Batom Vermelho

Autora: Andy R. | Beta: Babs



Capítulos:
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1Rosa

Olhando-me no espelho, sinto como se eu fosse a garota mais feliz e bonita do mundo. Meus cabelos estão até mais sedosos esta manhã. Minha pele parece radiante. Os olhos maiores que o normal, mesmo sem a máscara para cílios ou maquiagem.
Não sei o que acontece nesses momentos da minha vida, mas às vezes me sinto deslumbrante. E então eu me sinto feia e instável. Até me sentir bem de novo. É como um círculo vicioso que nunca, jamais, poderei entender. Como é possível que, uma hora, eu me ame tanto e, depois, eu só fique desejando ter nascido com um pouco dos lábios da Angelina Jolie?
Minha mãe diz que isso faz parte da essência de qualquer mulher. Que eu e minha TPM somos um par realmente cruel quando juntas, mas eu não acredito nisso. É pura bobagem. Parece aquele papo que toda mãe recita quanto vê que a sua preciosa filhinha está sendo puramente dramática mesmo que você saiba que não é nada disso.
Pensando bem, acredito que, muitas vezes, não nos achamos bonitas o suficiente. Mas tudo bem. Chegarão aqueles dias em que seremos a própria Beyoncé de salto 15. Esses dias fazem tudo valer a pena, não fazem? Afinal, ninguém nunca consegue se amar 24 horas por dia, todos os dias da semana. Sempre há uma insegurança, um defeito. Sempre há aqueles dias em que não importa o que te digam, você simplesmente não consegue se olhar no espelho e gostar do que vê.
E, bem, também há aqueles dias em que não conseguimos parar de olhar para ele.
Como hoje! É até estranho, mas não me incomodo com aquela celulite do lado direito da minha coxa. Coloco uma saia que vai acima dos joelhos e sei que se alguém se esforçar, encontrará ela por ali. Mas eu não ligo. Meu cabelo está realmente bonito hoje, então permanecerei de bom humor. É assim que funciona.
Termino de passar o batom escolhido para o dia. É o Rosa. Eu amo esse tom, o comprei há alguns anos em uma feira na Inglaterra e sempre procuro outro igual para o caso desse acabar. Sou o tipo de pessoa que começa a imaginar bem cedo o quão triste será o dia em que eu não poderei mais combinar o meu Rosa preferido com a cor da minha meia. Isso acontece mais do que eu gostaria, porque amo cores de batom. Cada uma delas define um estado de humor diferente da minha personalidade: o Rosa é confiança, por exemplo. Amor próprio. Satisfação. Eu o uso quando estou me sentindo assim.
Termino de limpar os borrões cor-de-rosa ao redor dos meus lábios e pego a minha mochila sobre o puff ao lado da penteadeira. Desço as escadas saltitante, feliz, tomando cuidado para que os meus saltos não me traiam de novo porque os degraus são largos e escorregadios, e uma vez eu caí de bunda no chão.
Desde então, todos os dias encontro Amélia, a empregada, me esperando com um copo de café expresso nas mãos, bem ao fim da escada. Eu não sei se ela acha que vou cair de novo ou se apenas gosta de me dar broncas por dormir demais e passar do horário, mas mesmo assim sou grata.
— Bom dia, Amy — estalo um beijo em sua bochecha. — Acho que estou atrasada.
— De novo — ela ressalta, entregando-me um copo. Sinto que desaprova o meu costume de sair sem tomar o café da manhã dos campeões, mas não posso comer bacon e panquecas se quero continuar vestindo 36.
— Até mais — é o meu jeito de fugir da bronca, passando por ela e saindo da casa para encontrar o carro e o motorista me esperando ao fim das escadas da varanda.
É engraçado como nessa casa sempre tem alguém me esperando.
Estou prestes a entrar no carro quando um barulho desagradável e conhecido corta o ar. Ele vem se intensificando como uma onda de azar, cortando totalmente a minha vibe feliz e espontânea. O que só piora quando o som toma a forma de uma velha e suja moto que, juro, nunca deve ter visto a sombra de um jato de água.
— Bom dia, coração — diz o garoto que estaciona logo atrás da minha carona.
Não preciso nem esperá-lo tirar o capacete para saber que é , o melhor amigo do meu irmão e eterno terror da minha vida. Não que ele não seja bonito, mas é uma peste! Como uma criança. Por isso eu prefiro manter distância. Não tenho tempo para garotos do colegial.
Reviro os olhos. Enquanto isso, desce da moto e sobe alguns degraus até estar ao meu lado. Ele sabe que eu odeio quando me chama de qualquer apelido, por isso sempre o faz.
— Olá, verme — respondo, sorrindo.
— Acordou de bom humor! — nota. — Nem me deu um tapa de bom dia! Estamos avançando no nosso relacionamento, não estamos?
— Oh! É mesmo! — digo, empurrando meu copo de café contra o seu peito para que ele segure. o faz por instinto e eu aproveito a mão livre para lhe dar um tapa no braço. — Agora, sim. Seu dia está completo.
Ele apenas sorri, imbatível, e toma um gole do meu café. Faço uma cara feia.
— Não coloque os seus lábios sujos no meu copo!
sorri mais abertamente e então passa a língua por toda a extensão do copo, me provocando e sabendo que não vou querer beber naquilo depois. Eu apenas faço um som de nojo com a boca, reviro os olhos e desço os degraus para entrar no carro e deixá-lo falando sozinho.
Babaca.
— Quero que pare no Starbucks no caminho — informo o motorista. — Um porco roubou o meu café.
Ao falar isso, olho para com nojo e ele apenas levanta o copo como se estivesse fazendo um brinde. Então sorri mais ainda e diz um "te vejo na escola" feito apenas para me irritar, e o carro sai.
Fecho o vidro para aproveitar melhor o ar condicionado, revirando os olhos mais uma vez e pegando o meu celular no bolso externo da minha mochila. Há três mensagens de Laura, minha melhor amiga, e várias notificações do Instagram e do Facebook. O twitter também aparece, mas tenho uma relação de amor e ódio com ele. Fico dias sem entrar, às vezes meses. Quando volto, twitto algo a cada dez segundos. Depois sumo de novo.
Aproveito o meu dia de deslumbramento para tirar algumas selfies e atualizar as minhas redes sociais. Gosto muito de manter meus seguidores informados, mesmo que meu irmão diga que isso é prejudicial à imagem da família. Eu discordo. Não há nada de errado em ostentar meus saltos altos de grife quando quero, muito menos aproveitar a paisagem e iluminação da minha sacada para fazer fotos boas. Meu irmão é cauteloso e paranóico. Vive achando que entraremos em um escândalo nacional por qualquer coisa.
Ah, sim! Mamãe é muito famosa. Esse é o motivo da preocupação do meu irmão. Ele preza pelo trabalho dela como estilista. Diz que, no mundo da moda, qualquer coisa pode ser um escândalo. Eu já acredito que qualquer coisa, em qualquer mundo, pode ser um escândalo.
O carro para em frente à casa de Laura, e eu guardo o celular para ver a minha melhor amiga deslizar sobre a varanda de sua casa e se juntar a mim, no banco de trás. Sempre dou carona a ela. Laura não tem um motorista e sua mãe a fazia ir de ônibus antes de me conhecer. Hoje, faço questão de carregá-la comigo.
— Por favor, me diga que você vai à festa do Eduardo — ela pede. — Recebi o convite pelo Facebook e marquei presença no grupo. Todo mundo vai!
— Ah, amiga, não sei. — faço bico. — O meu irmão quer ir e é um saco ficar em qualquer lugar perto dele. Não tem diversão!
— O Edward vai estar lá, sabe? Você poderia aproveitar a deixa...
Não consigo evitar os pulinhos que dou quando escuto aquela frase. Deus sabe como tenho um precipício por Edward, o garoto novo da sala ao lado. Ele é uma gracinha e desde que chegou tenho agido como uma psicopata. O sigo pelos corredores e sempre dou um jeito de puxar assunto com ele, nem que seja para perguntar a hora.
O pensamento de vê-lo na festa certamente me anima, mas então, como um choque, meu corpo desacelera e eu me jogo contra o banco do carro.
— O que foi? — pergunta Laura.
— Meu irmão! Ele vai ficar no meu pé como um cachorrinho. Não terei um minuto a sós com Edward.
Laura parece entender e também se joga contra o banco. Nós duas estamos a derrota em pessoa enquanto o carro passa pelas ruas do bairro de forma tranquila. Eu só queria ser uma adolescente normal, para variar.
— E se... — Laura começa, pulando e arrumando a postura. Eu continuo derrotada, olhando-a. — E se o seu irmão tivesse uma companhia?
— O quê?
— Uma namorada ou uma ficante, quem sabe. Assim ele não teria tempo para importunar você.
— Hm... — penso, parece uma ideia maravilhosa! Meu irmãozinho não seria tão fascinado pelas minhas escolhas se tivesse que se preocupar com as suas próprias.
Mas há um problema.
— Ele não gosta de ninguém — digo, decepcionada. — Como faremos isso se ele não demonstra interesse por ninguém?
— Ah, , você não pode ser tão ingênua, não é? — pergunta. — É claro que o seu irmão se interessa por alguém. É impossível não gostar de nenhuma garota do nosso colégio. Você só não sabe disso porque é irmã dele e ele nunca te contaria.
— E como vou descobrir isso?!
Ela sorri. Seu sorriso diabólico de planos infalíveis. E eu me levanto, batendo palminhas, porque os planos de Laura são os melhores e nunca falham.
— Bem, querida, sempre há uma pessoa no mundo que com certeza sabe esse tipo de coisa.
— E quem é? — perguntou com expectativa.
— O melhor amigo!

...

Passo a maior parte do meu tempo na escola tentando prestar atenção em cada movimento do meu irmão. Às vezes me distraio com Edward, mas é justificável porque hoje ele está usando uma blusa de mangas compridas que deixam os seus olhos muito mais verdes. Isso é maravilhoso, porque estou usando brincos verdes e sinto que alguma força divina escolheu nos fazer combinar.
Mas a questão é que Mike, meu irmão, não parece demonstrar interesse em garota nenhuma. Ele passa o intervalo todo com os seus colegas em uma mesa no canto do refeitório, e eu juro que é deprimente o modo como todos parecem idiotas e imaturos demais.
Menos Edward, é claro.
Então, quando o sinal toca, aproveito que e Mike se separam, para correr até o melhor amigo do meu irmão e segui-lo enquanto ele se esquiva pelas laterais do pátio. Eu não sei para onde ele vai, mas preciso perguntar algo muito importante, então não paro até que ele chegue na parte debaixo da arquibancada do campo de futebol. Aqui ele puxa um cigarro do bolso de dentro da sua jaqueta e o acende.
Eu fico escondida atrás de um pilar, observando-o. Por algum motivo, estou curiosa sobre o que ele veio fazer aqui. Não é um lugar muito agradável. Se ele queria fumar, poderia ter escolhido qualquer outro canto da escola. Mas ele veio para cá, então deve ter algo de importante.
E então eu descubro o que é. E é tão óbvio que reviro os olhos e me pergunto por qual motivo não imaginei antes. É claro que ele escolheu a parte debaixo da arquibancada, mas não foi para fumar. Foi para se encontrar com Nancy, uma loira do terceiro ano que vive reclamando da quantidade de sal das batatas da cantina.
Ela aparece do lado oposto ao meu, e eu me sinto muito bem ao saber da fofoca em primeira mão: Nancy, a garota perfeita e líder de torcida, se encontrando com , o desajustado da moto suja e da jaqueta de couro estilosa.
Laura ia adorar saber disso.
Eu, por outro lado, começo a adorar bem menos a situação quando puxa Nancy pela cintura e a prensa entre o seu corpo e uma das colunas. Ele joga o cigarro no chão e a beija de uma maneira tão erótica que fico constrangida. O limite é ultrapassado assim que ele coloca a mão por baixo de sua saia. Então eu sinto que preciso me retirar e dou passos lentos e cuidados para trás, tomando todo o cuidado para não...
Piso em uma folha. O estalo ecoa pelo local silencioso e consegue se sobressair acima dos gemidos eróticos de Nancy, que parece encontrar o paraíso com a mão de entre suas pernas.
Eu seguro a respiração e me escondo atrás de uma viga, abaixando-me. Fecho os olhos e me encolho enquanto os escuto parar. Nancy fica preocupada com o barulho, mas diz que não foi nada. Por fim, o sexto sentido da garota fala mais alto e eu escuto passos se afastando, esmagando folhas e tornando-se cada vez mais baixos.
Suspiro aliviada. Não sei por qual motivo fiquei tensa, mas sinto que seria constrangedor demais se algum dos dois me visse parada aqui que nem uma stalker maluca.
Quando o susto passa e as batidas do meu coração ficam estáveis, decido abrir os olhos e voltar para a aula. Mas ao invés disso, levo outro susto e caio no chão antes mesmo de conseguir me levantar por completo. Isso é muito constrangedor, porque estou de saia e não preservo nada da minha classe quando permaneço no chão, sentada, respirando com dificuldade e com as pernas abertas.
Mas não me importo com isso, porque nesse momento procuro um jeito de olhar para sem deixar meu rosto corar. E eu sei que vai ser difícil, afinal ele está parado com muita convicção na minha frente, com os braços cruzados e os olhos pregados em mim.
— Você é uma empata foda — diz, oferecendo a mão para me ajudar a levantar.
Lembro que há poucos segundos elas estavam na bunda de Nancy, então recuso e me levanto sozinha, limpando as folhas da minha saia e erguendo o nariz o mais alto que posso. Se eu fingir que está tudo bem, então estará.
— E você é um pervertido. Estamos em uma escola!
— Estamos embaixo da arquibancada do campo de futebol. Achei que você soubesse pra que serve esse lugar.
— Tenho certeza de que os arquitetos e planejadores que construíram esse lugar não marcaram "lugar onde alunos podem foder" sobre o projeto da arquibancada!
Ele sorri. Eu não entendo.
— Tudo bem, então. Se quer ser ingênua e dissimulada, eu não vou perguntar por qual motivo está aqui.
Me sinto ofendida. Ele me chamou de ingênua e dissimulada?
— E se... — procuro argumentos, cruzando os braços. — E se eu estou aqui porque vou me encontrar com uma pessoa?
cai na gargalhada. É histérica e genuína demais para o meu gosto, o que me deixa muito mais ofendida. Espero por alguns segundos, mas ele não para, e eu tento não soar tão incomodada ao dizer:
— O quê? Acha que não posso vir com um garoto aqui? — pergunto, e então me passa pela cabeça que ele pode achar que eu não consigo ficar com ninguém. — Acha que ninguém iria querer?
Ele para de rir, limpando uma lágrima do canto do olho direito. Então, enquanto controla a respiração, olha para mim e tenta se manter sério ao dizer:
— Não, muito pelo contrário. Acho que muitos garotos sonham em vir aqui com você.
— Então qual é a graça?
— Bem, nenhum deles se arriscaria. Você causa medo neles.
Abro a boca e a fecho algumas vezes enquanto tento entender o significado das suas palavras. parece estar sendo sincero e isso me incomoda.
— Eu sou legal com todo mundo! — me defendo.
— Não é esse tipo de medo, — explica. — É que você é muito bonita, muito rica e muito popular. Qualquer garoto tem medo de tentar qualquer coisa com você e ser rejeitado, humilhado ou difamado.
— Isso é um absurdo!
— Ah, é? Então me diga: quantos garotos da sua sala te chamaram para sair esse ano?
Paro para pensar. Meu cérebro dá um nó. Não consigo lembrar de ninguém da minha sala, especificamente.
— Viu? — ele se gaba. — Todos têm medo que você os rejeite. Todos acham que não são bons o suficiente. Você é tão perfeita que os assusta.
Oh, céus! Eu nunca tinha parado para pensar nisso. Só agora percebo que todos os caras com quem saí eram do terceiro ano, ou eram mais velhos, de fora. Ninguém da minha sala nunca se arriscou a falar comigo. Me sinto um monstro.
— Você não tem medo de mim — observo.
— Não estou tentando transar com você, . Não preciso ter medo de ser rejeitado. Até porque... Você não me rejeitaria.
Reviro os olhos.
— Convencido.
— Convencido? — repete, achando graça. — Nós dois sabemos que sou muito melhor do que qualquer um daqueles seus fantoches do terceiro ano. Até mesmo dos seus experimentos de faculdade. É um fato.
Eu tenho certeza de que ele está falando sobre sexo, então me limito a cruzar os braços e fingir indiferença. não precisa saber que nunca dormi com nenhum cara com quem saí. Isso só servirá para alimentar o ego patético dele. Deixe-o pensar que tenho experiência com homens mais velhos e da minha idade. Talvez assim pare de ser tão boçal.
— Sabe o que dizem sobre os que muito falam, não é? — o provoco.
parece surpreso com a resposta, mas sorri. E então se aproxima. Dois passos. E eu me afasto até bater com a viga contra as minhas costas.
Ele está muito perto. Tão perto que posso sentir o cheiro de nicotina e canela em seu hálito.
— Eu poderia te provar — diz. — Mas há um código que me impede de foder a irmã do meu melhor amigo.
Fico surpresa por um instante, mas lhe dou um tapa.
— E também há o código que diz que eu não estou a fim de transar com você, querido. Abaixa essa bola.
Ele não parece ofendido e até ri da minha resposta, afastando-se e dando de ombros.
— Tudo bem, então. Se não ia encontrar ninguém e não quer transar comigo, por que veio até aqui? — pergunta.
Ah, sim! Eu tinha me esquecido. Toda essa coisa de tensão sexual e discussão sobre egocentrismo me fez esquecer de que eu tenho um motivo para passar por esse vexame. E é um bom.
— Preciso da sua ajuda — digo.
Ele ergue as sobrancelhas.
— Também há um código que me proíbe de vender drogas para você.
— Ah, cale a boca! — reviro os olhos. — Eu preciso que me ajude a encontrar uma namorada para o meu irmão.
primeiramente ri, mas depois percebe que não é uma piada. E então eu explico tudo para ele, falando até mesmo de Edward, e quando termino ele tem uma expressão pensativa no rosto.
— Deus, você é mesmo mimada — diz.
— Só quero uma vida social.
— O que eu ganho com isso?
Não havia pensado nisso, mas deveria ter. nunca fez nada de graça, desde que nos conhecemos. E olha que eu o conheci aos meus seis anos de idade. Faz muito tempo.
— Eu não sei, o que você quer?
O garoto parece pensar um pouco. Então sorri mais um de seus sorrisos já característicos e diz:
— Primeiro, quero que me diga uma coisa: — e juro que, quando completa a frase, ele parece o diabo em pessoa, — Quanto tempo demora da sua casa até a escola? Mas não de carro. A pé.



2Coral

Por algum motivo que não sei explicar, hoje não me sinto tão bem ou deslumbrante quanto ontem. Muito pelo contrário, quando levanto da cama é como se todos os meus músculos reclamassem pela derrota interna do dia. Parece que fui atropelada por um caminhão e a minha dignidade e disposição ficaram presas no para-choque quando ele foi embora. Um caos.
Sei que são apenas seis e meia da manhã e que pessoas normais geralmente não ficam felizes por acordar cedo, mas eu realmente queria que isso acontecesse comigo. Seria bem mais fácil me arrumar, tomar banho e sair de casa se o meu humor florescesse como o humor daquelas princesas dos filmes da Disney. Imagina só? Levantar da cama ao som dos cantos dos pássaros enquanto esquilos separam a roupa do dia e borboletas arrumam o meu cabelo...
Eu preciso assistir Branca de Neve de novo.
Mas, voltando ao assunto, hoje eu não estou me sentindo deslumbrante. Não como ontem, pelo menos, então eu me esgueiro até a penteadeira do meu quarto e abro a minha caixa de batons com extrema preguiça, olhando para a minha coleção delicadamente enfileirada dentro do compartimento. Escolho um que combine com o meu estado de espírito e encaro o meu reflexo no espelho.
Argh, eu estou com olheiras! E meus lábios estão trincados. Meus cabelos estão ressecados e os meus olhos parecem arder. Isso sem falar da minha cara inchada de sono que, eu juro, não parece a mesma que vi no espelho ontem. Eu estava tão bonita! Ainda estou, mas de um jeito diferente. Parece muito normal.
Mais uma vez a bipolaridade do meu corpo me assusta. Não consigo me olhar no espelho sem pensar em como um pássaro poderia facilmente confundir o meu cabelo com um ninho, então vou para o banheiro, tomo banho e me troco. Passo o batom coral porque estou me sentindo mal, mas não tão deprimida a ponto de querer me enforcar com a cortina do quarto. Essa é a cor que eu uso quando meu estado de espírito é inconstante e bipolar. Acho que a cor coral representa muito bem isso porque, apesar de eu achar que ela se parece muito com o rosa, Laura diz que também pode ser um tipo de vermelho. Tcharam! Bipolar igual a mim.
Desço as escadas já pronta e vejo Amélia me esperando na ponta dos degraus com o meu copo de café expresso nas mãos. Pego-o e agradeço, mas não sem antes receber o seu olhar de reprovação sobre o meu atraso. Típico. Mas é não minha culpa se os meus problemas existenciais adolescentes me deixaram na cama até às duas da manhã.
— Eu estava estudando — me defendo. Ela parece uma usurpadora maluca quando me olha assim.
— Mocinha, eu chequei a última hora que você entrou no zap-zap — ela diz e eu faço uma careta diante da sua última palavra.
— Eu tinha coisas para fazer! — respondo. — Estava conversando com Laura sobre uma pesquisa muito importante!
Levanto o queixo e passo por ela, fazendo a minha maior pose de garota esforçada e madura. Amy apenas balança a cabeça e me deixa sair. Eu continuo andando, pensando se tentar descobrir o signo de Edward através do Facebook pode ser um tipo de pesquisa, mas não me deixo focar muito nisso. Preciso ir para a escola e pedir para Laura fazer o mapa astral da minha aposta amorosa antes que eu me apegue muito. Não quero descobrir tarde demais que ele é capricorniano!
Quando saio de casa, a luz do sol bate contra o meu rosto e eu sorrio, um pouco mais animada. O dia está realmente bonito e eu por um minuto penso que posso levar adiante. Sem mais mau humor, sem a vontade de me trancar no box do banheiro e ficar lá para sempre. Um dia ruim é só um dia ruim!
— Olá, coração.
Pulo de susto, quase derrubando café na minha camiseta. Hoje é terça e eu sempre gosto de usar branco nas terças, o que deixa tudo ainda mais catastrófico e um pouco dramático.
— Eu te odeio — resmungo ao ouvir rir. — Por que não diz oi como uma pessoa normal?
Ele franze o cenho.
— Como pessoas normais dizem oi?
— "Oi"!
— Oi.
Reviro os olhos. Isso é inútil. continua com o seu sorriso debochado no canto dos lábios, achando graça do meu mau humor.
Eu costumo ser uma pessoa vibrante e alegre quando estou longe dele. Mas agora pareço uma velha chata, resmungando toda vez que ele faz algo que me irrita.
— Está pronta? — pergunta.
Olho para ele.
— Você estava falando sério? — praticamente suplico, fazendo beicinho com a minha melhor cara de quem consegue tudo o que quer.
Mas apenas faz que sim com a cabeça e eu bufo. Ontem, quando fechamos um acordo de ajuda mútua, concordei com uma condição que estabeleceu para me auxiliar a encontrar uma namorada para o meu irmão: ele, por algum motivo, quer que eu vá andando para a escola ao seu lado todos os dias até a festa de Eduardo acontecer.
Ridículo.
— Seríssimo — responde.
Dou de ombros, tomando um último gole do meu café. Pelo menos não vou precisar andar naquele pedaço de lata velha que ele chama de moto. Posso continuar nos meus saltos resistentes e confortáveis, sem precisar me sujar, e andar as três quadras até a escola com bastante calma e classe.
Pego os óculos escuros dentro da minha bolsa, protegendo os meus olhos de e do sol da manhã. Feito isso, desço os primeiros degraus da maneira mais formosa possível e escuto o garoto rir às minhas costas. Não ligo. Ele não faz a mínima ideia do que é andar de saltos altos. É um brutamontes. Um passo em falso e posso sair rolando que nem uma bolinha.
Quando estou no chão ergo o rosto e arrumo a mochila no ombro esquerdo. começa a andar ao meu lado. Caminhamos em silêncio pelo jardim da mansão dos meus pais até que chegamos ao portão. Paro em frente a ele e fico alguns segundos sem fazer nada.
— O que foi? — pergunta.
— Hm... Como saímos daqui?
Ele ri. Outro riso como o de ontem, quando pareceu debochar de mim a respeito de eu ter ou não pretendentes. Eu o fuzilo com o olhar, mas não vê porque estou usando óculos escuros. Então crispo os lábios e ponho as mãos na cintura.
— Contei alguma piada? — pergunto.
Você é uma piada.
— Vá para o inferno.
— Eu vou, mas você fica, afinal não sabe sair da própria casa!
Bufo, extremamente irritada. Não acordei no meu melhor humor hoje. Estou usando o batom coral, ele não se toca?!
— Tudo bem, eu me viro — digo.
Me aproximo do portão e observo as linhas que o metal desenha. Posso ver a rua do outro lado perfeitamente pois é um modelo aberto, mas não sei como passar por ele. Sempre saio de carro, nunca precisei andar ou abrir o portão por conta própria. , por outro lado, vem todos os dias para que ele e meu irmão possam chegar juntos na escola, assim como eu sempre faço com Laura. Por que ele simplesmente não faz o que sempre faz e nós vamos embora?
Ah, sim. Porque ele é um idiota! Prefere nos atrasar apenas para se divertir um pouco. Bem, se ele acha que vou me humilhar, está enganado. Sei perfeitamente o que fazer!
— Vamos pular — digo.
Ele arregala os olhos.
— O quê?
— Pular, oras! Não é tão alto.
...
— Você quer sair, não quer?
— Sim, mas existe uma coisa chamada controle remoto.
— Eu não me importo. Nós vamos pular.
Com isso me aproximo do portão e jogo a minha mochila sobre ele. Ouço-a cair do outro lado, aterrissando sobre a rua de paralelepípedo em um barulho oco. Fico feliz porque parece que nada ali dentro quebrou. Eu realmente temi pelos meus batons da Mac.
Olho para e faço um sinal para que ele vá.
— Primeiro as damas — diz, gesticulando.
Eu reviro os olhos. Covarde.
Sei que você deve estar pensando que essa não é uma boa ideia, mas pense bem: eu teria que voltar até a casa grande para pegar o tal do controle remoto. Isso custaria tempo. Chegaríamos atrasados — o que não pode acontecer, afinal reservei os primeiros minutos antes da aula para discutir com Laura as prioridades do nosso plano infalível. Além do mais, eu não sei onde esse controle fica e o carro que me levaria para a escola já sumiu da frente da casa. Eu ficaria rodando pelo terreno como uma barata tonta e apenas se divertiria mais com o quanto eu estaria perdida.
Aproximo-me do portão e respiro fundo. Dou pulinhos. Alongo os braços. ri às minhas costas, mas eu apenas o olho por cima dos ombros e o desafio a escalar esse portão tão bem quanto eu. Ele parece entender, porque levanta os braços como se declarasse derrota e dá dois passos para trás.
Estalo os dedos e me aproximo do portão. Seguro uma das barras com as duas mãos e as pressiono firmemente. Então levanto um pé e o coloco no vão mais baixo do desenho. Subo um pouco, e mais um pouco, e quando percebo as minhas mãos estão cheirando à ferro e eu estou no topo do portão, sentada sobre o seu limite e olhando com um sorriso vitorioso no rosto.
— Você venceu — diz ele, e eu pisco um olho. — Mas se esqueceu de uma coisa muito importante.
Franzo o cenho, confusa. Eu já ganhei. Já estou aqui, triunfante. O que ele acha que vai fazer para mudar isso?
— O quê? — pergunto, entediada.
sorri, mas não é por diversão. Parece um daqueles sorrisos diabólicos que crianças travessas dão em filmes de fim da tarde. Eu fico confusa e o observo levar uma das mãos ao bolso interno de sua jaqueta, retirando um objeto branco e pequeno dali de dentro.
Estreito os olhos, curvando o corpo. Reconheço que é o controle remoto do portão apenas quando ele aperta um botão e diz:
— Você deveria se perguntar como consigo entrar aqui todas as manhãs.
Quando fecha a boca sinto um baque que me faz curvar o tronco sobre o portão, agarrando-me ao ferro e prensando as minhas coxas ao seu redor como se a minha vida dependesse disso. Olho para e ele ri enquanto aperta os botões mais uma vez e faz com que o portão se movimente, abrindo e fechando de uma forma calma, mas constante, não me dando a mínima chance de me mexer.
Eu vou morrer agora. É claro que vou. Eu sei que isso tudo foi um teste divino para medir o meu nível de inteligência, e eu não passei. Por isso devo morrer e poupar o mundo de mais algum tipo de vergonha alheia desnecessária! Por que eu fiz isso? Acho que eu superestimei as minhas habilidades de escalação, lembrando-me de quando eu era criança e me desafiava a subir em árvores. Eu fazia isso muito bem!
Mas, pensando melhor... Não me lembro de ter conseguido descer em algum momento. Mamãe sempre tinha que mandar algum empregado me resgatar.
Grito para que parece com isso, e ele imediatamente abaixa as mãos e desiste da brincadeira, sem nunca parar de gargalhar. Eu bufo e desço pelo outro lado, aterrissando no chão e pegando a minha mochila. Arrumo os cabelos e bato na minha saia para tirar os amassados que apareceram em alguns pontos.
Quando abre o portão para passar, o atravessa e finca os pés ao meu lado. Eu o olho furiosa e lhe dou um tapa forte ao dizer:
— Você é um idiota! Por que fez isso?
Ele pede calma, guardando o controle nos bolsos. Fica sério de repente, olhando-me diretamente nos olhos. Sinto algo estranho subir pela minha espinha, tendo a sensação de que ele vai me dizer algo realmente importante. Eu acho que nunca o vi tão sério.
Mas tudo o que sai da sua boca é:
— Eu queria ver a sua calcinha.
Eu bufo mais uma vez, reviro os olhos e lhe dando outro tapa. É quase uma reação automática do meu corpo. Eu não posso evitar, principalmente quando ele parece se divertir tanto com essa gargalhada estúpida que solta sempre que os seus planos de me tirar do sério funcionam.
Eu me pergunto se essa semana de caminhada vai servir apenas para o seu entretenimento pessoal. Se realmente vai fazer algo desse tipo todos os dias, porque, sério, eu provavelmente vou enlouquecer antes da festa.
Quando penso nisso, saio pisando forte pela rua de paralelepípedo, esquecendo que estou de salto e tropeçando um ou duas vezes antes de me reafirmar.

...

Quando chego na escola já estou mais calma. Mais uma vez a escolha da cor Coral faz sentindo, porque quando vejo Edward sentado sozinho em uma mesa no canto do refeitório, meu cérebro esquece toda a raiva que me fez passar para dar espaço ao mais completo e puro... Não sei, mas acho que deve ser êxtase.
Ele é tão lindo! Parece fofo demais, tímido e quieto. Como um daqueles caras que a gente vê em filmes adolescentes, sabe? Aqueles que são os mais excluídos, porém os mais românticos e atenciosos. Os mais... Apaixonantes.
Estou pensando no nosso primeiro encontro casual pelo corredor, onde ele esbarra em mim e depois me ajuda a pegar os meus livros, quando Laura para ao meu lado. Ela senta sobre a mesa, quase me fazendo levar um susto, e apoia os pés no banco em que estou sentada.
— Descobri! — diz. — Câncer.
— O quê?
— O signo dele — e aponta para Edward.
Eu pulo e me levanto, pegando um pedaço de papel que Laura agora ostenta no ar. Seu sorriso é enorme e orgulhoso, e eu levo os olhos para o mapa astral que ela fez para mim.
— Como descobriu? — pergunto.
— A moça da diretoria adora ouvir sobre as minhas férias em Paris. Eu fiquei lá por horas conversando com ela até que ela se distraísse e eu pudesse buscar os arquivos de Edward no computador da escola. Não me ame por isso, eu sei que sou demais.
— Ah, Laura, isso é maravilhoso! — dou mais alguns pulinhos. — Ele é perfeito, olhe! — levo o papel ao peito, sonhadora, mas o sinal estridente da escola acaba com o meu momento, e eu sou obrigada a voltar à realidade.
— Conseguiu falar com ? — pergunta Laura, começando a andar comigo.
Entramos no corredor principal e a zona de alunos e armários já foi estabelecida. Eu ando tentando desviar de tudo e de todos, dando oi a qualquer um que me cumprimenta e mantendo o meu sorriso simpático e característico no rosto.
— Sim, ele vai me ajudar — respondo.
Quando chegamos à sala, o professor ainda não entrou. Então eu e Laura ficamos do lado de fora com os nossos fichários entre os braços e a língua afiada entre os dentes. Estou louca para contar para ela sobre Nancy e ! Laura mal vai se conter quando souber que a sua maior inimiga é tão baixo nível.
— Acho que é o direito dela, não é? — pergunta Laura, indecisa, quando falo a novidade.
Faço uma careta.
— O quê?!
— Se ela quiser transar com , então ela deve transar com ele. Independente do lugar.
— Eu sei! — digo. — Mas estamos falando de Nancy! Você a odeia!
— Ah, , isso já é passado — dá de ombros. — Não guardo rancor dela. Na verdade, espero que Nancy esteja bem.
Deixo o meu queixo cair. Não é possível que o que estou ouvindo seja verdade! Laura está mesmo defendendo Nancy? Ela odeia essa garota desde que... Ah, bem, não importa. Todo o barraco, segundo ela, está no passado. Mesmo que isso me revolte.
Traidoras como a Nancy deveriam sofrer eternamente. Prezo muito pela lealdade, só pra constar.
O professor chega, nos empurrando para dentro da sala. Eu e Laura andamos até as nossas mesas, espalhando cadernos e papéis pelo nosso espaço, e quando o Sr. Thron começa a ditar pontos da vida de Aristóteles eu passo a divagar sobre a festa de Eduardo, os avanços com Edward e o meu trato com .
Durante o caminho para a escola me falou que realmente não sabia de nenhum interesse amoroso da parte de Mike em qualquer pessoa. Então, quando quase entrei em desespero pela falha catastrófica no plano — já que ele era a minha última esperança — , ele ditou uma lista de possíveis pretendentes para o meu irmão. Não gostei realmente de nenhuma delas, afinal já havia transado com todas e até mesmo eu sei de um tal de brocode que colocaria tudo a perder. Mas, mesmo assim, quando chegar em casa vou investigá-las uma a uma e ver quem merece ou não ser a nova namorada de Mike. Vai ser muito divertido! Mal posso esperar para que eu e meu namorado, e meu irmão e sua namorada viremos os casais mais populares da escola! Imagine só? Eu e Edward juntos, no intervalo, rindo e conversando enquanto todos nos olham e reparam o quão bem ficamos juntos.
— Certo, Srta. ?
Pisco, acordando para a realidade. O Sr. Thorn está olhando fixamente para mim, provavelmente esperando uma resposta. Eu olho por sobre os ombros e todos os alunos também me encaram. Levo a pena da minha caneta ao rosto e passo-a pelas minhas bochechas enquanto olho para cima e começo a fingir que estou pensando na sua pergunta.
O Sr. Thron sempre faz isso. Ele dita toda a aula e faz anotações aleatórias na lousa, escrevendo o que acabou de dizer para dar ênfase ao assunto. E como em todas as suas aulas eu simplesmente durmo ou começo a pensar em qual cor de batom comprarei quando for ao shopping, os momentos em que ele chama a minha atenção são constantes. Parece até que ele faz de propósito, que tem uma birra comigo.
Por isso adotei a uma tática infalível: fazer cara de inteligente e dizer com muita convicção a última frase escrita no canto mais distante do quadro, que é o lugar que ele fez a sua última anotação pois os outros tinham acabado.
Estreito os olhos para ler o que está ali, e, quando consigo, sorrio e digo:
— Platão foi realmente uma grande influência, professor!

...

Durante o intervalo eu me sento em uma mesa no meio do pátio-barra-refeitório, onde todos os meus amigos estão. Este é o local mais movimentado do lugar, o que faz com que a falta de cadeiras transforme a mesa em um banco gigante. Isso não me incomoda nem um pouco e eu apenas continuo comendo e falando com Laura a respeito da aula de cálculo e o quanto eu simplesmente a odeio.
Os garotos à nossa volta parecem animais, andando de skate e jogando comida uns nos outros, e mesmo que eu conheça a maioria desde a quinta série não consigo deixar de pensar que são todos bem idiotas. Não me leve a mal, eu os amo, mas quem, no segundo ano, ainda coleciona figurinhas de desenho animado?
Quando o sinal está perto de tocar eu avisto Edward sentado numa mesa distante. Só consigo ver ele e um amigo, então fico me perguntando onde foram parar os outros meninos que sempre vejo por perto — ou seja, e meu irmão. Eles simplesmente sumiram.
Levanto-me da mesa e arrumo o cabelo, andando confiante em sua direção. Os alunos sentados ao meu redor parecem comentar o fato, mas não ligo. Apenas continuo andando até que eu esteja ao seu lado. Então sorrio e espero que ele me note, pois estou me sentindo bem melhor do que quando acordei, pela manhã, e certamente pareço, no mínimo, muito bonita. Ele tem que me notar.
Edward levanta os olhos para mim, e eu quase pronuncio um "awnn" alto demais quando vejo que, de perto e com boa iluminação, ele tem pequenas sardas no rosto.
— Oi! — digo, animada.
O amigo ao seu lado levanta e sai da mesa. Eu aproveito para me sentar, apoiando as mãos no queixo. Olho para Edward incisivamente, notando tarde demais que devo estar parecendo uma psicopata.
Mas o que eu posso fazer? Ele é uma gracinha!
— Oi — ele responde.
— Você vai na festa do Eduardo, não vai? — pergunto. Sei que Laura me disse que ele iria, mas preciso confirmar para ter certeza.
Não vou me submeter às chantagens de por uma semana inteira e, quando chegar na hora, o plano falhar porque o principal integrante não compareceu ao local marcado.
Edward sorri quando responde:
— Eu quero muito ir, mas meus pais vão para Boston e eu tenho que vigiar a minha irmã.
Acredito que a minha cara de decepção é muito plena e bastante aparente, porque Edward franze o cenho e sorri ao me encarar.
— O que foi?
— Ah, eu só estava pensando em como isso seria ruim pra você — digo, pigarreando. — A primeira festa do semestre geralmente é a melhor!
Ele lamenta em um murmuro, mas não parece realmente triste. Edward me passa a impressão de que não é muito de festas. Isso me deixa um pouco desanimada.
— Tudo bem, então! Espero que seus pais mudem de ideia. Até mais!
Me levanto um pouco desajeitada. Estou distraída no meu desespero interno pela segunda falha catastrófica no plano quando bato o pé no banco e saio cambaleando por alguns metros. Edward ri e pergunta se estou bem, mas digo que são os saltos e que não senti nada.
Quando dou as costas a ele, finalmente transbordo a minha dor em uma careta.

...

— Ele vai mudar de ideia, .
Se isso é tudo o que tem a dizer, eu definitivamente me arrependo de ter sujado meus saltos de grama e terra apenas para atravessar o campo de futebol e encontrá-lo em uma das pedras do jardim esquecido do colégio.
Ele está sentado de pernas cruzadas enquanto fuma um cigarro e copia algo de uma folha para o seu caderno.
— Mas não é escolha dele — digo, andando de um lado para o outro. Estou nervosa e preciso de um plano novo. — Já sei o que vou fazer! — dou um pulinho e levanta os olhos para mim. Agora há uma caneta azul entre os seus lábios, o cigarro foi parar no chão. O menino tem uma expressão curiosa no rosto enquanto explico: — Vou fazer com que os pais dele não possam viajar! Tenho certeza que um pneu furado ou uma ligação de um parente com a perna quebrada dá um jeito.
Paro, pensativa, e imagino como vou fazer para colocar o plano em ação. A risada de vem assim que eu decido qual parente vai cair enquanto tenta escalar uma montanha.
, não é mais fácil você sugerir que ele contrate uma babá?
Olho para , meu rosto se iluminando com a ideia. Aproximou-me dele e lhe dou um abraço rápido e empolgado antes de sair aos pulos, parando só quando algo me vem à mente. Volto todos os passos que dei e paro ao seu lado, olhando-o com os olhos crispados.
— O que foi? — pergunta.
Levo a mão à folha que ele segura e a puxo delicadamente. me olha com expectativa e eu espio o conteúdo da página com a famosa expressão de uma pessoa desapontada, mas não surpresa.
— Esse é o gabarito da prova de geometria? — pergunto.
Ele dá de ombros.
— Também preciso sobreviver ao ensino médio. Não é só você que tem dificuldades na adolescência.
Olho para ele e sorrio de uma maneira conspiratória.
— Eu poderia te ajudar em geometria.
— Você?!
— Eu.
— O que sabe sobe geometria?
Fico ofendida e respondo de uma forma muito mais maldosa do que eu pretendia:
— Muito mais do que você!
junta as sobrancelhas e me olha desconfiado.
— O que você quer em troca?
— Uma babá para a irmã do Edward.
— Tenho cara de secretária?
— Não, você tem cara de quem vai mal em geometria — dou risada. Um "rá" de "dessa vez eu ganhei e você não pode negar".
rola os olhos e segura o caderno ao pular da pedra. Coloca um cigarro nos lábios e o acende. Quando se vira para mim, pensativo, eu tiro o objeto de seus lábios e o jogo no chão.
— Não quero cheiro de cigarro no meu cabelo — digo quando ele me olha irritado. — E você não pode morrer de câncer antes de encontrar uma namorada para Mike.
joga a mochila sobre o ombro esquerdo e diz:
— Não se preocupe com isso. Já tenho as candidatas certas em mente.
Olho-o surpresa.
Candidatas? — repito. — Eu não acredito que conseguiu encontrar mais de uma garota que ainda não tenha ficado com você!
arregala os olhos e faz uma cara confusa.
— Espera, beijo também conta?
Suspiro mais uma vez, derrotada. Isso vai ser difícil.
— Tudo bem, acredito que Mike não se lembre de todas as garotas com as quais você já ficou.
E respiro fundo antes de pensar em pisar na grama fofa de novo, temendo pelos meus saltos preferidos.

...

— Eu te passei esses nomes há menos de quatro horas! Quem é você, Sherlock Holmes?
Não ligo para o comentário irônico de quando puxo a lousa móvel escondida atrás da cortina da sacada do meu quarto. Apenas a arrasto para mais perto enquanto o menino se joga contra a minha cama de uma forma descontraída demais e apoia os braços atrás da cabeça enquanto me observa.
Paro com a lousa ao seu lado e pego a minha régua transparente — eu não tinha réguas, mas parei para comprar na volta da escola. Aproveitei, também, para comprar uma lupa, afinal, se eu vou mesmo ser a detetive que vai investigar a vida das candidatas a namorada do meu irmão, preciso estar preparada.
Isso vai funcionar! Vamos achar a pessoa certa. Eu estou com o meu blazer cinza preferido e a lupa nova, que é só um enfeite, atrás da orelha, como uma flor. Isso quer dizer que estou preparada e que vou conseguir encontrar a resposta certa!
— Não, querido, sou , a maior detetive colegial que você respeita. Única no mundo — pisco e ele ri. — Além do mais, posso roubar muitas coisas do banco de dados da escola em quatro horas. — Então me viro para o quadro e bato com a régua na foto da primeira garota.
Não demorei muito para montar tudo isso. No ano passado houve uma série de assassinatos em Vegas, que não fica muito longe daqui, e um detetive inglês muito famoso acabou vindo à América para ajudar. Convenci mamãe a me deixar ir até lá conhecê-lo em uma coletiva de imprensa assim que fiquei sabendo que ele era o melhor nas matérias de sua escola. Aprendi algumas coisas e eu não me esqueci até hoje, porque sempre aplico nos meus estudos com a expectativa de um dia conseguir ser tão brilhante quanto ele.
— Angela Quenn — digo com a voz séria. — Tem dezesseis anos e é líder de torcida. Entrou na equipe de natação aos quinze e é vegetariana. Alta, mas não mais alta que meu irmão; é mais inteligente que ele, o que é bom, e está sempre fazendo novos amigos. Você a indicou porque diz que tem uma bela bunda, — reviro os olhos, — mas ela é bem mais interessante que isso, veja só: faz parte do clube de canto da escola! Além de tudo, é muito talentosa.
se senta e apoia o cotovelo nos joelhos para prestar mais atenção. Parece concentrado, com os olhos estreitos no quadro enquanto analisa tudo. Eu me sinto muito orgulhosa do meu trabalho, então espero em silêncio enquanto pensa.
Até que ele abre a boca para dizer:
— Eu não acredito que você tem um pôster do One Direction no quarto!
Viro-me para entender o que ele está olhando, só então percebendo que não encarava o quadro, mas sim a parede atrás dele. Quase escondido pela cortina, o meu pôster do One Direction mostra meninos sorridentes e britânicos olhando para mim. Eu não sinto vergonha dele.
— Cale a boca — digo, revirando os olhos, mas parece entretido demais em sua gargalhada para notar que fiquei realmente séria. — Você não sabe nada sobre isso!
— Sei que é uma boyband — diz. — E que você está sempre tão orgulhosa de si mesma, alegando que é madura e adulta! Não pensei que me decepcionaria tanto, .
— Pois saiba que gosto musical não define maturidade, seu idiota! — puxo o quadro para mais perto até que a visão de sobre o pôster esteja comprometida. — Agora preste atenção no plano! Temos mais duas meninas para investigar.
Dito isto, percebo que me aproximei demais. está sentado na minha cama com os olhos levantados para mim, e eu estou em pé muito perto dele. Dou um passo para trás e levo a lousa comigo, limpando a garganta e jogando os cabelos para me recompor ao continuar:
— Vivian Bullock, do terceiro ano. É ativista e vegetariana, gosta de esportes e é goleira no time de futebol da escola. Parece ser engraçada e inteligente, mas duvido que o meu irmão fosse acompanhá-la nas suas corridas diárias ao redor da quadra — completo, pensativa.
— Duvido que ele conseguisse acompanhá-la em outras coisas, também. — comenta, mas eu o ignoro.
Viro-me para o quadro e levo uma mão ao queixo, tentando arrumar soluções para esse problema. Se eles vão namorar, preciso que Vivian tenha consciência de que esportes não são a prioridade da sua vida! Ela precisa entender que dividir o tempo entre Mike e suas atividades saudáveis é extremamente importante.
— E a última? — pergunta , fazendo-me acordar.
Olho para o quadro e observo a última foto. É uma garota que eu não conheço bem, mas já vi andando pela escola várias vezes. Eu não sei o seu nome, mas Laura me falou dela pela manhã e eu resolvi investigar. Ela tem cabelos castanhos e se veste como se todas as manhãs tivesse preguiça de sair de casa. Eu a entendo, não a julgo, mas fico pensando se o meu irmão se atrairia por esse estilo de menina.
Vou até a minha mesa de estudos e pego o meu Notebook. Então sento na cama e o abro sobre o meu colo, acessando o Facebook e a procurando por entre as solicitações de amizade. Lembro muito bem de ter visto o rosto dela por aqui.
— Nossa, por que você não aceita essas pessoas? — pergunta , olhando por sobre os meus ombros.
Sinto a respiração dele contra a minha orelha e dou de ombros.
— Muitas vezes não me lembro deles de imediato. Mamãe disse que é muito perigoso aceitar pessoas desconhecidas, sabe, por causa da nossa posição social. Nunca sabemos se é um sequestrador ou não.
Ele ri, mas eu não me preocupo em perguntar o motivo. Apenas desço a barra de solicitações à procura da garota que esqueci o nome, mas aponta para um perfil na tela e diz:
— Tenho certeza de que Nancy Willians não é uma sequestradora. Por que ainda está no seu purgatório virtual?
Essa eu respondo com prazer:
— Ah, a Nancy eu só odeio, mesmo.
ri mais uma vez e se afasta, jogando-se contra as almofadas da cama. Enquanto procuro, sinto o colchão se mexer com os movimentos dele, que parece encontrar uma ótima forma de entretenimento nas capas artesanais das minhas almofadas. Ele as joga para cima, pega e joga de novo. Então as coloca no lugar para pegar outra e fazer a mesma coisa. Quando fico irritada, olho para ele e digo:
— Se estiver entediado, por favor, vá embora. Você está me desconcentrando!
para com uma almofada em mãos e me olha de uma maneira primeiramente confusa, depois desafiadora. Então larga o objeto para se aproximar de mim e dizer:
— Victória Brandon é o nome dela. Eu estava esperando você largar essa teimosia para perguntar.
Franzo o queixo com indiferença.
— E como eu ia saber que você a conhece?
— Eu conheço todas as garotas da nossa escola, .
O empurro para que fique longe de mim.
— Você me dá nojo.
Mas apenas volta a cair sobre o colchão e dar risadas. É um ato irritante porque estou de batom coral e isso quer dizer que meu humor não é dos melhores. Aguentar a felicidade dos outros é uma tortura e uma falta de respeito com a minha dor de cotovelo. Mas tudo bem, porque diz algo como "eu nunca tive nada com Victoria, ela é aluna nova" e eu me animo instantaneamente, sabendo que é a certa.
Vou para o campo de busca e digito "Victoria Brandon" até o perfil certo aparecer. Clico e a foto de uma garota sorridente inunda a tela. Ela é muito bonita. Fico até mesmo com uma pontada de inveja no estômago ao perceber que Victoria tem as pernas mais longas que uma garota do colegial poderia ter.
Stalkeio Victoria por vários minutos até perceber que ela é, de fato, perfeita! É bonita, parece inteligente e engraçada, compartilha debates políticos e memes de cachorrinhos e curte as páginas dos filmes preferidos de Mike. Está solteira, o que é muito importante, e todas as suas fotos têm uma ótima iluminação. Ela sabe muito bem como se vestir e passar maquiagem quando quer, faz parte do clube do livro da escola e é a primeira da classe de trigonometria.
Perfeito! Finalmente encontramos a garota certa!
Agora eu só preciso fazer com que Victoria Brandon e Mike se apaixonem.



3Nude

Ajudo Munique a arrumar a postura diante do piano, deslizando os seus cabelos para as costas e tampando o decote horrível e desnecessariamente exagerado do vestido prata que ela usa.
Queria saber quem ficou responsável pela escolha dos figurinos dessa temporada! Grease não é uma adaptação qualquer e eu não quero que a principal tradição do colégio — encenar Grease no começo do primeiro semestre — seja contaminada pelo mal gosto alheio.
No ano passado eu fiz o papel da Sandy. Confesso que foi muito emocionante porque desde que vi aquele figurino bafônico todo colado, preto e cheio de glamour, eu quis usar. Era quase um sonho! E então eu tive a chance.
Mamãe desenhou uma versão customizada da roupa e eu a usei na peça da escola, me sentindo a garota mais feliz e bonita do mundo. Meu Danny era um rapaz do terceiro ano muito mais velho, alto, que tinha as mãos bobas e o cabelo igual ao do Elvis Presley — o que eu nunca decidi se era uma coisa boa ou ruim.
Hoje estou aqui, em uma quarta, liberada da aula de física para ajudar nos ensaios da apresentação deste ano. Não farei a Sandy porque a tradição é pegar uma caloura para estar no papel — se bem que, no ano passado, eu não era caloura, mas estava no primeiro ano e isso bastou para o diretor Craig, que simplesmente me adora e quase chorou quando soube que eu não estaria no papel desta vez.
— Aí! — reclama Munique, a garota do piano, quando puxo as suas costas para que ela fique ereta pela milésima vez. Eu peço desculpas e digo para que não fique parecendo uma velha corcunda enquanto toca. Ela me olha feio.
Uso o meu batom nude hoje, o que significa que estou abstrata. Distraída. Facilmente sugada para outras dimensões.
Essa cor é para todas as vezes em que acordo e demoro séculos para escolher uma roupa. Ou quando caio descendo as escadas. São os dias em que estou mais distraída e distante.
, querida, você pode ajudar o nosso Danny com o figurino? — pergunta Susan, a diretora da peça. — Ele não está conseguindo achar a jaqueta de couro certa.
Concordo, feliz por deixar Munique e sua postura vergonhosa. Corro para o backstage, na direção dos cabides de figurinos, e cantarolo enquanto passo os dedos pelas roupas, pelos tecidos e pelas peças cheias de brilho.
Eu realmente amo isso aqui. Acho que, quando crescer, quero ser estilista como a mamãe. Assim poderei desenhar as minhas próprias roupas e ainda ajudar outras garotas a se sentirem bem consigo mesmas. Seria um sonho!
Pego a jaqueta usada por Danny e levo o cabide até a mesa de maquiagem, onde vejo um garoto sentado de costas. Ele tem os cabelos escuros em um topete e usa a sua própria jaqueta de couro, o que me faz falar:
— Você já está no espírito!
Me arrependo de ter sido simpática no momento em que se vira para mim. Primeiro parece surpreso, mas depois abre um sorriso inacreditável e diz:
— Olá, coração. O que faz aqui?
Isso é brincadeira?
— O que você faz aqui?
Ele ergue os braços como se fosse óbvio:
— Eu sou o Danny.
Não acredito nisso. Meu queixo cai e quase para no chão. Eu o olho de cima abaixo e vejo que Susan já o caracterizou para que pudesse ver como ficaria no palco.
Ele tem os cabelos penteados em um topete cheio de gel, usa uma camiseta branca, sapatos lustrados e prende um palito de dente entre os lábios.
— E aí está a minha Sandy! — diz, estendendo o braço.
Quase me engasgo quando vejo Nancy se aproximar. Ela para ao lado da cadeira de e me olha de um jeito quase assassino enquanto passa os dedos pelo seu cabelo.
Nancy também está usando o figurino da sua personagem e eu... Eu... Oh, meu deus, eu não acredito! É a minha roupa. A. Minha. Roupa. Eu não posso acreditar que Nancy pôs as mãos e o corpo nela! Eu nunca mais vou poder tocar naquilo.
Não me esforço em conter a minha cara de nojo e desprezo. De repente me sinto mal, indignada. Então jogo a jaqueta de Danny sobre e saio do local, correndo atrás de Susan e deixando os dois confusos para trás.
Quando a encontro, Susan está conversando com a menina do piano sobre a sua postura e parece tão irritada com ela quanto eu.
— Susan! — chamo, me aproximando. — Você não pode deixar que Nancy faça o papel da Sandy.
A mulher para e me olha de um jeito que me faz pensar que sou maluca. Eu não me abalo porque sei que estou certa. Nancy nunca seria uma boa Sandy! Sandy é educada e ingênua demais para ter alguém como Nancy lhe dando vida. Eu não posso aceitar que ela seja a minha sucessora. Eu não posso passar os próximos dois meses tendo que ensiná-la truques e coreografias da peça. Nós íamos nos matar!
— Desculpe, querida, mas já escolhemos. Ela é perfeita.
— Não, não é! — praticamente grito. — Por que alguém pensaria isso?!
Susan apenas me olha de cima à baixo. Parece com pena quando diz:
— Oh, céus! Esse seu estrelismo é desnecessário.
E então sai, me deixando para trás enquanto abro e fecho a boca atrás de mais argumentos. Cerro os punhos, batendo o pé, e praticamente afundo o palco com os meus passos pesados quando saio do teatro.
Adentro o corredor vazio do colégio, que parece um cenário de um filme colegial. Quase posso esperar o Zac Efron saindo de alguma sala e cantando sobre como o verão chegou e as férias são incríveis... Argh! Por que eu deixo a minha cabeça pular para esses assuntos? Eu deveria estar nervosa. Eu deveria estar odiando Nancy, mas então percebo que não estou.
Na verdade, acho que estou odiando o fato de que não sou mais a Sandy. Isso faz sentido? Eu nem gostava tanto do papel. Só queria usar as roupas e dançar Summer Love com colegas de classe.
Vou até o pátio da escola e sento em uma das mesas. É estranho estar aqui com tudo vazio. O lugar parece morto com todos nas salas de aula. Me sinto até mais triste, solitária. Eu queria Laura para conversarmos sobre como Nancy fica ridiculamente estranha no meu figurino de Sandy.
— Você é mesmo mimada, não é, coração?
Não viro os olhos para . Eu já sabia que ele estava por perto. Senti o cheiro de cigarros e chiclete de canela antes mesmo de ver que ele estava aqui, usando esse apelido que odeio apenas para me irritar.
— O que você quer? — pergunto. Não tenho forças para ser grossa. Minha voz sai até mesmo... Manhosa?
Por que estou me importando tanto com essa peça idiota? Eu poderei participar de outras. Na verdade, eu participarei de outras melhores. Muito mais glamurosas! Essa escola é cheia de projetos do tipo.
— Eu pedi para Nancy ser a Sandy — diz , me fazendo acordar. Parece casual, mas sinto algo estranho em sua voz.
— Por quê?
— Porque eu estava nervoso — confessa. Então eu me viro para ele, mas não parece envergonhado. — Queria ter alguém conhecido por perto. Me desculpe, eu não sabia que era tão importante para você.
— Você sabia que eu a odiava! — bufo. — Mas tudo bem, eu estaria assim se fosse qualquer pessoa.
ri. Eu o encaro.
— O que foi?
— Você não perde essa mania, não é?
— Que mania?
— Desde que éramos crianças, , vejo você ser extremamente possessiva com tudo e com todos. Já parou para perceber? Ninguém toca no que é seu.
— Isso não é verdade! — me defendo, dando um pulo.
— Talvez tenha aprendido com o seu irmão.
— Eu não sou tão maluca assim! Mike é extremamente protetor. Eu só... Gosto das minhas coisas.
Eu tento explicar, mas quando um amontoado de lembranças sobre a nossa infância passa como um flash pelo meu cérebro, eu percebo que tem razão. Eu sou egoísta. Nunca o deixei brincar com a minha bicicleta depois que a ganhei, no Natal. E eu sempre fazia com que ele e Mike brigassem porque eu tinha ciúmes do meu irmão.
Oh, céus, eu sou uma pessoa horrível, não sou? Eu nem ao menos mudei. Continuo egoísta, olhe só! Estou dando um surto por causa de um papel e uma roupa idiota. Eu deveria ter amadurecido durante esses anos.
Pisco, acordando do meu devaneio, e vejo me olhando com o fantasma de um sorriso no rosto. Tenho certeza de que está internamente se vangloriando por finalmente ter razão!
— Você está errado — digo, levantando o nariz. — Eu não tenho problema algum em dividir coisas. Só fiquei irritada porque vi que Nancy faria a Sandy. Eu a odeio demais para aceitar isso bem.
franze o cenho.
— Por que você a odeia tanto? — pergunta. — Eu nem mesmo sabia que se conheciam.
— Isso não é da sua conta — digo. E não é, porque a briga nem foi comigo. Foi com Laura e eu tomo as dores dela sempre que posso.
É isso o que amigas fazem, não é?
— Tudo bem, então. Eu vou voltar para lá — diz, e não parece feliz com isso.
Antes que eu possa perguntar o motivo, já está longe. Eu apoio o queixo na minha mão direita e bato as unhas da esquerda contra o concreto da mesa. Por que que ele está fazendo parte da peça se não parece feliz com isso? Ou será que a sua expressão era outra coisa? Eu nunca imaginei cantando ou dançando em toda a minha vida, mas agora quase consigo visualizar.
Dou risada, parece divertido na minha mente. Não porque ele dança mal, mas porque eu me lembro dele nas festas de aniversário de Mike. sempre foi a maior atração, a pessoa que puxava todo mundo de suas cadeiras e inventava algo para que o dia não fosse monótono. Pensando bem... Eu acredito que já o vi dançando, sim, mas não em uma peça da escola! Eu não posso mesmo perder a oportunidade de ver e gravar para usar contra ele depois.
Levanto-me da mesa, bem melhor. Não ligo para Nancy ou Sandy. Eu só quero ajudar na produção da peça e vê-la ser um sucesso como foi no ano passado. Quero que o diretor Craig e Susan fiquem orgulhosos de mim. Quero que a garota do piano aprenda a sentar direito e quero que Nancy dê o seu melhor, por mais que eu a odeie.
Então, é isso. Viu? Eu posso ser madura como acho que sou. Posso deixar de ser egoísta e posso ser produtiva para ocupar a cabeça e esquecer do real motivo de eu estar fazendo isso.
Está na hora de tirar o batom nude. Eu não posso mais me distrair.

...

Eu passo o resto do dia sem batom nenhum nos lábios. Eu não sei como estou me sentindo exatamente e isso me confunde na hora de escolher uma cor apropriada. Então, como não faço há muito tempo, ando pelos corredores da escola sem nada para colorir a minha boca.
Parece que estou nua.
— Victoria se vestiu bem hoje — diz Laura. Ela estava ao meu lado esse tempo todo?
Viro o rosto para ver do que ela está falando, encontrando a pretendente do meu irmão arrumando alguns livros em seu armário. Laura tem razão, hoje ela veio muito bem arrumada e produzida, do jeito que eu só a vi nas fotos do Facebook. Parece que finalmente parou de sentir preguiça para se arrumar todas as manhãs.
— Oi, Vic! — encosto ao seu lado, escorando-me no armário próximo ao seu.
Saí tão rápido do lado de Laura que a minha amiga ficou alguns segundos confusa, me procurando. Eu cruzo os braços e sorrio para Victória com se a conhecesse há anos, e talvez por isso ela me olhe de uma maneira tão desconfiada.
— Oi, .
Isso é bom! Ela me conhece.
— O que vai fazer hoje, depois da aula? — pergunto.
Victoria responde quase de imediato, o que me faz sentir que ela não tem muitas coisas para fazer na vida.
— Nada, por quê?
— Porque eu, você e Laura iremos ao shopping para comprar batons — digo, animada, e quando o garoto dono do armário em que estou encostada chega para pegar seus livros, eu digo para que ele espere.
Victoria ri, um pouco nervosa.
— Por quê?
— Porque eu preciso de batons novos, oras! — respondo como se fosse óbvio. E é verdade. Não usar nada hoje me fez perceber que algumas emoções novas surgiram e eu preciso atualizar o meu estoque.
Já até sei que cor vou comprar para os dias em que me sinto sem saber o que sentir.
— Tá bom...
— Perfeito! — bato palminhas. — Nos vemos depois da escola. Procure pelo meu carro no estacionamento, é um preto com uma placa Rosa. Beijinhos.
Saio, animada, e agarro Laura pelo braço. Nós andamos pelo corredor e eu lhe conto sobre o que conversei com Victoria. No caminho, vejo Edward encostado contra seu armário, ouvindo música em fones de ouvido. Eu me aproximo e tiro um deles para dizer:
— Encontrei uma solução para o seu problema na festa!
Ele me olha curioso.
— Qual?
— Uma babá. Já pensou nisso?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Sim, mas sou novo na cidade e não conheço ninguém.
Dou risada.
— É por isso que eu encontrei a solução, querido. Conheço uma ótima babá na cidade, de confiança! Vou te passar o contato. Me dê o seu número e envio pelo WhatsApp.
Anoto o número de Edward no telefone e ele agradece. Depois, o sinal toca e eu e Laura temos que voltar para a aula de química.
— E aí? O que falou com ele? — pergunta Laura, curiosa.
Dou um sorriso animado antes de exibir o número de Edward na tela do meu telefone. Laura fica quase tão feliz quanto eu, mas leva a mão ao peito e diz, como se estivesse assustada:
— Você é diabólica, ! Eu não acredito que se aproveitou da situação com a irmã pra arrancar o número dele.
Dou de ombros.
— Eu sempre consigo o que quero — digo, e nós somos empurradas pelo Sr. Thorn para dentro da sala.

...

— Então vai ser Victoria?
Quando faz essa pergunta eu estou encostada contra a porta de trás do carro preto que todos os dias me leva para casa. O motorista fica em seu banco, olhando os alunos andando ao redor do pátio, e Laura está procurando algo na bolsa, por isso não vê quando chega e se assusta com o som da sua voz. Eu continuo passando meu batom Rosa, porque estou confiante depois da conversa com Edward.
— Sim, ela parece perfeita — digo. — Mas só vou descobrir depois de um passeio no shopping.
ri.
— É? E o que o shopping vai fazer por você?
Guardo o batom na bolsa e sorrio para ele:
— Tudo! É o único lugar em que encontramos de tudo um pouco. Quando passarmos pela livraria, saberei os livros favoritos dela. Quando formos à loja de sapatos, conhecerei os seus gostos e, claro, quando algum garoto bonito passar por nós eu finalmente vou saber qual é o tipo de menino que ela gosta. Assim verei se Mike tem chances e se eles combinam.
já desmanchou o sorriso e me olha com uma falsa preocupação no rosto:
— Você é uma psicopata.
Reviro os olhos, vendo que Victoria finalmente nos achou. Ela caminha em nossa direção e coloca o cabelo atrás da orelha. Sei que está nervosa e até mesmo desconfiada, mas quero que seja a minha amiga, então abro um sorriso enorme para ela.
também sorri, mas é de outra maneira.
— Oi — ele diz.
Antes que Victoria possa responder eu a empurro para dentro do carro e digo que é apenas um stalker maluco que sempre me espera ao lado do carro quando saio da escola. Victoria ri e senta entre mim e Laura enquanto fecho a porta e dou um sorriso esperto para , que apenas diz que espera que ela seja a certa para Mike.
Nós saímos do pátio e durante todo o caminho sinto como se nós três fossemos amigas desde sempre. Victoria é muito engraçada quando perde a timidez e gosta das mesmas músicas que eu e Laura, então cantamos Hair e toda a discografia do Little Mix durante todo o trajeto até o shopping.
Quando chegamos eu a arrasto direto para a minha loja de roupas preferida e nós concordamos em várias coisas antes de deixar o lugar com duas sacolas nas mãos. Laura não comprou nada porque está economizando para um carro.
— Há quanto tempo vocês são amigas? — pergunta Victoria.
— Desde que nascemos! — respondo. — Nossos pais têm uma espécie de sociedade, sabe? É muito legal. Como se fossem todos melhores amigos!
Victoria ri.
— Eu amo as roupas da sua mãe! — diz, e então se vira para Laura. — O que os seus pais fazem?
— A mãe dela organiza eventos — respondo por Laura, que está tomando sorvete. — E o pai de é dono de uma agência de modelos.
— O Stalker?
— O mesmo! Mas ele não ajuda muito. A mãe de Laura organiza os desfiles, o pai de cede as modelos e a minha mãe, as roupas. Como uma grande sociedade!
Victoria parece impressionada.
— Por isso são todos amigos?
— Mais ou menos — respondo.
Andamos pelo shopping e meu plano de conhecer Victoria corre muito bem. Ela parece ter os mesmos gostos que o meu irmão e eu até descubro que ela gosta de jogar vídeo game! Eu quase peço ali mesmo para que ela fique com Mike na festa de Eduardo, mas então penso em algo melhor, muito melhor!
Sei que a minha intenção era ser livre por uma noite. Mas e se Victoria e Mike começarem a namorar de verdade? Seria liberdade estendida. Não posso pedir para que ela faça isso só por um dia e perder essa chance de ouro, então passo a falar muito bem de Mike, elogiando-o e jogando algumas indiretas. Victoria parece não perceber, mas fica interessada em tudo o que falo.
Depois de tudo nós vamos para a minha casa, afinal ainda não anoiteceu e eu queria muito conhecer mais de Victoria. Ela aceita depois de ligar e avisar a sua mãe de que estava bem, e nós passamos o resto da tarde jogadas no tapete felpudo do meu quarto, conversando sobre várias coisas, até que eu menciono a festa de Eduardo.
— Eu acho que não vou — diz, e eu quase engasgo com a minha própria saliva.
O que há com essas pessoas? Por que não podem simplesmente cooperar com o meu plano?
— Você tem que ir! — digo. — É o ponto alto do primeiro semestre. Se perder, pode ter certeza, vai ser excluída o resto do ano.
Laura me dá uma cotovelada discreta, mas eu não ligo. Eu não estou contando nenhuma mentira! Laura, por outro lado, sempre diz que acha essas confraternizações o câncer da sociedade. Diz que tudo isso obriga os jovens a se forçarem a fazer coisas que não querem.
O mais curioso é que ela sempre vai, de um jeito ou de outro.
— Eu não me dou bem com festas — explica Victoria. — Sempre fico sozinha em algum canto torcendo pra acabar logo e eu poder ir embora. Não é muito divertido.
Eu dou uma risada conspiratória, olhando para Laura.
— Oh, querida, você não faz ideia do quanto essa festa vai ser diferente. Estaremos com você! A nossa companhia é indispensável — ergo o nariz e Victoria ri. Parece que a estou convencendo.
— Então vocês prometem que não me deixarão sozinha?
— Prometemos — respondo em uníssono com Laura.
— Mas a pode se ausentar por alguns instantes — minha melhor amiga comenta com um sorriso malicioso. — Ela só quer ir nessa festa por causa do tal do Edward.
Concordo com a cabeça, sorrindo. Só de pensar nele fico muito mais animada! Quero falar o dia inteiro sobre isso.
— Ele é muito bonito! — comenta Victoria. — Vocês ficariam lindos juntos!
— Eu sei! — respondo, batendo palminhas. — Já planejei tudo! — e então explico o meu plano: — Eu e Edward ficaremos na festa de Eduardo — e quando ela parece confusa, acrescento: — Não se confunda com os nomes, logo você se acostuma! — Victoria concorda e eu continuo: — Depois a nossa relação vai crescer aos poucos. No começo não andaremos juntos na escola porque não quero que ninguém especule nada ou fique com inveja, mas nos encontraremos sempre, em minha casa ou na casa dele. Com o tempo assumiremos o nosso namoro a todo mundo e finalmente poderemos ser o casal mais fofo daquela escola!
Victoria ri, animada.
— Parece um plano perfeito.
— E é. Só preciso ir a essa festa. E você precisa ir comigo, então Mike...
Laura arregala os olhos para mim e eu percebo que quase falei demais.
— Mike deixará em paz, porque ele acha que ela é irresponsável — Laura me salva. — E uma garota aparentemente tão madura como você do nosso lado passará segurança.
Sorrio, concordando, e Victoria sorri junto, comovida pelo elogio de Laura.
Então, algumas horas depois, a nossa mais nova amiga vai embora e eu puxo o quadro de trás da cortina da sacada do meu quarto. Arranco as fotos das outras garotas de lá e deixo só as de Victoria, adicionando em post-its coloridos todas as informações que obtive ao longo do dia.
Quando termino mando uma foto do resultado para , e ele responde dizendo que está ótimo e que iria me contratar para descobrir as senhas dos cartões de crédito de sua mãe.



22Roxo Escuro

O dia hoje foi muito corrido.
Passei metade do primeiro tempo no teatro da escola ajudando Susan a organizar os primeiros passos para que os ensaios de Grease fossem um sucesso. Ela separou a equipe em grupos e colocou um integrante do elenco passado para comandar cada um deles. Como o Danny que atuava comigo já saiu da escola, acabei ficando encarregada de cuidar dos dois protagonistas sozinha.
E eu juro que isso não é fácil.
Por mais que eu achasse que Nancy fosse ser a pior parte, me enganei. Na verdade, a pior parte é andar de saltos altos sobre o piso escorregadio do palco. Eu realmente odeio isso, porque sempre tenho que caminhar em passos contidos e pequenos, o que dificulta muito a locomoção. Fico imaginando como vai ser quando formos passar as coreografias! Terei que comprar algo antiderrapante.
Pisco, vendo Nancy estalar os dedos na frente do meu rosto. Percebo que me distraí por tempo demais enquanto pensava se havia algum modelo antiderrapante que não fosse um assassinato ao nome da moda.
— Tudo bem, estou aqui — sorrio, animada. Deve haver, sim!
Então continuamos com o que quer que estivéssemos a fazer. Porque Susan disse que esse dia seria para levantar o astral e motivar o novo elenco. Acredito que eu teria que falar sobre como foi a minha participação na peça e tudo mais, mas as pessoas não parecem querer saber disso e nós começamos a discutir sobre como é difícil estudar inglês quando a nossa professora só passa livros chatos!
Fico feliz por saber que não é só com a minha turma, e então Susan chega e acaba com a nossa conversa, comandando ela mesma o que a mulher chama de "motivar os novos integrantes", e nós ficamos o resto do tempo em silêncio fazendo algum tipo de exercício de concentração típico do teatro convencional.
Depois que acaba, eu posso finalmente sair daquele lugar. Por algum motivo me sinto mais motivada que os novos alunos, e ando pelos corredores e passo pela aula de educação física sem nem ao menos ter medo de levar uma bolada na cara, como sempre acontece.
— Olá, coração! — ouço uma voz atrás de mim dizer. — Você me prometeu ajuda em Geometria.
Estou passando batom quando senta ao meu lado de um jeito tão dramático que chego a me assustar, dando um pulo. Viro-me para ele, revirando os olhos e prestes a xingá-lo por ter me atrapalhado, mas então penso no que a sua frase significa.
— Você encontrou uma babá para a irmã de Edward? — pergunto, animada. Meu sorriso poderia tomar todo o meu rosto agora.
Ele faz que sim com a cabeça e eu dou vários pulinhos e gritinhos contidos, já que estamos no meio do pátio da escola e não quero chamar tanta atenção assim para mim — apesar de eu saber que é impossível, todos me amam.
— Hm, ? — chama e eu volto a me virar para ele, acordando dos pensamentos otimistas sobre a festa de Eduardo e tudo o que ela significa; como eu e Edward finalmente ficaremos juntos e como eu mal posso esperar para escolher que roupa usar.
Quando levanto as sobrancelhas em curiosidade para saber o que ele quer, se aproxima e leva o dedo indicador aos meus lábios, passando-o de um jeito forte e delicado ao mesmo tempo. Eu fico confusa por alguns instantes e isso deve ser bem óbvio, porque ele se afasta e diz:
— Seu batom estava borrado.
— É. Porque você me assustou — resmungo, pegando o espelho para olhar e retocando a parte falhada.
— Mas e aí? Geometria! — ele volta ao assunto.
Concordo com a cabeça, pegando a minha agenda dentro da minha bolsa. Ela é uma gracinha! Toda encadernada com pelúcia rosa e alguns bottons, então eu realmente penso antes de entregá-la a .
— Muito cuidado — alerto, só então deixando-o pegar.
levanta a agenda na altura do rosto e a encara por alguns segundos antes de cair na risada. Eu juro que ele parece ficar nisso por horas antes de limpar uma lágrima do canto dos olhos e dizer:
— Que porra é essa? Parece que você pintou um coelho de rosa e tirou a pele dele!
Fico realmente brava, cruzando os braços.
— Eu nunca mataria um coelho! — tento puxar a agenda de suas mãos, mas a segura com força, para de rir e diz: — Ok, desculpa. Eu não queria te chamar de assassina de coelhos.
Reviro os olhos, deixando-o com a agenda e me afastando. já está quase completamente sério quando diz:
— É só que você não espera que eu saia com isso em público, não é? Como vou tirar isso da mochila na aula?
— Sua sexualidade é tão frágil assim pra ser abatida por uma agenda? — pergunto, porque foi isso o que Laura disse para Mike quando ele também zombou da minha obra de arte. Eu fiquei muito tempo fazendo isso!
Não — ele afirma, convencido. — Mas preciso usar isso na prova e acredito que o professor veria até no escuro. Não tem como passar despercebido.
— Todas as minhas anotações estão aí. Dê um jeito — levanto o nariz. Não tenho culpa que ele não estudou para a prova. — Agora me fala da babá.
deixa a agenda sobre a mesa e diz:
— Bem, o nome dela é Cassie e ela cuidou do meu cachorro quando eu e minha família fomos para Londres visitar a minha prima.
Eu quase engasgo com a minha própria saliva.
Seu cachorro?!
— Ela fez um ótimo trabalho!
, eu não preciso de uma babá de cachorros! — digo, inconformada. Ele não pode estar falando sério!
— Tudo bem, não surta — pede, e eu percebo que tinha gritado. Todos no pátio nos olham. Um garoto passa por nós e zomba por estar com a minha agenda.
Ele se levanta para tacar a agenda no menino, mas eu o seguro pelo braço, fazendo-o sentar.
— Preciso de uma babá de verdade — digo.
olha feio para o garoto uma última vez antes de se virar para mim e dizer:
— Confie em mim, ela consegue! É só por uma noite, não é? Não precisa ser nenhum expert.
Solto o seu braço quando percebo que ainda o estou segurando. Então me afasto, apoio o queixo na mão esquerda e penso sobre se é uma boa ideia ou não. Fico alguns segundos assim e permanece em silêncio, folheando a minha agenda, até que eu chego à conclusão de que ele está certo.
Uma vez eu cuidei da avó de Laura por duas horas, e eu nunca tinha feito isso na vida!
— Tudo bem, me passa o número dela — digo, virando-me para .
Mas ele não escutou porque está folheando a minha agenda e rindo.
— O que foi? — pergunto.
— Você tem uma cor de batom para cada sentimento humano?! — pergunta, quase incrédulo. Seus olhos se arregalam de um jeito divertido. — Isso é muito... Sensível para vir de você.
— O que quer dizer?
— Achei que você não tinha sentimentos.
Ele ri enquanto fala, mas sinto que é sério. Fico parada olhando para ele com a boca meio aberta, procurando as perguntas certas para fazer. Ele acha que não tenho sentimentos? Por quê? Eu sou muito sensível! Chorei assistindo Marley & Eu três vezes na mesma semana. Como uma pessoa insensível faz isso?
— É claro que tenho sentimentos! — digo, levantando o nariz e procurando provas. — Eu... Eu gosto de Edward! Viu? É um sentimento!
nega, passa a língua pelos lábios e explica como se eu fosse muito burra:
— Você só quer ficar com ele porque Edward é novo na escola, se encaixa nos seus padrões de beleza e te faz pensar que, com ele, sua vida será perfeita.
— Isso é um absurdo!
— Então me diz por qual motivo você gostar tanto dele?! — cruza os braços e se aproxima de mim como se estivesse me desafiando. — Vocês têm gostos em comum? Curtem as mesmas músicas? Vão aos mesmos lugares? Tiveram uma conversa extraordinária no Whatsapp por uma noite inteira? Não são essas coisas que vocês, que se apaixonam, gostam de prezar?
Eu fico mesmo sem respostas. É claro que ele está errado! Eu tenho motivos para gostar de Edward, sim, mesmo que ache que não. Além do mais, não é da conta dele! Quem fica por aí beijando a metade da escola não sou eu. Duvido que ele tenha sentimentos verdadeiros por metade das garotas com quem ficou.
— Olha quem fala! — rebato, cruzando os braços também. — Você, por acaso, tem gostos em comum com Nancy? Vão aos mesmos lugares e escutam as mesmas músicas?
— Isso é diferente.
Sinto meu sangue ferver. É muito raro que eu fique brava, mas tem conseguido me tirar do sério com facilidade ultimamente.
— Não, não é! — respondo em um tom de voz elevado, porém sem gritar. Então pego a minha mochila e levanto da mesa. — Você só gosta de pensar que sim porque acha que somos diferentes, quando eu tenho o direito de gostar ou não gostar de quem eu quiser, pelos motivos que eu quiser — arrumo a alça no ombro e jogo o cabelo para trás, respirando fundo e me recompondo. — Bons estudos.
Saio e o deixo para trás. Procuro Laura pelo pátio inteiro, mas sei que ela está ocupada demais com os quatrocentos clubes em que se mete a toda hora, então desisto e fico parada do lado da mesa da turma de fãs de k-pop, vendo-os ensaiar alguma coreografia que, sério, é muito legal! Até que eles insistem em me ensinar e eu estou aprendendo os passos em conjunto com as meninas e meninos, me sentindo muito melhor.
Quando Edward passa ao lado de Mike, um pouco distante, me olha por um tempo antes que eu perceba que ele está por perto. Eu aceno e o cumprimento, e ele ri de uma forma doce quando erro um passo por causa disso. Do seu lado Mike de repente me nota. Eu arregalo os olhos e desmancho o sorriso na hora, porque sei que se ele suspeitar que tenho interesse em Edward vai começar a encher o menino de perguntas e alertas, e eu não quero isso.
Fico aprendendo passos até o final do intervalo, e então encontro Laura na aula de Inglês. Ela me conta tudo sobre o livro que eu deveria ter lido para a atividade que a professora vai passar e eu até que me saio bem com o improviso de informações fornecidas pela minha melhor amiga.
Quando saímos, eu chamo Victoria para ir à minha casa, mas ela diz que tem que ajudar a mãe dela em algo. Laura também não pode ir porque precisa ir ao shopping comprar uma camisa social para uma apresentação, então eu volto sozinha e fico a tarde toda no meu quarto, pensando em como o meu plano de fazer Mike e Vic se apaixonar está muito fora dos eixos.
Eles nem conversaram ainda!
Estou pensando em maneiras de os dois se encontrarem quando recebo uma mensagem de Laura. Ela diz que está no shopping e que viu Victoria por lá, comprando roupas. Eu olho o celular e me sinto realmente mal com isso. Por que ela não me chamou? Victoria está me evitando? Eu não fiz nada de errado! Ou fiz? Eu só queria ser amiga dela.
Alguém bate na minha porta quando estou prestes a começar a chorar de frustração. Olho no relógio e percebo que já está na hora de tomar o chá da tarde, então deve ser Amy me chamando para descer. Levanto e vou até a porta, mas quando a abro quem está do outro lado é e seu sorriso irritantemente presunçoso.
— Vá embora — digo, e quando vou fechar a porta ele a segura.
— Você ainda está brava comigo — conclui. — Olha, eu sinto muito se te ofendi. Não era a minha intenção. Eu só achei que como seu amigo era meu dever tentar te avisar que você está se iludindo.
— Você é péssimo com desculpas — digo, cruzando os braços e me afastando.
Me jogo sobre a cama e fico encarando o teto com a cara fechada. vai até o quadro com as fotos de Victoria e o puxa, começando a escrever algo. Eu desvio o olhar das estrelas desenhadas na tinta branca acima de mim para ver o que ele está fazendo.
— Consegui um encontro entre Victoria e Mike. De nada!
Sento na cama tão rápido que as coisas ficam pretas por alguns instantes. Olho para a lousa, onde escreveu que os dois vão se encontrar hoje, às oito, em uma lanchonete, e então pergunto para ele:
— Como conseguiu isso? Eles nem se conhecem!
faz que sim com a cabeça e brinca com a caneta da lousa entre as mãos. Então se aproxima de mim, senta ao meu lado e se inclina como se fosse contar um segredo:
— Eu falei para Mike chamar Victoria para sair — e então arregala os olhos, como se fosse um truque extraordinário. — Aposto que não pensou nessa!
Dou risada. Realmente, eu havia pensado em vários jeitos de os fazer se conhecer casualmente, mas nunca cogitei uma opção em que Mike simplesmente a chamasse para sair. Então dou um pulo, percebendo algo, de repente, e pego o meu celular, ligando para Laura.
franze o cenho, confuso, e eu explico:
— Victoria estava fazendo compras! Tenho certeza de que está procurando algo para vestir no encontro com Mike.
Do outro lado da linha, Laura atende e eu percebo pela sequência de chiados que toma a ligação o quão atrapalhada ela está com as suas sacolas. Deve ter comprado muita coisa. Aposto que não teremos aquele carro tão cedo — o que é uma pena, porque parece realmente divertido chegar em festas com amigos em veículos conversíveis.
Foco, .
— Oi — diz Laura do outro lado.
Eu explico de maneira rápida:
— Mike e Victoria vão sair hoje à noite, mas ela não me contou! Acho que está procurando uma roupa para o encontro, então ajude-a a encontrar algo perfeito.
Laura parece demorar um pouco para processar, respondendo animada quando consegue entender tudo:
— Pode deixar.
E desliga.
Seguro o celular e pulo animada. Então me viro para e agradeço, lhe dando um abraço rápido antes de levantar e abrir o guarda-roupa. Começo a puxar peças para fora e jogar sobre a cama, vendo que desvia hora ou outra para não ser atingido.
— O que você está fazendo? — ele pergunta.
— Eu vou a esse encontro — digo. — Quero ter certeza de que vai dar tudo certo.
Ele parece ficar confuso, refletindo sobre o que acabei de dizer.
— Você não acha um pouco estranho? — pergunta. — Você, Victoria e Mike em uma mesa, dividindo os canudos do milk-shake?
Reviro os olhos, mas ele não vê. Então encontro o que estou procurando: meu macacão preto, o boné jeans e as luvas de veludo que comprei no inverno do ano passado. Juntas, as três peças formam um conjunto perfeito e eu vou ficar como aquelas espiãs irreconhecíveis e invisíveis de filmes de ação! Só vou precisar me misturar ao público e Mike e Victoria não me notarão.
— Eu vou estar disfarçada — explico a ele. — Porém perto, assim se algo acontecer eu posso ajudar Victoria. Imagine só o desastre se ela começar a falar algo que ele não goste? Ou se os dois discutirem? Posso fingir que derrubei um prato e assim eles se distraem e esquecem a briga.
balança a cabeça, mordendo o lábio. Olha pensativo para o chão como se estivesse realmente refletindo sobre o meu plano perfeito. Até que levanta a cabeça e diz:
— Só uma dúvida: você vai se trocar na minha frente? Porque isso seria muito legal.
Reviro os olhos e o puxo pelo braço na direção da saída.
— Eu estava brincando — ele ri, tentando se defender.
— Preciso preparar tudo para hoje à noite e você só me atrapalha. Tchau!
Eu não sei por qual motivo ri tanto, mas não para até que nós estamos no corredor. Então ele segura a porta do meu quarto como fez mais cedo, me impedindo de fechá-la, e, cessando o riso aos poucos, diz:
— Ok, eu vou embora. Mas só se você disser que não está mais brava comigo.
Eu penso um pouco antes de responder, dando um suspiro orgulhoso.
— Não estou.
E fecho a porta.
Viro-me para a minha cama, vendo que a minha roupa de super espiã demais está quase completa. Falta só... Ah, sim! Batom! Corro para a minha penteadeira e procuro por entre a caixa de maquiagens uma cor que possa definir o que estou passando no momento. Demoro um pouco, mas finalmente encontro o roxo escuro que uso sempre que estou me sentindo um tipo sério de aventureira.
Porque há os dias em que você quer ir na praia dar cambalhotas e há os dias em que você quer dirigir um carro em alta velocidade, mesmo que você só faça os dois no The Sims.
E o roxo é para o carro em alta velocidade. Quando a aventura pode ser arriscada, mesmo que não perigosa, e quando ela tem um propósito real. Um peso!
Passo o batom nos lábios, tendo um bom pressentimento quando percebo que ficou perfeito, sem nenhum borrão. Então vou ao meu closet, escolho um sapato e visto a minha roupa de espiã para completar mais uma missão que vai me deixar um passo mais perto do futuro perfeito ao lado de Edward!

3+2Roxo Escuro

Estou terminando a minha maquiagem de espiã quando o meu celular começa a vibrar. Sentada em frente ao espelho da minha penteadeira, pego o telefone enquanto noto o quão bonita fico com essa peruca de fios castanhos! Eu realmente devia pintar o cabelo qualquer dia desses.
— Victoria acabou de sair daqui, e ela me contou tudo! — diz Laura, do outro lado da linha.
O seu tom de voz é tão eufórico que me contagia, e logo estou sacudindo as mãos como se elas estivessem pegando fogo, pulando e tentando evitar gritar com as novidades que minha melhor amiga conta:
— Ela me disse que Mike a chamou para sair hoje depois da escola e que aceitou porque sempre o achou uma gracinha! Mas ela não quis te contar porque ficou com medo de isso abalar a amizade de vocês, o que ela tem muito medo que aconteça, porque quase não tem amigas e diz que te acha muito legal!
Levo a mão ao peito, emocionada. Victoria é tão doce! E eu achando que ela estava com raiva de mim...
— Mas você disse a ela que eu não vejo problema algum, certo? — pergunto.
— Não — responde, e o meu queixo cai até que Laura explique: — Imagine só se eles se apaixonam! Um namoro proibido é muito mais excitante! É capaz de isso aproximar os dois mais ainda.
Paro para pensar, vendo que é verdade. Os maiores clássicos do romance tinham algo atrapalhando o casal! Romeu e Julieta, Orgulho e Preconceito, até mesmo a Lindsay Lohan em Meninas Malvadas.
— Tudo bem, então — começo a achar o plano de Laura perfeito. — Vou dar uma olhada no que Mike está escolhendo para usar e já volto.
— Ok — ela responde. — Victoria comprou um vestido verde água incrível! Tente combinar os dois — e mesmo sei vê-la eu sei que a minha amiga deu uma piscada conspiratória.
— Pode deixar!
Levanto-me, animada, e retiro a peruca, ficando só com a maquiagem quando saio do quarto com um roupão sobre o meu uniforme de espiã. Então bato na porta do quarto de Mike e espero alguns segundos até que ele abaixe o volume da música clássica horrível que gosta de escutar e me atenda.
Meu irmão fica pendurado na porta meio aberta como se estivesse tentando esconder alguma coisa. Eu sei que Mike deve estar se arrumando e se sentiu envergonhado por eu tê-lo pego no flagra — o que é completamente sem sentido, porque garotos podem se arrumar também.
Sorrio de uma forma dissimulada e ele franze o cenho, desconfiado.
— Boa noite — digo. — Vou preparar um jantar para a gente. Você quer o quê?
Mike aperta mais ainda os olhos, abrindo a boca algumas vezes antes de continuar:
, você não sabe nem fritar um ovo.
Suspiro, desistindo.
— Tudo bem, a Amy que vai fazer! Mas estamos em dúvida entre macarrão com queijo e estrogonofe. O que você quer?
Mike coça a cabeça e pisca os olhos de uma forma nervosa.
— Eu... hm... Eu não vou jantar em casa.
Consigo fingir estar surpresa.
— Aonde você vai? — pergunto. — Na casa do ?
— Não, eu vou... — então suspira uma última vez. — Vou sair com uma garota — diz de uma forma rápida, como se quisesse terminar logo com isso. Então franze os olhos como se já soubesse que a minha reação seria a que veio a seguir:
Eu dou pulinhos, feliz porque é a primeira vez que Mike fala comigo sobre esse tipo de coisa e é muito legal saber que ele é humano. Então, aproveitando o momento entre irmãos, o empurro para dentro do quarto, fecho a porta e ando até o seu guarda-roupas, procurando algo decente entre as peças lá dentro.
Mike parece confuso por uns instantes, quase como se eu fosse um furacão. Então, quando entende o que estou fazendo enquanto comento o quão horrível é o seu gosto para roupas, ele tenta se livrar de mim:
, eu não preciso que você... — começa, mas eu o corto.
— Qual o nome dela? — finjo não saber. Assim ele se ocupa em inventar outro nome para Victoria e esquece o que estou fazendo aqui.
— Você não a conhece — é a desculpa que encontra.
Concordo com a cabeça. Normalmente eu discutiria dizendo que conheço todo mundo, mas não quero pressioná-lo ou deixá-lo nervoso, então finjo que aceito e continuo procurando por entre a bagunça que ele gosta de chamar de armário.
Meu irmão não tem um closet como o meu. Na verdade, ele tem apenas um guarda-roupas de tamanho médio que sempre joga alguma coisa para fora da gaveta, como se tivesse vida própria. O que eu não entendo é por qual motivo ele continua se submetendo a isso quando a nossa mãe claramente ofereceu a possibilidade de transformar o quarto ao lado em um closet só para ele, mas Mike não quis. Diz que é exagerado.
Finalmente encontro uma calça jeans não tão surrada, uma camiseta que é realmente branca e uma blusa xadrez não muito brega. Então as organizo sobre a cama enquanto Mike me olha de uma maneira estranha, sentado em uma das pontas como se estivesse com medo de mim.
— Vai ficar perfeito — comento. — Meninas adoram garotos com camiseta branca. Eu acho, pelo menos.
Estou pensativa sobre se é realmente o look certo quando Mike fala:
— O que deu em você? Parece uma maluca da moda.
Dou risada.
— Eu sempre fui uma maluca da moda.
— Não comigo.
Então penso que, sim, isso deve estar soando realmente estranho, porque apesar de zombar de Mike e suas várias gafes fashion, eu nunca realmente fiz nada a respeito. Por isso, sento ao seu lado com a postura mais ereta possível, pego a sua mão e digo como se eu fosse a nossa mãe:
— Sabe, eu percebi que não fazemos mais tantas coisas como antigamente. Éramos mais próximos. Hoje só conversamos durante as refeições, então decidi te ajudar porque assim podemos conversar um pouco.
Ele me olha ainda mais desconfiado. Depois balança a cabeça e concorda.
— Tudo bem, tudo bem. Eu gostei da roupa que você escolheu.
Dou pulinhos animados, batendo palmas. Então me levanto e vou até o meu quarto, voltando segundos depois carregando a minha nécessaire preferida nas mãos. Sento ao lado dele, abro o zíper e pego uma das bases mais caras que tenho, porque quero que fique perfeito, mas quando me inclino na direção de Mike para passar em seu rosto o meu irmão se esquiva.
— Droga, , eu não vou usar maquiagem! — ri.
— Esse seu pensamento é muito do século passado! — rebato. — Olha só, você está com olheiras horríveis. Deixa só eu passar um corretivo? — peço, fazendo beicinho.
Ele nega.
— Agradeço a roupa, mas eu realmente não ligo para as minhas olheiras.
Suspiro, aceitando. Ele sempre foi muito orgulhoso.
— Tudo bem, tudo bem — levanto-me da cama. — Mas me diga, onde vai levá-la?
— Àquela lanchonete do centro, onde íamos com nossos amigos.
Penso que não é nada romântico, mas então lembro que não têm muitas coisas românticas na Califórnia e que aquela lanchonete é um lugar realmente agradável.
— Você vai pegar a moto de emprestada? — pergunto, porque seria um desastre que ele a levasse a pé.
— Não, o pai dele tirou a moto dele — diz casualmente, porém um tanto chateado. — Mas o Richie vai me emprestar o carro.
Concordo com a cabeça, sorrindo.
— Então está tudo perfeito — digo. Mike sorri e eu percebo que ele está nervoso, o que também é a explicação para o fato de eu não ter sido expulsa do seu quarto ainda e, acima de tudo, para ele ter aceitado os meus conselhos de moda. — Você vai ficar uma gracinha naquela blusa xadrez. É só não dirigir muito rápido e rir de tudo o que ela falar que você vai se sair bem. E a elogie bastante!
Mike ri e balança a cabeça como se eu fosse maluca, mas agradece em um tom de voz sincero. Então desejo boa sorte e vou para o meu quarto, onde sento na minha penteadeira e coloco a peruca de volta ao lugar, preparando-me para sair alguns minutos depois de Mike. Olho para o celular e vejo que Laura mandou uma mensagem dizendo que acabou de maquiar Victoria e que ela está parecendo uma deusa grega. Eu fico muito feliz e digo para que ela me encontre em frente à lanchonete minutos depois da Vic sair.
Passo o resto dos minutos pensando em como esse encontro vai ser. Depois, por algum motivo, me pego divagando sobre o que meu irmão disse a respeito da moto de .
Por que o pai dele tiraria o único veículo do filho? é meio maluco, mas eu sei que não é imprudente na direção. Até porque ele ama tanto aquela moto que duvido que arriscaria qualquer coisa só para ser engraçadinho.
Balanço a cabeça, escutando o meu irmão sair do quarto ao lado. Então seus passos ficam mais baixos, e logo, dando a volta na fonte em frente à nossa casa, o carro do tal de Richie estaciona e o amigo dá a direção para Mike, que apareceu em frente à casa.
Espero um tempo e desço as escadas também. Na sala de visitas Richie está sentado comendo alguns cookies que Amy trouxe para mimá-lo, como ela sempre faz com todo mundo. Eu pergunto o que ele está fazendo aqui e o menino responde que sem o carro não tem como voltar para casa e que está esperando outro amigo vir lhe buscar. Eu franzo o cenho, mas não ligo para isso, e quando estou prestes a sair pela porta a voz de Amy me faz parar.
— Onde você pensa que vai, mocinha?
Faço uma careta, voltando alguns passos. Viro para ela e sorrio.
— Vou na casa de Laura.
— Vestida desse jeito? — pergunta como se eu fosse uma grande mentirosa. — Não tente me enganar. Seu irmão me disse para não deixar que você saísse, e como a sua mãe não está aqui, quem manda é ele.
— Mas eu sou a mais velha! — bato o pé.
— E a mais irresponsável também — conclui, me olhando de cima abaixo. — Deus, você está parecendo uma artista de circo. Vá tirar essa maquiagem e essa roupa. Quero você na mesa de jantar em cinco minutos.
Ela sai depois de trancar a grande porta e levar a chave consigo. Eu deixo meu queixo cair enquanto cruzo os braços, sentindo minhas bochechas começarem a arder com a raiva interna que começa a subir pelas minhas entranhas. É tão injusto! Mike não pode simplesmente mandar na minha vida, mesmo que seja mais "responsável".
Bufo e me jogo contra o sofá, onde Richie ainda come biscoitos. Ele se vira e oferece um pra mim, mas eu recuso e fico sentada ali, com os braços cruzados, durante muito tempo. Até que meu telefone vibra e eu vejo uma mensagem de .
Ele pergunta como vão as coisas no encontro, e eu explico toda a situação catastrófica, deixando de lado o modo como Richie não para de derrubar farelos no tapete caro da minha sala. Quando termino, diz que vai me ajudar a fugir e que chega em 5 minutos.
Fico sentada no sofá até Amy anunciar a janta. Então eu e Richie comemos sem falar nada, mas o menino continua derrubando pedaços de macarrão na mesa. Ele só pode ter a boca furada, penso, mas não chego a perguntar porque bem no momento em que isso vai acontecer o meu celular vibra de novo e eu vejo a mensagem de dizendo que ele está do lado de fora da casa, na direção da janela do meu quarto.
Engulo o macarrão com tanta pressa que tenho a sensação de que nem mastiguei algumas partes, então me levanto da mesa, me despeço de Richie e digo à Amy que vou dormir. Subo as escadas e entro no meu quarto, fechando a porta cuidadosamente. Quando me viro para ir na direção da janela, bato contra algo duro e quente e dou dois passos para trás, levando a mão ao rosto por me sentir desorientada.
Quando abro os olhos, está segurando uma risada.
— Olá, coração — morde o lábio inferior para conter a risada. — Você é uma péssima espiã.
— E você disse que estaria lá embaixo!
— Sim, mas aí eu pensei que você não conseguiria descer sozinha e subi para te ajudar.
Dou de ombros, porque faz sentido. Então vamos até a sacada do meu quarto, e eu olho para baixo, para o gramado escuro como a noite, e sinto um frio na barriga. Eu acho que não tinha percebido que sofro de algum medo de altura, não até esse ponto.
— Você precisa tirar os saltos e a saia — diz ele, e eu me viro arregalando os olhos, então ri e continua: — Tô brincando, só os saltos está bom.
Olho para os meus pés e para os saltos de sete centímetros pretos que escolhi para combinar com o boné. Não quero tirar porque o veludo deles é realmente incrível e deixa a minha pele com um tom pálido digno dos filmes da saga Crepúsculo.
— ele chama a minha atenção. — Por quanto tempo você vai ficar pensando?
— É que eu realmente gosto deles — digo.
— Você pode voltar a calçá-los quando estiver lá embaixo.
— Tudo bem — cedo, tirando os saltos e dando para que segure. Então respiro fundo e me aproximo do parapeito da sacada.
Olho para baixo e sei que não é tão alto assim, mas eu realmente sinto que vou morrer se cair. Meus pés encostam no material frio e eu dou alguns espasmos leves porque começo a me arrepender de ter colocado essa saia. Meus cabelos presos embaixo da peruca passam a incomodar, mas eu continuo escutando as instruções de e descendo com calma, apoiando-me das decorações das paredes do lado da casa.
Quando chego lá embaixo, é a vez de , e ele faz tudo tão rápido que eu fico estupefata. simplesmente pula umas duas vezes, se pendura em um pilar e já está do meu lado.
— Mas... — abro a boca, sem conseguir completar a frase.
Agora ele está do meu lado e limpa as mãos nas calças jeans como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Quando levanta os olhos e vê que o estou encarando com uma expressão engraçada, diz:
— Seu irmão e eu fugimos muito quando éramos crianças. Sua sacada é igual a dele — e então sai andando. Eu fico olhando para a sacada com a boca ainda meio aberta, pensando em quantas coisas erradas Mike fez sem que eu soubesse.
Quando acordo, sigo pelo gramado do jardim da frente, imitando-o em todos os movimentos que ele faz para se esquivar dos pontos com luz, finalmente chegando ao portão de saída. Dessa vez ele tira o controle do bolso interno da jaqueta e o abre sem me fazer passar por nenhum vexame, e, então, finalmente estamos do lado de fora!
Pela pequena estrada de paralelepípedo um carro preto chega, e eu me sinto em um daqueles filmes de terror de baixo orçamento, realmente esperando que um cara saia de dentro dele portando um facão e correndo atrás de nós pela floresta.
Mas isso passa quando o veículo para ao nosso lado e eu veja o vidro da porta do motorista se abaixar e revelar um garoto que sempre vejo andar com e Mike.
— O que faz aqui?! — o cara pergunta animado. Eu me escondo atrás de porque não quero que ele me veja de jeito nenhum. — Perdido por aí, ? Não achei que fosse ficar pra trás enquanto o Mike pega uma mina.
— Pois é — ele concorda, mas parece fazer isso só para que o menino cale a boca. — Então, o Richie tá te esperando lá dentro, mas duvido que vá sair tão cedo porque a empregada da tá enchendo ele de comida. Você devia entrar pra buscar ele.
O outro concorda.
— Esse Richie parece um esfomeado — diz. — Toda vez é assim.
Os dois dão risada e abre o portão para que o menino passe com o carro. Quando suspiro aliviada e faço menção de continuar a andar pela estrada para que possamos chegar logo à lanchonete, segura a minha mão com força e me puxa, fazendo-me voltar os dois passos que tinha dado.
— O que foi? — pergunto, eufórica pela pressa.
— Por que vamos a pé se temos uma carona logo ali? — sugere, e eu confesso que sorrio junto com ele quando me olha com um ar cúmplice no rosto.
Então olhamos na direção do carro sendo estacionado em frente à minha casa. O amigo de e Mike sai, sendo logo recebido pelos cuidados de Amy, que já conhece todos os colegas do meu irmão, e entra pela porta da frente sorrindo, provavelmente sonhando com os famosos cookies da minha empregada.
Tudo parece lindo, mas o que estamos realmente observando é o modo como o veículo deixado por ele para trás ficou sem nenhuma proteção, do lado de fora, completamente sozinho.



3+3Fúcsia

Estou no banco do passageiro quando começa a fuçar no porta luvas do carro. De onde estamos, temos a visão de Victoria e Mike sentados em uma mesa de frente para a janela da lanchonete. Consigo vê-los rir e gesticular, mas a distância me impede de ouvir o que estão dizendo — o que me deixa frustrada.
— Ainda acho que deveríamos entrar — resmungo.
disse que eles certamente me veriam se eu passasse pela porta da frente e que aquilo acabaria com o encontro.
Coração — diz como se estivesse lutando para ter paciência. — Ninguém mandou vestir uma fantasia de halloween. Você precisa assistir mais filmes de ação, tipo Missão Impossível. Já viu o uniforme deles? É discreto. O seu parece a roupa de uma drag queen gótica — provoca, fechando o porta luvas com uma expressão decepcionada. — Droga, eu jurava que tinha um maço de cigarros por aí.
— Onde está o seu?
— Eu saí com pressa e esqueci.
Concordo com a cabeça, sem soluções para o seu problema. Então cruzo os braços e deixo meus olhos passarem da janela da lanchonete para o estacionamento, onde mais carros e motos estão parados. Isso faz com que eu me lembre de algo.
— Onde está a sua moto? — repito.
parece surpreso com o som da minha voz, como se estivesse com os pensamentos longe. Vejo que ele bate com os dedos nervosamente no volante. Acredito que seja a falta de nicotina. Não o vi fumar na escola e não sei se ele teve tempo de fazer isso em casa.
— Quê? — ele vira o rosto para mim. Suas sobrancelhas estão juntas e os olhos franzidos.
— Por que não veio de moto? — pergunto.
— Ah, ela está quebrada — diz, virando o rosto para o vidro e tossindo.
Agora já sei o que ele faz quando mente.
— O que há com ela? — fico curiosa.
Ele, de repente, parece um pouco irritado.
— Por que você quer tanto saber da minha moto?
Fico um pouco assustada com a sua reação. Eu só queria puxar assunto, não pensei que seria uma pergunta invasiva. faz tantas coisas erradas que mais uma seria motivo suficiente para que seu pai retirasse a sua moto de sua responsabilidade.
— Por nada — respondo, voltando a olhar para Mike e Victoria.
Passamos um tempo em silêncio, e eu sinto que o ar ficou mais pesado. sempre foi tão bem-humorado que é até estranho que isso esteja acontecendo. Não me lembro de um momento em todas as nossas vidas que o vi irritado.
— Desculpe — ele diz, e eu acordo. — É só que não é um bom assunto — sua voz parece mais calma, bem próxima da que conheço. Eu concordo com a cabeca e sorrio, mas ainda me sinto um pouco estranha em relação a ele, e parece perceber. — Venha — diz, abrindo a porta do carro. — Eles estão se saindo bem. Nós precisamos de uma pausa.
desce do carro, e eu permaneço aqui dentro. Não entendi muito bem o sentido da sua frase e fico raciocinando sobre o assunto até que a porta do meu lado se abra, fazendo uma brisa gelada entrar no carro. me puxa pela mão e aciona o alarme quando estou do lado de fora.
— O que está fazendo? — pergunto.
— Preciso de um cigarro.
— Não podemos sair!
, eles estão indo bem, ok? Mike está ótimo — ressalta. — Muito melhor do que eu na metade dos meus encontros, e eu sempre fico com a garota.
Reviro os olhos e cruzo os braços.
— Você não pode comparar os seus rolos de uma noite com Victoria e Mike! Isso aqui tem que durar. É amor eterno! Proibido como nos filmes.
me olha com uma expressão um tanto confusa, mas não responde. Ao invés disso me puxa pela mão para longe do carro, ignorando meus protestos. Quando percebo, ele está rindo e nós estamos atravessando a rua.
— Amor eterno? — repete. — Você só pode ter um parafuso a menos.
Meu instinto competitivo me guia pela calçada, e eu o sigo de perto enquanto formo respostas que provam meu ponto de vista. Nesse momento eu esqueço de Mike e Vic e apenas discuto com a respeito do que ele acha ser absurdo.
— É perfeitamente possível — digo.
— Sim, mas não acha que é exagero? Há alguns dias você só queria paz para aproveitar uma festa. O ponto aqui não é nem eles, mas sim você.
— O que quer dizer?
Só então percebo que estamos andando pelo pátio de um posto de gasolina. , antes de me responder, puxa a porta de vidro da loja de conveniências e ri.
— Nada, — suspira. — Acho que, mesmo que eu te dissesse, você não acreditaria.
Quando entra, eu fico do lado de fora. Não quero ser vista fazendo compras em um lugar tão sujo como esse! É quase um crime que eu tenha gastado meu batom roxo favorito para estar aqui, passando frio do lado de fora de uma loja de conveniências de Santa Mônica.
Passo as mãos pelos braços, sentindo que a brisa da costa está ficando cada vez mais próxima. No momento em que passa pela porta com um maço de cigarros nas mãos, minha saia esvoaça e sobe até os meus ombros.
ri, mas me ajuda a contê-la.
— Eu nem precisei me esforçar, dessa vez — provoca, e eu lhe dou um tapa.
— Vamos voltar para o carro! — exijo. — Está frio e Victoria precisa se mim.
— Bem, eu acho que isso não é verdade — aponta com a cabeça para algo às minhas costas.
Viro para dar de cara com Mike e Victoria saindo da lanchonete. Eles estão muito próximos, os dois rindo e conversando. dá um sorriso vitorioso, como se dissesse que eles não precisavam de mim, mas tudo o que eu faço é entrar em desespero quando percebo que meu irmão e minha miga estão atravessando a rua.
Puxo pela mão e entro na loja de conveniências. Nos esgueiramos até o fim do último corredor, perto dos refrigerantes, e nos escondemos atrás de uma estante enquanto Victoria e Mike entram na loja.
— Isso é ridículo — resmunga , e eu lhe dou uma leve cotovelada.
— Cale a boca.
Ficamos escondidos atrás das garrafas até que Mike e Victória comprem uma dúzia de balas e um pacote de MM's. Eles saem da loja e atravessam a rua de volta para a lanchonete, mas não entram nela. Passam direto e vão na direção do píer e da Roda Gigante. Eu levanto e dou pulinhos, orgulhosa.
— Mike vai levá-la na roda-gigante! — comento. — Ele é tão romântico! Fiz um ótimo trabalho.
ri.
— Para a sua informação, foi ideia minha.
— Para a sua informação, eu assisti The Vampire Diaries pelo menos seis vezes e em todas ressaltei fortemente a cena em que o Stefan leva a Elena para um passeio na Roda Gigante. Foi épico.
Ele parece sem comentários.
— Juro que não faço a mínima ideia do que você está falando.
— Estou falando que você não é romântico, eu sou.
— Isso é discutível.
Dou risada.
— Falou o cara que leva garotas para debaixo da arquibancada.
— Não... era o nosso primeiro encontro — tenta encontrar justificativas, mas eu vejo que está perdido.
Cruzo os braços e o olho da maneira mais vitoriosa que consigo encontrar. É tão bom vê-lo não ter respostas, para variar. Eu sei que sempre tenho razão, mas dessa vez está sendo épico.
— Bem, isso resume tudo — respondo, saindo de trás dos refrigerantes e seguindo para a saída da loja.
Do lado de fora, seguro a minha saia para que ela não voe e atravesso a rua de volta para o carro emprestado de . Fico imaginando se o amigo dele já notou o sumiço do veículo ou se já chamou a polícia. Não quero me meter em encrencas e muito menos que Amy note a minha falta, então penso que já fizemos um ótimo trabalho e digo para que podemos voltar para casa.
Já dentro do carro, abre a janela e acende um cigarro. Eu o tiro de seus lábios porque ainda não quero nenhum cheiro ruim que possa entregar que saí de casa do meu cabelo, e quando ele reclama eu apenas digo que pode fumar depois que estiver longe de mim.
— Estou te poupando de um câncer — digo. — Você deveria me agradecer.
Ele não parece achar graça.
— Cada vez que você desperdiça um dos meus cigarros um panda morre na África.
— Não têm pandas na África, .
— É porque você matou todos eles.
Reviro os olhos, abrindo a janela para que nenhum resquício de fumaça fique nos meus cabelos. dá a partida no carro e nós chegamos em casa vinte minutos depois.
O amigo do meu irmão ainda estava entretido com os biscoitos de Amy e nem percebeu que seu carro havia sumido. Desse jeito consegui escalar a sacada de volta para o meu quarto sem muitas preocupações, apenas surtando pelo fato de que eu não consegui subir de salto e tive que deixá-los com para ir descalça.
— Eu os levo para você amanhã, na escola — ele sussurra lá de baixo.
Eu me inclino sobre o parapeito e digo:
— Tente não trocá-los por drogas até lá.
Ele ri, mas eu estou falando sério. São sapatos bem caros e eu não gostaria nada de perdê-los. Até porque há uma grande chance de eu precisar do meu uniforme de espiã de novo.
Meu telefone toca, e eu o atendo enquanto entro no quarto e me jogo sobre a minha cama. Laura quer saber tudo sobre o encontro, e eu fico pelo menos uma hora no telefone, falando com ela, até cair no sono e acordar com uma mensagem idiota de dizendo que quer uma recompensa pelos sapatos.

...

Depois de caminhar com por vinte minutos para chegar à instituição de ensino mais cobiçada da Califórnia, estou no banheiro das meninas do segundo andar, já sentindo muita raiva, quando percebo que tenho uma espinha horrível no queixo. Como se meu dia não pudesse piorar, não é mesmo? Às vezes eu acho que o universo conspira para que tudo dê errado.
Com pressa e determinação, passo o batom nos lábios e espero que a cor forte tire a atenção das pessoas do monstro em meu rosto, mais conhecido como a primeira espinha do mês. Ignoro quando Laura diz que pareço um soldado vestindo o uniforme de batalha, porque é um comentário desnecessário. Sei muito bem da função do batom na minha vida, e ele não serve apenas para traduzir sentimentos e combinar com as roupas; é bem mais que isso.
Hoje, a cor fúcsia é para causar pacto. Vai muito além do significado que ela tem para mim, que é o de fúria; hoje ela é uma cor marcante, que fará a minha entrada triunfal na sala do professor Blake ser épica e intimidadora. Preciso muito desses dois adjetivos.
Respiro fundo e saio do banheiro, com Laura em meu encalço. Ela está nervosa pelo que posso fazer, mas nem mesmo eu sei o que sou capaz na minha aparente interminável fúria e revolta; é como se eu não tivesse controle sobre mim mesma e só continuasse agindo por impulso.
Por isso estou usando fúcsia. É a minha cor para quando estou irritada, tão furiosa que poderia gritar com um gatinho se ele cruzasse o meu caminho com suas orelhinhas fofas. Escolhi essa cor porque, assim como eu, ela é muitas vezes julgada por ser um tom de rosa, considerada fraca ou simples; ao contrário disso, a fúcsia é uma cor forte e impactante, que chama a atenção e causa efeito. Exatamente como eu, quando estou com raiva: fofa, mas perigosa.
— Eu preciso conversar com você! — anuncio ao entrar na sala do professor Blake.
Para a minha surpresa, está sentado na cadeira de visitantes, e se vira para me olhar. Primeiro, fica surpreso, mas depois apenas sorri e diz:
— Olá, coração. Vejo que recebeu a notícia.
— Você não pode tomar o lugar de Susan! — o ignoro e bato o pé, revoltada.
O senhor Blake parece genuinamente assustado. Segura uma caneta azul na mão direita, e eu noto que ele literalmente congelou com o meu ataque.
— Quem é você? — pergunta assim que se recupera.
Me sinto muito ofendida com a sua pergunta! Passei as últimas três semanas me dedicando ao meu papel de figurinista no espetáculo da escola para ele simplesmente não saber quem sou? Isso é uma ofensa!
, Susan está doente e o Sr. Blake se ofereceu para ajudar — diz , e o seu tom me irrita porque eu sinto que ele se acha superior. — Não é como se ele estivesse roubando o lugar dela.
— Por favor, , não fale comigo enquanto eu tento não notar a sua existência — peço e ele rola os olhos.
A última coisa que preciso agora é ter apaziguando qualquer uma das minhas várias encrencas dentro do teatro da escola. Tenho o direito de dar quantos pitis eu quiser enquanto for responsável pela supervisão e produção de 90% de tudo o que fazemos na peça. Se algo der errado ou ficar ruim, será culpa minha. Tenho o direito de querer evitar isso!
— Ah, Srta. ! — o professor finalmente reconhece. — Acho que seu nome está na minha lista de alunos da aula de Espanhol, mas nunca a vi por lá.
Isso me pega de surpresa. Matar aula é algo sério e ele pode usar isso como um ponto fraco, então conto logo a verdade para não ser chantageada:
— A sua aula é no mesmo horário que a reprise de MasterChef, então vou para a diretoria e assisto enquanto tomo chá com a diretora — confesso, um pouco orgulhosa. — Mas isso não é o caso! — me recomponho. — Quero Susan de volta!
— Se você tiver a cura para a tuberculose no meio dos seus batons e planos diabólicos, — diz , irônico, — fique à vontade para oferecer à ela.
Olho dele para o professor, e os dois parecem estar em algum tipo de harmonia quase demoníaca, porque exibem o mesmo olhar superior que eu odeio.
— Argh! — reclamo, e então saio da sala.
Passo por Laura com tanta pressa que a minha amiga nem tem a chance de me acompanhar. Apesar disso, há uma pessoa me seguindo, e eu não preciso raciocinar muito para saber quem é.
, eu não estou no meu melhor humor agora — digo sem nem parar de andar.
— Você está usando rosa. Não é a cor pra quando se sente fabulosa?
— Isso é fúcsia! — viro abruptamente e paro. quase bate em mim, mas consegue parar a dois passos de distância. — Fúcsia não é rosa.
— Não pode ficar brava comigo só porque eu não concordo com os seus ataques! — diz.
— Claro que eu posso. É meu principal direito como .
— Você tem que relaxar! — diz. — É só uma peça!
— É Grease! — rebato.
Então ficamos em silêncio. Não consigo encontrar nenhuma ofensa digna e o estoque de comentários sarcásticos de pareceu acabar. A verdade é que não sabemos bem por qual motivo estamos brigando, mas parece a coisa certa a se fazer. A paz entre nós já estava durando muito.
— Tenho aula de matemática — ele diz, e então passa por mim.
Não fico mais de dois segundos sozinha e Laura para ao meu lado, sua expressão compreensiva.
— Eu sinto muito pela peça — diz. — Mas as boas notícias estão em maioria! Mike e Victória tiveram um ótimo encontro e ela, pelo menos, já está toda apaixonadinha — ri, orgulhosa.
Fico feliz instantaneamente. Olho para Laura e a acompanhando na mini comemoração de planos sucessivos.
— Preciso descobrir se Mike gostou tanto quanto ela — digo. — E se os dois pretendem voltar a se ver.
Laura concorda com a cabeça, e não precisamos de palavras para estabelecer um plano de ação a respeito de Mike. Em um minuto sabemos o que devemos fazer, e seguimos para as nossas aulas animadas com o rumo que as coisas estão tomando.

...

, o que deu em você?
A pergunta de Mike é estranha, mas parece compreensível tanto para ele quanto para . Os dois estão sentados em uma mesa no canto do pátio aberto, finalmente sozinhos. Só hoje percebi o quanto de gente que fica ao redor do meu irmão e do seu melhor amigo, o tempo todo. É quase tanto quanto comigo!
não para de mastigar as suas batatas enquanto me olha curioso. Não está realmente surpreso com a minha presença aqui, mas Mike parece desconfiado. Apesar de ele dizer que eu nunca conversei com ele na escola, não acredito que seja verdade. Uma vez pedi um lápis emprestado na aula de culinária!
— Nada— dou de ombros. — Eu só queria saber como foi o seu encontro de ontem.
— Desde quando você se importa? — se mete na conversa.
Eu sei que ele só está querendo me atrapalhar, mas mesmo assim fico irritada.
— O gel que estão passando no seu cabelo está afetando o seu cérebro — provoco. — Se esqueceu de que Mike é meu irmão? Quero saber da vida dele.
não parece se ofender com a minha frase, e apenas ri, comendo uma batata. Eu o ignoro e volto a encarar Mike, pedindo uma resposta.
— Foi... Legal — diz.
— Vocês vão sair de novo?
— Não sei — dá de ombros. — Talvez. Não sou muito criativo com essas coisas e não quero que seja um encontro ruim — ri. — Quando algo legal aparecer, eu a chamo.
— Bem — começo sugestivamente. — A festa de Eduardo é no próximo final de semana. Você poderia chamá-la para ir. Victória é bem tímida e não quer ficar lá sozinha. Você seria o salvador dela.
Mike primeiramente concorda, mas então interrompe o movimento com a cabeça para franzir o cenho e perguntar:
— Como sabe que é Victória?
Droga, eu esqueci disso! Ele não havia me contado o nome dela. Não acredito que me entreguei assim, tão facilmente. Agora ele pode desconfiar de tudo e o meu plano perfeito terá que ser abandonado!
A risada contida de me acorda, e eu o pressiono com o olhar quando Mike pergunta o que tem tanta graça.
— É que eu lembrei de algo engraçado — diz, mordendo mais uma batata. Como ele não engorda?
Minha inveja por não poder comer batatas sem ter que deixar dois números de jeans para trás toma os meus pensamentos, e eu só acordo quando Mike repete a pergunta sobre Victória.
— Ela me contou — digo. — Laura, na verdade. Vic pediu ajuda com a roupa para ela. Você deveria saber que isso aconteceria, nós somos como uma teia de apoio e amor, ajudando umas às outras — me levanto, sentindo que se eu ficar mais um segundo vou começar a perder a credibilidade com os meus discursos improvisados. — Pense na festa. Ela vai adorar!
Saio e os deixo para trás, escutando o farfalhar da conversa de e Mike começar às minhas costas. Espero que faça a sua parte e o convença de que a minha ideia é genial!
Sabemos que ela é.



Continua...

Nota da Autora: Oi, meninas, tudo bom? Espero que tenham gostado deste capítulo de Batom Vermelho. Espero também que se divirtam cada vez mais com a Nina e suas loucuras e que se apaixonem pelo John da mesma maneira que eu HAHAHAH.
Não deixem de entrar no grupo para receber spoilers e participar das brincadeiras!
Qualquer surto grita na ask, no twitter ou no grupo do Facebook ❤.
Beijão.

Confira aqui outras fics da Andy.

Nota da Beta: Essa pp é maluca!!
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.