
Eu, que até aquele momento estava quieta no meu canto esperando eles resolverem a situação, resolvi que também tinha que fazer alguma coisa se quisesse sair daquele lugar.
- Mayh, vamos. Eles me falaram de uma rave incrível que está tendo, eles vão nos levar até lá - seus olhos brilharam.
- Sério? - concordei com a cabeça. – Por que não disseram logo? - falou animadamente e pegou pela mão o puxando para dentro da multidão.
Eu não esperava que fosse pegar minha mão e me levar com ele por entre a multidão, mas foi exatamente o que ele fez, fazendo com que eu deixasse um sorriso enfeitar meu rosto.
Mas tinha muita gente e estava difícil se locomover no meio daquelas pessoas sem encostar em nenhum daqueles corpos suados. percebeu que eu estava ficando para trás, quando tudo o que ele segurava era meu dedinho, então ele parou e me deixou ir na frente. Um calor subia pelo meu corpo a partir do lugar onde sua mão estava posicionada em minha cintura, chegando a fazer com que eu me desconcentrasse de qual caminho deveria tomar e por vezes parasse em meio a todas aquelas pessoas.
Estava esperando a hora em que eu iria acordar e ver que nada daquilo estava acontecendo, que o que antes estava sendo meu pior pesadelo havia se tornado em um sonho tranquilo.
Isso não aconteceu, eu não abri meus olhos e dei de cara com o teto, aquilo que poderia ser meu sonho acabou quando encontramos a porta que nos tiraria lá de dentro.
me soltou assim que o ar gélido acariciou meu rosto, mas eu já estava feliz e começando a me perguntar como tão pouco estava me deixando nas nuvens. Eu deveria começar a me preocupar com aquilo, mas não naquela noite. Só havia um modo de aquela noite se tornar perfeita, seria se declarar para mim e me beijar.
- Como foi que vocês duas vieram parar aqui? O que você tem na cabeça de vir num lugar como esse? Você tem ideia do que poderia acontecer? - e então ele me arrastou até a realidade e me despejou todas aquelas perguntas.
- Hey, hey, hey. Você acha mesmo que eu entrei naquele muquifo por vontade própria? Foi a Mayh quem me arrastou - me defendi sem sequer elevar o tom de voz.
- E como ela fez isso? Colocou uma arma na sua cabeça? - perguntou irônico.
- Se você não tivesse passado aquela foto para ela, eu não precisaria estar aqui hoje - cuspi as palavras.
- Ela te ameaçou? - ele ergueu uma sobrancelha e começou a rir.
- Isso não tem graça, aliás, o que ela fez não tem graça - falei irritada.
- Relaxa, ela é assim mesmo - ele abanou o ar com a mão.
Mas eu não ia relaxar, teria uma conversa muito séria com Mayh a respeito de tudo aquilo. Eu jamais faria o que ela fez com uma amiga minha. Não uma que fosse de verdade.
Mayh e nos esperavam perto do carro de , ela mantinha os braços cruzados no peito. Eles não conversavam e muito menos se olhavam.
- Cadê a chave do seu carro, Mayh? - perguntou.
- Na minha bolsa, por quê?
- A vai dirigindo - ele disse calmamente.
- Por quê? Eu posso dirigir - ela falou arrogante.
- Não pode, pega as chaves e me dá - ele disse autoritário e confesso que se fosse comigo não entregaria, mas ela vasculhou a bolsa e entregou a chave para ele. Que a pegou e deu na mão de .
- Mas o quê? Não - ela quase gritou.
- Ele só vai dirigir seu carro, você vai no meu com a - ele nem esperou e já foi para o seu lado no carro. E por incrível que pareça, Mayh entrou no carro.
Eu gostaria muito de entender porque as pessoas faziam tudo o que mandava. Eu nunca iria entender isso.
Ele não dirigiu para a casa dele ou a de Mayh, ele foi para uma casa na qual nunca estive antes. Mayh estava calada no banco traseiro, olhando para fora, mas não parecia realmente ver o que tinha além do vidro.
abriu a porta e estendeu a mão para ajudá-la a sair, enquanto abria a porta e entendi que ali era a casa dele. Mayh parecia não conseguir parar de pé e foi auxiliada por e pelas escadas, enquanto eu fiquei na sala.
A casa dele era como a de , sem nenhum luxo. Móveis simples, luzes simples e todas aquelas coisas simples que me acostumei a ver na casa de Meg. Me acomodei no sofá e logo percebi que o de Meg era mais confortável, e esperei.
Muito pouco tempo depois e voltaram, falando sem parar e foram para a cozinha.
Sem saber muito bem o que fazer, os segui até lá. estava pegando água e uma caixinha de comprimidos.
- Vocês se drogaram? - ele me perguntou e arregalei os olhos.
- Que eu saiba não - disse olhando os dois garotos à minha frente.
- Alguém deve ter colocado na bebida dela. Relaxa - disse e ele concordou com a cabeça.
- Vou ficar com ela no quarto dos meus pais, o meu quarto e o sofá são todo de vocês - ele disse antes de nos deixar sozinhos na cozinha.
- A gente não vai pra casa? - perguntei baixo enquanto saía também do cômodo.
- Até onde eu sei, minha mãe acha que você está em uma festa do pijama na casa da Mayh - ele disse subindo as escadas e o segui.
- Sim, mas qual o seu interesse em não me entregar? - perguntei tentando fazer com que a chama de esperança ficasse quieta em meu peito. Ele parou e se virou para mim.
- Nenhum - deu de ombros voltando a andar.
Ele abriu uma das portas no corredor e entrou, era um quarto ao qual ele parecia íntimo. As paredes do cômodo eram salmão e havia alguns pôsteres de bandas colados na parede. andou até o armário e o abriu tirando dois travesseiros de lá e os jogando em cima da cama, depois fez o mesmo com um edredom e um cobertor.
- Mas para você manter isso entre nós, vai querer alguma coisa em troca - tinha para mim que ele iria novamente fazer uma chantagem comigo. Ele deu um sorriso que fez minhas pernas amolecerem.
Vi ele pegar um dos travesseiros e o cobertor e andar em minha direção e quase rolei os olhos ao ver que teria que brigar pelo quarto, jamais faria alguma gentileza para mim.
- Eu na verdade não iria pedir nada em troca, mas já que você deu a ideia. Talvez algum dia eu precise de algum favor. Tenha uma ótima noite.
Disse e me deixou sozinha no quarto, atônita.
Sem brigas, sem ofensas, sem piadinhas. Somente gentileza, por toda aquela noite.
Eu gostei daquilo e poderia até me acostumar com aquela calmaria, mas sabia que era quase impossível aquele clima de paz permanecer entre eu e . Assim como não demoraria para ele usar esse episódio para me atormentar.



Dezoito

Se dormi mais de duas horas, foi muito.
É realmente horrível dormir em um lugar desconhecido, ainda mais quando esse lugar não oferece quase nenhum tipo de conforto. Pelo menos a cama de era mais confortável que a da casa de Megan.
Fato é que quando consegui dormir já tinha amanhecido e quando acordei, parecia que um trator havia passado por cima de mim. Eu teria que marcar uma sessão de massagem, nem que para isso eu precisasse vender alguma coisa minha.
Me levantei e fui até o banheiro do quarto de , sim ali havia um banheiro e eu estava agradecida por isso. E depois de me certificar que estava apresentável saí do quarto.
A casa estava em silencio e caminhei devagar até a cozinha, mas parei antes de me fazer ser vista quando escutei vozes vindo de dentro dela.
– Eu juro que minha intenção não era colocar ninguém em perigo. Eu nem sabia que aquele lugar era tão perigoso – era a voz de Mayh.
– Ah, e o que você esperava indo parar na periferia da cidade? – era .
– Você tem noção das coisas que poderiam ter acontecido com vocês lá, Mayh? Você ia dizer o que para a minha mãe? – . – A me disse que você a obrigou a ir.
– O quê? – elevou levemente a voz.
– Eu não a obriguei, exatamente – ela se defendeu.
– Ah não? E ameaçá-la com uma foto, que por sinal eu te passei porque sabia que estaria segura, é o quê? – ele parecia bravo.
– Que foto? – agora estava curioso.
– Uma foto aí que o tirou dela. – Mayh falou como quem não dava importância.
– Ela está pelada? – escutei um audível tapa.
– Não – foi quem respondeu.
Achei que eu já poderia aparecer e evitar que também visse aquilo.
– Bom dia – fiquei parada na porta da cozinha e a atenção dos três vieram a mim.
– Bom dia, vem tomar café – Mayh disse simpática e apesar de estar morrendo de fome, a ignorei.
, a gente pode ir? – a expressão da garota murchou.
, a gente pode conversar? – ela disse vindo em minha direção.
, a gente pode ir, por favor? – a ignorei mais uma vez.
Ele se levantou e caminhou em minha direção.
– Podemos, conversa com ela primeiro – ele sorriu e saiu da cozinha. Bufei e rolei os olhos enquanto fazia o mesmo caminho que .
– Olha, me desculpe, ok? Eu não sabia que você levaria aquela ameaça a sério – ela disse nervosa.
– E você acha que eu fui parar naquele lugar por livre e espontânea vontade?
– Não, mas também não achei que você tinha levado a história da foto a sério. Achei que tinha ido porque sou sua amiga. Me desculpa – ela realmente parecia sincera.
– E como eu vou saber que isso não vai se repetir? – ergui uma sobrancelha cruzando os braços.
– Aqui – ela pegou o celular em cima do armário e mexeu nele por uns segundos. – Você mesma pode apagar. Eu juro que não ia fazer nada com ela – disse me estendendo o celular.
O peguei, fazendo uma careta ao olhar a foto, eu sabia que tinha ficado péssima, mas nunca a tinha visto de "verdade". Estava pavorosa, qualquer pessoa que tivesse um pingo sequer de autoestima, ficaria em pânico em ter um momento como aquele registrado.
E então eu a apaguei antes de devolver o celular para a garota, só para ter certeza absoluta que se mais alguém visse, não seria algo mostrado por ela.
– Quem mais viu isso? – até eu senti o medo em minha voz.
– Ninguém, fui a única pessoa para quem o mostrou – soltei o ar aliviada. – Eu te falaria que posso apagar do celular dele também, para te provar que eu nunca usaria contra você, mas o celular dele tem senha – ela deu de ombros.
– Tudo bem, agora eu realmente preciso ir para casa, minha noite foi péssima. Preciso realmente de um banho – falei passando as mãos pelo cabelo e ela me abraçou me pegando de surpresa.
– Obrigada – disse e deu um beijo em meu rosto. – Também preciso ir, não quero conversar com o .
Ela disse e saímos da cozinha.
Apesar de todos seus esforços, Mayh não conseguiu fugir do ex e acabou ficando para trás.
Eu e fomos em silencio por todo caminho e mesmo eu querendo agradecê-lo muito pela noite passada, fui todo o caminho mordendo a bochecha para evitar que o agradecimento saísse por minha boca sem permissão alguma.

– Eu tenho uma ideia. – Mayh bateu na mesa me assustando e atraindo olhares nada simpáticos em nossa direção.
– Que susto – coloquei a mão no peito. – Dá para falar mais baixo? Estamos em uma biblioteca – ela fez uma careta.
Estávamos fazendo um trabalho de literatura depois da aula e ao invés de focarmos no trabalho, estávamos listando os prós e os contras em seduzir . Mesmo com todos meus argumentos de que nunca daria certo, ela tinha os dela de que daria.
As gentilezas minúsculas que fazia de vez quando provavam seu ponto. Isso segundo Mayh.
Bom, ela não convivia com a gente, então não sabia que ele fizera apenas raras gentilezas, ele não as fazia mais. Sempre que ele tinha a oportunidade, ele arrumava algum motivo para me tratar mal.
– Você vai fazer ciúmes nele, – ela sorria como se tivesse ganhado na loteria e tive absoluta certeza de que ela estava ficando completamente doida.
– Não vejo como isso pode dar certo – neguei com a cabeça.
– Claro que vai dar certo, sempre dá.
– Mayh, o não gosta de mim. Como ele poderia ter ciúmes? – falei em um tom obvio e estava disposta a desenhar para ela caso fosse preciso.
– Pode não causar ciúme, mas ele vai querer ser o macho alfa, se vir outro te rodeando. Ou você, nessa sua cabeça, acha que o não sabe que você é a fim dele? – juntei as sobrancelhas começando a ficar levemente preocupada.
– Como assim?
, por favor, ele não é idiota. E você agarrou ele na festa da Laura – arregalei meus olhos com a informação. Eu sabia que algo tinha acontecido aquele dia, mas nem imaginava o que fosse.
– Como? – dessa vez fui eu quem chamou a atenção.
– Você não sabia? – perguntou assustada.
– Você sabe? – devolvi.
– Eu sei o que ele me falou, mas vai saber se é verdade – ela deu de ombros e desviou os olhos para o livro e eu sabia que ela acreditava na versão dele.
– O que ele te falou? – larguei a caneta em cima da mesa e me virei para ela.
– O que realmente aconteceu? – ela se virou em minha direção.
– Eu... eu estava bêbada, para falar a verdade não me lembro – esfreguei a testa. – Só sei que no outro dia ele ficou jogando piadas e dizendo que se quisesse ficar comigo, ele ficaria. E fingia que ia me beijar, sabendo que eu ia ceder.
– E você cedia – afirmei com a cabeça mesmo sabendo que ela mesmo confirmara. – Ele me disse isso. Que você o beijou e chamou ele pra dormir com você – eu senti meu rosto todo pegar fogo.
– Não acredito – fechei meus olhos apoiando a cabeça na mão.
– Você acha que ele mentiu? – ela perguntou cautelosa.
– Não – falei com a voz chorosa. – Eu sempre tive essa atração horrível pelo , assim que o vi na casa da Megan. E juntou com a bebida, devo ter feito isso mesmo – se houvesse qualquer possibilidade na qual eu pudesse me esconder para sempre de , eu o faria.
– Relaxa, , todo mundo já passou por essas coisas na vida – ela disse acariciando meu ombro.
– E como é que você acha que eu tenho alguma chance de ficar com alguém que já me dispensou de todas as formas possíveis? – era isso, tinha acabado. Não precisava me humilhar por um garoto, isso estava começando a ficar nítido na minha mente.
– Por que eu acho que ele só não ficou com você por orgulho? – vendo minha expressão continuou. – É sério, .
Analisei a situação por algum tempo, uma partezinha bem teimosa e muito pequena de mim insistia com fervor para eu ganhar . Essa partezinha se intitulava orgulho. Vamos, faça ele comer na sua mão. Esfrega na cara dele que quando você quer, você pode. Ninguém diz não para Célérier Maddox.
– De qualquer forma, acho que deveria desencanar e deixar isso pra lá. Vou me formar e vou para bem longe daqui. E convenhamos que nada, absolutamente nada, que eu faça vai fazer com que ele queira alguma coisa comigo, além de distância.
– Vamos pagar pra ver? Olha, tentamos o lance do ciúme. Se não der certo a gente desiste. Quem sabe você cria sentimentos pelo escolhido e esquece o ? – ela explicou com calma e admito que até gostei da ideia, mesmo achando um tanto absurda.
– Não sei – ainda não tinha muita certeza.
, só mais essa tentativa. – Mayh era o tipo de pessoa que quando coloca algo na cabeça não a esquece enquanto não consegue o que quer. E se eu não aceitasse, ela com toda certeza iria me atormentar até que nos formássemos. Eu sabia disso porque ela era exatamente como eu nessa questão.
– Certo, mas quem eu posso usar? – ela fez uma careta de desgosto.
– Credo, garota, usar? Não devemos usar as pessoas, todos temos sentimentos sabia? – bufei.
– A ideia foi sua – apontei o dedo em sua direção.
– Não disse para você usar alguém, a ideia é você ter uma segunda opção e esfregar ele na cara do – disse ultrajada.
– Ok, quem poderia ser minha segunda opção? – para mim isso soava tão ruim e mesquinho quanto a palavra usar. E pela careta que ela fez, pensava o mesmo.
– Tem que ser alguém que cause um certo impacto – disse pensativa.
– Algum dos amigos dele? – minha única opção seria , que não era das piores também.
Ele era simpático, atencioso, me tratava bem e desconfio que faria tudo o que eu quisesse. Em minha cabeça até pude visualizar um romance colegial com o garoto.
– Se você ficar com o as coisas podem se complicar mais. Eles têm um tipo de lealdade entre si. – Mayh disse cortando meus pensamentos e quando a encarei, seus olhos brilhavam.
– Então não tenho ideia de quem – disse não conseguindo achar na cabeça alguém naquele colégio que poderia causar certo choque em , além de um de seus amigos.
– Mas eu sim. Ele não é exatamente amigo do , aliás, acho que os dois só se cumprimentam e falam sobre estratégias de jogo – ela disse pensativa.
– Um dos garotos do time? – ela sorriu largamente.
– Não qualquer garoto do time. Matty McKibben* – juntei as sobrancelhas.
– Quem? – Mayh rolou os olhos.
– Você realmente vive só no seu mundinho, né? Nisso o tem razão – ela falou e fiz uma careta. – O McKibben é um dos garotos mais bonitos da escola e mais fofos também. Se eu não tivesse o , investiria nele.
– Eu quero ver o garoto – eu disse fechando o livro que já havia deixado completamente de lado.
– Por Deus, , vocês fazem duas aulas juntos e já esbarramos no menino zilhões de vezes pelo corredor – ela disse com aquela expressão de indignação.
Eu não conseguia lembrar de um garoto sequer, com alguma beleza que tenha me chamado atenção.
– Que seja, pode me chamar de qualquer coisa, só reparo no que me interessa – dei de ombros falando somente a verdade.
– Certo – ela olhou no relógio e fechou o livro e caderno. – Vamos que eles ainda devem estar no treino.

Foquei meus olhos no campo onde vários garotos corriam de um lado para o outro, e rapidamente identifiquei no uniforme azul. Eu sempre babava quando o via com o uniforme do time, mas nunca o tinha visto jogar.
Quando se aproximou de foi que o percebi, ele olhou em nossa direção e acenou. Acenei de volta, mesmo sabendo que talvez estivesse acenando para Mayh e nem tivesse me visto ali.
parecia só ter olhos para ela, os dois estavam em uma espécie de reconciliação. Mayh o estava fazendo pagar por cada milímetro de lagrima que ele a fez derramar. Era o que ela dizia, porque para mim e para todos, a única coisa que faltava para oficializar a volta dos dois, era ela dizer que voltaram. também olhou em nossa direção e acenou, dessa vez não retribui, sabia que ele estava acenando somente para ela.
Nos sentamos no primeiro degrau da arquibancada e Mayh aproximou seu corpo do meu passando os olhos pelo campo.
– Ali, o Matty está com a bola – ela disse, mas eu ainda mantinha meus olhos em .
– Onde? – perguntei olhando pelo campo.
– Ele passou a bola. Pare de olhar para o – ela me deu uma cotovelada.
– Ok, ok – disse colocando a mão em cima do lugar atingido e tentei olhar para qualquer outro lugar que não fosse .
Mas meus olhos não quiseram seguir o comando de meu cérebro e olhar para qualquer lugar, eles queriam ficar focados em .
– Ele está ao lado do , olha – procurei rapidamente, havia um garoto ao seu lado.
Ele era alto, talvez mais alto que . Seus cabelos eram escuros e lisos, estava sem camisa, o que permitiu ver seu tronco bem definido. Ele conversou algo com e passou a mão no cabelo antes de sair correndo pelo campo.
O segui com os olhos e foi assim até aparecer no meu campo de visão. Ele corria bonitinho e fazia algumas caretas engraçadinhas quando errava algum lance.
– Se você continuar encarando o nada disso vai dar certo. – Mayh disse antes de dar um tchauzinho para . – O que achou do Matty? – procurei o garoto rapidamente.
– Não consigo ver direito, mas ele parece ser gostosinho – comentei sem tirar os olhos do garoto.
– Ele é gostoso – comentou bem animada, o treinador apitou o final do jogo e todos os garotos que estavam no campo foram saindo lentamente.
Matty caminhou para fora do campo distraído e só percebi que ele vinha em nossa direção, quando ele estava quase na nossa frente.
– Meninas – ele disse pegando uma camiseta a poucos centímetros de nós. Preciso dizer que ele era muito bonito de perto?
Seus olhos eram verdes e ele parecia ser bem mais forte que de longe, tudo o que eu fiz foi dar um sorriso de: me interessei por você.
– Oi, Matty. Bom jogo. – Mayh disse simpática, porém sem demonstrar nada mais que isso.
– Obrigado. Quem é sua amiga? – ele perguntou e voltou a me encarar.
– disse sorrindo em sua direção e estiquei a mão.
– Matty – ele pegou minha mão, mas se abaixou e deu um beijo no meu rosto. Tentei manter o sorriso encantador no rosto, aquele que fazia os garotos se aproximarem. Ele era bonito, mas estava suado e isso seria motivo suficiente para que eu fizesse careta. Mas a intenção não era afastá-lo.
– Preciso de um banho – é precisa. – Depois a gente se vê – disse e deu uma piscadinha antes de sair.
– Hum, senti a química daqui. – Mayh falou cochichando quando ele já estava razoavelmente longe.
– O que o Matty queria aqui? – chegou um tanto carrancudo e não tive tempo de responder Mayh.
– Ele estava se apresentando pra – ela disse se levantando antes de depositar um beijo em sua boca.
– Sério? – ele perguntou e olhou para mim, concordei com a cabeça.
– Senti um clima entre eles. – Mayh disse animada.
– Ah Mayh, não fique iludindo a garota. Todo mundo sabe que ela não faz o tipo do McKibben. – disse irônico. – Aliás, não acho que ela faça o tipo de alguém – rolei os olhos.
– Na verdade, eu acho que você tem um amor encubado por mim, , você fica aí desdenhando. Quem desdenha quer comprar – me aproximei ficando bem perto. ergueu uma sobrancelha e sorriu torto.
– Quer saber? – ele disse e passou o braço pela minha cintura colando meu corpo ao seu, deixando seu rosto quase colado no meu. – Você tem razão, eu amo você, – meu coração devia estar batendo milhões de vezes por segundo, passou o rosto suado pelo meu enquanto eu estava quase tremendo. – Nos seus sonhos é claro – disse antes de me soltar e rir audivelmente.
tentou disfarçar o riso enquanto seguia para o vestiário e eu sentia meu rosto queimando de raiva. Meu corpo também queimava, mas isso não vem ao caso.
– Quer saber? Eu estava errada, você e o Matty não tem química, você e o tem. Só de ver vocês a temperatura aqui aumentou. – Mayh disse ao meu lado. – É questão de tempo pra esse fogo todo consumir vocês.
– Você está louca, isso nunca vai dar certo. Você viu isso? – disse com raiva querendo estapear alguém.
– Vi perfeitamente, meu plano vai dar certo e vai ser bem antes que o esperado – ela disse animada dando pulinhos.

Quando Mayh falou que as coisas não demorariam a acontecer, eu achei que ela estava falando sério.
Mas uma semana depois de Matty ter se apresentado, nada tinha acontecido. Cogitei a hipótese de que tinha falado a verdade e eu realmente não fazia o tipo do McKibben, ele me cumprimentava e ficava poucos minutos na nossa mesa na hora do almoço, mas nunca me deu uma investida sequer. Os garotos pareciam ter ciúmes dele, sempre olhavam de cara feia para o pobre coitado, que fingia não ligar. só fazia suspirar cada vez que o garoto sorria, não importava se estava perto, e dizia que eu era muito sortuda.
Mayh me aconselhou a não deixar me "agarrar" ou me "encoxar" daquele jeito, ela disse para tirar o controle dele e a ideia de que ele poderia me ter a hora que quisesse.
E assim o fiz durante toda semana que se passou, eu praticamente corria para longe de cada vez que ele chegava perto de mim, fosse para qualquer coisa. Isso o fez começar a me olhar com estranheza.
Quando eu já estava pensando em desistir de Matty, e de toda aquela história, McKibben finalmente tomou alguma atitude me chamando para ir ao cinema. Aceitei sem pestanejar e devo ter parecido mais empolgada do que realmente estava com a ideia.
Mayh disse que era para eu falar com Megan na frente de , para ele ter absoluta certeza de que eu estava saindo com outra pessoa, para ele ficar imaginando o que aconteceria no encontro. Eu rolava os olhos quando ela falava aquilo, parecia até que ele realmente iria ficar se remoendo.
Ainda assim segui seu conselho e esperei até a hora do jantar para falar com Megan, como eu tinha que fingir que estava receosa em pedir a ela, esperei que ela colocasse o garfo no prato, para parecer que aquela seria minha última oportunidade.
Suspirei antes de começar.
– Hum, Meg?– chamei incerta.
– Sim? – ela respondeu simpática e me encorajando a falar.
– Um garoto do colégio me convidou para ir ao cinema hoje. Tem algum problema? – olhei para e ela sorriu.
– Que garoto? – quase sorri por ela ter perguntado, me remexi.
– Matty McKibben – sorri e pela visão periférica vi se remexendo na cadeira enquanto suspirava.
– Ele é um garoto legal? Vai mais alguém com vocês? – seus olhos se direcionaram a .
– É um encontro, Meg – disse encolhendo os ombros.
– Oh. Bom, volte antes das onze, ok? – sorri e concordei com a cabeça.
– Vou me arrumar. Se me dão licença – me levantei e saí da cozinha apressada.
Minha roupa já estava escolhida em cima da cama, fiz questão de escolher uma das minhas melhores peças e antes de começar a me vestir, mandei uma mensagem a Matty confirmando que ele poderia ir me buscar.
Me olhei no espelho, me sentindo bem com o modo que estava vestida, eu realmente queria causar uma boa impressão em Matty.
Desci as escadas enquanto colocava carteira e celular dentro da minha bolsa e quando cheguei à cozinha, estava lavando a louça e enxugando. Ele me olhou de cima a baixo e fez uma careta.
– Vai assim? – ele perguntou pegando um prato. – Não acha que está arrumada demais para ir ao cinema?
– Não, não acho. O Matty não merece ter um encontro com uma garota mulambenta que se veste mal. Ao contrário de você – devolvi me encostando na mesa e riu.
– Você está linda, . Tenho certeza que o Matty vai adorar – ela me olhou e sorriu.
– Obrigada. – ia dizer alguma coisa, mas uma buzina foi ouvida e eu sabia que era meu encontro.
– Tchau, . Quando eu voltar conversamos – joguei um beijo no ar saindo da cozinha com um sorriso estonteante e vitorioso no rosto.

’s POV

Joguei o pano de prato com força na pia e parou por um segundo de esfregar a esponja no fogão para me olhar.
– Está tudo bem, ? – ela perguntou deixando a esponja de lado.
– Tudo ótimo, por quê? – devolvi confuso.
– É a vigésima vez que você bufa desde que a saiu – levantei uma sobrancelha.
– E daí?
– Sabe, está parecendo que o encontro dela está te incomodando. Como se você estivesse com ciúmes – ela me observou atentamente.
– Tá querendo desistir da carreira de bailarina e tentar ser comediante? Eu com ciúmes da Maddox? Pode ter certeza que não. Por mim o McKibben pode comer ela inteira – talvez eu tivesse sido um pouco ríspido, mas só por ela insinuar que o encontro de estava me incomodando.
Aquela sem dúvida era a piada do ano.
– Que horror – ela resmungou e voltou a esfregar o fogão.
– Não vai mais precisar de mim, né? Vou para o meu quarto.– disse sabendo que, se eu continuasse mais dois segundos perto dela, perderia a paciência de vez.
Eu queria sair e fazer alguma coisa, não ficar trancado dentro de casa. Mas qual era minha opção se todos meus amigos tinham alguma coisa para fazer aquela noite?
Poderia tentar dormir e descansar, já que no dia seguinte, além de aula e trabalhar, eu ainda teria treino.
Mas eu não consegui dormir, tive a impressão de ter rolado na cama por quase uma hora, antes de pescar o livro que mamãe havia me emprestado. Li cerca de vinte páginas, mas o deixei de lado quando percebi que não absorvi nada que estava escrito ali.
Estava inquieto e sabia disso perfeitamente, só não conseguia entender o motivo. Talvez eu estivesse preocupado demais com o primeiro jogo se aproximando.
O time estava treinando pesado para competir nas eliminatórias do campeonato estadual. Eu não pretendia ir para a faculdade como atleta, mas meu histórico esportivo poderia me ajudar a conseguir a bolsa na faculdade.
Passei a mão pelo cabelo e me levantei desistindo de ficar no quarto, estava começando a me sentir levemente claustrofóbico lá dentro.
A casa já estava silenciosa, provavelmente minha mãe estava lendo algum livro e , estudando. Liguei a televisão e tentei me distrair com um filme que passava, sem deixar de olhar no relógio para ver se Maddox iria obedecer ao horário estabelecido por minha mãe.
Afinal, ela estava sob seus cuidados e teria que obedecer às regras como eu e fazíamos, sem reclamar de absolutamente nada.
Ri sem vontade a constatar que ela finalmente tinha se interessado por alguém daquele colégio. Sempre com aquele narizinho em pé, esbanjando arrogância. Não me surpreendi por ter sido pelo Matty também, digamos que ele nem de longe era tão rico como já havia sido, mas ele dispunha de uma situação financeira semelhante à de Mayh. Ou seja, sua conta bancaria era muito mais ampla que a de 80% dos alunos daquele colégio. Não era à toa que havia ficado tão encantada com ele e me surpreendia ter demorado tanto para que isso acontecesse. Nada além do esperado. Ela sempre iria escolher alguém que pudesse entupi-la de coisas fúteis.
E, claro, eu estava pensando em tudo aquilo sem motivo algum.
Mas claro que eu sabia também que o interesse de em Matty não era genuíno, era só interesse mesmo. Ela não parecia animada com ele como eu sabia que ela era comigo. Ela não corava quando ele se aproximava e dava aqueles famosos sorrisos que metade da escola conhecia. Ela revirava os olhos diversas vezes enquanto ele falava e sempre dava aquele sorriso sem emoção e desinteressado que ela costumava dar quando a conheci, ela parecia vazia perto dele.
Arregalei meus olhos para o teto quando me dei conta de que eu conhecia todos aqueles detalhes, porque passei tempo demais observando .
Ao menos percebia o quanto atenção eu prestava nela até aquele momento.
Desviei minha atenção para o relógio.
Quinze para as onze e ela ainda não tinha chegado. Queria ver se receberia algum tipo de repreensão por ter desrespeitado o horário.
Quando o relógio marcou dez e cinquenta e cinco, escutei o carro estacionar em frente à minha casa. Foi só espiar pela janela para reconhecer o carro de McKibben. Não deu para ver o que acontecia lá dentro e nem me interessava, então soltei a cortina e fui para a cozinha torcendo para que ela estendesse o horário dentro do carro e se atrasasse. Definitivamente eu queria vê-la levar uma bronca por isso.
A porta da frente bateu onze horas em ponto e mesmo tentando andar sem fazer barulho, ainda podia ouvir o ruído oco e baixo que seus saltos faziam no chão.
Como já estava acostumado com a escuridão da cozinha, vi perfeitamente quando ela entrou ali e acendeu a luz. colocou a mão no peito quando me viu e abriu a boca.
– Que susto, Shrek, quer me matar do coração? – disse e andou até a geladeira.
– Está atrasada, até onde eu lembro minha mãe te deu um horário – ela pegou uma garrafa de agua e foi até a pia.
– Eu respeitei o horário – ela disse olhando o relógio em seu pulso antes de abrir o armário e pegar um copo.
– Ela disse onze, não onze e um – impliquei.
– Você é o cão de guarda ou meu pai? – ela ficou de frente para mim. – Me erra garoto, nem a Meg está aqui me dizendo que eu passei um misero minuto do horário– ela empinou o nariz e como eu odiava quando ela fazia aquilo.
– Eu posso fazer minha mãe não te deixar mais sair com o McKibben com apenas três frases.
– E por que você faria isso? – ela arregalou os olhos e tampou a boca. – Você não está com ciúmes, está, ? Porque se estiver, já te digo para não alimentar esperanças. Eu nunca, jamais sairia com você – ela debochou e sorri de lado me aproximando.
Eu adorava quando ela tentava me menosprezar daquela maneira, só para que eu pudesse jogar na cara dela que por mais que ela tentasse negar, eu era a única coisa que ela queria e não podia ter. Que ela só me teria se eu quisesse.
– Nem nos seus melhores sonhos eu teria ciúmes justo de você, princesa – meu sorriso aumentou quando parei a centímetros dela e engoliu em seco. – E eu sei que se eu quiser ficar com você, o máximo que eu preciso fazer é dizer.
– Você se acha demais – ela disse, mas já não tinha o queixo erguido.
– Não, você me acha – apoiei as mãos na pia inclinado meu rosto na direção do seu.
– Eu tenho nojo de você, seu ogro – sorri ainda mais.
– Tem mesmo? – não esperei uma resposta, essa que eu já sabia.
Aproximei meu rosto do seu e a beijei.
ficou sem reação por alguns segundos, mas assim que assimilou o que estava acontecendo seus dedos agarraram meu cabelo.
Automaticamente minhas mãos foram para sua cintura e ela já me acompanhava.
Apertei sua cintura trazendo seu corpo para mais perto do meu, a beijando sem pressa e de forma bem delicada.
Foi com certo choque que percebi que gostava do modo como ela me beijava, como sua língua raspava na minha, como sua boca era delicada e macia, como seu corpo se remexia para ficar mais próximo ao meu e seus dedos invadiam os meus cabelos.
Ela não parecia nem um pouco enojada, e eu adoraria esfregar isso na cara dela. Sorri por dentro.
Seguindo essa linha de pensamento, mordi seu lábio inferior e me afastei lentamente na expectativa pelo que estava por vir.
Quando olhei seu rosto vi nitidamente que ela estava assustada, porém muito satisfeita e me permiti sorrir de lado.
– É, eu acho que não – ela juntou as sobrancelhas e me afastei retirando minhas mãos de sua cintura. – Viu, eu só preciso estalar os dedos – disse e estalei os dedos enquanto seu rosto ficava vermelho e seus olhos demonstravam a raiva que eu já havia visto milhares de vezes.
Não esperei uma resposta e saí da cozinha o mais rápido que eu podia, vai que sua resposta viesse em forma de um soco.
Quando cheguei ao meu quarto estava quase gargalhando, como eu gostava de fazer engolir as próprias palavras.

* Matty McKibben é um personagem da série de TV Awkward da MTV.



Dezenove

Estava com ódio e, claramente, tensa. Não imaginava que fosse possível alguém sentir tanta tensão, parecia um campo de ondas invisíveis ao meu redor. Dentro daquele carro, parecia palpável, pesada. Pelo menos eu me sentia assim.
Estava quieta desde que me sentei na mesa para colocar para dentro tudo o que fosse possível como café da manhã, não queria que percebesse que eu não tinha a menor vontade de comer. Não queria que ele soubesse o quanto eu estava afetada pela noite passada.
Não queria que ele soubesse que passei quase a noite toda em claro remoendo os últimos acontecimentos e que, embora tenha reprimido a vontade de chorar, em algum momento as lágrimas vieram. Eu sabia que o maior motivo que fazia com que elas caíssem era a raiva que sentia de e de mim mesma.
Quando cansei de revirar pela cama, decidi que precisava tomar alguns cuidados para que ninguém percebesse a péssima noite que eu havia tido pensando no beijo de .
Não no de Matty.
Sabia que estava perdendo o controle de quem eu era, que havia deixado as coisas fugirem do meu controle, que parte de mim queria exclusivamente por ego. Ego que já estava totalmente estraçalhado por ter sido bombardeado várias vezes por .
Pela primeira vez senti alivio quando ele estacionou na sua vaga de sempre diante ao colégio, tudo o que eu queria, era ir para bem longe de e todas as suas esquisitices e egocentrices. Ele nem havia desligado o motor quando abri a porta e saí apressadamente, colocando todas as minhas forças para batê-la ao ponto do carro se mexer levemente.
E dei meu primeiro sorriso do dia, quando o escutei resmungar.
Saí em disparada em direção ao prédio principal, queria achar Mayh o mais rápido possível, sequer esperei por , precisava conversar com alguém e definitivamente, esse alguém só podia ser Mayh.
Ela e estavam encostados em seu armário aos beijos e eu nem me importei em interromper, eles tinham a vida inteira para se agarrar.
- Mayh! - chamei e imediatamente ela e se separaram.
- Bom dia - cumprimentou toda sorridente e por mais que tivesse tentado, não consegui sorrir de volta.
- Bom dia. - falou arrumando o cabelo. - Vou encontrar os meninos - ele disse antes que eu pudesse responder e nos deixou sozinhas.
- Precisamos conversar - nem esperei que ele se afastasse tanto.
- Certo, precisamos mesmo. Topa matar a primeira aula? - era tudo o que precisava.
- Topo, vamos - concordei sem ao menos pensar sobre.
Eu queria sair despejando tudo em cima dela, mas segui em silêncio até o lugar onde matávamos aula, não que fizéssemos isso com frequência.
Quando chegamos as arquibancadas, nos enfiamos debaixo delas para não sermos vistas, Mayh jogou sua mochila na grama e se sentou. Não gostava de sentar no chão, achava algo extremamente anti-higiênico, mas eu tinha muito para falar, então imitei seu gesto me sentando a sua frente.
- Como foi? Me conta tudo, não me esconda nada. - Perguntou com uma animação de dar inveja.
- Ele me beijou - disse e senti algo incomodar minha garganta e ela deve ter percebido alguma coisa, já que sua expressão deu uma leve vacilada.
- Isso é ótimo, não é? Digo, sinal de que o encontro saiu como o esperado e vocês se deram bem. Rolou uma química. Ou você não gostou do beijo do Matty?
- Não estou falando do Matty, estou falando do . - Ela ficou com a boca levemente aberta, antes de dar um sorriso que achei que iria rasgar sua face.
- E por que está com essa cara? , isso é ainda mais maravilhoso.
- Não, não é maravilhoso. Você não tem ideia de como ele fez eu me sentir depois de me beijar, eu quero socar o até a morte - passei a mão pelo rosto tirando dali a lágrima que desceu sem consentimento.
Mayh ficou séria, de um modo como nunca tinha a visto.
- O que foi que ele fez? - Ela perguntou com a voz fria e respirei fundo.
Quando terminei de contar detalhadamente o que tinha acontecido e o que ele havia falado, usando exatamente as palavras que haviam sido ditas, ela estava ainda mais morbidamente séria.
- Tenho que ressaltar que esse não se parece nem um pouco com o garoto que eu cresci. Que babaca, . - Mayh bufou. - Olha, está na hora de você começar a realmente colocar limites no , ele tem certeza que tem você nas mãos e tá se aproveitando disso. Você também não consegue dizer não? Cadê a garota que colocaria o no lugar dele?
- Eu não sei, você tem ideia de como eu estou me sentindo? - Lamentei sem saber realmente o que dizer a ela.
- Certo. - Ela disse respirando fundo, passando as mãos no rosto. - Vamos mudar a estratégia e o plano. Mas já aviso que você vai ter que seguir fielmente o que eu disser.
- Como assim? - Perguntei com uma leve ingenuidade.
- O plano agora é, ignorar o . - Mordi o lábio e fiquei quieta.
Estava com raiva e confusa, mas tinha consciência de que eu não tinha ideia de como ignora-lo mais do que eu já fazia.
- Eu não sei como posso ignora-lo ainda mais. - Revelei receosa.
- Por que eu não estou surpresa? - Disse irônica. - , ignorar como você ignoraria o Fred por exemplo.
- Quem? - Perguntei tentando me lembrar quem seria esse ser.
- Desse jeito mesmo.
- Não sei se é possível fingir que ele não existe, o não torna essa tarefa possível. Ele implica comigo até se ventar um pouco mais forte. - Desabafei torcendo para que ela entendesse.
- E mesmo assim você tem que ignorá-lo, nada de beijos, nada de deixar ele sequer encostar em você. - Eu só concordava com a cabeça. - Acha que consegue fazer isso, ?
- Sim, eu consigo - disse com uma convicção que eu não sabia que se eu realmente tinha.
- Ótimo. Agora quero saber como foi seu encontro com o Matty.
- Ah, foi legal. - Dei de ombros. - Ele foi bem atencioso na verdade, pagou o cinema, a pipoca. Mas conversamos pouco, deu para perceber que ele entende muito de futebol. - Sorri desanimada.
- Você não me parece lá muito animada, muitas meninas dariam um braço para sair com ele. - Ela comentou enquanto pegava sua mochila.
- Ah, não é como se eu estivesse bem afim dele, mas ele é engraçadinho e beija bem. - Dei de ombros, ela pegou um bolinho em sua mochila e o abriu.
- Beija mesmo. - Disse antes de morder o bolinho e acenar positivamente com a cabeça.
- Como assim beija mesmo? - Perguntei um tanto desconfiada.
- Eu já fiquei com ele. - Ela deu de ombros. - Há muito tempo, muito mesmo.
- Você não se importa que eu fique com ele? - Ela riu.
- Claro que não, eu sequer dei importância. Para falar a verdade eu estava bem bêbada. - Confessou mordendo mais um pedaço do bolinho.
- Eu não sei se ainda quero alguma coisa com o depois de ontem. - Mayh ergueu uma sobrancelha.
- O beijo foi ruim assim?
- Não, o beijo foi... Nossa. - Suspirei mesmo não querendo.
- É já vi que você não está mesmo certa sobre o que quer ou não com ele. Só vamos fazer do meu jeito tá. Aja naturalmente, o ignore e não o evite. Ele tem que saber que ele não te incomoda. Certo?
- Certo. - Disse tentando ser absolutamente convicta do que estava falando.

Por que é que eu ia na conversa da Mayh mesmo?
Ah sim, porque eu sempre achava que ela estava coberta de razão.
E agora estava em uma mesa no refeitório com e todos seus amigos, o vendo agir como se absolutamente nada tivesse acontecido e ainda me lançar aqueles olhares de quem dizia: Eu sei que você não consegue parar de pensar no que aconteceu ontem.
Enquanto eu tentava fingir que não estava totalmente desconfortável com toda aquela situação. Que eu não tinha vontade de jogar meu suco em seu rosto, ou dar um soco em seu nariz.
Mayh estava sentada ao meu lado e toda vez que notava que que meu desconforto estava ficando evidente, o que acontecia quando abria a boca, ela chutava meu pé por baixo da mesa.
Estava tão concentrada em agir naturalmente, fingir que era só mais uma das pessoas insignificantes daquele colégio, que só notei a aproximação de Matty, quando ele puxou a cadeira e se sentou ao meu lado, colocando o braço no encosto da cadeira na qual eu estava.
- Oi, gente. Oi, . - Fiquei um pouco atônita quando ele me deu um selinho.
- Hey, tudo bem? - Eu na verdade não sabia como agir, quando parecia que a mesa toda nos encarava em silêncio.
- Tudo, e você? - Ele perguntou educado e tentei dar um sorriso charmoso.
- Melhor agora. - Disse e aquilo soou horrível.
- O que você acha da gente fazer alguma coisa hoje? - Dei uma rápida olhada pela mesa, sentindo minhas bochechas quentes.
estava com as costas encostada na cadeira e mantinha as duas mãos na cabeça olhando nós dois.
- Acho que não vai dar, a Megan não vai gostar que eu saia de novo no meio da semana. - Dei uma desculpa, eu sabia que se pedisse com jeitinho ela me deixaria sair, mas eu não queria. Não aquele dia.
- Certo, a gente combina alguma coisa no fim de semana então. - Desistiu facilmente, quando na verdade eu esperava que ele insistisse um pouco.
Talvez, só talvez eu tivesse perdendo meu poder de sedução.
Matty se inclinou em minha direção e me beijou, não foi um selinho, foi um com língua. Como fui pega de surpresa, minha única reação foi mexer meus lábios e fechar os olhos. Ele sorriu e piscou um olho antes de sair e quando estava longe o suficiente, ouvi as vozes dos meninos na mesa.
- Huuuuummmm. - Os meninos gracejaram, exceto . Ele só me olhava de uma forma estranha, com certo asco, que com algum custo fingi não perceber.
- A está pegando o Mckibben, então? - falou com um sorrisinho sem vergonha no rosto.
- Eu acho que sim. - Dei de ombros e olhei para a salada em meu prato, por Deus eu sentia meu rosto queimar.
- Eu acho que vocês dois combinam muito. Vocês são lindos, se vestem incrivelmente bem. - falava enquanto batia os cílios. Ela parecia mais animada que eu, por eu estar saindo com Matty.
- Também acho que super combinam. - disse de maneira sarcástica, imitando a irmã. - Tirando a parte da beleza. - Ele fez uma careta e controlei a vontade de revidar, tanto a gracinha dele quanto o chute que Mayh deu em meu pé.
- Concordo com o , a é muito bonita pra ele. - fez uma careta e sorri em sua direção.
- Acho que as garotas dessa escola concordam com a . Vocês ficam lindos juntos. - Mayh bateu seu ombro no meu.
- Certo, chega de cuidar da vida alheia. O luau está de pé? - cortou o assunto e dei graças a Deus por isso.
Não me sentia bem em ser o centro das atenções em uma mesa onde estava sentado de frente para mim.
- Que luau? - Ouvi minha própria voz perguntar.
- Todo ano fazemos um luau. Fazemos uma fogueira, levamos bebidas e um violão para quem quiser se arriscar. - explicou animado.
- É outro acampamento? - Perguntei já torcendo o nariz.
- Não, a gente estende o convite pro colégio todo. Qualquer pessoa que queira ir, pode ir. É bem legal. - Mayh disse tão animada quanto os outro.
- E onde vai ser esse luau? - Perguntei levemente interessada.
- Na praia. - deu uma piscadinha.
- A praia mais próxima é a uma hora daqui. - Disse espantada.
- Ainda bem que eu tenho carro. - debochou e me lançou uma piscadinha, na qual rolei os olhos.
- Ainda bem que eu posso fazer sua mãe te obrigar a me levar. - Devolvi e os outros meninos tiraram sarro enquanto Mayh chutava meu pé mais uma vez, pegou sua mochila e jogou no ombro.
- Pede pro seu namoradinho te levar. - Disse antes de ir em direção a saída do refeitório.
- Ih. - também se levantou. - Parece que tem alguém com ciuminho. - Disse rindo e pegando a mochila. - Até mais. - Disse antes de seguir o mesmo caminho que .
- Já vi que vai ser difícil né. - Mayh disse entre dentes e preferi não me aprofundar no assunto com ela. Ainda mais na mesa do refeitório.

Sabe qual a sensação de estar em um lugar pela primeira vez?
Geralmente é algo emocionante, você olha para todos os lugares possíveis tentando não perder qualquer detalhe. Aquela vontade de explorar tudo, observar de perto todas as coisas ao seu alcance e tentar fazer a experiência de estar ali inesquecível.
Não sentia nada daquilo.
Não sei qual a graça que pobre via em ir ao supermercado, na verdade é algo que descobri ser fortemente entediante.
- Você quer levar alguma coisa? - Megan perguntou quando estávamos no horti-fruti.
Olhei as frutas e fiquei imaginando se elas teriam sido colhidas naquele mesmo dia, conclui que não.
- Talvez ela queira umas frutas colhidas hoje. - falou pegando uma caixinha de morangos.
- . - Meg repreendeu.
- Obrigada, Meg, mas não quero nada. - Sorri educadamente ignorando a presença de seu filho, coisa que com certo esforço vinha fazendo ao longo do dia com quase cem por cento de sucesso.
- Certo, você pode ir até a drogaria e escolher os produtos de higiene pessoal do seu gosto. vá com ela empurrando o carrinho. - Me perguntei por que raios a Megan achava que precisava empurrar o carrinho para mim, ainda mais quando eu tinha que comprar absorventes.
- Ah, tudo bem. Eu posso empurrar o carrinho. - Falei tomando a frente.
- O tem que pegar umas coisas para mim lá também, ele pode levar o carrinho. - Megan sorriu simpática e imaginei que ela pudesse já estar na menopausa.
Essa seria a única explicação para que ela mandasse o filho ir pegar coisas de higiene pessoal para ela, quando a própria Meg poderia fazer isso. Sem ter como argumentar, deixei que o garoto fosse na frente, já que ele sabia exatamente onde ir.
Ao contrário do que eu pensei, ele não saia de perto nem por um segundo. Se eu ia para uma prateleira e olhava para o lado segundos depois, lá estava ele, ao meu lado.
Como não saia de perto, resolvi escolher um shampoo, um condicionador e desodorante aceitáveis.
Tentei enrolar o máximo possível em coisas sem importância, esperando o moleque fazer o que tinha que fazer e ir para bem longe de mim, me deixando a vontade para comprar o maldito absorvente, mas adivinha?
Meu rosto já estava quente quando parei em frente aos absorventes, arrumados por marcas e modelos, então decidi fazer alguma coisa a meu favor.
- Você pode ir indo, daqui a pouco encontro vocês. - Disse com os olhos fixos na prateleira, tentando encontrar o absorvente ideal para mim sem precisar tocar neles.
- Eu ainda tenho coisa para fazer aqui. - Ele disse calmamente, me irritando.
- Então pega e vai logo. - Falei ríspida e ele riu pegando um pacote de absorvente.
Não acredito que ele comprava absorvente para a mãe e a irmã dele, pelo menos ele iria sair logo dali, mas como com nunca acontece o esperado, claro que ele continuou ao meu lado.
- Eu já encontro vocês. - Repeti agora olhando em sua direção, ele ergueu uma sobrancelha e riu.
- Não é como se eu não soubesse que você menstrua, . - Ele deu um sorriso debochado. - Vai em frente. - Apontou a prateleira e percebendo meu desconforto continuou. - Não vou sair daqui.
Ele estava tentando me irritar, mas daquela vez não iria deixar. Iria ignora-lo, fingir que ele não estava ali e que a presença dele não poderia me afetar. Me virei para a prateleira e fechei os olhos respirando fundo. Comecei a olhar nas caixinhas, talvez lendo um pouco atentamente demais as informações nelas.
- Você usa absorvente interno? - Perguntou de forma curiosa.
- Não é da sua conta o tipo de absorvente que eu uso, garoto. - Respondi ríspida.
- Não é desconfortável usar isso? - Desconfortável era o que aquele garoto sem noção estava fazendo. Nós dois sabíamos disso, e era por isso que ele fazia. - Sei lá, não dá a sensação de estar sempre com um ... - ele parou no meio da frase e tive que contar até dez para não virar uma voadora na cara dele.
Se ele ousasse continuar aquela frase, Megan teria que me desculpar, mas teria de pagar uma prótese dentaria para o filho dela antes que ele completasse vinte anos.
- Enfia um no cu e vai saber a sensação, idiota. - Falei com raiva jogando as caixinhas no carrinho.
Ele arregalou os olhos, mas percebi claramente que ele estava querendo rir.
- Você fala palavrão, estou chocado. - Colocou uma mão no peito.
- , você está sendo incrivelmente inconveniente. - Cruzei os braços.
- Oh, desculpe. Não quis te ofender. É que sabe, realmente deve ser incomodo. - Rolei os olhos e comecei a empurrar o carrinho.
- Já te disse como tirar a dúvida.
- Relaxa, . Mulheres menstruam, usam absorventes, internos ou não. É a coisa mais normal do mundo. - O olhei e ergui as sobrancelhas.
- Por que você faz questão de me irritar? - Ele ficou atrás de mim empurrando o carrinho e apoiou o queixo em meu ombro.
- Porque é divertido. - deu um beijo em meu rosto e fechei os olhos tentando me concentrar na conversa que tive com Mayh mais cedo naquele dia.
- Sai. - Disse quase inaudível. - Sai de perto.
- Você não quer que eu saia. - Ele disse convencido e enfiou o rosto nos meus cabelos, é eu não queria que ele saísse, mas era necessário. Parei de andar.
- Sai de perto de mim agora, ou eu vou fazer um escândalo tão grande, que você nunca mais vai querer sair na rua. - Minha voz saiu mais firme do que eu podia imaginar.
Ao invés de se afastar, afastou meu cabelo do pescoço e deixou sua boca bem perto da minha orelha.
- Então faz que eu quero ver. - disse e riu, mas se afastou.
Ele fez questão de olhar para a minha cara e ver minha expressão. Eu tentei fazer uma de raiva, de quem não gostava nem um pouco do contato e esperava que estivesse dando certo.
- Então, você sonhou com o beijo? - Ele perguntou do nada enquanto procurávamos Megan.
- Como é?
- Você sonhou com o meu beijo? - Quem olhasse de fora acharia que estávamos conversando alguma coisa muito séria.
- Você se acha o centro do meu universo, se toca garoto. Nem foi tudo isso e não vai acontecer de novo.
- Que bom que você sabe que foi ruim. - Eu ia retrucar, mas ele se afastou indo em direção a Megan.

Havia esperado a semana inteira pelo fim de semana por conta do luau e quando tinha finalmente chegado o dia, não estava afim de ir. Queria ir com Matty para esfregar ele na cara de , mas um compromisso familiar de última hora, o tinha impedido de ir.
Mayh e praticamente me obrigaram a ir, alegando que eu não podia ficar em casa em pleno sábado à noite. Como não queria ir com , obriguei Mayh a me levar, segurando vela para ela e no carro.
E lá estava eu, sentada em um tronco de árvore quase grudada em Mayh, com um copo de cerveja na mão vendo aquelas pessoas desafinadas cantarem como se fossem o próprio Pavarotti.
- Deviam limitar as músicas a quem sabe cantar. - Reclamei enquanto uma menina que eu não sabia quem era, gritava uma música da Adele.
- , esse povo está aqui para se divertir, cantar bem não vem ao caso. - Mayh disse se balançando.
O violão passava de mão em mão pela roda formada em volta da fogueira. Várias pessoas do colégio haviam ido e eu percebi que no ambiente escolar nunca tinha reparado em nenhuma delas.
conversava com uma quantidade enorme de pessoas, e eu me perguntava como uma pessoa ter tanto papo com grupos totalmente distintos um dos outros.
Havia tentado parar de pensar naquele beijo a semana inteira, tentado ignorar cada segundo do dia, confesso que estava sendo um pouco fácil, já que ele não parava muito em casa. Estava sempre a maior parte do dia na rua fazendo sei lá o que. Não devia ser importante já que a própria Megan chegou a repreende-lo por isso.
Fato é que eu não havia conseguido parar de pensar em cada segundo daquele beijo, assim como não conseguia parar de fazer aquelas borboletas ridículas se aquietarem em meu estomago quando lembrava da sensação de ter seus lábios nos meus.
Céus, eu estava sendo ridiculamente piegas.
Eu precisava parar de pensar naquilo, o único modo de deixar de desejar outros beijos de , era esquecer o primeiro e o último, já que ele havia deixado claro que fora ruim. Que ele não havia gostado.
O Matty parecia gostar de me beijar, a opinião de não deveria importar mais que a dele.
- Terra chamando . - Mayh me cutucou com o ombro. - No que tanto pensa?
- Em nada, em tudo. Na minha vida, se meu pai ainda vai voltar, essas coisas. - Menti, porque ultimamente a única coisa na qual eu conseguia pensar era em e eu tinha plena consciência de que ela me xingaria por isso.
- Sei. Não sei como o não percebeu que você não tira os olhos dele. - Disse baixo.
- Não estou olhando para ele.
- Sei que está. Por que não fala com ele? – Olhei para ela como se ela fosse um ET.
- Foi você mesma que disse para eu não falar, não deixar ele me tocar e essas coisas. Não que ele queira me tocar. - Dei de ombros.
- Sei lá, fala pra ele tudo o que você sente. Diz que ele está te magoando agindo dessa forma. - Ri. Não havia contado a ela o episódio do supermercado, estava envergonhada na verdade. Muito envergonhada. Não é todo dia que alguém fala na sua cara que seu beijo é ruim.
- Eu não gosto dele. - Neguei mais para mim mesma.
- , você está falando comigo. Eu sei que essa paixonite virou amor no momento em que ele te beijou. Ele está piorando as coisas, se você for sincera com ele e o não quiser nada com você, ele vai parar com esse joguinho barato. Eu o conheço, ele nunca iria brincar com seus sentimentos. Me recuso a acreditar que meu amigo seja esse imbecil. - Neguei com a cabeça.
- Não tem sentimento. – Olhei para ele mais uma vez.
Não podia, porque não queria ouvir mais uma vez que ele não gostava de mim e que não queria nada comigo.
Mayh só se calou porque se sentou ao seu lado com o violão na mão, falando alguma coisa que eu não entendi antes de começar uma melodia no violão.
Só reconheci a música quando ele começou a cantar, porque para ser sincera, ele não tocava bem. cantou My Girl inteira olhando para Mayh e confesso que me senti emocionada, com certeza no dia seguinte ela admitiria que tinham voltado.
O violão voltou a passar de mão em mão enquanto eu observava todos aqueles jovens conversarem, se divertirem uns com os outros.
Mayh e estavam em suas bolhas de romances, muito entretidas em seus parceiros para lembrarem que me obrigaram a estar ali.
Quando meus olhos pescaram novamente, ele estava com o violão na mão, o dedilhando e mexendo nas cordas, o afinando. Sua concentração deixava claro que ele sabia o que estava fazendo.
As pessoas pareciam gostar de vê-lo tocar, já que grande parte das pessoas em volta da fogueira, pareceu cessar o que estavam fazendo para saber que musica ele tocaria e cantaria, se é que ele iria cantar.
Nunca consegui imaginar cantando para falar a verdade, e então, esperei. Como as outras pessoas. Intimamente ansiosa para saber se ele sabia cantar e tocar.
Ao contrário do , assim que a música começou a reconheci, nas primeiras notas ele mostrou habilidade com o instrumento. Algumas meninas mais desinibidas comemoraram a escolha da música e se levantaram para fazer alguma coreografia, mesmo sendo uma versão acústica. Minha atenção estava toda no garoto a minha frente que olhava para a areia, se demorando na melodia da canção, degustando, apreciando cada nota.

"This was never the way I planned
Not my intention
I got so brave, drink in hand
Lost my discretion"

Assim que começou a cantar, levantou seus olhos diretamente a mim. Como se ele soubesse que eu estaria olhando para ele. Senti meu rosto esquentar com a possibilidade da música ter sido oferecida silenciosamente a mim, e a surpresa de ser pega o observando. Ainda assim mantive o contato visual.

"It's not what, I'm used to
Just wanna try you on
I'm curious for you
Caught my attention"

Mayh me cutucou, provavelmente ligando a escolha da música com o beijo, assim como eu.
Aquele garoto adorava me deixar confusa. Uma hora dizia que não tinha sido bom, na outra estava cantando uma música bem sugestiva, sem desviar os olhos de mim.

"I kissed a girl and I liked it
The taste of her cherry chapstick
I kissed a girl just to try it
I hope my girlfriend don't mind it"

- Hum, acho que alguém está querendo um remember. - Mayh cochichou em meu ouvido de forma divertida e senti meu rosto esquentar mais uma vez.

"It felt so wrong
It felt so right
Don't mean I'm in love tonight
I kissed a girl and I liked it
I liked it"

tinha uma voz bonita e não fazia questão de esconder isso. Ele a soltava sem temores e confesso que aquilo tudo estava me deixando excitada. Não era só a letra sugestiva, sua voz rouca, era o modo como ele me olhava. O modo como levantava a sobrancelha e como sorria de lado, como um convite. Toda aquela combinação estava me excitando e ele nem tinha me tocado. Talvez eu já estivesse totalmente perdida, talvez a única coisa que eu precisasse fazer era ceder e confessar.

"It felt so wrong
It felt so right
Don't mean I'm in love tonight
I kissed a girl and I liked it
I liked it"

Parecia que eu estava vendo um filme na minha cabeça e não conseguia encontrar uma explicação plausível para tudo aquilo.
Não tinha explicação, sempre fora horrível comigo. Desde o primeiro momento rindo da minha cara, debochando, gritando comigo.
Não havia explicação, não havia motivo.
Mas eu estava apaixonada por ele.

"You girls we are so magical
Soft skin, red lips, so kissable
Hard to resist so touchable
Too good to deny it
Ain't no big deal, it's innocent"

Ao admitir aquilo para mim mesma, me obrigaria a ter mais consciência de todas as atitudes que eu tomasse daquele momento em diante. Eu só precisava me preservar e me afastar enquanto eu ainda tinha tempo.
O final da música foi ganhando forma e só então percebi que estava na minha própria bolha com .
Percebi que eu não sentia meus dedos segurando o copo, meus pés tocando a areia nem o vento frio que batia em meu rosto.
Quando finalmente finalizou, entregou o violão a quem quisesse, me olhou sugestivamente e saiu à francesa da fogueira. Me deixando com uma dúvida imensa se era para eu ir atrás, ou não.
Na dúvida entre ir ou não, fui.
Com a desculpa de que iria buscar meu casaco no carro de . E era isso que eu iria fazer.
Como o esperado não tinha ninguém esperando por mim e confesso que foi com certa tristeza que fui caminhando em direção aos carros estacionados ali.
Passei por uma árvore chutando a areia e olhando como ela voava para longe, soltando um gritinho quando alguém agarrou meu pulso e me puxou para o lado.
- Quer me matar do coração? - Dei um tapa no ombro de com o coração disparado, tanto pelo susto, quanto por constatar que era ele ali. - Você adora fazer isso, não é? - Tentei não me importar com o fato de ele ter colocado as mãos na minha cintura.
- O que te mataria do coração? Ser um tarado ou eu te agarrar. - Ele deu aquele sorrisinho sarcástico.
- Você me agarrar e ser um tarado dá no mesmo, os dois vão me fazer mal. - Ele balançou a cabeça.
- Se eu te agarrar não vai ser sem o seu consentimento. - Ele me puxou para perto e espalmei minhas mãos em seu peito.
- Não dei meu consentimento. - Não soou tão firme quanto eu pretendia.
- Não? - Ele realmente parecia confuso enquanto suas mãos se afrouxavam em minha cintura.
- O que você quer, ? - Perguntei me afastando levemente.
- Por que você está aqui, ? - Ele ergueu uma sobrancelha.
- Vim pegar meu casaco no carro. - Ele deixou um sorrisinho cínico escapar.
- Claro, até porque em volta daquela fogueira não está um calor infernal. - Debochou.
- Por que você não diz o que você quer? - Insisti.
- Porque você já sabe. - Rolei os olhos, não seria tão fácil daquela vez. Não podia ser.
- Então acho que vou voltar para a fogueira. - Ergui meu queixo e ele rolou os olhos.
- Eu não vou insistir para ficar com você. - Ele disse se encostando na árvore.
- Até porque você acha que não precisa, mas você está enganado. - Ele inclinou a cabeça levemente como se estivesse me desafiando.
- Ah estou? - Ele estava sendo absurdamente arrogante.
- Achei que tinha sido ruim. - Ergui o queixo e ele passou a mão pelos cabelos.
- Foi você que disse isso. Mas você pode pegar seu casaco e voltar, ninguém está te impedindo. - Realmente não sei o porquê de não ter feito exatamente o que ele falou, ao invés morder o lábio entregando minha total indecisão.
- Estou realmente impressionada com o seu talento musical. - Disse após termos ficado nos encarando em silêncio por alguns segundos, e aquele sorriso cínico deu as caras de novo. colocou as mãos em minha cintura e me puxou para perto.
Ele sabia que já havia vencido, mais uma vez.
Acho que nunca tinha feito um elogio sequer direcionado a ele.
- Você gostou da música? - Perguntou de forma manhosa, se aproximando perigosamente.
Meu ar ficou preso nos pulmões e o deixei se aproximar, por mais que tivesse jurado a mim mesma que ele nunca mais tocaria em mim.
aproximou seu rosto do meu e fechei meus olhos institivamente, mas ele não me beijou e eu já estava esperando por sua piadinha quando ele me deu um beijo no rosto, perto da minha orelha.
Coloquei minhas mãos em seus braços quando ele sussurrou as primeiras frases da música antes de me dar outro beijo no rosto, dessa vez na bochecha. continuou sussurrando a música, sua voz tão perto e tão baixa, estava arrepiada da cabeça aos pés. Ele me deu mais um beijo, dessa vez no canto da boca e então, me beijou.
Aquele deveria ter sido nosso primeiro beijo.
Primeiro porque não fui pega de surpresa e aproveitei desde o primeiro segundo.
Segundo porque parecia ainda melhor que o outro, com mais vontade, com mais liberdade.
Agarrei seus cabelos e sua nuca sentindo suas mãos fazerem uma pressão gostosa na minha cintura e me puxar cada vez mais para si.
girou meu corpo me encostando na árvore, pressionando seu corpo no meu. Eu sentia minha pele pegando fogo, meu ar já tinha todo se esvaindo dos meus pulmões.
Sua boca deixou a minha, me fazendo choramingar, ele desceu os lábios para o meu pescoço e o beijou de uma forma que fez com que eu puxasse seu cabelo soltando um gemido baixo. com toda certeza sabia o que estava fazendo, tive certeza quando ele segurou minhas mãos acima da minha cabeça. Seu corpo pressionava o meu tão forte contra a árvore que não duvidaria de que ficariam marcas das oscilações do tronco em minhas costas.
Sua mão livre desceu pela lateral do meu corpo até a coxa, mas em nenhum momento ele a colocou no meu peito ou em minha bunda, o que eu confesso ter lamentado. Ele voltou a beijar minha boca, soltando minhas mãos e segurando meus cabelos na nuca. Eu estava derretendo, literalmente. Estava virando gelatina, aquela com toda certeza seria uma das melhores experiências que eu teria na minha vida.
Ele parou de me beijar, ficando com a testa colada na minha, mantive meus olhos fechados, com medo de encarar , que colocou uma de suas mãos por baixo da minha blusa e ficou fazendo um carinho prazeroso em minhas costas.
Escutamos o barulho de um carro estacionando, mas ficamos ali.
Ele me dava selinhos e passava a ponta da língua nos meus lábios, uma de suas mãos nas minhas costas por baixo da blusa, a outra em meu cabelo.
A porta do carro bateu e abri os olhos, enfiou o rosto no meu pescoço e automaticamente olhei para além dele, dando de cara com Matty.
Mas que merda ele estava fazendo ali?
Congelei todos os meus movimentos.
- É o Matty. - Minha voz saiu rouca e ele ergueu a cabeça para me olhar e depois olhar para trás.
- Vocês estão namorando? - Perguntou juntando as sobrancelhas enquanto se afastava minimamente.
- Não, mas ele não pode me ver aqui. Não quero que ele me veja com você - disse o empurrando tentando sair. Ele me segurou.
- Se você sair agora, ele vai saber que é você que está aqui. Ele provavelmente viu boa parte do que aconteceu. - Engoli em seco.
colocou o braço no meu ombro e voltou a pressionar seu corpo no meu, impedido a visão de Matty.
- E aí, ? - Meu coração disparou e tentei pensar que eu não devia absolutamente nada a Matty, mesmo ele tendo sido uma das pessoas mais fofas comigo durante aquela semana.
- E aí? - respondeu. - Merda. - Sussurrou e nem precisei perguntar para saber que ele estava se aproximando.
Pressionei meu rosto no peito de , tentando me esconder a todo custo.
- Você sabe onde a está? Ela não atende o celular. - Meu coração àquela altura batia na língua.
- Ela deve estar na fogueira. - Respondeu despreocupado.
- Valeu. - Tentei fazer um exercício de respiração esperando pelo momento seguro.
- Seu sonho acabou. - disse antes de me soltar como se tivesse levado um choque.
Cambaleei arrumando meu cabelo e minha roupa um pouco confusa e não acreditando que ele faria com que me sentisse mal mais uma vez.
Pisquei algumas vezes optando por ficar em silêncio e ouvir coisas que não gostaria, me segurou me puxando de volta antes que me afastasse o suficiente. O olhei sem realmente ver seu rosto.
- Vai pegar seu casaco, ou ele vai saber que era você aqui. - Disse e me deixou sozinha, pensando coisas que não deveria e levemente magoada.
O que afinal eu esperava, que ele pegasse a minha mão para voltar e saísse no soco com Matty por minha causa?
Eu já deveria saber exatamente o que aconteceria, afinal eu havia escolhido ficar com ele depois de tudo não é mesmo?
Respirei fundo tentando dispersar qualquer pensamento sobre e fui até o carro de .

Mayh e vieram correndo até mim assim que me viram. Eu havia demorado um pouco para voltar, aproveitando para colocar minha cabeça em ordem e bolar uma desculpa para não estar na fogueira quando Matty chegou.
Sorri para elas tentando testar minha expressão de "nada aconteceu".
- Onde você estava? Sumiu o maior tempão. - Foi quem perguntou e pela cara de Mayh conclui que ela tinha alguma ideia.
- Fui buscar meu casaco e fiquei um pouco no carro. - Dei de ombros.
- O Matty está te procurando. Ele não tinha dito que não vinha? - Mayh perguntou enquanto entrelaçava nossos braços.
- Pois é. - falei baixo.
- Depois precisamos conversar. - Mayh falou séria e eu já sabia o que estava por vir.
Vi conversando com algumas meninas, ele estava sorrindo e agindo perfeitamente como se nada tivesse acontecido. Ele olhou para mim e desviou os olhos, fazendo com que me sentisse insignificante e automaticamente me senti super mal. Me arrependendo completamente de tê-lo seguido.
O restante da noite eu passei com Matty, que me beijou diversas vezes e apesar de ter um beijo excelente, não despertava nada em mim. Ainda mais depois de beijar . e também passaram um tempo com a gente, mas estava cansada e foram embora logo. Por algum motivo desconhecido, Mayh ficou afastada o resto da noite.
Meus problemas começaram realmente na hora de ir embora, era para Matty ter me levado, mas...
- Ele não tem condições de dirigir daqui até Londres, o foi com a Britany já faz um tempo, o também não está em condições. - Mayh falava com todo cuidado.
- Sobrou para mim. - Disse com desgosto e ela acenou com a cabeça. - Tudo bem, cadê as chaves?
- Está com ele, ele e estão perto do carro. - Respirei fundo.
Os dois estavam quase deitados no capo do carro quando nos aproximamos e quando colocou seus olhos em Matty um sorriso perverso surgiu em seus lábios. Automaticamente senti meu corpo congelar.
- E aí, Matty, achou a Maddox rápido? - Perguntou e olhou para mim debochado.
- É, ela na verdade estava no carro quando eu cheguei. Estava aqui o tempo todo. - Matty foi simpático e até riu.
- Pois é, ela estava bem debaixo do seu nariz o tempo todo. - Ele deu risada e mesmo sem entender o acompanhou.
Meu coração estava saindo pela boca, ele não iria fazer aquilo comigo.
- Acontece. - Matty deu de ombros e levantou uma sobrancelha, ele iria falar e dessa vez eu quebraria a cara dele. Quando abriu a boca o cortei antes que qualquer som saísse.
- , cadê a chave? - Ele sorriu abertamente notando meu nervosismo.
- Você vai dirigir meu carro? - Fez uma careta. - Se você bater quem vai pagar? - Senti meu rosto esquentar, ele não ia começar com aquilo na frente do Matty, não é?
- Cala essa boca e da logo essa chave para ela. - Mayh disse autoritária e ele a encarou, algo em sua expressão, fez com que fizesse exatamente o que ela tinha dito. Olhei para ela deixando claro em minha expressão o quão eu estava grata.
Me despedi de Matty e assumi meu lugar no carro de , ele estava quieto olhando através do para-brisa.
Ainda teria que enfrentar um bêbado por uma hora dentro do carro antes de poder estar no refúgio do meu quarto, para finalmente colocar meus pensamentos no lugar e me martirizar por ter feito tudo errado mais uma vez.
Quando abriu a boca para falar, percebi que aquela hora seria mais longa do que eu poderia imaginar.



Vinte

’s POV

Quando alguém disser que não se lembra de absolutamente nada do que aconteceu depois de uma bebedeira, acredite.
Em noventa por cento dos casos, a bebida corta pedaços das suas lembranças e, na maioria das vezes, tudo o que você lembra é muito constrangedor para admitir que sobrou algum resquício de memória e você acaba fingindo que não se lembra de absolutamente nada.
Nos outros dez por cento, a pessoa só finge mesmo que não lembra de nada.
Eu me enquadrava perfeitamente no primeiro caso.
Minha ressaca física havia ido embora na segunda de manhã, já a moral, essa insistia em dar as caras todas as vezes que entrava no meu campo de visão.
Poderia me enganar por zilhões de vezes e continuar mentindo para mim que esse incomodo era por ter ficado com ela na praia e não conseguir passar pelo menos a metade do meu dia sem pensar sobre isso. Já que não conseguia parar de pensar na ficada com , no domingo pela manhã resolvi que o melhor era evitá-la.
Consegui evitar a garota durante todo o dia e mesmo desconfiando que minhas desculpas para fugir de qualquer ambiente que ela estivesse parecessem ruins até para mim, todo mundo pareceu engoli-las. Exceto ela; na verdade, nem pareceu se preocupar se minhas desculpas eram convincentes ou não.
Ela passou grande parte do dia com os olhos fixos no celular, ou então conversando naturalmente com , como se nada a estivesse incomodando. Ela também não corou, muito menos ficou me encarando quando eu estava saindo do banheiro pela manhã. Ela só me olhou rapidamente e soltou um bom dia desinteressado, antes de encarar seu celular e sorrir para o nada.
Não sabia se ela estava fingindo aquele desinteresse, ou se ela realmente não havia se afetado com a minha extrema sinceridade na viagem de volta da praia. Sabia que tinha sido no mínimo desagradável, mas pareceu não se afetar. Pelo contrário, parecia que eu tinha acionado algo nela que a fez não dar a mínima importância para nada que fosse relacionado a mim.
Cheguei a desejar durante o jantar que ela desse algum sinal de que ao menos tinha ficado chateada com tudo aquilo e cheguei a me sentir mal por estar desejando aquilo.
Desejar esse tipo de coisa me transformava em uma pessoa ruim e eu não queria ser alguém ruim. Então era melhor que ela não ligasse mesmo e que eu continuasse a evitando.
Tarefa que seria fácil durante a semana, ainda mais se Matty a levasse para o colégio todos os dias como fez naquela segunda.
– E então, topa? – Mayh me cutucou com seu ombro e a encarei quase saltitante na cadeira ao meu lado sem fazer ideia do que ela poderia estar falando.
– Hum – resmunguei voltando a focar minha atenção nela.
– Maratona Harry Potter, hoje, depois da aula – repetiu sabendo que agora eu prestava atenção nela.
– Quem vai? – Mayh juntou as sobrancelhas expressando o quanto achava aquela pergunta estranha.
– Como assim quem vai? O pessoal de sempre.
– O pessoal de sempre, com ou sem ? – esperava ter colocado a dose certa de desinteresse em minha voz.
Mas o modo como Mayh inclinou a cabeça em minha direção e fechou levemente os olhos fez com que eu soubesse que não adiantava o quanto eu tentasse fingir que as coisas estavam em perfeita ordem, ela sempre saberia que não estavam.
– Certo – ela disse anotando algo em seu caderno. – O pessoal com a – disse por fim.
– Acho que não poderei ir, tenho umas coisas para fazer na loja – dei de ombros encarando o professor em sua mesa. Esse que não dava a menor importância se alguém copiava a matéria ou não.
Ele dizia que não era problema dele se alguém se interessaria em ter o conteúdo da prova ou não. Nesse ponto eu concordava com ele.
– Mas nós amamos Harry Potter – falou com sua mão sobre o peito teatralmente.
– Você ama Harry Potter, eu sempre durmo – disse, dando graças Deus por ela não fazer nenhuma pergunta.
– Você anda muito chato – e ali começou uma lista interminável sobre meus defeitos que aprendi a ignorar ao longo dos anos.
Não poderia evitar meus amigos o resto da vida, mas poderia evitá-los até resolver a situação, mesmo que eu não fizesse ideia do que tinha para ser resolvido. E pela primeira vez na vida não prestei atenção em nenhuma das aulas que assisti durante a manhã.
Acreditava que as coisas se normalizariam pelo menos um pouco no refeitório, onde eu sabia que estariam todos os meus amigos e poderia testar se assim minha rotina voltaria ao normal a partir daquele horário. Eu e fomos os primeiros a nos sentar na mesa de sempre, não demorando muito para , , Mayh e se juntarem a nós.
Fiquei levemente aliviado por não ter visto nem sombra de no refeitório e bastante incomodado com essa constatação enquanto meus olhos seguiam para todas as mesas daquele lugar.
Mesmo sabendo onde e com quem a encontraria, foi meio chocante ver sentada na mesa onde Mckibben e toda a sua trupe se reuniam; mesmo que fosse nítido o quão bem se encaixava naquela cena. Uma mesa abarrotada com os titulares do time e com as líderes de torcida, que pareciam aceitar muito bem Maddox, mesmo ela não vestindo um uniforme igual ao delas. Talvez elas só sorrissem para , porque Matty mantinha seu braço em torno dos ombros da garota, e mesmo tendo seu braço ali, ele a ignorava para que pudesse dar atenção para todas as outras.
revirava seus olhos para tudo o que era dito a ela e não fazia questão alguma de esconder o ato, ficava muito claro que ela se sentia muito superior a todos que estavam ali ao redor dela. O que fazia com que eu me perguntasse, por que inferno ela estava com eles? Por que ela insistia em ficar com Matty, quando era visível que ela não estava tão afim?
! – alguém me jogou uma bolinha de guardanapo, atraindo minha atenção para o que acontecia na mesa onde eu estava. – O que você tem? – perguntou se debruçando na mesa.
– Nada – dei de ombros e me forcei a olhar apenas para , ou para meus outros amigos.
– Por que você não quer ir na casa da Mayh? Eu sei que você não gosta de Harry Potter, mas a gente só vai reunir a galera. Ninguém vai prestar atenção no filme mesmo – ele mexeu os ombros e rolei os olhos.
amava Harry Potter e ele e Mayh eram os únicos que assistiam quando estava todo mundo junto.
– A vai – fiz careta esperando que eles não ficassem me questionando.
– E desde quando você deixa de fazer alguma coisa porque a vai estar junto? - juntou as sobrancelhas.
– Porque eu não a suporto – disse e tive certeza que ele sabia que não era isso quando ergueu uma sobrancelha.
e Mayh eram os únicos que sabiam quando eu estava escondendo alguma coisa. Nada passava despercebido pra eles.
– E desde quando o fato de você não suportar alguém te impede de fazer algo? Você não suportava o , e nem por isso deixou de fazer alguma coisa com ele. – falou toda distraída mexendo em seu celular e Mayh deixou um bom tanto de água escorrer da sua boca tentando segurar o riso.
– Espera, você não me suportava? – perguntou tentando parecer ofendido.
– Não leva a mal, mas você era a pessoa mais chata da sétima série, com todo aquele papo nerd. – saiu em minha defesa e Mayh já estava vermelha tentando segurar a risada. – Todo mundo só te aturava por causa da Mayh, que insistia em andar com você. Só porque você é tão nerd quanto ela. – desabafou e colocou uma mão sobre o peito claramente ofendido.
– Nem começa cara, você melhorou muito depois que passou a andar com a gente. – falou antes que o drama começasse.
– Tá, então por que o não vai mesmo? – fez com todo mundo me olhasse em silêncio.
– Porque eu tenho que trabalhar – foi a melhor desculpa que eu arrumei.
– Você não trabalha às segundas. – comentou sem necessidade, já que todos eles sabiam minha jornada de trabalho.
– O Carl pediu que eu fosse hoje, a Jo não vai poder ir – eu poderia ter dito aquilo desde o início e evitado aquele olhar desconfiado de Mayh, e, pasmem, de .
Fingi que não vi suas expressões e voltei a prestar a atenção em qualquer coisa e no momento exato em que meus olhos foram parar na porta do refeitório, Matty a segurava aberta para que passasse.
Esperei por alguns minutos e anunciei que estava me retirando da mesa, eu sempre saía do refeitório alguns minutos antes para poder ir ao banheiro, ou fazer qualquer outra coisa, antes de ir para a sala. Notei o movimento de Mayh sabendo que ela me seguiria e provavelmente me confrontaria sobre o que havia acontecido entre mim e Maddox.
Caminhei pelo corredor em silêncio com as mãos nos bolsos dianteiros da calça com Mayh calada ao meu lado e só quando alcançamos o banheiro, foi que ela começou a falar.
– O que aconteceu sábado? – ela se encostou na parede.
– Do que você está falando? – perguntei de volta ficando a sua frente.
– Aconteceu alguma coisa sábado quando saímos da fogueira? Entre você e a ? – ela estreitou os olhos.
– Ela te falou alguma coisa? – sondei e vi a raiva passando por sua expressão.
– Ela tinha alguma coisa para me falar? – ela franziu os lábios e sorri discretamente. Mayh odiava conversar à base de perguntas.
– Não sei, ela tinha? – devolvi.
– Argh. Eu sei que tá acontecendo alguma coisa, vocês dois estão estranhos – ela agitou o indicador em minha direção.
– Eu não tenho ideia do que você tá falando. Preciso ir ao banheiro – falei e a deixei sozinha me perguntando por qual motivo não havia dito nada a ela.

***

Como eu não ia trabalhar naquela tarde e não podia ficar em casa pra não poder correr o risco de ninguém me pegar no flagra, fui ao lugar onde costumava ir quando queria ficar sozinho. Era uma cafeteria a alguns quarteirões de onde eu morava, meu pai costumava me levar lá nos finais de tarde para que eu pudesse desenhar sem ser incomodado.
Nós sempre sentávamos na mesma mesa, a mais afastada da porta de entrada, a única bem no canto da parede e no fundo da cafeteria.
Eu ainda pedia o chocolate quente e os bolinhos de baunilha que ele pedia para nós dois e ainda podia passar horas ali desenhando sem nem ao menos perceber.
Desenhar era tão natural para mim, que mesmo que não estivesse prestando cem por cento de atenção no que estava desenhando, os traços saiam perfeitos e do modo como eu os queria.
Tentei não passar toda a minha tarde pensando em , nem que fosse em algum modo de evitá-la, tentei deixar minha mente vazia e esquecer aquela ressaca moral, que diferente da física, poderia levar mais do que um dia para passar e ser deixada de lado. Fingir que aquela noite não havia acontecido, ou pelo menos o final dela.
Fingir que eu sabia perfeitamente como havia chegado em meu quarto e deitado em minha cama e continuar fingindo que não sabia o porquê de estar tentando evitar , mas eu sabia exatamente o motivo, só evitava pensar nele.


’s POV

Estava tentando.
De verdade e com toda a minha força de vontade.
Mas quanto mais eu tentava, mais parecia distante.
Eu não conseguia gostar de Matty como eu queria gostar dele. Não importava o quanto eu o achasse bonito ou o quanto ele beijasse bem.
Não rolava.
Bufei pelo que parecia a centésima vez e ganhei um olhar de reprovação de Mayh. Ou estava ficando muito claro que eu não estava curtindo a sessão de filmes, ou estava muito clara a minha desanimação em passar todo aquele tempo com Matty.
– Vou ver alguma coisa para comer. – anunciou ficando em pé.
– Vou te ajudar – também fiquei em pé em um pulo, me livrando do abraço de Matty, que sequer pareceu se dar conta, para ser sincera.
Mayh me lançou outro de seus olhares reprovadores, mas não mexeu um músculo para sair do abraço de que dormia tranquilamente ao seu lado.
Eles tinham uma intimidade tão grande que não se acanhou em abrir os armários e a geladeira em busca de comida, e tirar dali tudo o que ele tinha direito.
Apesar da casa de Mayh estar localizada em um bairro nobre e ser relativamente grande, não havia empregados por ali. Mayh possuía somente uma empregada, que fazia as tarefas da casa, e a cozinheira da família, que ia embora logo após fazer o almoço. Na minha antiga casa sempre havia mais de um serviçal, e minha cozinheira, Mary, que também era nossa governanta, ficava em tempo integral lá, já que morava ali.
Por um instante me perguntei qual teria sido o paradeiro de Mary, para onde ela teria ido? Ela teria ido para casa de outra família? Eles estavam cuidando bem dela?
Sentia falta de seus cupcakes e chocolates quentes, de seus mingais, sua lasanha era a melhor do mundo. Céus, como eu sentia falta de tudo da minha antiga vida.
Se conversou comigo na cozinha, não tinha ideia.
Minha cabeça estava tão longe, tão em Belgravia, que tudo o que fiz foi no automático. E assim foi pelo restante da tarde. Só saí do automático quando Matty estacionou em frente à casa de e me deu um beijo de despedida.
Antes mesmo de chegar na porta, vi o carro de estacionado no mesmo lugar de sempre e por mais que lutasse contra, não conseguia evitar o frio na barriga que sempre sentia quando sabia que ele estava em casa.
Parei na frente da porta e respirei fundo antes de girar a maçaneta e abrir; então acenei para Matty, que buzinou de volta, e fechei a porta indo direto para a cozinha.
Só percebi que estava prendendo a respiração, quando soltei o ar que estava em meu pulmão no momento exato em que adentrei a cozinha e vi sentado à mesa com seu livro e caderno abertos. Senti meu coração saltar e começar a galopar em meu peito quando ele ergueu seus olhos até meu rosto. Suas bochechas ficaram levemente vermelhas enquanto ele mexia no cabelo.
Deixei minha bolsa em cima da mesa e fui até a geladeira, fazendo o máximo possível para manter minha expressão facial inalterada.
– A não veio com você? – ele perguntou suavemente.
– O levou ela para lanchar, eu acho – respondi fechando a geladeira sem tirar nada de lá. – A Megan já chegou?
– Não, ela vai ficar até mais tarde – vi ele dando de ombros. – Você pode pedir uma pizza se estiver com fome.
Olhei para mais atentamente, de certa forma meio chocada com a afabilidade em sua voz; não podia ignorar a mudança em sua postura desde o dia anterior, mas também não poderia me deixar enganar com tal fato. Fechei os olhos e neguei com a cabeça, já havia me decidido que deixaria aquela paixonite pelo filho de Megan de lado e era exatamente o que faria.
Ao invés de responder ao garoto, saí da cozinha e fui direto para o meu quarto, tinha muito o que pensar, por mais que analisar toda a minha situação fosse o que tinha feito o dia todo.
Não precisava ficar com Matty para tirar da minha cabeça, até porque desconfiava severamente que aquilo de nada adiantaria. Mas ao mesmo tempo me confortava saber que haveria alguém para dizer palavras antagônicas às de , quando ele tentasse me diminuir de alguma forma.
Já havia passado da hora também de parar de esperar que um milagre acontecesse e me mexer para saber o paradeiro de Patrick, as condições da nossa falência, se realmente havíamos perdido tudo e, o mais importante, arrumar um jeito de ganhar dinheiro.
Talvez eu devesse fazer uma lista de tudo o que estava pendente em minha vida para que pudesse começar a resolver e dar um ponto final em todas as minhas dúvidas, para finalmente começar a me reerguer.
De certa forma aquela conversa com mudou o modo como eu via as coisas, como eu via o mundo ao meu redor, as pessoas que me cercavam e a minha vida. Tanto antes da falência, como em como ela ficara depois.
Deus, nem sabia quem era a Megan.
Quer dizer, ela e Patrick eram amigos, amigos íntimos. Ele frequentava sua casa, conhecia seus filhos, havia confiado a minha guarda à ela e eu nem sabia de onde eles se conheciam.
Aqueles minutos no carro com foram de certa forma esclarecedores, não só em como eu estava cega diante dos últimos acontecimentos, mas também no modo em como o próprio tinha liberdade de me tratar do modo como queria. E havia sido eu mesma quem tinha o dado essa liberdade, eu precisava mudar tudo aquilo, precisava mudar minha situação e rápido.
O toque estridente do meu celular ecoou no silêncio que estava o quarto. Confesso que toda vez que ele começava a tocar, uma chama de esperança esquentava meu peito; esperança de que fosse Patrick. Mas como em todas as vezes, ao olhar no visor não era o nome dele que piscava. E daquela vez era o de Matty, o que me fez ignorar o aparelho em cima da cama, não por ter algo contra o garoto, mas já havíamos passado praticamente o dia todo juntos.
Graças aos céus, ele não fazia o tipo insistente e logo o quarto estava em silêncio novamente, me deixando voltar a pensar com clareza. Peguei, em minha bolsa, um caderno e caneta, faria uma lista do que deveria me atentar e mudar para melhorar minha estadia na casa de Megan.
Depois de vários minutos, uma lista enorme estava entre meus dedos, os itens que teriam que ter maior atenção estavam grifados e seriam priorizados, mesmo que eu não conseguisse realizá-los antes de todos os outros.
A maioria das coisas na lista tinha a ver com a minha personalidade, com coisas que eu deveria fazer para resgatar meu eu. Mas era meu verdadeiro eu, aquele que havia ficado perdido entre a perda da minha mãe e todo o esforço que Patrick fez para não ter que lidar com a situação.

***

Como era quase costume, a única que ainda não estava na mesa para o jantar era eu e, como Megan nunca começava uma refeição sem todos estarem presentes, ninguém havia tocado na comida ainda; e ao contrário de todas as outras vezes, estava em silêncio olhando um ponto fixo em seu prato vazio.
Eu havia tentado o dia todo, ignorar a presença dele, agir normalmente como se ele fosse uma pessoa qualquer. E na parte do tempo em que fiquei longe, que foi o dia todo, aquilo pareceu funcionar muito bem.
Já com ele perto não tinha como ignorar totalmente sua presença, eu conseguia parecer indiferente, mesmo ainda sentindo algo se agitar dentro de mim, eu ainda conseguia fingir que aquilo não me afetava.
Nunca ninguém percebeu como eu era boa em fingir.
Sempre fui muito boa em parecer indiferente com as coisas que me machucavam e não seria diferente com .
Embora eu fingisse que de repente de uma hora para outra ele não me afetava mais, por dentro alguma coisa se agitava sempre que nos esbarrávamos dentro de casa.
– Como foi o dia de vocês? – Megan perguntou quando todos já tinham se servido.
Nós estávamos habituados àquela pergunta, ela era feita toda noite. No começo eu estranhava e até ficava irritada por ela me obrigar a ouvir como havia sido o dia dela e dos filhos e, por todo o tempo que estava ali, sempre fora a que menos tinha o que contar. era o que sempre começava a contar como havia sido seu dia e na maioria das vezes era a que mais tinha coisas para falar e era a que eu menos achava entediante, só porque seus dias envolviam ballet e estúdio de dança, mas com o tempo fui me acostumando a ideia e até gostando dela.
Mas naquela noite não fez questão de ser o primeiro e quando falou, foram poucas palavras, ele não foi questionado por Megan e conclui que ela devia saber o que estava acontecendo com o filho.
Não soube exatamente o que dizer quando fui questionada sobre o meu dia, parecia que ter passado praticamente o dia todo com Matty era errado. Nós não éramos casados para passarmos o dia juntos, nem as pessoas casadas passam o dia todo junto.
– Meu dia foi praticamente igual ao de , a diferença é que foi o Matty que dividiu um sofá comigo e não o – dei de ombros quando finalizei meu discurso.
– Falando em , estou muito curiosa para saber quando é que vocês dois vão assumir um namoro. – Megan se virou para colocando os cotovelos na mesa e foi a primeira vez que pareceu sair do mundo no qual estava perdido, dando aquele sorrisinho debochado que eu odiava tanto quanto amava. Argh!
– Mãe! – ficou vermelha e baixou levemente o rosto.
– O que foi? Até onde eu sei não tem ninguém aqui que não saiba que vocês dois estão se pegando. Encontrei a mãe dele no mercado esses dias e até ela sabe que vocês estão juntos. – Megan com certeza não era uma mãe comum, não pelo menos do jeito que eu achava que seriam as mães.
Cada dia que passava em sua casa, tinha mais certeza que se mamãe fosse viva, ela seria como Megan, mais amiga que autoritária.
– Mãe, não posso pedir ele em namoro. – falou e qualquer um notaria que ela esperava que ele pedisse o quanto antes.
– E vai ficar esperando ele se pronunciar até quando? – perguntou em um tom brando, mas era perceptível o quão enfadonho ele achava aquela questão.
– Já disse que não vou pedir ele em namoro. – cruzou os braços fazendo um biquinho, o que a deixou com o semblante igual ao de uma criança.
– Você não precisa – disse atraindo a atenção para mim. – Só o chame para definir a relação – dei de ombros tentando não demonstrar o quão desentendida eu era com aquele tipo de assunto.
Eu sabia muito pouco sobre lidar com aqueles tipos de coisas, não que nunca tivesse me relacionado com meninos, mas foi diferente. Esse tipo de coisa fazia com que por muitas vezes me sentisse até de outro planeta.
– Isso, e depois diga que eu o convidei para jantar aqui. – Megan sorriu de forma maternal.
– Ok, mãe. – respondeu um pouco baixo demais.
– E você, ? – Meg se virou para mim me pegando totalmente desprevenida.
– Oi? – perguntei surpresa.
– Poderia convidar o Matty para jantar aqui – ela me sorriu da mesma forma que sorriu para a filha e fiquei apavorada.
– Ele não é meu namorado – sorri sem graça.
– Ainda não. – fez questão de dizer de forma cúmplice.
, acho que isso não depende exclusivamente da . – falou e de certa forma me senti um pouco aliviada.
Não só com sua afirmação, mas também com aquela expressão quase debochada em seu rosto, de quem não conseguia me ver em um relacionamento com Matty; mal poderia saber que concordávamos nisso. Não conseguia me imaginar em um relacionamento com o garoto, mas aquela convicção de me desafiava a provar a ele que se eu quisesse, Matty seria meu namorado sim.
Ergui uma sobrancelha em sua direção e sorri de lado, fazendo minha melhor expressão "Regina George".
– Nesse caso, não tenho tanta certeza que agora só dependa de mim – sorri com ar apaixonado para Megan, mas na verdade era teatro. – Mas quero ter certeza absoluta de que eu quero namorar alguém agora.
– Claro que só depende de você, tenho certeza que o Matty está caidinho por você. No luau ele nem deu bola para as meninas que chegaram nele, foi direto procurar você. – contava sorrindo. – Aliás, onde você se meteu? Uma hora você estava sentada perto da fogueira, na outra ninguém sabia onde você estava – percebi se movimentar desconfortável na cadeira em reação à pergunta inocente de sua irmã.
Por mais que eu tenha ficado surpresa, tentei me manter o mais natural possível em relação aquele assunto.
– Fui pegar um casaco no carro e acabei ficando um pouco por lá, nada demais – respondi colocando quanta apatia fosse possível na frase.
– Acho que devia chamar o Matty para jantar com a gente também, mesmo que não estejam namorando. Gostaria de conhecer quem está te levando e trazendo da escola. – Megan piscou e sorriu antes de se levantar, juntando os pratos, deixando claro que a conversa tinha acabado.
Me levantei depressa e saí da cozinha antes mesmo de ajudar Meg a retirar a mesa, coisa que havia virado hábito, queria evitar a possível conversa que iria querer ter sobre Matty.
Ainda não sabia ao certo o que faria em relação ao garoto.
Matty era bonito, simpático e me tratava bem, mas eu não conseguia sentir absolutamente nada por ele e nem o plano de fazer ciúmes ao me motivava a continuar com Mckibben. Nem me passava mais isso pela cabeça, só tinha deixado Matty ficar grudado em mim esse tempo todo para continuar evitando da maneira que dava.
Pelo menos já estava me adaptando a ideia de que ele não era e nunca seria para mim. Na verdade, já tinha passado da hora de parar de correr atrás daquele garoto como se ele fosse o último cookie da melhor confeitaria de Paris. Por toda a minha vida eram os garotos que viviam correndo atrás de mim, que me mandavam flores e chocolates, que me levavam para jantar, dar uma volta de helicóptero por Paris, um até tinha tentado me presentear com uma pulseira de brilhantes que valia possivelmente a casa dos , presente devidamente recusado. Eu certamente não precisava passar por aquilo por alguns beijos com , não depois de tudo o que foi dito. Eu definitivamente não precisava correr atrás de um garoto que corria para longe.

***

O ambiente escolar parecia irritantemente impaciente naquela manhã e custou até que eu pudesse entender o porquê daquilo, na verdade, só fui notar que o motivo de todo aquele alvoroço era o baile de outono, que mais tarde vim a descobrir ser beneficente, quando Mayh chegou eufórica falando sobre aquilo.
– Espero que saiba que estarmos namorando não significa que ele não tenha que me convidar oficialmente para o baile – foi uma das divagações de Mayh enquanto andávamos pelo corredor.
andava calada e pensativa ao nosso lado e observando sua expressão percebi que ela parecia insegura em relação ao baile.
– Vocês duas já tem pares, acho que sou a única que ainda não tem um – comentei tentando fazer com que externasse seus pensamentos.
– Não sei se o vai me convidar, então tecnicamente eu ainda não tenho par – falou com a voz baixa, dando de ombros.
– Prepara o vestido, claro que ele vai te convidar. O colégio inteiro sabe disso. – Mayh falou e deu um sorrisinho tímido.
– Não sei, os meninos preferem ir com as garotas mais velhas – ela respondeu e a insegurança era clara em sua voz.
– Para com isso ne, você é a última garota que tem que se preocupar com o par pro baile. Ele vai te convidar, não se preocupe. é muito romântico. – Mayh tentou acalmá-la enquanto eu apenas ouvia.
– A vai com o garoto mais bonito da escola. – disse se encostando ao lado do meu armário.
– Vou? – perguntei enquanto abria meu armário para guardar algumas coisas.
– Claro, você vai com o Matty – ela sorriu animada e há muito desconfiava que ela era muito mais empolgada que eu em relação ao Matty.
– Eu não sei se vou com ele. Nem sei se ele vai me convidar, não sei nem se vou nesse baile – falei e mesmo me policiando aquele tempo todo para não pensar em quem convidaria, àquela altura foi inevitável.
– Claro que ele vai convidar você, ele tá totalmente na sua garota. – Mayh me cutucou com o ombro e riu.
O problema era que eu não estava na dele, nem um pouco e cada vez que Matty me abraçava ou me apertava em algum canto, tinha mais certeza de que eu deveria mesmo era ficar sozinha, achar meu pai, terminar o ano letivo e dar o fora dali. Nada mais de , nada de Matty. E foi com choque que pela primeira vez doeu em pensar que possivelmente não teria mais nem Mayh.
As duas continuaram falando enquanto eu fechava meu armário e seguíamos para nossas aulas, eu tinha plena consciência de que elas falavam sobre a minha vida amorosa, mas não queria me envolver no assunto e ter que fingir que estava super animada com meu pretendente. Tudo porque eu não me sentia confortável de falar sobre aquele assunto perto da . Ficava super constrangida em ter que admitir para ela meus sentimentos, ainda mais depois dos últimos acontecimentos.
Minha despedida de foi totalmente automática, estava realmente perdida no mundo da lua e só voltei a realidade quando Mayh me beliscou.
– Ai! Tá doida? – perguntei alarmada.
– Você não está prestando atenção em nada o dia todo. O que está havendo com você? – droga, não queria que ela percebesse meu estado de espirito.
– Não está acontecendo nada – dei de ombros.
– Você está assim desde a fogueira. O que foi que aconteceu na praia? – não pude evitar que minha barriga virasse um iceberg só com a menção do episódio da praia.
Era como reviver os momentos bons, sentia meus pelos se arrepiarem com a lembrança de me tocando.
– Nada – senti a indiferença em minha voz e isso foi um sinal de alerta para Mayh.
– Nada? Conta outra, , você e o estão estranhos – de repente o caminho até a próxima aula me pareceu longo demais.
– Mas não aconteceu nada demais na fogueira – apertei meus dedos no livro que segurava, com medo de que Mayh percebesse que eu tremia.
A lembrança do caminho de volta até em casa me fazia ter vontade de gritar e quebrar algumas coisas. Fazia com que me sentisse frustrada por não ter a oportunidade de quebrar essas coisas na cara de .
– Ok – ela deu de ombros e achei que tinha finalmente desistido, claro que estava errada. – Então, você precisa levar o Matty para nossa mesa no almoço. Sentar do outro lado do refeitório com a turma dele, não surte o mesmo efeito de esfregar ele no nariz do – rolei os olhos.
– Sinceramente? Eu quero que o se foda. Nem tudo que eu faço é baseado nele, meu mundo não gira em torno desse ser abominável como vocês dois acham – perdi a linha e graças à Deus havíamos chegado a sala de aula.
Mayh entrou quieta e se posicionou na mesa atrás de mim do mesmo modo, cheguei até a pensar que ela não falaria comigo durante o restante do dia ou então, não iria tocar mais no assunto .
– Eu sei que aconteceu alguma coisa no sábado. O que quer que tenha sido, seu plano de ignorar o está sendo perfeito – me virei irritada em sua direção.
– Não tem plano nenhum, Mayh. A única coisa que eu quero é que o me deixe em paz ou me trate com o mínimo de educação. Não estou o ignorando, estou conhecendo o Matty e o mundinho dele. Deu pra entender? – ela estreitou os olhos.
– Por que não quer me contar o que aconteceu? – na verdade, eu estava com vergonha de Mayh.
Só de pensar no que ela poderia me dizer sobre o que tinha acontecido já me deixava constrangida. Ela não precisaria falar, só de imaginar seus pensamentos já me sentia péssima. E tudo que eu não precisava era me sentir daquela maneira, constrangida e inferior a nada e nem ninguém.
– Eu sinceramente não quero falar sobre isso – falei e realmente esperava que ela entendesse.
– Já sei que não foi nada bom. Mas espero que se sinta confortável em me dizer, porque eu quero saber qual foi a lambança que o fez dessa vez – rolei os olhos e virei para a frente.
Não adiantaria nada discutir com ela, nem pedir para que ela me entendesse, Mayh não iria sossegar enquanto não soubesse o que tinha acontecido.

***

Não sei exatamente onde estava com a cabeça quando chamei Matty para estudar na casa de Megan. Talvez eu não tivesse a malícia que os adolescentes pareciam ter, onde qualquer coisa virava desculpa para pegação.
Não precisei perguntar a ele para saber que ele achava que meu convite era só uma desculpa, não que não fosse, mas não para o que ele estava pensando. Quando disse a Matty que não podia ir ao shopping porque tinha que estudar, era só uma desculpa para que não precisássemos sair juntos. Só não achei que ele iria aceitar meu convite feito por pura educação, ainda mais distorcê-lo completamente.
Pelo menos não precisava fingir estar estudando e Matty beijava muito bem.
Nem percebi como a camiseta do garoto foi parar no chão da sala, quando dei por mim ele estava com o tronco nu na minha frente e tudo o que consegui ver foi seu peitoral muito bem definido a poucos centímetros de mim.
Ficamos nos beijando por incontáveis minutos, ou foram horas? Quando seus lábios não estavam nos meus, estavam no meu pescoço e era em horas como aquelas que eu me perguntava por que ainda tinha minhas dúvidas sobre Matty, sobre ficar com ele ou não.
Estava claro que não nutria nenhum tipo de sentimento pelo garoto, mas era inegável que tínhamos química.
Estava tão envolvida por seus beijos e por seu corpo, que a única coisa que conseguia ouvir eram os sons que vinham do garoto entre minhas pernas. Sua respiração alta e pesada parecia sincronizada com seus movimentos lentos e cadenciados, uma fina camada de suor cobria sua pele sob meus dedos, e suas mãos iam para lugares inimagináveis.
Nunca havia ficado de maneira tão intensa com alguém até aquele momento, claro que já havia me pegado com alguns garotos, mas ali com Matty percebi o quanto eles eram inexperientes.
Um som distante chamou minha atenção, minha mente ainda nublada demorou a assimilar que alguém teve que pigarrear mais de uma vez para que finalmente notássemos que não estávamos mais sozinhos.
Automaticamente minhas mãos afastaram Matty a uma distância necessária para que conseguisse me levantar e abaixar minha blusa. Em minha mente alarmada a frase “Meg nos pegou” foi a única coisa que consegui registrar.
Até perceber que era muito pior, e que não era Megan, e sim seu filho mais velho, que havia acabado de tornar meu amasso um momento muito constrangedor.
mantinha os braços cruzados e as sobrancelhas juntas encarando Matty como se pudesse explodi-lo com seus olhos, que formaram uma fenda quando se voltaram para mim.
Respirei fundo tentando me armar para qualquer ofensa que pudesse sair de sua boca e convicta de que Matty me defenderia do jeito que fosse necessário.
– Que merda é essa? – perguntou olhando de mim para Matty, que ainda estava sem a camiseta, porém seu peito nu não me chamava mais atenção.
– Não é nada – falei antes que Matty pudesse abrir a boca.
– Não parecia nada – ele replicou desacreditado.
Me levantei arrumando os cabelos e peguei a camiseta de Matty que estava no chão, entregando-a a ele para que se vestisse logo.
– Estávamos estudando – dei de ombros tentando manter minha postura desinteressada. riu, fechou os olhos inclusive.
– Estavam estudando anatomia ou tentando contrariar a lei da física e provar que dois corpos ocupam sim o mesmo lugar? – ele perguntou debochado e rolei os olhos.
– Acho que isso não é da sua conta – falei enquanto Matty colocava a camiseta e se levantava se posicionando ao meu lado.
– Passa a ser da minha conta quando vocês fazem isso na minha casa e no meu sofá.
– Foi mal aí cara, a gente se empolgou um pouco. – Matty se pronunciou pela primeira vez.
– É, e o Matty já está indo, de qualquer maneira – falei empurrando o garoto pelo ombro que seguiu meio relutante até a porta.
O garoto ainda tentou me agarrar na porta de entrada, mas cortei as asas dele rapidamente. Quando fechei a porta, respirei fundo fechando os olhos. Iria direto para meu quarto para não ter que encarar e não ter que aturar qualquer gracinha que ele pudesse fazer. Meus planos frustraram quando me virei para seguir meu destino.
O garoto estava parado atrás de mim, com os braços cruzados e a, que seria talvez, a expressão mais carrancuda que já tinha visto em seu rosto.
– O que foi agora? – perguntei me aproximando.
– Não sou obrigado a ver isso. – gesticulou com as mãos.
– Não é um pouco cedo para você estar em casa? – coloquei as mãos na cintura.
– Não interessa, uma das regras aqui é não pode trazer namorado pra "dormir" em casa – ele ergueu uma sobrancelha e fez aspas com os dedos.
– Não trouxe namorado nenhum pra "dormir" aqui – imitei seu gesto.
– Porque eu cheguei – me interrompeu.
– Não precisa se preocupar com as regras, o Matty nem é meu namorado – debochei .
– Da próxima vai para a casa dele. – estava claramente nervoso.
– Pode deixar – pisquei e fui em direção às escadas, subi no primeiro degrau e me virei para ele. – Até porque, o sofá dele deve ser infinitamente mais confortável – falei e voltei a subir os degraus.
Havia desistido não só de ter , mas também daquelas brigas tolas onde eu era a única que saía perdendo em todos os aspectos. Ele poderia contar o episódio para a mãe dele, mas sinceramente não tinha receio nenhum.
Era uma garota de dezessete anos com os hormônios à flor da pele, com um pretendente gostoso sozinha em casa, o máximo que Megan faria seria ter uma conversa sobre sexo comigo.

***

Mesmo tendo uma quantidade enorme de vestidos em meu guarda roupa, estava feliz em poder estar em uma loja escolhendo um vestido para o baile de primavera. Não era como nas lojas que eu estava acostumada, onde, se eu quisesse, um estilista desenharia um vestido na hora para mim, ou modificaria o vestido que eu escolhesse, mas só o fato de Megan ter se importado em comprar algo novo para que eu fosse ao baile já me deixava feliz. Mesmo que eu ainda não soubesse se realmente ia.
Estávamos na segunda loja, e eu já havia descartado todos os vestidos, mas esperávamos . Estava um pouco surpresa por ela não ter tocado no assunto “eu e Matty se amassando na sala”, cheguei a desconfiar que nem sequer tinha contado a ela sobre o episódio.
– Sabe, esses dias me dei conta que não sei de onde você e papai se conhecem – disse suavemente enquanto Megan vasculhava as roupas nos cabides.
– Meu esposo trabalhou com seu pai – ela sorriu. – E depois que ele faleceu, eu trabalhei um tempo na empresa do seu pai – ela pareceu ver algo que gostava, mas logo voltou a vasculhar.
– E por que saiu da empresa? – perguntei interessada, até onde eu sabia a exportadora de papai tinha plano de carreira.
– Eu adorava trabalhar naquele lugar, mas sempre tive a sensação de que estava ali não por merecimento e sim por amizade. Então fui buscar novos horizontes, procurei um ambiente onde eu sentia que tinha que ser útil para me manter no emprego entende. Acho que eu gosto de desafios – ela dizia tudo sempre sorrindo.
– E você faz o que mesmo? – fiquei envergonhada por perguntar aquilo.
– Sou formada em contabilidade e trabalho em um escritório – nem imaginava que Meg era contadora.
– Isso é muito bacana. E seu marido, fazia o que na empresa do papai?
– Era chefe da segurança, mas seu pai já o conhecia, ele era filho da governanta da sua avó – aquela informação me pegou desprevenida.
– Você é nora da Nona? – certeza que Megan viu toda a surpresa em meus olhos.
Automaticamente comecei a vasculhar minhas lembranças na casa da vovó atrás de alguma em que o neto de sua governanta poderia estar. Mas mal conseguia me lembrar do rosto de Nona, quem dirá de uma criança chamada . E ele, sabia que sua avó já tinha trabalhado na casa da minha? Provavelmente sabia muito mais detalhes sobre aquilo que eu.
– Você se lembra dela? – ela sorriu com carinho. – Você era tão pequena quando ela se foi.
– Sim, lembro – na verdade, a única memoria que tinha dela, era do dia do enterro de mamãe.
A governanta de vovó havia feito cookies de chocolate e levado até o quarto junto a um copo de leite para mim. A única coisa que sabia dela era seu nome e que ela fazia os melhores cookies e que vovó a adorava.
– A perda de John foi demais para ela – por sua expressão percebi que também havia sido demais para ela.
Tive uma curiosidade enorme de perguntar várias coisas à Megan, mas me segurei, não era o tipo de assunto que conversamos em uma loja de vestidos.
– Seu pai ajudou muito a todos nós e eu sou muito grata à ele por isso – ela sorriu com ternura.
– Mãe, podemos ir em outra loja? – apareceu antes que eu pudesse perguntar como meu pai os havia ajudado.
Sim eu poderia ter perguntado na frente de , se ela parasse de falar sobre o baile e o vestido perfeito, enquanto minha curiosidade ficava cada vez mais aguçada.
Ao menos eu sabia estar no caminho certo com Megan e não precisava perguntar tudo de uma vez, aos poucos eu poderia ter detalhes mais ricos e até quem sabe saber o paradeiro de Patrick.
Passamos o restante da tarde visitando todas as lojas onde fosse possível encontrar vestidos e acabamos voltando à primeira loja para pegar os primeiros que tínhamos gostado, e depois fomos para a praça de alimentação terminar a noite.

***

Os preparativos para o baile já tinham começado e mesmo que aquele tipo de organização fosse algo que eu até gostasse de fazer, me mantinha afastada. Não era como se estivesse muito ansiosa para ir ao baile, mesmo sem saber se iria. O dia do baile ainda estava um pouco longe, mas as meninas já estavam sendo convidadas, entre elas Mayh que recebeu vários bilhetinhos apaixonados de e passou o dia todo saltitante dizendo como era sortuda por tê-lo como namorado.
Eu queria partilhar da mesma animação que ela, mas tinha preocupações maiores que como Matty me convidaria para o baile de Outono, se é que ele faria isso.
– Estou pensando em fazer um esquenta lá em casa, mas acho que vou esperar pra ver quem e vão convidar. Seria tão mais fácil se o te convidasse – ela bufou e rolei os olhos.
– Não iria no baile com ele nem se ele me implorasse – e realmente não iria, não podia negar o quanto ele mexia comigo, mas não iria me deixar levar por meus sentimentos bobos que só me faziam ainda mais boba que eles.
– Certo – sua expressão mudou totalmente. – , eu realmente gostaria de saber o que foi que aconteceu entre você e o . Isso tá começando a me preocupar, vocês não querem dizer o que aconteceu e parece que foi uma coisa tão grave – ela tentou parecer despreocupada, mas falhou gloriosamente.
– Grave? Mayh, pelo amor de Deus, a forma como ele me tratava desde sempre é algo preocupante, eu só cansei de deixar achar que pode falar o que quiser e sair como se nada tivesse acontecido, como se eu não tivesse sentimentos. Ele é um hipócrita – acabei me alterando e ela arregalou os olhos.
– Por que não quer me dizer o que aconteceu? Pelo jeito foi pior do que eu imaginei né?!
– Porque eu não quero nem me lembrar de como ele é babaca – dei de ombros. – Eu sei que não deveria, mas estou me sentindo muito mal com tudo isso sabe. E é ainda pior saber como a opinião dele me incomoda e o quanto ele pode estar certo. Mas ainda assim ele não é ninguém para me tratar assim, eu nunca fiz nada pra ele – meus olhos estavam cheios de lagrimas e me odiei por isso.
, vamos conversar sobre isso. – Mayh me abraçou pelos ombros e dei graças à Deus por todos já terem saído da sala de aula.
– Eu tenho vergonha de falar sobre isso, porque por mais que eu tente e que eu queira eu sei que ainda tem algo aqui por ele – coloquei a mão em meu peito esquerdo.
– Não precisa ter vergonha, infelizmente nós não mandamos nos nossos sentimentos e não estou aqui para te julgar, estou aqui para te dar o apoio que precisar e para xingar o de todos os nomes possíveis – sorri levemente a deixando um pouco mais confiante. – Então, o que foi que aconteceu depois do luau?
– Vamos pra sua casa? – ela concordou com a cabeça e fomos para o estacionamento.
Talvez fosse bom falar sobre aquilo, talvez me fizesse bem colocar todos aqueles sentimentos para fora e parar de revirá-los dentro de mim.
Seria bom ter alguém para me ouvir porque queria me ajudar e não apenas saber da fofoca.
A parte ruim era ter que relembrar aqueles minutos, e isso me fez ver como tudo fora registrado nos mínimos detalhes em minha cabeça.



Vinte e Um

Tentei não me preocupar com o garoto ao meu lado e manter toda a minha atenção na estrada. Gostaria de dizer que não olhei nem uma vez sequer para o lado, mas claro que estaria mentindo.
passou os dez primeiros minutos com os braços caídos no banco, a cabeça encostada na janela mirando o horizonte. Perdi a conta de quantas vezes mordi a língua para não dizer qualquer coisa, não queria parecer preocupada.
Bati meus dedos no volante pelo que poderia ser a milésima vez e só percebi a olhadela que dei em direção ao menino ao meu lado, quando meus olhos se voltaram para a escuridão à minha frente.
– Você está bem? – Fechei os olhos brevemente me xingando por ter aberto a boca.
Pelo canto do olho percebi seu movimento preguiçoso, como se tivesse certa dificuldade em se mover. Ainda assim se virou em minha direção, com certo esforço mantive meus olhos na estrada.
– Não precisa fingir que se importa – sua voz era despreocupada e dei de ombros.
– Só perguntei se está bem, não quer dizer que me importo – escutei seu riso baixo.
– Claro que não. Você não se importa com ninguém além de você – ele disse e eu estalei a língua.
– Já vi que está ótimo – minha voz saiu ácida, exatamente do jeito que eu queria.
– E que motivo eu teria para não estar? – ele respondeu e decidi que era melhor que eu o ignorasse.
Sabia que ele iria me tratar mal, não havia motivo para que eu prolongasse aquele diálogo entre nós. Se estivesse em meu carro, teria ligado o rádio só para fingir que aquele silêncio fúnebre não estava me incomodando. Mas como o carro não era meu e o dono fazia questão de deixar claro que não ia com a minha cara, preferi não mexer.
– Você achou que ficar com o Matty me incomodaria? – perguntou e minha única reação foi rir.
Rir de verdade.
Tenho certeza de que meu riso parecia irônico ou debochado para , já que até para mim pareceu. Mas eu sabia que estava rindo de puro nervoso.
– De onde foi que você tirou esse absurdo? – perguntei descrente, torcendo para estar tendo a melhor atuação da minha vida.
– Vai saber o que você fantasia nessa sua cabeça – ele disse e o olhei em tempo de vê-lo dar de ombros.
O que a Mayh fantasiava naquela cabecinha insana dela.
Engoli todo meu nervosismo e ergui a cabeça para responder.
– Eu é que não sei o que se passa na sua cabeça, . Francamente – neguei com a cabeça e ri. – Quer saber? Você não é o centro do universo. Você é gatinho, beija bem e não vou negar que me sinto atraída por você. Mas adivinha? O Matty também, e adivinha de novo? Ele não é um escroto vinte e quatro horas por dia. Então, se eu tivesse que fantasiar com alguém, seria com ele e não com você – minhas mãos estavam trêmulas e o olhei de cima, com o queixo travado. ergueu uma sobrancelha.
– Se ele fosse tão maravilhoso, você ficaria só com ele, – rolei os olhos.
– Não, meu bem. Se você fosse tão maravilhoso, eu não ficaria com ele.
– Tanto faz – ele cruzou os braços e voltou a olhar para fora do carro.
Sua postura carrancuda me dava certa satisfação, por mais que eu soubesse que aquela era no fundo uma disputa de ego com Matty e não de quem eu queria mais.
– Sabe o que eu pensei na primeira vez que te vi? – ele disse após um longo e interminável momento em silêncio. – Eu pensei que você era a garota mais bonita que eu já tinha visto – eu não queria, mas meu coração disparou. – Quando soube que você ia passar um tempo com a gente, eu estava realmente ansioso pra te conhecer, saber se você era tão delicada e gentil como parecia – ele suspirou.
Não foi um suspiro apaixonado, nem nada romântico, foi algo cansado.
– Aí você abriu a boca – ele completou e riu discretamente. – E eu realmente achei que você estava só chateada com toda a situação, com os problemas do seu pai, em ter que sair de casa... essas coisas. Então descobri que você estava realmente irritada, mas só era com o fato de estar no lugar onde você estava. Você não estaria tão chateada se estivesse na casa de uma de suas amigas de Belgravia e isso destruiu o modo como eu te via. Você não estava preocupada com os problemas do seu pai, acho que não preciso dizer com o que estava realmente preocupada, você já sabe. Desculpe por todas as vezes em que eu te fiz se sentir mal, se é que alguma vez você tenha se sentido. Mas pra mim, você é absolutamente vazia. Incapaz de sentir e oferecer alguma coisa boa.
Minhas mãos apertavam o volante e meu maxilar estava travado contendo a vontade que eu tinha de chorar.
Tinha vontade de chorar porque estava certo.
Estava realmente chateada quando cheguei em sua casa, mas era única e exclusivamente por estar ali. Estava brava por papai ter me deixado para viver com pessoas pobres e não por ter me deixado. Estava tão preocupada vendo o meu padrão de vida cair bruscamente, que nem ao menos me perguntei o que estava acontecendo.
Olhei novamente para , que agora apoiava a testa no vidro e quis brigar com ele.
Ele não tinha o direito de dizer que eu era vazia, ele nem me conhecia para dizer tal barbárie sobre mim.
Enchi meu peito, pronta para despejar nele toda a frustração acumulada durante meses, ou talvez anos, em meu peito.
– Pode parar o carro? – disse com a voz arrastada assim que abri minha boca para começar a gritar dentro do carro. – Estou enjoado – disse sereno e atendi seu pedido imediatamente, não queria que ele vomitasse ali dentro e ter que lidar com aquilo.
apenas abriu a porta do carro, colocou seus dois pés para fora se debruçando, e tudo o que eu podia ouvir era o som do seu vômito.
Encarei o nada enquanto o garoto colocava possivelmente as entranhas para fora, mas eu não me importava. Ele poderia cair de cara no próprio vômito que eu não me importaria. Estava com raiva, raiva por me ver de uma forma tão rasa, por nem ao menos ter se esforçado para saber se eu realmente era por dentro como minha casca aparentava. Casca essa que agradava seus olhos, caso contrário ele não ficaria comigo. Engoli aquela vontade de chorar, constatando que estava exatamente como ele havia dito que me via: totalmente vazia.
Percebi que ele se remexeu de todos os lados, mas não vi o que ele fez. Então a porta do carro bateu e escutei a voz de ao fundo dizer que podíamos ir.
Dirigi em completo silêncio.
Se voltou a falar comigo, eu nem imagino.
O caminho foi longo e não trocamos nenhuma palavra sobre nada e não voltei a olhar para , não era como se ele fosse minha pessoa preferida no momento.
Por mais que ele pudesse estar certo, não tinha o direito de tirar conclusões sobre o que eu sentia ou não, sobre o que eu pensava ou sobre o que eu poderia oferecer. Ele não me conhecia e isso parecia estar muito claro dentro daquele carro.
me via como um bibelô, com o qual poderia brincar a qualquer momento.

Bati a porta do carro e caminhei até a entrada, e só quando peguei as chaves para entrar, notei que não me seguia, ele nem ao menos tinha saído do carro. O encarei através do para-brisa e o menino estava com a cabeça encostada no banco e seus olhos estavam fechados.
Bufei rolando os olhos enquanto fazia o caminho de volta.
Abri a porta com força e o chacoalhei violentamente.
! Acorda. – quase gritei e o garoto sequer se mexeu. Estaria ele morto?
Arregalei meus olhos e coloquei um dedo embaixo de seu nariz para ter certeza que respirava, o chacoalhei mais uma vez.
Deus, como eu o colocaria para dentro? O deixaria ali, na rua?
Voltei para a casa e fui até a cozinha, peguei um copo com água e voltei para o carro. Ele poderia ficar muito irritado; na verdade se ficasse, eu ficaria muito satisfeita. Joguei a água em seu rosto com mais brutalidade que o necessário e até ri quando ele pulou, abrindo os olhos assustados.
– Que porra?! – falou passando as mãos no rosto.
– Quer ficar pra fora? – perguntei colocando as mãos na cintura.
Ele me olhou com os olhos pequenos e vermelhos antes de colocar os pés para fora e quase caiu de cara no chão quando se levantou para sair do carro.
– Quer ajuda? – perguntei contrariando a minha vontade.
Ele me olhou ainda com certa dificuldade e só acenou positivamente antes de se segurar na porta do carro.
passou o braço por meu ombro enquanto mantinha o meu em sua cintura, seu cheiro que geralmente era bom, estava mascarado por um cheiro azedo de bebida alcoólica terrível. Tropeçamos até seu quarto e o ajudei a se sentar na cama. tirou o tênis e depois o casaco que estava molhado e a camiseta saiu junto. Fiquei orgulhosa por conseguir manter meus olhos em seu rosto e não os descer para seu peito nu. Percebi que já estava a tempo demais ali parada e resolvi me retirar.



– E quando eu finalmente estava escondida no meu quarto, me senti perdida. De uma maneira que nunca me senti antes. Depois eu me senti culpada, muito culpada por tudo o que eu tinha sido a minha vida inteira e eu quis muito chorar – ri, mesmo que não tivesse nem um pouco de vontade. – E então eu percebi que tudo o que eu estava sentindo não tinha qualquer relação com o . Ele só tinha me tratado como nada, mesmo que antes disso ele tivesse me feito acreditar que eu poderia ser especial. E o modo que ele me trata só tem algum efeito se eu permitir que tenha. E eu perdi a pessoa mais importante da minha vida e tô aqui, nem tão firme e forte, mas sobrevivi e sempre de cabeça erguida. E eu voltei a me sentir vazia, talvez não do jeito que ele acha que eu seja. E acordei com uma vontade enorme de me encher de coisas boas, tentar reatar a relação com meu pai e estreitar minhas relações com quem se importa comigo. E isso exclui , porque está na cara que ele não quer estreitar nada comigo. Aliás, ele finge que não quer – suspirei dando de ombros. – Enfim, ele acabou me ajudando a descobrir ao que eu devia dar prioridade na minha vida.
– Uau – ela disse olhando fixamente para mim. – E assim, claro que você ficou com raiva, até eu fiquei com toda essa insensibilidade dele, mas você não sente mais nada?
– Você sabe que sim, mas estou tentando me concentrar em outras coisas no momento e por enquanto o Matty está me sendo útil, mas logo, logo, vai levar cartão vermelho.
– Você está com a mesma expressão que te via todos os dias quando você entrou no colégio – ela fez uma careta.
– Isso só é ruim para os meus inimigos – sorri de maneira perversa.
– Já sei que o não está na lista, por mais raiva que você esteja dele – foi minha vez de fazer careta. – Qual é? Quero ver se mesmo depois de tudo isso, porque vamos juntar tudo, se você ainda não vai acabar grudada na boca dele e depois ficar chorando de raiva e magoada por aí – ela disse e sorriu.
– Mayh, se o seu querido amigo quiser voltar a beijar esses doces lábios de novo, – toquei minha boca, – e ele vai querer, vai ter que diligenciar muito para isso.
– Vai ter que o quê? – perguntou confusa e rolei os olhos.
– Se empenhar, Mayh, vai ter que me tratar como a princesa que eu sou – joguei meu cabelo para o lado. – E ainda assim, irei pensar no caso dele – ela quem rolou seus olhos.
– Ok, na teoria está tudo muito lindo, mas quero só ver se na pratica ele vai ter que diligenciar tanto assim.
– De que lado você está? – perguntei séria.
– Desde que começou essa história entre você e ele? Do seu, e você sempre soube. Só que eu sei que, apesar de tudo, você gosta dele e nem adianta negar, e você vai acabar caindo nos encantos do , sei porque já estive no seu lugar – ergui uma sobrancelha. – Não por ele, pelo . Você lembra o que eu passei? E olha onde eu estou, eu devia ter sido muito mais difícil – se lamentou.
– Vocês têm toda uma história e tenho certeza que foi a única vez que ele vacilou com você.
– Na verdade, só estamos juntos porque eu o amo e acredito que todas as pessoas merecem uma segunda chance. Eu sempre dou uma chance para que a pessoa possa me mostrar que nem sempre o que vemos é o que ela é – ela deu de ombros e quis abraça-la.
Mayh era uma das únicas pessoas que eu conhecia de toda aquela alta sociedade, que tinha um coração realmente puro e eu achava linda toda sua bondade e humildade.
Arregalei os olhos. Céus, eu achando bonito humildade? Alguém me interna, por favor.

Ok!
Eu iria ao baile de outono.
Na verdade, não era uma novidade para mim e nem para ninguém, todos meus amigos e até o colégio já esperava que Matty fosse me convidar. E ele realmente me convidou, mesmo que seu convite não tenha sido nada criativo como os dos outros garotos da escola, eu tinha um par. Não que estivesse animada, longe disso.
Pela primeira vez na minha vida eu não estava esperando por um baile desesperadamente, não estava ansiosa para ser a garota mais bonita do baile e muito menos esperançosa de que seria escolhida a rainha da noite.
Simplesmente porque não iria com quem eu queria e odiava admitir isso até para mim mesma. Por isso nunca admitia em voz alta. Definitivamente senti meu pobre coração ser estraçalhado quando ouvi uma menina do terceiro ano comemorar no banheiro que tinha a convidado para o baile. E segundo ela havia sido muito romântico e ele definitivamente devia nutrir uma paixão secreta por ela.
Por mais que o bichinho do ciúme tenha deteriorado meu coração já muito ferido, respirei fundo e saí da cabine do banheiro com meu nariz perfeito erguido e a expressão inabalável de sempre. Claro que não saí do banheiro sem dar uma boa olhada na garota que falava emocionada como seu baile seria perfeito e já escolhia os nomes dos quatro filhos que teria com . Quase rolei os olhos.
Queria me sentir a garota mais bonita do universo olhando a garota ruiva de cabelos encaracolados, mas tinha que admitir que ela era muito bonita e que aquelas malditas sardas que eu odiaria ter, a deixavam ainda mais charmosa. Para minha sorte, quando saí do banheiro, Matty estava lá, pronto para me dizer como eu era maravilhosa.
Mas antes mesmo que pudesse ir ao baile, Megan exigiu que nossos acompanhantes jantassem conosco, para formalizar as coisas.
Por mais que não quisesse formalizar nada com Matty, não queria perder meu par para o baile, ainda mais depois de ver o par de .
– Estou muito nervosa! – entrou no meu quarto sem bater chacoalhando as mãos visivelmente desesperada.
– O que você aprontou? – perguntei deixando o livro de lado.
– Nada – respondeu se abanando com as mãos.
– Nada? Não é o que parece – cruzei os braços.
– Eu não sei o que vestir, não sei o que falar, muito menos como devo me comportar nesse jantar. , estou desesperada – ela falou tudo em uma rapidez impressionante enquanto andava de um lado para o outro.
Me levantei e caminhei em sua direção e a segurei pelos ombros.
– Se acalma – falei no meu tom de voz mais suave. – Respira fundo, uma coisa de cada vez – ela acenou positivamente com a cabeça respirando fundo repetidas vezes.
– Vou tentar. – fechou os olhos.
– Certo, vamos achar uma coisa para você vestir. Como vamos jantar aqui mesmo, você tem que estar apresentável, mas não muito elegante – disse indo até a porta puxando a garota pela mão.
Fomos até seu quarto e enquanto andava de um lado ao outro, eu vasculhava seu guarda roupa. Não que ela não tivesse roupas bonitas, mas queria ter o cuidado de escolher o modelo perfeito.
Acabei optando pelo vestido manga longa de renda lindíssimo que ela tinha e que eu com certeza usaria em um chá em Belgravia.
– Você quer que eu coloque vestido para ficar em casa? – perguntou olhando a peça em cima da cama.
– Não me venha dizer que vestido é para sair. Seu namorado vem jantar aqui – a repreendi antes mesmo que ela começasse com todo aquele papo de pobre que tem roupas de sair e ficar em casa. – Tenho um peep toe que vai ficar lindo com esse vestido – sorri e fez uma expressão de total pânico.
– Aí você já quer demais, tenho uma sapatilha que super combina com esse vestido – eu até ia argumentar, mas quando abri minha boca ela voltou a falar. – Não tem nada que me faça colocar salto para ficar em casa – dei de ombros e me sentei na cama.
– Você sabe se maquiar e arrumar seu cabelo. Vamos ao próximo item. Você não precisa se preocupar com o que falar, você e já estão acostumados um ao outro. Seja só a mesma de sempre – sorri confiante.
– Nós ainda não definimos a relação. Não tive oportunidade de conversar com ele sobre isso e quando tive a oportunidade não tive coragem, fiquei com vergonha – ela se sentou ao meu lado com uma de suas pernas em cima da cama para que ficasse de frente para mim.
– Não tem porque você ficar com vergonha – peguei em suas mãos tentando dar apoio.
– Sei lá, eu penso que se ele quisesse namorar, ele simplesmente falaria sabe – ela sorriu triste.
– Isso é verdade – soltei e me arrependi em seguida vendo a expressão de desmoronar ainda mais. – Não. Olha, não é nada disso. Nós estamos erradas, garotos também ficam inseguros. Acho que vocês têm intimidade suficiente para conversar sobre a relação de vocês – sorri tentando encorajá-la.
– Tenho medo.
– Medo de quê? Que ele diga que vocês estão só saindo? Porque disso você já sabe. Essa é a posição atual de vocês. Não tem o que temer – apertei levemente sua mão.
– Você está certa, quem sabe hoje eu converso com ele. Acho que não vai ter outro jeito mesmo. Tô até vendo o desastre que mamãe e vão fazer – ela se levantou indo até sua penteadeira.
– Não acho que deva se preocupar, eles já conhecem o – tentei não ficar desconfortável falando de .
às vezes se comporta como se fosse meu pai, sabe? – ela deu de ombros.
– Mas ele não é – respondi um pouco seca, mas só por estar falando a verdade.
– De uma forma meio esquisita e que talvez você não entenda, eu meio que o vejo dessa forma – ela tinha razão e eu não entendia e ela dever ter lido isso em minha expressão. – Quer dizer, eu não me lembro do nosso pai. Na verdade, só sei como ele é pelas fotos e o sempre esteve ali, a mamãe trabalhava e fazia faculdade e ele sempre estava ali para mim, sabe. Ele cuidou de mim – ela sorriu carinhosamente. – O é tudo pra mim – sua demonstração de afeto a , me sufocou.
Todos à minha volta pareciam amar um que eu jurava que não existia e que jamais conhecera. Um garoto sensível e carinhoso que eu nunca havia visto, apenas ouvido falar. O quarto de pareceu ainda menor.
– Bela história – minha intenção não era ser grossa nem insensível. – Vou escolher minha roupa – disse me levantando e saindo dali o mais rápido possível.
Depois de escolher um vestido um pouco acima do joelho e um sapato de salto fino, mas não muito alto, fui em direção ao banheiro para começar a me arrumar para o jantar. Contra a minha vontade fiz uma comparação medíocre em minha cabeça de como seria esse jantar em minha casa em Belgravia e ri comigo mesma ao constatar que se estivesse em Belgavria, nem sonharia que aquelas pessoas existiam. Até tentei me satisfazer com esse pensamento, mas não conseguia mais aceitar uma vida onde aquelas pessoas não existiam. Só de imaginar tal situação me senti vazia, como se algo faltasse.
Foi embaixo daquele chuveiro trevoso de uma casa pequena e simples onde moravam pessoas Hmildes e que tinham apenas o suficiente para viver e que ainda assim me acolheram, que entendi o que o dinheiro não poderia comprar.
Nem todo o dinheiro que herdaria de papai poderia me comprar amigos como e Mayh, e pela primeira vez depois da nossa falência me senti de certa forma agradecida.
A pobreza havia me deixado piegas, era a única explicação para aqueles tipos de pensamentos.
O jantar já estava pronto, a mesa já estava arrumada e e Megan estavam se aprontando. Eu ajudava Meg em alguns afazeres, mas em um jantar que seria oferecido ao meu suposto futuro namorado, óbvio que eu só gastaria meu tempo me emperiquitando.
Ficar no quarto era chato demais, ficar no de estava fora de cogitação, não gostava de ver as pessoas se trocando. Então fui para a sala, mesmo estando no sofá mexendo incansavelmente em seu celular, muito provavelmente conversando com seu par do baile.
Peguei o controle da tv e me sentei no sofá vazio, tentando evitar o perfume que vinha do garoto. Fiz certo esforço para me concentrar na tv enquanto trocava os canais enlouquecidamente, ignorar não era uma tarefa tão fácil quanto podia parecer, mas me orgulhava por estar tendo sucesso nos últimos dias.
– Hm, vai ter algum baile de gala por aqui e eu não estou sabendo? – tive que olhar para o garoto.
Foi a primeira vez que ele usou de ironia comigo em uma semana, assim como foi a primeira vez que o olhei de verdade naquele tempo. Foi como levar um soco no estomago.
Não me lembro de já tê-lo achado tão deslumbrante antes. Bonito? Sempre. Agora, daquela forma, quando você sente vontade de pular no pescoço da pessoa, definitivamente a primeira vez.
Eu só podia estar com a síndrome do cachorro vira lata.
– Não tenho culpa se no meu guarda-roupas só tem grife – respondi mantendo minha voz neutra.
– Ninguém liga pra grife, . Ninguém nem sabe se isso que você tá usando é realmente grife – ele rolou os olhos rindo e tive vontade de jogar o controle remoto na cabeça dele.
– Pobre realmente não sabe reconhecer um Gucci, nunca sequer colocou o dedo em um – depositei a maior quantidade possível de arrogância em minha voz.
– Como se você tivesse absoluta certeza de que você já colocou suas mãozinhas em um. Além do mais, ninguém liga – falou e se levantou.
– Aparentemente você liga, já que está tão incomodado – descruzei as pernas só para cruzar de novo.
riu e andou em minha direção, engoli seco tentando manter meu queixo erguido e meus olhos em seu rosto com a expressão impassível.
– Se liga, . Ninguém liga para suas roupas, nem pra você – sua expressão não condizia com suas palavras.
– Você parece muito incomodado com o que eu visto – ergui uma sobrancelha sem deixar de encará-lo, mesmo que sua beleza me afetasse de uma forma nada saudável.
sorriu perverso, sua expressão não continha nada mais que malícia e senti os pelos de meu braço se arrepiarem. Ele abaixou o tronco com as mãos apoiadas no encosto do sofá me deixando praticamente presa entre o móvel e seu corpo.
– Talvez elas me incomodem mesmo – engoli em seco dizendo a mim mesma que ele não quis dizer o que achei que queria com aquela frase. não teria tamanha audácia.
Não percebi que minhas unhas estavam quase enterradas no estofado, enquanto via os lábios rosados e cheios se aproximarem; meu coração estava acelerado de uma forma absurda, enquanto pedia internamente que ele não notasse todo meu nervosismo só pela minha respiração que ficava mais pesada. Quando abri minha boca para dar qualquer resposta ao garoto na minha frente, me dei conta que ou eu fazia alguma coisa, ou ele me beijaria ali naquela sala. Meu coração sacolejou animado gritando: sim, por favor, me beija. Enquanto meu cérebro implorava para que eu fizesse alguma coisa e impedisse aquela tragédia acontecesse.
– Fique longe de mim – disse virando o rosto no momento exato em que seus lábios iriam atingir os meus. Estavam tão perto que seu beijo tocou a pele do meu rosto, fazendo meu sangue ferver derretendo todas minhas terminações nervosas.
Estávamos tão perto que pude perceber que ia dizer alguma coisa, mas a campainha atrapalhou seus planos fazendo um alívio imenso se espalhar dentro do meu peito e suspirei aliviada quando ele se afastou bruscamente, por um reflexo me levantei e fui rapidamente até a porta. Tudo para ficar o mais longe possível de e seu perfume que me embriagava.
Quando cheguei na porta ajeitei o vestido e o cabelo antes de abri-la, e encontrar um segurando um buquê de rosas e um sorriso imenso no rosto, que vacilou visivelmente quando viu que não era .
– Boa noite – ele disse coçando a cabeça levemente sem graça.
– Boa noite – cumprimentei abrindo um sorriso. – Bonitas flores – comentei olhando as rosas vermelhas achando seu gesto muito fofo. – Entra – dei um passo para o lado, abrindo espaço para que o garoto pudesse passar.
Ele me deu um beijo no rosto antes de seguir para a sala, onde cumprimentou com dois tapas no ombro. Os dois engataram uma conversa sobre futebol e preferi prestar atenção na tv, já que não entendia bulhufas do que os dois diziam.
Até que finalmente e Megan desceram e vieram cumprimentar , que deu um beijo no rosto de cada uma. ficou toda vermelha quando recebeu as flores e foi até a cozinha colocá-las na água, enquanto nós permanecemos na sala. Megan fez todas aquelas perguntas educadas à , que respondeu tudo na maior tranquilidade e sempre deixando visível a intimidade que tinha com ela. Olhei no relógio que ficava na sala e constatei que Matty estava dez minutos atrasado, uma deselegância sem tamanho.
Mais cinco minutos depois, totalizando quinze minutos de atraso a campainha tocou fazendo com que suspirasse aliviada, estava começando a sentir fome.
Megan fez questão de recepcionar Matty e mesmo não abrindo a porta para ele, fui até o minúsculo hall de entrada recebê-lo. Não podia negar que Matty era um rapaz muito bonito e que o azul combinava perfeitamente com seu porte e parecia iluminar seu rosto. Ele sorria de forma gentil para Megan, que se apresentou no ato.
Matty também carregava um buquê de rosas, o que me deixou bem animada, já não me lembrava há quanto tempo eu não recebia flores.
– Boa noite – cumprimentei dando dois passos em sua direção já com as mãos meio estendidas para pegar minhas flores.
Mas Matty deu um beijo em meu rosto e afastou as flores para longe de mim, o abracei disfarçando.
– São para a senhora – ele disse estendendo o buque à Megan quando me afastei, ela ficou visivelmente sem graça, mas pegou o arranjo enquanto o agradecia de voz baixa.
Sem querer olhei direto para , que estava levemente vermelho e parecia que iria explodir em risadas a qualquer momento.
– Vamos jantar? – Meg disse ainda um pouco nervosa por ter recebido flores do meu pretendente e caminhou direto para a cozinha.
Sorri para Matty depois de me recuperar do choque ao constatar que ele fazia questão de agradar minha tutora, achando que isso poderia facilitar as coisas para ele. Seria muito esperto da parte do garoto, se ele não esquecesse que tinha de me agradar também, afinal, seu interesse romântico era eu. Se eu estivesse afim, não teria nada que poderia me impedir de mergulhar de cabeça em um romance com ele.
não se sentou em seu lugar de costume, que sempre era de frente para mim, naquela noite ele fez questão de se sentar na ponta da mesa. Lugar que todos os dias era de Megan, que sequer contestou a atitude do filho. Entendi que ele se considerava responsável pela família e que ela concordava com aquilo. Por alguns segundos estava com minhas sobrancelhas unidas me perguntando o quão saudável poderia ser um garoto de dezoito anos ser responsável por cuidar de uma família.
– Espero que todos gostem, é a primeira vez que faço essa receita. – Megan falou sobre sua lasanha, que estava com uma cara ótima.
Os primeiros minutos foram de silêncio total na mesa e observando todos concluí que não tirava os olhos de seu próprio prato e eu não conseguia entender o porquê de estar tão constrangida. Assim como não entendia como parecia tão nervoso em um ambiente que provavelmente tinha mais familiaridade que eu, seria medo de uma possível reprovação de Megan ao namoro dele com a filha? Talvez.
Matty, no entanto, parecia relaxado, como se não compartilhasse do possível temor do pretendente de . Talvez, no fundo ele soubesse que nosso lance não tinha futuro, ou achasse que eu não me importaria caso Meg não tivesse uma opinião favorável em relação à ele. observava Matty com uma expressão indecifrável, parecia analisar cada gesto do garoto. Já Megan parecia calma e nada preocupada se sua receita havia dado certo ou não, e depois de sua segunda garfada foi a primeira a falar.
– Então, Matty, o que você pretende cursar na faculdade? – parece ter relaxado minimamente por não ter sido o primeiro a ser sondado.
– Eu ainda não decidi ao certo, meus pais querem que eu faça Direito – ele deu de ombros.
– Mas você não quer fazer, certo? – ela disse e sorriu. – Pais tendem a desejar que os filhos façam algo que sequer cogitaram em fazer. Por mim, o se juntaria a e faria balé. Seria lindo ter os dois como partiner um do outro – ela suspirou sonhadora.
– O não leva jeito pra dança, mãe. – disse com ar de riso, parecendo perder um pouco a timidez.
– Eu danço bem, só tenho outros planos pro meu futuro. – riu em deboche. – Que foi? Meu moonwalk não tem pra ninguém. – completou divertido.
– Sejamos francos, , você como dançarino é um ótimo desenhista. – disse bem mais solta.
Tentei não demonstrar o quão estava surpresa com aquela descoberta, mesmo que a vontade fosse perguntar para saber um pouco mais sobre aquilo.
– Não sabia que você desenhava, , sobre o que são seus desenhos? – mesmo sem saber Matty me ajudou com minha curiosidade.
– Sobre qualquer coisa – ele não parecia disposto a falar sobre aquilo om Matty e, possivelmente, comigo.
– E você, ? O que pretende cursar? – senti que todos olharam em minha direção e me senti levemente irritada com Matty.
Provavelmente eles perceberam a falta de diálogo entre eu e o garoto ao meu lado, dei uma rápida olhada nas pessoas presentes e o único que não me olhava era , como se ele não tivesse nenHm interesse em meu futuro. Claro que ele não tinha, por que teria?
– Para falar a verdade nunca pensei sobre o assunto – dei de ombros.
– Claro que não, ninguém no seu lugar pensaria. – falou e não soube exatamente se ele estava sendo irônico ou se realmente tinha aquela opinião.
– Acho importante você pensar sobre o assunto, . Achar algo que você realmente goste de fazer. – Megan falou solicita.
Olhei para o meu prato procurando alguma coisa para dizer e desviar o foco de mim e um silêncio que durou poucos segundos se fez, mas que pareceu interminável.
– Vou fazer um teste para uma companhia de balé mês que vem. – falou com naturalidade.
– Não é muito cedo para você tentar entrar para algo desse tipo? Você só tem 16 anos. – disse e sua voz dava a impressão de que era o pai de e não irmão.
– Na verdade, algumas meninas começam bem mais cedo, . Acho ótimo que a sua irmã comece a pensar nas possibilidades e aproveitar as que aparecem. – Megan disse com suavidade.
Foi inevitável encarar o garoto que sustentou uma expressão de quem não gostava nem um pouco da ideia da possibilidade de que sua irmã mais nova saísse em turnê com alguma companhia. Observei que parecia alheio ao detalhe de que a carreira que obviamente havia escolhido, a tirasse da cidade e até mesmo do país por um período de tempo. Fiquei com vontade de comentar e conversar sobre o assunto na mesa, mas não queria parecer intrometida vendo a ignorância que o namorado de parecia ter sobre o assunto, quem deveria esclarecer a mente dele sobre a carreira era a própria e não uma pessoa de fora.
– Acho que podemos discutir sobre isso depois. – falou dando uma rápida olhada para o amigo que continuava comendo sua comida, parecendo realmente alheio a verdadeira questão do assunto.
Passei o restante da refeição mais calada, ouvindo os outros conversarem, sem nunca deixar de pensar no que eu queria fazer.
Quando era menor queria ser bailarina como , algo que foi perdido junto com minha mãe. Me senti como se pudesse ferir o legado que ela havia deixado. A questão agora era: o que eu queria fazer? Do que eu gostava?

Depois do jantar ficamos na sala por algum tempo, os meninos falavam sem parar sobre futebol e parecia se dar perfeitamente bem com Matty. participava da conversa quando não estava em algum assunto particular com e eu já não via a hora de que pelo menos Matty decidisse que era hora de ir. O que só veio quando o pretendente de se manifestou de que já estava tarde.
me observou com cuidado quando me levantei suspirando aliviada ao anúncio de partida de McKibben. Fingi que não reparei nesse detalhe e acompanhei meu convidado até a porta tentando não prolongar a despedida e foi verdadeiramente reconfortante poder finalmente me enclausurar em meu quarto e poder pensar na vida, no meu futuro.
Precisava descobrir e rápido o que eu queria fazer para o resto da vida.

Não tive uma noite de sono tranquila e de longe foi das mais agradáveis.
Na manhã seguinte deu um certo trabalho parecer uma pessoa normal, para isso tive que usar mais maquiagem que necessário e ninguém pareceu perceber. A família conversou sobre qualquer coisa durante o café, como usualmente acontecia.
Durante o percurso do colégio, perguntou se eu tinha pensado sobre o que queria fazer na faculdade e apesar de estar realmente pensando nisso, para mim era uma incerteza se eu realmente iria para uma universidade, não sabia se teria condições financeiras para aquilo e ainda assim não disse absolutamente nada.
– Você pode procurar o conselheiro do colégio e fazer alguns testes vocacionais – quase dei um grito quando escutei a voz de ao meu lado, andava abraçada com mais a nossa frente.
– Hm, vou pensar sobre isso – respondi retraída, sem saber qual era exatamente a intenção dele quanto a isso.
– Acho que é bastante óbvio que você não tem ideia de qual profissão escolher – ergui uma sobrancelha. – Você tem que escolher o curso certo, pra não jogar dinheiro no lixo.
– Haha, como se eu tivesse dinheiro para ir para a universidade, não é, ? Era esse o seu ponto? Ótimo, me deixa em paz – rolei os olhos.
– Não, só estou tentando te ajudar. Aliás, já ouviu falar em bolsa de estudos? Duvido que com a mensalidade que seu pai pagava no seu colégio, você não tenha capacidade para conseguir uma – não estava entendo o que aquele moleque queria com toda aquela simpatia e cordialidade de manhã, mas não estava gostando nada daquilo.
– Ok, obrigada pela informação, pode voltar a não falar comigo agora – dei um sorriso falso e fechado e apressei meus passos para sair de perto dele o mais rápido possível.
Escutei um resmungo, mas não fiz nem questão de tentar entender o que ele disse. Segui para o meu armário, determinada a encontrar Mayh pelo caminho e quem sabe poder conversar com ela sobre aquilo. sempre parecia ocupada demais para termos uma conversa de verdade sobre qualquer coisa que não fosse e suas inseguranças, já estava começando a sentir falta da de antes de começar a pegar o .
– Ele está certo, . Se você está perdida nessa questão, é muito valido procurar o conselheiro e fazer o teste. E sinceramente não acho que ele estava tentando nada além de te ajudar a encontrar uma solução. – Mayh disse depois que a contei sobre os acontecimentos da noite anterior e das últimas horas.
– Sei lá, pra mim sempre parece que tem alguma intenção maldosa em tudo o que ele diz – dei de ombros desconfiada.
– E eu não tiro a sua razão, eu também estaria em alerta o tempo inteiro, mas dessa vez tenho certeza que ele queria apenas ajudar mesmo.
– Não vejo motivos para que ele queira me ajudar entende. Ele nunca se interessou em nada que fosse a meu respeito, por que começou agora? Ele está querendo aprontar alguma – disse pensativa focando meus olhos em nada.
, pelo amor de Deus, não fica paranoica com coisas que podem nem existir. Eu sei que o é um tremendo babaca com você, mas ele realmente é uma pessoa bacana – a olhei sem realmente acreditar no que ela estava me dizendo. Ficando meio na dúvida se ela realmente tinha me dito aquilo.
– Sério que está defendendo ele? Depois do que te falei? – ela mordeu o lábio.
– Não estou defendendo ninguém, . Só acho que vocês dois convivem na mesma casa, mas não se conhecem e o que era uma implicância boba da parte do , se tornou algo incontrolável e ele extrapolou.
– Você está sendo complacente com ele – juntei o restante dos meus livros com raiva e bati a porta do armário com força.
– Não estou. Não concordo com as atitudes do , mas eu o conheço desde pequena e sei que ele não é assim. Não se parece com o que eu conheço – ela falou enquanto andava ao meu lado pelo corredor.
– Às vezes a gente acha que conhece as pessoas, não é? – respondi irônica.
– Não vou ficar nesse assunto com você, não quero brigar por causa do . Nem tem motivo para isso, já que sabemos que ele está errado. Mas acho que você devia sim ir falar com o orientador.
– Vou pensar nisso – finalizei querendo acabar de vez com aquela conversa. – Você está animada pro baile?
– Muito, adoro essas coisas e não vejo a hora de colocar meu vestido – falou animada e eu adoraria compartilhar da mesma animação de Mayh.
Mas na realidade não queria nem mesmo ir aquele baile, não queria ter que ficar uma noite inteira sorrindo ao lado de Matty e fingir que amava aquela situação. Tentava me repreender por ter esses pensamentos, afinal, o garoto era realmente legal comigo, mas era mais forte que eu e não conseguia reprimir o que sentia quando estava com ele. Nós não tínhamos nada a ver um com o outro, e todo aquele papo sobre futebol me irritava um pouco e fazia com que me perguntasse o porquê de aparentemente Matty ser um dos garotos mais disputados do colégio.
A resposta era óbvia e ficava bem diante dos meus olhos. Era sua aparência física que fazia isso. Seu rosto e seu porte físico chamavam a atenção. O que eu via que era um grande erro, pelo menos para mim. Ele poderia ser maravilhoso para qualquer outra garota, mas para mim era apenas um cara maravilhosamente bonito e gostoso.
Por outro lado, todos estariam no baile no sábado e não queria ficar sozinha em casa sem ao menos alguém para conversar. Mas já tinha decidido. Depois do baile, colocaria um ponto final no que tinha com Matty. Seríamos apenas conhecidos que se cumprimentam nos corredores do colégio.
Poderíamos ser amigos? Claro, mas na verdade não conseguia achar motivo nenhum para aquilo. Céus, por que me sentia mal por constatar o óbvio?
– Ora se não é a , não vai me dizer que o Matty te deu o fora antes do baile? – falou assim que cheguei na mesa onde quase todos estavam. – Por favor, não diz isso, já tenho companhia – sorri para o garoto.
– Nada disso, só resolvi sentar com vocês hoje – dei de ombros.
– Eu só vou nesse baile por causa da Mayh. – falou não parecendo nada animado com o evento.
– Alguém alugou limusine? Podia dividir comigo, queria impressionar a Louise. – disse pensativo.
– Você não precisa impressionar ela dessa maneira. – disse em tom experiente e rolei os olhos.
– Se posso te dar um conselho – comecei me direcionando a . – Não escute ele, não entende nada sobre como impressionar uma garota – todos na mesa fizeram sons estranhos, debochando do garoto.
– Vamos escutar o que a acha que sabe sobre mim. – disse levemente irritado, devia estar com seu ego ferido.
– Acho que sei tanto quanto você sabe sobre mim, o que sabemos que é quase nada – pisquei um olho para o garoto, que deu um sorriso irônico. – Mas a real é que eu não preciso saber muito de você para chegar a essa conclusão – sorri sem mostrar os dentes.
– Está parecendo que eu já tentei te impressionar alguma vez, o que nós sabemos que não é verdade. – piscou um olho para mim e meu coração disparou sem minha permissão.
Por que ele tinha que ser tão bonito? Não. Por que ele tinha que ser tão babaca?
– Nem que você tentasse, se nem príncipe conseguiu essa proeza, imagina um ninguém como você – falei e ergueu uma sobrancelha com uma expressão debochada.
– Vamos manter o foco em mim? – se fez ser notado e dirigi meus olhos a ele. – Alguém vai alugar uma limusine?
– Não posso te dizer isso, mas você pode perguntar ao Matty – dei de ombros e riu alto chamando minha atenção.
– Você viaja, – ele disse ainda rindo.
– Acho a cara do Matty alugar uma limusine para levar alguém ao baile. Todo mundo sabe que ele gosta de usar dessas coisas para impressionar as garotas. – usou tom de reprovação.
– Se ele quiser me impressionar com isso vai dar um tiro no pé. Para mim não tem nada de muito especial em andar de limusine, estou acostumada – dei de ombros.
– Nossa, deve ser uma tarefa bem árdua tentar impressionar a . Nos diga o que te impressionaria, Lady ? – estava querendo me provocar, mas não conseguiria.
– Por que? Está querendo alguma dica? – dei meu melhor sorriso cínico.
– Claro, te impressionar se tornou meu objetivo de vida – mais uma risadinha sarcástica de sua parte enquanto se inclinava na mesa em minha direção. – Na real, , sabemos o poder que uma música pode exercer sobre você – foram várias reações diferentes à fala de , a mais notável foi a de Mayh que se engasgou com o suco e começou a tossir desesperadamente chamando a atenção de todos e principalmente do namorado que correu para socorre-la.
piscou e mandou um beijo em minha direção fazendo com que a raiva dentro de mim explodisse, pude sentir os olhos de em mim, mas não me importei. Mesmo com Mayh engasgando ao meu lado, minha concentração estava toda na vontade que eu tinha de bater a cabeça de na mesa até que seus miolos se espalhassem pela superfície.
– Babaca – foi a única coisa que disse quando a tosse da garota ao meu lado cessou e ao fundo pude ouvir seu resmungo dizendo estar bem, antes de me levantar e sair dali.
Minha vontade era de me afastar o mais rápido possível daquele colégio e não ver a cara de durante o restante do dia. Poderia procurar por Matty e fazê-lo me tirar dali, mas a única solução que encontrei foi matar o restante das aulas no banheiro fétido daquela escola e posteriormente me trancar no meu quarto até que o jantar estivesse na mesa.

O quarto que eu ocupava na casa de Megan havia virado um verdadeiro salão de beleza montado para o grande dia. Mesmo a animação de e Mayh, e até mesmo de Meg, não conseguiu colocar um pouco de ânimo para minha noite. Eu bem queria estar tão empolgada quanto elas, mas sinceramente nem sabia o porquê de estar indo naquele baile.
Meu primeiro sorriso daquele sábado veio logo após Meg terminar meu penteado, não era nada muito elaborado, mas havia sido feito com extrema dedicação e eu havia adorado o resultado final. Megan fez penteados em nós três com paciência, me levando a pensar em mamãe e imaginá-la no lugar da senhora , ela com toda certeza seria tão atenciosa e carinhosa como Meg. Depois da maquiagem, mãe e filha se retiraram do cômodo restando apenas eu e Mayh ali, essa que parecia me conhecer minha vida inteira e não só há alguns meses como de fato era.
– Você não parece muito feliz – ela disse pegando em minha mão e se sentando ao meu lado.
Sorri fraco para ela.
– E não estou – falei e depois mordi meu lábio inferior.
, você não precisa ir ao baile, muito menos com o Matty.
– O problema não é o Matty ou o baile. É a minha vida, Mayh, tudo o que está acontecendo e eu sequer tenho ideia do que seja para saber a gravidade da situação – minha voz embargou e tudo o que queria era chorar.
– O conseguiu mesmo te fazer se sentir culpada? Sério? – soltei a mão dela e me levantei esfregando a testa.
– Ele não fez isso, eu me sinto culpada desde sempre. Mayh, eu não sei onde meu pai está, não sei como falimos, se é que estamos falidos. Isso é frustrante.
, já parou para pensar que a culpa não é sua? E que talvez fosse isso que seu pai queria? Que você ficasse alheia a qualquer coisa que estivesse acontecendo com ele? Que ele não queria te preocupar com o que quer que tenha acontecido. Você não pode se culpar – ela dizia tudo com muita calma.
– Eu devia ficar do lado dele – uma lágrima desceu por meu rosto e soube que tinha uma melhor amiga. Jamais tinha chorado na frente de ninguém.
Mayh se levantou e me abraçou.
– E você está. No momento certo as coisas vão ser esclarecidas.
– Queria sumir – sussurrei em seu ombro.
– Deixa de besteira. Por que não vamos ao baile e depois vamos pra minha casa tomar sorvete e ver comédia romântica a noite toda? – ela me afastou pelos ombros e me olhou animada.
– Que tal fazermos tudo isso, menos ir ao baile? – falei enxugando as lagrimas.
– Não seria uma má ideia, se eu não tivesse chantageado o pra ir ao baile – ela franziu o nariz e riu. – Nós vamos nos divertir e o vai batizar o ponche. São só algumas horas – concordei com a cabeça.
foi buscar , foi buscar Mayh, e já havia saído antes mesmo que eu e as meninas estivéssemos prontas para ir buscar seu par. Só eu estava ali na sala esperando meu par vir me buscar, ele nem parecia ser inglês devido aos seus atrasos. Matty chegou vinte minutos depois do horário combinado e eu já estava com um bico do tamanho de uma tromba de elefante. Ao contrário do esperado, ele foi com seu carro e não com uma limusine e para ser sincera aquilo não fez diferença nenhuma. O futuro da nossa relação já estava definido e a decisão já estava tomada.
A quadra do colégio estava toda enfeitada, uma decoração até que sofisticada para uma escola pública e as pessoas estavam até que apresentáveis. E ao contrário do que eu poderia ter pensado minha vida inteira, me sentia bonita e confiante no vestido comprado em uma loja qualquer, mesmo não sendo algo de grife.
foi a primeira a me encontrar, a genética realmente havia sido generosa com os , a garota parecia uma princesa com seu vestido rosa combinando perfeitamente com as mechas de seu cabelo, seu sorriso aberto parecendo iluminar todo o ambiente enquanto ela caminhava saltitante minha direção.
– Faz tempo que você chegou? – perguntou após me abraçar brevemente.
– Uns dez minutos. Cadê o pessoal? – olhei ao redor tentando achar rostos conhecidos.
– Vi a Mayh há poucos segundos, meu irmão está colado na vasilha de ponche com o – ela deu de ombros.
– Quer beber alguma coisa? – Matty falou ao meu ouvido e acenei positivamente.
– Quero o ponche – sorri levemente. Ele chamou para ir com ele e ficamos apenas eu e .
– Ainda não acredito que estou aqui com , parece que eu estou sonhando – ela sorriu abertamente. – Ele está tão lindo, o guardaria num potinho – ela riu.
– Você também está linda, ele tem muita sorte – sorri para ela e olhei de novo ao redor.
Algumas pessoas dançavam sem nenhum constrangimento, algumas se beijavam e outras conversavam em rodinhas nos cantos da festa.
– Você não parece muito animada, aconteceu alguma coisa? – ela pareceu levemente preocupada.
– Não, só não estou muito no clima de festa – dei de ombros.
Matty apareceu logo em seguida, acompanhado por e me entregou um copo, no primeiro gole constatei que já haviam batizado o ponche.
Ficamos nós quatro ali conversando, os meninos não se falavam muito, mas eu nem ligava para esse fato. Nunca cogitei a ideia de ter Matty no mesmo círculo social que o meu, mesmo que chegássemos a namorar algum dia; na verdade, ele parecia não se encaixar no meu círculo de amizade.
Meu coração deu um salto quando avistei , não por ele obviamente, mas por estar acompanhado de . A ruiva que o acompanhava estava linda em seu vestido preto, mas a imagem dela foi como um borrão para mim. Tudo o que meus olhos puderam ver foi , em seu smoking preto que parecia ter sido feito na medida exata para ele. O all star branco em seu pé dava certo charme a sua vestimenta e o cabelo ajeitado dava certo charme a seu visual.
– Como você está linda – só notei depois de sua fala e realmente o olhei depois que depositou um beijo em meu rosto.
Seu cabelo estava com gel para segurar seu topete, sorri para ele e o garoto pegou minha mão me fazendo dar uma voltinha.
– Obrigada, você também está muito bem – disse de forma educada, esperando que sua acompanhante não se ofendesse.
– Gostou do ponche? – apontou meu copo. – Cortesia especial do – ele piscou e ri.
Olhei para por puro descuido e o flagrei me olhando de volta, ele soltou um sorrisinho e desviei meus olhos em qualquer outra coisa que não fosse seus olhos azuis absurdamente sedutores. Suspirei mordendo o lábio inferior imaginando como poderia ser minha noite caso meu acompanhante fosse ele.
Apesar de ser igual e absurdamente bonito, Matty não parecia tão charmoso quanto . Na verdade, só de olhar para meu estômago se congelava. Mais um descuido e meus olhos foram parar novamente no garoto que agora tinha o copo na boca e ainda me olhava, ele piscou um olho em minha direção e senti meu rosto esquentar.
Queria bater minha cabeça na parede por sentir tudo aquilo, mesmo depois de tudo. Não era justo aquele poder que aquele babaca exercia sobre mim.
– Vamos dançar? – falei a Matty quando uma música lenta começou. Se continuasse ali, logo estaria encarando da mesma forma como ele me encarava, e isso seria péssimo.
Meu acompanhante me estendeu a mão e fomos para a pista de dança. Ele enlaçou minha cintura e passei os braços por seu pescoço apoiando o rosto em seu peito. Fechei os olhos e me imaginei ali com outra pessoa, sentindo a vontade de chorar subindo pela minha garganta. Engoli em seco, sabendo que aquilo seria muito difícil, mas superaria de uma forma ou de outra e não precisava de ninguém para isso.
Depois de um tempo interminável disse a Mckibben que iria ao banheiro e ao contrário do que eu esperava ele não me acompanhou até lá. Já estava exausta e quase mandando uma mensagem para Mayh, quando ela entrou no banheiro rindo.
– Até que enfim achei você – ela disse sorridente e se aproximou me abraçando.
– Graças a Deus. Já ia te mandar uma mensagem. Não aguento mais esse lugar – suspirei.
– Ah, agora que nos encontramos? Temos que fazer uns passos e arrasar na pista antes de ir para a casa – ela definitivamente estava curtindo.
– Você viu ele? – perguntei em tom baixo.
– Vi, amiga. Está lindo como em todos os bailes – sorri fechado. – Não vai ceder à tentação.
– Não vou, quero ir embora logo – resmunguei.
– Só mais uma horinha? – fez um biquinho e concordei.
Voltamos para a pista juntas e nos encontramos com , , os outros meninos e suas respectivas acompanhantes lá. Matty, que encontramos no meio do caminho, ficou o tempo todo ou ao meu lado ou atrás de mim, sempre com um copo na mão. A acompanhante de tentava dançar no ritmo da música, mas a moça era dura que só. Eu sabia dançar, mas só balançava meu corpo discretamente me divertindo com as meninas, ou pelo menos tentando.
Os garotos ensaiavam passos estranhos sem se importar com quem estava ao redor e a cada coreografia esquisita eles quase rolavam no chão de tanto rir. Confesso que dei boas gargalhadas com todos eles dançando e esqueci por breves momentos que deveria odiar .
– Minha namorada é muito foda, ela consegue ficar na ponta do dedo. – disse absurdamente animado e acredito que já estava levemente alcoolizado.
– Eu também sei – dei de ombros sentindo os efeitos do ponche batizado em meu sangue.
– Você? Duvido. – debochou.
Então fiz algo que sempre sonhei desde que assisti Titanic, ali percebi que esperei por aquele momento minha vida toda. Tomei toda a bebida do meu copo de uma vez e o entreguei a pessoa mais perto, que por coincidência era . Tirei meus sapatos e os entreguei a que era a outra pessoa próxima a mim. Não precisava, mas peguei na barra do meu vestido para ergue-lo, queria fazer exatamente como Rose, só faltava o cigarro. E então eu fiz o que havia aprendido na infância e torci para que ainda conseguisse fazer aquilo. Consegui ficar na ponta do pé, mas não consegui me manter assim por nem cinco segundos e ainda assim ouvi aplausos e assovios. Estava definitivamente me divertindo.
Só paramos de dançar quando a música foi pausada para anúncio do rei e rainha do baile e toda a minha animação foi pelo ralo.
– Quer ir agora? – Mayh perguntou ao meu ouvido.
– Pode ser – dei de ombros e ela acenou positivamente.
– Mas acho que Matty vai ser o rei do baile, quer esperar por ele? – fiz uma careta.
– Não, vou para sua casa mesmo. Vou falar com ele – disse e fui em direção ao garoto. O levei para um canto do salão. – Eu queria ir embora, se incomoda se eu for com a Mayh?
– Sim, eu te levo pra casa – ele disse para minha surpresa.
– Você provavelmente vai ser coroado essa noite, não precisa se incomodar. Vou dormir na Mayh.
, você não me incomoda. Eu te levo na Mayh e depois vou para a casa. Só vou receber a coroa e dançar com a Laura – fiz uma careta. – Depois vamos, tudo deve levar no máximo vinte minutos – ele fez uma expressão fofa e acabei cedendo.
– Tudo bem se eu for tomar um ar? Não gostaria de te ver dançando com outra garota – menti. Só queria mesmo era sair dali e respirar ar puro.
– Tudo bem, daqui a pouco vou pra lá – ele disse e me deu um leve beijo nos lábios.
Mayh disse que estava indo na frente com e disse para que eu a ligasse quando chegasse em sua casa. Fomos juntas até a parte externa e me encostei em um carro para esperar Matty, que eu esperava por tudo que não demorasse.
Olhei de um lado ao outro vendo algumas pessoas passarem por ali, algumas estavam indo se amassar perto das árvores e foi inevitável pensar que poderia estar fazendo exatamente aquilo naquele mesmo instante. Balancei a cabeça tentando tirar da cabeça a imagem dele e da ruiva se beijando loucamente.
– O que está fazendo aqui sozinha? – dei um pulinho quando escutei a voz de bem próxima.
– Que susto – coloquei a mão no peito.
– Desculpe – ele disse e passou a mão no cabelo se encostando ao meu lado. – Não deveria estar lá dentro? Matty deve estar recebendo a coroa agora – juntei as sobrancelhas estranhando todo aquele diálogo.
– Não estou interessada – disse e ele riu. – O que você está fazendo aqui? Não deveria estar com seu par? – perguntei, afinal se ele podia me fazer aquele tipo de pergunta eu também podia.
– Não estou a fim – ele também deu de ombros e mais uma vez riu.
– Não está a fim? – falei desentendida.
– É, não estou a fim dela – tive que olhar para ele e me arrependi, ele parecia ainda mais bonito com os cabelos desalinhados.
– E por que a chamou para vir ao baile?
– Quem eu queria como companhia já tinha sido convidada – meu coração deu uma leve acelerada. Não, não foi uma leve acelerada, foi uma acelerada brusca. Como se ele estivesse parado e fosse de zero a cem quilômetros por hora em cinco segundos.
– Ah, legal – foi a única coisa que saiu da minha boca.
– Quem sabe na próxima – rolei os olhos, não era como se fossemos amigos. Não éramos nem colegas, por que ele estava tendo aquele tipo de conversa comigo?
– Me poupe, , se a garota já está acompanhada, por que iria querer você? – disse com raiva, talvez fosse só o ciúme falando por mim.
– Pelo mesmo motivo que você me quer? – estava olhando para o chão, então só notei que ele estava perto, quando seu all star ficou em meu campo de visão.
Ergui a cabeça o encarando, seu perfume entrou em minhas narinas me intoxicando instantaneamente, ainda assim e com muito esforço mantive minha mente focada em não ceder a nenhum dos milhões de desejos que se fizeram presentes quando colocou as mãos uma de cada lado do meu corpo e aproximou muito seu rosto do meu.
– De novo isso, você vai dar mais uma das suas investidas baratas em mim? – minha voz saiu firme e agradeci a Deus mentalmente por isso.
– Você está muito bonita hoje, de um jeito que nunca esteve – por mais que quisesse não engoli em seco, muito menos juntei as sobrancelhas, só mantive meus olhos firmes nos seus.
– O que você está pretendendo, ? Onde você quer chegar? – ele fechou os olhos.
– Eu não sei – eu ri. Ri de puro nervosismo e desespero.
– Esse seu joguinho já perdeu a graça – disse e coloquei minha mão em seu abdômen para afasta-lo mesmo que minimamente. – E se sua intenção é me dar alguns beijos para provar o que quer que seja, tira seu burrinho do gramado, não estou a fim.
– Não? – perguntou confuso. – Por causa do Matty? – ele Não parecia acreditar no que eu estava falando.
– Não, mas deveria. De qualquer forma, não estou interessada em você – disse tentando parecer convicta.
– Acho que está – ele colocou as mãos em minha cintura de forma firme e por Deus eu queria muito beijá-lo até meus lábios ficarem dormentes.
– Você acha demais e tem certeza de menos. Não estou interessada em nada que você possa me oferecer. Que eu duvido que seja alguma coisa – sorri debochada e juntou as sobrancelhas, suas mãos se afrouxaram em minha cintura.
– E o Matty tem? – sua voz era firme, mas serena.
– Com certeza tem muito mais que você, com certeza – para , ficar comigo era uma batalha de ego com Matty, ele só queria provar a si mesmo que ele era mais foda que o outro.
Ele se afastou devagar me olhando com cuidado, se não o conhecesse acharia que aquilo poderia até tê-lo magoado. Mas sabia que não era nada daquilo. Ele estava somente com o orgulho ferido.
– Entendi. Se for sua vontade, não te incomodo mais – disse se afastando.
– É um favor que você me faz – falei irônica.
– Tudo bem – ele disse antes de caminhar para longe me deixando sozinha.
Suspirei indecisa se fiz a coisa certa, tinha ficado nítido que ele não me procuraria mais daquela forma e eu poderia estar perdendo infinitas oportunidades de beijar .
Mas, na real, o modo que ele me tratava e menosprezava não valia seus beijos, eu não precisava passar por aquilo. Não precisava ir tão baixo para ficar com um cara. Merecia ser tratada com respeito e carinho e se não era capaz de me tratar assim, não mereciam me tocar de nenhuma forma.
E no fim eu me sentia aliviada. Aliviada e muito mais leve.



Vinte e Dois

’s POV

Não havia dormido nada, ir dormir às cinco da manhã e acordar às dez não é o que se pode chamar de uma boa noite de sono. Talvez fosse esse o motivo de minha cabeça estar latejando.
Raras vezes desfrutava de uma insônia tão intensa quanto a da noite passada, geralmente ela vinha quando eu tinha alguma preocupação eminente, ou quando estava ansioso demais, ou qualquer outra coisa que pudesse afetar minha vida. O que não era o caso. Não consegui encontrar motivos racionais para ficar rolando de um lado para o outro na cama, fechar os olhos e não conseguir dormir.
No fundo eu sabia exatamente o que me preocupava, mas preferia não pensar no assunto.
E mesmo lutando arduamente para não pensar sobre aquilo, era a única coisa que conseguia fazer. Tentei me entreter com o celular, vasculhar algumas redes sociais ou responder mensagens, mas, francamente, nada conseguia prender minha atenção. Certamente, ajudaria se eu falasse com alguém sobre o que estava me tirando a paz, mas não conseguia me imaginar colocando para fora tudo o que passava em minha cabeça para alguém. Eu mesmo não conseguia entender o que estava acontecendo, outra pessoa não ajudaria.
Joguei meu edredom para o lado e decidi que era hora de me levantar e fazer alguma coisa que pudesse ocupar minha cabeça e meu dia.
Peguei minha roupa e toalha e segui para o banheiro, tomaria um banho e depois decidiria o que fazer. Àquela hora, mamãe já devia ter ido visitar Patrick, e mesmo que tenha deixado almoço pronto, eu iria na casa de um dos meninos. Pelo menos poderíamos fazer alguma coisa depois do almoço.
Ignorei aquela sensação estranha enquanto me aproximava do quarto de , afinal não poderia ser nada demais, certamente só estava um pouco nervoso com o fora que havia levado dela na noite passada. Confesso, não era algo que eu não esperava, mas não naquele momento.
A porta de seu quarto estava aberta e estanquei em frente a ela. O quarto estava vazio, não tinha dormido em casa. Sabia disso porque sua cama estava arrumada e ela geralmente protelava o máximo que podia para arrumá-la. Eu sabia exatamente onde ela havia dormido. Ela estava com Matty, dormindo nos braços dele, depois de fazerem sabe-se lá o que. Eu bem sabia o que, qualquer pessoa saberia o que. Não gostaria de definir exatamente o que senti ao constatar o óbvio, era desconfortável pensar nos dois naquela situação. Irritantemente desconfortável. Fiquei alguns segundos observando seu quarto antes de balançar a cabeça e seguir meu caminho. Não tinha nada a ver com a vida dela e aquilo não devia me interessar.
Quando estava pronto mandei uma mensagem para , dizendo onde estaria e fui para a casa de , com certeza quando estivesse na companhia de um dos meus amigos ia deixar todo aquele assunto e sensação estranha de lado e perceber que aquilo não fazia o menor sentido.
estava de ressaca e acabado, ainda assim me joguei ao seu lado em sua cama enquanto ele resmungava sobre ser muito cedo e que eu deveria estar dormindo e não o perturbando àquela hora da manhã. Comecei a cantar uma música qualquer para que ele se tocasse de que eu não iria embora e levantasse de uma vez.
– Puta que pariu! Sério que não tem ninguém além de mim pra você encher a essa hora da manhã? – disse se sentando na cama enquanto esfregava o rosto.
– Levando em consideração que você atualmente é meu único amigo solteiro, que não está acompanhado e assim vai ficar o dia todo, não – sorri sem mostrar os dentes.
– Que ótimo, . E por que você não dormiu na Amber? Ela disse pra Louise que estava sozinha em casa. Ao invés de estar deitado na minha cama, poderia estar na dela – ele voltou a deitar ficando de lado para me encarar.
– Não é como se eu quisesse que ela entenda as coisas de outra forma – dei de ombros encarando o teto.
– De que outra forma? Acho que ela sabe diferenciar sexo de amor melhor que nós dois juntos – ele disse e rolei os olhos.
– De qualquer forma eu só a levei ao baile, não ia transar com ela sabendo que depois nossa única aproximação seria nos cumprimentar nos corredores do colégio. Não gosto de criar qualquer expectativa que não vou cumprir – ele fez um som estranho com a boca que ignorei.
– Você ficou com ela? – perguntou enquanto pegava seu celular. Hesitei por um momento sem saber se dizia a verdade ou não. – Não, né? – ele me conhecia o suficiente para entender meu silêncio. – A estava muito gata ontem, não que ela não seja bonita, mas mano – e eu o conhecia bem o suficiente para saber onde ele queria chegar.
– Hum – resmunguei me virando para ele.
– A foto que ela postou no insta tá aí pra provar – ele colocou o celular praticamente grudado no meu rosto. – Ela só posta foto bonita, né?! Impressionante como uma pessoa pode ser fotogênica desse jeito – continuou e afastei sua mão.
– Não sei, não sigo ela – falei carrancudo.
– Não sei por que não segue, aliás não entendo a implicância que você tem com ela. A mina é legal pra caramba.
– Legal com você – rolei os olhos.
– E ainda assim você deu uns beijos nela. Nunca vou entender vocês.
– Quê? – quase gritei pela surpresa e ele soltou um riso.
– Sabe, eu realmente não entendi o porquê de você ter cantado aquela música feminina no luau. Depois vocês dois sumiram, aí você deu aquela indireta pra ela no almoço e me senti realmente lerdo por não ter percebido antes. Tava tão na cara que vocês se pegaram. – parecia uma hiena rindo.
– Não viaja, pelo amor de Deus – falei tentando disfarçar, embora tendo a certeza que estava vermelho.
– Qual é, ? A garota é gata, muito gente boa, mora na sua casa e tem uma queda por você. Se você não ficasse com ela ganharia o prêmio de otário do ano. Só não sei porque fica de escrotice com a garota – ele falou normalmente e fiquei em silêncio por alguns minutos.
– Não fico de escrotice com ela – falei baixo.
– Eu no lugar dela não me daria ao trabalho de falar com você, muito menos olhar na sua cara. Beijar essa sua boca feia então, nem pensar – ele balançava a cabeça sem nunca largar o celular. – Olha isso – ele deu o celular em minha mão.
Na tela tinha uma foto dele, e na sala de aula, ela mantinha um sorriso grande no rosto, tão grande que seus olhos estavam levemente fechados.
– O que é isso? – perguntei devolvendo o aparelho para ele.
– Esse sorriso não mexe com você? – ele me olhou atentamente.
– Deveria? – perguntei de volta e ele rolou os olhos.
– Levando em consideração a quantidade de tempo que você olha para ela e o modo que você ficou encarando a ontem no baile? Acho que seu coraçãozinho palpita vendo um sorriso assim. Aposto que vendo esse sorriso, imagina ela sorrindo assim pra você e no quão agradável isso seria – levantei uma sobrancelha.
– Acho que você está apaixonado pela – falei rindo.
– Poderia, mas não estou. Acho que você está.
– Acho que você está bêbado ainda – comecei a rir com vontade.
– Ok, pode não estar apaixonado, mas que está a fim dela, está. E aposto que está se torturando por isso – falou convicto.
– Não tem nada a ver, . Não estou a fim dela, muito menos apaixonado por ela. Fala sério – rolei os olhos.
– Por que ficou com ela então?
– Porque eu tive vontade – voltei a encarar o teto.
– Você gostou? – ele não estava rindo.
– Do quê? – me fiz de desentendido.
– Você ficar se fazendo de sonso só me dá mais certeza de que tá a fim dela – o olhei rapidamente.
– Gostei. Mais do que gostaria – confessei em um tom ainda mais baixo.
– Tem vontade de ficar de novo? – dei de ombros.
– Isso não vai acontecer, cara.
– Não foi essa a minha pergunta. Qual é, bro? Só estamos nós dois aqui e eu juro pela nossa amizade que isso não vai sair daqui – o olhei por alguns minutos.
– Então, eu não queria, mas tenho vontade. Só que ela já me disse pra ficar longe dela. Ela está com o Matty e provavelmente está apaixonada por ele – esfreguei o rosto.
– Não acho que ela esteja apaixonada por ele.
– Ela dormiu com ele – falei com as mãos no rosto.
– Como você sabe disso? – ele perguntou curioso.
– Ela não voltou para casa – aquilo me atormentava de uma maneira nada saudável.
– Ela dormir com ele não quer dizer nada, nem que transaram – ele disse e voltou a mexer no celular.
– Ela não está afim, . Nunca esteve e sempre deixou isso claro. E agora ela está com o Matty.
– Escuta. Bom dia, raio de sol. Tudo bem? Como foi o restante da sua noite – ele estava falando e eu não estava entendendo absolutamente nada. – Bom dia, pequeno Príncipe. Nada de muito emocionante – terminou e começou a rir.
– Não entendi – falei por fim.
– Acabei de ler minha conversa com a agora – ele me mostrou o celular.
– Vocês se falam por mensagem? – perguntei abismado.
– Constantemente, somos amigos, qual o problema? – ele respondeu ainda com os olhos em seu aparelho.
– Nenhum, só não sabia que conversavam dessa maneira.
– Pode ficar tranquilo, não vou comentar absolutamente nada com ela – deixou o celular de lado. – Acho que devia falar com ela, seria foda pra caralho vocês dois juntos – riu.
– Minha mãe me capa se imaginar que eu coloquei um único dedo nela. Tivemos uma longa conversa sobre isso antes de ela se mudar lá pra casa.
– Sério isso? Como assim, me conta esse negócio aí – ele se animou como um perfeito fofoqueiro que era.
– Ela disse que a era uma menina linda, mas que era pra eu tomar muito cuidado e não me envolver emocionalmente com ela. Que Patrick confiava na gente e que por isso tinha a deixado conosco, e que seria muito desconfortável se eu a magoasse mesmo de forma intencional e todas essas coisas. De como ela queria manter a amizade com Patrick intacta e tal – expliquei por cima. A conversa entre eu e dona Megan havia sido bem pessoal.
– Em outras palavras, nem pense em transar com a – nós rimos. – Que tenso cara, mas esse tipo de coisa não é algo que possamos controlar.
– Eu sei, se eu pudesse controlar não estaríamos falando sobre isso – resmunguei.
– Então rola mesmo um sentimento. – disse pensativo mudando sua posição na cama de modo que pudesse encarar o teto assim como eu.
– Não rola um sentimento, . Rola uma atração, mas nada mais que isso. O melhor a se fazer é deixar por isso mesmo – era difícil admitir que estava a fim de até para mim mesmo. Muito mais difícil dizer isso em voz alta.
Ia contra toda a minha vontade me sentir daquela forma por ela, ainda mais sabendo que ela me desprezava. Ok, no lugar dela também me desprezaria por todas as minhas atitudes babacas, mas não era esse o motivo de seu desprezo. procurava alguém do mesmo nível social ao qual pertenceu e isso já me tornava carta fora do baralho. Há algumas semanas isso não me incomodaria de maneira nenhuma, e nem deveria estar incomodando. Se não fosse aquela vontade louca de beijar todas as malditas vezes em que a via, ou todas as vezes em que eu lembrava daquela árvore na praia.
Minha consciência me lembrava que estava colhendo o que plantei, que se tivesse feito as coisas da maneira certa e tivesse chegado na menina como chegaria em qualquer outra, não precisaria estar pensando no que havia feito para as coisas chegarem onde chegaram. Merda.
Não tinha o porquê me torturar por , ela era uma garota como todas as outras, um pouco mais bonita que todas as outras e com um beijo delicioso, mas era só uma garota e logo eu desencanaria de tudo aquilo.
– Por que você não tenta ficar com ela de novo? – perguntou depois de um longo período de silêncio.
– Pela milésima vez, . Ela está com o Matty e já disse que não está interessada.
– Você sabe que se estivesse no lugar do Matty, ele ia estar pouco se lixando pra você, né? – o olhei rapidamente. – E que ela não quer você por conta da sua babaquice ne. Ela nunca dispensaria o legal que todo mundo conhece.
– Acho melhor a gente esquecer essa história e ir almoçar, tô morrendo de fome – preferi encerrar o assunto, mesmo que aquele assunto ficasse na minha cabeça pelo restante do dia.

Estávamos jogados na sala quando o alerta de mensagem do meu celular apitou. Era Mayh perguntando o que estava fazendo. Respondi estava na casa de e ela perguntou se queríamos ir para a sua casa fazer alguma coisa.
concordou no mesmo minuto e saiu da sala para trocar de roupa, aproveitei para responder à mensagem de Amber. Ela havia me mandado bom dia e respondi da mesma forma, talvez não tenha ficado claro para ela que não tinha um interesse amoroso da minha parte, mesmo eu tendo a certeza de que não beijá-la na noite passada deixaria isso claro. Fazer o quê? Fazia parte.
Quando ficou pronto fomos para a casa de Mayh no meu carro, já que ele nunca perdeu a oportunidade de evitar dirigir. O que era péssimo para mim, depois teria que levá-lo em casa antes de poder ir para a minha.
– Minha mãe tá me enchendo o saco sobre a faculdade – disse fuçando no rádio do carro de forma despreocupada.
– Você ainda não se decidiu? – não era exatamente uma novidade.
Muitas pessoas estavam indecisas como , até Mayh era uma delas. Nem todos os formandos tinham absoluta certeza do que queriam cursar como eu. Desde que me entendo por gente sabia exatamente o que queria ser e onde queria me graduar.
– Ah, eu quero viajar, cara. Conhecer lugares diferentes e ela não entende isso. Quero me descobrir primeiro. Dar um tempo na rotina de ano letivo, sabe? – ele parecia chateado.
– Se você tem dinheiro para isso, vai na fé – dei de ombros.
– Juntei dinheiro minha vida toda pra isso – ele resmungou.
– Acho que você quer ser mochileiro, não ir para a faculdade – comentei sem prestar muito atenção na conversa.
– Tá aí, acho que você me entende melhor que eu. Já consigo pensar nas possibilidades – o olhei rapidamente, atento à sua mudança de humor.
– Só acho difícil você ficar rico dessa maneira.
– Não preciso ficar rico, só quero curtir a vida, conhecer belezas internacionais e essas coisas – soltei um riso baixo. – Você está viajando assim por causa do fora que levou da ? – perguntou de repente.
– Quem disse que eu levei fora dela? – perguntei, o encarando quando parei no sinal.
– Você mesmo – ele riu. – Eu já fico na bad quando levo um passa fora. Se fosse de uma garota bonita como a , então – balancei a cabeça em negação.
– Você diz como se beleza fosse tudo. A é o típico caso de excesso de beleza por fora e muito vazia por dentro – ele fez um som de estalo com a boca e voltei a prestar atenção no trânsito.
– Tenho algumas coisas para te dizer. Primeiro, a não tem nada de vazia, você que não a conhece. Segundo, por isso que ela prefere o Matty, eu aposto que ele nunca diria um troço desse pra garota que ele está afim e muito menos ficando – ele disse e parecia até bravo. – Terceiro, você é um babaca.
– Obrigado pela parte que me toca – resmunguei.
– Não tem de quê – ele finalmente achou uma estação de rádio que o agradou e fomos o restante do caminho em silêncio.
Um silêncio que me deu muito o que pensar, especialmente depois de dizer que era vazia e ouvir de que eu era um babaca. A pergunta que ficou em minha cabeça: Foi a primeira vez que disse em voz alta que era vazia? Algo me dizia que não, mas para quem mais eu já tinha dito aquilo?
Estava no automático e quase não me dei conta que tinha estacionado na casa de Mayh, de frente para o carro de Matty.
– Nossa, que coincidência, a gente estava falando deles agora – só depois da fala de , percebi que tanto quanto Matty estavam dentro do carro.
– Que ótimo – disse a contragosto, já abrindo a minha porta.
Seria realmente maravilhoso ver pagando de casal com Mckibben e possivelmente ter que me controlar para não demonstrar nenhuma reação negativa que me entregasse a Mayh e .
Então, para minha surpresa desembarcou do carro no mesmo instante em que bateu a porta do carona e segundos antes de Matty ligar o motor do carro. Não foi por vontade própria que fiquei parado esperando o carro sair e assistindo manter os braços cruzados na frente do corpo com uma expressão neutra em seu rosto. Essa que mudou quando viu . abriu os braços e um sorriso enorme para meu amigo. Me perguntei que porra de frio na barriga foi aquela que eu senti. Jurando ficar três meses sem beber se fosse uma dor de barriga.
passou por mim como se eu não estivesse ali depois de abraçar , em direção a casa de Mayh, saí atrás dela sem falar nada e parei a uma certa distância da porta até que ela fosse aberta.
– Até que enfim vocês chegaram. – Mayh veio em nossa direção e trocou um olhar significativo com Maddox. Ela devia estar doida pra saber como havia sido com Matty.
Me joguei no sofá ao lado de que só acenou com a mão se recusando a desviar os olhos da TV.
sentou em outro sofá trocando algumas palavras com e Mayh em voz baixa e nem me dei ao trabalho de me atentar ao que falavam, realmente não queria saber.

’s POV

Fazia tempo que estávamos vendo um filme ridículo na televisão que só prestava atenção pelo que percebi. estava deitado com a cabeça em meu colo e já havia começado a dar leves roncos enquanto eu me cansava de mexer em seu cabelo. Esperava sinceramente que ele não estivesse babando em minha perna.
– Coisa mais chata – me assustei com a voz de .
– Coisa mais chata é você. – resmungou do colo da namorada que só riu.
– Sério que vocês chamaram a gente pra assistir televisão? Isso eu faria na casa do Hamister mesmo – soltei um risinho sem querer. odiava quando o chamavam assim.
– Por mim estaríamos fazendo outra coisa, que está preguiçoso. – Mayh se defendeu.
– Deixa ele aí e vamos fazer alguma coisa. – pediu e eu não estava com a mínima vontade de fazer nada com ele.
– Podemos jogar vídeo game. – se manifestou.
– Demorô, vamos jogar Tekken, quem perder passa o controle e o vencedor ganha alguma coisa dos perdedores. – Mayh propôs animada quase jogando o namorado longe. – Acorda o aí, .
Não me animava em nada a ideia de jogar vídeo game, nunca tinha me interessado naquilo e consequentemente não sabia jogar. Fiquei sentada no sofá vendo eles jogarem.
A primeira rodada foi de Mayh, ela ganhou todas e fazia questão de esfregar a vitória na cara dos meninos. A segunda foi de , assim como a terceira.
– Não quer jogar, ? – perguntou enquanto Mayh dava trabalho para .
– Ah eu não sei jogar. Vou perder feio – dei de ombros.
– Quem ganhar vai enfrentar a – ele disse.
– Não. Não sei jogar – resmunguei e vi quando me olhou rapidamente.
– Não precisa saber, o importante é se divertir. – me encorajou.
– Yeah! – gritou me assustando, ele se levantou e ficou pirraçando Mayh que tinha um bico maior que o pico do Everest no rosto. – Na sua cara, na sua cara. Na. Sua. Cara. – Ele dizia alto.
– Vai se foder – respondeu brava e jogou o controle no sofá enquanto ele ria.
– Sua vez – pegou o controle e me estendeu.
Caminhei até o sofá onde estava e me sentei ao seu lado. Olhei para a tela escutando algumas instruções de , Mayh e sobre como mexer no controle e preferi ficar na minha ao invés de dizer que não sabia jogar, mas sabia que a tecla de direção movia os personagens.
Escolhi um personagem qualquer baseado no que eles tinham dito que seria mais fácil. Não sabia fazer nada no jogo e enquanto o personagem que havia escolhido fazia movimentos precisos, o meu fazia de tudo um pouco enquanto eu apertava todos os botões possíveis de uma só vez. Óbvio que ele ganhou a partida sem muito esforço e rapidamente.
Continuamos jogando por tempo indeterminado e apesar de todo mundo ter ganhado pelo menos uma partida, o que obviamente não me incluía, o grande vencedor foi .
– Pense no que você quer. Só não me peça uns beijos, sou comprometido. – falou risonho.
– Sei lá, não tem nada de vocês que eu queira. Mas vou pensar em alguma coisa.
– Depois você me fala, tenho que ir pra casa, está tarde e vou jantar com a minha avó – falou se levantando. Aproveitei e fiz o mesmo.
– Pode me dar uma carona? Também vou embora, estou muito cansada – perguntei aliviada por não ter que ir com .
– Claro, ele sorriu. Vamos, ? – juntei as sobrancelhas olhando de um para o outro.
se levantou e não pude acreditar que teria que dar carona a ele também. Pelo menos não iríamos sozinhos.
Nos despedimos do casal e saímos da casa, só depois de ver o Impala me toquei que quem estava de carona era . E que havia evitado tanto olhar na direção de que não notei sequer o carro dele.
– Hum, achei que você estava de carro – cutuquei falando baixo, não queria que escutasse.
– O bom é que o está indo pro mesmo lugar que você – ele sorriu e entrou na parte traseira do carro.
Fomos durante todo o caminho em um silêncio que não parecia tão desconfortável até deixarmos em sua casa. Me remexi incomodada no banco, mas permaneci calada.
– Minha mãe sabe que você dormiu fora? – sua voz estava calma.
– Claro que sabe – por reflexo olhei em seu rosto para responder e vi quando ele concordou com a cabeça.
O silêncio voltou e assim permaneceu até que chegássemos em casa e eu fosse me trancar em meu quarto após tomar banho. Peguei um livro que tinha parado a leitura na metade, resolvi terminar de ler e aproveitar para passar o tempo. Me envolvi tanto na leitura que só percebi que havia escurecido e que chovia quando escutei o primeiro trovão. Geralmente nunca tive problemas com chuva nem trovoada. Contando que eu estivesse em meu quarto seca e quentinha, não via nada de errado em grandes tempestades.
Não sei como aconteceu nem quando, a única coisa que sei é que estava tão entretida em uma das partes cruciais do livro que, assim que o barulho do trovão ecoou dentro do quarto, meu susto foi tão grande que joguei o livro do outro lado do cômodo. Ao mesmo tempo, meu grito ecoou pela casa silenciosa que ficou em um breu macabro, com a luz dos relâmpagos iluminando por segundos o ambiente. Meu coração parecia uma britadeira e rapidamente procurei por meu celular rezando para ele estar com bateria suficiente. Assim que consegui ligar a lanterna do celular a porta se abriu com brutalidade e um faixo de luz foi colocado direto em meu rosto.
– O que aconteceu? – a voz de estava alterada e preocupada.
– Só me assustei – disse, colocando a mão na frente do rosto e ele desviou a lanterna.
– Estamos sem energia e acho que vamos passar a noite assim – ele disse parecendo estar um pouco mais calmo.
– Certo – falei me levantando e colocando o chinelo. – Vou para o quarto da – disse indo em direção à porta.
Eu nunca tive medo de chuva, mas o quarto não parecia nada agradável estando escuro daquela maneira, os relâmpagos produzindo flashes pela casa e cada vez que eles explodiam em trovões fortes, meu coração disparava duas vezes mais rápido por conta dos pequenos sustos. Não iria ficar sozinha.
– Ela não está em casa – ele disse antes mesmo que eu passasse por ele.
– Ok, vou pro da Meg – disse, olhando seu rosto mal iluminado e ele negou com a cabeça.
– Jantando com amigos – engoli em seco. Perfeito. Estava perfeito. – Posso ficar aqui se quiser. – disse e por seu tom de voz percebi que estava levemente sem graça.
– Não acho uma boa ideia – disse, orgulhosa, preferia morrer de medo que pedir para que ele ficasse ali.
– Quer ir para sala? – mais um trovão e meu coração quase parou. Merda.
– Tudo bem – disse e o segui para fora do quarto.
foi na frente enquanto eu o seguia de perto, poderia grudar em seu braço ou até mesmo em sua camiseta, mas não iria dar o braço a torcer. Meu orgulho era maior que meu medo.
Me encolhi em um dos cantos do sofá quando disse que voltava logo e fiquei por ali. Ele voltou com seu grande e grosso edredom me causando certa revolta. Revolta comigo mesma por não ter pensado nisso.
– Acho que vou buscar o meu também – falei já me levantando, quando cheguei no pé da escada outro estrondo e mais um grito. E juro que vi uma sombra no topo da escada.
Voltei correndo para o sofá e me encolhi na ponta, passaria frio, mas não iria até o quarto sozinha.
– Quer que eu vá pegar seu cobertor? – olhei para o garoto que estava sentado no outro sofá, mas não consegui ver seu rosto.
– Não quero ficar sozinha – confessei.
– Vamos juntos, então – juntei as sobrancelhas estranhando todo aquele comportamento.
Me perguntei várias vezes qual poderia ser o motivo daquela benevolência toda vinda de , ele certamente não era doce daquela forma. Devo ter ficado tempo demais calada e distraída, quando vi, ele estava se sentando no mesmo sofá que eu ocupava, na ponta oposta e ajeitando seu edredom em cima da gente.
Segurei uma ponta e me cobri até o pescoço, enrolei as mãos no tecido grosso e apoiei o nariz ali. Como eu sabia que ele não podia me ver claramente, cheirei levemente. O tecido estava impregnado com o perfume de , aquele cheiro gostoso que ele sempre emanava e que me enlouquecia. Fechei meus olhos tentando gravar bem o cheiro. Uma péssima ideia, já que milhões de imagens do luau em que ficamos pipocaram em minha mente.
Obviamente me distrair de tal forma fez com que outro trovão me assustasse, olhei para e vi seu rosto levemente iluminado pela luz da tela de seu celular, virado em minha direção.
– Você tem medo de chuva? – ele perguntou.
– Não, mas não acho uma mistura legal trovões e escuro – respondi olhando para minhas mãos, vendo parcialmente sua forma conforme meus olhos se acostumavam com a escuridão.
– Por que não tenta dormir? – voltou a perguntar.
– Não vou conseguir se esse barulho não parar – confessei um pouco mais baixo.
– Quer um abraço? – eu poderia ter explodido em gargalhada não fosse o tamanho da minha surpresa.
– Você está tentando ser engraçadinho? – perguntei, olhando para o seu rosto. Ele deu de ombros, percebi pelo contorno de seu corpo.
– Não, estou falando sério – ficamos em silêncio por alguns segundos.
A vontade de nem responder e ir direto me aconchegar em parecia insuportável, mas continuei firme.
– Estou tentando ser legal – ele disse e riu.
– Por quê? Legal e na mesma frase não combinam – falei sarcástica.
– Porque sim – ele foi curto, mas não grosso.
– Passo, obrigada. Não sei o que você está pretendendo e nem quero descobrir – falei rápido e voltei a encarar minhas mãos.
– Não estou pretendendo nada, . Mas se quiser vir, está quentinho aqui – não deveria, mas queria muito ver seu rosto claramente e ver qual era a expressão estampada ali.
– Aqui também está – falei desdenhando.
– Se você vier aqui vai ficar mais quente, um corpo esquenta o outro – fechei os olhos não sabendo se ele realmente queria que aquela frase soasse com todas as intenções possíveis. E contra a minha vontade meu corpo entendeu como bem quis e estava mais quente onde eu estava do que poderia imaginar.
– Deixa de ser ridículo, – minha voz saiu nervosa e me odiei por isso, ainda mais quando ele riu.
– Relaxa, , não vou agarrar você. Não preciso fazer isso – rolei os olhos, sabia desde o início que aquela conversa terminaria daquela maneira.
– Ah claro, você acha que eu vou cair aos seus pés e pedir “por favor, me beija”. Você é ridículo.
– Você já disse isso. E não, não foi isso que eu disse. Eu disse que não preciso te agarrar, você disse para que ficasse longe de você. Não vou forçar nada com você. E devolve meu edredom, você faz um julgamento muito errado ao meu respeito, não merece ter um pedaço dele – disse e puxou o edredom pra si.
– Eu faço um julgamento errado? Te julgo pelo que me mostrou, agora deixa de ser criança – falei e puxei o edredom de volta.
– Não vou responder como deveria, pra você não ficar brava e porque acho que não tenho essa liberdade – falou, me deixando curiosa pelo que ele poderia dizer. – Mas a oferta ainda é válida. Meu abraço é bom.
– Convencido – resmunguei.
– Sou mesmo – rolei os olhos.
Ficamos em silêncio por um grande período de tempo, como o celular estava sem área não dava nem para me distrair com ele e estava começando a ficar cansada de ficar sentada em uma única posição.
– Que tédio, você está com fome? – olhei para como se ele fosse um ET.
Seu comportamento estava me levando a acreditar que ele havia sido abduzido e haviam colocado outro em seu lugar.
– Não – disse e bufei.
– Eu também não – silêncio. – Chuva chata – mais silêncio. – Eu gosto do calor.
– Você está tentando conversar? – perguntei, perdendo a paciência.
– Na verdade, eu queria te beijar – arregalei meus olhos pro nada. – Mas como você não quer, tenho que conversar.
– Você precisa parar de achar que vai conseguir me iludir com essa conversa de que quer me beijar e toda essa merda que você está fazendo. Não caio mais nessa, , pode voltar a me tratar como você gosta – apoiei o rosto na mão o olhando.
– Não estou tentando te iludir, . Fica tranquilA, estou tentando me comportar como gente.
– Por quê? – minha voz saiu um pouco mais alta o cortando.
– Porque eu quero te beijar – ele disse tranquilamente.
– Vai se foder, vai – disparei nervosa e ele riu. Porra, , estou tentando manter meu orgulho, colabora moleque.
– Eu paro se você vier aqui – esfreguei o rosto.
– Já estou aqui.
– Aqui perto, não vou te morder – ele falou e sua voz já estava divertida.
O filho da puta, Meg que me perdoe, estava se divertindo às minhas custas mais uma vez.
– O gato comeu sua língua? – falou quando eu decidi que ignorar era a melhor solução. – ?
– O que é caralho? – perdi a paciência e me virei para ele. – Fala logo o que você quer? Você sente prazer em ser babaca comigo, né? Por quê? Que porra eu fiz para você zombar da minha cara dessa forma? – nunca falei tanto palavrão em uma única frase na minha vida.
ficou quieto, talvez até assustado com a minha explosão momentânea.
– Vamos fazer as pazes? – fiquei olhando para ele, sem reação nenhuma.
Precisava alertar Megan que ela tinha um filho viciado, aquilo não era possível.
– Você só pode estar drogado.
– Por quê? Por querer te conhecer um pouco melhor? – fechei as mãos em punho.
– É, é por isso. Você não gosta de mim, lembra? Você fica aí se fazendo só pra ficar comigo e depois se gabar de como eu sou otária. Faz um favor e esquece da minha existência, porque da sua eu só lembro quando você abre a boca pra me importunar – falei tudo de uma vez.
– Está bem – ele falou calmo e ficou em silêncio por um tempo indeterminado.
Não sei como dormi, mas despertei com um barulho estranho, parecia ser de coisas se quebrando. Estava deitada ocupando boa parte do sofá e meu primeiro instinto foi procurar por alguém ali. Sem sucesso, me levantei um pouco desesperada e vi parado perto da janela, olhando para fora.
– O que foi isso? – perguntei, ficando de pé e indo até ele.
– Uma árvore caiu no carro do vizinho. Coitado do senhor Wilson – ele disse ainda olhando através da janela.
Fiz o mesmo e vi a árvore imensa em cima do carro. A chuva não diminuiu, ao contrário do que achei, ela havia aumentado e agora rajadas de vento balançavam furiosamente os galhos das árvores e até as mais pequenas iam de um lado ao outro.
– Não sabia que teria temporal – comentei vendo as gotas grossas baterem no chão .
– Pois é, deve ter dado no jornal.
– Quem assiste jornal? Odeio – comentei voltando para o sofá. – A casa aguenta essa ventania? – olhei para o teto preocupada.
– Claro que não, se ventar um pouco mais forte a gente vai sair voando – ele disse e arregalei os olhos. se sentou ao meu lado jogando o edredom por cima de suas pernas. – Não se preocupa, eu te protejo – ele me abraçou.
– Você está falando sério? – até eu ouvi o medo em minha voz. Ele riu.
– Claro que não, . A casa é segura, não é feita de tábua – ele havia aproveitado para me abraçar.
– Pode me soltar, – disse e virei o rosto em sua direção. Pior erro da minha vida.
Nossos rostos estavam a centímetros de distância e eu podia sentir sua respiração batendo em minha pele. Ficamos nos olhando por algum tempo, seus olhos estavam escuros e ainda assim podia ver a cor neles. passou o nariz no meu e, por tudo, eu queria muito beijá-lo acidentalmente, embora minha consciência esperneasse que eu não podia permitir aquilo e me censurasse por já ter os olhos fechados.
Trouxa! Ela apontava seu dedo na minha cara. É isso que ele quer, te iludir.
Você é vazia.
Abri meus olhos no mesmo instante em que ouvi a voz de , era tão real que ele parecia ter falado naquele exato momento. Mas era só minha consciência me lembrando exatamente o porquê eu deveria afastá-lo.
Achei que ele fosse me beijar e cheguei a colocar a mão em seu braço para afastá-lo, mas tudo que fez foi apoiar sua testa na minha e quando eu abri a boca para falar qualquer coisa que o repelisse ele foi mais rápido.
– Não vou te beijar , você disse para eu ficar longe e vou respeitar sua decisão – se afastou logo depois de falar.
– Não faça mais isso. Não quero que toque em mim – disse ainda um pouco abalada.
– Eu sei – ele disse baixo enquanto ia para a outra ponta do sofá.
Estava com vontade de chorar.
Chorar por não poder simplesmente beijá-lo. Porque ele era um babaca.
Minha consciência e razão já tinham aceitado que jamais poderia ceder. Embora cada pedaço do meu corpo me implorasse para me aproximar e beijar .
Eu quero te beijar.
Só de lembrar dessa frase meu corpo se arrepiava inteiro.
Mais vontade de chorar.
Chorar porque estava apaixonada por ele.
Estava apaixonada por um babaca.
Quanto mais a vida poderia ser dura comigo? Já não era o suficiente todas as pancadas que ela tinha me dado?
Segurei forte minhas lágrimas. Estava apaixonada.



Vinte e Três

Achei que estava despertando de um cochilo de cinco minutos, mas quando olhei no relógio percebi que havia dormido pouco mais de uma hora, minhas pernas pareciam cansadas com o peso da cabeça de que parecia desfrutar de um sono tranquilo, como se estivesse na própria cama.
A chuva não tinha cedido um milímetro e a noite ainda estava longe de acabar, estiquei meus músculos o quanto pude, me preparando para tirar do sofá e levá-la para seu quarto. Tirei sua cabeça com cuidado do meu colo e me levantei. A peguei no colo com alguma dificuldade e ela me abraçou, acredito que por reflexo, tentei não pensar em como ela parecia ainda mais cheirosa para mim. Nos últimos dias, minha mente parecia tão confusa como nunca antes, como nunca esteve com inúmeros problemas que eu havia tido que enfrentar com minha mãe depois que adquiri o entendimento que a vida era mais complicada que decidir o tipo de cereal que eu mais gostava no supermercado.
Quando coloquei a garota na cama fiquei olhando seu rosto por alguns segundos, sua expressão continuava serena, transparecendo uma inocência que todos os dias ela fazia questão de mostrar que não tinha e me perguntei quando foi que me tornei uma pessoa tão horrível com alguém. Meu pai com toda certeza torceria o nariz, exatamente como ela fazia, se pudesse presenciar o modo como eu tratava .
Ele me perguntaria se havia algum motivo para tanta hostilidade ou raiva gratuita para com ela. E o que eu poderia responder? Eu sabia que não tinha um motivo real, — era mimada e arrogante, mas o que exatamente ela havia feito de tão horrível — ou tinha? Não, ela não tinha e eu sabia disso tanto quanto todas as pessoas que estavam a nossa volta.
Me recusava a pensar em como as coisas poderiam ser diferentes se eu tivesse tomado outra postura diante a todos os fatos que aconteceram desde que havia ido para minha casa, eu sabia que não estava aberto a ter um bom relacionamento com ela, ficando com uma má impressão dela quando tirei minhas próprias conclusões no dia em que mamãe e Patrick vieram me explicar toda a situação envolvendo ele e a filha.
Nunca antes tinha parado para pensar naquele assunto como nessa noite. se mexeu quando o barulho de um trovão ecoou pelo quarto, me sentei ao seu lado na cama e fechei os olhos tentando pensar em qualquer outra coisa que não fosse minha relação com . Tinha um mundo de coisas para me preocupar, como minha mudança de país por exemplo. A minha faculdade ou como minha mãe provavelmente ficaria sozinha se conseguisse entrar para a companhia de balé. Como mamãe dizia, não devíamos nos preocupar com ela, ela era adulta e saberia levar sua própria vida e nós tínhamos que construir nossas próprias.
saberia construir a própria vida sem toda a comodidade a qual estava acostumada? Talvez ela ficasse com a minha mãe se tudo não saísse como o planejado, talvez ela não soubesse como gastar o dinheiro que ela nem sabia que ainda tinha e poderia facilmente se ver desemparada na vida.
Quando Patrick pediu ajuda realmente achei que que ele queria dar uma lição na filha fútil, mas tinha que reconhecer seu esforço, ele não estava dando nenhuma lição em , ele estava querendo que ela aprendesse a se virar sozinha e assim pudesse continuar tendo uma vida confortável em futuro onde ele não poderia comprar o mundo para ela. Afinal, ela não era mais dona de uma fortuna imensurável, ela tinha o suficiente para começar a construir a própria vida.
E por que eu estava pensando no futuro de ? Um futuro que tinha certeza que não faria parte de nenhuma maneira. E não conseguia entender porque eu queria fazer parte. Eu sabia que enganava a mim mesmo falando todos os dias o quanto ela era insignificante para mim e o quanto eu queria distância da garota, que fazia o possível para ter raiva de e não nutrir nenhum tipo de sentimento positivo por ela. Por um tempo pareceu funcionar perfeitamente bem, o problema foi quando eu mesmo me sabotei tentando provar para que quanto mais ela me repugnava pela minha classe social, mais ela iria me querer.
Só percebi que realmente havia dormido quando senti meu corpo balançar e a voz de minha mãe distante chamando meu nome, ela sorriu carinhosamente quando abri meus olhos.
— Bom dia, querido. O que faz aqui no quarto da ? — perguntou passando a mão em minha bochecha.
— Ela tava com medo de ficar sozinha, acabei caindo no sono — minhas costas reclamaram quando me ajeitei.
— Dormiu sentado, pode faltar a aula se quiser — ela disse se sentando na beirada da cama.
— Onde passou a noite? — perguntei olhando as horas.
— Na casa da Peg, não deu para voltar pra casa, a chuva e o vento estavam muito fortes. dormiu no — fiz uma careta. — Não faça essa cara, vou fazer café — ela se levantou e fiz o mesmo.
Fui para o meu quarto e deitei na cama pegando no sono instantaneamente, meu corpo estava cansado e quando acordei mamãe já não estava mais em casa, que parecia vazia devido ao silêncio. Subi as escadas e fui em direção ao banheiro, e mesmo a porta estando fechada tentei abrir.
— Tem gente. — gritou.
— Vai demorar? — perguntei impaciente me encostando no batente da porta.
— Não sei — rolei os olhos e esperei.
Poucos segundos depois a porta foi aberta e se assustou quando me encontrou ali.
— Bom dia — falei já tentando entrar no banheiro.
— Bom dia. Pode esperar que eu saia para depois entrar? — disse mal humorada.
— Tô apertado, dá pra agilizar? — ergui uma sobrancelha e ela saiu em direção ao quarto.
Depois de usar o banheiro fui para a cozinha encontrando o café pronto em cima da mesa, enquanto comia as torradas frias que minha mães havia feito mandei mensagem a perguntando seu paradeiro.
— Acho que perdemos a hora. — se sentou na minha frente.
— Eu não perdi — falei pegando outra torrada.
— Por que não me chamou? — ela reclamou se servindo de café.
— Porque eu não ia pra aula — dei de ombros.
— Não dependo de você para ir ao colégio — ela foi arrogante, mas ignorei.
— Então também não precisa que eu te acorde — disse tomando o cuidado de não parecer provocativo.
— Não mesmo, mas poderia ter feito uma gentileza uma vez na sua vida — ela me olhava atentamente.
— Acho que te levar para sua cama ontem pode ser chamado gentileza — respondi tentando não perder a paciência com ela.
— Fez porque quis — suspirei disfarçadamente.
— Exatamente, foi porque eu quis e não precisa agradecer — me levantei pegando as coisas que usei, as levando para a pia. — Vou pra casa do , quer ir? Ou quer carona para algum lugar? — perguntei quando estava saindo da cozinha depois de lavar a louça que havia na pia.
— Quero, eu iria na Mayh, mas ela está na escola — ela deu de ombros. — Vou me trocar.
Dei de ombros e fui para a sala esperar que demorou uns quinze minutos para colocar um moletom e tênis. Fomos durante todo o caminho em silêncio, ela estava entretida em seu celular, no mínimo conversando com Matty.
abriu a porta e um sorriso instantâneo quando viu que estava junto comigo.
— Vocês estão se pegando? — perguntou um pouco feliz demais.
!
— Que? — ela perguntou quase histérica. — Que asneira é essa, você acha que eu me rebaixo a esse nível?! — ela disse antes de entrar na casa dele como se fosse sua.
— Que toco hein, meu amigo. — falou rindo.
— Imbecil — disse entrando em sua casa.
parecia bem à vontade trocando os canais da tv, achava aquilo tudo muito estranho. Tinha certeza que reparava o suficiente em para saber caso ela tivesse aquele grau de intimidade com .
— Vamos jogar — ele disse tirando o controle remoto da mão da garota.
— Jogar o quê? — ela perguntou confusa, enquanto eu preferia nem saber qual seria a asneira da vez.
— Verdade ou desafio — ele disse com uma expressão divertida.
— Não vou jogar isso. — arrancou o controle de antes de nos olhar com desprezo. — Com vocês dois — ela rolou os olhos e ele riu.
— Certo. Vamos jogar videogame, então. Quem perder beija o — tive que rir da cara que a fez.
— Credo, você sabe que isso inclui você? — ela parecia um pouco espantada.
— Não que eu já não tenha feito isso antes, mas vamos competir só nós dois e eu acho que não perco pra você — ri de verdade e bem alto com a expressão no rosto de .
— Para de graça — ela disse por fim.
— Ah, , não é tão ruim assim beijar o , ele beija bem. Mas acho que você sabe disso — tive o cuidado de manter meus olhos na tv para não pegar pelo pescoço.
— Como? — por seu tom de voz, ela estava muito nervosa. — Quem foi que andou inventando essa atrocidade? — ela falava olhando para mim e eu nem precisava olhar de volta para saber.
— Ops. Vou pegar um refrigerante, alguém mais quer? — disse antes de sair da sala.
— Não acredito — disse indignada.
— Não falei nada para ele — me defendi.
— Pra quem mais você se gabou de ter ficado comigo? — olhei seu rosto que estava vermelho.
Eu tinha uma resposta na ponta da língua para a prepotência de .
— Eu não fiquei me gabando de nada, . Ele que veio me perguntar e eu meio que confirmei. — encolhi o ombro.
— Quem mais sabe disso, ?
— Está preocupada se o Matty vai descobrir? — rebati.
— Não estou preocupada com Matty nenhum, não quero que fique inventando boatos a meu respeito — ela cruzou os braços.
— Inventando? Eu inventei alguma coisa a seu respeito por um acaso? — estava começando a ficar irritado.
— Não quero que fique falando coisas a meu respeito — observei seu rosto e preferi ficar calado, não queria falar nenhuma besteira que pudesse arruinar ainda mais as coisas em relação a ela.
— O que vamos assistir? — se sentou ao lado de como se nada tivesse acontecido.
— Acho que vou pra loja — disse me levantando.
— Que isso mano, você entra só mais tarde — ele falou provavelmente tentando amenizar o clima.
— Entro mais cedo, tô precisando de dinheiro mesmo. Quer carona, ? — perguntei já em pé.
— Depois o me leva — ela sequer olhou em minha direção. Concordei com a cabeça e saí.
De repente, toda aquela frieza de havia começado a incomodar, de repente tudo o que eu queria era que as coisas funcionassem entre a gente como funcionava com os outros. Mas a culpa era minha não era? Quem havia imposto aquilo entre nós havia sido eu e sempre fora fácil lidar com aquilo, então por que estava incomodando?
Ocupei a cabeça o quanto foi possível durante o dia para não ficar pensando nas coisas que eu havia feito durante aqueles meses e tentando não entender em como eu havia chegado naquela situação. Quando saí da loja fui até a cafeteria me sentar no mesmo lugar de sempre com uma inspiração enorme de terminar meu desenho. O mesmo que apresentaria em minha entrevista em Harvard.
— Posso sentar? — sorri para Mayh e fechei meu caderno. Nem mamãe havia visto meu desenho.
— Claro — disse pegando minha caneca. — O que faz perdida por aqui?
— Não estou perdida, vim atrás de você — ela sorriu se sentando a minha frente e depositando o copo que estava em sua mão na mesa.
— Hum, a que devo a honra?
— Na verdade, só queria passar um tempo com meu melhor amigo — ela sorriu carinhosa.
— Achei que esse posto estava preenchido por outra pessoa — falei vagamente.
— Não foi ocupado por ninguém além de você. Tenho outros melhores amigos, e todos eles têm espaço no meu coração — ela sorriu mais uma vez.
— Não parece, ultimamente você só anda com a pra baixo e pra cima, é só pra tudo que é lado — dei de ombros.
— Não seja ciumento, , nem o é assim — ela ficou carrancuda.
— Não é ciúme, é a verdade.
— Como você está? — mudou de assunto.
— Estou bem, e você? — perguntei de volta.
— Estou bem — ficamos em silêncio nos olhando e ela riu sem graça. — Não gosto disso.
— Disso o quê? — ergui uma sobrancelha.
— De parecer uma estranha com meu melhor amigo.
— Não é uma estranha — rebati.
— Você não conversa mais comigo — disse com tristeza.
— Claro que converso.
— Não, . Não conversamos mais como antes — ela deu de ombros.
— Você nunca mais me procurou para conversar — mais uma vez rebati. A culpa não era minha se ela havia se afastado.
— Mas antes não era assim, fluía naturalmente a gente só sentava e conversava. Você desabafava, eu desabafava e assim ia. Sinto falta disso, sabia? — sorri abertamente para ela.
— Ainda converso normalmente com você, Mayh.
— Não conversa, não. Se não fosse a me dizer, eu nem saberia que tinham ficado — cruzei os braços.
— É sobre isso que quer falar? Sobre ela? — Mayh rolou os olhos.
— Quero conversar sobre qualquer coisa, mas não coisas superficiais, sobre o que acontece nas nossas vidas, sobre o que nos aflige, sobre o que nos deixa feliz. Já disse, como era antes — ela estava ficando impaciente.
— O que te aflige? — perguntei já me divertindo com sua irritação prestes a explodir.
— Ai, , isso me aflige, sentir meu melhor amigo distante, sentir a falta de confiança que pareceu surgir entre a gente ao ponto de não contarmos um ao outro as grandes coisas que acontecem com a gente — ela disse tudo muito rápido.
— E você acha que ficar com a foi uma coisa muito emocionante na minha vida? — ergui a sobrancelha e ela me olhou irritada.
— Foi no mínimo hipócrita da sua parte, né.
— Por quê? — quis saber interessado.
— Por tudo, você que nunca gostou dela, dizia que ela não fazia diferença na sua vida e mais um monte de babaquice, que só de lembrar me faz querer bater sua cara nessa mesa — ela colocou os dedos nas têmporas. — Fica assim sempre desmerecendo a garota e depois beija a menina. Hipócrita.
— Não estou desmerecendo a — me defendi. — Foi sobre eu ter ficado com ela que você queria falar?
— Não, queria saber o que está passando com você e entender essa situação. Uma hora você não gosta dela, na outra você beija ela — ri de sua expressão confusa.
— Mayh, eu detestava a Carly na primeira série e fui apaixonado por ela na terceira série todinha.
— Você está apaixonado pela ? — ela deu um sorrisinho.
— Não disse isso. O que quis dizer foi, que por mais que eu possa não gostar da , eu posso ter vontade de ficar com ela — ela me olhou atentamente.
— Isso não existe — negou com a cabeça. — Me diz um motivo plausível pra você não gostar dela.
— Não sei — dei de ombros e passei a mão pelo cabelo. — Não tenho um motivo para não gostar dela sabe. Só já esperava uma coisa ruim sobre ela e acabou que ela atendeu essa expectativa durante um tempo.
— A chegou aqui com uma postura meio insuportável, mas você sabe que ela só precisava de um tempo.
— Você está fazendo campanha em prol dela?
— Claro que não, estou comentando um fato que você sabe. Você vê isso todo dia — ela falou com calma.
— Sei lá, Mayh. Eu não sei direito o que aconteceu, parece que quando eu paro pra pensar em como foi tudo com a até aqui, não parece que era eu, nem meus pensamentos sobre ela parecem que são meus. Eu estava com tanta raiva e eu nem sei pelo quê — respirei fundo.
— Foi pelo que ela te disse no quarto quando foi se desculpar? — ela parecia tão confusa quanto eu.
— Mais ou menos na verdade. Parece que aquilo só foi o que faltava para eu saber que não podia me aproximar dela. Eu sempre soube que a gente era muito diferente e sempre duvidei que ela pudesse criar algum laço com alguém daqui, nem com a minha mãe, nem com a nem com qualquer pessoa que vive nessa parte da cidade e isso já me fez repelir a ideia de ter qualquer tipo de simpatia por ela. O Patrick deixou algumas coisas claras sobre a e eu sempre soube que para ela, nós seríamos apenas o salva vidas dela para que não morresse de fome. Sei lá, meus pensamentos estavam claros, mas agora não parecem certos — me encolhi quando percebi que falei mais que o necessário.
— E por que está pensando assim agora? — ela estava séria.
— Se eu soubesse já me evitaria alguns problemas. Ela parece uma pessoa diferente de quando chegou aqui. Ela se dá bem com todas as pessoas que eu conheço e eles parecem gostar dela. Ela parece tratar as pessoas com decência, e mesmo sabendo que isso foi uma adaptação para poder sobreviver em um ambiente completamente diferente do que estava acostumada, parece uma pessoa diferente da que chegou em casa — dei de ombros.
— Ou talvez, nós só não conseguíamos ver o que estava por trás de todas aquelas roupas de marca e toda aquela pose de garota absurdamente rica — nos encaramos por alguns segundos em silêncio.
— Talvez você esteja certa, talvez não — dei de ombros e comecei a juntar minhas coisas que estavam pela mesa. — E talvez nunca saibamos quem a é de verdade.
— Ou talvez nós já saibamos quem ela realmente é e por algum motivo desconhecido não admitimos isso. Seria orgulho? — ela ergueu uma sobrancelha.
— A única coisa que eu tenho certeza, é que está na hora de ir para casa — falei enquanto guardava meus objetos dentro da mochila.
— Sabe o que fico me perguntando? — Mayh disse enquanto nos levantávamos.
— O quê? — perguntei olhando seu rosto.
— Se na posição de melhor amiga eu poderia ver o que você tanto desenha — ela sorriu.
— Boa tentativa, mas é algo pessoal que eu gosto de manter só pra mim. Me dá mais segurança em fazer uma coisa da qual eu goste, sem nenhuma opinião — falei enquanto caminhávamos para porta.
— Não sou do tipo que dá pitaco no trabalho alheio — insistiu.
— Mayh, não vai rolar. Depois de pronto, quem sabe? — dei de ombros.
Já estava escurecendo e cada um foi para a sua casa, e voltei a me sentir estranho e confuso. Tentei limpar a mente assim que fechei a porta de casa, não queria ter que ficar pensando em todas aquelas coisas especialmente perto de mamãe, ela me conhecia bem demais e ela seria alguém que poderia me ajudar a deixar as coisas claras. O grande problema disso era que eu não podia falar para ela sobre esses problemas, simplesmente porque envolvia e todo o relacionamento que havíamos criado durante esse tempo. Não sei por qual parte ela surtaria mais, talvez o conjunto todo a fizesse ter uma crise nervosa. Então, não era uma opção deixar minha expressão mostrar o quanto eu estava pensativo.

’s POV

Estava me perguntando se só eu havia percebido o quanto estava radiante naquele dia. Quando voltei da casa de , ela já tinha chegado, mas não abriu a boca depois de perguntar como havia passado a noite. Ela ficou o restante da tarde com o fone de ouvido fazendo alguns passos de dança.
Confesso que estava curiosa para saber o que a havia deixado radiante daquela forma, apesar de imaginar o motivo, mas não me sentia à vontade para perguntar. Sempre achei que o outro lado é quem deveria sentir segurança para compartilhar algo comigo.
era outra pessoa que parecia diferente, muito mais calado que o normal e poderia ser só impressão minha, mas ele parecia querer esconder alguma coisa, forçando uma naturalidade que claramente não havia nele naquela noite.
Depois do jantar, subi para o quarto e revisei a matéria de biologia antes de me preparar para dormir. Quando estava quase pegando no sono bateu na porta do quarto e entrou com uma garrafinha de água.
— Está com muito sono? — perguntou animada.
Eu estava caindo de sono, mas estava muito mais curiosa para saber o que ela tinha para me contar.
— Você precisa conversar? — perguntei me sentando na cama e ela se sentou na minha frente.
— Mais ou menos, segurei isso o dia todo. Preciso falar com alguém — seus dedos torceram a tampa da garrafa.
— O que aconteceu? — tentei não parecer muito curiosa.
— Eu e o fizemos — mesmo com a pouca luz, pude notar que seu rosto ganhou uma cor avermelhada.
— Fizeram? — ergui uma sobrancelha.
— É, a gente transou — sua voz parecia eufórica.
— E foi bom? — não sabia exatamente o que falar para ela.
— Ah, não foi nada do que eu já escutei por aí sabe. Não doeu como as meninas dizem que dói, mas também não foi maravilhoso como já li por aí. Mas foi mágico — nem percebi que estava sorrindo.
— Você se sente diferente? — perguntei.
— Mais ou menos, me sinto ligada a ele. É difícil explicar — ela deu de ombros.
— Vocês se preveniram?
— Sim, até porque disse que poderia ser mais confortável para mim usando camisinha — juntei as sobrancelhas.
— Não é uma questão de conforto — a contrariei.
— Não estou dizendo que só usamos por isso, . De qualquer forma iríamos usar. Não quero ser mãe aos dezesseis.
— Isso, se previna sempre. Você falou pra Meg? — ela balançou a cabeça negativamente.
— Ainda não, na verdade não sei o que dizer exatamente. Alguma dica? — ela estava sem graça.
— Acho que só deve dizer como se sente em relação ao e contar que transaram. Não acho que a Meg vai ver problema nisso. — Megan não parecia ser o tipo de pessoa que não entendia a relação humana, mesmo se tratando de seus filhos, ela parecia compreender que certas coisas faziam parte da vida de todo ser humano.
— Vou lá agora, me deseja sorte? — ela se levantou se agarrando a garrafa.
— Mesmo achando que não vai precisar, boa sorte — sorrimos e ela saiu do quarto.
Quando meus pensamentos foram direcionados a criar cenas e ilusões de como seria se eu estivesse no lugar de e no lugar de , recorri a contar carneiros para pegar no sono logo e parar de pensar aquele tipo de besteira.
Estava tentando superar qualquer tipo de sentimento que nutria por ele, não podia ficar fantasiando em como seria transar com .
Com sucesso, consegui me concentrar nos carneiros e nem percebi quando dormi.
Acordei transpirando um pouco e levemente ofegante, na noite anterior havia conseguido barrar todas as imagens de sem roupa de meus pensamentos, mas não consegui fazer o mesmo com meu subconsciente. Ele insistiu em fantasiar com sem roupa em cima de mim. Senti meu rosto esquentar só de lembrar de como havia sido meu sonho.
Foi tudo real demais, tão real ao ponto de eu conseguir sentir seu cheiro e a textura de sua pele. Céus, eu tinha que apagar aquele sonho da minha memória.
Dei graças a Deus por ter usado o banheiro e não ter cruzado com no caminho, mesmo que ele não soubesse que eu havia sonhado com ele, muito menos do conteúdo do sonho, seria constrangedor demais. Mas minha sorte estava prestes a acabar, teria que sentar à mesa com ele e, o pior, enfrentar quinze minutos trancada em um carro com ele.
— Bom dia — minha voz falhou assim que coloquei os olhos em . Mesmo sem querer, ele foi a primeira pessoa para a qual olhei quando entrei na cozinha.
— Bom dia — os três responderam juntos como se tivessem ensaiado.
Não tirei meus olhos da xícara com chá a minha frente, tinha a impressão que eles me olhavam como se soubesse exatamente o que eu havia sonhado.
? — pisquei várias vezes quando ouvi a voz de . Meus Deus, ele sabia.
— Sim? — minha voz quase não saiu.
— Está pronta? — exatamente a mesma coisa que havia perguntado em meu sonho quando estava em cima de mim.
— Hm? — perguntei sem jeito, certa de que meu rosto estava enrubescendo. Ele levantou uma sobrancelha.
— Já podemos ir? — ele falou e percebi que realmente todos os três me olhavam.
Dei um sorrisinho sem graça e me levantei.
— Claro — peguei minhas coisas e caminhei para fora da casa.
O caminho até o colégio pareceu muito mais demorado que o normal, durante todo o caminho retorci minhas mãos em cima do meu colo, o carro inteiro tinha o cheiro de e só me trazia lembranças do sonho que queria esquecer. Não ajudava em nada as imagens do sonho se confundirem com as da noite da tempestade, como se fosse um acontecimento posterior a dizendo que queria me beijar.
Tinha certeza que poderia enlouquecer a qualquer momento e a única saída seria Patrick me levar para bem longe de .
Suspirei olhando para o nada, o queixo apoiado em minha mão, sabia que o conteúdo da matéria era importante, iríamos entrar em período de provas, mas não consegui me concentrar em nenhuma das aulas que tive durante a manhã. Tentei me concentrar em Patrick e qual poderia ser seu paradeiro para dispersar da minha mente maluca.
Cogitei a hipótese de papai estar até preso, algo que me fez rir, ele não era nenhuma celebridade, mas, com toda certeza, caso ele fosse preso daria nos jornais. Não que eu assistisse jornal, mas isso não ficaria escondido tanto tempo. Ou ficaria? Mais uma vez ri com meu pensamento insano. Patrick jamais faria alguma coisa ilícita, toda fortuna da nossa família era herdada e nada foi conquistado com qualquer tipo de crime.
Patrick poderia estar trabalhando e se negava em me mostrar sua mais nova realidade, ou talvez ele só tivesse tentando recuperar nossa fortuna e quisesse me encontrar somente quando nossas coisas estivessem devidamente recuperadas. Céus, seria tolice demais de minha parte cogitar uma coisa daquelas. Nem quando era uma criança tinha sonhos tão lúdicos como aquele.

Me sentia nervosa sentada à mesa do refeitório só por estar na presença de , não ajudava o flagrar me olhando cada vez que meus olhos me traíam e seguiam para seu rosto. Era ainda mais constrangedor sentir a pele de minhas bochechas queimarem enquanto meu coração dava pequenos saltos. Deus, minha missão na Terra era ser trouxa por esse ser chamado ?
Não conseguia sequer distinguir o que meus amigos falavam ao meu redor, minha saída foi olhar para todos os cantos do refeitório possíveis onde não correria o risco de encontrar seu olhar. Acabei espiando a mesa onde Matty costumava se sentar e me surpreendi em encontrar grande parte das pessoas que a ocupavam me olhando com ar de riso, inclusive a garota que Matty abraçava com um de seus braços pelos ombros. Voltei a olhar minha bandeja tentando disfarçar o incomodo com aquilo, mas foi inevitável voltar a olhar em direção a mesa, eles não me olhavam mais. Matty me olhou e disse alguma coisa rindo às pessoas que fizeram o mesmo.
? — vi os dedos de Mayh estalando em frente ao meu rosto e pisquei algumas vezes a encarando. — Está nessa dimensão? — perguntou rindo.
— Claro — sorri sem graça.
— Está? E o que você acha? — perguntou com ares de riso.
— Sobre o quê? — devolvi a pergunta pegando minha garrafa de água.
— Estou convidando vocês para passar o fim de semana na fazenda da minha família. Vai ser divertido. — Mayh falou empolgada e já entortei o nariz de novo.
— Mato de novo? Deus me livre, passo — sua expressão murchou.
— Não vai fazer falta. — foi quem falou e o olhei com ódio, o qual ele retribuiu piscando um olho. Droga, minhas bochechas ficaram vermelhas.
— Óbvio que vai fazer falta e todos sabemos disso. — falou com calma.
— Exatamente, vai ser divertido. — parecia realmente empolgado.
— E não vamos ficar no mato, , é uma casa com banheiro, água quente e camas macias e quentinhas. Se você não for, vou ficar muito magoada. — Mayh fez o maior drama.
— Esse fim de semana? — perguntei em dúvida.
— Sim — ela sorriu largamente.
— Te deixo dormir no meu quarto, . — falou debochado arrancando sons estranhos de todos os nossos amigos.
— Só nos seus sonhos, seu animal — rosnei tentando deixar a raiva me dominar, ele estava fazendo de novo.
Sem permissão a decepção me dominou, não iria mudar, ele sempre seria um babaca e eu estava certa em não ceder sequer um milímetro ao seu teatro.
— Tudo bem se eu convidar a Sam? — perguntou a Mayh.
— Sem problemas — ela sorriu.
— Só vai casal? E o que eu vou fazer lá?
— Casal com o . — falou fazendo se engasgar com a comida e gargalhar. — Outch, foi só uma brincadeira, amor — disse depois de provavelmente levar uma cotovelada da namorada.
— Você vai porque é nossa amiga e vamos todos nos divertir. — Mayh falou sorriu.
começou a fazer planos para o fim de semana com possibilidades infinitas do que poderíamos fazer na fazenda. Confesso que poderia até me empolgar se não tivéssemos que ficar o tempo todo no mato expostos a insetos.
Depois da aula, deixou no estúdio e seguimos para casa, me mantive em silêncio a maior parte do caminho, não deixando de notar os olhares que o garoto me lançava.
— Você está calada hoje — ele disse de repente quando parou em um semáforo.
— Sempre sou calada quando estou só com você — respondi e peguei o celular em meu colo, disposta a começar a mexer em qualquer função dele só para não precisar conversar com .
— No almoço você também estava e não estávamos sozinhos — ele disse. — É por causa do Matty? — tive que rir.
— Até parece — falei ainda rindo.
— Ele te fez alguma coisa? — o olhei em dúvida se ele estava preocupado.
— Isso te importa? — ergui uma sobrancelha.
— Se foi algo sério, sim — ele me olhou brevemente.
— Vou fingir que acredito — falei voltando a atenção para meu celular.
— Não precisa acreditar, mas se ele te fez algo pode me dizer — balancei a cabeça negativamente, duvidava que ele estivesse preocupado.
— Matty é um cara legal, duvido que ele seja um terço do babaca que você é — rolei os olhos mesmo que ele não pudesse ver.
— Acho que conheço o Matty um pouco melhor que você, mas vamos fingir que não — ele disse um pouco irritado. — Ah, vamos fingir também que não parecia nem um pouco que ele estava falando de você no refeitório hoje — completou.
— Você quer que eu me sinta mal? — perguntei em tom de ironia.
— Não, quero que saiba que não está desamparada, que se ele fez alguma coisa estúpida com você, pode me falar — ele falou e senti vontade de rir.
— Já perdi a conta de quantas vezes você foi estúpido comigo, não só estúpido. E aí, vai fazer o que sobre isso? — falei irritada.
se calou, nada mais que o esperado. Ele estacionou em frente sua casa, mas sequer desligou o carro.
— Posso pedir desculpas? — ele parecia confuso se realmente devia se desculpar.
— Pedir desculpas é bem fácil, não acredito em pedidos de desculpas — falei já abrindo a porta do carro.
— Vou trabalhar, se precisar de alguma coisa pode ligar — ele disse e o respondi batendo a porta do carro.

Percebi que não tinha a menor ideia do que levar a uma fazenda quando estava arrumando minhas malas na sexta feira. Tínhamos fazenda quando éramos ricos, claro. Mas dizer que eu ia em alguma delas era mentira. A não ser na infância.
Infelizmente iria no carro de , assim não dividiria nenhum casal e todos poderiam ir confortáveis com o espaço que sobraria se só viajassem quatro pessoas no carro. Eu preferia assim, não fosse o fato de ter que dividir o mesmo espaço com aquele ser insuportável.
Insuportável em todos os aspectos.
Megan se comportou como se fossemos passar meses fora e não apenas o fim de semana, fez milhares de recomendações, dentre elas estavam não beber demais, não misturar álcool e direção, não arrumar brigas, não misturar álcool e água, usar preservativo e ligar todos os dias.
, e eu já estávamos no carro esperando que ainda estava na porta conversando com a mãe, eles se despediram com um beijo e um abraço antes de caminhar em direção ao carro.
Era final de tarde e, mesmo com o sol indo embora, o maldito fazia questão de ostentar um wayfarer no rosto. Seu jeito despojado de caminhar combinava com sua jaqueta de couro preta o fazendo parecer ainda mais charmoso.
— Tenho que admitir que meu irmão é muito gato. — falou observando o garoto se aproximar.
Tinha que concordar com ela, mesmo que em silêncio. Agradeci mentalmente de também ostentar um óculos escuro, só que um Prada, e poder observar cada segundo do percurso de até o carro. Achei que meu tormento acabaria assim que ele entrasse no automóvel, estava enganada, ele só aumentou ainda mais. Seu perfume não levou mais que segundos para dominar todo ambiente.
Não poderia ser possível que parecia ainda mais atraente quando decidi que ele não me merecia, que o deixaria de lado.
Me concentrei em qualquer outra coisa que não estivesse dentro do carro e segui viagem rígida no banco, praticamente sem me mexer durante aproximadamente uma hora e meia.
Me peguei sorrindo sozinha quando me deparei com a casa da fazenda. Ela era absolutamente confortável, com grandes janelas, com um jardim bonito, sacada e só faltava eu me acomodar em um dos quartos para me sentir em casa.
Já na porta havia um casal de senhores nos esperando. Eles estavam sorridentes e abraçaram Mayh e com carinho antes de serem apresentados à gente. Eram senhor e senhora Carter, caseiros da fazenda.
— Entrem, queridos, enquanto se acomodam vou colocar a mesa — a senhora de cabelos castanho-claro disse.
O hall de entrada era discreto com uma pequena mesa encostada em uma das paredes, seguimos Mayh até uma sala grande, com sofás confortáveis e grandes, além de uma tv grande e uma lareira.
— Certo, por ironia do destino, existem quatro quartos na casa. Eu vou ficar no dos meus pais com , e Sam podem ficar no meu. — Mayh explicou e deu a deixa.
e podem ficar em um e eu e no outro. — tomou a frente e eu super concordava com sua divisão.
— Só que não. — se intrometeu e a sala caiu em um silêncio devastador.
— Como assim só que não? — já parecia um pouco alterado e sussurrei exatamente a mesma pergunta.
— Como assim que vou dividir um quarto com o meu namorado. — deu de ombros e todas as cabeças se viraram para , exceto a de que estava abaixada.
— Você espera que eu divida um quarto com o ? — perguntei antes que o garoto pudesse dar seu ataque.
— Vocês vão dividir o quarto, não a cama. — deu de ombros e não pude acreditar no que estava ouvindo.
— E você acha que eu vou deixar você dormir com o ? — estava visivelmente nervoso.
— E por que não? Ele é meu namorado — todos olhavam de um para o outro.
— Porque não, . Ele é seu namorado, não seu marido — rolei os olhos.
— Ah fala sério, . Aposto que se você namorasse a ia dormir com ela. — falou defendendo e .
— Não se mete. — falou de forma calma.
— Ele tem razão, deixa de babaquice. — Mayh também interveio.
— Gente, é muito bacana vocês defenderem o direito da de dividir o quarto com o , inclusive eu também defenderia se eu não tivesse que dividir o quarto com o , que além de não ser sequer meu amigo, é um otário — falei e vi que Sam não conteve um risinho.
— Tem uma cama de casal e uma de solteiro em um dos quartos. — Mayh falou. — Ou seja, vocês só vão dormir no mesmo quarto.
— Certo eu posso ficar com vocês nesse quarto e a fica no outro — ele disse e já pegou sua mala.
— Nem pensar, . Somos um casal, não tem espaço pra vela não. — cruzou o braço.
— Você não quer me escutar, talvez escute a mamãe. — usou um tom superior e riu.
— Fica à vontade, aliás é um favor até, assim evita a minha fadiga. Minha mãe está ciente e disse que não vê problema algum — a garota sorriu vitoriosa.
— Não concordo com isso aí não. — cruzou os braços.
— Olha, , te respeito muito, mas você não tem que concordar com algo que a mamãe autorizou — ela disse e se virou para a anfitriã. — Mayh, pode nos mostrar o quarto.
— Claro. — Mayh sorriu e estreitei meus olhos para elas.
Traidoras, especialmente Mayh que sabia exatamente de tudo.
A contragosto entrei no quarto que dividiria com , pelo menos era uma suíte e pela primeira vez em um longo tempo teria meu próprio banheiro, ou quase isso.
— Certo, eu fico com a cama de casal — falei colocando minha mala em cima do móvel.
— Não estou surpreso — ele disse deixando sua mala no chão antes de se deitar na cama.
— Eu espero que você não ronque — comentei abrindo minha mala em busca da minha nécessaire.
— Não posso te garantir — ele disse enquanto eu caminhava até o banheiro.
Foi inevitável soltar um grito quando abri a porta do banheiro, meus olhos chegaram a lacrimejar quando vislumbrei o interior do cômodo.
— O que foi? — em segundos estava do meu lado.
— É uma banheira — falei emocionada.
— Você gritou só por isso? — perguntou.
— Sabe há quanto tempo eu não vejo uma preciosidade dessa? — falei me aproximando. — Céus, posso passar o fim de semana aqui — não era grande como a minha, mas dava para relaxar.
— Coitada da Mayh, a conta de água dos pais dela vai vir alta esse mês — ele disse adentrando o banheiro olhando em volta.
— Deixa de ser pobre, garoto. Se tem uma banheira é para ser usada — bati palmas animada. — Senhor, quase me sinto em casa.
— Bora jantar, pessoal — era a voz de .
— Daqui a pouco volto pra você, meu amor — falei e mandei um beijo para a banheira.
— Deus, quanta futilidade. — murmurou. — Vou me fantasiar de banheira, talvez você me trate assim também — disse saindo do banheiro, não me dei ao trabalho de responder.
Depois do jantar nos reunimos na sala e resolvemos jogar uno. Era um dos poucos jogos que eu gostava, mas que raramente jogava por não ter quem jogasse comigo.
, juro que se vier com essa carta de mais quatro pra mim de novo, nunca mais olho na sua cara. — reclamou quando chegou minha vez e soltei um sorrisinho maligno.
— Ah, vai chorar mesmo, boy? — falei e ri, na verdade não tinha outra daquela, mas estava gostando de aterrorizar o garoto.
, troca de lugar comigo. — falou impaciente.
— Ah, deixa de drama. Parece um bebê chorão que não sabe perder. — pirraçou.
— Queria ver se fosse com você — resmungou.
— Só porque quero continuar sua amiga, não vou mandar essa — falei rindo.
— Acho que podíamos brincar de outra coisa. — Sam sugeriu.
— Vamos esperar essa acabar. — disse pensando em qual seria sua próxima carta.
— Vou ir dormir depois dessa, to cansadona. — Mayh resmungou e jogou suas cartas no tapete. — Quer saber? Vou é agora, estou cochilando sentada.
— Não acredito que você acabou com o jogo assim. — reclamou frustrado.
— Pode ficar aí se quiser — ela disse se levantando e até para mim ficou claro que não era como se ele tivesse escolha.
— Também vou me retirar para meus aposentos — falei deixando minhas cartas de lado com planos de tomar um banho na banheira ainda aquela noite.
Não esperei uma resposta antes de me levantar e seguir Mayh e escadas acima, eles murmuram um boa noite quando adentrei o quarto e fiz o mesmo.
Tirei meu pijama da mala e segui para o banheiro, enquanto a banheira enchia escovei os dentes e penteei os cabelos, os prendendo em um coque firme.
Suspirei aliviada quando a água cobriu meu corpo, apoiei a cabeça e fechei meus olhos, e durante alguns minutos foi como se nada tivesse mudado em minha vida. Era como se eu ainda estivesse em minha casa, na minha própria hidro, conseguia sentir até o cheiro do meu banheiro.
Poderia passar a noite toda ali, não fosse a água começar a esfriar e só quando isso aconteceu me dei conta que havia esquecido a toalha. Poderia esperar meu corpo secar naturalmente, mas passaria um frio desnecessário.
! — chamei em um tom de voz alto torcendo para que ele estivesse no quarto.
— O que foi? — segundos depois ele bateu na porta.
— Esqueci a toalha, pode pegar, por favor? Está na minha mala — levou alguns minutos até que ele voltasse a bater na porta.
— Aqui — ele disse.
— Pode entrar — falei e houve um breve período de silêncio.
— Como assim? — rolei os olhos, a temperatura da água caindo a cada segundo.
— Entrando, estou na banheira — falei impaciente.
A porta foi aberta após mais um breve período em silêncio e entrou com uma das mãos cobrindo os olhos e a outra estirada segurando a toalha.
— Aqui — ele disse chacoalhando o objeto.
— Não precisa tapar os olhos, não dá para ver nada — falei observando a distância entre a toalha e eu.
separou os dedos deixando somente um dos olhos livres e deu alguns passos em minha direção e finalmente entregou a toalha.
— Se puder se apressar aí, quero escovar os dentes — ele disse e tirou a mão dos olhos.
— Obrigada — falei e o vi olhar para a parede ao meu lado e sorrir. — Já estou saindo, pode ir.
— Não há de que — ele disse e me deixou sozinha.
Saí da banheira e me enxuguei, coloquei meu pijama e só quando fui pendurar a toalha notei que já havia uma no banheiro.
Ótimo, deve ter visto e achado que eu havia dado uma desculpa para que ele entrasse no banheiro.
Quando voltei ao quarto ele estava terminando de arrumar a cama de solteiro para dormir, o garoto estava somente com uma calça de moletom. Fingi não ter notado seu tronco desnudo e definido, e disfarcei começando a arrumar minha cama e tratei de deitar antes que ele saísse do banheiro.
Não sabia o que iríamos fazer durante o dia, então vesti uma calça jeans, uma blusa de mangas de tecido fino e tênis. Fui a última a sentar à mesa para tomar café e a sala de jantar estava parecendo um mercado de peixe.
— Você monta, ? — Mayh perguntou assim que mês sentei.
— Quê? — perguntei confusa.
— Você sabe andar a cavalo? — ela perguntou alegre.
— Na verdade, eu tenho medo, papai queria que eu tivesse aulas de hipismo, mas não deu muito certo — dei de ombros.
— Eu amo cavalgar, não tem sensação melhor. Talvez eu monte um aras depois de viajar o mundo. — se intrometeu.
— Tem alguns cavalos aqui na fazenda, queríamos fazer um passeio. — Mayh comentou.
— Tem charrete? — perguntei em dúvida e escutei rir.
— Não, mas eu sei que os meninos e a sabem andar. Só a Sam que também tem medo. — Mayh explicou.
— Ah, então podemos fazer companhia uma a outra — sorri para a garota.
Nós não tínhamos nenhuma intimidade, na verdade, mal nos falávamos direito, mesmo ela sendo um casinho de .
— Na verdade, vou na garupa do — ela disse e ficou vermelha.
— Ah — respondi. Que ótimo.
— Não tem problema, . Você pode ir com o . — falou e fiz uma careta.
— Não, obrigada. Posso ficar aqui e esperar vocês — argumentei.
, pelo amor de Deus. Será que você e o podem ter maturidade pelo menos esse fim de semana? — resmungou e abri levemente minha boca.
— E o que você define como maturidade? — cruzou as mãos em cima da mesa.
— Com certeza não é ficar fazendo piadinhas escrotas com uma garota que você mal conhece só por ser um babaca, querido irmão — ela respondeu irônica.
— Outch! Podia ter ficado sem essa. — falou rindo.
— E você ainda diz que eu tenho que ser madura, sendo que o único imaturo aqui é seu irmãozinho — me defendi.
— Você pode ser só superior a ele, . Como sempre foi — ela concluiu.
— Por que você baba o ovo dela assim, ? Foi ela que limpou sua bunda quando você era criança, né? E não eu. — cuspiu todo seu suco na mesa quando começou a rir.
,eu te amo, mas não é por isso que vou fingir que você não age como um babaca com ela — ela retrucou.
— Ai gente vamos parar, pelo amor de Deus? — Mayh interrompeu antes mesmo que algum som pudesse sair da boca de . — A gente veio aqui para se divertir e passar um fim de semana agradável. Quando não é e , é e . Só parem. , vai ser realmente muito incômodo ir com no mesmo cavalo? — ela perguntou calma e todos me olharam. Dei de ombros.
Quer dizer, não era como se fosse o fim do mundo. O que me incomodava era a proximidade com o garoto que parecia estar sendo imposta a mim naquele fim de semana. E aquela proximidade deixava minha determinação de esquecer fragilizada, especialmente quando ele falava com um pouco mais de cuidado comigo. Ou quando me lançava aqueles sorrisos charmosos ou seu perfume tomava conta do ambiente.
, vai ser muito incômodo levar a ? — ela perguntou e continuei encarando a toalha de mesa.
— Óbvio que não — ele disse convicto. — Viu como eu posso ser maduro, ? — ele disse estufando o peito e me contentei a fazer uma careta para meu prato.
Esperei dar algumas voltas com o cavalo para me assegurar que ele sabia o que estava fazendo. Era um cavalo alto, musculoso de pelo marrom. Ele era lindo, se parecia muito com o cavalo que mamãe montava em uma das fotos de sua lua de mel com papai.
— Preciso de ajuda para subir — falei quando ele parou perto de mim.
— Te ajudo, amiga. — Mayh se prontificou.
Com certa dificuldade estava sentada atrás do garoto tentando achar um jeito de não ter que abraçá-lo.
— Pra onde nós vamos? — perguntou quando todos estavam em cima de seus respectivos cavalos.
— Vamos para o lago, todo mundo ainda lembra o caminho? — ela perguntou e os meninos concordaram. — Então vamos. — ela disse e o cavalo em que ela estava com começou a andar.
, segura em mim, do contrário você vai cair. — disse me olhando por cima de seu ombro.
— Como se você se importasse — resmunguei.
— Se não me importasse já tinha saído. Se segura — ele disse e passei meus braços por sua cintura.
O cavalo começou a andar e eu tentei a todo custo me manter o mais longe possível dele, mas o máximo que eu conseguia era uma distância mínima. A cada segundo que passava a vontade de enfiar o rosto em seu pescoço e aspirar a maior quantidade de seu perfume possível, era cada vez maior e mais insuportável. Aquilo só podia ser uma provação.
Quando finalmente chegamos ao nosso destino, me ajudou a descer e só então percebi que minhas pernas tremiam de nervoso, só não sabia o porquê.
Ficamos uma hora na beira do lago, tiramos foto, adentramos a floresta, contra minha vontade, e quando voltamos a nos sentamos perto da margem do lago. Os casais começaram a se fechar em suas bolhas para tirar suas fotos e trocar alguns beijos enquanto eu e ficávamos de lado.
, vamos tirar uma foto. — chegou me abraçando de lado ao que eu logo tratei de me desvencilhar.
— Não, sai — reclamei.
— Por que não? — perguntou.
— Só tiramos fotos com quem gostamos e eu definitivamente não gosto de você — falei.
— Uma foto só. E nós dois sabemos que gosta sim — ele disse se aproximando de novo.
— Gosto porra nenhuma, não quero tirar foto com você — rosnei.
, quando a gente estiver no nosso apartamento em Londres relembrando os velhos tempos depois de ter colocado as crianças na cama, você vai se arrepender por ter se negado a tirar nossa primeira foto aqui — ele disse de um jeito sério e eu tinha certeza que uma careta deformava meu rosto.
— Você conhece o limite do ridículo? Se não conhece, precisa ser apresentado urgente a ele — falei o olhando de cima a baixo e ele riu.
— E você tem que ser apresentada ao senso de humor — retrucou.
— Não sei se alguém já te disse, mas você não sabe fazer humor — não me dei ao trabalho de olhar para ele.
— Ok, não vou mendigar uma foto com você — falou se sentando ao meu lado. — Você sente falta do seu pai?
— Que papo é esse agora? — juntei as sobrancelhas e o encarei.
— Você nunca fala sobre ele. Você sequer responde as cartas que ele te manda — comentou como se estivesse falando com uma amiga.
— Você seria a última pessoa com quem eu falaria algo sobre a minha vida — voltei a olhar o lago. — E como sabe sobre as cartas?
— Minha mãe me falou que ele te manda cartas, você sequer as lê? — não tinha aquele tipo de conversa nem com Mayh, não seria com ele que teria.
— Isso não te diz respeito e a Megan não devia ter te falado sobre isso, é uma coisa pessoal minha que nem com meus amigos eu divido. E não somos amigos — mantive meus olhos no lago, mas sequer o via.
, eu estou realmente tentando, mas você não está me dando nenhuma chance — ele disse e ri.
— Você nunca me deu uma chance antes de começar a me atacar, . Por que eu te daria uma chance? Aonde você pretende chegar com isso? Onde você acha que isso vai dar? — perguntei voltando a olhar seu rosto.
— Estou tentando ser gentil, só isso — se defendeu me encarando.
— E por que está tentando ser gentil, o que quer com isso? — ergui uma sobrancelha.
— Não quero nada, só concertar as coisas para que elas sejam como sempre deveriam ter sido — explicou.
— Não consigo acreditar que exista uma intenção genuína por trás disso. Pode parar de tentar, seja o que for, não vai acontecer. Muito menos vou te dar a oportunidade de fazer qualquer tipo de chacota em cima de mim — disse pausadamente para que ele pudesse entender e desistisse.
— Não espero conseguir nada em troca, muito menos fazer chacota — ele juntou as sobrancelhas. — Minhas intenções são sim genuínas, se você me desse espaço ia descobrir isso. Eu sou um cara legal, .
— Já deixei você invadir demais meu espaço, . Você teve todas as oportunidades de ser gentil e legal comigo, e o que fez? — olhei ao redor só para ver que todos os casais juntaram suas bolhas e agora estavam fazendo algo que não conseguia ver em grupo.
— Mas eu sou um cara legal — repetiu e mais uma vez ri.
— Eu não acho — voltei a olhar seu rosto.
Não conseguia deixar de achá-lo lindo, mesmo com toda sua babaquice. Seu rosto transparecia inocência e doçura, coisas que eu sabia que ele não possuía.
— Vamos fazer um acordo? — ele ergueu uma sobrancelha.
— Não — fui direta.
— Escute antes de recusar — insistiu.
— Não preciso escutar. Minha resposta é não. — só estava me fazendo achar que ele poderia ser ainda mais chato do que eu já achava.
— Eu podia te chantagear com aquela foto ridícula que tirei sua no corredor de casa — meu corpo inteiro ficou rígido na medida em que meu sangue se congelava. — Mas não vou fazer isso. Você me dá uma chance esse fim de semana, seja receptiva e me deixe mostrar que eu sou uma pessoa bacana. Se quando a gente voltar para casa você ainda me achar um babaca, eu te deixo em paz e ainda apago essa foto pra selar esse acordo — mordi o lábio inferior tentada com a proposta.
— E se você não cumprir o acordo? — perguntei em dúvida.
— Vou cumprir, te dou minha palavra — não sabia se podia confiar nele, mas que escolha eu tinha?
De qualquer forma podia tornar o resto dos meus dias em sua casa um inferno eu aceitando aquela proposta ou não.
— Certo, eu aceito. Mas isso não quer dizer que eu vá ficar com você — eu disse e ele sorriu.
— Isso não faz parte do acordo, . Não que eu não queira, mas só se você também quiser — quis me dar um soco por sentir meu rosto esquentar.
— Só nos seus sonhos, — falei e me levantei indo em direção ao grupo de casais que se divertia perto de nós.
Sabia que poderia me arrepender amargamente por ter dado uma brecha para , mas em um raciocínio lúdico, imaginei que aquilo poderia me ajudar até mesmo a acabar com aquela atração que sentia por ele. Talvez conhecendo um pouco melhor aquele garoto, qualquer encanto que ele possa ter despertado em mim, ainda que de modo inconsciente, fosse quebrado e nunca mais cogitaria a possibilidade de ter alguma coisa com ele.



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Nota da Beta: Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.