Burning Ice

Autora: Cris Turner | Beta: Babs



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1. Melting

, você precisa se acalmar. – Nat arrastava as palavras, o sotaque sempre tão imperceptível se fazendo presente.

Era raro presenciar alguma rachadura na armadura da poderosa Viúva Negra, mas, vez ou outra, quando o cansaço conseguia abater até Romanoff, certa vulnerabilidade aparecia. E a ruiva estava realmente cansada naquele momento. Os cabelos acobreados escondiam seu rosto enquanto ela mantinha os cotovelos sobre as coxas, inclinada para frente em uma posição meio derrotista. Não sabia se minha amiga estava exausta pela missão da qual acabara de voltar ou da teimosia que eu estava demonstrando. Sim, eu sabia que estava sendo teimosa, mas minha raiva era bem maior que meu senso comum no momento.

Me agarrar a raiva era melhor do que me preocupar com o fato de eu estar irritando uma das pessoas que havia acabado de impedir que mais um lunático executasse um plano de dominação mundial. E, afinal, havia a remota possibilidade de não fosse por minha causa que ela s-

– Droga, !

Levantou-se da cadeira de plástico criada por algum artista vanguardista, que provavelmente era a última moda em decoração – mas que Tony só tinha comprado porque era laranja –, e seu movimento súbito me fez parar de andar de um lado para o outro. Surpresa pela falta de graça naquela que normalmente se movia como um gato, voltei toda minha atenção a ela.

– Natasha?

– Eu desisto – abriu os braços como que para enfatizar. – Vocês dois são malditamente teimosos demais para alguém usar algum tipo de racionalidade. Não é à toa que estão juntos. Ele vai ter que passar a noite na ala hospitalar. Se, em algum momento, você superar sua raiva e resolver ir visitá-lo, ao menos sabe onde – com essas palavras frustradas, girou nos calcanhares e saiu de meu quarto sem que suas passadas fizessem um único ruído.

Só quando a porta automática deslizou de volta para a fechadura foi que soltei o grito frustrado que estava segurando. Meu ataque de raiva, contudo, não acabou tão fácil. Em uma atitude bem infantil, resolvi que também iria jogar um dos vários travesseiros da enorme cama contra a porta.

Como se Nat tivesse alguma culpa de qualquer coisa. E como se aquela porta toda cheia de tecnologias incompreensíveis para meros mortais, que Mia e Tony sempre estavam desenvolvendo, fosse sofrer qualquer arranhão. Romanoff tinha razão, no entanto, eu estava longe de qualquer estado racional no momento. Estava lívida. Furiosa o suficiente para me agarrar a meu orgulho e forçar meus pés a ficarem no lugar, mesmo quando queria ir encontrá-lo.

Se fosse sincera comigo mesmo, eu queria muito ir encontrá-lo. Também seria necessário um pouco de honestidade para aceitar que minha raiva era uma maneira de mascarar a preocupação que sentia. Então, não. Nada de honestidade naquele momento, senão acabaria enlouquecendo por não saber o que estava se passando. Teimosamente, assim, obriguei-me a sentar sobre o colchão macio e a cruzar os braços, concentrando-me em alguns exercícios de respiração que Steve me ensinou, a fim de me acalmar o suficiente para dormir.

Respirar, inspirar. Respirar, inspirar.

Depois de cinco minutos daquela porcaria, percebi que não iria funcionar. Ao menos não enquanto não tivesse ao menos uma ideia de como ele estava. Precisei de mais alguns minutos para engolir meu orgulho – segundos que passei em parte amaldiçoando minha melhor amiga por ter me dado um sermão ao invés de informação – até abrir a boca e chamar:

– JARVIS?

– Pois não, senhorita ? – a voz com simpática ressoou no cômodo imediatamente.

Agora que estava prestes a falar, a coisa parecia ainda mais concreta, ainda mais assustadora.

– JARVIS, – engoli em seco para tentar me livrar da bola que a emoção formara e agora bloqueada minha garganta. – Você pode, por favor, me dizer como Bucky está? E-eu…

Felizmente o programa de inteligência artificial estava acima de certas ações humanas mesquinhas como o prazer egoísta em observar outra pessoa se contorcer para inventar uma explicação mentirosa e patética, assim ele logo estava respondendo, livre de qualquer julgamento, minha pergunta:

– O Sargento Barnes levou um tiro de raspão na perna esquerda e sofreu uma contusão ao despencar de cerca de quinze metros em concreto firme.

Fechei os olhos com pesar, cerrando firme também meus lábios para evitar o soluço que queria escapar enquanto as garras geladas do medo e fechavam ao redor do meu coração. A única coisa que me impedia de cair em um choro compulsivo era a certeza de que, apesar do que ele tinha passado, meu namorado estava bem agora, porque, caso contrário, Nat teria me dito. Para conter meu desespero, então, entrelacei meus dedos, apertando as mãos com força.

– Ele está bem, senhorita – continuou seu relato um pouco mais apressado do que o normal, sua super inteligência provavelmente calculando que minha resposta emocional estava irregular. – Posso ver no banco de dados da ala hospitalar que ele está bem. Seu metabolismo avançado permitiu que ele se recuperasse em velocidade muito superior ao de qualquer outra pessoa. A Doutora Woodsen ordenou que ele passasse a noite apenas para monitorar possíveis, e, se me permite acrescentar, senhorita , improváveis, infecções. Apenas um cuidado extra.

O ar deixou meus pulmões de uma vez e uma lágrima de alívio desceu por minha bochecha.

– Obrigada, JARVIS – consegui sussurrar, levantando a mão para limpar o rosto da umidade

– Boa noite, senhorita .

– Boa noite – minha voz já estava muito mais firme naquelas palavras.

Aquelas notícias fizeram que meu coração quase voltasse ao ritmo normal. Ao menos já conseguia respirar mais profundo do que apenas o mínimo suficiente para me manter vida. Já não parecia que eu estava tendo um ataque de ansiedade. Soltei as mãos, só agora percebendo quão dormente meus dedos estavam. De repente estava exausta demais. Dois dias da mais pura tensão enquanto esperava os avengers voltarem daquela maldita missão na América Central e mais todo o começo da noite escondendo, sob uma pesada capa de raiva, a preocupação ao saber o que Barnes tinha feito.

E se havia duas coisas que cansavam o ser-humano eram a raiva e preocupação. Como não estava no patamar “super” em que basicamente todos os outros habitantes daquela Torre, era seguro dizer que eu estava esgotada. Mexendo os pés para me livrar dos sapatos de salto que haviam me torturado ao longo do dia, arrastei-me para o meio da cama, ainda com a saia e o terninho de linho, deitando sobre o colchão. De maneira não relevante, percebi que tinha automaticamente me virado para o lado dele e abraçado seu travesseiro.

Se alguma parte de meu cérebro estivesse funcionando corretamente, teria ponderado sobre como mesmo brava com ele, ainda recorria a Barnes – ou ao que mais perto dele poderia ter no momento -, ao invés disso, entretanto, apenas fechei os olhos e deixei que a inconsciência finalmente me trouxesse um pouquinho de paz.

...

Não pensei que os treinamentos que Steve insistia que eu tivesse para “garantir um mínimo de segurança pessoal” realmente estivessem funcionando, até aquele dia, quando acordei no meio da noite com a certeza de que havia alguém mais no quarto. O primeiro pensamento que me veio à cabeça depois daquela certeza era de que não precisava nem mesmo abrir os olhos, pois Bucky acabaria com quem quer que fosse sem nem mesmo suar. O segundo, aconteceu quando minha mente começava a despertar e trouxe consigo um segundo do mais puro e paralisante pânico: Bucky não estava ali para me defender.

“CORRA, . CORRA.” A voz em minha consciência gritava com a mesma autoridade que o Capitão América tinha quando estávamos treinando e nem por um segundo pensei em desobedecê-la. Rodei para o lado da cama o mais rápido e eficientemente que consegui, caindo no tapete macio e imediatamente tateando às cegas pela 9 mm que havia escondido ali há semanas. Mal tive tempo de roçar as pontas do dedo sobre o metal frio quando um braço ao redor da minha cintura me puxou para longe de minha única arma. Soltei um grito apavorado antes de perceber que o desconhecido que me segurava estava me colocado em pé novamente e que ele não era realmente um desconhecido.

– Barnes! – chiei, indignada. – Você me matou de susto! Que droga você estava pensando?

Com seu peito firme como rocha colado em minhas costas, podia sentir perfeitamente como se sacudia de maneira quase imperceptível com a risada que ele tentava disfarçar. Aquilo fez com que toda a raiva que sentira antes de ir dormir voltasse com toda força.

– Me solta, Barnes. Me solta agora – com as duas mãos tentava empurrar seu braço de metal para longe de minha cintura.

Seria mais efetivo empurrar uma parede. Felizmente meu namorado se apiedou do meu orgulho e me soltou. Girei sobre os calcanhares e quase caí sobre ele ao perceber que Bucky não havia se movido um milímetro para trás. Imediatamente recuei alguns passos, afinal, ao invés de apreciar como ele ficava delicioso sem camisa precisava me lembrar de porque ainda estava brava.

– O que você pensa que está fazendo ao se esgueirar desse jeito? – cruzei os braços, lançando meu olhar mais irritado.

Pelo menos naquele momento a luz do banheiro, que havia me esquecido de apagar antes de me afundar na cama, era um benefício. Queria que ele visse o jeito como me fez sentir.

– Me esgueirar, Doll? – arqueou a sobrancelha, um sorrisinho no canto dos lábios. – Esse também é meu quarto. Não preciso me esgueirar.

– Não – sacudi a cabeça, alguns fios pretos escapando do coque que não havia desfeito antes de me deitar e que agora provavelmente era uma grande confusão de cabelo precariamente preso. – Hoje esse aqui não é seu quarto. Aliás, você deveria estar na ala hospitalar agora. O que está fazendo aqui?

Ele soltou uma risadinha de desprezo.

– Não precisava ficar lá. Não foi nada além de um arranhão superficial – deu de ombros – Puro exagero médico essa história de ficar em observação. Além disso, – deu um passo em minha direção, – não havia absolutamente nenhuma chance de que eu iria dormir em qualquer outro lugar que não fosse sua cama. Nossa cama.

Engoli em seco. Odiava quando ele falava naquele tom arrastado pelo sotaque. Arrepios desciam por minhas costas – e ele sabia disso. Infelizmente para ele, eu também sabia bem como guardar uma mágoa.

– Pode parar aí – ergui a mão espalmada. – Se você quer bancar o machão e não ficar no hospital, problema seu, mas aqui não vai dormir. Fique com o sofá ou, melhor ainda, fique no sofá do quarto do Steve ou em qualquer outro quarto da Torre. Não me importo.

Em meio a minha pirraça, cometi o erro de lhe dar as costas. Não cheguei nem perto do travesseiro que pretendia lhe jogar na cara junto com mais uma ordem de que sumisse do meu quarto. Os braços fortes dele, de novo, estavam ao meu redor como barras de aço. Dessa vez precisei espernear como uma criança para que ele me soltasse.

– Droga, . O que está acontecendo? – resmungou, frustrado, quando finalmente se cansou de minha pequena luta e voltou a me colocar no chão. – Por que você está agindo como uma lunática?

E aquilo foi o que me fez perder a pouca compostura que ainda me restava.

– Lunática? LUNÁTICA? Eu estou agindo como uma lunática? – gritei, gesticulando sem parar com as mãos. – Eu? Por acaso fui eu quem entrou em um armazém que sabia estar cheio de agentes do inimigo sozinho? Sem cobertura, sem esperar pelos outros. Fui eu? Hein, Barnes?

Entendimento brilhou em seu rosto por um instante antes de qualquer emoção desaparecer.

– Eu sabia o que estava fazendo, .

– Você sabia? Oh! Por que não disse antes? – cuspi as palavras com ironia. – Isso resolve tudo, então, né?

– É por causa disso que você está brava?

Falou aquilo de uma maneira tão calma que quase acreditei ter imaginado as palavras. Um segundo de distração e provavelmente não teria o ouvido, tamanha era sua passividade, permanecendo a alguns passos de mim, os olhos incrivelmente azuis fixos no meu.

– E você acha pouco? – ofeguei. – Tem ideia do que poderia ter acontecido? Hein! – antes que pudesse me conter, avancei até ele e espalmei as mãos em seu peito, empurrando-o com toda força.

Obviamente aquela minha ação só serviu para que eu queimasse um pouco da raiva que sentia, uma vez que Bucky não se moveu nem mesmo um centímetro.

– Você não se importa com o que possa acontecer? Se você não se importa por você, que tal se importar por outras pessoas? Tem ideia de como Steve se sentiria se alguma coisa tivesse acontecido? Como eu me sentiria?

Graças a pouca distância que nos separava, precisei erguer a cabeça para encontrar seu olhar e por isso vi o exato momento em que a emoção voltou àqueles olhos que eu tanto amava.

– Doll, você não precisa se preocupar assim – suas mãos encontraram minha cintura, serpenteando por de baixo da blusa para acariciar minha pele do jeito que ele sempre fazia quando queria me acalmar. – Só fiz o que fiz porque tinha certeza. Já fiz isso incontáveis vezes.

– Mas isso foi antes, Bucky. Antes de você ser um Avenger, antes de você reencontrar Steve, antes de nós – meu lábio inferior tremia. – Você não pode mais fazer isso. Tem a mínima noção de como eu fiquei quando me contaram? Você podia ter morrido.

, toda vez que eu saio por essa porta para uma missão, eu posso nunca mais voltar. Você sabe disso. É um risco que todos nós aceitamos correr.

– Sim. Eu sei. Eu sei, droga!

Pegando-o de surpresa, consegui sair do círculo de seus braços.

– Mas eu quero ao menos ter a certeza de que se algo aconteceu, foi porque era inevitável, foi por algo além do controle de vocês, e não porque você tomou uma decisão idiota e impensada – passei a mão por meu cabelo, que entre um momento e outro havia se soltado completamente dos grampos que o prendiam, enquanto andava de um lado para o outro. – Consegue ver a diferença?

O olhar duro dele se suavizou um pouco.

– Também desejo voltar para você, , porém não posso deixar de cumprir minha missão.

Respirei fundo.

– Não estou te pedindo isso. Só quero que você seja menos inconsequente.

– Posso fazer isso – o canto de seus lábios se repuxaram em um sorriso esperto no canto dos lábios.

– Ótimo – dessa vez ele devia estar envolto em uma falsa sensação de vitória, pois não me interrompeu quando virei para pegar o travesseiro sobre a cama. – Mas você ainda assim não vai dormir aqui – empurrei-o contra seu peito.

Isso tirou o ar convencido de seu rosto.

– O quê?

– Já disse. Vá dormir em outro quarto ou no sofá de Steve. Não me importo.

– Você não vai me deixar dormir aqui? – tombou a cabeça para o lado, e senti um arrepio subir por minha espinha ao perceber que o divertimento havia retornado.

Nunca era um bom sinal quando aquele brilho de desafio surgia em seus olhos azuis.

– Não – ergui o queixo em desafio.

– Não?

– Não – cruzei os braços, mas era realmente difícil manter a pose de durona quando me sentia a presa prestes a ser caçada.

– Faz duas semanas que estou longe – discretamente deixou que o travesseiro caísse esquecido a seus pés. – Dormindo apenas quando possível e em lugares nem mesmo remotamente confortáveis, mas nem por um segundo, nem em pensamento, reclamei. Sabe por quê?

– Não se aproxime – nem um pouco orgulhosa, ergui a mão espalmada e dei um passo para trás.

– Porque sabia que quando voltasse para casa, voltaria para nossa cama, para você e para dentro dessa buceta que me faz sentir tão bem.

A excitação me atingiu com a força e a rapidez de um soco. Minha calcinha estava completamente molhada antes que pudesse piscar.

– Essa buceta que sei que tem me esperado desde a última vez que a comi. Não é verdade?

Meus mamilos endureceram. Não bastasse o sotaque russo, agora ainda falava sujo.

– Tentou manter esse exterior polido e respeitável de mulher das leis, porém, quando chegava em casa, durante esses dias em que não estava aqui, sei que deitou na cama e se masturbou pensando em mim. Não é verdade, ?

Quando ele deu um passo para frente, não tive qualquer força de vontade para me afastar. Quando ele ergueu o braço metálico, seus dedos se entrelaçando em meu cabelo e, como massa de modelar, deixei que puxasse de leve os fios que segurava para que inclinasse a cabeça para o lado, dando acesso para sua boca encontrar em minha pele.

Primeiro um beijo que mal passou de um encostar de lábios, depois um chupão forte que fez minhas pernas cederem. Seu outro braço imediatamente circulou minha cintura, segurando-me firme quando percebeu que eu iria cair. A saudade e o tesão eram tamanhas que nem me importei ao ouvir a risada rouca de típica satisfação masculina que ele soltou ao perceber como reagia ao seu toque. Estava mais interessada no jeito como seu dente mordiscou o lóbulo da minha orelha e o carinho naquela zona erógena mandou uma fisgada direto para onde mais necessitava de seu toque.

– Não se preocupe, Doll – sua língua passeou pela pele sensível atrás de minha orelha e logo depois seu veio seu hálito de menta, batendo no mesmo lugar, me fazendo gemer pela combinação que isso e suas palavras traziam. – Agora que estou aqui, vou cuidar de você, – desceu a mão por minha perna e, com a habilidade manual que lhe era característica, levantou minha saia até a cintura, – cuidar dessa buceta.

Minha cara e muito profissional saia azul estava embolada em minha cintura, quase uma metáfora de como eu mesma me encontrava agora. Todo o profissionalismo e sofisticação sumiram completamente enquanto me agarrava aos ombros de Bucky, buscando maior contato. Joguei a cabeça para trás e, mesmo por entre a nuvem de prazer que toldava meus olhos, pude ver o jeito selvagem com que ele me encarava. Seus dedos ultrapassaram a barreira de minha calcinha e gemi alto ao sentir seus dedos em mim. Um provocador segundo de carícia nas dobras de minha vagina antes de dedilhar um pouco mais para cima e para meu clitóris.

– Ah, sim – puxou meu cabelo para que inclinasse a cabeça para trás de novo, uma vez que havia tombado para frente, mole pelo prazer. – Molhada e quente do jeito que sabia que estaria. Esperando por mim, se tocando por mim. Não é, ?

Não me deu a chance de responder, pois, logo depois de falar, abaixou a cabeça para um beijo que tirou o resto de fôlego que tinha. Afoguei um soluço de prazer contra seus lábios ao sentir seu polegar pressionar mais forte meu clitóris. Grosseiramente, no limiar da dor.

– E esse botãozinho está pulsando por mim. Não é, ? – um pequeno aperto no lugar do qual ele falava e me estiquei na ponta dos pés, indo de encontro a sua mão que trazia tantas ondas de prazer.

Sua ereção, ainda contida pela calça, que sabia ser a única peça de roupa que ele usava, estava entre nós e parecia ficar ainda mais dura a cada segundo.

– Você quer que o coloque na minha boca e o chupe, ? – sugou meu lábio inferior entre os seus. – Quase podia sentir seu gosto durante a noite. Era o que não me deixava enlouquecer durante aquelas horas. Sempre você que mantém minha sanidade – mordeu meu queixo. – Vai me deixar passar a noite aqui, ? Vai me deixar colocar minha boca em você? Vai me deixar dormir aqui hoje? Vai me deixar te comer, amor? – soprou em meu ouvido.

– Sim, sim – balancei a cabeça de um lado para o outro, embriagada de prazer. – Por favor. Bucky, por favor.

Em um segundo já não estava mais me equilibrando precariamente sob a ponta dos pés, mas sim em seu colo e logo depois minhas costas encontraram o macio do colchão.

– Depois vou chupar também esses bonitos mamilos.

Sua mão se fechou ao redor de meu seio e pude sentir seu calor mesmo sob a blusa de seda e o sutiã que fazia conjunto com a calcinha, que meu namorado agora descia por minhas coxas com uma delicadeza que não combinava com aquele momento. Sabia que ele estava fazendo aquilo para me provocar, para que eu implorasse mais um pouco e, francamente, não tinha pudores quanto a isso. Só conseguia pensar no orgasmo delicioso que estava tão perto.

– Bucky. Bucky. Por favor. Por favor – arqueei as costas, as palavras mal fazendo sentido por entre uma respiração descompassada e outra.

Ainda ouvi de novo aquela risada rouca convencida, mas de novo nem tive tempo de me indignar com seu excesso de confiança porque senti dois de seus dedos me penetrando devagar. Mordi o lábio inferior para conter o choramingo de prazer.

– P-pare de me torturar, Bucky – afundei minhas unhas em suas costas.

Sua resposta foi diminuir ainda mais a velocidade com que seus dedos me penetravam. Um leve roçar do polegar sobre meu clitóris e eu me contorci contra o colchão.

– Filho da mãe – soltei em um suspiro baixo, porém ele obviamente me escutou.

Droga de super soldados.

– Tsc, tsc. O que as pessoas pensariam se te ouvissem falando assim, Dra. ? – agora havia parado completamente de me masturbar.

Abri os olhos e o encontrei me olhando com um sorriso sacana no canto dos lábios. Eu iria matá-lo. Iria matá-lo assim que conseguisse meu orgasmo.

Filho da puta.

Respirando fundo, e, usando toda concentração que conseguia reunir, passei a língua por meus lábios secos, decidida a jogar sujo da mesma maneira como ele estava fazendo:

– É mesmo, sargento Barnes? E o que você vai fazer sobre isso? – não precisei me esforçar para que aquelas palavras saíssem roucas, afinal, minha garganta já arranhava graças aos gemidos que pareciam me ser ininterruptos.

Mesmo com a parca luz que iluminava o quarto, pude ver a maneira como seus olhos se estreitaram e escureceram.

Bingo.

Com um grunhido, Bucky tirou as mãos de mim e se afastou para, em tempo recorde, se despir da calça e colocar o preservativo. Minha cabeça rodou quando meu namorado finalmente acabou com a tormenta, penetrando-me com força. Por um segundo senti a queimação causada pela maneira como ele me estirou para acomodá-lo.

Porra, . Duas semanas longe e minhas lembranças não lhe fizeram justiça – grunhiu. – Tão apertada.

Ele parou, dando-me um instante para me acostumar, mas estava tão excitada, tão molhada, que logo me vi ondulando o quadril novamente, ansiosa para que ele se mexesse. Bucky não precisou de outro sinal e começou a estocar. Sua mão serpenteou por entre nós e voltou a me acariciar.

O som do quarto era de puro sexo. Nossa respiração descompassada e os gemidos estrangulados criaram uma atmosfera ainda mais erótica. Passei a perna direita por sua cintura e isso mudou o ângulo, permitindo que ele chegasse ainda mais fundo, ainda mais gostoso.

Podia sentir o orgasmo começar a rugir por entre minhas veias, tão perto que podia literalmente saboreá-lo. Precisava que ele fosse mais rápido, mais forte.

– Forte. Mais forte.

Inclinei-me para frente e mordi seu lábio inferior ao mesmo tempo que contraí os músculos vaginais, apertando-o dentro de mim. Tive a satisfação de arrancar mais um grunhido do sempre impassível Bucky Barnes e ainda mais satisfação quando ele estocou mais rápido e mais firme.

– Isso. Isso. Assim. As-

O mundo explodiu por entre minhas pálpebras cerradas e senti meu corpo estremecer por aqueles deliciosos e intermináveis momentos em que o orgasmo me arrebatou para um lugar onde não havia nada além de nós dois e as sensações que formigavam por toda minha pele como pequenos fogos de artifício. Bucky precisou de mais algumas estocadas, mas não demorou muito para alcançar seu próprio ápice, tão forte que chegou a desabar em cima de mim.

– Hey – bati em seu ombro, não podendo evitar uma risadinha divertida, ainda que meus pulmões estivessem queimando pela falta de ar. – Você está me esmagando.

Seu corpo se sacudiu em uma risada silenciosa antes de se erguer nos antebraços para me olhar.

– Senti saudades, .

– Eu também, Barnes. Eu também – passei a mão por seu rosto e afastei o cabelo que caía em seu rosto. – Agora me prometa que vai deixar de ser inconsequente.

– Eu sempre vou voltar para você, .

Abaixou a cabeça para me dar um beijo rápido nos lábios. Não eram precisamente as palavras que queria ouvir, mas era seu jeito de me fazer uma promessa e, para mim, era mais do que suficiente.



2. Scorching

Gostava do barulho que meus saltos faziam ao entrar em contato com o chão. Sentia-me poderosa. Salto alto me fazia sentir bastante poderosa. Aqueles Jimmy Choo vermelhos que estava usando, então… ah! Definitivamente o mais próximo da concretização da palavra “poder” que alguém poderia alcançar. Infelizmente hoje não era um daqueles dias em que podia apreciar os pequenos prazeres da vida.

Não. Aquele era o dia de, nas palavras precisas de meu chefe, “fazer valer cada um dos milhares de dólares que ele me pagava mensalmente”. Realmente não tinha problema com essa parte, afinal, sabia o quanto era boa em meu trabalho. O problema é que Tony Stark não havia especificado nada além de onde eu deveria estar “o mais rápido possível”.

Não importava quantas vezes lhe dissera que não era assim que as coisas funcionavam, que não podia consertar da melhor maneira as mil e umas confusões legais em que ele se metia se nem ao menos mencionasse sobre o que elas se tratavam antes que eu precisasse ir buscá-lo em qualquer agência governamental que ele havia irritado dessa vez. Normalmente esse comportamento de Stark era apenas irritante, mas dessa vez estava preocupada de verdade. Por pior que fosse a bagunça que ele aprontava, nunca havia sido levado para aquele prédio. No subterrâneo de Jersey. Não havia qualquer identificação de qual agência era aquela, apenas a bandeira dos Estados Unidos aqui e ali.

Assim, cá estava eu, andando mais rápido do que meus passos espertos estavam acostumados, sem apreciar os cliques que eles faziam. Nada em minha mente além de mil cenários sobre como o imbecil havia finalmente se afundado tanto em problemas que nem mesmo eu seria capaz de salvá-lo. Depois do que pareceu ter sido uma viagem completa – e a pé – por toda a Highway to Hell, finalmente o agente que me acompanhava parou em frente a uma porta e a abriu.

Percebi imediatamente que o lugar se tratava de um cômodo de observação de uma sala de interrogatório. Aproximei-me da janela de vidro que sabia só ser transparente para mim, impedindo que quem estivesse do outro lado me visse. Contrário ao que esperava, entretanto, quem estava sendo pressionado verbalmente por um homem claramente não era Tony. Stark não era tão forte, não tinha o cabelo mais comprido preso em um pequeno coque – que não poderia ser chamado de nada além de muito masculino -, tampouco meu chefe sustentava uma barba por fazer, e, por mais que ele gostasse de acreditar que sim, Tony Stark não tinha aquela aura do mais denso perigo. O homem na outra sala obviamente era perigoso, mais perigoso do que mesmo minha imaginação poderia criar. Talvez por isso ele não estivesse em uma cadeira normal, mas sim em uma pequena jaula de vidro, as mãos presas por enormes algemas modificadas que cobriam desde o antebraço até as mãos com espécies de cones de metais.

Fiquei tão surpresa que levei um minuto inteiro para reconhecer as feições inescrutáveis dele. Quando o fiz, entretanto, tudo imediatamente fez sentido. Sem perder mais nenhum segundo, fui até a porta ao lado do vidro e depois marchei para dentro da sala de interrogatório.

– Pode parar exatamente aí – com a voz nem um oitavo acima de meu tom normal, interrompi qualquer ameaça que o agente estava fazendo. – Você já está em problemas demais só com esse joguete idiota. Não precisa acrescentar mais nada a equação.

Certamente aquilo foi o suficiente para chamar a atenção não só do homem a quem me dirigia, como também dos outros três agentes armados no canto da sala e do prisioneiro.

– Quem é você? Moça, esse lugar é protegido pelo mais restrito dos acessos. Vou mandar prendê-la.

Cuspiu, surpreso, o homem que há segundos se sentia bem confiante tentando intimidar alguém preso e em menor número, levantando-se da cadeira. Como se seu metro e meio de altura e a barriga saliente fossem me colocar medo agora que ele estava em pé na minha frente. Esse era o problema dos burocratas: eles passavam tanto tempo enfurnados em seus escritórios mandando naqueles sob sua zona de poder, que, quando estavam no mundo real, ainda tinham a pobre crença de que todos se curvariam às suas ordens imbecis.

– Mandar me prender? – arqueei a sobrancelha. – E sob qual autoridade?

– Do governo dos Estados Unidos da América – estufou o peito.

– Ah. Muito obrigada por me informar quem exatamente devo processar. Muito útil da sua parte, uma vez que seus companheiros estavam fazendo certo suspense.

Aquilo foi o suficiente para fazê-lo tropeçar em sua tentativa de pose de macho alpha.

O quê? Processo? Você sabe com quem está falando?

– Eu realmente adoraria ficar aqui e explicar para você como esse tipo de autoafirmação é totalmente ridícula e jamais alcança o tipo de impacto que você está buscando, porém, meu interesse imediato é em saber o motivo pelo qual meu cliente se encontra algemado e – gesticulei com a mão em direção àquela caixa de vidro esquisita – nesse tipo de cela.

– Seu cliente?

– Sou , advogada do senhor Barnes.

– Advogada? Quem te avisou? – olhou para os homens atrás de si como se eles tivessem uma resposta. – Não importa! – voltou a me encarar com um sorrisinho superior. – Ele não pediu por um advogado, então a senhora pode dar a volta e voltar por onde veio.

– Qual foi o cargo que você disse que ocupa mesmo?

– Eu não disse.

– Quer saber? Não se incomode. Não importa – joguei-lhe de volta aquelas palavras. – Mesmo que você fosse o presidente em pessoa ainda teria que ler os Miranda Rights para meu cliente assim que ele foi trazido para custódia. Diga-me, você leu?

– Claro que li!

– Ah, sim. E você testemunharia esse fato em uma Corte Federal, sob juramento e pena de perjúrio?

– Isso é um absurdo!

Ergueu o dedo em riste, dando um passo para frente e cuspindo as palavras com tanto afinco que algumas delas vieram literalmente acompanhadas por saliva. Felizmente eu estava fora da zona de alcance. Nojento.

– Absurdo é trancar um herói de guerra como se ele fosse um animal selvagem. Aliás, que porcaria é essa? – tive que conter o impulso de dar um chute naquela gaiola de vidro. – Não precisa responder. O que quer que seja, certamente não foi aprovada pelas leis nacionais ou mesmo internacionais. Você tem ideia de quantas infrações legais você e o resto dos palhaços desse circo cometeram?

– Ele não tem direitos – pingou desprezo em cada sílaba, praticamente gritando. – E está aqui sob a acusação de agente que pretende espalhar o caos, e a senhora deve saber quantas exceções isso permite.

Doutora. Doutora – corrigi imediatamente, fechando os olhos por um segundo para conter meu temperamento. – E sério? Caso o senhor não saiba, a legislação que permitia esse tipo de tratamento já foi revogada há anos. Além disso, eu ouvi o que você estava dizendo segundos antes de eu entrar aqui. Queria uma confissão. E só há um motivo para um burocrata como você querer tanto uma confissão – dei alguns passos até ficar de costas para Bucky e de frente para aquele imbecil de quem nem mesmo fizera questão de aprender o nome. – Você não tem evidências o suficiente para levar meu cliente a uma Corte – cruzei os braços. – Por isso precisa de uma confissão.

– Não tenho evidências? – jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. – Escute aqui, moça, se você acha que todos os vídeos que temos dele não são suficientes para prendermos esse amiguinho pelos restos de dias anormais que ele ainda tem, você está tão ruim da cabeça quanto ele.

De todas as coisas nojentas que ele havia tido até agora, aquela foi a que mais me irritou. Deixando de lado todo o profissionalismo, dei um passo para frente, curvando-me um pouco até que meu nariz estivesse a centímetros do dele, as mãos fechadas em punho ao lado do meu corpo, não tanto pela vontade que tinha de socá-lo, mas pelo tanto que tremiam graças a minha raiva mal contida.

– Se você voltar a se referir a meu cliente com qualquer coisa que não o mais puro respeito que ele merece, vou fazer da minha missão pessoal nessa vida destruir a merdinha de carreira que você pensa que tem. Deu para entender? – aproveitando que isso havia lhe calado, voltei para o lugar de antes e, dessa vez mais controlada, cruzei os braços. – Agora, quanto a esses vídeos que você tem e que diz serem evidências, nós sabemos quão confiáveis tais imagens governamentais de câmera de segurança são, não é? Elas fizeram um excelente trabalho quando do atentado das bombas na assinatura do Acordo de Sokovia, não é mesmo? Zemo incriminou meu cliente e autoridades do mundo inteiro infringiram os direitos dele, exatamente como você está fazendo agora.

– Isso não tem nada a ver com o que aconteceu em Viena.

Bateu a mão em punho na mesa, o que apenas tirou de mim um arquear de sobrancelha. Às vezes me esquecia como homens podiam ser infantis.

– Estamos falando do que ele fez enquanto um assassino da Hydra, enquanto Winter Soldier.

– E a que exatamente você acha que me refiro, agente Tanto-Faz-Seu-Sobrenome? É óbvio que há um padrão aqui. Vocês estão tentando incriminar Bucky Barnes por qualquer coisa que acontece nesse país, buscando limpar as consciências de vocês e se eximirem de qualquer responsabilidade, não? Pois isso não vão funcionar e você sabe disso. Esses vídeos que você diz ter e que provariam que meu cliente é culpado por sabe-se lá o que você quer culpá-lo dessa vez obviamente não são suficientes, pois, caso contrário, como já disse, você não estaria tentando arrancar-lhe uma confissão. Assim, exijo que você o solte imediatamente.

– O quê? Não vamos soltá-lo! Ficou louca? E todos os assassinatos que ele cometeu? Ele vem matando há décadas.

– Hipoteticamente falando, se meu cliente tivesse cometido qualquer desses crimes passados dos quais você o acusa, deveria saber que eles já prescreveram. E vou dizer de novo, porque você parece ser lento para entender as coisas, as provas audiovisuais que você alega ter, caso o seu procurador resolva realmente levar o caso a um tribunal, serão completamente despedaçadas até virarem poeira e motivo de chacota. Depois do fiasco que os governos do mundo inteiro patrocinaram ao realizar uma caçada humana atrás de um homem inocente, ninguém vai acreditar só nessas porcarias de imagem que vocês dizem ter, principalmente quando parece ser tão fácil enganar as autoridades. Basta um pouquinho de maquiagem profissional e pronto – estalei o dedo, mal tomando fôlego entre uma palavra e outra. – Fácil assim se violam direitos fundamentais de qualquer um. Para o azar de vocês, entretanto, essas memórias de violação de direitos estão fresquinhas na mente da opinião pública. E eles vão adorar saber que o Sargento Barnes, herói da II Guerra, homem que deu a própria vida pela liberdade de milhões, que se tornou prisioneiro de guerra e sofreu os mais inimagináveis horrores nas mãos dos inimigos do seu país, está sendo mantido enjaulado como um bicho em exposição porque, de novo, querem lhe prender por crimes que não cometeu. Você está me entendendo? – terminei bem devagar, um sorriso irônico e um tombar de cabeça para o lado para completar.

Seu rosto se tornou tão vermelho que sabia não ser saudável. Quase podia ver a fumaça saindo de seu ouvido.

– Por último, vamos deixar as coisas bem claras por aqui. Nada de confissão; o máximo que vai conseguir aqui é um processo monumental, que vai zerar não só os cofres dessa agência, mas também de todos e cada um dos envolvidos nessa palhaçada ridícula. Fala sério. Nem se você esticasse o conceito legal dessa acusação ridícula para além de todos os limites, ainda não conseguiria enquadrá-lo nisso. Agora, se você soltar o sargento Barnes imediatamente, posso esquecer todos os milhões que certamente ganharia pelas centenas de violações legais não só nacionais, mas também de convenções, tratados e costumes internacionais cometidas aqui.

Podia ver em seus olhos pretos a vontade de me agredir fisicamente brilhar. Por um segundo pensei que teria que colocar em prática as aulas de autodefesa que Steve estava me dando. Ao invés de levantar a mão, entretanto, ele deu um passo para trás e foi para o fundo da sala, levantando o celular a orelha, certamente dando um relatório a seu chefe e pedindo instruções. Lancei-lhe um último olhar cauteloso antes de me virar para meu cliente. A necessidade de manter minha atenção no problema maior impediu que lhe cumprimentasse da maneira devida. Quando o olhei por de trás do vidro da outra sala, só prestei atenção no necessário para lhe reconhecer, agora, entretanto, podia observá-lo melhor… e que visão ele era.

Suas feições permaneciam inescrutáveis, os olhos muito azuis fixos em algum ponto no vazio a sua frente. Deus Grego. Aquela era uma boa definição para o homem na minha frente. Se achava Steve Rogers atraente, seu melhor amigo então… Nossa. Apenas… nossa. Acho que Mia tinha razão e eu realmente tinha uma queda por bad boys. Antes que pudesse me perder em minha própria frustração sexual, o agente especialmente-imbecil retornou.

– Muito bem, dra. Você conseguiu – podia ver que essas palavras estavam sendo arrancadas com bastante esforço de sua garganta. – Vamos soltar seu assassino, quer dizer, seu cliente. Espero que saiba o que está fazendo. O sangue das próximas vítimas que ele fizer, estarão em suas mãos. E, acredite, ele vai matar de novo.

– Agradeço as previsões de quinta categoria, mas apreciaria de verdade se se limitasse a fazer seu trabalho e soltasse meu cliente – fiz questão de bater os cílios e repuxar meus lábios em um sorriso zombeteiro.

Dessa vez tive a certeza de que ele estava mordendo a língua para não me responder. Com o queixo travado, o agente olhou para os dois homens no canto do cômodo e assentiu. Imediatamente um clique suave pode ser ouvido. Voltei minha atenção para jaula que se abria – ao mesmo tempo notando de maneira não relevante, por minha visão periférica, que os três agentes se encolhiam no canto, obviamente temerosos. Alguns segundos depois, Bucky Barnes estava solto. Nunca admitiria para ninguém, porém, ao tê-lo na minha frente, parado em pé em todo a sua poderosa glória, também me senti intimidada. Precisei engolir em seco e endireitar os ombros para não me acovardar também – não porque ele provavelmente poderia me matar antes mesmo que me desse conta do que estava acontecendo, mas porque minha reação a ele era forte demais, quase impossível de ser ignorada.

– Sargento Barnes – assenti.

Aquilo pareceu lhe tirar momentaneamente de seu estado de estupor e ele me encarou por um segundo. O momento, entretanto, durou pouco, pois logo ele estava novamente com aquele olhar perdido. Algum dos agentes – o mais corajoso deles, ou provavelmente o que perdeu nos palitinhos – limpou a garganta e mostrou o caminho para saída. Cerca de dez minutos depois voltamos a sair pelas portas daquele prédio que tinha a fachada de uma loja de antiguidades. Stark e Rogers, este parecendo bem preocupado, atravessaram a rua rapidamente, surgindo ao nosso lado quase ao mesmo tempo em que o agente que nos acompanhava desaparecia de volta por entre as sombras. Steve se aproximou do melhor amigo e começou uma conversa em tom baixo, da qual provavelmente não entenderia nada ainda que pudesse escutá-los.

! – meu chefe pousou as mãos em meus ombros, sorrindo. – Sabia que você conseguiria! Por favor, me diga que você os fulminou da mesma maneira que fez comigo da última vez que coloquei o pé fora da linha.

– Tony, por pior que seu comportamento narcisista seja, você não chega nem perto desses imbecis aí de dentro. Quase lamento não poder seguir a diante com a ameaça de processá-los. Adoraria arrancar cada dólar que eles têm – olhei por cima do ombro e para o prédio aparentemente inofensivo, mas que guardava alguns segredos bem obscuros do governo.

– E por que não? Vamos fazer isso. Vamos processá-los! – sua animação quase infantil combinava bem com o jeans, camiseta (com estampa do Iron Man) e tênis que ele usava.

– Alguém já te disse para parar enquanto está ganhando, Tony? – voltei a encará-lo. – Nós demos sorte dessa vez. Depois de todo o fiasco em Viena, eles ficaram sem munição para nos atacar. Até mesmo aquela idiotice de Acordo de Sokovia foi abandonado, então não foi muito difícil manipular a situação a nosso favor. Mas não sei se teremos tanta sorte da próxima vez. Certo? – virei-me para os outros dois. – Vocês precisam se manter longe de confusões por um tempo. Não dá para ficar cutucando o urso todo o tempo e esperar que ele não nos devore. Vocês podem fazer isso, não é?

– Sim, senhora – Steve concordou imediatamente.

Voltei minha atenção a Barnes, tentando lhe lançar um olhar significativo ao invés de apenas prestar atenção em quão ainda mais sexy ele era de perto. Não tive resposta, todavia. Ele se limitou a me encarar fixamente e eu senti como se aqueles olhos impossivelmente azuis estivessem sondando toda a minha alma.

– Nós vamos fazer isso, – Steve passou o braço pelos ombros do amigo, que, de maneira quase imperceptível, tremeu de leve. – Vamos nos comportar – prometeu pelos dois antes de puxar o amigo para longe.

– Não leve para o lado pessoal. – Tony entrou na frente da minha linha de visão. – Picolé não conversa com ninguém. Ele estava morando na Torre há cerca de duas semanas antes de ser sequestrado por esses robozinhos do governo e nunca ouvi sua voz.

Apenas assenti. Não sabia ao certo o que dizer. Começamos a andar, seguindo o mesmo caminho que os dois estavam fazendo.

– Fico feliz por você ter desistido daquela história de Acordos de Sokovia, Tony. Foi bem idiota da sua parte pensar em assinar aquilo, ou qualquer coisa, antes de eu ter dado um ok.

Sorri ao ver de esguelha que ele revirava os olhos, o que, em linguagem de Stark, era o mais perto de uma admissão de derrota que chegaríamos. Paramos ao chegar na esquina.

– Stark, cadê seu carro? Você não tinha deixado aqui? – apontou para uma vaga vazia em frente a uma loja.

– Sim. Eu tinha deixado aqui. Cadê meu carro?

– Você estacionou em local proibido de novo?

– Claro que não, Capitão Óbvio.

Enfiei a mão na bolsa, tateando em busca de meu celular para resolver algumas pendências por e-mail enquanto os dois discutiam obviedades e resolviam o problema de nossa falta de automóvel. Ainda não tinha encontrado o que procurava quando levantei a cabeça ao perceber que estava sendo observada. Barnes de novo me olhava daquele jeito que me causava arrepios, como se eu não pudesse lhe esconder nenhum segredo. De novo me senti presa, paralisada pela intensidade daquele olhar.

Ao fundo ainda podia ouvir Steve e Tony conversando, porém naquele momento por nada poderia desviar minha atenção dele, principalmente quando ele passou a língua pelos lábios antes de murmurar, baixinho, mas de maneira firme e com uma voz rouca que me causou ainda mais arrepios gostosos:

– Obrigado.



3. Warm

– Porcaria – resmunguei baixinho, analisando aquela máquina super-tecnológica que parecia ter como única função me encher o saco. – Porcaria – inclinei-me um pouco para o lado, procurando algum botão ou qualquer coisa do tipo que pudesse reiniciar tudo e, quem sabe, fazer as coisas funcionarem. – Como é que v–

?

Endireitei as costas e olhei por cima do ombro para encontrar Mia caminhando em minha direção com um sorriso divertido nos lábios.

– Voight! Que bom que você está aqui! – suspirei aliviada. – Amiga, eu preciso que você faça aquela sua – movimentei os dedos – mágica com essa máquina horrorosa. Ela se recusa a me entregar o contrato que mandei imprimir.

– Ah, amiga – aproximou-se, sacudindo a cabeça e agora rindo abertamente. – Isso é ótimo. Acho impressionante como você consegue livrar alguém da pena capital, mas não sabe como imprimir um contrato – depois de remexer em uma bandeja de folha e apertar um botão que não tinha visto antes, finalmente aquela máquina demoníaca começou a imprimir o documento.

– A culpa não é minha se vocês só podem criar alguma coisa que algum super gênio tecnológico possa entender. Vou falar com Stark sobre isso. Além do mais, só tenho problemas com essa impressora.

– Ahan – murmurou de maneira condescendente. – Só a impressora, e a cafeteira, e o micro-ondas, a TV da sala, a TV do seu quarto, o–

– Ok, ok – sacudi a mão, interrompendo minha amiga. – Já entendi. Não sou nenhuma Stark tecnológica.

– Stark? , amiga, você é quase tão ruim quanto Capitão Rogers, e ele esteve no gelo por setenta anos – pegou as folhas que finalmente ficaram prontas e me estendeu.

Ah! Eu não sabia sobre tecnologia, mas decididamente sabia quando havia alguma coisa a mais por trás de palavras simples e por certo havia alguma coisa por detrás do jeito como ela dizia o nome de Steve – e eu iria descobrir exatamente o que. Acho que foi o sorriso malicioso que deixei escapar que entregou minhas intenções porque logo o divertimento sumiu do rosto da loira na minha frente, sendo substituído por uma palidez quase preocupante.

– Pois é – falei lentamente, apreciando a reviravolta em nossa conversa. – Ouvi que você está ajudando o Capitão a se adaptar ao nosso admirável mundo novo. Como está sendo isso? Divertido? Interessante? Está correspondendo a suas expectativas?

– Minhas… expectativas? – engoliu em seco.

– É. Você sabe, expectativas – dei de ombros, abaixando o olhar para as folhas em minhas mãos. – Steve Rogers pode nos trazer expectativas, não? Afinal… tantos anos celebrando seu heroísmo. Nós acabamos criando certa imagem. Isso sem contar que ele é… – voltei a encará-la, arqueando a sobrancelha e trazendo de volta o sorriso malicioso para que ela entendesse a que me referia.

Precisei segurar a gargalhada ao ver como, de pálida como um papel, ela se tornava mais vermelha que um tomate, murmurando qualquer desculpa ininteligível para logo seguir apressada pelo caminho que fazia antes de parar para me ajudar.

Sacudindo a cabeça e segurando firme o calhamaço de folhas que consistia no contrato que estava escrevendo há meses, também segui meu caminho. Ao chegar no elevador, entretanto, já estava me sentindo um pouco culpada. Não queria constrangê-la trazendo à baila sua queda-não-tão-secreta por Rogers, até porque já tinha visto os dois conversando pelos cantos e eles formavam um casal realmente fofo, mas meu espírito competitivo havia levado a melhor – como acontecia frequentemente. Por sorte, nossa amizade era antiga e ela perdoava esses meus pequenos defeitos – bom, isso e uma grande caneca daquele caro chá inglês vendido na 8th Street.

Apertei o botão e, enquanto esperava pelo elevador, não consegui conter uma última olhadela raivosa sobre os ombros e para aquela máquina horrorosa que me desafiara. Talvez Stark tivesse feito alguma coisa de propósito para dificultar minha vida. Afinal, não era possível que eu não entendesse como funcionavam todas aquelas impressoras horrorosas do meu andar, nem do andar de baixo e nem mesmo aquela que sempre cooperava comigo, dois andares abaixo de onde ficava meu escritório, estava funcionando. Quanto mais pensava sobre isso, mais sentido fazia.

Aquele merdinha não iria deixar em branco o sermão que passei nele por causa de mais uma série de multas de velocidade que precisei mandar meu assistente correr para pagar antes que alguém fosse para a cadeia por desacato. E o pior de tudo nem era me fazer correr atrás das impressões dos contratos que eram de interesse dele, mas sim o fato de que Tony conseguia me fazer ficar pensando se estava ou não me tornando uma lunática que criava teorias da conspiração ridículas em minha cabeça graças às folhas A4 e toners.

Felizmente as portas metálicas deslizaram silenciosamente antes que minha mente hiperativa conjurasse algum outro cenário envolvendo meu chefe sabotando de propósito a cafeteira da cozinha da sala de recreação só porque eu gostava do cappuccino que ela fazia. Automaticamente dei um passo para dentro, só percebendo que não estava sozinha quando as portas já se fechavam.

– Sargento Barnes.

Minha voz saiu mais baixa e com bem menos segurança do que o normal quando o cumprimentei, também acenando com a cabeça. E aquilo me irritou mais do que a impressora dos infernos ou meu chefe e sua conspiração. Detestava me sentir insegura daquele jeito que sempre ficava quando o encontrava. Não que ele tentasse me intimidar ou qualquer coisa parecida. Na verdade, era basicamente o oposto. Bucky Barnes mal olhava para o meu lado nas poucas vezes em que nos encontrávamos pela Torre. Nenhuma palavra desde o dia em que nos conhecemos, nem mesmo tinha certeza se ele se lembrava de quem eu era. Sua expressão inescrutável certamente não entregava nenhum sinal de reconhecimento.

Já eu, como se ainda fosse uma adolescente obcecada com sua primeira paixonite – e, sim, eu notava minha hipocrisia por caçoar de Mia -, pegava-me achando que ele ficava ainda mais bonito, se é que isso é possível, a cada rara vez que tropeçava no cara. Havia chegado até ao ridículo ponto de mudar o horário do meu lanche porque sabia que ele costumava sair do treino por volta das quatro da tarde e vagava na cozinha em busca de algum carboidrato para sustentar aqueles bíceps enormes, aquelas coxas musculosas, aqu–

JARVIS chamando minha atenção para o fato de que havíamos chegado ao andar me tirou de meus pensamentos nem um pouco inocentes. Uma pena que não pudesse ficar mais tempo me embriagando naquela colônia incrível que ele provavelmente ganhara de Steve, mas felizmente foi antes que eu fizesse alguma coisa realmente idiota e fora do meu caráter como babar sobre aqueles tórax forte.

– Boa tarde, Sargento Barnes – mesmo sabendo que não obteria nenhuma resposta, fiz questão de olhar por sobre o ombro e sorrir para ele antes de deixar aquela caixa metálica que sabe-se-lá-Deus-como-funcionava.

Podia jurar que antes das portas se fecharem, vi o canto de seus lábios se levantar minimamente no mais perto de um sorriso que eu já conseguira chegar quando se tratava de Bucky Barnes. Porém aquela imagem desapareceu de meu campo de visão em menos de um segundo e logo estava encarando o aço escovado e me perguntando se não tinha imaginado tudo.

xxx

Uma pendência tributária no contrato de compra e venda da startup daquela semana que Tony decidira que ele definitivamente precisava possuir me atrasou no escritório por mais tempo do que me importava em contar. Quando finalmente consegui encontrar e consertar o problema, descobri que estava completamente exausta, mas, além disso, faminta. Mal tive forças para me arrastar para o elevador e murmurar a JARVIS o andar que queria, mas fiquei realmente agradecida pelos privilégios que ser a chefe da equipe legal de Stark proporcionava. Porque além do apartamento incrível que eu tinha no andar abaixo dos maiores heróis da Terra, minha parte favorita era aquela cozinha “comunitária” para os Avengers a qual eu tinha acesso ilimitado.

Comeria literalmente a primeira coisa que descobrisse na geladeira, mesmo que fosse alguma daquelas comidas estranhas que Nat costumava fazer para si em quantidades exorbitantes, mas, por sorte, alguma alma caridosa havia pedido pizza e deixado algumas fatias. Devorei três antes de me dar por satisfeita. Sem a sensação ruim de que poderia desmaiar de fraqueza a qualquer momento, apaguei as luzes e saí bocejando pelos corredores. Meus planos de cair na cama e só acordar na próxima semana foram interrompidos pela sedução das poltronas azuis da sala-de-estar.

Estava tão cansada. E elas eram tão confortáveis. Meu apartamento estava tão longe, todo um andar abaixo. Talvez se me deitasse apenas um segundo…

Usei a ponta dos pés para tirar os sapatos e me sentei de lado, encostando a cabeça, erguendo as pernas e me encolhendo em um pequeno casulo de exaustão. Antes que percebesse, estava profundamente adormecida.

Não sei exatamente o que me acordou ou quanto tempo havia se passado. Talvez meu cérebro meio paranoico não conseguiu se desligar direito em um ambiente estranho, talvez tivesse dormido menos de meia-hora. Só tinha certeza de que despertei desorientada, e o fato de que levantei depressa não ajudou em meu equilíbrio. Cambaleando, acabei por tropeçar em meu próprio sapato e o xingamento para amaldiçoar aquele que é um dos meus Manolo Blahnik favoritos já estava na ponta da língua, mas um murmúrio em algum outro ponto da sala me fez paralisar no lugar.

Apesar de aquele ser provavelmente o prédio mais seguro do mundo, se havia uma coisa que aprendera é que super-heróis atraíam super-vilões. Não era infundado, então, meu medo de que alguma coisa do mal estivesse à espreita no escuro. Sabia que os Avengers estavam a cerca de 500 metros de distância e estava literalmente juntando fôlego para gritar alto suficiente para acordar os mortos quando o que quer que tivesse no escuro falou de novo. Dessa vez mais alto e mais claro. Foi a emoção mal contida naquela voz grossa que me fez desistir de chamar por socorro. Não tentava amedrontar, ao contrário, parecia desesperada. As palavras não me faziam sentido, pois eram pronunciadas em outro idioma, mas a emoção crua nelas me atraíram para mais perto.

Um pé depois do outro.

Russo. As palavras eram russas. Lembrava-me de quando Natasha tentara me ensinar o básico.

Joelhos mais bambos a cada centímetro avançado.

Foi só quando estava perto o suficiente para tocá-lo que consegui reconhecer quem era. Revirando-se no sofá grande que ocupava por inteiro enquanto murmurava desesperado em russo, estava Bucky Barnes. Suponho que deveria ter imagino. Aquele andar todo era restrito a algumas poucas pessoas, não era possível que algum recruta ou desconhecido estivesse ali. Porém a ideia de encontrá-lo tão vulnerável era estranha demais para acreditar.

Mas era ele. Bucky Barnes. O homem com quem fantasiara desde que nos conhecemos estava na minha frente, obviamente sofrendo com as imagens que passavam em sua cabeça. Não éramos amigos, não tinha intimidade entre nós, porém esses motivos me fizeram hesitar apenas um segundo. Não podia deixá-lo daquele jeito.

Estendi a mão e toquei em seu ombro.

– Sargento Barnes.

Mal consegui terminar seu nome quando me encontrei girando no ar, imediatamente depois minhas costas bateram no sofá e o fluxo de ar me foi cortado pela mão apertando minha garganta. O choque veio e passou mais rápido do que julgava ser possível, o instinto de sobrevivência tomando conta e me explicando em que exatamente havia me metido. Ergui as mãos e agarrei seu pulso com toda força tentando impedir que ele me enforcasse, mas era como tentar empurrar um caminhão morro acima.

Desesperada, levantei o olhar para o seu, mas seus olhos azuis estavam opacos, vazios. Não sabia onde ele estava, mas decididamente não era na Torre comigo. Ele iria me matar e nem ao menos se dar conta do que estava fazendo.

– Bucky… – consegui sussurrar no resto de fôlego que ainda me sobrava.

O efeito foi instantâneo. Sua mão deixou minha garganta e seu peso sobre mim também desapareceu. Virei para o lado, tossindo por vários momentos em uma desesperada tentativa de puxando o ar para os pulmões. Quando a adrenalina diminuiu, consegui estabilizar meu fôlego e só então me virei para o homem ajoelhado sobre as almofadas entre minhas pernas. Barnes estava imóvel, encarando com a mais desolada das expressões meu pescoço, onde sabia que marcas vermelhas deviam estar começando a aparecer.

– Sargento Barnes?

– Eu… eu não… Me desculpe – cerrou os olhos com pesar. – Eu sinto tanto.

Perdi-me por um momento em quão incrível sua voz era.

– Não – sacudi a cabeça ao voltar para a realidade. – Não. Não foi culpa sua – ergui a mão e segurei a sua, tentando não me sentir ofendida quando ele recuou antes de me deixar tocá-lo. – Está tudo bem.

– Bem? – franziu o cenho, inconformado, analisando-me como se eu tivesse perdido o juízo. – Como pode estar tudo bem? Eu poderia ter te matado, doutora. Eu quase matei – terminou com um sussurro.

Sim, aquilo era verdade, mas não significava que me arrependia de ter me aproximado. James Barnes era um homem muito bom que já sofrera mais do que qualquer outra pessoa seria capaz de aguentar, não iria deixar que ele carregasse ainda mais aquela culpa – principalmente quando obviamente era eu quem havia agido de maneira errada.

– Nada aconteceu – ergui-me um pouco sobre os cotovelos. – Está tudo bem.

Quando vi que ele estava prestes a me contrariar, continuei:

– Pesadelos?

Ele tombou a cabeça para o lado, seus olhos azuis tão intensos que soube que ele podia ver através de meus estratagemas, mesmo nossa interação tendo sido mínima. Além de bonito era esperto. Meu tipo de homem. Passei a língua por meus lábios repentinamente secos. Senti seu olhar acompanhar aquele movimento, me queimando de um jeito que os acontecimentos de minutos atrás pareciam a uma eternidade de distância.

– Sim – sussurrou. – Pesadelos. Eu sempre os tenho. Mas normalmente ninguém os presencia – passou a mão pelo cabelo, olhando ao redor da sala por um momento antes de voltar sua atenção para mim. – Estava assistindo TV e acabei dormindo aqui. Não sei como isso aconteceu.

– Você estava cansado – sorri. – Sei bem como é isso. Estava dormindo na outra poltrona.

O comentário tinha o intuito de desfazer um pouco da tensão que se instalara, mas teve o efeito oposto e Bucky ficou ainda mais tenso.

– Eu acordei você? Eu… eu estava gritando? – mal pude entender a última palavra, que saiu em uma mistura de soluço e rouquidão.

- Não!

Não sabia porque era importante que ele acreditasse em mim, mas era absolutamente imprescindível.

– Não foi isso que quis dizer. Acho que acabei acordando porque, por mais confortável que aquelas poltronas sejam, o corpo humano não foi feito para dormir sentado – e aqui dei um sorriso incerto.

– Oh. Estou atrapalhando você, não? Provavelmente quer voltar para o seu quarto e eu aqui...

Começou a se afastar, pronto para se levantar e me deixar ir, mas por impulso, levantei-me um pouco mais e agarrei sua mão. Seus bonitos olhos azuis se arregalaram e sabia que os meus não estavam diferentes.

– Não… não precisa ir – sussurrei, torcendo para que ele não me perguntasse o porquê, pois também não sabia.

Apenas… apenas queria que ele ficasse ali. Comigo.

– Bucky? – voltei a falar, baixinho como um segredo a ser partilhado na escuridão da noite.

De novo, aquela palavra pareceu ter um efeito mágico. Maleável como massinha, Barnes deixou que eu o puxasse para mim. Devagar, e sem que meu olhar deixasse o seu, voltei a descansar as costas no sofá, trazendo-o pela mão comigo. Ele se ajeitou para ficar de lado, sua cabeça na almofada ao lado da minha, uma das pernas no meio das minhas, procurando um lugar confortável para seu corpo forte naquele espaço limitado. Hesitante, quase de maneira tímida, passou o braço por minha cintura.

Senti sua respiração fazer cócegas em meu pescoço e me arrepiei, porém logo estava de volta àquele sentimento gostoso de conforto. Calmaria ao invés de tempestade. Podia sentir seu olhar em meu rosto, mas mantive a atenção no teto, ainda que um sorriso dançasse no canto de meus lábios.

Aquilo era absolutamente irracional e bastante longe do meu normal, porém, se havia uma coisa que aprendera na vida – e que me fazia ter muito sucesso em minha profissão -, era seguir meus instintos. Sempre seguia minha intuição, pois tinha certeza que ela nunca me deixaria na mão. E, naquele momento, cada uma das células em meu corpo gritava por uma única coisa… Bucky Barnes.

4. Feverish

Não considerava minha vida monótona. Daquele tipo que costuma ser a lista clichê de coisas que as pessoas querem fazer antes de morrer, eu já havia feito muito. Já pulara de paraquedas, escalara uma montanha – e não importava o que Stark dizia sobre alturas mínimas e outras tecnicidades, aquele maldito morro que eu tinha me esgotado para chegar ao topo definitivamente era uma montanha –, desci esquiando por quilômetros de neve, já tinha andado de camelo em um deserto e comido sobremesas que levavam sua nacionalidade no nome.

O Brownie Belga definitivamente era muito melhor em Luxemburgo.

Também tinha feito coisas que certas pessoas só podiam sonhar, como dividir uma garrafa da verdadeira vodka russa com a Viúva Negra, ou conversar com Thor sobre se ele, como Deus do trovão que era, podia fazer o som chegar primeiro do que a luz.

O que eu não havia feito antes, todavia, era me aconchegar com um veterano herói de guerra e ex-assassino profissional. Ou me aconchegar, em geral. Talvez por isso não seja a maior especialista na etiqueta apropriada do dia seguinte para esse tipo de situação, mas tinha bastante certeza de que ela não envolvia ignorar a outra pessoa.

A hipocrisia em minha reação era quase palpável, afinal nunca fui de ligar no dia seguinte, porém não conseguia deixar de me sentir ferida quando Barnes passou por mim no corredor com pouco mais de um aceno de cabeça. Como se não nos conhecêssemos, como se não tivéssemos dividido um sofá na noite anterior.

Por óbvio, meu orgulho, que era quase do tamanho da arrogância de Stark, não me deixou fazer nada a respeito. Se Barnes não queria falar comigo, tudo bem. Era grandinha demais para correr atrás de quem visivelmente tentava me evitar.

E vida que segue. Tudo estava bem. Até que, de repente, não estava.

A forma velada de desrespeito, eu podia aguentar. Fazia parte da vida adulta aprender a lidar com pessoas que simplesmente fingiam que você não existia. O que não era aceitável, contudo, era a humilhação de várias pessoas saberem que você é o motivo de outra pessoa ter deixado um cômodo.

Então, é… minha paciência definitivamente evaporou uma semana depois, quando fui me sentar para uma das exclusivas sessões de cinema que Tony tanto gostava de organizar, e Bucky Barnes se levantou do lugar e marchou para fora, com a mesma graça de quem tinha mil cães dos infernos lhe perseguindo. Minhas bochechas queimaram em uma mistura de raiva e humilhação. Cuspindo fogo, passei meu objetivo anterior – o lugar no sofá ao lado de Mia – e segui pelo caminho que ele tinha tomado.

Por óbvio, minhas aulas de pilates não foram páreo para sua velocidade de super soldado e, ao virar um corredor, já tinha perdido suas costas largas de vista.

Filho da mãe – resmunguei, olhando para os lados e, me rendendo ao inevitável, arrastei meus pés cobertos por sapatilhas até a cozinha.

Decidi que ao menos podia tomar um chocolate quente, uma vez que tinha perdido toda a vontade de assistir ao filme. Estava acrescentado os marshmallows e sentindo pena de mim mesma quando Barnes apareceu no portal, e por ali mesmo parou.

Sentindo-me pequenininha, decidi que a melhor defesa era o ataque.

– Não precisa se preocupar – mantive minha atenção na colher que girava ao resmungar. – Já estou de saída.

Pude sentir seu olhar em mim, pesado como vários sacos de cimento.

Eu não preciso me preocupar?

Depois de vários dias de tratamento de silêncio, contudo, não esperava uma pergunta tão sinceramente desentendida. Franzindo o cenho, levantei a cabeça para encontrar seu bonito rosto em uma careta de confusão.

– Não precisa se fazer de desentendido – reprimi uma revirada de olhos ao levar a caneca à boca. – Não é do meu caráter impor minha presença, a não ser que seja estritamente necessária – continuei, depois de provar a bebida escaldante. – Não é o caso aqui. Então pode ficar. Eu saio.

Empurrando o banco alto para trás, levantei-me.

– Dra., o que você quer dizer?

Foi apenas a certeza de que ele estava se esforçando para falar comigo que me fez responder.

– Ora, sargento Barnes, está bastante óbvio que eu o deixo desconfortável com a minha presença – encolhi os ombros, mantendo as duas mãos ao redor da caneca em busca de algum calor e conforto.

Você me deixa desconfortável ? – agora ele tinha abandonado a surpresa, restando apenas incredulidade.

Sentindo que estava perdendo alguma coisa importante, mantive os lábios cerrados enquanto ele passava a mão pelo cabelo.

E andava de um lado para o outro como um leão enjaulado.

E soltava um suspiro pesado.

Para só então falar, em meio a uma risada nervosa:

– Você está realmente achando que me deixa desconfortável? – esfregou a mão pelo rosto. – Ah! Essa é boa. Eu… eu…

Assistir aquele homem enorme desmoronar em incerteza na minha frente me impelia mais do que meu orgulho ferido, então coloquei a caneca sobre a ilha e dei um passo para frente, ainda não tendo certeza do que faria para reconfortá-lo. Não tive tempo para me preocupar muito, contudo, pois logo ele estava engasgando nas próprias palavras de novo:

– Eu quase enforquei você, e… e você acha que o problema é você?

Naquele momento me senti um personagem de desenho infantil, quando uma lâmpada acende sobre a cabeça deles e de repente tudo estava claro. Com a força de vontade renovada, agora que sabia que ele não me considerava repulsiva ou algo do tipo, interrompi-o antes que seu discurso continuasse.

– Bucky…

O problema é que ele não me escutava, continuando sua peregrinação no mesmo raio de um metro e em círculos infinitos.

– Bucky? James!

Isso chamou sua atenção, fazendo-o se virar para mim, outra vez aquela adorável expressão confusa.

– Você precisa se acalmar, ok? – mantive o tom baixo e o passo lento ao me aproximar.

Arrisquei um sorriso fechado quando ele assentiu devagar, respirando fundo.

– Agora, sente-se.

Depois de ser obedecida, sentei-me de frente para ele e deslizei a caneca pelo mármore até que estivesse ao alcance de suas mãos.

– Toma. Você precisa mais do que eu.

Dessa vez o canto de seus lábios se levantaram. Paciência nunca foi uma das minhas maiores qualidades, então, após alguns segundos de silêncio, já estava pronta para recomeçar a conversa.

– Vamos recapitular. Você tem me evitado como a praga por estar se sentindo culpado pelo que aconteceu naquela noite?

Ele tombou a cabeça para o lado, agora com um sorriso maior no rosto.

– Você sempre faz isso?

– Isso o quê?

– Perguntar alguma coisa com a mesma seriedade de quem está num tribunal.

Pisquei algumas vezes, surpresa. Barnes havia conseguido a rara façanha de me deixar sem palavras.

– É – assenti, entre pensativa e em meio a uma risada curta. – Acho que faço isso sim. Nem tinha percebido. Ossos do ofício – encolhi os ombros.

– Parece efetivo. Só não sei se gosto muito de estar do outro lado do interrogatório – tomou um gole do chocolate. – Obrigado.

Seus olhos azuis eram muito expressivos. Não tinha percebido isso até estarmos tão perto. Era como se eles pudessem se comunicar com a mesma facilidade – ou até melhor – que sua boca. Afinal, o agradecimento havia sido polido, um mero gesto de educação, mas seus olhos me diziam que ele, apesar do tom de voz distante, realmente apreciava a bebida.

– Elogios não vão livrar você da pergunta, sabe? – arqueei a sobrancelha.

– Definitivamente não gosto desse lado do interrogatório – sacudiu a cabeça, murmurando para si mesmo.

Tomou mais um gole de chocolate quente e, ao abaixar a caneca, percebi que Bucky buscou colocar as mãos ao redor da porcelana do melhor jeito possível. As duas mãos. Não era nenhuma Voight ou Stark tecnológica, mas tinha um percentual grande de certeza de que sua mão de metal não tinha a mesma sensação que a outra. Buscar o calor que transpassava a louça era, então, mais um gesto automático a procura de conforto do que qualquer outra coisa. E naquele momento me senti mal por pressioná-lo, mas não havia outra opção. Ou passávamos tudo a pratos limpos agora, ou provavelmente nunca o faríamos.

– Sim.

Interessante como os silêncios ali pareciam carregados de palavras não ditas.

– Por quê? – perguntei, genuinamente interessada.

Inclinei-me um pouco para frente ao apoiar o cotovelo sobre a bancada, e o queixo sobre a mão. Foi a vez dele de se surpreender. Por certo esperava palavras reconfortantes sobre como não havia sido sua culpa, não uma pergunta sem rebuscamento desnecessário socialmente importo.

– Porque seria o inteligente a se fazer. Ficar o mais longe de mim, digo. E você é inteligente, dra. Fiz o que achei que você queria que fosse feito – sua voz era constante e vazia de qualquer emoção. – Eu machuco as pessoas. Eu machuquei você – continuou, depois de meu silêncio deixar claro que esperava que ele concluísse seu raciocínio com mais do que aquilo. – Não se ofenda, mas você é infinitamente mais fraca. Eu poderia quebrar seu pescoço antes de você pudesse perceber o que estava acontecendo. Não quero isso, mas é o que eu sou. Por baixo do título brilhante e bonito de avenger, continuo sendo o mesmo assassino.

O jeito como afastou a caneca para longe por sobre a mesa deixou claro que Bucky tinha perdido o apetite… e que tinha falado tudo que precisava. Meu cérebro, acostumado a traçar estratégias à medida que novos fatos eram revelados, já tinha preparado os planos de A à Z quando me forcei a parar.

Respirar fundo.

Barnes não era uma das testemunhas de quem precisava arrancar as respostas que eu queria, do jeito que eu queria. Abandonei a ideia da batalha, mas ainda restava a maneira como ele me intrigava.

– Não me ofendo com verdades – falei finalmente. – Você, Bucky, de fato, é muito mais forte do que eu e facilmente poderia me matar.

Ele se encolheu quando eu falei a última parte.

– Mas você não me matou, nem mesmo me machucou de verdade. Aliás, sei muito bem que você não machucou ninguém que não merecesse desde que deixou de ser o Soldado Invernal.

Seus olhos se arregalaram de leve e ele soltou uma pequena risada.

– Você é corajosa, dra. Ninguém mencionou o nome dele na minha frente desde que voltei, nem mesmo Stark.

– Dele? – franzi o cenho. – Oh! Do Soldado Invernal?

Barnes assentiu, o queixo travado.

– Acho que foi um pedido de Steve. As pessoas tendem a fazer o que ele diz, e o garoto acha que agora precisa me proteger.

– Ele é um bom amigo.

– O melhor que alguém poderia ter – o sorriso agora era enorme e o deixa ainda mais bonito, se é que isso era possível.

Detestava ter que voltar ao assunto chato, mas ainda faltava esclarecer algumas coisas.

– Não gosto, porém, quando alguém toma decisões por mim, assumindo saber o que eu quero.

Manteve seu silêncio, mas sabia que ele entendia perfeitamente a que me referia. Com um meio sorriso, me afastei até a geladeira e peguei duas cervejas. Álcool era muito mais pertinente do que chocolate quente no momento.

– Acho que podemos brindar às coisas que aprendemos hoje – abri minha cerveja.

– E o que exatamente seriam essas coisas? – abriu sua própria bebida, a sombra de um sorriso no canto dos lábios.

Sorri contra o vidro de minha garrafa, gostava do jeito dele de me provocar. Tudo bem. Dois podiam jogar aquele jogo.

– Aprendemos a não assumir coisas sobre outras pessoas. E que mencionar um nome não muda o passado, assim como algo que fizeram conosco não precisa nos definir para sempre.

– Você tem um jeito estranho de ser boa com as palavras, dra.

– corrigi. – Não nos conhecemos na melhor das circunstâncias, e talvez nosso segundo encontro também tenha tido seus problemas, mas acho que é seguro dizer que resolvemos os mal-entendidos.

– repetiu. – Bonito nome.

– Nah – sacudi a cabeça. – Mamãe vive dizendo que significa estrela ou qualquer coisa parecida em romeno ou alguma outra língua estrangeira, mas tenho bastante certeza de que ela inventou isso. Minha irmã foi quem se saiu melhor nesse departamento. Teresa. Um nome bem mais apreciável.

O brilho divertido que surgiu no canto de seus olhos azuis me fez sorrir de novo.

– Então você tem uma irmã?

– Yeah. Teresa Jane. Dois anos mais velha, o que a faz ter certeza de que pode mandar em mim como se fosse a mamãe – revirei os olhos.

– Advogada como você?

– Oh, não – não pude evitar uma risada. – Não, não. Ree ganha a vida prendendo os caras que eu tento soltar. Desculpe – emendei rapidamente. – Brincadeira de família. Teresa é uma agente do FBI. E, você, tinha algum irmão? – perguntei antes de mais um gole de cerveja.

Bucky levou alguns segundos em pensativo silêncio, provavelmente ainda digerindo o fato de que não usar luvas de seda para falar de seu passado.

– Não, mas Steve sempre foi como meu irmão mais novo. E eu estava sempre lá para tirá-lo das confusões em que ele adorava entrar – olhou para o lado e soltou uma risada curta, provavelmente recordando as situações que narrava. – Então sei bem como sua irmã se sente. Você tem cara de quem gosta de uma confusão.

– Hey! – ri. – Isso é uma meia verdade. Gosto apenas das confusões que valem a pena.

Mantive meu olhar no seu, esperando que ele entendesse a mensagem sutil que estava tentando passar. James Barnes e toda bagagem emocional que ele carregava era confusão.

Das grandes.

E eu estava pronta para mergulhar de cabeça nela, porque tinha certeza de que valeria a pena. De que ele valia a pena.

5. Incandescent

Em minha opinião, uma das coisas interessantes do mundo era a capacidade que ele tinha de te surpreender. De todas as surpresas, todavia, a que mais me fascinava era o comportamento humano. Você pode conhecer milhares de pessoas em dezenas de países e, por certo, seriam milhares de personalidades diferentes. Talvez fosse por isso que tivesse escolhido o Direito, ou talvez, como Stark adorava repetir, eu apenas gostasse de uma boa briga. Qualquer que fosse o motivo, entretanto, o fascínio pela sociedade sempre esteve presente. Nada, porém, era tão incrivelmente interessante quanto Bucky Barnes.

Pensei que depois de nossa conversa na cozinha, poderíamos ser amigos, mas, apesar de não mais me evitar a cada passo, não conseguia manter uma conversa remotamente estável, apenas respostas monossilábicas. Levou certo tempo para que eu superasse a decepção por aquele tratamento de silêncio, e talvez não teria superado de jeito nenhum não fossem os anos observando o comportamento humano, o que me possibilitou fazer isso inconscientemente. Desse modo, mesmo em meio a minha ansiedade mal controlada, consegui perceber que o problema não era eu. Barnes não conversava com basicamente ninguém. Somente Steve e sua paciência infinita — ou Sam e sua vontade infinita de irritar o ex-assassino — conseguiam arrancar frases inteiras dele.

Verdade seja dita, paciência não era a maior das minhas virtudes. Só me mantinha quieta, observando, até obter a informação que precisava. Depois vinha ação, minha parte favorita. Dessa vez, entretanto, não podia seguir meu comportamento normal, então me forcei a ficar quieta, trabalhando devagar cada passo. Barnes fazia meu coração repuxar de um jeito bom, e eu queria que ele se sentisse bem em minha companhia, como me sentia na dele. Assim, ao invés de forçá-lo a se sentar perto ou a conversar sobre qualquer assunto que lhe interessasse, tinha passado a cultivar o silêncio, deixando-o se aproximar ao seu próprio tempo.

Quando estava assistindo um filme na imensa sala de cinema de Stark, limitava-me a lhe dar um sorriso e um aceno de cabeça quando meu sargento favorito resolveu se juntar a mim.

Na biblioteca, enquanto trabalhava em algum caso sobre a incrível e centenária mesa de madeira que tinha manipulado Stark a comprar e renovar, Bucky geralmente chegava silencioso como uma sombra e passava o tempo ali comigo, lendo algum livro que trazia consigo ou que pescava na estante.

Nas manhãs de dias úteis, no começo, mal conseguia murmurar um corrido “bom dia”, por ele só aparecer quando eu já estava correndo para a porta, porém, com o passar das semanas, Bucky gradualmente começou a chegar mais cedo na cozinha, até que estivéssemos tomando café da manhã juntos todos os dias.

Depois de dois meses de passos tão pequenos que mais parecíamos imóveis, mal pude acreditar quando, em uma tarde de sexta-feira aparentemente como outra qualquer, enquanto andava no corredor com a atenção na tela do meu celular, quase trombei com Sargento Barnes. Fui salva apenas por aquele reflexo que te faz olhar para frente no último segundo antes de bater em algo.

— A-Oh! — Por instinto dei um passo para trás, tomando um segundo antes de perceber quem era. — Bucky, hey.

— assentiu.

— Hmm… Tudo bem? — murmurei depois de perceber que ele não iria falar mais nada.

Foram precisos mais alguns momentos de silêncio antes de ele finalmente respirar fundo e falar:

— Você vai ao centro hoje?

Das muitas coisas que imaginei que ele poderia falar, aquela definitivamente não era uma delas.

— No centro? — franzindo o cenho, murmurei, incerta, mas, como tinha a nítida impressão de qual resposta ele queria ouvir, continuei: — Sim, claro. Preciso passar no tribunal para pegar alguns documentos.

De novo, ele assentiu. Contrariando minhas expectativas, no entanto, dessa vez foi rápido em acrescentar:

— Posso ir junto?

— Hmm… Claro? — sussurrei, mais em uma pergunta do que qualquer coisa.

— Estou pronto.

— Agora?

— Oh! Você não quis dizer agora?

O jeito como ele franziu o cenho, adoravelmente confuso, me fez emendar rápido:

— Só preciso pegar minha bolsa. Me espera aqui? — forcei um sorriso sem graça.

Durante todo o caminho para meu quarto, fiquei me perguntando o que exatamente estava fazendo. Não era como se eu estivesse desocupada no momento. Ainda tinha que redigir a petição que pretendia encaminhar ao conselho de proteção ao consumidor, porém, ao invés de sentar em minha mesa e procurar meu notebook, estava passando a alça da bolsa pelo ombro e voltando para encontrar Bucky exatamente onde o deixara.

— Vamos?

Em silêncio — absolutamente em silêncio mesmo, porque não podia escutá-lo se mover e, se não pudesse vê-lo pelo canto dos olhos, juraria que estava sozinha — nós chegamos à garagem e ao meu carro.

— Belo carro — murmurou, os olhos correndo por todos os lados.

Senti um sorriso no canto dos lábios. Sempre que alguém falava bem do meu carro, era como se um filho estivesse sendo elogiado.

— Obrigada — deslizei a mão sobre o volante. — É um Rolls Royce Wraith.

— Parece caro.

Surpresa, virei-me para ele enquanto esperava a porta da garagem abrir.

— Desculpe — desviou o olhar para frente.

Se não achasse que era impossível, poderia jurar que ele havia corado um pouco.

— Não tem problema — ri, voltando a atenção à rua e acelerando o carro. — Realmente foi caro. Mas gasto em coisas boas cada centavo suado que Stark me faz ganhar. Carros, bolsas, sapatos, bons restaurantes.

— Parece justo.

— Também acho — assenti. — E você gosta de dirigir?

— Faz muito tempo que não dirijo um carro. Naquela época… — desviou o olhar para janela, como se isso o distanciasse das memórias de seu tempo, — usava uma moto. Mais eficiente. E, nos anos quarenta, automóvel não era que algo que se podia comprar.

— Não tem vontade de dirigir algum dos carros na Torre? Ou talvez algum do Stark? Ele tem algumas belas máquinas lá.

— Nah. Nada de Stark. Não gosto de dever favores a ele. Tony nunca deixa você esquecer — sacudiu a cabeça.

— Você tem razão — ri.

— Não vai oferecer seu carro para eu dar uma volta?

Felizmente consegui me controlar antes de demonstrar a surpresa que senti com sua pergunta tão leve — e tão não-Bucky. Ao invés de constrangê-lo ao ponto de não ser espontâneo comigo de novo, me policiei para manter a voz firme, porém com a dose certa de leveza para que ele não achasse que eu estava brava:

— Nem pensar, Bucky. Nem se você fosse o Hugh Jackman.

— Hugh Jackman?

— O ator que interpreta Wolverine.

— Oh! — exclamou, feliz, depois de alguns segundo pensativos. — Sei qual filme é esse. Steve e eu assistimos todos os X-Men e os do Wolverine sozinho depois de ele ter ido assistir Logan no cinema com Sam.

— Você não foi junto com eles? — franzindo o cenho, virei-me para ele por um segundo ao parar no sinal vermelho.

— Digamos apenas que Sam não é meu maior fã.

— Isso é um jeito de explicar as coisas — ri, acelerando o carro outra vez. — Então você não viu Logan ainda?

— Não.

— Nós podemos ir juntos, se você quiser. Ao cinema.

— Eu adoraria, Doll — sorriu.

— Está combinado — correspondi com outro sorriso, sentindo-me bastante satisfeita. — Agora… aonde você planeja ir? — perguntei finalmente depois de rodar pela terceira vez o mesmo quarteirão.

E lá estava de novo aquela expressão confusa que eu considerava absolutamente fofa.

— Sendo sincero, não cheguei a pensar o plano até essa parte.

— Plano? — repeti.

Bucky cruzou e descruzou os dedos das mãos algumas vezes em uma demonstração de nervosismo antes de responder:

— Desde que você me soltou, Steve não passa um único mês sem me comprar alguma coisa. Tenho mais calças e camisetas do que poderia contar, diversos moletons e muitos tênis. Eu queria… queria comprar alguma coisa para ele — coçou a nuca. — A última vez que dei um presente àquele Punk foi quando ele fez dezesseis anos e achou que seria uma boa ideia tentar aprender boxer. Foi um desastre. Mal deu alguns socos antes da asma atacar. Nunca mais tentou, mas tenho certeza de que se fosse possível, ele ainda teria as luvas que eu dei.

Aquele pequeno discurso era provavelmente mais do que já o tinha ouvido falar durante todo o tempo em que nos conhecíamos. E, agora que pensava sobre o assunto, também deveria ser a primeira vez que ele voluntariamente saía da Torre para qualquer outra coisa que não assunto oficial do time. Era absolutamente adorável como ele estava superando os próprios limites em nome da amizade com Capitão Rogers.

— Adoraria ajudar. Você tem alguma ideia de onde gostaria de ir?

— Eu… eu não… quero dizer, tinha essa loja no Brooklyn, mas, com certeza, agora já deve ter fechado.

— Tudo bem. Eu conheço um lugar ótimo para fazer compras — comentei, lembrando de uma rua no Queens com algumas lojas interessantes. — Você tem alguma ideia do que quer comprar?

Só recebi uma sacudida de cabeça como resposta. Foi quando uma ideia pipocou em minha cabeça.

— Acho que sei o que podemos comprar.

Com o canto dos olhos, vi o sorriso pequeno que apareceu em seu rosto e um friozinho gostoso e inédito balançou meu estômago. Depois de cerca de quinze minutos procurando, consegui um lugar para estacionar e saímos do carro.

— Mia, minha amiga, adora camisetas “nerds” — levantei o dedo indicador e médio para fazer o sinal de aspas. — Aqui tem algumas ótimas — apontei.

— Mia Voight?

Surpresa, tirei a atenção da plaquinha de “ABERTO” a minha frente para encarar seu perfil.

— Sim. Como sabe?

— Encontrei com ela outro dia no laboratório quando Stark arrumou meu braço.

Mesmo com sua expressão inescrutável podia dizer que ele não estava dizendo toda a verdade.

— Certo — murmurei, abrindo a porta.

Como me divertia bastante naquele lugar, sabia onde as melhores camisetas ficavam, então segui direto até a estante onde estavam as de seriados televisivos.

— Que tal essa? — levantei uma vermelha até a altura do nariz para mostrar a Bucky.

— “Bazinga”? — leu. — Isso é algum tipo de gíria nova?

— Sheldon Cooper? The Big Bang Theory? Não? Oh, ok — assenti, colocando a camiseta de volta na pilha ao vê-lo sacudir a cabeça. — Que tal Harry Potter? — puxei a próxima opção, virando para ele.

— O que é esse triângulo? E um círculo?

— Você nunca assistiu ou leu Harry Potter? — não consegui deixar a acusação de fora.

Bem devagar, quase receoso, voltou a sacudir a cabeça.

— Isso não é aceitável. Vamos levar essa camiseta — empurrei contra seu peito para que ele a segurasse. — E definitivamente vamos assistir os filmes. Acho que no próximo mês vão fazer um especial de Harry Potter naquele cinema na Lexington. Agora, onde estávamos mesmo? Oh, sim! Steve. Steve! É claro! — deixando Bucky para trás, na certeza de que ele me seguiria, me aventurei por entre os corredores, tentando me lembrar onde exatamente tinha visto o que procurava. — Aqui!

Apontando para toda seção dedicada ao Capitão América, virei-me para Bucky, sorrindo, bastante satisfeita comigo mesma.

— Doll, sei que você tem a melhor das intenções com essa ideia — deu um passo para frente, mexendo nas pilhas de camiseta e vez ou outra colocando uma sobre o braço, junto com aquela da estampa das Relíquias da Morte —, mas Steve não usa nada que sequer lembre merchandise do Capitão América.

— Hey, Buck? — continuei com o cenho franzido quando ele se virou para mim. — Se Rogers não gosta dessas camisetas, o que exatamente você está fazendo? — apontei para as várias peças em seus braços.

— Hm… — dessa vez tinha certeza de que ele estava corando. — Eu tenho uma coleção? — respondeu, mais soando como uma pergunta.

— Você tem uma coleção de camisetas do Capitão América?

Ele engoliu em seco e assentiu.

Aquilo era tão absolutamente adorável que precisei entrelaçar as mãos na frente do meu corpo para não apertar suas bochechas. Levei alguns segundos para perceber que o clima tinha ficado um pouco estranho, uma vez que Bucky obviamente estava constrangido.

— Ok, ok — assenti, dando um passo para frente e revirando as pilhas. — Então vamos achar todas que você não tem — murmurei, anaando cada uma delas. — Que tal essa? — levantei uma preta com a estampa do escudo.

Quando ele não respondeu, voltei a encará-lo. Bucky estava parado no mesmo lugar, um sorriso bobo no canto dos lábios.

— James?

Seu sorriso aumentou, então ele piscou algumas vezes e sacudiu a cabeça quase imperceptivelmente antes de responder:

— Essa eu já tenho, doll.

— Ah…

Passamos mais alguns minutos procurando, mas, ao que parece, Barnes tinha uma coleção bem recheada, e, fora as três camisetas em seu braço, não encontramos nenhuma nova. Também tínhamos desistido do presente de Steve, ao menos naquela loja, quando passamos por um manequim.

— James!

Sem pensar, ergui a mão e agarrei sua blusa. No mesmo segundo, sua mão metálica se fechou sobre a minha.

O ar ficou suspenso entre nós.

Meu coração falhou uma batida quando seus gelados olhos azuis encontraram os meus, e ambos sabíamos que ele podia quebrar meu braço inteiro apenas girando o pulso. Tão rápido quanto sumiu, entretanto, o calor estava de volta e o aperto sobre minha mão se suavizou um pouco mais.

— Sim, Doll?

— Eu… — engoli em seco, precisando de um segundo para recuperar o foco. — Eu pensei... talvez essa aqui seria um presente ótimo.

“O Captain! my Captain!” — leu em voz alta.

“The ship has weathered every rack, the prize we sought is won” — continuei.

— Walt Whitman — ele assentiu.

— Parece bastante apropriado, não? — anaei a camiseta. — Já vi Rogers lendo um livro de poesia.

— Nada te escapa, não é mesmo, dra.?

— Nada — concordei com um sorriso. — E então?

— Vamos levar.

O sorriso tão absolutamente leve que ele me deu quando voltamos para Torre fez valer a madrugada toda que precisei passar acordada revisando todas as cláusulas do contrato que Tony iria assinar na manhã seguinte.

xxx

Problemas fiscais com o dito contrato me ocuparam pelas próximas semanas de um jeito que me fazia ter certeza de que cobraria um bônus de Stark grande o suficiente para que eu entrasse na próxima edição da ta da Forbes. Estava me arrastando de volta para meu quarto, literalmente sonhando acordada com minha cama e as doze horas de sono direito que iria ter, mal sabendo se era noite ou dia, quando Mia apareceu no corredor, andando rápido em minha direção.

!

Fingindo que não era comigo, continuei arrastando os pés para meu quarto.

! Estou falando com você! Por que não atendeu o celular? E po-por que você não para de andar?

Se não estivesse tão exausta, teria feito algum comentário sobre ela precisar praticar alguma atividade física se percorrer uma distância tão pequena a deixava sem fôlego. Agora, porém, só conseguia me forçar a colocar um pé na frente do outro e tentar chegar em casa.

, é importante. Por favor!

Se ela não fosse minha melhor amiga, talvez não tivesse me controlado o suficiente para não matá-la.

— Ok — passei a mão sobre o rosto. — Ok. O que você quer?

— Faz três dias que estou tentando te perguntar o que você vai comprar para Bucky!

Alguns alarmes soaram em minha cabeça e tive a certeza de que precisava prestar atenção. Sabia que estava perdendo algum ponto interessante.

— Eu quase não converso com ele, e Steve não consegue me dar nenhuma ideia que consiga comprar neste século!

— Mia, Mia! Do que você está falando? Que presente? — as palavras saíram pastosas, enquanto usava o final de minhas energias.

Voight pareceu finalmente sair da pequena bolha de ansiedade em que estava e absorver o mundo ao seu redor.

? ? — franziu o cenho, colocando a mão sobre meu ombro de maneira reconfortante. — O que aconteceu?

— Nada. Nada — sacudi a cabeça. — Só estou cansada. Mas de que você falava? Presente?

— É — falou, bem devagar. — Steve está organizando uma festa para o centésimo aniversário de Bucky.

Centésimo aniversário? Bucky?

— Não centésimo-centésimo — balançou a cabeça de maneira condescendente. — Quer dizer, na verdade, é o centésimo-centésimo, uma vez que ele realmente nasceu em 1917, mas graças a criogenia e… bom… você sabe, ele não tem cem anos. Mas Steve achou que seria engraçado comemorar.

Ok. Ok. Agora conseguia quase ouvir as engrenagens rodando na minha cabeça. E finalmente consegui entender o significado de suas palavras.

— Quando? — engoli em seco.

— O quê?

— Que dia é a festa?

— Amanhã à noite — franziu o cenho. — Você não sabia? Devo dizer que isso não me surpreende muito. Ninguém conseguia falar com você nesses últimos dias.

Foi apenas a racionalidade arraigada que impediu o impulso surpreendentemente forte que tive de girar sobre os calcanhares e sair correndo em busca de um presente. Ao invés disso, então, respirei fundo. Precisava me ater ao plano original e dormir por pelo menos oito horas antes de fazer qualquer coisa.

— Certo — assenti, voltando a caminhar em direção ao meu quarto.

— Hey, , !

Se eu parasse de andar agora, provavelmente desabaria de cansaço ali mesmo, então apenas resmunguei um “o que foi?”, ainda de costas.

— O que eu dou de presente para ele?

— Qualquer merchan do Capitão América.

Respondi ao finalmente chegar em meu quarto, batendo a porta em seguida. Qualquer regra de boas maneiras sendo esquecida enquanto tirava os sapatos pelo caminho e me jogava na cama.

Acordei no susto. Exatamente na mesma posição de bruços em que tinha caído ontem à noite — ou será que havia sido hoje de manhã?

Passei a mão pelo rosto e tateei o bolso em busca do meu celular. Duas da tarde.

Estava faminta, mas primeiro precisava de um banho para me voltar a sentir como gente. Só depois de uma boa meia-hora na banheira e de vestir meu conjunto de moletom favorito de Harvard foi que saí caçando comida. Como não tinha tempo para desperdiçar, decidi pegar algumas barras de cereal e ir comendo pelo caminho. Felizmente meu destino não era muito longe. Dois quarteirões de caminhada e estava na porta do Little Friends. Engolindo a última barra de cereal, joguei as embalagens fora e passei pela porta.

Já tinha ouvido muitas histórias boas sobre aquele abrigo, algumas vindas até mesmo do Times, mas não conhecia nada, então estava olhando para os lados, perdida, quando uma voz animada me fez pular de susto.

— Olá!

Virando-me, encontrei uma garota nenhum dia mais velha do que vinte anos, os cabelos pretos até a altura dos ombros e um sorriso tão largo que mal cabia em seu rosto.

— Posso ajudá-la? Meu nome é Amanda, mas pode me chamar de Amy.

— estendi a mão, apertando a dela.

— E o que você procura? Veio conhecer nossos amigos? Eu mesma tenho dois cachorros, mas, se pudesse, queria mais um.

— Não sei — passei o olhar pela entrada. — Eu… queria dar um presente para um amigo. Ele… — passei a mão pelo queixo, pensando em como falar o que queria sem violar a privacidade de Bucky. — Ele é um veterano de guerra.

A expressão de Amanda se suavizou imediatamente, seus olhos demonstrando respeito e compaixão.

— Oh — assentiu. — Na verdade, acho que… talvez… Tem alguém aqui que você deveria conhecer. Me acompanha? — abriu o braço para indicar um corredor.

Nós passamos por vários animais, todos eles em espaços de tamanhos confortáveis, com tigelas para comida e água e uma cama. O que os separava de nós e uns dos outros eram portas de vidro transparente. Tudo muito limpo e bem cuidado. Passamos por vários animais adoráveis, que latiam ou miavam, animados. Precisei manter o foco em meus próprios passos para não cair na tentação de querer levar cinco daquelas criaturas fofas.

— Aqui — parou de andar.

Ao olhar para onde Amy apontava, encontrei um golden retriever sentado do outro lado do vidro, olhando-nos pacientemente.

— Ele é um cão de serviço psiquiátrico, especializado em transtorno pós-traumático. Seu dono faleceu há algumas semanas. Como Cap é altamente treinado, nós estávamos esperando alguém especial para adotá-lo. Tenho certeza que ele pode ajudar seu amigo.

— Cap? — franzi o cenho, somente agora tirando minha atenção do golden que me olhava com tanta atenção e simpatia. — O nome dele é Cap?

— Captain, na verdade.

— O nome dele é Captain? — não pude evitar a surpresa.

— Sim. Por quê? Algum problema?

— Não, Amy — sacudi a cabeça, rindo. — Na verdade, isso é perfeito. Cap é absolutamente perfeito. Podemos cuidar da papelada?

Aquele sorriso enorme voltou ao seu rosto. Cerca de uma hora — e muitos papéis e instruções — depois, Cap e eu saímos para o dia que lentamente estava se tornando noite. Precisava encontrar um petshop, inclusive para uma coleira e guia, pois, ainda que Amanda tivesse me garantido que Cap me seguiria de qualquer jeito — o que, de fato, ele fez durante todo o caminho para loja —, queria que Bucky tivesse todos os acessórios, fúteis ou não, para mimar seu novo melhor amigo.

O que não imaginava, contudo, era quão fascinante uma loja de artigos para animais podia ser. Estava basicamente levando um exemplar de cada um dos brinquedos que consegui achar, sem contar as inúmeras bandanas (incluindo todas aquelas com temas remotamente parecido com o dos Avengers), e a caminha em cores patriotas e… enfim, no final das contas, foi por isso que saí carregando duas sacolas bem pesadas. Infelizmente meu recém-descoberto hábito consumista na área de acessórios para animais domésticos não era nosso único problema. Aparentemente, além de me perder em preços, também me perdera em horas. Ali, do lado de fora da loja, definitivamente estava bem escuro e, com uma olhada rápida no relógio, descobri que estava bastante atrasada. Sendo mais precisa, a festa havia começado há dez minutos.

Precisei de um longo minuto para entrar em estado de pânico ao compreender que não teria tempo para me arrumar, e mais um momento ainda mais comprido para me acalmar e aceitar a verdade de que tinha duas opções: ou subia para me arrumar e chegava muito além do que era considerado aceitável; ou aparecia na festa do jeito que estava. Se fosse Stark quem tivesse organizado a festa, certamente essa segunda opção não existiria, pois meu querido chefinho adora usar qualquer oportunidade para dar a nova ”melhor festa que New York já viu”, mas, como era Steve o responsável, sabia que ele respeitaria o desgosto que Bucky tinha em socializar, então seria uma festa pequena.

Olhando as horas outra vez, descobri que meu momento de ponderação havia acrescentado mais cinco minutos ao meu atraso. Com um suspiro derrotado, olhei para baixo e para meu moletom preto que estampava ”HARVARD” em letras vermelhas na blusa, para minhas calças também de moletom e um tanto quanto largas, e meus adidas brancos. Eles teriam que servir.

— É, Cap — olhei para o golden que pacientemente estava sentado ao meu lado. — Vamos assim mesmo.

Não foi até que estivéssemos no elevador, a poucos andares da onde a festa estava acontecendo, que comecei a me sentir insegura. Não que estivesse preocupada com o que os outros convidados pensassem, a opinião alheia nunca me foi muito afeta. Apenas não queria que Bucky pensasse que ele não tinha importância o suficiente para que eu me arrumasse — até porque era justamente o contrário. Afinal, se quando o conhecera Barnes já penetrava em meus pensamentos a cada segundo de distração que tinha... desde que fomos naquela aventura em busca de um presente para Rogers, Bucky tinha encontrado residência permanente em meus pensamentos e fantasias.

Felizmente, quando entrei no andar, podia ouvir a música suave ao fundo e também algumas gargalhadas, mas ninguém estava muito arrumado. Wanda e Nat usavam vestidos simples e sapatos baixos, o que me deixou bem mais confortável. Abaixando-me o mais discretamente possível, olhei nos olhos de Cap, esperando que ele me entendesse ao falar:

— Hey, garoto — cocei atrás de sua orelha. — Você pode esperar aqui um pouquinho, hein? Até que eu te chame? Pode ser? Sentado — murmurei, seguindo as instruções que Amanda havia me explicado. — Fica.

Levantando-me, ainda com as sacolas nos braços, entrei na festa. Com toda a sorte que tinha, obviamente que a primeira pessoa a me ver foi Stark.

! — gritou no meio do salão, abandonando o jogo de sinuca com Sam. — Que aconteceu? Não te vejo sem um daqueles seus terninhos Chanel desde que te contratei no corredor de Harvard.

Revirando os olhos, virei-me para meu chefe

— Resolvi variar um pouquinho. Gostou?

— Admirável e rápida como sempre — estalou a língua, rindo. — Aqui — me empurrou um copo de scotch. — Você parece estar precisando.

— Sabe, Tony, lembra aquela frase que sempre te digo?

— ”Tony Stark me obriga a beber”? — sorriu, mais satisfeito consigo mesmo do que o normal, e isso dizia muita coisa.

— É. Pois é — virei o copo todo em um único gole. — Ela está se tornando cada vez mais concreta — terminei com uma careta.

Ainda ouvia sua gargalhada quando tomei a direção de onde o aniversariante estava sentado conversando com Steve, Nat e Mia.

— Hey.

Todos eles pararam de conversar, mas foi o jeito como a careta de Bucky se desfez que chamou minha atenção.

! Você veio! — Steve sorriu. — Não estava conseguindo falar com você. Fiquei com medo de que você estivesse em uma daquelas viagens para consertar as bagunças que Stark criara.

— Nem me lembre — fingi um arrepio, mas as lembranças ruins do quase acidente diplomático que Tony aprontou na França mês retrasado ainda me causava pesadelos. — De qualquer jeito, desculpe a indisponibilidade. Esses últimos dias foram bastante corridos. Mas Mia conseguiu me localizar e me informar do convite. Então… bom… cá estou. Não na melhor das minhas vestimentas, — abri os braços com certo esforço graças às sacolas, — mas muito feliz de ter sido convidada.

— Você está linda.

Todos nós viramos para encarar Bucky, que tinha arregalado levemente os olhos, como se não acreditasse no que havia dito. Rogers, como o bom amigo que era, pulou em seu resgate, murmurando qualquer coisa a Voight e Nat sobre irem buscar alguma coisa para comer, deixando-nos sozinhos.

Minhas bochechas ainda estavam meio coradas quando me sentei ao seu lado.

— Feliz aniversário, James — sentei-me ao seu lado e entreguei as duas sacolas.

— Você não precisava me comprar nada… — murmurou, ainda me encarando. — Não é realmente meu aniversário, sabe.

— Como não? — empurrei meu ombro contra o seu. — É seu aniversário mais importante, inclusive. Não é todo mundo que chega aos 100 anos, mesmo no século XXI. Principalmente tão em forma — brinquei.

— É. Suponho que você tenha razão, Doll — abaixou a atenção para as sacolas em seus braços.

— Sendo sincera, seu presente não é exatamente isso.

Curioso, ele voltou a me encarar, o cenho franzido. Sorrindo, virei para o resto do salão.

— Cap!

Sabendo o que sabia, foi absolutamente impagável ver Steve se virar quando chamei, e atrás dele, o golden virou o corredor e correu para nós. Podia dizer que, vendo os dois tão perto, existia uma boa semelhança entre os dois “Cap”. Meus pensamentos sobre isso, contudo, foram deixados em segundo plano quando aquela fofura se sentou na nossa frente.

— James, esse é Captain — sorri para o cachorro, coçando atrás de suas orelhas, antes de me virar para Bucky. — Ele…

Engoli em seco, repentinamente incerta sobre como falar sobre isso. Não porque transtorno pós-traumático fosse algum tipo de tabu, mas porque não queria invadir ainda mais a privacidade dele. Talvez devesse ter pensado um pouco mais naquela ideia.

— Ele é um cão de serviço psiquiátrico. Pensei que… bom, na verdade, pesquisei um pouco sobre…

Passei a mão pelo rosto. Para quem ganhava a vida manuseando as palavras, eu estava fazendo um serviço horrível.

Temi ter inadvertidamente ultrapassado todos os limites quando Bucky passou os segundos seguintes apenas me encarando com uma expressão inescrutável. Podia sentir o olhar de todos os nossos amigos em cima de nós dois, assistindo, apreensivos, o que viria a seguir.

Muito lentamente, ele tirou seu olhar do meu e se voltou para o Golden.

— Captain? — repetiu, rouco. — Foi você quem escolheu esse nome?

— Não — o alívio por não ter sido repudiada de imediato foi enorme, inebriante, e precisei engolir em seco. — Na verdade, esse já era o nome dele. Se acreditasse nesse tipo de coisa, diria que é o destino.

Bucky nem ouviu minha brincadeira, preocupado que estava em sussurrar coisas ininteligíveis ao cachorro enquanto acariciava seu pelo. Sentindo como se estivesse me intrometendo em um momento particular, levantei a cabeça e encontrei Steve me encarando a alguns metros. As outras pessoas tinham voltado a se ocupar com qualquer coisa, mas Rogers ainda prestava atenção. Não foi como se estivéssemos tendo uma conversa silenciosa ou algo do tipo, mas o aceno que ele me deu não poderia significar outra coisa senão aprovação.

Com um sorriso no canto dos lábios, voltei-me para Bucky, mas encontrei o lugar ao meu lado vazio. Surpresa, e um tanto quanto impressionada pela habilidade que Barnes e Cap tinha de se mover tão silenciosamente, levantei-me, procurando por eles. Não foi muito difícil encontrá-los do outro lado da porta de vidro. Com poucos passos, me juntei aos dois, tendo a certeza de puxar a porta. Imediatamente o som da festa foi abafado.

— Hey — parei ao lado, cruzando os braços. — Se importa se eu ficar por aqui?

— Não — virou a cabeça para me olhar, sorrindo. — Nem um pouco. É só que…

Nesse momento, Cap voltou correndo, na boca, uma bolinha que reconhecia como sendo uma das que tinha comprado hoje cedo. Barnes abaixou-se um pouco e abriu a mão. Obediente, Cap deixou a bolinha. Bucky esticou o braço e jogou outra vez, ao que o cachorro correu atrás de novo.

— Eu sei. Ser o centro das atenções pode ser meio sufocante às vezes.

— Exatamente.

— James, não quero que se sinta obrigado a ficar com ele se não for o que você quer.

Pensei que ele não tinha me ouvido, mas, depois de alguns segundos, falou:

— Sabe, Doll, depois que voltei do gelo, que deixei de ser controlado pela Hydra, percebi que existem coisas contra as quais a gente pode lutar, e coisas que simplesmente acontecem porque são assim que devem ser.

— Não sei se concordo muito com isso.

Minha personalidade altamente competitiva — e um tanto quanto controladora — não permitia que aceitasse aquele raciocínio.

— E tenho certeza que não entendi o que isso significa.

— Significa que estou cansado de correr.

— Correr?

Captain voltou com a bolinha e de novo Bucky repetiu o processo,

— Não sei se gosto muito desses enigmas — ri.

Ele soltou uma boa gargalhada, e eu estaria mentindo se dissesse que minha barriga não revirou de um jeito gostoso.

— Mas pensei que você gostasse de resolver quebra-cabeças, doutora — virou-se até ficar de frente para mim, também cruzando os braços.

Meus lábios se repuxaram em um sorriso. Ele me conhecia. E eu gostava disso.

Dei um passo para frente.

Seus olhos muito azuis se suavizaram e senti seu olhar descer para minha boca como se fosse um carinho. Meu sorriso se alargou e me equilibrei na ponta dos pés para encostar meus lábios nos seus.

Eu gostava muito disso.



6. Smouldering

Depois de uma pequena discussão sobre cada um pagar seu ingresso, deixei que aqueles olhos azuis me convencessem a deixá-lo comprar a pipoca e o refrigerante. Era engraçado com minha personalidade feminista do século XXI se chocava com a sua de cavalheiro do século XX.

Sempre fui aquele tipo de pessoa que quando vai ao cinema, vai ao cinema. Queria ver o filme, não queria conversar ou comentar as cenas. Bucky, por sua vez, levava essa filosofia a outro nível. Durante a primeira metade de A Pedra Filosofal, ele não desgrudou o olhar da tela, e eu, hipócrita e pateticamente, me senti deixada de lado.

Não, não, não. Aquilo não era aceitável.

Usando a desculpa de que queria me apoiar melhor para pegar do balde em seu colo, coloquei a mão esquerda sobre sua coxa e com a direita peguei a pipoca. Ao voltar a me endireitar em meu lugar, mantive a mão em sua perna. Não pude evitar o sorriso satisfeito ao senti-lo se retesar sob minha palma. Seu olhar queimou a parte do meu rosto que ele podia ver, mas foi a minha vez de manter a atenção na tela gigante. Esperei por um momento antes de fechar um pouco os dedos, aumentando o aperto.

E... nossa... Barnes... uau. Nossa. Era óbvio que ele estava em boa forma, mas colocar as mãos sobre...

Passei a língua por meus lábios secos e, ao perceber que não seria repelida, decidi ser mais corajosa e passei a também movimentar a mão em pequenos círculos.

O restante do filme foi perdido enquanto me concentrava apenas em Bucky. Em sua coxa forte, em sua respiração pesada.

Quando as luzes voltaram a se acender, levantei-me, andando um pouco a frente para lhe dar um pouco de espaço — tanto literal quanto figurativamente. Só do lado de fora da sala de cinema foi que me voltei para ele.

— Gostou do filme?

Ele piscou devagar, parecendo voltar à órbita.

— Sim, sim — assentiu, meio ausente ainda. — Bem interessante.

Mordendo o sorriso malicioso que queria dar, comentei:

— Que bom que gostou, porque ainda temos outros sete dele!

— Sete? — perguntou em um gemido estrangulado.

Dessa vez não pude evitar uma pequena gargalhada. Franzindo o cenho, ele estreitou os olhos e me analisou como se tivesse uma boa ideia do que eu estava fazendo. Como ser pega em meio aos meus estratagemas nunca foi algo que apreciei — e saber que eu estava tentando fazê-lo tomar uma iniciativa não era algo que ele provavelmente apreciaria —, dei um passo para frente e estendi a mão no espaço entre nós.

— Estou com fome. Que tal um hambúrguer?

Ele olhou para minha mão direita, tão perdido, tão incerto, que meu coração se apertou. Demorei um momento para perceber que sua hesitação era porque ele teria que usar a mão esquerda para corresponder ao meu gesto, sua mão biônica… a mão que ele cuidadosamente tinha mantido longe de mim.

Bom. Aquilo simplesmente não servia para mim.

Inclinando-me para o seu lado, entrelacei nossos dedos. Com um sorriso, tomei um momento para apenas observar nossas mãos juntas, bastante satisfeita. Ao levantar o olhar, encontrei-o outra vez me analisando, só que agora era como se aqueles olhos azuis estivessem me puxando para o infinito, para a profundeza dos mil segredos que ele trazia... tão impressionante quanto o mar.

Não percebi que estava prendendo minha respiração até que Bucky estreitou o aperto em meus dedos por um momento de maneira reconfortante e me puxou delicadamente para que voltássemos a andar. Ele não sorriu e eu não esperava por isso. Sabia que os passos lentos eram necessários, e também sabia bem quando empurrar e quando recuar. Barnes havia me deixado avançar hoje e estava agradecida por isso.

Muito agradecida.

— Doll, um dia desses você vai me deixar dirigir? — perguntou quando nos separamos para cada um ir para o seu lado do carro. — Afinal, foi você quem me sugeriu.

— Isso foi antes de eu saber dos fatos. Você por acaso tem carteira de motorista, Barnes? — arquei a sobrancelha, apoiando os braços cruzados sobre o capô do carro.

— Não… — tombou a cabeça para o lado. — Pelo menos não desse século.

— Nem do século passado, se me lembro bem.

O sorriso esperto que ele deu de lado o fez parecer muito mais leve, e tive certeza de que aquele era um raro momento em que alguém tinha a sorte de vislumbrar o Bucky de antes da II Guerra.

— Ah, você lembra…

— Lembro de tudo, James — dei-lhe uma piscadinha.

— Vou manter isso em mente, Dra.

— Além disso, — acrescentei, chegando um pouco para trás para abrir a porta, — sou uma mulher da lei. Não posso compactuar com esse seu espírito transgressor.

— Um pouquinho irônico vindo de quem passa 12 horas do dia tentando evitar que Tony Stark coloque fogo no mundo como conhecemos.

Abri a boca, em uma falsa careta indignada.

— Que absurdo! Pois quero que você saiba que eu não passo 12 horas fazendo isso — coloquei uma perna para dentro do carro. — Faço isso vinte e quatro horas por dia.

Mesmo com a porta fechada, pude ouvir suas gargalhadas, e, em resposta, meu sorriso se alargou.

Em um silêncio gostoso, fizemos o caminho até a lanchonete com temática dos anos 50 que havia encontrado depois de uma pesquisa detalhada na internet. Os comentários eram muito bons, mas ainda estava nervosa — mesmo que não admitisse isso nem para mim mesma — para que Bucky não se decepcionasse.

Assim que passamos pela porta, a música na voz arrastada de Elvis nos envolveu, minha atenção, contudo, estava em Barnes. Ele olhou de um lado para o outro, a expressão inescrutável como sempre, e fui ficando cada vez mais nervosa. Quando, porém, finalmente se virou para mim, havia um sorriso em seus lábios.

Não um daqueles de canto de boca que, apesar de ser um charme, não eram tão bonitos quanto o que eu presenciava agora. Não. Era um sorriso completo, mostrando todos os seus dentes perfeitos e iluminando seu rosto.

— Suspeito que não paramos aqui por acaso, não?

— Talvez…

— Doll, eu gostei.

— Fico feliz.

— Então acho que não precisa mais tentar triturar meus dedos — murmurou, tentando conter o riso.

— Oh! — pulei para o lado, soltando sua mão.

— Pensei que nada pudesse envergonhar você, Dra — passou o polegar sobre minha bochecha obviamente vermelha.

Com uma careta, estapeei sua mão para longe.

— Vamos sentar, espertinho.

— Você sabe que eu não cheguei a realmente ver os anos 50, certo? — comentou quando nos acomodamos um de frente para o outro em nós assentos acolchoados de uma das mesas.

— A culpa não é minha se você é de uma época não tão charmosa.

Eu não sou de uma época charmosa? — repetiu, incrédulo. — Já viu o tipo de música que eles tocam hoje em dia? Escutei no shopping uma que envolvia algo sobre lambuzar alguém de manteiga de depois chicoteá-la com uma... — inclinando-me para frente, cobri sua boca com a minha mão.

— Ok, ok. Já entendi seu ponto.

A diversão dançou em seus olhos.

— E não estava falando sobre a minha época, apenas que os anos 40 não inspiraram muitas lanchonetes.

— Ok, Doll. Se você diz — concedeu, condescendente.

Fui poupado de ter que lhe dar uma resposta quando a garçonete parou ao nosso lado.

— Boa noite — entregou um cardápio para cada um de nós. — Volto daqui a pouco para anotar os pedidos, ou vocês já estão prontos?

Como era uma mulher de hábitos, assenti:

— Vou querer um x-burger, uma porção de fritas e um milkshake de chocolate.

Ela anotou tudo e se virou para Bucky.

— Para mim o mesmo, só que tudo em dobro.

— Hmm… ok. Volto já com o pedido de vocês — recolheu os cardápios que nem tivemos tempo de olhar antes de voltar para detrás do banco.

— Você tem certeza de que vai comer só isso? — brinquei.

Barnes tomou a pergunta à sério e parou por um momento para coçar o queixo e murmurar depois de alguma ponderação:

— Qualquer coisa depois peço mais.

Sacudindo a cabeça com uma risada, decidi mudar de assunto:

— E como você e Cap estão se virando?

— Depois de dois dias de convivência percebi que teria que deixar bem claro para Steve que o chamaria sempre de Steve.

— Por quê? Os dois respondiam? — ri, lembrando do que aconteceu quando chamei o cachorro na sua festa.

— Toda vez — assentiu, sério. — Tirando isso, contudo, está tudo certo. Ele é ótimo. Obrigado.

— Você sabe que não precisa me agradecer todas as vezes, certo?

Ele sorriu de novo e passou a contar todos os truques que descobriu que Cap sabia fazer. Interrompemos nossa conversa apenas para receber nosso pedido, voltando logo ao assunto que fluía tão fácil. Fiel à sua ponderação anterior, Barnes realmente precisou pedir mais dois sanduíches antes de se dar por satisfeito. Na hora de pagar a conta, de novo precisei brigar para pagar por minha parte. Diferente do que aconteceu no cinema, entretanto, à nossa discussão, seguiu-se um silêncio esquisito.

Durante todo o caminho de volta, fiquei analisando e reanalisando o porquê de um momento tão gostoso ter se desvanecido em silêncio gelado. O problema é que quanto mais pensava, quantos mais quilômetros o carro vencia na noite de New York, mais brava eu ficava porque só conseguia chegar à uma conclusão possível. Quando estacionei e saímos, estava fumegando de raiva e trinquei os dentes enquanto o largava para trás, andando a passos rápidos para o elevador.

Não queria falar sobre o que estava fritando meu cérebro. Não agora. Não quando estava envolvida demais para conseguir ter uma conversa racional em que eu pudesse ganhar. Não quando a conclusão a que tinha chegado conseguia me afetar tanto, porque isso me obrigava a pensar sobre outra coisa… sobre o exato motivo porque me decepcionar com Barnes era uma verdadeira porcaria.

Meu plano de me acalmar e só depois procurar Bucky para lhe dizer exatamente o que eu pensava, entretanto, foi despedaçado pela súbita parede de mais de um metro e noventa de puro músculo de super soldado que se colocou na minha frente.

— Dra.? Que aconteceu?

E porque aparentemente Barnes reduzia a pó minha pose de durona, aquilo foi suficiente para que eu explodisse:

— O que aconteceu? — repeti. — O que aconteceu é muito simples, Barnes — percebendo que soava um tanto quanto histérica, parei por um momento, respirando fundo e passando a mão sobre o rosto. — Não somos crianças, então acho que precisamos deixar algumas coisas bem claro. Sei que o mundo era bem diferente nos anos 40. Entendo e respeito esse fato, mas não sou obrigada a aceitar isso. Assim, se você espera uma mulher que vai abaixar a cabeça para tudo que você quer, podemos estabelecer que nós dois seremos só amigos. Sem ressentimentos.

Ele franziu o cenho, o que me fez continuar falando:

— Se toda vez que formos sair, eu precisar levantar os mesmos argumentos sobre pagar a minha metade, nós não vamos a lugar nenhum, tanto literal quanto figurativamente. Se você quer alguém que fique em casa, que te deixe tomar todas as decisões, eu não julgo. Entendo seus motivos. Cada um prefere o que prefere. Mas eu não sou essa mulher. Não quero e não preciso que você me sustente. Não quero e nem vou deixar que mande em mim — ergui o queixo, orgulhosa.

Barnes permaneceu imóvel por um momento depois que terminei meu pequeno discurso, então sua expressão endureceu. Mais sério do que jamais o tinha visto, ele avançou. Não tenho vergonha de dizer que meu instinto me fez recuar um passo a cada um que ele avançava. Como a porcaria de um clichê, entretanto, não demorou muito até que estivesse com as costas contra a parede.

— Você realmente acha que eu quero reprimir você, Dra.? — sussurrou, inclinando-se um pouco para frente até que seu hálito de menta estivesse batendo em minha boca. — Que eu quero reprimir essa força da natureza que você é? Acredita que eu seria tão babaca assim?

Sua mão biônica subiu até minha cintura, apertando-a não para machucar, mas o suficiente para chamar minha atenção.

E para que um arrepio descesse por minhas costas.

— Sei que algumas coisas mudaram durante os anos em que passei no gelo, mas existe algo que sempre vai ser igual — inclinou-se mais, seus lábios tocando os meus a cada palavra. — Quer saber o que é, Doll?

Não sei como consegui assentir, mole que estava com todas as sensações inebriando meus sentidos.

— Garotos são diferentes de homens. Não importa em qual ano estamos.

Mais um passo e podia sentir seu corpo forte pressionar o meu contra a parede. Cada terminação nervosa que eu tinha estava gritando, formigando de prazer, de antecipação.

— Eu sou um homem — desceu a mão para minha bunda, apertando, impulsionando-me para frente e para cima.

Ergui a perna direita e passei por sua cintura. Sua ereção se encaixou perfeitamente onde eu queimava de desejo por ele.

— Não me sinto diminuído porque você pode pagar por sua parte, não me importo que seja você quem dirige o carro. Tudo que você pode fazer, Doll… tudo que você faz, me impressiona.

Empurrou o quadril para frente e eu gemi.

— Não quero uma mulher que abaixe a cabeça para mim. Quero você. Rápida, ríspida, arisca, inteligente e sexy do jeito que só você é. Entendeu?

Dessa vez assenti quase que imperceptivelmente, excitada demais para raciocinar. Satisfeito com minha resposta, Barnes me beijou do jeito que estava esperando há dias. Sem hesitação, confiante, quente e duro. Suspirando, subi a mão para seu cabelo, agarrando o que podia apesar do coque baixo que ele tinha feito. Quando Bucky se afastou, como um imã, tentei segui-lo, mas um puxão firme em meu couro cabeludo me fez parar. Não doeu, mas foi efetivo para que eu abrisse o os olhos, surpresa.

— Um momento, Doll — estalou a língua, um pequeno sorriso no canto dos lábios. — Como estamos sendo honestos, preciso que saiba de mais uma coisa. Eu adoro a mulher que você é. Tão surpreendente e dona de si. Mas… dentro do quarto, — pontuou, a voz aveludada agora mais sombria e tão séria, — quem manda sou eu. Pode aceitar isso? Ou, se você espera um cara que vai abaixar a cabeça para tudo que você quer, podemos estabelecer que nós dois seremos só amigos. Sem ressentimentos — jogou minhas palavras de volta contra mim.

Aquilo soava mais tentador do que eu poderia explicar. Senti-me como um marujo sendo seduzido pelo canto de uma sereia: sabendo que poderia ser o fim, mas saboreando cada instante.

— Sim, sim — sussurrei, sacudindo cabeça. — Me beije, James.

— Ah! — estalou a língua, puxando um pouco mais meu cabelo, fazendo com que eu inclinasse mais. — O que foi que acabei de te dizer, Dra.? Peça direito.

A última parte veio firme, autoritária, e eu poderia ter gozado apenas com sua voz e o jeito como balancei o quadril para conseguir algum tipo de fricção. Não querendo decepcioná-lo, contudo…. a verdade, mais do que isso, querendo obedecer, passei a língua por meus lábios inchados e repentinamente secos para murmurar:

Por favor, James, me beije.

Abriu um sorriso preguiçoso, satisfeito, convencido e, tão, tão pecaminoso. Minha calcinha, que já estava encharcada, tornou-se definitivamente arruinada.

— Muito bem.

Em um movimento rápido passou os braços por debaixo de minhas coxas, levantando-me. Apoiando as mãos em seus ombros, com o coração disparado para além do que poderia ser considerado normal, e com a excitação acumulada por dias finalmente chegando ao cume, esperei.

— Oh Doll — encostou os lábios contra minha orelha, sussurrando.

Tremi em seus braços, mordendo o lábio inferior para não gemer alto.

— Vou fazer muito mais do que te beijar.



7. Glowing

Poucas pessoas podiam dizer com verdade que conseguiram me intimidar. Meu professor de processo penal no segundo ano em Harvard era uma delas, meu pai também é, às vezes, Teresa também conseguia me colocar certa apreensão. Um rol pequeno de pessoas, portanto. Nenhum juiz, promotor ou advogado tinha conseguido esse feito, nem mesmo nenhum cliente ou pessoa que eu estava processando. Era corajosa, e me orgulhava bastante disso. Não que fosse suicida ou coisa do tipo. Eu certamente não corri para o meio dos aliens na Batalha de New York nem nada parecido, mas era raro alguém conseguir gravar o nome na lista de pessoas de quem eu com certeza não queria encher o saco.

A dupla sentada no sofá à minha frente, entretanto, havia conseguido essa façanha.

Engolindo em seco, e retorcendo as mãos nervosamente na frente do corpo, resolvi quebrar o silêncio:

— Então… — estendi a palavra. — Você me chamou aqui?

Steve Rogers cruzou os braços e se acomodou melhor no sofá, muito sereno, nenhuma emoção em seu rosto perfeito. Cap, sentando no seu lado, estava igualmente imóvel e atento. Era quase como ficar de frente com um pelotão de fuzilamento, a diferença era que eles eram bem mais agradáveis aos olhos do que qualquer carrasco.

— Percebi que Bucky e você estão cada vez mais sérios.

Sabia que aquele era o assunto — afinal, o que mais seria? —, mas ouvir em voz alta tornava tudo bem mais real, o que me deixava ainda mais nervosa por ter que desbravar um caminho desconhecido.

— Sim — limpei a garganta e voltei a repetir com mais firmeza. — Sim.

Os próximos segundos foram preenchidos por silêncio, e tive a certeza de que Rogers poderia fazer uma dupla com Nat e interrogar os figurões da CIA para descobrir quem realmente matou o Kennedy. O jeito como não usava palavras para construir a antecipação, como sem dizer nada podia fazer com que alguém se contorcesse, era impressionante. Quase tinha vontade de confessar aquela vez em que tomei o whiskey do papai e coloquei a culpa em Ree, ou todas as outras coisas erradas que já fiz na vida.

— Não quero que pense que chamei você aqui para algum tipo de… não sei como dizer. Não estou tentando interferir.

Não estava? Então ele estava fazendo um péssimo trabalho, pois certamente parecia uma intervenção. Apesar disso, precisava apontar que continuava achando Steve Rogers a personificação de todos os valores que a América queria transparecer, mesmo quando sabia que ele estava prestes a, figurativamente, pular na minha jugular. Não era à toa que ele foi o garoto propaganda para arrecadação de fundos na II Guerra. Eu estava do lado dele, mesmo quando o outro lado era o meu lado.

Sacudindo a cabeça quase que de maneira imperceptível, tentei voltar ao foco.

— O que estou dizendo, é que eu me preocupo — lançou um olhar de canto de olho para o Golden ao seu lado. — Nós nos preocupamos com ele — acrescentou rapidamente.

— Okay…?

Também poderia acrescentar às peculiaridades daquele dia o fato de eu ter ficado sem saber o que dizer. Não era acontecimento comum.

— Bucky, ele… ele já passou por muita coisa, . Muita coisa.

Podia ver o esforço que era para Steve falar aquilo, como se ele mesmo estivesse sofrendo tudo sobre o que falava. As palavras eram arrancadas de sua garganta como resultado de um pensamento de que ele não conseguia se livrar.

— Eu só quero ter certeza — inclinou-se para frente, os cotovelos sobre os joelhos — de que você tem certeza.

— Que eu tenho certeza de quê? — franzi o cenho, confusa.

— De que é isso que você quer. Você e Bucky — esclareceu depois de um momento. — É isso que você quer?

Aquela era uma pergunta para a qual eu não precisava pensar na resposta. Sabia que a primeira coisa para conseguir o que queria, era saber e admitir isso.

Eu sabia e admitia que queria James Barnes.

Rogers, todavia, falava com tanta seriedade que fazia qualquer um decidir que seria melhor tomar um momento para ponderar sobre o assunto, então respirei fundo e deixei que minha mente pensasse no que ele perguntava e só nisso.

Procurei uma resposta e a primeira coisa que surgiu foi o rosto de James e o jeito como ele sorriu para mim quando o levei naquela lanchonete temática dos anos 50. E a certeza que tinha antes pareceu ainda mais sólida, então tive a certeza de olhar em seus olhos quando falei, firme:

— Sim, é exatamente isso.

Literalmente foram poucos segundos, mas os senti intermináveis. Apertei o braço do sofá entre meus dedos tão firme que todo meu braço direito doía por segurar a tensão ali. Quando finalmente um sorriso satisfeito acabou com a expressão séria.

— Eu sabia. Eu sabia. — Steve então se virou para Cap e lhe fez um carinho atrás da orelha ao murmurar.

O Golden, por sua vez, limitou-se a soltar um latido, satisfeito pela atenção. De repente, ele se levantou e, como ficar na desvantagem nunca foi algo que me caía bem, também deixei o sofá.

, — coçou a nunca, oferecendo-me um sorriso sem graça, — quero pedir desculpas se pareceu que eu estava ultrapassando algum limite. Para deixar claro, Bucky não sabe que eu estou aqui. Se soubesse, nunca permitiria que eu te encurralasse desse jeito. É só que… ele é meu irmão e já passou por tanta coisa. Precisava… bom..

— Tudo bem — interrompi o mais delicadamente possível. — Está tudo bem. Eu entendo.

Com uma troca de sorrisos daqueles que as pessoas dão quando não sabem mais o que fazer, cada um deu um passo para o um lado, pretendendo ir embora. Captain, muito fielmente, colocou-se ao lado de Steve. Com muito mais agilidade do que eu, eles já estavam na porta da sala quando Rogers virou para mim.

— Você é uma boa pessoa, . Uma boa pessoa com uma personalidade muito forte. Traços que respeito e admiro, mas existe muita gente que não concorda comigo.

Agora definitivamente parecia que eu tinha entrado em uma realidade alternativa. Não querendo pular na conclusão de que estava sendo ameaçada — até porque, apesar das palavras meio bizarras, aquele era o Capitão América, o cara que ninguém nunca tinha presenciado falar um palavrão sequer — resolvi perguntar:

— E onde exatamente você quer chegar com isso? — não pude evitar que o tom saísse com aquela dose de hostilidade que calculadamente colocava cada vez que interrogava uma testemunha.

Steve soltou uma pequena risada, sacudindo a cabeça e levantando as mãos em rendimento.

— Só queria sugerir que talvez você quisesse ter algumas aulas de autodefesa, caso não saiba o básico para se defender

Meu orgulho geralmente me impedia de admitir não saber das coisas, mas aquela era uma exceção que estaria feliz em abrir.

— Você está se oferecendo para me ensinar autodefesa?

Melhor esclarecer as coisas, afinal, tratava-se de um dos homens mais requisitados do mundo. Duvidava que ele tivesse tempo para doar à pessoa com a qual que até esses dias tinha trocado um total de aproximadamente quinze palavras.

— Sim — assentiu. — A não ser que você prefira que eu peça a um dos agentes para fazer isso. De qualquer jeito, — franziu o cenho, sério, — acredito que seja importante que saiba se defender, mesmo que não seja comigo.

Se fosse qualquer outra pessoa que tivesse oferecido, não hesitaria em afirmar que aquela sugestão era mero estratagema para me espionar, para ter a certeza de que eu estava falando a verdade sobre Barnes e sobre… ser real. Como era Steve Rogers, entretanto, eu sabia que ele estava apenas tentando me ajudar, e provavelmente também tentando se aproximar, não com intenções escusas, mas para conhecer melhor o que provavelmente considera o mais perto de uma cunhada que ele teria.

— Ficaria muito agradecida se pudesse me dar aulas de autodefesa, Capitão Rogers.

— Ótimo. Podemos combinar os detalhes depois. Te mando uma mensagem através daquele aplicativo.

Aquelas últimas palavras foram pensativas e no mesmo tom de quem estava ponderando sobre como amarrar um pergaminho na perna de um pombo correio. E eu que pensava que Mia tinha exagerado sobre a dificuldade que ele tinha com um celular. Mordendo uma risada, acenei com a mão.

Aquela certamente foi uma conversa — com várias reviravoltas — bem interessante.

xxx

— Você nunca vai adivinhar quem se ofereceu para me ensinar defesa pessoal! — comentei ao entrar no seu quarto; mal chegando na metade do caminho até o canto onde ele estava sentado no sofá antes de me livrar do Dior de dez centímetros que eram absolutamente divinos, mas que se tornaram objeto de tortura medieval ao longo do dia no escritório.

Soltei um suspiro de alívio quando, ao tocar o chão, não mais havia aquela pressão horrorosa no meu calcanhar, mesmo que a dor acumulada ainda estivesse ali. Como ele sempre fazia quando conversávamos, Bucky imediatamente me deu toda sua atenção, colocando o livro que lia ao lado, sobre o braço do sofá.

— Quem? — perguntou, genuinamente confuso, afinal aquele não era nem remotamente parecido com os tópicos com que eu geralmente começa nossas conversas.

— Steve — respondi, sentando-me ao seu lado.

— Steve? — não tirou seu olhar do meu rosto, mas segurou meus pés, um de cada vez, pelo tornozelo e os colocou sobre sua coxa.

— Sim el-Ohh — perdi a linha de raciocínio, soltando, ao invés, um gemido pelo prazer que seus dedos criaram ao massagear meus pés. — O que estava di-Ah, sim. Pois é. Steve se ofereceu para me ensinar alguns golpes, nem que seja para o mínimo de autodefesa. Achei uma boa ideia.

Bucky desviou o olhar e estava claramente tentando morder um sorriso.

— Que foi? Hey, James — com o pé que ele não estava massageando, empurrei sua coxa. — Que foi?

— Nada, dra., nada — sacudiu a cabeça, ainda rindo. — Só estava imaginando quão exausta você vai estar depois.

— Eu faço ioga — meu orgulho me forçou a protestar. — Não sou sedentária.

— Você já viu alguma das sessões de treinamento dele?

Quando me mantive calada, torcendo os lábios em desagrado, ele acrescentou:

— Foi o que pensei.

Sua mão subiu por meu calcanhar e panturrilha, lento e contínuo, trazendo arrepios por toda minha pele e um suspiro para meus lábios.

— Está tudo bem, Doll. Eu vou estar aqui para lhe fazer uma massagem — seus dedos se apertaram mais em minha panturrilha e soltei outro gemido. — Você gostaria disso não?

Mal percebi que tinha deslizado mais no sofá até estar deitada sobre as almofadas confortáveis. Bucky conseguia me distrair como ninguém.

— Doll? — um pequeno beliscão em meu tornozelo me tirou de minhas divagações. — Você sabe que não gosto de me repetir.

Com aquelas palavras ditas em voz profunda, de comando, o clima no quarto mudou. Não mais leve como há segundos, mas pesado, quente. Passei a língua por meus lábios secos, abaixando meu olhar para sua boca, tentando esconder o desejo que certamente anuviava meus olhos. Era preocupante o quão fácil ele conseguia mexer com meus sentidos, excitando-me.

— Doll — dessa vez não havia pergunta, apenas um aviso não tão sutil.

Não, ele não gostava de se repetir.

— Sim — respondi finalmente. — Eu gostaria muito disso.

— Por quê?

E aqui estava aquele seu lado que adorava me provocar… me torturar com palavras ditas em um tom baixo e com toques firmes.

— Porque gosto quando me toca — as palavras saíram em um sussurro por meus lábios trêmulos.

— Quando eu te toco? — tombou a cabeça para o lado, analisando-me atentamente. — Assim? — subiu a mão por minha coxa e por dentro da minha saia até alcançar a renda de minha calcinha.

Movendo-se como a graciosidade de um gato, posicionou uma das pernas entre as minhas, e, apoiando a mão ao lado da minha cabeça, inclinou-se para frente até que seu corpo cobrisse o meu.

— Sim — respondi, tentando manter o foco, apesar de seus dedos terem agora afastado o pano.

— Tsc, tsc — estalou a língua, um brilho malvado no olhar. — Não é verdade. Não é assim que gosto que a toque. Não tão lento, não tão suave — como que para ilustrar suas palavras, passou o dedo devagar pelo lábio exterior de minha intimidade, quase como se estivesse acompanhando o contorno. — Mas é assim que às vezes eu gosto — abaixou a cabeça e fechou os lábios no lóbulo de minha orelha, sugando. — E você gosta de me agradar, — desceu a boca por meu pescoço, — não é mesmo?

Sim! — repeti aquela que parecia ser a única palavra restante em meu vocabulário, minhas mãos pousaram em seu ombro, fincando as unhas.

Bucky se afastou um pouco e podia imaginar a visão que lhe proporcionava. O peito subindo e descendo em respiração entrecortada, os cabelos espalhados em todas as direções sobre o sofá branco e o rosto enrubescido pelo desejo. Esperava que lhe atraísse tanto quanto seu peito nu e seu cabelo macio, mesmo escapando do coque baixo, me atraíam. Sabia que ele podia sentir minha umidade em seus dedos.

Com a antecipação me consumindo aos poucos, levei a mão aos botões para tentar abrir minha blusa branca. Imediatamente dedos fortes se fecharam sobre os meus, abandonando o caminho que fazia até meu clitóris.

— Por acaso eu te disse para fazer isso, Doll?

Engolindo em seco, queria chorar de frustração quando sacudi a cabeça em negativa.

— Também não te disse para sair sem sutiã — seu olhar desceu para meu peito e pude sentir como meus mamilos se endureciam ainda mais

Certamente eles estavam bastante visíveis sob a camiseta.

Soltou minha mão, mas não tive coragem de tentar me despir outra vez.

— E-eu… — as palavras sumiram — eu estava com um casaco p-por cima.

— Posso ver seus bonitos seios e esses mamilos… hmm… — abaixou a cabeça até estar a centímetros deles. — Tenho vontade de… — interrompeu a conversa que parecia estar tendo consigo mesmo para passar a língua por um de meus mamilos, por sobre a camiseta.

Antes que pudesse perguntar ele estava fazendo, Bucky fechou os lábios e passou a sugar. A seda não fazia nada para impedir as sensações. Ao contrário, deixava aquela experiência ainda mais erótica… única. Arqueando as costas, gemi. Depois de um momento, Barnes passou para o outro mamilo, repetindo o mesmo tratamento delicioso em sua intenção de me enlouquecer.

Depois de me ter contorcendo embaixo de si, James levantou a cabeça e me beijou por longos minutos enquanto suas mãos passeavam por minha cintura e minhas coxas.

— Sabe por que não quero que tire a blusa? — passou o polegar sobre o tecido que se aderia ao meu mamilo graças a umidade que sua boca deixara. — Porque eu gosto de te ver assim, como ninguém mais vê. Longe da perfeição profissional que sempre apresenta — sugou meu lábio inferior, puxando-o de leve entre os dentes. — Longe do que todo mundo vê.

Não conseguia me comunicar de maneira coerente; só o que fazia era percorrer minhas mãos por suas costas, deixando minhas unhas marcarem a pele ali. Bucky subiu minha saia até que ela estivesse embolada em minha cintura.

— E só eu te vejo assim, não é, Doll? Só eu te deixo assim.

— Sim, sim. James, por favor.

Gostaria de pensar que foi meu pedido que o fez tirar minha calcinha com um puxão que a arruinou para sempre, mas sabia que foi o jeito como disse seu nome. Ele tinha um fraco por isso. E eu sabia os momentos oportunos para me aproveitar disso.

Afastou-se um pouco e soube que ele estava abaixando a calça. Queria abaixar o olhar e tomar um momento para apreciar toda a perfeição que Bucky Barnes era, porém, seus olhos azuis prendiam minha atenção, quase me desafiando a desviar o olhar. Desafiando e prometendo uma punição. Quase cobri sua aposta, apenas para saber o que ele faria. A ideia de punição era doce e tentadora, mas temia que ele se afastasse — e aquilo não era algo que poderia suportar no momento. Guardando a ideia de rebeldia para a posterioridade, afastei mais as pernas para melhor acomodá-lo. Apoiando o antebraço esquerdo ao lado de minha cabeça, e, usando a mão direita, ele trouxe sua ereção para perto, passando a cabecinha em meu clitóris.

Tremi. Novas ondas de prazer irradiavam dali para todo meu corpo.

Afastou-se de novo e imaginei que estava colocando um preservativo. Ao voltar, para perto, Bucky abaixou a cabeça até encostar a boca em meu ouvido, deslizando os lábios a cada palavra:

— Só eu sei o quanto você gosta quando falo sujo com você, quando te coloco de joelhos sobre a cama e te como por trás. Ou no chão.

Dizendo isso, estocou para frente. Mesmo tão úmida, mesmo tão excitada, senti-o queimar por cada centímetro dentro de mim. Fechando os olhos com força, gemi, apertando-me contra ele.

— E só eu vou saber — em nenhum momento parou de se mexer para frente e para trás. — Porque sou o único que vai saber como você gosta rápido e duro. Assim.

Aumentou a velocidade das estocadas.

— E como você gosta quando eu aperto o seu botãozinho — colocou a mão entre nós e deslizou o indicador por meu clitóris antes de, usando também o polegar, fechar o aperto em um beliscão. — Assim.

Foi aquilo que finalmente me fez dar o passo final. Suas palavras, o jeito como ele me preenchia tão completamente, sua boca mordiscando minha orelha, a espera, o tesão. Tudo me levava àquele momento em que minha visão tinha dado uma leve escurecida, minha pele formigava e meus dedos se curvavam e… e eu gozava e gozava, no que provavelmente era o orgasmo mais forte que já tinha tido até agora.

— Adoro quando você me aperta assim.

Ao longe, pude ouvir a voz estrangulada de Bucky enquanto ele continuava com mais algumas estocadas antes de também explodir dentro da camisinha.

Quando desci das alturas, passei a acariciar as costas de Bucky, esperando que o efeito de seu orgasmo também se desvanecesse. Com as pálpebras pesadas, levantou a cabeça para me olhar e ganhei um beijo rápido nos lábios antes de ele se levantar para se livrar do preservativo. Ao voltar, me ajudou a tirar a blusa e a saia, colocando, com bastante paciência e delicadeza, uma de suas camisas que pegara no armário, em seu caminho de volta do banheiro. Depois de ter a certeza que eu estava confortável, vestiu a cueca que usava antes. Sonolenta, deixei que me carregasse até a cama.

— Hmm… — gemi de contentamento ao sentir seu braço em minha cintura e sua respiração contra meu cabelo.

Estava quase totalmente envolta na inconsciência do sono quando algo importante me fez empurrar o limite entre acordada e dormindo para lhe falar:

— James?

— Sim?

— Como estão seus pesadelos? Ainda estão frequentes?

Alguns segundos se passaram e pensei que ficaria sem resposta. A exaustão já tinha quase me vencido quando o ouvi dizer quase de maneira reverente:

— Eles nunca aparecem quando você está aqui, Doll. Nunca.

A última coisa que me lembro foi de seu braço me apertar ainda mais contra si… e de estar bastante contente.

8. Sizzle

Um dos traços de minha personalidade que eu não apreciava tanto era o jeito como não precisava de muito para que uma ideia se tornasse fixa. Isso era muito útil em alguns momentos — afinal, tinha certeza que era minha teimosia, mais do que os milhões que ganhava, que me fazia continuar arrumando as lambanças de Stark —, mas havia outros, como agora, que pensava que poderia enlouquecer graças as milhares de vezes que a mesma coisa voltava a minha mente.

Por essa detestável obsessão, que conseguia desenvolver com não muita dificuldade, é que agora me perdia entre um parágrafo e outro do contrato que deveria estar avaliando. Batendo a caneta repetidas vezes em um tique nervoso que mal percebia, ao invés de juros e impostos, ponderava sobre como exatamente poderia conseguir uma punição de Bucky.

Bom… não exatamente isso.

Conseguir uma punição não era difícil, afinal, Barnes adora repetir sobre como era exatamente aquilo que esperaria por mim caso não obedecesse suas ordens no quarto.

Não.

O truque era conseguir uma punição sem que ele percebesse minhas intenções. Afinal, queria a emoção daquela experiência, não que ele me deixasse sem gozar pela maior parte da noite. Precisava ser algo na medida. Não sensível demais para que eu ficasse sem uma resposta “enérgica”, nem capaz de cruzar uma linha de onde eu não pudesse retornar.

Aquela pequena charada é que consumia meu tempo.

Depois de mais alguns minutos sem uma resposta, e chegando ao ponto de irritar com o tic-tac que eu mesma estava fazendo ao apertar incessantemente o botão da caneta, soltei um muxoxo irritado. Frustrada comigo mesma por perder tanto tempo — e concentração — com aquele tema, usei toda minha força de vontade para me focar no que realmente precisava de minha atenção.

Foi só acabar o que pretendia fazer no dia de trabalho de hoje, entretanto, que lá estava de novo aquele pensamento. Acompanhou-me enquanto apagava as luzes, enquanto descia pelo elevador, e estava lá quando decidi que merecia um combo de fast-food — ou talvez tenha sido justamente por causa disso que fui até o McDonald’s da esquina.

Com a bolsa sobre o ombro e abraçando a embalagem para viagem, voltei à Torre caminhando e comendo batata frita. Fazia tudo isso no automático, no entanto, a mente ainda embalada em bolar um plano.

Ciúmes era uma coisa infantil e mesquinha. Não me apetecia. Não tinha paciência para esse tipo de coisa.

Também não podia ser algo desencadeado já no quarto porque, verdade seja dita, não tinha autocontrole suficiente para seguir um plano quando ele estava me tocando. Era só Barnes colocar as mãos em mim e já estava tremendo

Não, não. Eu definitivamente precisava de algo que começasse em território neutro e terminasse no quarto — de preferência resultando em alguns orgasmos.

Tão concentrada estava, só percebi ter percorrido todo o caminho de volta para o andar quando Sam pulou na minha frente.

— Hey, !

Seu tom excessivamente animado me disse imediatamente que logo viria algum tipo de pedido. Ele usava a mesma tática de Stark. Era de se imaginar que os dois já teriam aprendido que isso não funcionava comigo. Pelo amor ao debate, todavia, respondi:

— Olá, Sam. Como vai?

— Com fome. Sobrou alguma coisa aí? — usando toda delicadeza que um amigo com intimidade suficiente podia reunir quando estava com fome, Wilson pegou a embalagem e tirou o sanduíche embalado que tinha comprado. — Ah! Você é maravilhosa!

Um tanto quanto estarrecida, observei, em silêncio, meu amigo, bem rápido e em algumas mordidas, devorar o que seria meu jantar — e minha comida conforto.

— Nossa, . Isso tava ótimo — colocou a mão em frente à boca para comentar enquanto terminava de mastigar. — Mas eu ainda estou com fome!

— Pois é — cruzei os braços, arqueando a sobrancelha. — Eu também. E esse era meu jantar.

— Jantar? Isso é, no máximo, um aperitivo. Já viu o tamanho? Não o suficiente — sacudiu a cabeça solenemente.

Soltando um suspiro para manter paciência, falei:

— E o que exatamente você propõe que façamos para contornar essa situação?

— Alguém já te disse, , que você usa palavras floreadas até quando está de folga?

— Alguém já te disse que nem todos somos fãs que estão morrendo para lhe dar comida? — para deixar meu ponto claro, apesar de não ter muito efeito, arranquei a embalagem vazia de suas mãos e saí andando. — Desde que aquela garota te ofereceu um combo do Harris’, você acredita que é algum tipo de Deus para o qual todos querem fazer oferendas alimentícias — bufei, caminhando para a cozinha.

— O quê! — podia ouvi-lo me seguir. — Eu não penso isso. E aquela adorável dama no Harris’ não foi a única que me ofereceu comida. Inclusive, quero pontuar que as pessoas gostam de me dar comida.

— “Adorável dama”? — olhei por cima do ombro ao colocar a bolsa sobre a mesa e jogar a embalagem no lixo. — Você está passando tempo demais com Steve.

— Eu me esforço. Sei que você gosta desse tipo de linguajar.

Soltei uma risada ao vê-lo mover a sobrancelha sugestivamente seguido por uma piscadela. Sacudindo a cabeça, virei-me para a geladeira, caçando os ingredientes que precisaria.

— Além do mais, — voltei a falar ao colocar as coisas sobre a ilha, — talvez as pessoas não gostassem tanto de te dar comida se você não postasse todo esse amor no Instagram. O tempo todo.

— Hey! As coisas boas da vida devem ser apreciadas. Falando nisso, o que você está planejando fazer?

Parei de tentar abrir o pacote de macarrão para lhe lançar um olhar de incredulidade.

— Por quê? Está planejando furtar meu jantar de novo?

— Achei sua colocação um tanto quanto ofensiva — murmurou com aquela cara lavada de sempre. — Mas não ficaria triste se você decidisse compartilhar um pouquinho com seu melhor amigo. Afinal, todos sabemos que esses momentos raros em que alguém consegue pegar dra. cozinhando devem ser sempre apreciados.

— Deixe de ser exagerado, e por que não disse antes que Clint iria jantar também? — provoquei.

— Golpe baixo, , golpe baixo — sussurrou, estreitando os olhos em um fingido momento magoado.

— Ok, Wilson. Você ganhou — finalmente conseguindo abrir o pacote, coloquei na panela que tinha pegado um momento antes. — Sinta-se à vontade para compartilhar comigo o Mac’n’Cheese que estou prestes a fazer.

Ele abriu um sorriso enorme e me lembrou uma criança que tinha ganhado um cookie.

— Porém, não fique aí parado. Pegue algumas cervejas.

Enquanto Sam fazia o que tinha lhe pedido, terminei de dosar os outros ingredientes e colocar a panela no fogo. Estava mexendo o molho, esperando engrossar quando meu amigo me estendeu a cerveja que tinha pedido. Apesar do jeito meio irritante que acometia Sam às vezes, estava feliz pela companhia. Suas histórias eram sempre hilárias, não importava o assunto, e estavam sendo bem eficientes para me distrair da ideia fixa que tinha me irritado o dia inteiro.

— Você está inventando isso — ri, ao despejar o molho sobre a grande tigela em que momentos antes tinha colocado o macarrão que acabara de ficar pronto.

— Não estou! — riu, terminando em um gole sua cerveja. — Ela se virou e disse “queria saber se você tem interesse em habitar meu ninho”.

E, como da primeira vez, soltei uma gargalhada gostosa.

— Habitar... o ninho dela — murmurei para mim mesma, rindo ainda mais. — Essa foi ótima.

— Ótima só se for para você! Eu não aguento mais essas cantadas envolvendo asas, pousos, ninhos e qualquer coisa que possa remotamente lembrar um pássaro. Só porque eu sou o Falcão, elas acham que esse tipo de abordagem é interessante. E, sejamos sinceros, só foi bonitinho até, no máximo, a décima quinta vez. Agora é só irritante mesmo.

— Eu acho que é merecido — terminei de mexer tudo para verificar a consistência. — Prontinho.

Empurrei a tigela para o meio de nós dois e peguei meu prato. Não muito impressionada, esperei o cavalheiro Wilson se servir primeiro e generosamente.

, deixa eu te falar, esse negócio ‘tá com uma cara e um cheiro incrível — apontou para o próprio prato com o garfo que agora segurava.

— Fico feliz que pense isso — foi a minha vez de finalmente colocar a comida em meu prato. — E o gosto?

A resposta que tive foi um gemido e um assentir de cabeça frenético, porque aparentemente ele não conseguia parar de mastigar tempo suficiente para me responder. Interpretei como um elogio. E, sendo sincera, desde a primeira mordida, sabia que tinha feito um bom trabalho. Os próximos minutos foram silenciosos, pois aparentemente nós dois estávamos mais famintos do que nos demos conta — Sam principalmente.

— Você tem certeza que quer comer isso tudo?

Já era a terceira vez que ele repetia, praticamente raspando o fundo da tigela. Estava começando a ficar preocupada com a possibilidade de ele passar mal ou qualquer coisa do tipo.

— Não seja ridícula, — riu como se tivesse lhe contado uma boa piada. — Eu estou em fase de desenvolvimento.

— Não seria de crescimento?

— Nah. De desenvolvimento desses garotões — flexionou os dois braços e lançou um olhar significativo para os bíceps.

— Como você quiser — revirei os olhos.

Modéstia não era um mal do queal Sam Wilson padecia.

Tinha acabado de terminar minha porção quando Bucky entrou na cozinha. Imediatamente pude sentir um sorrisinho bobo tomar meu rosto.

— Hey, Doll — sorriu de volta. — O que está fazendo?

— Jantando. Precisei cozinhar depois que alguém — e aqui balancei a cabeça em direção a Sam — furtou minha comida.

Um brilho estranho passou por seus olhos. Foi tão rápido que não teria percebido se não tivesse prestando atenção.

— Você cozinhou? — também havia uma leve inclinação em sua voz.

Intrigada, assenti.

— Só Mac’n’Cheese mesmo. Você quer um pouco? Não tem muito, mas acho que dá para você comer pelo menos um pouco e-

As palavras morreram em meus lábios quando Wilson, com um sorriso malvado mal disfarçado, fez um pequeno show em raspar o garfo por seu prato. Olhei da tigela, que até um momento atrás ainda tinha uma quantidade boa e que agora estava absolutamente vazia, para meu amigo, incrédula. Obviamente ele tinha aproveitado o pequeno espaço de tempo em que Bucky e eu tínhamos trocados aquelas palavras para silenciosamente comer tudo.

— Sam? — indaguei, não precisando falar mais nada para ser entendida.

O jeito bem satisfeito como ele repuxou os lábios em um sorriso sem mostrar os dentes me disse que ele sabia exatamente o que ele tinha feito, e que tinha feito de propósito.

— Estava muito bom — assentiu, mas não me olhava.

Não.

Ele encarava Bucky em um óbvio desafio.

Piscando devagar, não pude evitar que minha boca se abrisse um pouco em puro choque.

Filho da mãe!

Batendo os lábios fechados, virei-me para Barnes e engoli em seco. Bucky tinha fechado a expressão em algo impassível, inescrutável. Não havia mais o jeito descontraído de um segundo atrás, tampouco havia qualquer outra emoção. Só sabia quão negro seu humor tinha se tornado porque podia sentir seu desagrado chegar em mim como ondas maciças.

— Imagino que estivesse bom.

— Muito, muito bom. — Sam corrigiu.

Não entendia exatamente o que estava acontecendo, mas sabia que era algum tipo de competição de território.

— Você tem que aproveitar, não é mesmo? Afinal, não é sempre que cozinha. Sendo mais preciso, uma raridade enorme que deve ser apreciada.

Agora podia quase ouvir Bucky rangendo os dentes de raiva.

— Sam! — lati, fazendo com que ele pulasse no lugar, desviando a atenção de Barnes. — A louça é sua! — aproximei-me de James e passei a mão por seu pulso metálico, mas, ainda virada para meu amigo, levantei o dedo em riste. — E acho bom você não largar para amanhã, como fez da última vez.

Dei um puxão no pulso de Barnes, mas foi como tentar arrastar um caminhão. Um caminhão que ainda encarava Sam com raiva.

— James?

Dessa vez, quando o puxei, ele se mexeu, mas não tirou o olhar raivoso de cima de Wilson até sairmos da cozinha. Esperei chegarmos ao meu quarto para falar outra vez.

— O que foi isso?

— Você cozinhou para ele? — ignorando completamente minha pergunta, falou.

Bem claro e em um tom baixo que mandou arrepios por minhas costas.

— O quê?

Não tinha ideia de para onde aquela conversa estava indo, ou sequer como tinha começado, mas podia facilmente reconhecer que estava em posição de desvantagem.

— Você cozinhou para ele? — a mesma pergunta, o mesmo tom vazio, o mesmo olhar com um brilho perigoso.

Dessa vez, contudo, dei um passo para trás, engolindo em seco. O ar entre nós dois estava estalando. Recuei de novo, puro instinto ditando minhas decisões.

— Eu não… eu não… — pisquei rápido para tentar voltar ao foco. — Eu não cozinhei para ele.

Espelhei o passo que ele deu para frente, dando um para trás e tomei um pequeno susto quando minhas costas se chocaram na parede.

— Bucky, o que você está fazendo?

— Sabe, Doll, acaba de me ocorrer que, quando você me listou suas regras, quando me disse que fazia questão de pagar sua parte, de dirigir seu carro… eu me esqueci de lhe informar as minhas.

Engoli em seco.

— E quais seriam?

Rápido como sabia que ele podia ser, deu um passo para frente ao mesmo tempo que levantou a mão esquerda para se enroscar em meu cabelo e, com um puxão firme, mas não dolorido, fez com que inclinasse o pescoço para olhá-lo nos olhos.

— Não se preocupe, Doll — inclinou-se até que seus lábios estivessem encostando de leve nos meus enquanto ele sussurrava. — São bem simples. A primeira delas é que adoraria não ver você doando seu tempo desse jeito a outros caras. Não se trata da comida… não — estalou a língua. — Mas do tempo que você gastou por fazer isso, pela atenção, pelo carinho… — abaixou mais a cabeça até estar murmurando com aquela voz grossa em meu ouvido.

Meus olhos pesaram e mordi o lábio inferior para evitar o gemido.

— Você está ouvindo, Doll? Está prestando atenção?

Engolindo em seco — e tentando ignorar o arrepio que desceu pela minha coluna — forcei-me a assentir.

— Ah. Agora você entende, então? — voltou a enroscar a mão em meu cabelo, dando um outro puxão para que de novo encarasse seus olhos tão azuis, e tão decididos naquele momento. — Uma pena que agora seja tarde demais. Afinal, todo comportamento ruim traz uma consequência.

— O q-quê?

— Eu te avisei. Avisei várias vezes, não é mesmo? — passou o polegar devagarinho por meu lábio inferior e depois a deslizou por minha coxa.

Parte de meu cérebro — a parte advogada — queria esbravejar sobre como punição sem determinação anterior bem delimitada era ilegal, e outras defesas que se levantaram imediatamente, quase de modo automático. Entretanto, de maneira surpreendente, essa parte tomou a rota certa e resolveu manter a boca fechada. Não foi, contudo, suficiente para me manter quieta, afinal de contas, sempre podia contar com minha personalidade um tanto quanto imprudente para comprar uma briga:

— E o que você vai fazer, hein? — ergui o queixo. — Me dar algumas palmadas?

Foram palavras ditas sem fôlego, a antecipação fazendo cada sílaba titubear ao sair de meus lábios trêmulos.

— Oh. É isso que você pensa, Doll? — tombou a cabeça levemente para o lado, um sorriso sacana no canto dos lábios.

Senti-me ainda mais acuada, ainda mais como a presa sendo caçada.

— Não. Não, não — balançou a cabeça devagar. — Isso é muito simplista, muito fácil.

Engoli em seco, não querendo dar o braço a torcer e perguntar o que ele queria dizer. Bucky subiu a mão pela lateral de meu corpo, por minha cintura, batendo os dedos indicador e médio de leve por todo o caminho, tateando… provocando… me torturando… até chegar ao meu seio, onde fechou a mão.

Minhas costas se arquearam e soltei o ar pesadamente por meus lábios entreabertos.

— Quer saber o que vou fazer, Doll?

Talvez se conseguisse me concentrar o suficiente, teria conseguido formular a questão. Ao invés, balbuciei qualquer coisa ininteligível, conseguindo manter o foco apenas em quão delicioso era o jeito como ele passava o polegar por meu mamilo.

— Shh… está tudo bem, — sempre tão controlado, sempre tão convicto do que pretendia fazer. — Eu te conto. Na verdade, sendo mais preciso, eu te mostro. Te mostro quantas vezes vou fazer você chegar à beira do orgasmo só para não te deixar gozar — abaixou a cabeça e por um momento parou de falar enquanto dava beijos lentos em meu pescoço. — Até que peça, até que implore, até que não tenha mais voz…

E foi exatamente isso que ele fez. Cumprindo a promessa, com uma das mãos sobre minha barriga para me manter quieta, Bucky tentou roubar minha sanidade com os dedos e a boca. Meu orgulho sempre me impediu de implorar, mas não tenho vergonha de admitir que fiz exatamente isso. E, como Barnes previra, na terceira vez em que pude sentir as ondas de prazer começarem a crescer — só para ser puxada para longe delas de novo quando ele diminuiu o ritmo — já estava com a garganta arranhando por pedir aos gritos pelo doce alívio. Desesperada, sacudia a cabeça de um lado para o outro, as mãos apertando forte o lençol.

— James, James!

Ele passou a língua mais uma vez por meu clitóris antes de se afastar para falar:

— Que foi, Doll? O que você quer?

Como se ele não soubesse… como se eu não tivesse gritado exatamente o que queria várias vezes.

— Me deixe gozar — solucei.

— Não sei — para agravar minha situação, dois de seus dedos me penetraram, duas estocadas rápidas para logo depois voltar àquele ritmo devagar. — Você aprendeu a lição, Doll?

— Sim, sim!

— E qual é a lição? — seguindo o padrão, logo após falar, provocou um pouco mais, curvando os dedos e me fazendo soltar um suspiro pesado.

Parte de mim queria se vingar de uma maneira bastante eficaz e dolorosa. Talvez andar sobre as costas dele com um Jimmy Choo de vinte centímetros. Talvez mais tarde. Talvez depois de ter conseguido que queria. Agora eu podia ser a boa menina que ele queria.

Além disso, verdade seja dita, estes momentos agridoces tinham me feito perceber que eu realmente tinha feito uma coisa não exatamente certa. No sentido emocional, não literal.

— N-não… não deixar… não… não manter distância de você enquanto deixo outras pessoas se aproximarem.

Ele levantou a cabeça para me olhar, pela primeira vez naquela noite, surpreso. Por um momento, quando ele abriu um sorriso genuíno, esqueci da necessidade desenfreada pela qual passava.

James ficava ainda mais bonito assim. Sorrindo.

Antes que pudesse lhe dizer isso, entretanto, Barnes voltou a se abaixar, fechando os lábios ao redor de meu clitóris e sugando. Forte. Rápido. Repetidas vezes. Como já estava em ebulição de tanta expectativa, senti o prazer crescer e crescer.

E crescer. E explodir.

O doce orgasmo foi tão forte que, por um segundo, o mundo escureceu ao meu redor. Arqueando as costas e gemendo incoerências, gozei como nunca. Podia sentir sua língua, prolongando todo aquele sentimento bom. Quando os tremores pararam, ele se afastou, endireitando-se até se deitar ao meu lado.

— Hey, Doll — afastou o cabelo de minha testa suada. — Você está bem? — voltou a ser meu homem carinhoso de sempre.

— Estou ótima — suspirei. — Isso foi… ótimo.

Com um sorriso, ele escondeu o rosto em meu pescoço. Levantei a mão para acariciar o seu cabelo, aproveitando por um momento antes de ter que me mexer de novo. Nesse meio tempo, satisfeita e sonolenta, ponderei a respeito daquela frase famosa sobre tomar cuidado com o que você deseja.

Pois é.

Cuidado com o que você deseja, , pois pode ser absurdamente bom e te deixar viciada.



9 — Igniting

Sempre me considerei uma mulher bastante razoável. Fatos produziam fatos. As pessoas podiam distorcer fatos, mas, no final… eram fatos. Não geravam conjecturas infinitas que me tiravam o sono. Era por isso que não me reconhecia naquele momento. Não que não tivesse tido noite insones, mas todas elas haviam sido preenchidas com trabalhos inadiáveis e prazos estourando.

Leis e precedentes.

Petições e laudos.

Era esse tipo de coisa que me fazia sacrificar horas de sono.

não se revirava na cama por horas.

não andava de um lado para o outro na cozinha do andar no meio da madrugada vestindo uma calça de moletom e uma blusa três vezes o seu tamanho.

não bebia whiskey.

não falava na terceira pessoa.

Era por isso que não me reconhecia naquele momento. Não que saber que não me reconhecia ajudasse em alguma coisa. Ainda continuava ali, no escuro, sentada em um dos bancos altos da cozinha, encarando meu copo de whiskey com um olhar perdido enquanto mantinha os ouvidos alerta para qualquer barulho. Mas só havia o silêncio.

O silêncio ensurdecedor. Silêncio ensurdecedor que parecia zombar de mim ao deixar bem claro que não, eles não haviam voltado ainda, que ele não havia voltado ainda.

James.

Engoli em seco.

James.

Passei as mãos sobre o rosto, exausta.

James.

Virei o restante do whiskey e minha garganta queimou.

Nem minha inquietação, nem o álcool tiveram qualquer efeito em minha melancolia na calada da noite.

Captain estava deitado aos meus pés, tão miserável quanto eu.

Aquela não era a primeira missão dele que precisava suportar. Nos meses em que Bucky e eu estávamos juntos, ele já tinha feito inúmeras pequenas viagens, mas, daquela vez… não sei. Era diferente. Tentava me convencer dizendo que era porque essa missão “super secreta da qual um civil não podia saber nada” — muito obrigada, Steve Rogers — completava três semanas hoje, porém sabia muito bem que o problema era o peso em meu estômago.

Era aquela sensação de que alguma coisa estava errada.

Era aquele mau pressentimento.

Engolindo em seco, levantei-me, desistindo da ideia de continuar ali parada. Como dormir não estava nem em questão, e trabalhar parecia bastante irresponsável quando minha concentração estava tão longe, decidi descer para a sala de treinamento. Depois de trocar de roupa e trancar a que usava no armário — que obriguei Stark a me dar ao vencê-lo pelo cansaço, depois de muita discussão sobre como, apesar de eu não ser uma agente, eu também precisar de um armário porque… bem… eu queria um — passei direto pelas salas de treino em dupla e segui pela academia. Não conseguia me lembrar de nenhum dos nomes dos aparelhos, mas, as séries que Rogers me passara, eu já conseguia fazer quase de maneira automática, e foi assim que fiz. Fiel e silencioso como sempre, Captain me acompanhou, aguardando pacientemente enquanto eu tentava me exercitar até a exaustão.

Sabia que tinha passado do limite quando, apesar de toda a resistência que desenvolvi ao longo desses últimos tempos de treinamento, sentia todos os meus músculos queimarem em protesto ao me levantar depois de quarenta flexões. Estava me arrastando pelos corredores de volta para o quarto de Bucky quando a parada abrupta de Cap fez com que eu também parasse. Olhando para baixo, observei como suas orelhas se levantaram e ele virou o pescoço para olhar para o final do corredor de onde havíamos passado há pouco. Curiosa, segui sua linha de visão, mas não havia nada. Prestando atenção, tampouco podia ouvir qualquer coisa.

— Cap? — voltei-me para ele, engolindo um resmungo pela dor em minhas pernas ao me inclinar um pouquinho para coçar atrás de suas orelhas. — Está tudo bem. Tudo bem. Eu também estou com saudades – sussurrei. — Mas ele já está voltando.

Ele já devia ter voltado. Há três dias.

— Ele vai voltar para nós dois — mal percebi que aquelas palavras deixaram meus lábios, que havia externado a frase que meu inconsciente repetia ininterruptamente em uma vã tentativa de afugentar meu medo maior.

Cap, por sua vez, não parecia nem um pouco interessado no que eu dizia. Inquieto, ele a todo momento desviava a atenção para o corredor.

— Vem — voltei a me endireitar. — Vamos dormir.

O Golden, entretanto, plantou o traseiro no chão, recusando-se a se mexer. Como obviamente havia alguma coisa errada, virei-me completamente para o corredor. Estreitando os olhos, tentei enxergar alguma coisa para além do escuro. Primeiro não havia absolutamente nada, depois as sombras tomaram a forma de alguém muito alto e forte.

Dei um passo para trás, imediatamente pensando nos inúmeros inimigos dos Avengers e em quantos deles adorariam se vingar de qualquer pessoa que estivesse naquela Torre. Neste momento, entretanto, a figura desconhecida ficou clara.

— Bucky.

Levei apenas o tempo de murmurar seu nome para perceber o que aquilo significava, e então estava correndo. Só parei ao me chocar contra ele, e, ainda assim, não era suficiente. Então apertei minhas pernas mais forte ao redor de sua cintura, os braços ao redor de seu pescoço. Ele continuava parado, imóvel. Não fosse o braço que ele passou embaixo de minha bunda para impedir que eu caísse, poderia muito bem estar abraçando uma pilastra.

— Bucky?

Afastei-me para poder encará-lo, mas sua expressão continuava dura, inescrutável. Sem me responder, caminhou a passos rápidos para onde eu estava indo antes. Captain, mais sensato do que eu, manteve-se longe e não tentou entrar no quarto quando Barnes fechou a porta com um chute. Foi só depois de deitar na cama e me sentar em seu colo que minha língua pareceu se desgrudar do céu-da-boca e finalmente consegui voltar a falar:

— James, hey... hey… — estendi a mão para tocar sua bochecha. — Que aconteceu?

Ele levantou os olhos muito azuis de minha mão e me encarou. Eles estavam tão incrivelmente tristes…

Engolindo os medos por sua segurança que há poucos minutos me consumia inteira, aconcheguei-me mais contra ele. Queria poder dizer que ficamos quietos até que James tomou coragem e voltou a falar, porém não podia me dar ao luxo de fazer isso porque sabia que se não empurrasse, James não me empurraria de volta. Ele iria guardar para si mesmo, remoendo o que quer que estivesse lhe consumindo.

— James? O que aconteceu? Me conta — cobri suas mãos sobre minha barriga com uma das minhas.

Ele estremeceu de leve e me apertou ainda mais contra si. Foram necessários mais alguns segundos de silêncio antes de ele começar a falar:

— Nós erramos o cálculo. Havia mais deles do que nossa informação previra. Nós… eu… houve baixas. Civis. Crianças — a última palavra saiu em um fiapo de voz.

Tão triste.

E meu coração perdeu um pedaço tanto pela alma jovem que havia partido tão cedo, quanto pela alma torturada que podia ver por de trás daqueles olhos que me encaravam.

— James, não foi culpa sua.

Sua atenção não estava mais em mim. Era como se ele estivesse olhando através de mim, certamente voltando ao momento da batalha, revivendo cada segundo para analisar o que poderia ter feito para mudar o resultado tão pavoroso.

— James! — segurei seu queixo.

Rápido como uma bala, seus dedos se fecharam em meu pulso. Não era a primeira vez que aquilo aconteceu, mas o susto que levei teve a mesma intensidade. A diferença foi a confiança que tinha nele agora. Nem por um segundo pensei em puxar a mão ou tentar me afastar. Sabia que ele não me machucaria. Nem mesmo sem querer. Com o coração disparado, então, esperei que ele voltasse para mim.

Não demorou muito.

Ao se dar conta do que seus reflexos fizeram, soltou-me. Como se quisesse colocar distância entre mim e o perigo que ele mesmo achava representar, espremeu-se contra a cabeceira. Como um imã, entretanto, segui seus movimentos, encostando a cabeça em seu ombro e me ajeitando para me sentar de lado, meu ombro meio encostado em seu peito. Esperei que ele relaxasse um pouquinho da posição de estátua que tinha aderido. Durante esse tempo, me concentrei nas batidas de seu coração. Era estranhamente reconfortante ouvir o tum-tum de novo e de novo. Respirei fundo, fechando os olhos por um segundo.

— James, a culpa não foi sua — voltando a pousar a mão sobre seu antebraço e a fazer um carinho leve ali, tentei reconfortá-lo. — Eu sei disso, a equipe sabe disso, e, no fundo, você sabe também. Não pode se martirizar por isso, querido — sussurrei, desesperada para que ele entendesse. — A culpa é deles. Eles são os responsáveis por todas as coisas horrorosas que fizeram.

Barnes continuou em silêncio. Meu peito pesava ao sentir meu homem, tão forte, tão absolutamente invencível em todos os momentos, tão… quebrado agora.

— Esses dias, não sei onde, e nem vou me lembrar agora, vi uma frase interessante — mantive o olhar no céu noturno para além da janela.

Fascinante a imensidão azul escura. Nunca fechava as cortinas à noite, gostava de observar o tom aveludado.

— Ela dizia… como era mesmo? Ah, sim. Sim — assenti de leve. — Ela dizia algo como “Você não é Atlas, não precisa carregar o peso do mundo sobre os ombros”. Confesso que a primeira pessoa em quem pensei ao ler isto foi Steve. Nosso capitão sempre achando que deve fazer tudo sozinho, deve salvar todo mundo sozinho… Mas eu estava errada. E espero que você tenha ouvido isto bem, porque eu não vou repetir.

Aquilo lhe arrancou uma pequena risada rouca. Ele sabia que eu detestava não ter razão e sempre relutava em admitir erros.

— Eu estava errada, porque não é Steve quem pensa ser Atlas. Porque, enquanto Rogers carrega o peso do mundo, você quer carregar, além do mundo, seu melhor amigo. Mas, Bucky, você não pode tentar viver assim… você não pode viver assim. Isso não é vida — apertei os dedos sobre sua mão, mas não virei para ele, pois sabia bem que ele não queria me encarar naquele momento. — Você não lutou uma guerra, não venceu o controle da Hydra sobre você, para deixar que eles mexam com a sua cabeça de novo. Não é culpa sua tanto quanto não é culpa de qualquer um deles terem sido atacados por aqueles monstros. Você fez o melhor que pode, James, e isso foi suficiente. Isso sempre vai ser suficiente.

Bucky não respondeu, e, no fundo, acho que eu não esperava uma resposta. Depois de algum tempo de silêncio, porém, ele abaixou a cabeça até encostar a testa em minha têmpora esquerda e senti algumas de suas lágrimas silenciosas molharem meu cabelo.

Em algum instante em meio aquele momento, enquanto James se permitia um momento de fraqueza depois de ser forte durante tanto tempo, enquanto eu era a fortaleza por nós dois, percebi que o admirava ainda mais do que antes.

Admirava sua força e sua humanidade. Admirava como ele se importava com os outros mais do que consigo mesmo. Admirava sua vontade de ser sempre melhor e de não deixar que as coisas horríveis que fizeram com ele o definissem. Admirava cada pedacinho dele que descobria a cada novo dia.

E foi em meio aquelas percepções, o olhar perdido outra vez no céu noturno, que entendi que não era só admiração. Eu o amava...



Continua...

Nota da Autora: (29/04/2017) Vi que vocês sofreram com o final do último capítulos, minhas amadinhas heheheh
Bad, bad Cris.
Mas que tal esse capítulo, hein? Gostaram? Dessa vez não fiz maldades. E já comecei o oitavo. Vamos ver se eu consigo terminá-lo em dois dias, pois em maio darei uma pausa aqui para atualizar Haunted Eyes. 😉
Espero que gostem desse capítulo também. E obrigada a todo mundo que comentou. Maravilhosos demais ❤

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Nota da beta: Eu só queria um capítulo maioooor!! Eu amo tanto esse casal AAAAAAAAAAAAA
Se encontrar algum erro me avise por aqui ou por aqui.