Autora: Andy R. | Beta: Babs | Capista: Paula P.



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PRÓLOGO

Quando a Nova Nação foi formada, eu era apenas um garoto. Menos que isso, eu era uma criança de doze anos de idade que adorava brincar com os amigos na rua, jogar vídeo game e especular sobre o que poderia ser aquela Nova Era da qual todos falavam. Um garoto normal com amigos de escola e quedas por meninas mais velhas, mas com a exceção de que tinha um pai que era um cientista muito famoso. Um homem não muito presente e, ao mesmo tempo, alguém de quem eu não podia reclamar sobre absolutamente nada. Ele era inteligente, gentil, tinha honra e classe e sempre me falava sobre como a palavra de um homem é a coisa mais valiosa que ele tem.

Como eu era criança, acreditava naquilo.

Hoje eu tenho as minhas dúvidas. A palavra de qualquer homem não vale muita coisa há pelo menos quinze anos, quando a Nova Nação chegou e homens foram substituídos por máquinas. Estávamos progredindo humana e socialmente nesta época. Contávamos com movimentos humanistas, feministas, ecológicos e qualquer outro que você possa imaginar. Era a época de uma tecnologia diferente da que temos agora: as coisas eram mais simples. Por mais que tivéssemos acesso a grandes coisas, à internet e carros que dirigiam sozinhos, tudo parecia mais real que hoje, quando tudo é movido por máquinas.

Mas, bem, eu era único filho de Ronald , o Grande Cientista, o Homem que mudou a Nação, e nunca poderia falar sobre como a tecnologia não me parecia algo tão fascinante assim.

Imagina a ironia?

Por isso, aos vinte anos, comecei a estudar para ser igual ao meu pai. Eu podia não gostar muito da Nova Nação, mas sempre gostei de ciência. Talvez carros voadores e robôs não fossem a minha maior paixão, mas, felizmente, havia diversas outras áreas na qual eu poderia me especializar.

Assim, o legado da família continuaria e eu poderia orgulhar o meu pai.

Ele era o meu maior exemplo, o homem que sempre admirei. Quando morreu, eu tinha vinte e cinco anos, e foi então que eu descobri que não gostava da ciência que ele havia ajudado a progredir. Descobri que só fazia o que estava fazendo para poder dar orgulho a ele e, quando o meu velho partiu, não sobraram razões para que eu continuasse naquele caminho.

Larguei a faculdade, os laboratórios, toda a vida que eu havia construído e passei a viver administrando a fortuna que o meu pai deixou para trás. Eu era o seu único filho, portanto as coisas foram realmente pesadas. A responsabilidade veio toda para mim. Eram inúmeras agências e laboratórios para cuidar, empregados para dar satisfações, ações, mídia, comércio, empresas, novas tecnologias... Eu quase enlouqueci. Cheguei a ligar para a minha mãe, afinal ela viveu um pouco disso também, mas ela não estava apta para ajudar.

Depois de alguns meses, consegui colocar tudo em seus eixos. O último problema para ser resolvido era os mais simples de todos o que eu havia encontrado. Ou pelo menos deveria ser.

Se tratava de um armazém que o meu pai mantinha em um dos prédios da NN. Como ele era dono da metade da construção, ninguém podia realmente reclamar do fato de ele usar uma parte do espaço para si. Meu velho era realmente teimoso e nunca abriu mão daquele lugar, algo que eu nunca entendi, mas, quando ele morreu, a primeira coisa que o Chanceler fez foi ligar para mim e perguntar se eu podia dar uma olhada no que tinha lá dentro. Ele suspeitava que meu pai estava guardando robôs antigos por puro egoísmo, afinal foi decretado há quase dois anos que máquinas com mais de duas décadas de vida deveriam ser executadas.

Eu disse que daria uma olhada quando tivesse tempo e, quando esse dia chegou, algo me incomodava a respeito daquele lugar. Eu sabia que o meu pai guardava robôs antigos ali. É claro que sim. Ele havia trabalhado duro demais em cada uma de suas invenções para que deixasse o governo simplesmente exterminar tudo. Eu tinha certeza de que havia pelo menos uma máquina de cada lote naquele lugar, e, por meu pai ter inventado muitas delas, eu já começava a me preparar para uma longa tarde de trabalho.

Quando cheguei ao local, os funcionários da NN já haviam aberto o armazém. Primeiramente fiquei irritado com a invasão, mas, depois de ver que eles tinham adiantado e muito o meu trabalho, deixei para lá e me juntei aos outros cientistas na tarefa árdua de desarmar todas as máquinas que meu pai havia escondido durante todos aqueles anos.

A Nova Nação trouxe consigo um novo tipo de tecnologia, isso eu já comentei. Eram robôs com a forma física igual a de nós, humanos. Eles tinham pele artificial, cabelo, unhas, olhos, nariz, boca; falavam e andavam, recolhiam a mesa, limpavam a casa. Eram como pequenas marionetes que só precisavam de carga. Todos queriam um. Primeiramente, apenas pessoas da alta classe social conseguiram, mas, depois, com o tempo, foram ficando mais baratos e logo cada família tinha um para chamar de seu. Isso gerou uma crise econômica de mais de sete anos em nosso país. Pessoas perdiam o emprego por causa desses robôs; empregadas domésticas, porteiros, mordomos... Tudo virou um caos.

Hoje, usamos estes robôs para ajudar em casa, mas, mais precisamente, para fazer trabalhos mais pesados, como construções de prédios e estradas. Há muito tempo os nossos homens não têm a capacidade física para exercer essas funções, então, por que não usar as invenções do meu pai para isso?

Todos os robôs tinham uma série de apetrechos e peças dentro de si – que podiam ser realmente perigosos se deixadas de lado ou sobrecarregadas –, portanto tínhamos que desmontar todas as máquinas antes de nos desfazer delas. E é por isso que estou aqui, no meio laboratório da NN, em um domingo de manhã. Pelo bem da nação.

– Meu deus!

O grito vem de maneira inesperada, assustando todas as pessoas espalhadas pelo grande laboratório. O silêncio que segue o acontecimento faz uma aura pesada pairar no ar, e eu largo o que estou fazendo para procurar a origem do som.

– O que aconteceu? – questiono sem especificações, pois não acho de imediato a dona da voz.

Então, encontro uma mulher que reconheço de algum lugar, e, logo, lembro-me dela como Sandra, uma das minhas colegas de faculdade. Ela parece assustada demais para alguém que ganha a vida dando manutenção em máquinas superinteligentes.

– Ela... – gagueja. – Ela está sangrando.

Olho para a parede que Sandra tanto encara. Nela, uma fileira finita de robôs sai do armazém sul em grandes quantidades e pequenas interrupções. Todas as máquinas estão penduradas de forma firme no suporte de ferro e tem os pés a alguns centímetros do chão. No meio da fileira de robôs, todos eles perfeitamente encaixados em um molde que apelidamos carinhosamente de "cabide", uma das máquinas está manchada de vermelho. Aproximo-me dela e a examino. Ela tem a forma de uma garota albina com pelo menos vinte anos. Seus cabelos brancos como papel caem sobre o seu rosto de porcelana e os olhos estão fechados. Em seu braço esquerdo, um líquido vermelho escorre até pingar no chão.

Viro-me para Sandra e pergunto com cuidado:

– O que fez com ela?

– Nada! Eu estava tentando retirar o chip de seu braço, como fiz com todos os outros.

Franzo o cenho e volto para o robô.

Há algo estranho com ela, definitivamente. O problema é que eu não sei dizer qual. Este droid é tão antigo que eu nem tinha nascido quando foi programado. Eu também não me lembro de tê-lo visto em nenhum momento da minha vida – o que é estranho, porque sei o nome de todas as criações do meu pai de cor – e isso é um grande problema porque durante a retirada de peças importantes nada deveria dar errado. Todos eles estão desligados e não são recarregados há anos.

Sandra começa a se acalmar às minhas costas, e o robô ainda jorra o líquido vermelho. Penso que, por ser antiga, pode ser algum tipo de óleo, então me aproximo para tocar o seu braço e tentar parar o vazamento. No momento em que faço isso, porém, o robô se mexe. O que antes era só uma máquina sem vida de repente tem olhos atentos e vidrados em mim, e eu fico confuso com a intensidade do medo que consigo identificar em suas expressões.

Robôs não deveriam ter expressões.

A menina segura o meu braço, e eu sinto o seu sangue manchar o meu jaleco. Sandra grita e a fileira de robôs simplesmente para de andar mecanicamente. Os alarmes começam a tocar no exato momento em que, apesar de achar ser uma alucinação, eu vejo uma lágrima escorrer pelo rosto da menina.


01 – SANDRA

– Isso é impossível! – comenta Sandra, trazendo os resultados da radiografia feita na nossa mais nova descoberta científica.

Em sua ficha médica não há um nome, apenas o código da máquina. 225543 é o número de série do robô sentado na maca à minha frente, mas agora parece errado chamá-la de algo menos do que um nome ou o que ela realmente é: uma garota.

Pego o resultado dos raios-x e constato a mesma coisa que Sandra afirmou: impossível. Com a exceção de alguns órgãos de metal, 225543 tem o corpo e o cérebro de um ser humano comum. É maluquice acreditar que ela ficou em um armazém por mais de quinze anos.

– Como será que sobreviveu? – pergunta Sandra, lendo os meus pensamentos. – Não havia comida ou água.

– Ela estava desligada – digo, pensando melhor no assunto: – 225543 ainda é uma máquina, e, fora de uso, desligada, não precisa de recarga. Os órgãos vitais dela, como os rins, são de metal. Não morreriam, apenas perderiam carga. Nós a carregamos, ela acordou. O que é estranho, na verdade, é o fato de não ter sofrido com o tempo. Até mesmo as mais modernas máquinas não resistem a quinze anos sem nenhuma manutenção.

A menina na maca me encara com demasiada atenção. Veste um avental de hospital e tem os cabelos brancos extremamente bagunçados. A sua expressão demonstra o sentimento confuso que seria normal nesta situação, exceto pelo fato de que ela não deveria sentir nada.

– O que faremos com ela? – pergunta Sandra.

Eu suspiro e guardo os resultados dos exames na minha pasta. Sei que ela está se referindo ao fato de que o Chanceler mandou que exterminássemos todas as máquinas do armazém – mesmo depois de afirmamos que uma parecia humana. Mas eu não concordo com isso.

– 225543 estava no armazém do meu pai, então é responsabilidade minha. Farei alguns testes para tentar entender o que aconteceu; saber quem foi o cientista responsável pela sua criação.

– Seu pai não a criou? – pergunta, confusa.

Eu balanço a cabeça. Parece óbvio que tenha sido uma invenção do velho gênio Donald, mas eu discordo. Alguém a colocou ali, junto com as outras criações do meu pai, justamente para que pensássemos que era algo dele.

– Eu conheço tudo o que a família criou, e, acredite, isso não faz parte do portfólio de máquinas que montamos ao longo dos anos – respondo, e ela parece entender, apesar da visível descrença.

– Vou procurar nos arquivos – afirma. – Enquanto isso, onde ela ficará? Não podemos mandá-la de volta para o armazém, muito menos mantê-la aqui. Seria contra a vontade do Chanceler. Se ele descobrisse...

– É só um modelo beta – afirmo. – Ficará bem em alguma cápsula. Deixe-a escondida no fundo do laboratório e ninguém ficará sabendo.

– Não creio que seja possível – interfere o médico, que eu nem ao menos tinha notado estar ali. – Ela é humana, Sr. , por mais estranho que pareça. Se a colocar em uma daquelas cápsulas, morrerá.

Olho para Sandra em dúvida, e ela parece saber o que estou pensando. É a única solução e soa óbvio demais quando digo em voz alta:

– Vou levá-la para casa. Não podemos deixar que ninguém saiba de sua existência – deixo o pedido implícito: manter segredo sobre a existência de 225543.

Os dois me olham de um jeito estranho, e eu não sei se é pela mentira ou pela ideia de levá-la para casa, mas eu não volto atrás. Não depois de ver tudo o que o Chanceler fez para garantir que nenhum modelo parecido com 225543 ficasse para trás.

– Acha uma boa ideia? – pergunta Sandra, olhando para a máquina de um modo estranho. – Não sabemos se é perigosa.

– Então, ninguém melhor que eu para cuidar disto, não é? – rebato.

Todos sabe que eu sou o perito no assunto. Dediquei a minha via à criação e manutenção de robôs, assim como o meu pai. Ninguém poderia entender mais disso do que eu, mesmo que 225543, em especial, seja uma novidade.

...

Ao abrir a porta de casa, sinto uma pontada atingir o lado direito da minha cabeça. Neste instante, esqueço do robô parado às minhas costas. Algo que é passageiro porque, no minuto seguinte, 225543 começa a brincar com o painel de números do sistema de segurança do meu apartamento.

– Está quebrado – diz ela, os dedos tocando o visor.

– Por que diz isso?

– Eu posso sentir.

Dou risada. Um robô com poderes sensitivos?

– Bem, eu garanto que está tudo certo. Você deve estar com defeito.

Ela abaixa a mão e a acomoda em frente ao corpo, parecendo magoada. Sinto-me realmente estranho por isso. Há muito tempo que não tenho que lidar com alguém que tenha... Sentimentos. A minha vida é repleta de máquinas, por todos os lados e a todos os instantes.

– Desculpe – digo. – Entre – abro a porta e dou passagem a ela.

225543 entra de forma tímida, olhando para os lados. As luzes do apartamento se ascendem com o movimento e ela se assusta. Dou risada e a seguro pelos ombros quando tenta fugir.

– Está tudo bem – asseguro. – São apenas luzes.

Ela concorda com a cabeça, e, dessa vez, damos o primeiro passo juntos. Tranco a porta e deixo a minha pasta e o casaco sobre o cabide, só então notando que 225543 não veste nada além de uma calça e uma blusa de moletom.

– Você sente frio? – pergunto.

Ela me olha confusa.

– Como se sente o frio?

Paro e momentaneamente entro em uma confusão mental. Não sei como explicar a sensação de sentir frio, então me aproximo dela, pego uma de suas mãos e a coloco em contato com a mesa de vidro que tenho no meio da sala. Sei que por causa do clima extremamente gelado que a Nova Nação trouxe para o país ela estará incrivelmente gelada.

Quando seus dedos tocam o material, 225543 puxa a mão como se tivesse acabado de levar um choque.

– É mais ou menos isso – digo. – Só que menos intenso.

Ela parece entender e faz que não com a cabeça.

– É bem diferente disso.

Franzo o cenho e então percebo que ela passou toda a vida dentro de um armazém que, por causa das máquinas que guardava, nunca passara de -3°.

– Vou ligar o ar condicionado – digo, voltando a colocar o casaco.

Quando o apartamento fica frio, 225543 parece se sentir mais confortável. Anda pelo lugar e fuça em todas as máquinas e aparelhos eletrônicos possíveis, ficando especialmente fascinada com a cafeteira.

– O que é isso? – pergunta, sorrindo como uma criança.

Eu me aproximo e ligo a cafeteira na tomada. 225543 dá risada quando a máquina começa a funcionar entre as suas mãos.

– Ela faz café – explico.

– Café?

– Sim, é uma bebida.

Ela parece entender, e então volta o olhar para a cafeteira.

– Posso provar?

Antes de responder que sim, penso no que o médico falou sobre ela ser uma garota normal. Porém ainda há partes de metal em seu corpo e eu não sei se líquidos em geral poderiam afetá-la.

– Preciso fazer alguns testes com você antes disso. Tudo bem?

Ela faz que sim com a cabeça e me acompanha quando peço que o faça, subindo para o segundo andar do apartamento. Destranco a porta do meu laboratório e visto o meu jaleco, pedindo para que 225543 sente na maca posicionada no centro do salão.

– Eu preciso que você tire o moletom – peço com gentileza. – Se não se sentir confortável, tudo bem. Mas facilitaria o meu trabalho.

Ela balança a cabeça e levanta os braços, se atrapalhando um pouco na hora em que o tecido passa pelo seu rosto. Ajudo-a a se livrar do moletom e vejo-a rir da própria confusão. 225543 fica apenas com o sutiã bege – padrão da NN para robôs do gênero feminino –, e as calças.

Pego o estetoscópio e explico o que vou fazer.

– É um pouco gelado, então não se assuste.

Ponho uma das mãos nas suas costas e o estetoscópio em seu peito. As batidas de seu coração são constantes como a de um ser humano comum, sua pele tem a mesma textura macia que a minha. Não é gelada ou plastificada, mas quente e delicada. Assustadoramente humana.

– Tudo bem – guardo o estetoscópio. – Vou precisar que faça apenas mais uma coisa. Pode se vestir.

Vou até a pia do laboratório e pego uma bacia com água. Levo-a até 225543, que após colocar o moletom fica com os cabelos brancos bagunçados, e peço para que ela dobre as mangas da blusa.

– Ponha as suas mãos aqui dentro. Com cuidado.

Ela me olha em dúvida, mas depois de uma confirmação faz o que pedi e coloca as pontas dos dedos de forma tímida dentro da água. Sua expressão é primeiramente desconfiada, mas depois se desfaz e ela sorri.

– O que foi? – pergunto, curioso.

– Sinto algo estranho nos dedos.

– São cócegas – respondo.

225543 parece tão fascinada com o movimento do líquido através de seus dedos que dou risada junto com ela. Entrego-lhe uma toalha para que seque as mãos e jogo a água do pote dentro da pia. Enquanto a guio para os próximos testes ao redor do laboratório, penso em como as minhas suspeitas estavam certas. 225543 não é como os outros robôs. Ela não é frágil em relação a água e não é de todo um ser de metal ou aço.

Mas o que é assustador de verdade é o modo como ela parece ser extremamente humana.

– Posso experimentar "café" agora? – pergunta quando digo que terminamos.

– Eu acho que pode.

....

225543 está sentada no balcão da minha cozinha. Segura uma xícara de café nas mãos e parece não compreender o motivo de ela ser tão quente. Eu digo para assoprar e a menina larga a xícara para tentar entender o que o que eu quis dizer com aquela frase. Só então noto que ela não deve saber o que assoprar significa. Ao que parece, 225543 só sabe aquilo que foi especificado em sua programação. Por exemplo: ela entende como uma máquina de café funciona, mas não sabe o que é café, especificamente. Em sua criação ela foi feita para fazer o café e não tomá-lo.

– Deixe para lá – digo. – O ar está tão baixo que, em um minuto, esfria.

Neste momento ouço a campainha tocar e me levanto para atender a porta. No corredor do prédio um velho amigo está escondido atrás de três casacos e um cachecol. George é bem mais velho que eu e manca quando entra no apartamento.

– Não tire o casaco, aqui dentro está mais frio do que lá fora.

Ele ri, e quando chegamos na cozinha, vemos 225543 bebericar o café já frio com cara de desgosto, e eu percebo que ela não colocou açúcar na bebida. Pego a xícara de sua mão e despejo duas gotas de adoçante no café preto. Devolvo e peço para que ela prove – o que ela faz, adorando o novo gosto.

– Então é ela? – George pergunta. – Parece...

– Humana?

– É.

– Eu sei que é impossível, mas é real – afirmo.

– O que vai fazer com ela?

– Eu não sei. Por isso te chamei aqui. Queria que desse uma olhada.

– Você sabe que eu sou psicólogo, não sabe? – pergunta. – Como eu poderia ajudar em um caso desses?

– Com os seus mais de quarenta anos de carreira. Você esteve nas duas fases da Nova Nação. Sei que já viu de tudo. Talvez saiba o que pode ter acontecido.

Ele suspira, mas acaba por dar de ombros e andar na direção de 225543. A menina está olhando para o fundo de sua xícara em busca de mais café quando meu amigo se aproxima e ela se assusta com o sujeito cheio de casacos. Digo que está tudo bem e que ela pode confiar nele e a máquina parece tentar controlar todas as suas desconfianças.

– Ela fala? – questiona George.

– Por que não pergunta a ela?

O homem revira os olhos para mim e se vira para 225543.

– Tudo bem?

– Tudo bem – repete a menina.

– Eu vou sair para que possam conversar – digo, retirando-me do local. Sinto que 225543 pode estar desconfortável com tantas pessoas a olhando.

Vou para a minha sala de estar e sento-me no sofá claro de frente para a TV. O apartamento está tão frio que vejo nuvens de fumaça saindo pela minha boca. Pego o controle e penso em procurar algo para assistir, mas sei que não temos bons filmes ou programas há pelo menos dez anos.

Estou tão concentrado em parar de tremer que não vejo quando 225543 senta ao meu lado.

– O que faz aqui? – pergunto. – Onde está George?

Ela parece não saber o que falar. Abre e fecha a boca por vários instantes, gesticulando com as mãos, e eu me levanto para ir em direção à cozinha, onde encontro George jogado ao chão. 225543 vem atrás de mim e parece se esconder atrás dos meus ombros, como se estivesse com medo.

– Eu não sei... – gagueja, e eu me viro para olhá-la. – Ele me assustou e eu... Eu...

Ando até George e me abaixo ao seu lado, verificando a sua pulsação. Ela ainda está vivo e o choque foi aparentemente fraco, mas ligo para a emergência. Levanto e viro para 225543, que parece apreensiva. Não sei se devo brigar com ela ou sentir medo da máquina aparentemente mortal que trouxe pra casa, então pergunto:

– Como assim ele te assustou? O que fez com ele?

É estranho observá-la agora, porque a garota não parece uma ameaça. Pelo contrário, se parece com alguém que merece ser protegida.

– Ele me tocou. Nas costas. Mas não avisou, como você. Simplesmente me tocou e eu me assustei.

– Tudo bem. Ele vai ficar bem. Mas... No mundo humano é normal que as pessoas se toquem de vez em quando.

– É?

– É, sim. Como... Apertos de mãos. Ou abraços. São formas de se cumprimentar alguém.

– E toque nas costas?

Paro para pensar por um minuto. Eu sei que em qualquer outra situação isso poderia soar como uma espécie de abuso, mas conheço George há tempo suficiente para saber que ele gosta de parecer fiel e convidativo para as pessoas. Até mesmo eu demorei para me acostumar com os apertos de mãos e abraços que o psicólogo gostava de dar em seu mais novo paciente. 225543 deve ter achado que era uma ameaça.

– São demonstrações de carinho – respondo simplesmente. Me parece plausível.

Ela concorda com a cabeça e eu escuto os paramédicos correndo pelo corredor. Abro a porta e os permito entrar, deixando que levem George para um hospital, onde poderá fazer exames mais específicos que a minha intuição. Nesse ponto ele já está acordado e se despede de nós, desculpando-se com 225543.

Passamos o resto da semana tentando nos acostumar com o mundo um do outro. Depois do incidente com George, percebi que 225543 ficaria comigo por mais tempo do que pensei. Ela parece ser uma máquina diferente de todas as que já vi. Tem aquela percepção humana extremamente rara, mas mesmo assim permanece com as suas habilidades de robô. Como quando notou que a minha TV estava ligada na voltagem errada, ou quando eletrocutou o meu melhor amigo bem no meio da minha cozinha. Eu não poderia negar que achei cada parte daquela novidade uma coisa empolgante. 225543 era o sonho de qualquer cientista, qualquer um com paixões pelo desconhecido e com vontade de inovar.

Se eu descobrisse o que havia feito 225543 se tornar humana, poderia mudar o rumo da humanidade. Eu seria o responsável pela terceira Nova Geração. Poderia dar um fim a essa era fria de robôs e tentar trazer um pouco de vida à essas máquinas.

– Qual é o seu nome?

Escuto 225543, que está sentada ao meu lado há algumas horas, perguntar. Ela tem essa mania de, do nada, ficar observando as coisas ao seu redor e então começar a fazer perguntas sobre elas. Estamos no meu laboratório e eu examino alguns fios de seu cabelo em um microscópio enquanto a menina me observa trabalhar. Só então percebo que nunca disse meu nome à ela.

– Meu nome é – digo.

– Eu sou Callie.

Olho para ela.

– Você tem nome?

– Tenho. Por que não teria?

Robôs não tem nome, penso. Mas fico quieto porque recentemente descobri que 225543 – ou Callie – é um ser bastante delicado. Sempre que me refiro a ela como um robô e não como uma pessoa, a menina parece não gostar e fica de cara fechada pelos próximos vinte ou trinta minutos.

– Tudo bem, Callie. E o seu sobrenome?

.

Dou risada.

– Você não pode pegar o meu sobrenome para você!

– Mas é o meu sobrenome!

Vejo que não adiantará muito discutir com Callie, então apenas concordo com a cabeça e torço para que ela se esqueça disso logo. Meu celular toca e eu vejo que é George. Ele disse que ligaria quando estivesse saindo do hospital – o que eu achei estranho, já que já se passaram dias desde o incidente na minha cozinha.

– Alô?

– Tenho uma recomendação para você – disse do outro lado da linha. – Um psicólogo de São Paulo. Ele é o melhor no que faz, se formou comigo. A sua esposa é uma das melhores professoras de história da Universidade da Nova Nação. Ele poderá te ajudar com o seu problema. Me desculpe, mas, depois do que aconteceu, não acho que aquele robô iria querer conversar comigo.

– Callie – respondo. – O nome dela é Callie. Me mande o endereço por mensagem.

Desligo e, ao olhar para o lado, encontro a garota de cabelos brancos brincando com o controle automático do apartamento. As luzes ascendem e apagam a cada cinco segundos e as portas não param de bater. Tiro o controle de sua mão e pergunto se está com fome.

– Eu não sei. Sinto algo estranho, mas não é fome.

– O que é?

– Eu não sei – e então arranca o controle da minha mão, voltando a mexer nele.

Pego-o de volta.

– É tédio. Aposto que nunca sentiu nada disso antes.

Callie me olha confusa.

– O que é um tédio?

Dou risada da sua falta de dicção e me levanto, pedindo para que venha comigo.

– Vou te mostrar como se livrar dele.

Ela pula, animada, e pergunta:

– Posso levar café comigo?

...

Eu não pensei em como tirar Callie do apartamento poderia ser uma péssima ideia. Apenas a levei para um parque perto do meu prédio e nem ao menos cogitei a possibilidade de que poderíamos encontrar outros robôs pelo caminho. Isso, claro, aconteceu e Callie ficou extremamente confusa com todas as máquinas que passavam por si. Tentava se comunicar com elas, mas não obtinha uma resposta e acabava por me perguntar por qual motivo alguém seria tão rude – culpa minha, já que expliquei errado o que ser rude poderia significar.

– Acho melhor voltarmos pra casa – digo quando vejo que ela está ficando brava.

– Por que ninguém fala comigo? Você disse que as pessoas se cumprimentam na vida real!

– Eu sei, mas é complicado.

– Tudo é complicado para você – cruza os braços.

É estranho porque ela é delicada demais para parecer brava de verdade. Seus cabelos brancos caem pelo seu rosto e Callie os assopra com a cara fechada, observando os outros robôs. Estamos em um parque familiar e vejo crianças para lá e para cá com suas babás eletrônicas, sem nenhum pai presente. Todos os robôs são genéricos e quase iguais, mas nenhum se parece com Callie. Ela é a mais humana de todas, com pele e cabelo, traços diferentes e menos robotizados.

Meu telefone toca e eu o atendo. Sandra está do outro lado, confirmando a consulta de Callie nesta tarde. Eu respondo que estaremos lá e olho para a menina ao meu lado, vendo-a fazer uma expressão de puro desgosto. Desde a primeira vez em que a levei para um exame no prédio da NN, Callie odiou. Repudiou todos os aparelhos que foram ligados ao seu corpo e todas as pessoas que a tocavam, pedindo sempre que eu fosse o único a fazer os exames. Eu não sou médico de verdade, então isso não foi possível, e desde então ela me olha como se eu tivesse cometido a pior traição de todas.

– Vamos, só mais alguns e você estará liberada – digo. – Precisamos entender o que aconteceu com você. Só assim poderemos te ajudar.

– Me ajudar com o quê? Eu não preciso de ajuda. Vocês precisam.

– Tem razão. E seria muito legal se você fizesse isso por mim.

Ela faz bico, mas me acompanha quando começo a andar de volta para o apartamento.

...

– Tudo bem, tente não eletrocutar ninguém hoje, ok? – Sandra pede. Callie balança a cabeça, mas sei que está mentindo.

Enquanto sobe no aparelho, vejo seus cabelos brancos ficarem em um tom lilás, e Sandra me explica que é o efeito das luzes ultravioletas da máquina. Callie está de moletom e calças, mas permaneceu descalça porque foi-lhe dito que os testes sairiam melhor assim.

– Algum progresso com os resultados? – pergunto a Sandra.

Desde que descobrimos Callie, continuamos guardando esse segredo e a minha antiga colega de faculdade ajuda em tudo o que pode. Todas as consultas pelas quais a garota robô passou só aconteceram porque Sandra deu um jeito de nos fazer entrar e usar todos os aparelhos sem sermos notados. Não podíamos arriscar pedir exames da maneira normal; Callie precisaria de documentos para isso, de um histórico hospitalar. Além de que seria extremamente difícil explicar a qualquer médico o motivo de a menina ser metade humana e metade máquina.

– Não – responde a mulher, já acostumada com a situação. – Ela ainda é inexplicável. Como vai a convivência?

– Estranha – respondo. – Ela tem muitas manias para um robô.

– Como assim? – franze o cenho.

– Apesar de parecer ser humana, Callie não dorme. Fica a noite toda vendo a cascata do aquário que tenho ao lado da minha cama. Eu sempre digo que ela deve ir para o seu quarto, mas recebo a resposta de que é muito vazio e iluminado.

– Bem, ela pode estar com medo. Não sabemos como o cérebro dela funciona.

– E também tem essa coisa... Algo que me incomoda muito. Você já deve ter percebido que Callie é um pouco desconfiada. – Sandra concorda com a cabeça e eu continuo: – Não confia em nenhum dos psicólogos que pedi para ir – diante da expressão confusa da minha colega, explico: – Eu imaginei que, talvez, isso não tenha relação apenas com o físico. Callie ficou quinze anos presa em um galpão e diz não se lembrar de nada, mas sabe o próprio nome. Eu não sei bem, mesmo que ache que não está mentindo, mas pensei que pudesse haver outras coisas por trás. A questão é que ela não fala com ninguém além de mim e isso está começando a me assustar.

– Você sabe, , que ela é um robô, não sabe? – pergunta Sandra. – Robôs só têm um dono. Eles só servem uma única pessoa. Talvez ela ache que você é o dono dela.

– Isso não faz sentido.

– Faz, se ela ainda tem uma parte de sua antiga mentalidade dentro do cérebro. Às vezes as partes físicas da máquina a deixaram, mas as psicológicas não.

Neste momento um barulho parte de dentro da sala, e nós dois olhamos através do vidro. Callie desce os dois pequenos degraus que a levam para o chão e parece zonza ao aterrissar, por algum motivo dando risada do passeio dentro da máquina.

Levo-a cuidadosamente para a mesa e a ajudo a sentar. No telão, vejo Sandra expandir os resultados dos exames. Surpreendentemente, tudo parece normal.

– O que isso quer dizer? – pergunto.

– Que ela é uma garota de vinte anos saudável e forte – responde. – Não há nada de errado com Callie.

– Mas e... As partes, você sabe, não humanas?

– Não parecem estar afetando o seu corpo. Callie as usa muito pouco e pelo que vi há um sistema automático de carregamento. Você não precisa se preocupar.

Olho para a menina sentada na mesa, e ela parece não entender uma palavra da conversa. Agradeço a Sandra e peço para que Callie me siga quando saio da sala e então do prédio, entrando no estacionamento do hospital. A garota senta no banco do passageiro do meu carro e, como em todas as outras vezes, se recusa a pôr o cinto.

– Se tivermos um acidente – digo – , e o carro despencar das vias aéreas, você poderá se machucar.

– Vá pelas estradas térreas, então.

– Eu não posso fazer isso.

– Por quê?

– Porque ninguém as usa mais. É perigoso. Apenas rebeldes as rondam atrás de gente para assaltar.

Ela revira os olhos e parece decepcionada. Ligo o carro e saio do estacionamento, vendo o sensor de tela vermelho no painel mostrar que a estrada está livre em apenas três direções. Sigo de acordo com as coordenadas e, no meio do caminho, uma chuva forte começa a cair sobre nós. Ligo o limpador do para-brisa e observo Callie se inclinar na direção do vidro.

– O que é isso? – pergunta.

– É só uma chuva. Logo para de cair.

– "Cair" – repete. – Quem as derrubou?

– As nuvens.

Callie me olha com uma expressão confusa e eu digo que explicarei melhor depois. Continuo dirigindo em direção ao meu prédio, mas, no meio do caminho, o meu celular toca, mostrando uma mensagem de Sandra.

"Eu encontrei os arquivos de 225543. É estranho, mas você estava certo! Não vai acreditar quem foi que a criou!"

Paro o carro e Callie me olha confusa enquanto os outros veículos buzinam às nossas costas.

– Precisamos voltar para o prédio da NN por um segundo – digo, e Callie apenas concorda, voltando a observar a chuva de uma maneira hipnótica.

Faço o retorno com o carro e sigo na estrada indicada pelo GPS. Em alguns minutos, estou entrando de novo no prédio da NN e estacionando o veículo no fundo da última fileira de automóveis. Desço e pergunto se Callie pode me esperar no carro, o que ela primeiramente nega, mas depois acaba aceitando.

– Eu prometo que vou ser rápido. Só não saia daqui.

Tranco o carro e a ensino como o abrir por dentro. Vou em direção ao elevador e aperto o número do andar no qual Sandra trabalha. Quando a porta se abre, percebo que tudo está silencioso demais, só então notando que é domingo e todos estão em casa.

Sigo para o meu laboratório e destranco as portas, adentrando o local. Quando o faço, encontro uma cena horrível que sei que nunca mais vou esquecer.

Sandra, deitada no chão, morta.

Corro até ela e checo a sua pulsação, mas parece não haver nenhuma. Há sangue rodeando o seu corpo, manchando todo o seu jaleco e o chão branco. As luzes da sala ressaltam a palidez da sua pele. Eu pego o telefone do bolso e ligo para a polícia.

Enquanto espero, depois de me acalmar apenas um pouco, noto que os dedos de Sandra estão manchados de vermelho. Sigo o rastro deixado pelo chão e então percebo que ela escreveu uma única e simples palavra antes de morrer:

ALICE.


02 – MARINA

Olhos são uma coisa estranha. Nós os ignoramos na Nova Nação. Não somos acostumados a encarar sentimentos face a face; não os enfrentamos como antigamente. Vemos em livros a descrição do contato entre duas almas através de espelhos coloridos, sabemos como funciona, claro, mas dificilmente executamos o ato. Como se, mesmo sem querermos, houvéssemos nos acostumado com a ideia de que somos máquinas programadas para administrar movimentos sistemáticos, não ações próprias movidas pela emoção.

Perdemos muitos costumes com o avanço da tecnologia. E olhar nos olhos de uma pessoa, lá no fundo, vendo a verdade e a mentira, a dor e a alegria, a paz e o caos, tornou-se algo extremamente raro.

Por isso, talvez, eu me sinta tão desconfortável quando Callie senta no banco do passageiro do meu carro e me encara com demasiada atenção. Tem os cabelos brancos caindo sobre o rosto e uma expressão curiosa e preocupada.

– Você está diferente – diz ela, analisando as feições do meu rosto.

Do lado de fora, a chuva que acolhe a Nova Nação todas as manhãs, às cinco horas, começa a cair sobre o vidro do para-brisa. O motor está desligado, o veículo morto à beira do acostamento de emergência da estrada que passa pelo prédio da NN.

Eu sei que Callie se refere ao fato de que nunca me viu assim antes, o que é compreensível, porque eu estou em um estado de choque quase catatônico. Encaro as minhas mãos sobre o volante e tento manter a concentração no ponteiro que marca o tanto de quilômetros que as hélices do veículo já rodaram. Os carros passam à nossa volta pela avenida e deixam zumbidos quase mudos quando se vão.

– É... Isso é diferente – digo.

Ainda sinto o cheiro do sangue de Sandra. Sinto a sensação térmica que o corpo causou no ambiente, fazendo com que os sensores se confundissem. Eles são programados para exalar calor e frio na quantidade necessária para aquecer ou refrescar os seres humanos presentes dentro de um determinado lugar, mas, o que uma máquina faz quando não consegue encontrar um ser vivo mesmo que o radar aponte que há um corpo, ali, de fato?

Callie se aproxima subitamente de mim. Sua pele é tão branca que a paleta de cores cinza e preta do carro a faz parecer um ser de outro mundo. Seus olhos são mais azuis que os meus, tão claros que poderiam facilmente virar um tom raro de cinza. Ela levanta a mão com delicadeza e passa um dos dedos pela minha bochecha, e, só então, vergonhosamente, vejo que havia uma lágrima ali.

– O que é isso? – pergunta.

Eu solto as mãos do volante. Meu rosto está seco agora porque havia apenas uma única gota ali. Eu não saberia explicar o motivo da comoção, vivenciei tantas coisas e sofri tantas perdas que uma morte de uma colega distante não deveria me afetar.

– É uma lágrima – respondo. – Cai dos nossos olhos quando estamos sentindo coisas fortes.

Ela concorda com a cabeça lentamente e diz, olhando para a pequena gota na ponta de seus dedos:

– Então, agora sei que as lágrimas, apesar da aparência cristalina, não são como a chuva. Elas não deixam as coisas mais bonitas que o normal quando caem.

E eu entendo o que ela quer dizer. Uma reação humana comparada a um fenômeno da natureza é algo extremamente comum no meio em que trabalho, mas Callie faz tudo parecer tão simples e tão complicado que eu fico sem respostas. Apenas concordo com a cabeça e penso em como a chuva é um efeito colateral para mim, mas, para ela, parece ser algo maior que isso; como se a água caindo passasse de um fenômeno natural para uma emoção do céu e do mundo ao seu redor, refletindo as coisas que acontecem em terra.

E apesar de o meu lado cientista reprovar essa ideia completamente, eu gosto dela. No meio de tantas máquinas, tantos robôs e tanta tecnologia, seria mágico saber que pelo menos o mundo em que vivemos ainda tem um pouco de compaixão.

Um carro para atrás do nosso, ocupando a última vaga do acostamento. Uma mulher desce do veículo e eu tento enxergar o seu rosto pelo espelho retrovisor, mas, por causa das luzes das sirenes, é impossível.

Peço para que Callie não saia do carro e, com cuidado, abro a porta, indo de encontro à mulher.

A chuva cai sobre os meus ombros e a policial tenta me enxergar através das gotas grossas.

– Você foi o responsável pela ligação? – pergunta ela, e eu faço que sim com a cabeça. – Olha, ou você é muito corajoso ou é muito burro.

Franzo o cenho, confuso. O seu distintivo está preso à sua jaqueta, perto de seus ombros, e eu posso ver o holograma que diz "Marina".

– Nada acontece em um prédio da NN – explica a mulher. – A segurança é elevada demais. Há sensores, guardas, câmeras... É impossível ocorrer um crime ali dentro.

Eu concordo com a cabeça de um jeito automático. Sei de tudo o que ela está falando, e é isso o que me apavora. Não deveria haver nada de errado no prédio da NN, mas, se o lugar mais seguro do mundo é perecível, o que mais também é?

– Eu vi, ok? Com os meus próprios olhos. Ela estava morta.

Marina me encara por alguns segundos, mas não nos olhos. Analisa as minhas feições em busca de traços mentirosos, e, quando não os encontra, cede e começa a andar na direção do prédio.

Entramos e passamos pelas câmeras, fechaduras, guardas e sensores. Marina parece cética em todos os momentos, principalmente quando ficamos presos temporariamente no elevador e o vácuo reprime a minha ansiedade. Saímos para o corredor e eu paro alguns centímetros antes da porta do laboratório. Respiro fundo, preparando-me para aquela cena lamentável, mas quando entramos não encontramos nada.

– Você sabe que há uma multa para falsos alarmes, não sabe?

Olho para o chão branco, lustrado, limpo e sem manchas onde o corpo de Sandra deveria estar. O vazio faz um arrepio percorrer a minha espinha e eu sinto como se tudo fosse um sonho.

Eu sei que há uma multa. O governo sempre procurou jeitos diferentes de extorquir a população, então, sim, é claro que teria uma multa. O grande problema não é esse.

– Eu juro que ela estava aqui! – digo, olhando-a. Por algum motivo, preciso que Marina acredite em mim.

– O senhor andou bebendo?

– Não, é claro que não!

– Drogas?

– Eu sei o que vi! – viro-me para olhar para o resto do laboratório, mas tudo parece impecável. – Cheque as câmeras de segurança! Estará lá.

Ela suspira e, como se já estivesse sem paciência, começa a andar. Eu sei que ela só está fazendo isso porque pareço desesperado demais – e estou –, mas tenho certeza de cada detalhe do que aconteceu.

Não seria a primeira vez que um assassino limpa a cena do crime. Ainda mais porque fiquei bons minutos no carro, dando a chance perfeita para quem quer que fosse o responsável tivesse a oportunidade de me fazer parecer louco.

Mas eu não sou louco, nunca fui, então quando chegamos à sala de segurança e Marina passa o seu cartão de acesso padrão – todos os policiais da NN podiam entrar em qualquer lugar – eu estou confiante. Tão confiante que não espero um minuto sequer antes de passar à frente e, ignorando todos aqueles hologramas nas paredes brancas, correr na direção do painel de controle. Eu sei manusear algo desse tipo, afinal trabalhei muito tempo na NN. Conheço todos os truques, o que cada botão de cada cor faz.

Dou os comandos e espero a data de hoje aparecer. O vídeo começa a rodar, o momento em que entrei e saí com Callie, quando voltei, sozinho, e depois, surpreendentemente, a minha imagem tranquila se retirando do prédio. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse acabado de encontrar o corpo de uma colega morta.

– Você é um , não é? – pergunta Marina.

Eu estou com os olhos vidrados na tela. Não consigo raciocinar. A minha imagem ali é uma mentira; eu me lembro de ter saído tão transtornado de dentro daquele laboratório que acabei escorregando ao passar pela porta – algo que não chega a acontecer no vídeo, onde saio tranquilamente do local e sigo para o elevador.

É impossível.

. – Marina finalmente me reconhece, pronunciando o meu nome com um tom depreciativo. – Eu sei que você não estaria fazendo algo assim se não fosse um grande mal-entendido, então vamos relevar isso. Nada de multas, apenas...

Eu não ligo para a droga da multa! – grito, interrompendo-a, vendo tarde demais que ultrapassei um ou dois limites.

Marina me olha assustada enquanto tento acalmar a minha respiração. Ela tem grandes olhos verdes e cabelos escuros, o que contrasta o ambiente branco em que estamos e faz a sua imagem soar como uma ferida em meus olhos.

Minha cabeça dói. Dói daquele jeito terrível de quando eu tinha doze anos de idade e meu pai gritava comigo porque eu não conseguia apertar o parafuso de um robô beta. Não consigo pensar direito, não com a imagem do rosto contorcido de Sandra aparecendo em flashes na minha mente.

– Me desculpe – peço, com calma, o tom baixo demais, a cabeça entre os ombros e o corpo curvado sobre o painel cheio de botões. – Eu sinto muito. Ainda podemos esquecer isso?

Ela faz que sim com a cabeça, parecendo menos assustada. Eu a agradeço mais uma vez e a sigo para fora do prédio, onde, no meu carro, Callie conta as gotas de chuva que caem no vidro do para-brisa.

...

, você anda tomando os seus remédios? – pergunta George.

Estamos sentados em uma lanchonete do centro da NN. É um pouco longe do meu apartamento, mas as vias aéreas estavam vazias porque o Chanceler decretou um Toque de Recolher para todos os que moram na área Sul da cidade. Eu também moro por lá, mas ultimamente não venho me importando com o que ele quer para a minha vida.

– Eu nunca parei, você sabe. Mesmo que eu não saiba por qual motivo devo tomá-los – respondo.

Desde que eu era garoto, tenho dores de cabeça extremamente fortes. Meu pai me levou em um médico de sua confiança e ele passou vários tipos de medicamentos que ajudariam no meu caso, mas nem ele e nem qualquer outro especialista soube me dizer por qual motivo eu tinha aquele problema. Não era nada que a ciência pudesse ter estudado, e, enquanto não houvesse uma série de pessoas com a mesma disfunção, seria algo temporariamente único para mim.

O que, claro, não diminuía as dores que muitas vezes não me deixavam dormir ou viver. A sensação que eu tinha quando uma delas me atacava era a de um milhão de caminhões atropelando o meu cérebro. Houve casos em que parei no hospital e fiquei inconsciente por uma semana.

– Além do mais – continuo. – As minhas dores de cabeça nunca me fizeram enxergar cadáveres.

Uma garçonete encosta na nossa mesa, deslizando sobre os seus sapatos voadores. Ela nem ao menos nos olha quando coloca o pedido sobre a toalha branca, saindo sem responder ao meu agradecimento.

Suspiro e olho através da janela. O vidro permite que tenhamos uma imagem ampla do centro comercial da Nova Nação. É tudo cinza, branco e desorganizado. As pessoas vestem todos os tipos de roupas. Não existem mais animais pelas ruas. Crianças não podem entrar quando as lojas estão abertas porque no último ano vimos mais de trinta casos de pisoteamento por falta de atenção.

Trinta. Hoje é cerca de 1,1% da população das nossas crianças. E tudo por que as pessoas acham difícil se desconectar de seus pequenos mundos para tentar se importar com o próximo.

– É realmente estranho. – George diz, e eu acordo.

– É bizarro.

– Você encontrou Sandra depois do que aconteceu?

– Não. Eu não consegui achá-la em lugar algum – respondo, preocupado. – Sabe, eu sinto que algo está errado. Muito errado. Com Callie e tudo mais. A Nova Nação nunca me pareceu tão... Distorcida.

– Não é culpa do governo, . Você está sobrecarregado.

Não respondo, porque não quero começar uma discussão política. Nós estamos na Era da Tecnologia e sei que em alguns poucos segundos todas as minhas palavras estamparão jornais por toda a nação. E não é como se eu tivesse medo de falar o que penso, mas sinto que, dessa vez, a coisa vai muito além do meu jeito de desaprovar as atitudes do Chanceler. É sobre algo que está acontecendo bem debaixo do meu nariz e eu não estou vendo.

Portanto, quando menos eles souberem sobre o que eu sei, melhor.

– Como vai Callie? – pergunta George. – Não acha que está na hora de deixá-la sair do carro?

– Ela gosta – rebato.

– Eu não acho que seja o caso.

– O que quer dizer?

– Callie é um robô, . Ela faz o que você manda. Não sabe ter vontade e opinião. Se sugerir que ela deve ficar no carro, a menina vai achar que quer ficar no carro.

Sandra me disse a mesma coisa, penso. E eu não sei se é certo ou não. Não obrigo Callie a fazer nada, mas já se passaram duas semanas que ela mora comigo e eu sempre tenho que adivinhar as coisas que acontecem com ela. Fome, sede, raiva; tudo o que Callie inexplicavelmente não era acostumada a sentir quando estava em um armazém.

– Eu não sei como cuidar de um robô – admito. – Não sei como fazer isso. Não desse jeito. Eu não posso desligá-la e desmontá-la para achar o erro, George, e isto está me enlouquecendo.

Ele ri da minha ingenuidade. Nunca pareceu tão velho quanto quando diz:

– É porque Callie não é um robô. Ela é uma mulher, . Bem-vindo ao clube dos que não as entendem!

Paro e penso no que ele diz. Faz tudo ganhar sentido e eu vejo que, se eu começar a tratá-la como um ser humano e não como um objeto, talvez a vida dela fique bem mais agradável e Callie comece a tomar as próprias decisões.

Mesmo tendo sido um robô, ela é humana agora. Como eu. E eu percebo que venho sendo injusto ao não tratá-la como tal.

– Obrigado – digo, me levantando. Deixo cartões eletrônicos na mesa para pagar a minha parte. – Eu acho que sei o que devo fazer.

...

– Escolher? – repete Callie.

– É, escolher – afirmo, empolgado. – Você tem que escolher um do seu gosto.

Ela me olha confusa e eu não sei como explicar a ela o que "escolher" significa. Então, puxo-a até a sessão masculina da loja de roupas que estamos e pego uma calça jeans, dizendo:

– Eu escolhi essa. Com a minha própria vontade. Você tem que fazer o mesmo.

Ela balança a cabeça de forma positiva e se aproxima do cabide. Neste momento uma das funcionárias passa ao nosso lado e eu escuto o farfalhar que os seus sapatos fazem quando o motor deles desacelera. Não consigo evitar o pensamento de que a Nova Nação é tão doentia que até o ato de caminhar virou banal. As pessoas compram sapatos que as permitem deslizar a centímetros do chão e acham que tudo está bem. Não faz nenhum sentido.

– Eu escolho essa – acordo para Callie, que tem uma peça de roupas nas mãos.

Infelizmente, é uma idêntica à minha e eu sei que ela só a escolheu por que eu também a escolhi. Uma calça jeans que é duas vezes o seu tamanho. Isso vai durar muito tempo.

– Não, Callie, você precisa escolher uma que goste – tento de novo. – Uma que ache bonita.

– Mas eu gosto das minhas roupas! – diz, e parece sincera.

Olho-a por alguns segundos e sei que o par de calças e moletom cinza da NN são confortáveis e perfeitos para Callie, mas, por mais que eu tenha um estoque destes para ela usar, não posso deixar que continue. Callie é propriedade legal da Nova Nação. Eu sei que ela ter sido invenção do meu pai não afetará em nada se o Chanceler descobrir que a tenho e quiser tomá-la de mim. Portanto, Callie não pode sair por aí se parecendo com o robô que é. Chama muita atenção, e eu tenho sorte de o Chanceler não ter visto o seu rosto. As roupas e as dificuldades são o único jeito de ele a encontrar, e eu preciso corrigir isso antes que o pior aconteça e eu não esteja em posição de protegê-la.

Pensando no que George disse, eu também achei que a escolha das próprias roupas seria um exercício eficiente para ensiná-la a ter livre arbítrio. Porém, não está dando certo. Ela não consegue se decidir e acabamos comprando uma dúzia de calças jeans e camisetas brancas. Callie parece feliz com a escolha quando entramos no carro, mas eu sinto que fracassei com o meu intuito de ajudá-la a se tornar um ser humano com opiniões e decisões.

A chuva está tão forte neste ponto da tarde que as vias aéreas foram interditadas para a nossa própria segurança. Por isso, sou obrigado a descer e tomar as estradas terrestres para chegar em casa.

A parte debaixo na Nova Nação está sempre sendo atingida por pequenos flocos brancos de sujeira e gelo, e isso acontece porque as nossas estradas, que suportam carros voadores, precisam estar constantemente em estado de resfriamento. Caso contrário, uma explosão pode ocorrer e destruir metade da estrutura da nossa cidade. Só que elas são tão frias e extensas que o seu sistema de congelamento é forte demais e o governo foi obrigado a instalar dutos de saída de ar seco, assim a Nova Nação não viveria sempre em um estado ou clima de frio extremo. Esses dutos foram direcionados para baixo, onde as estradas e a Nova Nação acabam e a Velha Nação começa.

A parte terrestre do nosso país é o que sobrou da antiga sociedade, e todos acreditam que as casas e prédios em ruínas daqui debaixo estão abandonadas – o que é mentira, pois é possível ver coisas se mexendo dentro das construções. Sons escapam por debaixo das portas e através das janelas sempre que algo se move nas ruas, mas eu sei que ninguém nunca vai sair de dentro daquelas proteções de concreto porque o medo é grande demais.

Esta parte do país é composta por todos aqueles que não conseguiram se adaptar ao que a humanidade se tornou. Pessoas que não tiveram como comprar uma casa na Nova Nação, ou pessoas que não queriam abandonar as suas raízes. Moradores de ruas, idosos, crianças órfãs... Todos vieram parar aqui, e por isso este lugar é negligenciado. O Chanceler não liga para eles, o governo não se habilita a mudar as suas condições e essas pessoas continuam se escondendo porque sabem que ainda têm sorte de permanecerem vivas. Todos sabem que o Chanceler não aceita imperfeições, não em sua Nova Nação.

, onde estamos? – pergunta Callie.

– No inferno.

Ela me olha assustada, mas não explico que é uma figura de linguagem. Não é preciso. Callie desconhece a concepção de inferno, então deixemos que pense ser assim. Talvez a faça julgar melhor quem merece ou não estar por entre as chamas.

– O que é aquilo? – pergunta, apontando para a estrada.

Acompanho a sua indicação e encontro, no meio da rua, algo ou alguém jogado no meio da estrada. Penso ser uma pessoa e digo para que Callie fique no carro quando desço para ver o que é. Aproximo-me com calma e sinto a poeira e os restos de metal dos tubos engolir os meus pés quando os meus sapatos afundam no material fofo. Quando chego bem perto, vejo que aquilo no meio da estrada é um garotinho deitado de costas. Ele está sem camisa e abraça o próprio corpo enquanto treme.

– Você está bem? – pergunto ao me aproximar, abaixando-me ao lado dele. – Você se machucou?

Ele não me responde e eu toco o seu ombro para poder virá-lo e ver o seu rosto. Neste momento, o garoto grita e eu me assusto, pulando para trás. Ele senta na poeira branca e tem os olhos fechados enquanto a sua voz fica cada vez mais alta. É um tom fino, agudo. Quase não humano.

Enquanto ele grita, vejo os movimentos por trás das janelas e portas dos prédios abandonados se aprimorar. Eu não os enxergo, mas sinto que estou sendo observado constantemente. Meus dedos formigam, a garganta coçando pelo ar impuro da parte de baixo do país. Há rumores que dizem que passar muito tempo neste lugar pode causar problemas de saúde.

Quando percebo, o garoto parou. Olho para ele e sua respiração está pesada. O menino permanece sentado. Balança a cabeça e leva as mãos à cabeça. Eu finalmente me recupero do susto e me aproximo mais uma vez, ajoelhando-me nos resíduos que caíram ao chão.

– Eu só quero ajudar você – digo. – Está sentindo dor?

Ele abre os olhos. O meu coração salta dentro do peito com a visão de seu rosto, onde percebo que as suas pupilas são de um tom vermelho sangue extremamente forte. Ele me olha diretamente nos olhos e não parece ser o mesmo menino assustado de antes, principalmente quando diz, sua voz soando incrivelmente grossa:

– Você não sabe o que é dor, .

E antes que eu possa fazer qualquer coisa, pula sobre mim.



03 – LAURA

A primeira coisa que vejo quando acordo é um amontoado de cabelos brancos caindo sobre as beiradas da minha cama. E então a televisão do quarto produz um chiado tão forte que a minha cabeça lateja e Callie, que dorme na poltrona ao meu lado, com a cabeça perto das minhas mãos, pula de susto.

Tudo fica confuso. As imagens da minha última lembrança na parte inferior do país piscam como um filme antigo. Não consigo lembrar o que aconteceu, mas sei que, agora, estou seguro. Callie também está, mesmo que cansada ao ponto de dormir em uma posição tão desconfortável.

E então eu me lembro de que ela não dorme, nunca dormiu – pelo menos não durante o tempo em que ficou comigo.

– O que você está fazendo? – pergunto.

Ela parece se assustar de novo, mas dessa vez com o som da minha voz. Arregala os olhos e pisca algumas vezes antes de responder:

– Todos nesse lugar parecem estar dormindo. Achei que eu deveria tentar.

Dou risada, só então percebendo que estamos no Hospital da Nova Nação. Mais especificamente no terceiro andar, e eu sei disso porque as paredes de vidro permitem que eu tenha uma visão ampla do mundo lá fora. A altura não é tanta, pois não consigo ver a Agência, mas estamos baixo o suficiente para que os carros passem como um vulto sobre o túnel da estrada principal.

Olho para o lado direito da minha cama e, como se fosse um prontuário, há um pequeno aparelho eletrônico de visor branco com palavras escritas em vermelho. Ali eu posso ver que são oito horas da noite e que eu cheguei ao hospital por volta das cinco, o que me faz ter ficado três horas inconsciente. Também diz que os motivos da internação são desconhecidos, fazendo-me ter a certeza de que a Nova Nação exclui os renegados da parte de baixo do país até em casos negativos.

– O que aconteceu, Callie? – pergunto. Quero detalhes do que aconteceu depois que apaguei. – Enquanto estávamos lá embaixo.

A menina me olha e balança a cabeça. Parece confusa, e claramente tenta encontrar as palavras certas para explicar o ataque que sofri nas estradas baixas. Mas, bem, se nem mesmo eu sei o que foi aquilo, como ela poderia saber?

Estou prestes a dizer que não é importante quando a porta do quarto se abre e uma garota de cabelos escuros passa por ela. Os seus passos ecoam como se não houvesse um único móvel na sala, mas eu sei que são apenas os seus saltos altos brilhosos.

A menina parece não notar Callie quando anda na minha direção e, com a expressão preocupada, me abraça tão forte que todos os músculos do meu corpo começam a doer.

, o que houve com você? – pergunta, afastando-se depois que um gemido escapa pela minha boca.

Eu não tinha notado até este momento o quanto o meu corpo está dolorido. Parece que fui atropelado por um aviador de cinco toneladas, e me assusta não saber de onde vieram todas essas sequelas.

– Não faço ideia – respondo. – Cometi o erro de descer até as estradas abandonadas.

– Você é maluco?! Eu nem sei como você conseguiu sair de lá. É muito sortudo!

– Eu tinha uma guarda-costas – digo, e olho para Callie.

Laura, que é uma velha amiga, parece notá-la pela primeira vez, olhando-a de um jeito confuso, curioso e então surpreso.

– Oh, oi! Quem é você?

Callie sorri.

– Sou Callie .

Fecho os olhos diante de sua mania de adotar o meu sobrenome, e Laura ri de um jeito estranho, quase nervoso.

– Eu não sabia que você tinha se casado! – comenta.

Balanço a cabeça para negar a afirmação, mas não consigo pensar em nenhuma explicação que não envolva as origens peculiares de Callie. Laura é a última pessoa no mundo que pode saber sobre a sua natureza.

– Sua namorada? – deduz Laura, e eu apenas dou um mínimo sorriso forçado. Quanto menos eu falar, melhor. – O papai vai ficar feliz por saber disso! Mas, bem, mudando de assunto, eu estou aqui porque sou a responsável pelos convidados do jantar de sexta. O comitê pediu para que eu viesse falar com você pessoalmente, e adivinha a minha surpresa quando o memorando disse que você estava no hospital?

– Qual o motivo do jantar? – pergunto. Sei que uma hora Laura irá querer saber detalhes do ataque, então preciso distraí-la para que não tenha tempo de ser curiosa.

– Você é horrível de história, não é? Sexta faz 50 anos que ocorreu o resgate do nosso quarto chanceler! É uma tradição comemorar isso, mesmo depois de sua morte – diz, e eu me lembro de quando um de nossos líderes foi sequestrado por alguém de fora do país.

Naquela época o mundo ainda estava se formando depois da Grande Catástrofe, e a briga por poder era absoluta. Como provocação, alguém da antiga União Norte Americana decidiu que seria uma boa ideia sequestrar o homem mais poderoso do país, aparentemente, mais fraco. Achavam que éramos tão despreparados e medrosos como antes de tudo acontecer, no século vinte e um, mas obviamente se enganaram. Conseguimos trazê-lo de volta, reafirmar as nossas estruturas e ainda começar o planejamento da Nova Nação, onde tudo deveria ser absolutamente seguro.

– Todos os anos o atual chanceler escancara a derrota inimiga para o mundo – comento. – Questões políticas?

– Absolutamente.

– Olha, eu adoraria ir, mas não acho que...

– Sem desculpas, ! Você vai! É um membro muito importante de uma família muito importante, e o Chanceler não admitiria a sua ausência! Poxa, o seu pai ajudou no resgate! É inadmissível que você não esteja lá em seu nome. Ronald compareceu a todas as comemorações!

A citação ao nome do meu pai faz algo dentro de mim cair, como se de repente o mundo ao meu redor fosse um buraco sem fim. Já faz um tempo que o meu velho morreu, mas não consegui aceitar totalmente, e sempre esqueço de que ele não está mais em só uma de suas várias viagens.

– Leve Callie com você – diz Laura, olhando a menina com um sorriso gentil. – Foi um prazer te conhecer.

Ela beija a minha testa de uma forma leve e protetora, e só então eu percebo que por trás de toda a afobação e as ordens de Laura, ela está preocupada comigo. Não só pelo ataque, não só fisicamente. Mas a menina provavelmente pensa em como será a minha vida sem o meu pai pra me pôr no limite – como se sem o apoio dele eu fosse virar algum tipo de rebelde.

Laura sempre me conheceu bem demais, e com certeza sabe da minha opinião sobre muitas das várias coisas erradas da Nova Nação.

Laura sai de forma silenciosa, deixando-me pensando que, infelizmente, não comparecer a esse jantar não é uma opção. Como ela disse, meu pai teve participação significativa no resgate do Chanceler e compareceu aos jantares de comemoração durante toda sua vida depois disso. Eu deveria ir em seu nome. Sou um ; estava lá, mesmo que só como um bebê, quando ele construiu a arma responsável que garantiu a segurança do líder do país. É uma obrigação.

, quem é o pai dela? – pergunta Callie, fazendo-me acordar.

Suspiro, sentindo a minha voz perder um pouco da força ao responder:

– O Chanceler.

...

– Desculpe, , mas eu não posso tomar conta dela! Lembra do que aconteceu da última vez?

George parece decidido a não me ajudar neste caso. E por mais que eu insistisse que levar Callie para a casa do Chanceler seja arriscado, ele acha que é uma boa ideia.

– Nós não sabemos nada sobre essa garota e seus poderes. O que ela fez comigo é inédito, , você não quer descobrir mais? Leve-a para ver a sua reação. E não me venha falando que você não vai a esse jantar, amigo, porque Laura te quer lá, e ninguém pode contrariar aquela garota.

Suspiro, pensando em como a teimosia e audácia de Laura não é uma inconveniência pela primeira vez. Crescemos juntos, tivemos toda a nossa infância e adolescência em conjunto, mas somos tão diferentes que eu não me surpreendo de a fase adulta ter nos separado. Laura sempre será uma boa amiga, alguém que eu considero acima de tudo, mas ela foi criada para ter tudo o que quer, e eu não sou um homem muito paciente na tarefa de adular qualquer pessoa.

E por mais que, apesar de tudo, Laura seja uma boa garota, sinto que não posso contar sobre Callie a ela. Parece arriscado demais, e prezo para que ninguém além de mim, Sandra e George saibam sobre a verdadeira natureza da menina. Não seria nada bom se Laura deixasse escapar, mesmo sem querer, em uma conversa com seu pai. Como eu já disse, perderíamos tudo, e eu nem comecei a estudar Callie com prioridade.

Preciso de mais tempo.

– Eu vou levá-la – decido. Ele está certo. Será bom ver como Callie se comporta em situações sociais. Eu nunca a vi em um ambiente formal, então não sei como ela reagiria em alguns casos. E, bem, como estarei por perto o tempo todo, qualquer mal-entendido poderá ser fragilizado para parecer uma piada.

O único problema é a sua aparência. Qualquer um que a ver saberá que Callie não é propriamente humana – inclusive, não sei como Laura não notou esse fato.

– Você vai pintar o cabelo dela? – pergunta George, lendo os meus pensamentos. – Aquele branco folha-de-papel não é muito natural.

– Verei o que posso fazer. Obrigado – e então saio, deixando-o em seu escritório.

George é psicólogo da cidade grande e trabalha no Hospital da Nova Nação, então quando recebi alta resolvi subir alguns andares para encontrá-lo e tentar convencê-lo a ficar com Callie para eu poder ir ao jantar sem me preocupar com a menina queimando qualquer coisa do meu apartamento. Sei que ela não é uma criança, mas é uma criatura mortal e até mesmo perigosa, mesmo que não saiba disso.

Deixá-la sem supervisão poderia causar danos horríveis.

Quando cruzo o corredor, olho para a fileira de cadeiras da sala de espera, parando abruptamente de andar quando percebo que Callie não está mais lá. Corro até o exato local onde a deixei e olho para os lados, procurando-a, mas não obtendo sucesso algum, o que começa a me deixar desesperado.

– Você viu uma garota de cabelos brancos que estava aqui? – pergunto para uma das funcionárias. Vejo tarde demais que ela não é humana, mas sim um dos robôs proletariados, e deixo-a para trás, sem uma resposta, para ir procurar por Callie.

Procuro por pelo menos três andares do prédio até que, quando chego à praça de alimentação, encontro-a parada em frente ao balcão de pedidos. A única coisa que vejo são os seus cabelos brancos presos em um rabo de cavalo – algo que tentei improvisar para amenizar o choque da cor em contraste com outras coisas, o que obviamente não deu certo.

– Callie, você não pode fazer isso! Tem que ficar por perto.

A menina se vira para mim, não parecendo entender o que eu digo. Além disso, percebo que seus olhos estão aflitos, a sua boca espremida em uma reação humana que conheço vagamente: o choro.

– O que aconteceu? – pergunto.

Viro-me para a mulher do outro lado do balcão. Ela está mascando um chiclete verde enquanto encara Callie com uma expressão tão entediada que sinto vontade de dormir só de estar perto dela.

– Ela disse coisas horríveis! – balbucia Callie.

– O senhor é o responsável por ela? Saiba que está com defeito. Veio até aqui e pediu café, e quando eu disse não poderia atendê-la sem que ela tivesse fichas, afirmou que precisava disso. Ela teimou comigo. Como isso geralmente é algum erro grave, apenas tentei acionar os comandos por voz para fazê-la voltar ao dono.

– Dono? – repete Callie. – Seu nome é !

– Ela tem uma programação diferente – digo, tentando arrumar um jeito de a mulher não perceber as peculiaridades de Callie. Mas é difícil, porque sinto que a menina vai começar a chorar a qualquer momento.

– Ainda acho que está com defeito. Deveria mandá-la para um prédio da NN. Eles saberão como descartá-la sem causar danos ao nosso ambiente e ainda te darão outro com um valor equivalente.

Estou prestes a agradecer e puxar Callie para longe quando algo estranhamente assustador acontece. Em um minuto, a atendente atrás do balcão me olha com a sua cara de tédio e, no outro, ela é arremessada contra a geladeira às suas costas, e tudo ao seu redor adquire um tom estranhamente prateado.

Olho para Callie e percebo que é ela que está fazendo isso. Toda a cena é indescritível. A menina muda de uma forma abrupta, tendo alguns fios de seu cabelo flutuando ao redor do seu rosto, a sua expressão facial mudando completamente para a fúria e, os seus olhos... Bem, é difícil de explicar, mas eles adotaram uma textura prata, como as das colheres do século vinte e um.

– Callie! – chamo-a, mas parece inútil. Um barulho ecoa pelo ar, e todos na praça tapam os seus ouvidos e caem ao chão, contorcendo-se de dor. Eu também sinto, mas estou acostumado a esse tipo de incomodo por causa das minhas dores de cabeça, então depois de alguns segundos consigo levantar o rosto e segurar Callie pelos ombros, fazendo-a olhar para mim. – Callie, pare com isso!

E então tudo fica silencioso. As coisas voltam às suas cores naturais e os olhos de Callie ficam azuis de novo. Sua expressão se desfaz da fúria anterior ao puro medo e à pura confusão, e ela segura os meus braços para se apoiar quando parece finalmente voltar ao normal por completo.

Eu a seguro, vendo que o que quer que ela tenha feito gastou todas as suas energias, e a levo para fora da praça de alimentação e do prédio, colocando-a no banco traseiro do meu carro e dirigindo para o meu apartamento enquanto a menina parece continuar desmaiada.

Seguro o volante com força, vendo os nós dos meus dedos ficando brancos. Não consigo entender o que acabou de acontecer, mas parece que Callie se ofendeu de verdade com as palavras da balconista sobre o seu descarte. Não sei se ela realmente entendeu o que significava, se ela quis ou não machucar a mulher. Talvez tenha sido como foi com George, só que mais forte. Ou ela apenas se defendeu de uma possível ameaça.

Isso não é normal. Robôs da Nova Nação não foram feitos para lutar ou proteger, só para servir. Temos o exército para isso. Humanos de verdade, pois o Chanceler nunca confiou em máquinas para esse serviço. Então por que Callie seria diferente?

Fico pensando nisso até chegar em casa. Subo com Callie ainda adormecida, segurando-a com prioridade e cuidado no elevador. Ela consegue andar levemente, como se fosse uma reação involuntária, e eu fico preocupado porque nunca a vi dormir antes. Entro com a menina em meu apartamento e a levo ao meu quarto, colocando-a sobre a minha cama.

Pego o estetoscópio e analiso as batidas do seu coração, que parecem normais, e o seu pulso. A sua temperatura também está normal, melhor do que a dos outros dias, quando Callie sempre se mostrava quente demais. Ela tem reflexo nas pupilas quando as ilumino com a lanterna, e diante disso deduzo que o seu ataque, seja ele o que for, gastou as suas energias. Ela só precisa descansar.

Saio do quarto, bebo um pouco da água filtrada da cozinha e sento no sofá da sala. O apartamento extremamente branco cansa as minhas pálpebras, e em alguns minutos eu adormeço, caindo sobre as almofadas e sentindo todas as luzes se apagando com a constatação de que não há ninguém acordado na casa.

Cerca de treze minutos depois eu acordo com a porta do meu apartamento sendo derrubada. Homens entram na minha sala e a visão branca que eu tinha antes é substituída por um cenário composto por soldados da Nova Nação e armas de fogo.



04 – LORENA

Eu não sei como consigo ficar calmo sabendo que há um assassino invisível dentro da Nova Nação. Porque eu sei o que houve com Sandra. Tive distrações ao longo da semana que me distanciaram das peculiaridades envolvendo o mistério ao redor do que realmente aconteceu naquele dia, mas eu nunca esquecerei um segundo sequer daqueles momentos. Não até encontrar uma resposta ou explicação válida.

Por isso, ando pelas ruas do centro da Nova Nação segurando a mão de Callie de forma firme. Não quero que ela se distancie muito. Não sei o que a pessoa que matou Sandra queria ou o que "Alice" pode significar. Sei apenas que Callie é valiosa o suficiente para ser um bom motivo para qualquer crime. Imagine só? Uma robô que virou humana! Nada mais importaria na nossa sociedade.

Tenho que mantê-la em segurança, fazê-la se camuflar no meio dos outros humanos. Por isso tirei Callie do apartamento: preciso procurar uma velha amiga e lhe pedir um favor.

Lorena, uma mulher que por muito tempo considerei a minha segunda mãe, é uma cabeleireira extremamente talentosa, dona de um salão localizado em um dos muitos becos do centro da NN. Ela me deve serviços porque a ajudei a manter o seu estabelecimento licenciado de acordo com o nível tecnológico exigido pelo Chanceler. Se não fosse por mim, ela estaria na parte baixa do país, mas eu não gosto de pensar nisso. Prefiro encarar como uma troca de gestos entre velhos amigos, até porque Lorena é uma das pessoas que tive ao meu redor enquanto crescia, e, assim como eu não negaria nada a ela, Lorena não negaria nada a mim.

– O que posso fazer por você, filho?

A voz de Lorena é nostálgica. Remete lembranças desconexas da minha infância, o que é tão bom quanto ruim.

– Preciso que me ajude com uma amiga – digo, puxando Callie, que se escondeu atrás de mim. – Quero que pinte o cabelo dela.

Lorena olha de mim para a robô com uma sobrancelha levantada. Parece desconfiada com algo quando se aproxima da menina e ergue algumas mechas de seus fios brancos. Callie se encolhe, e eu sei que ela está se sentindo ameaçada, então seguro a sua mão com mais força para indicar que está tudo bem. É seguro.

Por fim, Lorena apenas dá de ombros e conduz Callie para uma cadeira alta em uma cabine da parte direita do salão. Eu as acompanho e sento em uma poltrona rente à parede do cubículo, vendo a cabeleireira sair apressada para buscar ferramentas enquanto Callie vira o rosto de forma abrupta e diz para mim:

– Não vai dar certo. Não pode mudar a cor do meu cabelo.

Eu dou risada.

– Tudo bem, Callie. É normal. Muitas pessoas pintam o cabelo hoje em dia.

Ela morde o lábio inferior e afunda na cadeira, parecendo nervosa. Eu digo que ela deve confiar em mim, porque tudo dará certo, mas não adianta muito e Callie permanece com a expressão preocupada.

Quando Lorena volta, a cadeira de Callie se ergue como um pedestal. Eu pego um dos cards sobre a mesinha ao meu lado e o coloco na entrada no braço da minha poltrona. Uma tela aparece embaixo do acolchoado e eu apoio o queixo nas mãos para ler o jornal de notícias da manhã.

Como esperado, eu e Callie estamos no primeiro bloco de hologramas, mas, felizmente, não há fotos. Tudo o que diz é que dois suspeitos de explodir uma bomba no hospital da Nova Nação foram inocentados. Procuro pelo meu nome e já imagino a polêmica e o inferno que isso trará, mas não o encontro. Na hora, sei que foi por ordens do Chanceler. Ele provavelmente exigiu que não fizessem menção à minha pessoa.

Ah, não. Não se engane, pois o Chanceler não está preocupado comigo. Ele só não quer ver o sobrenome do seu maior cientista – o meu pai – ligado a um ataque terrorista. Seria vergonhoso. O mundo veria que os seus laços mais fortes de confiança foram corrompidos. Veriam fraquezas. Ele não admitiria tal humilhação.

Mas o importante aqui é outra coisa. Eu realmente não ligo para o meu nome no jornal, nem para a falta dele. Ligo apenas para a referência ao mal-entendido com Callie ter virado um suposto ataque terrorista. Eles realmente acharam que era algum tipo de bomba e estão acusando outros governos de ter começado um ataque.

Isso me deixa angustiado. Sei que a notícia do jornal já passou pelos hologramas de quase toda a Nação e que, agora, todos estão preocupados e tensos com uma possível guerra.

Isso é muito pior. Eu preferia ter sido exposto e preso. Preferia ter sido sentenciado à morte por roubar e esconder Callie. Mas agora é tarde. O estrago foi feito. Tudo o que posso fazer é torcer para que esses rumores não sirvam de incentivo a inimigos, muito menos que o Chanceler comece a tomar medidas de precaução contra novas ameaças.

Eu lembro muito bem de quando o nosso quarto Chanceler foi resgatado. Ele voltou, foi uma festa. Comemoramos a vitória e a sua segurança, e, então, com o nascer do sol, a Nova Nação virou um caos. Havia guardas em todas as casas, robôs em todas as ruas, policiais em todas as instituições públicas. Parecia uma guerra interna, o que provavelmente era, mas a pouca idade me impedia de entender que aquilo era pior do que parecia.

Eu vi vizinhos sendo arrastados para interrogatório. Nunca os vi voltar. Tive amigos órfãos, cartazes de desaparecidos, desespero, angústia. Uma época que muitos tinham medo de sair de casa, de conversar com outras pessoas. Uma época em que a desconfiança era tanta que meu pai me proibiu de brincar com outras crianças. Ele não queria que eu fosse confundido com um traidor, então eu apenas ficava no meu quarto olhando pela janela e estranhando a rua extremamente vazia.

E tudo ficou assim durante a época de intercepção do governo, onde eles aplicavam as chamadas Medidas de Segurança.

As Medidas de Segurança visavam tirar qualquer tipo de infrator, delator ou traidor de dentro da Nova Nação. O Chanceler acreditava que o seu sequestro só havia acontecido porque alguém de dentro o traiu, mas nunca acharam o culpado. E desde então, com os anos, as coisas foram se acalmando. Hoje, temos segurança, mas não somos mais vítimas dela.

Pensando nisso, sei que a explosão no hospital pode ter causado uma guerra. Há pessoas sendo levadas para interrogatório nesse exato momento. E eu sei que, mesmo que de forma mais sigilosa e cautelosa que foi há 50 anos, as coisas estão se repetindo. As Medidas de Segurança estão sendo retomadas. A desconfiança subiu, e eles querem saber como uma bomba passou pelas portas do hospital e pelas fronteiras da Nova Nação.

Penso no que teria acontecido se, nessa manhã, a ordem dos fatores fosse inversa.

Eu ainda não sei o que aconteceu, mas quando aqueles homens entraram em meu apartamento, entrei em um conflito interno. Não me parecia plausível mentir ou esconder qualquer informação. Eles fariam perguntas para as quais eu não teria respostas. Por outro lado, entregar Callie estava fora de cogitação. No meio da confusão, apenas os deixei vasculhar todo o lugar à procura de qualquer tipo de resíduo de materiais para a fabricação de bombas.

– Esteve no Hospital da Nova Nação hoje? – perguntou um dos homens. Os outros continuavam procurando pelo apartamento.

– Sim. Eu fui atacado nas estradas baixas enquanto tentava voltar ao topo. Desmaiei e acordei por lá. Quando recebi alta, vim direto para casa.

– Estava presente no momento da explosão?

Pensei muito antes de responder àquela pergunta. Eu não poderia dizer que não, pois a balconista e várias outras testemunhas nos viram por lá. Seria idiotice.

– Sim.

– E pode nos dizer o que aconteceu?

– Bem, eu estava comprando um café quando ouvi um barulho alto.

– Estava sozinho? Uma testemunha afirma que a confusão aconteceu por sua causa. Por isso estamos aqui.

– Eu estava com a minha namorada – digo. Parece melhor do que dizer que eu estava com o meu robô assassino.

– Onde ela está?

– No quarto, dormindo. Foi um dia cansativo.

– E você saberia explicar o motivo da testemunha insistir que a bomba veio de você?

Finjo uma risada forçada.

– Olha, não me leve a mal, mas eu e a sua testemunha, que eu sei quem é, tivemos uma discussão um pouco antes da confusão. Ela provavelmente guardou rancor. E, além do mais, se a bomba estivesse comigo eu teria resíduos de pólvora ou outros materiais na roupa. Além de que seria muita burrice explodir um lugar estando dentro dele. Tenho um laboratório no andar de cima com todos os aparelhos necessários para que você e seus homens possam fazer exames e buscas.

– Está dizendo que não soltou aquela bomba?

– Sou um cientista, não um rebelde. Eu só queria um café.

Ele me encarou por alguns segundos. Os homens que o acompanhavam pareciam ter terminado de revirar o meu apartamento antes impecável e limpo, todos se posicionando atrás de quem parecia ser o líder. Até que ele, ainda cético, falou:

– Vou precisar fazer aqueles exames. Em você e em sua namorada.

Aqueles homens passaram pelo menos quatro horas em meu apartamento. Vasculharam as minhas roupas e sapatos atrás de resíduos de pólvora – o que nunca encontrariam, porque Callie não era uma bomba – e então acordaram a minha suposta namorada para realizar a procura e o interrogatório nela, também.

Orientei Callie com o olhar a todo instante, dizendo a eles que ela estava cansada e transtornada por causa do ataque. Em certo momento um dos homens perguntou por qual motivo ela tinha uma aparência tão peculiar, e eu simplesmente respondi:

– Callie é albina.

Assim eles foram embora, e eu consertei a fechadura da minha porta antes de arrastar Callie até o salão de Lorena. Precisávamos dar um jeito na sua aparência robótica antes que aquilo trouxesse problemas. A desculpa que ela era albina não cairia bem com o chanceler. Ainda mais porque ele é experiente e conhece muito bem tudo na Nova Nação. Provavelmente sabe que não nascem pessoas albinas há pelo menos vinte anos.

E ainda tinha o maldito jantar. Laura mandou dois convites: um para mim e um para Callie. Eu recusei, mas se em último caso precisasse levá-la, a menina precisaria parecer o mais humana possível.

Não poderia ser tão difícil.

– Que cor? – pergunta Lorena, fazendo-me acordar.

Levanto os olhos do holograma do jornal para o seu rosto. Ela quer saber qual cor passar no cabelo de Callie, e eu olho para as ilustrações nas paredes – elas mostram como a menina ficaria com cada tom do catálogo.

– Qual você quer, Callie? – pergunto, e ela me olha confusa. Não parecer querer nenhuma, mas não posso deixá-la com os fios brancos.

– O castanho ficaria lindo – sugere Lorena.

– Então passe o castanho – dou de ombros, e Callie balança a cabeça.

Não sei por qual motivo a menina está tão aflita. Ainda não entendo metade das coisas sobre ela. Apenas sei que, com o tempo, Callie se acostumará com a nova cor de cabelo e com a nova vida. Eu me acostumarei a ela, a estudarei e a transformarei em uma verdadeira humana. Talvez depois a deixe ir, ter sua própria vida. Mas por enquanto é impensável. Ela não sobreviveria um dia na Nova Nação.

Algumas horas se passam e Lorena trabalha no cabelo de Callie. A menina não fala nada durante todo o tempo, mas de vez em quando eu vejo que as cores de seus olhos brilham em um tom peculiar de prata. Eu apenas leio e releio todas as matérias do jornal da Nova Nação, querendo muito saber o que deve ter nas manchetes dos outros países.

– Pronto, agora é só lavar e secar! – diz Lorena.

Quando Lorena termina, os cabelos antes brancos de Callie estão em um tom chocolate de castanho. As paredes ao nosso redor, que antes tinham hologramas engraçadinhos dançando sobre a pintura, transformam-se em espelhos para que a menina possa se ver. A luz repentina faz Callie torcer os olhos. Lorena olha orgulhosa para o seu trabalho.

Até que a cabeleireira grita. Eu só entendo depois de seguir o seu olhar e encontrar em Callie uma das coisas mais estranhas e igualmente belas que já presenciei: o cabelo da menina, sem uma explicação plausível, de repente volta ao tom natural branco e característico da robô. O fenômeno começa pelas pontas em um avanço leve, não deixando qualquer rastro dos fios castanhos, até chegar ao topo e às sobrancelhas.

E então ela é a velha Callie de novo.

, o que essa garota fez? – pergunta Lorena, assustada, abismada e encantada.

Eu provavelmente estou no mesmo estado, não sabendo se sorrio pelo fascínio da descoberta e do desconhecido ou se entro em desespero pela falha no plano perfeito. Mas resolvo esquecer isso para me aproximar de Callie e ajudá-la descer da cadeira alta. Quando a menina pula no chão e nossos dedos se separam, olha pra mim e diz:

– Eu te avisei que você não poderia mudar a cor do meu cabelo.

...

Eu quero perguntar o motivo, mas sei que Callie não deve ter a mínima ideia do porquê de aquilo ter acontecido. Então apenas fico quieto e continuo dirigindo enquanto a menina encosta a cabeça contra a janela do carro e observa as cinzas esbranquiçadas das estradas caindo sobre a parte baixa do país.

– Por que o seu cabelo é branco? – resolvo perguntar. É uma questão mais técnica do que filosófica, e talvez algo dentro de sua programação tenha deixado vestígios para uma resposta.

Callie apenas diz:

– Ele tinha que ser branco. Caso contrário, tudo daria errado.

Franzo o cenho, mas não pergunto mais nada. Callie parece chateada, talvez até cansada. Nunca a vi tão desanimada, sem fazer perguntas, sem querer saber o porquê do número das placas dos carros à nossa frente. As luzes dos postes passam pelo vidro e iluminam nós dois, mas quando o feixe cai sobre os cabelos brancos da menina, parece diferente. É bonito. Inumano.

Eu também não deixaria aquela cor morrer se tivesse real escolha.

Chegamos ao apartamento e Callie permanece quieta no elevador. Nem ao menos brinca com os botões dos andares durante o caminho. Eu a observo, mas ela não me olha de volta. E tudo parece estranho demais, principalmente quando entramos em casa e as luzes brancas estão amareladas.

Isso acontece porque está muito frio e o iluminação branca deixaria a sensação de que não estamos confortáveis. É uma programação tola, porém excepcional, e todas as casas da Nova Nação têm.

– Callie, o que há de errado? – pergunto.

Ela para e se vira para mim. À sua esquerda está a minha sala de visitas e à sua direita a minha cozinha. Mas ela apenas olha para mim.

– Errado? – repete.

– Fora de normal... O que você sente hoje que não sentiu nos outros dias? – pergunto.

Uma vez li a definição de todos os sentimentos humanos para ela. Raiva, amor, felicidade, compaixão, tristeza... Todos que eu pude lembrar. Pedi para que ela tentasse associar tudo e que não mentisse quando eu perguntasse o que ela sentia de diferente que não sentiu nos outros dias.

Hoje, foi a primeira vez que ouvi a resposta:

– Medo.

– Medo? Por que você está com medo? – pergunto.

Eu não conversei com Callie sobre o Chanceler. Não disse que ela corria perigo, seria imprudente demais. Irresponsável demais. Ela já tinha muitos problemas, já lidava com conflitos que eu nunca poderia imaginar. Não sabia do que ela poderia estar com medo.

– Eu estou com medo porque você está – responde. E eu não sei se é alucinação, mas vejo que os seus olhos estão lacrimejando. – Eu posso sentir, , toda vez que você olha para mim, durante todo o dia. Você tem medo de mim, como todas as outras pessoas e aquela mulher do laboratório!

– Callie, eu não tenho medo de você... – tento dar um passo à frente, mas ela se afasta. Os seus olhos brilham e ficam pratas, mas logo voltam ao normal.

Eu paro e espero a sua reação. Callie apenas aponta para mim e diz:

– Viu? Medo! – e começa a chorar. – Eu sinto medo de todos, Chirstopher, mas jurei que não sentiria medo de você. Por que sente medo de mim?

Eu realmente não sei como explicar tudo isso a ela. Callie parece achar que sentimentos são escolhidos a dedo. Parece pensar que eu quero sentir medo dela e da bomba incontrolável que ela é, mas não é assim. É claro que eu sinto medo de Callie, quem não sentiria? Eu sei que ela está magoada e se sentindo traída. Quando chegou aqui, tinha medo de tudo e de todos e eu pedi para que não tivesse medo de mim. Para que me desse a sua confiança. Ela cumpriu a promessa. Talvez esperasse que eu fizesse o mesmo.

– Callie... – começo. – Meu medo não diminui a confiança que tenho em você. Pessoas sentem medo por muitas coisas, é normal. Você já sentiu medo de mim, lembra?

Dessa vez, quando me aproximo, ela não se afasta.

– Você disse que o medo era algo ruim.

E, de novo, eu não saberia explicar que o medo é relativo. Que há vários tipos e que o que eu sinto por ela não é ruim, mas produtivo. É o famoso medo do desconhecido que fez a humanidade progredir de várias formas.

– O medo nos ensina a sobreviver, Callie. Ele nos faz aprender. Se eu tenho medo de você, tudo o que vou fazer é estudá-la para entendê-la e não precisar mais sentir isso. Do mesmo jeito que, me estudando, você me conheceu e confiou em mim. Entende?

– Tudo o que eu sei é que o medo me colocou naquele armazém, .

Paro diante desse informação. O que ela quer dizer? Ela se escondeu no armazém por medo? As pessoas estavam com medo dela e por isso a colocaram lá? Parece um assunto extremamente delicado. Callie provavelmente nem lembra de tudo, apenas fragmentos, sensações e teorias. Se eu perguntar, ela não saberá responder, mas posso estudar esses pedaços de sua memória. Só preciso entendê-la melhor.

– Eu ainda confio em você, eu gosto de você eu não vou deixá-la para trás e muito menos te tratar de uma maneira diferente por causa disso, Callie – afirmo. Agora entendo tudo. Sei que ela está com medo de eu abandoná-la. De deixá-la em um armazém, como outra pessoa deixou. – Você é humana, não um objeto do qual eu possa me desfazer. Prometo que vou fazer o que eu puder para o medo sumir. O meu e o seu. Tudo bem?

Ela parece pensar um pouco, e então concorda. O seu rosto está molhado pelas lágrimas, a ponta do nariz vermelha, os cílios encharcados. Sua postura está cansada, e eu sei que, por mais que ela tenha descansado, o ataque no hospital a debilitou de uma forma quase avassaladora. E cada vez mais, durante o dia, Callie perdeu energia. Agora tem que recuperar.

– Estou cansada – diz, como se tentasse lembrar das palavras que ensinei a ela. – Nunca senti isso antes.

Sorrio, aproximando-me dela, vendo que a aparente crise existencial da garota passou. Ela parece compreender discussões melhor que qualquer ser humano que já conheci.

– Venha, vou te mostrar o seu quarto.

...

Tenho três quartos de hóspedes em meu apartamento. Reservei um para Callie, colocando as roupas que compramos no armário e trocando os travesseiros por alguns mais confortáveis. Instalei uma TV, coloquei um computador e ativei a configuração das janelas para que ela pudesse escolher a sua vista favorita.

Mas foi tudo em vão, porque quando acordo no meio da noite a menina está deitada ao meu lado, no meu quarto, sobre a minha cama. E é estranho porque, mesmo na escuridão, Callie parece um ponto brilhante, os cabelos extremamente brancos se destacando sobre a fronha escura do travesseiro. Eu a encontraria em qualquer lugar, percebo. No escuro ou no claro, no vazio ou em uma multidão.

Não tenho coragem de acordá-la, o que também soa estranho porque até ontem ela nem ao menos dormia. Levanto da cama, pego meu travesseiro e vou para o sofá da sala, esperando que assim a menina fique confortável. Ligo a TV, mas nenhum canal tem permissão para transmitir programas de entretenimento durante a madrugada. O Chanceler disse que não queria uma população de zumbis em seu governo.

Então eu deito e fico observando as listras coloridas da TV enquanto pego no sono. As luzes da sala apagam com a constatação de que não têm ninguém acordado no cômodo e eu cedo ao cansaço, sonhando com coisas que não me lembro e acordando com a voz robótica do meu sistema de segurança dizendo que há alguém do outro lado da porta, parado no corredor.

Levanto-me, mas antes de ver quem está me fazendo uma visita, vejo que Callie também veio para a sala no meio da noite. Ela dorme na poltrona, que faz parte do conjunto de sofás, e também acorda com o barulho da campainha.

– Callie, o que você está fazendo aqui? – pergunto, sonolento, tropeçando nos lençóis que caem aos meus pés quando levanto.

– Eu não gosto de ficar sozinha – responde.

A campainha insistente não me deixa levar o assunto a outros questionamentos, então vou até a porta e a abro, com os cabelos ainda bagunçados e com a expressão de alguém que acabou de ser acordado e está muito puto com isso.

– Bom dia, raio de sol!

Mas, claro, como a visita é Laura, a mulher finge não perceber que eu a odeio e apenas dá pulinhos animados antes de passar por mim e entrar sem ser convidada; como sempre.

Fecho a porta e respiro fundo. Pisco os olhos várias vezes para tentar mantê-los abertos, vendo Laura adentrar o apartamento e parar no meio da minha sala. Callie parece confusa, e quase fica na defensiva como um animal protegendo o território. O que a impede é o reconhecimento gentil de Laura, que quando a vê grita um "Callie!" animado e também lhe diz bom dia.

– Uh, dormiu no sofá? – pergunta, virando-se para mim quando vê os lençóis e travesseiros sobre o móvel. – O que você fez de errado, ?

– Ele está com medo de mim – responde Callie prontamente.

Felizmente Laura acha que é uma piada e ri.

– Ele deveria estar. Temos que mostrar a esses homens quem é que manda!

Então se joga no sofá e olha o relógio de pulso, parecendo preocupada.

– O que foi? – pergunto. Ainda não tive a disposição necessária para abandonar o suporte que a porta me dá para continuar em pé.

– Ele está demorando muito – comenta um tanto irritada.

– Quem? – pergunto.

– O meu pai – ela responde, e eu sinto meu coração gelar. – Eu disse a ele que você não queria ir ao jantar esse ano e ele quis vir te convidar pessoalmente! O problema é que ele cisma em vir cercado de seguranças e está sendo um horror acomodar os três carros nessa garagem minúscula! Eu preferi descer e vir primeiro.

Laura ri, não notando que praticamente fico petrificado.

– Mas, bem, ele é o Chanceler – termina o comentário. – Quem pode discutir com ele?

Ao ouvir a palavra Chanceler, Callie vira o rosto para mim. Parece notar o visível ar de medo que adotei assim que percebi que o líder do país está por perto e que não posso escondê-la a tempo. Mas a menina não parece brava dessa vez. Muito pelo contrário, ao me olhar, percebo que ela também está com medo.

E mais uma vez, o medo é relativo.



05 – LAURA

– Eu não consigo fazer isso.

Quando digo esta frase, Laura revira os olhos. Está com os braços cruzados, parada atrás de mim enquanto tento fazer uma das coisas mais difíceis que já tive que fazer na vida.

– Anda, , é só um delineador! – ela pestaneja. – Callie tem a coordenação motora de um robô e eu não vou poder estar aqui para ajudá-la a se arrumar na noite do jantar. Você terá que fazer isso!

– Eu sei, mas é muito complicado – viro-me para ela. Callie está nos observando com uma expressão curiosa e confusa no rosto, olhando de mim para Laura, alternadamente. – Essa coisa não sai reta! Ela não pode ficar sem?

Parece tudo muito silencioso dentro do laboratório do andar de cima do meu apartamento. Eu sinto que Laura está impaciente e agitada, mas também estou. Passamos por um susto há poucos minutos e nenhum dos dois se recuperou direito.

– Não, não pode – Laura se aproxima, arranca o delineador da minha mão e me empurra do banco em que estou sentado. Ela se posiciona na frente de Callie e ergue a cabeça da menina com uma delicadeza que não lhe é normal.

Então passa o delineador e parece a coisa mais fácil do mundo.

– Vê? – pergunta ao se afastar. – Faz com que os olhos dela pareçam mais humanos. Com mais cor e mais vida. A máscara ajudará a disfarçar o branco dos cílios; as presilhas que te dei darão um reflexo dourado ao cabelo, já que não podemos pintar e todo mundo reconhece uma peruca.

Suspiro.

– É, você tem razão – digo, olhando para Callie. O desenho negro ao redor dos seus olhos a deixou muito diferente. Parece, de algum modo, um pouco menos ingênua do que realmente é, como se já conhecesse a maldade no mundo.

Acho que tenho essa sensação porque sei que Callie não será a mesma depois que eu apresentá-la ao mundo.

– Eu sempre tenho. – Laura sorri.

– E obrigada por me ajudar – completo. Ela não é muito do tipo sensata, que ajuda pessoas e age fora de seus impulsos, então sinto que devo agradecê-la por se esforçar um pouco.

– Tudo bem, eu adoro uma aventura – pisca, pega a sua bolsa e sai do laboratório. Eu a sigo e Callie fica sentada na maca, com só um olho pintado, provavelmente sem entender muita coisa.

– Mas de agora em diante eu quero que fique fora disso – continuo, tentando soar o mais duro possível. A sigo em todos os seus passos porque quero uma confirmação de sua parte.

Não desejo que Laura se meta em qualquer confusão por minha causa. Ela é a filha do Chanceler e tem uma grande responsabilidade com a Nova Nação. Ninguém pode relacioná-la à Callie, ainda mais agora que eu sei que ela é algum tipo de arma. A acusariam de rebeldia ou traição e a mandariam ser executada. Conheço o Chanceler bem o suficiente para saber que ele não pouparia a filha.

– Tarde demais, querido – para e se vira para mim. – Eu estou dentro disso a partir do momento em que menti para o meu pai por você e por ela. Não vou sair agora. Quero saber o que aconteceu com Sandra e quero saber o que Callie é! – diz, e eu me arrependo de ter contado tudo à ela.

– Nossa, você é mesmo intrometida – resmungo.

Laura de repente fica séria.

– Não, . Eu apenas zelo pela segurança da Nova Nação. Sou filha do Chanceler, provavelmente me casarei com o próximo, e não posso deixar que nada coloque as pessoas desse lugar em perigo. É um dever. Se Callie for uma ameaça, eu quero saber para poder lidar com isso da melhor maneira.

Fico sem resposta imediata. Eu não sabia que Laura tinha tantas aspirações em relação ao seu cargo no comando da Nova Nação. Eu nem ao menos sabia que ela pretendia se casar – não depois que terminamos o nosso noivado, pelo menos.

Eu deveria saber que isso aconteceria. Em toda a história da NN os filhos do Chanceler se tornaram os próximos no poder; as filhas se casaram com quem estaria. Ainda é um fardo que carregamos: mulheres em segundo plano. É sempre um homem governando, mas todos sabem que, desde o primeiro Chanceler, a pessoa que realmente exercia e pensava no bem do país era outra além dele.

– Tudo bem – é o que digo.

Ela me olha de um jeito estranho e sai do apartamento. Parecia satisfeita por ter me feito entender. Eu apenas suspiro e penso em como Laura literalmente salvou a minha vida algumas horas atrás, quando o Chanceler resolveu aparecer no meu apartamento para fazer uma visita.

Eu sei que ele e meu pai eram amigos, mas não tenho como entender a sua fixação em mim. Eu sou só o filho do grande , e mesmo que eu tenha um pé na ciência, nunca serei bom como o meu pai. Não há motivos para o Chanceler querer uma aproximação. É realmente estranho que agora esteja me fazendo visitas.

Então, quando ele apareceu, foi uma surpresa de todos os modos. Laura, felizmente, subiu primeiro, e eu tive tempo de pedir ajuda a ela. A minha velha amiga não pareceu acreditar quando comecei a explicar, mas então Callie começou a ficar com medo e seus olhos passaram a adotar aquele tom prateado da praça de alimentação. Laura me ajudou porque pedi para que confiasse em mim, e nós escondemos Callie, fingindo que ela não estava por perto quando o Chanceler chegou.

O homem ficou na minha sala de visitas por quase uma hora, sentado no sofá com seu terno negro e quatro seguranças às suas costas. Quase não houve conversa, apenas um silêncio desconfortável que pairou pelo ar como se estivesse nos sufocando. E então ele decidiu ir embora, fingindo simpatia e pedindo para que eu levasse a minha namorada ao jantar. Eu disse que levaria, mas quando o homem finalmente saiu, virei-me para Laura e pestanejei:

– Nunca vou deixá-lo chegar perto de Callie.

Laura me olhou com descrença.

– Você é maluco? Ele a quer lá! Se não a levar, aí sim vai começar a suspeitar. Aliás, meu pai não é burro e já notou que há algo de errado.

Suspirei e olhei para ela com o canto dos olhos. Eu estava tão nervoso que não conseguia pensar direito. Eu tinha certeza de que se ele soubesse quem e o que Callie era, a tiraria de mim e, pior, a machucaria.

– Não posso – disse.

Laura se aproximou de mim, pegando as minhas mãos. A mulher faz isso desde que éramos crianças, sabendo que contato físico é desconfortável para mim. Ela sabe que quando me toca eu paro de pensar no mundo para pensar naquilo, porque me incomoda. E isso me acorda. Me faz olhá-la nos olhos e escutar atentamente às suas palavras:

– Callie parecerá humana no jantar. Você a levará e a manterá segura enquanto eu lhe dou cobertura. Depois disso o Chanceler vai esquecê-la, e aí terá paz. Se não a levar, tenho certeza de que só vai piorar.

Eu concordei, e agora aqui estamos. Laura me ensinou a mudá-la com maquiagem e presilhas de cabelo, e eu tenho apenas alguns dias para ensinar Callie a se comportar como uma humana perfeita da frente de toda a alta sociedade da Nova Nação.

Não será fácil.

....

Todos os dias penso no que Callie realmente é. Já comecei a estudá-la em meu laboratório, pelo menos uma hora por dia enquanto a menina é paciente. Depois que Callie fica entediada sou obrigado a parar e fazer o que ela quer – na maioria das vezes, só tomamos uma xícara de café.

Não achei nada sobre ela nos arquivos do meu pai. Estou começando a acreditar que ele não a criou, mas sim que a estava escondendo para alguém, por algum motivo. Aquele velho era desleixado demais para não deixar uma única pista sobre a criação de Callie para trás. Além do mais, meu pai era um gênio, sim, mas se tivesse produzido algo tão inovador como isso com certeza não ficaria de boca fechada. Ele era um esnobe.

Passei por todos os armazéns que eram do meu pai à procura de informações, mas a única coisa realmente suspeita que eu achei foi um Pen drive protegido por senha. Talvez as informações sobre Callie estejam dentro dele, então se isso for verdade eu não posso simplesmente colocá-lo no meu computador. Sei que o Chanceler monitora todos os aparelhos eletrônicos da NN, mantendo uma equipe e um prédio inteiro apenas para isso. Ele nunca descansa, está sempre procurando traidores e terroristas, e se o arquivo de Callie disser que ela é perigosa – o que eu não duvido – não seria nada bom se ele descobrisse.

Pedi para George me indicar alguém que pudesse me ajudar a passar despercebido pela vigilância do Chanceler, assim eu poderia finalmente saber a verdade sobre Callie, e ele falou que um hacker não nativo da Nova Nação entraria em contato em breve. Eu apenas esperei.

Só não imaginei que meu telefone tocaria no exato momento em que Callie tropeça e cai sobre mim, me fazendo rir. Ela fica magoada porque acha que estou zombando dela, mas eu digo que é outro tipo de risada. Afinal, ela está tentando andar nesses saltos durante toda a tarde e seria realmente injusto zombar da garota em um momento desses. Callie está se esforçando para parecer o mais normal possível quando chegar na festa, e isso, infelizmente, inclui o uso de roupas extravagantes na intenção de se misturar com a alta sociedade que vai estar presente no jantar.

Atendo o telefone e, do outro lado da linha, uma voz masculina soa grossa demais:

– Leve o Pen drive ao jantar com o Chanceler. Resolverei o seu problema.

– Quem é você? – pergunto.

A ligação cai. Percebo que todo o sistema da minha casa entrou em curto enquanto eu falava, o que me faz pensar que o homem do outro lado da linha realmente sabe o que está fazendo. Ele confundiu o meu hospedeiro para que não conseguisse identificar a chamada, então eu nunca saberei de onde veio.

Abaixo os olhos para Callie e ela me encara com curiosidade.

– O que foi? – pergunto.

Ela diz com calma:

– Você parece preocupado.

– Vai dar tudo certo – digo, mas ela ainda parece confusa.

Eu não contei nada sobre o Chanceler para a Callie. Não a quero preocupada ou tensa, e sei que posso cuidar da situação sozinho. Só pedi para que ela fizesse tudo o que eu mandasse, porque era importante e perigoso. Depois de eu definir o que "perigoso" significava, Callie pareceu finalmente entender. E então nós entramos em um consenso de que se ela se saísse bem eu colocaria uma máquina de café no seu quarto – o que eu não entendo, porque não é como se a menina ficasse muito tempo nele.

Callie ainda foge para a minha cama todas as noites, e eu fujo para o sofá. Quando acordo, ela está na poltrona, e o círculo se repete todas as noites.

Agora faltam apenas três dias para o jantar e eu estou ficando cada vez mais nervoso. Não pelo Chanceler ou por Callie, afinal a menina está indo muito bem, mas pelo pen drive. Eu acho muito arriscado fazer qualquer coisa com o nosso suposto inimigo tão perto, então todas as vezes em que penso no jantar e no que ele significa – no que esse pen drive significa – passo a me sentir ansioso. Então vou para o laboratório e começo a fuçar em qualquer uma das coisas que tem lá até Callie chegar e começar a fazer perguntas enquanto eu a examino. Assim, me distraio e esqueço um pouco essa situação.

– Por que Laura nunca mais veio aqui? – questiona, parece decepcionada. – Eu gosto dela.

Dou risada. Não é novidade que alguém goste de Laura. Ela sempre foi muito manipuladora e simpática. Na escola, eu só tinha amigos por causa dela. Quando entrei na faculdade, percebi que minha vida social na adolescência só existia por causa da minha popular e engraçada melhor amiga de infância.

– Laura é muito ocupada – digo.

– Ocupada?

– Tem muitas coisas para fazer, como eu e você.

– Mas nós não fazemos nada o dia inteiro! – diz. – Só ficamos aqui e...

– Fazemos coisas – completo, sorrindo. Ela é muito complicada quando quer. – Me dê sua mão. Isso vai doer só um pouco.

Callie faz uma careta e estende a mão, colocando o braço pálido sobre o balcão do laboratório. Eu acabei de esterilizar uma agulha e a enfio cuidadosamente em uma das veias visíveis, retirando um pouco de sangue.

Descobri recentemente que Callie não sangra como as outras pessoas. Quando ela se corta é diferente. Vi quando estávamos na cozinha e ela derrubou a xícara de café ao se assustar com o alarme do hospedeiro do meu apartamento dizendo que alguns rebeldes haviam entrado no centro e que era perigoso sair. A menina se cortou com os cacos e eu percebi que o seu sangue era branco. Isso é muito curioso.

A partir desse dia passei a semanalmente coletar amostras de sangue dela. Callie não gosta muito, mas preciso para que eu possa entender o quão diferente o seu organismo é do meu. O quão máquina ela ainda é e o quão humana pode ser.

– Você e Laura são amigos? – ela pergunta, voltando ao assunto.

Na semana passa expliquei a ela os significados de palavras como "amigo" e "namorada". Callie estava confusa com isso desde que comecei a me referir a ela de um jeito diferente quando Laura ou alguém de fora estava por perto. Eu expliquei que ela não era a minha namorada de verdade, mas que deveríamos dizer que sim para outras pessoas por questões de segurança. Callie concordou, mas ainda é confuso para ela. Sempre que assistimos televisão ela fica perguntando sobre o que as pessoas dos filmes são, e eu digo quando ela acerta.

– Somos – digo.

– Ela não é sua namorada?

– Não mais.

Callie parece surpresa.

– Como alguém deixa de ser sua namorada? – pergunta, agora mais confusa do que nunca.

Eu ainda não tive tempo de explicar a ela como relacionamentos funcionam. Nem mesmo eu entendo isso direito.

– Bem, quando duas pessoas se gostam, elas ficam juntas, certo? – ela faz que sim com a cabeça. – E quando elas deixam de se gostar, se separam.

– Mas você não parece não gostar da Laura.

– Eu gosto dela de um jeito diferente. Sempre gostei.

– Então por que namorada?

Namoraram. E foi porque fomos obrigados pelos nossos pais. Eles queriam que nos casássemos e que eu fosse o próximo Chanceler, assim Laura e seu pai permaneceriam no poder, de alguma forma, porque eles sabiam que eu e meu próprio pai sempre os respeitaríamos.

– Isso é muito confuso – ela murmura e eu dou risada.

– Você não tem que se preocupar com isso – digo. – Eu não vou me casar com Laura.

– Vai se casar com quem?

– Eu não sei. Não é o tipo de coisa que as pessoas sabem.

Ela parece decepcionada mais uma vez. Será que, em sua cabeça, os seres humanos são tão simples assim? Callie não parece fazer ideia da complexidade da nossa raça. Não parece fazer ideia de que há maldade e confusão em tudo o que o homem toca. Mas eu não vou ser aquele que vai dizer isso a ela. Não quero que Callie deixe de ver as coisas do jeito que vê. Quando ela faz isso, parece abrir os meus olhos também. Eu sempre esqueço que nem tudo na Nova Nação é ruim como parece.

Olho para ela e a vejo com a expressão fechada.

– Podemos tomar café agora? – pergunta, massageando o local onde a espetei com a agulha.

...

O jantar finalmente chega, e às sete da noite estou sentado no sofá da minha sala de visitas olhando para a parede branca incisivamente e lutando uma batalha interna dentro do meu cérebro. Estou com uma sensação ruim pesando sobre os ombros. Uso o meu smoking de festas e tenho a gravata borboleta desfeita ao redor do meu pescoço. Todo o meu corpo se recusa a cooperar com a péssima ideia que estou tendo, como se soubesse que não dará certo.

O pen drive está no bolso interno do meu paletó. Minhas mãos coçam o tempo todo e eu as levo ao peito para confirmar que o objeto está lá, como se fosse sumir magicamente.

O hacker que George indicou só me contatou uma única vez, pelo telefone. Eu não sei se posso confiar nele. Não faço a mínima ideia de quem é, se trabalha para o governo sendo uma isca para traidores ou se vai vender o arquivo de Callie na internet, se ele for real.

Mas, por enquanto, ele é a minha única esperança.

Então levanto do sofá e vou até o quarto para ver se Callie está pronta. Ao entrar, sou surpreendido pelo fato de que ela está sim. E muito bonita. Perfeita como se tivesse feito isso a vida inteira, o que a deixa muito mais mulher e menos menina – o que eu credito à grande cooperação da maquiagem pesada que Laura a ensinou fazer. Todo o delineador e o batom vermelho a fazem parecer bem mais humana e experiente.

Menos quando sorri. Quando Callie sorri a fachada que a maquiagem forte proporcionou some e eu vejo a sua verdadeira essência pura e gentil. Quase me sinto aliviado por saber que ainda está ali, em algum lugar.

– Vamos? – pergunto, oferecendo o braço a ela.

Os olhos de Callie brilham daquela maneira metálica e eu franzo o cenho.

– O que foi? – pergunto.

– E se eu não me sair bem? – pergunta, preocupada.

– Você vai. Treinamos muito e eu tenho certeza de que será perfeita! É só seguir o que eu falei.

Ela concorda com a cabeça e se aproxima, olhando para o meu braço confusa. É claro que ela não saberia o que fazer, então eu o entrelaço no dela e a guio para fora do quarto, então do apartamento, onde ficamos em silêncio no elevador. Enquanto esperamos que ele pare, levo a minha mão livre ao peito e sinto o pen drive ali. Fico nervoso outra vez.

Será que finalmente terei respostas?

Sinto que o conteúdo do pen drive é importante, de algum modo. E sinto que a noite de hoje mudará tudo na minha vida, para sempre. E na de Callie também. Isso me assusta e a assusta junto, porque ultimamente notei que Callie entende mais das minhas emoções do que eu mesmo.

Mas está tudo bem, é o que eu digo a ela quando Callie levanta o rosto, seus centímetros a menos deixando-a um pouco longe de mim.

Vai dar tudo certo.



06 – JENNI

Quando entramos no salão, Callie está com os braços na frente do corpo, as mãos cruzadas uma sobre a outra e os dedos apertando a pequena bolsa prateada que a fiz segurar para que não ficasse gesticulando como faz geralmente. Ela respira fundo várias vezes e parece estar perto de ter um ataque de pânico, o que passa quando digo que vai dar tudo certo – até acontecer de novo.

O salão está impecavelmente arrumado. Eu não esperava menos do Chanceler, sinceramente, e não consegui nem ao menos me surpreender com as cascatas holográficas espalhadas pelos cantos, perto das cortinas e janelas. Há vários detalhes dourados na decoração, tudo em um tom muito mais futurista do que já somos, como se ele quisesse muito nos convencer de que somos extremamente desenvolvidos.

Felizmente, também noto que muitas mulheres usam presilhas iguais as de Callie, o que me deixa aliviado por saber que não será suspeito. Eu não teria a capacidade de inventar uma desculpa superficial como motivo de ela ter colocado algo que muda a cor de seu cabelo, mas, agora que vi que é moda, acho que ninguém vai perguntar.

– O que é isso? – pergunta Callie, olhando para baixo.

Ao abaixar o rosto, vejo um pequeno robô prateado. Reconheço a brincadeira quase cruel que fizeram com a réplica do R2d2, de Star Wars, vestindo-o de garçom e trocando suas listras azuis por pretas. Eu sinceramente não entendo por qual motivo as pessoas não podem deixar os clássicos em paz.

Callie ri com os barulhos desconexos que ele faz, e eu fico imaginando se ela entende o que ele diz. Então a menina se abaixa e passa a mão sobre a sua lata. O robô se apaga instantaneamente e eu percebo que houve algum tipo de curto com a colisão das duas máquinas. Callie puxa a mão, de repente assustada, e me olha com uma mistura de medo e confusão.

Checo se mais alguém viu o que aconteceu e a puxo para longe.

– O que houve com ele? – pergunta a menina, olhando para trás.

O robô fica parado no meio do salão, com várias taças de bebida sobre a bandeja encaixada em sua carcaça. As pessoas passam e as pegam, sem notar que ele não funciona.

– Eu não sei – respondo, finalmente parando. – Mas tente não tocar em mais nada por um tempo, ok?

Ela faz que sim com a cabeça, parecendo mesmo chateada.

– Não foi sua culpa – digo. – Essas coisas acontecem. Máquinas quebram.

Então, nos dando um susto, Laura para ao nosso lado, vestindo um vestido vermelho de mangas cumpridas e sorrindo tanto que eu suspeito que ela se esqueceu o tamanho dos nossos problemas.

– Aí estão vocês! – diz. – Atrasados. Papai estava te esperando para servir o jantar.

Olho-a, confuso. Algo dentro do meu estômago se revira, e eu sinto que o chanceler fazer questão da nossa presença não é um bom sinal. Laura, por outro lado, não parece preocupada. Eu quero muito perguntar o porquê, pois talvez isso me acalme também, mas as luzes de repente ficam mais fracas e um grande telão é projetado sobre todas as paredes e superfícies lisas do local.

– Hora do show! – comenta Laura, animada.

Callie se aproxima de mim e passa o braço ao redor do meu, apertando-o. Eu não a julgo por estranhar. Todo esse drama arquitetado pelo Chanceler é mesmo intimidante. Principalmente quando o vídeo começa a rodar e o som é tão alto que quase me faz ficar com uma dor de cabeça instantânea.

Assistimos enquanto imagens do resgate do nosso antigo Chanceler se desenrola. É o mesmo filme há cinquenta anos, todas as vezes, em todos os jantares de comemoração.

Há depoimentos de pessoas que ajudaram a arquitetar o plano, de pessoas que estavam na casa quando foi invadida. Elas contam toda a história em ordem cronológica, deixando sempre bem claro que o patriotismo foi a principal razão de nunca terem desistido de trazê-lo de volta.

Até que o meu pai aparece.

Isso é como um golpe no estômago. Eu não sabia que ele estaria ali, falando com a câmera. O velho sempre se recusou a fazer parte desse documentário que, em sua opinião, era supérfluo. Um amontoado de vídeos e frases distribuindo um falso patriotismo, uma falsa coragem. Ele nunca quis dar os seus relatos como a pessoa por trás da criação da arma que salvou a vida do nosso líder.

"Eu não tive ajuda" disse ele, no vídeo, e eu senti que o salão entrou em um estado crítico de tensão. "Tudo o que eu fiz era para ser secreto, porque se os inimigos descobrissem que estávamos planejando um resgate, perderiamos o elemento surpresa."

Em cinquenta anos, eu penso, nunca ouviram esse lado da história. Nem mesmo eu.

"A única pessoa que chegou perto dessa arma foi o meu filho. Ele era uma criança levada que se interessava por ciência e invadia o meu laboratório usando apenas alguns algoritmos decodificadores de senhas. Então ninguém além de mim, o Chanceler e os encarregados do regaste viram como essa arma era. Hoje, ela foi destruída. Fizemos questão de que não sobrasse nada, porque poderia ser uma ameaça para a Nova Nação" ele pisca, e eu vejo que foi muito difícil para ele se desfazer de algo a que se dedicou tanto.

"Você pode dizer como era essa arma?" pergunta alguém que não pode ser visto no vídeo.

Meu pai sorri antes de olhar para a câmera e dizer:

"Bela" e então a tela fica preta.

As luzes se ascendem, e eu vejo uma locomoção estranha se estender pelo salão. Ainda estou um pouco atordoado, extremamente eufórico pelos pensamentos que tomam o meu cérebro e me fazem criar diversas teorias.

A arma era bela?

E se ela for...

– Seu nome é Callie! – diz Laura, alto, me fazendo acordar. – está um pouco disperso hoje – ri.

Eu pisco e noto que a sua mãe se juntou a nós. Ela é uma mulher jovem de cabelos louros e silhueta larga. Muito bonita, extremamente elegante. Gentil como o seu marido nunca poderia ser.

– Eu só fiquei emocionado de ver o meu pai – respondo, dando um beijo nas costas de sua mão. Então me viro para a robô ao meu lado, que parece um pouco perdida. – Essa é Callie, minha namorada. Callie, essa é Jenni, a pessoa que realmente manda nesse país.

Callie a cumprimenta enquanto Laura ri do que eu disse. Nós dois sabemos que não é uma piada, mas nos acostumamos a fingir que sim. Seria menos ofensivo ao ego do Chanceler.

– Você é muito bonita – Jenni comenta, elogiando a menina ao meu lado.

Laura concorda e muda de assunto quando vê que Callie não reage muito bem quando está com vergonha. Ela fica vermelha e abaixa o rosto. Eu a abraço e finjo que é uma coisa de seu costume, como se nos conhecemos tão bem que eu pudesse agradecer o elogio por ela.

Então o jantar é anunciado e as pessoas que participaram do resgate são guiadas à outra parte do salão, onde uma grande – grande mesmo – mesa já está posta, com comida, pratos e garçons robóticos parados nos extremos das paredes, esperando algo que os faça úteis.

Nós nos sentamos onde há hologramas com os nossos nomes. Do lado de fora, o jantar é servido nas mesas dos convidados, o clima é leve. Aqui dentro eu me sinto estranho por estar rodeado das pessoas que mudaram a história do nosso país.

Reconheço dois ou três homens da equipe de resgate. Eles que trouxeram o Chanceler de volta em segurança. Conto cinco, sabendo que eram sete e dois morreram. Também posso ver os arquitetos do plano, os responsáveis por todas as simulações e outros colaboradores.

Por algum motivo, estou no lugar mais importante. Ao lado do Chanceler. E eu sei que ele deveria ser do meu pai, já que ele criou a arma, então me sinto realmente estranho por ocupar essa cadeira.

– Hoje comemoramos cinquenta anos desde que nos tornamos ainda mais fortes – diz o Chanceler, levantando-se e erguendo uma taça. Eu me preparo para o seu discurso de que o resgate fez com que todos os outros países e nações nos visse com outros olhos. – Meio século atrás estávamos provando ao mundo que não somos fracos, que sabemos nos defender. Desde então, não sofremos mais ataques terroristas e nem traições. Estamos em paz.

Ele sorri, e quando está prestes a continuar, uma voz soa firme de um jeito calmo e casual:

– Mas e os rebeldes do "inferno"?

Fecho os olhos. Por um tempo, acho que não vou conseguir abri-los. Então viro o rosto para Callie, encarando-a em uma pergunta clara de "por que você disse isso?".

– Eles estão atacando moradores – ela explica como se fosse óbvio.

Eu não deveria tê-la deixado ouvir a extensão do rádio da polícia da Nova Nação que tenho em casa. Não deveria ter deixado o hospedeiro do meu apartamento nos fornecer informações sobre os ataques que aconteciam durante o dia. Eu não deveria ter feito como o Chanceler e fingido que os rebeldes da parte de baixo da Nova Nação não existem. Se eu tivesse conversado com Callie sobre isso, ela teria entendido a situação e nós não estaríamos no impasse que estamos agora.

Eu quase posso ver tudo virando um caos enquanto o sorriso plástico do Chanceler se desfaz. Ele olha diretamente para Callie e eu sinto que deveria protegê-la de alguma forma, então decido falar, mas sou interrompido pela voz calejada dele:

– Eles não são um problema para a Nova Nação. Na verdade, acredito que sejam um problema apenas para si mesmos. Vândalos não são ameaças.

– Eles são pessoas! – rebate Callie. Eu aperto a sua mão por debaixo da mesa, esperando que ela entenda e se cale. Mas isso não acontece e a menina continua. – Você os deixa para morrer, e eles lutam para que isso não aconteça. Não são vândalos – ela repete, mas duvido que saiba o significado da palavra. Provavelmente apenas entendeu que é ruim. – São sobreviventes.

O Chanceler ri. Todos na mesa estão parados, observando, como se estivessem com medo do que está para acontecer.

– O que sugere, minha jovem? – o homem pergunta. – Que os tragamos para a Nova Nação? Você realmente os quer por perto, morando ao lado da sua casa? Essas pessoas são doentes. Elas não conseguiram se adaptar, então morrem e enfraquecem a todo o segundo. Imagina se você é infectada? Imagina se a grande praga recomeça? Tenho certeza de que não quer isso para si, mas está proclamando discursos humanistas como se, na hora em que tudo ficasse um caos, não fosse se arrepender.

– Pessoas doentes devem ser tratadas! – Callie se levanta da mesa em um pulo. – Eu sei, eu vi! Médicos curam pessoas, não as ignoram. Você está errado se pensa que ao ignorá-los se livrará do problema. Ele apenas crescerá sem que veja a proporção do estrago.

Quando termina de falar, o Chanceler a olha calado, mas não parece ter perdido a discussão. Parece curioso e intrigado. Talvez até com raiva, e eu realmente acho que ele vai mandar que a prendam aqui e agora, na frente de todos, mas ele apenas dá de ombros, pega a sua taça e diz que devemos continuar com o jantar.

Callie não parece disposta a fingir que tudo está bem e se afasta, saindo para o salão principal. Eu a sigo imediatamente, ouvindo os cochichos dos outros convidados às minhas costas.

– Callie! – a chamo, mas ela não para. Continua andando até que eu a perca por entre as outras pessoas.

Não, isso não está certo. Callie é instável e pode explodir a qualquer minuto. Eu preciso encontrá-la antes que perca o controle e machuque alguém. Antes que se exponha.

Ando pelo salão por quase uma hora, à sua procura. Não esbarro em Laura, que seria de grande ajuda agora, mas penso o tempo todo em como eu não deveria tê-la escutado sob nenhuma hipótese. Agora Callie está mesmo em perigo. O chanceler a odeia, a tem como alvo. É muita sorte que já não esteja morta.

Estou quase entrando em desespero quando passo pela frente da porta da cozinha. Quando as divisórias se separam e uma moça se esquiva com uma bandeja na mão, vejo que, lá dentro, por entre os funcionários, Callie está sentada sobre o balcão, balançando os pés e conversando com alguém.

Entro no local, e todos me olham. Eu sigo até Callie e a faço descer do balcão.

– Estou com fome! – reclama.

– Você é maluca?! Eu te procurei por todos os lugares! Achei que tivesse explodido! Achei que o chanceler tivesse mandando alguém te pegar! Você não pode fazer isso! Não pode simplesmente sumir!

Quando termino o mundo parece não ter nenhum som. Toda a minha concentração e frustração foi descontada no tom de voz que usei. As palavras em minha cabeça pareceram menos agressivas, então me sinto realmente mal quando Callie me encara, piscando os olhos de uma maneira confusa.

Um sino toca às minhas costas e todos os funcionários saem da cozinha para servir uma nova remessa do jantar.

Eu suspiro e a abraço.

– Você não entendo o quanto isso é perigoso – digo. – Me desculpe se gritei com você. Eu fiquei muito preocupado.

– Preocupado? – repete.

– É o pior tipo de medo que existe.

Então me afasto e começo a procurar algo que ela possa comer pela cozinha. Monto um prato com as coisas que julgo não parecer tão ruins assim e coloco em suas mãos, vendo-a voltar a se sentar sobre o balcão.

Enquanto Callie mordisca um pedaço de massa qualquer, observo-a e penso sobre as minhas suspeitas de ela ser uma arma. Eu tive certeza na hora, mas agora é incerto demais. Ela não me parece destrutiva. Ruim. Armas são mortais.

Descobri hoje que ela é mais sensível que qualquer ser humano que já conheci. E corajosa. Callie sabia o quanto o Chanceler poderia ser perigoso e mesmo assim o enfrentou, tudo para defender algo que eu nem sabia que ela acreditava.

– Como sabe tanto sobre os rebeldes? – pergunto com cuidado.

Ela me olha e responde:

– Eu não sei. São... Essas imagens, na minha cabeça. Eu os vejo o tempo todo, desde o início, quando tudo começou.

Franzo o cenho.

– Está tendo memórias? – afasto-me do balcão para olhá-la direito. – Por que não me contou?

– Não são memórias – ela parece confusa. – São como programas de tv. Eu sei o que está acontecendo, mas não estou lá. Como se eu estivesse na pele de outra pessoa.

Quando ela termina de falar, está aflita. Eu não faço a mínima ideia do que ela pode estar passando. Nunca vi algo do tipo antes e essa nova chuva de informações parece irreal, ironicamente inumana.

Não quero e não posso aborrecê-la, afinal é um milagre que já não tenha explodido, então fico em silêncio, encostado no balcão, ao seu lado, durante todo o tempo em que ela se distrai com a comida. Parece tranquila, de repente, quase como se não tivesse acabado de desafiar o homem mais poderoso do país em seu próprio jantar, na frente das pessoas mais influentes da Nova Nação.

Já estou quase calmo quando a porta da cozinha se abre em um empurrão desesperado. É Laura. Ela entra no local e anda até mim com uma expressão tão séria que eu quase não a reconheço.

– Meu pai está procurando por você – diz. – O que houve no jantar?

Suspiro, sem saber como explicar.

– Callie discutiu com ele.

– O quê?

– Não pude evitar.

Ela passa as mãos pelos cabelos. Está usando os mesmos brincos de quando fizemos o nosso jantar de noivado. Seus olhos estão mais escuros do que naquela época, porém, e isso mostra o quão mais experiente ela é em relação à vida. Eu sempre esqueço que Laura é mais velha que eu; sempre esqueço que atrás das loucuras e irresponsabilidade há uma pessoa que, basicamente, é filha do Chanceler.

– Nós temos que tirar Callie daqui. Você, , vai encontrar o meu pai, caso contrário ele te fará outra daquelas visitas – então se vira para Callie e a ajuda a descer do balcão. – Você vem comigo.

Concordo com o seu plano. Já faz um tempo que venho adiando esses encontros e reuniões com o Chanceler. No começo eu sabia que ele queria que eu tomasse o posto do meu pai. Quando recusei, soube que ele queria que eu lhe vendesse ou lhe desse os projetos secretos que o velho tinha na gaveta. Mas eu também neguei isso.

Hoje em dia eu já não sei mais o que ele quer comigo.

Então, quando saímos da cozinha, Callie agarrada ao braço de Laura e eu na frente, pronto para sofrer as consequências do que a robô fez, já estou parcialmente preparado para a visão quase dramática do Chanceler parado à nossa frente, com homens às suas costas e um olhar frio no rosto.

Laura se coloca na frente de Callie, e eu dou um passo adiante. Sinto meu maxilar tenso, as mãos fechando-se em punhos, escondidas atrás do corpo. Olho para o Chanceler e sorrio casualmente.

– Desculpe perder o jantar – digo.

Ele sorri quase fraco, olha para Callie, depois para mim, e diz:

– Mulheres...

– Soube que queria conversa comigo – digo quando percebo que Laura se ofendeu com o comentário. Se Callie percebesse e também se alterasse, poderia ser o fim.

O Chanceler concorda com a cabeça e faz um sinal para que eu o siga. Vou depois de lançar um olhar de "cuide da Callie" para Laura, vendo-a retribuir afirmativamente.

E então acompanho o líder do nosso país salão adentro, misturando-me aos outros convidados e pensando sobre o que, exatamente, ele quer conversar comigo.



07 – JASMINE

– Você sabe por qual motivo te chamei aqui?

Enquanto fala, o Chanceler massageia o anel de prata em seu dedo indicador. Ele está de costas para mim, o que pode ou não ser um bom sinal, e isso me deixa em dúvida sobre o significado da sua pergunta.

Sem permitir que ele veja o quanto me deixa tenso, coloco as mãos nos bolsos da calça e me aproximo um passo. Acima de nós há um lustre de diamantes com pelo menos cem anos de idade e um teto pintado com figuras de quadros religiosos antigos. Isso me faz lembrar de quando o Cristianismo foi extinto e as religiões abolidas, tudo porque nosso Terceiro Chanceler dizia que a fé em algo além da Nova Nação era uma fraqueza. Ele queria tudo voltado ao recomeço do país e trabalhou para substituir a crença em Deus pela crença em um futuro melhor.

Isso aconteceu quando eu era criança, há quase setenta anos. Não mudou desde então, e as pessoas foram se acostumando às novas diretrizes. Ninguém mais se lembra de ter fé.

– Na verdade, não – respondo. – Faria sentido se Callie estivesse comigo, mas já que ela não está...

Dou de ombros, saindo do caminho de um drone aparentemente sobrecarregado demais para detectar que há algo na passagem. A festa acabou antes da hora esse ano, mais precisamente enquanto eu andava com o Chanceler de volta para o salão do jantar principal e todos foram dispensados. Naquele momento tive certeza de que Callie morreria e eu seria preso, mas nada aconteceu até agora.

– Eu te chamei aqui por causa do vídeo do seu pai – diz. Então se aproxima da mesa de jantar, que ainda está posta, e pega uma das taças vazias.

Ela se enche em dois segundos, quando um robô aparece e faz o serviço. O Chanceler, por outro lado, muda de ideia e o manda levar a taça para longe.

– Traga dois copos de vinho do século XII.

– Eu não bebo – digo com educação.

– Hoje você vai. É uma festa, !

Levanto o rosto diante da sua clara declaração de poder. Ele sabe que pode me dar ordens se quiser e está tentando deixar isso o mais óbvio possível; o problema é que eu nunca fui do tipo obediente.

O Chanceler anda até um conjunto de poltronas no canto da sala. Está tudo tão silencioso que eu posso ouvir o gemido das engrenagens dos robôs que nos servem. Eles estão ligados há muito tempo.

– Sente-se – ele pede, mas parece uma ordem.

Eu me aproximo da poltrona vazia, mas não me sento. Minhas pernas estão um pouco dormentes, minha paciência esgotada. Olho para ele e peço uma resposta:

– Teria sido bom saber da existência daquele vídeo antes de vazá-lo para a Nova Nação. Ele era o meu pai.

Um drone chega com o vinho do Chanceler, e o homem pega o copo nas mãos como se fosse o seu ponto de apoio para ter paciência e plenitude.

– Eu te avisaria, mas também não estava sabendo disso.

– O que...

– Fomos hackeados – diz. – Cortaram uma parte do video original e colocaram aquele depoimento do seu pai. Pensei que pudesse saber de algo.

Fico realmente surpreso com isso. Principalmente por saber que alguém realmente conseguiu hackear o governo da Nova Nação.

– Eu não sabia da existência daquele video até algumas horas atrás – digo a verdade.

– E a sua namorada... Callie?

Engulo a seco. A simples menção de seu nome me faz congelar, como se só isso a colocasse em perigo.

– Não vejo como ela poderia ter relação com tudo isso.

O Chanceler ri.

– É, tem razão – concorda. – Foi só um palpite.

Ele fica em silêncio por alguns segundos. Então se levanta da poltrona, vem até a mim e aperta a minha mão.

– Tenha uma boa noite, – diz.

Dois drones abrem as portas da sala de jantar, e eu deixo a imagem sorridente do Chanceler para recuar da forma mais discreta que a minha desconfiança constante permite. Entro no salão de festas vazio e atravesso a bagunça de mesas sujas e máquinas desligadas para apertar o botão do elevador. Quando perco a paciência de esperar, vou até as escadas e subo os 37 andares sem parar para respirar.

Alguma coisa me diz que tudo sobre essa noite foi uma questão de sorte, e eu geralmente não tenho nada disso. Prefiro sair e deixar como está do que ficar e arriscar fazer algo que ponha tudo a perder. Além do mais, não sei como Callie está e eu preciso ter logo a certeza de que Laura a manteve em segurança.

Chego no estacionamento e procuro pelo meu carro. Só quando estou dentro dele e já andando nas vias aéreas, longe do prédio, que me sinto seguro. Até este momento o meu coração ainda batia acima da velocidade normal e eu esperava a todo momento ser preso. Como uma pegadinha feita pelo Chanceler, só para ver o inimigo achar que venceu.

Coloco o carro no piloto automático e tiro um segundo para respirar, fechando os olhos. Essa noite toda foi uma loucura e eu mal acredito que, tanto eu quanto Callie, conseguimos sair com vida. A partir de agora tenho que ser mais cuidadoso e trabalhar com ela para ajudá-la a reprimir sentimentos e controlar opiniões. Não sei se seríamos tão sortudos em uma segunda vez.

Quando abro os olhos, vejo que o carro está indo para um lugar diferente do traçado no destino do GPS. Por algum motivo, ele segue descendo cada vez mais, aparentemente entrando nas rodovias terrestres. Eu não dei nenhuma ordem pra isso, então tento reajustar o trajeto, mas não funciona. A cada segundo estou indo mais baixo, e a cada segundo vejo o chão ficar branco, o ar acinzentado. Estou na zona dos exilados de novo, e me deixa tenso lembrar do que aconteceu da última vez que apareci por aqui.

O carro para em um antigo cruzamento, e ao prestar atenção posso localizar placas e semáforos, que eram coisas utilizadas para passar a informação de onde você está. Hoje não precisamos mais disso. Temos sistemas nos carros e drones de ajuda por toda a estrada.

Saio do carro, vendo que cinzas brancas começaram a se acumular no para-brisa, dificultando a tarefa de enxergar algo lá de dentro. Solto a gravata apertada ao redor do meu pescoço e dou alguns passos para longe do veículo, procurando qualquer pista sobre o lugar que estou. Como deixei o farol ligado, há sombras por todos os lados, a maior parte produzida pelas cinzas dançando na luz.

– Para um cientista, Sr. , o seu sistema de segurança é uma droga.

Viro-me para onde o som veio, levando um susto. Encontro a dona da voz macia em menos de meio segundo. Mesmo se eu quisesse, seria impossível ignorar a mulher loira de vestido vermelho parada no meio da imensidão branca acinzentada. Ela parece tão limpa e tão perfeitamente arrumada que penso ter sido contaminado com algum fragmento da grande praga. Lembro muito bem que alucinação era um dos sintomas da doença.

– Quem é você? – pergunto.

– O Hacker que você chamou – responde.

Anda em minha direção, não parecendo se importar com a grande cauda do vestido se arrastando no chão. Ela para à minha frente e sorri diante do meu espanto quanto à sua aparência e sexo. Eu realmente não esperava por isso.

– Peguei de seu bolso enquanto corria por aí, atrás da sua preciosa Callie – diz, puxando a minha mão e colocando um pen drive no meio dela. – Está tudo descriptografado e com um vírus para esconder a identificação, basta ler.

Ela fecha a minha mão ao redor do objeto, os brincos brilhantes refletindo os seus olhos quando se afasta.

– E quanto ao pagamento? – pergunto.

Ela, que já está de costas, para e se vira para mim.

– Se eu estou certa a respeito do tipo de homem que é, , com certeza me pagará em breve. Mas você precisa ver o que tem dentro desse pen drive antes.

Eu concordo com a cabeça, e ela molda um sorriso fraco nos lábios pintados de vermelho. Algo que some quando pergunto o seu nome e como posso achá-la para realizar o pagamento.

– Meu nome é Jasmine Kristel, e eu encontro você.

...

Quando chego em casa, Laura está sentada no sofá da minha sala, com as mãos cruzadas acima dos joelhos e os ombros reprimidos. Eu entro e as luzes se ascendem com a minha presença, fazendo-a levantar a cabeça e andar até mim.

– O que meu pai queria com você? – pergunta.

– Nada – respondo. – Só me dar ordens.

Laura parece desconfiada, mas balança a cabeça e diz que tem que ir. Eu ofereço para levá-la para casa, mas ela responde que veio de carro e que me quer bem longe do pai dela. Não posso deixar de concordar.

– Callie está dormindo no seu quarto – avisa. – Ela parecia bem transtornada. Acho que ficou preocupada com você.

Eu a levo até a porta e depois tranco o apartamento. Pego o pen drive de Jasmine e o coloco na minha poltrona. O holograma se projeta e eu fico algum tempo perdido nos arquivos dentro dele, pelo menos até reconhecer o método de organização do meu pai. A partir daí sei exatamente o que fazer.

Abro pastas e prendo a respiração inconscientemente ao ver o nome "Alice" em quase todos os lugares. Ao que tudo indica, esses são os arquivos a respeito da arma que meu pai criou para ajudar no resgate do Chanceler, cinquenta anos atrás...

Mas que droga.

Fecho os olhos por alguns segundos. Não consigo ler o que está escrito ali. Minha cabeça começa a doer daquela maneira característica de quando eu era criança. É quase como um aviso para eu não continuar, porque depois será um caminho sem volta.

Mas eu continuo, lendo sobre como a arma se chamava Alice porque a garota usada de base se chamava Alice – uma menina de cinquenta anos que foi submetida a testes e experimentos, tudo em prol do resgate do Chanceler e da honra do país.

Até onde pude ver, ela era uma funcionária do governo e trabalhava na Agência, lugar que cuida da nossa segurança até hoje. Foi voluntária para o experimento e assinou um termo de confidencialidade, garantindo que nunca revelaria nenhum método do experimento para ninguém.

Há cópias de todos esses arquivos e eu os leio com atenção, tentando entender o que ela teria que fazer em sua ajuda voluntária. Percebo que, basicamente, ela serviria de anfitriã para uma arma que precisava de um corpo vivo como hospedeiro. Além disso não havia nenhum detalhe, apenas vídeos de algumas das vezes em que Alice passou por mudança em seu corpo, já depois de aceitar a missão.

O primeiro era uma filmagem dela sendo mergulhada em uma banheira de líquido borbulhante. Naquele video Alice tinha cabelos negros e gritava desesperadamente, como se queimasse mais que o inferno, e mesmo assim ninguém parou ou se locomoveu. Quando ela foi retirada de lá, seus cílios e cabelos estavam brancos, a pele bem mais pálida. A menina parecia exausta e esgotada, quase morta. Uma imagem que me desesperou e me fez ficar com um sentimento quase insuportável de revolta. Alice era claramente fraca demais para passar por tudo aquilo; era óbvio que não queria estar ali.

Mas eles continuaram, e havia pelos menos quinze vídeos para registrar essa decisão.

Escuto um farfalhar às minhas costas, virando para encontrar Callie em seu moletom da Nova Nação. Seu rosto está com uma expressão de pura dor, as mãos sobre o peito. Ela olha para o holograma e grita "Alice! Alice!" com toda a força que consegue, chorando e se ajoelhando como se acabasse de ver a pior coisa do mundo.

Eu levanto e me aproximo dela, a abraçado e percebendo que, sim, ela é a garota do vídeo. Ela sofreu torturas e foi feita de cobaia, tendo seu corpo e mente violados várias e várias vezes, até que não restasse nada da sua verdadeira identidade para trás.

Até que não restasse nada da Alice para trás.

...

Quando Callie finalmente para de gritar, adormece. Eu a deixo deitada na minha cama e volto para a sala, onde encaro o pen drive negro entre as minhas mãos e entro em um debate interno sobre se tenho estômago para continuar vendo o que está ali.

Decido não assistir a nenhum dos vídeos com Callie por perto. Nem posso imaginar quantas memórias ruins aquelas imagens podem trazer a ela e não quero arriscar vê-la no mesmo estado de desespero que a vi entrar algumas horas atrás. Era como se Callie achasse que voltaria a acontecer, talvez até como se tivesse esquecido de tudo até aquele momento. Eu garanti que não aconteceria e que ela estava segura agora, mas no fundo não tenho certeza quanto a isso. Há muito mais coisa que não estou sabendo acontecendo em relação a isso dentro da Nova Nação, caso contrário eu não teria encontrado Callie ou o pen drive.

Sento no sofá e fico esperando o dia amanhecer. Estou tão cansado que nem me levanto para tirar o terno ou os sapatos. Permaneço do jeito que cheguei da festa, com cinzas no cabelo, até que meu telefone toque e eu o atenda ainda em um certo tipo de transe.

– Alô.

, temos um problema – Laura está trêmula do outro lado.

– O... O que aconteceu? – pergunto, já nervoso.

Todos os cenários catastróficos possíveis passam pela minha mente. Eu imagino que o Chanceler descobriu sobre Callie, que o pen drive foi rastreado e até mesmo que mudaram de ideia e decidiram me condenar.

– Uma mulher apareceu morta hoje pela madrugada. Ela estava na festa do meu pai, mas ninguém realmente sabe o seu nome – diz Laura, nervosa.

– Ok...

Ela respira fundo, tomando coragem.

– Há câmeras ao longo da cidade que filmaram vocês dois juntos. Eles acham que você a matou!



Continua...

Nota da Autora: Qualquer dúvida ou surto, me procura na ask, no twitter ou no grupo do Facebook ❤.

Confira aqui outras fics da Andy.

Nota da Beta: Cada capítulo é uma bomba!
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.