Autora: Nathy Abreu | Beta: Ste Pacheco | Capista: Annie B.

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Prólogo

“Coisas ruins duram o tempo certo para que se aprenda com elas e as coisas boas duram o tempo necessário para tornarem-se inesquecíveis.” — Caio Almeida

Londres, Inglaterra, 2014

A garota de cabelos castanhos tinha acabado de despertar, olhava atentamente o teto do seu quarto. Sempre que o olhava pensava estar no Espaço Sideral, cheio de estrelas e planetas. Sorriu levemente sentando-se em sua cama, jogou o edredom para o lado e caminhou até o guarda-roupa vestindo uma blusa de moletom, em cima da sua blusinha, e prendeu o seu cabelo num rabo de cavalo. Foi até o banheiro, na porta ao lado do seu quarto, e fez sua higiene matinal, e então, desceu as escadas da casa silenciosa. Todos ainda estavam dormindo, pelo jeito, abriu a porta de entrada e correu até a caixa de correio. Retirou uma carta para Gemma, algumas contas da residência para Anne e duas cartas de faculdades. Seus olhos se arregalaram. Pensava que o prazo já tinha acabado. Fechou a caixa de correio e correu para dentro de casa, achou a carta com o seu nome impresso e colocou o resto no balcão da cozinha. Caminhou pelo corredor até abrir a porta dos fundos e sentar num sofá que tinha ali, de frente para o jardim, respirou fundo e observou o selo da carta. Suas mãos tremiam.
Olhou para o céu ensolarado e deixou uma única lágrima rolar por seu rosto.
Naquele momento pensou em como sua vida sempre fora uma montanha-russa, desde pequena.
com seus dezoito anos de vida já havia sofrido muito mais do que qualquer pessoa poderia pensar.
A garota de olhos castanhos e sorriso delicado nascera em Liverpool, seus pais eram os melhores do mundo. Marien e John eram os seus heróis. Infelizmente, eles não estavam ali para vê-la sorrir e se encherem de orgulho. Ou, para chorarem com ela. Como sentia falta dos seus pais. E queria mais do que tudo dar-lhes orgulho independentemente de onde eles estivessem. Sua infância não havia sido nada fácil, mas esperava que à partir daquele momento, as coisas mudassem e ela tivesse mais sorte.
Abriu a carta e leu:

“Senhorita , viemos através desta carta para parabenizá-la e avisar que você foi aprovada na Imperial College London para o Curso de Nutrição no ano letivo de 2014. Ficamos muito felizes em recebê-la como aluna da nossa Universidade...”.

sorriu alegremente e suspirou. Sempre acreditou em si, sempre soube que ela era diferente, era corajosa e agora tinha uma grande oportunidade em suas mãos. Limpou as poucas lágrimas dos olhos e correu para dentro de casa. Tinha uma grande notícia para dar as pessoas que estiveram ao seu lado desde muito tempo.

Capítulo 01

O Inicio de uma vida

’s Pov

Liverpool, Inglaterra, 1999

- , por favor, vamos logo... – minha mamãe me chamava do andar debaixo, enquanto eu ainda procurava minha boneca. A minha boneca preferida.
- Mas, mamãe, eu não encontro a minha princesa. – eu a respondi sentando no ultimo degrau da escada, os olhos cheio de lágrimas.
- Vem cá, meu amor, vamos ver se a encontramos aqui na sala. – ela disse me chamando com a mão, eu desci as escadas com cuidado.
Hoje é o dia em que iremos para Londres, pela primeira vez e estamos todos tão animados. É por esse motivo que não posso entrar no carro antes de achar minha princesa, simplesmente não posso, foi o primeiro presente que meus pais me deram e eu sempre durmo abraçada com ela. Mamãe me ajudou a procurar na sala, até que a encontramos caída no chão ao lado do vaso de flores, eu sorri e agradeci minha mãe e fomos até o carro. Papai já estava impaciente no volante, dizendo que não queria dirigir à noite pois era algo muito perigoso. Eles começaram a discutir baixinho e eu por ser pequena, não entendia muito bem o que diziam. Resolvi apenas me deitar melhor na minha cadeirinha no banco de trás, fechando meus olhos e apertando minha princesa em meus braços. Depois de um longo tempo comecei a escutar a voz da minha mãe que cantarolava uma música calma. Minha mamãe sempre cantava para se distrair ou fazer as pazes com papai. Acho que isso que a torna mais linda. Sorri escutando sua doce voz. Ao abrir meus olhos, vi que ela também me olhava e no lado de fora luzes em postes clareavam a estrada que já estava mais escura.
- Mamãe? – eu falei sonolenta.
- Oi meu amor. – ela me respondeu sorrindo.
- Já estamos chegando?
- Ainda não, querida. Mas seu pai disse que daqui pouco tempo iremos parar para comermos. – ela sorriu estendendo sua mão e acariciando a minha. – Você está com fome?
- Sim. – eu sorri, me levantando. – Papai? – eu chamei por ele, que me deu uma leve olhada pelo retrovisor e voltou sua atenção para estrada.
- Sim. O que foi, minha princesinha? – ele me perguntou com sua voz calma e eu fechei os olhos.
- Eu te amo, papai. – eu disse com a minha voz mais doce possível. – Eu te amo, mamãe.
-Querida, eu te amo. Muito. – minha mãe respondeu sorrindo segurando minhas pequenas mãos.
- Minha princesinha, eu te amo. – meu pai respondeu e eu pude ver que ele sorria.
Então foi tudo extremamente rápido, num minuto estávamos sorrindo e no outro minha mãe dava um grito e dizia “não”. Eu fechei meus olhos bem apertados, e tudo ao meu redor girava, sentia uma dor absurda. O carro girava e os gritos aumentavam. Eu estava gritando, chorando e sentindo muito medo. Era completamente diferente dos sonhos que eu tinha e que minha mãe dizia que não era nada. O carro parou de girar e eu senti que estava de ponta cabeça, eu olhei a minha frente e escutei alguns gemidos de dor, minha mãe estava chorando e meu pai estava em silêncio. Conseguia ver sua cabeça inclinada na direção da minha mamãe. Sentia meu rosto molhado e um cheiro metálico, estranho. Era tão assustador. As lágrimas caíam manchadas de vermelho pelo meu rosto.
- Ma-mãe? – eu disse com a voz fraca.
- Fi-lhinha... – ela suspirou. – Você está... Bem? – ela falava tão baixo e pausadamente que eu quase não escutava.
- Mãe, estou com dor. Estou com medo. – eu disse baixo. – Mãe? Pai? – eu falei mais alto, chamando-os.
- Filha, calma. – eu escutei minha mãe novamente, mas dessa vez escutei ao nosso redor vozes e sirenes. – Vie-ram... Ajudar-nos... Queri-da. – ela falava cada vez mais inaudível.
- Eles vão nos salvar, mamãe. Papai, você está bem? – eu lhe perguntei, sem resposta. – Papai? – eu falava mais alto, até que ouvi pessoas falarem alto.
Tudo ficou escuro, meu olhos aos poucos iam se fechando, mesmo eu implorando para que permanecesse abertos, eles se fechavam, ainda pude ver minha mãe sorrir e fechar os olhos. Foi nesse momento que eu cedi, e fechei meus olhos.
Na época, eu não podia imaginar a dimensão de tudo aquilo. Não sabia que aquela seria a última vez que eu teria visto os olhos azuis da minha mãe brilhando. Aquela seria a última vez que teria ouvido a voz dos meus pais, a última vez que eu teria ouvido a voz rouca do meu pai me chamar de “princesinha”.

Capítulo 02

A realidade nada doce de

’s Pov

Londres, Inglaterra, 1999

- Qual é o nome dela? – eu ouvi a voz de uma mulher.
Meu corpo estava todo dolorido, mas aos poucos consegui abrir meus olhos, uma luz forte invadiu meus globos oculares, me fazendo piscar repetidas vezes. Quando me acostumei com a claridade, pude notar que eu estava em um quarto, as suas paredes eram brancas com verde, no canto do quarto uma mesa com alguns papéis e um pequeno vaso de flor, e ao lado da cama uma poltrona, não tinha certeza de onde eu estava. Meu braço direito estava com uma agulha e eu tomava soro, uns aparelhos estavam ligados em mim. Senti as lágrimas se acumularem em meus olhos, foi quando notei que alguém estava ao meu lado. Um homem e uma mulher vestidos de branco estavam em pé ao lado da cama. Eu fechei e abri meus olhos, na intenção de saber se aquilo era real. Era real e eles sorriram.
- Vamos perguntar a ela. – o homem falou e eu não compreendi.
- Qual é o seu nome, querida? – a mulher se dirigiu a mim.
- É... É.... – eu disse gaguejando e extremamente baixo. – . – repeti dessa vez mais alto.
- Olá, . Quantos anos você tem, querida? – a doutora de olhos bonitos e um sorriso doce me perguntou.
- Tenho cinco anos... – eu disse confusa, olhando para os lados.
Onde estava meus pais? Que lugar era aquele?
- Ok. Eu sou a Doutora Melissa Andrews. Mas você pode me chamar de Dra. Mel, tudo bem? – Dra. Melissa disse calmamente, se sentando na beira da cama.
- E eu sou o Dr. Ryan Havilland. – o Dr. Ryan se apresentou se aproximando mais de mim.
A Doutora Melissa ou Mel, como ela disse que eu poderia chamá-la, era alta e tinha os cabelos longos e loiros, os seus olhos eram de um castanho bem claro e sua pele branca, ela tinha um sorriso bonito e parecia ser confiável. O Doutor Ryan era alto e seus cabelos eram pretos, seus olhos de azul como a cor do mar, lembravam-me a cor dos olhos da minha mamãe; Ele era bonito, mas parecia sério demais. Eu não compreendia. Eu ainda estava insegura e com medo.
- Doutora Melissa, onde meus pais estão? – eu disse olhando em seus olhos, seu sorriso se desmanchou e seu olhar procurou pelo do Doutor Ryan.
- ... – ela disse, mas parou se levantando.
- Precisamos fazer alguns exames em você, depois iremos conversar, ok? – Dr. Ryan disse sorrindo.
- Não. Eu não quero. – eu disse cruzando os braços. –Eu quero ver meus pais agora! – eu disse determinada. – E se você não os trouxer aqui, eu irei encontrá-los sozinha. – disse colocando meus pés para fora da cama, mas doutora Melissa me impediu os colocando de volta para a cama e se sentando ao meu lado, dessa vez ela segurou minhas mãos.
- Tudo bem. – ela disse calma. – Seus pais foram viajar, querida. – ela disse me olhando nos olhos e eu balancei a cabeça negativamente.
- Mas nós estávamos indo viajar. Íamos a Londres. – eu disse confusa, olhando minhas mãos.
- , nós estamos em Londres. – ela disse me fazendo a olhar. – Mas, seus pais tiveram que ir para outro lugar, continuar a viagem... E eles pediram para que eu cuidasse de você por um tempo. – ela sorriu.
- Mas... Eles me deixaram? – eu falei sentindo as primeiras lágrimas correrem em meu rosto.
- Não meu amor, eles não te deixaram. Eles... Pediram para que eu cuidasse de você para que você pudesse sarar. Você não está com dor ou machucada? – ela me perguntou, e só então me lembrei que minhas costas e cabeça doíam um pouco.
- Sim. Um pouco aqui. – eu disse colocando as mãos na cabeça. – E aqui. – coloquei a outra mão nas minhas costas.
- Então eu já sei, irei te dar um remédio para essa dor parar. – Dr. Ryan falou.
- Não quero remédio. – eu disse fechando os olhos.
- Se você tomar, eu prometo que nós tomamos chocolate quente. – ele disse se aproximando. – Você quer? – ele passou sua mão em meus cabelos sorrindo.
- Quero! – eu disse sorrindo.

Os dias começaram a passar rapidamente e eu não havia notícias dos meus pais. Os machucados foram sarando, as dores foram sumindo e uma única cicatriz me restou. Acabei descobrindo que a doutora Mel e o doutor Ryan eram namorados e era por isso que estavam sempre juntos. Eles me ajudavam e me acompanhavam em tudo. Tornaram-se meus melhores amigos, eram como os meus segundo pais. E, no momento em que eu pensava nisso, me sentia uma traidora, por que no fundo eu queria os meus pais de volta. Os meus médicos sempre me pediam paciência e que era para eu tomar os remédios, e que só depois disso eu poderia sair do hospital. Mas, sempre quando eu perguntava sobre meus pais, eles mudavam de assunto ou me respondiam com aquelas palavras, que não fazia nenhum sentindo para mim: “eles ainda estão viajando” . Aquilo não acabava com as minhas dúvidas, mas me fazia mudar de assunto e prosseguir.

Três meses depois...

Hoje era o dia da minha alta e os meus pais ainda não haviam voltado de viagem. Eu me perguntava onde eu iria ficar. Doutora Mel e o doutor Ryan me viram de manhã e pediram que eu tomasse meu café da manhã, que logo eles viriam me ver novamente. Minhas coisas estavam arrumadas e colocadas em cima do sofá, minha princesa estava em meu colo e eu segurava um porta retrato com uma foto dos meus pais. Eu sorri, quando a doutora Mel e o doutor Ryan entraram no meu quarto.
- Pronta para ir? – ela me perguntou e observei que ela não usava mais seu jaleco branco, mas sim uma calça branca com botas pretas e uma blusa preta com renda, em seu braço estava um casaco preto.
- Sim, mas... – eu disse parando e respirando fundo. – Para onde eu irei se os meus pais ainda estão viajando?– eu fechei meus olhos apertados.
- Para minha casa. – ela disse se sentando ao meu lado. – Para nossa casa, não é Ryan? – ela disse segurando minha mão e estendendo a sua outra mão para segurar a do doutor Ryan.
- Sim. Você vai ficar um tempo com nós dois lá. – ele disse se abaixando na minha frente, ficando na minha altura.
- Você quer ir? – Doutora Mel me perguntou com um sorriso simples no rosto.
- Eu prometo que vai ser bem legar. – Doutor Ryan acrescentou.
- Sim, eu quero. – eu a respondi me levantando.

Londres, Inglaterra, 2002

Hoje é meu aniversário de 7 anos, Mel e Ryan ainda devem estar dormindo, mas eu já acordei e gostaria de ter forças para levantar. Mas, após esses dois anos me sinto cada dia mais triste. O que é algo muito estranho para uma garotinha tão nova. Os últimos dois anos podem ter sido bons e agradáveis, Mel e Ryan sempre me trataram muito bem, cuidaram de mim e me deram de tudo como se eu fosse... Filha deles. Eu tinha uma babá, Sra. Eleanor, que cuidava de mim quando a Mel ou o Ryan tinham turnos no hospital no mesmo dia. Ela me contava historias e me fazia sorrir. Mas, eu sentia falta dos meus pais e nunca entendia o porquê deles nunca... Chegarem de viagem.
Após seis meses que eu estava aqui na casa deles, foi que eu fiquei sabendo a real história. Eles falaram que eu só tinha cinco anos e não poderia compreender corretamente tudo que acontecia ao meu redor, mas que eles teriam que contar. Os meus pais, eles haviam morrido, naquele acidente. Lembro que chorei muito naquele dia e dormi à noite abraçada a minha princesa e com a Mel ao meu lado segurando a minha mão.
Sentia as lágrimas voltarem aos meus olhos.
Fechei meus olhos apertados e abracei a foto dos meus pais contra meu peito. Depois de um ano do acidente, voltamos a Liverpool e fomos até a minha antiga casa, ela seria fechada com os pertences, mas eu poderia levar tudo que eu quisesse. Eu quis as minhas bonecas, roupas e algumas fotos.
O resto ficou lá. Trancado.
Ouvi a porta se abrir delicadamente e limpei rapidamente meus olhos, a luz foi acesa.
- Bom dia, minha menina. – ouvi a voz tranquila da Mel.
- Bom dia, pequena. – Ryan falou logo em seguida, e ele segurava um pequeno bolo.
– Parabéns pra você, nesta data querida... – eles cantavam o “parabéns” para mim e eu sorri.
- Corte o bolo e faça um desejo. – Mel disse me estendendo uma faca, eu peguei e cortei o bolo sorrindo, fiz o pedido “Coisas boas aconteçam, que eu seja feliz, e, por favor, não me tire a Mel e o Ryan, eles são meus novos pais. Eu amo os meus papais. Mas, eu também amo os meus novos pais e só tenho a eles agora.”
Melissa nos serviu, e comemos juntos o bolo de chocolate em minha pequena cama. Logo depois, eles pediram que eu fosse colocar uma roupa, que iríamos ao parque. Eu adorei a idéia, e rapidamente me levantei indo ao banheiro e tomando meu banho. Quando estava voltando escutando Ryan falando no telefone, ele estava próximo da porta de seu quarto, e falava muito alto andando de um lado para outro, Mel estava sentada na cama com as mãos no rosto, e balançava a cabeça, eu não compreendi, mas achei melhor ir até meu quarto, colocar minha roupa antes que eles brigassem comigo, por estar escutando a conversa atrás da porta. Eu colocava uma pequena faixa rosa em meus cabelos, quando a Mel entrou no meu quarto falando que já íamos, nós fomos ao carro do Ryan, mas antes eles me pediram desculpas e avisaram que íamos ter que passar no Hospital para entregar ou pegar alguma coisa que eu não compreendi, eu concordei. Não me importava de ir até lá, na realidade, era sempre muito legal. Pode soar estranho, mas era. Os médicos, enfermeiros e os estagiários sempre me tratavam muito bem, e eu podia andar por todo o Hospital, que era muito grande. Logo que entramos na recepção, a Dra. Emily sorriu ao nos ver.
- Pequena . – ela disse sorrindo, e me dando um abraço.
- Dra. Emily. – eu sorri, lhe dando um beijo.
Ela sorriu e cumprimentou aos meus pais, Mel começou a falar e enquanto falava Dra. Emily ficou séria e me olhou, ela pediu para que uma das enfermeiras me levasse à sala das crianças. A sala estava toda decorada com balões e havia dois palhaços fazendo brincadeiras, as crianças ali, todas estavam doentes, eu fiquei sentada num canto, vendo as brincadeiras, a enfermeira me trouxe um balão em forma de coração e um pirulito.
- Seu nome é não é? – ela me perguntou, sentando-se ao meu lado.
- Isso. – eu disse abrindo a embalagem do meu pirulito. – E o seu?
- Johannah . – ela sorriu. – A Dra. Melissa e o Dr. Ryan falam muito sobre você. Você foi um presente na vida deles, sabia? – ela falou para mim, e eu a olhei.
- Acho que sim... Eles foram um presente... Para mim, também. – eu sorri de lado.
- Querida, entenda: independente do que aconteça, eles te amam e são muito felizes por ter você na vida deles. – ela dizia séria, como se algo fosse acontecer, mas antes que eu pudesse perguntar o que isso tudo significava, eu vi minha mãe Melissa encostada na porta me olhando, ela sorria, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas, eu me levantei e corri ao seu encontro, ela se abaixou ficando na minha altura, e eu lhe dei um abraço.
- Mel, não chora. – eu disse passando meus dedos em seus olhos. – Eu te amo, mamãe. – eu disse sincera, e ela sorriu abertamente surpresa, por tê-la chamado de mamãe, aquela era a primeira vez que falara assim com ela.
- Eu também te amo, filhinha. – ela disse, deixando que algumas lágrimas rolassem pelo seu rosto. – Você sabe que eu sempre estarei com você, não sabe?
- Uhum. – eu disse concordando, e dei outro abraço nela, um pouco mais longe eu vi Ryan sorrir e dar tchau a outro médico.
Ao sairmos do Hospital, fomos ao parque e brincamos muito. Mel ia comigo em quase todos os brinquedos e Ryan me ajudava a subir no escorregador. Enquanto, eu estava no balanço e meus pais estavam sentados num banco ali perto, vi o meu vizinho se aproximar. Ele tinha a minha idade, os cabelos eram castanhos escuros e os olhos . Ele morava na casa ao lado, mas eu nunca havia perguntado seu nome ou até mesmo falado com ele, o que era bem engraçado já que brincávamos juntos quase sempre aqui no parque. Ele sentou-se ao meu lado e ficou se balançando, um sorriso tímido em seu rosto, as bochechas coradas por causa do cansaço de brincar. Vi que sua mãe conversava sorridente com Mel e Ryan e foi nessa hora que nós nos olhamos, foi por pouco tempo, eu sorri e ele retribuiu, voltando a se empurrar com cada vez mais força. Eu ri dele e ele me acompanhou. Não falamos nada, mas sabíamos que tínhamos um ao outro naquele momento.
Passou um tempo até que nossos pais se aproximaram. Mel e Ryan acenaram para a mãe do garoto, e logo voltamos a andar por todo o parque, até que ficamos cansados e resolvemos sentar na grama, compramos sorvetes e ficamos ali juntos, olhando as outras crianças brincarem. Eles estavam sérios, mas logo que me olhavam, sorriam. Ao chegar em casa, eu subi para tomar banho, enquanto isso Mel estava na cozinha fazendo o nosso jantar, e Ryan estava na sala. Eu tirava a faixa dos meus cabelos, em frente a um espelho quando senti algo atrás de mim, era uma sensação muito ruim, eu olhei para trás, mas não havia nada. Tomei meu banho tranquilamente, mas aquela sensação de algo ou alguém estar me observando estava me deixando atordoada, fui até meu quarto e coloquei meu pijama, desci até a sala de jantar, onde comemos em silêncio. Falei que iria dormir, e voltei ao meu quarto. Aquela noite eu não dormi. Porque aquela sensação estranha ainda estava ao meu redor, pode ser que fosse um aviso que depois daquela noite tudo iria mudar ou talvez por que estivesse sem sono.

- Bom dia, mamãe, papai. – eu disse ao entrar na cozinha, e eles me olharam encantados.
Em dois anos morando ali, eu nunca havia me referido a eles como mamãe ou papai, mas nas últimas semanas eu percebi que eles agora eram meus pais, e era assim que eu deveria falar com eles. Eles mereciam e me tratavam como filha. Eu deveria encarar a minha realidade, de que eu havia perdidos os meus pais verdadeiros.
- Bom dia, filha. – os dois me responderam sorrindo.
Enquanto eu me servia com bolo, Mel, ou melhor,minha mãecolocava leite em minha caneca, Ryan lia o jornal do dia. Estávamos cada um no seu mundo, quando a campainha tocou, Mel se levantou e foi atender, ela fala baixo geralmente, mas ao se passar um minuto, ela falava alto, Ryan se levantou rapidamente indo até a porta de entrada, eu fui atrás deles, e me sentei no primeiro degrau da escada, em frente à porta. Um homem de terno preto falava gentilmente com meus pais e segurava um papel. Mel falava para que ele fosse embora, e Ryan olhava para o papel e balançava a cabeça negativamente.
- Eu... – Mel se afastou da porta, e eu me encolhi abraçando meus joelhos, ao ver que ela chorava. – Eu não vou perdê-la. – ela disse firme e agora estava a poucos metros de mim. – Ela é minha. Ela é nossa. Pode não ser de sangue, mas é com nós que ela ficou esses dois anos. – ela se sentou ao meu lado, me abraçando.
- E é com nós que ela deve ficar. – Ryan finalizou segurando fortemente a porta.
- Isso é o que veremos no juiz. Senhor, aqui estava à convocação, dia 15 desse mês às 13hs, vocês iram conversar com ele. Ele é quem irá decidir o futuro dessa garota, e de... Vocês. – o homem falou tudo com sarcasmo.
Eu o vi entregar o papel, ao meu pai que fechou a porta agressivamente. Dia 15 seria dali dois dias, e eu me perguntava o que aquilo tudo significava. Eles estavam querendo me tirar dos meus pais? Ao sentir Ryan se abaixar a minha frente e segurar a minha mão e a mão da Mel, notei que ambos choravam. Ela soluçava, e me abraçava de lado, enquanto que ele tentava conter a lágrimas, nesse momento eu entendi tudo. Eles queriam me levar para longe dos meus pais. Para sempre. Eu comecei a chorar, escondendo meu rosto ao abraçar Mel, Ryan nos abraçou e falou baixinho “tudo vai ficar bem, somos uma família. Agora”, eu suspirei absorvendo as palavras, e realmente queria acreditar que tudo ia ficar bem, mas como nesses poucos anos pude ver, nem tudo dá certo, principalmente em minha vida. Perdi meus pais verdadeiros, e novamente, a qualquer momento, posso perder os meus novos pais. A dor no meu coração era tão grande, que sentia que não poderia respirar ou que eu iria morrer. Estava enganada, eu ficaria bem viva para ver tudo acontecer. Tudo dar errado Eu me afastei aos poucos da Mel, quebrando o nosso abraço, ela me olhou com os olhos avermelhados e assustados, Ryan se levantou nos olhando, eu limpei uma lágrima do rosto dela e me levantei correndo até meu quarto, ao chegar no topo pude ver ela se levantar e me chamar, mas eu não queria ouvi-los, não queria ficar perto de ninguém.
Tranquei a porta do meu quarto. Isso era injusto. Eu só sou uma criança, eu mereço ter uma família, ser feliz, crescer saudável e sorrindo. Não deveria ficar chorando, sendo infeliz e sempre perder todos que eu amo. Porque isso estava acontecendo... Comigo? Eu me deitei, abraçando meu ursinho e chorando de soluçar.
Uma, duas, três batidas na porta.
Continuei deitada, com meu rosto escondido pelo travesseiro, meus braços ao redor de um ursinho bege, meu corpo encolhido tremendo, foi assim que passei aquela noite.
Ao acordar no outro dia, eu vi pela janela do meu quarto quando Ryan entrou no seu carro e saiu pelas ruas, Mel estava entrando novamente em casa, eu fui até meu banheiro e lavei meu rosto, fiz minha higiene e desci as escadas, indo até a cozinha. Mel estava sentada numa cadeira do balcão de costas para a porta, ela lia o jornal, e distraidamente tomava seu chá. Eu me sentei ao seu lado, e ela me olhou com um leve sorriso, eu retribuí.
- Bom dia... Querida. – ela disse dando uma pausa e me analisando.
- Bom dia. – eu disse olhando para minhas mãos. – Mamãe, você poderia fazer os meus cereais? – eu disse com uma voz doce, e ela se levantou.
Ela foi até o armário e pegou minha caneca, onde colocou um pouco de leite e dentro acrescentou os cereais, foi até a geladeira e pegou alguns morangos e cortou, colocando em cima do cereal e jogou um pouco de açúcar. Ela me estendeu a caneca e eu a coloquei na minha frente, pegando uma colher e colocando um pouco dos meus cereais com morango na boca. Ela pegou algumas laranjas e fez um suco, enchendo dois copos em silêncio. Voltou a se sentar ao meu lado, e bebericou um pouco do seu suco.
- Obrigada. – eu sorri agradecendo.
- Não foi nada, . – ela disse. – Você... Quer conversar... Sobre ontem? – ela me perguntou pausadamente, como que se buscasse coragem para tocar nesse assunto.
- Não. – eu disse séria. – Sim. – eu mudei de idéia balançando a cabeça. – Eles não vão tirar vocês de mim. – eu me virei para ela balançando minhas pernas e cruzando os braços. – Vocês são meus pais.
- Oh, querida, somos seus pais e você é nossa filha. – ela disse se levantando e me abraçando. – E amanhã o juiz vai perceber que o correto é nos deixar juntos.
- Onde o papai foi? – eu disse quando ela se sentou.
- Teve que ir ao hospital. – ela disse voltando a beber o suco. – Quer assistir desenho?
Eu concordei, e fui para a sala, onde me sentei no sofá e fiquei assistindo Tom e Jerry. Mel havia ficado na cozinha limpando as coisas, e preparando o nosso almoço. Lá fora o sol brilhava sendo brevemente escondido pelas nuvens, alguns carros passavam do lado de fora. O desenho acabou, e eu me levantei levando meu copo de suco até a cozinha, eu me sentei na cadeira e encostei minha cabeça na bancada vendo Mel cortar alguns legumes frescos, ela cantarolava alguma música, o que me fez lembrar mais de minha mamãe. Fechei meus olhos, mas logo me arrependi, a imagem que veio foi da última vez que vi os olhos de minha mãe brilhar, ela estava sangrando e sorria para mim, abri meus olhos e levantei minha cabeça assustadas. Mel notou e veio ao meu lado.
- O que houve? Você está bem? – ela disse segurando minha mão.
- Sim. – eu disse olhando para frente. – Eu posso ir brincar lá fora? – eu a perguntei, mudando de assunto.
- Claro, só tome cuidado. – ela disse me analisando e eu me levantei correndo para a porta de entrada.
Ao sair na rua, vi perto da árvore o meu balanço. Ryan havia colocado ali alguns meses atrás, mas incrivelmente eu havia brincado poucas vezes ali, geralmente eu preferia ficar trancada em meu quarto brincando com meus ursinhos, eu não gostava de ver pessoas. Mel aos poucos me trazia aqui para fora, falando que era bom brincar ao ar livre e realmente era. Eu sempre brincava de balanço com meu vizinho ou com a bola verde dele.
Aos poucos eu me empurrava e pegava impulso, já sentia o vento bagunçar meus cabelos, eu fechei meus olhos sentindo o vento frio passar pelo meu rosto e ao mesmo tempo sentia o sol aquecer os meus braços. Eu resolvi me sentar na grama, quando o balanço parou. Observava a rua, os carros passando e as pessoas caminhando calmamente. Quando senti uma bola tocar minhas pernas, eu olhei ao meu lado, e vi o meu vizinho aproximar-se de onde eu estava, a sua mãe estava um pouco mais distante nos observando com um sorriso de lado.
- Me desculpe. – ele disse envergonhado, era a primeira vez que ele falava diretamente para mim, eu sorri.
- Tudo bem. Toma! – eu disse pegando a bola ao meu lado e lhe entregando.
- Obrigada. – ele disse pegando das minhas mãos. – Eu nunca te disse o meu nome, não é? Eu sou o e você, como se chama? – ele disse sorrindo e balançando a cabeça.
- Isso é verdade. – eu ri. – Eu me chamo . – eu sorri levemente.
- Eu tinha vergonha de falar com você. – ele coçou a cabeça e eu gargalhei.
- Mas, a gente sempre brinca junto. – ele riu junto comigo. – Mas, agora eu sei o seu nome e podemos ser amigos, não é?
- Podemos! – ele sorriu. – Você quer brincar comigo? – ele apontou para a bola que segurava e eu já estava pronta para responder quando ouvimos a voz da mãe dele chamá-lo:
- , vamos entrar, o almoço está pronto.
- Ah, pelo jeito, não vamos poder brincar agora. – ele me olhou triste.
- Não tem problema. Podemos brincar depois, ok? Tchau, . – eu disse sorrindo e acenei.
- Okay. Tchau, . – ele acenou correndo em direção à sua casa.
Antes que eu abrisse a porta, ouvi o carro de Ryan parar em frente a nossa casa, ele desceu e veio até onde eu estava me dando um beijo na testa e entrando comigo. Mel estava na cozinha tirando a lasanha que ela havia feito, e eu pedi para ajudá-la a arrumar a mesa, ela pegou os talheres e eu peguei os pratos, enquanto estendia a toalha na mesa, e colocava tudo no seu lugar, ela trouxe a lasanha e eu trouxe a salada de legumes e coloquei no centro da mesa, Ryan apareceu com os cabelos molhados e de camiseta e calça jeans na cozinha, nós nos sentamos, Mel fez o meu prato.
- Como estava o hospital? – Mel perguntou depois de um tempo.
- Está tudo bem, hoje o dia estava calmo. – ele disse sorrindo. – Querida, é amanhã. – ele disse ficando sério novamente.
- Por favor... – eu o interrompi. – Não vamos falar disso hoje. – eu disse sentindo meus olhos encherem de lágrimas. – Vamos assistir algum filme? – eu disse sorrindo.
- Você tem razão. – ele disse orgulhoso. – Vamos. Qual você quer? – ele disse me olhando tranquilamente.
- Pode ser... – eu disse parando e tentando lembrar algum que fosse legal o bastante para esquecermos os problemas que nos afligia. –Procurando Nemo. – eu disse empolgada, e eles riram.
Após terminarmos o nosso almoço, limpamos a cozinha e fomos para a sala, onde ficamos brincando de montar quebra-cabeças, de banco mobiliário e montar a sua própria pizza, jogamos vídeo-game e quando lá fora já estava escurecendo, colocamos o filme. Mel foi até a cozinha e fez pipoca, logo estávamos sentados no chão da sala ao redor de travesseiros e cobertores tomando refrigerante e comendo pipoca. O filme era bem divertido, e várias vezes nos fez sorrir, quando terminou subimos para nossos quartos, lá fora uma chuva fraca começava. Mel e Ryan me colocaram na cama e me contaram uma história.
- Nós te amamos. –Mel falou me dando um beijo na testa.
- Não se esqueça disso jamais, tudo bem? – Ryan concluiu, segurando minha mão. – Não importa o que aconteça amanhã, sempre se lembre disso aqui. – ele disse segurando a mão da Mel, e levantando nossas mãos unidas.
- Eu amo vocês. – eu me levantei dando um beijo na Mel e no Ryan, logo fiquei sozinha em meu quarto, e finalmente dormi, cedendo ao cansaço.

Capítulo 03

A Decisão de um futuro

Eu havia passado a noite toda me revirando em minha cama, sentia meu corpo tremer e não conseguia parar de ouvir os gritos da minha mãe naquela noite do acidente. O quanto que ela havia gritado naquele dia.
As cenas repassavam em minha mente rapidamente, chegando até dois dias atrás, quando eu vi Mel chorando e gritando que não iria me perder. Parecia que eram cenas diferentes, mas no fundo, eram iguais. Nenhuma das duas queria me perder e eu esperava que dessa vez eu não perdesse Mel e Ryan.
Abri meus olhos e me sentei na cama olhando toda a extensão do meu quarto. Caminhei até a janela do meu quarto e vi em frente à janela do quarto da casa do meu vizinho. A luz estava acesa e ele estava sentado em sua cama mexendo com um carinho de brinquedo, ele ergueu a sua cabeça e me viu. aproximou-se da janela e a abriu, o vento gelado bagunçou os seus cabelos e ele sorriu acenando para mim. Eu sorri e acenei, antes de ir até o meu guarda roupa e pegar um vestido rosa. Tomei um banho e o coloquei. Sentei-me na cadeira em frente um espelho e penteei meu cabelo, colocando uma faixa da mesma cor do meu vestido, em meus pés coloquei uma sandália branca, ouvi a porta se abrir. Mel estava me olhando sorrindo, sua expressão de surpresa.
- Filha, você já está pronta? – ela disse se aproximando. – Está linda. – ela disse se sentado ao meu lado.
- Obrigada. A mamãe também está linda. – eu disse lhe dando um abraço.
Senti uma lágrima tocar meu ombro e a olhei, mas ela já havia limpado essa pequena lágrima e se levantou, me fazendo ir junto com ela. Descemos as escadas, notei que meu casaco estava nas mãos do Ryan, ele me estendeu e eu o coloquei. Meu coração doía, e eu sentia que eu iria perdê-los, lá fora o tempo condizia o que eu sentia, a chuva estava forte, o céu era escuro e algumas vezes eram possíveis ver raios clarearem o céu, hoje era um daqueles dias que não parece ser de manhã e sim à noite, por conta da chuva e da cor que estava o céu. Fomos até o carro do Ryan que estava parado na rua, Mel segurava minha mão e nos protegia com um guarda-chuva preto que era bem grande, eu me sentei no banco de trás e ela se sentou na frente, no banco do passageiro, eu olhei a nossa casa e ao lado pude notar olhando a chuva cair do lado de fora, ele me olhou e deu um leve sorriso, eu sorri e acenei.
Virando-me para frente, Ryan se sentou no banco do motorista e acelerou o carro. Dali poucos minutos seria decidido o nosso futuro.
O carro andava lentamente, e eu olhava para o lado de fora, observando as gotas que corriam pela janela, todos nós estávamos em silêncio, cada um se preparando e controlando suas emoções de uma forma, sentia meus olhos encherem de lágrimas e minhas mãos suarem, meu coração estava disparado e eu tentava respirar normalmente. Ao adentrarmos o fórum, Mel se sentou ao meu lado num dos sofás que havia em frente à mesa da secretaria e Ryan foi até onde ela atendia, mostrando-lhe o papel. Ele nos chamou, e fomos andando até um elevador, entramos ali e a moça apertou o botão que indicava 15° andar. O elevador parou, quando o painel indicou que estávamos no andar selecionado, a porta se abriu e vimos dois homens conversando despreocupadamente em frente a uma porta de vidro, nós abrimos essa porta de vidro, e o homem que havia ido até a nossa casa estava encostado numa mesa, e acenou, nós nos aproximamos e ele nos indicou uma sala. A sala do juiz.
Ao entramos eu vi uma homem sentado numa cadeira alta, e o homem foi até uma mesa que estava posta em frente ao juiz, ele se sentou. Meus pais foram em direção a mesa ao lado, Mel pediu que eu sentasse nos bancos que estavam atrás essa mesa, eu me sentei. Eles todos se apresentaram, o Juiz se chamava Robert Smith e o homem que havia ido até minha casa se chamava William Joseph, e foi ele quem começou a falar, muita das coisas que ele falou eu não compreendia, o juiz apenas assentia e Mel balançava a cabeça, muitas vezes colocando as mãos nos cabelos compulsivamente.
- Eles não têm tempo para a menina... – ele disse se levantando. – Ela vive sozinha. Eles vivem em turnos no hospital. E ela merece pais de verdade. – ele continuava falando andando até a cadeira do juiz. – Como não sabemos que eles não querem o dinheiro da família dela? – ele disse apontando para meus pais. – Eles eram os médicos dela, e de repente se tornam os pais? Isso é suspeito. – ele disse se voltando ao juiz que o analisava. – Ela tem que se desligar deles, ela precisa... – ele disse, mas foi interrompido por Ryan.
- Senhor Juiz posso ter a palavra? – ele disse levantando a mão.
- Concedido. – o juiz disse apertando as mãos.
- O Sr. William Joseph está nos acusando de algo absurdo, quando chegou ao nosso hospital em Londres, ela estava inconsciente e sem prováveis chances de recuperação, havia acabado de perder os pais num acidente de carro em Liverpool, e ela estava com 5 anos. Minha esposa, Melissa se apegou a garota, e quando vimos que ela poderia ir morar num orfanato, conseguimos a guarda provisória. Se quiséssemos algum dinheiro, teríamos tido esses dois anos para mexer... – ele disse confiante.
- Não imaginávamos que essa guarda poderia ser perdida. – Mel disse segurando o choro.
- Ela pode. – o Juiz confirmou. – E iremos resolver se será ou não hoje. – ele disse firme.
- Eles não merecem ficar com ela, são jovens e podem facilmente desistir de ficar com ela. Eles não têm tempo para ela, e eu volto a afirmar isso, por que a garota não vai nem a escola ainda, muitas vezes fica no hospital sozinha, enquanto eles estão em algum turno. Isso não é a vida que uma criança precisa ter... – o homem, William, continuou a falar.
- Sra. Melissa Andrews Havilland e Sr. Ryan Havilland querem falar alguma coisa? – o Juiz falou.
- Não queremos perdê-la. Ela não iniciou a escola ainda, pois resolvemos que ela iria iniciar no próximo ano, e sobre ela ficar no hospital, são poucas vezes quando precisamos resolver algo urgente lá, fora isso, ela fica em casa com sua babá. Senhor Juiz, não a tirem de nós. – Mel disse em pé, implorando.
- Eu gostaria que todos se retirassem, enquanto uma decisão é tomada. – ele disse se levantando, indicando a porta.
Voltamos à sala de espera, onde eu me sentei, Mel e Ryan se sentaram ao meu lado, e seguraram minha mão apertada, na nossa frente havia uma janela de vidro que estava fechada, era possível ver a cidade movimentada e a chuva que continuava a cair. Sem pausas, e ainda era forte, como de manhã. Eu sentia que aquilo era um aviso.
Eu ia perdê-los.
Eu me levantei, ficando de frente deles e abri meus braços, eles compreenderam e me deram um abraço cada um, logo após nos três ficamos abraçados. Ryan me deu um leve beijo no topo da minha cabeça, e Mel me deu um beijo em minha bochecha, a porta se abriu e uma moça pediu para que nos entrássemos na sala do juiz novamente. Caminhamos de mãos dadas até pararmos juntos em frente à cadeira do juiz, ao lado de Ryan parou William com as mãos nos bolsos.
- Senhores, senhoras, a decisão foi tomada. – ele disse se levantando. – Em base a tudo que foi dito, podemos notar que um laço foi firmado aqui, e existe muito amor entre vocês, porém, ao conversar com os meus assessores, tomamos a melhor decisão. – ele parou respirando, e eu senti meus olhos se encherem de lágrimas, apertei as mãos dos meus pais, que me olharam. – A guarda da garota, , foi negada. Ela será levada ao Orfanato St. James King, onde poderá encontrar novos pais, que poderão dar-lhe a atenção devida. – ele disse batendo seu “martelo” dando fim ao julgamento. – Eu sinto muito. Ela será levada até o fim do dia, vocês poderão acompanhá-la. – não conseguia mais segurar, e senti as lágrimas descontroladamente correrem por meu rosto, soltei suas mãos caindo sentada no chão.
- Não! Não! Eu não irei... – eu gritava, batendo as mãos no chão. – Eu quero os meus pais... Não! – eu continuava gritando, Mel se ajoelhou ao meu lado, me apertando ao redor dos seus braços.
- Querida, calma. – ela dizia chorando, mas tentando me acalmar. – Eu estou aqui, Estamos aqui. – ela levantou meu rosto, me fazendo a encarar. – Nós te amamos. Você precisa ir, ... Mas nós não iremos desistir tão fácil assim. Não iremos... – ela disse me abraçando, senti outros braços ao nosso redor, Ryan.
- Não se esqueça, nós somos uma família. Ainda ficaremos juntos, um dia... – ele disse limpando suas lágrimas, eu dei um sorriso sem jeito.
Ao me levantar, vi o homem chamado William falar com o Juiz sorridente, e eu não compreendia por que ele fazia isso. Andamos até a porta, Ryan foi até a mesa da secretaria que o avisou que minhas coisas deveriam estar prontas até as 19h30min, que eu teria que entrar no orfanato às 21h. Ele concordou, entramos no carro dele, Mel dessa vez foi atrás comigo.
- Mamãe, que horas são? – eu disse encostada em seu ombro.
- É 16hs, querida. – ela disse me apertando.
- Será que podemos almoçar juntos... Antes de vocês me levarem.
- Claro. – ela disse.
Ao adentrarmos a casa, Mel pediu que Ryan pedisse pizzas, chocolates e sorvete, enquanto isso, subimos até o andar de cima, ela encheu sua banheira, colocando espuma e sais, ela falou que eu poderia tomar banho ali, e eu assim o fiz, era divertido e relaxante. Ela foi até meu quarto e separou minha roupa, após poucos minutos eu me enrolei numa toalha e entrei em seu quarto. Ela havia separado uma calça jeans preta, com uma regata branca e o meu moletom preferido, ele era verde musgo com várias coisas escritas em diversas letras, eu me troquei e coloquei meu All Star branco, Mel se sentou na cama e começou a pentear meu cabelo, o prendeu num rabo de cavalo, e descemos juntas até a cozinha. As pizzas já estavam na mesa, nós comemos em silêncio e tomamos sorvete na sala. Quando olhamos no relógio, marcava 20h45min, Ryan subiu até o andar de cima e logo estava na sala com minhas malas, eu me levantei e andei por todos os cômodos, respirando profundamente, quando saí, caminhei até o carro, onde me encostei olhando pela última vez aquela casa em que eu vivi momentos tão felizes, Ryan colocou minhas coisas no porta-malas.
estava sentado na varanda com sua mãe e eles nos olharam confusos, ele me deu um leve sorriso, mas eu abaixei a cabeça sentindo uma lágrima correr pelo meu rosto, eu a limpei com as costas da minha mão, no fundo eu sentia que não seria a última vez que eu o veria ou que eu pisaria aqui, mas eu tinha medo de que isso fosse simplesmente o desejo do meu coração e não a realidade. Entramos no carro, e eu encostei minha cabeça no banco fechando meus olhos, Mel segurava minha mão.
Até que ela me chacoalhou, e eu abri meus olhos. Havíamos chegado ao Orfanato St. James King. Era grande, uma escadaria em frente e as portas com desenhos medievais o tornava sombrio, Ryan abriu minha porta, e eu saí, a porta principal se abriu e de lá uma senhora saiu juntamente com William, eles nos olharam, e começaram a descer os degraus. As janelas estavam levemente abertas, e era possível ver as cortinas creme balançarem por causa do vento, atrás da casa pude ver um jardim. A senhora parou na nossa frente.
- Olá, . – ela disse estendendo a mão, e eu abracei Mel. – Tudo bem, querida, logo iremos nos conhecer... Eu sou a Sra. Christine Grey, dona do orfanato. – ela disse firme.
- Oi, somos Melissa Havilland e Ryan Havilland. – Mel se apresentou. – Essa é a pequena ... . – ela me soltou a fazendo encarar Christine.
- Querida, você precisa entrar. – Mel se abaixou ficando na minha altura. – Logo vamos vir visitá-la, se comporte e não faça nada de errado. Nós te amamos. – ela beijou minha testa e me deu um abraço.
- Ei, não chore, princesa. – Ryan se abaixou na minha frente. – Nós vamos visitá-la, e iremos reivindicar a sua guarda, iremos conseguir. Nós somos e sempre seremos os seus pais, mesmo que adotivos. – ele disse me abraçando. – Nós te amamos, não se esqueça disso. – ele se afastou me dando um beijo.
- Eu amo vocês, e não irei me esquecer. – eu disse me afastando. – Eu irei me comportar, mamãe e papai, eu prometo. – eu peguei uma das malas, e Christine segurou minha mão e segurou a outra mala, pude ver que William entrava em seu carro, e Mel era abraçada de lado por Ryan que acenaram para mim, enquanto eu subia os degraus do orfanato.
Em cima da porta uma placa estava colocada, e letras antigas escreviam St. James King, a aparência era de velho. Muito velho. Mas ao adentrar por aquelas portas, eu tive a certeza de três coisas. Primeiro: desejos feitos em aniversários não se realizam, eu era a prova viva disso. Segundo: tudo iria mudar a partir desse dia. Terceiro: aquele era o pior lugar que uma criança poderia querer ou precisaria estar.
A primeira coisa que eu vi foi uma grande escadaria que dava ao segundo andar, próxima dela estava uma mulher com um vestido branco e preto, seus cabelos estavam presos em um coque, e ela segurava alguns papéis. A Sra. Christine soltou minha mão e eu pude olhar ao redor, ali na recepção havia dois pequenos sofás pretos que pareciam bem desgastados, em frente uma mesa com algumas pastas que eram iluminadas por uma luz fraca que saía de uma pequena luminária, ao lado havia um grande corredor que estava completamente vazio. No lado contrário, outro corredor vazio, mas que no fim podia ver uma luz. Era a cozinha. Notei que a Sra. Christine já estava no segundo degrau juntamente com a moça que eu havia visto perto das escadas, eu as segui, subindo os degraus em silêncio. A escada dividia um grande corredor, e elas seguiram para o lado direito, continuei indo atrás delas. Até que paramos na 2° porta do lado direito, a moça que não havia se direcionado ainda a mim, falou.
- , este será seu quarto. – sua voz era calma, mas mostrava cansaço, ela abriu a porta.
- Obrigada. – eu disse por educação, e dei um passo a frente, tentando ver o quarto, ele era todo branco, ou deveria ser, já que as paredes estavam desgastadas, a janela estava fechada e dava a impressão de ser cercada por grades, as janelas eram de um tom bege, e havia pelo que eu vi 6 camas ali, 3 em cada lado, e haviam 5 garotas com olhares atentos em cima de mim, eu entrei sendo seguida por elas.
- Esqueci de me apresentar, eu sou a Sra. Mary Henry, sou coordenadora do orfanato. Seja bem-vinda ao St. James King. Fique a vontade. – ela disse colocando minhas malas na cama do canto, ao lado da janela, e voltando até a porta. – Boa noite, garotas.
- Só alguns avisos, querida . O lado direito é das meninas, o lado esquerdo é dos meninos, não pode ir até lá, principalmente à noite. Todos dormem às 21h30 e acordam às 8h00. Você deve fazer sua higiene no banheiro ao lado, sempre esperando a sua vez. O café da manhã é servido às 9hs, o almoço 12hs e o jantar às 19h30, esteja no refeitório no horário correto. Algumas vezes vocês podem ir até o jardim, mas não são todos os dias. O resto das regras é explicado ao decorrer dos dias. Tenha uma ótima noite, e lembre-se aqui é a sua casa a partir de agora. – Sra. Christine despejou tudo em cima de mim, logo após fechando a porta, sem em dar o direito de questioná-la sobre nada.
Eu me virei para as garotas que estavam sentadas em suas camas, seus olhares estavam atentos em mim, e quase não piscava, eu comecei a andar até minha cama, ao lado dela havia uma pequena cabeceira, da minha mala tirei um porta-retratos, e coloquei em cima. Na foto estava eu, meu pai e minha mãe sorrindo em frente a nossa casa em Liverpool, era no dia do meu aniversário de 5 anos, a última foto que havíamos tirado antes do... Acidente. Ao tirar outro porta-retratos, não pude não sorrir, nessa foto estava eu, Mel e Ryan no Parque Street Green, sorriamos. Coloquei os dois retratos um do lado do outro, ao abrir a gaveta coloquei algumas peças de roupas, notando que não havia mais espaço, me sentei na cama, encostando meu corpo na cabeceira, fechei meus olhos e abracei minhas pernas, respirando devagar. Senti a cama se mexer, alguém estava se sentando ali. Eu abri meus olhos, e uma garota de cabelos loiros me encarava com seus brilhantes olhos azuis, ela provavelmente tinha a mesma idade do que eu, e estava sentada quase ao meu lado, mas ainda mantinha certa distância, em pé duas garotas morenas me encarava, como se esperasse uma reação minha para saber se era seguro se sentar.
- Olá. – a garota loira sussurrou. – Eu sou a Brooke. – ela sorriu.
- Oi, Brooke. – eu parei encarando minhas mãos. – Eu sou a . – eu falei voltando a lhe olhar. – Me desculpem não me apresentar, é que não consigo ainda acreditar... Que estou aqui. Eu não deveria... – eu sentia as lágrimas crescerem e correrem pelo meu rosto. – Estar aqui. – eu abaixei meu olhar, limpando meus olhos.
- Tudo bem. – outra garota disse, pois não era a mesma voz da Brooke. – Pode chorar. – ela se aproximou e eu a olhei e era uma das meninas que estavam em pé. – Eu sou a Jade, ela é a Yasmin, a Catarina e a Ellen. Eu sou a mais velha, tenho 15 anos. Todas elas tem entre 7 e 9 anos. E eu vi todas chegarem até aqui, vi todas chorarem desoladas, fique tranquila. – ela disse se sentando ao meu lado, e segurando minhas mãos, enquanto dizia os nomes ela apontava para cada uma das garotas, que aos poucos se aproximavam de minha cama. – Uma coisa aquela velha disse corretamente, aqui é sua casa agora. – ela sorriu solidaria.
- Obri-gada. – eu disse dando-lhe um abraço, mas logo me afastei. – Prazer em conhecê-las. Eu sou a , e tenho 7 anos. – eu disse me apresentando e elas sorriram.
Algumas se sentaram em minha cama e outras na cama ao lado, elas pediram que eu contasse minha história e porque estava ali, eu contei desde o inicio até a decisão judicial, elas não acreditavam que poderia ter acontecido isso comigo, e sentia que logo iria desabar novamente, mas me sustentei pedindo para que uma das meninas contasse a suas histórias, elas falaram sobre suas vidas, cada uma esperando sua vez. Jade havia sido abandonada por sua mãe com 1 ano em frente ao St. James King e desde então estava ali, nunca havia conseguido pais adotivos e o tempo só havia passado, ela disse que agora não esperava mais a chance de conseguir pais adotivos e sim de completar 18 anos e sair daquele inferno, como ela quis se referir ao orfanato. Brooke que tem a minha idade, contou-me que estava ali desde os 4 anos de idade, e que fora abandonada por sua mãe num hospital, ela estava quase morta quando deu entrada no hospital, sua mãe era agressiva e não queria ter tido filhos. Então, ela chegou até o orfanato, e agora aguardava que alguém a escolhesse para ser adotada. Todas havia histórias surpreendentes, outras eram previsíveis, no fim resolvemos ir dormir. Todas se deitaram, e logo após eu arrumar um espaço para guardar o restante das minhas coisas no guarda-roupa, eu coloquei meu pijama e me deitei abraçando meu ursinho enquanto olhava para a janela, e não conseguia dormir. Eu gostaria de estar... Em minha casa, junto com meus pais. Junto com a Mel e o Ryan.
Logo ouvi um sinal, e as meninas já estavam se levantando, eu deveria ter dormido, mas meu corpo me entregava que havia sido pouquíssimas horas, eu me levantei delicadamente, e Christine abriu a porta, todas se levantaram rapidamente, colocando os braços para trás e abaixando a cabeça enquanto ela andava até minha cabeça com algo em mãos. Eu fui até a frente da minha cama, e cruzei os braços a observando. - Bom dia meninas, . – ela disse me observando. – Aqui esta seu uniforme, o vista e desçam já para o refeitório. – ela disse me dando e saindo novamente pelo corredor.
Eu abri o uniforme, e realmente o achei sem necessidade, mas o vesti, logo depois prendi meu cabelo num rabo de cavalo e fiz minha higiene. Brooke e Jade me acompanhavam até que paramos no corredor, onde uma fila foi formada, havia muitas garotas ali. E no outro lado do corredor, havia um fila de garotos. Todos estavam uniformizados, e na frente das duas filas, duas mulheres, descemos as escadas, até que passamos pelo corredor e chegamos ao refeitório, que era repleto de mesas e cadeiras, eu, Jade e Brooke fomos até a cozinha, e a cozinheira nos serviu, atrás de nós já havia um fila que se formava, nos sentamos em uma mesa do meio, e eu observava cada um se sentar com seus pratos prontos.
- Quantas crianças têm aqui? – eu disse baixo.
- 72. – Jade respondeu. – Às vezes aumenta, às vezes diminuiu, mas é raro. – ela disse mordendo um pedaço de pão.
Ao terminarmos o café da manhã, colocamos nossos pratos em uma mesa ao lado da cozinha, e fomos em direção a sala, nos sentamos no chão perto da janela, algumas crianças estavam ali, outras subiam as escadas. Ficamos olhando para o lado de fora, os carros passando lentamente, uma chuva fraca caía no lado de fora e o tempo estava um pouco frio, abracei meu corpo, encostando meu queixo nos joelhos, as meninas conversavam animadamente, mas eu permaneci em silêncio as observando. Pela janela, eu consegui ver quando uma moça de cabelos pretos desceu de um carro junto com um homem, que aparentava ter a minha idade, talvez um pouco mais velho, eles subiram as escadas e sumiram da minha visão. Poucos segundos passaram, e ouvimos uma campainha. Christine passou pela sala em passos largos, chegando à recepção. Brooke me olhou.
- É uma nova criança? – eu disse desanimada.
- Não. – ela disse sem se importar. – A mãe dele ajuda aqui, e ele fica aqui com nós. Ele é quieto, tímido e quando fala é se exibindo, poucas crianças aqui gostam dele. Geralmente, ele fica num lugar... Secreto, um lugar dele.
- Ah... Secreto? – eu disse me interessando. – Quais são os nomes deles?
- Secreto. Ninguém consegue descobrir. – ela disse dando de ombros. – Ela se chama Anne Cox e ele se chama . – ela me respondeu, voltando a prestar atenção na conversa das outras garotas.
- Eu vou ao... Banheiro. Tudo bem, Brooke? – eu disse me levantando, e ela sorriu assentindo.
Eu andei até a recepção, Anne e Christine conversavam, enquanto que estava sentado na escada lendo uma revista em quadrinhos. Eu passei por elas, mas Christine me chamou.
- Anne essa é a menina que eu estava te contando. , essa é a Anne. Ela nos ajuda muito aqui, e esse é seu filho, . Anne e , essa é a . – ela disse apontando para eles.
- Olá , tudo bem? – Anne se abaixou fican,do na minha altura e sorriu, sua voz era calma e tranquila, por um momento me lembrou uma mãe carinhosa e gentil, era uma voz reconfortante.
- Olá, Anne. – eu sorri. – Oi... . – eu disse me virando para ele, que me olhou com seus olhos verdes.
- Oi. – ele respondeu monossilábico, e eu o encarei.
- Sra. Christine, eu posso me retirar? – eu lhe perguntei, e ela assentiu, eu acenei para eles e segui até o banheiro.
O banheiro era claro, mas as paredes estavam amareladas, eu olhei meu reflexo no espelho, e fiquei durante alguns minutos ali. Abri a torneira e joguei um pouco de água em meu rosto, sentindo automaticamente meus olhos arderem e meu rosto ficar gelado, eu sequei meu rosto com a toalha e abri a porta, no momento em que olhei para o fim do corredor, vi uma das últimas portas se fechar, eu andei devagar até ali, quando a abri vi que havia uma escada, e uma luz fraca clareava o fim dela, era o porão, mas mesmo assim me arrisquei a descer as escadas. Cada passo que eu dava, tentava ser o mais silencioso possível, a sala cheirava mofo e estava bem escura, mas algo me dizia que alguém estava ali, eu continuei descendo até chegar na sala. Ela estava toda escura, com um pequeno sofá encostado em uma parede, ao seu lado uma estante de aparência desgastada, alguns móveis estavam empilhados na outra parede, foi então que eu o vi tentando abriu uma pequena porta. Eu dei um passo para frente, quando sem querer esbarrei numa mesinha, deixando que um vaso que estava colocado ali caísse ao chão, se despedaçando. Ele me olhou assustado.

Capítulo 04

Porão de St. James King

Durante alguns minutos intermináveis ficamos nos encarando. Ele se encostou à porta, fechando e abrindo os olhos e eu me sentei no último degrau e fiquei o observando.
- O que você esta fazendo aqui? – disse assustado, mas num tom bravo. – Você não deveria estar aqui. Pode voltar lá pra cima. Agora. – ele disse apontando para as escadas nervoso e voltou a se virar para a porta, a abrindo, eu me levantei e rapidamente parei ao seu lado, ele me olhou.
- Não, por favor. – eu disse deixando minha voz chorosa. – Quero dizer, eu não irei falar nada. Nem com você, nem para eles... Onde é o seu esconderijo. Mas por favor, é meu primeiro dia e eu só não quero... Ficar lá. – eu disse dessa vez, mais clara, me analisou por algum tempo antes de responder.
- Tudo bem. – ele disse quando passou pela porta. – Mas não fale comigo. – me avisou.
Caminhamos por um estreito corredor, que aparentava ter sido esquecido pelas administradoras do orfanato, já que estava bem sujo. ficou totalmente em silêncio, e não ousava me olhar, eu continuei andando um pouco atrás dele olhando para todos os lados procurando a nossa saída. No fim do corredor, foi possível ver outra porta, ele parou ao tocá-la, ela se abriu. Paralisada. Foi assim que eu permaneci por alguns minutos, estávamos diante de um pequeno jardim. A grama estava grande, mas ainda era possível enxergar o caminho que levava até o balanço e um banco no meio do jardim, várias árvores estavam ao nosso redor, e muitas flores decoravam o jardim. Quando percebi, já estava sentado no banco lendo algum livro, eu andei parando ao seu lado.
- Como você sabe desse lugar? – eu disse olhando ao redor, vendo o prédio do orfanato ao fundo, e voltei a olhá-lo.
- Você disse que não ia falar comigo. – respondeu ainda lendo seu livro.
- Que seja. – eu disse me virando, indo até o balanço.
Eu me sentei e comecei a impulsionar meu corpo para frente, logo comecei a sentir o vento frio bagunçar levemente meus cabelos, fechei meus olhos e respirei fundo, sentindo meus pulmões se encherem de ar puro, por um momento, eu não estava mais naquele jardim abandonado do orfanato, eu estava no Centro de Londres, no jardim da casa da Mel e do Ryan, escutava o barulho dos carros, as crianças brincando nos jardins ao lado, escutava a voz calma de Mel cantarolar uma música enquanto Ryan ria dela. Senti uma lágrima rolar pelo meu rosto.
- Minha mãe descobriu aqui... – ouvi a voz baixa de , abriu meus olhos voltando ao jardim do orfanato, ele estava sentado no balanço ao lado do meu, quando eu o olhei, ele desviou seu olhar, olhando para o chão.
- Sua mãe? – eu disse calmamente. – Como?
- Sim, minha mãe... Não sei, acho que ela abriu aquela porta e aí entramos. - ele riu pela primeira vez, e eu não pude deixar de abriu um sorriso ao ver suas covinhas se formarem em suas bochechas.
- Não, seu bobo... Como ela conseguiu descobrir aqui. – eu disse sorrindo.
- Ela passava muito tempo aqui. Muito mais do que hoje em dia, acredite. Um dia enquanto ela arrumava o porão, ela encontrou a porta, e foi assim que ela chegou aqui. – ele disse mais animado.
- E porque você fica tanto aqui? – eu disse curiosa.
- ... Não me leve a mal, mas não é porque eu te contei como aqui foi descoberto que eu irei te contar tudo sobre minha vida. – ele disse se levantando, e eu fiquei surpresa por ele ter se lembrado do meu nome. – Temos que voltar. – disse dando de ombros.
- Você pode me responder só uma coisa? – eu disse descendo do balanço, ele parou e se virou para me olhar.
- Isso aqui faz parte do orfanato? – eu disse olhando ao redor. - Não. Sim. Quer dizer, mais ou menos... – ele disse confuso. – Faz parte, mas foi esquecido e automaticamente deixado de lado. – ele se virou, e eu voltei a andar em silêncio ao seu lado.
Voltamos ao corredor escuro, e andamos um do lado do outro. Como ele poderia me tratar daquele jeito? Eu pensei que ele fosse um homem legal, que até poderia ser um amigo, mas eu estava definitivamente enganada. Quando notei já estava no meio do porão, e fechava a porta a cobrindo com uma mesa, eu comecei a subir os degraus, quando ele falou.
- ... – ele disse, e eu me virei, ele estava subindo os degraus. – Porque você chorou... Lá fora? – ele perguntou curioso.
- , obrigada por ter me deixado ficar lá com você, mas isso não significa que eu vou falar sobre a minha vida para você, não é mesmo? – eu disse cínica e subi as escadas rapidamente, o deixando pra trás.
Ao abrir a porta, escutei várias vozes vindas do corredor, ao adentrar a sala vi que duas filas já estavam formadas e ia em direção a cozinha, era a hora do almoço, eu entrei na fila e de cabeça baixa andei em silêncio até a cozinha, quando estava entrando, senti alguém tocar meu braço.
- Onde você estava? Perdeu-se no banheiro? – Brooke falou preocupada, segurando meu braço.
- Eu... Não... Eu estava... – não sabia o que responder, e procurava uma resposta.
- Não me diga que foi lá fora... Você sabe que não pode, só se uma delas nos levarem. – ela disse brava colocando as duas mãos na cintura. – Se elas souberem você estará encrencada, não faça mais isso.
- Claro, perdoe-me. – eu disse concordando. – Vamos? – eu perguntei, mudando de assunto e ela assentiu.
Entramos na cozinha e depois que fomos servidas, nos sentamos em nossa mesa, eu vi entrar no refeitório e ir direto para a cozinha, todos o olharam e reviraram os olhos em desaprovação. Foram impossíveis meus olhos não seguirem seu trajeto, mas logo voltei a prestar atenção na conversa das minhas colegas, logo que terminamos fomos avisadas que deveríamos subir e nos prepararmos para tomarmos banho. Jade e Brooke andavam na minha frente rindo de algo que havia acontecido enquanto eu estava desaparecida, quando ele passou ao meu lado falando baixo com Anne, sua mãe. Ela me olhou e sorriu. Eu subi rápido as escadas, voltando ao quarto. Depois que tomamos nosso banho, o fim do dia passou tão rápido que quando notei já estávamos deitadas, nos preparando para dormir, logo que falamos boa noite e as luzes foram apagadas, eu me virei em direção a janela e fiquei observando as poucas estrelas que haviam no céu. Mesmo o sendo um idiota, era bom ficar em sua companhia, algo me dizia que poderíamos ser amigos. Eu gostaria que sim. Fechei meus olhos, me entregando ao sono.
Os dias passaram todos iguais, logo que acordávamos íamos até a cozinha onde ficávamos algum tempo tomando nosso café da manha e conversando, íamos para a sala onde ficávamos sentados sem fazer absolutamente nada. A Anne e o chegavam sempre nessa hora, e algumas vezes algumas pessoas procurando por “filhos” apareciam, e algumas crianças eram chamadas. Eu sempre dava um jeito de sair despercebida e ia até o esconderijo secreto. Caminhava até chegar ao jardim secreto atrás do orfanato, sempre estava sentado no mesmo banco lendo seu gibi, eu me sentava no mesmo balanço e durante as poucas horas que podíamos ficar ali, cada um ficava em silêncio com seus próprios pensamentos. Depois que saíamos de lá, almoçávamos e para mim depois disso o dia passava voando. Como se nada de importante acontecesse. Realmente não acontecia. Hoje ao acordar, meu primeiro pensamento foi a Mel e o Ryan, onde eles estariam? Faz muitos dias que eles não vêm me ver, e eu sinto falta deles. Depois do café da manhã, nos sentamos na sala onde uma moça começou a contar uma história, o dia está bem frio e a neve cobre as ruas. Eu me aproximei da janela, na esperança de chegar, mas nada. Eu fui até o esconderijo e ao chegar lá... Ele não estava. Eu fiquei sentada no banco que ele todos os dias havia se sentado, passaram-se algumas horas e ele não apareceu. Um sentimento de tristeza pairava sobre mim, eu poderia nem falar com ele, mas ele era o único que me permitia ser apenas eu, mesmo que em silêncio. Eu voltei à sala, e a mesma moça continuava contando outras histórias, algumas das crianças estavam deitadas no chão dormindo, outras conversavam baixinho e muitas delas prestavam atenção na história. Eu me sentei novamente próxima da janela e abracei minhas pernas, encostando o queixo nos joelhos, sentia as lágrimas chegarem aos meus olhos, mas as impedi de descer, quando ouvi meu nome ecoar pela sala.
- , venha até aqui. Por favor. – Sra. Christine me chamou da porta, e eu me levante indo ao seu encontro.
- Um casal que acabou de chegar te viu, e gosto de você. Querem te conhecer. – ela disse dando de ombros. – Se comporte.
- Claro. – eu disse baixo, pensando numa forma de afastá-los de mim.
Andamos até um corredor, onde havia alguns sofás e mesas, era a sala de visita onde os futuros pais adotivos conversavam com as crianças, ao entrar na sala vi um casal sentado no sofá do canto. Ela tinha os cabelos pretos e tinha um sorriso no rosto, ele tinha a aparência de ser mais velho, seus cabelos eram de um tom de castanhos escuro, e sua feição era de seriedade. Andamos devagar até onde eles estavam, Christine se sentou na cadeira em frente ao sofá e eu permaneci em pé de frente para o casal.
- Essa é a . – Christine me apresentou. – Eles são Nara Affleck e Ben Affleck.– ela disse apontando para o casal.
- Oi. – eu disse simplesmente, cruzando os braços no peito, pelo canto do olho pude ver Christine reprovar meu ato.
- Olá querida, quantos anos você tem? – Nara disse estendendo a mão para mim.
- 7 anos. – eu disse olhando para sua mão estendida, e desviando para seus olhos cor de mel que brilhava, continuei imóvel fazendo com que ela retirasse a mão.
- Você é linda. – Nara continuou. – E nós dois gostamos de vocês, será que você não quer se sentar para conversarmos. – ela disse dando espaço para que eu me sentasse ao seu lado.
- Obrigada. – a agradeci pelo elogio. – Vocês querem me... Adotar? – eu perguntei.
- Sim. Mas não precisamos apressar as coisas... – Ben se manifestou.
- Vamos se conhecer primeiro. – Nara completou sorridente.
- Vocês falaram que gostaram de mim... – eu disse olhando para o chão. – É uma pena. Porque eu não gostei de vocês. E eu já tenho meus pais, não quero vocês. Tchau. – eu disse olhando para eles e logo saí correndo.
- , volte aqui. – ouvi Christine gritar e logo em seguida falar tentando acalmar o casal. – Ela é nova aqui, ainda está confusa.
Eu cheguei até a escada e pude ver que todos me olharam, eu já não segurava mais as lágrimas e elas corriam por meu rosto livremente, pude ver que a porta de entrada estava aberta, Anne e estavam parados me olhando com os olhos arregalados, não me importei e continuei subindo as escadas correndo, sentia meu coração bater aceleradamente e por muitas vezes seguidas eu tropeçava em meus próprios pés, ao entrar no meu quarto, vi que Catarina e Ellen estavam deitadas dormindo tranquilamente, andei silenciosamente até me encostar-se à cama de costas para porta, olhando para o lado de fora do orfanato. Eu só queria ter a chance de voltar a ter meus pais, meus verdadeiros pais, minha casa. Não queria estar aqui, era tão injusto. Não posso entender por que isso aconteceu justamente comigo. Até mesmo quando eu estava começando a ser feliz, e ter uma nova família, tudo deu errado, e agora não tenho nada nem ninguém. E também não quero mais ninguém, quero ficar maior de idade e sair daqui, fazer a minha própria vida. Não havia percebido, quando alguém se sentou ao meu lado e segurou minha mão, mas no momento em que senti isso dei um pulo, colocando as mãos em meu peito e me afastando bruscamente. Olhei ao meu lado e me surpreendi.
- Desculpe, não queria assustá-la. – Anne disse calma, e ao seu lado me olhava confuso. – Você quer conversar? – ela sorriu, e sua voz automaticamente me acalmou.
Eu continuei em silêncio, e me encostei à parede fria olhando para eles. Os seus olhares eram de um misto de dúvida e ansiedade. que antes estava em pé se sentou ao lado da mãe me observando, e eu fechei meus olhos respirando fundo.
- Christine queria vir conversar com você, mas pedi que eu viesse aqui primeiro. – ouvia a voz de Anne, e a olhei encostando minha cabeça no batente da janela. – Ela estava brava, mas eu entendo você. Tudo é tão novo e diferente não é mesmo? – ela disse refletindo.
- Porque isso tinha que acontecer comigo? – eu me questionei.
- Querida, não tem uma explicação. A Mary me contou sua história... E com certeza você é uma garota de muita sorte. – ela disse sorrindo. – Você sobreviveu a tantas coisas, com certeza sobreviverá a isso. – eu a olhei agradecida.
- Sra. Anne, você sabe que eu não entendo metade do que você diz não é? Eu sou criança ainda. – eu disse sorrindo um pouco. – Mas obrigada.
- Primeiro: sem essa de “senhora”. Pode me chamar de Anne, apenas. Segundo: eu sei, querida, mas o que eu quero dizer é que você será muito feliz, só você acreditar nisso. E terceiro: será que eu posso te dar um abraço? – ela disse sorrindo no final, e eu vi que até esse momento me encarava.
- Obrigada, Anne. Pode sim. – eu disse me levantando, logo senti seus braços maternais passarem por meus ombros, me abraçando carinhosamente.
Eu tinha certeza naquele momento que Anne era uma ótima mãe para o e que seria a melhor mãe para quantos filhos ela tivesse. Era o tipo de pessoa adorável que se sente vontade de ter ao seu lado todos os minutos. Ao me soltar, ela me deu um leve beijo na testa e se afastou encostando-se a porta, eu sorri para ela.
- Tenha uma boa noite . – falou pela primeira vez naquele dia, e agora ele sorria.
- Obrigada, . Você também. – eu disse sorrindo, sentando-me na minha cama.
Logo que eles saíram, eu me deitei ouvindo tudo que acontecia nos corredores. As crianças corriam, e do lado de fora era possível ouvir as nossas mentoras chamando cada quarto para jantar. Ao abri a porta do meu quarto, a nossa Mentora Sarah nos chamou, eu continuei deitada.
- Ei, , vamos. – Brooke segurou minha mão e eu me levantei.
- *cof, cof,* , eu preciso conversar com você. – ouvi a voz severa de Sra. Christine, e quando olhei para a porta ela estava encostada ao batente me encarando, Brooke se levantou e passou por ela rapidamente, me olhando com um olhar de “boa sorte”, eu me sentei cruzando as pernas e me mantive em silêncio.
- Os seus atos foram definitivamente rebeldes e impulsivos. Você não pode simplesmente falar o que pensa e fugir dos seus possíveis pais adotivos. Você acha que está aqui para que garota? Você tem que fazer o que já falamos... Se comportar como uma criança educada. Eu sabia desde o dia que entrou aqui que você seria um problema. Meus instintos nunca falham e por conta do seu ato de hoje, você esta de castigo. – ela falava tudo em alto e bom som, com uma voz séria.
- Castigo? – eu disse indignada.
- Claro, garota. Você acha que aqui não tem penitência¹? Você ache como uma mal educada e quer continuar andando por ai? Claro que não. Você está de castigo. Pode pegar algumas das suas roupas, você irá para outro quarto. – ela disse dando de ombros e rindo.
Eu peguei minha mochila e coloquei algumas roupas, sentia raiva e não entendia porque iria mudar de quarto. Isso era uma loucura. Ela me levou até o fim do corredor, onde abriu uma porta e eu pude ver uma escada, ela subiu e eu a segui. Quando ela abriu a pequena porta, notei que estávamos no sótão. Ali havia uma pequena mesa com uma cadeira, um colchão e uma cômoda ao seu lado, aquele lugar cheirava mofo e parecia não ser usado muito. Algo me dizia que eu estava enganada, e que ele só estava totalmente sujo por fazer parte do castigo. Ela me empurrou para dentro, me fazendo cair de joelhos no chão, senti minhas pernas arderem, eu a olhei, e ela sorriu cínica.
- Bem vinda ao seu novo lar. – ela disse debochada. – O seu castigo será de três dias, e começará hoje e terminará na sexta-feira. O seu café da manha, almoço e jantar será trago todos os dias aqui, e você não poderá sair daqui em hipótese alguma, entendeu? – ela disse brava, e eu assenti.
Ao fechar a porta, tudo ficou escuro, e eu engatinhei até o colchão encostado a parede, observava aquele lugar e pude ver uma lamparina ao lado da cômoda, eu me inclinei alcançado-a e a acendi, vendo o quarto ser iluminado aos poucos. As lágrimas corriam por meu rosto, e sentia todo meu corpo doer. Isso era injusto e não era certo. Aos poucos senti meus olhos cansados se fecharem, e eu deixei-me dormir.

penitência¹: Pena que o confessor impõe ao confessado (penitente); Punição, castigo infligido por alguma falta.

Capítulo 05

O inferno... Começa agora

Sentia uma claridade sobre mim, e quando abri meus olhos, constatei que já era de manhã, eu me levantei e no mesmo momento senti dor em minhas pernas, notei que estavam arranhadas. Me aproximei da janela e pude ver que Anne havia acabado de chegar, me fazendo perceber que o café da manhã já havia se passado, abri a porta e desci as escadas, e no último degrau havia uma bandeja com café e um pão, muito diferente do que estávamos tomando no café da manha dos últimos dias, o café estava frio e o pão parecia ter sido reaquecido, por um impulso joguei a bandeja na porta, a sujando inteiramente e comecei a bater na porta e gritar. Eu não ouvia nada, e tinha certeza que ninguém me ouviria, mas eu precisava que alguém me ajudasse. Talvez Brooke, Jade, Anne ou até o me ouvissem, mas eu precisava que alguém me ouvisse, não queria ficar ali, no escuro e sozinha.
- Socorro. Me ajudem. – eu gritava em soluços. – Por favor... Não me deixem aqui. – eu parei quando ouvi um barulho na porta, e eu me afastei vendo a porta se abrir.
Eu esperava por qualquer pessoa, mas não queria ter que ver ela, Sra. Christine me olhava com os braços cruzados e a sobrancelha arqueada. Ela deu um passo e fechou a porta atrás de si, logo revelou um cinto em sua mão. Eu comecei a subir as escadas de frente para ela com as mãos na frente do meu corpo.
- Você está indo para o lado errado querida. Deveria parar de fazer besteiras. – ela disse balançando negativamente a cabeça. – Você jogou o seu próprio café da manhã no chão? Eu não faria isso, sua mal educada. – ela disse olhando a bandeja e os restos do café da manhã no chão e começou a subir as escadas. – Já que seus pais não souberam te dar educação, eu farei isso. Vamos ver se dessa vez aprende. – no momento em que ela disse isso, ela estralou o cinto em minha perna fazendo arder e eu prender o grito em minha garganta, e entrei no sótão correndo, encostando-me na parede.
- Me perdoe, por favor... – eu falei balançando as mãos na frente do meu corpo. – Sra. Christine, me perdoe... Eu não queria... – eu disse deixando que as lágrimas corressem pelo meu rosto.
- Querida, eu te perdôo. – ela disse parando na minha frente. – Mas isso... Ah, isso não significa que você não irá aprender a nunca mais fazer essas ou outras coisas que me aborreça. – ela disse dando de ombros e me puxando pelos cabelos.
Ela me arrastou até o colchão onde me jogou, fazendo e cair de costas para ela, logo senti o cinto tocar novamente minhas pernas, coxas e costas, ela não parava e cada vez colocava mais força, eu alternava entre gritar e chorar sentia todos os meus músculos doerem e faltava ar em meus pulmões, ela me puxou pelo braço me fazendo sentar e por mais três vezes me bateu com o cinto na barriga e nos braços. Quando ela se afastou, eu a olhei e ela estava arrumando sua roupa e seus cabelos, ela me olhou com sarcasmo e se virou me deixando ali caída no chão chorando, poucos segundos se passaram e eu ouvi a porta se fechar. Estava sozinha novamente. Não tinha forças para levantar e ao olhar minhas pernas que escorriam sangue, tive vontade de não existir. Meus braços, pernas e costas doíam, e eu não podia fazer nada, vi que em cima da minha cama havia um copo de água. Não faço a mínima idéia de como veio parar ali, mas acabei tomando metade do liquido, colocando-o de volta ao seu lugar, logo me deitei abraçando minhas pernas, e fechei meus olhos dormindo. Ao ouvir um barulho na porta, abri meus olhos assustada e ouvi passos nas escadas me levantei, encolhendo-me no canto do quarto e ao abrir a porta me surpreendi, Mary entrou no quarto e em sua mão havia uma pequena maleta, ela se sentou na minha frente e em silêncio tirou um vidrinho e um pano branco, ela se aproximou de mim e eu me encolhi, ela balançou a cabeça.
- Não irei te machucar. – ela disse simplesmente. – Isso vai fazer seus machucados pararem de doer. Venha cá. - ela me estendeu a mão e eu permiti que ela fizesse o que queria. Logo percebi que não sentia mais tanta dor como antes, ela se levantou e voltou à escada, passaram-se menos de minutos e ela voltou ao sótão com uma bandeja.
- Seu jantar. – ela disse dando de ombros, colocando ao lado do colchão. – Boa noite.
- Jantar? – eu disse confusa. – Que horas são? – ela me olhou arqueando as sobrancelhas.
- Seria melhor me perguntar que dia é hoje. Hoje é quinta-feira, e as horas... – ela disse olhando em seu relógio. – São 20h45. Boa noite, , amanhã você poderá sair. Não sei a hora, mas você voltará ao seu quarto. – ela deu de ombros fechando a porta.
Hoje já era quinta-feira de noite, mas quando a Christine estava aqui, ainda era quarta feira de manhã. Eu havia dormido dois dias inteiros? Como isso era possível? Eu engatinhei até a bandeja e comecei a comer, sem nem prestar atenção no que estava comendo. Meu estômago reclamava, e eu sabia que era pelo tempo absurdo que eu estava sem comer. Ao terminar afastei o prato, e me levantei sentindo dores em minhas pernas, mas ignorei e fui até a janela vendo o lado de fora, notei que Anne e desciam as escadas de mãos dadas, ela encostou-se no carro do lado do motorista procurando algo em sua bolsa, ele por sua vez encostou-se na porta do passageiro olhando para cima, nesse momento nossos olhos se cruzaram e ele semicerrou seus olhos, eu fechei meus olhos e abri me afastando da janela. O resto da noite eu continuei acordada, ouvindo poucos barulhos e vendo a lua naquele céu escuro. Quando vi que o sol estava a nascer, peguei minha mochila e separei uma calça de moletom preta, uma camiseta branca e uma blusa de moletom rosa com detalhes roxos que Mel havia me dado de presente. Ao tirar a roupa que eu usava e colocar a roupa que eu havia separado a poucos, reparei que em meu corpo tinha muitas marcas roxas e avermelhadas, sentei no topo da escada, prendi meu cabelo num rabo de cavalo e encostei minhas costas na porta, deixando minha mochila do meu lado. Eu só queria sair dali, daquele inferno. Quando Jade havia me dito que ela era uma bruxa eu cheguei a duvidar, mas nesse exato momento eu tinha certeza. Ela era uma bruxa, o pior pesadelo de todos nós. As horas pareciam não passar, mas pela janela pude ver que já estava de tarde, quando a porta se abriu. Mary e Christine estavam no corredor me olhando.
- A donzela esta livre. – Christine disse rindo. – Espero que tenha gostado da sua estadia. – ela sorriu, enquanto eu descia os degraus.
- Seus machucados estão melhores? – Mary me perguntou quando passei por elas.
- Estão, obrigada. – eu disse com a voz calma. – Posso ir para meu quarto? – eu perguntei de costas para elas.
- Pode. – foi Mary quem me respondeu.
- Mas tome um banho e coloque uma roupa decente. Aqueles seus pais que te deixaram aqui ligaram falando que querem vê-la. – Christine me avisou passando por mim.
- Mel e Ryan? – eu me questionei, sabendo que eram eles, Mary assentiu e as duas desceram as escadas, me deixando em frente à porta do meu quarto.
Ao abrir a porta do quarto, vi que Brooke estava sentada em sua cama lendo um livro, Jade estava deitada de olhos fechados e Catarina olhava a rua pela janela, no momento em que meu corpo passou pela porta, todas me olharam com os olhos arregalados. Jade, como estava mais perto, se levantou rapidamente e me abraçou, sem perguntar nada, quando nos afastamos ela me puxou para sentar na sua cama, Catarina e Brooke se sentaram na cama da nossa frente, Brooke segurou minha mão.
- O que houve? – Brooke perguntou.
- Brooke, é melhor perguntar o que aquela bruxa fez a ela. – Jade revirou os olhos, achando óbvio.
- Ela me colocou de castigo e... – eu comecei a falar, parando ao lembrar a cena dela me batendo. – Me bateu. – eu fechei os olhos apertados.
- Como ela pôde? – Jade se levantou nervosa. – Eu vou acabar com aquela mulher...
- Ei, não... Jade, se acalme, por favor. – eu disse calma. – Já passou, eu estou bem. A Mel e o Ryan estão vindo me ver. – eu disse sorrindo. – E isso me faz sentir-me melhor. Não importa o que aquela velha fez... Não importa. – eu disse me levantando.
Separei uma calça jeans, uma blusa de mangas longas e um casaco preto, depois que tomei um banho e me troquei, prendi meu cabelo e desci as escadas, sentando-me na sala. Todas as crianças já estavam no refeitório almoçando, mas eu não queria comer. Estava ansiosa para vê-los. Enquanto eu pensava se eles poderiam me levar embora, alguém se sentou ao meu lado, e eu o olhei.
- Oi. – disse envergonhado. – Você esta melhor?
- Oi, . – eu disse sorrindo. – Estou... Obrigada por perguntar. E você esta bem? – eu lhe perguntei.
- Estou. – ele disse olhando para suas mãos. – Você sumiu... O que aconteceu? Onde estava? Porque eu te vi lá em cima? – ele falava rapidamente, e eu ri.
- Estava... De castigo. Fiquei alguns dias lá em cima, isolada de todos. – eu disse dando de ombros.
- Isso não pode. – ele disse com indignação. – Minha mãe não vai gostar... – ele falava bravo.
- Sua mãe não vai ficar sabendo. – eu disse o interrompendo.
- Como assim? É claro que sim, eu irei contar. – ele disse respirando fundo.
- Não vai não, . – eu disse autoritária. – Entendeu? Você não vai contar nada a ela.
- Por quê? – ele disse confuso.
- Ela pode acabar brigando e tudo piorar. – eu disse com certo medo. – ... Eu sei que não somos amigos... Mas por favor, não conte a ela. – eu disse quase implorando.
- Tudo bem. – ele disse concordando sem ânimo.
- . – Charlotte, a recepcionista apareceu na porta. – Melissa e Ryan Havilland te esperam na sala de visitas. – ela disse sorrindo, e eu assenti me levantando.
- Tchau, . – eu disse andando rapidamente.
- ... – ele me chamou, e eu me virei vendo-o em pé.
- O quê? – eu perguntei-lhe confusa.
- Quer ser minha amiga? – ele disse corando e eu sorri.
- ... – eu disse andando até onde ele estava parado. – Quero. – eu sorri lhe dando um abraço. – Eu tenho que ir ver meus pais... Mas amanha você estará aqui não é?
- Sim, eu virei. – ele disse sorrindo. – Vai lá ver seus pais... – ele levantou as sobrancelhas confuso.
- Amanhã eu te explico sobre isso, amigo. – eu disse sorrindo e me virando.
- Tudo bem, amiga. – ouvi ele me responder, e eu saí correndo até a sala de visita.
Ao abrir a porta, vi Mel em pé olhando para mim com os olhos cheios de lágrimas, Ryan estava sentado olhando para o chão em silêncio. Mel se abaixou abrindo os braços e eu corri em sua direção lhe dando um abraço, ela me deu um beijo na minha bochecha e logo senti outros braços nos cercarem, Ryan nos abraçava. Nós nos separamos e sentamos no chão.
- Querida, como você está? Como estão te tratando? – Mel falava nervosa, segurando minha mão. – Eu estou com tanta saudade.
- Nos perdoe por ter demorado para vir vê-la, mas você sabe como o hospital é uma loucura. – Ryan falou segurando minha mão que estava livre, eu sorri.
- Eu perdôo e compreendo. Elas são horríveis, mamãe. Mas as crianças são muito legais. – eu disse olhando para o chão. – Ontem eu fiquei de castigo. – disse diminuindo o tempo de castigo.
- De castigo? Porque, ? – Mel falou exaltada.
- Por que eu falei que não queria pais novos quando um casal veio conversar comigo. A Sra. Grey disse que eu fui mal educada... E me colocou de castigo. – eu disse sincera.
- Ela te fez algo? – Ryan perguntou preocupado, e eu balancei a cabeça negativamente, mesmo sabendo que isso era errado, eu não os contei sobre ela ter me agredido.
- Certeza? – Mel me questionou.
- Sim. Eu só não podia falar e nem sair do quarto. Mas, por favor... Me tirem daqui. Eu sinto saudade de vocês. – eu disse mudando de assunto, e Mel deixou que uma lágrima rolasse por seu rosto.
- Logo filhinha, logo iremos te tirar daqui. Tenha paciência, por favor. – Mel disse confiante.
- Mas temos uma boa noticia para você. – Ryan disse sorrindo.
- Qual? – eu perguntei curiosa, e eles se entreolharam. – Qual? Diz logo.
- Conseguimos uma permissão de ficarmos o resto da tarde com você, o que acha? – Ryan disse, e eu me levantei me jogando em cima deles, que começaram a rir.
- Eu adorei. – eu disse sorrindo.
- Mas, 21hs você tem que estar de volta. – Mel disse olhando para baixo.
- Não importa. Vamos logo. – eu disse me levantando e puxando suas mãos.
Eles se levantaram, eu fui até meu quarto onde avisei as meninas que iria sair e peguei meu casaco, desci as escadas e logo estávamos dentro do carro quente de Ryan, indo até o nosso restaurante preferido, no centro de Londres. Eu sorria como há muitos dias não conseguia. Queria que eles tivessem a idéia que me rondavam e fugisse comigo para qualquer outro lugar, longe dali. Passamos aquela tarde toda juntos, almoçamos e fomos ao parque. Tomamos sorvete e conversamos sobre tudo que pudéssemos. Quando era 20h tiveram que me levar de volta ao orfanato, na grande escadaria Mel me abraçou depositando um leve beijo em minha bochecha e me entregando um ursinho que era do formato de uma flor, eu a abracei. Logo Ryan me deu um beijo no topo de minha cabeça e me abraçou, se afastando logo em seguida. Eu subi as escadas entrando na sala principal do orfanato. Da porta de entrada, pude ver a sala da Sra. Christine, ela e Mary conversavam e me deram uma olhada, confirmando que eu estava de volta. Eu caminhei me sentando na escada olhando para meu novo presente. Ouvi passos nas escadas, mas não tive vontade de olhar quem estava descendo.
- Você voltou. – disse se sentando ao meu lado. – Como foi, ?
- Oh, . – eu disse surpresa. – Foi demais! Estava com tanta saudade deles. – eu disse sorrindo.
- Que bom. Eu imagino... – ele disse olhando para o chão.
- O que foi? – eu disse segurando sua mão. – Aconteceu alguma coisa? – lhe perguntei preocupada
- Não... Não aconteceu nada. – ele disse sorrindo. – Só estava pensando... – ele disse olhando a porta.
- Pensando... O que? – eu disse curiosa.
- Eles vão te levar daqui? – ele disse me olhando nos olhos.
- Não. – eu disse triste. – Ainda não. – olhei para nossas mãos entrelaçadas.
- Jura que quando eles resolverem te levar, você... – ele começou me chamando a atenção. – Você não vai me abandonar? – ele segurou minha mão, dando um pequeno sorriso.
-Não irei te abandonar. – eu apertei sua mão. – Eu sou sua amiga, lembra? Amigos ficam juntos. – eu disse lhe dando um abraço apertado.
- Sim. – ele disse me abraçando. – Eu preciso ir. – ele se afastou, e eu pude ver que Anne já estava vindo até onde estávamos.
- Boa noite, . , vamos. – Anne disse docemente, com um sorriso nos lábios.
- Boa noite, . – se levantou acenando.
- Boa Noite, . – eu me levantei sorrindo.

*FlashBack Off*

Capítulo 06

Tempos Atuais

Coloque para carregar, e dê play na música¹ no momento indicado.

*Ano de 2014*

O dia estava muito bonito, havia amanhecido com poucas nuvens e o sol brilhava no céu, tornando o dia muito mais agradável, subia silenciosamente os degraus da casa do meu melhor amigo, hoje iríamos para o campus e sinceramente não queria acordar sua mãe. Ao abri a porta do quarto, fiquei decepcionada por encontrá-lo ainda deitado, apenas com sua boxer, e seu quarto todo revirado. Apenas uma mala no canto do quarto estava pronta e uma segunda mala ainda estava sendo preenchida, fechei meus olhos balançando a cabeça e entrei no quarto, fechando a porta atrás de mim. Meu coração batia um pouco mais acelerado todas as vezes que eu via o , e era estranho. Porque na minha mente ele sempre seria o meu melhor amigo, mas era impossível eu não imaginar como seria... Não, eu não poderia nem imaginar isso. Seria errado, muito. Mas mesmo assim, não recuei, e me deitei ao seu lado, olhando para o teto e respirando fundo, tentava-me lembrar de quanto tudo começou definitivamente mudar.

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*Ano de 2007 - FlashBack*

- , me larga. – eu gritava enquanto ele me levantava do chão. – Seu idiota, me coloca no chão. – bati em suas costas arrancando uma gargalhada dele.
If that's the way you love
(Se esse é o jeito que você ama)
You've got to learn so much
(Você tem que aprender muito)
If that's the way you say goodbye
(Se esse é o jeito de você dizer adeus)

- Você tem 13 anos, mas às vezes parece uma garotinha de cinco anos. – ele disse rindo, enquanto me colocava no chão.
- E você um garotinho de quatro anos. – disse rindo e mostrando a língua.

Then this is how it ends
(Então esta é a forma como termina)
And I'm alright with it
(E eu estou bem com isso)
Never going to see me cry
(Você nunca me vai ver chorar)
Cause I've cried
(Porque eu chorei)

Muitos anos haviam se passado, e eu continuava ali naquele orfanato. Não posso dizer que muita coisa havia mudado, por que não havia. Christine continuava a bruxa de sempre, e Mary a sua cachorrinha que faz tudo que se pede, cada vez mais crianças chegavam ali, Brooke depois de completar 8 anos conheceu um casal de Manchester e após dois meses conseguiram sua guarda, e ela se foi. Muito feliz por sinal, havia conseguido seus tão desejados pais, e eu fiquei muito feliz por ela. Logo depois Catarina e Ellen também foram adotadas. Jade completou 18 anos, e pôde sair pela porta da frente para fazer o seu próprio futuro, ela estava feliz, havia conseguido a sua tão almejada liberdade. No inicio fiquei triste, agora estava sozinha. Mas então, lembrava-me que não estava... e vinham todos os dias no orfanato, e agora eu e ficávamos todos os dias juntos, conversando, rindo e brincando. As crianças novas eram desligadas, e outras maldosas. Mas nada do que algumas brincadeiras que eu e fazíamos para deixá-las “espertas”. Hoje era um dia chuvoso, e que todos tinham que ficar na sala de estar ouvindo histórias, eu e estávamos sentados agora próximos da janela, olhando as crianças menores rir com a história que estava acabando. Eu fechei meus olhos, encostando minha cabeça no batente, uma sensação estranha pairava sobre mim.
- Ei... – me chamou, e eu abri os olhos o encarando. – O que foi? – ele me perguntou preocupado.
- Nada. – eu disse sorrindo de lado.
- Não minta para mim. – ele disse cruzando os braços. – Eu te conheço. O que aconteceu?
- Nada... Eu só senti algo estranho. – eu apertei meus olhos. – Sabe quando você sente que algo... Não muito bom vai acontecer? Então, eu estou sentindo isso. – eu disse com lágrimas nos olhos.
So go on, go on and break my heart
(Então vá em frente, vá em frente e quebre o meu coração)
I'll be okay
(Eu ficarei bem)
There's nothing you can do to me
(Não há nada que você possa fazer para mim)
That's ever going to burn me
(Isso nunca vai me queimar)

- , nada vai acontecer. – ele sorriu me abraçando. – Eu te prometo. – logo que ele terminou de falar, Christine apareceu na porta e me chamou, prontamente eu fui até ela.
- , suba e se arrume. Melissa e Ryan ligaram e estão vindo te visitar. – ela disse dando de ombros.
- Ok. Obrigada. – eu falei me virando para que nos olhava.
- . – eu o chamei e ele veio ao meu encontro. – Mel e Ryan vêm me ver. Vou ir me arrumar tudo bem? – eu disse e ele sorriu assentindo, eu lhe dei um beijo na bochecha e corri subindo as escadas.
Enquanto tomava meu banho, lembrava-me da sensação que há pouco tempo eu havia sentido, na era uma sensação normal, mas não era desconhecida. Há um tempo eu havia sentido a mesma sensação, quando meus pais morreram naquele terrível acidente e logo depois quando o juiz determinou que eu viria morar no orfanato. Não queria que novamente essa sensação se tornasse realidade, não poderia ser. Eles deveriam estar vindo me ver para me contar uma grande novidade. Talvez, eles conseguiram a minha guarda, e estão vindo me tirar daqui. Era isso, tinha que ser isso. Ao sair do banho, coloquei uma calça jeans de lavagem escura, uma blusa creme com um cardigã preto por cima nos pés colocou um all star branco, ao terminar de descer os degraus, não avistei , mas antes que pensasse em procurar, ouvi uma voz conhecida.

So go on, go on and leave my love
(Então vá em frente, vá em frente e deixe o meu amor)
Out on the street
(Nas rua)
I'm fearless
(Eu sou corajosa)
Better believe I'm fearless, fearless
(Melhor acreditar que eu sou corajosa, corajosa)

- . – Mel disse e eu me virei, vendo-a parada no corredor que ia para a sala de visitas.
- Mel. – eu sorri correndo até onde ela estava e lhe dei um abraço. – Que saudade. – eu me afastei olhando ao redor.
- Ryan já esta na sala, não se preocupe. – ela disse respondendo minha perguntada silenciada. – Vamos lá, querida. – ela disse segurando minha mão.
Ao entrar na sala, Ryan estava sentado no sofá do canto, seu olhar vagava por todo o cômodo, sem reação ou emoção, seus lábios estavam fechados e não esboçava sorriso algum, sua aparência era de seriedade. Mel se sentou ao seu lado, e eu parei a sua frente, ele abriu os braços me dando um leve abraço, logo me sentei na cadeira que estava na frente do sofá, sorrindo.
- Como você está querida? – Mel me perguntou.
- Estou bem e vocês? – eu disse despreocupada.
- Estamos bem. – Mel afirmou, fechando o sorriso. – Temos uma noticia para te contar. – ela disse séria.
- O que é? – eu perguntei curiosa, será que era o que eu imaginava? Eles haviam conseguido.
- Querida, você sabe como nós amamos nossa profissão, não é mesmo? – Ryan pela primeira vez no dia se manifestou e eu assenti, prestando atenção em cada palavra. – Ontem, nós recebemos uma proposta. – ele disse sério.

If this is how it hurts
(Se esta é a forma como dói)
It couldn't get much worse
(Não podia ficar muito pior)
If this is how it feels to fall
(Se esta é a forma como se sente ao cair)

- Uma proposta de trabalharmos no hospital mais bem conceituado de Paris. – Mel completou. – Não tivemos como negar. – ela disse.
- Paris? – eu balbuciei confusa. – Não tiveram como negar... – eu falava mais para mim do que para eles.
- , eu sinto tanto... – Mel disse, deixando que sua voz fosse silenciada com um choro que começava timidamente.

Then that's the way it is
(Então esse é o jeito)
We live with what we miss
(Vivemos com o que perdemos)
We learn to build another wall
(Aprendemos a construir uma outra parede)
Till it falls
(Até que ela cai)

- Nós vamos daqui uma semana para França. – Ryan disse.
- Nós? – eu perguntei. – Quer dizer, que vocês conseguiram minha guarda, não é? Nós iremos se mudar. – eu lhes perguntei com esperança que eles falassem que sim, mera bobagem, estava me enganando, a resposta era clara e estava bem debaixo do meu nariz.
- ... Nós não conseguimos sua guarda. – Mel respondeu, limpando suas lágrimas. – Eles acham que somos jovens demais, com uma vida instável demais e ainda mais agora... Que vamos morar em outro país. Eles acham loucura deixar a sua guarda conosco. – ela tentava explicar, e aproximou sua mão da minha, que eu logo retirei.
- , nos perdoe. – Ryan disse com a voz aflita. – Nós sentimos muito, muitíssimo... Você sabe o quanto nos apegamos a você... – ele começou a falar, e eu o interrompi me colocando de pé.
- Sentem muito? – eu disse franzindo a testa. – Eu esperei por vocês, aqui nesse inferno, por seis longos anos, e tudo que vocês falam é “nós sentimos muito?”. Vocês não conseguiram a guarda, porque nunca tentaram de verdade... E agora vão para a França. – eu gritava nervosa, Mel se levantou estendendo a mão para mim, eu me afastei.
- , por favor... – ela disse deixando que lágrimas corressem pelo seu rosto.

If it's between love and losing
(Se é entre o amor e a perda)
To never have known the feeling
(Para nunca ter conhecido o sentimento)
And I'm still sad we've loved
(E eu ainda estou triste que nos amamos)

- Não Melissa. – eu disse brava. – Vocês acharam bom quando eu vim para cá e devem estar achando maravilhoso agora ir para a França e não precisar mais vir visitar a órfã. – eu disse dando de ombros, sentindo meus olhos encherem de lágrimas.
- , não fale isso... – Ryan se levantou. – Nós amamos vocês, e não desistimos... – ele disse com a voz fraca.

And if I end up lonely
(E se eu acabar solitária)
At least I will be there knowing
(Pelo menos eu vou saber)
I believe in love
(Eu acredito no amor)

- Só não sabemos mais o que fazer. – Mel completou triste.
- Sabem sim, vão lá exercer a tão adorável profissão de vocês. Sejam felizes. – eu disse chegando até a porta. – Esqueçam-se de mim, eu odeio vocês. Eu poderia ter sido adotada, sabia? Mas pensava que vocês iriam me tirar daqui. Bobagem, nunca iriam tirar-me daqui, inocência minha. Au revoir!² – eu disse me virando, e correndo para o meu quarto.
Nao ousei olhar para trás, nao queria saber se vinham atras de mim, quando passei pela sala pude ver que e que conversavam com Christine me olharam assustados. Nao pensei em parar e continue a correr até meu quarto. Ao adentrá-lo, fechei a porta e o tranquei, me sentando no chão gelado, e deixando as lágrimas antes presas se libertassem, correndo livremente por minha face. Estava tudo terminado, tudo havia dado errado. Mais uma vez. Dessa vez, eu realmente havia perdido Melissa e Ryan, e agora eu nao tinha ninguém. Nao seria mais adotada, porque quanto mais o tempo passava, mas as pessoas vinham a procura de bebês e crianças na faixa de 4 anos. Teria que esperar ter 18 anos para sair desse lugar, mais cinco anos aguentando tudo isso. Ao abrir meus olhos, resolvi que iria aguentar, e que tudo, a partir daquele dia iria mudar. A partir daquele momento eu compreendi que agora eu só tinha o , ele sim, sempre estaria ao meu lado. E naquele momento eu prometia a mim mesma, que eu iria fazer o meu próprio futuro, o meu próprio destino.

Go on and leave my love
(Vá em frente e deixe o meu amor)
Better believe I'm fearless, fearless
(Melhor acreditar que eu sou corajosa, corajosa)
fearless
(Corajosa)

*Fim do FlashBack*

- . – cantarolava em meus ouvidos. – , acorda. – ele me chacoalhou e eu abri meus olhos, encontrando seus olhos verdes me encarando.
- Eu nao estava dormindo. – eu disse o empurrando, ele riu.
- Ah claro, estava cochilando. – ele disse se levantando.
- Idiota, eu estava pensando... Lembrando de algumas coisas. – eu disse olhando para a janela. – Você que estava dormindo. E estamos quase atrasados, sabia? – eu disse me virando para ele.
- Nem venha me atrasar. – ele disse dando de ombros.
- Vai logo tomar banho, seu inútil. – eu disse o empurrando pelas costas até a porta do banheiro. – Eu vou terminar de arrumar sua segunda mala. Você tem 10 minutos, ok? – eu disse dando de ombros, e ele parou no batente da porta me analisando.
- Você tem certeza que vai assim? – ele me questionou, me olhando de cima abaixo, eu usava um short preto com detalhes prata, all star preto, uma blusa cinza, um óculos preto estava em minha cabeça e uma bolsa de lado pendurada em meus ombros, arqueei minha sobrancelha.
- Tenho. – eu disse confiante. – Algum problema com a minha roupa? – eu disse dando uma volta rindo.
- Sim, muitos. – ele disse me abraçando por trás. – Os meninos da faculdade toda irão te olhar, e eu nao gosto disso. – disse em meu ouvido, me fazendo tremer por dentro, ele rapidamente me virou me encarando com um sorriso em seus lábios.
- Para de cíumes, amorzinho. – eu disse apertando suas bochechas. – Eu sei me cuidar. – eu pisquei para ele me afastando, enquanto ele fechava a porta do banheiro rindo.
Coloquei sua mala em cima da cama e comecei a tirar do seu guarda roupa algumas de suas roupas, dobrando-as e colocando arrumadas em sua mala. Logo que terminei, arrumei sua cama e abri as cortinas, deixando que o sol iluminasse seu quarto, ouvi o chuveiro ser desligado, então eu bati na porta falando que iria para cozinha, ao descer as escadas ouvi vozes vindo da cozinha, fui até lá, antes deixando minha bolsa na mesinha do hall.
- Bom dia. – eu cantarolei ao ver e Gemma prepararem o café da manha.
- Bom dia, querida. – se virou sorrindo.
- Bom dia, . – Gemma sorriu. – Pronta para encarar a faculdade? – ela perguntou brincalhona e eu sorri.
- Com certeza. – eu disse confiante, me sentando ao seu lado.
- Seus pais estariam orgulhosos. – comentou parando na minha frente. – Eu estou orgulhosa. – ela disse segurando minhas mãos sorrindo.
- Obrigada. – eu disse sorrindo. – Eu sei que eles estariam, e fico feliz por isso.
- E cadê o meu filho? – ela disse olhando para a escada.
- Atrasado como sempre. – eu gargalhei, colocando suco em meu copo.
- . – ela o chamou aproximando da escada. – Desça agora ou eu só levarei a para a faculdade. – o ameaçou, e logo ele descia as escadas despreocupado.
Ele usava uma camiseta preta que se grudava em seus braços fortes, a calça jeans era escura e nos pés estava seu all star branco, nas costas uma mochila preta e nas duas mãos suas malas. Ele sorriu brincalhão, deixando as malas no chão e puxando sua mãe para um abraço apertado, logo Gemma correu para participar do abraço. Eu os olhava sentados, e sorria por ver como era uma família feliz. Desde que os conheci, sempre os via sorrindo e compartilhando de um amor lindo. Não era inveja, mas eu queria ter tido a oportunidade de conhecer verdadeiramente esse amor, de ter tido uma família. Mesmo que tenha conseguido que eu saísse do orfanato quando completei 16 anos, e ter permitido que eu viesse morar em sua casa, nunca me senti completamente parte da família, por isso que logo que completei 17 anos e estava em uma trabalho fixo, me mudei para um pequeno apartamento ali perto. Eu a agradecia por ter me tirado de lá antes do tempo planejado.
- Ei, , venha cá. – se afastou um poucos dos filhos, abrindo mais os braços, eu ri e fui até eles, os abraçando, mesmo que muitas vezes achasse que eu era uma intrusa, no fundo eu sabia que eles eram a família que eu havia escolhido, eles haviam me escolhido, eu sorri. – Não posso acreditar que minhas crianças vão para a faculdade. Que vão morar num campus. – disse com a voz chorosa.
- Mãe, o campus é aqui na cidade lembra? – ele disse rindo. – E são apenas 30 minutos de lá até aqui. – ele deu de ombros.
- E viremos sempre aqui. – eu completei. – Só vamos ficar lá, por ser melhor por conta dos nossos horários. – eu sorri.
- Eu sei. – ela disse concordando. – Vamos? – ela disse, e nós assentimos.
Pegamos nossas malas e colocamos dentro do carro de , nos despedimos de Gemma que nos levou até a porta e sorriu, nos aconselhando a tomarmos muito cuidado, ela era como a irmã mais velha, e era linda a maneira como ela se preocupava com e agora comigo, eu sorri lhe dando um abraço. Entramos no carro, e eu fomos atrás conversando sobre como seria a faculdade, e os nossos quartos, os futuros amigos, em todo momento segurava minhas mãos e eu sorria para ele. Definitivamente, ele era meu porto seguro, meu melhor amigo. No momento que parou o carro, e eu coloquei meu corpo para fora do carro, tive certeza que ali era o lugar mais incrível do mundo. O prédio de Imperial College London era antigo e continha duas grandes estátuas ao lado da escadaria, mas não deixava de ser um prédio muito belo e com certo luxo, eu sorri. Muitos carros luxuosos estavam parados nas vagas, e vários adolescentes subiam e desciam as escadas. Alguns estavam com malas, outros com apenas uma bolsa. Todos sorriam, mas seus olhares eram de superioridade, claramente eram riquinhos mimados. se despediu com muitos abraços e beijos, nos deixando ali na porta de entrada.
Foi quando, eu o vi descer do carro.
Mesmo após muitos anos, eu o reconheci, era impossível não reconhecer aqueles olhos castanhos escuros que brilhavam e o sorriso doce. Era o mesmo menino de anos atrás, mas agora com uma diferença: ele era um homem. Ao seu lado uma garota surgiu, entrelaçando suas mãos, era loira e seus olhos eram de um azul piscina, ela sorria, mas parecia uma daquelas Barbie mal feitas de tão falsas que era sua aparência, com certeza mais uma daquelas patricinhas mimadas. parou ao meu lado, seguindo meu olhar, ele arqueou a sobrancelha encarando o homem, mas logo voltou a me encarar.
- Quem é ele? – ele disse com a voz baixa, mas com certo nervosismo.

A música do capítulo¹ é Fearless da adorável Colbie Caillat, devo dizer que fiquei chocada de como (para mim) a letra deu certo com, não só o capitulo, mas a história toda da nossa pequena orfã, para mim ficou perfeita essa música como tema da história. E sério, nao irá aparecer só nesse capítulo, eu acredito. Por que eu a usei? Sei que no caso, quando ela escreveu essa música, ela provavelmente queria lembrar algum amor que não deu certo. Quando eu resolvi colocar essa música como trilha sonora, nao foi em questão ‘amor não-correspondido’ e sim tudo que aconteceu na vida dela, a perda dos pais e o ‘abandono’ da Melissa e do Ryan, de como foi tudo triste para ela, mas que mesmo assim ela se manteve corajosa, ou melhor, destemida.
Au revoir²: em português significa ‘adeus’.

Capítulo 07

Imperial College London, baby

Meus músculos se contraiam, e eu sentia o vento frio balançar meus cabelos mesmo com o sol que brilhava no céu. ainda estava parado ao meu lado, me analisando com os olhos, esperando por uma resposta, eu ainda buscava uma explicação adequada, que não vinha, por um milésimo de segundo pude ver que o homem que antes eu analisava, havia parado próximo da escada, e nos encarava, eu balancei a cabeça, segurando o pela mão e subindo os degraus da grande escadaria, indo em direção à secretaria. Aquilo não era possível, com toda certeza ele só tinha a aparência muito parecia com quem eu me lembrava, era uma coincidência muito bizarra. Mas não passava disso.
- Não é ninguém. – eu disse dando de ombros. – Pensei que o conhecia, mas me enganei. – olhei para o chão sorrindo. – Vamos logo ver os nossos horários e onde é o nosso dormitório.
- Ah claro, vamos. – ele entrelaçou nossas mãos sorrindo.
Ao entrarmos no prédio, vimos vários corredores que eram repletos de salas, em uma das pilastras estava um quadro dizendo “Bloco A”, a nossa frente uma bela escada se dirigia para o Bloco B e C, ao nosso lado direito no canto havia uma porta gigantesca de vidro que indicava setas para os outros blocos, pátio e o jardim do campus, ao nosso lado esquerdo quatro portas negras chama nossa atenção. A primeira delas era a diretoria, as duas próximas eram a vice-diretoria e coordenação, na última porta estava uma placa em cima da porta escrita Secretaria, nós caminhamos até lá a abrindo. Diferente do que eu imaginava a secretaria não se encontrava lotada de novos e antigos alunos, havia dois garotos sentados no sofá do canto da sala conversando animadamente e uma garota acertava algo no balcão da secretaria. Eu e paramos ao lado do balcão, e logo uma mulher loira de olhos claros, que deveria estar na faixa dos 30 anos, se aproximou de nós.
- Bom dia, o que desejam? – ela nos perguntou simpática.
- Bom dia. – respondeu sorrindo.
- Bom dia, gostaríamos de pegar os nossos horários e saber o número dos nossos dormitórios. – eu disse sorrindo.
- Claro. Qual o nome de vocês? – ela disse se sentando na cadeira e mexendo no seu computador.
- e Edward . – respondi.
- Claro, aqui está. – ela se inclinou para pegar as folhas que acabavam de sair de sua impressora. – Seus horários Srta. Campbell. O prédio que você terá as aulas de Nutrição é nos blocos A, D e E. – ela sorriu simpática. – Os seus horários Sr. , as suas aulas de Engenharia Civil é nos blocos A, C e E. Sejam muito bem-vindos ao Imperial College London, ah e me perdoem, eu não cheguei a me apresentar, eu sou aSrta. Caroline Clark. – ela sorriu docemente.
- Muito obrigada. – eu disse sorrindo.
- Obrigada, Srta. Clark. – respondeu galanteador. – A Srta poderia nos informar onde são os nossos dormitórios? – ele a lembrou.
- Claro. – ela voltou a olhar seus arquivos. – Aqui estão, os dormitórios são no prédio 3, bloco G. – ela sorriu nos entregando um papel. – Os números dos seus quartos estão no papel, e você tem apenas um colega de quarto. Mais alguma dúvida?
- Não. – eu disse juntando meus papéis. – Obrigada.
- Obrigada, tenha um bom dia. – respondeu educado.
- Igualmente.
Nós pegamos nossas coisas e voltamos para o hall do prédio, olhando ao nosso redor, tudo parecia tão grande e luxuoso. As pessoas que ali andavam, sendo alunos, professores ou apenas visitantes, me lembravam de pessoas nobres, de alguma família rica e poderosa de Londres. Tinha certeza que não estava enganada. me acordou dos meus delírios, ao me puxar pela mão em direção a grande porta de vidro, ao passarmos por ela, vimos um grande jardim com árvores e bancos de concreto espalhados por toda sua extensão, dois outros prédios o rodeavam, tornando-o quase invisível ao resto da sociedade, eu não imaginava que ali naquela faculdade existia um jardim tão grande e bonito como aquele, porém existia e estava ali na minha frente, alguns estudantes estavam deitados na grama, outros liam algum livro encostados as árvores, ao fundo um prédio grande de cor marrom se destacava, ali seria nosso novo lar. Caminhamos até o prédio, ao adentrarmos vimos a grande bagunça que estava ali, várias malas e pessoas procurando seus quartos, outras que já haviam se achado andavam em direção à saída e mais pessoas adentravam o local. Eu e nos olhamos em um misto de confusão e animação, sorrimos juntos.
- Aqui estamos... – ele riu.
- Sim, qual é o número do seu quarto? – eu lhe perguntei, tendo total certeza que o quarto dele deveria ser na ala masculina, estava correta.
- Está escrito assim no papel terceiro andar, quarto 319. Acho que é separado por alas. – ele disse rindo. – E o seu?
- Segundo andar, quarto 271. – eu disse dando de ombros. – Estou um andar abaixo do seu, é bom não me esquecer. – eu ri, o abraçando.
- Jamais. Vamos? – ele disse passando sua mão pela minha cintura, assenti subindo as escadas.

Narração em 3° Pessoa Ao chegarem ao segundo andar, o homem lhe deu um leve beijo em sua bochecha lhe desejando boa sorte, a garota desejou-lhe boa sorte também, e seguiu a procura do seu quarto, estava quase no fim do corredor, quando avistou uma porta da cor tabaco com os números 271 grudados ao topo. Sua mente viajava em vários mundos, ela era assim, sempre pensando no passado e no futuro, como se pudesse mudar algo. O que aconteceu não poderia ser mudado, o que vai acontecer ela, infelizmente, não tem como mudar. Mesmo assim ela tinha a mania de imaginar como as coisas seriam caso aquele acidente não tivesse ocorrido, ela imaginava se estaria ali. Provavelmente não, ela pensou com um sorriso sapeca se formando em seus lábios. Provavelmente estaria em uma faculdade de Liverpool ou talvez, teria ido para faculdade de Yale nos EUA, o sonho da sua mãe, ela se lembrara. Esquecendo-se de todos os “e se”, essa era a sua realidade. Não estava na faculdade que sua mãe adorava, mas estava onde deveria estar, e a única coisa que passava pela sua mente, enquanto segurava a maçaneta da porta, era que ela queria muito que este inicio fosse bom, sua mente repetia indetermináveis vezes: ”seja bom, seja bom, seja bom. Surpreenda-me”. E com esse pensamento ela abriu a porta, e no momento seguinte ela sorriu, vendo duas camas uma de frente para outra, ao lado de cada cama um pequeno guarda-roupa, cômoda e uma mesinha, na parede principal uma janela grande com cortinas da cor creme com detalhes em rosa balançavam, ao lado direito uma porta pequena que deveria ser o banheiro estava encostada, e no lado esquerdo um pequeno balcão dividia o quarto de uma simples cozinha. Uma das camas já estava ocupada, e sua dona estava em pé segurando um vestido cor de rosa a encarando com certa curiosidade no olhar.

’s Pov

- Oi. – eu disse com os olhos baixos. – Eu sou a . – continuei a falar, enquanto fechava a porta.
- Olá . – a garota loira de olhos cor de mel me encarou sorrindo. – Eu sou a Stone, sua colega de quarto. – ela sorriu delicadamente.
- Oh, claro... – eu sorri, andando até a cama vaga, deixando minha bolsa e malas em cima, e abrindo a primeira tirando algumas peças de roupa.
- Você é da onde? – a garota se sentou em sua cama, tentando puxar assunto.
- Nasci em Liverpool. – respondi, guardando algumas camisetas na primeira gaveta da cômoda. – Mas moro em Londres, desde meus cinco anos, e você? – disse sem olhar os olhos de .
- Nasci em Manchester, mas estou morando em Londres já faz dois anos. – dizia alegre. – Você tem quantos anos? – ela tentou mais uma vez.
- Tenho 18 anos e você? – me virei, encostando-me a cômoda e ela sorriu.
- Tenho 19 anos. – ela sorriu meiga. – Acho... Que estou sendo invasiva – ela disse olhando para suas mãos.
- Não, de maneira alguma. – eu disse sendo sincera, me arrependendo de não ter sido mais simpática. – Eu só estou absorvendo o fato de que estou aqui... – respondi, aproximando-me da janela e olhando toda a extensão do campus, ela se aproximou parando ao meu lado.
- É lindo, não é mesmo? – ela disse doce. – Eu não imaginava que iria conseguir entrar aqui, e olha onde estamos.
- Sim, eu também não imaginava. Você não faz ideia de como isso é uma vitória para mim. – eu a respondi sincera, me sentando em minha cama.
- E você vai fazer faculdade do que? – eu perguntei-lhe.
- Nutrição. – ela sorriu animada. – E você?
- Oh, não posso acreditar, eu também. – respondi empolgada. – Será que somos da mesma sala? – eu lhe perguntei curiosa.
- Espero que sim, . – ela disse animada.
Depois de terminar de arrumar minhas coisas nos seus devidos lugares, colocar lençóis limpos e novos na cama, me deitei em minha cama fechando os olhos, há pouco tempo havia decidido sair para conhecer o resto do campus. Quando voltasse, havíamos resolvido de sair e comprar comida para abastecermos nossa pequena cozinha, e produtos de limpeza para finalmente poder limpar nosso novo lar. Ouvi duas batidas na porta, abri meus olhos distraídos, e levantei-me indo descalça até a porta, ao abri-la vi um sorridente, que logo me abraçou levantando-me do chão. Eu já disse o quanto amo os abraços dele? Não, então eu falo agora. O abraço do é uma mistura de inocência com safadeza, não que ele me provoque, mas as sensações de proteção e sedução que ele me passa através do seus abraços sempre estão presentes, como se ele fosse o único que consegue tirar meus pés do chão, me fazendo viajar num mundo sensacional.
- Ei, que felicidade é essa? – eu disse enquanto ele colocava nossos corpos para dentro do meu quarto, sem se desgrudar de mim.
- Isso aqui é lindo. – ele me colocou no chão, e fechou a porta atrás de si.
- Tem razão. – eu sorri. – Ei, e seu colega de quarto? Qual o nome dele e ele é legal? – eu disse me sentando na cama, ele se sentou ao meu lado.
- Ah sim, ele se chama , tem 20 anos e está no 2° ano de Engenharia Civil. – ele dizia sorridente. – Acho que iremos nos dar bem, e sua colega de quarto? – ele disse apontando para a cama da frente.
- Ela se chama Stone e têm 19 anos, ela está no primeiro de Nutrição, ela é bem simpática e não tem nada de patricinha. – eu disse levantando as mãos para o céu rindo.
- Graças ao bom Deus. – ele riu. – Nós deveríamos sair hoje à noite para comemorar. – ele disse animado. – Hoje é sexta, as aulas começam segunda, temos apenas um fim de semana para nos divertirmos sem hora de voltar para nossa nova casa. – ele disse dando de ombros.
- Concordo, mas aonde iríamos? – eu disse sorrindo.
- disse que seus amigos e o resto do campus costumam ir a um lugar aqui próximo, chamado Dark Paradise Obscure. – ele disse levantando a sobrancelha sedutoramente. – O que acha? – ele disse, mas antes que eu respondesse a porta do meu quarto foi aberta revelando com algumas sacolas.
- , me perdoe tive que ir ao mercado. – ela disse sem nos olhar, fechando a porta. – Ah, me desculpa não sabia que estava acompanhada. – ela disse corando.
- Tudo bem . – eu disse sorrindo. – Esse é o , meu amigo. , essa é a minha nova colega de quarto. – eu os apresentei.
- Olá . – disse sorrindo.
- Oi . – ela sorriu, colocando suas compras no balcão.
- Então , vamos? – ele a convidou novamente.
- Sim, estou precisando de festa mesmo. – respondi sorrindo. – Ei, , quer nos acompanhar em uma festa hoje à noite? – eu a convidei, e ela nos encarou por alguns segundos.
- Não diga que é no Dark Paradise Obscure... – ela disse arqueando as sobrancelhas. – Por que se for lá, eu aceito agora. – ela disse rindo.
- É lá mesmo, vamos então? – eu disse confirmando.
- Sim, claro... O campus todo vai estar lá, nada melhor que uma festa para conhecer os populares. – ela disse rindo, nos fazendo rir.
- Então, eu e o passamos aqui para pegá-las às 20hs, estejam prontas. – disse se levantando, e dando um beijo na minha testa, sorri assentindo, ele acenou para e se retirou do quarto.
- Então, acho melhor separarmos nossas roupas. – falou andando até seu guarda roupa.
- Claro. – eu respondi, levantando-me e indo até o balcão retirando algumas das compras da garota, e colocando no pequeno armário que estava colocado acima da pia.
- Ei, ... – me chamou. – Ele é seu namorado? – ela perguntou curiosa, abrindo um sorriso malicioso. – Por que ele é lindo e vocês fazem um casal maravilhoso, com todo respeito. – a garota disse rindo, eu a olhei perplexa, meus olhos piscando repetidas vezes.
- Não. – eu a respondi rapidamente balançando a cabeça em negação. – é o meu melhor amigodesde sempre e é apenas isso. – disse confiante indo em direção a porta do banheiro. - Vou tomar banho, com licença. – eu disse antes de fechar a porta atrás de mim.
- Então ta. – ainda pude ouvir, ela me responder.
Ao fechar a porta do banheiro, eu parei em frente ao espelho, olhando meu reflexo no espelho, ao fechar meus olhos fortemente como flashes tudo se passou diante dos meus olhos, a primeira vez que eu vi o garotinho que era meu vizinho, aquele que deixou sua bola de futebol tocar em minhas pernas e sorriu com suas bochechas coradas, a primeira vez que vi o , e o dia em que ele perguntou se eu queria ser sua melhor amiga. Afastei-me da pia, tirando minha camiseta e short, ao sentir as primeiras gotas de água correr por minha pele, senti um arrepio, deixei que a aquela água fria me fizesse lembrar cada momento com ele. O meu melhor amigo, todas às vezes que eu chorava, brigava ou pensava estar amando, era ele quem me abraçava e dizia que tudo iria ficar bem, aquele homem tímido e cheio de superioridade era ele quem me abraçava. poderia ter dito que faríamos um belo casal, mas eu sabia que isso deixou de ser possível desde que entramos na fase adulta, é e sempre será meu melhor amigo, e é só isso que seria para mim, era o que eu gritava para meu coração e minha mente. Eu poderia até todos os dias sentir uma puta de uma atração por ele, mas eu sei que não passaria daquilo. Não poderia passar. Diferentemente do que eu imaginei, minha mente enganadora me levou até o momento em que eu cheguei no campus e ao descer do carro, vi aquele homem. Os seus olhos e seu rosto sereno, lembrava-me tanto o garotinho que eu conhecera ainda pequeno, mas não era possível, eles não poderiam ser a mesma pessoa... Eu deveria parar de pensar, meu coração deveria parar de mandar avisos. Eu sempre fui melhor sozinha, foi assim que eu nasci, cresci e vou continuar sendo, a garota solitária. Depois de lavar meus cabelos longos, e me secar, saí de volta para o quarto, usando apenas um conjunto de lingerie. falava ao celular, perto da janela.
- Isso, 20 horas aqui, não chegue atrasada. – ela dizia rindo. – Beijos, tchau. – ela desligou se virando. – Espero que não se importe, convidei uma amiga. – ela disse pegando um vestido do guarda roupa.
- Claro que não. – eu disse abrindo meu guarda roupa.
- Ela é a Summer Hudson, está no 2° ano de Nutrição e é quase como uma irmã. – ela disse apresentando-me, antes da hora, sua amiga.
- Summer, bonito nome. – eu disse sorrindo. – Legal, ela pode nos ajudar em nosso primeiro ano. – eu disse empolgada.
- Ah com certeza. E nos apresentar aos populares. – ela disse indo para o banheiro. – Vou tomar banho. – ela disse antes de fechar a porta.
Eu continuava a tirar várias peças do meu guarda roupa, mas nada que eu encontrava, sentia que fosse digno da minha primeira balada no campus. Vestidos pretos e justos, mas nada que me convencesse. Sentei-me na cama, cruzando as pernas e olhando as roupas no chão, já estava escurecendo e nada de eu achar algo bonito e marcante, do jeito que eu queria parecer. Mesmo que eu sempre fosse a garota solitária, discreta e tímida, sempre que ia a lugares cheios de pessoas ou quando estava em lugares, como a faculdade, eu queria chamar a atenção, não como a garota gostosa da turma, mas que me visse e se lembrasse de mim. Exatamente o tipo de pessoa marcante. Enquanto eu observava minhas roupas eu notei uma peça no chão, um vestido cinza com detalhes em preto, eu o ergui e tive certeza que era ele. O coloquei e logo em cima coloquei uma jaqueta de couro preta que ficava na altura dos meus seios deixando a minha roupa mais descolada, nos meus pés coloquei meussapatos pretos de salto alto e parei em frente ao espelho, vendo meu reflexo no espelho, depois de me maquiar e deixar meus cabelos lisos e soltos, sentei-me na cama. Logo saiu do banheiro, sua maquiagem já estava feita, e seu cabelo cai de um lado dos seus ombros em cascatas com vários cachos bem feitos.
- Uau... – ela disse parando na minha frente. – Você está um arraso. – ela sorriu.
- Obrigada. – eu disse corando.
Ela por sua vez, já havia escolhido sua roupa, colocando seu vestido de listras pretas e marrom com uma jaqueta de couro preta por cima, nos seus pés colocou seu sapato Loubotin, ela se aproximou do espelho se vendo e sorriu, eu me levantei parando ao seu lado.
- Você está linda. – eu sorri, a elogiando.
- Obrigada. Ei, vamos tirar uma foto. – ela disse virando-se para pegar seu celular. – Primeira balada, juntas. Uhu. – ela disse balançando as mãos para cima, antes de nos aproximarmos mais sorrindo para a câmera, e tiramos uma foto, marcando a nossa primeira noite na faculdade.
Eu e começamos a conversar, até mesmo eu sempre tão quieta ela conseguia me tornar alguém extrovertida e animada, definitivamente ela é uma companhia perfeita para não se deixar ficar triste. Enquanto ela me contava sobre sua vida, seus pais que estavam morando na Itália, eu pensava se era realmente isso que eu queria. Eu prestava atenção no seu olhar de saudade e suspiros, e seus sorrisos involuntários quando falava sobre sua mãe, mas eu por alguns minutos pensava se era essa a vida que eu queria. Digo, depois de me formar o que eu vou fazer? Tantas dúvidas na minha mente me deixavam tonta, agradeci quando duas batidas na porta nos despertaram.
- Deve ser a Summer. – ela disse se levantando rindo. – Oi, chegou na hora. – abriu a porta cantarolando. – Essa é a . essa é a Summer. – apresentou a garota ruiva que estava ao seu lado, ela usava um vestido tomara que caia púrpura que deixava seu corpo muito bem definido e saltos peep toe pretos, ela sorriu.
- Olá, . – ela disse me dando um beijo na bochecha.
- Oi, Summer, prazer em conhecê-la. – eu sorri educada.
- Agora que foram apresentadas, podem se soltar... Hoje a noite é nossa. – disse levantando as mãos e mexendo os quadris.
- Com certeza, hoje a noite é nossa. – ouvimos uma voz masculina, que nos fez olhar em direção a porta assustadas.
- , cale-se. – disse batendo no ombro de um homem alto de cabelos castanhos claros e olhos azuis hipnotizantes.
- ! – eu disse retirando as mãos do meu coração, respirando mais aliviada.
- Olá minha pequena. – ele disse entrando no quarto. – Desculpem senhoritas, esse é o meu amigo . – ele disse dando de ombros e parando ao meu lado.
- Meninas, esse é o . , essas são e Summer. – eu disse os apresentando.
- Muito prazer em conhecer, adoráveis senhoritas. – disse sedutoramente, dando um beijo nas delicadas mãos da , e logo após fez o mesmo com Summer que sorriram.
- Prazer em conhecê-los. – Summer disse sorrindo. – Mas agora vamos, estou empolgada. – ela disse saindo para o corredor.
- Claro, vamos. – disse saindo de nosso quarto.
- Você está linda, . – disse em meu ouvido, e eu sorri.
- Você também, Sr. . – ele segurou minha mão fortemente, enquanto saiamos do prédio.
Logo que saímos do prédio, fomos até o estacionamento onde estava o carro de , nos acomodamos e seguimos ao nosso destino, o pub famoso do centro da cidade. que estava no banco do passageiro colocava músicas animadas e cantava junto com musicas desconhecidas por mim, Summer ao meu lado contava sobre como era a faculdade e como nos acostumávamos com o pouco espaço nos dormitórios, ela me disse que havia muitos nerd’s e pessoas estranhas, mas que um grupo se destacava diante de todos. O grupo vip. Claro, os riquinhos e metidos de sempre. Pelo que ela falava todos queriam ser amigos, namoradas, ficantes ou até meros conhecidos deles, assim podendo ir a festas que eles planejavam com muitas bebidas, drogas e orgias. Tudo que qualquer idiota virgem sonha. Tolos. Ao pararmos na boate, eu pude ver o tamanho da fila que já se formavam na entrada, as paredes eram negras com algumas luzes pratas e verdes, o nome num painel vermelho que brilhava fazia referência ao nome “Dark Paradise Obscure”, dois seguranças grandes e fortes estavam em frente a porta, permitindo que poucos entrasse.
- Vamos enfrentar mesmo toda essa fila? – eu disse ao descer do carro.
- Claro que não, bobinha. – disse apertando minhas bochechas enquanto ria.
- conseguiu ingresso vip. – explicou sorrindo.
- E como você conseguiu essa proeza? – lhe perguntou maravilhada.
- Não posso te contar meus segredos, docinho. – disse segurando o queixo da garota. – Sinto muito. – ele piscou para ela, antes de se afastar.
- Então, vamos logo. – Summer disse sorrindo.
- Os ingressos. – um dos seguranças falou despreocupado.
- Aqui. – estendendo cinco ingressos Vips, sorriu.
- Podem entrar. – ele nos deu passagem, então adentramos o local.
Após passarmos a porta, vimos um hall com cadeiras pretas e luzes vermelhas colocadas no chão, em cada lado dois corredores grandes, a nossa frente uma pequena escada, descemos as escadas e vimos a pista de dança lotada, no lado direito era possível ver uma divisão e o bar, no lado esquerdo outro corredor e algumas mesas e cadeiras, no andar de cima mesas e mais pessoas dançando com copos nas mãos, o lugar estava cheio e a música que adentrava meus ouvidos era Good Feeling do Flo Rida.
- Ei, vamos dançar? – Summer nos perguntou sorrindo, e concordaram, enquanto eu e preferimos ir pegar algo no bar.
- Nós vamos pegar algo para beber, depois nos encontramos. – respondeu entrelaçando nossas mãos.
Eu e andamos um do lado do outro até a outra parte da boate, nos sentamos numa das cadeiras do bar e pedimos a um homem de cabelos negros um Bloody Mary para mim, e whisky para o , pouco tempo ele nos trouxe nossos pedidos, e eu bebi um pouco do liquido, sentindo minha garganta reclamar um pouco. observava a pista de dança despreocupado, enquanto o observava calada. Eu amava seu perfil, ao mesmo tempo em que ele conseguia ser um menino brincalhão, conseguia ser um homem sedutor. Seria muito ruim eu sentir vontade de tocá-lo, de bagunçar seus cabelos, de me aproximar e sentir o seu perfume tão característico?
- O que foi? – ele disse ao notar que eu estava o observando.
- Nada. – eu disse bebendo um pouco do meu drink. – Só é estranho te ver bebendo. – eu disse rindo, tentando esquecer meus próprios pensamentos.
- Como se você não estivesse bebendo. – ele disse divertido. – E nós já bebemos juntos. – ele disse arqueando a sobrancelha. – Se queria dizer que estou irresistível, era só falar... – ele disse piscando.
- Convencido. – eu disse lhe dando um tapa no seu ombro, ele riu divertido. – Eu só estava pensando, agora estamos na faculdade. Isso é incrível. – eu disse sorrindo.
- Muito incrível. – ele disse feliz, no mesmo momento vi todos que estavam na boate se virar para ver que acabara de chegar.
e eu nos entreolhamos confusos, e então vimos um grupo de jovens adentrando o bar, era o mesmo casal que eu havia visto de manhã, mas dessa vez estavam acompanhados com mais algumas pessoas, eles sorriam e se sentaram numa mesa em frente de onde nós estávamos. O menino loiro se levantou chamando com o dedo o barman, que foi automaticamente a mesa deles, todos sorriam, enquanto uma das garotas me olhou de cima abaixo revirando os olhos, eu me virei ficando de frente ao balcão do bar, me olhou confuso. Nossos amigos se aproximaram, Summer se sentou numa mesa próxima do grupo, e nos chamou, nós nos sentamos.
- Por que razão todos pareceram parar quando eles entraram? – perguntou franzindo a testa, e eu pude reparar a mão despreocupada de em sua coxa, eu sorri maliciosa.
- Antes de responder, Summer – eu disse interrompendo a ruiva que me olhou divertida, seguindo meu olhar. – por que a mão do está na sua coxa, querida ? – eu disse levantando as sobrancelhas rindo.
- Nossos amigos são rápidos. – disse malicioso.
- Calem-se. – disse corando.
- Tem razão, fiquem quietos. Estamos... Nos conhecendo e não há mal nenhum nisso. – disse segurando a mão dela sorrindo.
- Não mesmo, agora vamos a minha pergunta. – ela disse revirando os olhos, mas voltando a sorrir.
- Aquele é o grupo vip. – ela respondeu como se fosse óbvio. – Os queridinhos do Imperial College London. Amanhã eu apresento todos a vocês, mas agora a diversão me chama. – ela disse se levantando, no mesmo momento que o menino loiro, o mesmo que havia chamado o barman, se levantou.
Poderia ter sido coincidência, mas o modo como ele olhou a nossa mesa em direção a ela, como se estivesse confirmando se ela iria ou não, confirmou meu pensamento que ali tinha algo. Ela passou por ele sem nem olhá-lo, mas logo os dois desapareceram entre a multidão, dizia aos presentes não se importar com esse grupinho, que eles eram iguais a todos, o favoritismo deles não era por conta do seu dinheiro, até porque muitos ali eram ricos. Como Summer, e até mesmo , todos tinham uma boa conta bancária, o que os tornavam os preferidos eram suas festas até o amanhecer. Eu revirei os olhos, me levantando.
- Deixem os riquinhos se sentirem no poder. – eu sorri animada. – Vamos dançar.
- Vamos! – se levantou, continuou segurando sua mão e veio ao meu lado segurando minhas mãos.
Passamos pela mesa do grupinho, mas não pensei nem em olhar, a pista de dança estava fervendo, as pessoas dançavam animadas ao som de Whistle do Flo Rida, em minhas mãos eu segurava um copo de Sex on the Beach, enquanto dançava entre e . Segurei meus cabelos, deixando a mostra minha nuca, e rebolava, sentindo toda vibração da música passar pelo meu corpo. Dançar para mim é um sentimento único, você se sente fora do mundo, não pensa nas pessoas, mas ao mesmo tempo consegue ser uma linguagem mundial. Todos podem se entender enquanto dançam. Ficamos muito tempo dançando, até que decidimos ir embora, paramos no hall enquanto pegava seu celular e tentava ligar para Summer, que havia sumido.
- Caixa postal, de novo. – ela disse, mais para si do que para nós. – Deve estar aprontando.
- Manda uma mensagem. – eu disse.
- Já mandei, disse que estamos indo embora. – ela disse dando de ombros, indo em direção à porta. – Quem quer que esteja com ela, deve ser da faculdade e a levará para lá. – ela disse confiante, nós a seguimos.
Todos nós estávamos um pouco alto demais, foi dirigiu e cantávamos animados alguma musica desconhecida que tocava na rádio, eu e tentávamos dançar sentadas, uma missão muito complicada, até que chegamos ao campus, depois de estacionar o carro, fomos em direção aos dormitórios, abrimos a porta, e tropeçou quase caindo, todos começamos a rir descontroladamente, eu e ela tiramos os sapatos subindo devagar e em silêncio até o nosso andar, os meninos nos seguravam pela cintura e nos levaram até a porta. e pararam próximo da escada e trocaram um longo beijo, eu e paramos em frente à minha porta, enquanto eu procurava a chave, quando consegui a abrir, me virei o fitando. Eu poderia culpar todo o álcool que eu ingeri esta noite, mas ali na minha frente exalava sedução, charme e sensualidade. Por um minuto, eu pensei como seria tocar seus lábios mais uma vez, como seria bom tocá-lo da maneira que meus hormônios pediam, desculpe sociedade, mas eu tinha desejos e o , eu não poderia negar jamais, é o cara mais gato que eu já vi na minha vida. Meus olhos subiam devagar dos seus lábios até seus olhos, que incrivelmente me penetrava, como se fosse capaz de descobrir tudo que eu pensava.
- Você. – ele disse parando franzindo a testa. – Está bem? – ele sorriu.
- Estou, muito bem. – eu disse rindo envergonhada. – E você?
- Também. – ele disse me abraçando. – Você esta linda hoje. Muito. – ele se afastou me dando um beijo na bochecha.
- , vamos trocar de quarto? – gritou da onde estava, e nós o olhamos confusos, ele tratou de explicar. – Você fica com a , e aproveita... a noite... E eu e a ficamos lá em cima. – ele disse sorrindo maliciosamente.
- Acho que meu amigo bebeu demais hoje. – disse rindo para mim. – Boa noite, pequena. – ele disse me abraçando e logo indo em direção ao amigo.
- , vamos dormir. – eu gritei, vendo-a se afastar do .
- Cara, você é um viado mesmo. – disse batendo no que riu, mas logo eles sumiram da nossa visão.
Eu e entramos no quarto, depois de arrancarmos nossas roupas, e deitarmos em nossas camas, eu a perguntei o que ela e estavam tendo, em um confuso não sei seguido de um sorriso terno, ela deixou transparecer que o que eles estivessem tendo ia dar certo. Eu sorri, desejando-lhe boa noite. Ao me deitar em minha cama, fiquei olhando as cortinas se balançarem, pensando sobre a noite que eu tivera, mesmo eu amando festas, no fundo, eu sempre era a garota solitária, e isso para mim continuava a ser estranho. Aquele grupinho de jovens metidinhos, os seus olhares com ar de superioridade não saía da minha mente, mas o olhar do homem de cabelos castanhos era o que me deixava mais tonta, sem ação, seu olhar era lindo, e foi nesses pensamentos que acabei pegando no sono.

Capítulo 08

First Day!

Parecia que eu havia dormido pouquíssimas horas, quando um barulho estridente soou pelo quarto, com murmúrios baixos vindo do outro lado do quarto, eu abri meus olhos, olhando preguiçosamente para a janela, diferente do dia anterior, hoje era mais um dia típico de Londres. Uma chuva fraca caía do lado de fora, e o tempo estava completamente fechado. Sentei-me na cama, fazendo um coque frouxo, e logo senti um vento frio percorrer meu corpo, no momento que eu abandonei minha cama. ainda se levantava reclamando, e eu pude ver em nosso relógio na parede que já era 6h35. Minha primeira aula era dali 25 minutos no bloco A, eu balancei a cabeça indo em direção à cozinha.
- Bom dia, . – eu disse sorrindo. – Vou fazer um café, você quer?
- Bom dia, . – ela sorriu indo até o banheiro. – Ah. sim. Minha caneca térmica está no armário. – ela disse antes de adentrar o banheiro.
Enquanto eu preparava o nosso café e o colocava em nossas garrafas térmicas, eu fui ao meu guarda roupa e coloquei uma camiseta branca com um casaco creme por cima, uma calça skinny preta, botas sem salto e peguei uma bolsa de lado, onde coloquei as coisas mais importantes. Após sair do banheiro, eu fiz minha higiene matinal, e voltei para a cozinha, ela já pegava sua bolsa e sua caneca, usava uma calça skinny, uma blusa branca com um casaco azul marinho por cima e botas sem salto, arrumei minha cama, peguei minha bolsa e logo estávamos sentadas na entrada dos dormitórios, esperando os meninos.
- Qual é o seu horário? – disse depois de um tempo em silêncio.
- 7h00, no bloco A, e o seu? – eu disse olhando alguns estudantes passarem apressados em direção ao prédio principal.
- 7h10, no bloco C. – ela sorriu. – Será que os meninos acordaram?
- Com certeza, o é bem responsável. – eu disse despreocupada. – Ele não perderia aula no primeiro dia. – eu disse rindo.
- É acho que sim... – ela disse olhando para a escada. – Olha, eles estão vindo. – ela se levantou sorrindo.
- Bom dia, meninas. – e falaram juntos sorrindo.
- Bom dia meninos. – respondemos em uníssono.
– Vamos? – eu disse indo para o meio dos meninos, e a ficou ao lado do , foi impossível não ver quando eles se cumprimentaram com um selinho e logo estavam de mãos dadas.
- *cof, cof* Isso seria... – eu disse parando para olhar suas mãos entrelaçadas. – uma união? – perguntei sem saber quais palavras eram as certas para se usar.
- Não queremos nos dar títulos. – respondeu sorridente. – Estamos bem, nos conhecendo e estamos...
- Felizes. – completou sorrindo.
- Eu fico feliz também. – eu disse abraçando os dois.
- Eba, eu também. – disse nos abraçando rindo. – Agora vamos... , qual é a sala que você vai? – ele me perguntou, andando ao meu lado.
- Bloco A, sala 20 e você? – eu disse sorrindo, enquanto passávamos pelo gramado do campus.
- Eu e o temos aula agora no bloco D, na sala 52. – ele sorriu, indo em direção ao lado direito. – Vocês têm aula juntas?
- Não. – eu disse fazendo biquinho.
- É no mesmo prédio, mas eu tenho aula no bloco C, na sala 45. – ela disse olhando rapidamente um papel em suas mãos. – Ei, eu só tenho aula 7h10, nós poderíamos dar uma volta pelo campus. O que acha? – disse colocando seus braços em volta do pescoço do , que a abraçou pela cintura sorrindo.
- Eu adoraria. – ele disse dando um selinho nela. – Mas, não posso perder minha primeira aula, sinto muito. – ele abaixou a cabeça tristonho.
- Claro. – ela disse se afastando. – Boa aula. – ele a puxou e lhe deu um beijo, eu e nos viramos andando um pouco mais para frente.
- Ei, boa aula. – eu disse me virando, encarando seus belos olhos verdes e ele sorriu me abraçando.
- Boa aula, pequena. – ele me levantou, me tirando do chão, e eu ri. – Qualquer coisa me liga. – ele disse me colocando no chão, mas permanecendo com sua mão em minha cintura.
- Ligo sim. – eu disse balançando a cabeça. – Poderíamos almoçar hoje no shopping. – eu disse sorrindo. – E arrumar nossos dormitórios, o que acha? – eu disse empolgada.
- Acho perfeito. – ele disse me dando um beijo na bochecha bem apertado, eu o abracei, afundando minha cabeça em seu pescoço.
- Oh casal-somos-melhores-amigos-apenas, será que vocês podem se soltar? Temos aula agora. – ouvi a voz risonha do , e nos afastamos rindo.
- Idiota. – eu disse arqueando a sobrancelha, e rindo com a expressão que ele fez. – Boa aula, até mais tarde. – eles acenaram, indo em direção ao prédio 2, eu e voltamos a andar em direção ao prédio 1.
- Tem certeza que vocês são melhores amigos? – ela disse arqueando as sobrancelhas. – Não me leve a mal, , é que às vezes parece que vocês são namorados. – ela disse sorrindo timidamente.
- Eu sei, mas é que somos assim. – eu disse dando de ombros. – Ele é meu melhor amigo, e eu sou a dele, é normal isso, e não nos importamos com o que parece. – eu sorri.
- Entendo, isso é muito bonito. Uma amizade sem segundas intenções é tão rara... – ela disse pensativa enquanto entravamos no prédio. – Bom, eu tenho que pegar uma coisa na secretaria, até mais tarde. – ela disse se afastando. – Boa aula, - Boa aula, . – eu sorri indo em direção à escada.
Era engraçada a forma como o e a sempre tentavam perguntar para mim e o se tínhamos algo, mas sempre foi algo tão normal nos tratarmos assim, que não seria agora que iríamos parar. Crescemos e nos descobrimos como pessoas juntos, ele sabe de todos os meus segredos, como eu sei os dele, e nunca nos importamos com as opiniões e pensamentos das pessoas. Elas sempre levavam nossa relação com segundas intenções, sendo que era desnecessário, logicamente ele é um cara lindo, de tirar o fôlego, com seus olhos verdes hipnotizantes e seus cabelos castanhos claros tão macios, seu corpo definido... Mas o que eu estou fazendo? É claro que ele é um homem lindo, mas não significa que aconteceria algo entre nós, algo nesse nível.
Enquanto eu subia as escadas, podia ver vários estudantes entrarem em suas salas e passarem acelerados por mim, todos estavam apressados e pareciam ansiosos ao subirem e descerem as escadas, eu já estava no segundo andar e procurava minha sala, quando uma menina de cabelos pretos curtos, passou por mim e tropeçou, deixando suas coisas caírem no chão, eu a olhei e logo me ajoelhei ao seu lado, a ajudando a pegar seus livros, nos levantamos e ela sorriu envergonhada.
- Obrigada, eu realmente sou muito desastrada. – ela disse sorrindo, olhando para o chão.
-Não foi nada. – eu disse rindo. – Prazer, eu sou a , e você?
- Eu sou a Lizzie. - ela disse sorrindo. – Você é nova... – ela fora interrompida.
- Lizzie. – uma voz rouca a chamava um pouco mais alto, nós duas olhamos, um homem de cabelos castanho curto vindo em nossa direção sorrindo.
- Meu amor, bom dia. – ela disse dando-lhe um selinho.
- Bom dia, minha menina. – ele sorriu entrelaçando suas mãos, e me olhou arqueando as sobrancelhas.
- Brian, essa é a . – ela disse apontando para mim. – , esse é o Brian, meu namorado. – ela sorriu orgulhosa.
- Oi. – eu disse tímida, me sentindo invadida por seus olhares.
- Olá . – ele disse simpático. – Você deve ser nova por aqui, não é? Eu nunca te vi aqui. – ele disse pensativo.
- Eu ia te perguntar exatamente isso. – Lizzie comentou rindo.
- Sim, sou. É meu primeiro ano. – eu disse sorrindo, mas antes que pudéssemos falar mais alguma, os restos dos seus amigos se aproximaram de nós, tirando toda a oportunidade de fazermos amizade.
- Olá, meus amores. – uma garota de cabelos loiros e voz enjoativa falou alto parando ao lado da Lizzie.
Eu a olhei e ao seu lado pude ver o mesmo homem do dia em que cheguei aqui. Era o mesmo casal. Ele me olhou de cima abaixo, como se me analisasse e ao lado do Brian uma garota de cabelos loiros curtos parou segurando a mão de dois outros garotos. Um deles, fora impossível não reconhecer, era o mesmo homem de cabelos loiros que havia saído para dançar com a Summer na noite em que fomos ao pub.
- Quem é ela? – a garota de cabelos loiros perguntou como se eu não estivesse presente.
- Ela é a... – Lizzie começou a falar, quando eu a interrompi.
- , muito prazer. – eu disse estendendo a mão com um leve sorriso de lado. – E você? – eu disse a encarando, se ela pensava que eu era boba, estava enganada.
- Barbara Lively. – ela disse olhando para minha mão e lançando um sorrisinho debochado.
- Ela é aluna nova. – Brian disse sorrindo, e me arrisco dizer que de todos ali, ele e sua adorável namorada eram os únicos que tinham um sorriso sincero nos lábios.
- E eu nem reparei isso, não é, Brian? Nem precisava me avisar. – ela disse revirando os olhos. – Mas ei, não falamos com novatas... – ela disse me analisando. – Amorzinho, vamos. – ela disse puxando o homem de olhos castanhos escuros, que ainda me analisava.
- Desculpa. – escutei Lizzie sussurrar quando passou ao meu lado, indo em direção as cadeiras que tinha ali no andar, o resto do grupo seguiu o casal.
Eu revirei os olhos, e continuei a procurar minha sala, que era no fim do corredor, algumas meninas simpáticas me cumprimentaram antes de eu entrar na sala que era espaçosa, toda sua lateral era com janelas de vidro que dava para ver boa parte do jardim, caminhei lentamente sentando-me na penúltima carteira. Como era possível ainda existir tantas pessoas mesquinhas, enquanto Lizzie e Brian são pessoais completamente simpáticas e sociáveis, os amigos dele e a tal da Barbara são completamente idiotas. Isso é ridículo. Com certeza, todos têm a minha idade e ainda são infantis o bastante para dizer “não falamos com novatos”, se fossem adultos seriam flexíveis o bastante para fazer novas amizades, e ainda me olhava com cara de nojo, como se eu fosse de outro planeta, fora o olhar invasivo do namorado (gatinho) dela, tudo bem que ele me lembrava o meu ex-vizinho, mas como poderia ser ele? Aquele homem era meigo, tinha um lindo sorriso, e sua bochecha ficava corada quando me via, ele era simpático e sociável, esse era completamente diferente desse homem, não era possível ser a mesma pessoa. Com toda certeza eu estava muito enganada, peguei minha bolsa, e retirei meu iPhone, meu caderno e uma caneta, e comecei a escrever os avisos que até então eu não tinha reparado que estava escrito no quadro negro:

* não usar telefone na aula,
* respeitar o professor,
*respeitar os seus colegas de sala,
*livros que precisarem ser impressos na sala 3 (secretária),
*tenha seu próprio material, lembrando que em aulas práticas é essencial o seu jaleco.

Eu sorri, já sabia que em minhas aulas práticas de nutrição eu precisaria do meu jaleco, e por isso já tinha o meu. Após terminar de anotar, levantei minha cabeça, vendo Lizzie entrar na sala, sendo seguida pela mesma garota de cabelos loiros curtos de minutos atrás, elas pararam chamando a atenção da outra garota, Barbara, que ainda estava agarrada ao seu namorado, eu revirei os olhos e voltei a escrever qualquer coisa me distraindo o bastante para não olhar aquela cena ridícula. Era constrangedor ficarem na porta da sala se amassando, isso não é respeitar os colegas de sala. Poucos minutos passaram, quando alguém se sentou ao meu lado, me cutucando, eu olhei.
- Oi, , bom dia. – Summer falava empolgada.
- Oi Summer, bom dia. – eu disse confusa sorrindo de lado. – Você não é do 2°? – eu disse franzindo a testa.
- Sim, mas eu preciso rever todas as aulas de Diagnóstico da Alimentação Humana. – ela respondeu dando de ombros. – Fiquei em recuperação semestre passado. – ela fez um bico, voltando a sorrir.
- Entendi. Então, teremos essa aula juntas? – eu sorri um pouco mais animada, e ela assentiu sorrindo. – É impressão minha ou hoje você está muito feliz?
- Sim, estou muito feliz. – ela disse batendo as duas mãos. – Mas, depois da aula eu conto pra você e pra o que aconteceu... – ela disse voltando seu olhar para a porta. – A aula vai começar. – ela disse colocando seu caderno na mesa despreocupada.
A nossa professora de DAH se chama Ryta Sparks, e ao se apresentar foi possível ver que era simpática e fazia o que gosta. Mas, no momento que ela começou a explicar a matéria, eu balancei a cabeça negativamente. Ela era atrapalhada, e não conseguia prender a atenção de ninguém, uma negação. Lizzie e o resto das suas amigas estavam sentadas no canto direito, e enquanto prestavam atenção na aula, conversavam rindo e olhando todos os alunos, eu revirei os olhos. Fúteis. Summer que estava ao meu lado notou o meu gesto, e sussurrou.
- O que foi?
- Nada. – eu disse olhando para frente, rapidamente levando meu olhar ao grupo de meninas.
- Elas são populares... E fúteis. – ela disse, e eu a olhei, notando que ela havia visto para quem eu estava olhando. – Elas estão no 2° ano, mas ficaram detidas em algumas matérias. – ela revirou os olhos. – A loira de blusa rosa é a Barbara Lively, a de cabelos pretos é a Lizzie Williams e por último, a de cabelo loiro curto é a Natalie Benson. – ela falou seus nomes com escárnio.
- Você não gosta delas, não é? – eu disse a olhando.
- Srta. , gostaria de nos fazer uma explicação básica sobre os aminoácidos essenciais, que eu acabei de explicar? – Sra Ryta me perguntou, me fazendo revirar os olhos, como se eu não soubesse a resposta.
- Claro. – eu disse voltando minha atenção a ela, agora todos, inclusive o grupo das meninas patricinhas me encaravam sorrindo. – Os aminoácidos essenciais não são adequados para satisfazer as nossas necessidades metabólicas, por isso devem ser fornecidos como parte da dieta. – eu sorri segura, e todos abriram a boca em sinal de surpresa.
- Perfeito. – a professora disse arqueando a sobrancelha, na mesma hora o sinal que indicava o término da aula tocou, fazendo todos se levantarem, inclusive eu.
- Não. – Summer disse pegando seu caderno, eu a olhei confusa e ela continuou. – Não gosto delas, muito menos do grupo de amigos delas. – começamos a andar em direção a porta. – Naquele grupo, só tem três exceções. – ela sorriu, enquanto andávamos no corredor.
- Quem? – eu disse curiosa.
- Logo você irá conhecer. – ela disse sorrindo, se virando de frente para mim. – Mas agora tenho que ir, tenho aula daqui 10 minutos no bloco F. Até mais tarde . – ela disse me dando um beijo, e saindo em direção as escadas.
Eu peguei meu celular, vendo que minha aula era dali exato 5 minutos, no bloco C, no 3° andar. Eu tinha que correr se não quisesse chegar atrasada, eu comecei a andar rapidamente, passando por várias pessoas, o elevador estava ainda no 4° andar, então resolvi subir as escadas, me faltava fôlego, mas logo cheguei ao andar, e comecei a procurar minha sala. Meu celular vibrou, tirando minha atenção, ao ver o nome sorri. .

“Ei, como foi sua primeira aula? Espero que tenha sido muito boa. Minha próxima aula é daqui 15 minutos, será que vamos nos ver? Beijos, ”.

Eu sorri, e respondi automaticamente, adentrando a sala que havia poucos alunos ainda.

“Olá, foi boa e a sua? Não vai dar, já estou na sala. Mas logo nos vemos, ok? Beijos,

Ao responder, guardei meu celular na bolsa, seguindo até meu lugar. O resto da manhã se seguiu tranquila, enquanto eu tinha que ultrapassar o campus para chegar aos outros blocos, conseguia me sentar na grama para esperar o próximo horário, nas 6 aulas do dia, 4 foram com a , sendo apenas as quatro ultimas. Agora saíamos conversando do bloco D, indo em direção à grama, onde Summer estava sentada falando animada no celular.
- Ela está feliz hoje. – eu comentei. – É sempre assim? – eu a questionei.
- Ela sempre está feliz, . – me respondeu sorrindo. – Mas, hoje ela está surpreendentemente mais feliz. Algo aconteceu na balada, aquele dia. – ela disse, piscando um dos seus olhos.
- Ei, meninas. – Summer disse ao nos ver, guardando seu celular. – Como foi o primeiro dia? – ela nos perguntou.
- Ótimo. – respondeu.
- Legal. – eu disse despreocupada me sentando a sua frente.
- Agora pode começar a contar o que houve... – perguntou colocando as duas mãos na cintura, Summer riu.
- Curiosa. – ela disse cantarolando. – Eu e o Josh ficamos. – ela disse batendo palmas e rindo.
- Sabia! – sorriu balançando os braços, eu as observava completamente deslocada. Quem era Josh? – Acho que é melhor você contar a história pra , ela não deve estar entendendo nada... – ela continuou, notando minha confusão.
- Ah claro. – Summer disse sorrindo. – Ele é lindo, ele se chama Josh Devine e faz Engenharia Civil, nós nos conhecemos ano passado e foi... – ela parou, procurando por uma palavra. – Arrebatador. Quando vimos já estávamos tendo algo muito forte, mas ele faz parte daquele grupo de riquinhos que eu te disse, e por causa disso nos afastamos. – ela disse revirando os olhos. – Ele é uma das exceções, mesmo às vezes sendo o mais idiota deles. – ela riu sem humor.
- Ele é aquele loiro não é? – eu perguntei, e ela confirmou confusa. – O que foi? Eu não sou burra, vi vocês na balada trocando olhares. – elas gargalharam.
- E agora, vocês estão juntos? – perguntou animada, e foi visível o olhar triste que Summer adquiriu.
- Não . – ela disse como se fosse óbvio. – Porque ele ficaria com a plebeia, se pode ter as princesas riquinhas, digo, as vadias ricas? – ela disse com fúria.
- Ei não fale assim, você é uma princesa. – ela disse segurando a mão da garota, que fechou os olhos com força. – Ele que é um idiota.
- Summer, eu não conheço você há muito tempo... – eu disse me aproximando delas. – E nem ele, mas certamente se ele não quer ficar com você realmente, é porque, como a disse, ele é um idiota. Não se desvalorize, ele não merece. – eu disse sorrindo, e ela me olhou me dando um abraço, logo nos abraçou rindo.
- Obrigada, mesmo. – ela sussurrou baixinho nos fazendo sorrir.
Logo que saímos dali, resolvemos voltar aos nossos dormitórios para tomarmos um banho e encontrar os meninos. Depois de pouco tempo, estávamos arrumadas e encontramos com e no corredor, saímos do campus e fomos almoçar no Pizza East, onde nos deliciamos com pedaços de pizzas, o lugar era muito aconchegantes e rimos muito com as palhaçadas dos garotos, até que tivemos que voltar ao nossos dormitórios, finalmente podendo deitarmos em nossas camas para ter mais uma noite de sono.

Capítulo 09

Wish Crazy

Eu estava no hospital onde eu havia perdido meus pais, todos os médicos que eu havia conhecido passavam apressados por mim, e eu sabia que eles não me viam, seus olhares eram vagos e cansados. Meus pés andavam, sem nem mesmo eu controlar, me levando até um dos quartos do andar onde eu havia ficado durante alguns meses. Era o mesmo quarto, os mesmo detalhes, as máquinas ligadas e aquele som irritante, mas não havia ninguém. Eu queria sair dali, eu não gostava de relembrar meu passado, principalmente essa época, onde meus pais foram tirados de mim. Muitos diriam que eu era mais uma garota traumatizada, e talvez eu fosse, mas nunca ninguém compreenderia como era uma criança perder as únicas pessoas que a mantinha realmente... Viva. Um barulho no corredor me fez sair do quarto, não havia ninguém ali, mas a última porta do corredor estava entreaberta entregando que alguém havia passado ali. Por instinto eu deveria dar as costas e voltar para onde todos trabalhavam apressadamente, mas diferente disso segui até a porta, adentrando o local. O lugar era escuro, e eu não conseguia enxergar nada, não havia nenhum ponto de luz. Até que senti gotas de chuva tocar meus ombros e rosto, e então todo o lugar foi preenchido por uma luz forte que brilhava no alto de um dos prédios, eu não estava mais no hospital, eu estava numa rua totalmente desconhecida. Não havia nenhuma lembrança daquele local, e a única coisa que eu sentia agora, era medo. Muito medo, principalmente quando vi que eu não estava sozinha. Os olhos daqueles homens me analisavam de um jeito nojento, como se eu fosse um objeto em liquidação, suas posições de ataques me davam arrepios e quando eu ameacei correr, de volta para qualquer lugar que não fosse ali de frente para aqueles homens, senti a mão de um deles tocar meu braço me fazendo cair, ele se ajoelhou na minha frente e então puxou minha blusa fina que já estava toda molhada por conta da chuva, fazendo com que eu soltasse um grito de pavor.

- , acorda. – me balançava desesperada. – Acorda! Calma, só foi um sonho. – ela me abraçou, e eu abri os olhos sentindo as lágrimas molharem sua camiseta.
- Um pesadelo terrível. – eu sussurrei me afastando dela.
- O que você sonhou? – ela disse preocupada.
- Foi horrível. – eu disse limpando as lágrimas. – Eu só não quero lembrar. – eu pedi fechando os olhos, e a senti apertar minha mão e se levantar.
- Tudo bem. – sua voz era calma. – Eu vou te esperar se trocar, qual é a sua primeira aula hoje? – ela me perguntou se sentando na cama.
- Não, pode ir. – eu disse me levantando. – Hoje meu primeiro horário é 7h50, eu sei que você tem aula daqui... – eu disse, olhando o relógio ao lado da minha cama. – 15 minutos, você está quase atrasada. – eu disse colocando as mãos em meus quadris e sorrindo, tentando tranquilizá-la.
- Tudo bem, tem razão. – ela disse pegando sua bolsa. – Tome um banho, eu fiz nosso café da manhã e relaxe. – ela disse me dando um beijo na bochecha e saindo.
Olhei ao redor, tentando ter certeza que aquilo tudo que eu havia sonhado era uma mentira, só mais um pesadelo, dos quais eu tanto tinha durante minha vida. Era estranho, mas geralmente sempre vinham como um aviso. Sentei na cama cruzando as pernas e pegando minha agenda no criado mudo, enquanto eu clamava a Deus que aquilo não fosse um aviso, e sim só um pesadelo sem nexo. Em minha agenda, o dia era tranquilo, não teria entrega de atividades, nem provas ou visitas técnicas, isso me tranquilizou. Levantei-me, indo até o banheiro, tomei um banho quente e extremamente relaxante, me enrolei na toalha e quando voltei para o quarto, ouvi duas batidas na porta, eu a encarei caminhando até encostar-me à porta, sussurrei: - Quem é?
- Sou eu. – a voz rouca do invadiu meus ouvidos me fazendo sorrir, e automaticamente girei a maçaneta, me arrependendo logo em seguida, eu estava usando apenas uma toalha. – Uau. – ele murmurou analisando todo o meu corpo.
- Entra logo. – eu disse o puxando para dentro e voltando a trancar a porta. – Para de me olhar assim. – eu disse sentindo minhas bochechas corarem.
- Eu estou te olhando normal. – ele deu de ombros deitando em minha cama, eu fui até onde ele estava pegando minha calça, lingerie e blusa. – Pode se trocar aqui, eu não vejo problema nenhum. – ele disse sorrindo maliciosamente.
- Desde quando você se tornou tão malicioso? – eu disse arqueando as sobrancelhas.
- Desde quando eu apareço em seu quarto e sou recebido assim. – ele disse apontando para mim com um olhar extremamente sexy, que se eu não tivesse certeza que ele era meu melhor amigo, teria me feito cair em cima dele. Eu permaneci em silêncio o olhando. – Deixei a Srta. sem resposta? – ele disse se levantando e aproximando-se de mim. – Acho que estou indo muito bem. – ele parou a poucos centímetros de mim, possibilitando que eu sentisse seu hálito fresco, que me fez fechar os olhos e ter um pequeno flashback.

*Flashback on*

3 anos atrás...

- , abre essa porta. – batia na porta do meu quarto sem parar, como se eu fosse abri-la. – Por favor. – ele sussurrou, me fazendo chegar mais perto da porta.
- Não! – eu disse alto, me arrependendo quando escutei o barulho que seu corpo fez ao bater na porta, automaticamente me levantei e abri a porta, antes que eu falasse algo ele havia entrado no quarto, e me prensado na porta, agora fechada por ele. – Idiota! – eu disse fechando os olhos com raiva.
- Você deveria parar de me perseguir. – ele disse bravo, apertando suas mãos em meus braços.
- Eu não estava te perseguindo. – eu disse alto. – Porque eu perseguiria um homem de 16 anos que se acha o cara mais maravilhoso do mundo? Idiota! Eu te odeio , e me solta. – eu disse o empurrando e indo até minha cama.
- Para. – ele gritou andando rapidamente até onde eu estava. – Você que é uma idiota. – ele disse me empurrando para minha cama, me fazendo cair sentada, eu o encarei levemente assustada.
- Você não manda em mim, eu deveria ir embora daqui. – eu disse me levantando, mas ele se aproximou e nos fez sentar novamente na cama.
- Desculpa. – ele sussurrou baixo.
- Por ter me xingando, gritado comigo na frente daquela vadia, ter me empurrado e me feito passar raiva? – eu disse com a voz mais baixa, mas ainda ressentida.
- Sim. – ele disse fechando os olhos. – Me desculpa ter preferido ficar lá com a Nina a ficar com você e ainda ter falado aquelas coisas todas, me desculpa. – ele disse se virando para mim segurando minhas mãos.
- Eu te desculpo, só se você... – eu disse sorrindo um pouco mais. – Só se você confessar que me ama. – eu disse piscando e rindo pelo olhar que ele me lançou.
- Isso é fácil, . – ele disse dando de ombros. – Eu te amo . – ele disse se aproximando mais de mim e me abraçando.
Desde que havíamos entrado no ensino médio passávamos mais tempo brigando do que conversando, o que sempre foi algo estranho. Nós sempre fomos melhores amigos, e agora eu sentia um ciúme absurdo dele, e ele de mim. Nossos hormônios estavam evidentes, e quando eu o via com alguma garota, sentia uma vontade enorme de acabar com elas. Nenhuma delas o merecia, e eu achava difícil que alguma fosse merecê-lo algum dia. Sempre quando eu chegava nervosa por conta de mais um briga em casa, via Anne rir e falar que isso era o nosso amor escondido. Claro que isso era loucura, eu e ele nos amamos e isso é lógico, mas como melhores amigos, não como Anne dizia. Não daquela forma. Mas quando senti seu corpo se afastar do meu, mas ainda sentir seu rosto próximo do meu, eu senti algo dentro de mim se revirar, deixando que tudo em mim tremesse, senti sua respiração, que antes era calma, se acelerar e aos poucos a distância que era mínima entre nós acabar, quando nossos lábios se encontraram, iniciando um beijo calmo e suave, suas mãos me puxavam de leve pelos meus cabelos e minha mãos percorreram sua barriga por debaixo da camiseta, a sensação era de fogos de artifícios explodindo dentro de mim, era algo que eu nunca havia sentido antes, ele me puxou ficando por cima de mim e aprofundando o beijo. Foi só então que eu me dei conta do que estava acontecendo. Eu e estávamos nos pegando em meu quarto, e droga ele é meu melhor amigo, ainda deixei que o beijo se aprofundasse, mas sem pensar outra vez, me arrependendo antes mesmo de fazer, o empurrei para o lado me levantando e murmurando mais para mim do que para ele:
- Isso não pode nunca mais acontecer. – disse antes de sair daquele quarto, sem olhá-lo, em direção à rua.

*FlashBack Of*

- , não faz isso. – eu disse baixo ainda de olhos fechados, senti suas mãos tocarem minha cintura. – Por favor.
- Você lembra não é? – ele disse ainda mais perto. – Eu também lembro. – ele sussurrou contra meus lábios, os deixando perigosamente próximos.
- Lembro. – eu concordei abrindo meus olhos e encontrando-o me analisando. – Mas isso não pode acontecer.
- Por quê? – ele disse franzindo a testa, e eu me afastei. – Nós somos maiores de idade, , não somos adolescentes bobos como antes. – ele disse irritado dando um passo para frente, eu dei outro para trás. – Sabemos muito bem o que sentimos, e você sabe que mexe comigo. – ele disse, e eu suspirei sentindo minhas costas encostar à porta.
- Você é meu melhor amigo. – eu sussurrei baixo, sentindo minha voz falhar. – Droga, por que eu não consigo...
- Eu vou continuar sendo seu melhor amigo, vamos continuar sendo melhores amigos do jeito que sempre fomos. – ele disse confiante acabando, novamente, com a distância dos nossos corpos. – Por que você não consegue resistir? – ele completou a minha frase, que eu deixara incompleta. – Por que você quer me sentir, de novo, tanto quanto eu quero. – ele disse, e por fim, senti seus lábios sugarem os meus com desejo e pressa.
Podem falar que eu sou uma vadia, por que eu aceito, mas devo dizer que se vocês estivessem na minha situação se entregaria facilmente para o . Ele simplesmente é o cara mais perfeito, lindo e sedutor que eu já conheci, nós nunca havíamos chegado aos finalmente, mas desde os meus 15 anos, depois do dia que nos beijamos no meu quarto, sempre achávamos uma forma de acabar daquele jeito. Beijávamo-nos na cozinha, no quarto, no corredor... Até no banheiro, uma vez ele me agarrou e nossos hormônios sempre iam à flor da pele, mas nunca passavam desses beijos, quentes, por sinal. Claro, até aquela época eu o via como meu primeiro amor, mas juntando ao fato dele ser meu melhor amigo, sempre havia brigas. Mas quando ficamos mais velhos, as coisas foram se acalmando até que ele começou a namorar e eu também, e voltamos a ser os melhores amigos de sempre. Mas desde aquela noite em que fomos à boate, senti que aqueles sentimentos guardados por tanto tempo logo voltariam, e não demorou o quanto eu imaginava. Senti suas mãos percorrem toda a extensão do meu corpo, enquanto uma das minhas mãos segurava a toalha, a outra puxava sua nuca para mais perto, quase tornando nossos corpos em um, o senti segurar meu quadril e me impulsionei para cima entrelaçando minhas pernas ao redor da sua cintura. Dentro de mim, minha consciência gritava pare com isso agora, mas meus desejos clamavam por mais daquilo, e sinceramente foda-se a consciência, eu não iria parar. Não agora. Ele caminhou até minha cama e jogou minha bolsa e roupas que estavam ali no chão, se afastando um pouco de mim olhando em meus olhos. Seu olhar estava tão malicioso quanto o meu, eu apostava, mas ao mesmo tempo ele me perguntava silenciosamente se era o que eu queria. Quando segurei a barra da camiseta dele e puxei para cima, o vi sorrir abertamente, entendendo a minha resposta, eu abri a minha toalha e o vi se afastar para olhar meu corpo agora completamente nu, ele mordeu os lábios e voltou a me beijar com volúpia, agora eu sentia meus seios tocarem seu peitoral, me deixando completamente sedenta por mais daquilo, mas quando ouvi a porta fazer um barulho quis gritar de ódio. Ele se afastou de mim, e lançamos um olhar para a porta, eu o afastei e me levantei sem saber o que fazer.
- ? – ouvi a voz da , e fechei os olhos. – ... Você está aí?
- Sim. – eu disse com a voz ainda ofegante, torcendo para que ela não percebesse, senti colocar a toalha ao meu redor, me abraçando por trás e beijando meu pescoço, eu suspirei. – Para de me atentar e vai para o banheiro, agora. – eu disse baixo me virando para ele, e colocando novamente a toalha.
- Só se você me prometer que ainda vamos acabar o que começamos. – ele disse apertando meu corpo no dele, podendo sentir a sua excitação, voltando a beijar meu pescoço.
- Sim, vamos. – eu disse levantando o rosto dele e dando um beijo, antes de me afastar mordi seu lábio inferior o vendo xingar baixo, antes de entrar no banheiro.
Fui até a porta e a abri logo em seguida, recebendo um olhar desconfiado da que passou por mim olhando ao redor, o quarto parecia o mesmo deixado por ela, e eu torcia que eu não estivesse de um jeito ofegante demais, ela provavelmente iria perceber. E isso era o que eu menos queria. Agora.
- Porque demorou abrir a porta? – ela me perguntou arqueando as sobrancelhas.
- Eu estava tomando banho. – eu disse dando de ombros indo até minha cama. – Por que voltou? – eu disse mudando de assunto.
- Esqueci minha agenda. – ela falou, abrindo a sua gaveta e a erguendo. – Tenho que correr agora, até mais tarde. – ela disse antes de fechar a porta novamente.
Andei apressada e a tranquei novamente, encostando minha testa na porta, eu poderia até ter pensado em como negá-lo pelo que havia acontecido momentos antes, eu poderia tê-lo afastado abruptamente, eu poderia ter fugido dali, eu poderia ter feito qualquer coisa, mas no momento em que o senti encostar seu corpo no meu, eu entendi que eu não poderia negar nada a ele, porque era exatamente aquilo que eu queria. Por isso que eu não falei nada, quando ele puxou sem pedir permissão a minha toalha para baixo e deslizou as mãos da minha barriga aos meus seios, me fazendo suspirar. Andei de costas com ele, e então ele me virou jogando-me sobre a cama e subindo em cima de mim, já sem a camisa, e voltando a beijar meus lábios e pescoço, minhas mãos bagunçavam seus cabelos, e aos poucos desci as minhas mãos até suas calças a abrindo. Nossos corpos pareciam perfeitos um para o outro, e só quando o senti dentro de mim soube que aquilo era melhor do que eu havia algum dia imaginado, nossos corpos se moviam em perfeita sincronia. Quando atingimos o clímax, senti seu corpo cair sobre o meu, logo se deitando ao meu lado e me puxando para cima dele, deixei meu rosto descansar sobre seu peito que subia e descia aceleradamente e entrelaçamos nossas mãos, ainda em silêncio.
- Isso… – ele sussurrou, me fazendo o encarar, seus olhos brilhavam.
- Foi melhor do que eu imaginei um dia. – eu disse, antes de me apoiar em seu peitoral e lhe dar um selinho.
- E agora? – ele disse encarando o teto enquanto brincava com meus dedos.
- Vamos para nossa aula. – eu disse me levantando.
- . – ele disse me puxando de volta para cama, fazendo com que nossos corpos se grudassem novamente. – Podemos faltar e...
- Não vamos passar o dia todo fazendo sexo. Esqueça! – eu disse rindo.
- Podemos nos atrasar só um pouco, por favor! – ele disse segurando meu seio com uma das mãos e o massageando me fazendo soltar um gemido baixo.
- Você está atentado demais hoje. – eu disse arranhando seu peitoral o fazendo sorrir maliciosamente. – Só a primeira aula. – eu disse passando minhas pernas uma para cada lado do seu corpo e me posicionando em cima dele, antes de me entregar avidamente¹ a ele novamente.
Diferente do que muitos dizem, que o arrependimento vem logo em seguida ao ato, aquilo passava longe de mim. Não me arrependi quando dei meu primeiro beijo no , e não me arrependeria de ter feito sexo com ele, não com ele. Poxa, além de ser meu melhor amigo, ele é quem mais me conhece no mundo, e todas as vezes que ele quisesse eu me entregaria a ele, sem nem pensar duas vezes, nós não estamos comprometidos com ninguém, meu coração se mantém fechado, que mal pode ter em me deixar envolver, por algumas vezes, pelo ? Nossos gemidos antes baixos, aos poucos aumentavam e tanto o seu nome brincava por meus lábios, como o meu nome brincava em seus lábios, não queríamos parar, mas quando novamente no dia chegamos ao nosso ponto máximo, senti meu corpo fraquejar e cair sobre o dele, que fazia um carinho em minhas costas. Levantamo-nos e tomamos banho juntos como duas crianças, com um leve clima erótico no ar, eu ri com meus pensamentos, saímos do banheiro e nos trocamos, o relógio marcava 8h05 e nossas aulas já haviam começado, dei de ombros indo até a cozinha onde esquentei o chá e peguei as torradas, colocando no balcão onde comemos. Seu olhar permanecia sobre mim, e eu sentia que deveria estar envergonhada, mas não estava, por isso que antes de sair do quarto, eu tomei a atitude de prensá-lo na porta e sussurrar:
- Isso fica entre nós. Para sempre, . – eu disse sensualmente, e o vi revirar os olhos apertando minhas coxas.
- Contanto que isso se repita por mais algumas vezes, não me importo de guardar esse segredo. – ele disse aproximando sua mão do meu ponto proibido, e como vingança levei minha mão sob sua calça o vendo gemer e morder os lábios com força.
- Só se você for um bom homem. – eu disse lhe arrancando um beijo, e por fim mordendo seus lábios antes de abrir a porta e sair do quarto, decidida que aquilo seria bom demais para me arrepender.
Minhas primeiras aulas tinham sido legais: planejamento alimentar e controle de alimentos. Aquelas sim eram minhas aulas preferidas, fazer os cálculos e aprender sobre a qualidade dos alimentos além de ser algo muito interessante, para mim, me faz esquecer muitas coisas. Como por exemplo, o que aconteceu hoje mais cedo... Eu pensava que não iria me arrepender, e de fato eu não havia, mas agora esse desejo enlouquecedor pelo aumentaria, o que é errado. Por que eu e ele somos amigos, e se isso voltasse a acontecer seria só por simples desejo, ou seja, sexo. E isso, querendo ou não, machucaria um de nós, como dizem, a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. E mesmo eu não tendo a completa certeza de quem é o lado mais fraco, sei que de qualquer maneira não quero que ele sofra, e muito menos eu. Aquilo nunca mais pode acontecer, não podemos voltar aos anos de colegial onde nos agarrávamos a qualquer momento, nós não podemos. Eu deveria dar um fim aquilo, o que eu estava pensando quando falei que aquilo poderia voltar a acontecer? Eu só posso estar louca por ter pensado nisso. É claro que não pode acontecer novamente, nós somos melhores amigos, nos conhecemos há tanto tempo e essa relação é mais do que perigosa, é assustadora. Exatamente isso, é assustadora, pelo simples motivo de que eu cresci com ele, a mãe dele me criou como sua filha, eu só posso estar louca. Eu repetia em minha mente, eu estava confundindo tudo, talvez por eu sempre querer o carinho e a atenção das pessoas eu havia confundido o que sentia por , o desejo logo iria acabar, e o que sobraria seria as marcas de um relacionamento falho. Eu não queria que isso acontecesse, por isso quando as aulas realmente terminaram, saí da sala tranquilamente indo até o bloco C, em direção a lanchonete e comprei o meu lanche, pensando em como falar não para ele, ao me virar, vi Lizzie e Natalie sentadas numa das mesas do centro conversando, no momento em que eu pensei em sair disfarçadamente, a morena me viu e me chamou com a mão sorrindo, eu queria muito ser mal educada naquele momento e sorrir indo em direção a porta, mas infelizmente eu não poderia ser. Então, mesmo sabendo que aquelas duas são amigas da Lively, eu caminhei na direção delas, parando em frente à mesa.
- Oi, . – as duas falaram em uníssono sorrindo. – Sente-se conosco.
- Oi Liz, Natalie. Ah, obrigada. – eu respondi, me sentando na frente das duas.
- Ei, você terá alguma visita técnica esse mês? – Liz me perguntou, e eu assenti lembrando que iríamos a uma cozinha industrial.
- Sim, e vocês?
- Sim.
- Não. – as duas responderam juntas se olhando sorrindo, mas foi Natalie quem respondeu negativamente.
- Vocês vão à cozinha industrial da Empresa BlackFord, não é? – Natalie disse segura, e nós concordamos.
- Lá é legal, um lugar... Interessante. – ela disse sorrindo pensativa.
- Ela diz isso porque o Marco estava lá – Liz comentou revirando os olhos. – Mas que legal que você vai, nós podemos ir juntas. – ela exclamou animada.
- Sim, podemos! – eu exclamei mostrando felicidade, afinal Lizzie realmente é uma ótima pessoa.
- Sabe Liz, eu devo confessar. – Natalie comentou após um tempo pensando. – Você tinha razão, ela é legal. – ela exclamou olhando de Liz para mim, e sorriu.
- Acho que... Obrigada – eu exclamei envergonhada. – Natalie, você é muito melhor do que eu pensei. – eu disse a olhando, e ela retribuiu meu sorriso.
O que eu havia dito, definitivamente, era sincero, Natalie realmente é bem melhor do que eu podia imaginar, mesmo que nossos assuntos não passassem de nosso curso, ela é o tipo de pessoa que você facilmente consegue manter uma conversa agradável. Então eu pude compreender o óbvio, ela gostava tanto da Barbara que para não contrariá-la se mantinha como uma seguidora leal que implica com qualquer pessoa que a adorável amiga não goste, essa história era conhecida por qualquer um. Mas quando estava sozinha, ela podia fazer suas próprias escolhas e ter a sua própria opinião, como agora ela fazia, com certeza, ela é o tipo de pessoa que é facilmente manipulável. O silêncio predominou na mesa, mas enquanto eu comia meu lanche, ouvi os suspiros de Natalie e ergui minha cabeça, seguindo seu olhar que parava na porta, vendo que ela olhava para um homem que havia acabado de entrar ali, eu arregalei os olhos quando constatei que era o , o homem que ela olhava.
- Ele é tão lindo! – ela sussurrou sorrindo encantada, ao mesmo tempo, senti uma pontada de ciúmes.
- Você ainda não descobriu o nome dele? – Liz perguntou bebericando seu suco, e recebendo uma resposta negativa por parte de Natalie.
Eu olhei para ela, e eu pude ver em seus olhos que ela estava realmente encantada por ele, mas quem não ficaria encantada pelo ? Ele é simplesmente o tipo de homem que só de vê-lo andar, nos faz querer tê-lo em nossas vidas, e até mesmo em nossas camas. Ops. Eu a compreendia plenamente, por isso que eu engoli os ciúmes, com muito esforço, e decidi que iria falar com ela sobre ele. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer comentário, me vi paralisada, uma voz soou atrás de mim, que sem sentido algum me fez estremecer.
- Oi, meninas. – ele disse e eu me virei, encontrando o namorado da Liz e o homem, que por algumas noites seguidas, havia atormentado meus sonhos.
Eu acho que me esqueci de fazer esse breve comentário, além de sentir agora o peso de estar usando o meu melhor amigo para assuntos carnais, eu vinha sonhando com o homem de olhos castanhos que estava a minha frente neste momento. Geralmente os sonhos eram iguais, nós andando pelo campus conversando, como amigos, alguns momentos como as duas crianças que um dia fomos, mas em alguns momentos, éramos... Quase amantes, e nos víamos fazendo muitas loucuras, eu estremeci novamente lembrando-se dos meus sonhos pervertidos. Eu só posso estar louca, eu disse novamente para mim mesma antes de voltar ao mundo real.
- Oi, amor, Oi, . – Liz disse, e Brian puxou uma cadeira se sentando ao seu lado, enquanto que o homem moreno se sentou no único lugar vazio, que por coincidência era do meu lado.
- Oi, , não é? – Brian disse sorrindo, e o homem ao meu lado me olhou.
- Isso, olá. – eu dei um sorriso torto.
Eles começaram a conversar sobre assuntos desconhecidos por mim, e em pouco tempo eu já me sentia totalmente deslocada. A lanchonete começava aos poucos esvaziar, e que pouco tempo antes tinha estado ali, já tinha ido embora, provavelmente para sua próxima aula. Sentia o olhar do em alguns momentos me analisar, era constrangedor, mas eu tinha quase certeza que ele tinha a mesma lembrança que eu. Não era possível tanta semelhança, era óbvio, ele era o homem que eu conheci na infância. Eu tinha pequenos flashbacks, quando ele falou meu nome, me despertando:
- . – ele disse me fazendo desviar meu olhar da mesa até seu rosto que me analisava, prendendo minha atenção em seus olhos castanhos, tão escuros. – Eu não sei, mas eu sinto que já te conhecia... Antes. – ele revelou pensativo.
- Eu também. – eu respondi sincera.
- Qual é o seu sobrenome? – nós falamos juntos, e rimos.
- . – eu disse sorrindo, e ele me admirou por mais um minuto, antes de responder minha mesma pergunta.
- . – ele respondeu sorrindo e eu automaticamente arregalei os olhos.
- Você era a menininha dos Havilland, eu sabia que te conhecia de algum lugar.
- Eu também sentia isso... – eu exclamei tímida.
- Você foi embora de lá... Eu nunca compreendi o motivo. – ele disse pensativo, e eu pude jurar que por um momento pensei ver lamentação em seus olhos, os outros da mesa começaram a prestar atenção na nossa conversa.
- Algumas coisas não dão certo, às vezes. – eu disse simplesmente me levantando, era claro que eu não queria comentar sobre aquilo. – Eu tenho que ir, minha aula é daqui 20 minutos e eu ainda tenho que voltar para meu dormitório. – eu os avisei, fazendo o que eu sempre fazia, fugia.
- Qual é a sua próxima aula? – Liz me perguntou.
- É de... Treinamento Físico. – eu disse franzindo a testa ao ler na minha agenda.
- Ah sim, todos nós temos uma vez por semana. – Liz disse rindo. – É para exercitarmos nosso corpo mesmo. – ela completou, retirando minha dúvida, eu sorri.
- A minha também! Qual bloco é a sua? – ouvi a voz do , e não pude deixar de reparar o quanto soou animada.
- Bloco E. – eu respondi o encarando, um sorriso se formou nos seus lábios. E que lábios...
- No mesmo que eu... Será que eu posso te acompanhar até lá? – ele me questionou, e eu abaixei os olhos, mas assenti sorrindo, ele se levantou.
- Tchau, pessoal, e obrigada pelo lanche. – eu sorri mandando beijos, todos fizeram o mesmo que eu. – Ah Natalie... O nome dele é , e se você quiser eu posso apresentá-lo a você. – eu disse me aproximando dela, engolindo os ciúmes que sentia, e pude ver os olhos dela se arregalarem de surpresa e dúvida.
- Como? – ela me questionou gaguejando.
- Ele é meu melhor amigo, o homem da lanchonete, o conheço desde os meus sete anos. – eu sorri explicando, e ela deixou que um sorriso se formasse em seus lábios.
- Eu adoraria. – ela disse empolgada.
- Então você me passa o seu número e nós nos encontramos depois pela universidade e eu te apresento para ele. – eu disse anotando o número dela na agenda do meu celular, e depois falei o meu número para ela, por fim eu sorri e acenei seguindo até a saída ao lado do .
O silêncio entre nós era mais do que constrangedor, chegando não ter palavras para descrever o momento, já estávamos na metade do bloco A, nos aproximando da porta de vidro que dava para o Campus, e não havíamos trocado uma palavra sequer. Só então eu reparei uma coisa, hoje uma loira oxigenada não havia dado as caras na universidade, não que eu me importasse, mas era um ótimo assunto para quebrar aquele silêncio torturante.
- Hoje a Barbara não veio, não é? – eu exclamei dando de ombros.
- É. – ele respondeu monossilábico. Droga, ele não quer conversa... Mas quem se importa?
- Por isso vocês foram tão simpáticos comigo, hoje? – eu continuei a falar, enquanto passávamos pelo campus, arrancando alguns olhares surpresos.
- Não é isso. – ele franziu a testa. – Nós só não conhecíamos você. – ele falou, dando um desculpa, esfarrapada por sinal.
- Ah, claro. – eu exclamei dando de ombros. – Tudo bem, eu entendo. , eu preciso trocar de roupa, mas obrigada por me acompanhar. – eu falei sorrindo, e olhei para a entrada do prédio.
- Claro, eu também. – ele falou subindo alguns degraus da entrada, me surpreendendo, eu não sabia que ele morava ali como eu. – Daqui 10 minutos nos encontramos aqui embaixo? – ele me questionou, e eu não pude negar, então assenti subindo em direção ao meu quarto.
Ao entrar no meu quarto, tudo estava organizado e limpo, menos a minha cama que ainda tinha algumas peças de roupas em cima, o chuveiro estava ligado entregando que estava ali. Fui até meu guarda roupa e separei minha roupa de ginástica, uma blusa soltinha verde, legging cinza e meus tênis, enquanto eu me vestia conforme a aula pedia, um turbilhão de pensamentos me invadiam a mente. O dia havia começado, definitivamente, uma bagunça. Primeiro aquele sonho que mesmo eu não querendo pensar, sempre eu acabava lembrando. Depois, os momentos com o , e eu não conseguia parar de pensar, em que talvez eu estivesse o usando por simples desejo e necessidade, e agora os amigos da Barbara, inclusive o namorado, sendo extremamente gentis comigo. Minha vida é uma loucura, eu já deveria estar acostumada. Mas, não... Eu não gosto disso. Muito menos ser questionada por que deixei a família Havilland, eu não entendi apenas uma coisa: Por que ele se demonstrou chateado por eu ter ido embora? Isso não faz sentido. Ele não deveria deixar a entender que sentiu falta de mim, nós nem conversávamos, éramos crianças e bom, agora somos adultos. E, diga-se de passagem, que adulto ele se tornou...
- ? – me chamou receosa, e eu a olhei.
- Ah, oi... – eu respondi, notando que como eu, ela já estava vestida.
- Você escutou o que eu disse? – ela me perguntou e eu franzi a testa, vasculhando na minha mente algo, mas não... Eu não havia escutado o que ela tinha dito. – Ai, , você está estranha demais! Olha, o passou aqui e te deixou aquele bilhete. – ela disse apontando para mesa.
- Ah, desculpa a falta de atenção, e obrigada. – eu sorri caminhando até a mesa.
- , você quer me contar algo? – se aproximou de mim com uma voz calma, e eu pensei em contar o que havia acontecido, mas desisti.
- Não. – eu disse sentando na cadeira. – Quero dizer, não aconteceu nada . Mas obrigada pela preocupação. – eu disse sorrindo.
- Claro. – ela me deu um beijo na bochecha pegando sua bolsa. – Eu e o vamos sair, voltamos mais tarde. – ela disse piscando para mim.
- Bom passeio. – eu sorri e ela passou pela porta, me deixando sozinha.
Eu segurei o pedaço de papel em minhas mãos, refletindo se eu deveria ou não abri-lo. É claro, eu deveria e foi o que eu fiz: , eu sei que isso é loucura, mas depois do que aconteceu hoje, o meu desejo está aumentando... Nós precisamos conversar. É sério. Beijos, seu melhor amigo” , ler aquelas palavras me deixou no mínimo excitada, sim excitada. O meu melhor amigo confessando que sentia desejo por mim, algo que nunca disseram para mim, algo que eu nunca senti, era uma sensação boa. De poder, sedução. Mas me deixou preocupada, ele queria conversar, e eu não queria nem imaginar o que seria aquilo. Mesmo que eu sentisse desejo pelo , eu não poderia deixar que isso se tornasse real. O que houve foi bom para ambos, mas não pode se repetir, por isso que não pensei duas vezes quando falei dele para Natalie. Ele merecia alguém que se entregaria 100% a ele, e não alguém como eu, que sempre o veria como o melhor amigo sexy. Ao olhar para o relógio, tomei um susto vendo que eu estava atrasada, peguei uma bolsa de ginástica e minha garrafa de água correndo até a entrada do prédio. Ao abrir a porta, vi sentado no primeiro degrau me esperando, e meu Deus... Aquela com certeza era uma visão do paraíso, ele vestia uma camiseta branca que marcava seus braços, e um short preto solto e tênis brancos, seus cabelos estava mais bagunçados do que antes e seu olhar vagava por toda extensão do campus, eu parei ao seu lado e ele levantou seu olhar passando dos meus pés até parar em meus olhos, abrindo um sorriso.
- Você demorou. – ele disse se levantando, começamos a andar em direção ao bloco E.
- Desculpa. – eu disse envergonhada. – Minha amiga estava no dormitório e acabamos conversando um pouco mais. – eu sorri ao ver que ele sorria abertamente para mim.
- Sem problemas. – ele deu de ombros.
O silêncio permaneceu, nós andamos um do lado do outro, mas ambos não tínhamos o que falar, resolvi permanecer em silêncio. Passamos pela porta do bloco D e logo avistamos na parede, as escadas e na parede escrito Bloco E. A quadra de esporte e piscina ficava na parte debaixo, então começamos a descer as escadas, toda a universidade é bem iluminada, mas aquela parte era bem menos iluminada, em alguns momentos sendo quase precária a iluminação, agora eu pude perceber. Chegamos aos últimos degraus, vendo que não havia muitas pessoas circulando por ali.
- Como as aulas são divididas? – eu o questionei e ele me olhou.
- Bom, eu não sei. – ele falou rindo. – Sabe, não trabalho na secretaria. – ele comentou e eu revirei os olhos.
- Você entendeu, eu tenho uma sala certa ou todos fazem juntos? – eu falei cruzando os braços.
- Eu entendi, desculpa. Todos juntos, independente do curso que você faz. – ele disse sorrindo e voltou a andar em direção a quadra. – Mas, são separados dias e aulas para cada aluno. Por exemplo, hoje eu tenho que ficar na quadra. E você? – ele me questionou.
- Quadra. – eu dei de ombros, passando a sua frente.
A quadra era muito grande e extensa, sendo separados em equipes de homens e mulheres, e pude ver que só havia dois professores, um para cada equipe, diferentemente do que eu imaginei ali não havia redes de futebol ou vôlei, e muito menos cesta de basquete. A área era toda livre com colchões de ginástica e nos cantos direitos e esquerdos estavam os aparelhos de ginástica, alguns alunos já se exercitavam e realizavam as tarefas da aula, eu passei os olhos em todo o local e logo vi se aproximar do homem loiro, Josh, e outro homem moreno, que pode ser impressão minha, mas me comia pelos olhos, eu revirei os olhos e fui me sentar ao lado de uma garota, prestando atenção nas instruções do meu professor. Todas nós nos levantamos e começamos a repetir os exercícios, primeiramente cruzamos os dedos e levantamos as mãos acima das nossas cabeças e esticamos o máximo possível, por 15 segundos, voltando à posição inicial. Fizemos outros exercícios e em seguida, podemos cada uma ir para um aparelho, foi nesse percurso que eu vi uma garota morena se aproximar do . Foi nesse momento que eu vi que ele era um safado, suas mãos seguravam gentilmente a cintura da garota, que falava em seu ouvido e ele sorria, aquele sorriso mais malicioso do mundo, eu revirei os olhos sentindo... Raiva. Sim, eu me sentia raivosa com aquela situação, eu não tenho motivos, eu nem o conheço, mas eu senti. Ele poderia namorar a bruxa da Lively, mas ele não tinha também o direito de trair ninguém, isso é ridículo. Foi quando senti uma mão na minha cintura e me virei assustada, meu professor me encarava com um sorriso brincando em seus lábios.
- Eu te assustei, desculpe. – ele disse dando um passo para trás. – Você está... Perdida? Precisa de ajuda? – ele sussurrou, e eu poderia jurar que ele estava tentando lançar charme para mim.
- Um pouco. Eu adoraria. – eu disse umedecendo meus lábios com a língua, ele deixou seus olhos pousarem em meus lábios, e eu atingi o ponto que eu queria, poderia ser errado, mas no momento o que eu queria era brincar de seduzir.
Ficamos um bom tempo malhando, e ele me ajudava com todos os aparelhos possíveis, em vários momentos o pegava analisando meu corpo e até mesmo colocando sua mão em minha cintura, eu sorria, ainda mais quando vi que havia terminado sua aula e do outro lado da quadra nos analisava, com uma das sobrancelhas arqueadas. Era divertido, ver o que era possível fazer com os homens, eles poderia até pensar que nós mulheres somos do sexo frágil, mas no final, eles é quem são. Eu me afastei dele, ao escutar o toque do meu celular na minha bolsa, indo até ela no chão e me agachando o atendendo.
- Oi. – eu disse, vendo o nome do , no visor.
- Oi, . – ele disse com a voz calma. – Você recebeu o bilhete?
- Sim. – eu disse calma. – Quando você quer conversar?
- Agora. – ele disse apressado. – Onde você...
- Na quadra, venha até aqui. Eu te espero no corredor. – eu disse o interrompendo.
- Ok, estou indo. Beijo. – ele disse e eu desliguei o telefone, me levantando.
- Obrigada, Professor Smith, eu tenho que ir. – eu disse sorrindo, e ele se aproximou.
- Obrigada você, Srta. . – ele falava tão perto, que eu por um momento pensei que ele fosse passar dos limites.
Mas ele logo voltou a sua postura, e eu me abaixei pegando minha bolsa e andando até a entrada da quadra, no mesmo momento se levantou indo ao meu encontro. Eu estava com o cabelo um pouco bagunçado, suada e com meu corpo um pouco mais dolorido do que o normal, mas claro, o tempo que eu fiquei malhando acabou com a minha musculatura. Eu encostei-me à porta, o esperando se aproximar, mas diferente do que eu pensei que ele faria, ele passou por mim, sem falar nada.
- Ei. – eu o chamei saindo da quadra.
- O que foi? – ele falou seco.
- O que foi? Eu que pergunto. – eu disse cruzando os braços em cima do peito e me aproximando dele. – O que deu em você?
- Cansou de dar em cima do professorzinho? – ele falou sarcástico, e eu revirei os olhos.
- Não estava dando em cima de ninguém, ele estava me ajudando com os exercícios. – eu disse dando de ombros. – E você não tem nada a ver com isso, cuide da sua vida. – eu disse passando por ele, e esbarrando propositalmente meu ombro no dele.
Andei até o fim do corredor, chegando às escadas, o lugar já estava mais vazio e poucas pessoas desciam, eu queria urgentemente ir ao vestiário, que era ali em frente às escadas e tomar um banho e colocar outra roupa, mas não teria tempo, logo vi parar na minha frente, ele sorriu. Eu abri a boca para falar alguma coisa, já que aquele silêncio repentino estava me angustiando, mas não deu tempo. Não deu tempo, por que quando eu abri a boca, fui surpreendida pelo me puxando pela nuca e sem aviso, me dando um beijo, não deu tempo, por que logo em seguida, o vi me empurrar para trás me fazendo adentrar o vestiário, que por sorte estava vazio. Ele se separou de mim por poucos segundos, e trancou a porta, logo me erguendo e me fazendo sentar na pia, ele entre minhas pernas me beijava e passava suas mãos por todo meu corpo, já era possível sentir o volume das suas calças, e eu o correspondia, até que eu lembrei que não era o certo. Não aquilo era errado, então o empurrei respirando fundo, ele arqueou as sobrancelhas voltando a se aproximar, mas eu murmurei:
- Para! – fechei os olhos. – Não podemos.
- Por quê? – ele me questionou com aquela voz rouca e sexy.
- Porque você é meu melhor amigo. – eu sussurrei abrindo os olhos. – Eu não te amo assim, não desse jeito. – eu falei, e respirei fundo. – Não como um possível namorado... Eu te amo como meu melhor amigo e se isso acontecer vai ser apenas... Por sexo. – eu disse sofridamente.
- , ... – ele sussurrou, aproximando mais ainda seu corpo do meu. – Você é minha melhor amiga, certo? – ele me questionou e eu assenti. – Então, devo te contar um segredo... Eu não quero te namorar, não que você não possa ser uma ótima namorada, claro que não. Porque eu tenho certeza que você será perfeita nisso. Mas eu não te amo assim, também. – ele disse me fazendo arregalar os olhos com o tamanho da sua confiança. – Eu só quero sexo, como você. E já que nenhum de nós encontrou alguém bom o bastante para isso porque não juntamos o útil com o agradável e curtimos esses momentos, juntos? – ele disse seguro e eu o afastei com as mãos, pensando no que ele havia me dito.
- Você quer só sexo, comigo? Com sua melhor amiga? – eu disse me sentindo um objeto.
- , pare de levar tudo para o pessoal. – ele falou tranquilamente.
- Lado pessoal? E tem outro lado nisso tudo? – eu disse descendo da pia. – Eu posso ter aguentado você me agarrar, eu posso até mesmo ter aguentado o que ocorreu hoje de manhã... Mas aguentar a gente se pegando, no momento que quiser, por simplesmente necessidade sexual? Como se eu fosse uma vadia qualquer? Não, . Não! – eu gritei, me sentindo com ódio, pela primeira vez na vida, do .
- . – ele falou calmo se aproximando com as mãos erguidas.
- Não! – eu gritei. – Eu não sou uma putinha que você come quando quer. Eu não sou uma vadia que fecha acordos com o melhor amigo por desejo sexual. Eu estou com ódio de você, só por você ter pensado nessa hipótese. – eu disse pegando minha bolsa e indo até a porta. – Sabe eu tenho uma amiga e ela gostaria de te conhecer... E eu realmente gostaria que você conhecesse ela, para ver se você esquece esse seu desejo por mim... – eu disse dando de ombros, antes de abri a porta.
Ao abrir a porta, vi ainda subindo as escadas devagar, fechei os olhos respirando fundo e implorando a Deus que ele não tivesse escutado o que eu havia falado há pouco tempo, eu comecei a subir as escadas, e ele parou subitamente me olhando preocupado. O que foi? Meu estado é tão lamentável assim? Ah claro, meu melhor amigo acaba de supor que poderíamos ter um caso, apenas por sexo, sem comprometimento. É eu havia esquecido esse detalhe. É óbvio que meu estado é mais do que lamentável, eu estou nervosa com raiva e ódio. Eu minutos atrás estava dando em cima do meu professor, que mesmo sendo maravilhoso, é 15 anos mais velho do que eu, e tudo isso para despertar ciúmes no homem que está aqui na minha frente me encarando com se eu fosse um fantasma. Lembrando, que eu e ele não temos nada e nunca teremos, sem esquecer que eu ainda estou um pouco excitada por conta do beijo do , e ainda o deixei para trás e gritei com ele, e ainda comentei da Natalie com ele, e era óbvio que ele vai querer saber quem é a amiga, mas isso será, de fato, bom. Assim não teremos que sofrer com nada, e chegarmos à conclusão de que o que houve mais cedo foi um descuido em conjunto ao desejo que estávamos sentindo e claro, à situação que deixaria qualquer um excitado. Mas isso não diminuía nem um pouco o tamanho da raiva que eu sinto dele agora, ele me tratou como uma qualquer, como ele tratou por alguns anos as meninas com quem ele ficava, e eu me sentia... Suja com isso.
- , você está bem? – ouvi a voz rouca de me despertar, e o encarei.
- Mas é claro. – eu disse passando por ele apressada, mas fui impedida de subir alguns degraus pelo braço forte que me segurou.
- Ah, claro... E essa cara de quem viu fantasma? – ele disse cínico, como eu odiava que falassem comigo daquele jeito.
- Eu já te disse, e não vou voltar a repetir. – eu disse fechando os olhos, e puxando meu braço. – Pare. De cuidar. Da minha. Vida. – eu falei pausadamente abrindo meus olhos, e ele riu. Sim, ele riu. – Idiota. – eu murmurei, antes de sair correndo dali.

’s Pov

Que menina louca, só pode ser brincadeira isso, eu tento ser o cara mais simpático do mundo e a menina grita comigo? Por isso que por muitas vezes sou o cara badboy que não liga para sentimento, pessoas insignificantes nem nada que possa me fazer importar. Odeio sentir que estou me importando com algo, principalmente com alguém, e esse é o lado bom de namorar com a Lively, exatamente por ela ser uma vadia que não se importa com sentimentos, eu posso fazer o mesmo. Nosso relacionamento é quase aberto, quase... Se não fosse o carinho que sentimos um pelo outro, poderia se torna aberto, mas seria uma putaria desgraçada, então mantemos do jeito que está. Enquanto eu pensava sobre o meu relacionamento quase falido, eu já passava pela metade do bloco E, incrivelmente não havia mais tantas pessoas circulando por ali e a garota louca, a , já desaparecera do local. No momento em que me lembrei dela, já senti algo em mim se despertar, o jeito que ela fala e o seu olhar distante ao mesmo tempo conseguindo ser sedutor, seu jeito de andar e claro, o tanto que ela brincou de seduzir o professor Smith despertou qualquer um dos homens que estavam naquela quadra, não que eu tenha sentido ciúmes, mas queria saber como seria jogar esse jogo com ela. Ao começar a voltar ao meu dormitório avistei Josh e Brian conversando encostado ao carro deles, eu me aproximei.
- E aí bro. – o loiro me cumprimentou.
- Oi Josh, Brian. – eu sorri.
- Estava na aula, ainda? – Brian arqueou as sobrancelhas espantado.
- Sim, e não. – eu falei dando de ombros. – Quis esperar a tal da .
- ? – Josh me questionou franzindo a testa.
- Não acredito que já está dando em cima da garota. , ela e a Lively não se dão nada bem, cara. – Brian me aconselhou.
- Quem é essa? É gata? – Josh aumentou a voz piscando um dos olhos.
- Sim. Ela é nova, da sala das meninas. – eu exclamei sorrindo.
- Se é gata, pode aproveitar. – Josh falou sorrindo malicioso.
- Não, ele não pode. – Brian disse cruzando os braços.
- Porque não posso? – eu disse franzindo a testa. – O que me impede? Ou é você que quer ficar com ela? – eu exclamei mais irritado.
- Claro que não, seu idiota. – ele disse nervoso. – Ela só parece ser legal o bastante, não merece que você ou você a use e jogue fora. Como sempre fazem. – ele disse apontando de mim para o Devine que revirou os olhos. – Ah, e ela é amiga da Summer, e aparentemente da Liz e Natalie. Ou seja, nada de gracinha. – ele disse alertando o Devine, que logo arregalou os olhos.
- Ela é toda sua. – Josh disse batendo no meu ombro e rindo. – Ah, vou dar uma volta... Por aí. Tchau brothers. – ele disse se afastando de nós em direção ao prédio 3.
- Eu não vou ficar com ela Brian. – eu disse vendo o homem me analisar. – Sério, prometo. Eu e a Barbara estamos bem agora. Sem traições, brigas, apostas ou disputas. Eu só estava conhecendo a garota. – eu disse começando a andar em direção ao prédio 3, como Josh há pouco havia feito.
- Pelo que você comentou com ela hoje cedo, vocês já se conheciam. – Brian comentou andando ao meu lado.
- Sim. – eu exclamei. – Ela era minha vizinha, tínhamos uns sete ou nove anos... Mas, então ela foi embora. – eu disse confuso, não sabia o porquê de ela ter ido embora.
- Ah. – ele exclamou confuso. – Ela não contou o porquê? – ele me questionou curioso.
- Não. – eu respondi, abrindo a porta do prédio. – Boa noite, Brian. – eu disse, antes de subir as escadas apressadamente.
Não havia motivos para eu me sentir desse jeito, como se aquela promessa que eu havia feito ao meu amigo fosse a maior burrada da minha vida. Não havia motivo algum para me sentir mal com isso, afinal eu não quero ficar com ela. Ela é linda, interessante e misteriosa? Sim, mas eu já tenho minha namorada e não quero nada com mais ninguém, não mais. Mas por que esse sentimento de erro não me deixou, mesmo depois de ter me deitado e fechado meus olhos?

avidamente¹: Vorazmente; desejosamente; ardentemente.

Capítulo 10

Dreams are good, but can be bad

Primeira música: Because of You – Kelly Clarkson. Segunda música: Evanescence – Bring Me To Life . Aperte play quando aparecer os avisos.

Dias depois

Eu corri. Corri como nunca na minha vida, sentia meus cabelos se bagunçarem conforme aquele vento frio batia em meu rosto e corpo, me fazendo estremecer dos pés à cabeça, mas não me importei e continuei correndo. O local era escuro e de causar arrepios, minha blusa estava toda rasgada nas laterais deixando evidentes as marcas feitas por aqueles homens. A chuva que há pouco tempo tinha diminuído, agora aumentava junto com trovões e relâmpagos, me deixando mais amedrontada. Dentro de mim, eu sabia que eles não haviam tocado em mim. Que antes de o caso ser consumado, eu havia fugido, era por isso que eu corria. Corria deles, corria por sentir medo de ser... De ser... Abusada.
Os relâmpagos aumentavam, e meus pés doíam me fazendo parar numa esquina, ao meu redor não havia nada além do breu. Nada além do escuro, vazio e pessoas desconhecidas que tinham a vida, claramente, perdida. Eu estava perdida, meus olhos buscavam alguma luz no fim do túnel, mas a única coisa que vi ao olhar para trás, foi os mesmo homens que haviam rasgado a minha blusa. Ao lembrar-me deste fato, não resisti e olhei para meu corpo, arregalando os olhos. Minha blusa estava toda rasgada, e por toda extensão do meu corpo havia arranhões e meu sangue era visível, caindo do meu corpo e manchando minha calça.
Voltei a correr, mas dessa vez, estava muito mais cansada e desgastada, ao contornar uma rua deserta, me vi em frente a um restaurante movimentado. Faltava tão pouco, alguns metros e eu estaria lá dentro, segura. Faltava tão pouco, que não prestava mais atenção ao meu redor, não prestava mais atenção no chão, e foi por causa da minha distração que segundos depois senti meu corpo bater contra o chão. Eu fechei apertados meus olhos, já ouvindo o barulho de passos próximo de mim, minha garganta estava fechada me impedindo de gritar, mas quando eu senti aqueles braços passarem por debaixo das minhas pernas e apoiarem meu corpo ao seu, eu sabia que eu estava perdida, eu tentei abrir meus olhos, mas tudo que enxerguei foi uma luz, tão forte que me cegava, me forçando a voltar a fechá-los. Eu não estava sendo levada para outra esquina ou rua deserta. Eu estava sendo levada para dentro do restaurante, eu estava sendo... Salva. Eu respirei fundo, guardando o perfume do meu salvador e num fio de voz sussurrei “Obrigada”, ouvi um riso baixo e ouvi sua voz calma me responder “Não por isso, anjinha”.

Ao mesmo tempo em que eu abri os meus olhos me levantei sentindo uma vertigem que perduraram alguns segundos, me fazendo apoiar minha cabeça na cabeceira da cama com os olhos fechados respirando fundo. Voltei a abri os olhos e vi que ainda dormia tranquilamente, com um pouco mais de esforço me levantei da cama e caminhei descalça até a cozinha onde peguei um copo de água, retirando os fios da minha franja do meu rosto, prendi meu cabelo num coque, e fui até a janela me sentando no batente, olhando a noite escura. No relógio marcava 3h45 da madrugada, o céu escuro, sem a presença de estrelas e o vazio do campus refletia minha alma. Vazia e obscura.
Aquele sonho era a continuação do sonho que eu havia tido dias atrás, e só de lembrar os olhares escuros e maliciosos dos dois homens que me seguiam me deixava tonta, eu não queria voltar a fechar os olhos. Não, eu não quero voltar a fechar os olhos e voltar a ver a minha imagem distorcida, marcada e com sangue no meu corpo. Eu não conheço aquele local, e não sei por que eu estaria ali... Eu me sentia mais do que perdida, me sentia com medo. E quando eu estava quase me entregando ao fim, ao meu fim, aquele anjo apareceu. Mas, eu sei que não era um anjo. A voz dele se fazia presente nos meus ouvidos, como se ele estivesse atrás de mim repetindo aquela frase simples, e naquele momento eu me senti protegida.
Voltei a fechar meus olhos quando tive certeza de onde eu me lembrava daquela voz, não tinha como negar, era ele. Mas por quê? Porque estava se fazendo presente dos meus sonhos... E me salvando ainda por cima?

Summer’s Pov

O dia havia amanhecido há pouco tempo, no meu relógio de cabeceira marcavam exatamente 6h30, eu me levantei dando uma olhada no meu dormitório. Bagunça. Eu sempre fui uma das pessoas mais organizadas do mundo, mas juntando a pressa, a faculdade e uma colega de quarto mais desorganizada do que criança de cinco anos, meu quarto virou essa zona. Com certeza, no fim de semana eu teria que arrumar todas as coisas no lugar. Revirei os olhos indo em direção ao banheiro, e após minutos tomando meu banho, vesti meu sweetsuit que era extremamente confortável para fazer uma caminhada durante a manhã, e foi o que eu fiz depois de tomar um meu café.
Peguei meu Ipod e desci as escadas indo em direção a praça que há perto da universidade. A parte melhor do meu dia era quando eu fazia as minhas caminhadas matinais, além de respirar esse ar frio de Londres, que mesmo me fazendo algumas vezes tremer, faz esquecer-me dos meus problemas. Quem me vê diariamente, poderia afirmar que é impossível uma garota como eu ter tanto problemas que precisa esconder o seu corpo debaixo de um moletom largo e colocar um capuz que cobre parcialmente seu rosto. Eles com certeza iriam rir, se eu falasse que em alguns momentos eu preferia ser invisível, me esconder do mundo e aparecer só depois de alguns anos. Isso seria a melhor coisa do mundo. Eu não queria ser Summer Hudson, eu queria ser apenas a Summer. A garota feliz que eu um dia fui, que tinha os pais juntos, que tinha o amor da família e que poderia facilmente ter um príncipe como namorado. Mas não, diante da sociedade... Eu só era mais uma qualquer, condenada e sem amor.
Além de não ter mais o amor e carinho dos meus pais e família, tinha o Josh. Claro, o homem loiro que mesmo tendo noção dos meus sentimentos, parecia preferir brincar a se colocar em uma posição. Eu me odiava todos os dias, por continuar amando-o. Eu parei me apoiando em uma árvore da praça respirando o mais fundo que fosse possível, e pude prestar atenção no vento que envolvia os galhos frágeis das arvores que faziam um som diferente, que unido ao canto de alguns passarinhos tornava a atmosfera quase bonita de estar. Mas, ao olhar ao redor era possível ver que a atmosfera do lugar não estava feliz, estava triste, como se refletisse os meus sentimentos. Quando eu me virei, disposta a voltar ao campus, alguém descuidado esbarrou em mim projetando meu corpo para trás, fazendo bater contra uma arvore. Eu o olhei assustada e nervosa.
- Summer? – o homem loiro de olhos azuis me olhava surpreso, e eu respirei fundo, novamente.
- Não, a irmã gêmea dela. – eu revirei os olhos, voltando a andar na direção contrária a dele.
- O que aconteceu, Sum? – escutei sua voz próxima do meu ouvido, e eu me arrepiei sentando num banco dali.
- Nada. – eu exclamei convicta e o vi se sentar ao meu lado balançando a cabeça negativamente. – Eu só estava estressada, quando acordei, resolvi vir caminhar. Mas e você, o que faz aqui? – eu falei rápido, mandando uma pergunta para desviar a atenção dele.
- Vim correr. – ele falou dando de ombros. – Preciso me aquecer e o dia está agradável. – ele sorriu, e se virou para mim segurando meu queixo e segundos depois o senti pressionar seus lábios contra os meus, deixei que aquele beijo se aprofundasse, mas logo em seguida me arrependi, o empurrando e me levantando. Andei de costas com as mãos no rosto e ele se levantou me olhando surpreso. – O que foi?
- Não. – eu disse fechando os olhos, erguendo as mãos em frente do meu corpo. – Não, Josh, não dá mais. Essa brincadeira já deu, eu cansei disso, você brinca com meus sentimentos, como se eu fosse um brinquedo. – eu abri os olhos com fúria e dei passos para frente ficando há poucos centímetros dele. – Mas eu não sou.
- Não, Sums, você não é. Não é! – ele falou sério.
- Você faz isso desde o ano passado, e não decide o que quer. Então, Josh, o que você quer? – eu disse balançando a cabeça, sentindo meus olhos me incomodarem, mas eu não iria chorar, não ali.
- Você quer saber o que eu quero? – ele segurou minha cintura. – Você. Não importa como, nós podemos fazer dar certo, pode ser nosso segredo, até quando estivermos prontos. Mas não se afaste de mim. – ele falou encostando sua testa na minha, e eu fechei meus olhos absorvendo as palavras ditas.
- Você quer me esconder. Dos seus amigos. – eu sussurrei, sem forças para afastá-lo de mim.
- Não quero. – ele falou baixo. – Você quer namorar comigo, Summer? Com toda a universidade, meus amigos e seus amigos sabendo... Você quer? – ele se afastou e eu o olhei espantada, engolindo a seco o que ele havia me questionado.
Não que eu não queira namorar com ele, mas eu nunca gostei muito de títulos e me sentir presa a alguém. Eu posso amá-lo, mas namorar seria perder a minha liberdade. Eu era uma incógnita, sempre me surpreendendo com meus próprios atos, se eu o amava porque não querer namorá-lo? Porque era tão difícil aceitar um relacionamento sério? Eu poderia me enganar dizendo que eu não queria me sentir pressa, mas eu sabia que bem lá no fundo, isso tudo era medo. Medo de tudo dar errado como deu para os meus pais. Eu tinha medo de me entregar e sair marcada.
- Não. – eu disse rápido, o vendo arquear a sobrancelha. – Quero dizer, não agora. Eu não estou pronta para isso. Relacionamento ser... – eu falava e ele me interrompeu.
- Está vendo, nós dois não estamos prontos ainda, para um relacionamento sério e formal. Mas podemos ter o nosso próprio relacionamento. – ele disse sorrindo. – Do nosso jeito.
- Do nosso jeito? – eu perguntei, e ele assentiu se aproximando.
- Será segredo, você não irá me prender e nem eu irei te prender. Poderemos ficar com outras pessoas, mas... – ele disse procurando as palavras corretas.
- Com decência, não precisamos ficar toda semana com alguém, e tudo que nós fizermos iremos contar um para o outro. – eu conclui seu pensamento segurando suas mãos e sorrimos assentindo, ele abriu a boca para continuar, mas eu o calei com um beijo.
Muitos, com certeza, iriam falar que tipo de acordo é esse? Continuar ficando com outras pessoas, um relacionamento assim não vai dar certo. Provavelmente não daria certo, mas eu e Josh somos diferentes das outras pessoas, nós gostamos um do outro e não importa como ficaremos juntos, e sim estar juntos. Eu posso ser considerada uma vadia por aceitar, mas o que posso fazer? Eu o amo e amo minha liberdade, além do mais eu nunca deixei de ficar com outro homem por causa dele, e ele também nunca deixou de fazer algo por mim. Não será agora que iremos mudar. Aprendi que na vida temos que deixar as pessoas livres, não precisamos prendê-las para ter certeza que elas são nossas. Seremos felizes assim? Ah, isso só o tempo dirá.

Summer’s Pov //

’s Pov

Enquanto, eu e descíamos as escadas sossegadas, eu refletia sobre o meu sonho da noite passada. Depois de acordar àquela hora, não consegui mais dormir, então aproveitei para tomar um banho, adiantar algumas atividades, até limpar a cozinha e meu guarda roupa eu limpei, buscando uma forma de não lembrar aquelas cena apavorantes que eu vi passar pelos meus olhos, era angustiante pensar se aquilo acontecesse. Não gosto nem de pensar sobre isso, mas não sei o que é pior pensar... Os meus últimos pesadelos ou minha mais nova relação com o .
parou e se virou para a porta do bloco G, quando a atravessamos e eu contra vontade me virei, vendo os dois meninos se aproximar. Um deles mantinha um sorriso lindo no rosto e o outro mantinha seu semblante fechado e olhar vago.
- Bom dia. – disse sorrindo.
- Bom dia, meninas – os dois falaram em uníssono e eu apenas assenti com a cabeça dando um sorriso de leve.
- Estão bem? – perguntou arqueando as sobrancelhas, por conta do meu silêncio.
- Eu sim. – disse dando de ombros. – A que acordou desse jeito hoje.
- Ei, eu só não tive uma boa noite, mas estou bem. – eu sorri e vi olhar para mim preocupado, mas logo desviou o olhar. – , eu poderia falar com você?
- Érr... Sim. – ele disse depois de pensar um pouco, e nós dois saímos andando em direção ao gramado.
Enquanto andávamos em silêncio, ainda podíamos ouvir as vozes do e da conversando e de fato, se amando. Eles realmente estavam dando certo, além de fazer um casal muito lindinho. Quando nos sentamos, eu vi a cena mais fofa que eu já presenciei. voltou a andar para frente, descendo os degraus em direção ao prédio 2, quando a pegou no colo e a girou, fazendo ela rir e bater nos ombros dele, quando ele voltou a colocá-la no chão, segurou as mãos dela e a fez girar e dançar com ele, as trocas de olhares deles se tornaram tão intensa e só finalizou quando os dois se beijaram, me fazendo sorrir.
se mexeu desconfortável ao meu lado, e eu o olhei analisando-o. Ao longe pude ver e Brian andarem para o prédio 2, ambos me encararam mas logo desviaram o olhar seguindo seu caminho. Era estranho estar sentada ao lado do , fazia alguns dias que não trocávamos uma palavra, e eu sentia falta de ouvir sua voz, do seu abraço, sempre fomos tão unidos, e agora estávamos sem se falar por uma bobagem, e isso me machucava tanto, e além de tudo tinha ainda o me deixando confusa, fazendo com que minha mente entrasse num colapso nervoso. Suspirei alto, chamando a atenção do homem ao meu lado.
- O que foi? – ele exclamou, quebrando o silêncio.
- Desculpa. – eu disse olhando para minhas mãos. – , eu não suporto essa nossa situação, nós somos melhores amigos além de tudo, eu não deveria ter surtado. – eu exclamei sentindo-me um pouco melhor.
- Ei, , olhe para mim. – ele disse, segurando meu queixo e me fazendo olhá-lo nos olhos. – Me perdoa? Eu que fui o errado, eu não deveria nem ter pensado em te propor aquilo. – ele disse com os olhos marejados. – Eu sou seu melhor amigo, e é isso que eu devo ser. – ele sorriu, e eu o abracei caindo por cima dele, que riu.
- Ops, eu te amo . – eu disse ainda por cima dele sorrindo. – Lembra que temos uma promessa? – eu falei levantando a sobrancelha.
- Claro. – ele falou sorrindo. – Nunca iremos nos abandonar. Nunca, pequena. – ele disse seguro, e me deu um beijo na bochecha.
- Vamos lá, tenho uma amiga para te apresentar. – eu disse me levantando rindo.

Dê play na primeira música

O dia não aparentava ter 24 horas e sim, no mínimo umas 30 horas. O tempo não passa, as aulas estavam cansativas e tediosas, me deixando cada vez mais com sono, eu fechei meus olhos pensando quando, há poucas horas atrás, apresentei a Natalie. A garota ficou com as bochechas tão coradas que mal conseguiu formular uma frase sem gaguejar, arrancando alguns sorrisos bobos do , que do jeito que a olhava deixou transparecer que havia gostado dela. Eu acertara, ele obviamente iria gostar dela. A garota é cheia de vida, simpática, inteligente e além de tudo, muito bonita. Quando eu dei uma desculpa, e saí em direção a minha sala, vi os dois voltarem a conversar e rir, como se fossem amigos de longa data, eu sorri entrando na minha sala.
Voltei a abrir os olhos, e tudo continuava igual, minha professora continuava sentada mexendo em seus livros e papéis em cima da mesa, o livro na minha frente parecia não ter mais palavras e sim uma bagunça de letras, a sala se mantinha toda em silêncio e no lado de fora, era possível ver o sol brilhar timidamente por trás das nuvens. Eu sorri quando o sinal bateu, dando fim na minha penúltima aula do dia. Eu me levantei, pegando minhas coisas e saindo em disparada para a porta, mas tive que parar quase tropeçando quando uma garota loira, que, diga-se de passagem, usava uma saia que não cobria nem metade do útero, parou na minha frente arqueando as sobrancelhas com um sorriso maléfico nos lábios.
- Olá... Perdedora. – ela disse sorrindo.
- Olá... Loira oxigenada. – eu disse piscando, dando dois passos para passar por ela, mas fui impedida.
- Melhor do que ser a perdedora, rejeitada e... – ela parou de falar, me analisando com escárnio, eu a encarei. – E órfã. – ela disse um pouco mais alto, mas com um tom de voz doce, que me dava ânsia, todos pararam nos analisando e então eu pude ver que atrás dela já estava seus amigos, inclusive seu namorado que me olhou perplexo, claro ele não sabia isso sobre a menininha dos Havilland.
- Orfã? – Lizzie sussurrou olhando para o chão.
- Como você... – eu não consegui concluir a questão balançando a cabeça confusa, ninguém ali sabia da minha história, fora o .
- Eu gosto de pesquisar. – ela sorriu vitoriosa. – E digamos, que a sua história não é tão difícil de ficar sabendo. Internet baby, conhece? – ela piscou se aproximando de mim.
- Qual é o seu medo? – eu disse me aproximando dela. – Perder o seu posto de rainha da universidade... Para mim? – eu sussurrei, dando um sorriso de lado. – Pode ficar com isso, eu odeio títulos. – eu sorri, e a empurrei passando por ela confiante, mas ainda assim pude ouvir um grito de desaprovação dela.
Eu andava apressadamente, passando sem cuidado algum por entre as pessoas que murmuravam alguns xingamentos contra mim, mas eu não me importava. Os livros em minhas mãos quase escorregavam, e eu segurava-os com mais forças pressionando contra minha barriga, meus olhos ardiam e eu piscava várias vezes sem querer chorar ali naquele prédio. Eu desci as escadas correndo, quase tropeçando, aquilo era um pesadelo, eu deveria estar acordando. Eu tenho que acordar, agora. Porque ela teve que pesquisar sobre mim? Porque ela teve que falar, em voz alta, para todos ouvirem? Qual o problema dela, que benefício ela tem falando da minha vida... Falando que eu sou órfã, que eu perdi meus pais. Todos agora vão me olhar com pena, e se existe algo que eu odeio mais no mundo é me sentir fraca diante das pessoas.
Passei em frente ao bloco D, e vi meus amigos sentados em uma mesa, eles não poderiam me ver ali, não poderia me ver, não queria estragar a sua felicidade, o seu sorriso refletia em seus olhos, não... Eu não podia estragar isso com minhas tristezas. Eu dei um giro, voltando pelo mesmo caminho que eu havia acabado de passar, pensando em outro lugar que eu poderia ir, quando eu vi uma porta ao lado do banheiro, mesmo quebrando as regras e passando pelo aviso de “Só pessoas autorizadas”, eu abri a porta e comecei a descer as escadas estreitas, chegando há um corredor que tinha uma luz fraca e várias portas, provavelmente ali era onde eles guardavam os produtos e arquivos mortos. Caminhei até metade do corredor, até me sentir fraca o bastante para continuar e me sentei no chão, me entregando ao choro. Tantas coisas passavam por minha mente, o lugar ali tinha a luz fraca e era frio. Frio, igual a minha alma se encontrava há anos. Todos poderiam acreditar que eu sempre fui feliz, ou pelo menos, estava numa fase feliz, mas essa nunca foi minha realidade. Eu sempre me mantive presa no meu passado de agonia e amargura, sempre mantive a minha armadura ao meu redor, como se me defendesse de qualquer decepção futura. Os pouquíssimos momentos em que eu deixava essa armadura eram quando estava com , Anne e Gemma, apenas eles me conheceram de verdade, e sinto que só eles irão conhecer. Mas mesmo assim, dia após dia eu tenho que forçar um sorriso, tenho que forçar meu rosto de tristeza se converta em alegria, porque é o que todos esperam.
Um vento frio percorreu meu corpo, me fazendo estremecer e me abraçar, encostando o meu queixo nos joelhos e apertando mais meus olhos. A dor não passa, nunca. Era como um ciclo vicioso, que nunca tem fim. O pior não era eu lembrar que havia perdido meus pais tão cedo, o que mais me angustiava e não me permitia seguir em frente, era ter sido abandonada pelas pessoas que cuidaram de mim quando eu mais precisei. Era por isso que eu nunca consegui confiar em ninguém mais, não conseguia mais entregar meu coração. Porque o meu medo de me decepcionar é tão grande, que não me permite: tentar, confiar.
Ao abrir os olhos, encostei minha cabeça na parede, sentindo tudo dentro de eu tremer, e não pude deixar de olhar para a foto que sempre estava comigo, em minha carteira. Uma mulher de cabelos castanhos claros com um sorriso cheio de vida abraçada por um homem de cabelos negros e olhos brilhantes, e no colo dele, uma garotinha de cabelos castanhos claros presos em uma trança lateral, que segurava uma boneca apertada contra o peito e sorria, ao fundo um parque cheio de árvores e flores alaranjadas, suas roupas mostravam que o tempo estava agradável. Meus pais e eu. Todos os dias eu me perguntava como teria sido a minha vida, se tivesse demorado um pouco mais para sair de casa naquela noite, se hoje estaríamos juntos e felizes... “Eu sinto tanto a falta de vocês, papais...Eu amo vocês.”, eu sussurrei olhando a foto, antes de abraçá-la novamente contra meu corpo e chorar.

Uma semana depois

Lizzie’s pov

Os dias haviam passado, e hoje é a nossa tão aguardada visita técnica na Empresa BlackFord, mas definitivamente o clima não estava tão agradável como eu gostaria. Claro, esse clima londrino por muitas vezes me cansa, mas eu não trocaria esse lugar por nada. Enquanto, eu colocava minhas botas sem salto preta, Natalie colocava seu casaco preto por cima de sua blusa rosa bebê, dividíamos o mesmo dormitório, sempre foi a melhor colega de quarto que possa existir, o seu bom humor sempre me contagiava. Logo que pegou seu copo de café, se despediu falando que ia ler um livro lá fora, e saiu deixando a porta aberta para que meu namorado entrasse em nosso quarto, ele se aproximou sorrindo e se sentou ao meu lado, me dando um beijo estralado na bochecha, antes de alisar minha bochecha, eu fechei meus olhos satisfeita com o carinho, sua risada adentrou meus ouvidos, me fazendo sorrir e abraçá-lo, como se pudesse prendê-lo para sempre ao redor dos meus braços.
- Ei, meu amor! – ele sussurrou em meu ouvido. – Você está querendo me matar... Sufocado? – ele disse, me fazendo rir e soltá-lo.
- Não. – eu disse dando de ombros. – Só estava com saudade, mas se você...
- Adoro quando você fica com saudades, você fica tão fofa. – ele me interrompeu, abrindo um sorriso de dar inveja a qualquer pessoa.
- Você viu a ? – eu perguntei, mudando de assunto completamente. Desde o fatídico dia em que Barbara com toda a sua crueldade, contou sobre ela ser órfã eu não havia a visto, como se ela estivesse fugindo, ou melhor, se escondendo de explicações. Explicações essas, que ninguém queria. tem aquele olhar misterioso, mas meigo que não importa de onde venha, só de olhar se torna uma pessoa importante, e diferente do que ela pensava eu não sentia pena dela e muito menos queria explicações.
- Não, Liz. – Brian disse, quebrando meus pensamentos e me fazendo encará-lo. – Mas, ela vai aparecer, ela só deve estar magoada pelo que aconteceu, temos que compreendê-la. – ele sorriu, e eu não pude deixar de encostar nossas testas, sentindo sua respiração bater contra meus lábios entreabertos, eu sorri quando senti suas mãos repousarem em minhas costas aproximando mais ainda nossos corpos, e então senti seus lábios tocarem os meus.

Lizzie’s Pov //

’s Pov

- Você vai se atrasar! – falava enquanto eu descia com pressa as escadas.
- Cala a boca, . – eu gritei o vendo revirar os olhos divertidos. – Eu estou no horário ainda. – eu disse mostrando a língua para ele, parando para pegar meu casaco das mãos dele e o colocando, enquanto ele me analisava.
- Você vai sozinha? – ele me questionou, e voltamos a andar descendo os degraus.
- Não, amor, a Lizzie vai ir também, nós estaremos juntas lá. – eu disse sorrindo, vendo as outras meninas andarem em direção ao bloco 1. – Acho que você já pode ir para sua aula. – eu sorri.
- Nossa, era melhor dizer que não quer minha presença. – ele disse emburrado, e eu me joguei em seus braços bagunçando seus cachos, ele riu. – Tudo bem, não posso me atrasar mesmo. E nem você, boa visita e qualquer coisa me liga. – ele disse acariciando minha bochecha, eu sorri.
- Ok, e amanhã quero todos os detalhes do seu encontro com a Natalie. – eu disse dando um beijo em sua bochecha. – Te amo, tchau. – ele sorriu e assentiu, seguindo em direção ao bloco D, e eu fui andando até chegar aos primeiros degraus do prédio 1.
Quando eu olhei, vi parada a Liz com seus outros amigos, eu revirei os olhos, mas ela sorriu e chamou-me com a mão, eu poderia fazer birra e ir pelo outro lado, mas eu era superior a isso, então comecei a subir sem pressa alguma os degraus, escutei a me chamar e eu me virei acenando para ela e Summer que corriam – atrasadas, como sempre – para suas aulas.
- Bom dia, . – Liz exclamou me abraçando, com seu olhar sempre tão cheio de ternura.
- Bom dia, Liz. – eu falei ainda abraçado nela. – Bom dia. – eu falei para todos eles, quando me afastei.
- Bom dia. – todos, menos Barbara, me respondeu.
- Quem vai ir? – eu perguntei para Liz, mas ela não teve chance de me responder, antes um loira mal amada respondeu.
- Todos nós. – ela sorriu piscando. – Algum problema?
- Pensei que animais ficassem em zoológicos e não falassem. – eu sorri para ela, que deu um passo para frente irritada. – Ops, não aguenta brincadeira? Não tem problema nenhum Lively, só manter distância. – eu exclamei com a voz firme, o clima era pesado. – Não quero correr o risco de ser infectada. – eu sorri, me virando de costas para ela e seguindo Liz que me puxava pelo braço para entrada.
Enquanto andávamos em direção à porta principal, eu pude ver várias meninas conversando sobre a visita, separando seus materiais para visita. Nos encostamos na parede, encarando a escadaria, olhei para o céu estranhando o clima, que agora estava com o céu acinzentado, muitas nuvens e um vento frio batendo contra meu corpo. Um ônibus parou ali em frente, e todos começaram a entrar, inclusive eu, Liz e seus amigos, fomos rapidamente para o fundo do ônibus, e nos sentamos, permaneci em silêncio.
- Cadê a Barbara? – ouvi a voz de um homem.
- Acho que ela foi com o de carro. – Liz respondeu dando de ombros, e eu me desliguei completamente colocando meus fones de ouvido.

Narrador

O clima de Londres ao mesmo tempo em que é previsível, pode nos surpreender, pegando várias vezes alguns dos londrinos desprevenidos. Como hoje, o céu acinzentado e um vento gélido deixando todos arrepiados, as pessoas andavam pela rua com pressa, como se pudessem voar e chegar a suas casas num piscar de olhos. Naquela bonita rua, era possível ver dois jovens andando um ao lado do outro em direção ao prédio do cinema. Tão diferentes, e tão iguais. Todos perguntariam sobre suas histórias e provavelmente chegariam à conclusão de que eles combinavam e que formariam um casal bonito.
Eles adentraram em silêncio o prédio, após poucos minutos já estavam sentados nas poltronas confortáveis do cinema, vendo os trailers passar a sua frente, a garota o olhava sorrindo, encantada por sua beleza, sua voz e seu jeito. Ele analisava o sorriso da menina e seu modo de mexer no cabelo quando ficava envergonhada com algo dito, a conversa deles fluía tão rapidamente, que definitivamente parecia que se conheciam há anos. Eles se sentiam assim e sabiam que era bem provável que a partir desse dia, a amizade deles só aumentaria. Quem sabe, até um nível mais alto?
- É impressionante isso. – a loira sussurrou, o fazendo encará-la.
- O que? – ele disse arqueando as sobrancelhas
. - Parece que eu te conheço há tanto tempo. – ela parou refletindo. – Eu gosto disso. Eu gosto da sua companhia. – ela exclamou abrindo um sorriso tão belo, tão verdadeiro.
- Eu também gosto. – ele exclamou retribuindo o sorriso. – Eu quero muito conhecer tudo sobre você. – o homem falou seguro, fazendo-a assentir e encostar sua cabeça no ombro do homem que suspirou baixo.
- Mas não agora, . – ela disse encarando a tela do cinema. – O filme vai começar. – ela disse rindo, e ele lhe afagou os cabelos antes de passar os braços ao redor da cintura da garota.

’s Pov

O caminho até a empresa havia sido tedioso, eu me mantive em silêncio com os fones de ouvido, escutando músicas que num momento não me recordava o nome, nada que fosse muito significante. Ao descermos do ônibus todos fomos divididos em grupos de 15 alunos, e de um jeito estranho, o meu grupo havia sido muito bem escolhido, Liz fazia parte. Mas como tudo tem sua exceção, Barbara também fazia parte do meu grupo, me deixando a certeza de que aquilo só poderia dar errado. Os meninos, diferente do que eu pensei, não iriam estar na visita, só queriam ir até ali e depois voltariam para encontrar as garotas, logo Brian e seguiram seus caminhos, deixando eu, Liz e Barbara com nosso grupo. O local era maior do que eu imaginava, entramos na porta lateral indo direto para a cozinha, onde anotávamos os nomes de equipamentos, preparações e utensílios ali usados, todos os funcionários se apresentaram, e assim o dia foi passando.
- , você poderia entregar isso para a Liz? – Barbara se aproximou de mim, me entregando um papel com algumas coisas escritas numa letra bonita e legível, sua voz estava tranquila e seu olhar era pacifico. – Por favor?
- Você está me pedindo um favor? – eu arqueei as sobrancelhas em deboche, e ela revirou os olhos.
- Tudo bem, se você não pode, eu levo. – ela diz se virando de costas para mim. – É pelo trabalho, se você não pode ser educada um minuto, eu sinto muito.
- Ei, ei... Tudo bem, eu levo. – eu disse passando na frente dela, e pegando o papel de suas mãos, e dei de ombros indo em direção contrária a dela.

Play na segunda música

Eu já estava andando no mesmo corredor por muitos minutos, a cada sala que eu entrava me via mais perdida do que nunca, e nada de encontrar a Lizzie que pelo jeito havia tomado chá de sumiço. Depois de muito rodar por aqueles corredores estreitos e de cor cinza, consegui voltar à cozinha, e paralisei na porta ao encontrá-la vazia, com dois funcionários limpando o chão e mesas, eu dei um passo chamando a atenção deles, que franziram a testa surpresos. E então, eles me falaram o óbvio “todos já foram, querida. E já faz uns bons 20 minutos”. Não acredito como eu fui burra em acreditar na Lively, é claro que ela estava sendo falsa e mentirosa. Aquela carinha de anjo, e voz pacifica, só poderia ser um plano de fazer com que eu me perdesse do grupo e tivesse que voltar andando e sozinha para o campus, como eu odeio aquela loira oxigenada e dissimulada, eu tive que sorrir e falar que tudo bem, que eu pegaria um táxi ali perto de volta a minha faculdade, eles assentiram, sem saber que eu não teria dinheiro para pagar por todo o caminho do táxi. Ao passar pelas portas da entrada, olhei ao redor encontrando um clima pior do que eu tinha visto horas atrás, o dia estava escurecendo e as nuvens acinzentadas desenhavam um céu frio, me preocupando que resolvesse cair uma tempestade dali pouco tempo, comecei a andar em direção que a faculdade se encontrava, acreditando que conseguiria chegar até lá andando.
Os minutos passavam como se fossem horas, e a cada passo que eu dava sentia meus pés doerem, balancei minha cabeça em negação e deixei que um sorriso de escárnio surgisse em meus lábios ao sentir duas gotas frias tocarem minha bochecha, me fazendo erguer meu olhar ao céu e ver que o tempo havia piorado, e agora era impossível eu chegar ao campus, agora tão distante para mim, voltei a andar, dando passos mais fortes e rápidos. A chuva, que havia se iniciado fraca, aumentava gradativamente, e eu continuava a andar pelas ruas, agora sem saber como qual é a rua correta que eu deveria entrar para chegar ao campus, minha visão ficando embaçada por conta da chuva. Eu gostaria, com todas as minhas forças, de poder ligar para o , mas isso mesmo em pensamento se tornava insuportável e egoísta de se pensar, como eu poderia ligar e atrapalhar sua noite com a Natalie? Era injusto com ele, e eu deveria aprender a me virar sozinha, não precisava ficar sempre dependendo do . Se eu havia sido idiota o bastante para acreditar na vadia da Lively, poderia ser esperta o bastante e voltar ao campus.
As ruas que eu andava estavam deserta, e ao virar a esquina pude ver de canto de olho dois homens de aparência nada confiável andando em minha direção, apertei minhas mãos gélidas dentro do bolso da minha jaqueta, e olhei ao redor com a esperança de ver alguém ou algum estabelecimento aberto, mas não encontrei nada, ao não ser uma rua mais deserta do que a última que eu havia passado. Algo dentro de mim gritava comigo, e eu não pude deixar de lembrar nos sonhos que eu havia tendo todas as noites, balancei a cabeça tentando procurar alguma solução, ou algum lugar para qual eu poderia correr. Tarde demais, quando dei por mim eles já estava há poucos passos de mim e me analisavam com um sorriso malicioso e nojento brincando em seus lábios.
- Olá, garota bonita. – um dos homens, que tinha os cabelos pretos e barba por fazer, disse com uma voz de dar ânsia. – Está perdida?
- Nós podemos te ajudar. – o segundo homem, de cabelos claros, mas com o mesmo ar grotesco que o outro, comentou dando um passo para frente, como instinto dei outro, mas para trás.
- Não precisa. – eu disse com a voz baixa, deixando transparecer o meu medo. – Eu...
- Não precisa ter medo, princesa. – o que estava mais perto de mim disse me interrompendo, e piscou para mim.
- Eu tenho que ir. – eu disse dando um giro nos calcanhares, mas antes que eu conseguisse correr, como o planejado, senti seu braço segurar meu braço, me puxando contra seu corpo, senti uma dor percorrer todo o meu braço.
- Logo agora você vai embora? Fique mais aqui, com nós. – ele disse apertando com mais força meu braço, senti meus olhos se encherem de lágrimas e balancei a cabeça negativamente, sem forças para falar.
Ele me fez começar a andar no meio dos dois, a chuva agora estava mais forte do que eu pensava ser possível, molhando completamente meu corpo e roupas, a rua permanecia deserta e poucos carros passaram por ali, e eu tinha certeza de que estavam tão ansiosos em chegar às suas casas que nem viram nós três andando desajeitados pela rua. As poucas lanchonetes que tinha ali já se encontravam fechadas, meus pés e pernas se arrastavam enquanto eu sentia medo, eu estava perdida, definitivamente. As esperanças se esvaindo, e agora eu tinha mais do que a certeza de que meus sonhos eram além de tudo, avisos do que iria me acontecer.
Eu balancei a cabeça segurando ainda mais o choro, e eles falavam coisas nojentas que me causavam arrepios, mas foi quando ouvi uma voz forte e alta soar atrás de nós, que me fez voltar a ter esperança, e me deu forças para olhar para trás. Ao encontrar seus olhos castanhos escuros nos encarando com o ódio e preocupação brilhando em seu rosto, eu tive certeza de que estava viva, não sabia como, mas era ele. poderia estar com os olhos em chamas, como agora ele se encontrava, mas aquilo me deixou mais do que aliviada, me deixou feliz por encontrar um rosto conhecido e que me trazia alegria, de uma forma tão assustadora, mas que trazia de uma forma boa.
O homem deu um passo à frente e só então, eu percebi que ele estava extremamente perto de nós, ele estendeu sua mão em minha direção, mas antes que eu pudesse dar um passo em sua direção, o homem que já me segurava apertou mais meu braço me fazendo dar um grito de dor, o que fez com que o desse outro passo para frente.
- Solte a minha namorada, agora. – ele cuspiu as palavras, me surpreendendo, e antes que eu pudesse ter qualquer reação, senti sua mão quente segurar a minha me puxando para seu lado, mas para minha desgraça, o homem que antes me segurava, me puxou novamente, arranhando meu braço e eu pude sentir algumas lágrimas se acumularem em meus olhos.
- Ela não vai para lugar nenhum com você, moleque. – o cara que permanecia atrás de nós, disse com a voz calma e em deboche.
- Ah, claro. – disse soltando a minha mão e se virou, me deixando confusa, com medo e levando consigo todas as minhas esperanças.
O que ele estava pensando em fazer? Se ele estava realmente me abandonando, aquilo com certeza era o fim para mim, mas antes que eu pudesse gritar todos os xingamentos existentes na face da Terra, o vi virar numa velocidade assustadora e acertar um soco no homem que ainda me segurava o fazendo cambalear e cair no chão, segurou minha mãos e me puxou em sua direção, me fazendo correr na direção contrária aos homens, senti meu coração bater aceleradamente e minha respiração ficar falha, tudo em mim ainda doía, nós viramos em uma esquina e então eu avistei seu carro parado, abri a porta do passageiro, enquanto o mesmo dava a volta no carro, e entrava no lado do motorista. Eu coloquei o cinto, mas vi que eu estava molhando todo o carro, tremia de frio e as lágrimas, que antes eu havia impedido que caísse, corriam silenciosamente por minha face, o carro andava na direção contrária do campus, mas não me importei encostando minha cabeça no banco fechando meus olhos e abraçando meu corpo fortemente.
- O que... Você estava fazendo ali? – ele disse com a voz falha, determinado em quebrar o silêncio antes instalado ali, eu abri os olhos o encarando, e me surpreendi ao encontrar seus olhos transbordando preocupação e fúria, suas mãos apertavam o volante e seu rosto estava distorcido em raiva. – Droga, . – ele falou alto batendo a mão no volante, e eu me encostei mais contra o banco olhando para minhas mãos, não que eu estivesse com medo, mas aquilo era estranho.
- Eu me perdi. – eu o respondi baixo, quase não escutei minha voz, por isso tratei logo de completar minha explicação. – Eu não conseguia achar ninguém, e então eu estava ali. Desculpa. – eu disse visivelmente sensível, e então o carro parou num estacionamento de alguma lanchonete desconhecida por mim, senti seu olhar sobre mim, mas não o olhei com medo do que encontraria em seus olhos, mas não impedi de meus lábios sussurrarem as últimas duas palavras, com o máximo de força e sinceridade que eu conseguia. – Obrigado .
- Nunca mais se perca... Por favor. – ele disse sério, desviando seus olhos de mim, e só então o olhei tirar o cinto. – Você está tremendo, com frio? Vamos tomar um chocolate quente. – ele me perguntou, e antes que eu respondesse completou com aquele convite, não deixei de sorrir ternamente, como um agradecimento silencioso. Senti ele se aproximar de mim e retirar meu cinto, suas mãos agilmente pegaram algo no banco de trás e colocou em meu colo, antes de sair do carro, olhei para minhas pernas e pude ver seu moletom quente.
Antes que eu abrisse a porta, coloquei seu moletom sentindo no mesmo momento seu perfume amadeirado impregnado ali, e não deixei de inspirar todo aquele perfume, numa tentativa cega de guardar aquele cheiro comigo, no momento não sabia por qual motivo, mas foi o que fiz, antes de abrir a porta e colocar meu corpo para fora do carro.
Corri até estar ao seu lado, ele abriu a porta da lanchonete e só no momento que atravessamos a entrada, que eu vi no relógio de parede a hora que marcava 23h30, eu arregalei os olhos surpresa. Ele, como uma tentativa de me direcionar, voltou a segurar minha mão, me despertando sensações novas, e andou na minha frente até uma mesa que se encontrava no canto, quase no fundo da lanchonete, encostada a janela, nos sentamos um de frente para o outro, e então eu sorri. Ficamos por alguns minutos nos olhando, a garçonete que usava o uniforme composto por saia vermelha até pouco acima dos joelhos, camisa branca e sapatos pretos, se aproximou da nossa mesa sorrindo, e logo fizemos nossos pedidos. Dois chocolates bem quentes e dois muffins de morango. Naquele momento, ao encontrar seus olhos direcionados para mim, eu tive certeza que era naquele lugar que eu deveria estar, e de uma maneira estranha que eu nunca havia sentido, era exatamente ali que eu queria estar e que eu me sentia bem.

Capítulo 11

Unintended

Quando o aviso aparecer, dê play na música Fuckin’ Perfect – P!nk

Parecia que estávamos ali há horas, mas eu tinha certeza que não fazia nem dez minutos. Logo que a garçonete nos entregou os nossos pedidos, ficamos nos encarando. O seu olhar era vago, seu rosto estava calmo, mas suas mãos fechadas em punho. Minha mente estava uma tremenda bagunça, o que ele estava fazendo ali? Por que ele havia me chamado de namorada? Era como se ele estivesse me machucando sem ao menos saber, pelo simples motivo de que o adjetivo usado era íntimo demais, forte demais. Eu estava mais do que confusa, não havia palavras existentes para descrever o estado em que minha mente e coração se encontravam, tudo que eu queria era minha cama. Segurei o copo de chocolate quente em minha mão e o levei até minha boca, assoprando e tomando um pouco, mas senti o olhar de seguir cada movimento meu, corei automaticamente.
- Então... – eu disse, num sussurro, levantando minha cabeça para olhar em seus olhos.
- Você poderia me contar o que aconteceu... Digo, por que você estava ali? – ele disse, encarando seu copo.
- Eu... Eu estava tentando voltar para o campus. – eu respondi, dando de ombros e olhando pela janela a rua. – Como eu não tinha dinheiro para pagar um táxi, resolvi ir andando. Mas não foi uma boa ideia. – eu ri, sem humor algum, tomando um pouco do meu chocolate.
- Você deveria estar com a sua turma. – ele disse, e o senti me analisar, continuei olhando para a chuva que caía lá fora.
- Deveria. – eu respondi, revirando os olhos. – Mas a sua namorada fez questão de me enganar. – eu o encarei, frisando bem o sua, que me fez sentir um embrulho no estômago.
- A Barbara? – ele perguntou, pensativo. – O que ela fez? – ele arqueou uma sobrancelha.
- Ela me enganou, mentiu para mim... – eu comecei a falar, olhando em seus olhos, mas fui interrompida.
- Você não gostar dela, tudo bem. Mas ficar inventando essas coisas dela é inaceitável, a Barbara não faria isso de te enganar para fazê-la se perder do seu grupo. – ele disse, sério, e sua voz mais rouca do que antes. – Se seu problema com ela é sobre...
- Cala a boca, por favor. – eu disse, entredentes, batendo minha mão fechada em punhos na mesa, sentia todo meu corpo tremer e não mais por frio, e sim de ódio. – Ela me enganou sim. Ela não sabia que aquilo ia acontecer, mas o fez. Ela pediu um favor, eu o fiz e eles foram embora sem mim, simples assim. – eu disse, segura, sentindo meus olhos arderem, na realidade, sentia tudo dentro de eu arder por notar como ele estava defendendo-a, por não estar acreditando em mim. – Mas é melhor acreditar mesmo na sua namorada... – eu falei, me levantando, mas antes que eu pudesse dar um passo em direção à saída, senti sua mão se fechar em meu pulso, me puxando para sentar ao seu lado.
- Não vá. – ele sussurrou, olhando em meus olhos, sua voz era calma e seus olhos estavam quase fechados. – Desculpa. – ele olhou para sua mão segurando meu pulso e o soltou. – Eu acredito... Em você. Mas eu acredito que ela não fez com a intenção de acontecer algo de mal a você. – ele falou, baixo, olhando para suas mãos. – A Barbara toma as atitudes sem pensar nas consequências e prejuízos que isso pode causar ao seu redor... Mas ela não é uma má pessoa. – ele me encarou, seus olhos me hipnotizavam, sua face estava inexpressiva, mas havia sentimento ali, algo me puxava para mais perto dele, queria tocar em seu rosto, abraçá-lo, senti-lo perto de mim.
- Tudo bem. – eu disse, tocando em suas mãos, ele seguiu meu olhar que estava em nossas mãos, não pude deixar de abrir um sorriso tímido. – Eu não sou de guardar mágoas e eu sei que ela não queria que algo de ruim acontecesse comigo. Eu não quis falar isso, mas de qualquer forma, o que você estava fazendo lá naquela hora? – eu disse, refletindo no horário que já era avançado e tirei minhas mãos das suas, pegando meu muffin.
- Estava... Passando. – ele disse, mordendo um pedaço do seu muffin.
Olhei para ele, mas algo me dizia que ele não falava a verdade, mas não falei nada, permanecemos em silêncio, escutando o barulho de chuva e as vozes baixas dos clientes noturnos da lanchonete. Isso tudo era loucura demais, mas olhando seus traços me sentia atraída por ele. Ele era realmente muito bonito, não era nem muito alto nem baixo, seus olhos eram de um castanho escuro que te faz enxergar até a alma dele, seu cabelo era preto, hora e outra ele o bagunçava, deixando-o mais bonito, seu sorriso era encantador. Tudo nele me puxava para mais perto, como um imã. Encostei minha cabeça à janela da lanchonete e fechei os olhos, respirando fundo. Minha cabeça doía, meus olhos se fechavam mesmo que eu quisesse mantê-los abertos, o aroma de café no ar me dava a sensação de estar em casa. Eu queria dormir, descansar... Esquecer que eu quase havia sido molestada, esquecer a sensação de sentir meu coração se abrindo, eu queria continuar sendo gelada. Não posso me dar ao luxo de gostar de alguém, como se eu fosse amaldiçoada, não poderia pensar que alguém ficaria comigo, porque no fim todos iriam embora. nunca será certo pra mim. Eu nunca serei certa para ele.

// ’s Pov

’s pov

Eu a encarava já fazia um tempo, seu corpo estava inclinado sobre a mesa, suas mãos seguravam seu rosto, que era parcialmente escondido pelos seus cabelos castanhos, suas respiração era calma. Não pude deixar de sorrir e não poderia tê-la acordado, ela merecia dormir. Levantei-me e fui até o balcão, onde paguei nossa conta, e voltei à mesa, pegando-a no colo. A chuva já havia parado havia um tempo, mas ao atravessar a porta a apertei mais contra mim, sentindo seu perfume tão feminino, seu coração bater, era tão bom tudo isso. Eu não saberia explicar o porquê senti toda aquela paz por segurá-la em meus braços, mas senti e me perguntava se eu iria conseguir me desgrudar dela. Não alcancei resposta, abri a porta de trás do carro e a deitei, vendo-a se remexer e finalmente voltar a dormir tranquilamente. Comecei a dirigir em direção ao campus, a noite estava mais fria do que de costume e a chuva voltava a cair em Londres, mesmo que mais fraca. Meu pensamento não sai da garota que estava dormindo no banco de trás do meu carro, seus olhos, sua boca tudo me enfeitiçava e isso é extremamente errado. Eu namoro e devo respeito à minha namorada, mas essa garota tem algo que eu não consigo resistir. Merda! Por que essa garota teve que aparecer em minha vida? Por que eu tenho que sentir isso? Isso tudo está completamente errado. Estacionei o carro em minha habitual vaga e olhei para trás, vendo-a abrir os olhos, sorri.
- Onde estamos? – ela disse, esfregando os olhos com sua voz rouca.
- No campus. – eu respondi, olhando seus pequenos movimentos, ela suspirou, abrindo e fechando os olhos. – Não quis te acordar, estava dormindo tão tranquila.
- Obrigada. – ela disse, dando um sorriso, deixando que um sorriso escapasse por meus lábios. – Eu não sei o que falar. – ela riu, fechando os olhos e corando.
- Não precisa falar nada. – eu a respondi, tocando espontaneamente em sua perna, a garota abriu automaticamente os olhos, encarando minha mão, eu a retirei envergonhado. – Er, desculpa... Você poderia me prometer que vai tomar mais cuidado? – eu a perguntei, mudando de assunto, mas mantendo minha cabeça abaixada.
- Claro. – ela disse, calma, aproximando seu corpo do meu banco. – Muito obrigada, ... Por me salvar. – ela tocou meu rosto, e antes de sair do carro, deu um beijo em minha bochecha, me fazendo sorrir.

// ’s Pov

’s Pov

Eu caminhava rápido em direção ao meu quarto, meu dia e noite haviam sido cheios, e eu definitivamente sentia tudo girar. O toque da sua pele em meus lábios não saía da minha cabeça, como se tivesse ficado gravado em meus lábios e o seu perfume amadeirado ainda estava em mim. Olhei para o meu corpo e ri, eu ainda usava a blusa dele. Abracei mais meu corpo, absorvendo o cheiro dele, me sentindo como uma adolescente tola. Abri a porta do meu quarto e a luz do abajur da estava ligado, mas ela não estava em sua cama, fui até a cozinha e peguei uma garrafa de água, logo a porta do banheiro abriu e minha amiga saiu, me encarando.
- Onde a senhorita estava até essas horas? – ela me questionou, sentando em sua cama, analisando meu corpo dos pés a cabeça. – Não me lembro de você estar usando essa blusa hoje mais cedo. – ela disse, maliciosa.
- Idiota. – eu revirei os olhos, e me sentei em minha cama, começando a contar-lhe tudo que havia acontecido.
Ela fazia caras e bocas e revirava os olhos em algumas partes, quando lhe contei sobre os homens que me perseguiram, ela automaticamente levou as mãos à boca com um olhar preocupado, mas suspirou tranquilamente quando ouviu o nome do sair por meus lábios e deixou que um sorriso brincalhão surgisse em seus lábios, eu apenas ignorei esse detalhe e logo estávamos deitadas em nossas camas, prontas para dormir. Ou nem tanto. O homem de olhos castanhos ainda estava em minha mente e mesmo que eu quisesse, ele não saía da minha mente e no fundo eu sabia que não sairia nem tão cedo. Eu só não entendia como, isso era impossível, certo? Eu já sabia o que era tudo aquilo... Atração física. Claro, isso era óbvio.

Summer’s Pov

Na mesma noite…

Play na música

O dia já estava no seu fim e o céu já estava num tom alaranjado, revelando que logo estaria à noite. Ao descer do táxi e olhar para frente, encontrando a minha casa, ou o que deveria ser o meu lar. Mesmo sem vontade alguma, tive que me forçar a dar o primeiro passo em direção à porta e ao tocar na maçaneta constatei que já se encontrava aberta. Silêncio. Isso era tudo que eu escutava no andar debaixo. Não sabia qual era o real motivo de estar ali, mas depois de tantos pedidos dos meus pais para que eu fosse visitá-los, acabei cedendo e indo vê-los, era uma obrigação, meu coração doía por pensar que um dia eu tive uma família e hoje tinha apenas restos do que fora um dia. Andei até parar em frente à escada, ouvi algumas vozes exaltadas que vinham do andar de cima, já sabia o que estava acontecendo, então suspirei, subindo o primeiro degrau, indo em direção à suíte dos meus pais. Ao abrir a porta, respirei fundo, vendo meu pai gritar e empurrar minha mãe para a cama, o olhar dela era de desespero e seus cabelos estavam bagunçados, meu pai gritava palavras incompreensíveis, mas só quando ele levantou a mão em direção à minha mãe que eu tive alguma reação.
- Não! – eu falei, entrando no quarto. – O que você está fazendo? Seu doente, não tente bater na minha mãe. – eu o repreendi, sem pensar nas consequências dos meus atos. Ele me encarou e seu olhar estava furioso, suas mãos tremiam e ele deu um passo em minha direção, rindo em deboche.
- Quem você acha que é para gritar comigo? – ele falou, com sua voz embriagada, me causando enjoo, seus passos eram lentos e eu já sabia o que me aguardava.
- Eu deveria ser sua filha. – eu o respondi, entredentes. – Mas não mereço ter um pai como você. Pare de agredir minha mãe, seu animal. – eu disse, e logo pude sentir o toque dos seus dedos na pele fria do meu rosto, fazendo com que um som desagradável e alto soasse por todo o quarto.
Minha mãe continuou deitada na cama com o rosto entre as mãos e nem ousou olhar em nossa direção, meu pai por sua vez me encarava com seus olhos avermelhados e grandes, devido ao grande consumo de álcool, além de carregar um sorriso malicioso nos lábios, sua boca se abriu e quando ele proferiu as palavras, não pude acreditar no que ouvia e tudo que eu pude sentir fora nojo... Nojo do meu próprio pai.
- Deite-se comigo, vadia. – ele deu um passo em minha direção, segurando com força meu braço, minha mãe levantou a cabeça com os olhos arregalados. – Não deve ser tão difícil para você, afinal, já é acostumada a se deitar com outros homens... Venha com o papai, vadiazinha. – meus olhos se arregalaram quando ouvi suas últimas palavras serem ditas num sussurro próximo do meu ouvido, enquanto uma das mãos do meu pai segurava meu braço, a outra apertava minha cintura, encostando cada vez mais meu corpo ao dele, e seus lábios frios tocavam a pele do meu pescoço, me causando arrepios de repugnância, o afastei de mim com toda a força que eu ainda tinha em meus braços e o vi cair desajeitadamente no chão com o olhar de ódio, recuei, encostando-me à porta.
- Eu odeio você. – eu gritei, sentindo todo meu corpo gritar e tremer, meus olhos se encheram de lágrimas, mas respirei fundo, controlando minhas emoções.
- Não desconte seu ódio por mim nela, Joseph. – minha mãe falou, alto, atraindo nossa atenção. – Você é um miserável, não sei como pude ficar tanto tempo com você.
- Você. É. Minha. – Joseph disse, entredentes, e eu fechei os olhos. – Tal mãe, tal filha, não é mesmo? Duas sem vergonha, por isso vocês sempre serão minhas. Quero as duas na minha cama. – eu abri os olhos vendo-o se levantar e me analisar, voltando seu olhar para minha mãe, que o encarava com fúria nos olhos.
- Eu quero o divórcio. Eu não te amo mais. – ela se levantou com muito esforço, meu pai num piscar de olhos estava em sua frente, com as mãos nos pulsos dela.
- Nunca, não deixarei que você seja feliz com ele. Nunca. – ele falava, alto, mas sério. E só então eu entendi todo o motivo da briga, minha mãe havia traído o homem que eu chamava de pai, por isso o ódio, os gritos, as agressões, os maus tratos e as propostas nojentas para mim. Era uma vingança pessoal. E tudo que pude sentir foi ódio dos meus pais, como sempre, eu estava no meio dos dois, sofrendo os erros deles.
- Eu sumo da sua vida. – ela o respondeu, olhando suas mãos. – Você pode ficar com ela... Com a Summer. Do jeito que você quer... – ela disse, firme, e eu a olhei com os olhos arregalados, senti a tensão de o ambiente mudar totalmente.
Por essa eu não esperava, minha mãe me oferecendo para meu próprio pai para que pudesse fugir. Fugir com outro homem. Ela estava me usando, fazendo um acordo com a minha própria vida pelo seu próprio bem, por conta dos seus desejos. Eu tremi, mas não era medo ou frio, por conta das janelas abertas, era o ódio crescente por aquelas pessoas à minha frente, não eram os pais que eu tive quando criança, os quais eu amei, os quais tive orgulho de falar “são os meus pais”. Eles não eram nada para mim.
- Você está me oferecendo... – eu parei de falar e os dois finalmente me encararam. – Você quer ser feliz à custa da MINHA vida. – eu disse, entredentes, abrindo a porta. – Eu odeio vocês... Vocês são uns monstros e se merecem. Espero que morram juntos e infelizes. Eu odeio vocês, esqueçam que tiveram uma filha. Esqueçam que um dia eu existi na vida de vocês. Esqueçam que um dia foram pais. – eu disse, por fim, saindo daquele quarto, ou melhor, daquela casa... Casa que eu esperava nunca mais voltar. Nunca mais.

Meus pés arrastaram meu corpo até o andar debaixo, deixei meus “pais” naquele quarto branco, deixei aquele que um dia eu amei mais do que a mim mesma para trás, chocados, pasmados com as minhas palavras agressivas. Meus olhos, levemente arregalados, se direcionavam por toda a extensão da casa, meus dedos tocavam desde o corrimão até as paredes do hall, com força o bastante, levei meu corpo até a sala de jantar. Eu, sempre, amei aquela sala mais do que qualquer outro canto daquela casa, até mais que meu próprio quarto. Porque era ali onde tínhamos nossos momentos mais familiares, íntimos, afetivos e acolhedores. O sofá caramelo tomava boa parte do espaço e logo à sua frente uma grande estante decorava o ambiente, meus olhos pousaram num pequeno retrato. Aquele retrato que era responsável por todas as minhas dores. Andei até estar de frente ao retrato e pude tocá-lo, com o máximo de carinho que consegui. Meu pai, minha mãe e eu . Estávamos abraçados, eu no colo do meu pai, atrás de nós a London Eye era a nossa paisagem, nossos sorrisos eram encantadores e com toda certeza faria outras pessoas sorrirem conosco. Eu era tão pequena, tão inocente, éramos tão felizes. Eles eram meus heróis. Eu os perdi. Não aguentei mais, e peguei o porta-retratos, apertando-o contra meu corpo, sentindo as lágrimas quentes e violentas correrem pela minha face. Não conseguia me sentir aliviada, estava longe disso, tudo que eu sentia era a nostalgia me tocar, me trazendo todas as sensações de impotência e fraqueza que eu sempre rejeitei. Deixei que o porta-retratos em minhas mãos fosse solto, ouvindo o barulho de vidro se quebrar aos meus pés. Afastei-me lentamente daquela sala, ouvindo meu próprio choro aumentar gradativamente, apertei minha bolsa mais forte contra meu corpo olhando, pela última vez, as escadas que levavam até o andar acima, não me surpreendi quando meus pais apareceram, com os olhos arregalados e assombrados, no topo da escada. Sorri com escárnio, antes de dar-lhes as costas e sair pela porta principal. Ao colocar meus pés para fora daquela casa, fui recebida por gotas de chuva e um vento impetuoso que fora o responsável por bagunçar meus cabelos, então eu corri. Corri contra o vento, sentindo minha blusa verde água colar-se ao meu corpo por conta da chuva que aumentava. Corri, porque era o que eu sempre fazia, sempre fugia. Eu não suportava me sentir fraca, mas essa sempre fora eu. Fraca. Impotente. Imatura. Problemática. Fugia e não me orgulhava disso, mas continuava a fugir. Todos os meus problemas, até os mais obscuros eram jogados contra mim com força total, e só então deixei minhas pernas cederem, sentindo meus joelhos tocarem grosseiramente o asfalto, ao sentir a dor, sorri. Sorri como uma lunática. Não me levantei, continuei a olhar os machucados recém-feitos e o sorriso se abriu mais ainda em meus lábios. Louca, isso é o que sou. Levantei-me, sabendo com toda certeza onde eu queria estar, então andei apressadamente, passando sem delicadeza alguma por entre as pessoas, que me olhavam espantadas.
Meu celular tocava de minuto a minuto, sendo totalmente ignorado por mim, a chuva diminuía apenas para voltar mais forte. Sorri ao avistar meu destino e só quando ultrapassei as portas do meu antigo prédio, pude sentir um alívio estranho me preencher, o porteiro que já me conhecia me avisou que minha amiga, que agora cuidava do meu apartamento, havia saído, mas que eu poderia subir até o lá com a chave reserva, eu sorri gentil para ele, que me entregou a chave dourada. Andei, sem pressa, até as escadas e subi degrau por degrau, até estar no segundo andar. Duas portas à direita, uma à esquerda, um vaso de flores e então, meu apartamento. Duzentos e sete. Abri a porta, sentindo o desespero e as lágrimas voltarem, com uma velocidade anormal eu já estava dentro do meu antigo quarto, as janelas fechadas cobertas por cortinas escuras e a porta trancada, fui até meu antigo guarda roupa e retirei de lá uma pequena caixa. Meus olhos ardiam, meu rosto estava quente, deixei que meu corpo escorregasse pela parede e então, daquela caixa, retirei o meu remédio particular. Eu sabia que somente aquilo, naquele momento, aliviaria meus devaneios e a minha dor emocional. Eu precisava sentir a dor física e sorri quando daquela caixa tirei minha antiga navalha, estendi meu braço à minha frente, olhando para meu pulso. E então, sem pensar mais, passei a ponta da navalha, sentindo-a cortar vagarosamente minha pele frágil, o sangue correr pelo meu pulso. A cor tão característica era de um vermelho carmesim, manchando meus pulsos e pernas. Sorri como uma louca que acabara de sair de um hospício. Sorri com toda força que pude, ao sentir as dores mais duas vezes seguidas. As lágrimas não haviam cessado, mas o alívio como esperado me encheu, me fazendo sorrir tranquila. Eu estava bem. Agora estava.

Eu tinha a impressão que tinha se passado alguns segundos, quando meu corpo começou a ser sacudido numa força calma, meus olhos pareciam estar pregados e tudo que eu ouvia era um zumbido, as vozes se confundiam em minha mente e eu sentia frio. Muito frio. Encolhi mais contra a parede, sentindo o chão mais gelado, mas permaneci naquela posição por pouco tempo, logo dois braços estavam ao meu redor, levando-me para longe dali. Eu queria conseguir abrir meus olhos, saber quem estava ali comigo. Mas não, eu era fraca demais para isso. Ouvia alguns soluços baixos e batidas na porta. Quando consegui abrir levemente meus olhos, senti como se meu coração tivesse parado. Ele não podia estar aqui. Minhas mãos foram automaticamente para seu peitoral, meus olhos se arregalaram em pânico, e comecei a afastá-lo do meu corpo. Quando meus olhos visualizaram o que eu havia feito, a vontade de chorar veio à tona, continuei tentando afastá-lo e ele me olhava num misto de raiva com compaixão. Odiava aquele olhar. Sentia-me como se fosse uma criança indefesa que não sabe nada da vida. E então ele me deitou na cama, se sentando ao meu lado, seus olhos estavam avermelhados, como se tivesse chorado, e sua boca entreaberta, procurando palavras para serem proferidas. Eu não queria ouvir. Amber andava de um lado para o outro no meu antigo quarto e seus olhos deixavam algumas lágrimas caírem por seu rosto, no chão as marcas do meu sangue. Eu não queria ter feito aquilo. Na verdade, nunca havia feito antes, já tentara outras vezes, principalmente quando era mais nova... Mas nunca havia conseguido, tinha medo e insegurança. Pensava em como aquelas marcas seriam eternas e eu particularmente não queria mais marcas eternas. Até que hoje eu fiz aquilo que durante minha juventude inteira pensei em fazer, me cortei repetidas vezes, e tudo que senti foi prazer. Naqueles minutos onde sentia minha pele ser cortada e o sangue caindo e manchando minha pele, não havia nada em minha mente, além da dor física e do prazer emocional. Sentia-me voando, o quão louco seria isso? Enquanto eu me feria, me sentia voando, seria cômico se não fosse trágico.

- O que você acha que estava fazendo? – a voz dele despertou-me de todos os meus pensamentos, fazendo-me encará-lo. – Você é louca, Summer? Você... – Josh disse, bagunçando os cabelos.
- Sem sentimentalismo, Josh. – eu disse, revirando os olhos. – Eu fiz aquilo que sempre quis e nada me impediu hoje. Agora sai daqui, vai embora. – eu disse, virando-me de costas para ele, deixando que meus olhos começassem a encher de lágrimas.
- Você não quer que eu vá embora. – ele disse, sério, mas sua voz era calma, sua mão pousou em meu braço, que num pulo eu rejeitei, afastando-me.
- Josh, eu preciso falar com a Sum. – Amber aproximou-se da cama, falando com sua voz serena. – Obrigada por me ajudar... Nesse momento. Mas preciso falar com ela, primeiro. – ela disse, calma, e ele se levantou.
Ouvi os passos calmos e lentos de Josh irem se afastando do quarto, o seu perfume ficando longe de mim, mas eu tinha outras coisas para pensar. Arrependimento. Dor. Fracasso. Humilhação. Tudo isso é demais para mim, não queria que o homem que eu amo me visse dessa forma, tão debilitada. Mas fora preciso. Talvez dessa maneira ele veja que eu não sou perfeita, não sou a mulher que ele quer para ele. Amber sentou-se ao meu lado e me puxou, dando-me um abraço, então as lágrimas vieram com toda força e eu comecei a chorar, da mesma maneira de quando saí de casa. Talvez com mais força, ou mais frágil... Mas com certeza mais segura.

- O que aconteceu? – Amber questionou-me, depois de alguns minutos em silêncio.
- Meu pai e minha mãe. – eu disse, soluçando, e fechei meus olhos mais apertados, pensando nas palavras certas. – Eu não queria Amber, não queria fazer isso, mas eu precisava. Ele queria me ter... Como mulher... E minha mãe quer fugir com outro homem. Eu estava perdida, eu precisava... – eu falava tudo rápido, como se aquilo fizesse a dor ser diminuída, engano meu.
No momento em que parei de falar, o choro e todas as minhas dores voltaram, me fazendo tremer e deitar mais na cama, sentindo um carinho ser depositado no meu cabelo e uma única frase ser dita tudo vai ficar bem. Quem dera tudo ficar bem... Como se não conhecesse o mundo. O mundo é feito de decepções, quase tudo nunca fica bem. Mas eu sorri e me encolhi, orando mentalmente que aquilo fosse verdade. Que tudo ficasse bem futuramente.

Summer’s Pov //

’s Pov

Na manhã seguinte, quando acordei, sentia dores em minhas pernas e me sentei na cama, olhando ao redor. A cama da minha amiga estava arrumada e no lado de fora o tempo estava claro. Uma manhã de sol depois de uma tempestade. Abracei meu corpo, lembrando-me da noite passada e sentindo meus olhos arderem. Se o não tivesse aparecido, o que teria acontecido comigo? Não gostava nem de imaginar e enquanto eu respirava fundo repetidas vezes, ouvi duas batidas leves na porta do meu quarto, fazendo-me encarar a porta, com preguiça de levantar. Ri comigo mesma e coloquei meus pés descalços no chão, falando baixinho um já vou. Ainda pude ver o bilhete de no balcão e dei de ombros, abrindo a porta logo em seguida. À minha frente, meu melhor amigo, , me olhava com a sobrancelha arqueada e a testa franzida, então ele passou por mim, sentando-se na cadeira do balcão.
- Bom dia também, . – eu disse, irônica, indo até a cozinha e colocando água para ferver.
- Você não me atendeu ontem à noite. – ele disse, com sua voz transparecendo mágoa, e eu o olhei.
- Pensei que tivesse saído com a Natalie. – eu disse, andando até o balcão, me curvando para bagunçar seus cabelos e ele sorriu. – Desculpa.
- Eu saí. – ele disse, sorrindo e dando um beijo no meu pulso. – Está perdoada, eu só fiquei preocupado.
- Eu sei, querido. – eu sorri, e mesmo sabendo que eu deveria contar sobre o que ocorrera na noite passada, não contei. – E como foi o encontro? – eu ri, virando e pegando um sachê de chá de erva doce.
- Foi muito bom. – eu me virei, franzindo a testa e ele riu antes de continuar. - Ela é uma gata, realmente. Como você disse. Além de ser simpática e inteligente. E o filme foi muito bom, obrigado. – ele sorriu, mostrando todos os dentes e me estendeu a mão, sem hesitar a segurei.

Seus olhos me hipnotizavam e eu sabia o quão errado era eu sempre ceder. Ele está com a Natalie, era o que minha mente e coração gritavam desesperados, mas meus hormônios não davam à mínima. E pelo jeito, nem os dele. Droga de hormônios, de encantamento, de qualquer sedução que esteja no ar. Seus dedos entrelaçaram os meus e logo já estava sentada em seu colo, sendo acariciada por ele, que sorria minimamente, olhando em meus olhos e logo depois meus lábios. Sorri, lhe abraçando e afundando meu rosto em seu pescoço, sentindo seu perfume. Loção pós-barba com desodorante masculino. Tão . Tão gostoso. Não resisti e dei um beijo seguido por uma mordidinha ali e sorri ao vê-lo estremecer. Eu devo ter algum problema mental. Caralho, ele é meu melhor amigo e até ontem, antes de dormir, eu estava pensando em como o é incrível, agora estava nos braços do , sentindo uma vontade louca de beijá-lo. De deixá-lo me tocar de todas as maneiras, do jeito que ele quiser. Isso é loucura. Eu devo gostar de sofrer. Isso, eu devo ser algum tipo de masoquista retardada. As mãos dele, que antes estavam entrelaçadas em meus dedos, se soltaram, subindo até minha cintura, me pressionando contra a bancada e ele, então eu senti toda aquela pressa e vontade de dias antes, e seus lábios começaram a distribuir beijos por meu pescoço. Sorri satisfeita, era o tipo de homem que você simplesmente não consegue negar, mesmo querendo, você não consegue. Talvez seja isso, eu seja realmente uma vadia. Da pior espécie. Dei de ombros, sem me importar, éramos livres e poderíamos trocar alguns beijos, só por agora. E então levantei seu rosto, o trazendo para mais perto de mim. Seus olhos transbordavam luxúria e eu sorri, umedecendo meus lábios, seu olhar pousou ali, mordendo o lábio inferior, aproximei-me dele, fechando os olhos e roçando levemente meus lábios aos dele, então meu coração disparou, como nunca antes, e no momento em que abri meus olhos, fiquei perplexa e assustada. Os olhos castanhos escuros me encaravam sofridamente e seus lábios tremiam, demonstrando a raiva que sentia, seu olhar dizia para mim que aquilo era errado. Não era quem estava ali, era . Ou pelo menos era o que minha imaginação queria. Sem hesitar, empurrei para trás, o fazendo se desequilibrar e quase cair no chão, me olhando assustado.
- Não. – eu disse, afastando-me e contornando a bancada, desligando o fogão. – , de novo não. Por favor, não. – eu falava, de costas, sentindo seu olhar queimar em minhas costas.
- Desculpa, . – ele disse, calmo. – Desculpa mesmo. Eu não deveria ter feito isso... – ele falou, baixo, mas ainda assim pude escutá-lo, me virei, o vendo sentar na cadeira com as mãos bagunçando os cabelos. – Eu gostei mesmo da Natalie... E eu estou com medo. Você sabe... Você foi meu primeiro amor e tenho medo... – ele não concluiu e eu sorri, compreendendo o que ele estava dizendo e sentindo.
- , meu amor... – eu disse, sorrindo, me aproximando e tomando suas mãos nas minhas. – Não tenha medo de viver. Você foi meu primeiro amor e eu o seu. Nada e nem ninguém poderá mudar isso, você nunca me perderá e nem eu te perderei, certo? – eu disse, fazendo um bico e ele riu, como há tempos eu não via, então bagunçou meus cabelos.
- Aberração, eu te amo e sério... – ele parou de falar, me analisando. – Você é muito gostosa e às vezes, não consigo me controlar, mas cara... Acho que vai dar certo com a Natalie. – ele sorriu com os olhos brilhando e eu contornei a bancada novamente.
- Obrigada pelo seu elogio... Vulgar, e eu espero que dê certo. – eu sorri, passando meus braços pelos seus ombros. – A Natalie é ótima, e bom... Você é meu melhor amigo, quase um irmão... - Oh my God, se ele fosse meu irmão mesmo, eu estaria praticando incesto...Absurdo. – Quero que você seja muito feliz com quem estiver. – eu disse, por fim, antes de dar-lhe um beijo estalado na bochecha, o fazendo rir infantilmente e lhe abraçar apertado, como quando éramos crianças.

Capítulo 12

O fogo não queima, só se você quiser... Ou melhor, só se abusar

- Precisamos conversar. – a garota de longos cabelos loiros entrou o quarto de número 330 e fechou a porta, dando uma olhada por toda a extensão do quarto.
- E eu posso saber qual é o motivo da sua visita, irmãzinha? – o homem de olhos verdes encarou a garota com um sorriso simples, mas irônico, nos lábios.
A garota caminhou lentamente pelo quarto, observando a bagunça por ali, quartos de garotos sempre seriam aquela eterna bagunça. Olhou as roupas jogadas ao lado da cama do homem, a toalha úmida na cadeira ao lado da janela, o copo de café em cima da pequena mesa e a cama do lado do homem arrumada decentemente, aquela só poderia ser a cama de Brian Langdon, seu amigo e colega de quarto. A garota sorriu, sentando-se na cama arrumada, de frente para o homem, e cruzando as pernas olhou profundamente nos olhos do homem e sorriu.
- Para de fazer charme, Barbara, e diga logo o que quer do seu irmão preferido. – Arthur disse, sorrindo e olhando para a irmã.
- Só é meu irmão preferido porque eu não tenho outro. – a garota disse, o empurrando e dando uma gargalhada.
O homem riu e fez um biquinho como se estivesse chateado, mas antes que a menina pudesse falar algo, Arthur já tinha puxado a menina para seu lado e agora estava fazendo cócegas nela, fazendo-a gargalhar e se debater entre seus braços. Eles eram mais do que irmãos, eram melhores amigos. Tudo que ele fazia, ela sabia. E tudo que ela fazia, ele sabia. Os dois eram companheiros e se amavam verdadeiramente. Todos os problemas que ambos viviam juntos dentro de casa com os seus pais, eles esqueciam quando estavam juntos. Porque não eram irmãos simplesmente pelos laços de sangue, na verdade, Barbara achava aquilo ridículo. Não era o sangue que mostrava a importância de alguém, mas suas escolhas. E mesmo que soubesse que Arthur não fosse seu irmão, teria o escolhido para ocupar esse cargo. Eles pararam de rir e voltaram a se sentar comportados. O homem de olhos claros bagunçou o cabelo da garota e ela lhe deu tapa no braço, o fazendo rir.
- Eu só queria conversar um pouco, Arthur. – ela disse, dando de ombros, ele arqueou as sobrancelhas, duvidando daquilo, ele tinha razão no fim das contas, ela não estava ali por conta de um simples conversa. – Ok, ok. Eu irei te fazer uma pergunta e quero que a responda o mais sincero possível. Certo? – ela virou-se para o irmão, dobrando as pernas e o homem assentiu, fazendo-a prosseguir. – O que você acha da órfã? – ela cruzou os braços em cima dos peitos e o homem franziu a testa, sem compreender o porquê daquele assunto tão aleatório.
- Por que isso? – ele disse, ela abanou as mãos, revirou os olhos e ele sorriu, voltando a falar. – Não tenho nada sobre ela definido. Acho que ela é muito bonita, mas nenhuma beleza surpreendente. Ela, às vezes, é esquisita e estranha. Mas nunca falei diretamente com ela para ter uma opinião definida sobre a garota, Babi. – ele disse, sério, e a garota revirou os olhos mais uma vez e bufou antes de voltar a falar.
- Tuy, você sabe que eu sou loucamente apaixonada pelo , certo? – ela disse, chamando o homem pelo apelido carinhoso que ela lhe deu desde que eram crianças e o homem assentiu. – E desde que essa garota chegou e que, na minha humilde opinião, é horrível, ele tem ficado... Distante. Eu já tentei de tudo, e quando digo tudo, é tudo. E ele sempre fica pensativo no fim. – Babi disse, séria e deixou os seus lábios se formarem numa linha reta, o irmão a encarou.
- Você quer dizer que depois do sexo ele está ficando quieto? – ele disse, aproximando-se e a menina corou, olhando para as mãos e assentiu envergonhada. – Talvez esteja pensando em vocês.
- Em nós, Arthur? Pelo amor, não tem o que pensar sobre isso, porque somos perfeitos juntos. E caralho, porque antes dessa garota do inferno chegar quando estávamos juntos parecia pegarmos fogo e nossos contatos pareciam chamas? Agora parece que é uma brasa quase apagada. – a garota levantou-se, falando alterada, e o homem a encarou. Não gostava de ver sua irmã nervosa, ainda mais quando era tudo culpa do seu cunhado idiota.
- Acalme-se. – ele disse, levantando e segurando o rosto da irmã, fazendo-a encarar seus olhos. – Você acredita que é tudo culpa dessa garota? – ele disse, sério, e Babi assentiu com os olhos marejados. – Você o ama?
- Amo mais do que tudo, Tuy. – ela disse, deixando uma lágrima solitária correr pela sua face, o irmão concordou silenciosamente e olhou por cima do ombro dela, pensando em algo. – O que você está pensando?
- Talvez eu possa te ajudar. – ele disse, sorrindo sarcasticamente. – Se o está confuso em relação à garota órfã e isso está te chateando, eu posso fazer algo. – continuou, dando um sorriso sapeca e ela o encarou levemente confusa.
- Como o quê? – ela levantou a sobrancelha, cruzando os braços.
- Eu irei conquistá-la, as chances do se aproximar dela serão perdidas e você o terá de volta. – Arthur sorriu maliciosamente e Babi sorriu delicadamente. – Você mantém a calma e o afasta da garota, eu me aproximo e a conquisto, e todos ficam felizes. Então, temos um acordo?
- Você tem certeza? – Barbara encarou o irmão, que sorriu abertamente antes de respondê-la.
- Será um grande prazer te ajudar, irmãzinha. – os dois sorriram e logo a loira jogou seus braços ao redor do homem, lhe dando um abraço apertado. O acordo estava feito e o jogo começava agora.

’s Pov

Logo depois que saiu do meu quarto, resolvi que eu tinha que tomar um banho antes de enfrentar aquele dia de calor. Deveria refrescar minha cabeça antes de colocar meus olhos no homem-problema, porque é exatamente isso que é para mim, um homem-problema. Ele não pode aparecer na minha vida e se achar no direito de revirar tudo. Mas o que eu estou falando? Pelo amor de Deus, esse homem acabou de chegar e tudo que eu estou sentindo é gratidão. Exatamente, me sinto agradecida por ele ter me salvado, até porque, se não tivesse aparecido na noite anterior e me salvado, hoje eu estaria provavelmente morta, jogada em algum beco de alguma rua deserta daqui de Londres. Eu sorri minimamente, relembrando a noite passada e da forma que ele tentou cuidar de mim. Balancei a cabeça, negando-me em voltar a pensar nele, e liguei o chuveiro. Enquanto eu sentia a temperatura da água, outros pensamentos tomavam conta da minha mente, porque ainda tinha o problema número dois e talvez o mais complicado. Havia o . O meu primeiro amor e melhor amigo.
Mesmo com suas palavras, alguns minutos antes, nada tirava da minha cabeça que outrora nós iremos recorrer um ao outro. Porque é sempre assim. Mesmo que hoje nós nos consolamos de outra forma, antes quando adolescentes, nós nos beijávamos como uma forma de esquecer os problemas, as dores e todo o resto que estivesse ao nosso redor. E isso é um verdadeiro problema, porque agora só não existe eu e ele. Mas também tem a Natalie, que pelo seu olhar naquele dia na cantina demonstrou muito mais do que uma atração física. Talvez o gostar e o apaixonar não esteja assim tão longe da loira. E se realmente ela se apaixonar pelo meu amigo, o que não é nada impossível, e nós dois continuarmos a pegar fogo toda vez que nos aproximamos muito, quem sairá mais magoado será a pobre garota. E eu realmente espero que isso não aconteça. Por isso, enquanto eu retirava o shampoo dos meus cabelos, decidi que eu e nunca mais iríamos voltar a ter aquele tipo de relação que estávamos tendo. Porque aquilo, de uma forma ou outra, acabaria conosco. Saí do chuveiro e logo já estava vestindo um short jeans de lavagem clara e rasgadinho, uma regata branca e meu vans branco, peguei minha bolsa com meus pertences e material para a aula, e então saí do quarto, o trancando. Desci os degraus devagar, contando cada passo que eu dava, até ouvir a voz da e do , os dois estavam quase passando pela porta principal, quando me viram e deram um sorriso, apressei o passo, alcançando o casal.
- Bom dia, querida. – disse, me dando um beijo no rosto.
- Bom dia, casal fofura. – e eles sorriram, mas loira ficou envergonhada no mesmo momento. – Estão indo para aula?
- Estamos. – respondeu, andando um passo à frente de nós. – Amor, eu te encontro depois. Tchau, .
- Tchau, . – eu acenei, franzindo a testa, e sorriu acenando antes de se virar para mim.
- O acha que você tem algo para me contar. – ela explicou o porquê dele ter saído tão apressado e eu arqueei a sobrancelha, sem compreender. – Só porque o contou que...
- O contou o quê? – eu falei, alto, fazendo com que as pessoas que estavam próximas nos olhassem curiosas.
- Ops. – ela levou as mãos na boca e me lançou aquele olhar de eu-falei-o-que-não-deveria. – Ér... Ai, , que droga... Eles vão me matar. – ela fez um beicinho, como se aquilo fosse livrá-la de contar.
- Se eu fosse você, se preocupava em não morrer agora mesmo. – eu cruzei os braços e ela sorriu timidamente.
- Ok. – ela suspirou e caminhou até sentar num banco do campus. – O contou ontem à noite para o que vocês... Bem, que vocês ficaram e sabe como é, né? Eu sei que ele foi até o quarto hoje de manhã e...
- Opa, não mesmo. – eu a interrompi e a garota me encarou curiosa. – Eu e ele não ficamos... Quer dizer, não hoje. Ok, ... Nós ficamos, fazem alguns dias e foi coisa de outro mundo, não foi algo esperado... Só aconteceu. – resolvi que era melhor contar logo do que ficar rodeando e a garota me encarou com um sorriso malicioso se formando em seus lábios.
- E o que houve?
- Nada, . Nada. Só acabou! O é meu melhor amigo, tivemos um momento de carência e ficamos juntos, então eu resolvi apresentá-lo à Natalie e fim. – eu sorri, colocando-me de pé e ela arqueou as sobrancelhas.
- Só isso? – ela perguntou, e eu confirmei balançando a cabeça. – Vocês não se gostam desse jeito? – novamente confirmei. – E ele vai ficar com a Natalie, vocês serão melhores amigos normais e você está confusa por conta do . – dessa vez, a garota não fez uma pergunta, mas sim uma afirmação e eu arregalei os olhos, abanando o ar com as mãos.
- Shut up, . – eu disse, colocando as mãos na cintura. – Em que momento da nossa conversa esse homem surgiu? – eu franzi a testa e ela gargalhou.
- No momento em que ele te salvou e você passou à noite toda com o moletom dele nos braços. – ela sorriu sacana e eu revirei os olhos, voltando a andar.
- Cale a boca, Stone.
- Eu tenho razão, não é? – ela disse, tentando acompanhar meus passos rápidos e precisos. – Ele é realmente bonito e te salvou. Já ganhou pontos comigo.
- Ele não precisa de pontos, já que não está numa competição. – eu revirei os olhos novamente e a encarei. – Pare de ver coisas onde não há nada, , e aliás, ele namora, se você não se lembra.
- Isso significa que...
- Que ele tem um compromisso a honrar. – eu disse, dando de ombros.
- Que você está usando a frase ‘ele namora’ para explicar o porquê de você não tentar conquistá-lo. – ela sorriu delicadamente e piscou os olhos.
- Você está louca. E é definitivo. – eu disse, antes de dar as costas à garota e subir apressada a escada.

Porque, no fundo, eu sabia que a estava certa. Talvez eu estivesse confusa, e talvez eu quisesse sim tentar conquistá-lo. Mas tudo na minha vida era complicado demais, estranho demais, perigoso demais e a última coisa que eu queria agora era mais um problema, ou seja, a namorada de um homem bonito querendo me assassinar. Então, para minha própria segurança, me manterei longe do . Afinal, essa atração bobinha de adolescente logo passará.

// ’s Pov

Enquanto isso, no outro lado do campus, sentado debaixo de uma árvore grande, pensava sobre tudo que havia conversado com sua melhor amiga. sempre tinha razão, no fim das contas, e sabia que ela tinha acertado quando falou que eles sempre seriam o primeiro amor um do outro, mas que era apenas isso. Mas não se sentia totalmente seguro e confiante nisso. Já que desde que teve a sensação de tê-la em seus braços, ouvir os seus gemidos e seu nome nos lábios dela, ele não pensava em mais nada. era a perfeição materializada em uma pessoa. Ela era delicada, feminina e meiga, mas também conseguia ser guerreira, decidida e feroz. Ela tinha tantas faces, que por muitas vezes o confundia, mas essa era a , a sua melhor amiga, o seu primeiro amor. E pensava em como conseguiria tirá-la do seu pensamento, como conseguiria tirar da sua pele a sensação do toque quente e seguro dela, como ele faria isso, se no mais profundo pensamento dele, a última coisa que ele queria era esquecê-la.
Mas enquanto de um lado estava , no outro estava Natalie, com toda sua fragilidade e amabilidade. Aquela sim era uma garota totalmente amável e que você sente vontade de proteger vinte e quatro horas por dia. Desde o momento que tinha visto a garota de cabelos loiros e curtos, na cantina da faculdade, ele tinha sentido um calor e uma vontade de conhecê-la, e ironicamente, foi com a ajuda de que ele conseguiu conversar e sair com a garota. E agora sua mente estava dividida entre as duas mulheres mais incríveis que ele já conheceu. tinha dúvidas, mas também sabia que não poderia força a barra com , ela já havia deixado bem claro horas antes que eles eram melhores amigos e assim seria dali em diante, já Natalie... E foi quando pensou em seu nome, que a garota se materializou à sua frente, não de uma forma fantasmagórica, mas humanamente comum, já que ele estava próximo ao bloco dos dormitórios, no momento que Nati viu o homem, ela abriu um sorriso e começou a caminhar lentamente até estar sentada de frente para ele.
- Bom dia. – ela sorriu, dando-lhe um beijo na bochecha.
- Bom dia, Nati. – ele respondeu, observando a garota e dentro de si tomou uma decisão. – Eu gostei muito da nossa noite de ontem. – ele falou, sorrindo e ela gargalhou.
- Isso até soou como se tivéssemos dormido juntos. – ela riu mais um pouco, antes de suspirar baixinho e voltar a falar. – Eu também gostei.
- Oh, desculpe-me. – ele riu e colocou a mão na cintura da garota. – Eu não me importaria se isso tivesse acontecido. – ele disse, num tom tão malicioso que sentiu a menina tremer em seus braços e um tapa ser depositado em seu braço livre.
- Safado! – ela revirou os olhos, mas deixou que um sorrisinho envergonhado surgisse em seus lábios, o homem levou as mãos a boca e sussurrou ‘desculpa’ e ela assentiu.
- Poderíamos sair novamente no fim de semana. – ele disse, esperando que ela concordasse, e a menina se levantou.
- Pode ser. – ela disse, virando de costas para o menino, mas não conseguiu dar nem dois passos, antes já estava novamente nos braços de , olhando de perto os olhos verdes do homem, sentindo suas respirações se misturarem.
- Eu deveria realmente ter feito isso ontem. – ele sussurrou, aproximando seus rostos um pouco mais, Natalie sentia seus corpos tão próximos que tinha a impressão que eram um só.
- Ter feito o quê? – ela sorriu desafiadora e ele gargalhou antes de puxá-la pela nuca e grudar suas bocas num beijo calmo e gostoso.

***

estava sentado na cadeira e olhava para o lado de fora da sala, o seu professor de Desenho Técnico II passava algum exercício para a turma, mas o homem estava longe demais para prestar atenção na voz irritante do Senhor Owen. Hoje, o homem tinha seus pensamentos em outra parte daquela universidade, e tinha nome e sobrenome. , a garotinha da sua infância que agora era uma mulher formada, era o seu principal pensamento desde o momento em que o dia clareou e ele teve que finalmente levantar da cama. Não havia pregado os olhos à noite toda, pensando em tudo que havia acontecido na noite anterior. A preocupação. O carro. A chuva. A rua deserta. . Homens violentos. Tudo passava por seus olhos tão rapidamente, ele não conseguia pensar o que teria sido da frágil garota se ele não tivesse ido até lá. Na verdade, ele tomou a decisão de procurá-la quando encontrou com Babi e Liz, e viu que não havia voltado. Lizzie estava preocupada, enquanto que Babi mantinha um sorriso simples nos lábios, como se nada estivesse acontecendo.
Então depois de despistar a namorada, ele voltou até o local da visita, conversou com alguns homens que trabalhavam ali e descobriu que a garota tinha falado que pegaria um táxi. Mas não ficou satisfeito, contrariando o que a razão dizia à ele, passou a andar com o carro devagar por entre as ruas, até encontrá-la sendo agarrada por dois homens, o sangue havia fervido dentro dele e o homem não pensou em nada além de salvá-la quando segurou seus pulsos firmemente. Mas não era apenas aquilo que fazia presente em seus pensamentos, mas a maneira que os lábios de se moviam, a forma que ela o encarava como se não existisse nada além dela e dele, o jeito que ela mexia em seus cabelos castanhos claros e o mais fatal tinha sido no momento em que ela despertou no banco de trás do seu carro e os rostos deles ficaram tão perto, ele conseguia sentir a respiração dela bater na sua boca entreaberta, ele já conseguia imaginar como seria tocar aqueles lábios rosados, mas tudo que ele teve foi um beijo rápido, porém eletrizante, em sua bochecha. O homem não sabia o que era, mas aquela garota tinha algo de diferente, que o puxava para si. ansiava em se aproximar mais de , ele não se importava com o namoro, com Barbara e com quem quer que fosse, ele só queria tocar os lábios da garota, só por uma vez, e ter certeza que aquilo não passava de atração ao desconhecido.

Duas semanas depois...

- Para com isso, . – Nati disse, cruzando os braços em cima dos peitos e o homem a olhou.
Estavam pela quarta ou quinta vez brigando e eles estavam juntos há duas semanas. Não era assim que queria. O relacionamento era para ser leve e divertido, sem grandes compromissos, estavam se conhecendo, não tinha que ter cobranças de nenhuma das partes envolvidas, mas as garotas custavam a aceitar isso. Sempre tão emocionais. O casal encontrava-se no quarto que Nati dividia com Summer, a garota estava sentada com os olhos marejados e o homem estava encostado na parede, observando as feições da garota.
- Você não me compreende. – ele disse, tentando manter seu tom de voz calmo e compreensível. – Eu não quero cobranças, porque estamos nos conhecendo.
- Duas semanas, . – ela disse, revirando os olhos. – Não estou falando para namorarmos ou termos qualquer outro tipo de relacionamento sério, mas você precisa compreender que você tem que me respeitar. – ela deixou que uma lágrima teimosa corresse em seu rosto, mas a limpou tão rápido quanto a maldita apareceu.
- Eu te respeito. – ele disse, dando um passo pra frente, bravo.
- Me respeita? – a menina se levantou, falando alterada. – Você estava flertando na maior cara de pau com a Lucy! Na frente de todo mundo, no meio da cantina! – ela disse, brava, andando de um lado para o outro e respirando fundo repetidas vezes.
- Eu não estava flertando. – ele revirou os olhos, bravo, odiava quando tentavam controlá-lo, e se ele quisesse flertar com a Lucy? Que mal poderia ter nisso? Ele era livre, não tinha dona. – Mas se eu quisesse flertar com ela, eu não veria problemas. – então Natalie paralisou e o olhou boquiaberta.
- Você é um idiota, um estúpido, cretino! – ela gritou, ficando vermelha, e andou a passos largos até estar encostada no homem. – Saia daqui, , e suma! Suma da minha vida, esqueça dessas duas semanas que tivemos e vá flertar com a Lucy bitch, que já passou na mão de todos dessa maldita universidade! – Natalie gritou, e esmurrou o peito do homem, que arregalou os olhos surpreso, a garota o empurrava decidida até a porta.
Quando ele já estava no corredor, ela aproximou seu rosto do dele, ficando há centímetros de distância. já sentia vontade de agarrá-la e jogá-la contra a parede e tê-la em seus braços, mas antes que ele agisse, ela colocou o dedo indicador em seus lábios e sussurrou, olhando profundamente em seus olhos. – E se eu fosse você, usaria camisinha, porque as más línguas dizem que as DST’s estão grudadas naquele corpo horrendo. – e então a garota sensualmente mordeu o lábio inferior e antes de se afastar depositou um selinho nos lábios quentes de , então a porta foi fechada num estrondo. E sabia que era o fim, a porta não se abriria mais e aquele havia sido o último beijo dos dois, ele notou que não se sentia tão leve como pensou que ficaria quando decidiu que hoje seria o fim dos dois. No fundo, sentiu um ódio sem tamanho dele próprio, por ter perdido a garota mais divertida e delicada que ele já conhecera. No outro lado da porta, Natalie estava sentada no chão com a cabeça entre as mãos e tudo que ela ouvia naquele cômodo vazio eram seus soluços, ela não iria limpar as lágrimas agora. Talvez quando tivesse certeza de que não mais choraria, ela se levantaria dali e seguiria em frente como se nada daquilo tivesse acontecido.

***

andava apressada, como sempre, pelo campus. Estava mais um dia atrasada. Tinha perdido a hora conversando com e Lizzie em frente aos dormitórios. As amigas estavam tão animadas com seus relacionamentos e, além disso, contavam-na sobre a festa que ocorreria no fim de semana na casa do Brian. Todos estavam convidados e Liz falava com todo orgulho do seu namorado. Enquanto isso, ficava nas nuvens, pensando no namorado, não que já tenha pedido ela em namoro, mas ela já se considerava namorada. E a garota não podia simplesmente deixá-las e ir embora. gostava de vê-las felizes. Mas quando deu por si, já estava dez minutos atrasada, e agora estava correndo em direção o prédio A. Subia dois degraus por vez, tentando ao máximo não tropeçar e sair rolando escada abaixo, quando chegou ao segundo andar, no corredor da sua segunda aula, começou a procurar a sala 23. Era uma das piores salas. Escondida no fim do corredor, escura e fria, e a aula era péssima e cansativa. Virou o corredor e logo sentiu seu corpo ser projetado para trás, batendo suas costas na parede gelada, levantou sua cabeça, procurando em o que ou quem havia tropeçado. Dando de cara com ele. O homem de olhos castanhos escuros, aqueles olhos que passaram a lhe atormentar nessas duas longas semanas. Desde o dia em que ele a salvou e que ela sentiu a maciez da pele dele em seus lábios nunca mais dormiu direito. Sempre acordava com aquela sensação de quero mais, mas se negava avidamente a aceitar isso. Ela não queria coisa nenhuma. E foi por isso que durante essas duas semanas, em nenhum dia o encontrou. E agora tudo havia ido por água abaixo. cruzou os braços na altura do peito e arqueou a sobrancelha, a mochila no ombro direito quase caindo e um sorriso diabólico nos lábios. Ela estava encostada na parede, respirando profundamente e com o caderno na frente do seu corpo, como um escudo, tão patético. Inspirou e deu um passo à frente, ele abriu a boca pronto para falar algo, mas ela o interrompeu com sua voz falha, mas ainda assim seca:
- Vê se olha por onde anda! – revirou os olhos e deu um passo para o lado direito, pronta para ir embora, mas ele lhe acompanhou, ficando em sua frente mais uma vez. – O que foi?
- Eu que deveria perguntar isso, . – ele disse, arrogante. – Que eu me lembre, eu te salvei e surpreendentemente você sumiu e está me tratando como se eu fosse um capacho.
- Não estou te tratando assim, . – suspirou e deu outro passo, sendo, novamente, seguida por ele. – Pare de fazer isso. Eu não te pedi para me salvar. Na verdade, eu não preciso que ninguém me salve, eu sou minha própria heroína, e não sumi... Continuei no mesmo lugar de sempre. – disse, sorrindo de lado e piscando um dos olhos.
- Oh, claro. E você é a Mulher Maravilha. – ele revirou os olhos e bufou. – Você se acha demais, é prepotente demais, . Eu deveria ter deixado que aqueles homens tivessem...
- Pare de falar, ! – ela apontou o dedo indicador para ele, irritada, mas ele segurou sua mão e empurrou seu corpo até ela estar presa entre ele e a parede. – Se afasta de mim!
- Por quê? – ele sorriu debochado. – Você é medrosa e se acha a melhor de todos. Está pensando que tudo gira ao seu redor, mas não gira, eu só te fiz um favor, mas se você não sabe como recebê-lo, tivesse avisado antes. E além disso, não vejo motivo para sua arrogância comigo. – ele aproximou seu rosto ao dela, a garota podia sentir seu hálito de menta com alguma outra coisa não identificada por ela, seus olhos presos aos dela.
- Mas eu vejo. – ela, disse olhando para seus lábios rapidamente. – É porque eu notei, nessas semanas, que você só me ajudou por sentir culpa. – pensou rapidamente, afastando o corpo de para longe do dela, aquilo já estava se tornando perigoso demais para seus instintos.
- Sentir culpa? – ele abaixo o rosto, provavelmente pensando no que ela havia dito. – Culpa do que, sua louca?
- Por que tudo aconteceu por culpa da tua namorada, então você se sentiu responsável por... – ela falava qualquer coisa que vinha à sua mente, tentando afastá-lo de si, e não pergunte por qual motivo, ela só não queria estar perto dele, só não queria ver o quão interessante ele era e acabar magoada.
- Você é louca. Responsável? A culpa não foi totalmente da Barbara, se formos colocar em pratos limpos. – ele franziu a testa e sorriu. – Já que foi você que resolveu andar por uma rua deserta àquela hora da noite, então...
- Está vendo, já está defendendo a namorada, porque é isso que você faz. – ela revirou os olhos e finalmente passou por ele. – Defende a namorada que faz de tudo para humilhar a todos.
- Você não a conhece. – ele virou de frente para ela e disse, com um tom magoado.
- Verdade. – olhou para . – Mas conheço várias pessoas como ela. Olha, , nada contra você, mas para de tentar encontrar a menininha da sua infância, aquela que morava na casa ao lado. Porque essa menininha não existe mais. – ela deu uma piscadela, antes de dar as costas e encontrar em frente a sua sala, mas antes de alcançar a porta, ainda pôde ouvi-lo dizer:
- Realmente, ela não existe mais. – ele murmurou, e continuou, fazendo-a paralisar por alguns segundos. – Agora só existe uma garota amarga no lugar dela. – e então o sinal tocou, mais uma aula perdida e vários jovens apressados passando por , mas além disso, mais uma verdade jogada em sua face. Mais uma que não queria ouvir.

***

Lizzie e Brian andavam de mãos dadas em direção à cantina, na mesa do canto direito perto das janelas estavam Natalie e Josh. Os dois não estavam conversando, só juntos. Na verdade, depois que a Nati resolveu sair do quarto, sentiu fome e resolveu tomar um café para se manter acordada e lúcida nas próximas aulas, ao chegar lá, encontrou Josh sentado naquela mesa, parecendo em outro mundo. Natalie notou que era o que precisava naquele momento, alguém tão perdido em seus próprios pensamentos e eventuais problemas que nem sentiria vontade de perguntar o porquê seu rosto estava tão vermelho e seus olhos mais fundos do que o normal. Josh havia sim notado o rosto avermelhado de Natalie, ele poderia não ser o mais observador do grupo, mas ainda assim poderia dizer quando seus amigos estavam ou não bem.
Ele gostava de Nati, sempre fora uma ótima amiga, mas sentiu ao olhar para a garota que ela preferia ficar dentro de seus próprios pensamentos do que compartilhar qualquer coisa que a estivesse incomodando, e assim ele continuou tomando seu café, submerso em seus mais profundos pensamentos e isso significava: Summer. Nunca imaginou que iria ver a garota sempre tão bem arrumada, autoconfiante e até mesmo autossuficiente, naquele estado, jogado no chão sangrando, por conta dos cortes que ela mesma se fez e chorando. Chorando de soluçar. Nunca pensou que no fundo Summer fosse apenas uma garotinha indefesa que acreditou que se mostrando autossuficiente camuflaria a sua real imagem. Sentia-se culpado e errado, não deveria ter deixado-a sozinha naquele quarto com a amiga, deveria ter ficado e cuidado da sua garota. Tão patético chamá-la agora de sua garota, se fora ele mesmo que foi o culpado de tantas lágrimas e dores causadas a ela. Ele sentia-se um inútil, idiota e sem direito ao perdão. Abaixou a cabeça, olhando para sua caneca intocada e sentiu alguém sentar-se ao seu lado. Brian.
- Olá, meus amigos. – Brian disse, calmo, pegando a caneca do amigo para provar o que tinha ali.
- Que caras de enterro são essas? – Liz disse, franzindo a testa e olhando da amiga para o amigo.
- Nada. – Nati e Josh responderam, olhando-se com um sorrisinho envergonhado.
- Para, eu não acredito. – Liz disse, revirando os olhos.
- Nada, sério... Só estou preocupado com as notas finais. – Josh respondeu,, rapidamente, e se levantou. – Eu vou... Dar uma volta. Tchau. – e saiu antes que os amigos o impedissem.
- Legal, o Josh fugiu. – Lizzie revirou os olhos de novo e olhou interessada para a loira. – Mas você não vai fugir. O que aconteceu, Natalie Benson?
- Eu e o terminamos. – ela disse, sabendo que estava sem saída e por fim suspirou. Não podia chorar. – Ele é um idiota, terminamos e eu vou superar. – Brian olhou para Lizzie e depois para Natalie, logo depois voltou à olhar para a namorada, resolvendo levantar e ir dar uma... Volta.
- Eu sinto muito, Nati. – Liz disse, segurando as mãos da amiga com uma voz tão calma. – O que ele fez?
- Nada. – ela falou, baixinho. – Ou tudo, Liz. E esse foi o problema... – ela olhou para os olhos azuis e amigáveis da amiga e sorriu levemente. – Eu já estou bem e vai passar, ele é só mais um... Homem. – e ela soltou suas mãos, bebendo seu café sem açúcar, esperando que suas palavras começassem a surtir efeito nela.

***

descia os degraus em direção às quadras do bloco E, ao seu lado, conversava ao celular com Summer, que havia sumido desde o dia anterior e, segundo a amiga, aquilo era estranho demais. Aquela parte continuava sendo esquisita e assustadora para , porque numa universidade tão bem renomada tinha aquelas quadras num lugar tão escuro, assustador e longe de tudo. Aquele local sempre parecia quieto demais, suspeito demais... Ali poderia acontecer uma cena de um crime que ninguém veria ou ouviria nada. Talvez descobrissem só depois de dias ou semanas. riu dos seus próprios pensamentos, era bobo demais para os externá-los. Chegou até o corredor e desligou o celular e continuaram a andar. A loira de olhos mel olhando para o chão, como se pensasse em algo muito valioso para notar que o resto do mundo ainda existia. tocou o braço da amiga.
- O que foi?
- Nada. – sorriu minimamente e logo depois parou. – Ela está estranha... Falou pouco e só disse que ’não estava bem para vir à faculdade hoje’. Mas nós moramos aqui! – mudava o tom de voz, finalizando com um tom agudo e quase estridente que fez fechar os olhos rindo.
- Ela não está no dormitório? – perguntou e balançou a cabeça, negando. – Talvez ela dormiu na casa de alguém... Uma amiga.
- Você é muito confiante quando quer. – sorriu e lhe deu um beijo na bochecha. – Piscina hoje, querida. Boa sorte na sua aula teórica e irritante sobre como se exercitar corretamente. – a garota piscou um olhou e saiu em direção ao vestiário feminino.
revirou os olhos e continuou a andar em direção à única sala daquele corredor que tinha cadeiras e mesas iguais às outras salas dos outros blocos. Ainda não compreendia o sentido de ter que fazer aulas de Treinamento Físico. Ela ia correr alguma maratona e não sabia? Ela só queria se formar em Nutrição e sair por aí salvando vidas através de uma boa, adequada e deliciosa alimentação. Não teria que correr, se agachar, arremessar e fazer qualquer outra coisa que fizesse muito esforço físico. Então, qual o sentido? Segundo o Professor Jaime Winchester disse: todos nós, independente de qual profissão iremos seguir, merecemos um bom condicionamento físico e uma boa qualidade de vida. E isso significa esportes. Ou, no nosso caso, exercícios físicos. Então, aos novos alunos: sejam bem-vindos à nossa aula teórica. Aos antigos: é muito bom revê-los aqui. E vamos ao trabalho.
E assim a aula deu-se início, mas foi só depois de dez minutos que notou a, quase insignificante, presença dele. estava do outro lado da sala, tinha em seus ouvidos um fone de ouvido e os olhos estavam fechados, como se realmente não se importasse nem um pouco com o que acontecia ao seu redor. também não se importava. Mas a garota tinha respeito aos seus professores. E ética, ou seria educação? não se importava de que chamassem de mal-educado. Educação ele tinha, e de sobra, mas ele poderia muito bem escolher com quem e quando iria usá-la. O professor se aproximou da mesa da garota de cabelos castanhos claros e sorriu, estendendo uma folha que continha muitas questões, a garota o encarou:
- Por que enquanto eu faço uma lista de exercícios, outros... – e apontou com o dedo indicador , no outro lado da sala, ouvindo música. – Ficam tranquilamente sentados, dormindo ou ouvindo besteiras com seus fones de ouvido? – a menina perguntou, quase num tom inocente, e o Sr. Winchester afastou-se e encarou o homem.
- Sr. ? – ele falou, e o homem que estava atrás do o cutucou, fazendo-o retirar os fones e prestar atenção no que o professor falava. – Eu e a Srta. estamos curiosos e ansiosos para saber o porquê o Sr. está na sala se não está prestando atenção em nada que ocorre. – ele disse, e revirou os olhos, não era para falar o seu nome. Não era, professor idiota. E a encarou, com a sobrancelha erguida.
- O senhor até pode ficar curioso e ansioso por uma resposta. – ele disse, sarcasticamente. – Mas a Srta. não tem nada a ver com a minha vida. Mas suprindo todas as dúvidas, eu fico onde eu quero e ouço e presto atenção nas aulas que eu quero, porque quem paga isso aqui sou eu. – ele sorriu, mostrando todos os dentes e piscou para a garota.
- Olha aqui, , eu só comentei que acho um absurdo eu e o resto da sala fazermos uma lista de exercícios enquanto você não faz nada da vida. – a garota se levantou e falou alto, num tom irritado, todos notaram. – Não estava cuidando da sua vida.
- Não é o que pareceu. – ele deu uma piscadela. – E olha só, talvez eu não faça, porque eu mando nisso tudo e você só seja mais uma peça do xadrez. – ele disse, num tom tão ácido, tão idiota que deu um passo em sua direção, sendo impedida pelo tom arrogante do professor.
- Nunca em anos minha aula foi interrompida tão bruscamente por alunos. – ele disse, chateado. – Saíam da minha sala, agora! – Sr. Winchester disse, irritado e num tom alto, indicando a porta.
- Mas... – ainda tentou, mas o professor só a encarou e voltou a olhar a porta, logo os dois estavam no lado de fora.
andava de um lado para o outro. ”Tudo culpa do idiota e prepotente do ...”, era o que a garota pensava. encostou-se na parede, próximo à escada e olhava para a garota andando de um lado para o outro, como se pudesse sair fogo da sua cabeça. ”Menina insolente e que fica cuidando da minha vida...”, ele pensou a encarando de braços cruzados. A garota o olhou e parou de andar, sentindo que poderia atacá-lo se não parasse de olhá-la daquela forma. ”Abusado... Fica falando idiotices... E fica me perseguindo nos meus sonhos... Lindo!...”, pensou e levou a mão à boca, como se tivesse realmente falado aquilo em voz alta. Nunca. O que esse homem estava fazendo com ela? ”E o pior é que ela é linda... Seus cabelos, seus olhos, seu corpo...”, pensou, sem um pingo de arrependimento ou constrangimento. E deu um passo à frente, vendo arquear a sobrancelha, esperando qual seria seu próximo passo.
- Acho que podemos parar de agir como adolescentes. – o homem disse, rendendo-se.
- Eu não estou agindo assim. – a garota revirou os olhos e bufou. – Você me fez ser expulsa da sala. – ela disse, inconformada, e ele riu.
- Para de ser nerd. – ele disse, rindo mais alto e sentou-se no degrau.
- Por que você não vai para o seu dormitório? – ela perguntou, encostando-se na parede, longe dele, assim não correria nenhum risco.
- Por quê? Quer ir comigo? – ele piscou e mordeu o lábio inferior, sentiu-se mais quente do que o normal.
- Idiota.
- Nerd. – ele se colocou de pé e descruzou os braços, o encarando.
- Abusado. – ela deu um passo.
- Orgulhosa. – ele deu mais um passo, agora ficando pouco espaço longe dela.
- Prepotente. – ela deu um passo, sem pensar que ficaria tão próxima dele, e quase recuou senão tivesse sentido a mão dele segurar seu braço.
- Linda. – ele a puxou para mais perto, a respiração dela ficou agitada, o seu braço a rodeou, sentindo o pano fino da blusa dela levantar um pouco, revelando um pouco de pele da garota. - Pare. – ela disse, baixo, quase inaudível, no fundo o que ela queria era sentir os lábios dele finalmente nos seus, mas aquilo era proibido.
Não estava certo, mas ainda assim não conseguia parar de olhar os olhos dele, que estavam tão perto, tão chamativos. Não conseguia acalmar sua respiração e parar de sentir-se aquecida e arrepiada só por sentir o braço dele ao seu redor. não estava diferente dela. Mesmo que as mãos dela estivessem longe do corpo dele, ele ainda assim conseguia sentir-se elétrico. Sua respiração estava mais rápida, as suas mãos coçando para tocar mais o corpo da garota, os lábios tremendos para tocar os lábios vermelhos e carnudos dela, o coração disparado... E ele já quase sentia-se como uma garota na puberdade. O que estava acontecendo com ele? Só uma dose de . Uma dose e voltaria a ser , o conquistador, o melhor namorado para Barbara Lively, o melhor amigo de todos. encostou as suas testas e fez um carinho leve e carinhoso na bochecha dela, prestando atenção em cada detalhe do rosto de , a garota o encarava e não sabia se mantinha os seus olhos vidrados nos dele ou se desviava sua atenção para os lábios dele. A mão dele, que antes estava no lado do corpo dele, subiu até a nuca dela e segurou firme, talvez com medo de que ela fugisse.
não fugiria, nem se ela quisesse. não conseguiria fugir dele.
Ele beijou a testa dela, descendo seus beijos pelo nariz, bochecha, voltando a tocar seus narizes e então encostou levemente seus lábios, numa dança cheia de volúpia e sedução, a garota não respirava, estava paralisada, sentindo tudo acontecer dentro dela, subiu suas mãos até a nuca dele, puxando-o para si, mas afastou-se levemente, querendo brincar um pouquinho mais, voltou a aproximar e lambeu os lábios dela, mordiscou o lábio inferior da garota e se afastou. A garota ofegou em reprovação, mordeu seus próprios lábios e os lambeu, sensualmente aos olhos de , antes de se aproximar novamente e encostar seus lábios aos dela. empurrou delicadamente para trás, até encostá-la à parede lateral, que deixava os dois quase invisíveis para o resto dos alunos, e a beijou ferozmente. Os lábios se moviam rapidamente, mas tão conectados, como se aquele beijo fosse conhecido por eles. Os corpos unidos sem nenhum espaço entre eles e os corações batendo aceleradamente. puxava os fios de cabelos do homem, tentando mantê-lo o mais perto possível dela e puxava os cabelos dela, apertava sua cintura e sentia a maciez da pouca pele que estava à mostra ali. O beijou findou-se para respirarem, mas não sentia que aquilo fosse uma grande necessidade. Era necessário que ele provasse cada partezinha da , então voltou a beijá-la, agora o seu pescoço com toda avidez e delicadeza, descendo seus beijos pelo busto, puxando a alça da blusa da mulher para o lado, em busca de mais pele, e voltou a beijar o ombro dela, jogou a cabeça para trás, encostando a cabeça na parede e respirando dificultosamente.
O que estava acontecendo com eles?!
namorava. Com a Barbara.
era solteira, mas há pouco tempo, estava quase se envolvendo com o melhor amigo. E tudo que pensava naquele momento era o quão bom os beijos e toques do eram. O quão diferente aquelas sensações que ele a proporcionava eram... diferente de tudo que já havia sentido. Era um fogo... Não aquele que queima, mas aquele que aquece. Era uma explosão... Não aquela que arrebenta e destrói com tudo, mas aquela que te faz sorrir ao constatar que são artifícios que colorem o céu com luzes bonitas. Era uma sensação tão gostosa que não queria parar de sentir e por isso puxou a cabeça de para cima, voltando a beijá-lo com vontade. Com urgência. Ela não queria sentir isso, mas se naquele momento, ela podia tê-lo ali... Só para ela. aproveitaria. Cada pequeno momento, cada gosto, cada sensação, cada toque, cada beijo proibido dado pelo homem mais proibido de todos: .

Capítulo 13

Arquivo Pessoal

Aos poucos, e foram afastando os lábios e deixando suas testas coladas, as mãos entrelaçadas no lado do corpo e a respiração voltando ao normal. A garota continuava de olhos fechados, pensando no que faria a seguir, até porque ela iria abrir os olhos e só? Aquela situação era real e era bom... Muito bom, mas as consequências eram notáveis também. O garoto olhava atentamente o rosto dela, gravando cada parte dele: as maçãs do rosto coradas, os lábios vermelhos e delicados, as sobrancelhas bem-feitas, uma pintinha perto do olho, tudo tão particular, tão dela. ficaria horas olhando para , mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que aceitar as consequências daquele beijo. Mas poderia ser mais tarde, certo? O garoto aproximou novamente os lábios dos dela e tocou gentilmente, num toque macio e calmo, a garota suspirou e então se afastaram. apertou a mão dela delicadamente e abriu os olhos, anestesiada.
- Precisamos conversar sobre... – começou a falar, não queria constrangê-la ou fazê-la sentir que ela teria que falar.
- Não. – ela falou, olhando para as suas mãos unidas e deu um sorriso simples. – Não precisa disso, . Isso não vai voltar a acontecer. – ela o encarou, certa de que aquilo era o mais certo, afinal, ele era o garoto comprometido.
- Mas... – ele franziu a testa, ele queria aquilo novamente, mas Outch! Ele é um idiota, galinha e comprometido.
- Tchau, . – ela disse, soltando as suas mãos e passando por ele correndo.

O homem não conseguiu nem repreendê-la ou pensar em pará-la, logo já via apenas as pernas – muito bonitas, por sinal – de correndo em direção às escadas, os cabelos balançando para os lados. E estava sozinho. Mas a cabeça estava numa bagunça turbulenta. Resolveu que era melhor sair dali, antes que voltasse a pensar nos momentos anteriores, e subiu as escadas, dando de cara com Brian e, logo atrás, Josh. Os dois franziram a testa e encararam o amigo, os lábios dele mais avermelhado do que o normal, mas Josh sabia que Barbara estava no bloco A, Brian sabia que os lábios de só ficava vermelhos daquele jeito quando ele se atacava com alguma mulher e Barbara estava longe...
- Quem foi a vítima, ? – Josh disse, antes que Brian falasse os seus pensamentos em voz alta, e o amigo sorriu, encarando o garoto de olhos castanhos escuros.
- Vítima? Que vítima, Josh? – respondeu, revirando os olhos e olhando ao redor, procurando uma saída.
- Não me venha com desculpas, . – Josh disse, o repreendendo. – Eu sei quando você apronta.
- Você fica com essa cara de quem fez algo que não deveria, mas não se arrepende. – Brian falou, pela primeira vez, fazendo Josh gargalhar concordando e o encarar indignado.
- Nada a comentar, porque não aconteceu nada. – disse, passando pelos amigos, não queria conversar, não queria tornar mais real do que já foram os momentos vividos minutos antes.
- Você não tinha aula de Treinamento Físico Teórico? – Brian perguntou, arqueando a sobrancelha e confirmou com a cabeça. – Então por que seus lábios estão vermelhos e você está fora da sala?
- Cara, vai se ferrar. – ele disse, revirando os olhos e dando as costas para os amigos, voltando a andar em direção aos dormitórios.
- Aí tem coisa, Brian. – Josh comentou, casualmente, olhando do moreno irritado que ultrapassava as portas principais do prédio para o amigo que estava ao seu lado. – E temos que descobrir. – Brian riu assentindo e fazendo um high Five com o amigo.

iria enlouquecer se continuasse daquela forma, o toque calmo e sensual que ela fazia nele não saía da sua cabeça. Ele estava enlouquecendo. Ele pensou que se tivesse uma dose dela, estaria saciado. Mas aquilo foi uma mentira idiota para se acreditar, ela era melhor do que imaginou e agora só pensava quando poderia tê-la em seus braços novamente.
nunca correu tanto na sua vida, - mentira, ela havia corrido muito na noite do quase-estupro -, mas hoje ela também estava correndo bastante. Ainda conseguia sentir os lábios quentes dele nos seus, a mão forte dele segurando sua nuca, impedindo que ela fugisse. Aquilo não era normal, não é possível... Desde quando tinha um coração no lugar da pedra de gelo que estava instalada em seu peito antes? Aquilo não eram batimentos cardíacos acelerados, ela se negava a acreditar que fosse. Subiu as escadas e entrou no seu quarto. estava lá deitada ao lado do , conversando e rindo. Mais uma aula perdida dos dois. quase pensou em regredir dois passos e ir para sua próxima aula, antes de ser notada pelo casal, mas ela fora notada e convidada a entrar. sorriu envergonhada e caminhou até a pequena cozinha.
- O que houve, ? – perguntou, sentando-se na bancada, e se aconchegou ao seu lado.
- Parece que viu um fantasma. – comentou, rindo.
- Antes fosse. – comentou, baixinho, quase inaudível, e virou de frente para os amigos. – Nada, só fiquei com um pouco de dor de cabeça e resolvi perder o resto do dia. Alguém viu o ? – ela continuou a conversa, e os amigos a olharam e sorriram, constatando que fosse só aquilo mesmo.
- Deve estar com a Natalie, . – a respondeu, normalmente, mas antes que a amiga confirmasse que era óbvio isso, interrompeu a “ficante”.
- Acho que não. – ele falou, olhando para os olhos mel da amiga e sorriu minimamente.
- Por que não? – perguntou, aproximando-se. – Ah, ele deve estar em alguma aula importante. – revirou os olhos, sorrindo levemente.
- Acho que não. Também. – encarou a amiga. – Ele e a Natalie terminaram. – e então as duas mulheres ali presentes arregalaram os olhos e caminhou em direção à porta.
- Aonde você vai? – virou o corpo, olhando para a mulher.
- Ele precisa de mim, não sabe se controlar emocionalmente com o fim dos seus relacionamentos. – ela respondeu, dando de ombros e abriu a porta com o destino certo: 3º andar - quarto número 319.

- Eles são loucos um pelo outro. – comentou, levantando-se.
- Não, amor. – levantou-se e sentou com ao seu lado em sua cama. – Eles só têm uma tensão muito forte, mas... Eles não se amam, se gostam ou qualquer coisa assim.
- Então, eles só gostam de estarem juntos? - puxou a garota para seu colo e beijou a bochecha dela.
- Isso. Eles são melhores amigos, amor. – ela disse, beijando rapidamente os lábios dele.
a girou, fazendo com que ela deitasse na cama e ele ficasse por cima dela e a beijou docemente. Afastaram-se e deitou ao seu lado, deitou sua cabeça no peito do garoto, entrelaçando os dedos e sorrindo com a música que ele cantarolava. gostava de ficar assim com ele, estavam ficando há quanto tempo? Um mês? Não tinha uma memória muito boa, mas desde o momento em que ficaram a primeira vez, sentiu-se diferente e maravilhada. era tudo que ela sempre imaginou como o par ideal. Romântico, companheiro, amigo e bem-humorado. Antes, quando tinha uns 5, 6 anos, imaginava como seria o seu príncipe encantado.
O sonho de toda garota, aquele cara que vai te abraçar, te beijar ternamente e ser o seu melhor amigo, um verdadeiro príncipe. sempre fora esse tipo de garota, mas ao chegar à adolescência, começou a notar que príncipes verdadeiros não existiam na vida real. Talvez nos sonhos das adolescentes mais bobas, e ela já fora uma boba apaixonada. Uma boba apaixonada e magoada. Mas ali, nos braços do garoto, sentia-se completa e feliz. Sentia-se segura, além de tudo, mesmo sabendo que aquele relacionamento estava fadado aos resmungos de seus pais recatados demais, estava sentindo-se plena. dedilhou pelas costas da garota, chegando até a cintura e entrelaçando suas pernas, depositou um beijo no pescoço dela e o olhou atentamente, quase maravilhada, enquanto se aproximava lentamente dos lábios cheios e macios do homem.

Os dias vêm e vão. É incrível como isso acontece tão naturalmente que quando percebemos já passaram dias demais, momentos demais e as sensações continuam lá. As lembranças. há cinco dias tinha passado por dois momentos tensos, havia seguido sua emoção e deixado levar pelo beijo quente de e logo depois estava com . Os dois deitaram na cama de solteiro do menino e conversaram como velhos e bons amigos, as mãos entrelaçadas, os olhos do garoto avermelhados. não lembrava de ter visto tão chateado e triste com o fim de um relacionamento em toda a sua vida, e talvez fosse por isso que não soubesse o que falar naquele momento complicado, mas sabia muito bem que isso só mostrava uma coisa: estava se apaixonando pela Natalie. E se ele fosse menos cabeça dura, teimoso e orgulhoso, estaria sendo feliz, do jeito que a melhor amiga sempre sonhou para ele. Mas sempre seria . Imaturo, orgulhoso e rebelde. Foi por isso que mesmo com os olhos avermelhados e com uma vontade gritante de chorar, ele puxou para ele e lhe deu um beijo cheio de carinho e sentimentos. Os lábios da mulher era um calmante para ele, então sabia que sempre que a encontrasse vulnerável e a mercê de suas vontades, ele a teria nos seus braços. Poderia até ser um ato egoísta, mas sabia que não se importava, sabia porque ela demonstrava com seus atos e suspiros, as mãos dos dois vacilantes entre seus corpos grudados, as respirações ofegantes e então, o empurrou delicadamente, quase num susto. era seu melhor amigo e sempre a protegeria, mas aquilo era errado. Eles prometeram que não aconteceria aquilo e a mulher estava com seus pensamentos no homem de olhos castanhos escuros e atraentes. Então, sem aviso, a garota de cabelos castanhos levantou-se e deu as costas para o amigo. Não estava pronta para mais discussão e estresse, só queria sua cama quente e seus sonhos felizes.
E então, cinco dias se passaram e a garota não havia visto mais nenhum dos seus problemas. e . Desaparecidos pelo campus. O primeiro, deprimido demais e sentindo-se rejeitado demais para aparecer no quarto da mulher e pedir desculpas pelo que havia acontecido. O segundo, desesperado para tirar aquela sensação aterrorizante de querer tê-la em seus braços repetidas vezes, a ignorava com real intenção. E foi por isso que decidiu não se importar, colocando um short preto com strike na lateral, um vans preto, um top branco e camisa branca transparente amarrada perto da cintura, saiu em direção ao bloco B.
Andava despreocupada, com dois livros de educação alimentar, um de anatomia e uma agenda rosa e branca nos braços, a bolsa pendurada de qualquer maneira no braço direito e um sorriso torto nos lábios. A pequena órfã sem coração conseguia ser feliz em alguns momentos, principalmente em dias tão bonitos como aquele. Gostava de dias ensolarados e frescos, e aquilo deixava o seu humor num nível elevado. Estava tão encantada com os raios que atingiam seus cabelos, deixando-os dois tons mais claros, que não notou que um homem estava parado à sua frente, só passou a notá-lo quando tropeçou nele, deixando tudo que segurava cair bem em cima dos pés dele, que gemeu de dor. A menina colocou as mãos na boca e arregalou os olhos assustada. Era uma desastrada mesmo.
- Ai. Desculpa. – ela disse, ajoelhando-se e pegando os livros e alguns papéis que saíam de dentro dos livros.
- Tudo bem. – o homem disse, e assentiu sem olhá-lo.
- Obrigada. – ela agradeceu quando o mesmo lhe entregou sua agenda, e só nesse momento ela levantou a cabeça, encontrando grandes olhos verdes que a encaravam admirados.
- Eu sou o Arthur. – ele estendeu a mão para a garota, que segurou e colocou-se de pé, com um sorriso simples nos lábios. – E você?
- Prazer. Eu sou a . – ela disse, olhando delicadamente os traços masculinos do homem, a barba começando a crescer, os olhos tão expressivos, os lábios cheios e carnudos. Aquele homem, Arthur, era uma perdição, pensou.
- O prazer é todo meu. – ele depositou um beijo nas costas da mão da mulher e sorriu sugestivamente. – Você estava indo para onde? Acho que estou sendo muito abusado, desculpe.
- Tudo bem. – ela riu e ele a acompanhou encantadoramente. – Bloco B. – ela disse, apontando para o prédio mais perto.
- Será que eu posso acompanhá-la? – ele disse, casualmente, e sorriu de um modo tão fofo que a menina assentiu no mesmo momento.
Os dois andavam lado a lado em direção ao bloco B. O homem de olhos verdes contava um pouco sobre sua vida. Para ele nada de si era muito interessante, apenas detalhes. Mas o achou simpático e muito lindo. Além disso, gostara da sua presença, o homem sabia ser engraçado e bem-humorado nos momentos certos. Ficar perto de Arthur era tão tranquilo, ele carregava ao seu redor uma aura de calmaria que deixava nas nuvens, se perguntava se já se sentira assim alguma vez na vida. E não encontrou resposta. Chegaram ao andar de cima, as pessoas olhando para os dois um tanto quanto surpresas, Arthur Lively andando ao lado de , exatamente a garota com a qual a sua irmã havia brigado, era surpreendente para todos, mas o homem não se importou.
- Eu fico aqui. – a mulher disse, sorrindo e ele deu um sorriso assentindo.
- Boa aula. – ele disse, dando um beijo na bochecha dela. – Linda.
- Obrigada, para você também. – ela disse, tendo total certeza que estava corando aos poucos, Arthur sorriu antes de dar as costas à garota e sair em direção à sua sala.
Arthur estava a poucos passos da sala dele quando ouviu vozes alteradas e uma movimentação estranha. Os jovens andando apressados e com sorrisos maliciosos nos lábios passavam por ele, alguns esbarram no ombro dele, e o homem não compreendia o que poderia estar acontecendo ali. O corredor estava tão calmo minutos atrás, mas então ouviu uma voz conhecida por ele e sentiu-se bravo, virou seu corpo em direção à voz e pôde constatar o que era óbvio na cabeça dele. Barbara estava de frente para , as mãos na cintura e a cabeça erguida, como se fosse a Rainha da Inglaterra, e uma sobrancelha arqueada e aquele sorriso diabólico brincando em seus lábios vermelhos. tinha os braços cruzados em cima dos seios e a cabeça levemente caída para o lado, como se não se importasse com nenhuma palavra que fosse proferida pelos lábios da loira. Ao redor delas os jovens se aglomeravam, como se ali estivesse um ringue de UFC, esperando quando a primeira iria dar o primeiro passo para a luta. Aquilo não iria acontecer. Arthur chegou perto delas, no mesmo momento em que chegou ao lado de sua namorada. Os dois se olharam e logo estavam analisando as mulheres.
olhava desde Barbara até , demorando-se no rosto da morena, há dias sentia vontade de encostar novamente suas mãos no rosto delicado da garota, mas não podia. E ele sabia disso. Acabou que não pôde pensar muito, já que num piscar de olhos, Barbara segurava o cabelo longo e castanho da garota, e estava mais surpresa do que as pessoas ao seu redor, simplesmente segurou o pescoço da Lively com uma força surpreendente.
- Me solte. – ela proferiu, com os lábios quase fechados. – Barbara, me solte.
- Fique longe do meu irmão e do meu namorado. – Barbara falava, nervosa e puxava cada vez mais os fios de cabelo da rival. – Sua vadia.
- Vadia é sua mãe. – disse, tão nervosa, sentindo-se tão humilhada, odiava essas cenas degradantes e brigas femininas e ainda por cima por motivos tão fúteis. Brigar por causa do irmão ou do namorado? Rídiculo. – Eu não quero nada que esteja perto de você... Não quero seu namorado e, por incrível que pareça, eu nem sabia que o Arthur era seu irmão. – ela disse, e então empurrou a garota pelo pescoço, Barbara se desequilibrou e quase caiu no chão, se não fossem as mãos ágeis do namorado. – E se isso te agrada, pode deixar não chegarei perto dele. Mas tome cuidado, Lively, eu não sou tão inofensiva como você pensa. – ela disse, com um sorriso cínico nos lábios e então se virou, indo em direção à sua sala.
Todos ficaram paralisados, observando a garota órfã andar como se nada tivesse acontecido ali. Andando de cabeça erguida, deixando a garota rica apoiada nos braços do namorado, com uma feição de ódio e pavor.

O dia estava quase chegando ao fim, o sol já estava escondido por trás das nuvens, quase se pondo. E Summer andava de cabeça baixa, usando um moletom cinza, cobrindo seus braços com as marcas de cortes, os cabelos presos num rabo de cavalo e seu rosto sem maquiagem alguma. O campus estava vazio, poucas pessoas andavam por ali, todas já estavam em seus dormitórios ou na biblioteca estudando para alguma prova do dia seguinte. Summer só queria chegar logo em seu quarto, desejar boa noite a Natalie e dormir. Dormir. Na verdade, era isso que vinha fazendo desde o dia em que acordou e encontrou os olhos azuis e tristes de Josh e os olhos verdes de Amber. Aquilo não era algo que ela queria que tivesse realmente se concretizado, mas aconteceu, ela teve coragem e durante os poucos minutos em que sentiu a lâmina da sua antiga navalha cortar seus pequenos e frágeis braços sentiu-se em paz. Aquilo era sádico demais, mas enquanto sentia aquela dor e via o sangue correr por entre seus braços ela não pensava em seus pais, em Josh e nem na sua vida falsa e ridícula. Sentou-se no banco, quando sentiu as lágrimas chegarem aos seus olhos e deixou que elas rolassem por sua face, manchando seu rosto numa amargura sem tamanho, sentia-se frágil como um vaso de cristal, sentia-se triste e sozinha. Muito sozinha. Mas estava decidida. Só não pensou que tivesse que fazer o que havia decidido naquela mesma tarde tão cedo. Observou Josh sentar ao seu lado, as mãos nos bolsos da calça jeans, os olhos olhando cada parte do corpo da garota, procurando por algo que estivesse faltando, preocupado. Os lábios em linha reta, os pés inquietos e a respiração falha. Summer o olhou e logo voltou a olhar para frente, a escuridão aos poucos tomando tudo ao seu redor.
- Você está bem? – os dois falaram juntos e se olharam automaticamente, tomados pela vontade de se abraçarem e nunca mais saírem daquele abraço confortável e seguro.
- Você primeiro. – Josh disse, balançando a cabeça e sorrindo levemente.
- Estou... Eu acho. – Summer disse, dando de ombros. – Desculpe-me... Você sabe, por tudo que viu.
- Eu acho que estou melhor agora, Sums. – ele disse, e retirou a franja dela dos olhos. – Eu não sei o que te falar sobre o que eu vi, eu fiquei tão apavorado, eu pensei que estava te perdendo, ver você inconsciente, fragilizada e ao redor daquele sangue, eu fiquei amedrontado. – o homem disse, verdadeiramente, e passou os dedos pelo rosto dela, os olhos da garota fecharam-se, satisfeitos pela carícia.
- Eu sinto muito, Josh. – ela disse, envergonhada, ainda com os olhos fechados. – Eu não sei como pude ter aquela coragem, mas tudo que eu queria era esquecer... E eu sinto tanto por você ter visto. – ela abriu os olhos e colocou sua mão em cima da mãe dele, fazendo carinho ali.
- Você não precisa fazer isso, amor. – ele disse, tão naturalmente que só notou que havia chamado Summer de amor, no momento em que a mulher se afastou, como se o que ele tivesse falado fosse tóxico. – Sums, nós precisamos ficar juntos, eu finalmente notei o quanto eu preciso de você. – ele disse, querendo que ela visse a sinceridade colocada ali, naquelas palavras, mas Summer não queria ouvir, não podia. Levantou-se e deu um passo para trás com a mão erguida.
- Não, Josh. – ela disse, num sussurro. – Precisamos acabar com isso. Eu não te mereço e você não me merece, isso é simples. – ela disse, calma e confiante, ou assim ela queria que ele pensasse.
- O quê? – ele disse, se levantando, aquilo não podia ser verdade.
- Esqueça o que tivemos, esqueça tudo. Isso aqui, o que tivemos ou o que queríamos ter acabou... Esse é o nosso fim. Acabou, Josh! – ela falou, rapidamente, balançando as mãos freneticamente. – E esqueça, por tudo que é mais sagrado, o que você viu ontem. – ela falou, num sussurro, as lágrimas se fazendo presentes e Josh apenas balançou a cabeça positivamente, chateado demais para impedir que ela fosse embora. Afinal, sabia que nada do que ele falasse faria Summer desistir de ir. Ela era livre. Sempre foi.
Summer deu às costas a Josh e foi naquele exato momento em que sentiu que estava deixando tudo de melhor, tudo que a fazia tentar ser melhor dia após dia para trás. Dentro dela tudo se quebrou como num estralar de dedos, e então ela correu por toda a extensão do Campus, passou pelas portas do Bloco G, começou a subir, arrastando sua bolsa com algumas peças de roupas, e além disso, arrastando a si mesma. Chegou ao segundo andar e abriu a porta do seu quarto. Natalie estava lá, sentada em sua cama com livros e um caderno aberto à sua frente, os olhos da menina estavam avermelhados, mesmo sem querer, estava pensando em e no rompimento do seu envolvimento com o homem. Summer nem notou isso, jogou sua bolsa em cima da cama, cumprimentou a colega de quarto e entrou dentro do banheiro. Andava de um lado para o outro, o espaço era pouco, mas dentro dela estava bem menor o espaço, ela não conseguia respirar. Sentou-se no chão e encostou a cabeça nos joelhos: inspira, expira, inspira, expira. Era quase um mantra para Summer. E as lágrimas vieram, com força total, a garota de cabelos ruivos levantou-se e ligou o chuveiro, tirou o moletom e as calças justas, ficando com uma regata e a calcinha branca de coraçãozinho, procurou dentro do armário por sua escova de dente e então sorriu aliviada ao encontrá-la.
Ajoelhou-se em frente à privada e prendeu os cabelos num coque frouxo e mal feito, as lágrimas tornando seu rosto, antes tão meigo, numa careta estranha e confusa, eentão colocou a escova em sua língua, encostando no começo da garganta, e aquele gosto amargo, tão conhecido, a pegou desprevenida, sujando o início do seu decote, a boca e o sanitário. Cuspiu algumas vezes, o vômito misturando as lágrimas, e então deu descarga. Levantou-se dificultosamente e se enfiou com roupa debaixo do chuveiro, sentindo a água limpar sua sujeira, sua dor, seus medos, suas inseguranças. Ali, por um momento, Summer sentiu-se bem e segura. Enquanto estivesse ali dentro nada poderia tocá-la e fazê-la sofrer. Ali dentro daquele banheiro, Summer era forte. Era uma garota, frágil e necessitava de cuidados. Summer era ela mesma. Minutos depois, saiu do banheiro, com a toalha branca ao seu redor, e vestiu o seu pijama, penteando seus cabelos. Observou Natalie quieta e com a aparência triste, a mulher conhecia aquele olhar.
- O que aconteceu Nati? – Summer puxou o edredom, cobrindo parcialmente seu corpo e tomando cuidado para que seus braços não ficassem evidentes.
- Nada. – a loira murmurou, baixinho, escrevendo no caderno. – Onde você esteve durante esses últimos dias?
- Ah, eu... Ér, fiquei na casa dos meus pais até ontem. – Summer gaguejou, e olhou para janela, estava mentindo. – E hoje não estava me sentindo bem e resolvi ficar um tempo com uma amiga. – ela sorriu delicadamente e voltou a encarar Nati, que agora a olhava minuciosamente.
- Hm. – ela assentiu, sorrindo. – Desculpa eu não querer te contar o que houve, Sums... Eu sei que estou horrível e estava evidente que estava chorando... Mas não quero falar sobre isso agora. – ela disse, num fio de voz, quase que desistindo de se expressar, Summer levantou de sua cama e sentou-se ao lado da colega de quarto.
Natalie era uma boa pessoa, diferente de sua melhor amiga, mas era. Sempre fora uma ótima companheira, educada e linda. Summer a abraçou delicadamente, porque sabia que era o que ambas precisavam. A ruiva sabia o que havia acontecido ali e também sabia que quando aquilo tinha acontecido com ela, tudo que quis foi um abraço sincero de alguém que não sabia o que estava acontecendo, alguém que não sentia pena dela, mas que no fundo, a compreendia. Summer era essa pessoa para Natalie, naquele momento.

O dia havia amanhecido, estava preparando o café dela e de , quando o celular da sua colega de quarto começou a tocar. estava em frente ao espelho do banheiro penteando os cabelos e saiu correndo para pegar o celular. O número era privado e aquilo fez a garota estremecer. Algo dizia que aquilo não era nada bom, mas mesmo sentindo uma sensação estranha atendeu o celular, sentando-se na poltrona em frente à janela. acompanhou a amiga com o olhar, mas logo voltou a fazer seu lanche natural, estava mais preocupada com Summer e com a conversa que ela queria ter com ele. respirou fundo ao ouvir uma voz desconhecida e masculina pronunciar seu nome.
- Srta. ? – o homem disse, calmo.
- Sou eu. – ela disse, num sussurro, franzindo a testa confusa. – Quem é você?
- Eu me chamo Neal Johnson, investigador criminal do FBI. – ele disse, tranquilamente e claro como a água, engasgou. – Tudo bem com a Srta? – ele falou, num tom preocupado.
- Ér, claro. – ela balançou a cabeça. – FBI? Investigador? O que o senhor deseja? – ela disse, tentando manter a calma.
- Oh, eu imagino que esteja assustada, mas pode ficar calma. – ele disse, num tom agradável, que a acalmou no mesmo momento. – Eu venho te procurando faz algum tempo, mas parece que você já se mudou algumas vezes desde que saiu de Liverpool. – ele falou, e novamente a menina engasgou. O que era aquilo?
- Sr. Johnson, dá para o senhor ir direto ao ponto? Isso está muito confuso e estranho. Eu saí de Liverpool faz doze anos. – ela disse, num sussurro, segurando as lágrimas que vieram até seus olhos.
- Desculpe. – ele disse, e observou as pessoas caminhando em direção às suas aulas. – Eu gostaria de te encontrar... Eu tenho assuntos à tratar com a Srta de seu total interesse. – ele disse, certo de que a garota iria aceitar. Mas, era claro que ela não iria. E se ele fosse um maníaco?
- Não. – ela falou, prontamente. – Quero dizer, eu nem sei se o senhor é um investigador do FBI mesmo e, além disso, o que seria do meu interesse? – ela falou, acusadoramente e o homem riu baixo antes de respondê-la.
- Creio que gostaria de saber o que realmente aconteceu com os seus pais, não é mesmo, Srta ? – ele falou, seguro e arregalou os olhos levemente surpresos.

desceu do táxi em frente à um restaurante muito bonito, as pessoas lá dentro usavam roupas sociais e sofisticadas, a mulher sentiu-se totalmente errada naquele momento. Passou pela porta e olhou ao redor, procurando pelo tal do investigador, nenhum dos homens que via aparentava ser um investigador. Começou a sentir-se uma burra. E se aquilo fosse alguma pegadinha da Barbara? Tudo para que ela perdesse mais uma aula e fosse reprovada. Estava pronta para ir embora, quando ouviu seu nome ser pronunciado perto dela, virou seu corpo em direção à voz e observou o homem à sua frente. Neal Johnson era alto, tinha os cabelos pretos e os olhos azuis como o oceano, e quando digo isso, não é só pela cor e sim pela profundidade que aquele olhar tinha, notou que o homem era musculoso, mesmo por trás da blusa social azul marinho e a calça de linho preta, o homem sorriu e estendeu a mão para a mulher, que logo a segurou.
- Neal Johnson, ao seu dispor. – ele sorriu levemente, mostrando a fileira de dentes brancos e retos.
- . – ela apertou a mão dele e sorriu delicadamente, Neal era lindo e hipnotizante. Era uma pena total que ele já estivesse na casa dos trinta, era o que pensava.
- Vamos nos sentar aqui? – ele apontou para uma mesa mais para o fundo, longe do movimento, e a mulher assentiu seguindo o homem, sentaram-se em suas cadeiras, a mulher cruzou as pernas e o homem a analisou. Encantadora. – Pensei que fosse mais menina, vejo que me enganei.
- Mais menina? – ela arqueou a sobrancelha.
- Quero dizer que pensei que você fosse uma garotinha, mas você já é uma mulher formada. – ele sorriu malicioso e revirou os olhos. Idiota.
- Olha, Sr. Johnson, vamos logo ao motivo de você ter aparecido de repente me falando sobre a morte dos meus pais. – ela aproximou seu corpo da mesa e sorriu. – Eu estou perdendo uma aula importante e espero que, no fim, não seja perdida literalmente. – ela arqueou a sobrancelha e colocou as mãos no queixo, apoiando-se na mesa.
- Claro, senhorita. – ele sorriu e abaixou-se, pegando a sua maleta do chão, algo que nem havia notado estar ali até aquele momento, retirou de dentro uma pasta média e alguns papéis e colocou em cima da mesa, de frente para . – Isso são arquivos relacionados aos seus pais, ao passado deles e ao acidente. – ele falou, calmamente, abrindo a pasta.
- Antes que você comece a ler, me explique uma única coisa. – a morena levantou o dedo indicador e o homem assentiu. – Por qual motivo o senhor, realmente, me chamou aqui? Quero dizer, o passado dos meus pais e o acidente? Por favor, eu não quero reviver isso tudo de novo, eu estava lá, Neal Johnson, eu vivi isso, o acidente... – ela encostou as costas na cadeira, observando as feições do homem mudarem de compreensão para uma obscuridade palpável.
- Eu sei querida, eu sei. – ele sorriu e franziu a testa antes de continuar. – Mas, , você não sabe realmente o que aconteceu, creio que quase ninguém saiba, e eu estou verdadeiramente interessado em descobrir como um carro com um casal e uma criança de cinco anos capotou sem nenhum motivo aparente. Você não está? – ele arqueou a sobrancelha sorrindo e deu de ombros, balançou as mãos e ele segurou o primeiro papel. – John Evans, administrador da empresa K.Norah, cabelos castanhos claros, olhos pretos e branco, sua idade: trinta e seis anos, nascido em Liverpool, Inglaterra. Filho de Erick Evans e Juliet Evans. Casado há quinze anos com Marien , pai de . Falecido em 10 de outubro de 1999, em acidente de carro no KM 150 em direção à Londres. – Neal parou de ler, observando os traços delicados da garota, ela olhava para as mãos, escutando cada palavra proferida pelo homem, mas seus olhos mostravam que ela pensava em algo muito longe dali. – Marien , não trabalhava, mas formada em Literatura Inglesa pela Universidade de Liverpool, cabelos castanhos claros, olhos mel e branca, trinta anos. Nascida em Liverpool, Inglaterra. Filha de Jayme e Ruth Last. Casada há quinze anos com John Evans, mãe de . Falecida em 10 de outubro de 1999 em acidente de carro no KM 150 em direção à Londres.
- Qual o sentido disso, Neal? – ela o interrompeu, a voz embargada, as lágrimas presentes. – Eu já sei disso tudo.
- Acalme-se, pequena donzela. – ele sorriu, pegando o segundo papel, este parecendo mais antigo do que o primeiro. – “Acidente no KM 150 que causou a morte de um casal, John Evans e Marien , não tem nenhuma evidência do que pode ter causado”. Isso é o que diz o jornal da cidade de Liverpool, e então o próximo diz: “Acidente de carro que deixou dois mortos está sendo investigado. A Polícia diz que não há evidência do que poderia ter causado o acidente. O caso continua sendo investigado”. Todos os jornais divulgaram sobre o caso e a polícia depois de alguns anos arquivou o caso como “acidente”, mas você sabe como eles nomeavam esse caso antes, ? – Neal arqueou a sobrancelha esperto, aqueles papéis na frente da mulher eram informações demais, o que ele queria dizer com tudo aquilo? Que o acidente não foi um acidente, mas na verdade fora intencional? O que era aquilo?
- Não. – ela falou, ríspida, aproximando seu rosto do homem. – O que isso quer dizer, Neal? Como nomeavam o acidente dos meus pais?
- “Morte suspeita”. – ele sorriu levemente e segurou o rosto dela perto do seu, observando os olhos da mulher ficar nublados. – Morte suspeita porque nunca encontraram o que causou o acidente. Morte suspeita, porque todos naquele departamento de policia, tanto em Londres quanto em Liverpool, sempre acreditaram que o acidente não aconteceu por conta do destino, sempre acreditaram que o acidente foi intencional, foi planejado por alguém. – ele soprou as palavras em cima da garota, que arregalou os olhos e se afastou confusa e desesperada.

Se alguém tinha realmente planejado a morte dos seus pais... Com certeza, deveria querer vê-la morta, não é? não pensou em nada enquanto levantava dali e corria em direção à saída. Sabia que cedo ou tarde Neal iria atrás dela e a faria encarar os fatos, mas naquele momento a mulher só precisava de calmaria e o silêncio. O acidente dos pais dela era o que a mantinha fora da realidade dias e dias, era o que a fazia chorar por noites seguidas. Logo, aquilo não era o seu assunto preferido e muito menos algo que queria tratar agora. Então fugiu, como sempre fazia.

Capítulo 14

Viva La Vida

andava cabisbaixa pelas ruas de Londres, o sol brilhava no alto do céu, clareando os dias, divertindo as crianças no parque e colorindo a vida das pessoas ali. Mas a mulher sentia que dentro dela acontecia uma tempestade com nuvens negras e ventania. Se aquilo que aquele investigador disse realmente for verdade, tudo que ela acreditou por anos será mentira! E isso tornaria tudo uma grande mentira. Se os seus pais realmente tiverem sido assassinados e não mortos por uma fatalidade da vida, toda a forma dela de ver o mundo seria alterada, e aquilo era doloroso demais para a garota. sentou-se num banco de um parque do Centro de Londres e ficou olhando algumas crianças brincando por ali. Uma menininha que deveria ter no máximo cinco anos subia uma escadinha pronta para escorregar e cair sentada na areia, o sorriso dela era mágico. Com certeza estava alegre, nessa fase da vida, tudo é tão fácil, tão belo. As crianças por serem puras acreditam que tudo são flores, arco-íris e sorrisos, mas desde o momento em que você atinge a maioridade, se torna realmente adulto e têm controle da sua vida, descobre que a vida é uma farsa, que não há nada de belo e majestoso. Só existem dúvidas, falsidades, mentiras e máscaras. Muitas máscaras. deixou que uma única lágrima rolasse por seu rosto e se levantou, caminhando lentamente e preguiçosamente na direção de um carrinho de sorvetes. Pediu para o vendedor um sorvete de creme e lhe entregou o dinheiro, colocou uma colherada na boca, sentindo as explosões de sensações, o sorvete bem gelado causando um choque térmico e lhe enviando sensações de alegria e um gosto de infância até o seu cérebro, sorriu e voltou a andar, mas deu apenas um passo até encostar-se a alguém. Olhou assustada e parou perplexa, não poderia ser ele, certo?
- Acho que você gosta de trombar em mim. – Arthur gargalhou, balançando a cabeça negativamente e abaixou a cabeça envergonhada.
- Desculpa?! – ela sorriu levemente e ele levantou o rosto dela para olhar em seus olhos.
- Só se a senhorita aceitar sair comigo agora – ele sorriu delicado e se abaixou, deixando seus rostos no mesmo nível, sorriu.
- E nós iríamos para onde? – ela arqueou a sobrancelha sapeca, tudo que mais queria era esquecer-se da conversa de momentos antes, mesmo que para isso tivesse que ‘usar’ Arthur para conseguir tal feito.
- Você já almoçou? – ele perguntou, pensativo, e a garota negou, ele sorriu. – Podemos almoçar no Beliet e depois assistir um filme que está em cartaz no cinema. O que você acha? – ele a questionou, esperançoso, e sorriu alegremente, assentindo.
Os dois começaram a andar pelo parque, a garota com o sorvete nas mãos e se deliciando, enquanto o garoto a olhava encantado. Arthur refletia que talvez Barbara não conhecesse e até compreendia o porquê do cunhado se sentir tão atraído pela garota. é o tipo de garota que encanta no mesmo momento em que fala a primeira palavra, e a cada ato que fazia, Arthur sentia-se mais aquecido e atraído por ela. Ele não tinha seguido a garota só por querer forçar um encontro ou pela curiosidade, mas também porque sentia uma necessidade crescente dentro dele de ficar perto dela. Ela estava tornando a sua obsessão pessoal, o seu pequeno troféu. Chegaram à frente ao restaurante Beliet, lá eles faziam refeições italianas e todas aquelas massas eram extremamente apetitosas. Arthur poderia jurar de pés juntos que aquele restaurante é o melhor de Londres, o seu preferido. sorriu levemente, mas por dentro sentiu-se deslocada. Aquele lugar era muito chique para ela ou era uma ligeira impressão? Adentraram o estabelecimento e depois de sentar em uma mesa mais no canto e fazer os seus pedidos, Arthur se manifestou:
- Eu adoro esse lugar! – ele disse, olhando ao redor, e o acompanhou, vendo a riqueza de detalhes.
- É muito lindo aqui. – ela concordou, sorrindo. – Arthur?
- O que foi? – ele a encarou confuso e ela respirou fundo antes de perguntar.
- O que você estava fazendo lá no parque? Digo, isso foi uma grande coincidência... – ela franziu a testa, interessada.
- Ah, claro, foi mesmo. – ele respondeu, baixo. – Eu não queria assistir a aula de hoje e eu sempre gosto de andar naquele parque, é calmo. E bonito! – ele falou, aumentando a voz e deu um sorriso. – E você? O que fazia lá?
- Dando uma volta. – ela respondeu, rapidamente e balançou a cabeça rindo. – Eu tive que resolver uns assuntos, aí já estava atrasada para a aula, vi aquele parque e resolvi ficar lá um tempo. – ela o respondeu, corretamente, e ele assentiu.

As horas iam passando e ambos nem notavam que o dia já estava sendo trocado pela tarde, quando entraram no cinema. Assistiram a um filme que estava em cartaz, era uma comédia romântica, que nem e muito menos Arthur prestaram atenção. Estavam embalados em seus próprios pensamentos, não conseguia parar de pensar em arquivos, acidente, pais, e . Mesmo que fugisse e declarasse a si mesma que não pensaria no último nome, era quase como negar água para uma pessoa no deserto, isso mesmo, era impossível. Arthur, por sua vez, pensava qual seria seu próximo passo, sua próxima atitude. Tinha que beijar hoje, era o certo, tinha que lançar a corda e torcer para que a garota agarrasse, tinha que entrar aos poucos nos pensamentos da garota e nada como um beijo inesperado num lugar apaixonante.
Saíram horas depois, o sol já tinha se posto em seu lugar e a lua era quem brilhava e mostrava toda sua grandeza no alto do céu estrelado, andavam um do lado do outro, procurando por um ponto de táxi, quando o garoto segurou a mão da garota e atravessaram a rua, ficando de frente para grande e iluminada London Eye, ali era sem dúvidas o local mais bonito, e senão mais famoso, de Londres. Todas as jovens morriam de vontade de embarcarem naquelas cabines com seus amados e ficarem lá, o maior tempo possível, desfrutando de seus beijos e carinhos. Mas só conseguia pensar em como aquele lugar refletia a majestade que o mundo é, o quão grande e brilhante o mundo pode ser, enquanto os dois entravam juntos na cabine, refletiu que ali ela sabia o que o mundo queria com toda sua grandeza e beleza: “O Universo quer ser notado”¹, ouviria um dia uma mulher falar à sua filha e era o que pensava enquanto observava as luzes das casas e apartamentos de lá de cima, era exuberante aquela vista toda, e era exatamente isso que o mundo queria ser, ele queria ser notado por toda sua exuberância e beleza. Sentiu quando a mão de Arthur se encostou à mão dela e o olhou de canto de olho, o sorriso ali presente nos lábios do garoto.
- Essa vista é com certeza uma das mais lindas do mundo. – ele refletiu e ela assentiu sorrindo.
- Eu concordo.
- Mas sabe qual é a visão mais linda? – ele perguntou à garota, os dois se olharam, ele sorriu e a respondeu. - Você! – isso a pegou de surpresa, mas o que se seguiu lhe deixou sem barreira nenhuma, não soube nem como reagir quando Arthur segurou sua cintura firmemente e aproximou seus rostos, grudando seus lábios num beijo delicado e quase urgente. correspondeu, para a felicidade de Arthur.

***

O homem de camisa azul passou pelo batente da porta e logo se trancou dentro do seu pequeno apartamento, próximo da ponte do Rio Tâmisa, os olhos azuis analisavam minuciosamente o documento em suas mãos, sentia-se cansado, mas sabia que precisava de forças para compreender todo aquele caso. Aquilo tudo era confuso. Levantou-se e foi até a cozinha, trazendo consigo uma garrafa de Whisky e um copo com gelo, sentou no sofá e voltou a folhear os arquivos, agora sentindo o amargo da bebida tocar seus lábios. Se John e Marien foram realmente assassinados, deveriam ter algo no seu passado que levantaria suspeitas, mas diferente de outros casos encerrados e concluídos por ele, não havia nenhum suspeito, nenhuma pista, nenhum caso mal resolvido entre o casal e um outro alguém. Mas o acidente sem nenhuma evidência de ter sido realmente uma fatalidade estava ali, à sua frente, naquele papel. Ele tinha que resolver esse caso, e não era mais por causa da pobre garota órfã, mas era quase uma necessidade pessoal. Era isso, ele sentia-se desafiado, e Neal Johnson amava desafios. Riu, deitando a cabeça no encosto do sofá e fechando os olhos, era uma mulher bonita, mas era inacreditável como conseguia ter uma atitude tão infantil como aquela. Afinal, fugir era o correto? Isso só mostrou ao homem que teria que procurar, pesquisar e achar as pistas certas antes de voltar a vê-la. Era isso, Neal procuraria tudo que pudesse e encontraria o motivo pelo qual alguém iria querer a morte do casal e quando tivesse isso em mãos poderia finalmente falar com e conseguir a sua ajuda.

Um mês depois...

Rosas vermelhas, caixas de bombons e ursinhos. Tudo são símbolos dados ao amor. Quantas vezes já vimos, em filmes, seriados e até mesmo na vida real, jovens apaixonados se presenteando com tais presentes? E o que as pessoas geralmente dizem quando vêem tal atitude? Ah claro, “eles estão tão apaixonados”, “eles nasceram um para o outro”... As pessoas são tão bobas criando símbolos, motivos e significados para tudo que existe no Mundo, como se realmente pudéssemos explicar tudo. Ingênuos. A vida é mais do que isso, um relacionamento é mais que todos esses símbolos bobos e criados por um sistema capitalista que só pensa em vender e ter lucro. E em iludir jovens que acabaram de encontrar o seu primeiro amor. Tudo não passa de uma imagem, mas já pararam para pensar o que há por trás de tal gesto? Será que o cara que está presenteando a namorada com uma rosa realmente está dedicando todo seu amor e atenção a ela? Ou será que isso não é só uma forma de tentar pedir desculpas por tê-la feito chorar a noite passada inteira? A vida é engraçada, mas na vida há muitas coisas encobertas, muitas coisas atrás dos bastidores, muito mais do que as pessoas imaginam. Cada ato tem em si um motivo, mas isso não significa que aquilo que julgamos é real. Então, enquanto aquele casal no Campus da faculdade se beijava e trocava carinhos, ninguém sabia dizer se era ou não real. Barbara estava sentada no colo do , suas mãos entrelaçadas, a garota com uma caixinha média no colo, bombons de morango com chocolate, os seus preferidos. E claro, o seu namorado sabia e resolvera dar-lhe, uma forma de paparicá-la. Barbara sentia-se feliz e satisfeita de ter de volta toda a atenção do namorado.
Há um mês estavam nesse chamego e carinhos de hora em hora, não desgrudava dela e Babi amava aquela sensação de estar de volta ao comando, como se sua vida estivesse novamente nos trilhos. A garota de olhos verdes virou o rosto, ficando na mesma altura que do namorado, aproximou seus lábios pintados de vermelho e o abraçou, enquanto distribuía vários selinhos nos lábios macios dele. retribuiu da maneira que conseguia. Mas seu pensamento estava longe. Estava na garota de cabelos castanhos claros, que agora vivia andando ao lado do cunhado, Arthur Lively. odiava sentir ciúmes ou ira pelo cunhado, mas não podia se conter no momento em que via o mais novo casal conversando, se abraçando e o mais irritante, e decepcionante, se beijando. Um mês vivendo aquela tortura e resolvera voltar a ser quem era, ele tinha uma linda namorada e era ela quem merecia sua atenção e carinho. e Barbara trocaram mais um beijo e se afastaram, voltando às suas próprias bolhas de isolamento, enquanto observavam o Campus. Babi sorriu imediatamente, no momento em que colocou seus olhos no novo casal da Universidade. Seu irmão e a órfã. E não era que o plano tinha dado certo? Ela tinha, novamente, o seu namorado na palma da sua mão e o seu irmãozinho podia curtir um pouco com a garota boba. enrijeceu ao ver Arthur e parados perto de uma àrvore, tão perto e ao mesmo tempo tão longe dele.
andava feliz, sua vida estava diferente de um tempo atrás, e quanto mais tempo passava, mais se sentia à vontade com Arthur. Estavam juntos desde o dia em que ele a pegara de surpresa e lhe dera um beijo na London Eye, a mulher não soube como recuar ou negar aquele beijo tão cheio de urgência e carinho. Sabia que não conseguiria, e no fim de tudo, não via motivos para tal atitude. Afinal, ambos eram livres e não havia nada que os impedisse, então o beijou e ficou contente por tê-lo ao seu lado durante os dias seguintes. E agora estavam juntos, de uma maneira estranha, mas ainda sim juntos. estava longe, como se estivesse vivendo em outra dimensão, não conversavam muito, o garoto parecia estar envergonhado com algo ou simplesmente estava triste com o seu término, mesmo depois de tantas semanas. e continuavam num romance só, e para sorte de , amara o Arthur, o que só incentivou a morena a realmente dar-lhe uma chance. Então, logo que acordou e Arthur apareceu, soube que ele tinha real motivos para chamá-la até o Campus, o garoto de olhos verdes a encarava sorridente, mas ainda assim não conseguia manter seus olhos nos dela, como se aquilo o queimasse. sorriu e segurou as mãos do rapaz, dizendo:
- Ei, o que houve?
- ... – ele sussurrou e a encarou, aquilo era tão divertido para o homem, ele amava conquistar as garotas, vê-las se apaixonarem por ele, e agora ele tinha ali, toda para ele. O plano tinha dado certo e agora podia curti-la até enjoar. – Eu não sei como falar isso...
- Falar o que, Arthur? – ela apertou as mãos dele e o encarou, franzindo a testa preocupada.
- , você sabe que a forma que nos conhecemos foi sobrenatural, não é? – ele sorriu levemente, a vendo assentir confusa. – Quero dizer, nessa Universidade gigante eu encontrei você e sinto que tudo aconteceu tão rápido... E talvez, eu esteja sendo, novamente, apressado... Mas eu não consigo mais, eu preciso de uma resposta sua e eu estou torcendo verdadeiramente que seja positiva. , você aceita namorar comigo? – ele parou de falar, analisando as feições dela mudarem de confusas para surpresas, então ela sorriu.
- Claro, Arthur. – ela sorriu ainda mais, vendo-o se aproximar e colocar as mãos na sua cintura. – Eu não sou perfeita, Arthur, e eu nem sei o que quero realmente, mas eu sei que nesse momento eu quero dar uma chance para nós, quero que nós possamos dar certo. – eles sorriram e a mulher colocou as mãos no pescoço dele e Arthur aproximou seus lábios dos dela. Antes que fechasse os olhos e se entregasse ao beijo, ainda pôde ver os olhos castanhos escuros faiscando em sua direção. Ele sempre estava ali, mesmo que ela não quisesse, ele sempre estava lá. E então, beijou Arthur.

***

andava de um lado para o outro dentro do seu quarto. Sua cabeça estava à mil, nada mais fazia sentido. Ele se perguntava como tudo poderia ter mudado da noite para o dia? Não via sua melhor amiga há, quase, dois dias. Sentia falta da risada da garota, da sua personalidade, do seu jeito de cuidar dele, de olhá-lo e de ser o seu porto-seguro, mas aquela atração entre os dois estava acabando com a amizade dos dois, e se odiava. Não poderia perdê-la, sua melhor amiga. E também, além disso, tinha Natalie.
Como ele não notou no tempo em que estava com ela que a garota era incrível, como se fosse perfeita para ele? Feita sobre medida? Talvez fosse isso que todos os sábios e filósofos querem falar com aquela tão clichê, mas tão sábia, frase: “as pessoas só dão valor ao que tem, quando o perdem”. Era isso, estava ali, confessando a si mesmo que agora sabia o valor que Nati tinha para ele, mas sabia que não adiantava saber agora. Era tarde demais.
Ele tinha estragado tudo.
olhou para sua cama, Lucy estava ali, deitada e dormia tranquilamente, os cabelos negros caindo como cascata por suas costas nuas, o lençol cobrindo as suas pernas, os lábios entreabertos e vermelhos. Sentiu-se bem, feliz, e claro, satisfeito enquanto estava possuindo-a, mas no momento em que acabou, voltou a sentir-se como um nada, ele era um lixo. Um tremendo idiota. O homem caminhou até seu guarda roupa, abriu uma gaveta, escondida por suas roupas abarrotadas, e retirou de lá um maço de cigarros Marlboro, pegou um cigarro, o acendendo, sentou-se na beirada da janela, o tronco para fora, e o levou à boca, sentindo a nicotina entrando em suas veias, aquela sensação de paz, de alívio percorrendo seu corpo, o vento gelado tocando sua pele desnuda, bagunçando seus cabelos. Já estava ficando tarde e ele pensava o que faria dali algumas horas, sabia que expulsaria Lucy antes que ela pudesse abrir a boca, mas e depois? O que faria? Tudo que queria era sair e beber a noite toda, voltar para o dormitório caindo no chão, louco, louco. , o filho perfeito de Anne, ou era assim que a mulher pensava, sempre fora calmo e delicado, gentleman com as mulheres, o sonho de consumo da ala feminina, mas agora... Agora se sentia um acúmulo de emoções e inutilidade, era um estorvo na vida de todos, só atrapalhava a felicidade das pessoas. Sua mãe não se orgulharia no que o garoto estava se tornando. Olhou para a morena e no mesmo momento ela abriu os olhos delicadamente, se espreguiçando e deixando o seu colo descoberto, olhou para fora, esperando que a mulher se vestisse. Lucy levantou, colocou sua calcinha e sutiã e andou até o garoto de olhos verdes, o abraçou, depositando beijos pelo pescoço e as costas largas dele, contudo, ele a afastou e foi em direção à bancada, que dividia o quarto com a pequena cozinha, e a observou. Seu olhar não era nada delicado, mas também não era desejoso, era simplesmente aquele olhar de “eu te usei, agora vá embora”, aquele olhar sem sentimento algum. O olhar perfeito de um cafajeste. Lucy franziu a testa e deu um passo.
- Lucy, você já pode ir. – ele sorriu ironicamente, a garota sentiu-se ridícula.
- O quê? – ela deu um passo contido. – , você está me mandando emb...
- Embora? – ele a interrompeu, apagando o cigarro na bancada. – Exato. Pode ir, querida, foi uma ótima tarde. – ele sorriu ladino e ela arqueou a sobrancelha, recolhendo suas roupas no chão e se vestindo.
- Você. – ela murmurou, fechando seu casaco, levantou-se da cama, pegando sua bolsa do chão. – É um idiota. Eu adorei a nossa tarde, mas você está enganado se pensa que isso irá acontecer outra vez. Idiota. – ela mordeu o lábio inferior e abriu a porta. Antes de fechá-la, deu uma piscadela ao garoto, que sorriu sedutoramente e então o deixou sozinho. Como ele sempre ficava.

***

Summer entrou em seu quarto depois de um longo dia de aula, deixou seu material e bolsa em cima da cama e foi direto para o chuveiro. Natalie ia sair aquela noite, por isso não estava no quarto, e Sums sentiu que aquilo era perfeito. Teria todo aquele espaço para ela e somente ela. Poderia chorar e se afundar nos seus próprios devaneios, não teria ninguém ali. A água caía em seus cabelos vermelhos como o fogo e ela observava as marcas no seu pulso, estavam quase transparentes e ela sentia uma felicidade crescente. Não tinha visto e muito menos nos últimos dias. Na verdade, tinha fugido muito das garotas, mas era por um bem maior. Se a visse, saberia que tinha algo errado. Saiu do chuveiro e ouviu duas batidas na porta, apertou a toalha rosa contra seu corpo e a abriu, revelando sua melhor amiga, Stone, ali. Summer sorriu de lado e deu passagem para a garota.
- Até que enfim eu te encontrei. – a loira comentou, sentando na cama da Nati. – Onde você estava esses dias? Está fugindo de mim, me evitando?
- Isso é impressão sua. – a ruiva disse, dando de ombros. – Eu só estou cheia de lições. – abriu o guarda roupa, procurando por uma roupa.
- Você está estranha. – falou, baixo. – Estou preocupada. – a loira olhou para a amiga com uma feição preocupada e observou o braço da garota, desde aquela noite que desapareceu, Summer escondia seu braço com blusas e cardigãs, mas naquele momento podia ver seu braço e próximo do pulso tinha duas pequenas marcas. Não poderia ser o que ela imaginava, certo?
- Não sei por qual motivo. – Summer respondeu, colocando uma blusa de mangas, escondendo seu braço, e virou-se para a amiga. – Estou bem, loirinha.
- E o Josh? – a amiga perguntou, inocentemente, mas causou um estrago dentro da outra.
- O que tem ele, ? Eu sei lá, deve estar bem. – respondeu, bruscamente sentando na cama.
- Não sei... Ér, vocês terminaram mesmo? – perguntava, inocentemente, mas ao mesmo tempo precisava saber se sua amiga estava bem.
- Terminamos, . – ela falou, se colocando de pé. Estava farta de falar do garoto, queria ficar sozinha, era como se toda vez que falasse o nome de Josh algo se quebrasse dentro dela. Ela era um vaso de porcelana importado, e quando se quebra um vaso desse valor, não há nada que o concerte. Ela era isso. Ela estava quebrada e não havia concerto. – Amorzinho da minha vida, eu quero dormir, estou cansada. – ela abriu a porta, a olhando.
- Me expulsando, Summer Hudson? – a loira arqueou a sobrancelha e caminhou até a porta, cruzando os braços. – Ok! Fique bem, querida. Boa noite. – deu um beijo na bochecha da garota e saiu, Sums fechou a porta. Não a trancou.

Estava tão absorta em seus pensamentos. Sentia-se triste e ao mesmo tempo não sabia como expressar seus sentimentos. Como poderia explicar o que estava sentindo e pensando para ? A loira sempre fora sua amiga, desde que estudavam no colegial, mas não compreenderia seus problemas, afinal, ela sempre teve os pais juntos. Nunca vira uma briga sequer do casal Stone. Ao contrário da vida dos Hudson, a vida dos Stone era um mar de rosas. Sem briga, só riqueza e felicidade. Então como sua melhor amiga poderia entender isso? Talvez compreenderia a ruiva, mas não eram tão amigas assim para Summer desabar à sua frente. Então a ruiva preferia armar suas barreiras e ficar presa em suas próprias lamentações. Sentou no chão com as pernas encostando ao seu tronco e chorou. Chorou como se aquilo dependesse a sua vida.
Isso era o que mais fazia desde que viu sua mãe e seu pai, e era por isso que ela se arrependia de ter colocado os pés naquela maldita casa. Aquela casa era amaldiçoada, só trazia dor e sofrimento à jovem mulher, era só isso que a trouxera sua vida inteira. Então chorava e se xingava baixinho. Se odiava, não sentia mais amor por si mesma, sentia ódio. Gostaria de ter coragem suficiente para arrancar sua própria vida e jogá-la ao ralo. Sua existência não faria diferença de qualquer forma. Mas então... Ela sempre pensava em o que perderia... Talvez ainda tivesse uma chance de se levantar, pensava em Josh e . Os dois sempre foram seu porto-seguro e ela não queria ir embora ainda. Então rastejou até a gaveta do seu criado mudo e tirou de lá uma tesoura média e prata, colocara ali com o principal motivo de sentir o alívio sempre que pudesse. Era o lugar ideal, então não titubeou quando passou a parte pontuda e afiada da tesoura em seu braço do pulso até o antebraço. Uma, duas, três vezes. A dor física não é nada comparada à dor emocional. E tudo que Summer sentia era a sensação de paz lhe atingindo em cheio. Sabia que minutos depois que aquilo tudo passasse, iria se sentir uma idiota.
Mas o que importa? Queria esquecer tudo ao seu redor, observou as gotas correrem pelo seu braço, manchando sua calça de moletom, e riu num tom melancólico. Estava tornando-se alguém insano. A mulher estava tão longe do mundo real que não notou a porta sendo levemente aberta, espaço suficiente para o garoto de olhos azuis ver o que acontecia ali dentro, se ela soubesse, se sentiria humilhada, por isso ele ficou ali em silêncio, vendo os movimentos melancólicos e sofridos da... Da sua garota. Josh queria fazer algo, ser a salvação para a garota, mas ele não poderia. Ele não conseguia. Era fraco e ela tinha desistido dos dois, do que ambos poderiam ter. Ouviu o soluço de dor da mulher e se desesperou, queria abraçá-la e nunca mais soltar, queria niná-la em seus braços e fazê-la feliz. Mas não podia, então fechou a porta e saiu dali. Ele poderia não fazer nada diretamente, mas sabia quem poderia fazer algo. Summer olhou para sua porta de madeira e continuava fechada, talvez estivesse louca... Mas tivera a impressão de alguém estar lhe observando, fechou os olhos fortemente e correu até o banheiro e ali naquele piso gelado deitou e encontrou uma paz surreal.

***

Josh atravessou a rua deserta e iluminada por alguns postes, falou seu nome para o porteiro que, em seguida, permitiu que subisse até o andar desejado. O corredor continuava igual a última vez que esteve ali, mesmo que não tenha prestado muita atenção, sabia que as paredes eram num tom pastel que lhe enjoava, se morasse ali já teria conversado com o síndico para trocar aquela cor. Bateu na porta de madeira e escutou passos calmos e preguiçosos no outro lado, então a porta se abriu, revelando uma garota de cabelos loiros com as pontas recentemente tingidas de rosa, os olhos verdes intensos focados nele. Estava perdida, era óbvio. Talvez nem lembrava mais do garoto de olhos claros, mas ele sorriu verdadeiramente e falou:
- Oi, Amber. – estendeu a mão. – Lembra de mim? Josh Devine.
- Claro, Josh. – ela segurou sua mão e o puxou para dentro do apartamento, sorrindo levemente. – O que te traz aqui? A Summer está...
- É sobre ela que eu vim falar mesmo. – falou, a encarando, seus traços eram infantis. Uma mulher muito bonita, mas ainda assim tinha aquele ar juvenil. – Ela voltou a fazer... Aquilo.
- O quê? – sua voz esganiçada e baixa. – Não acredito...
- Ela terminou comigo, Amber. – falou, olhando ao seu redor. – E então hoje eu resolvi ir vê-la, mas ao chegar ao quarto... Ela estava lá, com os cortes, o sangue... – sua voz morreu ali, a cena repassando na sua mente, lhe puxando para baixo.
- Eu vou ligar para ela. – ela disse, num soluço, e andou até o telefone.
- Não. – ele deu um pulo, segurando o braço da garota, que lhe encarou assustada e confusa. – Quero dizer, agora não, Amber. Ligue amanhã. – sorriu e se sentou no sofá, trazendo a garota com ele. – Mas antes, eu quero que você me faça um favor.
- O que você quer? – ela perguntou, calma.
- Precisamos que ela se trate, Amber. Talvez isso seja um trauma que ela viveu... Isso ocorreu depois da visita que ela fez aos pais dela e eu acredito que você saiba o que aconteceu lá, eu não quero saber, eu só quero a minha Summer de volta... Precisamos levá-la até...
- Um psicólogo? Clínica de reabilitação? – ela falava, lhe encarando com suas íris negras e ele assentiu. – Isso é sério? Se eu conversar com ela...
- Amber, pelo amor de Deus, você já conversou com ela. E isso não acaba da noite para o dia... Se ela chegou até esse nível, é porque ela não aguenta mais, ela precisa se cuidar, ela precisa que alguém cuide dela, e não há lugar melhor e nem pessoas mais especializadas do que numa clínica. – levantou do sofá e a encarou. – Converse com ela, faça com que ela veja que o melhor é ir até uma clínica... Que ela precisa voltar a se encontrar, ser quem sempre foi. Eu conheço um lugar, na verdade, é como se fosse um hotel fazenda, ela vai gostar de lá... Eu só preciso da sua ajuda, Amber. – ajoelhou na sua frente, seus olhos lacrimejando. Josh só queria sua Summer saudável e feliz.
- Eu te ajudo, Josh. – ela estendeu a mão em direção ao homem e segurou. – Eu sei que você a ama, tanto quanto eu, e nós vamos ajudá-la. Pelo jeito, você não quer se envolver diretamente, não é? – ele assentiu em silêncio e ela concordou com um sorriso de lado. – Nós vamos ajudá-la. Ela quer que alguém a ajude, só não sabe como pedir ajuda. Tudo vai dar certo. – ela abraçou o garoto, as lágrimas correndo livremente pelo rosto de ambos.
- Espero que sim.

***

”Eu, você e o no pub Irish. Às 22hs.
O que acha, meu amor?
Dizem que lá é incrível, e venhamos e convenhamos, precisamos de um tempo alucinante.
Te espero na porta do Bloco G, às 21h45hs, ok?
Te amo, xx

descia as escadas devagar, seus cabelos presos firmemente numa trança lateral e a franja batendo em seus olhos, usava uma saia preta de paetês, camisa de seda vermelha e por cima um casaco simples preto, estava verdadeiramente linda. E não via a hora de ver o seu garoto, com certeza, o garoto estaria lindo. Ela aceitou na hora o convite, porque sentia-se sozinha e além de tudo, queria se divertir. Fazia tempo que não ia até um Pub e principalmente agora que parecia ter se esquecido da amiga e de seus compromissos e só pensava no tal do Arthur. sentia-se trocada e só queria sair e se divertir, dançar até o amanhecer, beber até a última gota de bebida e beijar... Beijar muito o seu . Quando pôde ver a porta do prédio G, observou dois homens ali parados. O primeiro, de olhos verdes, usava uma camisa azul marinho, calça jeans preta e vans branco, olhava para o celular como se dependesse daquilo e nos lábios um cigarro apagado. Ao seu lado, o garoto de olhos azuis olhava para o relógio, usava uma camisa social branca e calça jeans escura, além do seu converse preto, os dois encararam a bela mulher descer os dois últimos degraus e se aproximaram, o segundo homem encostando os seus lábios delicadamente. Ela sorriu.
- Boa noite. – ela disse, calma.
- Boa noite, . – disse, e saiu do prédio, acendendo o cigarro, sendo seguido pelo casal.
- Você está maravilhosa. – sussurrou, no ouvida da loira, que o encarou e sorriu agradecida.
- Obrigada. – encostou seus lábios outra vez. – Não sabia que fumava, .
- Eu não fumava. – ele respondeu, descendo os degraus. – Aprendi a fumar por esses dias... – ele riu e andou até o ponto de táxi.
Os três entraram num táxi, poucos minutos depois, e foram em direção ao Pub do Centro da cidade, conhecido por suas noites loucas e divertidas. Pagaram o serviço do taxista e desceram do carro, encantados pela fachada do prédio grande e negro, as luzes roxas e verdes se misturavam ao redor da placa, que brilhava no topo do lugar, que piscava com os dizeres: Pub Irish. Não esperaram na fila, foram até onde dois seguranças altos e fortes olhavam as identidades, mostrou sua identidade e logo em seguida os três ingressos Vips, que conseguiu com um ‘amigo’ de sua sala, os seguranças os olharam de cima abaixo e deixaram entrar. Lá dentro, era uma loucura. Mulheres com roupas muito justas ou muito curtas andavam de um lado para o outro, casais se beijavam com todo fervor no meio da pista de dança e homens com estilo bad boy seguravam em suas mãos copos com bebidas fortíssimas. Os três amigos atravessaram o ambiente e seguiram em direção ao bar. A música no último volume, alguns jovens bêbados caindo pelos cantos... Tudo aquilo normal para , tudo aquilo extremamente estranho e excitante para e .
A única mulher do grupo pediu ao barman um copo de Cosmopolitan, uma bebida vermelha e suave, muito doce. Mas engana-se quem pensa que não conseguiria ficar bêbado com aquela bebida, dizem que as piores são as doces... Talvez seja o seu gosto tão doce que te faz provar mais de uma vez e nunca enjoar. Os dois homens pediram whisky e os três brindaram à noite. Nada de carinho, nada de emoção, só festa e loucura. Uma noite de aventuras, sem medo, sem responsabilidades. Só três jovens com seus próprios problemas e medos, querendo aproveitar ao máximo a vida.
já estava no seu sexto copo de um drink chamado Manhattan, quando se afastou do seu grupo de amigos, dançou exageradamente até o meio da pista e lá seus olhos pousaram no corpo definido de uma mulher, os cabelos longos e de uma cor bronze esvoaçavam a cada giro que ela dava, as mãos passeando pelo seu corpo coberto por um vestido justo e curto da cor preta, observou os olhos dela se focarem nos seus e com um gesto ele já estava diante dela, as mãos posicionadas na cintura da mulher. Os dois dançavam colados e sincronizados, não havia distância alguma entre eles, e muito menos queriam saber seus nomes, só queriam viver aquele momento. , bom moço e de boa família, não era nada além de um novo tipo de cafajeste ali na frente daquela bela mulher. Ele grudou seus lábios com volúpia e sentiu quando a mulher passou da sua boca para a boca dele uma bala. Ah, claro. Era o que ele precisava, em poucos minutos, o novo casal estava se amassando e se tocando no corredor dos banheiros. Sem culpa ou remorso, a vida é muito curta para todos esses sentimentos. Era só aquela noite. tomava seu décimo copo da bebida vermelha e bebia seu quinto copo de cerveja Heineken. Os dois cantavam juntos e dançavam colados, as mãos passeando pelos seus corpos, a voz rouca no pé do ouvido da mulher, o pensamento longe de tudo. Para ambos, a única coisa que existia era ele e ela, ali. Naquele pub cheio de gente bêbada caindo ao chão, talvez eles não fossem muito diferente.
Os três voltaram a se encontrar quando o sol já estava quase nascendo, e entre risadas e segredos, andavam pelas ruas escuras e desertas de Londres. com os braços ao redor do pescoço do namorado e do amigo, a mão do namorado em sua coxa, fazendo uma carícia nada santa, e o amigo fumava um cigarro e revezava com ela, colocando o cigarro nos lábios da mulher, retirando somente para tocar os seus lábios num beijo quente. Naquela noite, não era do . Ela era do , do e dela mesma. Os três tropeçaram e caíram no chão, entre risos, a mulher beijou com vontade. As mãos correndo pelos braços fortes dele, enquanto as mãos do amigo apertavam sua cintura, como se fosse prendê-la em seu corpo, as línguas sincronizadas brigavam por espaço, aquele beijo tinha gosto de cereja, vodka e nicotina, mas delirava com aquilo tudo. , ao lado dos dois, gargalhava e fumava um cigarro, em alguns momentos passava a mão na coxa da sua namorada e beijava o pescoço dela, sentou no colo de , as pernas ao redor dele, mas passou a beijar , o puxando para ela, o garoto de olhos verdes beijava o seu pescoço e apertava suas coxas, deslizando suas mãos para dentro da saia da mulher, sentindo seus interiores explodirem de tesão. se afastou e jogou a cabeça para trás, enquanto mexia demoradamente seu corpo por cima do homem, ele gemeu baixo, quase contido, e sorriu segurando os cabelos loiros e macios da namorada, e ali, nos seus lábios entreabertos soltou a fumaça que ele prendia em sua boca. A mulher colou seus lábios num selinho apaixonado e se afastou, mordendo o pescoço de , então se colocou de pé, olhando para os dois. A mulher não tinha tempo de se sentir suja ou errada, na verdade, sentia-se viva e maravilhosamente bem, enquanto tivesse aqueles dois homens a olhando como se fosse a mulher mais gostosa do mundo, tudo ficaria bem, por isso ela rodopiou no meio da rua e gritou, a plenos pulmões:
- Viva a nossa vida! – ela gritava, repetidamente, quando viu os dois homens se colocarem de pé, e repetindo sua fala, os dois gritaram e dançaram junto à mulher, rindo e tropeçando.
- Eu amo vocês. – pulou nos dois e sentiu tudo girar, mas ainda pôde sentir os beijos de nos seus lábios, os beijos de no seu pescoço e os sussurros de ambos:
- Eu amo vocês. – na manhã seguinte, se eles lembrassem algo que ocorreu naquela noite, com certeza a culpa iria predominar em seus pensamentos, mas como não lembrariam de qualquer forma, o melhor era curtir e viver como se a vida fosse acabar num piscar de olhos.

“O Universo quer ser notado¹: É uma frase que o pai da Hazel Grace diz para a garota, no livro A Culpa é da Estrelas, do John Green.

Capítulo 15

Roller Coaster

Coloque para carregar Again – Bruno Mars e aperte o play quando aparecer o aviso

A vida é realmente uma montanha russa de emoções e vivências. sentia que estava em seu momento alto, como se o seu carrinho estivesse no topo da montanha russa e o frio na barriga já tomava conta do seu corpo, o que a fazia pensar que, em qualquer momento, esse carrinho poderia entrar em uma descida violenta. balançou a cabeça, negava-se a pensar em qualquer coisa ruim que pudesse acontecer, ela estava bem. Depois de tanto tempo querendo se sentir bem e recuperada, ela sentia-se agora e não queria desperdiçar. Há tempos não pensava mais no acidente que levou embora seus pais e sua alegria, ou nos seus pais adotivos que foram embora por livre e espontânea vontade e levaram junto sua segurança. Também não pensava em , com seus sentimentos confusos e bipolares, ou em , com a sua namorada fútil. pensava muito mais em como sua vida estava, aos poucos e estranhamente, entrando nos trilhos. Estava indo bem na faculdade e tirando boas notas, tinha poucos, mas bons amigos e tinha Arthur. Arthur Lively. Ela nem sabia como aquilo tinha acontecido, mas das últimas semanas até aquele momento, ela se encontrava mais encantada pelo moreno. Não queria nem saber como ele conseguiu essa proeza, só sabia que ele tinha conseguido encantá-la como nenhum outro conseguiu um dia. Estavam juntos e ela estava feliz, não apaixonada, mas feliz. Talvez com mais um tempo poderia se declarar apaixonada pelo garoto. Arthur era delicado e carinhoso, gentil e amigo, e lhe dava espaço.
Não ultrapassava nunca seus limites, ou seja, ainda não haviam chegado aos finalmentes. não sentia confiança ainda para dar esse passo na relação dos dois e ele a respeitava. Arthur no último mês havia se mostrado muito mais incrível e completamente diferente da irmã. se agradava disso. olhou para a cama à sua frente e viu de bruços, dormindo profundamente, a garota por um momento sentiu seu coração se afundar, se apertar. Fazia alguns dias que as duas não trocavam mais do que duas palavras e assim era com , , Lizzie, Brian e até mesmo com Natalie. vestiu uma calça jeans vermelha, uma blusa preta com uma águia e a bandeira dos USA e deixou no lado da sua bolsa uma jaqueta de couro preta, sentou-se na poltrona em frente à janela e enquanto penteava seus cabelos para trás observava o campus. Queria conversar com , saber como estava tudo, sentir sua melhor amiga mais próxima, não queria que continuassem nessa distância estranha. despertou alguns minutos depois, estava no banheiro escovando os dentes, quando a garota entrou no cômodo usando uma boxer feminina azul e uma camiseta enorme para o corpo esguio da mesma, ela falou um ’bom dia baixo e foi direto para o boxer, a respondeu e continuou sua higiene, depois passou seu perfume, saindo do banheiro. Ficou sentada na cama lendo sua agenda e seus compromissos do dia, quando a sua roommate entrou no quarto, as duas trocaram um sorriso simples e a loira começou a mexer no seu guarda roupa à procura de uma roupa.
- . – começou a falar, a loira a olhou de canto de olho e voltou a retirar sua calça de couro preta do guarda roupa. – Será que podemos almoçar juntas hoje?
- O Arthur não vai se importar?! – vestiu a calça e colocou uma blusa de moletom creme por cima de uma camiseta branca.
- O quê? – a encarou levemente chateada, Arthur não se importava, era óbvio que não. – Claro que não.
- Não parece isso, . – a loira disse, dando de ombros. – Faz quantos dias que não ficamos juntas de verdade? Quantos dias você não fala com o ? Você sabia que ele está bebendo e perdendo aula quase todos os dias? Não, você não sabe... E sabe por quê? Porque o Arthur sempre está lá, ao seu redor, impedido que você chegue perto dos seus amigos. – a encarou com as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados em cima do peito, sentia-se muito brava com a morena, só ela não notava que o novo namorado estava controlando tudo na sua vida.
- Isso é loucura, . – ficou de pé e fechou os olhos, buscando calma. – Ele não me impede de fazer nada, esses dias eu só tenho estado ocupada.
- Fique se enganando, . Não me importa. – ela deu de ombros, pegando sua bolsa e caminhando até a porta. – Você diz isso porque não quer encarar a realidade. Encarar que o Arthur está controlando sua vida, como se você fosse uma marionete, você não está se importando nem com o seu melhor amigo. Eu gostava do Arthur, mas... Acho que ele não é o certo para você. – ela disse, antes de sair do quarto, deixando a morena arrasada e imersa em pensamentos.

ficou durante as suas quatro aulas do dia pensando desde a conversa com quando acordaram e sobre como Arthur estava agindo. Ele não a controlava, tinha certeza. Ele nunca pediu para que ela se afastasse dos amigos. Talvez, só estivesse sentindo-se sozinha, essa era a explicação. Era isso, obviamente. A garota de cabelos castanhos saiu da sua sala naquela manhã, segurando livros e folhas que pareciam brotar do chão, não sabia o porquê de ter tantos papéis ali no meio daquilo tudo, e continuou andando em direção à cantina. Quando estava no fim da escada, viu Arthur de costas, conversando com Barbara e . A garota parou por um minuto, pensando se conseguiria dar a volta e ir por outro lado sem ser vista pelos três, mas notou que seria impossível quando o namorado virou o corpo para trás e a olhou, estendendo a mão que logo foi segurada. não queria se aproximar de Barbara e muito menos de . Desde o dia em que se beijaram, não voltaram a se encontrar e não sabia se aquilo era bom ou ruim.
O homem beijou os lábios da mulher delicadamente, passando seu braço ao redor da cintura dela, numa forma protetora e possessiva, observou. Os olhos dela ergueram-se. Primeiramente, observou a mesa dos seus amigos, um pouco mais distante, e quis loucamente correr até ali, então olhou para o casal na sua frente e por um minuto sentiu uma dor no seu peito, uma vontade imensa de segurar a mão do homem à sua frente e sumir. E então ela parou. Aquilo não era um pensamento correto para se ter, e então falou, numa voz clara, mas ainda seca.
- Oi.
- Oi... . – Barbara disse, num tom indiferente, quase cuspindo o nome da mulher, enquanto que somente acenou com a cabeça, deu de ombros, tornando a virar de frente para Arthur.
- Arthur, vamos nos sentar com meus amigos hoje?! – ela perguntou, mas na verdade, queria afirmar que iria almoçar com seus amigos.
- Não. – ele respondeu, amargo, e olhou para a irmã. – Vamos no Friday’s? – aquela era uma pergunta, ou seria um convite, para a irmã dele.
- Vamos! – a loira o respondeu, dando um pulinho no lugar.
- Se você e a... Barbara vão no Friday’s, eu vou até ali almoçar com meus... – ela foi bruscamente interrompida pela voz do namorado.
- Com seus amigos? – ele arqueou a sobrancelha, olhando com escárnio para a mesa dos amigos da garota. – Não mesmo, você vai com a gente para o Friday’s. – e sorriu, puxando o braço da garota, que o olhou assustada. observava aquilo em silêncio, mas por dentro, sentia raiva por não poder ajudá-la.
- Você está louco? Você está me machucando. – ela empurrou o braço dele para longe e se afastou do corpo de Arthur. – Eu não vou para o Friday’s com vocês, não vou, porque eu não quero. Eu vou até aquela mesa, almoçar e conversar com os meus amigos. – ela falou, séria e deu um passo em direção aos amigos, sendo novamente interrompida.
- Não, você não vai, porque eu não quero.
- O quê? – ela falou, com a voz baixa e confusa. – Você não é meu dono, Arthur. Cala a boca, pare de agir como se eu fosse o seu novo bichinho de estimação, porque eu não sou, eu vou e faço o que eu quero, na hora que eu quero e não preciso da sua autorização. Eu perguntei se iríamos até lá, porque gostaria que vocês fossem amigos, mas se você não quer, eu irei dizer: ok. Mas esqueça, se pensa que por causa de você, eu não irei mais almoçar e ser amiga daquelas pessoas ali. Bom almoço. – ela disse tudo tão rápido, sem nem piscar, e sentiu-se aliviada, sorriu levemente para o casal na sua frente, mais por educação do que por vontade, e andou decidida até a mesa dos seus amigos. Seus melhores amigos.
Arthur a encarou, os olhos queimando de ódio, e então deu de ombros, indo até a saída com sua irmã e cunhado. Permaneceram quase o caminho todo em silêncio, mas Arthur estava com ódio, não queria com aqueles losers, queria a mulher só para ele. E a teria. E seria hoje. sentou entre e , que estava sentado ao lado de Lizzie, e então vinha o Brian, Summer, e fechando à roda, ao lado da . A garota sorriu para os amigos, que a encararam estranhamente.
- Oi. – ela disse, baixo, envergonhada.
- Que surpresa, será que estou tendo uma miragem? – falou, rindo, e levou um tapa da amiga antes de sentir a cabeça dela se apoiar no ombro dele.
- Imbecil. – ela disse, sorrindo, fazia tempo que não se sentia tão leve como naquele momento. – Estava com saudade. – ela sussurrou, e ele a apertou contra si.
- Eu também estava. – ele disse, baixinho, e lhe deu um beijo na cabeça. – Como eu estava dizendo...
- Não vamos para um Pub hoje, . – Lizzie falou, rindo, e o namorado a abraçou confirmando. - , o só pensa em nos embebedar. – a morena disse, sorrindo.
- Ei, que calúnia. – o homem de olhos verdes respondeu.
- Ele só quer se divertir. – Summer o defendeu e olhou para seu copo de café, o rejeitando.
- Pare de defendê-lo, Sums. – comentou, rindo, e deu um beijo estralado na bochecha da , que estava levemente emburrada, talvez ainda brava com , mas no fundo feliz pela presença da amiga. Por sua vez, a olhou e segurou sua mão levemente, dando um sorriso tímido, mas que no fundo pedia desculpas pela briga de mais cedo. Elas estavam bem.
- Ela não está me defendendo... – começou a falar e levantou a cabeça rindo.
- ”Ela só sabe se divertir como eu”. o completou, e eles riram cúmplices. – , hoje é quarta-feira, então sinto muito te informar, mas não é melhor marcarem de ir sexta-feira ou sábado? – a garota respondeu, roubando do prato do melhor amigo um brownie, ele a encarou com um bico.
- Eu também acho melhor. – Lizzie deu de ombros, bebendo seu suco avermelhado.
- Tudo bem. – ele deu de ombros. – E você vai conosco, senhorita. – ele disse, e passou o dedo indicador no nariz de , que gargalhou.
- Que clima é esse? – Brian disse, gargalhando. – Viramos velas...
- Cale-se. – o repreendeu, e logo depois deu uma risada alta e feliz. – O é meu amante, mas ninguém podia saber.
- Acho que descobriram, amor. – ele disse, a puxando para seus braços, e todos na mesa riram, na verdade, seria bom tê-lo assim sempre, com seus braços ao redor dela. Diferente do que pensavam, o queria sempre por perto, mas não por conta da tensão sexual, mas porque era seu porto seguro, sempre seria. – Até que eu aceitaria ser seu amante. – ele sussurrou, no ouvido dela, e depositou um beijo na bochecha dela, fazendo-a corar. Os dois sorriram.

Depois do lanche da manhã, na companhia dos seus novos amigos, Summer foi para seu dormitório. Não teria mais aulas o resto do dia, então iria tomar um banho relaxante e dormir, antes de ter que se enfiar entre livros e cadernos amontoados em sua cama. Abriu a porta do quarto e Natalie estava sentada na cama com os pés no colo de um garoto com os cabelos curtos e loiros, os dois riam de algo enquanto que ela mexia em seu tablet. Os dois pareciam perto demais, mas Summer não sabia que Nati já estava ficando com outro garoto. Garota rápida, Sums pensou. Fechou a porta, e a loira a olhou sorridente.
- Oi, Summer. – ela disse, alto e feliz. – Esse é o Erik. Erik, essa é a Summer, a minha colega de quarto e confidente. – ela disse, rindo e ele estendeu a mão.
- Olá. – sua voz era rouca e calma.
- Oi, Erik. – Summer apertou delicadamente a mão do garoto e sorriu, indo até a pequena cozinha.
- Você já tem que ir? – Natalie falava, com uma voz fina e nojenta. Summer odiava os ataques ridículos da sua colega de quarto, o que custava ser normal? – Tudo bem. Então, nós temos que combinar onde iremos nos hospedar.
- Sim, mas o mais importante eu já consegui. – o garoto disse, e Summer olhou o casal recém formado parado em frente a porta. – Te levar comigo para a Espanha. – ele segurou a nuca da garota e deu-lhe um beijo, se afastaram e logo a porta estava sendo fechada.
- Eu vou para Espanha! – a loira gritou e se jogou na cama rindo. – Summer, eu vou para a Espanha com esse gato do Erik.
- Você tem certeza? – Sums encostou o corpo no balcão e olhou para a roommate jogada na cama e olhando para o seu tablet. – Vocês se conheceram quando?
- No sábado. – ela deu de ombros. – Mas, tudo bem, nós iremos, eu sei que nem o conheço muito, mas qual o problema? É a Espanha, baby. – ela gargalhou novamente e Summer deu de ombros, a garota era louca de ir para outro país com um homem que acabou de conhecer, mas não seria a ruiva que acabaria com seus planos.
- Só tome cuidado, querida. – ela disse, sorrindo levemente, e Nati a olhou assentindo.

Já estava no entardecer, quando encontrou com no campus, a garota andava apressada com livros e mais livros em seus braços e o namorado riu da cena. Sua garota era tão desastrada que qualquer ventania mais forte poderia fazer com que tudo caísse aos seus pés. Ele correu, alcançando , que sorriu agradecida quando ele pegou em seus braços alguns dos livros. Andaram em silêncio até os dormitórios e o olhava em alguns momentos, buscando descobrir porque ele mantinha aquele sorriso envergonhado no rosto. Subiram os degraus e logo estavam em frente à porta do quarto dela, os dois entraram juntos e viram que a luz do banheiro estava acesa, já tinha chegado. deixou seus livros na cama e abraçou carinhosamente. Ele a apertou contra si e deu um beijo na bochecha da garota. Ele se afastou e sorriu.
- Eu queria te fazer um convite. – ele disse, calmo, e ela assentiu. – Você aceita jantar comigo, hoje?
- Claro. – ela deu um sorriso tão lindo, que paralisou, observando os traços delicados de sua namorada. – Algum motivo em especial?
- Não... Quer dizer... - ele parou, dando um sorrisinho. – Sim, todo momento com você é especial.
- Ok. – ela assentiu, e olhou para o relógio em seu pulso. – Então, nós nos encontramos no hall às 19h30? – ela perguntou, e ele assentiu dando um selinho nela.
A porta do banheiro se abriu, revelando enrolada em sua toalha rosa, a garota corou e deu um passo para dentro, murmurando um “oi” baixo e envergonhado. a respondeu e deu uma gargalhada antes de sair do quarto das garotas. abriu a porta do banheiro rindo e já tirando sua camiseta, balançou a cabeça negativamente e entrou no quarto. Andou até o seu guarda-roupa, pegou seu pijama. Simples e confortável, um short curto listrado e uma camisetinha rosa. Só conseguia pensar em tomar um chá quente e deitar em sua cama e dormir. Sentia-se tão cansada. Emocionalmente e fisicamente. Uma combinação nada prazerosa. saiu do banho dez minutos depois e andava de um lado para o outro, prendia e soltava os cabelos, jogava roupas para todos os lados, colocava um brinco grande e trocava por um pequeno. já estava ficando tonta de tanto que a garota andava. sentou em sua cama e fechou os olhos, respirando fundo. Estava nervosa, ansiosa e... Envergonhada.
- O que foi, bebezinha? – falou, com uma voz fina e infantil, e riu baixinho.
- Eu não sei o que vestir. – ela sussurrou e olhou para a morena. – , eu tenho um jantar com o ... E não sei o que vestir.
- Gata, o que você colocar vai ficar lindo. – a garota falou, confiante, e negou.
- É hoje, . – ela disse, calmamente, arrastando sua voz, como se estivesse revelando o maior segredo da nação, talvez o maior dela.
- Hoje? O quê? – a amiga questionou, confusa. E arqueou a sobrancelha, não precisava de palavras para que compreendesse o que aconteceria naquela noite, então sorriu maliciosamente. – Você tem certeza? – sentou ao lado da amiga.
- Tenho. Eu... – olhou para suas mãos entrelaçadas em seu colo e sorriu. – Eu o amo, . E quero que aconteça. – ela a revelou, e se colocou de pé.
A morena abriu o guarda-roupa da amiga e passou seus olhos por cada peça ali jogada, não queria sua amiga muito vulgar, mas nem puritana ao extremo. Queria que soubesse que ela estava pronta, mas que ele precisava tomar a decisão final. Levar aquilo em diante. E então olhou mais uma vez e encontrou a roupa perfeita. Retirou de lá e jogou em cima da loira, que a encarou. abanou a mão, fazendo com que a menina colocasse a roupa escolhida. Era um vestido mullet que vinha acima dos joelhos e a parte de trás ficava um pouco mais longa, batendo na panturrilha da garota, a cor era verde musgo e em algumas partes tinha algumas transparências, na cintura um cinto fininho dourado marcava aquela região. Nos pés, um salto alto nude. sentou e fez uma trança lateral embutida, os brincos eram pérolas brancas e delicadas, no rosto uma sombra marrom e nos lábios um batom rosa claro. Estava linda. se olhou no espelho e quase chorou. Quase, se não tivesse dado um grito de repreensão.
- Você está linda. – a amiga falou, a analisando.
- Obrigada. – ela a abraçou e as duas foram até a porta. – Boa noite, amiga.
- Boa noite, gatinha. E boa sorte. – ela deu uma piscadela, vendo a garota se afastar até a escada, sorriu. Antes que fechasse a porta, Arthur apareceu no corredor e andou devagar até estar na frente dela, os dois deram um selinho e o homem acariciou o rosto da mulher, que fechou os olhos carinhosamente. – Boa noite.

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Hands over my head thinking what else could go wrong?
(Mãos sobre minha cabeça pensando o que mais poderia dar errado?)
Would've stayed in bed, how can a day be so long?
(Não deveria ter levantado da cama, como um dia pode ser tão longo?)
Never believed that things happen for a reason
(Nunca acreditei que as coisas acontecessem por uma razão)
But how this turned out, you moved all my doubts, I believe
(Mas como isso aconteceu, você moveu todas as minhas dúvidas, acredito)
That for you I'll do it all over again
(Que por você eu farei tudo de novo)

Quando o táxi parou em frente à casa dos ’s, pensou que estava desembarcando na casa da Barbie. Não porque era toda rosa, mas porque era toda aquela construção que lembra uma casa de boneca, toda delicada. Desceram do carro e foram andando pelo jardim muito bem cuidado de mãos dadas, a garota estava tremendo por dentro, mas manteve nos lábios rosados aquele sorriso bonito. O homem abriu a porta, revelando o hall de entrada. Segundo o mesmo, a casa estava vazia, já que seus pais estavam em Roma, numa segunda lua de mel. Aquele hall tinha uma pequena mesa com um arranjo de flores e acima um lugar para colocar as chaves e os casacos pesados. Andaram alguns passos e de frente a eles tinha um corredor e ao lado uma escada, no lado direito, a porta de entrada para a sala de estar. No lado esquerdo, a sala de jantar. Em frente, tinha o banheiro social e a cozinha, que também era no lado direito. levou até a sala de jantar, a mesa tinha dois pratos e algumas velas colocados no meio, a garota se sentou em seu lugar e esperou que o namorado trouxe o jantar.
Comeram entre conversas animadas, sorrisos e olhares distribuídos durante todo tempo, alguns beijos trocados. Já haviam terminado de comer, quando se serviram de mais um copo de vinho e ponderou todas as consequências, no fim, se levantou, caminhou até a estante no canto da sala e ligou o rádio, deixando que uma melodia calma e melódica tocasse e deixasse o ambiente mais seguro e apaixonante, caminhou delicadamente, buscando toda confiança que deveria ter e sentou-se no colo do namorado. Deu um selinho calmo e apertado nele, que segurou sua cintura com posse e acariciou a bochecha dela. Na verdade, não esperava que ela fizesse aquilo, não precisavam acelerar nada para terem certeza do que sentiam. Mas queria aquilo.

All I went through, led me to you
(Tudo pelo que passei, me levou até você)
So I'd do it all over again
(Então eu faria tudo de novo)

A mulher se levantou e abraçou o namorado, deitou a cabeça no peito dele, sentindo as mãos do homem na sua cintura e começaram a dançar devagar, apreciando o momento. Não precisavam de palavras, os toques e os passos diziam tudo. segurou o rosto dele e deu um beijo nele, iniciou numa calmaria, mas quando notou já estavam em brasas, empurrou o corpo da loira até encostar-se à parede, ao lado da porta, e a apertou contra si, beijando com volúpia os lábios carnudos da mulher, o abraçou com mais força e fechou os olhos mais apertados. Afastaram-se, o puxou pela mão, começaram a subir os degraus e quando viraram o corredor, a garota sorriu apaixonada mais ainda pelo homem.
Toda a extensão do corredor tinha velas pequenas e algumas pétalas de flores jogadas ali, passou pela sua frente e de mãos dadas andaram até o fim do corredor e entraram na última porta à direita. O quarto dele. Era todo azul, as luzes estavam desligadas e assim permaneceu, a única claridade provinha das velas em cima da mesa e criado mudo e do abajur, as cortinas eram da cor creme e tinha mais pétalas de rosas vermelhas no chão e na cama. parou no centro do quarto e fechou a porta, tirou os sapatos e andou até parar de frente para o namorado, tocou o rosto dele delicadamente, como uma pena, delineou os lábios dele e aproximou o rosto da curva do pescoço dele, sentindo o seu perfume amadeirado, sorriu quando ele a segurou fortemente pela cintura. Dançavam sem música, os passos sincronizados, como se tivesse ensaio à vida inteira para aquilo. Ela soltou os cabelos e o beijou apaixonada, o amor deles transbordando. Separaram-se e abriu os botões da camisa dele, descendo com as mãos femininas desde os ombros largos do homem, até tocarem seus pés, ele sorriu maravilhado e a beijou mais profundamente, enquanto suas mãos puxavam o vestido dela para cima, afastaram suas bocas para tirarem a peça de roupa da mulher e então a virou e a deitou em sua cama.

Who ever thought a day gone so wrong, would turn out so lovely?
(Quem poderia pensar que um dia que tudo deu tão errado, poderia se tornar tão adorável?)
I'm so glad I found you
(Estou tão feliz que encontrei você)
Even though the day went so wrong, I wouldnt change a thing
(Mesmo achando que o dia deu tão errado, eu não mudaria nada)
Do it all over again
(Farei tudo de novo)
All I went through, led me to you
(Tudo pelo que passei, me levou até você)
I'd do it all over for you, for you
(Faria tudo de novo por você, por você)

Beijavam-se, tocavam-se, sentiam-se. arranhou a barriga do namorado até alcançar o zíper da calça dele e abriu, empurrando com as pernas aquela peça que a impediam de senti-lo melhor. Precisava dele, o queria mais do que o ar. tinha se tornado o seu melhor amigo, o seu porto seguro. Ele delineou o corpo dela com as mãos, os olhos a analisando desde o rosto delicado até os pés. beijou o maxilar dela até alcançar o colo e suas mãos buscaram o feiche do sutiã da mulher, o abrindo. Seus beijos não eram como se ela fosse mais uma em sua cama, era como se ela fosse uma pedra preciosa. Como se seus toques estivessem a lapidando. Tornando-a um belíssimo diamante. As últimas peças foram jogadas de qualquer maneira ao chão e se posicionou em cima dela, beijando e mordendo seus lábios, tocou os seios da mulher e observou fechar os olhos e arquear as costas, segurando um gemido, o namorado se inclinou e beijou, sugou, lambeu, mordeu os seios dela e então a loira gemeu baixo, contida, quase envergonhada. sabia que era a primeira vez dela e queria que aquela noite fosse perfeita, memorável para sua pequena. Seu membro roçou na intimidade molhada dela e abriu os olhos, encontrando o olhar calmo dele, os olhos azuis transbordando amor e cuidado.
- Amor, eu quero que seja perfeito para você. – ele disse, ofegante.
- Eu te amo, . – ela falou, de olhos fechados num sussurro. – E isso basta para que seja perfeito.
- Eu não quero te machucar, . Me avisa se te incomodar, se te machucar. – ele pediu, atenciosamente, e sorriu para a mulher. – Eu te amo, amor. Eu te amo muito. – ele deu um selinho nos lábios entreabertos da mulher.
Levou uma mão até a intimidade da mulher e fechou os olhos, entreabrindo a boca para ofegar quando sentiu sua garota tão pronta, tão molhada para ele, e então roçou suas pélvis freneticamente, até que a penetrou devagar, aos poucos, e ficou parado, esperando que parasse de franzir a testa e estivesse acostumando-se com ele dentro dela. Ela abriu os olhos e levantou a cabeça, alcançando os lábios do namorado com voracidade, quando suas línguas se tocaram, os seus gostos se misturaram, passou a se movimentar com mais precisão e rapidez dentro dela, a mulher já rebolava e se movimentava para senti-lo melhor, tocava o pescoço, a nuca, puxava os cabelos curtos do namorado, arranhava as costas largas dele, apertava a bunda dele descaradamente e gemia. Gemia o nome dele alto e em bom som, o fazendo delirar. Era o nome dele que saía dos lábios avermelhados dela, era ele quem estava lhe dando prazer e amor. Na dosagem certa. Ela sentiu espasmos em seu corpo, uma tremedeira diferente, uma quentura do pé da sua barriga até sua intimidade e então sentiu o tão famoso orgasmo lhe atingir, e se entregou. Respirou fundo, sentindo deixar seu corpo cair por cima do dela, as pernas entrelaçadas igual suas mãos e as bocas se encontraram em mais um beijo fervoroso.

All I went through, led me to you (all I went through, it led me to you)
(Tudo pelo que passei, me levou até você – tudo pelo que passei, me levou até você)
So I'd do it all over again (over again)
(Então eu faria tudo de novo (de novo))

- Eu te amo. – ela falou, entre o beijo, e acariciou sua cintura.
- Nunca será mais do que eu te amo. – ele sussurrou, contra os lábios dela, e a beijou novamente. Mais uma das milhões de vezes naquela noite, mais um dos beijos que tocariam durante aquela noite apaixonante e de companheirismo.

Who ever thought a day gone so wrong, could turn out so lovely, ohh?
(Quem poderia pensar que um dia que tudo deu tão errado, poderia se tornar tão adorável, ohh?)

Summer estava deitada em sua cama, escutando música bem alta em seus fones de ouvido. Gostava de escutar música alta para esquecer tudo que a assolava. Era como se a música entrasse por seus ouvidos e impedisse de pensar em qualquer outra coisa. Estava completamente distraída, quando o seu celular vibrou sobre sua barriga, ela deu uma risada de susto e abriu os olhos, vendo quem lhe mandara um sms. Estava escrito ali o nome de sua amiga, Amber. A ruiva ficou surpresa e logo abriu para saber o que a amiga queria.

“Oi, ruivinha, será que podemos nos ver hoje? Agora? xx A.”
“Podemos. Onde? xx S.”
“Na lanchonete ‘Prings’, ok? Daqui vinte minutos, não se atrase.”

Summer desligou o celular e abriu o guarda-roupa, retirando de lá um moletom azul-bebê. Guardou o seu celular e uma pequena bolsa com dinheiro no bolso e logo estava descendo as escadas dos dormitórios. A rua estava movimentada, talvez por ser justamente a hora que todos vão para suas casas depois de um dia cansativo no trabalho. Summer sorriu e decidiu que iria andando até a lanchonete.
Cada passo que dava era um novo pensamento que surgia em sua mente. Olhava ao redor e quando seus olhos se fixavam em alguma garota da sua idade sorrindo, em uma criança brincando com seus pais ou num casal de namorados, era como se o Universo jogasse na sua cara que todos são felizes. Menos ela. Que todos têm uma família e um motivo para sorrir. Menos ela. Isso fazia com que Summer recuasse, abraçasse seu corpo defensivamente e quisesse voltar a se trancar no banheiro e se cortar até sua vida se esvair para sempre. A ruiva de olhos claros nunca, em todo seu tempo de vida, pensou em se matar. Pensou em se cortar tanto até perder os sentidos. Nunca pensou que se sentiria... Gorda, imunda, repulsiva. Nunca pensou que chegaria nesse estado de espírito, mas sempre que via alguém com uma vida melhor do que ela... Ah, Summer enlouquecia e só pensava em todas as formas que poderia jogar sua vida para o alto. Suspirou aliviada quando viu a fachada vermelho e amarelo da lanchonete Prings, andou mais rápido e passou pela porta, fazendo com que uma campainha em cima dela soasse. Viu sentada na mesa perto da parede Amber, a garota tinha os cabelos presos num coque e o semblante sério.
Summer sentiu-se ameaçada, com medo... Andou devagar, quase dando às costas e indo embora, mas andou até estar de frente para sua amiga de tanto tempo.
- Summer. – ela suspirou e levantou-se, abraçando a amiga. A garota sentiu-se aquecida, sentiu-se amada. – Como você está?
- Estou bem, gatinha. – ela sorriu sentando-se na frente da amiga. – E você?
- Também. – ela olhou para as mãos. – Eu pedi um cappuccino para você. – ela indicou o copo que já estava na frente da ruiva, que sorriu assentindo.
- Obrigada, mas... Vamos logo ao assunto. – ela limpou o canto da boca com os dedos. – O que aconteceu? Qual o motivo para querer me ver hoje?
- Sums, ér... Eu não sei como te falar isso... Mas eu estive pensando. – a garota começou a falar, envergonhada. – Eu sei que você não parou e nem vai conseguir parar sozinha. Eu quero te ajudar, Sums, eu quero que você volte a ser a garota alegre e boa astral como sempre foi. – as duas suspiraram.
- Parar com o que, Amber?
- Você sabe com o que, Summer. Eu sei que você não parou de... Se cortar. – ela falou, tão baixo que Summer quase não ouviu. Quase. A ruiva fechou os olhos.
- Isso é mentira. Eu parei, sim. – ela disse, firmemente, abrindo os olhos.
- Então, deixe-me ver o seu braço. – ela disse, estendendo o braço para a amiga, que recuou.
- Não! – ela falou, sem nem pensar ou respirar. – Não, Amber. Por que isso? Você quer me ajudar? Como?
- Eu conheço uma Clínica... – ela começou e Summer arregalou os olhos descrente.
- O quê? – sua voz saiu esganiçada.
- Eles podem te ajudar, muitos jovens vão para lá e se recuperam...
- Para. Para de falar, cala a boca. – ela se levantou, chamando atenção de alguns que estavam ali perto. – Você enlouqueceu, só pode. Amber, eu sou normal. Eu não sou louca e não preciso me internar. Não preciso da ajuda de ninguém. E quer saber? Você quer me ajudar? Então, fique longe de mim. – ela disse, antes de sair correndo daquela lanchonete, as lágrimas correndo por sua face.
Summer sentiu-se perdida. Não estava louca e não precisava ficar numa clínica para parar. Ela sabia se controlar. Não iria... Não iria se cortar mais. Ela tinha controle sobre si mesma.
Era o que ela pensava naquele momento, mas no momento em que entrou em seu dormitório, tudo que fez foi vomitar tudo o que comera o dia todo e, mais uma vez, dormiu no chão gelado do banheiro com novos cortes em sua pele. Ela não tinha controle sobre si mesma. Ela era fraca e precisava de ajuda, só não conseguia aceitar isso.

gostava de quando ficava sozinha, gostava do silêncio e da calmaria. Quando tinha aquele momento só dela, podia pensar no passado e no futuro, sem medo e restrições. Sem julgamentos. No momento em que deitava sua cabeça no travesseiro, ela não era mais , a órfã, a garota sem pais... Não, ela era só mais uma garota no meio de bilhões de pessoas. Mas naquele momento, ela estava deitada ao lado de Arthur, que depois de entrar no quarto dela e falar que o desentendimento de mais cedo era sem importância, passou a conversar com ela sobre alguma futilidade sem importância para a garota, ela ria mais por educação do que por vontade e ele a abraçava e lhe beijava de tempo em tempo, como se estivesse marcando um território. Ela olhava para o teto pintado de branco e pensava que gostaria muito de fazer algumas mudanças naquele quarto e na decoração dele. Poderia preencher o teto todo com estrelinhas e talvez destacar sua parede, colocar ao redor da sua cama quadros e painéis para recados e fotos. Colocar luzes, sim, ela colocaria luzes ali. Arthur lhe beijou o pescoço e a fez sorrir.
Ele a olhou delicadamente e aos poucos, quase que sem perceber, ele já estava com metade do corpo por cima do corpo esguio e pequeno da garota. Beijava o pescoço da garota com pressa, uma mão na coxa dela pressionando com força, enquanto a outra mão puxava o tecido da blusa dela para cima, abriu os olhos, incomodada. Muito incomodada. Não queria que ele forçasse a barra, ela não queria transar com ele e não o faria. Ele se afastou dela e tirou sua própria camisa, se perdeu ao olhar o abdômen definido do homem e por um minuto se esqueceu de que estava tentando parar aquilo, analisou cada pedaço de pele exposta do namorado, mas despertou novamente quando ele puxou com força, agilidade e muita pressa à blusa dela pra cima. Ela fez um barulho estranho com a boca e o afastou com as duas mãos, balançando a cabeça negativamente. Saiu debaixo dele e encostou seu corpo no guarda-roupa, respirando fundo, Arthur a olhou abismado, furioso. Ele queria possuir naquele momento e não se importava nem um pouco se aquilo não era o que a mulher queria. Ele sentou-se na cama, bagunçou os cabelos e lançou um olhar bravo em direção à garota, que piscou os olhos atônita. Aquele olhar, aquela expressão e a forma dele se comportar... Não era o que ela esperava.
- Desculpa, Arthur. – ela falou, baixo, num fio de voz. – Mas eu não quero, não agora.
- Você, por acaso, é virgem? – ele se levantou, colocando as mãos na cintura dela, respirando fundo.
- Não. – ela respondeu, com um sorriso tímido.
- Então... – ele mordeu o pescoço dela, pressionando a cintura dela. – Qual o problema? Eu sou seu namorado e quero te jogar nessa cama e ficar até o amanhecer grudado em você. – ele dizia, com posse, e não sentiu-se feliz com a revelação, mas levemente enjoada.
- Não, eu não quero. – ele parecia não ouvir, porque cada vez mais tocava ela em mais lugares, descia as mãos para a parte interna das coxas dela, mordia o pescoço, lambia sua clavícula. – Arthur, sai. Sai, me solta, eu não quero... Arthur! – ela o empurrou e ele caiu sentado na cama, furioso. – Eu. Não. Quero. Caramba, me entende, me respeita. Eu não quero que isso aconteça agora, não é questão de ser virgem ou não. A questão é que acabamos de começar a nos envolver de verdade, não quero apressar nada. Por favor, vai embora... Eu quero... Quero dormir. – ela falou, respirando fundo, tentando manter a voz firme e segura. Ele respirou e inspirou duas vezes, antes de se colocar de pé e vestir sua camiseta, deu dois passos, deu um beijo na testa da garota e saiu do quarto sem olhar para trás, sem um pedido de desculpas. Estava frustrado e irritado, tinha dito para si mesmo que teria a mulher naquela noite e a idiota tinha fugido. Estava furioso ao ultrapassar a porta.

andou apressada até a porta e a trancou. Sabia que ficaria o resto da noite fora, se tudo corresse como o seu pensamento, mas mesmo que não ficasse ela teria a chave. só queria deitar em sua cama e ficar parada. Não pensar, não sentir. Arthur não fora nem um pingo respeitoso com ela, a tratou como um objeto. E nem sequer pediu desculpas, ele foi errado e sabia, mas não se importou com o que ela queria, só se importou com a sua necessidade carnal. andou até a pequena cozinha e colocou no micro-ondas uma caneca com água, deixou que ficasse quente e colocou um sachê de chá de camomila. Quando viu que estava pronto, retirou o sachê e andou até sentar em sua poltrona ao lado da janela.
O que ela tinha feito com sua vida? Em qual momento tinha se perdido daquela maneira? Arthur era fofo, uma ótima companhia... Mas, será que tinha razão? Será que ele a estava manipulando e controlando? Não queria perder seus amigos, que já não são muitos, não queria perder . Seu melhor amigo que precisava tanto de sua atenção, ela tinha uma sintonia surreal com o homem, podia se ver de longe, como naquela tarde enquanto almoçavam e ela completava as frases dele ou se moviam em sincronia. Sempre fora assim, desde que criaram aquele laço de amizade no Orfanato, e não queria jamais perder isso. A garota fechou os olhos apertados, as pernas em cima do estofado da poltrona cobertas por uma manta de lã creme, e então respirou fundo, sentindo o aroma adocicado do seu chá.

Abriu os olhos, focalizando o campus deserto e escuro, em alguns locais com os postes de luz clareando um pouco do espaço e então viu os olhos castanhos daquele que sempre lhe perseguia em seus sonhos. Levantou-se e encostou a mão no vidro da janela, procurando ter certeza de que era real e não uma visão, coisa da sua imaginação. O homem andou até estar embaixo de um poste de luz, sentou-se num banco de pedra e ficou ereto, jogou a cabeça para trás e o peito dele movia-se a cada momento em que ele puxava o ar com mais força. quis descer os degraus correndo e se jogar contra ele, sentir os lábios dele nos seus só mais uma vez, sentir as mãos dele no seu corpo, lhe aquecendo. Mordeu os lábios com força, sentindo o gosto metálico do seu sangue, fechou e abriu os olhos e espalmou as mãos na janela, observando-o escondida e em silêncio. Sabia que não poderia beijá-lo, mas poderia olhá-lo sem restrições, ali escondida em seu quarto, como um fantasma. Aquilo ela poderia fazer e ninguém poderia impedi-la ou julgá-la.

não conseguia mais suportar, ele queria . Mesmo tentando manter o seu namoro com Babi, como se fosse o melhor relacionamento e como se a amasse com todas as forças, sabia que era uma grande mentira. E ele não aguentava mais. Ficava enlouquecido quando via a garota de cabelos castanhos andando de um lado para o outro com aquele rosto de boneca e corpo de mulher, quando aparecia de mãos dadas com Arthur, seu cunhado. Ou como no começo daquele mesmo dia, vê-la tocar os lábios de Arthur e sorrir sem graça para ele, era insuportável estar tão perto, mas tão longe da morena. Aquilo estava tão errado, era para ele segurar as suas mãos, era para ele beijar seus lábios sem restrições. Era para ela ser dele. E de mais ninguém. não compreendida explicar em qual momento esse sentimento insano surgiu, mas sabia que era a pessoa certa. Se isso de pessoa certa realmente existir. Ele queria poder conversar com ela, tocá-la. Mas era impossível. Arthur sempre estava lá e Barbara estava grudada nele como se fossem um imã. Era horrível ver e não poder tocar.
Respirou fundo, de olhos fechados sentiu o vento bagunçar ainda mais seus cabelos. Talvez sentisse esse sentimento por lembrar-se dela pequena, sua vizinha, uma criança tão meiga e delicada, com suas bochechas coradas e as mãos sempre escondida por luvas quentes. Abriu os olhos, indignado e bravo consigo mesmo, e passou as mãos no rosto, se colocou de pé, olhando ao seu redor, e aos poucos foi levando seu olhar até o prédio à sua frente, observou cada janela, até que se focou em uma janela. A luz estava acesa e pensou ver alguém quando a cortina se movimentou, mas poderia ter sido consequência do vento. Deu de ombros e começou a andar em direção ao seu dormitório, estava cansado. Precisava da sua cama.
se jogou contra a parede, ao lado da janela, a cortina se movimentou e ela prendeu a respiração. Será que ele viu que ela o observava? Soltou a respiração e balançou a cabeça negativamente. Era claro que não, fora tudo tão rápido, que provavelmente ele tenha pensado que a movimentação foi do vento que fazia lá fora, ela tinha certeza. Resolveu deitar antes que cometesse algo errado e sem volta.

Capítulo 16

Desentendimento

se sentou em sua cama assustada, as mãos no peito e a respiração ofegante. Acordou no momento em que a porta do seu quarto bateu com força e três jovens entraram falando alto. Ela estava surpresa e irritada. Quase morrera do coração. , e sentaram-se na cama da loira e ficaram olhando para a morena com uma expressão nada boa. prendeu os cabelos num coque e coçou os olhos. Estava exausta. A noite tinha sido péssima. Além de ter sido agarrada por Arthur e brigado com ele, ainda tinha visto o garoto dos olhos castanhos claros. Aquilo era uma droga, respirou fundo e se colocou de pé. Fez um sinal para que esperassem. Entrou dentro do banheiro e fez sua higiene matinal. Respirou fundo, antes de voltar para o quarto, porque algo bem lá no fundo dizia que viria mais problemas, mais brigas, mais gritaria. Ela saiu e sentou em sua cama.
- Muito obrigada por me acordarem. – ela sorriu irônica e os três reviraram os olhos.
- Temos que conversar. – disse, sério, e ela cruzou os braços.
- Já notei. Vamos, podem começar. – ela disse, abanando o ar com as mãos.
- Você precisa parar de se afastar de nós, os seus melhores amigos, por culpa do idiota do Arthur. – disse, de uma só vez, sem nem pensar. e a analisaram, fechou os olhos.
- De novo essa conversa, ? – ela bufou. – Olha, eu sei que eu tenho andado meio longe...
- Meio longe? – disse, normalmente. – , desculpa, mas você está completamente longe de nós. E também da Lizzie, Brian e da Summer.
- Desculpa. – ela suspirou e se levantou. – Eu amo vocês. De verdade. – ela sentou no colo do , o corpo virado para e . – O Arthur tem sido chato mesmo. Mas ele nunca, nunca tentou me afastar de vocês. Eu juro. Não foi algo planejado, só foi algo que foi acontecendo... Você e o estavam sempre grudados, a Summer sumiu aqueles dias, a Lizzie e o Brian sempre juntos também, e você... – ela falava gesticulando e então olhos nos olhos do amigo e sorriu. – Você estava com aquele problema todo com a Natalie. Ainda está, mas você estava longe de tudo. E eu me sinto horrível por ter deixado essa situação acontecer. – ela choramingou.
- Ei, ei... Eu amo você, , e sei que você não fez por mal. – segurou o rosto dela com as duas mãos. – Nós entendemos, só não queremos que seu namoro seja uma má influência para você... Que seu namoro afaste você de nós. – ele acariciou a bochecha dela, tão delicado como sempre, ela fechou os olhos.
- Nunca. – sorriu levemente. – Vocês são os meus melhores amigos. – ela se colocou de pé abrindo os braços. – Eu prometo que nada nesse mundo jamais vai conseguir me afastar, me fazer esquecê-los. Nunca. – os três se levantaram, a abraçando.
E ali, naquele abraço tão fraterno, tão amigável, os corações dos três se sentiram em paz. Estavam em casa, estavam bem.

Summer acordou antes do sol nascer, estava por mais uma noite deitada no chão do banheiro. Aquilo tinha se tornado a sua rotina. A sua dolorosa rotina. Seus braços estavam com cortes fundos, o sangue coagulado na sua pele, os cabelos vermelhos desgrenhados e dor em toda as suas costas. Sentou-se e olhou para si própria. O que tinha se tornado? Afinal, valia tanto à pena acabar com toda sua vida, autoestima e determinação por culpa dos seus pais e do Josh? Não. Aquilo estava acabando com ela e Sums não queria se ver no fundo do poço, sem esperanças. Colocou-se de pé e tirando as peças de roupas, entrou no Box do banheiro para tomar um banho.
Enquanto se ensaboava, pensava na conversa com Amber, no dia anterior. Talvez, a garota de cabelos rosa tivesse razão. Talvez, ainda exista esperança para ela e será melhor se tratar agora. Lavou os cabelos e voltou para o quarto, enrolada em sua toalha. Olhou para a sua cama totalmente arrumada, com os seus livros empilhados na beirada, e seguiu seu olhar até a cama da Natalie. A garota estava dormindo tranquilamente e pelo jeito nem sentira falta da sua colega de quarto. Summer balançou a cabeça e retirou do armário sua roupa, vestiu-se rapidamente, e depois de pentear os cabelos e prendê-los num rabo de cavalo, sentou-se na poltrona do canto do quarto e mandou uma mensagem para Amber.

“Está acordada? xx S.”

Foi entre um suspirar e um pensamento bobo, o celular de Summer já começava a vibrar em seu colo. A foto de uma sorridente Amber brilhava no visor. A ruiva atendeu o celular, a voz baixa.
- Oi. – ela disse, e a amiga suspirou.
- Aconteceu algo? – a voz de Amber era preocupada.
- Não. – Sums disse, baixo, mas riu desgostosa. – Quer dizer, sim... Amber, se eu aceitar sua proposta... Será melhor, de verdade?
- Claro, Sums. Será o melhor para você. O lugar é ótimo, amiga, é como um hotel fazenda.
- Eu quero. – ela disse, as lágrimas começando a rolar pelo seu rosto. – Eu preciso de ajuda, Amber. Eu não quero mais fazer isso comigo mesma. – ela soluçou, escondendo o rosto em suas mãos.
- Calma, amiga. Eu vou te ajudar.
- Podemos ir hoje? Agora? – Summer ergueu o olhar até a sua colega de quarto e respirou fundo.
- É isso que você quer? – Amber esperou e ouviu uma exclamação afirmativa de Summer. – Então arrume suas coisas e eu te encontro daqui uma hora na entrada dos dormitórios, ok?
- Ok. – ela disse, antes de desligar o celular e deixar as lágrimas banharem seu rosto.
Summer respirou fundo e caminhou até seu guarda roupa, retirou de lá uma mochila média e começou a guardar bem dobradas algumas peças de roupa. Não estava indo embora para sempre, iria voltar. Então levaria só o que fosse necessário. Colocou lá dentro os seus livros e notebook, guardou suas coisas pessoais dentro da nécessaire e arrancou uma folha do caderno para escrever um pequeno bilhete para Nati. Vestiu um moletom com touca e respirou fundo, escrevendo o bilhete, antes de sair colou ao lado da cama de sua colega. Estava com tanto medo, mas era necessário. Queria abraçar alguém e ouvir palavras de carinho. Queria que Josh estivesse ali, mas era impossível. Por fim, pegou suas poucas coisas e saiu do quarto pronta para enfrentar o que quer que fosse. Pronta para se recuperar e voltar inteira para a Universidade.
Desceu os degraus silenciosamente, ainda era bem cedo, mas não queria encontrar com ninguém conhecido. Quando estava abrindo a porta principal dos dormitórios, enxergou Amber sentada no último degrau, estava encolhida em seu casaco preto e os cabelos loiros com rosa presos num coque bem arrumado, mas ficou surpresa e assustada quando notou com quem sua amiga conversava. Os olhos azuis dele se fixaram aos seus e foi como se tudo estivesse certo. Ele subiu os degraus na mesma velocidade em que ela descia ao seu encontro, os seus braços foram ao encontro do corpo de Summer lhe abraçando, apertando-a. Ele beijou a bochecha dela e acariciou os cabelos ruivos, e Summer chorou. Mesmo que de uma forma deturpada, Josh lhe fazia tão bem e tudo que a ruiva queria era viver ao redor dos braços fortes dele. Josh era imperfeito, mas era o certo para ela.
Ele entrelaçou seus dedos aos dela e caminharam juntos com Amber até o carro dele. A Clínica ficava a duas horas dali, quase no interior de Londres, num lugar calmo. Como Amber tinha dito: parecia uma fazenda. As pessoas receberam muito bem Summer, que fora levada até o seu quarto, e teve que se despedir dos amigos e do seu celular também. Ela riu quando Candice, a enfermeira chefe, disse que celulares não eram bem-vindos ali. A ruiva não se importou, já tinha avisado quem era importante e Josh, o mais importante de todos, sabia onde encontrá-la e sabia que em poucos meses ela sairia renovada. Eles não se beijaram, nem trocaram juras de amor, mas o olhar de ambos deixava claro o que sentiam e isso bastou para que Summer tivesse certeza que fizera a escolha certa. Agradeceu Amber, antes de ficar sozinha em seu novo quarto.

Natalie corria apavorada até o dormitório de . Estava tão preocupada, tão desesperada e sabia que só saberia o que aquele bilhete significava. Summer não poderia ir embora. Como assim? Por quê?
Bateu várias vezes seguidas na porta de sua ‘amiga’, e quando a loira abriu a porta com uma expressão de dúvida, Natalie jogou o papel em suas mãos.

“Nati.
Quando você acordar, eu já estarei longe. Eu sei que agora você não entenderá nada, mas o que posso te dizer é que: eu fui, mas voltarei. Voltarei melhor.
Obrigada por tudo. Você é uma ótima amiga.

Summer.

Ps: Não mexa nas minhas coisas, eu sei como e onde eu deixei cada coisinha, ouviu? xx”

arregalou os olhos e abriu a boca. encarou e sentou-se na cama ao lado do garoto, lendo o papel sem saber o que dizer ou pensar. Todos ali estavam mudos e sem compreender o que Summer estava fazendo. estendeu o celular de sua namorada em direção à mesma e ela sorriu agradecida, ligando para Summer na mesma hora e sendo atendida depois do terceiro toque. Ela foi até o banheiro e se trancou lá. Tinha Summer como sua irmã, mesmo que sua forma de pensar fosse diferente da ruiva, elas se conheciam há tanto tempo.
- Summer, onde você está? Como você vai embora assim? – ela andava de um lado para o outro dentro do pequeno banheiro, Summer suspirou.
- Eu estou indo para uma clínica de reabilitação. – ela disse, rápida e direta.
- O quê? – a voz de saiu alta e esganiçada.
- Isso que você ouviu. – ela suspirou. – Eu não sou drogada nem nada que você deve pensar. Eu tenho... Bulimia e eu... Me auto-mutilo... Para ser mais clara: eu faço cortes intencionalmente em mim mesma. – prendeu a respiração e Summer olhou para Josh, que dirigia em silêncio o carro, e Amber ao seu lado com lágrimas nos olhos.
- O quê? – soltou o ar vagarosamente e sentiu-se como um disco riscado.
- É isso que você está ouvindo, . Eu sei que você está chocada e provavelmente está pensando em como nunca notou isso... Não tinha como notar, eu nunca deixei que ninguém visse esse meu lado, sempre soube esconder muito bem. Eu tenho bulimia há seis anos e me auto-mutilo há dois meses. Começou tudo tão rápido, que eu não sei nem te explicar...
- Por quê? – deixou as lágrimas caírem dos seus olhos.
- Não sei... Talvez por culpa dos meus pais e pela minha vida tão imperfeita. – ouviu um soluço baixo. – Não importa mais, , eu vou me tratar e daqui alguns meses eu voltarei curada.
- Oh, Summer, eu não sei... O que falar. – elas suspiraram juntas.
- Não conte a ninguém sobre isso... Diga que eu fui ficar um tempo com minha tia que mora em Docanster. Os únicos que sabe da verdade é a Amber e o Josh, ok?
- Ok. – ela fechou os olhos. – Sums, fique bem e volte curada. Eu te amo muito e quero vê-la bem.
- Eu voltarei bem e obrigada, eu te amo, amiga. – elas sorriram antes de desligar o celular.
Quando voltou ao quarto, tudo que pôde fazer foi contar a história inventada por Summer. Não queria envergonhá-la ou fazer o contrário do que ela queria. Todos acreditaram naquilo, exceto por , que a olhou desconfiado por conhecê-la melhor do que qualquer um ali, mas deixou aquilo de lado e isso foi o bastante para voltarem aos seus afazeres do dia. sabia que Summer ficaria bem e que poderia sempre falar com Josh sobre a ruiva, mas... Ela queria entender como nunca notara que sua amiga estava tão mal assim. Como não vira os cortes? Como deixara aquilo passar? Sentia-se uma péssima amiga e naquele momento jurou que dali em diante seria a melhor amiga de todas. Fosse para Summer ou . Mas seria a melhor.

estava atordoado, andava de um lado para o outro dentro do seu dormitório, o que fazer? Emoção ou Razão? Ele sabia que seu namoro com Barbara ia muito bem e que ela era uma ótima namorada, até o jeito que eles levavam o namoro tinha mudado. Estavam mais companheiros. Mas não conseguia mais sentir aquele sentimento bonito do início, não... Ele só conseguia pensar em , querê-la. Ele queria a garota para si, mesmo que ela já estivesse com Arthur. sentou-se na cama e apoiou os braços no joelho, puxou os fios castanhos em desespero. Iria enlouquecer se não tomasse uma atitude. Não podia mais mentir e continuar com alguém por aparência. Não era mais um garoto, era um homem e precisava tomar as atitudes certas.
Mas aí começou a pensar: não o quer. E ela deixou isso bem claro em cada gesto, olhar e palavra. Para que se afastar da sua namorada que o ama para não ter nada em troca? Assustou-se quando a porta do quarto foi aberta por Brian. O moreno o olhou estranhamente e sentou ao lado do , esperando que o amigo falasse algo. O garoto não disse nada.
- O que aconteceu, ? – Brian perguntou.
- Nada. – levantou-se.
- Fala logo, qual o problema agora?
- A , tá legal. Ela está me deixando louco. – ele suspirou.
- ? – Brian arqueou a sobrancelha surpreso. – Eu sabia que você estava afim dela. Sabia!
- E o que importa? Ela está namorando o Arthur...
- E você namorando a Barbara. – Langdon o lembrou.
- Eu sei, ok. Mas, Brian essa garota... Eu lembro dela criança e então a vejo andando de um lado para o outro no Campus e depois do nosso beijo...
- Espera. Vocês dois ficaram? – Brian ficou em pé surpreso, fechou os olhos, bagunçando os cabelos.
- Ok, é... Nós nos beijamos, faz um tempinho já... Foi antes dela começar a namorar. Só foi um beijo, um único beijo. E depois disso, nos afastamos. Nunca mais falei sozinho com ela e agora estou enlouquecendo. Eu... Eu preciso ficar novamente com ela, preciso tê-la para que essa sensação acabe.
- Você sabe que é impossível, certo? – Brian o alertou. – Olha, a é muito legal e não merece ser usada por suas vontades carnais. , é melhor você se focar na Babi e esquecer a . Ela merece ser feliz e não usada por você. – os dois suspiraram.
- Você tá certo. – ele fechou os olhos. – Você tá certo, mate.

Depois que seus amigos saíram para as suas próprias aulas, resolveu ir tomar um banho. Enquanto sentia a água quente tocar cada parte do seu corpo, pensava sobre a noite passada. Tantas coisas haviam acontecido em menos de vinte e quatro horas. Tinha brigado sério com Arthur, duas vezes seguidas, nunca se sentira tão mal perto dele como naquele momento. Ele, que sempre a respeitou, tentou forçar algo que ela definitivamente não queria. sabia que não era santa, de maneira alguma, depois de ter feito sexo com o seu melhor amigo, tinha certeza que santa era a última coisa que ela era. Mas Arthur deveria ter compreendido que ela não queria dar esse passo com ele. E depois aparece ali no meio do Campus àquela hora da noite, simplesmente, querendo inundar os pensamentos da jovem. não conseguia se decidir: o que sentia? O que esse garoto tinha que a fazia sentir essas coisas?
Fechou os olhos, encostando a testa na parede fria do banheiro e respirou fundo, decidida a esquecer o que quer que sentisse. “Não importa, ele namora e está feliz com a namorada fútil”, foi o que pensara enquanto se secava.
Juntou seu material e logo estava entrando no prédio B, subiu um lance de escadas, quando viu Lizzie. Fazia dias que não conversava com a garota de cabelos tão pretos como a noite e sentiu seu coração encher de saudade. Andou rápido, antes que a garota virasse o corredor, e segurou em seu braço direito, abrindo um sorriso.
- Lizzie! – ela a chamou, e a morena a encarou com um sorriso.
- Oh, ... Que saudade. – elas se abraçaram sorridentes. – Até parece que não estudamos no mesmo Campus.
- É verdade... Eu sinto muito. – deixou seu olhar cair para suas mãos, estava totalmente envergonhada.
- Tudo bem, , não tem problema. – ela a empurrou levemente pelo ombro. – E aí, como você está?
- Eu estou muito bem. – a encarou. – Na verdade, aconteceram umas coisas essa semana que me deixaram irritada, mas o importante é que me fizeram tomar uma decisão.
- Decisão é? – Liz arqueou uma sobrancelha e aproximou-se da amiga.
- Ei, vocês. – correu até as amigas. – Qual a fofoca?
- A tomou uma decisão. – Liz contou, fazendo encarar a amiga, que ria disfarçadamente.
- Vocês são tão exageradas... – ela comentou, balançando as mãos.
- E você é lenta demais. Conte-nos logo. – falou, num sussurro.
- Decidi que não vou deixar mais nada nos afastar... Sabe, o Arthur tem mesmo tomado umas atitudes que me fizeram, mesmo que indiretamente, me afastar de vocês e eu não quero mais isso. – ela disse, confiante, mas antes que uma de suas amigas pudessem comentar sobre algo, o celular de começou a tocar, bem alto.
A loira olhou para o visor e arregalou os olhos. diria que a amiga estava surpresa. Lizzie diria que estava assustada. Ela rejeitou a chamada e despediu-se rapidamente das amigas, com uma desculpa esfarrapada de que era que queria vê-la. tinha certeza que não era aquilo e observou sua amiga andar rápido e desajeitada por entre as pessoas até as escadas, sumindo da sua visão como se nunca tivesse estado ali. Lizzie e se entreolharam.
- Estranho, né? – a primeira comentou, ainda olhando o vazio.
- Muito. – disse, num sussurro, notando que suas amigas andavam com muitos segredos e finalmente percebeu que ela não era a única que guardava segredos ali. – Vamos para a aula? – ela disse, tentando deixar para lá o que acontecera segundos antes.

Dizem que os seres humanos só dão valor quando perdem.
E as pessoas, geralmente, dizem que querem aproveitar ao máximo a presença de quem se ama para não se arrependerem de nada. Mas nem sempre isso acontece. Sempre erramos. É um ciclo vicioso. Erro após erro.
Crescer, se apaixonar, se separar, se apaixonar, se separar e assim sucessivamente... estava farto. Estava cansado daquilo. Escutava seu professor de Cálculo explicar sobre a nova matéria e tudo que ele escutava era zumbidos.
Aquilo estava tornando-se insuportável para o garoto. Ele estava cansado de dar valor só depois que perdeu algo estranhamente bom. Ele se descobrira apaixonado por quando ainda era um pré-adolescente, mas a paixão bobinha nunca chegaria ao estágio namoro. E ele compreendeu aquilo e aceitou, não cometeria o mesmo erro de tentar inutilmente por uma chance de sua melhor amiga. Até porque é isso que é: sua melhor amiga. Mas como ele só conseguira notar agora? Por que não notou enquanto estava conhecendo Natalie? A garota de cabelos bem loiros e curtos, os olhos tão chamativos e azuis, a pele de seda e o sorriso encantador definitivamente roubaram o seu coração. Tudo que queria naquele momento era segurar em sua cintura e beijá-la. E foi como um estralo que tomou sua decisão. Fechou o caderno e jogou de qualquer jeito dentro de sua mochila e saiu da sala. O bom da Universidade é poder se retirar há qualquer momento, sentia-se independente.
Estava no Prédio C e sabia que a loira estaria no Prédio D, só precisava descer dois lances de escadas e caminhar pelo corredor leste e então estaria no prédio de sua amada.
Amada? Quem diria, confessando sentir algo.
Riu desajeitado, andando mais rápido do que o normal. Atravessou o corredor e quando estava passando pela porta principal do prédio D arrependeu-se amargamente de ter saído do conforto da sua sala. Melhor, arrependeu-se de ter acordado e colocado os pés no chão naquele dia.
Não aguentava olhar aquela cena, queria jogar aquele garoto de cabelos loiros escada abaixo, aquele cara deveria tirar seus braços nojentos do corpo de sua Natalie.
Mas a loira não parecia se importar, ela o beijava com tanta vontade quanto ele. O abraçava pelo pescoço e grudava seus corpos lascivamente. balançou a cabeça negativamente, enquanto dava as costas para aquela cena. Cena que ele queria ser protagonista e decidiu que por hoje ele poderia ficar de folga.
Quando entrou em seu quarto, abriu o fundo falso do seu guarda-roupa e retirou lá uma garrafa de vodca e passou-se o dia assim. Bebendo e murmurando, se afundando em suas dores e bebendo. Não se importava com nada, só com a dor que sentia. E, claro, com o quão gay estava se sentindo.
Bebendo por uma vadia. Uma mulher sem coração.
Enquanto sentia o amargo da bebida em sua boca, o único rosto que vinha em sua mente era o de sua melhor amiga. Ela nunca o magoaria. Ela sempre seria a mulher ideal para ele. Ela era a pessoa certa para se amar. E ser amada por ele.

não conseguia nem raciocinar direito enquanto atravessava correndo o Campus. Para onde ir? Não poderia ir para o dormitório, poderia ir atrás dela e a última coisa que ela queria era explicar o porquê estava agindo tão estranhamente. Os prédios estavam cheios de alunos, o Prédio E, tão famoso por não ter quase ninguém lá e ser escuro, hoje estava interditado. Estava perdida. Parou no meio do jardim, apoiou as mãos no joelho e respirou fundo. Aquela maldita ligação estava acabando consigo. Eles não poderiam ligar assim, sem motivo algum, para ela. Não podiam fazer isso com ela.
Mesmo que de uma forma estranha e insana, sabia direitinho o que aquela ligação significava.
Dois anos vivendo sozinha em Londres. Dois anos sem a atenção dos pais, sem a companhia e o amor. Amor fraterno.
Às vezes sentia vontade de segurar pelos ombros e falar: “Querida, você não é a única abandonada, sozinha e órfã nessa vida.”
Não, não era a única.
A diferença sempre foi que enquanto os pais da morena morreram há muito tempo, os pais da loira continuam bem vivos.
Os pais dela nunca se importaram com ela. Pareciam ser a família perfeita, o casal perfeito, a filha perfeita. Tudo perfeito demais, falso demais, montado demais.
Enxergou ao lado do Prédio G, um corredor escondido e foi para lá que a garota caminhou e sentou-se no chão, respirando fundo. O celular voltou a tocar e dessa vez não rejeitou. No visor o nome ‘Papai’ brilhava junto à uma foto dos seus pais abraçados na frente de sua antiga casa, em Manchester. Quase deixou um sorriso aparecer.
- Pai? – ela disse, baixo.
- Querida, como está? – ela ouviu a voz doce do seu pai e sentiu saudade de quando era pequena e ele a levava para o parque.
- Estou... Bem. – ela disse, pausadamente e respirou. – E você? E a mamãe?
- Estamos todos bem, querida. – ele disse, calmo... Calmo demais. – Temos uma notícia perfeita para você. Você vai amar.
- Sério? O que foi? – ela fechou os olhos, com um sorriso aparecendo em seus lábios, talvez não fosse nada do que imaginava, talvez eles fossem voltar para cá e seriam a família perfeita da maneira que sempre sonharam. Sentiu esperança dentro de si.
- Você vai vir morar aqui. – sentiu como um balde de água fria sendo derramado em sua cabeça. – Aqui na Itália, . Vai ser perfeito, os nossos investidores vão adorar saber que a minha única filha está me ajudando na empresa. Isso vai ser incrível para a Empresa e para todos que acreditam que...
- Que a sua adorável filha não se importa com os negócios da família. – ela completou à contragosto a frase do pai e ele sorriu satisfeito.
- Exato. – ele confirmou. – Você vem ainda esse mês, certo?
- Não. – ela disse, seca. – Eu não vou. Não vou, papai. O senhor e a senhora minha mãe acham que podem me controlar, me manipular... Mas eu não sou mais uma criança, eu sou maior de idade e posso tomar minhas decisões. E eu não irei morar na Itália com vocês e muito menos seguir a sua carreira. Eu vou seguir a carreira que eu quero. Que eu sonho. – ela disse, confiante, a voz seca.
- Como é? – ele perguntou, irritado, odiava quando sua filha o desobedecia.
- É isso mesmo que o senhor ouviu. Eu não irei. – ela disse, objetiva. – Passar bem, eu amo vocês. Tchau. – e assim ela desligou.
Não poderia ouvir mais a voz do pai ou esperar que sua mãe tomasse à frente e a manipulasse. Fizesse com que ela desistisse e fosse correndo para a Itália, como quando a convencia de algo quando era pequena. Não. Aquilo não ocorreria mais, já não era mais uma criança perdida e suscetível às mudanças impostas por seus queridos pais. Não. tinha controle da sua vida, desde que, há dois anos, decidiu que iria morar sozinha em Londres até começar a faculdade ao invés de ir morar com os pais na Itália.
Mas não pôde se reprimir quando se entregou ao choro. Chorou alto e sofrida e nem notou quando o seu namorado se aproximou dela. Surpreso e preocupado. Temeroso, o garoto a abraçou e não precisou olhá-lo para saber que estava nos braços de , do seu namorado e melhor amigo. Estava no lugar certo e não impediu que as lágrimas continuassem a rolar, mesmo depois de sentir os lábios quentes tocarem os seus frios.
Sentiu limpar suas bochechas avermelhadas com os dedos, lentamente e carinhosamente, sentiu ele encostar várias vezes os seus lábios e sussurrar que tudo ficaria bem.
Nada ficaria bem entre e seus pais.
Não enquanto eles tivessem certos de que a aparência é melhor que o amor.

Capítulo 17

Segredos

As lágrimas possuem uma força especial. Elas derretem o gelo e aquecem os nossos corações.
Essas mesmas lágrimas são inalteráveis. Em cada lugar que um alguém começa a chorar, em algum outro lugar alguém irá parar.
As lágrimas, incrivelmente, limpam os nossos seres. Naquele pequeno tempo entre uma lágrima e um sorriso, um olhar e um fechar de olhos, tudo que importa é o que sentimos. Antes de chorar sentimos o tremor, a dor ou a alegria, os nossos olhos ardem pedindo para que nós os deixarmos falarem. Falarem por si só, através de suas expressivas lágrimas. Porque não há no mundo palavras tão convincentes como as lágrimas. Elas conseguem explicar tudo. E fazer com que quem está do seu lado naqueles momentos de choro saiba exatamente o que você sente enquanto cede à pressão e deixa aquelas gotas salgadas correrem pelos seus olhos. Limpando sua alma, levando embora à dor. Ou agradecendo por uma alegria.
não conseguia se mover, porque ele sentia. Sentia a dor que sua namorada sentia ali em seus braços. E se ele pudesse levaria tudo embora, mas sabia que precisava daquele momento. Esperou.
Então, no momento em que parou de chorar e finalmente se acalmou entre os braços de o garoto pôde endireitar a postura e relaxar. A olhou apaixonadamente.
- Amor, o que aconteceu? – ele a questionou e ela o encarou envergonhada. – Ei, não se envergonhe de chorar. – ele acariciou as maçãs do rosto dela e sorriu.
- Meu pai me ligou. – ela suspirou. – Olha, ... Eu nunca te contei sobre minha família... Acho que esse é o momento. – ela respirou fundo e sentou-se de frente para ele entrelaçando seus dedos, ele assentiu. – Meus pais herdaram algo horrível da Família Stone. Eles herdaram ganância, soberba, falsidade e manipulação. Eles, desde que eu me lembro, sempre me manipularam. Sempre falaram em como devemos nos relacionar com as pessoas que nos trazem benefícios. Eles sempre se importaram com a aparência, com o que a sociedade e os sócios riquíssimos do meu pai diriam.
“Isso até dois anos atrás, estava terminando o Colegial e estava decidida. Queria ser a melhor Nutricionista de Manchester. Ajudar pessoas, pobres e ricos, a ter uma melhor qualidade de vida. Fazer algo pelo próximo. Foi quando tudo começou a ir de mal à pior. Meus pais não aceitaram e negaram qualquer ajuda, eles queriam que eu fizesse Administração ou Contabilidade. Queriam que a filha única e perfeita deles seguisse com a Empresa. Eu nunca quis isso.”
“Mas ser nutricionista? Eles acharam uma loucura. Diziam que eu seria uma pobre ridícula e que envergonharia o nome da nossa família. Então eu juntei minhas coisas e vim para Londres com a Summer, com a desculpa de que eu não estava pronta para me mudar para a Itália e preferia estudar aqui. Ela acreditou. Meus amigos acreditaram. Só meus pais sabiam que tudo que aquele meu ato significava era: eu não sou mais controlada por vocês e então eles sumiram. Durante dois anos, tudo que eu recebia eram cartões postais em datas comemorativas falando quão bonita é a Itália. Até hoje.”
– ela parou de falar e analisou as expressões faciais do namorado, ele estava confuso.
- Até hoje? O que aconteceu hoje? – ele segurou o queixo dela, fazendo seus olhares ficarem fixos.
- Eles me ligaram e querem que eu vá para Itália. Ajudar meu pai na Empresa. – as lágrimas voltaram aos seus olhos e ele abriu a boca surpreso. Medo, seus olhos transmitiam todo o medo possível. – Eu não irei, amor, não abandonarei minha vida aqui porque eles querem. – ela se inclinou sobre ele.
- Eu não poderia deixá-la ir. Nunca. – ele segurou o rosto de sua namorada entre as mãos. – Eu sinto muito. Mas você sabe que tem a mim e aos seus amigos, não importa o que eles esperam de você... Nós sabemos quem você é. Eu te amo, . – ele a beijou delicada e apaixonadamente.
Quando se afastaram, sorriu e tirou da bolsa seu notebook. Abriu no e-mail e num silêncio acolhedor começou a digitar uma pequena carta para os seus pais.

“Papai e Mamãe.
Perdoem-me por ter desligado sem esperar por alguma reação. Perdoem-me por, quase, tudo.
Preciso que vocês compreendam que eu já tenho 19 anos e sei o que é melhor para mim. Eu escolhi a minha profissão segundo o que eu penso e sinto. Eu quero ajudar o próximo. Eu quero ser melhor.
Não quero seguir a sua profissão, pai, e herdar uma empresa da qual eu não gosto. Eu sei que o senhor ama a Empresa e a mamãe já está acostumada com o seu trabalho, mas eu não quero isso para mim. Eu não nasci para isso.
Pode ser que agora eu seja a maior e dolorosa decepção de vocês. Mas sabem de uma coisa?
Eu não me importo. Eu estou e sou feliz.
E vocês? São felizes? Mesmo com as aparências e falsidades?
Eu não quero viver na Itália para ter que conviver com pessoas que não gostam de mim pelo que sou e sim pelo que tenho.
Eu estou bem aqui. E é aqui que ficarei.
Eu amo vocês, mesmo com os erros e falhas, eu amo vocês.
E espero que aceitem minhas decisões.
Nas férias irei visitá-los, se me aceitarem de bom grado aí.

Beijos...

Clicou em ‘enviar’ com um sorriso de satisfação no rosto e voltou a encostar seus lábios aos do namorado.

Barbara estava encostada numa pilastra do Prédio D, conversando animada com Natalie e Erik. Poderiam falar o que fosse da pequena Lively, mas o que jamais poderiam falar é que a loira não é uma boa amiga. De maneira alguma, Babi era a melhor amiga de todas. Sempre prestativa e atenciosa, mesmo que de uma forma manipulável sempre trouxesse algum benefício para si própria. Mas com Nati era diferente, era uma amizade sincera e recheada de carinho. Babi gostava de ver sua amiga feliz e acompanhada por um cara tão lindo quando Erik Sartori. Os dois faziam um casal perfeito sobre o olhar intenso de Barbara.
Conversavam alegremente, mesmo que Natalie estivesse aparentando estar um pouco aérea, ainda assim interagiam em conjunto.
Erik contava, com um sorriso nos lábios que refletia em seus olhos, sobre a sua viagem no fim de semana à Espanha. O garoto não continha a sua animação, segurando a mão de sua companheira e mexendo os braços de segundo em segundo. Babi divertia-se com a animação de Erik, quando Arthur a abraçou de lado, chamando sua atenção.
- Oi, galera! – ele saudou à todos, que sorriram amigáveis. – Preciso falar com você, maninha. – ele disse no ouvido de Babi, que assentiu.
- Gente, eu preciso resolver um assunto com o Arthur agora. – ela fez um biquinho e Nati riu divertida. – Até mais.
Barbara e Arthur andaram em direção ao dormitório da garota em silêncio. Cada um com seus próprios pensamentos.
Logo que a loira abriu a porta do quarto, o irmão deitou em sua cama. O silêncio se tornando insuportavelmente chato, Babi sentou-se em sua poltrona de frente para o seu espelho e começou a pentear seus longos cabelos. Já que o seu irmão estava mudo, iria aproveitar e tentar fazer a trança que havia aprendido dias atrás. Uma coisa que Barbara Lively nunca iria mudar: a forma de pensar que o mundo é dos ricos e bonitos. Para a loira de olhos verdes como belíssimas esmeraldas, a garota era fútil e amava a aparência mais do que tudo, e só de pensar que no fim do dia estaria vendo o namorado já pensava em todas as maquiagens que passaria para apagar alguns erros do seu rosto perfeito.
Arthur analisou a irmã antes de finalmente sentar-se corretamente e começar a falar.
- Eu quero acabar com a vida daquela vadia. – ele disse, direto, seco e com um tom irritado.
- Vadia? – ela o olhou pelo reflexo do espelho. – Problemas no paraíso, irmãozinho? – ela riu esnobe e ele rosnou.
- Ontem... Aquela vagabunda me negou sexo. Você sabe o que é isso? Aquela falsa virgem me falar que não quer transar comigo foi a gota d’água, Barbara. – ele disse, irritado e a irmã o olhou surpresa, logo começou a gargalhar.
- Essa garota é uma puritana. – ela gargalhava. – Desculpa, Tuy, mas essa garota é uma ridícula. Mas bom você querer acabar com ela...
- Ah, é? Por quê? – ele a questionou, colocando-se de pé e caminhando até a irmã, que sorriu.
- Porque a sua irmãzinha linda e maravilhosa já tem o plano perfeito para tirar essa órfã do nosso caminho de uma vez por todas. – ela virou seu corpo na poltrona e sorriu diabolicamente. – Vamos fazê-la ser expulsa e odiada por todos daqui. Concorda? – ela levantou-se e estendeu a mão com o sorriso crescendo em seus lábios vermelhos.
- Concordo sempre com você, Babi.

Summer já estava pronta para sua primeira consulta com o psicólogo da Instituição. O local, intitulado como Peace and Harmony, era sossegado e acolhedor. Os funcionários sempre atenciosos e divertidos, os pacientes amigos e compreensivos. Summer, mesmo que estivesse ali só por algumas horas, já se sentia revigorada. Sentia-se em casa. Ela prendeu outra vez seus cabelos vermelhos num rabo de cavalo bem alto e puxou mais as mangas da blusa antes de bater na segunda porta do corredor.
A porta se abriu, revelando um homem alto, a barba bem feita, os olhos negros como a noite, o sorriso era encantador e os cabelos arrumadinhos e castanhos. Summer não precisava perguntar o nome do homem à sua frente, já tinha sido informada por Candice: aquele seria o seu psicólogo durante os três meses de tratamento. Ethan Parks.
Ela entrou no lugar e sentou-se no divã, posicionado no meio da sala, entre uma mesa de apoio e uma poltrona extremamente grande e preta. Sorriu envergonhada.
- Olá, Summer. Eu serei seu psicólogo, Dr. Ethan Parks. – ele estendeu a mão, apresentando-se com um belíssimo sorriso nos lábios.
- Oi. – ela disse, tímida como nunca antes. – Desculpa, é que eu ainda estou confusa com tudo isso.
- Tudo bem, eu entendo. – ele abriu o caderno que segurava. – Eu deixarei isso aberto, mas não anotarei tudo. Eu quero te conhecer e quero que você entenda que aqui eu sou seu amigo, acima de tudo, e quero te ajudar. É por isso que está aqui, certo? Você quer ajuda, não é? – ele deixou o caderno no colo, a caneta posicionada bem no meio da folha e Summer pensou sobre o que ele falara.
- Sim. Eu quero ser ajudada. – ela disse, sincera, os olhos enchendo-se de lágrimas.
- Me diga sobre você. – ele escreveu o nome dela no topo da folha. – Sua idade, sobre seus pais, sua infância e se você quiser, somente se você se sentir confortável com isso, me conte sobre o motivo de estar aqui. Ok? – ele sorriu amigável e ela assentiu.
A ruiva endireitou sua postura no divã e ficou em silêncio. Estava num grande dilema: conversar sobre sua vida e motivos ou não? Ser sincera ou fugir? Estava cansada de rodear em algo que não tinha mais volta, ela estava ali para ser ajudada, para se entender e aceitar, não é mesmo? E o psicólogo de olhos bonitos a compreenderia e escutaria sem preconceitos e julgamentos. Estava pronta para falar.
- Eu sou a Summer Hudson, tenho 20 anos e sou estudante de Nutrição na Imperial College London. Meus pais se chamam Joseph e Verônica Hudson e sou filha única. – ela suspirou. – Minha infância foi muito calma, confortável e recheada de carinho pelos meus pais, sempre tive tudo do bom e do melhor e posso até dizer que fui um pouco mimada... Isso até um certo momento. O motivo de estar aqui iniciou muito antes de sequer eu saber o que estava acontecendo comigo. Eu sempre me senti muito bonita e sempre fui confiante. Minha família sempre foi o meu porto seguro, mas os problemas vieram. Afinal, eles sempre vêm. Eu tinha acabado de completar 14 anos, quando meus pais começaram a passar pela primeira e mais fatal crise no casamento dos dois. Eu estava entrando na adolescência, não tinha noção alguma da vida e os dois brigavam vinte e quatro horas por sete dias da semana. Era horrível chegar à noite em casa e só ouvir gritos.
“Meu pai se focou no trabalho e minha mãe tornou-se uma mulher frígida, vazia e submissa. Ele chegava, quase sempre, bêbado em casa e a humilhava. Ele me colocava de castigo por qualquer motivo ou nenhum, agrediu minha mãe algumas vezes na minha frente e já a traiu na nossa frente, na nossa casa. E tudo que eu sentia era... Indiferença. Até que eu comecei a notar como a família da minha melhor amiga era... Nessa época, comecei a sentir inveja. E a inveja... A dor... Me deixava mais para baixo, mais no fim do poço... Foi quando eu comecei a não me sentir mais bonita, atraente. Não tinha mais confiança em mim mesma. Eu sentia nojo de mim, nojo da minha origem. Nojo de ser uma Hudson. Odiava meu sobrenome, odiava meus pais, odiava aquela casa onde eu vivi minha vida inteira. E quatro meses depois, comecei a provocar o vômito. Eu comia, arranjava uma desculpa para sair da mesa e passava horas vomitando. Eu tinha nojo de tudo que estava ao meu redor, e além de tudo, sentia nojo de mim. Eu precisava tirar tudo de dentro de mim. Eu era imperfeita. Comecei a me ver gorda, flácida, ridícula. Naqueles minutos em que eu despejava tudo para fora, eu chorava e me sentia a melhor pessoa. Irônico, não?”
"Com 18 anos, eu e minha melhor amiga viemos para cá, deixamos tudo em Manchester e viemos para Londres. Um ano depois, entrei na faculdade, pensei que tudo seria diferente e eu poderia deixar essas malditas marcas no passado. Enterrar junto com a minha maldita família. Aí eu conheci ele. Josh Devine. O homem que eu mais amei e ainda amo. Ele me fez bem no inicio, e como fez, ele me tornou mulher e me fez enxergar uma Summer que eu não imaginava existir dentro de mim. Voltei a ser a Summer de 14 anos, aquela garota extrovertida e confiante, que se sentia maravilhosa. Até que o encanto acabou. O grupinho de amigos dele não aceitava que o garanhão do grupo se relacionasse com a novata caipira. Ele me humilhava na frente de todos, dizia que não sentia nada por mim além de pena e tesão. Sabe como eu me senti, Doutor Parks? Me senti uma completa idiota, uma vadia.”
“Fazia um ano que a Bulimia... Aliás, esqueci de falar que com 16 anos eu tinha procurado ‘ajuda’ e descoberto que eu tinha mesmo Bulimia, mas não quis continuar tratamento algum. Enfim, eu não tinha mais crises assim há um ano e então tudo voltou... Com força total e agora, há dois meses, eu venho tendo crises diárias junto com auto-mutilação. Doutor Parks, eu sou toda fodida. Meus pais nunca me amaram, nunca se importaram comigo, eu sempre senti inveja das minhas amigas e o único homem que eu amei preferiu ouvir a voz dos amigos riquinhos do que a do próprio coração. E quer saber? Eu não estou aqui por eles. Eu não procurei ajuda porque a Amber achou conveniente ou porque isso vai fazê-los felizes. Eu procurei ajuda, Doutor Ethan Parks, porque eu quero ser melhor para mim mesma, eu quero ser a dona da minha vida e das minhas vontades. Eu não quero mais marcas no meu corpo lembrando-me que eu estou acabando com tudo de melhor em mim por culpa deles. Eu sou melhor e mais forte do que isso. Eu sou, quase, uma versão futura da Demi Lovato.”
– e então ela deu uma gargalhada gostosa, fazendo inclusive o seu psicólogo rir junto, ele assentiu, anotando algo no caderno.
- Você é uma mulher incrível e muito forte, Summer. – ele disse, olhando em seus olhos. – Você vai melhorar, sim, e eu vou te ajudar a esquecer todas essas marcas... Tanto as físicas quanto as emocionais e deixá-las no passado que é o lugar delas, ok? – ele colocou-se de pé e abriu os braços.
- Eu confio em você. – ela disse, sorrindo e se aconchegando nos braços do seu psicólogo. Talvez aquilo não fosse um ato comum e muito menos profissional, mas fora certo para ela. Fora especial porque pela primeira vez Summer tinha dito tudo o que sentiu durante anos para outra pessoa.
- Você ficará melhor que a Demi Lovato, pode acreditar. – ele disse, ainda abraçando a ruiva. Ela sorriu aliviada. Feliz.

A última aula do dia tinha acabado há quinze minutos, Natalie descia os últimos degraus com uma lerdeza admirável. Esperava do fundo do coração que Erik já estivesse em seu quarto, preparando-se para dormir. Não queria vê-lo, nada contra o garoto, na verdade, Erik era um cara bem legal para a garota, mas... Faltava algo e ela sabia bem o quê. Ele, infelizmente, não era .
Pensava o que o garoto de olhos verdes tem que o loiro não tem. Questionava-se e deixava seus pensamentos irem tão longe que nem notou quando Erik parou à sua frente com um sorriso imenso.
- É amanhã! – ele falou, animado, erguendo as mãos e Nati arregalou os olhos assustada. – Desculpa, eu te assustei.
- Ah, tudo bem, Erik, eu estava distraída. – ela disse, sorrindo amarelo.
- Está ansiosa por amanhã? Eu sabia! – ele deu um selinho nela e entrelaçou suas mãos, puxando-a em direção à saída.
- Erik, eu preciso falar... – ela tentou interrompê-lo.
- Amanhã depois da aula nós pegamos nossas malas e vamos para casa dos meus pais e de lá iremos para o aeroporto. O que você acha?
- Erik. – ele a olhou sorrindo, mas voltou a falar qualquer coisa que Natalie não entendia por conta do seu nervosismo. – Erik! – ela gritou, parando de andar e chamando a atenção do garoto. – Eu não vou. Desculpa. Desculpa do fundo do meu coração, mas eu não posso ir.
- Não pode? Por quê? – ele franziu a testa e deu um passo para trás surpreso. – Você estava tão feliz com a viagem.
- Não, eu não estava. Eu estava empolgada com a novidade, gostava de te ver feliz e eu queria esquecer... Esquecer o que eu estava passando. – ela suspirou e olhou para seus pés. – Mas isso é errado, eu não posso usá-lo assim. Desculpa, Erik, mas não posso ir contigo.
- Você gosta de verdade dele, né? – ele a questionou, sem mágoa, só... Uma sensação de rejeição tomando conta do garoto. Nada legal.
- Acho que sim.
- Não seja boba de perdê-lo. – ele sorriu de lado. – E torço para que ele não seja burro de te perder... Mas lembre-se que eu estou aqui caso ele não te queira. – ele aproximou seus corpos. – Eu te entendo e te desculpo, ok? Você é incrível, Nati, e merece o melhor. – os olhares se conectaram e os lábios se tocaram, iniciando um beijo calmo e melancólico, um beijo de despedida.

, cadê você? O Brian disse que você sumiu das últimas aulas. Eu estou preocupada. Me liga. xx “

mandava a mesma mensagem pela quarta vez e seu melhor amigo não a respondia. Estava preocupada, aquela sensação de que algo estava muito errado lhe incomodando e o pior é que já estava anoitecendo e nenhum sinal do . Entrou em seu quarto e não estava. Estava tão preocupado com o seu melhor amigo que nem se importou muito com a loira, jogou sua bolsa na cama e guardou o celular na calça, saindo novamente por onde tinha entrado. Correu escadas acima, passando pela placa grudada na parede ao lado da escada que dizia: Ala Masculina. Quase riu, aquilo era cômico.
Estavam de volta ao colegial?
Caminhou rapidamente até a porta de madeira com o número 319 gravado. Bateu duas, três, quatro vezes e nada. Nada. Nenhum ruído ou som. Estava nervosa. Resolveu ligar novamente para , logo no primeiro toque, a morena escutou uma música vindo de dentro do quarto. Ele estava ali. Ela mexeu na maçaneta e surpreendeu-se quando a mesma abriu. Fechou a porta atrás de si e quando olhou para a cama desarrumada do amigo quase caiu no chão. O corpo imóvel do amigo estava ali encostado à cama, os olhos fechados e a boca levemente aberta, uma garrafa vazia na mão direita. Ela correu e se jogou ao lado dele, mexendo no corpo desacordado do amigo. Sentiu os olhos encherem de lágrimas. O que aquele idiota estava fazendo? Empurrou a garrafa para longe deles e puxou com força o tronco do amigo para cima do seu colo, aos poucos foi retirando a camiseta preta do corpo dele e depois começou a dar tapinhas leves na face dele. resmungou até que abriu os olhos avermelhados, encontrando o olhando furiosa. Ele tentou se movimentar, mas a morena o empurrou para o lado.
- Levanta agora. – ela cruzou os braços, em pé. – Você precisa tomar um banho gelado. Agora. – ela dizia, irritada, ele fechou os olhos fortemente, apertando os ouvidos.
- Fale mais baixo, . – ele pediu, baixinho e ela riu.
- Baixo? Eu quero gritar com você, . – ela disse, sarcástica. – Então é melhor que você fique em pé agora! – ela disse, e estendeu a mão.
ficou em pé depois de algumas tentativas falhas e cambaleando e ajudado por entrou dentro do banheiro. Não pôde nem pensar em tirar as calças, pois num segundo já estava dentro do Box recebendo um jato de água gelada em seus ombros desnudos. o observava atentamente, a água limpando e tirando a ressaca e o cheiro de bebida do corpo dele. Em que momento se tornou aquilo? Ele nunca fora de beber ou fumar. E sentiu-se culpada. Ele precisava dela tanto quanto ela precisava dele. Ela o amava intensamente. Mesmo que soubesse dentro dela que esse amor é fraterno, ela o amava e estaria ali sempre. Fosse para ele afogar as mágoas nela. Estaria ali por ele.
Depois de alguns segundos, voltaram ao quarto, trocou de roupa na frente da garota e ela foi à pequena cozinha preparar um café bem forte e amargo. Voltou para a cama dele, estava deitado em sua cama. estendeu a xícara e deitou-se confortavelmente ao lado do amigo. Ele bebia o café fazendo caretas e resmungando. Ela sorria.
- Só um café bem forte e amargo para tirar a ressaca. – ela comentou, encostando sua cabeça no peito dele.
- Obrigado. – ele disse, deixando a xícara vazia no criado mudo ao seu lado e abraçando o corpo pequeno de sua amiga.
- Por que, ? Por que se embebedar? O que aconteceu? – ela perguntou, chorosa.
- Natalie. Natalie Benson aconteceu. – ele disse, fechando os olhos e acariciou o braço dele em silêncio.
- Eu me preocupo contigo, . Não importa se a Natalie aconteceu. Eu não quero que você fique enchendo a cara por causa dela. – ela sentou-se o olhando. – Não deu certo vocês dois? Ok. Ergue a cabeça e continua. O mundo é maior, as possibilidades são muitas... Tudo pode acontecer. – ela disse, e ele sentou, olhando-a encantadoramente.
- Eu descobri que estou apaixonado por ela. – ele disse, sério e prendeu a respiração. – Mas eu amo você. E não é só culpa dela e por ela que estou bebendo... Mas é por culpa sua. Eu preciso tirar vocês duas do meu sistema... Porque eu amo você, . – ele disse, segurando o rosto delas com as mãos e a morena soltou o ar preso em seus pulmões.
Talvez ela esperasse por aquilo. No fundo, era o que ela queria que ele dissesse. era o único que a conhecia e compreendia por dentro e por fora. fechou os olhos e pensou... Pensou tanto que sentiu fumaça saindo dos seus ouvidos.
Prós e contras.
Qual é? Aquilo não era mais novidade para os dois, se completavam mesmo que erroneamente. Se ele precisava de consolo e alguém para depositar suas fraquezas, ela estaria ali.
- Não, . – ela disse, decidida. – Você não me ama assim e não é minha culpa nada disso. Nós gostamos de nos culpar porque nos conhecemos melhor do que qualquer outra pessoa. Eu te conheço melhor do que sua própria mãe. Você me conhece melhor do que eu mesma. Nós somos perfeitos juntos e nos amamos. Mas sabemos bem que a forma que nos amamos é diferente da forma que realmente queríamos. Nos amamos como melhores amigos se amam, mas nos viciamos em sentirmos nossos corpos em ebulição. É isso... Um vício. Nosso pequeno segredo. – ela suspirou, virando seu corpo de frente para o dele. – Precisamos de consolo e é assim que encontramos, é assim que sabemos que teremos porque eu nunca seria capaz de te magoar e você nunca seria capaz de me magoar. Então, nos afogamos nisso... Pensando que nos amamos como dois amantes. Estamos enganados e você sabe.
- Você se importa? – ele disse, entendendo cada palavra dela.
- Não. – ela disse, abrindo um pequeno sorriso. – E você? – ela ajoelhou na frente dele e ele sorriu malicioso negando.
compreendia o que disse com cada pequena palavra e gesto. Ele queria tanto amá-la desse jeito, seriam perfeitos juntos. Namorados, como sonhara com isso. Mas, injustamente, sabia que a sua melhor amiga tinha razão. Eles se usavam, era a forma mais pura e verdadeira de falar o que tinham. Eles afogavam suas dores e problemas em si próprios. E não se importavam, porque sabiam que o ato sexual entre eles eram mais do que a carne e a luxúria. Era o amor, mesmo que fraterno deles, comprovando que não importava o quão íntimo era aquilo, eles nunca se magoariam e sempre teriam um ao outro. Era um laço, um pacto deles.
Um segredo.
o beijou com calma e delicadeza, as mãos dele indo em direção à sua nuca. Ele inclinou o seu próprio corpo para cima do dela, abriu o zíper do moletom dela e tirou do corpo delicado de sua melhor amiga. Enquanto que puxava a camiseta dele para cima, os dois se afastaram para tirarem suas camisetas e voltaram a se beijar com rapidez.
Decididos.
Ela arranhava as costas largas dele, enquanto se deliciava com a pele macia e perfumada do pescoço dela. As mãos dele abriram agilmente o sutiã dela, deixando os seios rígidos dela livres para suas mãos e boca. Ela gemia baixinho e ele sugava os seios dela com mais vontade. levou suas mãos até a calça dele e abriu, empurrando com as mãos e pés para fora do corpo dele. Ele desceu os beijos até a calça dela e abriu, tirando do corpo dela e a beijou em cada parte. gemia mais alto, mais claro, com tesão. Ele tirou as últimas peças que os separaram e depois de se proteger subiu em cima dela. Beijou os lábios avermelhados dela e a penetrou com força. o empurrou para o lado e subiu em cima dele, cavalgando nele. urrava e gritava o nome dele. Aquele era o melhor deles, não importava o dia de amanhã, o que importava era sentir-se melhor naquele instante. Ela sabia que já tinha se arrependido por transar com o melhor amigo, mas naquele minuto em que rebolava e gemia no ouvido de ela sabia que estava querendo dar prazer e amor a ele. Queria mais do que tudo fazer com que se sentisse amado, mesmo que fosse por alguns minutos.
beijava a barriga dela e subia até o pescoço, soltava sua respiração nos lábios dela e apertava o bumbum dela. Os dois gemeram e chegaram ao ápice juntos. Ela caiu sobre ele e o beijou delicadamente.
- Você é a melhor amiga de todas. – ele riu divertido.
- A bebedeira já passou, é? – ela o olhou sorrindo.
- Acho que sim. – ele comentou. – Você já vai se arrepender, não é?
- Não, eu não irei. – ela o encarou séria. – Mas não significa que vamos repetir, . Esse vício de ficarmos nos usando para esquecermos a vida lá fora não adianta. Se você gosta mesmo da Natalie, deve lutar por ela e não afogar as mágoas em mim.
- Estranho falar sobre outra mulher depois de fazer sexo com você, . – ele comentou, rindo, e ela gargalhou concordando. – Mas você tem razão. Isso não vai acontecer de novo, eu juro. – ele disse, sorrindo e acariciando as costas nuas dela.
- Isso. – ela beijou, pela última vez, os lábios dele. – Último beijo, agora fim, vou colocar minha roupa. – ele a segurou fortemente negando e ela riu balançando a cabeça, colocou a calcinha e ele sua cueca e cobriram-se abraçados.
- O que você queria esquecer? – ele perguntou, depois de um tempo em silêncio.
- O quê? – ela o olhou confusa.
- Você disse que não podemos nos usar para esquecermos a vida lá fora. O que você quer esquecer? – ele a encarou fixamente e sorriu triste.
- Assunto para outro dia, ok? – ela pediu e ele assentiu compreensivo. – Boa noite, . – ele beijou a testa dela e dormiram abraçados.

Capítulo 18

Presença Indesejada

Alguns dias depois...

É engraçado como da noite para o dia você percebe o que é importante na sua vida. O que faz falta e o que tanto faz. Erik tinha ido viajar há dois dias e Natalie percebeu que, mesmo tendo vivido pouco tempo com ele, o garoto tornou-se importante para ela. Mas não tanto. Ele sempre foi gentil, carinhoso e lindíssimo, mas era sempre só isso. Nada além. O sentimento não crescia, não se modificava e foi por isso que tomou a decisão de não ir a Espanha.
Talvez, se tivesse ido, se sentiria como uma golpista e aproveitadora. Não estaria com o coração e mente entregues ao garoto. E isso ela não seria nem em um milhão de anos. Seu sonho continuaria ali intacto para um dia realizá-lo sendo sozinha ou não. Mas com certeza tendo certeza que seria pelo seu esforço.
Natalie prendeu seus fios dourados num rabo de cavalo e arrumou a camiseta, antes de pegar sua bolsa e livros e sair em direção à sua aula. A cada passo que dava, era mais um momento junto a que sua mente enganosa lhe mostrava. Sentia tanta falta do garoto de olhos verdes. Saudade dos beijos, dos toques, da gentileza, do olhar, da essência dele.
Sabia que a culpa era toda dela. E que, provavelmente, não teria volta. E isso simplesmente servia para deixá-la mais triste e magoada, por que ter sido tão franca e ter cobrado tanto de um relacionamento que nem havia findado ainda? Ela se perguntava constantemente e, intimamente, sabia a resposta. Qual garota não buscaria certeza num relacionamento com um homem tão lindo e interessante como ele? Era impossível não buscar essas certezas e acabar inutilmente fazendo cobranças.
Ela respirou fundo e quando virou o corredor deu de cara com o dito cujo, bufou inconscientemente, pensando em como a sua mente conseguia lhe enganar e lhe rodear até estar de frente realmente com . Ela pensou rapidamente o que deveria fazer. Ir reto ou cumprimentá-lo? Sorrir ou fazer cara de paisagem? Dar um beijo no rosto ou acenar de longe? Foram segundos agonizantes e... Perdidos. Natalie abriu a boca para saudá-lo.
- Oi... . – ela disse, com um sorriso simples, ele a olhou de cima a baixo e continuou seu caminho.
Natalie ficou chocada. Paralisada no meio do corredor. Virou de costas, olhando o garoto seguir seu caminho como se ela não tivesse dito nada, como se ela nem existisse. Os olhos encheram-se de lágrimas. Lágrimas quentes e grossas que rolaram sem sua permissão pelo seu rosto delicado. Ela era uma burra. Sentia-se assim todo momento e, naquele momento em que ele virou as costas, só serviu para mais uma vez sua mente consciência gritar com ela: burra!
Respirou fundo, limpando as lágrimas com ódio e saiu batendo os pés no chão em direção à sua sala. Não iria se rebaixar novamente e muito menos continuar sentindo pena de si mesma. Tinha acabado, não é? Então que seguisse em frente como... Ele.

encostou o corpo nos armários do corredor ao lado, respirou fundo incontáveis vezes, olhou rapidamente o corredor que tinha acabado de passar e a viu ali, ainda parada. Os olhos perdidos num ponto qualquer do chão, as mãos limpando os olhos e então ele voltou à posição de antes, se xingando mentalmente. Ele sabia muito bem o que era aquilo. Lágrimas. “Ah não, Natalie, não chore. Eu não mereço isso.”, ele suplicava.
Ele não merecia aquelas lágrimas. Ela não merecia as suas lágrimas. O que importava se no fim do dia eles não estariam juntos? A vida estava muito complexa para ele mesmo. Dias atrás estava afogando as suas mágoas e dores no corpo de sua melhor amiga, algo que já estava estritamente resolvido: aquilo não aconteceria nunca mais, não é um objeto que ele pode usar e jogar fora todas as vezes que passar por uma decepção.
Mas como esquecer que dias atrás tinha visto aquela garota, sua loirinha com rosto de boneca, beijando outro homem, tão apaixonada, tão intensamente? Ele não conseguia esquecer. E ele não conseguia perdoar.
Era por isso que não falaria com ela.
Era por isso que não se importou de passar reto por ela como se a mulher não existisse.
Mas por que agora sentia um buraco crescente em seu peito? Bufou irritado com a situação e bateu a cabeça no armário, ouvindo o barulho ressoar pelo corredor vazio e gelado. Pensou seriamente em faltar na aula, mais uma vez, e beber escondido em seu quarto. E então as doces e preocupadas palavras de sua melhor amiga voltaram em sua mente:

“- Eu me preocupo contigo, . Não importa se a Natalie aconteceu. Eu não quero que você fique enchendo a cara por causa dela. – ela sentou-se, o olhando. – Não deu certo vocês dois? Ok. Ergue a cabeça e continua. O mundo é maior, as possibilidades são muitas... Tudo pode acontecer. – ela disse, e ele sentou, olhando-a encantadoramente.”

E, por ela e por ele próprio, continuou seu caminho até a sua sala.
chegou à sua sala e notou que parado na porta ao lado à sua estava e Barbara Lively. E interessantemente, Arthur e estavam vindo de mãos dadas naquela direção. acenou tranquilamente para a morena, que sorriu e mandou um beijo para o amigo, sorrindo o garoto entrou na sua sala.
Arthur a olhou com as feições fechadas, odiava quando a namorada se aproximava do melhor amigo ou de qualquer outro amigo, ele tinha despertado sentimentos de posse sobre a garota. Mas estava se controlando, já que depois de uma longa conversa os dois finalmente tinham feito as pazes.
Barbara observou o irmão e a órfã se aproximar e aproveitou que o namorado estava de costas para beijá-lo apaixonadamente. Grudou seus lábios aos dele com força e vontade, as mãos segurando delicadamente o rosto másculo de , as mãos grandes e fortes dele segurando a cintura fina dela.
Barbara sabia o quanto aquilo poderia afetar e era tudo o que mais queria. Queria que a garota soubesse que não tinha chances com o seu namorado, que aquele homem era dela e só dela.
inverteu as posições, grudando o corpo da namorada contra a parede e forçando seu corpo contra o dela. Tudo que ele mais queria naquele momento era não pensar e, automaticamente, não sentir nada. Às vezes, sentia-se um idiota, porco nojento por usar uma garota tão boa e adorável como Barbara. Pensava no tempo em que estavam juntos e tentava descobrir em que momento o encanto se esvaiu, o amor acabou e sua atenção foi toda voltada àquela garota de olhos castanhos. Sentia as mãos de Babi passarem pelo seu pescoço e chegarem até os seus ombros. Mas não sentia amor. Claro, não podia mentir que aquilo tudo ainda não lhe excitava muito, mas era só aquilo... E era exatamente isso que o perturbava. Os dois ouviram a voz de Arthur soar animada ao lado deles.
- O dia está muito quente, hein. – o homem riu gostoso, abraçando firmemente a namorada. sentia-se constrangida e o coração palpitava, queria sair dali.
- Muito quente, Tuy. Muito. – Babi o respondeu, logo que se afastou do namorado, o sorriso iluminando seu rosto.
- Nós notamos, Babi. – Arthur beijou a curva do pescoço de , mas os olhos da mulher estavam fixos nos olhos castanhos escuros, que lhe observavam surpresos e tímidos.
- Arthur, eu tenho aula agora, ok? Até mais tarde. – a mulher falou, olhando para o namorado e sorriu levemente, dando um selinho casto nos lábios dele. Olhou mais uma vez para o casal à sua frente, deu um sorrisinho educado e saiu andando apressada para sua sala no outro andar.

Summer estava extremamente entediada. Andava de um lado para o outro no quarto. Sentia-se muito melhor, a cada nova conversa com o seu psicólogo conseguia se sentir renovada e pronta para encarar o mundo.
Nunca pensou que seu problema poderia ser resolvido à base de conversa e acompanhamento. Tinha conhecido muitas pessoas como ela e adorava passar as tardes no jardim sentindo o vento gelado bagunçar seus cabelos ruivos, enquanto falava com uma das garotas sobre as suas vidas e suas metas dali em diante.
Summer se sentia radiante. Feliz.
Fazia dias que não sentia aquela dor gritante em seu peito, aquela vontade avassaladora de pegar algo afiado e passar por sua pele clara e muito menos aqueles enjoos nojentos que lhe faziam jogar tudo para fora. Se sentia limpa e tranquila.
Caminhou até a porta do pequeno guarda-roupas e observou mais uma vez o calendário ali colado. Só faltava 3 meses. 90 dias. Apenas isso para sair dali e voltar com toda força e coragem com sua vida. A vida que sempre sonhou ter e que agora teria graças ao Doutor Ethan Parks e a toda a equipe da Instituição Peace and Harmony. Graças à sua própria força de vontade e determinação.
Sentou na cadeira em frente à janela e ficou em silêncio, numa meditação relaxante e nova que aprendera com Suzi, sua nova amiga ali.
Ouviu passos no corredor e então sua porta ser aberta. Summer não abriu os olhos e nem virou sua cabeça para ver quem estava entrando em seu quarto, porém ouviu a voz melodiosa de Candice.
- Ei, Sums, você tem uma visita. – e isso foi o bastante para lhe acender. Abriu os olhos ansiosa e virou o corpo em direção à porta.
- Oi, Sums. – ouviu a voz rouca e tão gostosa de ouvir dele. Josh estava ali e ela só tinha mais certeza que tudo estava bem.
- Josh. – ela disse, infantilmente, o sorriso crescendo em seu rosto, correu a pouca distância que os separava e pulou no colo do menino, os braços ficando ao redor do pescoço dele. Ele riu.
- Vejo que sentiu saudades. – ele falou, no ouvido dela, provocante.
- Senti mesmo, Josh, e você também. – ela afastou seu rosto do pescoço dele. – Senão você não estaria aqui. – ela disse, sapeca, o sorriso brincando em seus lábios.
- Você sempre tem razão. – ele disse, sorridente, era tão bom ver como sua garota estava bem, dando um beijo longo na bochecha macia de Summer. - Como você está?
- Sente-se aqui e vamos conversar. – ela disse, alegremente, entrelaçando os seus dedos e o levando até a sua cama para passarem aqueles poucos minutos de visita conversando qualquer coisa que lhes fizessem sorrir.

Três meses depois...

Summer andava de um lado para o outro. Estava feliz e ansiosa. Estava, claramente, amedrontada, não sabia o que esperar do lado de fora daquela Instituição. Não sabia explicar o que três meses fora do mundo real poderiam ter mudado nela, mas Summer sentia-se, naquele momento, preparada e diferente. Recolheu uma camiseta que estava no sofá, no canto do quarto, e guardou na mala. Analisava o quarto que fora seu durante aqueles dias. Analisava a si mesma, não tinha marcas recentes e as antigas já estavam sumindo, não sentia aquele sofrimento e dor dentro de si mesma. Não sentia vontade de parar, sentia vontade de prosseguir. Andar e nunca olhar para trás. Parou em frente à janela e fechou os olhos, respirando fundo. Ouviu a porta ser aberta, os passos calmos e devagar vindo em sua direção e o perfume masculino enchendo todo o ambiente. Sorriu.
- Como está se sentindo? – Doutor Parks disse, calmo.
- Muito bem, doutor. – ela o olhou sorridente e ele aproximou-se.
- Eu fico muito feliz. – ele segurou as delicadas mãos da mulher e sorriu. – Eu espero que você coloque em prática tudo que aprendeu aqui e que esteja saindo hoje como uma nova mulher.
- Com toda certeza do mundo. Obrigada, doutor Ethan, por tudo. Por ter me escutado e compreendido em cada momento, inclusive nos meus surtos, que não foram poucos. – ela sorriu envergonhada e ele riu. – Obrigada por cada conselho e por ter, principalmente, me mostrado um mundo o qual eu tenho agora vontade de conhecer e viver. Você foi um anjo pra mim.
- Não fiz nada além do meu trabalho. Mas eu fico extremamente satisfeito que algo que eu disse te ajudou. – ele a abraçou apertado e sorriu. – Fique bem, Summer.
- Eu ficarei. – ela lhe deu um beijo na bochecha do homem e sorriram.

A porta voltou a se abrir, dessa vez revelando a Enfermeira-Chefe Candice e sua melhor amiga , as duas sorriram amigavelmente. Summer olhou para Ethan e logo depois estava abraçando sua amiga. suspirou, estava tão feliz e orgulhosa de Sums, vê-la ali saudável e recuperada era uma benção. Ouviram os passos do doutor se aproximarem dela e então se separaram.
- Você veio sozinha? – Summer perguntou, olhando por cima do ombro de .
- O Josh está terminando de acertar algumas coisas lá no balcão. – ela sorriu.
- Ah, não. Ele está pagando? Eu que tenho que pagar algo. – ela balançou as mãos.
- Não, Sums. Na verdade, foi a Amber que mandou ele entregar uma quantia. Não se importe com nada. – ela disse, calma. – Está pronta?
- Estou. – ela disse, confiante e então virou de frente para Candice e Ethan. – Obrigada, Candice, por tudo. Eu espero que vocês continuem sendo essas pessoas maravilhosas. Tchau, Candice. Tchau, Ethan. – ela sorriu e abraçou os dois devagar e com todo sentimento de gratidão que conseguiu colocar naquele gesto. Os dois sorriram.

Summer pegou sua mala e sua mochila e saiu junto de em direção ao Hall de entrada. Os sentimentos ficando mais intensificados a cada passo que dava. Candice e Doutor Ethan iam na frente, conversando sobre outra paciente que teria alta dali dois dias. O silêncio era confortável e bem aceito. Enquanto Summer pensava como seria rever Josh, seus amigos e voltar à rotina da Universidade, analisava cada movimento de sua amiga. Tinha sido péssima em não notar o que estava acontecendo com ela, mas agora estaria ali sempre pronta para qualquer coisa. Estaria ali para não a deixar ter uma recaída, voltar a se sentir mal.
Josh estava olhando pela janela o jardim florido e bem cuidado da Instituição. Summer o olhou dos pés a cabeça e suspirou, estava mais lindo do que nunca. E, naquele momento, ela colocou em sua mente que não poderiam mais ficar juntos, tinham que ser amigos. Aquela relação que eles vinham tendo era tóxica e causou muitos danos a ela. Summer não queria mais danos, queria viver feliz. E sabia que Josh nunca se negaria a ser seu amigo, nada além disso. Ela e acenaram para os outros dois que a acompanhavam e se aproximaram de Josh. O loiro olhou para as duas e sorriu largamente analisando sua menina, ela usava uma calça legging com desenhos abstratos nas cores azuis e cinza, uma blusa preta e uma jaqueta jeans por cima, os cabelos estavam soltos e brilhosos, o sorriso simples. Ele a abraçou apertado, a aprisionando em seus braços e sentiu o perfume cítrico da garota. Como sentira falta dela, do seu cheiro, do seu toque. Estava pronto para recomeçar. Serem um casal normal, sem sofrimento, só alegrias. Mas ele sabia que ali não era o melhor momento para falar tudo que estava pensando e decidindo. Ele segurou a mala da garota na mão esquerda e segurou com sua mão direita a mão dela, entrelaçando seus dedos e sorrindo alegremente. Soltou a mão dela só quando ela entrou no carro.
Seguiram viagem com no banco traseiro, falando sobre como tudo estava na Universidade durante o tempo em que Summer ficou reclusa e Sums fingindo prestar atenção na amiga. Josh a analisava atentamente, sabia que ela não estava ouvindo verdadeiramente a amiga, mesmo que sempre balançasse a cabeça em concordância e sorrisse.
Pouco tempo depois, estacionou o carro em sua vaga e olhou rapidamente para , que deu uma piscadinha para ele e sorriu. Summer colocou a mochila com estampa tribal nos ombros e caminhou ao lado de em direção ao seu dormitório. Sentia a ansiedade lhe corroer, não sabia o que e Josh tinha dito aos outros, não sabia se eles estavam esperando o retorno dela hoje. Estava com os nervos à flor da pele e, por isso, nem notou que Josh vinha caminhando atrás dela no corredor da ala feminina. abriu a porta do quarto de Summer e Natalie, e no momento em que a ruiva colocou os pés para dentro sorriu largamente e totalmente surpresa.
- Surpresa! – papéis brilhantes caíram em cima dos três, principalmente em Summer que estava bem à frente, o quarto estava todo decorado.
As camas estavam bem encostadas nos guarda-roupas, a porta do banheiro estava fechada e tinha papéis grudados nela e estrelas que brilhavam, o quarto estava com a luz desligada, as janelas estavam fechadas e as cortinas também. Uma faixa escrita “Seja Bem-vinda, Summer” estava grudada na parede e ao lado seus amigos. e seguravam duas garrafas de cervejas, e Arthur estavam de mãos dadas sorrindo, Amber tinha os olhos levemente marejados, Natalie estava ao lado de Lizzie e Brian, que sorriam amigavelmente. e Josh entraram no quarto empurrando a ruiva e fecharam a porta. Tudo bem que era final de semana e que a maioria dos universitários estavam em suas próprias casas, mas deveriam tomar cuidado para que os coordenadores não descobrissem a pequena festinha que estava acontecendo ali.
- Eu não acredito nisso. – Summer sussurrou, envergonhada.
- Estamos te recebendo de volta ao melhor estilo Summer. – disse, alegre, erguendo a cerveja e Summer riu.
- Amiga! – Amber deu um gritinho e as duas se abraçaram.
- Sua retardada, eu estou com vontade de te bater. – Natalie chegou falando bem calma tudo aquilo e Summer gargalhou. – Como você some desse jeito e só me deixa aquele bilhetinho? Vadia!
- Eu também senti sua falta, Nati. – ela sorriu e abraçou a loira, que deixou algumas lágrimas caírem. – Ei, não chora. Eu estou bem.
Passou os próximos minutos abraçando, beijando e comentando sobre como fora passar os últimos meses na casa da sua vó em Brighton. Somente Josh, e Amber sabiam que aquilo tudo era uma mentira, mas ao olharem para Summer sabiam que ela não queria se expor. Talvez fosse melhor assim, deixar aquilo tudo no passado. Summer pegou uma garrafa de cerveja e começou a rir e dançar levemente com as amigas. Esperava que aquelas poucas palavras ditas fossem o bastante para saciar a curiosidade dos amigos. Estavam todos muito alegres, quando ouviram duas batidas na porta, Summer olhou para Josh, que deu de ombros e abriu a porta.
pensou que ia cair pra trás quando viu que ali, parados e esperando Josh dar passagem para entrar ao quarto, estavam e Barbara. Os dois sorriam amigavelmente e aquilo era ridículo. Nunca foram amigos de Summer, por que estavam ali? sentou na cama de Summer e bebeu num gole o restante de sua bebida. Arthur sentou à sua frente e falou algo que a fez sorrir, em seguida, já estava lhe beijando.
e Babi entraram no quarto enquanto a loira analisava com certo desdém o cômodo. abraçava amigavelmente Summer e lhe desejava um bom retorno. Summer agradeceu e sorriu por toda atenção e delicadeza que o homem teve com ela. Eles nem eram amigos e sabia que muitas vezes era por culpa daquele grupinho que ela e Josh não tinham ficado juntos, mas naquele momento se perguntou por que nunca fora amiga daqueles caras? Não demorou muito para relembrar os motivos, Barbara parou ao lado do namorado e sorriu debochada.
- Fazer festa em dormitório é tão pré-adolescente, amor. Por qual motivo que viemos aqui mesmo? – ela disse, diretamente para o namorado, mas todos ali a olharam. a encarou e balançou a cabeça negativamente.
- Desculpe. – ele disse para Summer, que deu de ombros rindo. – Barbara, eu não sei por que você veio, mas eu sei por que eu vim. Vim receber a Summer, que é amiga dos meus amigos de volta. Cadê a sua educação? - ele perguntou, exaltado, e na mesma hora Arthur afastou de si e se colocou de pé.
- Quem você pensa que é pra falar assim com a minha irmã? – o homem gritou com , ficou em pé ao lado do namorado, segurando o braço dele. Arthur a olhou bravo e puxou o braço nada delicado, fazendo-a se desequilibrar e quase cair.
- O namorado dela. Mas também alguém que tem educação e gostaria de ensinar a pessoas como você e sua irmã a se comportarem melhor numa festa. – ele disse, sério. – Não vamos brigar, Arthur. Não hoje, não para atrapalhar a festa da Summer.
Os dois se encararam furiosos, Babi olhava perplexa e brava. Summer nem se importava, conversava com Amber. O resto olhava para aquilo tudo sem reação definida. E observava com uma adoração estranha. Queria abraçá-lo.
- Idiota. – Babi disse para , antes de sair, batendo os pés em direção ao seu quarto. a olhou sem expressão alguma.
- , vamos! – Arthur disse, depois de alguns segundos em silêncio, segurou o braço da garota.
- Ei, não! – ela disse, soltando-se do aperto dele. – Se você quer ir, ok. Mas eu vou ficar. É a festa de boas vindas da minha amiga, Arthur. – ela disse, olhou rapidamente e intensamente para e saiu andando para o lado de , que falava com Liz sobre a sua noite com .
Arthur observou a sua namorada e saiu bufando do quarto. Brian riu e cumprimentou , o puxando para mais perto dos outros. Apresentou o homem aos outros amigos, e , e ficaram o restante da tarde até a noite conversando sobre assuntos mais amenos.
Em alguns momentos, se desligava do assunto e observava Natalie.
Por sua vez, Natalie tentava o máximo impedir que os seus instintos lhe fizessem olhar para o garoto de olhos verdes que estava no mesmo ambiente que ela.
sempre acabava deixando que seu olhar encontrar-se com o os olhos castanhos escuros de .
E, instantaneamente, um sorriso tímido e contido aparecia no rosto de ambos.

O sinal de troca de aula bateu e juntou suas coisas e saiu de sua sala. O corredor estava lotado como todos os dias e aquilo nunca incomodou a garota, mas naquele dia tudo estava lhe incomodando. Já fazia alguns dias que andava sentindo-se estranha, enjoada e febril. Talvez estivesse pegando alguma gripe bem forte. Tinha um tempinho para tomar um café, então decidiu ir até a lanchonete. Desceu o lance de escadas e quando estava passando pela porta do local, viu aproximando-se com Summer. Já fazia uma semana que Sums tinha voltado e ela parecia cada vez melhor e mais acostumada com a rotina do que antes.
- Bom dia. – disse, e as amigas sorriram e foram até o balcão fazerem os seus pedidos.
- Eu quero um Chocolate quente. – pediu para a atendente.
- Um suco de manga. – Summer falou, e já estava pronta para falar o seu pedido, quando sentiu aquele cheiro de café.
Inalou profundamente e sentiu uma náusea tão forte que deu as costas às amigas e saiu correndo em direção ao banheiro. Summer e se entreolharam surpresas, falaram para a atendente cancelar o pedido, iriam ver o que tinha acontecido com a amiga e depois voltavam, e saíram em direção ao banheiro. se enfiou dentro de uma cabine e jogou tudo que havia comido durante o dia para fora. Ela se levantou com dificuldade e abriu a portinha, vendo suas amigas a olhando estranhamente, andou devagar até a pia, lavou a boca e o rosto várias vezes e colocou as mãos na pia e curvou a cabeça. Pensava rapidamente, contava mentalmente e respirava fundo. Não, aquilo não era possível, era? Sentiu o desespero tomar conta de si mesma. Segurou com força o cabelo e soltou todo o ar preso em seus pulmões. Ouviu a porta abrir e as três olharam ao mesmo tempo, Lizzie observou as amigas com aquelas expressões de medo.
- O que aconteceu? – ela perguntou, calma.
- A está passando mal. – Summer voltou sua atenção à amiga. – Você ‘tá bem?
- Não. – ela negou rápido demais. – Meninas... Ai meu Deus. – ela fechou os olhos e as amigas ficaram sem saber o que falar ou pensar.
- O que foi, ? – aproximou-se da amiga e analisou o rosto dela. – Pode falar com calma, o que você tá sentindo?
- Meninas, minha menstruação está atrasada. – ela respirou fundo e as outras se olharam surpresas. – Eu acho que estou grávida.
- Quanto tempo? – Liz se aproximou, segurando a mão solta de .
- Um mês. – ela respondeu, depois de algum tempo contando mentalmente.
- Você e o não usaram preservativo? Você não toma anticoncepcional? – Summer perguntou.
- Às vezes nós usamos e outras não. Eu tomo anticoncepcional, mas no mês passado eu esqueci de tomar em três dias. Eu não sei... Eu... – a voz foi cortada com o soluço que ela deixou escapar de sua garganta. Não podia estar grávida, aquilo era demais para ela.
- Calma. – disse, abraçando a garota. – Liz, você a leva para o nosso dormitório? Eu e a Summer vamos comprar um teste. Okay? – ela olhou nos olhos da amiga e depois dela assentir saiu junto a Summer em direção à farmácia.

Não demoraram muito ali na farmácia. Summer comprou três testes e explicava para o motivo: se levasse um, poderia correr o risco de dar errado. Se levassem dois, poderia dar um de cada forma e ficarem na dúvida, agora se levassem três teriam a certeza completa. deu de ombros e pagou a conta, saindo rapidamente com a ruiva. Correram até o dormitório e logo estavam sentadas ao lado de Lizzie, esperando que saísse do banheiro. Já estavam esperando há muito tempo e não ouviam nenhuma reação da amiga.
Summer levantou-se e encostou o ouvido na porta, ouviu uns resmungos e depois alguns soluços. Bateu na porta.
- , abre a porta. – ela disse, calma. – Vamos lá, não importa o resultado. Nós estamos aqui contigo, amiga. – não respondeu.
- Ei, , vamos lá. – também se aproximou junto a Liz da porta. – Vamos ver o resultado juntas. Vamos resolver tudo isso juntas.
A porta se abriu, segurava dois testes em uma mão e outro na outra mão. Todos tinham duas listras. Todos diziam claramente o resultado: positivo. deixou os testes caírem ao seu lado no chão, as lágrimas começaram a cair pelos seus olhos com força, manchando sua pele, as mãos foram em direção à barriga ao mesmo tempo que suas pernas cediam ao cansaço e iam ao encontro do chão. As outras garotas olharam-se e logo em seguida estavam ao redor da amiga, chorando junto e a abraçando. Não precisavam falar nada, só serem as melhores amigas e lhe darem o ombro para chorar.
estava morrendo de medo. Um bebê. Uma vida estava se formando dentro dela. E tudo que ela pensava era como seria quando seus pais soubessem? Como reagiria? Será que ele quer ter um filho? Como ela iria contar? Como ela poderia pedir para que um cara de 20 anos esteja pronto para ter um filho se nem ela mesma estava?
Sua cabeça girava em 360 graus, as lágrimas rolavam pelo seu rosto, o medo tomando todo seu corpo, quando os seus pais soubessem daquela notícia estaria perdida. Será que teriam coragem de mandá-la tirar? Nunca. Nunca faria isso, poderia estar surtando. Poderia estar desesperada, mas jamais tiraria de si um bebê, um ser pequeno e inocente que nem pedira para ser gerado, simplesmente fora gerado e estava ali, se desenvolvendo. Ela o amava, mesmo sem saber o seu sexo ou ter visto o seu rostinho. Ela o amava por ser a prova do seu amor com .
Mas mesmo sentindo o amor crescer dentro de si junto daquele pequeno ser, chorava por não saber como tudo seria dali em diante.
Naquele momento, tudo que mais queria era permanecer ali abraçada às suas amigas.

Continua...

Nota da autora: Olá pessoal!
Gosto de capítulos que mostram um pouco mais dos personagens secundários. Como esse! Podemos ver no inicio o melhor amigo todo magoadinho com a Natalie, em seguida a Summer recebendo visita na rehab! E então ocorreu uma passagem de tempo e EU ADORO FESTAS SURPRESAS (quero uma, por favor!), não tenho palavras para dizer como eu não suporto a Barbara e o Arthur. Eles às vezes (grande maioria das vezes) me irritam! Af.
Mas a situação tá difícil mesmo é pra bff da pp. Bom, alguém recebeu a visita da cegonha, né? E daqui 9 meses terá um bebê para cuidar...
Mas enfim... O que acham que vai acontecer nos próximos capítulos? Vejo vocês na próxima atualização.
Até em breve, beijos de luz!
Nathy xx

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