Autora: Sookie Rivers | Beta: Babs | Capista: Paula P.


Capítulos:
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Prólogo

“Even a man who is pure in heart
And says his prayers by night
May become a wolf when the wolfsbane blooms
And the full moon is bright.”

Londres, 1891

- Com licença, Milady, sua carruagem a espera. – Mycroft, mordomo da casa dos Von Tassel, avisou a elegante garota na porta de uma bela Mansão.
- Obrigada, Mycroft. – Ela sorriu levemente para o senhor de cabeleira grisalha e olhos gentis. O velho mordomo retribuiu o sorriso e a acompanhou até a carruagem, ajudando-a a embarcar.
A moça despediu-se e a carruagem começou a se movimentar, com leves sacolejos por conta dos cavalos.
Martell suspirou. Aquele jantar havia sido cansativo. Para ser honesta, ela estava cansada de fingir sorrisos e ouvir comentários maldosos sobre as moças solteiras de Londres. Era sempre algo como “Oh, você viu o vestido que Lady Mary estava usando no jantar na casa dos Brown? Indecente.” ou “ Oh, você viu a joia que Lady Anne estava usando no baile dos Lockwood? Me disseram que ela tinha um amante. Indecente.”.
enrolou uma mecha dos seus longos cabelos no dedo indicador, pensativa. Honestamente, ela não sabia se “sobreviveria” à Sociedade Inglesa se tudo fosse daquela forma.
Ela mordeu os finos lábios rubros e tentou afastar este pensamento. Ela tinha de ir para esses eventos se quisesse arrumar um marido e ser a perfeita esposa inglesa que seus pais tanto ansiavam que fosse.
Era isso ou ser alvo de maus boatos como Lady Mary ou Lady Jane, mulheres de 25 ou 24 anos que ainda não haviam arranjado um marido.
A carruagem chegou depressa ao seu destino. Alfred, o seu mordomo, ajudou-a a descer.
- Que bela noite, hein, Alfred? – Ela comentou, sorrindo para o atarracado e velho mordomo da Mansão Martell, como sempre fazia. Ele já servia a sua família há pouco mais de 50 anos, e praticamente a havia criado.
Eles entraram na Mansão.
- Sim, Lady . Maravilhosa. – Ele concordou. – Lorde Nikolai solicita sua presença.
- Obrigada, Alfred. E sei que deve estar cansado, seus serviços estão dispensados por hoje. Obrigada. – Ela pediu. O mordomo fez uma longa e elegante reverência, agradeceu e se dirigiu para o seu quarto na ala dos empregados.
se dirigiu ao quarto de Nikolai, seu irmão mais velho. Ele tinha dezoito anos, muito bem vividos em comparação ao seus meros dezesseis, pelo menos na opinião dela. O irmão vivia cada dia como se fosse o último, e ela o admirava por isso. Ela não havia tido uma única aventura sequer, e seu espírito aventureiro ardia em chamas com a hipótese de que talvez nunca viveria uma.
bateu levemente na porta do quarto dele.
- Entre. – Ela ouviu a voz rouca do irmão consentir e girou a maçaneta, entrando no aposento.
Nikolai lia um livro, sentado numa poltrona Luís XIV. Seus cabelos extremamente negros caíam pelos olhos, fazendo um bonito contraste com sua pele pálida. Os olhos, de um azul tão puro e límpido que pareciam ser cor de gelo, eram profundos como um abismo. Diferente dos dela, que eram infantis e tinham uma coloração puxada para o mel.
- Irmãzinha. – Nikolai fechou o livro num gesto caprichoso. – Onde esteve?
- Jantando com os Van Tassel. – Ela sentou em sua cama, sentindo os finos lençóis de seda pinicarem a pele de sua mão.
Nikolai revirou os olhos.
- Collin está pretendendo cortejar você? – Collin era o primogênito dos Van Tassel. Ela concordou com a cabeça lentamente. – Ele é um imbecil.
- Oh, agradeço por salientar tal fato. – Ela retrucou, suspirando impacientemente em seguida. – Não quero me casar.
- Então não se case. – Ele se levantou, esguio e elegante como um puma.
- Sabe que não é tão simples. – Ela respondeu. Nikolai sentou-se ao seu lado e ela deitou a cabeça no ombro do irmão. – Papai e mamãe esperam isso de mim e de Maddie quando ela crescer.
Madeleine Martell era a irmã mais nova. Tinha apenas dois anos.
- E de mim. E de Peter. – Nikolai disse. – Você parece esquecer disso às vezes.
- Ora, Nik. Vamos admitir que eles cobram bem menos de vocês. – Ela protestou.
Peter Martell tinha sete anos, e era adorável. A criança dos sonhos de qualquer pai e mãe.
Nikolai suspirou.
- Talvez você esteja certa. – Ele disse, por fim. – Papai disse que eu deveria começar a cortejar alguém até o fim deste mês. Mas, é. Você está certa. Ele cobra tanto de você. Pobrezinha, pobre .
- Ele não irá te deserdar por não achar alguém até o fim deste mês, francamente. – protestou. – Realmente acredita nisso?
- Você não viu o olhar que ele me deu. – Nikolai respondeu, encarando o chão com um olhar sombrio. – Às vezes realmente penso que me odeia.
segurou a mão do irmão, entrelaçando seus dedos nos finos e longos dele. Ela estava incerta do que deveria dizer.
Na verdade, até ela achava que o pai nutria alguma antipatia por Nik.
- Ele não te odeia, Nik. – Ela disse, por fim. – Se reclama de algo, é porque quer o nosso bem.
- Diz isso porque é a princesinha dele. – Nikolai reclamou, com voz de escárnio.
- Oh, pelo amor de Deus. – reclamou de volta. – Não tem nada a ver com isso.
Antes que ele pudesse retrucar algo, as portas de seu quarto se abriram com um estrondo.



Capítulo 1

Peter e Madeleine entraram correndo, fazendo sorrir. Ver os irmãos pequenos sempre lhe melhorava o humor.
- Peter, venha cá. – Ela chamou o irmão e acariciou seus cabelos castanho-claros, lisos e macios como uma pluma. – Por onde andou? Está imundo.
- Brincando no quintal. – Ele respondeu com os olhos brilhando. – Nancy quer me banhar. Estou me escondendo.
- Hãn-hãn. – Ela apontou a porta para ele. – Pode ir saindo. Não pode dormir desse jeito. Ande logo. Quanto mais rápido você for, mais rápido vai terminar.
Peter lhe deu um sorrisinho e correu porta afora. sentiu-se satisfeita consigo mesma.
Nancy era a babá dos dois. Cuidara de e Nik antes deles.
Ela olhou para Maddie. A pequena irmã brincava com a barra do seu vestido. a pegou no colo e ela começou a brincar com seus cachos .
Maddie, com seus cabelos loiros e seus olhinhos verdes era linda, mas tinha um problema.
Ela já estava com dois anos de idade e ainda não havia dito uma única palavra, e mal balbuciava. O médico da família, Doutor Heimwich, disse que não poderia dizer nada certo ainda, mas havia a possibilidade de Maddie ter algum distúrbio de fala. Isso às vezes deixava sem dormir à noite. Defeitos físicos não eram tolerados na sociedade Inglesa. Ela não queria que a irmã virasse alvo de fofocas.
- Tem algo que queira me dizer? – perguntou a ela. Maddie sacudiu a cabecinha com um sorriso brincalhão nos lábios. – Tudo bem então. Vá atrás de Peter, você também precisa de um banho.
Maddie desceu do colo dela e correu com passadas desajeitadas até sair do quarto.
- Estou preocupada, Nikolai. – disse. – E se Madeleine tiver algum distúrbio? Você sabe que ela nunca irá arranjar um cônjuge.
- Acho que, para ela, a época certa ainda não chegou. – Ele respondeu, voltando a sentar na poltrona Luís XIV. – Eu disse minha primeira palavra com um ano e meio.
- Um ano e meio, Nik! Ela já tem dois! – insistiu, enrolando uma mecha do cabelo no dedo indicador.
- Você faz drama por tudo. – Nik riu consigo mesmo. – Porém, está certa. Vamos trabalhar nisso, certo?
suspirou. Sabia que sempre podia contar com o irmão.
- Certo. – se levantou da cama. – Com licença.
Ela saiu do quarto e foi para o seu próprio.
foi até sua cama e levantou seu travesseiro, tirando de baixo dele um pequeno caderno com capa de couro.
Ela pegou uma pena e começou a escrever.

Diário, 15 de Junho de 1891
Tive um desagradável evento na casa dos Von Tassel hoje. Me parece que todos estão tentando encontrar algum energúmeno para que me case. Mas e se não for o que eu quero? Alguém desta cidade já tentou se perguntar o que EU quero? Creio que não se importam. Creio que estou condenada a viver uma vida medíocre, a ser a “perfeita esposa inglesa” que meus pais desejam que eu seja. Serei infeliz, terei uma vida tediosamente premeditada. Só queria uma aventura, algo que eu possa contar aos meus filhos quando eles tiverem idade para saber que a mãe deles viveu uma épica parte de sua vida. Queria que algo pudesse mudar meu destino completamente. Que me tirasse dessa realidade hostil e destruidora de sonhos.

Martell

guardou o diário debaixo de seu travesseiro e praguejou baixinho. Ela odiava aquilo tudo, odiava ter que fingir sorrisos e falar coisas que ela verdadeiramente não acreditava. Mas o que ela podia fazer? Era o seu dever. Toda a família esperava aquilo dela.
vestiu sua roupa de dormir e um roupão de seda negra por cima.
Ela foi até a janela. Era quase hora.
Ela abriu as portas que davam para a sacada, olhando para a janela de Nikolai. A sacada dele era colada com a sua.
Ela observou a pálida lua cheia no horizonte. Ali, vestida com o longo roupão de seda negra e os longos cabelos , parecia a própria imagem da viúva negra.
As portas da sacada dele se abriram, revelando um Nikolai vestido com uma capa preta elegante.
- Prometa que voltará rápido hoje. – esfregou os braços com as mãos. – Estou com um mal pressentimento.
Nikolai riu e beijou a bochecha da irmã.
- Tentarei. – Ele piscou um olho para ela e se pendurou na sacada.
observo-o escalar, descer e chegar até o jardim. Ele escondeu o rosto com o capuz e começou a guiar seu cavalo, Octavius. Eles andaram até sair da propriedade e só aí Nikolai montou. o perdeu de vista.
Ela suspirou. As escapadas do irmão até o acampamento cigano do lado de fora da cidade estavam ficando cada vez mais óbvias e perigosas.
Ele não a deixava segui-lo. Dizia que aquele não era ambiente para uma garota.
O que restava à ela era esperá-lo ansiosamente. Sempre se preocupava com o astuto irmão mais velho. Sabia que o pai havia descoberto sobre as idas dele e as desaprovava.
Ela deitou-se na cama e se enroscou nos lençóis de cetim, brancos como uma pérola. Nikolai sempre escalava a sacada dela para lhe dar boa noite e avisar que havia chegado.
O que acontecia por volta das 3 da manhã, geralmente.
Ela olhou o relógio de bolso velho do pai.
Eram 22:15.
olhou para o teto do quarto e concentrou-se na pálida coloração azul. Seu teto havia sido esculpido para representar o céu ao amanhecer. Os tons de branco, amarelo, laranja e azul eram delicados, e ao mesmo tempo chamativos.
segurou o pingente de lobo no seu pescoço. O colar havia pertencido à sua mãe, à sua avó, bisavó e à tataravó. O colar estava na família por gerações, e deveria dá-lo à sua primeira filha.
Ela fechou os olhos devagar. Sabia que se Nik chegasse, lhe acordaria.
Um pulsar. Era o que mais definia o tempo que se passou até sentir a luz do sol no rosto. Ela ouviu uma agitação no andar de baixo e abriu os olhos.
Mas... Já era dia? Nikolai... Nikolai!
se levantou e foi até a sacada. Quando olhou para o jardim, o que viu a fez tontear.
Dois homens carregavam Nikolai. Seu pescoço parecia machucado ali, do alto da sacada. Ela ficou assustada. O que poderia ter acontecido?
vestiu o robe e correu. Chegou na sala ao mesmo tempo que ouvia o grito da mãe.
- Meu bebê! Meu filho! - Ela gritava. O pai de guiou os homens até o quarto de Nikolai, e mandou Alfred chamar um médico.
- Mantenha as crianças na sala. – Ela ouviu o pai dizer para Nancy.
tentou entrar no quarto do irmão, mas seu pai a interceptou.
- Volte para a sala. – Ele ordenou.
- Não. – Ela tentou passar pelo pai. – Deixe-me vê-lo.
- ...
- Papai. Por favor. – Ela pediu com o olhar firme. John Martell suspirou e passou a mão nos cabelos negros, saindo do caminho da filha. Sabia que não valia a pena discutir com a filha mais velha, ela sempre ganhava.
- Vou consolar sua mãe. Fique com ele. – Ele ordenou e meneou a cabeça, correndo para o lado do irmão, arfando ao ver seu pescoço.
Estava destruído. Algo havia arrancado um pedaço dele, e as cartilagens estavam todas de fora. O machucado se estendia até o começo do ombro. E havia tanto sangue.
- Oh, Nik... - se sentou ao seu lado na cama. Um dos homens que o haviam trazido segurava um pano no machucado, tentando estancar o sangramento.
Ela observou os homens. Um deles tinha o cabelo como o seu, em delicadas ondas até os ombros. Sua barba chegava até o meio do pescoço, e seus olhos eram castanhos e profundos, dotados de uma calma que não conseguiria manter.
O outro homem seria quase igual a ele, não fosse o cabelo e a barba ruivos e espessos.
Ciganos, constatou. Usavam roupas sujas e um pouco rasgadas, como se o tempo houvesse sido cruel com elas.
- O que aconteceu com ele? - perguntou aos ciganos.
- Vârcolac. – O de cabelos respondeu, com temor nos olhos antes calmos.
- Perdão? - franziu a testa. – Não entendo.
- Obrigado pelos seus serviços, cavalheiros. – John entrou no quarto e foi até os ciganos, dando-lhes 5 libras cada um.
Eles saíram, e um rapaz entrou no quarto.
- , afaste-se do seu irmão. Este é o Dr. Eckheart. Ele vai cuidar de Nikolai. – Ela ouviu a voz do pai e se virou. O rapaz não aparentava ter mais de 20 anos.
- Não vou soltá-lo. – retrucou, segurando a mão fria e pálida do irmão mais velho. – Quero que ele saiba que estou aqui.
- ... - A voz do pai era de advertência. - Pode até ser bom que ela fique. – Dr. Eckheart disse, enquanto preparava uma sutura. – Pode ser doloroso. VAI ser doloroso. O senhor teria alguma bebida alcoólica por perto?
John tirou uma pequena garrafa de prata do bolso do paletó e entregou ao médico, que a abriu e derramou o líquido em cima do machucado, lavando-o.
Nikolai imediatamente despertou, gritando e segurando forte a mão de .
Ela observou o irmão, que fechava os olhos lentamente. Ela ficou nervosa.
- O que está acontecendo? Nikolai? - Ela chamou, sacudindo-o levemente. – Estou aqui, Nikolai! Estou aqui. Aguente firme.
O médico checou sua pulsação.
- Temos que agir rápido.
Ele pegou a agulha e começou a suturar.
observou os traços do médico.
Pele pálida, própria da região. Cabelos lisos e castanhos médios, curtos e penteados de qualquer jeito para o lado. Olhos muito azuis concentrados. Mãos de dedos longos e finos.
Ele parecia ser um pouco arrogante, pensou.
Logo em seguida achou-o encantador, e depois pensou que, devido as circunstâncias em que se encontravam, aquele pensamento era bastante inapropriado.
Ela observou o médico terminar de suturar o ferimento do irmão e cortar o fio com uma tesoura prateada.
- Ele vai ficar bem? - perguntou, achando o tom da própria voz estranho.
- Não sei ao certo. – Foi aí que o médico pareceu enxergá-la pela primeira vez. Seus lábios se separaram em um leve sorriso. – Devemos impedir que a ferida infeccione, e ele perdeu muito sangue. Mas, se for bem cuidado, há maiores chances de sobreviver. Ele é um rapaz forte. Vai dar tudo certo.
sorriu e olhou para o pai.
- Quanto lhe devo, Dr. Eckheart? - Ele perguntou.
- Oh não, por favor. – Ele negou com a mão. – Foi uma emergência. Se o senhor não se incomodar, eu gostaria de acompanhar o caso deste rapaz de perto.
Dr. Eckheart havia dito aquilo com os olhos grudados em . Ela sentiu as bochechas corarem e abaixou a cabeça, contendo um sorriso.
John pareceu perceber e, ao contrário de , abriu um largo sorriso para o jovem.
- Seria ótimo, Dr. Eckheart. Nossa família agradece. , por que não leva o doutor até a porta?
- Sim, senhor. – se levantou da cama e olhou para o irmão, – Eu já volto.
Ela encarou o médico.
- Podemos? - Ela perguntou.
O médico apertou a mão de John e estendeu o braço para , que o segurou. Os dois seguiram para o andar de baixo.
- Apesar das circunstâncias, foi um prazer conhecer a senhorita. – Ele tocou a mão de delicadamente com os lábios.
- Igualmente, Dr. Eckheart. – Ela sorriu.
- Por favor... Victor. Me chame de Victor.
- Então por favor, me chame de .
O médico fez uma leve reverência.
- Senhorita . Avisando... Ele terá febre. Voltarei em breve para vê-lo, sim?
Ela observou ele entrar na sua carruagem e sair da sua propriedade.
voltou correndo para o quarto de Nikolai.
- Como ele está? - Ela perguntou ao pai.
- Ainda desacordado. – Ele respondeu. Ela sentou-se ao lado do irmão.
- O que aconteceu com ele, papai? - Ela perguntou.
- Segundo os ciganos, ele foi atacado por um lobo. – John respondeu, sentando na poltrona Luís XIV e passando a mão nos cabelos negros. – Não sei mais o que faço com o seu irmão.
- Ele só não quer assumir um compromisso agora, papai... E nem eu. – Ela disse, abaixando a cabeça.
- Vou chamar a sua mãe. Ela está lá embaixo com as crianças. – John saiu do quarto e suspirou. O pai sempre evitava aquele tópico em suas conversas.
observou Nikolai. Estava mais pálido que nunca, e sua fronte estava coberta de suor.
Ela pegou um lenço e começou a enxugá-lo.
- Você vai me contar TUDO quando acordar. – Ela falou baixinho.
observou o machucado suturado no pescoço do irmão. Aquilo deixaria uma cicatriz horrorosa.
- Nikolai... O que você fez? - se perguntou.
Ela continuou limpando o seu suor.
Dois dias se passaram sem que Nikolai apresentasse alguma melhora. Ele não havia acordado, não havia se movido. temia pelo pior. Temia... Que ele nunca acordasse.
limpou o suor da sua fronte, como sempre fazia. O Dr. Eckheart vinha todos os dias para ver se Nikolai apresentava melhoras. E, desconfiava, para vê-la também. Ela considerava aquilo bastante lisonjeiro da parte dele, mas não estava com cabeça para flertes agora. Só queria ver o irmão melhorar.

Nikolai

Antes de toda aquela confusão, podia-se dizer que Nikolai estava se divertindo bastante.
Nikolai possuía vários talentos, mas podia dizer que seu melhor talento era exercido com as prostitutas ciganas do lugar.
- Estou indo embora. – Ele disse para a mulher deitada na cama improvisada da cabana. Seu nome? Ele não sabia.
Tudo o que ele sabia era que os longos cabelos acobreados e cacheados da mulher o agradavam, além do tom caramelado da sua pele e os olhos verdes.
Nikolai se vestiu e pegou algumas moedas, jogando-as para ela. Ele observou o corpo nu cheio de curvas da mulher por uma última vez e sorriu lentamente.
- Tenha cuidado esta noite, Sir. – Ela falou, encarando-o com seus olhos de gata. – É noite de lua cheia.
Nikolai sorriu para ela debochadamente.
- Poupe-me de mitos, minha querida. Se eu quisesse saber sobre folclore, iria a uma biblioteca. Não estou te pagando para isso. – Ele retrucou.
A mulher concordou com a cabeça e ele deixou a tenda, satisfeito consigo mesmo.
Ele foi até o seu cavalo e acariciou seu focinho.
Um barulho na floresta o fez ficar alerta.
- Olá? - Ele chamou.
Às vezes, o pai dele mandava guardas procurá-lo. Ficarem perto. Um quase o levou para casa uma vez, mas ele conseguira fugir. John Martell era um homem de bastante influência em Londres.
Nikolai olhou por entre as árvores. Não havia nada lá.
Ele soltou uma risada nervosa, dando tapinhas no pescoço de Octavius.
- Medo de ser pego. – Ele justificou sua própria desconfiança. – Agora vamos, meu amigo. Creio que já nos espera.
Nikolai tirou o relógio do bolso, checando as horas.
2:35. Já era hora.
Um barulho de galho sendo partido fez Nikolai arregalar os olhos, olhando de volta para as árvores.
Um rosnar hostil fez os pelos da sua nuca se arrepiarem por completo.
Nikolai sentia o corpo rígido. Não podia se mexer.
Foi a visão de dois olhos, quase brancos e de pupila dilatada, que o fizeram retomar o controle e correr.
Ele montou em Octavius, mas nunca pôde deixar aquela atmosfera perigosa.
A besta o atacou, cravando os dentes pontudos no seu pescoço. Nikolai gritou, sentindo o ar em suas costas e logo após o chão duro. O oxigênio deixou seus pulmões com o impacto da queda e, por um breve momento, ele teve um deslumbre da besta.
Parecia ter pelo menos dois metros de altura. O corpo era humano, mas a cabeça era disforme e grotesca, com uma bocarra que parecia ter mais de 50 dentes pontudos. Os dedos eram longos e finos, e deles saíam garras negras como a escuridão do céu que pairava ao alto das suas cabeças. Os olhos eram profundos, grandes e maldosos, e o focinho era afilado.
Uma cabeça de lobo em um corpo de homem. Nikolai deveria ter ouvido o aviso da cigana.
Mas isso já não importava. Nikolai podia sentir o delicioso torpor da morte tocar sua consciência. Estava terminado agora. Ele estava em paz.
Oh, Nikolai. Mal sabia o pobre garoto que se arrependeria amargamente desse último esperançoso pensamento.



Capítulo 2

Nikolai tinha a plena certeza de que não estava morto.
Mas a dor que sentia o fazia querer estar.
Ele queria que o alívio tocasse seu coração, queria que tudo se desligasse.
Ele sentiu um líquido bater em seu machucado e ele gritou de dor.
Mas Nikolai, apesar da dor, se sentiu protegido. “Estou aqui, Nikolai! Estou aqui. Aguente firme.”
.
A voz da irmã trouxe a tranquilidade de que precisava.
Mas a voz dela foi desaparecendo aos poucos, e ele se sentiu como se estivesse quicando dentro do próprio crânio, lutando para sair, lutando para escapar de um mal tão antigo que lhe era quase desconhecido.
Passou-se essa agonia, e Nikolai respirou fundo.
- Obrigada, Dr. Eckheart. – Ele ouviu a voz da irmã chegar lenta e deliciosamente aos seus ouvidos.
- Victor, . – Ele ouviu uma voz desconhecida.
Nikolai escutou rir. Uma risada que ele nunca havia escutado sair de seus lábios.
- Victor. – Ela respondeu.
Nikolai ouviu a porta se fechar e finalmente abriu os olhos.
Estava sozinho. Perfeitamente sozinho.
Ele voltou a fechar os olhos. Estava sozinho naquele quarto, mas mesmo assim ainda sentia uma presença estranha, como se não estivesse sozinho no próprio corpo, na própria mente.
Nikolai respirou fundo, e a cara da besta veio em sua memória. Olhos profundos e quase brancos, pelos negros por toda ela, focinho alongado, bocarra enorme e cheias de presas dilaceradoras.
Ele levou as mãos ao rosto. Era só um lobo. Um lobo grande, mas apenas um lobo. O apelo da cigana o havia influenciado fazendo com que, ao cair de Octavius e bater as costas no chão, ficasse atordoado e visse aquele monstro.
Claro. Ele agora não sabia o porquê da preocupação de outrora.
- Nik? - Ele ouviu a voz de e retirou as mãos do rosto, vendo-a.
Parecia ter envelhecido 10 anos.
- O que...
- Shhhhhh, não fale. Descanse. – Ela o interrompeu, sentando ao seu lado na cama. – Graças a Deus que acordou.
- Por quanto tempo fiquei desacordado? - Ele perguntou, temendo a resposta.
- 5 dias. – Ela respondeu.
- E há quanto tempo não dormes?
- … 5 dias. – corou. – Não pude deixá-lo sozinho.
segurou as mãos do irmão atordoado.
- Temi que nunca mais acordasse. – Ela falou, por fim.
- Então nunca mais dormirias? - Nikolai beijou-lhe as mãos. – Ande, vá para a cama. Estou bem.
- Não, eu fico.
- Martell. – Ele repreendeu-a. – Ande logo. Estão começando a aparecer olheiras em tua face, não quero ameaçar sua busca pelo esposo perfeito.
riu e deu um leve tapa no ombro bom do irmão.
- Você é insuportável. Mais tarde virei para ver se está bem. – Ela disse, e ele concordou.
se retirou do quarto.
Nikolai tocou o local da ferida, se arrependendo em seguida. O leve toque o fez grunhir de dor.
Ele suspirou. Aquele machucado nunca sararia por completo, e defeitos não eram tolerados na sociedade inglesa.
Alguns minutos depois, alguém bateu à porta.
- Entre. – Nikolai permitiu, e o pai assim o fez.
- Vejo que acordou. – Ele andou até a ponta da cama de Nikolai. Nenhum abraço, nenhuma palavra calorosa. Não que ele esperasse, claro.
- Fico feliz de ver que a vista do senhor não está prejudicada com a idade avançada. – Nikolai retrucou, se arrependendo em seguida. O pai não tolerava malcriações.
Mas ele apenas sorriu de mau-grado.
John Martell mal havia feito 40 anos, mas Nikolai não perdia a chance de provocá-lo.
- Escute-me bem, seu fedelho ingrato. No que estava pensando? - Ele perguntou, fazendo Nikolai revirar os olhos. Ele já o havia xingado de coisas piores. – Por acaso lhe traz prazer arruinar o nome da sua família?
- Claro, maior prazer da minha vida miserável. – Nikolai debochou. – Vivo para isso.
- Mas é o que parece!
- John. Deixe-o. – Nikolai olhou para a porta, vendo a mãe.
Giorgiana Martell era a típica esposa inglesa.
Os cabelos eram loiros, longos e ondulados, bem penteados e brilhantes. A pele branca limpa, as vestes apropriadas. Os olhos firmes, dotados de um brilho diferente. Olhos de guerreira, Nikolai sempre achou.
- Oh, meu querido. – Ela veio até Nikolai e beijou-lhe a face. – Estive tão preocupada!
- Estou bem, mãe. – Nikolai sorriu para a mais velha. – Não se preocupe.
- Gi, temos de por algo na cabeça desse garoto...
- Isso poderá ser feito depois. Agora, querido, se não se importa, gostaria de passar um tempinho com nosso enfermo filho. – Ela disse, sentando-se ao lado de Nikolai. – Por favor.
John suspirou e concordou, pedindo licença e se retirando.
Nikolai aconchegou-se no colo da mãe. Ela começou a acariciar seus lisos e espessos cabelos negros.
- O que aconteceu, Nikolai? - Giorgiana perguntou. – Quase nos matou de susto.
- Foi só um lobo, mamãe. – Ele respondeu.
A mãe encarou o filho.
- Seu pai não está feliz. – Ela disse. – Esta cicatriz poderá prejudicar sua busca por uma esposa.
- Já disse que não quero uma esposa. – Nikolai retrucou.
Giorgiana suspirou.
- Você herdou essa teimosia de seu pai. – Ela acariciou levemente suas bochechas, voltando em seguida para seu cabelo. – Agora descanse.
Nikolai concentrou-se nos cafunés da mãe, fechando os olhos.
Quando acordou à noite, já estava com ele.
- Estás até mais jovem. As horas de sono te fizeram bem. – Ele disse.
- Como se sente? - Ela perguntou.
- Normal. – Ele respondeu. – Nem bem, nem mau.
Nikolai olhou para o céu. A noite acabara de cair, e a lua minguante sorria-lhe do céu.
Antes, olhar para a lua o agradava. Agora apenas lhe nauseava, fazendo-o lembrar da angústia pelo que passara.
- Conte-me o que aconteceu enquanto eu estava dormindo nesses 5 dias.
- Nada demais. – respondeu, e suas bochechas coraram.
- Quem é Victor? - Nikolai perguntou antes que se esquecesse.
Ela o encarou com assustados olhos verdes.
- Como você...
- Ouvi os dois.
- Estavas acordado todo esse tempo?
- Claro que não. Os ouvi quando acordei esta manhã. Mas que pergunta! Acha mesmo que fingiria estar dormindo por 5 dias, sabendo agora o quanto você, mamãe e as crianças ficaram preocupadas? Não, melhor... Acha que eu fingiria estar dormindo por 5 dias?
- Certo, desculpe-me. Não se zangue. – pediu. – Achei que...
- Por acaso fez algo indecente com esse homem aqui? Por que está tão desconfiada? - Nikolai perguntou mais que irritado. Ele não entendia o porquê de estar assim, mas agora que havia começado aquela discussão sem fundamentos não queria parar.
arfou, levando a mão ao coração. Seus olhos encheram-se de lágrimas.
- Mas é claro que não, Nikolai! O que deu em você? - Ela protestou. – Como eu poderia pensar em fazer algo com você deitado inerte em uma cama? Estive aqui cuidando de você o tempo todo e é assim que me retribui?
Nikolai não respondeu, apenas deu de ombros e abaixou a cabeça.
A face dela modificou-se, e a raiva que Nikolai tanto queria ver apareceu.
- E o que podes falar de indecência? - perguntou. – Não conheço ninguém mais indecente que você. Nikolai, o homem que foi mordido por um lobo enquanto procurava uma prostituta para aliviar-se. É assim que estás conhecido na sociedade agora.
- Pelo menos não sou conhecido como , a pequena e doce virgem que não consegue arrumar um marido para aliviá-la, tendo que fazer isso ela mesma...
Nikolai não terminou a sentença, pois o impacto da mão de contra sua pálida bochecha o fez arfar. Havia ido longe demais.
Ele levou a mão à bochecha, de olhos arregalados. O que fizera?
- ...
- Nunca, jamais me dirija a palavra outra vez. – Ela disse por fim, deixando o aposento.
Nikolai a chamou, mas ela não retornou.
Mas que grande estúpido ele havia sido. Por que falara tudo aquilo? Havia sido um impulso que ele não conseguira conter.
Nikolai agora se sentia parte do lixo e da escória da sociedade. Um estorvo inútil. Um covarde por falar com a irmã daquela maneira. Logo ela, que passara cinco dias em claro cuidando dele. E era assim que ele retribuía? Sendo um bárbaro, um selvagem?
Mas que desgraça. E se Nikolai nunca tivesse o perdão de ?
Ele deveria ir falar com ela.
Nikolai forçou o corpo para cima, sentindo uma fraqueza imensurável. Ele grunhiu, tentando a todo custo levantar.
Mas nem toda a fraqueza nem a dor pareciam querer facilitar o processo.
Nikolai finalmente conseguiu sentar-se, colocando as pernas para fora da cama.
Certo. Um impulso era tudo que ele precisava.
Nikolai empurrou o colchão da cama e grunhiu de dor, apoiando-se na cabeceira.
Ele moveu os pés, dando um passo de cada vez e se apoiando em tudo que via pela frente até chegar à porta de mogno do seu quarto.
E ela nunca estivera tão pesada.
Nikolai estava agora no corredor. Sua vista começava a ficar turva, e ele sentia o suor inundar sua fronte.
Ele sentiu o ar deixar os pulmões e seu corpo despencou no chão, inerte e pesado como um saco de batatas.
Nikolai tentou chamar alguém, mas sua voz simplesmente não saía. Ele não tinha forças para isso.
Tudo o que restou foi se render à inconsciência.



Capítulo 3

No intervalo de mais ou menos meia hora, Nikolai abriu os olhos. Podia ver o teto do corredor.
Mas que ótimo. Ninguém percebera que havia alguém semimorto no meio da casa.
Mas então ele sentiu uma presença atrás dele.
- Quem está aí? - Ele perguntou em um grunhido rouco, sentindo a garganta arranhar horrivelmente.
A presença se moveu, e uma garotinha loira de 50 cm apareceu em sua frente.
- Maddie. – Ele chamou. – O que acha de ajudar o seu belo irmão?
Céus, sua garganta estava terrível. Mal reconhecia sua própria voz, que saía estranhamente estrangulada.
Maddie apenas continuou encarando-o com os olhinhos azuis-escuros.
- Maddie, chame alguém. – Ele voltou a pedir, e sua visão escureceu novamente.
Nikolai voltou a desmaiar e, quando acordou, a luz do sol clareava o ambiente.
Viu que estava em seu quarto, em sua cama. Graças a Deus.
- Nikolai! - Ele ouviu a voz de . – Mas o que estava pensando?
Ele olhou em volta. Não estavam sós, John e sua mãe estavam lá. E um estranho homem.
- O que...
- Você rompeu a sutura do pescoço e machucou a testa! - esganiçou-se. – Por acaso está louco?
- Eu queria pedir perdão pela noite passada. – Ele começou. – Aquilo não foi apropriado. Desculpe-me. De verdade.
A expressão de suavizou-se.
Ela veio até o irmão e o abraçou, com cuidado para não esbarrar no machucado.
- Não faça aquilo de novo.
- Não irei. Prometo.
Nikolai olhou para o homem estranho com seu melhor olhar esnobe.
- Então você é o tal Victor. – Ele disse, apenas.
- Sim, sou. Como sabe? - Ele perguntou, mas não parecia surpreso. Parecia estranhamente esperançoso, para dizer a verdade.
- Bom, considerando que não me sinto quase morto e nem gostaria de confessar meus pecados, e considerando que rompi a sutura do meu adorável machucado, você só pode ser o médico.
- E como sabe meu nome?
- Seu pai, Elliott Eckheart. Você é a cara dele.
Victor sorriu levemente.
- Todo mundo diz isso. Prazer em conhecê-lo, Sir Nikolai. – Victor Eckheart estendeu a mão.
Nikolai hesitou, mas apertou a mão do médico fortemente.
- Igualmente.
- Irei precisar refazer a sutura de seu machucado. Vai doer. – Ele tirou instrumentos de trabalho da maleta marrom que carregava consigo.
- Sem problemas, Dr. Eckheart. Vá em frente. – Nikolai respondeu.
Eckheart pegou uma pinça e um vidro com algo incolor.
- Álcool. Para não infeccionar. – Ele molhou um pano e, ao menor toque no machucado, Nikolai gritou de dor, praguejando e dizendo obscenidades. e sua mãe taparam os ouvidos.
- Não podemos sedá-lo? - O pai sugeriu, e Nikolai riria se a dor não estivesse tão forte.
- Eu não aconselharia, não nesse estado. – Eckheart passou outro pano na testa de Nikolai, limpando o pequeno corte. Ardeu, mas nada comparado ao machucado do pescoço.
Ele retirou da maleta o material de sutura.
- Eu o aconselharia a segurá-lo, porém, Sir John. – Eckheart disse para ele.
John chegou perto de Nikolai e lhe lançou um olhar de censura, provavelmente pelas obscenidades que ele gritara.
- Está realmente doendo tanto assim? - Ele perguntou.
- Claro.
- Ótimo.
Nikolai sorriu para o pai. Não havia tomado aquilo como uma ofensa. Ele concordava.
Eckheart começou a suturar o ferimento.
Nikolai tentou escapar do aperto do pai. Aquilo lhe causava uma dor excruciante.
- Me solte, não aguento mais! - Ele implorou ao pai, que apenas o segurou mais forte.
- Acalme-se, já estou acabando – O médico disse. Óbvio que estava mentindo.
Vinte minutos depois, a tortura acabou. John soltou Nikolai, que virou o corpo mole para fora da cama e vomitou praticamente em cima dos sapatos do pai.
- Oh, pelo amor de Deus! - John reclamou, olhando para o estado de seus elegantes sapatos negros e do chão.
- É perfeitamente normal. – Eckheart disse. Nikolai respirava fundo, tentando controlar a náusea. – Amanhã voltarei para checar o machucado. Vamos tentar impedir que infeccione, sim?
- Obrigado, doutor Eckheart. – John apertou a mão do médico. – , leve-o até a porta.
Uma criada havia sido chamada, e ela levou os sapatos de John e limpou o chão impecavelmente.
Nikolai fechou os olhos, tentando agora esquecer toda a dor que lhe fora infligida.
Ele sentiu o cheiro de rosas e sentiu o colchão afundar levemente. Soube que a mãe estava ali com ele.
Ele sentiu uma superfície gelada de encontro à seus lábios.
- Beba. – Ele ouviu sua voz. – Para se hidratar. Obrigada, Aleese.
Ele obedeceu e a água desceu facilmente pela sua garganta. A criada fez uma rápida reverência e deixou o aposento.
- Obrigado, querida mãe. – Ele agradeceu.
- Como se sente?
- Péssimo. Mamãe... Onde está Octavius?
Nikolai não ouvira nada de seu cavalo desde que acordara. Passara cinco dias desacordado, quem estava cuidando dele? Era sua responsabilidade, John sempre o advertia disso.
Giorgiana suspirou, segurando as mãos geladas do filho.
- Oh, querido... O lobo o matou.
Apenas. A mãe não fizera rodeios, nem mentira.
- O que... Que fizeram com o corpo? - Nikolai sentiu a garganta arranhar, embora houvesse bebido água momentos atrás.
- Seu pai mandou enterrar o resto que sobrou dele. Sinto muito, querido. Vou lhe deixar sozinho agora.
Giorgiana inclinou-se e beijou-lhe delicadamente na testa, deixando o aposento.
Nikolai apertou os olhos, sentindo-os úmidos. Octavius havia sido seu primeiro cavalo, ele o havia ganhado quando estava entrando para a adolescência. Nikolai aprendera a montar nele.
Ele olhou para o céu, sentindo-se angustiado. Como um lobo podia fazer tanto estrago?
A porta se abriu e entrou com uma bandeja.
- A criada lhe fez uma sopa. – Ela disse, sentando ao lado dele na cama. – Eu disse que te alimentaria.
Nikolai observou o caldo grosso e amarelo pálido. Seu estômago deu sinal de vida. Estava faminto.
- Parece deliciosa. Obrigado. – Ele disse.
sorriu e sentou ao seu lado, alimentando-o. A sopa de milho estava realmente apetitosa.
- Ainda está doendo? - Ela perguntou.
- Latejando. – Nikolai respondeu. – Mas tudo bem. Ficarei bem.
- Espero. No dia em que você chegou, fiquei com tanto medo...
- Medo de quê? - Nikolai sorriu para ela, tirando uma mecha de cabelo do seu rosto. – Eu não vou a lugar nenhum, irmã. Pelo menos não agora. Pode ter certeza.
retribuiu o sorriso. Ele sabia que ela acreditava.
- Jura? - Ela perguntou.
- De coração. – Nikolai cruzou o coração com o dedo mindinho. – Agora vá. Agradeço tudo que fez, mas preciso descansar. Meus olhos estão pesados.
concordou com a cabeça e beijou-lhe a bochecha, retirando-se.
Nikolai fechou os olhos, sentindo-se realmente esgotado. Talvez uma noite de sono o renovasse.

Ele acordou apenas pela manhã, ouvindo vozes do lado de fora de seu quarto.
- Irei vê-lo agora. – Ele ouviu a voz do médico bossudo e entrou no quarto junto com ele.
- Oh, já está acordado. – Ela disse. – Doutor Eckheart veio ver seu machucado.
- Claro. – Nikolai afastou os lençóis. – Por favor.
O médico se aproximou, colocando sua maleta em cima do criado-mudo.
- Mas... Assombroso! - Eckheart tocou a região em volta do machucado.
- Oh não, o que houve? - choramingou, vindo para perto do irmão.
- Ele está quase curado! - Eckheart respondeu. – Nem precisa mais das suturas.
Eckheart voltou a apalpar a região.
- Extraordinário. Parece-me que fez algo certo, Sir Nikolai. – Ele disse, pensativo. Em seguida, pegou uma pequena tesoura de metal e uma pinça prateada. – Vamos retirar essas suturas.
Ele cortou e puxou as suturas com a pinça, fazendo Nikolai sentir um extremo desconforto.
Mas apenas isso. Nada de dor ou agonia, como no dia anterior.
o observava com um olhar feliz no rostinho.
- Viu? Eu disse que iria ficar tudo bem. – Ele falou, sorrindo para ela.
Ela apenas concordou, pedindo licença e retirando-se do quarto. Com certeza iria dividir a boa nova com a mãe.
Eckheart começou a guardar os equipamentos.
- Então... O que fez para conseguir isso? - Ele perguntou
. - Como assim? - Nikolai lhe lançou um olhar de dúvida.
- Ninguém cicatriza tão rápido. – Ele disse. – Como conseguiu?
Nikolai sorriu presunçosamente para o médico.
- Não conte a ninguém, mas... Fiz um pacto com o demônio. – Ele sussurrou com a mão no rosto, abafando as palavras.
Victor Eckheart riu com escárnio.
- O quê? Não acredita no Mal, doutor? - Nikolai perguntou.
- Acredito na ciência, Sir Nikolai. – Ele disse, de repente aparentando ser mais velho do que realmente era.
- E quanto a ciganas? Acreditaria se eu dissesse que uma velha cigana me curou com bruxaria? Ou não acredita em magia também?
Eckheart fechou a maleta.
- Magia é só uma ciência que não conseguimos compreender. – Ele sorriu. – Irei agora. Tenha um bom dia, Sir Nikolai. Voltarei semana que vem. Farei uma viagem para o campo.
Nikolai concordou com a cabeça e se despediu educadamente do médico, pensando em suas últimas palavras. Era uma frase interessante. O médico era um homem muito misterioso, que segredos será que escondia debaixo daquela cara de bom moço?
Nikolai acabara de decidir que não gostava dele, não importa o quanto ele o havia ajudado. Havia algo nele que o irritava. Seus modos, sua voz, sua extrema educação. Rapaz estranho.
Não queria vê-lo perto de sua irmã. Ela merecia alguém melhor, e ele parecia tão sério.
não conhecia a seriedade sisuda dos homens. Não merecia se casar com um sujeito lacônico como aquele. Não mesmo.



Capítulo 4

Duas semanas depois daquela breve cena, Nikolai já estava totalmente curado. Todos haviam ficado abismados com sua recuperação repentina, e os boatos já começavam. Seria um pacto? Uma bruxaria? Ele havia se tornado um lobisomem? Ou será que o garoto apenas tivera sorte?
Nikolai não sabia, mas gostava da última opção. E de estar de volta à ativa.
- Temos um baile para ir hoje. – John disse enquanto almoçavam. – Estejam prontos e na sala de estar às 20:00 em ponto.
- Sim, senhor. – Todos disseram. Nikolai quase enfiou a cara no prato de carneiro assado. Odiava aquelas cerimônias, aquelas formalidades estúpidas. - Garoto, é melhor você ir preparado. Será o assunto da noite, e não quero nada menos do que perfeita educação de sua parte. – John o encarou, a voz firme.
Nikolai revirou os olhos.
- Ou... Eu poderia não ir. – Ele disse num tom casual. – Sem garoto, sem boatos. Sem boatos, sem má educação.
- Fora de questão. A família toda foi convidada. – John respondeu, levando uma garfada aos lábios.
Nikolai resolveu não discutir. Seria desgastante, e provavelmente não daria em nada.

Algumas horas depois, Nikolai estava parado na frente do espelho, observando suas vestes caras e seus cabelos arrumados, penteados para trás.
Ele odiava seus cabelos puxados para trás. Mostravam demais seu rosto.
Não que Nikolai fosse feio e ele definitivamente não achava que era.
Mas o fato do contraste que seu cabelo excessivamente negro com sua pele branca e seus olhos claros faziam era ainda mais belo e não poderia ser ignorado.
Nikolai puxou os cabelos para frente. Que se danasse o pai. Ele gostava assim, e assim ficaria.
Batidas na porta.
- Entre. – Ele consentiu, e assim o fez.
Nikolai deixou o queixo cair. A irmã estava mais do que bela.
O vestido era branco com um espartilho feito de crepe de seda que mostrava parte das costas. Seus cabelos caíam como cascatas pelos ombros e chegavam até a cintura marcada pelo vestido.
- Você está esplêndida. – Nikolai disse. sorriu e agradeceu.
- Seu cabelo... Papai não deixará sair assim. – Ela foi até ele e tentou colocar os cabelos dele para trás.
Nikolai segurou os pulsos da irmã e a puxou para perto num impulso estranho.
bateu forte de encontro com seu peitoral, fazendo os dois soltarem o fôlego de vez.
estava tão perto de Nikolai que ele sentia sua respiração bater de encontro com seus lábios.
Nikolai engoliu em seco, soltando a irmã e se afastando.
- Deixe assim. Prefiro.
Ela concordou e Nikolai observou as faces coradas da irmã. Ele entendia, já que sentia a própria face queimar.
- Já está pronta. Espere lá embaixo, irei terminar de me arrumar.
concordou, pediu licença e saiu depressa do quarto.
Mas o que Nikolai havia feito?
Ou quase feito, considerando que suas calças pareciam muito mais apertadas do que deviam ser.
Ele deixou o cabelo como queria e desceu as escadas com um ar envergonhado e culpado.
- Ah, aí está você. Vamos logo. – John disse. – Gi, só falta você!
A bela matriarca dos Martell desceu as escadas.
- John, não se apressa uma dama. Eu nunca estou atrasada, as outras pessoas que estão adiantadas. – Giorgiana brincou, fazendo John sorrir de leve.
- Estás linda como sempre. – John disse a ela.
Nikolai olhou para , que estava de cabeça baixa. Parecia querer evitar o olhar dele.
Ele mordeu o lábio inferior nervosamente. Aquilo era sério, ele realmente sentira algum tipo de desejo pela irmã?
Alfred veio até eles.
- A carruagem está pronta. – Ele avisou. – Tenham todos uma ótima noite.
- Obrigado, Alfred. – Todos agradeceram e John os guiou até a carruagem.
John ajudou Gi e a subirem, e Nikolai carregou Maddie e Peter, colocando-os dentro. Ele e John então entraram, tomando seus lugares.
sentou o mais longe possível de Nikolai, o próprio não deixou de perceber isso.
Felizmente, Maddie estendeu os curtos bracinhos para ele, tirando assim sua atenção de . Nikolai pegou a irmã no colo e a entreteu até eles chegarem à grande mansão.
Era uma mansão que há muito fora abandonada, mas que agora havia sido perfeitamente reformada e era bela de se ver.
A carruagem parou e todos desceram, adentrando a mansão e sendo conduzidos até o salão por um serviçal.
O lugar era grande e de bom gosto. Tons de creme e marfim decoravam as paredes, adornadas por pinturas de natureza morta e de damas semi-nuas. Colunas gregas se estendiam pelo lugar, delicadas como pérolas.
- A reforma fez jus à beleza natural do lugar. – John comentou e Nikolai não pode discordar.
Quase toda a classe burguesa da cidade havia sido convidada. avistou Christine, sua amiga de longa data, e pediu licença a John, indo conversar com ela.
- Pode me dizer que horas são? - Nikolai perguntou a John.
O pai checou o relógio de bolso.
- São 20:45.
- E a que horas vamos embora?
John revirou os olhos para Nikolai e saiu de perto dele, indo falar com James Holmes.
Nikolai olhou em volta. Giorgiana já estava enturmada com Imelda Holmes, com Maddie e Peter a tiracolo. com Christine, John com James...
É. Ele estava oficialmente sozinho.
Nikolai se dirigiu a uma das cadeiras luxuosa do salão e se sentou, pegando um livro de bolso e lendo algumas palavras.
- Se importa se eu me sentar aqui? - Ele ouviu uma voz desconhecida e olhou para cima, vendo um rapaz que não aparentava ter mais de dezenove anos apontar a cadeira ao seu lado. Ele tinha uma enorme cicatriz no rosto, que ia do topo de sua sobrancelha direita até três dedos abaixo de seu olho.
- À vontade. – Nikolai respondeu, e o homem praticamente despencou na cadeira.
O rapaz virou a cabeça de lado e aproximou o rosto do livro de Nikolai, sorrindo ao ver o título.
- Shakespeare, uh? Gosta dos clássicos? - Ele perguntou.
Nikolai revirou os olhos discretamente. Será que o homem não via que ele queria ficar sozinho?
- Sim, gosto. – Ele respondeu sem tirar os olhos do livro.
- Eric Ives. – O estranho se apresentou, estendendo a mão para Nikolai e bloqueando sua visão do livro.
Nikolai respirou fundo. Aquela raiva intensa estava voltando e agora parecia ter uma razão para se alastrar em seu peito.
- Nikolai Martell. – Ele apertou a mão do homem fortemente, esperando realmente quebrá-la.
Mas Eric não pareceu perceber. Ele apenas abriu um largo sorriso.
- O que está achando do baile? - Ele perguntou.
Nikolai levantou os olhos do livro por um momento e olhou em volta. Uma banda tocava Mozart, Beethoven, Chopin e adjacentes. As pessoas conversavam em pequenos grupos ou dançavam valsa no meio do salão.
- Entediante e numa mesmice insuportável. – Nikolai voltou os olhos para o livro, suspirando. – Eu digo que o anfitrião não terá menos de setenta anos.
O rapaz soltou uma gargalhada espalhafatosa, que atraiu alguns olhares para eles.
- Oh, não. Presumo que ele apenas goste de uma bela antiguidade teatral. – Eric falou, fazendo Nikolai rir baixo. – Não gostas de antiguidade?
- Eu não vivo no passado. O presente já é ruim o bastante. Prefiro focar-me no futuro. – Nikolai respondeu.
- Curioso você dizer isso e se agarrar tão ferozmente a um livro de Shakespeare, rapaz. – Eric disse, fazendo Nikolai sorrir de lado. – Oh, olhe. Parece que finalmente irão apresentar o anfitrião.
Nikolai fechou o livro e o guardou no bolso, resmungando algo que nem ele mesmo compreendeu. Ele observou um homem negro subir as escadas, chamando a atenção de todos.
- Chamo agora Eric Ives, proprietário da Mansão Moonrise e anfitrião do baile de hoje.
Eric se levantou do lado de um atônito Nikolai, dando-lhe tapinhas nas costas e indo até o homem ao som das palmas de todos.
- Obrigado, Solomon. Boa noite a todos, meu nome é Eric Ives. Eu estive viajando por um bom tempo, mas a Inglaterra não saiu de mim. Nada me completa mais que Londres, onde nasci...
Nikolai deu uma boa olhada no sujeito. Cabelos castanhos separados no meio da testa, olhos verdes como uma esmeralda. Sua cicatriz causava um bom choque nos convidados, todos comentavam baixinho.
Nikolai deveria tê-lo avaliado ao invés de ler aquele livro. Perceberia de cara que ele era o anfitrião. Mas que asneira ele havia falado.
- … Mas é só isso. Apenas desejo que se divirtam essa noite. É um prazer conhecê-los.
Mais palmas. Eric desceu as escadas e foi conversar com umas senhoras.
Nikolai levantou-se e foi até .
- Você sabia que ele era o anfitrião? - Ele perguntou, puxando-a levemente pelo braço. Ela se afastou um pouco, com um semblante desconfiado.
- Não. Por quê? - Ele perguntou.
Nikolai contou o que havia feito e deu uma risada baixa.
- Ele provavelmente te odeia agora. – Ela disse, rindo novamente. – Não conte para papai. Ele não irá gostar.
- Não contarei.
Era bom que a irmã não estivesse totalmente estranha com ele.
- Nikolai, não vai me apresentar sua amiga? - Nikolai ouviu a voz de Eric Ives e se virou, vendo o homem.
Agora podia ver a cicatriz claramente. Não era grande coisa, mas mesmo assim não passaria batido pelos comentários maldosos.
- Ela é minha irmã. – Ele retrucou, forçando-se a afastar o olhar. Não era educado.
- Oh, perdão. Agora que mencionou, vejo uma certa semelhança.
- , este é Eric Ives. Eric, esta é minha irmã, Martell.
Eric tomou a mão dela e se curvou, beijando-a.
- É um prazer.
Nikolai sentiu uma queimação no estômago e, por um segundo, quis arrancar a mão do sujeito.
- Prazer, Senhor Ives.
- Oh não, por favor. Me chame de Eric ou Scar. – Ele disse, sorrindo e tocando de leve a cicatriz.
- Não posso imaginar o porquê. – Nikolai ironizou, levando uma cotovelada de nas costelas como sinal de reprovação.
Scar soltou uma risadinha.
- Nikolai... Admiro sua petulância. E sua honestidade. – Ele deu um tapinha no ombro de Nikolai. – Venha amanhã pela tarde. Tomaremos um chá, discutiremos assuntos abstratos.
Nikolai sorriu.
- Claro. Por que não?
Scar retribuiu o sorriso.
- Srta. , dê-nos o prazer de sua presença. Sua beleza fresca como uma brisa de primavera animará nossa tarde. E poderá conhecer minha irmã, que chegará de viagem amanhã junto com meu outro irmão.
corou com o elogio, e concordou timidamente com a cabeça.
- Maravilhoso. Devo dar atenção aos meus outros convidados agora. Vejo-os amanhã.
Na volta para casa, Nikolai pensou em tudo que havia acontecido naquela noite. Scar, apesar de ser um pouco irritante e excêntrico, parecia ser uma boa pessoa.
E o que ele faria quanto a ? E o seu recente... Problema com ela?
Quando chegassem em casa, ele a puxaria para conversar. Não queria que um clima estranho pairasse entre os dois.
A carruagem parou e Nikolai percebeu que Maddie havia adormecido em seus braços. Ele sorriu e carregou a frágil irmã menor até seu quarto, deitando-a na cama, retirando seus sapatinhos minúsculos e cobrindo-a.
- Boa noite, irmãzinha. – Ele sussurrou, beijando sua testa com esmero e saindo.
Ele foi até o quarto de e bateu na porta.
- Entre. – Ele ouviu sua voz permitir e girou a maçaneta dourada, adentrando o aposento.
Ela estava sentada de frente para a penteadeira, penteando os longos cabelos. Ela o avaliou pelo espelho.
- Sim? - Ela escovou a parte de trás do cabelo.
- Permita-me. – Ele pegou a escova da mão dela e puxou seus cachos para trás, passando a escova delicadamente por eles. – Eu gostaria de pedir desculpas pela minha conduta de hoje mais cedo.
franziu a testa.
- O xingamento ao baile do Senhor Ives? Acho que deveria pedir a ele...
- O quê? Não! No meu quarto...
- Não sei do que está falando, Nik. – Ela respondeu e sorriu para o irmão. – Está tudo bem? Bebeste demais?
Então ela havia decidido fingir que nada havia acontecido. Nikolai abaixou a cabeça. Iria fazer o mesmo.
Ele pigarreou e abriu um belo sorriso para ela.
- Devo ter bebido. Mas que estranho. Perdoe-me.
concordou com a cabeça e ele concordou penteando seus cabelos.
Seus olhos caíram sobre o colo da irmã, focando-se em seu casto decote. Ele pôde ver claramente a aorta subir até o pescoço da garota.
E, de repente, ele entrou em um frenesi.
Sua vista ficou turva e ele piscou com força.
Ouviu um chiado estrangulado e, quando abriu os olhos, viu que estava com uma mão espalmada no colo da irmã e a outra segurando seu delicado pescoço, como se estivesse prestes a quebrá-lo.
Mas o que ele fez foi diferente.
Ele abaixou um pouco a manga de seu vestido, expondo seu delicado e alvo ombro. Acariciou aquela área com o polegar, sentindo que a irmã prendera a respiração.
- Não faça isso. – Ela por fim falou, com a voz embargada. – Não me toque desse jeito.
- De que jeito? - Ele perguntou.
levantou-se e o encarou de frente, com os olhos marejados e vermelhos.
- Como se eu fosse uma de suas prostitutas.
Nikolai se afastou de olhos arregalados.
- Você deveria sair. Teremos um longo dia amanhã, e eu preciso descansar. Você deveria fazer o mesmo. – Ela disse.
Nikolai não respondeu, apenas deixou o aposento em passos largos, indo para o seu próprio e fechando a porta.
O que estava acontecendo com ele?
Aquilo não era certo. era sua irmã.
Ele se trocou, vestindo a roupa de dormir e deitando na cama.



Capítulo 5

Pela manhã, Judith veio despertar Nikolai, abrindo as cortinas de seu quarto e deixando a luz entrar.
Ele franziu a testa por conta da claridade.
- Que horas são? - Ele perguntou à serva.
- 9 da manhã, senhor – Ela respondeu.
Nikolai sentiu a raiva tomar seu peito.
- Judith, eu disse para me acordar às 11h, não às 9h.
Ele percebeu o ar confuso da criada.
- Mas... Sir John...
A porta se abriu e o dito cujo entrou.
- Deixe-nos, Judith.
A jovem criada correu do quarto como o diabo corre da cruz.
- O que quer... Senhor – Nikolai disse a última palavra com asco nos olhos.
John deu um sorriso que não chegou aos seus olhos gélidos.
- disse que Eric Ives os convidou para passar a tarde em sua casa.
Nikolai levantou-se da cama.
- É mesmo? - Ele perguntou, indo até o gomil que a empregada havia deixado e lavando o rosto, voltando em seguida a atenção para John. – Ainda não entendo o motivo de ter me acordado tão cedo.
- Não há um. Só precisava conversar com você.
Nikolai revirou os olhos. Típico.
- Claro. Não sei por que ainda perguntei – Nikolai sentou na cama. – O que quer?
John sentou-se na poltrona Luís XIV.
- Você não tem nem noção, não é?
Nikolai suspirou e deitou-se.
- E lá vamos nós...
- Você pelo menos sabe quem é o irmão dele? - Nikolai suspirou, irritando John profundamente. – Pelo menos sabe que ele tem um irmão?
- Ele mencionou, John. Que tal irmos direto ao ponto? - Nikolai pediu com impaciência.
John revirou os olhos.
- O irmão dele é Ethan Ives.
Nikolai esperou um momento de epifania. Ele não chegou.
- Certo... Parabéns a ele.
- Você não sabe quem ele é, não é? Não sei por que ainda me incomodo.
- Quem é ele, John? - Nikolai perguntou com a voz transbordando tédio.
- Ele está voltando da guerra.
O momento de epifania finalmente atingiu Nikolai, que piscou surpreso.
- Ele é aquele General que comandou as tropas...
- Exatamente.
Nikolai deu créditos ao homem. Não devia ser fácil ser tão bem sucedido ao comandar um exército. O rapaz havia ganhado mais condecorações e medalhas que Nikolai podia contar.
- E o que eu tenho com isso? Por acaso planeja me casar com ele? - Nikolai zombou. John se levantou e ele já sabia o que estava por vir.
O tapa fez Nikolai cair de costas na cama. Ele sentiu uma dor aguda no lábio inferior e em seguida gosto de sangue.
- Você pode não gostar de mim, menininho cruel. Mas ainda sou seu pai e você me deve respeito.
Nikolai permaneceu caído na cama, sentindo uma fina linha de sangue escorrer pelo seu queixo.
- Não é você quem eu quero casar. É sua irmã.
Nikolai sentiu as entranhas ferverem. Ele voltou a sentar.
- Ela está apaixonada pelo médico. Nunca irá querer casar com o tal General.
- Você esquece que ela não tem o que querer. Tem apenas que cumprir seu dever para com a família...
- Pare de tratá-la como se fosse uma mercadoria...
Outro tapa. Toda vez que o pai batia, o anel com o brasão da família rasgava-lhe a pele. Desta vez havia sido a pele por cima do osso da bochecha.
- Eu peço que não me interrompa. – Ele pediu com uma calma invejável.
Nikolai observou o anel de ouro, sentindo ódio do pai. Ele voltou a sentar-se na cama, agora com um pouco mais de dificuldade.
- Prossiga, John.
Ele ajeitou as roupas.
- Presumo que tenha entendido o recado. Aproxime sua irmã do General. É um bem que você faz à família.
John saiu, fechando a porta.
Nikolai sentia o rosto latejar, e foi até o espelho para avaliar a situação.
Deplorável. O sangue havia sujado sua roupa de dormir. A pele da bochecha exibia um corte horroroso e o lábio estava começando a inchar.
Nikolai suspirou. Já havia sido pior.
Batidas na porta.
- Nikolai? - Ele ouviu a doce voz da irmã.
- Vá embora. Estou me trocando. – Ele mentiu.
- Mentira, acabo de ver papai sair daqui.
- Estou agora. Falo sério, se entrar irá me ver nu. – Ele tirou a camisa das vestes de dormir.
- Oh, francamente. – abriu a porta e encarou o rosto inexpressivo e ensanguentado do irmão.
Seus olhos imediatamente encheram-se de lágrimas, e ela levou as mãos ao rosto, cobrindo o nariz e os lábios em uma expressão de puro espanto.
- Oh, por favor. – Ele revirou os olhos. – Não me diga que vai chorar.
Ela fechou a porta atrás de si e foi até o irmão, abraçando-o.
- Não me abrace. Estou sujo de sangue. Irá manchar seu vestido...
- Eu não poderia me importar menos pelo meu vestido. – Ela disse, ainda abraçando-o. – Respondeu ao papai novamente? Mas não sabe o que acontece...
- Se veio me julgar, não preciso disso agora. Pode ir. – Ele apontou a porta.
suspirou e foi até o criado-mudo, tirando uma caixinha de lá.
- Lave o rosto.
Nikolai obedeceu, tirando todo o sangue seco.
foi até ele, com um pano molhado com álcool.
Ela passou no machucado e Nikolai serrou o maxilar por conta da dor.
- Vejo que aprendeu alguns truques com o seu amado doutor. – Ele alfinetou. Ele sempre limpava seus machucados sozinhos.
fez um pouco mais de pressão do que o necessário no corte da bochecha e Nikolai grunhiu, segurando seu pulso.
- Vai mesmo me irritar quando me encontro numa posição que pode causar-lhe dor? - Ela perguntou, com um olhar afiado que Nikolai nunca havia visto nela.
- Está começando a ficar parecida comigo, irmã. – Ele soltou seu pulso e deixou-a continuar seu trabalho. Ele viu um sorriso brincar em seus lábios, mas ela não respondeu ao seu comentário.
Alguns minutos depois, ela se afastou do irmão.
- Prontinho.
Nikolai olhou no espelho.
- Bem melhor. Obrigado.
Ela acenou com a cabeça e saiu do quarto, deixando Nikolai sozinho.
Ele se arrumou para sair e desceu para comer o desejum, que acontecia pontualmente às 10:00 todos os dias.
- O que houve com seu rosto? - Giorgiana perguntou.
- Por que não pergunta para seu adorável marido? Tenho certeza de que ele saberá a resposta – Nikolai sentou-se à mesa. - Bom dia à todos.
O clima estava tenso. John chegou em seguida, sentando-se como se nada houvesse acontecido.
- Bom dia. – Ele cumprimentou.
Todos continuaram apreciando a refeição em silêncio, até que Nikolai não aguentou mais.
Ele se levantou e pegou uma maçã da cesta de frutas.
- Com licença.
- Nikolai, sente-se.
Ele virou-se para John.
- Irei comer lá fora.
- Mandei sentar.
- Não.
John tirou o guardanapo do colo e jogou-o na mesa.
- Você não quer que eu me levante. Agora faça o que eu digo.
- John...
- Não, Gi! Esse menino tem que ter limites! - Ele disse. – Garoto. Agora.
Giorgiana olhou para o filho com os olhos verdes suplicantes.
- Querido, por favor...
- POR QUE VOCÊ FAZ TANTA QUESTÃO DE EU ESTAR AQUI? - Nikolai gritou, apontando para John. – Se você pudesse escolher, eu nem seria seu filho.
- Isso não é verdade.
- Claro que é! - Ele gritou novamente, sentindo um nó na garganta. – Nunca, NUNCA obtive nenhuma demonstração de afeto sua. Observo você com o Peter, com a Madeleine, com a . Mas comigo? Sempre foi diferente. Alfred foi mais um pai para mim do que você. Agora me responda, John. O que eu te fiz?
John não respondeu, apenas encarava Nikolai, impassível.
- Não vai dizer nada, papai? Vamos lá. Diga algo em sua defesa. – John permaneceu calado. – Não vai dizer nada, não é? Porque sabe que estou certo.
- Mas você é mesmo um menininho ingrato! - John falou com o maxilar serrado, levantando-se devagar. – Eu te dei tudo, garoto! Abrigo, educação, alimentação...
- Mas faltou uma coisa, papai. – Ele gritou. – Amor paterno! Coisa que, de você, não recebi nem um pouco! Já pensou em como me sinto?
Giorgiana já chorava na mesa. mantinha a cabeça baixa e Peter segurava os ouvidos de Maddie, impedindo-a de ouvir a discussão.
John deu as costas à mesa, se afastando.
- Não vai terminar sua refeição, amoroso pai? - Nikolai perguntou.
- Perdi a fome. – Ele disse, subindo as escadas.
Nikolai foi até a mãe, que ainda chorava. Ele a abraçou.
- Perdoe-me por atrapalhar a refeição, mãe. Por favor, não chore. – Ele pediu, beijando-lhe a face.
Giorgiana levantou-se da mesa e subiu as escadas atrás do marido.
Nikolai suspirou e virou-se para e os outros irmãos. Peter já não segurava os ouvidos de Maddie, mas ele via o rostinho da irmã brilhando de lágrimas.
Nikolai não disse nada, apenas se ajoelhou e abriu os braços para os pequenos, que correram para abraçá-lo.
- Você vai embora, Nik? - Peter perguntou. – Vai nos deixar?
- Nunca. Nunca irei deixá-los. – Ele respondeu e limpou as lágrimas das bochechas de Maddie. – Está tudo bem agora, irmãzinha. Não chore.
Ele olhou para , que encarava a cena de olhos marejados. Ele estendeu o braço na direção dela e se juntou ao abraço.
- Está tudo bem. – Nikolai dizia, repetindo como se fosse um mantra.

Algumas horas depois, a carruagem já estava pronta para e Nikolai.
Ele a ajudou a subir e entrou em seguida, batendo no teto para avisar ao cocheiro para seguir em frente. A carruagem começou a se movimentar devagar, como se houvesse acabado de acordar.
No caminho, ele e não trocaram uma só palavra. O silêncio constrangedor só serviu para irritar mais Nikolai.
Vinte minutos depois, lá estavam eles na mansão de Eric Ives.
Solomon, aparentemente o mordomo dos Ives, os guiou para a sala de estar do lugar.
- Ah, Nikolai! - Eric se levantou, estendendo a mão para ele. Nikolai apertou-a. – E a bela Srta. Martell.
Eric beijou a mão de de forma cortês.
Nikolai observou o belo cômodo. As paredes adornadas por pinturas ricas em detalhes. O teto esculpido com formas greco-romanas. Os móveis eram simples, mas marcantes, de uma madeira escura e brilhante.
- Gostou? - Eric perguntou a Nikolai, que olhava debilmente para os lados.
- Oh, sim. – Ele disse, por fim. – Muito bonito.
- Solomon, peça para Lena trazer o chá. – Eric ordenou.
Solomon fez uma leve reverência e deixou o aposento.
Eric deu um sorriso caloroso para eles.
Se ele havia notado algo sobre o rosto machucado de Nikolai, não comentou. Bom, discrição devia ser algo que ele aprendera a ter, depois daquela imensa cicatriz. Nikolai estava se mordendo para perguntar o que havia feito tal sério machucado, mas algo dizia que não perguntasse agora, que esperasse. Eric o contaria na hora certa.
- Meus irmãos chegam hoje de viagem. Eles vão adorar conhecê-los. – Eric disse, sorrindo. – Ethan está chegando de Nottinghan, e Evelyn de Paris.
- Ethan Ives? - perguntou. – O General?
Eric soltou uma risada lasciva.
- O próprio.
- Como você o conhece? - Nikolai perguntou, atônito.
- Como você NÃO o conhece? Foi assunto de primeira página de jornais por meses.
- Eu não leio jornais. Odeio sensacionalismo.
- É questão de ser informado, de não cometer gafes. Exatamente como você está fazendo agora. – retrucou.
Nikolai inflou o peito para responder.
- Ah, o chá. – Eric disse, com certeza tentando disfarçar o clima ruim. – E ainda trouxe biscoitinhos. Você é a melhor, Lena.
Nikolai olhou para a serviçal e deixou o queixo cair.
Era uma jovem asiática, de longos cabelos negros lisos e olhos expressivos. O espartilho que ela usava expandia seus seios, deixando-os enormes.
A bela serviçal deixou a bandeja na mesa de centro da frente dos sofás forrados com um belo veludo vermelho e se retirou.
- Chá? - Eric perguntou, guiando-os até os sofás. - Biscoitos? Vejo que ela trouxe alguns bolinhos também. Maravilhoso.
Nikolai sorriu e sentou-se no sofá, pegando um bolinho e mordendo-o devagar. Estava com fome por não ter comido o desejum, mas não queria parecer ávido demais.
serviu-se de uma xícara de chá.
- Você tem uma bela casa, Scar. – Nikolai elogiou ao terminar o bolinho.
- Muito obrigado. Mas você diz isso porque não viu o jardim. Lena!
A serviçal asiática voltou.
- Arrume o quarto da Srta. Ives. Ela chegará em breve.
- Isso já foi feito, Sir. – Ela respondeu, e sua voz suave e melodiosa era composta por um forte sotaque.
Eric sorriu, satisfeito.
- Muito bem. Obrigado, isso é tudo.
Lena fez uma leve reverência e se retirou.
Eric se levantou e foi até uma tapeçaria cara, e Nikolai ouviu o tilintar de vidro.
- Eu não sei vocês... Mas este chá não está me satisfazendo. – Ele disse. Nikolai, que já estava no terceiro bolinho, levantou a cabeça para escutá-lo melhor. – E então, alguém desejaria um cálice de vinho?
- Oh, sim. Por favor. – Nikolai pediu de boca cheia, fazendo lhe lançar um olhar de censura.
Eric sorriu e encheu duas taças, dando uma para Nikolai e ficando com outra para si.
- Nikolai, sabe que papai não gosta que beba...
- Eu não poderia me importar menos com o que o pai se importa. – Nikolai respondeu, virando a taça de vinho com o olhar colado em .
- Gostariam de uma tour pela mansão? - Eric perguntou, e estendeu a mão para . – Eu tenho certeza de que achará algo de seu agrado, Srta. Martell.
Estava claro que ele estava tentando cortar o clima tenso da sala.
- Seria maravilhoso, Sr. Ives. – Ela segurou sua mão e levantou-se do sofá.
- Por favor... Eric ou Scar. Sr. Ives me faz soar tão sério.
sorriu e Eric foi acompanhado pela mansão.

sentia-se envergonhada pelo irmão mais velho. O que havia de errado com ele? Ela sabia que a briga com o pai poderia ter desencadeado aquele mal comportamento, a presunção. Mas ele não costumava guardar isso por tanto tempo. E já havia presenciado brigas piores entre os dois.
Mas aquela, de longe, havia sido a mais sentimental. E podia ver claramente a culpa no rosto do pai.
Ela percebeu então que não estava prestando atenção em nada do que Eric estava dizendo. Que rude.
- É, Srta. Martell, finalmente chegamos até a parte que será de seu agrado. – Eric disse, parando em frente a portas duplas brancas. – Não se incomoda se eu a chamar de , não é?
- Oh, claro que não. E... Julgas conhecer-me tão bem, Sr. Iv... Eric? - Ela perguntou, odiando o tom presunçoso de sua voz. Céus, estava mesmo ficando parecida com o irmão.
Mas Eric apenas sorriu.
- Dificilmente. – Ele respondeu, por fim.
retribuiu o sorriso e ele abriu as portas.
Ela teve de se apoiar na parede para não cair.
Era uma imensa biblioteca com colinas de gesso adornando as paredes, e estantes de 10 metros de altura cheias de livros. No meio da biblioteca havia uma grande mesa e poltronas em frente a uma grande e aconchegante lareira. Portas de vidro se abriam para uma grande varanda, que provavelmente dava para o jardim de trás.
não sabia para onde olhar. Estava maravilhada.
- Aquele ali é o Abelard.– Eric falou, apontando para um homem magricela que usava um terno escuro.– É só dizer o livro que quer ler a ele, e ele buscará imediatamente para você.
- Verdade? - perguntou.
- Abelard? - Eric chamou, fazendo o homem erguer o olhar para ele. – Romeu e Julieta. Shakespeare.
Abelard imediatamente se moveu, subindo uma escada no canto da sala até a metade de uma das prateleiras e apanhando um livro de capa dura azul. Ele desceu a escada e entregou o livro a Eric, fazendo uma longa reverência e voltando ao seu lugar de origem.
observou o homem. Quando não estava buscando livros, a semelhança com uma estátua era palpável. Ele realmente nem se mexia, nem mesmo o olhar.
Eric deu o livro para .
- Meus pais não me deixam ler livros de romance. – Ela disse .– Dizem que não são apropriados para jovens como eu.
achou melhor não dizer que havia lido escondido o livro que segurava. E que era o único romance que havia lido na vida.
- Bom... Sei que pode parecer má influência, mas seu pai não está aqui agora. Se gostas de romances, deverias ler. – Eric disse. – Pode vir aqui o quanto quiser para ler o que quiser.
sentiu um calor no coração. Adorava ler, mesmo os livros de costura e culinária que a mãe costumava lhe empurrar.
- Eu agradeço muito, Sr. Ives... Eric. – Ela acrescentou.
Ele sorriu, mas em seguida parou. Seu sorriso mudou para uma expressão de dúvida, e se ele fosse um cão, suas orelhas estariam levantadas como se ele houvesse farejado algo.
E tão de repente quanto havia ficado sério, Eric abriu um belo sorriso.
- Eles chegaram! - Ele disse. – Nikolai, . Eu ficaria muito feliz se vocês conhecessem meus irmãos.
- Claro, por que não?! – Nikolai respondeu, e apenas concordou. Ela sentia falta de Victor, que não tinha mais nenhuma razão para visitar sua casa, agora que Nikolai estava curado. Ele teria de ir à sua casa para pedir a permissão de seu pai para cortejá-la, como manda a regra da sociedade. E aguardava ansiosamente por isso.



Capítulo 6

Eles seguiram Eric até o saguão, onde uma mulher e um homem despejavam malas nas mãos dos servos.
- Evelyn – Eric chamou. A moça levantou os olhos de suas bagagens e sorriu para ele, pulando em seus braços.
- Senti sua falta! - Ela disse.
Do que sentiu falta foi daquele carinho fraternal entre Nikolai e ela. Parecia que a coisa mais simples desencadeava uma discussão ou uma alfinetada.
Eric trocou um abraço rápido com o irmão.
Evelyn era uma garota elegante.
Seus cabelos eram loiros e longos, com belos cachos. Seus olhos eram lindos, e a cor...
Oh meu Deus.
Eram de cores diferentes! Um dos olhos era verde como uma folha primaveril, e o outro era azul como o céu. Heterocromia era raro, mas ainda assim considerado um defeito pela sociedade.
“Bem”, pensou, “se é um defeito, é o defeito mais belo que eu já vi”.
Evelyn usava um vestido branco com uma estampa de renda composta de delicadas flores na parte de cima e seda na saia lisa. nunca havia visto aquele modelo de vestido em Londres e achou-o belíssimo. Evelyn era esguia e sua coluna era reta como a lâmina de uma espada. Seu queixo permanecia erguido como se ela tentasse equilibrar algo nele. Sua pele era pálida e suas bochechas eram graciosamente coradas.
O irmão, Ethan, era de uma beleza notável.
Os cabelos também loiros e cacheados estavam penteados elegantemente para o lado. Mas, ao mesmo tempo que parecia um penteado arrumado, os cachos eram soltos e cheios, fazendo com que parecesse que o vento os havia bagunçado naturalmente. Seus olhos eram azuis e ele tinha um bigode que o deixava ainda mais charmoso.
Ele usava um elegante uniforme de oficial, que valorizava o corpo não muito musculoso.
percebeu que não conseguia tirar os olhos do rapaz e corou, abaixando a cabeça.
- Nikolai, . Estes são meus irmãos – Eric apresentou. – Ethan, Evelyn. Nikolai e Martell.Mbr< - Prazer – Evelyn disse, sorrindo. Nikolai tomou-lhe a mão e beijou-a sedutoramente, como costumava fazer com mulheres bonitas.
- O prazer é todo meu, Srta. Ives – Ele disse, sem tirar os olhos dela. Ele então apertou a mão de Ethan, voltando imediatamente a atenção para a loira.
sentiu um leve desconforto ao ver o olhar do irmão tão centrado na moça.
Mas Ethan veio até ela, parando em sua frente. Ele era alto, pelo menos 1,85cm de altura.
- Srta. Martell. – Ele tomou sua mão delicadamente, porém não beijando-a. Aproximou os lábios o bastante para apenas sentir o roçar de seu bigode e sua respiração quente. – Encantado.
sorriu. Ele tinha olhos hipnotizantes, e o sorriso que ele lhe deu em seguida mais ainda.
- Por que não vamos todos para o jardim? Uma bela tarde de sol dessas não deve ser ignorada – Evelyn disse, puxando e Nikolai pelo braço.
Todos seguiram para a grande área do jardim de trás, que era composto pelos mais variados meios de entretenimento.
Havia os mais comuns, como um estábulo, um gazebo, um lago.
Havia alguns que nunca havia visto, como uma enorme banheira de mármore e um daqueles labirintos de plantas que ela lia sobre em livros e sempre teve vontade de ver de perto.
- O terreno dessa casa é enorme, para ter um labirinto desse tamanho – Nikolai comentou.
As paredes de folhas e raízes do labirinto aparentavam ter pelo menos 3 metros de altura. Havia quatro entradas que não tinha a menor ideia de onde chegavam.
Ethan, que estava ao seu lado, acendeu um cigarro. O cheiro forte de tabaco turco foi logo sentido.
- Do meu quarto eu consigo vê-lo até o final... Senti saudades daqui. – Ele disse, andando devagar até uma das entradas do labirinto.
Evelyn se esgueirou por trás de .
- Eric estava me contando que você adorou nossa biblioteca. – Ela sussurrou em seu ouvido. – Por que não deixamos os homens libertarem seus animais interiores e vamos para lá?
sorriu para a moça. Se achava aliviada.
Evelyn sorriu de volta.
- Tomarei isso como um sim. Vamos – Ela segurou o braço de .
- O que eles irão fazer agora? - Ela perguntou.
- Vê aquela banheira de mármore? - Evelyn apontou-a com a cabeça e concordou. – Geralmente meus irmãos e os amigos deles ficam ali bebendo vinho e falando coisas sem nexo. Adoram fazer isso.
- Oh, mas Nikolai não trouxe outra roupa, irá ficar todo molhado – disse inocentemente.
Evelyn riu.
- Eles não ficam de roupa. Ficam nus.
nunca havia visto nenhuma nudez que não fosse a sua própria. Então a revelação a fez corar imediatamente.
- Nunca viu alguém nu, não é? - Evelyn perguntou a ela. – Adorável. Você é tão inocente. Essa jovialidade me encanta.
Elas chegaram à biblioteca.
- Escolha um livro – Evelyn disse. – Abelard, deseja um livro.
Abelard veio até e esperou pelo seu comando.
não sabia o que dizer. Não conhecia nada.
- Abelard... Orgulho e Preconceito, Jane Austen – Evelyn ordenou.
Abelard foi até a coluna onde estava Romeu e Julieta, subindo até o topo e pegando um livro de capa dura vermelho.
Ele veio até e ofereceu o livro. Ela o pegou relutantemente. Ele fez uma longa reverência e voltou para o seu lugar.
- Obrigada – agradeceu a ele, mas o próprio não se moveu ou deu sinal de ter ouvido.
Ela se sentou em uma das poltronas perto da lareira.
- Então, . Fale-me sobre você – Evelyn pediu, sentando-se na poltrona à sua frente e cruzando as pernas graciosamente, o rosto adquirindo um tom clínico.
sentiu-se desconfortável e sentiu novamente as bochechas corarem. Não gostava muito de atenção.
- Por quê? - Ela perguntou.
- Só quero ter a impressão certa de você. Gosto de ler pessoas – Ela disse, ajeitando a saia do vestido. – Se não lhe agrada, não precisa dizer nada.
- Oh não, de modo algum – disse, pigarreando. Evelyn calou-se e esperou-a começar, mas ela não sabia bem o que dizer.
- Quer que eu comece? - Evelyn perguntou, sorrindo pacientemente. – Para ter ideia do que dizer.
sorriu, aliviada. Sentia suas mãos suadas e geladas e uma distração iria fazê-la perder a insegurança.
- Bom, me chamo Evelyn Jane Ives, tenho dezoito anos, nasci aqui nesta casa. Pretendo ser médica desde que tinha dez anos por causa de uma tragédia familiar. Não pretendo me casar tão cedo.
arregalou os olhos.
- E o que seus pais acham disso? - Ela perguntou, estupefata.
- Eles não podem achar nada. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, e meu pai morreu na guerra antes de eu nascer. Foi difícil ser criada por apenas uma pessoa, mas nada é impossível quando há amor envolvido, especialmente o materno.
sorriu. Não era muito próxima da mãe como era do pai, mas sabia que ela a amava. Apesar de demonstrar favoritismo por Nikolai, isso ela esbanjava, sem dúvida.
- E quanto a você? - Ela perguntou.
voltou a pigarrear, pensando no que ia dizer.
- Sou Sophia Martell, tenho dezesseis anos, nasci em minha casa... - não sabia mais o que dizer. Não sabia o que queria ser, não sabia se ansiava por independência... Mal sabia quem era.
Mas ao olhar nos olhos da garota à sua frente, soube que podia confiar nela. Seus olhos bicolores sorriam para ela, encorajando-a.
- Eu... Não sei quem eu sou – começou. – Não sei o que quero fazer, se quero casar... Martell é uma completa estranha para mim.
O rosto de Evelyn foi tomado por compreensão.
- Todos passam por esta fase. Olhe dentro de você. O coração nunca mente e na hora certa ele lhe dirá o que fazer – Evelyn riu. – Clichê, mas é verdade. E você é tão jovem, . Olhe só para mim dizendo isso, temos apenas 2 anos de diferença. Mas eu fui forçada a crescer muito rápido. Você está começando a sair da adolescência, vai começar a criar sua própria identidade, a pensar com a própria cabeça, ter as próprias ideias. Acontece com todos.
não soube o que dizer. Será que Evelyn estava certa?
- Escute, vou lhe passar um dever de casa. Quero que leve este livro para casa e leia-o – Ela apontou para o exemplar de Orgulho e Preconceito que repousava no colo de . – Quero que reflita sobre a história, principalmente sobre a personagem principal.
Elas ouviram risadas altas do jardim e Evelyn revirou os olhos.
- Ethan tem vinte e dois anos. Eric tem dezenove. E os dois agem como se tivessem cinco. – Ela disse, indo até a varanda. – Cuidado com a minha horta! E minhas estátuas!
- Não se preocupe, irmã. Elas permanecerão intactas – ouviu um barulho de algo quebrando. – AI! Aquilo foi o Ethan, não eu.
- ETHAN! - Evelyn repreendeu. – Eu adorava aquela estátua!
- Desculpe! Não foi minha intenção, Eric me empurrou!
- Se você corresse desse jeito na guerra, seria pisoteado pelas suas próprias tropas – Eric debochou dele, fazendo Evelyn soltar uma risada. – Ela riu! Estamos livres da bronca.
Evelyn saiu da varanda sacudindo a cabeça e sorrindo. Ela voltou a sentar na frente de .
- Eles estão correndo pelo jardim como lunáticos. Acho que já beberam um pouco de vinho. O que o álcool faz com os homens, eu me pergunto... Transforma verdadeiros cavalheiros em patifes.
concordou, pensativa.
- Sua relação com seus irmãos é tão bonita. – Ela comentou, com os olhos tristonhos.
Evelyn sorriu.
- E a sua com Nikolai? Não é? - Ela perguntou.
- Bem... Era. Mas depois do acidente...
- Acidente?
- Sim. Ele foi atacado por um lobo algumas semanas atrás – contou.
- Oh, que terrível.
- Sim. Rasgou-lhe o pescoço.
- Mas... Ora, não deveria ter ficado uma cicatriz?
franziu a testa, incerta de como deveria responder aquela pergunta. Sim, deveria. Mas não havia ficado.
E foi exatamente o que ela disse. E acrescentou que um bom médico cuidara dele e que o irmão deveria ter uma ótima cicatrização.
Evelyn sorriu e concordou.
- Você tem outros irmãos? - Ela perguntou.
- Sim, dois. Peter e Madeleine. Meus dois amores! - respondeu, sorrindo.
- Você brilha quando fala deles. Isso é adorável.
- Você também brilha quando fala dos seus. Posso perguntar uma coisa?
- Claro.
- O que a fez querer ser médica? - perguntou, pensando em Victor. – Você mencionou uma tragédia familiar. Se não se importa que eu pergunte.
- Oh não, tudo bem. – Ela concordou com um sorriso triste. – Foi justamente minha mãe. Ela morreu de tuberculose e eu cuidei dela por todo o processo. Não pude fazer nada, e... Isso marca a pessoa, independente dela ser criança ou não. Depois desse dia, comecei a estudar. Mas ainda há muito que se avançar quando se fala em direitos de mulheres, então planejo abrir um atelier em Paris até as coisas melhorarem. Também gosto muito de desenhar e costurar. Minha mãe adorava meus desenhos.
- Sinto muito por isso – disse.

Fenrir

- Você não poderia ter saído daquele jeito duas semanas atrás – Stephen falava, entediando Fenrir. – Poderia ter sido visto. Poderia ter sido morto.
Fenrir se levantou de um salto da poltrona de veludo negro. Estava se segurando para não enfiar a pena de escrever na jugular do jovem ruivo à sua frente.
- Eu alcancei nosso objetivo, Stephen. Deveria estar feliz por isso.
- Estaria, se tivesse feito do jeito que combinamos. Se aproximaria dele e o manteria por perto...
Fenrir revirou os olhos. Stephen podia ser irritante quando desejava.
- Estou perto dele. Muito perto.
- Você o MORDEU, Fenrir. Tem noção do que fez, do que começou?
- Mas não era o seu plano estúpido? - Fenrir irritou-se, chutando um vaso que por pouco não atingiu a cabeça do ruivo. Tinha de se controlar. As visitas podiam escutar.
Os olhos de Stephen adquiriram uma cautela controlada.
- Fenrir... Pare. Você sabe que não deveria ter feito desse jeito. – Ele disse, os olhos azuis demonstrando uma firmeza que ele não possuía. – Tínhamos um acordo.
- Eu não poderia ligar menos para o seu acordo estúpido.
Stephen suspirou, tirando os óculos e esfregando os olhos com as pontas do polegar e o indicador, sabendo que não adiantava discutir. Fenrir era teimoso demais, instável demais. Qualquer discussão poderia desencadear um ataque de raiva muito pior que o anterior. E as visitas escutariam, o plano iria por água abaixo.
A cicatriz no peito de Stephen estava ali confirmando a teoria.
- E se descobrirem quem você é? - Stephen levantou a hipótese. – O QUE você é? O que fará?
- É por isso que te sustentei para se tornar um advogado. Quem poderá me defender melhor? - Fenrir disse, mas pode sentir a ironia ferina em sua voz. Um belo advogado falido e recém-formado. Mas, ainda sim, era o filho de Robert. E ele honrava-o, apesar de tudo. Prometera a Stephen que ia ajudá-lo em seu plano.
Honra era algo importante para ele, desde quando ainda era o homem que havia sido antes de tudo. Depois que havia adotado o pseudônimo de Fenrir, havia mudado completamente.
Mas não na parte de cumprir promessas. Aquilo nunca.



Capítulo 7

havia passado a tarde toda conversando com Evelyn.
- , olhe a hora – Nikolai entrou na biblioteca e foi até a garota. Ela pode sentir de longe o cheiro de bebida. – Temos que ir para casa.
- Oh, mas já? Fiquem mais um pouco! – Evelyn pediu.
- Não podemos. Nosso papai é muito rigoroso. Não é, irmãzinha? – Ele perguntou, abraçando-a pela cintura.
Ela o afastou discretamente, o fedor de vinho invadindo seu nariz.
- Sim, ele é. Você tem razão, já está escurecendo. Devemos ir.
Eric e Ethan juntaram-se a eles.
- Permitam que o anfitrião os acompanhe até a saída – Eric disse.
Ele assim o fez. A carruagem já os esperava lá fora.
- ! – Ela ouviu seu nome e se virou, vendo Evelyn descendo as escadas. – Lembre-se do seu dever. Volte aqui na segunda! Tenho que descansar da viagem alguns dias.
- Claro! Virei, prometo – respondeu e Evelyn sorriu, concordando.
e Nikolai embarcaram na carruagem, ele caindo pesadamente no acento e suspirando.
- Você está fedendo a vinho. – Ela disse, olhando com repulsa para o irmão. Ele estava com os cabelos molhados e despenteados e as faces coradas.
- Obrigado pela óbvia e precisa observação, querida.
- Não me chame de querida.
- Desculpe-me, querida.
sentiu raiva do jovem sentado à sua frente. E essa raiva a fez chutar a canela de Nikolai com força.
- AI! – Ele gritou, recolhendo a canela e massageando-a. – Por que fez isso?
- Você mereceu.
Nikolai franziu a testa e a raiva apareceu em seus olhos.
E ele fez o mesmo.
gritou, recolhendo a canela exatamente como ele havia feito.
- Como se atreve?! – Ela perguntou.
- Você quem começou.
bateu em seu ombro com o punho fechado, fazendo Nikolai chiar.
- Quer parar de me bater? Está me irritando. – Ele disse. – E não vai adiantar nada bater nesse ombro, ele já está curado.
grunhiu de frustração, erguendo a mão e impulsionando-a para bater no rosto de Nikolai.
Mas ele apenas segurou-a pelo pulso, a mão parando a centímetros e sua bochecha.
- Solte-me. – Ela ordenou, atônita pelo reflexo perfeito do irmão.
- Não.
sentiu os olhos lacrimejarem.
- Odeio você. – Ela disse, por fim.
Nikolai suspirou, colocando uma mecha do cabelo bagunçado da irmã atrás de sua orelha.
- Não. – Ele negou com a cabeça, os olhos cor de gelo brilhando. – Não odeia.
A carruagem finalmente parou e puxou o braço bruscamente, saindo rapidamente dali.
Ela cruzou com John quando estava na frente da porta de seu quarto e escondeu o livro atrás de si instintivamente.
- Como foi? – Ele perguntou. – Por Deus, parece que viu um fantasma.
- Só estou cansada. Foi maravilhoso. – Ela forçou um sorriso. – Voltarei lá na segunda.
- Muito bem. Vá descansar – John beijou a testa de e ela pediu licença, entrando no quarto e fechando a porta.
Ela trocou de roupa, chamando uma criada para ajudá-la a se banhar e se trocar.
- A senhorita não irá jantar? – Ela perguntou de forma contida, visto que estava sendo vestida com a roupa de dormir.
- Oh, não. Estou sem fome. Se desejar algo, vou até a cozinha ou peço a Alfred. Obrigada, seus serviços estão dispensados por hoje.
- Sim, senhorita. – Ela fez uma leve reverência e saiu do quarto, deixando-a sozinha.
trancou a porta e tirou o livro debaixo do travesseiro, apagando todas as lamparinas e deixando acesa apenas a da mesa de cabeceira.
Ela começou a ler o livro.
A história mostrava a maneira como Elizabeth Bennet lidava com problemas relacionados à educação, cultura, moral e casamento na sociedade aristocrática do início do século XIX. Ela era a segunda de cinco filhas de um proprietário rural da cidade fictícia de Meryton, em Hertfordshire, não muito longe de Londres.
não se identificou muito com a personagem principal do livro, pois ela tinha ideias formadas, além de ser forte e segura de si. Sabia bem o que queria e deixava isso claro.
E ela amou o misterioso Mr. Darcy. E ela acreditava que entendia o que o maravilhoso livro dizia por Evelyn.
não parou de ler o livro até que finalmente o terminou, passando de 6 da manhã.

Nikolai

Nikolai sentiu a claridade deliciosa em seu rosto e abriu os olhos, dando um leve sorriso e se espreguiçando.
Segunda havia chegado e era o dia em que ele deveria acompanhar até a Mansão Moonrise. Claro que ele havia estado lá todos os dias convidado por Eric e Ethan.
E ele não havia falado com desde a discussão da carruagem, que havia sido na quarta passada.
Ele se levantou da cama e olhou no seu relógio de bolso. Eram 11:00. Não estava nem de longe atrasado, mas havia perdido o desjejum. Como sempre.
Ele foi até o gomil que a criada deixava diariamente e lavou o rosto e os braços, olhando no espelho do quarto em seguida.
Seu rosto estava impecável. Havia ficado completamente curado da quarta para a quinta. Aquilo havia o impressionado e assustado também. Aquilo não era normal... Não é?
Ele sacudiu a cabeça levemente, tentando não pensar naquilo. Pensou então em Evelyn e em como eles estavam ficando próximos. Trocavam piadinhas e alfinetadas e ela definitivamente lhe dava olhadinhas de vez em quando.
Como quando ele estava saindo da piscina do jardim e, ao olhar para a varanda da biblioteca, ele a viu observando seu corpo nu.
Claro que ele havia apreciado aquilo. E dera um de seus melhores sorrisos convencidos para ela, que fora devolvido com um carregado de malícia.
Ele observou seus próprios lábios carnudos e rosados no espelho, mordendo o inferior como sempre fazia quando estava na expectativa por algo.
E ele estava. Só não sabia pelo que era.
Ele trocou de roupa, vestindo uma roupa apropriada junto com suas velhas botas negras de montaria. Adorava-as. Em seguida, desceu até a sala de estar.
Encontrou a mãe lá, tricotando algo.
- Bom dia. – Ele disse à ela. Giorgiana arregalou os olhos e levou a mão ao coração, respirando fundo.
- Meu filho, que susto! – Ela ralhou. – Não devias chegar de fininho assim perto de uma senhora, querido. Não é educado.
- Perdão. Ando meio silencioso esses dias. – Ele se desculpou, sentando ao lado da mãe.
Ficaram em silêncio por alguns instantes, até que a mãe finalmente resolveu falar.
- Como está sua irmã? – Ela perguntou.
- Maddie? Está bem. Estou tentando fazê-la falar...
- , Nikolai. – Giorgiana o interrompeu. – Eu quis dizer .
- Oh... . – Ele encarou o chão. – Bom... Eu presumo que bem.
A matriarca dos Martell suspirou.
- Você deve sempre proteger suas irmãs, Nikolai. Elas são sua responsabilidade como primogênito.
- Eu sei.
- Não parece que sabe.
Nikolai tirou as mãos da mãe do tricô e beijou-as afetuosamente, sorrindo em seguida.
- Eu sei. – Ele repetiu.
Giorgiana sorriu para o filho e alisou seus cabelos.
- Você me lembra tanto seu pai.
Nikolai sentiu um vazio no estômago. Ele não era nada como John. E, se dependesse dele, nunca seria.
Esperava apenas que a mãe se referisse à aparência.
Ele apenas sorriu para a bela mãe e beijou seu rosto, se levantando e indo até o arco de saída da sala de estar.
- Nikolai. – A mãe chamou, fazendo-o se virar. – Não se esqueça do que eu lhe disse.
Ele sorriu novamente.
- Não irei.
Ele deixou o aposento e subiu as escadas, batendo na porta do quarto de Maddie.
- Entre. – Ele ouviu a voz de Nancy, a babá, e assim o fez, vendo a pequena irmã brincando aos pés de sua caminha. Nancy sorriu para o garoto e deixou-os a sós.
Nikolai sentou no chão, perto da irmã.
- Oi, Maddie. – Ele cumprimentou. – Como estamos hoje?
Ela se levantou desajeitadamente e foi até Nikolai, colocando a mão em seu ombro, onde o machucado costumava estar.
- Se curou, lembra? – Ele pegou a mãozinha dela, beijando-a. – Estou bem agora.
Maddie passou a mão pelo rosto dele, parando no osso da bochecha.
- Isso aí também curou... Ai, você pegou meu nariz. – Ele disse quando a irmã apertou os dedinhos no nariz dele .– Não aperte muito.
Maddie riu, mas nada mais que isso, como sempre fazia. A irmãzinha nunca havia dito uma palavra e mal balbuciava direito, apenas dava alguns grunhidos de vez em quando. Nenhum médico sabia explicar o porquê. Por isso, todos achavam que a Maddie tinha algum distúrbio na fala. E isso deixava Nikolai preocupado.
Ele tirou a mão da irmãzinha do nariz e segurou-a pelos ombros, olhando-a bem nos olhos.
- Maddie... Você sabe que te amamos muito, não é? – Ele perguntou a ela. Ela apenas o observava. – Te amamos demais.
Ela se aproximou e tocou o coração dele.
- É. Eu te amo. Muito. – Ele disse, colocando o dedo indicador em seu coração. – Bem aqui.
Maddie olhou para baixo e segurou seu dedo, mordendo-o em seguida.
- AI, SUA MACAQUINHA! – Nikolai se levantou, pegando-a no colo. – Você vai ver agora.
Ele jogou-a no ar, fazendo cócegas em sua barriga em seguida.
E o inexplicável aconteceu.
Maddie riu e falou algo parecido com “bobô”.
Isso significava que ela estava melhorando?
Nikolai sorriu e a abraçou tão forte que a pequena chiou.
- Oh, me desculpe. – Ele a soltou. – É que você me fez o mais feliz dos irmãos mais velhos e idiotas do mundo. Eu sabia que não tinha nada de errado com você, sabia! Quer tentar falar Nikolai? Ou duas sílabas foram demais para você?
Maddie começou a colocar uma das mãos na boca.
- Está esperando a hora certa, não é? Tenho certeza de que será um escândalo. Você é mais parecida comigo do que eu pensei.

franziu a testa ao sentir o sol bater em seu rosto. Ela viu uma das criadas da casa abrir as cortinas restantes.
- Que horas são, Lucy? – Ela perguntou.
- São 13:45, senhorita – Lucy respondeu, fazendo pular da cama. Como ela havia dormido tanto? Perdera o desjejum!
Ela lavou o rosto e trocou de roupa, saindo do quarto como um furacão.
- Alfred, onde está Nikolai? – Ela perguntou para o atarefado mordomo.
- Oh, no quarto da Srta. Madeleine, Srta. . – Ele respondeu.
- Obrigada. – Ela saiu em disparada até lá, abrindo a porta e parando subitamente ao ver a cena.
Nikolai estava sentado no chão com as costas encostadas na cama de Maddie. Dormia profundamente com a cabeça jogada no colchão e Maddie fazia o mesmo, aninhada em seus braços e no seu colo. Nikolai parecia estar segurando-a de um modo protetor, de modo que ela se sentisse segura.
não pode deixar de sorrir.
Neste momento, a mãe passou no corredor e franziu a testa para ela, parando.
- O que está fazendo aí parada na porta? – Ela perguntou, entrando junto e vendo a cena.
Giorgiana sorriu.
- Acorde seu irmão. Essa posição não deve ser muito confortável para os dois. – Ela disse.
- Os dois parecem muito confortáveis – respondeu e Giorgiana apenas lançou um olhar para ela. – Sim, senhora.
Giorgiana continuou seu caminho e entrou no quarto, fechando a porta.
- Nikolai? – Ela chamou, ajoelhando-se ao lado dos dois. – Nik? Acorde.
Ela pegou Maddie dos braços do irmão, colocando-a na cama e sacudindo o ombro dele.
- Nik! – Ela chamou.
- Eu tive um sonho. – Ele disse, ainda de olhos fechados. – Sonhei que tinha voltado a me chamar de Nik.
riu baixinho.
- Deve ter sido apenas um sonho. Vamos lá para fora para deixá-la dormir.
Ele suspirou e se levantou devagar, seguindo-a para fora do quarto.
- À que horas acordou? – perguntou, enquanto eles seguiam para a sala de estar.
- 11:00. Acho que não estou acostumado a acordar tão cedo – Ele bocejou ruidosamente.
- Acha 11:00 cedo?
- Pros meus padrões, é praticamente madrugada.
revirou os olhos discretamente.
- Por que não mandou me acordarem? – Ela perguntou.
- Acordei e fui direto para o quarto de Maddie. Não achei que fosse cair no sono tão rápido. – Ele respondeu, se jogando no sofá e colocando os pés na mesa de centro.
- Não devias colocar os pés na mesa – repreendeu.
- Não devias colocar os pés na mesa – Nikolai imitou com uma voz fina.
novamente revirou os olhos, segurando uma risada.
- Você é ridículo.
- É o meu nome do meio.
Ela riu, dando uma tapinha em seu ombro.
- Bom ver que seus tapas estão mais fracos – Nikolai observou. – E que os chutes desapareceram.
- É bom não me testar, ou eles podem reaparecer. – Ela retrucou, fazendo-o rir.
Nikolai pousou os olhos na irmã.
Ela sorriu devagar.
- O que tanto olha?
- Você. Senti sua falta.
Ela ia responder algo, mas Alfred entrou na sala.
- O almoço será servido em instantes.
- Obrigado, Alfred. O que temos hoje? – Nikolai perguntou.
- A Senhora Martell pediu para que preparassem seu prato favorito, Sir Nikolai.
- Codorna com molho de romãs? – Ele perguntou, com os olhos brilhando. – Oh, que maravilha. Obrigado, meu velho.
Alfred sorriu e fez uma gentil mesura, retirando-se em seguida.
- Estou morrendo de fome – Nikolai disse, suspirando. – Será que Eric nos oferecerá aqueles deliciosos bolinhos novamente?
- Não sei... – mostrou-se pensativa.
Alguns minutos se passaram e o almoço foi servido. Nikolai devorou o prato, mas não se sentia com fome. Ela sentia como se algo horrível estivesse para acontecer.
- Não está com fome, querida? – A voz do pai a tirou do torpor. Ele segurou sua mão e a apertou devagar.
- Não, mas a comida está maravilhosa.
- Pedi para que preparassem sua sobremesa favorita. Mas só irá comer se terminar o prato – John falou, sorrindo cúmplice.
Os olhos de brilharam.
- Torta de limão? – Ela perguntou, fazendo-o concordar. – Então, pelo bem de minha sanidade, eu terminarei de comer.
Eles terminaram o almoço e em pouco tempo a carruagem estava pronta para levá-los.
Eles entraram, e encarou o irmão.
- Como vai tudo com a Maddie? – Ela perguntou.
- Ela está bem. Acho que estamos progredindo. – Ele disse, mas sorriu de lado como se compartilhasse uma piada oculta.



Capítulo 8

Nikolai


Nikolai não ia dar o braço a torcer e contar para a preocupada irmã sobre o pequeno avanço de Maddie. Ah, não. Ela iria descobrir sozinha.
Nikolai encostou-se no banco da carruagem e suspirou.
- Sobremesa favorita, uh? – Ele falou. – Prefiro uma boa laranja.
- Bom para você. Prefiro torta de limão. – Ela retrucou, exalando tédio na voz.
Nikolai soltou um riso nasalado. A irmã parecia estar mudando, amadurecendo aos poucos bem na frente dos seus olhos. Não parecia estar se importando mais com príncipes encantados.
- Nosso querido papai recebeu uma estimada visita ontem. – Ele comentou, sem tirar os olhos da janela.
- Foi? – perguntou, desinteressada.
- Sim... De um estranho e jovem médico. – Ele testou.
imediatamente virou o rosto para ele.
- Victor? – Ela perguntou com os olhos brilhando.
- Aparentemente o inteligente doutorzinho pretende cortejá-la. - Ele disse com desdém.
sorriu lentamente. Parecia satisfeita.
Nikolai estava errado. A irmã parecia já ter encontrado seu príncipe encantado.
Tal pensamento o deixou mal-humorado.
- O que você tem contra ele? – Ela perguntou, sem tirar os olhos da janela.
- Só não acho que ele esteja à sua altura.
- Oh, Nik. Não seja elitista.
- Não sou. Só estou dizendo.
bufou e cruzou os braços.
Eles chegaram à Mansão em pouco mais de dez minutos e, quando iam se preparar para sair, um sorridente Eric abriu a porta da carruagem.
- Ah, Srta. Martell! Por favor, venha. Evelyn a espera. – Eric estendeu a mão para uma confusa , que a segurou e desceu. – Solomon irá levá-la até ela. Com licença, Nikolai.
Eric entrou na carruagem e ocupou o lugar que antes era de , e Ethan entrou em seguida.
- Nikolai. – Ethan cumprimentou com a cabeça. Ele devolveu o cumprimento.
o encarava do lado de fora, ainda confusa.
- Voltarei antes do jantar. – Ele prometeu. – Vá com Solomon.
Eric fechou a porta da carruagem e bateu no teto com a bengala elegante que estava usando, fazendo-a entrar em movimento.
- Então... Aonde vamos? – Nikolai perguntou, encarando a tal bengala. A base onde Eric segurava parecia ser inteiramente de ouro, com a figura de um tigre de boca aberta e pequenas presas que não pareciam arranhar. Os olhos do tigre eram de rubis, vermelhos como pequenas gotas de sangue. A extensão do cabo era inteiramente negra. Ele não lembrava de ter visto Scar com ela até aquele momento. Mas era uma beleza.
Ethan sorriu, fechando as cortinas.
- Você verá.

Passaram-se mais ou menos uma hora e a carruagem parou.
Ethan e Eric saíram, seguidos por Nikolai.
- Onde estamos? – Ele perguntou, olhando em volta.
- Cross-village. Uma pequena vila nos arredores de Londres. – Eric respondeu, andando até uma grande construção precária de madeira.
Nikolai olhou em volta. Casas de madeira caindo aos pedaços, uma igrejinha perto de uma praça. Era uma vila tão minúscula que a grande construção na qual eles estavam entrando se destacava na paisagem.
Eles entraram. Era um velho bar com um palco em seu fundo coberto por gastas cortinas de pano vermelho desbotado e rasgado.
Ao entrarem no bar, era como se toda a atenção se voltasse para eles. Todos saíam de seu caminho, até eles pararem na frente de uma mesa longe do balcão e relativamente perto do velho palco.
O lugar fedia a sangue, suor e sexo. Nikolai torceu o nariz. Não era à toa que todos ficassem pasmos de tê-los ali. O lugar não devia receber muitos cavalheiros.
Um homem ruivo bebia um copo com água, sem se aperceber da presença deles.
- Stephen Schmidt. – Eric falou, e os olhos do ruivo finalmente se focaram neles.
- Ah, Eric. – Ele se levantou e apertou fervorosamente a mão do rapaz. – E Ethan. Quanto tempo.
Ele fez o mesmo com o loiro, e seus olhos azuis se focaram em Nikolai.
- Stephen, este é Nikolai Martell. Nik, Stephen Schmidt. – Eric apresentou.
Nikolai estendeu a mão e o estranho homem a apertou. Porém, seu toque foi devagar e calculado.
- Sir Nikolai... Ouvi muito sobre o senhor. É um prazer finalmente conhecê-lo, uma honra. – Ele disse, com os olhos levemente arregalados focados em Nikolai.
Ele tentou conter uma risada. Aquele rapaz era extremamente cômico. Os enormes óculos que usava aumentavam extremamente o tamanho de seus olhos. Seus cabelos estavam penteados para o lado, sem nenhum fio fora do lugar. Suas roupas estavam perfeitamente engomadas e limpas.
- Ahn... Prazer. – Nikolai respondeu, apenas puxando a mão rapidamente.
O homem voltou a se sentar e Eric e Ethan se juntaram a ele, assim como Nikolai.
Uma mulher muito bonita e de longos cabelos castanhos e decote fundo veio rebolando até a mesa.
- Ah, Gladys. – Ethan cumprimentou, sorrindo.
- Ethan Ives. Faz muito tempo. – Ela disse, retribuindo o sorriso sensualmente e com a voz arrastada.
- Faz mesmo... – Ele disse, pensativo. Então se levantou. – Cavalheiros. Voltarei em breve.
A mulher puxou-o pela mão e eles seguiram para os fundos do bar.
Nikolai suspirou. Fazia algum tempo desde a última vez que esteve com alguém. Seu corpo inteiro sentia falta, ansiava pelo calor de um corpo rente ao seu.
- Ah, o show vai começar. – Eric disse à medida que as luzes começaram a se apagar e o palco se acendeu.
As cortinas velhas foram recolhidas para os lados e cinco belas jovens apareceram, com vestidos justos e decotados. Um homem de aparência suja e pobre estava no canto do palco, de frente para um piano desgastado que um dia já fora marrom-escuro.
Ele começou a tocar, e as jovens começaram a dançar sincronizadamente, levantando as saias dos vestidos e jogando as pernas para o alto.
Nikolai sorriu consigo mesmo. Estava perdendo tanto o jeito que não percebera que estava em um prostíbulo.
Ele olhou em volta. Os homens todos gritavam e batiam palmas, inclusive o tal Stephen, que jogava moedas de ouro para as moças.
Após mais ou menos dez minutos, a apresentação chegou ao fim. As moças fizeram reverências e saíram do palco, e as cortinas voltaram a se fechar.
Nikolai olhou em volta, procurando alguma garota para si.
Seus olhos se focaram em uma estonteante ruiva que adentrava o prostíbulo. E ela parecia vir em sua direção.
- Stephen. – Ela chamou, cruzando os braços. O estranho e cômico homem virou-se e, quando a viu, arregalou tanto os olhos que seus óculos saíram do lugar.
- Johanna? O que está fazendo aqui? Isto não é lugar para uma dama...
- Você disse que ia ao clube.
- Eu... Eu fui! Eu fui ao clube! – Ele começou a gaguejar e sua voz subia algumas oitavas. Ele ajeitou os redondos óculos, pigarreando. – Eu fui. Mas aí encontrei Eric...
- Ah, Eric! Sendo uma má influência, como sempre. – Johanna focou os penetrantes olhos azuis no jovem com a misteriosa cicatriz.
- Johanna, minha querida. – Ele tomou sua mão, beijando-a. – O que é um homem sem o prazer carnal?
- Um verdadeiro cavalheiro. Tipo raro de encontrar neste mundo. – Ela respondeu, retirando a mão e encarando Nikolai.
- Johanna, este é Nikolai Martell. Nikolai, Johanna Schmidt. Irmã de Stephen.
Nikolai segurou a mão da jovem e beijou-a sem retirar os olhos dos seus.
- Enchanté1. – Ele disse, sorrindo de lado.
- Oh não, olhe só Stephen. Outra má influência para você. – Ela disse, retribuindo o sorriso na mesma proporção.
- Ah, prometo que não, senhorita. – Nikolai falou. – Posso ser um verdadeiro cavalheiro quando quero.
A jovem riu.
- Acreditar em suas palavras é o mesmo que acreditar em fadas e elfos .– Ela disse. – Você não é um cavalheiro, não com esse sorriso conquistador e essa voz rouca falando francês para uma dama.
- Diga-me, Senhorita Schmidt, já viu algum elfo ou alguma fada? – Ele perguntou.
- Claro que não.
- Então como pode saber que eles não existem? – Ele piscou um olho para ela. – Assim sou eu. Não pode dizer que eu não posso ser um verdadeiro cavalheiro se não me conhece. Terá de me conhecer primeiro para armar seu julgamento sobre mim. A questão é: a senhorita se atreveria?
A jovem ergueu as sobrancelhas, como se não esperasse tal resposta.
- O show já terminou? – Ethan chegou com o rosto vermelho e os cabelos despenteados, socando a camisa para dentro das calças. – Ah, Johanna! Belíssima como sempre.
Ethan beijou-lhe a mão. Nikolai olhou para o fundo do bordel e viu Gladys, suada, corada e com os cabelos desarrumados. Ela percebeu que ele estava olhando e lhe lançou um olhar lascivo.
- Eu digo que devíamos todos ir para minha casa. – Eric disse. – Evelyn sugeriu-me um jogo antes de ontem.
- Que jogo? – Nikolai perguntou.
Eric sorriu.
- Isso é surpresa.
Nikolai retribuiu o sorriso lentamente.
- Então vamos logo. Estou curioso.
Ele se mexeu para sair do prostíbulo, mas algo bateu violentamente no seu ombro.
- Olha por onde anda, almofadinha. – Um bêbado gordo grunhiu, cuspindo perto do sapato de Nikolai.
Ele franziu a testa, se virando para o homem. Perto dos 1 metro e 90 de Nikolai, ele era um rato.
- Do que você me chamou? – Ele perguntou.
O homem chegou mais perto.
- Almofadinha. – Ele repetiu, fazendo Nikolai sentir seu hálito fétido e pútrido. – É surdo também?
Ele torceu a boca, levantando o pé e chutando o bêbado no meio do seu peito. O homem caiu em cima de uma mesa atrás dele, quebrando-a e não se levantando mais.
Nikolai ouviu uma risadinha e se virou, vendo Johanna.
- Muito bem. – Ela disse. – Você subiu um ponto em meu conceito.
Mas, em seguida, o bar inteiro entrou em um frenesi. Os homens se levantaram e começaram a bater uns nos outros, quebrar coisas, gritar palavrões.
Nikolai segurou Johanna pelos braços e puxou-a para perto do balcão do bar, empurrando-a para trás dele.
- Se abaixe e fique aqui. – Ele ordenou.
- Não sou uma donzela indefesa! – Ela protestou, tentando se soltar de suas mãos.
- Mas vai ser uma donzela bem machucada se não fizer o que eu digo. – Ele disse, olhando em volta. – Agora fique aqui!
Johanna fechou a cara e se abaixou atrás do balcão. Nikolai sentiu alguém pegar-lhe pelos ombros e puxá-lo para trás brutalmente.
Ele pegou uma garrafa de whisky de uma mesa próxima e acertou na cabeça de um homem loiro, que parecia ter saído de um mausoléu devido ao seu cheiro e aparência.
Ele olhou em volta e viu Eric segurando um homem pelos braços e torcendo-os atrás das costas, enquanto Ethan socava-lhe o estômago. Stephen estava debaixo de uma mesa, os óculos fora do lugar, e o chapéu sendo segurado fortemente pelas mãos, tão forte que os nós dos seus dedos estavam pálidos. Parecia estar prestes a ter um colapso nervoso.
Nikolai tentou ir até Ethan e Eric, mas alguém lhe empurrou pelas costas, fazendo-o perder o equilíbrio e bater o quadril em uma das mesas. Ele virou-se e segurou o homem franzino e alto pelo pescoço e apertou, levantando-o. Seus pés deixaram o chão e o homem começou a engasgar e se debater, lutando por ar.
- Peça desculpas. – Nikolai ordenou, secretamente assustado com sua recém-adquirida força.
Os olhos do homem começaram a se revirar nas órbitas, e sua língua estava retorcida de uma maneira estranha. Nikolai achou melhor soltar o homem, que caiu ao chão engasgando e cuspindo.
Ele viu Eric pegar a bengala que trazia consigo e puxar a base, desembainhando uma longa, fina e afiada lâmina. Ele a encostou na garganta de outro bêbado gordo, e toda a confusão imediatamente cessou.
Todos encaravam a lâmina prateada e nobre, e o bêbado começava a suar frio, engolindo feito um louco. Seu pomo-de-adão dançava contra a ponta afiada da espada, e Eric apenas sorria calmamente.
- Senhores... Desculpe-nos o transtorno. Vamos nos retirar agora. – A voz de Eric soava alta e clara no meio do prostíbulo. – Isso será feito de maneira rápida e pacífica, se vocês cooperarem, é claro.
Johanna levantou-se de trás do balcão e foi até Nikolai, protegendo-se atrás dele. Mas ninguém se mexia, como se um leve arfar ou um único movimento tivesse o poder de explodir toda a vila.
Eric recolheu a espada e embainhou-a, andando em passos largos até a saída. Ethan o seguiu e Nikolai puxou Johanna pelo braço delicadamente.
Stephen saiu debaixo da mesa e os seguiu, ainda meio zonzo.

- E quando eu estava em Paris... – Evelyn continuava. Mas não estava realmente prestando atenção.
Estava preocupada com Nikolai. Ele havia saído há três horas e não voltara ainda. Para onde será que tinha ido? E fazer o quê?
Antes que ela pudesse fazer mais perguntas, Solomon adentrou a biblioteca.
- Mestre Eric e Mestre Ethan retornaram, junto com Sir Nikolai, Sir Stephen e a Srta. Johanna – Ele anunciou.
Evelyn bateu palminhas, levantando-se.
- Ótimo, Johanna está aqui. Deves conhecê-la. – Ela disse, puxando pelo braço.
Elas seguiram para o saguão no momento que eles entravam na Mansão.
- Srta. Martell. Que prazer. – Ethan se adiantou, beijando-lhe a mão.
Nikolai entrou com uma moça ruiva de olhos azuis, e eles foram direto para a sala de estar.
se sentiu ignorada. O irmão nem olhara para ela.
E aquela era a tal Johanna?
não gostou da moça logo de cara. Nariz muito grande. Os cabelos cacheados pareciam uma moita. E ela tinha olhos de peixe morto.
Ela seguiu com Eric, Ethan, Evelyn e um estranho jovem também ruivo para a sala de estar.
Ela olhou para o irmão, que estava no fundo conversando com a mulher. Nem percebera que ela entrara.
- Então, vamos ao jogo. Antes de sair, pedi a Solomon que escondesse no labirinto uma garrafa de whisky. 40 anos! – A sala se encheu de exclamações de surpresa. – Sim, sim. Uma relíquia. Está em alguma parte. Nem eu, nem Evelyn, nem Ethan sabemos onde. O labirinto possui vários setores abertos, e em um deles está a garrafa. Quem achar... Bom, vocês já entenderam. Quem se habilita?
- Eu. – Alguns falaram, exceto por . Não fazia diferença se ela jogasse ou não.
- Eu passo. Vou para meu quarto, com licença. – Ethan disse. – Perdoem-me, mas me sinto indisposto. Bom jogo.

Nikolai

- Eu jogarei. Assim a chance fica igual para todas as famílias. Você vai, ? – Ele perguntou.
- Não sei. – Ela disse.
Nikolai revirou os olhos.
- Vamos lá, irmãzinha. Não perderás nada. – Ele retrucou.
Ela então concordou. Todos se dirigiram para o jardim, observando o belo pôr-do-sol no horizonte. O labirinto parecia ameaçador e imponente na leve claridade do crepúsculo. Eles se dirigiram até as cinco entradas.
- Bom... Boa sorte. Vamos. – Eric disse, entrando com Evelyn por uma entrada. Johanna e Stephen entraram por outra. Restavam três para e Nikolai se decidirem.
- Vamos nos separar. Podemos ter mais chances de encontrar a garrafa. – Ele disse. concordou e ele correu, entrando no mundo de raízes e folhas à sua frente.
Nikolai correu por uns cinco minutos, até parar em um dos corredores escuros. Ele fechou os olhos e tentou escutar algo, mas não ouvia nada mais que passos distantes e estranhos chiados, além de sua própria respiração.
Ele começou a andar, virando em tantas esquerdas e direitas que nem pôde contar.
Ele chegou, após dez minutos, em uma grande clareira.
O setor aberto que Eric mencionara.
Ele olhou em volta. Não havia nada parecido com uma garrafa, apenas uma grande estátua de mármore branco, colunas gregas de pedra e uma árvore, provavelmente um limoeiro.
- Nikolai Martell. – Ele ouviu uma voz e virou-se, assustando-se.

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1 = Enchanté significa “encantado”, “prazer em conhecê-lo” em francês.



Capítulo 9

“O desejo transforma o ser de que nos aproximamos em um monstro que não se parece com ele.
- François Mauriac”

“É realmente um enorme labirinto”, pensava, enquanto andava pelo tapete verde escuro. Seus sapatos faziam um agradável som quando ia de encontro à grama fofa.
Ela estava completamente sozinha.
As enormes paredes deixavam o chão escuro, e o dia já estava acabando. O céu estava com tons de roxo e ainda um pouco de amarelo, como se a carruagem de Apolo balançasse perigosamente pelos céus.
chegou em um dos setores abertos que Eric mencionara.
Ela procurou pela garrafa. Mas lá apenas havia uma grande estátua do Titã Atlas segurando o céu, e algumas colunas gregas de mármore.
passou pelo outro lado, indo para outro corredor.
Porém, ao olhar para os fundos do setor, ela viu um leve brilho prateado.
Ela foi até ele e descobriu uma pequena correntinha de prata com uma espécie de disco do mesmo material como pingente.
“Mais tarde”, ela pensou, pegando-a pelo pingente.
Estava gelada e molhada pelo orvalho. A prata estava escura, e comprovou que ela deveria estar ali faz tempo. Ela a esquentou com as mãos e guardou dentro do espartilho, seguindo em frente.
Ela passou mais quinze minutos andando e não achou mais nenhum setor.
Até que ouviu estranhos ruídos vindos... Ela não sabia bem de onde.
Ela virou uma esquina e os ruídos aumentaram. se perguntava o que era aquilo.
Ela dobrou mais uma vez, finalmente chegando a outro setor. E a cena que ela viu a fez se esconder atrás de uma das colunas.
Nikolai prensava Evelyn contra uma estátua do setor. O vestido da garota estava levantando até a cintura, e a calça de Nikolai aberta. Ele se lançava em cima da garota e ela grunhia, apertando os ombros dele por cima da fina camisa branca. Ele segurava as coxas dela, mantendo-as levantadas.
Nikolai não grunhia ou gemia como Evelyn, apenas arfava, e em alguns momentos permitia que um gemido contido escapasse de seus lábios enrubescidos. Os dois estavam suados e corados, e não pode deixar de observá-los, de notar como o ato do sexo era tão caprichoso e imprescindível. Nikolai aumentou os movimentos em cima de Evelyn e ela começou a fazer sons mais altos.
observou quando Nikolai soltou o ar de vez e fechou os olhos, e um pequeno sorriso de satisfação brotou em seus lábios. Ele soltou Evelyn, que estava com as pernas tão bambas que precisou se apoiar na estátua.
- Nikolai... Ainda não estou satisfeita. – Ela disse, segurando as saias do vestido. – Por favor, continue. Estou quase lá...
Nikolai soltou uma risada debochada.
- Mas eu já estou satisfeito, querida. – Ele disse, por fim.
Evelyn respirou fundo, tentando manter a calma.
- Nikolai. – Ela levantou a saia, revelando-lhe sua parte íntima. – Ainda não estou satisfeita.
O olhar de Nikolai mudou de irônico para... não sabia explicar. Era totalmente animalesco. Era como se o homem houvesse dado lugar ao animal, e Nikolai não fosse mais seu amoroso irmão, apenas um brinquedo da pura luxúria.
Nossa. lembrava de ter lido em um livro de anatomia, escondida dos pais, claro, que um homem não podia ter outra ereção tão rápido após um orgasmo. Mas ali estava Nikolai, duro como uma pedra.
- Se é o que a dama deseja... Sou apenas um mero escravo do prazer. – Ele a pegou pelos cabelos e a jogou no chão, pegando a saia do seu vestido e rasgando-a, deitando em cima da garota e colando seus quadris.
Evelyn gritou e Nikolai mordeu os próprios lábios para evitar que saísse algum som. Ele agora movia o quadril fortemente, e a cada movimento, Evelyn gritava. não sabia dizer se era de dor, pois o movimento que o rapaz fazia parecia machucar.
ouviu um grunhido primitivo sair da boca de Nikolai e sentiu uma sensação estranha no estômago que nunca sentira antes. Ela sentiu uma umidade em lugares que ela nunca havia sentido.
Evelyn então jogou a cabeça para trás e gritou de um jeito que teve certeza de que toda a Londres havia escutado.
- ENCONTREI! ENCONTREI A GARRAFA DE WHISKY! – Ela ouviu uma voz ao longe e assustou-se, pisando em um galho que partiu-se ao meio e fez barulho.
Nikolai e uma ofegante Evelyn olharam exatamente para onde ela estava escondida.
E correu.

Nikolai

Nikolai com certeza havia ouvido alguém momentos atrás.
Será que alguém os estava observando? Ah, isso era o cúmulo do voyeurismo.
E como ele havia conseguido ter duas ereções seguidas? Isso nunca havia acontecido. Geralmente demorava alguns minutos depois de ejacular, dez, no máximo quinze. Mas nunca tivera duas seguidas daquela forma.
Ele se levantou de cima de Evelyn, ajeitando a própria roupa. A garota havia pegado-o de surpresa e o deixado duro como um diamante, mas agora que já havia tido o que queria, ela começava a lhe parecer desinteressante.
- Nikolai, aonde vai? – Ela perguntou, se arrumando e tentando ajeitar o arruinado vestido.
- O que você acha? – Ele vestiu o paletó, antes jogado no chão.
O rosto da garota foi tomado por confusão.
- Mas... Achei que...
- Oh, não. Não me diga que é tão ingênua assim, querida. – Nikolai agachou-se, ficando ao nível dela. – Deixe-me explicar como as coisas funcionam comigo. Conheço garotas. Dou-lhes o que precisam e elas retribuem o favor, e em seguida, elas não mencionam mais o ocorrido, ou tem alguma esperança de que se repita. Agora, tenha a decência de fazer sua parte.
Ele levantou-se, tirando um lenço do bolso e limpando a fronte suada.
Evelyn enrubesceu. E Nikolai tinha certeza de que ela não estava envergonhada.
- Seu porco. – Ela xingou. – Eu nunca fui tratada dessa maneira...
- Ah, foi sim. – Ele pegou-a pelo queixo e forçou-a a se levantar. – Só está tentando se fazer de difícil.
Ele soltou-a e saiu do setor aberto, procurando a saída do labirinto.
Achou-a facilmente depois de dez minutos, vendo Stephen com a garrafa de whisky nas mãos e Johanna sorrindo para o alegre irmão. Ele saiu do labirinto e foi até ele, erguendo a mão.
- Parabéns. Mereces o prêmio. – Ele disse.
Stephen agradeceu e apertou a mão dele.
Nikolai viu sair e foi até ela.
- Não foi dessa vez. – Ele disse, colocando as mãos nos bolsos.
- Não... Não foi. – Ela concordou. – Veja pelo lado bom... Não sou uma grande fã de whisky, sou?
Nikolai sorriu para a irmã e ergueu os braços para ela. o olhou com cautela, mas aceitou o abraço, encostando a cabeça no peito do irmão.
- Eu sei que não venho sendo um bom irmão. – Ele começou, brincando com os cabelos dela. – Peço que me perdoe. Mas esses dias foram tão corridos, tanta coisa vem acontecendo, e tudo de uma vez. Vou fazer as coisas voltarem a ser do jeito que eram. Certo?
concordou com a cabeça e Nikolai abraçou a irmã mais forte. Ele sentiu o cheiro de seus cabelos e respirou fundo, fazendo o leve aroma descansar em seu ser. Sentira tanta falta daquela proximidade com a irmã.
- Nada jamais voltará a ser como era antes, Nik – Ela disse, cravando um pouco as unhas em seus ombros, exatamente como Evelyn havia feito alguns momentos atrás.
Ele sentiu um arrepio na espinha e soltou-a rapidamente no momento que Evelyn saía do labirinto junto com Eric.
- O que houve com seu vestido? – perguntou com um olhar inocente.
- Oh, como sou desastrada! Ele se prendeu nas raízes do chão e rasgou. – Ela disse.
- Vamos lá, precisamos trocar isso. Não quer que alguém veja o que não deve, não é? – perguntou. Evelyn sorriu e ela o retribuiu, segurando seu braço e indo em direção à Mansão.
lançou um olhar para Nikolai, e ele teve certeza de que era ela quem o havia observado.

Algumas horas depois, ela e Nikolai estavam na carruagem indo para casa. se mexeu e sentiu o pingente de disco dentro do espartilho, perto do coração.
Nikolai olhava para a janela, pensativo.
- Você viu, não foi? – Ele perguntou, sem nem ao menos encará-la.
- Vi o quê? – Ela se fez de desentendida.
- Não faça isso. Não sabe como me irrita. – Ele grunhiu, fazendo-a se encolher. Nikolai suspirou. – Não irei ficar com raiva. Só diga se viu ou não, porque a culpa está me corroendo por dentro.
se sentiu tentada por alguns segundos. Os olhos do irmão estavam tão suplicantes.
- Oh, irmão... Meu doce e culpado irmão. – Ela acariciou sua bochecha. – Não faço ideia do que está falando.
Nikolai levou os olhos devagar até a mão dela, e o que ele fez em seguida a assustou profundamente.
- ESTÁ MENTINDO! – Ele gritou, afastando a mão dela com um forte tapa. – Diga-me a verdade, .
Ela recolheu a mão, massageando-a. Aquilo havia doído de verdade, e o irmão nunca havia gritado com ela antes.
Ela ergueu o olhar com firmeza, soltando a mão deixando-as no colo.
- Aquela coisa profana com a Evelyn? Oh, sim. Eu vi tudo. – Ela confessou, e sua voz não falhara uma vez. Saíra fria e calma como uma madrugada de inverno.
Nikolai fechou os olhos e expirou.
- ...
- Não precisa se desculpar. A culpa foi minha. – Ela falou, abaixando o olhar. – Eu só escutei e fiquei curiosa.
- ... – Ele tornou a chamar, segurando a mão da irmã. – Eu queria que fosse você.
arregalou os olhos, puxando a mão bruscamente.
- Não diga isso. Isso é blasfêmia. Nunca mais repita isso! – Ela gritou.
Nikolai apoiou os cotovelos nos joelhos, suspirando.
- Mas é verdade.
- Isso é doentio, Nik. Não consegue ver?
- Isso não importa.
- O que está dizendo? Nikolai...
- Isso não faz diferença!
sentiu os olhos marejarem e levou a mão ao rosto, cobrindo os lábios e o nariz.
- Por favor... Pare... Você está estragando tudo. – Ela implorou.
Nikolai bateu no teto da carruagem e o cocheiro parou. Ele saiu e mandou-o continuar.
A carruagem entrou em movimento e soltou as lágrimas, embarcando em um pranto pesado.
Ela pareceu demorar mais que o normal para chegar em casa, mas assim que chegou entrou rapidamente.
- ? – Sua mãe a chamou da sala de estar. Ela limpou as lágrimas e foi até lá.
Giorgiana estava tricotando no espaçoso sofá de veludo.
- Sim? – Ela disse com a voz trêmula. A mãe ergueu o olhar da lã e seu olhar suavizou-se.
Ela colocou o material de costura na mesa de centro e ergueu os braços para a filha.
correu até a mãe e pulou em seus braços, soltando o choro. Giorgiana fez ela deitar a cabeça em seu colo e acalentou-a.
- O que ele fez, querida? – Ela perguntou. – O que seu irmão fez?
- Nada. – mentiu. – Nada. Estamos bem. Ele ficou na casa de Eric, disse que voltará mais tarde.
Giorgiana ia perguntar algo mais, mas apenas concordou com a cabeça e continuou acariciando os cabelos da filha enquanto ela chorava, botando todo o seu desespero para fora.
- Ainda temos algumas tortas de limão do almoço. Quer uma? – Ela perguntou. sorriu para a mãe e apenas concordou.
Giorgiana retribuiu o sorriso e levantou-se, desaparecendo pela casa.
Ela voltou logo em seguida com uma pequena bandeja nas mãos e as tortinhas. comeu algumas e regozijou-se. Estavam deliciosas.
- Posso contar um segredo? – Giorgiana perguntou, pegando uma das tortinhas e levando aos lábios, mastigando graciosamente.
- Claro, mamãe. – concordou, fazendo o mesmo.
- Eu que as preparei. E posso dizer que me superei dessa vez. – Giorgiana piscou para , e ela pensou que era a coisa mais gentil que a mãe havia feito por ela.
Giorgiana levantou-se com a bandeja vazia nas mãos e andou até a porta.
Mas o que aconteceu em seguida assustou profundamente.
Giorgiana começou a tossir, uma tosse carregada que tirou suas forças a ponto de ela derrubar a bandeja no chão e se apoiar na mesa.
- Mamãe? – chamou. – A senhora se engasgou?
Giorgiana parou de tossir e pigarreou.
- Estou bem, querida.
- Que tosse toda foi essa?
- Nada. Mamãe vai subir, certo?
Ela nem esperou resposta, muito menos apanhou a bandeja do chão. Apenas deixou a sala e uma conflitada de emoções.
Ela apanhou a bandeja e deu para o primeiro serviçal que passou. Foi para seu próprio quarto e tirou o pingente do espartilho, trocando de roupa e vestindo o pijama. Avaliou-o. Ela sentiu uma leve elevação em um dos lados do disco e apertou, fazendo-o se abrir e revelar um papel antigo dobrado.
Ela o abriu. Era uma carta.

Belfast, 22 de dezembro de 1868,

Minha Eilis,

Não posso lhe contar os horrores dos combates que se seguem, até porque não seria apropriado nesta carta. Então, dê-me notícias de tudo. Como estão Eric e Ethan? Ainda batem muito de frente um com o outro? Aposto que serão fortes como o pai e bonitos como a mãe. E nossa princesa que cresce em tua barriga? Tem certeza de que é uma menina? Sei que a parteira disse-lhe que sim e que ela nunca erra, mas tenho minhas dúvidas. Assim como tive com meus dois garotos.

Oh, minha querida Eilis, me pergunto se os verei crescer. Quero ver as meninas correndo atrás deles, quero ver os primeiros passos de nossa bela, ouvir suas primeiras palavras. Mas o quão inconveniente é esta guerra? Não há sentido, não há piedade nisto tudo. Vi amigos meus morrerem ao meu lado. Robert. Ben. Mortos por uma causa perdida, uma falácia sobre paz depois de guerra.

Mas já lhe disse que não quero abordar este tópico em minha carta. Voltarei para Londres em quinze meses. Nossa amada Evelyn já estará com nove meses, quase um ano! Mal posso esperar para vê-los de novo. Todos vocês.

Mas, se por ventura algo terrível acontecer, saiba que a amo mais que minha própria vida. Que nunca terei ido completamente. Estarei cuidando de você e das crianças.

Mas que tolice estou escrevendo. Claro que voltarei. Meu lugar é aí com vocês.

Sempre seu,

Andrew Ives

As palavras de Evelyn voltaram à mente de .
“Meu pai morreu na guerra antes de eu nascer”.
Ela derramou uma lágrima, apertando o papel envelhecido contra o coração. Devolveria no outro dia. Oh, sim... Devolveria.



Capítulo 10

Nikolai

O whisky desceu rasgando na garganta. Mas era justamente o que Nikolai estava precisando.
- Bom, não é como o whisky do jogo, mas dá para o gasto. – Eric disse, tampando a garrafa de vidro. – Agora conte-me. O que houve?
- Scar... Eu sou uma pessoa horrível. – Ele começou. – Sou uma blasfêmia ambulante.
Eric franziu a testa, sentando na frente do atormentado jovem de cabelos negros.
- Isso não é por que transou com minha irmã, é? – Ele perguntou.
Nikolai engasgou com o whisky.
- Não devo me preocupar com Ethan escondido com uma arma em algum canto desta sala, não é? – Ele perguntou, olhando em volta. Eric gargalhou.
- Oh, não. Todo mundo transa com a minha irmã. – Ele disse. – Acredito que ela tenha conquistado todos os meus amigos e os de Ethan. Mas enfim, não vamos falar dela. O que o aflige?
Nikolai suspirou, puxando os cabelos para trás.
- Eu desenvolvi algum tipo de obsessão pela minha irmã. E isso não vai embora.
Eric franziu a testa.
- Obsessão? Como assim?
- Não sei explicar. Mas toda vez que... – Nikolai virou o copo de whisky e o álcool lhe deu coragem para terminar. – Toda vez que estou perto dela, meu corpo inteiro esquenta. Minha mão coça. Minha cabeça fica zonza.
Eric colocou a mão no ombro dele.
- Nikolai... Você é uma blasfêmia ambulante. – Ele disse. Apenas.
Os dois trocaram olharem e riram. Riram até a barriga doer.
Eric recolheu a taça da mão dele e tornou a enchê-la, devolvendo-a em seguida.
- Falas sério? – Ele perguntou, não mais rindo.
- Como nunca na vida. – Nikolai virou o copo. – Sou uma pessoa doente.
Eric se serviu de mais uma taça de vinho.
- Você não é o primeiro. Já vi alguns jovens assim.
Nikolai olhou fundo nos olhos dele.
- Verdade?
- Claro.
- Está mentindo.
- Nunca minto. Um jovem em Paris só se satisfazia com mulheres ruivas de olhos castanhos. Sempre a mesma aparência física, características, tudo. Uma vez, encontrei-o bêbado em um bordel, rodeado de belas ruivas. Todas ruivas. Minha curiosidade falou mais alto. “Por que só ruivas?”, perguntei a ele “Por que não morenas ou loiras?”. Ao que ele me respondeu, bêbado como um gambá: “elas me lembram minha irmã”.
Ele tornou a encher o copo de Nikolai silenciosamente.
- O que estou tentando dizer é que... Não é tão estranho como você diz. Acontece. – Eric disse. – Não se sabe exatamente o porquê.
Nikolai concordou com a cabeça, virando o copo novamente. Já se sentia um pouco tonto.
- Depois de amanhã será lua cheia. – Eric disse pensativo, olhando para o céu escuro.
Nikolai bufou, lembrando-se do maldito lobo.
- Não deve ser boa época para você, presumo. – O olhar de Eric tornou-se sombrio.
- Não é. Aprendi a repudiar essa maravilhosa época do mês. – Nikolai foi até a garrafa e pegou-a, bebendo dela mesma.
- Jantarás aqui? – Eric perguntou, virando-se para ele.
- Se assim desejas. – Nikolai colocou a garrafa na mesinha de vidro.
Eric pegou um sininho na mesa de canto e balançou-o, fazendo o doce tilintar preencher os ouvidos de Nikolai. Lena apareceu.
- Sim?
- Mande colocar mais um prato na mesa. Nikolai jantará conosco.
- Sim, senhor.
Lena fez uma reverência e saiu.
- Sabes se sente o mesmo por você? – Eric perguntou, em seguida bebendo o resto do vinho da taça.
- Definitivamente não. Contei a ela e tivemos uma discussão. Por isso voltei para cá.
Eric sorriu lascivamente.
- Nikolai, não seja ingênuo. Não combina com você. – Ele respondeu.
Nikolai ficou confuso, e Eric percebeu, sorrindo de leve.
- O que quero dizer é que a Srta. Martell foi criada para ser a perfeita dama inglesa. Valores da decrépita sociedade em que vivemos foram empurrados cabecinha adentro nela, e ela foi ensinada a não se dar ao luxo de cometer um erro. Se você quer algo dela, meu confuso amigo... Terá de ser aos poucos, e tudo muito bem calculado. – Eric disse. – Terá de conquistá-la. Presumo que será fácil para você.
Nikolai abaixou o olhar e sorriu convencido.
Solomon entrou na sala.
- Com licença. Mestre Eric, o jantar está servido.
- Obrigado, Solomon. – Eric agradeceu ao mordomo, que fez uma elegante mesura, retirando-se em seguida. – Acompanha-me, Nikolai?
- Claro. – Ele levantou-se devagar, seguindo Eric até a sala de jantar.
Era uma parte da Mansão que ele ainda não havia visto.
A mesa tinha lugar para uma estimativa de setenta convidados, o que fez Nikolai agradecer mentalmente. Não queria ficar perto de Evelyn depois do que acontecera entre os dois.
Ele olhou para a mesa. Havia um verdadeiro banquete. Peru, porco, pato, galinha, boi, peixe. Além dos acompanhamentos.
- Perdi alguma coisa? Você tem mais convidados? – Nikolai perguntou, observando Eric sentar-se na cabeceira da mesa. Ele sentou-se então à sua esquerda.
Eric deu uma risadinha.
- As sobras vão para os empregados que cuidam da casa. São muitos, e gosto de dar uma certa variedade para eles poderem escolher o que comer. Às vezes alguns pratos saem da mesa intocados, e eles terminam com tudo. O que sobra depois disso vai para os porcos.
- Interessante. – Nikolai comentou no momento que Evelyn entrava na sala junto com Ethan.
- Ah, Nikolai! Veio se juntar a nós no nosso humilde jantar. – Ethan ironizou, dando um total desdém à palavra “humilde”. Nikolai percebeu que ele não concordava com a ideia de Eric.
- Alguns empregados daqui vieram das ruas, não tinham nada para comer... – Eric comentou, brincando com um dos seus anéis e ignorando Ethan. – Algumas pessoas realmente deveriam agradecer por terem uma situação melhor e não precisarem passar fome. O que seus empregados comem, Nik?
- Ahn... Não sei. Eles comem depois de nós, e na cozinha. Suponho que preparam o que comem, depois de preparar nossa comida e nos servir. Oh, se bem me recordo, às vezes mamãe cozinha algo para eles. Ela adora cozinhar, e faz isso muito bem. Mas meu pai não deixa que ela faça isso, então ela cozinha escondido.
Eric sorriu.
- Seu rosto se ilumina quando fala de sua mãe. Deve amá-la muito. – Ethan disse.
- Ela é a razão da minha vida. Não sei o que faria sem ela.
- E seu pai? – Evelyn entrou na conversa.
Nikolai serviu-se de costelas de porco antes de responder.
- Não nos damos muito bem. Opiniões e interesses controversos.
Evelyn ergueu uma sobrancelha.
- E o pai de vocês? E mãe. – Nikolai tentou tirar o foco de si, levando uma garfada à boca em seguida.
- Nosso pai morreu na guerra antes de Evelyn nascer. – Ethan respondeu, servindo-se de peru.
- Oh... Sinto muito. Também perdi um familiar na Guerra Civil. Um tio. Anzor Martell, já ouviram falar? – Nikolai encarou os três jovens.
- O nome não me é estranho. – Ethan respondeu. – Acho que era amigo de Robert, não me recordo bem no momento.
- Robert era o pai de Stephen e Johanna. Nosso tio. – Eric explicou.
- Então Stephen e Johanna são seus primos?
- Oh, sim. Mas eles usam o nome da mãe. Robert se casou com uma bela alemã, Elisa Schmidt. Antes de ir para a guerra, se envolveu com outra mulher, não me recordo do nome dela. Deixou Elisa com dois filhos para criar e sem nenhum dinheiro. – Ethan disse.
- Um escândalo. Foi comentado por meses. – Evelyn disse. – E nossa mãe... Ela morreu de tuberculose.
Nikolai terminou de comer em silêncio, absorvendo todas as informações da noite.
- Foi uma maravilhosa tarde, Eric. Mas devo ir para casa. – Nikolai limpou os lábios com o guardanapo.
- Naturalmente. Solomon! – Eric chamou, e o mouro veio à sala. – Mande aprontar uma carruagem para Nikolai.
Eles pediram licença e se levantaram, voltando para a sala de estar.
- Aqui. Leve. – Eric lhe empurrou a garrafa de whisky. – Precisa disso mais do que eu.
Nikolai agradeceu e bebeu o resto da bebida marrom sem nem dar tempo para respirar. Foi mais da metade, e ele finalmente se sentiu zonzo.
- Bom garoto. Eu estava pensando... Posso mandar uma carruagem buscá-lo às seis da tarde? Depois de amanhã.
Nikolai franziu a testa.
- Presumo que sim. Por que nesta hora? – Ele perguntou. – E para onde vamos?
- Estarei tratando de negócios a tarde toda. Mas preciso que venha. – Eric respondeu. – Surpresa.
- Claro. Virei. – Ele concordou.
Solomon veio avisar que a carruagem estava pronta e Nikolai levantou, cambaleando e se segurando na mesa de canto.
Como assim já estava bêbado? Geralmente só ficava assim no final da noite, quando já havia bebido duas garrafas de whisky.
- Opa! Calma, apoie-se em mim. – Eric chegou perto dele, colocando seu braço por cima do ombro. – Você é mesmo tão fraco para bebida?
Nikolai não estava entendendo. Que coisa estranha.
Eric ajudou-o a subir na carruagem e ele caiu por cima do banco.
Quando voltou a olhar para Eric, via três dele.
- Cuide-se – Ele disse.
Nikolai respondeu algo que nem ele próprio compreendeu e Eric sorriu, fechando a porta e mandando o cocheiro seguir em frente.
A carruagem começou a sacolejar e o estômago de Nikolai começou a reclamar. Ele engoliu em seco e começou a respirar fundo, tentando aguentar o máximo que podia.
Assim que chegou na Mansão Martell, desceu da carruagem e se ajoelhou na grama do jardim, colocando tudo para fora.
- Oh, Sir Nikolai! – Ele ouviu uma voz calma e sentiu alguém ampará-lo pelas costas. – Vamos para dentro, antes que Sir John o veja. Prepararei um banho.
Alfred o ajudou a se levantar e levou-o para dentro.
Preparou-lhe um banho mais que gelado e ajudou-o a se despir. Nikolai foi colocado na banheira sem piedade e resmungou ao sentir a água gelada no corpo.
- Oh, perdoe-me, Sir, mas não acho que Sir John deva vê-lo desse jeito. – Alfred pegou uma jarra com a água e molhou seus cabelos, fazendo Nikolai chiar de frio. Ele abraçou os joelhos e tentou controlar os calafrios até Alfred terminar.
- Aqui, senhor. A toalha. – Ele entregou. – Deseja que eu me retire?
- Você foi maravilhoso, Alfred. Mas eu realmente gostaria de ser deixado sozinho agora.
Alfred realizou uma graciosa mesura.
- Se precisar de algo, pode mandar me chamar.
- De modo algum. Está tarde, deves estar cansado. Seus serviços estão dispensados por hoje. E obrigado por tudo, Alfred. – Nikolai sorriu para o doce mordomo.
- Faço o que posso para agradar e ser útil. Sir, com sua licença. – Ele tornou a realizar uma mesura e retirou-se.
Assim que Nikolai ouviu a porta, se levantou da banheira, se enrolando na toalha e se enxugando o máximo que pôde. Estava morrendo de frio, mas em compensação estava menos tonto. Expulsara o álcool do corpo com o vômito e a água gelada ajudara.
Ele foi para o quarto e vestiu a roupa de dormir, aconchegando-se debaixo das cobertas. Ele já sabia o que iria fazer no outro dia.
Iria voltar ao acampamento cigano. Precisava saber exatamente o que acontecera depois que fora mordido.

Ethan

A lamparina era leve como seda em suas mãos.
Ao longo do caminho que ele percorria, Ethan pensava em como tudo estava sendo fácil demais. A situação estava perfeita. Em dois dias, tudo seria resolvido e comprovado.
Ele não queria pensar no que estava prestes a fazer, queria acreditar que um pouco de humanidade ainda vivia em si. Mas estava descrente, e sabia que a humanidade que tanto ansiava não iria ajudá-lo no momento.
Ethan passou a lamparina para um empregado e montou em seu cavalo.
Enquanto cavalgava, ele pensava no que iria fazer com a irmã do sujeito. Ela era muito apegada a ele, era verdade. Podia estragar tudo. Era por isso que iria fazer o que estava prestes a fazer. E depois, dormiria uma tranquila noite de sono, encostaria a cabeça no travesseiro como se nada houvesse acontecido.
Foi nesses pensamentos que ele rapidamente chegou ao acampamento cigano do lado de fora da cidade.
Ele deu o cavalo para um menino, junto com uma moeda para ele amarrá-lo e cuidar dele até Ethan voltar.
- Sabe onde encontro Corina? – Ele perguntou ao menino, que o apontou uma das cabas.
Ethan foi até lá, abrindo a cabana e vendo a mulher de longos cabelos acobreados e olhos verdes de gata, adornados por uma bela pele cor de café. Ela estava de costas para ele, penteando os cabelos e completamente nua, sentada em uma cama improvisada.
- Corina. – Ele chamou, fazendo-a se virar bruscamente. – Faz muito tempo.
- Você! O que quer? Como nos encontrou? – Ela perguntou.
Ele não respondeu, apenas sorriu. Um sorriso que demonstrava muito bem suas intenções. E não eram boas.

Nikolai

Nikolai sentiu um peso na cama e abriu os olhos, vendo a mãe. Ela o olhava com tristeza.
- Mamãe? – Ele chamou, passando as mãos no rosto como uma tentativa falha de parecer mais acordado. – O que houve?
- Chegou bêbado ontem novamente? – Ela perguntou.
Nikolai suspirou, deitando a cabeça no colo da mãe.
- Perdoe-me. – Ele pediu, apenas. – Mas sim.
Giorgiana começou a passar as mãos pelos cabelos do filho, acalentando-o.
Só aí ele percebeu a bandeja prateada em cima da mesa de cabeceira.
- Sente-se. – Ela ordenou, pegando a bandeja no colo.
Nikolai assim o fez, encostando as costas no travesseiro e na cabeceira da cama.
Na bandeja havia um prato com frutas, um com um grande pedaço de bife e duas taças, uma com água e outra com suco.
- Para que tudo isso? – Ele perguntou.
- Você precisa se hidratar.
Ela pegou um pedaço de maçã com o garfo e forçou contra a boca dele.
- Eu posso comer sozinho. – Ele disse, sorrindo e tentando pegar o garfo.
Giorgiana deu um leve tapa em sua mão.
- Eu não tenho o direito de mimar meu filho?
Nikolai riu sem humor.
- Não estou merecendo ser mimado. Eu quem deveria mimar a senhora.
Giorgiana deu um triste sorriso.
- Coma.
Ela o alimentou e o fez beber as duas taças cheias. Quando terminou, Nikolai estava estufado, e sentia-se como um peru de ação de graças.
- Como se sente? – Ela perguntou, limpando a boca dele com um guardanapo.
- Minha cabeça estava doendo, mas agora melhorou. – Ele pegou a mão da mãe. – O que está acontecendo? Para que tudo isso? A senhora nunca me alimentou, só quando estive doente, o que não estou, fiz uma coisa errada.
- Só quero mimar vocês um pouco. Quase nunca tenho tempo para isso. – Ela lhes tirou os cabelos dos olhos, sorrindo com extremo afeto. – Você tem olhos tão lindos.
Nikolai sorriu e beijou a mão de Giorgiana.
- Obrigado. Por tudo.
Giorgiana beijou-lhe a testa, levantando-se e pegando a bandeja.
- Descanse.
Ela saiu do quarto e deixou-o sozinho.
Nikolai olhou no seu relógio. Eram 2:14 PM.
Finalmente ele retornara a sua típica rotina de descanso.
Ele sorriu consigo mesmo e se levantou, indo até o gomil que a empregada deixava toda manhã e lavando o rosto e os braços. Precisava ir ao acampamento. E já. Tinha o pressentimento de que encontraria suas respostas lá.
Ele vestiu seu habitual terno e deixou a barba por fazer. Calçou os sapatos e saiu do quarto, descendo as escadas.
- Aonde vai? – Ele ouviu a voz seca de John e virou-se, vendo o pai saindo da sala de estar com Giorgiana.
- Respirar ar puro. – Ele respondeu. – Irei ao parque. Por quê?
- Ao parque, uh? Então leve seus irmãos com você. – John apontou para Peter e Maddie.
- Não! Eu...
- Não vais ao parque?
- Vou! Só...
- Então leve-os. Vou mandar preparar a carruagem. – Ele saiu, deixando um Nikolai mais que aborrecido.
- Devias levar também. Ela adora ir ao parque. – Giorgiana sugeriu.
- Ah, claro. Isso, mamãe. Complete minha tarde.
- Olhe o tom. E leve-a, sim? Vocês precisam de mais tempo juntos, andam brigando demais. – Ela disse. – Vou chamá-la.
“Acredite, o que a senhora menos quer é que eu passe mais tempo com ela”, ele pensou, mas apenas observou a mãe subir as escadas.
Ele se virou para as duas crianças sentadas no sofá.
- Prometam que irão se comportar. – Ele ordenou.
Peter concordou com a cabeça e Maddie apenas sorriu para o irmão, batendo leves palminhas.
Algum tempo depois, desceu. Parecia entediada.
- Vamos logo. – Ela disse. – Quero voltar cedo.
Nikolai revirou os olhos enquanto a garota passava por eles e saía da casa. Ele fez caretas, imitando a irmã e fazendo as crianças rirem.
Ele pegou Maddie nos braços e eles seguiram para a carruagem.
John os esperava.
- Cuide bem dos seus irmãos. – Ele ordenou, fazendo Nikolai revirar os olhos e entrar.
Ele foi seguido por e Peter e a carruagem começou a andar.
sentou ao lado do pequeno irmão e de frente para Nikolai. Ele ajeitou Maddie e começou a brincar com a hiperativa criança.
- Achou! – Ele colocava e tirava a mão dos olhos, fazendo-a rir. – Achou! Achou!
sorriu para a cena. Ficava toda amolecida quando via Maddie brincar. E ficava esperançosa que ela dissesse algo, mas a pequena nem sequer balbuciara desde aquele dia. Com amolecida, seria mais fácil de arquitetar e por em prática seu plano de ir ao acampamento.
Eles chegaram ao parque e saíram da carruagem. Nikolai ainda levava Maddie no braço, e ele viu que trazia uma cesta de piquenique.
Perfeito.
- Irmã, tenho que ir. – Ele disse, entregando-lhe Maddie e beijando-lhe a bochecha. – Se comportem.
ficou indignada.
- Mas... Papai mandou você ficar aqui comigo e as crianças! – Ela guinchou.
- Voltarei antes do fim da tarde, prometo. – Ele disse. – Por favor.
- Não.
A raiva tomou Nikolai.
- Então irei contar ao papaizinho sobre os livros que você anda lendo. Nunca mais ele deixará você ir até a Mansão Moonrise. – Ele falou.
arfou de ódio e abriu a boca para responder, mas parou no meio do caminho. Seu rosto ficou vermelho.
- Seu egoísta! Eu só li dois! – Ela protestou.
- E trouxe outro. Eu vi. Me ajude nessa se quiser ler um quarto livro. – Ele bagunçou o cabelo da irmã, que afastou sua mão com um tapa. – Calminha, paus e pedras podem quebrar meus ossos.
- Volte logo. – Ela disse, apontando o fino dedo indicador para ele.
- Voltarei, não amole. – Ele beijou sua bochecha, fez o mesmo com Maddie e passou a mão nos cabelos finos de Peter.
Ele foi até a calçada e avistou uma carruagem popular. Foi até o cocheiro.
- Para onde, senhor? – Ele perguntou.
- O acampamento cigano do lado de fora da cidade. – Ele disse.
O homem franziu a testa e passou a mão na barba grisalha e imunda que chegava até o meio do pescoço.
- Mas é proibido, senhor. Poderia me meter em grandes apuros...
- Pagarei a você dez libras. Cinco na ida e cinco na volta. – Ele tirou o dinheiro do bolso, mostrando ao homem.
Ele deu um sorriso sacana ao ver o dinheiro, seus dentes podres cobertos de tártaro.
- É um prazer fazer negócio com o senhor. – Ele disse, abrindo a porta da carruagem.
Eles chegaram em pouco mais de uma hora.
Nikolai avaliou o local. Acontecia algo, um aglomerado de ciganos estava reunidos perto de uma das cabanas.
- Espere aqui. – Ele ordenou ao cocheiro, indo até o foco da confusão.
Ele abriu caminho e olhou dentro da cabana, se arrependendo logo em seguida. Seu estômago revirou-se e seus olhos cor de gelo se arregalaram.
A prostituta cigana com quem ele havia estado antes do acidente jazia em pedaços, espalhada por toda a cabana.



Capítulo 11

Ele se afastou e levou as mãos ao rosto, fechando os olhos. Ele nunca esqueceria daquela cena.
- Com licença. Você fala minha língua? – Ele perguntou a um cigano de longos cabelos ruivos e revoltos.
- Se veio procurar por prazer ou vendas, essa realmente não é uma boa hora, amigo. – O homem disse, sua voz com um forte sotaque.
- De modo algum. Desejo apenas saber o que houve. – Nikolai respondeu, a voz cuidadosamente controlada.
O cigano franziu a testa e avaliou Nikolai com meticulosos olhos verdes.
- O senhor vem muito aqui? Me é estranhamente familiar. – Ele disse.
- Não acredito que nos conheçamos. Vim poucas vezes, e não venho já há algum tempo. – Nikolai respondeu, olhando para a cabana. – Mas eu a conhecia.
O ruivo suspirou, passando a mão nos cabelos.
- Ela era minha irmã. Me chamo Boris. – Ele estendeu a mão.
- Sou... John. – Ele apertou a mão do homem.
Eles andaram pelo acampamento.
- Não sabemos ao certo o que aconteceu. A Corina nunca faria mal a alguém, era uma criatura inofensiva.
- Não suspeitam de ninguém?
Boris pareceu avaliar as palavras com cuidado e escolher as suas ainda mais cuidadosamente.
- Bom, ontem veio um jovem aqui. O vi de longe, apenas entrou na barraca e saiu uma meia hora depois. Mas... Não sei, os outros pensam diferentes. Puras superstições.
- Que jovem?
- Um burguês. Cabelos loiros encaracolados, bigode. Uniforme de militar. Não estou dizendo que ele teria feito isso, mas...
Nikolai arregalou os olhos. Ethan? Mas seria possível?
Ele engoliu em seco.
- No que você acredita, Boris? – Ele perguntou.
O ruivo encarou Nikolai, parando de andar.
- Amanhã é noite de lua cheia, Sir John. Não ignoro minhas crenças. – Ele disse, por fim.
Nikolai levou a mão ao pescoço inconscientemente, esfregando a área.
Boris arregalou os olhos.
- É você! O rapaz que foi mordido! – Ele gritou.

- Peter, não vá muito longe. Aqui, coma uma uva. – Peter pegou a verde uva da mão da irmã e levou-a à boca. – Muito bem.
Maddie estava sentada na frente de , mordiscando um morango com seus pequenos dentinhos.
- Apetitoso, não é? Consegue dizer morango? – Ela perguntou. – Morango? Mo-ra-n-go.
Maddie nada disse, fazendo suspirar.
- Tudo bem, continuaremos tentando. – Ela disse.
- Srta. Martell? – Ela ouviu uma voz e virou-se, vendo Ethan Ives.
- Sr. Ives! Que prazer! – Ela se afastou, dando espaço para ele na toalha de piquenique. – Junte-se a nós.
Ethan sorriu e assim o fez.
- Esta é sua irmã? – concordou. – Mas que linda criança.
Maddie sorriu, aceitando o elogio de bom grado.
- Conte-me, Srta. Martell... Posso chamá-la de ? – Ele perguntou, fazendo-a consentir. – , chame-me de Ethan. O que a traz aqui nesta bela tarde?
- Às vezes gosto de vir aqui. Para pensar. – Ela disse, observando o remexo do vento na copa das árvores. – Não achas que é uma boa paisagem para ajudar a pensar?
- Depende no que está pensando. – Ele respondeu, olhando em volta.
sorriu levemente.
- Nunca penso em apenas uma coisa.
- Então no que está pensando agora?
- Não sei dizer. No futuro, talvez? Sim. No que o futuro me reserva.
Ethan sorriu.
- O futuro é mutável. Está levemente premeditado por nossos atos, mas é inconstante e infiel.
retribuiu o sorriso.
- Então está dizendo que um ato meu neste momento tem o poder de mudar todo meu futuro?
- Mas é claro. Por que não se arrisca? – Ethan perguntou, os olhos azuis brilhando. Ele tocou a mão de num movimento ousado.
olhou para a mão e sorriu, puxando-a.
- Seu charme não tem limites, Ethan. Mas temo que terei de recusá-lo. – Ela disse.
Ethan riu, deitando na toalha com os braços cruzados atrás da cabeça.
- Então o coração da bela Srta. Martell já foi tomado. Espero que por um bom homem.
sentiu as bochechas corarem, e sem querer pensou em Nikolai.
Seu sorriso se desfez.

Nikolai

O homem olhava abismado para Nikolai.
- O senhor deve estar me confundindo com alguém. – Ele disse, erguendo as mãos.
- Não! Me lembro muito bem! – Boris disse com a voz baixa e assustada. – Eu o levei até sua casa. A besta... Vârcolac! Senhor, deve ir embora. Deve seguir seu caminho e não voltar mais aqui.
- Mas eu preciso de respostas! – Nikolai insistiu. O homem começou a se afastar em passos largos e ele o segui enquanto falava. – Preciso saber o que aconteceu naquela noite! Por favor, estou completamente no escuro.
Boris parou e segurou Nikolai pelos ombros.
- Quer uma resposta? Amanhã à noite, fique em casa. Se tranque. Correntes, cordas. Tudo que for forte e poder conter algo com a força de cem homens. Fique. Em. Casa. E que Del o proteja.
Boris correu e deixou Nikolai sozinho, frustrado pela falta de respostas coerentes.
Ele voltou para a carruagem, onde o cocheiro o esperava.
- De volta para o parque. – Ele ordenou, entrando.
Enquanto a carruagem se movia, Nikolai não conseguia tirar a cena em as palavras do cigano da cabeça. Vârcolac... O que significava aquela palavra?
Chegou ao parque e pagou o cocheiro, que agradeceu e foi embora. Ele foi andando, procurando por e os outros irmãos.
Ele sentiu uma pancada no braço e olhou para baixo, vendo Peter.
- Ah, olá. – Ele se ajoelhou ao nível do irmão. – Onde estão e Maddie?
- Estão com o militar. – Ele respondeu.
Nikolai sentiu a temperatura esfriar, e seu sorriso se desfez.
Ele correu, procurando . Peter o seguiu, assustado e perguntando o que estava havendo.
Ele os avistou sentados na toalha de piquenique, Junto com Maddie. Nikolai parou e recuperou o fôlego. Não podia chegar lá daquele jeito, tinha de estar natural, como se nada tivesse acontecido.
- O que houve, Nik? – Peter perguntou.
Nikolai tentou sorrir.
- Nada, parceiro. Vamos lá falar com suas irmãs. – Ele puxou Peter pela mão.
ria de algo que Ethan havia dito.
- Boa tarde. – Nikolai cumprimentou. – O que eu perdi?
- Ah, está de volta. – sorriu para o irmão de mau grado.
- Ethan, como vai? – Nikolai cumprimentou, sentando ao lado de . Maddie veio para seu colo e ele puxou-a de maneira possessiva.
- Muito bem, Nikolai. Estava aqui conversando com sua irmã. – Ele sorriu para .
- Onde esteve? – Ela perguntou.
- No acampamento cigano. – Nikolai respondeu com uma voz despreocupada, brincando com as mãozinhas de Maddie.
trincou os dentes e abaixou a cabeça.
- Não fui fazer o que está pensando, irmã. Fui querer desvendar meu acidente de um mês atrás. Só isso. – Ele disse.
Ele olhou para Ethan, que tinha uma expressão totalmente isenta de culpa.
- Já esteve lá, Ethan? – Nikolai perguntou.
Muito sutil. Muito mesmo.
- Oh sim, umas duas vezes para inspeção. – Ele respondeu. – Estive lá ontem de noite, inclusive.
Nikolai concordou com a cabeça. Ou ele escondia muito bem os sentimentos, ou realmente não tinha nada para esconder.
Ethan levantou-se e sorriu para eles.
- Agora a senhorita está em ótima companhia, Srta. . Devo ir.
- Até logo, Ethan. E obrigada por ficar conosco.
- Foi um prazer. Até a vista. – Ele saiu.
Nikolai relaxou, soltando o fôlego de vez. Não tinha provas de que Ethan havia matado aquela mulher, mas até ter certeza de que Boris estava enganado, era melhor ter cautela.
- Então... O que descobriu? – perguntou, dando uma fruta para Peter.
- Nada. Só um bando de superstições estúpidas. O que acha de irmos para casa? – Ele pediu, cansado.
suspirou e se levantou, começando a arrumar a cesta. Nikolai ajudou e eles seguiram para a sua carruagem, onde o cocheiro da família já os esperava.
- Estou com sono. – Peter disse ao entrar. entrou em seguida com a ajuda de Nikolai e puxou-o para seu colo.
- Durma. Te acordarei quando chegarmos. – Ela disse. Peter concordou e se aninhou no colo da irmã, fechando os olhos.
Nikolai entrou com Maddie e deu sinal para o cocheiro partir. Estava irritado com o cigano. Precisava de respostas! O que estava acontecendo com ele? O que era aquela sensação de aviso, de aguardo que o incomodava tão imensamente?
- Sinto muito por não ter descoberto nada. – disse, acariciando os cabelos de Peter.
Nikolai sorriu de mau grado.
- Também sinto. – Ele respondeu.
O resto do percurso se seguiu em silêncio. Quando eles chegaram à mansão, Alfred os recebeu nervoso.
- O que houve? – Nikolai perguntou.
- É a Senhora. Ela está doente.

sentiu a cabeça girar. Oh não. O que tinha de errado com sua mãe?
Nikolai nem deixou Alfred terminar. Correu escada acima.
colocou os irmãos para dentro e o seguiu.
A mãe estava deitada na cama, os cabelos loiros despenteados e a pele suada. Nikolai já estava ao seu lado, segurando sua mão. John estava mais longe, sentando numa poltrona perto da janela. Tinha o semblante preocupado.
- É só um resfriado. – Giorgiana disse com a voz fraca.
- Não, não é. – virou-se e viu Victor arrumando sua maleta marrom. – A senhora tem que se cuidar.
O coração dela se aqueceu. Fazia algum tempo que não o via.
- Srta. . – Ele cumprimentou, beijando-lhe a mão.
- Victor. Quanto tempo. – Ela sorriu para o jovem médico.
- De fato. Estive ocupado.
- Eu lhe acompanharei até a saída.
- Na verdade... – Victor puxou-a pela mão. – Estava pensando em darmos uma caminhada pelo jardim.
sorriu.
- Mas que ótima ideia, doutor Eckheart. – Ela ouviu a mãe dizer. Estava com a voz tão fraca. – , não se preocupe comigo. Vá.
se virou para Victor.
- Neste caso... Vamos. – Ela segurou no braço dele e eles chegaram aos jardins de trás, a parte favorita dela na casa.
Era um jardim privado, com um pequeno muro de pedra lotado de trepadeiras. abriu a grade de ferro e eles entraram.
Havia flores de vários tipos e de extrema beleza. A grama era fofa e de um verde claro. No meio, havia uma velha fonte de pedra, onde e Victor se sentaram.
- Belo lugar. – Ele elogiou, olhando em volta.
- Pertence a minha mãe. Ela ganhou de presente de casamento do meu pai. – Ela contou. – Ela cuida dele pessoalmente.
Victor segurou a mão de , fazendo-a corar. O médico olhava profundamente nos olhos dela.
- Senti sua falta. Enquanto estava longe. Pensei muito em você. – Ele disse.
respirou fundo. Ela sentia o mesmo.
- Também pensei muito em você.
O médico sorriu e passou o dedo indicador pela mandíbula de , chegando até o queixo e se demorando ali.
- Não sei o que tem na senhorita que me faz querer questionar todos os meus valores e minha racionalidade. Quando não estou perto da senhorita... E perdoe-me se soo muito ousado, mas meu inconsciente beira a insanidade. O que é isso, Srta. Martell? O que é isso na senhorita que me transforma em um completo bobo?
prendia a respiração diante daquela confissão. Ela não sabia o que dizer, e sentia suas bochechas pegarem fogo.
- Victor... Eu não sei o que dizer. – Ela respondeu.
- Não precisa dizer nada agora. Só me diga se sente o mesmo. Porque, se não sentir, eu irei embora e nunca mais importunarei a senhorita. Não precisará me ver mais que o necessário...
calou Victor, levando seu dedo indicador aos lábios dele.
- Isso é tudo tão repentino. – Ela disse. – Realmente me pegou de surpresa. Preciso... Preciso de um tempo, Victor.
Ela olhou para a janela do quarto dos pais e sentiu o coração gelar.
Nikolai os observava, o olhar afiado como o de um falcão.
- O que tem de errado com a minha mãe? – Ela perguntou.
- Uma gripe.
- Não me pareceu apenas uma gripe.
Victor suspirou.
- Não queria preocupá-los, mas... Estou achando que pode ser pneumonia.
sentiu a garganta secar.
- Irei salvá-la. Tomarei certos cuidados. Farei o que estiver ao meu alcance para sua mãe voltar a ser saudável. – Ele disse.
levantou-se, ajeitando o vestido. Nikolai não estava mais na janela, mas ela estava preocupada com a mãe.
- Victor... Estou preocupada. Se importa...
- De modo algum. Vá. – Ele levantou-se também.
E fez algo que surpreendeu a ela própria.
Ela beijou-lhe a bochecha delicadamente.
- Pensarei em você.
Ele apenas sorriu e beijou sua mão.
o deixou e foi para o quarto da mãe.

Nikolai

A mãe estava tão pálida, fraca, suada.
- Eu vou mimar a senhora. Prudy, pegue uma bacia com água e um pano. – Ele ordenou à criada da mãe. A mulher saiu depressa. – O que a senhora está sentindo?
- Estou bem, queri... – Ela mal terminou de falar e teve um acesso de tosse, apertando a mão de Nikolai.
Ele sentiu uma agonia. Aquilo não era gripe, não mesmo. John não estaria tão preocupado se fosse, e as crianças não estariam proibidas de entrar no quarto até a mãe melhorar.
Prudy voltou com a bacia e Nikolai molhou o pano, colocando-o na testa da mãe.
- Você é um anjo. Eu e seu pai temos tanto orgulho de você. – Ela disse, com a voz fraca.
Nikolai olhou para John com um olhar cético. John retribuiu o olhar na mesma proporção.
- Ela deve estar delirando por causa da febre. – Ele disse, por fim.
- Durma, mãe. Estará melhor quando acordar, sim? – Nikolai pediu, beijando-lhe a testa.
- Vamos deixá-la dormir. – John fechou as cortinas e Nikolai o seguiu para fora do quarto.
Encontraram no caminho.
- Como ela está? – Ela perguntou, indo até a porta.
- Está dormindo, deixe-a. – Nikolai disse, puxando o braço dela num gesto que, sem querer, saiu um pouco forte demais. guinchou.
John pegou Nikolai pela lapela do terno e o jogou na parede brutalmente, fazendo dar um gritinho.
- Nunca mais toque na sua irmã desse jeito. – Ele rosnou entre dentes, fazendo Nikolai grunhir e tentar se soltar.
- Papai, solte-o. Ele não fez nada demais, por favor. – implorou para John.
Ele hesitou, mas aquiesceu ao seu pedido. Nikolai se arrumou e fechou a cara para o pai, deixando o local.
Ele estava tão preocupado com a mãe que nem deu importância para aquilo.
Só queria que ela ficasse bem. Apenas isso.
Nikolai foi para o quarto e não saiu de lá pelo resto da noite.
Na tarde do dia seguinte, acordou com a sensação de agouro em seu ápice. Estava tão agoniado em seu próprio corpo que sentia como se cada extremidade dele estivesse pinicando.
Ele olhou em seu relógio. Eram três da tarde. Havia, como sempre, perdido o almoço.
Mas não estava com fome, de qualquer jeito. Fez sua higiene e saiu do quarto.
Foi até a sala de jantar e pegou uma maçã, comendo-a apenas para manter algo no estômago.
Ele, então, foi para o quarto de Maddie e brincou com a irmã até darem seis da tarde, que foi quando a carruagem que Eric mandara veio buscá-lo. Ele embarcou, receoso de onde iriam.
Nikolai suspirou. A noite de lua cheia havia chegado, e o céu já começava a perder as cores fortes, fazendo com que o amarelo ficasse pálido e alguns tons de laranja e azul se misturassem a ele.
Ele se lembrou do apelo do cigano. “Fique em casa”, ele dissera.
Mas Nikolai não podia deixar de viver sua vida por causa de tolas superstições.
Eles chegaram em Cross-village pouquíssimo antes do anoitecer.
E Nikolai já não se sentia muito bem.
Será que era seu inconsciente lhe pregando uma peça? Ele sentia como se algo estivesse sufocando-o.
Ele afrouxou a gravata e respirou fundo, tentando se acalmar. Talvez ele estivesse tendo um ataque de pânico, e aquilo era coisa de maricas. Ele devia se acalmar.
O cocheiro, porém, não parou na vila em si, mas em uma parte arborizada próxima a ela. Nikolai achou estranho, mas finalmente avistou Eric do lado de fora, encostado em uma árvore.
Ele desembarcou e foi até o rapaz de olhos verdes e cabelos castanhos que se encontrava pensativo.
- O que está havendo? Por que estamos aqui? – Ele perguntou, fazendo Eric suspirar.
- Chegou o dia, Nikolai. O dia da besta. – Eric disse. – E ela virá. Virá para você.
A carruagem saiu em disparada, fazendo Nikolai sentir um calafrio na espinha.
- O que você está dizendo, Scar? – Ele perguntou, engolindo em seco.
- Ela virá... Para todos nós. – Eric se afastou, entrando na densa mata atrás de si. Nikolai olhava em seus olhos, e era como se eles irradiassem uma espécie de macabra luz própria.
Nikolai deu um passo para segui-lo, mas sentiu uma dor lancinante na perna direita, ouvindo um ruidoso estalo, como se ela houvesse partido ao meio.
Ele começou a sentir o mesmo em outras partes do corpo. Braços, pescoço, tronco. Seus ossos estavam todos se partindo, e ele sentia como se seu corpo estivesse se alongando, se transformando.
Nikolai gritou ao sentir aquela dor imensa e sentiu os ossos de seu rosto se expandirem, fazendo seu crânio estalar.
Ele sentia, além disso tudo, como se algo o rasgasse por dentro. Como se algo estivesse lutando para sair.
Nikolai, em meio aos próprios gritos, ouvia sua voz se alterar, engrossar. Se transformar em algo parecido com um grunhido rouco.
Sua pele começou a se rasgar, dando lugar a uma pele mais grossa e totalmente negra. Pêlos começaram a brotar dela, pelos longos e lisos da cor da pele. As roupas se rasgavam enquanto ele ia se expandindo.
A cabeça de Nikolai começou a se adaptar ao novo tamanho de seu corpo. Ele sentiu as unhas caírem e os dedos se quebrarem e se alongarem. No lugar das unhas, cresceram garras longas e afiadas.
Sua mandíbula mudou de forma e seus dentes caíram, dando lugar a presas gigantescas e dilaceradoras. Seu nariz deu lugar a um focinho alongado.
Seus olhos cresceram e a cor se tornou pálida, quase branca, e as pupilas se dilataram.
Nikolai sentiu que estava perdendo a consciência, dando lugar ao que saía de dentro.
A última coisa que ele ouviu foi um uivo. O uivo de um lobo.

A Besta

A besta ficou de pé, avaliando o novo corpo. A lua brilhava acima de sua cabeça, dando-lhe força, poder.
Ela andou sobre as quatro patas pela floresta, chegando a um vilarejo.
A besta avaliou o local.
E partiu para a carnificina.
Alguns homens estavam reunidos na praça pública bebendo e conversando. A besta correu para cima deles e enfiou as garras no peito de um, arrancando seu coração.
Os outros homens gritaram e tentaram correr, desajeitados por causa da bebida.
A besta derrubou um deles e abriu-lhe o abdômen com os dentes, alimentando-se. Estava faminta.
Ela ouviu um barulho e sentiu uma pontada nas costas. Quando se virou, um dos homens segurava uma arma de fogo.
A besta se enfureceu e arrancou o braço do homem, fazendo-o gritar. Em seguida, arrancou-lhe a jugular com as garras, fazendo o homem engasgar e cair ao chão.
A pequena vila se transformara em um completo caos. Pessoas corriam, gritavam, fugiam. A besta gostou do cheiro do medo, do pavor, do desespero.
Ela dizimou a vila até o fim daquela noite. Estava alimentada e satisfeita com o fim do alimento barulhento.
Estava mordiscando um cadáver quando sentiu uma espécie de desconforto.
Olhou para o céu. A lua estava sendo substituída pela gigante bola de fogo.
A besta uivou de dor, sentindo os pelos caírem e os ossos se quebrarem, encolhendo.
As garras caíram e os dedos se retorceram. Unhas cresceram no lugar.
A pele começou a rasgar, dando lugar a outra de cor pálida. Os dentes caíram e a cabeça começou a encolher, imprensando o cérebro.
O uivo foi substituído por um grito de dor, e a besta finalmente cedeu o lugar ao seu próprio alimento preso dentro de si.



Capítulo 12

Nikolai

Dor. Tão forte que o fazia tremer da cabeça aos pés.
Nikolai abriu os olhos, sentindo o sol no rosto. O quê? Mas já era dia? O que havia acontecido?
Ele fez força para se levantar. Era como se estivesse reaprendendo a usar seus membros.
Foi então que ele olhou em volta, e seus olhos se arregalaram de extremo terror.
A vila em que estava fora massacrada. Dizimada. Havia cadáveres mutilados por toda parte. Mulheres, crianças, idosos. Ninguém saíra ileso.
Ele olhou para o próprio corpo. Estava completamente nu, e todo sujo de sangue.
Sangue que não era seu.
E foi aí que flashes da noite passada vieram em sua cabeça.
A carruagem vindo buscá-lo. Cross-village. Eric.
E a dor. A dor extrema nos ossos. O uivo do lobo que saiu dos seus lábios.
Havia sido ele. Ele havia dizimado aquela vila.
Nikolai abriu os braços, jogou a cabeça para trás e gritou. Um grito de medo, terror, culpa. E a raiva.
Ele sentiu um leve toque no seu ombro e se assustou, virando-se e vendo Eric observando-o com um olhar triste.
– O que está acontecendo? – Nikolai perguntou, respirando fundo. Sentia como se o estômago estivesse maior do que deveria estar.
– É, Nikolai... – Eric começou. Usava um roupão de linho vermelho. – Nós precisamos ter uma séria conversinha.

Nikolai vomitava. Aparentemente havia “comido demais” noite passada, e seu estômago estava em uma situação crítica.
Eric o havia vestido com um roupão igual ao dele, exceto pelo seu ser negro. Eles estavam um pouco afastados da vila agora, na área arborizada. Nikolai estava ajoelhado no chão, e Eric dava tapinhas nas suas costas enquanto ele colocava uma grande quantidade de sangue para fora.
– Isso. Ponha tudo para fora – Eric disse.
Quando terminou, Nikolai se levantou desajeitadamente.
– Vai se sentir...
Nikolai não o deixou terminar de falar. Pegou-o pelo pescoço e empurrou-o na árvore mais próxima.
– O QUE VOCÊ FEZ COMIGO? – Ele gritou.
Eric pegou seu pulso e o torceu até Nikolai soltar seu pescoço e se ajoelhar no chão, grunhindo de dor.
– Vamos ter calma e conversar civilizadamente, sim? – Ele pediu. – De acordo?
Nikolai concordou e ele o soltou, fazendo-o segurar o pulso e se levantar.
– Primeiro: não sei se fui eu quem fez isso com você. Não me lembro de nada enquanto estou transformado. Mas, se fui, peço que me perdoe, pois não posso controlar o que vive dentro de mim. Segundo: estou aqui para ajudá-lo, pois vivo do mesmo problema e sei como é terrível acordar com assassinatos nas costas. E terceiro? Melhor sairmos daqui antes de termos que ir para a prisão por eles.
Eric ajudou Nikolai a se apoiar em seus ombros e eles andaram um pouco até chegarem à carruagem.
– Mestre Eric. – Solomon cumprimentou. Iria ser o cocheiro aquele dia. – Sir Nikolai. Como está?
– Não num dos melhores dias, Solomon. Mas obrigado por perguntar. – Ele disse enquanto era ajudado a embarcar por Eric.
A carruagem foi posta em movimento e Nikolai deitou no banco, gemendo de dor.
– Quem o mordeu? – Ele perguntou a Eric.
– Ninguém. Nasci assim. – Ele respondeu, sorrindo levemente. – Minha mãe foi mordida quando tinha doze anos. Passou o gene para mim e Ethan.
– E quanto a Evelyn?
– É um gene dominante, mas nem sempre passa para todos os herdeiros. Mamãe teve a sorte de não passar para os três. Minha primeira transformação ocorreu quando eu tinha onze anos.
Nikolai estava nervoso. Tinha de haver uma cura. Ele não pedira aquilo.
– Achei que sua mãe tinha morrido de tuberculose.
– Oh, não. Antes de minha mãe casar com meu pai, ela era uma cigana. Casou-se, teve Ethan e eu e logo em seguida engravidou de Evelyn. Mas não estava feliz. Pessoas como nós... não gostamos de ficar presos em casas, entende? Enfim, quando papai foi para a guerra, ela fugiu. Foi procurar o acampamento cigano para ver se a aceitavam de volta. Ela já sofria um grande preconceito por ser o que era, mas quando ela chegou lá, já haviam ido embora. Viajamos um bocado procurando-os, mas quando chegou a época que eu e Ethan tivemos nossas transformações, éramos incontroláveis. Eles nos encontraram e atiraram na nossa mãe. Bala de prata. Ela morreu na hora.
Eric soltou um suspiro triste.
– Tinham muitas pessoas. Ethan foi logo amarrado com correntes, um homem pegou Evelyn. Eles haviam forjado uma espada de prata, e quando eu tentei fazer algo, me arranharam no rosto. – Ele passou o dedo pela cicatriz. – Eu me descontrolei. Matei todos. Bom... Quase todos. Poucas pessoas sobraram para contar a história.
– Há algum jeito de não se transformar? – Nikolai perguntou. – De se manter humano?
– Sim. Você pode se privar da luz da lua. Mas não é aconselhável, pelo menos não muito. Você pode enlouquecer, e a besta vai sair sempre mais violenta do que da última vez que saiu.
Nikolai engoliu em seco.
– Há... Há uma cura? – Ele perguntou.
– Se há, ainda não foi descoberta. Sinto muito por você estar passando por isso, você sabe. – Eric disse.
– Não é sua culpa, eu presumo. – Nikolai respondeu e se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. – Eu... Só não quero machucar minha família.
Ele respirou fundo, sentindo os olhos úmidos. Não podia mostrar seus sentimentos na frente de Eric, não mostrava nem na frente dos pais, quanto mais na frente de um rapaz que conhecia há duas semanas.
– Não se preocupe. Irá ficar tudo bem. – Eric lhe deu tapinhas no ombro. – É melhor irmos para minha casa. Você levou um tiro.
Nikolai não havia percebido, mas havia um enorme buraco na parte de trás de seu ombro direito. Ele estava tão dolorido no corpo inteiro que aquela dor parecia mais uma picada de inseto.
Eles chegaram em pouco tempo na Mansão, e Solomon carregou Nikolai até o quarto de hóspedes, deitando-o na cama.
Evelyn entrou sorrateiramente no quarto.
– Como ele está? – Ela perguntou.
– Por favor, me digam que eu não vou passar por isso novamente hoje.
Eric sorriu.
– Ele está bem. E, não, não irá. A primeira transformação ocorre apenas em uma lua cheia. Seu corpo ainda está se acostumando. Mas mês que vem...
– Sim, sim. Já entendi. – Nikolai foi virado de costas na cama por Solomon. – O que é isso? O que ele está fazendo?
– Tem uma bala alojada em seu ombro. Solomon vai retirá-la. – Eric respondeu. – Vai doer.
Solomon pegou uma pinça e enfiou no buraco da bala, fazendo Nikolai gritar e tentar se soltar.
– Se você se mexer, será pior. – Evelyn disse com a voz irônica.
Eric segurou Nikolai e mandou que ela chamasse Ethan, que veio correndo. Os dois seguravam o rapaz, que se sacudia como um peixe fora d’água. Solomon, por fim, retirou a bala e começou a suturar o machucado. Nikolai gritava de dor, tentando se soltar.
– Já vai acabar! – Ethan disse, e Solomon cortou o fio de sutura.
Ele respirou fundo.
– Quero tomar um banho. – Nikolai tentou se levantar e suas pernas falharam, fazendo-o quase cair de cara no chão se não fosse Evelyn.
– Ninguém está em condições...
– Eu darei o banho. – Evelyn o ajudou a se apoiar em suas costas. – Eu o ajudarei.
– Não preciso de sua ajuda. – Nikolai grunhiu, o orgulho falando mais alto.
Evelyn revirou os olhos e o soltou, fazendo com que ele, dessa vez, caísse de cara no chão, gemendo de dor.
– Você consegue ir sozinho? – Ela perguntou. Ele tentou se levantar, mas logo cedeu à dor. – Achei que não. Minha ajuda não irá matá-lo ou retirar sua virilidade, prometo.
Ela voltou a ajudá-lo, levando-o para o banheiro e fechando a porta.

Ethan

– Ele é forte para um filhote. – Ethan disse a palavra “filhote” em tom de deboche. – Quase não conseguimos segurá-lo. Já descobriu quem o mordeu?
– Não. – Eric sentou na poltrona de veludo vermelho do quarto, cruzando a perna elegantemente.
– Não acho que tenha sido você ou eu. Você acha?
– Não sei. Talvez. – Eric lançou-lhe um olhar vazio.
– Por que estás tão quieto? Até parece que não quer se pronunciar sobre tudo isso, irmão. – Ethan reclamou.
Eric deu de ombros e saiu do quarto.
Ethan conhecia o irmão. Ele estava escondendo algo.
E ele iria descobrir.

Nikolai

Evelyn o ajudou a entrar na grande banheira, retirando o seu roupão. Nikolai sentou e a água quente foi despejada. Ele fechou os olhos e, pela primeira vez no dia, sentiu uma imensa satisfação.
– Relaxe. Você está bem agora. – Ela falou com a voz baixa. Nikolai suspirou e fechou os olhos, deixando Evelyn fazer todo o trabalho.
Ela pegou um pano e passou na pele dele, que estava extremamente sensível.
Quando ela chegou no final de sua barriga, seu corpo inteiro se acendeu.
Evelyn percebeu e ergueu a cabeça, olhando em seus olhos. Ela se aproximou e tentou beijá-lo, mas Nikolai virou o rosto.
– O que pensa que está fazendo? – Ele perguntou.
– Tentando beijá-lo! – Ela respondeu tristemente.
– Não.
Ela abaixou a cabeça.
– Por que não gosta de mim, Nikolai? – Ela perguntou. – O que eu fiz, além de ceder a você?
Ele levantou o rosto dela com o dedo indicador, se aproximando.
– Você cedeu.
Ele continuou a encará-la, até que os olhos dela adquiriram a raiva que ele esperava e ela jogou o pano em seu rosto, levantando-se e saindo do lavatório.
Ele tentou se levantar, puxando a toalha e enrolando-a na cintura. Seu corpo havia pegado um pouco mais de força, e ele foi se segurando nas extremidades até sair do lavatório e voltar para o quarto.
Ethan o ajudou quando ele saiu, fazendo-o sentar na cama.
– Trouxe algumas peças para ver se lhe serve.. Você é um pouco mais alto que eu, mas tenho certeza de que algo irá servir. – Ethan apontou para a cadeira, onde algumas peças descansavam.
– Oh, sim. Obrigado. – Ethan concordou com a cabeça e se retirou, deixando-o sozinho.
Nikolai pegou as roupas e escolheu uma calça preta, uma camisa de algodão branca e botas de montaria. Nada muito complicado de vestir.
Ele jogou a toalha para o lado e tentou se vestir, sem sucesso. Estava tão fraco. Isso o irritava. Odiava aquilo.
A porta se abriu e Evelyn voltou, fazendo-o dar um grito de alarde e tentar se cobrir.
Evelyn revirou os olhos.
– Oh, por favor. Não tem nada aí que eu já não tenha visto. – Ela disse, vindo até a cama e pegando as roupas. – Levante-se e segure-se na cabeceira.
Ele assim o fez, se sentindo humilhado por precisar receber a ajuda de uma mulher.
Evelyn o ajudou a vestir a calça e em seguida a camisa. Depois calçou-lhe as botas.
– Por que está fazendo isso? – Ele perguntou a ela. – Sou um idiota.
Ela suspirou.
– Acho que somos dois idiotas então.

Fenrir

– Stephen. Como vai? – Fenrir abriu a porta para o ruivo, que emburacou porta adentro.
– Nikolai teve sua primeira transformação. – Ele contou, fazendo Fenrir franzir a testa.
– Fico feliz de que esteja bem. Também estou, a propósito. Obrigado por perguntar. E eu sei, estava lá com ele.
Stephen arregalou tanto os olhos que seus grandes óculos saíram do lugar.
– FENRIR! POR QUE FEZ ISSO??
– Fique calmo. Ele não suspeitou de nada. Olhe, vá embora. Volte para a Johanna. E tenha certeza: o plano vai sair exatamente como o combinado.
Stephen sorriu maliciosamente e o mordomo o levou até a porta. Fenrir sabia que Stephen confiava cegamente nele.
E Fenrir sabia que iria usar isso a seu favor alguma hora.

Jonathan

– Dashes – Jonathan ouviu Mary, a secretária, o chamar. – Sir Jenkins está chamando.
O homem de cabelos negros e olhos castanhos se levantou de sua mesa, indo até o escritório de seu chefe.
– Wilbur? – Ele chamou, batendo na porta.
– Entre. Tenho trabalho para você. – Wilbur Jenkins apontou uma das cadeiras em frente a sua mesa.
Jonathan sentou-se.
– Antes, tenho uma má notícia. Seu parceiro Rogers. Foi abatido.
Jonathan arregalou os olhos. Seu amigo de longa data? Seu mais antigo parceiro?
– O que houve? – Ele perguntou. – Da última vez que soube dele, havia ido para Cross-village para negociar...
Wilbur colocou fotos na mesa, viradas para ele. Bryan Rogers estava em uma delas.
– Sim, Cross-village. Foi dizimada. – Wilbur disse. – Não sobrou um filho da mãe para contar a história.
Jonathan arregalou os olhos ao ver as fotos. Mulheres, idosos, crianças. Ninguém escapara.
– Você tem que saber que Cross-village não é exatamente um ponto turístico. Não havia muitos forasteiros lá, e os peritos seguiram um rastro de carruagem que seguia para a estrada de Londres. Queremos que averigue...
– Londres é enorme, como posso...
– Acalme-me. Deixe-me terminar de falar.
– Perdoe-me.
– Encontramos roupas rasgadas no local. Roupas caras, mas não encontramos nenhum corpo nu, ou de alguém da classe mais alta. Exceto por Rogers, claro.
Jonathan franziu a testa.
– Isso me parece assunto...
– Para a Ordem? Também achei. Enviei um telegrama para Debrunski agora a pouco. Se temos um deles aqui na cidade, ele vai investigar.
– E onde eu entro nisso tudo? – Jonathan estava confuso.
– Você é o melhor atirador e investigador da Scotland Yard, Jonathan. Irá acompanhar Debrunski. Ele chegará amanhã.
Jonathan se pegou olhando para a foto do que sobrara de Bryan. Sua expressão se encolerizou.
Odiava pensar daquele jeito, mas aquela podia ser a chance de subir na vida que tanto queria. Não aguentava mais viver em uma pensão imunda. Podia tirar vantagem daquilo.
– Farei o que for possível para acabar com a besta que fez isso.

Nikolai

Evelyn terminou de ajudar Nikolai a se vestir no momento que alguém bateu na porta.
– Entre. – Ele pediu, voltando a sentar na cama. Evelyn afastou-se e Eric abriu a porta, entrando junto com Lena, que carregava uma enorme bandeja.
– Como se sente, Nik? – Ele perguntou, sentando-se na poltrona ao lado da cama.
– Dolorido.
– Foi sua primeira transformação. É normal. Mas deve se alimentar. Pedi para Lena lhe fazer uma sopa. – A serva asiática se sentou ao lado dele. – Consegue comer sozinho?
Nikolai abaixou a cabeça e sorriu maliciosamente por alguns segundos. Mas então se lembrou de , de Evelyn. Ele queria , mas não queria Evelyn, que parecia querê-lo.
Pelo jeito que Evelyn o olhava naquele momento, ele sabia que aquilo iria machucá-la de alguma forma.
– Sim, acho que posso. Obrigado, Lena. – Ele pegou o prato da bandeja.
Lena levantou-se, fez uma reverência e saiu do quarto.
– Stephen acabou de passar aqui para saber como você estava. – Eric comentou.
– Oh, diga-lhe que agradeço. – Ele respondeu, tentando levar uma colherada de sopa a boca e derramando tudo de volta no prato. – Então ele também sabe.
– Claro. É meu primo. Já me viu transformado. – Eric riu dos esforços de Nikolai para levantar a colher. – Quer ajuda?
Nikolai lhe lançou um olhar afiado.
– Não de você. Seria estranho se me desse comida na boca.
Eric soltou uma gargalhada e olhou para Evelyn.
– Irmã, se importa?
– Não, está tudo bem. Posso comer sozinho. – Nikolai diminuiu a distância entre sua boca e o prato, colocando-o na mesa de cabeceira e se debruçando sobre ele. Apoiou o braço na mesa e conseguiu levar uma colherada à boca, saboreando a sopa. – Está maravilhosa. Obrigado. De que é?
– Vai ajudar a melhorar as dores e essa moleza. Quando terminar, Solomon o levará para casa, já que eu e Ethan devemos nos preparar para a lua cheia de hoje.
– Compreendo perfeitamente.
Eric pediu licença e se retirou, deixando-o com Evelyn.
– Tem certeza de que não quer ajuda? – Ela perguntou.
– Querida...
– Não me chame de querida.
Nikolai franziu a testa.
– Caramba, vocês vão me deixar complexado. O que tem de mais um homem chamar uma mulher de querida?
– Você não é homem nenhum.
Nikolai, com muito esforço, levou a mão direita ao coração, fingindo-se de ofendido.
– Ai. Isso doeu.
Evelyn deu-lhe um tapa no rosto, fazendo-o cerrar o maxilar.
– Vai se aproveitar de um homem impossibilitado em uma cama?
– Já disse que não é homem nenhum.
– Se não fosse, não teria te feito gritar feito uma cadela no cio. – Ele retrucou, se arrependendo amargamente em seguida.
Evelyn ergueu a mão para lhe dar outro tapa, mas parou no meio do caminho.
– Se eu não soubesse que isso é a besta falando, você teria uma bela marca no rosto agora.
– Como assim?
– Quando você é recém-transformado, a besta faz com que você diga coisas ruins, ou faça coisas ruins.
– E como sabe que foi a besta?
– Seus olhos mudaram de cor. Um azul quase branco.
Nikolai terminou a sopa, se sentindo um pouco melhor.
– O que tinha nessa sopa? – Ele perguntou.
– Ervas medicinais. Consegue levantar?
Ele empurrou o colchão com as mãos e se segurou na cabeceira da cama. Já estava com alguma força nas pernas, podia se sustentar sozinho. Agora, não parecia que era aleijado. Só que levara uma bela de uma surra.
– Sim. Sim, estou bem. – Ele suspirou. – O que você quer de mim, Evelyn?
– Você.
– Por quê? Sou um cretino.
– Nikolai...
– Devo ir. Tenho que ver minha mãe. – Ele saiu porta afora.
Quando passou por Eric e Ethan, agradeceu demais. Foi então para a carruagem, que já estava pronta. Ele entrou e foi deixado na porta de casa.
Ele abriu a porta e Alfred o recebeu, esboçando sua preocupação por ele ter dormido fora sem avisar. Nikolai tranquilizou o velho mordomo e subiu as escadas, seguindo o caminho para ver a mãe.
Mas quando ele estava chegando ao quarto dela, alguém o puxou pela camisa para dentro de um cômodo.
– ONDE ESTEVE? – gritou, fazendo-o tapar-lhe a boca com a mão.
– Não grite! – Ele pediu. – Dormi na casa de Eric. Agora, se eu tirar a mão, promete não gritar?
concordou com a cabeça, fazendo-o tirar a mão bem devagar.
– Você parece bêbado. – Ela estava com o olhar crítico aguçado. Nikolai suspirou.
– Eu JURO que não estou. Só dormi lá porque não estava me sentindo bem.
o avaliou.
– Onde estão suas roupas?
Certo. Ele não tinha uma resposta para aquilo.
– Seu cretino. Como pôde pensar nisso uma hora dessas? Mamãe está doente! – Ela levou as mãos ao rosto.
– Eu não estava fazendo nada! Eu só estava na casa de Eric, e Evelyn...
– Ah, mas é claro. Evelyn. Deve ter sido ao contrário desta vez. ELA deve ter arrancado suas roupas desta vez, não é? – estava visivelmente alterada. – Seu cretino. Você não presta.
– Pare de gritar! – Nikolai pediu.
– Não! Você não entende...
Nikolai perdeu a cabeça, fazendo a coisa mais enlouquecida e corajosa que já fez na vida.
Ele puxou pelos ombros e calou-a com um beijo. No momento em que seus lábios se tocaram, ele soube que agora não tinha mais volta. Ele soube que era sua.



Capítulo 13

Tão doce. Tão delicado.
não imaginava que o primeiro beijo seria com o irmão. Se sentia suja, mas podia se arrepender quando acabasse.
Ela levou as mãos ao pescoço de Nikolai, fechando os olhos. Ele a segurou pela cintura.
E ela se deu conta. Aquilo era um pecado, uma blasfêmia. Uma abominação.
Ela empurrou Nikolai brutalmente, se afastando e esbarrando na mesa de cabeceira. Os dois estavam ofegantes e vermelhos. Sabiam que o que havia acontecido era sério.
– Saia. – Ela disse, apenas.
Nikolai fechou os olhos e suspirou.
...
– Não, não quero ouvir. Apenas saia, por favor.
– Por favor, me perdoe...
– SAIA!
Nikolai foi empurrado porta afora por , que em seguida a fechou com um estrondo.
Ela se jogou na cama e abafou o choro no travesseiro.
Quando aquela onda de desespero passou, ela encarou a cruz na parede.
Ela se ajoelhou no chão e apoiou os braços na cama. E fez a única coisa que talvez pudesse trazer sua sanidade de volta.
Ela rezou.

Nikolai

Ele tinha a plena certeza de que a irmã o odiava.
Nikolai foi até o quarto da mãe e bateu na porta. A criada o recebeu e ele entrou em seguida.
A mãe estava mais debilitada que nunca.
John havia tirado a poltrona de perto da janela e colocado ao lado da cama, bem perto de Giorgiana. Ela estava dormindo, a fronte toda suada.
Nikolai sentou ao seu lado na cama.
– Como ela está? – Ele perguntou a John.
– Dormindo.
– Não me diga. Não havia percebido.
John revirou os olhos.
– O que quer?
– Ver minha mãe. Algum problema com isso, John?
John suspirou, esfregando os cabelos curtos com a mão.
– Olhe, para o bem de sua mãe, vamos parar um pouco com essas briguinhas sem sentido. Ela não está apresentando nenhuma melhora e... – Ele abaixou a cabeça. – Não sei o que vou fazer se ela se for.
– Relaxe, John. Vai dar tudo certo. Minha mãe é forte.
John sorriu de leve.
– Sim, ela é. A pessoa mais forte que eu conheço. – Ele acariciou a bochecha de Giorgiana levemente. – Sua mãe é minha vida, garoto.
– Por que quase nunca diz meu nome? – Nikolai perguntou. – Parece até que evita.
– Por que nunca me chama de pai? Suponho que seja a mesma razão. Nunca fomos próximos.
– Sim... Suponho que esteja certo. Talvez algum dia eu queira saber o porquê.
Nikolai se levantou da cama e saiu do quarto, indo para o seu próprio e não saindo de lá até o outro dia. Não queria ter que olhar para . Estava se sentindo sujo.
Quando acordou pela tarde, já estava completamente recuperado da dor.
Ele fez sua higiene matinal e colocou uma roupa confortável, indo buscar algo para seu desjejum.
Mas, ao sair de seu quarto, Alfred o interceptou.
Sir Nikolai. A Srta. Ives o espera na sala de estar. Parece ser urgente.
– Obrigado, Alfred; – Ele seguiu devagar para lá, na esperança de que nem a visse, nem de que ela o amolasse.
Quando chegou lá, mal entrou e Evelyn pulou em seus braços, fazendo-o quase desequilibrar-se. Ela parecia desesperada.
– O que houve? – Ele perguntou.
– Venha rápido. É Eric!
Nikolai arregalou os olhos e Evelyn o puxou pela mão até a porta.
– Aonde vais? – Ele ouviu alguém perguntar e se virou, vendo . O olhar dela se demorou nas mãos entrelaçadas dos dois.
– Algo aconteceu com Eric. Não demorarei. – Ele prometeu, e correu com Evelyn.
Quando entrou na carruagem, olhou pela janela e viu que o observava. Nikolai espalmou a mão no vidro e encostou o rosto na superfície gelada, encarando a irmã. Começava a chover, e encolheu-se, abraçando o próprio corpo. Ela encarava-o com um olhar triste e desesperançado, e isso o deixou se sentindo ainda mais culpado.
A carruagem entrou em movimento, e ele não tirou os olhos dela por um momento até saírem da propriedade.
– Como se sente? – Evelyn perguntou.
– Melhor que ontem. O que aconteceu? – Ele perguntou.
– Eric decidiu se acorrentar perto de Cross-village como fez ontem, para evitar de atacar alguém. Eu disse para ele seguir Ethan até Dufftown, mas ele é tão teimoso. Ele chegou na vila e começou a preparar tudo, mas a Ordem apareceu do nada e...
– Espere. Ordem?
– É uma facção dentro da Scotland Yard criada para conter a superpopulação de lobisomens na Inglaterra. Tem esse agente, Debrunski. Edgar Debrunski. Ele já matou tantos que fica escondido em um local que só quem é da Ordem sabe. Ele é chamado para as missões por telegramas secretos. Mas enfim, Eric foi baleado com prata. Está enfermo.
– Mas ele irá ficar bem, não é? – Nikolai perguntou.
– Não sei, isso nunca aconteceu antes.
Quando eles chegaram, Evelyn o levou para o quarto de Eric.
Nikolai nunca havia entrado lá. Era um enorme aposento, com uma cama digna de um rei. Eric estava deitado nela, o tronco não tão musculoso nu. No meio do peitoral, um buraco de bala um pouco menor que uma cereja sangrava. Eric suava e tremia.
– Scar. – Nikolai tirou o paletó e se sentou ao lado do recente amigo. – E então, como está?
– Maravilhoso. – Ele disse com a voz fraca.
Ethan estava de pé com os botões da camisa nos buracos errados e sujo de sangue seco.
– Solomon foi apenas no mercado. Já está voltando, e saberá o que fazer. – Ele disse, suspirando.
Eric começou a tossir, expelindo sangue. Evelyn limpou sua boca com um lenço, choramingando.
– Por favor, não morra! Não me deixe aqui com Ethan. – Ela pediu, dando uma risadinha chorosa. – Aguente firme, Eric!
Solomon chegou, abrindo a porta e focando o olhar em Eric. O grande mouro adquiriu uma expressão séria e científica.
– Senhores, por favor. Se afastem. – Ele pediu. Nikolai levantou-se da cama e foi para perto de Ethan, assim como Evelyn.
Solomon abriu a gaveta da mesa de cabeceira e tirou de lá um bisturi e uma grande pinça.
Ele sentou-se ao lado de Eric e tirou uma garrafa de whisky do pacote do mercado, abrindo-a e derramando um pouco no buraco da bala. Eric, que já havia perdido a consciência, apenas se sacudiu um pouco.
Solomon pegou o bisturi.
– Espere! – Evelyn gritou, fazendo Solomon encará-la.
– Não temos mais tempo para sermos cautelosos, Madame Ives. – Ele abriu o buraco da bala um pouco mais, fazendo um corte de mais ou menos dez centímetros.
Nikolai se aproximou para ver melhor. O corte estava cauterizado, e a pele ao redor borbulhava.
Ele olhou para o bisturi, que reluzia na luz fraca que entrava pela janela.
Prata. Era feito de prata.
Solomon enfiou a pinça cuidadosamente no buraco e remexeu até retirar a bala, colocando-a dentro de um copo com água que Nikolai não percebera na mesa.
Solomon pegou uma agulha de sutura e costurou o corte.
– Ele ficará bem. O atirador deve ter atirado de muito longe, pois a bala não penetrou muito fundo, muito menos atingiu o coração. Mas na próxima...
– Maldita Ordem. – Ethan praguejou, chutando uma cadeira. Ela se estraçalhou na parede do quarto, e os olhos de Ethan adquiriram um tom amarelado. – Solomon, você já foi da Ordem. Qual é o próximo passo deles?
Ethan andava nervosamente pelo quarto, de um lado para o outro como se estivesse rodeando uma presa.
Nikolai colocou a mão em seu ombro para pedir que se acalmasse, mas Ethan virou o rosto em sua direção, soltando um grunhido alto e segurando seu pulso.
Nikolai se assustou. Os dentes de Ethan estavam grandes e pontudos, e seus olhos brilhantes e amarelos.
Mas Ethan apenas fechou-os e fez um movimento com o pescoço, como se estivesse estalando os ossos. Seus dentes voltaram ao normal, e quando ele abriu os olhos, estavam com o tom de azul de sempre.
– Perdoem-me. – Ele pediu, soltando o pulso de Nikolai e indo até Solomon. – Qual o próximo passo?
Solomon parou para pensar.
– Eles viram o Mestre Eric com roupas de nobre. Deram-lhe um tiro, a besta não vingou. Na hora do tiro, devem ter pensado que estava morto. Mas, se bem conheço Debrunski, ele teria checado. O que me faz pensar que temos um aprendiz na área, alguém confiante e um pouco arrogante, que tenha acreditado demais no seu tiro. Mas, mesmo se Debrunski tiver mandado o aprendiz atirar, ele não irá se esquecer do rosto dele. Nunca vi ninguém gravar uma fisionomia como aquele homem. Ele irá investigar.
– Maravilha. Vamos ter de nos mudar de novo. – Ethan começou a andar pelo quarto novamente. – Acabamos de chegar. QUE MERDA!
Ele chutou outra cadeira, que seguiu o mesmo curso da outra.
– Ethan, pare com isso! – Evelyn pediu, indo até o irmão e o abraçando. – Daremos um jeito. Sempre damos um jeito.
Ethan deixou os braços soltos por um momento, mas logo retribuiu o abraço da irmã, enlaçando os dedos no cabelo dela. Os seus olhos umedeceram-se e ele fungou, fechando-os.
– Vamos ficar bem. – Ele cortou o abraço e apertou de leve o nariz da irmã, balançando-o. – Caçulinha.
Evelyn riu e deu um tapinha na mão do irmão.
E Nikolai sentiu que devia ir. Aquele era um momento de família, e ele era um intruso.
Ele tinha de voltar para a sua própria. Estava com um sentimento ruim. Um agouro.
Precisava voltar imediatamente.
– Devo ir. Ele ficará bem, e minha mãe está seriamente doente. – Ele disse, sentindo a pele formigar. Precisava voltar para casa.
– Oh, o que há com ela? – Ethan perguntou.
– Pneumonia. – Nikolai sentiu uma pontada no peito. Era sua mãe. Ele apenas sabia. Tinha de voltar para casa IMEDIATAMENTE. – Devo ir. Voltarei amanhã.
Ele nem esperou resposta, apenas correu e pegou a primeira carruagem que viu pela frente.
Quando chegou em casa, abriu a porta da frente com um pontapé, fazendo um barulho imenso.
Ele viu sentada no sofá, com as mãos no rosto. Ela chorava ruidosamente.
– O que houve? – Nikolai perguntou, temendo a resposta. Seu estômago dava voltas.
– Ela está morrendo! – gritou em meio ao choro.
Nikolai não ficou ali para consolá-la. Correu escada acima e se esforçou para não derrubar a porta do quarto dos pais.
Quando entrou, Victor estava lá. Examinava-a, e John estava sentado na poltrona, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos tapando o rosto.
– Como ela está? – Nikolai perguntou a Victor.
– Pronta para partir. – Ele respondeu, limpando a fronte dela com um lenço. – Eu sinto muito.
Giorgiana começou a tossir, a secreção fazendo com que ela se engasgasse.
Nikolai sentiu os olhos marejarem e sentou-se ao seu lado, segurando sua mão.
– Ah, meu querido! – Ela acariciou sua bochecha com a mão livre. – Que bom que está aqui. Isto é muito bom.
Uma lágrima escorreu do olho de Nikolai, e ele não se deu ao trabalho de limpar. Seu orgulho idiota não importava agora.
– Oi, mãe. Como está?
Ele esperava que, como Eric, ela dissesse que estava bem. E que tudo aquilo iria passar.
– Estou morrendo, querido. – Ela tossiu novamente, fechando os olhos e gemendo de dor. – Sinto muito.
Nikolai sorriu em meio ao choro.
– A senhora não vai morrer. Vai ficar boa. Vai dar tudo certo, a senhora vai ver. – Ele dizia, beijando a mão da moribunda mãe.
Giorgiana sorriu fracamente.
– Não tenho mais forças, meu amor. Mamãe está cansada.
Nikolai começou a chorar mais, agora ruidosamente.
– Por favor, aguente firme. – Ele implorava. – A senhora não pode morrer!
Giorgiana teve outro acesso de tosse, apertando-lhe a mão. As lágrimas de Nikolai caíam sobre o colo da mais velha.
– Nikolai... Oh, Nikolai. – A mãe disse, com a voz fraca. – Você tem os olhos de seu pai.
Nikolai arregalou os olhos e olhou para John. Os olhos dele eram de um azul-marinho, bem mais escuros que os seus. Os de Nikolai eram extremamente claros, quase cor de gelo. Eles não tinham os olhos da mesma cor.
O desespero tomou conta do peito de Nikolai. Mas, ao voltar o olhar para a mãe, ela já havia partido.
– Mamãe? – Ele chamou, mas ela não se moveu. – MAMÃE!
Victor foi até ela e constatou. Giorgiana estava morta.
Ele olhou para Nikolai e apenas negou com a cabeça, se afastando.
– Não... Não, não, não, não! – Nikolai se levantou da cama, mas caiu de joelhos, o choro consumindo-o. Ele fechou os olhos.
E Nikolai gritou. Um grito de dor e pesar, que fora infinitamente pior do que o grito que dera na floresta. Ele sentia como se alguém arrancasse uma parte dele com uma lâmina cega, causando-lhe uma dor excruciante.
Ele gritou até faltar-lhe fôlego e, quando finalmente abriu os olhos, viu que todos os empregados da casa e membros da família estavam ali. carregava Maddie no colo, e Peter estava ao seu lado, chorando baixinho.
Os empregados estavam chorando, encarando Nikolai com pena.
O rosto de Nikolai estava tomado de lágrimas, secreção nasal e saliva, mas ele não se importava. A dor da perda da mãe era como um ácido, corroendo-o por dentro.
Nikolai voltou a gritar, sentando no chão e abraçando as pernas. Parecia um garotinho. Um garotinho assustado e sozinho, chamando pela mãe.
Doía. Doía muito.
– Mamãe... Traga ela de volta. – Ele não sabia bem para quem estava dizendo aquilo, mas não importava. – Por favor, traga-a de volta. Alguém traga-a de volta, qualquer. E-eu não posso, não consigo...
– Eu sinto muito, mas nenhum de nós tem esse poder. – Victor se pronunciou.
Nikolai sentiu algo dentro dele se endurecer.
– Saiam. Todos vocês. – Ele pediu com a voz fria. – Deixem-me só.
Os empregados um por um saíram. Nikolai observou Alfred limpar as lágrimas e sair, seguido por , Victor e as crianças.
Quando John se preparou para fazer o mesmo, Nikolai apontou o dedo para ele.
– Você não. Você fica.
John suspirou e fechou a porta, enquanto Nikolai se levantava e ia até o corpo sem vida da mãe.
Ela jazia de olhos abertos. Ele os fechou, e quase parecia que ela estava dormindo.
Ele fungou, limpando o rosto na camisa. Lembrou então que deixara o paletó na Mansão dos Ives. Teria de voltar lá de qualquer jeito.
Mas não hoje. Nem amanhã. Tinha assuntos com o pai que envolviam coisas mais importantes que assuntos lupinos.
– John, John, John. Mas que cara levado temos aqui. – Nikolai mal reconhecia a voz, que estava tomada de cólera.
John estava com os olhos avermelhados, mas ainda assim com a sua pose arrogante.
– Cuidado, garoto. Você ainda me deve respeito...
– Eu não te devo nada, Martell. Não sou nada seu. – Ele respondeu. – Não temos o mesmo sangue.
– Como pode afirmar com tanta certeza? Você não sabe de nada. Temos o mesmo sangue, Nikolai. Somos, sim, parentes...
– PARE DE MENTIR! – Nikolai gritou.
John estava impassível.
– Eu sou seu tio. Você é Martell. Temos o mesmo sangue. Não sou seu pai. Você não é meu filho. Entendeu ou devo desenhar?
Nikolai serrou os dentes.
– Quem é meu pai?
John se levantou e começou a andar pelo quarto tranquilamente, com os braços atrás das costas.
– Seu pai está morto. – Ele disse, por fim. – Seu suposto tio, Anzor. Você é do lado russo da família. Nunca estranhou seu nome?
Nikolai abaixou a cabeça.
– A guerra civil?
– A guerra civil. – John concordou. – Você foi fruto de uma infidelidade. Parabéns.
Nikolai deu uma risada, que começou normal e terminou sendo histérica.
– Você foi traído? – Ele perguntou. – Ah... John, agora entendo toda a sua amargura. Você foi a segunda opção. Patético.
John serrou o maxilar, provavelmente pensando se agredia Nikolai ou não.
– Escute só... Lhe dou um mês para você arranjar um lugar para morar. Já que sua mãe se foi, não tenho mais razão para aturá-lo, seu bastardinho insolente. Fique feliz que estou lhe dando todo esse tempo.
Nikolai sorriu duramente.
– Nada me agradaria mais.
John saiu do quarto e Nikolai sentou-se ao lado do cadáver da mãe.
Ele sentiu as lágrimas se concentrarem em seus olhos e piscou forte, fazendo-as cair. Uma delas caiu no rosto da mãe, descendo e fazendo uma curva até desaparecer em seus cabelos.
– Eu sei que nunca disse que amo a senhora... Mas amo. – Nikolai beijou a testa gelada da mãe. – Sempre amarei.
Ele levantou-se da cama e respirou fundo, enxugando novamente o rosto com a manga da camisa.
Nikolai saiu do quarto, dando de cara com Alfred.
– Mande prepará-la. Amanhã, às nove horas da manhã, será seu enterro. Mande alguém arranjar os preparativos no cemitério. E avise a todos. – Ele ordenou, sério. Alfred ainda chorava, e ele lhe deu tapinhas nas costas, indo até o quarto da irmã.
Ele bateu na porta, convicto do que devia fazer.
– Entre. – Ele ouviu conceder, e assim o fez, fechando a porta e trancando-a.
... Precisamos conversar.



Capítulo 14

limpou as lágrimas.
– Você é meu irmão? – Ela perguntou.
– Meio-irmão – Nikolai sentou ao lado dela. – Ainda somos filhos da mesma mãe, que eu saiba.
o abraçou, começando a chorar.
– Victor disse que ela deveria estar escondendo os sintomas há algum tempo. Por que ela faria isso?
– Acho que ela não queria nos preocupar. – Ele respondeu, abraçando-a pelos ombros e fazendo-a deitar a cabeça em seu peito. – Talvez ela tenha achado que era apenas um resfriado. Quando viu que estava piorando...
A voz dele foi morrendo até ele se calar.
voltou a chorar.
Nikolai queria que fosse John no lugar da mãe. A mãe não merecia aquela morte.
Sua expressão se endureceu, e ele enlaçou os dedos no cabelo da irmã carinhosamente. Precisava se controlar. Devia prestar o papel de irmão, não o de amante obcecado. Não era a hora.
– Vou embora. – Ele anunciou.
o encarou, os olhos verdes infantis marejados e confusos.
– Como assim?
– Pa... John me expulsou de casa. – Ele respondeu, cerrando o maxilar. – Disse que agora que mamãe estava morta, não precisava mais me aturar. Me deu um mês para arranjar outro lugar para morar.
levou a mão esquerda aos lábios, tapando-os.
– Isso é horrível. Se eu falar com ele...
– Não! Não, . Sério. Não precisa fazer isso. Eu já me conformei.
Ela suspirou.
– Irei com você, então.
Nikolai riu.
– Até parece que deixaria seu pai. Ou Maddie e Peter. Não, . Isso não vai acontecer.
pareceu pensar no assunto e suspirou novamente, derrotada.
– Sim, suponho que tenha razão.
– Claro que tenho. – Ele sorriu convencido sem olhar para ela, fazendo-a rir em meio ao choro e bater em seu ombro.
– Por favor, não vá. – Ela pediu. – Maddie e Peter... Eu não posso ficar sem você.
Nikolai sorriu, acariciando a bochecha da irmã.
– O enterro será amanhã às nove.
– A hora que ela cuidava do jardim. – disse. – Oh, Nik... Não consigo acreditar!
– Nem eu... Nem eu.
Um silêncio constrangedor se instalou no quarto, até Nikolai resolver falar.
– Sou órfão. Meu pai e minha mãe morreram.
– Quem era seu pai?
– Tio Anzor. Você provavelmente não se lembra dele. Ele morreu na Guerra Civil.
Os olhos de marejaram-se novamente, e ela voltou a abraçá-lo.
Ele levantou-se, afastando-a devagar.
– Irei para meu quarto. Se precisar de algo, estarei lá. – Ele disse, saindo.
Ao andar pelo corredor, Nikolai pensou em quantas coisas aconteceram em sua vida no intervalo de um mês. Foi mordido, conheceu os Ives, se transformou em uma coisa horrenda e assassina, perdeu a mãe, o cavalo favorito, descobriu que era um bastardo. Era bastante carga na vida de uma pessoa, e em tão pouco tempo.
– Garoto! – Ele ouviu a voz de John e se virou. Ele estava vindo até Nikolai com uma grande caixa nas mãos. – Tome isto.
– O que é?
– Imaginei que gostaria de saber mais sobre seu pai biológico. Quando eu e sua mãe nos casamos, colocamos tudo relativo a Anzor dentro desta caixa e escondemos no porão. Aqui você encontrará cartas, fotos... Essas coisas. – Ele passou a caixa para Nikolai.
– Eu... Não sei o que dizer. – John realmente havia praticado uma boa ação com ele? Era isso mesmo?
– Então não diga nada. – John o deixou sozinho, voltando pelo corredor.
Nikolai entrou no quarto e chutou os sapatos do pé, sentando na cama e colocando a caixa à sua frente.
Quando a abriu, uma nuvem de poeira quase o fez botar o cérebro pelo nariz de tanto espirrar. Ele olhou para dentro e retirou um bolo de cartas enrolados em um pano, álbuns de fotografia e alguns objetos diversos, como um cachimbo elegante e um relógio de bolso quebrado. E um caderno de capa de couro que despertou sua curiosidade.
Ele olhou para as iniciais na capa. G.J.
Giorgiana Jones. Era da mãe.
Era um diário!

Diário, 22 de novembro de 1870,

Conheci um belo rapaz no baile dos Harrisons hoje. Inteligente, interessante, misterioso. Abigail concordou comigo, e disse que ele não tirou os olhos de mim a noite toda. Será? Oh, me pergunto. Ele nem sequer disse seu nome. Será que vê-lo-ei novamente? Disseram-me que era recém-chegado de São Petersburgo.

Oh, não. Não posso vê-lo. Já estou noiva de John, e papai não acha apropriado uma dama ter amigos do sexo oposto.

Falando nele, papai disse que John virá me ver depois de amanhã, tornar o pedido oficial. Mas não sei se quero casar-me com ele. É o filho mais velho de amigos da família, mas é tão sério. Diz-se louco por mim, mas o verdadeiro amor não é tão verdadeiro até que seja recíproco, não é? Nos conhecemos desde a infância, mas não o vejo como um marido. Não sei o que farei. Pensarei em algo.

Giorgiana Jones

Nikolai observou o diário. Várias páginas haviam sido arrancadas. 1870... Dois anos antes de seu nascimento.
Ele virou a página.

Diário, 25 de novembro de 1870,

Ele veio ontem. Fez o pedido a meus pais. Eles aceitaram. Eu apenas disse que ia pensar.

Revi o moço do baile. Ele se chama Anzor, e é um ano mais velho que eu. Encontramo-nos por acaso no teatro. Eu e Abigail fugimos para Whitechapel, queríamos assistir Otello. Eu sei, eu sei, foi imprudente, e Whitechapel é um lugar perigoso. Eu e Abigail corremos sérios riscos, e um homem quase nos abusou. Mas o Senhor Anzor chegou na hora e nos resgatou. Assistimos à peça com ele, e depois ele nos deixou em casa.

Quando cheguei, papai me deu uma bronca por ter fugido. Mas o que eu poderia fazer? Ele não me deixa fazer nada. Não posso ler livros de romance, não posso sair sozinha. Que cansativo!

Amanhã irá passar Romeu e Julieta. Irei assistir, nem que seja sozinha.

Giorgiana Jones

Nikolai sorriu. Como ele se parecia com a mãe. Os dois tinham o mesmo gênio, não gostavam de se sentir presos. Ele puxara isso dela.

Ele virou a página.

Diário, 27 de novembro de 1870

Foi por pouco!

Certo, depois deste susto, nunca mais irei até Whitechapel. Nem acompanhada.

Quando estava chegando perto do teatro, ouvi barulhos estranhos em um beco. Quando cheguei perto, um grande cão vira-lata saía de lá. Ele rosnava, e estava com o focinho manchado de sangue.

Nunca tive tanto medo em toda minha vida! O cão estava com os olhos fixos em mim, e seus dentes eram enormes. Tentei me afastar devagar, mas ele se lançou sobre mim, derrubando-me no chão lamacento. Quase me mordeu, mas ouvi um uivo estranho ao longe. O cão parou, choramingou e saiu correndo. Não tive a sorte de encontrar Sir Anzor, então voltei para casa. Arranhei-me nos braços na queda, mas nada sério.

Não irei mais a Whitechapel. Nem por todas as peças de Shakespeare do mundo.

Giorgiana Jones

Nikolai virou a página ansiosamente.

Diário, 5 de dezembro de 1870

Eu não acredito que o destino me pregou uma peça!

Sir Anzor é um MARTELL!

Mas que infortúnio. Ontem foi o almoço em família, e os Martell e os Jones se encontraram. Quando sento ao lado de John e olho para o fim da mesa, lá está ele!

Na hora, devo admitir que gelei. Eles são irmãos, e como a mãe de John é russa e não mora com eles, e sim em São Petersburgo, ele havia ido passar uma época com ela. Se não me engano, ela e o pai de John são divorciados. Pode imaginar? Soube que ela arrumou um rapaz mais novo. Que libertinagem.

Mas enfim, depois do almoço ele veio falar comigo. Pediu desculpas por não revelar sua origem de imediato, e perguntou se ainda podíamos ser amigos.

Respondi que sim, claro. Gostava muito da companhia dele.

Mas aí que aconteceu a coisa mais estranha.

Ele segurou minha mão, e foi como se eu tivesse lava escorrendo pela minha coluna vertebral. Sua mão era macia, de dedos longos e finos. Ele era tão pálido! E seus olhos... Eram magníficos. De um tom claríssimo de azul, quase como um tom de gelo. Belíssimos. Deixam os meus verdes totalmente sem graça. Além dos cabelos negros que contrastavam com isso tudo.

Não sei se me casarei com John. Não sinto nada por ele além de uma profunda amizade.

Não acho que me casarei com John.

Não, não casarei.

Giorgiana Jones

Nikolai sentiu lágrimas aflorar-lhe os olhos, e olhou para as próprias mãos. Dedos longos e finos. Pensou nos próprios olhos. Azul cor de gelo. Tocou os cabelos negros. Ele tinha todas as características do pai, e isso o deixava imensamente feliz.
Ele virou a página. Havia algumas arrancadas antes dela.

Diário, 22 de dezembro de 1870

Estou em apuros!

Ontem, eu e Anzor fomos escondidos ao parque. Hugh me viu sair, mas prometeu guardar segredo. Que mentira. Duvido que ele não contará aos meus pais.

Chegamos e eu fui logo cheirar as roseiras. Como são belas e distintas! Anzor gentilmente retirou uma para mim. Tão cortês! A rosa tinha um perfume perfeito.

E Anzor antes de me dá-la, acariciou minha bochecha com ela.

Ele é tão misterioso e reservado com seus sentimentos. Não consigo tirar nada dele. Não consigo... Lê-lo.

Pretendo tomar isso como um desafio.

Ah, e quanto ao apuro? Não se engane. Não confio em meu irmão.

Giorgiana Jones

Ele deu uma risada. A mãe era realmente muito parecida com ele.
Ele virou a página. Muitas haviam sido arrancadas.

Diário, 23 de fevereiro de 1871

Beijamo-nos! Beijamo-nos!

Oh, não. Sou uma mulher adúltera! Tenho 14 anos e já sou uma adúltera!

Desde que meus pais me obrigaram a aceitar o noivado com John, não tive sossego.

No jantar de noivado, os Ives ofereceram sua mansão. Foi muito amigável da parte deles. Andrew e Eilis Ives são muito bondosos. Eilis está tão bela grávida! Dizem que é outro menino. E Ethan cresce tão rápido. Me pergunto se algum dia terei filhos. Já sei até os nomes: se for menino, Nikolai. Se for menina, Allyona. Anzor falou-me sobre o avô e a avó maternos. São belíssimos nomes, fortes, exóticos. Eu gosto.

Mas enfim! Estou saindo do assunto.

Quando o almoço terminou, Anzor me puxou para o labirinto da mansão. É enorme, para falar a verdade.

Andamos até pararmos em um lugar aberto, onde havia uma estátua de uma mulher, um banco... e rosas! Muitas rosas, rosas por todos os lados.

Sorri ao pisar naquele tapete de pétalas. Como era belo.

Ele havia preparado aquilo tudo!

Ele perguntou-me se eu havia gostado. Disse-lhe que sim, e peguei uma das rosas, sentindo seu aroma delicado.

Perguntei-lhe o porquê de tudo aquilo. Ele disse-me que, no momento, haviam coisas dentro dele que não compreendia, mas que, por ora, ele podia defini-los com isto.

E tocou meus lábios com os seus!

Na hora, não soube o que fazer. Reclamei, bati, xinguei. Mas o beijei novamente. A paixão que brotou daquele beijo ainda está aqui, fazendo cócegas em meu peito.

Giorgiana Jones

Nikolai virou a página. Mais haviam sido arrancadas.

Diário, 04 de novembro de 1871

Estou desolada!

Anzor está partindo para a guerra civil.

Eu o amo. Demais. Ele disse que Andrew, Robert e outros amigos deles iriam, e ele queria estar lá para protegê-los.

John não foi convocado. Irá ficar para o casamento.

Mas não acho que haverá um quando ele descobrir o que eu fiz.

Entreguei-me para Anzor. Toda e completamente, um dia antes dele partir. Não me arrependo, pois fora a comunhão de todo o nosso amor.

Ele me ama. Sei que ama. E disse que iria escrever.

Giorgiana Jones

John não fora convocado. Para Nikolai, aquilo cheirava a safadeza oculta. Sabia que a família Martell era muito influente em Londres.
Ele virou a página. Não havia mais nenhuma página arrancada, mas a tinta naquela estava meio borrada, provavelmente por lágrimas.

Diário, 23 de dezembro de 1871

Casei-me. Finalmente. Agora sou a amarga Sra. John Martell.

Deve imaginar como foi na noite de núpcias. Eu não era mais pura, e John quase teve um colapso. Perguntou se eu havia sido abusada nas idas até Whitechapel. Não acreditava que sua doce e carinhosa Giorgiana pudesse tê-lo traído.

Pobre homem. As vezes tenho pena.

Contei-lhe sobre Anzor. Tudo.

Ele trancou-se no quarto e não quer mais sair de lá. Ach

Ele havia saído naquela hora. Falou de monte. E disse que iríamos superar aquilo tudo, que poderíamos passar uma borracha naquela situação. Disse-lhe que não seria possível, pois em oito meses, um pequeno lembrete do meu amor por Anzor viria ao mundo.

Sim, estou grávida. O pequeno Nikolai ou a pequena Allyona está vindo.

Mandei cartas para Anzor, e ele me respondeu. Contei-lhe sobre nosso pequeno milagre, e ele disse que voltaria. Que faria de tudo para voltar para mim, e que fugiríamos. Para sempre.

Giorgiana Martell

Nikolai virou a página. Faltavam apenas duas.

Diário, 15 de maio de 1872

Ele se foi.

Ontem foi o enterro de Anzor. Meu coração está em pedaços. Sinto como se tudo houvesse perdido a cor, não tenho mais nenhuma perspectiva.

Perder Anzor está sendo a pior dor da minha vida, mas devo seguir firme e forte pela criança que carrego. Ela não merece sentir nenhuma dor. Merece ser imensamente feliz.

Giorgiana Martell

PS: Acho que é um menino.

Nikolai sorriu e virou a página. Era a última.

Diário, 17 de agosto de 1872

Hoje nasceu o meu bem mais precioso. Nikolai é saudável e tem um choro forte.

John não quis pegá-lo no colo. Acho que nunca vai aceitá-lo.

Eu aceitarei por nós dois.

Ele tem os cabelos negros, os olhos azuis cor de gelo e os lábios do pai, e o nariz da mamãe.

Ah, Nikolai. Você será tão amado! Meu pequeno milagre, minha pequena estrela. Mamãe te ama muito, Nikolai. Você salvou minha vida.

Está será provavelmente a última vez que escrevo aqui. Tenho um anjinho para cuidar.

Giorgiana Jones

Nikolai piscou, fazendo lágrimas caírem. O amor que ela sentia por ele transbordava pelas páginas, aquecendo seu coração.
Ele fechou o diário e apertou contra o peito, fechando os olhos e fungando.
As cartas. Podia ter algo do pai. Como ele era?
Ele desenrolou as cartas e procurou, achando uma do pai para ela.

Minha adorada Gi,

Fiquei mais que maravilhado quando soube de nosso pequeno milagre. Já que escolhestes os nomes, no nosso próximo bebê terei o prazer de passar horas acordado pensando no que mais se encaixará nele. Já sei um, se for uma garota: . É um nome forte, não acha?

Penso em você e no bebê o tempo todo. Estou desesperado para sair daqui e voltar para você, sentir seu cheiro, seu toque, sua pele macia. Vocês são tudo o que eu tenho. Eu os amo.

Eu IREI voltar. E eu, você e a criança iremos embora. Não precisaremos ver essas pessoas nunca mais. Encontrarei você, amarei você, casarei com você. E viveremos sem vergonha.

Sempre seu, Anzor Martell



Capítulo 15

“Is there anybody going to listen to my story
All about the girl who came to stay?
She's the kind of girl you want so much
It makes you sorry
Still you don't regret a single day

Ah, girl... Girl...” The Beatles – Girl

Nikolai sorriu. O pai era bem direto, e nem falara da guerra para não afligir a mãe grávida.
Ele queria tê-lo conhecido. Parecia ser um bom homem, um homem de valor.
O que Nikolai queria ser.
Ele pegou o álbum, abrindo-o. Ele viu uma foto da mãe com o irmão, Hugh. Ele parecia-se com ela, mas Nikolai não tinha muito contato com ele. Ele se afastara da família quando casou-se com uma moça pobre de Whitechapel.
Ele foi virando as páginas, até que uma das fotos chamou sua atenção.
Era a família Martell. John, seus avós e seus tios.
E ele se viu. Ou melhor, viu Anzor.
Era realmente assombroso. Eles eram muito parecidos. Apenas o nariz era diferente, o de Nikolai era mais fino e arrebitado.
Ele guardou tudo na caixa e colocou-a debaixo na cama, tentando processar todas as informações novas em seu cérebro.
Você é nosso filho, Nikolai. E nós somos sua família. Você deve se lembrar disso. – Ela sempre dizia quando ele se encontrava magoado com o pai. E dizia com tanta força de vontade para que ele acreditasse que ele nunca nem cogitou duvidar.
Resolveu então descer para o jantar. Nem havia visto o tempo passar e, quando chegou lá, todos já estavam comendo.
– Desculpem-me o atraso. – Ele sentou-se em sua cadeira e não olhou para ninguém, servindo-se de um pedaço de faisão.
Deu a primeira garfada e só aí olhou para , do outro lado da mesa. Ela não havia tocado no prato, e estava com os olhos inchados e as bochechas vermelhas de tanto chorar.
Ele olhou então para a cadeira vazia da mãe. A essa altura, se ela estivesse à mesa e estivesse esse silêncio todo, ela já teria feito algum comentário bobo que cessaria o clima pesado.
Nikolai olhou para Maddie. Nancy tentava alimentá-la, mas a irmãzinha estava inquieta. Botava a comida para fora, choramingava. E balançava os bracinhos em sua direção.
– Deixe-me fazer isso, Nancy. – Ele pediu, se levantando e sentando na frente da menor. – Vamos lá, pequena. Coopere, você não pode ficar sem comer.
Madeleine tinha um bico maior que a terra quando aceitou uma colherada, mastigando devagar.
Nikolai só voltou para sua cadeira quando terminou de alimentá-la.
John havia acabado de comer, e se levantou, pedindo licença e saindo. Nancy levou Maddie e Peter. Só estavam ele e agora.
– Li diários e cartas da mamãe. Ela falando sobre meu pai. – Ele comentou, cortando um pedaço da carne e levando à boca. – Coma.
– Não tenho fome. Conte-me sobre isso. – Ela bebeu um gole de água.
– Ela realmente o amava. Mas já estava prometida a John quando o conheceu. Fui... Fruto de uma infidelidade. Mas foi com amor. Ele morreu enquanto ela estava grávida de mim.
levou a mão aos lábios.
– Não posso acreditar que mamãe traiu nosso pai.
– SEU pai. E ela nunca o amou, . É por isso que eu estava pensando... Tudo isso, este momento, nós. É tudo tão efêmero. Estamos aqui agora, mas amanhã eu posso estar morto. É tudo um ciclo, um enorme ciclo que envolve sorte e destino. É por isso que quando se tem algo a dizer, é melhor que se diga logo.
Nikolai se levantou.
– Ande comigo. – Ele pediu, estendendo a mão.
o olhou desconfiada, mas se levantou e aceitou sua mão.
Eles foram até o jardim, se afastando da casa.
... Eu entendo.
Ela franziu a testa.
– Entende o quê?
– Você. Criada como uma dama inglesa, sob os costumes de uma sociedade hipócrita. Entendo porque não me aceita. Mas você sabia que antigamente no Egito, incesto era extremamente comum entre os Faraós? Tios casando-se com sobrinhas, pais e filhos... Irmãos e irmãs. – Ele parou, segurando suas mãos.
tentou se afastar. Era isso, estava dito. A palavra incesto pairava no ar em volta deles, como uma maldição malfeita.
– Não estamos mais na antiguidade, Nikolai. E muito menos no Egito. Nada justifica o que está acontecendo, nem tente justificar. – Ela disse. Nikolai prendeu-a contra uma estátua de mármore.
– Diga-me que não pensa naquele beijo. – Ele segurou seus braços. – Diga-me que não pensa em mim daquele jeito, . Diga-me a verdade e não a importunarei nunca mais.
estava ofegante.
– Eu... Me solte.
– Diga que não me quer, diga de verdade e a soltarei.
– Não o quero.
Nikolai observou a expressão da irmã.
E sorriu de leve.
– Está mentindo. – Ele disse, apenas. Soltou-a.
o puxou pela nuca e colou seus lábios, fazendo Nikolai fechar os olhos e gemer baixinho, apertando a cintura da irmã.
Ele ficou tentado a deixar a mão escorregar, mas desistiu na hora. Aquela era sua , e ele lhe devia respeito.
Ela cortou o beijo, tentando se soltar, mas Nikolai não deixou.
– Oh, pare. Por favor, pare. – Ela pedia desesperadamente, mas ele apenas começou a beijá-la no pescoço, no colo, nos ombros. A pele dela era tão bonita, tão perfeita.
– Não, não pararei. Precisamos disso, . Você e eu. – Ele sussurrou em seu ouvido, mordendo o lóbulo da orelha em seguida.
– Não sei o que deu em mim, não devíamos estar fazendo isso. Você é louco, Nikolai. Sacrilégio. Sacri... – A voz dela foi sumindo conforme ele ia tocando seu corpo.
– Beije-me. – Ele pediu, aproximando-se. Ela assim o fez, e Nikolai tocou suas finas coxas.
cravou as unhas em seu ombro, fazendo-o sem querer morder o lábio dela de leve. Ela soltou um gritinho e ele se afastou, olhando para ela.
– Seus lábios são tão macios. – Ele lambeu o pequeno hematoma que havia feito, fazendo gemer e fechar os olhos.
– Aposto que diz isso para todas as garotas que beija. – Ela retrucou.
– Não beijo todas as garotas. – Ele respondeu. – Na verdade, você foi a primeira garota que beijei.
se afastou.
– Por quê? – Ela perguntou.
– É pessoal demais. – Ele respondeu, colocando as mãos nos bolsos.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
– Isso não é certo. Nem um pouco certo. – Ela disse. – Preciso... Não consigo... Me desculpe.
E, exatamente como Nikolai esperava, correu.

Jonathan

Jonathan considerava-se um bom desenhista.
Era o que ele pensava enquanto esboçava o rosto do almofadinhas em quem atirara noite passada em Cross-village.
Ou no que sobrara dela.
Ele também considerava-se um bom fisionomista. Mas não poderia esquecer o rosto da primeira besta que matou. Estava sendo treinado fazia anos para aquilo. E acertara na mosca.
– Dashes. – Ele ouviu o homem à sua frente chamá-lo. – Não ouviu nenhuma palavra do que eu disse.
– Ouvi, Agente Debrunski. O senhor dizia que a última besta que matou havia dizimado uma vila inteira, exatamente como o caso que estamos enfrentando. – Ele falou em um tom presunçoso. A taverna em que estavam era tão barulhenta.
Debrunski sorriu com satisfação.
– Bom garoto.
Jonathan retribuiu o sorriso de mau grado e voltou para o seu desenho.
– Qual o próximo passo? – Ele perguntou, esboçando as sobrancelhas.
– Ah, meu rapaz. Com certeza haverá mais do que aquele. Devemos continuar procurando. Matou-o, não foi?
– Claro.
– Muito bem. Se ele tiver transformado algum, saberemos logo. As crias saem do controle quando seu criador é eliminado.
– Sei disso.
Debrunski virou a cerveja, olhando em volta. Jonathan o observou.
63 anos, cabelos grisalhos, aspecto cansado. Ninguém diria que era um caçador.
– Saberemos muito em breve. Vamos?
Debrunski jogou algumas cédulas na mesa e levantou-se, seguido por Jonathan, que guardou o pequeno desenho no casaco.
Seus cavalos estavam do lado de fora da taverna. Eles montaram e seguiram para Dufftown.
Cavalgaram até perto de lá em silêncio, até que Debrunski parou, checando o relógio de bolso.
– As bestas da região já devem estar transformadas. – Ele desceu do cavalo, pegando uma espingarda e checando a munição. Jonathan fez o mesmo, pegando um Colt.
Eles andaram um pouco pela floresta. Jonathan não gostava daquele contato com a natureza, aquela atmosfera de perigo. Odiava-a, queria voltar para a sua casa.
– Está ouvindo isso? – Debrunski perguntou, e Jonathan aguçou os ouvidos.
Ele ouviu passadas na terra. Passadas cuidadosas, e não pareciam estar longe.
Ele destravou a arma, olhando em volta. Estava tudo um breu, ele distinguia apenas alguns contornos de árvores. A lua cheia brilhava no céu, distinta, poderosa.
– Fique atento – Debrunski sussurrou, fazendo o corpo dele ficar em estado de alerta.
Um pulsar. Foi o que levou para tudo ficar caótico.
Jonathan viu dois olhos amarelos na escuridão e mirou, mas antes que conseguisse puxar o gatilho, a besta arranhou-o no peito com as gigantes garras negras.
Dashes gritou e caiu no chão, derrubando a arma. E tudo ficou silencioso.
Tudo que ele conseguia ouvir era o som de sua própria respiração.
Ele tateou a terra, a procura de sua arma. Seu coração estava batendo descontroladamente, e ele sentia a camisa empapada de sangue.
– Dashes! Cuidado! – Ele ouviu a voz de Debrunski e jogou o corpo para frente, escapando por pouco de uma provável decapitação pelas garras do monstro.
Ele ouviu um barulho de tiro e um ganido, e os passos da besta se afastaram.
– Acertei-a na pata dianteira esquerda. Que azar. – Debrunski ajudou Jonathan a apoiar-se em seu ombro. – Quando a velhice chega... Venha, meu amigo. Já chega de caçada por hoje. Esse machucado deve ser tratado.

Nikolai

O enterro já havia sido propriamente arrumado.
Nikolai vestiu seu terno negro e penteou os cabelos para o lado, como a mãe gostava.
Sua aparência estava tão cansada.
Ele suspirou em frente ao espelho. Não queria ter de enterrar a mãe.
Ele fechou os olhos, escutando a voz da mulher. “Você é nosso filho, Nikolai. E nós sua família. Você deve se lembrar disso.”
Ele sacudiu a cabeça. O caixão já havia sido levado para o cemitério. As flores foram retiradas de seu próprio jardim e levadas para lá. O padre já havia sido chamado.
Era hora de encarar a realidade.
Ele saiu do quarto, indo até a sala de estar onde John, Maddie e Peter já aguardavam.
A cara de John não estava das melhores.
Os olhos vermelhos e inchados denunciavam que ele havia chorado a noite toda.
– Pronto? – Ele perguntou.
– Para enterrar minha mãe? Nunca. – Nikolai respondeu.
Ele foi até Maddie, que estava com um vestidinho preto. Seus cabelos encaracolados e loiros estavam soltos.
Ele olhou para Peter. O menino vestia um terno negro parecido com o seu, e os cabelos penteados para trás.
Alguns minutos depois, desceu. Estava linda, com um vestido negro apertado com mangas de renda, os cabelos presos em um coque e um pequeno chapéu de onde saía um véu negro que descia até o pescoço. Também usava luvas negras.
– Vamos logo. – John disse, e todos o seguiram até a carruagem.
Chovia muito.
John e entraram primeiro e Nikolai ajudou Maddie e Peter, entrando em seguida. Ele sentou ao lado de , que olhava para a janela.
A carruagem pôs-se em movimento, e quando eles menos esperavam, já podiam ver os grandes muros do cemitério. suspirou e Nikolai colocou a mão aberta com a palma virada para cima em sua coxa. entrelaçou seus dedos, fazendo Nikolai sorrir levemente.
A carruagem parou e Alfred chegou com um guarda-chuva, assim como Nancy para as crianças. John havia levado o seu.
Alfred tentou fazer caber Nikolai, ele e , mas Nikolai dispensou-o sutilmente, e saiu andando pela chuva até o túmulo aberto da mãe. A chuva molhou-o rapidamente, fazendo seu cabelo penteado cair pelo rosto. Estava maior, a franja passava do nariz afilado e tocava seus lábios. A parte de trás trocava o início da nuca.
Nikolai penteou a franja com os dedos, jogando-a para o lado.
O padre se arrumava para iniciar o enterro. veio para seu lado, cobrindo-o com o guarda-chuva. Nikolai recusou, se afastando e deixando a chuva molhá-lo mais.
O padre começou a falar, e Nikolai observou o cemitério. Era enorme, cheio de colinas e prados.
– Estamos aqui por Giorgiana Martell. Que ela descanse em paz! – Ele disse, e abriu a bíblia em suas mãos.
Nikolai olhou para as pessoas no enterro, reconhecendo Hugh, seu tio, pela foto que vira. Estava com a provável esposa e mais três crianças. E ainda estava grávida.
Hugh acenou com a cabeça, sorrindo tristemente. Ele devolveu o aceno.
Nikolai reconheceu mais gente, da família do pai. Os tios Bryan, Simon e Sergei, Seryozha para os íntimos. A tia Janice. A avó, Anastasia. Como estava velhinha. O avô, Stanley, colocado estrategicamente longe da elegante senhora.
Os avós maternos, Basil e Joanne. Era bastante apegado a eles. Estavam tão tristes.
– ... E agora, o filho de Giorgiana, Nikolai, deseja dizer algumas palavras. – O padre deu lugar a ele.
Ele suspirou, olhando em volta. Precisava de inspiração, não havia escrito nada.
– Giorgiana Jones era como uma vela, que aquecia e iluminava tudo e todos a sua volta apenas com um sorriso. Agora, essa vela se apagou. Está tudo tão escuro e tão frio...
Todos o encaravam. Ele se sentiu tonto e segurou-se na lápide, fechando os olhos.
Ele sentiu um leve aperto na mão e, quando abriu os olhos, o segurava. Dava-lhe apoio, forças para continuar.
– Ela se vai, deixando um buraco e um enorme vazio no coração de quem fica. Giorgiana Jones nunca será esquecida. Vá em paz, mãe. Nos encontraremos novamente.
O caixão começou a ser baixado, e Nikolai jogou a rosa de seu terno. o abraçou pelos ombros e ele olhou para uma das colinas, avistando três vultos.
Nikolai focou a visão, vendo Eric, Ethan e Evelyn. Ethan estava com o braço enfaixado, e usava seu uniforme militar. Fumava um cigarro. Evelyn usava um elegante vestido negro, e Eric um terno de corte perfeito.
Mas Eric parecia tão mais magro. Aquele tiro realmente o havia afetado.
Ele pediu licença e foi até eles.
Evelyn abraçou-o.
– Eu sinto muito. Você devia ser muito apegado a ela. – Ela disse.
– Sim... Sim, eu era. – Ele concordou.
Ethan estendeu-lhe a mão, e Nikolai apertou-a.
– O que houve com seu braço? – Ele perguntou.
– Bala de prata. Debrunski, eu presumo. – Ele disse, revirando os olhos. – Um pequeno inconveniente.
Ethan jogou o cigarro no chão e apagou-o com a bota, expelindo a fumaça dos pulmões.
Eric veio até Nikolai e abraçou-o brevemente.
– Sinto muito, meu amigo.
Nikolai sorriu tristemente.
– Tenho de ir falar com a família. Sintam-se à vontade para juntar-se a nós.
Nikolai nem esperou resposta, apenas voltou para perto do túmulo. A chuva já tinha dado uma trégua, mas, pelo jeito, iria voltar.
Ele foi até a avó, Anastasia.
– Olá. – Ele disse, apenas. A idosa se virou, e seu rosto foi um misto de choque e alegria.
– Anzor? Oh, meu querido! – Ela o abraçou, sem se importar se ele estava molhado ou não. – Meu filho! Meu filho adorado!
– Mamãe, este não é o Anzor, este o Nikolai. O garoto do John. – Tio Sergei intercedeu à seu favor. – Não ligue para ela. Está senil.
– Ah... Ah, mas é claro. Perdoe-me, querido. – Ela segurou a mão de Nikolai levemente.
– Você cresceu hein, rapaz? – Tio Simon chegou, dando tapinhas nas costas dele. – Te vi quando você era só uma criancinha.
– Quanto tempo, tio Simon. – Eles apertaram mãos. – Como está?
– Estou ótimo, meu filho.
Nikolai pediu licença. Sentia-se eufórico com o comentário da avó, e particularmente um pouco assustado.
Ele olhou para , que conversava com Evelyn. Chorava um pouco, mas secava as lágrimas com um lenço.
Evelyn a abraçou, e percebeu que ele estava olhando. Chamou-o com a mão.
– Estava chamando para ficar um pouco lá na Mansão. Deseja se juntar a nós?
Ele olhou para o rosto vermelho da irmã. Ela precisava de uma distração.
Mas não ele. Ele estava bem, oras! Estava até encarando tudo muito bem.
Ou era o que ele queria pensar.
– Não, não... Irei para casa depois daqui. – Ele respondeu.
– Oh, Nikolai. Francamente. Não deixarei. – Evelyn o pegou pelo braço, e fez o mesmo com . – Vocês dois precisam se distrair. Vamos lá. Por mim.
Nikolai suspirou, cedendo.
– Está bem, Evelyn. Vamos.
– Na verdade, eu, Ethan e Eric iremos depois. Temos uns assuntos para resolver. Mas Solomon estará lá esperando por vocês. – Ela disse. – Vão. , leia alguns livros. Nikolai, beba alguma coisa. Vocês ficarão bem.
– Como sabe disso? – Ele perguntou num tom irônico.
O olhar de Evelyn entristeceu-se.
– Porque já passei por isso. Agora vão. – Ela os empurrou com as mãos.



Capítulo 16


Nikolai seguiu para a carruagem luxuosa dos Ives e veio atrás, removendo o chapéu com o véu negro.
Eles sentaram e a carruagem colocou-se em movimento.
— Como você está? — Ele perguntou à irmã.
— Destruída. Nunca imaginei que mamãe morreria tão nova. Ela era tão... Viva.
Nikolai sorriu levemente.
— É a ironia da vida. Tudo é muito efêmero, como eu já disse — Nikolai retrucou.
— Realmente.
A chuva recomeçava a cair. Nikolai observou os pingos escorrerem pela janela da carruagem, até que ela chegou finalmente à Mansão.
Solomon estava lá para recebê-los.
— Sir Nikolai. Srta. . — Ele cumprimentou. — Onde desejam ficar?
— No jardim de trás, Solomon. Obrigado. — Nikolai lhe deu seu paletó e seguiu com até a parte de trás da Mansão, observando o labirinto ao longe, a baía, o gazebo.
— Vamos correr até o gazebo? — Nikolai perguntou a ela.
— Mas é claro que não. Está chovendo. Não quero me molhar. — Ela disse.
Nikolai sorriu para a irmã. Um sorriso sapeca.
— Nem pense nisso. — Ela disse, mas já era tarde. Nikolai, com seus 1,90m era mais forte.
Ele a pegou pelo quadril e levantou seu corpo, jogando-a em seu ombro. gritou e ele correu para a chuva, ignorando os apelos e os xingamentos da irmã.
Ele andou um pouco pelo jardim, deixando a chuva molhá-los. começava a bater em suas costas, e ele a soltou em cima de uma poça.
— POR QUE FEZ ISSO? — Ela gritou, batendo em seu peito com a mão aberta. Nikolai ria e, passado um momento, ela começou a rir também.
— Vamos até o gazebo. Está mais perto. — Eles correram até lá, cobrindo-se da chuva que aumentava.
— Que temporal! — gritou, já que sua voz num tom normal não seria ouvida pelo barulho da chuva e dos ventos que batiam nas árvores com violência. — Como sairemos daqui agora?!
— Vamos esperar diminuir um pouco! — Nikolai respondeu.
Eles ouviram um trovão, e pulou de susto, abraçando o corpo. Nikolai riu e sentou-se no chão de madeira, puxando-a. Ele envolveu-a com as pernas e abraçou-a pela cintura, encostando o queixo em seu ombro.
— Já vai passar, não se preocupe. — Ele falou em seu ouvido. — Está com frio?
concordou com a cabeça e ele juntou mais seus corpos, esfregando os braços dela com as mãos grandes, ainda mais pálidas por conta do frio.
— Melhor? Ou quer que eu te esquente de outro jeito? — Ele sussurrou, fazendo gritar, rir e tentar se soltar. — Estou brincando! Estou brincando.
— Seu nojento. Pare com isso. — Ela disse, virando-se para ele.
Nikolai colocou seus cabelos molhados para trás da orelha.
— Beije-me. — Ele pediu, puxando-a pelo queixo delicadamente.
— Não, Nik. Não quero mais fazer isso. — Ela tirou sua mão, se afastando.
Ela se levantou e ele fez o mesmo.
— O que houve? — Ele perguntou.
— O que houve? Nikolai, somos irmãos! Isso não é certo, você sabe disso.
— Meio irmãos. — Ele corrigiu, fazendo-a erguer uma sobrancelha.
— Ainda sim. Irmãos. Crescemos juntos sendo criados como irmãos, somos irmãos até o fim.
— Deixe de hipocrisia! Até parece que você não gosta, que não quer. — Ele a segurou pelos braços, puxando-a para si. — Vai ignorar o que sente?
— O problema é esse, eu não quero sentir. — Ela respondeu, tentando se soltar.
Nikolai sentiu os olhos se arregalarem, e sentiu como se houvesse recebido um tapa na cara. Ele puxou-a ainda mais para si e tentou beijá-la, mas virou o rosto e agora realmente lhe deu um tapa no rosto.
Nikolai voltou a encará-la e foi a vez da garota de arregalar os olhos.
— Seus olhos... Estão mais claros! — Ela disse, se afastando. — O que está fazendo? Está me machucando!
Ele percebeu o que a raiva estava fazendo com ele e se afastou, pedindo desculpas. Por debaixo da fina renda da manga do vestido de , davam para ver as distintas marcas vermelhas de seus dedos.
— Eu... Me desculpe. — Ele tornou a pedir, olhando fundo nos olhos úmidos de . Ela apenas negou com a cabeça e saiu andando, e Nikolai não se permitiu segui-la.

— Não sei o que aconteceu. Foi como se, momentaneamente, eu não conseguisse controlar meus movimentos. Como se houvesse me desligado do mundo e o observasse apenas como um espectador, de fora. — Nikolai contou algumas horas depois para Eric.
Ele cruzou as pernas, pensativo.
— É a besta, Nik. Você deverá aprender a controlá-la.
— E como diabos eu faço isso?
— O que você tem que entender é que você acabou de receber a besta. Tem coisas que você não irá conseguir fazer agora, só quando se acostumar com ela. Isso é uma delas.
— Como você se acostuma a uma maldição? — Nikolai sussurrou, mas isso não havia sido despercebido à aguçada audição de Eric.
Nikolai suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos.
— Já pensou em se suicidar? — Ele perguntou a Eric.
— Nasci com a besta dentro de mim. Fui preparado desde criança. Pode acreditar, já estou acostumado com isso tudo. — Ele respondeu num tom divertido. — Só foi um problema quando mamãe morreu. Na noite seguinte, mal conseguia levantar da cama. Quase me destruiu. E quando a besta veio, Evelyn estava ao meu lado, como ela sempre esteve. Por pouco não a matei. Outra lição para você, Nikolai. A besta não distingue amigo de inimigo, irmão de estranho. Se alguém estiver perto dela, ela IRÁ matar.
Nikolai concordou com a cabeça. Grande consolo.
— Evelyn está na biblioteca com . Ethan está com elas fazendo uma leitura oral de Orgulho e Preconceito. Ela irá ficar bem. — Eric se levantou, pegando uma taça de vinho para si e um copo de whisky para Nikolai, entregando-o. — Beba.
Nikolai virou o copo e Eric tornou a enchê-lo, bebericando o vinho.
Isso se repetiu por três vezes até Nikolai começar a se sentir enjoado.
— Deixe a garrafa. — Ele pediu, e Eric assim o fez.
Eric voltou a se sentar.
— E então? O que irá fazer? — Ele perguntou. — Se matar? Ou se dispor a aprender como controlar o que vive dentro de você?
Nikolai virou o copo.
— Só não quero machucar ninguém. — Ele disse, por fim. — O que você sugere?
Eric sorriu levemente.
— As aulas começam segunda à tarde. Estou avisando, não será bonito. Será bem doloroso, na verdade.
Solomon entrou na sala.
— O senhor Schmidt.
— Mande-o entrar. Stephen queria muito ver como você estava. — Eric disse. — Espero que não se incomode.
— De modo algum. — Nikolai sorriu devagar. — Ele é cômico. Talvez melhore meu humor.
Eric riu levemente enquanto sacudia a cabeça, terminando o vinho.
Stephen entrou, subindo os óculos enormes com a ponta do dedo.
— Boa tarde. Nikolai, como está? Meus mais sinceros sentimentos. — Ele veio até Nik, apertando sua mão energicamente.
— Estou bem, Stephen. Obrigado. — Ele puxou a mão discretamente. — Como vai Johanna?
— Ela está bem. Acabou de ficar noiva! — Stephen anunciou.
Nikolai resmungou internamente. Mais uma bela dama caçada. Iria acabar casando com Evelyn.
— Tenho certeza de que é um homem de sorte — Nikolai disse.
Solomon voltou.
— O chá está servido.
Nikolai e Eric levantaram.
— Junte-se a nós, Stephen. Precisamos por a conversa em dia — Eric pediu.
Ele os seguiu até o salão de chá, onde , Evelyn e Ethan já se encontravam. Conversavam animadamente.
Nikolai foi em direção à irmã.
— Sente-se ao meu lado, Nikolai — Eric chamou.
Nikolai parou no meio do caminho, virando-se para Eric com uma expressão mal-humorada. Mas assim o fez, sentando ao seu lado e relativamente longe dos outros.
— Dê algum tempo para ela — Eric sussurrou enquanto Stephen sentava ao seu lado.
— Nikolai, e então? Como foi a primeira transformação? — Ele perguntou baixinho.
— Terrível.
— Como esperado. Sinto muito.
— Não mais que eu, garanto — Nikolai respondeu, mas agora havia um certo humor negro autodepreciativo em sua voz.
— Eu estava pensando em dar um baile — Eric falou, alto o suficiente para todos ouvirem. — Outro. O que acham?
Todos sorriram e concordaram com a ideia, exceto por Ethan e Nikolai. Quando o alvoroço pela notícia dada cessou, ele falou baixinho.
— Não pode. Debrunski...
— Ah, meu caro Nikolai. Posso mandar Ethan dar o baile, não preciso estar aqui.
— Você tem uma enorme pintura sua na sala de estar.
— Facilmente substituível — Eric retrucou após fazer um gesto impaciente com a mão. — Todos nós precisamos de um pouco de diversão.
Nikolai foi até a mesa e pegou uma xícara de chá junto com um bolinho de chocolate, voltando a se sentar ao lado de Eric. Quando todos terminaram, ele finalmente se dirigiu até a irmã.
— Devemos ir. A família deve estar com John nos esperando.
— Oh, verdade. Vamos logo. — Ela levantou-se e despediu-se de Evelyn, Ethan, Eric e Stephen, ao que Nikolai fez o mesmo.
Quando já estavam na carruagem minutos depois, Nikolai arriscou um olhar para o braço da irmã. As marcas vermelhas haviam desaparecido.
— Desculpe-me. — Ele pediu. — Pelo meu descontrole mais cedo. Não foi minha intenção.
suspirou.
— Nikolai, isso deve acabar. Toda essa situação não é saudável. Não é natural.
Ele bufou, abrindo a boca para falar.
— Nem comece. Não quero ouvir, — Ela disse.
— Você deve ouvir. O que sinto por você é muito forte, . Deve compreender que...
— Irei casar com Victor. Irei unir-me a ele em matrimônio! — Ela gritou com os olhos úmidos e vermelhos. — Ele se importa comigo, Nikolai. Pode me dar um futuro estável, uma felicidade real. E você? O que me oferece? Dor, segredos, sofrimento. Prefiro pegar o caminho mais fácil e curto dessa vez.
— Não pode ignorar seus sentimentos desse jeito. É por mim que seu coração bate, . Você não entende isso? — Ele pegou a mão dela e colocou em seu peito, na área do coração. — Sinta.
puxou a mão bruscamente.
— Queria te fazer sentir a dor que estou sentindo. Fisicamente. — Ela praticamente cuspiu as palavras.
— Então me bata. Nenhuma dor será mais forte do que estas palavras que você está dizendo.
— Não irei causá-lo dor. Eu não sou assim.
Nikolai abriu a camisa aos olhos de , fazendo-a corar.
— O que pensa que está fazendo? — Ela perguntou. — Pare!
Ele tornou a pegar uma das mãos dela, forçando as unhas contra a pele pálida do peitoral.
— Arranhe-me. — Ele pediu. — Desconte essa raiva.
serrou o maxilar e deixou a mão com força, fazendo listras vermelhas macularem a pele do irmão.
Ele pegou as unhas dela e direcionou-as para o ombro esquerdo e ela fez a mesma coisa, fazendo-o grunhir de dor.
— Você traz à tona o pior de mim. — disse, puxando a mão. — Olhe o que está me influenciando a fazer.
Nikolai fechou a camisa, ignorando o ardor. Em algumas horas estaria completamente curado.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, até que Nikolai se sentiu angustiado.
— Não se case com ele.
— Irei me casar sim. Ele já falou com papai, até com mamãe antes dela morrer. Pediu minha mão. Ele irá jantar lá em casa mais tarde. Decerto já está sendo apresentado à nossos familiares. Que conveniente! — Ela disse com a voz embargada.
... Não faça isso. Podemos fugir daqui, construir uma vida noutro lugar. Os Estados Unidos...
— Mas que graça! Acha mesmo que eu arriscaria minha posição, minha situação de vida, minha comodidade para viver uma vida esdrúxula com você? Onde iríamos viver, Nikolai? No campo, criando gado? Comendo o que tiraríamos da terra, o que você caçasse? Não seja ridículo. É patético.
— Poderíamos levar algum dinheiro, se é o que a preocupa. — Ele estava mortificado. A irmã nunca ligara para aquelas coisas. O tom frio e debochado que ela usava o cortava como navalhas.
— E depois, quando o dinheiro acabasse? O que faríamos? Eu, cheia de crianças bastardas à tiracolo e você em um trabalho medíocre? Esta não é a vida que eu quero para mim, Nikolai.
Nikolai abaixou a cabeça.
— Você está sendo cruel. Posso saber o que fiz para merecer essa recusa tão fria?
— Não se faça de desentendido. Escute a si mesmo. Escute o que está propondo. Não acha que está pedindo muito de mim, Nik? — suspirou, acariciando seu belo rosto. — Eu o amo. Mas não desse jeito.
A carruagem parou e saiu, deixando Nikolai sentindo a dor da rejeição, dificilmente sentida antes.

Como ela se sentia fútil, cruel, vilã, destruidora de sonhos!
se segurava para não chorar ainda mais enquanto entrava em casa. Ainda restavam alguns convidados. A avó Anastasia, os avós maternos, o tio Simon, a tia Janice.
E Victor estava lá. Que maravilha.
Ela foi até ele.
— Olá, minha querida... O que houve? — Ele perguntou. — Está pálida.
— Nada. Estou bem. — Ela beijou suas mãos, sorrindo para o jovem rapaz. Ele retribuiu o sorriso, deixando o assunto de lado.
Nikolai entrou em casa e seu olhar se focou nos dois. Seu rosto mostrou uma expressão fria e passou direto.
soltou a respiração. O irmão a deixava nervosa.
Um pouco mais tarde depois daquele breve momento, a família já havia ido embora, junto com Victor, que voltaria para o jantar.
Ela foi dar as instruções aos cozinheiros. Já se sentia a própria dona da casa.
Logo em seguida foi ajeitar Maddie, penteando seus belos cachinhos loiros e vestindo-a com um vestido azul anil. Estava linda. Quanto a Peter, pediu ao irmão que tomasse um banho e se arrumasse. Estava cheio de terra.
Com Nikolai, ela nem perdeu tempo. Sabia que, por estar com raiva dela, agiria do modo que bem desejasse.
Ela não acreditava que iria mesmo fazer aquilo sem a mãe.
foi para seu próprio quarto se arrumar. Tomou um belo banho e escolheu um vestido preto longo e bonito, com renda na parte do pescoço e do colo e mangas. Mesmo sendo um jantar especial, queria honrar o luto pela mãe.
Ia prender o cabelo com uma fita, mas achou que ficaria infantil. Pediu então para uma das empregadas fazer um belo penteado elaborado, com tranças e algumas mechas cacheadas caindo. Estava muito bonita.
Ela ouviu gritarias no piso inferior. Oh não, papai e Nikolai já estavam discutindo? Ela abriu a porta e correu até as escadas, pegando a discussão pela metade.
— ...Melhor se comportar, me entendeu? Não quero ver um desleixo de comportamento seu, não permitirei essa desfeita com a sua irmã — John vociferava enquanto apontava o indicador para Nikolai.
— Problema o seu. — Ele retrucou.
— Olhe aqui... Vista seu terno.
— Papai, deixe-o. O senhor conhece Nikolai. E não fará mal nenhum ele estar vestido assim. Nada estragará esse jantar para mim. — Ela avaliou a roupa do irmão. Camisa branca de algodão de mangas longas e soltas, calça de couro negra e botas que vinham até abaixo do joelho. Devia estar indo montar quando papai o interceptou, ela pensou. Roupas simples para um jantar.
— Nik... Você não gostaria de vestir algo melhor? Por favor? — Ela pediu.
Os olhos dele se viraram para ela num deboche notável. E havia algo neles, um tom de desafio. Como se a frase “nada estragará esse jantar para mim” fosse levada ao pé da letra.
Ele então fez algo que a escandalizou.
Ele lhe mostrou o dedo do meio.
— Como ousa! — Ela gritou e o pai levou as mãos ao rosto, provavelmente tentando recobrar a paciência.
— Pode por favor pedir desculpas à sua irmã? — Ele pediu com o rosto vermelho.
Nikolai deixou a sala sem dizer uma só palavra. John jogou a cabeça para cima, fechando os olhos em seguida.
— Ah, Giorgiana. Como você está fazendo falta. — Ele disse para si mesmo, virando-se para em seguida. — Chegaram novos cavalos. Irão distraí-lo, talvez ele nem venha jantar.
— Mas eu quero que ele venha. Esse dia é importante para mim — insistiu.
John suspirou.
— Darei um jeito. Vá terminar de arrumar tudo. Está fazendo um ótimo trabalho.
Ela obedeceu com um sorriso, indo ver com os empregados em quanto tempo tudo ficaria pronto, se já haviam arrumado a mesa. Pediu para escolherem o melhor vinho. Tudo devia sair perfeito. Aquilo acalmaria a dor em seu coração pelos acontecimentos de mais cedo... Não acalmaria?



Capítulo 17

Nikolai

Ele acariciava o pescoço de um dos cavalos que havia chegado, o mais manso, enquanto pensava nas palavras da irmã. Ainda sentia seus efeitos, seu peito doía e ele sentia uma vontade ridícula de chorar.
— Você tem que parar com isso, Nikolai.
Ele se assustou, virando-se depressa em direção à voz do pai. Quer dizer, à voz de John. Ele não era seu pai, devia se lembrar disso. O homem o avaliava de braços cruzados encostado na cerca de madeira.
— Não sei do que você está falando — Nikolai teimou, esfregando as mãos sujas na camisa e se afastando do cavalo.
— Sabe sim. Olhe, escute. Sua irmã está muito feliz com esse jantar, permita a ela essa felicidade. Vocês precisam superar a morte da sua mãe. Merda, até eu preciso superar isso. — John coçou a nuca com os olhos direcionados ao chão, com certeza aquilo não devia ter sido pronunciado em voz alta. — É só isso que peço. Dê um desconto a ela.
— Você não entende.
— Entendo sim. Todos nós entendemos e sabemos há anos. Mas ela irá fazer o que é certo no final, Nikolai. É o que sua irmã foi criada para fazer. — Ele disse num tom de voz melancólico. — Espero que tenhamos criado você para também fazer o certo.
Nikolai sentiu um solavanco no estômago. O que ele queria dizer com aquilo? Ele... Sabia?
Ele não saberia pois, naquele momento, John resolveu sair andando em direção à casa, deixando aquilo em aberto. Nikolai passou as mãos no rosto, se sentia nervoso, mas devia se controlar.
Mas ele não se controlaria. Controle nunca fora de sua natureza. As palavras cruéis dela ecoavam em sua cabeça, e ele sabia. Deveria fazer algo quanto a isso.
E ele faria.

Algumas horas depois, Victor chegara. Conversaram bastante até a hora do jantar ser servido, e Nikolai não dera as caras. Aquilo a deixara extremamente tranquila, e esperava que ele não criasse problemas.
— Vamos até a sala de jantar, vão servir daqui a pouco. Quero que veja o que eu... — A frase nunca fora terminada pois, ao chegarem lá, um Nikolai imundo descansava suas botas cheias de lama em cima da mesa.
teve uma vertigem. A toalha de mesa branquinha da avó Joanne!
— Boa noite, queridos familiares. E futuros familiares! — Ele se levantou, indo até Victor e apertando sua mão. — Como vai, doutor?
— Muito bem, Lorde Nikolai. E posso ver que está ótimo. — Ele disse num tom irônico, sorrindo de lado.
— Bom observador — Nikolai sorriu da mesma forma. — Estou maravilhoso. Opa, acho que sujei o chão. Se importa, Dolores?
A pobre empregada foi até a cozinha para buscar algo para limpar a sujeira.
estava em fúria. Olhava para o irmão e sabia que ele estava se divertindo.
Dolores voltou momentos depois, limpando todo o chão e as botas sujas do rapaz, voltando ao seu posto.
Os empregados foram trazendo os pratos e colocando na mesa. Nikolai sentou-se longe de todos e serviu-se de uma grande perna de peru, mordendo-a e segurando-a com as mãos.
John era o retrato do cansaço. Não sabia o que fazer e, sinceramente, não queria fazer nada. Só queria sobreviver àquele jantar. A mesa estava em silêncio, constrangimento de todos os lados.
— Então, Nikolai — Victor tentou puxar assunto. — Soube que cuida de cavalos. São animais difíceis de se tratar? O máximo que sei do assunto são os animais que puxam a carruagem.
— De forma alguma, são animais ótimos se sabe o que está fazendo. — Ele respondeu de boca cheia.
Victor começou a conversar com John, e Nikolai comia mais uma vez em silêncio. o lançou um olhar irritado. Não acreditava que ele estava fazendo aquilo.
— ...Não concorda, ? — Ela ouviu Victor falar e guiou sua atenção para ele.
— Oh, sim. Concordo plenamente. — Ela respondeu com as bochechas coradas de vergonha. Não havia escutado uma só palavra do que ele havia dito.
Victor sorriu devagar, provavelmente notando, e voltou sua atenção para John. Ela voltou a olhar para Nikolai, que se lambuzava de sopa.
— Irmã, passe, por favor, a pimenta. — Ela ouviu a voz dele pedir e ignorou-o, fingindo que prestava atenção na conversa de John e Victor. — , a pimenta. .
Ele parou de chamá-la e ela sorriu com satisfação. O irmão decerto percebera que ela estava com raiva...
Ela sentiu algo pastoso ir de encontro com seu rosto e arfou, olhando para Nikolai. Ele estava com a colher do purê de batatas na mão e um sorriso sacana no rosto.
— A pimenta, . Por favor. — A voz dele soou maligna e vil.
Ela sentiu as narinas tremerem e o rosto pegar fogo.
— Quer a porcaria do sal? Pois tome! — Ela gritou, pegando o pote e jogando no irmão que riu, desviando.
— Eu disse a pimenta! — Ele gritou, correndo em volta da mesa. corria atrás, tentando acertar o que pegava da mesa no irmão mais velho.
John gritava o nome dos dois, mas eles não o escutavam. Maddie ria e batia palminhas junto com Peter, que atiçava os dois.
Victor se levantou num pulo, pronto para interferir.
John tomou a dianteira, tentando ir para a frente de Nikolai no intuito de pará-lo. Mas ele apenas o empurrou, fazendo com que John derrubasse algumas coisas que restavam na mesa.
Você estragou tudo! gritou para Nikolai, finalmente parando de correr. — Eu o odeio! Você sempre estraga tudo!
Boo-hoo! — Nikolai gritou de volta. — Vai chorar? A menininha vai chorar?
NIKOLAI! PRO SEU QUARTO, AGORA! — John gritou, fazendo com que todos ficassem em silêncio. — Suma da minha frente.
Nikolai parou e virou-se para Victor, fazendo uma reverência teatral e subindo as escadas.
agora realmente chorava. Maddie havia se assustado com o grito e chorava também. Peter levou-a, e Victor foi até , abraçando-a.
— Se serve de consolo, acho que continua bonita mesmo suja de purê.
soltou uma risada chorosa, enxugando o rosto com um guardanapo.
— Se me dão licença... Irei me limpar — John disse, deixando-os.
— Oh, mas que bagunça fiz aqui. Perdoe meu temperamento e minha infantilidade, perdoe-me pela bagunça, Dolores. — Ela se virou para a empregada, logo em seguida tentando pegar algumas coisas do chão. A jovem criada vetou sua ajuda, dizendo que não era necessário e que não tinha importância. Já devia estar acostumada.
Victor sorriu para ela e puxou uma mecha de cabelo suja de purê.
— Não foi infantilidade. Ninguém aguentaria muito tempo aquela provocação, .— Ele disse.
— Eu deveria limpar isso.
— Deseja que eu me vá?
— Eu... Bom, não. Mas é preciso. Acho que você já viu o suficiente por uma noite. — Ela falou, fazendo-o rir. — O quê? Minha casa é praticamente um manicômio. Ainda quer se casar comigo depois de tudo que viu?
Ele sorriu e acariciou o queixo dela.
— Mais que nunca. A perfeição nunca me agradou. Nos faz parecer um pouco... Inatingíveis, não acha? — Ele suspirou, estendendo o braço. — , gostaria de dar um passeio comigo no jardim?
— Suja de purê?
— Do jeito que for.
Ela sorriu brevemente, pegando o braço dele e concordando com a cabeça.
Os dois seguiram para o jardim de Giorgiana. As folhas estavam carregadas de orvalho noturno, mas a maioria das flores haviam sido removidas para serem usadas no enterro.
Eles foram até a fonte que, na ocasião, felizmente estava ligada.
— Esse lugar é ainda mais belo à noite. — Ele comentou, acariciando uma das rosas que havia sobrado. — Vocês têm sorte de ter um lugar da natureza tão perto.
— É. A mamãe adora esse lugar. — disse, seu rosto adquirindo uma expressão triste. — Adorava. É.
Eles se sentaram e soltou os cabelos, lavando-os na água da fonte para tirar o purê. Ela agora estava com o cabelo ensopado, mas limpo.
— Então... Sua mãe realmente cuidava de todas as flores? — Ele perguntou, olhando em volta.
concordou com a cabeça, pegando uma flor que boiava na fonte com a palma da mão.
— Não sei como ainda quer se casar comigo depois da minha falta de controle. — Ela disse enquanto colocava a flor de volta na água.
Victor riu.
— Como eu disse, ele provocou. E eu tenho quatro irmãs mais novas, então sei bem como são essas briguinhas. — Ele disse.
— Conte-me sobre elas! — Ela pediu com um sorriso e os olhos verdes brilhando.
— A mais velha das quatro é a Bridget. Tem dezenove anos e já está casada. Marcus Longstride, conhece?
— O advogado? Oh sim.
— Esse mesmo. Um bom cunhado. Saímos para caçar às vezes, quando ele não está muito ocupado com a filhinha de um ano ou com o trabalho. A segunda mais velha é a Olivia. Tem dezesseis. É com quem tenho as brigas mais constantes, ela tem um gênio muito forte. A terceira é a Anna, com doze. E a caçula é a Bessie. Ela tem seis.
— Que lindas. Adorarei conhecê-las quando chegar a hora.
— Em breve. Muito em breve.
sorriu levemente, e Victor segurou sua mão. Ela ergueu o olhar, focando-se em seus lindos olhos azuis.
Ele se aproximou.
— Eu gostaria muito de beijá-la agora, Srta. Martell. — Ele disse, colocando os cabelos molhados dela atrás da orelha.
pensou em Nikolai. No ódio que o irmão a fizera passar.
Ela encerrou a distância entre os dois, selando seus lábios em um beijo delicado e puro.
E recatado. E singelo. E leve.
Totalmente o contrário do beijo de Nikolai, um beijo que fazia sua barriga se revirar e suas pernas tremerem. Um beijo que a deixava sem ar e desorientada.
Victor não tentara aprofundar o beijo. Foi muito respeitoso.
Eles ouviram um ruído e se afastaram rapidamente, olhando em volta. Era um rosnado. Um cão encarava os dois, sua pelagem escura e emaranhada destacando os olhos amarelos brilhantes.
— Ele é seu? — Victor perguntou com temor na voz.
— Nunca vi esse cachorro antes. — respondeu com igual temor enquanto Victor a protegia com o corpo. O cachorro se aproximou, a boca salivando e os dentes arreganhados.
— Victor... — chamou, mas Victor pediu que ela fizesse silêncio. O cão rosnou novamente e ela se assustou, andando um pouco para trás e pisando em cima de um galho retorcido.
Foi o que o cão precisava. Pulou em cima de Victor e cravou os dentes em seu braço, fazendo gritar.
O cão pareceu se assustar com o grito, soltando Victor e saindo tão repentinamente quanto havia chegado, deixando os dois com a respiração ofegante, de medo e Victor de dor.
sentiu a sensação de que alguém a observava e olhou para uma das janelas da casa.
Nikolai observava os dois com um meio sorriso macabro e de deleite, como se houvesse provocado aquilo.

~/~

— Não entendo. Uma hora estávamos conversando e outra hora aquele cão surgiu do nada. E depois sumiu como se nunca houvesse estado ali. — Victor contou enquanto o Sr. Eckheart, pai dele, enfaixava seu braço.
O mais velho franziu a testa enquanto cortava a atadura.
— Deve ser um cão de rua. Tome cuidado da próxima vez, sim?
O pai de Victor também era médico, e não tardou em chamá-lo. O braço de Victor sangrava bastante, e ela estava assustada. Ainda via os olhos amarelados do cão em sua mente. Quando os dois finalmente foram para casa, resolveu confrontar o irmão. E faria aquilo agora.

Nikolai

Mas que conveniência.
Como ele fizera aquilo, ele não sabia. A única coisa que ele sabia era de que estava com muita raiva, e queria assustar o jovem médico.
Quando viu ele beijando-a, a raiva aumentou. E aquilo havia acontecido. Não queria que ele tivesse mordido-o, mas tudo bem. Ele estava vivo, não é? Não fora nada grave.
Batidas na porta. Ele deitou-se na cama.
— Entre. — Disse por fim, fazendo com que entrasse como um furacão.
Como pôde? — Ela gritou. — Como pôde estragar tudo daquela maneira? Não tem nenhum respeito, nenhuma honra?
— Você que surtou, irmãzinha. Não fiz nada demais. — Ele disse, brincando com o relógio de bolso quebrado do pai.
foi até ele, sentando-se ao seu lado.
— O que quer de mim? — Ela perguntou num tom calmo, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— No momento, eu adoraria que saísse do meu quarto.
Ela franziu a testa.
— Você diz que me ama, mas a maior qualidade desse sentimento é a abdicação de egoísmo, é fazer de tudo para ver o outro feliz, mesmo que isso não inclua você. Que amor é esse, Nikolai? Que amor é esse que clama sentir por mim quando o que eu mais quero no momento é ser feliz?
Nikolai não respondeu, doía demais. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele virou o rosto para que ela não percebesse.
— Irei tomar um banho. É tudo que quero agora.
suspirou e deixou-o sozinho.
Ele tomou seu banho, sua cabeça cheia de pensamentos. Sentia-se um lixo. O pior dos piores. Ela estava certa, não estava? Amor não era querer que o outro fosse feliz independente do que acontecesse?
Sabia exatamente o que fazer para se animar.
Ele fez o caminho até o quarto de Maddie, pedindo para que Nancy desse licença. A babá saiu e Nikolai pegou a irmã pequena no braço, sorrindo para ela.
— Olá, princesa! — Ele balançou as mãos dela, beijando-as. — Como estamos hoje? Não está com raiva de mim também, está?
Maddie disse algo parecido com “nun”, que Nikolai decidiu tomar como um “não”, o que o deixou ainda mais feliz.
Nun não é uma palavra. Terá de se esforçar mais um pouco. Mas sei que você conseguirá. Consegue dizer Nikolai? Nik? Nik.
Ela não falou mais nada, ou fez outro som. Mas o irmão continuou brincando com ela mesmo assim.
Quando ela já estava sonolenta ele chamou Nancy de volta e saiu do quarto. Quando chegou ao seu e abriu a porta, congelou.
John estava lá, sentado na cama com uma expressão desapontada.
Oh-oh. Estava em apuros.
— Posso ajudar? — Nikolai perguntou.
— Feche a porta — John respondeu com frieza.
Ele assim o fez, virando-se para o homem que um dia ele chamara de pai.
— Por que, Nikolai? — John perguntou calmamente.
— Por que o quê?
— Por que insiste em envergonhar essa família tão cruelmente depois do que passamos essa semana?
Nikolai engoliu em seco, sentindo o remorso envolvê-lo. O pai estava certo. Depois de tudo que haviam passado essa semana.
— Desculpe. — Ele disse num tom baixo.
John suspirou.
— Desculpas não são suficientes em uma situação dessas, Nikolai. E mais do que isso, elas não devem ser direcionadas a mim, e sim à sua irmã.
Nikolai concordou com a cabeça enquanto John se levantava.
— Já que estamos aqui, há algo que eu quero dizer. Você... Não precisa sair dessa casa em um mês.
Nikolai franziu a testa.
— Me dará mais tempo?
John serrou o maxilar. Parecia que aquelas palavras estavam sendo difíceis de serem ditas.
— Não. O que eu quis dizer é que poderá ficar o tempo que desejar. Sempre terá um lar aqui, Nikolai. — Ele disse com a mão no trinco da porta. — Não é assim que quero tratar a memória de sua mãe. Ela não ficaria feliz com isso.
Nikolai avaliou aquelas palavras, sentindo uma emoção que não soube explicar. Aquele homem realmente amava sua mãe. Ele passara por cima de todo o ódio pela lembrança que Nikolai trazia para priorizar a lembrança que Giorgiana deixara. Ele não esqueceria daquilo tão cedo.
— Obrigado, John — Nikolai agradeceu com a voz embargada. — Isso significa muito para mim.
John abriu a boca para responder, mas tornou a fechá-la, deixando o quarto.

~.~

Três dias depois, a segunda havia chegado. O dia que ele aprenderia a controlar a besta. Ele levantou-se da cama e vestiu uma roupa mais leve, pois imaginava que seria uma tarde difícil. Ele desceu e pegou uma maçã para comer no caminho da Mansão Moonrise. Estava mais que atrasado, havia acordado muito tarde.
Mas havia passado metade da noite em um bordel em Whitechapel e a outra metade no quarto de Evelyn, o que havia sido bem proveitoso. Voltou para casa apenas para dormir um pouco e cuidar dos cavalos. Agora já estava voltando para lá.
— Aonde você vai? — Ele ouviu a voz de e se virou, encarando a irmã.
— Vivemos na mesma casa por dezesseis anos, e você ainda age como se eu te devesse alguma satisfação. — Ele disse num tom zombeteiro. — Mas, se quer mesmo saber, vou ver Evelyn.
Ele viu a frieza tomar conta de seu belo rosto.
— Irá voltar hoje?
Nikolai riu.
— Provavelmente não.
Ela concordou levemente com a cabeça, ainda avaliando-o.
— Não tem nada que queira me dizer?
Nikolai voltou a rir, deixando a casa e a irmã com cara de tacho. Pegou a carruagem e chegou logo na mansão. O baile seria no outro dia, então os preparativos já haviam sido iniciados. Ele desceu da carruagem e entrou na Mansão, sendo recebido por Solomon. O mouro sorriu e acenou com a cabeça discretamente, apontando para cima.
Nikolai subiu as escadas e encontrou Ethan, Eric e Evelyn na sala de estar. A garota bebia chá, Ethan fumava um cigarro e Eric bebia sua estimada taça de vinho.
— Boa tarde. — Ele cumprimentou.
— Ah, Nik! Estávamos falando de você. Sente-se. Deseja algo para beber? — Eric ofereceu. — Na verdade, falávamos também sobre . Mandamos nossos presentes e pedimos desculpas por não termos comparecido ao almoço de aniversário.
— Eu gostaria muito de uma dose de whisky, obrigado. — Nikolai respondeu, ignorando o que ele havia dito sobre . Eric riu com divertimento daquilo, servindo o garoto. Nikolai então sentou-se em uma das poltronas de veludo vermelho. Longe de Evelyn.
Eric tornou a encher seu copo quando ele terminou por mais duas vezes. Nikolai achou que precisaria daquilo para o que viria a encarar.
— Vejo que está arrumando o baile. Fantástico. — Ele comentou.
— Sim, começamos meio atrasados, mas acredito que dará tempo. E não acho que será mais um baile. — Ethan disse, rindo. — Um passarinho nos contou que alguém faz aniversário nessa data.
Nikolai franziu a testa. Como eles haviam descoberto?
— É, bom... Não é todo dia que se faz dezenove anos, eu presumo. — Nikolai disse, sentindo as bochechas corarem. — Não posso aceitar, meus caros. Parece estar saindo caro. Ou, se aceitar, pelo menos irei contribuir...
— Não ouse. É nosso presente de aniversário. — Eric retrucou.
— Mas...
— Aproveite e cale a boca — Evelyn disse num tom divertido.
Nikolai riu e balançou a cabeça, virando o resto do conteúdo do copo.
— Tudo bem, eu acho. E a lis...
— Cuidaremos dos convidados. Não se preocupe com nada — Evelyn disse, sorrindo para ele.
— Podemos começar? — Ethan pediu, levantando-se.
Eric e Nikolai fizeram o mesmo.
— Evelyn, vá chamar Solomon. Assuma o lugar dele nos cuidados com a festa — Ethan pediu.
Quando ela se retirou, Eric e Ethan retiraram os paletós e estenderam-nos sobre a poltrona.
Eles esperaram Solomon que, quando entrou, estava com um pedaço de madeira nas mãos.
— Então eu... Wow, wow, wow, por que ele está com esse pedaço de madeira na mão? — Nikolai perguntou, se afastando.
— Não se preocupe. É só no caso das coisas ficarem... Difíceis — Ethan ergueu as mangas da camisa, sorrindo maldoso.
Nikolai olhava de Eric para Ethan esperando que os dois começassem a rir e dissessem que aquilo era uma brincadeira, mas os dois pareciam sérios demais.
Eric foi até a lareira e tirou de lá um ferro em brasa.
— O que é isso? — Nikolai sentiu Ethan segurar seus braços para trás, prendendo-os atrás de suas costas. Ele tentou se soltar, mas Ethan era muito mais forte que ele. — Me largue!
— Nikolai... Calminha — Eric disse, segurando o ferro com uma mão e a outra erguida e aberta. — Você deve se controlar. Eu avisei que seria doloroso.
— Não, não! — Nikolai sentiu o ferro em brasa entrar em seu ombro e gritou, sentindo uma mudança dentro de si. — Pare com isso!
— De novo, Eric — Ethan ordenou. Eric enfiou o ferro no mesmo lugar, torcendo-o e fazendo Nikolai cair de joelhos. Ele sentiu a boca doer e o rosto se contrair. No lugar de seus dentes normais, as presas foram aparecendo aos poucos.
— Nikolai, aguente firme! Tente bloquear! — Ele ouviu a voz de Eric, mas estava tão baixa, tão distante.
Nikolai não estava mais ali. A besta estava vindo.
Ele sentiu uma pancada forte na cabeça. E tudo ficou escuro.
Quando Nikolai acordou, estava no quarto de Evelyn. Em sua cama, para ser mais exato.
Ele usava apenas uma peça íntima e seu ombro estava com um curativo.
— Como se sente?
Ele xingou, quase voando da cama de susto. Quando olhou em volta, ela estava sentada na poltrona.
— Este estado de alerta é normal. Como se sente? — Ela tornou a perguntar.
— Minha cabeça dói como se houvessem sapateado nela a noite inteira, mas fora isso, estou ótimo. — Ele tentou se levantar.
Evelyn sorriu levemente, indo até a cama e sentando ao lado dele.
— Tem um pequeno machucado na sua testa. Da pancada que Solomon lhe deu. Mas fora isso...
— O que aconteceu? — Ele perguntou.
— Você não conseguiu se controlar, a besta estava vindo. Solomon precisou nocauteá-lo.
Nikolai murchou. Queria ter conseguido.
Ela tocou seu braço.
— É normal. Nem os que já nascem com a besta conseguem de primeira.
Ele suspirou.
— Achei que a transformação só ocorresse na lua cheia.
— É verdade. Mas em alguns, ela acha mais facilidade para sair em alguns momentos inoportunos. Como uma brecha. Por isso, você tem que tomar cuidado.
— Por que isso acontece?
Evelyn deu de ombros.
— Não se sabe ao certo.
Nikolai concordou, ficando em silêncio por alguns minutos.
— Ethan é como eu, não é?
— Sim.
Ele novamente concordou, avaliando as informações recebidas.
— Por quanto tempo fiquei desacordado?
— Algumas horas. Já é noite. — Ela disse. — Não... Quer dormir aqui?
Nikolai encarou a bela loira à sua frente e sorriu malicioso.

Pela manhã, seu ombro já estava melhor e sua cabeça já não doía. Ele virou-se para o lado, vendo Evelyn. A garota dormia profundamente de barriga para baixo. Ele passou os dedos bem lentamente pela pele suave das costas de Evelyn, fazendo-a se mexer e abrir os belos olhos bicolores.
— Já é dia? Oh não... — Ela colocou o travesseiro em cima da cabeça, resmungando baixinho.
Nikolai riu e deitou em cima da garota, beijando-a no pescoço. Evelyn riu durante o beijo e se afastou com as bochechas lindamente coradas. Os dois se entregaram um para o outro, e ele não se surpreendia mais com o quão bom o sexo com ela era.
— Essa é realmente uma ótima forma de começar o dia. — Ela disse.
— Um bom presente de aniversário. — Ele respondeu com uma risada.
— Você não viu nada ainda. — Ela beijou sua bochecha, levantando-se da cama e vestindo uma camisola. — Você deve ir agora. Temos preparativos especiais e queremos que seja uma surpresa.
Nikolai revirou os olhos, levantando-se e vestindo as calças. Foi até Evelyn e afastou seus cabelos revoltos do rosto, beijando-a na testa.
— Você vê? — Ela perguntou com adoração no olhar.
— O quê?
— Pode ser realmente um doce quando quer.
O sorriso dele desapareceu, dando lugar a uma expressão melancólica.
— O que foi?
— Nada. — Ele terminou de se vestir. — Estou com fome.
— Vamos para o desjejum. Depois disso, você vai.
— Desjejum? Está tão cedo assim?
Evelyn não respondeu, sorrindo e puxando-o para um beijo. Os dois desceram até a sala, onde Ethan e Eric já comiam.
— O aniversariante chegou. — Ethan disse. — Parabéns, Nikolai.
— Parabéns, Nikolai — Eric repetiu com um meio sorriso. — Evelyn, o que ele ainda está fazendo aqui? Você vai acabar estragando tudo.
— Calado! — Ela respondeu numa risada. — Ele só irá comer e depois irá embora.
— Estão todos me expulsando hoje — Nikolai resmungou, fazendo todos rirem. Ele gostava dos momentos que passava com a família Ives. Os conhecia a pouco mais de dois meses, mas sentia como se fosse uma vida inteira. Se sentia bem, muito bem. Se sentia entre seus iguais. Ele se perguntava se seria sempre assim.



Capítulo 18

Nikolai foi para casa, fez algumas tarefas com os cavalos e recebeu de bom grado os pedidos de parabéns dos empregados e até de John. não se pronunciara.
Quando a hora da festa chegou, Nikolai já estava pronto. Até penteara os cabelos para trás para ficar mais elegante. Ele ajeitou a roupa, passou um pouco de colônia e desceu as escadas.
— Vá indo. está demorando. Você é o anfitrião, afinal de contas. — John disse. Nikolai concordou com a cabeça e, em poucos minutos, estava na grande mansão dos Ives.
Dezenove anos. Estava com dezenove anos.
E a mãe morrera praticamente na semana do aniversário.
Ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça, tentando se livrar dos pensamentos que podiam deixá-lo triste. Era SUA festa. A mãe iria querer que ele a aproveitasse.
Um toldo elegante havia sido erguido na entrada da mansão. A fonte da frente da casa estava com os jatos fazendo movimentos diferentes.
Nikolai foi recebido por um Solomon com um aperto de mão e um gentil “feliz aniversário”. O salão estava deslumbrante. Tecidos haviam sido estendidos pelo teto, caindo graciosamente pelo lugar. Tinha até uma banda.
— Nik! — Ele ouviu a voz de Evelyn e se virou no momento que ela pulou em seus braços. — Feliz aniversário! Agora um propriamente dado. O que está achando?
— Está incrível, Evelyn. Muito obrigado. A você, a Eric e Ethan — Nikolai disse, se sentindo emocionado.
Evelyn sorriu e o puxou para o andar de cima, indo até a sala de estar. Eric e Ethan estavam lá, cada um acompanhado por uma moça.
— Ah, Nikolai! Meus parabéns novamente! — Eric o abraçou rapidamente. — Esta é Emerald. Aquela ali é Loria.
Nikolai avaliou a primeira moça e as vestes dela. Pele morena, cabelo negro liso que caía até a cintura fina, e os olhos verdes, fazendo jus a seu nome.
— Prazer — Ele acenou com a cabeça. A que estava com Ethan não era muito diferente fisicamente falando, mas havia algo diferente em seus olhos. Eram selvagens. Ela sorriu devagar para ele.
— Deseja algo para beber, Nik? — Eric perguntou. — Whisky?
— Oh sim, obrigado. — Eric lhe jogou a garrafa, pediu licença e saiu com a bela mulher. Ethan fez o mesmo com a outra.
Nikolai abriu a garrafa e despejou o conteúdo em um copo, sentando em uma das poltronas e bebendo um gole.
Evelyn sentou-se em seu colo, beijando seu pescoço vagarosamente.
— Mas já? Acabei de chegar. — Ele brincou, colocando o copo de lado e segurando-a pelas coxas.
— Posso beijá-lo?
— Você acabou de fazer isso.
— Não, quero dizer nos lábios.
— Não.
Ela franziu a testa com um olhar triste.
— Por que não?
Nikolai suspirou.
— Evelyn, você sabe que isso... Nós... Não irá a lugar nenhum, não é?
— O que isso tem a ver com você me beijar?
— É íntimo demais, Eve.
— Nik, somos íntimos!
— Nos conhecemos a mais ou menos dois meses, Evelyn! — Ele acariciou a bochecha da loira. — Não somos íntimos.
Ela abaixou a cabeça.
— E da ? Você é íntimo?
Nikolai gelou. Será que Eric havia contado a ela? Ou Ethan?
— Não sei do que está falando.
— Não se faça de sonso. Eu sei de tudo. Acha que sou boba? — Evelyn saiu do colo dele. — E vejo o modo como olha para ela.
— Olho carinhosamente. Ela é minha irmã...
— Eu vi vocês. No gazebo.
Ele engoliu em seco, passando as mãos no rosto.
— Eve, você não entende.
Os olhos bicolores da moça encheram-se de lágrimas. Ela levantou a cabeça e piscou forte para afastá-las.
— Eu entendo perfeitamente. Mas, Nik... Você que não entende. Isso não dará certo, vocês teriam de sair de Londres e recomeçar a vida em outro lugar. Seria um escândalo...
— Se eu estivesse com ela, não daria a mínima para isso, Evelyn. Por isso digo que você não entende. — Ele falou num tom frio, na mesma hora lembrando-se das palavras duras de alguns dias atrás.
A loira voltou a sentar no colo dele.
— Isso é obsessão, Nik. — Ela começou a rebolar em cima da ereção dele, estimulando-o ainda mais. — Deixe-me tirar isso de você.
O corpo de Nikolai se acendeu e ele jogou a cabeça para trás, soltando um gemido baixo, não se sabia se era de frustração ou de prazer. Ele puxou o vestido de Evelyn para cima, abrindo a calça e rasgando as roupas íntimas da loira.
Ele puxou-a pela cintura e deslizou para dentro dela, fazendo Evelyn soltar um gemido baixo. Ela subia e descia em cima dele, fazendo Nikolai morder os lábios e cravar as unhas nas coxas dela.
A palavra obsessão vibrava na mente de Nikolai. Era uma palavra tão pesada. Ele não era obcecado por , era?
— Evelyn. — Ele chamou, fazendo-a diminuir os movimentos. — Beije-me.
Ela sorriu, se aproximando e beijando-o afobadamente. Ele enrolou a mão em seus cabelos agora arrepiados enquanto ela gemia contra seus lábios. O beijo era bom.
Mas não era o de .
Ele sentia como se o ato se tornasse banalizado. Mas não teve tempo para pensar naquilo porque, naquele momento, Evelyn aumentou a rapidez de seus movimentos e os dois chegaram ao ápice juntos.
O corpo dela despencou sobre o seu, trêmulo e suado. Ele respirou fundo e fechou os olhos, se sentia relaxado e incompleto.
— Está feliz agora? — Ele perguntou ofegantemente.
Ela se afastou, ajeitando sua roupa.
— Eu sou só um jogo para você, não é? — Ela perguntou num tom magoado.
— Não seja dramática. Eu já disse que o que temos não é sério. — Ele se vestiu, passando a mão nos cabelos e jogando-os para trás.
— Porque, aparentemente, você tem medo de encarar algo sério. Você nunca leva nada a sério na vida. — Ela disse de costas para ele enquanto arrumava o espartilho do vestido. Nikolai revirou os olhos e se virou para deixar o aposento. — Covarde.
Ele parou, se virando devagar.
— Do que me chamou?
— Covarde.
Ele sentiu a fúria se apossar dele. Se tinha uma palavra que ele odiava, era aquela. Não quando estava disposto a tudo... Mas aquilo não se tratava de . Mesmo assim, ele não podia ser considerado como um covarde. Odiava a maldita palavra!
— Evelyn, não me teste.
Ela se aproximou, colocando a boca perto de seu ouvido.
— O que vai fazer sobre isso? — Ela perguntou num fio de voz. — Covarde.
Nikolai a segurou pelos ombros, e um rosnado do fundo de sua garganta fez a garota estremecer.
Mas ele apenas a beijou bruscamente, deitando-a no sofá e indo para cima dela.

O vestido não caía bem.
ajeitou o espartilho do vestido negro que usava, aquele que fazia seus seios parecerem bem maiores. Estava cansada de parecer uma menininha o tempo todo, mas aquele espartilho era tão apertado. Ela não conseguia respirar direito. Estava em agonia.
Mas estava tão bonita.
Os cabelos estavam presos em um coque apertado, e usava brincos e colar de pérolas. Os dois haviam pertencido à sua mãe.
Todos já estavam prontos, apenas esperando por ela. John a elogiou, logo dizendo que seu irmão já havia partido e que deviam se apressar.
Ela não queria encarar Nikolai.
Havia sido um monstro dias atrás e era cara de pau aparecer daquele jeito em seu aniversário. Mas ela também não faria a desfeita de não ir.
Peter e Maddie também iam, mas não passariam muito tempo por causa da hora. Estavam um sonho de lindos, Maddie principalmente com seu vestidinho também preto para respeitar o luto por Giorgiana. Todos pegaram a carruagem e chegaram na Mansão em pouco tempo.
Ao entrarem, foram recebidos por uma mocinha asiática que entregara máscaras para ela e John.
— Divirtam-se. — Ela desejou, e tinha a séria sensação de que realmente iriam. Achou interessantíssima a coisa das máscaras. Nunca havia ido para um baile de máscaras em sua vida.
Nancy, que havia ido com eles para cuidar das crianças, foi direcionada para outra parte da casa aonde ficariam as crianças, onde teriam entretenimentos apropriados para as suas idades. se sentiu levemente desconfiada. Uma parte para as crianças separadas dos adultos?
O salão foi aberto para ela e John, que já estavam com suas máscaras no rosto.
Era uma explosão de cores.
Dançarinos se exibiam com performances em tecidos pendurados no teto, garçons serviam bebidas e canapés, havia uma mesa enorme de doces inimagináveis e um bolo gigantesco, além de uma banda que tocava uma música animada.
Ela se dirigiu à mesa de doces e pegou um, comendo-o com prazer.
Mágicos faziam alguns truques, distribuídos pelo grande salão. As mocinhas faziam uma roda em volta deles, totalmente fascinadas. Eram exatamente cinco, vestidos com um fraque tradicional. Suas máscaras eram de rosto inteiro, extremamente parecidas com as expressões das estátuas de mármore do lugar.
sorriu. Adorava mágica.
— Irei... Socializar. Você ficará bem? — John perguntou a ela.
concordou e ele se afastou enquanto ela ainda observava os mágicos. Tinham muitas pessoas, e ela ainda não havia visto Nikolai. Decidiu então procurá-lo. Iria pedir desculpas, era seu aniversário, não queria ficar brigada com ele. As coisas iriam se arranjar, era só dar o tempo necessário.
Um dos mágicos a parou, assustando-a.
Ele agitou as mãos e as fechou, abrindo-as em seguida e revelando uma bela rosa, negra como o ébano.
— Oh, mas que linda! — Ela exclamou. Ele estendeu a rosa para ela, que a pegou, sentindo o aroma.
Era uma rosa, mas seu perfume era cítrico, e pinicava-lhe o nariz.
Mas apesar de tudo, era agradável.
Ela encaixou-a na frente do vestido, enfeitando-o.
O mágico pegou a mão dela e levou-a à frente da máscara, como se a beijasse.
corou diante do cavalheiro sem rosto, sorrindo e recolhendo a mão.
— Com licença. — Ela pediu, se afastando. Algo nele era estranhamente familiar, tão familiar que a perturbava.
Ela entrou na multidão e, quando virou-se para olhar para o mágico desconhecido, ele havia sumido.

Nikolai

Evelyn tentava arrumar o cabelo de Nikolai com as mãos sem sucesso enquanto ria. Ele achava graça, jogando a cabeça para frente toda vez que ela conseguia deixar pelo menos algumas mechas para trás.
— Precisamos de um pente. — Ela reclamou. — Não posso deixar você despenteado dessa forma. É sua festa.
Ela tentou mais algumas vezes e, quando achou que estava aceitável, sorriu.
— Quer descer?
— Não agora. Gosto de fazer uma entrada. — Nikolai respondeu, rindo levemente. Ela retribuiu a risada e ele colocou uma das mechas de seu cabelo igualmente bagunçado atrás da orelha. Evelyn era realmente linda.
Ele não deveria tentar dar uma chance para ela? Ela merecia, depois de tudo que estava fazendo por ele.
— Evelyn... Beije-me.
A loira sorriu e seus olhos bicolores brilharam. Ela se aproximou e tocou seus lábios nos dele. Nikolai segurou a garota pela cintura, fechando os olhos e aproveitando o momento. Quando sentiu uma presença na sala, tornou a abri-los. os observava, os olhos marejados.
Ela saiu correndo quando percebeu que ele havia visto-a, e Nikolai soltou Evelyn depressa.
— Nik?
— Já volto! — Ele respondeu estabanado, saindo da sala sem nem esperar resposta. Ele virou o corredor, sentindo um cheiro estranho, amargo como terra molhada. Virou outro corredor seguindo inconscientemente o cheiro e finalmente a encontrou.
estava de costas para ele, olhando pela gigante janela que dava para o jardim de trás. Podia ver o gazebo. Ele foi até seu lado e parou, juntando as mãos atrás das costas.
— Mentiroso. — disse num tom magoado. — Você disse que não beijava todas.
— E não beijo. Evelyn se tornou uma exceção.
virou-se para ele, os olhos vermelhos e marejados. O cheiro amargo se tornou cítrico, fazendo o nariz de Nikolai coçar.
E ele entendeu.
Tristeza. Raiva. Ele podia, de alguma forma louca, farejar as emoções dela. Ele sorriu. Achou aquilo fascinante.
— Por que está sorrindo? — perguntou raivosa.
— Nada. Não entendo por que está com raiva. Você praticamente me escorraçou, feriu meus sentimentos, meu orgulho, foi totalmente cruel.
— É porque isso não é certo, Nikolai. — O odor amargo retornou. — Não é natural...
Nikolai revirou os olhos, estava de saco cheio daquela conversa.
— Ah, cale a boca! — Ele vociferou, surpreendendo . — Não aguento mais isso. Você não tem o direito de ter raiva por causa de Evelyn e depois vir com esse discurso moralista para cima de mim. Eu realmente estou de saco cheio, . Você não sabe o que quer e me mantém preso como segunda opção. Resolva o que você quer. Porque eu não vou estar aqui para sempre.
ficou surpresa, e não soube nem o que responder. Nikolai então, para quebrar o clima tenso, notou a rosa presa em seu vestido e pegou-a.
— Bonita. Quem deu?
— Um... Um mágico do salão. — Ela gaguejou. Parecia envergonhada.
Nikolai sorriu, satisfeito consigo mesmo e cheirou a rosa.
E se arrependeu logo em seguida.
O odor entrou pelas suas narinas como ácido, queimando-o. Ele gritou, derrubando a rosa no chão e se curvando, sentindo o sangue cair pelo rosto.
— Nik? Ai meu deus, Nik? — tentou segurá-lo, fazendo com que se levantasse.
— Chame Evelyn. — Ele mandou, segurando o nariz. — Rápido! E saia daqui!
Ela correu pelo corredor e, em menos de um minuto, Evelyn já estava ao seu lado.
— Nikolai! — Ela o apoiou nos ombros, fazendo com que se sentasse no chão. — O que houve? Deixe-me ver!
Ela afastou a mão dele e torceu o nariz ao ver tanto sangue.
— Como isso aconteceu? — Ela perguntou. Nik apontou para a rosa negra, agora no chão.
Ela pegou a rosa e a cheirou, arregalando os olhos.
— Aonde arranjou isso?
Ele engasgou com o sangue, mas conseguiu proferir uma única palavra.
.
Evelyn franziu a testa e amassou a rosa, jogando as pétalas no chão.
— Isso é acônito, Nik. É perigoso. Venha, vamos para a sala de estar.
Evelyn deixou ele se apoiar em seu ombro e eles seguiram para lá, fechando as portas. Ela lhe deu um lenço.
— Assoe até parar de sangrar.
Ele assim o fez por algumas vezes, até o muco começar a sair novamente transparente. Sentiu o tecido do nariz reconstituir e respirou fundo, aliviado.
— O que porcaria era aquela? — Ele perguntou.
— Já disse, acônito. É uma erva extremamente tóxica para pessoas como você. Alguém deve ter molhado a rosa em uma diluição dela, ou moído e jogado em cima...
— Maravilha. disse que um dos mágicos lhe deu a maldita rosa.
— Esqueça isso, deixe comigo e Eric. Vá se trocar e lavar o rosto, está imundo de sangue. — Evelyn saiu, deixando-o sozinho.
Ele foi até o lavabo e lavou o rosto, achando um fraque limpo no baú do quarto. Trocou-se e resolveu descer para ver como a festa estava indo.
Quando virou o corredor, porém, alguém o puxou pela gola da camisa.
— Você está bem?! — A voz estridente de invadiu seus ouvidos, fazendo-o sorrir. — Quase me matou de susto!
— Estou bem. — Ele disse, segurando o rosto da irmã. — Estou ótimo.
suspirou e o beijou ardentemente, pegando-o de surpresa. Nikolai abraçou-a forte, encostando-a na parede. Ela enlaçou as mãos em seus cabelos.
— Nunca mais me assuste desse jeito, entendeu? — Ela pediu, as mãos segurando seu rosto. Nikolai concordou e beijou-a novamente, fazendo uma trilha de beijos até o delicado pescoço.
— Senti sua falta. — Ele sussurrou em seus ouvidos.
— Eu também! Eu também. — , com essas poucas palavras, fez os olhos de Nikolai se iluminarem.
Ela se afastou, pigarreando e ajeitando o vestido.
— Devo ir. Victor me espera, acabou de chegar.
Nikolai suspirou. O que é bom realmente dura pouco.
— Claro. Vá. — Ele soltou-a.
beijou-o novamente.
— Daremos um jeito.
E, ditas aquelas palavras, ela se afastou rapidamente, dobrando o corredor.
Nikolai sorriu e se encostou na parede. Não conseguia acreditar.
Tentou achar todos os duplos sentidos possíveis para a última frase da irmã, mas aquele, o que ela estava disposta a dar-lhe uma chance era o mais plausível.
Ele desceu as escadas, encontrando com Eric.
— Está melhor? Evelyn contou do acônito. Dói feito o inferno.
— O que está fazendo aqui? Debrunski...
— Acalme-se, ele não veio. Tenho meus informantes. — Eric sorriu. — , uh?
Nikolai sentiu o rosto corar e conseguiu apenas sorrir.
— Como...
— Eu escuto muito bem, Nik. Se quiserem fugir, usem minha carruagem. Ela é discreta. — Eric disse, fazendo Nikolai rir.
— Devo voltar agora. Com licença. — Ele se despediu, descendo as escadas. Recebendo vários “feliz aniversário” pelo caminho, ele viu , Victor e algumas jovens garotas.
Decidiu ir até lá.
— Boa noite. — Ele cumprimentou.
— Ora, se não é o aniversariante. — Victor disse, sorrindo.
“Ora, se não é o corno”, Nikolai pensou, e retribuiu o sorriso do jovem médico.
— Olá, Victor. Como vai?
— Estou ótimo. Feliz aniversário. — Eles apertaram mãos e Nikolai agradeceu.
Nikolai sorriu para as mocinhas.
— Permita-me apresentar. Nikolai, estas são minhas irmãs mais novas.
A que aparentava ser a mais velha estava acompanhada de um homem que ele desconhecia.
— Bridget. Prazer. — Nikolai beijou-lhe a mão enquanto a avaliava.
Cabelos castanhos, pele pálida. Olhos cor de mel, redondos e brilhantes, além de um nariz empinado e lábios finos. Não era nenhuma beldade, na verdade, parecia-se demais com Victor.
A mais nova também se apresentou. Olivia, ela disse. Os cabelos eram loiros e longos, de fios finos e brilhosos. Os olhos eram azuis, brilhantes como os da irmã. A terceira mais velha não se aproximou, cumprimentou-o de longe. Anna, ela disse. Ela tinha cabelos castanhos e olhos azuis hostis. Não parecia querer estar ali.
Nikolai viu uma miniatura de dama escondida atrás de Victor e sorriu, se ajoelhando.
— Olha só... Me parece que tem alguém envergonhada aqui. — Ele disse, sorrindo.
A garotinha, cuja cabecinha loira batia um pouco abaixo da cintura de Victor, mostrou-se um pouco apenas para espiá-lo.
— Olá. — Nikolai disse, sorrindo calorosamente.
— Ela é muito tímida. — Victor disse, e sorriu para a pequena. — Vá lá. Se apresente para o rapaz.
A garotinha deu alguns passos na direção de Nik. Parecia uma miniatura da outra garota, Olivia.
— Qual seu nome? — Ele perguntou.
Ela virou-se e olhou para Victor, como se pedisse permissão para responder.
— Responda. — Victor pediu, sorrindo. — Qual seu nome?
— Bessie. — Ela respondeu à Nik, voltando a correr para trás de Victor, que riu.
— Rebekah. O nome dela é Rebekah. Muito bem, Bessie. Vem aqui. — Ele abraçou a irmã menor.
Nikolai olhou para . Ela parecia maravilhada.
Ele revirou os olhos discretamente. Era só colocar crianças no meio que a irmã ficava completamente amolecida.
Ele avistou Ethan com a outra garota que ele não lembrava o nome. Viu John conversando com alguém que ele não conseguia identificar, e Evelyn conversando com uma garota morena.
Via apenas quatro mágicos no salão. Um que ele sabia ser Stephen, outro que era amigo de longa data de Eric, um tal de Ludovic Bishop, um contratado e outro que ele desconhecia.
Ele resolveu ir no outro salão ver os irmãos. Pediu licença e assim o fez.
Quando abriu a porta de lá, uma explosão de gritinhos infantis e vários aromas diferentes o atingiram.
Ele foi até Nancy, que observava Maddie brincar com outra criança.
— Alguma palavra? — Ele perguntou a ela.
— Até agora nada. — Nancy respondeu com um sorriso solidário.
Nikolai concordou, olhando em volta.
— Onde está Peter? — Ele perguntou.
Nancy olhou em volta.
— Ora... Ele estava ali agorinha! — Ela disse.
Nikolai franziu a testa, olhando em volta.
— Peter? — Ele chamou. — Peter!
Ele não estava ali naquele salão. Onde ele estava?
Nikolai começou a ficar nervoso.
Ele viu que Peter havia deixado o paletó com Nancy e pegou a peça de roupa, instintivamente cheirando-a profundamente e guardando o aroma, correndo do salão.
— Peter!
Ele vasculhou a mansão inteira, mas o garoto não estava lá.
Ele foi até o salão maior, procurando Eric. Ele não estava lá, muito menos Ethan, mas Evelyn estava.
— O que houve? — Ela perguntou assustada diante da expressão de Nikolai, o que fez ele perceber que sua cara não deveria estar das melhores.
— Meu irmão, Peter. Não consigo encontrá-lo. Procurei em todo lugar.
— Calma, calma. Iremos encontrá-lo! — Ele não deixou ela terminar de falar, correu pelo salão e procurou .
Encontrou-a conversando com Victor e John.
— Alguém aqui viu Peter? — Ele perguntou.
— Ele não está no outro salão? — perguntou, fazendo Nikolai negar com a cabeça. Os olhos dela se arregalaram, um odor amadeirado emanando dela.
— Vamos encontrá-lo. — Nikolai tranquilizou-a, apertando suas mãos rapidamente.
Ele correu para o topo das escadas e bateu palmas, tentando atrair a atenção de todos.
— Por favor! — Ele gritou. — Gostaria da atenção de vocês um minutinho.
A música parou e, aos poucos, a atenção dos convidados se focou nele.
— Boa noite. Espero que todos estejam se divertindo. Acho que pelo menos a metade dos presentes conhece meu irmão, Peter. O problema, vejam só, é que ele sumiu da mansão. Não conseguimos encontrá-lo de jeito nenhum, e ele é muito jovem para estar sozinho à noite. O que eu gostaria é que talvez um pequeno grupo pudesse nos ajudar a procurar. Alguém se habilita?
Aos poucos, mãos se levantaram, incluindo a de Victor. Nikolai engoliu a vontade de revirar os olhos. Ele poderia ajudar.
Ele contou rapidamente. Doze homens. Escondeu sua indignação por tão poucos se importarem com uma criança desaparecida.
— Obrigado, cavalheiros. Sigam-me, por favor. — Ele desceu as escadas, dirigindo-se para o corredor do lado de fora do salão.
— Muito bem. Primeiro de tudo, obrigado novamente.
Nikolai dividiu tarefas. Com ele e John ficavam catorze, e ele dividiu os voluntários de dois em dois, designando lugares para eles procurarem.
— E eu? Ele é meu irmão, também desejo ir procurá-lo. — disse.
— Isso não é tarefa para meninas. — Nikolai disse. — Fique aqui.
— Nikolai, não seja machista...
Nikolai segurou o rosto da irmã.
, alguém pode estar com ele com péssimas intenções. Você conhece Peter, isso não é do feitio dele. Quero que fique salva, fique com Maddie. Não quero arriscar. — Ele sussurrou. — Fique aqui.
Ele beijou a bochecha da irmã, se afastando e seguindo com Victor.
Se Nikolai tivesse prestado atenção, notaria o olhar estranho que Victor lançara para ele e . Mas estava preocupado com o irmão. Melhor não culpá-lo.
— Aonde vamos procurar? — Victor perguntou num tom desconfiado.
— Labirinto. Vamos ao labirinto.



Capítulo 19

Como se ela fosse ficar parada enquanto o irmão estava desaparecido! Nikolai só poderia estar fazendo graça.
Ela foi até Nancy, tirando os sapatos que usava para poder se locomover melhor. Colocou-os nas mãos da babá, tentando não parecer muito irritada com ela. Não era sua culpa, era o que ela tentava pensar. A mulher já chorava enquanto segurava a mãozinha de Maddie, provavelmente se sentia a pior do mundo. afagou seu ombro afetuosamente, pedindo que ela ficasse de olho na irmã mais nova.
Ela correu. Ouviu Nikolai dizer à Victor que iria para o labirinto. Era exatamente para onde ela iria. Foi até lá, sentindo a grama gelada pinicar-lhe os pés. Quando chegou em uma das entradas, o perigo lhe deixava sem fôlego. Era óbvio que não deveria estar ali, pelo menos não sozinha.
tentou ignorar aquela sensação, entrando no labirinto. O irmão precisava dela. Peter precisava dela. Medo era inútil naquela hora, ela precisava ser forte. Ela correu pelo labirinto, indo por direitas e esquerdas, mas não encontrando nenhum setor aberto.
— Peter! — Ela experimentou chamar. Não houve resposta. Estava tudo tão escuro. Ela não deveria estar ali. Seu estômago se revirava de medo, mas ela continuou a seguir pelo lugar, tateando as paredes para poder se locomover.
Ela então ouviu a voz de Nikolai muito ao longe chamando o irmão. Resolveu segui-lo. Ela entrou por um corredor estreito, parando quando viu um vulto no fim dele.
— Nik? Victor? — Ela chamou. Não conseguia ver o rosto da pessoa. Era homem, com certeza. Alto. Poderia ser qualquer um.
Ela sentiu uma sensação extrema de perigo, dando meia volta e tentando ir para o início do corredor.
Quando virou, porém, ele estava lá. Quase em sua frente. travou de pânico, suas unhas machucando as palmas de suas mãos. O vulto se aproximava e ela não conseguia se mexer, como aquele homem havia se deslocado tão rápido?
Ele chegou perto de e encostou o indicador nos lábios, mandando-a ficar em silêncio. Ali, na pálida luz da lua crescente que sorria para ela do céu, ela reconheceu a máscara do mágico que lhe dera a rosa.

Nikolai

Ele estava sozinho, tentando captar pelo menos um pouco do aroma que sentira no paletó de Peter. Havia despistado Victor para total uso de suas habilidades recém-adquiridas. Afinal de contas, o médico usava uma fragrância muito forte. Nikolai ficou surpreso com o quanto enxergava bem no escuro naquele momento.
Foi então que ele escutou. Um grito que fez sua espinha congelar.
? — Ele gritou, correndo e atravessando corredores. — Aonde você está?
Ele ouviu novamente o grito, agora mais perto.
Cruzou um setor aberto e entrou em outro corredor, encontrando finalmente a irmã.
— O que você está fazendo aqui? Mandei ficar lá na mansão! — Ele a segurou pelos ombros. Estava com as feições apavoradas. — ?
— Eu o vi! O mágico! — Ela gritou. — Ele...
Ela não conseguiu terminar a frase. Irrompeu em um choro histérico e assustado, fazendo Nikolai abraçá-la.
— Você é muito teimosa. Incrív... — Nikolai arregalou os olhos. O aroma. Finalmente ele captara algo!
Ele soltou a mais nova, correndo e ignorando seus chamados. Ela o seguia, não queria ficar sozinha. Só queria sair daquele labirinto.
Nikolai chegou a outro setor aberto, mas aquele era diferente. Era muito maior, com árvores retorcidas e estátuas envelhecidas de mármore. O centro.
No meio do local, havia uma espécie de grande mesa, também de mármore. E, nesta mesa, estava Peter. Deitado e inerte.
— Peter? — Ele chamou, indo até o irmão mais novo. Ele não se mexia.
Ele sacudiu levemente o garoto, notando que o pescoço dele estava distorcido de uma forma estranha. Nikolai gelou, tocando a fina pele do pescoço. Não havia pulsação.
Ele sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, e um grito irrompeu de sua garganta antes que ele pudesse evitá-lo.
— Não, por favor, não. Não ele. Ele é tão novo. — Ele sussurrou, pegando o irmão no braço. Tentou andar, mas suas pernas cederam e ele veio ao chão sem soltar o corpo sem vida do irmão. Ele chorava baixinho enquanto o abraçava. Por que ele estava perdendo tanta gente? O que ele havia feito? Aquilo não era justo!
— Nikol... — finalmente o alcançara, parando de falar quando viu a cena. Ele levantou a cabeça, encarando-a.
Os olhos dela se arregalaram e ela correu até os dois, ajoelhando-se e tirando os cabelos do irmão mais novo do rosto pálido e frio, beijando-o na testa.
— O que aconteceu? O que aconteceu? — Ela gritou para Nikolai, segurando-o pelas lapelas do paletó com as mãos pequenas tão pálidas quanto as de Peter. Elas tremiam, e Nikolai sabia que nada tinha a ver com o frio. Ele não respondeu e a irmã deu-lhe um tapa, ao que ele não reagiu.
Ela continuou estapeando-lhe até que ele segurou seus pulsos. Os dois abraçaram o corpo de Peter enquanto choravam, a dor dilacerando seus peitos.
— Quem faria isso com uma criança? — Ela perguntou, sua respiração descompassada enquanto ela chorava. Nikolai achou que a garota teria uma síncope. Estava muito nervosa.
— O que houve? — Os dois se assustaram. John entrou no setor e, ao ver Peter, correu até o filho, ajoelhando-o e pegando-o nos braços.
John fechou os olhos, seu queixo tremendo. Algumas lágrimas caíram pelas suas bochechas, e ele abraçou o garoto. Seu garotinho.
— Quem fez isso? — Ele perguntou.
— Foi o mágico! — disse. — Eu o vi, ele estava no labirinto!
— Que mágico?
— Foi um dos cinco mágicos da festa!
, tinham apenas quatro mágicos. — John respondeu. — Do que está falando?
tentou insistir, mas sua voz foi morrendo e ela se deu por vencida.
— Quem não estava conosco na hora que Peter sumiu? — Ela perguntou, por fim.
— Está louca? Não foi ninguém que conhecemos. Pelo menos ninguém amigo. Não se sabe a hora que ele sumiu. — Nikolai retrucou.
— Vamos ver, Ethan, Eric. Stephen era um dos mágicos... — continuou, ignorando-o.
— Olhe só o que está dizendo. Acha mesmo que Stephen mataria alguém? E Eric não faria isso.
— Como sabe? Mal o conhece.
— Se for assim, por que não seria seu amado Victor? Me perdi dele enquanto estava procurando Peter. Mal o conhecemos também.
— Basta! — John ralhou, suspirando e passando as mãos no rosto. — O irmão de vocês acabou de morrer. Podem por favor calar a boca?
Nikolai e o encararam com tristeza. Ele carregou o filho e deixou o centro do labirinto em silêncio.
Nikolai limpou o rosto molhado de lágrimas e se levantou, puxando com ele. A irmã recomeçara a chorar, e ele não pôde fazer nada melhor que afagá-la.
— Queria que não tivesse que passar por isso tudo. — Ele disse, apoiando o queixo no topo da cabeça dela. — Eu sinto muito.
— Eu também sinto. — Ela disse, afastando-se e saindo do lugar.
Nikolai estava sozinho.
Ele foi até a mesa e colocou o nariz a poucos centímetros da pedra, tentando identificar algum aroma que pudesse pertencer ao assassino. Soube diferenciar o cheiro do irmão, com quem esteve desde que ele havia nascido. Mas havia algo mais, um aroma amadeirado.
Sândalo. Era algo parecido com isso.
Ele então percebeu algo numa cavidade da mesa. Parecia... Um pedaço de papel?
Nikolai enfiou as unhas dentro da cavidade, machucando-as no processo, mas conseguindo tirar. Era um envelope. Endereçado a ele.
Nikolai engoliu em seco, abrindo a carta cuidadosamente e tirando de lá uma carta.

Nikolai,

Lamento que tenhamos de nos comunicar mediante uma situação tão desesperadora. Não leve para o lado pessoal, isso não foi para lhe atingir. Esse sofrimento foi para John. Ele mereceu por todos os anos que o tratou mal e por outros casos que não lhe dizem respeito no momento, mas que serão revelados em breve.

Como você provavelmente deve ter percebido, eu sou alguém próximo de você, pois sei o que passa diariamente com esse homem. John tem um passado comigo e com minha família, mas não vamos falar nele. Falemos de você. Sim, eu o transformei. Foi necessário, e sinto muito que tenha sido de uma forma tão brutal. Essa carta foi apenas para esclarecer o mínimo. Nos encontraremos em breve.

Fenrir

PS: Não me encontrará com esse nome, claro. Belo pseudônimo, não acha?

Nikolai sentiu a fúria se apossar dele. Alguém próximo havia matado seu irmão. Ah, se ele descobrisse quem fizera aquilo. Só iria descansar quando o visse no inferno. Não importava o quão próximo fosse.
Ele cheirou a carta, guardando o forte aroma de sândalo. Iria precisar.
Quando chegaram em casa com o corpo, a comoção fora imediata. Todos os empregados começaram a chorar e perguntar o que houve, mas Nikolai apenas fugiu daquilo, trancando-se no quarto.
Sentou-se na cama e apoiou os cotovelos nos joelhos, abaixando a cabeça e se entregando a um choro silencioso. Uma criança. Quem poderia ter feito aquilo com uma criança?
Seu irmãozinho. Tão inocente.
A rosa. Acônito. Será que havia sido para prejudicar seu olfato para ele não sentir o cheiro do assassino?
Ele não sabia. Não sabia de nada.
Batidas na porta. Ele consentiu que a pessoa entrasse, limpando o rosto depressa. entrou já de roupas trocadas, o rosto inchado.
— Vim ver como você estava. — Ela disse, fechando a porta atrás de si, trancando-a e indo até ele.
— Estou ótimo.
— Não, não está. Assim como eu também não, nem papai. São só emoções, Nik. Não há motivos para escondê-las.
Ela o abraçou e ele retribuiu, encostando o queixo em seu ombro.
— Vai ficar tudo bem. Vamos ficar bem. — Ela disse, fazendo Nikolai sorrir.
— Você é a melhor parte de mim. Se algo acontecer a você...
— Nada vai acontecer. O que poderia acontecer comigo? — Ela perguntou, segurando o rosto dele para que a encarasse.
Ele pensou em Debrunski. Fenrir.
— Nada. — Ele respondeu, por fim.
sorriu para ele, beijando-o devagar. Ele fechou os olhos, abraçando a garota pela cintura. Ela sentou em seu colo, as mãos agarrando os cabelos dele. Logo, logo o beijo evoluiu, suas línguas se tocavam e os dois ficaram ofegantes.
Ela se afastou, os lábios vermelhos e um pouco inchados. Pegou as mãos dele e, incerta do que fazer, colocou-as em suas coxas, voltando a beijá-lo. Nikolai apertou o local e ela soltou um gemidinho baixo, fazendo com que ele subisse as mãos para as nádegas dela e também apertasse-as.
— Como está fazendo isso? — Ela perguntou com a voz ofegante enquanto ele beijava seu pescoço. — Estou... Estou tremendo.
— Vai passar. — Ele respondeu, chupando levemente o lábio inferior da garota. — Não irei fazer nada que você não queira.
Ela arregalou os olhos, hesitando. Então, levou as mãos ao laço do robe que usava, desamarrando-o e revelando uma longa camisola branca e transparente.
Nikolai percebeu que prendia a respiração, soltando-a de vez ao finalmente ver o corpo de . Ela era perfeita. A garota não tinha seios fartos, nem muitas curvas. Totalmente o contrário das garotas que ele costumava admirar. Mas, para Nikolai, ela era a própria imagem da beleza bem ali na sua frente.
— Você confia em mim? — Ele perguntou, erguendo os olhos para encará-la.
Ela sorriu levemente, concordando com a cabeça e brincando com as unhas em seu pescoço enquanto ele desamarrava também sua roupa de dormir.
— E se alguém...
— Todos foram dormir. Eu tranquei a porta. — Ela mostrou-lhe a chave, colocando-a na mesinha ao lado deles. — Não se preocupe com nada.
Ele sorriu, jogando a roupa dela no chão. Ela o ajudou a tirar a camisa que usava, logo em seguida a calça. Usava apenas a peça íntima agora. Quando tirou-a, lançou um olhar assustado para a intimidade dele que o fez rir.
— Vai doer? — Ela perguntou.
— Está com medo?
— Não consigo imaginar... Isso dentro de mim. Não irá me rasgar?
Ele arregalou os olhos, tentando segurar uma risada. Nunca havia ouvido aquilo na vida. Aos poucos foi cedendo à vontade de rir e soltou uma risadinha nervosa que logo tratou de abafar.
ficou vermelha de vergonha. Ela saiu de cima dele, voltando para a cama.
— Pare de rir! Não é engraçado. — Ela chiou, cobrindo o corpo.
— Não, não é. Sinto muito. Venha aqui. — Nikolai pediu com a voz falhando enquanto tentava segurar uma risada. estalou a língua, estapeando sua mão quando ele tentou puxá-la.
A expressão contrariada da garota apenas o fez rir mais.
— Você está acabando com o clima! — Ela reclamou, pegando o travesseiro e batendo-o no rosto dele. — Pare de rir!
Ele a puxou, ignorando seus tapas e suas reclamações.
— Eu amo você. Venha aqui. — Ele tentou beijá-la, segurando seus pulsos quando ela tentou empurrá-lo. Quando se afastou, sorria, ainda muito vermelha.
— Você é um idiota! — Ela reclamou, voltando a beijá-lo. Logo em seguida, hesitou.
Nikolai tirou os cabelos dela do rosto, beijando sua testa.
— O que foi?
— Parece inadequado rir depois de tudo que aconteceu hoje. — Ela respondeu, passando as mãos no rosto.
Nikolai puxou-a para seu colo, abraçando-a.
— Não se preocupe mais com isso. Eu irei descobrir quem foi. Essa pessoa pagará caro, acredite. — Ele respondeu. Ela concordou com a cabeça e voltou a beijá-lo.
Ele deitou-a delicadamente na cama, passando a mão pelo seu corpo. Beijou seu pescoço, com cuidado para não deixar marcas que teriam de ser explicadas depois e, devagar e cuidadosamente, deslizou para dentro dela.
soltou uma exclamação de dor que o fez parar.
— Tudo bem? — Ele perguntou, avaliando sua expressão. Os olhos apertados e os dentes que mordiam o lábio inferior, deixando pequenas marquinhas.
— Tudo bem. — Ela respondeu por fim, levantando a cabeça para beijá-lo. Ele voltou a se movimentar dentro dela, colando seus quadris e esfregando sua barriga lentamente na dela.
gemia baixinho, os olhos fechados e o rosto vermelho. Nikolai escondeu o rosto em seus cabelos, enchendo o pulmão com aquele aroma delicioso. Ele beijou-a, sentindo a garota enlaçar as pernas em volta de sua cintura. Ele cravou os dedos na coxa dela, gemendo contra os lábios dela.
Ela colocou as mãos nos quadris dele, acompanhando os movimentos que ele fazia. Estava quase chegando ao alívio, ele sentia. Mas era diferente. Aquilo era mais forte, como uma bomba de energia por todo o corpo dele.
Nikolai abafou um gemido alto no travesseiro, sentindo o alívio lavar-lhe o corpo. Despencou por cima de , os dois suados e respirando ofegantemente.
— Eu amo você. — Ela disse, beijando todo o rosto do rapaz. — O que você fez comigo?
— Eu também amo você. — Ele respondeu, apoiando a cabeça na mão e ficando de lado para ela. — O que acontece agora, ?
Ela hesitou, olhando para o nada.
— Temos que ir embora daqui. Para longe. Mudar de nomes, de tudo. — Ela disse. — Eu vou com você para qualquer lugar.
Ele sorriu, passando as mãos no rosto. Não acreditava que aquilo estava acontecendo.
— E todos? Maddie, John...
— Eu preciso ficar com você em um todo, Nikolai. Se alguns sacrifícios são exigidos, eu... — Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela tentou não chorar. — Eu quero você. Eu escolho você.
Aquilo não podia ser real. Não podia.
— Vamos embora. Vamos nos organizar, e em duas semanas, iremos embora daqui para sempre. — Ele disse, lembrando-se da lua cheia que viria em cinco dias. Daria um jeito quanto àquilo.
Ela concordou com a cabeça, beijando-o. Ela deitou a cabeça em seu ombro e ele fazia carinho em suas costas, uma sensação de alegria que lhe era totalmente inapropriada devido aos acontecimentos do dia. Com tudo dando errado, era difícil acreditar que algo finalmente daria certo.
Nikolai observou pegar no sono e, após alguns minutos, deu-se por vencido ao sono.

Nikolai estava em uma praia. Uma bela praia, à propósito. A areia, fina e branca, era fofa e macia debaixo de seus pés. O oceano à sua frente era uma bela mistura de azul e verde, até vermelho por conta do maravilhoso pôr do sol que o deixou brevemente sem fôlego. Nunca havia visto um céu como aquele.
— Linda, não é? — Ele assustou-se, girando bruscamente.
Era . Usava um belo e longo vestido, branco e fino, que se assemelhava a uma túnica grega. Era tão longo que arrastava na areia a cada passo que ela dava.
No pescoço, usava um belo colar de esmeraldas brilhantes. Seus cabelos estavam cheios de cachos, com apenas a metade presa. Os olhos estavam perfeitamente delineados, realçando o verde deles.
Nikolai engoliu em seco. Ela estava belíssima.
— Sim... Muito linda. — Ele respondeu sem tirar os olhos dela.
sorriu e abaixou a cabeça.
— Quis dizer a vista, seu bobo.
— E eu quis dizer você.
Ela corou.
Ele olhou para as próprias roupas. Usava uma camisa de linho branca, uma calça preta e estava descalço.
O vento jogava seus cabelos para trás.
— Por que não sentamos perto da água? — pediu. — Adoro o barulho das ondas quebrando na costa. Você não?
— Também gosto. — Ele respondeu. o puxou pela mão e eles se sentaram na areia macia.
Um resto de onda avançou e os molhuo gentilmente, fazendo os dois rirem. A temperatura estava perfeita.
pegou um pouco da água nas mãos.
— Adoro esse cheiro de maresia que o vento traz. Você não?
Nikolai apenas concordou com a cabeça.
— Nik?
— Sim?
— Promete que nunca irá deixar ninguém me machucar? — Ela perguntou, encostando a cabeça em seu ombro.
Ele a encarou.
— Eu juro. — Ele segurou sua mão. — Eu juro que irei te proteger. Para sempre.
O rosto dela se tornou preocupado.
— Isso inclui me proteger de si mesmo?
Ele franziu a testa, soltando-a.
— O que quer dizer com isso?
não respondeu, apenas apontou para o céu.
Ele olhou, vendo uma pálida e grande lua cheia. Nikolai arregalou os olhos. Aquilo era ruim.
, fuja! — Ele gritou no momento que seu ombro se deslocava, fazendo-o gritar de dor.
— Você jurou que iria me proteger. — Ela respondeu sem sair do lugar. — Estou confiando em sua palavra.
— Não, você não entende! Saia daqui! — Ele gritou, caindo no chão por causa da perna que havia acabado de se torcer.
Ele olhou para as próprias mãos. Os dedos se quebravam e se afinavam, as unhas caíam e eram substituídas por garras.
, por favor! — Ele gritou, sua voz já começando a mudar.
A teimosa continuava a encará-lo com determinação nos olhos.
— Está vendo? — Ela começou num tom de voz sombrio. — Não pode me proteger. Irei acabar morrendo por suas mãos.
Ele tentou falar algo, mas não saíram nada além de grunhidos animalescos. Ele estendeu a mão para ela, que já estava cheia de pelos negros.
— Nikolai! — Ele ouviu uma voz atrás de si e se virou, vendo Giorgiana e Peter. — Olhe o que nos aconteceu. A morte de seu irmão foi culpa sua por não o ter protegido!
— Quantas mortes mais você irá carregar nas costas, Nikolai? — perguntou, indo para o lado de Giorgiana. — De mais quantos olhos você observará a luz se apagar?
Uma mancha de sangue enorme começou a sujar o vestido de , o sangue brotando e manchando também a areia branca.
— Esse é meu destino, Nik. — Ela disse. — Você fez isso comigo.

Nikolai praticamente pulou da cama, sentindo dores nas mãos. Quando viu, as garras estavam enfiadas no colchão até quase o fim dos dedos. não estava mais ali.
Ele levantou as mãos cuidadosamente, se acalmando e observando as garras voltarem a ser unhas normais. Pegou o relógio de pulso e olhou a hora. Havia dormido bastante, já passara do almoço.
Ele então se lembrou da noite anterior, um sorriso tomando seus lábios. Era real. Ela iria embora com ele. Finalmente!
Ele se levantou depressa da cama, lavando o rosto e vestindo uma roupa qualquer. Saiu do quarto e desceu as escadas, procurando . Ela dava as instruções do jantar para uma das criadas.
— Vou ver os Ives. — Ele avisou. soltou um “isso é tudo” para a criada e ela se retirou. Seus olhos brilhavam. Ela parecia ainda mais bonita, se é que era possível. — Encontrarei você no... No enterro.
Ela concordou com a cabeça, olhando em volta e beijando sua bochecha. Nikolai roubou-lhe um beijo e ela corou, empurrando-o.
— Alguém pode ver! — Ela sussurrou com um meio sorriso. — Ande, saia daqui.
... Você é muito importante para mim. Irei protegê-la para sempre. Você sabe disso, não sabe?
Ela franziu a testa, mas não fez perguntas. Apenas concordou com a cabeça. Nikolai beijou sua testa e correu para fora da mansão, pegando um dos cavalos e indo para a casa dos Ives.
Solomon o recebeu, informando que Eric se encontrava na biblioteca, no andar de cima. Nikolai foi até lá. Eric estava sentado na poltrona, lendo um livro extremamente grosso.
— Keats? Anda lendo poesia? — Ele perguntou, sentando na poltrona da frente. — Que coisa de garotas.
— Au contraire, amigo. Uma boa lábia é importante para conquistar uma mulher. Devia ver o que alguns versos de Wordsworth fazem com uma dama carente.
Nikolai riu e Eric o encarou com estranheza.
— Está radiante, mesmo nas circunstâncias do dia. O que houve?
. Ela... Nós... Ela irá fugir comigo em duas semanas. — Ele respondeu. — Ainda estou tentando registrar tudo que aconteceu de ontem para hoje.
Eric sorriu levemente enquanto ainda olhava para o livro.
— Fico feliz, de verdade. Vocês merecem felicidade depois de tudo.
— Fora isso, tive um pesadelo terrível...
— Estou ouvindo. — Ele disse enquanto virava a página.
— Eu e estávamos em uma praia... E eu começava a me transformar e a matava. — Ele respondeu, suspirando.
— Você só está estressado com tudo que vem acontecendo. É normal ter sonhos assim. — Eric respondeu, finalmente fechando o livro.
— Você os tem?
— De vez em quando. Fantasmas do passado que me assombram. — Ele respondeu.
— Isso tudo está me matando. Preciso descobrir quem é Fenrir. Não posso desistir dessa vingança para fugir com ela, preciso resolver isso rápido.
— Isso me lembra algo. — Eric tirou um dos livros da pilha que estava na mesinha ao lado de sua poltrona, jogando-o para Nikolai. — Página 89.
Nikolai abriu na página, vendo a foto de um grande lobo assustador. O título da página era Fenrir.
Fenrir era um personagem da Mitologia Nórdica, um dos filhos do deus Loki. Tinha a forma de um maldito lobo gigante.
Nikolai serrou o maxilar.
— Pseudônimo interessante. O filho da puta ainda é piadista. — Ele fechou o livro com impaciência.
— Deve ser alguém inteligente, que goste de ler e de mostrar que sabe das coisas. — Eric comentou.
Nikolai ficou em silêncio por alguns segundos. Conhecia várias pessoas assim. Várias pessoas próximas, inclusive. Não havia como tirar algo dali.
Ele tirou a carta do bolso, dando-a para Eric. Instintivamente, o rapaz a levou até o nariz, fazendo uma careta.
— Mas que merda de cheiro é esse?
— Sândalo.
Eric franziu a testa.
— Como sabe disso?
— Mamãe costumava colocar um pouco desse aroma nos lençóis da minha cama. Sempre me acalmou. — O coração de Nikolai doeu com a lembrança. Eric leu a carta, ficando em silêncio por alguns minutos, o que indicava que estaria lendo mais de uma vez.
— Onde achou isso?
— Onde encontrei Peter. No centro do labirinto.
Eric lhe entregou a carta e suspirou.
— O que faremos?
— O que eu farei, você quer dizer. — Nikolai retrucou. — Não me leve a mal, mas é o meu irmão. Foi pessoal. Eu devo achar essa pessoa e matá-la. Sozinho.
Eric revirou os olhos.
— Não há problema em aceitar ajuda de alguém, você sabe. Não pode fazer tudo sozinho.
— Preciso treinar. Como controlar a besta. Não posso colocar em perigo, Eric. — Ele disse, passando as mãos no rosto e mudando de assunto. Aquilo não passara em branco para Eric, mas ele resolveu não insistir. Ajudaria de um jeito ou de outro.
— Eu esperava isso. Por sorte, Ethan acabou de chegar... — Ele mal terminou de falar e Ethan entrou na biblioteca junto com Solomon.
— Boa tarde. Nikolai, sinto muito por seu irmão. — Ele foi até Nikolai, apertando sua mão.
— Obrigado, Ethan. Foi um golpe forte, mas irei me recuperar assim que pegar o desgraçado. Podemos começar? — Ele pediu, tirando o paletó.
Eric e Ethan fizeram o mesmo, e Eric pegou o ferro da lareira. Em brasa.
Nikolai suspirou, deixando-se prender por Ethan. Eric enfiou o ferro no ombro dele, fazendo-o gritar e fechar os olhos, sentindo a já conhecida sensação da vinda da besta.
— De novo. — Ethan ordenou, e Eric assim o fez. Nikolai sentiu o maxilar doer e as presas saírem por baixo dos dentes normais.
— Bloqueie, Nikolai! — Eric gritou, mas sua voz parecia distante.
Então uma frase brotou em sua cabeça.
“Este é meu destino. Você fez isso comigo.”
Ele se lembrou de , a do sonho. Não podia deixar aquilo acontecer com ela.
— Não! — Ele gritou, a voz grossa. Sentiu as presas subirem e o gosto de sangue na boca o deixou enjoado. Seu maxilar se retorceu até voltar ao normal. Ethan o soltou e ele caiu de joelhos no chão, tentando se recuperar da dor.
Quando abriu os olhos e olhou para Ethan e Eric, eles sorriam com satisfação.
— Muito bem. Isso já é um começo. — Eric disse, ajudando-o a se levantar. — Com mais treinamento, conseguirá controlar melhor e nem sentirá mais o começo da transformação.
Ele colocou Nikolai sentado na cadeira e serviu-lhe um copo de whisky enquanto Solomon lhe fazia um curativo.
— Como se sente? — Ethan perguntou.
— Bem. Dolorido. Mas bem. — Nikolai respondeu. Ethan sorriu e pediu licença, saindo com Solomon.
— Pensou nela, não foi? — Eric perguntou com um meio sorriso.
Nikolai concordou com a cabeça enquanto bebia o resto do whisky.
— Essa garota ainda será sua salvação. Escute o que estou lhe dizendo. — Eric disse, servindo-se de uma taça de vinho.

Fenrir

Ele realmente adorava a sua sala de uso pessoal daquela casa. Enquanto ele lia um livro, bebia uma deliciosa taça de vinho quando Stephen entrou sem ser anunciado.
— Matou o irmão dele? — Ele disse, tão rápido que Fenrir quase não pôde distinguir o que dizia. — E ainda deixou uma carta. Ótimo, que ótimo.
Fenrir riu levemente, terminando o conteúdo da taça.
— Também achei uma ótima ideia.
— Fui irônico.
— E o que faz você pensar que não fui? Você se preocupa demais, Stephen. Meu encontro com Nikolai está próximo. Nada importa mais.
Stephen suspirou, coçando a cabeça.
— Fenrir, está sendo descuidado. Sabe disso. E ainda se vestiu de mágico na festa, interagiu com a garota Martell...
— O que tem demais em interagir com ela? Eu poderia levá-la conosco. Quando Nikolai se juntar a mim, levá-la poderá ajudar a convencê-lo.
Fenrir se levantou da poltrona, andando pelo aposento.
— E o que faz pensar que ele iria com você depois de ter matado o irmão dele? — Stephen perguntou, cruzando os braços. Fenrir não respondeu, apenas abriu a gaveta da mesinha e tirou de lá duas luvas, colocando-as.
— Seus serviços não são mais necessários. — Ele disse, indo até Stephen. — Pegue o dinheiro. Está em cima da mesa. Vá embora e nunca mencione isso para ninguém, ou verá o que lhe acontece.
O ruivo engoliu em seco, indo até a mesa e pegando o dinheiro que Fenrir prometera. Se sentia esperto. Se sentia...
Ele não teve mais tempo de pensar sobre isso. Algo metálico foi de encontro à sua garganta e ele arregalou os olhos. Fenrir recolheu a navalha, observando o talho que havia feito com quase um orgulho no olhar.
Stephen começou a engasgar com o sangue e caiu de joelhos no chão, segurando a jugular aberta numa tentativa de parar o sangue. Seu corpo foi perdendo as forças e ele por fim cedeu, caindo com o rosto em cima de uma grande poça de sangue.
— Não é nada pessoal, Stephen. — Fenrir disse, soltando a navalha nas costas do rapaz. — Nada pessoal.
Ele deixou o aposento.


Capítulo 20

Nikolai

Os dias passaram assustadoramente rápido depois do enterro de Peter, e a lua cheia logo chegou. Nikolai acordou nervoso naquele dia. Não queria passar por aquilo tudo novamente, especialmente quando tinha tudo resolvido com . As malas já estavam prontas, e ele havia comprado passagens de navio para a Irlanda no dia anterior. Iria ver como fariam para irem para a América, já que teriam que passar pelo menos um mês no navio. O que ele menos queria era a besta rodeada por água salgada.
Iria passar a noite na casa dos Ives, mais especificamente no porão junto com os dois. Evelyn e Solomon os ajudariam a ficar lá. E a mantê-lo lá.
Nikolai conversara com Evelyn sobre ele e , finalmente. A garota não estava falando com ele, mas ele suspeitava que, após os várias tapas e os vários nomes xingados, a raiva dela estava diminuindo.
se mostrara uma garota... Com muita sede, o que deixara Nikolai surpreso. Todas as noites ela fugia para seu quarto sob os protestos dele, falsos claro, sobre ser perigoso e sobre alguém ver. Logo ela, que sempre foi a responsável. Ela sempre voltava para o quarto antes de amanhecer, e Nikolai esperava ansioso pelo dia em que finalmente poderia acordar com ela ao seu lado. Por isso, quando ele disse que iria dormir na casa dos Ives naquela noite, ela não gostara muito. Ele sorriu, dizendo que seria apenas por uma noite.
E assim, ele se despediu e seguiu para a casa dos Ives. Eric e Ethan o receberam de bom grado.
— Já deixamos correntes prontas para você. — Eric disse, dando-lhe tapinhas nas costas.
— Essa é a frase mais estranha que já ouvi na vida. — Nikolai respondeu, fazendo os dois irmãos rirem.
— Ainda está claro. Vamos andar um pouco. — Eric colocou um braço em seu ombro, guiando-o até o jardim. Os dois sentaram nas cadeiras, tendo uma vista perfeita do labirinto.
O estômago de Nikolai se revirou à vista do local. Ainda lembrava da sensação de pegar o corpo de Peter nos braços, da dor que sentira. Estava sendo difícil.
— Me traz más memórias também. — Eric comentou, percebendo seu olhar.
Nikolai ergueu uma sobrancelha, virando-se para o amigo. Estava curioso, mas não insistiria. Esperaria que ele falasse sobre isso.
— Perdi a mulher que amava e um filho aí dentro. — Ele disse.
Nikolai arregalou os olhos. Eric era tão novo, tinha sua idade!
— Crescemos juntos, sempre estávamos juntos. Aos catorze anos... Acho que foi nessa época, não sei exatamente quando aconteceu. Ela sabia o que eu era, cuidou de mim enquanto eu estava ferido... Até que se apaixonou por mim também. — Ele acariciou a cicatriz de seu rosto lentamente com a ponta do dedo. — Ela era minha vida.
— Quem era a garota?
Eric riu levemente pelo nariz.
— Johanna.
Nikolai ergueu as sobrancelhas diante daquela revelação. A irmã de Stephen? Nunca havia percebido nada!
— Há três anos, eu e ela nos envolvemos romanticamente. Aquela mesa do meio do labirinto... Foi onde ficamos juntos pela primeira vez. Três meses depois, ela descobriu que estava grávida. — Eric sorriu. Seus olhos estavam marejados. — Às vezes eu fantasio sobre quais seriam os nomes da criança. Se fosse menina, Hope, talvez Belle. Se menino, Agenor ou Hector. Nomes fortes, poderosos. Porque um descendente meu não seria nada menos que isso.
Ele suspirou pesadamente.
— Mas nunca algo dá muito certo para mim. Um dia, Stephen nos encontrou no labirinto. Ficou com ódio dela. Ela estava escondendo a gravidez, mas não conseguia mais, já estava com seis meses. Ele havia descoberto no dia anterior... Chamou-a de nomes horríveis e continuou a fazê-lo na minha frente. Quando ele ergueu a mão para batê-la, eu me descontrolei. Comecei a socá-lo, quase quebrei o rosto dele inteiro. Ela tentou me impedir, naturalmente. Era o irmão dela, apesar de tudo. Estava com medo por ele. Eu a empurrei sem querer, ela caiu no chão e bateu a barriga. Começou a sangrar... Chamamos um médico. Um idiota. — O olhar dele ficou sombrio. — Ele não conseguiu salvar a criança, naturalmente, e ela quase foi junto. Além do mais, ela havia sido demitida da fábrica que trabalhava... A fábrica do seu pai.
Nikolai arregalou os olhos incapaz de soltar um som. Como John pôde?
— Ela arranjou outro emprego em outra fábrica quando melhorou, não se preocupe com isso. Mas enfim, passei a odiar Stephen, ela passou a me odiar junto com ele. Voltamos todos a nos falar este ano, pouco antes de eu voltar. Nunca deixei de odiá-lo. E agora ele aparece morto, ajudando a pessoa que matou seu irmão e que está atrás de você...
Nikolai cerrou o maxilar. Isso era verdade. Se houvesse descoberto aquilo antes da morte de Stephen, provavelmente ele morreria do mesmo jeito, só que por mãos diferentes.
Os dois ficaram em silêncio por quase meia hora, apenas olhando para o céu que começava a escurecer enquanto pensavam em seus próprios infortúnios. Quando a hora chegou, dirigiram-se para o porão.
A porta era revestida de aço pesado. Ao contrário do que Nikolai pensava, era um espaço grande, até mobiliado. Grades davam para o lado de fora numa grande janela, e a pálida luz do começo da noite iluminava debilmente o chão. Não era bom esconder a besta da lua, ele sabia daquilo.
As correntes eram grossas e longas, presas à parede. Solomon ajudou a colocá-las. Nikolai se perguntou se não estavam muito frouxas, mas lembrou-se que praticamente triplicaria de tamanho quando estivesse transformado. Não iria se acostumar nunca.
A luz laranja do pôr do sol começava a diminuir, sendo substituída pela pálida luz da lua. Solomon deixou o porão, fechando a pesada porta. Nikolai ouviu o som de trocentas trancas se fechando, e se sentiu mais seguro. Não sairia dali. Daria tudo certo.
— Quando tempo falta? — Ele perguntou, sentindo-se estranhamente ansioso. Seu corpo formigava, ele suava. Podia perceber que Ethan e Eric estavam do mesmo jeito.
— Alguns minutos. — Ethan respondeu, seus olhos azuis brilhando e refletindo a luz.
O pesadelo começou.
Seus braços começaram a quebrar e se alongar, fazendo Nikolai gritar. Seu pescoço torceu, seus olhos mudaram de cor e adquiriram aquele tom azul elétrico, quase branco. Os osso de seu rosto se quebraram e se alongaram, formando um focinho.
Os dentes caíram, dando lugar a presas afiadas. Aconteceu o mesmo com as unhas, que deram lugar a garras negras. Nikolai perdeu a consciência. Agora era a hora da besta.

A Besta

Presa por tanto tempo. Estava com tanta fome. Mas estava presa, ainda presa! A besta olhou para os outros que estavam ali, um deles tinha um pelo marrom e os olhos amarelos muito grandes, a outra era robusta e forte, com os pelos dourados e os olhos azuis escuros. Rosnavam para ele, mas seus instintos lhe disseram que eles não eram inimigos.
A besta tentou se mover, mas as correntes não deixavam. Ela rosnou com impaciência, puxando as patas dianteiras e fazendo força para soltar a parte que a segurava pelo quadril. Não teve resultado.
Ela novamente tentou com mais força, escutando um estalo. A corrente cedeu, finalmente, e ela fez mais força para tirar a parte que prendia seu pescoço. Não conseguia respirar pela pressão da corrente, mas, assim que ela também cedeu, ela pôde arrancar as grades da única janela do lugar, felizmente grande o suficiente para que ela pudesse passar.
O ar gelado daquela noite invadiu seus pulmões, aumentando sua velocidade. O poder a invadiu. Ela podia fazer o que quisesse. Ela disparou pelas ruas da cidade.
Deu de cara com um humano, que gritou ao vê-la. Aquilo a irritou, e a besta enfiou as garras na jugular dele, sentindo o sangue espirrar em sua boca. Aquela seria sua primeira presa.
Pessoas correndo e gritando, cavalos relinchando e fugindo, carruagens desgovernadas. Londres se mostrava um caos completo à vista da besta.
A besta correu e abocanhou o braço de um humano, arrancando-o e triturando um pedaço com os dentes. O humano segurou o toco sangrento e caiu ao chão. Ela, em seguida, se lançou em cima de uma carruagem, encontrando um homem e uma mulher. Arrancou o coração do homem com as garras, lambendo-as e saboreando o sangue. A mulher gritou e a besta abocanhou sua cabeça, puxando-a e logo em seguida cuspindo-a.
Ela correu no meio da carnificina, enfiando as garras em quem ousasse entrar no seu caminho.
Estava tudo bem até ela sentir uma forte dor em seu ombro esquerdo. Olhou para o lado e alguns humanos atiravam contra ela. Ela correu até eles, conseguindo matar três deles com violência. Os outros fugiram. Ela subiu no telhado de uma casa para se proteger melhor de quem quisesse machucá-la, mas nem ali estava a salvo. Um homem mais velho e um mais novo corriam até ela, e mais uma bala penetrou sua pata. Aquele ferimento, porém, borbulhou como se cauterizasse.
Prata.
A besta rosnou, indo até o mais velho e derrubando-o com facilidade. O mais jovem gritou e tirou uma faca do bolso, quase atingindo-a, mas hesitando. A besta arranhou-o no peito, fazendo-o cair para trás, e mordeu o mais velho no braço, fazendo-o gritar.
Antes que algo pudesse ser feito contra ela, ela pulou do telhado, correndo sem parar. Estava satisfeita e machucada. Precisava de um lugar para se proteger.
Ela foi até os limites da cidade, entrando em uma floresta e parando ao lado de um lago. Lambeu seus ferimentos, irritada pela dor e pelo cansaço. Ela bebeu água e deitou-se de borco com o estômago cheio. Quando a luz do sol chegou, a besta se foi de bom grado e com satisfação.

Nikolai

Quando abriu os olhos, Nikolai sentia frio. Muito frio, e uma dor que fazia até seus ossos darem pontadas alucinantes, fazendo ele apertar os olhos. Aonde estava? O céu azul brilhante piscava em um tom suave acima de si. Ele olhou em volta, o verde tomando seus olhos. Estava em uma floresta? E o porão? Oh não, havia se soltado?
Ele percebeu o lago ao seu lado e se arrastou até ele, olhando o rosto na superfície. Estava uma bagunça. O rosto coberto de sangue, machucados. Aquilo se curaria, mas... O que ele tinha feito enquanto estava fora?
Ele tentou se levantar, cambaleando e esbarrando em uma árvore. O frio fazia suas pernas tremerem, assim como seu queixo, numa força que fazia seus dentes baterem e rangerem sonoramente. Seu estômago doía e ele pode sentir uma massa disforme na barriga, como se ele estivesse deslocado.
Ele caiu de joelhos e enfiou dois dedos na garganta, colocando para fora qualquer coisa que pudesse estar causando aquilo. Desistiu de olhar para tentar adivinhar o conteúdo quando um dedo humano se tornou visível entre os restos. Fora isso, ele se sentia um pouco melhor fisicamente.
Entrou no lago, a água passando um pouco de suas canelas e lavou-se, retirando o sangue seco de si. A água estava mais que gelada, mas aquilo não importava para ele no momento. Ele só queria se sentir um pouco mais humano. Ele precisava daquilo. Não sabia como ia fazer; mal tinha forças para levantar os braços, quanto mais andar até a cidade. Não estava vestido também. Em seu corpo, restavam apenas alguns pedaços de tecido que não cobriam nada. Ele saiu do lago e seu corpo cedeu de cansaço, o impacto do chão duro indo contra seu ombro esquerdo. Ele virou-se para cima, olhando para o céu.
Nikolai suspirou. Talvez fosse esta a hora. A hora que ele finalmente deixaria aquele mundo. Sentia uma paz, algo que ele não soube explicar na hora. A dor pelo frio passou, dando lugar a um torpor. Ele fechou os olhos devagar, pensando em . O torpor venceu, e Nikolai deu lugar à inconsciência.

Quando acordou, apesar de estar em uma superfície macia, ele se arrependeu terrivelmente de tê-lo feito. Não havia ainda aberto os olhos, mas já sentia dores no corpo inteiro e o rosto arder de uma forma irritante. Algo gelado tocou seus lábios e ele tomou um susto, arregalando os olhos e tentando se afastar de quem estivesse perto.
— Calma! — A voz de Evelyn chegou aos seus ouvidos, mas ele não conseguiu distingui-la. Se sentia confuso, sua cabeça doía. — Sou eu, Nikolai. Evelyn.
Os olhos dele finalmente se focaram nela, e ele sentiu o corpo relaxar. Deitou as costas no travesseiro macio novamente, e Evelyn lhe estendeu o copo.
— É conhaque. Beba. Você quase morreu de hipotermia. — Os olhos bicolores da garota adquiriram um tom de censura, mas ela logo tratou de disfarçar.
A atmosfera do quarto estava anormalmente séria. Ele distinguiu aos poucos Eric e Ethan encostados na parede do quarto, perto da lareira acesa, e Solomon na porta. Até Johanna o encarava de longe, sentada em uma poltrona afastada. Seus olhos de gata o avaliavam, e ele teve um pensamento súbito de quanto ela combinaria com Eric se os dois fossem um casal.
— Bom... — Ele começou, se endireitando na cama. — Falem.
Eric suspirou, se adiantando.
— Você ficou desacordado por quase uma semana. Eu...
— Você conseguiu se soltar. — Um Ethan agitado jogou algo no colo dele. — Você está em todos os jornais. Sorria!
Nikolai olhou para o jornal, hesitando antes de lê-lo.
“Lobo gigante ou lobisomem? Criatura mata vinte e aterroriza as ruas de Londres”.
Havia um desenho da besta, e Nikolai se viu pela primeira vez. Ele sentiu o estômago se revirar e teria vomitado, mas tentou se controlar.
— Todos sabem que é você. — Johanna disse, se aproximando. — Dois dias atrás, foram procurá-lo em sua casa. As pessoas mais bem-nascidas não acreditam nisso por desacreditar totalmente na existência de lobisomens, mas os mais ignorantes de Londres não esqueceram de seu acidente com o lobo. Foram em sua casa dois dias atrás caçá-lo. Você está... Sendo procurado. Querem matá-lo.
Ele passou as mãos no rosto, tentando digerir a informação. Só pensou em . O impacto daquela notícia. Como ela estaria se sentindo? Será que acreditava naquilo?
Nikolai tentou se levantar, mas Johanna não permitiu.
— Calma. Você tem que se recuperar. Mesmo com sua capacidade de regeneração, você está demorando a sarar. — Ela se adiantou, pegando um espelho e mostrando a Nikolai seu rosto.
O rapaz gemeu de irritação. O frio tinha feito alguns estragos em seu rosto, desde queimaduras em suas bochechas a arranhões em seus lábios rachados. Estava horrível.
— Nevou ontem, Nikolai. Está um frio horrível. Se sair agora, pode piorar. Você está seguro aqui. — Ela disse. Evelyn concordou com a cabeça junto com Eric.
— Eu tenho que falar com .
— Escreva uma carta. — Johanna respondeu, abrindo a gaveta do criado mudo e procurando.
— Na estante perto da lareira. — Eric disse, fazendo com que ela levantasse e fosse até lá.
Pegou um livro para apoio, papel de carta e uma caneta tinteiro, dando a Nikolai com um sorriso tranquilizador.
— Farei chegar até ela. Tenha certeza. — Ela disse, e Nikolai sabia que era verdade.
— O que faremos? — Ele perguntou, olhando para todos. Ethan serrou o maxilar, e Nikolai sentia sua hostilidade quanto a ele. Não tirava sua razão. Havia estragado tudo.
— Tentaremos evitar os caçadores a todo custo. Temos uma casa em Brighton — Eric disse. — Pensei em...
— Não posso fazer isso — Nikolai o interrompeu. — Depois de tudo, não ficarei longe de . Se eu for fugir, ela virá comigo.
— E como fará ela entender? — Ethan perguntou num tom grosseiro. — Ela não irá compreender. Você deveria entender que ninguém irá amar um monstro.
— Ethan, já chega — Eric vociferou, indo até o irmão. — Só porque você passou por uma experiência ruim, não significa que todos irão passar também.
Ele olhou para Johanna, que sorriu brevemente.
— Ela irá compreender o suficiente para vir comigo. Isso eu posso garantir.
Nikolai voltou a deitar na cama, se sentindo exausto. Colocou a carta de lado, escreveria ela mais tarde. Os demais tomaram aquilo como uma deixa.
— Vamos deixar você se recuperar. Depois podemos pensar no que faremos — Eric disse. Todos deixaram o quarto, mas Evelyn voltou momentos depois com um prato fumegante de sopa.
— Você tem que se alimentar, passou dias desacordado. Precisa ficar forte para enfrentar o que vier. — Ela disse, e só aquela última frase realmente o convenceu. Ele precisava mesmo estar forte. Era tudo que ele precisava.
E havia dormido por uma semana. Era menos uma semana para esperar a besta, era como se ela viesse mais cedo.
— Por que me sinto tão mal? — Ele perguntou a ela, desviando de uma colher quente de sopa. — Por que não me regenerei rápido?
Evelyn suspirou, colocando o prato de lado.
— Foi sua segunda transformação, Nikolai. Seu corpo ainda está se acostumando. Você fez a farra e se esgotou muito, além de ter ficado muito tempo no frio. Quando Solomon e os meninos o encontraram, você estava quase morto, e muito machucado. Foi um milagre terem encontrado você antes de outras pessoas. Ethan é um ótimo farejador — Evelyn disse, voltando a pegar o prato de sopa. — Agora coma. Você precisa ficar forte.
Ele hesitou, mas por fim concordou com a cabeça, recebendo grandes colheradas de sopa. Apesar de tudo, se sentia faminto. E precisava mesmo ter força para encarar o que viria para ele. Precisava ter força para encarar .

Jonathan Dashes

Debrunski foi mordido. As coisas não poderiam estar sendo melhores para ele. O poderoso caçador estava se tornando a coisa que ele tinha jurado matar. A vida não poderia ser mais irônica.
Claro que aquilo deveria ser um carma diante da história de vida perturbada que o homem tinha. Era uma lenda dentro da facção escondida da Scotland Yard. Era clichê também, mas Jonathan não falava aquilo em voz alta. Não queria pagar de invejoso, mesmo o sendo. Queria pagar de extremamente devotado, que era o que havia feito ele chegar até ali, lhe dado o cargo de braço direito do velho.
Edgar Debrunski, junto com outros caçadores, foi o pioneiro na criação da Ordem dos Caçadores da Scotland Yard. A verdade é que sua infância havia sido assombrada pelos grandes lobos, com suas garras negras e seus dentes afiados. Vindo de uma pequena aldeia, nas noites de lua cheia todos trancavam suas portas e deixavam carne do lado de fora de casa como uma oferenda para a besta que assolava o local.
Edgar viveu a vida inteira nessa aldeia e criou família. Uma mulher, Eve, e dois filhos, Michael e James. Na noite de lua cheia, quando os dois tinham por volta de dezoito e quinze anos, resolveram fugir à noite para ver a besta. A velha curiosidade que, segundo o ditado, matou o gato. Mas não fora o gato que ela matara naquela noite. A besta matou James com crueldade e mordeu Michael, que escondera a mordida na barriga, que havia sido superficial, por medo e até descrença de que se transformaria. Fora praticamente um arranhão, mesmo que feito pelos dentes dela. Mas um arranhão fora o suficiente para a maldição e, quando a lua cheia finalmente chegou, o castigo veio. Ele se transformara na besta que tanto temia, matando sua mãe e quase matando o pai.
Até hoje Debrunski exibia as grandes marcas de unhas que tinha do pescoço até o fim da barriga. E o filho? Ao ver o que ele tinha feito, Edgar não hesitara em colocar uma bala de prata na cabeça do rapaz. Perdeu a família inteira, por isso tomou coragem e se juntou à caça. Encontrou a besta da aldeia, que era um homem com quem convivera a vida inteira. Ele não tinha mais amigos. A besta não distinguia, ele não distinguiria também.
Jonathan achava aquilo ridiculamente clichê. Sua história não era extraordinariamente fantasiosa quanto aquela. O rapaz apenas queria se sentir útil ao seu país e, após descobrir sobre a ordem por seu pai que fazia parte da Scotland Yard, passou pelo treinamento e se juntou a eles. Sua vida nunca era tediosa, estava sempre viajando. Protegendo pessoas.
Mas mesmo com aquele pensamento, ele era um rapaz ambicioso. Queria o posto de Debrunski. Queria aquela glória para ele.
E a oportunidade havia surgido. Finalmente.
Debrunski tentou se levantar da cama, mas caiu de volta numa fraqueza repentina, gemendo de dor. Afrouxou a bandagem do braço ferido e o sangue imediatamente voltou a fluir. Jonathan ainda tinha a lembrança do machucado nojento.
Havia um buraco em seu braço, que estava praticamente pendurado apenas por um pouco de osso e cartilagens. Jonathan não se impressionou — já havia visto coisas piores que aquilo —, mas mesmo assim não era uma visão agradável, e ele não pôde evitar fazer uma careta.
— E agora? — Ele perguntou ao mais velho, que parecia lutar para ficar acordado. — O que faremos?
Debrunski suspirou.
— Você hesitou.
Jonathan arregalou os olhos, prendendo a respiração.
— Senhor?
— Lá no telhado. Você hesitou, Dashes. Estava planejando por isso?
Ele não respondeu, mas o silêncio havia sido a resposta que Debrunski precisava. O mais velho grunhiu. Queria enforcá-lo, mas não tinha forças para isso. Estava naquela cama havia quase sete dias tentando evitar pensar no que teria de ser feito, mas era isso. Aquele era o fim para ele.
— Você poderia tê-la acertado com a faca, mas hesitou. Podia tê-lo matado, a lâmina era de prata. Um corte na garganta e ele já era. Mas você... Ela me tinha nas mãos e você hesitou. — O mais velho cerrou o maxilar. — Isso foi baixo.
Jonathan não aguentou mais fingir. Então ele apenas riu levemente.
— Você está velho, Debrunski. Não me culpe se não conseguiu dar conta da fera. — Ele respondeu. — Eu fiz o que pude.
— Fez... Eu vejo isso agora. — Ele respondeu. — Vamos em frente. Como irá fazer isso?
— Isso o quê?
— Cortará minha garganta? Ou não irá querer me olhar nos olhos, como o covarde que é? — Ele grunhiu de dor. — Não sobreviverei a isso, de qualquer forma. O ferimento foi muito extenso. Não sobreviverei à primeira transformação. Você conseguiu o que queria.
Jonathan sentiu o sangue ferver nas veias. Como ele ousava chamá-lo de covarde? Quando ele tinha sua vida nas mãos?
— Covarde, uh? Covarde? Eu sou covarde? Quem é que está querendo morrer agora para não encarar a besta, uh? — Ele pegou a faca, encostando a lâmina gelada no pescoço do mais velho. — Você é o covarde. Matou seu filho por não conseguir encarar o que ele havia se tornado. Perdeu a família inteira. Você é um perdedor, Debrunski, você não tem nada, só esse posto. O posto que eu estou prestes a tirar.
Ele apertou mais a lâmina no pescoço de Debrunski até um filete de sangue vermelho vivo escorrer.
— Você pergunta como irei fazer. Pois bem. — Ele disse com um sorriso maníaco no rosto bonito. — Você descobrirá agora.
Ele não deu tempo para Debrunski retrucar. Passou a lâmina com força na jugular do velho, manchando a camisa que usava com o sangue. Quando cansou de observar ele se engasgar com o próprio sangue, enfiou a lâmina fundo em seu coração. O corpo de Debrunski tombou no chão, fazendo Jonathan se afastar com um olhar de nojo.
Ele puxou o corpo, colocando-o na cama. Precisava ser teatral naquele momento. Ajeitou a roupa, tentando melhorar a aparência das manchas de sangue. Por fim, saiu do quarto, indo até a sala. Wilbur, seu chefe, e alguns homens esperavam por respostas. Ele fez uma cara triste, apenas negando com a cabeça. Os homens suspiraram, tirando seus chapéus.
— Teve de ser feito, infelizmente. — Wilbur disse. — Ele não podia se transformar no que havia jurado caçar.
— Suponho que... — Um dos homens, Mark, começou. — Agora você...
— Sim, Mark. Eu agora sou o caçador chefe. Nomeado pelo próprio. — Jonathan tirou uma carta do bolso perfeitamente forjada. Estudara por meses as correspondências de Debrunski para aprender sua caligrafia e sua assinatura. Enquanto os homens liam, ele viu o futuro que o aguardava. Caçador chefe. Salário maior, maior proteção.
O que mais ele poderia querer?
Ah, claro.
Caçar o lobisomem que assolava Londres.
Ele já sabia quem ele era.
E não tardaria a pegá-lo.



Capítulo 21

Eric

Se tinha uma coisa que Eric detestava, era ficar preocupado com algo. A sensação dos problemas martelando na sua cabeça, indo e voltando, era algo que o enlouquecia. Portanto, naquela noite fria, ele decidiu tomar algo mais forte que uma simples taça de vinho. Pegou um dos copos e colocou uma encorpada dose de whisky para si, bebendo alguns goles e fazendo uma careta.
Ele tornou a encher o copo quando sentiu uma presença atrás de si. Sabia de quem se tratava antes mesmo de se virar. Um meio sorriso tomou seus lábios, o aroma de lavanda invadindo seus pulmões.
— Noite fria, não é? — Ele falou antes de finalmente se virar, vendo Johanna. Seus cabelos muito ruivos estavam bagunçados, e ela parecia tão cansada. Não havia sido capaz de dormir direito após a morte de Stephen, muito menos comer. — Eu a ofereceria algo para beber, mas você não tem comido direito. Prefiro lhe oferecer um prato de sopa.
— Eu estou bem. — Ela falou naquele tom desafiador que ele adorava, e que ela sempre usava com ele antes mesmo de toda a tragédia do passado. Johanna se deixou cair pesadamente em uma poltrona, suspirando. — Mas não reclamaria de uma boa dose de whisky, bem parecida com a que você está tomando.
Eric riu levemente.
— Não. Vai fazer mais mal que bem a você.
Johanna ergueu uma sobrancelha. Como ele era afoito!
— Bem, se você não irá me servir, eu me sirvo sozinha. — Ela se levantou, indo até Eric. Quando ela ia pegar a garrafa de whisky, ele a segurou pelo pulso, fazendo-a arfar. — Eric, me solte. Estou falando sério.
— Eu não acharia nunca que você estaria brincando, não com esse olhar em seu rosto. Mas isso é para seu bem, Johanna. Se você tomar um prato de sopa primeiro, eu deixo você tomar uma dose de whisky — Eric disse num tom irônico, fazendo-a erguer as sobrancelhas.
— Você deixará? Você não manda em mim, Ives! — Ela desistiu logo de reclamar, porém. Aquele pequeno esforço a havia deixado cansada. Odiava dizer que ele tinha razão, mas estava certo. Precisava comer. — Tá bem, tanto faz. Peça para trazerem o maldito prato de sopa.
Ele tentou esconder a expressão de vitorioso que havia feito, acenando para uma das serviçais, que logo trouxe um bom prato de sopa bem quente. Eric se sentou à mesa com Johanna, observando-a enquanto comia e com a certeza plena de que ela se irritaria em breve.
Dito e feito. Após uns bons cinco minutos de silêncio, ela abaixou a colher e revirou os olhos.
— O que foi agora?
— Você anda muito estressada, Johanna. Que tal um chá de camomila depois desse prato de sopa?
A ruiva suspirou.
— Pior que não seria uma má ideia. Estou morrendo de frio. A lareira não está acesa?
Eric se levantou, tirando o paletó que usava e colocando-o nas costas dela.
Ela sorriu levemente, agradecendo com a voz baixinha. Mal terminou a sopa e o chá já estava em suas mãos.
— Agora — Eric cruzou os braços. — Como está se sentindo? Com tudo que está acontecendo. Quero saber sobre você.
Ela o encarou por alguns segundos, como se medisse o que poderia contar para ele.
— Eu... Ah, Eric. Não está sendo fácil, você sabe disso. Apesar de tudo, Stephen era meu irmão. Eu o amava muito. — Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela logo lutou para escondê-las. Eric não disse nada, apenas continuou a encará-la. Sabia que ela precisava de um tempo. Johanna era forte, mas nem sempre.
Quando ela não mostrou mais intenção de falar, Eric suspirou.
— Você tem nosso apoio. Sabe disso, não sabe? Pode ficar aqui o tempo que quiser. Nossa casa é sua casa também. E não falo isso apenas por mim, Ethan e Evelyn...
— Vocês já têm problemas demais nas costas sem eu por perto, Eric. O garoto... Nikolai. Não acha que seria melhor se deixasse ele por conta própria? Ele é bem grandinho, você sabe.
— Eu sei, Joh. Mas ele é meu amigo, e não teve culpa de ter sido mordido. Ele ainda não tem muita noção da maldição que carrega, e espero ajudar o máximo para que nada verdadeiramente ruim aconteça. Ethan já foi ruim o suficiente. Ele ainda não superou Lavinia. E não acho que algum dia vá superar.
— Mas Ethan não a matou, pessoas ruins mataram.
— Mesmo assim. Ele nunca voltou a ser o mesmo. Aquele Ethan que conhecíamos morreu com ela.
Johanna abaixou a cabeça, pensando em Eric. Sentia sua falta, falta de seu toque, suas palavras carinhosas. Mas a antiga Johanna também havia morrido com a perda do bebê, e ela desconfiava que o antigo Eric também.
— Acho que todos nós entendemos o suficiente de tragédias, não é mesmo? — Ela perguntou num tom irônico, suspirando em seguida e se sentindo extremamente melancólica.
Eric hesitou, mas apenas concordou com a cabeça.
— Você... Você pensa em nós? Mesmo que por um curto momento. — Ele perguntou. — No que teria acontecido se... Você sabe.
Johanna levantou os olhos marejados para ele, concordando.
— Como eu não pensaria, Eric? Eu não paro de pensar em você nem por um minuto. É cruel comigo mesma, mas acho que sou um pouco masoquista. Pensar em você... É tão agridoce...
Eric não deixou ela terminar, se inclinou e juntou seus lábios. Johanna enlaçou os dedos nos cabelos dele, arranhando sua nuca, enquanto ele apertava seus quadris com os dedos.
— Eu quero você. Quero muito. — Ele disse contra os lábios dela.
— Eu só quero um pouco de paz. — Ela respondeu, uma lágrima molhando sua bochecha.
— Não poderá haver paz para nós. Só miséria e a maior das felicidades. — Ele voltou a beijá-la, Johanna enrolando as pernas em sua cintura e ele levantando-a da cadeira. Estava tão leve. Mas ele cuidaria disso. Ele cuidaria dela.
— Anna Karenina. — Ela sussurrou.
— O quê?
— Essa frase. É de Anna Karenina.
Eric riu levemente.
— Esperava que não identificasse e eu pudesse pagar de romântico filósofo. Mas você é a única pessoa que tem uma sede de leitura tão grande quanto a minha, não sei como ainda fico surpreso.
— Senti sua falta. — Ela disse. Eric colocou-a de volta na cadeira e se ajoelhou em sua frente, beijando cada um de seus dedos.
— Não vamos deixar ninguém nos atrapalhar dessa vez. — Ele disse. — Você irá casar comigo.
Ela ergueu as sobrancelhas, um sorriso bobo brincando em seus lábios.
— Ah, casarei? — Ela o empurrou, mas ele a segurou firme.. — Não gosto desse seu tom de ordens. Você não manda em mim.
— Você irá casar comigo, Johanna. Ou sequestrarei você e irei trancá-la no meu porão — Ele respondeu, fazendo-a rir alto. — Está duvidando? Não duvide de mim. Eu sou maluco.
— Sim, você é. — Ela beijou-o novamente. — Tudo bem.
Eric franziu a testa, ficando levemente confuso.
— Tudo bem?
— Casarei com você.
Ele sorriu, beijando-a. Aquilo ela o mais feliz que ele havia ficado em meses.

Nikolai

Mais uma semana havia se passado. Nikolai ainda estava preso àquela maldita cama, sentindo-se o pior dos condenados. Havia demorado até o meio daquela semana para finalmente se curar e, assim que conseguiu finalmente se levantar, decidiu que iria ver . Havia mandado uma carta para ela, mas não obtivera respostas. Devia ter dito que estava morrendo. Será que ela viria?
— Aonde está indo? — Uma voz aguda o fez parar antes que pudesse tocar a maçaneta da porta de entrada da casa.
Ele se virou, encarando Evelyn e cruzando os braços.
— Sou um prisioneiro nessa casa agora? — Ele perguntou. Evelyn assumiu a mesma postura que ele, cruzando os braços, mas um sorriso calmo tomava seu rosto.
— Claro que não. Você é um convidado aqui.
— Convidados podem deixar a casa no momento que quiserem.
Evelyn revirou os olhos, soltando um grunhido.
— Você é idiota mesmo ou só parece? Não entende que estamos tentando te manter aqui para te proteger? Não irá andar nem vinte metros na rua sem ser linchado, seu imbecil. Não pode passar mais de vinte minutos sem ser um bastardo mal-agradecido?
Nikolai abaixou a cabeça. Ela tinha razão. Havia passado por tudo aquilo e não soltara nem um mísero obrigado. Não havia medido os perigos que eles estavam passando ao abrigá-lo ali, pensava apenas em e em seu próprio umbigo. O remorso lhe deu uma sensação desconfortável no estômago.
— Evelyn...
— Além do mais, ela está vindo para cá. Mandei Solomon ir buscá-la. Então volte para seu quarto e melhore essa cara de idiota. — Ela não deixou ele responder, subindo as escadas depressa. Nikolai riu de nervoso, passando as mãos no rosto. Ela estava vindo.
Quando a ficha caiu, ele subiu as escadas depressa, indo até o banheiro e passando água no rosto. Tentou como pôde pentear melhor os cabelos, mas continuava parecendo um esquilo arrepiado. Porcaria de cabelo que crescia para todos os lados! Precisava de um corte. Não tentaria fazer ele mesmo, da última vez não havia dado muito certo.
Voltou enfim para seu quarto, trocando de roupa e ficando mais apresentável. Ainda exibia um semblante cansado, pálido e com olheiras, mas não podia fazer muito quanto àquilo. Alguns minutos depois, Solomon bateu na porta, anunciando .
A garota entrou depressa, fazendo Solomon fechar a porta e deixar os dois sozinhos. Ela encarou Nikolai com as sobrancelhas franzidas, mas ele não recebeu nenhuma demonstração de carinho ou algum sinal de que ela pretendia abraçá-lo. Ela apenas ficou ali, parada, perto da porta como se fosse correr a qualquer momento.
— Nikolai... — Ela começou, colocando as mãos juntas perto do corpo. — O que está acontecendo?
Ele suspirou, sentando na cama e apontando a poltrona para ela, que concordou e se sentou, ainda observando-o. Ele procurou as palavras para contar a ela o que estava acontecendo, mas não via como fazer a irmã acreditar no que havia se tornado.
— Tem noção de como eu fiquei quando você não voltou para casa no outro dia? Quando aquelas pessoas chegaram à nossa casa caçando você como se você fosse um maníaco, quando recebi aquela porcaria de carta que não explicava nada? — Ela perguntou, parecendo à beira de lágrimas. — Nikolai, você tem que me contar o que está acontecendo. Você está sendo vítima de um boato, não é? Um boato ridículo, patético. Me explique o que está havendo.
Nikolai abaixou a cabeça, cobrindo o rosto com as mãos. Ele sentia que estava tremendo. Não sabia, não fazia ideia de como explicar a ela o que estava acontecendo com ele quando ele mesmo não compreendia como aquilo podia estar acontecendo. Se fosse uma pessoa de fora e escutasse aquele boato, acharia ridículo e patético também. Mas não era. Era com ele que aquilo tudo estava acontecendo.
— Tudo bem. Contarei a você o que aconteceu e o que vem acontecendo. Mas tem que prometer que irá ficar calada e não irá falar até eu terminar, certo?
hesitou por alguns momentos, mas por fim concordou com a cabeça.
— Muito bem. Lembra-se quando fui ao acampamento cigano e fui mordido por um lobo? Bem, não foi um lobo, foi um... É, isto é, foi um lobisomem. Você mesma viu a rapidez que me recuperei, a mordida não deixou nenhuma cicatriz. Isso não é normal. Eu... Me transformei um mês depois. Dizimei uma vila inteira, mas os Ives me ajudaram. Os Ives têm me ajudado muito, ... Porque... Bem, eles também são lobisomens. Menos a Evelyn. — Ele observava as lágrimas caírem pelo rosto dela, e se perguntava se ela estava acreditando naquilo tudo. — Da última vez, eles me prenderam no porão para que eu não matasse ninguém, mas de alguma forma eu consegui me soltar, e aconteceu tudo aquilo no centro de Londres. A culpa foi minha, mas... Ao mesmo tempo não foi, porque não posso controlar o que tem dentro de mim, esse monstro. Não foi culpa minha, ! Estou aprendendo a controlar, mas na lua cheia não há nenhum jeito. Tenho que ficar preso. Mas daremos um jeito nisso.
encarava o chão enquanto as lágrimas caíam. Parecia em choque. Ele pensou em se levantar e servir uma dose de alguma coisa para ver se ela melhorava, mas não quis fazer nenhum movimento brusco.
Ela se levantou tão rápido que ele demorou um pouco para registrar o que tinha acontecido, mas já havia aberto a porta e gritava por socorro no corredor da casa.
Eric! Evelyn, Ethan! Ele está louco, me ajudem! Me ajudem! — Ela gritou até que Nikolai abraçou-a por trás, tentando trazê-la de volta para o quarto. Os Ives correram escada acima junto com Johanna, ajudando-o a levá-la de volta para o quarto. Evelyn e Johanna a ampararam enquanto Eric e Ethan seguraram Nikolai para que ele se acalmasse.
— Ela não está acreditando em mim! O que posso fazer? Ela não está acreditando em mim! — Ele gritava enquanto apontava para , que havia sentado na poltrona devido ao tremelique de suas pernas.
— Como posso acreditar em você, seu lunático? Falando coisas sem sentido e assumindo a culpa de assassinatos horríveis! Oh, Nikolai, você finalmente perdeu a cabeça de verdade! — disse com a voz trêmula.
Até que Ethan revirou os olhos, empurrando Nikolai de lado e liberando a besta. Seu maxilar se alongou, as presas se mostrando. Seus olhos brilharam azuis elétricos e ele rugiu para ela.
desmaiou.
— Ethan! — Todos no quarto gritaram e, quando o rapaz voltou ao normal, ele ria. Era claro que Eric e Evelyn tentavam segurar a risada enquanto Johanna abanava a garota e massageava seu pulso para ajudá-la a retornar à consciência. Nikolai ajudava Johanna a abaná-la, chamando seu nome de forma assustada.
— Pega um chá de camomila para ela. — Eric pediu a Evelyn, fazendo Johanna bufar.
— Você quer resolver tudo com chá de camomila! Isso não vai resolver, ela não vai se acalmar. Não é algo que você conta assim. — Ela disse, lançando um olhar de desprezo a Ethan. — Você foi um estúpido.
— Ela não iria acreditar se eu não tivesse feito isso, Hanna. Quem iria acreditar na história de uma pessoa que virou um lobisomem?
— Eu acreditei! — Johanna respondeu com irritação, voltando a olhar para . Ethan serrou o maxilar e deixou o quarto, fazendo Eric suspirar. Lidaria com ele depois.
— Ela pode entrar em negação. — Evelyn disse enquanto observava-a de longe. — O que faremos agora?
— Esperaremos ela acordar. E abordaremos o assunto com calma. — Johanna respondeu. — Pegue alguma coisa forte, por favor. Algum perfume, álcool, não sei.
Evelyn concordou e deixou o quarto. Nikolai observava com preocupação.
— Ela está demorando muito para acordar. — Ele reclamou, contendo a vontade de sacudi-la. Evelyn logo voltou e entregou um pequeno frasco para Johanna, que o abriu e colocou abaixo do nariz de . A garota despertou num pequeno susto, arfando e tentando se afastar.
— Shh, calma. Você está bem, está entre amigos. — Johanna disse, sorrindo levemente para a mais nova. olhou em volta debilmente, se endireitando na poltrona.
— O que aconteceu? — Ela perguntou. — Eu não me sinto bem.
— Entendemos, mas você tem que se acalmar. Gostaria de algo? Um docinho, ou um... Chá de camomila? — Johanna lançou um olhar irritado para Eric, que apenas abaixou a cabeça e sorriu.
— Não, eu não, eu quero ir para casa. — tentou se levantar, mas Johanna tentou mantê-la na poltrona.
— Fique sentada, você desmaiou. Pode sentir tontura se levantar muito rápido. Beba pelo menos o chá, ou coma um biscoito. Aí te deixaremos ir. — Ela sorriu para , que não parecia mais estar prestando atenção.
— O cachorro. — Ela disse, levantando o olhar para Nikolai.
— O quê? — Nikolai franziu a testa, se aproximando dela.
— O cachorro. O cachorro que mordeu Victor. O cachorro que apareceu do nada e o mordeu no braço. — Ela continuou. — Eu olhei para a janela e você estava lá. Você estava lá! Olhando com uma expressão maligna no rosto.
— Em minha defesa, eu não sabia que podia fazer aquilo. — Nikolai respondeu, levantando as mãos.
— Você fez? — Eric perguntou, parecendo estupefato. Nikolai hesitou, mas concordou com a cabeça.
— Não sei, foi estranho. Senti como se pudesse moldar a mente do cão, foi muito estranho. — Ele respondeu, voltando sua atenção para . — Eu sinto muito que tenha descoberto assim, mas é tudo verdade. É... É o que eu sou, . Mas eu... Mas... Eu ainda sou o antigo Nikolai. E eu amo você.
Ela não parecia estar focada no que ele estava dizendo, pois não olhava para ele.
— Você fala de morte como se fosse uma banalidade. Como se não importasse. Se isso for mesmo verdade, se... Você matou pessoas, Nik. Nik, você matou pessoas. — tapou os lábios com a mão, tentando se controlar. — Por favor, me levem para casa. Eu não posso mais ficar aqui. Está me sufocando.
... — Nikolai tentou ir até ela, mas Eric o interceptou.
— Dê algum tempo a ela. É algo difícil de aceitar. — Ele disse, fazendo Nikolai concordar com a cabeça. Ele tinha razão. Ele odiava aquilo, mas era verdade. Não era algo fácil de se aceitar. devia estar achando que estava louca.
Nikolai foi até a cama, caindo pesadamente e tapando o rosto com as mãos. Sentia raiva, medo, tristeza, desprezo por si mesmo e mais uma porrada de sentimentos que ele não saberia definir no momento.
E tudo aquilo estava acontecendo por causa de Fenrir.
O maldito Fenrir.
Ele havia feito pesquisas, investigações junto com Eric e Ethan, mas elas não haviam chegado a lugar nenhum. Quem quer que fosse o maldito, ele sabia se esconder muito bem.
Naquela noite, tentando dormir, ele não pôde esquecer o olhar decepcionado e assustado de enquanto Evelyn fechava a porta. Como se não o conhecesse, como se ele fosse um completo estranho. Não sabia como consertaria aquilo. “Dará tudo certo. Alguma hora ela aceitará. Experiência própria”, Johanna havia dito. Ele esperava que ela estivesse certa.

Sem , os dias passaram rápido demais, e a lua cheia logo chegou. Mais um dia naquela agonia extrema. Duas semanas haviam se passado sem contato, mas ele tentou tirar a cabeça daquilo na esperança de poder encontrar Fenrir. Ele, Ethan e Eric haviam avançado bastante, e os dois irmãos haviam chegado a uma conclusão que contariam a Nikolai assim que chegassem. Haviam saído para arrumarem mais correntes apenas para o caso de Nikolai tentar fugir novamente. Ele achava aquilo humilhante, mas era melhor do que novamente fugir e ficar na mira de caçadores.
Quando chegaram, logo o chamaram na biblioteca. Ele foi, sentindo um frio na barriga desconfortável. Finalmente teria a chance de vingar seu irmão e a ele próprio.
— É melhor você se sentar. — Eric disse quando ele chegou, tentando sorrir.
— Estou bem. Só vamos acabar logo com isso. — Ele insistiu, se encostando na mesa e cruzando os braços.
Eric abriu um grande papel em cima da mesa, e Nikolai reconheceu sua própria árvore genealógica. Ele franziu a testa, se inclinando em direção ao papel. O que estava acontecendo?
— Vamos com calma. Tem que prometer que não irá dar a louca e sair, faltam poucas horas para a lua cheia. Precisamos de você aqui. Poderá cuidar disso amanhã, tudo bem? — Eric pediu.
Nikolai hesitou, mas finalmente concordou com a cabeça. Era algo sério. Ele sentia.
— Vamos lá. Nós pesquisamos, nos comunicamos com conhecidos e pudemos fazer uma representação da sua árvore genealógica. Acontece, Nikolai, que você vem de uma longa linhagem de lobisomens antigos. O clã russo Volkov. Ou seja, sua linhagem é pura. Mas... Isso só se atinge se alguém do mesmo sangue que o seu, ou seja, com o sangue dos Volkov, o transformar. Então definitivamente foi alguém de sua família.
Nikolai cerrou o maxilar, avaliando aquelas informações. Não entendia direito, mas a última frase fez sua espinha gelar.
— Eu vou explicar melhor. Quando você descende de uma linhagem assim, mas não se transforma, seus genes ficam dormentes. Todo mundo que descende de um lobisomem possui os genes, mas eles podem se ativar ou não. Se você não se transformar até pelo menos os quinze anos, você está livre. Como Evelyn, certo? Eu e Eric manifestamos o gene, mas ela não. Mas isso não significa que ela não os tenha. — Ethan explicou, sentando-se em uma cadeira e observando a árvore genealógica. — Para ela ser tão forte como nós, ou eu ou Eric teríamos de transformá-la, ou seja, ativar seus genes. Senão você será apenas um mero lobisomem transformado, e eles não são tão fortes quanto um gene poderoso que sobreviveu uma linhagem inteira. Eu e Eric não somos tão fortes, porque o gene veio apenas de nossa mãe e ela havia sido transformada, mas você... Nikolai, você faz coisas que nem se manifestaram em nós ainda. Aquilo do cão... Apenas lobisomens mais velhos conseguem fazer, lobisomens com mais experiência, coisa que você não adquire nem em dez anos, quanto mais em dois meses. A sua força... Você quebrou as correntes como se não fossem nada. Por isso não seguraram você. Calculamos sua força como se você fosse um mero lobisomem transformado.
Ethan puxou o papel, apontando para os nomes russos.
— Sergei, Anastasia... Todo mundo que tem nome russo em sua linhagem... É um lobisomem. — O dedo de Ethan parou no nome do pai de Nikolai, Anzor. — É por isso que você é tão forte. Seu pai era um de nós.
Nikolai empalideceu. Ele tirou os cabelos do rosto sem acreditar. Como assim? O pai dele? Mas o pai dele havia morrido!
— Meu pai... Ele morreu... Eu...
— Sim, ele morreu. Na época de transformação, ficamos invulneráveis a tudo. Menos a prata. Quando somos humanos, ficamos normalmente vulneráveis como todos os outros. Seu pai pode muito bem ter morrido na guerra, mas... O gene pode ser ativo por qualquer um que tenha o mesmo sangue que você. O que nos leva a... — Ethan hesitou, fazendo com que Eric novamente tomasse a dianteira.
— Seus tios. Mas... Seus tios russos, os lobisomens, não estiveram aqui em nenhuma manifestação de Fenrir. Não estiveram aqui quando você foi atacado, no seu aniversário. Isso nos fez pensar na rivalidade entre seu pai e John. Os dois brigaram muito... Nada impediria que Anzor tivesse talvez mordido ele, Nikolai. A questão é que... Nada impede John de ser Fenrir.
Toda a palidez de Nikolai desapareceu, dando vez a um vermelho de fúria. Não. Aquilo não poderia ser verdade.
— Conseguimos o obituário de Anzor. Ele foi morto por um tiro — Ethan tirou um papel de uma gaveta, mas Nikolai não conseguia ler. Mal conseguia respirar.
— Você mesmo disse que ele o odiou e foi cruel sua vida toda. Nós só... Nikolai, por favor, fale conosco — Eric pediu.
— Eu vou matá-lo. — Ele disse. — Eu preciso tirar isso a limpo. Eu voltarei antes da noite.
— Não, Nikolai. Não é seguro. Todos conhecem seu rosto. — Eric disse, já indo em direção à porta. — Estamos preparados para fazer o que pudermos para impedir você.
— Estamos? — Ethan perguntou, acendendo um cigarro. Eric se virou para ele com uma expressão irritada. — Ora, Scar. Ele quer vingança. Isso não é da nossa conta. A casa dele é mais afastada da cidade do que a nossa, fora a floresta. Tenho certeza de que, quando a hora chegar, Nikolai fará a coisa certa. Você não quer mais mortes nas costas, quer?
Nikolai levantou os olhos azuis claros, que estavam marejados de ódio.
— Só mais uma.
— Nikolai, como seu amigo, eu realmente aconselho você a não ir. Mas... Ethan está certo. É algo seu. Eu não posso me meter. — Eric disse num tom amargo. — Eu lavo minhas mãos. Prometi que iria ajudá-lo nisso. Eu ajudei.
— E eu agradeço por isso, Scar. Eu realmente agradeço. Mas Ethan tem razão. Agora é por minha conta. Eu não posso continuar criando problemas para vocês. E nem comece a tentar dizer que não é problema, é um incômodo, é mais um problema na sua mente. — Nikolai insistiu, sorrindo para ele. — Nos separamos aqui, meu amigo. Espero que não seja algo permanente. Obrigado por tudo que você fez por mim, eu... Pode não parecer, mas eu aprecio muito.
Eric sorriu de volta. Para ele não havia nada demais. Era o mínimo que poderia ter feito quanto a alguém que não havia pedido por aquilo.
— Espere um pouco. — Ethan abriu um baú, tirando uma capa empoeirada e puída. — Leve isso. Use para não te reconhecerem ou verem seu rosto.
Nikolai pegou a capa, se perguntando se não morreria de alergia antes de chegar à casa, mas agradeceu e a vestiu. Antes que aquele momento pudesse ficar mais piegas, ele se despediu, deixando a casa e aquela parte de sua vida para trás. Pegou a carruagem. Tinha duas horas até o pôr-do-sol. Teria de dar. Ele teria que conseguir.
Chegou à casa alguns minutos depois, se adiantando. Quase atropelou Alfred ao entrar, perguntando aonde estava John. Ao receber a resposta, se adiantou até o escritório dele, vendo o antes pai sentado lendo um livro.
— Como pôde? — Ele perguntou, fazendo-o abaixar o livro.
— Boa tarde, Nikolai. Você está sendo procurado. — John disse. — O que está fazendo aqui? E o que aconteceu?
— Não mude de assunto! — Nikolai tirou a carta do bolso do paletó, jogando-a nele. — Explica essa merda. Eu quero saber como você teve coragem.
John cerrou o maxilar, provavelmente não gostando do tom de voz que ele usava, mas Nikolai estava pouco ligando. Queria vingança. Ele começou a ler a carta, sua testa se franzindo.
— Então, pelo que eu li aqui, essa carta fala que alguém matou o Peter para me atingir. Eu mataria meu próprio filho para me atingir? — John colocou a carta de lado. — Não estou entendendo aonde você quer chegar.
— Eu sei o que você é. O que você fez.
John tirou os óculos de leitura, passando as mãos no rosto e soltando um suspiro cansado.
— Então me diga. Porque não entendo aonde você quer chegar.
Os olhos de Nikolai brilharam, fazendo Joseph ter um leve vislumbre da besta. Ele fechou a cara.
— Então é verdade. O que você se tornou.
— Você sabe! Você fez isso! Não se faça de desentendido, John. Não combina com você.
— Nikolai, eu não teria nem como. Eu tive pouquíssimo contato com a sua espécie, mamãe fez questão disso.
— Papai pode ter mordido você. Ah, sim. Eu sei que ele também era como eu.
— Leia a maldita carta, seu idiota! Nada disso faz sentido! Quem colocou essas coisas na sua cabeça dura? — John jogou a carta de volta para ele. — Eu não sou como você. Se quiser tirar a dúvida, vá em frente. Eu nunca mataria meu próprio filho. Ele era uma criança!
— Claro que não mataria. — Uma voz grave disse da porta, fazendo Nikolai se virar. — Eu fiz isso por você.
Nikolai arregalou os olhos. Não. Não era possível. Ele precisou se apoiar na mesa de John para não cair, suas pernas fraquejaram e ele sentiu os olhos lacrimejarem. Como era possível?
— Pai?



Capítulo 22

Anzor Martell deu um sorriso.
— Olá, Nikolai. Olhe só para você. — Ele era como uma versão mais velha de Nikolai. O jeito de andar, os maneirismos... Até a voz era parecida. Nikolai não conseguiu deixar de achar aquilo assombroso. — Está tão crescido. Eu sabia disso, claro. Não é a primeira vez que nos vemos.
Nikolai estava atônito, assim como John.
— Você! — Ele grunhiu, seu rosto ficando vermelho. — Como é possível que esteja vivo?
Anzor riu levemente, se aproximando como uma fera rodeando as presas.
— Se queria me ver morto, deveria ter mandado gente mais competente para o trabalho, Johnny boy. — Nikolai podia sentir o veneno descendo pela língua dele enquanto ele dizia aquele apelido que pareceu odioso. — Seus amiguinhos não acreditaram na sua história louca sobre lobisomens. Atiraram em mim com balas normais. Não foi nenhum desafio matá-los. Andrew, Robert e Ben não poderiam dar conta, não importa o quanto você os pagasse.
— Foi você, suponho. Você os matou.
— Pois é. Tive de fazer isso, claro. O que esperava que eu fizesse? Começasse a chorar e implorar para que não me matassem? — Nikolai começou a se sentir como um intruso naquela conversa estranha, ainda sem acreditar que o pai realmente estava vivo. — Agora, admita que fez isso para tirar a Gi de mim.
— Fiz isso para protegê-la.
— Ah-ah. Mentira! — Anzor o rodeava, seus olhos azuis claros brilhando de forma doentia. — Você sempre a quis para si. Quando ela começou a me amar, você não pôde lidar com isso. Aliás, você nunca lida com nada. Não pôde nem amar um filho meu, pelo menos fingir que era seu em respeito a ela.
Anzor apontou para Nikolai, que estava em uma espécie de torpor. Não sabia o que fazer, não sabia o que dizer. Não havia sido preparado para aquilo. Seu pai biológico estava vivo. E... Matara seu irmão por vingança. Só o fato de que Nikolai poderia ter tido uma vida melhor ao lado do pai era o bastante para odiá-lo. O irmão era só um bônus.
— Não o fiz porque achei que ele viria com a sua doença nojenta, sua maldição, a maldição da merda da família! Ainda mais quando Giorgiana veio com a ideia de dar um nome russo ao menino. Não me apeguei a ele porque se ele viesse com a maldição, eu teria de matá-lo.
— E depois, John? Os genes, se ativos, se manifestam por volta dos onze aos treze anos. Qual sua desculpa para depois, quando ele não se transformou? — Anzor instigou.
John pareceu pensar no que ia dizer, hesitando. Nikolai o encarou, esperando a resposta.
— Eu... Eu não soube como! — John o encarou. — Você cresceu tão rápido, garoto. Já tinha sua personalidade toda formada, e era horrivelmente parecido com seu pai. Até nisso. Eu não soube ser um pai para você, e por isso eu peço desculpas. Eu só queria proteger sua mãe e seus irmãos.
Nikolai olhou nos olhos dele, o aroma amargo da tristeza e da decepção preenchendo seu nariz. Naquele momento, ele soube que John dizia a verdade.
— Ah, que comovente. Você não poderá consertar nada agora. E Nikolai sabe disso não é, filho?
Não. — Nikolai grunhiu, apontando o dedo indicador para Anzor. — Não ouse me chamar de filho, Anzor. Por todos esses anos, eu precisei de você. E você sabia o que eu passava, poderia ter interferido.
— Mas esse é meu presente para você, Nikolai! — Anzor insistiu, indo até ele com um sorriso. — Sua chance de vingança! Vingança contra tudo que John lhe fez. Vamos nos vingar dele juntos. Como pai e filho.
Nikolai franziu a testa, se afastando.
— Você é doido. — Ele disse. — Matou meu irmão por vingança? Ele era uma criança, Anzor. Uma criança que não tinha nada a ver com o que John me fazia ou com o que ele fez. Ele tinha uma vida inteira pela frente. E você o matou. Então não venha com essa idiotice de paternidade, por favor. Não irá funcionar.
Anzor ergueu as sobrancelhas, uma risada escapando de seus lábios.
— Você e eu somos mesmo parecidos, garoto.
— Ah, que ótimo. Vocês dois têm a mesma mania irritante de me chamarem de garoto. Eu não sou mais um garoto, porra. E você pode ter certeza de que eu não serei manipulado. — Nikolai disse, um rosnado ecoando no fundo de sua garganta. Seus olhos brilharam, aquele pálido azul elétrico.
Anzor suspirou, parando ao lado de John.
— Um jogo diferente, então. — Ele disse com um tom de voz divertido antes de rasgar a garganta de John com as garras.
Nikolai gritou na mesma hora que o corpo do padrasto estremeceu, conseguindo pegá-lo antes que ele caísse no chão. Ele levantou os olhos para Anzor, que observava a cena com um meio sorriso.
Anzor passou a língua em um dos dedos, provando o sangue de John.
— A vingança realmente é doce. — Ele disse. — Quando quiser... Quando estiver pronto, Nikolai, estarei esperando-o no jardim de sua mãe. A lua cheia está chegando. Tic-tac.
Ele deixou o aposento, fazendo Nikolai desviar sua atenção para John. Uma quantidade absurda de sangue saía pela sua garganta, manchando a roupa inteira dele.
e Maddie precisam de você, droga. Não faça isso. — Ele pediu, apertando o ferimento e tentando estancar o sangue, mesmo que soubesse que era inútil. Ele nunca iria sobreviver a um ferimento tão grave.
— Não... — John balbuciou. — Confie... Nele.
— Eu sei. Eu vejo isso agora. Eu... Entendo. Tudo. — Nikolai concordou enquanto observava a morte levá-lo. John virou os olhos para a porta do aposento, um pequeno sorriso brincou em seus lábios... E ele não se mexeu mais.
Nikolai não soube explicar a dor que sentiu pela morte de John, não depois de tudo que havia passado com ele.
Não podia fazer aquilo agora. Sentiria o pesar depois. Deveria agir.
Ele forçou-se a se levantar, correndo até o alojamento dos empregados e encontrando Alfred.
— Pegue todo mundo. Se escondam. O homem que matou Peter está aqui. — Ele não fez rodeios, temendo ao mesmo tempo que o mordomo tivesse um infarto pela palidez imediata que tomou seu rosto. Mas o senhor apenas concordou com a cabeça. — ?
— Lá em cima. Tome cuidado. — Nikolai concordou com a cabeça e correu, seus pés fazendo barulho enquanto batiam na madeira sólida. Ele entrou de forma afobada, quase arrancando a porta, vendo sentada na penteadeira. A garota, ao vê-lo cheio de sangue e desarrumado, arregalou os olhos e se colocou atrás da cadeira que estava sentada numa tentativa de se proteger.
— O homem que matou Peter está aqui. — Ele disse. — Pegue Maddie e saia daqui. Se esconda com os empregados.
— O ho... Quê? — Ela franziu a testa. — Como saberei se não é alguma tramoia sua?
— Uma o quê? Você está louca? Saia logo daqui, ande!
— Quem foi? Para eu saber quem esperar. — Ela ainda estava cautelosa em relação a ele, o que o irritou ainda mais. Ela não entendia que ele queria ajudá-la?
— Foi meu pai. Ande logo!
Ela arregalou os olhos, empalidecendo.
— Papai nunca...
— Não o seu pai, merda. O meu pai. Ele está vivo. Quer correr? Não irei falar de novo! — Nikolai passou as mãos no rosto. — Preciso que seja forte agora, okay, ? Pegue a Maddie e se esconda. Encontrarei você depois.
hesitou, mas por fim concordou com a cabeça. Pareceu incerta do que fazer por um momento, mas, quando Nikolai foi até ela, abriu os braços e jogou-os em volta de seu pescoço, escondendo seu rosto no peito dele e aspirando o aroma que vinha dali, sentindo-se mais calma.
— Seja o que for, tenha cuidado. Por favor. — Ela disse, apressando os passos e deixando o quarto.
Estava perto do pôr-do-sol. O céu começava a adquirir um tom alaranjado, as nuvens manchadas. Ele não sabia o que fazer. Suas mãos tremiam, assim como suas pernas. Odiava sentir tanto medo, se sentia como um garotinho chorando pela mãe.
Mas ele não tinha mais sua mãe ao seu lado. Não tinha mais ninguém fora e Maddie, não sabia o que iria fazer.
Não soube ao certo quanto tempo passou ali, pensando sobre suas escolhas e tudo que o levou até aquele momento. As imagens e cenas passavam por sua mente, e ele não pôde evitar derramar algumas lágrimas. Era isso. Agora ou nunca.
O céu já estava parcialmente escuro quando ele fez o caminho até o jardim que a mãe cuidara tão fielmente, nos fundos do lugar que um dia ele chamara de lar. O lugar que havia perdido o sentido do termo desde que ela se fora. Anzor o aguardava, sua expressão paciente e até compreensiva demais.
— Quero que me conte tudo que aconteceu. Do início. — Nikolai disse, se encostando em um dos bancos. — Se mentir, saberei.
Anzor riu da ousadia do rapaz, estralando os dedos enquanto organizava os pensamentos.
— Eu amava sua mãe, Nikolai. Você tem que entender isso antes de tudo. Eu e Giorgiana nos amávamos muito, e John nunca aceitou isso. Talvez por tê-la conhecido primeiro, talvez por nunca ter tido nenhum privilégio em nossa família, sendo um mero humano. Ele sempre desprezou nossa espécie. Tudo começou no verão... Aquele verão foi um inferno. Ele tentava a todo custo chamar a atenção dela, mas... Bem, nada funcionava, ela não o queria. Nunca o quis. Antes de ir para a guerra, eu e John brigamos feio. Eu o arranhei no peito, ele tomou aquilo como uma ofensa pessoal e como uma prova concreta de que Giorgiana estava em um perigo constante perto de mim. Então, ele mandou seus amiguinhos Andrew, Ben e Robert para darem um fim em mim. Eles tentaram, Deus sabe que tentaram. Mas... Bem, olhe só para mim. Somos a espécie dominante. Predadores. — Anzor riu levemente, como se as lembranças lhe trouxessem algum tipo de prazer maligno. — Machucado, me escondi por um tempo. Até que encontrei Stephen, e o moldei do jeito que se molda um soldadinho. Ele queria uma vingança contra um primo, e o fiz acreditar que ele havia achado a arma perfeita para isso.
Nikolai sentiu a sensação de um soco no estômago, engolindo em seco. Aquele filho da puta!
— Mas claro, enquanto os planos iam sendo feitos...
— Espere um momento, houve um imenso intervalo de tempo aí. A época da guerra foi antes de eu nascer. O que fez no meio tempo enquanto não pôs em prática esse seu plano deturpado?
Anzor pareceu hesitar, pensando na resposta.
— Você tinha que ter uma idade apropriada para entender, Nikolai. Não é algo que se joga no colo de alguém do nada. Não é uma condição agradável no começo, mas você se acostuma com ela. Como eu tenho certeza de que você irá, ainda mais com meu auxílio.
Nikolai ergueu as sobrancelhas, soltando uma risada debochada.
— Ainda acha mesmo que irei com você? Depois de tudo que...
— Você pode levar conosco. Sei o quanto gosta dela.
Nikolai se calou, ficando surpreso. Ele... Sabia? O quanto ele sabia? O que ele sabia?
— Não posso afirmar que acho isso natural. Ou que permitiria em outras épocas, mas...
— Você não sabe do que está falando.
— Sei mais do que imagina.
Nikolai engoliu em seco. Não devia explicações para aquele homem, mas sentia um comichão dentro de si, a sensação de que precisava urgentemente de um desabafo. Ele fechou os olhos, apertando-os e tentando expulsar aquele sentimento.
— Eu não irei com você, não depois de tudo que você fez. John estava tentando melhorar, Peter era só uma criança. Eu sofri a minha infância toda, você não estava aqui.
— Mas estou agora.
Nikolai soltou um grunhido de frustração, indignado com a dificuldade do homem de entender o que estava acontecendo ali. Não era tão fácil assim!
— Estou tentando compreender aonde que deixei parecer que iria com você. Porque foi um erro imenso, e estou tentando compreender ainda mais a sua insistência. Eu já disse que não irei com você. Só um de nós sairá daqui esta noite. E garantirei que seja eu. — Nikolai disse, já sentindo as mudanças dentro de si. A agora conhecida ansiedade estranha, a excitação. Ele abraçou aqueles sentimentos com prazer, finalmente satisfeito por poder vingar seu irmão e anos de descaso.
Anzor, porém, não se mostrou intimidado. Uma risada irônica deixou seus lábios, fazendo com que Nikolai soltasse um grunhido frustrado. Odiava não ser levado a sério. Iria mostrar a ele.
— Você é teimoso, rapaz. Bem, se não há nada que eu possa fazer para tirar essa ideia idiota dessa sua cabeça, irei encarar meu destino. — Os olhos de Anzor brilharam, aquele tom quase branco. Nikolai pôde ver as garras saindo pelos seus dedos finos, e abraçou o sentimento por completo.
Seus ossos começaram a quebrar, começando pelo pescoço, que entortou de uma maneira bizarra. Ele viu que teria problemas quando percebeu que o pai estava se transformando bem mais rápido que ele, quase na metade do tempo.
Claro. Anzor era bem mais velho que ele. Com certeza já deveria estar acostumado. Ele já podia ver os pelos e as presas gigantescas e, por um instante, Nikolai sentiu medo. Não queria morrer. Faria o possível para continuar vivo. Seu peito doeu quando ele pensou em e Maddie, as duas só teriam a ele agora. Iria sobreviver. E então, todos dariam um jeito.
Os braços de Nikolai se alongaram, e ele sentiu o maxilar começar a se modificar. Anzor, porém, já estava totalmente transformado e foi até ele, dando-lhe um soco tão forte que ele voou uns três metros, caindo pesadamente por cima de um dos vasos que havia ali. Aquela descarga de raiva foi o suficiente para adiantar a vinda da besta. E Nikolai a recebeu de braços abertos.

Depois que deixou o quarto, apreensiva e sem saber direito o que estava acontecendo, foi até o quarto de Maddie, aonde Nancy cuidava dela. A babá lhe lançou um olhar assustado por sua afobação, e não perdeu tempo.
— Temos de sair daqui. O homem que matou Peter. Ele está aqui. — Ela disse, fazendo Nancy levar a mão aos lábios e segui-la.
Quando as duas chegaram na sala, porém, um estrondo abriu as portas da casa, e um homem de cabelos negros e olhos castanhos opacos entrou. Segurava uma arma, o que fez os pelos da nuca de se arrepiarem. Seria ele? Não... Ele não tinha nada a ver com Nikolai, nem de longe. Pelas fotos, o pai de Nikolai era praticamente igual a ele.
— Boa tarde. Martell. É um prazer finalmente conhecê-la. — O homem sorriu para ela, mas ela percebeu pela sua expressão que ele não possuía boas intenções.
— Nancy. Leve Maddie para a casa de Victor. Agora mesmo. — Ela ordenou, tentando aparentar calma e frieza. — Se eu não aparecer em uma hora, chame a polícia.
Nancy não precisou que ela falasse duas vezes. Disparou pela porta com Maddie nos braços sem olhar para trás.
voltou a encarar o homem. Quem era ele?
— Então foi você. — Ela arriscou, na tentativa de obter um nome. — Você matou meu irmão.
Ele riu brevemente, mexendo em uma das estátuas de uma das mesinhas, derrubando-a no chão num riso debochado.
— Bem, ainda não. Na verdade, estou aqui para matar seu outro irmão. Sou Jonathan Dashes. Caço tipinhos que nem ele. Sabe? Presas, pelos. Garras que poderiam rasgar essa sua pele delicada num piscar de olhos. — Ele provocou, observando-a como um leão observa um cervo. — Aonde ele está?
engoliu em seco, se afastando e olhando em volta no intuito de encontrar algo que pudesse servir de arma.
— Não sei do que está falando. — Ela disse por fim, sua voz falhando. Seu corpo inteiro tremia, ela não sabia o que fazer diante de uma ameaça daquelas. Não a delicada .
Mas aquela não existia mais. Não havia mais lugar no mundo para ela. Não depois que sua mãe e seu irmão haviam morrido de formas horrendas, e seu irmão supostamente sendo algo que não deveria existir. Uma nova deveria surgir. Uma que pudesse lidar com tudo aquilo como gente grande, pois era aquilo que era exigido dela naquele momento.
— Estive observando vocês. Vadiazinha suja. Tem um caso com o próprio irmão, não é? Isso é pecado, sabia? — Ele sorriu para ela. — Mas eu sei bem como consertar isso. Eu vou te ajudar. Você verá, isso será melhor para todo mundo.
— Não se aproxime! — Ela gritou, virando o corpo e subindo as escadas depressa. Ouviu a risada de Jonathan e correu mais depressa, indo para um dos quartos e fechando a porta.
— Não faça assim, querida. — Ela ouviu a voz dele muito ao longe, junto com seus passos nas escadas. — Vamos nos divertir um pouco, então. Já ouviu a história dos três porquinhos?
andou até a janela, à procura de alguém que pudesse ajudá-la. Seus olhos se dirigiram ao jardim de sua mãe e ela finalmente pôde ver o irmão.
Mas aquele não era mais Nikolai.
Em seu lugar, algo nascia. Era como se ele estivesse saindo de dentro dele, como se o rasgasse. Ela levou a mão aos lábios ao vislumbrar finalmente a besta.
Aquilo era real. Era verdade. Nikolai estava falando a verdade.
soltou um gemido de pavor, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Ouviu os passos de Jonathan no lado de fora do quarto e correu até o armário, escondendo-se dentro e tapando a boca e o nariz para que não fizesse nenhum som. Aquela não era a hora de chorar. Ela tinha de ser forte.
— Porquinha, porquinha. — Ela ouviu ele cantar. — Abra a porta, porquinha. Não irá se esconder de mim. Você será uma ótima isca para encontrar seu irmãozinho amante.
O ranger da porta fez com que abafasse o choro mordendo fortemente o punho, tentando se acalmar. O brilho da arma iluminou seu rosto, e ela pôde ver pela frestinha do armário ele olhando debaixo da cama.
— Não vai abrir? Então eu vou soprar, e soprar, e soprar...
Ela o viu se aproximar do armário e ergueu os pés, preparando-se. Seria fácil. Um chute no meio da fuça dele faria ele aprender a ser gente e não entrar feito um louco na casa dos outros.
— Achei! — Ele gritou, abrindo a porta. chutou-o com os pés bem em seu nariz, fazendo com que ele soltasse um grito e caísse no chão.
Ela não ficou para ver o que aconteceria. Disparou pelo corredor enquanto escutava ele xingá-la de nomes que fez suas bochechas ruborizarem, sem saber se era pelo esforço ou pelo teor ofensivo das palavras.
Mas havia sido criada para ser uma dama perfeita.
Ela não tinha o costume de correr. Não com aquele vestido e aqueles sapatos idiotas. Assim que chegou à porta de casa, estava ofegante e suada. Lutando para respirar, ela saiu da casa e cometeu o erro de parar, pensando em algum lugar aonde se esconder.
Jonathan havia sido treinado. Correr era a parte mais fácil de seu dia. Ele a alcançou em pouco tempo, puxando-a pelos cabelos e fazendo com que ela encarasse o nariz agora quebrado e ensanguentado.
Ela gritou o mais alto que pôde, tentando se soltar.
— Eu não quero atirar em você, porra! — Jonathan gritou, puxando sua cabeça para trás e encostando o cano da arma em seu pescoço. Quase escorregando por conta do resto da neve no chão, ela tentou chutá-lo, o que fez com que Jonathan estapeasse seu rosto com brutalidade.
E foi aí que ela viu.
Nikolai.
Ou pior, o monstro.
Ele rugiu para eles, fazendo Jonathan pular de susto e mirar em sua cabeça, engatilhando a arma.
NÃO! gritou, puxando o braço dele no momento que ele apertava o gatilho. A bala quase atingiu Nikolai, que se encolheu e rosnou, pulando em cima de Jonathan e ela, derrubando os dois.
gritou, tentando escapar do peso da criatura e percebendo que Jonathan derrubara a arma. Ela a pegou, se levantando e correndo para a floresta. Tinha de se esconder. Não ficou para ver o que Nikolai faria com ele e, para ser sincera, não se importava se ele morresse. A raiva que sentia a impedia de pensar sensatamente, e ela não ligava.
correu, seu vestido enganchando nos galhos, fazendo-a grunhir de frustração. Parou para tirar aquele maldito incômodo, ficando apenas de peças íntimas. Temendo o frio, pegou de volta o casaco que usava, deixando o pesado vestido lá e voltando a correr.
Aquela perda de tempo foi o que piorou sua situação. Um estalo de galhos fez com que ela se virasse para ver o que era, dando de cara com ele. Nikolai. A criatura.

A Besta — Antes

A besta sacudiu o corpo imenso para tirar os restos de pele e sangue que manchavam seus pelos, sentindo seus instintos esquentarem quando vislumbrou a outra que estava à sua frente. Era óbvio para ela que havia um inimigo ali, sentia as vibrações malignas emanando dela, ela que era um pouco maior e mais encorpada. A besta grunhiu, arranhando o focinho da maior e dando-lhe um chute que a fez cair de lado. Ela aproveitou a deixa para cravar os dentes no braço dela, soltando um rugido quando a maior também aproveitou a deixa para mordê-la no ombro.
A besta afastou seu maxilar com uma patada forte, mordendo-a na orelha e conseguindo arrancar um pedaço dela. A besta maior que ela ganiu, pulando em cima dela e mordendo-a na barriga com os dentes afiados. Podia sentir a pele rasgando em seus dentes, fazendo-a ganir e tentar se soltar.
A besta inimiga parecia sorrir, como se dissesse “viu? Sou mais forte, você não vencerá hoje”. Aquilo a atiçou, mas estava muito ferida. Quase não tinha forças para se defender dos ataques. Mancava. Tinha que aproveitar uma chance.
A besta inimiga lançou-se em cima dela, rasgando-lhe o peito com as garras. Ela ganiu, desistindo. Era assim que seria. Era o fim.
Porém, um segundo uivo distraiu-a. A besta inimiga cometeu o erro de uivar de volta.
A besta aproveitou a distração para se levantar, mordendo a inimiga na jugular. Fechou os dentes com a maior força que tinha, tentando ignorar a dor que sentia enquanto a outra besta rasgava todas as partes que podia com as garras. Fez isso até todo o osso e tecido se romperem e a cabeça cair ao chão, voltando à forma humana junto com o corpo.
A besta ergueu da melhor maneira que pôde, uivando para a mãe lua, recebendo a força que precisava para aguentar o resto da noite e poder ir para um local seguro.
Algo, porém, a fez abandonar a ideia.
Um grito humano atraiu sua atenção, fazendo com que ela desse a volta na casa e encontrasse a fonte do barulho. Um humano segurava uma humana de forma brusca, e ela ficou feliz em encontrar alimentos tão facilmente. Se aproximou, rugindo para eles. O humano ergueu o braço. Tinha uma arma. A descarga de raiva deu-lhe o resto da força que ela necessitava quando o homem errou o tiro, fazendo com que ela pulasse em cima dos dois. A humana conseguiu escapar, indo em direção à floresta, e ela lidaria com ela depois. A besta prendeu o homem no chão, percebendo que ele tentava alcançar algo em sua perna. Quando a besta vislumbrou o brilho da adaga, cravou os dentes na costela do homem, fazendo-o gritar de dor.
A besta sentiu o cheiro do medo da humana, sendo atraída por aquilo. Havia mais guardas humanos por lá, o que a fez ter cuidado para não ser vista. Andava devagar, seguindo aquele aroma delicioso. Quando vislumbrou a humana, não teve dúvidas. Correu até ela e pulou, derrubando-a no chão. Ela gritou e virou-se de barriga para cima, encarando-a. Aquilo apenas a deixou com mais raiva.
— Nikolai, não! — Ela gritou, olhando nos olhos da besta.
Ela rugiu, fazendo a humana choramingar. Que audácia encará-la daquela forma! Faria ela aprender.
— Você me conhece, Nikolai! — Ela disse. — Sou eu, !
Ela grunhiu, se aproximando para mordê-la. Mas algo a parou.
Os olhos. Aqueles olhos...

Ela tentou fugir, mas ele tornou a pular em cima dela, derrubando-a no chão e fazendo-a gritar. A arma caiu ao seu lado, inerte.
Ela virou-se de barriga para cima e apoiou-se nos cotovelos, encarando o monstro de frente.
— Nikolai, não! — Ela falou num tom de voz firme, olhando bem em seus olhos. Eles brilhavam e o tom de azul era tão claro que ela mal podia ver a íris.
Ele rugiu, fazendo virar o rosto e voltar a chorar. Não podia deixar o medo travá-la.
— Você me conhece, Nikolai — Ela disse com a voz embargada. — Sou eu. !
Ele levantou os beiços, fazendo-a ter um perfeito vislumbre das presas enormes. As garras negras não ficavam atrás, e a voz de Jonathan voltou à sua mente. “Presas, pelos. Garras que poderiam rasgar essa sua pele delicada num piscar de olhos.”
— Sou eu, Nik. Sou eu. — Ela disse com a voz mais baixa. Ele pareceu parar, seu rosnado diminuindo um pouco, quase como se recebesse uma carícia. Seus olhos brilharam enquanto via os dela, suplicantes.
Uma agitação ali perto fez com que ele olhasse para trás, soltando um rugido que quase fez com que ela pulasse de baixo dele. Mas não foi isso que ela fez. Tentando controlar os soluços, olhou para o lado, estendendo o braço e tocando a arma. Pegou-a, sem saber ao certo o que fazer. Engatilhou como havia visto Jonathan fazer e, ao perceber o barulho da arma, Nikolai voltou a olhar para ela.
Assim que percebeu o que estava acontecendo, ele ergueu os dentes e tentou mordê-la, mas o disparo fez com que ele ganisse. A bala atravessou seu peito, fazendo com que seu corpo despencasse em cima do dela.
gritou ao mesmo tempo que chorava, tentando tirá-lo de cima dela. Mal conseguia respirar, seu corpo inteiro doía. O que ela havia feito?
Mas não havia acabado. A mão peluda com garras apertou seu braço, fazendo com que ela soltasse um grito. Ela percebeu, porém, que a mão voltava ao normal. A pele branca de Nikolai aparecia por debaixo da pele negra do monstro, e logo ela pôde ver o irmão por debaixo daquilo tudo.
Nikolai estava nu. Ela tirou o casaco que usava e cobriu seu corpo para que não sofresse com o frio, mas ele não parecia dar atenção àquilo. Estava desnorteado, respirando com dificuldade. Sangue manchava o resto de neve embaixo dele, criando um belo contraste do vermelho na pureza do branco.
— Me perdoe, Nikolai. — Ela pediu, acariciando o rosto dele. — Eu não sabia o que fazer.
— Você me salvou. — Ele disse com a voz fraca. — E eu a amo ainda mais por isso.
o beijou sem se importar com o sangue que manchava seus lábios, acariciando os cabelos negros. Seu rosto tinha marcas de garras, e seu corpo marcas de mordidas. Ele estava tão machucado.
Os guardas os alcançaram, assim como Jonathan, que mancava.
— Queria ter descoberto meu amor por você antes. Assim estaríamos longe daqui, nada disso teria acontecido. — Ela disse, sem ligar para eles. Nada disso importava naquele momento.
— Eu também. — Nikolai respondeu, seus olhos vislumbrando a grande lua amarela no céu.
pôde ver Victor e Nancy, que carregava Maddie. Ela os afastou com a mão.
— Não a deixe ver isso! Tire-a daqui. Temos de levá-lo para um lugar seguro. — Ela disse, segurando a mão dele. — Você ficará bem.
Ela voltou a encará-lo, mas seus olhos estavam imóveis. Sua boca entreaberta não mais se mexia, seu peito não mais tremia com a respiração falha.
Um grito de dor escapou dos lábios de , fazendo com que ela o abraçasse. Nancy, que também chorava, se afastou com Maddie, mas não antes que pudesse escutar um “Nik” baixinho dos lábios da pequena. Aquilo apenas fez sua dor aumentar, as lágrimas manchando seu rosto.
— Estou grávida. — Ela disse com um sorriso. — Estou carregando seu filho.
Aquela revelação fez com que Victor sentisse a sensação de um soco. Seu coração quebrou-se em vários pedaços, mas ele não podia pensar nele naquele momento. Tinha que tirá-la dali.
sentiu seu toque em seu ombro, um toque mais delicado do que ela merecia. Ele arriscou um sorriso bondoso para ela, mas seus olhos estavam marejados, e ela podia ver a mágoa neles.
— Acabou, . Temos que sair daqui. — Ele pediu. Ela não deu sinais de ter ouvido, os olhos dela encaravam o nada. Era como se ela não estivesse mais ali, e houvesse sobrado apenas uma casca. — , por favor. Vamos.
Ela levantou-se apenas quando ele a puxou para cima, apoiando-a com os braços. Victor não sabia o que fazer. Havia algo para fazer numa situação como aquela?

Jonathan

Ele gemeu de dor, apoiando-se em uma árvore. A dor do nariz não era nada comparada à mordida do infeliz, que queimava como fogo em suas costelas. Mas seu trabalho estava feito, mesmo que indiretamente. Ele estava morto. Observou a garota sendo levada pelo médico e por um breve momento, sentiu um pouco de pena dela. Nunca mais voltaria a ser a mesma. Não presenciando algo daquela magnitude.
— Ora, ora. — A voz arrastada de Wilbur fez com que ele fechasse a cara. — O que temos aqui?
Ele tentou esconder a mordida com o blazer, mas Wilbur puxou seu braço, fazendo-o gemer de dor. Era impossível esconder. O sangue manchava toda sua camisa.
— Darei um jeito. — Jonathan disse, se afastando.
Wilbur riu baixinho.
— Edgar deixou uma carta logo antes de morrer. Ele era presunçoso, mas tenho que admitir que era inteligente. — Wilbur ergueu a arma. — Quer saber o que ela dizia?
— Prefiro ir cuidar desse machucado primeiro, está sangrando um bocado. — Jonathan omitiu a palavra “mordida”, tentando se safar.
— Não. Fique paradinho. — Wilbur avisou. Mark e aquele outro escocês, Paulie, o observavam com deboche claro nos rostos. — Ele dizia na carta que você era um vermezinho ambicioso. E que se algo acontecesse a ele, teria dedinho seu na trama. O que acha disso?
— Por favor, não. — Jonathan pediu de voz baixa.
Wilbur ergueu as sobrancelhas, trocando risinhos com Mark e Paulie.
— Desculpe, não ouvi direito.
— Não me mate.
— Você está implorando?
Jonathan ergueu os olhos, já marejados.
— Por favor, Wilbur. Caramba.
Wilbur riu, balançando a cabeça.
— Vou dizer a eles o quanto você foi corajoso. O quanto pediu para que eu o matasse, para que não se tornasse o que caçava. Não foi esse o seu discursinho?
Jonathan arregalou os olhos. Wilbur mirou a arma em sua cabeça, e a última coisa que ele escutou foi o estampido da arma.

No dia seguinte, Nikolai fora sepultado. sentia como se estivesse em um sonho, como se aquilo não estivesse acontecendo de verdade. Na noite passada, contara toda a história para Victor, de como tinha começado, de como tinha terminado. Não excluiu a parte dos lobisomens, e ainda não sabia se ele planejava jogá-la no manicômio mais próximo. Ela não se importava. Era o mínimo que merecia. Após descobrir que o pai também havia morrido, a tristeza a fechou de vez. Ela nunca mais seria a mesma. Sentia como se toda a esperança do mundo tivesse morrido junto com sua família.
O boato se espalhou rápido pelas ruas de Londres, e todos a olhavam estranho. Com asco. Nojo. Ela havia se tornado uma pária. Todos a tratavam como se ela fosse uma bomba prestes a explodir, e de fato ela achava que era.
Eric, Ethan e Evelyn foram os únicos que ela sentiu sinceridade nas condolências. Evelyn não havia saído do lado dela nem por um minuto, assim como Eric. Ethan havia mantido sua distância, mas ela não esperava nada mais que isso.
Após o enterro, porém, os Ives fecharam a casa e saíram de Londres. Por alguns meses nada soube deles, mas recebeu por fim uma carta saudosa de Evelyn, que a tranquilizava e contava que todos estavam bem e esperavam ansiosos pelo nascimento do bebê de Johanna, o que trouxe uma certa alegria para o dia de . Não havia dito aonde estavam, mas deixara claro que estavam felizes. E ela não queria nada menos que aquilo.
Por meses, também, não viu Victor. Ele também viajara após o enterro, deixando-a sem notícias por um bom tempo. Ela não teve escolha a não ser voltar para a casa de Londres, ficando totalmente ilhada e sem colocar os pés para fora de casa na tentativa de evitar os olhares hostis e os boatos que a seguiam. Sua barriga crescia rápido, o que a dava energia para se cuidar. Não podia perder a última centelha que restava de Nikolai.
Após cinco meses fora, porém, Victor apareceu. Pediu para conversar com ela. E ali ela estava, uma xícara de chá repousando no pires e seu olhar perdido enquanto ele arrumava as palavras certas para falar.
. — Ele começou. — Precisei desses meses para colocar a minha cabeça no lugar e processar tudo que havia acontecido. Não é fácil para eu entender o que de fato se passou...
Ela parou de prestar atenção, bebericando o chá e apreciando o gosto. Sua atenção foi novamente recuperada quando ela escutou a palavra “casamento”.
— Casar? — Ela perguntou, a voz seca por falta de uso. — Não irei me casar com ninguém, Victor.
— Eu tenho condições de dar do bom e do melhor para você e para seu filho, . Como eu disse, não consigo compreender o que de fato se passou nesse último ano, mas estou disposto a esquecer se puder me dar uma chance. Tudo isso me marcou horrivelmente. Não conseguirei me casar com ninguém que não seja você. — Ele insistiu.
Ela cogitou a ideia, pensando no filho que crescia em sua barriga. O dinheiro estava acabando, e ela não fazia ideia de como gerir uma fábrica do tamanho da de seu pai. Não iria viver de esmolas na rua, não é? Os empregados haviam ido embora. Os únicos que sobraram foram Alfred, Nancy e a cozinheira, Myldred, que havia ficado praticamente por caridade.
— Não haverá amor entre nós. — Ela disse. — Quer mesmo ser condenado a uma vida infeliz?
— É o mais cômodo a se fazer. Não haverá amor para mim de qualquer forma, não depois de tudo isso. — Ele respondeu. — Você já me condenou a uma vida infeliz.
Ela tentou sentir algo diante daquela frase, mas não sentiu nada a não ser o familiar vazio que sentia todos os dias. Ela aceitou a ideia, porém. Victor determinou que casariam em um mês e se mudariam de Londres. Viveriam no campo. E ela achou a melhor ideia que ele poderia ter.
Alfred e Nancy foram com eles, junto com alguns empregados de Victor. Viviam em uma bela casa perto de um lago, como nos romances da época. Mas não havia espaço para romances. Os dois eram apenas cordiais. Nada mais que bom dia, boa tarde e boa noite. Só após o nascimento dos gêmeos — sim, eram gêmeos, um menino e uma menina — que a relação dos dois melhorou um pouco e sentiu um pouco de alegria aquecer seu peito. Victor, logicamente, disse que ela escolheria os nomes. Algumas pesquisas e ela logo escolheu os perfeitos. Allyona, como sua mãe batizaria Nikolai se ele fosse uma menina, e Aleksei, um nome que havia lido em um romance russo e achado muito belo.
Victor não poderia ter se mostrado um presente maior. Tratava as crianças como se fossem dele, e aquilo era mais do que ela merecia. A vida começava a lhe parecer quase normal novamente, mesmo o quão assombroso era os gêmeos parecerem tanto com o pai. Os mesmos olhos. Os mesmos cabelos. Os mesmos lábios. Quase não herdaram nada dela, e aquele era o maior castigo que ela poderia ter recebido. Aquilo não afetou o amor que ela sentia por eles, porém. Era o sentimento mais real e puro que ela sentia em tempos.



Epílogo

Dez anos após a morte de Nikolai não diminuíram a dor que sentia toda vez que se lembrava dele. Maddie também havia crescido, dois anos mais velha que os gêmeos e muito mais madura do que ela jamais havia sido naquela idade. O novo século havia chegado, e com ele muitas mudanças. não gostava de acompanhá-las, porém. A vida no campo se mostrara muito mais tranquila e menos exigente.
Ela observou Madeleine rabiscar o caderno de desenhos que ela tanto amava, seus desenhos eram belos e ao mesmo tempo confusos, quase como a essência da menina.
— Sabia que tenho uma amiga em Paris que tem um ateliê? — Ela falou num tom de voz alto para abafar o som das brincadeiras dos gêmeos com o irmão mais novo, John. — Acho que ela gostaria de receber você como uma aprendiz. O que acha de passar uns tempos lá?
Maddie ergueu as sobrancelhas, o belo sorriso marca registrada dos Martell preenchendo seu rosto.
— Está falando sério?
— Seríssimo?
Maddie soltou um gritinho, tapando o rosto com as mãos.
— Isso seria maravilhoso, ? Meu deus. — Ela tentou se acalmar, fazendo rir. — Você é a melhor irmã do mundo.
— Eu me esforço. — Ela riu sem graça, bagunçando o cabelo da mais nova. Foi então que percebeu o rumo que os esboços tomavam. — O que está desenhando?
— Ah. — Maddie corou brevemente, observando o desenho. — É só um sonho que eu tenho sempre.
reconheceu as formas bruscas de um lobo, sentindo um frio estranho na barriga. Uma vertigem fez com que ela derrubasse a xícara em suas mãos, assustando Maddie, que a segurou pelos ombros.
— O que deu em você? Está bem? — Ela perguntou. — Vamos lá para fora, você precisa pegar um ar. Fica muito tempo dentro dessa casa. Andando, crianças! Vamos todos lá para fora.
Allyona, Aleksei e John seguiram elas até a parte de fora da casa, correndo até o jardim. Maddie, que já se achava muito adulta para brincar com as crianças, apenas ficou tentando acalmar a irmã, tentando impedir que ela entrasse num estado catatônico.
, fala comigo. Por favor. — Ela pediu, observando-a. — O que houve?
— Nada. — respondeu ofegante. — Um dia irei te contar uma história.
Maddie sorriu para ela, mas permaneceu séria. Nunca ficaria livre do espectro do monstro. Ainda havia a chance de suas crianças serem como ele, pelo que Evelyn havia contado.
Era um fardo que ela carregaria para sempre.



FIM!

Nota da Autora: Terminamos aqui a nossa história. Tenho apenas que agradecer a quem chegou até aqui, quem não desistiu da história, quem lê o que eu escrevo. Seus comentários foram muito importantes para mim. Com Bad Moon Rising eu ri, chorei, me apeguei aos personagens. É difícil dar adeus ao fim de uma era, é difícil dar adeus aos Ives, ao Nik, à Arya, à Maddie. Mas eles sempre farão parte de mim. Assim como cada um de vocês que chegaram até aqui. Obrigada, gente! Eu amo vocês.
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Nota da Beta: Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.