Autora: Frann Strack | Beta-Reader: Carry

1. A garota da música.

“I swore to you that I would do my best to change but you said it don't matter.
I'm looking at you from another point of view.
I don't know how the hell I fell in love with you.”

POV — McFly

— Antes de tudo, gostaria de avisá-los. Essa não é uma história de amor. É uma história sobre uma música muito boa. E as consequências que vieram com o seu sucesso — fiz careta. — Ah, é claro, eu não esqueceria do mais importante: essa é uma história sobre como nem tudo naquela letra é a verdade absoluta. Me desculpe, — murmurei e sorri brevemente. — Tudo, absolutamente tudo, tem um outro ponto de vista. E eu estou aqui para falar um pouco sobre isso.
“Alguns de vocês devem saber exatamente quem é essa garota aqui, sentada, falando um monte de bobagens, mas outros devem estar se perguntando quem diabos sou eu. Bem, ligue o seu rádio. Sabe aquela música meio lenta, mas nem tanto? Sim, aquela com a batida contagiante e o refrão que fica na sua cabeça. Aquela que todo mundo sai cantando por aí. Você já deve ter ouvido até mesmo aquela sua tia cantarolando alguns versos em um churrasco enquanto ajudava no preparo da comida. Duvido que você já não tenha a escutado. Caso não tenha — ou apenas não lembre de qual canção eu estou falando —, apenas sintonize seu rádio em alguma estação. Ela geralmente está no top dez de cada estação de rádio do estado e, certamente, de algumas rádios nacionais. Isso mesmo, faz alguns meses que ela fora lançada, mas ainda está fazendo sucesso. É uma música muito boa e eu não posso discordar disso. A música se chama e é da banda Crazy Kids. Agora você sabe qual é? Eu sei, é uma pergunta boba. Alguns de vocês já devem estar cantarolando ela há algum tempo. Então, vamos começar...”
— Muito prazer, meu nome é e eu sou a garota da música que o escreveu. E está na hora de vocês conhecerem o meu ponto de vista — respirei fundo. — Sempre passávamos nosso tempo livre no mesmo lugar, que era um estacionamento onde nos encontrávamos à noite. Era como se nós sete fôssemos uma família. Aline e Karen, que estão aqui — apontei para as duas, que sorriram. — , obviamente, e eu. Lucas, Victor e Cash. Sim, o apelido dele é por causa do Johnny Cash — ri. — Vocês, com certeza, já sabem disso, já que esses quatro caras são os meninos da Crazy Kids. Continuando, essa noite foi diferente das outras, as coisas começaram a mudar.

Estávamos há mais de uma hora sentados no estacionamento. Bebíamos um pouco de vinho, o que supostamente deveria nos ajudar com o frio. O pessoal estava levantando e se preparando para ir embora. Mas eu não queria ir. Estava bom aqui. Não queria voltar para casa e para a minha vida — que não ia muito bem.
— Ainda está cedo! — reclamou. Ótimo! Pelo menos não estou sozinha nessa.
— Não, não está — Cash fez uma careta que pareceu engraçada, mas talvez eu só estivesse começando a ficar bêbada. — Já são duas horas da manhã.
— Em uma madrugada de sexta para sábado — continuou a argumentar.
— Tenho aula da faculdade amanhã de manhã — Cash rebateu.
— Eu também — Aline e Victor responderam juntos.
— Porra, falei para vocês não pegarem cadeiras no sábado de manhã.
— E qual a diferença? — Victor perguntou.
— É — Aline apoiou o amigo. — Teríamos que fazer essas aulas uma hora ou outra.
— E vocês? — olhou para os outros dois, esperando uma resposta.
— Eu trabalho amanhã — Lucas fez careta. — Aliás, eu sou o único que trabalha amanhã.
— Eu também trabalho amanhã — Karen resmungou, socando o braço de Lucas. — Não de manhã, mas trabalho.
— Como se ele não soubesse o horário de trabalho dela de cor — me cutucou, revirando os olhos.
— Sim! Os dois se amam e não admitem — concordei.
— A gente ainda está aqui — Lucas ressaltou.
— Sabemos disso — riu.
— Gente, vocês não podem ir embora — reclamei, erguendo a garrafa. — O vinho ainda nem acabou.
— Desculpa, — Karen pediu. — Estou muito cansada, tenho que ir mesmo. Vai querer carona?
— O que me diz? — olhei para . — Vamos ficar e terminar o vinho?
— Pensei que não fosse perguntar — ele riu.
— Como nos velhos tempos — falei, de um modo alegre demais para estar totalmente sóbria.
— Parece uma velha falando — Karen revirou os olhos. — Tem certeza que vai ficar?
— Estou de carro. Posso dar carona à ela — garantiu à Karen.
— Amanhã passo na sua casa e deixo com sua mãe as coisas para o nosso trabalho da faculdade — falei. — Pode ir. me deixa em casa.
— Fala sério! — Lucas falou. — Não sei como você podem querer ficar na rua com esse frio.
— Concordo — Karen disse. — Deveriam ir para a casa de um de vocês e acabar essa garrafa por lá.
— Vocês se merecem — tirei sarro antes que eles realmente fossem.
Fui sentar mais perto de onde estava sentado e ficamos um tempo por ali, bebendo e conversando coisas aleatórias. Bebi mais um pouco e passei a garrafa para ele. Esfreguei as mãos em uma tentativa falha de esquentá-las. Com minhas mãos geladas, era impossível não sentir frio. Noite de outono em Porto Alegre era assim. Deveria estar uns seis ou sete graus, se não estivesse menos.
— Está esfriando mais — comentou. — O vinho não está ajudando tanto quanto deveria.
— Verdade — encolhi-me um pouco mais. — Mas não quero ir embora.
— Nem eu — concordou. — Eu gosto desse lugar, é como um refúgio.
— Este lugar sempre vai significar muito para mim — falei, de repente. — Todo o tempo e todas as coisas que passamos neste lugar...
— Um dia vou escrever uma música sobre esse local.
— Realmente espero que você escreva — sorri. — Quero ser a primeira a ouvir.
— Eu sinto como se esse lugar fosse uma parte de mim, sabe? — concordei, levantando a cabeça para olhá-lo. — Você é uma parte de mim.
— Eu sei — não ousei desviar o olhar. — Eu sempre serei.
E então, nos beijamos. E foi ótimo. Era uma coisa que eu nunca esperava que fosse acontecer e agora estava acontecendo. E parecia tão certo.

— Ele acabou escrevendo a música sobre o estacionamento não mais de um mês depois daquilo. Vocês já devem ter escutado, é claro — ri outra vez. — Ah, e sim, eu fui mesmo a primeira a ouvir.
e eu namoramos por alguns bons meses e, gente, foi muito bom. Nós fomos felizes. Gostávamos da companhia um do outro. Sabe? Nós nos amávamos. Ninguém que nos conhecia podia negar isso. Seis meses de relacionamento e as coisas não estavam mais funcionando como deveriam. Praticamente todos os relacionamentos são assim, eu sei. É só que, eu não sei, aquilo não estava sendo saudável para nenhum de nós dois. Não era justo com ele ou comigo. Tínhamos algo incrível e aquilo tinha enormes chances de se ruir até que não restasse absolutamente nada. Eu precisava colocar um ponto final antes que algo do tipo acontecesse. E então, comemoramos nossos sete meses juntos. Foi incrível, mas acabou em uma discussão idiota sem motivo. Isso me fez decidir que eu realmente precisava fazer aquilo. Tomei coragem e, na outra noite, fui até a casa de . E então, fiz algo que eu não deveria.”
— Eu o beijei, antes de tudo acontecer. E foi tão bom, sabem? Eu amo ele. Eu tinha que o beijar por uma última vez antes de terminar com aquilo, precisava senti-lo por um último instante — suspirei pesadamente. — Eu pensei que isso tornaria mais fácil, mas não foi isso que aconteceu. O que eu tinha na cabeça? — ri, nervosa. — Aquele beijo só fez tudo ser ainda mais difícil. Meus sentimentos se intensificaram e, de repente, eu não queria prosseguir com aquilo. Mas eu sabia o que eu tinha que fazer — mordi o lábio inferior com força, relembrando. — Seria o melhor para nós dois. Ou, pelo menos, foi o que eu disse para mim mesma.

— Sinto muito, — coloquei a mão em seu peito, o afastando apenas o suficiente. — Não posso continuar com isso.
Não sei de qual canto do meu interior eu tinha tirado força para dizer aquilo. Não podia ser assim! Mas precisava.
— O que você quer dizer com isso? — ele deu alguns passos para trás, distanciando-se um pouco mais.
O olhar em seu rosto me fez querer dizer que era tudo uma brincadeira de mal gosto e, em seguida, o abraçá-lo. Mas eu não podia fazer isso.
— Eu acho que você entendeu o que eu quis dizer — respirei fundo. — Estou terminando nosso relacionamento.
Não ousei me mexer. Ele abriu a boca e fechou duas vezes. Virou de costas. Andou até a cama. Sentou. Baixou a cabeça. Passou a mão pelos cabelos. Bufou. E só então voltou a me olhar.
— Por quê? — ele levantou a voz, irritado, e então a baixou novamente quando voltou a falar. — Por que você faria isso?
— Porque isso não está funcionando mais — tentei me manter firme.
— Eu não te fiz feliz? — perguntou repentinamente. — Você não me ama mais?
Ele estava sério. Tão sério que fez-me sentir meu estômago doer. Isso não estava certo.
— Eu amo você — disse e ele riu. Mas eu sabia que ele não achava aquilo nem um pouco engraçado.
— Está se contradizendo.
— Não, não estou — falei. — Eu amo você, mas as coisas não estão mais dando certo entre nós.
— Então, não podemos ter uma briguinha de nada e isso já é o fim para você? — rebateu de modo irônico e irritado. — Nossa, como o nosso relacionamento significa para você...
— Pare com isso — pedi, bufando. — Por que você tem que ficar desse jeito?
— Você veio na minha casa, no meu quarto — levantou a voz outra vez. — Veio até aqui para terminar com tudo o que nós tínhamos. Como, no mundo, você esperava que eu reagisse?
— É, você está certo. Me desculpe — lamentei. — Mas não foi só uma briga de nada, . Estamos brigando por qualquer coisa. Qualquer. Coisa. Brigamos até mesmo sem motivos.
— Não é assim.
— É, sim. Você sabe que é. Não conseguimos passar três ou quatro dias sem que fiquemos sem nos falar, ignorando um ao outro — não consegui mais segurar as lágrimas. — Não somos mais crianças. Temos que enfrentar isso. Não está funcionando. Fomos felizes, sim, mas o que temos não é mais um relacionamento saudável. Não acho que vá me trazer nenhum bem continuar com isso.
— Por que eu sinto como se você estivesse se esforçando para transformar a situação em uma coisa muito pior do que ela realmente é? — perguntou de modo retórico.
Porque eu quero que você entenda.
— Eu não estou — gritei, mas ao me dar conta daquilo, baixei meu tom de voz outra vez. — Você sabe que eu não estou.
— Não podemos fazer isso — murmurou. — Não depois de tudo o que passamos juntos.
— Não há nada que possamos fazer para mudar isso.
— É claro que podemos — insistiu. — Você sabe disso.
— Eu tenho que ir — disse, dando um passo para trás.
— Não! — falou rapidamente. — Ainda não terminamos nossa conversa.
— Eu...
, não fuja.
— Não estou fugindo.
levantou e veio até mim. Ele segurou minha mão e a apertou. Aquilo não deveria ser reconfortante, mas foi.
— Nós podemos fazer isso dar certo — garantiu. Mas ele estava tão errado.
— Não podemos, — limpei a maldita lágrima que escorria pela minha bochecha. — Sinto muito, mas não podemos.
...
— Não há nada que possamos fazer para mudar isso — repeti. — Nem eu, nem você.
— Eu posso mudar isso — disse, obstinado. — Eu posso mudar. Posso fazer as coisas darem certo.
— Você não pode — desvencilhei minha mão da dele. Eu não sabia mais se estava tentando convencer a ele ou a mim mesma.
, por favor, não vá embora — implorou. — Eu juro que eu farei o meu melhor para mudar.
— Não importa, . Não importa — eu estava desabando por dentro. — Não importa o quanto qualquer um de nós tente mudar ou tente fazer as coisas darem certo. Não está funcionando. Eu sinto muito.
Caminhei para fora do quarto, deixando e tudo o que a gente tinha para trás. Eu sentia um peso dentro de mim. Aquilo estava me matando lentamente por dentro. Mas eu não voltei.

— Sinceramente, eu não sei se eu estava saindo daquele quarto com o meu coração na mão ou com o dele. Bem, talvez fosse os dois — suspirei. — Só que eu não coloquei meus sentimentos extremos em uma música. Ele colocou. E essa música tinha o meu nome, . E acontece que ela era muito boa e fez um grande sucesso. E com o sucesso da música, veio as consequências. Para os garotos, a consequência foi ótima. Eles ficaram conhecidos por todo o país e mereciam isso. Para mim, foi uma droga — revirei os olhos. — Todo mundo sabia quem eu era, mas ninguém me conhecia de verdade. Ninguém sabia nada além do que tinha escutado naquela canção.
“Eu fui julgada no trabalho e, principalmente, na faculdade. A gente sai do ensino médio e acha que as picuinhas vão parar de acontecer, mas elas não param. A vida é assim, não apenas o ensino médio. E quando você tem uma música que fala o quão terrível você foi terminando o seu namoro com aquele cara? Ah, aí sim que as pessoas começam a te olhar como se você fosse uma aberração. Porém, tem aqueles que te olham com admiração. É uma situação bem estranha. Você nunca sabe se a pessoa que passa por você te escarando está te odiando, te amando, ou nem sequer sabe quem você é.”
“A única coisa certa era que todos conheciam aquela música e, todas as pessoas que me conheciam, estavam me julgando de um jeito ou de outro. Alguns me odiavam pelo que eu havia feito para o . Outros me amavam por ter sido daquele jeito cruel com ele. De todos os modos, ninguém sabia o que realmente tinha acontecido ou como eu me senti ao sair daquele quarto naquela noite. Mas ninguém ligava para aquilo. Ninguém se importava com o que eu sentia. Eles só conheciam a da música, não a verdadeira .”
“Algumas semanas tinham se passado e eu comecei a receber regalias. Presentinhos de produtoras estavam chegando pelo correio. Assim como os convites para eventos importantes. Era um saco! A mais simples e, também, a mais frequente de todas eram as entradas de graça em festas pela cidade. Eu neguei por um bom tempo, mas depois resolvi começar a usá-las. E por quê não? Não iam me elogiar por aceitar ou por ignorar aquilo.”
— A verdade é que por um bom tempo eu abominei aquilo tudo e os diversos jeitos como eu era vista pelas pessoas. Aquilo me matava, acabava comigo. Depois de um pouco mais de dois meses me martirizando, decidi não me importar mais com aquilo — retorci os lábios. — Eu nunca tinha me importado com o que falavam de mim, sabe? Por que diabos eu estava me importando agora? Não fazia nenhum sentido — dei de ombros. — Ninguém se importava em saber o meu ponto de vista sobre o que havia acontecido, então, por que eu deveria me importar com o que eles pensavam? Eles nem me conheciam.

2. Não importa.

“Team back to the parking lot. The sleep we fought. All the places we got caught.
This place will always be a part of me. Yeah, you're all a part of me.”

We All Roll Along — The Maine

— É, nem tudo são flores — falei, vendo meus amigos me encararem com uma expressão acusadora. — Tudo bem, gente, eu sei! Eu nem gosto de flores, então, essa expressão não faz nenhum sentido para mim. Mas o que importa é que vocês entenderam — revirei os olhos. — Foi difícil para mim, até que eu decidi não me importar mais. E agora, cinco meses depois daquele término e um ano depois de termos começado a namorar, eu decidi que estava sendo boba. Eu precisava falar com e voltar a fazer parte daquele grupo de amigos, caso eles não me odiassem — ri. — E gente, eles não me odiavam, acreditem. Nem mesmo o — sorri. — Mas primeiro tenho que contar do show. Depois falo de quando a gente voltou a se falar. Qual é, os garotos precisavam da minha apreciação, certo? A Crazy Kids tinha um show muito especial naquela noite. Era o show de lançamento do novo disco. O show ia ser no Opinião, em Porto Alegre.

Vesti-me rapidamente e peguei um ônibus, indo até a Cidade Baixa. Comprei uma cerveja e tomei rapidamente antes de entrar. O local estava quase lotado, mas não era muito grande, então, não demorei muito para localizar Aline e Karen que, obviamente, estavam no meio do público. Elas não precisavam, podiam estar do lado do palco, mas eu sabia que elas gostavam do sentimento de estar ali. Costumávamos ir a shows sempre que possível. Tinha uma energia diferente e incrível em dias de show. Eram os melhores dias. Sempre. Mesmo que eu estivesse nervosa por estar em um show da Crazy Kids pela primeira vez desde aquele pequeno show em que e os garotos tocaram a música, aquele sentimento inexplicável de estar em um show estava presente. Aline, Karen e eu já tínhamos ido em vários shows nacionais e internacionais ali. Sempre ficávamos no mesmo lugar para assisti-lo — exceto naqueles shows em que decidíamos ficar na grade, é claro. Em nenhum show seria difícil localizá-las. As garotas me abraçaram, sorrindo. Elas ficaram tão felizes por eu finalmente ter dado o braço a torcer e ter ido assistir a um show dos garotos, nossos garotos.
Simplesmente do nada, eu era puxada por uma pessoa ou outra que queriam tirar uma selfie comigo, com a garota da música. É claro que isso aconteceria, afinal, a garota da música da Crazy Kids estava em um show da Crazy Kids. E olha isso, eu estava feliz por estar ali. Não podia estar mais feliz de ver , Victor, Lucas e Cash em cima daquele palco com todas aquelas pessoas cantando e gritando as letras de suas músicas. Eles tinham conseguido. E eu estava orgulhosa deles. E apesar de todos os momentos ruins que — a música — tinham me trazido, estava feliz por ter feito parte daquilo, por tê-los ajudado a finalmente fazer o sucesso que eles tanto mereciam.
Quando o show estava chegando ao fim, ouvi os primeiros acordes da música mais amada por quase todos que estavam ali. As pessoas gritaram, muito alto, felizes em ouvir aquilo.
E eu cantei junto, junto com o público, com ele. Cantei com vontade. A música era realmente muito boa. E ao vivo era melhor ainda. Não demorou para que meus olhos se enchessem de lágrimas. Eu lembrava de tudo, cada segundo. Eu sentia o que a letra da música passava. Eu não sei se minhas lágrimas eram por saber que aquilo ali era o que tinha sentido lá no fundo de sua alma — ou ainda sentia, talvez —, ou se era porque eu tinha jogado fora tudo o que tínhamos. Talvez fosse felicidade por ver meus quatro garotos ali, com uma casa praticamente lotada cantando a música deles, a minha música. Talvez fosse por tudo isso, todos esses sentimentos misturados me causando aquela reação. Eu não limpei as lágrimas. Elas faziam parte do que eu era. Eu não tinha vergonha de mostrá-las. Não parei de cantar a música nem por um segundo. me localizou entre as pessoas. Ele me viu. Olhou para mim enquanto cantava. E me viu cantando cada uma daquelas palavras junto com ele.
Suspirei pesadamente.
Sim, , eu disse que não importava. Mas talvez importasse, sim. Talvez eu deveria ter dado aquela chance para você mudar, para eu mudar. Talvez você estivesse certo. Apenas talvez. Não temos como saber.
— Hey, vocês vão para o nosso estacionamento hoje?
— Estamos indo para lá agora — Karen disse. — Os guris vão para lá no carro do assim que conseguirem sair daqui.
— Você vem com a gente, não é? — Aline perguntou.
— Preciso de outra cerveja — falei, indo até a copa. Elas me acompanharam, rindo. — Eu vou, sim. Preciso falar com o sobre essa coisa toda.
— Finalmente! — Aline disse, impaciente, e Karen a cutucou. — Que foi? É verdade.
estava no direito dela de não falar com ele — Karen defendeu-me.
— Vocês duas estão certas — falei. — Faz cinco meses que terminamos e um pouco menos que isso que a música saiu. Eu nem sequer falei com depois que eles lançaram “”. Somos todos amigos e eu estou estragando isso. Preciso falar com ele. Preciso voltar.

— E ouçam isso: eu voltei. Sim, eu ousei voltar e tentar fazer tudo dar certo. Não que nem na música, mas voltei. E adivinha só, ele não estava pronto para brigar — mordi o lábio. — Peguei uma carona com as gurias e fomos até o estacionamento. Ficamos bebendo até que os garotos chegassem. Eles não demoraram muito. Lucas, Victor e Cash comemoraram o fato de eu estar de volta e me abraçaram como se não me vissem há muito tempo — ri. — Mas o , bem, ele ficou perplexo ao me ver parada ali. E eu não podia culpá-lo. Teria a mesma reação se estivesse no lugar dele. Fui até ele e disse que eu vim com uma bandeira branca. Era uma metáfora, obviamente, já que eu não tinha uma, a não ser que eu tirasse minha blusa branca e a erguesse.
— Ah, qual é, ! — Aline pronunciou-se de modo impaciente. — Para de enrolar e foque na história.
— É — Karen se juntou a ela. — Nós falamos que iríamos embora para deixar os dois conversarem.
— Até tu, Karen? — fiz careta. — Bem, eles falaram isso mesmo, mas eu disse que não, que e eu poderíamos ir para outro lugar para conversar, se ele aceitasse, é claro. E como eu disse, ele não estava pronto para brigar — sorri. — Ele acabou sugerindo que fôssemos a um bar, onde poderíamos comer e beber alguma coisa enquanto conversávamos. E bem, o que eu disse foi algo tipo: então, você me paga uma bebida e eu finjo que você é o homem dos meus sonhos que ganhou vida em uma mesa de bar? — desandei a rir. — Sim, eu realmente falei isso. E ele riu, na minha cara. E mesmo antes de começarmos a conversar, eu já sabia que as coisas voltariam ao normal, ou ao mais próximo disso o possível. Aí, fomos para um bar perto dali, onde costumávamos ir de vez em quando. Ainda restavam coisas que eu precisava esclarecer, e ele sabia disso.

— Então, agora que você está fingindo que eu sou o homem dos seus sonhos no meio de um bar — ele disse, soltando uma risada. — Sobre o que você quer conversar?
— Não é bem uma conversa — falei. — É mais sobre eu falar e você escutar.
— E qual a novidade disso? — debochou.
— Ah, qual é! — reclamei. — Eu quero responder para você.
— Responder o que? — riu, sem entender.
. A música.
— Você não precisa fazer isso — ele disse. — Nós dois sabemos que não foi exatamente daquele jeito que aconteceu.
— Sim, mas você colocou o modo como se sentiu na música — afirmei. — E eu preciso responder o que eu não pude deixar claro para você.
— Okay — disse em tom de dúvida. — Comece quando quiser.
— Você me fez feliz, sim — comecei. — Me faz mais feliz do que nunca. Eu nunca estive mais feliz do que quando estávamos juntos. Sim, eu chorei. Eu chorei pelas nossas brigas e porque eu não queria que o que tínhamos acabasse.
— Mas você terminou comigo — lembrou-me.
— Porque não estava dando certo. Mas eu tenho um coração, mesmo que na metade do tempo não pareça — ri daquilo, apesar de não ser uma piada. — Eu achei que fosse o melhor para nós dois, mas aquilo doía em mim. Minhas lágrimas não foram falsas — admiti. — Eu também não queria que tudo terminasse daquele jeito, mas eu não fiz aquilo parecer pior do que era. Eu só queria que você entendesse o motivo de eu estar fazendo aquilo — respirei fundo. — Se serve de consolo, eu também não sei como diabos eu me apaixonei por você. Mas não quero dizer isso do jeito que a música transparece. Eu só não sei mesmo, porque simplesmente aconteceu. Nós nos beijamos. Nós dormimos juntos. E nós estávamos apaixonados.
— Não, espera — interrompeu-me. — Eu nunca quis dizer isso. Eu nunca me perguntei isso. Não de verdade. Eu só estava me sentindo desolado e aquilo se encaixou perfeitamente na música.
— Não estou te julgando — sorri de lado. — Sinto muito que tenha feito você se sentir daquele jeito. É um modo terrível de fazer qualquer um se sentir. E talvez nós pudéssemos ter mudado e feito funcionar de um jeito ou de outro.
— Mas você disse que não importava.
— Talvez você estivesse certo e eu estivesse errada — suspirei. — Talvez importasse.
...
— E talvez, só talvez, fosse mesmo para aquilo acontecer — reconheci. — Quer dizer, você finalmente conseguiu escrever uma música maravilhosa e vocês fizeram sucesso e estão conhecidos no Brasil inteiro. Isso é incrível — sorri fraco. — Talvez você tenha realmente ficado melhor sem mim.
, eu nunca ficaria melhor sem você — admitiu. — Eu já disse, você é uma parte de mim.
— E como eu disse, eu sempre serei — sorri abertamente. — Mas isso não muda os fatos.
— Por que você sempre tem que teimar com todo mundo? — resmungou, me fazendo rir.

— E isso é o que aconteceu — eu disse, olhando para o público, para o apresentador do programa e, só então, voltando-me para a câmera. — Eu não quero regalias. Não quero mais ter fama por ser a “musa inspiradora” de uma música — fiz aspas com os dedos. — A música não é boa por minha causa, ela é incrível porque o é um músico incrível. Foi ele quem escreveu isso. Ele se inspirou em mim, sim, se inspirou no nosso término, mas como vocês viram hoje, o que está na música não é exatamente o que aconteceu — insisti. — Então, é isso. Vocês não devem nada a mim. Não precisam me enviar presentes ou me agradar por isso. Todo o sucesso de “” se deve ao , que escreveu essa letra arrebatadora, e ao Lucas, ao Victor e ao Cash, que o ajudaram a criar essa melodia maravilhosa que não quer mais sair de nossas cabeças.
— É isso aí! — Cash gritou e fez um pequeno solo de bateria, levando a plateia a loucura.
— Sinto lhes desapontar, mas eu não fui o monstro que vocês pensaram que eu havia sido — ri. — Sou apenas uma garota normal que optou por terminar com o namorado porque as coisas não estavam mais dando certo entre nós.
— Sem ressentimentos? — questionou, rindo.
— Você nunca pode deixar eu ter um monólogo legal sem me interromper — resmunguei, sem deixar de rir.
— Como não? — ele rebateu. — Você nunca para de falar.
— Está me ofendendo em rede nacional? — fingi surpresa.
— Ah, eu nunca faria isso — defendeu-se.
— Sua música já fez, não é? — debochei e ouvi a plateia gritar em apoio. — Qual é, ! Você já sabe que não tenho ressentimentos. E agora, todos sabem, também — ri alto. — Mas você tinha que fazer uma piadinha, não é?
— É claro. E você tinha que responder à altura, obviamente — deu de ombros e sorriu. — Realmente conhecemos um ao outro.
— Felizmente, sim — abri um sorriso enorme e levantei. — A Crazy Kids é uma ótima banda. Nunca deixem de apoiá-los — virei-me, então, para . — E você, , é a pessoa mais incrível que eu já conheci.
Não esperei para ver o olhar que ele direcionaria a mim. Virei as costas e caminhei para os bastidores com um sorriso enorme no rosto, e ouvindo as pessoas ovacionarem.

FIM.

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Especial MaineFly

Nota da autora: Não sei por qual motivo, mas eu amei escrever essa short <3 Espero que vocês tenham gostado.
A short foi inspirada nas músicas We All Roll Along e POV, do The Maine e do McFly (respectivamente), mas o mais importante: a ideia dela foi inspirada no meu livro favorito. Ele se chama A Música Que Mudou Minha Vida (Audrey, Wait) e é muito bom, principalmente para quem gosta de música. Leiam!

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