Autora: Tamy L. | Beta: Mily | Capista: Paula Braga

Capítulos:
| 01 | 02 | 03 |


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Prólogo

Londres, Inglaterra

’ s POV

Meus passos eram apressados. Ninguém me seguia, eu simplesmente queria fazer algum tipo de exercício para expulsar aquele frio que não estava acostumada. Cada vez que desfazia do ar que saía dos meus pulmões, podia ver o vapor condensado. Aquilo era maravilhoso, porém, só em filmes que eu admirava; a realidade era bem diferente.
Achei um lugar ótimo, olhei mais uma vez na minha lista de indicações que havia feito para mim. Adentrei e logo senti o ambiente aquecer minha temperatura. O local estava cheio, pessoas com seus belos sorrisos, falando de um modo que meu pobre inglês para iniciantes não conseguia ajudar. Aproximei-me do balcão e um homem alto, um pouco forte, aproximou-se. E lá vamos nós testar o bom – péssimo – inglês para iniciantes:
*¹- Half a pint of lager.
Aguardei por alguns segundos. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para :

“Acho que estou indo bem. Pedi uma cerveja. Espero que seja isso mesmo! Adorando Londres.”


Não demorou dez segundos e a minha amiga respondeu:

“Viu? Te falei que Londres é encantadora. Aproveite! #PegueAlguém #NoiteDeTransar”


- Vadia – guardei meu celular com um sorriso débil enquanto sibilava.

Quando dei o primeiro gole com medo de ser uma bebida péssima, notei o ambiente. Tudo totalmente estranho, mas perfeito. Meus ouvidos foram tomados por som de uma guitarra suave, me fazendo fechar rapidamente os olhos. Estiquei meu pescoço para ver o musical ali. Meus olhos fixaram no rapaz em cima do palco: de cabeça baixa, ele dava solos, fazia algumas expressões no rosto. Ele sentia aquilo, estava ali de corpo e alma, tocava com uma emoção que se tivesse tocando até Ilariê eu iria ficar emocionada. Seus cabelos em uma tonalidade castanha, na altura da nuca, caíam como uma cachoeira, escondendo seus olhos. Perdi a noção do tempo, as vozes ao meu redor ficaram longe de mim. Ouvi algumas palmas e percebi que a apresentação tinha chegado ao fim.
Olhei mais uma vez ao redor. O ambiente era aconchegante, agradável. A cerveja era boa, já havia me dito quando eu estava fazendo planos de visitar Londres. Aproximei-me do balcão para fazer mais um pedido. Notei alguém perto demais, porém, olhei apenas de esguelha. A voz grossa do rapaz me fez sobressaltar levemente. O barman já devia conhecê-lo, pois deu um sorriso amigável e, pelo o que percebi, uma troca de olhares. Minha amiga fazia falta naquele momento.

Olhei para meu lado direito e tinha um casal um pouco alterado, talvez discutindo, não entendia muito a expressão londrina que eles usavam. Ao voltar meu rosto, senti um copo próximo a minha mão. Olhei rapidamente, tomando um susto. Meus olhos pararam no belo homem à minha esquerda. Minha mente lembrou em fração de segundos, que ele era o tal guitarrista que havia admirado. Um sorriso estonteante surgiu em seus lábios. Meu coração parou de bater, mas voltou com uma velocidade surreal. A mão dele estava estendida e eu sequer havia notado.
- What’s your name?
Senti meu corpo gelar por completo. As únicas pessoas que eu havia conversado era a recepcionista do hotel e o barman daquele lugar.
- My name is ... – o belo rapaz me olhou estranho. Retribui com um sorriso débil enquanto colocava uma mecha do meu cabelo para trás. – Bernardes.

- Ok – ele deu um sorriso estranho e pegou o copo que estava no balcão, levando-o até sua boca e bebericando.
Olhei para o copo perto da minha mão. Acho que ele só queria ser um cavalheiro e ofereceu uma bebida para mim. Segurei, ainda o olhando. Ele levou o copo que estava em suas mãos e seu copo juntou-se ao meu com um breve tilintar.
*²- Cheers!
Fiz um gesto positivo, me sentindo a ultima retardada do planeta. Aquele rapaz era lindo e estava me dando mole, mas como seguir adiante se nem sabia como pronunciar? Praguejei a mim mesma por pensamento ao ter ido para Londres sem ao menos ter alguns meses de curso de inglês. Bebemos em silêncio. Aquilo era delicioso, tive que me controlar para não demonstrar quão gostosa aquela bebida era. Ele me olhava de esguelha, dando um sorriso enviesado e eu estava me sentindo uma idiota. Precisava sair dali já que não iria dar certo com a minha bela presa da noite.
- Cheers – agradeci e saí.

Mais uma vez estava eu enfrentando aquele frio bem pior que o do Brasil. Aquela aventura ficaria gravada na memória como uma boa lembrança. Assim que entrei no quarto do hotel, sentei-me e fiquei por longos minutos tentando gravar a imagem do belo rapaz que eu tinha certeza que nunca mais iria ver. Foi uma sensação maravilhosa, algo inexplicável. Não me esquecerei jamais do tesão que isso causou em mim. Eu podia imaginar aquelas mãos que antes estavam naquela guitarra, passando por meu corpo, firmes e precisas. A sua expressão no rosto como se estivesse prestes a atingir o ápice que um prazer que um homem ou uma mulher pode oferecer ao próximo. Eu o queria naquela cama, se deleitando de tudo o que tinha para oferecê-lo. Fechei os olhos enquanto mordia meu lábio inferior só de imaginar a cena.
Se amor à primeira vista existe, acabei de achar o meu.

*¹ Half a pint of lager: Metade de um litro de cerveja
*² Cheers: Saúde (em inglês/ato de brindar). Cheers usa-se também para quando a pessoa está de saída. “Tchau e obrigado”.


Capítulo 1

’ POV

Minhas férias passaram de uma maneira rápida. Não aproveitei muito, devo confessar. Torrei praticamente todo o meu dinheiro em uma aventura da qual me arrependo. Se eu não fosse à Londres sobraria para, quem sabe, reformar a casa onde eu e Michael – meu irmão – morávamos.
< O despertador deixou bem claro que a doce magia de acordar tarde todos os dias havia acabado. Ainda com os olhos fechados, desliguei e permaneci por alguns minutos deitada e deixando meus pensamentos fluírem. Já era rotina: todas as manhãs o rosto daquele belo rapaz que tocava guitarra naquele pub londrino surgir em minha mente, da mesma maneira de quando me ofereceu a cidra, que por sinal, estava muito gostosa. Em algumas noites, sonhava com ele de uma maneira... Intensa. Balancei minha cabeça e, logo, me sentei. Não podia viver de ilusão, minha vida não era fácil; não existia luxo, eu era mais uma cidadã brasileira que trabalhava para poder ter o pouco e sustentar aquela casa.
Ainda com meus olhos fechados, me espreguicei e fui em passos lentos até o banheiro. A água morna que caía sobre meu corpo só piorava a situação. Eu queria permanecer ali.
O dever me chamava e, em alguns minutos, já estava pronta para o serviço. Fiz um café e saí para mais um dia de inferno naquele escritório de advocacia.

- , venha aqui agora!
Joseph, meu patrão, não estava nos seus melhores dias; sua voz me alertou quanto a isso. Deixei a recepção e fui até sua sala. Estava acompanhado de Mário e Fernando, ambos eram sócios dele.
- Quero que faça uma lista de salões de eventos. Meu filho está chegando de viagem e faremos uma festa.
- Pode deixar. Com licença – dei as costas, mas não cheguei até a porta. Ouvi sua voz mal humorada ecoando aquela sala.
- Pesquise tudo e envie para o e-mail de Sofia.

Eu era uma mera recepcionista, mas naquele escritório era a famosa “Mil e uma utilidades”. Aquele serviço era função da esposa dele, não minha. Para completar minha manhã “perfeita”, estava com uma pilha de papeis para organizar. Após trocar e-mails com a esposa do meu patrão, joguei tudo nas mãos dela e fui focar no meu trabalho. Aquelas férias não me ajudaram em nada, já sentia meu corpo cansado, pedindo descanso e desesperadamente meus olhos procurando por um feriado prolongado no calendário.
- Já está sabendo da novidade e não me conta – fez sua expressão de amiga enciumada para mim.
- Não sou fofoqueira, – peguei meu café na máquina.
- Pois bem, eu sou – seu olhar deslizou pelos quatros cantos, voltando para mim segundos depois. – O gostoso do filho do Joseph está voltando.
O assunto naquela manhã era um só: o filho do meu patrão que estava voltando de viagem. Estava naquele emprego há dois anos e nunca tinha visto o rosto daquele tal rapaz. Funcionárias antigas o descreviam como sendo um deus grego, outras que ele era um tremendo de um galinha. Se juntar a beleza com sua fama, eu já imaginava o naipe do rapaz como devia ser.
- E o que muda em minha vida? – respondi ríspida
- Nossa, alguém levantou cedo demais hoje – ela bebericou o café.
- Todas falam que ele é bonito, mas isso não me convence.
- Ainda me pergunto por que tenho uma amiga tão idiota que não nota os detalhes da sala do seu chefe. – rolou os olhos. – Ele está lá naquele porta-retratos que o Joseph tem na mesa.
- Tá, mais tarde dou uma olhada. Eu prometo – terminei de beber o meu café. – Agora tenho que ir.
Voltei para meu lugar. Preferia focar no trabalho a ter que ouvir e ver recepcionistas fofoqueiras no meu balcão.

O dia passou rápido, só percebi que era o fim do expediente quando Joseph passou por mim carregando sua pasta de couro.
- Já mandou a lista para Sofia?
- Sim. Ela agora tem que decidir onde e como vai querer a festa do seu filho.
- Tá – deu dois passos para a saída, virando-se e olhando para mim. – Ligue para reservar o salão do prédio. Quero apresentar meu filho para vocês em um coquetel.
- Farei isso amanhã.
Ele saiu e nem me agradeceu. O pouco tempo que estou já me acostumei com seu jeito bruto de ser. Joseph era o famoso coroa mulherengo que perdia seu tempo em casas de massagem com prostitutas de luxo e chegava tarde em casa com a desculpa que estava no escritório trabalhando. Cansei de ter que mentir para Sofia – sua esposa – que ele estava ocupado em uma reunião. Nos fins de semana, viajava para vários lugares do Brasil, algumas vezes no exterior, acompanhado com belas mulheres siliconadas até o cérebro e que tinham pinta de modelo, mas toda aquela produção e vestimenta eram pagas por velhos rabugentos que tinham que tomar as famosas “azulzinhas” para dar conta do recado. Meu patrão era um deles.

Fiquei mais um pouco ali, terminei meu serviço e fui até a sala do meu chefe para levar algumas muitas papeladas de processos que ele tinha que analisar. Aquela mesa me chamou atenção, mais precisamente o porta-retratos. Joseph estava em seu momento “família comercial de margarina”, acompanhado com Sofia, Lauren e um rapaz bonito.
- Prazer filho do meu patrão – sibilei, enquanto olhava para aquele porta-retratos.
Olhei para a foto mais uma vez. Os cabelos curtos, ele tinha uma aparência de roqueiro. Sorri e falei sozinha, mais uma vez naquele inicio de noite:
- Deve ser a ovelha negra da família.
Toda família sempre tem um rebelde. Michael foi até os dezesseis anos, mas teve que parar com chilique e acordar para a vida quando perdemos os nossos pais. Aquela lembrança me deixava triste e, mentalmente, eu contei, cinco anos sem eles. A dor era imensa, como se tivesse acabado de acontecer.
Afastei meus pensamentos e saí daquela sala. já me esperava para, juntas, irmos pegar o ônibus.
- Demorou, hein?
- Desculpa, disco voador estava na área ainda.
< Enquanto seguíamos pelas ruas, fazíamos o que todo e bom funcionário faz no fim do expediente: falar mal do patrão, das vadias loucas que trabalham no mesmo local, das fofocas durante o dia. Era prazeroso ter a amizade de , ela me entendia muito bem e nos momentos de dor e saudade, estava ali, me oferecendo ombro amigo.

Na volta para casa, como se não bastasse aquele dia cheio e estressante, Ricardo surgiu e impediu meu caminho.

- Boa noite.
Ele era meu ex, uma pagina virada da minha vida que vez outra eu voltava e relia. Depois da minha viagem a Londres, comecei a vê-lo com outros olhos. Não sentia tanto tesão, sua voz não era mais um estopim para me deixar molhada antes mesmo de pensar e fazer loucuras.
- Fala logo o que quer Ricardo.
- Poxa, é assim que me trata... Docinho? – sussurrou rente ao meu ouvido.
Talvez fosse minha TPM deixando bem claro que aquele mês seria difícil, mas a vontade que tive naquele momento era de ter uma faca e enfiar naquela barriga sarada que aquele moreno tinha.
- Me deixa em paz – desvencilhei-me dele e fui em passos lentos para minha casa.
- Pensei que hoje iríamos ter algo – ele sorriu enviesado, com seu jeito mais filho da puta possível.
- Hoje? Nem pensar – inventei aquilo só para ganhar tempo.
Joguei minha bolsa no sofá e sentei de um modo largado. Quanto tempo eu não pegava o controle, ligava a TV e assistia a aqueles programas noturnos banais? Era uma terapia, meio idiota, mas servia para mim. Um barulho de chave e, em seguida, a porta foi aberta. Michael soltou um suspiro cansado.
- Fez o jantar? – sentou do meu lado, roubando o controle e colocando em um canal que falava sobre esportes.
- Cheguei agora.
Estava cansada. A preguiça era gritante dentro de mim, mas ver e ouvir aqueles caras falando sobre o porquê jogador “tal” deu um lance errado e outro defendeu me dava náuseas. Olhei para o lado. Michael parecia se divertir e entender o que se passava ali naquela tela. Malditos sejam todos os homens que só pensam em duas coisas na vida: Futebol e sexo.
Levantei-me, decidida a fazer nossa janta. Enquanto aguardava a água do macarrão ferver, olhei para meu irmão. Eu sentia saudade, porém, ele devia sentir bem mais. Perder os pais em plena adolescência não é nada bom. No mesmo ano, Michael desistiu de estudar, perdeu o ano e só voltou a ser um cara normal aos dezoito. Todo aquele tempo substituí a função dos meus pais e o ajudava sempre no que podia.

Após o jantar me recolhi no quarto. Nada como boas horas de sono para esquecer um pouco aquela minha vida complicada.



’s POV

Passei pelo portão de desembarque com uma expressão no rosto pior do que um imigrante quando é deportado. As mesmas caras, as mesmas pessoas. Brasil não muda nunca.
De longe avistei minha mãe e a Lauren. Dona Sofia, como sempre, deu seus gritinhos finos escandalosos declarando aos quatro cantos daquele aeroporto seu naipe perua. Certos momentos eu até sentia vergonha de ter uma mãe assim.
De fato, os três anos que passei em Londres me fizeram bem. Até meu pai descobrir toda a minha façanha de torrar seu dinheiro. Inventei que iria estudar, só que na verdade reuni alguns amigos e fomos tentar fazer sucesso com nossa banda. Foi tudo na contra mão; nos ferramos, mas diferente dos demais que voltaram para o Brasil com a desculpa que não tinham mais dinheiro, eu fiquei e, aos poucos, ganhei meu espaço por lá. Tocava em um pub. No meu sangue corria o blues e, sendo assim, estava mais me divertindo do que trabalhando.
- Meu garoto! – Eu tinha quase vinte e oito anos e minha mãe ainda continuava com aquele apelido escroto.
- Oi mãe – Abracei-a forte.
- Que saudade estava de você. – Fomos caminhando em direção ao estacionamento.
- Eu vim aqui faz três meses. Não há porque ter tanta saudade assim.
- Não importa. Você sempre nos fará falta.

Lauren estava quieta, calada. Podia notar certo amargor na minha mãe cada vez que se dirigia a palavra para ela. Minha irmã era o oposto dela, não se vestia baseada na ultima moda em Paris, não gostava de ser patricinha, mas também não era a roqueira loucona gótica. Ela estava ali, calada e, no seu olhar, um pouco de tristeza por notar que nossa mãe me tratava bem.
Aproximamo-nos do carro. Raul era nosso motorista de anos. Seu sorriso pela manhã nos alegrava. Cresci vendo-o assim, sempre feliz, e houve um tempo em que eu achava que pessoas de baixa renda eram bem mais felizes que nós. Tinha essa linha de raciocínio até o dia em que descobri que a filha dele tinha morrido por overdose.
- Grande Raul – o cumprimentei. – Tudo bem?
- Tudo na paz, assim como Deus permite. – Mais uma vez, me devolveu a gentileza com um sorriso perfeito.
Colocou a mala no bagageiro do carro e entramos. Olhava para as ruas e tudo o que queria entender era o porquê do destino ter me tirado de Londres para voltar a morar naquele inferno de país. Para piorar a minha situação, meu pai ordenou que eu trabalhasse do seu lado.

“Você tem que honrar e defender o patrimônio da sua família”. Foi o que falou a ultima vez que viajou e visitou meu apartamento. Olhou para todos os lados, cada detalhe até os moveis empoeirados que eu não fazia questão de limpá-los. Após mandar um detetive investigar se eu ainda estava na faculdade e descobrir que eu nunca havia nem pisado os pés nela, foi até Londres para ter uma conversa séria.

“Não está dando mais para ver você se afundar aqui. Precisamos de sua ajuda no escritório. E não me venha com a história de que não vai voltar. A partir de hoje, estou cortando toda a sua mesada. Não terá um vintém para se manter aqui nessa cidade. Ou volta pro Brasil, ou tente sobreviver sem minha ajuda.”


De inicio não liguei muito. Iria me manter, procuraria outros pubs para tocar, iria viver finalmente como um adulto sem precisar dos pais. A primeira semana não foi nada bem, já na segunda, dividia uma casa com dois italianos e um canadense. Houve o momento em que olhei para minha guitarra, sempre fiel e companheira, mas ou era tê-la como suporte em meu quarto ou passar fome.
Agora estava eu dentro daquele carro, sentindo o calor infernal que o Brasil te oferece e ouvindo minha mãe falar sobre o que aconteceu desde a última vez que frequentei a nossa casa.
Desci do veículo, olhando para a sacada da casa. Uma linda mansão, jardim, piscina, quadra para jogar tênis. Eu tinha tudo e ao mesmo tempo nada. Maria apareceu no portão com um sorriso cordial e materno que, às vezes, eu observava minha mãe e não achava aquilo cada vez que me olhava.
- Querido – abraçou-me.
Ela foi minha babá. Mais que isso, foi e é a pessoa por quem tenho respeito e admiração. Se não fosse Maria eu não passaria nas provas da escola, seria um mal-educado, mas ela sempre estava ali, me ajudando em tudo.
- Minha Mah! Estava com saudades de mim?
- Sim e muita. – Abraçou-me mais uma vez.
Caminhamos até meu quarto. No meio do caminho achava um ou outro empregado da casa, entre um deles, Nina, a empregada mais gata e gostosa com quem eu desfrutei inúmeras noites de sexo enquanto meus pais estavam trancados em seu quarto. Ela como sempre fora, lançou-me um olhar ousado e apenas assentiu me desejando um bom dia.
- Veja só como está seu quarto!
Minha mãe gostava de me contrariar, isso era fato. Foi a primeira a entrar e ficar rodopiando vislumbrada com a reforma que, em minha opinião, não vi nada de interessante. Eram as mesmas cores, até o moveis eram iguais.
- Gostou?
- Sim mãe, ficou legal – joguei minha mochila na cama.
- Liguei para seu pai. Ele disse que virá para o almoço, mas enquanto isso, descanse meu querido. – Me deu um beijo estalado na bochecha.
Virei-me e, só ali, notei que só estava eu e Maria naquele quarto. Sentei na cama, pensativo.
- Querido, porque não aceitou minha ajuda?
- Imagina Mah, são suas economias. – Suspirei. – Estou ciente que Londres nunca daria certo para morar. – Ergui o rosto e senti uma tristeza me tomar. – Tive que vender a guitarra.
- Não acredito! – Suas mãos passearam pelo meu cabelo de uma forma maternal. – Um dia irei comprar uma igual para você.
- Não quero te ver fazendo dívidas, Mah. Quem sabe com o meu salário de advogado, eu consiga. – Contorci os lábios, já imaginando como seria o inferno daqui pra frente. – Vou descansar um pouco.
- Faça isso meu menino. Mas vou já te avisando, hoje e amanhã vai ter comemoração de boas vindas para você.
- Ah, fala sério! – Joguei-me por completo na cama. – Aqueles amigos dos meus pais são um saco!
- Apenas cumpra sua obrigação e tudo vai sair melhor do que imaginou. – Foi até as cortinas, fechando-as. – Agora descanse.
Meu corpo clamava por aquele momento, eu sentia meus músculos relaxarem e instantaneamente meus olhos se fecharem, me levando para um sono profundo. Acordei com minha mãe ligando a luz. Meu corpo, como um gesto de defesa, encolheu-se e estreitei meus olhos com uma das mãos no mesmo.
- Vamos querido, acorde. Lembre-se que ainda temos um jantar.
Virei para o outro lado, ignorando-a completamente e voltei a dormir. Dessa vez, ela usou um dos seus dons e quase me deixou surdo.
- Antony, levante logo dessa cama ou eu jogo um balde de água gelada!
Aquele era o ultimo aviso. Já fui vítima de inúmeros baldes de água gelada em meu corpo para acordar pela manhã na época em que estudava.
A água despertara um pouco e já estava animado. Não em ver todos aqueles velhos babões que passavam seis meses sem comer suas esposas enquanto elas tinham casos com seus motoristas. Estava feliz mesmo em ver os caras, meus amigos desde a infância e que entraram juntos comigo no lance de ir à Londres, mas desistiram e voltaram a esse país. Coloquei uma calça qualquer e uma camisa social, calcei meu Converse e fui até o espelho; mexi nos cabelos, afundando meus dedos somente para desembaraçar e coloquei perfume. Foda-se toda essa gente metida que acha que qualquer evento tem que ser de gala.
- Oh. My. God! – Minha mãe sussurrou as palavras pausadamente.
Ela olhou para meu estilo com certo ar de reprovação, como se eu fosse um dos seus empregados.
- E aí, vamos?
- De jeito nenhum. Eu saio com você nesse look. Volte já e coloque ao menos um sapato decente. Onde está o Berluti que comprei?
De vários sapatos que minha mãe comprava em cada ida ao shopping, todos ela queria que eu decorasse o nome da marca. Aquilo pra mim era coisa de bicha. Sapato é sapato e pronto, não tem essa de nome. Para não prolongar a nossa discussão, troquei meus converse por um qualquer que estava lá. Tudo o que eu mais queria era me livrar logo daquele maldito jantar e voltar para casa.



Assim que pisamos os pés no salão, várias pessoas vieram nos cumprimentar. Aquelas mesmas coisas, as mesmas pessoas. Algumas mulheres charmosas, lindas, mas em seus rostos notavam-se as plásticas que faziam e, no fim, todas tinham a idade da minha mãe. Por educação, falei com todos e assim fui caminhando pelo salão.
Conforme ia caminhando, era parado por alguém que conhecia meus pais e todos não falavam outra coisa a não ser: “Fico feliz pela sua mudança. Trabalhar ao lado do seu pai será ótimo”. Dava o sorriso mais falso e fingia estar tudo bem, o que na realidade não era. Até aquele momento não tinha visto meu pai, nem sabia se ele viria. Conhecia muito bem o velho para saber que herdei dele a galinhagem; senhor Joseph naquela hora devia estar em uma cama de motel acompanhado por uma bela prostituta siliconada.
- Ignora os meros mortais. – Senti duas tapinhas nas minhas costas.
Virei, e lá estavam os três caras que conhecia desde a minha infância. , e . Com eles vivi os melhores dias em Londres e, claro, que na estadia deles nos divertimos muito. Dei leves socos no ombro de cada um como comemoração.

- Seus viados! – Esbravejei quando fomos a um local mais reservado onde pudéssemos dar gargalhadas e conversar como homens.
- Olha, tava com sua mãe na cama ontem e não foi isso o que ela me chamou. – brincou. Adorava uma coroa, traçou várias daquelas que estavam lá dentro daquele salão. Até hoje ninguém soube a não sermos nós.
- É mesmo? Ontem tava com sua mãe no avião e fodi aquela velha gostosa. – Entrei no embalo da brincadeira. Mas confesso que sempre tive um tesão pela senhora Wilson.
- Mais respeito com a velha. – Me deu um soco no ombro.
Demos uma risada que em segundos foi morrendo. Não precisávamos nos abraçar e dizer que a saudade estava enorme, eles sabiam bem o quanto sofri quando meu pai decidiu me largar em Londres, me deixando com uma mão na frente e outra atrás.
- E a sua Fender? – perguntou para mudar o rumo do assunto.
Doía saber que não teria mais minha guitarra e que a vendi por um preço bem abaixo que o mercado sugere. Porra! Uma Fender é uma Fender, nada se compara.
- Ficou em solo londrino. – Sorri fraco para esconder minha frustração.
- Relaxa cara – deu um tapinha no meu ombro –, Logo você compra outra com seus honorários. – Os três que estavam na minha frente deram uma risada sarcástica.
- Filhos da puta! Não me lembrem disso. – Passei as mãos no meu cabelo.
Continuamos conversando. Precisava saber como estava tudo por ali, se tinha carne nova no pedaço, ou melhor, na alta sociedade. A única novidade era que a Juliana estava grávida do filho do seu motorista.
- ! Estava te procurando. – Minha mãe se aproximou da nossa roda e pude notar os três babacas olharem pra ela com segundas intenções.
- É, eu estava conversando com eles.
- Olá rapazes. – Sorriu e os idiotas responderam olhando para os peitos da minha mãe. – Então venha, seu pai quer lhe apresentar formalmente.
Apresentar para quê se eu já conhecia todas as caras daquelas pessoas?
Ainda consumia uma raiva pelo meu pai, ele não tinha o direito de me deixar naquelas situações em Londres. Aproximei-me dele, que estava em um palco improvisado, com um sorriso.
- Então, aqui está, meu filho, Antony, o orgulho da família Smith.
Todos deram uma salva de palmas e, como não gostava muito de atenções voltadas para mim – exceto quando estava em um palco e fazendo um som com a minha guitarra –, limitei-me a sorrir e baixei a cabeça. Meu pai sorria, agradecido e voltou a falar:

- veio para completar o nosso time de advogados da Smith & Perez.
O velho dava ênfase ao citar a empresa, que era uma das mais conhecidas no ramo da advocacia da cidade. Aquilo para ele era grandioso, ter nome, ser reconhecido, mas para mim, não era nada. Desci do palco e fui passando pelas mesas, recebendo elogios e agradecendo. Na minha frente lá estava, , filha do Fernando, sócio do meu pai. Conhecia cada detalhe daquele corpinho por trás daquele vestido, cada detalhe por trás daquela maquiagem toda e ao ver seus lábios cobertos por um batom de cor vermelha, lembrei-me daquela boquinha envolvida no meu pau, sugando-o e tentando colocá-lo todinho em sua boca. Minha calça ficou apertada a essa simples lembranças; a filha da puta mexia comigo desde sempre.

- Oi . – Lançou um sorriso inocente.
- E aí, , tudo bem? – Coloquei as mãos no bolso do meu jeans para amenizar a situação deplorada em que me encontrava.
- Estou bem. Seja bem-vindo. Com licença. – Sumiu do meu campo de visão.
Nossa relação não era nada mais que uma pegação, não tinha nada certo, nem queríamos. Apenas transar estava nos nossos planos, transar sem compromisso e, no meio daquela alta sociedade toda, pagarmos de bons amigos e ex-namorados. Procurei por em todos os lugares, mas para não dar muito na cara, voltei a conversar com os rapazes.
- Viu a por aí? – Indaguei para , seu irmão.
- Ela saiu, disse que ia para casa de uma amiga. Devia estar tão entediada quanto você está agora – Sorriu.
não sabia nada sobre meu lance com sua irmã, e temia que se isso acontecesse, eu seria um homem morto! Seus cuidados para com ela eram exagerados e a tratava como criança. Aquela festa estava um saco, uma orquestra com tiozinhos tocava no palco; na pista de dança, só alguns velhos tentando relembrar os bons momentos que viveram no passado, agarrado a suas esposas que enquanto estavam dançando, olhavam para nossa mesa e, mais precisamente, para nós.
- Devíamos ir a um bar, encher a cara e esquecer essa idiotice toda de festa. – falou após provar aquele drinque que mais continha fruta do que álcool.
- Fica pra amanhã. – Levantei-me. – To indo nessa porque desde que cheguei não sei o que é dormir direito.
- Tá ficando velho hein, Smith. – falou sarcasticamente.
- Deve ser isso. Não tanto quanto você. – Bati em seu ombro. – Amanhã combinamos direito essa nossa ida a um bar.

Despedi-me de todos, avisei a minha mãe que estava de saída e fui embora. A verdade é que depois que soube do sumiço de e de sua saída sem me cumprimentar direito, perdi o encanto. Não que estivesse na dela, eu tava precisando de algumas horas de sexo, ou até mesmo uma rapidinha lá em um dos banheiros da festa. Cheguei em casa e o silencio já tomava conta daquele lugar, subi já desabotoando minha camisa, precisava de um banho e tentar relaxar, já que no dia seguinte meu pai iria me apresentar aos funcionários da sua empresa.
Fechei a porta atrás de mim. Não quis ligar a luz e quando meus olhos percorreram naquele quarto, pararam na cortina próxima a porta que dava acesso a varanda. Uma mulher estava com as mãos espalmadas na porta francesa, a luz de fora da casa delineou bem seu corpo... Aquela mulher me esperava! Não precisei nem tentar saber quem era tampouco acender a luz do abajur, conhecia bem aquele corpo.
- … – Sussurrei.
Ouvi um riso fraco e logo ela virar-se, aproximando em passos lentos, ousados, rebolando o quadril e me deixando mais excitado que o normal. Naquela hora tentei fazer as contas de quanto tempo estava sem sexo. Me perdi na contagem quando ela estreitou mais ainda nosso espaço e, sem permissão alguma, passou seus braços pelo meu pescoço, aproximando os lábios aos meus e me beijando de uma forma voraz. Minhas mãos foram para sua cintura e cada parte que apalpava me fez chegar a uma conclusão: Ela estava nua e me esperando.
Aquela língua rodeando a minha, sua boca me sugando, mostrando bem no que era mestre. Minhas mãos subiram até seu cabelo e investi em um beijo profundo, deixando-a sem ar.
Começamos nossa vida sexual aos dezesseis. Descobrimos tudo o que era de bom, por isso sabíamos bem o que um gostava no outro. Nosso namoro durou apenas dois meses, motivo para as duas famílias saírem felicitando e praticamente nos jogar no altar. Éramos novos, não queríamos aquilo e, por isso, terminamos, mas continuamos com a amizade colorida que, na época, nem sabíamos que se chamava assim.
Senti os lábios de em meu pescoço, descendo e suas mãos ágeis terminando de desabotoar minha camisa, jogando-a para longe. Não preciso dizer que a essa altura eu já estava de pau duro e sentir sua mão passando por cima, apertando de leve, me fez em questão de segundos, desabotoar minha calça, baixando-a na altura do joelho junto com a boxer.
- Estava com saudade? – Perguntei, segurando seus cabelos mais uma vez e descendo seu corpo até vê-la de joelhos para mim.
- Muita. – Sussurrou com a voz melosa, enquanto distribuía beijos na minha virilha para me provocar.
A filha da mãe era expert e não chegou diretamente ao ponto. Fazia leves sugadas na parte interna da minha coxa, subindo com a língua até minha virilha, beijando minha pélvis. No escuro do quarto, eu sentia sua boquinha gostosa me provocar enquanto que eu encarava o teto tentando me controlar. Uma de suas mãos segurou firme na base, para sua língua percorrer pelo meu “amiguinho” e, sem pensar em nada mais, colocou-o na boca e chupou bem lento, me fazendo arfar de tanto tesão.
era gulosa, fazia sugadas e com as mãos ajudando, fazia movimentos para me deixar enlouquecido. Ela sabia bem a hora e a velocidade certa para o momento e aquilo me deixava mais insano. Podia sentir seu corpo pulsar pelo meu, ouvia seus gemidos enquanto fazia um oral que ficaria na minha lista como um dos melhores da minha vida.
Segurei firme seu cabelo que, àquela hora, já estava completamente emaranhado em minhas mãos, levantando-a e tirando do “seu brinquedinho”. Joguei-a na cama e não pensei duas vezes em colocá-la com as mãos e joelhos apoiados sobre o colchão. Com meus pés, expulsei o resto de roupa que ainda estava vestido e fiquei de joelhos bem próximo a ela. já ansiava pelo o que estaria por vir. Primeiro, com meu membro, pincelei a entrada de sua vagina, tão quente e úmida que achei que iria gozar naquele momento e dei uma só investida, ouvindo seu grito fino e aos poucos ela se acostumar com a situação. A cada estocada era um gemido escandaloso de . A vagabunda parecia gostar, empinava o bumbum, rebolando e chocando seu corpo com o meu. Certos momentos eu parava com os movimentos apenas para observar, na escuridão, ela se contorcer ao sentir que eu estava por inteiro dentro.
- Mais forte, ! – Exclamava desesperada e aumentava mais meu desejo.
- Fala o que você quer, sua puta! – Distribuía tapas fortes em sua bunda gostosa.
- Mete mais forte! – Dessa vez ela gritou completamente alucinada.
Segurei seu quadril com uma mão, à outra levei ao seu cabelo, envolvendo-o em um rabo de cavalo e fazendo as estocadas irem mais fortes. Quem olhasse para naquela noite, na festa, jamais iriam imaginar a cachorra que era a garota naquele momento. Ela valia mais do que muitas prostitutas que paguei, não era nada no piloto automático, sentia prazer, podia sentir as paredes internas da sua vagina se estreitarem, pulsar e, assim como das outras vezes em que transamos, ela gozou intensamente, gritando para os quatros cantos do planeta o prazer que lhe dei em uma transa. E quando eu pensava que ela iria parar lá estava ela me ajudando, rebolando e gemendo com direito a palavrões, me atiçando para que eu também gozasse. Caímos deitados no colchão. Liguei o abajur para ver seu rostinho lindo de patricinha mimada completamente suada e com cara de alivio após comê-la.
Não trocamos palavras por alguns minutos, apenas nos olhávamos com curiosidade. Lá estava o destino brincando com nossa cara, me trazendo de volta para o Brasil e de preferência, me trazendo a mulher que eu sempre fodi.
- Bem-vindo ao Brasil. – Sorriu para mim.
- Fazer o quê né? – Apoiei um dos meus braços na nuca, encarando o teto.
- Para vai – senti uma das mãos dela em meu peito, fazendo desenhos abstratos –, Brasil não é tão ruim.
- Só não permaneci em Londres porque estava muito difícil, mas ainda tenho vontade de voltar.
- Seu pai iria te matar. – Respirou profundo. – O meu pai está feliz em saber que você vai trabalhar lá no escritório.
- Para o azar dele. – Contorci os lábios.
Formei-me em Direito por pura pressão, passei na prova da OAB só porque meu pai me prometeu dar uma casa em Angra dos Reis e a sua promessa foi cumprida. Sempre que podíamos, eu e os caras estávamos ali, fazendo um som maneiro, rodeado de patricinhas vagabundas e muitas bebidas. Como era bom sentir aquela nostalgia, o tempo bom que não voltava mais. Em meio a esses pensamentos, acabei fechando os olhos e adormeci, acordando com a claridade em meu rosto e Maria mexendo nas cortinas.
- Hora de acordar, rapaz! Já passa das duas horas da tarde.
- Porra Mah! – Praguejei com a mão em meus olhos para tentar me acostumar com a claridade.
- Mais respeito comigo. – Voltou para perto da cama.
- E posso saber por que me acordou? – Sentei-me na cama, encostando-se à cabeceira.
- Está esquecido? – Rolou os olhos. – Você tem um coquetel as quatro lá no escritório do seu pai.
Como havia esquecido que depois dali começaria meu inferno? Praguejei a mim mesmo por ceder tanto aos caprichos do meu pai. Tomei um banho demorado e, quando voltei ao quarto, foi que me lembrei de .
- Sua namorada partiu bem cedo. – Maria já colocava o café na minha xícara.
- Ela não é minha namorada, Mah. – Sentei-me a mesa, ainda tentando me acostumar com aquela claridade.
Enquanto tomava meu café da manhã na varanda do meu quarto, percebia Lauren na beira da piscina e com um caderno.
- O que ela faz ali?
- Lauren fica escrevendo, às vezes fica olhando para o nada. – Suspirou. – Ela sente falta da dona Sofia, eu noto isso.
- E onde está mamãe nesse momento?
- Sei lá. Com certeza está no shopping.
Aquilo me indignava! Ninguém parava e conversava com Lauren, ela era muito carente. Terminei o meu café e desci para a piscina. Minha irmã olhou ternamente, com um sorriso bobo.
- Gosto quando você está por aqui. – Me abraçou.
- E eu gosto quando te vejo. – Me sentei na outra espreguiçadeira que ficava perto da piscina. – Porque não foi ontem?
- Fala sério! – Rolou os olhos. – Ver aquelas pessoas chatas falando sobre a última tendência da Chanel não é pra mim. – Rimos
- Eu sei como é. Voltei logo para casa, também não suporto essa gentinha medíocre.
- Eu vi a hora que voltou. Também ouvi os gemidos escandalosos da .
Não me segurei e a gargalhada estridente foi inevitável. Com Lauren eu não tinha pudor, nem vergonha, ela sabia bem do meu lance com , inúmeras vezes me ajudou a encontrá-la. Raul se aproximou de nós e paramos de conversar para prestar atenção no que ele iria dizer.
- Boa tarde, Senhor . Quando quiser ir até o escritório do seu pai estarei aqui. É só me avisar.
- Valeu Raul. – Olhei as horas em meu relógio. 15h30. – É melhor eu ir mesmo. – Abracei minha irmã. – Mais tarde eu venho e terminamos de conversar.
- Ok maninho, vai lá. Boa sorte.
Subi para pegar meus pertences e, assim que desci, entrei logo no carro. Raul era da família, trabalhava conosco há anos e por isso não o tratava como um funcionário, ele era amigão. O papo foi animado até o escritório de advocacia do meu pai, nem percebemos o trânsito que enfrentávamos. Raul era um exemplo, mesmo após a morte de sua filha, estava ali, com um sorriso perfeito nos lábios.

- Está entregue senhor... Desculpe... .
- Valeu Raul. – Abri a porta e fiquei olhando para aquele prédio.
A tarde já decretava o fim quando adentrei no saguão e fui para o elevador. Olhei rapidamente ao redor e cheguei a conclusão que estava certo, trabalhar ali tinha suas vantagens. Várias mulheres gostosas que seriam uma presa fácil. Fui direto até a sala do meu pai. O caminho até lá estava vazio, nenhum funcionário. Bati na porta aberta apenas para avisá-lo que estava ali.
- Como sempre, atrasado. – Levantou-se indo até onde eu estava. – Há meia hora que os funcionários estão te esperando. Vamos.
Não entendia todo aquele auê. Uma apresentação para pessoas que eu veria todos os dias... Não tinha necessidade. Chegamos a uma sala que eu lembrava bem dela, era de reunião, mas naquele momento não tinha nenhuma cadeira e tinha muita gente que eu não lembro conhecer. Na verdade, não lembro a ultima vez que entrei naquele escritório. Foi em um estagio para ganhar pontos na faculdade? Mudaram o quadro de funcionários, antes só tinha as tias chatas que trabalhavam na recepção. Hoje até que as garotas eram bonitas e com certeza davam para seus patrões. Passei por um corredor cabisbaixo, fiquei ao lado do meu pai e seus sócios. já me olhava com aquela expressão cínica de que iria me zoar quando estivéssemos em um bar com os outros caras.
- Peço um minuto a atenção. – Meu pai falou ao microfone.
As vozes foram cessando. As mulheres eram as que mais falavam e foram se calando para prestar atenção no que o meu velho iria dizer:
- Como algumas pessoas sabem, meu filho – olhou para mim – voltou após uma breve temporada em Londres. Ele agora fará parte dos advogados da Smith & Perez...
Ouvi apenas isso, meu olhar circulou por aquela sala. De onde estava eu via cada rosto e um deles chamou minha atenção, fazendo meu coração ficar descompassado. Eu lembrava daquela garota, ela era muito parecida com a que eu havia lhe oferecido uma bebida naquele pub, em Londres. Ela parecia também não estar prestando muita atenção nas palavras do meu pai. Por algumas vezes a vi rolar os olhos disfarçadamente e de repente, meus lábios se abriram para dar um sorriso idiota e débil quando a mesma olhou para mim. Quantas noites eu não sonhei com aquela mulher, transando, fazendo loucuras e fazê-la aprender a falar inglês da forma correta enquanto me enterrava dentro dela. Sim, agora eu tinha certeza que era ela... A garota do pub!


Capítulo 2

’ POV

Não sei quanto tempo fiquei olhando para a moça, esperando alguma reação positiva ou que ela ao menos sorrisse de volta para mim. Eu estava no piloto automático, ouvia a voz do meu pai, porém, não sabia do que se tratava o assunto. Como resposta, a moça virou o rosto e cochichou algo no ouvido da menina de cabelo ruivo. Baixou a cabeça e ao erguê-la fez aquela cara de tédio.
- O nosso cenário jurídico está escasso, precisando de mais jovens nessa área, jovens competentes e que estejam empenhados a seguir essa profissão. – Agora já era, o Sr. Fernando que tinha tomado à palavra.
Durante longos minutos eu fiquei ali, fingindo ouvir tudo, lançava meus sorrisos para cada um que me olhasse.
- Quer falar algo meu filho?
Neguei, fazendo gestos com a mão e pelo menos isso o velho entendeu.
Após tanta conversa fiada, o Buffet entrou ali, servindo todos nós com coquetéis de fruta, alguns salgados e, nesse momento, outros advogados que trabalhavam na empresa vieram me cumprimentar. Era óbvio que boa parte deles eram solteiros e sentiam ameaçados, visto que a beleza feminina daquelas mulheres ao nosso redor era muito chamativa. Algumas ainda vinham até onde eu estava, fingindo estar interessadas no assunto, mas bastava olhar de esguelha para notar os seus olhares para o meu pau. Elas queriam muito uma foda de agarrar os lençóis, não era preciso ser expert em mulher para saber quais eram suas intenções. E de todas, a que eu mais ansiava, não estava ali. Virei o rosto procurando-a e, nessa hora, surgiu perto de mim.
- Os caras estão aí na frente. Vamos nessa que a noite é nossa.
Despedi-me de alguns ali e seguimos para o elevador. Olhei para meu amigo. já afrouxava o nó da gravata e abria os primeiros botões de sua camisa social.
- Faz isso e vou agarrar seu pau. Fiquei excitada. – afinei minha voz.
- Vai tomar no cu, . Meu negócio é mulher.
Quando saímos do elevador, e já nos esperavam. Durante o trajeto até o bar, eu olhei para cada um ali. Nossa vida mudou, já não éramos os adolescentes loucos e sem juízo que podíamos fazer tudo à hora que quiséssemos. gostava de Direito, puxou ao pai, diferente do primo. que não curtia a área e juntou-se a , decidiram seguir a carreira de Educação Física. Ainda estavam terminando a faculdade, mas já tinham planos de juntos abrirem uma academia. Nosso sonho de músico ficou para trás... Quem sabe um dia.
- Foi tão lindo ver o sorrindo enquanto era apresentado para todos da empresa – as gargalhadas escandalosas de e invadiram o ambiente, fazendo todos a nossa volta olhar para nossa mesa.
- Vai se foder, . – Tomei um longo gole da minha cerveja.
- Agora sabe que vai ter que ralar. Dinheiro não cai do céu, .
- Disso eu sei .

Ainda demos risadas da forma do narrar o acontecimento daquele fim de tarde e em meio aos meus risos, lembrei-me da garota do pub. Quem era ela? Não havia gravado seu nome e agora a maldita não saía dos meus pensamentos.

- Se o seu pai for tão gente fina, vai te mandar uma recepcionista gostosa.
- Não quero nem me lembrar disso. Só imagino o coroa botando ponta na minha mãe com a secretária dele.
- O quê? – parecia estar indignado com minha resposta. – Cara, a é a mulher mais tranquila que eu conheci.
- E quem é essa?
- A secretária do seu pai.
Eu sabia bem que o velho não deixava passar uma oportunidade. Já presenciei várias vezes ele comendo alguma garota novinha em sua sala na troca de assinar o relatório do estágio de faculdade delas. Talvez tenha sido isso que me deixou indignado e com receio de trabalhar ali. Por um rápido momento, imaginei aquela linda garota do pub sendo minha secretária. Só de pensar na cena sentia a animação entre minhas pernas.
- Será que é normal você achar que não vai ver mais uma pessoa e ela do nada surge na sua frente? – perguntei do nada.
Todos na mesa olharam para mim como se eu tivesse acabado de confessar um crime.
- O que é ? Virou gay de vez?
- Só falta ele falar de um tutorial de maquiagem sobre como esconder as olheiras.
- Não é isso... – eu os acompanhei na gargalhada. – Mas nunca aconteceu com vocês? De achar a mulher ideal e dizer que sentiu algo muito forte desde a primeira vez que a viu?
- Pior do que amor à primeira vista, é gostar e não ser correspondido. – voltou a tomar sua cerveja com um olhar perdido.
nunca foi o tipo “galinha da turma”. Era um homem muito fechado e nunca o vimos acompanhado com alguma garota, não essas de baladas que achamos por aí, mas moças que realmente escolhemos para namorar.
- Mano, o que deu em vocês hoje? Que bichisse é essa?
Mudamos de assunto por que tanto quanto eu já sentíamos o efeito das inúmeras cervejas que bebemos e que mais um pouco iriamos contar os nossos piores podres. Troquei aquele tipo de bebida por um refrigerante e voltei a conversar normalmente, como uma pessoa sem efeitos colaterais de gostar de alguém.

Parecíamos quatro velhos, acho até que nossos pais nos davam uma surra de energia, pois já estávamos pedindo socorro e antes da meia-noite cada um seguiu seu rumo. Peguei carona com . Durante o caminho conversamos sobre muitos assuntos da empresa dos nossos pais. Olha só como idiota é esse destino, antigamente falávamos de mulheres, transas e filmes ou até games; hoje, nosso papo era totalmente sobre o futuro.
- Está entregue – desligou o carro e olhou para a porta da casa.
- Então agora é a hora em que te dou um beijo na boca? – afinei minha voz para brincar.
- Sai fora – mais uma vez olhou para a porta da minha casa.
- Quer entrar?
- Não. Esquece e desce do meu carro.

Despedi-me do meu amigo e entrei. As luzes só estavam acesas por minha causa ou vai ver o papai estaria fora e comendo uma das suas putas de luxo. Andei mais um pouco e achei Lauren sentada no jardim, mais uma vez escrevendo algo no seu caderno.
- Eu devia ter passado aqui e te levado comigo para beber uma cerveja. – sentei-me.
- E aí, como foi a apresentação do mais novo advogado da Smith & Perez? – ela deu uma gargalhada gostosa.
- Vai rindo, não é você que está encrencada – desabotoei minha camisa até a metade com meu olhar vago, lembrando mais uma vez da linda moça. – O que fazer quando encontramos uma pessoa que já tínhamos visto no passado e jurávamos que isso não se repetiria?
Lauren ficou calada, me observando durante longos segundos.
- Putz, ! Como assim?
Diante da minha irmã eu nunca escondi nada. Ela era uma ótima conselheira e me deixava bem mais leve após a minha sessão desabafo. Contei sobre a linda mulher, acrescentando o ocorrido daquele fim de tarde.
- Ela sumiu do meu campo de visão em um piscar de olhos.
- Será que não foi miragem?
- Não. Se ela amanhã aparecer, irei conversar.
- Impressão minha ou a está ficando pra escanteio?
- O quê? – impossível! era o fogo em pessoa. Seria muito difícil achar outra no mesmo nível que o dela. – Não. Também nem sei como anda a vida da . Vai ver ela já tem o cara certo na vida e só transou comigo ontem pra matar a saudade – levantei-me da cadeira, terminando de tirar minha camisa. – Agora preciso me recolher.
- Vai lá e boa noite.

Eu não gostava de deixar minha irmã sozinha, e prometi a mim mesmo que isso não aconteceria, não depois da minha volta. Prometi também conversar com minha mãe, Lauren não podia ficar muito trancada dentro de casa, isso não era justo.
Após um banho para relaxar bem o corpo, me joguei na cama. Que se foda se ela não estava arrumada ou se eu tinha que puxar os lençóis que cobria, afinal... Meu quarto, minha bagunça!


’s POV

- E aí, tu gozou gata?
Rolei os olhos, enquanto sentia as estocadas de Ricardo. Que homem era aquele que não sabia nem quando a sua mulher estava gozando e, para piorar, faz uma pergunta daquelas?
A verdade era uma só: Antigamente eu adorava transar com meu ex-namorado, era magnífica a forma de como em apenas um oral esse homem me fazia ir ao céu. Só tinha um defeito que eu nunca tinha notado e só cheguei às vias dos fatos naquela noite: Ele era um puto egoísta na hora da penetração.
Seu segredo era um só, me deixava relaxada com preliminares e depois era a hora do seu bel-prazer.
O início daquela noite foi muito cansativo. Participar de reuniões onde o patrão apresentava seu filho playboy e mimado que chegou de Londres não era bem o melhor programa. Nem olhei para a cara do mimadinho, ou melhor, olhei de relance, somente porque na hora do discurso Sr. Joseph olhou para mim. Para piorar, eu e perdemos a condução e, detalhe, partimos assim que o “circo” terminou. E por ironia quem estava pelas redondezas? Ricardo. Ele levou em casa e na volta tomamos umas cervejas no barzinho do bairro mesmo.
Agora estava eu na sala de sua casa, ouvindo aquele homem gemer enquanto metia com força e se achava o melhor homem da cidade na sua doce ilusão que eu também estava prestes a gozar.
- Foi bom – falou após alguns minutos da transa. Já estávamos sentados no sofá, olhando para o teto e pensando na vida. – Está muito calada, gata.
O fuzilei com um olhar. Pelo tempo que estivemos juntos, eu nunca consegui desabafar meus problemas com ele; era estranho depois da transa, achar que o cara iria me ouvir e dar conselhos. Sou mulher e não boba para saber que acabou a transa, acabou o companheirismo.
- Estou normal – respondi de forma ríspida.
Continuei calada, olhando para o teto. Observei ele levantar-se e ir até o banheiro para tirar a camisinha. Fiquei pensando em tudo, lembrei-me das primeiras vezes em que transei com ele, em o quanto eu era boba e romântica. Apaixonada por um cara que só curtia com minha cara e que no seu telefone celular tinha uma lista imensa de mulheres que comeu e comia até hoje. Talvez não fosse amor, quando amamos abdicamos de tudo para viver ao lado do parceiro, enfrentamos problemas juntos e, mesmo diante de uma traição, fazemos uma análise se vale a pena deixar a pessoa ir embora por causa de um deslize.
Fiquei muito acomodada com Ricardo. Eu sabia das várias mulheres do bairro que o mesmo saía, jurava para mim que não o procuraria e quando ele estalava os dedos eu voltava de quatro, esperando ansiosamente por uma noite de sexo quente. Aquela viagem a Londres me fez refletir se realmente valeria a pena continuar com aquela situação. Eu precisava me libertar dele e de todo o vício que tinha em seu corpo.
Olhei para ele, parado diante de mim. Estava ansioso, queria dizer algo ou vai ver queria que eu saísse. Uma mulher tem que saber a hora certa de ir embora depois da transa ou se realmente após a transa vai rolar carinho. Não era menina para não entender todo aquele nervosismo que o corpo dele emanava.
- Tenho que ir – com os dedos, ajeitei minha calcinha que estava toda jogada para um lado. Levantei-me e baixei minha saia.
- Queria muito que ficasse – coçou a nuca –, mas vou pra uma reunião.
- Uma reunião fora de casa ou aqui mesmo? – arqueei as sobrancelhas. – Qual vai ser a próxima puta da rodada da noite?
O boato estava forte na rua de que ele estava firme com uma loira. Dei uma gargalhada interna quando imaginei que a tal garota iria comer na mão dele. Dava até pena só de imaginar os chifres que a pobre moça iria levar. Ricardo não respondeu, ficou calado e se eu bem soubesse, não estava com coragem de falar a verdade para mim.
Amor-próprio, meu bem, já pode descer aqui e possuir meu corpo!
Esbarrei-me propositalmente nele, pegando minha bolsa no meio do caminho.
- , não leva a mal...
Não ouvi mais nada. Acelerei os passos até a porta e, de costas para ele, levantei meu braço lá no alto, mostrando meu dedo do meio. Se for pra ter fama de puta, que agisse como uma.
Eu caminhei em passos largos, graças a Deus, morávamos na mesma rua. Não sei se conseguiria segurar as lágrimas no meio da rua e não queria ser taxada como a louca insana. Óbvio que como toda rua de classe média, existia as vizinhas filhas da puta que olhavam a vida de todo mundo e justamente naquela hora da noite estavam em uma rodinha na calçada. Dei “boa noite” para ser educada e entrei praticamente correndo dentro de casa e ali deixei minhas lágrimas lavarem minha alma. Eu era trouxa, e precisava de algo que me acordasse daquela vida. Estava farta dos joguinhos de Ricardo, de tristes lembranças que aconteceram na minha vida.

Não sei por quanto tempo fiquei ali largada no sofá, deixando a mente divagar e oscilar entre momentos bons e ruins que eu tinha vivido. Ouvi a porta ser aberta e Michael entrar por ela. Disfarcei, enxugando rapidamente minhas lágrimas.
- Oi – sentou-se do meu lado no sofá. Ele me conhecia bem ao ponto de saber que tinha chorado. – Está tudo bem?
Senti seus dedos tocando meu ombro e fiz um sinal de positivo, enquanto as lágrimas insistiam em cair e em uma intensidade mais frequente.
- Eu senti saudades de um tempo aí.
- Eu estava assim ontem – baixou a cabeça, se contendo para também não chorar. – Sinto falta deles.
- Sim... – levantei-me do sofá. – Jantou?
- Saí com os amigos do trabalho para um bar. Estou sem fome.
- Então vou já pro meu quarto e de lá só saio amanhã – beijei o topo de sua cabeça. – Se precisar de algo me chama.
- Tudo bem.
Guardei minhas lágrimas para aquele momento, onde estivesse só e me sentindo um lixo. Eu precisava de um banho, depois longas horas de sono e achar um plano de me desapegar do Ricardo.



O início da minha manhã não foi nada fácil. Pegar condução lotada e dentro dela diversos tipos de pessoas, desde adolescentes chatos e irritantes até mulheres com bebês no colo se esgoelando. Não tinha mais paciência para aquilo, um próximo financiamento feito por mim seria um carro.
A cidade onde eu morava não era tão grande, mas também não era pequena. O que eu levava por dia com caminhada até o ponto de ônibus e chegar à empresa, seria bem melhor se estivesse com um veículo. Michael ainda tentou fazer minha cabeça para investir nisso e, eu idiota, querendo pagar de riquinha fui à Londres. Tonta, mil vezes tonta!
Como se não bastasse chegar dez minutos atrasada, ainda dei de cara com uma loira peituda por trás do balcão. Balcão esse que me pertencia!
- Bom dia – perguntei, um pouco receosa.
- Oi! – a vadia sorriu e fez questão de em seguida mascar o chiclete de forma irritante.
- O que você faz no meu lugar? – tinha que ser direta. A loira aparentava ser burrinha.
- Sou a mais nova contratada do Dr. Joseph.
Só era essa que me faltava! Acho que fiz uma festa de carnaval na mesa da Santa Ceia com direito a chuvinha de confetes em vidas passadas! Eu estava sendo demitida? Isso mesmo?
- O Dr. Joseph não me falou nada sobre isso.
- Ué, eu fiz uma entrevista ontem pela tarde e fui contratada. Quando cheguei pela manhã, me encaminharam para cá.
Chequei as horas no meu relógio de pulso. 08h20min. Não me restava outra opção a não ser aguardar o meu lindo patrão e saber o que seria da minha vida ali. Saí de perto da loira burra e fui até a copa. já estava tomando seu habitual cafezinho da manhã.
- Olha ela – sorriu maliciosamente. – Bom dia.
- Oi, – com meu tom de voz deixei bem claro que nada estava bem.
- O que aconteceu? Achei que hoje acordaria feliz... Ou pensa que não sei que depois que o tudão do seu ex me deixou em casa vocês não transaram?
- Só tenho isso para te dizer... – peguei uma xícara de café para acompanhá-la. – Desde ontem à noite que minha vida se tornou um inferno. E como se não bastasse, o filho da puta do meu patrão coloca uma loira siliconada até no cérebro no meu posto de sua secretária!
ficou embasbacada com tanta informação. Notei minha amiga tentar abrir e fechar a boca direto procurando algo que me confortasse.
- Quem sabe agora não vem aquela promoção, hein...
- Até parece que nesse escritório de advocacia pobre tem vez, né? – dei um longo gole no meu café.
- Sei lá. Vai ver com a vinda do filho dele, o coroa está bem feliz.
- Eu acredito na felicidade – “mesmo nunca ter vivido ela”, completei por pensamento –, mas em milagres, não. Vamos ver, vou aguardar ele chegar e me dizer para onde devo ir. Mas já sei que a porta da frente será a serventia da casa.
- Boa sorte. Qualquer coisa passa lá.
- Te mantenho informada – saímos juntas e depois cada uma seguiu seu rumo.
< tinha mais tempo na empresa; dra secretária do Dr. , um homem pra lá de elegante e charmoso. Tão jovem e já arrancava suspiros apaixonados por onde passava no escritório. Sua vida pessoal era um grande mistério e sim, já tinha transado com ele após muita insistência da parte dela. Transa essa que ela diz ter sido a mais decepcionante da sua vida! Nunca entrou em detalhes sobre o fato, mas houve um afastamento entre eles e agora o tratamento era totalmente profissional.
Quando voltei para a sala de Joseph, me assustei, estava muito difícil me acostumar com aquela vagabunda no meu lugar. Com certeza deve ter dado pra alguém e não sabe nem o que é uma minuta!
- O Dr. Joseph já chegou e disse que quer falar com você. – tentou me oferecer um sorriso falso.
Ignorei suas caras e bocas e segui até a sala dele. Senti vontade de sorrir da cara do meu patrão quando o vi com um monte de papeis e franzindo o cenho.
- Queria falar comigo?
- Sim, . Entre e feche a porta.
Fiz o que ele pediu, segui até a cadeira que ficava na sua frente e era separada apenas por sua mesa. Em poucos segundos, várias coisas se passaram em minha mente, meu emprego era o principal. Eu não podia perder aquele cargo, o escritório era um dos mais conhecidos da cidade, ao menos uma vaga eu tentaria ali antes de sair escorraçada.
- Você deve ter notado que a Soraia está trabalhando no seu lugar, não é?
- Sim – foi só o que consegui me limitar a dizer.
- Com a vinda do meu filho para cá, precisamos acrescentar mais uma secretária. Soraia tem um currículo bom e se saiu bem na entrevista.
“Currículo bom? Pra quem ela deu para conseguir isso em suas informações profissionais?”, perguntei a mim mesma.
- Eu estou te liberando como minha secretária. Agora você vai ficar com a mesma função, só que na sala do , meu filho.
Mais uma para meu dia se tornar horrendo ao ponto de ser colocado em minha lista mental como um dos piores. Onde Joseph estava com a cabeça ao me colocar para ajudar o filho mimado dele? Não quero nem imaginar o que vou sofrer na mão desse playboy de merda!
- E porque não colocar a loira... Desculpe, a Soraia como secretária dele?
- Não. Quero-a aqui. Com o tem que ter alguém do seu lado que seja experiente. Então é isso, já pode ir para a sala do meu filho e organizar tudo para a sua chegada.
Fez um gesto positivo com a cabeça e saí daquela sala completamente arrasada! Não sei o que era pior: Perder emprego ou ter que servir de babá para moleque mimado.
Fui direto para a sala dele, que ainda estava vazia, o que não era nada impressionante. Com certeza ele ainda estava em casa, jogando vídeo game e pensando se realmente iria trabalhar. Pelo menos eu ganhei uma vantagem: Não vou precisar morrer de tanto trabalhar.


’s POV

Eu podia sentir seus lábios tão sedentos quanto seu corpo. A garota era incrível e sabia muito bem o que fazer com sua bela língua em meu corpo. O sono estava bom e aos poucos ouvi alguém me chamando.
- ... ... – minha mãe alterou a voz, porém fingi que estava dormindo. – Antony, levante dessa cama já!
Porque ela fazia isso comigo? Eu só precisava de mais quatro horas seguidas dormindo e aí acordaria como se tivesse visto estrelas. Espreguicei-me e fui obrigado a fechar os olhos rapidamente quando ela empurrou as cortinas, deixando o sol daquela manhã entrar com tudo em meu quarto.
- Não pense que vou te chamar mais uma vez! – continuou com a voz alterada. – Já é a terceira vez que seu pai me liga e eu digo que você já está saindo!
Rapidamente eu me lembrei de tudo... Trabalho, escritório, advocacia... Cacete!
Tentei fazer chantagem emocional, me contorcendo na cama, esperando que minha mãe ligasse de volta para meu pai e juntos eles desistissem de mim. Os lençóis foram puxados e rapidamente pulei da cama.
- Isso nem começou e já está se tornando um saco! – falei, enquanto ia para o banheiro.
Bati a porta com força, descontando toda a raiva que sentia no momento. O que custava me deixarem em paz? Eu já tinha saído de Londres, desistido da vida de músico, agora eles queriam me moldar como a sociedade desejava? Que vão à merda todos e suas formas de pensarem.

Após um banho gelado para despertar, sentei-me a mesa, sendo servido por Maria. Não estava nos meus melhores dias; optei por comer calado e em seguida subir para o quarto apenas para fazer a higiene bucal.
Eu queria descontar toda a minha revolta por terem me acordado cedo em alguém e nada melhor do que o trânsito caótico que aquela cidade tinha naquele horário. Fui em direção à garagem quando vi a minha vaga onde sempre guardei meu carro totalmente vazia.
- Cadê o meu Audi? – nem tinha forças para gritar.
- Raul está lhe esperando. – minha mãe estava atrás de mim.
- Você não respondeu a minha pergunta. Cadê. A. Droga. Do. Meu. Carro? – perguntei mais uma vez, só que pausadamente e cerrando meus dentes, prestes a bater no primeiro que aparecesse na minha frente.
- Quer seu lindo carro de volta? Comece a trabalhar com seu pai e o devolvemos. – me deu as costas como se eu fosse um Zé Ninguém. – Agora se apresse que seu pai está ligando direto para mim.
Só podia ser brincadeira! Eu, um homem feito na vida, que enfrentou tudo no mundo afora, ser tratado como um jovem de dezesseis anos! Se minha mãe achava que eu iria deixar passar barato, estava enganada.
Entrei no carro e sentei no assento traseiro. Raul fechou a porta e entrou pelo banco do motorista. Ele conhecia bem tudo o que acontecia ali, era tão reservado que nem tinha como tentar puxar assunto; assim como também me conhecia ao ponto de saber que naquela manhã eu não queria papo. Ligou o som de forma ambiental e continuou calado enquanto o carro deslizava pelas ruas.
Só me dei conta que estava vestido como qualquer um quando entrei no elevador e só tinham homens vestidos de terno e gravata. Nem fodendo que eu iria circular assim todos os dias, nada mais confortável do que um jeans surrado e uma camisa xadrez. Na entrada uma linda morena que estava por trás do balcão da recepção da Smith & Perez me cumprimentou, seu sorriso era um convite de uma transa selvagem. Devolvi o sorriso e quando sua voz saiu era tão calma que eu senti vontade de beijar sua boca.

- O Sr. Joseph pediu que assim que chegasse fosse até a sala dele.
- Obrigado.
Como se não bastasse ter que ouvir esporros da minha mãe, ele também iria me dar sermões. Fui me preparando psicologicamente e, na entrada da sala dele vi uma loira peituda, gostosa pra caralho. Lembrei-me de afirmando, praticamente pondo as mãos no fogo de que meu pai não comia sua secretária... Me engana que eu gosto, !
- Pois não? – ela perguntou como se estivesse em um balcão de bodega.
- Gostaria de falar com meu pai.
A bela garota abriu um sorriso débil, com certeza se estivesse em desenho animado sua íris seria trocada por cifrões.
- Entre.
Segui direto, durante o caminho, minha cabeça era tomada por cenas da secretária e meu pai trepando naquela mesa dele. Senhor Joseph fazia jus ao nome de um dos melhores advogados da área criminal da cidade e de cidades vizinhas. Podia ser um velho safado, mas tinha suas qualidades.
- Até que enfim chegou! Pensei que fosse preciso chamar o BOPE do Estado do Rio de Janeiro para te escoltar até aqui.
- Desculpa pai – sentei-me na cadeira. – Ainda não estou acostumado com essa rotina e o fuso horário também.
- Espero que isso não se torne rotineiro. Devia se espelhar no , um homem pontual.
era para ser um exemplo sim, mas não gostava quando meu pai me comparava a alguém.
- Terminou com o sermão?
- Sorte sua que hoje esse escritório está um inferno. Sua sala já está pronta e mandei a para te ajudar.
- A loira vai comigo? – perguntei esperançoso. Seria real demais para ser verdade.
- O quê? – perguntou confuso. – Não! A Soraia fica, mandei a para lá.
Não entendi muito, aquilo era informação demais para minha cabeça logo pela manhã. Não queria tomar o tempo do meu pai e me despedi, saindo logo dali.
Passei pelos corredores, procurando a sala de . Eu precisava conversar um pouco com meu amigo para me acalmar. Na entrada de sua sala tinha uma ruiva, a mesma que a garota do pub conversava na minha comemoração de boas-vindas. Antes de qualquer coisa pensei em perguntar quem era a garota da tarde anterior, mas seria indelicado demais da minha parte.
- está?
- Não. Ele foi para uma audiência no fórum.
também era da área criminal, tenho certeza que quando meu pai se aposentar vai deixar com muito orgulho o cargo de melhor advogado dessa área para meu amigo. Agradeci e fui até minha sala. Meus passos foram se tornando lentos a cada segundo, quanto mais me aproximava mais eu sentia meu coração bater desesperado, minha boca louca por uma gota de água e o ar quase não saindo dos meus pulmões. Lá estava ela, a garota do pub sentada atrás do balcão; estava distraída lendo um papel. Conforme fui chegando perto tive a certeza que ela era a garota que a encontrei em Londres. Seu nome em um broche na sua camisa branca com a logo da empresa me fez recordar de sua voz naquele dia...

“My name is ... Bernardes”


Ela ergueu o rosto e eu senti uma ereção instantânea, minha sorte foi aquele balcão que nos separava.
- O Dr. ainda não chegou e não receberá clientes hoje.
Sua voz tão sedutora que podia matar um do coração.
- Mais alguma coisa?
Ali, eu acordei dos meus pensamentos e sorri por dentro, queria descontrair o ambiente.
- Seria uma pena se essa sala não fosse minha.
- Oi? – sua expressão confusa foi o que me deixou com mais vontade de rir.
- Então você é a , a garota que vai trabalhar comigo?
Ela levou alguns segundos para entender o que se passava naquele momento.
- Perdão, eu... Não lhe reconheci.
O que eu podia fazer a não ser sorrir? Estava me sentindo uma putinha em concurso de beleza, porque meus lábios não conseguiam fechar.
- Tudo bem – olhei para a porta da minha sala. – Então, posso entrar?
- Claro – levantou-se.
Para piorar a situação, a moça foi na frente, abrindo as duas portas e adentrando. Que bunda maravilhosa; aquele quadril largo, completando suas coxas grossas... Aquelas panturrilhas bem trabalhadas mostrava que ela malhava. Na mesma hora imaginei a gostosa suada em uma academia e com roupas minúsculas.
Com tantas informações na minha frente tive que me controlar, colocando as mãos nos bolsos do meu jeans, escondendo a excitação tão óbvia. Ela virou-se e foi sem querer, mas olhei para seus peitos, calculando mentalmente se cabiam em minhas mãos.
- Fique à vontade – estendeu os braços. – Quer algo? Um café, suco, refrigerante...
- Não. Estou bem assim – fui para minha cadeira, sentando-me na mesma.
- Vou deixar você sozinho. Qualquer coisa ligue que estarei aqui na recepção. Com licença.
Ela saiu, me deixando mais uma vez naquela manhã de pau duro. Olhei ao redor, minha sala. Precisava colocar alguns porta-retratos na mesa, ou mudar o porta-objetos. Nada como o tempo para deixar aquela sala bem a minha cara. E o que fazer? Fiquei mexendo no celular e perdi a noção da hora quando entrou no meu campo de visão.
- Com licença, mas seu pai me pediu para te entregar isso – colocou uma pilha de papéis na minha mesa.
- Obrigado.
Fiquei olhando bem para ela. Era impossível aquela garota não se lembrar de mim, eu paguei uma bebida, nos olhamos bem naquela noite. E se fosse outra garota?
- Alguma coisa?
- Não – desisti de lhe falar algo. – Qualquer coisa pode entrar na sala sem bater.
Peguei aqueles papéis; todos eram de causas e fiquei mais perdido do que cego em tiroteio. Faz muito tempo que pratiquei Direito, estava definitivamente fodido.
entrou mais uma vez.
- Doutor , meio-dia é o nosso horário de almoço. Importa-se de eu ir?
- Já tem lugar para almoçar?
- Sim – respondeu timidamente.
- E companhia? – estava apostando todas as minhas fichas naquela mulher e foda-se caso aquilo pareça com assédio sexual.
- Sim... Enfim, volto às duas horas.
Eu tinha levado um fora? Não entendi muito aquela mulher. Com certeza se fosse a loira peituda que estava na sala do meu pai concordaria em sair comigo para almoçar e terminarmos a tarde em um motel de luxo. Senti um baque no peito quando me lembrei das palavras de na noite anterior.
é a mulher mais tranquila que eu conheci...”


Era ela! Trabalhava para meu pai e agora entendia bem o que quis dizer. Explicado mais uma vez porque ela não me deu bola na noite em Londres. Agora mais do que nunca eu queria conhecer melhor aquela moça.
Optei por almoçar em um restaurante perto do escritório. Uma linda mulher se aproximou de mim.
- Olá, .
- Oi – respondi por educação.
- Posso sentar aqui? – apontou para a cadeira livre na minha mesa.
- Fique à vontade.
Ela era linda. Seu cabelo loiro realçava com seus olhos azuis. Cada dia estava gostando mais dessa vida de trabalhar no escritório do meu pai.
- Nos conhecemos? – tentei não ser indelicado.
- Trabalho no escritório do seu pai. Na verdade, nem é trabalho, é estágio pra faculdade.
- Entendi.
- E te vi ontem na celebração de boas-vindas para você. Como se sente sendo o querido de todas as mulheres?
- Normal – fingi não ligar muito, mas meu ego já inflava meu peito. – Como se chama?
- Marília.
Engatamos um papo agradável. Marília era divertida e fez minhas duas horas de almoço passar muito rápido. Ela ajudava para obter seu relatório assinado no final do ano. Ainda tentei sondar se os dois tinham algo a mais, visto que meu amigo era bem fechado quanto a sua vida pessoal. Se dependesse da parte dela, já teriam, mas a mesma deixou bem claro os tocos que levava em cada cantada que dava no meu amigo.

Assim que voltei ao escritório fui direto para minha sala. estava ali, calada e concentrada em um livro. Falei formalmente e entrei, passei a tarde inteira tentando entender o que se passava naqueles papéis e, mais uma vez, não entendi nada.
- Dr. , já são seis horas da noite. Eu queria saber se precisa de algo antes que eu vá embora.
Não estava suportando tanta frieza da parte dela. Fiquei olhando minuciosamente para o seu rosto, era muito perfeito.
- Primeiro, para de me chamar de Doutor. Não sou tão velho para isso – pela primeira vez vi seu sorriso sincero. – Segundo, antes de te liberar acho que precisamos conversar.
- Sobre o quê? – foi muito engraçado vendo-a arregalar os olhos. – O que eu fiz de errado?
-Nada. Sente-se.
- Está bom assim. – permaneceu em pé.
- Então, , acho que nos conhecemos bem antes de eu começar a frequentar esse escritório.
- Desculpe dout... – sorriu tímida. – , mas acho que me confundiu com alguém. Eu não saio para nenhum lugar.
- Então me tire essa dúvida... Já foi à Londres?
A expressão dela mudou e se tornou confusa.
- Si-sim – titubeou.
Xeque-mate! Então era ela, a garota do pub!
- Acho que não se lembra de mim.
- Desculpe, mas não lembro mesmo – lançou um sorriso bem tenso.
- Te entendo. Acho que depois que cortei meu cabelo e desfiz do meu brinco na orelha fiquei irreconhecível.
Eu senti que ela estava recordando-se de mim, fiquei até bem feliz. Confesso.


Capítulo 3

’ s POV

Por um milésimo de segundo eu prendi minha respiração e meus batimentos cardíacos pararam. Fiquei por mais tempo calada, observando aquele cara que não parecia em nada com o tão destemido guitarrista de um pub londrino. Olhei minuciosamente seu rosto, cabelo, corpo. Cheguei à conclusão que realmente era ele, um pouco diferente sem seu cabelo enorme e sua pequena argola que ele usava como brinco.
- Mas... Como se lembra de mim?
Era impossível ele ter se lembrado. Eu era só mais uma naquela multidão. Naquela noite existiam tantas garotas lindas e charmosas que seria muito difícil eu me destacar entre elas.
- Como se esquecer de alguém que pagamos uma bebida?
- A coisa mais normal do mundo, afinal, isso sempre acontece. E logo você, um guitarrista de um pub londrino? Óbvio que naquela noite existiam várias garotas bem mais interessantes do que eu.
Notei que ele baixou a cabeça e ficou olhando para as próprias mãos em cima da mesa. Analisando por esse ângulo, ele era um homem lindo e um medo de sua beleza percorreu pelo meu corpo. Assim que ergueu o rosto e nossos olhares se encontraram, eu perdi o rumo da conversa, até mesmo do meu nome. Como uma pessoa em tão pouco tempo conseguiu me deixar fora de si?
- E como veio parar aqui, nesse escritório de advocacia? – recuperei minha sanidade mental a tempo.
- Acho que já deve saber da minha história – ele desviou os olhos de mim, preferiu encarar o teto. – Meu pai com certeza já contou ou o meu caso rolou na boca do povo do escritório.
- Eu não soube de nada, e sobre a vida pessoal do Dr. Joseph, não costumo me envolver. Comigo é restritamente profissional.
olhou profundamente para mim, uma expressão estranha no rosto, como se tivesse acabado de descobrir algo de extrema importância.
- Um dia te conto.
Trocamos sorrisos cordiais e na mesma hora a porta se abriu. Senhor Joseph entrou na sala e talvez sentiu um clima de intimidade entre eu e seu filho, por isso mostrou aquela expressão séria que sempre fazia quando não gostava de algo.
- O que ainda faz aqui, ?
- Eu só vim para saber se o Dr. iria precisar de mim.
- Seu expediente encerrou. Pode ir.
- Com licença.
Antes de chegar à porta, teve a audácia de piorar o clima.
- Amanhã conversamos mais, .
Apenas fiz um gesto positivo com a cabeça e saí o mais rápido que pude dali. Doutor Joseph detestava quando eu tratava alguém da sua família com intimidade. Inúmeras vezes eu notei a cara que ele fazia quando Lauren ia visitá-lo e trocávamos pequenas saudações.
Saí daquela sala mais perdida do que quando entrei. No saguão do prédio já me esperava com uma cara de poucos amigos.
- Onde estava que demorou tanto?
- Estava na sala do meu chefe – saímos em passos largos no meio da rua.
- Demorou tanto que pensei que estivesse pagando um oral pra ele – nos esquivamos das pessoas que estavam na nossa frente –, mas aí lembro que você é a pessoa mais santa do mundo dentro daquele escritório.
- Quando eu te contar o porquê estava lá você irá entender.
- O que ele te fez? Até o horário do almoço, você estava detestando trabalhar para o filhinho de papai.
- Se eu te disser que as aparências enganam você vai acreditar em mim? – parei no meio do fluxo de pessoas na calçada, até um cara que vinha fazendo sua caminhada nos xingou.
- Que porra é essa? – tinha a boca suja e chamava palavrão sem saber onde estávamos.
- Advinha quem é o filho do meu patrão?
- Nem vou tentar chutar. Fala logo.
- O guitarrista daquele pub londrino.
- O QUÊ?
Olhamos ao nosso redor. As pessoas continuavam andando como se não tivessem ouvido nada, estavam alheias à nossa situação. Voltamos a caminhar em silêncio, com certeza estava pensando em algo até lembrar:
- Faz sentido. O me contou certa vez que ele e os amigos foram à Londres para tentar a carreira de músico.
- Mas o que o veio fazer aqui? Ele tocava tão bem no pub que acho impossível uma pessoa largar a vida que estava gostando para viver no tédio.
- Bom... Até onde eu sei e o que o povo comenta no escritório... – sempre foi a curiosa e não perdia uma roda de conversa para saber o que acontecia no nosso local de trabalho – É que o cara voltou porque o Doutor Joseph foi lá e que cortou toda a mesada. A família dele odiava essa vida que o levava. Claro que Joseph não admitiria ver os filhos dos sócios tomarem conta da empresa. Com a Lauren não se pode contar, porque aquela ali nem faculdade de Direito fez e vive morrendo de depressão. Então, nada mais brilhante do que deixar o filho na pior em outro país e fazê-lo voltar, a ter que aceitar perder suas ações na sociedade quando viesse a se aposentar.
sempre foi brilhante quando usava o raciocínio. Ela estava totalmente certa, claro que eu tinha notado que não estava ali por livre e espontânea vontade, era como se estivesse indo para a forca. Continuamos conversando enquanto cada uma pegava sua condução para voltar pra casa e, já no caminho, eu refletia sobre meu dia. Tinha começado ruim e deu uma melhorada. Aquele olhar de , sua vontade em querer que eu se lembrasse dele. Senti-me uma adolescente quando gosta da escola nova e não vê a hora de o dia seguinte começar para ir saltitante.


’s POV

Assim que saiu da sala, fiquei com meu pensamento perdido. Estava feliz por ela ter se lembrado de mim, a serenidade de sua voz tinha me acalmado e me deixava em um estado estranho e louco de querer ir atrás dela, oferecer carona, saber onde morava e ficar horas seguidas conversando com a mesma.
- Espero que tenha gostado do primeiro dia de trabalho.
Fui acordado dos meus pensamentos com a voz do meu pai e só retornei à realidade ali, vendo-o de frente para mim e com sua pasta de couro nas mãos.
- Sim. Foi um dia bom e divertido – levantei-me.
- Vamos para casa. Raul está nos esperando lá embaixo.
Eu não conseguia me abrir com meu pai, algo me bloqueava. Então, jamais poderia perguntar como era trabalhar com , se ela era realmente aquilo tudo que havia contado. Ao lado do meu pai eu ficava apenas no piloto automático, observando o que ele fazia do meu lado enquanto Raul nos levava para casa. Atendeu uma ligação e saiu do veículo ainda com o celular contra seu ouvido, estendeu a pasta de couro para uma das empregadas que abriram a porta e foi direto para seu escritório.
Eu precisava desabafar minha felicidade com alguém e ninguém melhor do que Lauren. Bati em sua porta e recebi autorização para entrar. O ambiente era bem a cara dela, um papel de parede na cor roxa, alguns livros na estante e sua cama na cor preta. Iron Maiden já tomava meus ouvidos quando fechei a porta atrás de mim e a mesma baixou o volume.
- Como foi o seu dia, Doutor ? – tinha sarcasmo no seu tom de voz e baguncei seu cabelo propositalmente enquanto sentava no sofá.
- Foi um saco – olhei para aquele quarto e lembrei-me dos olhos de . – Mas também foi legal.
- Hummm, esse sorriso safado não me engana. O que teve de bom por lá? – me cutucou com o ombro.
- Eu, mais uma vez, vi a garota do pub.
- Dessa vez pediu o número do telefone dela?
- Mais que isso... – olhei bem para minha irmã. Lauren era linda, seu rosto transmitia uma paz inexplicável. – Ela é a minha secretária.
- Não acredito nisso! – Lauren se moveu no sofá ao meu lado como uma criança quando vê um doce na sua frente. Lembrei-me que antes de ser minha secretária, já tinha trabalhado com meu pai.
- Acho que você deve conhecê-la. Ela trabalhava na sala do papai, e com a minha chegada, ele a transferiu para a minha sala.
- Espera... – aqueles foram os piores segundos da minha vida enquanto Laura pensava ou lembrava-se de algo. – Você tá falando da ?
- Ótimo, todos a conheciam, menos eu – rolei os olhos
- Eu lembro que antes de ela pegar férias, eu fui lá no escritório do papai e nos falamos rapidamente. Ela tinha me dito que tentaria obter visto no passaporte para viajar e conhecer Londres.
Senti uma ponta de alegria dentro de mim quando notei que a garota por quem eu estava desejando tinha uma ótima relação com todos que me rodeavam. Talvez se eu fizesse uma pesquisa naquele escritório e perguntasse quem a conhecia, todos fariam a mesma expressão no rosto que Lauren estava fazendo.
- Então é ela – sussurrei mais para mim do que para minha irmã.
- Está gostando da garota?
- Também não é pra tanto, Laurinha. Eu só senti uma atração por ela, vontade de tê-la por uma noite e nada mais.
- Cuidado , você sabe muito bem como é a política da empresa lá do escritório. Seria uma morte lenta e dolorosa se papai soubesse que você quer transar com sua secretária.
O proibido aumentou ainda mais minha vontade de querer saber mais sobre e não só ficarmos na conversa, queria transar, ver aquela bunda maravilhosa sem nada cavalgando em cima de mim enquanto gritava enlouquecidamente meu nome na hora do orgasmo.
- Eu sei disso. Ninguém precisa saber que eu estou comendo minha secretária, não é?
- Safado – ela gargalhou com vontade e em alguns segundos já estava se recompondo da crise de riso. – Falando em safadeza, a me mandou uma mensagem perguntando se você estava com alguém sério. Ela está achando que foi abandonada.
Lembrei-me de . Eu gostaria muito que ela respeitasse esse momento em que estou interessado em uma mulher e que, só depois que enjoasse de , ela viesse a me procurar. Mas como explicar essas coisas para as mulheres?
- Depois eu ligo e marco algo – levantei-me e, no mesmo instante, Maria bateu na porta, abrindo em seguida.
- Crianças, o jantar já está na mesa.

Estava ficando cada vez mais difícil eu esquecer aquele corpo de . Aquela mulher invadia meus sonhos e agora meu *Id a fantasiava em cima da minha mesa no escritório, a saia levantada até a cintura, enquanto eu a fodia com força ao ponto de fazê-la segurar a ponta da mesa. Acordei suado e olhei para o relógio, já passava das seis e meia da manhã. Levantei-me e fui logo para o banho, quem sabe aliviando minha tensão sob aquele jato de água quente eu pudesse encará-la de boa no nosso segundo dia de trabalho. Quando voltei ao closet, olhei para aquele lado de roupas sociais e decidi: não iria mais como um moleque rabugento. Enquanto fechava os últimos botões da minha camisa social, minha mãe surgiu na porta boquiaberta.
- O que fizeram com meu filho? Será que o sequestraram e colocaram outro no seu lugar?
Nossos olhares se encontraram no reflexo do espelho.
- Não exagera mãe.
- O que houve para que, enfim, decidisse acordar cedo e usar roupas decentes?
- Qual é? Não quero chegar naquele escritório e todos me olharem com cara de quem olha para o motoboy – rimos com vontade.
- Estou feliz que está querendo ajudar seu pai; ele vai ficar muito orgulhoso.
A área de Direito ainda era uma das piores para mim; o que me motivava mais a ir para aquele escritório tinha nome e sobrenome. Carne nova no meu campo de visão era como se fosse um pote de água no deserto do Saara.
Tomei meu café da manhã com vários mimos vindos da minha mãe. Meu pai estava ali, mas era como se sua presença nada mais fosse que um corpo. Ele preferiu ficar lendo um jornal a ouvir minha mãe com seus elogios exagerados para cima de mim.
- Vamos . Tenho uma audiência importante hoje à tarde.
Em poucos minutos já estávamos caminhando pelos corredores e indo cada um para sua sala. Mais uma vez, meu sorriso se alargou quando vi sentada por trás daquele balcão e buscando algo em uma das gavetas. Ao notar minha aproximação, ela ergueu o rosto e nossos olhares se encontraram. Era como um ímã, eu tentava desviá-lo, mas estava se tornando difícil. Algo naquela mulher mexia comigo.
- Oi – coloquei minhas mãos em cima do balcão.
- Bom dia – ela sorriu timidamente.
Consegui criar forças e entrei na minha sala. Ela veio no meu encalço.
- Bom, hoje você tem uma reunião com seu pai às nove.
- Mas eu não estava com meu pai até agora? O que ele tinha pra falar que falasse dentro do carro – sentei-me na cadeira.
- Ele quer lhe apresentar para alguns clientes.
- Ah, entendi – demonstrei tédio em apenas uma expressão no meu rosto.
- Depois disso você terá alguns clientes e depois do almoço, por enquanto, não tem nada.
Ela falou em almoço e eu logo me recordei do dia anterior.
- E então, já tem um lugar para almoçar hoje?
- Por enquanto não – notei ela morder de leve o próprio lábio inferior.
- Então marque aí que hoje irá almoçar comigo – recostei na cadeira para relaxar.
- Mas eu nem te respondi se aceito ir.
- Não me deixe na mão mais uma vez. Nem quero resposta negativa.
deu um sorriso tão sincero que senti vontade de colocá-la sentada em meu colo e beijar seu rosto angelical.
- Então com licença, qualquer coisa me chame.
E saiu rebolando naturalmente, mas aquela saia colada em seu corpo era demais para minha imaginação.


’ s POV

Eu não estava acreditando na sorte que o destino estava me oferecendo. Acho até que achei algum trevo da sorte e o guardei em minha bolsa. Era uma notícia boa atrás de outra. Na noite anterior, após chegar em casa e ouvir Michael falando ao telefone com a voz mais suave que tinha ouvido, falou para mim que estava conhecendo uma garota no local de trabalho e que o sentimento era recíproco. Depois de tantos dias de luta, vieram os dias de glória.
Ainda não conseguia entender como estava tão interessado em mim, ou vai ver era somente a forma dele gentil de tratar uma mulher. Seria demais para a minha pessoa se o carinha metido a playboy, gato, rico e filho do meu patrão, estivesse me dando bola. Mas certos momentos eu o pegava me olhando de forma diferente, lançando sorrisos lindos e uma coisa que mais me chamou atenção: ele era atento a tudo o que eu falava, jamais retirava o olhar dos meus, eram sempre fixos como se fosse uma luta interna para conseguir desviá-los.
Fui até a copa, encontrando em seu horário do cafezinho. Não sabia quais eram os gostos do , por isso preferi preparar apenas o meu café e, se caso ele pedisse, eu voltaria.
- Um sorriso tão largo assim logo pela manhã? Me dá a receita.
- Nada demais – beberiquei o líquido cuja cor escura se fundia ao vapor condensado que saía da minha xícara. – Recebi um convite para almoçar.
- Nossa que fina. Quem foi o sortudo?
Estava prestes a abrir a boca quando uma loira linda e que meu santo não batia com o dela desde que entrou naquele escritório surgiu na entrada da copa.
- Oi, você que é a secretária do né?
- Do DOUTOR ? Sim. – Dei ênfase para colocar a vadia no seu lugar.
- Ele já chegou?
- Sim.
- Obrigada. Vou lá – saiu, tentando rebolar e jogar todo o seu charme por onde passava.
Aquela forma de Marília – estagiária e que trabalhava para doutor – falou sobre me incomodou muito. Ouvi o suspiro de e acordei do meu transe.
- O que foi ?
- Uma coisa que me esqueci de te contar. Segundo o boato que rola aqui no escritório, Dr. e a Marília estão tendo um caso. Dizem as más línguas que eles estavam juntos ontem no horário do almoço.
O cara mal tinha chego e a Marília já estava tomando posse? Bem que notei o sorriso de felicidade do meu atual chefe quando o mesmo voltou do almoço.
- , se importa de conversarmos mais tarde?
- Depois do expediente?
- Não, no horário de almoço.
- Mas você...
- Vou cancelar. Preciso te contar sobre meu irmão – lancei o sorriso mais forçado de toda minha vida quando usei como estratégia a vida pessoal de Michael.
- Tudo bem. Vai lá.
Ao voltar para minha recepção, eu senti meu estômago embrulhar. A porta da sala de estava aberta e com trocas de risos, na frente de sua mesa estava Marília sentada em uma das cadeiras, com as pernas cruzadas, lançando todo o charme para ele. Fui para o balcão e tentei me controlar para não bater naquela loira oxigenada... Mas, porque essa minha revolta? não era nada meu, era apenas meu patrão que tinha uma simpatia com todos ao seu redor.
Olhei as horas. 09h05min. Ele já estava atrasado para a reunião com seu pai. Momento propício para acabar com aquela alegria toda da estagiária. Liguei para sua sala.
- Alô?
- Doutor , a reunião com seu pai é agora.
- Obrigado, . Já estou saindo.
Esperei e, após um minuto, ele saiu em passos lentos, conversando com Marília. Tentando entender a posição dele, interpretei que o mesmo estava tentando finalizar uma conversa que ela ainda insistia. Após muitos sorrisos falsos, ela foi embora. Na hora em que ele passou por mim, eu interrompi seus passos com minha voz.
- Doutor, infelizmente nosso almoço será cancelado. Eu recebi um telefonema do meu irmão agora a pouco e irei encontrá-lo no horário que ele poderá vir, que é justamente meio-dia.
Senti algo estranho entre nós. parecia ter ficado indignado ou chateado com aquela notícia.
- Tudo bem, . Marcamos para outro dia. Com licença.


’s POV

Meu corpo estava naquela reunião, porém meu pensamento estava em outro lugar, mais precisamente na cena que ocorrera naquela manhã. Não conseguia entender porque mudara abruptamente comigo, seu humor simplesmente agora era outro; a mesma me olhava como se eu tivesse feito uma merda muito grande.
Conseguia ouvir meu pai falar, mas é como se estivesse em outra língua cuja eu não entendia o significado. O que eu me limitava a fazer era sorrir e baixar a cabeça como se estivesse tímido a algum elogio que o coroa estava fazendo. Talvez realmente estivesse preocupada com algo que o irmão dela teria a dizer naquele almoço e eu estou me comportando como uma putinha emotiva.
- ?
Pisquei os olhos algumas vezes para acordar do meu transe.
- Desculpe, eu estava perdido em algumas ideias.
- Isso acontece, mas ouça o que os Oliveira têm para lhe ofertar.
Como minha área era empresarial, estávamos diante de três donos de uma fábrica muito conhecida na cidade e que iriam querer meus serviços. Falaram que haviam mandado a proposta no dia anterior e lembrei-me daqueles papéis em minha mesa que não li sequer um.
- Eu analisei sim a proposta, mas como sabem, nossa empresa é muito consultada. Tenho outros contratos.
- Então peço que analise a nossa. Estamos precisando de um advogado com urgência, mas não queremos contratar diretamente para trabalhar na nossa empresa.
- Entendi. Querem algo 'terceirizado'?
- Quase, mas por ora é isso – levantaram-se e eu fiz o mesmo para apertar a mão de cada um deles a fim de cumprimentar. – Se precisarmos iremos lhe mandar um e-mail.

Após as despedidas e eles saírem da sala do meu pai, o coroa sorriu com satisfação. E eu achando que levaria um sermão daqueles por ele desconfiar que não tivesse lido uma página daquele cacete de contrato.
- Agora percebo que fiz o certo em te trazer para a Smith & Perez. O que você fez foi certo, precisamos nos dar valor e demonstrar que outras pessoas gostam dos nossos serviços.
- Eu sei – olhei o relógio e notei que faltavam alguns minutos para meio-dia. – Se me permite, vou almoçar.
Despedi-me do meu pai e saí. Na recepção, aquela loira peituda que trabalhava para ele me encarou e contornou os próprios lábios com a língua. Óbvio que meu pau começou a ficar duro e imaginei fodendo a safada naquele balcão mesmo, mas sorri e segui adiante. Antes de ir para minha sala, fui até a de . A amiga de já se arrumava para sair.
- está?
- Sim – com um olhar amigo entendi que ela estava me passando confiança para entrar sem pedir autorização.
E ali estava o mesmo de sempre: ocupado em meio a tantos papéis, falando em voz alta como se estivesse encenando.
- Será que essa puta safada tem tempo para uma rapidinha?
Ele ergueu o rosto e gargalhou enquanto relaxava na sua cadeira.
- Entra aí, .
- Estou com pressa e com fome. Tem hora marcada com alguém para almoçar?
- Não – ele olhou as horas no seu Rolex. – Vamos.

No caminho ainda passei em minha sala e vi que não estava mais ali. Descemos e fomos para o mesmo restaurante que eu estava no dia anterior. Enquanto o pedido que fizemos não chegava pedimos uma dose de uísque e ficamos calados por alguns segundos até sorrir e perguntar:
- E aí, quer dizer que mal chegou e já está transando com a Marília?
- Quem foi dizer isso? – Eu sabia que precisava lhe dar uma satisfação, visto que no dia anterior Marília falou veemente que estava interessada e lançando todas as fichas para sair com meu amigo.
- Uma coisa você tem que saber: aquele escritório tem muitos olheiros, estão por toda parte. Faça algo e espere a fofoca rolar no dia seguinte.
- Eu só almocei com a Marília e nem foi porque eu a chamei, ela quem se ofereceu para sentar na minha mesa nesse mesmo restaurante – ficamos em um silêncio constrangedor. Por um segundo, eu imaginei que estivesse chateado por eu estar dando em cima daquela estagiária. – Fica tranquilo que nunca vou traçar aquela ali. Mulher de amigo meu pra mim é homem – beberiquei mais um pouco do meu uísque.
- O que disse?
- Ela me contou que está interessada em você, mas que nota que você não.
balançou a cabeça indignado enquanto olhava ao redor. Talvez procurando algum conhecido do escritório para ver se o território estava livre.
- Só te peço para abrir o olho, . Marília já transou com quase todos daquele escritório em pouco tempo que está lá. Comigo ainda não aconteceu porque ela fez a proposta e recebeu um sonoro "não" – ajustou a gravata. – O sonho de todo e qualquer aluno de Direito ou advogado é ao menos uma vaga de estágio na Smith & Perez. Ter seu relatório assinado no final do curso por um dos advogados da nossa empresa é sinônimo de orgulho. Marília não faz nada que lhe peço, não me ajuda nas minutas e fica só circulando nos corredores esperando um cara que lhe ofereça um jantar em restaurante caro, seguido de uma noite em uma suíte de luxo do hotel mais caro da cidade.
Somente naquele momento notei a repulsa de . Eu não conseguia entender como aquele meu amigo nunca aproveitava as oportunidades oferecidas. Com uma mulher como Marília no meu encalço, faria tudo o que quisesse para depois descartá-la, mas meu amigo tinha sua mania de ser romântico à moda antiga.
- – limpei a garganta para minha voz sair mais clara. – Seja sincero comigo, sou seu amigo... Você é gay?
- Vai tomar no cu, . Meu negócio é mulher.
Eu gargalhei tão alto que as pessoas das mesas vizinhas nos olharam com repreensão.
- E porque não pega a Marília apenas para uma noite?
- Ela não faz meu tipo – seu olhar ficou vago em algum ponto daquele restaurante.
Após o almoço voltamos para o escritório. Como era cedo demais, ainda não tinha voltado e preferi ir para minha sala entender aquelas porras de minutas que meu pai tinha deixado comigo. Nada me fazia concentrar, eu ficava pensando se podia convidar mais uma vez para almoçar, e quando vi, meu celular apitou com uma mensagem.

: Olá, sumido! Posso te ver amanhã na hora do almoço?


O destino só podia estar conspirando contra mim. Eu estava evitando sim, só não queria que ela notasse. Seu sexo ainda era um dos melhores que eu havia provado. Fui vago na resposta, confirmando que iria vê-la no dia seguinte e voltei ao meu trabalho.
Aquela tarde se passou estranha, entrava em minha sala apenas para entregar algo e logo saía. No fim do expediente, eu iria perguntar se algo tinha feito para ela ficar tão estranha assim. Olhei no relógio e tomei um susto! Empolguei-me tanto tentando entender aqueles papéis que não percebi que já passava das 18h20min. Precisava falar com minha secretária e, quando me levantei decidido, meu pai entrou pela porta.
- Vamos?
- Eu preciso liberar a .
- Ela já foi. Como eu sabia que não tinha nada para fazer, liberei.
Não havia necessidade de meu pai fazer os meus serviços e liberar , mas assenti e voltamos para casa.

’s POV

Enfim a sexta-feira tinha chegado com um sol maravilhoso. Pelo menos isso tinha de bom, porque meu humor continuava pior a cada passo que eu dava chegando no escritório.
O que tinha para ser bom na verdade fora péssimo! Após o almoço do dia anterior, me evitou e eu fiz o mesmo. O boato que ele e a Marília estavam se pegando aumentavam a cada vez que eu ia para a copa. Cheguei a ouvir que a própria estagiária estava confirmando que eles estavam saindo juntos e que naquela mesma noite tinha recebido uma proposta pra jantar com ele. Eu não conseguia entender porque diabo estava tão mal com aquilo. Minha vontade aumentava e eu fazia falas imaginárias para quando fosse ver ele. Queria perguntar se era verdade aquele boato todo; que ele devia tomar jeito e saber que Marília já tinha saído com quase a Smith & Perez toda; que ele era muito superior a uma galinha qualquer.
Não! Estávamos trabalhando juntos há três dias e não cairia bem eu ficar pagando de garotinha mimada que quer o carinha só para mim. Eu iria fazer meu trabalho, como sempre fora e sair de cena caso ele viesse a mais uma vez tentar me deixar confortável com suas piadinhas engraçadas.
Voltei para a recepção da sala dele e fui checar os e-mails, achando um da fábrica dos Oliveira; eles queriam ter uma reunião no fim da tarde com . Pensei no meu chefe e o mesmo entrou com aquele sorriso perfeito.
- Bom dia, .
- Bom dia.
Ele entrou na sala, mas seu cheiro ficou impregnado naquela recepção. Era um aroma delicioso. Imaginei cheirando seu pescoço e sussurrando palavras loucas enquanto segurava firme seu pênis. Acordei assustada comigo mesma e saltei do meu banco, indo até a sala dele.
- Hoje pela manhã você não tem nada, o senhor Rick enviou um e-mail marcando uma reunião à tarde. Posso confirmar?
- Em plena sexta-feira? – ele jogou-se na sua poltrona atrás da mesa. – Alguém precisa saber o que é descansar de verdade. E quem é esse cara?
Meu riso foi involuntário quando olhei para o tablet em minhas mãos. realmente não prestara atenção na reunião do dia anterior.
- Rick é um dos donos da Fábrica de chocolate.
- Puta que pariu! – colocou as duas mãos no rosto – Eu sequer li aquele cacete de contrato.
Meu chefe definitivamente não tinha nascido para aquilo, ainda se comportava com um playboy sem responsabilidade alguma. Isso eu tinha que admitir. Dei um pigarro para aliviar e minha voz sair mais clara.
- No contrato não tem nada de mais. Eles só querem contratar o serviço da Smith & Perez, e como você é da área empresarial, eles só querem assinar um contrato de seis meses e caso dê certo, um ano ou mais.
- Mas quem porra vai querer um contrato com um advogado? É tão simples chegar aqui quando precisar e pronto, cacete!
- Geralmente isso é comum aqui na cidade. Eles fazem isso para caso, no futuro, algum funcionário vir aqui e procurar o nosso serviço. Até porque não teria a mínima condição de você pegar o mesmo caso de ambas as partes em uma audiência.
deixou o queixo cair um pouco, impressionado com minha explicação. Claro que me senti nas alturas por vê-lo maravilhado com a minha posição.
- Faz sentido – ficou me olhando por longos segundos. Depois, ficou tenso.
- Se me der licença, vou para a recepção.
- Tudo bem.
Justamente naquela sexta, a sala de ficou bem movimentada. Olhei para o relógio e, como não sabia se ele iria me convidar para almoçar, não combinei nada com . Uma linda menina apareceu no meu balcão.
- Oi. O está?
- Doutor está atendendo um cliente. É algo de urgência?
- Não. Eu vou esperá-lo aqui, mas quando o cliente dele sair, fala que a namorada dele está esperando?
Acho que minha expressão estava mais que assustada. O que aquele cara tinha para ter tanta mulher no seu encalço? Só podia ser mel em alguma parte do seu corpo. Confesso que senti minha pressão cair quando algo fez sentido em minha mente nervosa. A tal garota que estava ali folheando revista, era nada mais, nada menos, que Perez. Sim, a filhinha de papai que eu via nas fotos de doutor . E como resposta, eu liguei uma coisa à outra. Ela era namorada de sim, a família dos dois eram praticamente as donas daquele império todo. Agora voltando à minha sã consciência entendi que toda aquela forma carinhosa do meu chefe era somente por educação ou simpatia.
Assim que o cliente saiu, nem deixou avisar por telefone sua entrada, foi logo abrindo as duas portas e fechando-as atrás de si. Ali entendi bem o que iriam fazer e vi que já passava do meio-dia. Anotei um recado informando minha saída na hora de almoço em um post-it e fui embora aproveitar minhas duas horas de folga.

Fiquei circulando pelas lojas, tentando me distrair no horário de almoço. Eu quase não toquei na comida, teve um compromisso, por isso não podia ficar comigo e até agradeci. Como eu iria confidenciar para ela que estava arrasada por ser tão filho da puta ao ponto de ter uma namorada e uma amante? Tão novo e tão galinha. Com certeza puxara ao pai e isso era o meu carma: aturar chefes safados que usavam seu dinheiro para o sexo.
Ao voltar fiquei revendo algumas coisas que faltavam. Queria deixar tudo em ordem para meu fim de semana não ter ninguém me ligando e perguntando onde eu tinha deixado alguns arquivos. Antes mesmo de voltar do seu horário de almoço, o Senhor Rick já estava lá, pontual como sempre. E quando ele chegou apenas trocamos olhares. O meu, completamente arrasada; já o dele, como se tivesse compreendendo que fizera algo de errado para mim. Logo, tanto , quanto o seu cliente sumiram do meu campo de visão e a reunião se esticou por duas horas. As outras duas seguintes se trancou em sua sala e, já notando que ele não sairia tão cedo dali, fui até lá.
- Doutor, se me permite, estou saindo. Já passam das seis horas.
- Eu não entendo nada disso aqui – falou, sem olhar para mim. Estava perdido naquele papel.
- O que está entendendo? – me aproximei da mesa.
- Nada! Esse é o problema. Rick trouxe isso, um funcionário deles está ameaçando a firma por ter sido demitido por justa causa.
- Espere. Posso ler?
- Claro. Senta aí – ele estendeu os papéis para mim.
Sentei-me e fui analisar. Enquanto fazia isso, notei o quanto ficava à vontade comigo; estava largado na sua poltrona, descansando e com os olhos suplicando por minha ajuda.
- Nossa, aqui são relatórios das faltas desse funcionário. Ele faltou vinte dias em dois meses? Está mais do que justo a demissão por justa causa.
- Eu não consegui entender isso. O que foi que você fez?
- Nada. Eu trabalhei um bom tempo com seu pai e, na falta de estagiários, eu quem lia as minutas ou documentos redigidos.
- Você é boa no que faz.
Aquele tom de voz que ele usou, praticamente dois tons acima do sussurro, me fez imaginar coisas. Minha pele se arrepiou e eu tentei focar no papel diante dos meus olhos. Ele batucou na mesa e dessa vez falou em um tom normal.
- E aí, quando vamos almoçar?
- Olha, doutor – sentei-me direito, queria desde já deixar bem claro que eu não era uma 'Marília da vida'.
- Espera, porque está mesmo me chamando de Doutor ? Qual foi o nosso combinado?
- Eu estou apenas agindo no respeito profissional, afinal, acho que sua namorada não gostaria disso e, no dia seguinte, a porta da rua seria a minha moradia.
- Namorada? Do que está falando? – ele me pareceu surpreso.
- A própria deu ênfase a esse título quando veio atrás de você na hora do almoço.
colocou as duas mãos no rosto, esfregando ligeiramente.
- Não! não é minha namorada. Nós somos amigos!
- Amigos que se encontram intimamente?
- Não, apenas amigos mesmo. Vai ver ela fez uma piada quando falou isso pra você.
Eu senti como se uma tonelada tivesse saído dos meus ombros, um alívio tomou conta de mim que até um suspiro saiu.
- Mas e a Marília?
- Eu só almocei com ela na quarta-feira.
- E os boatos que vocês estavam saindo juntos?
- São apenas boatos. Pegue a agenda que quero que anote um compromisso.
Levantei-me e fui até a recepção, pegando a agenda que usava para marcar compromissos dele.
- Anote aí que no horário de meio-dia, da segunda-feira, tenho um almoço de extrema importância – anotei o que ele tinha me pedido. – Agora acrescente: almoço com a secretária mais linda do universo.
Meu rosto corou e busquei seu olhar. Estava radiante, o sorriso mais lindo que pude presenciar. Algo dentro de mim dizia que era o homem certo para qualquer garota que fosse sortuda.
- Para !
- Tô falando sério. Se você não aceitar meu convite, serei obrigado a te colocar no ombro e te levar forçadamente.
- Eu não vou anotar isso – risquei o que tinha escrito.
- Então me dá aqui – ele levantou-se e tentou pegar a agenda das minhas mãos. Eu estava em vantagem porque a mesa nos separava e com isso me esquivei gargalhando, só parei mesmo quando outra voz masculina ecoou naquele ambiente.
Era a voz do Dr. Joseph!
Ao virar-me, dei de cara com um homem sério e com a cara fechada. Ele com certeza tinha visto nossa ceninha de intimidade.

*Id: Nos estudos da psicanálise e psicologia, o Id é responsável pelos instintos, impulsos orgânicos e os desejos inconscientes.
O id não tem contato com a realidade, pode se satisfazer na fantasia, mesmo que não realize uma ação concreta referente aquele desejo.


Continua...

Nota da autora: Hey lindas – e lindos, vai que né? Rsrsrs. Espero que estejam gostando da minha primeira fic postada no site. Caso tenham algum comentário, chega mais, fiquem à vontade. Caso queiram ou se interessem, me sigam no Wattpad que seguirei de volta: @tamy-nascimento.
Enfim, por hoje é só! Beijos!



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