Angels 1st Season

Autor: Victor Nobre | Beta: Marie



Capítulos:
| 01 | 02 |


CHAPTER ONE: THOMAS

Eu achava que lembranças eram algo que seria fácil de deixar para trás... bolsões de tempo congelados que – por puro e barato sentimentalismo – poderia rever. Mas sendo mais uma indulgência do que uma necessidade. E isso foi antes de perceber que, talvez, essas lembranças fossem a chave para seguir adiante, regredir, ou para recuperar a fé e o futuro daqueles que você mais ama e admira no mundo. Isso foi o que eu percebi antes da minha queda dos céus, me tornando para uns mais outro anjo caído, seguidor de Cage e servo de Lúcifer.
Mas, em toda minha vida imortal, eu nunca havia feito um pouso forçado contra uma caçamba de lixo hospitalar comum.
Só sei que, quando acordei, estava caindo. Enormes arranha-céus giravam, aparecendo e sumindo do meu campo de visão. A minha essência imortal comum em todos os anjos estava se dissipando em linhas azuis flutuando em direção ao céu. Tentei voar, me teletransportar para outro lugar, até mesmo virar nuvem e fazer milhares de outras coisas que deviam ser fáceis para mim, devido eu ser um anjo, mas eu só continuei caindo. Despenquei em um espaço estreito entre dois prédios e BAM!
Já imaginou coisa mais triste e assombrosa do que o som de um anjo se espatifando contra um amontoado de sacos plásticos cheios de lixo hospitalar comum? (Pois é, também não).
Gemendo e me contorcendo de dor, continuei lá por um bom tempo, minhas narinas ardiam com o fedor de fralda geriátrica de idoso com diarreia, fralda de criança e papel higiênico usado. Minhas costelas pareciam quebradas, embora isso não pudesse ser possível (afinal, eu sou imortal, não sou?). Minha mente estava inquieta e confusa, mas uma lembrança veio à tona – a voz de meu pai, Ângelus: SUA CULPA. SUA TOTAL E EXCLUSIVA CULPA.
Só aí eu entendi o que havia acontecido comigo. E chorei em desespero.
Se eu, que sou o anjo do equilíbrio, não fui capaz de descrever o que senti naquele momento, como vocês, seres humanos mortais, poderiam me entender? Imagine uma criança, e essa criança tendo seu brinquedo favorito tirado de si, ou o mais comum: ser atingido por um jato d'água na frente de uma multidão às gargalhadas. Imagine a água congelante atingindo seu rosto, preenchendo sua boca e seus pulmões, machucando a pele. Imagine se sentir impotente, envergonhado, completamente vulnerável, despido pública e brutalmente de tudo que faz você ser você. Minha humilhação foi pior do que isso.
SUA CULPA, ressoou a voz de Ângelus em minha cabeça.
— Não! — gritei desolado. — Não pode ser verdade! Por favor!
Silêncio. Era tudo que havia. Ao meu redor, naquele beco escuro, tinha escadas de incêndio enferrujadas que ziguezagueavam fachada acima, cobertas pelo céu cinzento e impiedoso.
Tentei em vão lembrar de algo sobre minha sentença. Meu pai chegou a dizer quanto tempo duraria esta punição? O que eu deveria fazer para poder retornar aos céus? Bom, eu mal consigo me lembrar qual era a aparência de meu pai, muito menos por que ele decidiu me despejar na terra. Houve uma guerra com os demônios, algo assim. Os Anjos quase derrotados e humilhados.
De algo tenho certeza: minha punição fora injusta! Meu pai precisava pôr a culpa em alguém, e claro que escolheria o mais bonitos dos anjos do equilíbrio vital, talentoso e popular do céu: eu. (Não, eu não acho que sou convencido, se é o que está pensando)
Fiquei deitado por horas no lixo, observando a etiqueta do lado de dentro da caçamba: PARA COLETA, LIGUE PARA 1-555-VAI PRO INFERNO. (Irônico? Nem um pouco. Eu, anjo. Inferno. Sacou agora?).
Ângelus vai reconsiderar, eu disse a mim mesmo. Ele só está tentando me assustar. A qualquer momento, vai me levar de volta para o céu e me tirar daqui, não sem antes me ensinar uma moral de fábula ridícula.
— É... — Minha voz soou vazia e desesperada. — É, é isso.
Tentei me levantar. Queria estar de pé quando Ângelus aparecesse para pedir desculpas. Minhas costelas latejavam. Meu estômago se contraiu. Segurei a lateral da caçamba e me curvei, cuspindo sangue. Acabei caindo por cima de um dos ombros, que bateu no asfalto com um estrondo.
Aaaaii. — Choraminguei de dor. — Merda!
Admito – cá entre nós – ficar de pé não foi nada fácil. Minha cabeça estava girando. Eu quase desmaiei com o esforço. Olhei ao redor e vi que estava em um beco sem saída entre um hospital universitário e uma loja de CDs retro.
A uns quinze metros à frente havia uma rua com vitrines sujas que abrigavam escritórios de contabilidade, uma casa de penhores e um Walmart. Eu estava em alguma parte oeste de Manhattam, supus, ou talvez no Brooklyn. Meu pai estava brincando com minha cara.
Inspecionei meu corpo humano. E parecia um adolescente caucasiano do sexo masculino, usando tênis, calça jeans rasgadas no joelho – peça a qual eu especificamente gostei –, uma camisa branca, que agora estava encardida por conta da queda, e uma jaqueta de couro vermelha.
Gostei, mas preciso de um médico. Eu me sentia enjoado, fraco e tão, mas tão humano.
E pra falar a verdade, eu nunca, em toda a minha imortalidade, entendi como vocês, humanos, toleram isso. Vocês passam a vida toda presos em um saco de carne, incapazes de apreciar os prazeres mais simples, como se transformar em um beija-flor ou se dissolver em pura luz.
E agora, que os céus me ajudem, eu era um de vocês, apenas mais um saco de carne no vasto universo que chamamos de lar.
Remexi nos bolsos com uma mão enquanto a outra segurava a lateral do meu corpo na tentativa idiota de acabar com as dores nas costelas, ainda torcendo para estar com o meu medalhão Wings, o qual continha minhas asas. Nada.
Encontrei um smartphone apple, uma carteira barata de náilon com cem dólares americanos (dinheiro o qual eu podia usar para comer, talvez) e uma carteira de motorista provisória do estado de Nova York com a foto de um adolescente idiota, pateta, mas, em compensação, muito, mas muito bonito que de jeito nenhum poderia ser eu – afinal, eu era mais gato –, com o nome de Thomas Gardner. A crueldade de meu pai não possuía limites!
Respirei fundo. Ânimo, eu disse a mim mesmo. Devo ter mantido algumas habilidades angelicais. As coisas podiam ser piores.
Uma voz grossa gritou:
— Ei, Cade, dá uma olhada nesse otário!
Havia dois jovens cercando uma garota na saída do beco: um atarracado com cabelo platinado com mechas vermelhas – que mais parecia com aqueles cantores coreanos –, e o outro, alto e ruivo. Os dois usavam moletons e calças largas. Para completar, tinham o pescoço coberto por uma tatuagem de cobra em forma de "S". Pronto, só faltava a palavra VÂNDALOS grafada em letras enormes na testa de cada um.
O ruivo grudou o olhar na mochila que a garota segurava.
— Pega leve, Mikey. A mocinha aqui parece bem simpática. — Ele sorriu e puxou uma faca de caça do cinto. — Na verdade, aposto que ela quer dar todo seu dinheiro pra gente e sua mochila também, não é?

•••


Culpo minha idiotice e desorientação pelo que aconteceu em seguida.
Eu sabia que minha imortalidade havia sido retirada de mim, mas ainda me considerava um anjo poderoso! É impossível mudar o jeito de pensar com a facilidade que se pode, digamos, fazer sexo (mandei mal no exemplo, né?), por exemplo.
Além do mais, nas outras ocasiões em que meu pai me puniu me tornando humano (e sim, isso aconteceu mais de uma vez: uma em 1642, durante a derrota de Constantinopla, e outra em 1500, durante o descobrimento do Brasil), eu mantive minhas asas, a força de dez homens e, pelo menos, parte dos meus poderes angelicais. E supus que novamente seria assim.
Eu não ia permitir que dois rufiões levassem a mochila e o dinheiro da garota a minha frente.
Então, me empertiguei todo e torci para que Cade e Mikey ficassem intimidados diante da minha postura real e beleza angelical (qualidades as quais nunca seriam tiradas de mim, independente do que mostrasse uma carteira de motorista). Ignorei o chorume quente proveniente da caçamba que escorria pelo pescoço.
— Eu sou Yurik — anunciei, saindo das sombras. — Vocês, humanos, têm três escolhas: podem fugir e irem fumar a maconha de vocês em outro lugar, ou serão destruídos.
Eu queria que minhas palavras ecoassem pelo beco, sacudissem os prédios de Nova York e fizessem os céus choverem desgraça flamejante. Nada disso aconteceu. Quando pronunciei a palavra destruídos, minha voz falhou.
Cade, o garoto ruivo, abriu um sorriso ainda mais largo. Pensei como seria divertido se eu conseguisse fazer as tatuagens de cobra ao redor de seus pescoços ganharem vida e estrangulá-los até a morte.
E novamente, eu estava errado.
— O que você acha, Mikey? — perguntou ele ao amigo. — Devemos fugir e ir fumar nossas maconhas?
Mikey fez cara feia. Com o cabelo loiro arrepiado, os olhos pequenos e cruéis e o corpo atarracado, ele me lembrava Julius, um demônio com que eu lutei durante os tempos babilônicos (bons e velhos tempos).
— Não estou muito a fim de fumar maconha hoje, Cade. — A voz dele parecia a de alguém que comeu cigarros acesos. — Quais eram as outras opções mesmo?
— Fugir? — disse Cade.
— Não — respondeu Mikey.
— Sermos destruídos?
Mikey riu com deboche.
— Que tal destruirmos ele e brincarmos com a garota ali? — perguntou Mikey. — Então?
Cade jogou a faca para o alto e a segurou pelo cabo.
— Gostei dessa ideia. Vamos lá?
Enfiei a carteira no bolso de trás da calça. Puxei o garota que tremia e levantei os punhos. Não achei que seria legal massacrar humanos até a morte, afinal eu era um anjo "pacífico", tão pacífico que a revolução francesa foi iniciada porque a Maria Antonieta não me deixou comer croissants e me deu brioches. Mesmo em meu estado enfraquecido, eu seria bem mais forte do que qualquer humano.
— Eu avisei — falei. — Meus poderes estão muito além do entendimento de vocês.
Mikey estalou os dedos e riu.
— Tudo bem, Percy Jackson. — Cade riu junto e a garota de olhos azuis me olhou assustada.
A garota colocou as mãos na cabeça e disse:
— Oh Meu Deus! Vou ser protegida por um louco.
— Você devia voltar pros livros. — disse Cade rindo a Mikey.
Quando estava bem perto, eu avancei. Coloquei toda a minha fúria naquele soco. Devia ter bastado para vaporizar Mikey e deixar uma marca em forma de delinquente no asfalto. Mas ele desviou, o que se mostrou irritante para mim.
Eu cambaleei para frente. Vamos combinar que quando o todo poderoso elaborou vocês, humanos baseados no modelo de argila de Adão e Eva, fez um trabalho porco. As pernas mortais são desajeitadas. Tentei compensar e usar minhas reservas infinitas de agilidade, mas Mikey me deu um chute nas costas, enquanto Cade ia atrás da garota sorrindo maliciosamente. Eu caí e bati meu rosto angelical no chão. Minhas narinas dilataram como se fossem airbags.
Meus ouvidos estalaram. Um gosto de cobre inundou minha boca. Rolei para o lado e vi Cade prensando a garota contra a caçamba de lixo, tentando fazer algo que não conseguia identificar, grunhi e logo vi Cade e Mikey juntos em minha frente olhando para mim.
— Mikey — disse Cade —, você está compreendendo o poder desse cara?
— Não — respondeu Mikey. — Não estou compreendendo.
— Tolos! — Gemi. — Vou acabar com vocês!
— Ah, claro que vai. — Cade limpou a faca ensanguentada e a jogou na caçamba.
Mikey chutou minha barriga, me fazendo gemer de dor.
— E graças a esse papo de: "Vou destruir vocês", a loirinha de olhos azuis ali... — apontou para a garota que estava jogada no chão. — Deve estar sentindo uma dor enorme depois da brincadeirinha que o Cade fez com ela.
Cade riu e se ajoelhou na minha frente.
— Mas, espera, Mikey. Ele disse que ia acabar com a gente. — Mikey riu.
— Mas acho que vamos acabar com ele primeiro.
O garoto levantou a bota bem acima do meu rosto, e o mundo ficou preto.


CHAPTER TWO: THOMAS – CONVERSA COM A "COISA"

EU não era massacrado com tanta violência desde minha aposta com a máfia italiana em mil novecentos e bolinha. E um conselho: NUNCA MEXA COM A MÁFIA!
Enquanto Cade e Mikey me chutavam, eu me encolhi para tentar proteger as costelas e a cabeça. A dor era cruciante. Eu vomitei e tremi. Apaguei e voltei a mim, com a visão cheia de bolinhas coloridas. Quando meus agressores se cansaram dos chutes, decidiram que era mais divertido bater na minha cabeça com um saco de lixo.
Eles enfim se afastaram, ofegantes. Cade se aproximou da garota, que ainda estava inconsciente, e a cutucou, fazendo uma careta maliciosa. Se virando para Mikey, dizendo:
— Devia se divertir com ela um pouco, ela é que me entende. — Mikey riu e foi andando até a garota.
Minha visão embaçada não me permitia ver muito, mas ouvi o cinto de Mikey ser desafivelado e ouvi o corpo ser arrastado para longe do meu campo de visão, ouvindo uma hora depois gemidos altos de Mikey enquanto ouvia a garota chorar quando Mikey lhe dizia palavras sujas e pornográficas. Minha ira falou mais alto.
— Não... — a cabeça caiu de encontro ao chão. — Toquem nela!
— Olha aqui — disse Cade, rindo. — Thomas Gardner.
Mikey riu enquanto gemia.
Thomas? É ainda pior do que Yurik.
Toquei o nariz, e a sensação era de que ele estava do tamanho de um colchão de água, com a mesma textura. Meus dedos ficaram manchados de vermelho.
— Sangue — murmurei. — Não é possível.
Mikey fez um grunhido alto, sinalizando que já havia finalizado.
— Na verdade, é bem possível, Thomas. — Cade se ajoelhou ao meu lado. — E pode haver mais num futuro próximo. Então, você não quer nos explicar por que não tem cartão de crédito? Eu odiaria pensar que bati tanto em você por apenas cem dólares.
Olhei para o sangue nas pontas dos meus dedos. Eu era um anjo. Não tinha sangue. Mesmo quando fui transformado em humano antes, icor prateado ainda corria em minhas veias. Eu nunca tinha sido tão... Convertido. Devia ser um erro. Um truque. Qualquer coisa.
Tentei me sentar.
Minha mão escorregou na pequena poça de sangue que vomitei durante os chutes e eu caí novamente. Meus agressores morreram de rir.
— Eu adoro esse cara! — comentou Mikey.
— É, mas o chefe disse que ele ia estar cheio da grana — reclamou Cade.
— Chefe... — murmurei. — Chefe?
— Isso mesmo, Thomas. — Cade deu um peteleco na minha cabeça. — O chefe mandou: "Vão até o beco, acabem com o cara. Vai ser mamão com açúcar!" Ele disse que a gente tinha que acabar com você usando a loirinha ali, que trabalha nesse hospital aqui. Disse também que você é bonzinho demais para deixar um inocente ser machucado e, pelo visto, errou. E isto... — ele balançou o dinheiro no meu rosto. — Não é pagamento digno.
Talvez o chefe deles fosse um anjo, ou um arcanjo, afinal ninguém poderia saber o local que eu cairia na Terra, não especificamente, desse jeito. Talvez Cade e Mikey não fossem humanos. Talvez monstros ou espíritos habilmente disfarçados. E isso ao menos explicaria o porquê me deram aquela surra épica.
— Quem... Quem é seu chefe? — me esforcei para ficar de pé. Estava tão tonto que me senti flutuando perto demais da fronteira entre o céu e o purgatório do caos primordial, mas tentei não deixar transparecer e mantive a pose. — Ângelus mandou vocês? Ou talvez tenha sido Sara? Eu exijo uma audiência!
Mikey e Cade se olharam como se dissessem: Dá pra acreditar nesse otário?
Cade tirou outra faca.
— Você não se toca, não é, Thomas?
Mikey tirou o cinto, que agora não passava de uma corrente de bicicleta, e enrolou no punho.
Decidi retardá-los com meu canto. Eles podem ter resistido aos meus punhos, mas nenhum humano é capaz de resistir a minha voz d'ouro. Eu estava tentando decidir se cantaria "Don't Stop Believe" ou "Tittanium", quando uma voz gritou:
— EI!
Os delinquentes se viraram. Acima de nós, no segundo lance das escadas de incêndio, havia uma garota de uns doze anos.
— O deixem em paz — ordenou ela.
A primeira coisa que veio à minha mente fora que Sara havia vindo me ajudar. Minha irmã costumava aparecer de diversas formas quando estou em perigo, como uma garotinha, um leopardo, um leão branco ou uma águia. Mas algo me disse que não era o caso.
A garota na escada de incêndio não transmitia exatamente medo. Era pequena e gorducha, com cabelos escuros e um corte meio bagunçado em forma capacete, usando um colar de metal dourado com o símbolo da lua preenchida por pedras brilhantes. Apesar do congelante frio, ela não usava casaco. Sua roupa parecia ser meio "dark" demais para sua idade, vestido roxo, salto um pouco alto demais e meia-calça preta. E talvez eu estivesse errado de novo e ela estava indo a uma festa à fantasia vestida de vampira, ou sei lá.
Ainda assim... Havia alguma coisa feroz e rude em sua expressão. A mesma expressão obstinada que minha ex-namorada, Íris, tinha quando lutava com os demônios.
Mikey e Cade não pareceram impressionados.
— Acho melhor você dar o fora, garotinha — disse Mikey.
Ela bateu o pé, a escada de incêndio balançou, e riu sarcástica.
— Não — o sorriso dela sumiu. — Acho melhor você dar o fora daqui!
A voz anasalada, mas firme e mandona, fez parecer que ela estava realmente no controle da situação, só que parecia mais que ela estava brincando de faz de conta.
— O que o anjinho ali tiver é meu, incluindo o dinheiro! — vociferou, a voz por um momento engrossando.
E foi ali que eu percebi o que aquela "garotinha" fazia ali. Era por mim. Ela não era humana, ela era um...
— Demônio — conclui, deixando meu pavor transparecer. Olhei para Mikey e Cade e gritei: — Fujam! Corram! Ela não é humana!
A garota olhou para mim e sorriu de lado, indicando que, pela primeira vez neste dia, eu estava correto. E mesmo que eu estivesse arrebentado e coberto de lixo, nenhum dos dois delinquentes me ouviu. É, com toda certeza, eles estão mortos!
Cade olhou com raiva para o demônio disfarçado. O tom alaranjado do seu cabelo pareceu escorrer para o rosto.
— Você só pode estar brincando. Some, pirralha! — Cade lançou algo na direção dela.
A garota nem se mexeu, o objeto caiu aos seus pés e rolou inofensivamente até parar aos pés de Cade. O corpo da garota começou a se transformar, a pele começando a ficar esbranquiçada, os olhos cobertos por uma penumbra negra, os dentes horrorosos e unhas enormes. O sorriso dela se tornou psicótico quando um par de chifres surgiu dentre os cabelos.
— A comida não pode opinar! — o monstro se moveu numa velocidade praticamente impossível para os humanos.
As luzes do beco começaram a se apagar. Mikey olhava para todas as direções, assustado, e, de repente, foi levado para a escuridão, gritando incontrolavelmente. Cade arregalou os olhos e tentou fugir, mas o demônio retornou e atravessou seu braço no abdômen dele, o rasgando ao meio em seguida, fazendo seus restos mortais voarem.
Eu tentei me afastar enquanto o demônio se transmutava novamente na garotinha. Considerei fugir correndo, mas mal conseguia mancar. Também não queria acabar morto.
— Não gostei deles — disse a garota por fim.


•••



Eu encarava o demônio já fazia meia hora, eu acho. Ele ou ela estava encostado na parede próxima a mim, olhando os dedos ensanguentados, acabou grunhindo e se aproximou de mim.
— Wow! Calma, anjinho! — me arrastei para trás novamente. — Não vou te machucar.
— Como assim, não vai me machucar? — o demônio assentiu e riu. — Não é isso que demônios fazem?
A garota foi até o corpo da menina morta por Cade mais cedo e a arrastou para perto, se ajoelhando e enfiando a mão na caixa torácica do cadáver, retirando de lá o coração, mordendo-o. Essa não! Vou vomitar!
— Por que não vai me machucar? — perguntei, com o medo mais do que evidente.
— Vou deixar uma coisa bem clara — a garota acendeu os olhos negros novamente. — Você só está vivo porque o chefe te quer vivo. E porque você perdeu isso quando caiu.
O monstro lançou o meu colar Wings e a pulseira na minha direção, eu segurei antes que se chocassem contra o chão. O colar brilhou ao sentir minha pele de encontro a seu emblema, a pulseira também brilhou, coloquei o colar e a pulseira.
— Olha... — disse a garota perto da escuridão. — Um aviso: Isso vai doer.
Quando a garota sumiu meio a escuridão, meu corpo se arqueou, o processo de cura começaria. E seria bem doloroso.


•••



Abri meus olhos, recebendo o impacto da luz em meu rosto, meu corpo todo doía, principalmente a área das costelas. Havia algo preso em meus pulsos, a textura se assemelhava a couro, tentei levantar os braços e as pernas, o que foi estupidamente idiota, pois um alarme irritante começou a soar pelo quarto, que parecia ser de hospital.
— Ele acordou. Chamem o Dr. Summers! — disse a enfermeira, desligando o alarme.
— Onde eu estou? — a enfermeira sorriu ternamente e abriu aporta para um jovem de cabelos loiros, olhos azuis e óculos ray-ban.
O jovem médico, eu diria que residente, tinha um porte meio atlético, mas, ao mesmo tempo, sedentário, a pele branca combinava com a tonalidade de seus olhos, os cabelos arrumados para o lado de um jeito elegante o suficiente para ser usado em um jantar de gala. Ele pegou o prontuário ao pé da cama e sorriu.
— Bom... senhor Gardner. — ele levantou os olhos, que estavam cintilantes. — Você escapou por sorte. Se eu não tivesse lhe encontrado no beco da morte, estaria morto agora.
— Bem... Obrigado... Doutor? — perguntei e ele riu.
— Desculpe, fui chegando e esqueci de me apresentar — ele olhou o relógio de pulso. — Sou o doutor Scott Summers, você está no Hospital Universitário de Manhattam.
Realmente, papai, suas punições estão ficando cada vez mais previsíveis! Eu sorri amarelo enquanto os enfermeiros tiravam as amarras das minhas pernas e pulsos.
— As amarras... — ele ficou levemente corado. — Não foi uma opção minha. Você estava se machucando e falando outras línguas.
Eu arregalei os olhos, eles estavam perto de descobrir o que eu era, e isso eu não podia permitir. O médico começou a retirar a agulha da minha pele, fechei os olhos e sorri.
— Eu sou poliglota — ele riu e assentiu. — Você é bom no que faz, por falar nisso.
— Obrigado! — sorriu. — Minha mãe cobra muito de mim, sabe, porque ela quer que eu a supere.
Mãe. Ângelus nunca me falou sobre minha mãe, nem como, na verdade, eu me tornei um anjo, muitos dos anjos do equilíbrio foram humanos que se sacrificaram por algo ou alguém. Miguel, o conhecido Arcanjo, uma vez me disse que para sermos bons, não era preciso de muito, e sim de pouco. Imagino a dedicação desse médico, a pressão que a mãe dele coloca sob o mesmo e como isso o afeta. Deslizo o dedo sobre a pulseira e a mesma brilha, acendendo em meus olhos uma coisa que nós, Anjos do Equilíbrio Vital, chamamos de Cerne, a verdadeira vocação.
Me surpreendi com Cerne dele, era dourado, com pigmentos coloridos. Ele possuía um Cerne aproximado ao de um Querubim ou Serafim.
— Você vai superá-la — ele me olhou atento. — Vejo que em você há uma verdadeira dedicação à medicina. E você deve ter o quê? Dezoito, vinte e cinco anos?
Ele corou de novo e sorriu.
— Vinte e dois anos. Sou da turma avançada — eu sorri terno e ele retribuiu. — E você, quantos anos tem?
Bom... Eu não sei, para falar a verdade. Eu meio que não reparei na carteira de motorista do Thomas Gardner. Eu fiz cara de confuso e Scott abriu a boca, como quem diz "Ahhh".
— Você tem vinte e três. A polícia teve aqui e entregou seus documentos que acharam no beco, você é formado em Mitologia, História e Cultura da Humanidade com PhD em Demonologia. — ele respirou. — Não acha que é muito jovem pra ser formado em tantas coisas?
Eu sou um GÊNIO! (Não que eu não fosse antes...). PhD em Demonologia? O que meu pai está aprontando? Creio que o que está acontecendo comigo não seja uma punição...
— Thomas? — a voz de Scott me acordou. — Você está bem? Estava aéreo.
— Não, só estava pensando — Scott me entrega um copinho com dois comprimidos azuis-claros e um branco. — O que é isso?
— São remédios para sua concussão, você bateu a cabeça muito forte na queda do helicóptero da empresa do seu pai — Scott me entrega um pouco d'água e eu ingiro os comprimidos.
A perícia do departamento central da polícia de Manhattam acaba de descobrir o que fez com que o helicóptero onde estava o filho do empresário Kiriam Gardner caísse, a causa da queda do helicóptero foi uma pane elétrica nos controles centrais, causadas por um raio, segundo as imagens de segurança dos prédios próximo ao local de queda. Thomas Gardner passa bem. Aqui é Halsey Ferrys para o New York Five — disse a repórter do telejornal.
— Obrigado. Pelos remédios — Scott fechou os olhos e sorriu, formando ruguinhas ao lado dos mesmos. — Sério, você salvou minha vida.
— Não foi nada — Scott assinou uma folha e me entregou, era um documento onde constava que recebi alta e estava liberado. — Neste documento também contém o número do meu telefone, não se esqueça da nossa consulta na segunda-feira.
Me arrastei até a borda da cama e pousei os pés sob o chão, sentindo o frio arrepiar minha espinha. Scott me entregou uma mochila com as iniciais "TG", que logo deduzi: Thomas Gardner. Retirei algumas peças de roupa e me dirigi ao banheiro para me trocar.



Continua...

Nota do autor: (19/04/2017) Sem nota.

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