Autora: Thaynnara R. | Beta: Babs | Capista: Belle



Esta história foi inspirada na música
Fortune Cookie - Emma Bale feat. Milow.

— Emma! Filha, volta aqui! — Minha mãe chamou. Continuei andando seguindo o caminho pela calçada, sem olhar para trás. A ouvi chamar meu nome mais algumas vezes antes de virar a esquina e desaparecer da rua completamente.
Mais uma vez, tínhamos discutido pelo mesmo motivo. Minhas mães se recusavam a me deixar estudar arte e ser uma artista, o que é o meu sonho desde que eu aprendi a falar. Elas querem que eu curse direito e seja uma advogada, como elas e o resto da família. O pior dessas discussões é que eu raramente conseguia dizer algo e me impor. Sair de casa com raiva no meio da discussão foi o melhor que eu já consegui fazer.
Caminhei em passos rápidos até o parque que ficava a poucos minutos da minha casa e me sentei em um dos bancos. O lugar geralmente ficava cheio de crianças correndo de um lado para o outro e pais conversando, mas por causa do tempo frio que fazia hoje ele estava vazio. Também já era quase hora de jantar, então qualquer pessoa que talvez tivesse tentando enfrentar o frio já teria ido para casa.
Eu gostava de vir aqui para pensar, mesmo quando ele estava cheio. Ele é cercado por moitas e árvores, o que dá uma beleza inigualável para o lugar. A paisagem bonita e as crianças felizes me ajudavam a clarear os pensamentos. Ele ainda funcionava estando vazio. E eu precisava pensar. Precisava descobrir uma maneira de me impor perante as minhas mães para que eu pudesse seguir os meus sonhos, e não os delas. Eu sei que o caminho pode ser difícil, mas eu posso fazer isso.
— Oi, Emma. — Eu, literalmente, pulei em cima do banco. Meu coração batia tão rápido com o susto que eu juro que pensei que fosse desmaiar.
Sentado ao meu lado estava um garoto que eu tinha certeza que de pé seria muito alto, mais alto até do que eu. Ele tinha cabelo castanho médio bem encaracolado que se minha mãe visse mandaria cortar na hora. Seus olhos eram grandes e castanhos e ele tinha um sorriso amistoso no rosto. Eu simpatizaria com ele imediatamente em outra situação, só por causa daquele sorriso, mas há pouquíssimos segundos eu estava sozinha naquele parque, apenas os meus pensamentos e eu.
— Quem é você? O que você quer? — Eu disse me levantando do banco. Eu fazia aulas de boxe duas vezes na semana há uns três anos, então imediatamente me pus em posição para socar a cara dele a qualquer momento.
Ele ficou espantando ao ver a minha reação, certamente ele não esperava por isso. Ele se manteve sentado no banco com as mãos dentro do casaco marrom que usava.
— Desculpa, Emma, eu... eu não queria te assustar, eu juro. — Ele se desculpou.
— Como você sabe o meu nome? — Perguntei sem abaixar a guarda.
— Da escola! Sério, desculpa. Eu juro que não queria te assustar, eu só vi você sentada aqui e pensei em dizer oi.
Eu finalmente abaixei a guarda e respirei fundo. Juro que nunca, jamais, vi esse menino na escola. Não que eu fosse popular e conhecesse todo mundo, mas a escola não era tão grande assim. Se ele estudasse lá, eu deveria ter visto ele pelo menos alguma vezes, mas não conseguia me lembrar dele. Mas olhando bem, o rosto dele parecia bem familiar.
— Tudo bem. — Eu disse me sentando no banco novamente — Não lembro de ter visto você lá alguma vez.
— Eu imaginei, pelo susto que você levou. — Ele disse dando uma risadinha — Meu nome é Aaron. Eu também sei quem você é porque meu pai é cliente das suas mães.
— Ah sim. Qual o nome dele?
— George Armstrong. — Ele disse sorrindo novamente, com uma cara de quem esperasse que eu reconhecesse o nome.
— Ah! Eu já vi ele algumas vezes sim. — Eu fingi. O sorriso dele aumentou e ele olhou para frente.
— Se importa se eu perguntar o porquê de você estar aqui sozinha a essa hora? — Ele perguntou.
— Por que você está aqui sozinho a essa hora? — Rebati.
— Treino de futebol. — Ele respondeu mostrando a bolsa transparente que continha chuteiras e uma toalha.
— Eu briguei com as minhas mães e saí para caminhar um pouco, pensar direito. — Dei de ombros.
— Por que vocês brigaram? — Ele perguntou.
— Porque elas não entendem que eu quero o que eu quero e não vou desistir.
Ele assentiu. Nós ficamos em silêncio por algum tempo, sem nos olharmos, até que ele levantou do banco e ficou me encarando. Ele era muito alto, com certeza bem mais alto do que eu.
— Quer caminhar um pouco? Você disse que saiu para isso. — Ele me convidou.
— Eu não sei, talvez seja melhor não. — Eu disse receosa.
— Ah. — Ele respondeu soando decepcionando, mas se sentou no banco novamente e tornou a colocar as mãos dentro dos bolsos do casaco. — A gente pode ficar aqui então. Ou você quer que eu vá embora? — ele perguntou fazendo o sinal com o polegar. Eu ri, surpresa com a pergunta dele.
— Não, que isso! Pode ficar. Na verdade, acho melhor a gente caminhar mesmo. Aqui tá frio demais — eu disse me levantando e seguindo o caminho para fora do parque.
Eu não olhei para trás e não vi se ele me seguiu ou não, mas certamente não o vi passar por mim em momento algum. Mas quando eu cheguei na calçada, lá estava ele, esperando por mim.
— Como você chegou aqui antes de mim? — Perguntei.
— Você anda devagar. — Ele disse sorrindo. Isso era verdade, ainda bem que minha carreira dos sonhos não era ser uma corredora ou algo do tipo.
Ele era realmente muito alto. Eu tenho pernas longas e quase 1,80 de altura, mas ele conseguia passar de mim. Tudo nele era tão estranhamente familiar. Cada vez que eu olhava para ele tinha certeza de que tinha me confundido. De fato, eu já o tinha visto.
— Então, você quer me contar sobre esses problemas com as suas mães? — Ele perguntou assim que começamos a caminhar.
— Não, acho que não. – Suspirei.
— Tem certeza? Você parece precisar conversar.
— Estou é com fome. — Desviei o assunto. Aaron olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas e deu de ombros, se mantendo em silêncio.
Nós caminhamos em silêncio por alguns minutos. Notei que Aaron me olhava pelo canto do olho, esperando que eu dissesse algo, mas eu não dizia nada. Por mais bonito e alto que ele fosse, ele ainda era um rapaz desconhecido. Me sentia culpada só de estar andando com ele à noite, se minhas mãos soubessem disso ele nem ia precisar ser um serial killer, elas mesmas iam me matar.
Só que ao mesmo tempo que eu me sentia culpada, eu me sentia estranhamente bem. Aaron, e sua estranha sensação de familiaridade, me fazia sentir como se eu estivesse em casa. Mais precisamente, ele me fazia sentir como se eu estivesse na casa da minha vó Julia, comendo biscoitos caseiros e tomando chocolate quente. Nada me fazia sentir tão em casa quanto aquilo... e Aaron.
— Você está mesmo com fome? - ele perguntou.
— Um pouco.
— Se a gente andar mais um pouco, dá pra encontrar o restaurante do meu pai. Pode ser? — Aaron perguntando de frente para mim enquanto andava, o que o impedia de ver o caminho que seguia.
Não que a rua estivesse movimentada, mas mesmo assim aquilo me dava uma aflição. Parecia que ele ia tropeçar e cair a qualquer momento, mas ele andava como se tivesse olhos na nuca.
Ele me olhou abrindo um sorriso, reforçando a pergunta que tinha feito.
— Claro — respondi sorrindo de volta.
Aaron se colocou novamente ao meu lado e me puxou pelo ombro para perto dele. Eu parecia minúscula perto dele, o que era muito estranho porque eu não parecia minúscula perto de ninguém. Eu sou a pessoa mais alta da escola desde a quarta série. Ou pelo menos eu acreditava que era, até conhecer Aaron.

Não foi difícil encontrar o restaurante do pai de Aaron. O lugar tinha um letreiro enorme escrito Armstrong, todo iluminado em uma cor amarela que lembrava ouro. E não era só o letreiro que era bem iluminado, o lugar todo era. Do lado de fora, todo aquele restaurante reluzia e parecia ser feito de ouro derretido. Acho que eu nunca vi algo tão belo e esplendido em toda a minha vida.
— Então, esse é o restaurante. — Aaron disse com um sorriso.
— É, dá pra notar — respondi.
— Quem sabe depois de uma boa refeição você queira me contar sobre o que aconteceu, não é?
Eu ri e o acompanhei para dentro do restaurante.
O interior do restaurante era ainda mais bonito. Logo na entrada você já dava de cara com uma cascata de chocolate de uma cor tão bonita que quase me hipnotizou. Tudo lá parecia de ouro e tinha um brilho que me deixava tonta, mas eu não conseguia parar de sorrir com tanta beleza.
Um garçom prontamente apareceu na nossa frente assim que entramos. Ele usava um uniforme comum de garçom e tinha um sorriso amigável no rosto, brilhando como todo o lugar.
— Senhor Aaron! Como vai?
— Bem, e você? Essa aqui é minha nova amiga, Emma — ele me apresentou.
O garçom fez uma reverencia pequena à mim.
— Muito prazer, senhorita.
— Muito prazer — respondi.
— Então, mesa de sempre?
— Mesa de sempre. — Aaron confirmou.
O garçom nos levou até uma mesa no fundo do restaurante. De lá, tudo parecia ainda mais dourado. Ele nos serviu água e refrigerante antes de anotar nossos pedidos.
Eu não tinha ideia do que pedir, porque sempre que íamos a algum restaurante desse nível minhas mães faziam o pedido por mim. Eu nem ao menos sabia o nome dos pratos que comia. Então, pedi a Aaron que escolhesse qualquer coisa, desde que não fosse crua ou que viesse do mar.
— Então, quer me contar agora sobre o que aconteceu? – ele perguntou depois que os pedidos já tinham chegado.
Eu até me esqueci do que havia acontecido. Aquela comida era tão boa e o lugar tão agradável que eu mal lembrava o motivo de ter brigado com as minhas mães. Nada daquilo parecia importante no momento.
— Eu já te contei o porquê – respondi sem tirar os olhos do meu prato.
O quer que fosse aquilo, era a melhor coisa que eu já tinha comido. Até tinha medo de perguntar o que era e depois não querer mais comer.
— Não contou de verdade. O que é que fez vocês brigarem?
— Por que você quer tanto saber?
— Porque me importo com você e quero te ajudar.
Uma gargalhada debochada saiu sem que eu percebesse. Achava muito estranho ele dizer algo como aquilo, sendo que não tinha nem uma hora que nos conhecíamos. Tudo sobre Aaron era estranho, para ser sincera, mas ele me fazia sentir tão bem que eu não conseguia nem questionar. Só sei que as coisas não pareciam reais perto dele. Tudo parecia parte de um grande sonho e a qualquer momento eu iria acordar.
— Eu quero ser artista, pinto e desenho desde que me entendo por gente e elas não querem aceitar isso. Querem que eu seja advogada, como o resto da família.
— Mas... por que? Isso não faz sentido — ele disse, parecendo genuinamente confuso.
— Eu sei! Elas acham que isso não é uma profissão de verdade. Olha, eu amo as duas demais, mas elas têm uma mente muito fechada.
— Concordo. Elas já viram sua arte? Como elas podem não querer que você seja artista?
— Você já viu minha arte? – perguntei, olhando diretamente para ele.
— Sim, na escola. E nas paredes desse restaurante – ele respondeu, como se eu já devesse saber disso.
Olhei em volta, sem entender nada. Realmente, muitos dos meus quadros estavam pendurados naquela parece. Meu primeiro pensamento foi de que seria impossível os meus quadros combinarem com aquela decoração toda dourada, mas de repente tudo ficou perfeito. Parecia que os quadros tinham sido pintados naquelas paredes.
— Como? – perguntei a Aaron.
Ele deu de ombros e deu uma garfada na comida.
— Meu pai os comprou. Ele queria quadros novos e eu recomendei os seus, então ele os comprou.
Eu nunca havia vendido os meus quadros. Nunca, na minha vida, e eu tinha certeza disso. Pela lógica, seria impossível o pai de Aaron ter comprado os meus quadros. Mas, como vinha acontecendo durante toda essa noite, eu não sentia vontade de questionar isso. Eu não sentia vontade de questionar qualquer coisa que Aaron fazia ou dizia.
— Eu nunca pensei que alguém fosse querer comprar os meus quadros.
— Muitas pessoas vão querer comprar seus quadros, Emma. Muitas pessoas vão te admirar e te ter como inspiração. Você vai ser lembrada por sua arte e pela pessoa que você é. Sua qualidade artística vai muito além de suas habilidades manuais. Você é uma artista no coração.
Olhei novamente para Aaron e uma lágrima de emoção escorreu do meu rosto. Aquilo tinha sido a melhor coisa que eu já tinha ouvido, até porque nunca tinha ouvido algo como aquilo. Eu sabia daquilo, no fundo do meu coração, porque eu sempre acreditei em mim mesma. Mas ouvir de outra pessoa era fabuloso.
— Minhas mães não pensam desse jeito.
— Elas vão, eventualmente.
— E você? — perguntei.
— Eu o quê?
— Por que não me conta sobre você?
— Eu não tenho muito o que dizer sobre mim, não tenho uma vida própria.
— Como assim? – perguntei rindo. – Você joga futebol, é alto pra caramba, seu pai é dono de um restaurante... Deve ter mais sobre você.
— Você também é alta pra caramba – ele rebateu sorrindo.
— Não tanto quanto você.
Ele riu e continuou comendo.
— Oi – uma moça baixa e loira disse olhando para mim.
— Olá – respondi sorrindo.
— Foi você quem pintou todos esses quadros, não é mesmo? – ela perguntou.
Ela parecia um pouco nervosa e notei que segurava um caderninho preto em sua mão.
— Sim, acho que sim — respondi, olhando para Aaron dessa vez. Ele respondeu com um sorriso e uma piscadinha.
— Eu sei que você não é famosa ainda, mas será que você poderia me dar um autografo? Seus quadros são muito bons!
Olhei para Aaron novamente e ele soltou uma gargalhada. Eu peguei o caderninho que a moça havia me estendido e escrevi o meu nome como se fosse uma prova da escola e o devolvi. A moça sorriu e saiu sem dizer nada.
— Isso aconteceu mesmo? — perguntei.
Aaron sorriu e não disse nada. Percebi que era frequente essa mania dele de não responder as perguntas que eu fazia.

Nós terminamos de comer e saímos do restaurante. Não tenho ideia de que horas eram, mas o céu estavam bem escuro, com pouquíssimas estrelas.
— Acho que vai chover — comentei, olhando para o céu.
— Parece que sim. Quer que eu caminhe com você até em casa?
Eu assenti e voltamos a caminhar pela mesma calçada.
— Vai conversar com as suas mães quando chegar em casa? — Aaron perguntou.
— Não sei. Às vezes elas falam tanto na minha cabeça que eu começo a pensar que elas devem estar certas, que a vida é mesmo desse jeito. Talvez eu devesse seguir o que elas dizem.
— Sério isso? Depois do que aconteceu hoje, você ainda pensa isso? — Aaron perguntou incrédulo.
— Não sei, Aaron. Elas têm razão quando dizem que eu sou nova. Como eu vou saber que o futuro vai ser o que eu espero mesmo?
— Você não tem como saber disso, Emma. Não existe uma maneira de prever o futuro. Mas o único jeito de ir longe nessa vida é sendo quem a gente realmente é. As pessoas vão falar, porque é impossível agradar todo mundo, mas você tem que seguir o seu caminho e manter sua cabeça erguida. Só você sabe de verdade o que é melhor pra você ou não.
— Você acha mesmo?
— Tenho certeza! E você também devia ter. — Aaron sorriu e olhou para frente.
— Olá, olá ,crianças! Vocês parecem com fome, querem um biscoito da sorte? — um homem baixinho e barrigudo perguntou.
Ele usava um avental preto por cima de uma roupa social e um fedora preta. Ele segurava uma bandeja cheia de biscoitos da sorte e em seu avental estava escrito “Biscoitos da sorte são mágicos!”.
— Não, obrigada. Acabamos de comer — respondi com o meu melhor sorriso simpático.
— Ah, por favor. É de graça, e eu sei que você está com fome – o homem insistiu, segurando um biscoito da sorte na minha frente. O que eu achei muito anti-higiênico, porque não ele não usava luva nem nada.
— Tudo bem.
Peguei o biscoito da mão da homem e o quebrei. Desdobrei o pequeno pedaço de papel que havia dentro dele, mas nada estava escrito lá.
— Não tem nada aqui — avisei ao homem.
— Oh, não? — ele perguntou confuso. — Talvez ainda não seja a hora. Guarde e olhe mais tarde.
— Ok — respondi e guardei o papel no bolso.
Abaixei minha cabeça por poucos segundos para fazer isso e quando a levantei novamente, o homem já não estava mais lá.
— Pra onde ele foi? — perguntei a Aaron.
— Quem? — ele perguntou de volta.
— O homem do biscoito da sorte.
Aaron parecia totalmente alheio aos acontecimentos do último minuto.
— Ah, ele saiu já – ele respondeu colocado as mãos no bolso.
Notei que a mochila que antes ele carregava com as chuteiras não estava mais com ele.
— Cadê a sua bolsa?
— Que bolsa?
— A que estava suas coisas de futebol.
— Ah sim, devo tê-la deixado no restaurante. Vamos logo antes que comece a chover.
Aaron segurou a minha mão e me arrastou pela rua, em passos apertados. Gotas de chuva começaram a cair em meu rosto e logo essas gotas foram aumentando e ser tornando em uma chuva grossa e pesada.
O rapaz ao meu lado parecia desesperado, tentando a todo custo fugir daquela chuva e me levar junto. A distância entre o tal restaurante e minha casa pareceu bem menor do que eu tinha pensado, pois chegamos lá em poucos minutos.
— Emma. — Aaron gritou, tentando fazer com que sua voz barrasse o barulho da chuva. Ele me empurrou para a varanda, onde a chuva não conseguia mais me pegar, mas eu já estava completamente encharcada. — Lembre-se de hoje, ok? Seja quem você é, não se esqueça.
Aaron foi se virar para correr, mas eu o peguei pelo braço.
— Fica aqui em casa até a chuva passar — eu disse, segurando seu casaco.
— Não posso, Emma. Acabou o tempo, eu preciso ir.
— Quando eu posso te ver de novo? — perguntei, tentando segurar as lágrimas.
Provavelmente o veria na escola no dia seguinte, mas no meu coração aquilo parecia uma despedida. Eu sentia que era.
— Sempre que você quiser, Emma. Eu sou seu.
Aaron se soltou da minha mão, correndo para a rua escura e desapareceu.
Assim, do nada.
Ele se jogou na rua e pareceu ter se misturado a chuva. Desapareceu tão completamente que era como se nem ao menos tivesse estado lá.

Depois de quase cinco minutos estática na varanda olhando a rua, empurrei a porta da frente e entrei em casa. Minhas mães estavam sentadas no sofá, abraçadas, e uma delas parecia chorar.
Elas pularam quando ouviram o barulho da porta e correram em minha direção.
— Emma, por deus! Onde você estava? — ela perguntou, me abraçando pela cintura.
De volta ao mundo normal, onde as pessoas eram menores do que eu, minhas mães não eram uma exceção. Elas são tão baixas que só assim conseguiam me abraçar, me segurando pela cintura.
— Eu só andei um pouco, não demorei tanto — respondi.
— Emma, já é uma hora da manhã! — a outra disse, claramente nervosa.
— Desculpa, mãe. Eu não vi a hora passar.
— Você não disse onde esteve — ela me disse com um olhar severo.
— Fui com amigos da escola a um restaurante do pai de um deles. O pai dele me trouxe de carro até aqui — menti.
Ela respirou fundo com as mãos na cintura.
— Pode subir. Tome um banho e vá dormir, amanhã conversamos.
E foi isso o que eu fiz.
Subi para o meu quarto, tomei um banho e fui dormir.

Creio que dormi por bastante tempo, pois quando finalmente acordei uma de minhas mães estava sentada ao meu lado, segurando uma caneca quente de chá. Minha cabeça começou a doer assim que abri os olhos e parecia pesar uma tonelada.
— Bom dia, amor — ela disse com um sorriso no rosto. — Resfriada, não é? Você sempre fica resfriada quando pega chuva.
— Bom dia, mãe — respondi me sentando na cama.
Ela me deu um beijo no rosto e saiu do quarto. Depois de tomar o chá, me levantei da cama com muita dificuldade e fui ao banheiro. Minha aparência estava horrível e meu cabelo pior ainda, por causa da chuva. Como eu não teria oportunidade de lavá-lo naquele dia, só prendi e o deixei desse jeito pelo resto do dia.
Abri meu guarda roupa, peguei uma roupa bem quente e confortável e me olhei no espelho. Minha aparência realmente estava horrível. E quanto mais eu olhava, pior ficava. Porém, não consegui tirar os olhos do espelho por causa de um reflexo especifico.
Atrás de mim, na parede perto da porta, estava uma das minhas pinturas preferidas. Eu refazia aquela pintura todos os anos, a aprimorando, pois ela foi uma das minhas primeiras e eu a queria manter viva.
Descolei a pintura da parede e desci as escadas a olhando, sem acreditar naquilo direito.
— Bom dia, meu amor — minha outra mãe disse, me dando um sorriso.
As duas pareciam estranhamente calmas naquele dia, provavelmente por causa do meu resfriado.
— Mãe? — chamei.
— Sim? — as duas responderam juntas e depois deram uma risadinha. Elas sempre faziam isso.
— Você conhece algum George Armstrong? Dono de um restaurante, tem um filho mais alto do que eu... — perguntei.
— Acho que não... Você conhece algum George Armstrong, Bella? — ela perguntou a minha outra mãe.
— Com certeza não. Por que a pergunta?
— Não, nada — eu disse com os olhos fixados na pintura.
Mãe Bella se aproximou de mim e olhou a pintura por cima do meu ombro.
— Olha só, o Aaron de novo — ela disse sorrindo.
— Aaron? — perguntei.
— Sim, a não ser que você tenha trocado o nome dele de novo. Mas há anos você o chama de Aaron.
— Sim, Aaron... — eu disse contendo um sorriso. — Ele tem medo de chuva e joga futebol, não é?
— Pelo menos era o que você dizia — ela sorriu e se sentou ao meu lado na mesa.
Olhei para a pintura novamente. O rapaz alto, de cabelo castanho médio e encaracolado me encarava com seus grandes olhos castanhos e sorriso amistoso. Ele tinha uma bolsa em uma das mãos e calçava chuteira nos pés.
Isso com certeza explicava porque o rapaz de ontem a noite me parecia tão familiar, mas eu não sabia explicar o que tinha acontecido.
Será que foi tudo um sonho? Impossível. Eu realmente tinha chegado em casa completamente encharcada com a chuva, então algo daquilo tinha sido realmente real.

Depois que minhas mães saíram, corri para o andar de cima pois tinha me lembrado de algo: o biscoito da sorte. Peguei meu casaco que estava no chão, ainda todo molhado, e vasculhei o bolso.
O papel estava, intacto, sem nenhum sinal de chuva. O desdobrei novamente e finalmente algo estava escrito.

“Guarde a data: 25 de maio”

Obviamente aquilo não fazia sentido. Peguei o papel e o guardei dentro do meu porta joias, na esperança de que um dia ele me revelasse algo diferente.

Contrariando todas as recomendações de minha mãe, saí de casa à tarde e fui até o parque. O dia estava claro e muito bonito, então muitas crianças brincavam por lá. Me sentei no mesmo banco que tinha me sentado na noite anterior e esperei.
Uma, duas horas. Nada aconteceu.
Eu não sei o que eu realmente esperava naquele lugar. Mas eu queria alguma resposta sobre o que tinha acontecido. Ainda não tinha conversado com as minhas mães sobre a escola de arte, mas eu iria fazer isso. Só tinha medo do que iria acontecer.
Lembrei das palavras de Aaron. Eu realmente não tenho como prever o futuro, então também não tenho motivo para temê-lo. Não sei o que vai acontecer, mas sei que tem muito chão até eu me formar no ensino médio e finalmente poder fazer o que eu quero fazer. Por enquanto, só me resta esperar.
De fato, eu me sentia estranhamente diferente naquele dia. Algo tinha mudado em mim, eu parecia maior mas não em altura (ainda bem).

Eu passei a ir ao parque com uma frequência maior do que antes, na óbvia esperança de Aaron aparecesse em forma humana para mim novamente, mas isso nunca aconteceu. Mesmo assim, todos os dias eu ia lá e esperar. Dia após dia, sem desistir.
Mesmo depois que me mudei para poder entrar na minha tão sonhada faculdade de arte, eu ainda procurava por Aaron em todos os lugares. Carregava suas pinturas comigo em qualquer lugar que ia, qualquer viagem que fazia.
Não sentia vontade de contar sobre ele para outras pessoas porque tinha certeza de que me achariam louca; e também, Aaron nunca mais tinha aparecido desde aquela vez quando eu tinha 16 anos. Não fazia sentido falar sobre ele.
Mas era inegável o fato de aquela experiência inexplicável tinha mudado a minha vida. O mundo parecia totalmente diferente agora pois eu me via de uma maneira diferente.
O mais fabuloso é saber que eu mesma tinha provocado aquilo. Eu mudei minha vida através de Aaron. Eu o tinha criado, em cada detalhe, desde seu cabelo encaracolado até seu sorriso amistoso. A única coisa que eu queria saber era como aquilo tinha acontecido.

Eu já estava no segundo ano de faculdade quando Aaron apareceu pela segunda vez. O vi imediatamente, assim que ele saiu de trás de uma árvore, enquanto fazia o meu trajeto até o dormitório. Como da primeira vez, era noite e o lugar estava vazio.
Aaron parecia bem mais velho agora e seu cabelo estava curto, um pouco mais escuro. Exatamente do jeito que eu o vinha pintando.
Ele sorriu para mim e abriu a boca para dizer algo, porém não dei tempo. Imediatamente pulei em seus braços, o abraçando o mais forte que eu podia. Ele parecia tão real.
— Oi — ele disse sorrindo quando o soltei.
— Quanto tempo.
— Ah, qual é. Você sabe que nos vemos todos os dias. — Aaron deu um soquinho de brincadeira em meu ombro.
— Mas pelo papel não é tão legal. O que te trouxe aqui novamente?
— Saudade de você. Queria ver como você está.
Ele se colocou do meu lado, me acompanhando no meu caminho.
— Então porque você não fica de vez?
— Não é assim que as coisas funcionam, Emma — ele respondeu.
— E como é? Até hoje não consegui entender como aquilo aconteceu.
— Logico que entendeu. Eu sou seu, Emma. Você me criou. Apareço quando você quer.
— Isso é mentira. Eu quero que você apareça sempre, mas já tem quase cinco anos.
Ele soltou uma risada que soou um pouco triste.
— Esse não é o meu mundo, Emma. Queria que fosse, mas não é.
— E como é a sua vida quando você não está aqui?
— Eu não tenho uma vida de verdade, minha vida é o que você cria. Inclusive, se você quiser me dar mais algumas atividades, seria ótimo. Mas fora o que você cria, o que tem em sua mente, eu não tenho uma vida — ele respondeu, novamente soando triste.
A cada passo eu sentia um aperto no peito pois sabia que quando chegássemos ao dormitório Aaron partiria. Eu não queria perdê-lo novamente.
— Você vê a minha vida quando não está aqui?
— Eu acompanho tudo. Inclusive aquela sua namorada que você teve antes de entrar na faculdade, foi desnecessário terminar com ela. E agora você namora esse cara tão mais velho que você? Ele é muito esquisito — ele disse rindo. — Eu vejo sim, sempre que você me leva a algum lugar. Tem sido útil me carregar na sua bolsa por todos os lugares.
Nós chegamos a entrada do dormitório e Aaron me olhou. Ele não precisava dizer nada, pois eu já sabia o que iria acontecer.
— Quando você vai voltar? — perguntei, sentindo as lágrimas escorrerem.
Para minha surpresa, os olhos de Aaron também estavam encharcados. Ele parecia tão triste quanto eu com essa despedida.
— Eu não sei. Lembre-se que eu sou seu, Emma. Dá um fora nesse cara e liga para aquela garota novamente, ela ainda gosta de você — ele disse segurando minha mão.
— Como você sabe disso?
— Você deu uma cópia minha pra ela — ele disse piscando.
Aaron soltou minha mão e se distanciou com alguns passos e, como da outra vez, desapareceu no ar sem deixar vestígios.
Subi as escadas do edifício e entrei em meu quarto, abrindo o porta-joias e pegando o pequeno papel que guardava lá.

“Guarde a data: 25 de maio”

Olhei a tela do meu celular e constatei o obvio: o calendário marcava a data 25 de maio.

Quando finalmente Aaron apareceu novamente, dez anos depois, foi para me prestigiar no evento de minha vida. Finalmente eu iria sair em turnê com a minha exposição e minha primeira parada seria na França.
Enquanto eu admirava um de meus próprios quadros, Aaron se colocou ao meu lado, parecendo um professor universitário de 30 anos.
— Eu avisei que esse dia iria chegar. Muito bonita a exposição — ele disse com um sorriso sincero.
— Obrigada — respondi. — Alguém mais consegue te ver ou eu tô parecendo louca pra todo mundo?
— Uma artista tem que ser um pouco excêntrica, faz parte da sua profissão — ele disse com um sorriso brincalhão.
— Então ninguém mais consegue te ver?
Aaron me olhou pela primeira vez desde que tinha chegado, com um aquele mesmo sorriso no rosto, parecendo achar tudo interessante. Ele parecia bem mais feliz do que da última vez que tinha me visitado, provavelmente porque atendi o seu pedido de dar mais afazeres à ele.
Levei isso tão a sério que me aventurei em algo que nunca tinha feito até então. Escrevi uma série de livros sobre a vida de Aaron, desde que ele era adolescente até sua vida adulta. Lhe dei história, aventuras e até amores. A série rendeu quatro livros, que foram muito bem vendidos, terminando com o final feliz que Aaron tanto merecia.
Secretamente, ainda escrevia sobre ele, para que sua vida não parasse. Eu tinha medo de que se parasse, ele nunca mais viria me ver.
— Claro que não. Eu sou seu, Emma. Só seu.
Eu sorri, gravando a voz de Aaron em minha mente dizendo aquelas palavras, lembrando delas toda as vezes em que sentia falta dele.
— Você sabe que dia é hoje, não é? — ele perguntou.
— 25 de maio — respondi sorrindo, completamente satisfeita comigo mesma.



Fim.

Leia todas as historias do Especial #002 - Duetos:

1. Hate That I Love You por Carla Cavalcante (Especial #002 - Restrita)
2. Over And Over Again por Lígia Coelho (Especial #002 - Original)
3. We Don't Talk Anymore por Silvia Rauber(Especial #002 - Outros)
4. Two Is Better Than One por Lari Carrião (Especial #002 - Outros)
5. Remembering Sunday por Babs (Especial #002 - Original)
6. All About Us por Ella Gomes (Especial #002 - Outros)
7. Broken Strings por Annie Brissow (Especial #002 - Outros)
Bonus Tracks
8. The Last Time por Lady Sah (Especial #002 - Outros)
9. Fortune Cookie por Thaynnara R. (Especial #002 - Original)
10. Honesty por Babi Sotello (Especial #002 - Esportes/Eden Hazard)

Veja as sinopses aqui.

Nota da Autora: Essa fic me custou anos luz pra escrever, mas consegui. Eu amei idealizar e escrever essa história e amei ainda mais esses personagens. A música então, é maravilhosa. Espero que vocês gostem do Aaron, Emma e da história tanto quanto eu amei <3
Confira aqui outras fics da autora.

Nota da Beta: Queria dizer que eu amo muito essa música! E a Thaynnara conseguiu escrever uma fic linda pra ela!! ADOREI. Aaron maravilhoso, dando apoio pra Emma, mostrando que ela podia fazer o que quisesse! <3
Vamos falar sobre o quão maravilhoso seria poder ver sua imaginação criar vida, falar com você, te dar motivação? Ia ser muito lindo isso!!!! <3
E a Emma dando mais vida pro Aaron, escrevendo livros sobre ele? ADOREI A IDEIA!!!! Amo muito essa historia e vou protegê-la!!!!!! (posso pedir pra ler os livros sobre o Aaron????)
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.