Freezing Fire

Autora: Cris Turner | Beta: Babs



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ATENÇÃO: ESTA É UMA SÉRIE DE ONE-SHOTS, NÃO-LINEAR, RECOMENDADA PARA MAIORES DE 18 ANOS, SOBRE E STEVE ROGERS!

1. Frosting

! ! JARVIS, onde está? Ela está se escondendo de mim há horas.

Revirei os olhos. Não importa a circunstância, você sempre podia contar com Tony para fazer um drama desnecessário. Com um suspiro, já sabendo por seu tom de voz que dali viria alguma coisa, levantei a cabeça, tirando minha atenção dos códigos na minha frente para respondê-lo:

– Aqui, Stark – gritei em resposta. – Exatamente no mesmo lugar em que estava há uma hora, quando você saiu – murmurei para mim mesma, aproveitando os instantes que ele levaria para cruzar o espaço entre nós para deslizar o dedo indicador pela tela e terminar a parte da equação a que me dedicava.

– JARVIS, deixa pra lá. resolveu sair de seu esconderijo.

Ouvi seus passos se aproximando e logo meu chefe estava parado ao meu lado, o olhar mais entediado do que o normal.

, finalmente te encontrei. Por que você vive se escondendo?

– Eu estou no mesmo lugar em que estava quando você saiu daqui como um furacão.

– Detalhes, , detalhes – sacudiu a mão com desdém. – O importante é o que eu tenho para lhe dizer. Adivinhe só? Nós fizemos uma reunião, não, não, essa parte não é verdade – sacudiu a cabeça. – Na verdade fui eu quem tive a ideia, mas você sabe que isso é mais do que o suficiente. Afinal, eu sou o gênio por aqui.

– Sua modéstia é lendária, Stark – revirava tanto os olhos que cheguei a temer que eles ficassem permanentemente fora de foco.

– E, como também sou o chefe, – continuou como se não tivesse dito nada – percebi que você é a pessoa certa para esse trabalho.

– Que trabalho? – franzi o cenho. – Outro trabalho? Ontem mesmo você me mandou consertar o centro de gravidade fisitrônico dos mecanismos de fechadura da torre! – apontei para a mesa a minha frente, ainda coberta por ferramentas e peças desmontadas.

– Ah, sim. Isso também. Isso também é bom – assentiu, prestando pouca atenção no que tinha falado. – Mas o que tenho para dizer é ainda mais importante!

– O que pode ser mais importante do que ter a certeza de que as travas novas não vão sair flutuando?

– Você sabe que nós avengers fizemos uma reunião, e aqui realmente aconteceu uma reunião, e, de maneira bem rude, devo acrescentar, decidiram que eu não serei o líder da equipe. Alguma coisa idiota sobre falta de coerência. Tanto faz. De qualquer jeito, eles decidiram que Rogers vai ser o chefe.

– Capitão América vai ser o chefe? – senti minhas bochechas pinicarem ao se colorirem.

Felizmente Stark estava ocupado demais com seu próprio orgulho ferido para prestar atenção em minha reação infantil de fã.

– Sim, sim. Capitão América vai ser o chefe. Eba, eba – revirou os olhos. – Como toda a equipe vai se mudar para cá e a Stark Tower vai se tornar o QG dos avengers, e obviamente esse é o prédio mais tecnológico do país, então é claro que o vovô dos anos 40, que é nosso novo líder, vai ter alguns problemas.

– Fascinante – murmurei, ponderando se ele perceberia caso eu voltasse a consertar a placa– mãe a que dedicava minha atenção antes de ser interrompida.

Ok. Ele definitivamente perceberia se eu fosse tão óbvia, porém isso não me impedia de deixar a mente vagar de volta para a nova equação que precisava desvendar a fim de fazer as engrenagens pararem de se desgastar. Talvez se diminuísse o empuxo para menos 1– Espera!

O quê? – virei– me para Tony, engasgando na pergunta quando suas palavras, com certo atraso graças a minha falta de atenção, admito, fizeram sentido em meu cérebro. – Como assim “babá ”?

– O quê? – Tony levantou a atenção do celular, que havia tirado do bolso em algum momento, inocentemente confuso. – O que você não entendeu?

– O que eu não entendi? – repeti, incrédula. – Como assim o que eu não entendi, Stark? Eu sou uma engenheira com quatro especializações diferentes e você surge com essa história maluca de babá ? Pois deixe eu lhe dizer que educação infantil definitivamente não foi uma das especializações. Como você quer que eu seja babá de algum pirralho? – nesse ponto qualquer ideia sobre o que estava consertando sumiu, deixando apenas o problema mais imediato.

– Pirralho? – franziu o cenho. – Como assim pirralho? Rogers pode ser tudo menos um pirralho.

– Rogers? O que o Capitão tem a ver com essa história absurda de babá?

– Você se distraiu com as ligações de titânio, né? – balançou a cabeça em direção a minha bancada de trabalho.

– É que você não estava sendo muito coerente – dei de ombros, um sorrisinho de lado e nem um pouco constrangida.

– Muito engraçada, – soltou uma risada seca e forçada. – Ninguém mais me respeita nesse prédio, que, aliás, tem meu nome. Agora, saindo do tema insubordinação e voltando a minha ideia genial para salvar o mundo, o que quis dizer é que você foi a escolhida, por mim, – colocou a mão sobre o peito – para ser a babá de Rogers.

Aquilo fazia tanto sentido quanto as baboseiras que ele havia dito antes.

– Stark, você bebeu de amanhã de novo? Sabe que Pepper detesta quando você faz isso.

– Se eu acreditasse em um Deus, essa seria um excelente momento para Lhe pedir paciência – apertou entre o polegar e o indicador a ponte do nariz. – Vamos de novo – ergueu a mão espalmada. – Com todo o time se mudando para cá, nós percebemos que o Capitão não está acostumado a tecnologia do mundo de hoje ou ao mundo de hoje em geral. Ele precisa de ajuda. É aí que você entra. Entendeu?

Agora conseguia juntar os pedaços daquela conversa amalucada para encontrar algum tipo de sentido. Era inteligente demais para fingir que já não compreendia o que ele queria dizer.

– Stark, – comecei, bem devagar, quase testando as palavras – você quer que seja algum tipo de “guia” – ergui o dedo indicador e médio para formar aspas no ar – do Capitão América?

– Você pode se chamar assim se quiser. Eu, particularmente, prefiro o termo babá – repuxou os cantos dos lábios em um sorriso malvado.

– Por mais adorável que esse convite possa soar – usei um pouco de ironia para esconder a verdade que havia ali. – Tenho muito serviço para fazer. Não tenho tempo sobrando.

– Ah, não seja por isso – balançou a mão com desprezo. – Nós podemos contratar um daqueles estudantes de quem você vive tagarelando.

Meu queixo caiu um pouquinho. Aparentemente os choques daquele dia não acabavam. Fazia meses em que estava praticamente implorando a Tony que ele abrisse uma vaga para um estudante de engenharia, não tanto porque eu precisava de ajuda, mas porque queria proporcionar a experiência única de trabalhar na Stark a outra pessoa.

– Ontem mesmo você estava reclamando sobre não querer nenhum pirralho sem experiência fuxicando pelo seu laboratório! – estava tão indignada que as últimas apalavras saíram em um gritinho agudo.

– E ainda não quero, mas todos estamos dispostos a alguns sacrifícios pelo bem da minha sanidade, quero dizer, da equipe – deu de ombros. – Você ajuda o Garoto América a se adaptar ao mundo de hoje, e pode contratar o tal estagiário que tanto quer.

– Tony, eu não posso fazer isso.

– Por quê? – resmungou, incrédulo. – É a solução perfeita para os problemas de todo mundo.

Por quê? Porque eu simplesmente tenha a queda mais ridiculamente enorme do universo pelo Capitão Rogers. Porque era fã dele quando o homem era uma lenda caída, ao descobrir que ele estava vivo e só de vê-lo de relance treinando pela Torre e sendo simplesmente a alma mais gentil e justa com todos que conversava, estava a um passo mínimo de me apaixonar. Então, não. Aquela história de ser o guia/babá de Steve era apenas um grande e redondo “não”.

– Não – sacudi a cabeça outra vez. – Não.

Por quê?

– Já disse, Tony. Estou atolada no trabalho. Não posso simplesmente ficar arrumando tarefas novas. As que eu tenho já me deixam bastante enroladas. Não preciso de novas responsabilidades.

– Não – estreitou os olhos. – Não é isso. Tem alguma outra coisa de que você não está falando. O que foi, ? Está intimidada pelo Capitão?

Ele havia chegado tão perto do real motivo que temi corar.

– Claro que não. E por que você está insistindo nessa história? Por que tem que ser eu? Há centenas de outras pessoas nessa Torre. Tenho certeza que várias delas aceitariam essa nova função.

– Porque os outros não servem, . Você sabe que com todo aquele problema da SHIELD, não podemos confiar em quase ninguém. Não podemos arriscar deixar que alguém se aproxime de Rogers e tente fazer algum tipo de lavagem cerebral nele como fizeram com o tal do Bucky, que, aliás, também vai vir morar aqui. Nunca pensei que meu prédio favorito se tornaria uma espécie de super pousada – comentou baixinho, para si mesmo, olhando para os lados.

– Bucky? Como em James Buchanan Barnes? – pisquei devagar, tentando digerir aquela informação. – Ele também está vivo?

– Sim, está, mas essa não é uma história minha para que eu conte.

Arqueei a sobrancelha.

– Hey! Não me olhe assim. Até eu sei que existem coisas em que não devo me intrometer.

– Tá aí uma coisa que não se vê todos os dias. Tony Stark admitindo que não pode fazer uma coisa. Ainda existem fatos inéditos.

– Vamos lá, . Facilite as coisas. Eu te dou um aumento – exclamou repentinamente, batendo as mãos uma na outra, como se tivesse encontrado a solução para todos os problemas do universo.

– Não preciso de um aumento.

Já ganhava mais do que podia gastar e nem mesmo precisava me preocupar com moradia e refeições, uma vez que as Indústrias Stark me forneciam acomodações bem confortáveis apenas seis andares acima de onde estávamos e diversas opções de restaurantes no quinto andar – absolutamente de graça. Dinheiro definitivamente não é algo que me motivava no momento.

– Então vou te demitir.

– Como se você não fizesse esse tipo de ameaça toda semana – revirei os olhos.

– Ok. Ok. Você tem razão – dessa vez esfregou a têmpora em um claro sinal de impaciência. – Não vou demitir você e esse seu cérebro inacreditavelmente impressionante – murmurou para si mesmo. – Dois, três, quatro. Droga! Contrate uma equipe inteira de estagiários – abriu os braços. – Mas precisamos de você, . Você é a única em quem confiamos o suficiente para não ser uma espiã disfarçada e a única com paciência o suficiente para não fazer o Rogers se sentir como um alien. Porque não, aparentemente fazê-lo se sentir assim não é aceitável – murmurou um desdém. – Acredite. Eu perguntei – acrescentou rapidamente.

Um silêncio desconfortável pesou entre nós. Ele olhou para baixo e eu, para cima. Percebi que estava com o peito do pé no chão enquanto levantava o calcanhar mínima e repetidamente em um tique nervoso.

Minha mãe sempre dizia que essa minha mania de abocanhar mais do que podia mastigar iria me trazer grandes problemas, e, ao abrir minha boca naquele momento, sabia que ela estava certo. Porém, ao ver Stark parecendo tão derrotado – o que era tão fora de seu caráter que mais parecia que a Terra havia saído de seu eixo – , não consegui me conter:

– Ok. Ok – falei de uma vez, antes que pudesse calcular a provável besteira que estava fazendo. – Eu faço.

– Sério? Você é a melhor, ! – exclamou feliz e, antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, ele estava entrando no elevador enquanto gritava por sobre o ombro. – Vou avisar o Capitão Estrela Solitária para estar às nove da manhã amanhã na cozinha.

E, dizendo isso, me deixou sozinha de novo, agora, entretanto, com o sentimento de que havia caído direto numa armadilha.

xxx

Não era a maior fã de café. Meu cérebro já ficava ligado tempo demais para usar qualquer tipo de estimulante, porém não era do tipo de lutar contra o inevitável. Era por isso que, depois de passar a noite revirando na cama, agora me encontrava com os olhos fixos na cafeteria, esperando pacientemente pelo líquido quente ficar pronto.

– Acho que perdi uma boa oportunidade de aprender como essa máquina funciona.

Dei um pulo no lugar ao ouvir a voz forte e límpida atrás de mim. Por reflexo, virei– me para encarar o recém– chegado, mas não precisava vê-lo para saber de quem se tratava.

– Capitão.

Acenei com a cabeça, mantendo meu olhar em qualquer lugar menos em seus olhos azuis. Talvez assim evitasse melhor os pensamentos pouco inocentes que estava tendo, como as lembranças de rolar ontem à noite na cama entre frustrada pelos sonhos que tive com ele como protagonista e preocupada com essa história de “guia do século XXI”.

– Senhorita – colocou as mãos para trás, a postura tão formal quanto seu tom de voz.

– Eu... hmmm… – passei a mão pelo braço apenas para ter algo para fazer. – Quero dizer… é só… Me chame de ! – praticamente cuspi as palavras quando finalmente parei de engasgar entre as sílabas.

Ele tombou a cabeça para o lado em um gesto tão fofo que por um segundo me fez pensar em um filhote de Golden Retriever. Um adorável Golden Retriever, não fosse seu porte imperioso, sua força não só física, mas aquela aura de respeito que ele impunha, mesmo parado em silêncio. Isso sem nem mesmo mencionar o rosto perfeito e o cabelo loiro que fazia meus dedos coçarem de vontade de tocar.

– Sim, senhora. Como quiser – assentiu depois de um momento.

Por alguns segundos o único que se ouviu na cozinha foi o barulho ameno que a cafeteira fazia. E é claro que de novo minha boca enorme não conseguiu se manter fechada:

– Capitão, eu só queria dizer que lamento por precisar dessas aulas.

Cerrei as pálpebras com pesar. Antes mesmo de terminar a frase já havia percebido o quão errado ela soara. Não tive tempo de corrigir minha falta de habilidade social.

– Senhorita , quero dizer, , sinto muito se Stark de alguma forma te pressionou para aceitar essa tarefa. Não quero ser um peso. Vou conversar com ele imediatamente para liberá-la desse encargo.

– Não! – minha impulsividade me levou a dar um passo para frente e segurar com ambas as mãos em seu braço. – Por favor. Não. Não foi isso que quis dizer. Droga. Para alguém que mapeia cada detalhe de milhares de equações, você é uma droga para formar frases, – murmurei para mim mesma – O que quis dizer é que sinto muito que você tenha passado tantos anos no gelo. Deus! Por que, Deus! – soltei seu bíceps incrivelmente forte para bater a palma da mão contra a testa.

Eu só piorava tudo. Talvez eu devesse abdicar de relações sociais e conversar apenas com JARVIS e FRIDAY.

– Capitão. Eu sinto muito – estava com tanta vergonha que as palavras saíram doídas. – Não foi nada disso que quis dizer. Eu me sentiria honrada se você ainda quisesse continuar com esse plano de conhecer melhor o século XXI. Comigo. Digo, com a minha ajuda – entrelacei os dedos das mãos com força, tentando conter a ansiedade. – Mas entendo se você achar que essa não é uma boa ideia. Não o culparia por isso.

Quem iria querer passar seu tempo com um desastre ambulante? Nem mesmo um homem com a paciência de um santo, como Rogers tinha, se submeteria a uma coisa dessas. Ao invés da desculpa que estava esperando que ele inventasse – afinal, além de paciente, Steve era um cavalheiro – , fui surpreendida com uma pequena risada sincera. Levantei a cabeça para encontra-lo sorrindo daquele jeito que parecia trazer raio de sol para dentro de qualquer ambiente.

– A honra seria toda minha, .

E o jeito suave como ele pronunciava meu nome desfez o nó de tensão em meu peito. Relaxei minhas mãos para longe do aperto mortal em que as cruzara anteriormente. Não precisei forçar o sorriso que surgiu em meu rosto. Steve era tão incrivelmente doce que quase podia esquecer da queda embaraçosamente enorme – e sem futuro nenhum – que sentia por ele.

A cafeteira apitando para sinalizar que havia acabado de passar o café me puxou para fora de meu pequeno estado que provavelmente deveria batizar de Hipnotizada– por– Rogers. Sacudindo a cabeça de maneira quase imperceptível, virei– me para a bancada que estava atrás de mim.

– Acho que ainda não é muito tarde para aquele café.

– Está me convidando para um encontro, ?

Minhas bochechas chegaram a pinicar tamanha a intensidade que corei.

– Brincadeira. Eu entendi o que você quis dizer, e, sim, acredito que seja um bom momento para aprender como essa coisa funciona.

As primeiras instruções já estavam na ponta da língua quando ele continuou:

– Mas também adoraria esse encontro em um futuro próximo.

Dessa vez não fiz nenhuma tentativa de esconder o sorriso enorme que mal coube em meu rosto. Talvez café não fosse tão ruim.

2. Shivering

– Certo – murmurou depois de um tempo. – Deixa eu ver se entendi direito. Você paga um serviço de filmes na internet, usando um cartão, mas na verdade não precisa do cartão, porque seu banco, – e a cada nova frase ele franzia um pouquinho mais o cenho para o notebook sobre a mesinha de centro, dividindo sua intenção entre ultrajado e completamente descrente, – que você também não precisa informar diretamente sobre a operação, transfere um dinheiro que você nunca chegou a ver, direto para essa empresa.

Sabia que aquele decididamente não era o momento para pensar em como Steve Rogers ficava ainda mais adorável quando estava frustrado pela confusão que sentia. Não devia pensar que era fofa a maneira como mordia o lábio inferior ao reanalisar o próprio raciocínio ou como ele, mesmo em sua paciência infinita, chegava a um momento de frustração e passava a mão por seu cabelo. Também sabia que minha paixonite pelo homem mais adorado da América era bastante infrutífera. Por isso, então, sacudi aqueles pensamentos para fora de minha cabeça e me concentrei em responder sua pergunta:

– Sei que parece bem abstrato, mas você resumiu de maneira muito eficiente, Capitão.

Voltou o olhar para o Stark Phone em suas mãos. Nós estávamos há mais de uma hora tentando repassar o básico de um smartphone, mas, a cada passo que avançávamos, eram dois para trás. Steve só se lembrava do que acabávamos de revisar, abandonando os comandos imediatamente anteriores. Levei vários minutos para entender como o homem que liderava o exército mais poderoso da Terra não pegava o que uma criança sabia fazer. Porém, supunha que deveria ter adivinhado muito antes. Capitão Rogers era, de fato… um capitão. Ele não conseguia seguir ordens cegamente, precisava entender o que acontecia. Os “por quês” eram imprescindíveis. Mesmo nessa abordagem, entretanto, estávamos tendo alguns problemas.

– Ah! E você também não precisa do cartão, porque pode usar direto seu celular para isso também – soltou o ar pesadamente e colocou o celular de lado.

Sentindo-me mais impotente do que em muito tempo, virei de lado, apoiando a perna dobrada sobre o sofá e ficando perpendicular a este. Tomei alguns segundos para apreciar seu rosto perfeito e depois mais alguns momentos me lembrando de que não podia consolá-lo porque não tínhamos intimidade o suficiente para isso – e porque certamente morreria de vergonha quando ele me rejeitasse, ainda que do jeito mais educado possível. Assim, engoli as palavras reconfortantes e, ao invés, disse:

– Está tudo bem, Capitão. Tudo bem. Vamos fazer uma pausa – com um sorriso triste, levantei do sofá, um plano se formando em minha cabeça.

Mal tinha colocado o pé no chão para o primeiro passo quando senti seus dedos ao redor de meu pulso, tão eficiente quanto uma corrente de ferro. Franzindo o cenho, levantei o olhar de sua mão até seus olhos azuis. Tão azuis. E de repente tão… desesperados.

– Capitão? – voltei a me sentar. – O que aconteceu?

– Me desculpe, – seu tom estava até um pouco mais rouco. – Sei que estou sendo absolutamente insuportável, mas é que isso… tudo isso... – olhou para os lados com aquela expressão perdida de novo – é tão… – engoliu em seco e desviou o olhar do meu, não encontrando as palavras.

– Hey, hey – abaixei um pouco para que meu olhar ficasse no mesmo nível que o seu. – Eu só estava indo buscar pipoca. Pensei em fazermos uma pausa.

Quando a tensão abandonou seus ombros, voltei a me endireitar.

– Ver na prática como o Netflix funciona. Afinal, estamos no lugar perfeito para isso. Volto logo.

Saindo da sofisticada sala de cinema de Stark, caminhei até a cozinha do andar e peguei vários pacotes de pipoca do armário, colocando no micro-ondas três deles e, aproveitando o tempo em que estouravam, abri a geladeira para escolher duas cervejas. Afinal, Steve estava precisando de um agrado extra. Ponderando que não conseguiria carregar duas tigelas diferentes, escolhi a maior que encontrei para despejar toda pipoca.

Steve estava exatamente onde eu o deixara, mas havia voltado a examinar o celular.

– Você quer falar sobre isso? – ofereci, meio sem jeito.

Ele levantou a cabeça e me encarou por um longo segundo – em que senti como se seus olhos incrivelmente azuis estivessem sondando cada segredo que eu tinha – antes de sorrir cansado.

– Não precisa, . Obrigado – seus olhos desceram para nosso lanche que eu precariamente segurava nos braços. – Oh! Me deixe te ajudar, doll.

Antes que eu pudesse processar direito suas palavras, ele já tinha se levantado, pegado as coisas e as transferido para a mesa de centro.

– Que falta de educação a minha – sacudiu a cabeça em meio a suas autorrecriminações.

Atitudes fofas como essa tornavam impossível minha resolução a respeito de não deixar minha paixonite por Rogers crescer. Sacudindo a cabeça, abaixei-me em frente ao notebook.

– Dá uma olhadinha na TV para você ver como vou acessar o filme.

Olhei por cima do ombro para ter a certeza de que ele estava fazendo o que eu pedira, porém o encontrei estupefato, franzindo o cenho e me olhando como se eu estivesse falando em uma língua alienígena.

– Você vai mexer aqui e vai aparecer lá?

Apontou para o computador e depois para a tela enorme que Stark havia feito com exclusiva finalidade de alimentar seu ego… quer dizer, para a sala de cinema que os moradores da Torre tinham acesso.

– Capitão, Capitão, quem te ouve não imagina que você convive diariamente com Tony e todas as invenções que ele acredita que são absolutamente fundamentais para o mundo naquela semana.

Ele coçou a nuca, embaraçado.

– É que com Stark, toda essa tecnologia parece tão fantasticamente comum, que, não sei, parece… estranho que ela exista de maneira tão fácil para as outras pessoas – sacudiu a cabeça, uma adorável tonalidade rosa colorindo suas bochechas. – Ah! Acho que não estou fazendo muito sentido, não?

– Eu entendo – parei de clicar nas teclas para lhe dar total atenção. – Eu realmente entendo. Estudei engenharia e robótica… e matemática a minha vida toda, mas também me surpreendo todos os dias com a mágica que Stark consegue fazer – inclinei-me um pouco para ele, abaixando a cabeça como que para contar um segredo. – O homem é um gênio – sussurrei. – Mas não conte a ninguém. Deus sabe que o ego dele não precisa de nenhum incentivo.

– Não, senhora – gargalhou. – Ele definitivamente não precisa.

– Okay, Capitão. Agora, para conectar o computador…

Passei os próximos minutos demonstrando cada passo até chegarmos ao catálogo.

– Então… qual filme?

Virei-me para ele, aproveitando que ele ainda encarava a TV para poder admirar seu perfil de novo. Meu cérebro clinicamente racional sempre soava alarmes a cada vez que eu fazia isso. Em nenhuma das inúmeras possibilidades que podia conjurar em meu cérebro tinha o resultado favorável. Não importava quantas variáveis adicionava na equação, nunca conseguia chegar a um cenário em que Steve e eu tínhamos qualquer coisa além de um relacionamento platônico. Não tanto porque ele era literalmente a personificação do auge físico que o ser-humano podia chegar, e eu era apenas bonita, mas porque ele me via como uma colega. Nem mesmo sabia se podia chamá-lo de amigo.

De repente ele se remexeu no sofá, desviando o olhar da tela para pegar um pequeno caderno de seu bolso. Aproveitei a deixa para fingir que era uma pessoa normal, e não alguém que tinha o que parecia ser leves tendências obsessivas.

– Hmm… – eu tenho alguns aqui, murmurou para si mesmo enquanto analisava suas opções. – Star Wars, The Shawshank Redemption, Rocky III, mas ainda não vi o I.

– Gosto de Rocky. Podemos começar com o primeiro hoje…. se você quiser, é claro – acrescentei rapidamente.

– Parece uma ótima ideia.

Depois de mais alguns poucos minutos explicando como procurar um título e como colocar o filme para rodar, Steve pegou as cervejas na mesinha e me estendeu uma, colocando o pote de pipoca entre nós. Aproveitando o filme para me distrair, relaxei as costas contra o sofá, não percebendo até aquele momento a tensão cumulada sobre meus ombros. Envolvida na história, vez ou outra enchia a mão de pipoca e levava a boca. Por estar com a atenção sobre a tela plana, não percebi que Rogers sutil e lentamente puxava a tigela para si até que tateei o ar. Franzindo o cenho, virei para o lado e encontrei-o alheio a minha confusão, toda atenção no filme enquanto comia.

Ok. Steve Rogers era gentil, absolutamente lindo e provavelmente o homem por quem qualquer um se apaixonaria com facilidade – eu, inclusive –, mas aquilo definitivamente não era aceitável. Pipoca era uma das minhas paixões. Conhecia todos os sabores existentes nos mercados e certamente imaginava alguns outros vários. Pipoca era rápida, gostosa e um jeito aceitável de enganar a fome nas madrugadas intermináveis trabalhando nos projetos que desenvolvera ao longo dos meus anos de estudo.

Ensino fundamental, ensino médio, MIT, Caltech.

Não importava quantos anos tinha ou quão complexa era a equação que estava queimando meus neurônios, desde que tivesse um balde de pipoca de bacon e um copo de chá enorme, não me afogava no desespero.

Então, não. Mesmo o homem com o comportamento perfeito e as bochechas rosadas mais adoráveis do mundo não podia roubar minha pipoca.

– Rogers! – exclamei, fazendo com que ele desse um pulo no lugar.

Ele engoliu o que mastigava antes de se virar para mim, o cenho franzido em surpresa:

– Senhora?

– O que você pensa que está fazendo?

Olhou para os lados por um segundo, confuso, como se não tivesse certeza de com quem eu estava falando. Apontei para o seu colo e imediatamente toda a cor sumiu de seu rosto enquanto ele olhava para baixo.

– Essa pipoca é para nós dois, Rogers – completei, muito séria.

– Oh! A pipoca! – riu, parecendo bastante aliviado. – A pipoca! – repetiu, sacudindo a cabeça e ainda rindo.

– Sim. A pipoca. De que você achou que eu falava?

– Ah, bom… Eu não… – limpou a garganta, desviando o olhar, a cor voltando para suas bochechas. – Na verdade, eu não… Quero dizer, você quer pipoca?

Isso definitivamente tirou minha atenção do pormenor que discutíamos, concentrando-me no que realmente importava.

– Sim! Para falar a verdade, eu quero sim – um pouco mais ríspida do que seria recomendado, puxei a tigela para mim e, para deixar bem claro minha posição, coloquei-a sobre meu colo com mais força do que o necessário.

Steve tombou a cabeça para o lado.

– Estou tendo a impressão de que você gosta bastante de pipoca.

– Sabe, deveriam é te chamar de Capitão Óbvio.

As palavras nem tinham terminado de sair de minha boca e eu já me arrependia.

– Desculpe. Isso foi bastante rude.

Ainda desconfiada desse ladrão de pipoca, mas disposta a um gesto de trégua, com o cenho franzido, ofereci-lhe um pouco da guloseima.

– Agora estou tendo a impressão de que deveria me sentir honrado – riu, olhando para minhas mãos – com essa boa vontade.

– Se não quiser, sobra mais para mim.

E meu lado-malvado-induzido-e-alimentado-por-amor-a-pipoca me fez arquear a sobrancelha enquanto levava a mão cheia a boca. Com o olhar preso no seu, e tentando deixar meu ponto bem claro – e parecia que estava fazendo muito disso nos últimos minutos –, mastiguei bem devagar.

Rogers estava visivelmente tentando controlar sua risada.

– Acho que podemos encontrar um meio-termo.

Dizendo isso, deslizou um pouco para o lado, até que estivesse ao meu lado. Seu braço encostado ao meu.

Sua coxa encostada na minha.

A pipoca que mastigava parou em minha garganta e só com muito esforço consegui engolir tudo sem engasgar até a morte. Não que ainda estivesse devidamente viva, afinal, podia sentir minhas bochechas voltarem a queimar.

Oh! A doce humilhação de me comportar como uma pré-adolescente.

Fiquei parada, as costas eretas como madeira. Acho que nem respirei nesse meio tempo. Francamente, agora que a adrenalina sobre ser privada de pipoca tinha passado, minha cabeça girava com a rapidez com que as coisas tinham evoluído ali. De opções básicas em um smartphone até gestos casuais feitos de maneira tão despretensiosa, as coisas evoluíram bastante.

Engolindo em seco e definitivamente esquecendo da guloseima no meu colo, mantive os olhos fixos na tela – mesmo não me atendo a qualquer detalhe da história de Rocky. Na verdade, forçava meu cérebro a pensar nas ligações elétricas que precisava criar para o braço robô que Stark havia decidido fazer. Aquela abordagem de fuga de realidade, entretanto, causou o efeito contrário e, poucos minutos depois, Rogers, percebendo meu óbvio comportamento estranho, inclinou-se para o lado até que pude sentir sua respiração em meu pescoço.

– Está tudo bem, ? – sussurrou, como se não fôssemos as únicas pessoas no cômodo.

Foi nesse momento que percebi que estava agindo como uma idiota. Ele não tinha feito absolutamente nada de propósito para me deixar desconfortável, apenas estava sendo amigável. Podíamos ser amigos. Partindo do pressuposto, é claro, que eu deixasse de ser esquisita.

Talvez quando passasse a conhecer o Steve Rogers real, perceberia que ele não era páreo para aquele que minhas fantasias românticas haviam criado. Podia superar minha paixonite. Seria uma boa ideia.

Um excelente plano.

Mais calma, pude relaxar as costas contra o sofá outra vez.

– Sim. Está sim, Capitão Rogers – finalmente respondi sua pergunta.

– Que bom – sussurrou outra vez, ainda bastante perto. – Que bom.

Alguns momentos de silêncio confortável se passaram entre nós.

– E ?

– Sim, Capitão? – dessa vez não me virei para ele, observando a cena que se desenrolava no filme para tentar entender em que parte estava.

Fiquei bem orgulhosa de mim mesma por não pular no lugar, por não imitar o solavanco que meu coração deu, ao sentir que ele se aproximava ainda mais.

Afundei os dentes em meu lábio inferior para não soltar um gritinho quando seu braço pousou sobre meus ombros e ele voltou a sussurrar em meu ouvido:

– É Steve.

Continua...

Nota da Autora: BOAS FESTAS, AMORES. FELIZ NATAL! Que tudo de melhor abençoe o ano que vem, que o ano de vocês tenha sido bom, que algo lhe tenha servido de aprendizado.
Obrigada por todo o carinho que vocês sempre me deram. Sou muito grata. E espero que todos tenham um excelente natal e um maravilhoso ano novo. E que em 2017, você possa fazer alguma coisa inédita e boa para você.
E quem estava com saudades do Capitão Rogeeeeers, heeeein? Estamos fazendo progresso, não? ;) Espero que tenham gostado do capítulo e já já teremos capítulo de Burning Ice too. Lots of loooove <3

Confira aqui outras fics da Cris.

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Nota da beta: Aproveitem o Natal para suspirar pelo Capitão!!!
Se encontrar algum erro me avise por aqui ou por aqui.