Autora: Nessy | Beta: Babs | Capista: Annie B.



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Vinte e Quatro

’s POV

— Não acredito que nunca foi a uma quermesse. — Sam disse assustada.
— Pois é — eu poderia responder que não tinha tempo entre minhas viagens e visitas aos melhores restaurantes de Londres, mas teria que explicar o porquê de não estar mais fazendo essas viagens nem frequentando tais restaurantes.
— Você vai adorar, . — falou finalizando a trança no cabelo de Sam.
— Espero que dessa vez o consiga o maior urso no tiro ao alvo para mim. — Mayh comentou.
— Todas acompanhadas e eu vou segurar vela — comentei de forma distraída.
— Por que não fica com o ? Ele é um gatinho. — Sam falou com um sorrisinho e fiquei com vontade de pular no pescoço dela.
— Não é como se ele fizesse meu tipo — dei de ombros.
— O não é o tipo de alguém? Eu particularmente o acho muito mais gato e gostoso que o Matty — ok, ela estava indo longe demais.
— Vem cá, você não está ficando com o ? — cruzei os braços e Mayh ergueu uma sobrancelha.
— Sim, isso não quer dizer que eu não note a beleza dos outros meninos e nem que não tenha notado antes de me envolver com — ela deu de ombros. — Ele sabe que acho o bonito e não se incomoda, mas você parece que sim — estreitei meus olhos para ela.
— Não me incomoda, o que me incomoda é parecer que você está pegando o , mas de olho no amigo dele — cruzei os braços para dar mais veracidade as minhas palavras.
— Ok, . Vamos fingir que é exatamente isso. Devia ficar com ele, formariam um belo casal — ela se levantou. — Estou pronta — disse e saiu do quarto onde estávamos nos arrumando.
Fiquei olhando Sam sair, com a raiva queimando dentro de mim. Como ela se atrevia a insinuar que eu estava a fim de ?
, você está a fim do meu irmão? — perguntou naturalmente.
— Óbvio que não, dá onde tirou isso? — ela deu de ombros. — Só não acho legal ela ficar falando essas coisas enquanto está pegando o — falei tentando ser convincente até para mim mesma.
— Certo, estou pronta. Espero vocês lá embaixo. — disse antes de nos deixar sozinhas.
— Acha que devemos falar para o tipo de conversa que a Sam anda tendo por aí? — perguntei a Mayh e ela riu.
, ela só queria te deixar com ciúme para confirmar as suspeitas dela, e conseguiu — ela sorriu.
— Não fiquei com ciúme, Mayh. Só não achei legal o que ela disse — afirmei teimosa.
— Ok, vamos fingir que eu não sei que você é a fim do . Vamos? — disse pegando sua bolsa em cima da cama.
— Já disse que te odeio hoje? — ela rolou os olhos e riu enquanto saía do quarto.
Era estranho ver todos aqueles casais abraçados ou de mãos dadas enquanto eu tentava me manter longe o suficiente de para que não parecesse que estávamos juntos. O céu ainda estava claro quando chegamos ao lugar, um campo grande e aberto com algumas árvores ao redor. Havia alguns brinquedos de parque de diversão como roda-gigante, carrossel, carrinho de bate-bate entre outros, e eu me recusaria a subir em qualquer um deles, assim como várias barracas de comidas e jogos.
— Você está fazendo aquela cara — meio que cochichou tombando a cabeça em minha direção.
— Que cara? — perguntei cruzando os braços.
— Aquela de quem está com nojo até do ar que está respirando — o olhei brevemente constatando que ele estava com aquele sorrisinho de deboche no rosto.
— Não estou com nojo de nada, só achei diferente — dei de ombros.
— Você nunca esteve em um lugar como esse? — perguntou curioso.
— O que você acha? — ele sorriu.
— Se você não olhar com preconceito vai se divertir — ele disse e olhei ao redor notando que e já estavam um pouco mais à frente parados em um carrinho de algodão doce.
— Não tenho nenhum tipo de preconceito — falei enquanto começava a andar mais rápido por notar que e Sam já tinham desaparecido e Mayh se afastava cada vez mais.
Eles não podiam me deixar sozinha com , eles fizeram questão que eu fosse para aquele lugar, mesmo sabendo que só iriam casais, não podiam me forçar a ficar sozinha com .
Agarrei o braço de Mayh quando ela e pararam no tiro ao alvo, o garoto já estava comprando milhares de fichas para tentar ganhar o urso que a namorada tanto queria.
— Se me deixar sozinha com o Shrek te mato — apertei seu braço sussurrando.
— Relaxa, , ele é inofensivo — fiz uma careta. — Ele está tentando não está? — espremi meus lábios em sua direção. — Amor, vou ali comprar uma pipoca com a e já volto. Não comece sem mim — ela disse antes de me puxar para longe dali.
— Que história é essa? — perguntei quando já estávamos longe o suficiente.
— Do que está falando? — ela disse tentando parecer inocente.
— Não se faça de desentendida — ela rolou os olhos.
— Eu conversei um pouco com ele na sexta — ela deu de ombros.
— E? — perguntei tentando não demonstrar o tamanho da minha curiosidade.
— E o quê?
— E o que conversaram? — perguntei já torcendo os dedos.
— Sobre o jeito que ele te trata e como eu não gostaria de ver isso aqui.
— Hum, entendi — não queria, mas não consegui evitar que uma pitada de desapontamento surgisse.
Ok, não foi só uma pitada. Um desapontamento enorme surgiu por descobrir que só resolveu que queria ser legal comigo porque Mayh pediu. Ela comprou um saco de pipoca e voltamos para perto dos meninos. estava concentrado tentando acertar algum alvo.
— O maior urso, . — Mayh intimou o garoto batendo em seu ombro.
— Você quer um urso? — me cutucou.
— Não sei mexer com isso — gesticulei para o objeto em sua mão.
— Não é você que vai atirar, sou eu — ele disse e ergui uma sobrancelha. — Qual você quer?
— Tanto faz — dei de ombros fazendo pouco caso.
— Então vou no que acho que você mereça — senti minha pele esquentar como consequência, sabia que mais cedo ou mais tarde ele voltaria a agir como um otário.
Ele e começaram a atirar e confesso que já estava ficando entediada, talvez fosse mais divertido segurar vela para ou , passei os olhos pelo local tentando localizar qualquer um dos dois e me livrar de o mais rápido possível.
— Eu não acredito! — me assustei com o grito de Mayh e olhei rapidamente para os três.
— Eu sou bom nisso. — se gabou enquanto eu notava o homem barrigudo caminhar em nossa direção com um urso grande e marrom em nossa direção.
— Eu quero um desse. , eu necessito desse — ela pulava chacoalhando .
— Obrigado, cara — ele disse emburrado e riu antes de pegar o urso.
— Seu urso — ele estendeu o objeto em minha direção, me deixando surpresa.
— Awn, eu quero, amor, por favor. — Mayh chacoalhou um pouco mais o braço do pobre do namorado dela, fazendo um biquinho, enquanto eu pegava o urso, sentindo minhas bochechas esquentarem.
— Obrigada — disse baixinho, ignorando minha amiga perturbar o namorado por um urso.
Fiquei agarrada ao meu presente por ser muito grande, não por ter gostado dele, em silêncio esperando o casal se resolver enquanto tentava dar dicas ao amigo de como acertar os alvos. E quando finalmente ganhou um urso, Mayh saiu literalmente bicuda e batendo os pés nos deixando para trás.
— Preciso de uma bebida — disse quando notei que havia ido, cabisbaixo, atrás da namorada e só restara eu e o Shrek ali.
— Provavelmente eles não vendem bebida alcoólica para menores. — disse enfiando as mãos no bolso.
— Por isso seus amigos andam com você — disse andando em uma direção qualquer.
— Isso foi muito sensível — ele comentou.
— Preciso guardar isso, não consigo enxergar — disse parando no meio do caminho.
pegou o urso de minhas mãos o enfiando embaixo do braço enquanto seguia por uma direção contrária a que estávamos indo.
— Onde está indo? — perguntei tendo que dar uma breve corrida para acompanhá-lo.
— Guardar isso aqui — ele balançou o urso. — Coitado do — comentou depois de algum tempo de caminhada em silêncio.
— Ela só está fazendo charme pra ele agradar ela um pouco — disse e avistei o carro.
— Mais do que ele já agrada? — perguntou me olhando.
— Claro, até porque dormir com metade do bairro é um imenso agrado — falei irônica e parou na porta do carro ficando de frente para mim.
— Não que eu ache uma atitude louvável, mas eles já voltaram. Ela devia ter esquecido disso quando resolveu reatar com ele — ele disse e se virou para abrir a porta.
— Na teoria é bem fácil de esquecer e perdoar só porque a pessoa pediu desculpas, na prática é outra coisa — ele não disse nada, apenas colocou o urso no banco traseiro.
— Por que eu tenho a impressão de que você não está falando dos dois? — ele juntou a sobrancelha.
— E de quem eu estaria falando? De qualquer forma não estou dizendo que com ela é assim, estou dizendo que comigo seria assim — dei de ombros me afastando do carro e escutei quando ele bateu a porta.
— Então estava certo, você estava falando de nós — em poucos segundos ele estava ao meu lado.
— Não existe nós, . Existe eu, e existe você. E estava falando sobre como eu penso, para mim é um pouco mais difícil simplesmente desculpar, virar a página e simplesmente continuar como se nada tivesse acontecido — cruzei os braços sentindo o vento bater em meu rosto.
— Então você desculparia e ficaria fazendo a pessoa te compensar o resto da vida por isso? — perguntou curioso.
— Não foi isso o que eu disse. Como eu te disse ontem pedir desculpas é fácil, dizer que as coisas vão ser diferentes também é. Por isso, comigo o que funciona são as atitudes da pessoa a partir do momento em que ela pediu desculpas. Não é me compensar por nada, é mostrar que o arrependimento é real e chega uma hora que a gente simplesmente não se importa com o que aconteceu — eu olhava o chão de terra e imaginava em como meu tênis ficaria sujo.
— O que você quer beber? — mudou de assunto bruscamente e no fundo o agradeci por isso.
— Vodka cairia bem agora, mas duvido que aqui tenha algo bom, então pode me comprar uma cerveja — falei enfiando a mão no bolso traseiro do meu jeans.
Se eu tinha vendido um sapato de grife para ir àquela viagem, meu dinheiro teria que ser bem gasto.
— Por que não toma um refrigerante ou um suco? — parei de andar e o encarei.
— Vai querer controlar o que eu bebo? — perguntei com raiva.
— Minha mãe não iria gostar que eu desse vodka pra você — ele deu de ombros.
— Não quero vodka, quero cerveja. Já que você se nega a comprar eu posso achar alguém que compre — voltei a andar e ele me segurou pelo braço.
— Não vou deixar você beber com um desconhecido, — ele disse e sorri.
— Ótimo, então compra você pra mim — ele suspirou e voltou andar.
Paramos em uma barraca de bebidas onde ele comprou cerveja e refrigerante e andamos o lugar todo. Encontramos e no carrossel, Sam e no tiro ao alvo e, por último, Mayh e que ainda discutiam ,e passei a achar aquela discussão deles infantil, o que me fez querer mais álcool.
— Tem certeza que quer beber mais? — parecia levemente preocupado.
— Claro, você acha que vou ficar bêbada com um copo de cerveja? — ri sentindo meus músculos relaxados.
— Com um não, mas com mais de um quem sabe?! — Ele abriu bem os olhos.
— Ok, ele não perguntou sua idade, não vai perguntar a minha também — disse e caminhei na direção da barraca, sabendo que ele viria logo atrás.
— Eu te pago uma bebida se vier na roda gigante comigo — rolei os olhos.
— Não confio na segurança desses brinquedos — falei sem olhar para ele.
— Se não fosse seguro não estaria aqui.
— Por que não vai sozinho? — perguntei o olhando.
, você disse que me daria uma chance e não é isso que está fazendo — bufei.
— Estou fazendo isso desde a hora que chegamos aqui, só não quero ir na maldita roda gigante — esbravejei.
— Você tem medo? — ele perguntou quando chegamos na barraca.
— Não, você tem? — perguntei de volta.
— Quero uma cerveja, ou melhor duas — ele disse para o garoto que estava ali. — Digamos que estar muito longe do chão não é uma das minhas coisas preferidas da vida — juntei as sobrancelhas.
— Se você não gosta de altura, por que quer ir justo naquilo? Por que não faz como o e vai no carrossel? — perguntei, mas já estava começando a considerar a ideia de acompanhá-lo.
— Porque na roda gigante é mais emocionante — ele sorriu e peguei o copo assim que o garoto os colocou no balcão.
— Tudo bem então — falei e caminhei para longe da barraca.
Minha cerveja acabou antes de chegarmos no brinquedo, já que tivemos que parar na bilheteria. Quando nos aproximamos da enorme estrutura colorida encontramos novamente e Sam na fila, já estava um pouco mais animada que o normal por causa da cerveja e morrendo de medo que alguém notasse isso.
— O que está bebendo? — perguntei a esticando o pescoço para ver dentro de seu copo.
— Batida — ele disse me estendendo o copo.
Tomei um gole da bebida sentindo o gosto de morango e vodka.
— Está bem docinha — falei tomando mais um pouco.
— É, mas não toma tudo não. — disse tomando o copo de volta para si.
Não demorou muito até que eu e estivéssemos acomodados em um dos bancos e, quando vi suas mãos agarrarem a barra de segurança tão fortemente ao ponto dos nós de seus dedos ficarem brancos, um sorriso perverso se desenhou em meu rosto.
Esperei paciente até que estivéssemos em uma altura considerável do chão.
— Pode relaxar, . Você sabe qual a probabilidade de acontecer um acidente? — o garoto estava tão tenso que eu podia sentir mesmo sem encostar nele.
— Não é uma boa hora para falar de acidente. Estamos quase conseguindo a vista da cidade toda — sua voz estava levemente receosa e me aproveitaria disso.
— Se estivéssemos na Disney, diria que as chances são mínimas, mas num parque como esse... — balancei a cabeça negativamente. — Não me surpreenderia se essa estrutura começasse a desmoronar, sabe como é. Parece tudo meio enferrujado. — Estava realmente me divertindo.
— Sei que só está tentando me assustar — ele disse firme. — Não vai conseguir. — Sorri mais abertamente, nem tinha começado ainda.
Ficamos no topo da roda gigante e tirei algum tempo para apreciar a vista. Demos uma volta, mais uma e mais outra, e finalmente chegou o momento que estava esperando desde que confessou que tinha medo de altura. A roda parou nos deixando no topo, olhei para o garoto ao meu lado que fitava somente o horizonte a nossa frente. Sabia ter uma expressão divertida em meu rosto. Impulsionei meu corpo levemente para frente e para trás, fazendo com que o banco em que estávamos balançasse.
! Você está ficando louca? — quase gritou. O pavor em sua voz me divertiu mais do que ele poderia imaginar.
— Será que se cairmos de uma altura dessa, sentiríamos dor? — me senti uma verdadeira psicopata quando minha voz saiu fria. — Será que sentiríamos a dor ou morreríamos antes disso? — balancei o banco novamente e olhei para que estava pálido como uma folha.
, para! — ele disse apavorado e comecei a rir.
— É divertido, — falei balançando mais um pouco e rindo ainda mais. Ele fechou os olhos respirando fundo.
— Por favor — disse baixinho e passou a mão tremula no rosto que estava retorcido em pavor.
Não deveria, mas fiquei com pena.
, está tudo bem. Não vamos cair — disse pousando minha mão por cima da sua que segurava a barra. Ela estava gelada como uma pedra de gelo.
— Só quero sair daqui — ele mantinha seus olhos fechados fortemente. — Foi uma péssima ideia — resmungou e me mantive em silêncio.
Durante o restante do tempo no brinquedo, manteve os olhos fechados e as mãos firmes se segurando, enquanto eu estava só com a consciência pesada e com medo de que ele quisesse se vingar.
Quando descemos, ele se abaixou colocando as mãos nos joelhos mantendo a cabeça baixa.
— Você está bem? — perguntou colocando a mão em seu ombro, levantou uma das mãos.
Me aproximei dos dois devagar e com receio do tipo de tratamento que ganharia depois daquele episódio.
— Quer um pouco de água? — perguntei com cautela, se levantou rapidamente suspirando.
— Estou bem — ele disse sério e saiu caminhando.
— O que aconteceu? — perguntou quando estava longe o suficiente para não ouvir.
— Eu tirei uma com a cara dele, só isso — respondi encolhendo os ombros.
— Coitado, — ele disse e cruzei os braços.
— Não sabia que ele iria ficar tão mal — me defendi e ele colocou a mão em meu ombro.
— Relaxa, ele está se recuperando. — falou e sorriu. — Vai mais uma batidinha aí? — perguntou e afirmei sorrindo.
Perdi de vista por um tempo e imaginei que ele tinha achado alguma garota para beijar e houvesse me esquecido, tomei um copo de batida que havia trazido e já estava com a vista turva.
reapareceu quando meu segundo copo de batida estava pela metade, mas eu já havia consumido álcool o suficiente para me fazer passar vergonha e ir falar com ele.
— Onde você estava? — falei enquanto ia em sua direção, juntou as sobrancelhas.
— Precisei tomar um pouco de ar — ele disse com tranquilidade.
— Sobre isso, desculpe. Não sabia que estava falando tão sério que tinha medo de altura — ele olhou para o meu copo e o pegou.
— O que é isso? — perguntou antes de cheirar. — Quantos desse tomou? — perguntou ainda segurando o copo.
— Só esse — menti.
— Só esse não foi, você não estava com a voz embolada assim — ele disse e minha expressão se tornou carrancuda.
— Vai dar uma de pai agora? — coloquei as mãos na cintura.
— Daqui a pouco você vai começar a querer me agarrar, como da primeira vez que ficou bêbada — ele disse dando aquele sorrisinho irônico que me fazia ter vontade de morder sua boca.
Céus.
— Nem nos seus sonhos, Shrek. Dá meu copo — arranquei minha bebida de sua mão, mas ele ficou na minha cola e não me deixou beber mais nada que continha álcool.
Fomos encontrando o restante dos casais aos poucos, primeiro Mayh e , que pareciam ter feito as pazes, e depois e .
— Vamos voltar para a fazenda — Sam convidou e confesso que adorei a ideia, tudo o que eu queria era dormir.
— Graças a Deus mais alguém quer ir embora — falei tentando parecer sã.
— Eu também já quero ir. — se pronunciou e todos concordaram que já estávamos cansados demais para ficar ali.
Meus planos eram de chegar em casa e ir direto para o quarto dormir, mas não foi bem assim, Sam teve a brilhante ideia de prolongar a noite e ao invés de fazer isso com , propôs que jogássemos alguma coisa.
— Podemos jogar verdade ou sete minutos no paraíso. — Sam falou feliz e estreitei meus olhos para ela.
— O nome do jogo não é verdade ou consequência? — perguntou confuso.
— Sim, é uma adaptação. A pessoa escolhe entre verdade ou sete minutos no paraíso — ela disse animada e tive certeza que não era só na boca de que ela queria colocar a língua.
— Aqui só tem casal, exceto pelo e . — explicou o óbvio e a garota o olhou sugestivamente.
— Exato, todo mundo tem um par — ela disse.
— Você está tentando fazer o e a Sophia se pegarem? Porque não vai dar certo, eles podem só escolher verdade o tempo inteiro. — Mayh falou pensativa.
— A gente pode colocar um limite pra pedir verdade. — refletiu.
— Vocês podem parar de agir como se eu e não estivéssemos aqui? — ralhou me deixando agradecida.
— Vamos jogar eu nunca. — falou tentando evitar que uma discussão começasse.
— Boa, tem alguma bebida boa aí? — perguntou se levantando.
— No bar deve ter alguma coisa. — Mayh também se levantou e saiu da sala com o namorado. — Achei um Cuervo — ela cantarolou assim que adentrou a sala balançando uma garrafa na mão.
— Todo mundo sabe como funciona, né? — perguntou enquanto distribuía os copos.
— Deixa eu recapitular — falei me sentando entre e . — Eu tomo se já fiz, isso?
— Exato. — falou enquanto Mayh colocava a bebida nos copos.
— Que comecem os jogos. — falou esfregando as mãos quando todos os copos estavam cheios.
— Eu começo. — Sam disse animada. — Eu nunca beijei o — disse olhando direto para mim.
Ninguém levantou o copo, muito menos eu, jamais admitiria para todos eles que tinha ficado com o Shrek.
— Eu nunca transei com a Coraline. — disse e ele e tomaram um gole e não deixei de perceber o desconforto de .
— Eu nunca fiquei com o Matty — falei e tomei um gole, assim como Mayh.
— Eu nunca fiquei com o . — disse, e Mayh tomaram me deixando confusa.
— Eu nunca fiquei com a . — Mayh falou e tomou um gole.
— Agora me explica porque você tomou e a não. — falou confuso.
— Porque ele ficou comigo nos sonhos dele — falei nervosa e irritada com .
— É claro. — falou irônico enquanto sua irmã me encarava com confusão.
— Ficaram ou não? — Sam perguntou curiosa.
— Só para vocês saberem não estou levando essa joça a sério. — disse e bebeu mais tequila.
— Sempre tem um estraga prazer mesmo, né? — ralhou também bebendo mais.
— Acabaram com a brincadeira antes mesmo dos podres começarem a ser expostos. — disse acabando com a tequila em seu copo o enchendo logo em seguida.
— Vamos contar umas histórias de terror que fica divertido. — falou se encostando no sofá.
— Eu espero que você não fique com medo ao ponto de querer dormir comigo. — falou se sentando no sofá puxando junto.
— Vou contar algo que aconteceu aqui mesmo — tentei focalizar Mayh enquanto ela falava.
A sala ao meu redor parecia estar rodando enquanto eu buscava uma explicação para me sentir tão indisposta.
— Quer saber? — disse subitamente segurando o braço de . — Não gosto de histórias de terror — falei enquanto me apoiava no garoto para me levantar. — Acho melhor ir dormir, essa tequila não me fez bem — todos estavam olhando para mim, mas não consegui focalizar o rosto de ninguém.
— Vou te ajudar. — se levantou de onde estav,a ignorando minha mão se abanando no ar como uma rejeição a qualquer ajuda.
Não precisava de ajuda mesmo que estivesse cambaleando em direção as escadas, céus eu definitivamente não devia beber. Ainda mais quando se tratavam de bebidas que jamais havia experimentado, como tequila, por exemplo.
Claro que já havia estado no México, mas nunca tivera curiosidade por bebidas alcoólicas. Talvez alguns coquetéis super fracos que eu duvidava que continham álcool. Será que eu estava virando uma alcoólatra? Não estranharia se virasse, de algum modo eu teria que ter algum consolo para o modo como minha vida parecia ter desmoronado.
Céus, aqueles pensamentos egoístas, não era como se minha vida não tivesse melhorado em alguns aspectos. Eu tinha amigos, não tinha?
— Você está bem? — focalizei por poucos segundos o rosto de , enquanto ela passava minha blusa pela cabeça.
— Eu posso me trocar sozinha — disse pegando meu pijama de sua mão para vesti-lo.
— Sei que sim, mas quero ajudar — ela disse e cedi.
Mesmo me achando capaz de me trocar, afinal estava zonza e não caindo de bêbada, ela me ajudou em todo processo, inclusive arrumou minha cama.
Sim, eu tinha amigos que gostavam de mim. Não ter uma casa ou dinheiro próprio não era nada afinal. Quem precisava de um pai quando se tinha pessoas ao seu redor que cuidavam de você do modo como ele deveria?
Por mais que tentasse dormir, só consegui me virar para todos os lados tentando achar uma posição em que minha cabeça não ficasse girando, e que aquele enjoo fosse embora o mais rápido possível.
Senti o gosto quando o líquido voltou a minha garganta enquanto jogava o cobertor em uma tentativa de chegar a tempo no banheiro. Minhas pernas estavam fracas e eu ainda estava tonta, então o único jeito era me sentar no chão do banheiro agarrada ao vaso sanitário.
— Por Deus, , como conseguiu chegar a essa situação? — perguntei a mim mesma enquanto tentava alcançar o papel higiênico.
A tristeza bateu junto com mais uma onda de enjoo, a que ponto eu havia chego? Estava no chão de um banheiro sozinha, quando havia muitas pessoas em outra parte da casa se divertindo. Ninguém se preocupava comigo.
Talvez a culpa fosse minha, talvez eu não desse a importância que as pessoas mereciam e por isso elas também não me davam a importância que eu merecia. Ou talvez elas estivessem fazendo exatamente isso.
— Você está bem? — me senti idiota por ter reconhecido a voz de .
Seu perfume entrou nas minhas narinas antes mesmo que ele se abaixasse ao meu lado e tocasse meu ombro.
— Sim — respondi de um jeito grogue.
— Por isso não gosto que beba — ele disse se esticando até o papel higiênico. — Sempre passa mal — disse me ajudando a limpar a boca.
— Até parece que você se importa — falei tentando me apoiar nele para me levantar.
— Precisa de ajuda para voltar para a cama? — ele perguntou me ajudando a ficar em pé.
— Não, quero escovar os dentes e já vou deitar — falei tentando superar a fraqueza que dominava minhas pernas.
— Estou no quarto, qualquer coisa me chame — acenei com a cabeça antes que ele se fosse.
Quando retornei ao quarto, já estava deitado em sua cama com o celular aceso perto do seu rosto, o que ajudava a iluminar precariamente o ambiente. Não que isso tenha evitado que eu tropeçasse antes de chegar a cama. Me encolhi me sentindo vazia e uma necessidade enorme de ficar com , tê-lo perto.
? — chamei mais alto do que gostaria.
— Oi — respondeu no mesmo momento.
— Pode deitar aqui — minha voz estava ansiosa e trêmula.
— Não acho uma boa ideia — mesmo estando com a percepção prejudicada pelo álcool consegui identificar a hesitação em sua voz.
— Por favor, só até eu dormir — pedi me sentindo cada vez mais idiota por estar pedindo aquilo à ele.
Os minutos se passaram e a resposta não veio me deixando gradativamente mais deprimida, mesmo sem saber se eu queria qualquer contato físico, estava me rejeitando pelo que deveria ser a milésima vez.
— Vai mais pra lá — dei um pulinho de susto com sua voz baixa próxima de mim.
Me arrastei pela cama dando espaço para que o garoto se deitasse ao meu lado e assim ele fez. Ele não me abraçou nem falou nada, apenas ficou ali deitado com a barriga para cima em silêncio. Me aproximei devagar antes de deitar minha cabeça em seu peito, senti seu corpo ficar rígido e sua respiração presa por alguns segundos. Quando relaxou, passou um de seus braços por meu ombro e o outro por minha cintura fazendo com que me sentisse boba por estar tão confortável naquela situação.
Fechei meus olhos enquanto sentia algo estranho tomar conta do meu sistema nervoso, como se uma tristeza que não tinha explicação nenhuma tivesse dado um tapa no meio da minha cara e feito meus olhos se encherem de lágrimas.
? — chamei com a voz baixa ao que ele só resmungou. — Por que ninguém gosta de mim? — uma lágrima traidora escapou do meu olho enquanto o silêncio fúnebre dominava o quarto.
— De onde você tirou isso? — ele perguntou tão baixo quanto eu.
— As pessoas não gostam de mim — fechei os olhos fortemente.
— Claro que gostam.
— Você não gosta — afirmei. — Nem meu pai gosta de mim — me odiei por ter deixado um soluço escapar. se mexeu embaixo de mim, parecia estar tentando ver meu rosto.
— Isso não é verdade, . Você está vendo coisas que não existem.
— Você não gosta de mim porque me acha vazia. Você disse, mas e meu pai? É por isso que ele não gosta de mim? — tinha plena consciência de que estava chorando e a única coisa que veio do garoto que me abraçava foi silêncio seguido de silêncio.
Com o passar do tempo meu choro foi diminuindo até que em certa hora da noite ele se foi completamente. Momento do qual não me recordo exatamente, mas deve ter cessado quando finalmente o sono me atingiu.

...

Céus, quando eu finalmente tinha esquecido a sensação de estar de ressaca o que eu faço? Vou lá e bebo bastante de novo só para me lembrar como é.
Mas sem dúvida a pior parte é a ressaca moral, um gosto nunca antes experimentado. Tudo bem que da primeira vez que bebi me senti constrangida, mas sequer sabia o que tinha acontecido e isso era bem melhor que se lembrar de cada detalhe.
Quando me olhei no espelho vendo o quão meus olhos estavam inchados não consegui acreditar que depois de tudo, eu havia enchido a cara e tinha ido mendigar atenção de de novo. Por Deus, só conseguia imaginar o inferno que aquele idiota faria com os acontecimentos da noite anterior.
— Cortesia do Mr. . — Mayh adentrou o banheiro, no momento em que estava escovando os dentes, com um copo de água e uma cartela de comprimidos nas mãos.
— Obrigada — disse depois de lavar a boca.
— O que houve? Você chorou? O te fez alguma coisa? — disparou enquanto eu tomava o remédio na esperança de que a dor de cabeça fosse embora tão rápido quanto chegou.
— Não foi nada não — dei de ombros saindo do banheiro.
— Mas você está com os olhos inchados — insistiu me seguindo.
— É a ressaca, só isso — coloquei uma jaqueta tentando juntar coragem para descer com ela e encarar .
— Nunca fiquei com os olhos desse jeito — disse.
— Realmente não quero falar sobre isso, só quero colocar alguma coisa no estômago para ver se esse mal-estar passa — ela concordou com a cabeça.
Tentei pensar que ninguém sabia do meu vexame no quarto, ninguém poderia saber, afinal só haviam duas pessoas naquele cômodo e, se não tivesse contado, não tinha motivo para ficar vermelha na presença deles.
— Bom dia — disse me sentando a mesa.
Todos pareciam cansados e até mesmo de ressaca, estavam quietos e desanimados. Procurei pelo máximo de coisas salgadas que poderia encontrar na mesa, enquanto dizia algumas poucas palavras que eu particularmente não estava prestando atenção.
— Vamos ao lago de novo — alguém sugeriu, não vi quem porque estava concentrada no meu café.
— Se eu subir em um cavalo, vou colocar todo meu café da manhã para fora. — falou encolhida em sua cadeira enquanto comia uma torrada.
— Vamos de carro. — falou não parecendo nada animado em sair de casa. — Podemos fazer um piquenique e não perdemos o último dia.
Para mim tanto fazia ficar ali na casa sem fazer nada, eu até preferia, mas também não poderia ficar ali sozinha, pelo menos estaríamos rodeados de pessoas e não tocaria no assunto. Pelo menos era o que eu pensava.
O sol não estava forte, mas dava para tirar a jaqueta e absorver um pouco das vitaminas que ele tinha a oferecer. Estendemos a grande toalha xadrez que a caseira da fazenda tinha nos dado, e colocamos algumas coisas que estavam em uma das cestas que levamos em cima dela. Os meninos se apressaram em pegar uma bola que saiu de um lugar desconhecido por mim e se afastaram um pouco para ficarem chutando ela infinitamente.
— Vou sentir falta de tudo isso. — comentou se sentando ao meu lado.
— Às vezes me esqueço que todos vão para a faculdade e só vai ficar você — comentei olhando seu rosto. Ela estava com ele erguido para receber a luz do sol, seus olhos estavam fechados e ela sorriu.
— Na verdade, acho que vou sair da cidade primeiro que todos vocês — juntei as sobrancelhas. — Se tudo der certo, vou entrar para a companhia, — explicou.
— Sério? — perguntei animada e ela concordou com a cabeça. — Isso seria maravilhoso.
— Sim, estou ansiosa e nervosa ao mesmo tempo. O teste é semana que vem — ela abriu os olhos ainda sorrindo.
— Vai dar tudo certo — falei colocando minha mão por cima da sua.
— E você? Já decidiu o que vai cursar? — perguntou me fazendo lembrar que ainda precisava achar algo que gostasse.
— Não tenho ideia, já pensei em literatura, em direito, em relações públicas. Está muito complicado — fitei os meninos ainda chutando a bola.
— Você ainda tem tempo, só tem que se atentar aos prazos — ela disse.
— É — respondi vagamente já que vinha em minha direção com um belo sorriso no rosto.
Confesso que por mais que fosse contra minha vontade, ele parecia vir em câmera lenta e era como se só existisse ele ali, como se todos os nossos amigos tivessem sumido. Quando estava próximo a mim ele parou e simplesmente tirou a camiseta, me fazendo quase engasgar com a própria saliva. Ele jogou a camiseta ao lado da irmã e passou a mão pelos cabelos, os tirando da testa.
— Vai matar a desse jeito, garoto. — Mayh disse se sentando ao lado de fazendo minhas bochechas esquentarem.
me olhou e piscou um olho antes de se virar e voltar correndo para onde os meninos estavam já todos descamisados.
— Gente, me tirem uma dúvida. — Sam veio com uma garrafinha na mão e se sentou na nossa frente.
— Diga. — foi quem respondeu.
já namorou sério alguém? — ela parecia realmente curiosa.
— Que eu me lembre foi só a Judy, mas foi por pouquíssimos meses. — Mayh respondeu pensativa. — Por quê? — Sam deu de ombros.
— Estava curiosa só, pelas conversas que tivemos não me parece que ele queira um relacionamento sério com alguém — ela parecia desanimada com a hipótese.
— Você quer namorar o ? — foi quem perguntou.
— Eu gosto dele e ele parece gostar de mim, mas, como disse, não me parece que ele queira algo sério com ninguém — explicou.
— Pode ser por ele ter planos de cair na estrada depois do ensino médio — falei o que eu achava o mais provável.
— Será? — perguntou em dúvida e dei de ombros.
veio até nós gritando que estava com fome antes de pegar alguma coisa na cesta e se deitar com a cabeça no colo de Mayh. puxou Sam para longe, no mínimo para se beijarem em algum lugar longe dos nossos olhos.
Ficamos todos ali vendo o tempo passar, enquanto assuntos totalmente sem proveito surgiam cada hora de alguém diferente. não havia falado comigo, e para mim não parecia interessado em fazer, mas não sei se realmente me importava com aquilo.
Claro que me importava, talvez ele só tivesse parado de tentar parecer o bom samaritano para mim depois da noite passada e resolveu apenas me ignorar.
Mayh e foram para longe se divertir com a bola. Logo e foram para a beirada do lago nos deixando a sós. Não fazia questão de conversar com , preferia ficar com a pouca dignidade que ainda me restava, se é que ainda restava alguma. Por isso o olhei pelo canto do olho quando ele se sentou ao meu lado ainda descamisado.
— Como você está? — ergui uma sobrancelha.
— Bem, por quê? — achei que me fazer de desentendida seria a melhor saída.
— Você parecia meio... — fez uma pausa, devia estar procurando as palavras certas.
— Meio? Eu estava bêbada, não devia dar tanta importância para as coisas que as pessoas fazem bêbadas — por mim nem teria entrado naquele assunto.
— Você provavelmente levou bem a sério o que eu disse bêbado — ele disse e sorri.
, sinceramente. Tudo o que você diz bêbado é exatamente o que diz são, não tem como não levar a sério. Sendo ainda mais sincera, o que foi dito por você não mudou em nada na minha vida. A única coisa que mudou é que deixei de ser trouxa — ou nem tanto, já que ainda me considerava um pouco devido aos acontecimentos recentes.
— Desculpe, minha intenção nunca foi te magoar — ele disse e eu ri.
— Você sempre quis me magoar, se quiser minha simpatia ao menos admita isso. Todos, algum dia, já quisemos magoar alguém — ficamos em silêncio por um tempo.
— Então você já quis me magoar? — não sei se a intenção dele era para que soasse como uma pergunta.
— Sim — me limitei a confirmar.
— Minha intenção nunca foi te magoar, por mais que parecesse. Eu só queria deixar claro o quanto você poderia afastar as pessoas com isso — ele dizia tudo tão calmo que acabava me passando o mesmo sentimento.
— Ainda assim eu estou aqui rodeada de amigos — dei de ombros.
— Você só não admite que não é mais a mesma que chegou na minha casa parecendo que ia para um encontro com a rainha, mas sabe perfeitamente bem que aquela garota desapareceu há muito tempo — continuei fitando o horizonte.
Ele estava certo, eu ainda me perguntava o quanto daquela realmente era eu, o quanto eu ainda repugnava as pessoas pobres e o quanto eu fingi o tempo todo simplesmente para não admitir que a solidão me consumia.
— Quem sabe — falei.
— Você sabe — ele disse.
— Não sei de nada — falei mal-humorada.
— Mas você sabe que é linda — rolei os olhos tentando ignorar aquele frio na barriga que sempre vinha quando ele fazia gracinhas daquele tipo.
— É sério? Por favor, Shrek, não me venha com esse tipo de cantada — falei e ele riu e para minha total surpresa se deitou colocando a cabeça em meu colo.
— O que pensa que está fazendo? — perguntei nervosa, mas não fiz nenhuma menção de tirá-lo dali.
— Preciso descansar vou pegar a estrada mais tarde — se justificou me olhando de baixo.
Seus olhos pareciam mais claros com o contato da luz do sol.
— Por que age como se fossemos amigos? — perguntei o olhando de volta.
— Porque estou tentando ser e você também disse que ia tentar. Achei que depois de ontem tivéssemos progredido — entortou a boca.
— Quero bem ver se vai cumprir o que prometeu — voltei a fitar o horizonte.
— Sou uma pessoa de palavra, assim que chegarmos, eu apago a foto na sua frente — ele disse e esperava que fosse verdade. — Você podia me deixar tirar uma foto sua agora — falou se levantando subitamente.
— Por que quer uma foto minha? — perguntei confusa.
— Para colocar no seu contato — ele disse tranquilamente.
— Você não tem meu contato — falei confusa.
— Claro que tenho, seu pai me deu antes de você ir lá pra casa — explicou.
— Falando nisso, você vai me dizer onde ele está? Já que agora seremos amigos — lancei um sorriso que acreditei ser sedutor.
— Acho que ainda não atingimos esse nível de intimidade. Você não me deixa nem tirar uma foto sua — fez um biquinho que, mesmo contra minha vontade, achei fofo.
— Pode tirar a foto que quiser — disse meio ríspida voltando a olhar para frente.
— Você é birrenta. Não sabe ouvir não, o que tem de bonita, tem de mimada — ele disse e em seguida escutei o barulho da câmera.
— Não tenho culpa se meu pai tinha condições de me dar tudo o que eu queria — falei arrogante. — E outra, segundo sua análise, não sou tão mimada assim, levando em conta que não me acha bonita — ele riu.
— Dentre todas as coisas que eu já te disse, nenhuma vez te disse que a achava feia — ele disse me deixando levemente sem graça.
— Que seja — falei ignorando as milhares de vezes que ele me disse exatamente aquilo e tentei mudar o assunto para que a situação não ficasse tensa.
— É que seja — ficamos em silêncio até que um dos casais voltasse.
Passamos o restante da manhã e o começo da tarde no lago, até decretar que tínhamos que voltar para a cidade, alegando que precisávamos todos descansar.
e passaram a viagem toda de volta dormindo no banco traseiro e confesso também ter cochilado algumas vezes, ainda com uma leve dor de cabeça.
Megan não estava em casa, mas havia deixado um bilhete dizendo que havia ido visitar meu pai e de lá iria ao shopping com uma amiga.
Fui direto para meu quarto arrumar minhas coisas para tomar um banho e ir direto para a cama, estava sem ânimo nenhum para fazer qualquer outra coisa.

...

— despertei com me chacoalhando levemente, nem havia percebido que tinha pegado no sono. — Mamãe está chamando para comer, ela trouxe pizza — passei os dedos pelos olhos.
— Que horas são? — perguntei um pouco grogue.
— Sete — ela sorriu e me levantei.
parecia que também havia acabado de acordar, seus olhos inchados e uma expressão fechada no rosto.
— O fim de semana de vocês deve ter sido movimentado, parecem cansados. — Meg comentou e somente resmunguei enquanto me servia de um pedaço de pizza.
e Megan engataram uma conversa sobre o teste que a mais nova faria na próxima semana, mas não consegui me concentrar no que exatamente era dito. se despediu e logo nos deixou, seguido de .
? — olhei para Megan para que soubesse que a estava ouvindo. — Quer mandar algo para o seu pai? Tem várias cartas não respondidas — sorri de forma dura.
— Tenho um monte perguntas não respondidas, o que poderia escrever para ele se ao menos sei onde está? — respondi.
— Eu sei que é uma situação complicada, mas na hora certa tudo vai ser esclarecido — ela sorriu de forma carinhosa.
— Megan, com todo respeito, mas estou cansada disso tudo. Desde que vim para cá a única coisa que sei é que ele não deixou um centavo sequer, e aparentemente você e o sabem exatamente o que aconteceu, isso se a também não sabe. O Patrick não está tendo nenhum pingo de consideração por mim, por que eu teria alguma por ele? — falei enquanto ela me olhava séria.
— Ele só está tentando te proteger — ela disse calma.
— Se eu ao menos soubesse de que, poderia tentar entender. Quando o ver de novo, pode dizer que não vou responder nenhuma das cartas enquanto não souber o que realmente está acontecendo — falei e me levantei juntando as louças da mesa.
— Vou conversar com ele sobre isso. Se precisar de alguma coisa pode se sentir à vontade para me pedir. Para mim você é como e — ela falou e concordei com a cabeça, mas não era como se me sentisse à vontade para pedir dinheiro a ela.
— Vou descansar, se não for dormir agora duvido que consiga acordar para ir a aula amanhã — falei e me aproximei dando um beijo em seu rosto. — Obrigada — saí praticamente correndo da cozinha.
Nunca culpei Megan por não me dizer o que estava acontecendo com Patrick, sabia que ela estava fazendo somente o que ele pediu e do modo que pediu. Com o tempo a gratidão por ela aflorou e esse era o maior sentimento que tinha pela mulher que me deu abrigo e cuidou de mim sem ter obrigação nenhuma disso.

...

— Bom dia, gatinha. — se encostou no armário ao lado do meu.
— Só se for para você — falei mal-humorada pegando os livros necessários para as aulas do primeiro período.
— Como estamos bem-humorados hoje — ele disse sarcástico. — O que aconteceu?
— Só tenho uma vida horrível — falei batendo a porta do meu armário.
— Não diga isso, você tem um teto, comida e pessoas que te amam, sua vida não é horrível — falou caminhando ao meu lado no corredor.
— Só tenho um teto e comida graças à Megan — falei e ele me olhou surpreso. — O que foi? Vai dizer que não sabia? Não tenho um centavo para comprar uma bala, quem dirá um teto para morar. Se Meg não tivesse me dado abrigo, muito provavelmente estaria em um abrigo com um monte de gente remelenta — a antiga havia dado o ar das graças. — Ou quem sabe embaixo da London Bridge mesmo — bufei. — Estou precisando de calcinhas, , sabe quanto tempo faz que não sei o que é colocar a mão em uma calcinha nova? — perguntei e ele fez uma careta. — Faz muito tempo meu amigo, muito, muito tempo. E sabe o que é ainda pior? Não tenho coragem de pedir para Meg, ela já faz tanto por mim. Eu poderia vender mais alguma coisa, claro, mas daqui a pouco não terei mais roupas ou calçados — desabafei, sinceramente estava precisando e além de Mayh não estar presente no momento, era a pessoa mais discreta que conhecia.
— Nossa — foi tudo o que ele disse enquanto olhava para frente.
— Pois é — suspirei.
— Já pensou em trabalhar? — perguntou me deixando surpresa. — Não estou querendo dizer que você é folgada ou algo do tipo.
— Meu Deus, como não pensei nisso antes? — perguntei mais a mim mesma.
— Que bom que te ajudei.
— Só tem um problema, não sei fazer nada — falei não conseguindo imaginar o que diria em uma entrevista de emprego.
— Ah, emprego você arruma fácil, está cheio de estabelecimentos procurando menores de idade para explorar — ele disse e riu.
— Que animador — falei também rindo.
Não era uma ideia ruim, só não poderia atrapalhar meus estudos, já que aparentemente precisaria de uma bolsa para entrar na faculdade, mas poderia arrumar algo que se encaixasse nos meus horários, assim como .
— Quer saber, vou resolver isso ainda hoje. Obrigada pela ideia, gatão — falei antes de dar um beijo em seu rosto e sair em busca de .
Ele já estava sentado em sua mesa quando entrei na sala, me sentei na cadeira ao seu lado e me virei para ele, que estava concentrado em seu caderno.
? — ele me olhou e ergueu uma sobrancelha. — Preciso de ajuda — sorri simpática.
— Do que precisa? — perguntou se virando em minha direção.
— Preciso que me ajude a conseguir um emprego — ele começou a rir. — Qual a graça?
— Você querendo um emprego — disse ainda rindo enquanto eu permanecia séria. — Você está falando sério? — ele parou de rir.
— Nunca falei tão sério na minha vida — seu lábio se dobrou em um beicinho que preferi ignorar pelo bem da minha saúde mental.
— Nossa, estou realmente surpreso — acenou positivamente com a cabeça. — E como eu posso te ajudar? — perguntou confuso.
— Talvez onde você trabalha tenha uma vaga sobrando — sorri.
— Hum, não estou sabendo, mas posso dar uma olhada para você. Minha mãe tá sabendo disso? — perguntou em dúvida.
— Vou precisar da autorização dela para trabalhar? — perguntei confusa.
— Talvez seu pai não queira que você trabalhe.
— Talvez ele nem precise saber — ergui uma sobrancelha. — Você vai me ajudar?
— Vou tentar, não vou prometer nada — sorri juntando as mãos.
— Obrigada — disse animada.
Já conseguia me imaginar entrando nas butiques de Londres novamente, já conseguia sentir a sensação de colocar minhas mãos em um Prada novíssimo, em algumas peças da Victoria Secrets, céus, poderia voltar a comprar minhas joias.
Esperei por o dia todo, estava ansiosa para saber se ele havia conseguido o emprego para mim, ansiedade que me fez tirar o pó inexistente dos móveis mais de uma vez. Toda vez que ouvia barulho de carro corria até a janela para ver se era ele e, quando finalmente vi o Impala, corri para porta.
— Oi. — parecia assustado ao me encontrar parada perto da porta.
— E então, quando eu começo? — fiquei na ponta dos pés.
, conversei com meu patrão e ele disse que por enquanto não está precisando de ninguém, mas quando precisar ele vai te chamar — minha expressão feliz desapareceu na hora.
— Você disse que eu era sua irmã? — ele fez uma careta.
— Quê? — quase gritou.
— É, se ele achar que somos irmãos pode me contratar. — negou com a cabeça.
— Ele conhece minha mãe e minha irmã. Que vontade é essa de trabalhar? — sua expressão então se tornou maliciosa. — Quer ficar perto de mim o dia todo?
— Até parece, só estou precisando de dinheiro — dei de ombros indo para a sala.
— A Judith está grávida e está para sair de licença, é temporário, mas já é alguma coisa — ele disse me seguindo.
— E quando ela sai? — perguntei me sentando no sofá já desanimada. Lá se iam meus Loboutins novos.
— Provavelmente daqui umas semanas — estalei a língua em desânimo. — Se estiver precisando do dinheiro urgente posso te emprestar e você me paga quando começar a trabalhar — olhei para ele e sua expressão estava tão fofa que fiquei com vontade de abraçá-lo.
— Obrigada, mas não sei quando irei poder pagar. Melhor esperar — dei de ombros e me levantei. — Vou para o meu quarto.
— Você não vai pra soverteria com o povo? — perguntou me seguindo até o pé da escada.
— Ainda estou desempregada.
— Estou te convidado — estreitei os olhos para ele.
— Se não for um encontro, quem sabe — dei de ombros.
— Não é um encontro, até porque vai mais gente — explicou e sorriu logo em seguida. — Agora se quiser um encontro posso providenciar também — piscou um olho.
— Suas chances comigo acabaram, — disse subindo os degraus.
e não haviam ido, estavam fazendo um programa de casal, havia dito que eu poderia pegar o que quisesse na sorveteria e ao contrário do que qualquer um poderia pensar, ele não ficou me cantando, muito menos tentou ficar comigo, ele só me tratava como tratava as outras pessoas e não fazia grosserias comigo. Estava gostando disso, gostando daquela paz, ainda assim não conseguia relaxar completamente em sua presença, continuava com um pé atrás e com uma sensação enorme de que ele estava agindo daquela forma por puro interesse.
, desculpa a pergunta, mas onde estão seus pais? — perguntou e recebeu um tapa de Mayh em seguida.
! — ela exclamou chamando sua atenção.
— Minha mãe se foi há muitos anos e meu pai há alguns meses — falei de modo suave.
— Poxa, desculpe, não sabia. Meus pêsames — ele disse todo sem graça.
, o pai dela não morreu. — o olhou de um jeito sério. — Ele está viajando a negócios, antes que pergunte — emendou prevendo que ele perguntaria e fiquei grata por não ter que explicar.
Grata também a Mayh por não ter dito nada a ele pois, mesmo sendo seu namorado, ele já devia ter perguntado à ela.
— Mas a sua mãe faleceu? — perguntou curioso.
— Puta que pariu, , cala a boca, pelo amor de Deus — dessa vez foi quem o repreendeu.
— Sim, faz muitos anos que ela não está mais entre nós — sorri de forma triste, aquele era um assunto que não me sentia à vontade para falar.
Ficamos em um silêncio constrangedor por alguns minutos, acredito que todos estavam sem graça pela pergunta de . Não o culpava pela curiosidade, no lugar dele também a teria, era algo completamente natural.
— Acho que já está na hora de irmos embora. — disse se levantando, acredito que numa tentativa de não deixar o clima ficar ainda mais estranho.
Nos despedimos de todos e fomos para seu carro ainda em silêncio, particularmente não estava pensando em nada, mas meu silêncio deve ter sido interpretado errado por ele.
— Está tudo bem? — perguntou quando já estávamos dentro do carro.
— Está, não fiquei chateada com a pergunta do , na verdade cresci escutando essa pergunta — falei.
— Sei como é, também escutei esse tipo de pergunta minha vida toda — ele disse colocando o cinto de segurança.
— Por causa do seu pai? — perguntei fazendo o mesmo.
— Sim — se limitou a dizer.
— Pelo menos sua mãe é presente, acredite sempre me perguntaram sobre meus pais — suspirei.
— Seu pai não era presente — não foi uma pergunta.
— Pois é — falei. — Se incomoda se te fizer uma pergunta?
— Qual?
— Quanto tempo faz? — por experiência própria sabia o quanto era incômodo aquele tipo de pergunta, mas não tinha coragem de perguntar para ou Meg.
— Tinha uns seis anos — não havia vestígio de qualquer tipo de emoção em sua voz. — Na verdade, não me lembro quantos anos eu tinha.
— Você perguntou à sua mãe? — foi automático, sua expressão neutra despertou minha curiosidade em relação àquele assunto. Ele negou com a cabeça e manteve seus olhos no transito.
— Por dois motivos, não é algo que eu realmente queira saber, e o principal... — fez uma pausa. — Não é um assunto no qual minha mãe se sinta confortável em falar, então não tocamos no assunto — consegui ver que ele engoliu em seco.
— Desculpe — pedi e segurei minha língua para não fazer qualquer tipo de pergunta, mesmo que achasse estranha a forma com que e a família lidavam com a perda, mas cada um lidava de um jeito certo? Quem eu era para questionar como eles lidavam?
— Você gostaria de perguntar mais alguma coisa sobre isso? — me assustei quando ouvi sua voz, estava mais grave que o normal.
— Não — minha voz saiu fraca e ele me olhou rapidamente não me deixando identificar a expressão em seu rosto.
— Tudo bem se quiser perguntar, prefiro que pergunte para mim do que para a minha mãe ou irmã — engoli seco.
— Tudo bem, , não vou perguntar nada para elas — assegurei. — Se você diz que vocês não falam sobre o assunto, não sou eu que vou começar a falar sobre.
— Obrigado — ele disse e seguimos em silêncio.
Me perguntei se Mayh sabia o porquê daquilo, ou se nunca tinha se aberto com ninguém.
Me revirei tentando pegar no sono e nada dele aparecer, era fato que a história que havia me contado de forma muito rasa havia despertado uma curiosidade gigantesca em mim. Mesmo sabendo que deveria respeitá-los, queria muito saber porque eles lidavam com a perda daquela forma.



Vinte e Cinco

’s POV

— O que você faria se voltasse para sua casa? — perguntou se apoiando na cadeira.
Dei de ombros e coloquei uma colher cheia de sorvete na boca enquanto pensava, não sabia exatamente o que faria se voltasse a viver como antes.
— Não sei — falei ao que ele deu de ombros antes de voltar para a pia onde ele recheava a pizza.
Fazia pouco mais de meia hora que estávamos ali, aquele era seu dia de folga e ele tinha feito questão de preparar o jantar para Megan, me convidou para ir ao supermercado e comprou sorvete e ingredientes para fazer pizza, o que incluiu a massa, já que ele não sabia como fazê-la.
— O que gostava de fazer? — dessa vez ele não me olhava.
— Eu não tinha muitos amigos, quer dizer, vivia rodeada de garotas, mas nossos programas se resumiam a compras e jantares ou almoços em restaurantes — dei de ombros.
Aquela parecia uma cena improvável, eu e em uma cozinha conversando civilizadamente enquanto ele cozinhava alguma coisa. Alguém que não nos conhecesse e nem soubesse da nossa história, jamais imaginaria que alguns dias atrás, estávamos trocando farpas ou que ele já fora absurdamente babaca comigo.
— Para mim, não teria graça ter muito dinheiro se não tivesse meus amigos — ele comentou.
— Quando se tem muito dinheiro, não sobra tempo para sentir falta de certas coisas — falei vagamente e ele se virou para mim com uma expressão estranha no rosto.
— Você nunca se sentiu sozinha? Você nunca esteve tão deprimida ao ponto de se perguntar onde estavam as pessoas que diziam gostar de você? — ele parecia surpreso.
— Você não pode sentir falta do que nunca teve, . Essa é a questão, para mim sempre foi muito normal as pessoas não confiarem umas nas outras, simplesmente por saber que, por dinheiro, elas te apunhalariam pelas costas sem pensar uma vez sequer — expliquei vendo a expressão do garoto passar de surpresa para enternecida.
— Pode me chamar de , nem minha mãe me chama de . A menos que ela esteja brava ao ponto de querer me matar — disse voltando a se virar para a pizza. — Deve ser triste viver dessa maneira.
— Se voltasse a ter a vida que tinha, com certeza sentiria falta desse tipo de coisa. Sentiria falta de , Mayh, , enfim, sentiria falta de tudo, não sei se conseguiria ficar longe — falei brincando com o copo vazio.
— Fiquei surpreso quando soube que você e eram próximos — ergui uma sobrancelha.
— Por quê? Sou próxima de todos seus amigos, , só de você que não. Converso e troco mensagens com todos e o sempre se esforçou para ser legal comigo — peguei o copo e levei até a pia.
— O é legal com todo mundo, menos com quem ele não gosta e não gostar de alguém é algo muito raro quando se trata do — comentou enquanto eu ensaboava a colher.
— Diferente de você, que implica com as pessoas sem nem conhecê-las — falei o olhando brevemente.
— Isso faz parte da minha personalidade — sua voz parecia divertida.
— Você é neto da Nona, o que quer dizer que você tem descendência italiana, certo? — perguntei curiosa.
— Na verdade não, minha avó não era italiana — senti meu rosto esquentar.
— Achei que ela fosse italiana — ele riu.
— Meu pai a chamava de Nona quando criança, consequentemente meu avô passou a chamá-la assim também, e quando ela se deu conta todos já a chamavam assim — concordei com a cabeça. — Você se lembra dela?
— Na verdade não. Tenho uma única lembrança envolvendo ela, foi quando minha mãe morreu — dei de ombros. — Meu pai e minha avó é que falavam bastante dela, Patrick a adorava — ele sorriu.
— Ela era incrível — comentou superficialmente.
— Parece que sua família estava mais envolvida na minha do que eu imaginava — ri um pouco nervosa quando ele me olhou.
— Na verdade, eu nunca fui à casa da sua avó, nem a sua casa se é isso que está pensando. A vovó vinha nos visitar poucas vezes — disse aguçando um pouco mais minha curiosidade em relação a sua família.
— Meg disse que seu pai trabalhava na empresa da minha família — mordi o lábio.
— Foi isso que sempre me foi dito também. — adotou uma postura desconfortável que não passou despercebida por mim.
— Está pronta? — perguntei tentando redirecionar o rumo da conversa.
— Está — ele sorriu e nem percebi que sorri de volta. — Só colocar no forno — ele piscou um olho para mim e tive que focar meus olhos em outra direção.
— Isso vai prestar? — perguntei tentando desviar dos pensamentos que me diziam que aquele garoto era lindo.
— Vai ser a melhor pizza que já comeu na sua vida — se gabou.
— Duvido muito que você saiba cozinhar — falei e ele riu. — Vou tomar um banho antes do jantar — avisei já caminhando em direção à porta.
— Quer companhia? — parei a centímetros da porta sentindo meu coração bater mais forte.
— O quê? — me virei para ele esperando que minha expressão fosse colérica.
— Quer companhia? — repetiu a pergunta dessa vez me encarando.
— Acho que já sabe a resposta — falei com arrogância me virando para deixá-lo sozinho.
— Sei você vai dizer não quando, na verdade, quer dizer sim — disse e riu.
— Eu sabia que mais cedo ou mais tarde você ia começar com essa merda de novo — falei me encostando no batente da porta e assistindo rir.
— É só uma brincadeira saudável entre amigos, — ele disse divertido.
— Não somos amigos, — falei antes de sair de uma vez dali.
— Ainda — ouvi quando já estava na escada e sorri.

Por um lado seria bom me aproximar de , quem sabe eu poderia saber um pouco mais sobre os mistérios que descobri recentemente que sua família tinha. Com o tempo ele poderia me dizer as coisas, como deve ter falado aos seus outros amigos. Mayh devia saber de alguma coisa e ela poderia me contar, não poderia? Esperava que sim.
Estava realmente decidida a perguntar a Mayh se ela tinha alguma informação sobre o pai de , mas algo fazia com me sentisse mal em tocar nesse assunto com qualquer outra pessoa que não fosse ele próprio. Como se estivesse invadindo sua privacidade tentando saber o porquê de tanto mistério envolvendo seu pai. Talvez nem houvesse mistério nenhum e ele simplesmente não se sentia confortável em falar sobre, o que claramente deveria ser respeitado.
Tive que morder diversas vezes minha língua para conter minhas perguntas na aula de educação física, e cada vez que o via correr de um lado ao outro do campo, era uma perguntava que vagava pela minha cabeça.
— Você me parece ansiosa hoje, está tudo bem? — Mayh quis saber.
— Está tudo bem, isso é coisa da sua cabeça.
— Matty não te procurou mais? — ela olhou para o garoto e depois para mim.
— Não, o que eu agradeço, de verdade — e realmente agradecia, tudo o que não precisava era de alguém no meu pé.
— Como sua amiga, me sinto na obrigação de dizer que algumas líderes de torcida estão dizendo que você não sai do pé dele — ri.
— Não me importo com o que elas pensam, só sei que nunca mais dissemos mais que oi um para outro — ela concordou.
— O aniversário do está chegando, ainda estamos indecisos entre uma festa ou uma viagem — mudou de assunto.
— Eu prefiro uma viagem, vão aproveitar mais só vocês dois. Sempre vejo vocês fazendo programas com amigos, deviam fazer mais programas sozinhos — dei minha opinião, mesmo que ela não tenha pedido.
— Ah, quero aproveitar todos vocês já que estamos no último ano. Com a vida adulta chegando vai ficar difícil reunir todo mundo com frequência — ela disse pensativa.
— Vocês vão para a mesma faculdade? — não conseguia imaginar os dois longe um do outro.
— Sim, por isso não vejo tanta necessidade de fazer algo apenas entre nós dois, já que teremos tempo demais na faculdade — ela dizia pensativa.
— Ainda faria uma viagem só os dois no aniversário dele. Sempre preferi viagens a festas no meu aniversário — falei.
— Acho que não era como se você tivesse muitos amigos para comemorar com você antes — ela disse de forma distraída, não que aquilo me abalasse.
— Por isso deveria preferir as festas. Assim eu poderia esfregar na cara daqueles falsos todo o meu glamour — falei de forma arrogante.
Para mim as festas só serviam para aquilo mesmo, não ligava para presentes, muito menos para a presença de ninguém naquela data, que para muitos poderia ser especial. Aniversário para mim era apenas um lembrete para Patrick me dar mais dinheiro para comprar algo que eu certamente não precisava, mas fazia questão de ter. Deus, sempre esteve certo, Patrick me entupia de coisas só para não ter que me dar atenção, que era a única coisa que precisava.
— É exatamente por isso que evito esses lugares. Meu pai ficou louco quando eu disse que queria estudar em uma escola pública. Minha sorte foi que a minha mãe sempre me apoiou em todas as minhas decisões e o convenceu que eu deveria viver do jeito que me agradasse e não viver para agradar outras pessoas — ela disse pensativa.
— Eu sempre vivi da maneira que me agradava, Mayh. A única coisa que meu pai cobrava de mim era frequentar o colégio e tirar boas médias — dei de ombros.
— Você tem sorte. Meu pai exige que eu escolha uma profissão desde que me entendo por gente. — Mayh dizia de forma cansada.
— Na verdade, quem tem a sorte é você. Seu pai se preocupa com seu futuro — não sabia que poderia ter tanto ressentimento em relação ao meu próprio pai dentro de mim.
— Seu pai também se preocupa com você, . Mas do jeito dele, aposto que tudo o que ele já fez foi para o seu bem e para a sua felicidade — falou tentando fazer com que me sentisse melhor.
— Acho que ele só encontrou um jeito mais fácil de não ter que lidar comigo. No meu último aniversário tudo o que veio dele foi um cartão me felicitando — ri de desgosto mesmo. — Mas, quer saber, isso nem deveria me importar — dei de ombros.
— Não fale assim.
— Podemos mudar de assunto, não gosto de falar sobre isso. Me faz repensar em toda a minha vida e consequentemente perceber a real importância que eu tive na vida do Patrick — falei e Mayh torceu a boca, mas concordou com a cabeça.
— Você e são amigos agora? — perguntou enquanto caminhávamos para o vestiário, odiava aulas de educação física simplesmente por não gostar de nenhuma atividade oferecida no colégio.
— Sei lá, ele está sendo legal comigo, mas só consigo ter a impressão que ele está querendo alguma coisa — falei o que já estava pensando há muito tempo.
— E isso é ruim? — ela perguntou maliciosa.
— O nome disso é interesse, Mayh.
— E isso é ruim? — voltou a perguntar.
— Por que você romantiza tudo?
— Não romantizo tudo, só quero saber se acha isso uma coisa ruim — se explicou e resolvi que era a hora de mudar de assunto e quem sabe sanar minha curiosidade.
— Não acho que ele queira ser meu amigo, ele nem me disse o que aconteceu com o pai dele — soltei esperando que ela me revelasse alguma coisa.
— Não é uma coisa que ele diga, pra mim ele nunca falou. A única coisa que eu sei é que o pai dele morreu e sei que é a única coisa que o sabe também — ela deu de ombros e quis muito especular.
Eu não sabia da relação de com seu progenitor, nem se o senhor havia sido um bom pai ou marido. Não era como se já tivesse visto inúmeras fotos dele na casa da família.
— Ele me disse que não se lembra quantos anos tinha quando aconteceu. É algo que ele pode ter visto na lápide, não é? — explanei o que tinha achado desde o começo.
— Seria, se o senhor não tivesse sido cremado. Sei que as cinzas foram jogadas no mar como era de sua vontade, não sei mais nada sobre isso e também nunca perguntei. Até onde sei, não é algo que o converse ou já tenha conversado com alguém — ela deu de ombros.
— Entendo, é muito doloroso — falei baixo.
— Com certeza, ele era muito apegado ao pai. Ele ainda frequenta o café em que o pai dele costumava o levar para passar as tardes de domingo — aquilo era algo que eu não sabia.
Aquela era uma informação interessante.
havia me dito que não se lembrava do pai por ser muito nova, mas a diferença de idade entre ela e era de dois anos. Ele tinha idade suficiente para se recordar do pai e ela não? Aquilo estava dando um nó em minha cabeça.
Eu era muito pequena quando mamãe se foi, não conseguia me recordar de muita coisa que passamos juntas, mas de algumas coisas jamais poderia esquecer.
— Nem fica encanada com essas coisas, , isso só vai alimentar sua curiosidade e acredite, ele nunca vai falar algo sobre isso. — Mayh colocou a mão em meu ombro.
Deus sabe como eu queria não estar com aquela curiosidade toda, mas não conseguia deixá-la de lado. Era como se alguém estivesse me tirando o direito de saber algum tipo de segredo daquela família, sendo que eles pareciam saber os segredos que envolviam a minha. Não era justo, era?
Sim, eu sabia que não tinha direito nenhum de colocar o nariz onde não estava sendo chamada e o melhor era esquecer realmente tudo aquilo e não cutucar as feridas dos outros. Tinha que me preocupar com a minha vida e não com assuntos nos quais não tinha absolutamente nada a ver comigo. Mas já estava envolvida o bastante na família de Megan, era de se esperar que eles confiassem em mim o bastante para partilhar coisas comigo. Talvez não , mas Megan sim.
A quem eu estava querendo enganar? Eles não me diziam nem onde meu pai estava.
Patrick com certeza sabia tudo sobre o senhor , mas se ele não me falava da própria vida, não iria dizer nunca sobre a vida alheia.
Devia estar envergonhada por especular silenciosamente sobre as feridas da pessoa que me acolheu em sua casa. Deveria simplesmente fingir que aquelas conversas com e Mayh nunca existiram e me concentrar em como resolver os mistérios da minha vida.

Olhei no relógio pela décima vez, já havia saído do estacionamento do colégio puta por nem , muito menos , terem aparecido para levá-la no balé. Eu como não sabia como ir para casa, fiquei esperando por algum dos meus amigos por mais de vinte minutos.
Já havia pegado o celular para mandar mensagem ou ligar para alguém quando avistei Mayh caminhar apressada em minha direção toda descabelada.
— Cadê todo mundo? — perguntei antes mesmo que ela pudesse chegar perto.
— Diretoria — ela disse apontando com o dedão para o prédio atrás de si.
— Diretoria? — ergui uma sobrancelha.
saiu no soco — ela disse pegando minha mão antes de sair me rebocando pelo estacionamento.
— E o que eu tenho a ver com isso? — perguntei, mas não parei de segui-la.
— Foi com o Matty — ela disse na maior calma possível.
— Que!? — perguntei parando de andar e muito confusa. — Por quê?
— Eu não sei, só me disse que eles se pegaram no vestiário depois do treino. Estava até agora esperando do lado de fora da sala do diretor e até agora nada. Os meninos estão todos lá esperando o — ela deu de ombros e voltou a andar.
Milhares de hipóteses se passaram por minha cabeça sobre o motivo para que os dois pudessem partir para agressão física enquanto seguia Mayh em silêncio. Para mim parecia absurdo que os dois tivessem chegado a tal ponto, Matty já havia jantado na casa de , nunca soube e muito menos imaginei que pudesse haver qualquer tipo de rixa entre e Matty, sempre me pareceu que os dois se davam bem.
Matty poderia ter descoberto que fiquei com no luau e ter ido tirar satisfações, mas pensar dessa forma era muito egocentrismo da minha parte. Eles não tinham brigado por minha causa.
estava andando de um lado ao outro na secretaria, estava sentado em uma cadeira batendo o pé no chão freneticamente e estava sentado ao seu lado roendo as unhas e foi ao seu lado que fui me sentar.
— Hey, o que aconteceu? — perguntei baixo, ele me olhou em dúvida e deu de ombros.
— Os dois brigaram — ok, algo estava errado, por que ele não podia dizer?
— Eu sei, mas qual o motivo pra isso?
— Eu não sei, quando cheguei eles já estavam praticamente rolando no chão e eu só ajudei a separar. — juntou as sobrancelhas e bufei frustrada.
— Por que está todo mundo aqui? — perguntei olhando os outros meninos, todos com a mesma expressão preocupada no rosto.
— Porque o é nosso amigo — disse com tom de obviedade e rolei os olhos. — Isso pode custar a bolsa de estudos dele para a universidade — juntei as sobrancelhas.
— Por quê? — perguntei sem tentar esconder minha confusão.
— Ele pode ser suspenso, a briga foi séria e não é bom ter uma suspensão no currículo escolar quando se está tentando uma bolsa — explicou com ansiedade evidente em cada uma de suas palavras.
— Mas por que chegaram a esse ponto? O é burro para chegar a esse ponto sabendo dos riscos que corria? — as perguntas simplesmente fluíram enquanto me olhava impaciente.
, você nem sabe o que aconteceu, vai mesmo querer criticar ele? — ele ergueu uma sobrancelha.
— Não estou criticando. Mas você também não fala o que aconteceu, o motivo tem que ter sido muito bom — dei de ombros mais curiosa do que deveria estar.
— Eu ainda não sei direito o que aconteceu, já disse — ergui uma sobrancelha.
— Quem apanhou? — não deveria, mas estava levemente preocupada com , Matty parecia um pouco maior que ele.
— Os dois apanharam, mas o apanhou mais — ele disse pesaroso fazendo com que meu coração se apertasse em agonia.
— Ele só é burro então, por que foi brigar com alguém maior que ele? — tentei controlar minha voz, não pegaria bem estar com voz de choro.
, na boa melhor você parar com isso, não quero brigar com você — ele disse bravo e só concordei com a cabeça.
Contorcia minhas mãos tentando controlar a vontade de chorar e com o coração do tamanho de uma ervilha em preocupação. Os segundos pareciam uma eternidade enquanto imagens nada agradáveis de provavelmente arrebentado insistiam em aparecer na minha cabeça.
— Mas ele está bem? — dessa vez não consegui controlar minha voz e ela saiu entrecortada.
— Quem? — perguntou confuso e desviei meus olhos para meus pés.
— O ? — perguntei envergonhada, mas antes que ele pudesse responder, a porta da sala do diretor foi aberta em um rompante.
Nos levantamos em sincronia, meu coração batia tão forte que fiquei com medo de que mais alguém na sala pudesse ouvir. Estiquei o pescoço tentando ver , mas tudo o que vi foi Matty sair feito um furacão dali. Não sei ao certo o porquê, mas não pensei duas vezes em segui-lo.
— Hey, Matty! — chamei o quão alto achei adequado e ele parou olhando para trás.
Corri até onde ele estava querendo tirar satisfações e parei em sua frente, seu olho estava inchado assim como os lábios que estavam cortados e ele também segurava uma bolsa de gelo no queixo.
— O quê? — ele parecia meio irritado.
— O que aconteceu? — ele ergueu uma sobrancelha. — Por que brigaram? — rolei os olhos.
— Porque o é um imbecil e se acha o dono do universo, você deveria ficar longe dele — juntei as sobrancelhas.
— Por quê? — perguntei desconfiada e ele olhou para trás de mim.
— Como eu disse, ele é um imbecil, e gente assim tende a falar muita merda dos outros — disse antes de dar as costas e sair pelo corredor me deixando sozinha e ainda mais confusa.
Me virei para voltar para a secretaria e dei de cara com , meu coração parou por alguns minutos quando meus olhos analisaram seu rosto. Aparentemente ele tinha um corte na sobrancelha, seu queixo estava inchado e arroxeado, seus lábios estavam sujos de sangue e, em seu lábio superior, havia um pequeno corte que também estava levemente inchado.
Mayh, , e mantinham a mesma expressão preocupada de instantes atrás, mas se mantinham em silêncio absoluto.
mantinha a expressão fechada e séria como se pudesse matar o primeiro que abrisse a boca e foi por isso que os segui em silêncio até o estacionamento. Ele seguiu direto para seu carro e entrou sem dizer nenhuma palavra para qualquer um de nós. Os olhei brevemente antes de fazer a mesma coisa, segurando ainda mais a vontade de chorar. Mesmo depois de tudo o que ele havia me feito, não conseguia não ficar agoniada em vê-lo naquela situação.
Fizemos o caminho todo até em casa em um silêncio profundo e até melancólico, por mais que eu quisesse, não conseguia tirar o olho de seu rosto e mordia minha língua para não deixar que as perguntas escapassem por meus lábios. Percebi que sua mão além de suja de sangue, também estava vermelha e ligeiramente inchada.
Quando finalmente estacionou em frente à sua casa, saiu com calma do carro e esperou que fizesse o mesmo para que pudesse trancá-lo. Ele não me olhava e aquilo estava me incomodando mais do que deveria.
Quando entramos caminhou até a cozinha jogando sua mochila em um canto do cômodo e foi até a geladeira tirando tudo o que estivesse muito gelado de lá de dentro.
— Vai ficar me seguindo agora? — perguntou rude me assustando.
— Hum — resmunguei em dúvida sobre o que deveria dizer. — Por que você foi brigar com alguém maior que você? — arregalei os olhos quando percebi que a pergunta não havia sido muda.
— Deve ser porque eu sou um imbecil — ele disse de forma sarcástica colocando um saco de ervilhas congeladas em seu queixo.
— Você precisa de alguma coisa? Alguma ajuda? — perguntei tentando não parecer tão preocupada quanto realmente estava enquanto ele batia as portas do armário claramente em busca de alguma coisa.
— Quero achar a porra da caixa de primeiros socorros — disse nervoso e fui até o lugar onde havia visto a caixinha.
— Eu sei onde está — falei me abaixando até a porta do armário embaixo da pia, o abrindo e retirando de lá o objeto. — Quer ajuda? — perguntei estendendo caixa a ele.
— Posso fazer isso no banheiro — disse irritado e não soltei a caixinha.
— Posso ajudar — falei puxando a caixa de volta, seria uma ótima oportunidade de me certificar de que ele estava bem apesar de tudo.
— Não quero a sua ajuda. Por que não vai ajudar o arrombado do seu ex? Ou ele não quis sua ajuda — falou puxando a caixa para si.
Estreitei os olhos em sua direção e puxei a caixa com força para mim conseguindo fazer com que ele soltasse.
— Não finja que não quer a minha ajuda, vai precisar de alguém que não fique com pena quando você resmungar de dor — foi sua vez de estreitar os olhos. — Senta aí — indiquei a cadeira e para minha surpresa ele se sentou nela bufando.
Molhei um pouco de gaze com água oxigenada e o coloquei em sua sobrancelha, franziu o nariz, mas não disse nada.
— Então, o que aconteceu? — perguntei enquanto tentava tirar o sangue coagulado do local ao mesmo tempo em que notava minhas mãos trêmulas.
— Achei que ele tinha te falado — falou com os olhos em meu rosto.
— Ele deu a entender que você começou a briga — dei de ombros enquanto embebia uma gaze em álcool.
— Fui eu mesmo — ele disse firme. — Puta que pariu! — gritou enquanto afastava a cabeça para longe, fazendo com que me assustasse.
— É preciso esterilizar isso, pode pegar uma infecção — falei me aproximando.
— Não vou pegar uma infecção por um corte minúsculo — ele juntou as sobrancelhas.
— Lamento em te dizer que o corte não é tão pequeno quanto você está achando — ergui uma sobrancelha. — Mas não tem necessidade de sutura também — expliquei. — Ainda assim é possível que se pegue uma infecção com um ferimento pequeno sim.
— Quais são as possibilidades de acontecer? Uma em um milhão? Não é como se eu tivesse levado uma facada — percebi que ele estava debochando e aquilo me irritava. Me irritava porque eu estava preocupada de verdade.
— Você pode ser esse um no meio de um milhão — sorri sem mostrar os dentes. — Então, o que você fez para o Matty partir para agressão?
— Por que acha que eu fiz alguma coisa pra ele? — perguntou em dúvida.
— Você disse que quem começou a briga foi você — falei como se fosse óbvio enquanto fazia o curativo. — E o Matty me disse que você falou merda — expliquei e ele riu.
— Fui eu quem partiu para agressão em primeiro lugar — disse e se levantou pegando o pacote de ervilhas o colocando em cima da mão. — Quem fala muita merda é ele, em segundo lugar.
— Por que você trocou socos com ele? — perguntei confusa.
— Porque me deu vontade — falou irônico antes de pegar sua mochila e deixar a cozinha.
— Ainda não terminei o curativo — gritei indo atrás dele que já estava na metade dos degraus da escada.
— Eu termino — disse sem sequer olhar para mim.
era um idiota, isso eu já sabia, mas nunca sequer soube sobre ele saindo no soco com alguém. Mandei uma mensagem para Mayh, perguntando se ela estava sabendo de algo e fui para o meu quarto.
Megan quase teve um treco quando viu o filho com o rosto machucado, ela insistiu para que o garoto fosse ao hospital, isso antes de surtar por ele ter brigado na escola. Até tentei ouvir atrás da porta quando eles se trancaram no porão, onde dormia, mas tudo o que consegui escutar foi silêncio, eles nem pareciam conversar.
Quis perguntar a Megan, mas achei que seria indelicado, já que ela parecia extremamente pensativa quando saiu do quarto do filho, Mayh também não sabia me dizer o que tinha acontecido.
Fato é que no outro dia no colégio Matty não olhou na minha cara por nem um momento, nem quando nos encontramos no corredor, ele não fingiu que não me conhecia, ele fingiu que eu não existia. Não que eu me importasse com aquilo, na verdade, esperei por aquilo desde o dia em que terminei com ele.
O que realmente me deixou surpresa foi a quantidade de meninas que chegaram até para ver como ele estava ou perguntar se ele precisava de alguma coisa, me fazendo revirar os olhos com tantos exageros por parte delas.
— Será que se eu brigar, também vou ficar rodeado pelas meninas do colégio como Matty? — perguntou com ar sonhador.
— E como também, né. Nunca vi, o que ele tem de tão especial? — perguntei emburrada.
Estávamos na aula de biologia trabalhando em dupla.
— Acredite, tem o dobro de garotas rodeando o Matty — ele falou risonho. — O Matty você já sabe o que tem de especial — ele disse pensativo.
— Sinceramente? Para mim nada, e minha dúvida é o que o tem de tão especial para essas garotas se comportarem dessa forma? — fiz uma careta.
— Me diz você, você foi a única entre nós dois que já ficou com ele — disse naturalmente me fazendo o olhar assustada.
— Da onde tirou isso? — me fiz de desentendida.
— Eu só sei, . Eu pareço alheio a tudo que acontece, mas certas coisas eu pego no ar — ele disse se sentindo esperto.
— Eu só sei que você tá viajando — neguei me recusando a admitir aquilo a .
— Não vou te pressionar a admitir, mas eu sei que vocês já ficaram — ele riu.
— Sabe o que não entendi até agora? — perguntei afim de não voltar a falar sobre eu e .
— O quê? — perguntou de volta.
— Por que os dois brigaram. Quer dizer, eles estão no mesmo time de futebol, até onde eu sei estudam juntos há anos, não andam no mesmo grupo de pessoas e nunca brigaram. Não consigo achar nenhum motivo plausível para que eles brigassem agora — falei tudo de uma vez.
— Interessante seu modo de avaliar as coisas, qual você acha que foi o motivo? — ele falou e ergui uma sobrancelha.
— Espero que você me fale — dei um sorriso que julguei ser charmoso e bati meu ombro no seu.
não te falou? — perguntou em dúvida.
— Não — dei de ombros e ele acenou positivamente com a cabeça.
— Então somos dois que não sabem — deu de ombros.
— Não sou idiota, . Por que eu não posso saber o motivo? Por um acaso o motivo seria eu? — falei divertida e ele abriu um sorriso radiante.
— Se seguirmos a sua lógica, sim o motivo foi você mesma — ele riu no mesmo momento em que meu sorriso se foi.
— Até parece, Matty tem uma capacidade de substituir as pessoas bem rápido e o ... Bom, sabemos que eu não sou uma das pessoas preferidas dele — falei e riu ainda mais.
— Você se sentiria lisonjeada se o motivo fosse você? — ele ergueu as duas sobrancelhas.
— Acho que não — falei virando meu rosto em direção ao quadro negro.
Não acreditava que pudesse estar envolvida naquela história direta ou indiretamente, simplesmente porque não fazia sentido nenhum. Poderia até fazer se o Matty estivesse apaixonado por mim e eu estivesse envolvida com , o que definitivamente era impossível.
Perdi a conta de quantas meninas foram até a nossa mesa na hora do almoço perguntar se estava bem. Em algumas consegui notar somente o interesse em saber o que tinha acontecido do que preocupação por seu bem-estar de verdade.
— Será que mais alguém aqui, além de mim já está de saco cheio desse povo todo querendo vir saber da fofoca? — Mayh disse irritada.
— Não é só saber da fofoca, algumas estão querendo cuidar do mesmo. — disse rindo.
— Isso é muito patético — falei rolando os olhos.
— Também acho. — falou dando de ombros.
— Elas estão só dando um jeito de dizer que estão interessadas. — comentou.
— Não tenho culpa de ser extremamente gostoso. — sorriu sem mostrar os dentes.
— Estou realmente surpresa com o mal gosto de algumas meninas desse colégio — comentei fazendo e rirem.
— E quem é gostosão pra você? O cuzão do Mackibben? Me poupe, — ele disse parecendo irritado.
— Não importa, mas você que não é — falei e peguei minha bolsa antes de caminhar para fora do refeitório.
Fui até meu armário pegar o livro para a próxima aula agradecendo mentalmente por Mayh, ou não irem atrás de mim, eles sabiam o motivo da briga e não queriam me contar e tudo que eu podia imaginar é que não me consideravam parte do grupo.
Peguei meu livro e aproveitei para guardar os que tinha usado nas primeiras aulas.
— Hey, qual motivo de toda essa irritação? — fechei o armário com força, surpresa por ser . — Quem deveria estar irritado era eu — disse quando me voltei em sua direção.
— Não estou irritada — menti abraçando meu livro e ele levantou uma sobrancelha.
— E qual o motivo do ataque no refeitório? Achei que estávamos nos tornando amigos — ele disse e sorri irônica.
— Ah claro, você quer se tornar meu amigo e nem sequer me conta porque brigou com meu ex.
— Isso não é motivo para ficar brava — ele falou suave.
— Ah não? Você me esconde as coisas o tempo todo, você não me diz onde está o meu pai, não diz por que brigou com o Matty e mais um monte de outras coisas e ainda tem a cara de pau de dizer que estamos tentando ser amigos. Me poupe, eu aposto que ninguém me falou nada porque você pediu, ou seja, preferem você a mim — ri. — Eu não os culpo, você cresceu com eles.
— Não pedi nada a eles, se não contaram é porque eles escolheram não dizer. Eu não posso falar onde seu pai está e ainda assim acho que podemos ser amigos — ele falou um pouco alterado.
— Quer saber, esquece esse negócio de sermos amigos, não quero ser amiga de alguém que me esconde coisas — falei e saí pelo corredor apressadamente, mas ele logo me alcançou.
— A gente não deve confiar nas pessoas sem conhecê-las antes, sabia? Então para eu te falar as coisas, tenho que confiar em você — ele falou com calma e ri.
— Claro, então você sugere que sejamos amigos para que você me conte o porquê o Matty surrou você, porque sejamos sinceros, é bem evidente quem apanhou mais. Ah, tem também a questão do meu pai, que você sabe e duvido que me conte um dia e quer saber? — parei de andar e o encarei. — Não acho que essa vontade repentina de se tornar meu amigo seja genuína. Acho que você está querendo é ficar comigo e sabe que se for direto vai levar um toco dos grandes. Isso é uma estratégia para me envolver e depois sabe-se lá o que vai fazer. E, sinceramente, eu tô fora, agora você pode só me deixar em paz — ele ficou me olhando com a expressão surpresa por alguns segundos.
O sinal tocou e ainda olhei o rosto machucado do garoto a minha frente até que os corredores estivessem com uma quantidade relativa de pessoas antes de sair rumo a minha próxima aula me sentindo um pouco mais leve por dizer o que eu pensava, decidida a me afastar também do grupo de amigos de , já que aparentemente eles estavam me excluindo. A minha TPM poderia estar contribuindo em todas as minhas decisões daquele dia, mas no momento só conseguia me sentir excluída.

— Por que a senhorita está me evitando desde ontem? — Mayh falou assim que atendi ao telefone.
— Não estou te evitando, estou te poupando de ter que me aturar — respondi e ela riu.
— Adoro sua companhia, por que está falando assim?
— Porque é a verdade — resmunguei.
— Você está de TPM? — perguntou divertida.
— Talvez, mas não é isso. Eu sei que todo mundo sabe o motivo da briga e ninguém quer me dizer — ela ficou em silêncio. — Viu, vocês me deixam de lado.
— Nada a ver. Vamos à sorveteria?
— Só se for para falar sobre a briga — chantageei.
— Ok, nós falamos sobre, prometo. Passo aí em vinte minutos — sorri.
— Vou me trocar. Beijos — disse e desliguei.
Peguei um moletom e coloquei um tênis, como estava sozinha em casa deixei um bilhete para Megan e fiquei esperando Mayh na calçada. Ela foi o caminho todo até a sorveteria falando sobre seus planos para o aniversário do namorado. Confesso que fui ficando levemente irritada por ela estar claramente me enrolando com aquele assunto.
— E então, me conta o que você sabe — falei quando terminei o sorvete.
— Não sei muito — ela deu ombros.
está no time, ele com certeza estava no vestiário, desembucha — ela mordeu o lábio e suspirou.
— Ok, eu só tenho medo que você vá falar com ele e a situação piore. Prometa que não vai falar nada — juntei as sobrancelhas confusa.
— Falar com quem criatura? Com o ? Foi ele quem começou, não é? — minhas mãos já estavam tremulas.
— Sim, na verdade o primeiro soco veio dele — ela parecia apreensiva.
— O que aconteceu? — perguntei impaciente.
disse que eles já estavam se estranhando no treino, por causa dos rumores que eu te disse, sobre você estar correndo atrás do Matty. Aí quando eles foram pro vestiário, o Matty começou a falar umas coisas sobre você e o escutou e mandou ele calar a boca, como ele continuou falando, bateu nele — meu coração estava disparado.
— Que coisas? — ri nervosa.
não me disse, ele disse que achava que seria falta de respeito reproduzir as palavras do Matty. Por isso ninguém falou nada, o intuito era te proteger — minha boca estava seca.
— Eu tenho o direito de saber o que foi falado sobre mim — falei com a voz algumas oitavas mais alta que o normal.
— Eu sei, mas acho uma situação delicada. O ficou puto por você ter ido atrás do Matty — ela disse apreensiva.
— Puto por quê? Eu só fui saber o que tinha acontecido, queria tirar satisfação, na verdade — me expliquei.
— Porque ele achou que você estava indo lamber o Matty depois de tudo. Você está ciente que todo mundo acha que foi ele quem te deu toco? — minha boca estava levemente aberta.
— Sério? — ela concordou com a cabeça e comecei a rir.
— Você ri? — perguntou surpresa.
— E o que mais eu posso fazer? Não sabia que o Matty era tão egocêntrico ao ponto de não admitir que levou um pé na bunda — disse rindo.
— Nunca deveria ter apresentado vocês, isso tudo é culpa minha — se culpou.
— Nada a ver, eu fui na sua porque quis — dei de ombros. — Tá, mas só por isso o foi pra cima dele? — ainda não tinha conseguido entender.
, qual a parte de que o disse que era desrespeitoso reproduzir as palavras do Matty você não entendeu? — ela perguntou impaciente.
— Sei lá, o que ele pode ter dito? Que transou comigo e depois me dispensou? — juntei as sobrancelhas entortando a boca.
— Não sei, mas ele deve ter sido bem baixo.
— E por que o se dispôs a apanhar por algo relacionado a mim? — ela deu de ombros.
— Conhecendo como eu o conheço, não esperaria nada diferente vindo dele — ela disse. — E acho que ele gosta de você.
— Não começa a viajar — a cortei antes que o conto de fadas de Mayh começasse.
— Não estou viajando, você tinha que ver a carinha de decepção dele quando você saiu correndo atrás do Matty — ela fez um biquinho.
— Estava mais preocupada com ele na verdade, mas não quis demonstrar, especialmente na frente de todo mundo. Partiu meu coração ver ele daquele jeito — falei encarando meus dedos. — O troféu de trouxa do ano é definitivamente meu — disse rindo sem achar nenhuma graça.
— Para com isso, nós duas sabemos que você é um poço de bondade — ela sorriu carinhosa.
— Agora estou muito curiosa em saber o que o Matty andou falando sobre mim — disse pensativa.
— Nem fica pensando nisso, duvido que ele tenha a petulância de ficar falando de você depois do que aconteceu. Falei com o e ele me disse que passou a situação pro diretor e que o diretor não os suspendeu por isso. Na verdade, acho que foi uma desculpa, ele sabe o quanto o se esforça pra tentar a bolsa — ela deu de ombros.
— Sei lá, vai saber pra quem ele já falou?
— Não deve ter dito nada a ninguém, quando transamos ele não disse nada a ninguém — falou naturalmente e ergui uma sobrancelha.
— Quando vocês transaram? Você já transou com o Matty? — ela deu de ombros.
— Foi há anos atrás, foi com ele que fiquei quando o foi pra Califórnia — explicou e sua expressão dizia que ela não dava muita importância para aquilo.
— Estou meio chocada por você não ter me dito isso ante. — falei abismada. — Ele não colocou a boca lá em você, não é? — disse fazendo um gesto com a mão indicando para baixo da mesa, fazendo com que Mayh gargalhasse.
— Não, na verdade não foi tudo aquilo. Mas acho que agora ele faz isso, mas em outras meninas — ela disse ainda rindo, fiz uma cara de nojo. — Não se preocupe, , lavou tá novo.
— Vou conversar com o — falei quando ela parou de rir.
— Vai perguntar se ele fez sexo oral nas meninas que ele transou? — perguntou risonha.
— Óbvio que não, vou perguntar o que o Matty disse. — Mayh ficou séria.
— Não acho que devia fazer isso — disse.
— Tenho o direito de saber, Mayh. E se for o caso posso eu mesma ir até o diretor fazer uma reclamação — falei pensando em quais atitudes a escola poderia tomar em caso de boatos.
— Ele vai saber que te contei — ela mordeu o lábio e sorri.
— Mande ele resolver comigo, afinal, que espécie de amiga você seria se não tivesse me dito? — ela deu um sorriso apreensivo, mas não disse mais nada.

Não havia tido a oportunidade de conversar com naquele mesmo dia e não perguntaria a ele na mesa do café da manhã.
Evitei o assunto também enquanto íamos para o colégio, já que estava no carro e eu achava que seria muito mais fácil convencer ele a me dizer, se estivéssemos sozinhos.
Esperei pacientemente até que ele pegasse tudo o que tinha de pegar em seu carro, quando finalmente trancou a porta me olhou surpreso. Não era como se o esperasse todos os dias para entrar no colégio. Ainda assim o garoto não disse nada, mas caminhou ao meu lado pelo estacionamento e quando chegamos perto da enorme porta de entrada decidi que era hora de me pronunciar.
— Quer matar a primeira aula comigo? — ele me olhou com surpresa.
— Depende do que vamos fazer — sua expressão se tornou maliciosa e mesmo querendo rolar os olhos dei um sorriso charmoso.
— Conversar um pouco — mordi o lábio inferior e dei de ombros. — Sei lá — ele estreitou os olhos me olhando.
— Você quase consegue me fazer acreditar que está flertando comigo — ele riu. — Temos mesmo que matar aula pra você conseguir o que quer?
— Temos, quero conversar. Disse que deveríamos tentar ser amigos — ele ergueu uma sobrancelha. — Amigos matam aula para conversar.
— Prefiro matar aula pra dar uns amassos em você — senti meu rosto pegando fogo.
— É só pra conversar mesmo — falei tentando mascarar meu nervosismo.
— Tá bom — ele deu de ombros.
Seguimos em silêncio até estarmos embaixo das arquibancadas, minhas mãos tremiam como se realmente estivéssemos ali para nos pegar, mesmo que eu soubesse que aquilo não ia acontecer. jogou sua mochila no chão e se sentou ao lado dela cruzando as pernas enquanto esperava que eu fizesse o mesmo. Sentei a sua frente e o encarei sem saber ao certo o que dizer. Nos encaramos por alguns minutos até ele começar a rir.
— Desse jeito eu vou achar que você está querendo se declarar para mim e não sabe por onde começar — fiz uma careta enquanto ele ria.
— Não é nada disso, só não sei por onde começar — falei desviando meus olhos de seu rosto.
— Pode falar, , eu não mordo, a menos que você queira, é claro — esperava o ouvir rindo, mas ele não riu. O que fez com que voltasse a olhar seu rosto.
— Quero saber sobre a briga — falei antes que perdesse a coragem.
— Não vou te falar nada sobre isso — ele estava sério.
— O que o Matty falou sobre mim? — escolhi perguntar de uma forma direta, para que ele ficasse ciente que eu sabia o motivo da briga.
me olhava com a surpresa evidente em seu rosto, e assim ficou por um tempo incalculável. Não consegui identificar nenhum sinal em seu rosto que entregasse se ele falaria ou não.
— A pessoa que te disse isso, que suponho ser a Mayh, não te contou? — perguntou.
— Ela não sabe o que foi dito, o não quis dizer — falei e ele concordou com a cabeça.
— Não vou te falar o que ele disse — disse calmo.
Ponderei por um momento quais eram minhas opções, analisei os machucados no rosto de e só então absorvi qual poderia ter sido a real gravidade das palavras de Matty. Ou era algo muito idiota que só tinha deixado o garoto a minha frente enciumado ou era algo extremamente escroto.
— Certo, acho que terei que perguntar a ele — falei fazendo menção de levantar.
— Não — ele disse colocando a mão em meu braço.
— Por que não? — perguntei tão séria quanto ele.
— Porque eu com certeza vou ser expulso se ele te tratar do jeito que eu sei que ele vai tratar — seu rosto estava ainda mais sério.
— Então me diz você o que ele disse — falei e ele negou com a cabeça.
, não vou conseguir dizer o que ele falou olhando pra você — ele disse.
— Então fecha os olhos, eu quero saber o que ele andou dizendo por aí sobre mim — falei e ele riu.
— Não consigo reproduzir o que ele disse pra você — ele suspirou. — Sinto muito.
— Certo, então nossas chances de um dia poder nos tornamos amigos acaba por aqui — falei com tanta convicção que até eu me surpreendi.
— Só quero te proteger — disse juntando as sobrancelhas.
— Eu não quero que me proteja, estou cansada das pessoas me esconderem as coisas com a desculpa de estarem me protegendo — minha voz saiu um pouco mais alta do que o planejado. — O que ele falou? Que transou comigo e depois me dispensou? — perguntei com ar de riso e percebi quando ele engoliu em seco. — Foi isso não foi? — fiquei de joelhos me aproximando do garoto, me apoiei em seus joelhos e fiquei com o rosto bem próximo do seu.
Aquilo poderia não dar certo, mas eu podia tentar certo?
decidiu por mim quando o peguei olhando para a minha boca.
— Por favor — pedi baixo e ele pigarreou.
— Você está tentando me seduzir? — perguntou e deu um sorrisinho de lado.
— Você está se sentindo seduzido? — mordi o lábio inferior e ele concordou com a cabeça. — O que ele disse, ? — perguntei firme.
— Você acha mesmo que eu sequer vou conseguir lembrar o que ele disse com você praticamente em cima de mim, ? — ergui uma sobrancelha e voltei a me sentar onde estava antes.
— E agora? Consegue se lembrar? — perguntei firme.
— Você já sabe o que ele disse, precisa mesmo me ouvir repetir? — ele parecia incomodado.
— Desembucha logo, tô perdendo a paciência com você — me levantei, mas ele continuou sentado me olhando.
— Pode perder a paciência, não vou falar — falou se levantando também e pegou sua mochila a colocando em seu ombro. — Devia esquecer isso.
Aquela vontade de chorar de raiva me arrematou, senti meu corpo tenso e travei o maxilar enquanto sentia meus olhos se encherem de lagrimas.
— Vocês não cansam de esconder as coisas de mim? Coisas que me dizem respeito, eu realmente cheguei a achar que as coisas poderiam ser diferentes entre a gente. — ficou me olhando, sua expressão era indecifrável.
Talvez eu estivesse apelando para algo que nem eu mesma sabia da existência, fato é que parecia ter dado certo.
— Eu não consigo repetir o que ele disse na sua frente — ele fechou os olhos. — Vou conversar com a Mayh e ela te fala — ele disse e me deixou sozinha.



Capítulo 26

’s POV

Bati meu pé algumas vezes durante o jantar e por vezes encarei procurando por explicações, ele me encarava de volta com uma expressão cínica no rosto e em cada oportunidade que tinha, que era quando Megan ou não estavam olhando, ele piscava um olho para mim enquanto aquele sorrisinho fechado levemente malicioso aparecia em seu rosto.
, quando é seu teste? — Megan perguntou.
— Na sexta. — estava brincando com a comida quando respondeu.
— Vai ser aberto ao público? — perguntei por curiosidade, já que ela não tinha comentado nada sobre.
— Sim, mas não quero vocês lá — ela disse e a olhei juntando as sobrancelhas, só fez rir.
— Não me leve a mal, , mas para mim será muito mais tranquilo se minha família não estiver presente — explicou.
— Tudo bem — dei de ombros.
Não que eu fosse caso ela convidasse, eu simplesmente não ia a apresentações de balé e o motivo era muito claro para qualquer um que me perguntasse.
— Você já conversou com o ? — perguntou de forma suave.
— Ainda não, estou esperando sair o resultado. Não tem por que eu e ele termos essa conversa se eu não conseguir entrar — falou um pouco nervosa.
— Eu no lugar dele gostaria de saber antes que você fizesse o teste — ele disse e ela fez uma careta.
— Mas você não está no lugar dele — disse de forma grossa.
— Isso é TPM? — Megan perguntou e riu.
— Só pode. — debochou.
— Ai que saco, mãe! Não é TPM, só estou estressada com tudo. Estou em semana de provas, tenho um teste importante essa semana, ainda não tive coragem de dizer para o meu namorado que, se passar no teste, eu vou sair do país — falou tudo de uma vez antes de sair chorando da cozinha.
— Nossa, quanto drama — rolou os olhos.
— Não fale assim, ela está ansiosa e estressada. — Megan disse transbordando calma.
— Vou tentar conversar com ela — falei me levantando da cadeira.
Peguei meu prato e copo e os levei até a pia antes de subir até o quarto de . Como ela não disse nada quando bati na porta, a abri colocando parcialmente meu corpo para dentro do quarto.
? Posso entrar? — ela fungou e se levantou passando as mãos pelo rosto.
— Pode — disse abraçando as pernas.
Entrei e fechei a porta antes de me sentar na beirada de sua cama, de frente para ela que não me encarava.
— Por que está assim? Não que não ache normal esse seu estresse, mas isso pode te atrapalhar na hora do teste e das provas — falei de forma suave e ela me encarou.
— Sabe qual a pior parte? Não sei nem como começar esse assunto com o , eu não quero terminar com ele, — disse voltando a fungar.
— Mas você não precisa terminar com ele, não é como se você fosse morar em outro país, você só vai sair em turnê — dei de ombros e ela mordeu o lábio inferior voltando a chorar.
— Na verdade, se passar no teste, vou ter que me mudar para Paris — ela disse entre soluços.
Meus olhos se encheram de lágrimas, abri e fechei minha boca várias vezes sem saber exatamente o que dizer. Não queria que fosse embora, mesmo que Paris não fosse muito longe, não seria como tê-la por perto todos os dias.
— É fácil para ele ir te visitar — disse com a voz pesada e ela negou com a cabeça.
— Não é como se Paris fosse a cinco minutos daqui e ainda tem as turnês. E tem mamãe, e o , e você, e todas as pessoas que eu gosto — eu não sabia como consolá-la como eu poderia quando não sabia nem como me consolar?
— Olha, uma hora isso vai acontecer, mas não precisa ser agora. Você pode deixar para fazer o teste mais para frente — falei gaguejando.
— Estou na idade ideal para começar uma carreira, , já conversei milhares de vezes sobre isso com a minha mãe — ela deu de ombros.
— Eu acho que você está sofrendo por antecipação. Eu sei que você é capaz de passar no teste, mas você ainda nem o fez. Por que não deixa pra pensar nisso quando passar? — eu sabia que ela continuaria pensando até o dia do teste ou até que tivesse que conversar com , mas eu não sabia o que dizer a ela a não ser aquilo.
Fiquei com até que ela não conseguisse mais manter seus olhos abertos por muito tempo e resolvesse dormir. Quando saí de seu quarto, encontrei Megan no corredor; ela me perguntou como estava e disse que na manhã seguinte levaria a filha para a escola, para que pudessem conversar. Depois de receber um beijo de boa noite, peguei meu pijama no quarto e fui tomar um banho.
Havia mandando uma mensagem para Mayh, perguntando se tinha dito algo à ela, mas ela ainda não tinha respondido. , provavelmente, estava trancado em seu quarto, ou talvez até estivesse dormindo. Eu era a única que deveria ainda estar acordada até àquela hora.
Rolei mais uma vez na cama antes de decidir que não conseguiria dormir, tentei me distrair na internet e só o que consegui foi descobrir que Matty havia me bloqueado do whatsapp. Joguei minhas cobertas para o lado e me levantei decidindo que estava com sede.
Minha cabeça estava tão cheia com tantas coisas que não me importei que a casa estava silenciosa e escura. Peguei água na geladeira e enchi um copo, me encostando na mesa em seguida.
Talvez eu tenha passado minutos ali, olhando para a pia com o copo na mão, sem conseguir me concentrar em meus próprios pensamentos. A única coisa na qual eu conseguia pensar era em porque havia ficado tão bravo com Matty, e no motivo que o levou a não me contar o que o garoto realmente havia falado sobre mim. Eu imaginava que devia ser algo de cunho sexual, era a única explicação para aquele segredo todo. Ainda assim, não era motivo suficiente para que tivesse a reação que teve, tinha algo a mais em tudo aquilo e, a curiosidade, além do medo de saber o que era, não me deixariam dormir tão cedo.
Como se estivesse em transe, só me dei conta de que estava batendo na porta do quarto de , quando coloquei minha cabeça para dentro do cômodo.
— Posso entrar? — perguntei quando a luz do abajur ao lado de sua cama foi acesa.
— Pode — ele disse, se apoiando nos cotovelos.
Entrei e tomei o cuidado de fechar a porta atrás de mim, não queria que Megan ou pudessem me pegar ali e entendessem alguma coisa de forma errada. A luz não iluminava completamente o quarto, então não consegui ver o ambiente com clareza. Só distingui que a cama de era de casal e ficava de frente para a porta e que havia um sofá ali.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou e dei de ombros me aproximando de sua cama.
— Não consigo dormir — falei enquanto me sentava ao seu lado. Nem eu mesma sabia exatamente o porquê de ter ido até ali.
— E resolveu não me deixar dormir também? — ele perguntou se sentando e me fazendo notar que estava sem camisa.
— Talvez eu faça isso até você me dizer o que o Matty falou de mim — falei, tentando não olhar para nada além de seu rosto.
— Te disse mais cedo que ia conversar com a Mayh — ele passou a mão pelo rosto tirando o cabelo da testa. era meio testudo.
— E quando vai fazer isso? — perguntei.
— Amanhã, . É por isso que não está conseguindo dormir? É realmente importante o que ele fala sobre você? — não consegui identificar sua expressão.
— Pelo modo como você reagiu, deve ser — rolei os olhos. — Não estaria curioso se fosse você?
— Acho que iria preferir não saber — retrucou.
— Mas eu quero saber.
— Você é teimosa pra porra — falou rolando os olhos. — Por que não tenta dormir? Amanhã você vai acordar cedo.
— Não consigo — resmunguei.
— Quer deitar e dormir aqui? — ele deu um sorriso malicioso.
Só a ideia de dividir uma cama com me deixava nervosa, ainda mais quando éramos só nos dois ali e ele não vestia uma camisa. Era uma ideia tão tentadora quanto estúpida.
— Não, não é pra isso que estou aqui — falei e só quando ele riu entendi o duplo sentido da minha frase. — Não seja malicioso.
— Não estou sendo — falou, mas voltou a rir. — Quer só deitar aqui e fazer alguma outra coisa? — fiz uma careta.
— Pelo amor de Deus, garoto — rolei os olhos.
— Quem está sendo maliciosa agora? — ele riu. — Você que está pensando em sexo e acha que é disso que estou falando — ele disse divertido e arregalei meus olhos.
— Oi? Não estou pensando em nada disso — me defendi.
— Se não estivesse, não teria medo de deitar — cantarolou me deixando ainda mais nervosa do que já estava.
— Me respeita, seu imbecil — ele ergueu uma sobrancelha.
— Não te desrespeitei, só falei a verdade — ele deu de ombros.
— Ok, chega pra lá — falei colocando o copo em cima da mesa de cabeceira e ergueu a sobrancelha em dúvida. — Que foi? Já que você não quer me falar o que o Matty disse para que eu consiga dormir, não vou te deixar dormir também — falei dando de ombros tentando convencer a mim mesma que não tinha nada demais em me deitar em sua cama.
— Dependendo do jeito que você fizer isso não vou me importar — ele disse indo para o outro lado da cama.
— Até quando você tenta ser legal é um idiota, sabia disso? — falei agradecendo mentalmente o fato de que ele não podia ver minhas mãos tremendo enquanto entrava embaixo de suas cobertas.
— Eu estou brincando, ok? Mas se quiser, já sabe — ele disse rindo.
Me deitei de frente para e o fiquei observando; para ser bem sincera comigo mesma, não conseguia pensar em nada mais do que tentar descobrir o quanto seria idiota se eu ficasse com ele. Estava se tornando meio óbvio para mim que ele queria ficar comigo, era óbvio que ele só queria se divertir às minhas custas. queria somente recuperar seu ego ferido e provar a si mesmo que poderia me ter quando e onde bem entendesse. Era burra demais para simplesmente sair e deixá-lo frustrado. Talvez não fosse uma boa ideia deitar na cama dele e ficar tão perto sabendo exatamente onde iríamos parar com aquela cordialidade toda.
— Vai ficar me olhando dormir? — ele ergueu as sobrancelhas e fechou os olhos.
— Não — falei o cutucando. — Me conta como conheceu meu pai? — perguntei tentando achar alguma forma de deixar aquilo menos estranho, numa tentativa falha de aquietar meus hormônios. Ele abriu os olhos e fez uma careta.
— Acho melhor não irmos por esse caminho, até porque não vou te dizer onde ele está — ele disse e rolei os olhos.
— Só estou perguntando como o conheceu, não pode falar isso também? — ele suspirou.
— Ok, deixe me ver — disse entortando a boca. — Não me lembro muito bem, mas acho que foi no dia em que meu pai morreu — ele disse e senti meu corpo se congelar. — Me lembro que Patrick foi ao meu quarto e perguntou se eu queria conversar — ri sentindo uma pontada de ressentimento por meu pai. — Você ri?
— Quando a minha mãe morreu, ele me evitou, minha avó precisou chamar a atenção dele por isso. — parecia surpreso.
— Acho que é mais fácil lidar com a dor dos outros que com as nossas — tentou defender Patrick.
— Continue — falei não querendo me aprofundar naquele assunto.
— Ele vinha aqui e conversava muito com a minha mãe e comigo, ele nos levava para sair e às vezes ia aos meus jogos na escola — uma lágrima escorreu por meu rosto e passei a mão para tirá-la dali. — É uma história muito emocionante? — ele perguntou confuso.
— Ele nunca saia comigo, sabia? — falei com a voz embargada. — Ele era ocupado demais para isso, só íamos juntos para algum lugar quando tinha a ver com os negócios dele. Ele sequer foi a qualquer peça de teatro que eu participei — ri sem humor. — Acho que Patrick era mais seu pai do que meu — não consegui decifrar com qual expressão ele me olhava. — Parece que o acidente não tirou só a minha mãe de mim — ele levantou a mão e a depositou em meu rosto.
— Sinto muito — ele disse baixo e fechei os olhos. — Você quer um abraço? — falou e continuei quieta.
Queria gritar com aquele que se dizia meu pai e perguntar o motivo de ser tão presente na vida de pessoas que ele não conhecia, mas na minha que era sangue de seu sangue ele nunca fizera questão de participar. Patrick nem ao menos me conhecia.
se movimentou e me abraçou e foi com choque que percebi a magoa ser substituída por nervosismo, ansiedade e excitação no momento em que senti o peito quente de se encostar na minha mão.
— Estou bem — vinha voz saiu trêmula, estava ansiosa e preocupada com o que poderia acontecer. — Você está me sufocando — ele afastou o rosto e me encarou de perto.
— Não sabia que meu abraço era tão bom assim, você parou de chorar — ele disse sorrindo, mas sua voz não demonstrava divertimento.
— Acho melhor ir pro meu quarto dormir — falei usando as mãos para afastá-lo, era sensato sair dali antes de fazer algo da qual eu pudesse, e sabia que iria, me arrepender depois.
— Não vai me dar um beijo de boa noite? — ele disse e fiz uma careta.
— Não mesmo — usei o pouco que restava do meu autocontrole.
— Porque não? Você gosta de mim — ele disse, mas não soou convencido e apertou minha cintura fazendo com que minha pele se arrepiasse.
Pisquei algumas vezes para me localizar enquanto o sentia cada vez mais perto, eu queria beijá-lo, já podia até sentir seus lábios. Mas minha consciência dizia que era errado, que, se deixasse aquilo acontecer, iria me arrepender amargamente; já meu lado trouxa insistia em dizer que ele havia trocado socos com Matty por minha causa mesmo sabendo que poderia apanhar.
— Não, eu não gosto — falei em um fio de voz incapaz de convencer até a mim.
— Só um beijo, — a expressão borboletas no estômago nunca fizeram tanto sentido para mim como naquele momento.
fazia carinho em minhas costas com as pontas dos dedos, por baixo da minha blusa, enquanto seu rosto estava a centímetros do meu, tão perto ao ponto de nossos narizes se tocarem. Sua respiração estava pesada e foi assim que percebi que estava segurando a minha. Suspirei, o sentindo mais perto como nunca sentira antes. esperou paciente minha permissão, que eu tinha certeza que não viria tão cedo.
Não que eu não quisesse, era tudo que eu queria mesmo que minha consciência me mandasse o deixar na geladeira, talvez pelo resto da vida. Mas quem estava no controle era meu coração, que não queria saber quantas vezes aquele garoto havia sido idiota comigo, ele só mandava que eu pensasse nesse tipo de coisa depois. Em um gesto automático minha mão subiu por seu pescoço e caminhou até sua nuca, então ele me beijou quando meus dedos se apertaram ali.
com certeza tinha o melhor beijo que já havia provado, ele movia sua língua com calma enquanto sua mão me apertava, puxando meu corpo para junto do seu. Eu não conseguia acompanhar todas as sensações que devoravam meu sistema nervoso, meu coração batia tão forte e alto que não me surpreenderia se ele pudesse ouvir.
Sua mão desceu lentamente pela lateral do meu corpo chegando até a minha coxa, onde ele apertou antes de puxar minha perna a encaixando em seu quadril. Nunca havia sentido seu corpo tão de perto e a única coisa que conseguia fazer era apertar cada vez mais forte sua nuca, com receio de tentar explorar todas as partes que queria de seu corpo e acabar fazendo besteira. Já havia estado em situações mais críticas com outros garotos, mas nunca havia me sentido tão excitada.
Meu corpo o queria de todas as formas e começou a agir por vontade própria ao ponto de eu sequer percebesse como havia ido parar em cima de um ofegante. Ele apertou minha bunda, pressionando meu quadril contra o seu e, com choque, percebi que ele realmente estava excitado e nós estávamos passando um pouco dos limites. não merecia tudo aquilo, por mais que minha mente quisesse bloquear todas as coisas horríveis que ele já havia me dito, o receio de que na manhã seguinte ele me tratasse como um nada estava ali.
Recuei meu corpo de forma lenta, numa tentativa de adiar o fim, até estarmos os dois sentados na cama. Deslizei minhas mãos por seus ombros, aproveitando para sentir todos os contornos daquele pedaço de seu corpo, antes de fazer pressão para que ele se afastasse. entendeu o recado e mordeu meu lábio inferior antes de afastar seu rosto do meu.
— Quer dormir aqui? — ele sussurrou sua voz rouca e claramente excitada.
— Não — minha voz quase não saiu e abri meus olhos percebendo que ele ainda estava muito perto.
— Tá — ele disse, mas seus braços ainda estavam em volta da minha cintura.
Continuei olhando para ele, sem coragem de sair dali e voltar para nossa realidade onde eu fingia que não o suportava, mesmo que ele soubesse que eu sentia o oposto. Passei as mãos por meus cabelos e os enrolei tentando fazer um coque, aproveitou meu momento de distração e avançou seu rosto em minha direção enfiando o nariz em meu pescoço. Um arrepio subiu por minha coluna e se alojou em minha nuca quando seus lábios se encostaram em minha pele. Suspirei, fechando os olhos, tentando me concentrar somente em , em sua boca e em suas mãos, que apertavam minha cintura. Passei minhas mãos por seus braços e as subi até que elas estivessem em seus cabelos. Ele, com certeza, não usava produtos caros, mas seus cabelos eram tão macios quanto os meus.
O calor parecia insuportável dentro daquele quarto, mas eu sabia perfeitamente bem que era só meu corpo que parecia estar pegando fogo. Não saberia colocar um limite nas coisas se continuasse sentindo seus beijos em meu pescoço. Agarrei alguns fios de seu cabelo e puxei a cabeça de , que me olhou meio desorientado, sua boca parecia ainda mais vermelha que de costume e deixei para me amaldiçoar depois por grudar meus lábios nos seus.
Sutilmente, deitou meu corpo ficando por cima de mim e naquele momento desejei ter simplesmente aceitado seu pedido de desculpas quando ele achou que poderia ter me magoado.
As coisas poderiam ter sido diferentes e o que estávamos fazendo poderia ser rotina entre nós.
? — minha voz saiu baixa e um pouco rouca quando sua boca voltou ao meu pescoço, ele resmungou alguma coisa, mas não se afastou. — ? — chamei um pouco mais alto e firme.
ergueu seu rosto, me olhando com os olhos levemente fechados, seus cabelos estavam completamente bagunçados e seu rosto vermelho.
— O quê? — perguntou de forma suave, seu rosto ainda muito perto do meu.
— Acho melhor eu ir para o meu quarto — falei o encarando.
— Por quê? — perguntou juntando as sobrancelhas.
— Porque tenho aula amanhã. Já devia estar dormindo — não podia dizer que se continuasse ali, provavelmente nós dois acabaríamos sem roupas.
— Ok — ele disse e suspirou, caindo para o lado.
Me sentei em sua cama e ajeitei minha blusa, lutando contra a vontade de ficar por ali por mais alguns minutos, ou quem sabe a noite inteira.
— Não vá dar importância para o que o Matty disse. Ele é um babaca — ele disse enquanto me levantava e ergui uma sobrancelha.
— Ainda não sei o que ele disse — falei cruzando os braços.
— Mas vai saber — nos encaramos por alguns segundos e me toquei que já deveria estar fora de seu quarto, ou provavelmente eu voltaria a beijá-lo.
— Melhor eu ir — disse, colocando meus chinelos antes de caminhar em direção a porta.
— Devo te esperar amanhã? — ele disse quando eu já estava na porta de seu quarto.
— Não mesmo — falei antes de fechar a porta atrás de mim.
Subi para o quarto praticamente correndo, antes que pudesse voltar e aceitar sua proposta de dormir com ele. Fechei a porta e deitei em minha cama me cobrindo até o pescoço, meu corpo estava latejando, e a parte do meu cérebro que era louca por insistia em dizer que estava sendo idiota por não ter ficado lá. Já a parte mais racional ria da minha cara me chamando de trouxa e apontava um dedo em minha direção dizendo que não deveria ter beijado ele. Suspirei, fechando meus olhos com um sorriso discreto enquanto pensamentos nada puritanos sobre o tamanho da ereção de surgiam na minha cabeça.

Agradeci aos céus por Meg não ter se adiantado e tivesse saído antes de mim e , já me sentia constrangida o suficiente por ter que ir sozinha ao colégio com ele no mesmo carro e correr o risco de ouvir algum tipo de piada sobre a noite anterior.
estava com seus óculos escuros no rosto e esperou pacientemente até que eu encontrasse meu livro de biologia perdido.
— Você ainda quer trabalhar? — ele perguntou quando paramos no último semáforo para o colégio.
— Quero — falei com firmeza.
— O dono da loja ao lado de onde eu trabalho está precisando de uma vendedora. Ele perguntou se eu tinha alguém para indicar. E acho que você vai se dar bem lá — ele disse, me olhando brevemente.
— Para vender o quê? — ele deu uma risadinha e automaticamente meu corpo ficou tenso, era agora que começariam as piadinhas?
— Roupas, você parece gostar — ele deu de ombros.
— Ele paga bem? — perguntei interessada e levemente aliviada por ele não ter feito com que me arrependesse do que tinha feito em seu quarto.
— Você vai ter que ver com ele. Hoje vou dar uma passada lá e vejo quando você pode ir conversar com ele — explicou e acenei positivamente.
— Quando vai falar com a Mayh? — perguntei quando ele estacionou no colégio.
— Na hora do almoço — fiz uma careta.
— Porque não fala antes e deixa para ela me contar nesse horário, acho que não temos nenhuma aula juntas hoje — falei enquanto pegava as minhas coisas.
— Vou tentar conversar com ela antes — ele disse e saiu do carro e fiz o mesmo. — , não faça nada que possa te dar uma suspensão, ok — ele disse caminhando ao meu lado.
— Quem sabe — dei de ombros.
— Estou falando sério — ele disse e o olhei rapidamente. — Me prometa.
— Não vou prometer algo que não sei se posso cumprir. — parou na minha frente, tirando os óculos do rosto.
, por favor — ele fez uma expressão pidona.
— Fale com Mayh antes do almoço e prometo que antes de decidir se vou fazer alguma coisa, eu te digo o que é — ele cruzou os braços. — Isso eu prometo — sorri cruzando os dedos atrás do corpo.
— Ok — ele disse antes de voltar a caminhar em direção a entrada do colégio.

As aulas pareciam que não passavam e minha vontade de ir tirar satisfações com Matty só aumentava, mas me segurei porque sabia que se fosse sem nenhuma informação, sairia do mesmo jeito. Ele iria negar que havia falado qualquer coisa que fosse, como já havia feito.
Quando o sinal que anunciava o almoço tocou, praticamente corri até o refeitório e a primeira coisa que vi foi Mayh sendo rodeada por e . Ela estava vermelha e passava as mãos pelo cabelo e rosto de forma exasperada enquanto eles pareciam discutir. Seu rosto pareceu se iluminar quando me viu, mas quando fez menção de vir em minha direção seu namorado a impediu a deixando com uma expressão homicida.
— Oi, gente, o que tá pegando? — perguntei olhando para os três.
— A gente precisa conversar, agora. — Mayh disse, já caminhando em direção à porta que dava para a área externa do colégio.
Sem dizer nada a segui, sem deixar de perceber que e fizeram o mesmo, porém eles andavam atrás de mim. Mayh se dirigiu até o campo de futebol da escola, mas não foi para baixo das arquibancadas. Me aproximei dela, já um pouco preocupada, olhei para trás e vi que os meninos ficaram perto de um banco um pouco afastados de onde estávamos, eles pareciam dois seguranças com os braços cruzados, sem nunca parar de olhar em nossa direção.
— O que tá acontecendo? Por que os dois estão feito cães de guarda assim? — perguntei apontando para trás de mim com meu polegar.
— Porque eu quero matar aquele infeliz do Mckibben — ela disse com raiva.
— Ok, o te contou? — ela assentiu com a cabeça. — Me conta o que ele andou falando sobre mim — ela soltou uma risada que qualquer um veria que era de raiva.
— Você quer saber do começo ou quer que eu diga logo o que ele falou? — perguntou em duvida.
— Não quero ser poupada de detalhes — falei cruzando os braços com uma boa dose de receio.
— Eu te disse que ele estava falando por aí que você não saia do pé dele ne? — concordei com a cabeça. — No dia da briga, o já estava sabendo disso e estava puto, tão puto que começou a se estranhar com Matty no treino. Não sei se o Matty achou que o estava enciumado ou o quê. Quando foram para o vestiário, ele esperou sair do banho e começou a falar pros amigos que não aguentava mais, que você estava enchendo muito o saco dele e ele já não sabia o que fazer para te tirar do pé dele. Ele disse em um tom que fosse audível para quem estivesse no vestiário ouvir — ela disse e rolei os olhos.
— Por isso o foi pra cima dele? Gente, deixa esse garoto tosco sonhar um pouco — a interrompi.
— Tem mais, — ela me cortou, nervosa. — O ficou na dele, até um dos amigos do Matty perguntar o que ele tinha de tão especial pra você ficar no pé dele e que não entendia o porquê de ele não estar com você, já que você é “gostosa” — ergui uma sobrancelha. — Aí o Matty disse que já tinha te comido e que a foda foi tão tosca que não valia nem o sacrifício de te aturar. Que você é um iceberg e parecia frígida de tão fria. Foi aí que o deu a volta no armário e perguntou de quem ele estava falando, só para ter certeza que não estava ficando louco. O Matty disse que era de você mesmo e que uma boneca inflável saberia satisfazer um homem melhor que você. — Mayh falava de forma rápida e gesticulava horrores.
— Foi isso? — perguntei ainda séria tentando entender o porquê de Matty dizer aquele tipo de coisa.
— Aí o deu um soco nele, o derrubando, e os dois rolaram pelo vestiário trocando socos até que os meninos conseguiram separar — ela disse e a fitei por alguns segundos antes de começar a rir.
Não sabia se estava rindo de nervoso, de ódio por Matty ser tão babaca, ou pela história fantasiosa que o garoto havia criado.
— Meu Deus — disse em meio a risadas.
— Você está rindo? — sua expressão era confusa.
— Não estou achando engraçado, mas não vou chorar — falei antes de dar as costas para ela.
Não sabia exatamente para onde eu queria ir, mas definitivamente não iria chorar no banheiro. Meu coração palpitava tanto quanto na noite anterior, mas não poderia definir com exatidão o que estava sentindo. Definitivamente sentia raiva, só não sabia se de Matty ou de mim mesma por estar envergonhada.
Escutei bem longe Mayh me chamando e vi quando e se posicionaram na minha frente. Quis rir da postura dos dois, o que eles achavam que eu faria? Eles acharam que eu socaria Matty como fiz com Laura? Só queria ficar sozinha e pensar no que o garoto tinha falado e analisar a situação e arquitetar uma vingança, quem sabe.
— Saiam da minha frente — falei autoritária.
— Você prometeu. — parecia preocupado.
— Prometi? Prometi o quê? — perguntei cruzando os braços no peito fazendo todo o esforço que conseguia para olhá-los sem ruborizar, especialmente para .
, o que você acha que vai fazer? — perguntou nervoso. — Vai lá e armar um barraco com ele no refeitório lotado?
— Não sou de fazer barraco, onde você acha que fui criada? — disfarcei meu constrangimento tingindo minha voz com arrogância sabendo que havia dado certo quando assumiu uma expressão corporal defensiva.
— E onde você está indo? — perguntou receoso e rolei os olhos.
— Com certeza não estou indo chorar no banheiro — ergui uma sobrancelha. — O Matty para mim é a mesma coisa que nada.
— Você não está brava? — Mayh surgiu ao meu lado.
— Estou, mas o que eu poderia fazer que não fosse jogar minha dignidade no lixo? — não iria confrontar o garoto, fazer isso só iria alimentar o boato ainda mais.
— Você vai deixar para lá? — foi quem perguntou e dei de ombros.
— E o que eu posso fazer? Bater nele? — arregalou os olhos e Mayh riu.
— Claro que não, eu já fiz isso — o garoto falou juntando as sobrancelhas.
— Eu não deixaria para lá. — Mayh negou com a cabeça.
— Ah, você é barraqueira e o já bateu nele. — falou, levemente preocupado.
— Que seja, acho que a única coisa que posso fazer é ir falar com o diretor, por enquanto — falei e voltei a andar aproveitando que os garotos baixaram suas guardas.
— E o que você acha que o diretor vai poder fazer? Eu no seu lugar socaria ele. — Mayh em poucos segundos estava ao meu lado.
— Para de colocar lenha na fogueira, Mayh. — ralhou surgindo ao meu lado.
— Não é lenha na fogueira, no máximo o senhor Calvin vai chamá-lo para dar uma bronca — ela continuou falando, mas parei de ouvir.
Não conseguia identificar o que estava sentindo naquele momento, sempre achei Matty meio babaca, não como achava , por exemplo, mas achava. Agora tinha certeza que ele era um completo imbecil, pior que . Além de sair inventando que havíamos transado, ainda falou mal de algo que claramente aconteceu somente em sua mente sórdida. Talvez ele tenha refletido minha postura com ele em sua fantasia e por isso dizia que eu era fria, frígida e tudo o que ele disse.
Geralmente eu agia com frieza com ele, sempre pedia para repetir o que tinha dito por não ter prestado atenção, simplesmente porque não conseguia me interessar por seus assuntos, cortava seus beijos, que em minha opinião eram exageradamente demorados, e não o deixava passar a mão em mim, se ele colocasse sua mão em minha cintura mesmo que por dentro da blusa, o afastava. A única vez em que havíamos dado um amasso foi no sofá de Megan quando nos flagrou. Então a de sua fantasia era fria, como ele disse.
— Sabe o que é incrível? — falei e me dei conta que já estava no refeitório, sentada na mesa de sempre. Mas dessa vez as seis pessoas que se sentavam comigo me olhavam confusas. — A capacidade de um moleque que não sabe o que é um clitóris, jogar toda a culpa de uma transa ruim na garota — falei pensativa e escutei o riso baixo de e .
— Sério isso? — perguntou com uma expressão estranha.
— De quem você está falando? — perguntou com ar de riso.
— Do Matty — dei de ombros.
— Cara, você fez isso de propósito, né? — perguntou no mesmo tom que a namorada.
— Por quê? — perguntei confusa.
— Jade, a garota mais fofoqueira da escola, estava bem atrás de você e ouviu o que você disse — ele explicou e começou a rir.
— Ah, ela nem deve ter ouvido — falei e olhei ao redor tentando ver quem era a tal Jade.
— Ah, ela ouviu. Até arregalou os olhos assim. — disse e arregalou os olhos imitando a garota. — E saiu apressada depois que você falou o nome do Matty — ele ria.
— Juro que não foi de propósito — e realmente não havia sido, simplesmente havia pensado alto e compartilhado com meus amigos.
— Nem se preocupa, , ele merece. — falou ainda com ar de riso e dei de ombros, não estava preocupada com Matty.
— Vou até a sala do senhor Calvin, quero falar com ele antes de ir para a sala — falei procurando minhas coisas.
— Você nem comeu, . — disse e só então olhei a bandeja a minha frente, quase no meio da mesa.
— Não estou com fome — falei e sorri fechado em sua direção. — Até mais, gente — me levantei e fui em direção à porta do refeitório evitando lançar qualquer olhar na mesa de Matty.
Enquanto andava pelos corredores peguei o celular dentro da bolsa e bloqueei Mckibben de todas minhas redes sociais, inclusive seu número para que não pudesse me ligar. Esperei alguns minutos na secretaria até estar de frente com o Deus grego que coordenava aquele colégio, ele sorriu em minha direção me dando um boa tarde educado.
— O que deseja, senhorita Maddox? — perguntou suave e foi impossível não sorrir.
— Então, fiquei sabendo de coisas desagradáveis que foram ditas a meu respeito. Sei que o senhor já está ciente, porque já o comunicou — falei tentando ser o mais breve e objetiva possível.
— Sim, acredito que seja sobre o motivo que levou ele e o senhor Mckibben a brigarem — ele disse e cruzou as mãos em cima da mesa.
— Exatamente, não sei se o comentou o que exatamente o Matty disse, mas gostaria de dizer que me sinto moralmente lesada e emocionalmente prejudicada. Quero saber qual providência o senhor tomou em relação a isso, ou irá tomar — falei e o diretor bonitão passou a mão por seu cabelo.
— Eu adverti o senhor Mckibben, além de ter tido uma conversa séria com ele — concordei com a cabeça.
— Que bom, eu odiaria ter que levar algo assim até meu pai — falei e o diretor sorriu.
— Você pode levar até seu pai se desejar. Seria o correto, acredito que medidas legais possam ser tomadas — ele disse e sorri.
— Ah, vou pensar sobre isso, obrigada — falei, me levantando.
— Se você sofrer algum tipo de bullying recorrente ao boato envolvendo essa história pode voltar a me procurar, ok? — ele disse e concordei com a cabeça.
Saí satisfeita da sala do diretor e confesso que pensei em dizer que estavam me hostilizando para ver se Matty poderia ser expulso, a ideia me era agradável e quem sabe mais para frente isso poderia ser útil, ou até mesmo eu pudesse melhorá-la. Talvez pudesse não só melhorar a ideia, como planejar uma vingança a lá Regina George? Soltei um pequeno riso com esse pensamento enquanto adentrava os corredores que àquela altura já estavam começando a ficar abarrotados de pessoas.

Me perguntei se só eu achava que parecia um modelo, encostado em seu carro com os braços cruzados e óculos escuros, ou se mais alguém naquela escola achava o mesmo. Seriam meus sentimentos por ele que me cegavam daquela maneira ao ponto de achá-lo absurdamente lindo? O mais bonito de todo aquele colégio e até mesmo o cara mais bonito em que já havia colocado meus olhos? Com certeza eram meus sentimentos.
Ele era bonito e gostoso, mas não era para tanto.
Senti minhas bochechas esquentarem enquanto me aproximava e percebia que era a mim que ele esperava. Ele sorriu e mordi meu lábio inferior com receio.
— Você demorou — ele disse se desencostando do carro quando me aproximei.
— Fiquei enrolada com o dever de física — justifiquei.
— Vamos? — ele não esperou uma resposta e deu a volta no carro.
Eu estava ainda mais constrangida do que de manhã, com a sensação de que, depois da noite passada, ele tinha chegado à mesma conclusão que Matty, não que Mckibben tivesse algum material para fazer aquele tipo de análise ridícula.
Tentei durante as últimas aulas me convencer de que não devia sequer mais pensar no assunto e seguir em frente, que não deveria me abalar pelas coisas que Matty dissera. Mas por mais que tentasse seguir essa linha de raciocínio, não conseguia deixar de sentir meu ego ferido, especialmente quando é quem tinha ouvido aquelas coisas sobre mim.
— Você quer conversar sobre isso? — perguntou de repente me tirando de meus pensamentos.
— Sobre isso o quê? — tentei me passar por desentendida.
— Sobre o que Matty falou, eu te disse para não dar ouvidos — ele disse e suspirei.
— Não é algo que eu queira discutir — falei me remexendo no banco.
— Certo, quer ir para a loja comigo? — o olhei em dúvida, qual era a dele afinal?
— E por que eu iria? — perguntei e encarei a janela ao meu lado.
— Para não ficar sozinha e consequentemente pensar um monte de besteiras— ele disse, e eu ri.
— Vou ficar bem, não é o fim do mundo e a deve estar em casa em mais ou menos uma hora — falei consultando o relógio em meu pulso.
— Na verdade, ela vai pra casa do depois do balé — ele disse e me olhou rapidamente.
— Eu posso ficar o resto da tarde sozinha — falei.
— Vai ser pior ficar pensando nisso, você só vai pro trabalho comigo e quem sabe pode falar com o Julian — ele disse e me interessei.
— O dono da loja de roupas? — ele afirmou com a cabeça. — Ok, não vai ter problemas por eu estar lá?
— Não, se tivesse não a levaria — não poderia ser tão ruim ir para a loja com .
Não ficamos tanto tempo dentro do carro quanto achei que ficaríamos, ele parou o carro em um estacionamento de um pequeno prédio e atravessamos a rua em direção à calçada, onde haviam várias lojas pequenas e um café que estava cheio. Me surpreendi quando ele entrou em uma loja de música. Na vitrine havia alguns instrumentos musicais, nas paredes havia prateleiras com CD’s, DVD’s e livros e no centro havia uma bancada com discos de vinil.
— Ainda tem gente que compra CD’s e discos? — perguntei passando os dedos pelos vinis.
— Nem todo mundo gosta de comprar um álbum digital — ele disse enquanto caminhava em direção ao balcão no fundo da loja onde um homem que não devia ter mais que quarenta anos estava.
— Boa tarde — ele disse quando nos aproximamos.
— Boa tarde — respondeu dando a volta no balcão. — Essa é , uma amiga da família — ele disse e o homem sorriu para mim.
— Prazer, — ele sorriu e sorri de volta. — Sou Phil.
— Prazer — respondi meio sem jeito.
, preciso resolver algumas coisas, não vou conseguir voltar, você fecha? — Phil perguntou pegando algumas coisas.
— Sem problemas. — disse se sentando em uma cadeira. — Vem aqui — ele me chamou enquanto se arrastava para frente do computador que havia ali.
— Não esquece de dar entrada nas notas — o homem disse dando a volta no balcão. — Até mais, divirtam-se — ele acenou com a mão enquanto caminhava para a porta.
Sentei-me na cadeira ao lado de em silêncio, não sabia exatamente como deveria me comportar.
— O que você quer ouvir? Britney Spears? — perguntou e riu.
— Alguma coisa contra? — ergui uma sobrancelha.
— Só é bem óbvio — falou sorrindo.
— Nem tudo é o que parece, prefiro ouvir Muse — falei me esticando para conseguir ver a tela.
— Hum, interessante. Você não tem cara de quem curte esse tipo de banda — comentou procurando pela banda na internet.
— Tenho cara de gostar de que tipo de banda? — perguntei curiosa.
— Boybands com caras bonitos — ele deu de ombros.
— Acho a voz do Bellamy bem sexy, na verdade — disse e ele me olhou erguendo uma sobrancelha.
— Não tem nada a ver com a música, então? — ele negou com a cabeça rindo.
— Na verdade tem e, acredite, algumas nunca fizeram tanto sentido como agora.
girou sua cadeira até estar de frente a mim.
— Tem razão — ele disse e os primeiros acordes de Undisclosed Desires começou a tocar. — Aposto a minha vida que você estava falando dessa — sua voz era sedutora e sorri.
— Quem sabe — dei de ombros.
começou a cantar junto com Bellamy e, mesmo suas vozes tendo tonalidades totalmente diferentes, conseguiam soar com a mesma sensualidade. Ele girou a cadeira ficando de costas para o balcão apoiando seus cotovelos ali, sua cabeça estava levemente inclinada para trás e seus olhos parcialmente fechados. Me peguei sorrindo para ele, aquele nem se parecia com o que havia conhecido quando cheguei em sua casa.

Soothing
I'll make you feel pure
Trust me
You can be sure

Ele deslizou um de seus braços pelo balcão descansando a cabeça sobre ele e segurou minha mão a beijando em seguida. Ele se levantou e abandonou a cadeira começando a revirar algumas pastas que estavam pelo balcão.
Ele pegou alguns papeis e voltou a se sentar em frente ao computador, tirei meu celular da bolsa para me distrair enquanto o garoto trabalhava, a música acabou e logo começou outra e depois outra e outra, e ainda estava em frente ao monitor concentrado.
— Terminei — ele disse jogando os papeis pelo balcão.
— Sabe o que percebi? — comentei deixando o celular de lado. — Que não entrou ninguém aqui desde a hora que chegamos — ele riu.
— Tem dias que o movimento é fraco mesmo, e hoje parece ser um deles. Então, o que acha de aproveitarmos que não tem movimento e conversamos um pouco — ele disse me deixando desconfiada.
— Sobre o que quer conversar?
— Você está bem? Quer dizer, você não disse nada e não mostrou nenhuma reação depois que ficou sabendo — ele estava falando sobre Matty.
— Tenho a impressão que vocês esperavam que eu chorasse ou sei lá — falei, mexendo as mãos exageradamente.
— Não esperava isso, mas sei lá — ele deu de ombros.
— Você mesmo disse para eu não dar importância ao que ele disse, não é? É exatamente isso que estou tentando fazer — menti. Só não queria ter que conversar sobre aquele assunto com ninguém, muito menos com .
— Certo, espero que realmente não tenha dado importância — ele disse e revirei os olhos. — Sabe o que estava pensando?
— Tenho até medo de imaginar — falei brincando com meu celular.
— A gente podia ir ao cinema hoje — o olhei com a surpresa estampada no rosto.
— Hã? — fiquei em dúvida sobre o que aquilo realmente queria dizer.
— Ir ao cinema, ver filme, comer pipoca — suas bochechas estavam levemente vermelhas.
— Quem também vai? — perguntei encarando meu iPhone.
— Eu e você — prendi a respiração por alguns segundos.
— Tipo um encontro? — só de pensar naquela possibilidade minhas mãos começaram a tremer.
— Se você quiser que seja um — ele deu de ombros.
— Vou chamar a Mayh — falei me voltando ao meu celular.
— A intenção era que fossemos só nós dois mesmo, — ele disse tentando disfarçar sua agitação.
— Mas você disse que só seria um encontro se eu quisesse — falei e digitei uma mensagem a Mayh.
— E você não quer que seja um encontro — afirmou.
— É tão obvio assim? — perguntei e ele rolou os olhos.
— Ainda assim, se fosse pra ir todo mundo atrás, eu chamava eles — ele disse também mexendo em seu celular.
acabou de me mandar msg dizendo que me mata se eu aceitar seu convite. O que está pegando?”
Li a mensagem de Mayh mais de uma vez para ter certeza que era aquilo mesmo.
— Você já convidou a Mayh? Desviei minha atenção para o garoto que me olhava com as sobrancelhas juntas.
— E você a está obrigando a recusar — retruquei.
— Claro, o convite não se estende a outras pessoas — ele deu um sorriso fofo.
— Então eu não vou — dei de ombros e ele estalou a língua.
— Por que não?
— Porque não quero sair com você — ergui o queixo olhando para a frente.
Ouvi o barulho que as rodinhas da cadeira onde estava sentado faziam no chão e logo o garoto estava próximo a mim, seu braço no encosto da cadeira onde eu estava.
— Como amigos, — ele disse cálido.
— Se realmente fosse só como amigos, não teria problemas chamar outras pessoas — respondi sem me virar em sua direção.
— Você não quer ficar comigo? — ele foi direto.
— Não é óbvio? — o olhei pelo canto do olho.
— Ontem parecia que você queria. Minha pele se arrepiou com sua voz baixa tão próxima.
— Isso foi ontem, hoje é um novo dia — falei e apoiei o queixo em minha mão.
— Não entendo, você gosta de mim, então por que não fica comigo de uma vez? — quis rir de nervoso, parecia muito convicto de que eu gostava dele.
— Você é muito convencido. Nunca disse que gostava de você — minha voz estava um pouco alterada.
— E também nunca disse que não gostava — ele pegou uma mecha do meu cabelo. — Do que tem medo, ? Tem medo que eu te magoe?
— Eu não gosto de você, entenda isso — falei e me virei para ele. — O que rolava aqui, já acabou faz tempo — ele ergueu uma sobrancelha.
— Podemos fazer alguma outra coisa, já que você não quer ir ao cinema — insistiu e rolei os olhos.
— Não vou sair com você assim, . Nem adianta insistir — disse e me levantei da cadeira indo até a prateleira onde ficavam os livros, me arrependendo de ter ido com ele até lá.
Quase não nos falamos até a hora em que tinha que fechar a loja, e ele pareceu enrolar tanto que não consegui conversar com o dono da loja de roupas.
O caminho para casa foi silencioso, não fazia questão de disfarçar sua expressão frustrada, enquanto eu tentava fingir que nada havia acontecido. Quando finalmente estacionamos na frente de casa, ele desligou o motor e ficou parado olhando para a frente, eu achei que ele ainda iria sair e tinha apenas ido me levar.
— Ainda pode mudar de ideia — ele disse quando abri a porta para sair.
— Sobre o quê? — perguntei mesmo já imaginando do que ele falava.
— Sobre o cinema ou sobre ficarmos juntos. — não me olhava e desconfiava que era porque sabia qual seria minha resposta.
— Não vou mudar de ideia — afirmei com convicção. — Nem hoje nem nunca — falei e ele sorriu, voltando a ligar o carro.
— Nunca é tempo demais — disse e engatou a ré.
Soube que era para eu sair e assim o fiz com a pior sensação que poderia sentir. Me senti culpada quando bati a porta e assisti seu carro sair devagar, enquanto eu estava ali parada com uma vontade imensa de estar dentro daquele carro. Isso fazia com que me sentisse idiota, não deveria me sentir culpada por dispensar daquela forma. Ele havia tido inúmeras chances de me chamar para sair e não o fez. Vi seu carro desaparecer pela rua e suspirei.
Talvez eu tivesse perdido a única chance que eu tinha com ele.
Entrei em casa ouvindo Megan e conversando na cozinha e fui até lá enquanto tirava o celular da bolsa.
— Cheguei — falei me encostando no batente da porta.
— Estamos fazendo nachos — disse animada.
— Não sou chegada em nachos — falei acendendo a tela do celular.
— Deus, não sabia. Posso assar uma pizza para você — Megan falou demonstrando preocupação.
— Tudo bem, vou tomar um banho e já desço — falei saindo dali e indo para a escada.
“Preciso muito conversar”
Digitei rapidamente a mensagem e a mandei para Mayh.
Ela não me respondeu, mesmo que eu olhasse o celular de cinco em cinco minutos, devia estar fazendo algo com . Depois do jantar eu, Meg e ficamos na cozinha conversando, já estava perto das dez da noite e ainda não havia aparecido e sua mãe não falou nada a respeito. Com certeza ela deveria saber onde ele estava.
Chequei o celular uma última vez antes de me deitar para tentar dormir e Mayh ainda não havia respondido.
“Está tudo bem?” Sem pensar enviei para .
“Está preocupada?” Sua resposta veio antes mesmo que eu deixasse o celular de lado.
Escrevi um monte de coisas só para apagá-las em seguida, não sabia o que responder. Não podia dizer que achava que ele estava chateado. Comecei a escrever de novo quando a resposta de Mayh chegou e decidi ignorar a pergunta de .
“Amanhã conversamos” Foi somente o que ela disse e fiz o mesmo que havia feito segundos antes com , ignorei. Coloquei o celular no modo avião o depositando em cima da mesinha de cabeceira antes de procurar uma posição confortável para tentar dormir.

Naquela manhã havia mensagens de Mayh e , ela dizendo para matarmos a segunda aula e ele dizendo que eu o havia deixado no vácuo. Ignorei a dele e mandei mensagem a Mayh dizendo que a encontraria nas arquibancadas.
Quando o sinal que finalizava a primeira aula terminou me esgueirei pelos corredores tentando fugir. Estava ansiosa para conversar com minha amiga e contar que havia me chamado para sair, de repente era como eu sentisse necessidade de dividir aquilo com alguém, saber a opinião de outra pessoa. Alguém que estivesse de fora de toda situação.
Até para mim era claro que eu só queria que alguém me dissesse que tudo bem sair com alguém que desde o dia que me conheceu fez de tudo para ser um babaca, alguém que pudesse fazer com que não me sentisse tão trouxa.
— Bom dia. — Mayh abriu um sorriso assim que me viu.
— Bom dia — falei me sentando ao seu lado.
— E então? Como se sente? — sua expressão se tornou preocupada, eu sabia que ela estava se referindo a Matty.
— Não sei direito, estou tentando não pensar sobre o que foi dito sobre mim e evitar que me sinta constrangida — ela acenou com a cabeça.
— Sabe, não sei por que Matty agiu assim, nunca ouvi esse tipo de história vinda dele — ela disse pensativa.
— É, eu fui premiada então. Que merda — falei.
— Não se sinta mal, . Ele é um babaca — falou pesarosa.
— Estou tentando não me sentir, mas quando eu lembro acabo me sentindo, entende? E pra piorar o fica querendo dar uma de terapeuta pro meu lado e fica perguntando como eu estou, se quero conversar — dei de ombros.
— Ele só está preocupado. Ele sabe que esse tipo de coisa pode abalar a autoestima — disse saindo em defesa dele.
— Ele me chamou para sair ontem — comentei e ela não pareceu surpresa.
— E você não quis por quê? — a olhei desconfiada.
— Não é óbvio? Mayh, não é como se tivéssemos sido amigos por todo esse tempo e está na cara que ele só me chamou para sair porque quer ficar comigo — expliquei.
— E o que tem? Você também quer ficar com ele, foi por isso que ficou com Matty e agora está simplesmente o dispensando? — ela ergueu as sobrancelhas.
— Para mim não parece tão simples. Sei lá, parece que a qualquer momento ele vai mudar de ideia e tirar onda com a minha cara por ter ficado com ele.
— O não faria esforço nenhum se não quisesse realmente ficar com você — mordi a bochecha.
— Ele não está fazendo esforço nenhum, parece que eu sempre vou correndo quando ele chama. A gente ficou antes de ontem — comentei com naturalidade.
— Por que só estou sabendo disso agora? — ralhou.
— Nem tivemos tempo de conversar ontem — me justifiquei.
— E como foi? — ela deu um sorrisinho sacana.
— Foi ótimo, como sempre — dei de ombros.
— E por que você não sai com ele e aproveita essa nova atmosfera entre vocês? Você está perdendo tempo, . Está na cara que ele está afim de você e que você gosta dele, do que tem medo? — perguntou cuidadosa.
— Que ele consiga o que quer e volte a agir como um babaca? — retruquei. — Às vezes eu acho que só quer inflar o ego dele. Sabe, ter certeza de que estarei disponível para ele sempre que ele quiser alimentar o ego dele.
— Ele só gostou de ficar com você e quer repetir a dose — ela deu de ombros. — Você está complicando o que não é complicado. Todos nós já fomos trouxa uma vez na vida — ela disse e ergui uma sobrancelha. — Ok, talvez mais de uma vez na vida.
— Eu já fui trouxa milhares de vezes quando o assunto é , aquele Shrek fez da minha vida um inferno — falei e ela riu.
— Eu no seu lugar daria a mão para o Shrek e iria contente para o reino Tão Tão Distante com ele — ela sorriu sonhadora.
— Não vou ficar com ele, Mayh — lamentei. — Eu queria, juro que queria muito, mas não acho que ele queira tanto quanto eu.
— E não vai saber se ele quer tanto quanto você se não der uma chance para ele — ela disse pensativa.
— Chance pra ele me zoar para o resto da vida? Não, obrigada — ela rolou os olhos.
, deixa de ser boba, o não vai zoar você. Quem está atrás é ele, eu o conheço e se ele está insistindo é porque ele quer de verdade — a olhei em dúvida.
— Você me parece bem por dentro da situação — falei sondando.
— Eu o conheço e sei que ele não insiste se não estiver afim e ele esteve em casa ontem, foi choramingar sobre os tocos que você deu nele — ergui uma sobrancelha surpresa. — Eu sei que cedo ou tarde a vontade que você tem de ficar com o vai se tornar insuportável e você vai querer ceder, mas cuidado pra quando isso acontecer não ser tarde demais. Ele vai tentar de todas as formas possíveis, mas se ele achar que realmente não tem chances vai parar de tentar. Ele só vai insistir porque sabe que mesmo que você goste dele, você tem um pé atrás — ela explicou e mordi o lábio inferior pensativa.
— E o que é que eu posso fazer?
— Você pode sair com ele e se mostrar interessada sem precisar ficar com ele. Vocês vão se conhecer melhor, e quem sabe não dá certo e sai até um namoro daí? — ela disse cheia de esperanças e comecei a rir.
— Você fantasia demais, sabia? — falei rindo.
— Estou falando sério. Da próxima vez que ele te convidar pra sair, e eu sei que ele vai, aceita e conheça um que você jamais imaginou que pudesse existir — ela sorriu mais abertamente.
— Ok. Você me convenceu, mas não vou ficar com ele — disse e ela bateu palmas animadas.
E a conversa com ela terminou exatamente do jeito que meu subconsciente queria e, mesmo que a parte mais racional do meu cérebro me dissesse que eu iria me ferrar bonito, eu estava sorrindo e muito animada. Simplesmente não via a hora em que viesse me chamar para sair novamente.



Continua...

Nota da Autora: Cheguei!!!
Ah foi muito difícil escrever esse capitulo. Estava muito indecisa sobre a postura da PP, mas com a ajuda da minha Best beta e bff Mayh saiu. Obrigada a todas que comentaram no capítulo anterior aqui e no grupo do Facebook também, leio todos os comentários com um sorriso no rosto.
Espero que tenham gostado. Beijos e até a próxima.
Ps: Comentem <3
Grupo no Facebook
Ask
Ask da PP

Nota da Beta: Sinto que no próximo capítulos vamos ver como a pp age quando fica muito brava.
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.