Autora: Lari Carrião | Beta: Janina | Capista: Belle

Capítulos:
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1. Business or Pleasure?

’s POV
A sensação de dever cumprido dominava cada pedacinho da minha mente e do meu corpo. Havia concluído a minha tarefa e até agora a considerava como realizada com sucesso. Faltava apenas a resposta da editora oficial, mas não dependia mais de mim.
- Senhorita, chegamos. – o taxista informou ao estacionar no aeroporto de Munique.
- Muito obrigada! – paguei, agradeci e saí logo do carro.
Infelizmente os responsáveis por fazerem minhas reservas de passagens e hotel em nome da empresa que eu trabalhava não eram tão competentes e haviam mudado o meu voo sem me avisar. Resultado: eu estava para perder o avião. Para minha sorte eu não havia levado muita bagagem, pois ficaria somente cinco dias, então era só minha bolsa e a bagagem de mão. Cheguei à área de check-in da companhia aérea e optei por fazê-lo no totem de autoatendimento. Eu tinha plena consciência de que a última chamada estava prestes a acontecer e ao digitar meu identificador a passagem não estava no meu nome. Ou melhor, não era o meu sobrenome ali. Eu estava enrolada.
A fila para o atendimento pessoal não estava muito longa e criei esperanças de ainda ter tempo de consertar o erro da empresa. Enquanto esperava tentei ligar para eles, mas não obtive sucesso. Chegou minha vez.
- Boa tarde, em que posso ajudá-la? – a atendente era simpática, talvez eu conseguisse convencê-la de que eu era eu. Que confusão.
- Boa tarde, eu queria fazer o check-in para o voo que sai para o Rio de Janeiro em 10 minutos ou menos. – fiz uma cara derrotada. Era praticamente impossível conseguir estar dentro do avião em 10 minutos.
- O voo das 15h?
- Isso.
- Me dê um documento, por favor. – entreguei todos os documentos juntamente com o suposto identificador que a empresa havia enviado por e-mail. – Você já tem o identificador?
- Sim, mas acho que a empresa cadastrou meu nome errado. – suspirei. – Eu sou e com esse código aparece , veja. – apontei pra tela dela, tamanho era meu desespero.
- Precisarei ver com meu superior, pois não podemos ter certeza de que essa passagem é realmente sua. – apenas assenti. Enquanto ela entrou aproveitei para ligar novamente na empresa e tentar ver se eles resolviam essa bagunça.

Bastian’s POV
Tudo bem que eu estava ansioso para chegar logo ao Brasil, aliás, para sair logo desse aeroporto. Já havia dado a hora de decolar e ainda nada, ninguém dava nenhuma informação, as comissárias de bordo já haviam passado fechando os bagageiros, mas nenhum outro passageiro parecia ter a pressa que eu tinha. Fechei os olhos e tentei pensar nos meus amigos da seleção. Eles com certeza estariam na praia agora, aproveitando tranquilamente as horas vagas antes dos treinos finais e do início da copa.
Ouvi uma movimentação e mudei de assento para observar o que era, uma mulher muito ofegante procurava seu lugar, dizendo alguma coisa para uma das comissárias. Seu lugar era um pouco a frente e assim que guardou a bagagem ela se sentou. Ela deveria ser importante para atrasar um voo, ou talvez não tenha sido só ela o motivo do atraso. O importante é que estávamos em movimento e, em no máximo 16 horas, eu chegaria ao Brasil.
Durante algum tempo tentei me concentrar em algo, mas era estranho viajar sem meus companheiros. Culpa de uma virose ridícula que eu peguei dois dias antes de embarcamos. Nosso técnico achou melhor eu não ir com eles por risco de contaminar os outros, e agora estava indo sozinho, em um voo comum e de classe econômica, o que é bem estranho quando se acostuma com o melhor. Além disso, estava escondido com óculos escuros, gorro e uma blusa de frio e reservaram o assento ao lado do meu para que nada atrapalhasse. Coloquei os fones no ouvido e deixei meus pensamentos livres.
Senti algo me cutucando, e percebi que havia cochilado por algum tempo. Era a moça que havia, na minha cabeça, atrasado o voo. Agora de perto eu pude perceber a beleza e os traços dela e com toda certeza ela não era alemã.

’s POV
Como essas crianças de hoje dão trabalho, Deus do céu! Como se o meu dia já não estivesse do avesso desde que saí da cama, no assento ao lado do meu havia uma criança. Um garoto que não parava quieto um segundo. Sua mãe, juntamente com uma garotinha, aparentemente mais nova que o menino, estavam sentadas na mesma fila, porém do outro lado do corredor.
Como já não aguentava mais a criança - não me leve a mal, eu gosto de crianças, mas esse garoto merecia um sonífero para viajar - resolvi ir ao banheiro, lavar o rosto e dar uma respirada sem o garoto gritando, conversando e cantando ao meu lado. Quando senti que já conseguiria voltar ao meu lugar e quem sabe me concentrar em dormir ou no filme que passaria mais tarde, deixei o banheiro do avião e me encaminhei ao meu assento, mas é óbvio que as coisas sempre podem piorar...
Aparentemente, o garotinho inquieto devolveu a sua última refeição justamente no meu lugar e agora ele estava inutilizável. Optei por deixar minha bagagem onde estava e procurar um outro local para sentar. Algumas fileiras atrás vi uma poltrona vazia ao lado da janela, mas havia um homem no assento do lado e era impossível me sentar sem incomodá-lo. O cutuquei uma, duas, três vezes e ele acordou. Ficou me encarando um tempo até que eu me pronunciei.
- Er... Me desculpe, mas será que eu poderia me sentar ao seu lado? - ele me encarou mais um pouco como se esperasse alguma coisa e eu considerei a hipótese de ele não falar inglês. Ele com certeza era alemão. Quando ia repetir a minha pergunta em outra língua ele respondeu.
- Claro, prefere a janela ou o corredor? - sorriu simpático.
- A janela mesmo. - ele deu passagem e eu me sentei e coloquei o cinto. Ele agora não me encarava mais, mas no fundo parecia incomodado com alguma coisa. Só esperava que não fosse com a minha presença.
- Desculpa ocupar o seu lugar vazio. - olhei em sua direção. O sotaque dele chamava muita atenção e eu queria ouvir novamente. - O garoto que estava sentado ao meu lado vomitou no meu lugar e eu...
- Já disse, sem problemas...
O silêncio novamente se instalou entre nós, e agora a expressão no seu rosto era de intrigado. Preferi não falar nada.
- Você deve ser bem importante. - ele soltou após alguns minutos. Olhei-o sem entender. - Você é a garota que parou o avião, certo? - não consegui evitar ficar levemente vermelha. Eu realmente tinha atrapalhado o voo de alguém.
- É, sou a garota do atraso. Não sou famosa - sorri amarelo - e a culpa é toda da empresa onde eu trabalho que cadastrou a passagem no nome de outra pessoa e deu a maior confusão.
- Ah sim... Você não é europeia, certo?
- Certo. - não sei por que o sorriso não saia do meu rosto... - Não é muito difícil perceber, não é mesmo? Aposto que meu sotaque me entrega, além do físico que já deixa bem claro. Bem diferente de você! - ele riu.
- Bastian, prazer! - ele estendeu a mão em minha direção.
- , e o prazer é meu. - aceitei o aperto de mão. - E eu sou brasileira.
- Hum... Primeira vez que vou ao Brasil.
- Sério? - ele assentiu. - Espero que você goste bastante.
- Acho bem difícil não gostar. Mas me diga, o que a trouxe para a tão distante Alemanha? Diversão ou trabalho?
- Trabalho, infelizmente. - fiz uma careta involuntária com a boca. - Fiquei tão pouco tempo que nem deu pra conhecer nada.
- Entendo. Mas quem sabe você não possa vir novamente...
- Espero que sim.
- Qual o seu trabalho? Se não for invadir demais a sua privacidade. - como resistir a uma pessoa tão simpática e educada assim? Acho que nunca alguém havia usado as palavras "invadir demais a sua privacidade" comigo.
- Não, tudo bem. - mais um sorriso, preciso me controlar. - Eu sou editora de livros de uma grande editora do Rio de Janeiro. Fui mandada para um "encontro", digamos assim, no lugar da minha chefe. Ela teve gêmeos e essa foi a primeira vez que fiquei realmente responsável pelo trabalho. Estamos querendo os direitos da tradução e de publicação de alguns livros famosos daqui lá no Brasil. Então esse encontro foi meio que uma disputa entre as editoras brasileiras que tem esse interesse.
- Você parece boa no que faz. - ele sorriu, e a maneira como seus olhos ficavam quando ele fazia isso era uma graça.
- Obrigada! Espero que eles também pensem isso e escolham a nossa empresa.
- Ah, achei que você já sairia daqui com uma resposta para quando voltasse.
- Não... Eles demoram um tempo pra decidir, agora é só esperar. Se tudo der certo, além do reconhecimento, eu talvez consiga um aumento ou uma promoção.
- Entendi. Espero que consiga e tenha outra oportunidade de vir e conhecer a Alemanha.
- Eu também. Sua vez agora. - ele me olhou receoso, como se tivesse medo do que eu perguntaria. - Está indo ao Brasil para conhecê-lo?
- Também. Na verdade estou indo pela copa do mundo.
- Nossa! A copa! Como pude me esquecer? - rimos.
- Gosta de futebol?
- Ah, mais ou menos... Longa história. Vai ficar no Rio mesmo?
- Não, vamos ficar na Bahia. Acho que é assim que fala, ainda estou aprendendo.
- É assim mesmo. - óbvio que ele não estaria sozinho no Brasil. E eu fiquei chateada ao constatar isso. Desconfia, , você não é uma adolescente mais e acabou de conhecer o cara. Se controle! E controle a sua carência! - Que bom que vai com alguém.
- Na realidade meus amigos já estão lá. - amigos? Que informação boa. - Eles foram semana passada e eu fiquei por causa de uns problemas de saúde. Não era nada grave, mas pediram que eu ficasse em casa em observação por mais uns dias. Médicos...
- Sei como é.
- Qual a sua história com futebol? - olhei-o confusa. - Digo, a história que te fez gostar "mais ou menos" de futebol. – ele repetiu minhas palavras em um tom divertido.
- Ah, é uma longa história...
- E pelas minhas contas nos ainda temos 2 horas antes de algum filme começar a passar e 13 horas até a nossa aterrissagem. - ok, se ele continuar sorrindo assim não vou conseguir manter minha concentração por muito tempo.
- Tudo bem, você venceu.

Bastian’s POV
Era para o lugar ao meu lado ficar vazio, mas quando ela perguntou se podia se sentar lá eu não consegui negar, afinal nem teria motivos para isso. Mais tarde percebi uma das comissárias se aproximando e fiz logo um sinal com a cabeça mostrando para ela que estava tudo bem. A equipe havia sido instruída a não deixar ninguém se aproximar muito e eles deveriam estar se sentindo culpados agora por não terem visto antes, mas eu não faria nenhuma reclamação, pois, para minha surpresa, ela não fazia a menor ideia de quem eu era. E a sensação era ótima! Não tinha lembrança da última vez que conversara com alguém sendo eu mesmo, sem preocupação com imagens e afins.
Não pretendia mentir mais do que o necessário e acabei inventando outra história sobre o motivo de não ter viajado juntamente com meus amigos. Eu fiquei mais um tempo para tentar resolver as coisas com a Sarah, essa era a verdade, mas não precisaria falar nem explicar isso para uma recém-conhecida. Estivemos por muito tempo juntos, quase sete anos, e como ela é famosa e bem sucedida na área dela nunca cogitei a possibilidade de que ela estivesse comigo por ser quem eu sou, ou pelo reconhecimento ou sei lá. O fato é que de uns tempos para cá ela começou a me pressionar de novo com essa história de casamento.
Veja bem, não tenho nada contra casamentos, espero me casar normalmente e acho até divertido casamentos como o de alguns amigos como o Müller, por exemplo, que casou com 18 ou 19 anos. Já estou com quase 30 e deveria estar preocupado, mas não estava e mesmo com a Sarah jogando diretas e indiretas eu não sentia que era a coisa certa. Claro que não disse isso a ela, disse apenas que não achava que era o momento certo para isso e como mulheres nunca entendem o que a gente quer dizer (ou fazem questão de entender tudo da pior forma possível), ela soltou uma avalanche de sentimentos e outras coisas em mim. Disse que eu não estava pensando nela, que eu fazia questão de enrolar, que sete anos era muito tempo, que ela não aguentava esperar mais do que isso e que ela nunca mais queria ser conhecida como a “companheira de Schweinsteiger”. Era aceitá-la como minha esposa ou separar e, bem, segui minha intuição. Para resumir o final ela fez um escândalo, quis voltar atrás e quis muitas coisas que tinha na nossa casa; era isso que eu tentei resolver nessa semana que atrasei.
Aproveitei que ela não havia tocado no assunto de profissões e optei por continuar sendo uma pessoa normal ao invés de contar a verdade sobre o futebol e os reais motivos que me levavam ao Brasil. A verdade era que eu estava extremamente cansado de tantas pessoas interesseiras em todos os aspectos da minha vida e, embora ela não fizesse o tipo interesseira, nunca se sabe a reação que as outras pessoas dentro do avião poderiam ter.
Conversamos muito e quando começou a passar o primeiro filmes ela se empolgou em assistir já que ela nunca tinha visto O Turista. Eu já conhecia, mas não tinha nada melhor para fazer então assisti novamente e me diverti muito com as reações dela, sempre muito espontânea e com “oh”, “ah” e até mesmo alguns “não acredito!”. O segundo filme era de suspense, O Amigo Oculto, e embora ela não admitisse que estivesse com medo ela se entregou quando se assustou e agarrou meu braço com força.
Acordei assustado e percebi que ainda faltava um tempo até chegarmos ao aeroporto. Quando olhei para o lado vi que estava dormindo tranquilamente encostada em meu ombro. Evitei me mexer para não acordá-la. O que havia de errado comigo? Eu nem me lembrava de ter essas preocupações com a Sarah! Eu não estava apaixonado, claro que não, eu mal a conhecia. Mas que algo era diferente, isso era.

’s POV
- ... . Já estamos quase chegando. – demorei um pouco a lembrar que estava no avião e quando abri os olhos de repente vi que havia dormido em cima do braço do Bastian.
- Ai meu Deus! Me desculpe! – coloquei as mãos no rosto lembrando que nem havia escovado os dentes, para completar a tragédia.
- Fique tranquila, não me atrapalhou e eu também não escovei, não queria te acordar. – fiquei um pouco corada com isso, ele definitivamente fazia mal para o meu cérebro. – Agora que acordou, já vou. – ele se levantou e seguiu para o banheiro da aeronave. Separei minhas coisas e me dirigi para o banheiro exclusivo feminino.
- Bom dia! – ele sorriu e me entregou um cardápio. – O que vai querer?
- Bom dia! Acho que nada. – ele me olhou com a sobrancelha levantada. – Já estamos chegando, vou preferir comer na cidade.
- Hum... E você já tem companhia para o seu café da manhã? – ele perguntou receoso. Já disse que era uma graça?
- Adoraria que você me fizesse companhia. – sorri.
- Mas teremos um problema.
- E qual seria? – sou devagar quando acordo, não nego.
- Eu não acho que vá ter tempo para sair do aeroporto por causa da proximidade com o voo para Salv... Bahia, ah, você entendeu. – apenas confirmei com a cabeça enquanto afivelava novamente o meu cinto para finalmente aterrissarmos.

- E então? O que vai querer? - Acho que vou deixar você escolher o meu primeiro café da manhã brasileiro.
- Você quem sabe. – dei de ombros colocando a minha bagagem em uma mesa. – Vai pelo menos me dizer se prefere café ou chocolate quente?
- Não. – me virei e segui para a cafeteria que eu mais gostava.
Fiz o pedido, paguei e fiquei aguardando em frente ao balcão. Já estava me sentindo em uma despedida e não tinha nem 24h que o conhecia. Talvez estivesse certa, eu precisava de alguém nem que fosse por uma semana para curar essa carência exagerada. A moça me entregou a bandeja e eu voltei para a mesa.
- O cheiro está muito bom. O que é isso? – ele apontou para a cestinha em cima da bandeja.
- Se chama pão de queijo. Não é comida do Rio, mas eu sou apaixonada. Espero que goste. – ele pegou um e mordeu um pedaço. Esperei a sua reação, mas ele parecia fazer de propósito, mastigando infinitamente e não demonstrando nada.
- Isso é muito gostoso.
- Até que enfim falou alguma coisa. – dei língua. – Não gosto de suspense.
- Ah não?! Não foi o que você disse quando o filme começou ontem... – abri a boca duas vezes, mas não consegui dizer nada. Normalmente eu falaria alguns palavrões, no entanto não era uma ocasião propícia para as minhas belas palavras. – Hey, só estou brincando. – ele me cutucou na costela me fazendo pular na cadeira.
- Isso é golpe baixo, sabia? Não faça mais! – tentei fazer uma cara séria. – Toma seu café e me deixe.
- Se decidiu pelo café então?
- Ué, você não disse o que queria... Mas pedi o chocolate também. Pode escolher e eu fico com o outro.
- Gosto do café mesmo. – homens!

- Estava muito bom, obrigado. Mas acho que já preciso ir para o embarque.
- É verdade. – constatei ao olhar o enorme painel que continha os voos, embarques e desembarques.
Fomos caminhando lado a lado até o portão 9 e assim que chegamos anunciaram a última chamada. Era isso. Havia chegado a hora de me despedir do alemão interessante e charmoso.
- Foi muito divertido o voo ao seu lado, obrigado! – sorriu simpático. Não queria admitir que seria a última vez que veria aquele sorriso.
- Imagina! Também gostei do voo. Ficou muito melhor ao seu lado do que entre aquelas crianças. – sempre fui péssima com qualquer tipo de despedida.
- Então é isso... – ele disse e estendeu a mão em minha direção.
E antes mesmo que eu percebesse eu havia o abraçado. Demorou alguns segundos para que ele percebesse e retribuísse o abraço, e que abraço! Ele com certeza tinha um corpo bem definido.
- A fama dos brasileiros é real então? – ele perguntou quando nos afastamos.
- Qual fama?
- De que são extremamente calorosos e receptivos.
- Acho que sim... Aproveite seus dias no Brasil! Boa viagem!
- Obrigado! Espero te encontrar novamente! Quem sabe eu não venha para o Rio depois... – ele piscou e seguiu para o avião. É, quem sabe...

2. Deutschland, Deutschland

Bastian’s POV
- Cara, até que enfim você chegou! Você precisa aproveitar isso aqui com a gente! – Podolski disse assim que me viu no aeroporto, me cumprimentando logo em seguida.
- Antes que você pergunte, sim, Poldi soltou a franga aqui! – Neuer disse e eu ri. – Se ele já é empolgado normalmente você precisa ver como ele está...
- E como seria isso? – não consegui imaginar o Podolski mais empolgado do que o normal.
- Mais extrovertido, mais hiperativo e intrometido também. – Neuer respondeu e Poldi parou de mexer no celular e nos encarou.
- Eu sei que vocês me amam. – deu um sorriso convencido.
- Como não amar após 10 anos juntos? – respondi entrando na brincadeira.
- Eu sei que vocês têm uma linda e longa história de amor, mas o que acham de irmos logo embora do aeroporto?
- Poxa, Manuel, isso tudo é ciúme? – Podolski foi abraçá-lo.
- Ah, saí pra lá, Lukas. – Neuer fez cara de nojo e o empurrou.
- Vai se fazer de difícil pra mim agora que o Basti chegou, é? Você não estava fazendo isso antes...
- Vamos logo, Poldi, onde está o carro que me levará ao, segundo você, paraíso? – mudei de assunto, afinal estava mesmo precisando de um banho e descanso antes dos treinos que teríamos.
- Ia perguntar como foi, mas pela sua cara deu tudo certo. – Poldi disse já no caminho para o complexo que a seleção ficaria hospedada.
- Mais do que certo. – sorri e tive a impressão de que foi um sorriso bem idiota.
- Não sabia que queria se separar da Sarah tanto assim. – Neuer disse e eu me espantei.
- O que? Do que você está falando? – perguntei confuso.
- Da Sarah. – fez cara de óbvio. – Pela sua cara só deu pra deduzir isso.
- Eu não queria me separar dela, mas também não sentia que queria casar com ela, mesmo depois de tantos anos... – dei de ombros. – Achei que vocês estavam falando do meu voo.
- Hum... E o que foi “mais do que certo” no seu voo? – Poldi perguntou levantando as sobrancelhas sugestivamente.
- Deixa pra lá. – balancei a cabeça mostrando que não queria falar e eles me respeitaram, por hora.

Depois de levar minhas coisas para o quarto onde eu ficaria, tomei um banho e coloquei uma roupa qualquer para ir a praia encontrar o restante da seleção. Assim que cheguei à porta notei que quem estava me esperando era Podolski e não Neuer como eu havia imaginado.

- Ué, você que ficou aqui? – perguntei ao perceber que ele não havia me notado ainda por estar novamente no celular.
- Sim, Neuer foi verificar quem mais gostaria de comer alguma coisa e decidir aonde comeríamos. Ele e o Müller se intitularam responsáveis pela nossa boa e diversificada alimentação. – assenti.
- Vamos então? – perguntei numa forma discreta de ver se ele parava de mexer no tal celular, mas não obtive êxito. Ele seguiu o caminho ainda com o aparelho em mãos. – Não vai parar de mexer nisso? É sério? – Poldi riu.
- Bastian, Bastian... Logo você vai compreender. – olhei-o com desconfiança. – Eu não quero perder um minuto da nossa estadia aqui e não quero perder nada nesse lugar perfeito.
- Eu já perdi uma no Rio... – comentei baixo para mim mesmo, mas não baixo o suficiente.
- Perdeu o que? – Neuer perguntou assim que chegamos à praia.
- Pelo visto uma mulher. – Poldi disse e eu fui pego de surpresa, acabei fazendo uma cara culpada que me entregou.
- Mas já?! – Müller veio me cumprimentar. – Como foi o voo?
- Foi tran... – me cortaram.
- Deve ter sido fantástico ao lado de alguma modelo. – censurei Podolski. – Já que em menos de um dia ele já mencionou ela duas vezes.
- Se fosse modelo ele não ficaria assim, podia ter ficado com a Sarah. – Müller estava na onda do Poldi.
- Já chega de falar da minha vida, né? Vamos comer alguma coisa porque estou com fome.

’s POV
- Entra! – falei alto para que quem queira que estivesse do lado de fora da minha sala entrasse. Logo a porta se abriu e Louise, minha nova assistente, entrou.
- Aqui estão os documentos que faltavam. – me entregou uma pasta. – E aqui estão os documentos para a reunião de amanhã.
- Reunião? Não tenho reunião amanhã.
- Vivienne ligou e disse que não virá nem para a reunião com possíveis clientes. – suspirei. Benditos gêmeos! – Está tudo nessa outra pasta aqui.
- Obrigada, Louise. – peguei uma das pastas para verificar os documentos.
- Ahn... ? – me chamou quase saindo da sala.
- Sim? – tirei meus olhos dos papeis e voltei a encará-la.
- ligou de novo e disse que se você não retornar ela virá pessoalmente falar com você. – ri incrédula.
- Essa eu queria ver... – falei para mim mesma. – Obrigada, Louise. Vou retornar.

- Finalmente me ligou, sua... - Não me xingue! Você me ama! – rimos. – O que quer tanto assim comigo que me liga até na empresa?
- Só queria saber se minha amiga estava viva, mal agradecida! E ligo na empresa porque no celular não me atende.
- Desculpa, ando atolada de coisas desde que Vivienne tirou licença.
- O que vai fazer amanhã? A gente podia almoçar.
- Impossível amanhã, acabei de saber que terei que substituir Vivienne em mais uma reunião.
- Não invente desculpas, ! Amanhã é sábado!
- Juro que não estou inventando desculpas, !
- Então vamos nos encontrar hoje!
- Hoje?!
- É, , hoje tem jogo da Alemanha. – ri.
- Você e esse vício...
- Por favor, ... E você ainda nem me contou a do carinha do avião.
- Ai, esquece isso! – ri sem graça.
- Sem essa, , você precisa comer alguma coisa durante o dia, sabia? – não respondi. - O jogo começa às 13h. Te espero no Outback, de preferência antes do jogo começar.
- Ok, ok. Darei um jeito. Te encontro lá. Beijo!

Trabalhei mais um pouco, pois chegaria mais tarde do meu intervalo para almoço e logo segui para o local combinado. Sabia que ela estaria lá bem mais cedo e, se eu quisesse conversar com minha amiga, precisaria ir mais cedo também. Durante o jogo ela não presta atenção em mais nada e o intervalo é muito pequeno para duas mulheres colocarem a fofoca em dia.
Assim que entrei avistei-a exatamente onde eu previra: sentada na parte do bar que tinha uma tela enorme, especialmente para a copa, segurando sua bandeira da Alemanha.

- Oi, ! – falei atrás dela e ela que estava concentrada em algo se assustou.
- Que susto, ! – nos abraçamos. – Que saudade que eu estava de você!
- Nem me diga. – suspirei. – Sempre desejei ter uma posição como a de Vivienne e agora que estou substituindo-a minha vida está de cabeça pra baixo.
- Ah, mas deve ser porque você está fazendo o seu serviço e o dela, não?
- É... Pode ser. – ri. – Não tinha pensado por esse lado. Mas aí? O que me conta?
- Hum, acho que nada. Lá na revista continua tranquilo. Mas você me deve uma história sobre uma viagem a Alemanha, e de preferência antes do jogo começar. – ela me olhou sugestiva.
- E porque você acha que cheguei mais cedo? – ela soltou uma gargalhada e acabei rindo junto. – Mas antes de começar a gente podia fazer o pedido, o que acha?
- Pode ser.

Fizemos os pedidos e passei a contar detalhadamente sobre a minha viagem. Falei sobre o pouco que vi da cidade, sobre as pessoas com quem tive contato, sobre a disputa com as outras editoras pelo direito de tradução e publicação e finalmente sobre meu problema com o voo e o desconhecido. por sua vez ficou empolgada. Na maioria das vezes era assim com a gente, uma ficava empolgada pela outra, querendo que desse certo, porque bem... Para ser honesta, nossas vidas amorosas nunca foram das melhores.

- Eu não acredito que você passou um voo inteiro ao lado de um autentico alemão educado assim! – era a terceira vez que ela emitia um comentário parecido com esse.
- Pois é... A parte triste é que a probabilidade de encontrá-lo é praticamente nula.
- Nunca se sabe, . Vai que ele quer te encontrar e venha para o Rio. – ela falou pensando positivo. Ela sempre era muito mais otimista do que eu.
- Quem me dera.
- Agora silêncio porque o jogo vai começar. – concordei com a cabeça. Aproveitei para ir ao banheiro enquanto teria as apresentações das seleções, hinos e tudo mais. Já que era para assistir, que assistisse ao jogo realmente. Como não tinha paixão por futebol nem nada, não fiz questão de ser rápida e enquanto retornava para mesa vi que haviam me mandado várias mensagens do escritório. Sentei-me novamente e fui logo respondê-las antes que perdesse a paciência comigo por não estar torcendo e muito menos assistindo. Entre uma resposta e outra olhei de relance para a TV e...
- AI MEU DEUS! AI MEU DEUS! DO CÉU! – soltei o aparelho e levei as mãos à boca. Era bem provável que estivesse com os olhos arregalados também.
- O que foi, ? – ela me encarou e encarou o ponto em que eu olhava fixamente agora, incrédula ainda. – Dá pra me falar o que foi que você viu nesse telefone pra causar esse espanto todo?
- É ELE, ! É ele! – eu respondi ainda em choque.
- O cara do avião te mandou uma mensagem? Te achou no facebook? – ela levantou as sobrancelhas sugestivamente.
- Não! Eu acho que o vi na TV! – relaxei na cadeira após escutar minhas próprias palavras. Eu só podia estar ficando louca mesmo.
- NÃO! Não me diga que você o achou nessa arquibancada lotada! – ela se empolgou.
- Não, ! Ele está jogando!
- O QUE? – foi a vez de ela aumentar o tom.
- Esse jogador 7 aí! – apontei para a tela novamente. – Era ele que estava sentado ao meu lado no voo!
- Puta que... Não acredito, ! Não acredito que você estava ao lado de Bastian Schweinsteiger e nem pegou um autógrafo pra mim.
- Ei, eu não sabia que ele era jogador, ele não mencionou isso e ninguém no voo estava em cima dele... Putz, por isso que os lugares ao lado dele estavam todos vazios! E eu sentei! Gosh! – virei para com os olhos arregalados e a sacudi. – Eu conheci um alemão famoso!
- Ei, dá pra calar a boca aí? A gente quer ver o jogo. – um barbado mal encarado gritou mais do fundo e nós ficamos em silêncio por um tempo. prestava atenção no jogo ou era o que parecia e eu tentava ainda assimilar o fato de que o lindo e simpático alemão era mundialmente famoso e eu não o conhecia.

Eu nem vi o primeiro tempo passar. Depois dessa revelação meu cérebro tentava processar as informações, mas era muito surreal. Vi que a Alemanha estava ganhando da França de 1x0, mas confesso que nem prestei atenção no gol ou no autor do mesmo, me parece que foi um chamado Hummels. Segundo , o goleiro também tinha sido espetacular nas suas defesas, mas ela é meio suspeita porque acha ele bonito. Se bem que ela acha mais da metade deles bonitos então talvez ele realmente tenha se saído bem...

- Não caiu a ficha ainda, né?
- Pior que não, . Nem sei se estou com vergonha de não saber quem ele era ou não. – ela riu.
- Larga de besteira, . Nada a ver. Você mesma não contou pra ele a história do seu desagrado de futebol?
- Sim.
- Então, ele deve ter levado isso em conta. Você podia ir atrás dele...
- Ficou louca?
- Claro que não, ! Vai atrás dele no twiter, instagram, sei lá... – ela deu de ombros.
- Tá, e falo o que? “Oi, sou a menina do avião! Me desculpe não saber quem você era, mas agora eu sei e gostei de você!” ? Vou parecer Maria Chuteira tietando ele.
- Mas, , eles estão aqui no Rio! Vai que ele quer te ver!
- Vamos falar de outra coisa, vai. Não quero pensar nisso por enquanto, muita informação... – ela deu de ombros e suspirou concordando contrariada.
- Você vai à festa do Arthur, né?
- Não sei... Não queria, não, afinal ele nem é meu amigo desse tanto.
- Até parece que ele faz essas festas para quem ele gosta. Ele faz festa pra dar ibope e você sabe. – concordei. – Vamos, !
- Vou pensar...
- Adivinha. – falou encarando o celular.
- O que?
- Sabe o restaurante novo e super concorrido? – concordei enquanto ela escrevia algo. – Arthur conseguiu reservas para lá, sabe Deus quando, e disse que estou intimada. Não pode ser coisa boa...
- Se ele for pagar a conta, aproveita. – dei de ombros.
- Antes fosse isso. Aparentemente eu ando “muito solitária” nos conceitos dele e ele disse que esse jantar será um encontro duplo, ele, Josh, eu e alguém que ele ainda não escolheu. – suspirou. – Porque as pessoas querem se meter tanto na nossa vida?
- Vai saber... Mas vai que ele conhece alguém legal pra você. Pensamento positivo, não é o que você sempre diz?
- É verdade. O jogo voltou.
- Ok. Mais 45 minutos de silêncio. – dei língua pra ela.

Bastian’s POV
- Basti, posso falar com você um minuto? – Neuer me chamou assim que saímos do treino que antecedia o jogo contra o Brasil.
- Claro. O que foi? – perguntei pegando minhas coisas e deixando o vestiário com ele ao meu lado.
- Algumas pessoas estão achando que você anda meio disperso, ou estava disperso no treino. Pediram pro Joachim reconsiderar se você jogará o primeiro tempo amanhã.
- O que? – perguntei incrédulo. – Cara, não tem nada de errado comigo, eu joguei normal, não errei passe nenhum...
- Eu sei, e foi exatamente a resposta que o Joachim deu, mas vamos concordar... – parei de andar e o encarei. – Você está diferente sim, anda muito calado, sai pra caminhar na praia só com seu headphone. E os caras estão preocupados também, só que você sabe que eles não falariam com você sobre isso. – concordei com a cabeça. Por mais que Lukas e Thomas fossem grandes amigos, eles não viriam falar comigo, esperariam eu falar com eles.
- Você está certo. – suspirei. – É só que parece que estou digerindo os acontecimentos recentes aos poucos, sabe? Parece que a realidade te atinge devagar.
- Se arrependeu de terminar com a Sarah? – soltei um riso fraco.
- Não, não... Isso não, mas mesmo não estando arrependido foram sete anos juntos, é uma mudança que eu ainda não me dei conta. E tem também essa loucura da copa! – dei um empurrão nele.
- Pois é. Dá pra acreditar que estamos na semifinal?
- E que vamos jogar contra o Brasil?
- E que vamos ganhar do Brasil? – Neuer estava extremamente confiante de que esse ano o título seria nosso. E eu também.
- Cara, ganhar deles na casa deles...
- Já passamos por isso. – Neuer ponderou.
- É verdade. Só espero que a garota do avião não me odeie por isso!
- Ahá! Você chegou ao assunto que eu queria. – olhei para ele de forma desconfiada.
- Não vai me zoar também, vai? – ele riu fraco.
- Não, por enquanto não. Mas confesse, você ficou mexido com esse voo. Confessa que essa garota é uma das razões de você estar longe a maior parte do tempo.
- Porra, Neuer, virou psicólogo agora, foi? – ri e ele me acompanhou.
- Queria te ajudar, cara. De verdade. Queria conhecer a garota que em um voo fez o que Sarah não conseguiu.
- Não fale assim da Sarah.
- Foi mal.
- Mas sim, confesso que tinha uma pequena esperança de encontrá-la no jogo passado.
- E porque não fez nada a respeito?
- Tipo...? – encarei-o esperando que revelasse a brilhante ideia.
- Sei lá. Bom pra esse tipo de coisa é o Poldi e não eu.
- Realmente, eu sei que sou bom em muitas coisas, mas do que vocês estavam falando mesmo? – Poldi chegou nos abraçando assim que entramos no hotel. Neuer me encarou esperando um gesto meu que confirmasse que ele poderia falar para o mesmo. Acabei me rendendo. Essa garota ainda ia me matar, ou eu ia me matar se não tentasse encontrá-la antes de ir embora.

Deixei Neuer contando a história pro Poldi e fui tomar um banho. Por mais mulherzinha que isso me faça parecer, eu não queria me abrir com mais alguém, não ainda. Neuer era o único que realmente estava por dentro de todo o lance com a Sarah, os outros sabiam por alto e eu não estava com cabeça para as gozações que viriam de Poldi e dos outros se eles soubessem sobre a .
Acabei dormindo depois do banho e quando acordei já era noite, estava me levantando da cama quando Müller, seguido de mais metade da seleção, invadiu o meu quarto.
- Mas que merda é essa? – perguntei ainda sonolento e assustado com a invasão.
- Eu que te pergunto! – Müller respondeu. - Que merda é essa? – virou a tela do celular para mim para que eu entendesse do que ele estava falando.
- Mas o que?! PODOLSKI, SEU FILHO DE UMA PUTA! – saí do quarto procurando o autor da merda, enquanto os outros davam gargalhadas.

’s POV
“Nova mensagem:
“Ligação perdida:
“Nova mensagem:
“Nova mensagem:
- Mas nem dormir agora a gente pode mais. – tateei o criado em busca do meu telefone. – O que será que a quer comigo de madrugada de uma segunda-feira, aliás, terça?

do céu! O Bastian tá te procurando!”

, EU TO FALANDO SÉRIO! CADE VOCÊ?”

“PQP ! Fala comigo! Estou surtando!”


3. Too Much for Me

’s POV
Qual a probabilidade da minha amiga estar bêbada em plena segunda/terça? Quase nula, mas ela com certeza estava delirando e eu precisava trabalhar e muito antes do tal jogo do Brasil começar, por isso já estava passando da hora de dormir.
, não sei se você está bêbada ou outra coisa, mas eu realmente preciso dormir.
Amanhã nos falamos.
Beijo!

E logo após enviar desliguei o telefone porque se tem uma coisa que era, era insistente quando queria.
Acordei cedo como sempre e preferi ligar o telefone quando já estivesse a caminho do trabalho para evitar atrasos desnecessários. Me arrumei, tomei café e levei um baita susto ao sair da garagem: estava parada na calçada do prédio. Balancei a cabeça incrédula. Abri o vidro do carro para falar com ela.
- Sério? – levantei a sobrancelha. – Eu desligo o telefone e você aparece na minha porta?
- Ih , tinha até esquecido do quanto você é mal humorada quando acorda! Eu hein! Bom dia pra você também.
- Desculpa vai... Ando estressada pra caramba.
- Eu sei, e por isso vim te levar pra tomar café comigo.
- Já tomei. – dei um sorriso amarelo. – Mas entre aí que te deixo em algum lugar para tomar café, ou no seu trabalho. - ela deu a volta e entrou no carro. – Então, para onde devo levar você?
- Se você não for me acompanhar pode ser para o trabalho mesmo. – ela deu de ombros.
- Agora pode falar a verdade. – recebi um olhar como se tivesse a insultado. - Não foi só para tomar café comigo que você estava na para do prédio. Inclusive, você foi a pé mesmo?
- Claro que fui, você mora a duas quadras de mim! E Arthur me leva de volta depois.
- Ah, ok. Mas agora desembucha!
- Chata! – fiquei em silêncio esperando a avalanche de coisas que viriam a seguir sobre as mensagens da noite passada. – , falando sério agora! O Bastian está te procurando! É sério.
- , eu sei que você ficou empolgada por mim, mas não precisa ficar inventando essas coisas...
- Vai ser cabeça dura assim lá longe! – ela suspirou prestes a desistir. – , eu não estou inventando nada. Qual foi a última vez que você usou o seu Twitter?
- Não faço a menor ideia. Eu te avisei que não ia usar quando você me forçou a criar uma conta.
- Exato! Desde ontem à tarde começaram as mensagens de vários integrantes da seleção procurando você para o Bastian. – ela ficou feliz por ter concluído sem nenhuma interrupção da minha parte.
- Como é que é?
- É exatamente o que você escutou. Começou com o Podolski, ele postou uma mensagem no Twitter em português mesmo dizendo que estava a procura da garota que voou ao lado de Bastian.
- Isso pode ser apenas uma gracinha desse tal Podolski. – dei de ombros, mas sentindo uma pontinha de vontade de tudo ser verdade.
- Eu também tinha pensado nisso, até os outros começarem a fazer também.
- Mais um motivo pra ser só bagunça, não acha?
- Não, ! Eu realmente não acho que seja bagunça... Acho, inclusive, que é só questão de tempo até o Bastian colocar também! – suspirei me sentindo perdida.
- E o que você quer que eu faça? – declarei vencida.
- Eu?! Eu não quero que você faça nada, ! Você que tem que querer fazer alguma coisa. Eu só vim fazer meu papel de amiga e te contar o que você não sabia.
- Desculpa, ! Obrigada! De verdade. – já havíamos chegado ao trabalho dela.
- Tá desculpada, mas por favor, leve a sério! Pelo menos pense a respeito!
- Pode deixar, vou pensar sim. – sorri.
- Você realmente não quer assistir o jogo hoje com a gente?
- Acho que seria linchada do local, porque com certeza eu torceria para Alemanha! – rimos.
- E você acha que vou torcer para quem?
- Arthur vai te matar, sabia?
- E Arthur entende algo de futebol, ? Ele assiste só para ver aquele tanto de homem junto! – rimos novamente.
- Você não tem jeito mesmo! Bom trabalho e bom jogo! Se eu não conseguir assistir, me mande noticias.
- Pode deixar. – mandou um beijo já fora do carro. Segui o caminho para o trabalho, torcendo para que o dia fosse tranquilo para que eu conseguisse ver pelo menos partes do jogo, e para que desse tempo de eu pensar sobre as coisas que havia me falado.

Aparentemente a sorte não estava do meu lado. Assim que entrei em minha sala, Louise apareceu com milhares de coisas e anotações de problemas de Vivienne, eu mal podia esperar para ela retornar da licença. Para ganhar tempo e poder sair antes do jogo começar, pedi para Louise trazer alguma coisa para eu comer ao invés de tirar meu horário de almoço normal. E foi quando a editora deu uma esvaziada que eu consegui matar minha curiosidade. Acessei meu Twitter depois de séculos, e lá estava a comprovação de que tudo que havia me falado era verdade. Podolski havia sido o primeiro a colocar a mensagem, alguns outros jogadores haviam postado mensagens parecidas e quando eu menos esperava eu vi que até Bastian havia colocado.

“Não era para ser assim, mas já que meus amigos começaram, me sinto no dever de dizer que é verdade. Gostaria muito de te ver novamente.”

E logo depois:

“Antes que pense que esqueci o seu nome, eu não esqueci, só achei que seria melhor não dizer.”

Achei muito fofo da parte dele ter se preocupado em não dizer o meu nome e não podia negar a felicidade que me atingira ao ver que tinha razão. Pelo menos até ver a quantidade de respostas para cada uma das mensagens postadas por cada um deles. Aparentemente pessoas de todos os lugares do mundo, inclusive alguns homens, diziam que eram eles quem Bastian estava procurando e que queria vê-lo novamente também. Suspirei derrotada. Era óbvio que nada ia ser tão simples assim, nem me dei ao trabalho de responder a ele, afinal de contas, qual era a chance de ler todas aquelas respostas e saber que a minha era a verdadeira no meio daquilo tudo?
Notei que a movimentação do escritório já havia começado a aumentar e mandei apenas uma mensagem para antes de voltar ao trabalho como se nada houvesse acontecido.

“Você estava certa! Até ele colocou que quer me ver de novo, mas adivinha...
Milhares de pessoas responderam a todas as mensagens então como a probabilidade de ele ler todas é mínima eu nem respondi. :/ ”


Percebi que eu estava redondamente enganada ao achar que conseguiria trabalhar depois de tanta informação. Constatar que era tudo verdade, que de certa forma eu havia atraído a atenção dele era demais para mim. Isso não era o tipo de coisa que acontecia na vida de . Meus pensamentos estavam a mil e eu já pensava em algum motivo que justificasse minha saída do trabalho mais cedo, eu precisava ir para casa, foi quando recebi uma mensagem de .

“Você sabe que eu adoro estar certa, não é? Então nem vou gastar seu tempo falando que eu avisei... kkkk
Se tiver um tempinho, dá uma olhada no seu e-mail. Mas esteja sentada antes, se não você pode cair!”


No segundo seguinte eu estava abrindo meu e-mail pessoal para ver o que ia me assustar, era um link para um site de notícias, ou fofocas, de famosos. Nunca, em milhares de anos, passaria pela minha cabeça o que eu li:

“O longo romance de Schweinsteiger e Sarah Brandner chegou ao fim?

Parece que o relacionamento de longa data entre a estrela da seleção alemã Bastian Schweinsteiger (29) e a modelo Sarah Brandner chegou ao fim. Rumores já haviam sido levantados quando a companheira dele não foi vista no Brasil em nenhum dos jogos da copa e nem no tempo livre do jogador.

Além disso, o jogador não veio ao Brasil juntamente com sua seleção. Segundo notícias publicadas em jornais alemães, o jogador estava com problemas de saúde e havia chance de riscos para os outros jogadores, mas agora essas informações estão sendo questionadas e a imprensa acredita que se tratava na verdade de sua separação em silêncio com a modelo.

As especulações sobre o término ganharam força após mensagens que foram postadas no Twitter ontem por vários jogadores e pelo próprio Schweinsteiger dando a entender que buscam uma garota que estava no avião com ele. Claro que pode ser apenas uma brincadeira entre eles. De qualquer forma, milhares de fãs responderam às mensagens buscando um encontro com ele.

Nenhum dos dois, nem as respectivas assessorias, declararam nada a respeito.”


Ainda bem que eu estava sentada, e se antes já estava difícil concentrar e raciocinar, agora é que ia ser impossível. Ao que tudo indicava eu era a comprovação de uma separação de sete anos de duração. Afundei na cadeira desejando ser invisível e agradecendo mentalmente por não ter respondido a nenhuma mensagem. Juntei os materiais mais urgentes e saí do escritório apenas avisando Louise que não estava me sentindo bem e que iria trabalhar em casa.

Bastian’s POV
- Eu avisei que não ia dar certo. – cutuquei Lukas pouco antes do início do jogo.
- Culpa desse seu pessimismo. – ele deu de ombros.
- Culpa dessa sua ideia sem noção! Será que não passou pela sua cabeça que milhares de pessoas iriam dizer que eram elas que viajaram comigo?
- Isso não é culpa dele, Basti. - Neuer interferiu. – Você que não quis colocar o nome dela. Se tivesse colocado eliminaria muita gente.
- Mas eu não podia fazer isso com ela, vai que a vida dela vira um inferno por minha causa?
- Preciso ver essa garota para entender que raios ela tem para fazer você ficar assim por ela. – Lukas riu.
- Agora chega desse assunto. – Neuer finalizou sério. – Temos um jogo sério a ganhar daqui a pouco. Vamos nos concentrar nisso e depois nós damos um jeito na sua vida amorosa. – deu tapinhas nas minhas costas.

O tempo passou rápido, nosso hino foi o primeiro a ser tocado e assim que o hino brasileiro terminou já fomos nos organizar no campo enquanto Lahm fazia as formalidades de capitão. Por incrível que pareça eu tinha conseguido manter o foco apenas no jogo e em nossa missão de sermos campeões do mundo.
O juiz apitou iniciando a partida e nosso plano, seguindo a ideia de Joachim que até agora havia funcionado muito bem. O plano era deixar a bola com a seleção adversária para avaliarmos em um curto período qual seria o estilo de jogo dele e nos preparamos para nosso melhor em relação a eles. Antes do primeiro minuto cortei um cruzamento entre dois jogadores do Brasil, assim como o resto da Alemanhã eu estava confiante. O jogo estava tranquilo, ora bola do Brasil, ora nossa, até que aos 10 minutos Kroos cobrou um escanteio e Müller fez o primeiro gol.
Aos 22 minutos, após três tentativas seguidas de Klose, ele marcou um gol e agora era dele o título de maior artilheiro de todos os tempos, 16 gols em copas do mundo. Nos já estávamos felizes, não era certeza de vitória, mas a seleção brasileira estava sem bons jogadores e eles pareciam perdidos em campo, sem uma estrutura definida. E dois minutos depois era mais um gol nosso, dessa vez de Kroos com bola recebida de Lahm, e no outro minuto um jogador brasileiro errou um passe, perdeu a bola e Kroos fez o seu segundo. Aos vinte minutos, em falta de atenção do Brasil, Khedira roubou a bola no meio de campo, fez tabela com Ozil e marcou mais um gol. Perto do final do primeiro tempo Marcelo cobrou uma falta na área e cortei novamente, dessa vez de cabeça.
O primeiro tempo terminou em 5x0, era simplesmente inacreditável. Torcedores agora vaiavam sua seleção e muitos deles estavam deixando o estádio. Nós estávamos chocados pela situação, felizes por estarmos um passo mais perto do sonho do tetra e ao mesmo tempo tristes por saber a dor que é perder em casa.
No segundo tempo jogamos mais tranquilos, não tinha pressão e era mais favorável termos jogadores em condições de jogar a final. Nem por isso deixamos o jogo tranquilo ou o abandonamos, isso seria muita falta de respeito com a seleção adversária, qualquer que fosse ela. Neuer fez coisas espetaculares que duvido que consiga repedir um dia.
Mas ninguém tem sangue de barata em campo, aos 15 minutos fiz um passe para Müller que bateu para fora. Algum tempo depois Schürrle viu uma chance e fez o seu gol, aos 23 minutos do segundo tempo e aos 33 ele fez mais um, chutando a bola forte, bateu no travessão e entrou. Aos 45 do segundo tempo Oscar driblou Boateng e bateu, Neuer não conseguiu pegar. Ao final do jogo eu não saberia descrever o que sentia, era uma euforia sem tamanho, cumprimentamos os brasileiros novamente e é claro, comemoramos a vitória brilhante. A seleção brasileira saiu primeiro do campo, alguns sendo abordados para entrevistas e enquanto isso nós agradecíamos a torcida que nos aplaudiu e reconheceu que foi um jogo honesto. Ao deixarmos o campo alguns de nós foram também abordados para falar antes da coletiva que teria mais tarde. Müller foi o primeiro, porque bem, não precisa de explicação, não há quem não o conheça. Neuer também falou um pouco e eu sabia que iam falar comigo também, porque eu fui peça fundamental nesse jogo. Respondi a algumas rápidas questões que me foram feitas e quando a repórter ia agradecer eu fiz o inacreditável e jamais esperado por ninguém que me conhecia. Peguei o microfone:
- , se você assistiu a esse jogo e no momento não me odeia pelo que aconteceu, por favor, me encontre dois dias após a final da copa, pela manhã em frente ao hotel que estaremos hospedados. Você saberá. – devolvi o microfone e segui como se não tivesse feito nada diferente do normal. As pessoas me encaravam boquiabertas enquanto eu passava, mas eu simplesmente não liguei.

’s POV
- Alô... – atendi ao telefone sem realmente prestar atenção no que fazia, meus olhos estavam presos a tv.
- do céu, você...? – começou a falar extremamente empolgada do outro lado da linha.
- Uhum. – respondi ainda atônita, antes mesmo de ela terminar a frase.

4. Another Surprise

’s POV
- Você vai, né? – suspirei antes de tentar responder a pergunta de , era simplesmente muita informação para mim.
- Honestamente, não tive tempo de digerir nada ainda... – ficamos em silêncio por um tempo.
- Eu entendo, é só que... eu estou tão empolgada por você! , ELE QUER TE VER!
- Não grita, por favor. Eu não consigo pensar direito. De manhã você me conta que a seleção está atrás de mim, quando estou quase me convencendo do que você me contou, você me manda uma notícia sobre a separação dele. Me senti uma destruidora de lares.
- , para de besteira! Você escutou o que você disse?
- Eu não terminei. Ai, não consegui ficar no trabalho e vim ver o jogo em casa e ele faz isso. – soltei o resto do ar que tinha em meus pulmões. – É simplesmente muita coisa.
- Olha, eu imagino. De verdade. Mas é óbvio que você não teve nada a ver com separação nenhuma. Se eles realmente se separaram, foi antes da copa, ela nem veio a nenhum jogo.
- Ai meu Deus... ainda tem chance de eles estarem juntos. Quero me esconder e só sair quando tudo isso acabar.
- O fato de nada ter sido publicado sobre a separação é porque os alemães são bastante reservados, . Mais um motivo para você ir e conversar com ele. Se ele quer te ver, ele com certeza responderá suas perguntas. – soltei um riso descrente. – O que foi agora?
- Estava pensando aqui, se no Twitter aquele tanto de gente respondeu, imagina quantas pessoas vão aparecer atrás dele agora que ele falou em rede nacional! – ela riu também.
- Isso é problema para ele resolver... – imaginei que ela tivesse dado de ombros nesse momento. – Veja pelo lado bom.
- E qual seria?
- Ele falou seu nome, já dá uma diminuída boa na quantidade de pessoas que apareceriam.
- Claro! Até parece que você não conhece as pessoas do seu país. Rio inteiro vai parar na frente do hotel!
- Eu só estava tentando ajudar!
- Eu sei...
- Então, já que vai ter tanta gente assim, você vai também, né?
- Qual a probabilidade de isso dar certo?
- Não interessa! Você sabe que quer vê-lo de novo e se você não aparecer ele vai achar que você não está interessada e aí você pode dar adeus. – aposto que ela tinha um sorriso convencido.
- Prometo que vou pensar.
- Ok. Vou deixar você descansar.
- Até mais!
- Ah! Só mais uma coisa.
- Hum...
- Você vai assistir à final comigo. E nem me venha com desculpas, é domingo a tarde! – ri.
- Tá bom, eu assisto a final com você.
- Beijo. Tchau.

Tomei um banho, preparei uma comida e me concentrei em todo o trabalho que deveria entregar no dia seguinte. Não importava ter que virar a noite para fazê-lo, o assunto “Bastian” ficaria para depois. Na verdade, não havia nada para depois. Não sei quem eu estava tentando enganar, pois minha maior vontade desde que ele disse “espero te encontrar novamente” ao nos despedirmos no aeroporto, era de que realmente nos encontrássemos.

- Que cara ruim! O que aconteceu? – Louise perguntou assim que eu cheguei atrasada ao escritório.
- Não dormi quase nada.
- Mas está se sentindo melhor?
- Sim, consigo trabalhar. Obrigada. – segui em direção a minha sala quando ela me chamou.
- Vivienne ligou. Disse que na próxima segunda ela já estará de volta.
- Até que enfim uma boa notícia! – sorri e entrei.

Vivianne estaria de volta, minhas ocupações e carga horária voltariam ao normal, e a melhor parte, sem reuniões chatas. Assim que peguei minha agenda para acrescentar como tarefa separar arquivos meus dos dela notei uma pasta de reunião que eu não lembrava de ter marcado. Abri para ver do que se tratava e ao ler o nome no topo da primeira página minha reação foi fechar a pasta e jogá-la no outro canto da mesa. O que mais me faltava aparecer? Eu até gostava de surpresas vez ou outra, mas minha cota dessa semana já tinha estourado. Peguei a pasta novamente e me dirigi à mesa de Louise.

- O que isso está fazendo na minha mesa? – soltei a pasta em cima da mesa dela que me encarava sem entender minha reação. Abriu a pasta apenas para conferir o conteúdo e voltou seu olhar a mim.
- Uma reunião foi marcada com esse autor. Ele quer publicar o livro dele e disse que o contato que ele tinha na empresa era o seu, que vocês já tinham se falado. – ela estava perdida, estava claro isso, e eu suspeitava que minha reação em relação a ela tivesse sido totalmente exagerada.
- Me desculpe, eu devia ter imaginado que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. – suspirei.
- Quer que eu desmarque a reunião? Eu digo que você ainda está doente ou qualquer outra coisa. Posso passar ele para um dos outros revisores de texto.
- Não precisa, não vai adiantar, ele não vai sossegar se não for eu.
- Por quê? Quem é esse... – ela abriu a pasta novamente para olhar o nome. – Miguel Bittencourt?
- Ex-namorado. Não pergunte. – estendi a mão pedindo a pasta de volta. Ela sorriu solidária ao me entregar.
- Se precisar de alguma coisa...
- Obrigada. – retornei à minha sala determinada. Qualquer que fosse o plano de Miguel, eu não cairia outra vez. A reunião seria em 30 minutos, resolvi ler o material, ele não ia me pegar de surpresa.

Assim que Louise me informou que ele tinha chegado e que ela o tinha levado para a sala de reunião B respirei fundo, peguei a pasta e mais alguns pertences e segui para a mesma. Ao passar pela mesa dela ela me desejou um “Boa sorte!” somente com os lábios, sem emitir som algum. Eu até poderia ter levado ela para a reunião, mas conhecendo Miguel ele alegaria que eu estava com medo de ficar a sós com ele. Sim, extremamente convencido e inconveniente eram palavras que definiam ele ultimamente. Não sei como namoramos por quase dois anos, acho que no início ele não era tão irritante como agora.

- Miguel. – estendi a mão para cumprimentá-lo.
- ! – ele respondeu ao cumprimento mais feliz do que eu gostaria. Sorte que eu estava do outro lado da enorme mesa, isso me evitou a tentativa de um abraço constrangedor. – Quanto tempo! Como você está? Parece mais bonita do que da última vez que a vi.
- Corte o papo furado, você não precisa mais dele.
- Só estava sendo educado. – ele deu de ombros mostrando que meu comportamento não o afetava e eu me limitei a erguer uma sobrancelha. – Ok. – me sentei e ele fez o mesmo.
- O que te traz aqui? – descansei as mãos sobre a mesa e o encarei.
- Bom, acredito que seja bem óbvio, não? Se não me engano o que está embaixo dos seus braços é o meu livro a ser publicado.
- Eu vi o que deixou aqui.
- Então, quero que vocês publiquem.
- Depois de procurar a concorrência e ela negar você acha que vai nos conseguir fácil assim? – ele se mostrou surpreso por uma fração de segundo, mas logo se recompôs como se soubesse que eu teria acesso a outras informações. - Achou que não seria fácil saber disso?
- Claro que não. Sei que você não tira os olhos de mim desde que nos separamos. – a vontade que eu tinha era a mesma do dia que ele terminou comigo, estapear aquele rostinho. Me limitei a coçar a nuca e respirar fundo para manter o controle.
- Já experimentou ser um pouco menos desagradável? – sugeri, deixando claro a minha insatisfação com aquele encontro.
- Você não pode recusar sem nem avaliar o material, ou se esqueceu de quantas noites eu vi você se matando para terminar leituras horríveis?
- Miguel, você pode, por favor, se concentrar no motivo pelo qual está aqui agora? Obrigada. – ele sorriu satisfeito, tinha me tirado do sério de novo. Ele não perderia a oportunidade de usar nosso relacionamento a favor dele e eu precisaria jogar exatamente como ele.
- Como quiser... quando você tiver lido meu livro, e vir como ele é bom, eu aguardo seu retorno.
- Me convença de que seu livro vale a pena. Pelo que li não me convenceu, e como editora chefe eu posso sim recusá-lo. – agora ele havia mostrado surpresa realmente. – Ficou surpreso, querido? Não achou que eu fosse conseguir? – ele nada disse. – Bom, quando tiver um bom argumento sobre eu publicá-lo, me procure que te digo o que achei disso. – sorri falsamente e sem esperar por uma resposta, juntei minhas coisas e me retirei. Quanto tempo faltava para o expediente acabar?

Bastian’s POV
- Basti, me conta de novo, o que te deu depois daquele jogo? – Müller começou fazendo os outros rirem na sala do complexo.
- Vocês não vão esquecer isso? – perguntei já sabendo a resposta.
- Claro que não! – quase todos responderam ao mesmo tempo.
- E se ela ainda te der o bolo, aí vai piorar um pouco. – Hummels falou. Preferi ficar calado e decidi ir para a praia mesmo sabendo que meu sossego seria muito curto.

- Ei, a gente está só curtindo, relaxa aí! – foi Lukas o responsável por acabar com meu sossego em menos de 5 minutos.
- Eu estou de boa, só aproveitando isso que não temos na Alemanha. – voltei a encarar o oceano acompanhado pelo pôr-do-sol.
- Não quero nem pensar que já está acabando. Dá vontade de ficar aqui. – ele se sentou ao meu lado.
- Se depender dos brasileiros, você fica. Eles adoram você com suas fotos, selfies e postagens em português. – ele riu e pegou o celular no bolso. – Nada disso, não quero foto com você agora.
- Mas é muito bom isso aqui. Já tenho vontade de vir para cá todas as férias. – nós rimos. – Mas agora, falando sério, sem gracinhas. – o encarei já sabendo sobre qual assunto ele se referia. – O que deu em você naquele campo?
- Última vez? – ele assentiu. – Nem eu sei. Eu estava eufórico, ela não havia dito nada no Twitter, pelo que eu vi e nem sei se ela tem uma conta para começo de conversa. Eu sei que virou notícia, ou melhor, fofoca, sobre eu e a Sarah, mas também não tenho como saber se ela viu.
- Entendo.
- E outra, ela me contou durante o voo que não era muito chegada ao futebol, então pode ser que ela não faça realmente a menor ideia de que eu não contei a verdade para ela. Mas, se houver uma mínima chance de ela ter assistido a algum jogo do país dela, essa era minha chance de fazer alguma coisa. Claro que nada disso pode dar certo, inclusive acho que nem eu acredito que exista alguma chance, mas eu senti que precisava tentar.
- Essa garota mexeu mesmo com você, hein? – sorri sem perceber. – Você acha que pode gostar dela de verdade? – encarei-o sem entender aonde ele queria chegar.
- Sei lá! Que tipo de pergunta é essa? – ele deu de ombros. – Eu não sei explicar, alguma coisa nela me chamou a atenção, desde que nos despedimos eu quis encontrá-la de novo. – ficamos em silêncio por um tempo. - Vocês gostariam dela.
- E você tem certeza que não gosta mais da Sarah?
- Fala a verdade! Você e o Neuer andam praticando psicologia e me fazendo de cobaia. – rimos. – Não é que não gosto! Claro que gosto! Tenho um carinho enorme por ela, mas não sentia que queria casar. Não sei se você entende, casou cedo. – ele me mostrou o dedo do meio. – Não era justo eu enrolar mais, sendo que é o sonho dela. Por que me perguntou isso?
- Monika encontrou Sarah no supermercado. – percebendo que eu não falaria nada ele continuou. – Disse que Sarah estava muito estressada e não quis conversar muito, só mostrou o descontentamento sobre as histórias que surgiram aqui sobre você. – respirei fundo, mas não encontrei nada para falar. – Monika disse algo como “Mal separou dela e já está com outra”.
- Não vou falar nada, porque não há o que falar. A gente separou por que... eu não preciso repetir, vocês estão cansados de saber. E conhecer a foi puro acaso, diria coisa do destino se eu acreditasse nisso. E não foi algo premeditado também, não é como se eu estivesse casando com ela. Se a Sarah se sente assim, infelizmente não posso fazer nada a respeito.
- Eu sei, só achei que valia a pena te contar, ou que você merecia saber. – ele deu de ombros.
- Obrigado. – voltei a encarar o horizonte.
- Monika me mata se souber que contei para você. – ri da situação.
- Ela sabe que você me contou, se ela não quisesse que eu soubesse nem teria te contado.
- E desde quanto está tão entendido de mulheres, Basti? – me olhou com a sobrancelha arqueada.
- Não sei delas, meu amigo. Mas eu e Monika conhecemos você muito bem. – ele me xingou e eu ri. - Ela vem para a final?
- Sim, ela e Louis chegam amanhã. Ela disse que ele está muito empolgado.
- E não é para menos! Estamos a um passo do nosso sonho.
- Então que venha a Argentina! Vou entrar, vai ficar mais? – ele se levantou e limpando a areia da roupa.
- Vou sim, acho que vou entrar na água.
- Cuidado com os tubarões! Precisamos de você na final! – ele gritou já a uma distância boa de onde eu estava.

Mais a noite me juntei aos garotos que viam um filme qualquer na TV. Podolski não largava o telefone por nada, e quando o filme acabou ele chamou a atenção dizendo que tinha um comunicado a fazer. Todos o encaramos.
- Definitivamente esse é o melhor país de todos. – se sentou novamente e não resisti a jogar uma almofada na cara dele. Ele resmungou um “idiota”.
- Não vai terminar de falar não? – Müller perguntou.
- Não podemos nem fazer graça mais... – ele resmungou quando ninguém riu ou demonstrou que achou graça. – Mais da metade dos brasileiros estão torcendo por nós, segundo um site aqui. Em que país do mundo a seleção que tomou uma goleada de 7 da gente ainda torceria por nós na final?
- Isso é no mínimo irônico. – sorri por incredulidade. - Mas a rivalidade entre Brasil e Argentina é bem conhecida, imagina seu maior rival ganhando no seu país! Deve ser um inferno!
- Vocês estão sendo muito inocentes, sabiam? – Müller se pronunciou e todos olhamos para ele aguardando uma explicação melhor que a minha, só não esperávamos a que se seguiu. – Mais da metade dos brasileiros estão torcendo por nós porque a maioria da população é feminina e elas me acham lindo! – ele concluiu e ganhou a almofada que eu tinha jogado em Poldi mais cedo.
- Você se superou agora! – Neuer finalmente abriu a boca. – Acho que passou a hora de vocês irem dormir porque já estão falando muita merda.
- Não sei vocês, mas eu vou. – me levantei do sofá. – Quero estar bem para os treinos finais. Essa copa vai ser nossa! – eu disse já saindo da sala e os outros gritaram coisas em aprovação a minha fala. Precisávamos desse otimismo e dessa vontade que já carregávamos há algum tempo. E mais valioso que tudo isso, nós merecíamos esse título de tetra. Pelo menos para mim a reação dos brasileiros não havia sido ruim em relação a nós porque não houve nada injusto, o juiz não fez nada errado, nossos gols não foram armação, nós simplesmente treinamos muito para chegar aonde chegamos e mostramos que merecemos.

’s POV
Demorei a entender que era o meu celular tocando. Eram cerca de duas horas da manhã de sábado. Tateei o criado em busca do celular sem me dar ao trabalho de abrir os olhos, eu estava extremamente cansada após uma semana exaustiva de trabalho. Atendi sem olhar quem era, uma hora dessas deveria ser algo importante.
- Oi. – murmurei para o telefone.
- ... – uma voz estranha e arrastada me chamava, não reconheci a princípio. Me sentei na cama e olhei o visor, era um número desconhecido.
- Quem é? – perguntei alerta.
- Eu já sei por que você deve publicar meu livro. – a frase saiu com dificuldade.
- Eu não acredito nisso, Miguel! Você me liga a essa hora da madrugada para falar de trabalho? – aumentei o tom de voz. - Esquece meu número!
- Não! Não desliga... – ele continuou com a voz enrolada. Respirei fundo.
- Miguel! Você está bêbado! Vai pra sua casa, por favor. A gente conversa depois.
- , vamos almoçar juntos amanhã... – eu só podia estar alucinando, ele não tinha proposto isso, tinha?
- Não, Miguel! Não vamos almoçar amanhã, nem nunca. Tchau.
- , me dá uma chance, por favor... – ele ameaçou chorar. Nunca gostei de bêbado, e nesse dia eu constatei.
- Você já teve sua chance, e foi escolha sua jogá-la fora. Adeus. – desliguei o telefone antes que a conversa continuasse.

Logo digitei uma mensagem para , eu sabia que estava tarde, mas ela ia me entender. Ela sempre entendia.

“Almoço amanhã, por favor!
É uma emergência!
Não se preocupe, estou bem!
Beijo!”

5. Taking a Chance

’s POV
Tinha me arrumado e aguardava na portaria do prédio. Ela havia respondido minha mensagem logo cedo dizendo que faria fotos de uma conhecida dela que estava grávida no parque durante toda a manhã e que assim que desocupasse, por volta de meio dia, me buscaria para almoçarmos. Ela havia sugerido um restaurante pequeno e tranquilo próximo à praia.

- Pronto. Já estamos aqui e já fizemos nossos pedidos, dá para me falar logo o que foi que aconteceu? Porque durante o caminho todo você fugiu do assunto.
- Eu já disse que não era nada grave. – ela me encarou séria.
- Sim, porque você me mandando uma mensagem chamando para almoçar já é algo bem normal. – ri fraco. – E se você não se lembra do que tinha depois do convite para o almoço era “É uma emergência!”.
- Miguel apareceu. – arregalou os olhos e me encarou demorando algum tempo para voltar a falar.
- Não acredito. Como foi isso, ?
- Apareceu lá na editora ontem. Marcou uma reunião sem que eu soubesse. Se aproveitou de Louise não saber quem ele era, disse que era para discutir sobre a publicação de seu livro.
- Mas essa Louise é uma sonsa mesmo. Por que é que você não a mandou embora até hoje? – ri.
- Juro que não entendo porque você não gosta dela.
- É ela que não vai com a minha cara.
- Ela é uma boa secretária, e não posso demiti-la sem causa. Mas continuando...
- Tem mais?
- Sim, ele ligou ontem, um pouco antes de eu mandar a mensagem para você. Ele estava bêbado e falou asneiras, na verdade ele revelou o que ele queria desde o momento em que apareceu na editora, que não era publicar livro nenhum. Quer dizer, tenho que avaliar o livro ainda.
- E o que foi que ele te disse ao telefone?
- Que queria outra chance. – respondi balançando o canudinho misturando meu suco.
- , eu... Caramba! Que confusão. Lá na editora ele disse algo?
- Não, não. Eu saí por cima, começando pelo cargo de Editora Chefe que ele não sabia que eu tinha. Tudo bem que é temporário, inclusive Vivienne volta na segunda.
- Amém! – rimos. – Só assim para sua vida voltar ao normal.
- Verdade. Então, pela reunião eu saí por cima, foi bem rápida para ser honesta com você.
- Mas ele só falou que quer outra chance? – concordei com a cabeça. – Falta é muita vergonha na cara dele mesmo. Se você tivesse me deixado agir quando vocês terminaram, ele não teria coragem de fazer isso agora.
- Lógico que eu não ia deixar você se meter nisso, deixar ele ficar violento com você...
- E como você está? O que você vai fazer?
- O que eu vou fazer? Ir ao hotel do Bastian na terça-feira.
- COMO É? – gritou atraindo olhares de outras mesas para a nossa e eu ri. – Não acredito que você se decidiu. E que sutil para mudar de assunto.
- Ué, foi você que perguntou e a única coisa que eu tenho certeza que vou fazer, no momento, é isso.
- ! Que notícia maravilhosa! Mas o que te fez decidir? Não foi o Miguel, né?
- Não! Claro que não! Eu só pensei que se ele quer me ver deve ser algo importante, e eu não tenho nada melhor para fazer... – dei de ombros.
- Adorei! Mas sobre o Miguel, você já pensou em pedir uma ordem de restrição?
- Não tenho nada que possa acusá-lo agora. Tinha mais de sete meses que eu não tinha nem sinal dele.
- Entendi.
- Mas ele não se atreverá a encostar a mão em mim de novo.
- Eu fico preocupada, de verdade.
- Eu sei, . Mas foi só aquela vez, não acredito que ele fará algo.
- , para mim ele é louco e de um louco você duvida de tudo. Vocês namoravam por quase dois anos, você achou que ele estava com outra, ou gostava de outra, e propôs um término amigável. O que ele fez? Achou que era você que estava tendo um caso e partiu para cima de você. – algumas lembranças invadiram minha mente. Lembranças que eu havia, com a ajuda de um bom terapeuta durante alguns meses, enterrado. Assim como as lembranças algumas lágrimas ameaçaram cair, mas segurei. – Desculpa! – percebi que ela se sentiu culpada por trazer os acontecimentos à tona.
- Tudo bem... – tentei disfarçar com um sorriso. – Mas sinto que vocês exageram, ele não me acertou mais do que 5 vezes.
- E você acha isso pouco? , você ficou uns dias sem sair na rua porque estava marcada.
- E vocês esquecem também que eu quebrei um vaso de vidro na cabeça dele que o fez desmaiar.
- , não o defenda, por favor.
- Claro que não estou defendendo! Mesmo porque ele realmente estava com outra. Teve a cara de pau de me dizer que estava com as duas porque não conseguia se decidir se ela era melhor do que eu.
- Pelo visto agora ele viu.
- Azar o dele. Eu nem vou pegar o tal livro, vou passar para outro funcionário da empresa.
- Isso. E vai pedir a terça de folga para tratar de assuntos particulares!
- Sim!
- Mas falando em terça-feira... – fez uma cara de desgosto.
- O que foi?
- Lembra que te contei que Arthur estava desesperado para ir ao restaurante?
- Lembro. E lembro também que você estava contrariada com essa ideia porque ele quer um namorado para você.
- Antes fosse um namorado. Ele acha que preciso de sexo. – rimos.
- Mas cá entre nós, ele não está tão errado né? – ela colocou língua.
- Olha só quem está falando hein!
- Vamos mudar de assunto, por favor!
- Não vamos, porque não terminei de contar. Ele escolheu alguém.
- Você conhece? Ele é bonito? Charmoso? – ela riu.
- Calma! E sim, para todas as suas perguntas. Eu conheci quando tirei umas fotos dele para a revista. Ele é modelo fotográfico, então ser bonito é pré-requisito e é charmoso também.
- Então porque você não está animada?
- Porque ele é convencido e metido. – ela terminou e fiz uma careta de desaprovação. - Ele é esse aqui. – ela me entregou o seu celular para que eu visse uma foto do pretendente.
- Nada mal. – ele era alto, branco de cabelos e olhos aparentemente castanhos. – É pegável.
- Sim. – ela concordou. – Mas não sei se quero...
- Com licença, senhoritas. – o garçom chegou com nossos pratos.

O resto do sábado havia sido tranquilo. havia me deixado no shopping, queria me distrair, mas ela queria ver a disputa do Brasil pelo terceiro lugar, então acabei indo sozinha mesmo. Não sem prometer que assistiria a final na casa dela junto com alguns amigos.

Não dormi muito bem, sentia-me nervosa e angustiada, talvez até um pouco ansiosa. Resolvi arrumar algumas coisas em casa para ver se o tempo passava mais depressa e, para minha surpresa, havia funcionado. Já eram quase 1h da tarde e eu não sentia fome para fazer almoço. havia me convidado para almoçar lá, mas aleguei que precisava arrumar o apartamento e que iria mais próximo do horário do jogo.
Tomei um banho, me arrumei e logo já estava na rua. Decidi que comeria algo antes de ir para a casa dela e optei por um sanduíche, com coca e batatas fritas. Quando escolhi o que iria comer tinha dado até água na boca, tinha tempo que não comia fast food, porém quando comecei a comer meu estômago deu sinais de protesto. Eu sabia que iria passar mal caso não comesse, muitas horas haviam se passado desde a minha última refeição e por isso forcei um pouco. Nunca gostei de jogar comida fora, mas metade do lanche tinha sido até demais para meu estado de nervosismo. Minhas mãos estavam suadas e minhas pernas inquietas. Não poderia ser só pelo jogo, poderia?

- ! Até que enfim! Já ia ligar para você. – ela me cumprimentou animada, mas logo sua feição passou para preocupada. – , você está gelada! O que está sentindo?
- Não sei, te disse que estava ruim hoje, quase não consegui comer.
- Que estranho! – concordei.
- ! Como vai? – Josh me cumprimentou e depois Arthur. Retribui aos cumprimentos e vi que o lugar vago, que deveria ser ocupado por mim, era ao lado de . Haviam bacias de pipoca e refrigerante e suco na mesinha de centro e todos eles estavam concentrados na TV.

Aos 15 primeiros minutos eu já tinha extrapolado o nervosismo, xingava e eu xingava também. Esperávamos um jogo como o do Brasil, para ser honestos. Queríamos que a Alemanha massacrasse a Argentina, porque brasileiro é assim mesmo. Eu e a tínhamos motivos além, mas os meninos não precisavam saber. Mas o que estava acontecendo era o oposto, Argentina estava em cima o tempo todo e meu estômago ameaçava devolver o pouco de almoço que eu havia ingerido.
Aos 20, Argentina teve uma chance brilhante, Higuaín cara a cara com Neuer e errou, ainda bem. apertava uma almofada com força e eu respirava fundo, não me sentindo nada melhor. Aos 28 minutos Bastian ganhou um cartão amarelo e eu fiquei mais desesperada ainda quando no minuto seguinte a bola argentina tocou a rede do gol de Neuer. Ainda bem que estava impedido. Depois uma substituição, mais um cartão para a Alemanha e um corte de Bastian. Até o final do primeiro tempo Alemanha perdeu três gols e assim que o intervalo começou eu corri para o banheiro.
Me sentia extremamente fraca e quase não consegui me concentrar no jogo, pegava alguns pontos principais, cartões, chances de gols, defesas... Segundo tempo acabou, 0x0, eu não sabia quanto mais aguentaria desse sufoco, e aparentemente Messi sofria do mesmo mal que eu, dando ânsia de vomito durante o jogo. A prorrogação começou e eu me esforçava ao máximo para acompanhar. Depois de tantos anos sem gostar de futebol, eu desejei esse título como se dependesse dele. Logo no início Alemanha teve chance e não deu, Argentina tinha o gol e jogou para fora. Os outros na sala estão bem nervosos também, estava à beira de um ataque cardíaco.
Aos 11 minutos da prorrogação Bastian ficou no chão e meu coração gelou, seu rosto sangrava. Ele estava jogando muito bem, eu não podia comparar porque não tinha o visto jogar ao longo dos anos, mas para mim se ele saísse do jogo, a situação da Alemanha ficaria pior. Para sorte de todos, ele permaneceu no jogo e aos 7 minutos do segundo tempo da prorrogação o Götze fez um gol. A gritaria no apartamento foi ensurdecedora, assim como nos arredores. A partir daí consegui relaxar um pouco, desejando apenas que chegasse ao fim logo. Pênaltis é que eu não daria conta de acompanhar.
Quando o juiz apitou, todos relaxamos exaustos. Que jogo! As reações dos jogadores eram diversas, obviamente muito felizes e emocionados. Não nego que ver Bastian chorando partiu meu coração, aquilo deveria tão recompensador.
- Não chora, ! – brincou comigo e eu bati a almofada na cara dela.

Bastian’s POV
Enfim essa tortura de jogo tinha acabado. A copa tinha acabado. Eu estava muito machucado, mas o título era nosso! Campeões do Mundo! Agora éramos tetra. A felicidade não cabia em nós, a comemoração duraria horas. E ao pensar o quanto cresci ao longo dos anos, jogando na seleção, eu senti orgulho de mim mesmo, de todo meu esforço e acabei chorando um pouco. Mas a alegria era enorme! Receber a medalha, levantar o troféu, todas as fotos, com certeza momentos que seriam eternizados em minha memória. Não conseguiria expressar, não importa o quando eu tentasse, o quanto aquilo significava e o quanto fazer parte significava para mim.
Foram horas ainda em campo comemorando e a comemoração que faríamos a noite entraria para a nossa história!

Não tinha lembrança de ter esperando tanto que um dia chegasse como esperei essa terça-feira. Com o final da copa minha ansiedade passou a ser exclusivamente encontrar . Quanto mais eu tentava me lembrar da fisionomia dela, mais vaga era a imagem que se formava. Isso soava muito estranho para mim, e um tanto quanto gay, eu admito, afinal de contas não havíamos passado mais de 24 horas juntos. Mas então que agonia era essa, ou seria vontade, de ter ela por perto de novo? Eu não fazia ideia.
Devido a minha inquietude na cama levantei, mesmo estando ciente de que eram pouco mais de quatro da manhã. Caminhei até a varanda e puxei de leve a cortina para olhar a rua e, para minha infeliz constatação, já havia umas 20 pessoas no local, algumas pareciam que estavam lá há muito tempo.
- Mas que planinho de merda que eu fui arrumar! – suspirei frustrado e baguncei meu cabelo.
Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser esperar. Sabia que assim que amanhecesse os idiotas que eu chamava de amigos viriam para o meu quarto para não perder um minuto do meu fracasso e me torturarem depois, então voltei para a cama e fiquei encarando o teto, tentando me concentrar em algo que fizesse o tempo passar. Acabei cochilando de novo, pois acordei com batidas na porta o sol já penetrava o quarto. Me levantei cambaleante e como eu já esperava, a trupe inteira estava lá, com sorrisos maiores do que eu esperava. Como não gostar da desgraça alheia, não é mesmo? Todos eles se acomodaram no sofá como se aguardassem por um espetáculo, e eu fui tomar um banho e fazer a higiene, afinal, se ela aparecesse eu tinha que estar em boas condições.
- Puta que pariu! – ouvi assim que saí do quarto.
- Você a viu? – Poldi perguntou entusiasmado.
- Claro que não! – Müller fez a cara mais óbvia que alguém podia ter e eu tive que rir disso. – Como que eu a acharia se nenhum de nós não faz ideia de como ela é?
- Ah, é mesmo. Não tenho culpa se vocês me acordaram cedo. – Lukas riu sem graça. – O que foi então que você viu?
- O tanto de gente que está aqui.
- Que muita gente ia aparecer era certeza. – Neuer falou o outro óbvio da situação. – A tristeza é acreditar que esse tanto de gente está aqui por causa do Bastian.
- Ha, ha! Que engraçadinho!
- Nisso eu concordo! – Lukas voltou a falar. Acordá-lo cedo nunca era boa ideia.
- Vem aqui logo! – Thomas me chamou ainda da janela. – Veja se acha ela para acabarmos logo com isso.
- Você não precisa ficar aqui não, sabia?
- E perder esse momento? Jamais! - idiotas! Segui para perto da janela e a quantidade agora era realmente extraordinária. Os outros se aproximaram também e encararam as pessoas na rua do hotel.
- Conseguiu ver se ela está aí? – Manuel perguntou após alguns minutos em que todos nós estávamos naquela posição.
- Não sei dizer, mas acho que ela não está aí.
- Olha melhor! Tem gente demais aqui. – Poldi me incentivou.
- Puta que pariu!
- O que foi agora, Thomas? – foi a vez de Neuer questionar.
- Aquela ali não é a Sarah? – não! Não podia ser verdade. Arregalei os olhos para Thomas. – Olha ali! - ele apontou para um lugar entre as pessoas e realmente era ela.
- Tem certeza? – Manuel parecia tão surpreso e “agoniado” como eu. Lukas já me olhara como quem dizia “Eu dei o recado da Monika e você não me ouviu.”.
- Absoluta. Depois de sete anos a reconhecendo em meio a milhares de pessoas em estádios, é impossível não reconhecer.
- E o que você vai fazer? – Manuel parecia ler meus pensamentos, mas ao invés de me dar as respostas que eu buscava ele externava as minhas perguntas.
- Não faço nem ideia. – suspirei derrotado voltando a me sentar no sofá.
- Não vai nem procurar mais a ? – Thomas voltou ao assunto que eu tinha temporariamente esquecido.
- Não.
- Mas essa bagunça toda não é por ela?
- Sim, Thomas. Obrigado pela preocupação.
- O que foi que eu falei? – ele olhou para os outros que assim como eu o haviam censurado.
- De que adianta eu procurar ela agora? Com a Sarah aqui, isso só pode dar errado. Muito errado. – cobri meu rosto com as mãos. Eu estava muito perdido.
- Só vejo uma saída. – Lukas disse atraindo nossos olhares. – Não sei se dará certo, mas acho que não temos muita escolha. Digo, você não tem. – ele apontou diretamente para mim.
- Então diga! – falei apressado. Eu tinha que dar um jeito nisso.
- Se você não vai mais procurar a sua garota lá fora, peça para alguém da nossa segurança trazer Sarah para dentro do hotel. Assim vocês podem conversar e você vê o que ela quer sem que isso cause problemas.
- E você aproveita e pede para darem o recado de que você não vai aparecer lá com aquele tanto de gente, ou sei lá. – Manuel sugeriu.
- Acho bom vocês fazerem alguma coisa logo. – Thomas disse ainda encarando a multidão pela sacada.
- Por quê? – nós três perguntamos ao mesmo tempo.
- Porque está acontecendo alguma coisa lá. Sarah está tentando se aproximar da entrada do hotel e parecem que algumas pessoas estão brigando.
- Puta que pariu! Vai ser isso mesmo então. Vou falar com alguém da segurança.
- Vou com você. – Poldi disse me seguindo para fora do quarto.

’s POV
Eu havia convencido Vivienne de que eu havia trabalhado demais durante a ausência dela e que precisava da terça-feira para cuidar de assuntos pessoais. Ela, por sua vez, não fez questionamentos. Disse que eu a havia surpreendido na sua ausência uma vez que ela não recebera reclamações e quase nenhum telefonema e que teríamos uma reunião na quarta ou quinta, onde seria, inclusive, discutido sobre o livro de Miguel.
Como não iria ao trabalho me vesti com uma roupa mais casual e fui ao tal hotel em que a seleção alemã estava hospedada. Como eu havia previsto tinha muita gente, mais do que eu havia imaginado. Preferi ficar mais afastada, primeiro porque eu não iria disputar com aquele tanto de gente desesperada que estava se empurrando toda hora e segundo, bom, só tinha primeiro mesmo. Havia um famoso café do outro lado da rua com algumas mesinhas do lado de fora, me sentei lá e comecei a olhar o cardápio.
- Bom dia, posso lhe trazer alguma coisa? – um garçom simpático me atendeu.
- Bom dia, gostaria de um cappuccino, por favor.
- Um momento. – ele se retirou e eu fiquei encarando a multidão.
Eu já desconfiava de que ele não apareceria com aquele tanto de gente lá. Talvez não tivesse sido uma boa ideia aparecer, seria praticamente impossível nos vermos. Estava perdida em pensamentos quando o garçom retornou com meu pedido.
- Obrigada. – sorri simpática.
- Uma loucura isso né? – o encarei esperando que ele terminasse de falar. – Esse tanto de gente querendo ver os jogadores.
- Ah, sim.
- Algumas já estavam aí quando abrimos hoje.
- Sério? – eu honestamente não havia imaginado que chegaria a tanto.
- Sério. Bom, vou deixa-la apreciar o cappuccino. Com licença. – ele se retirou e eu voltei aos meus pensamentos. O que acharia disso?
Eu já havia terminado minha xícara há algum tempo, e nenhum sinal de que alguém sairia daquele hotel. Eu não esperaria muito mais tempo lá. Mal esse pensamento me ocorreu e eu percebi um tumulto começando. Havia uma pessoa tentando passar pelas outras e se aproximar da entrada do hotel. As outras protestavam e começaram a se empurrar.
- Eu sou a namorada dele. – escutei a que tentava passar gritar para outra.
- E porque está aqui e não lá dentro? – não consegui ouvir mais nada. Logo um segurança apareceu na entrada do hotel com um megafone e acabou com a felicidade de todos.
- Gostaria de pedir a todas que se afastassem para que a senhorita Sarah consiga chegar ao hotel. – as pessoas reclamaram e Sarah fez uma cara vitoriosa conseguindo caminhar entre as pessoas. – Peço que o restante se disperse. Os integrantes da seleção que ainda estão hospedados aqui não têm intenção de sair. Algumas pessoas começaram a se retirar e eu continuei observando. Sair dali agora seria um inferno.
- Mas Bastian falou que queria me ver depois do jogo contra o Brasil! – uma mulher gritou alto o suficiente para que os restantes escutassem. Ri de incredulidade. Será que elas eram realmente idiotas a esse ponto? Ao ponto de achar que eles simplesmente deixariam entrar qualquer uma pelo simples fato de afirmar isso.
- Mentira! Sou eu que ele quer ver! – uma outra mulher se aproximou. Era realmente inacreditável.
- Sinto muito. – o segurança falou. – Mas o que me foi passado é que a pessoa que está sendo procurada não estava presente.
Eu congelei. Ele não havia me visto como eu já imaginava, mas eu não me movi. Não tentei argumentar, não me aproximei, nada. Deixei o dinheiro da bebida em cima da mesa e me retirei. Olhei para trás e a última coisa que vi foi Sarah entrando com o segurança no hotel.

6. All Those Fairytales Are Full of Shit

’s POV
Nem eu entendia o motivo de ter ficado tão chocada, afinal de contas eu já esperava que não desse certo. Acho que no fundo eu tinha acreditado que ele não estava em um compromisso, mas ver Sarah lá, ou melhor, vê-la sendo a única a entrar no hotel me fez pensar muitas coisas. Fui andando sem rumo enquanto meus pensamentos estavam a mil. Eu precisava falar com .
- Atende, vai! – falei sozinha ainda caminhando quando já estava no quinto toque.
- Pois não?
- Ahn... Arthur? – perguntei incerta.
- É claro, . Quem mais seria?
- Sei lá! Cadê a ?
- Eu estou muito bem, obrigado! E você? – ele respondeu irônico.
- Desculpa! Como você está? Eu estou bem.
- Ah, eu também.
- Cadê a ? Eu preciso falar com ela...
- Alguém tem que trabalhar nessa vida né? – Arthur sabia ser um pé no saco quando queria. Não entendia porque ele e eram tão amigos.
- Ela está na revista? Ou vocês estão em outro lugar.
- Na revista.
- Estou indo aí. Tchau. – nem esperei uma resposta e procurei por um taxi.

- Uou! – disse assim que entrei na sua sala. – Quando Arthur me disse que você estava vindo para cá eu não acreditei. – sorri sem graça.
- Pois devia, eu nunca menti para você. – Arthur, que também estava na sala, respondeu.
- Conte-me tudo. – ela pediu. – E pela sua cara não é coisa boa. – andei até a mesa dela e me sentei em uma das cadeiras.
- Bom, embora eu adore uma fofoca, deixarei vocês conversarem e vou resolver uns problemas. – Arthur levantou da cadeira ao lado e saiu da sala. – E nem pensem em tramar um plano para não ir ao restaurante. – ele voltou para dizer e foi embora novamente.
- Ele está me vigiando o dia todo para não me deixar fugir. – ela disse desanimada.
- Ainda não quer ir?
- Não. – ela disse prontamente. – Mas não adianta. – ela deu de ombros.
- Nem sei o que dizer.
- Mas você não veio aqui com um plano para mim. E pela sua cara o “encontro” – ela fez aspas com as mãos – com Bastian não deu certo.
- Ele nem se deu ao trabalho de aparecer.
- Como assim?
- Tinha muita gente lá, acredita que duas mulheres falaram para um segurança que eram elas que Bastian procurava? Na verdade uma disse e a outra a chamou de mentirosa.
- Brasileiro é sinônimo de barraco né, duplo ainda por cima. Fingir que elas eram você e ainda fazer barraco em cima de mentira.
- Para você ver como foi interessante.
- Mas por que você veio embora? Poxa, , fale logo de uma vez.
- Eu vim embora porque o segurança que apareceu pediu para a multidão dispersar e disse que a informação passada foi de que a pessoa procurada não estava no local.
- , você pelo menos chegou perto? – perguntou me encarando com suas suspeitas que eu sabia que estavam certas.
- Não, era impossível. Fiquei num café em frente.
- Quer me explicar porque você não chegou na cara desse segurança e falou a verdade?
- Porque Sarah estava lá.
- Como é que é?
- Exatamente isso que estou te contando. Sabe, , algumas coisas são feitas para nunca darem certo mesmo. E essa, mais do que todas, era a mais óbvia furada da minha existência.
- Já te mandei parar de falar assim! Ela estava lá com ele?
- Não, ela estava de fora com todas as outras pessoas. Inclusive acho que ela provocou o primeiro barraco.
- Então eles realmente não estão juntos, !
- Como não? Até aonde eu sei foi ela que o segurança colocou para dentro do hotel e não eu.
- E até onde eu sei, você ficou escondida e não foi lá lutar pelo que você queria. – me calei porque ela estava certa. – E para você não se sentir como está agora, te digo que se ele ainda estivesse com a Sarah ela não estaria de fora do hotel e sim com ele lá dentro.
- Mas agora já era. – dei de ombros aceitando a derrota contra o destino. – Deixa você trabalhar. Bom jantar! Tomara que o Bernardo seja legal.
- Tomara! – nos despedimos e eu segui para casa.

Bastian’s POV
Eu e Lukas estávamos em uma sala que aos meus olhos se parecia com uma sala de reunião ou de conferência. O segurança havia sido instruído a trazer Sarah para a sala e embora eu não quisesse perder a paciência eu estava bem nervoso.
- Para de andar de um lado para o outro, Bastian. – Lukas disse sentado em uma das cadeiras.
- Estou nervoso.
- Sério? – ele foi irônico.
- Você não precisa ficar aqui, sabia?
- Não pretendo. Só quero ter certeza que você não vai voar no pescoço na Sarah assim que ela entrar nessa sala.
- Até parece que eu já fiz isso algum dia.
- Eu sei que não, mas você está nervoso.
- Lukas, se coloca no meu lugar. Aquela era minha chance de encontrar a . Eu já te disse que não sei por que eu quero tanto isso. Simplesmente parece certo. E se ela tiver vindo aqui. E se ela estiver sendo mandada embora agora porque eu não procurei direito. Pior ainda, se ela viu Sarah entrando aqui. Ela vai me achar o maior cafajeste do mundo.
- Bastian! Quer fazer o favor de parar de falar e me escutar? Não ia adiantar nada você colocar ela aqui e a Sarah também. Imagina o quão pior seria.
- Não tem como piorar...
Lukas ia continuar falando se o segurança não tivesse entrado na sala, seguido por Sarah. Assim que o segurança se retirou ela se sentou em uma cadeira em frente ao Podolski.
- Bastian. Lukas. – ela cumprimentou sem nos tocar. Ela estava visivelmente irritada, mas eu não me importei.
- Sarah. – Lukas respondeu ao cumprimento e se levantou para sair da sala. – Não faça nenhuma besteira. – ele falou baixo quando estava próximo a mim e cruzou a porta. Me sentei onde antes ele estava sentado.
Eu e Sarah nos encaramos por um momento, ninguém disse nada e a única coisa que eu pensava era em como havíamos chegado a isso em questão de 2 ou 3 meses.
- Vai me explicar essa palhaçada? – eu não iria me exaltar, não daria razão a ela.
- Não sei do que você está falando... Quer me explicar o que você está fazendo aqui?
- Nunca esperei esse tipo de atitude de você, Bastian. – agora ela ameaçava a chorar. Meu controle seria exigido, e muito.
- Você não está fazendo sentindo, Sarah. Eu não fiz nada que vá contra algum princípio meu, até onde eu sei. Realmente não sei quais explicações devo a você.
- Como se atreve! – ela levantou e apontou o dedo na minha cara. – Mal fazem 2 meses que a gente se separou e você já está encontrando com outra.
- Abaixe esse dedo, você nunca falou assim comigo e não será agora que irá começar. Primeiro, foi você quem quis se separar, não eu. – ela abriu a boca para protestar, mas continuei. – Segundo, não devo explicações para ninguém sobre com quem eu me encontro ou deixo de encontrar. E só para constar eu não estou saindo com ninguém.
- A quem você quer enganar? Você falou para o mundo inteiro que você está procurando uma garota.
- Realmente, estou procurando uma pessoa. E a única chance que eu tinha era hoje e você estragou. E se eu estou procurando é porque obviamente não estou com ela. – ela pareceu pensar sobre o que eu dizia e voltou a se sentar.
- Eu não queria nada disso, Basti. Não consigo me acostumar com isso, com não ter você. A gente tinha uma vida e...
- Eu também não queria isso, Sarah. Eu sinto falta também, foram sete anos. Ninguém esquece sete anos assim. – não era porque eu não chorava e reclamava que eu não sentia falta.
- Então você voltaria comigo? – ela perguntou e eu consegui notar a esperança em sua voz. Na atual condição em que me encontrava, sem perspectiva de sequer encontrar outra vez, talvez Lukas estivesse certo e o mais apropriado a fazer fosse voltar com ela.
- Voltaria... – respondi sem ter a completa certeza de que era o que eu queria. Um sorriso brotou em seus lábios.
- Ai, Basti! Fiquei com tanto medo dessa conversa, mas estou tão feliz por você ter aberto mão de ser tão cabeça-dura.
- Do que eu abri mão? – perguntei perdido.
- De não querer se casar.
- Como assim? Quem disse que casaria, Sarah? – eu sentia como se tivesse perdido uma parte da conversa.
- Você acabou de dizer que voltaria comigo.
- Exatamente, não que casaria. Eu não vou me casar agora.
- Mas você disse... Eu. Eu achei que estava implícito que retomaríamos nossa vida.
- Olha, Sarah, você é muito importante para mim e sempre será. Nós realmente tivemos uma vida juntos, mas chegamos a um ponto onde temos interesses diferentes. Eu não me sinto pronto para casar, eu não me vejo num casamento. E qual o sentido de casarmos e acabarmos divorciando logo depois?
- Eu não entendo. Não faz sentido. Porque você não pode ser como os outros? Lukas casou e é feliz, construiu uma família, tem filho. Thomas casou e é bem mais novo que você, e também está feliz. Casamento não é um monstro como você vê. – suspirei cansado dessa conversa que era extremamente parecida com as que havíamos tido em Munique.
- Sarah, me escuta. Não vejo casamento nem família como algo ruim. Só não estou pronto para isso, não sinto isso. Me desculpe. De verdade. Me desculpe. Porque se foi isso que a trouxe aqui... – ela enxugou uma lágrima que escorreu. E vê-la chorando me partia o coração ainda. – Quero que saiba que não tem influência de ninguém nessa decisão.
- Eu entendo. Eu só... Eu precisava tentar. Minha vida perdeu o sentido, falta uma parte.
- Eu sinto muito. Queria ser o homem que você queria para a sua vida, e sinto muito por não ter percebido que isso te incomodava tanto. – eu não sabia o que mais podia dizer. Havia sido completamente sincero e eu estava consideravelmente pior do que antes de começar a conversa. Eu precisava sair daquela sala, precisava ficar sozinho.
- Mais uma vez, por favor, me desculpe pelo que causei a sua vida. – me levantei e saí da sala. Neuer, Podolski e Müller estavam sentados em um sofá próximo à recepção e, mesmo tendo visto todos ali, eu passei direto e saí sem rumo.
Milhares de coisas passavam por minha cabeça. Me sentia culpado por ver Sarah daquela forma. Me sentia idiota por jogar tudo fora acreditando que eu tinha que me sentir diferente, me sentir preparado. O que eu estava fazendo com minha vida? Será que eu estava certo? Quando percebi já estava novamente sentado na areia de uma praia admirando o horizonte e não fazia ideia de quantas horas tinham se passado. Mas foi somente quando senti fome foi que criei coragem de retornar ao hotel.
Não queria ter que falar nada nem explicar nada, então fiquei agradecido quando notei que nenhum deles estava na entrada. Notei que o restaurante ainda estava aberto e entrei para almoçar. Me servi e assim que me sentei Manuel apareceu na minha frente, puxando a cadeira e se sentando. Abri a boca para protestar, porém ele foi mais rápido.
- Eu não quero saber o que aconteceu nem o que conversaram, mas por mais gay que isso vá parecer, eu me preocupo com você.
- Muito gay mesmo. – sorri agradecido. – Obrigado.
- Você está bem?
- Confuso define bem, mas depois de pensar acho que fiz o que era certo. Onde estão os outros?
- Não iam ficar plantados te esperando, né? Só o idiota aqui que ficou no quarto esperando uma ligação da recepção avisando que você tinha aparecido.
- Ainda bem. E o que aconteceu com ela?
- Não sei ao certo, ela só quis falar com o Lukas. Mas acho que ela ia voltar pra Alemanha. – apenas assenti.
- E o que dois alemães solteiros farão essa noite no Rio de Janeiro? – eu precisava de qualquer coisa que não me fizesse pensar.
- Eu soube de um restaurante muito bom e requisitado daqui. A recepcionista conseguiu burlar a lista de espera de lá e fez uma reserva para mim. Pode ser?
- Poxa, Manuel, restaurante? – olhei surpreso para meu amigo. – Você já foi melhor nisso, sabia? Eu esperava beber bastante. – ele riu. – Programinha de gay isso... Vou começar a suspeitar de você.
- Idiota.

Como teríamos muito tempo até irmos ao tal restaurante, preferi ir para o meu quarto ao invés de fazer o que quer que fosse que Neuer queria fazer. Tomei um banho gelado e me joguei na cama com o ar condicionado ligado de modo que o quarto ficasse bem frio. Por mais que eu quisesse me desligar de tudo eu não conseguia, por isso passei a tentar pensamentos aleatórios até que peguei no sono.
Acordei com Manuel batendo na porta, reclamando que eu não tinha atendido ao telefone e que ele tinha deixado bem claro que as reservas tinham um horário e que eu não estava pronto. Como se eu demorasse desse tanto para me arrumar. Pelas roupas que ele vestia eu percebi que o restaurante era bem chique, ele trajava uma calça e camisa social preta. Fui para o banheiro e logo estava pronto também, optei por uma camisa social branca e coloquei um paletó, porque eu fico extremamente bem quando estou vestido assim.
Pouco tempo depois, para a felicidade de meu amigo, já estávamos acomodados no restaurante e, embora eu quisesse ser uma boa companhia, eu sabia que não estava sendo. Ele, por outro lado, estava tentando me distrair e fingia que minha companhia estava ótima. Havíamos pedido um vinho e quando o garçom estava vindo para nos servir, uma mulher, um tanto quanto atrapalhada, esbarrou nele fazendo-o derramar parte do vinho em meu paletó. Eu nunca fui de perder a paciência e tratar mal alguém, e como seguimento do meu dia maravilhoso eu já deveria imaginar que mais coisas desagradáveis aconteceriam.
A mulher não sabia o que fazer, eu acho, pois ela começou a falar sem parar, mas em português e eu não entendia nada. Só falei em inglês que estava tudo bem, para ela se acalmar, mas ela não prestou atenção. Na verdade ela só prestou atenção em nós, realmente, quando o garçom falou algo, e aí entendemos que ela estava se desculpando, ela até queria pagar pelo estrago do terno. Repeti que não tinha problema, a cara dela não estava muito melhor que a minha, imaginei que o dia dela também devia estar ruim. Tirei o paletó, estava menos sexy agora, tinha certeza.
Antes mesmo que eu percebesse um homem havia se juntado a conversa.
- Prazer, Arthur Luna. Amigo da desastrada aqui. - ele esticou a mão para mim e me abraçou.
Achei estranho, nunca havia reparado em homens que cumprimentavam assim. Fez o mesmo com Neuer que me olhou tão surpreso quanto eu.
- Por que vocês não se sentam conosco e aqui começa a pagar a enorme dívida que tem com você de agora em diante? – ele voltou a falar. Nem olhei para saber o que Neuer achava da ideia.
- Não precisa, de verdade. Não queremos incomodar vocês dois. - respondi e tal Arthur riu.
- Hã... Nós não somos um casal! – a mulher, que pelo que entendi se chamava falou.
- Óbvio que não somos um casal. – Arthur falou. - Impossível eu ser hétero com um sobrenome desses. – olhei para Manuel tentando ver se ele estava achando aquela conversa tão bizarra quanto eu estava, concluí que sim. Mas Arthur não pareceu perceber nada e continuou falando. - Não será incômodo algum. Nós insistimos. – percebi que Neuer tinha gostado da ideia, provavelmente ele queria companhia para aproveitar o restaurante. Coisa que eu, definitivamente, não estava fazendo.
Na mesa deles só tinham 4 cadeiras, mas ela fez questão de que eu e Manuel nos sentássemos e assim que mais uma cadeira chegou ela se sentou perto de um cara que não havia se apresentado ainda. Achei que seria educado da nossa parte nos apresentar, eu falei primeiro e depois Neuer. Confesso que achei estranho, pois eles não se manifestaram como se fossemos importantes. Na maioria dos lugares que íamos, as pessoas sempre pediam fotos, autógrafos e tudo mais. Quando terminamos foi a vez do desconhecido falar. Na verdade todos eles eram desconhecidos. As únicas coisas que sabíamos eram os nomes dos outros dois e que eles não eram casal.
- Eu sou Josh, prazer em conhecê-los. – o desconhecido falou.
- Só isso? Você só vai falar isso?! Cinco anos aqui e você ainda não aprendeu nada com os brasileiros, né?
Josh riu e não pareceu ter se importado muito. Eu e Neuer nos entreolhamos. Não sei o que ele pensava, mas eu considerava se realmente tinha sido uma boa ideia.
- Como eu disse, meu nome é Arthur e sou um dos maquiadores da Vogue daqui. E essa é , que também trabalha na Vogue, mas como fotógrafa.
- Prazer em conhecê-los. - Manuel falou. Eu apenas sorri.
- Ah, parabéns por ganharem a Copa! No nosso país... - Arthur sorriu e tanto Manuel quanto eu ficamos um pouco sem graça pela situação, mas sorrimos de volta agradecendo.
- Obrigado. O Brasil se tornou um lugar muito especial para a nossa equipe.
- Não duvido disso. E vocês ficaram muito queridos por vários brasileiros. - falou e no mesmo momento eu pensei “menos quem eu queria.”.
- Você que o diga, né?! - Arthur interrompeu a amiga. - Ela estava torcendo para vocês loucamente. Não perdeu um jogo! Pela televisão, óbvio...
Olhei para ela e sorri, tínhamos uma fã que nos apreciava pelo futebol e não por sermos considerados bonitos, pelo menos eu achava que éramos considerados bonitos. apenas balançou a cabeça afirmativamente.
- Vocês nem imaginam o quanto foi estressante assistir ao jogo que teve de vocês contra o Brasil! - Josh riu.
- É, aquele jogo foi... – fui interrompido.
- Cômico, no mínimo. Mas você nem se atreva a falar de mim, Arthur, seu patriota hipócrita. - falou para o amigo. - Você só assistiu aos jogos por causa do Hulk.
- E por causa do David Luiz! - Josh completou.
- Eu amo cachinhos! Mas isso é um absurdo. Eu também amo futebol... - Arthur disse de um jeito nem um pouco convincente, o que fez todo mundo rir. - Inclusive, um dos meus sonhos de criança era jogar futebol.
- E por que não tentou seguir a carreira? — Manuel perguntou interessado e minha vontade de rir aumentou. Arthur não parecia levar jeito para nenhum esporte.
- Você ainda acredita nele?! - Josh riu e confirmou minhas suspeitas. - Arthur, se você jogasse futebol e estivesse em um campo rodeado de homens, não seria capaz nem de prestar atenção na bola.
Arthur ficou em silêncio por um segundo e depois respondeu:
- Depende da bola que você está falando. – dessa vez não aguentei e ri mesmo, Neuer me acompanhou.
- Viu só? Você não se controla... - Josh falou. No momento seguinte um garçom chegou a nossa mesa e nos entregou o cardápio.
- Quanto tempo ficarão no Brasil? - Arthur perguntou logo após de termos feito os pedidos.
- Quatro semanas, no máximo. Teremos um tempinho de férias antes dos treinos do Bayern e alguns de nós resolvemos ficar por aqui. - respondi e Manuel se limitou a concordar com um aceno.
- Pelo Rio ou querem conhecer o país? – perguntou e eu achei que Manuel precisava falar mais, então me calei.
- Pelo Rio mesmo. Queremos conhecer a cidade e, apesar de termos gostado muito da Bahia, sempre ouvimos falar muito bem daqui. – Neuer respondeu.
- E vocês estão certos! O Rio tem que ser apreciado. - Arthur comentou e parou por um segundo. - Se não tiverem nada o que fazer na sexta, o que eu acho muito difícil, vocês devem ser bastante requisitados, eu vou dar uma festa na praia, à noite, perto do meu hotel. Estão convidados.
- Essa foi a ideia mais decente que você nos apresentou na noite. - Josh riu e Arthur revirou os olhos em brincadeira.
- Muito obrigado. Com certeza passaremos lá. – Manuel respondeu e se eu não o conhece a tanto tempo diria sua resposta foi bem empolgadinha.
- Depois passo o endereço e levem quem vocês quiserem! Podem levar quem quiserem, não me importo... Só deixem as namoradas em casa, por favor. - Arthur piscou para mim e riu em seguida. Embora eu tenha tentado disfarçar, fiquei um pouco sem graça, não sei se eles sabiam alguma coisa sobre minha vida pessoal, mas agora era Sarah que voltara aos meus pensamentos.
- Isso não será um problema. - respondi com um sorriso tentando não transparecer meus problemas. Manuel olhou para mim, mas nada demonstrei a ele também.
- Ótimo! - Arthur bateu palmas, ele realmente era animado demais. - Falando em namoradas, papo sério agora: Quem é o mau aqui?
- Mau? - Manuel perguntou, com certeza tão confuso quanto eu com aquela pergunta.
- É, o durão... – nos entreolhamos, mas nenhum de nós tinha entendido.
- Na cama! – e antes de qualquer reação nossa interveio.
- Arthur! - ela exclamou visivelmente indignada.
Arthur era uma pessoa sem limites nenhum, ou sem papas na língua como alguns costumam dizer. Para não deixar o clima ruim e também pela pergunta inusitada comecei a rir e Manuel me acompanhou.
- Eu não acredito que você fez isso. - Josh riu incrédulo para Arthur.
- Ué! Só quero saber se a aparência engana mesmo. Porque você tem cara de ser mau na hora, sabe? O canalha que as mulheres amam. E homens também... – ele apontou para mim e depois para Neuer. - Já você parece ser mais romântico. É assim?
- Não se preocupem em responder, deixem a imaginação dele trabalhar! - Josh se pronunciou e riu.
Um tempo se passou desde que Arthur tinha falado sobre a atuação de cada um de nós na cama e já havíamos comido, inclusive, a sobremesa.
- De verdade, me desculpem se os deixei desconfortáveis ao fazer aquela pergunta mais cedo. - Arthur falou. - Não me arrependo de ter perguntado, no entanto...
- Não se preocupe, Arthur. - Manuel disse.
- Mas é que as aparências enganam. Por exemplo, a minha linda amiga aqui... - Arthur apontou para e ela mordeu o lábio num sinal claro de receio do que viria a seguir, nós já havíamos percebido como Arthur era.
- Arthur... - ela tentou interrompê-lo.
- Hoje era para ter sido um encontro duplo. - Josh comentou. Eu e Neuer ficamos surpresos, nós havíamos estragado um encontro duplo.
- Josh, posso contar a história primeiro? - Arthur se virou para ele e voltou a falar. - Como eu estava dizendo... não é tão ligada em relacionamentos e tal...
- Você vai contar a história toda?! – ela falou com Arthur e ele negou.
- Só vou falar que você não liga para romance, mas que deveria! Enfim, tínhamos marcado um encontro duplo hoje. O cara fez uns trabalhos para a Vogue e eu achei que seria bom se se envolvesse com ele, apenas para tirar a tei... Tensão do trabalho, sabe? Mas ela não quis nem papo, tive que arrastá-la para cá!
- E o que aconteceu? – perguntei.
- Nós chegamos aqui e vinte minutos depois ele não tinha aparecido nem dado sinal de vida. Eu estava indo lá para fora tentar falar com ele quando esbarrei no garçom que derramou vinho em você. – ela sorriu sem graça.
- Ele te deixou esperando? - Manuel se virou para ela que afirmou. - E nem se deu o trabalho de avisar que não viria? Me desculpe, Arthur, mas precisa que você a introduza a homens, não garotos. - ele terminou de falar e eu não estava acreditando na cena. O que Neuer tinha a ver com a vida de qualquer um deles?
- Você é o meu mais novo ídolo! - Josh disse.
- Eu não preciso ser introduzida a ninguém! – disse se mostrando contrariada.
- , quantos amigos homens você tem? Tirando eu e o Josh! - Arthur perguntou.
- André é meu amigo!
- Vou reformular: um amigo homem que não seja gay, que tenha menos de trinta anos e que, preferencialmente, queira ter sexo com você!
Falta de senso presente novamente. havia ficado mais sem graça agora do que com todas as besteiras já ditas mais cedo. Seu rosto havia adquirido uma cor avermelhada.
- Eu vou te matar. – ela falou baixo, mas todos conseguimos ouvir.
- Eu fui bem gentil. Você sabe que eu poderia ter falado de um jeito pior.
- Eu não vou discutir isso com você. Nego a admitir que sou antissocial ou sei lá o que.
- Você não é antissocial, só prefere ser uma loba solitária, é diferente. Enfim, esse é o meu ponto. As aparências enganam e não tem nada de errado nisso... A não ser que você não seja o mau na cama! Aí sim é errado! – ele voltou a se referir a mim. Que raios ele queria tanto saber da minha vida sexual?
- Bom, o jantar foi ótimo. Melhor do que o esperado! - Josh concluiu.
- Concordo. Obrigado por terem nos convidado para nos sentarmos aqui. Foi uma noite divertida. – eu falei e Arthur chamou o garçom para trazer a conta. - Está tudo bem, nós pagamos. – fui pegando o papel com a conta, mas tomou da minha mão no meio do caminho.
- Absolutamente não. Eu destruí o seu terno e você nem me xingou. Por favor, eu insisto em pagar.
Nos levantamos, após ela pagar a conta, e fomos para a entrada. Arthur me passou o número dele e o de , por precaução, e começamos a nos despedir.
- Já pedi desculpas, mas novamente, sinto muito. – voltou a falar e eu apenas balancei a cabeça mostrando que não tinha problema.
- Como eu tinha dito, não tem problema. Estava querendo me livrar desse terno de qualquer jeito. – ela me deu um abraço, típico como o de brasileiras e assim que me afastei Manuel se aproximou.
- , obrigado por ter derrubado vinho em Basti e me salvado do tédio que seria encarar a cara dele por todas essas horas. – olhei atravessado para Manuel, brincando, e todos rimos. Mas era muito ingrato mesmo! Iria me lembrar disso depois.
- Nesse caso, não há de quê! – ela o abraçou e então seguimos para o carro onde o motorista já nos aguardava. Parece que o meu azar tinha nos levado a uma noite melhor do que eu esperava.

7. People Fall in Love in Mysterious Ways

Bastian’s POV
- Nunca, nunca em toda a minha vida eu conheci alguém como o Arthur. – falei a caminho do hotel.
- Nem me diga. Ainda bem que você contornou todas as situações constrangedoras. – ele deu um tapinha em meu ombro.
- Agora o outro já era bem mais normal, bem estranho eles darem certo, não acha?
- Basti, pelo que sei o amor faz isso com as pessoas... – rimos.
- E desde quando você é tão sabido sobre o amor? – indaguei com certa curiosidade. Ele apenas deu de ombros. – Será que alguma moça presente em nossa mesa nessa noite teria despertado o lado romântico do meu amigo aqui? – fingi conversar sozinho.
- Nem começa, Bastian. – ele respondeu sério.
- Ah... Porque eu acho que percebi uns olhares e sorrisinhos... – ia provocar e ver até onde ele ia.
- Não viaja, por favor. – ele virou os olhos.
- Sem falar, é claro, de “Me desculpe, mas ela precisa ser introduzida a homens e não a meninos.” – repeti sua frase imitando sua entonação.
- Para quem estava chateado seu humor mudou bastante, hein.
- Não vamos falar do meu humor, vamos?
- Não vamos falar é de nada. A não ser, talvez, da tal festa. – ele riu.
- Isso se formos realmente convidados. – eu ponderei.
- E você duvida? Aquele Arthur com certeza vai nos mandar mensagem. Aquilo é a empolgação em pessoa.
- Você quer mesmo ir a essa festa... – fiz uma cara sugestiva para Neuer.
- Boa noite, Basti. – ele disse e entrou na sua suíte.
- Boa noite. – respondi para ninguém.

’s POV
- Bom dia, .
- Bom dia. – cumprimentei minha secretária sem muito ânimo.
- Está tudo bem?
- Apenas resquícios de um dia ruim. – sorri fraco. Você pode trazer um café para mim, por favor? – perguntei já na porta de minha sala.
- Levo em um instante. – ela sorriu e eu agradeci mentalmente de termos finalmente conseguido uma secretária boa.
Assim que liguei meu computador notei a quantidade de e-mails que haviam se acumulado em um dia que eu estava fora, perderia muito tempo com aquilo, mas não me importei a princípio.
- Aqui está o seu café. – Louise o havia colocado em cima da minha mesa.
- Obrigada. Alguma coisa diferente no dia de hoje?
- Hmm... Vivienne tem uma reunião com você, está se lembrando?
- Sim, mas é mais tarde, não?
- Daqui a uma hora. – ela respondeu após consultar seu relógio.
- Ok, se eu me esquecer, venha me lembrar. – ela acenou concordando e se retirou.

Como uma hora passaria voando resolvi me dedicar aos e-mails, pelo menos aos mais urgentes, não correndo risco de broncas desnecessárias na reunião. Alguns dos clientes da editora eram extremamente impacientes e se você não respondia no tempo que eles julgavam suficiente eles já entravam em contato com Vivienne. Alguns profissionais bons já haviam sido notificados por isso, e eu definitivamente não queria me arriscar.

- Bom, marquei essa reunião para discutirmos dois assuntos. – prestei atenção. – Você e Miguel.
- Não, nós não temos mais nada.
- Não, . Você não entendeu, são assuntos à parte, você e ele.
- Ok... – preferi aguardar antes de intervir novamente.
- Não me faça essa cara de velório porque são notícias boas. – sorri e aguardei a continuação. – Bom, mesmo distante pude te acompanhar nas tarefas, não recebi nenhuma reclamação, nenhuma mesmo. – sorri aliviada, tinha me matado nos últimos meses, mas tinha valido a pena.
- Obrigada.
- Há muito tempo eu observo seu trabalho e potencial, por isso mesmo te passei o meu posto enquanto me ausentei. Acho que a missão mais difícil foi colocar alguém no meu lugar para ir à Alemanha e você foi a única que eu consegui confiar para isso. E, acima de tudo, você não decepcionou.
- Você já recebeu a resposta? – perguntei com expectativa.
- Ainda não, mas recebi elogios referentes à sua atuação. – sorri novamente. – Continuando... Há algum tempo eu analiso a possibilidade de dividir o cargo de editora-chefe. Como você deve ter percebido nesses dias, não é pouco serviço.
- Não mesmo.
- E eu sei que você acumulou o meu serviço com outros seus que não poderiam ser passados para ninguém mais. – ainda bem que ela sabia, porque eu penei mesmo. – Então essa reunião era para fazer uma proposta. Aceita dividir o cargo de editora-chefe comigo?
- Claro! – finalmente uma notícia boa. Eu sorriso agora ocupava meu rosto. Desde que eu entrara na empresa me dediquei para que fosse sempre melhorando e meu esforço tinha valido cada minuto.
- Eu ainda terei maior poder de direção e mais algumas regalias em relação a você, mas com o tempo você chega lá.
- Tudo bem. – era simplesmente um aumento de salário e de nome da porta, que eu merecia.
- Agora vamos falar de Miguel.
- O que tem ele?
- Fiquei sabendo que ele veio à editora por esses dias. – confirmei com a cabeça. – Aconteceu algo que eu deva saber?
- Não, na verdade não era nem para você ficar sabendo. Quem disse?
- Louise. Mas não chame a atenção dela, ela apenas achou necessário e fico feliz que ela tenha dito.
- Ele só quer publicar um livro que a concorrência não quis.
- Louise mencionou o quanto só servia com você quando ele marcou a reunião.
- Ele é louco. Mas eu passarei o serviço para algum dos outros funcionários.
- Faça isso mesmo, se não fizer eu o farei. Não quero ele perto de você novamente. Sabe-se lá o que ele pode fazer.
- Agradeço a preocupação, mas está tudo bem. Foi uma reunião civilizada.
- Eram esses os assuntos. Bem vinda, nova editora-chefe! – ela sorriu para mim e tenho certeza que meus olhos brilhavam de felicidade.
- Muito obrigada, Vivienne. Não vou te decepcionar.
- Assim espero.
Já estava a caminho da saída da sala quando ela me chamou novamente.
- , quase me esqueci.
- Diga.
- Pelos seus serviços e pela promoção, acho que você merece pelo menos uma semana de descanso.
- Obrigada, mas eu estou bem.
- Não estou obrigando a tirar agora. Mas pense, e quando quiser é só me avisar.
- Obrigada novamente. – finalmente meus dias tinham voltado a fazer sentido.

Estava totalmente concentrada em um projeto quando quase enfartei.
- ! – era , aquela desmiolada. Sabe que eu assusto fácil e fica fazendo essas coisas.
- Ai, não faz isso comigo! – levantei e fui cumprimentá-la.
- Precisamos conversar. – ela se sentou na cadeira posicionada na minha frente e me encarou. – Oi, tudo bem? Como você vai? Eu vou bem, obrigada por perguntar. – fui irônica mesmo. Educação mandou lembranças. Ela continuou me olhando e riu.
- Vou bem também. – ela começou a olhar em volta da minha sala.
- Como você sabia que eu estaria aqui? – afinal de contas já era horário de almoço.
- Ah, por favor. Duvido que você tenha saído um dia para almoçar desde que você começou a trabalhar em dobro. – eu já tinha falado que Vivienne havia voltado, mas ela provavelmente não tinha prestado atenção. Preferi não contar do meu novo cargo até assinar realmente o contrato.
- Caso você não se lembre, saí para almoçar com você naquele dia do jogo da Alemanha! – hoje era meu dia de sair por cima.
- Sobre esse dia... – ela parou de falar.
- O que tem? – perguntei ainda concentrada em algumas planilhas.
- Nada não. Sabe a festa do Arthur? – ela mordeu o lábio.
- Sei... – respondi ainda sem dar muita importância.
- É nessa sexta. Você vai, né? Vai ser na praia de Copacabana, no posto 5. Em frente ao hotel em que ele está hospedado.
- Não sei... Estou cheia de coisa pra fazer e tenho certeza que vou sair morta do trabalho.
- , eu vou fazer com você o mesmo que Arthur fez comigo. – ela me encarou séria.
- Coisa boa não é... – e não seria mesmo.
- Há quanto tempo você não namora? – eu ia responder, mas ela mesma me interrompeu. — Há 7 meses.
- Como você sabe disso? – perguntei assustada.
- Eu lembro. Mas a questão não é essa.
- Não?! - perguntei confusa. E ela fez uma cara ruim antes de continuar falando.
- Há quanto tempo você não dá? – agora sim meus olhos estavam saltando das órbitas e meu queixo caído. Permaneci em silêncio. - ? – ela caminhou até ficar ao meu lado. - Está tudo bem?
- Eu não vou responder essa pergunta. – me levantei e comecei a andar pelo escritório. Estava incomodada.
- Não precisa, só fique com isso em mente. – foi a resposta dela.
- O que isso tem a ver com a festa de Arthur?! - cruzei os braços. Ela pegou sua bolsa e já estava pronta para sair da sala quando disse:
- Acho que você só vai descobrir se for. – ela saiu da sala e continuei sem falar nada. - É sério, você tem que ir!
Só uma palavra a descreveria nesse momento: louca.

Algo nessa história me cheirava a confusão, tinha algo em mente e estava escondendo de mim numa forma de fazer com que eu fosse. Mas eu realmente tinha trabalho a fazer e pensaria nisso depois.

Bastian’s POV
O resto da semana tinha passado sem grandes acontecimentos. Manuel não havia tocado no assunto da festa, mas algo me dizia que nos acabaríamos lá de um jeito ou de outro. Talvez fosse uma boa, Arthur tinha dito que podíamos levar quem quiséssemos e eu não ficaria sozinho quando Neuer fosse atrás de .
- Terra chamando Basti. - Lukas balançou a mão em frente ao meu rosto me fazendo olhá-lo.
- O que foi? - perguntei sem ter notado como ele tinha aparecido no quarto do Neuer.
- Manuel disse que vocês foram convidados a uma festa hoje à noite na praia, você vai? - o olhei um pouco desanimado.
- Não sei, vocês vão? - devolvi a pergunta sem muito interesse.
- Acho que vamos sim, o Thomas topou na hora e os outros já tinham planos. - continuei olhando ele sem muita animação e logo Neuer apareceu com Müller.
- Está com essa cara ainda? - Neuer riu e me limitei a olhá-lo e Müller rolou os olhos.
- Que horas é a festa mesmo? - Lukas voltou ao assunto e eu entendi que uma festa brasileira ainda não fazia parte de todo o repertório registrado por ele no Brasil.
- Acho que podemos sair daqui em duas horas. - respondeu Manuel.
- Nos encontramos lá embaixo então, pode ser? - Müller deu a ideia e os outros assentiram.
- Anda, Basti. Tira sua bunda daqui e vai se arrumar.
- Mas não é daqui a duas horas?
- Se você vai de qualquer jeito o problema é seu. - ele deu de ombros e seguiu para o banheiro, mas não antes sem escutar de mim.
- Ah é, você tem alguém a impressionar. - pisquei me levantando e recebi um olhar que deveria me assustar. Saí do quarto rindo com os outros.
- Acho que Manu nos poupou alguns detalhes. - Lukas olhou para Thomas e em seguida para mim.
- Estou só enchendo o saco dele. Tive a impressão de que a garota e ele trocaram alguns olhares e sorrisos, mas nada demais. - vi que não era o que eles queriam, mas era a verdade.
- Até mais tarde então. - Thomas foi em direção ao seu quarto e Lukas entrou comigo no meu quarto. Me joguei na cama e ele se sentou no sofá ligando a TV. Depois de alguns segundos ele se pronunciou.
- No que está pensando? - ele perguntou e eu ri.
- Neste momento estou me perguntando porque você está aqui ainda mais com essa cara de dúvida. - ele continuou me olhando e eu ri de novo. - Qual o problema? - perguntei, mas nunca em minha vida esperei a resposta que recebi.
- Que tipo de roupa se usa para uma festa na praia? - gargalhei.
- Não acredito nisso! Meus amigos estão virando gays e eu nem percebi. - uma almofada voou pelo quarto, mas não me acertou.
- Não é isso, babaca.
- E o que é então?
- Em uma festa na praia as pessoas entram na água? Elas vão bem vestidas ou elas vão como se fosse apenas um passeio na praia? - ele realmente estava incomodado com aquilo e segurei a vontade de rir novamente. Não era porque meu humor não estava dos melhores que eu precisava ser chato.
- Bom, a se julgar pelo dono da festa, acho que é algo mais para o bem vestido do que para entrar na água. Procura alguma coisa aí na internet. - sugeri e ele se calou com o celular na mão. Fechei os olhos na esperança de dormir um pouco.
- Basti, você é um gênio. - abri os olhos ao ouvi-lo dizer isso e sair correndo do quarto batendo a porta.
Sorri encarando o teto até que um pensamento passou pela minha cabeça.
- Ele não faria isso... - falei para mim mesmo e no instante seguinte abriram a porta novamente. Me sentei na cama e vi o que achei que jamais veria: Lukas com várias roupas na mão. Não tive outra reação a não ser gargalhar.
- Você não pode estar falando sério! Eu não vou escolher sua roupa! - me levantei indo ao banheiro quando fui puxado.
- Presta atenção, por favor. - me virei e o encarei sem rir. - Pelo que olhei na internet qualquer uma dessas estaria apropriada.
- Então escolhe qualquer uma. - fiz cara de óbvio.
- Me ajuda! Os brasileiros estão me amando aqui, não posso passar vergonha. - a porta se abriu novamente e eu rolei os olhos quando Neuer entrou.
- Por que achei que teria privacidade mesmo? - perguntei pra mim mesmo.
- O que está acontecendo aqui? Por que não estão prontos ainda?
- Espera aí, você está pronto? - Lukas perguntou e eu conferi as horas. Ainda faltava muito tempo.
- Sim. Por quê? - foi a vez de Lukas rir e eu e Neuer nos entreolhamos sem entender.
- Nada não. - segurou o riso. - Basti estava certo, posso escolher qualquer uma dessas que vou estar de boa. - lançou um olhar às roupas de Neuer, que vestia uma camisa social branca e uma bermuda azul e saiu do quarto carregando as dele.
- Ele realmente trouxe as roupas dele para ouvir sua opinião? - ele perguntou incrédulo e eu soltei um riso fraco.
- Já que vai ser impossível ter algum sossego, vou tomar banho. - avisei prevendo que ele ficaria por ali.
Tomei banho, escovei os dentes e arrumei meu cabelo, saindo com a toalha na cintura para pegar uma roupa.
- Achei que nos encontraríamos lá no saguão do hotel. - comentei ao ver Thomas ao lado de Manuel. Ele estava de jeans, uma camiseta azul e uma camisa xadrez por cima, aberta. Voltei a encarar minhas roupas, peguei e voltei ao banheiro para me trocar. Camisa social preta, jeans escuro e meu tênis branco. Passei um perfume, peguei meu telefone e minha carteira, coloquei meu relógio e me olhei uma última vez no espelho antes de sair do quarto.
- Nada do Poldi ainda? - perguntei apenas para que os outros dois notassem que já estava ali.
- Isso porque avisei duas horas antes. - Manu parecia nervoso ou ansioso.
- Ainda está cedo. - Lukas apareceu. - E estou pronto para uma festa brasileira. - ele parecia satisfeito com a camisa jeans azul e uma calça bege.
- Então vamos. - Manuel levantou e seguiu para fora do hotel.

’s POV
Confesso que não fazia parte dos meus planos me atrasar tanto assim, mas sempre tenho um problema para encontrar uma roupa que eu goste e para variar foi isso que me atrasou. Primeiro pensei em um vestido florido, assim que vesti me senti muito menininha e achei que não fazia jus ao evento. Tentei depois uma saia, mas achei que não era uma boa para praia, podia ventar e tudo mais. Tentei um short com uma blusa de mangas compridas e ao me olhar no espelho senti que ainda não era o que eu procurava. Foi então que me lembrei de um vestido que minha mãe havia mandado para mim de presente e eu nunca havia usado. Era um vestido mais justo, acima dos joelhos e com alças. Ele era dégradé, começava no branco, na parte superior e logo abaixo do busto ele começava um tom claro de azul, ficando mais escuro na barra inferior e o tecido dava a impressão de brilho às vezes.
Eu queria estar bem vestida porque algo nessa festa seria bombástico! Não que Arthur já não fosse de chamar a atenção, mas pela insistência de algo ia acontecer sim. Optei por uma rasteirinha bege que combinava com os brincos dourados que havia escolhido. Havia enrolado as pontas do meu cabelo para destacar e escolhido uma maquiagem bem básica, com mais destaque para os olhos do que para a boca.
Como corria risco de beber preferi ir de taxi até a praia onde seria a festa. Logo já podia se ver a tenda principal da festa e eu estava até empolgada, mesmo não admitindo. Assim que paguei e saí do carro já avistei Arthur com Josh conversando com algumas pessoas que eu não reconheci, provavelmente eram da revista. Assim que ele me viu quando cheguei mais perto o cumprimentei pela festa, pelo aniversário e entreguei um presente, cumprimentei Josh com um abraço também e os demais apenas com um aceno. Dei uma olhada geral e não achei , sabia que ela já estava lá porque ela havia me enviado uma mensagem avisando que já tinha chegado. Mas pelo meu atraso e nenhuma mensagem dela me procurando eu poderia dizer que ela estava aproveitando a festa. Quando ia saindo de perto de Arthur para dar uma volta ele me puxou pelo braço e disse:
- Ela foi dar uma volta na praia, foi por ali. - me indicou o caminho que havia tomado. - E é melhor andar logo porque ela está com o amor da sua vida, o da dela e mais algumas pessoas.
Olhei para Arthur tentando entender o que ele quis dizer, e logo considerei a hipótese de ele já ter bebido alguns dos seus coloridos e muito conhecidos drinks. Segui pelo caminho indicado admirando a praia, a lua, tinha tempo que não fazia isso. Logo mais a frente avistei duas pessoas de costas para mim e conversando com eles, de frente para mim. Ela não me percebeu a princípio e eu, me lembrando da fala de Arthur cheguei perto deles falando:
- , você não vai acreditar no que o Arthur dis... - meu cérebro congelou nessa frase, e seria impossível terminá-la com todo o resto que rodava em minha cabeça. Meus olhos estavam arregalados, tamanha a surpresa.
Assim que eles se viraram, enquanto eu tagarelava, eu reconheci Bastian e tudo o que eu queria fazer era gritar, pular, correr e até mesmo abraçá-lo. Apesar do pouco tempo juntos eu sentia falta das brincadeiras e do jeito dele, consequência do quanto eu me apegava fácil. Outra parte da minha mente trabalhava entre matar ou abraçá-la. Pela expressão dela, nada daquilo era surpresa para ela, apenas para mim. E se o cérebro puder trabalhar assim, a terceira parte lutava para lembrar se o outro cara era o goleiro ou não.
percebendo meu desconforto com a situação tratou de fazer algo a respeito.
- Manuel, essa é minha amiga . , esse é o Manuel Neuer, goleiro da Alemanha e acho que não preciso apresentar você ao Bastian. - ela sorriu satisfeita e deu uma piscadinha discreta. Safada!
- ? A garota do avião? - Neuer questionou sorrindo, provavelmente não acreditando na situação. apenas assentiu confirmando suas suspeitas.
- Muito prazer, Manuel. - sorri e retribui ao aperto de mão que me fora oferecido. Fiquei sem saber como cumprimentar Bastian, já ele não pareceu ter problemas com isso e me abraçou. Eu me senti bem ao receber o abraço, fora melhor do que eu esperava, e embora não tenha durado muito, quando nós separamos e Manuel não estavam mais lá.

Nos encaramos por um tempo em silêncio. Ele estava com aquele sorriso, que eu tinha certeza que encantava grande parte da população feminina, esperando que eu falasse algo. Eu, que havia internamente desejado esse momento, não conseguia dizer nada, era como se o meu cérebro estivesse realmente congelado. Seu sorriso foi diminuindo aos poucos até que ele afirmou:
- Você não queria me ver. - e começou a encarar o chão.
- Como é? - questionei sem acreditar no que ele havia dito. Ele voltou a olhar para mim, mas não disse nada. - Você realmente acha que minha amiga teria armado isso se eu não quisesse te ver? - ergui uma sobrancelha mostrando incredulidade.
- Não faço a menor ideia. - ele sorriu dando de ombros.
- Inclusive, vocês me devem uma história. Ao que parece eu perdi alguns acontecimentos. - comecei a caminhar em direção a umas pedras próximas que davam para sentar e ele me acompanhou.
- Ok, depois você fica sabendo dessa história. - assim que nos sentamos o silêncio voltou a se instalar entre nós. - O que te faz estar tanto em silêncio? No voo você foi consideravelmente mais falante.
- Está dizendo que eu falei demais? - fingi um tom ultrajado.
- Não, estou dizendo que você falava... - ele me empurrou de leve com o ombro.
- É só que... - respirei fundo antes de continuar. - É muita coisa para mim, desde que te conheci posso dizer que minha vida está de cabeça para baixo.
- Uou! Causei tanto estrago assim? - ele perguntou sério.
- Não! É um cabeça para baixo de forma positiva... Eu acho. - percebi que ele não falaria nada e que sua expressão demonstrava confusão. - É muita coisa porque, primeiro, você nem me contou que era jogador.
- Eu posso explicar. - sorri. Até parece que ele me devia qualquer explicação da vida dele.
Continuei como se não tivesse sido interrompida. - Segundo, aparece na minha porta para dizer que a seleção em massa está me procurando. E eu não acredito muito até que você falou ao vivo para o mundo inteiro. Isso sem contar as matérias sobre sua ex, ou atual.
- Ex. - ele me interrompeu novamente.
- E aí eu me convenci a te encontrar e...
- Espera! Você foi? - ele questionou espantado.
- Sim, devia ser importante para você anunciar para o mundo inteiro. E quando cheguei lá constatei o óbvio, todo mundo que queria uma chance de te ver estava lá, inclusive a Sarah, e na verdade você nem apareceu. E eu nem acreditava que te veria novamente e aí você está na festa do Arthur e... - relaxei os ombros soltando o resto de ar que continha em meus pulmões. - É simplesmente muita coisa para uma editora de vida sem emoção. - ele sorriu. Claro que a confusão estava ainda maior porque Miguel estava me importunando em tempo integral, mas ele não precisava saber dessa parte.
- Peço desculpas pelos transtornos causados. - ele simulou uma reverência me fazendo rir.
- Desculpas aceitas. E desculpa por falar demais, acho que eu perco o filtro quando estou com você. - fechei a boca rapidamente me dando conta do que havia acabado de dizer.
- Tudo bem. Só quero deixar registrado que a ideia do Twitter não foi minha e quando eu vi não tinha volta então eu tentei, mas aí você não respondeu e quando eu dei por mim tinha falado aquilo na TV. Óbvio que milhares de pessoas apareceriam. - concordei com a cabeça. - E quanto a Sarah, eu não sabia que ela apareceria, mas não temos mais nada. - ele soltou o ar pesadamente. - Outra história longa, com certeza para outro momento. - sorri novamente encarando aqueles olhos que poderiam me prender por tempo indefinido. - Sobre não ter te contado a verdade no avião - ele começou -, eu não tinha nenhuma intenção de esconder, mas quando vi que você não fazia a menor ideia de quem eu era e me tratou como uma pessoa qualquer... Tinha tanto tempo que eu não era simplesmente Bastian que aproveitei. - ele sorriu e foi impossível não sorrir com ele.
- Entendi. - levei minha mão até a dele. - As pessoas devem ver direto o jogador e esquecem que você é uma pessoa. - tentei fazer sentido e acabei com uma careta. Ele riu.
- É por aí. - ele parou de olhar para mim e encarava agora algo atrás de mim. Me virei e vi que Manuel apareceu visivelmente contrariado e se sentou do lado de Bastian. Nos entreolhamos em silêncio.
- Modelo fotográfico. - Neuer falou com desdém. - Grande coisa! - Basti segurou o riso vendo a contrariedade do amigo e eu olhei na direção que ele tinha vindo, avistei outro cara conversando com e deduzi que deveria ser o "famoso" Bernardo. Algumas peças estavam faltando para completar isso, mas haveria tempo para muitas explicações por parte da minha querida amiga. Com certeza.
- Que tal voltarmos para as tendas e pegarmos algumas bebidas? - sugeri tentando quebrar o clima ruim. Bastian percebeu a intenção e logo se levantou dando início a caminhada inversa que havíamos feito mais cedo.
- Bom que você conhece os outros.
- Outros quem? - ergui a sobrancelha curiosa.
- Jogadores da seleção, amigos nossos.
- Tem mais de vocês aqui? - falei um pouco mais alto do que pretendia e Neuer riu.
- Sim, Thomas e Lukas estão por aí...
- Como Arthur conseguiu isso? - perguntei balançando a cabeça em incredulidade.
Chegamos a tenda e seguimos para o balcão de bebidas.
- O que vão querer? - perguntei enquanto eles olhavam o menu de drinks. Arthur não tinha economizado em absolutamente nada.
- Vou ficar na cerveja mesmo. - Bastian sorriu colocando o menu de volta no balcão.
- Vou te acompanhar. - Neuer disse.
- Ok. Duas cervejas e uma tequila sunrise, por favor. - pedi ao barman que logo trouxe os pedidos. Agradeci e segui até uma das mesas com os meninos.
- Então... - Neuer começou. - Você também trabalha na revista? Como Arthur e ?
- Não. - neguei com a cabeça. - Eu sou editora-chefe de uma editora aqui do Rio. Sou amiga da há muito tempo, conheci Arthur por causa dela. - bebi um pouco do drink.
- Bebendo sem a gente? - ouvi alguém falar e me virei vendo duas pessoas que eu não conhecia, deviam ser os outros jogadores.
- , esses são Lukas Podolski e Thomas Müller. - Bastian os apresentou e eu me levantei para cumprimentá-los.
- É um prazer. - indiquei os outros lugares e eles se sentaram.
- , igual a do avião? - Müller perguntou e desviei meu olhar para baixo sabendo que meu rosto tinha uma cor avermelhada.
- Não! - Lukas disse com um grande sorriso. - Não acredito que é a do Basti. - olhei para Bastian e ri fraco.
- Ela não é "minha ". - ele disse, mas nem me importei.
- Não sabia que estava tão famosa assim. - entrei na brincadeira.
- Como isso aconteceu? - Lukas perguntou e Neuer se prontificou a responder.
- Ela é amiga da .
- Sou eu! - minha amiga apareceu de repente. - O que tem eu?
- Manuel está contando para eles que somos amigas. Obviamente você me escondeu algumas coisas.
- Nem começa, você me ama!
- Claro, claro...
- Vocês não vão beber nada? - ela encarou os recém-chegados e bebeu do meu copo. - Não sei como você gosta disso, . - fez uma careta.
- Você sempre fala isso, e sempre bebe. - ri e a acompanhei com o olhar enquanto ela seguiu os meninos recém-chegados até o balcão.

8. Business or Pleasure?

Bastian’s POV
Estávamos bebendo e conversando com alguns convidados da festa que haviam se sentado em nossa mesa, e de onde eu estava conseguia ver perfeitamente e dançando muito empolgadas na pista de dança, comprovadamente as brasileiras dançavam muito bem. Elas haviam virado algumas doses um pouco antes, pelo menos eu tinha visto virar duas ou três tequilas e internamente eu desejava estar lá com ela e não na mesa cheia de homens falando de futebol, mas eu era um bom jogador e um péssimo dançarino então não me atrevi a sair do lugar.
- Basti. – ouvi Lukas me chamar e, pela cara que me olhava, ele sabia bem no que eu estava concentrado.
- Oi. – respondi só então notando que havia duas mulheres muito bonitas paradas ao lado de nossa mesa.
- Essas são Mel e Luna, são modelos que já trabalharam com Arthur. – as cumprimentei e logo Thomas trazia duas cadeiras para elas sentarem conosco. Pelo visto eu teria que lembrá-lo que ele era casado. - E esse é Bernardo, também é modelo. – ele completou e, pela cara ruim que Neuer tentou disfarçar, eu sabia que era esse o modelo que deveria ter encontrado no restaurante.
A cara de Manuel era hilária, mas eu me segurei para não rir, não queria ter que explicar o motivo e por mais que eu tentasse prestar atenção no novo assunto da mesa meus olhos insistiam em focar nela, onde quer que ela estivesse. Uma das modelos, acho que era a Luna, se aproximou de mim, tentando me convencer a dançar e, pela forma que ela me olhava, pelo sorriso e pelo tanto que passava as mãos como se fosse por acaso pelo meu braço eu sabia bem o que ela queria. Mas se tinha uma pessoa naquela festa que eu estava interessado, com certeza não era a modelo. Claro que fui simpático até demais, tentei lançar uns olhares para Neuer para que ele me ajudasse a sair dessa, mas ele estava muito concentrado em conversar com a outra modelo. Procurei ou para usar a desculpa de que alguma delas estava me chamando, mas elas estavam no bar, conversando e não olhavam para mim.
Sem uma desculpa realmente convincente, acabei sendo arrastado para a pista de dança pela tal Luna e internamente eu me arrependia de não ter ido dançar quando a estava lá. A música era uma batida eletrônica constante e eu me movia o mínimo possível acompanhando o ritmo, apenas para não ficar parado, mas mesmo com a modelo dançando sensualmente na minha frente, meus olhos estavam novamente encarando . Ela também me olhava, mas sua cara estava fechada, era como se ela estivesse com raiva. Só então percebi que não estava mais ao lado dela no bar, ela estava vindo com Neuer para a pista e eu tinha duas certezas naquele momento: que meu amigo se daria bem aquela noite e que pagaria o mico do século na pista porque eu danço mal, mas ele é ainda pior.
Luna se aproximou de mim e colocou os braços em volta do meu pescoço, aquilo era aproximação demais. Levei minhas mãos até os braços dela, com a intenção de tirá-los e nos afastarmos um pouco, mas antes que isso pudesse acontecer alguém passou por mim, acertando meu braço com o ombro. Virei meu rosto vendo que era e franzi a testa tentando entender o que havia acontecido. se aproximou de mim, ainda dançando com Neuer, e fez um sinal com a cabeça indicando que eu deveria segui-la. Pedi licença a Luna, que não pareceu se importar, e fiz o caminho que havia feito antes. Ela não estava muito longe, estava de pé sentindo as ondas baterem e molharem os pés.
- ... - chamei, ela virou o rosto em minha direção e logo voltou a olhar o mar a sua frente sem proferir nenhuma palavra, mas não tinha mais a expressão de raiva.
- , está tudo bem? - perguntei, agora mais próximo.
- Claro. - ela respondeu sem emoção.
- O que foi que aconteceu? Você parecia estar se divertindo no bar com suas amigas.
- E você com a sua. - ela soltou visivelmente emburrada e tive vontade de rir.
- A Luna? - provoquei. - Você está com ciúmes? - segurei um riso.
- Ciúmes? - ela repetiu num tom mais alto. - De jeito nenhum. - esse era um lado desconhecido dela, provavelmente afetado pelas doses de tequila e eu estaria mentindo se dissesse que não estava adorando.
- Eu acho que é sim. - repeti.
- Por que eu teria ciúmes de você? - ela fez uma cara engraçada. - Só porque você é bonito, encantador e um bom jogador? - ela enumerou nos dedos e só então pareceu perceber o que tinha dito, arregalando os olhos em seguida e levando as mãos à boca.
- Então você me acha um bom jogador? - questionei com sorriso de canto, me aproximando ainda mais dela.
- Eu... Eu não conheço muitos, en-então você deve ser bom. - ela tentou esquivar, mas era tarde demais.
- Eu acho que não foi isso que ouvi, parece que alguém me acha bonito e encantador... - ela negou com a cabeça, com nossos rostos a milímetros de distância. - Que pena! Porque eu ouvi por aí que tem um jogador de futebol encantado por uma brasileira que ele conheceu no avião.
- Você está? - ela perguntou num tom de surpresa, mas um sorriso estava estampado em seu rosto e isso era o que faltava para fazer o que eu tanto queria desde que havia colocado os meus olhos nela novamente, roubar um beijo.
A princípio ela não se mexeu então eu abri os olhos e quando fiz menção de me afastar, senti os braços dela em volta do meu pescoço, me puxando para mais perto e então minhas mãos foram para a cintura dela e o beijo se intensificou. Eu não esperava sentir nada, afinal de contas era só um beijo, um beijo muito esperado, mas ainda assim só um beijo, porém foi como se algo dentro de mim se aquecesse ou voltasse a ter vida. Depois de tantos anos acostumado a beijar a mesma boca, eu nem me lembrava que era assim que as pessoas se sentiam no primeiro beijo.

’s POV
Fui pega completamente de surpresa pelo beijo. O álcool me deixava mais lenta, eu ainda estava processando a informação de que ele estava também encantado por mim quando senti os lábios dele colados aos meus. Pela minha falta de reação senti que ele ia recuar, então enfim correspondi, passei os braços pelo pescoço e o puxei ainda mais para mim. As mãos firmes logo foram parar em minha cintura e então ele me beijou com vontade, vontade essa que eu também tinha. Nossas bocas e línguas em sincronia, o ar deixando de ser suficiente e um formigamento gostoso tomando conta de mim.
Uma de suas mãos logo subiu por minhas costas e assim que alcançou minha nuca o beijo ficou ainda mais intenso. Antes de nos afastarmos para recuperar o fôlego ele mordeu de leve meu lábio inferior repetidas vezes, o que me fez rir. Contive o sorriso real que daria, não precisava assustá-lo. Se eu achava que já tinha ficado com caras com pegada antes eu havia acabado de comprovar que não, eu não tinha experimentado um beijo tão bom como aquele e eu queria mais. Ele me olhou tentando entender o motivo do meu sorriso, mas apenas balancei a cabeça e voltei a encostar nossas bocas. Foi a vez de ele rir contra minha boca e logo retomamos o beijo, que se dependesse de mim duraria a noite toda.
Não fazia ideia de quanto tempo tinha se passado entre pequenas conversas, alguns risos e muitos beijos. Decidimos voltar para onde a festa acontecia e talvez eu precisasse de outra bebida, pois a vergonha que eu não tinha sentido até então começava a me perturbar e só se intensificou quando senti os dedos dele se entrelaçando aos meus enquanto refazíamos o caminho anterior.
- Se eu estava sendo zoado antes, não quero nem imaginar o que vão dizer agora. – ele parecia achar graça disso.
- Te zoaram? Por minha causa? – me culpei para variar.
- Não, por mim mesmo. Mas é só ignorar. – ele deu de ombros totalmente despreocupado.
- Nem vamos precisar, acho que eles não estão mais aqui. – soltei ao ver a mesa antes ocupada pelos jogadores agora vazia.
- Eles foram para uma boate com as modelos. – uma voz atrás de nós falou e nos viramos dando de cara com Neuer e . – Ainda bem que vocês voltaram, não aguentava mais dançar. – ele fez careta e o empurrou rindo.
- , vamos pegar mais bebidas? – me chamou já seguindo para o bar e eu fui logo atrás. – VOCÊ BEIJOU O BASTI? – ela praticamente gritar e eu tapei a boca dela com ambas as mãos.
- Você está louca!? Para de gritar! – a tentativa de parecer brava foi em vão, pois logo eu estava rindo.
- Estou falando em português, eles não entenderam.
- Eles não são burros, sabia? – neguei com a cabeça me recusando a olhar na direção dos meninos.
- Não foge do assunto, . Beijou ou não beijou? – ela arqueou as sobrancelhas esperando uma resposta que, pelo sorriso de canto, ela já sabia.
- Você estava me vigiando, não estava? – questionei.
- Claro que não! Se você não percebeu eu estava com uma companhia muito interessante e não perdi tempo te vigiando. – ela deu um gole no drink que o barman tinha colocado a frente dela e eu pedi uma caipiroska de morango. – Mas eu notei traços de batom na boca do Bastian e, se não for seu, sinto muito, amiga, ele pegou outra. – ela falou com naturalidade e eu bati no braço dela.
- , não dá pra acreditar... Parece um sonho e você armou isso tudo e escondeu de mim! – reclamei.
- Valeu ou não valeu a pena? – não respondi. – Então pronto. Essa é uma conversa que podemos ter depois, então vamos aproveitar nossos alemães porque, diferente de você, eu ainda não o beijei. – voltou para a mesa com o copo na mão e cheguei rindo ao lado dela. Quando puxei a cadeira para me sentar ele segurou minha mão.
- Vamos dançar. – não era um convite e, se fosse, não seria recusado. Então o deixei me guiar até a pista de dança, que agora já estava bem vazia.
- Achei que você tinha dito que não levava jeito para dançar. – repeti o que ele mesmo tinha dito quando sugeri que voltássemos para dançar.
- E não levo mesmo, você já vai constatar isso. – ri com ele. – Mas meu amigo ainda está no zero a zero com sua amiga e não sou eu quem vai atrapalhar.
- Ah, então os meninos também fofocam... – ele rolou os olhos.
- Vem cá, vem. – ele me puxou para mais perto e trocamos um beijo rápido, que novamente me pegou desprevenida, mas se ele não estava preocupado com plateia, eu também não estava.
Estilos variados de música tocaram e Bastian não havia mentido, ele realmente não levava jeito para a dança, mas ainda assim tinha sido bem divertido e só diminuímos o ritmo quando apareceu perto de nós e me avisou que Arthur e Josh já estavam muito bêbados e que com a ajuda de Neuer ela os levaria de volta para o hotel. Aquela provavelmente seria a oportunidade de algo acontecer e nem ofereci ajuda. Duas músicas depois meus pés já doíam e eu sentia o sono bater.
- Acho que preciso ir pra casa. – comentei com a cabeça apoiada no ombro dele.
- Eu queria te mostrar uma coisa antes. – ele disse consultando o relógio. – Posso?
- Pode. – concordei com um sorriso e novamente de mãos dadas fomos até a calçada e entramos em um dos taxis que estava parado na rua.
As ruas não estavam muito vazias, mesmo assim em poucos minutos estávamos na entrada do hotel que eu tinha ido na terça-feira, agora numa situação completamente diferente. Só então vi as horas no relógio da parede do saguão e me assustei com as horas.
- Vamos rápido ou vamos perder o que quero te mostrar. – novamente fui pega pela mão e entramos em um dos elevadores. Ele apertou algum botão, mas ficou no rumo para que eu não visse.
- O que você está aprontando, Bastian? – a curiosidade sempre era muito forte em mim.
- Feche os olhos, é uma surpresa. – um pouco relutante, fechei os olhos.
- Posso acabar dormindo a qualquer momento. – confessei quando um bocejo escapou e ele riu. Só então passou por minha cabeça que poderíamos estar indo ao quarto dele e essa ideia me deixou um tanto apreensiva. Assim que o sinal de que as portas se abririam soou ele me guiou para fora do elevador e senti o vento bater em nós.
- Pronto. – ele disse atrás de mim e, quando abri os olhos, vi que estávamos no terraço do hotel e foi impossível não sorrir.
O céu já estava bem mais claro e acinzentado, logo o sol surgiria e eu tinha certeza antes mesmo de ver que seria uma linda vista. Caminhamos em silêncio até um dos sofás próprios para terraços e nos sentamos, ele passou um braço por meus ombros me deixando ainda mais perto dele e me permiti aproveitar o momento. Encostei a cabeça no ombro dele e encostei meus lábios em seu pescoço, num beijo rápido e não planejado.
- Você deve ter visto isso milhares de vezes, né? – ele comentou quando os raios de sol já surgiam timidamente entre as nuvens.
- Para falar a verdade, não.
- Não?
- Geralmente eu estou dormindo quando o sol nasce. – fiz uma careta me lembrando do quanto eu era péssima em me manter acordada até tarde ou acordar muito cedo. – O pôr do sol é mais fácil de ser apreciado, mas às vezes ainda me surpreendo. – mantivemos o silêncio e eu senti a necessidade de quebrá-lo. – Como essa vista, é linda. O Rio é lindo, mas a gente acaba vivendo tão preso na rotina lá embaixo que as vezes nem lembra do quanto uma vista assim é reconfortante.
- Eu imagino, apesar de uma rotina completamente diferente da sua. Já conheci muitos lugares, mas o Podolski é que está certo em estar tão apaixonado pelo Brasil.
- Eu vi algumas fotos, o pessoal já assumiu que ele é brasileiro. – comentei o que tinha visto na internet a uns dias atrás.
- Não tem mesmo como comparar.
Voltamos a encarar o nascer do sol e eu só tinha mais certeza de que aquele dia era um sonho e que eu nunca teria tanta sorte assim novamente. E então eu dormi, exatamente onde estava, encostada nele.
- Vem, . – abri os olhos brevemente vendo ele me levantando.
- Aqui está bom, vou dormir só mais um pouquinho. – falei já de olhos fechados.
- Vamos para o quarto, . – abri meus olhos de uma vez, essa frase era perigosa.
- Eu preciso ir para casa, isso sim. – caminhei até o elevador e apertei o botão.
- , você está caindo de sono, é capaz de dormir dentro do carro no caminho. – aquilo era verdade e acabei me rendendo.
- Você está provavelmente certo.

- VOCÊ O QUE? - gritou do outro lado do telefone.
- Para de gritar, . - gargalhei do exagero dela. - É isso mesmo que você ouviu, eu dormi no terraço e ele me convenceu a dormir no quarto dele.
- E vocês...? - ela deixou no ar. Não soube por que, já que ela não costumava ter papas na língua.
- É claro que não! É de mim que estamos falando. - ri novamente.
- , eu não sei o que mais me espanta, se é você ter aceitado dormir no quarto dele ou você não ter efetivamente dormido com ele. - balancei a cabeça mesmo que ela não pudesse ver.
- Para falar a verdade eu só pensei que era uma oportunidade única e que eu não deveria desperdiçar.
- E não devia mesmo. Se você tivesse recusado eu ia até aí bater em você.
- Aham... - eu provoquei. - Mas me conta do resto da sua noite com o Neuer.
- , você dormiu no quarto do Basti e acha mesmo que vamos falar de Neuer? - eu pude ouvir o som do sorriso incrédulo dela.
- Não gosto de ser o centro das atenções.
- Mas você é, então trate de me contar o que aconteceu em detalhes ou farei você me contar pessoalmente e aí sim vai ser constrangedor. - bufei por estar novamente nas mãos da minha amiga.
- Ok, o que mais você quer saber?
- Tudo! Onde você dormiu? Vocês dormiram juntos? Se beijaram mais?
- Dormi na cama dele e, sim, dormimos juntos. Ele percebeu que eu não estava muito confortável com a ideia e até se ofereceu para dormir no sofá, mas é muita maldade fazer alguém dormir naquele sofá minúsculo perto de uma cama enorme daquelas.
- Não rolou nadinha? - ela tinha um tom decepcionado na voz.
- Nós beijamos no terraço algumas vezes, nada além disso. Mas preciso contar uma coisa.
- E está esperando o que?
- Ele dorme só de calça e acho que ele percebeu quando eu o sequei descaradamente. - falei como um criminoso confessando um crime.
- Ai ... Isso eu queria ter visto!
- Ele quase sem roupa ou minha cara de retardada?
- As duas coisas. - ela voltou a rir.
- E posso saber como a senhorita dormiu? Se me disser que foi só de lingerie eu juro que não te reconheço mais.
- Não, ele deixou uma camiseta dele para mim no banheiro quando saiu. Sério, , ele não pode ser real.
- Sabe que só tenho um medo nisso tudo, né? - concordei com um "aham". - Tenta não se apegar muito.
- Pode deixar. - falei tentando me convencer realmente daquilo. - Só para completar o quanto ele foi maravilhoso, beijou minha testa quando me deu boa noite. Amiga, isso é que é um homem. - nós duas rimos.
- E quando acordaram, como foi?
- Eu acordei e ele ainda estava dormindo, só me troquei, pedi um café da manhã e deixei um bilhete ao lado antes de sair. Agora acabou, me conta logo de você e Manu. - ela respirou fundo antes de começar.
- Bom, Josh já estava apagado e foi mais fácil, Arthur deu mais trabalho e quando finalmente consegui que ele ficasse quieto, Manu estava encostado no parapeito da sacada do apartamento observando o sol nascer.
- Alemães não são muito criativos...
- Eu fiquei ao lado dele, ele falou umas coisas bonitas e nos beijamos.
- Ainda bem! Se não se beijassem ia achar que ele era gay.
- , se um cara daquele for gay...
- Eu só não me conformei com a falta de detalhes.
- Não tem detalhes, a gente só se beijou mesmo por um tempo, e depois cada um pegou um táxi para um lado. Ele disse que tinha que ir para o hotel porque vai para Arraial do Cabo com os outros e eu vim para casa.
- Basti comentou mesmo sobre o passeio do final de semana.
- Bem que podíamos arrumar algo para fazer também.
- Se pensar em alguma coisa me avisa... - algumas besteiras ainda foram faladas antes que finalmente eu desligasse o telefone.

Bastian’s POV
- Eu vi... – foi a primeira coisa que ouvi ao sair do quarto com a mochila nas costas. Me virei dando de cara com Podolski.
- Viu o que? – perguntei com cautela. Não sabia onde ele e Thomas tinha ido depois da festa e talvez o melhor fosse não saber.
- . Saindo por essa mesma porta mais cedo. – relaxei os ombros.
- Isso faz com que pelo menos um de nós tenha visto. – disse sem vontade de continuar o assunto naquele momento. Ilusão a minha, Lukas jamais deixaria isso passar.
- Como assim? Ela fugiu depois do sexo? – ele fez uma cara de espanto exagerada enquanto caminhávamos rumo ao elevador.
- Não viaja, cara. Não teve nada disso.
- Teve pegação sim que eu vi. – fez uma cara safada e acabei rindo junto. Entramos no elevador e agradeci mentalmente por estar vazio, pois a presença de outras pessoas não faria ele encerrar o assunto.
- Estávamos no terraço e ela acabou dormindo, era mais simples ela dormir aqui do que voltar para casa dela. – dei de ombros como se não fosse tão importante assim.
- Então vocês dormiram juntos sem sexo? – ele ainda parecia não acreditar. – Que coisa de casal.
- Cala a boca que ninguém precisa ficar sabendo. – dei um tapa na cabeça dele quando saímos do elevador.
Thomas e Manuel já estavam na recepção com as suas respectivas mochilas e a chave do carro alugado. Guardamos as coisas no porta malas e logo Neuer deu partida no carro, entre nós quatro ele era realmente a melhor escolha de motorista para que chegássemos a salvos. Segundo o GPS instalado no carro, a viagem duraria entre duas horas e meia e três horas e eu aproveitaria o tempo para dormir já que meu humor não estava tão bom quanto o dos outros.
- Vai dormir? – Thomas perguntou bem mais alto que o necessário quando fechei os olhos.
- Se você não gritar... – foi minha resposta imediata e percebi que realmente estava de mau humor.
- Parece que a noite de alguém não terminou tão boa assim... – Thomas provocou e Neuer me olhou pelo retrovisor.
- A minha noite foi ótima. – comecei a responder e fui interrompido por Lukas.
- Tirando que não rolou sexo e ela foi embora antes de ele acordar. – ele falou rápido e o carro ficou em silêncio por um segundo antes de explodirem em gargalhadas.
- Rá rá. – ironizei e voltei a fechar os olhos.
- Conta mais. – Müller pediu.
- Não sei de nada, cara. Só coincidiu de eu estar entrando no meu quarto e vê-la saindo do quarto dele. – disse tudo num tom inocente que em nada combinava com ele.
- Poxa, vou ter que imaginar então o que aconteceu. – Müller estava extremamente agitado e me vi de olhos abertos.
- Podolski está mentindo, eu contei para ele o que aconteceu. – desisti de dormir.
- E o que aconteceu? – Manuel finalmente se pronunciou.
- Fomos para o terraço do hotel e ela acabou dormindo, achei que seria melhor ela dormir no hotel do que voltar para casa dela. Só isso. – novamente usei um tom que deixasse claro que não era nada demais, mesmo que no fundo eu estivesse um pouco chateado.
Quando insisti para que ela dormisse ali ao invés de voltar para casa eu não tinha outra intenção, tanto que estava disposto a dormir no sofá do quarto, por mais desconfortável que fosse. Quando me chamou um tanto tímida, já deitada e embrulhada até o pescoço e disse que era para eu dormir ali com ela ao invés de dormir no sofá, eu senti que ela confiava em mim e de certa forma foi reconfortante. Claro que tê-la ao meu lado mesmo que dormindo não foi o suficiente para evitar que outros pensamentos surgissem e acabei demorando um pouco para enfim pegar no sono.
Não havia se passado muito tempo entre ter conseguido dormir e acordar, ainda sentia sono e quando me mexi na cama notei que não estava lá. Por um momento pensei que ela estivesse no banheiro, já que a porta estava fechada, mas percebi que estava sozinho quando vi a camiseta que eu havia emprestado para ela dormir em cima do braço do sofá. Me levantei e vi na mesinha uma bandeja com café da manhã, mais atentamente vi um papel ao lado da xícara.

Obrigada por tudo!
Aproveitem o passeio!
.

Por um momento achei atencioso da parte dela ter pedido o café e deixado um bilhete, mas parte de mim estava frustrado por ela ter ido embora enquanto eu dormia. Não conseguia me lembrar de ter feito algo enquanto dormia e uma vozinha martelava em minha cabeça dizendo que talvez ela simplesmente podia ter chegado à conclusão de que eu não era tão interessante assim.
- Mas o que aconteceu com você e a , hein, Manuel? – mudei o foco da conversa assim que encontrei a oportunidade. – Vocês foram levar Arthur e Josh para o apartamento e nunca voltaram... Eu e a cansamos de esperar por vocês.
- Teremos aqui uma história mais interessante do que a de Bastian Schweinsteiger, senhoras e senhores? – Lukas fez voz de locutor e acabamos rindo novamente.
- Não aconteceu nada. – Neuer disse simplesmente.
- Nem um beijo? – Thomas colocou a cara entre os bancos da frente e o rosto de Neuer ficou um pouco vermelho.
- Alguém está com vergonha. – Lukas disse o óbvio e eu segurei o riso.
- Tá, tá, a gente se beijou, mas foi só isso. Eu disse que precisava voltar para o hotel porque íamos viajar hoje e ela foi para o apartamento dela.
- Meu Deus, é um pior que o outro. – Müller constatou com tristeza na voz e eu ri.
- Lukas, como esses solteiros não sabem aproveitar a vida de solteiros deles?
- A Lisa é que te conheceu bem o suficiente para saber que se não casasse rápido logo viraria ex. – Manuel disse e o assunto mudou.

Chegamos a Arraial do Cabo perto das três horas da tarde e mal tivemos tempo de deixar as coisas no hotel, já que Müller fazia questão de repetir de 2 em 2 segundos que não podíamos perder aquele dia de praia. Lukas estava no mesmo nível de animação dele, mas eu estava com fome e me recusava a fazer qualquer coisa que não fosse comer alguma coisa. Para minha sorte, Neuer apareceu antes que Thomas voltasse a reclamar da minha falta de companheirismo e disse que também precisava comer alguma coisa.
Acompanhamos os dois até a praia e depois seguimos para um restaurante que nos indicaram do hotel. O restaurante estava praticamente vazio a não ser por um casal que ocupava uma mesa e uma família grande em outra. Fizemos nossos pedidos sem demora e só percebi que estava mais calado que o normal quando Neuer comentou que eu estava estranho.
- O que exatamente aconteceu? – ele perguntou assim que bloqueei a tela do telefone.
- Quando? – tentei fugir do assunto mesmo sabendo que era bem difícil quando ele usava aquele tom de psicólogo analisando o paciente.
- Ontem, no hotel, você e a . – foi direto.
- Exatamente o que eu contei no carro.
- Então o que te incomoda? Porque você encara tanto esse celular? – essa era a pergunta que eu mesmo tinha em mente.
- Honestamente, não sei. – ri fraco me sentindo idiota ao dizer aquilo em voz alta. – Se eu pensar, não tem nada errado, mas ainda assim sinto como se algo não estivesse certo.
- Em outras palavras você achou ruim ela ter ido embora sem que você visse e está esperando que ela mande uma mensagem ou te ligue, mas não quer assumir que é isso. – ele concluiu me desafiando a dizer o contrário.
- Tá, você está certo, não precisa ficar me olhando com essa cara de sabe-tudo. – o garçom logo chegou com os pratos e a conversa ficou mais leve.
- Por que você não manda uma mensagem? – Neuer sugeriu após um tempo em que ficamos em silêncio enquanto comíamos.
- Qual parte do “ela foi embora sem falar comigo” você não entendeu? – era muito óbvio para mim.
- Quantos anos você tem? Dezessete? Porque esse foi o pior argumento de todos.
- Se ela quisesse falar comigo, ela teria falado comigo. É simples, quem quer vai atrás.
- Você não se escuta mesmo, né? “Quem quer vai atrás”. – ele me imitou. – Por acaso passou pela sua cabeça que ela pode estar pensando a mesma coisa? E antes que você repita esse argumento patético, você já pensou que ela só saiu sem falar com você porque ela não quis te acordar? Ou porque ela queria evitar que os jornais ou revistas a flagrassem ali ou porque ela não sabia como reagir por ter passado a noite com você? – quando ele terminou, eu me senti ainda mais idiota que antes.
- Ok, eu admito que não tinha pensado pelo lado dela. – confessei terminando o meu prato.
- Eu diria que você não está pensando desde que a conheceu, mas não vou fazer isso, vou considerar que sua atitude de adolescente apaixonado se deve ao fato de ter ficado tanto tempo em um relacionamento que se esqueceu como adultos se relacionam.
- Eu não estou apaixonado. – neguei automaticamente, era impossível, não era?
- Não, eu que estou. – embora o tom dele transbordasse ironia não resisti em provoca-lo.
- Está mesmo, ficou até vermelho no carro só porque beijou a ! Depois eu é que sou um adolescente apaixonado de dezessete anos.
- Não muda de assunto que o foco é você, para de pensar demais, Basti. Daqui uns dias nós vamos embora então faça o favor de aproveitar essas benditas férias. Se quiser falar com ela, fale com ela. – concordei com a cabeça e me lembrei de outro assunto que precisava falar com ele.
- Pensarei a respeito, mas falando em ir embora, Lukas e Thomas querem ir essa semana, parece que a Monika não está muito feliz por não fazer parte das férias dele e Müller disse que vai junto, você vai?
- Acho que não, não tenho nada tão interessante lá. – ele deu de ombros. – Acho que prefiro terminar minhas férias aqui mesmo, conhecer outros lugares talvez...
- Também estava pensando em ficar, mas acho que ia ser estranho se só um de nós ficasse.

Podolski’s POV
Quando Manuel e Bastian voltaram para a praia, o humor deles estava consideravelmente melhor e foi assim no dia seguinte também, o que de certa forma me deixava aliviado. Bastian e eu tínhamos toda uma história juntos, realizamos nossos sonhos juntos, tenho plena consciência de que fomos feitos um para o outro, mas infelizmente nós dois gostamos de mulher e só por isso não somos um casal perfeito.
Apesar de estar curtindo com a gente, ele não deixava de verificar o celular de tempos e tempos e não se precisa ser muito inteligente para perceber que ele esperava uma mensagem ou ligação de . Eu ainda não entendia o que ela tinha para que meu amigo estivesse tão interessado, ela era bonita e divertida, mas talvez a verdade fosse que Bastian não sabia como ser solteiro.
Independente do que fosse, se ele estivesse feliz eu o apoiaria, e foi por isso que acabei fazendo algo que nunca havia imaginado. Eu, Lukas Podolski, aos 29 anos, bancaria o cupido. Esperei que fosse a vez de Basti no videogame e peguei o celular dele sem que ele percebesse, rapidamente encontrei o número de e salvei no meu, colocando o celular de volta antes que ele desse falta. Agora era a hora de entrar em ação.

Poldi: Olá, garota do Basti.

Ela estava online, visualizou e não disse nada. Imaginei que não falaria comigo sem saber quem eu era.

Poldi: Sou o Lukas, da seleção. Amigo do Basti.

: Ah! Oi! Como está? Estão gostando do passeio?

Poldi: Tudo bem aqui, o lugar é maravilhoso.
Poldi: Peguei seu número escondido, por favor, não conte ao Basti.

: Hahaha. Ok, consigo guardar esse segredo.
: Queria falar comigo?

Poldi: Sim. Voltamos para o Rio na terça e vamos embora na quarta, acho que você deveria fazer um jantar pra gente.

: Espera, vocês já vão embora?

Soltei uma risada alta enquanto me decidia se a deixava acreditar que Basti também ia embora ou não e os três me olharam como se eu fosse retardado.
- É uma besteira no Instagram. - eu disse e voltaram a jogar como se eu nem estivesse ali.

Poldi: Eu e Thomas sim. Manuel e Bastian vão ficar mais, já que não tem mulher esperando em casa.

: Ah... Mesmo assim, não acho que seria uma boa ideia eu fazer o jantar. Sabe como é, odiaria ser a responsável por uma infecção alimentar.

Poldi: Duvido que isso aconteça e, de qualquer forma, você nem tem muita escolha. Aposto que não quer sair nos jornais como a garota que foi vista saindo do quarto de Bastian Schweinsteiger.

: Você me viu?
: Espera aí, você está me chantageando?

Poldi: Claro que não, só quero que você nos convide para jantar na sua casa na nossa última noite no Brasil.

: Ok... Acho que posso fazer isso.

Poldi: Só mais uma coisa, eu sei que você deve estar falando com o Bastian enquanto fala comigo, mas adoraria se ele achasse que a ideia foi sua.

Eu sou muito cara de pau, eu confesso, mas eu precisava fazer o trabalho bem feito, e o que seria melhor do que convidando Bastian para jantar na casa dela? Nada! Além do mais eu apostaria um rim que ela estava, naquele momento, sem graça por não estar falando com ele desde a festa.

: Tá bom. Mais alguma coisa?

Poldi: Por hoje não...
Poldi: Boa noite garota do Basti.

: Boa noite. E eu não sou a garota do Basti.

Poldi: Claro que é! E eu sou o garoto dele.
Poldi: Agora preciso ir porque é minha vez no videogame.

Bloqueei o celular e expulsei Bastian do sofá. Se meu plano desse certo, como eu sabia que daria, em pouco tempo ele receberia uma mensagem dela.

9. I Just Wanna Know You Better

’s POV

Prints e mais prints foram enviados a assim que Podolski encerrou a conversa comigo. Se eu era idiota por depender da opinião dela para saber como agir? Claro que sim!

: E aí? Convidou ele?

: Não.

: Como assim?

: Eu sou péssima na cozinha, esqueceu?

: Esse é o menor dos seus problemas!
: Convida logo eles, !

: E se ele estiver só zoando com a minha cara?

: Que motivo ele teria pra isso?
: Se pensarmos bem, tudo que aconteceu entre vocês até hoje começou por causa dele no Twitter, lembra?

: Tá bom. Mas a gente não se fala desde que ele viajou.
: Culpa de quem que fugiu do quarto?

: Nada que eu penso parece bom para recomeçar uma conversa! AAAAAH
: Larga de ser besta, ! Vai logo falar com ele.
: Manda um oi, pergunta como tá a viagem, se desculpa por ter fugido, sei lá.
: Sei que quero encontrar o Neuer, então convida logo.

Eu sabia que minha enrolação era pura insegurança. Como começar uma conversa quando ele provavelmente estava chateado comigo? Eu tinha deixado um bilhete e ele não disse nada desde então. Abri a conversa, ele não estava online. Porque Podolski achava que ele estava falando comigo? Era melhor não pensar nisso e sim no futuro jantar.

: Oi. :)
: Queria falar com você.

Agradeci mentalmente por não ter nada no estômago, estava sentindo um nervosismo que não sentia há muito tempo e a conversa nem seria pessoalmente. Um sorriso idiota tomou conta do meu rosto ao ver a notificação de mensagem dele.

Basti: Olá, pode falar. Tudo bem?

: Tudo sim, e vocês? Curtindo a viagem?

Basti: Tudo certo por aqui.

: Eu sinto que te chateei indo embora sem falar com você aquele dia. Queria recompensar por isso.
: Que tal você e os meninos virem jantar aqui em casa quando voltarem pro Rio?

Basti: Não tem o que recompensar. Não tive mais notícias suas, achei que não devia ir atrás.

: Eu realmente sinto muito pela minha atitude. =P
: Por favor, convide os meninos. Eu e esperaremos vocês!

Depois disso a tensão não existia mais, ele não me odiava afinal. Me contou um pouco sobre a viagem deles, conversamos besteiras e então eu percebi que queria muito que terça-feira à noite chegasse logo.

As outras mensagens trocadas com Basti me faziam ter certeza que ele não estava chateado comigo, pelo menos não mais. No entanto a ansiedade pelo encontro que aconteceria à noite tomava conta do meu corpo de forma que eu não consegui me concentrar propriamente em nada no trabalho. Acabei não tirando o horário do almoço para sair mais cedo, tinha optado por um cardápio tranquilo, mas ainda sim seria importante ter tempo suficiente caso algo desse errado.
A ida ao supermercado havia acontecido no dia anterior, havia ficado responsável pelas bebidas e buscaria a torta que eu havia encomendado na doceria. Eu até me aventurava na cozinha, mas no quesito sobremesa eu não tinha prática nenhuma.
Abri as janelas deixando o ar entrar no apartamento e troquei a roupa do trabalho por uma de ficar em casa. Preferi deixar o banho para depois que as coisas estivessem encaminhadas. Tirei da geladeira os queijos, salames e azeitona, seria mais interessante ter algo para beliscar até que o jantar saísse de fato. Pouco tempo depois a travessa estava completa com diferentes tipos de salame enrolados como flor, os queijos em quadrados e as azeitonas no centro. Embalei com papel filme e voltei para a geladeira.
Agora era me focar no principal, o famoso fricassê de frango aprendido com a mamãe. Cerca de meia hora depois eu estava finalizando a travessa quando a campainha tocou. estava atrás de um carrinho de compras de supermercado.
- Eu espero, do fundo do meu coração, que esse não seja o seu traje para essa noite. - ela fez uma careta e eu sorri.
- Palhaça! Não achei que ia trazer o supermercado todo... - comentei só para implicar.
- Eu também não achei, mas precisamos ter opções então comprei vinhos, cervejas, sucos, refrigerantes e vodca - ia apontando de acordo com o que tirava do carrinho.
- Planejando embriagar alguém?
- Eu não preciso disso, você sabe. - fez uma pose metida e joguei o pano de prato nela.
- E a torta? Estou sonhando com esse Tiramisù há séculos. – me lembrei do gosto e minha boca encheu d'água.
- Então... - ela começou e eu não podia acreditar que algo já tinha dado errado. - Teve um problema. Não surta, mas eles venderam a torta pra outra pessoa sem querer.
- Não temos sobremesa, é isso? - perguntei num tom estressado.
- Não, eu trouxe outra torta, eles fizeram outro preço já que a culpa foi deles.
- Nada mais justo. - concordei.
- O quão irônico é servir torta alemã para alemães? - colocou a torta na geladeira e eu a encarei.
- É serio isso? - ela concordou com um aceno.
- Não fica brava, . A torta não é realmente de origem alemã.
- Isso vai ser a piada da noite... - murmurei voltando ao fricassê enquanto ela devolvia o carrinho ao subsolo. Com tudo em ordem comecei a separar os pratos e talheres.
- Não, senhora! Vai logo tomar o seu banho e ficar diva para o Schweinsteiger! – ela pegou os garfos da minha mão. - Neuer disse que estão só esperando o Lukas.
- Esse Podolski é uma piada mesmo. - deixei que ela montasse a mesa e corri para o chuveiro.

De banho tomado e sem muita inspiração para escolher alguma roupa, escolhi uma calça jeans verde-água e uma blusa de alça com estampa em branco e cinza. Coloquei brincos, maquiagem e uma rasteirinha, a imagem do espelho me agradava. Passei meu perfume preferido e segui para a sala. Para a minha surpresa, todos eles já estavam acomodados nos meus sofás. Um a um eles se levantaram para me cumprimentar e propositalmente Lukas havia trocado de lugar, deixando vago o espaço ao lado de Basti. Ele sorriu satisfeito quando me sentei e retribui com uma careta. como boa anfitriã já havia servido bebida a eles, Neuer e Basti tinham taças de vinho nas mãos, Müller segurava uma cerveja.
- Lukas, não vai beber nada? – estranhei o fato de ele não ter nada em mãos.
- Fiquei sabendo que a dona desse lugar sabe fazer drinks muito bons com vodca, sabe. – ele riu e eu me virei para .
- Eu meio que comentei isso. – ela deu de ombros num pedido de desculpas. – Eu te ajudo, vamos. – levantei e segui para a cozinha com ela.

Bastian’s POV
mal havia sentado ao meu lado e já tinha saído para fazer o tal drink que Lukas sutilmente tinha dito que queria. O comportamento dele vinha me chamando a atenção desde o dia que falei sobre o convite dela para esse jantar, ele tinha uma cara vitoriosa no rosto e quando perguntei o motivo da feição ele disse que era por ganhar de Neuer pela quinta vez aquela noite. Eu não podia duvidar que ele podia ter algo a ver com esse jantar, mas preferi acreditar que era realmente que queria me ver.
- Basti, vai lá ver se elas precisam de ajuda. – Poldi sorriu malicioso e eu rolei os olhos.
- A bebida é sua, quem tem que ajudar é você.
- Você está vendo isso, Thomas? A gente cria oportunidade para a pessoa e é assim que ela retribui... – Lukas fingiu estar ofendido e Neuer mudava de canal na TV procurando um canal de música.
- Oportunidade ele teria se a gente tivesse recusado o jantar e deixado só ele vir. – Müller respondeu e deu um gole na cerveja.
- Realmente. - concordei.
- Mas eu não perderia essa oportunidade jamais. – Lukas se levantou e fez o mesmo caminho que as duas fizeram antes, logo voltando com uma bandeja de frios.
- Olha como somos especiais, temos até entrada antes do jantar. – ele se gabou colocando a mesma na mesinha de centro.
- Voltamos. - ela disse com um sorriso, retornando a se sentar ao meu lado.
- Sobre o que falam? - perguntou bebendo no canudo de seu drink colorido.
- Estava falando de como vocês estão nos tratando bem. - Lukas disse com a cara lerda de sempre. - Se soubesse disso antes nem tinha ficado em hotel... - ele brincou e riu em seguida.
- Já imaginou que louco o Lukas fingir que tem educação alguma vez na vida? - Neuer falou o que ninguém esperava dele, consequentemente todos caíram na risada.
- Contém como foi a viagem. - pediu, animada.
Apesar de já termos contado algumas coisas para antes de ela aparecer, contamos sobre nossos dias. Quando perguntamos sobre os dias delas, alegaram que não tinham o que contar. O assunto de viagens acabou e todos pareciam mais concentrados em comer os aperitivos do que em tentar um novo assunto.
Podia ser impressão minha, mas não parecia tão à vontade comigo na frente dos outros e isso me dava um leve desespero. Eu estava louco para beijá-la novamente e a cada momento eu sentia que estava mais longe de acontecer. Estava tão concentrado em meus pensamentos que me assustei quando gritou.
- Eu tive uma ideia! - ela disse empolgada e atraiu todos os olhares. - Podíamos jogar alguma coisa.
- Tipo? - Müller perguntou, achando uma ideia boba.
- Tipo Imagem e Ação. - ela fez uma expressão vitoriosa que me fez pensar que ela era tão competitiva quando Podolski. - Você ainda tem, ?
- Ter eu tenho, mas está em português, né. - ela fez careta.
- Que jogo é esse? - perguntei ao perceber que os meninos também pareciam perdidos.
- É um jogo de adivinhação. - respondeu olhando para mim. - Você tem uma palavra para fazer outra pessoa do seu time descobrir o que é através de mímica ou desenho.
- Muito fácil. - Müller desdenhou.
- Em português? - Lukas riu. - Quero só ver.
- Em português não vai dar, até porque acho que eu e a já decoramos o jogo. - confessou e elas trocaram um olhar.
- Tem um parecido para celular. - Manuel se manifestou e percebi que eu não era o único estranhando aquela fala.
- Desde quando você sabe de jogo para celular? - Podolski questionou como se Neuer fosse um alienígena.
- Guess it? É isso? - perguntou empolgada já fazendo o download do aplicativo.
- Esse mesmo. É em inglês, fica neutro para todo mundo. - concordei com Neuer.
- Como funciona? - eu não era muito de jogos de tabuleiro, não queria ser motivo de zoação.
- Aqui diz que uma pessoa coloca o celular na testa e as pessoas que estão vendo a palavra vão fazer mímica para ajudar a pessoa a acertar. Se ela acertar, vira a tela do telefone pra baixo, se for pra passar a palavra, vira pra cima.
- Que tipo de palavra tem aí? - Müller quase sentou no meu colo para ver o celular dela.
- Animais, ações, celebridades e tudo misturado. - ela conferiu na tela.
- Quais serão os times? - perguntou já puxando Neuer para seu lado.
- Não sei pra que perguntou. - Thomas rolou os olhos.
- Eu vou com a e o Basti. - Lukas veio para o nosso lado.
- Como assim? Não é justo! - o jogo nem havia começado e Thomas já estava sendo brigão. - Porque você vai ficar no time deles?
- Porque o Manuel é muito lerdo, não quero perder. - ele disse na lata deixando as meninas incrédulas.
- Nossa, depois dessa eu quero é distância mesmo de você no nosso time. - fingiu esnobá-lo e puxou Thomas para o lado deles.
- Nem pensar! - ele reclamou. - Se o Neuer é lerdo eu também não quero ficar aqui.
- Posso saber de onde vocês tiraram essa conclusão? - Manuel olhou de um para o outro.
- Pois é, ele é o único entre nós que conhecia o jogo. Agora também não quero nenhum de vocês no nosso time. - sorriu vitoriosa e bebeu mais um pouco de seu copo.
- Vamos jogar com 3 duplas então. - se manifestou. - e Manuel, Thomas e Lukas e Bastian e eu. - ela apontou para as duplas à medida que falou os nomes e eu sorri ao escutar que seria dupla dela.
- Você é bom em mímica? - ela falou baixo próximo ao meu ouvido e a proximidade não fazia bem para meu cérebro.
- Honestamente? - respondi também baixo e ela concordou com um aceno. - Nem um pouco. - sorri sem graça e ela riu alto.
- Estamos ferrados! - ela declarou e foi impossível não rir com ela.
- Nós começamos. - Podolski pegou o telefone das mãos dela.
- Posso saber o porquê? - pegou o telefone de volta. - Você está na minha casa, o telefone é meu...
- Minha dupla é o Thomas, é o mínimo que eu mereço. Você roubou o Basti de mim.
- Ah, para com essa palhaçada ou elas vão achar que somos mesmo um casal. - reclamei.
- Como se eu quisesse ser sua dupla. - Müller resmungou, mas se calou quando entregou o telefone para eles.
- Podem começar então, porque o Basti é meu! - ela mostrou língua para Podolski e apesar de não ter nenhum outro sentido em sua fala além do jogo, gostei da sensação de ouvir aquilo.
- Vamos só organizar então. - era quase uma juíza. - Tem quatro categorias, vamos ter oito rodadas. Um de cada dupla faz a mímica e depois troca na mesma categoria, certo?
- Sim. - concordamos com ela.
- Vamos começar logo. - Podolski colocou o celular na testa. - É animal.
A contagem regressiva começou e logo a palavra "cow" apareceu na tela. Müller colocou os dedos como chifre na cabeça e soltou um audível "muuuuu".
- Ei! É mímica! - gritou ao meu lado dando um tapa em Thomas.
- Não vale falar nem fazer som, né. Achei que era óbvio. - não existiam mais dúvidas sobre como era competitiva.
- Vou começar de novo então. - Lukas anunciou e o jogo funcionou.
Depois de Thomas foi a vez de fazer mímicas para que eu acertasse. Ela não era tão ruim quanto tinha dito, mas a pressão de quem segurava o telefone me fez acertar menos que Lukas. Depois fez mímicas para Neuer e a primeira rodada terminou com Lukas e Thomas com 8 pontos, eu e com 9 e e Neuer com 10.
pegou o telefone e escolheu celebridades, o que gerou mais gargalhadas do que a rodada anterior. Ela imitou a Kim Kardashian, Taylor Swift e Tom Cruise, Neuer foi péssimo em adivinhar e logo o tempo acabou. Thomas imitou Bono Vox, dois atores e outros dois cantores e Lukas só errou um deles. Com muito custo consegui fazer adivinha Messi e Michael Jackson, mas o ponto alto da rodada foi Neuer imitando a Gisele Bündchen. Lukas e Thomas não deixaram passar e fingiram duvidar da sexualidade dele, que não tardou a acabar o assunto roubando um beijo de . Ao final da segunda rodada Lukas e Thomas estavam com 14 pontos, e Neuer com 16 e nós com 13.
A terceira rodada foi com ações e embora e eu tivéssemos feito incríveis 10 pontos, Lukas e Thomas fizeram 13 e o casal fez só 9, mas foi o suficiente para que as outras duplas empatassem com 27 pontos enquanto nós tínhamos apenas 23.
- Vou deixar vocês desempatarem enquanto eu sirvo o jantar. – se levantou pegando alguns dos copos vazios na mesa de centro.
- Quer ajuda? – me ofereci pegando meu próprio copo.
- Não precisa, pode ficar e garantir que eles não se matem com o placar final. – ela sorriu e seguiu para a cozinha.
Eu sabia que ela só queria que eu aproveitasse a noite, mas parte de mim estava contrariado que ela não percebesse meu interesse num tempo só com ela. Minha contrariedade devia estar bem visível, pois logo me cutucou.
- Vai logo. Nós sobreviveremos aqui. – piscou com o olho direito para mim e, assim que me levantei, Neuer começou a rodada de desempate.
- Até que enfim. – disse assim que coloquei os pés na cozinha. Ela estava parada de braços cruzados e apoiada com as costas na bancada. – Achei que não viria.
- Mas você disse que não precisava. – me justifiquei coçando a nuca e só então notei o sorriso com um toque de provocação estampado no rosto dela.
- Achei que dizer “sim, quero te beijar na cozinha” não seria muito educado da minha parte. – ela disse com naturalidade e eu permaneci parado um pouco envergonhado. Nunca tinha chegado a ouvir isso de uma mulher. – Viu só, sabia que ia te assustar. – ela riu.
- Eu não estou assustado. – me defendi e dei uns passos diminuindo a distância entre nós. – Só nunca ouvi isso antes. – confessei e ela riu de novo.
- Eu também nunca disse isso antes. – ela passou os braços por meus ombros. – Acho que eu realmente quero... – ela falou num sussurro e não precisou de mais nada para que enfim nos beijássemos.
Beijar era diferente, era sempre um beijo calmo e mesmo que eu não tivesse a intenção de me entregar tanto ao momento, lá estávamos os dois, entregues. Sentir as unhas dela passeando por minha nuca me fez segurá-la mais forte e logo ela estava entre mim e a bancada, o que era pior para manter o foco já que o corpo dela estava colado ao meu.
Não saberia dizer quanto tempo se passou e não teríamos nos afastado se o timer do forno não tivesse apitado. Me atreveria a dizer que estava hipnotizado, pois voltei a beijá-la como se não tivéssemos sidos interrompidos. Ela, no entanto, cortou o beijo com alguns selinhos e só depois percebi que estava ali.
- Não parem por minha causa. – ela falou com o rosto dentro da geladeira, e pelo calor que senti imaginei que meu rosto estivesse vermelho.
- Então seja mais discreta. – fez uma careta para ela, mas continuou com os braços a minha volta, me mantendo perto dela. – Você fica sem graça muito fácil. – ela cochichou no meu ouvido confirmando minha teoria e depois de um beijo em meu pescoço ela se afastou.
- Vou levar essas bebidas. – afirmei pegando as caixas de suco que havia tirado da geladeira e segui para a sala.

’s POV
- Esses alemães ficam vermelhos muito fácil. – comentou enquanto eu tirava a travessa do forno.
- Eu acho uma graça. – comentei distraída colocando a babata palha por cima.
- Claro que acha. – ela rolou os olhos. – É difícil saber qual de vocês baba mais pelo outro.
- Como é que é? – parei o que estava fazendo e a encarei.
- Ah, você sabe. Vocês dois são muito certinhos, levam tudo muito a sério.
- Depois a gente conversa. – soltei a caminho da mesa de jantar com o prato principal.
Levamos todas as outras coisas e em pouco tempo estávamos todos sentados à mesa. O jantar, assim como toda a noite, foi bem descontraído. Eles contaram histórias engraçadas que aconteceram com eles, contaram também da noite em que Poldolski escreveu no Twitter sobre mim. No final ele exigiu agradecimentos de todos, pois se não fosse por ele não estaríamos ali e, de certa forma, era verdade. Eles queriam que contássemos coisas da nossa amizade, mas é claro que não tínhamos visitados muitos países e nem tínhamos muitas histórias engraçadas.
- Bom, na verdade temos uma história engraçada acontecendo nesse momento. – riu e pelo olhar entendi do que ela falava. Comecei a rir também e eles nos olharam tentando entender qual era a graça.
- Nada de piada interna, vocês duas! – Thomas reclamou. – Podem contar!
- Nós íamos contar, mas você fica tão engraçado irritadinho assim que vamos guardar o segredo mais um pouco. – pisquei para ele e me levantei.
- Voltamos já. – minha amiga seguiu para a cozinha e fui atrás dela.
- Eles devem nos achar loucas. – comentei tirando as taças de sobremesa do armário.
- Melhor nós fazermos a piada do que eles. – ela deu de ombros com a torta em mãos.
Voltamos para a sala de jantar e rimos ainda mais ao ver Müller com uma cara emburrada.
- Ele fica sempre assim quando não consegue o que quer? – perguntou a Neuer de forma que todos nós escutássemos.
- Isso aí é um bebê. – foi o que bastou para voltarmos a rir.
- Se eu soubesse tinha deixado você ganhar o jogo mais cedo.
- Vocês roubaram! – Lukas e Thomas falaram ao mesmo tempo.
- Você também vai emburrar? – Neuer apontou para o Lukas.
- Eu não estou emburrado! – ele se defendeu da acusação. – A culpa é do Basti que não ficou de juiz como deveria.
- O que posso fazer se a é mais interessante que vocês jogando? – foi minha vez de ficar sem graça.
- Desculpe, meninos. Sou irresistível. – brinquei. – Mas a piada interna, Thomas, tem a ver com a sobremesa.
abriu a caixa e todos os quatro encararam a torta. Houve um segundo de silêncio antes de explodirem em gargalhadas. As risadas deles eram contagiantes e acabei deixando meu estresse com a torta de lado e ri com eles.
- De quem foi essa ideia genial? – Lukas perguntou. – Preciso dar um beijo nessa pessoa. – ele ficou em pé e tanto Manuel como Bastian fecharam o olharam.
- Na verdade foi um erro do pessoal da loja. – expliquei.
- Venderam a nossa sobremesa pra outra pessoa, era essa ou nada. – continuou. – quase me bateu quando cheguei com essa torta aqui.
- Sério? – Neuer perguntou e ao mesmo tempo senti a mão de Bastian segurando a minha.
- Sério? – Basti repetiu a pergunta do amigo. – Porque está maravilhosa!
- A gosta das coisas muito perfeitas às vezes. – respondeu e sorri agradecida.
- Quero saber se está gostosa do tanto que está bonita. – Thomas soltou e recebeu olhares de Neuer e Basti.
- Parem de reprimir o coitado! – o defendeu pegando a faca para partir.
- Espere aí! – Lukas gritou e ela deixou a faca cair. – Preciso tirar uma foto antes! – ele se justificou tirando a foto em seguida. – Prontinho. E a legenda é “Torta alemã para os alemães!”.

- Ei, o que você está fazendo com isso? – perguntei pegando a bucha da mão de Basti. – Eu disse que não precisavam mexer com isso.
- Da outra vez que você disse que não precisava de ajuda você estava me esperando aqui... – ele se justificou e eu não resisti em roubar um selinho.
- Dessa vez não tinha código. – entreguei o pano para ele secar as mãos.
- Uma pena, porque já reparei que você não me beija na frente dos meus amigos. – desviei o olhar por alguns segundos e voltei a encará-lo.
- É, eu acho que fico sem graça. – dei uma meia desculpa. Não era totalmente mentira, mas também não era a verdade. A verdade tinha a ver com Miguel e esse não era assunto para nenhum momento com Basti.
- Sendo assim, tenho uma proposta pra você. – ele se aproximou olhando no fundo dos meus olhos e eu senti meu estômago se contorcer de ansiedade. Me limitei a acenar com o rosto, ainda com os olhos fixos aos dele. – Gostaria de te levar para almoçar depois de amanhã. Aceita?
- Claro que sim. – respondi e instantaneamente um sorriso satisfeito apareceu no rosto dele.
- Casal, desculpa atrapalhar, mas precisamos ir embora. – Lukas disse entrando na cozinha e me abraçando de lado. – Você vai ter mais dias com ela, mas eu estou indo embora, então minha vez de abraçá-la. – retribui o abraço. – Foi um prazer, espero você na Alemanha.
- O prazer foi meu! Obrigada!
- Eu sei que sentirão minha falta, mas eu volto. – Thomas encenou. – E espero vocês lá. Até cozinharemos pra vocês.
- Melhor não. – Manu cortou Thomas e se despediu também de mim e depois de .
- Até quinta, então. – acompanhei Basti até o hall onde os outros já estavam.
- Até. Boa noite.

10. An Unpleasant Situation

Eu estava ansiosa para o meu almoço com o Bastian. Até tentei dormir cedo porque não queria ter o trabalho de esconder olheiras no dia seguinte, mas mudei de posição tantas vezes que preferi levantar e escolher logo a roupa que usaria. Abri meu guarda-roupa e comecei a procurar alguma roupa que fosse um pouco mais elegante do que eu geralmente usava. Não podia ser algo muito chamativo ou as pessoas do trabalho começariam a bisbilhotar. Para melhorar, Bastian não tinha dado uma pista sequer sobre onde iríamos.
Depois de mexer em praticamente todos os cabides e gavetas eu tinha escolhido o que usar. Uma saia plissada preta, um pouco acima do joelho, e uma blusa bege de crepe. Separei também os brincos e a sandália preta. Agora eu conseguiria dormir.
O despertador tocou uma hora antes do que nos outros dias e não demorei a sair da cama. Depois de banho, perfume, cabelo, maquiagem e café da manhã, eu estava pronta para trabalhar.
Durante toda a manhã eu não tive tempo nem de pensar sobre o almoço, o que foi bom, pois evitava o nervosismo que eu sentia. Uma reunião durou duas horas, retornei algumas ligações, respondi e-mails e um sorriso tomou conta do meu rosto quando li a mensagem dele dizendo que já estava do lado de fora do prédio.
Bloqueei o computador, peguei minha bolsa no armário e fui ao banheiro para checar minha aparência. Ao ver minha imagem no espelho percebi que algo em mim estava diferente. diria que eu estava radiante e dessa vez eu não poderia negar. Tentei diminuir o sorriso e segui até o elevador. Já no térreo, caminhei confiante para fora do prédio.
Ele estava lindo, como sempre, encostado na lateral do carro. Vestia uma camisa social azul escura dobrada, calça branca e tênis da mesma cor. Notei que ele também sorriu ao me ver, mas controlei meu sorriso. Assim como me controlei para não o beijar quando nos cumprimentamos.
- Bom dia. - ele beijou minha bochecha e abriu a porta do carro para que eu entrasse.
- Bom dia. - agradeci a gentileza e me sentei no banco do passageiro. - Você alugou um carro? - era um tanto óbvia minha pergunta, mas saiu antes que eu pudesse pensar.
- Sim, não dá pra perder a oportunidade de dirigir no Brasil.
- Você sabe que vai se arrepender, né? O trânsito aqui é péssimo, como você já deve ter percebido.
- Sim, mas é nosso encontro, então vale a pena. - fechei a boca por não saber o que dizer. - Você está muito bonita, por sinal.
- Obrigada. Você também está muito charmoso. - ele me olhou rapidamente e voltou a encarar a avenida.
Estávamos em Ipanema e eu não pude acreditar quando ele encostou o carro e os manobristas abriram as portas para nós. Era o Gabbiano Al Mare, um restaurante tão fino e elegante que eu sequer considerara ir um dia. Bastian deu a volta no carro e com uma das mãos em minhas costas caminhos para a entrada.
- Boa tarde, mesa para dois? - uma atendente tão elegante quanto o local sorriu para nós.
- Tenho uma reserva para Bastian Schweinsteiger. - ele anunciou e no mesmo instante ela pareceu saber quem ele era.
- Me acompanhem, por favor. - ela se deslocou pelo salão e a seguimos.
O salão era enorme com paredes em tons pastéis, as mesas simetricamente organizadas com cadeiras acolchoadas. No entanto, nossa mesa era na área externa, o que nos proporcionava uma vista belíssima da praia.
Eu sentia algumas pessoas nos encarando e Bastian não melhorou a situação ao puxar a cadeira para mim. Eu me sentia extremamente nervosa, era como se nunca tivesse tido um encontro antes e se meu estômago não parasse de revirar eu não conseguiria comer.
O garçom se aproximou assim que a atendente nos deu as costas e depositou dois menus na mesa. Meu nervosismo só aumentou quando notei que praticamente nenhum daqueles pratos me era familiar. Respirei fundo tentando me decidir na escolha.
- Gostariam de fazer os pedidos? - o garçom voltou e eu olhei para Basti esperando pela escolha dele.
- Gamberi e Funghi Gratinati para entrada e um risoto Allo Zaferano, por favor. - olhei rapidamente no cardápio qual era o pedido dele. Frutos do mar não eram minha preferência.
- E a senhorita?
- Vou querer uma Insalata Caprese e um Taglioline. - sorri e entreguei o cardápio para o garçom. Macarrão era uma escolha segura.
- E para beber?
- Um vinho? - Bastian sugeriu e eu concordei com um aceno. - Uma garrafa de Chardonnay, por favor. - o garçom logo se retirou e o silêncio prevaleceu.
- Está tudo bem? - ele perguntou num tom preocupado.
- Está sim. - dei um sorriso na esperança de que o convencesse, mas não foi o suficiente.
- Você está definitivamente mais quieta hoje. - ele comentou. - Não gostou daqui?
- Não! Não é isso. Esse restaurante é ótimo, eu só nunca estive em um assim antes e sinto que vou te fazer passar vergonha a qualquer momento. - confessei um tanto sem graça.
- Duvido que isso aconteça. A me deu um banho de vinho, lembra? - eu ri fraco me lembrando e ele segurou minha mão por cima da mesa.
O toque durou menos do que eu esperava, pois o garçom retornou com a garrafa de vinho e serviu as duas taças. Bastian ergueu a taça dele e eu o imitei.
- Um brinde pela oportunidade de ter te conhecido. - ele inclinou a taça em minha direção.
- Acho que era eu quem devia falar isso.
- Concordamos então. - as taças se encontram e tomamos um gole. - Já que prefiro você mais falante, se importaria de me contar sobre o seu trabalho?
- Não é muito empolgante, mas vamos lá. - bebi mais um gole antes de começar. - Eu comecei a trabalhar nessa editora quando ainda estava na universidade. Sempre gostei muito de ler e como meus pais eram professores eu acabaria como uma ou com livros. Quando entrei eu fazia mais o trabalho de secretária do que de editora. Aos poucos fui realizando tarefas mais próximas do que eu queria e durante o último ano de faculdade eu trabalhei como assistente. Quando terminei o curso me contrataram como editora e como me saí bem substituindo minha chefe, agora estou como editora chefe. Quer dizer que agora eu trabalho mais coordenando as publicações da empresa do que com a correção delas, por exemplo. - finalizei e comprovei que não era nada empolgante mesmo, porém ele tinha um sorriso.
- Nunca gostei muito de ler. - ele disse como se confessasse um crime e eu ri.
- Ainda bem que é um jogador de futebol. - brinquei.
- Olha só... Alguém andou pesquisando sobre mim. Até alguns dias atrás você não fazia ideia de quem eu era. - mostrei língua para ele, me recompondo instantaneamente ao me lembrar de onde estávamos, o que o fez rir ainda mais.
- Você sempre quis ser jogador? - me senti como uma entrevistadora, mas ele não pareceu se importar.
- Acho que quase todo garoto quer ser jogador quando criança. Eu nem sei explicar ao certo como as coisas foram acontecendo. Com dezoito anos eu já estava no time principal do Bayern de Munique.
- Então você é realmente muito bom.
- Eu sempre quis ser o melhor que eu pudesse, deixei muitas coisas para poder me dedicar e ir pra seleção, por exemplo.
- E agora você é um campeão do mundo. Deve ser uma sensação maravilhosa.
- É sim. - ele ainda estava sorrindo e nossas entradas chegaram.
Não conversamos muito enquanto almoçávamos, o clima estava agradável assim como a vista. Aquilo tudo era muito surreal pra mim. Antes que terminássemos as entradas os pratos chegaram, continuamos comendo em silêncio, apreciando o momento.
- Muito boa a sua escolha de restaurante. - o elogiei. - Tudo estava maravilhoso.
- Obrigado.
O garçom apareceu novamente, recolhendo os pratos e oferecendo o menu com as sobremesas.
- Com licença, já volto. - ele se levantou e foi em direção ao toalete. Ainda encarando o cardápio ri pensando o quão educado ele fazia questão de ser sempre.
Abaixei o cardápio sabendo o que pediria e levei um susto ao ver Miguel ao lado da mesa.
- O que você está fazendo aqui? - perguntei em tom baixo, porém demonstrando todo meu desagrado com aquilo.
- Eu estava passando por aqui e te vi. - ele disse como se fosse a coisa mais óbvia.
- Pois eu não quero te ver. Por favor, se retire. - eu não podia acreditar que ele estragaria meu almoço.
- Ah, . Pare com isso. Almoçar sozinha num restaurante desses? Ninguém quer isso. - ele disse se sentando no local de Basti.
- Eu não estou sozinha, Miguel.
- Pois eu não vejo ninguém aqui. - ele rebateu. - Não precisa ficar inventando histórias, . Eu sei que você não se relacionou com ninguém depois que terminamos. E terminar foi um erro.
- Isso não está acontecendo. - murmurei sem acreditar na minha falta de sorte. - Terminar foi a única coisa certa do nosso relacionamento. - falei firme. - Agora, por favor, saia da minha mesa.
- Ou o quê? - ele soou desafiador e segurou meu pulso sobre a mesa com tanta força que eu sabia que ficaria marcado.
- Me solta, Miguel! - tentei soltar meu braço sem fazer um escândalo. - Você está me machucando.
- Solte ela. - levei um susto ao ouvir a voz de Bastian. Estava tão nervosa com Miguel que nem ao menos notei ele retornando e ao ouvi-lo em inglês percebi que ele não entendia minha conversa com Miguel. Mesmo assim, tê-lo por perto me deu segurança.
- E você, quem é? - Miguel perguntou com desdém, soltando finalmente o meu braço. Bastian olhou de Miguel para mim.
- O dono do lugar onde você está sentado. - eu respondi e Miguel se levantou. - Não te disse que eu estava acompanhada?
- Sua vagabunda! - ele gritou com o dedo apontado para mim. - Você já está com outro?
Senti meu rosto quente e as lágrimas se acumulando em meus olhos. Eu estava com tanta raiva e com tanta vergonha que eu só queria ir embora dali o mais rápido possível.
- Miguel, nós terminamos há três anos! - levantei da cadeira. - Não te devo explicação nenhuma da minha vida. Vai embora! - pedi sentindo as lágrimas escorrendo por meu rosto.
Ele por sua vez parecia com mais raiva ainda. Bastian achou que Miguel estava se retirando e passou um braço por meu ombro ainda parecendo bem perdido.
- Está tudo bem? - ele perguntou preocupado, porém no instante seguinte Miguel puxou uma bandeja da mão de um garçom com pratos e drinks a serem servidos e a jogou nas costas de Bastian.
O barulho das louças e copos se quebrando fez com que os seguranças aparecessem, mas antes de arrastarem Miguel para fora ele acertou a bandeja na cabeça de Bastian. Ele se virou e eu o segurei pelo braço, não queria que ele fosse atrás de Miguel. Só então vi a sujeira em suas costas.
- Está tudo bem? - um senhor, que deduzi ser o gerente, perguntou. - Não sei como aquele rapaz entrou aqui. Sentimos muito. - ele se desculpou em nome do restaurante.
- Está tudo bem. Ele deve ter nos confundido com alguém. - desconversei. Sentia o olhar de Bastian em mim, mas não era o lugar para explicar nada daquilo. Tirei algumas notas da carteira e entreguei ao gerente, só então notei como eu estava tremendo.
- , eles já tiraram o cara daqui. Se acalma. - Basti havia percebido.
- Eu só quero ir embora, Basti. Por favor.
Ele não falou mais nada e eu passei o mais rápido que pude pelo salão sabendo que agora sim as pessoas nos observavam. Só faltava sair no jornal sobre o Bastian. A ideia me deixou ainda mais nervosa.
O manobrista voltou com o carro dele e ele não se opôs quando pedi para ir dirigindo. Imagino que Bastian não achava que eu estava em condições de dirigir e ele estava certo, mas eu precisava ir para casa rápido.
Não demoramos muito para chegar e nenhum de nós falou nada durante o caminho. Eu só conseguia pensar em como o melhor encontro da minha vida tinha se tornado o pior em questão de segundos. Entramos no elevador e eu nem sequer olhei para ele.
- , você quer, por favor, parar de me ignorar? - olhei para ele sentindo meus olhos se encherem de lágrimas novamente.
- Não estou te ignorando. - limpei meus olhos.
- Então não fique assim, eu já estou me acostumando com banhos de bebidas em restaurantes. - ele tentou descontrair e um sorriso mínimo apareceu no meu rosto.
- Eu imagino que queira ir embora. - disse ao destrancar a porta do apartamento. - Só me deixe tentar melhorar sua situação antes. - disse a caminho do quarto de hóspedes.
- , pare. - ele segurou meus braços com as duas mãos me fazendo olhar em seus olhos. - Eu estou bem. - ficamos em silêncio por um tempo. - Quer me contar o que aconteceu? - neguei com a cabeça.
- Agora não. - respirei fundo. - Quem sabe depois, quando você não estiver cheirando peixe. - fiz uma careta e ele me acompanhou até o quarto. - Fique à vontade para tomar banho. - apontei para o banheiro. - E naquele armário tem algumas roupas do meu irmão. Pode usar o que quiser até limparmos sua roupa.
Ele entrou no banheiro e logo me passou a roupa suja, saí do quarto e fechei a porta atrás de mim.
Um conselho de seria muito bem-vindo, uma bebida seria mais prática, mas acabei colocando as roupas para lavar, tirando as minhas sandálias e bebendo água. Liguei no trabalho e expliquei que não voltaria naquele dia por problemas pessoais. Quando desliguei vi Basti encostado no portal da cozinha vestindo shorts e uma camiseta verde.
- Bem melhor. - comentei me levantando da cadeira.
- Essa cozinha é bem interessante, sabia? - ele deu alguns passos em minha direção fingindo analisar cuidadosamente o lugar.
- Ah, é? - ele confirmou com a cabeça, praticamente em minha frente.
- Até agora é o meu lugar preferido da casa. - ele disse baixo em meu ouvido e um arrepio passou por mim.
- Então vamos honrar as memórias. - disse, levando minhas mãos à nuca dele e colando nossos lábios em seguida.
Esse beijo não era calmo como os anteriores. Sendo os únicos ali, não havia preocupações e me entreguei muito mais ao momento. Nossas línguas em sincronia, nosso corpos cada vez mais colados, as mãos dele se movimentaram em minhas costas e quando passei as unhas por elas ele fez um barulho de dor. Só então lembrei o que Miguel havia feito e cortei o beijo.
- Está doendo? - ele negou com a cabeça. - Posso ver?
- Vai adiantar eu falar não? - ele perguntou num tom brincalhão e foi minha vez de negar exatamente como ele havia feito.
Ele puxou a camiseta para cima e me vi segurando a respiração. Eu já tinha visto Bastian sem camisa, mas a situação agora era diferente. Ele virou de costas e eu pude ver três marcas vermelhas. Fiquei receosa sobre tocá-lo, mas devagar passei o indicador sobre uma das marcas e notei que ele se arrepiou. Repeti a ação vendo o efeito se repetir também e sorri. Era bom saber que eu não era a única vulnerável ali. Passei as unhas de leve por uma parte maior das costas dele até na nuca e ele se virou de uma vez me deixando surpresa.
- Estou em desvantagem. - ele sussurrou perto de mim com as mãos na barra da minha blusa e eu levantei os braços deixando que ele a tirasse.
Voltamos a nos beijar intensamente, as mãos percorrendo livremente um ao outro. Sem partir o beijo, fui guiando-nos até o meu quarto. Eu queria aquilo e sabia que não me arrependeria. Ele nos mudou de posição, fazendo com que eu deitasse na cama primeiro. Uma a uma as peças de roupa restantes se espalharam pelo quarto e nos entregamos por completo àquele momento de prazer e cumplicidade.
E depois dizem que os alemães são frios...

Bastian’s POV
estava deitada de frente para mim, o lençol cobria o seu corpo e ela estava com a cabeça apoiada no braço. Apesar de me olhar, eu sabia que o pensamento dela estava longe.
- Um beijo por seus pensamentos. – propus e me dei conta do quão brega tinha soado. – Isso foi muito ruim.
- Foi mesmo. – ela gargalhou e eu a encarei como esperando a resposta. – Dois beijos pelos seus.
- Adoro uma contraproposta. – sorri pela oportunidade. – Estou pensando sobre o que aconteceu no restaurante.
Ela ficou pensativa por alguns segundos. Eu não a pressionaria a contar o que aconteceu, até porque eu fazia uma ideia. Na verdade, meu pensamento estava mais entre me decidir se eu agradeceria aquele idiota que tinha nos proporcionado mesmo que indiretamente algo que não estava nos planos para o encontro ou se eu o odiava por ter deixado tão perturbada.
- Acho que você merece saber o motivo de ter sido atacado por um louco. – ela começou, mas encarou o teto. – Ele é meu ex-namorado. Nós terminamos há três anos, ele me traiu e depois disso se mostrou essa pessoa instável que aparece de vez em quando para me atormentar. – ela se virou para mim novamente. – Eu sinto muito que ele tenha te acertado.
- Eu não. – ela fez uma cara confusa e eu sorri. – Se não fosse por isso nós provavelmente não estaríamos aqui. – gesticulei para nossa situação e a cama e ela riu alto, levando as mãos à boca em seguida.
Puxei suas mãos de forma que ela chegasse mais perto de mim.
- O que foi?
- Acho que me deve dois beijos. – ela se ajeitou melhor ao meu lado e beijou minha bochecha e depois me deu um beijo na trave.
- Prontinho, dois beijos. – disse brincalhona e eu a puxei para que um beijo de verdade.
O beijo não durou muito, pois logo ela começou a rir e nos afastamos.
- Do que você está rindo? – sorri junto, mesmo sem entender.
- Você é muito trapaceiro! – ela cutucou minha barriga algumas vezes. – Eram dois beijos e não três!
- Que absurdo. – segurei a mão dela para que ela parasse de me cutucar. – Eu ofereci um beijo pelos seus pensamentos e você ofereceu dois pelo meu, ou seja, três.
- Mas eu nem te contei meus pensamentos, você é um trapaceiro. – repetiu parecendo satisfeita com o novo apelido.
- Pode contar agora então, estou escutando.
- Era a mesma coisa, estava pensando como não ter que te contar.
- Por que? Eu sei que você tem sua vida e um passado assim como eu. O problema seria se ele fosse seu atual. Não sou muito a favor de ser o outro em uma relação. – ela concordou com a cabeça.
- Bom, pode ficar tranquilo, você não é o outro.
- Você tem mesmo um irmão então? – ela gargalhou da minha cara.
- Não quero nem saber o que você pensou! – me deu um selinho. – Sim, eu tenho um irmão, ele mora na cidade dos meus pais, na cidade que nasci. Ele tem umas coisas aqui em casa porque a namorada dele morou aqui no Rio um tempo.
- Me sinto melhor com essas informações.
- E você, tem irmãos?
- Um irmão mais velho, jogador também, mas se você não me conhecia não vai saber quem ele é também... – ela mostrou a língua.
Nós continuaríamos naquela provocaçãozinha boba se meu celular não tivesse começado a tocar. Eu ignorei, mas tocou novamente e da terceira vez me convenceu a atender. Levantei da cama e o peguei na poltrona do quarto. Manuel Neuer.
- É o Neuer. – reclamei.
- Atende, deve ser importante. – ela insistiu e se levantou da cama.

- Oi. – atendi e um Neuer bem alterado estava do outro lado.
- Oi?! Aonde você se meteu, Bastian?
- Para de gritar, Neuer. Estou na casa da .
- Custava avisar? Você saiu pra almoçar com ela! Já são quase cinco horas! – comecei a rir e isso só o irritou mais.
- Cara, onde mais eu estaria? Não era como se eu pudesse te ligar na hora também... – olhei para e apesar de ela dizer que não sabia alemão, algo na expressão dela me fazia duvidar. – Achou que eu tinha sido sequestrado? – zoei.
- Isso, a gente se preocupa com os amigos e é isso que ganha em troca.
- Não seja tão rabugento, Manuel. Ligue para a e combine algo, ok?
- Vai desligar na minha cara?
- Talvez... Eu sai da cama pra te atender. Você não quer comparar o que estava melhor, né?
- Espera ai, vocês estavam... – imaginei que Neuer estava vermelho já que ele não concluiu a frase.
- Não me diga que acreditou na história do Müller que eu tinha perdido o jeito. – ri mais ainda com aquela possibilidade.
- Bom, muitos anos no mesmo relacionamento.
- Eu realmente vou desligar. – se tinha algum assunto que não queria naquele momento seria falar da minha ex.
- Tchau. Até amanhã. – respondi e desliguei.

- Vou tomar banho. – ela anunciou assim que coloquei o telefone no criado ao lado da cama.
- . – a chamei antes que ela fechasse a porta e ela voltou a ficar em meu campo de visão. – Você não entende alemão, entende?
- Quase nada. – foi a resposta, mas a gargalhada que ouvi mesmo quando ela entrou novamente no banheiro foi o suficiente para que eu soubesse que ela havia sim entendido grande parte da minha conversa com o Neuer.
Dei de ombros, não tinha muito o que fazer. Poderia ter me oferecido para tomar banho também, mas optei por usar o mesmo banheiro de antes. Ainda estava lá dentro quando ouvi batidas na porta.
- Estava pensando em pedir comida chinesa para o jantar, alguma sugestão? – ouvi a voz abafada pelo barulho do chuveiro e porta fechada. Por coincidência eu já estava terminando. Desliguei o chuveiro e passei a toalha na cintura sem me secar.
- O mesmo que pedir pra você. – respondi, mas pude ver que a havia pego de surpresa já que ela encarava meu abdome fixamente. – ... – seus olhos focaram os meus em segundos e um tom de rosa tomou conta das bochechas dela.
- Er... O que disse? – ela disse um pouco constrangida e eu segurei um riso.
- Que pode pedir pra mim o que for pedir pra você. – repeti.
- Certo. – ela coçou a nuca visivelmente sem graça, mas desceu o olhar pelo meu copo mais uma vez antes de se retirar e quando ela saiu eu ri.
Achei que ela não se importaria se eu vestisse outra roupa do irmão dela, já que as outras não estavam mais no quarto. Me vesti e ao sair do quarto ouvi o barulho da televisão, segui para a sala e assim que sentei no sofá ela me entregou o controle e se levantou.
- Escolhe alguma coisa pra gente assistir enquanto a comida não chega. – foi para a cozinha e gritou de lá. – Cerveja ou Coca-cola?
- Coca. – respondi mudando de canal e vi que logo mais ia começar um filme de suspense.
- Encontrou algum filme legal? – me entregou um copo.
- Vai começar Paranóia daqui a vinte minutos. – a careta foi a reação. – Você não gosta de filme de suspense, não é?
- Tão óbvio assim? – sorri a puxando para sentar do meu lado.
- Achei que era algo específico com o filme do avião e não com todos os filmes de suspense do mundo. – ela mostrou língua com a minha provocação.
- Não tem outro que te agrade? – deu um sorriso amarelo e eu sabia que em partes ela estava fazendo charme.
- Até deve ter, mas sempre ouvi bem desse. Prometo que depois a gente vê um que você escolher.
Isso não a deixou confortável para ver o que eu tinha escolhido, mas, por mais clichê que fosse, quando as mulheres têm medo de um filme elas praticamente grudam na outra pessoa.
O filme tinha acabado de começar e ela parecia estar bem tranquila mesmo com uma cena de acidente logo no começo, percebi que era só fachada quando o interfone tocou e ela deu um pulo no sofá.
- Nosso jantar chegou. – ela anunciou e foi para a porta, fiz menção de pegar minha carteira. – Nem pense, assiste seu filme chato aí. – ri e voltei a me sentar.
Logo ela colocou as caixas na mesinha de centro a nossa frente e voltou a assistir. As melhores e mais assustadoras partes nem tinham acontecido e ela já tinha assustado duas vezes. Depois do terceiro susto ela fez menção de levantar.
- Nada disso, não está nem na metade e você vai assistir até o final. – a segurei pela cintura.
- Não dá pra jantar com esse filme. – ela riu ainda presa por meus braços e eu desliguei a TV. – Ah, não faz isso que minha consciência fica pesada, Bastian! – pegou o controle e voltou a ligar a televisão. – Satisfeito? – pegou a caixinha de comida e olhou para mim ao invés de olhar para o filme.
Tê-la me encarando era estranho porque me fazia ter vontade de esquecer o filme e beijá-la, mas teríamos o resto da noite para isso, certo?
Antes da metade do filme nós já tínhamos terminado de comer e como eu previra estava bem agarrada em meu braço e de tempos em tempos escondia o rosto entre meu ombro e o encosto do sofá, o que continuou até o filme acabar.
- Pronto, pode olhar, acabou. – avisei.
- Ainda bem. – ela disse feliz. – Isso aí é filme de terror, imagina ter um vizinho desses! – ela levou às mãos a boca em sinal de horror.
- Sempre pode acontecer... – dei de ombros. – Eu mesmo poderia ser um psicopata desses no avião e mesmo assim você foi se sentar do meu lado.
- Acho que agora vou desconfiar de todos quando sair na rua. – ela gargalhou. – Vão achar que eu sou louca, isso sim.
- Adoro sua gargalhada, já disse isso? – a questionei, mas nem dei tempo de resposta e comecei a fazer cócegas.
- Basti, não! Para! – ela tentava dizer e segurar as minhas mãos enquanto ria ainda mais. Parei quando percebi que ela já estava ficando sem ar e só então percebi que estava praticamente deitado por cima dela no sofá.
Ficamos imóveis quando nos demos conta da situação, mesmo assim nenhum de nós se moveu, nossos rostos foram se aproximando e a conexão entre os olhares parecia inquebrável. Me aproximei aos poucos e quando a distância entre as bocas era quase inexistente e ela me surpreendeu ao murmurar um “anda logo” que obedeci mesmo rindo.
Nos beijamos por longos minutos, apreciando cada toque e cada descoberta. Quando o ar começou a nos faltar, separei nossas bocas e passei a distribuir beijos pelo pescoço dela sentindo a pele se arrepiar. A resposta eram os arranhões em minhas costas por debaixo da camiseta. E foi então que pela segunda vez na noite ela me surpreendeu com uma fala.
- Acho que está na hora de testar esse sofá. – disse próximo ao meu ouvido ao mesmo tempo em que puxou minha camiseta para cima.
- Quantas vezes você quiser. – afastei meu corpo para que ela terminasse de tirar.
A noite terminou como eu esperava que terminasse, nós dois, um lençol e um sofá aprovado em duas rodadas.

’s POV
Acordei com a claridade através da cortina da sala, tateei o chão até encontrar meu celular e verifiquei que ainda não eram oito da manhã. Mandei uma mensagem para Vivienne dizendo que aceitaria os dias de folga que ela tinha me proposto com a promoção, mas que iria ao escritório à tarde para organizar tudo.
Levantei com cuidado para não o acordar e fui para o banheiro. De dentes escovados, cabelo penteado e um robe azul marinho por cima do lingerie, eu estava apresentável para quando ele acordasse. Sabendo que não ia dormir novamente decidi preparar algumas torradas e ovos mexidos para o café da manhã. Tinha acabado de quebrar os ovos na frigideira quando ouvi meu celular vibrar na bancada.

: Estou sabendo de tudo.
: Quero detalhes!
: E achei um absurdo Manuel saber antes de mim, mas vou relevar.

Ri sozinha e mandei uma resposta curta.

: Te explico tudo com detalhes mais tarde.

Bloqueei a tela do celular e voltei minha atenção para os ovos. Mexi até estarem do jeito que gostava e quando me virei para colocar a panela na mesa vi Basti encostado no portal, com cara de sono, vestindo apenas a bermuda.
- Bom dia. – sorri. – Há quanto tempo está parado aí? – coloquei na mesa e andei até ele e depositei um beijo em sua bochecha.
- Você estava rindo para a tela do celular quando cheguei. – sabia que meu rosto me entregaria, mas ele nada disse, apenas me deu um selinho. – Você acorda cedo demais. – ele reclamou. – É a segunda vez que acordo e estou sozinho. – ele se referiu à noite do hotel.
- A claridade me incomoda. – confessei. – Só vou pegar o suco e podemos tomar café. – ele assentiu e a campainha tocou.
Estranhei a falta de interfone, significava que era alguém que estava sempre por ali, veio logo em minha mente.
- Você atende pra mim, por favor? – pedi tirando a jarra da geladeira. – Deve ser a . – ele assentiu e abriu a porta. Ninguém falou nada, isso era estranho, eu podia ver Basti de perfil parado em frente a porta, isso era mais estranho ainda. Fui até lá e levei um susto, por essa eu não esperava.
- Mãe?!

Continua...


Nota da autora: Olha quem voltou! Eu sei que disse que não ia demorar, e demorou, mas pelo menos demorou menos do que a última, certo? Espero que estejam gostando do rumo que as coisas estão tomando, então comentem aqui e me deixem saber! E é claro, não me matem por esse final! HAHAHAHA
Obrigada de coração pela paciência e por acompanharem! Vocês são umas lindas! <3
Beijos e até a próxima! Para quem ainda não faz parte, dá um pulinho no nosso Grupo no Facebook!

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