Autora e Beta: Babi S.

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Prólogo

Os rostos de Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e Manuel Neuer estavam estampados na televisão, eles haviam sido os três melhores jogadores de futebol do mundo no ano de 2014. Era impressionante como, mesmo estando na sala de estar de sua casa, esparramado no sofá e com as pernas cruzadas sobre a mesa de centro, conseguia sentir a tensão que se espalhava por todo o teatro. Ele próprio sentia-se à beira de um ataque de nervos ao observar o ex-futebolista Thierry Henry abrir o envelope com a maior calma do mundo e sorrir de canto antes de se aproximar do microfone e anunciar que o grande vencedor era Cristiano Ronaldo.
Foi impossível conter um sorriso quando viu a emoção estampada no rosto do companheiro de Real Madrid. Ele sentia-se parte daquela conquista. Eles treinavam juntos todos os dias, disputavam partidas importantes e dividiam o ataque. Um ajudava o outro a fazer seus gols, trabalhavam juntos em prol da equipe. Ele sabia como Cristiano dava o máximo de si dentro e fora de campo, sabia como ele merecia aquele prêmio. Estava genuinamente feliz pelo amigo. Não conseguia sequer imaginar qual seria o sentimento de subir naquele palco e pegar aquele troféu tão almejado por todo jogador de futebol. O troféu de melhor jogador do mundo.
Ele não tinha medo de se arriscar a sonhar que, um dia, seria ele ali no mesmo lugar que Cristiano Ronaldo, fazendo seu próprio discurso.
Um dia, ele, , também ganharia a sua tão sonhada Bola de Ouro.

1. La Primera

En el campo y en la grada te esperamos, ven
Cualquiera con buena fe bien recibido es
No nos importa el color de tu piel
Pero quede claro que la camiseta blanca es

Hala Madrid - Santaflow

Enquanto observava as ruas de Madrid passarem depressa pela janela do carro em movimento, pensava sobre a volta de 180° que sua vida dera em apenas uma semana e mal acreditava que aquilo tudo, de fato, estava acontecendo. Sete dias antes, a jovem treinadora do time de futebol feminino do Paris Saint-Germain estava em seu apartamento na capital da França, esparramada na cama com o notebook no colo, enquanto fazia planejamentos para a temporada que começaria dentro de algumas semanas, quando recebeu uma ligação de Zinédine Zidane.
Além de ídolo do futebol francês e atual técnico do clube espanhol Real Madrid, um dos maiores do mundo, Zizou era também irmão mais novo de Noureddine Zidane, pai de . A mulher estranhou, não costumava receber muitas ligações do tio; quando ele começou a falar sobre um assistente técnico que pedira demissão para assumir um time da segunda divisão espanhola, estranhou ainda mais. Não entendia o que tinha a ver com aquilo tudo até escutar a proposta que quase a fez pisar em falso ao descer os degraus que levavam à sala de estar.
- Tenho acompanhado o trabalho incrível que você tem feito durante esses três anos treinando as meninas do PSG. Pra completar, ainda ganhou o campeonato francês duas temporadas seguidas. Acho que você é a pessoa perfeita pra ser minha nova assistente, . Topa?
- Você está brincando?
- Eu jamais brincaria com algo assim.
- Mas, tio... uma mulher no Real Madrid? Isso vai dar certo?
- Eu quero os melhores no meu time, . Não me importa se é homem ou mulher, gordo ou magro, negro ou branco… Desde que faça o trabalho bem feito.
- Tem certeza de que sou a pessoa mais adequada pra esse cargo?
- É claro que tenho, . Nos vemos em Madrid.

Nem se quisesse muito, conseguiria recusar um convite daquele naipe, feito pelo responsável por ela ter se fascinado pelo futebol ainda na infância. O encanto pelo esporte era tão grande que, após se graduar em Psicologia, a francesa tomou a decisão de se especializar em Treinamento Tático e Técnico de Futebol pela Escuela Universitaria Real Madrid, dando início a uma carreira de treinadora que ela pretendia seguir pelo resto da vida. Mesmo com poucos anos de experiência, logo se firmou no futebol feminino francês, e estar tendo a oportunidade de ingressar no futebol masculino sendo uma mulher era como viver um conto de fadas.
Mais do que seu tio, Zinédine Zidane era seu ídolo. Além de um grande jogador, o francês demonstrara ser também um grande técnico ao ganhar uma Champions League com apenas 6 meses comandando a equipe blanca. Para , trabalhar com ele não seria apenas um grande aprendizado, mas também uma honra.
não pensou muito ao arrumar suas malas e voar para Madrid, já havia morado na cidade durante os dois anos de especialização. Falava espanhol fluentemente e ficaria hospedada na casa do tio mais uma vez, portanto, não teria problemas para se readaptar à cidade. Acompanhada de Zidane, ela fora até o escritório de Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, e assinara um contrato de dois anos que poderia ser renovado a qualquer momento. Estaria mentindo se dissesse que não se surpreendeu ao ser tão bem recebida por Florentino, que parecia até mais animado com sua incorporação à equipe do que Zizou. Ela pensava que era impossível alguém estar mais animado do que ela própria, mas os dois acabaram por superá-la. Florentino Pérez adorava fazer apostas improváveis - e até mesmo bastante ousadas - para que o Real Madrid sempre fosse um clube pioneiro.
- Bem-vinda à Ciudad Real Madrid - Zizou falou do banco do motorista, fazendo se sobressaltar ao despertar de seus próprios pensamentos.
Encarou o tio rapidamente, notando que ele tinha um sorriso encorajador nos lábios, e voltou os olhos novamente para a paisagem. Se deparou com uma placa de aproximadamente 2 m de altura que tinha o escudo do Real Madrid estampado e dizia “bienvenidos”. Ela já sentia-se em casa.
- , vou te levar pra fazer um tour por Valdebebas* - Enzo, o filho mais velho de Zidane, falou do banco traseiro.
- Esse lugar é um paraíso - Luca, outro dos filhos do treinador, disse também do banco traseiro, soando deslumbrado, e arrancou risos da prima.
- Nossa, isso é mais do que um paraíso - Enzo rebateu e, em seguida, abaixou a janela do carro, fazendo o vento adentrar o veículo violentamente. - Está sentindo esse cheiro? É o cheiro do futebol. Aqui todo mundo respira futebol.
- Quanta baboseira, hein? - o pai murmurou, encarando o filho pelo espelho retrovisor interno, enquanto e Luca gargalhavam.
- Entendi o que você está querendo dizer, Enzo - disse com um sorriso simpático. - Fazer parte de um clube que tem uma estrutura dessa para a preparação dos times deve ser espetacular. O centro de treinamento do PSG também é impressionante, mas, meu Deus, não chega aos pés desse.
O carro foi estacionado na vaga do treinador no estacionamento do time principal e Zidane, ao desligar o automóvel, disse:
- E agora você também faz parte de tudo isso.
retribuiu o sorriso do tio com outro e, em seguida, deixou o carro junto aos outros três com sua mochila do Real Madrid nas costas. Passou os braços pelos ombros dos primos, de forma que pudesse caminhar pelo terreno do centro de treinamento junto a eles.
- Vai ser interessante trabalhar com vocês durante essa pré-temporada - ela disse, olhando de um para o outro com um sorriso de canto.
- Isso quer dizer que estamos ferrados? - Luca questionou, fazendo a mulher soltar uma gargalhada.
- Você aprende rápido, priminho - ela brincou, fazendo o mais novo fazer uma careta em reprovação.
Enzo e Luca, seguindo os passos do pai, também eram jogadores de futebol. Enquanto Enzo atuava como meio-campista no Real Madrid Castilla - o time de nível mais alto entre as categorias de base do clube merengue -, Luca era goleiro do Real Madrid Juvenil A - time sub-19 -, e ambos estavam entre os onze jogadores das categorias de base selecionados para participar das semanas de pré-temporada junto ao time principal. Alguns jogadores da primeira equipe do Real Madrid teriam as férias prolongadas, já que haviam participado da Eurocopa ou da Copa América com suas seleções, então era uma ótima oportunidade para os jogadores mais jovens mostrarem à comissão técnica que estavam preparados para novos desafios.
Caminhando à frente dos três mais jovens, Zizou sorriu ao escutar as piadas e gargalhadas dos filhos e da sobrinha. Se tinha uma coisa que o deixava contente, era ter sua família e futebol reunidos em um combo.

O centro de treinamento do Real Madrid era ainda maior do que imaginava. Depois de ser apresentada pelo tio aos outros membros da comissão técnica - David Bettoni, também assistente técnico; Antonio Pintus e Javier Mallo, preparadores físicos; e Luis Llopis, treinador de goleiros -, seus primos fizeram questão de levá-la para conhecer o centro de treinamento.
Sentada ao lado de Enzo, que dirigia o carrinho de golfe, analisava o mapa aberto na tela do celular enquanto os garotos bancavam os guias de turismo. O trio percorreu toda a extensão da Ciudad Real Madrid, passando por todos os campos que eram usados pelos times juvenis, bem como pelas instalações das categorias de base. Mesmo sem serem profissionais ainda, os aspirantes a jogadores tinham toda a infraestrutura necessária, já que o Real Madrid investia pesado nos jovens, o futuro do clube. Enzo e Luca conheciam muito bem aquilo tudo, era onde eles treinavam diariamente.
- Bom, e a residência do time principal você já conheceu - Enzo falou, estacionando o carrinho junto a outros, exatamente onde fora o ponto de partida daquele rápido passeio.
- Estou morrendo de inveja de você, - disse Luca, fazendo a mulher fitá-lo com uma expressão de divertimento no rosto misturada com curiosidade. Soando óbvio, ele continuou: - Você vai ter um quarto aí, todo mundo que trabalha com a primeira equipe tem um. Esse é o meu sonho de consumo!
acabou por gargalhar e, após sair do carrinho de golfe e se pôr a caminhar na direção da residência dos jogadores junto aos primos, disse:
- Seu dia de ganhar um quartinho aí está chegando, pode ficar tranquilo. É só continuar trabalhando pra isso.
Os três passaram pela porta de vidro e seguiram por direções diferentes. Enquanto os dois garotos foram em direção à academia, onde alguns jogadores já davam início aos exercícios de recuperação física extremamente importantes depois de algumas semanas de férias, caminhou em direção ao escritório de Zidane.
Ela já estava um pouco familiarizada com os corredores do prédio que era como o quartel-general do time do Real Madrid. Era ali que o time se reunia diariamente para treinar e ouvir atentamente às ordens do treinador ou para, simplesmente, passar um tempo juntos jogando FIFA, sinuca, ping-pong e conversa fora. Todos tinham também seu próprio quarto, onde passavam a noite nas vésperas das partidas disputadas no Estádio Santiago Bernabéu, que ficava a menos de vinte minutos do centro de treinamento. Aquele espaço de convivência era essencial para o crescimento da equipe, já que o bom relacionamento dos jogadores fora de campo os fazia ter uma atuação dentro de campo tão boa quanto.
- Esse clube está muito bem frequentado, hein? - uma voz conhecida disse em um tom divertido, chamando a atenção de , que parou no meio do corredor e olhou para trás.
Com um sorriso brincando nos lábios, ela deixou os braços fortes de Karim Benzema a envolverem em um abraço apertado.
- Você está suado - a mulher reclamou, fazendo uma careta.
- Vai se acostumando. Isso aqui não é nada se comparado com o fedor que o vestiário fica depois de um bom dia de treino - o jogador brincou, rompendo o abraço, e riu com a expressão de nojo no rosto de . - Não acredito que você está em Madrid, .
- Eu não acredito que estou em Madrid - a outra rebateu, sorrindo. Cruzou os braços e, presunçosamente, continuou: - E agora que sou assistente do seu treinador, chega de noitadas pra você.
Karim riu anasaladamente, enquanto se lembrava da época que costumava levar para boates madrilenhas.
- O que me preocupa mais é conseguir me concentrar nos treinos com uma assistente linda assim - ele retrucou com um sorrisinho safado, passando o braço pelos ombros de para guiá-la pelo corredor.
- Para de me cantar, Benzema. Sou amiga da mãe da sua filha! - ela exclamou ao mesmo tempo que o empurrava com força para se soltar do abraço de lado.
A gargalhada do jogador ecoou pelo corredor.
- Droga, você nunca me dá bola - Karim falou com um falso desapontamento.
- É porque sei que você não vale nada. Não sou da tua laia, não.
Os dois riram juntos, ambos acostumados com provocações que nunca passavam de brincadeiras. Era assim desde que foram apresentados por Zizou alguns anos antes, quando morava na casa do tio para fazer sua especialização e se formar como treinadora. Karim, por ser francês também, acabou se tornando um grande amigo dela, assim como a ex-namorada dele, que agora morava na França com a filha de dois anos deles.
- Ei, . Que bom que você voltou, já ia te ligar - Zidane falou assim que abriu a porta da sala e a adentrou seguida por Benzema. - Vamos reunir todos os jogadores que estão aí pra passar o roteiro da pré-temporada.
A mulher sequer teve tempo de responder, já que o tio terminou de dar o aviso e deixou a sala seguido pelos outros membros da comissão técnica. Ela, então, os acompanhou até a sala de projeção, que, poucos minutos depois, estava com metade das cadeiras ocupadas por quase todos os jogadores que participariam daquela viagem para a América do Norte.

O taco acertou a bolinha branca, que voou pelo ar e foi parar há alguns metros de distância. sorriu com satisfação diante da tacada que acabara por aumentar ainda mais sua vantagem no jogo.
- Seu maldito - Aaron murmurou antes de se preparar para a próxima jogada, que seria dele.
- Vai lá. Quero ver você superar essa - o outro rebateu, rindo, e caminhou até o homem que, esparramado na grama, assistia aos dois amigos jogarem golfe.
Segurando o taco debaixo do braço, se abaixou para pegar uma garrafa d’água e a levou à boca. Ajeitou o boné, enquanto sentia o líquido gelado descer pela garganta e amenizar o calor daquele dia ensolarado. Quem o via ali, curtindo as férias com os amigos que cultivava desde a infância, jamais diria que ele era o mesmo que encantava o mundo inteiro defendendo a camisa do Real Madrid. Claro que, para isso, a pessoa precisaria viver completamente isolada do mundo, já que ali no país natal dele todos conheciam o astro do futebol que vinha ajudando a colocar a Seleção em meio às melhores da atualidade.
- Ei, - Ben chamou. Ainda com a garrafa d’água na boca, apenas murmurou qualquer coisa para deixar claro que estava prestando atenção e que ele podia prosseguir. - Está sabendo da novidade?
- Que novidade? - o jogador questionou, curioso, largando a garrafa na grama.
- O Real Madrid contratou uma mulher como nova assistente técnica. Só se fala disso na internet - o outro respondeu e estendeu o celular. - Parece que ela é sobrinha do Zidane.
se esticou e pegou o aparelho da mão de Ben.
Uma reportagem estava aberta e os olhos dele automaticamente caíram na foto de uma mulher. Ela estava em um campo de futebol, com o cabelo preso em um rabo de cavalo e vestia um casaco azul-marinho e vermelho que ele imediatamente reconheceu como sendo pertencente ao uniforme de treino do Paris Saint-Germain. Ele leu por alto o texto que dizia que a moça da foto se chamava Zidane, que fora treinadora do time feminino do PSG e que, agora, como seu amigo dissera, ela passaria a vestir o uniforme do Real Madrid.
Não que o fato de a nova assistente ser mulher fosse, no final das contas, fazer muita diferença para , mas ele não podia negar que estava ligeiramente surpreso com aquela novidade. Nunca tivera um contato tão próximo com mulheres em nenhum dos clubes de futebol por onde passou, portanto, imaginava que ter uma presença feminina certamente seria uma experiência… diferente.
Descendo a reportagem, se deparou com outra foto. Nessa, usava um vestido verde que contrastava com sua pele bronzeada, e seus fios de cabelo castanhos estavam soltos e volumosos. Posando ao lado de Zinédine e outras pessoas que ele julgou serem parentes deles, ela tinha um sorriso imenso no rosto, deixando à mostra seus dentes brancos e perfeitamente alinhados. Aquilo era apenas uma foto, mas era possível sentir o bom astral que a mulher transmitia.
- Ela é bonita pra caralho - a voz de Aaron disse, só então fazendo notar a presença do amigo ao seu lado. - Que sorte da porra você vai ter de trabalhar com ela, hein?
Enquanto ria baixo da admiração de Aaron e tentava disfarçar a sua própria, o jogador do Real Madrid devolveu o celular para o dono.
- Ela parece simpática - disse, fazendo o taco escorregar de baixo do braço e o agarrou com a mão antes que o mesmo fosse parar na grama.
- Sério, cara? Simpática? - o outro questionou com incredulidade na voz e no rosto. - Vai dizer que você não achou ela gostosa?
- Sim, ela é muito bonita, Aaron - o jogador rebateu, fazendo Ben gargalhar. - Você não devia falar assim, o que importa é ela entender de futebol e ser competente, a beleza dela é um mero detalhe.
- Blá blá blá competente - Aaron debochou, forçando a voz para que ela saísse fina. - Quero ver você continuar tão indiferente assim quando estiver cara a cara com ela. Desde que terminou com a Emma você fica aí posando de bom moço que só pensa em trabalhar. Estou torcendo pra você ficar de quatro por essa tal de aí.
sentiu o rosto esquentar levemente e, com o taco em mãos, preferiu ignorar o amigo e se afastar para fazer a próxima tacada.
Há alguns meses ele já vinha aprendendo a conviver com toda aquela pressão que seus amigos faziam para ele seguir em frente, mais precisamente desde que terminara seu namoro. Não que ainda estivesse tentando superar o término, ele tinha certeza de que o que sentia por Emma ficara no passado; mas, depois de um namoro de 8 anos, a verdade é que achava que havia perdido o jeito com as mulheres. Não que isso fosse um problema, já que ele estava na melhor fase de sua carreira como jogador, inteiramente focado no trabalho, e tinha a certeza de que, quando fosse o momento certo, apareceria uma mulher interessante em sua vida.
E seria burro demais se não soubesse que a assistente técnica do time com o qual ele tinha um contrato milionário e que, para completar, era sobrinha do treinador, definitivamente não poderia ser essa mulher.

O estômago de se revirava de ansiedade naquela manhã. Enquanto tomava banho, o desconforto sumiu conforme ela deixava pensamentos que não envolviam Real Madrid e nem pré-temporada surgirem em sua mente, mas acabou por voltar quando ela, trajando o uniforme de assistente técnica, chegou na enorme sala de jantar da casa dos Zidane e Véronique, esposa de Zizou, anunciou que o jornal esportivo espanhol Marca publicara uma reportagem sobre sua contratação.
pegou o tablet que a tia lhe ofereceu e encarou a tela com um pouco de apreensão. Sentiu-se mais aliviada quando constatou que a reportagem começava falando sobre sua trajetória como treinadora e os títulos que conquistara no PSG, mas só até se deparar com um trecho que soava como uma clara alfinetada.
- Mas será que isso é o suficiente para ela estar entre os atuais campeões da Europa? Esperamos que esteja preparada para aguentar a pressão da torcida e mostrar que o sobrenome Zidane não tem tanto peso assim em seu sucesso - leu em voz alta e soltou um risinho irônico. - Isso é ridículo. Eles acham que o Real Madrid contrataria alguém só por ser parente do Zizou?
- Não liga pra isso, querida - Véronique disse, abanando o ar. - Pelo menos não enalteceram o fato de você ser mulher.
- Mas as pessoas estão fazendo isso, tia - respondeu em meio a um suspiro e deixou o tablet de lado. - Dei uma olhada nas redes sociais depois que a página do Facebook do Real Madrid anunciou a nova comissão técnica e vi um monte de comentários maldosos sobre eu ser mulher.
- Deixa entrar por um ouvido e sair pelo outro - a mais velha rebateu, dando de ombros, e tomou um gole de suco de laranja. - Vão pegar no seu pé, principalmente agora no início, mas você tem que responder fazendo o seu trabalho, não pode deixar isso te afetar.
enfiou um pedaço de torrada na boca e se limitou a balançar a cabeça em concordância. Sabia que, se realmente queria mostrar ao mundo o quanto entendia de futebol, precisaria aguentar a pressão que jogariam em cima de si.
- Buenos días, moças - Zizou falou, sorridente, ao passar pela porta da sala de jantar. Parecia estar de ótimo humor.
- Bom dia, meu amor - Véronique respondeu e levantou a cabeça quando o marido se aproximou para cumprimentá-la com um selinho.
- Oi, tio - falou e sorriu fraco, observando o tio sentar-se na cadeira do topo da mesa.
- Que carinha é essa, ? - o homem questionou depois que se acomodou e fitou a sobrinha, logo notando seu aborrecimento.
- O pessoal do Marca insinuou que ela só foi contratada porque é sua sobrinha e, na internet, estão ironizando o fato de ela ser mulher - Véronique respondeu pela mais nova.
- Relaxa, também falam isso sobre o Enzo e o Luca, que eles só estão tendo oportunidade no Real Madrid porque são meus filhos - Zidane falou e soltou uma risada debochada. - Nem eu mesmo sabia que influenciava tanto assim as decisões do clube. Devo ser muito foda.
riu pelo nariz, enquanto colocava açúcar em seu café com leite.
- Você é foda mesmo, tio.
Zizou piscou um olho, sorrindo.
- E já está na hora de se acostumarem com mulheres no futebol, né? Isso é ridículo - ele disse e checou rapidamente o relógio em seu pulso antes de servir o suco de laranja em um copo. - Cadê aqueles moleques, hein? A gente precisa sair em quinze minutos e eles ainda não desceram pra comer.
- Vou apressar eles e aproveitar pra acordar o Théo e o Elyaz - disse Véronique, já se levantando da mesa, e subiu as escadas gritando pelos quatro filhos.
Vinte minutos depois, Zizou, , Enzo e Luca estavam colocando as malas no porta-malas do carro e recebendo abraços apertados e desejos de boa sorte de Véronique, que também não parava de dizer que morreria de saudade. Devido aos minutos de atraso, Zidane acabou por dirigir rumo à Ciudad Real Madrid o mais rápido que a lei permitia, e logo eles estavam junto aos outros jogadores dentro do ônibus que os levou para o Aeroporto de Madrid-Barajas, onde pegaram o avião para um voo de mais de 8 horas até a primeira parada da pré-temporada: Montreal, Canadá.

O avião nada discreto do Real Madrid - decorado com os rostos dos grandes craques do time e também com o nome de seu maior patrocinador, a companhia aérea Emirates - aterrissou tranquilamente em terras canadenses. nem viu o tempo passar, já que metade do tempo estava gargalhando com as conversas divertidas dos jogadores; na outra metade, estava dormindo no ombro de Benzema. Ela podia perceber que eles policiavam as próprias palavras, especialmente os jogadores mais jovens que eram das categorias de base, mas, ao notarem como era o relacionamento dela com Karim, Enzo, Luca e com o próprio Zidane, eles começavam a relaxar e não se importar tanto assim com o fato de ela ser a única mulher presente.
Depois de desembarcar, o time foi guiado para um ônibus tão espalhafatoso quanto o avião, bastante parecido com o que eles utilizavam para se transportarem na Espanha, com fotos dos jogadores e o nome do time estampado. Aquele ônibus chamava a atenção por onde passava. entrou logo depois de Benzema e se sentou ao lado dele. Já que foram dos primeiros a adentrar o ônibus, a maioria dos assentos ainda estavam vagos.
- É sério que você não vai desgrudar de mim por um segundo, ? - Karim questionou em um tom divertido, desenrolando o fio de seu headphone.
A mulher o fitou de olhos semicerrados e mostrou o dedo médio antes de se levantar e se jogar no assento da frente. Quando olhou para o lado, sorriu ao ver Mateo Kovačić a encarando com estranheza.
- Olá. Você vem sempre aqui? - brincou, fazendo o croata rir.
- Pode voltar, . Sei que você me ama - ela pôde ouvir a voz de Benzema dizer mesmo em meio ao falatório do ônibus, que se enchia cada vez mais.
- Não, obrigada. Prefiro a companhia do meu novo amigo, o Mateo.
Kovačić mostrou um sorriso cúmplice ao entender que aquilo tudo se tratava de implicância entre os dois e iniciou um assunto entre eles, perguntando se ele já havia estado no Canadá antes. Entretanto, quando James Rodríguez ocupou o lugar vago ao lado de Karim, ela desistiu de ignorar o amigo e ficou conversando com os três jogadores.
Conversa vai, conversa vem, ela descobriu que, depois que Mesut Özil foi vendido para o Arsenal, James se tornou o novo companheiro de balada de Benzema logo que chegou ao clube. O colombiano disse que ela deveria se unir a eles qualquer dia desses e garantiu que se daria muito bem com sua esposa. Tirando as zoações de Karim ao se lembrar de que a assistente técnica havia ficado com Özil em uma dessas saídas, mesmo que ela já tivesse cansado de dizer que estava bêbada e mal se lembrava da fatídica noite, a conversa durante a viagem até o hotel foi bastante amigável.
Quando o ônibus parou, se assustou com o mar branco de pessoas que tomava a rua. Tinha consciência de que o Real Madrid era um clube popular em todo o mundo, mas, mesmo assim, se surpreendeu com a quantidade de madridistas que estavam ali para recepcioná-los em Montreal. pendurou a mochila nas costas e entrou na fila que se estendia por todo o corredor do ônibus e andava lentamente, conforme os jogadores saíam um a um.
- Sai, seu chato - ela disse quando sentiu duas mãos segurarem seus ombros e, sabendo que era Karim, os balançou com a intenção de se libertar.
- Foi mal, sei que você não gosta de lembrar do lance com o Mesut - o atacante falou próximo ao ouvido dela. - Só falo porque a aversão que você tem a ficar com jogadores de futebol é engraçada.
fez uma careta, mas não discordou. Aquilo era mesmo verdade e Benzema sabia mais do que ninguém, já que tantas vezes havia a visto dispensar jogadores franceses, do Real Madrid ou do Atlético de Madrid, que costumam frequentar as mesmas boates madrilenhas. Ela não queria ficar conhecida por ter pegado Fulano ou namorado Ciclano, ser sobrinha de Zinédine Zidane já era rótulo suficiente para uma mulher que queria consolidar uma carreira no meio futebolístico.
- Talvez eu tenha ficado com um outro jogador também - ela confessou, entortando o pescoço ligeiramente para trás para observar a reação de Benzema de canto de olho. - Mas também não foi nada sério. Só uma noite.
- É sério? Eu conheço?
ignorou a pergunta e desceu a escadinha do ônibus, deixando o jogador curioso para trás. Caminhou em direção ao porta-malas do ônibus e pegou sua mala de rodinhas com um dos membros da equipe de apoio do Real Madrid. Não conseguiu entender o comentário dele sobre a bagagem ser pesada, pois a gritaria invadia seus ouvidos e ela quase não conseguia escutar seus próprios pensamentos.
Seguindo em direção à entrada do hotel, sentia os flashes dispararem e tentava manter a expressão mais simpática possível no rosto. Sabia que torcedores e jornalistas queriam fotos dos jogadores, não dela, e preferia não aparecer muito, mas também não queria passar a impressão de que era antipática. Afinal, ela tinha a simpatia de uma torcida para conquistar.
Assim que passou pela porta de vidro do hotel, um grito diferente dos demais chamou sua atenção e ela olhou para trás. Arregalou os olhos ao ver um rapaz pulando em cima de Benzema para, em seguida, ser puxado para longe por seguranças do hotel. Ela nem notou que prendeu a respiração até Karim ser colocado para dentro do hotel às pressas e parar ao lado dela.
- Meu Deus, o que foi isso? - ainda chocada, ela perguntou, observando o jogador, levemente irritado com aquele ataque repentino, ajeitar a roupa e a mochila que tinha nas costas.
Entretanto, os lábios de Benzema se curvaram para cima quando ele percebeu quão engraçada deveria ter sido a cena que acabara de protagonizar.
- Bem-vinda ao Real Madrid, .


*Valdebebas: Projeto urbanístico na zona norte de Madrid. Inclui a ampliação da Institución Ferial de Madrid, a Ciudad de la Justicia de Madrid e o centro de treinamento do Real Madrid, nomeado de Ciudad Deportiva del Real Madrid (nome também encurtado para Ciudad Real Madrid). É comum que a Ciudad Real Madrid seja informalmente chamada de “Valdebebas”.


2. La Segunda

Cuando te vi tuve un buen presentimiento
De esos que llegan una vez en la vida
Quiero tenerte aunque sea sólo un momento
Y si me dejas, tal vez todos los días

Aprender a Quererte - Morat

A segunda-feira começou cedo para o Real Madrid. Depois do café da manhã reforçado oferecido pelo hotel, o time se reuniu no ônibus e seguiu para o centro de treinamento do Impact de Montreal, clube de futebol canadense que havia cedido suas instalações para que a equipe madrilenha treinasse naquela semana de estadia em Montreal. Os jogadores deram início aos trabalhos focados nos amistosos da pré-temporada na academia, acompanhados pelo preparador físico italiano recém-contratado. Enquanto Antonio os instruía para a realização de exercícios de fortalecimento de musculatura, Zidane falava com os jornalistas na sala de coletiva de imprensa sobre os planos para os oito dias de treinamentos dobrados que se seguiriam. Pela manhã, aconteceriam treinos de condicionamento físico e, pela tarde, treinos táticos.
No campo, os dois assistentes técnicos já orientavam a equipe de apoio na organização de bolas, coletes, chuteiras, fitas musculares e todo o material que seria necessário.
- Fica tranquila, . Vai dar tudo certo - David falou, atraindo a atenção da mulher, que posicionava barreiras que serviriam de obstáculos uma atrás da outra.
olhou para o assistente francês. O braço-direito de Zizou sorria para ela, mas estava concentrado nas anotações que fazia em uma prancheta. Havia percebido seu nervosismo, pois estava extremamente quieta naquela manhã e, pelo pouco que a conhecia, já percebera quão comunicativa e extrovertida ela era.
- Eu sei, só está começando a cair a ficha agora que o trabalho vai começar pra valer - ela explicou e deixou os ombros caírem, se permitindo relaxar um pouco. Passou os olhos pelo campo e, ao focalizar os jornalistas e fotógrafos que se posicionavam do outro lado para registrar o treino, continuou: - Isso tudo é tão novo pra mim. É claro que meus anos no PSG me deram uma certa experiência, sei o que tenho que fazer, mas é tão estranho ter o mundo todo observando cada passo que a gente dá. Isso me deixa um pouco apreensiva. Os treinos do futebol feminino não têm nem metade desse tanto de jornalistas.
David continuou escrevendo no papel sobre a prancheta, definindo os exercícios que iriam compor os dois treinamentos do dia e em qual ordem os mesmos seriam realizados pelos jogadores, e se manteve em silêncio por alguns segundos.
- Sabe por que o Presidente apoiou a sua contratação? - ele questionou e , curiosa, balançou a cabeça em negação. - Quando Zizou surgiu com a ideia, a primeira coisa que o Florentino fez foi ligar para o presidente do PSG, que acabou te elogiando bastante e até disse que estava considerando a possibilidade de te transferir pra comissão técnica do time masculino. Isso o fez enxergar os pontos positivos, mas ele já estava completamente convencido a te contratar desde o momento que o Zizou disse que foi com ele que você aprendeu tudo sobre futebol.
abaixou o olhar com um sorriso nos lábios e fitou o casaco branco com o escudo do Real Madrid e detalhes em violeta e lilás, que, assim como toda a comissão técnica, ela vestia.
- E é a mais pura verdade - ela retrucou e riu baixo. - Quando eu era bem pequena e meus primos ainda não eram nascidos, meu tio me tratava quase como uma discípula.
- Pois é, ele comentou que te considera mais como filha do que como sobrinha - David disse, largando a prancheta e a caneta sobre uma caixa térmica que continha garrafas d’água. - Você e seus pais moraram em Bordeaux na época que ele jogava no Bordeaux, né?
- Sim, meu pai fez questão de acompanhar o início da carreira dele de perto. Sempre foi um irmão mais velho super protetor - explicou e não conteve um sorriso ao se lembrar de como seu pai costumava pegar no pé do tio até mais do que seu avô, o pai deles. - E eu era a sobrinha com quem ele mais tinha contato, além de ser afilhada dele, então ele fazia questão de sempre ser muito atencioso comigo. Me levava pra acompanhar os treinos, jogos e tudo mais. Aprendi muito sobre futebol com ele, inclusive a parte tática, então, se eu decidi ser treinadora, com certeza ele tem tudo a ver com isso.
- É exatamente por isso que você não precisa se preocupar. Com isso aqui você pode se acostumar - o assistente falou, indicando os jornalistas com o polegar. - O Florentino sempre confiou muito no Zizou desde a época em que ele era jogador do Real Madrid e, agora que ele está se mostrando um excelente treinador, confia ainda mais. Se o Zizou te convidou pra esse cargo, é porque ele sabe que você vai dar conta. E, se você tem a confiança do técnico e do presidente, , já é meio caminho andado.
David piscou um olho antes de dar as costas e se aproximar do treinador de goleiros, que já estava trabalhando com Keylor Navas, Kiko Casilla, Rubén Yáñez, Álex Craninx e Luca Zidane. Para os goleiros, o trabalho árduo sempre começava mais cedo.
ficou ali por algum tempo, em pé no campo, sentindo os fracos raios de sol que escapavam por entre as nuvens que cobriam o céu nublado baterem em seu rosto e se convencendo de que David tinha razão. Talvez ela estivesse se importando com as críticas por ela ser mulher e sobrinha de Zidane mais do que deveria. Ela nem sequer havia começado a exercer sua função de assistente técnica e já estava tendo seu trabalho julgado, aquilo não fazia sentido. Se ela estava ali, pronta para trabalhar em um dos maiores clubes do mundo ao lado de grandes craques, fora porque havia estudado e se esforçado muito para aquilo, e não pelos seus belos olhos castanhos. Tudo que precisava era agarrar aquela oportunidade e aproveitá-la da melhor forma possível.
Quando dois braços a agarraram por trás e a tiraram do chão, levou um susto. Pelas luvas de goleiro que tinham as iniciais LZ gravadas no pulso, ela soube que era Luca.
- Me solta, menino - ela disse em meio a risos.
- Sabe do que me lembrei agora? - o garoto questionou após colocá-la de volta na grama.
- Ainda não leio pensamentos - debochou e riu quando o primo rolou os olhos. - Do que você se lembrou?
- De quando você chegava lá em casa e eu saía correndo e pulava no seu colo. Me bateu uma saudade.
- Também tenho saudade, mas naquela época você tinha metade da minha altura, agora é mais alto do que eu. Então, nem se atreva - ela disse em tom de alerta e soltou uma gargalhada.
Em seguida, notou que Zidane chegava ao campo e vinha na direção dos dois.
- Ei, . Tenho uma tarefa pra te passar.
- Pode falar, tio - a assistente disse, mas, ao se lembrar de que Zidane pedira para que ela evitasse chamá-lo de tio quando estivessem trabalhando, se corrigiu: - Quer dizer, Zizou
O mais velho riu e colocou a mão no ombro de .
- Preciso que, durante os treinos táticos dessa semana, você fique focada em conhecer o estilo de jogo de cada jogador. Pode ficar livre pra fazer anotações, deixa que eu e o David vamos ficar encarregados de conduzir o treinamento - ele falou e a mulher escutava atentamente, apenas assentindo com a cabeça. - Além disso, como o primeiro jogo vai ser contra o PSG e você conhece bem o time, quero que bote num papel tudo o que achar que possa ser útil e, ao longo da semana, a gente vai conversando e definindo como vamos arrumar o time pra essa partida.
- Deixa comigo - ela disse, batendo continência.
Em seguida, caminhou na direção do prédio do centro de treinamento para buscar por papel, caneta e uma prancheta como a de David. Ao passar pelos jornalistas, sorriu e acenou na direção das câmeras fotográficas, que registraram o momento que logo cairia na internet.

adorava pedalar sob a luz da lua nas noites de verão. Era quase meia-noite e as ruas estavam vazias, o que, para ele, era excelente. Além do clima mais fresco, ele não precisava parar a cada dois metros para tirar fotos e dar autógrafos. Não que ele não adorasse receber o carinho dos torcedores, mas gostava de ter privacidade, especialmente quando vinha para a cidade natal nas férias. E manter a boa forma era essencial, ainda mais quando estava vivendo o melhor momento de sua carreira. A temporada estava para começar e, se queria que fosse ainda mais incrível do que a anterior, precisava se esforçar para isso.
Depois de dar uma última volta no quarteirão, pedalou na direção da casa que havia comprado para seus pais quando recebeu seu primeiro salário como jogador profissional. guardou a bicicleta na garagem e adentrou a casa tirando os tênis de corrida. Estava tudo escuro, pois seus pais não estavam de férias como ele e já estavam dormindo, então ele acendeu a luz do hall de entrada e caminhou o mais silenciosamente possível na direção da escada. Quando pôs o pé direito no primeiro degrau, pôde enxergar a silhueta da mãe no segundo andar. Não se surpreendeu, pois, mesmo que ele morasse em outro país desde o fim da adolescência, sempre que estava na casa dos pais a mãe não conseguia pregar os olhos até que ele voltasse de onde quer que tivesse ido.
- Oi, mãe. Cheguei - ele disse, subindo os degraus. Quando parou de frente para a mais velha, a segurou pelo rosto com a mão que não segurava o par de tênis e beijou a bochecha dela.
- Quer que eu faça um lanchinho? Você deve estar morto de fome - Debbie ofereceu, prestativa.
- Não precisa, eu me viro. Vai descansar - respondeu e esboçou um sorriso. Admitia que adorava ser mimado pela mãe, mesmo que odiasse dar trabalho para ela ou qualquer outra pessoa.
- Tem certeza, filho? Posso arrumar alguma coisinha rápida de fazer, não tem problema - ela insistiu, o que fez com que o homem risse.
- Absoluta, mãe. Nem estou com fome, vou só achar uma besteirinha pra comer enquanto assisto ao jogo do Real Madrid.
- Jogo de futebol a essa hora? Vão jogar contra quem?
- É porque é nos Estados Unidos. Vai ser contra o PSG.
- Ah, é mesmo. Pré-temporada, né? - a mulher falou, se lembrando que, nos anos anteriores, o filho também havia disputado alguns jogos na América do Norte com o time. - Tudo bem, então. Boa noite.
- Boa noite.
Os dois seguiram juntos pelo corredor, até adentrar o quarto no qual costumava ficar durante as férias e fechar a porta. Largou os tênis no chão e tirou a roupa suada para tomar um banho rápido. Quando estava banhado e vestindo apenas um short de pijama, ele desceu até a cozinha e fez uma pipoca de microondas. Serviu um copo do suco de uva que encontrou na geladeira e foi para a sala, onde ligou a televisão e se esparramou no sofá. O canal de esporte já passava o pré-jogo e ele ficou assistindo aos colegas de time se aquecerem enquanto prestava atenção nos comentários que eram feitos pelos narradores e comentaristas, ouvindo seu nome ser citado diversas vezes.
Aproveitou para pegar o celular e abrir o Twitter para dar um sinal de vida aos seus seguidores madridistas.

!Hala Madrid! 💪⚽

gostava de estar perto da família e poder ter algum tempo de descanso, mas era tão estranho assistir ao Real Madrid pela televisão. Depois de três temporadas jogando pelo clube espanhol, ele já estava acostumado a fazer parte daquilo tudo. Mal podia esperar para voltar para Madrid, voltar para o futebol.
Voltar para casa.

Depois da semana de treinamento em Montreal, o Real Madrid partiu para o segundo destino da pré-temporada: Columbus, Estados Unidos. Os jogadores se preparavam no vestiário do Ohio Stadium, onde enfrentariam o Paris Saint-Germain no primeiro jogo da International Champions Cup, torneio amistoso que seria disputado entre o Melbourne Victory, clube australiano, e mais dezesseis clubes europeus; dentre eles, os grandes clubes que o mundo estava acostumado a ver na famosa Champions League. Apesar de as sedes do campeonato estarem distribuídas entre a Austrália, a China, os Estados Unidos e a Europa, o Real Madrid jogaria apenas em estádios estadunidenses.
estava eufórica e ansiosa, mal conseguia prestar atenção no espanhol enrolado do preparador físico italiano. O nervosismo, entretanto, acabou por abandoná-la no decorrer da semana, conforme os dias de trabalho iam se passando e ela se enturmando com os jogadores cada vez mais. O grupo era tão unido e receptivo que qualquer pessoa não precisaria de muito tempo para se sentir em casa, ainda mais ela, que costumava cativar as pessoas com facilidade. Já estava até tendo que lidar com as brincadeiras de Marcelo, que conseguia ser mais implicante do que Benzema, Enzo e Luca juntos. E nem imaginava que isso fosse possível.
Quando Antonio pediu licença e adentrou o vestiário para auxiliar os jogadores, deu meia volta e seguiu pelos corredores do estádio. Ela se recusava a entrar lá e se deparar com um monte de homens seminus, precisaria de tempo para se acostumar com isso.
- , vem aqui - ela escutou a voz do tio chamá-la.
Quando olhou para a direita, avistou Zizou, David e Unai Emery, espanhol que, apesar de não conhecer pessoalmente até aquele momento, sabia que era o novo técnico do PSG.
- Olá. Como vai? - falou, simpática, ao se aproximar dos três homens, e estendeu a mão para cumprimentar o ainda desconhecido.
- Finalmente estou conhecendo a famosa Zidane - o homem falou com um ar brincalhão.
- Estava falando pro Emery que você é a nossa arma secreta pro jogo de hoje - Zizou falou, fazendo rir.
- Você conhece meu time melhor do que eu, isso é um perigo - Unai brincou. Já havia sido informado de que, apesar de ser técnica do time feminino, tinha um contato muito próximo com o time masculino e, volta e meia, trocava figurinhas com o antigo técnico.
- Imagina, esse elenco é excelente. Por mais que a gente os conheça, os jogadores sempre acabam nos surpreendendo - destacou modestamente.
- Espero que consigamos surpreender vocês hoje - o espanhol rebateu, divertido. - Bom, vou lá conversar com meus jogadores.
Depois de se despedir de Zidane com um abraço de lado, Unai Emery acenou para os outros dois e sumiu pelo corredor. Logo em seguida, Zizou e David também seguiram pelo mesmo caminho, mas dobraram o corredor na direção do vestiário do Real Madrid. fez o caminho contrário, que levava para o campo, e, após dar alguns passos, sentiu um braço passando por seus ombros.
- , vou fazer um gol pra você hoje - Karim falou. Em um tom animado, continuou: - Pé ou cabeça? Como você prefere?
- Nossa, como você é engraçado, Benzema. Até parece que está podendo escolher como vai marcar - disse, rindo.
- Então é assim, é? - o outro disse, soando ofendido. - Vamos apostar. O que eu ganho se fizer um gol?
- Não vai ganhar nada, é sua obrigação fazer gol - ela debochou e beliscou as costas do jogador.
- Cadê o espírito esportivo? Fico só imaginando como você tratava as suas jogadoras.
- Muito bem, se você quer saber - respondeu e mostrou a língua. - Mas você, se quiser o mesmo tratamento, vai ter que ralar muito.
A assistente acabou por não esperar pela respostinha desaforada que certamente viria, pois sua atenção voltou-se para os jogadores dos dois times que começaram a surgir no túnel que levava ao campo e, dentre os diversos rostos conhecidos, se deparou com o mesmo sorriso que ela viu ao acordar depois de uma das melhores noites de sexo de sua vida.
O sorriso do goleiro alemão Kevin Trapp.
- Olha só quem eu encontrei aqui - ele falou e beijou a bochecha dela.
Benzema tirou o braço dos ombros da amiga e ficou apenas observando a cena. Não conhecia o goleiro do PSG.
- Oi, Kev - disse, retribuindo o sorriso, e observou os olhos do rapaz a devorarem de cima a baixo. Agradeceu mentalmente por ele já tê-la visto sem roupas, pois o uniforme de assistente técnica certamente não a favorecia muito.
- Não acredito que você abandonou a gente pelo Real Madrid - ele acusou, fazendo a mulher rir.
- Não tinha como recusar uma proposta dessa vinda do meu próprio tio, né?
- Tudo bem, tudo bem… Mas só porque ele é o Zidane - Kevin brincou. Com um sorriso de canto, continuou em um tom despretensioso: - Tem um jeito de você se redimir. A gente pode fazer alguma coisa depois do jogo.
não se surpreendeu com a proposta e sentia-se tentada a aceitar. Trapp era bonito e beijava muito bem, mas ficar com ele uma vez já havia sido erro suficiente.
- Não vai dar, Kev. A gente vai direto pro aeroporto, o próximo jogo é em Ann Arbor - ela disse com um falso desapontamento, sentindo o olhar de Karim, que ainda observava o desenrolar da cena sem se pronunciar, queimar sua pele.
Apesar de ser verdade, ela não aceitaria sair com Kevin no meio de uma viagem à trabalho nem se tivesse oportunidade para tal.
- Que pena. Fica pra próxima, então - o alemão falou, mas não pareceu se importar com a resposta negativa. Afinal, não era como se ele não pudesse arranjar outra companhia para a noite. - Foi bom te ver, .
sorriu para Kevin uma última vez e o observou se afastar na direção do campo.
- Foi ele, não foi? O outro jogador que você pegou - Benzema acusou e soltou uma gargalhada. - Que merda, . Outro alemão?
- Isso é uma mera coincidência, ok? - ela se defendeu. - Foi na festa de confraternização do final da temporada passada. Ele começou a dar em cima de mim e, bom… Depois de algumas taças de champanhe, se um cara gato desse aparece querendo te levar pra cama, você não tem muita condição de recusar, né?
Karim fez uma careta e deu uma corridinha para entrar no campo. Antes de se juntar aos companheiros de time, ele se virou para .
- Sou mais eu!
A assistente rolou os olhos, mas não conteve uma risada. Em seguida, também adentrou o campo para auxiliar no aquecimento dos jogadores e se arrepiou com os gritos da torcida, que já lotava o estádio quase completamente. Era incrível como, mesmo ali, no país em que o verdadeiro futebol não era tão popular assim, tanta gente amava o Real Madrid.

A primeira partida do Real Madrid na International Champions Cup não foi nada satisfatória. Erros inaceitáveis para o time que fora campeão da Champions League dois meses antes somados a uma boa atuação do Paris Saint-Germain resultaram em uma derrota por 3x1 que deixou Zizou de péssimo humor. O time não estava completo e os jovens jogadores do Real Madrid Castilla não estavam acostumados a enfrentar jogadores de nível tão alto quanto o de Edinson Cavani e companhia, mas ninguém gostou de começar a temporada daquela forma.
No segundo jogo da pré-temporada, disputado no University of Michigan Stadium, a equipe demonstrou uma relevante melhora contra o Chelsea. Com dois golaços de Marcelo e um de Mariano Díaz, o Real Madrid chegou a abrir uma vantagem de 3x0. Embora o belga Eden Hazard, que entrou no jogo no segundo tempo, tenha conseguido descontar o placar marcando dois belos gols, o time espanhol conseguiu uma vitória por 3x2 convincente.
Para finalizar a pré-temporada, o time comandado por Zinédine Zidane ainda enfrentaria o Bayern München em um jogo que também marcaria o reencontro dos madridistas com Carlo Ancelotti, o técnico recém-contratado pelo clube alemão e que, como treinador do Real Madrid, havia conquistado La Décima, a Champions League aguardada por longos 12 anos. Antes disso, entretanto, parte dos jogadores tinha outro compromisso, o evento de lançamento do terceiro uniforme da temporada 2016-2017, o que resultou em uma tarde de folga para o restante da equipe.
penteava os fios de cabelo úmidos na frente do espelho depois de tomar banho; era final da tarde e ela havia passado algumas horas na piscina do hotel nova iorquino no qual eles estavam hospedados na companhia dos dois primos e outros jogadores.
- Só um minuto! - a assistente gritou na direção da porta do quarto ao ouvir três batidas.
Como estava apenas de roupas íntimas, se apressou a vestir uma calça jeans de cintura alta e uma blusa florida estilo cigana. Sentiu-se até um pouco estranha por não estar vestindo o uniforme do Real Madrid. Quando estava devidamente coberta, andou a passos apressados até a porta e a escancarou, logo se deparando com Karim Benzema e Sergio Ramos.
- Olha só, ela já está até pronta - Sergio disse e, em seguida, segurou a mulher pelo braço. - A gente vai dar uma voltinha, . Vem também.
- Ei, espera aí, Ramos! Estou descalça - ela exclamou, forçando o corpo na direção contrária quando o zagueiro começou a puxá-la para o elevador.
- Então vai botar um sapato, mulher - Sergio rebateu, a libertando.
- Aonde vocês vão? Posso saber? - questionou, adentrando o quarto, e pegou o par de Adidas Superstar que havia deixado próximo ao pé da cama.
- Não sei, só andar pelas redondezas - Benzema respondeu.
terminou de calçar os tênis e foi até a mochila jogada em cima da poltrona pegar o celular e a carteira.
- Anda, . O Luka e o Mateo estão nos esperando lá embaixo - Ramos falou, colocando a cabeça para dentro do quarto, e, em seguida, foi chamar o elevador, que já havia ido embora do andar.
- Meu Deus, Sergio. Pra que essa pressa toda? Nem parece que esperou 9 meses pra nascer - a mulher disse enquanto batia a porta do quarto e andava até o elevador.
- Nasci com 8 - o outro rebateu, debochado, fazendo rir enquanto dava um tapa na nuca dele. - A gente precisa estar de volta no hotel na hora do jantar.
- Se não voltarmos para o jantar, o que acontece? - a assistente perguntou, curiosa, e foi a primeira a adentrar o elevador quando o mesmo chegou.
- Você não vai querer pagar pra ver - Ramos disse com um sorrisinho de canto.
estreitou os olhos e revezou o olhar entre os dois jogadores. Escorado na parede do elevador, Benzema prendia o riso.
- O que acontece? - ela insistiu.
- Sei lá, nunca desobedeci as ordens dos meus treinadores - Sergio respondeu, fazendo rolar os olhos e Karim gargalhar.
- Tirando aquela vez que você quis dar uma de toureiro e teve que pagar uma multa pro clube por ter arriscado a vida - ele acusou, fazendo o amigo rir.
- Foi só um desvio de percurso.
O elevador chegou ao térreo e os três se uniram aos croatas Luka Modrić e Mateo Kovačić. O grupo andou pelas ruas próximas ao hotel, parando em algumas lojas e tentando serem o mais discretos possível. sentia as bochechas doerem de tanto gargalhar com as besteiras que os quatro diziam e, também, de tanto sorrir para as fotos e vídeos que Sergio Ramos fazia questão de registrar para postar em suas redes sociais. A assistente aproveitou para postar algumas fotos em seu Instagram, que estava abandonado há algumas semanas e tinha, a cada dia que passava, mais e mais seguidores madridistas.
No dia seguinte, o Real Madrid teve o último treino antes de enfrentar o Bayern München, jogo que venceu por 1x0 com um gol do brasileiro Danilo. Zizou ficou satisfeito com o trabalho da equipe durante aquela pré-temporada, todos estavam confiantes de que a temporada 2016-2017 seria regada de vitórias.
Enquanto arrumava as malas, só conseguia pensar em quão incríveis haviam sido as últimas três semanas. Tinha um sentimento de dever cumprido no peito, mas este não superava o sentimento de que o trabalho estava apenas começando.
Era hora de voltar para Madrid e fazer história.

Véronique desceu as escadas apressadamente quando ouviu a porta se abrir e chegou ao hall de entrada a tempo de ver Luca adentrar a casa. O garoto precisou soltar a mala de rodinhas, já que foi envolvido em um abraço apertado pelos braços da mãe.
- Como foi o voo, filho? Correu tudo bem?
- Eu não estou conseguindo respirar, mãe - Luca brincou, fazendo a outra soltá-lo ao mesmo tempo que rolava os olhos. Ele riu, dando de ombros, e voltou a segurar a alça da mala. - Foi tranquilo, deu tudo certo.
Enzo passou pela porta, atraindo a atenção de Véronique, e foi recepcionado com um abraço tão apertado quanto o que o irmão recebera antes.
- Que saudade eu estava de vocês! - ela disse, olhando de um filho para o outro. - Cadê seu pai? E a ?
- Estão vindo aí, o pai está pegando o restante das malas - Enzo respondeu e logo viu a prima adentrando a casa - Olha ela aí.
abriu um enorme sorriso ao se deparar com sua madrinha e largou a mala no chão de qualquer jeito.
- Oi, tia! - ela exclamou com animação.
Diferente dos primos, não recebeu um abraço apertado, pois agarrou Véronique antes que ela pudesse fazê-lo.
- Como foi a pré-temporada, querida? - a mais velha perguntou, sorrindo.
- Valeu pela consideração, mãe! Pra gente você nem perguntou sobre a pré-temporada - Luca falou, fazendo as duas rirem.
- Quanta carência, hein? Depois vou querer saber de vocês também - Véronique disse, observando os dois filhos subirem as escadas, e, em seguida, voltou a fitar a sobrinha. - Me conta! Como foi?
- Foi tudo maravilhoso! - a assistente técnica respondeu e esboçou um sorriso quase maior do que o rosto. - O jogo contra o PSG foi péssimo, né? Mas os outros dois acabaram compensando. E os treinos foram ótimos, me dei bem com todo mundo.
- Claro que sim. Quem não gosta de você, ? - Véronique falou, rindo. - Estou tão feliz de te ver realizando seu sonho. Lembro daquela garotinha que ficava pra lá e pra cá atrás do Zizou e vejo você hoje… Estou até me sentindo velha.
- Até parece, tia. Você é uma menina - disse em um tom divertido. - Já volto pra gente conversar melhor, vou deixar minhas coisas lá em cima.
Ela subiu os degraus da escada com destreza e seguiu direto para o quarto, onde largou a mala e a mochila de qualquer jeito. Pegou o celular no bolso da calça para checar as novas notificações e, antes de descer para contar sobre a viagem em detalhes para a tia, decidiu postar um tweet.

Estamos de volta, Madrid! Agradeço pelo carinho dos norte-americanos, a pré-temporada foi incrível 😊

Quando chegou no primeiro andar, não encontrou os tios. A porta estava aberta, então ela se aproximou para espiar o que acontecia no quintal da casa. Notou que o casal conversava com alguém que estava parado no meio fio, perto de um carro que não era o de Zizou. Olhando um pouco melhor, ela pôde reconhecer a pessoa. Era . Ela ainda não o conhecia pessoalmente e, como iriam começar a trabalhar juntos em dois dias, achou que seria educado aproveitar a oportunidade para se apresentar, então passou pela porta e se aproximou dos três.
- - Zizou começou ao notar a aproximação de -, deixa eu te apresentar a , minha sobrinha. Nossa nova assistente técnica.
abriu um sorriso simpático conforme observava o jogador entortar o pescoço para encará-la. Os olhos dele pousaram nos dela e sentiu-se hipnotizada. Eram olhos grandes e intensos que a faziam sentir-se exposta, como se ele estivesse lendo cada um de seus pensamentos.
Ela não se importaria de passar uma eternidade encarando aqueles olhos.
esboçou um sorriso quase imperceptível e simplesmente não conseguia parar de fitá-lo. Apenas conhecendo-o pessoalmente é que ela foi notar como algo nele era tão atraente, tão agradável de se admirar. Ele não tinha a mesma beleza que Kevin Trapp, por exemplo, que mais parecia um modelo de cuecas do que um jogador de futebol. Aquele tipo de homem que exala sensualidade, que você põe os olhos e tudo o que passa pela sua cabeça é que ele ficaria ainda mais bonito com aquela carinha enfiada no meio de suas pernas. Não, muito pelo contrário, transmitia uma amabilidade que poucas vezes foi capaz de perceber na primeira vez que pôs os olhos em alguém.
- Ei, muito prazer - o jogador disse, estendendo a mão.
piscou os olhos, demorando meio segundo a mais do que o normal para apertar a mão estendida.
- Olá, o prazer é meu - ela respondeu e sorriu, se esforçando para não deixar transparecer a confusão de pensamentos que rodeavam sua mente.
- Ele é nosso vizinho, - Zizou falou e a assistente o encarou ao mesmo tempo que soltava a mão de . - Mora a duas casas da nossa.
- Sério? Morar perto do treinador deve ser complicado - brincou, voltando a fitar o , e se deparou com os belos olhos dele ainda a observando.
- Um pouco melhor do que morar com ele, imagino - rebateu, fazendo os outros três presentes rirem. Voltando a se dirigir a Zizou, ele continuou: - Então, você acha que eu consigo jogar a Supercopa?
- Não sei, vamos esperar pela avaliação dos fisioterapeutas. Lesões na coxa costumam ser um pouco chatinhas - o técnico respondeu, fazendo uma careta.
ficou apenas observando descrever as dores que estava sentindo, enquanto o tio, com toda sua experiência, dizia quais exercícios poderiam acelerar a recuperação. Ela sentia vontade de participar da conversa, também conhecia lesões como aquela e, sem dúvida alguma, poderia contribuir positivamente, mas não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Sentia uma vontade ainda maior de conhecer , de se sentar com ele e discutir sobre futebol. De conhecê-lo, de ouvir sua história e dizer que o achava um jogador fora de série, um dos melhores do mundo.
Ou, talvez, só quisesse ter aqueles olhos a fitando intensamente mais uma vez.

3. La Tercera

Ya no encuentro las palabras
Que describan esta sensación
Aunque juegues tú conmigo
Jugamos los dos

Sin Palabras - La Musicalité

- Vamos passear, Athos?
fez um carinho rápido na cabeça do labrador e o puxou para prendê-lo à coleira, enquanto o animal latia para ela.
- Ele gosta mais de você do que dos meninos, sabia? - Véronique disse em um tom divertido ao adentrar a sala de estar e ver como o cachorro da família estava animado.
- A gente se dá muito bem mesmo, né Athos? - a mais nova falou, se inclinando para beijar o topo da cabeça do cão. Em seguida, voltou-se para a tia, que se acomodava no sofá. - Vou dar uma caminhada e aproveitar pra levar ele pra passear, tudo bem?
- Está bem, . Mas não vá perder a hora do almoço, hein?
- Pode deixar, tia. Eu jamais me arriscaria a despertar a fúria de Zinédine Zidane, sei bem como ele faz questão de que todo mundo participe das refeições em família - ela retrucou, rindo, e saiu da casa puxando Athos pela coleira.
O céu estava aberto naquela manhã e sentia seu humor em tão bom estado quanto o clima de Madrid. Ela estava contente por ter a oportunidade de retomar sua antiga rotina de caminhar pelas redondezas da casa do tio na companhia de Athos, exatamente como costumava fazer nos anos que morou ali.
A família Zidane era proprietária de uma casa em Los Lagos, uma das zonas da urbanização residencial La Finca, onde moravam diversos futebolistas do Real Madrid e do Atlético de Madrid, além de grandes empresários espanhóis. Repleta de mansões, campos verdes e lagos muito bem cuidados, La Finca proporcionava um ambiente agradável, segurança e a privacidade que seus moradores desejavam. adorava caminhar pela zona de Los Lagos sem destino, apenas pensando em bobagens e apreciando a paisagem. Sentia falta daquela tranquilidade no bairro movimentado onde morava em Paris.
Conforme caminhava pela grama, notava um ou outro carro importado passando pelo asfalto, mas não dava muita importância. Athos era um cachorro grande e forte que ficava enlouquecido quando via campos tão extensos como os de Los Lagos, e ela precisava utilizar toda sua força para impedir que o labrador saísse em disparada.
- Calma, Athos! Já vou te deixar brincar.
Enquanto tentava acompanhar os passos apressados do cachorro, alguém passou correndo a alguns metros de distância e chamou a atenção de . Seu olhar cruzou com o de , que, sem desviar de seu caminho, apenas acenou com uma das mãos para ela. sequer notou que seus pés pararam de se movimentar, estava distraída demais fitando as costas largas e definidas de , conforme o jogador se afastava. Sua consciência apenas foi recobrada quando um puxão a levou ao chão, fazendo-a soltar um grito antes de cair de cara na grama. Durante a queda, ela acabou soltando a coleira de Athos, que finalmente se viu livre para sair correndo.
rolou na grama e, fitando o céu, deixou uma gargalhada escapar pela garganta. Não estava acreditando que havia acabado de protagonizar uma cena típica de comédia-pastelão por causa de alguns músculos. Até parecia que ela nunca tinha visto um homem sem camisa antes.
- Você está bem? - questionou, surgindo ao seu lado. Segurava Athos pela coleira.
- Estou, e você? - rebateu em um tom divertido.
“Está claramente cheio de saúde”, ela não pôde conter o pensamento e precisou segurar o riso.
O jogador abriu um sorriso que mostrava os dentes, sem notar que percorria seu corpo de cima a baixo com os olhos, e estendeu a mão para ela. Aceitando a ajuda, a mulher agarrou a mão estendida e deixou que a puxasse para cima sem muito esforço. Ao ficar cara a cara com o , sentiu o mesmo sentimento estranho de dois dias antes, quando foi apresentada a ele, e as palavras simplesmente desapareceram de sua mente. Ela só esperava conseguir se acostumar com aquele olhar intimidador de o mais rápido possível ou estava ferrada.
A solução que ela encontrou para disfarçar o desconforto foi baixar o olhar para fitar o labrador, que parecia entediado.
- Acho que encontramos alguém mais rápido do que você, Athos - disse, acariciando o pelo do cachorro, e sorriu ao ouvir a risada de . Segurou a coleira, puxando o labrador para si, e voltou a encarar o homem. - Obrigada, .
- Considere isso como minhas boas-vindas pra você - ele respondeu, sorrindo, e foi se afastando a passos curtos. - A gente se vê amanhã no treino.
sorriu uma última vez e o observou voltar a se exercitar, correndo para longe. Soltando um suspiro, ela fitou o cachorro.
- Se a gente for encontrar ele sem camisa toda vez que sairmos pra passear, acho melhor você começar a cooperar comigo, viu? - ela falou, rindo, e se abaixou para soltar Athos da coleira. - Vamos brincar, seu pestinha.
Athos não levou nem um segundo para sair correndo pela grama, não deixando outra opção para a não ser se juntar à brincadeira.

A tigela vazia foi preenchida com uma porção de salada de frutas que julgou ser o suficiente para sustentá-la até o almoço, já que havia tomado um café da manhã reforçado em casa. A assistente técnica atravessou o refeitório com um destino certo, a mesa onde Luka Modrić, Toni Kroos e comiam e conversavam, e se acomodou na cadeira ao lado da de Luka.
- Bom dia, garotos - ela disse, sorridente, e deu a primeira colherada na salada de frutas. Depois que engoliu o que tinha na boca, encarou o alemão sentado à sua frente e estendeu a mão. - Ainda não nos conhecemos. Eu sou a , mas pode chamar de .
- Toni Kroos - o jogador respondeu de boca cheia e apertou a mão dela.
- Se ele não dissesse que se chama Toni Kroos eu nem ia saber, hein? - brincou, cutucando Modrić com o cotovelo, e acabou por fazê-los rirem.
- O Mesut me falou bastante sobre você - o alemão disse em um tom despretensioso.
- O que o Özil andou falando de mim? Posso saber? - a assistente rebateu, estreitando os olhos em desconfiança.
Estava curiosa para saber quanto Mesut havia falado sobre ela e o sorrisinho que surgiu nos lábios de Toni a fez ter certeza de que ele sabia mais do que ela gostaria que soubesse.
- Nada demais, só que vocês já se divertiram bastante juntos - ele respondeu, dando de ombros, e Luka soltou uma gargalhada.
- Se divertiam até demais, né ? Pelo menos umas duas vezes por mês ele aparecia morto de sono nos treinos por ter curtido a noite com você e o Karim - o croata falou com diversão estampada no rosto.
- Para de mentir, Luka. A gente nunca voltava tão tarde! - se defendeu. - Se ele aparecia morto nos treinos, não era culpa minha. Não tenho absolutamente nada a ver com o que ele fazia da vida dele depois que a gente ia embora.
- Acho que tem alguém querendo se explicar demais, hein? - Toni implicou com a assistente, fazendo-a rolar os olhos.
Pela primeira vez desde que sentou-se à mesa, fitou , que mexia no celular distraidamente, e, em seguida, o observou pedir licença e se levantar. Toni e Luka não deram muita atenção, já haviam dado início a uma nova conversa que não fez muita questão de participar. Estava um pouco decepcionada por não ter sequer tido a chance de puxar qualquer assunto que fosse com e preocupada de ele ser tão calado assim sempre.
Depois de comer a salada de frutas e esperar Luka e Toni terminarem de tomar o café da manhã, a assistente os acompanhou até o campo de treinamento. Aos poucos, os jogadores foram chegando e começando a se aquecer e a brincar com as bolas.
Apenas quando Zidane chegou, todos se juntaram em torno dele para ouvi-lo dar as primeiras coordenadas sobre como seria a preparação do time para o jogo da Supercopa da Europa, o primeiro desafio da temporada que teriam dali a dois dias. Apesar do pouco tempo que teriam, já estava tudo planejado, inclusive os onze jogadores que provavelmente iniciariam a partida como titulares. havia juntado algumas informações sobre a pré-temporada do Sevilla, time que enfrentariam, e tal material havia sido de muita utilidade para o técnico definir as possíveis táticas que seriam utilizadas no jogo que, inclusive, eles não esperavam que fosse ser fácil, pois a pré-temporada nunca era o suficiente para fazer o time pegar o ritmo de jogo depois das férias.
- , quero que você trabalhe com o Kroos e o hoje - Zizou falou ao se aproximar da sobrinha, enquanto coletes eram distribuídos para metade dos jogadores. - Eles estão voltando hoje, então é melhor que peguem mais leve do que o restante do time.
prontamente concordou com a ordem do tio e caminhou na direção de um grupo de jogadores.
- Você e você - ela disse, apontando para e, em seguida, para Kroos. - Venham, vocês vão treinar comigo hoje.
- Cuidado, Toni! Essa francesa aí tem algum tipo de obsessão por alemães, pode te atacar a qualquer momento - Benzema berrou, debochado.
- Vai se ferrar, Karim! - a mulher exclamou, mostrando o dedo médio, e o outro riu alto.
Os dois jogadores acompanharam e foram orientados a darem prosseguimento ao aquecimento. Para começar, a assistente técnica os instruiu a darem algumas voltas pelo campo e se juntou a eles na corrida. Apesar de concentrada na atividade física, ela não conseguia deixar de se sentir intimidada pela presença do ao seu lado e não conseguia entender o que estava acontecendo. era apenas um jogador como qualquer outro, porém, mesmo assim, ele destoava completamente do resto da equipe e não tinha ideia do porquê.
Ela bem que tentou, mas não conseguiu se conter em observá-lo de canto de olho quando, lá pela terceira ou quarta volta no campo, puxou o agasalho que fazia parte do uniforme de treinamento para cima e revelou a camisa sem mangas que usava por baixo. A peça foi jogada para a lateral do campo e quis morrer quando percebeu que admirava os braços definidos do jogador.
Aquilo já estava passando do absurdo para o ridículo.
Ela não podia ficar abalada daquela forma por um jogador do clube que havia a contratado, um colega de trabalho.
- Vamos pros obstáculos? - ela disse subitamente, chamando a atenção dos dois jogadores, e indicou algumas estacas que estavam enfileiradas na grama.
foi na direção dos obstáculos, enquanto Toni a acompanhou até uma caixa térmica e cada um pegou uma garrafa d’água. O alemão deu algumas goladas no líquido e largou a garrafa no chão, logo indo se juntar ao amigo, e o seguiu enquanto ainda bebia a água.
- Você joga futebol, ? - Kroos questionou com curiosidade, se esgueirando para desviar das estacas enquanto corria.
A assistente não conteve uma risada. Em toda sua vida havia se deparado tantas vezes com pessoas que duvidavam que ela realmente soubesse jogar futebol que já nem se ofendia mais, achava até divertido ver a surpresa nos rostos alheios quando ela pegava uma bola. Além do mais, sabia que Toni não havia perguntado por maldade, apenas estava curioso.
- Desde que aprendi a andar - respondeu, sorrindo.
- Mas você nunca foi jogadora profissional, né? - Toni rebateu, se aproximando, e roubou a garrafa da mão da mulher, a fazendo abrir a boca em sinal de indignação.
- Posso saber quando te dei tanta intimidade? Te conheci hoje! - ela exclamou, tentando soar irritada, mas seu semblante denunciava que estava achando graça da situação. Toni apenas deu de ombros. - Nunca pensei em jogar profissionalmente e nem acho que jogo tão bem assim, sempre fui muito melhor na parte tática. Quando eu era criança, já gostava de assistir partidas de futebol e dar palpites sobre o que os técnicos tinham que mudar nos times.
- Legal… - ele falou e bebeu a água da garrafa despreocupadamente e, em seguida, a devolveu à dona. - Pretende treinar um time masculino?
- É a intenção - respondeu, sorrindo. - Estou aqui pra aprender e mostrar que as mulheres podem muito bem trabalhar com os homens também no futebol masculino. Se um homem pode comandar um time de mulheres, por que não o contrário?
- Será que você vai ser a primeira técnica do Real Madrid, hein? Vou poder dizer pra todo mundo que tive a honra de ser treinado por Zidane - Toni brincou, fazendo a outra rir.
- Então vamos começar seguindo as ordens da Zidane. Que tal? - a assistente falou e deu um empurrão no loiro. - Chega de papo furado. Vai treinar, Toni Kroos!
O alemão se fingiu de amedrontado e voltou a se unir a , correndo por entre os obstáculos de treinamento.
sequer notou que, enquanto o parecia totalmente focado no exercício que realizava, na verdade escutava atentamente a conversa entre ela e Toni. E estava louco para conhecer mais a respeito do envolvimento de com o futebol.

O futebol era tão intrínseco ao cotidiano de sua família que sequer imaginava como seria sua vida sem o esporte. Era comum que, nos fins de semana, todos se reunissem no estádio ou em frente à televisão, além das festas e almoços, que sempre terminavam em uma pelada no quintal. cresceu com a ideia de que o futebol tem esse poder de unir as pessoas e de provocar as mais variadas emoções. Era impossível contar quantas derrotas ela já havia chorado em toda sua vida, ou quantas vitórias havia comemorado. Eram tantos jogos importantes, tantos gols marcantes… Ela poderia ficar uma semana inteira relembrando todas as memórias boas e ruins que o futebol havia lhe proporcionado.
gostava tanto de futebol que nunca conseguira acompanhar apenas um time, aquele time do coração que todo fanático por futebol tem. Em certa época de sua vida, por ter nascido em Marselha, ela costumava dizer que torcia pelo Olympique de Marseille só para não parecer boba para os coleguinhas de escola. Ela realmente gostava do clube marselhês, mas, secretamente, estava assistindo também ao Paris Saint-Germain, ao Olympique Lyonnais, ao Manchester United, ao Liverpool, à Juventus, ao Milan… Isso só para citar alguns dos grandes clubes europeus que acompanhava desde que se entendia por gente.
Agora que era adulta e bem resolvida quanto a isso, gostava de dizer que torcia pelo bom futebol.
Mas ela não podia negar que, assim como ao tio, o Real Madrid havia lhe pegado de jeito. Quando Zizou assinou o contrato como jogador do time madridista e pisou pela primeira vez no Estadio Santiago Bernabéu, ela percebeu que aquele clube tinha algo de muito especial. Foi inevitável que, com 11 anos na época, ela não ficasse admirada com tantos troféus e com aquela torcida que cantava desde o apito inicial até o apito final. Os jogadores de futebol mais badalados estavam ali, dando um show de bola. Desse dia em diante, a admiração de pelo Real Madrid cresceu cada vez mais.
Em todos aqueles anos acompanhando o clube merengue, algo já estava bem claro para ela: se você quer se arriscar a torcer pelo Real Madrid, você precisa estar preparado para o que der e vier, pois nunca será fácil. Agora estava descobrindo que, fazendo parte da equipe, era ainda pior.
E logo na primeira oportunidade.
Como em todo início de temporada, o último campeão da UEFA Champions League estava enfrentando o último campeão da UEFA Europa League, disputando o troféu da Supercopa da Europa; o Real Madrid e o Sevilla, respectivamente. A partida entre os dois clubes espanhóis, que acontecia no Lerkendal Stadion, na Noruega, estava sendo duríssima e estava se esforçando ao máximo para não roer as unhas.
O placar foi aberto pelo Real Madrid com um belo gol do jovem jogador espanhol Marco Asensio, mas o Sevilla acabou empatando o jogo com um gol do italiano Franco Vázquez no final do primeiro tempo. Apesar de os jogadores e a equipe técnica demonstrarem certa tranquilidade no vestiário durante o intervalo, o segundo tempo não começou mais fácil do que o primeiro. Ao passar dos 60 minutos de jogo, Zizou gastou duas das três substituições para a entrada de Modrić e Benzema para tornar o time um pouco mais ofensivo e buscar por mais gols, mas nem isso parecia estar funcionando.
Quando ouviu o apito do árbitro soar logo após uma falta na grande área cometida pelo zagueiro Sergio Ramos, ela soltou um longo suspiro e passou as mãos pelo rosto. Um pênalti era tudo o que eles não precisavam naquela altura do jogo. Seus olhos imediatamente foram parar em Zizou, como se questionasse silenciosamente o que eles fariam para contornar aquela situação no caso de o Sevilla marcar aquele gol de pênalti.
- Chama o James! - o técnico gritou para a assistente, que prontamente se levantou do banco e correu pela lateral do campo na direção dos jogadores que se aqueciam.
- Ei, James! Você vai entrar - falou para o colombiano e agarrou o colete e casaco que ele jogou na direção dela depois de se despir.
Enquanto ajudava James Rodríguez a se preparar para a substituição, pôde ver de relance o jogador do Sevilla converter a cobrança do pênalti e sair para a comemoração. Em seguida, ela voltou para o seu lugar no banco de reservas.
Zizou deu as instruções necessárias para o colombiano, que logo estava entrando no jogo no lugar de Mateo Kovačić. O croata cumprimentou o técnico e passou pelo banco cumprimentando um a um dos membros da equipe, até sentar-se ao lado de , que lhe estendeu uma garrafa d’água.
- Valeu - ele disse e levou a garrafa à boca.
- Que dificuldade, hein? - a assistente disse, assistindo James roubar a bola e fazer sua primeira participação no jogo.
- Esse goleiro resolveu que hoje é dia de brilhar - Mateo reclamou e jogou a garrafa no chão, demonstrando sua frustração por ter tido tantas chances de gol perdidas.
A cada minuto que passava, a partida se tornava mais complicada e agoniante, mas nenhum dos jogadores do Real Madrid estava disposto a se dar por vencido. O árbitro deu 3 minutos de acréscimo que, certamente, seriam aproveitados ao máximo. No último minuto - o minuto 93, que já havia sido eternizado na final da Champions League de 2014 -, Lucas Vázquez cruzou a bola para Sergio Ramos cabecear e mandá-la para o fundo da rede.
Os gols de cabeça de Ramos nos instantes finais de jogos importantes já estavam virando tradição.
O zagueiro sequer se importou de estar jogando contra o clube onde iniciou sua carreira e correu pelo campo para comemorar. Era como ir do inferno ao céu em poucos minutos. Sentia-se esperançoso quanto ao título e aliviado pelo pênalti que havia cometido.
A partida foi para a prorrogação e era como se o empate houvesse injetado ânimo nos jogadores do Real Madrid, que assumiram completamente o domínio do jogo e criaram diversas oportunidades. No segundo tempo da prorrogação, Dani Carvajal tomou a bola quase no meio de campo e saiu correndo, deixou quatro jogadores do Sevilla para trás e chutou para marcar um gol que deixou de boca aberta.
O estádio norueguês, lotado de madridistas, explodiu em comemoração.
Quando o apito final soou, sentia como se estivesse dentro de campo durante toda a partida. Estava exausta depois da avalanche de emoções que aquele jogo havia trazido. Apesar disso, ela estava com um sorriso de orelha a orelha estampado no rosto e dando abraços apertados em todos os jogadores.
Na fila para receber a medalha de ouro, Benzema vinha atrás dela, a sacudindo de um lado para o outro pelos ombros, e só conseguia rir e pensar que aquele sentimento de ganhar seu primeiro título com o Real Madrid era maravilhoso.
- Vai se acostumando, . Esse é o primeiro de muitos - Zizou falou quando, já de volta ao gramado, se aproximou da sobrinha segurando o troféu da Supercopa da Europa.
- Mal posso esperar, tio! - ela exclamou, abraçando o técnico de lado, e sorriu para os fotógrafos.
Em seguida, Karim Benzema e Raphaël Varane se uniram aos dois para uma foto de apenas franceses.

- Não acredito que você está seca, ! - Marcelo exclamou e, para o desespero da assistente técnica, ele tinha duas garrafas d’água em mãos.
saiu correndo em meio a gargalhadas pelo vestiário, fugindo do brasileiro.
- Me ajuda, Álvaro! - ela disse e, pelas costas do espanhol, segurou os ombros de Morata para utilizá-lo como um escudo.
- Eu molho os dois, não tem problema - Marcelo falou, sacudindo as garrafas, que mais molhavam Álvaro do que .
- Para, cara! - o espanhol exclamou aos risos, tampando o rosto com os braços.
De surpresa, Sergio Ramos surgiu por trás deles e estourou uma garrafa de champanhe, logo a sacudindo pelo vestiário e fazendo todos se dispersarem, fugindo para não serem atingidos.
- Que bosta, Ramos! Agora vou ficar fedendo a champanhe - disse, irritada, passando as mãos pelos fios de cabelo molhados pela bebida.
- Bem feito, viu? Não me deixou jogar água em você - Marcelo debochou e mostrou a língua.
- Fica chateadinha não, . Não é todo dia que se ganha um troféu, né? - Sergio falou, piscando um olho, e estendeu a garrafa de vidro para ela. - Faça as honras.
rolou os olhos, mas aceitou a garrafa e deu uma longa golada no champanhe para, em seguida, devolvê-la ao espanhol.
- Ei, galera! Vamos invadir a coletiva do Zizou? - Marcelo sugeriu, empolgado.
- Você só tem ideias magníficas, hein Marcelo? - disse e soltou uma risada.
- Opa, opa! Só se for agora - Sergio Ramos falou e largou a garrafa de champanhe em cima de um banco.
acabou seguindo Marcelo, Ramos e Morata, que recrutaram Casemiro, Lucas Vázquez, Kiko Casilla e mais outros dois ou três jogadores para a missão. O grupo adentrou a sala de coletiva, quebrando a tranquilidade com gritos de “campeones, campeones, oe oe oe!”, que fizeram Zizou parar de responder uma pergunta para gargalhar. ficou na porta da sala, apenas observando os jogadores subirem no tablado para pular em volta do técnico e molhá-lo com garrafas d’água. Não controlou a gargalhada quando viu Álvaro Morata levar um tombo em meio à algazarra. Tão repentinamente quanto entraram, eles saíram da sala de coletiva após divertirem os jornalistas.
De volta ao vestiário, viu Benzema tirando foto com o troféu em mãos, utilizando como fundo uma parede onde estava estampado o logotipo da Supercopa da Europa.
- Também quero fotinha com a taça! - ela exclamou, se aproximando de Varane, que servia de fotógrafo para o amigo. - Tira pra mim, Rapha?
- Estou cobrando dez euros - o outro brincou, pegando o celular da assistente.
- Dez euros? Deixa de ser idiota e pede uns beijinhos, cara! - Karim implicou ao entregar a taça para , que deu um empurrão nele com o ombro.
- Que isso, gente? Eu sou casado - Raphaël disse e riu, mostrando a aliança em seu dedo.
posou com a taça, sua medalha de ouro e um sorriso contagiante nos lábios. Depois de entregar o troféu para Dani Carvajal, o próximo da fila, ela pegou o celular de volta e, aproveitando que parte dos jogadores já terminava de tomar banho e seguia para o ônibus, ela pendurou sua mochila nas costas e os acompanhou. Os jogadores acabaram sendo chamados pelos jornalistas que esperavam pela saída do time, então continuou o caminho até o ônibus e o adentrou para se acomodar em um dos assentos.
Para passar o tempo, a assistente decidiu abrir o Instagram e postar a foto que havia acabado de tirar. Testou todos os filtros diversas vezes até escolher seu favorito e digitou uma legenda.

Campeones! Hala Madrid! 🏆😍

Após publicar a foto, ela rolou a página para conferir as postagens das pessoas que seguia e uma em especial lhe chamou a atenção. Era sorrindo na frente de uma televisão, que passava o momento em que o capitão Sergio Ramos levantou o troféu.

Grande vitória dos garotos essa noite, trabalharam duro pra isso! Início perfeito pra temporada 🏆🙌

fora um dos jogadores cortados da lista dos que viajariam para a Noruega, já que havia tido pouco tempo de treino desde que voltara das férias e ainda não tinha adquirido o ritmo necessário, além de estar sofrendo de dores leves na coxa direita. teve vontade de apertar a tela do celular, de tão fofa que achou a atitude do jogador de, mesmo de longe, mostrar seu comprometimento com a equipe. Precisava admitir que sentira falta da presença marcante do durante aqueles dois dias, mesmo que ele trocasse pouquíssimas palavras com ela.
Ela acabou curtindo a foto e voltou a rolar a página e ver as publicações recentes. Algum tempo depois, duas novas notificações surgiram no aplicativo e clicou para conferi-las.
Um sorriso bobo surgiu nos lábios dela.

começou a seguir você.
curtiu sua foto.


4. La Cuarta

Tu mirada me hace grande
Y que estemos los dos solos
Dando tumbos por Madrid
Sin nada que decir
Porque nada es importante
Cuando hacemos los recuerdos
Por las calles de Madrid

Tu Mirada Me Hace Grande - Maldita Nerea

Quando se é de um dos maiores clubes de futebol do mundo, a cobrança faz com que nenhum tempo possa ser desperdiçado. Os olhos do mundo estão voltados para o seu trabalho e qualquer tropeço, por menor que seja, é capaz de gerar um estresse sem tamanho. O time tem a obrigação de se entregar de corpo e alma e, para isso, precisa trabalhar dia e noite. Os dias de jogo, em especial, são ainda mais corridos.
Foi por isso que precisou acordar bem cedo naquele domingo. O Real Madrid enfrentaria a Real Sociedade pela primeira rodada do Campeonato Espanhol da temporada 2016-2017, e o time teria um dia bastante atarefado com a viagem para San Sebastián e alguns compromissos prévios à partida.
Depois de a família Zidane se reunir na sala de jantar para tomar o café da manhã, Zizou, e Luca - que havia sido escalado para se unir ao primeiro time mais uma vez, já que o goleiro Keylor Navas estava lesionado - se dirigiram para a Ciudad Real Madrid, onde o time se encontraria antes de se deslocar até o Aeroporto de Madrid-Barajas. Quando chegaram ao centro de treinamento, só tiveram tempo de deixar o carro estacionado em uma das vagas reservadas para a primeira equipe e já foram se juntar aos jogadores que, conforme chegavam, iam se acomodando no ônibus.
A viagem até o aeroporto era curta, cerca de 10 minutos, então adentrou o automóvel desejando bom dia aos presentes e se jogou no primeiro assento vago que viu.
- Bom dia, Isco - ela disse, sorrindo simpática para o jogador sentado ao seu lado.
- E aí, ? - o espanhol respondeu, levantando os olhos do celular apenas para retribuir o sorriso.
Para passar o tempo, também pegou seu celular e abriu o aplicativo do Candy Crush, que nunca falhava em distraí-la mesmo que jogasse aquele bendito joguinho há anos.
- Já te mostrei meu filho? - Isco questionou quando ela começava a jogar a fase que não conseguia passar de jeito nenhum.
- Desde quando você tem idade pra ter filho, garoto? - rebateu em um tom divertido, mas estava realmente surpresa.
- Você não sabe de nada. Ele já tem 2 anos, fez aniversário semana passada - o outro disse e riu quando a assistente arregalou os olhos.
- Com quantos anos você teve esse filho? 15? - ela exagerou.
- Aí você também está pegando pesado, né? Foi com 22 - Isco respondeu e estendeu o celular para , que acabou largando a fase do Candy Crush pela metade.
Era um vídeo do filho de Isco brincando com uma bola de futebol. O garotinho ainda andava com dificuldade, mas já dava alguns chutes bastante firmes na bola.
- Que gracinha, meu Deus! Esse nasceu com o futebol no sangue, hein? - disse, sorrindo, e devolveu o aparelho ao dono. - Qual é o nome dele?
- Francisco.
- Ah, mentira. É Francisco Júnior? - ela questionou e o espanhol meneou a cabeça em concordância. - Por que jogador de futebol adora colocar o próprio nome no filho?
- Um nome tão bonito desse a gente tem que passar adiante, né? - Isco brincou, fazendo a mulher rolar os olhos e rir.
- Você é metido pra caramba!
Karim Benzema, que adentrava o ônibus, parou ao lado de para beijar o topo da cabeça dela antes de seguir seu caminho. A assistente sorriu para o amigo e logo notou que, atrás dele, vinha . Seus olhos se encontraram aos dele e ambos sorriram um para o outro.
Algumas semanas haviam se passado desde que o Real Madrid conquistara a Supercopa da Europa e a amizade de e não havia tido grandes evoluções. Na verdade, a assistente sequer considerava o relacionamento entre eles como uma amizade. Não que ela quisesse desesperadamente ser amiga do , mas, para ela que sempre fora uma pessoa comunicativa até demais, estava sendo agoniante não saber como agir quando ele estava por perto. A interação entre eles nunca passava de bom dias, das curtidas no Instagram que trocavam de vez em quando e de uma instrução ou outra que passava para a mando de Zidane. O camisa 11 nunca parecia muito interessado em bater papo com , como todos os outros jogadores faziam, e aquilo a deixava bastante intrigada e sentindo-se cada vez mais curiosa a respeito dele. Mesmo que fosse tão acessível quanto qualquer outro jogador da equipe, parecia fora de alcance.
Alguns minutos depois, o time inteiro já havia chegado e o ônibus pôde sair em direção ao aeroporto. Como de costume, eles foram deixados em frente ao avião do clube para não gerar confusão e atrapalhar o embarque e desembarque das pessoas que chegavam ou saíam de Madrid. Mesmo assim, eles sempre acabavam chamando a atenção dos funcionários do aeroporto e, até adentrarem o avião, paravam para tirar fotos e dar autógrafos.
sentou-se na janela, decidida a tirar um cochilo até que pousassem na cidade de San Sebastián, localizada no norte da Espanha, mas, quando Toni Kroos sentou-se ao seu lado, ela percebeu que isso seria uma missão impossível.
- Como vai a vida, ? - o alemão perguntou com um sorriso travesso nos lábios.

A chegada ao hotel foi agitada, uma multidão de torcedores estava à espera do Real Madrid. Era por volta do meio-dia, então os jogadores e comissão técnica não perderam tempo e foram direto almoçar um cardápio rico em carboidratos. Depois de estarem devidamente alimentados, Marco Asensio, Álvaro Morata e Mariano Díaz foram os três jogadores escalados para a sessão de autógrafos que o clube organizava em toda cidade que visitavam para os jogos fora de casa.
Entediada, acabou indo até o salão onde os três jogadores estavam sentados em uma mesa comprida e iam atendendo a fila enorme de torcedores. Ela observava de longe, quieta. Não sabia quão conhecida já era entre a torcida, mas preferiu não arriscar chamar a atenção. Era divertido observar os rostos entusiasmados das pessoas ao falarem com os três futebolistas, especialmente as crianças. Ela só conseguia pensar que, para os jogadores, devia ser gratificante poder fazer o dia de pessoas que os admiravam tanto com gestos tão simples.
O time voltou a se reunir no fim da tarde para que pudessem se encaminhar para o Estadio Municipal de Anoeta e, enfim, fazer o que mais gostavam: jogar futebol. Nas idas para os estádios, o ônibus costumava ser um pouco mais silencioso do que em outras viagens que a equipe fazia, pois todos preferiam se recolher e manter a concentração antes dos jogos. Alguns gostavam de ouvir música, outros só observavam as ruas da cidade passarem pelas janelas. estava inserida no segundo grupo, já que era sua primeira vez em San Sebastián e estava curiosa a respeito da cidade.
Conforme o ônibus se aproximava do estádio, mais e mais torcedores da Real Sociedad surgiam, lotando a rua de camisas listradas em azul e branco. se divertia com os gestos obscenos que eles faziam para as janelas, mesmo que o vidro escuro não permitisse a visão do que acontecia do lado de dentro. O que seria do futebol sem a rivalidade? Desde que não inventassem de atacá-los, estava tudo certo. Era até engraçado.
O ônibus os deixou dentro das dependências do estádio e, então, todos seguiram para o vestiário. Os onze jogadores escalados para serem os titulares naquela primeira partida de La Liga Santander da temporada foram os primeiros a vestirem o uniforme com a camisa roxa de aquecimento pré-jogo e, junto a Antonio, se apressaram para ir ao campo. Os titulares sempre tinham mais tempo de aquecimento com o preparador físico do que o restante do time.
andava distraidamente, observando os corredores com paredes decoradas com o escudo da Real Sociedad, e, ao descer as escadinhas que levavam ao túnel, sentiu dois toques no ombro esquerdo. Como já estava se acostumando com as brincadeiras bobas dos jogadores, ela olhou para o lado contrário e, como imaginava, encontrou o culpado.
- Que foi, Benzema?
- Nossa, você é tão sem graça. Não cai em uma - o jogador falou, caminhando ao lado da assistente na direção do campo. Desapontado, continuou: - Acho que nem vou jogar hoje.
- A dor na coxa piorou?
- Na verdade, não. Mas o Jaime acha melhor não arriscar que piore - ele respondeu, se referindo ao fisioterapeuta do time.
- Não tem problema. Você assiste ao jogo do meu ladinho - brincou e passou o braço pelas costas do amigo, o abraçando pela cintura.
- Única parte boa de ficar no banco - Karim rebateu em um tom divertido e abraçou pelos ombros, a puxando para si.
- Estamos atrapalhando? O casalzinho aí quer privacidade? - Morata disse em um tom de voz alto ao passar ao lado deles, acompanhado de Lucas Vázquez, e gargalhou.
- Se está incomodado, é só olhar pro outro lado - retrucou Benzema e, quando adentraram o campo, soltou para correr atrás de Álvaro para lhe dar um peteleco na orelha.
A assistente riu ao ver os dois correrem pelo campo até Karim desistir e ir se juntar aos jogadores que seriam titulares e já estavam há alguns minutos por ali. Ela seguiu pelo mesmo caminho para comandar o aquecimento ao lado dos outros membros da comissão técnica e, então, todos poderem voltar ao vestiário para colocarem o terceiro uniforme - preto com detalhes em roxo -, que seria utilizado pela primeira vez naquele jogo, e receberem as últimas instruções do técnico.
ficou encantada com a energia que Zizou transmitia. O francês fez questão de, na porta do vestiário, abraçar cada jogador que saía para ir em direção ao campo. Ela sabia como era importante que o treinador fizesse os jogadores se sentirem importantes, independente de serem titulares ou não. Afinal, todos faziam parte do time e iriam perder ou ganhar o jogo juntos.
Mesmo sabendo que perderia o início da partida, decidiu ir até o banheiro ou sua bexiga explodiria a qualquer momento. Quando, finalmente, chegou ao campo, se surpreendeu ao encontrar os jogadores do Real Madrid comemorando em meio a algumas vaias. A torcida estava repleta de torcedores do time adversário, os madridistas eram uma pequena parcela.
- Mas já? Quem fez o gol? - ela perguntou ao sentar-se ao lado de Benzema no banco de reservas.
- . Um golaço de cabeça.
arregalou os olhos minimamente em sinal de surpresa e procurou pelo , que voltava para a saída de bola com um sorriso enorme no rosto que a fez sorrir junto. Ela estava contente por eles terem conseguido sair na frente com pouco mais de um minuto de jogo, mas lamentou por ter perdido o gol de .
O placar de 0x1 acabou por fazer o Real Madrid dominar o jogo. Álvaro Morata e Toni Kroos eram os jogadores que mais conseguiam chances de ampliar o placar, mas, só na reta final do primeiro tempo, Marco Asensio marcou o segundo gol. O segundo tempo seguiu no mesmo ritmo, apesar de o placar permanecer o mesmo, mas, quando machucou o tornozelo ao saltar para uma disputa de bola alta, Sergio Ramos e Marcelo acabaram se estranhando com alguns jogadores da Real Sociedad e uma pequena confusão foi formada.
Enquanto era atendido por Jaime, que se certificou de que o jogador conseguisse jogar os minutos finais da partida, o árbitro se meteu no meio da briga e acalmou os ânimos. A bola voltou a rolar e, no último minuto de jogo, marcou mais um gol.
sentiu um frio na barriga ao ver o jogador dar uma corridinha que demonstrava o tamanho de seu cansaço na direção do banco. Na direção dela. A assistente só percebeu que prendia a respiração quando abraçou Jaime, que estava sentado ao lado de , e ela soltou o ar com força, deixando um pequeno sorriso surgir nos lábios.
estava dedicando o gol ao fisioterapeuta, já que, sem a ajuda dele, não teria tido condições de continuar no jogo e aquele terceiro gol não existiria.
Na volta para o vestiário, Zizou fez questão de repetir o gesto de abraçar os jogadores um a um, os parabenizando pelo excelente jogo. É claro que recebeu uma felicitação diferenciada, pois havia feito dois gols logo em seu primeiro jogo da temporada e, sem dúvida alguma, havia sido o melhor jogador em campo.
A assistente técnica também o abraçou, apesar de ter sido um abraço mais rápido do que ela gostaria. Foi um abraço bastante tímido, na verdade. havia tirado a camisa para trocar com um jogador do time adversário.

O silêncio era agradável, apesar de odiar o silêncio. Ou, talvez, a visão de à sua diagonal, vestindo um terno preto, é que fosse agradável.
Os dois estavam sozinhos no jatinho do presidente do Real Madrid que os levaria até Mônaco para a cerimônia de sorteio de grupos da Champions League; esperavam por Zidane, Cristiano Ronaldo e, é claro, pelo próprio presidente Florentino Pérez. Os cinco estavam indo para representar o clube, mas Cristiano e , em especial, estavam entre os três finalistas do prêmio de melhor jogador da Europa e seriam homenageados.
- Está nervoso? - questionou e sentiu-se até aliviada por, finalmente, ter quebrado aquele maldito silêncio.
tirou os olhos de uma revista de esportes que folheava e permitiu que eles encontrassem os da francesa. jamais imaginaria que ele fingia estar muito mais interessado naquela revista do que realmente estava por estar se esforçando para não fitá-la mais do que o apropriado.
Alguns minutos antes, assim que pôs os olhos na assistente, quase não conseguiu disfarçar quão encantado ficou. Ele não sabia se era o vestido elegante que cobria todo o corpo dela ou os fios de cabelo ondulados que estavam soltos em vez de estarem presos em um rabo de cavalo, como normalmente estavam.
A única coisa que sabia era que estava estonteante.
- Por que eu estaria nervoso?
Diante da falta de expressão no rosto do , não soube dizer se aquele questionamento havia sido irônico ou não. Por muito pouco não se arrependeu por não ter mantido a boca fechada.
- Quer dizer, por causa do sorteio? Ou por causa do prêmio? - ele se corrigiu, notando sua própria falta de simpatia.
- Sei lá, pelas duas coisas - murmurou, dando de ombros.
- Talvez eu esteja um pouco ansioso por conta do prêmio, mas estou tranquilo em relação ao sorteio. Estou curioso, claro, mas não me importo muito com o grupo onde vamos cair. A gente tem a obrigação de encarar qualquer adversário com a mesma seriedade.
sorriu quase imperceptivelmente, achando graça da postura séria do , como se ele estivesse respondendo a perguntas de um jornalista no meio de uma entrevista. Na verdade, a postura de era sempre aquela, extremamente educado e comprometido com o trabalho.
- Isso é verdade. Às vezes a gente pensa que um time é fraco e entra com uma postura mais relaxada só pra acabar levando uma bela de uma rasteira - ela falou, rindo.
- É ingenuidade entrar num jogo com essa mentalidade, né? - completou.
- Muita ingenuidade - concordou. - Um time do tamanho do Real Madrid não pode nem cogitar a possibilidade de agir assim.
Enquanto terminava de falar, a figura de Cristiano Ronaldo adentrou o jatinho. O português estava tão bem vestido quanto o e a assistente técnica sentiu-se até um pouco tonta com tanta elegância em um espaço tão pequeno, sem contar os perfumes fortes que eles usavam que se misturaram no ar. Se ambos, normalmente, tinham presenças bastante marcantes, arrumados daquela maneira tinham ainda mais.
- Opa. Qual é o assunto? - Cristiano questionou com um sorriso nos lábios, sentando-se na poltrona em frente à de .
- Oi, Cris - ela falou, sorrindo, e abanou o ar ao continuar: - Nada demais. Perguntei pro se ele está nervoso com o sorteio e com o prêmio que vocês estão concorrendo, mas ele é um cara durão e nem está.
tentou se manter séria, mas acabou rindo e os dois jogadores a acompanharam.
- Estou tranquilo também - Cristiano disse, dando de ombros. - Quem você acha que vai ganhar, ?
- Não sei, vocês dois tiveram um ano excepcional tanto no Real Madrid quanto nas seleções, é complicado dizer. Mas estou torcendo pelos dois. Apesar de que, caso o Griezmann ganhe, também não vou achar ruim, não - ela confessou e piscou um olho.
- Você ouviu isso, cara? Ela está dizendo que vai confraternizar com o rival - o português falou com uma indignação exagerada, olhando para , que apenas riu.
- Não exagera - retrucou, rolando os olhos. - Você sabe como sou patriota e idolatro o futebol francês. Eu jamais ficaria chateada por ver um conterrâneo ganhar um prêmio de melhor jogador da Europa, mesmo sendo de um clube rival. E o Antoine é gente boa, ele merece.
- Sei…
Cristiano estreitou os olhos, fazendo rir.
Zidane surgiu acompanhado de Florentino Pérez, em seguida, e os três se levantaram para cumprimentá-los.
- Fico feliz que tenha aceitado o convite pra vir com a gente, - Florentino falou, sorrindo, após apertar a mão da assistente.
- Imagina. Eu que agradeço por me dar a oportunidade de acompanhar vocês - disse com um sorriso simpático no rosto e voltou a sentar-se.
- Aliás, você está belíssima. Certamente não puxou em nada o seu tio - o Presidente brincou.
- Infelizmente, tenho que concordar - Zizou falou ao mesmo tempo que se sentava no assento vago ao lado do da sobrinha, rindo. - A deu a sorte de puxar a mãe. Minha cunhada é muito bonita, era modelo quando mais jovem.
- Obrigada pelo elogio. Mas isso é um absurdo, tio, você é lindo - retrucou e pôs a mão no braço de Zizou para apertar levemente o local.
- Ela é cega, coitada - Zidane brincou, fazendo todos rirem, e pôs a mão livre sobre a da sobrinha.
O piloto não demorou a chegar e anunciar que eles decolariam em instantes. A viagem de quase duas horas até Mônaco contou com um papo bem leve sobre futebol, como não poderia deixar de ser.

O ex-futebolista Clarence Seedorf remexeu as bolinhas de plástico que restavam no pote número 1 e escolheu uma delas. Depois de abri-la, tirou um papel de lá de dentro, o desdobrou e mostrou para a câmera.
- Real Madrid - ele disse o nome de seu ex-clube com um sorriso no rosto.
Em seguida, foi a vez de Ian Rush, ex-jogador de futebol , de retirar uma das bolinhas do pote que estava sob seu comando.
- F - ele leu após desdobrar o pedaço de papel que retirou de dentro da bola e mostrá-lo na direção da câmera para que todos soubessem que o Real Madrid estaria no grupo F.
descruzou as pernas conforme entortou o pescoço para encarar Cristiano Ronaldo, que estava sentado ao seu lado.
- Espero que F seja a sua letra da sorte - o jogador sussurrou para a assistente.
Ela apenas riu e voltou a cruzar as pernas, mas dessa vez deixou por cima a perna que anteriormente estava por baixo, buscando por uma posição mais confortável. Já estava ali há algum tempo, sentada ao lado dos três finalistas do prêmio de melhor jogador da Europa, e, mesmo a poltrona sendo bastante macia, a cerimônia ainda demoraria a acabar.
Os trinta e dois clubes classificados para a UEFA Champions League daquela temporada foram divididos em quatro potes de acordo com a ordem de classificação. O primeiro pote, o dos clubes classificados em primeiro lugar nas suas respectivas ligas nacionais, além do Real Madrid, o atual campeão, era o primeiro a ser sorteado para que fosse definido qual time seria o cabeça-de-chave de cada grupo. Em seguida, os outros potes também seriam sorteados até que os oito grupos estivessem completos. O evento contava com a participação de ex-futebolistas de sucesso, como Ruud van Nistelrooy, Thierry Henry, Clarence Seedorf, Roberto Carlos e Ian Rush, que tiravam cada uma das bolinhas do pote e definiam o destino dos clubes naquela primeira fase do torneio.
Quando o sorteio foi concluído e já sabia que teria que estudar o Borussia Dortmund, o Sporting e o Légia Varsóvia mais a fundo, já que seriam os primeiros adversários do Real Madrid, deu-se início à entrega dos dois prêmios da noite. Os prêmios de melhor jogadora e de melhor jogador.
Ada Hegerberg, Amandine Henry e Dzsenifer Marozsán foram as jogadoras finalistas de 2016 e não pôde deixar de lamentar por não ver nenhuma das jogadoras com quem trabalhou no Paris Saint-Germain entre elas, embora soubesse que as três mulheres em cima do palco mereciam estar ali. Ángel María Villar, o atual presidente da UEFA, foi chamado ao palco para anunciar a grande vencedora. O nome de Ada Hegerberg foi dito no microfone e, com um sorriso enorme, a jovem jogadora norueguesa do Olympique Lyonnais pegou o prêmio e agradeceu a todos os jornalistas que votaram nela.
A vez dos homens chegou e, após um vídeo com grandes momentos da temporada dos três finalistas, Antoine Griezmann, Cristiano Ronaldo e subiram ao palco. O presidente da UEFA, mais uma vez, foi chamado para fazer o anúncio de qual dos três havia sido o vencedor. Ángel María Villar abriu o envelope e leu o nome de Cristiano Ronaldo. O resultado não fora tão surpreendente assim, afinal. Além de ganhar La Undécima Champions League com o Real Madrid, o jogador havia também sido campeão da Eurocopa com sua seleção, seu primeiro grande título jogando com Portugal.
ficou feliz de ver Cristiano Ronaldo receber o prêmio e fazer um rápido discurso, mas estava contente também por e Antoine. Ambos haviam trabalhado muito para estarem ali naquele palco.
Quando a cerimônia foi encerrada, seguiu junto a Zidane e Florentino Pérez em direção aos três jogadores, que desciam do palco e eram parabenizados por pessoas da plateia. Ao avistar Antoine a alguns passos de distância, ela se aproximou e o cutucou no ombro.
- Parabéns, Le Petit Prince - ela falou o puxando para um abraço apertado, mesmo que tivesse o cumprimentado no início da cerimônia com um outro tão apertado quanto. - Ainda vou te ver ganhando um montão de prêmios desse daí.
- Você sabe que eu odeio esse apelido, né? - o jogador murmurou, referindo-se à maneira como costumava chamá-lo, mesmo que eles nem tivessem tanta intimidade assim. Eles haviam se conhecido por intermédio de Benzema.
- Qual seria a graça de te chamar assim se você não odiasse? - questionou, rindo, e soltou Griezmann do abraço a tempo de vê-lo rolar os olhos.
- Valeu, - ele disse, sorrindo. - Vamos combinar um campeonato de FIFA só de franceses lá em casa, uh? Eu, você, Benzema, Varane, Lucas e Gameiro.
- Real Madrid contra Atlético de Madrid? É só marcar, querido - a outra rebateu e piscou um olho.
- Beleza, então. Viu minha namorada por aí? - Antoine questionou, olhando à sua volta.
- Sua namorada está aqui? - perguntou, também olhando para os lados.
- Sim, perdida em algum lugar - ele respondeu, rindo.
viu de longe Zidane acenando para que ela se juntasse a ele e aos outros.
- Meu tio está chamando ali - ela disse ao mesmo tempo que fazia sinal de que já estava indo. - A gente se vê em Madrid, Anto. Manda um beijo pra sua namorada.
- Pode deixar. Diz pro Zizou que eu mandei um abraço.
estalou um beijo na bochecha de Griezmann e caminhou a passos apressados, puxando a barra do vestido longo para cima. Quando se aproximou aos seus companheiros de equipe, foi convidada para tirar uma foto com todos do Real Madrid ali presentes. Ela se posicionou entre Zidane e e sorriu para as diversas câmeras que estavam registrando o momento.
Em seguida, ela pôs a mão no ombro de , chamando a atenção do jogador para si.
- Ei, , parabéns! - ela exclamou, sorrindo. - Sinto muito por você não ter ganhado, mas ficar entre os três melhores é excelente.
- Obrigado, - o respondeu e a assistente não deixou de notar que aquela era a primeira vez que ele a chamava pelo apelido.
E ela precisava admitir que seu apelido havia soado muito bem saindo pelos lábios de .
Ainda mais quando os olhos azuis dele a fitavam de maneira tão penetrante.
- Seus olhos são tão bonitos - ela deixou escapar e arregalou os seus próprios minimamente, assustada.
soltou uma risada sem graça e, antes que pudesse agradecer pelo elogio, foi pego de surpresa pelos braços de o envolvendo em um abraço. Ele a abraçou de volta sem saber muito bem como reagir, mas a assistente logo se afastou. Não sem antes sorrir uma última vez para ele.
a observou ir até Cristiano para parabenizá-lo pelo prêmio e agradeceu mentalmente quando Zizou chamou seu nome e se aproximou para cumprimentá-lo, senão ele provavelmente continuaria encarando daquela forma boba para sempre.

Era véspera da segunda rodada do Campeonato Espanhol, o primeiro jogo em casa da temporada. O Real Madrid enfrentaria o Celta de Vigo no Santiago Bernabéu e, depois de passarem a tarde treinando no estádio, o ônibus levou a equipe de volta para a Ciudad Real Madrid, onde eles passariam a noite concentrados. já estava familiarizada com seu quarto na residência do time principal, pois ia até lá para tomar banho e descansar entre um treino e outro, mas seria a primeira vez que dormiria ali.
O ônibus parou em frente à residência e todos os jogadores e corpo técnico entraram pela porta de vidro. A maior parte seguiu para o terceiro andar, o andar dos quartos, para deixar suas coisas e descansar um pouco até a hora do jantar. Caminhando pelo longo corredor, prestava atenção na conversa de Benzema e James sobre carros, mas não fazia a mínima questão de opinar; ela não entendia absolutamente nada de carros. Como seu quarto vinha antes dos deles, ela parou em frente à porta de madeira clara e os deixou seguirem pelo corredor. Pôs o dedo indicador sobre o leitor biométrico e esperou meio segundo até que a porta estivesse destrancada e, então, ela pudesse adentrar o quarto.
Todos os trinta quartos tinham a mesma estrutura, exceto que metade deles era voltada para um campo de treinamento e a outra metade era voltada para o estacionamento, mas também era possível ver outros campos ao longe. O de era voltado para o campo.
Ao adentrar o quarto, o jogador ou membro da comissão técnica se deparava com um pequena sala de estar com televisão, um sofá de três lugares e, ao fundo, uma porta de vidro para ir até a varanda. À direita, um portal levava ao quarto propriamente dito, onde tinha uma cama de casal e um banheiro. Nada muito grande ou extremamente elaborado, mas o suficiente para deixar qualquer pessoa nova que chega à equipe de boca aberta.
Foi exatamente assim que ficou na primeira vez que pisou em seu quarto.
A assistente largou a mochila que levava nas costas no sofá e foi até a cama, onde se jogou no colchão macio. Aproveitou o tempo livre para mandar mensagens para sua família, que não via desde as férias, a última vez que fora a Marselha, e alguns amigos também de sua cidade natal. Durante a maior parte do tempo, ficou conversando com Fifi - o nome dela era Joséphine, na verdade, mas exigia que todos a chamassem pelo apelido -, uma amiga da época da escola que estava noiva. ficou tão entretida com Fifi lhe contando sobre os preparativos para o casamento que, quando se deu conta, já estava na hora do jantar.
- Você vai adorar o cardápio de hoje, - Benzema falou ao passar pela assistente assim que ela adentrou o refeitório.
olhou para o prato de Karim e abriu um sorriso enorme.
- Oba! Paella! - ela exclamou, animada.
O jogador riu enquanto sentava-se em uma mesa com James, Isco e Varane.
A francesa pegou um prato e se serviu de uma porção generosa da mistura de arroz e frutos do mar. Ela era completamente louca pelo prato tipicamente espanhol desde a primeira vez que o experimentara em uma viagem para Valencia com os pais, quando era apenas uma menina. Em seguida, foi se juntar ao grupo de jogadores que falava alto enquanto comia.
- , já votou em mim pra capa do FIFA 17? - James questionou assim que a assistente sentou-se ao seu lado.
- Para com isso, cara. Parece político pedindo voto pra todo mundo - Isco debochou de boca cheia.
James Rodríguez era um dos jogadores que estavam concorrendo a estrelar a capa do FIFA 17, que seria lançado no mês seguinte. A votação estava acontecendo pela internet e qualquer um podia votar.
- Votei ontem, James - respondeu, dando uma garfada na comida para, em seguida, levar o garfo à boca.
- Mas e hoje? Dá pra votar uma vez por dia - o colombiano rebateu.
- Ah, sério? Pensei que só valesse uma vez - a mulher disse, deixando seus olhos vagarem para a entrada do refeitório quando notou uma movimentação. - Daqui a pouco voto de novo, pode deixar.
adentrava o refeitório acompanhado de Luka Modrić e, sem nem se dar conta, acompanhou com os olhos eles irem até o buffet para se servirem. Ela continuou a comer, dividindo a atenção entre os jogadores que dividiam a mesa com ela e os dois recém-chegados.
Luka foi o primeiro a terminar de servir seu prato e, após correr os olhos por todo o refeitório, foi na direção da mesa mais animada e sentou-se de frente para a assistente técnica.
- E aí, galera? - o croata disse, sorridente.
- Ei, Luka. Já votou pra eu aparecer na capa do FIFA 17? - James prontamente questionou e riu ao perceber quão empenhado em ganhar a bendita capa ele estava.
- Claro que sim, tenho votado todo dia - Luka respondeu para a satisfação do colombiano.
, então, notou que acabava de se servir e, assim como o amigo, analisou todo o refeitório. Seus olhos encontraram com os da assistente por um segundo e já estava esperando que ele fosse se juntar a eles, mas, para sua decepção, ele seguiu para a outra mesa e sentou-se com Mateo Kovačić e Toni Kroos.
Ela riu baixo, como se estivesse dizendo a si mesma que não se importava com aquilo. Tudo bem, sabia que também andava para cima e para baixo com Toni e Mateo, mas, depois de ter sido evitada o dia inteiro, era impossível não concluir que ele não seguiu Luka por causa da presença dela naquela mesa.
não conseguia entender. No dia anterior, na viagem para Mônaco, ela podia jurar que , finalmente, daria abertura para que eles pudessem interagir mais um com o outro. Mas, ao retornarem para Madrid, tudo pareceu voltar ao normal.
Mais ridículo do que sempre dar um jeito de não chegar perto dela, era o tanto que ela estava se importando com aquilo.
A assistente bufou, irritada consigo mesma, e voltou a comer, mesmo que a paella até tivesse perdido a graça naquela altura do campeonato.
Ela não pôde evitar olhar para a outra mesa de tempos em tempos. E, na maioria das vezes, seu olhar cruzou com o de .

5. La Quinta

Y es que me gustas, tú a mi
De la manera en que me bailas, tú a mi
Y así me gustas, tú a mi
De la manera en que me bailas, tú a mi

Me Gustas - Maluma

- Vou te fazer um convite e não aceito não como resposta.
se assustou quando a voz de Benzema adentrou seus ouvidos e tirou os olhos do celular para fitá-lo bem à sua frente.
- Convite? Lá vem… - ela disse, desencostando-se do carro de Zidane.
- Vamos sair? Pelos velhos tempos - o jogador falou com um sorriso persuasivo nos lábios.
- Hoje? - a assistente questionou e, quando viu Karim assentir, abriu a boca, chocada. - Acabamos de voltar de um jogo e você ainda tem pique pra ir pra farra?
- Qual é, ? Hoje é sábado e amanhã é dia de folga. Vamos aproveitar.
Os olhos da mulher vagaram pelo estacionamento da Ciudad Real Madrid, avistando parte dos jogadores entrando em seus carros e indo embora para suas casas depois de uma vitória trabalhosa por 2x1 no Santiago Bernabéu contra o Celta de Vigo. A maioria deles viajaria no dia seguinte para se juntarem às suas seleções, já que naquela semana aconteceria a parada internacional para as datas FIFA. Diferente deles, ela poderia relaxar mais do que o habitual naqueles dias, já que o trabalho com os jogadores que não haviam sido convocados seria mais físico do que técnico.
ponderou a oferta de Karim. Já fazia mais um mês que ela estava trabalhando com o Real Madrid e, durante aquelas semanas, não havia saído sequer uma vez para se divertir. O máximo que fazia era jantar em restaurantes com seus tios e primos. Ela, definitivamente, merecia um pouco de diversão.
- Tudo bem - respondeu, por fim, dando de ombros.
- Eu sabia que você não ia me decepcionar - Karim disse, animado, e piscou um olho. - Está esperando o Zizou, né?
- Sim, ele disse que ia dar uma palavrinha com o Presidente.
- Vem comigo, então. Eu te levo pra casa.
Benzema saiu andando e, sem questionamentos, o seguiu na direção do carro dele ao mesmo tempo que saía pela porta de vidro da residência dos jogadores.
- Ei, , até semana que vem! Boa sorte com a seleção! - Benzema exclamou, abrindo a porta do motorista.
Antes de entrar no carro, observou pronto para adentrar seu próprio automóvel. Quando ele a encarou de volta, ela acenou para o jogador e, em seguida, se acomodou no banco do carona, ao lado de Benzema.
- Você não está nem aí por não ter sido convocado, né? - a assistente questionou e virou a cabeça para encarar o atacante, que ligava o carro.
- Eu não posso fazer nada se o Deschamps vai continuar insistindo nessa implicância que tem comigo - Karim respondeu e deu de ombros enquanto manobrava o carro pelo estacionamento. Em um tom divertido, continuou: - Aliás, posso sim. Curtir minha folga.
Benzema precisou parar o carro, pois o de Nacho estava impedindo a sua passagem, e buzinou impacientemente.
- O Deschamps vai acabar te convocando mais cedo ou mais tarde, ele sabe que não tem um atacante francês melhor do que você atualmente - disse e acabou soltando uma gargalhada quando viu o braço de Nacho sair pela janela do automóvel para, em seguida, mostrar o dedo médio para Karim.
Nacho deixou o estacionamento, permitindo que o francês fizesse o mesmo.
- Eu até gostaria de voltar a ser convocado, mas não estou desesperado por isso - ele disse, sinceramente. Sabia que o único jeito de convencer o técnico da Seleção Francesa era mostrando seu valor ali no Real Madrid, o que ele já vinha fazendo.
O carro saiu pelo portão da Ciudad Real Madrid e Karim pegou a avenida em alta velocidade.
- Vem cá, você chamou mais alguém pra ir com a gente? - questionou com curiosidade.
- Até chamei o James, mas ele vai viajar pra Colômbia de madrugada e preferiu não ir - o jogador respondeu, esticando o braço para apertar o botão que iniciava uma playlist de músicas em modo aleatório.
Ailleurs, do rapper francês Black M, começou a tocar.
- Desse jeito vão começar a achar que eu e você estamos juntos - a mulher reclamou e Benzema esboçou um sorriso em sinal de divertimento enquanto cantarolava a música.
- É tão abominável assim a ideia de me dar uns pegas, ? - ele debochou com um sorriso travesso nos lábios que fez a outra rolar os olhos. - Ou você tem medo de acabar se apaixonando por mim?
- Ei, vamos parando com esse papo estranho aí - disse com desdém. - Ok, não vou negar que você até que é gostosinho, mas eu sei todos os teus podres, Karim. Isso é brochante - continuou, fazendo o outro gargalhar. - Sem contar que somos muito parecidos, praticamente almas gêmeas. E você sabe o que eu acho dessa coisa toda de almas gêmeas, né?
- Perda de tempo - Benzema prontamente respondeu. Já havia escutado aquele mesmo discurso sair pela boca de outras vezes. - Você realmente acha que os opostos se atraem?
- Não acho, eu tenho certeza - a assistente técnica rebateu. - Pensa aqui comigo. Eu nunca me apego aos caras com quem eu fico, muito pelo contrário. Se eu puder nunca mais olhar pra cara deles na vida, melhor ainda.
- Deus disse: amai ao próximo - o jogador falou com uma seriedade exagerada, a interrompendo. - Se não é amor, próximo! Esse é o seu lema de vida, não é?
- Palhaço! - disse enquanto assistia ao outro gargalhar e deu um tapa estalado no braço dele. - É sério. O cara sendo igual a mim, só facilita o meu lado, porque ele também não vai querer olhar pra minha cara depois. O jeito de alguém conseguir me fazer ficar é sendo o oposto disso, alguém que vai me deixar sem saber como agir - explicou, fazendo o amigo rir. Com uma careta, acrescentou: - E Deus que me livre dessa pessoa, né?
- Sinceramente, , acho que você quer bancar a desprendida, mas, no fundo, você é uma romântica e adoraria encontrar esse alguém - Benzema declarou sua opinião e deu de ombros quando o encarou com uma expressão de ofensa estampada no rosto. - Você tem razão. A gente só dá certo sendo apenas amigos.
desviou os olhos para a janela e observou as belíssimas construções de Madrid passarem tão rapidamente que mal dava para identificar do que se tratava cada prédio.
As palavras de Karim ainda ecoavam em sua mente e ela refletia sobre as mesmas. Será que realmente esperava encontrar essa pessoa que conseguiria fazê-la não querer fugir na primeira oportunidade? Não que nunca tivesse sentido algo além de apenas atração física pelos caras com quem ficou, até porque já tivera dois namorados e gostava deles, ou não teria aceitado os dois pedidos de namoro, mas se apaixonar nunca havia sido sua prioridade na vida. Gostava de ter o coração ocupado apenas com o sonho de ser uma renomada técnica, mas até quando o futebol seria o suficiente para ela se sentir completa?
- Será que dá pra você ir mais devagar? Não estou a fim de morrer - disse, ainda fitando a paisagem que passava pela janela, fazendo Karim bufar e diminuir a velocidade do carro.
não entendeu por que passou por seus pensamentos como um flash enquanto refletia a respeito daquilo.

A casa noturna estava lotada naquela noite de sábado e Me Gustas, do cantor colombiano Maluma, tocava a toda altura nas caixas de som. , que já nem sabia há quanto tempo estava na pista de dança, rebolava no ritmo da música ao mesmo tempo em que a cantava a plenos pulmões. Desde que morou pela primeira vez na Espanha e passou a ter mais contato com a cultura espanhola e latino-americana, reggaeton acabou se tornando seu estilo musical favorito. Ela adorava a boa energia que a batida do reggaeton transmitia.
Benzema surgiu ao lado dela com o celular e o segurou de forma que a câmera focalizasse os dois, como se fossem tirar uma selfie. pôde ver a bolinha vermelha piscando, indicando que um vídeo estava sendo gravado, mas, devido ao álcool que corria em seu sangue, nem questionou. Apenas continuou dançando e cantando, fazendo graça para a câmera.
- Vou mandar esse vídeo no grupo pra zoar os caras - ao apertar o botão para parar de gravar, Benzema falou alto para que pudesse ser escutado e riu. Apontando para o bar com o polegar, questionou no ouvido de : - Quer beber alguma coisa?
- Por favor. Estou morta de sede! - ela exclamou e acompanhou Karim.
Os dois sentaram-se lado a lado em dois bancos e se escoraram no balcão. não conseguiu escutar o que Benzema pediu para o barman, mas ela confiava no gosto dele para bebidas e não se importou.
- Que grupo é esse, hein? - ela questionou, observando Karim mexer no celular.
Pôde ver um grupo do WhatsApp aberto e, chegando o rosto mais perto da tela, descobriu que se chamava Galácticos ⚽.
- Ah, é o grupo que a gente criou pra falar merda - o outro respondeu, digitando uma legenda para o vídeo e, em seguida, enviou o arquivo.
- E por que eu não estou aí? - rebateu com ultraje.
- Esse grupo é só dos jogadores, não adicionamos ninguém da comissão técnica - Benzema explicou, guardando o celular no bolso interno da jaqueta. - Mas posso perguntar pros caras se eles não se importam de você participar.
- É bom perguntar mesmo. Pelo visto esse grupo é muito mais divertido do que aquele que me colocaram.
Logo em seguida, o barman voltou com dois copos de uma bebida colorida. sequer quis saber qual era o conteúdo, deu uma golada generosa e sentiu a garganta arder. Tossiu, no intuito de se livrar do desconforto.
- Vai com calma, - Karim falou, rindo.
Depois de esvaziar o copo, a assistente se pôs de pé e se enfiou na pista de dança mais uma vez. Benzema, notando o estado alcoólico dela, imediatamente a seguiu antes que a perdesse de vista.
- Cómo tú te llamas, yo no sé. De donde llegaste, ni pregunté - cantava Hasta El Amanecer, do Nicky Jam, conforme dançava de forma divertida.
O sorriso travesso que brincava em seus lábios deixava claro que ela tinha consciência de que estava atraindo olhares de todos os lados e estava mais do que satisfeita com isso. Olhou em volta e, por dois segundos, jurou ter visto a devorando com os olhos. Precisou olhar uma segunda vez para constatar que o homem que a fitava com desejo, apesar de um gato, não tinha nada a ver com o .
A animação que corria por todo seu corpo se evaporou em um instante, dando lugar para um sentimento ruim que não soube definir. A vontade de estar ali na pista de dança sumiu e ela saiu de lá a passos apressados, sendo seguida por um Benzema completamente confuso.
- Que merda! Ele não sai da minha cabeça de jeito nenhum! - ela exclamou, irritada, quando eles estavam em uma área menos tumultuada da boate.
- Quem, ? - Karim questionou com curiosidade.
- Aquele desgraçado… - murmurou e soltou um longo suspiro ao fitar os olhos confusos do amigo. Deu um passo para a frente e passou os braços pelos ombros largos dele, puxando-o para mais perto, e as mãos do jogador instintivamente foram para a cintura dela. - Me ajuda a esquecer ele, Karim.
Benzema demorou alguns segundos para absorver as palavras sussurradas por quando ela grudou as testas deles. Ele podia sentir a respiração dela bater em seu rosto, o deixando ainda mais atordoado do que já estava.
- Não acho que seja uma boa ideia - Karim disse com incerteza.
- Por favor… - a mulher sussurrou em um tom manhoso e inclinou a cabeça para roçar os lábios no pescoço do francês.
Os olhos de Benzema se fecharam enquanto ele apreciava os beijos suaves que deixava pelo caminho até seu rosto. Apenas quando sentiu o leve toque em sua boca, foi que ele despertou do transe e arregalou os olhos.
- Nem pensar. Você vai me matar quando estiver sóbria - ele falou e, juntando o pouco de consciência que ainda lhe restava, afastou a amiga de si.
- Você não presta pra nada, hein Benzema? - disse e bufou com irritação, mas acabou por dar de ombros. - Eu arranjo alguém por aí, não tem problema.
Entretanto, antes que ela desse as costas para ele, Karim a segurou pelo pulso.
- Nada disso, , vou te levar pra casa agora mesmo. Nesse estado que você está, é banho frio e cama - ele disse, autoritário. - E depois você vai me contar quem é esse cara aí por quem você está caidinha.
- Não estou caidinha por ninguém, ele que fica me atormentando. Que saco - ela queixou-se, sendo guiada na direção da saída. - E me solta. Posso muito bem andar sozinha.
puxou o braço para se livrar do toque de Benzema, mas baixou a guarda e o seguiu para que eles pudessem pegar um táxi para irem para suas casas.

tinha quase certeza de já ter escutado aquela música, possivelmente no vestiário quando algum de seus colegas de time resolviam dar uma de DJ, mas não tinha a mínima ideia de qual era o nome ou de quem a cantava. O que ele podia afirmar era que ela soava muito bem saindo pelos lábios de naquele vídeo de menos de um minuto que ele já assistia pela milésima vez.
Pela manhã, havia viajado para se concentrar com a Seleção para dois jogos das eliminatórias da Copa de 2018. Enquanto esperava pela hora do voo, acabou pegando o celular para se distrair e reparou que havia um monte de mensagens não lidas do grupo do WhatsApp que fazia parte junto com o restante dos jogadores do Real Madrid. Ao abrir a janela, ele descobriu que o que sustentou tanto assunto tinha sido um vídeo enviado por Benzema no início da madrugada.

“Curtindo a noite em ótima companhia. Eu também morreria de inveja se fosse vocês! 😜”

A curiosidade acabou falando mais alto e imediatamente deu play no vídeo. O rosto de Karim surgiu na tela e, pelo ambiente pouco iluminado e música alta que tocava, concluiu em meio segundo que aquilo se tratava de uma boate. A câmera se movimentou até focalizar um segundo rosto, o de .
A mulher sorria enquanto cantava junto com a música e se movimentava graciosamente, se insinuando para a câmera. contemplou cada detalhe do rosto de e o decote ousado da blusa que ela vestia. Para variar, ela estava linda. Era incrível como, toda vez que olhava para a francesa, sentia aquele sentimento de que nunca havia visto uma mulher tão bonita como ela.
Desde então, ele estava vendo e revendo aquele vídeo. Benzema nem sabia, mas havia conseguido o que queria. estava morrendo de inveja por não ser ele ali ao lado de , a assistindo dançar de forma tão envolvente.
Algumas vozes adentraram o vestiário e bloqueou o celular e o jogou dentro da mochila que estava ao seu lado no banco.
- Mr. - um de seus colegas de seleção falou.
- E aí, cara? Como foram férias? - ele questionou, levantando-se para cumprimentar cada um dos recém-chegados com um abraço. Não os via há praticamente dois meses, quando foram eliminados da Eurocopa.
- Aproveitei pra caramba. Por mim, estava aproveitando até agora, mas temos que trabalhar, né? - o outro brincou, fazendo rir.
O vestiário foi se enchendo e todos se preparavam para dar início ao primeiro treino daqueles dias em que estariam reunidos e focados em garantir a vaga da Seleção na próxima Copa do Mundo.
calçava as chuteiras com os pensamentos bem longe dali. Claro que era grato por poder defender a camisa de sua seleção, mas, talvez pela primeira vez em sua vida, ele estava ansioso para que os dias se passassem e pudesse voltar para Madrid. sabia que estava seguindo por um caminho sem volta, mas não podia evitar. o fazia sentir-se desnorteado em meio àqueles sentimentos que despertava nele.
Como ele já esperava, o trabalho da semana se desenrolou em ritmo lento e arrastado.

folheava um livro de Raúl González, um dos maiores ídolos do Real Madrid de todos os tempos e que ela havia tido a honra de conhecer por intermédio de seu tio, já que os dois jogaram juntos entre 2001 e 2006. Estava sentada em um dos sofás da sala de convivência da residência do time com a cabeça apoiada no ombro de Benzema, que navegava na internet pelo celular. Fora alguns jogadores que mexiam nos computadores distribuídos pela sala, o ambiente estava bastante calmo, mas era possível ouvir a algazarra que o restante do time fazia na sala de jogos. Haviam inventado de disputar um torneio de ping-pong e não conseguia entender como eles tinham energia para aquilo depois de um dia inteiro de treinamento intenso. Ela, que apenas dava instruções junto a Zidane e o resto da comissão técnica, estava exausta e só pensava em descansar para o jogo do dia seguinte, a estreia na Champions League contra o Sporting de Portugal.
A assistente fechou o livro em meio a um suspiro e o largou sobre a mesa de centro, bem ao lado dos pés cruzados que Benzema repousava desleixadamente ali. Em seguida, voltou a se recostar no sofá.
- Karim - ela chamou após alguns minutos fitando o nada.
Estava evitando ter conversas mais profundas com o amigo desde o dia em que haviam ido à boate, já que ele insistia em querer saber quem era o tal cara que não saía da cabeça dela e não queria que ele sequer desconfiasse que o cara em questão era , mas precisava de uma visão de fora para saber se aquela agonia que vinha sentindo tinha algum fundamento ou se era completamente em vão.
- Que foi? - o jogador questionou sem tirar os olhos do Instagram.
- Acho que o não vai muito com a minha cara - desabafou e Karim a fitou de imediato.
- Por quê? - ele questionou, chocado, com a voz um tanto esganiçada.
- Eu sei lá! Nunca fiz nada pra ele, não - a mulher prontamente se defendeu.
- Não. Por que você acha que ele não vai com a sua cara? - Benzema voltou a questionar, se corrigindo.
- Porque ele sempre me evita. Quando eu chego em um local, ele sempre dá um jeito de sair, ou, se eu cheguei primeiro, ele nem se aproxima - explicou, demonstrando quão confusa estava com aquelas atitudes. - E não estou exagerando. É só você reparar.
- Deve ser só coincidência, não vejo motivo pra qualquer um do time não gostar de você. E ainda mais o ! Nem consigo imaginar ele tendo inimizade com alguém - Karim disse, rindo, no intuito de tranquilizar a amiga ao perceber que ela realmente estava convencida daquilo. - Você deve estar estranhando a personalidade dele. Ele é meio fechado mesmo, não é porra louca como o Marcelo, o Pepe ou o Ramos, por exemplo.
- Não é isso, tem outros jogadores que também são menos extrovertidos e sempre vêm falar e brincar comigo. O Kovačić, por exemplo. O Coentrão, o Asensio, o Nacho… - falou, enumerando com os dedos. - Eu realmente não entendo por que o age assim comigo.
- Desculpa, , mas acho que você está viajando. Quer ver? Vamos fazer um teste - Benzema disse e chamou Rubén Yáñez, que passava pelo outro lado da sala, seguindo na direção da sala de jogos. - Vê se o está aí, Rubén? Se estiver, pede pra ele dar um pulinho aqui.
O goleiro assentiu e continuou seu caminho, enquanto arregalou os olhos na direção de Karim.
- O que você vai fazer? - questionou, espantada.
- Relaxa, mulher. Só vou chamar ele pra sentar aqui com a gente pra bater um papo - o jogador falou e deu de ombros.
Menos de um minuto depois, surgiu na sala de convivência e a assistente jurou que seu coração sairia pela boca a qualquer momento.
- Me chamou? - questionou, revezando o olhar entre os dois sentados no sofá.
- Senta aqui com a gente, cara - Benzema falou, apontando para o sofá vazio do outro lado da mesa de centro. - A gente estava aqui conversando sobre golfe, mas a não entende muito bem como funciona. Aí lembrei que você adora e sabe mais do que eu. Podia explicar pra ela, né?
Os olhos de continuaram a ir de Karim para e, inconscientemente, ele franziu o cenho. Estranhou aquele convite repentino do francês, ele nunca o chamava para bater papo assim, sem mais nem menos. O fato de parecer desconfortável apenas o intrigou ainda mais.
- Claro, beleza. Eu só vou… - o falou, apontando para a porta da sala com a cabeça. - Só vou pegar um chá ali no refeitório.
Assim que ele deu as costas e saiu da sala de convivência, a assistente se virou para o amigo e a expressão em seu rosto era bem clara.
- Viu? Eu não te disse?
- Que foi, mulher? Ele vai voltar - Benzema falou, rolando os olhos.
realmente voltou alguns minutos depois, segurando a xícara de chá que tinha costume de tomar toda noite e acompanhado de Toni Kroos e Luka Modrić, o que só fez cutucar Karim como se estivesse mostrando que tinha razão. O francês não deu muita importância, pois, para ele, ela estava exagerando.
Luka se jogou no outro sofá e o sentou-se ao seu lado.
- Deixa eu sentar aí - Toni disse, dando alguns tapinhas na lateral da perna da assistente.
bufou, mas acabou chegando para o lado e ficando espremida entre o alemão e Benzema.
- Dá pra acreditar que amanhã já começa tudo de novo? - Modrić falou, deitando a cabeça no encosto do sofá.
Todos ficaram em silêncio por alguns segundos, sabiam que o croata se referia à Champions League. Claro que a cada nova temporada que começava a esperança do time se renovava e todos ambicionavam todos os títulos possíveis, mas a final de 28 de maio de 2016 contra o Atlético de Madrid ainda estava viva na memória de todos, como se tivesse acontecido uma ou duas semanas antes. Era impossível controlar a ansiedade ao pensar que no dia seguinte eles dariam partida a uma nova jornada que poderia acabar da mesma forma, com todos levantando a Orelhuda e cantando Hala Madrid ...y nada más até perderem a voz.
- Acho bom vocês ganharem de novo, hein? Quero colocar uma Champions no meu currículo - a assistente técnica disse em um tom divertido e esboçou um sorriso esperto.
- Você veio para o time certo, - Kroos rebateu, piscando um olho.
- A por La Duodécima! - Luka berrou, engrossando a voz e levantando o punho no ar, o que fez a francesa rir. - De quem vai ser o primeiro gol?
- Cristiano Ronaldo - ela disse sem pestanejar.
- Valeu pela consideração, hein? - Benzema falou, ofendido. Se levantando, continuou: - Vou até me retirar depois dessa.
- Não, volta aqui! - exclamou e se esticou para agarrar a camisa do atacante e impedi-lo de ir embora. - Eu confio no seu potencial, Karim, mas a gente não pode ignorar a Lei do Ex, né? Todo jogador acaba marcando contra o ex-time só pra ficar aquele climão.
- Sei… - o francês disse, olhando de canto para a amiga, mas acabou se sentando novamente. - A gente tá mesmo sem moral, .
voltou a se recostar no sofá, rindo, e olhou para o , que estava sentado confortavelmente com as pernas abertas e apoiando a xícara no espaço vazio do sofá entre elas. Ela não pôde evitar subir o olhar desde as coxas torneadas, levemente descobertas graças ao short que ele vestia, até alcançar os olhos dele.
a observava.
- O gol pode até ser do Cris, mas a assistência vai ser minha - ele disse em um tom divertido, olhando de para Benzema, mas logo desviou a atenção para a xícara e tomou mais um gole do chá.
Karim e se entreolharam e o primeiro sorriu de canto. Havia notado a troca de olhares entre os dois.
- Eu tô fodido mesmo, ninguém me leva a sério nesse time - ele brincou, fazendo uma careta.
Modrić acabou por mudar o assunto para a goleada por 7x0 do Barcelona sobre o Celtic, que havia acontecido mais cedo e provavelmente seria o jogo mais comentado daquela primeira rodada da Champions League. Karim ficou tão envolvido na conversa com Kroos e Modrić sobre os sete gols marcados pelo time rival que se esqueceu completamente da desculpa do golfe e sequer notou que se manteve calado o restante do tempo em que estiveram ali, além de evitar retribuir os olhares nada discretos de .
A assistente, por outro lado, percebeu e não gostou muito. Dessa vez, foi ela quem pediu licença e se retirou.

Que era humanamente impossível escutar o hino da Champions League e não sentir cada mísero pelo de seu corpo se arrepiar sabia muito bem, já havia passado por isso inúmeras vezes, mas o sentimento de escutá-lo do gramado do Estadio Santiago Bernabéu lotado era indescritível. Muito ela havia sonhado com aquele momento e mal podia acreditar que ele, enfim, estava acontecendo. Tudo ficava ainda mais mágico estando sentada no banco do atual time campeão da competição, logo ao lado Zinédine Zidane.
Quando o apito do árbitro soou pelo estádio, percebeu o tamanho de seu nervosismo. Teve que se esforçar para não roer as unhas e se manter impassível a cada finalização dos jogadores do Sporting, que começou o jogo com uma intensidade impressionante. E, a cada defesa de Kiko Casilla, ela berrava mentalmente que lhe daria um beijo na boca depois do jogo. Não que fosse beijá-lo, de fato, só precisava extravasar a adrenalina. Para seu alívio, as instruções que Zidane gritava da beira do campo pareceram surtir efeito, fazendo o time português perder seu protagonismo aos poucos, conforme o Real Madrid ia se impondo e conseguindo mais jogadas favoráveis, apesar de os gols ainda parecerem distantes.
foi até Zizou e colocou a mão no ombro dele para chamar sua atenção.
- Talvez seja melhor o voltar pra esquerda - ela começou, falando no pé do ouvido do tio e com a mão tapando a boca para evitar que sua fala chegasse ao conhecimento de quem não devia. - O Marcelo sai pro jogo e toca pra ele ou pro Modrić. Vai ficar mais fácil de a bola chegar no Cristiano ou no Karim, os jogadores do Sporting de lá são mais lentos do que os daqui.
Zidane ponderou a sugestão da assistente por um momento e assentiu com a cabeça.
- Vamos tentar - disse e gritou por , logo fazendo gestos que orientavam o jogador a trocar de lado, enquanto voltava a se sentar junto aos suplentes no banco.
O jogo passou a fluir mais facilmente com a modificação, a velocidade de estava sendo melhor aproveitada.
- Isso! - exclamou, juntando as mãos, quando Marcelo roubou a bola e deu um passe longo para . Os olhos dela se arregalaram conforme via o escorregar pela grama junto a um adversário, ambos mirando a bola. - Ai, droga.
levantou-se em um salto, preocupada ao ver se contorcer de dor. O árbitro parou o jogo e levantou as mãos para chamar a equipe médica do Real Madrid. O fisioterapeuta levou alguns minutos para atender o jogador na lateral do campo, mas logo liberou para voltar para o jogo e retornou ao banco com sua maleta em mãos.
- Não é nada muito sério, ele levou uma joelhada no quadril - Jaime tranquilizou Zizou, que já estava prestes a mandar James Rodríguez ou Lucas Vázquez para o aquecimento. - Vamos observar se a dor vai atrapalhar o desempenho dele antes de desperdiçar uma substituição.
Zidane concordou e voltou a atenção para a partida, enquanto se afundou no banco, sentindo-se aliviada por não ter acontecido algo mais grave com .
Quando o primeiro tempo foi encerrado, caminhou junto aos outros jogadores rumo ao vestiário, mantendo sua mão no local atingido pelo joelho do jogador do Sporting e uma careta de dor no rosto. observava com tanta apreensão o fisioterapeuta amparar o com um saco de gelos que nem estava prestando atenção nas novas orientações que o treinador ilustrava no quadro branco do vestiário.
Os minutos de intervalo se passaram em um piscar de olhos e a equipe já se preparava para voltar ao campo, mas a assistente notou que ficou para trás, ainda demonstrando estar sofrendo com a dor conforme massageava o quadril. Em vez de seguir na direção do campo, deu meia volta.
- , precisa de alguma coisa? Algum remédio? - questionou atenciosamente.
- O Jaime já me deu um analgésico - o jogador respondeu, sentado no banco na frente do armário com uma foto sua, sem sequer levantar os olhos para encarar a assistente.
- Você está bem pra continuar jogando? A gente pode ver uma alternativa.
- Claro que estou. Não é como se eu nunca tivesse sentido dor antes - rebateu, incomodado, jogando o saco de gelos de qualquer jeito no chão.
- Não parece, viu? - falou, cruzando os braços, e soltou uma risada fraca.
- Ainda bem que você não é fisioterapeuta, né?
A francesa ficou sem reação diante do deboche expresso na fala e voz do , que apenas se levantou e foi na direção da porta do vestiário. Antes que ele saísse, entretanto, foi mais rápida e correu para se colocar na frente dele e impedir a passagem.
- Posso saber qual é o seu problema comigo, ? - ela questionou, sentindo a irritação crescer dentro de si, e o empurrou com as duas mãos pelo peito, o fazendo andar um passo para trás. - Que merda, eu estou aqui pra te ajudar e você vem com cinco pedras na mão.
- … - ele disse em meio a um suspiro, fechando os olhos.
- Eu já reparei que você não vai com a minha cara, mas poderia pelo menos ter a decência de confiar no meu trabalho. Você sabe o quanto eu estudei pra estar aqui?
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos e o jogador franziu o cenho.
- Eu não vou com a sua cara?
- Você me evita de todas as maneiras possíveis, não adianta negar - disse e bufou. - É porque eu sou mulher? É isso? Você acha que mulher não entende de futebol?
suspirou longamente, com uma mão na cintura e a outra secando o suor da testa.
- Não é esse o problema,
- Então você admite que me evita, é? - ela retrucou, cruzando os braços.
Os olhos de nunca haviam parecido tão intimidantes para antes. Ele não sabia o que responder, não podia simplesmente dizer que preferia não estar nos mesmos ambientes que ela porque, quando ela estava por perto, ele não conseguia prestar atenção em mais nada e aquilo vinha o enlouquecendo pouco a pouco.
- O segundo tempo vai começar - foi o que disse, por fim.
não o impediu de voltar para o campo dessa vez, pois realmente já estava em cima da hora do recomeço da partida. Apenas bufou e fez o mesmo caminho que ele.
A última metade do jogo não foi menos complicada do que a primeira. Logo nos primeiros minutos do segundo tempo, Bruno César abriu o placar para o Sporting, fazendo o Real Madrid correr atrás de um empate. A bola parecia não querer entrar. Até mesmo um chute de Cristiano Ronaldo de cara para o gol bateu na trave, o que acabou fazendo a expressão fechada no rosto de se intensificar ainda mais. Estava incomodada com a derrota que parecia cada vez mais clara e também com . E ela nem sabia por que, afinal, ser tratada com tanta indiferença pelo a incomodava tanto.
Que ele fosse para o inferno e levasse toda aquela falta de educação junto!
Quando foi substituído por Lucas Vázquez faltando mais de vinte minutos para o jogo acabar, não fez questão de cumprimentá-lo, diferentemente do restante do banco.
Nos minutos finais de jogo, para o alívio de toda a equipe, Cristiano Ronaldo acabou marcando um gol de falta contra seu ex-clube, e um gol de Álvaro Morata nos acréscimos garantiu que o Real Madrid começasse a Champions League com uma vitória. Sofrida, mas o suficiente para fazê-los deixarem o estádio com o sentimento de dever cumprido.
não estava muito contente, no entanto. Sabia que precisava se retratar com , parar de agir daquela maneira estapafúrdia. Dirigindo para casa depois de sair da Ciudad Real Madrid, uma ideia surgiu em sua mente.

6. La Sexta

Te regalo versos que hacen esta canción
Te regalo el cielo y una puesta de sol
Te regalo sonrisas pa’ que opaques el sol
Y no puedo sacarte de mi mente

Te Regalo - Ádammo

- Fala aí, Pepe. Eu tô bonito pra caramba, não tô?
- Também não precisa exagerar, né, Marcelo? Eu tô bem mais.
- Por favor, vocês dois. Meu nome é Toni Elegância Kroos.
teve que rir quando chegou no campo de treinamento e se deparou com o trio de jogadores se exibindo em seus ternos.
- Isso é uma sessão de fotos ou uma competição de beleza? - ela debochou.
- Dá uma opinião feminina aqui pra gente, - Pepe disse, chamando a assistente com um aceno de mão. Apontando para os dois colegas e para si mesmo, questionou: - Quem tá mais bonito?
- Os três estão gatos - ela respondeu, piscando um olho.
- Pode dizer quem está mais bonito, não tem problema não - Kroos tranquilizou. - Cedo ou tarde eles vão precisar aceitar que eu sou o cara mais pintoso desse time.
- Que autoestima invejável, hein? - disse em meio a risos. Em um tom zombeteiro, continuou: - Sinto muito por cortar o teu barato, Toni, mas prefiro o Cristiano.
- Fala sério, . Pensei que você fosse menos previsível do que isso - o alemão rebateu, desapontado. - Todo mundo acha o Cristiano Ronaldo bonitão, até eu acho. Ele não conta.
- Ah, ele não conta? Desculpa - ela disse, rindo, e virou a cabeça quando Varane parou ao seu lado. - Minha escolha é o Rapha, então. Olha que menino bem feito.
O francês sorria enquanto segurava seu rosto com uma das mãos, apertando suas bochechas.
No entanto, os outros três não aceitaram a resposta e continuaram a discutir quem estava mais bonito para tirar as fotos oficiais com os ternos Hugo Boss, a marca que vestiria o Real Madrid por mais uma temporada. Quando Toni Kroos falou que a cor da gravata até combinava com a cor de seus olhos, ela se convenceu de que eles ficariam eternamente naquele debate e saiu de perto às gargalhadas.
A assistente técnica, sendo a única mulher da equipe, estava vestida com um modelo feminino do mesmo terno que os homens vestiam, só que com uma calça mais justa e saltos altos, além de estar sem a gravata azul-marinho.
- Todo mundo bem arrumado e você aí todo esculachado - ela disse, parando na frente de Benzema, e puxou as abas do paletó dele para fechar um dos botões. - Não sabe se vestir não?
- Estava esperando minha mãe vir me ajeitar - ele retrucou com deboche. Quando esfregou as mãos no paletó, alisando o tecido, pediu em tom malicioso: - Mais pra baixo, por favor.
- Vem cá, quanto tempo faz que você não transa? - a outra questionou, olhando torto. - Fica aí abrindo as pernas pra mim. Já te disse mil vezes que não sou da tua laia.
- Eu estou abrindo as pernas pra você? Eu? - ele falou, apontando para si mesmo, e soltou uma gargalhada. - Até onde me lembro, não fui eu que quase te agarrei na boate.
- E você está se achando o gostosão, né? - disse e rolou os olhos. - Fique sabendo que quando eu fico bêbada só faço coisas idiotas.
- Ainda bem que algum de nós tem juízo, né? - Karim rebateu, rindo. - Também nem adianta implorar pelo meu corpinho, eu tenho saído com uma garota.
cruzou os braços e o analisou, curiosa.
- Ah, é? Que garota?
- É uma modelo espanhola, se chama Lola Fernández.
- Você sabe que modelo é furada, né? - a assistente disse e o jogador deu de ombros.
- Pelo menos ela é gostosa - disse, sincero, fazendo a amiga balançar a cabeça em negação.
- Eu preferia quando você namorava a Chloé e era um rapaz de família.
- Olha a hipocrisia, . Você também não é nenhuma santinha - Karim acusou e arrancou uma careta da francesa.
- Isso é uma injustiça. Eu nem fiquei com ninguém desde que voltei pra Madrid - ela se defendeu.
- Porque está apaixonada por alguém que você não quer me contar quem é - o jogador justificou.
- Pelo amor de Deus, não repete essa palavra maldita em uma frase que se refira a mim - dramatizou e fez o outro soltar uma gargalhada. - Não estou isso daí por ninguém. Já falei mil vezes que eu estava bêbada e falando coisas aleatórias.
- Você finge que me engana que eu finjo que acredito.
Benzema piscou um olho e, em seguida, foi em direção ao ponto do gramado onde havia sido montada toda a estrutura para que as fotos fossem tiradas e os jogadores já estavam sendo arrumados em suas posições pela equipe de fotografia.
rolou os olhos, irritada consigo mesma por ter dado o mole de falar aquelas coisas perto de Karim, pois ele ficaria implicando com ela eternamente. Levou um susto quando sentiu um dedo cutucar sua cintura, mas sorriu para Modrić ao ver que era ele passando ao seu lado. Não deixou de reparar que, para variar, o croata estava acompanhado de .
As coisas estavam ainda mais frias com depois da pequena discussão que tiveram no vestiário do Santiago Bernabéu. O até parecia tentado a se aproximar dela de vez em quando, mas sempre perdia a coragem, e o orgulho de não a deixava dar o primeiro passo.
Quando foi perceber, estava o analisando de cima a baixo e vendo quão bem o terno havia ficado em . Marcelo, Pepe e Toni que a desculpassem, mas ela havia acabado de achar o grande vencedor. Não tinha como qualquer um deles competir com a bunda redondinha de dentro daquela calça.
- God bless Hugo Boss - ela murmurou para si mesma antes de ir se posicionar ao lado de Zizou para as fotos de toda a equipe.

O Real Madrid estava tendo uma semana bastante atarefada com três jogos do campeonato espanhol. Um deles havia sido uma vitória por 2x0 sobre o Espanyol, disputado no dia anterior, e ainda tinham mais duas partidas a serem realizadas. Mesmo tendo voltado de Barcelona no final da noite, de manhã o time já se reuniu para dar início aos treinos que visariam o jogo contra o Villarreal. Em início de temporada, sempre era preferível manter os bons resultados do que descansar.
O refeitório ainda estava vazio quando foi almoçar, já que ela decidiu antecipar a refeição para adiantar o trabalho da parte da tarde. A mando de Zidane, ela teria que assistir aos quatro jogos do campeonato disputados até aquele momento pelo próximo adversário e tomar notas sobre o time. O Villarreal era um dos clubes que volta e meia brigavam pelo topo da tabela e exigia um cuidado redobrado.
A assistente já estava finalizando sua refeição quando alguns dos jogadores que permaneceriam trabalhando na Ciudad Real Madrid pela tarde adentraram o refeitório, enchendo o ambiente com um falatório e cheiro de desodorante masculino. Eles não teriam treino pela tarde, então tinham a liberdade de escolher entre dar continuidade ao trabalho de condicionamento físico por ali mesmo ou na academia particular que todos tinham em suas residências.
Com o garfo a caminho da boca, parou, surpresa, quando viu arrastar a cadeira e se sentar de frente para ela. Ele colocou sobre a mesa uma caixinha retangular branca com bolinhas roxas envolvida por uma fita rosa que a assistente só notou que ele segurava naquele momento.
Os dois se encararam por alguns segundos, estava bastante confusa a respeito daquela nova abordagem do jogador.
- É pra você - ele anunciou, indicando a caixa com o queixo.
- Pra mim? - ela questionou, revezando o olhar entre o embrulho e os belos olhos dele, que a fitavam com ansiedade.
- É um pedido de desculpas, na verdade - disse e mordeu o lábio inferior. - Eu reconheço que não tenho me esforçado pra ser legal com você.
- Que bom que você sabe - rebateu sem se importar de soar grossa, mas acabou soltando um suspiro enquanto largava os talheres dentro do prato. - Mas não precisava comprar um presente, .
- Foi a forma que encontrei pra me desculpar, não quero que você fique com uma má impressão de mim - ele explicou, cogitando pela primeira vez a possibilidade de aquela ter sido a ideia mais boba que ele poderia ter tido, mas acabou deixando tal sentimento de lado. - Abre. Acho que você vai gostar.
deu de ombros e pegou a caixinha para desamarrar o laço. Estava curiosa para saber o que encontraria lá dentro. Ao retirar a tampa, encontrou outra caixa, entretanto. Era uma embalagem de joias. Antes de abri-la, encarou mais uma vez e não soube decifrar a expressão no rosto dele.
A assistente entreabriu a boca em sinal de admiração quando se deparou com um colar dourado que tinha como pingente a miniatura de uma bola de futebol, também dourada e com algumas pedrinhas que davam um toque de elegância ao acessório. Era um colar bastante delicado e feminino.
- Que lindinho - ela disse com um sorriso singelo nos lábios, passando a ponta do dedo indicador sobre o pingente. - Agora eu posso dizer pra todo mundo que tenho uma Bola de Ouro, uh?
- Que droga. Você conseguiu uma antes de mim - brincou, a fazendo rir, e sorriu ao notar o quanto a mulher parecia ter gostado do presente.
- Só mais duas e eu alcanço o Cris - a outra rebateu em um tom brincalhão. - Obrigada, . Eu adorei.
- Que bom, não foi a tarefa mais fácil do mundo achar esse colar - ele disse, rindo. - Mas é sério, . Me desculpa por ter sido um babaca naquele dia. Eu estava frustrado por não conseguir jogar direito, a dor no quadril estava me matando. Não foi minha intenção desmerecer o seu trabalho em momento algum.
balançou a cabeça positivamente com um sorriso de canto. Acreditava na veracidade do arrependimento do jogador, conseguia ver a sinceridade nos olhos dele diante daquele gesto de gentileza.
- Desde que você não volte a fugir de mim como se eu tivesse alguma doença contagiosa… - ela disse e fez uma careta, enquanto guardava a embalagem do colar de volta na caixinha de presente.
baixou os olhos, sem graça, e riu baixo.
- Prometo que não vou.
- Então estamos resolvidos, - disse, deixando o presente de lado, e piscou um olho. - Você não vai servir seu prato? Eu te faço companhia.
- Não, não. Eu vou pra casa - ele respondeu, olhando à sua volta e vendo alguns de seus colegas servindo seus pratos e sentando-se para comer.
- Você já está fugindo de mim - ela acusou, mas a risada que soltou em seguida deixou claro que era apenas uma brincadeira.
- Não estou, eu juro. Mas ainda estou cansado pelo jogo de ontem, prefiro me exercitar em casa mesmo.
- Ok, vou te liberar. Mas não se acostume.
O riu e, então, se despediu antes de se levantar e ir embora.
terminou a refeição sem tirar os olhos do embrulho, pensando sobre a atitude simpática do jogador. Ela estava contente e torcia para que aquela interação agradável entre os dois se mantivesse dali por diante.
Depois de deixar a louça suja com a moça da limpeza, ia sair do refeitório, mas, de repente, Karim Benzema surgiu na sua frente.
- O que é isso aí que o te deu?
Ela ficou em choque, não havia reparado que o amigo estava presente e muito menos que prestava atenção nela e em .
- Não te interessa - respondeu, rolando os olhos, e desviou de Karim para alcançar a porta.
Antes que isso acontecesse, o atacante a puxou pelo braço, a impedindo de continuar o caminho. tentou proteger a caixa atrás de si e fugir de Benzema, mas ele era maior e mais ágil, não teve muita dificuldade para conseguir tirar a caixinha de sua mão e sair correndo. Ela foi atrás, gritando pelos corredores da residência do time até Karim adentrar uma sala qualquer.
- Abre essa porta, Benzema! - a assistente berrou ao mesmo tempo que socava a porta com força. - Eu vou te matar, seu intrometido!
Dois minutos de muita gritaria depois, o francês finalmente abriu a porta e devolveu o presente de , mas não sem antes levar um soco mais forte do que o esperado no braço.
- Caralho! - Karim esbravejou, passando a mão no local atingido. - Pra que esse drama todo por causa de um colar?
- Não é por causa do colar, é pela sua falta de respeito - disse, arrumando o embrulho que Benzema havia fechado de qualquer jeito.
- Mas por que o … - ele começou, mas, subitamente, se interrompeu e começou a gargalhar.
A gargalhada dele soava por todo o corredor e apenas o encarava sem entender nada. Quando finalmente parou de rir, ele encarou a assistente com uma expressão de espanto.
- Meu Deus, é o ! Você está apaixonada pelo !
- Eu não estou apaixonada por ninguém, seu idiota - prontamente retrucou.
- Espera aí. Vocês estão ficando? - Karim questionou de olhos arregalados.
- Vai se foder, Benzema!
Depois de lançar um olhar mortal para o jogador, saiu andando na direção de seu quarto e o deixou falando sozinho. Ainda teria que assistir aos quatro jogos do Villarreal, não tinha tempo para as palhaçadas de Karim.

O ambiente no Estadio de Gran Canaria estava excelente naquele fim de tarde, mas mal acreditava que estava na ilha de Gran Canaria depois da que provavelmente havia sido sua semana mais cansativa desde que chegara ao Real Madrid e não poderia aproveitar a belíssima cidade de Las Palmas, pois estava ali para enfrentar o time de mesmo nome.
Apesar de algumas boas oportunidades, o jogo não parecia muito favorável para o time madridista. Talvez fosse o estádio completamente amarelo que estivesse contribuindo para os jogadores se sentirem intimidados, talvez fosse o empate de 1x1 contra o Villarreal de três dias antes que ainda estava entalado na garganta de todo o time do Real Madrid… Tanto que a alegria durou apenas cinco minutos depois que Marco Asensio abriu o placar na reta final do primeiro tempo, pois logo Las Palmas empatou.
A missão de ignorar a existência de Karim Benzema estava sendo executada com sucesso por , que passou o primeiro tempo sentada entre Lucas Vázquez e Danilo em vez de sentar-se ao lado do francês, como em todas as vezes que ele não era titular, e despejando seus descontentamentos a respeito da partida nos ouvidos do espanhol e do brasileiro. No segundo tempo, porém, todos os suplentes foram para o aquecimento e ela se viu sozinha e preocupada com o andamento da partida. Só se sentia um pouco mais tranquila ao ver Zidane dando instruções para os jogadores da beira do campo, sabia que o tio tinha tudo sob controle.
Volta e meia seus olhos caíam sobre e ela se pegava distraída, admirando a facilidade com que ele tocava na bola e criava ótimas jogadas, fazendo uso de sua velocidade. Enquanto isso, mexia distraidamente no colar com que o havia a presenteado e que ela vinha usando constantemente, apesar de na maioria das vezes o mesmo ficar escondido pelo uniforme de assistente técnica. Brincar com o colar vinha se tornando uma mania. E ter por perto um hábito.
estava descobrindo aos poucos como a companhia dele era agradável e como as constantes gozações dele com Modrić e Kroos eram diversão garantida. não era dos jogadores mais expansivos do time, como era fácil de identificar, mas se soltava mais dentro de seu grupo de amigos. Apesar de já ter notado que, quando não sabia muito bem o que falar, ele ria. estava rindo o tempo todo e ela achava adorável.
- , o que você acha de o Karim entrar no lugar do Morata? - Zidane perguntou ao sentar-se ao lado da sobrinha, a fazendo se sobressaltar e tirar os olhos de .
- Por que não no lugar do Asensio? - ela questionou, se ajeitando no banco. - As jogadas estão sendo criadas, o que está sendo mais complicado é conseguir finalizar. De repente, tendo o Morata e o Benzema como referência fica mais fácil desse bendito gol sair.
- É uma boa sugestão - o técnico afirmou, meneando a cabeça positivamente, e foi se sentar ao lado do outro assistente técnico, que tinha um bloco em mãos com vários rabiscos.
Alguns minutos depois, Zidane chamou Karim e deu as devidas instruções para que o atacante entrasse no jogo. Em seguida, o jogador puxou o colete e o agasalho para cima e arremessou as duas peças em um banco qualquer. o observou sentar-se ao seu lado para arrumar as caneleiras dentro dos meiões, acompanhando todos os movimentos do francês.
- Boa sorte - ela disse, fitando o perfil do jogador.
- Ué, você falando comigo? Isso é uma novidade - ele debochou, esticando os meiões, e se levantou.
- Não enche, Karim. Só faz um gol, ok? - disse sem paciência para discutir e bufou.
Benzema sorriu, contente por ver o típico enfezamento no rosto dela. A amizade deles era baseada em implicância e xingamentos, era satisfatório ver que tudo estava normal.
- Vou fazer um gol pra você, . Mesmo que você esnobe minha amizade - ele disse com diversão e se inclinou para depositar um beijo na testa de antes de ir até a beira do campo esperar que o árbitro autorizasse sua entrada.
O jogo acabou em um empate por 2x2, graças aos dois gols que ambas as equipes acabaram por fazer no final do segundo tempo, mas Karim Benzema cumpriu sua palavra, fez um gol para e recebeu um abraço apertado depois do fim do jogo. E também um tapa estalado no braço ao brincar que era melhor ela se afastar, já que os observava do outro lado do vestiário e ele não queria arrumar problemas com o colega.

- Com quem você está conversando, hein? - questionou, espiando a conversa do WhatsApp de Théo, que estava sentado ao seu lado no sofá, notando que a pessoa da foto era uma garota bastante bonitinha.
- Minha namorada - o garoto respondeu, para a surpresa da prima, sem tirar os olhos do celular.
- Como é que é? - ela exclamou com a voz esganiçada. - Desde quando você tem idade pra namorar?
Théo a lançou um olhar entediado e, em seguida, voltou a digitar uma mensagem para a namorada.
ficou boquiaberta, o observando. Em sua cabeça, o primo era apenas uma criança, apesar dos 14 anos de idade. Lembrava-se com clareza do dia em que ele nasceu, pouco antes da Copa do Mundo de 2002, e, quando foi com os pais visitar Véronique na maternidade, o pegou no colo pela primeira vez. Ela ainda o via como o garotinho que ficava atrás dela e dos irmãos mais velhos para participar das brincadeiras, era estranho imaginá-lo com uma namorada, mesmo que fosse um namorinho bobo de adolescentes.
- Tio, sabia que teu filho tem uma namorada? - questionou quando viu Zizou adentrar a sala de estar acompanhado de Véronique, seu avô e sua avó.
- Ele já apresentou ela pra gente - Zizou respondeu e riu da expressão de choque no rosto dela, enquanto ele e os outros três se acomodavam nos sofás para um descanso pós-almoço.
- Qual é o problema, ? Deixa o menino namorar - Malika, a mãe de Zinédine, disse. - Você devia fazer o mesmo, viu? Na sua idade, eu já era casada e tinha três filhos.
- Minha própria avó me chamando de encalhada - murmurou, rolando os olhos.
- Não estou te chamando de encalhada, até porque você é uma moça bonita e deve ter vários namoradinhos - a mais velha disse, fazendo a neta rir. - Mas o que os jovens de hoje em dia têm contra compromisso sério? Você só quer saber de futebol, menina.
- Deixa ela, mãe - Zizou defendeu a sobrinha, rindo. - É bom que ela só pense em futebol, está me ajudando pra caramba lá no Real Madrid.
- Isso também é ótimo, mas eu quero ser bisavó - Malika acrescentou e fechou os olhos, já exausta daquele papo. - Filho, algum dos seus jogadores poderia ser um bom partido pra ela? Assim a gente junta o útil ao agradável.
arregalou os olhos, enquanto Zinédine gargalhou.
- Não queremos distrações, uh? - ele disse e piscou um olho na direção de .
- Não podemos dizer que eu não tentei, né?
Malika riu ao ver o rolar de olhos de , que, em seguida, se levantou do sofá no qual estava sentada e acomodou-se no espaço vago ao lado da avó.
- Vem cá, vó. Vamos tirar uma selfie em vez de ficar falando besteira.
Após chegarem em casa depois de uma manhã de treinamento, e Zinédine se surpreenderam com a visita de Malika e Smail, que haviam acabado de chegar da França e passariam alguns dias em Madrid. O almoço de domingo acabou sendo mais animado do que normalmente, com parte da família Zidane reunida.
Depois de mais algum tempo conversando com os tios e avós a respeito de coisas que não tinham nada a ver com sua vida amorosa, para o alívio de , ela subiu para o quarto. O Real Madrid viajaria para Dortmund ainda naquela noite para enfrentar o Borussia Dortmund pela Champions League na terça-feira seguinte e ela precisava tomar banho e terminar de arrumar a mala.
Já parcialmente vestida com o traje formal Hugo Boss, organizava apenas o essencial para os dois dias que passaria na Alemanha na mala aberta em cima da cama. Antes que o trabalho estivesse concluído, entretanto, ela acabou sentada no colchão e distraída com o celular.
Respondia algumas mensagens de amigos quando notou a notificação de mensagem direta no Instagram e, ao abrir, descobriu ser de .

: Eu conheço esse colar.

sorriu. Só então notou que, na selfie que tinha tirado com a avó, sua Bola de Ouro estava bastante evidente, graças ao decote em V da blusa que vestia.

Zidane: Bonito, né? Foi um jogador de futebol aí que me deu...
: Ele tem bom gosto. 😉
Zidane: Ele é um metido também.

Rindo, ela digitou mais uma mensagem em seguida.

Zidane: Você não quer arrumar minha mala? Estou morrendo de preguiça.

Quando a próxima mensagem chegou, veio acompanhada de uma foto de um cenário bem parecido com o que tinha à sua frente. Uma mala aberta e arrumada pela metade. A diferença era que a mala estava esparramada em cima de um tapete.

: Na verdade, eu preciso que alguém venha arrumar a minha. Nunca sei o que levar.
Zidane: Você vive viajando e ainda não sabe o que levar?
: Só Deus pode me julgar, ok?

A gargalhada que escapou pela garganta de preencheu o quarto.

Zidane: Como sou legal pra caramba, vou fazer uma lista pra você.
Zidane: ✔ Passaporte
✔ Carteira e celular
✔ Terno Hugo Boss
✔ Uniformes do Real Madrid
✔ Pijama
✔ Meias e cuecas
✔ Tênis e chuteiras
✔ Itens de higiene pessoal
✔ O shampoo especial que eu tenho certeza que você usa
✔ Os gols que você vai fazer contra o BVB
Zidane: Acho que é o suficiente.
: Como você sabe que eu uso um shampoo especial?
Zidane: Eu reconheço um cabelo bem cuidado de longe, queridinho.

- ? - a voz de Zizou exclamou do corredor, logo após algumas batidas na porta. - Você está pronta? A gente precisa sair em 20 minutos.
- Só estou terminando de arrumar a mala, tio!
- Ok!
Ao ouvir os passos de Zidane se distanciarem pelo corredor, a mulher voltou a atenção para a tela do celular.

: Obrigado, . Pela lista e pelo elogio ao meu cabelo.
Zidane: Estamos aí pra qualquer coisa. Preciso terminar de arrumar minhas coisas. A gente se vê daqui a pouco, .

As arquibancadas do Signal Iduna Park estavam completamente vazias, o que contribuía para o sons das chuteiras se chocando contra as bolas e o falatório e gargalhadas ecoarem por todo o estádio. Já era noite em Dortmund e o Real Madrid realizava o último treino prévio à segunda partida da fase de grupos. Devido à presença da imprensa, os jogadores apenas corriam e brincavam com as bolas para o reconhecimento do gramado, a parte tática já estava totalmente decidida.
Até , que geralmente preferia assistir às brincadeiras dos jogadores, acabou entrando na rodinha para participar. Só era permitido dar um toque na bola por vez e, quem deixasse a bola cair, era eliminado. Ela estava indo bem, era boa em embaixadinhas, e se divertia cada vez mais, conforme a roda ia diminuindo e as gargalhadas aumentando.
- Isso não vale, Marcelo! - ela exclamou quando não conseguiu esticar a perna o suficiente e a bola passou direto. - Você mandou a bola alta só pra eu não conseguir pegar.
- A culpa não é minha se você não tem mais uns 20 centímetros de perna - o brasileiro debochou, rindo. - Você pode nos dar licença pro jogo continuar, por favor?
- Você que devia sair, tocou a bola que nem a sua cara!
Aos risos, Marcelo foi até a assistente e a agarrou pelas pernas. Todos riam assistindo ao jogador levá-la para longe da rodinha enquanto ela berrava para ele colocá-la no chão. Depois que Marcelo a soltou e voltou para continuar a brincadeira com Cristiano e , os outros dois finalistas, ela acabou se jogando na grama. Estava cansada e com um leve desconforto na panturrilha esquerda, já que havia corrido bastante naquele dia.
fitava as estrelas do céu de Dortmund quando, poucos minutos depois, sentou-se ao seu lado pingando de suor.
- Eu não acredito que você perdeu, . Esperava que você honrasse a minha eliminação - ela falou, fazendo o rir.
- Prometo que a próxima eu ganho - ele disse com um sorriso nos lábios. - Você é boa.
- Eu sou uma Zidane. O que você esperava? - rebateu em um tom divertido.
- Até pensei que você fosse ganhar.
- Tudo culpa do Marcelo! - exclamou, fazendo uma careta. - Mas eu também estou morta e precisando de uma massagem nas pernas.
- Não sou tão bom nisso quanto o Jaime, mas posso ajudar - ofereceu.
Apesar da vontade de aceitar a proposta totalmente inesperada, riu.
- Agradeço a preocupação, mas não precisa.
O soltou uma risada esperta e se esticou para puxar as pernas da francesa, que deu um gritinho de susto. De frente para , ele esticou as pernas dela sobre suas coxas e começou a deslizar as mãos pelas panturrilhas, a fazendo sentir um alívio imediato.
- Eu não perguntei se precisava.
sorriu e fechou os olhos, apreciando a firmeza das mãos grandes de . Desejou que os toques fossem diretamente em sua pele, não sobre o tecido da calça do uniforme.
- Eu vou ficar mal acostumada desse jeito - disse, sorrindo.
- Não tem problema.
abriu os olhos e encontrou o sorriso de . Não foi fácil parar de fitar os olhos dele e voltar a observar as estrelas enquanto recebia uma massagem excelente.

7. La Séptima

Soy humana, soy humana
Pura intensidad para amar y odiar
Soy humana, muy humana
La verdad, esto es lo que hay

Soy Humana – Chenoa

Karim caminhou por entre as espreguiçadeiras da área de lazer do hotel Don Carlos, um dos mais famosos de Marbella, cidade do sul da Espanha conhecida por suas belas praias. Vestia apenas uma bermuda com estampa de abacaxis, que não se conteve em dizer quão brega era assim que bateu os olhos algumas horas antes, e, nas mãos, tinha dois copos decorados com uma rodela de laranja na borda cada um e cheios até a boca de um drinque de um tom amarelo chamativo. Sentou-se na espreguiçadeira ao lado da que a assistente técnica estava deitada confortavelmente, mexendo no celular, e a entregou um dos drinques.
- Cadê a tua ninfeta, hein? - questionou antes de sugar um pouco da bebida pelo canudinho, fazendo o jogador abrir um sorriso de lado, achando graça do apelido.
- Cansou de ficar aqui pegando sol e foi pro spa - ele respondeu, dando de ombros, e bebeu um gole generoso do drinque.
Aproveitando a parada internacional para amistosos das seleções e jogos das eliminatórias da Copa do Mundo, havia ido com seus tios e primos passar alguns dias em Marbella. Benzema, que ainda não havia conseguido convencer o técnico Didier Deschamps de que merecia uma vaga na Seleção Francesa, aproveitou para acompanhá-los na viagem e convidou Lola, sua quase namorada, para ir junto.
não simpatizou muito com Lola à primeira vista. Na primeira oportunidade que teve depois que todos se acomodaram em seus quartos no hotel, chamou Karim no canto e perguntou se ele estava louco, já que a garota mal parecia ter completado os 20 anos de idade, e o francês acabou confessando que nem sabia quantos anos ela tinha. Lola tinha um bom papo, o que acabou a fazendo mudar de opinião conforme conhecia a modelo melhor, mas pôde jurar que a viu se insinuando para Enzo e Luca quando todos estavam se refrescando na piscina.
- , larga esse celular e vai desfilar esse corpão por aí - Benzema falou, se esticando para dar um soquinho fraco na canela dela. - Tem um monte de espanhol querendo conhecer as maravilhas francesas.
- Não, obrigada. Estou bem aqui - a outra respondeu, tirando os olhos do aparelho apenas para encarar o jogador e rir.
Benzema ficou observando a assistente mexer os dedos pela tela do celular, provavelmente conversando com alguém. Ela vestia um biquíni rosa claro que contrastava com sua pele já bronzeada, graças ao seu tom de pele moreno; a parte de cima era um tomara que caia em estilo cigana. Karim vinha estranhando o comportamento dela, que, em seu estado normal, já estaria cheia de sorrisos e jogando charme para os caras musculosos que também estavam por ali aproveitando o sol forte.
- Manda um abraço pro - ele disse em um tom debochado.
- Vai se ferrar, Benzema - esbravejou, rolando os olhos.
Ela jamais admitiria, mas Karim tinha razão. Apesar de, naquele exato momento, estar respondendo uma mensagem de sua amiga Fifi, vinha trocando mensagens constantemente com nos últimos dias. Na maior parte do tempo, eles conversavam sobre futebol, mas sempre acabavam falando também de música, cinema e até mesmo sobre suas famílias. Era divertido como um assunto puxava o outro.
A notificação de uma nova mensagem de surgiu na tela e clicou para trocar de janela.

: Minha irmã acabou de me mandar essa foto da minha sobrinha.

baixou a foto e se deparou com a mesma garotinha que já havia visto em outras fotos que o havia lhe enviado. Georgia, a filha mais velha da irmã de , estava toda suja de farinha e brincando com forminhas de biscoito.

: Ela é muito fofa! Apesar de ser parecida com você. 😜

- Quando você vai admitir que está rolando o maior clima entre vocês? - a voz de Karim questionou, fazendo bloquear o celular e deixá-lo de lado, desfazendo o sorriso que nem havia percebido que tinha nos lábios.
- Para com isso, não tem clima nenhum - ela respondeu, rolando os olhos, e segurou o canudo para beber mais um pouco do drinque, que, aliás, estava uma delícia. Em seguida, deixou o copo em cima de uma mesinha ao seu lado. - Ele apenas se retratou comigo e, agora, estamos virando amigos.
Benzema estreitou os olhos, desconfiado, conforme terminava de beber seu drinque e, em seguida, colocou o copo vazio ao lado do de .
- Já que o é só seu amigo - ele começou, soando levemente irônico -, então você não vai se importar de ir a uma balada mais tarde e arranjar uma companhia pra noite, né?
- Se aparecer alguém interessante, nenhum problema - rebateu e pegou o copo novamente para bebericar a bebida e não ter que ficar encarando o sorrisinho irritante que Karim esboçava. Entre um gole e outro, completou: - Mas eu não vou pegar ninguém só pra provar qualquer coisa pra você.
- Já está dando desculpinha. Você está muito gamada, - o jogador zombou e recebeu o dedo médio como resposta.
- Vai procurar a tua ninfeta e para de me azucrinar, Benzema.
deixou o copo quase vazio em cima da mesinha novamente e se levantou. Quando se inclinou para pegar o celular e um livro que havia levado na intenção de ler, mas que acabou nem tocando, sentiu a mão de Karim estalar em sua bunda e imediatamente o encarou com uma expressão ofendida.
- É exatamente o que eu vou fazer. Você sabe, aproveitar aquela banheira de hidromassagem que tem lá no quarto - ele disse com um sorriso malicioso. - E você devia fazer a mesma coisa. Prometo que não falo nada pro .
Antes que pudesse xingá-lo, Benzema saiu rindo. Ela apenas bufou e vestiu a saída de praia de um tecido branco quase transparente antes de seguir pelo mesmo caminho, enquanto checava o celular.

: Eu sei que isso foi um jeito de dizer que eu sou fofo, pode admitir. 😂
: A gente tá indo pro estádio. Até mais tarde!

adentrou o hotel rindo e digitou uma resposta, tomando cuidado para não esbarrar em nada e nem em ninguém.

: Só nos seus sonhos, querido. 😉
: Vou assistir ao jogo. Faz um gol pra mim!

A assistente subiu até o quarto para tomar uma ducha rápida e colocar uma roupa confortável e, em seguida, foi em busca de seus primos, que estavam no salão de jogos. Ficou por lá jogando sinuca com os garotos até a hora da partida, quando voltou para o quarto e se jogou na cama para assistir a Seleção enfrentar a Seleção Austríaca.
O jogo terminou em um empate por 2x2 e sem gols de , mas, mesmo assim, nem notava que, cada vez que surgia na tela, um pequeno sorriso tomava conta de seu rosto.

- Por que eu não posso ir com eles? - Elyaz questionou, emburrado, seguindo os pais para fora do restaurante japonês.
- Porque você tem 11 anos e não vão te deixar entrar - Zinédine explicou sem rodeios e bagunçou o cabelo do filho mais novo.
- Prometo que amanhã a gente passa o dia todinho juntos, tá bom? - falou, se inclinando para ficar da altura do primo, e segurou seu rosto com as duas mãos para depositar um beijo na bochecha dele, deixando uma marca do batom uva que havia retocado depois da refeição.
- A gente pode ir jogar futebol na praia - o garoto sugeriu com um pequeno sorriso que demonstrava seu interesse por aquela proposta.
meneou a cabeça, assentindo, mas riu quando viu o tio respirar fundo, demonstrando não ser muito fã da ideia. Quando viajava com a família, Zizou preferia ficar em lugares mais reservados e evitar a exposição, pois, mesmo depois de se aposentar como jogador, o francês nunca saía da mira dos paparazzi.
- Vou pensar no seu caso - ele disse, passando um braço pelos ombros de Elyaz e o outro pela cintura da esposa. Théo os esperava, impaciente, a alguns metros de distância, louco para se jogar na cama e passar o restante da noite jogando FIFA. Revezando o olhar entre os dois filhos mais velhos e a sobrinha, Zinédine continuou em um tom paternal: - Tenham juízo vocês três, viu?
, Enzo e Luca se entreolharam e acabaram rindo.
- Que absurdo, tio! Eu sempre tenho juízo.
- Eu sei que você tem, mas não custa nada lembrar.
- Cuida dos meus bebês, - Véronique brincou antes de se despedir da afilhada e dos dois filhos e, em seguida, acompanhar o marido e os dois filhos mais novos até o carro alugado que estava estacionado próximo ao restaurante de comida japonesa onde haviam decidido jantar naquela noite.
entrelaçou os braços nos de Enzo e Luca e os três caminharam pela calçada na direção da multidão que formava uma fila para entrar na Olivia Valère, uma casa noturna de Marbella conhecida internacionalmente e que não podia ficar de fora do roteiro de quem visitava a cidade e queria se divertir até o dia raiar. Os olhos de buscavam por Karim e Lola em meio a tantos rostos desconhecidos; haviam combinado de se encontrarem na entrada da boate depois do jantar em família e sabia que os dois já estavam por ali, pois tinha sido avisada via WhatsApp.
Poucos minutos de busca depois, os três encontraram o jogador aos beijos com a namorada, e não se importou de interromper o amasso quando se aproximou e beliscou a barriga do amigo e cutucou a cintura de Lola. O grupo conversou animadamente pelos dez minutos que ficou na fila até entrar no estabelecimento lotado e iluminado por luzes rosas, roxas e azuis.
A música tocada pelo DJ adentrou os ouvidos de , fazendo crescer dentro dela a vontade de se misturar àquele mar de desconhecidos e dançar até não aguentar mais ficar em pé. Ela já conhecia o local, havia estado ali em outras oportunidades com amigas e, inclusive, uma vez com Karim, Chloé, a ex-namorada do jogador, e Alejandro, um mexicano que conheceu ali mesmo, em Marbella, e com quem ficou durante os cinco dias que duraram aquela viagem que fez com o casal.
Os cinco caminharam até o bar, decididos a começarem a noite com alguma das bebidas oferecidas pela casa. ajudou os primos a escolherem seus drinques, já que era a primeira vez deles ali, e aproveitou para também fazer seu pedido ao barman, que a lançou um olhar penetrante antes de dar as costas para preparar as bebidas. Ele até que era bonitinho, mas ela não achou nada de outro mundo.
Mesmo sendo abraçada de lado por Luca, a francesa conseguia sentir os diversos olhares que recebia, o que a fez ter certeza de que o conjuntinho de top cropped e saia curta de cintura alta que vestia havia sido uma ótima escolha para a noite. Se pegou imaginando se seria a primeira vez que iria embora daquela casa noturna sem ter beijado uma boca sequer, já que sentia-se na obrigação de fazer companhia aos primos, mesmo que os dois tivessem idade suficiente para se virarem e, inclusive, decidirem se divertir com qualquer uma das mulheres que jogavam charme para eles.
Depois que o barman voltou com os pedidos e os três se deliciaram com suas bebidas, puxou Enzo e Luca para a pista de dança, sem se importar com Karim e Lola, que se beijavam ardentemente entre um gole e outro nos drinques que tinham em mãos.
- Sigues bailando reggaeton, ton, ton - cantava, se movendo no ritmo de uma versão remixada de Traicionera, de Sebastian Yatra. - Y no te importa para nada lo que sienta el corazón. Solo te importa el pantalón, lon, lon.
Mesmo um pouco acanhados, Luca e Enzo acompanhavam os passos da prima e gargalhavam quando ela berrava “TRAAAICIONEEERA” como se sua vida dependesse disso.
A animação de não diminuiu durante as oito ou nove músicas que se seguiram e, apenas quando sentiu a boca seca, ela comunicou a Enzo que iria até o bar. Luca, que era um pouquinho mais atirado que o irmão mais velho, estava conversando com um grupo de três garotas e dois garotos em uma mesa próxima de onde eles dançavam e tinha certeza de que ele acabaria ficando com a garota que estava sem par.
Ela pediu um drinque para o mesmo barman de mais cedo e, enquanto aguardava, sentiu um braço encostar no seu. Jogou os fios de cabelo para um lado só, pois estava morrendo de calor, e, durante o movimento, pôde constatar que o homem que estava ao seu lado era o DJ que tocava antes de ser substituído por um outro. Ele tinha uma aparência tipicamente espanhola com seus olhos e cabelo castanhos, além das sobrancelhas grossas e cílios longos. O rapaz piscou um olho, sorrindo de lado, e imediatamente quis beijá-lo.
- Você dança bem - ele disse próximo ao ouvido dela, fazendo um pequeno sorriso brotar nos lábios de .
- Quer dizer que o DJ estava me assistindo dançar, é?
- Você deve saber que chama a atenção - o rapaz retrucou, dando de ombros, e apoiou um cotovelo no balcão, ficando de frente para a mulher. - Meu nome é Javier. E o seu?
- , mas você está autorizado a me chamar de - ela disse, piscando um olho e fazendo o DJ rir baixo.
- Você não é espanhola, né? - questionou, mostrando-se curioso.
- Não, sou francesa com ascendência argelina - respondeu ao mesmo tempo que sorriu em agradecimento para o barman, que voltou não apenas com sua bebida, mas também com a de Javier.
- Espera aí - o espanhol disse, a analisando de cima a baixo. - Você é Zidane?
- Desde que me entendo por gente - a outra respondeu e não pôde evitar uma risada.
- E eu sou madridista desde que me entendo por gente - Javier rebateu em um tom divertido. - Meu Deus, o seu tio é um gênio!
- Ele é mesmo - concordou, dando de ombros, e bebeu um longo gole da bebida. - Ei, você não quer sair daqui? A gente pode conversar melhor sobre a genialidade do meu tio.
O DJ sorriu de canto ao perceber as segundas intenções de , que mordeu o lábio inferior quando o viu menear a cabeça em concordância.
Os dois foram até uma área mais calma, onde alguns casais se atracavam em sofás brancos, e se acomodaram em um deles. Perderam a noção do tempo conforme conversavam sobre futebol e outros assuntos aleatórios, enquanto bebiam, e nem se importava com a mão de Javier roçando sua coxa vez ou outra. Ela sentia o efeito do álcool correr em suas veias, o que acabou a fazendo concordar em conseguir uma camisa autografada por algum dos jogadores para o DJ, mas não estava bêbada o suficiente para passar o número de seu celular quando ele pediu por um contato. O seguiu no Twitter e falou para ele mandar seu endereço por mensagem direta, prometendo que enviaria a camisa por correio assim que possível.
Depois disso, não demorou mais do que poucos minutos para os dois estarem entregues a um beijo sedento. Não que a conversa estivesse ruim, mas esperava ansiosamente pelo momento que poderia comprovar suas suspeitas de que ele beijava bem. E ele beijava muito melhor do que o que ela tinha pensado. O clima foi esquentando aos poucos, conforme eles se beijavam com cada vez mais vontade, mas não passaram de algumas mãos bobas.
precisou acabar com a festa quando percebeu que já estava ficando tarde demais e, infelizmente, não teria como passar de beijos naquela noite.
- Eu tenho que ir. Preciso achar meus primos - ela disse, ajeitando a saia.
- Filhos do Zizou? - Javier questionou e a outra assentiu.
- E ele está no hotel esperando pela gente - falou e riu ao vê-lo arregalar os olhos. - O Benzema também está por aí.
- E por que você não me falou antes?
- Você preferia bajular o meu tio e o Benzema a ficar aqui comigo? - ela questionou e abriu um sorriso esperto quando o espanhol negou com a cabeça. - Imaginei que não.
Javier acompanhou até a saída da casa noturna e esperou ela mandar mensagens e ligar para os primos e Karim. Quinze minutos depois, os três e Lola saíram pela porta e, antes de ir de encontro a eles, beijou o DJ uma última vez.
- O DJ, ? É sério isso? - Benzema questionou e a mulher apenas riu, entrelaçando seu braço ao de Enzo.
Puxou o mais novo consigo e Luca os acompanhou.
- Que isso fique entre a gente, priminhos - ela falou, piscando um olho, e os dois riram antes de o trio adentrar um táxi.

O vestiário do time visitante do Estadio Benito Villamarín estava em completa desordem depois do jogo contra o Real Betis, em Sevilha. Os jogadores do Real Madrid comemoravam a goleada de 6x1 fora de casa ao mesmo tempo que se despiam para tomarem cada um sua ducha pós-jogo. adentrou o local desviando das peças de uniforme, chuteiras e garrafas d’água espalhadas pelo chão e fez uma careta quando o cheiro desagradável que preenchia o ambiente adentrou suas narinas.
- Pelo amor de Deus, esse vestiário tá com cheiro de chulé - ela disse com a voz fanha, pois apertava o nariz com dois dedos.
- Isso é cheiro de macho - Pepe zoou com a voz grossa.
- Eu tenho pena das esposas de vocês - a assistente rebateu, balançando a cabeça negativamente. Em seguida, entretanto, ela abriu um sorriso exagerado e piscou os olhos repetidas vezes na direção de Cristiano Ronaldo. - Quem vai me dar uma camisa linda dessa pra eu acrescentar à minha coleção de camisas de futebol, hein? Roxo é minha cor favorita.
Cristiano entortou a boca e soltou o ar em uma lufada ao perceber as intenções de , mas levantou as mãos sujas de lama, já que o gramado estava excessivamente molhado e isso contribuía para a sujeira ser ainda maior.
- Vem cá. Me ajuda a tirar essa camisa - disse ele.
o encarou com desconfiança por alguns segundos, mas, ao vê-lo de mãos levantadas e indicando a barra da camisa, ela percebeu que ele falava sério e, então, se aproximou. Um sorriso malicioso surgiu nos lábios dela conforme puxava a camisa do português para cima e o ajudava a tirá-la, fazendo graça para os jogadores que assistiam a cena e gargalhavam.
- Eu devia ter gravado a sua cara, - Marcelo disse, ainda rindo, e a francesa acabou o acompanhando na risada.
- Eu não acredito que acabei de tirar a roupa de ninguém mais, ninguém menos do que CR7! - ela exclamou em um tom brincalhão. - E, se eu tinha qualquer chance de que ele tirasse a minha também, agora já não tenho mais.
Cristiano apenas saiu rindo na direção dos chuveiros e desvirou a camisa do avesso, e, em seguida, a jogou por cima do ombro.
voltou, fazendo o caminho reverso, já de banho tomado. Foi até sua mochila, que estava aberta em cima do banco, e organizou suas coisas com cuidado para que fosse possível fechar o zíper. Ao avistar a assistente técnica aos risos com Isco e Sergio Ramos, ele pendurou a mochila nas costas e se aproximou dela.
encarou o ao notar sua aproximação e se surpreendeu quando ele estendeu a camisa roxa para ela.
- Você falou mais cedo que queria uma pra sua coleção - falou, fazendo a mulher esboçar um sorriso amarelo.
- Eu pedi pro Cris a dele - ela disse, levantando a mão que segurava a camisa.
, que só então notou a outra camisa idêntica a que ele segurava, sentiu-se bobo.
- Ah, eu não sabia...
Quando ele foi recolher a mão, entretanto, foi mais rápida e puxou a camisa para si.
- Mas até parece que eu vou recusar uma camisa do , né? - ela disse em um tom divertido. - Eu aproveito e dou a do Cris pra um amigo que está me perturbando por uma camisa do Real Madrid. Você podia autografar pra ele, né?
assentiu com um aceno de cabeça e foi até o quadro branco cheio rabiscos feitos por Zizou e voltou com uma caneta preta. O jogador pegou a caneta e foi até o banco que circundava todo o vestiário para apoiar a camisa na madeira.
- Qual é o nome dele?
- Javier - disse e não conteve uma careta.
Já estava exausta e arrependida de ter dado confiança para o tal DJ em Marbella, pois ele vinha mandando mensagens diretas no Twitter insistentemente, cobrando a camisa que ela havia prometido. Era por isso que, na maioria das vezes, ela preferia não manter contato com os caras com quem ficava. Às vezes ela tinha a sensação de que eles só se interessavam pelo fato de ela ser sobrinha de Zinédine Zidane.
E isso era extremamente decepcionante.
Depois de escrever algumas poucas palavras na camisa, o a devolveu para .
- Obrigada, . Você é um amor - ela disse com um sorriso meigo nos lábios. - E é o único jogador cheiroso desse time também. Esses outros aí, ó... Tudo fedorento.
Toni, que passava por eles no caminho para o banho, ouviu sua fala e esfregou a testa suada no braço da assistente.
- Que nojo, Kroos! - ela exclamou com uma careta e passou a mão pela pele úmida. - Vamos sair daqui, por favor. Eu peço pro Cris autografar a camisa depois.
saiu do vestiário puxando e os dois caminharam pelos corredores do estádio. O jogador parou na zona mista para responder algumas perguntas de repórteres, mas logo estava adentrando o ônibus que os levaria para o aeroporto e sentando-se ao lado da francesa.
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, enquanto respondia a vigésima mensagem que Javier havia lhe enviado no dia anterior, questionando sobre a bendita camisa, e avisou que, até o fim da semana, ele a teria em mãos.
Em seguida, bloqueou o celular, o jogou de qualquer jeito dentro da mochila, e soltou um longo suspiro.
- Estou morta e nem acredito que amanhã a gente tem que estar cedinho em Valdebebas porque tem jogo da Champions daqui a dois dias.
- O calendário está bem apertado, né? - questionou e recebeu um murmúrio em concordância como resposta.
- Tem jogo a cada dois ou três dias, isso é muito desgastante - completou e sentiu-se confortável o bastante para deitar a cabeça no ombro do , que escorregou no banco para ambos pudessem se acomodar melhor.
- E olha que a Copa del Rey nem começou ainda - ele disse e riu fraco, subindo uma das mãos até os fios de cabelo da assistente presos em um rabo de cavalo, a fazendo fechar os olhos para apreciar o carinho.
- E eu já quero me matar - ela disse após alguns segundos em silêncio. - Onde que eu estava com a cabeça quando aceitei fazer parte dessa loucura?
- Você vai se acostumar - rebateu, com um sorriso nos lábios.
Os dois continuaram na mesma posição por algum tempo, apenas apreciando a presença um do outro, até Karim Benzema adentrar o ônibus fazendo um estardalhaço, o que fez ambos se assustarem.
- , você não vai acreditar! Um site de fofocas falou sobre a nossa noite no Olivia Valère - ele anunciou balançando o celular no ar. - Já faz alguns dias, mas minha mãe viu ontem e me mandou o link. Ela me xingou de tudo que é palavrão por não ter contado sobre a Lola.
- Falaram o que, exatamente? - questionou, curiosa, e se esticou para pegar o aparelho estendido pelo francês.
- Nada de útil. Descobriram que o Zizou foi passar uns dias com a família em Marbella e um paparazzi viu a gente entrando na boate e ficou à espreita - Karim contou, escorado no banco em frente ao que estava sentado, enquanto passava os olhos pelo texto. - Eles são uns filhos da puta. Me viram com a Lola e foram no inferno pra descobrir a ficha completa dela. Tem coisa aí que nem eu sabia!
- Você reparou que ela só namora jogador de futebol? - ela questionou, levantando os olhos a tempo de ver Benzema dar de ombros. - Abre teu olho com essa garota. Não confio em modelo que fica caçando jogador de futebol.
- Tanto faz, . Eu só estou curtindo, não tenho a mínima intenção de me casar e ser feliz pra sempre com ela.
- Ela que tem que tomar cuidado com você, pelo visto - a assistente falou, soltando uma gargalhada, e voltou a ler o texto todo pomposo do site de fofocas espanhol.
- Mas a minha parte favorita é o final - Karim falou e riu alto. - Você dando o maior beijão no DJ e ele com a mão na sua bunda!
Ele falou tão alto que os poucos jogadores que já estavam acomodados no ônibus olharam, curiosos, assim como Zizou, que acabava de chegar. levantou apenas o suficiente para dar um tapa estalado no braço de Benzema, pois não se sentia à vontade de ter sua intimidade sendo exposta para o time, e arregalou os olhos quando se deparou com a foto e constatou que ele tinha razão.
- E também descobriram tudo sobre ele. Você viu? - o jogador falou, agora em um volume de voz moderado. - Esse tal de Javier Moreno.
O sangue de gelou quando ela sentiu se desencostar de seu braço e ajustar a postura no banco. Ela bufou e devolveu o celular para Karim, estava completamente aborrecida com aquela matéria.
- A gente não tem a mínima privacidade. Isso é ridículo! - ela esbravejou, cruzando os braços.
- Calma, . Não tem que cair na pilha desse pessoal sensacionalista - o outro tentou consolar, apesar de também ter seus momentos de revolta quanto ao mesmo problema. - Infelizmente, estamos sujeitos a isso na posição que ocupamos.
Karim foi se sentar ao lado de James Rodríguez e deixou com seus próprios pensamentos. Logo ela, que prezava pela discrição, agora tinha fotos na internet com a mão de um cara que nunca mais veria na vida em sua bunda e a língua enfiada em sua boca. Aquilo tudo era uma grande palhaçada.
- Então a camisa era pra um amigo, uh?
A voz de fez a assistente voltar para a realidade. E o tom irônico do questionamento a fez soltar um longo suspiro.
- Ele não é meu amigo, não é nada meu - ela rapidamente tratou de deixar claro. - É só um carinha que eu dei uns beijinhos lá em Marbella, nada demais.
- E que colocou a mão na sua bunda - o jogador completou, lançando-a um olhar de canto.
- Eu nem reparei na hora, pra falar a verdade. Não teria deixado ele botar a mão na minha bunda no meio da rua - ela disse, fazendo uma careta de descontentamento. - Mas por que estou te dando explicações mesmo? Eu sou uma mulher livre e desimpedida e posso fazer o que eu quiser e com quem eu quiser.
- É, você é uma mulher livre e desimpedida - repetiu, dando de ombros, e a indiferença com que ele pronunciou as palavras irritou ainda mais.
Ela preferiu não retrucar e ficar em silêncio, apenas tentando controlar a raiva que borbulhava dentro de si e ela nem sabia exatamente por qual motivo.
- Você poderia ter me dito que a camisa era pro seu casinho, não precisava mentir.
- Ele não é meu casinho, eu só não vi necessidade de te contar em detalhes pra quem era - murmurou. - Eu prometi pra ele que ia conseguir uma camisa e o segui no Twitter pra que ele pudesse me enviar o endereço por mensagem direta. Mas esse palhaço ficou me cobrando e eu me vi obrigada a arranjar essa camisa de uma vez pra ele parar de encher meu saco. Assim que enviar ela pelo correio, vou bloquear ele. E fim de papo.
- Então, tá - respondeu, simplesmente, e passou o caminho todo até o aeroporto com a atenção voltada para o celular.
No avião, no voo de volta para Madrid, ele sentou-se ao lado de Luka Modrić.

8. La Octava

Cuantas cosas que no sé ti
Cuanto tiempo para ser amigos
Cuantas cosas que llevarme al viaje contigo
Sin saber lo que sabrás de mi
Sin saber si volveré al suelo

Cosas Que No Sé De Ti - María Villalón

não costumava abrir os olhos e se levantar da cama de má vontade, pois sabia que era privilegiada por trabalhar com o que sempre sonhou. Era até bastante satisfatório pensar que teria um longo dia pela frente, mas, naquela manhã em especial, ela se pegou desejando dormir até a hora do almoço. Tendo em mente que precisava estar na Ciudad Real Madrid em menos de meia hora para o primeiro treino para a partida contra o Legia Warszawa, time polonês que o Real Madrid receberia em sua casa na terceira rodada da Champions League, ela vestiu o uniforme de assistente técnica, prendeu o cabelo em um rabo de caval, se jogou no banco do passageiro do carro de Zizou e não abriu a boca durante todo o caminho até o centro de treinamento.
Enquanto tomava o café da manhã no refeitório para fazer seu estômago parar de roncar, sentia a irritação borbulhar dentro de si e sua cabeça latejar de dor. Até mesmo os risinhos de Álvaro Morata, Dani Carvajal, Nacho Fernández e Isco Alarcón, que assistiam a vídeos bobos em um tablet na outra ponta da mesa comprida, estavam a tirando do sério. A assistente estava no auge da TPM, mas certo de olhos bonitos e azuis também tinha a ver com todo aquele mau humor. Ela nem ao menos se lembrava de como tudo havia começado, mas sentia-se frustrada quando a discussão boba que os dois tiveram no dia anterior voltava à sua mente como um flash. Os dois não haviam se falado desde então e sequer havia um motivo plausível para isso.
- Ei, não era pra vocês estarem treinando? - ela questionou, atraindo a atenção dos quatro espanhóis para si, depois de uma risada alta de Carvajal fazê-la sentir uma pontada na cabeça.
- Ainda faltam dez minutos pro treino, - foi Morata quem respondeu.
- Vocês já pararam pra pensar que o Cristiano talvez seja o melhor jogador do mundo porque começa a treinar uma, duas horas antes do resto do time? - ela disse com uma seriedade que espantou os jogadores. - Ele já está lá no campo há um tempão, enquanto vocês estão aí vendo baboseira na internet. E olha que ele nem precisa mais provar nada pra ninguém. Bem diferente de vocês, né?
Carvajal e Nacho se entreolharam, enquanto Isco desligava o tablet e Morata se limitava a baixar os olhos e prender o riso. Os quatro se retiraram do refeitório sem dizer mais nada e soltou um suspiro de alívio por, finalmente, o ambiente ficar em quase completo silêncio.
Ela terminou de comer e, ao se levantar, arrastou a cadeira com mais força do que o necessário e saiu caminhando rumo ao campo de treinamento. Enquanto esperava o restante do time se juntar aos jogadores que já se aqueciam e conversavam de forma descontraída, ela dava pequenos toques nas bolas espalhadas pela grama distraidamente, o que a fez se assustar quando dois braços a agarraram com força por trás.
- Que merda, Benzema! Dá pra tirar as mãos de mim? - esbravejou.
O francês a largou de imediato e franziu o cenho, estranhando aquela reação exagerada. Ele costumava cumprimentá-la exatamente daquela forma quase todos os dias pela manhã e ela, geralmente, ria ao pedir para ele soltá-la. A analisou por dois segundos, conforme ela deu um passo para o lado para se afastar dele com uma expressão no rosto que o amedrontaria se ele não fosse Karim Benzema.
- Eu não sabia que a TPM te deixava nessa doçura toda, .
- TPM é o cacete! - ela exclamou, sentindo ainda mais raiva por saber que Karim tinha razão. - Você escancarou minha intimidade pra todo mundo ontem e quer que eu te receba com beijinhos? Meu tio veio até chamar minha atenção por causa daquelas malditas fotos.
- Ah, é por isso que você tá desse jeito? - o jogador disse despreocupadamente. - São só fotos, elas não definem quem você é.
- Pode ser que pra você ter sua vida pessoal sendo divulgada na internet não tenha nada demais. E que todo mundo ficar sabendo que você comeu a Rihanna alimente o seu ego - disse, fazendo gestos exagerados com as mãos, e Karim soltou uma gargalhada. - Mas isso não é normal, ok? Eu quero que as pessoas falem de mim por causa do meu trabalho, não porque eu me agarrei com o DJ na porta da boate.
- Relaxa, . Daqui a pouco ninguém lembra disso - o outro falou, abanando a mão no ar. - Mas o Zizou te deu esporro mesmo, é?
- Não foi um esporro. Ele só falou pra eu ter mais cuidado, pra não deixar me fotografarem. Você sabe como ele sempre foi extremamente discreto - a assistente explicou e soltou o ar em uma lufada. - E eu concordo totalmente com ele.
- Entendi… - Karim murmurou. Por um instante, observou a feição emburrada de , que tinha os braços cruzados e fitava algum ponto qualquer do outro lado do campo. - E não precisa ter ciúmes da Rihanna, você dá de 10 a 0 nela.
A francesa rolou os olhos, fazendo Benzema sorrir com satisfação e abrir os braços para abraçá-la, mas foi impedido de concretizar a ação quando ela colocou o braço na frente.
- Não quero papo contigo, não - murmurou e caminhou para longe de Karim, que ficou para trás rindo.
O treino começou com todos os jogadores se alongando e correndo de uma linha lateral até a outra diversas vezes. A assistente, que nem sempre os acompanhava no aquecimento, fez questão de aproveitar a corrida para extravasar um pouco da irritação que ainda sentia. Estava se esforçando para não olhar na direção de , que a ajudava bastante nessa tarefa mantendo-se longe de suas vistas.
Quando o time inteiro já estava devidamente aquecido, Zidane chamou todos para se reunirem em um círculo e passou algumas instruções, que os assistentes técnicos David e complementaram com o que haviam observado da série de jogos do Legia Warszawa que vinham assistindo desde a semana anterior.
- , a gente vai começar o treino com cruzamentos e chutes a gol, ok? - Zizou disse, analisando as anotações em sua prancheta. Levantou a cabeça para fitar a sobrinha, que assentiu com a cabeça. - Você fica responsável pelo grupo do Kiko.
Os jogadores foram divididos em três grupos e, seguindo a ordem do treinador, reuniu os cinco jogadores com os quais treinaria em frente a um dos gols do campo de treinamento. Kiko Casilla ajeitava as luvas, se posicionando debaixo da trave, enquanto orientava os outros jogadores sobre o que eles teriam que fazer. O primeiro jogador sairia com a bola e driblaria o segundo para cruzar a bola para o terceiro, que, de frente para o gol, chutaria ou cabecearia para a rede ou para o goleiro defender.
Danilo foi o primeiro e conseguiu passar por Nacho com facilidade, mas fez uma careta de descontentamento quando ele cruzou a bola quase na altura dos pés de Asensio, que chutou a bola para o fundo da rede.
- Essa bola precisa ser mais alta, Danilo. Lembra que durante o jogo vai ter um zagueiro ali - ela alertou o brasileiro e apontou para Coentrão, indicando que ele seria o próximo.
Coentrão saiu com a bola e também não teve grande dificuldade para driblar Nacho, além de realizar o cruzamento na altura perfeita. A assistente, entretanto, não chegou a ver a cabeceada de Isco, pois uma outra bola atingiu em cheio suas costas.
A ardência que sentiu na pele foi instantânea, assim como a irritação que correu por todas suas veias até chegar a seus olhos e que a impulsionou a virar para o grupo de jogadores que treinava com Zizou no gol ao lado, buscando pelo autor daquele chute.
- Tá tudo bem, ? - Sergio Ramos questionou, preocupado, se aproximando da francesa. Mas a voz dele pareceu tão distante que ela o ignorou.
Os olhos de já estavam pregados em , que se aproximava com a culpa estampada no rosto.
- Qual é o seu problema? - ela berrou antes mesmo que o pudesse se desculpar, o fazendo parar no meio do caminho, assustado. - Você ganha uma fortuna e não sabe nem cruzar a merda de uma bola direito?
Naquela altura, a equipe inteira parou para assistir à cena. Estavam todos espantados com a explosão da assistente.
- Ele pegou mal na bola, - Zizou defendeu o jogador ao se aproximar.
- E eu que tenho que pagar por causa da incompetência dele? - ela rebateu, levando uma das mãos ao local atingido.
- Vem, vamos botar um gelo aí - o francês disse e passou um braço pelos ombros da sobrinha. Fez sinal para que os jogadores voltassem a treinar e a levou até o banco na lateral do campo. - Está tudo bem com você? - ele questionou com preocupação, a fazendo se sentar no banco. - Foi só uma bolada, . Não precisava desse escândalo todo.
- Foi mal, tio. Estou um pouco estressada hoje - a outra disse e bufou, passando as mãos pelo rosto. - É a TPM.
- Toda vez que você estiver na TPM vai ser assim?
- Não, isso não vai se repetir - falou categoricamente, abaixando a cabeça.
- É bom que não se repita mesmo - Zizou disse em tom de alerta, o que fez a assistente suspirar, insatisfeita consigo mesma. - Vou pedir pro Jaime ver qual é a situação das suas costas e arranjar gelo pra você.
assentiu e observou o tio pegar o celular no bolso para mandar uma mensagem para o fisioterapeuta, que estava trabalhando com Modrić na academia naquele dia. Ela sabia que teria que lidar com a dor por alguns dias, não era a primeira vez que levava uma bolada de um jogador profissional e já conhecia os estragos que poderiam ser feitos.


Depois de almoçar no refeitório na companhia de Benzema, o único que teve coragem de se aproximar depois da explosão da francesa durante o treino, subiu para seu quarto na residência dos jogadores. Continuaria trabalhando na Ciudad Real Madrid pela tarde, mas precisava tomar banho e descansar um pouco. A dor leve que sentia no útero começava a incomodar, mas, pelo menos, a irritação de anteriormente havia ido embora.
De banho tomado, ela vestiu apenas a calça do uniforme de assistente técnica e o top Adidas que costumava usar por baixo da camisa e se jogou na cama de cabelos molhados. Se esticou para alcançar o controle da televisão no criado mudo e ligou o aparelho na Real Madrid TV, que, naquele momento, passava um resumo sobre o último jogo do time de basquete do clube madridista.
Fechou os olhos enquanto escutava os jornalistas comentarem sobre a partida, mesmo que não se interessasse muito por basquete, e estava prestes a pegar no sono quando escutou algumas batidas na porta. Bufou, imaginando ser Karim querendo torrar ainda mais sua paciência, e se levantou para abrir a porta.
No entanto, para sua surpresa, quem estava parado no corredor com as mãos no bolso da calça jeans e exalando um perfume delicioso não era o atacante francês, mas sim .
Os olhos dele a fitavam com uma cautela que fez abrir e fechar a boca em duas tentativas de se pronunciar.
- Posso entrar? - ele questionou quando percebeu que a assistente estava sem reação.
aumentou a abertura da porta e deu espaço para que o pudesse adentrar o quarto.
- Senta aí - ela disse, apontando para o sofá, e fechou a porta em seguida.
subiu os olhos pelo corpo atlético de , que estava mais à mostra do que ele costumava ver normalmente, mas ela sequer notou.
A assistente estava tentando lidar com a vergonha que sentia, agora que estava cara a cara com o e sentia-se arrependida por ter sido tão grossa com ele. Ela sabia que havia exagerado ao chamá-lo de incompetente.
Afinal, ele era . Ele sabia fazer com uma bola muito mais do que um simples cruzamento.
- Aquela bolada foi sem querer, . O Sergio tentou roubar a bola e acabou me atrapalhando - ele falou, enquanto a francesa se sentava no espaço vago do sofá ao seu lado.
- Relaxa, está tudo bem. Eu sei que você não chutou a bola em mim por querer - ela disse. Fez uma careta ao continuar: - Eu que tenho que pedir desculpas por ter reagido daquela maneira. Não estou em um dos meus melhores dias.
- Eu confesso que fiquei com um pouco de medo, pensei que você ia voar em cima de mim - o brincou, rindo, e arrancou uma gargalhada de . - Mas não tem problema. Eu te machuquei?
- Ainda está meio dolorido, mas amanhã já vou estar pronta pra outra - ela respondeu e piscou um olho. - O Jaime passou aquele sprayzinho mágico.
- Posso ver?
se virou e puxou os fios de cabelo para um só lado, de forma que suas costas ficassem expostas. Ela pôde perceber a aproximação do jogador e sentiu um arrepio correr pelo corpo quando os dedos dele tocaram sua pele de leve.
- Está meio vermelho - ele disse, alisando o local atingido.
- Você fez uma obra de arte aí, uh? - brincou, virando o rosto a tempo de ver a careta de descontentamento de .
E ficou petrificada ao perceber quão próximos eles estavam.
- Desculpa - o sussurrou, admirando de perto as feições delicadas do rosto de .
- Já desculpei - ela disse em resposta e esboçou um sorriso singelo.
sentiu dentro de si a mesma sensação deliciosa que sempre a tomava toda vez que os olhos de a observavam daquela forma, como se, no mundo inteiro, só existissem eles dois.
- Sei que eu já disse isso - ela começou, levando uma das mãos até o queixo do jogador -, mas seus olhos são lindos.
sorriu enquanto apreciava o carinho que a francesa fazia em sua barba.
- Os seus também são.
- Não mesmo - rebateu, balançando a cabeça de um lado para o outro. - Você já se olhou no espelho? Os seus olhos são maravilhosos.
Uma risada escapou pela garganta de .
- Você já se olhou no espelho? - ele rebateu com um sorriso zombeteiro estampando o rosto.
- É sério, - a outra falou e estalou a língua no céu da boca em sinal de indignação. - Os seus olhos são os mais bonitos que eu já vi.
Ela se pegou analisando todo o rosto do , enquanto dava leves puxões nos fios de sua barba, grandes o suficiente para tal. Ao fitar o sorrisinho dele, não pôde deixar de imaginar como seria ter aqueles lábios colados aos seus.
- Eu também gosto da sua barba.
- Você gosta dos meus olhos e também da minha barba? - questionou, rindo. - Tá bom. Do que mais você gosta em mim?
- Do seu cabelo - respondeu e se afastou para se ajeitar no sofá e analisá-lo de cima a baixo. - Das suas costas, das suas pernas e da sua bunda também.
No segundo seguinte, as gargalhadas de ambos preencheram o ambiente.
- Você perguntou, eu só respondi - a assistente disse, dando de ombros, e soltou mais uma risada.
- Sabe do que eu gosto em você? - perguntou e recebeu um murmúrio como resposta, indicando que ele deveria continuar. - Primeiramente, do seu alto astral. Dá vontade de sempre estar perto de você absorvendo a energia positiva que você transmite. Mas eu também gosto do seu sorriso.
ficou sem palavras por longos segundos. Não que esperasse que ele fosse ter a ousadia de citar sua bunda ou qualquer outra coisa do tipo, mas ela, definitivamente, não esperava por aquilo. Pensou que ele fosse continuar com a zoação que ela começou, mas, de qualquer forma, era satisfatório saber que sua presença era agradável para ele, pois a dele também era para ela.
- Ei, estou entendendo o que você está fazendo - disse com diversão expressa na voz e semicerrou os olhos, optando por uma resposta descontraída. Levantando o nariz para demonstrar uma falsa arrogância, continuou: - Você precisa de mais do que umas palavras bonitinhas pra me conquistar, viu, ?
- Apertar a sua bunda? - ele retrucou com um sorrisinho de canto, entrando na brincadeira, e a francesa arregalou os olhos e esboçou uma expressão exageradamente chocada.
- Isso foi ofensivo. Isso foi muito ofensivo.
- Estou só brincando - falou, rindo. - Falando nisso, admito que fui um babaca ontem. Eu fiquei um pouco chateado por você não ter dito a verdade sobre o tal DJ, pensei que fôssemos amigos.
- É que fiquei sem graça de dizer que prometi uma camisa autografada do Real Madrid pra um cara que só ficou comigo por causa do meu sobrenome - explicou, fazendo uma careta. - Eu só queria me livrar dele o quanto antes.
- Eu não acredito que ele tenha ficado com você só por causa do seu sobrenome - o outro disse com cautela. - Quer dizer, você é legal e bonita. Ser sobrinha do Zidane é um mero detalhe.
- Acredite se quiser, mas isso é mais comum do que você imagina - a francesa retrucou e soltou uma leve risada. - Na verdade, eu não me importo muito com isso. Digamos que eu… prefira não me apegar a ninguém.
fez uma careta e tentou decifrar o que se passava pela cabeça de enquanto ele a fitava durante os segundos de silêncio que se seguiram.
- Então você prefere curtir sem compromisso? - ele arriscou questionar.
- Mais ou menos isso - respondeu, dando de ombros. - Eu nunca fui de me apaixonar fácil, sabe? Sempre fui muito focada em estudar e correr atrás de ser treinadora, apesar de até ter tido dois namorados quando ainda morava em Marselha, mas não foi nada muito sério. Terminei com o segundo em 2011, quando vim pra Madrid fazer a especialização.
meneou a cabeça em assentimento. Era interessante eliminar parte das dúvidas que tinha a respeito de , apesar de ainda ter outras tantas.
- E você? - a assistente questionou antes que ele se pronunciasse, mostrando-se curiosa.
- Eu namorei com minha melhor amiga de infância por oito anos, foi minha única namorada até o momento - o respondeu, fazendo a outra arregalar os olhos. - A gente terminou no início do ano e, desde então, tenho preferido manter o foco apenas no futebol.
- Oito anos?! - a mulher exclamou. - Isso soa como uma vida inteira pra mim. Meu namoro mais longo durou dois anos e meio.
- Pois é - disse e riu baixo. - O namoro chegou num ponto em que precisávamos decidir se a gente se casava ou terminava. E achamos que era melhor cada um seguir o seu caminho.
- Posso perguntar por quê? - questionou e o outro concordou com a cabeça.
- A gente se deu conta de que o único sentimento que ainda nos unia era a amizade - ele explicou sem delongas. - Foi um término tranquilo. O que foi ótimo pra todo mundo, porque nossas famílias são bastante próximas.
- Que bom - disse, sorrindo, e soltou um suspiro em seguida. - Os meus términos, em compensação, não foram tão amigáveis assim. O primeiro era ciumento pra caramba e a gente vivia brigando, e o segundo ficou com o ego ferido por ter sido trocado por uma pós-graduação na Espanha. Os dois devem me odiar até hoje e, pra falar a verdade, eu não estou nem aí.
soltou uma gargalhada diante da sinceridade da francesa, que deu de ombros e acabou por rir junto.
- , tá ouvindo esse blá blá blá? - ela questionou e se levantou do sofá para ir em direção à varanda.
O a observou destravar a porta de vidro e acabou a seguindo para fora do quarto.
- Que palhaçada é essa aqui? - questionou com as mãos na cintura ao se deparar com Kroos, Modrić, Kovačić e Benzema. - Vocês estavam me espionando?
- Não tenho nada a ver com isso, ok? A ideia foi do Karim - Toni disse, sendo o primeiro a tirar o corpo fora, já que era o dono do quarto ao lado e dividia a varanda com a assistente técnica.
O atacante francês deu um soquinho no braço do alemão por ele ter escancarado a verdade em vez de dizer que eles estavam ali apenas conversando.
- Eles disseram que o tinha vindo falar com você, então achei melhor vir prezar pela integridade do meu amigo, ok? - Benzema se defendeu. Depois de analisar e de cima a baixo, completou: - Mas pelo visto está tudo certo.
- Não vou nem falar nada - a mulher disse, respirando fundo.
- E essa barriga de fora aí, hein? - Karim implicou com um sorrisinho de canto.
- Eu vejo vocês sem camisa todo dia, não enche o saco! - a outra exclamou, fazendo os jogadores rirem. Voltando-se para , disse: - Eu preciso tirar um cochilo antes de voltar a trabalhar. A gente se fala depois, tá?
- Pode ir. Eu vou embora pelo quarto do Toni - o respondeu, piscando um olho, e a assistente se aproximou para beijá-lo na bochecha.
- Até amanhã, bando de fofoqueiros - ela disse para os outros antes de adentrar o quarto novamente e fechar a porta que dava acesso à varanda.
apenas riu, balançando a cabeça de um lado para o outro, e passou pelos amigos na intenção de ir embora, mas acabou sendo seguido até a garagem pelos quatro, que não o deixaram entrar no carro sem que ele antes fizesse um resumo sobre como havia conseguido se entender com . E ficaram um pouco desapontados por saber que ele sequer foi xingado.

Aquela noite estava sendo uma novidade para , mas ela estava adorando ver o lado mais íntimo de seus colegas de trabalho. Não imaginava que Toni Kroos, por exemplo, que estava sempre agindo feito um bobalhão, conseguia fazer seu filho parar de fazer bagunça com apenas um olhar. Era até bastante surpreendente presenciar tal cena.
Naquele mesmo dia, havia assinado o contrato que estendia seu tempo como jogador do Real Madrid até o ano de 2022. Como Modrić e Kroos haviam renovado seus contratos também naquele mês, os três decidiram que seria divertido comemorarem juntos em um jantar na casa de Luka, e acabou também convidando , já que a amizade dos dois vinha crescendo cada vez mais. O que, inclusive, fazia Benzema choramingar sobre estar sendo trocado nos ouvidos da francesa, que apenas ria e ignorava o drama.
estava se dando muito bem com Vanja e Jessica, as esposas de Luka e Toni, respectivamente. Mesmo que tivesse acabado de conhecê-las, as duas eram tão simpáticas e receptivas que ela já se sentia batendo papo com duas velhas amigas, enquanto o trio de jogadores assistia a uma partida de futebol americano na televisão depois de todos se empanturrarem de pizza e Coca-Cola. O cardápio havia sido escolhido por Luka depois de Toni insistir que eles precisavam aproveitar a ocasião para sair da dieta saudável estabelecida pelo nutricionista.
- Alguém quer vinho? É italiano, uma delícia - Vanja ofereceu e foi a primeira a aceitar. A croata entregou uma taça vazia para ela e a encheu pela metade com a bebida. Em seguida, voltou-se para o jogador sentado ao lado de . - Quer também, ?
- Não, obrigado. Eu não bebo - ele disse, esboçando um pequeno sorriso, e Vanja apenas assentiu com a cabeça e se afastou para servir o vinho para os outros.
- É sério que você não bebe? - questionou, demonstrando quão surpresa estava.
- Sim - o jogador respondeu, rindo. - Não é por nenhum motivo especial, é só que o gosto não me atrai muito. Nunca gostei nem de cerveja.
- Então quer dizer que você nunca tomou um porre? - ela perguntou com interesse.
- Nunca.
A francesa concordou com a cabeça e baixou os olhos para a taça de vinho que segurava, lembrando-se das incontáveis vezes que bebeu além da conta e acabou por fazer um monte de besteiras das quais ela sempre se arrependia depois. Levou a taça à boca, decidindo que aquele seria todo o álcool que iria ingerir naquela pequena reunião.
Alheia à conversa sobre vinhos que acabou se desenrolando na sala de estar dos Modrić, parou para observar Ivano, o filho mais velho de Luka, brincar com uma bola de futebol junto a Ema, sua irmãzinha, e Leon, o filho de Toni. As perninhas curtas de Ema e Leon os impediam de roubar a bola de Ivano, que ria e os driblava sem qualquer dificuldade, já que era o mais velho do trio. Amelie, a filha de apenas três meses de Toni Kroos, dormia um sono pesado no colo da mãe.
terminou de beber o vinho e deixou a taça vazia em cima da mesa de centro antes de se levantar e se agachar para desafivelar e tirar o par de sandálias pretas de salto que calçava.
- Eu quero jogar também - ela falou, se aproximando das crianças. - Vanja, tem algum problema se a gente for lá pra fora?
- Não, . Podem ir sim - a outra respondeu, piscando um olho.
A assistente técnica pegou a bola e chamou as crianças para acompanhá-la até o quintal enorme que era possível ver pela porta de vidro. Antes de pisar na grama, entretanto, fez sinal para que se juntasse a eles.
- Nós quatro contra ele. O que vocês acham? - ela perguntou para as crianças, apontando para , assim que ele apareceu na parte externa da casa, e os três assentiram veemente.
- Por que eu tenho que formar um time sozinho? - ele perguntou com indignação.
- Pode sair com a bola, vou te dar essa colher de chá - a outra rebateu, rindo, e jogou a bola para o .
acabou se voluntariando para defender um dos dois pequenos gols que Ivano tinha, enquanto as três crianças tentavam tirar a bola de sem muito sucesso. O jogador se divertia jogando a bola de um pé para o outro, apenas impedindo que eles a pegassem. Depois de alguns minutos dessa lenga-lenga, saiu do gol e caminhou a passos decididos na direção de .
- Ei, isso não vale! - ele exclamou quando foi agarrado pela francesa, que impedia que ele se movimentasse.
- Vai, gente! Faz o gol!
Ivano chutou a bola na direção do gol vazio e correu para comemorar junto a Leon e Ema.
Em meio a risos, ficou nas pontas dos pés para estalar um beijo na bochecha de antes de soltá-lo, mesmo que soubesse que, se ele realmente quisesse, teria feito isso por conta própria.
- Pois é, . Esse troféu vai ter que ficar pra próxima.
- Eu vou esperar pela revanche - ele retrucou e piscou um olho.
se afastou, rindo, e se ajoelhou na grama para receber um abraço em grupo de seus companheiros de time.

- Está entregue - disse ao parar o carro em frente à casa dos Zidane.
- Muito obrigada - falou, passando os olhos pela fachada da casa sem notar qualquer movimentação, e encarou o jogador antes de esboçar um pequeno sorriso. - Pela carona e também pela noite. Foi muito divertida.
- Já está convidada para as próximas. Faltou você conhecer a namorada do Mateo.
- É só marcar. Vou adorar conhecê-la - a francesa disse, piscando um olho, e soltou o cinto de segurança antes de se inclinar para abraçar desajeitadamente. - Mais uma vez, parabéns pelo novo contrato. Foi mais do que merecido, o Real Madrid não vai querer perder um jogador incrível como você.
- Obrigado, - respondeu, retribuindo o abraço de forma carinhosa.
Os dois se afastaram minimamente e aproveitou a proximidade para depositar um beijo demorado na bochecha do . Ela se afastou, em seguida, mas o rosto de ainda estava próximo e os olhos dele a fitavam com uma intensidade que a deixou sem reação.
Ele inclinou a cabeça e desceu o olhar pelo rosto da francesa até chegar nos lábios pintados com um batom marrom.
sentiu o coração dar um salto dentro do peito ao notar que o rosto do jogador se aproximava. Ela já conseguia sentir a respiração dele se misturar à sua própria e a vontade de beijá-lo apenas cresceu ainda mais.
Porém, quando as bocas roçaram uma à outra, o celular de apitou duas vezes seguidas, fazendo ela dar um pulo, tamanho foi o susto, e se afastar bruscamente de para voltar a se acomodar em seu banco.
- Meu Deus - a assistente soltou em meio a um longo suspiro e desviou os olhos para a rua deserta do condomínio.
O silêncio se instalou entre os dois por algum tempo, até quebrá-lo com uma risada baixinha.
- Sabe por que eu te evitava nas primeiras semanas? - ele questionou.
- Por quê? - ela rebateu, o encarando com curiosidade.
- Eu me sentia intimidado. Além de ser muito diferente ter uma presença feminina no time, eu não conseguia prestar atenção em mais nada quando você estava por perto. Ainda não consigo - o jogador confessou, fazendo morder o lábio inferior e fitar a bolsa que repousava em suas coxas. - A gente trabalha junto e isso é antiético pra caramba, mas você me atrai de uma forma que nenhuma outra mulher me atraiu antes. Eu demorei pra aceitar isso, mas, cada vez que eu te vejo, eu sinto uma vontade imensa de te beijar.
sentiu um frio na barriga que se espalhou por todo seu corpo e levantou os olhos até os de .
- Eu queria mandar a razão pro inferno e te beijar, mas eu não posso fazer isso com você, - ela disse com sinceridade. - Me envolver com jogadores de futebol sempre foi algo que eu procurei evitar, apesar de já ter acontecido duas vezes. E você não é como os caras com quem eu costumo ficar, sabe? Eu gosto muito de você e não quero correr o risco de acabar te magoando.
quis, mais do que nunca, saber o que estava se passando pela cabeça de , mas a expressão em seu rosto era impassível. Ele apenas concordou com a cabeça.
- Tudo bem, - falou e sorriu sem mostrar os dentes.
abriu a boca para respondê-lo, mas o toque de seu celular a interrompeu. Ao pegar o aparelho dentro da bolsa, viu o nome de Karim Benzema na tela.
- É o Karim - ela anunciou, rolando os olhos, e aceitou a chamada.
- Você não lê suas mensagens, não?
- Estou chegando em casa. Eu te ligo daqui a pouco, ok?
- Tá bom, mas anda logo. É importante.
- Espera cinco minutos, Karim. Tchau - disse antes de desligar o celular e voltar a guardá-lo dentro da bolsa. Encarou , que a observava atentamente, e suspirou. - Não fica chateado comigo, por favor - pediu em tom de súplica.
- Claro que não - o outro garantiu. - Você está certa. Isso pode acabar complicando as coisas.
- Até amanhã - disse, sorrindo, e abriu a porta do automóvel.
- Até - ela escutou o jogador dizer antes de sair e bater a porta.
não esperou para ver o carro de se afastar, caminhou pelo jardim buscando pelo chaveiro jogado no fundo da bolsa e, depois de encontrá-lo, abriu a porta de entrada da casa tentando fazer o mínimo de barulho possível. Após fechar a porta atrás de si, entretanto, notou que a luz da cozinha estava acesa e caminhou até lá.
Véronique preparava um chá para o marido, que estava com dificuldade para pegar no sono.
- Boa noite, tia - disse e soltou um suspiro desanimado enquanto deixava a bolsa sobre o balcão ilha e se sentava em um dos bancos.
- Que cara é essa, ? Aconteceu alguma coisa? - a mais velha questionou, secando as mãos em um pano de prato, e sentou-se no banco ao lado do da sobrinha.
- Aconteceu o que eu mais temia... - a outra disse em um volume de voz tão baixo que era quase um sussurro. - Acho que estou me apaixonando por um jogador de futebol.
Véronique reprimiu um sorriso.
- Karim? - ela arriscou, mesmo que achasse uma opção pouco provável.
- Antes fosse, pelo menos eu logo me convenceria de que nunca daríamos certo sendo mais do que amigos e acabaria deixando pra lá - a outra respondeu e fez uma careta de descontentamento. - É o ... O problema é justamente ele ser o tipo de cara por quem eu gostaria de me apaixonar.
- Por que isso é algo ruim? Ele já tem alguém? - a outra perguntou e levantou uma sobrancelha em sinal de confusão quando a sobrinha negou com a cabeça. - Ele não demonstra interesse? É isso?
- Muito pelo contrário, ele deu a entender que sente algo por mim - respondeu, sentindo o coração bater mais forte, lembrando-se das palavras ditas por . - Mas nós trabalhamos juntos e ele é um dos jogadores mais badalados atualmente. Não quero que o nosso relacionamento acabe ofuscando o meu trabalho, sabe? Pros homens é sempre mais fácil, mas nós, mulheres, temos sempre que estar provando alguma coisa. Já está sendo difícil provar que não estou no Real Madrid por causa do meu sobrenome, ainda vou ter que provar que também não tem nada a ver com o fato de me relacionar com um dos craques do time? Não sei se aguento ter que lidar com mais isso.
- Não acredito que o iria te expor assim, . Ele é tão discreto, a gente não vê a vida pessoal dele sendo comentada aos quatro ventos - Véronique ponderou. - Você não pode pensar só nos pontos negativos. Será que não vale a pena encarar isso tudo por alguém legal?
- Eu sei, tia, mas… - começou, mas se interrompeu com um longo suspiro. - Deixa pra lá, eu nem sei se estou gostando mesmo dele ou se é só uma atração boba. Não conta nada pro meu tio, tá?
- Claro que não - a outra respondeu com um sorriso cúmplice nos lábios.
- Preciso ir dormir. Já está tarde e amanhã temos a viagem pra Varsóvia.
Depois de desejar boa noite à tia, pegou sua bolsa e subiu as escadas. Tinha consciência de que o que estava sentindo por não era apenas uma atração, mas não sabia como argumentar para que a outra entendesse sua preocupação e, pior do que isso, não acreditava que Véronique fosse realmente entender seus temores.
Não que achasse que o relacionamento de seus tios tivesse sido sempre um mar de rosas, pois relacionamento nenhum era, mas Véronique era dançarina e modelo quando mais jovem, ser esposa de um jogador famoso como Zinédine Zidane havia sido um ponto positivo para a carreira dela. O caso de era completamente diferente, ela estava tentando conquistar um espaço que mulheres não costumavam ocupar. Por mais que caísse nas graças do técnico e do presidente, seu lugar na equipe jamais estaria garantido, pois, quem decide o rumo de um grande time de futebol, no final das contas, é a torcida.
trocou a roupa que vestia por um pijama confortável e se acomodou debaixo do cobertor, só então lembrando que ficou de retornar a ligação de Karim. Por sorte, havia deixado o celular sobre o criado-mudo antes de se deitar e só precisou esticar o braço para alcançá-lo. Dentre as notificações, encontrou as duas mensagens de Karim que a impediram de fechar a noite fazendo uma besteira das grandes.

Karim: Minha mãe me ligou pra contar que a Chloé tá namorando. É normal eu ter vontade de encher a cara até esquecer meu próprio nome?
Karim: , posso te ligar? Preciso conversar com alguém e você é a única que não vai apontar o dedo na minha cara e dizer que eu sou um babaca.

respirou fundo enquanto clicava no contato do jogador para iniciar uma chamada, pois sabia que Chloé era um assunto bastante complicado para Karim.
Ele conhecera a enfermeira francesa pouco depois de o Real Madrid contratá-lo no verão de 2009 e os dois tinham um relacionamento cheio de altos e baixos, graças ao jeitão irresponsável de Benzema, que acabava sempre metido em alguma polêmica e isso acabava gerando constantes brigas entre eles. tentava se manter neutra, já que, em 2011, ao se mudar para Madrid pela primeira vez, se tornou bastante próxima ao casal e sempre acabava ficando no meio do fogo cruzado.
Depois de alguns términos e voltas, Chloé engravidou e Karim a pediu em casamento, mas, poucos meses depois de Mélia nascer, os dois terminaram definitivamente quando boatos de que o atacante estaria tendo um caso às escondidas com uma jornalista esportiva vieram à tona. Ele se viu obrigado a admitir que os rumores eram parcialmente verdadeiros, que realmente se envolveu com a tal jornalista, mas não havia sido exatamente uma traição, pois acontecera durante um curto período em que esteve brigado com Chloé.
Para a enfermeira, entretanto, foi a gota d’água que faltava para que o copo transbordasse. Ela estava exausta de fazer parte de um relacionamento que lhe trazia mais aborrecimentos do que momentos de paz e não tirava a razão dela. Apesar de testemunhar o arrependimento de Karim quando ele se deu conta de que havia a perdido de vez, via como Chloé se desgastava em prol do amor que sentia por Benzema para ganhar quase nada em troca.
A filha de dois anos era a única ligação que os dois ainda tinham e Karim jamais havia superado o término, apesar de não demonstrar isso normalmente.
- Até que enfim - o francês disse ao atender logo no primeiro toque.
- Me diz que você não está realmente enchendo a cara - falou em um tom preocupado. - Você precisa se apresentar amanhã cedo em Valdebebas. Não queremos escândalos, certo?
- Não bebi nem metade do que eu gostaria, mas só porque a Lola está dormindo lá no quarto e eu não estou a fim de dar explicações.
- Por favor, Karim, tenha juízo - a assistente disse em meio a um suspiro. - Me conta essa história direito. Tem tempo que não falo com a Chloé.
- Segundo minha mãe, ela está com um cirurgião fodão do hospital onde ela trabalha. E você sabe que minha mãe nunca entende uma fofoca errado.
- Eu sei que não é isso que você gostaria de ouvir, mas a Chloé tem o direito de seguir em frente - disse com cuidado.
- É claro que ela tem direito, mas o que custava ela dar uma chance pro pai da filha dela? - ele questionou e a francesa conseguiu escutá-lo bufar, irritado.
- A milésima chance, né? - ela rebateu, rindo. - Acho que não cabe a mim te julgar e eu sou sua amiga e quero que você seja feliz, mas você procurou por isso, Karim. Você teve um milhão de chances e precisou ver a Chloé desistir de você pra se dar conta do quanto gosta dela. Agora não adianta chorar. Ou você desiste e parte pra outra, ou dá tempo ao tempo, mostra pra ela que você mudou e espera por uma chance.
- Já tem dois anos que eu tô esperando por uma chance.
- E o que você fez pra que ela te desse essa chance? Saiu com a Rihanna e com mais um monte de mulheres? - questionou com uma dureza que quase fez Karim se arrepender por ter a procurado para desabafar.
- Eu sei que eu sou um merda, .
- Você não é um merda - ela disse, compreensiva. - Não tem nada de errado em querer se divertir com várias pessoas sem compromisso, mas você não pode ter isso e também ter alguém te esperando em casa. É uma escolha que você precisa fazer.
- Como sempre, você está certa.
- Pensa nisso, mas sem encher a cara, ok? - disse com diversão expressa na voz.
- Tá bom - Benzema murmurou. - Nem sei por que eu estou tão preocupado assim. E daí que ele é cirurgião e deve ter diploma colado até na bunda? Eu aposto que é um velho barrigudo.
não pôde conter uma gargalhada.
- Não se torture com isso, não vale a pena.
- Ei, e posso saber onde a senhorita estava a essa hora da noite? - Karim questionou e chegou a ver em sua mente ele com as mãos na cintura, tentando intimidá-la.
- Estava na casa do Modrić com o , o Kroos, as esposas e os filhos deles. Eles resolveram fazer uma reuniãozinha pra comemorar as renovações de contrato e me convidaram.
- Eu gostava mais quando o te ignorava e você passava mais tempo comigo.
- De novo essa história de que estou te trocando por ele? - a assistente questionou em meio a risadas.
- Mas não tá?
- Claro que não - ela rebateu. Respirou fundo antes de continuar: - Eu quero te contar uma coisa, mas você precisa prometer que não vai me zoar.
- Eu prometo, mas só porque hoje não estou num bom dia.
- Palhaço - murmurou, escutando o jogador gargalhar do outro lado da linha. - Acho que estou gostando do .
- Agora me conta uma novidade, - Karim disse com ironia. - É claro que você está gostando do , eu sei disso desde que você veio com aquele papo de que ele não ia com a tua cara. Você nunca se preocupou em agradar ninguém. Eu nunca te pressionei pra saber, mas eu sei que rola algo entre vocês.
- Mas não rola nada além de amizade - a outra prontamente se defendeu.
- Eu quis dizer que rola um interesse mútuo. Olha, isso é fofoquinha de criança de primário, mas que se foda - ele falou e estalou a língua no céu da boca de maneira impaciente. - O Toni me contou que o é louco pra te dar uns pegas. O próprio que falou, mas não com essas palavras, imagino eu.
Um sorriso bobo surgiu nos lábios de e ela se virou, enfiando metade do rosto no travesseiro.
- Eu sei, ele me disse. A gente quase se beijou hoje.
- Por que quase?
- Porque eu meio que disse que é melhor a gente não se envolver - ela confessou e mordeu o lábio inferior.
- Por que você disse isso? - Benzema questionou em um tom admirado.
- Porque eu estou apavorada - admitiu e soltou um longo suspiro. - Eu sei que ficar com ele é um caminho sem volta. Sabe o que ele me disse? Que eu atraio ele como nenhuma outra mulher atraiu antes.
- Caralho. Esse manja, hein? Preciso pedir umas dicas.
- Estou falando sério, Benzema - a outra retrucou, rindo.
- , eu sei que você é contra ficar com jogadores de futebol porque acha que isso pode atrapalhar a sua carreira, e, talvez, você esteja certa - Karim disse, sendo honesto. - Mas o vai estar se expondo tanto quando você. Ou você acha que não vai ter gente falando, por exemplo, que ele só está sendo titular por que está comendo a assistente técnica e coisas desse nível?
- Sinceramente, eu não acho - rebateu. - Porque todo mundo já sabe que ele é um excelente jogador, ele já mostrou isso diversas vezes. Mas eu não, as pessoas ainda não sabem da minha competência. Já dizem que eu só cheguei no Real Madrid por causa do meu tio, me envolver com um jogador do time só vai dificultar ainda mais as coisas pra mim.
- Eu acho que você está é com medo de se apaixonar.
- Isso também - a assistente concordou e fitou o teto do quarto escuro por alguns segundos. - Ele ficou com a ex por oito anos, Karim. Isso é assustador. Eu tenho medo de me apaixonar e não saber lidar com isso, tenho medo de acabar magoando…
- Você realmente quer a minha opinião? - Karim a cortou e, após ouvir um murmúrio em concordância, continuou: - Conversa com ele sobre tudo isso e se peguem de uma vez. Não tem coisa pior do que tensão sexual. E te garanto que o tem maturidade suficiente pra lidar com qualquer coisa por vocês dois.
- Por que não parece tão simples assim na minha cabeça?
- É normal se sentir assim quando a gente se depara com algo novo.
Tais palavras ditas por Karim não saíram da cabeça de mesmo depois de eles se despedirem e desligarem os celulares. Ela tentou manter distante de seus pensamentos, mas, naquela noite, ela acabou sonhando que se atracava com ele no vestiário depois de um grande jogo.
No sonho, o beijo de era delicioso.
E ela queria tanto comprovar se de verdade também era.

9. La Novena

No importa que llueva
Si estoy cerca de ti
La vida se convierte en juego de niños
Cuando tú estás junto a mí

No Importa Que Llueva - Efecto Pasillo

guardou a bolsa de maquiagem dentro da mala e se certificou de que não estava se esquecendo de nada antes de se retirar de seu quarto na residência do time principal do Real Madrid. Vestia seu terninho Hugo Boss, o traje oficial para as viagens da Champions League, assim como todos os jogadores e outros membros da comissão técnica. Depois de fechar a porta, notou que Karim vinha em sua direção pelo corredor, ele também acabava de sair de seu próprio quarto. Estava distraído com o celular, então a francesa pigarreou para chamar a atenção do jogador, que imediatamente tirou os olhos do aparelho e esboçou um belo sorriso ao reconhecê-la.
Também sorrindo, envolveu Karim em um abraço apertado. Estava morrendo de vontade de fazer isso desde o dia anterior, quando conversaram pelo celular sobre Chloé e ela também acabou se abrindo a respeito de suas inseguranças quanto a . Não que tivesse qualquer dúvida a respeito de Karim ser um grande amigo, mas, às vezes, a implicância entre os dois era tão constante que a demonstração do carinho que um sentia pelo outro ficava um pouco de lado.
- Por favor, me diz que você não está deprimido - disse em um tom suplicante, o soltando do abraço. - Eu não vou saber lidar com um Karim Benzema deprimido.
- Pensei que você soubesse que pra mim não tem tempo ruim - ele falou, rindo, e um sorriso safado surgiu em seu rosto em seguida. - Sexo matinal cura qualquer sofrimento, sabia?
- Caramba, Benzema. Eu não preciso ficar sabendo dessas coisas, ok? - a outra rebateu com uma careta. - Nem sei por que ainda me preocupo com você.
- Qual é o assunto? - James questionou quando surgiu ao lado dos dois, também vestido com o terno Hugo Boss e puxando uma mala de rodinhas.
- Sexo matinal - Karim respondeu e James o lançou um olhar divertido.
- Não me venha contar da sua vida sexual também, ok? Não sou obrigada - disse para o colombiano e saiu andando pelo corredor, sendo seguida pelos dois jogadores.
- Ela só tá dizendo isso porque não tem com quem fazer - ela ouviu a voz de Benzema dizer e mostrou o dedo médio sem nem se dar ao trabalho de encará-lo, arrancando gargalhadas da dupla atrás de si.
No caminho até o primeiro andar, Karim, num ato de cavalheirismo, fez entregar a mochila que ela levava nas costas para ele e a carregou até o ônibus do clube, que estava parado em frente à residência à espera dos jogadores para transportá-los até o aeroporto.
A assistente técnica não pôde evitar passar os olhos pelos bancos já ocupados e se decepcionou ao constatar que não estava ali. Ainda não havia cruzado com ele desde que chegara com Zizou à Ciudad Real Madrid meia hora antes e, mesmo que repetisse mentalmente o contrário, ela estava bastante ansiosa por vê-lo. Acabou escolhendo sentar-se no banco vago ao lado de Raphaël Varane, já que Karim e James conversavam animadamente e, pelo visto, o bate papo se estenderia por um longo tempo.
- E aí, Rapha? Tudo bem? - questionou, se acomodando no banco.
- Beleza, e com você? - ele falou enquanto tirava os fones do ouvido.
- Tudo bem também - a outra respondeu com um sorriso. - Como a Camille está? Tudo certo com o neném?
- Ela tem tido muitos enjoos, mas o bebê está ótimo. Tivemos uma consulta anteontem, inclusive, vimos ele pela ultrassonografia. Já está enorme - Varane disse com um brilho nos olhos que fez sorrir junto. - Não vejo a hora de poder segurar meu filho.
- Nossa, eu imagino a ansiedade de vocês! É um menino, né? - a outra perguntou e o jogador confirmou com a cabeça. - Já escolheram o nome?
- Ainda não. Eu e Cami fizemos uma lista enorme, mas não conseguimos chegar a nenhuma conclusão porque nunca gostamos dos mesmos nomes - ele respondeu e, em seguida, fez uma careta.
- Já vi que vai acabar sendo mais um com filho Júnior nesse time, hein? - comentou, rindo, e olhou pela janela, pensativa. - Se eu tiver um filho um dia, acho que vou escolher algum nome tipo Frédéric, Patrick… Gosto muito de Victor também.
- E se fosse menina?
encarou Raphaël nos olhos enquanto franzia o cenho. Não que ela pensasse sobre o assunto com frequência, mas, sempre que considerava a possibilidade de ser mãe um dia, se imaginava jogando bola no quintal com um garotinho e o levando para assistir aos treinos e jogos do time que estivesse comandando. Ela poderia fazer o mesmo com uma menina, é claro, mas só então se deu conta de que sua mente nunca a mostrava como mãe de uma menina. Talvez fosse por ter crescido rodeada pelo sexo masculino, já que a maioria de seus primos eram garotos e sempre tivera mais amigos do que amigas. Ela não tinha certeza se saberia ser uma boa mãe para uma menina.
- Não sei, talvez... Charlotte? - disse, levantando os ombros.
- Charlotte é bonito - Varane concordou, fazendo a outra rir.
- Estou muito feliz por vocês dois, Rapha. Lembro que quando te conheci vocês eram bem novinhos, nem falavam de casamento ainda, agora já estão aí formando um família linda. Desejo toda felicidade do mundo pra vocês.
- Obrigado, - o jogador disse, sorrindo, e foi puxado para um rápido abraço de lado.
- O que você está ouvindo aí, hein? - a outra perguntou, mudando de assunto, e apontou para o celular de Raphaël.
- Stromae - ele respondeu e abriu um sorriso enorme, já pegando um dos fones de ouvido.
- Opa, também quero escutar! - ela exclamou, encaixando o fone no ouvido, e, ao reconhecer ta fête, uma de suas músicas favoritas do cantor belga, não se conteve em cantar junto enquanto fazia uma dancinha. - Le juge voudrait te faire. Ta fête! Tout le monde te fera aussi. Ta fête!
Toni Kroos, que acabava de adentrar o ônibus, parou ao se deparar com a cantoria e ficou observando a assistente técnica sem entender sequer uma palavra que saía pela sua boca.
- Que foi? - questionou com um sorriso divertido, levantando a cabeça para encarar o alemão.
- Isso daqui não é The Voice não, garota - ele disse em um tom debochado.
- Me erra, Kroos - a francesa disse e se inclinou para acertá-lo com um tapa estalado no braço tatuado. Enquanto observava o jogador se acomodar no banco próximo à janela da mesma fileira, mas do outro lado do ônibus, ela continuou, implicante: - O Leon e a Amelie são tão bonitinhos, nem parecem seus filhos.
- Pode falar o que quiser, tenho espelho em casa e sei muito bem que eu sou bonitão - Toni brincou, levantando os ombros três vezes seguidas, e soltou uma gargalhada exagerada e debochada.
Contudo, no segundo seguinte, seus olhos pousaram em e Cristiano Ronaldo, que acabavam de chegar ao ônibus rindo e gesticulando enquanto conversavam, e sentiu o coração bater um pouco mais forte. Ela se esforçou para não fitá-los tão indiscretamente, mas acabou levantando a cabeça para cumprimentá-los com um sorriso quando os dois passaram por seu banco. Cristiano seguiu para o fundo do ônibus para sentar-se próximo a Marcelo, Pepe e Coentrão, mas ficou por ali mesmo e se sentou ao lado de Kroos.
sentiu uma enorme vontade de puxar papo com o sobre o primeiro assunto que surgisse em sua cabeça, precisava saber se algo mudaria depois da noite anterior e sentiu-se nervosa de imaginar que ele pudesse voltar a ignorá-la, como fazia nas primeiras semanas. Mas, como os jogadores chegavam aos poucos e passavam pelo corredor que os separava, acabou deixando para depois.
logo estava entretido com algo que Toni lhe contava e, para a assistente, só restou prestar atenção nas músicas do Stromae que saíam pelo fone de ouvido de Varane por todo o caminho até o aeroporto.
Ela acabou nem notando que lhe lançava olhares de canto de olho enquanto concordava com tudo o que Kroos dizia sem realmente prestar atenção.

A tranquilidade que a equipe teve durante a viagem até Varsóvia sumiu como em um passe de mágica quando o trabalho duro começou. Depois do almoço, a comissão técnica se reuniu para discutir a respeito dos últimos preparativos para a segunda partida contra o time polonês Legia Warszawa, ainda pela fase de grupos da Champions League, enquanto os jogadores se concentraram na academia do hotel sob a supervisão dos preparadores físicos. No final da tarde, toda a equipe foi para o Stadion Wojska Polskiego, onde o jogo seria disputado, para um treino de reconhecimento de campo e se exercitaram até a lua despontar no céu.
Mesmo com a cabeça na partida importante do dia seguinte, os jogadores conversavam descontraidamente, como de costume, e o ambiente no refeitório do hotel estava bastante agradável enquanto todos jantavam.
já havia finalizado a refeição e estava distraída com o celular, conversando com sua amiga Fifi depois de ter tido uma extensa discussão a respeito das sobremesas polonesas oferecidas pelo hotel com Zidane e Antonio Pintus, um dos preparadores físicos. Ela procurou por uma sobremesa mais leve, já que havia se alimentado muito bem, e acabou escolhendo kisiel, uma geleia bem líquida feita de frutas e com alguns pedaços de morango mergulhados nela.

Fifi: Como assim você não sabe se vem pro meu casamento?!
: Amiga, eu não tenho como saber!
: Teoricamente, seu casamento vai ser um dia depois de uma rodada do campeonato espanhol, mas não posso te garantir que eu vou conseguir ser liberada pra ir pra Marselha.
Fifi: Dá um jeito, ! Vou ficar muito chateada se você não vier. 😞
: Prometo que vou fazer o possível!

Assim que enviou a mensagem, uma nova notificação apareceu na tela e ela se surpreendeu ao ver quem era o remetente.

: Larga esse celular. 😜

Os olhos da assistente imediatamente foram parar na outra ponta da mesa comprida na qual metade do time estava terminando a refeição ou apenas jogando conversa fora. a fitava com uma expressão divertida no rosto e ela apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando reprimir o sorriso que ameaçou surgir em seus lábios, mas sem muito sucesso.

: Quem vai me fazer largar? Você? 😂😂😂

Em seguida, ela voltou para a janela da conversa com a amiga, que dizia que ia até fazer uma promessa para que tudo desse certo e pudesse ir ao casamento. Fifi era um pouco dramática às vezes.
As duas acabaram se despedindo, já que Joséphine anunciou que ainda precisava terminar de ler uns livros para o mestrado em Literatura Francesa.
Enquanto isso, outra mensagem de havia aparecido na tela.

: Não me faça ir até aí.

riu baixo e já estava o desafiando a realmente ir até ali quando outra mensagem chegou.

: Está tudo bem entre a gente?

Ela não pôde conter uma careta.

: Claro que sim! Por que não estaria?

A francesa fitou o jogador mais uma vez, a tempo de assisti-lo ler sua mensagem e digitar uma nova.

: Talvez por causa do fora que você me deu ontem...

Surpresa com a resposta, ela voltou a encará-lo depois de ler a mensagem e a observava com seriedade, mas logo ele quebrou o contato visual e fingiu prestar atenção na história que Luka Modrić contava. pôde jurar que ele parecia um pouco chateado.
Ela ficou encarando a tela do celular por meio minuto antes de, finalmente, enviar uma resposta.

: Não foi um fora.

O celular do vibrou em cima da mesa e ele o pegou para ler a mensagem que acabara de chegar. Respirou fundo enquanto respondia e preferiu não encarar de volta, apesar de sentir os olhos dela sobre si. Apagou e reescreveu a mensagem algumas vezes antes de enviá-la.

: Você disse que eu não sou como os caras com quem você fica. O que eles têm de tão especial assim?

piscou os olhos, tentando absorver as palavras que havia acabado de ler. Não estava conseguindo acreditar que ele realmente tinha levado para esse lado.
Sim, realmente dissera que era diferente dos caras com quem ela costumava ficar, mas era de um jeito bom. Ela só estava querendo dizer que se importava com ele, não que ele não era bom o suficiente.
- Aconteceu alguma coisa, ? - Zizou questionou, a fazendo tirar os olhos do aparelho para fitá-lo. - Você está olhando pro celular como se estivesse vendo um fantasma.
- Não, tio. Não é nada demais - ela o tranquilizou, bloqueando a tela do celular, e se levantou. - Vou me recolher. Com licença.
Quando se virou para deixar o refeitório, sentiu duas mãos a segurarem pela cintura e, ao girar, deu de cara com Karim.
- , a gente vai ver um filme no quarto do Marcelo. Vem com a gente - ele a convidou.
- Ok, daqui a pouco eu subo - ela respondeu com um sorriso fraco nos lábios.
O atacante assentiu com a cabeça e, em seguida, foi embora do refeitório acompanhado de Varane, James, Pepe e, é claro, Marcelo.
A assistente técnica fez o mesmo caminho e saiu no corredor extravagante do hotel. O piso era vermelho com detalhes em azul-marinho e, pendurados nas paredes, tinha dezenas de quadros com molduras douradas. Ela desbloqueou o celular e leu mais uma vez a mensagem enviada por antes de digitar uma resposta.

: Me encontra na piscina.

Logo depois, guardou o celular no bolso fronteiro da calça do uniforme e seguiu para a área do hotel que ela tinha certeza de que estaria vazia àquela hora da noite, apesar de a piscina ser coberta e aquecida. Não estava errada, realmente não havia ninguém por ali, mas, por precaução, escolheu o puff redondo mais distante da entrada para se sentar enquanto aguardava pela chegada do .
Alguns minutos depois, ela pôde ouvir o som de tênis se arrastando contra o chão e virou a cabeça para observar a aproximação de .
- Você entendeu errado, - ela declarou assim que ele se sentou ao seu lado. - Eu não te dei um fora.
- Então me explica - ele pediu, a fitando nos olhos.
- Eu tenho meus objetivos muito claros, sempre tive. Você deve me entender, também batalhou muito pra se tornar um jogador de futebol, até precisou se mudar pra outro país quando era só um garoto - ela disse e respirou fundo, enquanto observava o jogador desviar os olhos dos dela, assentindo com a cabeça. - Eu tenho consciência de que ser sobrinha do Zizou me abriu muitas portas ao longo de toda minha vida, mas não foi fácil entrar num meio que é dominado pelos homens e ser levada a sério. Muitas vezes fui tratada como uma mera maria-chuteira, tive que aturar jogadores escrotos dando em cima de mim e mais um monte de gente se aproximando por interesse - ela desabafou enquanto a escutava atentamente. - Quando eu terminei a faculdade de Psicologia e decidi que realmente ia investir no meu sonho de ser técnica, eu prometi pra mim mesma que não ia me envolver com jogadores. Eu quero ser respeitada, quero que as pessoas confiem no meu trabalho… Não quero dar motivo pra falarem babaquices sobre mim e isso acabar ofuscando a competência que eu sei que tenho.
Um silêncio desconfortável se instalou entre eles e tentava decifrar a expressão no rosto de , que, de braços cruzados, apenas fitava o par de tênis Adidas que calçava.
- Você não vai dizer nada? - ela questionou, o fazendo levantar os olhos para voltar a encará-la.
- Não me parece que qualquer coisa que eu venha a dizer possa fazer diferença - ele disse, dando de ombros. - Eu já entendi que você não quer nada comigo.
escondeu o rosto nas mãos enquanto soltava uma risada descrente. Mal sabia o que os sentimentos confusos que ela tinha por ele a faziam querer ligar o foda-se para todo aquele discurso que havia acabado de fazer.
- Mas você entendeu que eu tenho motivos importantes pra achar que é melhor evitar me envolver com você nesse momento, certo? - ela questionou, observando a expressão neutra dele com atenção, de uma forma quase didática.
- Claro que entendi que você tem outras prioridades, . Você é uma mulher determinada, isso é admirável - ele falou e respirou fundo ao se dar conta de que aquilo só o fazia se sentir ainda mais atraído por ela. - Eu só queria entender o que eu tenho de tão diferente dos outros caras.
- Você é não é um cara qualquer, eu gosto de você e da nossa amizade, que tá crescendo aos pouquinhos - ela explicou, levantando os ombros com um pequeno sorriso nos lábios. - Eu não ia rezar pra nunca mais te encontrar na minha vida, caso a gente ficasse.
- Você reza pra nunca mais ver os caras com quem você fica? - questionou, rindo pelo nariz, enquanto ignorava o frio que sentiu na barriga quando seu subconsciente interpretou as palavras da francesa como se a possibilidade de eles terem alguma coisa existisse, mesmo que mínima.
- Desde que eu terminei com meu último namorado, a maioria - respondeu e deixou uma gargalhada ecoar pelo ambiente. - Mas a maioria costuma não querer me ver de novo também, então tá tudo bem.
acabou rindo junto com a assistente e, após alguns segundos de silêncio, ela voltou a falar:
- E eu te contei que já fiquei com dois jogadores de futebol porque quis ser honesta com você. Uma hora ou outra você podia ficar sabendo e ia pensar que isso de não ficar com jogadores foi só uma desculpinha pra tirar o corpo fora, mas juro que não. Nas duas vezes eu me arrependi assim que me dei conta do que tinha feito - disse e fez uma careta. - É sempre um escândalo quando um jogador é visto com alguma mulher e eu morro de medo de ir parar na mídia assim. Já sou obrigada a conviver com o rótulo de sobrinha do Zidane, imagina se fotos minhas com eles tivessem ido parar na internet.
- Um deles foi o Özil, né? - o jogador questionou e, ao notar a surpresa no rosto de , completou: - O Toni me contou.
- Toni Kroos é um fofoqueiro do caramba, hein? - ela rebateu com indignação exagerada, mas acabou deixando escapar uma risada baixa.
- E quem foi o outro? - perguntou, se esforçando para soar o mais despretensioso possível. - Karim?
A gargalhada de soou por toda a área da piscina.
- Por que todo mundo pensa que eu e o Karim já nos pegamos? - ela questionou, indignada, cruzando os braços.
- Sei lá, vocês estão sempre juntos… - explicou ao mesmo tempo que sentia um pequeno alívio por descobrir que os dois franceses eram apenas amigos, apesar de às vezes isso não ficar tão claro assim.
- Somos amigos, só isso - disse, sorrindo. - A gente se aproximou quando eu vim pra Madrid fazer minha especialização em Treinamento Tático e Técnico de Futebol. Meu espanhol era super básico, então ele me ajudou muito no processo de adaptação. Eu tinha meus tios e meus primos, claro, mas por meses ele foi o único amigo que eu tinha aqui. Ele e a Chloé, a ex dele. Tenho o Karim como alguém da minha família, nunca rolou nada entre a gente.
meneou a cabeça em sinal de compreensão, também havia tido a mesma experiência de chegar em um país novo sem saber falar o idioma fluentemente e precisar se adaptar o mais rápido possível. Em seu caso, Luka Modrić havia sido quem deu todo o apoio necessário, já que os dois eram amigos desde quando jogavam juntos no Tottenham Hotspur, o clube que ambos defenderam até serem vendidos para o Real Madrid. A transferência de Luka, entretanto, havia acontecido uma temporada antes da de .
- Quem foi o outro jogador com quem você ficou, então? - ele questionou, dessa vez sem se importar de demonstrar sua curiosidade.
- Kevin Trapp. Eu nem tinha muita intimidade com ele, mas, na confraternização do PSG no final da temporada, acabei bebendo champanhe demais e fazendo besteira - respondeu com uma careta. - O Mesut também não foi nada planejado. A gente saía juntos às vezes... Eu, Karim, Chloé e ele. Mas nunca tinha rolado nada, até que a gente bebeu pra caramba e acabou acontecendo.
meneou a cabeça, assentindo, e desviou os olhos para a água límpida da piscina. Se pegou perguntando a si mesmo se existia alguma possibilidade de, algum dia, beijar sóbria.
- Me chamaram pra ver um filme lá no quarto do Marcelo. Nessa altura já deve estar pela metade, mas não tá a fim de ir? - a assistente questionou, quebrando o clima levemente constrangedor que havia se instalado, e observou assentir silenciosamente.
- , posso te fazer uma pergunta? - ele perguntou antes que ela se levantasse e seguisse em direção à entrada da área da piscina.
- Quantas você quiser - a outra rebateu, sorrindo.
- E se eu não fosse jogador de futebol? Isso faria diferença?
sentiu o coração bater com um pouco mais de força enquanto refletia se deveria ser honesta ao responder aquela pergunta.
Ela acabou balançando a cabeça para cima e para baixo com um sorriso de desânimo, fitando os olhos atentos de .
- Só que, nesse caso, a gente não se conheceria, né?

A partida contra o Legia Warszawa terminou em um empate bobo que deixou a equipe inteira do Real Madrid frustrada. Os espanhóis chegaram a estar vencendo o jogo por dois gols de vantagem marcados por e Cristiano Ronaldo, mas, no decorrer da partida, o time foi perdendo o ritmo e a concentração, o que acabou permitindo que os poloneses virassem o jogo para 3x2. Um gol de Mateo Kovačić nos minutos finais garantiu que eles voltassem para Madrid com um ponto, o que já era melhor do que voltar com ponto nenhum, mas o objetivo de garantir o primeiro lugar do grupo estava ficando cada vez mais difícil e ninguém estava satisfeito com isso.
chegou em casa pela madrugada acompanhada do tio e o caminho do aeroporto até La Finca havia sido desconfortavelmente silencioso. Zinédine parecia tranquilo, como usualmente, mas o conhecia bem o suficiente para saber que seu silêncio se devia ao fato de ele estar maquinando soluções para evitar que o ocorrido no jogo daquele dia voltasse a se repetir, já que eles tinham que manter o foco para partidas importantes em outras duas competições, além das da Champions League, e ainda teriam o Mundial de Clubes no mês seguinte. E a assistente técnica não estava em situação muito melhor, sentia-se tão culpada quanto o restante do time e, mesmo exausta, precisou tomar um chá de camomila para dormir, pois sua cabeça estava a mil.
Às 8h da manhã seguinte, se levantou da cama estranhamente disposta. Trocou o pijama por uma legging, top e casaco Adidas e calçou os tênis de corrida com a intenção de aproveitar a manhã de folga para correr pelas redondezas e pôr as ideias no lugar antes de se reunir com a comissão técnica na Ciudad Real Madrid para começarem a debater sobre os preparativos para o próximo jogo do calendário.
Depois de comer duas fatias de pão integral com manteiga acompanhados de um copo de suco de laranja, ela precisou lutar contra o espírito livre de Athos para conseguir prendê-lo à coleira e saiu de casa puxando o labrador consigo. Ignorando as nuvens carregadas que cobriam o céu e davam a certeza de que choveria até o final do dia, colocou os fones nos ouvidos e caminhou na direção da casa de Karim Benzema, que morava a dez minutos da família Zidane, no mesmo condomínio, enquanto cantarolava No Me Mirès Màs, do cantor francês Kendji Girac.
Teve tempo de escutar também C’est Trop e Les Yeux de La Mama, as músicas seguintes do álbum, até parar em frente à casa de seu melhor amigo, se utilizando de toda sua força para manter Athos ao seu lado ao mesmo tempo que tocava a campainha repetidas vezes para ter certeza de que Karim escutaria mesmo se ainda estivesse dormindo.
Alguns minutos depois, a porta se abriu, mas o rapaz sem camisa e com a cara amassada de sono que surgiu à sua frente não era o Benzema que ela esperava encontrar.
- Não sabia que você estava em Madrid, Gressy - ela disse, sorrindo para um dos dois irmãos de Karim que ela conhecia dentre os oito que ele tinha no total.
- E aí, ? - o outro falou com a voz arrastada e aumentou a abertura da porta. - Entra aí.
aceitou o convite e, enquanto tentava fazer Athos ficar quieto para não sair correndo pela casa, ela acabou não reparando que, depois de bater a porta atrás de si, Gressy deu uma bela de uma conferida em sua bunda.
- O Karim tá no quarto? - ela perguntou, se virando para encarar o mais novo após conseguir fazer o cachorro se sentar no chão.
- Acho que sim. Eu fiquei jogando FIFA até tarde e acabei dormindo pela sala - Gressy respondeu e, em seguida, um sorriso travesso surgiu em seus lábios. - Cada vez que eu te vejo você está mais gata. Como isso é possível?
Uma risada escapou pela garganta de ao mesmo tempo que ela rolava os olhos. Gressy dando em cima dela não era exatamente uma novidade, ela costumava simplesmente ignorar as investidas. Mesmo que ele já fosse um homem naquela altura, ela ainda enxergava nele o garoto que conhecera uns anos antes com os mesmos estilos de roupa e corte de cabelo do irmão mais velho.
- E você cada vez mais abusado - rebateu em um tom divertido e, em seguida, indicou o labrador. - Toma conta do Athos por cinco minutinhos enquanto eu vou chamar o seu irmão?
- Vou ganhar o que em troca? - Gressy questionou com malícia, descendo os olhos pelo corpo de .
- Obrigada, eu sabia que você não se negaria a fazer esse favor - ela disse e soltou uma gargalhada enquanto se virava para ir na direção da escada.
Gressy riu, apreciando o rebolado de ao subir os degraus, antes de chamar o cachorro para segui-lo até a sala de estar. Mesmo que Karim jurasse de pés juntos que nunca tivesse dormido com ela, ele achava que era impossível ser apenas amigo daquela mulher.
No andar de cima, bateu na porta do quarto de Karim e, como não obteve resposta, segurou a maçaneta e a abriu lentamente. O quarto estava escuro, pois as cortinas impediam a luz de entrar pelas janelas, porém, mesmo assim, ela conseguia ver Karim vestido apenas com uma cueca vermelha e somente com uma das pernas escondida pelo cobertor. Adentrou o cômodo sem se preocupar muito em fazer silêncio, mas o jogador sequer se moveu.
Ela pensou em acordá-lo do modo convencional, apenas chamando seu nome, mas achou que seria divertido usar a ponta de seu rabo de cavalo para fazer cócegas pelo seu colo e rosto. Quando os fios de cabelo roçaram o nariz dele, Karim levou uma das mãos ao rosto e acabou soltando uma risada, o fazendo abrir os olhos.
- ? - ele perguntou com a voz embargada de sono, confuso ao se deparar com a amiga. - O que você tá fazendo aqui?
- Vim te acordar, gato - ela respondeu em um tom brincalhão. - Você fica muito bem de cueca vermelha, uh?
- Isso é porque você não me viu sem - o outro rebateu, rindo anasaladamente, e se virou para alcançar o celular no criado-mudo e conferir as horas. - Você tá louca? Não são nem 9h da manhã ainda!
- Mas até você colocar uma roupa e tomar café da manhã já vão ser quase 10h - disse, colocando as mãos na cintura.
- E por que eu faria isso mesmo? - Karim questionou com o cenho franzido.
- Porque eu quero sua companhia pra correr - a francesa falou com uma doçura forçada e pretensiosa.
- Sério, ? Estou morto por causa do jogo de ontem - o jogador retrucou, esparramado no colchão.
- Não estou te chamando pra carregar peso, estou chamando pra dar uma volta - a outra disse com uma careta.
Karim soltou um longo suspiro antes de se livrar do cobertor e se levantar da cama. Mesmo que preferisse dormir por mais uma ou duas horas, não custava nada aceitar o convite de .
- Vou te esperar lá embaixo - ela falou, sorrindo, e estalou um beijo na bochecha de Karim para, em seguida, deixar o quarto.
Quando adentrou a sala de estar, encontrou Gressy dormindo no sofá. Sentou-se em uma poltrona e Athos, que estava deitado no chão, se aproximou para apoiar a cabeça ao lado de seu joelho. Ela ficou acariciando o topo da cabeça do labrador enquanto fitava o olhar que suplicava para sair daquela casa e correr livremente pelas redondezas.
Foi impossível não se lembrar dos olhos de , que pediam por uma chance.
Depois que explicou os motivos que tinha para não se envolver com ele naquele momento, dois dias antes, nenhum dos dois voltou a tocar no assunto. Entretanto, desde então, o clima entre eles estava diferente. Não de um jeito ruim, apenas diferente. Apesar de agirem normalmente um com o outro, era como se eles tivessem criado uma cumplicidade depois de abrirem o jogo e tinha cada vez mais certeza de que não conseguiria ser apenas amiga de por mais muito tempo.
Perdeu a conta de quantas vezes pegou o a observando durante o dia anterior. Tanto no hotel, enquanto se preparavam para a partida, quanto no vestiário antes e depois do jogo. Não conversaram muito durante o voo de volta, mas estiveram sentados lado a lado o tempo todo com a companhia de Marcelo, que não calava a boca por mais do que dois minutos e os fazia rir o tempo todo.
ainda conseguia sentir entre seus braços no momento em que se despediu dele com um abraço apertado quando chegaram ao Aeroporto de Madrid-Barajas.
A verdade é que ela não conseguia parar de pensar em como seria se simplesmente ignorasse seus temores e desse a chance pela qual implorava sem sequer abrir a boca, pois seus olhos tratavam de dizer tudo por ele.
Karim não demorou a aparecer na sala também vestido de Adidas de cima a baixo.
- Por que esse moleque tá dormindo aqui? - ele questionou, apontando para o irmão esparramado no sofá.
- Ele disse que passou a noite jogando FIFA - respondeu e o jogador balançou a cabeça negativamente antes de ir até o mais novo e cutucá-lo sem delicadeza, o fazendo despertar meio abobalhado.
- Vai pra cama, cara - Karim falou. - Eu e a vamos sair pra correr, quando voltar eu te acordo pra gente ir almoçar.
Depois de acompanhar o irmão até a escada, ele foi para a cozinha tomar um café da manhã rápido e logo estava saindo pela porta de casa seguido por e o labrador dos Zidane.
Karim pegou a guia de Athos da mão da assistente e os dois desceram a rua correndo lado a lado em um ritmo lento.
- Isso é quase um passeio em família. Eu, você e o nosso cachorro - ele falou em tom de zoação e a outra o empurrou levemente com o ombro enquanto ria. - , o que você acha da Lola?
virou a cabeça para fitá-lo, sem perder o ritmo da corrida, e levantou os ombros.
- O que eu acho em que sentido?
- Estou pensando em pedir ela em namoro - Karim revelou, fazendo a amiga abrir a boca, chocada. - Quer dizer, acho que o que a gente tá tendo já é um namoro, mas eu quero chamar ela pra jantar e fazer um pedido oficial, sabe?
- Uau. Então você está mesmo gostando dessa garota?
- É, eu gosto dela. Acho que a gente tem se dado bem, não só na cama - o atacante respondeu com um sorriso de lado.
- Olha, eu não fui muito com a cara dela no início - confessou, soltando um risinho. - E o fato de ela só se envolver com jogadores de futebol não ajuda muito a gente a saber se ela está com você por você ou pela sua fama e seu dinheiro, mas ela não me parece ser uma má pessoa. Se vocês estão se dando bem, eu acho que vale a pena dar uma chance.
- Ela não fala muito sobre ela, a família, como era a vida antes de vir pra Madrid… Mas eu vejo que por trás daquele mulherão tem uma garota cheia de sonhos e que não tem medo de correr atrás deles. E isso é algo que eu admiro em você, na Chloé…
- Em mim?! - exclamou com a voz um tanto esganiçada e ficou para trás ao frear a corrida. - É sério que você acabou de me comparar com sua ex-namorada e sua atual peguete?
- Por que não posso comparar? - Karim questionou, rindo, e também parou de correr, dando um puxão na coleira de Athos. - Eu quis dizer que você e a Chloé são mulheres importantes na minha vida, e quem sabe se a Lola também não pode vir a ser?
riu baixo, compreendendo que havia sido uma comparação genuína, só não esperava ser utilizada como exemplo naquele momento.
- Certo… - ela disse e se aproximou do francês para pegar a guia do labrador e puxá-lo enquanto retomava o caminho que estavam fazendo anteriormente, mas, dessa vez, apenas caminhando. - E a Chloé? Desistiu?
- Eu não sei, - Karim falou, a acompanhando na caminhada, e suspirou. - Eu queria que a gente tivesse volta, mas eu não me sinto no direito de ir atrás dela, ainda mais agora que ela tá comprometida. Talvez seja melhor eu simplesmente desistir e seguir em frente.
- Essa é uma atitude bastante madura - disse, sentindo um misto de pena e orgulho. Sabia que aquela era uma decisão difícil para Karim.
O silêncio os envolveu. Enquanto o jogador sentia-se estranho por admitir em voz alta que talvez estivesse desistindo da única mulher com quem, até então, ele se imaginava formando uma família, pensava no quanto ele havia amadurecido desde que os dois se aproximaram e se tornaram amigos. Ele ainda era o mesmo cara festeiro e que fazia umas besteiras de vez em quando, mas o Karim do passado talvez não tivesse uma atitude tão altruísta quanto aquela.
- Karim, por que você nunca tentou nada comigo? - questionou com curiosidade, quebrando o silêncio. - Quer dizer, você não tem muitas amigas. Fora a sua mãe e as suas irmãs, eu sou a única mulher que é próxima a você e que nunca foi pra cama contigo.
- Eu quis tentar algumas vezes - o outro confessou e não conteve uma risada quando a outra semicerrou os olhos. - Eu nunca tive amizade com mulheres, . Foi com você que eu descobri que posso ter a mesma camaradagem que tenho com meus amigos com uma mulher e isso me ajudou a enxergar as mulheres como muito mais do que a ideia babaca que é passada pra gente desde a infância lá de onde eu vim. Se você tivesse dado abertura alguma vez, talvez eu tivesse dado em cima de você, mas não foi o caso e eu te respeito muito. A nossa amizade é muito importante pra mim.
estava tão surpresa que, por algum tempo, não soube o que dizer.
- Não imaginava que nossa amizade era importante ao ponto de mudar seus conceitos em relação às mulheres - ela disse com um sorriso.
- Esse seria o momento perfeito pra gente se beijar e descobrir que somos apaixonados um pelo outro - Karim brincou, fazendo soltar uma gargalhada. - Pena que você já está apaixonadinha pelo .
A assistente rolou os olhos enquanto tentava conter o sorriso que surgiu em seus lábios com a mera menção de .
- Como estão as coisas com ele, falando nisso? - o jogador questionou.
- A gente conversou e eu expliquei os motivos pelos quais não posso me envolver com ele, mas eu decidi que vou deixar rolar - respondeu, dando de ombros. - É perda de tempo querer fugir do que estou sentindo.
- Eu não dou duas semanas pra vocês estarem se pegando - Karim rebateu e soltou uma gargalhada. - Que dia é hoje? Vamos apostar.
- Vai se foder - a outra disse em meio a risos.
Karim checou o relógio em seu pulso só para não perder a noção do horário, pois tinha combinado um almoço com Lola e seu irmão.
- , quer almoçar comigo, Lola e Gressy?
- Pode ser - ela respondeu e fez uma careta antes de completar em um tom debochado: - Não sei se vai ser pior aturar você e a Lola se beijando o tempo todo ou o teu irmão dando em cima de mim, mas eu supero.
Uma gargalhada escapou pela garganta do jogador.
- Eu vou meter a porrada naquele moleque, já falei mil vezes que você não é pro bico dele - ele falou, rolando os olhos.
soltou uma risada irônica, olhando para Karim de cima a baixo.
- E desde quando é você quem decide pra quem eu devo dar ou não?
- Ah, … Meu irmão não, né? - ele disse com uma careta que fez a outra rir.
- Você sabe que, se eu quisesse ficar com ele, não daria a mínima pra sua opinião, né?
- Pior que sei - Karim respondeu, bufando, e piscou um olho com um sorriso divertido no rosto.

- Que cara é essa? - Luka Modrić perguntou ao se aproximar de , que estava apoiado na grade e tinha os olhos fixos em um ponto da pista do circuito de kart Carlos Sainz Center, em Las Rozas, município situado nos arredores da cidade de Madrid. O croata seguiu o olhar do amigo e riu ao constatar o que ele observava. - Você não está com ciúmes da com o instrutor, está?
virou o pescoço para encarar o outro com um olhar cortante.
Os dois ainda estavam vestidos com o macacão próprio para kart fornecido pela Audi, apesar de os capacetes que eles seguravam anteriormente já terem sido deixados de lado depois da sessão de fotos. Os jogadores do Real Madrid, a comissão técnica e o presidente estavam ali para o evento anual organizado pela empresa automobilística alemã. Como era uma das principais patrocinadoras do clube, a Audi, em toda temporada, presenteava toda a equipe com um automóvel, sendo o modelo da escolha de cada um. A cada ano os eventos variavam entre a Audi Sportscar Experience ou a Audi Karting Experience e, no final, os carros eram entregues um a um.
Os jogadores que iriam participar da corrida já estavam se ajeitando nos karts que, para identificação, tinham seus nomes e os números que costumavam levar na parte dorsal da camisa durante os jogos do Real Madrid. Os que haviam preferido se preservar para o jogo do dia seguinte e apenas assistir à corrida, como e Luka, estavam reunidos na parte de fora da pista.
- Eu não estou com ciúmes - ele disse entredentes, frisando a última palavra de modo que deixava claro quão absurdo achava Modrić estar pensando aquilo. Em seguida, levantou a mão na direção de onde conversava com o instrutor de kart. - Essa cena é que tá ridícula, o cara tá dando em cima dela desde que a gente chegou aqui.
- Tá mesmo, eu também percebi - Luka disse, rindo. Apenas para implicar com o amigo, continuou: - Mas e daí? Sinto te informar, mas não é porque ela não quis nada contigo que ela não pode querer com outro.
- Isso não tem nada a ver comigo - rebateu, mostrando-se ofendido. - Ele está aqui trabalhando, não pra ficar dando em cima da nossa assistente técnica.
- Relaxa, cara. O máximo que vai acontecer é ele pedir o número dela discretamente. E eu nem acho que ela daria, hein? Dá pra ver que ela está muito mais interessada nos karts do que nele - o outro disse e deu três tapinhas nas costas do amigo em sinal de apoio.
O soltou um longo suspiro, voltando a atenção para e o instrutor. É claro que ele tinha notado que a francesa não estava nem aí para aquele cara, seu único interesse ali era tirar suas dúvidas sobre os karts e tentar participar da corrida, já que a mesma tinha sido organizada apenas para os jogadores. Mesmo assim, não pôde evitar sentir-se incomodado por vê-la receber aqueles olhares maliciosos e sendo cobiçada feito um pedaço de carne. odiava ver mulheres sendo tratadas daquela forma e, por ser , estava o aborrecendo ainda mais.
Ele se surpreendeu quando a viu abrir um sorriso enorme e dar um abraço rápido no instrutor. Sabia que aquele era o jeito dela com todo mundo, mas foi impossível que a indignação não crescesse ainda mais quando viu as mãos do instrutor tocarem a cintura dela.
Foi um abraço rápido, entretanto, pois, em seguida, correu na direção de e Luka e subiu na grade para passar uma perna após a outra por cima da mesma e ir para o lado em que eles estavam.
- O Mario vai arranjar um macacão pra eu participar da corrida - ela anunciou, empolgada, e tirou o celular do bolso para estendê-lo na direção de . - Segura pra mim por favor?
O jogador pegou o aparelho sem dizer nada e fitou as costas da assistente conforme ela se afastava na direção do vestiário.
- Deve estar sendo uma tortura não poder ficar com ela - Luka falou, fazendo soltar um longo suspiro.
- Eu não sei mais o que fazer pra tirar ela da minha cabeça - ele disse, fazendo uma careta. - Isso não pode ser normal.
- Claro que é, cara - o outro rebateu, rindo. - Ela é como um mundo novo que você tá descobrindo. É normal ficar um tanto… obcecado com a ideia.
- O mais estranho é que ela é muito diferente da Emma, totalmente fora da minha zona de conforto, mas, quando estou perto dela, é como se eu nunca tivesse me sentido tão confortável em toda minha vida. Isso não faz sentido nenhum - disse e não pôde evitar uma risada, afinal, a situação seria cômica se não fosse trágica. - E, mesmo ela não querendo ficar comigo, ela meio que me encoraja a não desistir.
- Ela tá totalmente na sua, isso é perceptível. É que a preocupação dela no momento tá sendo se firmar no time, mas acho que é só questão de tempo - Modrić afirmou e piscou um olho.
Poucos minutos depois, voltou vestindo o macacão branco e vermelho da Audi.
- Luka, roubei o seu capacete - ela disse, mostrando o nome de Modrić estampado no capacete, e olhou para em seguida. - E vou roubar o seu kart.
- É todo seu - ele falou.
Depois de mostrar um sorriso divertido, ficou nas pontas dos pés para estalar um beijo na bochecha do e, mais uma vez, pulou a grade para voltar para a pista e ir até o kart que Mario, o instrutor, já havia preparado para ela.
Era a primeira vez que corria de kart e não demorou mais do que meia volta para descobrir que não levava jeito para tal. Mesmo largando em segundo lugar, os jogadores que vinham atrás dela não tiveram qualquer dificuldade para ultrapassá-la. Mesmo assim, a corrida foi bastante divertida e proporcionou muitas gargalhadas tanto para os corredores quanto para os espectadores, especialmente por conta da rivalidade entre Ramos e Nacho, que acabaram subindo no pódio em primeiro e segundo lugar. A terceira posição ficou para Mariano Díaz, que não foi tão bem nas primeiras corridas, mas, na final, acabou superando Álvaro Morata e Lucas Vázquez, que não ficaram nem um pouco contentes por isso.
- Você é muito ruim, - Karim debochou quando se aproximou, tirando o capacete.
- Eu nunca tinha corrido de kart antes - ela se defendeu enquanto desfazia o coque que tinha feito de qualquer jeito e ajeitava os fios de cabelo.
- O melhor de tudo é ver o em último lugar - Toni Kroos falou, rindo e apontando para o telão no qual os nomes dos corredores estavam aparecendo em ordem de chegada.
- Vocês não têm nenhum direito de me zoar, ficaram com medinho de correr - pontuou e piscou um olho antes de seguir para o vestiário, que logo estava em completa confusão.
Os jogadores tiraram os macacões que haviam vestido sobre suas roupas e foram guiados para um palco. Toda a equipe foi se acomodando nos bancos que haviam sido enfileirados para que pudessem se sentar e esperar que seus Audis fossem trazidos.
Antes de se juntar a Zizou e ao outro assistente técnico, foi até e pediu pelo celular, que ainda não havia pegado de volta depois que a corrida acabou. O jogador tirou o aparelho do bolso do casaco e o devolveu à dona com uma impassibilidade que deixou a outra intrigada. Todos estavam ansiosos pela chegada dos carros, conversando sobre quais modelos haviam escolhido, mas era o único que parecia não querer estar ali. Ela acabou concluindo que aquela seriedade toda era fruto do cansaço, já que eles haviam treinado pela manhã e, depois do evento, ainda voltariam para a Ciudad Real Madrid para se concentrarem para a partida do dia seguinte contra o Leganés.
Jamais passaria pela cabeça dela que tinha algo a ver com o fato de o instrutor de kart tê-la parado no caminho do vestiário até o palco para conversar por dois ou três minutos com uma proximidade desnecessária.
O primeiro Audi já chegava pela pista quando sentou-se ao lado de Zizou, era o Audi Q7 de Mariano. O espanhol desceu do palco para ir até o carro e, antes de adentrá-lo, posou para as diversas câmeras que registravam o evento com um sorriso bobo no rosto. Aquela era sua primeira temporada no time principal do Real Madrid e, definitivamente, ele tinha que confessar que fazer parte daquela equipe era ainda melhor do que parecia ser de fora.
O desfile de Audis continuou por mais meia hora e as escolhas dos automóveis acabava por mostrar um pouco das personalidades dos jogadores. A maioria optou pelo Audi Q7, um modelo leve, bem equipado, pequeno por fora e grande por dentro. Os mais ousados, como Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Zinédine Zidane, preferiram o motor mais potente do Audi RS6.
O Audi RS Q3 branco de foi um dos últimos a serem anunciados. Como não entendia nada de carros, acabou escolhendo o modelo que achou mais bonito, apesar de seus primos terem insistido para que ela ficasse com um Audi RS7.
Ela não havia comprado um carro novo desde que se mudara novamente para a Espanha e seu antigo carro ainda estava na garagem do prédio no qual morou durante os três anos vivendo em Paris. Para falar a verdade, não estava sentindo falta dele, já que tinha carona para onde precisasse ou quisesse ir. Mesmo assim, quando se sentou no banco de seu mais novo automóvel, ela teve certeza de que ele seria seu grande companheiro pelas ruas de Madrid.

- Cadê o , hein? - questionou quando se aproximou do trio que jogava Uno na sala de jogos e roubou um biscoito de maizena do pacote que estava no colo de Mateo Kovačić.
- Na piscina, - Luka Modrić respondeu sem perceber que Toni Kroos, ao seu lado, tentava espiar suas cartas.
- A essa hora? - a assistente questionou, estranhando o fato de estar nadando depois do jantar, apesar de aquilo explicar o motivo de não ter recebido respostas para as mensagens que havia enviado para ele quinze minutos antes.
- Não sabia que existia hora pra nadar - Toni zoou e soltou uma gargalhada quando a francesa lhe mostrou o dedo do meio.
- Boa noite pra vocês - ela disse e deu meia volta.
Acenou para Isco, Marco Asensio, Álvaro Morata e Dani Carvajal, que assistiam a Lucas Vázquez e Nacho disputarem uma partida de ping-pong, e se retirou da sala, seguindo pelos corredores que levavam até a enorme piscina coberta que os jogadores tinham à disposição na residência.
realmente estava lá e se alongava imerso na água. Não demorou a notar a presença de , mas não interrompeu o exercício que fazia de levantar e abrir as pernas, uma de cada vez.
- Finalmente achei o bonitão - ela disse, parando na beira da piscina de braços cruzados. - Você sumiu depois do jantar, nem veio falar comigo.
- Não quis atrapalhar a sua conversa com o Karim - ele explicou e a outra rolou os olhos.
- Você não atrapalharia, a gente não estava conversando sobre nada importante - ela disse e, em seguida, adotou uma expressão preocupada. - Você está com alguma dor, ?
- Não. Por quê? - perguntou ele, franzindo o cenho em sinal de confusão.
- Sei lá, estou te achando meio abatido desde hoje à tarde, no evento da Audi - respondeu, fazendo o virar a cabeça para encará-la. - E agora você está aí se alongando na piscina, pensei que pudesse estar tentando se recuperar de alguma dor pro jogo de amanhã.
- Está tudo bem, eu só vim me distrair mesmo - respondeu e esboçou um sorriso que tranquilizou .
- Posso te fazer companhia? - ela questionou e apenas deu de ombros.
Os olhos dele se arregalaram minimamente quando a viu puxar a camisa para cima, revelando o top preto que usava por baixo. Em seguida, ela segurou o cós da calça e a abaixou, ficando apenas com a calcinha boxer também preta que costumava usar para praticar esportes. A calça foi largada de qualquer jeito no chão junto com a camisa, enquanto sentia as bochechas esquentarem e tentava não olhar para o corpo de mais do que o apropriado.
A assistente não se preocupou nem um pouco por estar com tanta pele à mostra, apenas desceu a escada de ferro para adentrar a piscina com a maior naturalidade do mundo. Ao tocar os pés no chão, prendeu os fios de cabelo em um coque para evitar que a água os atingisse, pois não queria ter que lavá-los e secá-los antes de dormir.
balançava os braços pela água suavemente, conforme caminhava lentamente pela piscina, na direção de , e aproveitava para admirá-lo, já que ele estava concentrado no exercício e não a olhava de volta.
Ela só não sabia que, na verdade, ele apenas fingia estar concentrado.
- É um costume você entrar na piscina de roupas íntimas ou posso me sentir privilegiado? - após algum tempo em silêncio, questionou com um sorrisinho de canto quase imperceptível, fazendo rir alto.
- Pode se sentir privilegiado - ela respondeu, ainda rindo.
fitou o sorriso que achava tão bonito e desceu os olhos para o colo da francesa.
- Você gostou mesmo da Bola de Ouro que eu te dei, uh?
- Ah, eu adorei - disse, levando uma das mãos até o pingente dourado. - Representa o que eu mais gosto no mundo, que é o futebol. Eu praticamente não tenho tirado do pescoço.
sorriu com satisfação. Já tinha reparado que ela usava bastante o colar, mas era bom saber que o presente que ele havia lhe dado vinha ganhando um valor sentimental. Porém, a cena que o incomodava desde mais cedo não saía de sua cabeça e ele soltou um longo suspiro antes de tomar coragem para tocar no assunto.
- Eu estou estranho desde o evento porque uma coisa me deixou um pouco irritado - ele confessou, se agachando até que estivesse com a água batendo no queixo, e franziu o cenho.
- O que te irritou?
- O instrutor de kart dando em cima de você sem delicadeza nenhuma - o respondeu, bufando, e a surpresa tomou conta do rosto de . - Eu não gostei de ver ele te olhando daquele jeito obsceno e rude. Por que os homens têm que ser tão babacas?
- Eu realmente não esperava por isso - a outra disse e riu baixo. - Eu concordo com você, mas eu levo na esportiva, sabe? Em certas situações é um pouco chato, como foi o caso hoje. Eu estava ali a trabalho e o cara não fez a mínima questão de respeitar isso, só que não ia adiantar nada eu me estressar. E também não posso ser hipócrita porque, muitos dos caras que peguei até hoje, eu enxerguei apenas como um corpo gostoso e não agi muito diferente disso.
a fitou por algum tempo e tentou desvendar o que se passava pela cabeça dele, mas não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.
- Não precisa se estressar por isso, tá? Eu sei contornar esse tipo de situação - ela falou ao perceber que ele continuaria em silêncio. - Ele até pediu meu número, e sabe o que eu disse?
- O quê? - o outro questionou, sentindo o mesmo incômodo de mais cedo voltar com menos intensidade.
- Pra ele pedir pro meu tio - respondeu e, em seguida, sua gargalhada ecoou por toda a área da piscina. acabou rindo junto. - Eu falei brincando, é claro, mas acho que ele entendeu o recado.
A mulher deu alguns passos até estar em frente ao jogador e flexionou os joelhos, afundando na água, para que sua cabeça ficasse na mesma altura da dele. Seus braços passaram por cima dos ombros largos de , puxando-o para um abraço.
Mesmo que ele estivesse um pouco surpreso com aquela atitude inesperada, as mãos dele foram parar na cintura de .
- Por que isso? - ele perguntou em um tom divertido, envolvendo o tronco dela com os braços.
- Não posso mostrar que estou agradecida por você ter tomado minhas dores?
- Pode, ué - o jogador falou, rindo.
- Então cala a boca - a assistente rebateu e o soltou do abraço, mostrando a língua para ele.
- É assim, é? - disse, fingindo estar ofendido, e pegou no susto quando puxou as pernas dela para cima, a fazendo soltar um gritinho ao mesmo tempo que caía para trás na água.
- Caramba, ! Eu não queria molhar o cabelo!
- Existe uma coisa chamada secador, você já ouviu falar? - ele rebateu em um tom debochado e soltou uma risada divertida.
- Você vai secar pra mim, por acaso? Porque eu estou morta e pretendia tomar uma ducha e me jogar na cama - disse com uma falsa irritação enquanto se permitia boiar na água sem medo de molhar o cabelo, já que ele estava quase completamente molhado mesmo.
- Se isso for te deixar feliz, eu seco - o respondeu, rindo.
- Eu vou cobrar, viu? - a outra retrucou com um sorriso satisfeito.
Poucos segundos depois, entretanto, ela prendeu a respiração e afundou na água.
começou a andar pela piscina, exercício que o auxiliava a manter a forma para correr com velocidade dentro do campo, enquanto nadava de um lado para o outro, ainda submersa na água.
Quando ela subiu para buscar ar, viu que o estava de costas e voltou a mergulhar para nadar na direção dele. Ele tomou um pequeno susto ao sentir duas mãos afastando suas pernas uma da outra e riu ao ver a assistente passar entre elas por baixo d’água.
Antes que ela se afastasse, ele se abaixou para segurá-la pelos tornozelos, fazendo ela se debater para se livrar de suas mãos.
- Você quer que eu morra afogada?! - ela berrou ao voltar à superfície e finalmente a soltou para que ela pudesse ficar de pé.
Os dois riram juntos e estalou a mão no braço do jogador, fazendo com que ele fizesse uma careta de dor e levasse a mão à região atingida.
- Que mão pesada, hein? - ele reclamou.
- Você não viu nada, querido - a outra rebateu com um sorriso debochado e, de repente, ficou séria. - , fica parado!
Mesmo sem entender nada, o jogador imediatamente ficou imóvel, apenas observando a francesa dar um passo à frente e se aproximar sem desviar os olhos dos dele. Um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios de antes de ela levar uma das mãos até a parte de trás da cabeça de e, em puxão, tirar o elástico que prendia o cabelo dele em um coque.
Os fios de cabelo do caíram feito uma cascata, mas ele logo os segurou com as mãos.
- Ah, não! Me deixa ver seu cabelo! - exclamou e, em seguida, soltou uma gargalhada ao mesmo tempo que se jogava na água para nadar para longe quando percebeu que ameaçou avançar em cima dela.
- Me devolve aí, - ele falou, tentando manter a seriedade sem muito sucesso, a observando alcançar o outro lado da piscina e dar um impulso para se sentar na borda.
- Por que você tá sempre com o cabelo preso?
- Talvez seja pelo mesmo motivo que você está quase sempre com o cabelo preso também - o outro rebateu e mostrou a língua. - Não dá pra deixar solto porque atrapalha.
- Ok, mas qual é o problema de me deixar ver como seu cabelo fica solto? - a assistente questionou, cruzando os braços.
- Porque ele não tá legal, - disse, a fazendo soltar uma gargalhada.
- Eu sou o e acho que fico feio só porque meu cabelo tá desarrumado - falou com uma voz grossa e divertida, fazendo o outro rir. - Para de frescura, homem. Um cabelo bonito desse, dá até vontade de fazer um cafuné.
revirou os olhos, rindo, e, finalmente, tirou as mãos do cabelo, deixando os fios compridos caírem livremente. Os olhos de o analisavam atentamente, o que o deixou um pouco sem graça e curioso a respeito do que se passava na cabeça dela.
sorriu e esticou o braço para devolver o elástico a . Ela já estava conformada, o acharia bonito de qualquer forma.
- Você deveria usar o cabelo solto mais frequentemente - ela disse, dando de ombros, e se levantou, indo até suas roupas para pegá-las no chão, e, em seguida, foi em busca de uma toalha. - Quero você em vinte minutos no meu quarto pra secar meu cabelo.
Em vinte e cinco, estava lá. Entretanto, depois de quase chorar de rir das tentativas frustradas do jogador de se entender com o secador de cabelo, pegou o aparelho da mão dele e fez o trabalho sozinha.

10. La Décima

Puedo ser feliz
Caminando relajada entre la gente
Yo te quiero así
Y me gustas porque eres diferente

La Bicicleta - Carlos Vives ft. Shakira

O Derbi madrileño tinha um gostinho especial para os seguidores dos dois maiores clubes de Madrid desde sempre, mas era impossível negar que a rivalidade entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid havia crescido ainda mais depois de ambos disputarem duas finais da UEFA Champions League com apenas dois anos entre uma e outra. As vitórias conquistadas pelo Real Madrid depois de duas partidas desgastantes esquentaram bastante a rixa entre os dois clubes.
Os times madrilenhos estavam se encontrando pela primeira vez desde o jogo em que o Real Madrid se consagrou campeão da UCL pela décima primeira vez, quase seis meses depois, e o clima pesado no túnel, onde os jogadores já se preparavam para entrar em campo, era quase palpável, apesar de todos se cumprimentarem amistosamente.
Seguindo os jogadores suplentes, Zizou e o restante da comissão técnica na direção do campo, cutucou a cintura de Antoine Griezmann quando passou por ele no corredor.
- Bom jogo, Anto - ela falou, piscando um olho, e recebeu um sorriso fechado como resposta.
A assistente técnica continuou seu caminho, mas não sem mostrar um sorriso discreto para antes de subir os degraus que levavam para o gramado do Estadio Vicente Calderón.
O apito do árbitro soou pelo estádio para o início de uma disputa intensa. Durante os primeiros dez minutos de jogo, o Atlético de Madrid conseguiu dominar a bola e aproveitar os espaços para armar boas jogadas. O Real Madrid, porém, não se deixou abalar e logo se encontrou na partida e começou a atacar com mais frequência, o que assustou a torcida rojiblanca que lotava as arquibancadas e fazia muito barulho.
Foi em uma falta batida por Cristiano Ronaldo que a bola foi desviada pela barreira e o goleiro Jan Oblak ficou impossibilitado de impedir o primeiro gol do Real Madrid. A pequena torcida madridista presente no estádio vibrava enquanto os jogadores vestidos de branco corriam para a comemoração junto a CR7 com o famoso grito “SÍIIII”, que havia se tornado a marca registrada do português e do restante do time.
Depois do intervalo, o jogo recomeçou tão intenso quanto o primeiro tempo havia terminado. Algumas faltas mais duras geravam pequenas discussões e acabavam em cartão amarelo para os dois lados. Tanto o time da casa quanto o visitante tinham grandes oportunidades de gol, o que fazia quase pular do banco de dois em dois minutos, especialmente no momento em que uma cabeceada de passou bem perto do gol. Porém, o placar de 1x0 durou até metade do segundo tempo, quando Cristiano Ronaldo recebeu uma falta na grande área do zagueiro Stefan Savić ao chegar para uma boa jogada e foi ele mesmo quem converteu o pênalti em gol.
se levantou do banco para comemorar e caiu na gargalhada quando Karim a abraçou com força e a rodou no ar.
- Vai terminar de se aquecer, Benzema! - ela falou quando foi colocada no chão novamente e o empurrou pelo braço. - Vai, anda logo. Daqui a pouco você vai entrar.
- Vem também - Karim disse em meio a risos e a puxou pelo braço até a lateral do campo, onde outros jogadores se aqueciam.
ficou por ali assistindo ao jogo próxima ao gol do Atlético de Madrid com os suplentes, que mais se distraíam com as jogadas de ataque do Real Madrid do que faziam os exercícios de alongamento.
Luka Modrić iniciou um contra-ataque roubando a bola e a passando para Isco, o que fez não apenas , mas toda a equipe do Real Madrid olhar para o lance com expectativa. O espanhol adiantou a bola para , que a ajeitou com a cabeça e abusou de sua velocidade para, na corrida, superar Juanfran, o lateral-direito do Atlético de Madrid, e cruzar a bola para Cristiano Ronaldo marcar seu terceiro gol do dia e completar um hat-trick histórico em pleno Vicente Calderón.
O banco quase inteiro correu na direção de Cristiano. O sabor da vitória é ainda mais doce quando se prova dele na casa do rival.
Depois que o apito do árbitro soou, sinalizando o fim da partida, o contraste dos ânimos de cada time era mais do que evidente. Enquanto os madridistas festejavam a vitória importantíssima que haviam acabado de conquistar, os colchoneros estavam frustrados e até um pouco irritados com o resultado.
cumprimentou companheiros e adversários por todo o caminho até o túnel e não pôde deixar de reparar em conversando com Antoine Griezmann próximo ao corredor do vestiário. O jogador do Atlético de Madrid mostrou um sorriso amarelo para a francesa e tirou a camisa para, em seguida, entregá-la para ela. Eles falavam em francês e não tinha ideia do que conversavam. Antes de o virar o corredor na direção do vestiário do time visitante, viu Kevin Gameiro, outro jogador francês do Atlético, parar ao lado da assistente técnica para beijá-la na bochecha e sorrir em resposta.
O vestiário já estava uma confusão quando passou pela porta e foi impossível não rir levemente quando se deparou com a cantoria de Marcelo e Pepe ao redor de Cristiano Ronaldo. Ele foi até suas coisas e se sentou no banco, imediatamente sentindo todos os músculos de seu corpo relaxarem. Libertou seus pés da chuteira e dos meiões e respirou fundo antes de soltar um longo suspiro. Sentia-se verdadeiramente exausto depois daquele jogo.
revirou a mochila em busca do celular e encontrou inúmeras mensagens de familiares e amigos o parabenizando pela vitória, o que fez um sorriso surgir em seus lábios. Respondeu rapidamente seus pais e sua irmã, deixando as outras para mais tarde, quando estivesse no conforto de sua casa, e guardou o aparelho novamente assim que Lucas Vázquez parou na sua frente, estendendo a bola da partida e uma caneta permanente. Depois que ele deixou sua assinatura, a bola continuou rodando de mão em mão para que todos pudessem autografá-la para Cristiano Ronaldo, que a levaria para casa como recordação dos três gols marcados, como manda a tradição.
demorou a perceber que seus olhos sempre iam parar na porta, esperando encontrar , e, quando notou, se levantou, bufando, para ir tomar uma ducha. Pelo visto, ele era o único que estava estranhando o fato de a assistente técnica estar consolando os rivais em vez de estar ali, comemorando junto ao seu time.
O só foi ver novamente quando adentrou o ônibus do Real Madrid, depois de parar na zona mista para responder algumas perguntas de jornalistas. Ela estava em pé ao lado do banco em que Luis Llopis, o treinador de goleiros, estava sentado e os dois batiam um papo animado. A assistente logo percebeu a chegada de e pôs-se na frente dele para impedir sua passagem.
- Qual é a senha? - ela questionou, pondo as mãos na cintura.
Um riso escapou pelos lábios de enquanto ele encarava o outro homem e balançava a cabeça negativamente.
- Hala Madrid - Luis sussurrou de uma maneira divertida
- Claro que não é Hala Madrid, seria muito óbvio - rebateu, fazendo uma careta, e os dois riram. - Você tem três chances.
- Fala sério, - o disse e, em seguida, a segurou pelos braços.
A francesa tentou resistir, mas, mesmo sem usar toda sua força, não teve muita dificuldade de empurrá-la pelo corredor do ônibus até chegar na altura em que ele costumava se sentar e as gargalhadas dos dois preenchiam o ambiente.
- Aff, , você é muito chato. Não sabe brincar - disse e o outro apenas deu de ombros enquanto se acomodava no banco próximo à janela.
Colocou sua mochila no chão, entre as pernas, um convite mudo para a assistente se sentar no banco vago ao lado, o que ela não demorou a fazer.
- Vai mudar de lado agora, é? - ele perguntou, apontando para a camisa do Atlético de Madrid que segurava.
- Minha coleção de camisas de futebol não tem preconceitos - ela rebateu, piscando um olho.
- Você tem alguma da Seleção ?
- Tenho uma do Ryan Giggs da década de 90. Estou precisando de uma mais recente, mas não sei como poderia conseguir. Você tem alguma ideia? - questionou em um tom debochado e riu.
- Serve uma do ? - ele perguntou, entrando na brincadeira.
- Eu queria uma do Aaron Ramsey - a outra disse tão seriamente que o ficou em dúvida sobre ainda ser zoação ou ela realmente querer uma camisa de seu colega de seleção.
- Eu posso pedir pra ele - ele falou, dando de ombros, e soltou uma gargalhada.
- É claro que eu quero uma sua, - ela retrucou e estalou um tapa na coxa dele.
- Vou pedir pros meus pais trazerem uma das que usei na Euro na próxima vez que vierem me visitar.
- Até lá a gente vai pensando no que eu posso te dar em agradecimento - disse em um tom sugestivo, levantando as sobrancelhas ao mesmo tempo que esboçava um sorriso malicioso, e riu quando desviou os olhos dos dela, apesar de querer apertar as bochechas dele. - Eu confesso que adoro te deixar sem graça com essas brincadeiras.
riu pelo nariz, observando a movimentação do lado de fora pela janela, e se xingou mentalmente por simplesmente não conseguir responder as brincadeirinhas de .
O falatório dentro do ônibus ia aumentando pouco a pouco, conforme o restante do time ia chegando.
- Vem cá, e que assistência foi aquela, hein? - questionou após algum tempo de silêncio entre os dois.
- Eu cogitei a possibilidade de chutar pro gol, mas vi o Cris livre e não pensei duas vezes antes de passar pra ele. Que bom que deu certo - disse e mostrou um sorriso tão adorável que a assistente acabou sorrindo junto.
- Esse jogo foi de encher os olhos, que jogaço - ela disse antes de tomar a liberdade de deitar a cabeça no ombro do , que ajeitou sua posição para que ela se acomodasse melhor.
inspirou o aroma gostoso que exalava do cabelo úmido dele e fechou os olhos. Quase pegou no sono durante o caminho até a Ciudad Real Madrid de tão confortável que estava ao lado de .

estava comendo uma porção de salada de frutas na sacada do refeitório, aproveitando os fracos raios solares, quando o celular que estava em seu colo vibrou. Deixou a colher dentro da tigela para pegar o aparelho e abrir a nova mensagem que havia chegado.

Luca: Priminha, vem assistir o jogo do Enzo e convence meu pai a vir também.

Ela respondeu com um simples “ok 😉” e voltou a comer.
Era domingo e o dia tinha sido bastante tranquilo, com parte dos jogadores na academia se recuperando do jogo do dia anterior contra o Atlético de Madrid, outros na sala de fisioterapia ou na piscina e, os que não haviam jogado, no campo com Zidane em um treino bem leve. A assistente passara a maior parte da tarde na sala de projeção, analisando os últimos jogos do Sporting de Portugal, que seria o adversário do próximo confronto que teriam pela Champions League.
Quando terminou de comer a salada de frutas, ela deixou a tigela com um dos rapazes e moças responsáveis pela limpeza do refeitório e subiu para o andar dos quartos a fim de trocar o uniforme por outra roupa. Encontrou Karim, , Luka e Toni, todos já de banho tomado e vestidos com roupas comuns.
- Ei, vocês estão indo embora? - ela questionou, interrompendo a conversa e atraindo todas as atenções para si.
- Eu estou, não sei eles - Toni respondeu, indicando os amigos.
- Vocês têm algum compromisso agora? - ela perguntou sem dar chance de os outros se pronunciarem. - Meu primo acabou de mandar uma mensagem me chamando pra assistir ao jogo do Castilla.
- Não vai dar, - Luka disse com pesar. - Meus sogros estão lá em casa.
- Eu tenho dois filhos pra criar, garota. Tá pensando que eu vou pra casa jogar FIFA, é? - Toni falou, debochado, pondo as mãos na cintura. - Brincadeira, também não vou poder, não. Vou levar a Jess pra um jantar romântico - ele completou em um tom pomposo.
- Graças a Deus. Eu só te chamei por educação mesmo - disse, entrando na zoação, e o alemão se fingiu de ofendido. - E desde quando você é romântico?
- Eu sou muito romântico com a minha florzinha, a mais bela do jardim - o alemão falou e não conseguiu segurar a risada ao ver a assistente rindo.
- Florzinha mais bela do jardim… - ela repetiu ainda em meio a risos. Em seguida, dirigiu-se a Karim e . - Tá, e vocês dois?
- Por mim, tudo bem - afirmou quando o fitou com um olhar inquisidor.
A assistente sorriu para ele antes de encarar o outro, esperando por uma resposta, e o francês jogou a cabeça para trás e soltou um suspiro longo e entediado.
- Eu tenho escolha? - ele perguntou em tom dramático.
- A gente se encontra lá embaixo em 15 minutos - disse e saiu andando na direção de seu quarto, deixando claro que não, Benzema não tinha escolha.
Ela trocou o uniforme por uma calça jeans, uma blusa e um casaco de lã, já que o frio de Madrid começava a se intensificar, principalmente ao anoitecer, e desceu para ir até a sala de Zizou para convencê-lo a também ir ao jogo do Real Madrid Castilla, como Luca pedira. precisou desligar o monitor do computador para fazer o tio largar as táticas que ele estava planejando de forma quase obsessiva e ir ver o filho mais velho jogar.
Como combinado, e Karim estavam em frente à porta de vidro da residência, esperando pela francesa. Os quatro subiram em um carrinho de golfe e se dirigiram para o Estadio Alfredo Di Stéfano, ali mesmo no centro de treinamento.
O estádio com capacidade para cerca de 6 mil espectadores havia nascido junto com a Ciudad Real Madrid, uma década antes, para sediar as partidas oficiais do time de maior nível entre todas as categorias de base do Real Madrid e, vez ou outra, também era usado para os treinos abertos do time principal. Seu nome era uma homenagem para La Saeta, o apelido recebido por Alfredo Di Stéfano, considerado um dos melhores jogadores da história do futebol mundial e, por muitos, o melhor jogador de toda a história do Real Madrid.
O jogo já havia começado e as arquibancadas não estavam tão cheias, o que possibilitou o quarteto ir para as cadeiras da área VIP sem causar muito alvoroço, mas sem escapar de alguns torcedores que pediam autógrafos e fotos. Até , que já passava a ter seu rosto bastante conhecido pela torcida madridista, acabou tirando algumas selfies.
- Ué, resolveu vir? - Véronique perguntou ao marido depois que ele a cumprimentou com um selinho e ocupou a cadeira vaga ao lado dela.
- A me arrastou até aqui pelos cabelos - Zinédine brincou, fazendo a sobrinha gargalhar com a frase que não fazia muito sentido, já que ele era careca.
- Querido, quando você vai aprender que nessa família quem manda são as mulheres? - a outra falou e deu um abraço rápido em . - E vocês dois aí? Também vieram arrastados?
- Você tem alguma dúvida, Véronique? - Karim rebateu e se inclinou para cumprimentá-la.
- Eu chamo eles pra vir assistir um jogo de futebol e se divertir e é assim que eles retribuem. Tá vendo, tia? - falou, fazendo uma careta. - Só tá faltando você, . Aproveita a oportunidade.
- Não, eu vim porque eu quis mesmo - o falou, rindo, e disfarçou o sorriso que despontou em seus lábios com um rolar de olhos. - Tudo bem, Véronique?
Enquanto cumprimentava a esposa de Zizou, a assistente avistou Luca sentado na primeira fileira e Elyaz próximo a ele, debruçado na grade que separava a arquibancada do campo. Ela desceu os degraus e se aproximou dos primos.
- Ei, por que você não vai jogar? - perguntou para Luca antes de beijá-lo na bochecha.
- Joguei com o Juvenil A mais cedo - ele explicou. Apesar de ter subido para o Real Madrid Castilla no início da temporada, Luca ainda disputava partidas importantes do seu antigo time, do qual costumava ser o goleiro titular.
- E cadê o Théo? Não vai me dizer que não veio ver o Enzo jogar pra sair com a namoradinha - disse, pondo as mãos na cintura.
- Se você já sabe, pra que perguntou? - Luca respondeu, rindo, e a outra apenas balançou a cabeça de um lado para o outro antes de se aproximar do primo mais novo.
- Que saudade do meu bebezinho - ela falou, o apertando em um abraço por trás.
A correria dos últimos dias acabou fazendo com que ela mal visse os primos mesmo morando todos na mesma casa.
- Me solta, ! Me deixa ver o jogo! - Elyaz reclamou, tentando se desvencilhar dos braços da prima.
grudou os lábios na bochecha dele e estalou um beijo antes de libertá-lo.
- Como tá o jogo? - ela questionou, só então olhando para o campo e a tempo de ver Enzo roubar a bola do adversário.
- Eles já estão perdendo de 1 a 0 - o garoto respondeu com os olhos vidrados na jogada que estava sendo criada pelo irmão mais velho.
- Nossa, já? - a outra questionou, espantada. - Eu vou subir. O pai de vocês, o Benzema e o também vieram assistir ao jogo.
Os dois não deram muita atenção para a prima, que subiu os degraus e entrou na fileira onde os quatro estavam sentados para se acomodar na cadeira vazia entre e Karim. Pouco depois, o UD Logroñés marcou o segundo gol da partida.
- A gente podia fazer alguma coisa mais tarde - sugeriu em um volume de voz baixo, fazendo tirar os olhos do campo para fitá-lo com curiosidade.
- O que você sugere? - ela questionou, sentindo um frio na barriga ao se imaginar a sós com fora do ambiente de trabalho.
- Estava pensando em andar de bicicleta. Eu gosto de pedalar à noite - o jogador falou e, assim que as palavras dele foram absorvidas por , a imagem dos dois se amassando no sofá enquanto um filme qualquer rolava na televisão que, inevitavelmente, havia tomado seus pensamentos, foi se tornando um borrão até desaparecer por completo.
E ela ficou assustada e constrangida por ter pensado aquilo, mesmo que ninguém além dela mesma soubesse.
- Pode ser - ela respondeu e sorriu sem mostrar os dentes antes de voltar a atenção para o jogo.
ficou chateada quando o jogo acabou e um Enzo cabisbaixo veio de encontro a eles. Os garotos do Real Madrid Castilla acabaram perdendo o primeiro jogo depois de sete rodadas invictos e por um placar amargo de 4x0.

- Lleva, llévame en tu bicicleta. Óyeme, , llévame en tu bicicleta - cantava, pela milésima vez, La Bicicleta, canção de Carlos Vives em colaboração com Shakira, trocando o nome do cantor pelo do só para fazê-lo rir. - Meu Deus, como eu amo essa música!
- É, acho que eu percebi - o outro rebateu em um tom divertido.
Os dois pedalavam lado a lado pelas ruas desertas da zona de Los Lagos, desfrutando de uma lua cheia de tirar o fôlego.
- Eu tenho uma foto com a Shakira no meu quarto lá em Marselha, na casa dos meus pais. Eu tinha uns 15 anos - comentou com um saudosismo que fez sorrir. - Foi numa vez que ela veio pra Madrid fazer um show e assistiu um jogo no Santiago Bernabéu. Se não me engano, foi contra o Atlético. Eu era muito fã dela nessa época, então meu tio mexeu os pauzinhos pra me ajudar a conhecer ela. Uma pena ter virado torcedora do Barcelona depois que se casou com o Piqué, né? - ela falou, fazendo uma careta, e o riu.
- E você não é mais fã dela?
- Acho que o fanatismo ficou na adolescência… Bom, pelo menos até eu ver ela pessoalmente de novo. Não posso garantir que vou ter autocontrole - a outra respondeu e soltou uma gargalhada, enquanto virava a bicicleta na direção da ciclovia que beirava um dos tantos lagos da urbanização em que ambos moravam. - E você, ? Que tipo de música gosta?
- Não gosto de um tipo específico, escuto o que estiver em destaque na Apple Music - o jogador respondeu, dando de ombros, e o olhou como se ele fosse um extraterrestre.
- Fica tranquilo que eu vou te apresentar umas músicas pra você amar, tá? - ela falou e uma risada escapou pelos lábios de .
- Tá bom.
freou a bicicleta quando percebeu que a francesa tinha parado a sua própria.
- Vamos ali embaixo - falou, encostando a bicicleta em uma árvore, e o fez o mesmo antes de segui-la pela grama em declive. Apontando para a ponte que cruzava o lago, ligando uma margem à outra, ela continuou: - Eu e o Karim saímos pra correr outro dia e achamos essa ponte. Se a paisagem é linda de dia, imagino que de noite seja ainda mais.
Os dois caminharam juntos até alcançarem a ponte de madeira e andaram pelas tábuas até atingirem mais ou menos a metade do caminho até o outro lado do lago.
se debruçou sobre a grade e parou para observar o céu estrelado e limpo de nuvens que, junto ao reflexo da lua no lago e às árvores que podiam ser vistas ao longe, contribuía para um cenário magnífico. Prometeu para si mesma que faria passeios como aquele mais vezes, pois chegava a ser um pecado morar em um local tão bonito e não aproveitar a paisagem maravilhosa que ele oferecia.
- Você sente falta da sua cidade? - ela perguntou ao sentir o braço de encostar no seu quando ele também apoiou os antebraços na grade da ponte.
- Um pouco - ele respondeu, com o olhar perdido ao longe, após alguns segundos de reflexão. - Mas não é como se eu quisesse voltar, sempre soube que teria que ir pra outros lugares se quisesse viver de futebol.
- Às vezes eu me sinto uma sem coração por não sentir a mínima vontade de voltar pra Marselha - confessou e girou a cabeça para encarar seu perfil. - Eu sinto saudades da minha família e dos meus amigos, mas visitar eles de vez em quando é o suficiente pra mim. Mesmo tendo nascido e crescido lá, nunca senti como se fosse minha casa.
- E aqui? - questionou, atraindo o olhar dela para si. - Você se sente em casa aqui em Madrid?
- É isso o que me assusta - ela falou baixo, como se estivesse revelando um de seus maiores temores. - Na primeira vez que eu morei aqui foi diferente, eu sabia que era passageiro. E em Paris eu sentia que também seria passageiro. Mas eu estou me sentindo tão realizada fazendo parte do Real Madrid que eu só penso em crescer lá dentro e ficar por aqui por muitos anos. O problema é que não é algo que depende só de mim e eu tenho tanto medo de me apegar mais do que eu deveria...
Imersa na intensidade dos olhos do , soube que criar laços com a cidade e o clube não era a única coisa que a intimidava. Assim como estava em Paris poucos meses antes, ela poderia estar em outra cidade dali a poucos meses. A insegurança de se manter em seu cargo era algo com o que ela precisava aprender a lidar e, inclusive, usar como motivação para sempre dar o melhor de si e se fazer necessária para o Real Madrid. Mas, naquele momento, não conseguia parar de pensar em como seria se e ela se envolvessem e algum dos dois acabasse tendo que ir embora. Talvez usar sua carreira como desculpa para adiar que isso acontecesse fosse uma maneira que ela havia encontrado de esconder o medo que tinha de se machucar.
- Viva o hoje, - falou e esboçou um sorriso singelo. - É o único conselho que eu posso te dar.
A assistente técnica retribuiu o sorriso e desviou os olhos para a água do lago.
- Estou curiosa pra saber como foi o jantar do Karim com a Lola - ela disse, mudando de assunto. - Acredita que ele me mandou um monte de foto pra eu ajudar a escolher a roupa dele?
- Sério? - perguntou em meio a risos e a outra assentiu com a cabeça.
- Espero que dê tudo certo, porque ele tá bem empenhado em fazer dar certo - ela falou, sorrindo. - Ei, tira uma foto minha?
pegou o celular no bolso do casaco e o estendeu para o jogador. Ela fez uma pose com os cotovelos apoiados na grade da ponte e sorriu para a foto que logo registrou.
Enquanto eles faziam o caminho de volta até onde haviam deixado as bicicletas, ela digitou uma legenda e postou a foto na sua conta do Instagram.

“Um passeio noturno com uma ótima companhia pra fechar o domingo da melhor maneira possível. 🚲🌙😊”

estava estirado no campo do Estádio José Alvalade. Era como se ele estivesse em uma realidade paralela, não escutava o árbitro gritar pela equipe médica do Real Madrid e nem mesmo a torcida do Sporting Clube de Portugal, que cantava alto para apoiar seus jogadores. Suas mãos seguravam seu tornozelo e ele tentava lidar com a dor forte que sentia.
Mas a dor não era maior do que sua frustração, pois já jogava futebol há tempo suficiente para saber que aquela lesão provocada por um choque com um jogador adversário lhe custaria caro.
Ele estava tão aéreo ao que acontecia à sua volta que não saberia dizer posteriormente o que disse para Cristiano Ronaldo quando o português se aproximou e perguntou qual era o problema. Isco e Lucas Vázquez também foram se inteirar a respeito do que havia acontecido com o colega, preocupados assim como toda a equipe. A lesão não parecia boba nem para os que estavam no banco de reservas e a possibilidade de não poder contar com para o restante do jogo afligia a todos.
Depois de uma rápida avaliação, a equipe médica constatou que precisaria ser substituído e o jogador foi acompanhado para fora do campo enquanto Zidane já conversava com David e a respeito das mudanças imediatas que fariam no time para suprir a falta dele. Marco Asensio, que se aquecia desde o início do segundo tempo, foi o escolhido para entrar no lugar do .
- Eu vou ver como ele tá. Já volto - avisou ao tio quando viu caminhar com dificuldade na direção do túnel, acompanhado pelo fisioterapeuta, e deu uma corridinha para alcançá-los. - Quão séria é essa lesão, Jaime?
- Só os exames vão dizer - ele respondeu, mas a preocupação estampada em seu rosto dava certa ideia do que os resultados diriam.
A assistente técnica acompanhou os dois homens até o vestiário e ajudou o fisioterapeuta a pôr o jogador sentado em um banco. Jaime disse que iria pegar uma bolsa de gelo e deixou os dois sozinhos.
sentou-se ao lado de e soltou um longo suspiro.
- Você não tinha que estar lá no campo, ? - ele questionou sem encará-la. - O Zizou pode precisar de você.
- Eu já vou voltar pra lá, só vim ver como você está - a francesa respondeu.
O silêncio se instalou no vestiário por algum tempo. assistia a se esticar para massagear o tornozelo dolorido e a careta de dor dele a fazia se sentir cada vez mais aflita.
- Estou com medo - ela confessou, fazendo o se sentar ereto e virar a cabeça para observá-la.
- Medo de quê? - ele questionou, intrigado.
- De essa lesão te deixar de fora por algum tempo - respondeu e respirou fundo antes de soltar o ar em uma lufada, demonstrando sua angústia. - E se você não puder ir pro Mundial? Você vai fazer uma falta danada pro time, não quero nem pensar nisso.
- Só pro time que eu vou fazer falta, é? - perguntou com um sorrisinho de canto.
Ver a assistente preocupada com ele o trazia certo conforto e fazia com que ele deixasse um pouco de lado a sensação de ele próprio estar apavorado.
riu baixo e mordeu o lábio inferior, mas não teve tempo de pensar em uma resposta, pois logo Jaime estava passando pela porta mais uma vez, o que fez com que ela se colocasse de pé.
- Jaime, cuida bem dele, tá? - a assistente pediu.
- Pode deixar - o fisioterapeuta respondeu e piscou um olho para a francesa antes de ela voltar para a partida, que, apesar da ausência de , terminou em uma vitória por 2x1 para o Real Madrid.

- Estamos bem fodidos - foi o que Zinédine Zidane falou ao adentrar a sala de reuniões e, em seguida, se jogou em uma das cadeiras da mesa redonda, soltando um suspiro frustrado. - Os resultados dos exames do saíram, ele sofreu uma luxação traumática nos tendões. Vai precisar operar o tornozelo e vão ser três ou quatro meses de recuperação.
- Que merda - David Bettoni murmurou, passando as mãos pelo rosto. - Fica tranquilo, Zizou. A gente vai dar um jeito, o Lucas é uma boa opção pra substituir ele.
- É, a gente tem que dar um jeito nisso - o técnico rebateu.
estava em choque. Já esperava que o fosse levar certo tempo para se recuperar daquela lesão, mas pensava em um ou dois meses na pior das hipóteses. Três ou quatro meses era tempo demais.
Ela levantou os olhos das folhas de papel A4 rabiscadas que estavam em cima da mesa bem em frente a ela e encarou o tio do outro lado da mesa. Se sentiu estremecer por dentro ao encontrá-lo a fitando com intensidade, como se estivesse lendo cada pensamento que passava por sua mente.
- O que você trouxe pra gente, ? - Zizou questionou, indicando as folhas.
- Eu pensei em alguns esquemas, visando a partida contra o Sporting de Gijón - ela respondeu, mexendo nas folhas para se encontrar entre os diversos rabiscos e anotações que havia feito enquanto assistia a alguns jogos do próximo adversário.
- Ótimo. Mostra pra gente.
A assistente, seguindo a ordem do técnico, falou sobre os pontos fortes e fracos que observou no time asturiano e apresentou para a comissão técnica as propostas de esquemas táticos que considerou serem boas para aquele jogo, já pensando na ausência de . A reunião durou pouco mais de meia hora e acabou sendo bastante produtiva, a formação da equipe estava praticamente definida e os planos para o treino do dia seguinte também.
Quando todos se levantavam de suas cadeiras para se retirarem da sala de reuniões, juntou as folhas de papel e também se levantou.
- Espera um minutinho, - Zinédine falou e a assistente voltou a se sentar.
Enquanto observava os homens saírem um a um pela porta, sentia uma mistura de curiosidade e apreensão dentro de si. Zizou não era de chamá-la para conversas particulares, muito pelo contrário, gostava de manter todos os membros da comissão técnica muito bem informados sobre tudo o que estava acontecendo. Não mantinha segredos com ninguém.
A não ser que não tivesse a ver com o time.
Quando viu Zizou se levantar para ocupar a cadeira vazia ao seu lado, teve certeza de que a conversa, de fato, não tinha a ver com o time.
- Eu quero te fazer uma pergunta - o mais velho disse cautelosamente.
- Pode fazer, tio - ela rebateu, sentindo a tensão crescer dentro de si.
- Você e o … O que tá acontecendo entre vocês dois?
piscou os olhos algumas vezes enquanto retribuía ao olhar do outro, pensando na resposta que daria para algo que nem ela mesma sabia.
- Por que você tá perguntando isso? - ela questionou com o intuito de clarear a mente e ganhar tempo.
- Porque eu reparei que vocês estão bem próximos e quero saber se é só amizade ou algo a mais - Zinédine falou, analisando a expressão impassível no rosto da sobrinha. - E se eu tenho motivos pra me preocupar.
- Não tá rolando nada entre a gente, mas eu não vou mentir pra você. Não é amizade - ela respondeu com sinceridade e o técnico meneou a cabeça, assentindo.
- Quando decidi te chamar pra trabalhar com a gente, eu sabia que isso podia vir a acontecer - ele disse e deu uma pequena pausa para soltar uma risada fraca antes de continuar: - Eu sou homem e também fui jogador de futebol. Sei que quem joga em times grandes às vezes acaba pensando que é dono do mundo e que pode conseguir qualquer coisa em um estalar de dedos, inclusive mulheres. Eu testemunhei coisas que você nem imagina - falou, mas fez uma careta ao se dar conta de que estava de frente para uma mulher, não para a garotinha espoleta que o pedia para levá-la aos estádios em que ele jogava em seus tempos de jogador de futebol. - Ou talvez imagine. Você não é nenhuma criança e também já está nesse meio há tempo suficiente. Mas eu me preocupo mesmo assim, sabe?
- Quanto a isso você não precisa se preocupar, tio. O não é esse tipo de jogador - afirmou em tom tranquilizador. - Desde o dia em que a gente se conheceu, ele sempre me respeitou bastante. Não apenas ele, mas o time inteiro.
- Fico mais tranquilo - Zizou disse e respirou fundo. - Eu não vou me meter, , acho que vocês dois são bem grandinhos e sabem o que estão fazendo. Mas eu espero que isso não afete o time, certo?
- É claro, tio - a assistente logo tratou de dizer. - Eu gosto muito da companhia do , ele é uma pessoa encantadora, mas meu trabalho é e sempre será a minha prioridade.
- É bom ouvir isso. Não que eu esperasse algo muito diferente, porque eu te conheço e sei que você tem uma cabeça boa - o francês falou e esboçou um sorriso divertido. - Ou eu não teria feito questão de ter você de assistente técnica, né?
- E você não vai se arrepender por isso - disse, sorrindo.
- Eu sei que não - Zizou piscou um olho antes de puxar a sobrinha para um abraço.
Depois de deixar a sala de reuniões, foi até a sala de fisioterapia e encontrou sozinho, deitado em uma das macas com o tornozelo machucado para o alto.
Ele a observou se aproximar a passos lentos até estar ao seu lado, analisando o pé imobilizado.
- Eu sinto muito - ela disse, quebrando o silêncio, e suspirou longamente. - Já estou sabendo que você vai ter que ser operado.
- Tá tudo bem, os médicos optaram pela cirurgia pra acelerar o processo de recuperação - o jogador falou, dando de ombros e mostrando-se já conformado com a lesão.
- E você vai precisar ficar de três a quatro meses fora mesmo?
- O Jaime acha que dá pra diminuir esse tempo de recuperação pra dois meses e meio, mais ou menos. Mas vamos ter que trabalhar bastante pra isso - ele explicou e esboçou um sorriso, sentindo-se um pouco aliviada por descobrir que havia aquela possibilidade.
- E quando vão operar esse tornozelinho aí, hein?
- Próxima terça-feira em Londres. O Dr. James Calder é quem vai fazer a cirurgia, ele é especializado nesse tipo de lesão - disse e, ao se mexer para ajustar a posição em que estava, gemeu baixo de dor. - Mas os médicos do Real Madrid vão supervisionar tudo.
- Então você vai estar em boas mãos - disse, sorrindo, e pôs a mão na perna levantada do jogador para acariciar sua pele.
- A parte chata é que vou precisar ficar dez dias em repouso - ele disse, fazendo uma careta de descontentamento. - Vou pra casa dos meus pais.
- Espera aí - a francesa disse e levantou uma mão enquanto fazia algumas contas mentalmente. - Então você só vai voltar pra Madrid quando a gente já estiver no Japão?
- Sim - o respondeu, simplesmente, e riu da expressão de choque no rosto de .
- , você vai ficar uns 20 dias sem ver a minha ilustre pessoa! Coitado de você - ela brincou para descontrair o clima pesado que podia sentir desde que adentrara a sala de fisioterapia.
- Qual é o problema? Eu vivi muito bem sem te conhecer até poucos meses atrás - ele rebateu com deboche.
- Credo, você é muito insensível - disse, cruzando os braços para se fingir de ofendida, mas acabou soltando uma risada.
- Você sabe que estou só brincando - falou, sorrindo.
- Como eu sou uma fofura de pessoa, bem diferente de você, admito que você vai fazer falta lá no Japão, tá? - a francesa disse, retribuindo o sorriso ao mesmo tempo que piscava um olho.
- Fica tranquila que você não vai ter tempo de perceber que eu não estou lá, vai estar muito ocupada comemorando o Mundial.
- Deus te ouça.

: Estou saindo de casa!

Depois de enviar a mensagem, jogou o celular dentro da bolsa e saiu do quarto apressadamente, batendo a porta com certa força, e percorreu o corredor a passos largos enquanto vestia a jaqueta jeans desajeitadamente.
- Nossa, tá indo aonde com essa pressa toda? - Véronique perguntou ao cruzar com a afilhada na escada, olhando-a de cima a baixo e notando quão desconjuntada ela estava.
- Vou dar uma carona pro até o aeroporto - anunciou, descendo os degraus, e parou no pé da escada para encarar a mais velha, que usava um vestido elegante, sapatos de salto e, com as mãos na cintura, lhe fitava de uma maneira maternal. - Depois a gente conversa, tia. Já estou atrasada. Beijinho e bom jantar pra vocês!
- Obrigada, mas dirija com calma! - ela pôde ouvir a voz de Véronique exclamar quando já alcançava a porta de entrada e respondeu com um “pode deixar” antes de sair de casa.
foi até a enorme garagem da casa dos Zidane, que comportava os três carros de Zinédine e Véronique, além dos dois de Enzo e Luca e, agora, também o dela. Adentrou o Audi branco, girou a chave na ignição e saiu de ré para a noite de Madrid.
Estava em frente à casa de em menos de um minuto, já que eram praticamente vizinhos. Ele a esperava escorado no batente da porta, distraído, mas logo voltou à realidade quando a buzina alta soou por toda a rua e guardou o celular no bolso interno da jaqueta antes de fechar a porta de sua casa e puxar a mala de rodinhas na direção do carro.
A assistente técnica destravou o porta-malas para que ele pudesse deixar suas coisas e, enquanto isso, tentou dar um jeito no cabelo úmido que havia penteado de qualquer jeito antes de sair de casa, olhando seu reflexo no retrovisor interno do carro. não demorou a abrir a porta do passageiro e segurou a bolsa que havia jogado no banco poucos minutos antes para que pudesse se acomodar.
- Me desculpa pelo atraso - falou e se inclinou para cumprimentá-lo com dois beijos nas bochechas. Dando partida no carro, completou: - Acabei cochilando e acordei em cima da hora.
- Eu podia muito bem pegar um táxi, mas a senhorita fez tanta questão de me levar até o aeroporto. Falei que não precisava - disse em um tom desaprovador, colocando o cinto de segurança.
- Para de reclamar - a outra rebateu, fazendo pouco caso, e esticou o braço para colocar uma música para tocar sem tirar os olhos do caminho que levava em direção ao portão do condomínio.
Se permitiu aumentar a velocidade, já que as ruas estavam livres, e soltou uma gargalhada quando reconheceu a música que se iniciava.
- Ah, não! Esses garotos de novo não! - o exclamou e levantou a mão, insinuando que iria passar para a próxima música da lista, mas deu um tapa para o impedir de executar a ação.
- Não seja malvado, . Os meninos não fizeram nada pra você - ela rebateu em meio a risadas.
- Já não basta a gente escutar essa música todo dia no vestiário? - ele questionou, fazendo uma careta.
A canção em questão era Reggaetón Lento, da boyband latina CNCO, que havia bombado na Espanha no último mês. Vinha sendo presença constante na trilha sonora do vestiário do Real Madrid, o que fazia reclamar sempre que ela começava a tocar. Não que realmente se importasse, muito pelo contrário; adorava ver dançando toda vez que ela tocava, na maioria das vezes junto a James Rodríguez e Marcelo.
- Para de ser rabugento, essa música é maneira pra caramba.
apenas sorriu enquanto observava a francesa cantar junto, mesmo que concentrada ao pegar a avenida que os levaria até o aeroporto.
- Você nem parecesse francesa, só gosta de música em espanhol - ele comentou e deu de ombros.
- Eu comecei a me interessar pela Espanha quando meu tio veio jogar no Madrid, isso influenciou bastante, mas eu também sempre achei que músicas em espanhol soam muito bem.
- Soam mesmo - ele concordou, apesar de não ter o costume de ouvir músicas em espanhol por conta própria, e sentiu algo vibrar dentro da bolsa de que estava em seu colo. - Acho que seu celular vibrou, .
- Deve ser mensagem nova. Dá uma olhada por favor?
abriu o zíper e demorou a encontrar o aparelho dentro da bolsa bagunçada, já que, na pressa, apenas tacou tudo lá dentro de qualquer jeito. Quando o pegou, apertou o botão para verificar as notificações.
- É do Karim - ele disse. O nome do colega de equipe foi a única coisa que ele conseguiu entender em meio àquelas palavras desconhecidas. - E está em francês.
aproveitou que havia acabado de parar em um sinal vermelho para pegar o celular, desbloqueá-lo e ler a mensagem do amigo. Rolou os olhos antes de devolver o aparelho para e, em seguida, sair com o carro novamente.
- Disse que a Lola foi pra Itália participar de um desfile e me chamou pra ir fazer companhia pra ele. Agora que tá namorando, só vai lembrar de mim quando ela não estiver por perto. É um cretino, né? - ela disse com uma expressão de tédio. - Diz que estou indo te levar ao aeroporto e depois penso no caso dele. Pode falar que é você.
murmurou em consentimento e enviou a mensagem com o que a assistente havia lhe pedido para dizer, sem deixar de acrescentar que era ele quem estava digitando. A resposta não demorou a chegar, dessa vez em inglês.
- Ele perguntou desde quando você é minha motorista - falou, rindo.
- Diz que eu falei pra ele cuidar da vida dele - rebateu, revirando os olhos, mas acabou rindo também.
A francesa continuou dirigindo e não pôde evitar dar uma espiada no jogador de canto de olho enquanto ele mexia em seu celular.
- Ele pediu pra você dar uma ligada quando estiver voltando pra casa - disse, bloqueando o celular e o colocando de volta dentro da bolsa.
- Me ama demais esse aí - a outra brincou, suspirando.
Alguns minutos depois, os dois chegaram ao Aeroporto de Madrid-Barajas e um silêncio esquisito os envolveu. Só então, quando o papo descontraído acabou, a ficha deles pareceu cair.
teria uma cirurgia importante pela manhã e ficaria meses sem fazer o que mais gostava e incapaz de ajudar o time em jogos que poderiam decidir os troféus que eles levantariam ou não no final da temporada. Preferia não pensar em nada disso e apenas focar sua mente em se recuperar o quanto antes da lesão, como vinha fazendo desde o dia em que precisou ser substituído por conta da pancada, mas sabia que teria semanas complicadas pela frente.
estava chateada pelo , achava injusto ele levar um banho de água fria como aquele logo em um momento tão bom de sua carreira, além de estarem às vésperas do Mundial e aquilo significar que ele perderia as partidas e toda a festa que fariam no caso de conquistarem a vitória. Também estava tão acostumada em tê-lo por perto quase diariamente que seria estranho olhar para os jogadores e não vê-lo junto a Luka, Mateo e Toni, ou até mesmo a Karim, já que percebera que os dois estavam mais próximos.
- Boa sorte com a cirurgia - disse ao soltar o cinto de segurança, sorrindo e sentindo o otimismo superar qualquer outro sentimento que estivesse sentindo naquele momento. - Fica tranquilo, tá? Vai dar tudo certo.
- Obrigado, - falou, também mostrando um sorriso em resposta. - E boa sorte lá no Japão.
- Prometo que vou estar com a sua medalha de campeão do mundo na próxima vez que a gente se encontrar.
- Vou esperar ansiosamente - o outro rebateu, ainda sorrindo. Enquanto se libertava do cinto de segurança, continuou: - Bom, deixa eu ir lá, já tá em cima da hora do voo.
- Ei, me dá um abraço antes - disse antes que o jogador se virasse para abrir a porta do carro e ele riu baixo ao mesmo tempo que se aproximava dela.
A francesa o envolveu em um abraço forte que transmitia todos os seus sinceros votos de que tudo corresse bem e, antes de soltá-lo, estalou um beijo na bochecha de .
- Eu não vou descer pra não correr o risco de verem a gente e evitar dor de cabeça, ok? Apesar de que não é muito difícil descobrir que esse carro é meu - falou, fazendo uma careta, e o outro riu.
- Tudo bem, . Até mais.
A cena do jogador abrindo a porta do carro se passou em câmera lenta diante dos olhos de . Ela mordeu o lábio inferior conforme um sentimento estranho crescia dentro de si e se dava conta de que não queria deixar ir.
Não sem antes fazer uma coisa.
- .
O se virou ao escutá-la chamar seu nome, com um pé na calçada e o outro ainda dentro do carro, para encarar com um olhar indagador. Os batimentos de seu coração se aceleraram quando ele focalizou os olhos castanhos da francesa, tão intensos, o fitando, e sentiu-se vulnerável e totalmente entregue a ela.
só percebeu que prendia a respiração quando precisou inspirar uma grande quantidade de ar de uma só vez antes de se inclinar, levando uma das mãos ao rosto de , e grudou seus lábios aos dele de forma impaciente, porém, ao mesmo tempo inocente e repleta de carinho.
Os dois ficaram algum tempo apenas com os lábios colados, enquanto assimilavam o que estava acontecendo, até tomar a iniciativa de passar a língua timidamente pelo contorno dos lábios de . Aquela foi a deixa que a assistente precisava para enterrar uma das mãos nos cabelos dele e entreabrir a boca para que suas línguas pudessem se encontrar e, então, aprofundar o beijo.
O estômago de se revirava conforme ela descobria que o beijo de era ainda melhor do que ela imaginava. Ele beijava de uma maneira tão calma e ao mesmo tempo intensa, exatamente as sensações que ele transmitia apenas com sua presença, e ela percebeu que já sentia saudades da boca dele junto da sua mesmo antes de experimentar daquele beijo.
Pouco tempo depois, se afastou lentamente e abriu o sorriso mais bonito que já havia visto em toda sua vida.
- Me avisa quando chegar em Londres - ela disse.
O assentiu, um pouco atordoado por conta daquele beijo inesperado, e, finalmente, saiu do carro. Foi até o porta-malas pegar suas coisas e deu um último aceno para antes de dar meia volta e caminhar na direção do saguão do aeroporto.
assistiu se afastar enquanto se esforçava para ignorar que todas as certezas que ela tinha construído ao longo de toda sua vida pareciam estar indo embora por ralo abaixo. Ela não imaginava que um beijo pudesse deixá-la tão bagunçada por dentro e sentindo-se sem o controle da situação. Era a primeira vez que um cara conseguia tal proeza.
E o pior era que ela estava se sentindo incrivelmente bem com isso.

11. La Undécima

Y así fue, me rebelé contra todo hasta el sol
Viviendo entonces una distorsión
Y me enfadé con el mundo
Malditos complejos que siempre sacan lo peor

16 Añitos - Dani Martín

Após um voo longo de mais de 13 horas, o Real Madrid finalmente estava no Japão.
Os três últimos jogos haviam tido resultados positivos, incluindo um empate no último minuto da partida contra o Barcelona em pleno Camp Nou com um gol de cabeça de Sergio Ramos que acabou tendo sabor de vitória, e todos se sentiam confiantes e dispostos a voltar para casa com o troféu do Mundial de Clubes. O sentimento se intensificou ainda mais quando se depararam com o aeroporto lotado de japoneses saudando seus ídolos com cartazes, camisas do time e muita gritaria. A loucura era ainda maior na entrada do hotel luxuoso em que a equipe ficaria hospedada na cidade de Yokohama, especialmente quando os jogadores se aproximavam dos torcedores para distribuir alguns autógrafos assim que saíam do ônibus um a um.
O Royal Park Hotel fazia parte da Landmark Tower, o segundo edifício mais alto do Japão com seus 73 andares. Além de lojas de grife, os hóspedes também tinham um fitness club com piscina aquecida, sala de aromaterapia, academia e salão de beleza à sua disposição. Também podiam experimentar um pouquinho da cultura japonesa em uma sala de chá, na qual era feita toda uma cerimônia tradicional para servir e bebida. A cereja do bolo eram os quartos confortáveis com uma vista incrível de toda a Baía de Yokohama.
Os olhos de brilhavam ao admirar a decoração luxuosa do hotel no caminho até o andar em que o time ficaria. Os quartos eram duplos e o roommate da assistente técnica seria Karim Benzema, como ela fez questão de solicitar quando as duplas estavam sendo definidas.
- Caralho, olha essa vista! - Karim exclamou com admiração logo após adentrar o quarto e largar a mala de rodinhas pelo meio do caminho para ir até o vidro que ia de uma ponta à outra da parede em frente às duas camas.
- Tira o caralho da boca - zoou, mas também foi até a janela para contemplar a vista noturna espetacular de uma Yokohama iluminada por um carnaval de luzes coloridas, e o jogador soltou uma risada irônica.
- Vou te mostrar o caralho - ele debochou, fazendo a assistente gargalhar.
- Não estou interessada - ela disse, lançando um olhar desdenhador na direção de Benzema.
- Claro que não está, não sou alemão - Karim retrucou em um tom implicante ao mesmo tempo que desabotoava os dois botões do paletó e, em seguida, tirou a peça e a jogou sobre uma das camas. - Muito menos .
- Não testa minha paciência, Benzema - a outra rebateu, lançando-o um olhar cortante, e se curvou para tirar o par de sapatos de salto de seus pés.
Colocou a mala em cima da cama ainda desocupada e abriu o zíper para pegar o uniforme de assistente técnica. Não via a hora de trocar o terninho Hugo Boss por uma roupa mais confortável.
Karim riu baixo enquanto afrouxava o nó da gravata e observava a cara fechada de . Era engraçado vê-la fugir do assunto toda vez que ele fazia qualquer tipo de zoação envolvendo , já que, quando era sobre qualquer outro cara, ela levava na esportiva e, inclusive, entrava na brincadeira. Mas ele entendia, enxergava o de uma forma diferente e ainda não sabia lidar com aquela situação, especialmente depois de tê-lo beijado.
Quando ela chegou à sua casa depois de levar ao aeroporto e contou que havia o beijado quando se despediram, ele pôde perceber que ela lutava internamente com a satisfação por ter feito o que tanto queria e a apreensão de ter complicado as coisas. Desde que a conhecera, era daquele jeito, tinha os pés fincados no chão e não tomava decisão nenhuma sem antes pensar e repensar sobre as consequências pelo menos umas mil vezes. Sendo uma pessoa impulsiva na maioria das vezes, aquilo o irritava um pouco, mas era justamente por essa característica que ele sabia que, um dia, Zidane estaria entre os melhores treinadores de futebol do mundo.
- Tem conversado com ele? - o atacante perguntou, jogando a gravata sobre o colchão, e a assistente, que ainda mexia na mala para pegar calcinha, sutiã, shampoo, condicionador e os cremes que passaria depois do banho, levantou os olhos para encará-lo.
- Sim - ela respondeu. habitava seus pensamentos naquele momento e ela sequer cogitou a possibilidade de Karim estar se referindo a outra pessoa.
- E a lesão? Como ele tá? - ele questionou, abrindo os botões da camisa social branca que, em seguida, também tirou.
- A cirurgia parece ter corrido conforme o esperado, mas ele ainda tá de repouso na casa dos pais. Só começando o processo de recuperação pra ver - a francesa explicou enquanto Karim se livrava do cinto. Quando ele abriu a calça que vestia, perguntou em um tom indignado: - É sério que você vai ficar pelado na minha frente?
- Já temos intimidade o suficiente pra isso, não temos? - ele rebateu, sorrindo em divertimento.
pegou suas coisas e, no caminho em direção ao banheiro, deu um empurrão com o ombro no amigo, que ficou para trás gargalhando.

- Titio, abre pra mim?
desviou os olhos do jornal televisivo que passava na TV para encarar o sobrinho em pé ao lado do sofá, onde ele estava sentado com o tornozelo operado na semana anterior apoiado em uma almofada.
- A sua mãe deixou? Tá quase na hora do almoço - questionou, pegando o pacote de M&M's que o garoto estendia na sua direção.
- Ela deixou, sim - ele respondeu, olhando ansiosamente para o pacote que o tio logo abriu com facilidade.
- Olha lá, hein - o mais velho disse em um tom repreensivo, lançando um olhar torto para o menino, e pegou um punhado de M&M's antes de devolver o pacote.
tinha certeza de que Vicky, sua irmã, não tinha o mínimo conhecimento daquilo, pois Max era uma criança de 5 anos bastante espertinha. De qualquer forma, ele estava apenas exercendo seu papel de tio que não via os sobrinhos com a frequência que gostaria e fazia suas vontades de vez em quando.
- Quer ver algum desenho? - ele questionou para Max, que já estava sentado no tapete comendo seus M&M's, e pegou o controle remoto, logo apontando-o para a televisão.
- Eu queria jogar bola - o menino falou de boca cheia.
- Bom, nisso eu não posso te acompanhar - retrucou, desanimado, apontando para o tornozelo enfaixado. Era frustrante estar perto dos sobrinhos e não poder brincar com eles. - Mas posso te fazer companhia, pode ser? - ele questionou e recebeu como resposta um sorriso enorme que mostrava a ausência de um dos dentes incisivos centrais. - Então vamos lá.
Enquanto o jogador calçava a bota ortopédica, o menino largou o pacote de M&M's em cima da mesinha de centro e correu escada acima para ir até o quarto do tio, onde ele sabia que estavam guardadas algumas bolas de futebol, e pegou a Brazuca, a bola oficial da Copa do Mundo de 2014 e também sua favorita.
Quando voltou, encontrou o tio caminhando devagar na direção da cozinha com a ajuda de muletas e passou correndo por ele.
- Ei, mocinho. Onde você vai? - Vicky perguntou ao ver o filho cruzar o cômodo feito uma bala, mas ele não disse qualquer coisa antes de sair pela porta que levava para o quintal dos fundos.
- A gente vai jogar bola - respondeu ao adentrar a cozinha, atraindo não apenas a atenção de sua irmã, que descascava alguns legumes, mas também a de sua mãe, que ajudava Georgia, sua sobrinha mais velha, a mexer com uma colher de pau o conteúdo de uma panela.
- Como assim você vai jogar bola? Você tem que descansar, meu filho! - Deborah falou com indignação, pondo as mãos na cintura.
- Eu só vou fazer companhia pra ele, relaxa - o outro rebateu, fazendo uma careta. - Eu fui operado, não estou inválido.
- Sei que não, mas você precisa se recuperar logo.
- Tá tudo bem, mãe - o jogador falou, dando um passo após o outro calmamente. - Vem com a gente, Gia.
Mesmo que adorasse ajudar a mãe e a avó na cozinha, a garota não pensou duas vezes antes de largar tudo e ir se juntar ao tio e ao irmão no quintal da casa de seus avós.
A cirurgia nos tendões do tornozelo direito de havia sido realizada com sucesso. Assim que foi liberado pelo Dr. James Calder, o jogador voou de Londres para , sua cidade natal, onde decidiu passar os dias de repouso até estar apto a voltar para Madrid e, então, dar início à fisioterapia. Apesar da tortura que estava sendo passar o dia inteiro sentado, assistindo televisão, Vicky levava Georgia e Max todos os dias depois da escola para a casa de seus pais e a presença dos sobrinhos acabava o divertindo e fazendo o tempo passar mais rápido.
Enquanto assistia às duas crianças brincarem com a bola na grama do quintal, ambos mostrando que também já haviam sido contagiados pela paixão pelo futebol, sentiu o celular vibrar dentro do bolso fronteiro da bermuda que vestia e pegou o aparelho. Um sorriso despontou em seus lábios conforme passava os olhos pelo conteúdo da mensagem que havia acabado de receber.

: A gente já chegou no hotel. É simplesmente maravilhoso! 😍

Ele não demorou a respondê-la, esperava ansiosamente por aquela mensagem desde quando foi dormir na noite anterior, quando comunicou que o time estava embarcando no avião que os levaria para o Japão.

: Quero fotos!
: Como foi a viagem?

Os gritos e gargalhadas de seus sobrinhos o fizeram levantar os olhos e ele riu ao ver Max irritado por não conseguir roubar a bola de Georgia, que se divertia com a situação. Além da facilidade que tinha por ser mais velha que o irmão, a garota era realmente boa jogando futebol.
Mas o aparelho em suas mãos logo vibrou mais uma vez e roubou sua atenção.

: Minha bunda tá quadrada depois de tanto tempo no avião, mas deu tudo certo.
: Eu tô entrando no banho agora. Vamos descer pra jantar, aí eu tiro umas fotos do hotel pra você. Até daqui a pouco. 😘

também vinha contribuindo para que seus dias de repouso na casa dos pais fossem menos entediantes.
Eles conversavam pelo WhatsApp quase o dia inteiro, sempre que a assistente tinha tempo para pegar o celular e responder as mensagens que mandava o tempo todo comentando sobre coisas banais que via na televisão ou na internet, suas duas principais distrações naqueles dias de puro tédio. Ela, por sua vez, mandava diversas fotos e vídeos dos treinos ou das zoações entre os outros jogadores. Mesmo distante, estava sempre inteirado sobre o que estava rolando na Ciudad Real Madrid e sentindo-se próximo não apenas aos seus companheiros de time, mas também a . Era um sentimento estranho aquele que o sentia, parecia que, mesmo sem vê-la há dias, eles nunca haviam estado tão próximos antes.
Nenhum dos dois havia comentado até então sobre o beijo, o que, de certa forma, o confortava. Primeiramente, porque ele sentia vontade de cavar um buraco e enterrar sua cabeça toda vez que lembrava da forma patética com que saiu do carro da assistente, desnorteado demais para conseguir formular uma frase coerente, mas também porque não queria ver arrependida por tê-lo beijado. Ele a respeitava e sabia que havia sido algo momentâneo, não esperava, genuinamente, que a amizade deles evoluísse para algo a mais do dia para a noite. Pelo pouco que já conhecia da francesa, sabia que não seria por uma atração boba que ela perderia seu foco.
Por ora, apenas queria ser alguém importante para ela. Queria poder repetir aquele beijo que ele arriscaria dizer que fora o melhor de sua vida, mesmo que tivesse beijado apenas uma boca antes, mas não tinha pressa de que isso acontecesse. Para ele, o bom humor de era o suficiente naquele momento.
Apenas desejava que a semana passasse em um piscar de olhos para revê-la logo.

Na manhã seguinte, acordou com a barulheira que Karim fazia no banheiro enquanto tomava banho e quase se arrependeu por tê-lo escolhido para dividir o quarto com ela durante a estadia em Yokohama em vez de Raphaël Varane, que certamente não seria sem noção ao ponto de escutar música alta enquanto ela ainda dormia. Porém, quando ele saiu do banheiro vestindo apenas a calça do uniforme, ficou tudo bem. Mesmo que fosse seu melhor amigo, ainda era um cara gostoso sem camisa infestando o quarto com um perfume masculino delicioso.
O primeiro dia oficial do Real Madrid no Japão foi bastante atarefado. Enquanto os jogadores trabalhavam na academia com os preparadores físicos, a comissão técnica se reuniu para definir como seriam os três dias de treino que teriam antes da partida contra o Club América, time mexicano, referente à semifinal do Mundial de Clubes. No final da tarde, a equipe toda foi para o Nippatsu Mitsuzawa Stadium, estádio do Yokohama F.C., onde deram início ao treinamento com bola.
Já era de manhã na Europa naquela altura e um dos funcionários responsáveis pelas mídias sociais do Real Madrid chamou a atenção de todos para dizer que a revista francesa France Football havia acabado de anunciar que Cristiano Ronaldo era o vencedor de 2016 da tão prestigiada Bola de Ouro. Já era a quarta que ele ganhava. Não foi exatamente uma surpresa, já que CR7 tivera um ano espetacular, sendo campeão não apenas da Champions League com o Real Madrid, mas também da Eurocopa com a Seleção Portuguesa, e era o candidato favorito ao prêmio, mas o time inteiro se surpreendeu quando Juan mostrou as fotos divulgadas pela revista, nas quais o português posava com o troféu.
Todos foram parabenizando Cristiano Ronaldo pela conquista com muitos abraços e gritaria.
- Não acredito que você ganhou a Bola de Ouro e não falou nada pra gente! - exclamou com indignação quando finalmente conseguiu ficar cara a cara com o português, o fazendo rir, e o envolveu em um abraço apertado. - Parabéns, Cris! Você mereceu tanto esse prêmio!
- Obrigado, - CR7 murmurou, sorrindo e retribuindo o abraço. Quando se afastaram, ele fitou a assistente de maneira divertida e continuou: - Mas foi bem mais legal assim, não foi? Que graça teria se todo mundo já soubesse antes de anunciarem oficialmente?
- É, você tem razão… Mas também não é como se a gente não soubesse que você ia ganhar a famigerada Bola de Ouro, né, querido? - a outra disse, rindo, e puxou o pingente que estava escondido para fora do agasalho ao continuar: - Eu também tenho uma, tá? Só pra você não se achar muito.
Cristiano apenas riu antes que sua atenção fosse tomada por Álvaro Morata e outros jogadores que ainda não haviam o parabenizado.
Como já era sabido previamente que, no dia do anúncio do melhor jogador do mundo de 2016, Cristiano Ronaldo estaria no Japão para disputar o Mundial de Clubes com o Real Madrid, representantes da France Football haviam ido até a sala de troféus do Estadio Santiago Bernabéu na véspera da viagem do time para entregá-lo o prêmio e fazer algumas fotos oficiais. Cristiano Ronaldo, sua família, os organizadores do prêmio e a diretoria do Real Madrid eram os únicos que sabiam que ele era o ganhador antes do anúncio oficial.
A Bola de Ouro tinha voltado a ser um prêmio apenas da France Football, que havia encerrado sua parceria com a FIFA depois de seis anos. A expectativa era que CR7 vencesse também o The Best, o novo prêmio de melhor jogador do mundo da FIFA que teria sua primeira edição realizada em janeiro de 2017.
Depois que o treino foi finalizado e a equipe retornou ao Royal Park Hotel, todos foram para o restaurante para jantar e comemorar a conquista de CR7. Quando Sergio Ramos surgiu segurando um bolo que imitava o troféu de melhor jogador do mundo, flashes dispararam para registrar o momento em que o capitão do Real Madrid presenteou o companheiro com a homenagem preparada pelos confeiteiros do hotel.
O português deixou o bolo sobre a mesa em que estava sentado na companhia de Pepe, Marcelo, Fábio Coentrão, Casemiro e Danilo para cumprimentar o espanhol com um abraço rápido, e não conteve a risada quando o time inteiro começou a gritar “discurso, discurso” em coro. Ele, então, pôs o dedo indicador nos lábios para pedir silêncio.
- Bom, eu só quero agradecer a todo mundo pelo carinho, especialmente aos meus companheiros de time. Não teria ganhado essa quarta Bola de Ouro se não fosse a ajuda de vocês. E é isso, galera. Vamos manter o foco e lutar até o final pra levar mais esse troféu pra casa e mostrar que o Real Madrid tá no topo do mundo. Hala Madrid! - Cristiano exclamou, finalizando o curto discurso em meio a palmas e gritaria. Olhou para o bolo, em seguida, e perguntou com um sorriso divertido nos lábios: - Quem quer um pedaço da minha Bola de Ouro?

foi a primeira a deixar o restaurante e subir para o quarto depois de comer um pedaço do bolo de Cristiano Ronaldo. Estava conversando com por mensagens depois de enviar um vídeo da baderna que fizeram no restaurante do hotel e preferia fazer isso com mais privacidade e conforto. Depois de trocar o uniforme de assistente técnica pelo pijama, ela deitou-se em sua cama e continuou a ler as mensagens de sobre as peripécias dos sobrinhos, o que a fazia recordar as de seus primos mais novos que moravam em Marselha e, consequentemente, sentir saudades deles.
Algum tempo depois, Karim entrou no quarto e, depois de revirar a mala em busca de um short, deixou a bagunça para trás e se trancou no banheiro. Em poucos minutos, saiu de lá de roupa trocada, se jogou no colchão e ficou observando digitar freneticamente no celular.
- Tá falando com o ? - ele questionou, fazendo-a apenas assentir com a cabeça. Em um tom zombeteiro, continuou: - Não é possível que vocês tenham tanto assunto assim. Espera aí, vocês não ficam trocando mensagem de sacanagem, né?
levantou os olhos do celular para encará-lo e soltou uma risada.
- É claro que não, palhaço.
Karim soltou uma gargalhada enquanto ajeitava o travesseiro sobre a cabeça.
- Pelo visto o só é rápido dentro do campo mesmo - ele zoou mais para implicar com do que por qualquer outro motivo e ela mostrou o dedo médio. - Manda uma foto bem sexy. Vai que ele se inspira.
- Karim, você é ridículo - a francesa murmurou, rolando os olhos, mas acabou rindo da sugestão.
- Não seja cruel, . O cara se lesionou, teve que fazer uma cirurgia, vai ficar meses sem jogar e, pra completar, quando finalmente consegue te beijar, fica na vontade. Ele merece uma foto, né? - o jogador disse em um tom divertindo, fazendo a outra revirar os olhos enquanto se esforçava para conter o riso e manter a seriedade. - Você não tem nenhuma foto assim aí? Eu tenho várias numa pasta com senha.
- Eu não acredito que você tem um acervo de nudes! - exclamou em meio a risos, observando-o se levantar e ir até a poltrona onde havia deixado o celular junto às roupas que usava anteriormente.
- Não são nudes, são só fotos pra despertar a curiosidade e criar um clima - Benzema explicou, piscando um olho, enquanto procurava pelas fotos em seu celular e voltava para a cama.
- Guardar esse tipo de fotos de si mesmo é meio narcisista, hein? - comentou, rindo, e ficou observando Karim concentrado no aparelho por algum tempo.
- Eu guardo as que recebo também. Só não te mostro porque são pesadas - ele disse ao mesmo tempo que abria a pasta com as diversas miniaturas das suas fotos. - As minhas são tranquilas, tenho medo de postarem na internet. Quer ver?
- Karim, lembra que agora você tem uma namorada?
- Você quer ver ou não? Eu não me importo de te mostrar - o centroavante disse, dando de ombros. - São só fotos, . Nada que você não tenha visto antes.
revezou os olhos entre os de Karim e o celular antes de se esticar e pegar o aparelho que ele estendia na sua direção. Se ele não achava que tinha problema, não seria ela quem acharia.
Ela passou o dedo pela tela e se assustou com a quantidade de fotos que tinha naquela pasta, mas até sentiu um pequeno alívio ao constatar que o conteúdo das imagens realmente não era nada que ela já não tivesse visto antes. Karim volta e meia postava no Instagram fotos sem camisa, malhando, curtindo um dia de sol ou descansando dentro de casa mesmo. Apenas pretextos para exibir seu corpo. As fotos eram um pouco mais provocantes do que as que ele costumava publicar na internet, é claro, mas, ainda assim, nada muito diferente.
- Eu adoro a sua cara de “sou gostoso e sei disso” - disse, rindo, analisando uma foto em que o jogador estava de frente para o espelho de seu closet sem camisa e com a calça jeans aberta. Engrossando a voz, brincou: - “Eu sei que você quer lamber meu corpo todinho”.
Os dois caíram na gargalhada, mas arregalou os olhos e se engasgou em meio à risada quando se deparou com uma das fotos seguintes.
- Porra, Benzema! - ela exclamou, tossindo e rindo ao mesmo tempo.
- Que foi? - Karim questionou em meio a risos.
- Você tá com a barraca armada numa foto aqui - ela falou, balançando o aparelho em sua mão com uma indignação exagerada.
- Ué, não lembro disso - o outro retrucou, confuso, mas se divertia com a reação da amiga.
- É uma foto que você tá de cueca. Ainda por cima é branca - a assistente falou, estendendo o celular para Karim.
- Ah, , fala sério. Até parece que nunca viu um pau duro dentro de uma cueca antes - ele disse, estalando a língua no céu da boca e, assim que pôs os olhos na foto, se lembrou de quando a tirou. - Essa é recente, eu já estava ficando com a Lola.
- Tá bom, eu não quero detalhes. Na verdade, eu preciso esquecer que vi essa foto.
- Eu sei que sou bem dotado, mas também não é pra tanto - Karim zoou e a francesa fez uma careta.
- Não vi nada demais aí… - ela debochou.
- Nunca reclamaram, muito pelo contrário - o outro rebateu, rindo baixo.
apenas rolou os olhos enquanto pegava o próprio celular, que repousava em cima de sua barriga. Viu que havia recebido mensagens novas não apenas de , mas também do grupo que tinha com seus cinco melhores amigos da época da escola. Fifi e Margot estavam tentando marcar uma reunião do grupo no Natal, já que aproveitaria os dias de folga para visitar os pais em Marselha. Entretanto, ela ignorou as mensagens e abriu a galeria de fotos.
- Acho que eu tenho uma minha aqui no celular também.
foi descendo a pasta do rolo da câmera, passando pelas diversas fotos que havia tirado nos últimos dias dos treinos e do vestiário para enviar para , pelas fotos das viagens recentes que fez com seus tios e primos durante as pausas para os jogos das seleções, até que chegou nas fotos de junho e julho, época em que fez uma turnê pela França para acompanhar os jogos da Seleção Francesa durante a Eurocopa.
Logo encontrou a foto que procurava, na qual estava no hotel em Saint-Denis, na véspera da final em que a Seleção Francesa saiu derrotada ante a Seleção Portuguesa, com um placar de 1x0, no Stade de France. Era uma selfie que mostrava seu rosto pela metade e mal dava para ter certeza de que realmente era ela ali, já que o quarto estava pouco iluminado e o que a foto evidenciava eram seus seios fartos e bonitos cobertos por um sutiã rendado de um tom de vinho que era sua cor favorita para lingeries.
- Tá aqui. Só vou te mostrar porque não tem nada demais, eu não sou muito de tirar essas fotos - ela disse e esticou o braço para que Karim pudesse alcançar o aparelho. - Foi pro Matt Pokora que eu mandei. Acho que nem te contei que eu fiquei com ele, né? - questionou, rindo levemente.
Ainda era engraçado lembrar que havia tido um affair com o cantor francês pelo qual todas as suas amigas morriam de amores na adolescência. Ela mesma era fã de M. Pokora aos seus 14, 15 anos.
- Quando que você ficou com ele? - o jogador questionou, surpreso, e parou para analisar a foto.
- Foi durante a Euro, ele também acompanhou todos os jogos da Seleção. Na abertura ele veio falar com meu tio e a gente começou a bater papo, acabou que ele pediu meu número e a gente combinou de sair algumas vezes - contou, observando com curiosidade a expressão no rosto de Karim, a qual ela não sabia decifrar. - Eu segui acompanhando meus tios e meus primos nos jogos, mas a gente sempre se via nos dias entre um jogo e outro.
- Então isso foi praticamente um romance de Euro, é? - o outro disse, desviando os olhos do celular para encarar , fazendo-a rir.
- É, pode-se dizer que sim - ela falou, dando de ombros. - Acho que a gente só não continuou saindo porque nos desencontramos. A turnê dele começou e logo depois eu tive que ir pra Madrid.
- Eu não sei o que vocês veem nesse cara. A Chloé morria por ele - Karim falou, fazendo uma careta.
- Ele é gato, simpático e ainda canta bem, ué - justificou, como se fosse algo óbvio, e se virou de lado para olhar melhor para o amigo. - Você não disse nada sobre minha foto.
- Posso ser honesto? - Benzema questionou, espiando a tela do celular da assistente mais uma vez.
- Não só pode, como deve.
- Olha, , se eu já não soubesse que os seus peitos são bonitos, saberia depois de ver essa foto.
- Você fica reparando nos meus peitos, seu tarado?! - exclamou em meio a uma gargalhada.
- É impossível ignorar - o outro retrucou com um sorrisinho de lado. - Sério, você deveria mandar essa foto pro . Ele anda muito fodido ultimamente, tá merecendo esse presentão.
- Como que eu vou enviar uma foto dos meus peitos pra ele assim, do nada? Você é maluco - a assistente disse, rindo.
- Muito simples. Tem um botão de compartilhamento aqui - Karim falou, clicando no botão, o que fez imediatamente se sentar no colchão, alarmada.
- Me dá esse celular!
Antes mesmo que se levantasse para arrancar o aparelho de sua mão, o jogador se jogou para fora da cama e saiu em disparada na direção do banheiro. A outra correu atrás, mas, antes que conseguisse alcançá-lo, Karim bateu a porta.
- Se você enviar essa foto pro , eu vou te matar! - exclamou, ouvindo as risadas do amigo vindas do outro lado da madeira.

estava terminando de arrumar a mala quando ouviu o celular apitar em cima do criado-mudo e, sentado na cama, apenas estendeu o braço para pegá-lo. Se surpreendeu quando descobriu que era uma mensagem de , pois, pela demora em respondê-lo, pensou que ela tivesse caído no sono. A assistente havia o enviado uma imagem e, imaginando ser uma das fotos cômicas de seus companheiros de time que ela vinha enviando com frequência nas últimas duas semanas, abriu a conversa com uma agilidade proporcional à sua curiosidade.
Entretanto, quando a foto apareceu diante de seus olhos, nenhuma gargalhada escapou por sua garganta. Suas bochechas esquentaram e o choque foi tão grande que ele se engasgou com a própria saliva e começou a tossir desesperadamente.
O jogador, definitivamente, não esperava encontrar uma foto em que estava apenas de sutiã e que seus seios eram destaque. A falta de legenda também não ajudava a esclarecer os fatos e ele só conseguia pensar que aquela foto tinha ido parar em seu celular por engano. O pior de tudo é que ele não fazia ideia do que escrever como resposta.
E se não tivesse sido apenas um engano? Deveria elogiá-la? Deveria mandar uma foto sua em troca? simplesmente não sabia como agir, era a primeira vez que recebia tal tipo de foto. Não que suas conversas com sua ex-namorada fossem sempre castas, já que os dois passavam bastante tempo longe um do outro quando ele estava concentrado com o time ou a seleção e, muitas vezes, a saudade falava mais alto, mas Emma era ainda mais tímida do que ele e, em todos os oito anos em que estiveram juntos, nunca havia o surpreendido com tamanha ousadia.
- Filho, trouxe um lanchinho pra você comer antes de ir pro aeroporto.
levou um pequeno susto quando viu a mãe adentrar o quarto com uma bandeja que continha um sanduíche e um copo de suco de laranja e rapidamente bloqueou o celular e o largou sobre o colchão.
- Não precisava, mas obrigado - ele falou, se recompondo, e mostrou o sorriso menos forçado que conseguiu.
- Não importa se precisava ou não, me deixa fazer meu papel de mãe - Debbie disse em um tom divertido, deixando a bandeja na frente do filho, sobre a cama, e se inclinou para depositar um beijo na testa dele.
- Fala sério, mãe, eu já tenho 27 anos. Posso me virar sozinho - reclamou, pegando o copo para dar um longo gole no suco para limpar a garganta e disfarçar o nervosismo. - Espero que você não fique me servindo o tempo todo lá em Madrid, senão vou me arrepender de ter chamado você e meu pai pra passarem uns dias na minha casa.
- Quando você tiver filhos, vai me entender - a mais velha rebateu, piscando um olho. Em seguida, apontou para a mala aberta ao questionar: - Precisa de ajuda aí?
- Não, só estou conferindo se estou esquecendo alguma coisa - o jogador respondeu, colocando o copo de volta sobre a bandeja e desejando fortemente que sua mãe se retirasse do quarto para que ele pudesse ver a foto de com mais calma e decidir qual atitude tomar.
- Então eu vou tomar banho e me arrumar, tudo bem? - a outra questionou e prontamente assentiu com a cabeça.
- Pode ir tranquila, mãe.
Ele acompanhou Deborah caminhar na direção da porta e se retirar do cômodo antes de voltar os olhos para o celular jogado de qualquer jeito ao seu lado. O aparelho começou a tocar e o nome estampado na tela o fez estremecer por dentro.
Zidane.
pegou o aparelho e o encarou por alguns segundos antes de, finalmente, aceitar a chamada.
- Oi, .
- ... - a ouviu murmurar seu nome do outro lado da linha antes de soltar um longo suspiro. - Foi mal, eu acabei te mandando essa foto sem querer.
O absorvia as palavras de enquanto encarava o pôster emoldurado de Ryan Giggs, seu maior ídolo na infância, durante um jogo do Manchester United em 1995, que tinha pendurado na parede de seu quarto na casa dos pais para que nunca se esquecesse de que, um dia, havia sido apenas um menino cheio de sonhos.
- Ah, você errou a conversa? - ele, de repente, se viu perguntando, sentindo algo parecido com… decepção.
- Exatamente - a assistente logo respondeu, mas se interrompeu e pigarreou antes de continuar: - Quer dizer, eu queria mandar a foto pra uma amiga minha pra mostrar esse sutiã novo que eu comprei numa loja aqui do hotel. Mas, na hora de compartilhar, acabei selecionando a sua conversa. Foi mal mesmo.
pôde ouvir uma gargalhada ao fundo que foi interrompida por um grito de dor, e pronunciou algumas palavras que ele não entendeu, mas que, pela entonação, interpretou como um xingamento em francês.
- Desculpa, isso foi pro Karim. Espera só um minuto - ela falou e, poucos segundos depois, o jogador pôde ouvir uma porta batendo. - Pronto.
- - começou, cautelosamente -, você vai me desculpar, mas essa foto não parece uma foto que alguém enviaria pra uma amiga.
Por alguns segundos, tudo o que conseguiu escutar vindo do outro lado da linha foi um silêncio incômodo.
Ele até podia não ter muita experiência em receber fotos sensuais, mas conseguia identificar perfeitamente o teor provocativo de uma. não ter enviado aquela fotografia para ele por querer era compreensível, já que, apesar de terem se beijado, eles não eram nada além de amigos e sequer haviam conversado sobre o beijo até então. Mas, se a intenção dela era enviar para outro cara, não tinha por que inventar uma história qualquer para ele cair feito um bobo. Que ela pelo menos falasse a verdade.
- Tá, é óbvio que não foi isso que aconteceu... - a francesa finalmente falou, quebrando o silêncio. - Foi o Karim que te enviou pra implicar comigo. Só isso mesmo.
- Hum… - murmurou. - E por que você não falou de uma vez?
- Porque eu não quis admitir o ridículo da situação - a outra respondeu e soltou uma risada seca. - A cena foi realmente patética. Ele ameaçou que ia te mandar essa bendita foto e saiu correndo pra se trancar no banheiro, mas eu não achei que ele realmente fosse fazer isso. Só depois que ele me devolveu o celular que eu fui ver que a merda estava feita e quis matar ele. Parecia que a gente tinha 13 anos.
acabou rindo, pois não pôde evitar imaginar a cena, e acabou rindo também. Ela nunca conseguia ficar brava com Karim por muito tempo.
- Deve ter sido engraçado.
- Tem certas pessoas que, se a gente der intimidade, a gente tá ferrado. O Karim é uma delas.
- E vocês têm mesmo bastante intimidade, né? - o jogador perguntou e fez uma careta discreta ao perceber que sentia uma leve inveja do companheiro de equipe em relação à afinidade que ele e tinham.
- Bastante, mas eu acho que o fato de nós dois não termos muita vergonha na cara piora a situação. E olha que eu ainda tenho mais do que ele - ela respondeu, rindo.
- Mas você ficou incomodada por eu ter visto essa foto? - questionou com medo da resposta que receberia. - Quer dizer, a gente não tem muita intimidade e...
- Eu não vejo nenhum problema em o cara que estou a fim ver meus peitos - a assistente disse em um tom divertido, o cortando, e soltou uma risada -, o problema é que essa foto é antiga e eu enviei pra outro cara, com quem eu já nem falo mais, e era pra ter sido deletada há muito tempo. E eu sou adepta do “se é pra fazer, faz direito”. Eu sou uma mulher bem resolvida, posso muito bem tirar uma foto de lingerie, ou até mesmo pelada se eu quiser, e mandar pra quem for. Não preciso que meu amigo idiota faça isso por mim.
O riu sem graça e ficou sem saber o que dizer. Gostaria de ter coragem de aproveitar o gancho para fazer alguma brincadeirinha maliciosa como as que ela sempre fazia, mas fazia com que ele se sentisse um garoto de 15 anos virgem.
- Você não precisa ficar sem jeito por nada do que eu disse, - ela disse ao notar o silêncio do jogador do outro lado da linha. - Eu sei que a gente não conversou sobre isso ainda, mas eu te beijei porque achei que era um momento propício pra isso. Era algo que eu tinha vontade de fazer já há algum tempo e quis te mostrar que tenho um carinho por você e estaria torcendo pela sua recuperação mesmo de longe. E tá tudo bem. Eu não quero que fique um climão entre a gente quando nos reencontrarmos.
- Você sempre me deixa sem saber o que dizer - falou, rindo levemente.
- Eu confesso que acho bem sexy - falou e soltou uma gargalhada. - Os caras geralmente são tão previsíveis. De você eu nunca sei o que esperar e confesso que acho isso bastante atraente.
- Eu sou mais previsível do que você pensa, - o outro respondeu, sorrindo.
- Será? - a francesa questionou com diversão na voz. - O que você responderia se eu não tivesse ligado pra explicar sobre a foto?
- Eu ainda estava pensando - ele admitiu. - Além de você ter me pegado de surpresa, nunca tinha recebido uma foto assim antes.
- Nem uminha? - ela perguntou com admiração.
- A Emma é muito tímida… - o jogador explicou e ficou imaginando o que estava passando pela cabeça de quando ela ficou em silêncio por algum tempo.
- Eu não tinha parado pra pensar nisso, mas, então, ela foi a única mulher com quem você se envolveu até hoje? - a assistente questionou, um pouco surpresa.
- É, eu tinha 18 anos quando a gente começou a namorar, mas já ficávamos vez ou outra desde quando eu tinha 16 - contou um pouco envergonhado. Sempre era um pouco custoso admitir que havia dado seu primeiro beijo aos 16 anos, quando a maioria de seus amigos já havia tido tal experiência desde, pelo menos, os 13. - Eu gostava da Emma, não me arrependo de nada que vivemos juntos, mas confesso que foi muito cômodo me relacionar com minha melhor amiga. Minha autoestima nunca foi das maiores.
- Por quê? - perguntou com estranheza, pois, de onde ela vinha, metade dos garotos jogava futebol apenas para chamar a atenção das garotas. E sempre dava certo.
- Minhas orelhas - confessou e riu baixo. - Eu sempre fui muito zoado por causa delas. Até cortava o cabelo de um jeito que disfarçasse, mas não adiantava muita coisa. Mesmo hoje em dia, depois de ter feito cirurgia plástica, ainda me zoam pra caramba. É só procurar na internet que você vai achar um monte de comparações com macacos e a taça da Champions League.
acabou deixando uma risada escapar pelos lábios, enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro.
- Desculpa por rir disso, , mas é tão ridículo que tudo o que a gente pode fazer é levar na esportiva. Eu tive um sério problema de autoestima quando era mais nova também - ela contou, surpreendendo o . o intimidava tanto com sua beleza e segurança que era difícil imaginá-la diferente. - Teve esse garoto por quem eu tinha uma quedinha, foi entre os dois namorados que eu tive. Nunca fomos grandes amigos, mas ele era da minha turma na escola e também gostava muito de futebol, então conversávamos bastante. Eu levei um tempão pra criar coragem e contar que gostava dele e, quando fiz isso, ele disse que não tinha a mínima chance de rolar algo entre a gente, porque ele era a fim de uma outra garota da nossa turma que não era uma tábua como eu. E, sim, ele usou essas palavras - disse, rindo levemente. - Aquilo me afetou muito, porque eu já tinha dificuldade pra me achar bonita com meus seios pequenos e aquele idiota só piorou a situação.
- Que babaca - murmurou.
- Quem me ajudou a superar isso foi o Jérémy, ele era um dos meus melhores amigos na época e acompanhou toda a história triste e me ajudou a enxergar que eu não me resumia aos meus seios pequenos. E a gente começou a namorar pouco tempo depois disso, ele foi meu segundo namorado - a francesa contou, sorrindo. Apesar de ter perdido o contato com o ex-namorado depois do término conturbado, ele havia sido um anjo na vida dela. Isso ela jamais poderia negar. - Mesmo assim, eu coloquei silicone quando fiz 21 anos, foi o presente que minha mãe me deu de aniversário. Eu tinha aprendido a me aceitar do jeito que eu era, mas quis fazer o implante e não me arrependo. Me sinto muito mais confiante hoje em dia.
soltou um longo suspiro, estava bastante chocado com todas aquelas informações novas sobre e por se dar conta de que eles talvez não fossem tão diferentes como ele pensava.
- É até engraçado imaginar que alguém teria a coragem de te dar um fora - ele disse, fazendo a outra gargalhar do outro lado da linha.
- Pois eu também estou aqui pensando no tanto de corações que você deve ter quebrado ao longo da vida por não ter arriscado ficar com outras moças por causa dessa insegurança boba.
- Até parece, né? - murmurou em meio a risos e acabou rindo junto.
- , eu vou desligar, preciso dormir. Fora que estou sentada no chão do banheiro e o chato do Karim tá batendo na porta dizendo que quer cagar - ela falou em meio a risos, fazendo o rir também. - Já se foi o tempo que ele media as palavras pra falar comigo.
- Eu preciso desligar também, daqui a pouco tenho que ir pro aeroporto. É hoje que eu volto pra Madrid.
- Sério? Eu pensei que você só começaria a fisioterapia depois do Mundial, já que o Jaime veio com a gente.
- Na verdade, a gente combinou de eu começar o tratamento com a minha outra fisioterapeuta de confiança até ele voltar e assumir. Mas a Lalie vai continuar acompanhando.
- Lalie? Quem é essa? - questionou, confusa. Na equipe médica do Real Madrid não tinha nenhuma mulher e também não se lembrava de ter nenhuma Lalie dentre os profissionais que trabalhavam com Jaime em sua clínica.
- Amelie Loew. O Modrić trabalhava com ela na época que jogávamos no Tottenham e foi graças a esse trabalho por fora que o desempenho dele melhorou consideravelmente e ele acabou despertando o interesse do Real Madrid - explicou. - Ela acabou se tornando nossa amiga e, inclusive, é a madrinha da filha do Luka.
- É mesmo, agora estou me lembrando que a Vanja comentou que a madrinha da Ema é fisioterapeuta e estava acompanhando o caso do Schumacher. É ela, né?
- Isso, ela mesma - o jogador disse e sorriu ao se lembrar da amiga e do quanto parecia com ela às vezes. - Vocês precisam se conhecer, aposto que vão se dar muito bem.
- Vou adorar conhecê-la - falou e, em seguida, berrou algumas palavras em francês. - Espera só um minuto. Vou liberar o banheiro pro insuportável do Karim - disse e pôde ouvir mais palavras que não entendeu. - Pronto.
- Bom, a gente se fala? - ele falou, checando o relógio em cima do criado-mudo e constatando que precisava terminar de ajeitar suas coisas de uma vez, pois estava quase na hora de deixar a casa de seus pais.
- Claro. Eu vou dormir agora, que o dia amanhã vai ser cheio, mas me manda uma mensagem quando estiver em Madrid, tá?
- Mando sim - o falou, sorrindo. - Boa noite, .
- Boa viagem, .
Alguns minutos depois de finalizar a ligação, quando terminava de checar sua bagagem, o celular apitou e ele o pegou para encontrar uma nova imagem de . Nessa, ela estava com o cabelo espalhado pelo travesseiro e fazendo uma careta, sem decote ou sutiã à mostra.

: Essa eu tirei especialmente pra você, gato. Bem sexy.

A gargalhada de ecoou pelo quarto ao ler a legenda, mas a verdade era que, entre as duas fotos, essa era a favorita dele.

- , eu tenho um pouco de pena de você. Não deve ser fácil aturar esses garotos.
gargalhou ao ver Maite, a irmã mais nova de Nacho, ter seus fios de cabelo bagunçados pelo irmão em resposta ao comentário que fez.
- Eles até que não dificultam tanto assim a minha vida, mas, às vezes, preciso dar uns puxões de orelha… - a assistente técnica disse com um sorrisinho esperto e piscou um olho na direção da espanhola.
- A é a rainha das patadas, quando tá inspirada faz a gente até se arrepender de ter nascido - Álvaro Morata se queixou, jogado contra o encosto do sofá preguiçosamente.
- Mas eu aposto que vocês dão motivos pra ela. Vocês só têm tamanho, no fundo são uns moleques - Marta, a Morata mais velha, disse, balançando a cabeça de um lado para o outro, e cutucou a cintura do irmão caçula.
- Fala sério, Álvaro. Eu sou legal pra caramba, não dou nem metade dos esporros que vocês mereciam - se defendeu e soltou uma risada quando Nacho a lançou um olhar descrente.
Os jogadores do Real Madrid estavam aproveitando uma tarde de folga depois da vitória por 2x0 contra o Club América no dia anterior. A visita dos familiares que também tinham ido para o Japão acompanhar o Mundial de Clubes havia sido liberada por Zidane e todos estavam um pouco mais relaxados por terem superado a semifinal sem grandes problemas, apesar de já pensarem na final que aconteceria em dois dias.
Depois de um almoço descontraído com os tios e os primos, viu Nacho e Álvaro com suas irmãs no saguão do hotel e se juntou a eles para conhecê-las e bater um papo que acabou sendo bastante divertido, já que ambas eram tão espirituosas quanto os dois. Perdeu a noção do tempo conforme escutava as espanholas narrarem algumas histórias engraçadas e vergonhosas dos irmãos e só voltou à realidade quando seu celular vibrou ao receber uma mensagem de bom dia de .
O sorriso que surgiu nos lábios de foi instantâneo.
Ela pediu licença e digitou uma resposta enquanto caminhava na direção dos elevadores. Quando tirou os olhos da tela do celular, no entanto, a cena que viu à sua frente fez o sorriso bobo que estampava seu rosto sumir.
perguntou a si mesma desde quando Luca e Lola eram tão amiguinhos para estarem conversando tão próximos e cheios de sorrisinhos.
Ela olhou para os lados, em busca de Karim, mas as únicas pessoas conhecidas que encontrou foram Marco Asensio e Lucas Vázquez com seus pais, então se aproximou do primo e da modelo e não deixou de notar que Lola deu um passo para longe de Luca quando notou sua presença.
- Ei, , nem nos falamos hoje - a modelo espanhola disse, abrindo um sorriso que mostrava seus dentes brancos e perfeitos.
- Olá - a assistente técnica disse, sorrindo simpaticamente, apesar de revezar o olhar entre o primo e Lola com desconfiança. - Cadê o Karim?
- Ele foi pra sala de massagem, disse que precisava dar uma relaxada - Lola respondeu, dando de ombros. Olhou para o garoto ao seu lado com um sorriso de canto antes de continuar: - Ainda bem que o Luca estava por aqui pra me fazer companhia, né?
- É, você esteve muito bem acompanhada - falou e deu dois tapinhas no rosto do primo, que sorriu timidamente.
- Vou voltar pro restaurante - Luca disse. - Meu pai e minha mãe ainda estão lá?
- Acho que sim. Pelo menos estavam na última vez que os vi - a francesa respondeu, entrelaçando seu braço ao dele. - Vamos, priminho. Eu te acompanho até lá.
- Vou aproveitar a deixa pra ir em busca do meu namorado, então - Lola disse, já caminhando na direção dos elevadores. - Até depois.
e Luca acenaram para a espanhola e seguiram pelo caminho que os levaria até o restaurante do hotel lado a lado.
A assistente refletia sobre a cena que havia acabado de ver. Talvez estivesse preocupada à toa, mas Luca, assim como seus outros primos, era como um irmão mais novo. Se sentia na obrigação de protegê-lo, mesmo que ele já tivesse 18 anos e soubesse se virar sozinho.
- Pensa bem antes de fazer qualquer besteira, tá? - ela disse em um tom protetor.
- Quê? - Luca questionou, levemente assustado.
- Você sabe muito bem do que estou falando - a outra rebateu. - Isso não é uma bronca, eu sei que deve ser meio impossível não se encantar pela beleza dela, mas lembra que é a namorada do Karim.
- ! - o garoto exclamou, ofendido.
- Não estou nem aí se ela não respeita o namorado dela, eles que se entendam. Só estou falando isso porque não é a primeira vez que eu vejo ela se insinuando pra você e eu odiaria te ver caindo numa enrascada - a mais velha disse e passou o braço pela cintura do primo. - Eu te amo, tá?
Luca sorriu fraco, desviando os olhos dos dela, e soltou um longo suspiro.
Ela conhecia aquele garoto desde o dia em que ele veio ao mundo e alguma coisa na expressão em seu rosto lhe dizia que o conselho talvez tivesse vindo tarde demais.

Luka Modrić passou a bola para Lucas Vázquez, que a devolveu para Luka dar um chute forte na direção do gol. Sogahata, o goleiro do Kashima Antlers, a espalmou e acabou permitindo que Karim Benzema aproveitasse o rebote para enfiar a bola no fundo da rede.
Aos 9 minutos de jogo, o Real Madrid acabava de abrir o placar da final do Mundial de Clubes.
pulou de seu assento, assim como os jogadores suplentes e os outros membros da comissão técnica, e gritou em comemoração. Viu Karim desviar dos companheiros para correr na direção do banco e abriu os braços para recebê-lo com um abraço apertado.
- Satisfeita? - o jogador questionou com diversão quando a soltou.
- Vai lá fazer mais! - a assistente exclamou e o empurrou com as mãos em meio a gargalhadas.
A ansiedade para a partida havia feito os dois ficarem até tarde conversando e insistiu para que Karim prometesse que faria pelo menos um gol para ajudar o time a conquistar o título. Apesar de apenas ter dito que faria o possível, parte da promessa já estava cumprida. A parte de serem campeões, no entanto, acabou se tornando cada vez mais complicada conforme os minutos se passaram.
O Kashima Antlers conseguiu arrumar a marcação e acabar com o domínio praticamente total do Real Madrid. Depois de ótimas chances para os dois lados, o time japonês conseguiu o empate no final do primeiro tempo.
No vestiário, conforme Zidane dava instruções para o segundo tempo fazendo rabiscos no quadro branco e apontando para cada um dos jogadores, todos os escutavam atentamente. Estavam um pouco preocupados por perceberem que a partida não seria tão simples quanto pareceu nos primeiros 25 minutos, antes da reação do Kashima.
- Vamos lá, garotos! Não quero ver ninguém desanimar. Se precisar, vamos buscar essa vitória até o último segundo de jogo - Zizou disse, batendo uma mão na outra, incentivando os jogadores a voltarem para o campo de cabeça erguida e preparados para o que estivesse por vir. - Lembrem-se que o Real Madrid não se rende nunca!
As palavras de motivação de Zinédine Zidane acabaram tendo mais importância do que ele pensou que teriam ao proferi-las, pois os japoneses viraram o jogo para 2x1 ainda no início do segundo tempo. O Real Madrid não demorou a voltar a manter o jogo empatado com um pênalti cobrado por CR7, mas, apesar de boas chances terem sido criadas, um terceiro gol, o gol que poderia garantir a vitória, parecia não querer sair de forma alguma.
e David Bettoni analisavam o jogo do banco de reservas e, juntos, tentavam encontrar alguma solução que fizesse a bola passar pelo goleiro japonês. Sugeriram para Zizou a substituição de Lucas Vázquez por Isco, que acabou participando de ótimas jogadas. Entretanto, a partida parecia estar se encaminhando para a prorrogação e a comissão técnica acabou optando por segurar as três substituições que ainda restavam.
Ninguém esperava, mas aquele acabou sendo mais um jogo que o Real Madrid mostrou que a esperança não morre antes do apito final. Haviam tido diversas oportunidades para provar isso em 2016 e, no último jogo do ano, não poderia ser diferente.
sequer teve tempo de perceber que seu coração estava prestes a sair pela garganta quando a prorrogação começou, gritava para todos os reservas se manterem aquecidos e já pensava na possibilidade de o jogo ir para os pênaltis, apesar de desejar com todas as forças não ter que pegar as anotações que havia feito sobre os vídeos de cobranças de pênalti do Kashima Antlers que assistira no dia anterior.
Um alívio correu por todo seu corpo quando Cristiano Ronaldo virou o jogo para 3x2 logo no início da prorrogação com um passe de Karim. A vontade de correr para abraçá-los foi gigante, mas a assistente foi até Zizou para dar algumas sugestões para que eles pudessem segurar aquele placar até o fim do jogo, e todas acabaram por serem bastante úteis, já que o time japonês continuou a pressionar e buscar por mais um gol.
sentia o sangue gelar a cada chute do Kashima Antlers que, graças a Keylor Navas, não caía na rede.
CR7 foi o grande herói da noite ao marcar seu terceiro gol, o quarto do Real Madrid, e, além de garantir que o troféu do Mundial de Clubes fosse para Madrid, conseguiu algo que apenas Pelé conseguira fazer até então: um hat-trick na final de Mundial de Clubes. Eles só precisaram manter o controle do jogo e evitar que os japoneses marcassem mais gols até o fim do segundo tempo da prorrogação. Quando o apito do árbitro soou, o time inteiro se sentiu mais leve.
Em meio à gritaria dos jogadores que invadiam o campo para cumprimentarem seus companheiros, viu Zizou surgir em seu campo de visão e se deixou ser abraçada.
- Obrigada por permitir que eu faça parte disso, tio - ela falou, envolvendo o mais velho com seus braços.
- Você não tem que me agradecer. Está aqui porque merece.
- Mesmo assim eu vou continuar te agradecendo pelo resto da minha vida.
Zinédine beijou a testa da sobrinha antes de se afastar com um sorriso no rosto para ir felicitar seus jogadores.
jamais conseguiria descrever o sentimento que a atingiu quando Florentino Pérez, o presidente do Real Madrid, passou a medalha de ouro por sua cabeça.

- Oi, - a voz de disse, saindo rouca pelo alto-falante do celular da assistente técnica do Real Madrid.
- Te acordei? - ela perguntou, mordendo o sorriso ansioso que despontou em seus lábios.
- Pra falar a verdade, sim, mas eu já teria que acordar daqui a pouco de qualquer forma.
- Me desculpa por ter roubado alguns minutos do seu sono, mas prometo que vai valer a pena. Você pode abrir a porta da sua casa pra mim?
O silêncio durou alguns segundos, o que fez com que precisasse prender o riso. Ela tinha certeza de que estava confuso do outro lado, tentando entender o que estava acontecendo.
- Caramba, pensei que vocês fossem chegar mais tarde - ele disse, finalmente. - Espera dois minutinhos. Já estou descendo.
- Tá bom - respondeu, sorrindo, e finalizou a ligação.
A assistente estava morta de cansada por ter passado 14 horas dentro do avião e, se conseguira dormir durante três horas naquela madrugada, havia sido muito. Era impossível pregar os olhos com um monte de jogadores felizes e bêbados comemorando a conquista de mais um título. Ela mesma participou da bagunça até estar cansada demais e se jogar em um assento próximo a Zinédine, Véronique e seus quatro primos, onde tentou descansar, sem muito sucesso, até pousarem em Madrid.
Quando chegou à casa dos tios às quase 8h da manhã, tudo o que precisava fazer era se jogar na cama e dormir até estar com as energias renovadas, mas ela estava louca para cumprir a promessa que havia feito três semanas antes, então trocou o uniforme do Real Madrid por uma calça jeans e um casaco preto Adidas e, antes de sair de casa, pegou na mala a medalha que havia pedido ao presidente Florentino Pérez depois da entrega das medalhas, ainda no estádio em Yokohama. Enquanto caminhava pelo condomínio, ela repetia mentalmente que aquilo tudo não era apenas uma desculpa para ver logo.
tentava ignorar a ansiedade que sentia, quando, finalmente, a porta da casa do se abriu e revelou o com os olhos inchados de sono e fios de cabelo bagunçados que ela achava adorável vestindo uma camiseta branca básica, uma calça de moletom cinza e com uma bota ortopédica na perna lesionada. Foi inevitável que seus olhos não percorressem o corpo do jogador de cima a baixo, conforme ela se dava conta de que ele realmente estava ali na sua frente, muito mais alcançável do que estivera nas últimas semanas.
deu um passo à frente e envolveu em um abraço apertado que prontamente foi retribuído e durou alguns longos segundos. Os dois se abraçaram em silêncio, sem precisarem dizer qualquer coisa para deixar claro que estavam contentes por estarem juntos novamente.
- Você lembra do que eu te disse antes de você viajar, né? - questionou, se afastando com um sorriso estampando seu rosto, e pôs a mão no bolso do casaco. - Eu trouxe uma coisa que te pertence.
riu, já sabendo o que era, e observou tirar o objeto dourado lentamente de dentro do bolso.
- Sério que te deixaram trazer minha medalha? - ele perguntou, rindo.
- Esse sorrisinho lindo que eu tenho é bastante persuasivo, meu bem - brincou, piscando um olho. Em seguida, ela passou a medalha que segurava pela cabeça dele. - Parabéns.
- Pra ser bem sincero, não estou me sentindo tendo feito parte dessa conquista - falou, fazendo uma careta, ao mesmo tempo que contemplava a medalha de ouro pendurada em seu pescoço -, mas obrigado.
- Se você repetir isso, eu não respondo por mim - disse, revirando os olhos, e o jogador riu. - Claro que você fez parte, . Você ajudou o time a ganhar a Champions e, se não fosse isso, ninguém teria ido lá pro Japão disputar esse bendito Mundial de Clubes.
- Tá bom, você tem razão - falou com um sorriso estampando seu rosto e puxou a porta ainda mais, dando passagem para a assistente. - Entra aí, .
aceitou o convite e, enquanto batia a porta atrás de si, não pôde evitar de reparar na decoração moderna bastante diferente da decoração da casa de seus tios, que era mais clássica, apesar de as duas casas serem enormes.
- Foi sua ex quem decorou a casa? - ela perguntou e o a encarou, confuso. Em um tom divertido, continuou, indicando o ambiente à sua volta: - Desculpa, , mas você não tem cara de que teria esse bom gosto todo.
- Na verdade, eu comprei essa casa do Kaká e tá tudo praticamente igual a quando eu me mudei pra cá - explicou, fazendo rir ao constatar que, no final das contas, estava certa, e, em seguida, um barulho vindo da cozinha chamou a atenção deles. - Acho que minha mãe tá preparando o café da manhã.
- Ah, me leva lá. Eu quero conhecer seus pais - a francesa disse, animada. - E a sua amiga fisioterapeuta também. Ela ainda tá passando uns dias aqui?
- Tá, sim. Já deve estar acordada há muito tempo, a Lalie é paranoica com os horários dela - o jogador disse, rindo, e chamou para segui-lo pela casa. - Ela tem ido fazer yoga pelo condomínio todo dia bem cedo e, quando volta, me acorda pra começar a tortura. Estou sofrendo na mão dela, - dramatizou, fazendo a outra soltar uma gargalhada.
- Nem conheço a Lalie e já adoro ela - rebateu em um tom divertido.
Os dois adentraram a cozinha, encontrando Deborah na frente do fogão, e a mãe de não demorou a notar a presença dos dois.
- Não sabia que teríamos visita, vou ter que fazer mais panquecas - ela disse, sorrindo simpaticamente, e abaixou o fogo antes de se aproximar deles.
- Não precisa se incomodar, já tomei café da manhã. Só vim fazer uma visita rápida pra entregar a medalha de campeão do mundo do seu filho - falou, retribuindo o sorriso, e estendeu a mão. - Sou Zidane. É um prazer conhecer a senhora.
- O prazer é meu, querida. E você pode me chamar de Debbie - a outra disse, cumprimentando a assistente com um aperto de mão, e revezou o olhar entre ela e seu filho, desconfiada. Havia percebido que andava distraído com o celular muito mais do que o normal e até tentou tirar alguma informação de Lalie, já que os dois eram amigos e ela poderia saber de alguma coisa, mas tudo o que conseguiu foi descobrir que tinha nascido uma amizade entre ele e a tal Zidane. - Meus parabéns pela vitória, aliás. O jogo foi emocionante, meu coração veio parar na garganta.
- É, foi mesmo emocionante - a outra rebateu, rindo, e Debbie voltou para o fogão para terminar as panquecas. - Mas deu tudo certo, isso que importa.
- Vocês não devem ter chegado de viagem há muito tempo, né? Você parece cansada.
- Pra ser bem sincera, estou morta - disse com um sorriso cansado nos lábios e passou as mãos pelo rosto, preocupada de sua aparência estar pior do que pensava.
- Meu pai já acordou, mãe? - perguntou.
- Ele estava tomando banho, mas acho que já deve ter acabado.
- Vou lá em cima chamar ele pra te conhecer, . Já volto.
balançou a cabeça, concordando, e observou o jogador se retirar do cômodo. Em seguida, se aproximou do balcão ilha e apoiou o cotovelo ali enquanto observava Deborah colocar as panquecas já prontas em um prato.
- O disse que você tem paparicado bastante ele desde a cirurgia - comentou, sorrindo.
- Ele não gosta muito, mas eu paparico mesmo - Debbie respondeu e soltou uma risada, lançando um olhar rápido na direção da francesa. - Ele nunca foi de se deixar abater por causa desses obstáculos que surgem ao longo da vida, mas essa lesão mexeu com todo mundo. O mínimo que eu posso fazer pelo meu filho é dar toda a assistência que ele precisa nesse momento complicado da carreira dele, né?
- É, esse apoio é muito importante. Essa lesão foi bem pesada não só pra ele, que vai ter que ficar um tempo sem jogar, mas é um desfalque e tanto pro time. Tá todo mundo torcendo pela recuperação dele ser rápida - falou e suspirou longamente. - Mas tenho certeza de que vai dar tudo certo, o Jaime é excelente e a Lalie, pelo que me disseram, também é uma ótima fisioterapeuta. Ele tá em boas mãos.
- Sim, isso é o que me deixa mais tranquila.
O rápido diálogo entre as duas foi interrompido quando , que acabou encontrando o pai no meio do caminho até o segundo andar da casa, passou novamente pela porta da cozinha.
- , esse é o meu pai - ele falou, apontando para o homem que vinha logo atrás.
- Se você não dissesse, eu jamais saberia. Você nem é a cara dele, hein? - a assistente debochou, desencostando-se do balcão para estender a mão para o pai de . - Muito prazer, Sr. .
- Sem formalidades, por favor. Pode me chamar de Frank - o homem disse com um sorriso simpático. - Não acredito que finalmente estou conhecendo a famosa sobrinha do Zidane que entende mais de futebol do que muito treinador por aí.
- Imagina, ainda tenho muito o que aprender - falou, rindo e abanando a mão no ar.
- Deve estar sendo uma experiência e tanto ser auxiliar do seu tio.
- Está mesmo. Nunca passou pela minha cabeça ter uma oportunidade dessa, e olha que eu sempre fui de sonhar alto.
- E você ainda vai longe, menina. Tenho certeza - Frank falou e piscou um olho.
- Deus te ouça - falou, sorrindo. Os pais de , além de muito simpáticos, pareciam pessoas simples e muito agradáveis, ela logo entendeu por que o era tão adorável. - Bom, espero que a gente possa se ver novamente e conversar com mais calma outra hora. Agora realmente preciso ir pra casa descansar. Me leva até a porta, ?
O jogador assentiu e esperou se despedir de seus pais para acompanhá-la até a entrada da casa. Quando chegavam ao hall, a porta se abriu, revelando uma morena de cabelo comprido preso em um rabo de cavalo e curvas destacadas pela calça legging e que causaram uma leve inveja em .
- Não acredito que você já está de pé sem eu ter precisado te arrastar pra fora da cama - a desconhecida falou, deixando o tapetinho para a prática de yoga encostado à parede para que, com as mãos livres, pudesse tirar os tênis e as meias. Só então notou a presença de ao lado de e um sorriso de lado surgiu em seus lábios. - Ah, agora tudo faz sentido. Você deve ser a , né? - questionou e a francesa assentiu com a cabeça, sorrindo.
- E você é a Lalie.
- Eu mesma - a fisioterapeuta falou, simpática, e cumprimentou com um aperto de mão. - Finalmente estamos nos conhecendo! Ouvi falar bastante de você.
- Ouviu, é? - a francesa questionou, notando o jeito divertido com que Lalie olhou para e também encarou o jogador, que estava levemente corado, o que a fez sorrir discretamente.
- Claro, quando o Real Madrid te contratou só se falava disso - Lalie disse, prendendo o riso que quis escapar pela sua garganta por conta da reação de . - Já foi um grande avanço a Eva Carneiro fazer parte da equipe médica do Chelsea, mas foi ainda mais legal te contratarem como assistente técnica. Tenho certeza de que isso vai ajudar a abrir a mente das pessoas e, consequentemente, as mulheres vão ter mais espaço no futebol masculino. E, pelo que falam, você tem tudo pra crescer nesse meio. Já te admiro muito por isso.
encarava a fisioterapeuta com surpresa, havia percebido que ela estava implicando com e não esperava que o foco fosse se voltar para ela e suas conquistas profissionais.
- Obrigada. Eu realmente espero poder fazer as pessoas acreditarem que uma mulher pode comandar um time de futebol masculino. Por enquanto, sei que um monte de gente ainda acha que o Zizou só me escolheu pro cargo por ser meu tio - disse, revirando os olhos.
- Eu enxergo o fato de ele ser seu tio de outra forma. Ele não te colocaria no fogo cruzado se não tivesse plena certeza de que você é competente, ia preferir te proteger e deixar bem longe disso tudo - Lalie falou e, em seguida, se voltou para o amigo. - O que você acha, ?
- Da parte do jogadores nunca rolou esse tipo de pensamento. A gente confia cegamente no Zizou.
- Não vejo a hora de todo mundo pensar como vocês - a assistente disse, sorrindo.
- O papo tá ótimo, mas vou subir pra tomar um banho. E você, moço, vai se preparando que daqui a pouco a gente começa a ralação. O Jaime disse que vai aparecer aqui pela tarde - a fisioterapeuta falou com uma firmeza que fez perceber que ela realmente levava o trabalho bem a sério. - Até mais, .
As duas trocaram sorrisos e Lalie seguiu na direção da escada. Ao passar pelas costas da francesa, ela fingiu estar dando um beijo apaixonado em sua própria palma da mão, apenas para implicar com , que arregalou os olhos e deu as costas para ela, caminhando na direção da porta.
- Lalie! - chamou, virando-se e fazendo a mulher estancar no primeiro degrau da escada enquanto prendia o riso. - Hoje é aniversário do Benzema e ele vai dar uma festa na casa dele à noite. Se você quiser, vai com o .
- Agradeço o convite, mas não fica chato? Nem conheço ele.
- Te garanto que não tem nenhum problema.
- Vou ver, então - Lalie falou e mostrou um último sorriso antes de seguir escada acima.
Os outros dois ficaram se encarando por algum tempo. , com um sorriso quase imperceptível nos lábios, aproximou seu rosto do de , que sentiu o coração bater mais forte com a expectativa de beijá-la mais uma vez.
Porém, por mais que desejasse sentir os lábios do sobre os seus novamente, desviou o rosto para depositar um beijo demorado na bochecha dele.
ficou estancado onde estava, sem reação, e observou a francesa abrir a porta por conta própria.
- Até mais tarde, campeão - ela falou, piscando um olho, antes de sair da casa.

Continua...

Nota da autora: (06/05/2017) Oi, gente! Espero que tenham gostado do capítulo!
Pra variar, momentos divertidos entre a PP e o Karim só pra genter morrer mais um pouquinho de vontade de ser amiga dele mesmo com o constrangimento que ele nos faria passar HAHAHAHA. Mas acabou que, mesmo de um jeito doido, ele ajudou os PPs, isso que importa. Até rolou um desabafo sobre os complexos da adolescência de cada um... E não fiquem com vontade de me matar pela falta de pelo menos um beijinho no final do capítulo. Teve um motivo pra isso e prometo que vai valer a pena! Hahaha ❤
Bom, e preciso falar também sobre a personagem nova, a Amelie, mais conhecida como Lalie. Ela é a PP de 7 da Sorte, uma fic que tem o Cristiano Ronaldo como PP e é escrita pela Carol F., e vai aparecer mais vezes durante a história. Essa doida da Carol resolveu escrever uma fic que se passa no mesmo universo de Bola de Ouro (o que eu achei maravilhoso, diga-se de passagem) e acabou que a gente tá tentando entrelaçar os acontecimentos das duas fics (o que tá dando um trabalhão, mas creio que vai valer a pena! hahaha). Enfim, recomendo a leitura! Mesmo se você não for com a cara do CR7 (o que sei que é muito comum, apesar de não entender como alguém pode não ir com a cara do dono do mundo HAHAHAHA), leia porque os PPs são interativos e aposto que você vai adorar! 😉
Ah! E, caso ainda não saiba, eu escrevi um spin-off de Bola de Ouro contando como foi quando a PP ficou com o Kevin Trapp, goleiro do PSG. É só clicar aqui pra ler: Private Show.
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Beijos e até o próximo capítulo!

Spin-off de Bola de Ouro:
Private Show (Esportes - Kevin Trapp)

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