That's The Truth

Autora: Lyra M. | Beta: Carry

Oh God I did the wrong thing to the right girl
My mind was only in it for a minute
Had a bad fling, with a good girl
I was stupid and dumb, not giving a…
I did the wrong thing to the right girl
(…)
Please, please, baby, come back

Duas horas. Esse foi o tempo demorado para que se arrependesse amargamente.

Tão logo a porta do quarto foi fechada atrás de si, ele concentrou sua raiva em um soco na parede. Os dedos ficaram doloridos, mas ele não se arrependeu; na verdade, estava tentado a repetir o gesto. Ainda conseguia ver o rosto de , tomado pela dor e decepção, quando fechava os olhos. Ela sentia decepção, mas ele sentia raiva. Um ódio tão grande que duvidava que alguém de seu povo – normalmente calmo e controlado – já tivesse sentido algo parecido, algo tão intenso. Aquilo não era certo. Era surreal não só que ele, futuro Rei dos sereianos, fosse tão incapaz de manter a tranquilidade diante de uma situação estressante, mas também que tivesse cometido tamanho erro com .

Agora ele finalmente começava a enxergar com clareza, mas então já era tarde demais – o retorno de seria visto como um escândalo pelos sereianos, e qualquer tentativa de trazê-la de volta ou mesmo a ideia de que tudo não passava de um engano seria tida como um sinal de grande irresponsabilidade do futuro Rei, e o que era pior: a decepção e a insegurança sobre a capacidade de como líder não viriam apenas do povo, mas também de seus pais.

Não havia nada que ele pudesse fazer.

De repende, as paredes de pedra marinha acinzentada e incrustada de conchas pareciam muito atraentes de novo, mas ele se conteve; descontar a raiva daquele jeito não adiantaria nada. O que ele precisava fazer era manter a calma e pensar. Não apenas no seu erro, que agora parecia tão óbvio e claro quanto o sol que iluminava a superfície, mas também no que podia fazer para tentar se redimir.

Ele sempre havia sido irracional quando se tratava de , isso era óbvio. Fora alertado muitas vezes de que poderia não terminar bem, mas o que eles sabiam, afinal? Ninguém era capaz de prever o futuro, e ele estava destinado a ser Rei. E, se tudo tivesse saído como planejado, seria Rainha. Era óbvio que algumas pessoas seriam contra o plano, deveria ter previsto isso desde o começo. O que faltava agora era descobrir quem o manipulara, e o porquê. Fosse quem fosse, a pessoa pagaria.

Como se fosse um sinal, assim que o pensamento passou pela cabeça de , a porta do quarto foi aberta, e entrou. Irmã mais jovem do príncipe, ela vinha logo após ele na linha de sucessão do trono, e embora fosse mais nova do que o irmão, já demonstrava um talento natural para a liderança; era justa e calma, analisando as situações de todos os ângulos possíveis. , por outro lado, tinha um temperamento bem mais curto, que já começava a lhe custar caro demais.

Naquele momento, era exatamente a pessoa de quem ele precisava.

— Já se arrependeu, não foi? — Ela perguntou com a voz séria.

não conseguia encarar a irmã; sabia o que aquele tom de voz reservava: uma lição de moral que ele, como irmão mais velho, não deveria precisar ouvir. Ele permaneceu em silêncio, mas virou-se para a cama com dossel de madrepérola, onde sentou-se e colocou as mãos nas têmporas – podia pressentir uma dor de cabeça absurda se aproximando.

— O que foi que eu fiz, ?
— Influenciou nossos pais a expulsarem do reino a única pessoa que te via como você é, e não quem finge ser. Além de mim, é claro.

A pergunta fora retórica, mas no fundo já sabia que responderia. Ele só não conseguiu imaginar que a resposta doeria mais do que ter as escamas de sua cauda arrancadas uma a uma.

— Não imaginei que a punição seria tão severa. — Ele comentou em voz baixa balançando a cabeça, e pela primeira vez notou o quão verdadeiras aquelas palavras eram; ele realmente não sabia que o julgamento teria uma pena tão grave.
— As acusações foram graves, . — ponderou, com a voz suave e melancólica. — Não sei se existe algo que você possa fazer agora.

Ele tinha medo de ouvir aquilo, mas no fundo já sabia.

— Foi irresponsabilidade não checar a veracidade dos fatos antes agir. Assumo o erro. Mas já que não posso trazê-la de volta, o mínimo que posso fazer é descobrir o verdadeiro responsável, e puni-lo pela traição.
— Como foi punida? — A voz de era suave, mas fria como as geleiras nos confins do reino das águas.
teve o que não merecia. Seja quem for o verdadeiro culpado, ele será julgado como merece. Sem misericórdia, sem enganos.

O silêncio pairou pesado.

— Sabe que pode contar comigo, irmão.

Era o que esperava ouvir. Estava decidido – ele faria justiça.


If you listen to the things that your friends say
you're gonna be lonely
How can you treat me like that when I give my all to you
'Cause I haven't been messing around
I wouldn't ever go out and do things that you don't want me to do
'Cause I can tell you right now that you'll never find evidence on me
That's the truth




tentava respirar, porém era mais difícil do que parecia. Toda e cada parte de seu corpo estava dolorida, e ela tentou se levantar, mas logo perdeu o equilíbrio e caiu de novo na areia. Não estava acostumada a ter pernas, e nem a usar os pulmões. Seu corpo sentia falta da água, mas ela ainda estava lá; em forma de grossas lágrimas, que escorriam pelo seu rosto ininterruptamente, e compondo o mar, para onde jamais voltaria.

A jovem sentia falta das escamas avermelhadas de sua cauda, mas o que machucava mais não era seu corpo dolorido ou a saudade; era a traição.

Ela nem mesmo conseguia se lembrar da última vez que um caso de traição havia sido denunciado em seu reino, ainda mais considerando as leis restritas de sua corte, e, ainda assim, lá estavam três traidores: ela própria, ainda que acusada injustamente; , cuja confiança nela não fora o suficiente, e um terceiro traidor, aquele realmente culpado pela expulsão de do reino das águas.

não fazia ideia de quem era, mas tinha esperanças de que fosse capaz de enxergar a verdade. Ele sempre fora mais impulsivo que ela, que o fazia ver as coisas de forma clara e tomar as melhores decisões. É isso que nos faz um time tão bom, dizia, e lembrou-se das palavras com dor. Ela sabia que não havia jeito de recuperar sua cauda ou voltar para a água, mas também tinha consciência de que ele precisava descobrir a verdade. Se ela não era culpada do que havia sido acusada – e os deuses sabiam que ela jamais faria nada contra a coroa –, então alguém planejava um golpe, e aquilo precisava chegar a um fim.

Deuses, precisava saber daquilo. Se ao menos ela conseguisse entrar em contato com ele, ou um dos funcionários do palácio...

E então foi como se uma luz se acendesse no cérebro da moça.

Um dos funcionários.

Se havia mesmo uma conspiração sendo planejada, certamente era por alguém que conhecia de perto a família real, sabia de seus problemas, suas forças e fraquezas. E então, antes que o plano fosse de fato posto em prático, era preciso que alguém assumisse a culpa, para que o verdadeiro culpado passasse despercebido e ganhasse pontos a mais de confiança com a família real. E , sendo amiga de desde sempre, fora a vítima perfeita.

E por mais que não houvesse nada que ela pudesse fazer de concreto, pôs-se a refletir; precisava pensar e descobrir quem podia ter feito aquilo, e então talvez pudesse dispor-se a procurar um jeito de falar com ou sem voltar para seu reino. Devia haver algum jeito, afinal, e ela descobriria, sem se importar se também era proibido ou coisa do tipo. Uma regra quebrada a mais não faria diferença àquela altura.

Duas semanas. Quatorze dias haviam se passado desde quando perdeu a coisa mais próxima que já teve de uma irmã e que já teve de uma amizade e – por que não? – um amor que não fizesse parte da família real.

Ambos estavam fazendo o possível para investigar o que havia de fato acontecido, mas não estava sendo fácil, principalmente para , que ainda tinha os deveres reais para cumprir. Se bem que, no fundo, até achava que era uma coisa boa; ele ainda não havia se perdoado pelo que causou, e não era nem de longe tão discreto quanto ela era e precisava ser para investigar aquele “mistério”.

Uma coisa já era óbvia o suficiente: fora alguém que se mantinha por perto boa parte do tempo. Se não fosse, dificilmente saberia da ligação de com a família, e mesmo que soubesse, não teria motivo algum para querê-la longe. O que, é claro, levava à próxima questão: quem a queria longe, e por quê?

Os pensamentos de vagavam entre tantas possibilidades, sem conseguir se focar em nada que parecesse promissor. O palácio era enorme, de modo que possuía muitos empregados e complicava tudo infinitas vezes. E, o que mais preocupava a princesa: ainda não havia tentado entrar em contato. Era proibido, claro, mas ao longo dos anos fora influenciada por tanto quanto ele por ela. Do mesmo jeito que o futuro rei aprendera com a segurar seus impulsos, ela aprendera com ele que era necessário, de vez em quando, fazer algo errado para um bem maior.

não era culpada, todos tinham certeza. Por que raios ela não tentara entrar em contato com ou ainda? Seu rancor não poderia ser tão grande, poderia?

A pergunta ainda ecoava, ameaçadora, no fundo da mente da princesa quando voltou de uma reunião, seguido de dois seguranças – que agora o acompanhavam a todos os lugares, visando a segurança do príncipe diante de uma possível ameaça – e o conselheiro real, Satish.

Quando os boatos sobre uma conspiração começaram a ser sussurrados por entre as paredes do palácio, Satish fora um dos únicos a tentar convencer o príncipe a ouvir primeiro , e depois os rumores. soube de tudo muito rápido, é claro, mas fora ignorada pelo irmão. Quando Satish tomou partido na história e tentou ajudar , ela teve esperanças de que fosse ouvi-lo, afinal, ele aconselhava a família real há anos. No entanto, nem mesmo o sábio conselheiro fora capaz de dissuadir o príncipe.

— Como foi a reunião? — perguntou, tentando manter o tom de voz leve.
— Seu irmão será um grande Rei, Vossa Alteza. — Satish respondeu, visto que parecia nem ter ouvido a irmã. — Embora ele precise aprender a manter o foco, se distrair menos. Desavisados poderiam pensar que ele é um silfo, e não um tritão.

A sombra de um sorriso tomou o rosto do conselheiro, embora não tenha chegado a seus olhos.

— Ninguém o culpa, é claro. — Ele tornou a falar, com a voz simultaneamente séria e suave, e inclinou a cabeça na direção de . — Não visto os últimos... acontecimentos.
— Eu ainda estou aqui, Satish. — o cortou, ríspido.
— Não o culpe, . Mesmo eu tenho dúvidas se você continua conosco durante esses dias, ou se não passa de um morto-vivo. — interveio, e o irmão pareceu relaxar um pouco.
— Peço perdão, Vossa Alteza. — Satish falou, abaixando a cabeça em um gesto de humildade. — Mas o que já aconteceu está no passado, e lá deve ficar. Siga em frente, meu senhor, não há mais nada para se fazer. Agora, se me permite, preciso ir; há outra reunião com o Rei à qual devo comparecer, embora sua presença não tenha sido requisitada.

pressionou as têmporas com os dedos, mal ouvindo o que o conselheiro falava. Acenou despreocupadamente com a mão, tentando clarear os pensamentos; tudo o que ele queria era um pouco de paz e descanso, para que pudesse pensar com tranquilidade.

Satish aceitou o aceno como um sinal de permissão concedida, e curvou-se em uma reverência rápida, antes de se retirar do salão, sob os olhos atentos e pensativos de .

sentia-se cansada. Ainda não conseguira se adaptar bem à vida em terra firme, embora estivesse longe de casa há duas semanas. O processo de adaptação era demorado e exaustivo, especialmente para os que não faziam parte da família real. Além da realeza, ninguém possuía permissão para deixar a água, em qualquer circunstância que fosse, de modo que ela não estava acostumada com pernas, pulmões ou a comida diferente.

A jovem também estava com fome, aliás. Ousara se aproximar do reino élfico apenas o suficiente para procurar o que comer, embora soubesse que também não seria bem recebida lá. Além disso, precisava se manter perto da água, precisava encontrar um modo de entrar em contato com . Sabia que a princesa lhe ouviria e aceitaria ajudar, o problema consistia apenas em como entrar em contato com a mais nova dos destinados ao trono.

sabia que havia um jeito; se pudesse encontrar apenas quatro pedras cryscis, então poderia entrar em contato com ou – embora não tivesse certeza se o segundo gostaria de vê-la. As pedras cryscis, comuns em seu mundo, eram maiores do que pérolas normais, embora em formato parecido e fossem translúcidas e reluzentes como cristais. Quando quatro delas eram postas juntas, abriam uma espécie de portal, embora não fosse possível atravessá-lo de fato; ele servia como um meio de comunicação, tornando possível ver e falar com a pessoa que estivesse do outro lado, mesmo que por um tempo breve.

O problema era que não podia se dar o luxo de esperar alguém entrar em contato com ela primeiro. Ninguém poderia saber com certeza onde ela estava, e a informação era necessária para que o portal pudesse ser aberto. Não, era quem precisava dar o primeiro passo, mas era mais difícil do que parecia – as pedras cryscis não eram encontradas com facilidade na superfície, e a jovem não gostaria de arriscar voltar para a água, nem que fosse apenas o necessário para encontrar as pedras. Anos haviam se passado desde que um sereiano fora expulso do reino, e não era especialista em história, não saberia dizer se havia e quais seriam as consequências para quem tentasse voltar. Ela não se arriscaria tanto.

Cansada, sentou-se na areia de novo. Ao seu lado, conchas e algumas pedras preciosas de valor menor, menos estimadas pelo seu povo.

Ainda não conseguira pensar em uma explicação ou culpados plausíveis, não conseguia se concentrar para pensar com calma e o peso que aquilo trazia para seu coração parecia mais esmagador a cada minuto passado em terra firme.

Ela já estava começando a perder as esperanças de que algo fosse dar certo.

pesou os pós e contras do que estava prestes a fazer, mas no fundo de sua mente já tinha a certeza de que faria, de um jeito ou de outro. Uma das mãos estava fechada em punho, com as juntas doloridas; dentro da palma, havia uma esmeralda lapidada e quatro grandes e translúcidas pérolas, que a princesa segurava com força, sabendo que não se quebrariam, ao menos não até que fossem usadas.

— Está pronta? — Ela perguntou assim que uma das criadas do castelo apareceu.
— Não. Mas não se preocupe, não vou desistir. — A jovem, Kylie, respondeu. Ela estava apreensiva e olhando ao redor, como se com medo de ser vista. sorriu.
— Está tudo bem. O que de pior poderia acontecer com você? Encontrar um membro da família real? — a princesa brincou e Kylie não conseguiu segurar um sorriso. — Não vai demorar. Preciso que deixe isto o mais próximo da superfície que puder. Se for na areia, melhor ainda. Prometo que não sofrerá nenhuma punição por chegar tão perto da terra firme, é realmente importante.

Kylie manteve-se em silêncio enquanto segurava seu punho com firmeza, depositando a esmeralda e as quatro pedras cryscis na palma de sua mão. Lentamente, ela entendeu o que a princesa estava planejando.

— Sente falta dela também? — Ela se atreveu a perguntar, não mais alto que um sussurro.
— Sim, mas é mais importante do que isso. E preciso que guarde segredo a respeito desse assunto, Kylie. — pediu em voz baixa, com urgência. — Não posso pedir que fale com ela diretamente, seria pedir que colocasse um alvo em suas costas. E também não posso usar as pedras cryscis eu mesma, seria ainda mais arriscado.

A criada engoliu em seco, mas concordou com a cabeça de modo quase imperceptível.

não tem mais nada a perder, Kylie. Eu não faria isso se não fosse importante, ou se fosse deixá-la em uma situação ainda pior.
— Eu sei, Vossa Alteza. Eu sei.

Fechando a mão com ainda mais firmeza ao redor das pedras, Kylie fechou os olhos, respirou fundo e deu meia-volta, nadando em direção à superfície.

acordou com a sensação de estar sendo vigiada. Ela estava deitada na areia, próxima do mar, e sentou-se rapidamente, olhando ao redor. Logo depois da grande faixa de areia que formava a praia, começavam as árvores que levavam até o reino élfico, mas não havia ninguém por ali. Virando-se para a direção do mar, teve tempo apenas de ver a cauda de alguém desaparecendo na água, em um mergulho apressado.

A jovem levantou-se o mais rápido que pôde, com o coração batendo apressado; ela conhecia o tom rosado das escamas daquela cauda. Era Kylie, só podia ser. Ela era a pessoa mais próxima de depois de , e as duas eram amigas desde sempre. Aos tropeços, aproximou-se do mar, mas então já era tarde demais – nada podia ser visto sob a superfície da água límpida e turquesa. Ela já havia ido.

O coração de pareceu mais pesado por um momento, até que ela olhou para baixo e foi como se uma explosão de esperança e gratidão tomasse conta da jovem. Aos seus pés, quase tocando a água e em meio a conchas e algumas poucas algas, estavam quatro pedras cryscis e uma esmeralda, símbolo da família real. Aquilo era coisa de , ela tinha certeza. Só podia ser.

Sentindo-se tão feliz que quase podia chorar, pegou as pedras, fechou os olhos e concentrou-se em e no palácio real.

Talvez ainda houvesse uma chance de que tudo fosse se acertar, afinal de contas.

nunca se sentira tão impaciente e ansiosa antes. Kylie voltara há pouco tempo, dizendo que tudo ocorrera bem, e que não deveria demorar a entrar em contato, uma vez que estava perto de onde as pedras foram deixadas. Agora, não havia nada para ser feito além de esperar.

E de fato, pouco tempo depois a espera chegou ao fim. A água tremulou por alguns segundos, até formar o que parecia uma janela oval: era possível ver um céu azul do outro lado e, ao longe, uma faixa de areia e algumas árvores. Em primeiro plano, estava , parecendo à beira das lágrimas, ainda que mantivesse um sorriso no rosto.

! — A princesa levantou-se da cama de madrepérola, sentindo uma onda de alívio inundá-la.
— Ah, ! — A outra respondeu, emocionada. — Sabia que era você, só podia ser!
— Como você está?
— Tudo dói, . Tudo dói. — respondeu, com pesar. — Mas já estou me acostumando, acho. E além do mais, sabia que você entraria em contato.
— Sinto muito não ter sido mais direta. Poderia ser punida se eu mesma fizesse isso, mas nada me impede de falar contigo se quem entrar em contato for você. Além do mais, não saberia onde te achar na superfície, para poder usar as pedras cryscis. — tentou se explicar. — E sinto muito por também.

suspirou.

— Eu não o culpo, . Bem, não muito. — Ela sorriu fraco. — Era o dever dele como príncipe. Só me magoa saber que ele confia tão cegamente em Satish, a ponto de não ouvir meu lado da história.

estava prestes a confirmar, quando prestou atenção nas palavras da amiga exilada.

— Espere, o que disse? — Ela perguntou, confusa.
— Ele não me ouviu, .
— Não. Sobre Satish. Ele falou algo contra você? — A princesa inquiriu, chocada. Algo naquela história estava muito errado.
, ele começou os boatos de que eu tramava contra a coroa. Ninguém diria isso diretamente ao Rei ou à Rainha, afinal, ele é o conselheiro real, mas todos no palácio sabem. Pode perguntar à Kylie ou qualquer outro sereiano, se quiser.
— Eu acredito em você, . — falou vagamente, enquanto seus pensamentos se agitavam. — O que não faz sentido é que ele tentou fazer ser mais justo.
— Satish me defendeu? — perguntou descrente. — Isso não é possível, .
— Mas sim, ele disse... — se interrompeu, suspirou e voltou a falar, consternada: — Ele disse para fazer o que era certo, e agora repete que ele deve seguir em frente e deixar o passado onde está. Ah, , sinto muito. Eu deveria ter percebido.

respirou fundo mais uma vez, cansada e resignada.

— Não é sua culpa, . Foi inteligente, de verdade. O boato se espalhou por entre os funcionários, mas Satish é mais próximo da família real, tem sua confiança, então ninguém pensaria nele.

balançou a cabeça positivamente, transtornada. A verdade é que chamara para perguntar se não havia a possibilidade de o culpado ser um dos funcionários do castelo, uma vez que a única pessoa de quem a princesa não poderia suspeitar era Kylie, que sempre fora a melhor amiga de . Mas Satish? Ela não esperava por aquilo.

Fazia sentido que ele fosse o culpado, é claro, mas a princesa ainda não sabia o porquê, ou o que fazer a respeito. Aquele seria o próximo passo a ser tomado.

! — chamou pelo que parecia a décima vez, e a princesa saiu do quase transe em que entrara sem perceber. — Está ouvindo?
— Desculpe, eu apenas estava pensando... — A outra respondeu, vagamente. — , eu preciso ir. Sinto muito, tenho um assunto urgente para resolver.

comprimiu os lábios, e encarou a imagem da amiga por alguns segundos. Então, sentindo-se derrotada, falou:

— Tome cuidado, sim? Não queremos que a princesa também seja expulsa do reino.
, se mais alguém for expulso do reino de meus pais nos próximos dias, não serei eu. — A princesa respondeu, sorrindo. — Entrarei em contato contigo o mais rápido que puder, prometo.

E mais rápido do que qualquer uma das duas queria, a imagem se dispersou, e se viu sozinha em seu quarto mais uma vez.

A conversa com ocorrera no dia anterior, mas parecia ter sido há muito mais tempo. estava nervosa desde então, e nem mesmo podia desabafar com alguém. As cartas que foram postas na mesa eram perigosas, e ela precisava planejar a próxima jogada com cuidado. Não podia falar com , pois seu nervosismo e imprudência poderia colocar tudo a perder, e muito menos com seus pais, pelo menos não ainda. A princesa precisava ter tudo acertado antes de falar com o Rei ou a Rainha.

Sendo assim, só lhe sobrara uma opção, a única pessoa em quem ela sabia poder confiar – ou o mais próximo disso que era possível. Kylie.

A caçula da realeza fora procurar a criada no dia anterior assim que terminara a conversa com , já sabendo que seu plano era simples e arriscado, mas que não havia tempo para trabalhar em nada mais complexo.

Por pura questão de sorte, os governantes do reino submerso andavam muito ocupados nos últimos dias, o que significava que tanto quanto Satish precisavam acompanhá-los em grande parte dos compromissos. Desse modo, não fora difícil para forjar uma reunião com os guardas, apenas por tempo suficiente para que Kylie colocasse sua parte do plano em prática.

Ainda que morrendo de medo, a jovem sereia se infiltrara nos aposentos do conselheiro real, para investigar qualquer coisa que pudesse incriminá-lo ou ao menos explicar suas ações paradoxais e suspeitas. acompanhara os guardas designados à patrulha daquela área até o salão de reuniões, dizendo estar seguindo ordens diretas do Rei.

Kylie sabia que não teria muito tempo, mas fora o suficiente, afinal.

Depois de alguns minutos que mais pareceram horas, a jovem deixou o quarto, ainda levemente assustada, mas com um diário bem preso entre os dedos pálidos e trêmulos de apreensão. Trabalhando no palácio desde sempre e considerando que todos os cômodos possuíam uma estrutura parecida, não fora difícil revirar os móveis e procurar para algum possível esconderijo secreto e improvisado.

E, de fato, lá estava: escondido atrás de uma pedra solta na parede da cama, o diário que agora fora entregue à princesa possuía anotações organizadas, porém apressadas sobre como tornar a realeza “digna” novamente. Ao que parecia, Satish abominava o modo como era permitida a moradia de criados no castelo, e o relacionamento (nas palavras do conselheiro, desrespeitoso e indigno) de amizade que constantemente era construído entre servos e soberanos. Ele achava necessária uma mudança não apenas entre essas relações e entre os empregados, mas também na realeza. Ao que tudo indicava e estava relatado nas anotações, podia-se presumir que Satish achava que ele próprio seria um Rei melhor, e visava chegar ao trono de um jeito ou de outro.

O primeiro passo fora eliminar . Ela tivera sorte de apenas ser expulsa, mas era um grande avanço no seu plano, uma vez que não só era astuta e justa, como também era muito próxima de , e um dia provavelmente seria coroada Rainha. O que Satish precisava fazer era acusá-la do que, no fim, ele próprio queria: tomar a coroa. Foi então que os boatos começaram.

Depois de , viria . E, sabendo que as punições para a realeza costumavam ser mais rigorosas, a princesa certamente não perderia apenas o reconhecimento como cidadã sereiana, como também perderia a vida.

E então, com certeza viriam e os atuais Rei e Rainha.

O coração de batia descompassado depois de ler o que Satish anotara, e compreender a linha de pensamento do conselheiro traidor. Murmurando um “venha comigo” apressado para Kylie, nadou por entre os corredores do palácio, à procura de dos Reis. Aquilo precisava terminar naquele momento.

Tanto o irmão quanto os pais estavam na sala do trono, discutindo uma reunião que se encerrara há pouco. Com exceção deles e um par de guardas, não havia ninguém, o momento era perfeito.

! O que está acontecendo? — O Rei perguntou ao ver a filha, normalmente calma, adentrar o cômodo com pressa e medo no olhar. Sob o olhar preocupado da família e encorajador de Kylie, a princesa aproximou-se dos tronos e respodeu:
— Nós precisamos conversar. Urgente.

passou os dedos por entre os fios de cabelo escuros, aflito. Já deveria ter feito aquilo há semanas, mas até então não tivera coragem. Ainda não tinha, certo, mas não podia mais adiar. Não era justo, e justiça era algo que ele aprendera na marra, nos últimos tempos.

Suspirando alto uma última vez e sentindo o aperto solidário da mão de em seu ombro, ele esmagou as quatro pedras cryscis na própria mão, e aguardou.

Pouco depois, a imagem tremulante de surgiu à sua frente, e o coração do jovem quase perdeu o ritmo. Era ela, era mesmo ela. O rosto estava bem mais bronzeado devido ao sol, mas ele jamais esqueceria aquele rosto. Parecendo chocada por um segundo, gaguejou um pouco e por fim conseguiu falar, não mais alto que um sussurro:

? — O príncipe, que não era muito bom demonstrando as próprias emoções, sentiu que poderia chorar.
— Nós o pegamos. — Ele falou, finalmente encontrando a voz. — Nós pegamos Satish, . Era ele, o tempo todo.
— Eu sei. — Ela disse, aquiescendo, e sentiu-se um idiota mais uma vez; é claro que ela sabia, se não fosse a conversa que tivera com , era provável que tudo tivesse saído como o até então conselheiro real planejara.
— O julgamento acabou agora há pouco.

Muito bem, aquilo era uma novidade para . O coração da jovem foi parar em algum lugar próximo à garganta, e o estômago se embrulhou. Ela não sabia os detalhes da história, mas sabia que ambos o Rei e a Rainha eram justos, e se haviam percebido que ela era inocente e Satish queria prejudicá-la, então não o puniriam da mesma maneira. Não o mandariam para o mesmo lugar onde ela estava.
— Qual a sentença? — Ela perguntou em um fio de voz. olhou por cima do ombro procurando apoio em , antes de responder, hesitante:
— Morte.

O silêncio pairou tão pesado quanto o significado da palavra dita por último.

— Está acabada, essa história? — perguntou em voz baixa.
— Está. — respondeu enquanto acenava positivamente, tentando tomar coragem para perguntar: — Você pode me perdoar?
— Acho que posso pensar no caso. — respondeu com a voz leve e os lábios curvados em um sorriso pequeno.
— Bom. Isso deixará as coisas um pouco menos constrangedoras. — Ele comentou, trocando um olhar com a irmã mais nova.

olhou de para com o sorriso travesso de quem sabia um segredo, e a jovem exilada franziu o cenho, desconfiada. O príncipe lançou um olhar rápido primeiro para a melhor amiga, então para a irmã, e então baixou os olhos, deixando que a mais nova falasse:

— Nossos pais ficaram chocados quando descobriram a verdade, e entenderam que as intenções de foram boas, especialmente porque ninguém teria desconfiado de Satish. — começou, ansiosa. — E eles também entenderam que sua punição foi injusta e, de certa forma, desonrosa. Digna de um pedido de desculpas.
— Você vai voltar para casa, . — finalizou, suave.

O mundo parou. Ou, pelo menos, foi isso que sentiu quando a frase daquele que era seu melhor amigo desde sempre continuou ecoando em sua cabeça. Ela voltaria para casa. Teria a cauda de volta, e tudo seria como antes.

e ainda a olhavam, divertidos com a expressão de choque no rosto dela. Aos poucos ela saiu do quase-transe em que estava, e sentiu uma lágrima de emoção escorrer, solitária, pelo rosto, conforme um largo sorriso se abria e a maré tocava de leve os pés adquiridos recentemente pela moça sentada na beira da praia.

Tudo estava bem.

FIM.

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Especial MaineFly

Nota da autora:

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