Autora: Tal Gomes | Beta: Ste Pacheco

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Capítulo 1: I'm on the floor, floor. I love to dance

Falar de mudança comigo era assunto na certa. Eu havia me mudado muito durante toda a vida.
Já que eu não podia juntar todo o dinheiro do meu pai em uma pilha e queimá-lo na frente da casa milionária dele, eu o torrava em viagens, carros, mudanças e qualquer outra coisa que servisse para o meu entretenimento. Eu não podia ser hipócrita. O dinheiro dele era sujo e me dava raiva, mas ao mesmo tempo, era o que proporcionava o corforto da minha vida inteira.
Queimar o dinheiro com fogo seria um pecado. Eu preferia fazer isso da minha forma, gastando.
Então, com o propósito de gastar mais daquele dinheiro, me mudei pra Califórnia. Mas aquela não era uma mudança qualquer.
Eu havia decidido parar de viajar sem rumo e tomar um caminho concreto. Pensando nisso, realizei matrícula na Escola de Artes do Estado da Califórnia. O lugar era um céu para os californianos mais afortunados. E eu não falo de afortunado no sentido monetário, mas no intelectual. A grande massa artística do estado se juntava ali para estudar, aprender e simplesmente fazer arte. E aquilo era sensacional!
Juntei minhas malas no canto perto da cama que ficava mais perto da janela. A vantagem de chegar cedo estava em poder escolher o lugar de dormir. E eu era muito ligado em dormir olhando para o lado de fora, para as estrelas; costume de quem morou a vida inteira na cobertura de grandes prédios.
Me joguei com tudo na cama e fechei meus olhos, tentando acostumar meu corpo ao colchão e ao cheiro do ambiente. Eu fazia aquilo em todas as mudanças. Apenas fechava os olhos e tentava absorver cada detalhe. Às vezes me pegava imaginando o que os antigos moradores faziam naquele cômodo, se eram felizes, se eles se comportavam parecidos comigo.
O cheiro evidente de fumo me deixou ter certeza de que pelo menos um dos antigos moradores daquele quarto tinha o mesmo costume que eu. Sorri ao lembrar da minha pequena bagagem alojada na parte mais funda da mochila. Não escondida, porque eu não tinha mais de quem esconder nada desde que minha mãe declarou que eu era adulto o suficiente para deixar de achar que tinha poder sobre meus atos, mas bem guardada. Eu era zeloso em relação aos meus pertences e não seria diferente com algo responsável pelos meus melhores momentos de relaxamento.
Não pude contar quantos minutos se passaram até ouvir a porta sendo aberta e um moleque passar por ela. Ele tinha uns dezesseis anos, não mais que isso, embora eu achasse estranho alguém tão novo estar na faculdade. Ignorei.
- Oi - ele falou, enquanto se atrapalhava totalmente em colocar as malas pra dentro do quarto. - Ah, merda, esse quarto fede a maconha! - ele falou, resignado, finalmente conseguindo entrar sem quebrar nenhum membro do corpo ou arrancar algum tijolo da parede.
- Oi - eu levantei da cama pra ir apertar a mão dele, ou dar um abraço, talvez. Não estava acostumado ao lugar e não sabia como as pessoas se tratavam. Apenas me aproximei e deixei que ele tomasse a iniciativa.
O garoto me abraçou rapidamente, aquele típico tapinha nas costas que eu achava bem cruel de tão falso. Depois disso, se virou pras próprias malas e as colocou na cama que restava no quarto, me ignorando. Ri de lado, entendendo o tipo de tratamento das pessoas ali, e voltei à minha cama enquanto ouvia ele reclamar da pouca quantidade de luz e vento que a dele receberia, por estar no lado oposto da janela e perto demais da porta.
- Eu nem me apresentei direito - ele falou, quando todas as malas já estavam em cima da cama. - Meu nome é . Eu vim de Washington. De onde você veio?
- De todos os lugares - respondi, seco. Ele não havia sido agradável no início e eu não estava com vontade de ser agradável em troca. - Você tem vinte e um anos, ? - eu perguntei, ao notar que ele tirava uma garrafa de cerveja da bolsa.
Eu nunca me importaria em ter uma garrafa de bebida dentro do quarto, mas preferia ficar bem avisado caso alguma supervisão acontecesse e eu tivesse de responder por aliciamento de menores ou qualquer coisa do tipo.
- Recém completados - ele afirmou com um sorriso bem grande e infantil, sem se importar com minha resposta enviesada.
começou sua arrumação no local e ele fazia muito barulho; eu não estava mais conseguindo me concentrar à adaptação de ambiente, nem mesmo tentando bastante. Então eu desisti de ficar deitado no colchão nu e tratei de organizar as minhas coisas também.
Cobri meu colchão, joguei as roupas de qualquer jeito dentro das gavetas da cômoda e distribuí meus livros pela estante na parede oposta, com cuidado para deixar a metade de vazia para os livros dele ou qualquer coisa que ele quisesse colocar lá.
- Você vai pra festa? - ele me perguntou.
- Não sabia que teria uma.
- A escola dá uma festa todo início de ano letivo. É pros veteranos e calouros se integrarem ou algo do tipo. Pensei que eles falassem a todo mundo na hora da matrícula.
- Eu fiz a minha por internet - assumi.
Ainda estava em Portugal quando entrei no site da Escola de Artes e decidi que era para lá que eu iria. Portugal foi a fuga das minhas últimas férias. Na verdade, eu estava de férias desde a formatura da escola, sem nenhum rumo na vida. Dedicava grande parte do meu tempo livre às garotas que conhecia, bebidas, festas e filmes.
Eu amava os filmes.
Desde criança tinha certa adoração pela forma com que os atores entravam em cada personagem e viviam aquilo de forma que parecesse real. Quantas vezes me vi repetindo O poderoso chefão, O exorcista e Laranja Mecânica só por repetir? Só para entender a fundo como uma pessoa comum podia se tornar um mafioso, um padre, um demônio... Fixava meu cérebro imaginar quanto tempo eles gastavam gravando cada cena, repetindo quando dava errado.
Por isso, eu decidi que seria cineasta. Me inscrevi no curso de cinema da Escola de Artes da Califórnia porque ela tinha os melhores conceitos na academia e na boca das pessoas. Grandes nomes haviam saído de lá e eu imaginei que, um dia, eu poderia ser um desses grandes nomes, em vez de gastar meu tempo e dinheiro apenas com diversão.
Quer dizer... eu podia ter um pouco de farra, contanto que não fosse apenas isso. Eu não me conformaria em ser igual ao meu pai. Nunca.
- Ah. Mas é assim: hoje à noite todos teremos que estar no salão principal às dez da noite se quisermos ser alguém aqui dentro. Não acho que seja uma boa ideia faltar a primeira chance de socializar e conhecer alguém. Eu já conheço alguém, mas acho que você vai precisar.
- Eu não preciso conhecer ninguém pra ser alguém - ele, definitivamente, não sabia quem eu era. Não que eu me importasse, claro. Outra razão para eu ter ido tão longe de casa era o desconhecimento. Ali eu não era filho do meu pai, eu era apenas eu: .
- Aqui você precisa - ele continuava dobrando cuidadosamente as próprias roupas antes de colocá-las na gaveta. - Ou conhece alguém, ou vai ser um estranho pelo resto do curso. Pelo menos foi o que falou pra mim. Ele conhece uma galera legal e nunca fica sozinho. não é popular, até onde eu sei, mas ele sabe o caminho pras melhores gatinhas.
- E quem é ?
- Ele é amigo do meu irmão; é veterano. Ele está em Música.
- E você, em qual curso está? - eu quis saber. Não havia conseguido criar nenhuma imagem fixa de até aquele momento e aquilo me deixava um pouco agoniado.
- Música também - sorriu bem feliz. - Nunca seria outro.
pendurou posts na parede e eu conseguia entender melhor a personalidade dele a cada minuto, ótimo! Dividir o quarto não era algo tão normal pra mim, eu era filho único. Pelo menos virei, depois do que aconteceu com a minha irmã no acidente do verão de dois anos atrás. De toda forma, eu nunca precisei dividir quarto com a minha irmã, então meus pertences e minha bagunça tinham espaço e liberdade total. parecia um cara organizado e eu já previa brigas ao longo da nossa convivência.
Acima da estante dos livros, ele colou um post com a figura de uma águia. Era um bicho altivo e espaçoso que combinou direitinho com o meu velociraptor de boca aberta. Eu coloquei meu post ao lado do dele. E não, eu não estava implicando. É só que o dinossauro combinou mesmo perto da águia. Era como se o pássaro estivesse voando diretamente para onde o velociraptor esperava.
Até mesmo sorriu quando viu.
- Você não me disse seu nome.
- - respondi. - Vim de Chicago e estou na turma de Cinema.
- Pensei que só eu tinha fugido de casa - ele brincou, sem saber o quão verdade aquilo era pra mim. - Não tinha um curso pra você por lá?
- Até tinha - eu respirei fundo, decidindo se ia abrir espaço pro pirralho ou não. - Mas não tinha paz - decidi ser maleável. - E o curso não é tão importante quanto paz. Então quanto mais longe de casa, melhor. E você? Por que tão longe de casa?
- Meu irmão se formou aqui e eu quis seguir o mesmo caminho.
- Seu irmão também fez música?
- Não, ele fez fotografia. Mas a Escola é boa e ninguém pode negar. Além do mais, foi mais fácil entrar aquilo por influência dele, então eu não tenho muito do quê reclamar.
- Entendi.
Nós continuamos em silêncio organizando as nossas coisas. Eu tentava pegar influência na simetria de , mas só de imaginar dobrar todas aquelas roupas que eu já havia jogado na gaveta, meus olhos pesavam. Eu podia deixar aquilo pra depois, e deixei.
- Você vai à festa? - ele quis saber.
- Você já conhece algumas pessoas, não é?
- Na verdade, eu só conheço e umas amigas dele falaram comigo pela web cam; ele, sim, conhece bastante gente, por isso não quero deixar essa oportunidade passar.
Pensei na possibilidade.
Eu não odiava festas, pelo contrário, gostava muito delas, mas eu não costumava me sentir à vontade quando estava sob pressão. Aparentemente, ou eu fazia alguma amizade naquele evento ou seria um solitário pelo resto do curso. E a probabilidade de conhecer as pessoas erradas naquela noite me deixava meio sem vontade. Mas não negaria.
Era apenas uma festa de recebimento, nada demais poderia acontecer ali.
- Em que tipo de gente você acha que a gente vai esbarrar?

disse que eu não precisava me arrumar muito porque ninguém dava muita bola pra essa festa, por ela acontecer dentro do prédio dos alojamentos, então eu peguei a primeira bermuda xadrez que vi dentro da bagunça na gaveta e vesti com uma camisa qualquer. Mas é claro que eu errei em confiar nele.
Antes de qualquer coisa, aquela não era uma afirmação de primeira mão. O tal amigo do , , é quem havia dito pra ele não se importar em se arrumar. E depois, eu só descobri na festa que era o cara mais sem noção que eu poderia conhecer, e que, para ele, tanto fazia vestir smoking ou roupa de banho.
Que seja...
Tinha gente até pendurada nas janelas, sem brincadeira. O salão do alojamento era um espaço grande e alto, estava decorado com azul e vermelho, que eram as cores da escola, e tinha um globo bem brega e chamativo no meio da pista de dança, onde alguns estudantes levantavam copos cheios de qualquer coisa alcoólica e se jogavam na música.
Aquela multidão, aqueles sons e luzes... aquilo era confortável pra mim. Era como eu gostava de me divertir, então, seria realmente legal se eu conseguisse fazer uma rede de contatos para ter companhia suficiente e curtir as próximas festas.
andou diretamente até uma mesinha que estava no canto do salão, em um lugar meio escuro. Ele parecia meio tímido, mas não se deixou abater e caminhou todo metido a confiante até chegar perto do grupo na mesa.
- , cara! - ele abraçou o outro cara de uma forma extravagante, ou talvez eu só tenha achado extravagante comparado ao tipo de cumprimento que ele me deu mais cedo. - Cheguei!
- ! - ele gritou por causa da música, em meio a um sorriso grande. - Meu garoto, você chegou! Pessoal, olhem só pra ele! , cara! Você chegou!
Eu nunca havia presenciado uma festa tão grande por causa de um mero reencontro. Percebi que californianos eram receptivos. Bem, eu não sabia se era californiano, mas talvez somente o fato de viver ali podia estar fazendo aquilo com ele. estava meio vermelho.
Duas garotas dividiam a mesa com . Elas levantaram para abraçar e eu já teria começado a me sentir excluído se uma delas não tivesse virado pra me cumprimentar.
- E quem é você, estranho?
- Oi, eu sou . E você? - não dei muito tempo pra ela pensar antes de se ver abraçada por mim. Eu precisava tirar a dúvida e ter certeza sobre como as pessoas se tratavam naquele lugar.
- , mas pode me chamar de - ela sorriu pra mim e pronunciou as sílabas do apelido cuidadosamente. - , seu mau educado, você nem apresentou seu amigo.
- É meu colega de quarto. Ele está em cinema - ele falou, após se soltar do abraço da outra garota; e ela se virou para mim ao fim da frase de .
- Você é de cinema? - ela perguntou, empolgada e eu assenti. - Que mágico! Você já assistiu 'A invenção de Hugo Cabret'? - se não estivéssemos em um ambiente escuro, eu poderia jurar que os olhos dela estavam brilhando.
- Claro. É incrível!
Minha frase foi cortada por e , que encheram o momento de piadinhas voltadas para a garota.
- Mas já está falando desse filme de novo? - brincou.
- Deixa, . É melhor ela falando do que assistindo. Eu não aguento mais aquele menininho na linha do trem, achando que vai ser atropelado.
- Vocês dividem o quarto? - eu perguntei a .
- Um quarto e um gato - ela me respondeu.
- Uma gata - a garota corrigiu. - Chloe é confusa por sua culpa, , que vive chamando a coitadinha de gato.
- Gatos não se importam com gênero ou qualquer outro elemento da gramática.
- Talvez gatos, não, mas gatas se importam.
Elas continuaram numa disputa acirrada sobre a sexualidade do felino então passou na frente das duas e veio até a mim, me cumprimentar. - Bem-vindo, cara! - ele disse, me dando um abraço mais rápido que o de e mais lento que o de . - , não é? - ele perguntou, e eu confirmei. - Então... eu vou logo te avisando que se daqui pro fim do semestre você não enlouquecer com as frescuras do , se considere um vencedor. Dos grandes.
- Muita frescura, é?
- Ele é todo organizadinho e tem um boné ridículo com a expressão 'Meow'.
- Jogo fora na primeira oportunidade - prometi, fazendo rir daquilo.
- Ninguém toca no meu boné - se defendeu, chegando junto de nós dois.
e a outra garota (que foi embora sem me dizer seu nome) saíram na direção da pista de dança e, embora eu estivesse prestando atenção em e conversando bem ao meu lado, também desviava para as duas dançando livremente.
Elas pareciam deslizar por ali e, mesmo que a música nem sequer fosse calma, eu absorvia os movimentos em câmera lenta. Era lindo! E eu não falo isso da forma sensível e delicadinha que meninas costumam falar. Eu digo que era lindo porque era mesmo. Era como se as garotas não tivessem os ossos que impedem o corpo de mover pra todos os lados. Era quase como a Shakira.
Mas Shakira... Ah, Shakira!
Elas tinham uma leveza, um tipo de balanço que as pessoas normais não tinham e quando dançavam em sincronia (não coreografia) pareciam me atrair para que eu estivesse lá, no meio delas, apreciando de perto.
Claro que elas nem olhavam para mim, mas eu estava olhando. Estava reparando.
A garota ainda sem nome em especial. O cabelo dela era liso e batia nos ombros, num daqueles cortes que as garotas independentes costumam fazer pra mostrar ao mundo que não seguem tendências. Nos pés, havia um salto alto realmente alto que ela usava para dançar sem se desequilibrar sequer uma vez. Ela girava os quadris ao som da batida, levantava os braços, jogava a cabeça para os lados e tudo isso com os olhos fechados.
Ela era linda!
Com alguns segundos, se dispersou dali e eu fiquei reparando apenas na garota sem nome. Ao redor, as pessoas a olhavam como se estivessem admirados. Não tinha aquela história de um círculo sendo aberto ao seu redor, mas ela ocupava o olhar de muita gente a cada movimento, e nem percebia porque não estava preocupada em reparar. Se ocupava apenas em dançar.
Quando você frequenta muitas festas, acaba perdendo a sensibilidade para reparar em todos os elementos de uma, porque você vê muito de uma vez só. Você vê muita gente bebendo, dançando, se drogando, se pegando, conversando. Quando uma garota bonita dançava perto de mim, meu alerta de homem ligava na hora, claro, e eu percebia quais eram as intenções dela. Mas não havia mais aquele tom de novidade, de mistério, de busca.
O fato é que eu deixei de ver a dança como algo gostoso de se fazer, para ver como algo puramente social. Eu via as pessoas movimentando seus corpos, parecendo empolgados, mas aquilo não me envolvia mais, porque era apenas algo para ser notado.
Mas aquela garota, ela estava dançando com a própria alma. Ela fechava os olhos para quem estivesse perto e dançava seus passos na medida em que o corpo mandava.
Outra característica de quem é frequentador ávido das festas da noite é a experiência. Eu era experiente na matéria de conhecer garotas. Nunca gostei do termo 'pegador' e de como isso fazia as pessoas me verem, mas eu sabia sobre elas. Eu as conquistava porque, quando você conhece algo muito bem, é mais fácil chegar perto. E com essa experiência, eu podia perceber que aquela garota não seria conquistada com os artifícios normais de qualquer outra.
Eu precisava me igualar a ela pra ser percebido.
Claro que dançar não era tão fácil para mim como para ela, mas eu podia fazê-lo. Podia e faria. Se a dança fosse me aproximar daquela garota e do seu corpo estonteante, eu iria dançar.
Comecei a andar em sua direção e meus sentidos foram ficando mais apurados, eu reparei melhor nos outros detalhes de seu corpo que não davam pra ver. Seus lábios eram cheios e vermelhos, acompanhavam a letra da música, mas parecia que era feitiço. Ela poderia estar falando alguma bruxaria para me chamar para perto.
Se fosse aquilo, que continuasse porque estava dando muito certo.
Eu precisava beijar aquela garota.

Capítulo 2: The way that you flip your hair gets me overwhelmed

Ele não estava reparando em mim.
Por mais que eu dançasse da forma que ele sempre elogiou, sem me importar com o mundo, livremente, deixando que meus membros guiassem meu cérebro e não ao contrário, ele não reparava em mim. A cada minuto eu abria os meus olhos rapidamente para procurar por Alef e ver o que ele estava fazendo. E ele sempre estava no mesmo lugar, dentro do seu círculo de amigos, conversando distraído sem escutar meus gritos silenciosos por atenção.
me dizia que eu precisava seguir em frente, mas era difícil, já que eu era uma frustrada.
Com raiva do mundo, voltei a fechar os meus olhos e continuei dançando, dessa vez por mim mesma. Queria gastar todas as minhas energias para ter que cair na cama e dormir até o dia seguinte sem sonho nenhum. Eu não sonhava quando estava cansada. Por isso, me movia durante todo o dia para cair na cama e dormir feito uma pedra, assim eu não teria nenhum sonho com Alef e suas mãos na minha cintura enquanto seus olhos invadiam a minha alma. Não... sem relaxamento, sem sonhos.
Eu estava dançando para cansar.
Senti uma mão na minha cintura e me sobressaltei achando que era Alef, mas mesmo antes de abrir os olhos, eu soube que não era. Aquele toque era desconhecido. Girei ao redor de mim mesma para olhar quem me tocava e vi o tal , colega de quarto de .
- Oi! - ele disse, me cercando e começando a dançar também.
- Oi! - eu respondi, com um sorriso. Precisava ser simpática com os calouros.
- Você dança muito bem!
- Ah, obrigada!
Eu deveria estar acostumada àquele tipo de elogio, afinal de contas, eu era da turma de dança, mas eu não estava. Ouvir alguém dizendo que eu dançava bem era como ouvir dizerem que eu era bonita, esperta, inteligente... O tipo de elogio que sempre agradava.
- Você também manda bem - era verdade. Ele não tinha técnica nem muita leveza, mas sabia se mexer.
sorriu bem abertamente e se afastou um pouco de mim para dar um giro lento de trezentos e sessenta graus, rebolando como uma funkeira.
- Reparou? - ele perguntou, voltando à postura anterior.
- Estou morrendo de inveja do seu gingado! - brinquei, parecendo afetada. - Você podia me ensinar.
- Ah, vai ter que ficar na lista de espera porque eu sou um professor muito requisitado.
Gargalhei. Ele era divertido.
- Você não me disse o seu nome.
- - estendi a mão, fingindo um cumprimento formal.
- Pensei que fosse o apelido das pessoas, não o nome. Qual é o seu nome de verdade? - respondeu, apertando a minha mão e aproveitando a deixa para me fazer girar na dança.
- virou meu nome de verdade desde que eu fiz vinte e um anos e fui ao cartório torná-lo oficial. Não gostava do meu nome de verdade; minha mãe não teve muito bom gosto.
- E se eu disser que agora você me deixou curioso?
- Eu vou dizer que sinto muito, mas o passado foi feito pra ser enterrado.
Continuamos dançando por alguns minutos. era um cara realmente legal para dançar. Eu sentia que ele devia ser frequentador de baladas noturnas e super acostumado com danças ao meio da pista porque ele me girava, girava a si mesmo, erguia o braço e mexia a cabeça com facilidade, como alguém experiente no assunto.
Era legal dançar com ele.
Mas, naquele minuto, uma música especial começou a tocar, me fazendo lembrar de quem era o meu parceiro, o meu par. Aquele que sempre seria a minha escolha oficial para dividir uma dança.
Me soltei de no momento em que a voz de Miley começou a cantar Wrecking Ball. Deu para perceber que ele não estava entendendo nada sobre eu ter me afastado, mas eu não conseguia me preocupar. Aquela dança não era dele. Era minha e de Alef.
E embora Alef tivesse estado muito ocupado durante toda a festa, eu precisava ir até ele.
- Com licença - pedi a .
Apressei meus passos pelo salão, olhava por todos os lugares, mas não o via. Ele não estava mais na roda de seus amigos, nem nas mesas; não estava no bar. Meu desespero era não conseguir encontrá-lo antes do refrão. Nem que fosse a última vez em que o refrão repetisse. Porque, caso aquilo acontecesse, grande parte do momento seria perdido.
Foi no refrão que aconteceu o nosso momento. O único.
Passamos semanas ensaiando aquela coreografia e no dia da apresentação, todo o tipo de emoção tomou conta do nosso cérebro. O nervosismo, a ansiedade, o alívio por estar dando certo... Aquela sinestesia deixava a nossa dança mais intensa e, quando o refrão tocou pela primeira vez, nossos rostos se aproximaram tanto enquanto nossos olhos se engoliam que eu acreditei que iríamos nos beijar.
Foi isso apenas. Um único momento. E faltou tão pouco! Mais dois centímetros e eu teria conhecido a sensação dos beijos de Alef. Mas a música continuou e nós nos afastamos por necessidade.
Nunca chegamos a falar do assunto e quando o verão chegou, foi como se um caminhão de carga pesada tivesse despejado em cima da cena. Alef estava distante, ele quase não me dirigia a palavra.
E por isso eu era uma frustrada.
O refrão começou e eu me decepcionei.
Depois de rodar tanto, eu desisti de procurar. Alef não estava em lugar nenhum daquele salão, assim como o amor próprio que eu deveria sentir. Eu deveria começar a dar ouvidos ao que minha amiga dizia: eu precisava seguir em frente.
Dei a volta para começar a procurar , mas esbarrei em algo duro e fechei os olhos em reflexo. Mas aquele cheiro eu reconheceria em qualquer situação. Alef sorriu e me pegou pela mão, me puxando de volta para a pista enquanto falava.
- Pensei que não ia conseguir te encontrar.
- Estava te procurando também - assumi. - Mas conseguimos.
As pessoas se afastaram ao nosso redor, nos dando espaço para dançar. Não era porque nós éramos o casal principal do High School Musical, mas porque havíamos vencido o concurso de dança com aquela música no semestre anterior e todo mundo sabia e concordava que nós éramos muito bons. Muito bons juntos.
Alef tocou meu braço e eu o ergui para o céu; ele tocou minha coxa e eu a girei no ar. Tocou meus olhos e eu os fechei. A dança inteira era sobre controle, sobre o controle que ele exercia sobre mim. Engraçado o fato de que eu havia criado aquela coreografia e, na época, Alef não passava de um colega de turma. Eu não imaginava que todo o meu ser entraria de cara no papel e se recusaria a desapegar depois.
Enquanto nos movíamos, eu sentia a sua respiração acelerada contra as partes do meu corpo que entravam em contato com o seu rosto. A minha respiração estava vergonhosa, mas eu sabia que a única coisa que alterava a de Alef era o esforço pelos movimentos.
Uma garota pode se enganar achando que um rapaz tem interesse nela, mas se ele não tem, ela percebe na hora. Ela sabe quando não está sendo cobiçada, sabe quando não está no meio de algo importante. Não havia emoção nos olhos de Alef, não havia desejo ou qualquer outro sentimento escondido. Era apenas uma dança. Para Alef, eu continuva sendo puramente uma colega de turma.
O refrão voltou a tocar, acabou, repetiu e eu soube que aquele era o fim. Não da música, mas da minha história com Alef. A história que nunca havia acontecido fora dos limites da minha imaginação.

me achou no meio da multidão de alunos e saiu puxando minha mão até o local onde o bar havia sido montado. Ela andava rápido entre as pessoas, como se tivesse urgência em falar comigo. Eu parecia apenas um peso morto sendo carregado, minha mente ainda divagando nas implicações daquela dança na minha vida.
- Você não tem noção do que acabou de acontecer no mundo! - ela falou, cada uma das sílabas explicadamente. - Não, tipo... foi algo muito grande, entendeu?
- Acabei de dançar Wrecking Ball com Alef de novo - interrompi. Às vezes eu me sentia muito egoísta por não tratar os assuntos de com a urgência que ela tratava os meus.
- Eu sei e vi. A festa inteira viu. E o que aconteceu comigo está totalmente ligado ao seu mini show - ela falava, enquanto eu pegava um drink colorido com o barman. - Você estava dançando com o menino novo aí, de repente, saiu pra dançar com o Alef. ficou secando por um tempo, depois chegou no e disse que estava afim de ficar contigo. Aí o telefone sem fio começou porque falou pro e veio falar pra mim. Só que o tonto falou assim "Tem um cara querendo beijar uma menina." , eu pensei que fosse uma cantada, sei lá! Tipo, eu sempre achei o uma gracinha, aí ele chega falando isso... - ela ia continuar despejando aquela enxurrada de informações na minha frente, então eu precisei interferir.
- Primeiro: O que você fez? Segundo: ficou afim de mim?
- Ficou! - ela disse, com os olhos esbugalhados. - Pega ele, ! O cara é muito gatinho e vai amar ficar falando de Hugo Cabret contigo... - de novo, continuou priorizando o meu lado da conversa.
- ! - alertei. - O que você fez com o , criatura?
- Eu o beijei! - fechou os olhos e os tapou com as mãos, mas mesmo no ambiente meio escuro, eu pude notar suas bochechas ficando vermelhas.
- BEIJOU ELE? - gritei.
- O que eu podia fazer? Ele falou: "Tem um cara querendo beijar uma menina." Eu pensei que eu era a menina e que ele queria me beijar! Eu parti pra cima!
- E ELE BEIJA BEM?
- MUITO!
- AI, MEU DEUS!
Nós rimos feito duas doidas por algum tempo. Eu não conseguia formar aquela cena na minha cabeça, de e se beijando. Eles se falavam muito e tudo mais, mas eu sequer tinha parado pra pensar no assunto. Sabia, claro, que ela achava ele gostosinho, todo mundo na escola achava, mas eu não sabia que o interesse ia um pouco além.
- Ah - ela continuou. - Mas depois eu o soltei e deu pra notar a cara de babaca surpreso, e eu percebi que tinha feito uma grande bosta.
- Ah, mas... sei lá. Vai me dizer que não valeu a pena ter feito bosta?
- É, sim. Ele é bem empolgado - ela falou, em tom de confissão.
- Empolgado, né? - caçoei da cara de tímida que a minha amiga fez. - To te sacando!
- O fato é que quer te beijar - dei de ombros enquanto ela mudava o alvo da conversa. - E ele está vindo na nossa direção agora mesmo - eu ia me virar para olhar, mas continuou a frase e me deixou sem saída. - Eu vou sair daqui porque não gosto de empatar nada.
Não é que o garoto não era legal, mas eu não estava no clima. Ele queria me beijar e eu só queria ficar cansada para não sonhar.
- Não vai empatar nada, ! Fica aqui! - eu quase implorei.
- Por sua causa, hoje eu já beijei na boca - ela explicou, com uma aparência bem agradecida, a sem vergonha. - Agora é a sua vez, flor. Vai com tudo!
Dito isso, virou as costas e saiu, me deixando à mercê da segunda vez na noite em que chegou perto de mim. Virei para ele quando senti sua mão tocando meu ombro, tentando chamar minha atenção.
- ! - falei.
- ! - ele se aproximou, mostrando que queria voltar a dançar. - Eu confesso que agora fiquei meio encabulado de ter rebolado na sua frente. Eu tinha visto que você dançava bem, mas não sabia que era tanto. Wrecking Ball nunca mais será a mesma.
Para mim não seria mesmo. Não depois de Alef.
- A música é que é boa - eu não tinha o mérito.
- Você também é - ele soltou. - Dançando, eu digo - tentou se consertar, mas o jeito que seus olhos viajaram todo o meu corpo até parar nas minhas pernas descobertas pelo shorts, deixou bem claro que não era da dança que ele estava falando.
Sorri, cética por causa da cara de pau do garoto e resolvi ser bem direta, como ele estava sendo, mesmo que subliminarmente.
- , você é um cara legal, bonitinho e tudo, mas... eu não vou beijar você.
Analisei seus traços enquanto ele digeria minha resposta atravessada. ficou surpreso, mas não boquiaberto, apenas ergueu uma sobrancelha para mim.
- Não quero beijar você - tentei entender o que ele queria então, porque não havia sido aquilo o que a história de tinha dado a entender. - Não agora. Agora eu só quero dançar porque você faz isso muito bem. Posso descobrir depois se você beija tão bem quanto dança!
- Você não entendeu, meu bem! - sorri, só de pirraça. - Não vou beijar você em momento nenhum!
- Tá bom! - deu de ombros com a maior cara de gostosão convencido que não se importa com respostas contrárias às suas. - Mas dançar comigo você não pode negar.
- E se eu não quiser dançar com você?
O garoto ignorou meu fora e segurou a minha mão, me fazendo girar de novo. Ele queria mesmo dançar. Eu queria cansar.
Não podia negar que estava me divertindo, mesmo sendo um bocado metido. Ele estava conseguindo me distrair do assunto dramático da noite. Eu não queria pensar na dança com Alef, evitava lembrar dele me segurando da forma com que seguraria qualquer garota no mundo, na falta de emoção em suas ações.
Enquanto me distraísse, Alef ficaria fora dos meus pensamentos.
Eu iria dançar, suar e deixar meu corpo exausto até não haver nenhuma grama de disposição nem probabilidade de sonhos da hora de dormir.

Acordei querendo morrer.
O resto da noite não era um borrão, mas uma mistura de cenas desconexas e escuras que passava na minha cabeça de trás para frente. Eu dancei com por muito, muito tempo. Contei pra ele o que havia acontecido com e e nós ficamos reparando em como os dois estavam se comportando como bananas quando estavam próximos. falou pra , que falou pra , que falou pra mim que era doida, mas que se ela não ficasse fugindo, a beijaria de novo. Eu mandei parar de fugir, mas tentar colocar alguma coisa naquela cabeça dura era difícil demais.
Quando nós cansamos de dançar, começamos a beber. Eu não tive culpa de não conseguir parar rápido. Havia drinks de várias cores e apostou comigo que conseguiria beber de todas as cores mais rápido que eu. Quando eu venci a aposta, disse que eu não venceria numa aposta com ele. Então eu bebi todos os drinks de novo, mas perdi a aposta porque a garganta de devia ser aberta como o buraco negro. O líquido simplesmente sumia quando ele entornava.
Vinte drinks coloridos depois, voltamos todos para a pista de dança. Todos, exceto , que avisou que ia dormir cedo por causa do trabalho no dia seguinte. O que era mentira porque o dia seguinte era domingo e ela não trabalhava no domingo, exceto se fosse algum caso muito bombástico.
trabalhava com o maior blogueiro da Califórnia. Ele entrevistava as celebridades da música e do cinema que vinham para o estado fazer shows ou qualquer aparição e, quando o chefe não estava disponível, ia atrás dos famosos para fazer o trabalho todo.
Eu a chamava de "A garota das perguntas".
Não sei como cheguei no meu quarto, honestamente. Podia ser que tivesse me carregado, o que não seria a primeira vez, mas eu realmente não tinha como saber porque eu não acredito que estava consciente no momento.
- Sonhou? - aquela vozinha de quem sabe demais me perguntou.
- Arrgh! - grunhi, irritada porque a voz dela me perturbou. Não é que a voz dela fosse irritante, só que eu estava de ressaca e tudo parecia querer explodir meu cérebro. - Sobre o que você está gritando?
- Pensa que eu não sei que você só dançou e bebeu até morrer pra não sonhar com Alef de noite?
- Como é que você sabe dessas coisas? - perguntei, enquanto tirava o travesseiro de baixo da cabeça para colocá-lo em cima, tapando meu rosto dos raios do sol que entravam pela janela ao lado da cama de .
- Sei porque eu sou perceptiva.
- Isso é espionagem ou qualquer outra coisa do tipo.
- Você foge dos problemas.
- E você foge do .
- Ele falou de mim?
De repente, a garota que jogava verdades na minha cara levantou de onde estava e marchou toda empolgada até mim, querendo saber detalhes sobre a noite anterior. às vezes até me enganava; me dizia que estava bem quando não estava, deixava pra resolver pendências depois, mas aquilo era algo que ela não conseguia esconder: felicidade. Era como se ela bebesse energético e fosse diretamente conversar com você. Ela era uma garota muito empolgada.
- Ficou te procurando - tirei o travesseiro de cima da cabeça e resolvi ser uma pessoa normal, mesmo que eu estivesse cheia de dores. - Perguntou por que você saiu cedo, disse que não tinha entendido por que você beijou ele.
- Não acredito! - ela cobriu o rosto com as mãos, mas eu sabia que estava rindo, por causa do movimento dos ombros.
- Aí eu expliquei o negócio da frase lá que você falou e ele entendeu.
Levantei da cama e resolvi que tomar um banho seria a melhor saída pra minha vida naquele momento. Eu raramente bebia e quando o fazia, era naturalmente, sem escândalos. As únicas vezes na vida em que havia ficado bêbada fora por culpa de . Ele me desafiava e dizia que se eu ganhasse, teria direito a vê-lo pagando prendas engraçadas. Eu aceitava os desafios, raramente ganhava, ficava bêbada e ele me carregava de volta pro quarto com no encalço, tirando todas as fotos e gravando os vídeos mais queimação que alguém poderia imaginar.
Nós três sempre fomos muito próximos, por isso estranhei quando chegou em mim dizendo que tinha se agarrado com ele. Imaginar e se beijando era quase como um incesto, mas, como ela não via desse jeito... quem era eu? Eles que se pegassem! Eu daria todo o apoio do mundo!
- Acho que bebeu tanto quanto eu - respondi, um pouco antes de sair do quarto para ir ao banheiro do andar do alojamento em que morávamos.
- E daí?
- Você podia ir lá no quarto dele, levar um cafézinho - caçoei, mostrando a língua.
estendeu a mão até uma altura que fosse confortável para que seu dedo médio se exibisse na minha direção e eu entendi que ela não levantaria a bunda dali para ir a lugar algum. Medrosinha duma figa!

Antes de tomar coragem de deixar meus pais em casa para morar na faculdade, antes de me decidir por aquela escola em curso específicamente, antes de programar os inúmeros detalhes necessários para me mudar, eu tive medo dos banheiros. Eu tive medo de ter que conviver por anos com um banheiro de alojamento sujo, mal frequentado e lotado. Mas eu tive paz ao entrar naquele banheiro e notar que, além de ser limpo frequentemente, ele não vivia cheio.
Como as pessoas passavam mais tempo no prédio das salas de aula, os alojamentos ficavam meio desertos. E naquele dia, por ser fim de semana, muita gente saía pra qualquer lugar. Os que moravam perto juntavam algumas roupas e iam pra casa.
Eu continuava andando menos de cem passos para chegar ao banheiro e tomar um banho quente (quando estava frio) ou frio (quando estava quente) como se aquela fosse a minha casa. E era. Pelo menos durante o período em que o curso durava.
Havia uma voz cantando em um dos boxes do chuveiro. Uma voz bonita, firme e diferente das medonhas vozes iguais que as cantoras do meu país insistiam em ter. Rapidamente, eu reconheci que era a voz de Hannah. Não podia ser outra. Não com aquele timbre e aquele cuidado ao emitir cada nota, mas, ao mesmo tempo, uma naturalidade digna de mestres.
- Aha! Te peguei, passarinho!
Dei uma de pilantra e abri a porta do box onde Hannah estava, sem cuidado algum, só para ver a garota puxar a toalha desesperada e dar um grito de susto, querendo entender quem invadia seu espaço. Depois de coberta pela toalha e vendo que era eu, Hannah voltou a ser Hannah.
- Porra! Que mania de fazer isso! Não precisa, ! Fala sério! Que merda!
Saí de lá gargalhando. Assustar Hannah era muito engraçado porque ela sempre, sempre caía nos mesmos truques.
- Por que você não foi pra casa esse fim de semana? - perguntei, entrando no box ao lado do dela para tomar meu banho. Minha cabeça ainda doía bastante, mas eu tentava ignorar para não ficar parecendo um zumbi.
- Não aguentei. A festa de ontem me deixou acabada.
- A mim também.
Comecei a tirar minha roupa vagarosamente, cada movimento sendo um incentivador de dores. Todo músculo que eu mexia fazia a minha cabeça alarmar como na hora em que acordei.
- Você ficou com Alef?
- Não. Por quê? - desisti de ligar o chuveiro e esperei Hannah falar mais alguma coisa, mas ela demorou, o que me deixou bem curiosa.
- Tinha uns cochichos pela festa, sabe? De que tinha alguém querendo ficar contigo, e eu vi você e Alef dançando, vi sua cara olhando pra ele e, sei lá... eu pensei que vocês tinham se beijado.
Eu nunca havia contado nada dos meus sentimentos para Hannah. Nós éramos colegas de escola e de alojamento, apenas, nem sequer frequentávamos do mesmo curso. Não tínhamos intimidade, exceto pelas brincadeiras e conversas bobas que as pessoas têm quando constroem uma convivência superficial. Por isso, ouvir aquelas frases saindo de sua boca me deixaram alerta. Como ela tinha percebido tudo aquilo?
- Não fiquei com Alef, nem com ninguém - preferi ignorar a parte dos meus olhares pra ele. Hannah não precisava saber de detalhes.
- Entendi - ouvi o chuveiro dela sendo ligado de novo. - Em todo caso, ... não acho que esse ano seja bom pra você investir em relacionamentos.
- O que você quer dizer?
- Minha mãe está bem empolgada pra esse período - ouvir ela falando da mãe me deixou mais alerta no assunto porque a mãe de Hannah era uma das minhas professoras e coordenadora do meu curso. - Semana passada ela me mostrou uns programas novos e algumas coisas que queria tentar com a turma. E você sabe, , que mamãe tem muito apreço por você - liguei meu chuveiro, imitando Hannah. - Eu sei que seu curso é de dança em geral, mas sei também do seu amor por balé. Mamãe percebe isso e quer muito segurar na sua mão pra te ajudar a andar. Durante todo esse ano, é essencial que você saiba escolher suas prioridades.

Capítulo 3: Just smoke my cigarette and hush

A sua imaginação viaja em uma velocidade que os anos e meses não conseguem, por isso existe a ansiedade. Quando decidi sair de dentro da casa de "papai", sofri com os nervos por medo do que o futuro me reservava. Eu tinha dinheiro, claro, mas a falta de informação sobre o que eu faria da minha vida pelos anos seguintes me assombrava.
Por causa desse medo, eu adquiri dois hábitos. O primeiro era o hábito de roer as unhas.
Todas as vezes que eu olhava minhas mãos e via que já saía algum pedacinho de unha branca no dedo, eu o levava à boca e o mordia, triturava, rasgava até que estivesse entre meus dentes; depois eu o cuspia para longe e começava tudo de novo, no dedo seguinte.
O outro hábito não era e nunca foi algo que eu compartilhasse com outras pessoas. Aquilo era sobre a bagagem na parte mais funda da minha mochila, a minha erva.
Aproveitei logo o início da tarde quando disse que passaria um tempo com , conhecendo o laboratório de música da Escola, e desenterrei o resto das coisas que ainda estava guardado. Meu isqueiro pendia para fora do bolso e eu o tirei de lá para colocá-lo em cima da cama, à minha espera. Havia um cigarro pronto dentro do saquinho, apenas um, mas era o suficiente. Usei meu isqueiro como acendedor de sonhos.
Sentei na minha cama, escostado à parede e deixei que, aos poucos, a fumaça fosse tomando conta do ambiente e a substância entorpecesse meu cérebro. Eu procurava não pensar em nada que me aborrecesse, afinal de contas, era pra isso que eu buscava alívio. Não queria lembrar dos problemas com meu pai e com o ego sujo dele, não queria que a imagem da minha mãe tentando me convencer a ficar invadisse meu momento de sossego. Fechei meus olhos e inalei mais uma vez, buscando na cabeça qualquer cena que me inspirasse e trouxesse paz.
E eu lembrei de algo... de alguém. inspirava leveza enquanto dançava. Ela parecia flutuar pelo salão e suas pernas se moviam com tanta simpatia pela música, tanto encanto, tanta mágica... Eu não sabia qual era aquele feitiço, mas suas pernas atraíam minha boca. Eu tive vontade de mordê-las, beijá-las.
Só pude dançar próximo, mas deixei minhas intenções bem claras. E ela não era uma garota boba e teria saído de perto se meu jogo não lhe interessasse. Ela ficou ali... balançando aquelas pernas tão perto de mim, às vezes tocavam as minhas e eu queria tocá-las mais... Tão suaves e firmes ao mesmo tempo.
Começava a sentir meu corpo se dispersando pelo espaço sideral, estava ficando bom; tranquei meus olhos e inalei mais forte do que antes, esperando que, aos poucos, eu chegasse ao estágio mais alto... o êxtase, o espalhamento.
A porta do quarto se abriu e eu dei um salto, tentando, em vão, esconder o cigarro antes que colocasse os olhos nele. Mas, como eu disse, em vão.
cerrou os olhos na minha direção antes de fechar a porta atrás de si e andar, falando.
- Você não deveria fazer isso de porta aberta.
- Não estava aberta - eu disse. Já estava de pé e pensando em uma forma de apagar aquilo sem causar uma tragédia. - Estava fechada e você é que não deveria entrar no quarto dos outros desse jeito - reclamei.
- Se estivesse trancada eu não teria conseguido entrar.
Já estava preparando uma resposta bem dada na direção de quando ele me surpreendeu ao tirar o cigarro da minha mão e o levar na direção da boca, tragando uma vez, de olhos fechados e demorando a soltar a fumaça. Quando ele soltou, parecia alguém que acabara de sair de anos de cadeia, aliviado.
Eu não sabia o que falar e nem havia palavras para o momento.
devolveu o cigarro na minha direção e andou tranquilo até a cama de , onde ele abaixou o corpo e pegou um skate lá de baixo. Eu ainda estava meio estático por ele ter agido tão amigavelmente com a minha cena, mas resolvi que aquilo não era tão estranho quanto eu estava pintando. fumava maconha! Grande coisa! Ele nunca denunciaria alguém por algo que ele também fazia. Eu não tinha motivos pra me preocupar então desisti de apagar o cigarro e fui na direção da minha janela, tragando mais uma vez.
- Mas pode ficar tranquilo porque eu não vou te atrapalhar mais - começou a andar até a porta, mas, de súbito, voltou-se na minha direção. - A não ser que você queira sair.
- Sair pra onde? - perguntei, preguiçosamente.
Aquele lance de conhecer as pessoas certas pra não ser um zé ninguém nos próximos anos me irritava raivosamente. Eu não queria conhecer ninguém por obrigação, queria agir no meu tempo, do meu jeito, nas minhas condições.
- Tem uma pista de skate perto de uma praia que a galera daqui gosta de frequentar. Fica a uns três quilômetros e a gente vai de carro. Estou indo com , , e Hannah. Já tem cinco no carro, mas se a gente apertar você pode ir. É legal lá. Estou levando violão também!
Meu desânimo por causa da pressão deve ter ficado bem óbvio porque bufou e falou, antes de fechar a porta.
- Ou não, você pode ficar aqui e passar o domingo todo fumando quantos cigarros quiser, sozinho. Ninguém te conhece, não vamos sentir a tua falta. Eu só estava querendo ser legal, mas se você não quer, é problema seu.

Não vou dizer que eu fiquei magoadinho porque eu não fiquei, mas, no fundo, fez sentido tudo o que falou pra mim. Eu não queria gastar meu domingo sozinho. Se eu estava ali para começar uma vida nova, teria que me adaptar aos costumes dos meus novos companheiros de percurso. E se a regra dizia que eu precisava conhecer alguém no começo, então eu iria lá e conheceria alguém.
De longe, eu reconhecia , , e se organizando para entrar no carro. A única desconhecida era uma loira magra que estava perto deles, deduzi que fosse a Hannah que falou. Andei rápido até eles, tentando não ser percebido até estar bem perto.
- Ainda tem vaga pra mim? - perguntei, e todos viraram para me olhar.
- Ele vai? - perguntou, parecendo desgostosa.
- Boa escolha, campeão! - disse, enquanto estendia o violão na minha direção.
- , você trancou o quarto? estava me contando que as pessoas daqui costumam invadir quando está vazio.
- As pessoas invadem mesmo quando tem gente dentro - soltei a indireta mais direta do século pra e ele apenas sorriu quando entendeu, sem ligar. - Fica tranquilo que eu tranquei tudo.
- Se apresente, novato! - a loira chegou perto de mim e veio me dando um abraço. A primeira que me tratava bem desde que eu havia chegado, além de , claro.
- Oi, eu sou . Você é... Hannah, certo?
- Isso! - ela disse, me soltando enquanto eu ajeitava o violão embaixo do braço. - Como você sabe?
- falou que você viria.
Hannah sorriu de lado e eu percebi algo em seu rosto, havia intenções esborrando por ali. Provavelmente, a forma com que eu falei a frase fez ela entender que falou que ela iria especificamente, como se para me convencer a ir. Como acontece às vezes, um amigo te diz que uma garota muito gostosa vai a alguma festa e você acaba indo por curiosidade. Hannah deveria estar pensando que era aquilo o que havia acontecido e... convenhamos, não era, mas eu não estava muito interessado em esclarecer os fatos já que ela insistia em lançar aqueles sorrisos carregados de malícia para mim.
- Onde ele vai, ? Na sua cabeça? O carro já está cheio. - perguntou, insistindo em ser desagradável.
- Deixa de ser chata. Eu vou no teu colo e ninguém morre - me defendeu, mas eu não estava pretendendo ficar por baixo naquela história.
- Vamos embora logo porque eu estou louca de curiosidade pra saber quem vai estar lá! - Hannah apressou, totalmente empolgada dentro de sua mini saia jeans, muito bonita, por sinal. A perna, claro.
As garotas começaram a entrar no carro e veio na minha direção.
- está fugindo de mim o tempo todo e, aparentemente, também não está muito afim de falar contigo. Acho melhor você vir na frente comigo, assim, se alguma delas tentar alguma coisa contra nós, impede antes que a tragédia aconteça - ele brincou comigo.
- Isso é bem injusto! O que eu fiz de errado? E por que é o queridinho?
- Porque ele é o bebê! As meninas tratam ele como se fosse um menininho e o safado se aproveita da situação, obviamente.
Entramos todos no carro. Eu na frente com , as três garotas e espremidos no banco de trás. O percurso foi bem rápido, principalmente porque arrumou um jeito de deixar o violão em uma boa posição pra tocar, mesmo que o banco estivesse bem apertado. E o cara tocava bem... isso eu tinha que assumir. Hannah começou a cantar uma música desconhecida e eu tive que virar pra olhar porque era genial. A voz dela era simplesmente... muito gostosa de ouvir.

Eu havia acabado de conhecer o meu mais novo lugar preferido no mundo. O nome? Califórnia. Toda ela...
Biquinis em corpos melados de areia molhada na praia e eu vendo tudo isso do outro lado, metido na pista de skate. Na verdade, eu estava sentado na boca dela enquanto dedilhava o violão e via e pularem de um lado pro outro.
Levantei dali e atravessei até a praia. Com certeza seria muito mais interessante ver as garotas de perto em vez de contar quantas voltas e manobras e davam para competir um com o outro. Havia muito mais gente da escola ali, gente que havia ido em outros carros e até mesmo motos e bicicletas.
dividia uma canga imensa com e cada uma tinha um copo de suco na mão, colorido como os drinks da noite anterior.
Sentei ao lado delas, de , especificamente, sem me preocupar em sujar a roupa com areia porque eu estava seco então ela não ia grudar.
- Pensei que você também andasse de skate, - foi a primeira a falar comigo.
- Andaria se me deixasse pegar no brinquedo dele por pelo menos um minuto - eu disse, e ela sorriu, concordando. - Dormiu bem, garota sem ossos? - perguntei a .
- Por que sem ossos? - ela tirou os óculos escuros para me olhar melhor.
- Dançando - sorri. - Parece que não tem os ossos aí faz um monte de movimentos inusitados - ela ficou me encarando. Tem horas que você percebe que a garota quer sorrir de algo que você disse, mas não sorri pra não dar o braço a torcer. Ela só revirou os olhos e deu de ombros.
- Não dormi, apaguei. Minha cabeça dói demais! - dizendo isso, tornou a esconder os olhos com os óculos.
- Imagino que esteja doendo mesmo... Bebeu mais que todo mundo!
Em um movimento rápido, o rosto de estava perto do meu pescoço, mas não era da forma boa. Quer dizer, ela estava me cheirando, mas não no sentido carinhoso da palavra. Era como uma investigação.
- Quem é você pra falar de mim bebendo, garoto com fedor de maconha?
E contra aquilo eu não tinha resposta. Desviei do seu olhar e encarei o mar, voltando a dedilhar qualquer coisa no violão. Mas eu não estava me rebaixando à sua provocação, não. Meu sorriso cínico não saía do rosto.
- E então, , o que mais vocês fazem pra se divertir aqui além de vir à praia e andar de skate? - perguntei.
- Eu trabalho - ela respondeu. - é desocupada.
- Eu não sou desocupada, sua encrenqueira! - tentou se defender, mas eu não dei muito espaço à ela, voltando ao assunto com .
- Você trabalha com o quê?
- Ah, é incrível - nesse minuto, saiu de onde estava e veio sentar do lado da canga mais próximo a mim, empurrando alguns centímetros pro lado. - Você conhece o Beam, o blog?
- Claro que conheço! O maior blog de famosos da Califórnia. Grande parte dos meus atores favoritos já foi entrevistada lá.
- Será que eu entrevistei algum deles? Quem são seus atores favoritos?
- Fala sério! Você é a garota das perguntas?
- Sou! - só não dava pulos porque estava sentada, eu acho. Eu também fiquei empolgado.
- Cara!
- Incrível, né?
- Sortuda do caralho! Como você conseguiu esse emprego?
- Ah, eu fiz contatos, - ela sorriu, malandra. - A vida não é nada se você andar sozinho.
De novo aquela história de conhecer as pessoas certas. Já estava bem óbvio o quão importante aquilo era pras criaturas daquele lugar.
E eu achava que estava indo pelo lugar certo. Pelo menos ter conhecido fez eu me aproximar de gente legal. Não queria nem imaginar se, por azar do destino, eu acabasse com um colega de quarto nerd e esquisito, como era o caso de , pelo que eu ouvi falar.
E a sortuda da , convivendo com gente que eu nem imaginava um dia conhecer.
- Acho que vou começar a me preocupar em conhecer as pessoas certas.
- Relaxa, bonitão, você já conheceu. Não tem ninguém melhor pra se conhecer naquela escola do que eu - ela disse, exibida. - E a minha amiga linda, , é claro!
Não sei qual foi a reação de ao fim da frase de , mas eu não fiquei esperando ela reagir também. Gargalhei pelo que disse e concordei que ela era uma ótima pessoa pra ter conhecido. E era mesmo. era sensacional e havia conhecidos pessoas maravilhosas, celebridades, cantores, atores... Eu previa muito assunto entre nós dois.
O mar estava incrível. Não haviam ondas grandes e eu achei aquilo bom porque seria tranquilo pra dar um mergulho. Deixaria para preferir ondas quando a minha prancha estivesse ao meu lado, mas, como ela não estava, a calmaria seria perfeita. Algumas pessoas brincavam na água, não muito ao fundo, e eu fiquei com vontade de ir até lá só pra ver qual temperatura a água abrigava.
- Segura o violão do pra mim? - pedi a . - Vou dar um mergulho.
Vi a expressão da menina ficar um pouco indecisa e só então me lembrei de que ela não estava muito bem com , ou estava bem demais e não queria tanto contato por causa da vergonha. Eu não havia conseguido entender direito quando explicou.
, vendo a demora de em me responder, largou o copo de suco numa cadeira que estava ao seu lado e esticou a mão pra pegar o violão de mim.
- Deixa que eu seguro, . Se a tocar nisso é capaz das mãos dela queimarem. Dramática!
- Olha quem fala de drama! - replicou.
Sorri com a cena, mas não por muito tempo. A água estava me chamando.
Levantei de onde estava e arranquei minha camisa com pressa, deixando-a perto de e . Andei sem pressa até a beira da água. A areia estava morna e se grudava aos meus dedos, já descalços porque eu também havia deixado as sandálias perto das garotas. O vento bagunçava meu cabelo, mas não incomodava porque eu o havia cortado um pouco antes de chegar à Escola. Havia dado um trato no visual pra parecer bem, mas só percebi que não precisaria de tanto cuidado após conhecer . Não que as garotas parecessem se importar sobre ele amar chinelos e camisetas surradas; principalmente.
Pousei meu pé direito sobre a água e senti o gelo instantâneo. Não era possível! Tão quente do lado de fora e tão frio na água. E, embora aquilo não tenha feito minha vontade passar, foi com preguiça que eu senti as pequenas ondas tomarem conta das minhas pernas aos poucos. Quando a água alcançou a altura da minha bermuda, eu deixei de ser cagão e andei mais rápido, indo com tudo para o fundo, dessa forma, o frio não me atrapalharia mais.
O primeiro mergulho.
Eu havia sentido falta do mar. Havia tempos que não frequentava uma praia, tendo preferido sempre viajar para lugares mais frios ou, mesmo quando estava em lugares quentes, frequentando apenas ambientes fechados. O fato é que eu vivia enfurnado em uma sala de cinema ou em algum museu literário que levasse minha mente ao século passado, no mínimo. Depois que comprei minha última câmera, a mais perfeita máquina de todos os tempos, eu a carregava pra todos os lugares, filmando cada pedaço de cena mágica que as pessoas distraídas deixavam acontecer pelo meio das ruas.
Eu já tinha pen drives inteiros cheios de montagens e edições miraculosas. Eu tinha jeito pra coisa, sabia bem disso. Eu queria ser grande na área! E pra ser grande, eu precisava ralar. E pra isso eu havia ido pra Califórnia.
As possíveis visitas à praia eram um bônus que eu nunca recusaria.
Após nadar um pouco por ali, resolvi me aquietar um pouco, apenas sentindo as ondas balançarem meu corpo de um lado para o outro. Eu fixei meus pés no chão pra não ser levado pela correnteza e fechei os olhos, apenas para relaxar. E eu estava conseguindo relaxar, mais do que antes, quando estava fumando sozinho no quarto quando apareceu.
Senti alguma coisa arranhando minha costela e abri os olhos, assustado, achando que era algum bicho se aproximando. Com toda a sorte que eu tinha pra situações inusitadas, não seria novidade se uma caravela me queimasse.
Mas não era uma caravela.
Primeiro foi o arranhão, então eu abri os olhos e me deparei com uma cabeleira loira saindo de dentro da água. Um pouco atrapalhada, a princípio, mas depois ela se organizou e me olhou nos olhos, pedindo desculpas enquanto sorria como uma sereia, feiticeira.
- Desculpa, - ela pediu. - Eu não te vi aí.
- Relaxa, Hannah - tranquilizei-a. - Ainda bem que foi você e não algum bicho.
Ela sorriu pra mim e deu mais uma arrumada no cabelo. Eu pensei que aquela era a hora em que ela ia se despedir, virar e voltar a nadar, mas não. Ela continuou me olhando e pela forma com que seus lábios se mexiam, eu percebi que o assunto seria continuado.
- Quer dizer que você é de cinema?
- Andou me investigando?
- sabe tudo sobre todo mundo. É só fazer uma pergunta que ela vai te dar a resposta exata.
- Bom saber disso - sorri. - Já sei a quem perguntar quando quiser alguma informação sobre você.
Sem julgamentos! A garota era muito gostosa, eu podia ver aquilo claramente pelo seu biquini lilás estampado na água cristalina. E sem sombra de dúvidas, ela estava flertando comigo. Sendo eu como era, nunca deixaria aquela oportunidade passar. Aparentemente, Hannah também não, porque sua resposta foi ainda mais direta que a minha.
- Por que você não pergunta diretamente pra mim?
- Porque se eu perguntar, minhas intenções contigo vão ficar muito claras.
- Mas eu gosto de gente objetiva, ! - ela sorriu abertamente. Aquela menina estava querendo me provocar, só podia ser. Sem mistérios, sem tentativas. Acho que eu poderia ter avançado naquele mesmo minuto e ela não retrocederia um passo sequer.
Mas não teria graça daquele jeito. Nada tem graça quando é fácil demais.
- Você está no curso de Música também? - perguntei.
- Não, estou em fotografia - deu de ombros. - Está falando isso porque me ouviu cantando, não é? - ela continuou após me ver confirmar. - As pessoas geralmente perguntam por que eu não estou em música, mas eu não sou obrigada.
- Hein?
- Não sou obrigada a estar em música só porque gosto de cantar. Cantar é hobbie, fotografia é profissão.
- Eu juntei hobbie e profissão em uma coisa só.
- Bom pra você! Meu estilo de música e de voz não agrada americanozinhos pops cheios de titica na cabeça.
- E qual é o seu estilo de música e voz, Hannah? - perguntei, genuinamente curioso. Ela estava falando sobre ser diferente e aquilo me agradou bastante porque eu também era abusado de tantas cópias da mesma coisa por todo lugar.
- Soul.
- Fala sério! Soul é ótimo e todo mundo escuta - eu a defendi.
- Escuta, mas soul não ganha prêmios nem vence as paradas internacionais. Rihanna e Madonna vendem. Soul não é pra todos.
- Mentes evoluídas escutam soul.
- Obrigada pelo elogio!
Mergulhei rapidamente quando senti que meu cabelo já começava a perder umidade. Senti a água preenchendo meu corpo inteiro então voltei à superfície, para continuar conversando com Hannah.
- Quem diria? Loirinha desse jeito - pirracei com ela. - Podia muito bem ser outra cópia da Britney.
- E qual graça teria? - ela falou, mais alto, empolgada. Eu gostava daquele momento onde as pessoas começavam a falar sobre as coisas que amavam. Elas falavam alto, gesticulavam, piscavam os olhos freneticamente e defendiam o assunto como se fosse seu próprio filho. - Escuta só: todo mundo idolatra Tim Burton, eu também. O cara é incrível! Amo A Fantástica Fábrica de Chocolate e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, mas nós só precisamos de um Tim Burton no mundo. O resto é plágio, imitação barata ou qualquer outra coisa.
- Não acabe com meus sonhos. Eu vim estudar onde Tim Burton estudou. Será que nunca vou poder me inspirar no cara?
Eu sabia que não era daquilo que Hannah estava falando, os argumentos dela eram bem claros. Ela se referia à copias, não inspiração, mas sua companhia se tornara milhares de vezes mais gostosa depois que ela começou a falar de assuntos interessantes em vez de simplesmente se jogar pra cima de mim.
Eu preferia ficar com a parte das investidas. Dominador, confesso.
- Não é disso que eu estou falando! - ela continuou em voz alta. - Não tem problema em se inspirar em Britney Spears desde que você não a copie. Às vezes eu escuto a rádio e nem consigo diferenciar de quem é cada música. As vozes são idênticas. O mundo não tem graça desse jeito.
- Não há diretor como Tim Burton, por mais que tentem.
- Não há cantora como Britney também. Ela não é a melhor nem a pior, mas ela é boa. E as pessoas fariam coisas mais legais se tentassem parar de imitar e achassem seu próprio estilo.
- Assim como você fez.
- Assim como eu fiz - ela concordou, falando baixo dessa vez.
- E você fez muito bem! - elogiei. - Eu gosto do seu timbre. É gostoso de ouvir - deixei a frase escorregar pela minha língua para que Hannah percebesse que nós havíamos voltado ao ponto inicial. O flerte.

Capítulo 4: I heard that Cali never rains

- , repara só no filhinho da puta!
Eu estava encarando mesmo, sou curiosa e todo mundo sabe disso.
saiu de perto de mim e de , tirou a camisa pra mostrar seu peitoral nada discreto e andou até a beira da água. Ok. Eu confesso que fiquei olhando porque o cara era bem gostosinho e não posso dizer que fiquei surpresa ao ver que, quando Hannah chegou perto, ele se armou todo. Eu estava de longe, mas conseguia notar.
Eles estavam conversando, rindo bastante e dava pra notar que se aproximavam com o tempo. Depois de alguns minutos, Hannah fez um coque alto em seu cabelo e estendeu a mão até o pescoço dela. Deve ter visto a tatuagem vazada de câmera fotográfica que ela fez no verão passado quando completou vinte e um anos.
- Você está reparando demais - me acusou.
- Ele estava tentando me beijar ontem! - reclamei, achando aquilo ofensivo.
- E você não quis! Hannah só está aproveitando as oportunidades.
- Essa sua amiga é toda atiradinha.
- Deixa ela.
Fiz bico.
Eu tinha bastante ciúmes da amizade entre Hannah e . Elas eram bem apegadas e, por causa disso, Hannah estava sempre por perto. Eu gostava da loira até. Nós tínhamos alguns assuntos em comum, eu tirava brincadeiras com ela e ela comigo, o quarto dela era ao lado do meu e ela era filha da minha professora de balé. Mas ela tratava como sua melhor amiga e eu morria com aquilo porque, embora passasse mais tempo comigo, eu sabia que ela contava mais de sua vida pra Hannah do que pra mim.
Então a sensação de que eu poderia ser trocada era bem viva a todo momento.
- Olha lá! Olha lá!
Dei três tapinhas na coxa de pra que ela olhasse até onde eu apontava.
e Hannah se aproximaram pra valer e se beijaram. As mãos de sumiram dentro da água e, como não havia ninguém perto deles, eu podia imaginar onde elas estavam se apoiando.
- Hahaha, essa é a minha amiga! - ela comemorou. Não foi pra me irritar porque não sabia do meu ciúmes. - Demorou, perdeu, ! Agora... que ele é gatinho, isso é.
- Eu conheço outro cara bem gatinho que merece mais sua atenção do que - apontei para trás, na direção da pista de skate do outro lado da rua. Eu queria trocar de assunto porque aquele já estava me irritando e eu sabia que falar de era certeza de sucesso.
- Argh! - a dramática deixou o suco na cadeira ao meu lado e se jogou com tudo para trás, em cima da canga. - Que merda que eu fiz! vai achar que eu sou doida pra sempre! Estraguei nossa amizade!
- - deitei ao lado dela e levantei seus óculos pra ter certeza se ela me olhava. - Estragou nada. Se você está realmente arrependida, conversa com ele porque eu tenho certeza de que o vai entender. Ele é um cara centrado.
- E se ele não me respeitar mais?
- , vive fazendo piada com você. Ele nunca te respeitou! - gargalhei da cara dela. Eu estava exagerando, claro, porque sempre fora muito correto com nós duas, embora nos tratasse como machinhos.
Nossa conversa durou mais um pouco, naquele ritmo pacato, até eu começar a ouvir o som de passos na areia, pesados, daquela forma alta e clara que os passos ficam quando são dados na praia.
- Pelas minhas madeixas, que domingo mais maravilhoso! - Hannah sentou ao lado de , sem se importar por não ter espaço na canga. Sentou na areia mesmo. O sorriso no rosto ia de leste a oeste e eu sabia o motivo dele.
- Sei bem porque está maravilhoso, dona Hannah - levantou para dar total atenção à amiguinha dela, que estava toda empolgada secando os fios loiros da cabeça. - Pode ir contando tudo. Como assim você acabou de beijar o novato gostosinho?
- Gostosinho é apelido, minha filha! - ela caçou sua bolsa e pegou os óculos escuros, colocando-os no rosto em seguida. - Você não tem noção do que é aquele beijo e aquela pegada...
Posso dizer que os detalhes continuaram por tempo indefinido e aquilo já estava me irritando.
É, eu havia dispensado e havia sido na cara dura. Não significava que ele não fosse atraente, divertido e etc, mas eu não gostava daquele estilo gostosão que chega expondo o que quer, com a certeza absoluta de que vai conseguir. Hannah gostava daquele tipo. Se quisesse alguma aproximação comigo, seria degrau por degrau. Embora eu tivesse certeza de que, naquele momento, eu não era mais o alvo.
Quem se importava?
Levantei dali e foi a minha vez de andar na direção do mar. A areia estava muito quentinha e grudava nos meus dedos na medida em que meus passos avançavam. começou a sair da água nesse mesmo minuto e nós estávamos andando na mesma linha. Eu indo, ele vindo. Ele estava me olhando descaradamente, aquele olhar curioso e detalhista, sem sequer esconder que estava reparando.
Revirei os olhos, mas lembrei de que ele não poderia ver porque eu ainda estava usando meus óculos de sol, e foi bom lembrar disso porque eu não podia entrar com ele na água ou acabaria perdendo, com a sorte que eu tinha com objetos caros. Esperei que e eu ficássemos um pouco mais próximos, então tirei os óculos do rosto e o estendi na direção dele, que sorria pra mim.
- Coloca lá pra mim? - pedi.
Ele demorou a me responder, ainda me olhando como se tirasse a pouca roupa que eu vestia. Um sorriso ladino nos lábios, os olhos semi-cerrados.
- Claro.
Babaca. Se achando!
Pobre do homem que achasse que me conquistaria da forma com que consquista outras garotas. estava indo por um caminho bem errado, se ele queria saber, principalmente depois de beijar Hannah.
Ignorei seu corpo que virou para me olhar quando eu continuei andando, e fui em direção ao mar.

- Esse short está muito curto? - perguntou pra mim enquanto segurava a peça de roupa na frente do seu corpo e do espelho grande que a gente tinha comprado pra colocar no quarto.
- Vai ficar bom se você colocar uma camiseta folgada.
Estávamos nos arrumando para a festa do domingo, a de verdade.
A festa do sábado era organizada pela Escola de Artes. Nela, nós nos divertíamos, brincávamos, conhecíamos pessoas novas, mas tudo era muito programadinho. Até a hora de ir dormir já era conhecida por todo mundo, não porque havia toque de recolher, mas porque chegava um momento em que tudo ficava realmente sem graça.
A festa do domingo era fora dali. Acontecia todas as semanas, com pessoas de várias faculdades diferentes e não havia... restrição. Quer dizer, claro que ninguém ia sair pegando todos, fumando feito louco e bebendo pela bunda se não fosse realmente a sua intenção, mas se fosse, ninguém seria julgado. Mas a festa do domingo era boa demais pra ser perdida bebendo. Eu escolhia ficar sempre consciente pra aproveitar cada minutinho de dança e de calor que o Bar da Niña me proporcionava.
O bar da Niña era latino, assim como eu.
Meus pais imigraram da Costa Rica quando eu era criancinha e, mesmo que eu tenha crescido como americana, meu sangue era quente e fervia quando alguma música me mandava rebolar. Eu amava pimenta, amava vermelho, amava a dança.
Ouvimos três batidas na porta e se apressou para vestir logo o short antes que eu abrisse e ela estivesse só de calcinha. Era .
- pediu pra eu perguntar se vocês querem carona pra Niña - ele foi falando e entrando, mesmo que ninguém tivesse chamado. O garoto se equilibrou entre os montes de peças de roupa que e eu havíamos descartado pelo chão e andou até a cama no canto da parede. Todo íntimo, como se nos conhecesse a tempos.
- E por que ele mesmo não veio perguntar? - eu quis saber. Fechei a porta e voltei a fazer minha maquiagem.
- Por causa dela - apontou para e deitou na minha cama, virou-se para a parede e cobriu a cabeça com meu travesseiro. O folgado!
- Por minha causa? - questionou, em voz alta. - Ele está com medo de mim agora?
- Eu teria medo de você se fosse ele - eu falei. - Vocês não trocaram uma palavra hoje durante o dia inteiro, , e isso porque estavam lado a lado!
- Eu estou com vergonha. Isso é difícil de entender?
Bufei e decidi que ignorar era a melhor saída. Não dava pra convencer de nada, mesmo que ela estivesse errada. Falei a que nós aceitaríamos a carona, mas ele não reagiu. Continuou lá, todo esquisito, deitado encolhido contra a parede na minha cama. Depois de eu ter chamado sua atenção, ele soltou um "Ok" e permaneceu imóvel.
me olhou de forma engraçada, daquele jeito que acontecia sempre que a gente estava pensando a mesma coisa. O olhar dela dizia que ela também achava que era esquisito e que era melhor a gente não mexer antes que ele virasse bicho.
Acabamos de nos arrumar e fomos na direção da nossa carona.

Como eu disse... aquele lugar era quente.
Resolvi deixar os saltos em casa e apostei numa chinela de pedrinhas que me deixaria dançar até morrer a noite inteira sem ficar descalça. Então eu estava bem feliz e relaxada, principalmente porque nossa carona foi menos apertada dessa vez já que Hannah havia ficado no alojamento pra vir mais tarde.
Mal saí do carro, já corri pra dentro do bar, dando um beijo na bochecha de em agradecimento pela carona e fazendo com que fosse obrigada a fazer o mesmo, ou pareceria mau educada. Mas ela não fez. Preferiu parecer grosseira em vez de se aproximar de novamente. Eu ri por dentro.
- Você deveria parar de besteira. Ele está ficando preocupado! - eu falei, no ouvido de , enquanto nós dançávamos e andávamos na direção do balcão para pedir nossas primeiras bebidas.
- Se ele estivesse preocupado com alguma coisa, teria vindo falar comigo. Ele não veio! Ele me acha maluca! Eu vou ficar na minha.
Começamos pelo suco. A Niña fazia os sucos mais maravilhosos que eu havia provado na vida, dos sabores mais exóticos e quentes que eu já havia experimentado. A minha escolha da noite era uma frutinha chamada cupuaçu que descia cremosa pela garganta. Uma delícia. Ela era chamada de Niña embora já houvesse passado dos cinquenta anos e dos oitenta quilos. O apelido soava engraçado.
Conversamos tranquilas por um tempo, olhávamos para a banda que fazia um som no palco e deixávamos nosso sangue se soltar com o tempo. Hannah chegou menos de vinte minutos depois e se juntou a nós nos sucos de sabores diferentes. Mas quando a música começou a ficar um pouco mais alta e algumas pessoas já tiravam as mesas do meio para formar uma pequena pista de dança, eu não quis resistir e caminhei até lá para fazer o que eu tinha de melhor: a dança.
A banda começou a tocar uma música latina e eu logo ganhei companhia pra dançar. se aproximou de mim, segurou minha cintura e me levou pra bem perto do palco. Ele não sabia dançar nada, mas eu percebi que mexer o esqueleto não era bem a sua intenção.
- Fala logo, . O que é que você quer? - eu perguntei, notando que ele estava demorando demais.
- Você devia ir conversar com o logo porque ele está chato, o tempo todo perguntando de você.
- Ainda? Por que ele não vai atrás da Hannah?
- Por que ele iria? - perguntou, sem entender. Achei estranho porque, na minha cabeça, contar pro mundo seria a primeira coisa que um homem faria após beijar Hannah, já que ela era uma garota extremamente bonita.
- Eles se beijaram hoje na praia. E foi um beijo daqueles, se você quer saber.
- Que pilantra!
nos girou para que ele pudesse olhar na direção de Hannah. Ela estava perto de ainda e elas conversavam bem animadas, se mexendo ao som da música. Deu pra perceber que ele estava tipo orgulhoso de por ter ficado com ela, mas sua atenção não ficou ali por muito tempo.
- Ela nunca vai falar comigo? - ele perguntou em relação à .
- Por que você não vai falar com ela, ? não é a menina mais tímida do mundo, mas ela ficou com vergonha de verdade depois de ter te beijado por engano.
- Engano nada. Ela me beijou porque quis!
- Certo, mas porque achou que você estava cantando ela e ela já tinha bebido algumas coisinhas. nunca teria coragem de se jogar no teu pescoço sem mais nem menos.
- E por causa disso agora nós vamos passar o resto da vida nos evitando? Porque isso é bem infantil, se você quer saber.
- Eu já falei pra ela.
Dançamos mais. O menino era realmente sem jeito então eu precisava guiá-lo a cada momento novo da música, embora ele parecesse nem perceber. Ele estava inquieto. Mesmo dançando, você consegue notar quando uma pessoa não está totalmente focada no que faz. olhava para os lados, errava todos os passos e respirava forte. Senti que ele iria falar alguma coisa várias vezes, mas desistia antes do som sair de sua boca.
- Você acha que ela dançaria comigo se eu fosse lá chamar?
- Talvez.
Eu disse aquele talvez cheio de malícia, deixando óbvio a que faria o que ele quisesse se ele pedisse com jeitinho. Então sorriu abertamente, me agradeceu, me deu um beijo na testa e se despediu, indo na direção da minha amiga e de Hannah. Vi quando ele chegou junto e ficou meio tensa; no mesmo momento em que Hannah se afastou um pouco para deixá-los a sós.
Torci mentalmente pra que eles se resolvessem logo e até fiquei olhando de lado, apostando que mais cedo ou mais tarde, eles acabariam se pegando de novo.
Corri meus olhos pelo bar enquanto voltava a dançar e eles se chocaram com , olhando pra mim. Focados.
Tentei fingir que não vi, mas foi tarde demais porque ele me lançou um sorriso malicioso e começou a andar na minha direção. Então eu desviei, fechei meus olhos e dancei sozinha, até senti-lo chegando perto e colocando as mãos na minha cintura, como havia feito na noite anterior.
- Você me toca muito! - misturei afirmação e reclamação em uma frase só; não tenho certeza se ele entendeu assim.
- Desculpa - sorriu - Seu corpo é... atrativo.
- , você é muito descarado! - me afastei um pouco e reclamei mais sério. Ele não pareceu se importar porque se aproximou de novo, tocando, dessa vez, nos meus ombros. - Eu já disse que não vou beijar você. Por que não está junto da Hannah?
Deu pra notar o que fazia quando não sabia o que responder. Ele virava o rosto e continuava sorrindo de forma cínica, sem querer parecer que perdeu o jogo. Foi assim naquele momento e havia sido assim na praia, quando eu o questionei sobre a maconha.
- Só quero dançar e eu te disse isso ontem - piscou o olho pra mim. - Você está se achando demais, .
- Eu tenho ouvido comentários, sabe? E dos seus amigos... - me defendi. Eu não estava sendo exibida, e não gostei dele ter dito aquilo.
- Se você pensar um pouquinho, vai entender que eu não tive tempo pra fazer amizade nenhuma aqui, já que cheguei ontem.
- Você sabe que eu estava falando do e do .
- Eu danço mal? - ele perguntou, e eu não respondi porque não sabia que função aquela pergunta tinha. - Estou te incomodando? Quer que eu suma e nunca mais fale com você ou me jogue de um prédio de cinquenta andares? - eu tive que rir.
- Não, seu babaca!
- Então...? Fica quietinha e dança comigo. Amanhã é a minha primeira aula e eu vou estar empolgado demais pra ficar te importurando.
- Ah, minha vida vai melhorar então! - eu brinquei com ele.
- É claro que vai! - de novo aquele sorriso convencido. Era bem irritante porque eu não era muito fã de pessoas cheias de si, mas em até que ficava bonito. - Você vai sentir minha falta e aí vai ser minha vez de te colocar freios.
- Não fique tão confiante - quis intervir, mas ele me ignorou e continuou falando.
- Aí eu vou dizer: "Não, , eu não vou beijar você! Para!"
Eu precisava rir com aquilo. Onde aquele cara conseguia tanta confiança eu não sabia, mas pelo menos ele era engraçado. riu de verdade e a forma com que seus ombros balançaram me fez ficar um pouco perdida. Ele olhou pro chão, pisou no meu pé de propósito e, recebendo um beliscão meu em resposta, me mostrou a língua, voltando a falar.
- Eu poderia até apostar!
- Que eu vou ficar atrás de você?
- Isso! - me fez girar duas vezes e, quando nós voltamos a ficar próximos, beijou meu pescoço de um jeito que me deixou arrepiada. Eu me afastei rápido pra que ele não percebesse aquela queda e dei um tapa em seu braço.
- Pobre garoto iludido.
Ele sorriu. Ele tinha certeza demais. E eu estava começando a ter certeza de menos.

A sala estava cheia e o melhor de tudo era aquela sensação de lar. Não havia ninguém novo porque era o segundo ano da turma, então todos se conheciam muito bem e nós não precisávamos mais daquelas introduções e apresentações chatas. Era aula de zouk e nós passaríamos por toda a primeira fase de aulas teóricas sobre a origem e a evolução da modalidade, mas, como aquele era o primeiro dia, o professor nos levou pra relaxar na sala de dança.
Alef estava lá em sua maior pose de cara legal que não sabe que quebrou o coração de uma garota. E ele não sabia mesmo porque eu nunca havia dado dicas do que havia acontecido. Preferi não ficar perto então puxei pela mão e nós ficamos perto da janela, onde o vento de fora balançava as cortinas.
Percebi uma movimentação estranha perto da porta, depois ela sendo aberta e o professor andando até lá para ver o que estava acontecendo. conversou comigo sobre algumas amenidades até que, minutos depois, o professor chegou até nós com uma cara não muito boa e estendeu um pedaço de folha de caderno na minha direção.
- , resolva suas pendências fora daqui. Combinado?
Olhei pra ele sem entender e peguei o papel que me oferecia. Eu não sabia qual era a pendência, por isso não entendia o motivo de toda aquela ironia na minha direção. E aquilo era bem o que me faltava: levar reclamação no primeiro dia de aula de um professor que eu sequer conhecia.
Pedi desculpas mesmo sem saber do que se tratava e abri o bendito papel.
"A aposta começou, . Já to pensando no meu prêmio! ;)"
Não estava assinado e eu não precisaria de nomes pra saber quem tinha escrito aquilo. O único responsável plausível era o dono dos olhos que me encaravam sorridentes através da janelinha de vidro da porta da sala. . Ou o futuro defunto que não teria a oportunidade de se formar. Eu ainda não havia decidido.
Amassei o papel, irritada e fiz questão de erguer meu dedo do meio na direção de . Vi que ele sorria todo confiante antes de piscar um olho pra mim e sair de lá, provavelmente indo na direção de sua própria sala.
Como dizia: sim, ele era bonito. E Hannah já havia deixado bem claro que beijá-lo era uma coisa maravilhosa, então eu não tinha motivos para não querê-lo, além do fato de ser tão gráfico e cheio de si. E esse era um motivo bem grande. Resistir havia virado questão de honra, ou de birra.
Eu ia mostrar que ele estava certo em pelo menos uma coisa: a aposta havia começado.

Capítulo 5: Cause you make me feel like I've been locked out of heaven

Ela passou por mim como um furacão. E como todos os grandes furacões, sua passagem fez com que meu corpo desse um giro e quase caísse desequilibrado. estava correndo e passou na minha frente antes que eu conseguisse entrar no último aquário vazio do alojamento.
Os aquários eram oito pequenas salas de paredes de vidro que ficavam lado a lado em um salão grande no prédio dos quartos, quatro em uma fileira e as outras quatro de frente. Era no último andar, ventilado e silencioso porque as caixas eram vedadas e a acústica era perfeita. Cada aquário era um mundo em particular. Claro que todo mundo podia ver tudo o que acontecia em todo o lugar, mas se houvesse concentração, valeria a pena.
Mas, aparentemente, o ambiente era bastante disputado. Bastante mesmo, já que foi capaz de correr na minha frente pra alcançar o último aquário disponível. Eu fiquei plantado do lado de fora enquanto ela fechava a porta, que também era de vidro, por dentro e me olhava com uma expressão vitoriosa.
Alguém cutucou meu ombro e eu olhei pro lado.
- Já tem atividade pra fazer? - me perguntou e seu olhar demonstrava pena. Eu só assenti com a cabeça enquanto lhe mostrava minha mala grande, onde eu carregava os equipamentos de filmagem. - é levemente competitiva - ela sorriu e eu a acompanhei, olhando tirar as sapatilhas e começar a se alongar dentro da caixa de vidro. - Mas se você precisa mesmo do aquário pra estudar, entra! Contanto que não atrapalhe.
- Você nem vai me notar! - prometi.
bateu no vidro pedindo pra abrir a porta e eu vi a garota arregalar os olhos ao me ver entrando junto também. Ela se prostou na frente da entrada, tentando me impedir, mas eu simplesmente sorri e passei raspando, fechando a porta atrás de mim.
- Está ocupado! - ela reclamou. - Você não pode ficar aqui.
Não acho que a bonequinha se agradou de ser ignorada, mas foi isso o que aconteceu.
- Você não se importa com música, não é, ? - me perguntou. - Nós precisamos dela, você sabe, pra dançar - ela disse, mexendo os ombros.
- Fiquem à vontade!
- Você também!
- Eu já estou! - pisquei pra que, depois de ver que eu não iria a lugar algum, deixou os ombros caírem e foi colocar a música no aparelhinho que tirou de uma caixa.
Fui para um dos cantos do aquário e sentei no chão com minha mala à frente, abri e comecei a pegar o material que seria necessário para minha atividade. O professor havia nos deixado livres para filmar e editar qualquer cenário, desde que usássemos apenas uma câmera e um enquadramento fixo. Eu ainda não tinha decidido o que filmar, mas sabia que isso não seria difícil de pensar quando tudo estivesse montado.
Ter minha Nikon na mão era o mesmo que apertar o botão da criatividade.
Eu havia trazido a câmera fotográfica em vez da filmadora porque eu só precisaria de um vídeo pequeno, dessa forma, não fazia sentido carregar o dobro do peso se a câmera menor iria satisfazer minhas necessidades.
Montei o tripé para fazer alguns testes. Ainda não tinha certeza sobre usar o plano normal, mas preferi começar por ele já que sempre era mais seguro seguir o que era convencional. Girei a câmera por todas as paredes de vidro, buscando achar alguma cena interessante do lado de fora, sem me dar conta de que algo sensacional começava a acontecer bem ao meu lado.
A música começou não muito alta e meus olhos foram atraídos pela movimentação suave que começava a se desenrolar dentro do aquário, bem perto de mim. As garotas estavam iniciando uma dança.
Havia uma pequena televisão em uma das paredes exibindo um casal de professores que dançava. No fim da tela, estava escrito o nome zouk; e repetiam tudo o que o casal da tela fazia. Os movimentos eram lentos, aprendizes, às vezes até errados, mas não deixavam de ser magnéticos.
Eu soube que aquele era o meu cenário, a escolha perfeita, então só me concentrei em pensar no melhor enquadramento para não perder a cena. Tentei pôr a câmera no chão; ergui o tripé até a altura máxima; com zoom; sem zoom... Mas as garotas continuavam a dançar e eu olhava mais para elas do que para a câmera, onde eu deveria estar ajustando a posição. Decidi ficar no convencional antes que elas parassem de dançar e eu perdesse o espetáculo pensando em detalhes técnicos.
Os detalhes não importavam já que aquela cena seria perfeita até mesmo se fosse gravada na câmera do meu celular.
Deixei a câmera presa ao tripé e me permiti viajar no balanço daqueles corpos. Elas não tinham ossos no quadril! Não podiam ter! Se tivessem, não rebolariam daquele jeito, nem suas pernas se entrelaçariam como se fossem elásticas.
Eu me vi com vontade. Com... desejo. Eu queria estar no meio das duas, ser alvo dos toques, objeto dos olhares. Queria dançar zouk ou só ficar parado no centro da sala enquanto elas giravam ao meu redor. Até que eu começasse a sentir um beijo em cada lado do pescoço e as quatro mãozinhas explorando meu tórax.
O pensamento estava incrível, porém eu decidi parar antes que a situação ficasse visivelmente vergonhosa pra mim.
Foco na câmera!
Se o professor tivesse deixado a turma mais livre, eu poderia usar mais câmeras e capturar as imagens em ângulos diferentes. Aí sim aquilo ficaria precioso. Mas eu sempre fui o tipo de cara que se contenta com o que tem; e a oportunidade de presenciar cenas como aquela bem de perto já era um motivo bem grande pra ser grato.

- Você não precisaria de permissão pra ter filmado a gente?
- Não, , eu não vou ganhar dinheiro com isso. É só uma atividade do primeiro dia de aula - expliquei.
fechava a porta do aquário enquanto eu ouvia reclamar por eu tê-las filmado sem avisar enquanto dançavam. Como se ela não tivesse visto que eu estava gravando! Se ela realmente não quisesse ser capturada, teria parado assim que percebeu, mas ela não parou.
Eu conhecia a pouco tempo, mas ela não me enganava. Ela gostava daquela atenção e insistência que recebia de mim.
- Pra aonde vocês vão agora? - perguntei quando nós já andávamos pra fora do andar dos aquários.
- Eu vou trabalhar - respondeu. - Alguém tem que ganhar dinheiro pra sustentar vocês! Por quê?
- Queria companhia pra ir olhar uma coisa que eu quero comprar.
- está livre! - acusou e a cena toda aconteceu muito rápido.
Em um minuto, estava parada, no outro, ela corria pelo corredor que levava à escada com em seu encalço. As duas gritavam. Uma perguntando o que a amiga tinha na cabeça e a outra pedia por misericórdia. alcançou a amiga e iniciou um ataque de cócegas que me pareceu meio dramático. dava uns gritos, clamava por socorro, pedia que eu fosse salvá-la, mas quase não a tocava então eu percebi que ela sofria mais pelo medo do que pelo ato em si. Deixei rolar porque era bem engraçado.
- Desde quando você responde por mim? - ela continuou as falsas cócegas.
- Tudo isso pra não sair comigo? - perguntei, chegando perto das duas. - Parece até que eu mordo.
- Para, ! - gritou. - Para ou eu vou amarrar teus pés de madrugada e pedir pro te esperar acordar pra gravar a queda na hora de levantar!
parou. Aquele era o tipo de ameaça que as pessoas costumavam ignorar, promessas que não eram cumpridas, então ninguém ligava muito quando eram prometidas. Mas, pela forma com que se deteve, eu só pude entender que cumpria quando fazia ameaças.
- Agora eu vou trabalhar, ok? Nos vemos mais tarde.
se soltou da amiga e começou a descer a escada para o andar dos quartos. Eu fiquei frente a frente com , encarando com o sorriso que eu já tinha percebido que lhe deixava desconcertada. Depois de alguns segundos, incomodada com a minha fixação, a garota interrogou:
- Por que está me olhando assim? - eu dei de ombros. - Olha, , eu sei que você só quer ajuda pra comprar alguma coisa, mas se enganou, eu não estou livre. Na verdade, tenho bastante coisa pra ensaiar, então, não fica chateado, mas eu não vou poder te acompanhar.
Ela estava mentindo descaradamente. Mas era tão boa atriz que olhava no fundo dos meus olhos, de queixo erguido, como se aquela fosse uma verdade incontestável. Mas era mentira. E eu sabia daquilo porque estava lhe oservando desde quando nos conhecemos, no sábado, e suas reações começavam a ficar fáceis de decifrar.
- Vou descer agora, tomar um banho frio porque o calor está grande e passo no teu quarto pra gente sair juntos.
- , eu não...
- Estou curioso pra te ver de cabelo molhado, aquele cheiro de shampoo e tudo mais. Qual é o aroma do seu shampoo, ?
- Fezes de galinha.
- Hum... exótica! - gargalhei da sua cara fechada que se contorcia. Porque ela queria rir, era óbvio, mas não ria pra não perder a pose de garota inalcançável.
Dei as costas para e segui o mesmo caminho que acabara de fazer, com uma certeza sem razão, mas certeza, de que estaria pronta, me esperando quando eu batesse na porta do seu quarto.

abriu a porta. Ela estava arrumada num visual nada profissional, short e camiseta de banda, mas eu imaginava que ela não tinha que se preocupar muito com roupa, já que seu trabalho não tinha nenhuma formalidade na maioria das vezes.
- O que você fez pra ela mudar de ideia? - ela me perguntou, baixinho.
- Nasci bonito.
revirou os olhos, mas estava sorrindo da minha frasezinha. Ela me deu um beijo na bochecha, cochicou para me desejar boa sorte e trocou de posição comigo, passando a ocupar o lugar onde eu estava, fora do quarto e me deixando do lado de dentro. Depois disso, ela puxou a porta por fora, fechando-a.
estava sentada de frente para uma mesa que mentes mais frescurentas chamariam de penteadeira. Tinha um mundo de maquiagem à sua frente, embora, olhando para seu rosto, eu não conseguisse enxergar nada além do batom brilhante nos lábios cheios.
Havia roupa espalhada por todos os lados; eu tomei cuidado para não pisar em nada, andando até sentar na cama mais distante da janela e me encostar na parede.
- Não estou me arrumando pra sair com você - ela avisou, na defensiva, olhando pra mim através do reflexo do espelho.
- E está bonita assim por quê?
ficou toda corada e eu soube que tinha conseguido subir um degrau. Ela gostava de receber elogios, eu percebera, e aquele artifício passaria a ser usado por mim sempre que necessário.
- Gosto de me arrumar.
Chegava a ser mágica a forma suave com que as coisas estavam acontecendo, eu poderia sorrir e falar isso para , se não soubesse que isso a faria fechar o acesso para que eu subisse mais degraus. Em vez disso, fiquei quieto e cacei meu celular no bolso, acessando o primeiro joguinho que apareceu na tela à minha frente. Iria esperar acabar de se arrumar e ver qual seria a próxima desculpa esfarrapada que mandaria na minha direção.
Uma bola de pelos branca pulou no meu colo e miou preguiçosamente. Era uma gata grande e elegante, na forma de andar, eu digo. Sempre achei gatos muito elegantes em todas as ações, mas aquela, Chloe, provavelmente imitava a forma sedutora das donas.
- Hey, Chloe, me diz... Como é dividir o quarto com uma garota tão resmungona como a ? - fingi conversar com a gata enquanto via virar na minha direção e desvirar depois.
Coloquei Chloe de lado e busquei uma posição mais confortável, colocando um travesseiro entre a parede e as minhas costas, além de tirar as sandálias dos pés. Depois disso, abri o Angry Birds e, a partir daí, não tinha raio caindo ao meu lado que tirasse minha atenção, ou parte dela.
Mas eu lidava com câmeras, procurando os melhores ângulos e enquadramentos, minha visão periférica costumava ser mais acentuada do que a dos outros homens. Eu conseguia brincar no meu celular e ter noção do corpo de se movendo de um lado para o outro, agora recolhendo as roupas espalhadas pelo chão. Ela dobrou tudo cuidadosamente e as colocou no guarda roupas. Quando não restava mais nada para fazer, sentou na outra cama e foi mexer no celular também. Aí ficou quieta, mas por pouco tempo.
Quando uma pessoa passa muito tempo esperando por algo, ela fica inquieta e bufa. Solta uma grande quantidade de ar pela boca, muitas vezes desejando que seja fogo. começou a bufar. Ela se mexia muito. Meu jogo já havia sido pausado, mas eu permaneci na mesma posição, só para ver até onde ela iria.
- Ai, que saco! Você vai ficar aí o tempo todo? Eu pensei que você ia comprar alguma coisa, ou sei lá... - a garota reclamou.
- E eu pensei que você não estivesse se arrumando pra sair comigo - impliquei.
- Eu estava mentindo, ok? Assumi! - ela falava, alto, gesticulando, já de pé. - Vamos logo que eu não quero passar o resto da tarde trancada nesse quarto.
Eu saí de lá quase chutado. trancou com a chave por fora e nós começamos a andar pelo corredor, bem separados. Não puxei muito assunto porque ela permanecia entretida mexendo no celular, ou arrumando qualquer desculpa para não falar comigo.
- Aonde estamos indo?
Já estávamos do lado de fora da Escola e eu comecei a guiar para a esquerda, na rua que nos levaria a um ponto de táxi. Ela continuava mexendo no celular, fingindo que eu não existia. Aquela pergunta só deve ter saído porque, provavelmente, ela já estava bem impaciente com o meu silêncio recíproco.
- Preciso comprar uma coisa. Eu já disse!
- Que coisa?
- Uma coisa! - insisti e ela bufou, finalmente me olhando nos olhos.
- E por que nós estamos andando tanto? Não acredito que você me chama pra sair e faz eu andar de táxi, ! - a garota suspirou dramaticamente ao me ver erguendo a mão para um carro que passava perto e eu tive que rir.
O riso foi de nervoso porque eu não imaginei que se importaria de sair de táxi, ônibus, a pé ou qualquer outra coisa. Ela não denotava ser uma garota fresca e cheia de exigências. Ouvir aquela frase me fez tentar imaginar quanto valor ela dava ao dinheiro.
- Vai me dizer aonde estamos indo? - ela cutucou minha cintura, ao meu lado, depois que já estávamos sentados e eu disse ao motorista o endereço que ele deveria achar.
- Você fica bonitinha quando está curiosa.
- Eu fico bonitinha o tempo todo.
- Eu concordo - sorri tentando parecer... Como dizem? Fofo.
Funcionou. corou e desviou o olhar do meu, o que foi bom porque eu praticamente vibrei com aquela nova cor em suas bochechas. O que era aquilo? Ela podia elogiar a si mesma e ninguém mais podia? Eu sabia que gostava de elogios, mas parecia virar tímida de repente quando eu fazia aquilo.
- Quando está com vergonha fica mais linda ainda - ela corou mais e não voltou a me olhar. - Seu rosto fica coradinho e eu tenho a impressão de que esquenta também - eu ia continuar falando se não lhe ouvisse gritar, meio desesperada.
- Tá, ! - Mas sorria. A vergonha claramente estampada em seu rosto. - Eu sou diva e poderosa, já entendi! Não precisava ficar enaltecendo o tempo todo.
Gargalhei com ela e arranquei o celular de suas mãos para ver em que ela tanto mexia. Era a recriação de um jogo antigo dos celulares do início do século. A serpente que andava pela tela comendo bolinhas, crescendo e acumulando pontos, mais conhecido como "O jogo da cobrinha". Mas ela jogava aquilo sem áudio e eu me perguntava como ela conseguia, já que o áudio era uma das melhores coisas naquela droga viciante. Saí da partida e fui aonde ficava os records, só para constatar que o dela era menor do que os meus costumavam ser.
- Ah, fala sério. Só isso? - zombei. - Vem cá que eu vou te mostrar como se joga pra valer.

- Vamos embora daqui agora! - não sei dizer se ela estava pedindo ou mandando, mas não me movi. - É sério, , eu estava brincando. Quando eu disse que não queria andar de táxi era só pra tirar onda com você. Eu realmente não me importo com isso. Se você quer saber, onde eu morava eu nem de táxi andava porque tudo era tão pertinho que eu ia andando ou de ônibus. E quando pegava ônibus, eu ia em pé na maioria das vezes porque os ônibus demoravam a passar e viviam lotados.
Nós estávamos na frente da concessionária. Eu tentava puxar para entrar comigo, mas ela ficava soltando aquelas frases destrambelhadas, querendo voltar pra Escola.
- Não to comprando isso por sua causa, maluquinha - expliquei, aliviado por seu óbvio desapego com coisas luxuosas. E ela parou para me ouvir. Embora o fato de que eu nunca compraria um carro após ouvir uma reclamação da garota que conheci há menos de uma semana ser óbvio, insistia em fazer cena. - Eu estava olhando pela internet. Já comprei e resolvi todos os documentos. Na verdade, agora eu só vim assinar uns papeis e pegar o carro porque ele não podia chegar pra mim pelos Correios.
- Você já escolheu e tudo? - mais animada e desistindo da resistência, ela aceitou andar e nós entramos na concessionária, sendo atendidos por um dos vendedores.
Eu falei o motivo da minha ida até ali e ele nos guiou aos locais necessários. Não posso falar que foi um procedimento rápido, mas conversava comigo o tempo inteiro e o tempo passava menos devagar. Ela queria saber qual carro eu havia comprado e eu dizia que ela só saberia quando visse; aí ela bufava e dava um tapa no meu braço, e eu me segurava para não puxá-la para um beijo porque ela tinha me dito "Não vou beijar você em momento nenhum!" antes que eu iniciasse a aposta e eu queria fazê-la engolir aquelas palavras.
Brincar um pouco com a presa.
Depois de um momento chato de burocracias e assinatura de documentos, nós fomos, finalmente, levados até onde estava a minha criança grande. Meu Jeep Wrangler cor de verde lodo esperava, brilhando, no estacionamento traseiro da concessionária. O gerente entregou a chave na minha mão e eu entrei, animado, no lado do motorista, acenando para que entrasse também.
Ela sentou ao meu lado, no banco do carona, e eu liguei aquele motor pela primeira vez. O rugido suave a o cheiro novo do estofado de couro entraram pelos meus sentidos de uma maneira estonteante. Eu nunca havia dirigido um Jeep, mas já amava o meu. E previa grandes histórias acontecendo dentro dele.
Eu dirigi sem rumo durante um tempo. Não conhecia as ruas muito bem e confiava no bom senso geográfico de para nos levar de volta pra Escola depois. Ela começou a me dar algumas direções e eu as seguia mesmo sem saber para aonde estava indo. Após alguns minutos, comecei a sentir o cheiro do mar. Rodamos menos de quinhentos metros e eu me deparei com o mesmo cenário da tarde anterior, a praia.
Entretanto, já era quase final de tarde, e o fato de ser dia útil fazia com que o lugar não ficasse cheio. Eu parei o Jeep no acostamento e desliguei o motor, olhando em frente, no lugar onde o sol trilhava o caminho para se pôr.
- Não acredito que você comprou um Jeep! Eu nunca mais entro no carro do . Você vai ter que me dar carona pra qualquer lugar que eu quiser ir - animada, saiu do carro e fechou a porta, indo sentar no capô.
Eu a acompanhei e vi de perto quando a garota fez esforço para sentar em cima do carro e saiu logo depois, reclamando do motor que estava quente. A cara dela foi hilária e eu ri pra valer, mas depois tirei a camisa do peito e a estendi no capô, abrindo espaço para ela sentar. ergueu a sobrancelha e riu de lado, parecendo hesitar, mas sentou no lugar que eu preparei.
Aquilo podia não ser grande coisa, mas era algo. Ela havia acabado de trocar as caronas do carro de pelas caronas no meu Jeep, e embora isso pudesse ser apenas uma brincadeira, uma frase sem pensar que nunca se concretizaria, talvez... era um degrau a mais naquela escada que eu sabia que tinha começado a subir. podia não estar percebendo, mas nossa aproximação era óbvia, e mais cedo ou mais tarde, sua frase de rejeição se tornaria pó.
Comentei qualquer piada sobre a aula de mais cedo e ela riu. Ela caçoava de mim sempre que tinha necessidade e eu aproveitava a situação para reverter aquilo em um elogio, só para vê-la corando de novo, cheia de timidez, e desviar os olhos de mim pra tentar mudar de assunto.
Havia um conforto pairando naquele lugar. E eu não me referia à praia, mas àquele lugar em especial, o lugar que nós ocupávamos. O Jeep; o capô dele em particular. O pedaço de espaço onde e eu conversávamos sentados sem ligar pra qualquer outra coisa; apenas aproveitando os últimos raios do sol e a companhia um do outro. Meu sorriso vinha fácil o tempo todo e eu forçava coisas engraçadas para vê-la sorrir também, depois de fingir que não havia sido engraçado. Porque ela sempre fingia.
Foi naquele momento que eu entendi que minha aposta não era só uma aposta. Eu gostava mesmo da companhia de (além do corpo magnífico, diga-se de passagem), e não me importaria nem um pouco de passar a maior parte do meu tempo ali, com ela. Sentado em um capô, esperando o sol ir embora.
Eu percebi naquele minuto, ao olhar pra ela e vê-la sorrindo de novo, que uma hora ou outra eu acabaria bem ferrado.

Capítulo 6: Baby you'll be famous. Chase you down until you love me

O pior é que eu achava que ele realmente não percebia. Era a segunda vez que tirava a camisa na minha frente e continuava agindo naturalmente, como se aquele tanquinho perfeito não afetasse meus sentidos assim que eu colocava os olhos nele, mas deixei pra lá. A saída era aceitar sentar na camisa dele em cima do capô e ver em que ia dar aquela aproximação.
Muita coisa estava passando na minha cabeça ultimamente. podia me achar maluquinha ou, sei lá... apenas estivesse apostando mesmo que me daria uns pegas e depois, adeus. Mas eu acho que ele nunca entenderia o motivo da minha resistência. Claro que havia a razão óbvia de que ele era tão metidinho e cheio de si que eu lhe negava sempre que possível só pra ver sua cara de cão abandonado, mas não era apenas isso.
Entre a saudade de casa, o futuro incerto numa profissão prostituída, uma paixão platônica saindo aos poucos do meu coração, uma amiga que vivia fugindo de um cara sem motivo aparente e uma gata preguiçosa pra cuidar... minha vida estava bem agitada de coisas para pensar. E eu costumava gastar bastante tempo pensando. Me agradava ter planos, ter metas, caminhos, objetivos. Eu gostava de gastar pedaços do dia pensando em como seria minha vida dentro de cinco, dez, quinze anos. Ter atacando a todo momento podia ser uma atividade desgastante, e isso porque eu só o conhecia a alguns dias.
E ele havia apostado que eu correria atrás, que eu buscaria contato com ele. Eu apostara ao contrário. Sem saber, eu havia prometido a mim mesma que dificultaria a vida do garoto. Ele não teria nada comigo. Eu o faria correr mesmo!
Que ele me elogiasse, me desse caronas, me assistisse dançar, me desejasse, me paparicasse. Todo esse esforço faria de um homem mais humilde. Era quase um presente meu para a futura esposa dele ou quase isso. Eu não podia garantir que meus lábios nunca tocariam os dele, nunca. era lindo e a boca dela chamava muito a minha atenção. Não só a boca, mas o resto do corpo que era exibido sem camisa pra mim naquele momento. Mas não me entrava na cabeça a ideia de ter algo com ele, já que nosso estilo de abordagem era tão diferente.
era para todas as garotas. Eu, embora não tivesse vivido um relacionamento de verdade há um bom tempo, não queria extravasar. Minha fase de experimentos havia acabado; eu só precisava de sossego. E sossego era uma coisa que eu não encontraria em e seu Jeep verde-cocô-de-criança.
- Qual é a do zouk? - ele perguntou, me tirando da linha de pensamentos.
- Hã?
- Você e a dançando zouk. Pareciam bem empolgadas e ainda é o primeiro dia de aula - havia certo tom de malícia em sua voz que eu não sabia identificar o que significava, misturado ao seu sorriso sempre ladino nos lábios.
- Precisamos nos concentrar pra vencer o desafio do ano!
- Desafio do ano? O que é?
- Você nunca ouviu falar dos desafios da nossa Escola? - eu fiz um pequeno espanto na pergunta porque era realmente incrível que tivesse chegado lá sem saber sobre o desafio. - Todo fim de ano a Escola promove uma disputa gigantesca. Envolve os alunos de todos os cursos e jurados profissionais aparecem pra assistir tudo e julgar o melhor.
- Você ganhou?
- Quem dera... - suspirei, lembrando. - Um garoto de fotografia ganhou o último desafio. Ele era amigo do irmão do , eu o conhecia de vista. Os jurados disseram que a exposição dele sobre a morte foi algo que ninguém nunca havia feito com tanta precisão antes, mas eu, particularmente, acho que ele deveria ser preso ou, no mínimo, pagar uma multa considerável.
- Exposição sobre morte? O que esse cara fez? - quis saber, aparentemente interessado, então eu expliquei tudo porque aquela história me intrigava muito.
- Ele fotografava os animais morrendo - fui direta, mas, percebendo que aquilo não ia bastar, expliquei direito. - Ele capturava animais pequenos e os trancava em caixas sem oxigênio. A partir daí, ele começava a fotografar o animal a cada dez segundos. Os estágios da morte, sabe? Os jurados acharam incrível, artístico, detalhista e inusitado, mas eu morri de dó quando vi aquelas coisas passando na minha frente. Quer dizer... eram ratos, formigas e moscas, mas eram seres vivos! E ele os trancava na caixa e fotografava enquanto a criaturinha gritava por socorro!
- Que cara macabro! - ele tinha os olhos enojados.
- Eu não queria uma vitória desse jeito! Se for pra ganhar, que seja de uma forma limpa. Sem maltratar nada ou ninguém; sem passar por cima dos limites da vida!
- Acho justo!
parou, olhando pro mar por alguns minutos, pensando em qualquer coisa que eu nunca saberia o que era porque, quando ele voltou a falar, sua expressão era diferente. Animada de novo.
- E o que você apresentou nesse desafio?
- Eu dancei! - sorri e dei de ombros. Entretanto, nunca ficava satisfeito com minhas respostas rápidas. - Eu apresentei uma coreografia de balé da música Wrecking Ball com um colega de classe. Nós vencemos a categoria de dança, mas não a geral. A geral quem ganhou foi o carinha dos animais.
- Mas você ganhou mesmo assim! - animado, ele me parabenizou. - Isso é maravilhoso, ! Parabéns!
Agradeci e me calei. Ganhar o desafio havia sido sensacional, mas o preço fora alto também. Durante todo o verão eu sofri por um cara que sequer me olhava; ou quando olhava, era apenas como a garota que lhe acompanhou durante alguns meses de dança. Eu podia estar tentando passar Alef para trás, mas doía fundo ter que aceitar que aquela história não ia resultar em nada de bom.
- Vai tentar de novo esse ano?
- Sim, mas esse ano eu vou dançar com .
- Por quê?
- Da última vez que eu inventei de dançar com um homem, acabei me apaixonando por ele - assumi.
Algo na postura de denunciou que mais uma gracinha estava por vir, então eu me preparei psicologicamente pra dar qualquer resposta que fosse mais inteligente que o comentário dele. Em vão.
- Dança comigo então.
Eu não tinha resposta. Toda vez que me elogiava, eu sentia as bochechas ficando quentes e a vontade de baixar o rosto pra me esconder aparecia bem rápido. Aquele não havia sido um elogio direto, mas uma forma óbvia de mostrar que seu interesse por mim estava ali, vivo, pronto para ser desenvolvido. E eu não tinha como não reagir àquilo.
Dei uma risadinha marota qualquer que me permitisse sair da situação sem parecer uma garota boba, lembrando a mim mesma do meu lado da aposta. Dificultar a vida de era o objetivo. E uma característica eu podia assumir: eu era muito boa em criar obstáculos.

- Sempre chegando cedo, sempre pronta antes de todo mundo. Sempre pagando essa cadeira sendo que você poderia estar livre dela desde o primeiro período... Dessa forma eu vou achar que você está me bajulando, .
Sim, eu era a única na sala de dança àquela hora da manhã. Eu queria aproveitar o espaço, queria ingerir silêncio e transformá-lo em passos, em elasticidade, leveza e sentimento. Não bajularia ninguém, mas se minha professora interpretasse daquele jeito, também não haveria problema. Em todo caso, senti vontade de explicar.
- Primeiro - comecei com um sorriso e com o indicador levantado. - Não está tão cedo. Pra falar a verdade, só faltam quinze minutos pra aula começar e a senhora sabe bem que eu sempre fui pontual - levantei o dedo médio. - Segundo: é natural que eu esteja pronta antes, já que chego antes. Terceiro: - levantei o dedo anelar, meu sorriso um pouco maior. - Tecnicamente, eu não pago a mesma cadeira. Eu pago Balé III. Paguei o I no primeiro período, o II no segundo período e isso não é repetir. E quarto - desisti de contar com os dedos e andei na direção dela. - Não confunda meu carinho com bajulação; você sabe que são duas coisas diferentes.
Beijei-a no rosto e nós executamos um rápido pas de chat, nossa forma de cumprimento em sala de aula.
- Como foi o verão? - ela perguntou.
- Muito bom! Meus pais quase não me deixaram voltar pra cá - eu sorri, saudosa. - Ficaram perguntando quando esse curso ia acabar pra eu voltar logo pra casa e não sair mais nunca de perto deles.
- Pais são sempre estragados mesmo! - ela zombou. - No dia em que Hannah sair de casa eu sou capaz de infartar! Acredita nisso? Minha filha é crescida, mas eu sempre a verei como uma menininha - havia um brilho tão bonito em seus olhos enquanto falava de Hannah. Eu a achei uma sortuda por ter um relacionamento tão bonito com a filha. Não que meu relacionamento com meus pais fosse ruim, mas à distância tudo ficava mais complicado.
- Como foi o verão de vocês?
- Hannah decidiu que queria passar com o pai, então eu fui pra Nebraska visitar minha família. Foi um período gostoso.
Equipes mais conservadoras reprovariam aquilo, mas a verdade é que Tatiana passava de uma professora. Desde o primeiro período nós criamos um laço maior do que o normal na sala de aula e nossas conversas podiam durar horas e mais horas, além dos segredos compartilhados e da ajuda que empenhávamos uma à outra.
Por causa dessa aproximação, me entristecia saber que aquele havia sido o seu verão. Tatiana era mãe solteira e, embora fosse muito bem resolvida e sua filha já fosse adulta, eu sabia que ela permanecia sozinha por simples medo de entrar em uma relação nova e se afundar de novo, sofrer de novo.
Eu também não achava que era obrigatoriamente necessário passar o verão com algum romance, nada a ver (eu era a prova viva de que um verão pode ser bem entediante nesse aspecto), mas, sabendo que visitar a família era a única diversão de Tatiana em todos os verões, eu não pude deixar de me sentir mal por ela. Embora ela não parecesse mal com aquilo.
- E o que seus pais acharam de ter uma filha vencedora da categoria dança no desafio anual da melhor Escola de Artes da Califórnia?
- Eles teriam ficado mais felizes se ela houvesse vencido na categoria geral.
- Não se cobre tanto, !
Sorri com sua preocupação, mas eu precisava mostrar a Tatiana que cobrança era algo que eu não deixaria de lado. Eu não podia me dar ao luxo de parar de cobrar a mim mesma.
- Mas não é esse o ponto? - perguntei. - Eu preciso buscar o meu melhor, alcançar objetivos, cumprir metas e estabelecer maiores. Só assim eu vou conseguir crescer.
- Você não precisa sentir dor o tempo todo - quase constrangedor ter sua voz maternal me aconselhando. Era como se ela sempre soubesse a palavra certa pra me fazer parar e escutar, prestando atenção. - Você se esforça, alonga, sente dor e sabe que está indo pelo caminho certo; isso é verdade, mas na dança. Na vida, você vai ganhar e perder. Você não pode sofrer exageradamente a cada perda; precisa aprender a superar.
- Esse conselho é bem diferente dos que eu costumo ouvir, se a senhora quer saber. Normalmente, grande nomes dizem que todos nós precisamos ralar feito condenados pra conseguir alguma coisa na vida.
- Fato que não deixa de ser verdade - ela falou, e continuou antes que eu pudesse protestar. - Batalhe, mas não esqueça de que a vida também é feita de momentos bons. Você não ganhou o prêmio, , paciência. Supere! Você ficou acima da maioria dos participantes e há quem dê centenas de dólares pra ter o troféu que você e Alef dividem. Em vez de sentir dor por tudo, sinta orgulho. Você merece!
As pessoas começaram a chegar na sala e a nossa conversa precisou ser interrompida. Tatiana começou a passar alguns alongamentos e a aula começou.

Minha sorte era ser naturalmente magra. Quer dizer, eu tinha algumas curvas no corpo e, mesmo assim, a balança era minha amiga, nunca passando dos sessenta quilos. O que era algo maravilhoso, considerando que eu não fora agraciada com mais de cento e setenta centímetros pelo corpo. Eu podia dizer que estava dentro do peso ideal para conseguir dançar tranquila e não ser carregava pelo vento durante às visitas à praia no final de semana.
Mas a felicidade residia na palavra naturalmente. Eu gostava tanto de comer e sentia tanto essa necessidade que eu seria dez por cento mais triste se precisasse fazer dietas para me manter no peso.
Montei meu prato saudável e, ainda assim, apetitoso; cometi o pecado de ir até a geladeira e capturar uma lata de Coca-cola antes de sentar na mesa ao lado de e começar a almoçar. O prato dela era bem menor e mais colorido que o meu, mas ela não parecia se importar muito com o conteúdo. Minha amiga mexia no smartphone enquanto mastigava vagarosamente a comida dentro da boca.
- O que tem de tão interessante nesse celular?
- Trabalho - ela respondeu, sem me olhar.
Ela havia dançado com no bar da Niña. Provavelmente, só durou o tempo dela pedir desculpas. Eu sabia que ela pediria perdão, explicaria o que havia acontecido e juraria que nunca iria acontecer de novo. Eu sabia porque aquele era o estilo de . Ela tentava dar solução antes mesmo de saber qual era o problema. E se ela prestasse só um pouco mais de atenção, entenderia que o problema não estava no fato dela ter beijado uma vez, mas em não ter beijado outras vezes. Porque não falava aquilo abertamente, mas era bem óbvio que ele estava louco pra sair imprensando pelas paredes da Escola.
- Chloe vomitou agora de manhã. Você sabe se ela comeu alguma coisa estragada? - perguntei.
- Ela só tomou leite. Será que estava vencido? - seus olhos se ergueram do aparelho pra mim, enquanto conversávamos sobre nossa bichinha. - Ah, não, já sei. Que droga! Eu coloquei canela porque o leite era meu. Depois que eu enjoei, dei pra Chloe, mas esqueci que ela é alérgica.
- Poxa, ! - censurei.
- Eu sei! Foi mal! Não vou esquecer de novo.
- Mais tarde eu passo no pet shop e compro um remedinho pra ela.
- Deixa que eu trago quando vier do trabalho - ela disse, deixando exposto que aquela era a sua forma de pedir desculpas. Assenti.
Hannah apareceu e sentou conosco alguns minutos depois. Eu não queria parecer chata pra mim mesma, mas havia algo na presença da loira me incomodando. Não sei se era porque ela estava passando cada vez mais tempo com ou por ter descoberto que ela deixara Tatiana passar o verão sozinha em Nebraska.
- Como vão as margaridas? - ela perguntou, sorrindo.
- Bem e você? - como se um choque houvesse acabado de atingir a mão de , ela largou o smartphone e decidiu começar a comer e conversar como uma pessoa normal. - O Beam foi invadido durante a madrugada e os vândalos fizeram bagunça em algumas páginas. A equipe de programadores já conseguiu recuperar o controle, mas eu vou trabalhar duro hoje pra consertar os erros de script e CSS nas páginas - ela falou pra Hannah.
- Por que você não pede pra fazer o serviço em casa? Eu posso te ajudar, se você quiser - me ofereci.
- Obrigada - ela sorriu pra mim. - E eu bem queria trabalhar em casa, mas o chefinho pirou e quer a equipe toda lá. Só me falta ele desconfiar que alguém de dentro deu a senha pros vândalos - ela bufou, visivelmente irritada.
A maneira com que cuidava daquele blog era incrivelmente amorosa. Eu torcia para que, um dia, eu arrumasse um trabalho que me fizesse tão feliz como o de a fazia.
Eu era feliz em casa, com meus pais. Eles eram donos de uma loja de confecções que não chegava a ser grande nem pequena. Durante todo o Ensino Médio eu trabalhei com eles. Ia assistir aula de manhã e trabalhava durante a tarde, até a hora de fechar. Eu tinha liberdade pra sair à noite e frequentar minhas aulas de balé, então a minha vida era boa do jeito que a maioria dos adolescentes não costumam viver.
Eu nunca fui presa. Meus pais sempre confiaram na minha boa criação e senso de responsabilidade. Havia toque de recolher como em todas as famílias normais, mas eu não perderia os dentes caso um dia ultrapassasse esse limite.
Conversávamos qualquer besteira de garotas até que saiu da fila da comida e andou diretamente até onde nós estávamos. Hannah lhe ofereceu um ‘Oi!’ bem empolgado e ele sentou ao lado de , de frente pra mim.
- Como vão minha fotógrafa e minhas dançarinas favoritas? – ele perguntou, em meio a um sorriso confiante.
- Muito bem – respondeu. – E você? Como foi a aula de hoje? Andou filmando mais alguém por aí?
- Não, hoje eu só tive aula teórica. Foi legal.
Hannah entrou no assunto deles e eu me resumi a engolir meu macarrão. Entretanto, alguns segundos depois, ergueu os olhos da forma mais dramática e esquizofrênica que eu já havia visto em seus olhos, como se algo muito bombástico houvesse invadido sua cabeça de uma hora pra outra.
Em questão de cinco segundos, ela pulou da mesa, agarrando o braço de e andando com ele até que estivessem perto do bebedouro. Lá, ela começou a falar meio rápido, embora eu não conseguisse ouvir do que se tratava, e apenas ouvia.
Hannah havia virado o rosto para ver e sua voz quebrou o silêncio que os dois deixaram na mesa, embora o que ela tenha dito não fosse de tanta importância.
- Já reparou naquela bunda? - tinha uma malícia bem embasada na voz da loira.
E a verdade é que eu não tinha reparado ainda na parte de trás do corpo de . Bem, dava pra saber que ele era bom em todos os sentidos, já que, quando tirou a camisa na minha frente, eu pude ter certeza da parte da frente. Mas a frase de Hannah fez meus olhos subirem involuntariamente e repararem no alvo. E sim, era algo muito bom pra ser apreciado.
Mas quando ela se voltou pra mim eu não estava mais olhando.
- Tive aula com sua mãe hoje - falei, pra que ela não voltasse a tocar no assunto "partes do corpo de ".
- Foi boa?
- Sempre é - e eu achei que ali o nosso assunto tinha morrido, mas Hannah puxou outro.
- Você já pensou no desafio desse ano?
- Na verdade, não.
Eu não parara pra realmente pensar no que fazer pro desafio. Eu já sabia que dançaria com porque nós havíamos combinado desde o final do período passado, mas o que apresentaríamos ainda não havia sido conversado. E em geral, a única coisa que me passava na memória quando a palavra desafio era dita, eram os momentos com Alef, fossem nos ensaios ou na apresentação. Eu sabia que precisava esquecer o passado e focar no presente.
Então decidi que sentaria pra conversar com mais tarde, até nós decidirmos o que apresentar.
- Vou dançar com , mas ainda não pensamos muito no assunto. E você?
- Literalmente frustrada, claro! - ela sorriu um pouco. - Fica meio difícil pensar em alguma coisa original depois do que o louco do Ross Baker fez ano passado - ela se referia ao vencedor do desafio, que apresentou a exposição sobre morte dos animais.
- Você também achou aquilo meio doentio?
- Comparado aos ensaios que ele faz atualmente, aquilo até que é aceitável! - meus olhos se arregalaram um pouco em curiosidade. - Ele fotografou uma pessoa morrendo, ! E se você quiser um pouco mais de drama, a pessoa foi a avó dele que teve câncer! Claro, ele não trancou a avó numa caixa de vidro e esperou ela morrer, mas como o médico falou que não havia mais saída pra doença da coitadinha, a família meio que já estava esperando que o pior acontecesse.
- E ele ficou atento pra fotografar?
- Bastante! Tirava uma foto dela todos os dias e ia armazenando. Claro que as fotos são bonitas, sabe? Diferente dos animais, a avó do Ross sabia o que estava acontecendo, ela tinha noção do que a aguardava e concordava com as fotos. Todos os dias era um sorriso diferente. Ela ficou linda em todas as fotos, mesmo nos últimos dias quando já estava mais debilitada, mas sei lá... Acho que ele deveria parar com essa história de esperar a morte.
- Isso é tão macabro!
- Nem me fale! Agora me diz: como eu vou ter uma ideia genial dessas?
- Você consegue - joguei em Hannah um pedaço de torrada que repousava ao lado do meu macarrão e ela sorriu, devolvendo-o no meu cabelo.
e voltaram à mesa alguns minutos depois. parecia transtornada, mas sorria de forma divertida. Confesso que fiquei curiosa pra saber o motivo daquelas expressões, mas não falei nada a respeito, nem Hannah falou, muito menos .
Continuamos nosso almoço tranquilamente.

Capítulo 7: Everytime they turn the lights down, just wanna go that extra mile for you

O almoço seguiu tranquilo, mas eu não conseguia parar de rir no caminho de volta pro quarto, lembrando do mini sermão de pra cima de mim. Ela falou: "Eu não tinha percebido que você está me fazendo ficar entre minhas duas melhores amigas. Elas são minhas duas melhores amigas, você já tinha percebido isso? E você ficou com uma e está dando em cima da outra o tempo inteiro, então eu acho que você deveria se decidir por uma antes que alguém saia machucado dessa história!". E quando eu disse que não haveria confusão, já que eu não tinha nada com Hannah e não estava nem aí pra mim, ela respondeu: Você definitivamente não sabe nada delas duas.
Se queria fazer graça me fazendo imaginar e Hannah brigando por minha causa, ela havia conseguido, porque eu estava rindo pra valer.
Chutei a porta do quarto pra entrar e vi jogado na cama, acompanhado de , que estava na minha poltrona e com os pés na minha cama. estava agarrado com o violão e tocava um grupo de acordes repetidamente. Eram apenas quatro acordes. Ele ia do primeiro ao último, depois voltava ao primeiro e ia até o terceiro, para depois repetir a sequência de quatro mais duas vezes.
Caí na cama, sem me importar com os pés de e deixei que os acordes invadissem meu cérebro. A melhor parte na companhia dos dois era que eu não precisava ser todo simpático e distribuir cumprimentos a cada vez que os encontrasse. Na noite anterior, chegou ao quarto quase na hora de dormir e não falou uma palavra. Saiu catando toalha, roupa e mais um monte de coisas, saiu pra tomar banho e só depois de meia hora após voltar ao quarto, começou a falar sobre como havia sido a primeira aula e como eram os colegas de classe.
Aquilo até soava estranho, mas não me incomodava.
Deixei os minutos passarem sem contar, eu estava relaxando. Acabei caindo no sono até ouvir meu celular tocando e o peguei do bolso pra olhar quem era. Minha mãe.
- Oi, mãezinha - falei, ao atender.
- Pensei que você fosse ligar pra mim quando chegasse - ela disse, daquela forma que fazia sempre que queria me deixar culpado por não fazer algo que eu havia prometido fazer.
- Desculpa, mãe. Eu fiquei muito ocupado por aqui - não havia ficado tão ocupado assim, mas evitei ligar rápido pra não ter que responder as perguntas do meu pai através da boca dela.
- Já buscou seu carro?
- Sim, já está comigo. É uma coisa lindona, mãe, você iria adorar andar nele comigo.
A minha conversa continuava, mas não tocava mais baixo por causa disso. Ela seguia seu rumo de acordes como se eu ainda nem estivesse lá. Pelo canto do olho, eu podia observar escrever algo em um caderninho preto. Ele escrevia e riscava, como se estivesse tentando elaborar alguma coisa.
- Seu pai queria saber notícias suas.
- Hum, que avanço! - fui irônico, mesmo sabendo que minha mãe odiava sempre que eu usava aquele tom em uma conversa. - E ele perguntou isso com lágrimas nos olhos ou tricotando um casaquinho pra eu usar no inverno?
- Não seja tão maucriado, .
- Mãe, eu não posso fingir que está tudo bem - a conversa estava ficando muito íntima pra ser executada na frente de outras pessoas, mas e não prestavam atenção em mim, então não me importei. - Por que você não me fala como ele está com você?
- O que você quer saber?
- Ainda precisa comprar maquiagens mais fortes ou a roupa comprida está escondendo bem as marcas no seu corpo?
- , eu te proíbo de falar sobre isso! - ela foi incisiva.
A verdade é que meu pai fora insuportável durante toda a vida, mas quando eu descobri que sua agressividade saía dos limites com a minha mãe, eu não aguentei ficar em casa. Eu queria que ela saísse de lá comigo, mas sua postura de esposa submissa não lhe deixava aceitar um divórcio e ouvir as fofocas que a história iria acarretar. Ela preferia aceitar a violência, a humilhação de ser maltratada pelo homem com quem passara quase trinta anos de sua vida.
Eu me senti mal por sair de casa e deixá-la, mas não podia aguentar olhar na direção do meu pai. Eu tinha vontade de bater nele, de matá-lo por ser tão fariseu, mas eu não podia. Eu tinha que permanecer calado, aceitando suas ordens enquanto ainda vivêssemos no mesmo teto.
Por isso eu decidi não dividir mais teto, piso ou parede com ele. Pedi a porção da herança que me cabia legalmente e peguei meu próprio rumo.
- Então eu não sei por que você me ligou - a saudade doía, mas eu não estava mais com vontade de manter uma conversa se ela fosse ser superficial. - As pessoas telefonam pra saber das novidades, ter noção de como anda a vida um do outro, mas você só quer saber da minha e me deixar sem notícias sobre o seu estado.
- Meu filho, eu estou bem! - ela parecia cansada. - Não é isso o que você quer saber? Pois eu digo: estou bem. Eu amo George, , e ele me ama. Nós aprendemos a conviver juntos. Todo esse tempo de casamento e todo o sofrimento que já passamos juntos nos fez crescer e aprender um comportamento que fosse equilibrado para os dois lados. Você é jovem, mas um dia vai entender como o amor funciona. Ele não é feito apenas de momentos bons. Seu pai e eu estamos passando por uma fase ruim, mas isso vai passar. Porque é assim que os casais dão certo. E é pela falta de paciência que tanta gente se separa hoje em dia.
- Não concordo com metade dos seus argumentos.
- E eu não posso fazer nada contra isso - ela respondeu. - Mas você também não pode fazer nada contra a minha opinião, porque ela é minha. Você só pode me respeitar porque é isso o que os filhos fazem com as mães.
- Eu te amo, mas você está errada.
- E eu te amo mesmo que você seja imaturo.
Ela achava que minha posição era imatura, mas eu não entendia o que ela queria de mim. Eu não podia permanecer calado diante dos fatos que eu via dentro da minha casa. Seria insano deixar que meu pai tivesse poder absoluto sobre a vida de todos, que agisse como um animal quando sua ordem era desacatada. Quem o via de fora achava que ele era o melhor exemplo de homem, mas só quem estava em casa conhecia a sua verdadeira identidade. E eu tinha nojo dela.
Nós desligamos o telefone e um gosto ruim subiu em minha garganta. Eu detestava ligações que em vez de solucionarem, pioravam as coisas. Minha mãe sabia bem como me deixar intrigado com as coisas e eu preferi encerrar aquela conversa antes que nós estivéssemos gritando um com o outro.
- Escuta só, - falou, e minha atenção se desviou um pouco do assunto anterior. - Baaaby... - o garoto começou a cantar, mas antes que a palavra seguinte surgisse em sua boca, o interrompeu.
- Muito legal, mas, por favor, não comece nenhuma música com a palavra baby.
- Você nem ouviu o resto - se defendeu.
- Por que não tentamos trocar baby por qualquer outra coisa? Aposto que vai ficar melhor!
Então eles voltaram ao mesmo silêncio de antes, pensando em alguma palavra que substituisse a que cantou. Então estávamos os três perdidos em pensamentos, quando alguma coisa começou a arranhar a porta, que ainda estava aberta porque eu não tinha fechado quando cheguei, e a empurrou. Era a bola magra de pelos que dividia quarto com e .
- Chloooooe - cumprimentou a gata tão alegremente que o som foi quase cantado.
entrou logo depois enquanto levantava da cama pra pegar Chloe no colo. Ela hesitou um pouco ao ver que estava conosco no quarto, mas fingiu que não tinha problema e virou pra falar diretamente comigo.
- Estou indo trabalhar. Será que você pode fazer um favor pra mim? - comecei a me levantar para atender o que quer que ela precisasse. - Eu dei leite com canela pra Chloe beber hoje de manhã, só que a coitadinha é alérgica. Fiquei de comprar remédio pra ela, mas eu vou chegar bem tarde do trabalho, então eu só preciso que alguém cuide dela enquanto eu chego.
- Eu posso ficar com ela! - respondeu, animado.
- Tecnicamente, dá no mesmo - riu um pouco e deu de ombros. - Vocês moram no mesmo quarto, então...
- Então eu cuido dela! - falou.
- E eu cuido dos dois - pisquei pra , que riu pra mim.
A garota ia se virar para ir embora, mas nós todos paralisamos ao ouvir a frase de . Não paralisamos por ter sido algo polêmico, mas porque era uma frase meio... boba. Parecia que estava tímido.
- Hey, você está bonita.
e eu o encaramos, e eu estava morrendo de vontade de rir, mas foi quem teve a reação mais esquisita. Eles dois podiam competir pra ver quem ganhava como mais babaca na hora. Eu não estava entendendo nada.
- Hum, claro - ela revirou os olhos e sorriu bem rápido, como se estivesse achando que era mentira o que acabara de falar. E não era, ela estava bonita de verdade. Normal como no dia anterior, vestida pra ir trabalhar, mas bonita. - Obrigada, eu acho.
- Você não quer carona pro trabalho? Eu não estou ocupado agora - ele se ofereceu.
- Ahn... não precisa, não - a menina ficou tão ridicularmente vermelha que eu precisei virar o rosto pra não rir da cena. - Eu estou no horário certo. Vou chegar lá tranquila. Mas obrigada, .
- Ah, ok então.
Quando fez um carinho rápido no pelo de Chloe e saiu do quarto, fechando a porta, eu não aguentei mais. Eu precisei rir alto. Não me importava se eu não tinha muita liberdade com e se eu não sabia nem metade daquela história. Havia sido ridículo!
Visivelmente, era o tipo de cara que podia ficar com qualquer garota daquela escola, mas sempre que aparecia ele gaguejava e deixava ela dar as coordenadas. E se ela dizia que não queria uma carona, ele dizia "Ok, então.".
- O que é? - ele perguntou, irritado, quando viu que eu não ia parar de rir.
- Cara, vai atrás dela! - eu falei. - Não está óbvio que ela quer, sim, uma carona? A menina estava da cor de um tomate!
Claro que ela poderia ter falado. As mulheres costumavam complicar bastante. Quer dizer... se ela queria a carona (e eu sabia que queria) podia ter dito sim, ter sorrido ou deixado qualquer outro sinal pra , mas não. Ela negou como se aquela ideia fosse insana e saiu, sem sequer olhar pra ele. Eu só percebi pela coloração de suas bochechas, mas somente porque eu era muito observador. teria dificuldades com aquela ali se as coisas continuassem do mesmo jeito.
levantou da minha poltrona, calçou as sandálias e saiu do quarto sem dizer uma sílaba. Era aquele acordo de novo. Não precisávamos falar quando não fosse necessário. Sem "ois" e sem "tchaus".

Chloe miava muito. Talvez tivesse relação com a alergia, provavelmente tinha alguma coisa irritando seu estômago. Eu só tive a prova de que a gata estava realmente mal quando ouvi reclamando do mau cheiro que ficaria no quarto por causa do vômito que ela havia acabado de soltar no chão.
Eu me perguntava por que não estava cuidando de Chloe, já que era a gata dela. Cogitei ir procurá-la, mas me mantive quieto ao notar que minha real intenção não era entregar a responsabilidade à , mas simplesmente vê-la. E se a intenção era somente colocar meus olhos nela, eu ficaria quieto no meu quarto. não podia me ver correndo o tempo todo, ou se acostumaria a nunca me procurar.
Eu queria marcar presença, queria sua companhia e consequentemente, seu corpo amassando o meu na minha cama ou na dela... Mas embora eu desejasse muito aquilo, havia apostado que ela procuraria por mim. Então eu não podia simplesmente aparecer o tempo todo. Um pouco de mistério devia pairar por ali.
Decidi ficar por ali e escutar a babação de e Chloe. Liguei meu computador e fui sentar perto da janela, sentindo o vento fresco balançar meu cabelo. Acessei o site oficial da Pixar porque um dos meus maiores sonhos era trabalhar naquele lugar, então eu tentava ao máximo entender tudo daquele mundo.
Vi pelo canto do olho quando acabou de limpar o vômito de Chloe e a segurou no colo, indo sentar na cama pra voltar a escrever no caderninho de antes.
- Sobre o que você está escrevendo? - puxei assunto. Eu ainda não havia conversado muito com . Ele era a pessoa com quem eu tinha menos contato, embora fosse meu companheiro de quarto.
- Ainda não sei - ele assumiu. - disse que a gente devia fazer uma música legal pra, sei lá... quem sabe ganhar uns pontos extras na classe de composição, mas não saímos do papel em branco.
- E do "baaaaby" - caçoei do garoto e ele revirou os olhos, mas sorriu também. - Eu não sabia que vocês pagavam cadeira juntos.
- Não pagamos. Mas é legal comigo porque ele é amigo do meu irmão. Ele meio que me dá uma força aqui pra eu não ficar sozinho, ou sei lá... Ele é um cara maneiro.
- O que seu irmão faz agora? - eu ainda estava encarando minha tela e navegando de uma página pra outra, mas conseguia acompanhar a conversa.
- Ele é assistente de produção numa agência. É bem legal, na verdade. Já conheci um monte de gente famosa por causa disso - tinha orgulho do irmão e isso era notável em seu tom de voz. - Faz pouco tempo que ele trabalha lá e ele gosta bastante, já cresceu no cargo até. A gente sabe como funcionam essas coisas de plano de carreira, ninguém começa de cima... Mas ele está bem confiante. Mais algum tempo e meu irmão vai ser um desses fodões que a gente vê fotografando as gostosas de Hollywood.
- Irado.
- É.
Me distraí por uns minutos enquanto assistia alguns vídeos da produção de Frozen. Eu achava hilário o fato de alguém ter a ideia de criar erros de gravação em filmes computadorizados. A primeira vez que vi aquilo foi cerca de dez anos atrás ou menos. Minha irmã estava assistindo um dos milhares filmes da Barbie e, no final, a princesa e a sósia de cabelo escuro dela erravam as letras das músicas, tropeçavam, viam seus celulares tocando no meio da "gravação". Sensacional terem o trabalho de fazer algo totalmente desnecessário. Não tinha razão pra existir, mas eles faziam pra alcançar um nível maior de realidade.
Na época, eu achei aquilo tudo uma babaquice, mas anos depois, desenvolvi uma fissura por esse tipo de criação e saí caçando em todos os lugares. Quando os Dvd's regraváveis estavam na moda, eu gravava e apagava vários deles apenas com erros de gravação de animações.
bufou do outro lado do quarto e eu pude perceber que ele estava meio frustrado por não conseguir escrever alguma coisa além do baby.
- Sobre o que você está escrevendo? - insisti na mesma pergunta de antes.
- E eu sei lá! Só quero escrever uma música.
- Mas ainda nem decidiu o tema?
- Não! - ele deu de ombros e deitou na cama com Chloe no peito, largando o caderno por lá. - Não tem nada muito inspirador acontecendo na minha vida atualmente.
- Escreve... sei lá. Escreve sobre a escola nova, ou sobre uma garota, ou sobre uma festa. Tem tanto assunto pra se escrever uma música.
- É por causa de mentes como a sua que existe tanta porcaria por aí.
- Uow! - ergui as mãos em sinal de rendição.
defendeu sua arte com unhas e dentes e aquilo me fez gostar um pouco mais dele, assim como tinha acontecido com Hannah. Fiquei grato instantaneamente por saber que dividiria o quarto com um cara de bom gosto musical, embora fosse esquentado e houvesse acabado de me diminuir sem ao menos me conhecer.
- Você está muito bravinho, garoto - debochei dele. - Está precisando de alguma coisa que anime sua vida mesmo. Sinto lhe informar, mas Chloe não vai ser sua melhor companhia por muito tempo, então é melhor seguir o conselho que você mesmo me deu no sábado, quando nós chegamos: Vá conhecer pessoas.
- As pessoas são complicadas, . Elas fazem perguntas demais.
- Faz o mesmo então. Pergunta - dei de ombros. - Se uma pessoa está te irritando com alguma coisa, devolve na mesma moeda até ela perceber como é chato.
- Bem adulto!
- A gente tem que aprender a se virar!
Deixei no quarto com seus próprios pensamentos e minhas teorias malucas sobre ficar sozinho. Até eu concordava que não tinha feito muito sentido, mas não estava disposto a ficar mais tempo ali explicando a como ele podia ser um cara mais sociável. Saí pra tomar um ar, conhecer mais da escola, ver as pessoas em suas atividades matutinas.
A saída do alojamento masculino dava em frente ao prédio das classes e foi por ali que eu entrei. Àquela hora da tarde, tudo ficava meio vazio. Poucas pessoas tinham aulas à tarde e as turmas que ainda ocupavam o local eram pequenas ou bem silenciosas. Eu podia ver alguns estudantes andando de um lado pro outro ou apenas conversando, mas, no geral, eles eram poucos.
Vaguei pelos corredores enquanto admirava o chão de madeira encerado, como nos filmes de terror, sendo que nada era velho e desgastado. O chão era mais limpo que o do meu quarto, embora aquilo não fosse muito difícil, já que eu não era tão adepto da limpeza diária. até que era limpinho, mas eu dava uma equilibrada no ambiente.
Senti uma mão segurando a minha e eu não tive tempo de ver nada, além de uma cabeça loira me puxando até entrar em uma sala escura através de uma porta estreita. Ouvi seu riso abafado enquanto ela trancava a porta e me encostava ali, tomando o controle da situação. Ela me beijou rapidamente e eu segurei firme em sua cintura, trocando nossas posições.
Agora ela estava encostada na porta e eu me aproveitava de seu corpo quente, ali colado ao meu.
- Que surpresa boa! - consegui falar, quando nós soltamos os lábios por alguns segundos.
- Você estava andando tão sem rumo pelos corredores, seria um desperdício perder essa oportunidade - Hannah tinha uma animação sempre presente na voz e aquilo me deixava aceso.
- Nunca perca! Nunca perca! - distribuía beijos por seu pescoço perfumado enquanto continuava falando para ela nunca perder uma oportunidade daquela.
Hannah sorriu e moveu o busto pra cima e pra baixo algumas vezes, fazendo com que a minha vontade de arrancar sua blusinha fina ficasse cada vez mais evidente. Aprofundei meu aperto em sua cintura, tornando a beijá-la.
- Espera... - ela falou, orgulhosamente ofegante.
- O que foi?
- Vem na minha casa esse fim de semana - ela disse, me olhando nos olhos sem ligar pro ambiente que estava meio escuro. - Minha mãe só chega em casa à noite porque ela dá aula numa creche durante o sábado inteiro. Então a gente teria um tempo livre.
- Totalmente sozinhos? - sorri. Aquela era uma boa novidade.
- Totalmente sozinhos - sua resposta foi cochichada ao pé do meu ouvido, seguida de suas unhas arranhando meu peito por cima da camisa.
Eu não precisei responder porque meu corpo fez aquilo sozinho e, com certeza, Hannah entendeu que minha resposta era afirmativa e seria afirmativa sempre, desde que ela pedisse daquele jeitinho.

Capítulo 8: 'Cause I don't wanna fall in love

Passei a tarde toda dançando sozinha. Eu gostava das danças em par, mas a solidão também era muito bem-vinda desde que a música estivesse bem alta. Quando enjoei, juntei minhas coisas, desliguei a música e marchei de volta ao meu quarto só pra poder deixar tudo lá e ir só de toalha pro banheiro do andar.
Alojamentos separados por sexo eram bons por esse motivo. Eu, definitivamente, não achava que era um pecado mortal aparecer de toalha na frente de um homem, mas a coordenação da escola achava que era e, por isso, fez questão de manter mulheres de um lado e homens do outro.
A Escola de Artes era composta basicamente por três prédios, ou três e meio como algumas pessoas costumavam falar. O primeiro era o prédio da frente, composto por três andares e dois blocos. Era o prédio onde as aulas aconteciam e também onde nós, moradores, fazíamos todas as nossas refeições. Ele devia ter uns vinte metros de comprimento, sendo menor do que os prédios de trás. Os três prédios de trás eram colados um ao outro, às vezes deixando parecer que se tratava de uma única construção, mas não era. O da esquerda era o alojamento masculino, o do meio era o prédio administrativo, mais conhecido como metade de um prédio, e o da direita, o alojamento feminino. Eles eram da mesma altura, mas o administrativo era estreito e de uma cor mais escura. A cobertura do prédio administrativo era o salão de vidro, onde os aquários de ensaio se localizavam.
Terminei meu banho e voltei ao quarto para vestir uma roupa confortável e continuar a ler meu livro. Durante o meu aniversário, no verão, minha mãe me deu um livro de John Green de presente. Ele havia virado tendência nos Estados Unidos, todo mundo conhecia e lia aquele cara e minha mãe decidiu que eu deveria conhecer também. Havia sido uma boa ideia, porque Cidades de Papel era um livro realmente bom, embora eu achasse que Margo, a personagem principal, estava agindo como uma vadia fazendo todo mundo ir atrás dela.
Faltava cerca de vinte ou vinte e cinco páginas pra eu finalizar apenas, então eu deitei na cama de , já que ela ficava mais perto da janela, e abri o livro para descobrir logo onde estava a preciosa Margo Roth Spiegelman.
Foi questão de dois segundos até eu perceber que uma gosma fedorenta estava escorregando das últimas páginas do livro direto no decotinho da minha blusa. Levantei da cama com pressa e com nojo, tentando entender o que era aquilo, até que eu me lembrei dos vômitos de Chloe pela manhã e associei uma coisa à outra.
As sensações que adentraram meu cérebro em seguida foram paralelas: raiva e desespero. Primeiro que se não tivesse dado canela à coitada da Chloe, ela não teria vomitado justamente em cima do meu livro. Em segundo lugar: O que eu faria agora, já que as últimas páginas do livro estavam vomitadas e eu não teria como ler o final?
Respirei fundo. Dar ataque não resolveria o meu problema de maneira alguma.
Arranquei a blusa melada do corpo e andei até o lixeiro para colocá-la lá dentro, juntamente com o livro. Eu podia ser dramática e dizer que havia lágrimas nos meus olhos enquanto eu via o livro indo lixeiro abaixo, novinho, mas não. Eu não estava chorando, embora estivesse muito puta com um desperdício daquele.
Fui tomar outro banho e, na volta, comecei a procurar Chloe por todos os lugares. Não achei. Ela vivia se escondendo embaixo da minha cama, mas não havia nem sinal da gata e eu comecei a ficar irritada. Era normal Chloe sumir, afinal de contas, ela era uma gata, e gatos são safados assim mesmo, mas a bichinha estava doente e não deveria sair passeando naquele estado.
Mas ela entrou no quarto poucos minutos depois nos braços de . Era engraçada a cara que ele fazia sempre que estava perto de Chloe. O garoto gostava mais de gatos do que qualquer outra pessoa que eu já havia conhecido.
- Chloe, por onde você andou, mimosa? Hein? - peguei a bola de pelos nos braços e lhe fiz um carinho. fechou a porta atrás de si e foi diretamente deitar na minha cama, de costas para mim e de frente pra parede, da mesma forma que ele tinha feito na primeira vez. - Onde ela estava, ?
- me deixou tomando conta. Ela disse que ia trazer o remédio quando voltasse do trabalho, mas precisava de alguém de olho na Chloe enquanto isso.
Foi invenção minha criar Chloe dentro do alojamento. No início, a direção da escola foi contra e quis que nós colocássemos a bichinha para fora, mas como eu fiz muita chantagem emocional, sua estadia foi permitida. também não gostou muito, mas depois se acostumou. Ela cuidava muito bem de Chloe, mas às vezes pisava na bola, como no caso da canela. Não era por maldade, ela só era esquecida.
- Sabia que você é uma garota muito má? - continuei conversando com ela enquanto alisava seu pelo. - Vomitou no meu livro, Chloe, no Cidades de papel. E agora? Como eu vou saber se John Green matou ou não matou Margo? Sim, porque você sabe que essa é a especialidade de John Green: matar os protagonistas!
- Pensei que só eu conversasse assim com ela - falou pra mim, ainda em sua posição esquisita.
- Não deixo minha bichinha se sentir solitária.
Deixei Chloe no meu colo e fiquei lhe fazendo carinho. A curiosidade sobre o final da história ainda perturbava o meu juízo e eu decidi que, mais tarde, sairia procurando pelo alojamento alguém que tivesse o livro para me emprestar. Se eu não achasse, teria que ir à livraria para comprar outro, mas eu não poderia ficar sem saber o fim de Quentin e Margo. Era inaceitável pra mim.
permanecia deitado de costas pra mim na cama e eu lembrei de algo interessante sobre ele: era colega de quarto de . Eu deveria sentir vergonha de assumir aquilo, mas a minha curiosidade sobre o estudante de cinema era bem viva. Eu queria entender como ele conseguia manter aquela linha de garoto relaxado que fuma maconha, mas ainda é gostoso pra caramba.
Decidi ser sutil.
- E aí, ... Anda se acostumando bem com a escola?
- Aham. E você? - ele perguntou, mas se retratou depois. - Ah, esqueci que você é veterana. Mas, sim, a escola é bem legal. Até agora as minhas aulas foram iradas.
- No primeiro período tudo é muito mágico mesmo - me lembrei de quando eu cheguei ali. Eu era bolsista e tinha medo de tudo e de qualquer coisa. Era tida como santinha ou inocente, mas era tudo porque eu tinha medo de perder a bolsa. Quando eu entendi que meu comportamento não iria influenciar em muita coisa, relaxei e comecei a ser eu mesma. Eu sempre fui decente, mas porque aquilo era parte da minha personalidade. Mas, no geral, a coordenação se importava mais com as notas dos bolsistas, não com a conduta. Desde que eu não agisse como uma louca, claro.
- Ficou ruim depois?
- Não, claro que não, mas você se sente mais em casa. Tudo deixa de ser mágico e passa a ser comum, mas ainda assim, bom - aproveitei o embalo para chegar aonde eu queria. - A mesma coisa é com colegas de quarto. No começo, a ideia de dividir esse espaço com alguém que você não conhece é aterrorizante, mas depois vocês fazem amizade e ficar longe da pessoa vira uma atividade impraticável.
- Você está dizendo então que e eu vamos ser tipo... best friends forever? - a voz dele era engraçada enquanto dizia isso, ele estava zombando de mim, mas eu não consegui ficar com raiva. Em parte porque não parecia ofensivo, e depois porque minha concentração estava em outro assunto.
- Podem até trocar maquiagens um com o outro - continuei a brincadeira, mas depois disso fui direto aonde eu queria ir. - Mas, me fala... Como está sendo isso de ter colega de quarto? é um cara legal?
- Deve ser. A gente quase não se fala.
- Por quê?
- Por nada. É só que ainda não arrumamos assunto. Hoje nós conversamos bastante sobre música e eu ouvi uma conversa dele com a mãe no celular, mas eu fingi que não estava ouvindo pra não parecer intrometido.
- Não tem problema em ser intrometido desde que ninguém perceba, não é?
- Exatamente! - ele concordou quando eu pensei que negaria, então eu ri por aquilo. - No geral, ele é gente boa. Meio bagunceiro, mas não faz barulho, não acorda de madrugada e, pelo menos até agora, não roncou. Acho que dá pra conviver.
- E você ronca? - eu perguntei, sorrindo.
- Nunca ouvi - ele virou a cabeça pra me olhar e eu lhe mostrei a língua perante sua resposta atravessada. - E como é dividir o quarto com a ?
- A gente só não se mata porque se ama muito - era tão verdade! - Nós somos bem diferentes e ela diz que eu fico fazendo barulhos esquisitos enquanto durmo, mas eu acho que é só implicância. Nós somos como duas irmãs. Às vezes eu pareço uma mãe, às vezes ela. A gente se cuida.
- Se eu ficar gay assim com , pode me internar.
- Não imagino que seja capaz de exalar esse carinho todo - arrisquei. Eu não sabia quanto carinho ele podia demonstrar, eu não o conhecia, mas queria saber o quanto sabia a respeito.
- Não sei. Ele pareceu bem carinhoso com a mãe no telefone, antes deles começarem a falar do pai dele e a conversa ficar pesada.
- Ficou pesada, é? - minha curiosidade ia aumentando gradativamente.
- Eu chutaria uns cento e setenta quilos.
Eu poderia ter continuado naquele assunto e descoberto todas as outras coisas que sabia sobre . Provavelmente o garoto nem iria notar já que estava mais interessado em tirar um cochilo na minha cama. Eu é que ficava interrompendo o tempo inteiro.
Decidi trocar o rumo da conversa e perguntei o que ele achava sobre o drama -, e como ele não sabia muito, o assunto morreu rápido. Então eu deixei na dele e liguei o computador, procurando qualquer coisa pra me distrair. E assim o tempo passou até que anoiteceu e ele foi para o quarto dele, me deixando sozinha.

Eu morava no terceiro andar e saí procurando por todos os quartos dali, mas nada. Não dava pra conhecer todas as garotas daquela escola, e eu realmente não conhecia, mas não me importava de parecer intrometida, desde que ficasse sabendo do final de Cidades de Papel. Como Hannah dormia no quarto ao lado do meu e ela foi a primeira pra quem eu perguntei, ela se ofereceu pra me ajudar a procurar. Então ela saiu perguntando às garotas que ela conhecia, ela conhecia muitas, e eu saí andando no quarto andar. Mas ninguém tinha aquele livro. No segundo andar, no primeiro e no térreo os resultados também não foram satisfatórios. E foi aí que eu desisti.
Quando eu encontrei com Hannah de novo, dessa vez na sala de estar comum entre os dois alojamentos, que ficava em cima do prédio administrativo, ela me disse que tinha conseguido encontrar A culpa é das estrelas e o Teorema Katherine, mas ninguém tinha Cidades de Papel.
Meu celular tocou no bolso. Era perguntando onde eu estava e querendo saber por que eu tinha deixado Chloe sozinha no quarto. Eu expliquei que estava em busca por toda a escola e que Chloe já não estava mais tão mal, então não tinha problema em deixá-la.
se juntou à mim e a Hannah na sala de estar. Ela já havia tomado banho, dava pra perceber pelo seu cabelo molhado, trazia Chloe no braço e uma sacolinha verde na mão. Minha amiga sentou perto de mim no sofá e tirou um vidro de remédio de dentro da sacola, preparando a dose certa para dar a Chloe.
- Um passarinho me contou que você teria novidades quando chegasse do trabalho - Hannah falou. Ela tinha aquele tom persuasivo na voz, como se quisesse que falasse logo o que tinha que falar. Mas hesitou um pouco, pensando.
- Que passarinho?
- Ah, então você tem mesmo alguma novidade, não é? - ela gargalhou e insistiu na pergunta. - Foi quem me falou. Agora me diz qual é a novidade.
- me deu uma carona pro trabalho! - dito isso, a garota colocou Chloe mais confortável no braço e levantou pra fazer uma dancinha feliz.
Eu estava contente por ela, mas metade do meu cérebro ainda se mantinha concentrada no fato de que havia contado a novidade a Hannah. E se a carona tinha acontecido na metade da tarde, aquilo significava que Hannah havia estado com a pouco tempo atrás.
- Como é que é? - deixei o assunto de lado e foquei em . - Conta essa história direito, criatura!
- Eu fui pedir pro tomar conta da Chloe enquanto eu trabalhava - ela voltou a sentar e contou a história. - Aí estava lá no quarto com os meninos, ficou com um papo de que eu estava bonita e me ofereceu uma carona pro trabalho. Eu não aceitei porque eu fiquei com vergonha, confesso. Aí eu saí do quarto pra ir embora, mas ele veio atrás de mim e insistiu em me levar. Disse que não ia custar nada e blablablá - ela sorria, animada.
- E o que aconteceu? Vocês se pegaram, né? - Hannah questionou com aquele sorriso aberto de sempre.
- NÃO! - ela gritou a resposta, mas gargalhava escandalosamente porque a ideia lhe agradava. - Foi tão esquisito! Eu já tinha pego carona com antes, mas essa foi tão estranha! Eu não sabia o que falar e ele ficava me elogiando o tempo inteiro.
- Eu bem que dizia pra você deixar de frescura e correr logo pra cima dele - apoiei.
- Mas fui eu que beijei ele primeiro, . Eu não queria ficar parecendo uma oferecida, nem nada do tipo!
- Eu te garanto que não é isso o que ele está pensando de você! - foi o que uma voz masculina falou. Aquela voz masculina.
- Então me diga, : O que tem pensado de mim?
Ele sorriu. Havia um leque variado de sorrisos que o visual de dispunha e aquele era executado quando ele ia falar alguma coisa bem óbvia. Me peguei reparando demais, mas desviei assim que ele cravou os olhos em mim. preferiu sentar no chão, encostando as costas na mesinha de centro e conseguindo ficar de frente pra nós três.
- Ele ficou afim de você depois da festa de sábado. Eu só posso falar de sábado porque não conheci antes, e ele ainda não é tão próximo de mim pra falar essas coisas. Mas o interesse é óbvio. Você só precisa estalar os dedos e ele aparece correndo, mais rápido do que Chloe, eu garanto.
Nós quatro caímos na risada com a compração bem sucedida de e ele confirmou que qualquer tipo de demonstração da parte de seria segura.
- Está vendo aí, bonitona? - Hannah falou. - Larga disso de achar que está se oferecendo demais. Se você quer uma coisa, vai lá e pega. Simples assim.
Só um tolo não perceberia o tom e a real intenção daquela frase de Hannah. Não era nada implícito, era exposto mesmo e o sorriso em seus lábios era bem fixo na direção de . O ser abusivo sentado à minha frente sorria também, só que menos aberto. Acho que ele sabia que aquela cena não era bonita aos meus olhos, e se eu era algo a ser alcançado, minha opinião valia muito.
- Tem uma marca roxa no seu pescoço, - eu falei, porque ao contrário dele, meu objetivo na aposta não era facilitar a vida de ninguém.
Ele levou a mão ao pescoço, no lugar que eu apontava, como se aquele movimento fosse lhe fazer ver ou ter noção do tamanho, não sei. Continuei encarando enquanto ele ficava momentaneamente sem ação, até que nós ouvimos a voz de Hannah comentando a respeito.
- Isso é sério? - ela sorriu e levantou do sofá para andar até e verificar de perto a coloração de seu pescoço.
também levantou ao meu lado, mas sua intenção era outra. Ela disparou algumas piadas sobre não estar com vontade de segurar vela e eu lhe segui para fora da sala de estar, deixando e Hannah resolverem suas pendências. Hannah nos mostrou o dedo do meio, parecendo divertida, mas voltou ao pescoço de e eles não estavam prestando muita atenção quando nós saímos de vez.

- Você ficou grilada!
Eu odiava quando me acusava. Odiava porque, na maioria das vezes, ela estava certa. Odiava porque ela só fazia acusações quando tinha certeza absoluta do que estava falando. Eu odiava porque aquela magrela me conhecia tão bem que descrevia meus sentimentos antes que eu mesma os entendesse.
- Grilada com merda nenhuma.
- Aham.
Decidi mudar de assunto antes que as coisas ficassem feias pro meu lado.
- Chloe vomitou em Cidades de papel - eu falei, com a voz chorosa, fazendo drama. - E nas últimas páginas. Agora eu estou sem saber o final da história.
- E agora? O que você vai fazer? Dá pra deixar as folhas secando e recuperar depois?
- Não e isso é um saco! Elas já estavam nojentas e grudadas quando eu fui ler. O vômito caiu em cima de mim. Eca! Joguei blusa e livro no lixo na mesma hora. Aí eu saí procurando pelo alojamento alguém que tivesse o livro pra me emprestar.
- No alojamento inteiro? - ela riu da minha sede, eu acho. - E conseguiu?
- Não, eu só procurei no alojamento feminino e não achei, não. Hannah me ajudou a procurar, mas ela também não conhecia ninguém que tivesse.
- E isso foi antes ou depois dela morder o pescoço do ? - não sei dizer se a pergunta estava carregada de divertimento ou só curiosidade.
- Acho que foi depois.
- Aí você ficou grilada.
- Eu não estou grilada! - falei, mais alto. Nós já estávamos no corredor do nosso quarto, então colocou Chloe no chão pra que ela fosse até o quarto sozinha. Geralmente, nós ficávamos babando o fato de que a nossa gata sabia o caminho de casa. - E você nem me contou o final da história. O que aconteceu na carona? Ele te beijou? - sorri ao ver a expressão singela no rosto da minha amiga.
- Ele ficou só conversando comigo. Pegamos um engarrafamento aí a conversa durou mais. Mas ele não tentou nada, sabe? Nenhuma aproximação, abraço, beijo, aperto... nada do tipo. Ficou perguntando do meu trabalho e pediu pra eu fazer uma lista de todas as cantoras e atrizes gostosas que eu tinha entrevistado pessoalmente - nós já estávamos nos acabando de rir a essa altura da conversa. Entramos no quarto e deitamos cada uma na sua cama. - Aí ele me perguntou se a Jessica Alba era aquilo tudo mesmo pessoalmente e fez uma cara de espanto quando eu disse que Amanda Seyfried era mais bonita, pelo menos de perto.
- E vocês ficaram o tempo inteiro falando de mulher?
- Não. Eu disse que Ashton Kutcher me deixou de pernas bambas por causa do perfume e disse que estava com inveja.
- Ai, Kutcher! Por que você mora tão longe?
- Isso é tão injusto! - já estávamos fazendo drama juntas. - Aí você vem querer mentir pra mim que não ficou grilada com o pescocinho roxo do ? - ela riu de mim. Não adiantava querer entender por que a volta ao assunto. era daquele jeito. Ela falava sobre o que queria na hora que queria, sem precisar de uma ordem.
- Que coisa, , eu já disse que não estou nem aí pra cor do pescoço dele! - me defendi. - Agora tem uma coisa que me deixou curiosa. Por que você estava brigando com ele no almoço?
- Porque ele quer ficar com minhas duas melhores amigas e eu mandei ele escolher uma.
- Que porra! Eu não acredito que você fez isso.
- Por que não? Tudo bem pra você dividir ele com a Hannah?
- Não quero dividir nada com ninguém. Eu não estou nem aí pro , . Merda! Agora ele vai achar que eu estou afim dele.
- Mas você está!
- Não estou, não! - nós estávamos gritando, mas ninguém ia se importar com aquilo porque não era uma briga. Nunca era. Só que a gente sempre falava muito alto, principalmente quando me colocava em situações constrangedoras e vice-e-versa.
Fingi que estava com raiva enquanto ela ria de mim e dizia que seria melhor que eu parasse de mentir pra mim mesma. Só que ela, definitivamente, não sabia do que estava falando. Minha raiva pela indecisão de não estava relacionada a sentimentalismo, era apenas asco daquele jeito de pegador que tinha qualquer uma na mão.
Só que eu não era qualquer uma e nunca me apaixonaria por ele.

Capítulo 9: With a boy and a girl and a huh! and a game

- Acho que se você passar um pouquinho de corretivo dá pra ficar tranquilo. Ninguém vai nem notar.
Eu ainda estava jogado no chão da sala de estar com Hannah encostada em mim, ela observava sua obra de arte no meu pescoço. A situação era confortável, mas o fato de ter presenciado a cena toda e saído de cara feia me irritou. Eu tinha um objetivo e, se eu queria alcançá-lo, não podia ficar dando mancadas como essa.
Precisaria ser mais discreto em meus encontros com Hannah sem que ela percebesse que eu estava escondendo o jogo. Ainda não entendia como ela não tinha conhecimento do meu interesse em . Mas pelo que eu pude perceber, Hannah era mais próxima de apenas, então talvez estivesse mesmo equilibrando a corda entre uma e outra pra não me deixar em maus lençóis.
- Relaxa, loira. É só uma marquinha, daqui uns dias ela sai.
- Isso se eu não fizer outra por cima - ela virou-se ao meu lado e levantou meu braço para que eu o encostasse em seus ombros. Estávamos abraçados.
- Então nós vamos começar uma competição sobre quem deixa mais marcas.
- Você nunca ganharia de mim - ela sorriu ao meu lado e me olhou de frente. - Está vendo esses dentes aqui? - então os expôs na minha direção. - São os dentes mais bem tratados desse país. Eu arranco até a cabeça de um cavalo.
- Mas que garota perigosa! - flertei. Era engraçada a forma com que Hannah ficava coradinha quando eu falava daquele jeito. Mas ao contrário da maioria das garotas, eu não acho que aquilo era vergonha. No fundo, eu sabia que minhas palavras a deixavam acesa. - Me deixa pensar... O que eu posso fazer pra acalmar esse espírito alvoroçado?
- Tem que se esforçar, bonitão!
- Deixa eu me esforçar então.
Não me importei se aquela era uma sala aberta para qualquer um. Estava vazia no momento e aquela era a única coisa que importava. Capturei os lábios de Hannah entre os meus e me deliciei com seu gosto doce. Nós trocávamos pequenas mordidas e nossos corpos foram se inclinando aos poucos, até que estávamos deitados no chão. Meu corpo por cima do dela, nos esquentando e nos provando até onde o ambiente deixava.
Claro que não fizemos nada demais, mas era bom gastar meu tempo com a loira. Ela sabia como me divertir.

Encontrei com ela na porta da sala de aula.
Era quinta, não havíamos nos visto nem nos falado no dia anterior e eu senti vontade de aparecer, só pra que ela não pensasse que eu estava saindo da jogada. Sem falar que eu havia dado mancada na cena com Hannah e ainda não sabia como reagiria àquilo.
Sendo assim, saí cinco minutos mais cedo da minha aula e caminhei até a sala dela. Eu sabia que ela estava tendo aula teórica porque perguntei a . Fiquei encostado na parede de frente pra porta. Pensei em fazer uma daquelas posições que os caras fazem pra esperar as meninas nos filmes, mas aquilo tudo era em vão. Eu queria conquistar sem máscaras. Sendo eu mesmo.
Uma enxurrada de garotas começou a sair da sala. Alguns caras sairam também, mas eles estavam em menor quantidade, o que me levava a crer que a grande maioria do curso de dança era composta por mulheres.
saiu, me viu e andou até me dar um beijo na bochecha, dizendo que não almoçaria em grupo hoje porque precisava correr pro trabalho. apareceu menos de um minuto depois. Vinha conversando com outra garota e eu achei graça em seu rabo de cavalo miúdo. Como o cabelo dela batia no ombro, um rabo de cavalo chegava a ser engraçado, já que o cabelo não tinha comprimento suficiente pra fazer ondas. Mas era lindo, assim como o cabelo quando estava solto.
- Oi - chamei sua atenção quando notei que ela iria passar por mim sem perceber, devido a grande quantidade de gente.
- Está fazendo o que aqui? - ela perguntou.
- Vim te buscar pra ir almoçar - dei de ombros. Eu não precisava arranjar uma desculpa. Meu intuito era vê-la e pronto. Eu não queria disfarçar, não queria ir devagar, não estava tomando cuidado pra não assustar a garota. Eu queria colada a mim e queria naquele exato momento, então quanto mais rápido ela percebesse que não adiantaria fugir, melhor pra mim.
- Por quê? Não achou a Hannah?
E foi ali que eu percebi que a questão com Hannah não era algo que precisaria ser bem escondido, mas algo que precisava acabar. Mas ao mesmo tempo em que eu me senti encurralado, não pude deixar de soltar um sorriso pelo canto dos lábios. Ela estava com ciúmes.
- Você ficou grilada?
- Por que todo mundo decidiu usar essa palavra?
Vi quando a outra garota se despediu de e se afastou de nós, juntamente com o resto das pessoas que ainda deixava a sala de aula. Estávamos, agora, praticamente sozinhos no corredor e a nossa conversa continuava.
- Quem mais usou?
- . Vocês combinaram, é?
- Na verdade, não. Por que ela usou essa palavra contigo? - arqueou a sobrancelha pra mim, como se dissesse com os olhos que não responderia àquela pergunta, e então eu soube a resposta. - Foi pra falar de mim, não foi? - ela virou o corpo e começou a andar pra longe de mim, visivelmente irritada, e eu a acompanhei, segurei em seu braço e fiz com que ela voltasse a me olhar. - Ela perguntou se você ficou grilada por minha causa? Você ficou com ciúmes! - eu estava feliz com aquilo. Significava que meu caminho estava sendo traçado de forma correta.
- Você é extremamente metido! - ela revirou os olhos. - E atualmente, , eu só fico com ciúmes em uma situação: lendo fanfic.
- Lendo o quê? - se ela ia começar a falar em códigos, era melhor eu começar a prestar atenção.
- É claro que você não sabe o que é. Eu nem vou entrar no assunto.
- Mas agora eu fiquei curioso. O que é essa coisa? - por alguma razão ela decidiu gastar um tempo me explicando.
- Fanfic é como se chamam as histórias que se criam com ídolos. Por exemplo: eu sou fã do Conde Drácula e sempre leio histórias que me deixem sentimentalmente, psicologicamente e sexualmente envolvida com ele. Quando alguma vadia aparece no meu caminho e me impede de ser feliz pra sempre, eu sinto ciúmes. Mas essa é a única situação, . E, até onde eu sei, você não é o Conde Drácula pra eu sentir ciúmes de você, então... vê se não se acha demais.
- Não estou me achando, , é a constatação de um fato. Você me viu com a Hannah e ficou toda mordida depois. Não nega!
- Eu não fiquei mordida, fiquei sem entender por que você não me deixa em paz já que arranjou uma namoradinha.
- Ela não é minha namoradinha e você sabe bem disso.
- Eu não sei de nada, meu bem!
- ! - ouvimos uma voz chegando do fim do corredor e ela olhou para ver quem era, mas era como se ela reconhecesse a voz porque não havia surpresa em seu olhar, embora houvesse outra coisa que eu não sabia identificar bem. Era alegria, eu acho. - Hey, deixa eu falar com você.
- Oi, Alef - ela disse, sorrindo, quando ele já estava perto de nós. - Acabou de sair do banho? - ela deve ter perguntado porque o cabelo dele estava meio molhado. - Que nada, isso é suor! - e ele realmente estava suado e cheirando a esforço físico. Eca! - Fiquei sabendo que você ficou louca porque Chloe vomitou no seu livro.
- É sério que essa história já chegou no alojamento masculino? - ela parecia espantada. Eu não sabia que história era aquela de livro então fiquei boiando na conversa.
- Já deve ter chegado na Costa Rica do jeito que você faz escândalo - eles sorriram juntos. - Mas eu tenho aqui uma coisa que vai deixar o seu dia mais feliz.
ficou histérica na hora ao ver Alef tirando a mochila das costas e colocando-a na frente do corpo para abri-la. Ela ficava repetindo "Eu não acredito!" várias vezes, e eu apenas olhando. Alef tirou um livro de dentro da mochila preta e entregou nas mãos de . Os olhos dela brilharam.
- Eu não acredito! Eu preciso muito te abraçar!
Sem esperar sequer pela resposta, se jogou nos braços de Alef e o abraçou com garra e vontade. Vi quando ele retribuiu o abraço, deixando as mãos pousarem no meio das costas da garota, ato que fez ela se arrepiar. Eu estava vendo de perto os poros dela se abrirem e os pelos subirem contra a gravidade. Ela não estava se importando com o suor. Aproveitava o abraço como se aquela fosse sua única fonte de energia do mundo.
Eu senti raiva de Alef.
Mas ele a soltou, sorrindo, claro, mas sem a mesma empolgação que ela demonstrava. Então eu entendi que abraçaria qualquer cara daquela forma na minha frente. Era o seu jogo. Ela queria me fazer ciúmes também.
Sorte a minha que eu percebi a tempo. Ou não.
Enquanto a conversa deles continuava, comigo ainda de fora, captei algumas palavras como desafio, dança, balé, aulas e Wrecking Ball. Juntei ao fato de que Alef parecia ter acabado de sair de uma aula teórica e, até onde eu sabia, Teatro e Dança eram as únicas turmas que poderiam suar daquele jeito em uma aula prática. Ele vestia umas roupas de malhação e falava em dança com . Ele era da turma de dança também.
" Da última vez que eu inventei de dançar com um homem, acabei me apaixonando por ele."
Ela mesma tinha me dito aquilo no nosso primeiro dia de aula. A lembrança estava tão clara que todos os elementos do abraço voltavam à minha cabeça, como que para me fazer analisar quanto daquilo era fingimento por minha causa. E eu cerrei os olhos, incrédulo, ao notar que nada era. Nada era por mim, era tudo por ele. Os arrepios eram de verdade, o abraço estava mesmo sendo aproveitado.
era apaixonada por aquele cara! E ele nem mesmo parecia perceber.
- Acho que a esqueceu de nos apresentar - decidi chegar na conversa, eu não estava acostumado a perder espaço. - Sou , de cinema - estendi a mão para que Alef apertasse. Não aconteceu aquela tensão dos filmes de faroeste nem nada do tipo, ele só me cumprimentou de volta.
- Sou Alef, de dança - confirmou minha teoria. - Calouro, não é? Está gostando da escola?
- É irada! Já me sinto em casa. , vamos almoçar? - deixei meu tom de voz soar um pouco incomodado, já que eu realmente estava.
- Ah, cara, foi mal, eu fiquei atrapalhando vocês - Alef se desculpou e ia começar a dizer que ele não estava atrapalhando, mas ele continuou sua frase. - Vão lá. Eu preciso de um banho antes de comer. Amanhã é zouk de novo, . Te vejo na sala. Falou, ! - e bateu no meu ombro, em um cumprimento.
Dizendo isso, ele virou de costas pra nós, andando na direção da saída. ficou olhando enquanto ele se afastava e eu senti uma vontade inexplicável de ser um pouco desagradável e intrometido.
- Então é por isso que você fica embaixo do escudo, hein?
- O que você disse? - ela tinha ouvido, e eu achava que tinha entendido também, só que preferia se fazer de boba.
- Vocé é apaixonadinha por ele, por isso não me retribui quando eu digo que quero te beijar - eu falei, e vi se armar na minha frente.
- Eu não te retribuo porque vocé é vaidoso, . Essa é a razão.
- Qualquer míope conseguiria ver seu braço arrepiado, , enquanto estava abraçada com ele.
- Agora é você quem parece estar com ciúmes - a birrentinha arqueou as duas sobrancelhas, pôs as mãos na cintura e esperou minha resposta, crente de que tinha acabado de me desarmar. Mas eu ainda tinha munição suficiente.
- Eu estou.
Assisti satisfeito enquanto abaixava os braços e sobrancelhas, sua expressão mudando de superioridade para confusão.
- Vocé é esquisito! - não foi uma frase firme, foi um sussuro, do tipo de tom que você usa ao encontrar Samara de "O chamado" na sua sala, espalhando a água do poço pelo chão.
- Só porque eu deixo as minhas intenções claras?
- Você compartilha aquela história da Hannah, de ir lá e pegar o que quer?
- Você fala muito na Hannah - fiz uma careta frustrada. Eu estava tentando conversar com ela, sobre assuntos dela e eu dava total atenção a ela, mas ela insistia em sair do rumo.
- Por que será, ? Algum motivo deve ter!
- Tem, sim. É porque você ficou grilada!
- Ah, vá se foder!
Não tive como não gargalhar alto com aquilo. já estava andando para longe de mim, possessa. E eu fui atrás, ainda provocando, atiçando, falando coisas, até que nós chegamos ao refeitório e nos juntamos a e para almoçar.
Ela bem que tentou fugir de mim, mas até mesmo na fila da comida eu fiquei ao seu lado. sorria por dentro, eu via. Ela estava irritada comigo porque eu havia descoberto seu sentimento secreto por Alef, mas eu tinha uma arma secreta. Eu a divertia, eu a distraía e, embora ela achasse que eu era um pé no saco, dava bola ao que eu falava.
- Cadê a ? - perguntou, quando já estávamos os quatro sentados na mesa.
- Ela teve que ir trabalhar mais cedo, parece que tem alguma entrevista importante pra fazer.
cantava-comia ao meu lado e eu gastei um tempo tentando entender o que saía da boca do garoto, além dos pedaços de arroz quando ele se empolgava demais. Acho que era alguma coisa relacionada aos quatro acordes que tocara no meu quarto no outro dia.
- Não acredito que vocês ainda estão nessa música. Saíram do baby pelo menos?
- corta tudo o que eu faço - reclamou, como um bebê.
- Não se trata de cortar, . Nós só precisamos de um pouco de criatividade - deixou os talheres de lado para poder gesticular na explicação. - Se a gente for contar no mundo quantas músicas começam com baby, a lista não acaba nunca.
- Então diz você uma palavra!
- Eu estou me concentrando na melodia e já te disse isso.
- Seu conceito se fazer música em parceria é ultrapassado e desleal - resolveu tomar gosto pela conversa. - Qualquer um poderia fazer música assim. Acho até que vou chamar pra compor e arrastar pra cantar, vou descartar você.
- Eu aceito cantar - falou, após engolir uma porção de comida. - Baby, every time I love you, in and out my life, in and out baby - ela cantou.
No meio de sua frase, tapou os ouvidos, fez uma careta e começou a gritar para que ela parasse antes que ele sofresse com os tímpanos estourados. acompanhou e tapou os ouvidos com a mesma intensidade, mas não disse nada, apenas gargalhava, deixando fazer o drama maior. olhou para eles, ensandecida, injustiçada.
- Eu não canto mal! - ela falou, esganiçada.
- Mal é apelido, gatinha - sorria. - Continue dançando porque assim você vai longe. Deixa a música pra quem entende de música - ele disse, fazendo um sinal de legal com o polegar levantado.
Ela me olhou, como se buscasse confirmação para o que os caras falavam, mas eu não iria me comprometer com aquilo. Ela cantava mal mesmo. Piedosamente mal. Mas eu me resumi a dar de ombros e voltar a atenção pra minha comida, morrendo de vontade de rir.
Quando me disse que eu precisaria conhecer as pessoas certas ao chegar na escola, eu achei que estaria fadado a conviver com gentinha insuportável e popular só por conveniência. Ainda bem que não!
Eu quase não os conhecia, mas aquelas eram as pessoas certas. Eu não podia ter conhecido gente melhor pra passar o período da faculdade.

Todos os seres humanos normais sentem isso, mas minha vontade de dormir depois de almoçar era gigantesca. Era como se a comida se alojasse diretamente na parte de cima dos meus olhos, fazendo-os pesar e quererem fechar. E dormir à tarde sempre foi uma coisa muito gostosa!
e ainda brincavam de fazer música no meu quarto, e eu, deitado, ouvia os acordes e permitia que meu cérebro viajasse em todos os detalhes da primeira parte do dia, mastigando tudo e tentando adquirir experiência.
E os conhecimentos adquiriros no dia foram:
1 - Showgirls podia ser interessante para adolescentes como o que eu havia sido que adoravam qualquer filme com bastante cenas de nudez, mas nunca se recuperaria de ser a pior tragédia de 1995.
2 - Todo mundo parecia odiar Showgirls, mas eu era doido por aquele filme, então algo em mim soube que eu precisava assistir de novo para saber onde estava o erro. Se estava nas pessoas, ou se estava em mim.
3 - gostava de ler e tinha pego um livro emprestado com Alef.
4 - estava apaixonada por Alef.
5 - Alef podia ser uma pedra no meu caminho, embora fosse um babaca que não percebia que estava caída por ele.
6 - gostava de uma coisa chamada fanfic.
7 - Eu precisava entender o que diabos era fanfic.
8 - não cantava bem.
9 - Eu estava curioso: Como Alef não percebia que a garota ficava alterada perto dele?
10 - Eu precisava me distrair daqueles pensamentos antes que acabasse ficando doido.
Já que não ia mesmo conseguir dormir, sentei na cama e puxei o notebook pro meu colo, abrindo diretamente no Google para fazer a pesquisa que estava me deixando inquieto. Eu queria aquela garota e não admitiria ser passado pra trás por alguém que não enxergava a um palmo de distância.
Se aprender mais sobre era a melhor forma de ganhar sua atenção, eu aprenderia. Ler as expressões e ações daquela garota passaria a ser minha prioridade, até que eu alcançasse minha meta.
Digitei: Fanfic.
Conceitos, sites e imagens variadas apareceram na minha frente. Abri enciclopédia e ela me disse que aquilo era uma coisa que fãs costumavam fazer pros seus ídolos, por isso o nome fan e fic, que era uma abreviação para fiction. Entrei em um site e procurei qualquer coisa relacionada ao Conde Drácula, mas não achei nada. Então voltei ao Google e digitei: Fanfic Conde Drácula.
Cliquei na primeira página disponível e uma caixinha de pop-up saltou na minha frente. Ela perguntou meu nome. Não entendi o motivo, mas digitei ali, só para ver que, logo depois, ela perguntou meu apelido, e depois meu sobrenome e depois a cor dos meus olhos e mais uma infinidade de perguntas que eu estava respondendo sem saber aonde ia dar.
Acabei de responder o interrogatório e a página se exibiu na minha frente. Havia um banner no topo com várias imagens de dentes, sangue, vermelho e sexo. Não dava pra entender o título direito porque não havia muito contraste entre o nome da história e as cores de fundo, então eu decidi ignorar aquilo tudo e começar a ler logo.
A história parecia pequena e simples. No começo, o personagem, que se chamava , estava mudando de uma cidade pra outra e acabava conhecendo um professor na biblioteca da faculdade. No começo, eu achei que era coincidência, mas depois que as caracterÌsticas, como cor dos olhos e dos cabelos começaram a aparecer na história, eu entendi que era ali que minhas respostas se encaixavam.
, vulgo eu, e o professor passavam muito tempo conversando, mas minha paciência começou a se esgotar quando eu vi que o professor estava começando a dar em cima de mim. Ou do personagem, tanto faz, era meu nome que estava ali.
Não demorou muito para que ele revelasse ser o Conde Drácula e me levasse para um lugar escondido, onde ele ficou tentando me seduzir e partiu pra arrancar minhas roupas e ...
- Arrrrgh! - gritei de nojo, indo direto ao botão de fechar da página. Sem ressentimentos. - Que porra!
- O que foi? - perguntou.
Como eu iria explicar aos meus colegas que estava lendo um conto erótico gay onde eu era o personagem principal, só porque tinha dito que gostava daquilo? Discrição. Discrição.
- Nada! É só besteira de internet.
Eles voltaram a atenção para a música e eu fechei o computador, decidindo que dormir era a melhor coisa que eu tinha a fazer mesmo. Questionaria sobre aquilo depois, quando meu estado de choque passasse.

Capítulo 10: It's time to be a big girl now

A magia dos sábados se resumia a uma palavra: criança.
Havia uma creche no bairro, onde Tatiana dava aula todos os sábados. Quando eu demonstrei maior interesse no balé, Tatiana me convidou para ir com ela visitar a creche. Quando ela e eu nos tornamos amigas, eu decidi que iria ali todos os finais de semana com ela.
Aquele era o primeiro sábado do período letivo. Na semana anterior eu ainda estava chegando à escola, me organizando, arrumando as roupas no guarda-roupas e à noite foi a festa de boas vindas. Mas naquele, a aventura iria começar.
Aventura.
Dez garotinhas piruetavam, pulavam, brincavam e sorriam pela sala enquanto Tatiana e eu tentávamos dar conta de toda aquela agitação. A aula durava uma hora e nós tínhamos aquele tempo para passar nosso conhecimento às mais novas.
Quando uma aula acabava, mais dez garotas chegavam para ter aula também. Nós ensinávamos as mais novas mais cedo e as mais velhas mais tarde. As aulas da tarde tornavam-se mais fáceis por se tratar de meninas na faixa dos dez anos, até mesmo doze, que já estavam mais familiarizadas com a dança. Mas as aulas de manhã eram extremamente doces. Tudo se resumia a forma com que a menininha reagia ao conseguir fazer um passo da forma certa.
Drica, uma garotinha de cinco anos chamou meu nome, em meio a um sorriso, ao conseguir executar uma série de passos que eu havia passado. Nós estávamos tentando a uns bons minutos e ela ficava frustrada por não conseguir, mas quando conseguiu, esboçou um sorriso gigantesco, chamou meu nome e falou "Eu consegui!" E aquele era o tipo de emoção que nunca passaria despercebido.
- Vem jantar na minha casa. Hannah disse que iria cozinhar hoje - Tatiana me convidou quando já estávamos organizando as bolsas e apagando as luzes para ir embora.
- Devo ter medo dela na cozinha? - brinquei.
- Só um pouco. Nada grave - ela me acompanhou.
Aceitei seu convite e pouco tempo depois estávamos no carro dela, ouvindo Spicy Girls enquanto encarávamos os semáforos sempre fechados na nossa direção. Mas não nos importamos muito com aquilo porque, como saímos mais cedo da creche, chegaríamos mais cedo na casa dela também.
- Sabe, esses dias eu estava assistindo ao seu vídeo do desafio - ela me disse quando entramos no elevador.
- Sério? Andou consertando meus erros, hein?
- Na verdade eu andei analisando suas expressões - havia um sorriso misterioso em seus lábios - Por que você ficou tão tensa nas horas em que estava mais próxima de Alef?
- Será que foi isso o que nos prejudicou?
- Essa não é a questão, - Tatiana virou de costas para olhar seu reflexo no espelho e eu imitei o gesto - Nos ensaios eu sempre percebi que você não ficava muito à vontade. No começo era normal, mas na medida que o tempo foi passando, havia um peso. Era como se a presença de Alef te deixasse, não sei... talvez um pouco inquieta.
- Talvez eu tenha me envolvido um pouco mais do que deveria com ele.
Ela ia interrogar mais, então a porta do elevador se abriu e eu achei que o assunto estava enterrado, mas não estava.
- Vocês se envolveram?
- Não, não nos envolvemos. Eu me envolvi com ele - eu tentava explicar enquanto Tatiana procurava a chave dentro da bolsa - Fui eu quem acabou achando que havia sentimento onde não havia nada.
- Por isso todo aquele clima no vídeo.
- Ficou tão na cara assim?
- Não é que ficou exposto, mas eu conhecia vocês, então eu saberia dizer se algo estranho estivesse acontecendo.
Ouvimos um barulho de chave na porta, mas não era a de Tatiana porque ela ainda a estava segurando longe da fechadura. Cinco segundos depois, a porta foi aberta, revelando não apenas a figura de Hannah, mas também a de , no meio de algum comentário interno acompanhado de um sorriso cúmplice.
- Mãe! - ela pareceu surpresa, mas não se deixou abalar - Chegou cedo.
Tatiana demorou a agir de novo. Ficou olhando de para Hannah, boquiaberta. E com razão, afinal, eles estavam sozinhos em casa. Não foi uma situação muito confortável.
Hannah abriu espaço pra que nós estrássemos, enquanto isso, me olhou com ainda mais espanto, como se quisesse saber o que eu estava fazendo ali.
- Mãe, esse é . , essa é a minha mãe, Tatiana. E a você já conhece.
- Muito prazer, Tatiana - ele estendeu a mão para cumprimentar Tatiana e ela respondeu para ser cordial, mas estava escrito em seus olhos que ela não gostava do que estava vendo ali - Bom, estou de saída - ele estava tão sem graça - Até uma próxima oportunidade. Tchau, !
Dei um sorriso falso, Tatiana falou um tchau tão desanimado quanto o meu, ao contrário do de Hannah, que foi alegre e empolgado. Ela fechou a porta e veio até o meio da sala, onde eu já estava com Tatiana.
- Mas que invenção é essa, Hannah? - já havia irritação em seu tom de voz - Quem é esse garoto e o que você estava fazendo com ele sozinha em casa?
- Calma, mãe! Vai assustar desse jeito - ela me olhou, como se pedisse desculpas - Ele é , aluno de cinema da escola e nós não estávamos sozinhos por muito tempo. Nós acabamos de chegar do cinema, se a senhora quer saber. Ele só veio me deixar em casa.
Tatiana arqueou a sobrancelha e pareceu aceitar o que Hannah disse.
- Você fez comida? Estou morta de fome, só preciso tomar um banho antes - Tatiana perguntou.
- Fiz logo cedo. É só colocar no microondas.
- , pode ir tomar banho no quarto da Hannah. Daqui a pouco te chamo pra comer.
Tatiana se despediu e eu segui Hannah até o quarto dela.
Estava uma bagunça. Quer dizer, o quarto em si estava arrumado, Hannah nunca fora uma garota desleixada, mas a cama estava uma bagunça. E a prova maior de que ela não acabara de chegar do cinema com estava aberta e jogada no chão, uma embalagem prateada de preservativo, perto da cama.
Que nojo daqueles dois! Que nojo de Hannah por mentir pra Tatiana! Que nojo de por jogar em dois times!
- Se importa se eu tomar um banho antes? - ela perguntou, já tirando a blusa para entrar no banheiro. Ela estava sem sutiã. É provável que sequer tivesse colocado o pé para fora de casa naquele dia e mentira naturalmente pra mãe. Ela devia ter passado o dia inteiro rolando naquela cama com o imbecil do .
- Vai lá! Depois eu vou - respondi, virando o rosto.
Ela sumiu para dentro do banheiro e eu larguei minha bolsa no chão. Estava cansada, mas não tinha coragem de sentar na cama. Entretanto, se eu fosse ter nojo da cama por causa daqueles dois, teria que odiar o quarto inteiro. O cômodo cheirava a sexo na íntegra. Para qualquer lado que eu olhasse, podia imaginar Hannah e se agarrando e proferindo sons nada cristãos.
A garota começou a cantar no chuveiro. Tão animada! Eu não conhecia a música nem a banda, não sabia para onde iria cada frase quando ela acabava a última, mas a desgraçada tinha o poder de deixar qualquer canção maravilhosa. O que foi pior, porque agora eu tinha trilha sonora para imaginar as cenas. Era quase como um filme pornô, mas com sonorização profissional.
Ela não demorou a sair e eu entrei. Tentei ser rápida também, mas quando eu voltei ao quarto, tudo já estava perfeitamente organizado e dobrado, além de não haver mais nenhum vestígio da embalagem prateada no chão. Tudo parecia puro como o quarto de uma virgem.
Nós três sentamos na mesa e comentamos tranquilamente sobre como havia sido o nosso dia. Eu sabia que metade do que Hannah falava era mentira porque ela havia passado a tarde com naquele quarto, e não tinha ido comer e assistir um filme como estava dizendo, mas ignorei. Aquilo não era problema meu, era problema deles.

Como forma de proporcionar segurança e privacidade aos alunos, a escola instalou catracas na entrada dos dois prédios do alojamento. Tanto no prédio feminino, como no prédio masculino, só conseguia entrar quem tinha a carteirinha da escola, com um código que liberava o acesso. Mas como eu morava no terceiro andar do alojamento feminino e o quarto ao qual eu estava indo era no segundo andar do alojamento masculino, eu preferi subir ao último andar e atravessar para o outro prédio pela sala dos aquários. Me pouparia tempo e degraus para subir e descer.
Como era domingo de manhã, os corredores ficavam desertos, quase macabros. Muita gente dormia fora nos fins de semana. Alguns viajavam pra casa, outros só acordavam tarde mesmo. Somente pessoas que moravam realmente longe ficavam totalmente dependentes daqueles quartos do alojamento.
Como eu, por exemplo.
Bati na porta do quarto e coloquei o livro na frente do meu rosto, para que o nome 'Cidades de Papel' fosse a primeira coisa a ser vista quando Alef abrisse a porta.
- Oi? - ouvi uma voz, mas não a que eu esperava ouvir. Sorri, envergonhada e tirei o livro da cara - Acorda, Alef - ele disse, ao me reconhecer.
- Bom dia! - Alef apareceu e, meu Deus! Como ele estava lindo com aquela cara amassada e os olhinhos quase fechados.
Voltei a colocar o livro na frente dos olhos e ele sorriu, pegando-o da minha mão.
- E ai? O que achou?
- Margo é uma puta! - enfatizei o adjetivo com toda a raiva que senti ao ler a última página do livro.
- Epa! Calma, moça. Tão irritada a essa hora da manhã? - gargalhamos.
- Ela só estava fugindo! Eu preferia que estivesse morta mesmo, ou sei lá, quase isso... definhando por causa de uma doença terminal.
- Isso seria bem a cara de John Green.
- É, ele matou Alasca mesmo. Deveria matar Margo pra aumentar a lista de vítimas.
- Mas esse é o ponto, - ele se encostou na porta - Ele sempre mata os personagens, então a gente meio que já fica esperando o próximo acidente ou a próxima doença. Ele realmente surpreendeu em Cidades de Papel. Mais morte em Green seria como ler outro livro de Dan Brown, que é espetacular, claro, mas a gente sabe que, independente de qual seja o atentado, Robert Lagndom vai sobreviver a todos eles.
- Langdom sobrevive a bombas, assassinos. Ele é imortal!
- Apenas velhinhos e pessoas indefesas morrem nas histórias de Dan Brown.
- E por isso o mundo é um lugar injusto!
- Mas que garota dramática!
- Que nada!
No momento seguinte, tudo o que a minha cabeça conseguiu formular foi a expressão "Merda!" Era aquele agrupamento de cinco segundos onde as duas partes envolvidas se vêem totalmente sem assunto e procurando como prosseguir.
- Bem, eu vou tomar um banho e comer - foi ele que me dispensou - Passar o domingo dormindo não é pra mim.
- Ahn... ok - sorri, desconcertada - Vai lá então. Você vai pra Niña mais tarde?
- Hoje eu tenho uma festa fora da cidade, mas qualquer coisa eu passo lá antes de ir.
- Ah, ta bom - era difícil esconder minha decepção - A gente se vê lá então.
- Tchau.
Foi instinto. Me levantei na ponta dos dedos para ficar um pouco mais alta e abraçá-lo. Ele me retribuiu com um aperto, mas desfez rápido, sem empolgação alguma. Eu acenei e andei para a saída. Ia descer e olhar a rua porque eu estava desesperada por luz do sol e ar fresco depois daquele impacto.
Eu já havia me decidido por esquecer; começara até a me sentir disposta a superar tudo, a dar outros passos. Alef era pra ser passado na minha vida àquela altura do campeonato, mas a cada vez que eu o via, uma chama voltava a queimar dentro do meu corpo. E eu que sempre tive uma relação tão tranquila com meu próprio coração, acabei lhe dando de presente uma questão sem solução.
Não havia o que fazer em relação a Alef, apenas esquecê-lo. E isso era a única coisa que eu não conseguia fazer.
Quando estava quase chegando na escada do primeiro andar, uma voz chamou meu apelido e eu revirei os olhos, reconhecendo quem era.
Não parei. Continuei descendo as escadas, mas agora acompanhada de , que correu até mim quando viu que eu não ia mesmo parar.
- Hey! - ele falou, mas eu não respondi - Que estranho você aqui no alojamento masculino.
- Estranho por quê?
- Porque eu nunca te vi aqui.
- Isso não quer dizer que eu nunca venha.
Minha resposta atravessada e minha cara nada simpática devem ter deixado claro que o assunto estava encerrado.
- Vai fazer o que hoje de noite? - ele perguntou, sem desistir.
- O de sempre, . Bar da Niña, etc e tal.
- Ah, legal. Eu vou com vocês então. Quer uma carona de Jeep?
Eu parei instantaneamente no degrau em que estava e virei para ele. Aquele sorriso torto no canto dos lábios não foi o suficiente para me fazer encará-lo de forma mais amena dessa vez. Eu não sabia de onde tirava tanta insistência, mas eu precisava que ele parasse. Meus limites de paciência não eram assim tão grandes e já estava praticamente os ultrapassando.
- Por que não vai oferecer carona de Jeep pra Hannah?
- Porque eu quero levar você.
- Ok, mas eu não quer ir com você.
- É uma pena porque eu gosto da sua companhia. Seria um bom passeio!
A falta de fogo de Alef comigo ainda estava me dando um peso considerável nas costas. Juntando isso ao fato de que não parecia ter sequer um pingo de bom senso e jogava esse ultraje em cima de mim, minha cabeça poderia ser comparada a um liquidificador. Girava e fazia barulho, estava tudo uma bagunça. Eu já não sabia qual resposta dar, como fugir ou como deixar ainda mais óbvio para o fato de que eu não estava interessada.
- - bufei, mas não de raiva, e sim de cansaço - Eu realmente não quero discutir isso agora, então eu vou embora, ok? Tenha um bom domingo. Fica na paz!
Não sei se foi minha resposta ou o fato de que eu comecei a descer mais rápido que fez parar de me seguir, mas ele parou. Cheguei ao térreo um pouco ofegante e ultrapassei a catraca, ansiosa pela luz do sol. Como era pela primeira vez no dia, meus olhos cerraram um pouco enquanto se acostumavam à luminosidade, mas, aos poucos, eu os abri de novo, olhando para o céu a fim de ver quão azul ele estava.
Muito azul.
Eu não estava de tênis e meu short de tecido fino, quase um pijama, me dava um ar de preguiça inexplicável, mas, mesmo assim, decidi sair para uma caminhada. Eu havia deixado o celular no quarto e sabia que não teria como ser incomodada. Refiz o coque alto no meu cabelo com alguma dificuldade para começar a andar.
Cabelos curtos sempre me atraíram. Eu o mantinha longo quando era adolescente, mas apenas por convenção. Só porque todas as meninas achavam bonito ter um cabelo longo e liso e eu não queria ser a diferente, eu deixava o meu daquele jeito também. Mas depois que eu cortei pela primeira vez, nunca mais quis parar. Comecei a deixá-lo sempre no ombro e dei adeus aos secadores e chapinhas. Liberdade era o que eu dava às minhas madeixas. Entretanto, fazer um coque com o cabelo curto se mostrou mais trabalhoso do que eu achei que seria.
No começo, cheguei a sofrer muito nas aulas de balé e nas apresentações. Meu cabelo se soltava na hora da dança, alguns fios vinham no caminho dos meus olhos ou da minha boca e eu me prejudicava tentando prendê-lo de novo. Até que eu conheci as maravilhas de um spray fixador e minha vida nunca mais foi a mesma.
Naquele momento eu não tinha um fixador, mas me contentei com um coque mais relaxado. Eu só ia caminhar.
Andei até suar, depois decidi que queria correr, então virei para o sul e andei mais dez minutos até sentir meus pés tocando na superfície fina e morna que era a areia da praia. E o cheiro de mar era tão bom!
Deixei minhas sandálias em um canto, apertei meu coque mais uma vez e corri.
Eu me sentia tão boba, tão menina no sentido pejorativo da palavra. Aquilo não me tornava imatura, eu sei, afinal ninguém controla os sentimentos, mas eu não queria sofrer daquele jeito por Alef. Fora apenas uma coreografia, alguns momentos de ensaio. E Alef realmente entendera daquela forma. Por que eu não conseguia? Eu não podia me entregar à tristeza por um envolvimento assim.
Fui ao quarto dele, fiquei comentando sobre o livro, tentei ser bem meiga e deixei claro que queria vê-lo na Niña. Quanto níveis de tolice eu ainda poderia alcançar?
Corri até minha sandália e então voltei andando pra escola. Entrei no quarto só para pegar uma toalha e roupas limpas, tomando cuidado para não acordar , embora já fosse bem tarde. Quando voltei ao quarto, desviei da minha cama e andei até a de ; deitei ao lado dela e a abracei pela cintura. Ela ficou resmungando alguma coisa sobre eu estar puxando o cobertor. Então eu fiquei ali por alguns minutos, apenas deixando que meu corpo descansasse do esforço que acabara de fazer. Ouvi a vozinha de sono de .
- Onde você estava?
- Tomando banho.
- Esse tempo todo?
- Não - respirei fundo, me preparando para contar - Eu fui correr na praia e, antes disso, fui no quarto do Alef pra entregar o livro que ele me emprestou.
- Hum.. E ele foi legal com você?
- Foi. Ele foi um amor de pessoa, como sempre.
- Como sempre.
Ela havia entendido a minha expressão. Sempre entendia. Até mesmo se estivéssemos conversando por Internet ou SMS e eu estivesse estranha, ela saberia. me conhecia muito bem. E então, mesmo que eu a visse todos os dias e tive intimidade suficiente para saber a cor de todos os sutiãs em sua gaveta, eu senti saudades dela. Saudades porque nós andávamos conversando tão pouco e tantas coisas estavam acontecendo na vida das duas.
- Como você está? - eu perguntei.
- Bem e você?
- Bem. Mas como vai você mesmo, em detalhes? Eu sinto que faz muito tempo que não te faço essa pergunta.
- Eu estou bem! - ela estava deitada com a barriga para cima, mas virou na minha direção para responder melhor e eu a soltei - Exceto pelo meu trabalho que anda ameaçado e pelo coração que deu pra ter vontade própria agora.
- O que aconteceu com o Beam?
- Depois da invasão dos hackers, meu chefe virou a pessoa mais desconfiada do mundo inteiro. A gente não pode atender um telefonema no escritório sem que ele fique querendo escutar pra saber se não foi a gente quem armou tudo.
- Ah, fala sério! E o que os funcionários ganhariam com isso?
- Tem gente lá que trabalha em outros blogs e revistas, sabe? Há, sim, quem tenha interessa na morte do Beam. Mas o cara não pode ficar desconfiando de tudo e de todos! - ela parecia mesmo bem chateada - Eu amo trabalhar lá, mas esses dias ficaram meio chatos.
- Hum... E com ? O que aconteceu de novo?
- De novo, nada. Só as mesmas coisas de sempre e eu estou estranha com isso. Hannah disse que eu estou apaixonada e eu não estou, mas sinto que está bem perto de ser isso.
E mesmo que ela tivesse acabado de me contar aquele monte de coisas, o que eu mais prestei atenção foi quando ela tocou no nome de Hannah. Ela tinha contado tudo aquilo à outra amiga, e não para mim. E onde eu estava quando tudo isso aconteceu?
Eu não era o tipo de amiga egocêntrica que queria ser mais amada que as outras, mas também não queria que ela me amasse menos. Eu não podia perder espaço! Ela ficou minha amiga primeiro. Nós dividíamos o mesmo quarto muito antes de Hannah descobrir nossos nomes.
- - eu ia mudar de assunto e ela ficar curiosa, mas dane-se! Eu não ia explicar quando ela perguntasse. Seria vergonhoso demais.
- Hum?
- Promete que vai ser minha amiga pra sempre?
- Por que isso agora?
- Promete pra mim?
- Ta. Mas por que eu estou prometendo?
- Por nada! Agora você já prometeu e está presa pro resto da vida - dei um puxão em seu cabelo antes de levantar da cama - Agora vem! Levanta e se arruma porque já está na hora do almoço.
Então ela choramingou e se levantou aos poucos, exibindo toda uma imensidão de preguiça.
Quando ficava curiosa ela virava um bicho, era capaz de armar esquemas monstrusos até descobrir o que queria. Por isso eu me mantive ocupada até ela estar pronta para irmos almoçar. Assumir ciumes de amiga não era uma coisa muito agradável, principalmente quando o outro lado da moeda era Hannah. Eu nunca falaria daquilo com .

Capítulo 11: You look so dumb right now, standing outside my house

estava no balcão e sua expressão ansiosa deixava claro que ele não sabia o que escolher para beber. Uma senhora volumosa apontava alguns sabores de suco e opções de mistura para ele, e eu me sentei ao seu lado a tempo de ouvi-lo pedir um suco de nome esquisito.
- Catolé com côco.
- Catolé com côco - pedi também. Queria saber que gosto tinha.
- Tequila.
O banco ao meu lado girou e eu vi o cabelo de balançando com força quando ela sentou enraivecida, encostando-se no balcão.
- Opa! Tão cedo, princesa? - perguntei, e sorri porque vi que sua cara não era das melhores. - O que aconteceu?
- está dançando com uma loira bonitona.
e eu giramos nossos bancos no mesmo segundo para a direção do palco, onde havia uma pequena pista de dança na frente, naquele momento, ocupada por algumas pessoas que já se amontoavam para dançar. E eu constatei que estava certa sobre a loira: era mesmo uma gostosa. Mas eu não a conhecia, então eu perguntei.
- Quem é ela?
- Provavelmente a puta principal de algum cabaré de esquina. Ela chegou agarrando ele pelos braços. E ele está sem camisa! Eu posso saber por que porra o adora ficar sem camisa? Será que ele nunca sente frio? Está de noite, cara, e nós estamos, tipo... a dois centímetros da praia. Não é possível que...
Ela continuou por mais uns minutos e seu tom de voz ia aumentando consideravelmente a cada frase finalizada. Eu nunca havia visto daquele jeito. Na verdade, havia muitas faces dela que eu ainda não conhecia e aquela era uma bem engraçada de se ver.
- Você está com ciúmes? Você gosta do ? Você está com raiva da loira?
- Quantas perguntas de uma vez só, ! - ela reclamou.
A bebida dela chegou primeiro porque não precisava de nenhuma preparação; ela queria beber pura. Então deu um gole e engoliu tão demoradamente que parecia algo sólido.
- Você viu como ela é bonita? - ela perguntou.
- Você também é - foi quem disse e eu concordei com ele.
- Não sou bonita como ela - balançou a cabeça em sinal de negação. - Você fica aí na boa, , porque tanto Hannah quanto fazem os caras babarem quando passam. Se tivesse que escolher entre a cortesã e eu...tsc tsc tsc - outro gole. - Não seria uma disputa equilibrada.
- Quanta bobagem! - disse.
- , se você quer ficar com de novo, fala pra ele. É tão simples e você nem acredita! E se vocês forem casar, compra camisas pra ele mesmo porque ninguém merce ficar vendo aqueles ossos perambulando de um lado pro outro.
- Ossos? - ela gritou, estupefata. - Você está chamando o tanquinho sarado do de ossos?
- Por que garotas são sempre tão detalhistas? - eu quis saber.
- - começou. - Vai lá e beija ele de novo.
- Ah, , é claro que eu vou fazer isso. Por que eu não fiz antes? - ironia pura naquele tom de voz.
Minha bebida chegou junto com a de e eu cheirei o conteúdo antes de levar à boca. Era estranho, mas não ruim. Encarei e ele sorriu para mim de maneira travessa, como se estivesse me encorajando, então nós levamos a boca à borda de nossos copos.
Depois de dois goles, eu senti a textura cremosa engasgar na minha garganta e o vômito querendo subir pelo mesmo caminho. Quando um e outro se encontraram, eu me afastei do copo, sentindo os olhos lacrimejarem e então, forcei um sorriso na direção da senhora à minha frente. Ela esperava nossa aprovação, mas se eu abrisse a boca ali, não eram palavras que sairiam por ela.
- Niña, isso é genial! - aprovou. Eu sempre soube que ele não era normal.
- Obrigada! - ela sorriu, realmente lisonjeada. - E você, garoto? Também aprova? - ela perguntou. Fiz um esforço que ia além dos limites da humanidade para conseguir engolir.
- É incrível, Niña! Não vejo a hora de provar os outros.
Eu não menti. O suco era mesmo incrível de tão ruim e eu torcia pra que os outros tivessem gosto melhor, assim eu não me frustraria todas as vezes que o pessoal falasse que iria para lá. Eu também não entendia por que uma mulher velha tinha apelido de menina, mas aquilo, definitivamente não era meu problema.
- O que você vai fazer, ? - perguntou, após dar um gole. Me espantei ao ver que ele já tinha detonado o suco inteiro. Como eu disse: anormal.
- Vou beber minha tequila e assistir enquanto eles se comem na pista de dança.
- Ele não faria isso em público. E o carro está bem aí do lado - esbugalhou os olhos na minha direção e eu perguntei qual era o problema. - Fique sabendo que é isso o que vai acontecer se você não agir logo.
- Não vou me jogar em cima dele!
Eu não entendia toda aquela necessidade que tinha em ficar gritando.
- Você já fez isso uma vez e ele gostou - relembrou o momento e eu tenho certeza de que ficou meio envergonhada.
- Eu estava meio bêbada e achei que ele estava me cantando. Acontece!
- Tem tequila na sua mão - apontei e ela olhou. - Bebe! Fica bêbada de novo e finge que ele está te lançando risinhos e frases conquistadoras. Cria coragem. Vai lá!
Parecia impossível, mas eu vi entornar de uma vez toda a tequila que que ainda havia no copo. A garota respirou fundo, levantou do banco, olhou pra mim e e disse que nos odiava. Nós rimos, mas continuamos incentivando até que ela começasse a andar.
- Ela vai mesmo? - perguntou, retoricamente.
- Acho que não!
Como eu disse, faltando menos de um metro para alcançar na pista, desviou da direção e se apressou para a saída, deixando e eu gargalhando até o fim das forças.

Eu tinha ido ali por causa dela, esse era um fato incontestável. Quando Hannah desistiu de sair, afirmando que ficaria em casa para passar um tempo com a mãe, eu não consegui achar ruim de maneira alguma. Significava que eu teria mais liberdade para conversar com e tentar começar a entender mais algumas coisas sobre ela.
Quer dizer, eu precisava entender mais sobre aquela garota. A cada conversa com ela, ou a cada discussão, outro enigma se formava na minha frente. Que ela estava chateada comigo eu já sabia, minha insistência parecia estar lhe deixando sem paciência, mas eu não ia desistir por causa disso.
Só que havia outras coisas que eu precisava decifrar. não parecia estar bem. Durante nossa pequena conversa nos degraus pela manhã, eu consegui enxergar fundo em seus olhos. Ela estava triste de verdade, desanimada. Por isso eu a deixei ir em paz. Era óbvio que a garota precisava de um tempo sozinha. Contra aquilo eu não tinha o que contestar.
Mas o resto do meu dia foi pensando nela. É até vergonhoso admitir que tentei dar soluções a problemas que eu sequer conhecia a fundo, mas ali fiquei eu, deitado na cama, com o violão no colo, o cigarro no cinzeiro ao lado e na cabeça.
me abraçando na primeira festa da escola, abraçando Alef quando ele lhe emprestou o livro, dançando comigo no domingo anterior, dançando Wrecking Ball com Alef, brigando comigo e brigando de novo e brigando mais uma vez, sorrindo pra Alef com todos os dentes possíveis à mostra.
Eu deixei o pessoal no bar e avisei que iria embora. Subi no Jeep preparado pra ir pra escola e dormir mais cedo, já que no dia seguinte eu teria algumas aulas teóricas bem puxadas. Mas antes de ir, o cheiro do mar me atingiu e eu me vi seguindo como um sonâmbulo, meio sem saída.
Não andei muito com o carro, eu só precisava olhar o mar. Olhar a lua e pisar na areia pra poder voltar pro meu quarto e dormir em paz. Quando cheguei, desliguei o motor e encostei a porta, indo me sentar na calçada que dividia a praia da avenida.
Demorou um pouco até meus olhos se acostumarem com a ideia e terem a certeza de que eu não estava alucinando e que o corpo que eu via alguns metros à frente não era resultado dos cigarros que eu havia tragado à tarde. Era uma garota de cabelo curto e pernas bonitas que estava parada na frente do mar, apenas seus pés sendo tocados pela água.
Senti vontade de levantar a ir até lá, mas resisti. Era melhor ficar sentado e esperar que ela me notasse ali, caso contrário, ela poderia fugir alegando que eu a estava pressionando. Sendo assim, fiquei sentado onde estava.
Ela vestia um short curto e uma camisa masculina, mas como a peça estava ajustada ao seu corpo, provavelmente havia sido comprada pra ela mesmo. As sandálias de salto fino estavam uma em cada mão e ela olhava para cima, ou talvez estivesse de olhos fechados, eu não tinha como saber.
Poucos minutos depois, virou-se e começou a andar para longe da água. Demorou um pouco até que ela me visse e eu acho que isso só aconteceu por causa do carro. A garota hesitou por cinco segundos, então voltou a andar, dessa vez mais confiante, na minha direção.
- Você me seguiu? - parou à minha frente e eu ergui o pescoço para vê-la.
- Dessa vez não.
- Dessa vez não! - ela repetiu e eu senti a acidez em seu tom de voz.
Quando ficou claro pra mim que ela voltou a andar pra se afastar e me deixar ali, eu levantei e a segurei pelo braço. Eu não queria que ela fosse. Senti que estava fazendo tudo errado e que a minha forma de aproximação não estava funcionando com . Mas não era apenas por uma aposta escrita num pedaço de papel. Eu realmente gostava da companhia dela e estava perdendo momentos muito legais porque não sabia como me aproximar.
- Deixa eu te levar pra casa - apontei pro carro.
- Eu vim com , volto com ele - se soltou do meu braço e deu alguns passos.
- , não fica fugindo de mim! - era um pedido, não uma frase egocêntrica. Mas minha voz sempre soava autoconfiante, então qualquer coisa que eu falasse sairia superiorizado. Acabou deixando-a ainda mais irritada.
- Por que não, ? - ela voltou os passos que havia dado até parar bem na minha frente. - Porque eu sei que é óbvio que uma hora ou outra eu vou acabar embaixo de você numa cama gemendo feito uma puta? Pra você ir embora e deixar a embalagem de camisinha jogada no chão igual fez ontem no quarto da Hannah? - sua voz se alterou e eu senti um aperto na garganta. Só naquele momento eu entendi que estava fazendo tudo errado de verdade. - Por que você não me dá crédito? Eu pareço mesmo ser uma garota tão fútil e igual a todas as outras que você já ficou?
- Você não parece fútil de forma alguma - aquela resposta era tão óbvia que eu nem queria falar, mas falei porque notei que ela demorou após perguntar, o que era um sinal de que ela realmente queria a resposta.
- Então por que você está me tratando assim? Poxa vida! Você não vê que a sua insistência só está me deixando com mais raiva?
E naquele momento eu senti um clique. Ela estava irritada, eu havia feito merda, mas calma! Quem ela pensava que era pra gritar comigo daquele jeito? Eu nem sequer havia ido tão longe assim, outras garotas já haviam aguentado níveis piores da minha insistência, apenas fora mulher o suficiente pra resistir a todas elas, ao contrário das outras garotas. Mas ela sempre queria parecer superior, me colocava no canto e praticamente me chutava. Seus olhos revirados na escada de manhã começaram a me deixar chateado e só ali, na praia, eu me dei conta de que não precisava ser tratado daquele jeito.
Se ela era mulher suficiente pra rejeitar, eu era suficientemente homem pra saber a hora de parar. Mas continuou falando.
- Mas não, você insiste e persiste e solta piadas e me põe contra a parede e investiga os sentimentos que eu tenho por outras pessoas quando isso nem sequer é da sua conta. Eu te conheço a uma semana e você acha que pode saber tudo sobre mim, mas você não pode, !
começou a andar de novo, mas dessa vez ela rodeou o Jeep até parar na porta do passageiro.
- O que você está fazendo? - eu perguntei, incrédulo.
- Tentando entrar no carro - ela abriu a porta. - Você quer me dar uma carona, não quer? Então vamos lá, me dê a droga da carona.
- Não, não! - neguei. - Eu já entendi o seu recado, . Você mesma disse que voltaria com já que veio com ele. Não está longe. É só andar aqueles dois quarteirões e você vai estar com , e de novo. Eu não preciso de companhia, já aprendi o caminho.
- Você tem probleminhas, não tem? - ela perguntou pra mim.
- Não, , eu não tenho probleminhas, não. E olha, me desculpa mesmo por eu ter te tratado dessa forma, mas agora eu já entendi. Você é boa demais pra se juntar a um verme feito eu - eu estava ficando com raiva tão rapidamente que sequer media as palavras antes delas saírem. Queria que notasse toda a minha ironia inserida no tom de voz. - Eu vou retirar a minha insignificância da sua frente e pronto!
- Você vai me levar pra casa! - ela estava mandando.
- Ah, eu não vou, não! - ignorando minha negatividade, abriu a porta do passageiro e já ia começar e entrar. - , sai daí!
Andei em sua direção para impedi-la de entrar e ela olhou nos meus olhos antes de proferir:
- Me tire!
Ah, o desafio! Ela gostava de fazer aquilo comigo! não esperou nem dois segundos antes de ir para o banco de trás e se prender com os cintos de segurança. Agora, nem se eu quisesse muito, conseguiria tirá-la facilmente dali. Bufei de raiva e frustração, tranquei a porta e entrei pelo lado do motorista, sem demorar a ligar o motor porque eu não queria mais a companhia dela.
havia me irritado, me desafiado, me diminuído e ainda queria mandar nas minhas ações. Pela primeira vez na vida, eu quis que ela explodisse em milhões de pedacinhos. Mas como eu sabia que aquilo não ia acontecer, dirigi o mais rápido que era permitido para que nós chegássemos logo à escola.
Eu liguei o rádio pra que o tempo passasse mais rápido, mas até o aparelho parecia estar contra mim. Independente de quantas vezes eu mudasse a estação, seria sempre uma musiquinha alegre que tocaria para preencher o ambiente. Não desisti. Continuei mudando até reconhecer a melodia de uma música qualquer do System of a Down porque, mesmo que eu não conhecesse aquela, eu tinha certeza de que era alguma coisa triste.
O caminho estava livre e nós chegamos meio rápido na escola, mas quando eu parei o carro, fui o único a me movimentar para sair. Olhei para trás e vi que permanecia imóvei, então chamei seu nome. Ela não atendeu. Estiquei a mão para trás até alcançar sua cintura e balançá-la um pouco. Ela me respondeu com um grunhinho sonolento e lento, me deixando sem entender como conseguira dormir tão rápido, ainda mais depois da rápida briga que havíamos acabado de ter.
- O que é?
- Chegamos à escola - eu disse, e ela suspirou, parecendo ter muita preguiça de levantar dali.
- Já vou levantar - ela disse, mas não levantou.
Tive noção de quando os cinco primeiros minutos se passaram naquele silêncio, depois disso, o relógio parecia ter parado de girar ou eu perdera a noção do tempo. A rádio ainda estava ligada, mas eu não prestava muita atenção no que os apresentadores do programa falavam, só esperava que falasse alguma coisa. Mas eu não tinha muita certeza se ela estava mesmo acordada ou se tinha caído no sono de novo.
- O que você foi fazer na praia? - ela perguntou, mostrando que estava acordada.
- Fui pensar.
- Pensar em mim ou na Hannah?
Ela queria mesmo me deixar irritado. Mas eu notei, com algumas gramas de felicidade, confesso, que todas aquelas insinuações em relação a Hannah só podiam ser ciúmes. Provavelmente não era o ciúmes que eu queria que ela sentisse, claro, ela não gostava de mim como gostava de Alef, mas havia ciúmes sim. E eu precisava aproveitar aquilo se ainda quisesse alguma chance com .
- Fui pensar em você - soltei. - Quer dizer, em você e no Alef porque eu preciso confessar que me senti incomodado com a aproximação que eu vi que vocês possuem - era a minha vez de mostrar ciúmes porque eu sabia que não sabia como reagir àquilo. - E quer saber de uma coisa? Eu realmente nunca te vi no alojamento masculino, então depois que você me deixou plantado na escada eu subi e constatei que Alef mora bem no andar de cima. Você foi falar com ele, não foi?
- Não gosto que fiquem me investigando, .
- Mas eu já fiz isso, então não adianta mais reclamar - ela bufou. - Você sabe que ele não gosta de você?
- Sei, . Sei muito bem! Não precisa ficar jogando na minha cara - ela levantou um pouco a voz e, pelos seus movimentos, percebi que havia sentado no banco. - Já tive bastante tempo pra entender que estou indo atrás de alguém que não tem sentimento nenhum por mim.
- Pelo menos você sabe como eu me sinto.
Ela demorou a responder, mas quando o fez, foi tão firme que aquilo até parecia ser verdade.
- Você não gosta de mim.
- Como você tem tanta certeza? - olhei para trás, em seus olhos. Eles se tornaram reflexivos e desviaram de mim.
- Porque você transou com a Hannah.
- E daí? - eu dei de ombros. Eu queria que ela entendesse que Hannah não tinha nada a ver com meus reais desejos. - Eu estou solteiro, , não traí ninguém. Não traí você nem fiz nada pra ferir seus sentimentos. Hannah é uma garota legal e eu gosto de passar meu tempo com ela, mas eu gosto de você mais. Só que você não me deixa curtir sua companhia por muito tempo.
- Não jogue a culpa pra cima de mim!
- Não é culpa! - expliquei. - Nos conhecemos a uma semana e você não é obrigada a me dar nada, mas você podia ter sido simpática ao menos.
- Você não foi simpático! Você foi cruel. Era como se eu estivesse prometida a você pro resto da vida ou alguma coisa assim.
- Tá bom, me perdoa! Eu sei que agi errado! - as palavras dela entravam como se fossem estacas na minha pele. Era tudo verdade, eu realmente tinha deixado chateada. E a verdade é que ela tinha todo o direito de se afastar de mim se quisesse. Mas eu não queria. - Eu vou parar - prometi. - Daqui pra frente, esquece a aposta. Vou sair do teu caminho.
Eu queria que ela negasse tudo. Esperava receber um abraço pelos ombros e suas palavras dizendo que eu havia entendido tudo errado e que não era pra me afastar, mas ao contrário do que eu queria, agradeceu. Ela disse "Obrigada!" e saiu do carro como se eu houvesse apenas desejado uma boa noite.
E meu ego gostou tanto daquilo quanto os meus olhos. Foi odioso pros meus olhos vê-la se afastando para o alojamento feminino enquanto eu permanecia no carro tentando aceitar que ela realmente havia ido embora.
Se uma semana atrás eu soubesse como tudo acabaria sem sequer ter começado, teria agido diferente. Teria lhe tratado melhor, feito elogios sem segundas intenções, tentado ser amigo ou feito qualquer outra coisa que lhe agradasse. Se eu soubesse que a perderia antes mesmo de ganhar, não teria dado bola pra Hannah e manteria o foco apenas nela. Em .
Mas agora ela estava indo embora, e tudo o que me restava era guardar o carro, subir para o quarto e tentar dormir antes que as coisas piorassem pra mim.
Difícil admitir que aquilo havia me machucado mais do que eu havia previsto. Na minha cabeça, nós ficaríamos juntos algumas vezes e depois iríamos cada um pro seu lado, mantendo até uma certa amizade superficial. Eu esperava no máximo levar um fora e passar o resto do curso lhe perseguindo até que, no dia da formatura, ela me desse um beijo de despedida, só pra me deixar com o gosto de quem quer mais.
Não esperava que ela me captasse tão cedo e fosse embora sem me dar chance de redenção.

Capítulo 12: Yesterday all my troubles seemed so far away

Eu nunca havia visto aquela sala de espera tão movimentada. O lounge do prédio administrativo geralmente ficava às moscas à tarde, sendo ocupado apenas pela recepcionista e algumas pessoas que chegavam para trabalhar. Como não havia aula à tarde, os alunos não chegavam. E os moradores do alojamento preferiam o acesso pela sala dos aquários, no quarto andar. Mas, naquele começo de tarde quente de quarta-feira, havia tantas pessoas ali que eu fiquei me perguntando se não seria feriado ou algo do tipo. Não era. Talvez fosse só coincidência.
Passei os olhos rapidamente pelos visitantes que esperavam antes de me dirigir ao balcão da recepcionista.
- Boa tarde - sorri pra ela. - Eu fiquei de pegar a chave da sala de balé aqui. A professora Tatiana deixou avisado?
- Hum, deixou, sim. Espera só enquanto eu lembro onde coloquei - foi o que a senhora me respondeu.
Virei para encostar as costas no balcão e mexer um pouco no celular, mas antes que o aparelho captasse minha atenção, eu olhei para as pessoas que estavam ali esperando por algo. Alguns adolescentes, umas duas mulheres e um rapaz. Mas não qualquer rapaz.
- Ross Baker! - me aproximei para cumprimentá-lo.
- Morán! - ele levantou e veio me dar um abraço. - Como vai minha bailarina favorita? - disse, sorrindo.
- A-ha, seu mentiroso! Eu bem sei que sua favorita sempre foi a .
- Sem espalhar meus segredos, por favor - nós sorrimos.
- O que faz por aqui?
Ross Baker estava formado em fotografia e, graças a seus ensaios polêmicos, seu nome era chamado para toda e qualquer exposição que realmente valia a pena. Dificilmente alguém tão jovem alcançava sucesso tão rápido, mas Baker subiu a andares que até mesmo quem tinha nome antigo no mercado ainda não havia alcançado. Particularmente, eu achava sujo, mas ele sabia trabalhar. E era um cara legal acima de qualquer coisa. Doido, mas legal.
- Eu tenho um trabalho pra fazer no Natal, sabe? É uma experiência muito legal, eu acho, mas vai requerer muito esforço. E eu preciso de ajuda, só que contratar um fotógrafo profissional pra trabalhar comigo vai me custar muito caro. Você sabe como são essas pessoas que já estão no mercado há mais tempo, elas fazem exigências e se você dá uma brecha, ela toma seu lugar e acaba como fotógrafo principal.
- É, eu sei que sua área é lotada de gente gananciosa.
- Como todas as áreas, sim, mas, como eu tenho meu próprio estúdio agora, tenho a escolha de contratar quem eu quiser. E eu decidi vir aqui pra falar com alguém do curso.
- Sério?
- É, com a Hannah, especificamente. Eu sempre gostei muito do estilo dela, você sabe. É claro que ela ainda precisa amadurecer, ser lapidada, mas isso acontece com o tempo. E eu acho que estou disposto a pagar pra ver.
- Você sabe que ela vai morrer quando ouvir você falando isso, não sabe? - ela morreria mesmo. Embora todos achassem que Ross Baker merecia internação perpétua, era impossível não admirar sua arte.
- Eu espero que não morra - ele sorriu bonito. - Pelo menos não antes do Natal.
- Por que você não sobe? Ela está almoçando comigo e com . Eu só vim buscar uma chave.
- Ah é. Boa ideia. Pode ser!
Esperei mais alguns minutos até que a recepcionista, finalmente, achou a chave da sala de balé. Eu iria lá para ensaiar mais tarde. Os aquários eram muito bons para ensaiar, mas tinham uma característica ruim para dias solitários como aquele que eu estava vivendo: eles eram muito expostos com suas paredes de vidro. Eu queria ficar sozinha, não queria ser vista. Tatiana sempre me deixava ensaiar lá na sala de balé, contanto que eu não saísse espalhando pra todo mundo.
Ross me acompanhou e nós nos direcionamos para a escada, já que o elevador estava longe e demoraria a chegar.
- Você viu aquela mulher bonitona sentada perto de mim na recepção? - ele perguntou, mas não havia más intenções em seu tom de voz.
- Hum... Vi que havia duas mulheres. Uma era mais bonita que a outra, sim, mas não reparei demais. Por quê?
- Eu demorei a perceber, mas eu sabia que a conhecia de algum lugar.
- De onde?
- É Bridget , esposa do governador de Illinois.
- George ?
- Isso mesmo!
- Não foram eles que deram o maior barraco uns anos atrás? Aquela história toda com a filha deles e o filho que fugiu de casa ou algo do tipo?
- É, foram eles sim. Engraçado é que eu não conheço governador de lugar nenhum, exceto George e o nosso, claro. Mas a mídia é uma tristeza se você não souber gerenciar sua vida. Te expõe, mostra sua família, faz com que você fique sem proteção alguma. Quer dizer, ele é um homem da lei. As pessoas não precisavam saber sobre os problemas da família dele.
- Mas não foi o próprio filho dele quem expôs?
- Sim, foi - ele explicou. - Mas o filho dele não é famoso, não sofreu com isso. Quem lembra mais da cara dele? Você lembra?
- Não faço ideia de quem seja.
- Pois é! Mas o governador quase foi retirado do poder e sofreu as consequências com a filha.
- Deve ser horrível viver numa família problemática assim. O que será que ela veio fazer aqui?
Ele deu de ombros, pois não sabia a resposta.
Chegamos ao refeitório e logo de longe vimos a bagunça que estava na minha mesa. , e haviam sentado lá também e todos conversavam sobre alguma coisa muito engraçada porque riam pra valer. Hannah parecia engasgada com a comida e suas bochechas vermelhas deixavam a cena ainda mais engraçada.
Passei por uma mesa vazia e puxei uma cadeira, colocando ao lado da minha na mesa. Sentei e bati na cadeira vazia, indicando a Ross que sentasse nela. Ele não sentou de imediato, saiu cumprimentando os garotos, com um abraço, e as garotas também. Um abraço em Hannah e um abraço mais demorado em .
Vi quando franziu as sobrancelhas e cruzou os braços, como se estivesse contando quantos segundos mais aquele abraço duraria. Tive vontade de rir, mas me contive.
- Mas quem é vivo sempre aparece mesmo, hein? - falou, quando já estávamos todos sentados.
- Senti saudades da minha antiga casa - ele respondeu.
- Ross, esses são , de música, e , de cinema - eu os apresentei. - Eles estão no primeiro ano.
- Qual o problema de vocês dois? Com tanta gente legal nessa escola, vocês foram se juntar logo com esses aqui? - ele brincou.
Depois dos nossos comentários e piadinhas sobre ele adorar sentar conosco enquanto ainda estudava lá, a conversa seguiu em um tom mais normal. e se integraram rápido aos assuntos, embora não estivessem por dentro da maioria deles. Aparentemente, Ross não queria falar com Hannah na frente de todo mundo, então nem sequer tocou no assunto. Ele fez perguntas sobre o curso de e eles começaram a conversar como se fossem amigos de longa data, até o celular de tocar e ele o tirar do bolso. Olhou o número na tela e atendeu com um sorriso.
- Oi, mãe - a mesa inteira fez silêncio, em respeito à conversa ao telefone. - Ahn.. você o quê? - mais alguns segundos de silêncio até que ele respondesse, parecendo bem incomodado. - Ta, espera um pouco - ele afastou o celular do rosto e falou conosco. - Pessoal, eu preciso resolver uma coisa. Bom almoço pra vocês. Prazer em te conhecer, Ross.
Vimos quando ele se afastou e a conversa começou logo em seguida.

- E então ele disse que queria que eu fosse com ele. Dá pra acreditar nisso, ? - Hannah estava em pé e andava pelo meu quarto de um lado pro outro, causando um congestionamento sem medidas porque também estava em pé, se arrumando para ir trabalhar. Vez ou outra elas acabavam se esbarrando. - Eu nunca imaginei que Ross Baker viria aqui só pra me convidar pra um trabalho. Quer dizer, ele poderia ter telefonado, mandado um e-mail, um SMS ou sei lá. Eu nunca recusaria um trabalho, principalmente a convite do Ross. Ele está famoso!
Da minha cama, eu só observava. Claro que estava feliz por Hannah, muito feliz, mas ela já havia comemorado demais e ainda nem tinha dito do que o trabalho se tratava. Ainda bem que se encarregou de fazer aquela pergunta.
- O que é que vocês vão fotografar?
- Bom - ela começou. - Se eu entendi direito, é um hospital especializado em câncer, ele foi convidado pra fotografar a ceia da área pediátrica. Ele já havia fotografado a avó doente e pensou em mim por causa do meu book na creche pro desafio da escola.
O ensaio fotográfico de Hannah havia sido incrivelmente bonito. Ela visitou a creche onde Tatiana e eu ensinávamos e fez uma verdadeira festa com as crianças. Ela levou roupas, fantasias, confetes e mais um monte de brinquedos, montou um estúdio improvisado com tecidos, usou sombrinhas de iluminação, maquiou as garotas, fantasiou os meninos e tirou fotos. Eu não entendia nada de iluminação, mas Hannah entendia. E ela fez com que cada traço das crianças fosse ressaltado, fez surgir sorrisos e olhares. Ela conseguia captar as emoções! Se não fosse por Ross, acho que ela teria tido grande chance de ganhar.
Ouvimos uma batida na porta, em seguida a cabeça de aparecendo.
- , posso falar com você?
- Entra aí!
parecia incomodado com alguma coisa.
Já fazia alguns dias que ele não falava comigo diretamente. Sentamos pra almoçar juntos com a turma, acabamos nos encontrando na sala de estar, mas ele só me direcionava a palavra se fosse um assunto geral. Estava mesmo cumprindo com sua promessa de me deixar em paz.
- Eu fiquei sabendo que você é a central de informações dessa escola - ela sorriu porque aquilo era verdade. sempre sabia de qualquer coisa. - Eu preciso de uns telefones - ele estendeu uma lista para . - Queria sua ajuda.
- Hum - ela pensou um pouco enquanto lia a lista. - Acho que tenho na minha agenda - ela andou até a penteadeira e pegou a caderneta na gaveta. - Por que você precisa de um corretor imobiliário? - ela perguntou.
- É... nada de mais. Uns problemas que eu preciso resolver.
- Aconteceu alguma coisa? - Hannah perguntou. Ela parou sua empolgação e olhou para , sua expressão mudou de repente, como se ela tivesse ficado preocupada.
- Nada com que vocês devam se preocupar - ele sorriu para tranquilizá-la. - Está tudo bem, eu garanto.
- Quer levar minha agenda? - perguntou. - Aqui tem tudo isso o que você quer e ainda mais.
- Posso mesmo? - ela afirmou com a cabeça quando ele perguntou. - Certo. Te devolvo assim que possível. É... talvez eu falte aula amanhã, vou tentar resolver isso de uma vez.
- , por quê? - Hannah perguntou. - Todo preocupado aí, vai faltar aula amanhã, não está falando nada com nada.
- Já disse que estou bem, loira - ele piscou para Hannah. - Vejo vocês amanhã a tarde ou no começo da noite. Não se preocupem comigo. Eu sei que vocês me amam, mas tentem não entrar em desespero.
e Hannah responderam às brincadeiras dele. Eu permaneci quieta na minha cama. Não estava com tanta liberdade assim para brincar com . Depois da nossa conversa na praia e no carro, eu achava que ele estava me odiando ou alguma coisa assim. Ele estava no meu quarto, mas nem sequer olhara no meu rosto.
- Até amanhã, meninas! - ele saiu e fechou a porta. Sem olhar pra mim.
- O que será que aconteceu? - perguntou.
- Não sei, mas tomara que se resolva logo.
- A lista também pedia o número de um advogado, mas já estava riscado. Então ele já contatou um advogado. Eu me pergunto a razão.
- Será que ele se meteu em encrenca? - elas continuavam conversando entre si. - Quer saber? é bem crescido! Ele vai resolver o que tiver de resolver e voltar depois como se nada tivesse acontecido. É capaz de nem querer contar o que foi fazer. Você vai ver! - Hannah descreveu com bastante propriedade. Era como se ela o conhecesse há anos.
- É verdade! - concordou.
- O que importa é que eu tenho um trabalho com Ross Baker! - ela voltou a se empolgar e andar pelo quarto.

Nós já sabíamos que ele iria faltar na quinta, mas não imaginávamos que faltaria também na sexta e que passaria todo o final de semana sem dar notícias. não atendia o telefone quando alguém do grupo ligava, nem respondia às mensagens. Ou ele estava muito ocupado, ou alguma coisa grave havia acontecido. Como nós não sabíamos o que era, ficamos realmente preocupados.
Inclusive eu.
Também tentei ligar algumas vezes, mas ele não atendeu. Eu achava que ele não tinha meu número, então nem ia saber que era eu ligando. E se soubesse, não faria nenhuma diferença. Seria apenas mais uma perturbando sua folga.
Não importava quem ligasse e quantas vezes ligasse, ele não dava notícias.
Por causa disso, o espanto foi geral durante o almoço da segunda quando ele apareceu na nossa mesa com a mesma roupa da quarta-feira e a pior cara de sono que eu já havia visto no rosto de alguém.
Hannah sentou ao lado dele, também e os garotos perguntavam o que havia acontecido. Eu estava de frente pra ele e só recebi um olhar de cumprimento quando ele levantou o rosto e respondeu que estava bem.
- Não foi nada demais. Eu disse a vocês que iria faltar.
- Você disse que ia faltar na quinta, não disse que ia sumir por cinco dias! - reclamou com ele.
- Minha mãe se mudou pra cá, eu estava com ela resolvendo umas questões, alugando um apartamento. Como eu disse, não foi nada demais, só demorou mais do que eu previa.
- E você não teve tempo de trocar de roupa? - questionou e olhou para o próprio corpo.
- Eu troquei de roupa várias vezes. É coincidência eu estar com essa de novo.
- Seu pai veio também? - perguntou, e pela demora de em responder, nós notamos que aquele era um assunto delicado. Tarde demais. A pergunta já havia sido feita.
- Não, ele ficou em Chicago.
Separação dos pais.
Quando eu era mais nova, via algumas amigas passando por aquela situação e tentava ter empatia. Eu me colocava no lugar delas, bancava a psicóloga, mas pela experiência que eu tive com elas, aprendi que ninguém nunca conseguiria dar um conselho decente. Só quem está passando pela situação sabe como é difícil, então não adiantaria eu falar nada. Não adiantaria ninguém falar nada.
- Nós conseguimos um apartamento aqui perto, dá pra ir e vir em menos de vinte minutos. Eu vou me mudar pra lá.
Hannah alisou o braço de e falou um "Vai passar!" bem baixinho. Ele sorriu pra ela, mas foi bem rápido. Algo nos olhos de dizia que ele sabia que a situação não seria resolvida rápido, e eu me senti triste por ele.
Minha família sempre fora tão tranquila! Nosso único problema era financeiro, então nós nos tornamos amigos íntimos para conseguir vencer aquilo juntos. E conseguimos. Não éramos nem de longe uma família rica, mas conseguíamos viver relativamente bem e tínhamos nossa amizade acima de qualquer coisa.
Se um dia nossa situação financeira ficasse ruim de novo, lutaríamos contra a maré baixa da mesma forma com que havíamos feito da primeira vez.
- Eu te ajudo com a mudança - se ofereceu.
- Valeu, cara!
- Eu ajudo também! - disse.

não tinha muitas coisas pra carregar, mas, no final da conversa, todos ficamos comprometidos a ajudar na mudança. Mas quando ele arrumou todas as roupas na mala, levou tudo pro carro enquanto ele ia na coordenação resolver a papelada de liberação do quarto. Como se encarregou de levar os livros e outros pertences que restavam, chegou um momento que não havia mais nada pra fazer. E como teve que sair para trabalhar, eu não me senti à vontade de ficar esperando apenas com Hannah, e .
Saí de fininho e caminhei pelo corredor até alcançar as escadas. Eu ia subir até o salão dos aquários e atravessar para o outro lado, mas apareceu ali antes que eu começasse a subir e eu parei para falar com ele.
- Oi - falei. Não sabia bem como agir.
- E aí?
- Você conseguiu resolver lá na coordenação?
- Consegui - ele levantou uns papeis que segurava para que eu visse.
Ele ia continuar a andar e entrar no corredor do quarto. Eu permanecia encostada à parede, ele ia passar por mim e eu queria dizer alguma coisa útil, mas não sabia o quê. Parte de mim ainda se sentia culpada pela forma com que nossa conversa no carro havia acontecido.
Eu tinha planejado pedir desculpas e agir normalmente, mas então a vida dele deu aquela reviravolta e eu fiquei parecendo a pior pessoa do mundo.
- Você está bem? - não havia sido a melhor coisa a perguntar, eu sei, mas foi o que veio à cabeça naquele momento.
- E agora você se importa?
Senti meus olhos se esbugalharem perante sua resposta bruta. Ele nunca falara comigo daquela maneira. Era uma resposta fria, amargurada e pesada. Entretanto, estava tão claro que aqueles sentimentos não eram direcionados a mim! Eu entendia a sua situação, sabia que ele estava sob estresse e que ver os pais se separando não deveria ser uma coisa muito tranquila, então me encolhi mais contra a parede e deixei que ele passasse para o quarto.
Respirei fundo duas vezes, ainda engolindo o fora que tinha acabado de levar e ia começar a subir, mas voltou até onde eu estava e sua mão segurou meu braço.
- Escuta... - ele hesitou. - Me desculpa, tá? É só que... eu não sei muito bem o que falar pra você. Não era pra ter te tratado assim. Foi mal mesmo!
- Não! O que é isso? Está tudo bem! - eu tentei me desculpar também. - Não pede desculpas, não.
- Você está bem? - eu só afirmei com a cabeça e então ele soltou meu braço. - Tá bom. É... me desculpa.
- Não tem motivos - forcei um sorriso e dessa vez ele foi embora de verdade.
Fui para o meu quarto e me tranquei ali pelo resto da tarde. Tive que deixar a porta aberta pra quando chegasse, mas eu já estava deitada para dormir quando ela apareceu. Nós conversamos um pouco, tentamos achar alguma forma de consolar , mas a gente sabia que não podia fazer muita coisa.
Naquela noite, algumas coisas me foram reveladas. Eu contei a sobre a conversa que havia tido com dentro do Jeep, disse que ele me pedira desculpas e prometera sair do meu caminho. Então ela me disse que desde então, ele também não procurara Hannah e que eles não tinham ficado juntos. disse que se sentia mal levando informações de um lado pro outro, mas não parou de falar. Ela disse que Hannah não parecia chateada com aquilo, principalmente agora que tinha o trabalho com Ross Baker para ocupar sua mente.
- Isso te afeta, não é? - ela me perguntou.
- Não, . Eu só estou afim de um pouco de fofoca, não significa que estou interessada no .
- , é só que você pergunta tanto dele e fica de ovo virado quando Hannah fala dele também.
- Ela sabe que ele dava em cima de mim?
- É claro que não! - ela se apressou em dizer. - Eu nunca contei, pelo menos. Acho que ele também não.
- Ele não contaria. Muita coisa ele não conta.
- O quê?
- Eu não sei... talvez eu esteja errada, mas eu sempre tenho a impressão de que não conta nem metade sobre ele mesmo pra gente.
- Viajou, hein, ?
- Pode ser que eu tenha viajado, pode ser que não. Mas ele é todo metido a misterioso. Você sabia que ele fuma?
- Fala sério?
- Muito sério! Eu senti o cheiro nele uma vez e ele não negou. Aí ele dá em cima de mim, mas esconde da Hannah. A mãe dele telefona e ele some por dias, depois volta, diz que vai se mudar, mas não explica muita coisa.
- Ele só deve ser um cara reservado.
- Ele é misteriosinho, isso sim!
- E você é curiosinha, isso sim - ela tirou uma onda comigo. Como vingança, joguei um travesseiro em sua direção. - Vai dormir que é o melhor que você faz.
- O mesmo pra você, faladeira do inferno.
- Também te amo.

Capítulo 13: I'll get by

Eutanásia. Dessa vez ele tinha ido longe demais.
Eu não consegui entender desde o começo o que minha mãe falava. Na verdade, quando eu finalmente consegui tirá-la do lounge do prédio e levá-la para fora, ela começou a chorar e tornou aquilo tudo ainda mais difícil. Cheguei a pensar que era mais uma briga com meu pai, imaginei que ele havia batido nela de novo ou até mesmo mais forte, pra ser capaz de fazê-la atravessar o país atrás de mim. O fato é que minha mãe, minha adorada, dedicada e submissa mãe havia abandonado sua própria casa, e aquilo teve um motivo maior.
Mas nunca minha cabeça conseguiria formular uma ideia daquelas. Nunca com Louise. Minha irmãzinha.
Quando minha mãe falou sobre a sugestão suja do meu pai, eu senti meu sangue fervendo muito rápido. Só me sentia capaz de pegar um avião naquele mesmo momento pra chegar em Illinois e quebrar sua cara branca e lisa na frente de todos os membros do congresso. Entretanto, eu não podia fazer aquilo. Diversos motivos me proibiam de estar cara a cara com George naquele momento e um deles era a mulher que se desmanchava em lágrimas na minha frente. Eu era o responsável por cuidar dela naquele momento. E juntos, nós pensaríamos em como resolver a situação com meu pai.
Peguei a lista telefônica de e saí desbravando o bairro naquela tarde. Minha mãe contatou o advogado e ele falou sobre o procedimento com ela. Eutanásia só era permitida em três estados americanos e Illinois não estava entre eles. O Dr. Gibon disse ainda que nada poderia ser feito sem a assinatura dos dois genitores de Louise, então meu pai não teria liberdade para fazer aquilo sem o consentimento da minha mãe.
Como ela não sabia quanto tempo passaria comigo, fomos atrás de apartamentos mobiliados para mantê-la confortável. Achamos um que seria bom para mim, próximo à Escola de Artes. Não era tão grande quanto ela estava acostumada, como nossa casa em Chicago, mas ela não se incomodou.
No fim do sábado tudo estava tão arrumadinho que nem parecia que havíamos acabado de chegar. Ela fez algumas compras durante a tarde e me trouxe roupas novas; roupas que eu não gostei, particularmente, mas não podia falar para não magoá-la. Minha mãe ainda me via como um garotinho comportado que vivia dentro de casa. As roupas que ela comprava demonstravam isso, pelas cores, estampas e corte.
Meu celular tocava o tempo inteiro e eram sempre os números de , , e Hannah na tela. Vez ou outra, aparecia algum número diferente, mas eu tinha certeza de que também eram eles. Eu não queria parecer chato ou deixá-los preocupados, mas, o que eu poderia fazer? O que eu diria?
Só consegui aparecer na escola na segunda à tarde e conversar com todos para mostrar que eu estava bem. Um sentimento bom me invadiu assim que sentei à mesa deles na hora do almoço. Eles estavam genuinamente preocupados e me conheciam há tão pouco tempo. Ficaram curiosos, me ajudaram a carregar as coisas, tentaram me ajudar mesmo sabendo tão pouco sobre o que eu estava passando. Eu não gostava de falar.
Falar significava abrir a porta para duas situações desconfortáveis: eles poderiam ficar com pena de mim ou eles podiam descobrir demais sobre a minha família. Eu não queria amigos que sentissem pena e também não queria que eles descobrissem de onde eu vinha e de quem eu era filho.
Ainda na tarde da segunda, tirei todas as coisas do Jeep e carreguei até meu novo quarto no apartamento. Eu estava acostumado à mudanças, mas aquele mês estava ganhando o record sem concorrência.
- Quer ajuda por aqui? - minha mãe perguntou, entrando no meu quarto.
- Estou bem, dona Bridget - agradeci.
Ela andou devagar até sentar no meio da minha cama de casal. Os modos da minha mãe deixariam qualquer uma com inveja. Ela sabia a maneira certa de pisar, o volume certo de colocar a voz, até onde ir, onde ficar. Sempre tão educada. Passou tudo aquilo para Louise. Nós éramos a família exemplar, pelo menos por baixo dos panos.
Minhas roupas estavam jogadas de qualquer jeito na cama, e eu pretendia colocá-las no armário daquele jeito, mas minha mãe começou a dobrá-las, mesmo que eu tivesse dito que não precisava de ajuda.
- Não vou ter muito o que fazer por aqui - ela disse, como se fosse uma justificativa. Dobrar minhas roupas ocuparia seu tempo e ela ficaria menos entediada.
- Por que não vai dar um passeio? - sugeri. - Pega o Jeep, vai à praia, se matricula numa academia como você fazia em Chicago. Quem sabe você não conhece um coroa bonitão pra passear e tomar um drink?
Ela sorriu, mas era aquele sorriso que eu sabia vir antes de uma bronca, ou pelo menos um sermão bem dado.
- Eu sou casada, .
- Mas você saiu de casa e...
- Isso não significa que eu precise de outro homem - vi quando ela se levantou e andou até mim, fez um carinho em meu cabelo e voltou a falar. - Quando tudo isso for resolvido, eu vou voltar pra casa, pro meu marido e nós vamos continuar nossa vida fazendo de conta que ele nunca me fez essa sugestão. Ele vai se arrepender, você vai ver. Estou orando por isso.
Ela costumava ser tão inocente!
- Você tem ido à igreja aqui, ? Aliás, você tem ido à igreja desde que saiu de casa? Em Portugal você ia? - a pergunta me pegou um pouco desprevenido porque a verdade é que eu não ligava muito pra igreja. Minha mãe era religiosa, meu pai um fariseu hipócrita e Louise uma santa. Se era pra ficar entre um extremo e outro, eu preferia não estar em lugar algum.
- Ainda não achei um lugar legal.
- Nós podemos procurar no domingo de manhã.
- Mãe... - eu estava pronto para negar.
- Por favor? - quem conhecesse Bridget, a primeira dama de Illinois, mãe dedicada e esposa eficiente, saberia bem que aquele pedido era pior que uma ordem.
- Tudo bem. Domingo de manhã - respirei fundo, parecendo uma criança, na verdade, mas aquela era a minha única forma de desabafo.
Andei até minhas roupas e comecei a dobrá-las. Era melhor ter um pouco de trabalho agora antes de guardar do que sofrer pra achar uma única peça depois que tudo estivesse jogado no guarda-roupas. Minha mãe saiu do quarto e disse que ia dormir um pouco. Ela estava cansada também.
Minha arrumação poderia ter durado apenas uma hora, mas preguiçoso como eu era, durou no mínimo três. Depois disso, deitei na cama e coloquei a cabeça para funcionar.
Meu pai não ia tomar todas as minhas energias. Ele não podia fazer nada sem a autorização da minha mãe, então eu não deveria me preocupar. Meu curso merecia minha atenção, meus novos amigos, meu próprio problema de relacionamento. Mas com eu não tinha muitas chances no momento.
Fosse com o que fosse, eu precisava distrair minha mente da eutanásia, a maldita palavra que rodeava meu cérebro a cada vez que eu dava espaço. Eu não ia deixar meu pai matar Louise. Nem que mil anos se passassem sem ela acordar.

- Cadê o caderninho? - perguntei à .
- Qual caderninho?
- Aquele que você estava usando pra escrever a música.
Nós estávamos no quarto dele, meu antigo quarto. se mudaria para lá, mas como isso não tinha acontecido ainda, minha cama permanecia vazia. Nós havíamos acabado de almoçar junto com as meninas, mas cada uma delas tomou um rumo diferente depois disso, então nós três fomos para o quarto fazer nada. Passar tempo.
jogou o caderno na minha direção e eu peguei uma caneta para começar a rabiscar.
- Você - apontei pra . - Vai cantar essa música pra e é dessa forma que vocês vão dar um ponto final nessa história enrolada.
- Posso saber como?
- Ah, sei lá. Eu já dei a ideia, agora você se vira pra planejar. , você lembra dos acordes que estava tocando naquele dia?
- Lembro - ele disse, e já foi colocando o violão no colo.
Ré... Lá... Mi menor... Sol... Ré... Lá... Mi menor...
- Você sabia que ela ficou se roendo de ciúmes no outro domingo porque você estava dançando com uma loira no bar da Niña?
- Eu tentei dançar com a , mas ela fugiu de mim!
- Que seja! Ela ficou dizendo "Olha lá, o está dançando com uma garota mais bonita que eu!" e "Eu não sou bonita, não sou bonita como ela!" e blablablá.
- Mentirosa! A loira do bar nem se compara à e eu nem fiquei com ela. A gente só estava dançando.
- Todos nós vimos que ela não se compara à , mas a própria não viu isso, então... você precisa mostrar pra ela, .
- me deixa aceso! - havia um sorriso maldoso no canto da boca dele. Dava pra entender bem qual significado aquela palavra estava levando na frase.
- Então escreve isso na música! - eu provoquei e dei de ombros
- Não posso colocar isso numa música, . É o tipo de coisa que você fala pra Hannah. Pra eu tenho que falar algo mais... - ele pensou. - Do estilo dela.
- Você quer ser romântico - caçoei dele.
- Por que você não cala a boca? - ele ficou irritadinho e eu levantei as mãos na altura da cabeça, me rendendo.
e eu ficamos dando ideias também, mas, no geral, era quem estava suando a camisa pra escrever aquilo. Ele colocava algumas palavras no papel e riscava o dobro das que tinha escrito. Escrevia de novo, cantava, testava, apagava, escrevia novamente, apagava mais uma vez, até que, aos poucos, as estrofes iam se formando no meio daquele emaranhado de riscos e letras perdidas.
Mas ainda não sabia como começar a música. Disse que todas as vezes que tentava pensar em algo, a voz do cantando "baby" como primeira palavra ressurgia em sua mente, bloqueando qualquer outra probabilidade válida de criação. Eu ria, dizia pra ele deixar a música começar daquele jeito e ele negava, dizendo que não iria desistir até achar algo decente.
E daquele jeito passamos a tarde. Eu posso garantir que muita coisa na minha vida estava difícil naquele momento, mas eu ficaria feliz se, ao final de cada tarde, eu tivesse aqueles dois pra tirar uma onda e tocar violão.

Eu tinha aula no auditório naquela manhã. Iríamos assistir Interlúdio com o professor mais pirado daquele semestre e eu já sabia que me divertiria à beça. Não havia como não ser assim. Ele usava umas roupas largas que se arrastavam pelo chão enquanto seus passos curtos se efetivavam e ele falava como se nada mais no mundo fosse importante do que o seu monólogo. E, pra ser sincero, na maioria das vezes não era mesmo. O cara podia ser pirado, mas eu viajava em suas divagações.
Ainda havia seu costume de pausar o filme de cinco em cinco minutos, ou mais, para explicar cada cena, cada intenção, dar detalhes sobre os bastidores, sobre o diretor ou até mesmo da cidade em que o filme fora gravado. Podia ser entediante pra muita gente, mas pra mim, era sensacional.
Cheguei à escola um pouco atrasado porque meu despertador não tocou, nem minha mãe estava em casa. Acho que foi a luz do sol que me fez despertar, então eu me arrumei com pressa e dirigi por alguns minutos até conseguir chegar à escola e subir correndo pro andar do auditório.
Mas eu não estava tão bem ativo assim nas atividades físicas. Subir toda aquela escadaria de três andares correndo fez meus pulmões trabalharem um pouco mais do que estavam acostumados e eu tive que diminuir o passo para conseguir me recuperar.
Passava devagar pelas salas de aula, observando as janelinhas em cada porta para ver o que havia dentro. Até que eu passei por uma sala e a vi lá dentro. Ela usava uma calça comprida daqueles panos leves que se usava para dançar, uma blusa que só cobria metade de sua barriga e sapatilhas de algum material que eu não conhecia, mas parecia adequado para dançar naquele chão de madeira. Seu cabelo estava preso naquele mesmo rabo de cavalo curto e eu me peguei admirando seus movimentos, ali mesmo, pela janelinha da porta.
estava dançando, mas eu não conseguia ouvir qual era a música. Havia mais gente por perto dela e o emaranhado de braços e pernas deixava mais difícil vê-la, mas eu fazia um esforço. Qualquer coisa pra vê-la ofegando e sorrindo ao finalizar um passo, girando os quadris daquela forma magnética aos meus olhos, erguendo os braços e descendo com o corpo todo até o chão, de costas pra mim e voltar para cima, empinando-se na minha direção. Era o paraíso e eu queria ficar ali pra admirar, mas eu tinha aula.
Muito a contragosto, desgrudei a cabeça do vidro e dei mais alguns passos até entrar no auditório escuro e achar um lugar pra sentar.
O professor já estava falando de Hitchcock quando eu entrei. Contava sua admiração nada saudável pelas atrizes loiras dos filmes que dirigia e que ele era mundialmente conhecido pelo suspense. Nos mandou reparar na cena da escada em Interlúdio. E eu reparei.
Ela tinha um tamanho, mas, no final do filme, quando Cary Grant e Ingrid Bergman estão tentando sair da casa e nós não sabemos se eles vão conseguir, a escada torna-se maior porque o diretor, Hitchcook, mandou construir um segundo lance de degraus pra que a cena demorasse mais acontecendo. Era sensacional!

Dessa vez eu não a esperei na porta da sala, o encontro aconteceu por coincidência e eu só posso garantir que fiquei muito feliz com aquilo. Na verdade, eu fiquei mais feliz do que esperava que acontecesse. Foi um pouco de nervosismo e ansiedade. Eu estava curioso pelo cheiro que ela teria ao sair de uma aula puxada como aquela. Já me imaginava próximo ao seu pescoço para sentir de perto.
Mas as coisas estavam tão diferentes. Eu havia prometido que me afastaria. E embora tenha me deixado um pouco confuso, vindo atrás para saber de mim e reagindo mal quando eu lhe dei um fora, não parecia desgostar do meu afastamento. Então eu não podia fazer nada, além de manter a minha promessa. Mesmo que aquilo fosse bem incômodo.
- Oi, dançarina - falei só com ela, mas apareceu logo em seguida e eu mudei meu cumprimento para as duas. - Dançarinas.
- Oi, cineasta - me respondeu e se aproximou pra me dar um beijo na bochecha. - Vai almoçar? - eu confirmei com a cabeça. - Então vamos nessa.
agarrou o braço de de um lado e o meu do outro, e nós começamos a andar juntos pelo corredor, como três maricotas fofoqueiras de interior. Elas começaram a falar um monte de coisas sobre a Costa Rica, e como eu estava por fora do assunto, fiquei calado enquanto elas tagarelavam sozinhas.
Quando passávamos pelo andar de baixo, Hannah saiu de uma das portas de sala de aula e nos cumprimentou, agarrando meu braço livre logo em seguida. Então éramos quatro maricotas fofocando pelos corredores da escola. E embora eu estivesse ali, sendo bendito entre as mulheres, me sentia extremamente desconfortável.
Eu queria impressionar , mesmo que ela quisesse distância de mim, mas Hannah estava presente em todo e qualquer lugar que eu fosse e daquela forma ficava difícil. Era como se eu tivesse uma namorada, mas eu não tinha. Hannah e eu não tínhamos compromisso, e isso sempre ficou claro entre nós dois, mas aquela proximidade toda me prejudicava. Não que eu pudesse ficar mais prejudicado do que já estava com , mas eu não queria ser visto com Hannah sempre. Só que aquilo estava se tornando uma tarefa difícil!
Quando chegamos ao refeitório, e já ocupavam a mesa que costumávamos sentar. As garotas foram até lá para deixar o material da aula e eu fui para acompanhá-las.
- Isso é injusto! - reclamou, cruzando os braços. - Por que tem todas as garotas?
- Porque é um garoto guloso! - foi quem fez piada, mas ao contrário do tom que as piadas tem, aquela não era uma brincadeira normal. Foi ácido. - Mas merece atenção também! - ela desgrudou de e foi até e deu um abraço nele.
Então a cena ficou engraçada porque Hannah não parecia disposta a largar do meu braço, nem tinha coragem suficiente pra ir ficar perto de e deixar as coisas equilibradas. Então eu só consegui rir, pensando em como eu ia me ferrar depois, quando estivesse sozinho com . Ele ia ficar perguntando que tipo de amigo era eu que só fazia rir enquanto ele passava por um constrangimento. Mas, para a minha sorte, e gargalharam também e o clima ficou melhor.
- , você não faz ideia da proposta que Ross Baker fez pra mim - Hannah falou.
Todos já estávamos sentados, com nossos pratos à frente. Particularmente, eu gostava mais de ouvir do que de falar enquanto comia, mas Hannah não era do mesmo jeito. Era ela e quem mais falavam e, por isso, as que mais demoravam a acabar também. comia feito um trabalhador de obra e eu tinha vontade de rir todas as vezes que ela ficava com as bochechas cheias. Era bonito, apesar de engraçado.
- Ross Baker é o cara que estava aqui semana passada, não é? - me lembrei da conversa que estávamos tendo antes da minha mãe telefonar, avisando que estava na recepção da escola me esperando. Mas eu lembrei também de já ter ouvido aquele nome antes, e pela boca de . - Esse é aquele mesmo cara que você me disse que fotografou os animais morrendo? - ela não tinha como me responder de imediato, mas balançou a cabeça para dizer que sim. - Que proposta ele te fez, loira?
- Ele tem um trabalho com crianças no Natal e me convidou pra fazer com ele. Não é incrível?
- Contanto que ele não pretenda trancar as crianças e fotografar também, sim, vai ser incrível.
- Não! - ela tratou em explicar. - Não tem nada a ver. É um ensaio sobre a vida e a sobrevivência, não tem nada com morte. E é Natal, é nascimento! Vai ser mágico!
- Parabéns então!
- Obrigada! - ela piscou pra mim e voltou a comer.
- E o que o resto de vocês vai fazer no Natal? - eu perguntei.
, e falaram seus planos e metas sobre viagens, família e muitas compras. estava um pouco mais calada, porque ainda mastigava, mas eu prestei bastante atenção quando ela respondeu.
- Provavelmente vou pra Costa Rica, mas se não, só vou pra casa mesmo. E vou comer muito porque é isso o que costa-riquenhos fazem na ceia natalina - ela riu com a maior cara de gulosa. Mas... costa-riquenhos?
- Você tem parentes lá? - perguntei, curioso.
- Todos os meus parentes são de lá. Eu sou de lá!
- Fala sério! - como eu nunca tinha ouvido falar daquilo ainda?
- Muito sério! - ela sorriu. - Meus pais e eu viemos pra cá quando eu tinha cinco anos.
- Que legal! E como é lá?
- Ah, é legal. Como todas as cidades, só que não é tão chique como a Califórnia - ela deu de ombros. - Mas, no geral, todas as cidades são bem parecidas. Pelo menos a cidade onde eu morava e onde meus tios e avós moram.
- Você sabe que eu já fui em alguns países da América Central, mas nunca na Costa Rica? E eu sempre tive muita vontade de ir lá por causa do Carnaval.
- Ah, que nada! É só disso que falam quando se menciona o nome Costa Rica. Eu nem curto tanto assim - ela caçoou de mim.
- Mas eu não tenho culpa! Eu só conhecia o que meus livros da escola mostravam e não era muita coisa. Aí o meu pai já tinha ido lá, mas também só conhecia isso e não me falou de outras coisas. Mas minha irmã estudou em Cartago por uns três meses e...
Eu só percebi que estava falando demais depois de algum tempo. Em primeiro lugar, só quem conversava era e eu. Tenho certeza de que ela não tinha se dado conta daquilo ainda, assim como eu não tinha. Em segundo lugar, meu eu empolgado dava mais detalhes do que era realmente necessário. Foi o que eu percebi quando comentou:
- Eu não sabia que você tinha uma irmã.
Eutanásia. Meu pai só podia ser o homem mais louco do planeta mesmo. Eutanásia. Eutanásia.
- Eu tenho - sorri, tentando calcular a quanto tempo eu não a via sorrindo ou me dando um tapa na cabeça por deixar o quarto todo bagunçado. - Ela é linda.
- É mais nova que você? - ele perguntou.
- Não. Já está chegando nos trinta - vinte e sete anos bem vividos e dois vegetando numa cama hospitalar. Tudo por causa de um acidente tão banal!
Eu sabia que eles iam começar a perguntar mais, principalmente porque meu tom de voz estava permitindo aquilo, então eu troquei para qualquer outro assunto. Falar de Louise não era a melhor solução pra mim naquele momento, e eu não sabia qual era o momento certo.
O assunto na mesa prosseguiu e eu prestei atenção ao que falava. Fui transferindo meu olhar para todos os presentes. Cada um com uma característica fixa, uma marca forte na personalidade. Eu apenas observava.
Até que passei meus olhos por e percebi que eu não era o único observador ali. Ela não desviou do meu olhar e eu percebi que ela não tinha entendido meu devaneio sobre Louise como todo mundo. Provavelmente entendeu meu tom saudoso ou qualquer outra coisa.
Desviei eu, então, dos olhos dela. Antes que descobrisse qualquer sujeira sobre a minha família, eu precisava chegar em Marte e me esconder pela eternidade. Não queria que ela soubesse sobre aquela parte fraca que me construía.
Se dependesse de mim, só conheceria a parte boa. Nada além disso.

Capítulo 14: Cause I keep comin' back again for more

Eu disse a e ela não acreditou em mim. Eu falei que era misterioso, que evitava falar sobre si mesmo, que contava as coisas pela metade. Que outro motivo ele teria para travar ao ser perguntado sobre a irmã por ? Que outra razão para olhar todo desconfiado e mudar de assunto rapidamente? Havia alguma coisa encoberta sobre aquele garoto que ele parecia lutar muito para manter daquela forma, só que eu sempre fui bem curiosa e já estava inquieta para saber o que era.
Eu estava sozinha no meu quarto de tarde quando alguém bateu na porta. Duas cabeças apareceram por uma fresta quando eu mandei entrar, eram e . Eles abriram mais a porta para poderem entrar e eu consegui enxergar o corpo de parado bem atrás, os três entraram juntos.
- A gente quer a sua ajuda pra uma coisa - falou pra mim.
- Chlooooooe - chamou minha bola de pêlos, que estava perto da janela, e ela foi. Parecia mais que ele estava cantando uma música. Acho que a gata já conhecia bem a voz dele e sabia que era certeza de carinho. Nunca vi Chloe negar carinho de ninguém, aquela gata safada!
Ele ficou de pé enquanto andou até a cama de e até a minha, após largar Chloe em sua posição de sempre: de frente para a parede e embaixo do travesseiro.
- Você precisa da ajuda dela - corrigiu.
- Eu preciso da sua ajuda - disse, depois de mostrar o dedo do meio a .
- O que aconteceu? - eu perguntei.
- Nada ainda... Mas é o seguinte: eu vou dar um jeito nessa minha enrolação com a .
- Mas finalmente! Que emoção, minha gente!
- Não me interrompa! - ele fez cara de mandão, com o corpo projetado para frente e eu mostrei a língua. - Eu escrevi uma música - pigarreou e corrigiu a frase, impaciente com as intromissões dos garotos. - Nós escrevemos. É uma música pra e eu vou cantar pra ela e ver se dá em alguma coisa.
- Hum... - eu fingi pensar, mas sorri com malícia. - Vai dar em alguma coisa sim: muitos sobrinhos pra aqui, se vocês não tomarem cuidado.
A comoção foi geral. Em poucos segundos, estávamos todos gargalhando da minha brincadeira, até porque aquilo era uma possibilidade bem viva. Um deslize e uma gravidez, simples assim.
- Cala a boca! - brigou comigo, ainda sorrindo e um pouco vermelho. - Não vou te dar sobrinhos porque eu sei como se usa uma camisinha.
- Ah, bom saber - caçoei. - Mas em que você quer minha ajuda?
- Eu não sei como fazer isso! - ele explicou. - disse que eu não deveria armar muita coisa porque pode ser que ela não goste.
- Não, gostar ela vai, mas acho que tenho que concordar com quando ele diz pra você não armar muito. Serenata, por exemplo, além de ser extremamente brega, não daria certo com ela morando aqui no terceiro andar. Só chama ela em um lugar e canta.
- Só cantar? Isso e acabou?
- A música é boa? - eu quis saber. - Se ela for, vai ser o melhor presente da vida da .
- É boa! - a voz abafada pelo travesseiro de afirmou.
- Então não precisa armar um circo, . Relaxa e confia que vai dar tudo certo. Eu tenho certeza que ela vai gostar. O principal é você, é a sua voz cantando e disso ela já gosta. Você é a cereja da torta - pisquei pra ele, que sorriu pra mim.
- Se ela odiar e me chamar de babaca, em quem eu bato primeiro? - não era mais a mim que ele se direcionava.
- No porque a ideia foi dele - entregou.
- Foi sua ideia fazer isso? - eu perguntei diretamente pra ele. Nada contra, mas ele não parecia o tipo de homem que tinha aquelas ideias românticas. Era bonito, sim, mas nunca uma coisa que eu imaginei que faria. Me surpreendi.
- Algum problema?
- Não, nenhum - dei de ombros e fingi não dar muita importância.
Mas ele falou comigo de novo. Não exatamente falou, apenas se comunicou. Franziu a testa e apontou com a cabeça para encolhido na minha cama, como se perguntasse o que ele fazia lá daquele jeito.
- Ah - eu entendi e respondi. - Ele faz isso desde a primeira vez que veio aqui. tem algum problema no cérebro ou sei lá. Ele não faz isso na própria cama, não?
- Eu nunca vi, pelo menos - falou pra mim.
- Estou ouvindo vocês - respondeu.
- Levanta daí, desabrigado - foi até lá e puxou pela camisa. Notei que ele ficou um pouco alvoroçado e se arrumou para levantar logo, como se estivesse fazendo algo errado. Estranho! - Vamos embora. Precisamos conversar com a Hannah ainda.
- Falar com a Hannah por quê? Você quer que todo mundo assista você cantando?
Não entendi de verdade a razão de querer contar a Hannah, mas depois eu me lembrei que ela era amiga de , assim como eu era, e que se eu merecia saber dos planos românticos, ela merecia também. Mas naqueles últimos dias meu nível de sentimentos bons por Hannah não estavam tão altos. Ela e estavam próximas demais e, com isso, minha quantidade de ciúmes aumentava desproporcionalmente.
dava exatamente a mesma quantidade de carinho para cada uma de nós duas. Aquilo não era suficiente pra mim. Eu não queria cinquenta por cento, eu queria, no mínimo, sessenta. Que Hannah se resolvesse com seus quarenta, mas eu queria ser a amiga mais próxima.
- Não todo mundo, mas quero que vocês estejam perto na hora, sim. Acho que vai ser legal - ele respondeu.
Era óbvio que eu queria ver a cena, e se dissesse que ia fazer sozinho, eu daria um jeito de me esconder em algum lugar para assistir mesmo assim, mas não fazia questão da presença de Hannah.
- Vamos lá falar com a Hannah - ele chamou os outros dois. Andou até onde eu estava, me abraçou e me deu um beijo na bochecha. - Valeu, . Vou ficar torcendo mesmo pra ela gostar.
- Vou torcer por você, pelos dois - retribuí seu carinho.
saiu pela porta e ia pelo mesmo caminho, mas ele estava olhando pra mim. Algo em sua postura demonstrava hesitação, como se ele não quisesse sair do quarto. ficava olhando pra e eu juntos e então eu entendi. Ele queria estar no lugar de . Eu não estava sendo exibida, não era me achar demais, eu simplesmente estava vendo. Ele estava com inveja daquele contato.
Senti vontade de rir. Era a minha vaidade acenando, mostrando como eu gostava de ser admirada e desejada, mesmo pelo cara que eu tinha dispensado tantas e tantas vezes.
Os três se despediram de vez e bateram na porta do quarto ao lado. Eu não fiquei esperando. Entrei no meu quarto de novo e fui organizar alguns livros. Minha tarde seria estudando na biblioteca.

Eu costumava ficar bem concentrada em meus livros quando estava estudando. Era sobre o séc. XVII, aquele período era incrível e eu viajava legal, principalmente nas roupas engraçadas. A biblioteca estava cheia e a minha mesa era a única que não estava toda completa de gente. Apenas eu em uma ponta e um garoto de Design na outra ponta. Ele era bem gatinho, mas eu não sabia seu nome. Sem mais o que fazer, fiquei na minha, estudando, querendo que ele visse como eu era aplicada!
Ouvi quando a porta da biblioteca se abriu e entrou por ela. Ele estava com um livro e um caderno na mão, a caneta pendurada na orelha, entre seu cabelo e o quepe preto da Nike. Eu hiperventilei.
Primeiro procurei saber os motivos. Ele estava bonito e sério. Seu rosto ficava atraente quando sério. Mas eu reparei que estava olhando demais, então abaixei o rosto, na esperança de que ele não me visse e fosse sentar em qualquer outro lugar, exceto a minha mesa. Mas era o único lugar disponível e a mesa nem era tão grande, sem falar que a outra ponta já estava ocupada.
Eu só aceitei que ele realmente ia sentar perto de mim quando vi seus pés se aproximarem. Sandálias. Unhas bem cuidadas. Olhei pra cima. Ele me olhava.
- Se importa se eu sentar aqui? - balancei a cabeça para dizer que não e ele sentou perto de mim.
Tentei voltar a ler, mas ele não estava muito disposto a deixar. Eu já tinha ouvido falar que era espaçoso e barulhento, mas só naquele momento pude tirar a prova. Ele fez barulho para abrir o caderno e jogá-lo com força em cima da mesa, fez barulho para achar a página certa do livro e fez barulho ao tirar a caneta da orelha e começar a batucar com ela no caderno. Levantei os olhos do meu livro e o encarei, mas não tive retorno, ele estava concentrado.
Cutuquei seu braço e apontei para uma placa na parede, bem atrás de mim. A placa falava sobre como devemos fazer silêncio na biblioteca e respeitar o espaço dos outros. Eu esperei por um fora ou uma careta reprovadora por eu estar lhe corrigindo, mas apenas sorriu de lado e balançou os ombros, pediu desculpas e voltou a olhar seu livro, agora em silêncio.
Passamos bastante tempo ali. Ele ficou bem quieto e eu consegui me distrair de sua presença para focar na história da arte. Eu grifava as partes mais importantes, anotava no meu caderno e tentava imaginar como tudo funcionava. Mas uma hora eu me cansei. Larguei a caneta na mesa e encostei na cadeira, com os olhos fechados, alongando os músculos das pernas e braços.
- Cansada do sex. XVII? - a voz dele me perguntou.
Abri os olhos sem entender como ele sabia o que eu estava estudando, e ele percebeu minha dúvida já que respondeu logo em seguida:
- Eu espiei - confessou, com um sorriso. Ele estava rindo várias vezes.
- Cansado de ética e legislação? - me estiquei por cima da mesa até conseguir enxergar o conteúdo do caderno de .
- Leis me cansam muito fácil.
- Não entendo nada sobre elas ou qualquer coisa relacionada a política. Aliás... Obama ainda é nosso presidente?
- Já estamos em 2016?
- Não, acho que é 2014.
- Então Michael Jackson ainda não ressurgiu como em Thriller pra assumir o comando.
- Me avise quando acontecer. Os Estados Unidos precisam de um pouco mais de animação.
- Te dou uma carona de Jeep até Washington.
- Combinado! - levantei meu polegar em um sinal afirmativo.
O que havia sido aquilo era o que eu me perguntava por dentro. Com certeza, minha conversa mais amena com , e a mais demente também. Ele sorria bonitinho e eu tinha vontade de fazer o mesmo, mas mantive minha postura intelectual, fingindo que não tinha acabado de falar um monte de baboseiras.
Os comentários bobos deram espaço a um silêncio constrangedor logo depois. Eu e ele nao estávamos acostumados aquele tipo de conversação. Era mais fácil seguir o script quando ele investia em mim e eu dava um fora de letra. Quando eu era simpática, ficava sem saber o que falar depois. Foi assim no dia em que ficamos conversando no capô do Jeep, e estava sendo naquele momento.
Então eu descobri qual era a saída. A saída era a porta. Eu ia embora dali.
Fechei meu caderno e meus livros, coloquei-os na mochila que eu deixei pendurada na cadeira e me levantei. Ele me olhou, meio confuso, e entendeu que eu estava indo embora.
- Já estudou o suficiente?
- Pra um ano - brinquei. - Estou morta de fome. Vou comer e tirar um cochilo antes que chegue no quarto fazendo barulho.
- Ah, entendi - ele olhou para baixo, para os livros. - É, acho que eu também já estudei o suficiente.
Mentira. Não fazia nem uma hora que ele estava ali. Se aquilo era estudar o suficiente, eu tinha pena de seu boletim no fim do ano letivo. Mas fechou os cadernos também e levantou da cadeira, colocando a caneta na orelha, como estava antes.
- Vamos? - ele apontou para a saída e eu andei.
Eu não sabia o que ele queria dizer com "Vamos" e esperava, de verdade, que ele não me acompanhasse até o refeitório. Mas meus desejos nem sempre eram realizados. parecia bem concentrado no caminho, no meu caminho, e me seguia a cada lance de degrau, a cada corredor virado, até que chegamos ao refeitório e eu me dei conta de que ele realmente não ia se afastar.
- ainda nem terminou a música - ele disse.
Eu estava na frente do expositor de tortas, analisando qual delas seria minha vítima. Cada uma mais preta que a outra e, para mim, quanto mais preta fosse uma torta, mais gostosa ela seria. Aquilo significava uma quantidade extremamente exagerada de chocolate e aquilo só me fazia bem. Minha nutricionista podia até não concordar com a teoria se ouvisse, mas eu não me importava.
- E como ele vai cantar uma música que não está completa? - perguntei pra ele e apontei a torta pelo vidro para o rapaz do outro lado do balcão.
- Pretende terminar, né? - ele fez sinal para o rapaz, sinalizando que ia querer uma fatia da mesma torta. - Na verdade, é só o começo.
- A música não tem começo? - eu ri na cara dele. Como uma música não tinha começo?
- e começaram a escrever juntos, e deu um começo que não gostou. Agora não consegue dar um começo decente, muito menos esquecer o que deu.
- E que começo foi esse?
- "Baaaaaaby, I know your sister..." - ele cantou um pedaço e a voz dele era bonita. Não bonita normal, era bonita de verdade. - E por aí vai.
- Qual é o problema com esse começo?
- não gosta.
- E se não gosta, ninguém mais pode gostar.
- Exatamente - ele disse, e eu revirei os olhos porque sabia que era exatamente assim que acontecia. era um monopolizador de opiniões. As coisas tinham que ser do jeito dele e ponto final.
Começamos a andar com nossas tortas na mão, cada garfada e cada passo deixando evidente que ia mesmo me acompanhar até o corredor do meu quarto. Na verdade, eu só percebi isso quando saímos do prédio das aulas e eu fui na direção do alojamento e ele veio comigo, em vez de ir pro alojamento masculino ou pra garagem. Tirei minha carteirinha do bolso e a passei na catraca, ele fez o mesmo. Me acompanhou.
Ele voltou a falar da Costa Rica comigo. Subíamos devagar as escadas para o primeiro andar quando uma cabeleira loira apareceu na nossa frente, descendo os degraus com pressa.
- Oi, vocês! - ela sorriu. - Passeando?
- É - foi breve.
- Advinhem! - ela estava bem animada. - Tenho uma reunião de trabalho com Ross Baker! Não é incrível?
e eu respondemos que sim. Ele parecia empolgado de verdade, mas eu estava fingindo. Hannah se aproximou mais dele e pegou seu garfo, tirou um pedaço pequeno do pouco de torta que ainda restava no prato e o levou a boca.
- Huuuum! - ela disse, olhando dentro dos olhos de . Se ela fosse parte da retina dele não teria sido tão íntima. - Que delícia!
Na minha frente! Não que ela me devesse respeito nem nada do tipo, mas eu preferia não ser feita de vela. Ser vela nunca foi uma das minhas especialidades.
- Tchau! Me deseja sorte, hein? - Hannah beijou o rosto de e se afastou, virando para o meu lado. - Tchau, !
- Boa reunião! - falei e sorri, mas desfiz o sorriso assim que ela virou para descer a escada.
Talvez tivesse a ver com minha menstruação prestes a chegar e o estresse que o período me causava, mas a presença de Hannah estava me irritando e eu não via a hora dela sumir logo escada abaixo. Não esperei. Voltei a subir, sem esperar para ver se viria atrás de mim. Alguns segundos depois, pude ouvir os passos dele me acompanhando.
Eu não sabia o que ele ia fazer quando chegássemos ao terceiro andar, e quando chegamos, eu fiquei esperando pra ver. Abri a porta do meu quarto, ele entrou junto sem nem esperar pra ver se eu o convidaria. Sentou na frente da minha penteadeira, ainda mastigando o último pedaço de torta e jogou o prato na lixeira, junto com o garfinho, que também era descartável.
- Como vai sua mãe?
Uma pausa na mastigação, então se recuperou da minha pergunta e engoliu a torta para me responder.
- Vai bem - curto. Não grosso, mas curto.
- E seu pai? - eu queria que ele me falasse sobre a separação. Obviamente, eu não conseguiria ajudar em muita coisa, mas conversar sempre adiantava.
- Ocupado - dessa vez foi pior porque ele nem sequer estava me olhando. Eu entendi, então, que ele não queria conversar sobre o assunto. Me calei, mesmo que incomodada e curiosa. Eu não podia invadir um espaço que não era meu. - E os seus pais? Me fala deles. Você nunca me disse nada sobre a sua família.
- Minha família é uma bagunça - vi sua expressão interrogativa e confusa e sorri, me preparando pra responder. - Não uma bagunça de verdade, é no sentido bom. Meus pais eram muito novos quando eu nasci, eles eram adolescentes. Então é como se nós fossemos três irmãos lá em casa. A gente se mata, se beija, se ama - eu sorri mais ainda de saudades. - Eu sinto falta deles.
- Caramba! Quem diria que tanta história se esconde atrás dessa carinha?
- A minha cara? - toquei meu rosto. - O que tem com ela?
- Nada - ele deu de ombros. - Eu gostei da sua história. Me fala mais dela depois.
- Vou pensar no seu caso - zombei. - Acho que também tenho direito de saber sobre a sua família agora. Eu só sei que você está morando com sua mãe, seu pai ficou onde estava e que você tem uma irmã. Nada além disso.
- Você já sabe mais do que metade das pessoas que eu conheço.
- E por que todo esse mistério?
- Não é mistério, não, é só que a história da minha família não é interessante. Pelo menos não pra mim. Somos somente quatro pessoas diferentes, com convicções diferentes e manias diferentes.
- Toda família é assim - eu defendi. Se queria dizer que sua família não era tão atrativa por ter pensamentos divergentes, ele estava errado. Eu duvidava muito que em algum lugar do mundo houvesse uma família que pensasse totalmente igual.
- E então? Não foi isso o que eu disse? Não tem nada demais na minha família.
Eu ainda não havia sentado. Estava em pé no meio do quarto, procurando qualquer coisa pra mexer porque não sabia como me comportar ali na presença de , que estava tão confortável na frente da minha penteadeira. Era como se ele estivesse me testando, eu sentia isso. Talvez quisesse saber até onde eu aceitaria sua aproximação. E eu não sabia como recusar. Grande parte de mim ainda se sentia mal por todas as coisas que eu falei pra ele na praia e no carro na noite de domingo. Eu nunca tinha dado um fora daqueles em homem nenhum antes e nem sequer era indelicado o tempo inteiro. Minha consciência jogava na minha cara que eu tinha pego pesado. Ele tentava se aproximar de uma forma insuportável, verdade, mas eu havia sido dura também.
Entretanto, a parte esperta do meu cérebro me dizia que eu não podia abrir mão da minha decisão tão fácil. não era tão inofensivo, se fosse, não estaria ali no meu quarto, despreocupado como se fosse ali todos os dias. Se eu abrisse espaço demais, ele acharia que era dono da situação.
Eu precisava sair dali, já que ele não pretendia sair.
- Vou tomar um banho. Você fecha a porta quando sair?
Não dei espaço pra ele dizer que ia me esperar, aquela era a minha maneira delicada de mandá-lo embora e ele notou.
- Não, você tranca. Eu vou sair agora também. Não quero deixar minha mãe sozinha por muito tempo.
Ele só me esperou pegar uma muda de roupas limpas e a toalha e então nós saímos juntos do quarto. Eu tranquei a porta e ele andou ao meu lado até que eu chegasse ao banheiro. se despediu, de longe, e seguiu para a escada. Eu entrei no banheiro, mas dei dois segundos e voltei à porta para vê-lo andando até que sumisse pela escada.
Aquele homem estava me cercando, eu sentia. Ele provavelmente planejava me colocar contra a parede, me fazer sentir sua falta ou sei lá o quê. Eu só sabia que, se prezava pela minha saúde psicológica, precisava voltar a armar meu muro antes que ele viesse com um trator para derrubar meus tijolinhos.

Capítulo 15: Conceal, don't feel, don't let them know

As portas eram de vidro e permitiam que eu enxergasse o que já acontecia do lado de dentro. Na verdade, a reunião ainda não havia começado, mas pelo lado de fora, eu podia ver algumas pessoas se movendo, organizando as coisas para quando o culto começasse.
Havia um casal recepcionando na entrada, o homem sorriu para minha mãe e eu antes de deslizar a porta de vidro para um lado, permitindo nossa entrada. A mulher entregou um panfleto nas minhas mãos e outro para minha mãe, um daqueles folhetos semanais que falavam da programação da igreja. Louise costumava colecionar aquilo. Sua mania durou cerca de três ou quatro anos, os folhetos eram empilhados domingo a domingo dentro de uma caixa de sapato, até ela decidir que aquilo só fazia com que a igreja continuasse na fabricação desmedida de folhetos. Ela, de repente, se deu conta de que, quanto mais folhetos fossem necessários, maior seria a produção, aumentando também o número de árvores utilizadas no processo.
Então Louise digitalizou as melhores mensagens dos folhetos da caixa, depois jogou todos para queimar na nossa lareira de natal, prometendo a si mesma que faria uma campanha na igreja para a utilização de panfletos digitais. Ela até chegou a montar um esquema de e-mails que chegariam a todos os membros semanalmente, mas não teve tempo de colocar em prática. Foi quando tudo aconteceu.
Minha mãe já ia toda espivitada andando na frente, querendo arranjar um lugar com boa vista, mas eu a segurei pelo braço e pedi para ficarmos mais atrás. Nós éramos pessoas conhecidas, embora discretas, eu preferia não atrair olhares e acabar sendo alvo de comentários maldosos e curiosos. Afinal, as pessoas começariam a perguntar pelo governador quando vissem a mim e a minha mãe ali, sem ele, do outro lado do país.
Os bancos de madeira pesada tinham assento acolchoado e eu me permiti uma acomodação. Minha mãe começou a ler o folheto e eu me peguei observando as pessoas que chegavam ao local. Todas pareciam tão receptivas. Elas se abraçavam, sorriam, conversavam por um tempo e depois se despediam para ir repetir esse mesmo processo com outras pessoas, como se houvessem esperado a semana inteira por aquele momento.
Poucas vezes na vida eu quis que os dias passassem rápido para que eu pudesse viver algo. No final das férias, eu quis que os dias passassem para que eu pudesse ir logo pra Escola de Artes, só que eu percebi o quão injusto o tempo era com as pessoas que tinham pressa. Quanto mais eu ansiava, mais demorava. Foi quando eu entendi que não adiantava bancar o nervoso, afinal, as coisas só aconteceriam no tempo que tinham que acontecer.
Depois de alguns minutos de espera, o pastor subiu ao palanque e falou aos membros com alegria. Aquela era uma Igreja Presbiteriana, mas não era como as que nós costumávamos visitar em Chicago. Aquela igreja tinha um toque diferente de entusiasmo que a maioria das pessoas do mundo não tinha, ela não era tradicional. O pastor pediu aos membros que se levantassem, ato que minha mãe e eu acompanhamos, e todos começaram uma oração do Pai Nosso, animada e confiante, depois todos cantamos juntos uma música agitada, que era tocada pela senhorinha do piano.
Não estava sendo chato e ver a expressão feliz da minha mãe, sentada ao meu lado, era o melhor dos presentes. Por ela, valia a pena sair da minha rotina; por ela, eu poderia enfrentar a pior sessão de tortura. Era a minha mãe, a mulher da minha vida, a única no mundo que ainda merecia qualquer tipo de esforço da minha parte. Pela felicidade no rosto dela, eu conseguia ser feliz.

Todo o sermão do pastor se baseou em um único ponto: a família. Não era um assunto pesado para se tratar no domigo de manhã desde que nós não fôssemos quem éramos. No nosso caso, qualquer menção àquela palavra seria um ativador de lembranças e dúvidas. Minha mãe não aguentou por muito tempo enquanto o pastor falava sobre as bênçãos que Deus derrama sobre uma família que se respeita e que se cuida.
Senti um aperto na garganta ao ver que ela enxugava uma lágrima que caía em seu olho esquerdo. Quando ela notou que eu estava olhando, sorriu de lado para mim e se levantou, avisando que ia ao banheiro.
Eu tentei me manter ali, quieto, mas após alguns minutos, entendi que não ficaria em paz enquanto não conversasse com minha mãe e ouvisse todo o seu desabafo. Era ela a maior prejudicada naquela história. É claro que eu tinha raiva do meu pai e medo de que ele conseguisse, de alguma forma, permissão para a eutanásia, mas eu era o irmão. E embora o meu amor por Louise fosse imensamente grande, Bridget era a mãe, e contra o amor de mãe, eu sabia que nunca conseguiria competir.
Levantei do banco também e comecei a andar, de cabeça baixa, para uma porta lateral que levava para o outro setor da igreja. Mas como eu não conhecia o prédio, não consegui achar tão facilmente o que estava procurando. Andei por alguns minutos, entrei em alguns corredores errados, voltei por outros caminhos até que, depois de uns cinco minutos, achei o que parecia ser a ala dos banheiros.
E foi nesse minuto que meu sangue gelou mais do que eu sabia ser possível.
Uma cena que eu nunca imaginei que pudesse acontecer, inclusive por ser naquele lugar. Minha mãe estava com um pedaço de papel, enxugando seus olhos com cuidado para não borrar a maquiagem leve, acompanhada de , que afagava seu cabelo e lhe perguntava se ela estava bem. Minha mãe confirmava com a cabeça, mas não parecia acreditar muito, já que continuava perguntando a mesma coisa.
- Estou bem, querida - minha mãe fungou uma última vez, antes de jogar o pedaço de papel em um lixeiro. - Só preciso voltar e encontrar meu filho.
- A senhora não quer minha ajuda para procurar? Não vou ficar bem em lhe deixar sair desse jeito.
- Eu não o perdi - ela explicou. - Está sentado no templo, fui eu quem saiu para lavar o rosto. Mas já estou bem. Muito obrigada!
Minha mãe levantou o rosto e me viu, parado no batente da porta, observando a cena. Eu não sabia se fugia dali e assumia, de vez, ser um covarde sem escrúpulos, ou se agia normalmente e enfrentava a cena com coragem. Eu queria fugir, eu não queria que me visse naquela situação, mas eu não podia. Era minha mãe ali.
- Eu estou bem - ela falou, na minha direção dessa vez. Deve ter percebido minha expressão conflituosa e respondeu da melhor maneira que achou. Mas sua forma de resposta fez com que olhasse diretamente na minha direção, e o que eu vi em seus olhos foi uma cena clara de surpresa.
- ! - ela me cumprimentou, confusa, sem sair de onde estava.
- Vocês já se conhecem? - minha mãe perguntou.
Então eu soube que naquele momento, estava fazendo as ligações de um ponto ao outro. Ela encarou a mulher ao seu lado, depois voltou seus olhos para mim, mostrando que havia entendido o que estava acontecendo.
- É sua mãe? - ela perguntou pra mim e eu não tive outra saída a não ser balançar a minha cabeça para cima e para baixo.
- Estudamos juntos, mãe - expliquei, porque ela ainda não estava entendendo. - Na verdade, somos de cursos diferentes, mas estudamos na mesma escola.
- Ah, que bom! - ela felicitou. - Pelo menos alguém conhecido. É sempre bom ter com quem conversar nos lugares - a conversa não era muito confortável, o que me deixava um pouco menos embaraçado era saber que estava distraindo minha mãe. - Onde você está sentada...? Desculpe, eu não sei seu nome.
- - ela sorriu e estendeu a mão para cumprimentar minha mãe. - Morán, é um prazer conhecê-la.
- Bridget e o prazer é todo meu.
Eu permanecia calado, apenas observando, enquanto elas se apresentavam e decidiam sentar juntas. explicou que estava sentada do lado direito da nave porque era ali que ela ficava para fugir do ar-condicionado. Disse que sua pouca quantidade de gordura no corpo lhe tornava uma garota extremamente friorenta e minha mãe riu com aquela afirmação. Eu teria rido também se não estivesse numa situação tão complicada.
Enquanto andávamos de volta para o templo, minha mãe não chorava mais, e eu andava um pouco mais atrás delas imaginando o quanto eu estava perdido. Tanto esforço para esconder de e do resto da turma qual origem eu tinha, quais os problemas que eu precisava enfrentar e o sobrenome que carregava na identidade... tudo indo por água abaixo.
Minha mãe andou um pouco mais na frente para pegar sua bolsa que havia ficado no banco, guardando lugar e eu fiquei ali, com , esperando-a voltar.
- Estou surpreso de te ver aqui - eu disse.
- Essa frase era pra ser minha. , hein? Esse é o seu conceito de família desinteressante?
- Você não faz ideia do quanto - assumi.
Minha mãe se aproximou e nós andamos juntos até o banco onde estava sentada antes. Realmente, era muito mais confortável já que o vento do ar-condicionado não vinha diretamente na minha orelha. sentou no canto, perto da parede, eu fiquei ao seu lado e minha mãe do meu outro lado.
Não posso mais afirmar que prestei total atenção ao restante do sermão. O cheiro de , tão próximo de mim, me fazia viajar nas milhares de probabilidades que nosso convívio teria a partir daquele momento. Aquilo me deixava ciente de onde eu estava: em uma igreja, com e minha mãe juntas. Ela sabia de tudo agora. Não só conhecia o meu lado bom, conhecia o ruim.
Tudo o que eu conseguia sentir era medo, e aquela sensação estava longe de ser agradável.

O processo que incluiu andar perto até sentar juntos, no mesmo banco, foi doloroso, mas quando estávamos acomodados, eu pude relaxar um pouco. não ficaria conversando dentro da igreja, na verdade, ela parecia bem concentrada. Entrosada até. Mas quando a reunião acabou e nós precisamos levantar para andar até a saída, meu sangue, que já estava em seu estado normal, gelou de novo. Aquela era a hora de mais conversas, o momento em que as pessoas invadiam as vidas das outras com perguntas íntimas.
Iniciamos nosso caminho até a porta. Algumas pessoas cumprimentavam , como se a conhecessem, outras apenas acenavam, outros vinham e davam um abraço. Uma senhora em especial parou perto de nós e olhou de baixo até em cima, deu um sorriso grande e falou:
- Minha menina apareceu! - elas se abraçaram e eu vi que sorria também, de olhos fechados. - Por onde andou, meu amor? Essa é sua sogra? - ela perguntou, e olhou pra minha mãe.
- Não - se apressou em responder. - Essa é Bridget, mãe de um amigo - então ela me apresentou também e olhou nos meus olhos.
Eu me senti grato a naquele momento. Ela apresentou Bridget, não uma , esposa de um governador. Apenas Bridget. Ela estava fazendo aquilo em respeito a mim, e por isso a minha gratidão.
Minha mãe, que nunca foi tímida, engatou uma conversa amena com a mulher e com por alguns minutos. Foi coisa rápida, verdade, mas como eu estava por fora do assunto, me senti deslocado e desconfortável. Depois disso, andamos até a saída.
- Por que não almoça com a gente, ? - minha mãe pediu.
- Ah, eu não posso - a princípio, imaginei que fosse apenas mais uma desculpa esfarrapada da garota, das que ela usava sempre que queria fugir de mim, mas ela completou a resposta logo em seguida. - Eu adoraria, mas prometi à minha amiga que almoçaria com ela - então ela virou pra mim. - está com problemas no trabalho, ela precisa de atenção redobrada.
- O que aconteceu? - eu perguntei.
- Pode ser que ela seja demitida - disse, parecendo chateada.
- Então tudo bem - minha mãe aceitou. - Espero que fique tudo bem com ela. Estamos na torcida. É sua amiga também, ?
- É, mãe. é a única garota legal naquela escola - eu precisei fazer uma brincadeira. Já estávamos sérios por tempo demais.
Vi cerrar os olhos na minha direção e fazer uma careta. Minha mãe riu e eu também, e nós conseguimos deixar o clima um pouco mais agradável. Bem melhor assim.
- Quer carona até a escola? - ofereci.
- Não precisa. Hannah e vão me buscar aqui.
- Tarde só de garotas?
- Parece que sim - ela deu de ombros.
Nós conversamos mais um pouco até que ela se despediu de nós. Disse que Hannah e estavam esperando por ela do outro lado da rua e que não podia se atrasar, caso contrário, arrancaria seu couro cabeludo. Depois disso, andei até o Jeep com minha mãe e não deixei de ouvir uma pergunta intrometida, quando já estávamos dentro.
- Por que você estava tão diferente perto dessa garota? - ela estava investigando.
- Como diferente, mãe?
- Diferente... Falando manso, cuidadoso com as palavras.
Eu precisei rir daquilo porque era incrível como dona Bridget me conhecia bem. Ela sabia até mesmo quando eu falava em tom diferente, manso ou não.
- Ah, mãe, é sua futura nora - pisquei pra ela, que se animou com minha resposta. Minha mãe era uma casamenteira nata.
- E por que ela não agiu dessa forma?
- É porque ela ainda não sabe - dessa vez ela riu mais abertamente. - Mas não vai demorar. Você vai ver.
Dei partida e dirigi para nosso apartamento.
Para uma manhã de domingo, as novidades foram bem agradáveis. Surpreso eu estava, claro, não imaginava encontrar ali, não esperava que ela descobrisse sobre minha família e, ainda assim, agisse normalmente. Só que, acima de qualquer tipo de surpresa, eu estava feliz. Valeu a pena acordar cedo e procurar uma igreja com minha mãe.
Eu não costumava fazer muito aquilo, mas me peguei agradecendo a Deus por ter entrado justo naquela igreja. O domingo não podia ter começado de forma melhor.

Eu não esperava vê-la ali, não naquele domingo. Alguma coisa na minha cabeça me dizia que ela não misturaria igreja de manhã e bar da Niña à noite. Mas eu estava enganado, ainda bem.
Como eu passei a tarde inteira entretido com minha mãe, assistimos filmes e conversamos bastante sobre os problemas da nossa família, eu me desliguei do celular e de qualquer outra forma de comunicação. Eu não sabia quem ia estar na Niña. Podia ser que ninguém estivesse e eu ficasse lá sozinho, mas fui assim mesmo. Preferi arriscar.
Ela estava em uma mesa com o resto dos nossos amigos. estava empolgado contando uma história quando eu me aproximei e sentei ao lado dele, o garoto só me cumprimentou com um tapa na testa e voltou à sua história. Falei com o resto do pessoal, fazendo minha voz ficar mais alta que a de , interrompendo sua história. Era uma brincadeira, mas ele sempre ficava irritado quando as pessoas não lhe davam atenção.
Deixei ele continuar e chamei um garçom. Enquanto esperava, tentei adentrar no assunto da mesa. Era sobre alguma garota da turma dele, nada demais. O garçom chegou e perguntou o que eu ia querer. Saí olhando pela mesa para ver o que o pessoal estava tomando, mas não reconheci nada com o conteúdo confiável, então optei por uma Coca-cola.
Algumas pessoas costumam dizer que o universo conspira para que certas coisas aconteçam. Eu nunca fui muito crente nessas histórias, mas havia algo naquele domingo, algo que me fazia ter as melhores oportunidades de aproximação. Hannah foi a primeira a levantar da mesa. Não foi rápido, só aconteceu depois de quase meia hora que eu já estava lá, mas ela levantou e foi dançar com alguns conhecidos. levantou depois, também e depois , percebendo que estava atrapalhando alguma coisa.
E eu fiquei sozinho com ela na mesa. Apreensivo no começo, confesso, afinal, eu não sabia que tipo de conversa poderia sair dali, mas eu fiquei. Eu queria saber no que iria dar. Queria, ao menos, a companhia de .
- Então... - eu comecei porque fiquei impaciente. Ela não parecia concentrada em nada, estava apenas tomando um suco de cor estranha, mas não falava nem me olhava. - Quer dizer que você frequenta a igreja?
- Ah, sim - ela riu de lado. - Agora nem tanto. Eu já fui mais, no meu primeiro ano - ela voltou a tomar o suco, mas pareceu ter se lembrado de algo importante. - Mas ninguém da minha família pode saber disso.
- E por que não?
- Você é louco? Meus pais são mais católicos que o Papa. Se souberem que eu frequentei uma igreja protestante, é capaz de me colocarem pra fora de casa.
- Tarde demais pra você, . Agora eu sei o seu segredo.
- E eu sei o seu, - foi provocação, das piores. Seu sorriso maléfico no canto dos lábios deixou claro que eu não era o único com informação sobressalente. - Sério... por que você escondeu isso?
- Se você está falando o nome com tanto entusiasmo é porque sabe o que ele significa.
- Sei, claro que sei. Você é filho de um governador, você saiu de casa pra morar em outro continente, você tem uma irmã e... Ai, meu Deus!
Respirei fundo. Ela sabia de tudo. Ela fez as ligações, agora minha vida estava toda exposta naquela mesa e sabia de cada coisa dela.
- É por isso que eu escondo. Não é muito interessante ver todos os meus amigos me olhando com essa cara que você está agora.
- Me desculpa - ela pareceu notar que eu não estava gostando. Voltou a beber seu suco e beliscar as batatas fritas em cima da mesa. - Mas é, no mínimo... bombástico. Não tem palavreado delicado pra uma história dessa.
- Pior é que eu sei.
- Por que sua mãe saiu de casa? - eu a olhei e ela ficou vermelha no mesmo instante. - Me desculpa. Não é da minha conta! Foi mal mesmo.
- Está tudo bem, . Agora não adianta mais esconder nada, pelo menos não de você.
- Eu não quero ser indiscreta.
Balancei a cabeça. Não adiantava, não mesmo. Eu tinha uma teoria e ela tinha caído na minha frente. Fiz um esforço gigante pra que não soubesse de onde eu vinha e quais eram minhas preocupações antes de pousar a cabeça no travesseiro, mas foi tudo contra a direção que eu esperava. E eu não queria deixar na metade. Corria o risco dela ter a impressão errada de mim, caso eu não contasse tudo do meu ponto de vista. A maioria das pessoas tinha, na verdade. Para o mundo inteiro, eu era o filho rebelde, o causador de toda a desgraça da minha família. Era aquela história que conhecia, só que eu não podia deixar aquilo continuar.
Eu já aguentei muita gente me julgando. Não aguentaria ser mau classificado por ela também.
- Será que a gente pode conversar fora daqui?
- Onde?
- A gente pode ir andando até a praia, ou só até o lado de fora, tanto faz. Não quero correr o risco de começar essa conversa e qualquer pessoa chegar no meio pra ouvir tudo - pensou no assunto, ela hesitou. Senti um desalento ao ver que ela não estava tão interessada em sair dali comigo. - A gente só vai conversar, - pedi, uma última vez.
A garota deixou que uma última respiração funda atravessasse seu corpo e assentiu. Me senti mais aliviado enquanto via ela terminar de tomar seu suco, todo de um gole só e levantar da mesa, esperando que eu levantasse também. Fiquei de pé e conferi se minhas chaves estavam no bolso.
Começamos a andar, mas não chegamos a dar nem dois passos.
- Ah, agora sim. Pensei que os mocinhos fossem ficar a noite inteira sentados - a voz de Hannah chegou até nós. Praguejei por dentro ao virar em sua direção e ver sua mão vindo até meu braço, me agarrar. Ela agarrou o braço de também e começou a nos puxar para a pista de dança. - Vamos dançar. A música está ótima.
Não havia como sair de perto dela, não sem deixar claro que algo estranho estava acontecendo. Olhei para e vi ela franzindo o cenho na minha direção, ela sabia também que não dava para fugir. Vi seus lábios se curvarem em uma frase: "Conversamos depois", ela cochichou.
Deixei que Hannah me guiasse e aceitei que a melhor saída para aquele momento era dançar mesmo. Pelo menos a dança era uma atividade muito bem executada por , e já que ela estava na minha frente, eu teria visão privilegiada.
A conversa podia esperar.

Capítulo 16: That kind of lux just ain't for us

- Agora eu quero que vocês formem casais.
A voz do professor soou firme pela sala. Como eu sempre fazia dupla com , mesmo que ele mandasse formar casal, não me movi para tentar achar nenhum ser do sexo masculino. Continuei conversando bobeiras com até que o professor notou nossa má disposição para nos afastar e veio nos dar uma reclamação.
- Uma das minhas exigências ao formar uma turna, uma das muitas, é que exista uma quantidade igual de homens e de mulheres. Eu já fiz vocês assinarem a ata de presença e notei que ninguém faltou. Ou seja, não há razão plausível pra vocês duas ainda estarem aí, sentadas, como se eu não houvesse acabado de dar uma ordem.
- Mas é que o senhor sempre deixa a gente dançar juntas - tentou nos defender.
- Sempre é uma palavra que nunca deve ser utilizada.
- Sempre e nunca são palavras com o mesmo peso, professor. E, desculpa se eu estou sendo indelicada, o senhor deveria...
- Você é quem deveria levantar desse chão e arranjar um par agora mesmo, .
O professor foi rude, mas eu achei super necessário porque, se tivesse continuado, era capaz de ter sido expulsa da escola por desacato. Ela estava estourada. Ainda era segunda-feira, mas já estava no estresse da quinta e descontando tudo aquilo em cima do professor.
Eu levantei apressada e humilhada depois daquele vexame e olhei para ver quais eram minhas opções. Hebert Fouagin já estava perto de se oferecendo para dançar com ela, então a minha única, única saída era andar até perto da janela, onde Alef, o último garoto desacompanhado, me esperava para dançar.
- O professor está mais chato que o normal ou perdeu o juizo? - ele me perguntou quando eu cheguei perto.
- TPM - respondi.
Alef estendeu as mãos na minha direção e eu as segurei, começamos a nos alongar em dupla.
Eu tentava a todo custo desviar meus olhos dos dele. Não precisava olhar tanto, honestamente. Alef não queria nada comigo, eu já tinha entendido aquela parte, o que me restava era juntar os resquícios de vergonha na cara que ainda me restavam e seguir em frente.
- O que você pretende apresentar no desafio do ano?
- Tem um pessoal do último ano que está querendo montar uma coreografia, sabe? Alguma coisa alternativa, diferente do que já se apresentou aqui. Eles me chamaram, na verdade, foi uma amiga que eu tenho na turma. Eu fui lá, vi uns ensaios deles e me interessei. Pode ser que seja legal pra mim - ele explicou. - E você?
- Vou dançar com a .
- Mesmo? Por que isso não me surpreende? - ele zombou.
- Talvez porque nós sejamos perfeitas uma pra outra - eu pisquei. - Vamos ganhar, você vai ver.
- Vai ter que passar por cima de mim, mocinha.
- Facilmente, mocinho.
Aquilo não era verdade. Alef e eu fizemos um bom trabalho juntos, um ótimo trabalho. Vencer em primeiro lugar na categoria dança não era pouco trabalho e não era pra qualquer bico. Ele era muito bom. Eu sabia que teria que me esforçar bastante para vencer.
Outra grande quantidade do meu esforço era voltada a esquecê-lo e eu estava feliz porque sabia que aquilo já estava acontecendo. Não é como se, num passe de mágica, ele tivesse saído da minha cabeça, mas aos poucos eu estava me recuperando. Pelo menos sua presença não me machucava mais, e minhas tremedeiras diminuíram também.
E foi assim que eu decidi enfrentar o resto da aula: de cabeça erguida. Com certeza eu precisaria manter a cabeça alta para dançar, mas não era esse o único motivo, eu seria superior por minha causa. Porque eu precisava ser forte para sair daquela situação ilesa, e eu estava decidida. Alef não ia mais me afetar, de forma alguma.

- É isso por hoje, turma - o professor nos liberou. - Na próxima aula, cheguem cedo e formem os mesmos casais - ele direcionou a última palavra na direção de e a garota esperou ele se virar para fazer uma careta bem feia.
A turma começou então a se organizar para sair da sala. Era hora do almoço e os mais apressadinhos já se amontoavam na porta para correr até o refeitório. Eu estava entre os apressadinhos, minha fome naquele momento podia denegrir meu estômago então, quanto mais rápido eu andasse, mais rápido poderia sanar minhas necessidades. Alef me acompanhou até a porta e nós comentávamos sobre alguns detalhes da aula.
Mas estava na porta da minha sala, e pela forma que seu corpo se mexeu ao me ver, estava me esperando. Vi seus olhos cerrarem e não entendi o motivo a princípio, mas me lembrei de quem estava ao meu lado.
Seria engraçado se não fosse idiota.
- E aí, ! - Alef o cumprimentou. Pelo menos de uma coisa me servia a demência daquele homem. Alef não percebia meu interesse por ele, e em um momento como aquele, também não notava que estava se mordendo de ciúmes de sua proximidade comigo. Toda aquela falta de noção só contribuía para que a cena fosse bem interessante.
- Oi. Tudo bom? - respondeu, mas não deu muita atenção ao meu colega de classe, virando-se logo pra mim. - Eu preciso conversar com você.
E nós precisávamos mesmo.
Na noite anterior, estávamos prontos para ter horas de conversa e esclarecer todos os pontos que um queria saber sobre o outro, mas Hannah nos chamou para dançar e não nos deixou quietos em nenhum momento. Eu até tentei ser uma garota maleável e fingi que estava cansada. Me sentei na mesa, esperando que saísse da pista de dança e viesse até onde eu estava para que pudéssemos sair para algum lugar e conversar em paz, mas a todo momento eu via o braço de Hannah o rodeando. Era como se ela tivesse percebido que ele queria sair, como se fizesse de propósito. E eu não duvidava nada que realmente fosse isso. Hannah passava longe de ser uma garota inocente e aluada. Ela era mais esperta do que as pessoas imaginavam.
No fim da noite, e a levaram pra casa porque ela estava bêbada a ponto de não saber soletrar o próprio nome. Tudo pra chamar atenção, na minha opinião, mas... Quem era eu para falar aquilo? Fiquei na minha e esperei a boa vontade de para poder voltar pra escola.
- Certo - assenti com a cabeça e com a palavra. Me virei para Alef. - Não temos aula juntos amanhã, não é? Minha terça é lotada de teóricas - eu conversei com naturalidade. Não queria demorar, mas gostava da forma com que se irritava quando me via próxima de Alef. Não custava nada fazê-lo esperar um pouco, já que isso foi tudo o que eu fiz na noite anterior.
- Não. Mas é bom... eu vou aproveitar pra me preparar porque eu tenho um desafio pra ganhar - ele disse, em tom de brincadeira.
- Pode apostar... que não - pisquei pra ele. - O desafio do ano é meu. E da . Enfim. Em todo caso, não é seu.
- É o que nós vamos ver, Morán - Alef acenou pra mim e também para antes de se afastar e começar a andar na direção das escadas.
- Simpático o seu amigo - foi tão irônico que eu tive vontade de rir. E eu ri. Olhei no rosto dele para ouvir o resto de sua frase que ainda estava por vir. - Você sabia que ele é gay?
Dessa vez eu não tive como ser delicada. Engasguei em uma gargalhada escandalosa e mexi os ombros de forma frenética. Como conseguia ser tão criativo era o que eu mais queria entender naquele momento.
- Ele não é nada de gay! - defendi.
- Que outro motivo ele teria pra te tratar dessa forma, você pode me explicar?
- E eu vou saber?
- É porque ele não gosta da fruta. Na verdade, ele gosta da mesma fruta que você.
- Você não sabe de nada!
- O que eu não sei é como alguém pode te ver dançando todos os dias e ainda assim agir como se nada estivesse acontecendo - ele explicava detalhadamente e eu me senti obrigada a ficar ouvindo tudo com cuidado. não tinha vergonha de expressar sua opinião sobre mim, eu, ao contrário, sentia minhas bochechas esquentarem instantaneamente. Mesmo assim, a curiosidade era grande demais para eu simplesmente dar as costas e me afastar. - Você já se viu dançando, ? - eu dei de ombros. Me vira dançando nos vídeos do desafio e dos ensaios, mas não era nada demais. - Você é gostosa e...
- Epa! - interrompi quando senti o sangue se agrupando de vez no meu rosto. - E o respeito ficou onde? - ele só fez rir da minha cara em vez de responder. - Vai me dizer logo o que você queria falar ou vai ficar me cantando?
Notei ainda os sinais de diversão no seu rosto, mas ele foi ficando mais sério com alguns segundos. Então respirou fundo e adquiriu aquela expressão pesada da manhã anterior, na igreja.
- Eu quero te contar a história.
- Por quê? Você não precisa. Eu falei que não é da minha conta. Eu estava sendo intrometida e reconheci isso. Não vou fazer de novo.
- , o que você sabe sobre mim é a história inventada que a mídia conhece. Aposto que está pensando que eu sou só um mimadinho que acabou com a vida da própria família - eu não achava. Sabia, sim, que fora responsável pelo acidente que colocou a vida de Louise em risco, mas aquilo não era sua culpa. - Eu não quero que você tenha uma impressão errada de mim, tá legal?
- , a família é sua!
- E eu quero que você saiba sobre ela - ele falou, um pouco mais alto. - Será que eu posso compartilhar isso com você?
- Compartilhar o quê? - foi o que a voz de disse, quebrando um pouco do clima tenso que havia se instalado ali entre nós.
Minha amiga se aproximou e agarrou meu braço. Nosso silêncio não se quebrou e podia espernear o quanto quisesse... sobre aquilo eu não iria falar.
- Puta que pariu! - reclamou ao ser interrompido.
- Poxa, ! - ela se fez de coitada. - É tão ruim assim ter a minha companhia?
- Não é nada disso, - eu consertei. - A gente só estava conversando uma coisa que não é pra todo mundo saber. Não é nada contra você.
- Ahhhh - ela alongou a vogal. - É um daqueles assuntos super secretos que você fica sabendo e me conta depois? - ela perguntou. estava sendo nojentinha e eu tive vontade de mandá-la calar a boca, mas não fiz. Eu sabia como ela ficava carente naquela maldita TPM.
Balancei a cabeça negativamente para que ela percebesse que aquilo era sério de verdade. apenas nos observava e revirou os olhos quando bufou e saiu me puxando pelo braço, falando que ela era a central de informações daquela escola e que se ela não fosse ficar sabendo das coisas, ninguém mais iria.

O dia não estava frio, mas eu precisava de um banho bem quente. O vapor subia alto no banheiro e eu tive um pouco de dificuldade para me olhar no espelho. Estendi a mão para limpar o vidro. Fiz alguns desenhos infantis, que era como eu costumava gastar tempo no banheiro, quando criança. Um coração, uma bola, um pirulito, um sol. Depois que eu enjoei de desenhar, espalmei a mão no espelho para conseguir um espaço razoável de visualização. Eu me aproximei bastante para reparar no meu rosto. Havia uma pequena espinha querendo nascer por baixo da pele e eu raciocinei sobre qual creme passaria ao chegar ao quarto. Precisava acabar com aquela praga antes que ela tomasse conta de um espaço que não lhe pertencia.
Me afastei do espelho e então... eu gritei.
Havia alguém parado bem atrás de mim e quando minha voz soou esganiçada, começou a andar até se aproximar ainda mais. Não esperei para ver o que ia acontecer. Virei para trás e gritei ainda mais ao notar que era um homem. Acho que o medo havia me cegado porque eu só percebi que era depois que ele falou e eu reconheci sua voz. Ela sorria fininho e me mandava calar a boca, porque ele não ia fazer nada contra mim.
- Seu doente! Está fazendo o que aqui? Sai daqui! - apertei a toalha contra meu corpo, como forma de proteção. Eu sabia que ele não me representava perigo, mas meu sangue ainda corria rápido e assustado.
- Quer parar de violência? Eu preciso conversar com você. Achei que já tinha deixado isso bem claro!
- E não podia me esperar sair do banho?
- Podia, mas a ia ficar no pé o tempo todo e também... eu não resisti. Você fica muito bem de toalha! - não foi um elogio, pelo menos não foi assim que eu entendi. Eu me senti invadida, para falar a verdade, pela forma com que os olhos de viajavam por todo o meu corpo.
- Eu pensei que você estava sendo um cara legal comigo! - lembrei. - E aquela história de me deixar em paz? - eu cruzei os braços ao redor do meu busto porque era para aquele lugar que ele estava olhando no momento. Notei ele ficando mais rígido no mesmo momento que minhas palavras saíram.
- Desculpa - ele pigarreou, envergonhado, eu acho. - Mas e então? Nós vamos conversar ou não?
Grunhi, irritada, em sua direção, mas disse que sim. Saí do banheiro e andei com pressa até o meu quarto, deixando bem claro que, se ele me seguisse, eu fugiria dele e da conversa pelo resto do ano.
estava tão mal, física e psicologicamente, que nem sequer foi trabalhar. Pediu ao chefe para fazer o serviço em casa e se jogou na cama esperando que ele enviasse algo para seu e-mail. Normalmente ela ficava mal nas TPM's. Seu sofrimento com cólicas costumava ser mil vezes maior que o meu, por isso eu era tão compreensiva com esse período.
Vesti uma roupa e penteei o cabelo pra cima. Não me preocupei com maquiagem e o hidratante que ficasse pra depois. Fiz o básico e saí de lá antes que minha companheira de quarto acordasse e me prendesse ali de novo. podia ser chato como fosse e insistente, mas eu não podia negar que também estava curiosa pela história. E de alguma forma, eu me sentia importante por ele querer contar aquilo pra mim, por ser importar com a minha opinião.
Encontrei com ele no estacionamento. O Jeep já estava ligado e eu só precisei entrar e colocar o cinto para que ele desse partida. Não perguntei para onde estávamos indo, eu sabia que quanto mais rápido chegássemos, melhor pra ele, que estava tão apressado para me contar sobre sua vida.
Que ironia do destino.
Paramos em uma lanchonete não muito distante da escola, só o suficiente para não ser point de encontro. Eu não estava com fome e ele também não, afinal, nós havíamos almoçado há pouco tempo. Nós só queríamos parar em qualquer lugar onde, finalmente, pudéssemos ter um pouco de privacidade para conversar em paz.
- Vai comer? - ele perguntou.
- Não. E você?
- Não estou com fome, mas acho que não vão nos deixar ficar aqui sem consumir nada - então ele olhou o cardápio rapidamente e chamou o garçom, pedindo que ele nos trouxesse duas Cocas.
Então nos calamos. Eu notei que estava respirando forte, rápido como um cachorro, embora não tão exposto, e aquilo fez minhas mãos gelarem um pouco. Eu não sabia que tipo de informações ele iria me passar, embora tivesse ciência de que era importante por se tratar de sua família. Segundo , eu conhecia a história, mas pela maneira errada. E havia curiosidade de sobra dentro de mim.
- Então...?
- Acho que eu devia começar a falar, né? - assenti com a cabeça e uma careta irônica que fez ele sorrir. - A história é meio grande, então se te der sono, você pede um travesseiro e tira um cochilo, aí eu acabo de contar depois.
- Se a história me der sono, eu não paro pra escutar nunca mais - caçoei dele.
- Vamos ver então - seu corpo procurou uma melhor maneira de sentar confortavelmente. - George sempre esteve envolvido com política. Na verdade, meu avô tentou se candidatar a diversos cargos políticos e acabou passando essa paixão pro meu pai. Eles sempre tiveram muito dinheiro e, consequentemente, o mundo na palma das mãos - não era uma história muito empolgante, para ser sincera, mas a forma com que falava me prendia. Era sua família, era algo sobre o qual ele tinha pleno conhecimento. - Minha mãe veio de uma família abastada também, mas não tanto como George. Eles frequentavam os mesmos eventos, acabaram se conhecendo e se curtindo... acharam conveniente um casamento, já que se gostavam e a família da minha mãe sempre foi muito conservadora, do tipo que obriga a filha a se casar virgem e tudo mais. Depois de um tempo, Louise nasceu. Depois que ela já era crescida, eu nasci. Alguns anos depois, meu pai entrou de vez na política e começou a tentar vários cargos, assumiu muitas responsabilidades, virou um homem de nome até se tornar governador. Aí a nossa vida mudou.
- Melhor ou pior?
- Melhor - ele falou, em tom de obviedade. - Muito melhor. A gente tinha muita mais dinheiro que antes e, além de tudo, éramos paparicados em qualquer lugar que fôssemos. Dá pra imaginar que tipo de moleque rabugento eu fui, não dá?
- Você é rabugento até hoje - eu lhe mostrei a língua.
Aí ele levantou a mão no ar e eu achei que fosse para pegar as latinhas de refrigerante que o garçom trazia na nossa direção nesse mesmo momento, mas não. continuou olhando pra mim e, com a mão erguida, deixou que apenas o seu dedo do meio se exibisse na minha direção. Era uma atitude infantil e desrespeitosa, mas tudo o que eu consegui fazer foi rir. Gargalhar.
- Continua - incentivei, abrindo minha latinha enquanto ele fazia o mesmo.
- Enfim - ele deu um gole. - Nós meio que éramos a família perfeita, sabe? A gente tinha tudo, a gente se curtia, a gente fazia as melhores viagens, estudava nas melhores escolas, frequentava os melhores eventos e, pra mim, a vida estava perfeita. Eu nunca tive problemas pra me relacionar, fosse com amigos, fosse com garotas e, naquela época, eu não me importava muito se isso só acontecia por causa do dinheiro - comecei a notar uma expressão diferente em seu rosto, como se ele se importasse agora. Antes não machucava, mas depois ele percebeu o quanto aquilo era efêmero. - Ao contrário de mim, Louise sempre foi uma garota simples. Pouco namorava, estudava demais, vivia enfiada na igreja, pensando em como o mundo podia se tornar um lugar melhor.
largou a lata de refrigerante na mesa e soltou um sorriso. Mas era um sorriso que eu não conhecia ainda, porque aqueles lábios repuxados não demonstravam felicidade, diversão nem nada do tipo, era ácido, magoado.
- Aí um dia ela escutou meus pais brigando dentro do quarto. A gente não costumava se meter na vida de casal deles, mas aquela briga estava bem ridícula, se você quer saber. A gente ouvia minha mãe gritando. Eu fiquei puto na hora, queria entrar lá e mandar eles pararem, mas Louise disse que eu não deveria fazer aquilo porque não se tratava do meu casamento, aquilo era assunto deles. Nós ficamos sentados no corredor esperando eles abrirem a porta por um bom tempo. Só que passou tempo demais, eles não paravam de brigar e nós ouvimos um som muito forte, estalando, e depois ela caindo. Entender que meu pai tinha acabado de bater na minha mãe foi um choque, mas pior foi quando nós a ouvimos dizer que ele podia bater o quanto quisesse porque a dor ia ser a mesma, já que ela havia se acostumado às pancadas pelo decorrer dos anos.
- Não era a primeira vez - eu constatei, assim como eles haviam feito naquele dia.
- Eu explodi, - céus, ele parecia tão magoado! - Eu entrei no quarto e caí no chão com ele. Nós dois rolávamos, nos batendo. Eu estava incontrolável e ele não sabia muito bem o que estava acontecendo, brigava pra se defender e eu só queria atingí-lo. Eu queria que ele pagasse por magoar minha mãe. Louise e minha mãe gritavam pra gente parar, mas isso só aconteceu bastante tempo depois. Aí Louise gritou muito com ele, minha mãe só chorava. Eu nunca ouvi tanto barulho como naquele dia, todo mundo estava gritando, todo mundo chorava. Teve choro também alguns anos antes, quando nós descobrimos que George tinha amantes, mas naquele dia tudo foi pior.
- O que aconteceu depois?
- Eu me tranquei com Louise no quarto dela. Ela estava doente de raiva porque minha mãe tinha dito pra gente não se preocupar porque ela iria resolver sozinha. Eu só lembro que nós nos escondemos até o dia amanhecer dentro daquele quarto, ninguém tinha conseguido dormir, nem mesmo fechar os olhos. Quando o sol nasceu, ela decretou que ia até a delegacia. A gente sabia que aquilo ia acabar com a carreira política do meu pai e que ele ia nos odiar pro resto da vida, mas saímos de carro e pegamos a estrada - eu percebi que ele estava revivendo a cena em sua memória quando seus olhos ficaram distantes, encarando a mesa fixamente. Estendi uma de minhas mãos até tocar a dele, estava gelada por segurar o refrigerante, mas eu esperava passar conforto de alguma forma. - Eu fui dirigindo porque Louise não tinha condições, estava tudo ameno até. Mas aí ela começou a chorar alto, ficava perguntando a Deus por que aquilo foi acontecer justo na nossa família, ela dizia que era injusto, chorava mais. Eu fiquei desesperado, - ele fechou os olhos e eu, os meus dedos em torno dos seus. - Eu não conseguia me concentrar com aqueles sons e aquela agitação do meu lado. Eu não vi quando o viaduto fez a curva.
- Ai, meu Deus - lamentei. Imaginar naquela situação, dirigindo sem condições e depois caindo com o carro de uma altura violenta não era afável.
- Nós dois estávamos sem cinto de segurança e isso foi o que nos deixou viver.
- Como assim? - ele abriu os olhos quando eu perguntei.
- A parte da frente do carro foi a que bateu no chão, se a gente estivesse de cinto não teria sido jogado pra trás como aconteceu. Nós íamos ser amassados de baixo pra cima, igual o carro. Claro que nós ficamos em estado deplorável, mas não foi fatal. Quer dizer... não foi fatal pra mim. Louise teve morte cerebral e está presa a uma cama e várias máquinas desde então.
- O que aconteceu depois do acidente?
- Eu fui preso - franzi o cenho para sua resposta. - Dentro de casa - outro sorriso ácido. - Meu pai decidiu que eu não deveria sair por aí sozinho. A mídia caiu em cima, todo mundo querendo saber o que havia acontecido, um dos empregados contou toda a história pra um programa de televisão, meu pai virou demônio, ficou desesperado pelo que aconteceu com Louise... Aí ele inventou que eu estava querendo fugir de casa e Louise foi atrás pra me impedir, e que nós sofremos aquele acidente porque dirigíamos rápido demais. E eu estava dirigindo rápido mesmo, mas não pelos motivos que ele dizia.
me olhou. Não havia sinal nenhum do garoto que ele costumava ser ali. O mesmo que invadiu o banheiro, que dançou comigo, que beijava Hannah, que brincava com ... aquele era outro homem, um mais cansado, fadado da vida, com marcas de lágrimas nos olhos. Eu me senti culpada por tê-lo feito contar tudo aquilo, desconfortável. Havia um bolo estranho na minha garganta, era como se eu quisesse chorar também, só para lhe fazer companhia.
- Você conhecia a versão dele, - ele disse. - Eu não ia deixar isso continuar porque é tudo mentira, e eu não queria que você tivesse uma ideia de mim pior do que a que já tem. Que você me deteste pela história da Hannah, tudo bem, isso é algo que eu vou te mostrar com o tempo que não altera o que eu tenho por você, mas a minha família é algo que compromete demais a minha reputação. E a forma como o mundo me conhece não é boa. Por isso eu fugi de casa de verdade. Todo mês era um lugar diferente, eu não queria que meu pai me achasse. O último foi Portugal, quando eu conheci a Escola de Artes e decidi parar um pouco. Conversei com minha mãe, avisei que estaria firme em um lugar, mas pedi pra que ela não falasse ao meu pai sobre o meu lugar exato, porque eu precisava de paz. Chamei ela pra vir morar comigo e ela não quis, até agora.
- E por que ela veio agora?
- George disse que Louise estava sofrendo. Ele inventou uma história monstruosa pra tentar convencer minha mãe a desligar os aparelhos que mantém minha irmã viva. Ele disse que é egoísmo nosso pedir que ela continue aqui.
me contou todo o resto da história. Pelo que eu pude entender, George queria convencê-los a desligar as máquinas para que Louise morresse. Falou ainda sobre doação de órgãos e como outras pessoas poderiam ser beneficiadas com aquilo. Mas, meu Deus, era tudo tão assustador! Tentei me colocar no lugar de , imaginar o que eu faria se fosse com uma pessoa da minha família. Mas era horrível, eu não conseguia!
- Você já tentou se colocar no lugar dele? - me arrependi pela pergunta no mesmo instante em que os olhos de me queimaram.
- Por que eu faria isso, ?
- Ahn... , ele é o pai dela! Eu sei que essa alternativa soa ridícula aos seus ouvidos, acredite, eu sei! Eu não acho que teria coragem de deixar alguém que eu amo morrer, mas ele não falaria isso da boca pra fora. Porque Louise é sangue dele, .
- É sangue dele, mas olha a ideia do cara, ! Você acha que uma pessoa sã pensaria em matar a própria filha?
- Eu não sei, - falei, com delicadeza. Naquele momento, tudo o que saísse da minha boca teria que ser minimamente pensado. - Eu não sou mãe, não sei o que pensaria.
- Eu sei o que eu faria: eu deixaria minha filha viver o tempo que ela tem pra viver. Ela não tem mais chances de acordar? Não interessa! Se fosse pra ela morrer, ela teria morrido no acidente. Não sou eu quem vai decidir a hora certa dela parar de respirar.

Capítulo 17: Seems like everywhere I go I see you

A parte mais estranha foi a do carro. Boa, mas estranha. Quer dizer, nós estávamos dentro do Jeep, na frente da escola, mas em vez de descer e se despedir de mim, continuava me olhando desconfiada, como se quisesse confirmar que eu não estava mentindo quando disse que estava bem.
- Vai dar tudo certo - ela insistiu. Era engraçado quando ela tentava me deixar tranquilo com alguma coisa. - Seu pai não pode fazer nada. Eutanásia nem mesmo é permitida em Chicago.
Eu passei alguns minutos explicando como funcionava a constituição de Illinois pra , falei também que, se meu pai quisesse, faria qualquer coisa no mundo para desobedecer às leis, mas estava muito empolgada em me manter tranquilo. Ela não ligava pra nada que eu disesse se fosse de teor pessimista.
- Você vai pra casa agora, né?
- Vou. Por quê?
- Ah, nada demais - a garota deu de ombros e demorou a falar, me deixando curioso. - Só pra saber se não tem perigo de você pegar um avião e se mandar pra Chicago sem avisar a ninguém.
- Isso não é uma possibilidade.
- Acho bom - ela cerrou os olhos na minha direção. - Afinal de contas, sua namoradinha pode sentir saudades.
Ela precisava ser desagradável. não conseguia passar mais de uma hora comigo sem ter que deixar claro que ela não estava mais maleável pro meu lado. Parecia querer que eu tivesse sempre a noção de que ela não era nada minha, nem amiga. Naqueles momentos, eu tinha raiva de .
- Até amanhã, ! - ela se despediu, já saindo do carro.
- Até amanhã, - retribuí seu sorriso, mas o meu era sarcástico. E ela notou. Sei disso porque um ar de vitória estampou seu rosto e eu senti mais raiva que antes. conseguia me deixar levar da tranquilidade à tormenta em questão de segundos. Droga de garota!
Eu gostava de vê-la andando, mas não esperei dessa vez. Ignorei seus passos enquanto entrava no alojamento feminino e ocupei aqueles segundos dando a volta no carro para seguir o caminho de casa.

- Você sumiu!
A loira apareceu na porta da minha sala da primeira aula na hora do pausa. Eu pretendia ir ao refeitório tomar um pouco de café para me manter acordado, já que estava difícil me manter assim naquela aula, mas meus planos foram interrompidos. Hannah queria companhia.
- Não, você sumiu. Só quer saber de fotografias e reuniões agora - eu não me importava mesmo! Mas sempre seria simpático com Hannah porque ela era boa comigo, muito boa. Muito boa!
- E você só quer saber da sua mãe! - ela competiu, mas sorria.
- Mãe é mãe, loira. Você sabe disso.
- Sei - ela deu de ombros. - E falando em mãe, a minha dá aula numa creche todos os sábados. Você bem que podia me fazer outra visita - ela falou, assim, como não quem quer nada e eu pensei a respeito.
- Seria uma boa ideia, não é? - com certeza seria uma boa ideia, mas aquela era a minha forma de não negar nem afirmar. Da última vez, as consequências não foram boas pra minha reputação. - Mas e se ela aparecer de novo, como naquela vez?
- Não aparece, não. Aquilo só aconteceu porque ela largou mais cedo. E nem deu em nada também. Ela só ficou perguntando por que eu estava sozinha com você em casa e eu disse que a gente tinha acabado de chegar do cinema.
- Hummm, entendi - eu ainda não tinha confirmado. Estava relutando. A ideia de estar na cama com Hannah de novo era estonteante e eu nunca negaria se fosse em outra ocasião, mas minha consciência estava praticamente gritando, avisando que não era uma boa ideia. Mas Hannah não estava disposta a receber um não.
- Chega lá mais cedo, assim a gente vai ter mais tempo. Se importa de madrugar no sábado? - ela sorriu, malandra. - Te espero lá pelas oito horas, pode ser? Prometo que faço um café da manhã reforçado.
Alguns definiriam como "cara de paisagem", eu preferi dizer que mantive minha expressão amena e balancei a cabeça verticalmente. Eu não podia recusar aquele convite, seria bem feio pro meu lado, na verdade. Era Hannah! Hanna era tão linda e tão criativa! Passamos uma tarde e tanto juntos. Não dava pra recusar. Se ela tivesse insistido menos, seria mais fácil, mas não daquele jeito. Pedindo daquele jeito, ela conseguia me levar pra Marte.

Passei a última aula bem tranquilo, mas foi na hora do almoço que entendi que eu era um fraco. Homem fraco, pessoa fraca. Estabeleci metas para conquistar , decidi que conviver com Hannah não era a melhor opção, mas aceitei seu convite sem nem fazer muito esforço para negar. E então eu estava ali, na mesa de sempre, com as pessoas de sempre, almoçando sentado de frente para e Hannah como em todos os outros dias. A única diferença naquele dia era o fato de eu saber que era um fraco.
No dia anterior, fora adorável com meu discurso revelador. Ela não fugiu em nenhum momento, e eu confesso que achei que ela faria isso. Não uma fuga literal, mas um afastamento. Ao contrário disso, ela conversou comigo tão naturalmente na hora do almoço que até achou estranho e me lançou vários olhares suspeitosos.
estar cordial só aumentava a minha percepção de fraqueza. "Fraco! Fraco! Fraco!" era o que minha cabeça gritava a cada vez que eu a olhava. Seu sorriso estava bem aberto, era como se ela estivesse se esforçando para manter todos daquela mesa felizes. Na verdade, em especial.
Notei que a garota não dava um sorriso, parecia sentir dor ou ardência nos olhos, já que ela os mantinha quase totalmente cerrados. Não respondia bem a nenhuma investida de e mastigava devagar, como se aquilo lhe custasse a vida.
- O que você tem, ? - perguntei. Não sabia se era seguro fazer aquela pergunta, mas fiz assim mesmo porque estava curioso.
- Nada - quando alguém respondia que não tinha nada era porque tinha alguma coisa.
- Ela só está chateada por causa do trabalho - me deu a resposta. - E eu já disse que você não precisa ficar assim, . Sofrer por antecedência é um saco, só vai te deixar pior por mais tempo. Você ainda nem sabe o que vai acontecer.
- Problemas no Beam?
- Problemas na administração do Beam - disse. - Mas nada que vá afetar a , eu já disse isso pra ela.
- Como não vai me afetar, ? Eu vou ficar desempregada! Até onde eu sei, isso afeta totalmente a minha vida.
- Não seja tão dramática! - continuou fazendo pouco caso. Honestamente, se fosse eu no lugar dela, falaria a pra ficar tranquila, que nada iria acontecer e que ela superaria caso acontecesse, mas a amiga não estava fazendo muita questão de ser positivista.
- Você vai me sustentar se eu ficar sem emprego? - ela largou os talheres na mesa e cruzou os braços, olhando para .
- Dramática! - foi o que a outra respondeu. Só sendo muito amiga pra ser descarada daquele jeito. estava quase pulando no pescoço dela. - Não foi você que sacaneou o Beam, você não está sendo espiã de paparazzi nenhum e você não deve se preocupar com o seu emprego, exceto pelo fato de que seu patrão é uma bicha louca que não sabe administrar direito o próprio site. E se você for demitida? Qual é, ? Nós conversamos sobre isso domingo, você tem mais contatos que essa escola inteira, poderia abrir um site sozinha e ganhar todos os assinantes do Beam de brinde. Eu não sei por que você se preocupa tanto!
- É impossível conversar com você - ela grunhiu, bem irritada. - Não escuta nada do que eu digo! Nada! - ela ainda falava alto, mas não parecia se importar. Era como se elas estivessem conversando sobre a nova moda de sapatos da estação. A expressão de Mau não se alterava, ela continuava comendo. - Eu não sei fazer mais nada da vida! Se eu sair do Beam e criar outro blog, o babaca-mor drena meu sangue e dá pros morcegos.
- E pra que você faz curso superior em dança?
- Porque eu quero! Vai me controlar agora?
- A vida é sua!
- Que bom que você sabe!
- Gostosa essa carne, né? - era muito irônica! Ela falou aquilo olhando para , como se nada tivesse acontecido. Que alguém me socorresse! Eu precisaria de muita paciência pra aprender a conviver com aquelas duas. E com Hannah. E com meu conflito x Hannah.

- E se fosse o nome dela?
- Que coisa mais babaca! Não... Eu seria o babaca de começar uma música com o nome dela. E se ela não quiser nada comigo?
- Se você está tão exigente, por que não inventa logo o cacete da palavra?
não respondeu à provocação de porque aquela não era a primeira, acho que ele já estava cansado de argumentar. O cenário se repetia e a cena não era diferente. Nós três passávamos muito tempo naquele quarto tentando achar a única palavra que faltava na música. Era a primeira, seria bem fácil se não fosse tão cabeça dura.
Permanecemos inertes no espaço, e quando eu digo inertes, falo no sentido literal. Havia fumaça pelo quarto todo e até mesmo , que não fumava, já devia estar afetado pelo efeito do cigarro que eu dividia com . Precisávamos de uma palavra. Mais algumas letras e estaríamos livres daquela enrolação, então poderia cantar logo a maldita música, dar uns pegas na e deixar e eu em paz pro resto da vida.
Só precisávamos de uma palavra.
Mas a porta do quarto se abriu e nós nos sobressaltamos. era o mais comprometido, com o cigarro na mão e os olhos fechados para sentir o momento. Ele levantou depressa e jogou o cigarro pela janela, quando viu que era na porta, correu até onde o caderninho preto estava jogado e o escondeu embaixo do travesseiro de sua cama, que antes era minha.
não deu muita brecha pra ele, olhou para e falou, toda grosseira.
- Cadê a porra do meu gato?
- Você não tem um gato, tem uma gata - eu falei. Sua atitude estava me irritando então eu decidi dar uma resposta malcriada, só para vê-la bufar. Funcionou.
- Tecnicamente, você não pode estar procurando pela porra da Chloe porque, até onde nós sabemos, ela é do sexo feminino e apenas seres do sexo masculino ejaculam durante o ato sexual - tentou parecer esperto, mas a única reação àquela frase foi a minha vontade incontrolável de rir. riu também, mas menos, porque ele estava tenso.
- , você nunca ouviu falar em ejaculação feminina? - eu perguntei, me controlando para não ser grosseiro.
Ele arregalou os olhos na minha direção, mas desfez o ato logo em seguida. Devia estar querendo fingir e bancar o esperto, mas era tarde demais, eu já tinha percebido sua inexperiência. Aquele cara ainda tinha muita coisa pra aprender. Ajeitei minha posição na cadeira e preparei meu mini-discurso explicativo. Mas estava impaciente e, ainda da porta, interrompeu o que eu ainda nem havia começado.
- Independente de ter um pinto ou peitinhos, eu quero aquele bicho que mia no meu braço. Agora! - ela ameaçou. Soaria convincente se ela não fosse magrela e obviamente indefesa. - Tem uma louca quase chorando no meu quarto, mais conhecida como , e ela não vai me deixar em paz enquanto a Chloe não aparecer. E eu sei muito bem, , que você tem planos nojentos de zoofilia com o meu gato, então eu espero do fundo do meu coração que esse sumiço não tenha sido obra sua!
- Eca, - ele reclamou, fazendo uma careta. - Você podia ser menos nojenta.
- Nojento é voce! Minha gata! Agora! - ela gritou.
- Não está comigo! - respondeu, no mesmo tom.
- , se acalma - eu pedi. - Entra e senta aqui - apontei pra cama.
- Não vou entrar nesse quarto fedido. Vocês podiam ser expulsos se o coordenador passasse por aqui.
Bufei sem paciência e tive a boa vontade de levantar da cadeira, confortável como estava, para ir até ela e trazê-la para a cama, até tê-la sentada. Revirando os olhos como uma doida, mas sentada.
- Qual foi a última vez que vocês a viram? - perguntei.
- De manhã, antes de ir pra aula, ela estava no quarto e de repente não estava mais. Agora eu tenho que ir trabalhar e a não para de andar pelos corredores do alojamento, quase chorando, dizendo que se a Chloe não aparecer ela vai na polícia. Na polícia! Por causa de um gato!
- Uma gata - escolheu o momento errado para falar. Seria melhor que tivesse ficado calado. E ele provavelmente percebeu isso ao receber o olhar de ódio que lançou em sua direção.
- Tem certeza de que você vai trabalhar nesse estado? - perguntei.
- Tenho - ela respondeu, ainda antipática.
- Então vai - incentivei, já levantando da cama pra que ela fizesse o mesmo. - Eu ajudo a achar a Chloe. está no alojamento, não está? - ela só confirmou com a cabeça. - Então pronto. Vai trabalhar e quanto você voltar a Chloe vai estar no quarto. Relaxa. Eu prometo!

Ela não estava no quarto nem mesmo naquele andar. Fui nos outros procurando por , porém encontrá-la era uma atividade complicada. Passei pelas catracas do térreo e resolvi ir procurar no prédio das aulas, mas não precisei ir tão longe. Ela estava na frente do prédio administrativo e, do jeito que seu rosto virava de um lado pro outro, era notório que ainda estava procurando. Chloe não havia aparecido.
- ! - gritei.
Ela virou o rosto na direcão da minha voz e esperou que eu me aproximasse para responder meu cumprimento, mas não me deu muita atenção.
- me disse que a Chloe sumiu.
- É, sumiu - havia certa dose de desespero em sua voz. - Ela nunca saiu do prédio antes, eu estou preocupada.
- Vou te ajudar a procurar - tentei lhe passar algum conforto. Não sei se estava funcionando, mas eu ia tentar enquanto pudesse. - Por onde você já procurou?
- Pelo alojamento inteiro - ela parou de olhar pros lados, ficou de frente pra mim e respirou fundo, provavelmente tentando se acalmar. - Já procurei no alojamento masculino também, mesmo que não tivesse como ela passar pra lá.
- Olhou em todos os quartos?
- Não. Se alguém achasse a Chloe, devolveria pra mim. Eu sou a única pessoa que cria uma gata nessa escola.
- Certo - falei. - Então vamos pensar! Você já foi ao prédio das aulas?
- Não - ela soltou um estalo com a boca, típico de quem está chateado.
- Então tá, vamos lá procurar.
Meio aborrecida e de bracos cruzados, ela me seguiu de perto. Fitei seu rosto naquele momento e, embora a situacão não fosse agradável, eu tive vontade de rir. Ela ficava linda chateada. Não que eu quisesse vê-la chateada, longe de mim, eu estava apenas constatando um fato.
- Olha lá! - ela falou, agora animada.
Olhei na direção que seu braço apontava. Chloe estava parada na calçada do outro lado da rua. Vez ou outra ela tentava atravessar, mas um carro vinha no caminho e ela desistia. abriu um sorriso gigantesco e esperou que o último carro passasse para poder atravessar e pegar a massa branca nos bracos.
- Gatinha, você me assustou! - ela miava mais que a própria Chloe. Seu tom de voz era nervoso e melancólico, deixando bem claro o quanto ela estava preocupada. - Finalmente eu te encontrei - ela continuou conversando.
Resumi minhas ações a sorrisos bobos. Era incrível a quantidade de carinho que direcionava àquela gata. Na verdade, por si já era extremamente carinhosa. Eu via aquilo com Chloe, com , com a minha mãe no dia em que a conheceu. Ela sabia elaborar umas respostas marcantes e ser cruel quando incomodada, mas tinha bondade dentro daqueles olhos. O tipo de fogo que não pertencia a sensualidade, mas a benevolência. Eu quis experimentar aquele fogo, mas tinha noção de que demoraria muito a alcançá-lo. Isso se conseguisse.
Atravessamos a rua de volta, ela com a gata nos braços e eu do seu lado. Vi quando ela tirou a carteirinha de acesso ao alojamento do bolso e colocou Chloe no chão, para que ela andasse sozinha. Mas a gata não andou e nós esperamos para ver o que estava acontecendo. Ela mancou. soltou um som tristinho do fundo da garganta e se abaixou até estar sentada no chão, com a gata no colo.
- O que aconteceu com você, meu amor? - analisava a pata de Chloe com cuidado. Eu me abaixei até sentar ao seu lado. Ela não se importou se estava no meio da calçada e se sua roupa ficaria suja, então não me importei também. - Como você se machucou? , olha só a patinha dela!
Eu não entendia nada de gatos, não sabia o que, especificamente, ela estava me mostrando, mas tentei ser útil.
- Tem alguma clínica veterinaria aqui perto? Eu te levo lá.
- Deixa eu ver - ela pareceu pensar. - Tem uma em Torrance, no comecinho - falou, sem tirar os olhos de Chloe.
- Vem, eu te levo - estendi a mão em sua direção e quando ela segurou, eu levantei da calçada, lhe puxando junto.
- Espera, eu preciso subir e pegar minha carteira. Cuida da Chloe? Eu juro que não demoro.
- Não, , você vai demorar, sim. Vem logo! A gata deve estar com dor.
- Ai, meu Deus, eu sei que ela está com dor, mas eu preciso ir pegar dinheiro.
A preocupação com algo trivial naquele momento inoportuno me deixou impaciente. Apenas me certifiquei de que não machucaria nenhuma das duas antes de enrolar meu braço em torno da barriga de , deixando suas costas coladas na minha costela, e puxá-la na direção do estacionamento.
- ...! - ela tentou se soltar, não por não querer ir, mas por não se agradar de como eu a carregava. - Eu não posso ir assim pra Torrance! - reparei em seu costumeiro short jeans e camiseta desbotada. - Preciso ir me vestir e pegar dinheiro. O veterinário é...
- Entra, - a soltei na porta do passageiro. - Enquanto você dá ataque, Chloe sente dor - isso pareceu convencê-la porque nesse momento olhou para Chloe e respirou fundo, abrindo a porta do carro e entrando sem reclamar.

A viagem até Torrance foi rápida e tranquila. Em menos de trinta minutos, Chloe já estava sendo atendida pelo veterinário que falou. Havia outras clínicas pelo caminho, mais perto, mas ela disse que só confiava naquela porque era ali que levava Chloe desde que a adotou. Não ficamos em silêncios constrangedores ou buscando saída para situações. Já havíamos ficado sozinhos algumas vezes e nós não éramos pessoas tímidas, não era difícil arrumar assunto para conversar.
Eu fui até a recepção resolver os detalhes da consulta, como pagamentos, medicamento e data da próxima consulta enquanto acompanhava o curativo que o veterinário fazia na gata. Depois disso, eu esperei um pouco no sofá da recepção e quase sofri um ataque quando a vi andando na minha direção. Segurava Chloe no braço, conversava com ela e usava uma patinha para acenar na minha direção. Eu ri. Era como se fosse uma criança, a filha dela, tamanho era o cuidado. E ela estava sorrindo pra mim.
Uma vontade instantânea de levantar e abraçar as duas invadiu meu corpo, porém eu sabia que ainda não tinha espaço suficiente para aquele atrevimento. Mesmo assim, levantei do sofá e esperei em pé enquanto ela dava os últimos passos até chegar em mim.
- E aí?
- O doutor disse que foi só um machucadinho. Daqui uns dias eu volto pra gente tirar a faixa e ela vai voltar a correr por aí. Não é, gatinha? - a última frase foi dita com voz de criança.
- Ah, bom, muito bom. Vamos então? - olhou na direção da recepção e eu entendi o que aquele olhar significava. - Ah, não se preocupa, eu já acertei tudo.
- Obrigada - foi o sorriso mais bonito que ela já deu pra mim desde sempre. Era gratidão pura. Eu não sabia como responder então enfiei as mãos nos bolsos e disse que não havia de quê.
Mas antes que eu passasse mais tempo agindo como um virgem espinhento, peguei Chloe do colo de e comecei a andar para a saída, usava a mesma voz infantil para falar com a gata. vinha sorrindo atrás de mim, às vezes respondendo no mesmo tom de voz, outras vezes apenas me chamando de idiota.

Capítulo 18: But as long as you are with me, there's no place I rather be

- Está com fome?
Eu estava. Meu estômago também parecia ter entrado naquele jogo humilhante de se expor com roncos e borbulhos o quanto estava vazio. Entretanto, já tinha feito coisas demais por aquele dia, e aceitar que estava com fome para que ele me levasse para comer seria abusar demais de sua disponibilidade. Além do mais, uma das coisas que eu mais odiava na vida era depender do dinheiro de outras pessoas para alguma coisa.
- Hum hum. - neguei e passei vergonha logo em seguida porque meu estômago roncou mais alto.
- Eu estou - ele disse, com certeza sem acreditar em mim - Sonhando com um X-burg e um caminhão pipa de Coca-Cola.
- Que paixão por Coca-Cola! - observei.
- Reparou, foi?
- Algum dia eu vou ouvir alguém falando sobre como o seu estômago se corroeu por causa da pretinha.
- Prefiro correr esse risco em vez de enfrentar aqueles sucos esquisitos que a Niña faz. - ele falou e seu tom de voz me deixou curiosa. Para remediar, olhei em sua direção e vi que ele fazia uma careta engraçada.
- É horrível no começo mesmo! - respondi empolgada - E eu não bebia quando conheci o bar, mas aí um pessoal falou pra mim que era como conhecer sushi. Você tem que ir aos poucos, pelos sabores mais suaves. Aí você vai agravando com o tempo até virar um maníaco dependente.
- Você é uma maníaca dependente? - ele arregalou os olhos na minha direção.
- Eu sou quase isso - confessei. Sentada no meu colo, Chloe se espreguiçava lentamente e piscava os olhos, com sono - Ainda preciso enfrentar algumas misturas macabras.
continuou dirigindo sem pressa. Eu deixei que meus olhos se fechassem assim que vi Chloe fazendo o mesmo. A sonolência dela estava passando para mim e só o que não me deixava dormir era a sensação crescente de fome dentro do estômago. Estendi minha mão para frente até tocar no aparelho de rádio e ligá-lo, para sintonizar em alguma estação que me agradasse. Começou a tocar uma música agitadinha e eu deixei rolar, mesmo que não conhecesse. Eu só precisava me manter consciente.
Senti que depois de alguns minutos, encostou o carro em algum lugar. Então abri meus olhos e dei de cara com o estacionamento pequenino do bar da Niña. Era de dia e ele estava praticamente vazio, ao contrário de como costumava ficar nas noites de domingo.
- Estamos fazendo o quê aqui? - eu perguntei. Minha voz estava muito preguiçosa, muito, e riu de mim por causa disso. Tentei não dar muita bola ao fato de que, visto naquele ângulo, com minha cabeça encostada no banco, seu sorriso parecia muito encantador.
- Quero que você me prove que a Niña não é só uma doida varrida que coloca lavagem batida no liquidificador pra gente beber - ele falou, já saindo do carro.
Meu sono sumiu nesse minuto e eu saí do carro com pressa, batendo a porta com força sem querer. Equilibrei Chloe em um braço enquanto o outro ajeitava minha roupa na região dos ombros. Ele esperou enquanto eu me organizava, então nós entramos.
Era até estranho ver aquele lugar de dia. Não tinha quase ninguém, e os que estavam ali, pareciam tão sóbrios e sérios. Nas noites de domingo, qualquer podia ser confundido com um barril de cerveja desde que estivesse parado no canto. O ambiente era bem diferente.
- Hey, Bob. Cadê a Niña? - perguntei ao garçom que estava no balcão.
- Lá dentro. Quer que eu chame?
- Por favor! - pedi.
Não me importei em pegar uma mesa, o balcão seria suficiente. O único trabalho seria manter Chloe quieta no meu braço, mas como ela estava sonolenta por causa do remédio pra dor, não criou grande dificuldade.
- Me chamaram? - Niña chegou, nos cumprimentando - Mas que grande surpresa é essa? Por aqui no meio da semana, ? E de dia!
- Acho que estou andando com más companhias, Niña - eu falei em tom de confissão, embora tivesse sido engraçado. Niña e sorriram de mim, só que fez isso me empurrando, quase me derrubando do banco.
- O que vão querer de especial hoje? - ela cerrou os olhos, me desafiando. Niña sabia que eu estava indo cada vez mais fundo nos sabores exóticos, e ela se divertia com as minhas caretas ou expressões de prazer.
- Pro bebê inexperiente aqui - apontei pra - faz um suco de mangaba. Pra minha gatinha dodói, um pouco de leite, por favor.
- Com canela?
- Não, não - respondi rapidamente - Ela tem alergia. Leite puro. E pra mim... hum... não sei, Niña, não estou inspirada. Você pode me surpreender! - arrisquei. Se eu vomitasse o suco na frente de , ele teria motivos pra rir da minha cara pro resto da vida, mas ele estava arriscando na minha frente também, então eu resolvi que valia a pena.
- Posso saber o que é mangaba? - ele perguntou pra mim, alguns minutos depois, articulando bem. Foi desnecessário se aproximar tanto do meu banco, deixando seu ombro tocar no meu enquanto sua mão acariciava o pêlo de Chloe, mas ele fez assim mesmo.
- Uma fruta! - respondi, lhe empurrando com a lateral do corpo de volta pro seu lugar - E fica feio no seu sotaque.
- Eu não tenho sotaque! - ele se defendeu, bravamente. Acho que não estava mesmo acostumado a ser julgado ou diminuído de alguma forma - E você falou igual a mim.
- De jeito nenhum! Você tem que falar mangaaaba, com o A aberto. Não faz som de ô. - me apressei em explicar, ao ver sua boca movendo para repetir a palavra. E ele repetiu. Saiu do mesmo jeito, eu ri, ele me empurrou de novo. Eu ia devolver o empurrão, mas eu não ia ser delicada e já previa sua perna enfaixada igual à de Chloe, mas Niña chegou com nossas bebidas e eu me controlei para não parecer assassina na frente dos outros.
Coloquei a pequena tigela com leite no chão e Chloe se aconchegou ali perto pra beber sem ser atrapalhada. Sentei no balcão ao lado de ; Niña olhava pra nós dois com uma cara de expectativa.
- Eu sei que você vai gostar - falei pra . Ele parecia receoso. Hilário.
Corajoso, ele sorriu aberto pra mim e arregalou os olhos, imitando uma expressão gulosa, antes de levar a borda do copo aos lábios e dar o primeiro gole, de olhos fechados. Torci em expectativa enquanto via seu pomo-de-adão subir e descer, preparando-se para outro gole, ou para jogar tudo pra fora. Mas seria um tremendo bicha de vomitasse a mangaba; é uma fruta muito saborosa.
- É maravilhoso! - ele nem se deu ao trabalho de abrir os olhos. Só se afastou do copo para falar, mas tratou de voltar a beber logo em seguida, me fazendo soltar uns gritinhos de comemoração e Niña fazer um high five comigo.
- Minha vez! - gritei, me posicionando também. começou a imitar uma Cheeleader e eu lhe mostrei meu dedo do meio pra que ele ficasse quieto.
Niña não quis me dizer qual era o sabor, eu teria que confiar. Mas a mistura desceu rasgando pela minha garganta e eu tive vontade de gritar de ódio por ela ter feito aquilo comigo. Era horrível!
- O que é isso, Niña? - choraminguei, vendo-a caçoando de mim, junto de .
- É açaí, . Pensei que você ia gostar.
- Hey, eu gosto de açaí - mesmo sem permissão, tornou a se aproximar de mim e dessa vez ele foi mais longe. Inclinou sua cabeça na direção do meu copo e bebeu do meu suco com o meu canudo - Hummmm - parecia um gemido - Maravilhoso! Quer um pouco de mangaba pra tirar o gosto de açaí da boca? - ele ofereceu e eu vi que ainda restava um pouco de suco no copo dele.
Dei de ombros e fiz a troca. Não me importei mais com os canudos, afinal, ele já tinha colocado a boca no meu de qualquer maneira. Trocar soaria apenas como brincadeira de criança.
- Você vai me transformar num maníaco dependente! - ele acusou, em uma das pausas que deu bebendo o açaí.

- Eu nunca vi alguém que tivesse tanto espaço na barriga como você. E isso porque é magra!
- Eu não sou uma garotinha fresca, . O que você queria? Me ver comendo saladinha?
Já era começo de noite quando eu bati a porta do carro e deixei meu corpo relaxar um pouco. Se alguém me perguntasse qual era a coisa mais gostosa do mundo, com certeza eu falaria que era fazer xixi. Antes mesmo de beber água, tomar banho, dançar ou fazer sexo. A sensação de alívio fazia aquilo ganhar em disparada.
Enquanto me esperavam sair do banheiro, Chloe estava encolhida contra um dos braços de , em sua posição preferida para dormir. Eu a peguei de volta pra que ele pudesse dar partida no carro e me levar até a escola.
- Como está a sua mãe? - acho que o peguei de surpresa com aquela pergunta; percebi isso pelo espanto em seus olhos.
- Bem. Ela deixou o telefone com um pessoal lá daquela igreja e eles ligaram, perguntando se ela iria aparecer de novo, e se tinha interesse participar de algum projeto... essas coisas.
- E ela vai?
- Está toda empolgada. Ela tem muito tempo livre, sabe? Acho bom que as coisas comecem a aparecer mesmo; assim ela não de preocupa tanto com a história toda.
- A história toda...
- Isso. - falou e se calou.
Ele não precisou falar mais para que eu percebesse que não era hora de entrar no assunto. Mesmo assim, sua maneira de falar soou diferente. Não parecia mais que ele tinha algo estranho a esconder, o que era, de fato, verdade, já que eu estava por dentro das suas preocupações; o que parecia, na verdade, era que ele só não queria falar a respeito. E eu respeitei porque aquele era o espaço dele, não o meu.
- Você podia levá-la na creche que eu dou aula aos sábados. Talvez ela goste e queira arrumar trabalho. Claro que a creche não pode pagar uma boa grana pra ela, né? Mas... não acho que ela se importe com isso.
- Definitivamente não.- ele parecia concentrado no trânsito, mas também em mim - Sábado, né? Vou dar um toque nela, mas tenho quase certeza de que ela vai querer ir, sim.
- Tomara que ela goste.
- É...
- Aí você vai à tarde, tá? É o horário mais tranquilo porque é a aula das meninas mais velhas; aí eu posso dar uma saidinha pra acompanhar vocês até a coordenação.
- Não vai te prejudicar?
- Claro que não.
Passamos o resto do caminho - que não era tão grande - conversando sobre bobagens da escola. Não nos importamos em colocar música pra tocar, não precisava porque praticamente não ficávamos calados. era expert em falar merda e eu, especialista em responder à altura. E em alguns momentos ele cantarolava também; quando o sinal ficava vermelho e ele tamborilava os dedos no volante e cantava no ritmo. Eu geralmente conhecia os trechos que saiam de sua boca, mas ficava calada porque estava meio frustrada com o fato de não cantar maravilhosamente bem. Como Hannah, por exemplo.
Depois de ter sido claramente comparada a ela uma vez pro , eu evitava cantar na frente das pessoas. Já bastava a garota sendo melhor amiga da minha melhor amiga; não queria ficar pra trás em outra questão.
Sendo assim: nada de cantar na frente de . Eu podia muito bem deixá-lo fazer aquilo sozinho, já que ele, sim, tinha uma voz bonita. Bonita mesmo.
- Impressão minha ou ela dormiu? - ele me perguntou. Havia acabado de parar o carro na frente do prédio das aulas da escola e esperava eu calçar minhas sandálias para poder sair.
- Dorme dezoito horas por dia e vive comendo. Nunca vi gata mais acomodada que essa. - sorri enquanto fazia um carinho na cabeça dela - Você não vai entrar? – perguntei, porque ele estava parado, sem parecer que ia descer do carro.
- Ah, não. Eu vou pra casa. Tenho umas coisas pra estudar.
- Quem diria? estuda! - cerrei os olhos ao brincar com ele e vi malícia crescendo em seus olhos. Um arrepio tomou conta da minha espinha pela expectativa do que ele falaria.
- Estou pensando em mudar pra medicina. Quer me dar um incentivo? A gente podia fazer de conta que a sua cama é a maca e eu vou te examinar.
Eu sabia que só ia sair besteira daquela boca. Mas acabei gargalhando muito alto, foi involuntário. Chloe acordou com o meu barulho e eu aproveitei a deixa pra abrir a porta do carro e colocar uma perna pra fora.
- Sabia que você estava bonzinho demais, . É só dar um espacinho que você mostra as garras.
- Eu sei aproveitar as oportunidades. - ele sorriu enquanto eu saía do carro e fechava a porta pelo lado de fora.
Deixei meu dedo médio subir em sua direção e acenei com ele, como se estivesse dando tchau. Reparei mais um pouco em seu sorriso escancarado e alto antes de virar as costas e marchar pra dentro do alojamento sem olhar pra trás.

A tela do notebook estava virada pra minha cama, onde Hannah e , sentadas, assistiam um documentário sobre qualquer assunto que eu não me dei ao trabalho de reparar. Acendi a luz e deixei que Chloe andasse pelo chão.
- O que aconteceu? - perguntou alto, levantado da cama, ao notar que a gata estava mancando.
- Não sei por que não vi. Quando eu a achei na rua, a pata dela já estava assim.
- Está enfaixada. Você foi ao veterinário?
- Fui.
- Eu nem sabia que você tinha saído porque sua bolsa está aqui desde que eu cheguei do trabalho.
Eu realmente não possuía motivo algum para não falar a respeito, mas algo em minha cabeça deixava claro que não era boa ideia falar na frente de Hannah que tinha me levado para uma clínica veterinária em outra cidade. Até porque aquilo acarretaria falar sobre o resto da tarde e início da noite que passamos juntos. E sobre isso eu não queria falar nem com . Pelo menos por enquanto.
- Dei meu jeito - ela me olhou estranho quando eu respondi. Eu sabia que ela ia perguntar depois.
- Volta pra cá, - Hannah chamou - Já está quase no final.
pegou Chloe no colo e voltou pra minha cama, pediu pra eu apagar a luz e eu só o fiz quando saí com minha toalha e muda de roupas. Eu ia tomar um banho porque estava precisando mesmo. A tarde inteira perambulando pelas ruas da cidade me deixou suada e pegajosa. Sem falar que preferia andar de janelas abertas em vez de ligar o ar-condicionado; assim meu cabelo ficava armado e cheio de poeira da rua. Eu precisava me limpar.
Quando eu voltei ao quarto, elas não estavam mais assistindo nada, apenas conversavam. Não era um assunto que me interessava. Na verdade, se eu fosse sincera comigo mesma, assumiria que aquele assunto despertava meu interesse, mesmo que levemente, já que era de que elas falavam, mas eu apenas negava.
- Mas ele está esquisito - a loira disse - Depois que a mãe dele se mudou pra cá, mal aparece e está todo misterioso.
- Você nem gosta dele, Hannah - acusou.
- Depende do que você define como gostar - ela sentou melhor na cama para continuar o assunto.
Estendi minha toalha no pendurador e coloquei a roupa suja no cesto. Sentei na frente da penteadeira para começar meu processo de cremes hidratantes. A conversa das duas entrava em meus ouvidos mesmo que eu não quisesse.
A vida de não me interessava; seu relacionamento mal resolvido com Hannah não era problema meu. Mas minha atenção insistia em se voltar às vozes das duas, mesmo que eu me esforçasse para me distrair.
- O que você define como gostar então? - perguntou.
- Um monte de coisas. - ela disse - Eu não o amo, nem nada do tipo como você, romanticazinha, adora descrever. Mas... ele faz sexo gostoso. E muito gostoso, se você quer saber. Eu preciso repetir porque uma vez só com nunca será suficiente.
Ótimo! Agora a conversa estava ficando cada vez mais profunda. Eu não merecia passar por uma cena daquelas. Honestamente, passar algum tempo no templo de orgia deles já foi sacrificante o suficiente; escutar os detalhes e a empolgação de Hannah era sórdido demais. Meu cérebro começou a trabalhar rápido, procurando a melhor maneira de fugir daquele assunto.
- Ele é tão bom assim? - perguntou e, puta que pariu! Ela não precisava entrar mais ainda naquele assunto. Aquela curiosidade já estava me irritando horrores.
- Só não te mando ir experimentar porque sei que você está toda apaixonadinha aí pelo outro.
Vi revirar os olhos; eu não entendi se foi pela proposta indecente ou pela insinuação de que ela estava apaixonada por . Em todo caso, aquele caminho não pareceu lhe agradar, e depois disso ela trocou de assunto, me poupando de ter que inventar qualquer coisa para fugir daquela situação.

Antes de dormir, soltou uma frase no escuro. Na verdade, foi um momento recheado de frases e respostas , mas tudo foi tão rápido que minha cabeça processou como uma informação só.
- Eu nunca te vi tão agoniada e irritada com um único assunto; por causa de um homem.
- Do que você está falando agora, posso saber?
- O fato de Hannah falar dele te irrita - ela jogou comigo - Eu vi como você estava; eu percebi a tensão no ar. Se isso não é ciúmes, , eu não sei o que é.
- Você encrenca com muita besteira, .
- Vai me dizer que não te afeta de maneira alguma? - eu respondi balançando a cabeça, só depois me lembrei de que o quarto estava escuro e ela não podia ver, além de não sentir meu movimento porque nossas camas ficavam distantes uma da outra. Minha resposta negativa demorou a sair da boca por causa disso, e entendeu que eu tinha hesitado, mas eu não tinha - Não era com ele que você estava de tarde?
- Era. - eu assumi. De que adiantaria negar isso se era verdade? - Mas não significa nada. Ele só me ajudou a procurar a Chloe e quando nós achamos ele me levou em Torrance.
- Você chegou de noite, . Nem que a fila fosse quilométrica você demoraria tanto a chegar aqui. Torrance é ali do lado. Pra onde você foi? Desde quando você me esconde as coisas?
- Desde que você ficou best fucking friend da Hannah - eu não aguentei manter a calma. Não era óbvio? Eu deixei de contar todas as minhas coisas pra ela quando Hannah passou a ocupar um espaço que não ocupava antes.
- Aha! Eu sabia que tinha ciúmes no meio da porra toda! Você ouviu o que ela disse, , ela não gosta dele! E ele gosta de você! - a essa altura do campeonato, a lâmpada já estava acesa e perto do interruptor, após ligar tudo e conseguir ver minha expressão demente e raivosa.
- Não tem nada a ver com , . Que merda! Você está gritando comigo por um assunto que nem sequer existe.
- HAHAHA faz graça pra mim - a magrela sentou na minha cama, por cima das minhas pernas; só saiu quando eu gritei dizendo que estava machucando - Vocês tem até segredinhos agora, saem juntos, e você me esconde coisas por causa dele.
- Eu te escondo coisas por causa da Hannah.
- Porque a Hannah fica com ele.
- Não. Porque a Hannah passa mais tempo com você do que eu, que te conheço melhor que todo mundo nessa porra de escola.
- Para de ser ciumenta. Você sabe que eu te amo - ela deitou ao meu lado, mas eu não deixei que ficasse confortável porque a lâmpada ainda estava acesa e eu não conseguia dormir na claridade.
- Sei de nada disso, não - fiz birra com ela - Apaga a lâmpada.
Ela me chamou de chata e levantou da cama, voltando ao interruptor para deixar o quarto escuro e indo deitar em sua própria cama logo em seguida. Seu silêncio ativou uma bagunça dentro da minha consciência.
estava tão presente no meu dia-a-dia, e isso porque eu tentava mantê-lo longe a todo custo. Mas depois dele ter me contado a história de sua família, ficou impossível não vê-lo como uma pessoa melhor, um homem normal. Antes eu só o percebia como um cara chato que insistia sempre que eu dizia não. Depois de toda a dose de confiança que ele depositou em mim ao contar aquelas coisas, me esquivar a cada aproximação parecia ridículo.
Respirei fundo e decidi fechar de vez os meus olhos para poder dormir em paz. não representaria perigo enquanto eu continuasse sendo uma garota firme. E eu nunca fui fraca. Opinião forte era uma das minhas melhores qualidades.
Continuaria sendo.

Capítulo 19: I'll be sittin' right here real patient

Quando eu descobri que amava? Essa é uma pergunta fácil de responder.
Exceto por meus pais e Louise, eu só amei uma pessoa na vida. Eu digo aquele amor de verdade, que faz a gente sorrir ao ver a pessoa e querer ficar perto do tempo todo. Seu nome era Phoebe e ela foi minha namorada dos dezesseis aos dezoito anos. Nossa história durou cerca de dois anos, entre indas e vindas. E embora brigássemos o tempo todo e tivessemos diversos problemas pra resolver, eu amava aquela garota.
Foi com ela que eu aprendi que precisava ser cuidadoso com as pessoas pra não machucar seus sentimentos; foi com ela que eu aprendi que minhas vontades nem sempre eram as melhores e, não necessariamente, seria atendidas com prontidão.
Quando Phoebe me deixou, eu chorei por duas semanas seguidas, como um bebê. Depois disso, liguei o foda-se e exclui todas as nossas formas de contato. Decidi que não precisava dela pra sobreviver. E embora eu não acreditasse nessa sentença, comecei a viver como se fosse verdade. Até que consegui me libertar do vício que Phoebe era na minha vida e pude viver feliz.
Depois disso, conheci muita gente, muitas garotas legais, mas nenhuma delas me cativou como Phoebe. Nenhuma delas foi marcante por muito tempo. Até eu conhecer .
Eu só queria beijá-la no começo de tudo. Vê-la dançando ativou todos os meus sentidos e me fez desejá-la; nada de anormal; tenho certeza de que pelo menos metade dos homens daquela festa estavam desejando também. era tão linda que dava vontade de ficar olhando o tempo todo. Mas o tempo foi passando, e cada informação que eu guardava sobre sua personalidade me prendia e me deixava mais curioso.
Naquele sábado, eu acordei tarde e almocei a comida caseira que minha mãe fez pra gente comer assistindo o noticiário. Depois de relaxar um pouco, nós pegamos o Jeep e fomos até o endereço que escreveu pra mim num pedaço rosa de post-it.
Minha mãe sentou no chão mesmo, na frente de um espelho próximo das garotinhas que recebiam aula de ; me sentei ao seu lado para observar melhor. Quando ela acabou de passar uma sentença de passos para as garotas, deu ordem para que continuassem e veio dançando e pulando até onde nós estávamos.
Levantei e ajudei minha mãe a levantar também. Sorrindo, se aproximou, sem parar de dançar e abraçou minha mãe com empolgação. Dona Bridget deu um sorriso encantador e a abraçou de volta, sem se importar com o suor ou com o fato de que não parava quieta.
- Que bom que a senhora veio - disse, trocando o peso de uma perna para a outra algumas vezes.
- Está animada hoje, ! - minha mãe respondeu.
- É impossível não ficar animada aqui! - sorriu, dando uma volta de 360º em torno de si mesma - Essas meninas são incríveis!
- Para com isso. Vai me deixar doido! - eu disse, segurando em seus ombros para que ela ficasse parada. Não adiantou.
- Não dá! - sem tirar minhas mãos de seus ombros, ela continuou se mexendo e agora gargalhando, sem parecer mesmo ter a intenção de parar.
E foi ali que eu entendi o que sentia por ela. Vendo-a abraçar minha mãe, não recusar meu toque, sorrir pra mim. Sorrir pra mim.
- Vamos! Eu vou levar vocês na coordenação - saiu saltitando, mas esperou até que minha mãe a acompanhasse e juntou seus braços, começando a andar no mesmo ritmo, e ainda dançando.

- Ela parece empolgada.
Estávamos encostados no batente da porta da coordenação, enquanto minha mãe, sentada na mesa da chefona da creche, conversava com altivez, como se fosse ela a diretora do lugar. Ela não era esnobe, só que a sua segurança em cada palavra lhe permitia vencer grandes obstáculos. Não que aquele fosse um. Qualquer creche do universo teria orgulho de abrigar Bridget como voluntária.
- É, parece - concordei - Hey, o lance da vai ser essa semana.
- A música?
- Aham.
- Conseguiram fazer o começo?
Reprimi um riso de diversão ao me lembrar de como o resto da semana havia passado. enlouquecia procurando a palavra certa e , todo impaciente, desistiu antes que começasse a perder os dentes.
- A gente deu um jeito.
Ela me olhou, a expressão de curiosidade transbordando pelos olhos e quase saindo pela boca. Se eu bem conhecia , ela estava louca para que eu desse detalhes e contasse como conseguimos finalizar a música, mas eu não queria correr o risco de contar e ela sair correndo pra falar à . Eu sei que não estragaria a surpresa de propósito, mas as garotas conseguem ser bem expansivas às vezes; talvez ela só ficasse empolgada demais e acabasse soltando alguma coisa por puro descuido.
- Eu acho que ela vai gostar daqui - ela disse. Ja não estava mais falando de , e sim da minha mãe. Havia voltado a encarar o fundo da sala, onde as duas mulheres conversavam com empolgação - Não tem como não gostar, sabe? É quase uma necessidade. Se você reparar no brilho dos olhos das meninas. Elas amam isso aqui; elas me amam; elas amam a dança.
- Você também as ama! - não precisei perguntar, era verdade. Estava escrito em seus olhos e no canto do seu sorriso.
- Essas meninas me deixam sensível! - ela assumiu, olhando pra mim dessa vez - E dança me deixa sensível! É o que eu faço; é a minha vida desde adolescente.
- Eu podia te filmar! Se você deixasse, claro.
A ideia surgiu como um clarão na minha cabeça. Nada como juntar algo que eu amo com algo que ela ama. Aquilo seria sensacional de várias maneiras diferentes. Eu poderia guardá-la para mim em alguns minutos de vídeo, eu podia fazê-la dançar pra mim, exclusivamente. Seria minha oportunidade de mantê-la próxima por alguns momentos, mostrar mais lados de mim que ela ainda não conhecia; conhecer lados seus que ela insistia em esconder.
- Você já me filmou! - eu não soube descrever se aquilo em seu olhar era vergonha ou descaso, só sei que ela evitava me encarar - Na primeira semana de aula. Eu e a , no aquário de vidro.
- Ah, sim, mas aquilo foi diferente. Estavam vocês duas, aprendendo ainda e tinha muita gente ao redor; sem falar que eu nem usei minha câmera de filmagem, só captei as cenas por um ângulo e a iluminação do começo de tarde também não era das melhores. Se você quiser, a gente pode arrumar um material muito bom! De verdade, , dá pra fazer um puta vídeo seu!
- O que você ganharia com isso?
- Não é uma situação de troca, - era hora de colocar minha boa argumentação em prática. O importante era fazê-la pensar que eu só estava fazendo um favor - Vê só, você ama dançar e não me custaria nada gravar isso pra você. Seria uma boa recordação pra quando você for velhinha e quiser se lembrar dos tempos de juventude.
Minha falha tentativa de piada só a deixou mais alerta. Provavelmente aquele olhar atento era uma análise; talvez pensando se deveria ou não aceitar minha proposta. Mas quando eu notei que sua observação não pararia e que meu corpo estava respondendo de maneira não esperada, resolvi revidar. Era pra eu manter a pose, porém começava a sentir pequenas faíscas de nervosismo alcançarem minha pele. E eu odiava me sentir daquela forma.
Em minha defesa, cruzei os braços e ergui uma sobrancelha , incitando-a a responder rápido. A resposta foi quase instantânea: quando se viu pressionada, corou e desviou seu olhar do meu. Era engraçada a minha vontade mórbida de mordê-la naquele momento. Morder suas bochechas vermelhas e suculentas; sentir o calor que o agrupamnto de sangue naquela região causava.
- O que foi? - ela perguntou, quando viu que eu observava demais.
- Nada - queria falar que gostava de apenas gastar tempo lhe olhando, mas aquilo a faria elaborar uma resposta atravessada e eu retrocederia. Escolhi permanecer no mesmo rumo de antes - O que me diz do vídeo?
- Talvez seja legal.
- Com certeza vai ser legal - sorri, vendo-a dar de ombros, ainda indecisa - O que você perderia com isso?
Seu pequeno sorriso me mostrou que ela havia percebido que não perderia nada. E mesmo que ela ainda me encarasse, em análise, já podia prever a resposta afirmativa saindo por seus lábios entreabertos.
- Estamos resolvidas então? - ouvimos a voz da responsável pela creche soar mais alto, como as pessoas geralmente fazem quando estão finalizando uma conversa. Em seguida, o som de cadeiras arrastando tirou e eu da bolha de envolvimento que aquela conversa estava criando.
- Pode contar comigo na segunda de manhã - minha mãe andou até a outra mulher para lhe beijar no rosto.
Foi ali que eu percebi como minha mãe ainda era bonita; mesmo tendo passado dos quarenta anos a um bom tempo e sofrido o inferno nas mãos do governador. Em comparação com a coordenadora da creche, ela era tão superior; partindo de sua forma de se vestir, de falar, de sorrir. Com certeza tudo aquilo se devia à grande diferença na conta bancárias das duas também. Minha mãe tivera sorte de estudar nas melhores escolas e ser regida pelos maiores instrutores desde criancinha. Não era justo comparar.
Ao meu lado, bateu palmas, animada, e andou até as duas, felicitando-as pelo acordo recém feito.

Como já era quase a hora de largar, minha mãe resolveu que queria esperá-la. Deu a desculpa de estar interessada em vê-la dando aula, mas eu sabia bem que aquele era seu lado cupido dando as caras. Dona Bridget ficou tão chateada com o fim do meu relacionamento com Phoebe. Não mais que eu, claro, mas ela sentia também. Depois disso, vivia perguntando quando eu lhe daria uma nora novamente. Quando eu lhe falei sobre minhas intenções com , foi como se uma porta houvesse acabado de abrir e perguntas jorrassem de lá o tempo inteiro.
De certa forma, aquilo me incentivava. podia me renegar de alguma forma durante o dia, mas minha mãe perguntava sobre ela quando eu chegava em casa e e eu acabava criando novas armas para alcançá-la. No fundo, minha mãe e eu formávamos uma boa dupla.
Então eu estava ali com a minha dupla, sentados num chão, encostados num espelho gigante enquanto e umas garotas piruetavam pela sala. Na minha cabeça, já começavam a passar flashes de como o vídeo ficaria bonito. As ideias surgindo, o tipo certo de iluminação, de música.
Eu a importunaria até que ela aceitasse.
Quase no final da aula, outra mulher apareceu na sala e se juntou à dança. Eu sabia que a conhecia de algum lugar, mas não tinha muita certeza de onde. Ela conversou alguma coisa com ; as duas pareciam animadas.
Depois que as alunas se despediram para ir embora, minha mãe e eu nos aproximamos de onde estava, junto com a outra mulher. Pude ouvi-la perguntando se ia querer uma carona.
- Eu já ganhei carona hoje, mas obrigada assim mesmo.
- Vai com quem pra casa? - a mulher perguntou. Nesse momento, apontou para mim e minha mãe e a mulher olhou pra nós.
- ! - ela me cumprimentou. Prova de que também me conhecia, mas eu continuava sem saber de onde - Você por aqui!
- Essa é a mãe dele, Tatiana. Ela vai ajudar a gente aqui na creche - apresentou as duas, como sempre, evitando falar meu sobrenome, o que me deixava muito grato.
Tatiana. Eu conhecia aquele nome.
- Você viu a Hannah hoje? Ela me disse que vocês tinham marcado alguma coisa - foi aí que eu me lembrei de onde a conhecia.
- Puta que pariu! - xinguei baixinho, mas tenho certeza de que ouviu. Ainda bem que ela foi a única porque eu não queria que minha mãe se assustasse com aquele comportamento.
Mas, que merda! Eu tinha esquecido de Hannah. Marquei de ir à casa dela logo cedo, passaríamos a manhã juntos, mas quando me falou sobre ir à creche com minha mãe eu apaguei da memória qualquer outra coisa que houvesse no mundo.
- Ahn... não. É... a gente desmarcou. Vai ficar pra outro dia.
Titubeando, eu tentei dar três respostas ao mesmo tempo: uma à pergunta que Tatiana havia feito; outra à minha mãe, que sem sombra de dúvidas, perguntaria quem era Hannah; e por último, embora mais importante, à . Eu sentia o peso de seu olhar acusador sobre os meus ombros. Aquilo era pra ter ficado em segredo; minha intenção era fazer com que aquele fosse o último encontro entre Hannah e eu. Talvez a situação até houvesse sido bem sucedida se eu não tivesse esquecido completamente dela.
Hannah devia estar bem puta comigo!
- Ah, entendi - Tatiana continuou - E você vai com eles pra casa, ?
- É. Bridget veio conhecer a creche porque ela vai ser voluntária. Eu vou aproveitar o caminho de casa pra explicar a ela como funciona tudo - sua voz havia perdido todos os sintomas de animação, e no mesmo lugar, havia uma irritação crescente. Ela percebeu tudo.
Naquele momento, toda a minha preocupação com a raiva de Hannah ou até mesmo os questionamentos da minha mãe sumiu. estava irritada comigo. Eu estava muito fodido!
Tentei olhá-la nos olhos para tentar, de alguma forma, amenizar a coisa toda, mas desviou de mim durante todo o tempo que ainda passamos juntos, inclusive o caminho de volta até o alojamento da escola.
Com a minha mãe ela conversava. Dentro do carro, as duas sorriam enquanto compartilhava momentos engraçados de algumas crianças e exigências da diretoria. Mas quando era eu que fazia alguma pergunta ou comentário, mudava de fisionomia e dava uma resposta rápida.
Eu tentei me convencer a ficar feliz, pelo menos um pouco. Se aquela não era uma demonstração muito clara de ciúmes, estava bem perto de ser. Entretanto, tudo o que eu conseguia pensar era que ia se afastar de mim de novo, e que eu não podia reclamar disso porque não tinha feito nada para evitar.

- Quantas vezes você ainda vai ligar?
Eu não tinha telefonado tanto assim. Na verdade, foram três vezes e aquilo não estava nem perto do que eu podia fazer. Não que eu me importasse muito, na verdade, mas não podia simplesmente furar um compromisso e ficar sem dar satisfações depois. Hannah não merecia isso. Ninguém merece.
- Loira, me desculpa, ta? Eu esqueci, mas não foi de propósito. Marquei um compromisso com a minha mãe e ela estava super empolgada, eu só acabei me esquecendo que tinha marcado de ir aí te ver. Ela vai trabalhar na creche que a sua mãe ensina. Eu vi a Tatiana lá.
- Você podia ter me ligado, ! - ela não se importou com nada além de me culpar.
- Eu liguei! Três vezes!
- Agora! Você deveria ter ligado de manhã, quando viu que não dava pra vir.
Preferi ficar um pouco calado nesse momento. Se eu a deixasse saber que em nenhum moment do dia sua imagem me veio à cabeça, eu ia ouvir uns bons gritos. Se eu quisesse permanecer vivo por mais vários anos, nunca poderia deixar Hannah saber que só me lembrei dela quando vi sua mãe.
- Eu não fiz por mal - me resumi a falar a única coisa verdadeira que não me parecia nociva. Eu realmente não havia feito por mal.
- Ta, . Eu vou dormir agora. Tive um dia muito estressante.
- Tudo bem. Você vai pra Niña amanhã?
- Não sei - ouvi seu suspiro forte do outro lado da linha. Ela estava com raiva pra valer - Qualquer coisa a gente se encontra lá.
- Ta bom, loira. Dorme bem, ta?
- Uhum!
Não foi uma resposta meiga, era raiva pura. Ela desligou o aparelho sem esperar nem mais um segundo e eu joguei o meu na cama, me preparando para ir jantar e escutar todos os niveis de perguntas que minha mãe faria enquanto comíamos.
E eu não estava errado nessa previsão. Tive que explicar com detalhes (não tantos) o quanto eu estava envolvido com Hannah e como queria sair disso porque gostava pra valer de . Ela me deu umas broncas, claro, afinal mãe são especialistas em fazer isso, mas no final, me disse para tomar cuidado com as duas porque garota nenhuma merecia ser tratada como lixo.

Se era pra ser bem honesto, eu já estava meio enjoado de frequentar o mesmo bar todos os domingos, mas meus amigos insistiam que aquele era o melhor lugar do bairro por diversos motivos. Eu discordava e discordava mesmo! Afinal de contas, era a Califórnia! Tudo de melhor no mundo acontecia naquele estado e as pessoas daquela escola insistiam em visitar sempre o mesmo bar de sucos esquisitos.
Eu saia que existiam muitos lugares melhores, com caras mais bonitas, atrações mais sofisticadas e o que mais o lugar tivesse a oferecer, mas não tinha muita saída já que , , e Hannah sempre queriam ir ao bar da Niña. Eu não tinha saída já que parecia amar aquele lugar. E se amava estar ali, era ali que eu estaria.
Quando eu cheguei naquele domingo, comecei a procurá-la antes de qualquer outra coisa. Estava com encostada em um balcão com vista pra rua, bebendo alguma coisa colorida enquanto conversavam, distraídas.
- Oi - cheguei perto delas. me abraçou de imediato, simpática e finalmente livre da maldita TPM que a deixou tão insuportável durante a semana. não fez nada. Nem sorriu, nem me abraçou, mal olhou na minha direção. Eu não sabia como agir - , o que você quer que eu diga?
- Dizer o quê sobre o quê? - perguntou.
finalmente me encarou e então, soltou um suspiro que parecia estar sendo preparado por uma hora, tão longo que foi. Ela mexeu os ombros e o pescoço, como se estivesse se livrando de algum peso nas costas e lançou um riso esquisito na minha direção.
- Não quero que você diga nada, .
- Fala sério!
- Estou falando! - ela disse - É sério! Olha só: eu não sou a sua namoradinha. Hannah é. Você não tem que me dar explicações de nada, afinal de contas a vida é sua.
- Hannah não é minha namoradinha! - eu falei entredentes. Por que precisava ser tão teimosa e implicante?
- Eu já disse que não me importo! - surpreendentemente, aquela não parecia uma resposta forçada, o que me fez ter mais raiva porque eu queria que ela tivesse ciúmes. Ouvi-la dizer que não se importava era como levar uma mordida de tubarão na panturrilha. Além de dor, dava raiva - É sério! Olha pra minha cara: eu pareço estar com raiva? - ela virou de mim para - Eu pareço estar com raiva, ?
- Não - a outra respondeu - Mas alguém poderia me explicar por qual motivo você deveria estar com raiva dele?
- Por motivo nenhum! É isso o que eu estou tentando explicar pro cabeça dura do . Eu não estou com raiva dele. Ele é paranóico demais, isso sim.
- Vocês não vão me contar, né? - perguntou, bufando.
- Não! - eu disse.
- Não tem nada pra contar! - foi a fala de .
colocou seu copo de suco em cima do balcão e ergueu as duas mãos. Os dois dedos médios estavam levantados: um para mim, outro pra . Eu ri com o desaforo, mas revirou os olhos e ignorou.
- Mas e aí? Bridget gostou da creche? Ela está empolgada pra começar a ajudar lá?
Eu ia começar a responder a pergunta de , não por real vontade de manter aquela conversa, mas por saber que se não fosse daquela forma, não seria de forma alguma. Era estava bem complicada naquela noite. Mas antes que qualquer resposta ficasse pronta na minha cabeça, uma cabeça loira apareceu ao lado de e disse oi pra mim, em seguida disse oi para as outras meninas. Hannah estava séria, emputecida, como eu havia imaginado.
- Vocês se viram na creche? - ela perguntou, mascarando a raiva em uma voz meiga. Mas não foi na minha direção que essa pergunta soou, e sim na de .
- Aham - respondeu, dando um gole em seu suco logo em seguida, mostrando que aquela pergunta não lhe afetava nem um pouco.
- Você não me disse, - agora ela falava comigo - Pensei que só tinha visto minha mãe.
- Vi a também - precisei de muito esforço pra não gaguejar como um babaca. Eu definitivamente, definitivamente, definitivamente não estava pronto pra um ataque de ciumes de Hannah naquele momento.
olhava de um para outro sem saber de nada e eu a invejei. Naquele momento, a ignorância era, literalmente, uma bênção.
- Você conheceu a mãe dele? - foi a pergunta seguinte. E eu não sei se ela estava tentando esconder de verdade, ou não. Em todo caso, não estava dando muito certo. Até , que não entendia nada, podia perceber o clima hostil.
- Conheci. Ela é um doce!
Lembro de quando falou pra mim que se eu não acreditava que e Hannah brigariam por minha causa, era porque eu não as conhecia. A situação era atípica; não estava brigando por território, mas por irritação. Eu sabia o quanto ela odiava setir-se pressionada, e pressão era exatamente o que Hannah fazia ali. Mas era briga de uma forma ou de outra, e eu não conseguia me sentir privilegiado, apenas ferrado.
- Imagino - Hannah respondeu, sorrindo.
Pra minha sorte, cansou da disputa antes que ela começasse pra valer, e saiu de perto de nós indo pra qualquer outro lugar do bar. Hannah saiu de perto também, indo pra uma direção diferente da que foi, e eu fiquei ali com , e com a responsabilidade de explicar a mesma história para a segunda pessoa em menos de quarenta e oito horas.
Talvez fosse melhor se eu comprasse um gravador.

Eu notei a intenção dela mesmo antes do ato se concretizar. Observando de longe, percebi quando saiu de sua mesa e começou a andar na direção do babaca do Alef. Talvez ela fosse puxar um papo qualquer, talvez o convidasse para uma dança.
Dois motivos bem fortes foram responsáveis por eu ter saído de onde estava e andado até ela, puxando-a pelo braço antes de chegar em Alef:
1. Ela não merecia se humilhar daquele jeito. Do pouco que eu conhecia da história, já havia se jogado demais pra cima daquele cara, dado todas as dicas, corrido atrás, se humilhado mesmo. E se ele não era gay, como eu imaginava que era, era o homem mais débil mental do mundo inteiro.
2. Ela era minha.
Como meu cérebro parecia recusar a falta de posse, tratou de enviar os comandos certos aos meus músculos para que se movessem até chegar nela. E eu consegui. Menos de dois metros de onde Alef estava, eu a segurei e fiz com que virasse mim.
- Puta merda! O que é que você quer comigo? - ela parecia impaciente. Sua voz soou alta e eu fiquei indeciso se era só irritação ou também porque uma banda tocava uma música bem alta naquele mesmo minuto.
- Você disse que não estava com raiva de mim! - acusei.
Ela ficou sem resposta. Resumiu-se a respirar fundo e soltar o ar com força. Tirou meu braço do seu e andou até um lugar mais afastado. Eu a segui, claro. me confundia um pouco mais a cada minuto. Era difícil entender o que ela pensava, sendo que uma hora dizia que não estava com raiva e que não tinha nada com a minha vida, e em outra, falava um palavrão e me olhava como se fosse comer meu fígado.
- O que foi agora?
- Sou eu quem tem que perguntar isso, . O que foi agora? Você não disse que não tinha motivos pra ficar irritada comigo?
- Sabe o que me irrita de verdade, ? - ela cruzou os braços e me olhou de maneira firme. Senti um gelo na garganta e os sintomas da ansiedade corroendo meu corpo, mas permaneci quieto até ela falar - Me irrita saber que você é tão jogador. Poxa vida! Custa ficar de um lado só? Olha lá a Hannah, ela adora você, está louca pra ir pra sua cama todos os dias. Vê se fica contente com ela! Você nem precisa se esforçar!
- Ah, , cala essa boca. Você sabe que eu estou pouco me fodendo pra Hannah.
- Conta outra, ! Você ficou todo quietinho quando ela perguntou sobre eu ter conhecido a Bridget.
- É claro que eu fiquei. Você queria que eu fizesse o quê? Eu estava vendo a hora dela pular no meu pescoço. Ou no seu!
- Ela que viesse! - descruzou os braços e empinou o corpo pra frente, ainda mais irritada - Não tenho medo da Hannah, . Se você quer saber, eu já apanhei muito nessa vida, mas eu já bati também. Então eu posso ser tudo, menos uma menininha inofensiva e indefesa. E eu não sou burra também. É por isso que me irrita tanto você ficar se aproximando de mim, sendo que no minuto seguinte vai esconder que sai comigo, que me vê nos fins de semana, que eu conheço a sua mãe, que eu sei a história da sua família.
Eu não imaginei aquilo. Não percebi que ela ficaria magoada com minha discrição. Sim, era apenas discrição; se ela havia entendido errado, era um toque para que eu explicasse. Não falar pra Hannah sobre a minha família significava apenas que ela não era confiável para saber, mas era, e por isso eu contei.
- , você queria que eu contasse tudo o que você sabe pra Hannah? É da minha família que nós estamos falando, e você sabe muito bem que esse assunto não é muito bem-vindo no meu dia-a-dia.
- Eu não quero que você conte nada a a ninguém. Eu não quero nada de você! Só quero que você não me persiga! - eu não podia ficar mais irritado do que já estava. Cada palavra, cada frase era com mais uma bomba que ela estourava bem na minha frente - E sabe de uma coisa? Se afasta de mim agora porque a sua loirinha está olhando pra cá. E sei lá, né? Vai saber se ela não está prestes a furar minha garganta com as unhas!
Minha reação não podia ser definida como uma coisa normal e típica, mas eu fiz assim mesmo. Com minhas duas mãos e mais força do que o necessário, segurei os ombros de , fazendo-a olhar diretamente pra mim e falei:
- O que mais eu tenho que dizer ou fazer pra te mostrar que eu não me importo com a opinião de ninguém, além da sua?
Não foi minha melhor tomada de iniciativa; eu podia ter sido mais sutil, até mesmo delicado, já que era com uma garota que eu estava falando. Eu não tinha levado em consideração uma das últimas frases de , entretanto. Ela não era uma garotinha indefesa e inofensiva, e foi aquela atitude que pareceu funcionar.
Pela primeira vez naquele não tão curto espaço de tempo em que nos conhecíamos, olhou dentro dos meus olhos e pareceu entender que tudo o que eu falava não era da boca pra fora, não era papo furado pra conquistá-la e ponto. Eu tive certeza que ela tinha entendido ali o que eu vivia falando que sentia. Talvez minha recente perda de paciência tenha lhe dado a prova de que eu não mentia.
O choque do nosso olhar, entretanto, foi forte demais pra ser mantido por muito tempo. Eu soltei seus braços e a deixei livre para fazer o que quisesse. Pelo canto do olho, eu podia notar que Hannah nos observava à distância, e eu não podia me importar menos com aquilo.
permaneceu me olhando por alguns momentos, em seguida me deu as costas e andou pra longe. E eu não a vi mais pelo resto da noite.

Capítulo 20: I can see you're on it

Ele ia me matar. Uma hora ou outra, meu coração ia dar tantos pulos que criaria pernas e sairia pulando do meu corpo, me deixando desamparada, sem nada pra bombear o sangue ao redor do corpo. E tudo por culpa de . Tudo porque ele insistia em me falar aquelas coisas e me olhar daquele jeito e me confundir toda e me colocar pelo avesso e... tantas coisas!
Eu sabia agora que não era mentira. Dava pra ver no fundo dos seus olhos que ele não falaria algo daquele nível se eu fosse só uma aposta, um jogo. Eu saberia que ele não gosta de mim, eu teria percebido assim como percebi isso sobre Alef.
Incrivelmente, parecia nutrir sentimentos verdadeiros por mim, embora agisse totalmente ao contrário. E que poder tinha eu nisso tudo? Nenhum poder. Nem sobre mim mesma, aparentemente, já que eu fui a única culpada por aquela troca de olhares tão prolongada. Se eu quisesse, poderia ter me afastado no mesmo instante, mas eu fiquei. Fiquei porque quis olhar e entender o que seus olhos tinham a me dizer, e quando eu vi, o susto foi tão grande que me impossibilitou de executar qualquer outro movimento. Até que ele me soltou e eu pude sentir o sangue circulando de novo.
não podia fazer aquilo comigo. Que direito ele tinha de colocar todas aquelas frases no meu cérebro? Como eu conseguiria dormir à noite? Se aquilo fosse a um tempo atrás, eu beberia até cair e não ter possibilidade alguma de sonhar ou pensar no assunto, mas... de que me serviria beber e ganhar uma bela ressaca se no dia seguinte todos os massacrantes pensamentos estariam no mesmo lugar, bem no meio da minha consciência?
Soa feio dizer que eu fugi dele durante o resto da noite, assim como fugi também durante os dois primeiros dias da semana. Mas embora a frase não seja muito agradável aos meus ouvidos, era a mais pura verdade. Eu fugi. Andei rente às paredes dos corredores, rápido, mais cedo ou mais tarde que os horários costumeiros. Não almocei no refeitório nem fiquei no meu quarto no horário em que costumava ficar. Eu fugi dele. Não queria vê-lo. Não queria que ele soubesse o quanto aquele momento me afetou. Porque a verdade é que nem eu mesma sabia como aquilo interferia no meu dia, eu só sabia que ainda não podia ver na minha frente. Não sem ficar parecendo uma adolescente sem respostas. Eu precisava de um pouco de espaço; de tempo pra pensar.
Não precisei explicar nada à porque, aparentemente, já tinha feito isso. Então ela chegou no quarto naquela mesma noite de domingo e tagarelou horas a fio sobre o assunto. Falou sobre si e sobre também; e eu louca de vontade de mandá-la se acalmar porque já estava resolvendo o problema dos dois. Mas fiquei quieta. Eu não seria responsável por estragar uma surpresa tão bonita.
E o dia escolhido foi a quarta-feira.
me pediu pra armar alguma coisa que fizesse não ir pro trabalho naquela tarde. Era fácil pra ela, já que seu trabalho podia ser feito no notebook dentro do nosso próprio quarto, então eu inventei uma mega mentirosa dor de dente e ela ficou cuidando de mim. A parte chata foi ter que ficar enfiada embaixo do cobertor enquanto ela digitava e me vigiava ao mesmo tempo. Não pude ajudar nos preparativos de nada.
Mas as mensagens chegavam ao meu celular o tempo todo. me dizia cada um de seus passos e vez ou outra, enviava alguma foto engraçada. Estava todos os que eu já sabia que estariam envolvidos: , . Hannah. .
Preferi manter minha atenção longe desses dois últimos. Na verdade, quanto mais chegava a hora, mais ansiosa eu ficava e menos olhava para o celular. Meu novo alvo era a porta e o momento em que ela fosse aberta.
parecia não desconfiar de nada. E na verdade, ela nem tinha motivos para desconfiar, já que soubera esconder tudo muito bem, tão bem escondido que mal falou com ela durante os últimos dias.
Por estar tão entretida no trabalho, não notou o quão empolgada eu fiquei ao receber o último torpedo de , avisando que eles já estavam no corredor do meu quarto. A hora havia chegado.
Saí de dentro dos cobertores e esperei pela batida na porta. me olhou, curiosa, porque eu estava parada, estática na frente da madeira, como se esperasse algo acontecer por mágica. Duas pequenas batidas e eu abri com pressa, revelando o grupo que esperava do lado de fora. Todo mundo entrou e foi procurando seu lugar melhor para sentar. Hannah sentou na minha cama, na cadeira da minha penteadeira e em cima do retângulo que fazia sons que eu sabia que eram bonitinhos, eu sabia que aquilo era um instrumento musical, mas não sabia o nome. Perguntaria depois. Ao contrário dos outros, ficou de pé e ele foi ele o responsável por responder à pergunta esquizofrênica que fez.
- O que é isso?
sorriu, provavelmente porque estava nervoso.
- Só fica quietinha aí e escuta, tá? - ele pediu à e eu vi minha amiga assentir, mas franzir as sobrancelhas e estalar os dedos, como fazia sempre que estava começando a ficar nervosa.
Concentrei-me totalmente em quando ouvi o violão soando os primeiros acordes, esperando que ele começasse a cantar logo porque estava curiosa a respeito do começo da música. Era a parte que eles estavam dificuldade em achar, era a primeira palavra que não podia ser "baby" porque não quisera que fosse. E a música começou, mas a voz não veio da boca de , mas de .
- Chloe, I know your sister turns everyone on, but you're the one I want. You're the one I want. Yeah.
Às gargalhadas, eu aplaudi a sagacidade e criatividade daqueles garotos. E palmas para a loucura de também! Baby não podia iniciar a música, mas Chloe podia. Hilário! Era uma música pra , com o nome da minha gata, sendo cantada por . Era bem fofo pra falar a verdade. tinha uma voz ótima que eu só tinha ouvido por poucos segundos antes. Sua parte não durou muito, entretanto; ele deixou que prosseguisse nas estrofes e cantou só alguns pedacinhos antes do refrão se repetir pela boca de .
Àquela altura, já estava petrificada, sentada na cama com a boca aberta e os olhos lacrimejando. cantava diretamente pra ela, com seu olhar certeiro e sua voz marcante. Ela estava tão emocionada e isso era tão notório. Era o melhor presente da vida de . Ela merecia.
O final foi ainda mais lindo, embora a música inteira já houvesse sido arrepiante. Eu vi ficar vermelho como o esmalte das minhas unhas, tremendo na base, como se aquela parte não tivesse sido ensaiada e planejada. Como se ele não soubesse o que fazer depois.
- Ai, meu Deus! - foi quem falou, ficando de pé e andando até onde estava - Você fez isso pra mim?
Eu e o resto das pessoas no quarto fizemos um "awn" empolgado e manhoso quando confirmou que sim. e faziam por piada com , claro, mas Hannah e eu estávamos felizes pela nossa amiga.
- Eu queria arrumar um jeito de te falar o que eu penso e o que eu tenho aqui - pousou a mão no coração - Queria que você soubesse que eu adorei aquele beijo e a iniciativa também, porque a verdade é que eu queria te beijar a muito mais tempo e ainda não tinha tomado coragem. Aí os caras me ajudaram com a música, eu contei pra Hannah e , aí inventou uma dor de dente pra te prender no alojamento. E aqui estamos nós.
Não acho que o fato de ter ficado muda tenha sido proposital, minha opinião é que ela ainda estava embasbacada com tudo.
- Vocês são loucos! - ela sorriu, escondendo o rosto com as mãos - Eu não acredito que isso está mesmo acontecendo!
deu mais um passo, eliminando a distância que ainda existia entre ele e a garota, então ele a abraçou. apoiou as mãos nos ombros de , deixando o aperto mais forte. Ambos sorriam como se estivessem no paraíso.
- Vocês são tão fofos! - tentei andar até o casal, mas antes que qualquer passo fosse concluído, um braço enlaçou minha cintura e me impediu de andar.
Meu corpo foi arrastado até se emparelhar com a lateral da cadeira onde estava sentado; agarrando o violão em um braço e a minha cintura no outro. E o toque da sua pele na minha fez uma corrida veloz do sangue se iniciar nas minhas veias. Eu me arrepiei e tenho certeza absoluta de que ele percebeu instantaneamente.
- Você não vai estragar o clima deles - ele repreendeu, mas sem olhar na minha direção.
cochichava algo no ouvido de , mas naquele momento, minha atenção estava voltada ao movimento que os dedos de faziam diretamente na minha pele, no espaço que minha blusa cropped deixava à mostra. Apoiei minha mão em seu braço, não voluntariamente, mas porque eu precisava tocá-lo de alguma forma. Resisti ao impulso de apertá-lo entre os meus dedos, necessitando de muita força de vontade pra isso, entretando.
Eu, definitivamente, me deleitei naquela aproximação, naquele braço, meio abraço, naquele toque. Apesar disso, me tornei alarmada do olhar endemoniado que vi em Hannah quando virei meu rosto em sua direção. Larguei o braço de e fiz força na direção contrária pra me afastar, mas como ele não me soltou, eu desisti.
Voltei meu olhar para um lugar seguro, onde eu não corria um risco de ser atingida por raios, bruxarias ou maldições. estava se dando bem nesse momento, apoiando-se na ponta dos pés para ser beijada por .

e eram namorados então. Bom pra eles. Muito bom, pra ser sincera. Eu estava feliz pela minha amiga porque, além de ser um cara legal, era gostoso pra caramba, com seus olhos claros e algumas tatuagens espalhadas aqui e ali pelo corpo. Eu torceria dia e noite por aquele namoro, para que durasse e fosse satisfatório pros dois lados.
Assim que selaram um acordo com o sim de , eles deixaram o quarto de mãos dadas e foram pra algum lugar que eu não sabia qual era, mas obrigaria que ela me contasse depois. Depois saiu com seu instrumento desconhecido por mim e Hannah ficou olhando pra porta, como se esperasse por algo. Eu sabia o que era pela forma com que ela fitava o quarto inteiro a cada dois segundos que se passavam; eu percebi o que era quando ela encarou , que permanecia bem confortável, sentado na cadeira dedilhando seu violão. Hannah estava esperando ele sair, e quando percebeu que ele não sairia, acabou se rendendo e levantou da minha cama, pondo-se a marchar com passos até sair do quarto e entrar no seu, trancando a porta com agressividade.
- Ela está puta! - avisei à única pessoa no quarto, além de mim.
- É, deu pra perceber - ele levantou da cadeira e se preparou para sair também.
Analisando enquanto ele andava para a saída, reparei que havia ali um belo conjunto de regata folgada, braços musculosos e violão enganchado no ombro. Meus olhos viajaram por toda a extensão de suas costas e iam continuar até embaixo quando ele se virou e quase me pegou no flagra, encarando.
- Eu tenho um convite pra você.
- É mesmo? - deixei que minha voz soasse entediada e desanimada.
- É. Meu professor me emprestou a versão estendida de 'A invenção de Hugo Cabret'. Ainda vem com todos os erros de filmagens, bastidores das cenas, explicando quais foram as cenas mais difíceis, de onde vieram as ideias, essas coisas. É quase como se houvesse um documentário de trinta minutos, após o filme.
Meus olhos devem ter brilhado no exato segundo em que ele mencionou o título. Eu amava aquela história! Havia assistido tantas vezes sem enjoar um pouco sequer, sempre prestando atenção em um detalhe novo, na magia da relojoaria e das cores naquele tom cinza e bonito.
- Vem assistir comigo! - ele convidou.
Eu sabia que aquela havia sido a intenção desde o início da conversa, isso não impediu, porém, que meus olhos cerrassem em uma expressão incrédula.
- Sério? - fiz força pra minha voz soar firme. Eu queria que ele percebesse apenas nas palavras que eu não iria aceitar de forma alguma.
- Sério! Você não disse que gosta? Eu lembro muito bem de você perguntando se eu já tinha assistido, foi no dia em que nos conhecemos.
- Não vem ao caso, !
Eu podia continuar dando diversos motivos e esclarecer de uma vez por todas que eu não estava interessada, mas andou até onde eu estava e me olhou da mesma forma que tinha olhado no bar da Niña, domingo. E quando ele se aproximava de mim daquela maneira, toda a certeza da minha falta de interesse sumia como em um passe de mágica.
- As coisas ficaram meio sem explicação, meio soltas depois da nossa última conversa, mas eu vou esclarecer agora, : eu não vou me afastar - sua voz era baixa, tão próxima de mim, tão íntima. Ele estava tão perto que eu sentia o calor do seu corpo implorando pra sentir o meu. E, cara, eu queria me aproximar! Eu queria sentir o calor dele, nem que fosse tocando seu braço de novo, ou que ele tocasse o meu. Qualquer contato.
Minha reação, porém, não foi propícia a toques.
- Eu vou chamar a polícia!
Aquela foi minha última cartada, mas foi ridícula. Em que cenário eu chamaria a polícia por causa de uma besteira daquela? Por isso a resposta soou tão absurda. Por isso ele zombou de mim. Me senti tão ridícula nesse minuto que abaixei meus olhos enquanto sentia minhas bochechas esquentando; ao mesmo tempo, um sentimento de raiva crescia dentro de mim. já deveria ter entendido que me pressionar não era a melhor maneira de agir, mas ele não parecia se importar.
O desaforado andou até a minha penteadeira e pegou meu celular para escrever alguma coisa. Após me convencer a colocar a senha para destravar o aparelho, ele digitou o que tanto queria e pareceu ficar satisfeito.
- Anotei meu endereço no bloco de notas. Você pode ir sozinha ou pegar carona comigo quando a aula acabar.
- Eu não vou! - fui firme, mas fui ignorada.
- Até amanhã, ! - me deu um beijo úmido na bochecha e colocou o celular a minha mão. Senti o impulso de virar para beijá-lo na boca e resisti aos pensamentos como se fugisse da forca. Fui forte. Me segurei.
Ele andou até a porta e a fechou ao sair, me deixando com a maior expressão de lividez que meu rosto conseguia suportar.

Minha aula do dia seguinte foi repleta de pensamentos inapropriados. Pior pra mim porque a quinta era inteiramente teórica e eu perdi muito assunto pensando em como negar um pedido que eu queria aceitar. A intenção era não deixar perceber que eu estava muito mais maleável às suas investidas. Eu odiava cada grama sobressalente dessa certeza. Se eu quisesse continuar inteiramente sã, mental e emocionalmente, precisava me manter afastada do estudantezinho de cinema metido a garanhão.
E foi isso o que eu fiz.
Ms eu não era da turma de Teatro e atuar não era uma atividade muito fácil de executar, na minha opinião. Além do mais, estava acostumado a observar as pessoas encenando, e deve ter percebido de cara a minha insegurança na hora do almoço, quando me perguntou se eu iria com ele pra casa.
Tenho certeza de que ele soube que eu quis dizer "vou com você pra qualquer lugar desde que me beije" quando minha boca só se abria pra dizer "não vou pra sua casa de forma alguma".
Ele foi embora sozinho, mas eu estava ciente do peso do celular no bolso da minha saia jeans, onde ele anotou o endereço. De muitas formas, tentei me convencer a ficar quieta no meu quarto, estudando, em vez de lembrar do convite a cada trinta segundos, mas já eram duas da tarde e eu nem sequer lembrava qual era o assunto que eu deveria estar procurando no Google.
Agoniada, eu deitei na cama, rolei de um lado pro outro, gritei de raiva por ser incapaz de controlar meus próprios impulsos. Todos eles artifícios que eu simplesmente sabia que não funcionaria, mas tentava enquanto ainda havia um fio de esperança.
Quando este fio se rompeu, eu percebi que já estava no caminho do banheiro. Não estava suja nem nada, minha última chuveirada havia sido menos de duas horas atrás, só que eu queria arrumar um jeito de me entreter na preparação para não correr o risco de bater na porta de cedo demais e acabar lhe dando a impressão de que eu estava ansiosa pra vê-lo. Mesmo que eu estivesse.
Enquanto descia a escada do alojamento, eu destravava o celular para ver os dados que havia anotado. O endereço era em um bairro ao lado, o que significava que não era tão perto quanto eu pensava; pelo menos para a minha pessoa, que não tinha um Jeep pra fazer o percurso em menos de de vinte minutos. Com o auxílio de um ônibus e contando com um trânsito não tão agitado, consegui chegar em quarenta e cinco minutos.
O prédio era de tamanho médio e todo revestido por cerâmicas que imitavam pastilhas coloridas de banheiro; havia plantas em todas as sacadas e um porteiro quase dorminhoco com uma camisa de seleção européia.
Ele anunciou minha chegada e eu subi no elevador, já imaginando o sorrisinho ridículo de vitória que estaria guardando para quando abrisse a porta pra mim. E eu não estava errada. era ridículo! O escárnio estava ali, a certeza de que eu apareceria. Minha única vontade foi dar meia volta e entrar de novo no elevador, me afastando dele o mais rápido que fosse possível.
Mas afinal, o que aquilo faria comigo? Me tornaria uma garota patética, medrosa, insegura e desistente. Eu havia ido ali, agora eu precisava me manter firme e ficar pra assistir a porra do filme de uma vez.
- Que bom que você veio! - se ele tivesse dito que sabia que eu iria, eu arrancaria seus dentes.
- Só porque eu estou muito interessada no filme - impliquei.
- Eu sei, claro - franziu as sombrancelhas, postou-se em uma feição séria e certeira, mas eu tinha certeza de que era uma brincadeira ainda; uma forma diferente de me expor ao ridículo - Entra - se afastou na porta, me dando espaço.
Nervosa, eu dei o primeiro passo. De cara eu via os sofás e a mesinha de centro com um tipo de vidro que eu julgava delicado demais para uma casa onde morasse. Do pouco tempo que eu o conhecia, havia aprendido que quanto mais resistentes fossem os objetos que o cercava, melhor. Ele não era muito cuidadoso. Havia uma televisão gigante e à minha esquerda, uma pequenina e confortável sala de jantar, ao lado da cozinha. Mais na frente ficava o corredor com algumas portas e um espelho no final.
Não era uma casa grande. Muito pelo contrário, era pequena e aconchegante, como a casa dos meus pais.
Notei que ele me observava enquanto eu analisava sua casa, então eu parei a vistoria porque sabia que não estava soando muito educado da minha parte.
- Não é muito grande, mas foi o que conseguimos com a pressa de quando ela se mudou - ele tentou explicar.
- Eu achei linda - fui sincera. O ambiente cheirava a velas aromatizadas e parecia tão limpo; como se fosse alvo de faxina todos os dias sem excessão.
Piscando um dos olhos, ele devolveu meu sorriso, como se estivesse agradecendo. Em seguida ele passou na minha frente, encaminhando-se para à sala de refeições. Na mesa, seu notebook repousava na tela de descanso.
- Senta aí, eu vou fazer milk shake pra gente tomar assistindo o filme - sua frase despertou um lado meu que pouca gente conhecia, o viciado. Tenho certeza de que meus olhos brilharam enquanto eu ficava maravilhada.
- Você sabe fazer milk shake? - eu não queria parecer tão empolgada, mas era difícil me controlar quando aquela preciosidade entrava em cena.
- Aham. Aprendi na internet - sorri abertamente pela descoberta. Eu me aproveitaria daqueles dotes! - O que foi?
- Eu amo milk shake!
- É, está dando pra perceber.
- Não, é sério - enfatizei - Eu amo milk shake demais!
- Ta. é... - ele pareceu desconcertado, como se, de repente, incorporasse a missão de preparar o melhor milk shake do mundo - Eu vou me esforçar aqui então!
Só esperei que ele deixasse o armário aberto para pegar os ingredientes. Depois disso, me senti, literalmente, à vontade. Sentei à mesa, de frente pro notebook e fui caçar. Podia aproveitar, já que ele estava devidamente ocupado, eu futricar o quanto eu quisesse. Nunca fui muito ligada nessas coisas de privacidade, então não achava que estava errada em mexer em algo que não era meu.
Fui direto no histórico, rápido e prático. Na maioria dos casos, não havia nada de extremamente interessante. Muita coisa sobre a faculdade, sobre filmes; algumas coisas do Twitter, outras redes sociais; no máximo era um besteirol mesmo. Desci o mouse infinitamente até que meus olhos captaram uma combinação de links, um abaixo do outro:
* Conde Drácula * Fanfic * Fanfic definição * Enciclopédia
E no momento seguinte eu pensei: "Que merda é essa?"
- Algum motivo em especial? - minha atenção foi chamada de volta quando perguntou aquilo; eu sequer sabia do que se tratava - A história do milk shake. Por que você ama isso demais? - ele enfatizou a palavra, como eu havia feito.
- Nenhum motivo em especial, mas eu me lembro bem da primeira vez que tomei - sorri, lembrando da cena e me distraindo dos links. Vi quando ele fez uma careta espantada, como se fosse impossível eu me lembrar disso - Não faz tanto tempo assim.
- Conta - ele incentivou, parecendo curioso.
- Quando meus pais e eu chegamos da Costa Rica, a gente não tinha dinheiro. Meus pais não podiam bancar os luxos que as outras garotas costumavam ter. Eu trabalhava muito e saia pouco. Quando minhas amigas da escola marcavam de ir ao cinema, eu começava a juntar as moedinhas que conseguia só pra não ter que pedir dinheiro aos meus pais. Eu sempre odiei pedir, principalmente por saber das condições. Então eu saia com elas, assistia o filme e, na hora de comer, eu dizia que nao estava com fome ou comprava uns salgados dos mais baratinhos na padaria.
parou todas as suas atividades nesse momento para dar total atenção a mim. Ele não devia saber que sensação era aquela; economia não fazia parte do seu mundo de menino rico criado nas melhores escolas e casas.
- Depois de um tempo as coisas melhoraram pra nós.
- O que aconteceu pra melhorar?
- Nós tínhamos uma barraquinha de roupas numa feira do centro da cidade. Aí a gente trabalhou pra caramba e com o tempo fomos crescendo. Nessa época nós saímos da barraquinha e fomos pra uma loja; era pequenina, mas era nossa. Minhas amigas me convidaram pra ir lanchar e meus pais tinham acabado de me dar dinheiro em comemoração ao bom rendimento mensal da loja. Eu cheguei na McDonalds sabendo o que ia pedir. Eu tinha treze anos e ia tomar o meu primeiro milk shake.
Eu continuava sorrindo com cada lembrança, e acabei vendo meu gesto se repetir no rosto de . Até mesmo com a mesma empolgação.
- E aí? - me perguntou.
- Foi o maior orgasmo gastronômico que eu senti na minha vida! - falei, empolgada até os últimos fios de cabelo. riu alto da minha comparação - Depois disso eu passei a tomar milk shake sempre que o mês chegava ao fim. Mas só um. Foi nessa época também que eu comecei a dançar e meus instrutores da academia sempre me mandavam manter o peso. Só por causa disso eu não virei uma viciada.
- E até hoje você toma milk shake pelo menos uma vez no mês?
- Tomo. Tomei domingo no bar da Niña.
- E por que ninguém nunca me falou que vende milk shake lá? Teria evitado muitos sucos de gosto duvidável passando pela minha garganta.
- Você tem que aprender a buscar o ouro, ! - falei, depois disso vi que ele fez uma careta e voltou aos preparativos do milk shake. Já estava quase no final; o barulho do liquidificador era constante - Além do mais, você bem que gostou do açaí.
- Sim, mas uma vez eu tomei um tal de catolé que quase arrancou minhas pregas vocais.
- Que exagerado você! - falei alto, sorrindo.
- Foi horrível!
Voltei a mexer no computador de , enquanto ele colocava o milk shake em dois copões e lavava o copo do liquidificador. Deixei exposta a página exata que eu queria que ele visse; iria perguntar desde quando ele lia fanfic e justamente do Conde Drácula. Eu estava bem, bem curiosa.
Ele sentou numa cadeira ao lado da minha e empurrou o copão verde na minha direção. Senti aquele cheiro magnífico inundando o ambiente e não pude esperar mais um segundo sem levar minha boca à borda do copo. Bebi.
- Isso está maravilhoso! - me afastei só pra elogiar, mas fechei os olhos de novo e bebi mais - Droga, por sua causa eu não vou poder beber milk shake no fim do mês. Agora só no final de novembro. , eu não gosto de você! - fiz birra, mas ele apenas sorriu disso. E eu voltei a beber meu milk shake até ter devorado tudo - Você precisa me ensinar a fazer isso.
- Google it! - ele deu de ombros, me mandando ir pesquisar.
- Falando em Google... - virei a tela do notebook pra ele - Por que você estava lendo isso?
estava com a boca no copo nesse momento e, ao ver o que eu mostrava, se afastou rapidamente para rir como um desconfigurado mental.
- Você é que tem que me explicar que merda é essa - ele apontou o dedo na direção do meu rosto. Bati nele para que não me afrontasse - Eu fiquei todo curioso quando você falou esse blablablá de fanfic e fui procurar, obviamente. Mas aí essa página maldita começou a me fazer umas perguntas e eu respondi e, de repente tinha um vampiro filho da puta querendo me comer!
Era eu rindo como uma desconfigurada mental agora. Imaginei a cena onde lia isso e minhas gargalhadas só pioraram. Pela graça, eu nunca havia ouvido uma história tão engraçada como aquela. Já sentia minha barriga comprimindo-se devido minhas risadas e precisei apoiar minha cabeça na mesa pra que não me desequilibrasse e caísse pra trás, no chão.
- Meu Deus, como eu queria ter visto isso!
- Você mandou eu ler um conto erótico gay, ! - ele parecia consternado.
- Mandei coisa nenhuma, eu só citei - voltei a levantar a cabeça - Você leu porque é curioso. Além do mais... não é um conto erótico gay, ele é totalmente hétero, mas você provavelmente colocou o seu nomezinho onde deveria haver um nome de garota. Por isso o erro! - dei um tapa de leve na testa dele - Babaca! Me dá isso aqui - Virei a tela de volta pra mim e abri a página de códigos da fanfic, para que visse o nome que havia sido utilizado na escrita original - Está vendo isso aqui? É tudo programação, alguma coisa bem nerd que eu não entendo, mas isso faz com que a história seja interativa. Então qualquer pessoa que escrever o nome nas caixinhas do começo vai virar protagonista da história. E você foi o sortudo da vez! - caçoei dele, que me mostrou o dedo do meio. Ignorei e continuei explicando - E você pegou uma fic onde só o nome da garota era interativo, por isso a confusão ficou maior. Se você tivesse pego uma onde todos são alterativos, não teria sido bulinado.
- Ah, claro, espertona. E como eu ia saber desse detalhe?
- Ué... Google it! - revidei.
Digitei 'Fanfic Interativa' no site de pesquisas e abri o primeiro link que apareceu na minha frente. Abri qualquer uma que fosse de banda porque aquelas, geralmente, deixavam colocar nome de quem quisesse... até do cachorro, às vezes. Pulei as perguntas dos nomes da garota e fui direto colocar o nome de , depois dei enter para pular o resto das perguntas e mostrei que, dessa vez, ele era o personagem principal mais hétero que o mundo já havia conhecido. Não tinha características femininas nem estava sendo cortejada por um vampiro gostosão.
- Ah, entendi - era como se ele tivesse acabado de descobrir a eletricidade.
puxou o notebook de volta e comçou a fuçar pelo site, até que chegou em uma área que eu já deveria tr imaginado que ele chegaria: a área das fics restritas. Eram coisas que combinavam: céu e mar; unha e esmalte; batata frita e catchup; e sexo. Vi seu sorriso ficar maléfico no meio da cara enquanto ele abria o arquivo e colocava nossos nomes na caixinha das perguntas.
- Essa eu vou ler! - ele disse, com a expressão pervertida pulando nos olhos.
- Tira meu nome daí, seu folgado! - tentei afastá-lo da tela; ele não deixou e começou a ler a história em voz alta - Que droga! Onde começa a parte boa? - foi descendo a barra de rolagem - Epa! Li a expressão 'beijo ardente' por aqui?
Era uma cena bem quente, na verdade, e contiuava lendo e rindo como um devasso.
- Tira o meu nome dessa merda! - tentei tomar o notebook dele, em vão, porque ele levantou da mesa levando o aparelho junto.
Já estávamos na sala e eu ainda tentava chutá-lo e arranhá-lo de todas as maneiras possíveis, já que ele insistia em pronunciar meu nome junto com palavras safadas e atitudes íntimas demais pra uma situação daquela. Parecíamos dois palermas dando voltas pela sala; eu tentando machucá-lo para que parasse, ele fugindo de mim e lendo mais.
- "A garota já conseguia sentir o sangue entrando em ebulição. Cada toque do homem deixando-a acesa, atenta, excitada. Ela enrolou suas pernas por volta da cintura dele enquanto tratava de arrancar a camisa que já a incomodava tanto... Ops, isso vai ficando melhor a cada parágrafo! - ele sorriu pra mim. Idiota!
- Larga essa porra agora!
A surpresa do momento é que me obedeceu. Estava rindo da minha cara, parecia feliz da vida, mas obedeceu. Ele largou o notebook na beira do sofá e parou de sorrir; eu achei que aquele era o fim da situação constrangedora, mas conseguia me deixar ainda mais contra a parede.
- Larguei - ele disse, se aproximando de mim sorrateiramente - Mas eu vou ler depois que você for embora, sabe disso.
- Você é ridículo! - cerrei meus olhos tentando parecer ameaçadora, mas era de medo; ele estava se aproximando mais.
- E você está com a boca suja de milk shake - ele disse.
A frase me pegou de surpresa; a mão dele vindo na direção do meu rosto foi pior ainda, o que me fez paralisar. Com o indicador, limpou o cantinho da minha boca e fez um carinho na minha bochecha logo em seguida. Aquela cena tinha que estar acontecendo comigo?! Justo comigo que sempre achei tão clichê quando acontecia nos filmes. O carinha limpa a garota de alguma coisa que ela se sujou e depois eles se beijam apaixonamente. Eu não queria viver aquele clichê! Não combinava com meu tipo de personalidade, com meu jeito de levar a vida. E por mais que eu quisesse beijar , eu não queria beijar !
Seu rosto estava traçando os últimos centímetros restantes que faltava até estar colado ao meu quando eu falei:
- ...
- Eu - ele sussurrou.
Já sentia sua respiração muito perto de mim e, lutando contra o impulso de fechar os olhos, eu consegui me livrar.
- Eu não vou beijar você!
Instantaneamente, ele abriu os olhos de forma exagerada e desacreditada. Até que dava pra entender seu espanto, já que nós estávamos muitíssimo perto de um beijo. Senti que ele podia me mandar embora a qualquer momento, por isso, tentei mudar o foco do momento para a real razão da minha ida até ali.
Me afastei dele e andei até sentar no sofá, que ficava de frente para a televisão.
- E então, nós vamos assistir esse filme ou não?

Capítulo 21: Your lipstick stain is a work of art

era uma criaturinha birrenta, da pior espécie, do tipo que prefere morrer com o orgulho entalado na garganta ao invés de fazer alguma coisa que ela tinha dito que não faria. Demorou menos de dez segundos para que ela saísse de perto de mim e sentasse no sofá, com o controle na da TV na mão, pronta para dar play no filme. Se eu fosse um animal, teria posto o rabinho entre as pernas, mas eu não era, então resumi meus atos. Deitei no sofá livre e me estiquei para tomar o controle da mão dela, porque pelo menos a televisão seria governada segundo as minhas vontades.
A sorte é que o filme era bom. Eu já tinha assistido umas duas vezes e a história era realmente empolgante, nunca seria perda de tempo repetir. Mas a verdade é que em algum momento do documentário pós-filme eu dormi. Só senti um puxão medonho nos pelos da minha perna e acordei com a dor. Minha mãe me olhava de cima, com curiosidade estampada no rosto, seu polegar apontava para o outro sofá e quando eu olhei, vi dormindo também, mas totalmente torta e desconfortável. O tronco estava deitado e as pernas para fora do sofá, apoiadas no chão.
- A gente dormiu no meio do filme - me sentei, sentindo o corpo reclamar por vontade de continuar deitado. Os olhos doeram também por causa da lâmpada acesa, e isso me fez perceber que já estava de noite. - Chegou agora?
- É. E eu trouxe comida - ela começou a se afastar na direção da cozinha. - Acorda a pra gente jantar.
Assenti.
parecia tão tranquila e à vontade, mesmo que sua posição parecesse bem incômoda. Me aproximei para vê-la melhor e acabei ficando perto demais. Sentei no sofá em que ela estava, acariciei seu rosto e abaixei para sentir o cheiro doce que saía de seu pescoço. Ela se moveu por causa da minha aproximação, então decidi acordá-la de uma vez. Cutuquei-a na barriga e ela se mexeu, incomodada, mas não acordou. Cutuquei de novo, dessa vez um pouco mais forte.
- Sai daqui, caral...
- Shiu! - tapei sua boca com minha mão. - Vai ficar falando palavrão na frente da sogra?
arregalou os olhos e eu vi espanto neles. Ela estava tão assustada que ignorou totalmente a palavra 'sogra'. Se afastou da minha mão e levantou do sofá no mesmo segundo.
- Eu dormi? - perguntou, esbaforida.
- Nós dormimos.
- , querida! - minha mãe apareceu na sala para abraçá-la. - Trouxe comida congelada, mas só porque eu não sabia que você estaria aqui. Juro que isso não é costume aqui em casa, comida congelada pra ser colocada no microondas, essas coisas. Não se preocupe, ok? Na sua próxima visita vai haver comida caseira bem quentinha na mesa - ela sabia ser uma boa tagarela quando queria.
- Ahn... - estava atônita. Acordar e dar de cara com a pré-forca não devia ser tão comum no seu dia. Eu podia sentir sua vontade de falar que não haveria uma próxima visita. estava tão enganada sobre isso! - Não tem problema nenhum.
- , coloque os pratos na mesa, por favor - minha mãe pediu. - , vá lavar as mãos e venha jantar. O banheiro é na primeira porta do lado esquerdo do corredor. E, por favor, não se assuste com a minha empolgação, mas eu amo visitas e estou animada!
encarou minha mãe com espanto, não esperava aquela receptividade, com certeza.
A maioria dos homens odiaria ver a mãe fazendo uma coisa daquelas com sua 'pretendente', mas eu estava adorando. Quanto mais dona Bridget quisesse ser receptiva com , melhor. Que ela criasse laços! Melhor seria pra mim.
foi lavar as mãos e eu ajudei a organizar a mesa. Jantamos como uma família feliz e animada. E eu prometi a mim mesmo naquele momento que faria força, não mediria esforços para fazer com que aquela vez fosse a primeira de muitas.

- Eu já disse a você que não precisa ir me deixar na escola.
- E eu já disse pra você ficar caladinha e entrar no carro - destravei o carro pra gente entrar.
Já estava na hora de assumir que, de uma forma ou de outra, nós tínhamos construído uma relação. Era uma coisa torta, defeituosa, sem limites pré-estabelecidos e sem o altruísmo natural que existe nas relações normais, mas ainda assim, algo bem real no nosso dia-a-dia. Eu não esperava que ela me olhasse de perto pra falar de sentimentos, mas me irritava vê-la recusar minha companhia com tanto afinco depois de passar boa parte da noite sendo agradável e até mesmo complacente.
- Você já foi mais educadinho comigo - ela reclamou, já estando dentro do carro.
- Isso é porque eu não te conhecia direito aí não sabia como podia te tratar - não consegui não rir daquilo. - Esse é o preço da amizade, você sabe disso porque trata a muito pior.
- Eu não a trato mal. Aquela é a nossa forma de amar!
- Ah, claro!
Dei partida e saí da garagem, só que eu ia devagar por não querer que o caminho acabasse tão rápido. Ainda não estava pronto pra me despedir e só vê-la no dia seguinte.
- Quando é que você vai me filmar?
Sua voz soou como um presente dos céus. Ela tinha mesmo acabado de aceitar minha proposta ou aquilo era um sonho? De qualquer forma, busquei manter a voz calma para não assustá-la com toda a minha empolgação.
- Quando você quiser.
- Ahn.. - a impressão que dava é que ela não sabia muito bem como me responder. Devia ser difícil colocar aquilo para fora, depois de negar tantas vezes. - Em que você pensou?
- Pro vídeo?
- É.
- Eu pensei na sala de vidro, qualquer um dos aquários. Como é claro, a iluminação não seria problema, principalmente da forma que eu imaginei. O pôr-do-sol deixaria tudo com o clima mais... hipster, sabe?
- Parece legal - dava pra sentir o receio em sua voz.
- Seria, mas nessa hora do dia os aquários ainda estão lotados.
- Ih, é verdade. Atrapalha, não é?
- O foco foge de você, não fica tão legal. Por outro lado, se fosse na hora em que o sol nasce, nós teríamos uma iluminação tão propícia quanto a outra. E é privacidade total.
- Entendi.
- O que vai dançar? Balé?
- Provavelmente sim.
- É a sua modalidade favorita, não é?
- Deu pra notar? - forjou uma careta surpresa e aquilo me deixou mais confortável, ela não estava mais tão contrária à minha aproximação.
- Bem de leve. Você quase não fala disso - entrei na brincadeira.
Brincamos mais um pouco antes que ela me deixasse ainda mais feliz com o interesse que demonstrou. perguntou quando seria a gravação e, depois de ver a disponibilidade dos dois, marcamos para a próxima segunda.
Daquele momento em diante, ansiedade era o meu nome do meio. Não era nada demais, apenas uma dança e uma câmera. Mas era ela e eu, sozinhos, com o sol nascendo. Eu mal podia me aguentar de vontade.

Eu não almocei na escola no dia seguinte. Já era sexta-feira e eu queria aproveitar qualquer tempo disponível para ajustar tudo o que seria necessário na segunda. Para falar a verdade, nem era tanta coisa assim. Eu só precisava comprar algumas lentes novas e especiais para minhas câmeras, consertar um dos pés do tripé que estava desgastado pelo uso e fazer o planejamento em papel. A ideia era chegar em casa e desenhar mesmo. Colocar numa folha a posição das câmeras, onde eu queria que ela ficasse, onde eu ficaria para não ser captado na imagem. O vídeo era dela, o foco era dela, era a estrela.
Saí da aula com pressa, falei com o pessoal de forma rápida e me despedi de , dizendo que ia organizar as coisas pra segunda. Ela acenou com a cabeça de uma maneira engraçada, meio nervosa, meio defensiva. Mas estava concordando comigo e não parecia que ia desistir, aquilo já me deu calma.
Quando estava no estacionamento, prestes a dar partida no carro para sair, Hannah apareceu na porta do passageiro e a abriu, pronta para entrar. Me assustei, claro, mas deixei as reações de lado para ouvir o que ela tinha a dizer, já que era meio óbvio que ela tinha algo a me perguntar. Seu rosto dizia aquilo.
- Vou fazer uma única pergunta e eu quero uma resposta sincera, okay? - assenti e esperei. - Você e a estão ficando?
- Quê? - não pude reprimir o som agudo que saiu da minha garganta, seguido de uma risada quase escandalosa.
- Eu vi da janela do meu quarto quando vocês chegaram ontem de noite. Vi como ela demorou a descer e como você parecia não querer ir embora, mesmo depois que ela entrou no prédio.
- Ficou me vigiando, loira?
- Esse não é o assunto em questão, !
- Você quer uma resposta? Eu te dou - virei totalmente em sua direção. - Não fiquei com a . Não fiquei com ninguém além de você desde que cheguei nessa escola, se você quer saber - Hannah moldou um sorriso contente no rosto depois da minha frase, mas aquilo me irritou. Se aquela garota estava pensando que tomaria as rédeas da minha vida, estava muito além do limite do engano. - Mas, sabe, eu também tenho uma pergunta pra você, loira.
- Qual pergunta?
- Desde quando você age como minha namorada? - foi quase instantaneamente que sua expressão tranquila deu lugar à vergonha e raiva. - Sim, porque é assim que você está se comportando, como se eu te devesse explicações sobre minhas companhias, sobre quem eu vejo quando não estou com você. Hannah, nós ficamos algumas vezes e só. Não era pra você se apegar a mim!
- , por que você não morre? - seus olhos semicerrados me davam uma boa noção da quantidade de ódio que ela sentia. No segundo posterior, Hannah suspirava forte como se estivesse segurando as forças para não me socar no rosto. - Quem disse que eu me apeguei a você? Larga de ser otário! Eu só perguntei porque vi vocês dois juntinhos demais e fiquei curiosa.
- Então não faz sentido a gente continuar tendo essa conversa. Eu me preciptei em te tratar assim. Me desculpa! - pedi, honestamente, mesmo sabendo que Hannah estava mentindo. E mesmo que ela não estivesse, eu não tinha motivos para pedir perdão, nem ela o daria a mim.
- Desculpas porra nenhuma! - já estava abrindo a porta do carro de novo, dessa vez para se afastar. - Some da minha frente!
- Eu vou - estiquei o corpo para conseguir enxergar seu rosto, já que ela estava fora do carro. - Mas nós estamos bem, certo? - tratei de ignorar seu ataque de raiva e agir como se fôssemos bons companheiros. Se eu desse trela, Hannah montaria em cima de mim como se eu fosse seu mascotinho fiel. E eu não era, definitivamente eu não era.
- Claro, amigo! - notei sua ironia, mas eu não podia me importar menos.
Acenei normalmente e dei partida. Eu tinha coisas mais interessantes para fazer naquela tarde e no fim de semana. era a minha prioridade. Enquanto ela existisse na face da terra, não havia discussão que me fizesse perder o foco. Principalmente quando ela me dava espaço para aproximação, para conversas ou apenas dividir comigo um momento agradável. O foco era , sempre seria.
E era nesse momento que estava por vir que eu concentrei minhas energias pelo resto do tempo.

Nós marcamos cedo, cerca de trinta minutos antes do sol nascer, mas eu cheguei ainda antes disso. Queria que tudo estivesse pronto quado chegasse por dois motivos. Em primeiro lugar, quando ela visse todas as coisas preparadas, veria que eu estava realmente empolgado para filmá-la. E depois, todo e qualquer tempo que eu pudesse poupar, seria lucro, ou seja, se eu organizasse tudo o que precisava antes de sua chegada, teria como conversar e vê-la se arrumando enquanto não dava a hora certa de começar.
Eu estava bem equipado. No total, quatro câmeras foram espalhadas pelo aquário do canto, o único que tinha duas janelas. Eu as abri e dei um jeito de pendurar uma cortina branca na janela onde a claridade apareceria primeiro. A cortina era emprestada da minha mãe, e ela disse que se eu devolvesse rasgada, pagaria dez vezes o seu valor, então todo cuidado era pouco. Todo o equipamento já estava ligado e eu cuidei para que minha imagem não atrapalhasse. Uma câmera foi pendurada no teto, por um adaptador que eu consegui comprar no fim de semana, a outra estava em cima de uma caixa pequena, para filmar apenas a parte de baixo do corpo de , que ia dos joelhos aos pés. Outra câmera estava na porta do aquário, ela estava responsável por filmar de corpo inteiro, assim como o ambiente do aquário. A última estava na altura do seu pescoço e eu a controlaria de perto, seria a única câmera com zoom ajustável, a responsável por captar a emoção da garota enquanto dançava.
Minha empolgação era nítida, talvez nem a ouvisse chegar se não estivesse tão atento. O prédio estava silencioso, nada se mexia, por causa disso, seus passos ecoaram alto na minha cabeça, mesmo que eles fossem bem leves.
- Uau! - ela disse, baixinho, ao entrar no aquário. Eu estava de costas, então me virei em sua direção. Linda! Tão cedo da manhã e ainda assim, linda. Eu, em contraponto, ainda tinha sono estampado nos olhos inchados e bocejava a cada cinco minutos, mas vê-la na minha frente foi como tomar um choque e acordar de uma vez por todas. - Que produção, hein? - ela falava do equipamento, e eu tive necessidade de falar dela.
estava vestida em um vestido branco e leve, que contrastava muito bem com a sua pele bronzeada de garota da Califórnia. Batom extremamente vermelho, assim como suas sapatilhas sem salto, e o cabelo escuro estava solto e ondulado. Se sua imagem não me parecesse tão sensual, eu a compararia a um anjo. Eu não conseguia achar outro termo, entretanto, era desejo puro o que ela transmitia, mas ao mesmo tempo era pureza. Ela sorriu pra mim, talvez envergonhada pela minha encarada indiscreta.
- Digo o mesmo sobre você, que produção! - sorri pra , que por incrível que pareça, não recuou, apenas devolveu meu gesto.
- Eu precisava, né? - ela andou até colocar uma mochila, que ainda nem tinha visto, perto da minha mala de equipamentos. - Como você mesmo disse, isso vai ficar de lembrança pro resto da minha vida. Eu quis ficar bonita.
- Conseguiu - não costumava gostar de quando eu era tão gráfico nos elogios, só que isso era bem difícil de evitar quando ela aparecia perfeita daquele jeito na minha frente. - Gostei da... - apontei seu corpo inteiro, quase sem jeito. - ... de você. Você está linda!
- Obrigada! - suas bochechas coraram, então decidiu trocar de assunto. - E então, me explica como vai ser isso.
Gastei alguns minutos explicando tudo, passo a passo. Aquilo tinha de sair perfeito. confiou em mim para filmar o momento eternizado de sua vida, e eu não podia deixar que o vídeo ficasse um degrau a menos que perfeito. Tinha que ser fantástico porque ela estava fantástica, porque ela era fantástica naturalmente.
Descrevi a posição de todas as câmeras e o que cada uma faria, disse que eu daria instrução a respeito de sua posição na sala quando fosse necessário, mas que, no geral, ela estava livre para fazer o que quisesse. Colocamos a música para tocar enquanto ela se aquecia. Os movimentos do seu corpo já começavam a me deixar ligado, e eu precisava me concentrar bastante no meu equipamento para não atacá-la.
Pouco tempo depois, o céu começou a clarear e nós soubemos que a hora havia chegado. Ela disse que se esforçaria para não errar um movimento sequer, mas eu a tranquilizei, porque já que o céu não ficaria totalmente claro tão rápido, poderíamos regravar mais duas ou três vezes, se necessário.
Então ela começou. Foi difícil manter meus olhos na câmera, mais difícil do que eu imaginei que seria, mas eu precisava fazer aquilo. Prometi que controlaria o zoom e eu controlaria, independente da minha vontade de chegar perto.
A música não era tão alta, porque não precisava e também porque não podíamos correr o risco de acordar alguém tão cedo. Nada podia estragar aquele começo de manhã, ele só pertencia a nós dois. Eu não entendia nada de dança, mas sabia que ela fazia aquilo como ninguém mais no mundo. Sua leveza era sensacional, cada um de seus passos era dado com tanta paixão, tanto amor. Até eu me sentia mais livre só de vê-la se mover. Aumentei o zoom da câmera nas minhas mãos e consegui ver seu pequeno sorriso moldados nos lábios. O peito subia e descia com pressa, ofegante, as mãos oscilavam com o ar, tocando-o da forma que me deixava com vontade.
Em determinado momento, seu corpo deu uma volta de trezentos e sessenta graus, parando de frente pra mim e me olhando nos olhos. Fui obrigado a desviar o olhar da câmera dessa vez, aquele foi um chamado magnético. Fitei seus lábios e os vi se moverem em um sorriso arrasador, meu coração deu um pulo. Se ainda não queria nada comigo, estava demonstrando muito mal, porque a impressão que dava é que ela me chamava com cada um de seus músculos. Todos os movimentos eram como bruxaria, como se ela me quisesse sim, e quisesse muito.
Ela parou quando a música acabou, mas colocou para tocar de novo e nós fomos regravar. Não que ela tivesse errado, mas era bom ter mais de uma do vídeo, para que a edição ficasse mais variada.
Eu me tornava cada vez mais inquieto na medida em que o tempo passava. Não estava sendo saudável vê-la se mexendo daquele jeito e não poder me aproximar. Quando eu sugeri lhe filmar, não imaginei que fosse ser tão torturante.
A coreografia era a mesma, eu ia me lembrando de alguns passos antes mesmo de serem executados. E quando deu aquele mesmo giro e olhou nos meus olhos da mesma forma de antes eu decidi que não importava se ela me odiasse pro resto da vida, eu não podia ficar parado. Não dava para simplesmente ignorar a coceira que minhas mãos emitiam para tocá-la, era inviável não me incomodar com o calor que algumas partes do meu corpo sentiam. Não dava, seria demais pedir para ficar ali, parado, enquanto ela se movia e me olhava daquele jeito. estava me chamando e, naquele momento, não havia força no universo que me impedisse de atender a voz do seu corpo.
Larguei a câmera no tripé e andei na sua direção. Meus passos ainda eram temerosos, eu confesso, mas firmes, ainda assim. Meu corpo formigava, minha mente girava como uma mistura no liquidificador, eu queria tocá-la e estava quase fazendo isso.
Só mais um pouco... mais dois segundos e minhas mãos sentiriam o calor da sua cintura.
O último passo foi dado e eu não tive paciência sequer de esperar que o passo seguinte fosse executado. Minhas mãos suavam para tocá-la e eu não conseguia mais evitar, não dava para adiar. Puxei pela cintura na direção do meu corpo e só tive meio segundo para olhar em seus olhos e ver ali a aprovação que eu esperei por tanto tempo.
Depois disso eu a beijei.
E, céus, como era perfeita! Se antes daquela aproximação eu já sabia que a amava, depois daquilo não haveria volta para mim. Eu estava preso, irrevogavelmente colado e escravo do seu cheiro pro resto da vida. Minha mão livre se encaminhou até a nuca de para deixá-la ainda mais perto. Quando suas mãos se apoiaram em meus ombros e os apertaram com vontade eu entendi que não dava mesmo para parar.
Um grunhido desesperado soou da minha garganta enquanto eu a puxava contra mim. Seu abraço de volta me envolvia naquele clima ensurdecedor, beijá-la era a melhor sensação que eu já havia tido ao longo da vida. Seus dedos se enroscaram em meu cabelo, assim como suas pernas em torno da minha cintura. Apoiei seu corpo e o apertei ainda mais contra o meu. Por baixo do vestido leve, suas pernas macias emanavam quentura para mim, então desviou o beijo da minha boca para o meu pescoço e eu senti um arrepio gigante percorrer minhas costas.
Saber que eu não era o único envolvido, o único com vontades foi merecidamente gratificante.
O sol nascia do lado de fora da janela do aquário, mas o mundo através do vidro não me interessava. era o meu mundo naquele momento e era apenas nele que eu conseguia pensar. Na verdade, eu nem estava pensando muito, meu corpo agia por si só.
Minhas pernas tremeram, eu estava perdendo a segurança nelas, então desci nossos corpos até que estivéssemos sentados no chão, agora com apoio suficiente para continuar nosso assunto. A parte mais interessante era o fato dela não ter fugido. Muito pelo contrário, me beijava de volta, me abraçava com tanta intensidade, ela me engolia com os lábios da mesma forma que eu fazia com ela.
O calor no meu corpo só crescia já que as mãos de passeavam por ele. Eu iniciei uma caminhada com as minhas mãos pelo corpo dela também. Era maravilhoso poder contemplá-la depois de todo aquele tempo, o momento experimental, a descoberta, o fogo da novidade me queimava por dentro de uma forma tentadora. Cada parte do seu corpo sendo perfeitamente certa para caber na palma das minhas mãos.
Suas unhas me tomavam para si, eu sabia que elas deixariam marcas e me alegrava por isso. Se depois de me soltar, não quisesse mais me ver na sua frente, eu ainda teria as marcas de unha no meu corpo por algum tempo. Aquilo não me deixaria desistir de tentar de novo. E eu tentaria pelo resto da minha vida, se fosse necessário.
Mas eu estava apressando as coisas, e ainda por cima, rumando os pensamentos em uma direção pessimista. Ela estava ali comigo, e eu não precisava pensar no que fazer posteriormente. O depois que ficasse para depois.
A posição em que estávamos era favorável, estava sentada no meu colo e com as pernas envolta de mim. Eu só precisei me inclinar um pouco para trás até estar deitado com as costas no chão e tê-la em cima de mim, sentada no lugar exatamente certo e se esticando para alcançar minha boca com a sua.
Minha respiração ofegante se confundia com a dela. Eu assisti com glória quando seus olhos se apertaram devido a invasão das minhas mãos por baixo do seu vestido. Foi o fogo de suas pernas quentes que me deu ainda mais ousadia para continuar com aquilo. Mas eu me baseava em suas reações a cada minuto. No primeiro sinal de arrependimento ou insatisfação que demonstrasse, eu pararia. Nada podia ser forçado entre nós. Depois de tanto tempo agindo errado, eu precisava me redimir. Não dava para simplesmente perder sua confiança de novo. Aquilo seria inaceitável.
enfiou suas mãos por dentro da minha camiseta e suas unhas continuaram o trabalho de me enlouquecer. A cada centímetro de minha barriga que ela percorria, eu grunhia em agonia, como se houvesse um monstro preso dentro de mim, ansioso para ficar livre. E, de certa forma, era isso o que acontecia.
Com pressa, levantei alguns centímetros do chão até conseguir tirar minha camisa e aproveitei o movimento para trocar nossos lugares, deixando-a deitada abaixo de mim. Eram minhas mãos viajando por seu tronco agora, pelo lugar quente e suado devido a dança e também aos nossos apertos. Se aquela não era a garota mais perfeita do mundo, perfeição não existia. me jogava em um mar sem fundo, e eu só conseguia nadar e nadar mais, sem me importar com a superfície e o oxigênio. Eu queria a profundeza de tudo o que ela podia me dar. Eu precisava manter meus olhos abertos para absorver cada uma de suas reações, ouvidos atentos escutando os sons sofridos saindo de sua garganta, o cheiro de desejo que exalava de nós dois.
Me denominei como homem mais feliz do mundo no momento que ela me deixou tirar seu vestido e eu notei que não havia sutiã algum abaixo dele, entendi que estava me dando permissão para conhecê-la em todos os outros níveis que eu ainda não conhecia. Conhecer esses níveis seria um prazer pra mim. Não um prazer momentâneo, uma vaidade por ter mais uma garota, conhecê-la era uma honra. Seria ali, e só pra mim. Aquilo me tornava a mais sortuda criatura andante na face do planeta.
O resto de nossas roupas foi arrancado consequentemente enquanto eu me esforçava para beijar todos os centímetros de pele que conseguia alcançar naquela posição. Eu toquei seu corpo até senti-la pronta para mim, da mesma forma que eu estava pronto para ela. E quando nossos corpos se fundiram inteiramente, eu beijei nos lábios, tentando deixar bem claro que a partir daquele momento, eu era dela pro resto da vida. Inteiramente enfeitiçado pelas ondulações do seu corpo, me deixei levar pelo instinto e aquela foi a melhor atitude que eu poderia ter tomado. Nossa velocidade aumentava gradativamente, nossos sons e suspiros ficando cada vez mais evidentes.
E pelo menos naquele momento, era minha também. Independente do mundo que girava do lado de fora daquele aquário de vidro, foi ali, no pequeno quadrado que nós demos um início oficial a algo que eu simplesmente sabia que duraria pelo resto da minha vida.

Capítulo 22: California gurls, we're unforgettable

Uma das tarefas mais difíceis que eu já precisei executar em toda a minha vida foi levantar daquele chão, foi desgrudar meu tronco de , deixar seu suor se afastar de mim e colocar minha roupa de volta por precisar ir embora. Tivemos a impressão de ter ouvido sons no andar de baixo e já que não queríamos ninguém admirando nossa nudez em pleno aquário público da escola, vestimos nossas roupas com pressa e nos apressamos para sair dali. Não tivemos tempo para uma despedida convencional, mas eu sabia que ele estaria no quarto de e e eu o veria mais tarde, quando todos já estivessem acordados e prontos pras suas aulas.
Tomei um banho bem quente. Cada gota de água que caía sobre mim sendo responsável por um segundo de lembrança. Eu podia tentar mentir pra mim mesma e dizer que minha mente estava confusa e que eu não sabia por que tinha deixado aquilo acontecer, mas seria em vão. Eu sabia bem as minhas razões, me deitei com porque era justamente aquilo o que vinha tendo vontade de fazer há algum tempo. Não podia mais fingir pra mim e pra ele que nossas aproximações não surtiam efeito, que o tempo que passávamos juntos era comum, como se fosse qualquer outra pessoa. Não era. Era ele, , o homem que me possuiu como nenhum outro havia feito, que adorou cada minúscula parte do meu corpo como se fosse preciosa, rara. Seu cuidado comigo me fez sentir tão querida, tão única.
Não era uma aposta. Havia deixado de ser há muito tempo, eu tinha plena certeza disso.
Desliguei o chuveiro quando minha consciência sustentável começou a pesar. Vesti a roupa de ir à aula, mas voltei a me deitar, só que não na minha cama, deitei ao lado de . Abracei minha amiga pela cintura, como costumava fazer, e analisei seu rosto contente. Os dias de estavam tão agradáveis desde o início de seu namoro com que até dormindo ela parecia uma pessoa mais feliz.
- Já se arrumou por quê? - ela abriu os olhos só para me analisar, em seguida voltou a fechá-los, com preguiça.
Não respondi e nem pretendia fazê-lo. Outras palavras queriam sair pelos meus lábios. A necessidade de contar para alguém o que havia acabado de acontecer se fazia presente. E quem melhor para ouvir se não a minha melhor amiga?
- ... - chamei, e ela grunhiu em resposta. - Eu acabei de... - busquei a expressão correta. Como falar pra minha amiga que eu havia acabado de ficar nua com alguém? - ... fazer sexo.
Indo contra as minhas expectativas, não abriu os olhos teatralmente para me interrogar até a morte. Ela se resumiu a tirar o celular de baixo do travesseiro, onde ele havia passado a noite, e então olhar a hora.
- , o dia ainda nem começou direito. Você me conta seus sonhos eróticos depois, tá? - sua voz preguiçosa disse.
- Não foi um sonho erótico - sorri contra o travesseiro. - Estou falando sério.
Minha segurança pareceu convencê-la dessa vez. me fitou com curiosidade e desconfiança, levantou o corpo levemente para perguntar:
- O que houve? Alef decidiu te enxergar do dia pra noite? - sua pergunta me pegou desprevenida. Não imaginei que ela pensaria em Alef, definitivamente.
- Não! - exclamei. - Não tem nada a ver com ele.
- E então? - ela perguntou, mas eu não respondi, em contrapartida, meus olhos fixaram os seus, como se o nome correto pudesse passar por telepatia. E eu acho que passou mesmo. - ?
Suspirei pesadamente e escondi meu rosto contra o travesseiro, sentindo minhas bochechas esquentarem instantaneamente, graças ao ajuntamento de sangue naquele local. Lembrei da cena de novo e aquilo fez um arrepio colossal se apossar da minha espinha.
- Como assim? - ela perguntou, sentando-se na cama e me puxando para fazer o mesmo.
- Ele pediu pra me filmar, dançando - comecei a contar. Eu já havia dito alguma coisa por alto a sobre isso, mas sem detalhes. - Então nós marcamos pra hoje quando o sol nascesse e eu fui lá. Aí eu estava dançando, mas não conseguia parar de encará-lo cheia de vontade. Eu não sei o que estava acontecendo comigo, , eu só precisava que ele viesse até mim e me beijasse, e então ele veio e... - fechei os olhos com a lembrança, tornando a abri-los para continuar o depoimento. - E nós não conseguimos parar no beijo.
- Puta. Que. Pariu! E tudo isso enquanto eu dormia aqui inocentemente? - ela fez espanto. A essa altura da conversa, não restava mais nenhum sinal de sono em seu rosto.
- Eu transando e você dormindo como um anjinho. O quão maléfica eu sou por causa disso? - brinquei e ela gargalhou.
me abraçou e nós caimos deitadas na cama de novo.
- Eu sabia, ! - ela me acusou. - Você ficava toda arredia quando era o assunto ou quando ele aparecia, demorou uma eternidade, mas finalmente caiu nas garras dele.
- Não é bem assim!
- E como é?
- é muito... - mordi os lábios, tentando achar a expressão correta e não tão comprometedora. - ... delicioso - não obtive muito sucesso.
- Tarada! - ela ria de mim e soava engraçado porque sua voz ainda estava rouca, já que ela tinha acabado de acordar.
- Sério, eu sei que dei todos os foras possíveis nele, quis me afastar mais do que era realmente necessário e, no final, tudo não passou de tentativa falha, mas eu não sei o que deu em mim. Eu não sei o que tem acontecido comigo, na verdade. Minha mente não aceita que eu tenha ficado com ele porque eu sei que no fim de tudo eu vou me foder feio, mas, ... o outro lado de mim age como uma menina melosa e encantada. Ele tem sido tão carinhoso comigo nas últimas semanas e ele foi tão gentil comigo agora. E, porra, ele é tão gostoso! Ninguém deveria ser gostoso desse jeito! Não é saudável! - eu estava em um misto de riso com choro.
- Eu só tenho uma dúvida.
- Qual dúvida?
- O que você vai fazer agora? - ela perguntou. - O que eu quero dizer é que mais tarde vocês vão se encontrar, seja no almoço ou pelos corredores. O que você vai falar pra ele?
- Não sei - eu disse, pensando nisso pela primeira vez. - Talvez eu fique calada e espere ele falar alguma coisa.
- Isso não combina muito contigo.
- Dar o primeiro beijo junto com o primeiro sexo também não combina com a minha personalidade, mas foi o que eu acabei de fazer.
- E está louca pra repetir!
- Não vai ser primeiro nada, mas estou sim! - assumi. Não adiantava mais negar. Se eu pudesse e minha coragem fosse suficiente, eu iria atrás de naquele momento mesmo para que nós pudéssemos repetir tudo o que acabara de acontecer. Eu ainda me contorcia por dentro, achando que aceitar em mim não era a melhor escolha que eu podia fazer na vida, mas foi impossível. Estávamos em um ponto que nos obrigava a fazer aquilo, acabara virando uma necessidade. - E vocês, hein? - de repente, me lembrei de perguntar sobre o namoro dela. - Já fez isso com o ?
podia ser muito cabeça à frente de muitas coisas na vida, mas bastava falar de homem em sua frente para vê-la vermelha, principalmente agora, sendo , o homem dela. Minha amiga virou-se de lado, ficando de frente para mim, mas escondeu o rosto embaixo do cobertor.
- É - ela disse, com a voz abafada pelo lençol. - Nós fizemos ontem.
- Sério? - falei, um pouco alto demais. - É por isso que vocês não foram pra Niña? - gargalhei sem motivo. Eu só estava feliz. Tanto eu como tínhamos sexo recente para acalmar nossas mentes ocupadas. Isso era motivo suficiente para ser feliz na vida, pelo menos por algum tempo.
- Sim, foi por isso, mas não foi nada planejado, não. Só foi... acontecendo, sabe?
- E foi bom? - fui indiscreta, mesmo vendo-a a enrubescer. Não significava que ela se sentia invadida, mas que estava gostando do assunto.
- Claro, né? Já reparou no homem que eu chamo de namorado? Ele é um... - ela gesticulava com as mãos, tentando achar o adjetivo certo para falar sobre - ... eu nem sei o que ele é. Mas é uma coisa muito boa! - riu comigo.

O aviso de permanecia intacto na minha mente entupida de pensamentos indevidos. E encarar Hannah de perto havia se tornado mais insuportável de repente. Era algo sobre não ter o que esconder, mas também não sentir coragem para falar. Perto de uma convulsão, era assim que eu me sentia na hora do almoço. Hannah, e eu éramos as únicas na mesa, enquanto os garotos, que saíram mais tarde da aula, pagavam por suas comidas.
Como sempre, Hannah mais falava do que comia. Então eu, que mais comia do que falava, era obrigada a ouvir sua vozinha sempre alegre com tudo e todos. Um bolo de ansiedade se formava no meu estômago enquanto isso. A parte de mim que puxava brigas queria ver como reagiria ao sentar de frente para Hannah e eu, juntas. A parte medrosa queria andar até a praia e esconder a cara na areia fofa a fim de não ver a cena feia que seria se me esnobasse.
E num instante, eu me tornara a espécie que sempre lutei para não ser: a medrosa. Eu estava com medo de ser ignorada, trocada como Hannah havia sido. Medo de ter me enganado ao pensar que o olhar de transmitira sentimento genuíno.
E essa sensação só crescia na medida em que os passos de o faziam se aproximar da mesa. Um de seus braços estava atrás das costas, como se escondesse algo, e havia um riso brincalhão em seus lábios. Eu continuava ansiosa, mas o medo ia se dissipando de mim pouco a pouco, porque algo na postura daquele homem denunciava que a cena não seria ruim pra mim.
Quando chegou à mesa e ainda um pouco antes de sentar, tirou a mão de trás das costas, revelando em sua mão um grande, majestoso e cremoso copo de milk shake.
Não tenho dúvidas de que fiquei com uma expressão ridícula de babaca pedinte, boquiaberta e louca para atacá-lo.
- Não vai almoçar hoje, não? - perguntou a , tendo os olhos no salgado cheio de frango que ela ia comer.
- Não, hoje eu estou afim de comer besteira - comentou, com leveza, dando o primeiro gole na bebida, ainda sem olhar pra mim, fazendo de conta que aquele teatro todo não era uma provocação direta à minha pessoa. - Quer um pouco? - ele ofereceu a .
Quando ela negou, direcionou sua oferta a , a , ofereceu até mesmo a Hannah, mas não olhou na minha direção.
- Você sabe que eu te odeio, não sabe? - não aguentei. Minha intenção era ficar calada mesmo e esperar que ele falasse algo sobre o que havíamos feito pela manhã, mas vê-lo me provocando daquela maneira fez meus hormônios gulosos por chocolate se agitarem. - Não, você não sabe. Eu te odeio tanto que eu podia enfiar um lápis no seu olho esquerdo.
- Tudo isso porque eu não te ofereci milk shake? - nunca vi sendo tão cínico como estava naquele momento. É aquela história que os mais velhos costumam falar: sexo mostra a real face das pessoas. - Não ofereci por respeito, eu sei que você só toma milk shake uma vez por mês por causa da dança e tudo mais. Não quero que você ganhe peso, não quero que seus professores peguem no seu pé.
- HAHAHA, faça graça na minha frente, ! - cruzei os braços na sua direção para revidar. - Você aparece com milk shake na minha frente e está me respeitando? - tenho a plena consciência de que todos estavam nos olhando, provavelmente até mesmo se perguntando desde quando e eu éramos tão amiguinhos, mas eu não ligava a mínima.
- Tudo bem, eu ofereço - disse, se fazendo de menino bom. - Quer milk shake, ? - ele ofereceu o copo na minha direção.
Quando eu finalmente abri um sorriso para aceitar e direcionei minhas mãos na direção do copo, recuou, dizendo que ia beber só mais um pouquinho e em seguida deixaria eu beber à vontade. Então ele colocou a boca no canudo e sugou. Certo, eu esperei. Achei que não passaria de cinco goles, era o que eu estava dizendo à minha própria mente gulosa. Quando passou de cinco, eu me convenci de que não passaria de dez. Mas passou, então eu me desesperei porque estava óbvio que estava tomando o milk shake inteiro só para me ver implorando.
Seria mais aconselhável se ele se lembrasse da minha falta de delicadeza em alguns momentos.
- Porra, vai beber tudo? - gritei. - Me dá isso! - sorria e sugava o leite ao mesmo tempo, e minha raiva crescendo. - Larga!
Consegui arrancar o copo da mão dele e levantei da mesa instantaneamente, já com o canudo nos lábios e o milk shake escorrendo deliciosamente pela minha garganta, não queria correr o risco dele levantar e tomar de mim de novo. Então me afastei da mesa até ter certeza de que ele não viria.
Só tive essa certeza quando sentou onde eu estava anteriormente e começou a comer da minha comida e beber do meu suco, como se aquela houvesse sido sua intenção desde o início. O restante do grupo na mesa me olhava como se eu fosse maluca, Hannah estava séria como se tivesse acabado de presenciar um assassinato. Provavelmente querendo arrancar meu útero. Problema dela! Havia milk shake na minha mão. Eu não ligava mais pra ninguém.

Eu estava quase na porta do banheiro quando ele chegou segurando meu braço. Falou um "Hey!" na sua forma mais descontraída e alisou meu pulso. Uma corrente de arrepios se espalhou a partir dali para o resto do corpo, e ele percebeu. sempre reparava nas reações que meu corpo dava às suas ações. Ele me disse que não poderia passar a tarde na escola porque tinha uma coisa importante pra fazer. Sem querer parecer indiscreta e controladora, eu perguntei o que era, mas ele titubeou e disse que era algo da escola, algum trabalho pra entregar na aula, qualquer coisa desse tipo que eu nem sequer fiz força para acreditar.
Ele beijou minha bochecha e se despediu, andando com pressa até desaparecer na escada.
Tomei meu banho controlando os instintos. Eu queria gritar de raiva, chamar a mim mesma de burra por ter acreditado nele e ter lhe dado espaço para se aproximar. Na minha cabeça, aquela desculpa esfarrapada era o início do seu afastamento, o princípio de muitas outras conversas fiadas.
No dia seguinte, quando ele não apareceu pra aula, minhas teorias pioraram triplamente. O almoço foi animado como sempre, mas eu não estava no clima de conversinhas. fez qualquer piada sobre ter aparecido antes das aulas cheio de marcas de batom vermelho no dia anterior. e eu éramos as únicas informadas sobre o assunto, então ficamos quietas, mas os outros conspiravam a respeito, querendo saber de onde haviam surgido as marcas. até chegou a perguntar a Hannah se ela tinha um batom vermelho, e quando ela respondeu secamente que não, o assunto morreu na mesa.
Depois disso eu me tranquei no quarto. foi trabalhar bem cedo então eu tive privacidade para me martirizar sozinha. Deitei com o fone de ouvido e me isolei de qualquer outro som do mundo. Mas meu celular estava no modo vibração bem no meu bolso e não me deixou ficar tanto tempo isolada.
Gelei ao ver o nome dele na tela. . A razão de não ter dormido direito durante a noite e não ter prestado atenção na aula. Atendi, torcendo para que aquela ligação viesse me trazer alguma novidade boa.
- Oi - sua voz soou bonita, do jeito que acontecia sempre que ele estava sorrindo.
- Oi - respondi, tentando não parecer tão empolgada.
- Será que você pode vir aqui em casa?
- Pra quê? Por que você faltou aula hoje?
- Eu estava ocupado, te disse ontem - respondeu, de forma rápida. - E então, você pode vir? Eu preciso te mostrar uma coisa.
Eu quis dizer não, quis ser negativa, falar que não ia a lugar algum. Eu quis ser forte e ficar deitadinha na minha cama, ao lado de Chloe. Aquilo deveria bastar, deveria ser suficiente, mas não... Eu não neguei. Além do mais, saber que tinha algo que ele queria me mostrar fez minha curiosidade crescer terrivelmente. Eu precisava ir lá.
- Chego em uma hora.
Foi o que eu disse antes de desligar e correr para vestir uma roupa. Deixei comida no prato para Chloe, tranquei o quarto e corri para o ponto de ônibus como se minha vida dependesse daquilo. Ele nunca poderia saber o quanto eu estava desesperada para vê-lo, mas eu precisava ir rápido porque passar mais um minuto longe de estava fazendo meus olhos arderem. Mesmo sabendo que ele me ignorou por quase vinte e quatro horas, que me deu uma desculpa esfarrapada para me dispensar, que ele poderia estar se vingando de mim por tê-lo feito correr atrás. Talvez quisesse mostrar que era dele agora o controle e a decisão, e por esse motivo, eu me sentia mal de ter aceitado seu convite tão rapidamente. Só que era difícil negar quando ele me convidava daquele jeito, esperançoso. Além do mais, meu coração não me deixava crer que era tudo mentira. A forma com que me segurou nos braços... aquilo não era só carnal.
Justifiquei mentalmente cada um dos meus passos até chegar lá, até tocar a campainha e vê-lo abrir a porta pra mim com um sorriso maior que a boca. Seus olhos estavam muito vermelhos e pequenos, como se ele tivesse passado a noite em claro. Eu não tive muito tempo para reparar, entretanto. me disse para entrar e assim que fechamos a porta, ele me encostou nela, vindo encostar-se a mim no momento seguinte. Então tanto fazia qual era a coloração dos seus olhos porque eles se fecharam para me beijar.
E como aquilo foi bom!
Que conforto ficar entre os braços de , sentindo o aperto das suas mãos nas minhas costas, ouvindo sua respiração acelerada e os suspiros felizes por me ter perto.
Apertei seu pescoço entre meus dedos e aprofundei nosso beijo, torcendo para que aquilo fosse suficiente, ao ponto de compensar cada minuto que eu passei pensando que ele não ia mais me querer.
Nos soltamos um pouco depois, e com nossos olhos fixos, eu notei toda e qualquer palavra sumir da minha boca.
- Oi - eu disse, na falta de algo melhor.
- Oi - sorriu.
- Você faltou aula.
- Eu precisava resolveu um assunto.
- Hum. Resolveu?
limitou-se a acenar positivamente com a cabeça. Era nítido o quanto queria parar de conversar para me beijar de novo, seu rosto de aproximava do meu ao final de cada palavra. Eu, claro, queria beijá-lo também, mas grande parte de mim também tinha ido ali pela curiosidade, para saber o que ele tinha para me mostrar.
- Do que você estava falando no telefone? Alguma coisa pra eu ver e tal - não era muito fácil raciocinar e colocar as palavras na ordem certa enquanto alisava a pele da minha cintura e me encarava tão de perto.
- Ah, claro. Vem aqui no meu quarto - ele se afastou um pouco e estendeu a mão para eu segurar.
- Posso tomar água primeiro?
- Claro, vai lá. Te espero no quarto.
Ele saiu e eu fui na direção da geladeira para saciar minha sede. Corri feito uma louca para chegar ali rápido, precisava me recuperar antes que ele notasse o quão esbaforida eu estava e notasse que era tudo por causa do desespero para vê-lo.
À primeira vista, seu quarto parecia bagunçado e entupido de informações. Olhando melhor, eu percebi que mesmo que houvesse um pouco de bagunça, as informações não estavam em exagero porque elas se completavam. Muitos livros, muitos CD's, muitos filmes, vários cartazes espalhados pelas paredes. Havia sensualidade também, mas não era Playboy, era Interlúdio, um filme que todo mundo criticava, mas eu achava digno de aplausos.
estava sentado de frente a uma mesa legal de madeira amarela. Ele me chamou para perto e se levantou, deixando eu sentar na cadeira giratória. Então eu sentei e girei. Convenhamos, na minha opinião, cadeiras giratórias eram feitas para girar o tempo todo. E não, eu não tinha TOC ou nenhum outro transtorno do tipo, só vontade de girar uma coisa que tinha rodinhas.
Depois de rir da minha lerdeza, ele me fez parar de frente para a tela do notebook.
- Você vai contar de um a três e depois vai dar play.
- Por que não posso dar play sem contar?
- Porque assim não tem emoção.
- Eu não quero emoção, só quero saber o que estou prestes a assistir.
- Se você não estivesse contestando, já estaria quase na metade do vídeo a essa altura do campeonato.
E ele estava extremamente certo. Mas para não me dar por vencida, fiz uma careta e voltei a olhar a tela. Contei de um a três com a pressa de uma grávida prestes a parir e dei play.
Uma música começou a soar na tela ainda escura. O visor mostrava que o vídeo tinha um minuto e meio, mas já estava no terceiro segundo e tudo o que eu via era um par de pés com sapatilhas vermelhas dançando. Foi só aí que eu percebi, depois de amaldiçoar minha lentidão momentânea, que aqueles pés eram meus. Era a minha sapatilha vermelha pulando de um lado para o outro. A outra cena mostrou meu corpo inteiro e meu vestido balançando enquanto a pouca luz do sol tocava minha pele e fazia um tom bonito comandar o ambiente.
A música era desconhecida, mas eu não prestava muita atenção nela. Eu havia esquecido daquilo! O tempo inteiro aquela havia sido a intenção: gravar um vídeo meu dançando. Mas as coisas saíram do controle, e eu nos envolvemos de uma forma não planejada e eu acabei deixando aquilo fugir da minha memória. Ele tinha gravado mesmo! E estava tudo tão bem editadinho, tão perfeito, a música soando tão perfeitamente aos meus ouvidos enquanto eu dançava na tela.
Ora eram meus pés preenchendo a tela, ora o corpo inteiro. Por vezes ele filmava diretamente o meu rosto e meus olhos fechados, mostrando o quanto eu amava aquilo que estava fazendo.
Meus movimentos ficavam mais vorazes, e com os passos ainda frescos na cabeça, me peguei repetindo tudo mentalmente. Na metade do vídeo, a câmera que focava em meu rosto tremeu um pouco. Pensei que fosse um erro, mas logo depois eu entendi o que realmente havia acontecido: ela fora largada. Me sobressaltei ao ver andando na minha direção na tela, e o esclarecimento dos fatos fez meus olhos ficarem ainda mais atentos, tendo já em mente o que sucederia nos quarenta segundos restantes: ele e eu em nosso momento mais íntimo.
Então aquele era o motivo do seu sumiço no dia anterior e a razão para ter faltado aula, a razão dos olhos vermelhos. não dormiu mesmo, ficou editando o vídeo para mostrar a mim.
O da tela me segurou pela cintura e me beijou sem pedir permissão. Como se precisasse! Àquela altura do campeonato, se ele não viesse até mim, eu iria até ele, mesmo que para isso eu precisasse engolir o orgulho, as recusas, as promessas sobre não deixá-lo se aproximar. Porém ele foi lá, me beijou, me segurou com força, arrancou minhas roupas e me tomou para si com a intensidade que eu simplesmente sabia que não encontraria em nenhum outro lugar no mundo.
Deitados no chão, nossos rostos se tocavam e se entregavam na velocidade em que os lábios pediam. Quando aconteceu, tudo o que eu podia saber era o que eu estava sentindo, e a certeza de que eu estava gostando e que eu ia querer mais. Assistindo aquilo, eu conseguia ver a expressão dele, o prazer dele e a certeza de que ele não me esnobaria ou ignoraria nunca mais, não depois daquilo.
- ... isso é... - me prendi ao final do vídeo, no segundos finais em que nós dois sumimos da tela e minhas sapatilhas, jogadas e abandonadas em um canto, viraram quadro perfeito para fechar aquele momento. E então o vídeo acabou, ao final dos noventa segundos. - Isso é incrível!
- Gostou mesmo?
- É claro que sim! Coloca de novo - não esperei, coloquei play antes que ele pudesse se mover e nós assistimos de novo, mais umas duas vezes, até que eu estivesse plenamente satisfeita e pudesse voltar a conversar como uma pessoa normal. - Como você....? Eu nem sequer lembrava das câmeras!
- É claro, , nós estávamos bem ocupados com outra coisa pra lembrar de uma besteira como câmeras ligadas - havia muita brincadeira em seu tom de voz, mas aquilo era, sim, a mais pura verdade. - Só me lembrei de tudo depois que você saiu do aquário e eu fiquei recolhendo o material. Quando eu fui desmontar tudo, vi que estava gravando até então. E se eu tinha ido ali pra te dar um vídeo, eu te daria o vídeo. E aí está - apontou a tela do notebook. - Não é bem como nós estávamos imaginando, mas está aí.
- É lindo! - minha voz soou mais meiga do que eu imaginava que sairia. Agora eu estava parecendo uma deslumbrada. Ótimo!
Levantei da cadeira e fiquei de frente para , lhe olhando nos olhos e vendo ele repetir meu ato. Eu ainda estava com vergonha, com medo de ser deixada, com a consciência pesada por diversos motivos, mas aquele par de olhos me acalmou de uma forma inexplicável. Eu senti toda a sua alegria transpassando as íris e voando até mim. Eu podia descansar porque, pelo menos naquele momento, era certeza que me queria.
E eu não conseguia me lembrar do momento exato em que me tornei tão dependente da sua aprovação, mas ali estava eu, entregue.
Porém algo muito importante invadiu meu pensamento naquele minuto.
- Certo, okay, o vídeo é lindo, mas você sabe que se alguém tomar conhecimento dele, eu vou ficar levemente irada, não sabe?
- Você acha que eu sou algum louco exibicionista ou o quê? - ele tinha que se defender, claro, mas aquela exigência era muitíssimo bem colocada. - É o nosso segredo.
- Ótimo!
- Isso significa que você deve guardar também.
- Claro!
- Inclusive da .
- Inclusive da ... - titubeei um pouco, eu confesso, mas eu sabia que aquilo era necessário. Principalmente porque minha amiga era íntima da loira que eu não queria mencionar naquele momento. - ... principalmente da .
- Combinados então! - me beijou nos lábios de novo, e da mesma forma de antes, eu me deixei levar por aquelas sensações tão novas e tão gostosas. - Eu tenho um presente pra você.
Meus olhos demoraram um pouco a abrir de novo, mas ainda consegui ver quando ele se afastou para buscar uma caixinha na mesa do notebook. Sem fazer mistério, abriu a caixa e tirou uma corrente com um pingente grande em formato de coração. Na mesma hora, me lembrei do exuberante coração do oceano que Rose ganhou em Titanic, mas o que tinha pra mim não era nada extravagante. Era azul, era bonito, mas abria e comportava um pequeno pen drive.
- O vídeo está gravado aqui e apenas aqui. Está no meu computador também, mas eu vou apagar assim que você decidir que assistiu uma quantidade suficiente de vezes - lhe mostrei a língua em um ato de pirraça, mas estendi a mão para pegar o colar. Meu tique nervoso me fez abrir e fechar o coração diversas vezes até eu decidir que já estava passando no nível suportável de loucura e o coloquei no pescoço. Não combinava com todas as roupas, mas se eu o colocasse por dentro da blusa, me deixaria sexy e misteriosa. Adorei!
- Obrigada! - andei até o espelho e sorri encarando o meu reflexo.
se aproximou pelas minhas costas e sorriu também.
- Não há de quê.
Encarei seu rosto pelo reflexo. Ele era um homem tão bonito! Todos os hormônios do meu corpo estavam agitados, era como se meu sangue não se contentasse mais em correr na velocidade normal, ele precisava ir mais rápido. E corria diretamente para o meu rosto, na região das minhas bochechas, onde veria a vermelhidão e interpretaria tudo da forma perfeitamente certa: era tudo por sua causa.
Fechei os olhos quando senti suas mãos tocando minha cintura e me puxando de encontro ao seu tronco. Minha respiração cada vez mais profunda tornou-se irregular, e beijou meu pescoço levemente, me fazendo desejar mais, pedir por mais com suspiros sofridos.
Entrelacei seus dedos nos meus e deixei que ele aprofundasse os carinhos. Daquela vez não havia câmeras, não havia correria ou medo de ser pegos no flagra. Era tranquilo permanecer ali e eu decidi que queria repetir a dose.
Eu queria mais de assim como ele queria mais de mim.
Me virei até ficar na sua frente e tomei a iniciativa: lhe beijei nos lábios. Seu abraço não poderia ser comparado a nada menor que o paraíso. E se ele quisesse me levar mais longe, que levasse. Eu estava disposta a ir em qualquer lugar desde que estivesse comigo.

Capítulo 23: And I'm not afraid, I feel the love

Tem dias em que você acorda e simplesmente sabe que ele vai ser perfeito. É algo na forma com que os semáforos estão sempre verdes pra seu carro passar ou como há diversas vagas disponíveis no estacionamento. Até mesmo na forma com que seu local favorito na sala de aula está vago, mesmo que você não tenha sido o primeiro a chegar. Talvez eu só estivesse feliz além da conta por ter tido horas de felicidade pelado com na tarde anterior, ou talvez o dia estivesse bom para todos mesmo.
Ou nem todos talvez.
Hannah passou como um foguete por mim na hora do almoço. Sem cumprimentos e sorrisinhos, como ela costumava fazer. Apenas foi para a fila do almoço, montou seu prato e sentou à nossa mesa, sem me direcionar outra coisa além de olhares cerrados e enraivecidos.
- , o caso é seríssimo - disse, chegando à mesa e sentando entre e eu. - Todo mundo já está se preparando pro desafio, menos nós duas.
- Eu não estou fazendo nada também - respondi. Na verdade, eu nem andava pensando nesse desafio. A frase de só me fez ver o quão irresponsável eu estava sendo, e que se eu quisesse ter alguma chance, era melhor agir logo.
- Ah, mas se você não vai ganhar também não precisa se esforçar tanto - ela respondeu, em sua pose de superioridade.
Tenho certeza de que minha careta deve ter sido muito engraçada em resposta à sua crítica porque todos na mesa sorriram de mim. Mas eu continuava sem entender nada.
- Relaxa. está achando que é a dona do mundo. Ela vai ver como é bom querer aparecer depois que me vir ganhando o desafio - apostou com ela.
- Veremos, querido! - ela retrucou.
- E o que você vai apresentar, ? - perguntei.
- e eu vamos apresentar uma música.
- Chloe?
- Não, claro que não.
- Mas por quê? A música é linda! - fez um bico e olhou com a testa franzida.
- Porque essa o pessoal já conhece, amor. Assim é muito fácil eles ganharem mesmo.
- É, você tem razão. Façam uma música linda e eu tenho certeza de que o segundo lugar está garantido - ficou interrogativo. - Porque o primeiro é meu, claro! - levantou rapidamente da cadeira para encostar na mão de , em um cumprimento malandro.
- Who run the world? - cantou. E, infelizmente, eu precisava concordar com quando ele afirmava: a menina era desafinada.
- Girls! - retrucou, tão desafinada quanto a outra.
- Who run the world?
- Girls!

- Seu cabelo cresceu - alisei seu cabelo da cabeça às pontas e continuei pelas costas até chegar ao quadril, depois fiz o caminho inverso.
- Vou cortar de novo.
- Você não gosta de cabelo grande, né?
- Ah, eu acho legal, mas o curto já virou minha marca. Sabe como é? - balancei a cabeça, negando. - Imagina se você fosse ruivo ou... sei lá, careca. Não é seu estilo.
- Não mesmo!
- Cabelo comprido deixou de ser minha marca há muito tempo. Sem falar que dá muito mais trabalho pra lavar, pentear, cuidados em geral; você gasta mais, se estressa mais. É um conjunto bem extenso de probleminhas causados por dez centímetros ou quinze. Pra mim, não vale a pena.
Nosso rol de assustos variava bastante. Eu descobri que, entre e eu, a conversa nunca acabava porque nós tivemos estilos de vida muito diferente. Então as coisas que eu vivi de um jeito, ela viveu de outro, e nós tínhamos bastante para compartilhar.
Continuamos conversando tranquilamente até ouvirmos a campainha soando.
Deixei na cama, xeretando em meu notebook e levantei para ir atender a porta. Como não estávamos esperando nada nem ninguém, minha indisposição era notável.
Foi naquele momento que eu pude perceber que são nos momentos mais calmos da nossa vida que os problemas começam a aparecer. É como em um tsunami: o mar fica sem ondas, tudo é silencioso até que um monte começa a se formar na linha do horizonte e, de repente, tudo está destruído.
Antes de abrir aquela porta eu não tinha ideia disso, comecei a ter depois.
- Pai?
Ainda não havia reparado em sua pequena mala de viagem até vê-lo segurá-la para entrar no apartamento. Sem pedir licença, sem desejar uma mísera boa tarde.
- O que você veio fazer aqui?
- Está na hora de ter minha esposa em casa de novo - suspirou.
- E você se importa agora? - mesmo a contragosto, deixei espaço para que ele entrasse e andasse pela sala. Seu braço firme e empaletozado despositou a mala no sofá e ele varreu os olhos pelo ambiente, analisando os detalhes. - Como você nos achou aqui?
- Que pergunta ridícula, meu filho. Já sei desse lugar há muito tempo.
- Como você sabe? Rastreou meu carro, meu telefone? Subornou alguém?
Sua expressão era tão óbvia, ele queria rir de mim. Talvez pelo meu exagero, minha curiosidade exacerbada.
- Caso ainda não seja óbvio pra você, Bridget me disse. Sua mãe. Minha esposa. Satisfeito?
Com certeza aquilo ia acontecer. Minha mãe sempre foi a esposa perfeita e correta. Provavelmente, estar longe de casa e ainda mais sem o conhecimento do marido soaria para ela como um dos piores pecados da humanidade. Não sei por que me espantei, não era assim tão inacreditável, mas a possibilidade me enojou.
- Pai, eu tenho certeza de que ela só te falou por motivo de segurança, ou sei lá, eu não sei ao certo o que foi, mas o fato é que nós não queremos você aqui - cruzei meus braços por causa do desconforto. Eu não fazia ideia de onde deveria andar, ou como poderia falar. A presença do meu pai sempre foi ameaçadora pra mim, desde que os problemas começaram, mas após minha saída de casa, eu senti como se os únicos laços ainda restantes tivessem se rompido. Nunca eu havia me sentido tão órfão antes.
- Também não queria estar aqui, pode apostar.
- E então?
- E então o quê, ? Ela é minha esposa, tem que estar em casa comigo. Você deveria estar em casa também, mas em relação a isso eu prefiro não gastar minhas energias. Faça o que quiser da sua vida, contanto que não envolva Bridget nas suas rebeldias.
- Rebeldia, pai? Tem certeza que é disso que nós estamos falando?
A onda grande continuava se aproximando. O silêncio ia se desfazendo aos poucos e o vento, que antes estava parado, começava a assustar os objetos de perto. A metáfora do vento coube perfeitamente no exato segundo em que apareceu na sala para ver com quem eu estava falando. Seu olhar curioso e a minha resposta fez meu pai olhar para ela também. Provavelmente ela reconheceu o rosto que foi tão exibido nos noticiários de meses atrás.
- Desculpa, eu não queria atrapalhar - sua voz não saiu firme como costumava ser. - , eu vou pra escola. Nos falamos amanhã, ok?
- Não, não, espera um pouco - tentei respirar fundo para deixar que meu cérebro fosse oxigenado de maneira que meus pensamentos continuassem fluindo tranquilamente. - Eu te levo lá.
- Não, né? - seus olhos se arregalaram. - É óbvio que não precisa. Eu vou sozinha e a gente se fala amanhã.
- Você pode ir levar a garota em casa, . Não vou sair daqui até resolver tudo o que preciso - ele andou até e lhe estendeu a mão para se apresentar. - George .
- - respondeu o cumprimento.
- É um prazer conhecê-la, .
Em vez de dizer que o prazer era todo dela, como era de se esperar, sorriu, um riso pequeno e sem muita vontade. O prazer não era dela. não estava feliz por conhecer George . Talvez, se fosse em outra situação, ela pudesse sentir algo além de incômodo, mas não naquele momento. Eu sabia o que ela pensava sobre ele. Suas palavras nunca foram muito claras e, embora ela sempre tivesse tentado me acalmar, dava pra perceber que sua opinião a respeito do meu pai era igual a minha.
- Eu te levo, .
Ela estava pronta para negar de novo, mas deve ter visto na minha cara que eu não a deixaria ir pra casa sozinha.
- Só preciso pegar minha bolsa no quarto.
Assenti ao vê-la se afastar. Meu pai acomodou-se no sofá, como se realmente não tivesse intenção nenhuma de sair dali.

Eu sabia que ela olhava pra mim enquanto eu lutava contra a chave e a fechadura do carro. Eu não conseguia abrir o Jeep e a chave parecia querer dificultar o processo mesmo, além disso, o peso do olhar de sobre mim me deixava mais oprimido. Eu não queria que ela conhecesse aquele meu lado, aquela parte da família. Tudo estava saindo dos eixos e a porra do carro não abria de forma alguma.
- Droga! - chutei a lataria, machuquei o pé e xinguei de novo. Não era meu melhor momento.
- Hey - ela se aproximou de mim e eu nem percebi direito, mas quando vi, já tinha meu rosto no meio de suas duas mãos. - Tenta se acalmar - ela me olhava direto nos olhos e eu me senti nu. Não era a nudez convencional, onde você fica sem roupa e a outra pessoa te vê. Aquela era uma nudez de espírito, e estava me despindo mais a cada segundo. - Você não quer piorar as coisas com estresse. Você quer ficar pacífico e conversar como um adulto, ver quais são as possibilidades e negociar.
- , ele está dentro da minha casa. Daqui a pouco a minha mãe chega e ele vai falar alguma coisa pra convencê-la e depois ela vai estar em Chicago com ele de novo, na mesma vida humilhante de antes.
- Certo, eu te entendo, mas pra colocar isso na cabeça dela você precisa ficar calmo. Esse estresse não vai te levar a lugar nenhum - ela acariciou minhas têmporas com os polegares e eu fechei os olhos, tentando achar a calma de que ela falava. - Eu sei que é difícil. Não estou falando que isso não é um assunto sério, mas... sei lá, só... tenta não perder a linha. Pela Bridget, por Louise.
- Você viu o cara, . Ele é político, carisma é o seu objeto de trabalho, ele consegue convencer qualquer um. Ele vai levar minha mãe embora daqui.
- Não vai, não - me abraçou. E eu posso garantir que nunca em toda minha vida eu senti meu corpo arrepiar como ali, envolto nos braços miúdos dela. - Ela vai ficar aqui, eu sei que você pode convencê-la. Confio em você.
Ela sorriu pra mim e eu me vi repetindo o ato involuntariamente.
Dias atrás, eu reconheci pra mim mesmo que a amava. E era aquilo. Eu amava . Tinha certeza, tinha provas, tinha tudo o que precisava para saber que realmente a amava. Imaginava então que, depois daquilo, eu deixaria de parecer um adolescente quando ela fizesse algo agradável, mas, aparentemente, eu estava condenado a sorrir feito uma criança apaixonada pelo resto da vida.
- Eu te amo, garota!
Vi seus olhos crescerem e ouvi sua respiração falhar. Pega de surpresa.
- Você me ama?
- É - eu dei de ombros. - E tem como não amar? - tentei colar todo o meu carinho na sua testa com um beijo. - Olha esse sorriso - Nunca seria suficiente. Por ela, eu sempre faria mais. Beijei seus lábios que sorriam carinhosos pra mim. - Sente esse cheiro - enfiei meu rosto em seu pescoço e me permiti sentir sua essência, seu sangue correndo nas veias. - Eu amo você e não é pouco, não.
- Minha nossa! - não sei se era espanto ou só alegria em seu rosto. - Você está muito na minha!
- Totalmente na sua - assumi. Era verdade. Eu estava inteiramente na dela.
Ainda estava preocupado com o problema entre meus pais, mas eu me permiti aproveitar um pouco daquele conforto. estava me oferecendo seu colo e sua calma, eu não poderia fazer outra coisa além de aceitar. Girei nossos corpos e a encostei no carro, ficando próximo ao seu corpo logo em seguida.
- Então nós estamos na mesma, porque eu estou na sua também.
- E também me ama?
Pareci carente. Pareci. Mas eu queria ouvir aquilo saindo de sua boca também. Imaginei que, depois de tanto tempo, eu merecia um demonstração, mesmo que simples, do que ela sentia por mim.
- E tem como não amar? - me imitou e eu só consegui sentir o sangue correndo ainda mais rápido que antes. - Olha esse queixo - mordeu meu queixo. - E essas bochechas - mordeu o lado esquerdo do meu rosto.
Beijei seus lábios e lhe abracei forte. conseguiu me agradar, me transmitir calma. Eu não sabia o que seria da minha família dali em diante, mas podia ter certeza de que, se dependesse dela, eu teria sucesso.

Uma rebelião acontecia dentro da minha cabeça, havia dois lados disputando. O primeiro me mandava dirigir rápido para não deixar minha mãe sozinha com meu pai por muito tempo, o outro sentia uma preguiça doente e a falta mortal de vontade de olhar na cara dele de novo. Sendo assim, dirigi em uma velocidade considerada normal e deixei que o tempo certo fosse decidido sozinho.
Quando acabei de estacionar e entrei no hall do térreo, andei rápido para conseguir fazer com que a porta do elevador não fechasse. Minha mãe estava lá dentro e a parte de mim que queria protegê-la seguiu tranquila. Pelo menos subiríamos juntos.
Consegui explicar rapidamente o que estava acontecendo. Sua expressão surpresa e derretida ao saber que George estava lá fez meu coração quase saltar pela boca. Minha mãe o amava tanto! Pelos céus, era incrível a quantidade de sentimentos que ela conseguia manter pelo homem que queria matar sua filha. E quando nós abrimos a porta e meu pai levantou do sofá para abraçá-la, ela foi ao seu encontro com tanta sede, tanto afinco. Meu pai podia ser podre como fosse, mas era muito amado e eu queria que, algum dia, alguém me amasse como minha mãe o amava.
- George! - ela suspirou, abraçando-o com força.
- Vim te buscar, Bridget.
Separaram-se um pouco e eu observei enquanto seus olhos conversavam entre si. Um casal bonito, eu confesso. Embora fosse triste, cheio de segredos e mágoas, eram bonitos juntos, ainda aparentando tão jovens.
- Quando você chegou?
- Agora a pouco. Precisei resolver algumas pendências em Oklahoma, e já que estava em viagem, decidi vir até aqui.
- Oklahoma não é aqui do lado, George.
- Chicago também não é. E por causa disso, até hoje eu me pergunto por que você atravessou o país pra ficar longe de mim.
- Eu precisava do meu filho.
- Claro.
- , saia da porta.
Eu ainda não tinha dado um passo para dentro de casa e nem sequer percebi isso. Quando minha mãe advertiu, eu tranquei tudo por dentro e fui direto para a cozinha porque precisava de uns três ou quatro copos de água para me acalmar. Aquela conversa estava amena demais. Eu não queria acreditar que meu pai conseguiria convencer minha mãe a voltar tão facilmente.
- Bridget, não faz sentido algum você viver nesse lugar. Olhe ao seu redor, isso aqui não serve pro seu tipo de pessoa. Você tem que voltar pra sua casa, pras suas amigas, seus afazeres.
- Ela tem novos afazeres aqui, pai - falei, voltando à sala. - É voluntária numa creche, frequenta a igreja, tem novos amigos e, mais importante, não tem nenhum sanguessuga pra arrancar suas energias.
- , por favor... - ela pediu.
- Não se envolva no que não é seu assunto, - ele disse, imponente.
- É claro que é meu assunto, pai. Mãe... olha só, presta atenção, vê se não vai cair em qualquer coisa que ele diz. Não dá pra confiar nesse homem e você sabe muito bem os motivos.
- E por que não se pode confiar em mim, ?
- Quer que eu enumere? Bom, tirando o fato de que você sempre foi um cafajeste, agressivo e mentiroso, você quer matar a minha irmã!
- Nunca mais... - ele andou rápido até estar na minha frente. Por um segundo, imaginei que nós saíríamos rolando no chão de novo, mas tudo o que ele fez foi falar - ... Nunca mais repita uma coisa dessas, seu moleque. Você não sabe do que está falando. Sua mente ingênua de estudantezinho de cinema acha que tudo nessa vida é ficção, que os sentimentos das pessoas vão ficar claros como ficam na televisão. Cresça, , pense um pouco antes de colocar tanta bobagem pra fora em uma frase só.
Sua presença me amedrontava. Eu me sentia doente, meu estômago embrulhava mais a cada segundo e uma vontade de me deitar isolado do mundo me atormentava. Eu não gostava daquele homem.
- Você quer desligar os aparelhos - acusei, mas minha voz não era firme ou alta.
- Devido às circunstâncias! - ele aumentou seu tom e ergueu os braços, depois desviou da minha direção para voltar a encarar minha mãe, que nos observava já com algumas lágrimas nos olhos. - Bridget, a nossa filha está sofrendo, sentindo dor.
- George, pare...! - ela choramingou. - Não me obrigue a escolher algo que não é certo.
- E certo é deixá-la naquela situação?
- Ela está dormindo, pai! - protestei. - Louise é a nossa família. Porra! Você não pode tratar da vida dela como se fosse algo reversível. Não é reversível. Se a gente desligar aqueles aparelhos a vida dela vai acabar pra sempre.
- Meu filho - de repente eu vi um lance de sentimento em seus olhos. Meu pai se aproximou de mim e tomou meu rosto entre suas mãos, em um carinho sem cuidados, mas ainda assim um carinho. As lágrimas não estavam mais somente em minha mãe, eu era acometido por elas também, mesmo que a contragosto. Chorar por causa dele não deveria ser uma opção, e eu amaldiçoei aquela cena por toda a eternidade. - Louise já se foi.
- Não, pai, para com isso...!
- Louise não vai voltar, . Ela morreu naquele viaduto, mas o corpo inteiro ainda não percebeu isso. Você acha que eu não sofri? Eu já chorei tudo o que tinha pra chorar, , eu não sou o desalmado que você tem imaginado. É a minha filha, a minha criança.
- Ela não morreu, pai. A gente não sabe se ela vai voltar. Você nunca viu esses casos de gente que passa vinte anos em coma e depois acorda? Acontece, pai, acontece o tempo todo por aí.
Meu rosto continuava preso nas mãos dele e, de repente, eu deixei de me sentir consolado para me sentir aprisionado. Seu olhar tentava me convencer, mas ele não entendia que em nenhuma hipótese eu aceitaria aquela sugestão. Enquanto eu fosse vivo, George não mataria Louise. Fosse qual fosse a desculpa que ele quisesse dar, a justificativa esfarrapada que ele desse à sociedade e aos seus eleitores. Eu não era e nunca seria manipulado.
Fiz força para me afastar e andei com raiva até meu quarto, enquanto enxugava com raiva as lágrimas que caíram sem minhas permissão.

- Caralho, , eu não sei pra que você tem telefone se nunca atende essa merda na hora que a gente liga!
- Ih, tá de TPM por quê, mocinha? Eu estava no banho. Tenho direito? - ele implicou.
Depois de três tentativas e uma mensagem na caixa postal, eu já estava quase desistindo de falar com . era outro desmiolado que nunca andava com o celular, então por mais que eu ligasse, não era atendido.
- Deixa a porta aberta porque eu estou indo dormir aí.
- Por quê? Não tem espaço.
- Eu durmo no chão, porra, não complica, não!
- Tá, vem logo! É até bom mesmo que você venha dormir aqui, assim me ajuda a desvendar o motivo de, de repente, o ter virado colecionador de adesivos da Cinderela.
Desliguei o celular e juntei algumas roupas na mochila da forma mais rápida que podia. Talvez fosse melhor se eu abstraísse minha mente dos problemas reais enquanto tirava uma onda com as esquisitisses de .
Andei rápido até a porta de casa, sem querer esbarrar com meus pais, mas nem precisei de tanto esforço. Eles não estavam na sala, e se não estavam na sala, só podiam estar trancados no quarto. Em meio ao meu desespero, fiz uma prece silenciosa e desajeitada, pedindo a Deus que ouvisse minhas súplicas e não deixasse minha mãe ser enganada por George.
Eu só esperava que minha oração tivesse efeito.

Capítulo 24: Allow me to get you right

- Ele disse que me amava, ! E o que eu fiz? Eu menti! Eu disse que o amava também, mesmo isso não sendo verdade.
- Por que não é verdade?
- Porque não! Eu curto ele pra caramba, ele me diverte, me empolga, mas eu não o amo. E eu também acho que ele não me ama, só disse isso porque se empolgou, sei lá. Mas quando você diz que ama pela primeira vez, isso acaba virando um hábito. E nós vamos criar o hábito de falar uma mentira! E isso me assusta!
- Então não deveria ter falado. Honestamente, , você está me deixando confusa. Já tem quase um mês que está cheia de namorico com o , praticamente não sai da casa dele e vocês não se desgrudam. Aí quando o menino diz que te ama você faz esse escândalo. Queria o que, que ele ficasse calado pro resto da vida?
O que eu queria? Tudo era muito confuso e a declaração de na noite anterior não saía da minha cabeça. Eu deveria me sentir lisonjeada, afinal de contas, eu estava sendo amada por alguém e aquilo era motivo de orgulho, mas a aproximação fazia meu sangue correr de uma forma não confortável. Eu não tinha certeza se amava , embora nossa conexão fosse óbvia e gostosa. Falar sobre amor só de brincadeira não era o certo a se fazer, mas eu não tive escolha quando ele falou. Em meio ao contexto, negar aquilo seria tão cruel como jogá-lo de um precipício. estava precisando de conforto, de consolo, e eu o consolei da forma que ele queria, mas ali estava eu, assustada. Mesmo depois de uma manhã inteira de aulas, eu ainda não conseguia decidir como agir com aquilo tudo.
Meu silêncio perfurava o ambiente enquanto andávamos pelo corredor na direção do nosso quarto. estava silenciosa também, mas eu só percebi depois que para ela ficar muda tinha outra razão. A porta do quarto já estava aberta e ela se voltou para mim com o dedo indicador na frente dos lábios, sinalizando um pedido de silêncio. Franzi o cenho sem entender, mas obedeci. me deu espaço para entrar no quarto e ver a cena que, se não fosse costumeira, seria bizarra.
Na verdade, embora estivesse acontecendo bastante, eu nunca me acostumaria ao fato de que adorava simplesmente deitar na minha cama, de costas para o mundo e apenas ficar ali, fazendo nada. Era aquilo que me mostrava e assim como eu, ela também estava desconfiada e curiosa.
Por que diabos adorava a minha cama?
Quando o garoto se mexeu um pouco, nós pudemos entender que o tempo todo estivemos enganadas sobre as suas intenções. Ele estava olhando alguma coisa, e não simplesmente parado cortejando a parede. Esperta como sempre, me puxou pela mão e tornou ao corredor, deixou a porta encostada e andou apenas três passos. Três passos foram suficientes para ela entrar no quarto de Hannah sem bater e verificar que, sim, a garota estava lá. A razão de todas as esquisitisses de . E nós ficamos enganadas por todo aquele tempo! Tantos dias sem entender, sem sequer desconfiar que Hannah era a chave para a porta dos mistérios.
- O que foi? - ela perguntou a e a mim.
- Acabamos de entender, né? - disse, me olhando.
Hannah estava de calcinha e sutiã andando pelo quarto e eu só consegui pensar que deveria ter desconfiado antes. Queria rir. Queria gargalhar feito uma louca, mas tinha uma ideia melhor. Ela pediu silêncio a Hannah também e a chamou para fora do quarto. Hannah veio sem se importar com o fato de estar seminua no meio do corredor.
- Tem alguém espiando você - disse, contendo o riso escandaloso que ela também queria dar.
- Quê?
- Vem aqui - ela chamou.
Ainda sem se importar com as roupas, Hannah entrou no meu quarto e, olhando , pôde entender sobre o que estava falando. Eu vi ceticismo no rosto da garota. Ela não podia crer no que seus olhos lhe mostravam. E quem poderia? Quem, em sã consciência, conseguiria adivinhar que seria criança suficiente para furar um buraco na parede do quarto de alguém para xeretar uma menina enquanto trocava de roupa ou em qualquer outro momento?
Naquele momento, ele parecia inquieto. Provavelmente porque Hannah havia sumido do seu campo de visão. Por enquanto, pelo menos.
Hannah deu alguns passos até estar ao lado da minha cama e, com a sua unha sempre vermelha e comprida, cutucou no ombro. Não foi um pulo normal o que vimos ele dar. gritou assustado e levantou da cama com pressa, mais susto ainda ele teve ao ver nós três na sua frente e Hannah com pouca roupa.
- Tá assustado por quê? Não queria me ver pelada? Olha agora! - a garota ironizou. - Ou você ainda quer que eu tire a roupa íntima?
Não adiantava insistir na pergunta e todos nós sabíamos. No fundo, Hannah não queria uma resposta à sua retórica, sua intenção única era deixar envergonhado. Ela estava conseguindo, claro, mas ainda não parecia ser suficiente.
Nunca seria e eu ia rir daquilo pro resto da minha vida.
- Fala, ! Pode falar. Não vai ser nenhuma novidade mesmo, provavelmente você já viu tudo o que queria.
Petrificado, emudecido, a única reação de era corar, e com sucesso. As maçãs das bochechas dele permaneciam da cor de um tomate sul americano e com todo aquele ajuntamento de sangue no rosto, devia ser meio difícil falar mesmo.
- Vai traumatizar o , Hannah - falou.
- Que morra! - a loirinha esbravejou. - Perdeu a vontade de viver, foi, ? Se você queria morrer, era só avisar antes que a gente dava um jeito de te matar. Agora ficar me vigiando é pedir morte lenta, sofrimento!
- Hannah - tentei falar alguma coisa, mas minha gargalhada saiu no lugar das palavras.
Ela me olhou, mas não sorria. Era óbvio em seu rosto que ela também estava se divertindo com aquilo e fazia ameaças a apenas para assustá-lo, mas comigo ela não queria papo. Desde o momento em que ficou óbvio para todo mundo que e eu estávamos juntos e não pretendíamos mudar esse status, ela virou o próprio demônio encarnado. Só me direcionava a palavra quando era estritamente necessário e, às vezes, nem assim.
Me ignorando, Hannah virou para de novo e disse em alto e bom som:
- Sai!
Ele não tinha outra saída a não ser obedecer. Se eu fosse , me esconderia num buraco pelo resto da vida. Aquilo ia ficar marcado na história.
- Olha, ele colocou um adesivo da Cinderela no buraquinho - observava o local de perto. - Como você nunca reparou nisso antes, ?
- Ah, sei lá. Não durmo virada pra parede.
- é tão babaca! - Hannah reclamou, depois que o garoto saiu do quarto. - Enfim, vou nessa. Preciso comprar alguma coisa pra tapar essa porcaria.
- Ah, malvada, vai acabar com a diversão do menino? - provocou.
Em resposta, Hannah lhe mostrou o dedo do meio e saiu do quarto, indo na direção do seu. Depois de rir bastante e comentar comigo a cena toda, entrou em um assunto que estava sendo bastante deixado de lado, mas que tinha importância extrema no nosso final de ano.
- Eu acho que tenho a música perfeita pra gente dançar no desafio.
- Sério? - me animei.
E, de repente, não havia mais piada de , raiva de Hannah ou medo sentimental de . O assunto de era prioridade naquele momento. Pedi que me mostrasse a música, então ela abriu um aplicativo no smartphone e colocou pra tocar. Um pop famoso, ok. A música era muito legal, mas eu ainda não tinha entendido por que ela disse que aquela era a música perfeita.
- Isso é tudo o que nós precisamos - ela apontava para o celular. - Presta atenção na letra, tá? Nas entrelinhas, no sentido da coisa. É a nossa cara. A gente ainda pode montar uma coreografia legal e ganhar esse desafio. Temos tempo suficiente. Nós duas amamos o que fazemos, não vai ser problema treinar em dobro.
- Calma. Deixa eu escutar essa música de novo - Aos poucos, prestando atenção em cada frase, eu fui percebendo que, sim, aquela música era perfeita pra nós duas. - Já estou nos imaginando no palco.
- Divando!
- Essa música pede uma coreografia...
- Sensual.
- Sim, mas não só isso. Ela pede mistério. Olha a batida. A gente pode ousar com ela. Em passos, em figurino, em olhar, em iluminação.
- Ih, mal começou a namorar o cineasta e já entende de luz?
Lhe mostrei a língua em um gesto infantil e continuei sonhando. Falei sobre cores, clima e covers. Dei ideias, dei pulos, dei gritos. é quem trouxe a música, mas a maior empolgada acabou sendo eu mesma. Aproveitei que ela estava de folga e lhe puxei para trocar de roupa. Passaríamos a tarde trancadas num aquário de vidro, criando a melhor coreografia que aquela música podia comportar. A escola ia tremer perante nós.
De uma vez por todas: aquela desafio já estava nas nossas mãos.

Eu estava moída. e eu dançamos praticamente durante toda a tarde. Já havíamos conseguido montar quase metade da coreografia, mas aquilo ainda precisava ser bem, bem, bem ensaiado.
desceu pra encontrar e eu, com preguiça de tantos degraus, me direcionei à sala comum entre os dois prédios. Precisava apenas me jogar em um dos sofás e relaxar um pouco. Mas se eu tinha que ver , eu veria . Na verdade, nos últimos dias, poucos eram os momentos da minha vida em que ele não estava presente e, mesmo ali, quando eu nem estava com intenção de vê-lo, pude reconhecer suas costas largas enquanto chegava à sala.
Pra minha surpresa, não estava sozinho. E sua companhia fez questão de cerrar os olhos ao notar minha chegada. Com esse gesto, olhou pra trás e sorriu pra mim.
- Oi - falei, meio sem graça. Uma pulga se instalara atrás da minha orelha. Não que eu quisese proibir de falar com alguém ou saber com quem ele estava a cada minuto, mas... O que porra ele estava conversando com a Hannah?
- Era só isso o que eu tinha pra te dizer, - ela disse, meio manhosa, acariciando o ombro dele de uma forma que eu não gostei. - Agora eu vou nessa. O casal merece namorar em paz - falou, sorrindo, ainda sem tirar a mão do ombro dele.
Nunca pude imaginar que eu faria o tipo ciumenta. Mentira. Mil vezes mentira. Eu sempre fui ciumenta com minhas amigas ou namorados. E sentir ciúmes de Hannah já era totalmente normal já que ela era amiga da minha melhor amiga. A transferência de um pouco do ciúme para aconteceu naturalmente, na verdade. Mas como uma boa menina, educada, regrada e sociável, eu precisava disfarçar, principalmente pelo fato de Hannah dormir no quarto ao lado do meu, ser filha da minha professora favorita e almoçar comigo todos os dias.
O pior era ter que perceber e aguentar seu olhar de eu-o-vi-primeiro a todo momento.
Quando ela finalmente tirou a mão do ombro de e se afastou, eu assumi seu lugar, ao lado da parede enquanto lhe assistia ir embora. Foi praticamente instantâneo que um pequeno agrupamento de palavras tomou conta da minha cabeça. Palavras de Hannah algumas semanas atrás. E com isso, minha raiva que estava em um nível normal, cresceu bruscamente. Garota suja!
”Eu preciso repetir, porque uma vez só com nunca será suficiente.”
Então essa era a questão. Ela queria a segunda vez, a terceira, a quarta. Hannah queria espalhar na minha cara a ideia de que, independente de mim, ela acabaria ficando com de novo, uma hora ou outra. E eu travei os dentes de raiva, entendendo que aquela não era uma situação improvável.
- Como você está? - ele me deu um beijo no pescoço. - O que é todo esse suor?
- Estava dançando com a .
- Treinando pro desafio? - segurou meu queixou e o guiou, até que meu rosto estivesse voltado para ele. Até então eu continuava olhando para a porta, o lugar onde Hannah passara.
- Sim. Me preparando pra ganhar. Você sabe.. só estamos esperando o dia certo pra espalhar o resultado na cara de todo mundo - ele revirou os olhos em uma atuação engraçada e me beijou de novo.
Por que precisava haver tanta dúvia entre aquela nossa coisa? Se o mundo fosse um lugar tranquilo, eu não sentiria medo de ser esnobada a cada vez que o visse, não ficaria pensando em traição ou em sentimentos que eu achava cedo demais para sentir. Mas o mundo é e sempre foi um lugar complicado e, para viver, nós precisamos aprender a ultrapassar as barreiras, tendo em consideração que os muros mais altos são construídos pela nossa própria consciência.
- Hum... - me afastei. - E você, hein? Quais novidades me conta? - ele sabia do que eu estava falando, mas demorou a responder.
- Quer saber a verdade? - assenti com a cabeça. - Dormi no quarto do e essa noite, ainda não fui em casa, nem liguei pra minha mãe. Já está quase anoitecendo e eu estou cheio de vontade de dormir aqui de novo.
- Mas assim você vai dar espaço pra ele. Vai deixar ele ganhar território, .
- Eu sei, eu sei, já pensei em tudo isso, eu só não aguento ficar lá, . Quando eu tinha Louise pra aguentar comigo era diferente, agora tudo parece ensurdecedor. Tenho certeza de que George não vai encostar um dedo na minha mãe de forma violenta, afinal de contas, ele está querendo convencê-la, mas... sabe, vai ser esquisito ver a atuação dele dentro da minha casa. Meu apartamento.
- Comprado com o dinheiro dele - alertei.
Sempre achei inútil querer ser independente usufruindo do dinheiro dos pais e fazia exatamente esse tipo. Na minha opinião, se você quer ir morar sozinho, ter um carro, uma casa e independência, precisa trabalhar pra isso. Não adianta comprar alguma coisa todos os dias, bancar o rico e no fim do mês ter que prestar contas sobre todo o dinheiro gasto.
Meus pais me deram uma boa educação em relação a isso. Como nunca fomos ricos, dinheiro era um assunto bem cuidado dentro de casa. Minha ida à Escola de Artes da Califórnia foi assunto de muito debate e esforço. Eu trabalhei duro por aquilo. Durante anos da minha vida, fiz questão de trabalhar pela minha própria poupança. Como eu não precisava ajudar nas despesas da casa, já que todo o nosso sustento vinha da nossa loja de roupas, juntar dinheiro era uma tarefa mais fácil. Eu aprendi a ser uma garota econômica e só comprar algo quando realmente tinha necessidade. Sendo assim, quando eu me mudei, tive dinheiro suficiente para me manter e bancar alguns luxos, e como eu nunca fiz o tipo consumista, minha vida costumava ser bem tranquila.
Nos feriados e verões de férias, eu voltava pra casa e trabalhava mais para ganhar mais dinheiro. Claro, eu também saía muito, reencontrava velhos amigos, dava uns beijos em alguém quando tinha oportunidade, mas sem perder o foco. Eu sempre tive objetivos e se queria tanto me formar, me esforçaria por isso até ser uma missão completa.
- Esse dinheiro também é meu, . Quando ele morrer, tudo vem pro nome da Louise e pro meu - falou, na defensiva.
- Eu sei, desculpa. Não queria te ofender.
- Tá tudo bem, não ofendeu - ele fez questão de me acalmar, mas ainda estava fazendo bico. - De toda forma, acho que não vou pra casa mesmo. Eu entendo tudo o que você falou, que eu preciso ser forte... eu sei, mas não quero encarar aqueles dois. Na boa, eu não vou!
- Mesmo sabendo que é muito importante? - ele apenas balançou a cabeça, confirmando que entendia as consequências. Respirei fundo e tratei de colocar para fora a ideia que acabou surgindo. - Se você quiser e se não for causar problema, eu posso ir dormir com você.
- Você faria isso? - notei seus olhos brilhando, exalando uma felicidade que fez a minha surgir também, junto com um arrepio interno que me deixou desconcertada. mexia muito comigo. Impossível negar.
- Claro que sim, né? Mas, como eu disse, só se isso não for arrumar confusão com a Bridget. Eu sei que ela é mais tradicional.
- Não, não vai dar problema nenhum - ele defendeu. - Eu vou adorar que você venha dormir comigo!
- Tudo bem - respirei fundo, sentindo a ansiedade percorrer meu corpo de forma violenta. - Você quer ir rápido? Eu só preciso tomar um banho e arrumar umas roupas na bolsa.
- Certo, tudo bem. Vai lá, eu espero.
E, de repente, ele queria ir pra casa. Foi engraçado e eu tive vontade de rir, mas não o fiz porque não seria tão apropriado para o momento. Lhe beijei ternamente nos lábios e me despedi para ir tomar banho. No quarto, expliquei a o que estava acontecendo e que dormiria fora. Ela fez algumas piadas comigo, claro, disse que eu apareceria com olheiras no dia seguinte porque ia amanhecer o dia fazendo sexo.
Depois de me defender das piadas, me despedi e encontrei na garagem. Entrar naquele jeep não tinha mais o mesmo significado. Não posso negar que sempre me senti confortável dentro daquele carro, mas depois de ficar mais próxima de , era como se ele fosse mais um porto seguro. Antes, eu sentia medo de ser atacada por a qualquer momento, era como se cada movimento meu pudesse fazê-lo decidir me agarrar; atualmente, era mais provável que o ataque partisse de mim.
Trocamos mais alguns beijos no elevador e quando chegamos ao apartamento, me pediu para esperar um pouco enquanto ele tomava um banho. Disse que lhe esperaria no quarto e ele se dirigiu para o banheiro.
O apartamento parecia estar vazio, então carreguei minha mochila direto para a primeira porta à esquerda no corredor. Antes de me jogar com tudo na cama, decidi tirar as tiras da sandália, então sentei na cadeira do computador enquanto analisava o quarto tranquilamente.
Meu celular tocou e eu vi o nome de na tela.
- Não sabe viver sem mim. É incrível! - falei, assim que atendi.
- Vai lá, toda poderosa, eu te amo, mas não liguei pra me declarar. Meu computador descarregou, eu não acho o carregador e preciso acabar uma matéria pra postar ainda hoje. Você está com o computador aí?
- Não, deixei embaixo do travesseiro.
- Ai, ainda bem. Vou usar, tá?
- Tá. Contanto que não deixe descarregado pra quando eu for usar.
- Não vou deixar.
- Ok. Era só isso?
- Não, tem outra coisa.
- O que foi?
- Não geme alto, se lembre que a mãe do está aí no quarto ao lado.
- , para de ser nojenta - ri alto, reclamando. Eu deveria imaginar que ela faria alguma piada do tipo. - Você e é que vão acordar o prédio inteiro. Escandalosos!
- Quem vem dormir comigo não é o , é a Hannah.
Claro. Eu deveria ter imaginado que na primeira oportunidade Hannah se apossaria do meu quarto e da minha cama. E da minha melhor amiga.
Aí eu tive uma dúvida: será que sabia de todo o clima hostil que vinha rondando Hannah e eu? De minha parte, nada havia saído, então era normal que ela não comentasse nada. Mas Hannah andava chata demais comigo, evitando os mesmos lugares que eu ou até me dando um fora ou outro quando tinha oportunidade. Eu sabia que ela não nutria sentimentos por , o fato dele estar comigo tenha lhe irritado, já que ele preferiu a mim em vez dela. Mas não comentava nada e eu me peguei pensando se Hannah também não havia contado ou se ela estava mantendo segredo de mim.
- Divirtam-se! - comentei assim, como quem fala por falar.
Com certeza ela percebeu o ciúme no meu tom de voz, mas nem de longe seria possível de advinhar o que passava na minha cabeça naquele minuto. Imaginei elas duas compactuando algum segredo, algum comentário sujo sobre mim ou alguma tentativa de Hannah atacar . Imaginei sendo cúmplice, dando dicas, mostrando as minhas fraquezas e Hannah se aproveitando de todas elas. Criei uma cena onde me chamava para ensaiar, como hoje, e me prendia durante a tarde inteira enquanto Hannah tinha tempo de sobra para ir atrás de fazer o que bem entendesse.
- Se você estivesse aqui, seria mais legal. Faz tempo que nós três não fazemos nada juntas.
- É, faz tempo - tratei de desconversar. - , eu vou desligar, tá? já vai sair do banho.
- Tudo bem, , mas lembra de não fazer barulho. Já avisei!
- Tá, menina, que coisa! - sorri, tendo certeza de que minhas bochechas estavam vermelhas. - Boa noite, - "Não me decepcione!", eu pedi mentalmente.
- Boa noite - e desligou.
Acabei de tirar minhas sandálias e me joguei com tudo na cama. Pensar que poderia estar sendo traída pela minha melhor amiga fez um mal estar se apossar do meu corpo. Claro, eu podia apenas estar ficando louca e fantasiando coisas que nunca aconteceriam, mas também poderia não estar. E se a amizade dela por Hannah realmente fosse mais forte do que por mim? E se Hannah lhe oferecesse mais conforto e mais segurança? De repente, seus segredos que sempre eram contados a mim por último fizeram peso. Se Hannah conseguisse se aproximar de de novo, minha vida estaria perdida. Eu não queria e não podia perder e de uma vez só, ainda por cima para a mesma pessoa.
Diretamente, Hannah nunca me atacou. Pelo contrário, sempre polida e na dela, a loirinha mostrava sua simpatia e bom humor enquanto eu, grossa e impaciente, recrutava as coisas como propriedade. Mas eu sabia que estava na hora de ficar mais atenta. Não cairia na simpatia dela, nem deixaria e nessa onda. Eu precisava reagir. Eles não eram minhas propriedades, como pessoas livres tinham o direito de fazer as próprias escolhas, mas eu precisava me posicionar.
Respirei fundo, tomando consciência dos meus próprios pensamentos e me permiti relaxar, mas logo depois ouvi uma pequena batida na porta. Não era , ele não bateria. Levantei para abrir, começando a criar uma vergonha por ter que encarar Bridget e assumir que dormiria com seu filho em sua casa, mas não precisei. Não era ela na porta também.
- Boa noite, .
- Boa noite - respondi, a voz menos firme do que eu gostaria.
- Vai dormir aqui?
- Se não for problema.
- Com certeza não é um problema - mesmo sem meu convite, ele entrou no quarto e sentou na cama. - Prefiro que meu filho traga a namorada pra casa, assim ele não dorme fora, sabe Deus onde. Não se preocupe com isso. Venha quando quiser - O convite era estranho, tendo em vista que ele não morava ali. George deve ter notado meu desconforto, pois prosseguiu. - Você está me olhando daquela forma estranha com que meus eleitores olham quando eu prometo alguma coisa duvidosa.
- O senhor costuma prometer muitas coisas duvidosas?
- Não mais do que a maioria dos candidatos.
- Entendi.
- distorceu tudo, não distorceu? - franzi o cenho, sem entender de que especificamente ele falava. - Sobre Louise, . Eu não quero matá-la. Você deve saber que, como pai, eu nunca faria uma coisa dessas.
- não distorceu nada. Ele só me fala o que pensa.
- Acontece que ele está pensando errado. Se em algum momento eu sugeri que desligássemos os aparelhos foi pensando unicamente no bem da minha filha.
- O senhor não tem como saber se esse é o melhor pra ela.
- E o que é melhor pra ela, ? Será que é melhor permanecer deitada em uma cama por não sei quantos anos, sendo mantida por medicamentos e máquinas, sabendo que se em algum momento alguma medicação falhar ela vai sofrer com dores insuportáveis? Esse é o melhor? É melhor pra ela que sua paz seja arriscada porque nós, sua família, somos egoístas o suficiente para deixá-la ir?
O que ele queria de mim, afinal? Se George estava pensando que me convencer faria com que viesse no bolo, se enganava. Mesmo que, em algum momento, minha opinião se assemelhasse a sua, não me ouviria. E nem deveria ouvir, afinal de contas, eu nem sequer era da família. E eu nunca me posicionaria de forma contrária a Bridget e .
- Por que o senhor veio até aqui?
- Vim buscar Bridget.
- Não acho que ela queira ir embora.
- Está enganada - ele disse, com muita certeza. - Bridget sabe que aqui não é o seu lugar, . Ela quer ir comigo, só tem medo de perder o respeito do filho, assim como eu perdi. Ela não quer que vá embora assim como Louise foi.
- Louise ainda não foi.
- Essa certeza é sua ou você só não quer ir contra seu namorado? - George me encarou. Não soube responder de imediato, seus olhos me queimavam de uma forma estranha. Sua presença fazia eu me sentir pequena, ingênua e não inteligente.
- Isso é realmente importante? - perguntei e, talvez, minha honestidade tenha lhe deixado surpreso. A verdade é que, independente do que eu pensava, uma decisão seria tomada. Fosse ela qual fosse, eu não me meteria nos assuntos da família.
Sem mais o que dizer, ainda bem, porque eu também não sabia mais o que argumentar, George levantou-se da cama e andou para sair do quarto sem sequer olhar para trás, deixando óbvio que aquele assunto estava mais do que encerrado entre nós.

Capítulo 25: You shoot me down but I won't fall

Deixei a água quente escorrer pelas minhas costas. Quanto mais queimada minha pele fosse, menos tempo eu teria para pensar em como reagir pela manhã, ao levantar para tomar café e precisar encarar meus pais na mesa da refeição. Que eu nunca fui adepto ao autoflagelo é verdade, nem era essa a minha intenção, é que além de um pouco de dor, a água quente também me causava um relaxamento que a fria não proporcionaria. E ao fechar o chuveiro, eu teria minha garota para um pouco mais de conforto.
Eu só esperava do fundo do coração que fosse suficiente. Eu tentava me importar menos, pensar em outras coisas, mas ter meu pai por perto tentando oprimir opiniões que faziam parte da minha personalidade era angustiante. Pais. Se eles soubessem o quanto influenciam na vida dos filhos...
Lembrei da conversa com Hannah mais cedo. Ela disse que percebeu que eu estava distante, preocupado com alguma coisa. Contei por alto sobre a chegada do meu pai e como isso me deixou irritado. Hannah disse que entendia meu lado, que podia imaginar pelo que eu estava passando. Então a loira me contou sobre a história de como seu pai foi embora quando ela tinha sete anos e como ela, ainda muito inocente, escondeu as malas embaixo da cama, achando que, dessa forma, lhe impediria de sair de casa. Hannah falou sobre seu choro sem fim ao acordar de manhã e notar que nem as malas nem seu pai estavam em casa mais.
Pais...
Desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha, saindo do banheiro da forma que minha mãe odiava: deixando o chão todo molhado. Mas eu não estava com paciência para organizar nada e não organizaria.
Cheguei ao quarto.
tinha o cabelo solto, uma blusinha cor-de-rosa, um short listrado e um par de meias meu, mas não um par concreto, era uma meia preta no pé esquerdo e uma meia marrom no pé direito. Hilário! Mas ela estava inclinada de costas pra mim enquanto usava um cobertor desdobrado para tirar poeira da cama, e graças ao seu short curto, as partes mais quentes e gostosas da sua perna ficavam expostas à minha vista.
Meu estresse diminuiu, a tensão das minhas costas quebrou e eu me senti mais propenso à sorrir. Entretanto, por mais que fosse engraçado, eu não conseguia sorrir das meias, já que rir não era bem o que meu corpo queria naquele momento.
Cheguei por suas costas e lhe abracei com vontade. Meu rosto se aqueceu em seu pescoço e minhas mãos se aconchegaram pelas coxas. Ela sorriu ligeiramente antes de se virar e me beijar nos lábios.
- Quer assistir um filme antes de dormir?
- Pode ser - ela respondeu, ainda sem me largar.
Me afastei até a estante dos filmes para escolher um DVD e pegar o controle da TV.
- Seu pai esteve aqui enquanto você tomava banho.
- O que ele queria? - perguntei, esquecendo a paz que sentira segundos atrás.
- Nada. Ah, sei lá, ele só apareceu e começou a falar da Louise e defender o ponto de vista que tinha.
- Ele quer que você me convença.
- Talvez.
À minha frente, mostrava seu desconforto com toda a situação. Era visível em seus olhos o quanto ela não queria participar daquele meio nojento que minha família havia se formado. Eu também não queria que ela ficasse ali, sendo alvo dos ataques do meu pai. Ao mesmo tempo, também tinha medo que George conseguissse algum espaço com ela. Se , de repente, caísse no charme de político e começasse a achar que a opinião dele era melhor que a minha, eu não teria mais forças.
- Por que você está me olhando desse jeito? - incomodada, ela perguntou. - Não vou tentar nada contra você, . E mesmo que eu pensasse como ele... minha opinião não é importante nessa questão.
- Mas é claro que é importante, - voltei a me aproximar dela. - Não dá pra perceber que tudo o que é relacionado a você me afeta? Meu pai deve ter percebido que o nosso relacionamento não é brincadeira. Ele é esperto. Com certeza vai me atacar por onde tem mais chance.
Ela parecia impactada pelas minhas palavras. Às vezes eu tinha a impressão de que não entendia a profundidade das coisas, eu chegava a pensar que ela tomava nosso namoro como algo superficial e aquilo me assustava demais. Eu não queria estar em um degrau diferente do dela, queria estar junto.
Com um aperto no coração, vi segurar meu rosto entre suas mãos enquanto uma lágrima pequena escorria pelo seu olho. Nossa conversa estava em um nível sério, mas eu não imaginava que ela choraria por aquele motivo.
- Tem uma coisa que eu preciso te falar.
- O quê?
Nos filmes, aquele era o momento em que me falaria algum segredo muito grande que desestabilizaria as estruturas do nosso relacionamento. Eu já tinha conhecimento de enredos suficientes para saber onde aquilo acabaria dando. Por esse motivo, respirei fundo e preparei meus ouvidos pra qualquer atrocidade que viesse a sair da sua boca naquele minuto.
- Eu amo você.
Outra lágrima saiu do seu olho nesse momento e ela tirou uma das mãos do meu rosto para enxugá-la.
- ...
- Não, é sério - ela parou um pouco, em seguida soltou um sorriso nervoso. - Eu sei que nós já falamos isso ontem, mas eu quero falar. Me deixa falar.
- Você pode falar cinquenta vezes por minuto se quiser - não tinha clima pra brincadeira, mas eu fiz uma porque estava ligeiramente desconfortável. nunca fora intensa comigo daquela maneira.
- Eu te amo.
- Eu também te amo, .
- Tá bom. Eu só queria que você soubesse.
- Eu já sei - sorri e lhe beijei.
- Tá.
- Vamos ver nosso filme agora?
se afastou de mim e foi diretamente até a cabeceira da cama, encostando-se enquanto me esperava escolher o filme e colocar pra rolar na televisão. Minha noite foi mais tranquila por causa dela.

Conseguimos acordar cedo o suficiente para sair de casa sem esbarrar com meus pais. O caminho até a escola não nos trouxe muitos assuntos. E eu confesso que ainda estava meio intimidado pelo "Eu te amo" que me deu na noite anterior. Não que não tivesse sido bom na primeira vez, foi, mas dessa vez ela disse de forma diferente, de uma forma que me fez pensar que algo havia mudado, estava diferente.
Dormi na aula, confesso, o que foi uma pena porque, dessa forma, a manhã passou mais rápido e eu percebi que, mais cedo ou mais tarde, teria que voltar pra casa de novo. Porém decidi não pensar nesse assunto e aproveitar o tempo na escola enquanto fosse possível.
Almocei com e os caras, mas em uma mesa separada de Hannah e . Hannah parecia irritada e com um tipo de olhar que eu só consegui entender após as explicações de , gargalhando às custas de .
- E ele ficava espiando a menina pelo buraco na parede - ela falava, mais alto do que o necessário para uma mesa que só tinha quatro pessoas, mas eu imagino que parte daquilo era de propósito, para envergonhar o garoto.
- Não tô acreditando que você fez isso, - apoiei a cabeça na mesa e ri com porque a história era realmente hilária.
- Ahaha, podem rir de mim. Está muito engraçado, não é? - então virou para , que ria mais que e eu juntos - Vai dizer que você não faria o mesmo? Faria sim, é claro que faria.
- É claro que eu não faria. Tenho dezessete anos, por acaso? Ia até a garota e pronto.
- Como eu vou até a garota se já foi primeiro? - ele também falou alto demais e, honestamente, aquele não era assunto pra ser falado no momento.
- Ih, entrou no assunto proibido - não deixou de sorrir, mas não parecia mais divertida. - Te aconselho a falar de outra coisa agora mesmo.
- Mude de assunto você - desafiou. - Foi quem começou com tudo. É culpa sua.
- Vá se foder! - ela disse.
- Vá se foder você!
- Acho melhor a gente comer sem conversar - eu aconselhei agora.
E o clima na mesa ficou tão chato que eu quis comer mais rápido pra poder sair logo dali. e não fizeram mais piadas e não levantou os olhos até acabar de comer também. Depois disso, cada um de nós seguiu seu próprio rumo para o restante do dia.

E o meu foi sensacional! ... pelo menos uma parte dele.
Durante boa parte da tarde eu sentei no aquário enquanto uma turma muito irada de Teatro ensaiava para o desafio do ano da escola. Eles ainda estavam na fase de decorar falas, o que eu achava meio atrasado porque o desafio já seria no mês seguinte, mas, mesmo assim, estavam muito conectados. Era um grupo de cinco pessoas mais um professor bem gente boa que me deixou pegar a câmera para treinar algumas coisas filmando-os. Como era formado em Cinema, o professor me deu diversas dicas e eu ia colocando-as em prática na medida em que ele falava.
Posso garantir que aprendi mais naquelas duas horinhas do que em muita aula que tive no ensino médio. Grande parte disso era mérito do professor, claro, afinal de contas, ele parecia flutuar enquanto falava do assunto que amava. Mas outra metade da razão de eu ter aprendido tão rápido era o interesse. Dormi em metade das aulas de química na escola, confesso, mas quando se tratava da minha filmadora, o mundo girava dez vezes melhor.
Quando saímos do aquário, o grupo inteiro começou a se dirigir para o refeitório porque combinamos de comer alguma coisa juntos. Mas eu fui interrompido no meio do caminho porque chegou e falou rápido demais uma frase que me fez esquecer o resto das coisas.
- Cara, vem logo porque a tua mulher tá virando bicho lá em cima.
- O que aconteceu? - tentei perguntar, já andando rápido para chegar ao dormitório, mas não parecia disposto a parar.
- Só anda rápido e vê você mesmo.
Eu andei. Vamos lá, eu corri com força até chegar ao andar certo e ver a cena mais horripilantemente ridícula desde que eu cheguei àquela escola.
e Hannah se matavam no chão. E quando eu digo matar, é quase que no sentido literal. estava por cima, com as mãos enfiadas na cabeleira comprida de Hannah e a loira usava as unhas pra arrancar alguns pedaços de pele do rosto de . As duas esperneavam e chutavam e batiam e falavam xingamentos em voz alta. Eu só tive meio segundo pra analisar a cena toda porque depois disso eu fazia parte da massa corporal do chão.
Gritei por ajuda a e ele segurou Hannah em um canto quando eu consegui manter presa à parede, atrás de mim.
Depois de um pouco mais calmo, pude perceber que perto da porta do quarto, estava em pé, imóvel e muda. Seu rosto não tinha expressão também, mas eu decidi que só tentaria entender aquilo depois.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? - pedi.
- que é mal comida demais e quer descontar nos outros! - Hannah provocou.
- Mal comida é você, sua desgraçada!
- Ah, isso eu não sou, - Hannah riu de uma forma tão irônica e nojenta que até eu me senti desconfortável. - Pode ter certeza.
Hannah podia até nem se lembrar da tarde que passou na cama comigo, mas sem sombra de dúvidas utilizaria aquilo para irritar . Fazia parte daquela disputa ridícula entre as duas. Havia sido discreta até então, mas a partir daquele momento, ficou tão escrachado o quanto se detestavam que as palavras deixaram de ser medidas.
Ouvi grunhindo atrás de mim, querendo se soltar e voar em cima de Hannah de novo, mas, obviamente, eu não ia deixar isso acontecer. Mas eu deveria saber que minha namorada não deixava nada passar. Ela abaixou alguns centímetros e pegou a sandália do pé, atirando-a diretamente na testa de Hannah. Foi em cheio. Eu nunca havia visto nada parecido na vida. Não desviou um mísero centímetro.
- Filha da puta! - Hannah gritou, já devendo ter percebido que acabaria ganhando um galo na testa.
- Abre a boca pra falar merda de novo e a sandália vai parar dentro da sua boca, vadia, pra quebrar todos os seus dentes.
Por mais que eu soubesse que separá-las de vez não acabaria com o mal estar, soube que precisava fazer isso. Eu precisava tirar dali e precisava fazer isso com urgência, antes que uma das duas conseguisse se soltar e o teto da escola fosse parar no chão, ou pior, antes que o inspetor aparecesse para saber o que estava acontecendo.
- , já chega - tentei segurar seu rosto para que olhasse pra mim, mas eu não era seu alvo naquele momento. - , presta atenção. !
- O que é? - falou, grossa, finalmente me olhando.
- Entra no quarto - apontei a porta e eu não estava de brincadeira, meus olhos deixaram bem claro.
Ela não fazia o tipo obediente, longe disso. Atribuí sua aceitação unicamente ao fato de que ela também já estava cansada de brigar. Seu cabelo desgrenhado e sua roupa amassada lhe deixavam com uma aparência felina, mas não de um jeito sensual.
fez força para sair dos meus braços e andou até a porta do quarto, mas não entrou antes de fazer cara feia para e aí sim eu fiquei mais assustado que antes. sustentou o olhar da amiga, mas sem dizer nada. Foi quem falou.
- Você não fala e nem faz nada, não é?
- O que você queria que eu...?
- Não quero nada! Não espero por nada! - e aplaudiu. Ironicamente e de uma forma magoada, mas aplaudiu até entrar no quarto de vez e trancar a porta com força.

Assim que entrou no quarto, o agrupamento se dispersou no corredor. Hannah entrou em seu próprio dormitório e também sumiu. Eu entrei no quarto, logo após , primeiro porque queria evitar uma nova briga por ali e segundo porque estava curioso e precisava de algumas explicações.
- Precisava disso, ? - perguntei, vendo-a andar agoniada pelo quarto, arrumando o cabelo dentro da presilha sem muito sucesso, então ela simplesmente o soltou e o amarrou de novo, em um coque em cima da cabeça.
- Não briguei por sua causa, não, . Pode tirar o cavalinho da chuva.
Ergui os braços em sinal de rendição, aceitando o coice que tinha acabado de levar e entendendo que, naquele momento, não conseguiria dela nenhuma resposta plausível.
Mas assim que e eu estramos, pegou sua toalha no cabideiro e marchou para fora, como se nossa presença fosse simplesmente insuportável.
Eu, porém, aproveitei a situação para saber o que havia acontecido com quem podia me explicar melhor do que qualquer outra pessoa.
- , olha pra minha cara - olhei. - Você realmente acha que eu estou em condições de explicar algo?
- Nem que você estivesse morrendo, - me acomodei na cama. - Por que elas deciciram se matar de repente? O que foi que a Hannah disse?
- Por que a Hannah tem que, necessariamente, ter dito alguma coisa?
- Porque não bateria nela do nada.
suspirou e sentou na cama de frente pra mim. Algo na sua expressão parecia intensamente culpada, pesada, quase como se o mundo inteiro pudesse ruir por sua responsabilidade. E quando ela começou a falar, foi impossível não notar o cansaço no tom de voz.
- Hannah não disse nada - ela mexia no lençol e não olhava diretamente pra mim. - Na verdade, disse sim, mas não sozinha. Eu que sou faladeira demais.
- Ainda não entendi.
- A verdade, , é que eu nunca fui muito boa em equilibrar as coisas, sabe? Honestamente, eu deveria saber que ser amiga de e Hannah ao mesmo tempo ia dar em merda, mas eu amo muito as duas. Eu não podia simplesmente escolher entre uma e outra - o discurso de era honesto e necessário. Bem se via que a garota estava precisando falar sobre aquilo com alguém e aquela era a primeira vez que conseguia. Ela estava precisando desabafar, isso era bem verdade, mas eu não podia me sentir culpado por não dar a mínima naquele momento. Eu só queria que adiantasse o discurso e fosse logo ao motivo da briga. - Tudo ficou pior depois que você chegou. Hannah tinha segredos com você e você tinha segredos com , mas ela não estava nem aí, então estava tudo bem. Era uma brincadeira complicada, mas dava pra levar. Mas aí ela inventou de te dar mole também e fodeu de vez com a minha vida tranquila. Eu tinha que aguentar os segredinhos de esquerda e de direita, aguentar as piadinhas, não contar nada de um lado para o outro lado. Mas isso é complicado, ! - ela falava, fino e em um tom agoniado.
- ... - tentei fazê-la se apressar, mas outra coisa nos interrompeu.
Hannah apareceu pela porta, sem bater nem nada e sentou na outra cama, a que estava livre.
- Fala logo pra ele o motivo da briga - sem sorrir, Hannah provocou.
- Não enrola, - pedi, encarecidamente, mas ela não parecia querer falar, então Hannah tomou a vez.
- Só porque ela disse pra mim o que a tinha falado sobre te amar - com um toque de crueldade, Hannah conseguiu despertar o outro lado da minha curiosidade, o agoniado, o que fazia toda e qualquer coisa para chegar logo ao final daquilo tudo. Fiz um gesto rápido com as mãos, mandando-a continuar. - Ela só falou que te amava de volta porque você falou primeiro, garoto bonito. Se sentiu pressionada, foi isso o que ela falou à . Que não te amava e até achava que você não a amava de volta, que só falou por empolgação.
- Você é uma pessoa horrível! - falou, na direção de Hannah.
Tenho certeza de que elas continuaram por mais algum tempo, falando e falando e falando coisas que deveriam ser do meu interesse, mas naquele momento, não era. Ela só falou por falar. levou minha seriedade na brincadeira, jogou no lixo o meu esforço com uma simples frase. Um eu te amo que poderia ter demorado mil anos pra chegar, se fosse honesto. Ela não precisava ter feito aquilo.
Não precisava ter jogado comigo daquela maneira. Mentido tão feio.
Deixei as duas no quarto falando da minha vida, da vida de , da vida delas mesmas e de quem mais quisessem falar. Naquele momento, eu não conseguiria ouvir mesmo. Só havia uma pessoa que eu precisava escutar.
Eu caminhei por todo o corredor até chegar ao meu destino. Algumas coisas precisavam ser postas à mesa.

Capítulo 26: I don't wanna think anymore!

- É, ele me disse sobre os problemas que estava passando em casa - Hannah disse, assim como quem não quer causar uma confusão. Mas ela queria. Ela sempre queria.
- falou pra você?
Hannah, e eu estávamos andando pelo corredor, na volta do almoço.
- Sim, nós temos conversado bastante sobre isso. Eu tive problemas com meu pai. Era criança, mas me lembro muito bem. Achei que minha experiência com o caso fosse servir de alguma coisa.
Muita coisa do que ela falava não tinha mais importância pra mim. O único pedaço de frase que ficou martelando na minha cabeça foi '... nós temos conversado bastante...'. Independente de qual era o assunto, eles estavam conversando bastante e aquilo me deixava louca da vida.
- Não sabia que vocês andavam tão próximos - eu disse, desistindo de disfarçar minha insatisfação. Hannah era o tipo de pessoal com a qual nós precisávamos impor limites. Era folgada ao ponto de saber que está incomodando e não se constranger nem um pouco com isso. Aquele intimidadezinha precisava ser cortada desde já.
- Sempre fomos, - ela deu de ombros. - Desde que ele chegou à escola. Você sabe disso.
Aquele tom de voz... Aquela necessidade de me deixar curiosa para saber qual o tipo de intimidade que eles tinham desde que chegou ali.
- E ele precisava conversar. Dava pra ver na cara do menino que tinha alguma coisa o pressionando e talvez ele nem tenha ninguém pra falar a respeito do pai.
- É claro que ele tem alguém pra falar sobre o pai. Eu. A namorada dele.
- É, mas você não conta porque nunca passou por nada parecido - ela deu de ombros e virou as costas pra mim. - Além do mais, não sei por que você se importa tanto. Você nem sequer o ama - Hannah me olhou por cima dos ombros, naquele ar de descaso e sabedoria extremamente suja e vil.
Encarei com surpresa. Hannah não tinha como ter ouvido aquilo, não tinha como saber daquilo.
Falei sobre meus sentimentos para em um dia em que nós duas estávamos sozinhas e, dessa forma, ninguém podia ter ouvido nada. E se eu precisei de tanto cuidado para manter o segredo, e mesmo assim ele saíra do ciclo que criei, é porque alguém tinha contado.
era a única que sabia. E agora Hannah.
E isso não significava apenas que ela sabia, mas que ela usaria o saber para me irritar pelo resto da minha existência. Vi isso naqueles olhos, naquela forma de virar o rosto e sorrir, ironicamente nojenta.
Vaca!
Aproveitei nossas posições e avancei. Só precisei dar dois passos até minhas mãos alcançarem toda a extensão da cabeleira loira e puxá-la para baixo.

Foi a porta batendo que me despertou dos devaneios e das lembranças. Os passos pesados denunciavam que não era uma garota entrando no banheiro e, se fosse, era uma bem bruta. Mas se não era uma garota entrando no banheiro feminino em plena luz do dia, eu já sabia quem era.
Não me incomodei em sair do box, nem mesmo desligar o chuveiro. Enterrei a cabeça na água fria para não poder ouvir, caso ele me chamasse. Deve ter funcionado porque alguns segundos passaram ainda na minha paz. Uma pena ela ter sido interrompida logo em seguida pela porta da minha cabine sendo aberta e entrando por ela. Ele fechou a torneira do chuveiro sem a minha permissão e me segurou pelo braço.
- Vai começar a me chamar de doida? - interroguei, quando percebi que ele não sabia o que falar. - Pode começar. Eu não me importo. Fale o que quiser falar.
- Doida! - ele disse, e não parecia nem de longe uma brincadeira ou resposta birrenta à minha afronta - Você realmente precisava ter feito isso?
- Mas é claro que eu precisava, !
- Fala sério!
- Estou falando! - soltei meu braço do seu aperto e pressionei meu cabelo entre os dedos para a água escorrer. Puxei a toalha do pendurador e a enrolei no corpo - , talvez você não tenha percebido, eu sei que sou uma boa mentirosa - ironizei - mas minha irritação com Hannah já estava passando dos limites. Uma hora ia estourar.
- Você é boa mentirosa, né? - ele cruzou os braços contra o tronco e me olhou de uma forma que não podia ser descrita de outra forma que não fosse magoada - Está dando pra perceber.
Não entendi em relação a quê era aquele comentário, mas fiquei ainda mais curiosa quando sua expressão desgostosa não se desfez. Franci as sombrancelhas, mandando um sinal silencioso para que ele me explicasse. Algo que ele não fez. Então eu precisei perguntar com palavras.
- O que foi?
- Hannah me disse o motivo da briga. Disse que foi por minha causa.
- Não só por sua causa, , foi por tudo. Foi porque ela não para de se jogar pra você, porque ela invade o meu espaço, porque ela se apossa da como se a menina fosse um objeto e...
- E porque a falou a ela que você não me ama.
E então eu entendi. Entendi a invasão repentina ao banheiro, a urgência, o olhar machucado e o silêncio que tomou a cabine após sua última frase. Depois de juntar a+b e verificar que tinha entendido tudo da forma perfeitamente certa, mas absurdamente atrasada, minha mente só conseguiu formular uma sequência de palavras.
Puta que pariu!
Engoli em seco porque a saliva sumiu da boca, lutando para achar a forma certa de me explicar. Eu estava com raiva por aquele motivo, estava sim, eu quis que Hannah explodisse em milhares de pedacinhos loiros e que fosse junto com ela pro fogo do inferno, mas precisava deixar bem claro para que a falta de respeito de irritava, sendo que a raiz do problema não era atual.
- Fiquei puta com a . Isso é coisa minha e, se eu contei é porque precisava dividir alguém de confiança.
- Porque além de tudo você não confia em mim também - seu sarcasmo magoou meus sentimentos.
- Deixa eu explicar!
- E precisa, ?
Arrumei a toalha ao redor do corpo só para ter algo em quê mexer. Não imaginava que uma discussão com pudesse ser tão calórica e culposa. Antes, quando ainda não estávamos juntos, nós brigávamos o tempo inteiro e sempre por causa dele. As confusões sempre aconteciam porque as causava, então eu não sabia como agir daquela vez, afinal de contas, o desconforto era por algo que eu havia dito. Por algo que eu sentira, ou não sentira a tempo.
- Lembra do que eu te falei ontem no quarto, antes de a gente ir assistir filme?
- A sua mentira? - assentiu - Lembro.
- Não era mentira - falei, quase sem saber como - Não era mentira. O que eu conversei com a foi antes.
- Conta outra.
- É sério! Tudo bem, eu confesso que não estava certa disso na primeira vez e acabei falando que te amava na empolgação do momento, sem realmente sentir. Mas foi de verdade ontem, e é de verdade agora.
Seus olhos continuavam me invadindo e eu sentia frio nos ossos, mesmo sabendo que não era por causa do banho. Era um mal estar que vinha de dentro da minha alma, me fazendo querer desmaiar, querer morrer. Odiei vê-lo desgostando de mim daquela maneira.
- Eu só preciso fugir de mentira e covardia. De covarde basta o meu pai. E não falar o que pensa, fingir um sentimento que não existe parece covardia suficiente pra mim. Eu preciso de alguém em quem confiar.
- Ah, mas você tem confiado em bastante gente, garoto! Em relação a isso não há de quê reclamar, não é? Hannah foi bem específica me mostrando que sabia demais sobre o que acontecia entre você e George.
- Porra, , mas ela nem sabe quem ele é! Eu falei por alto que estava com alguns problemas, nunca sequer mencionei o nome da Louise. Você sabe como eu detesto falar disso.
- Eu sei, mas fiquei com raiva! - grunhi irritada.
Nada dava resultado. Mesmo com todos os meus esforços para explicar, contestar e resolver, as palavras pareciam apenas sair em vão.
- Ficou com raiva de quê?
- Dela! - falei alto demais - Hannah quer tudo o que eu tenho! Eu não aguentava mais. Quando ela começou a falar de você e eu perdi o controle.
Nos encaramos em silêncio por quase um minuto até que sua frase quebrou o que eu achava que era uma fresta de reconciliação.
- De minha parte, não há razão pra ter ciumes da Hannah - Ah, tinha. Tinha motivo e tinha muito, mas eu preferi deixar que ele continuasse - Ao contrário de você, eu não minto sobre amar ou não uma pessoa. Sendo assim, não faz sentido ficar irritada pelo que a Hannah fala. Vocês já se conhecem bem, é do seu conhecimento que ela gosta de provocar. Não precisa embarcar na onda dela.
Descobri ali que o lado moralista de me enojava. Desisti de conversar. Durante todo o tempo de convivência a liberdade e a falta de dogmas dele me encantaram. Eu me sentia livre com porque não havia julgamento para as minhas ações. Portanto, vê-lo apontar meus defeitos, me subjulgando por causa deles, fez minha vontade de falar evaporar.
Com a expressão mais fechada que antes, tornei a arrancar a toalha do corpo e pendurá-la de qualquer jeito na porta da cabine, ligando o chuveiro e entrando na água. Para bons entendedores, aquele seria um sinal claro de que o clima estava arruinado.
Estava na hora dele me deixar sozinha, e ele deixou. Só ouvi a porta sendo batida com força para, depois disso, permitir que uma lágrima se misturasse à agua do chuveiro. Depois outra. E mais algumas. Não era uma lágrima triste ou de fraqueza, entretanto. Minha raiva derretia pelos olhos às vezes, como tratamento ao meu corpo cansado. Se eu deixasse de colocar aquele sentimento pra fora, de alguma forma, acabaria apodrecendo por dentro e contraindo um tipo de doença incurável.
Então eu chorei. E se alguém entrasse ali e me visse naquele estado, eu sequer ligaria. Enquanto as lágrimas fossem a melhor forma de aliviar minha cólera, mesmo que momentaneamente, seria feito daquela forma.

Eu preferi fingir que era uma visão monstruosa e que o inferno não tinha se materializado no meu quarto. Fiz de conta que a imagem de Hannah sentada no chão conversando com era miragem e que, se eu vestisse uma roupa e saísse de lá bem rápido, a cena nunca mais se repetiria no meu cérebro. Sendo assim, fiz tudo com pressa. Nem sequer penteei o cabelo direito.
Ela nem fez menção de sair. Toda a base de respeito que fingiu ter por mim durante todo o meu tempo naquela escola sumiu, e só o que ela queria era provocar. Eu podia ter me virado e jogado um jarro nela, uma cadeira, uma porta do guarda-roupas, um tijolo, ou uma macumba... mas eu preferi sair.
parecia desconfortável embora estivesse ocupada, trabalhando no notebook, e parte de mim queria ir lá abraçá-la e perguntar por quê tudo aquilo estava acontecendo, porém ela não fazia nada. Não me defendia, não me acusava, não dizia uma sílaba. E eu concordava com quando ele dizia que covardia era uma atitude deplorável. Reprimi os sentimentos e saí de lá.
Se eu fosse ser bem honesta, não tinha para onde ir. Podia subir até os aquários e dançar um pouco, mas só de lembrar que havia acabado de sair do banho e ficaria suada de novo a preguiça me invadiu. Mas quando percebi, já estava no caminho do dormitório masculino, e se eu estava lá, só havia um lugar para o qual poderia e deveria seguir.
Ele estava dentro do quarto, mas quando abriu a porta não foi para me deixar entrar. Pelo contrário, saiu ao corredor e fechou a porta atrás de si, me olhando de perto, tão endurecido quanto antes.
- Você não pode me tratar assim - expliquei - Não é direito seu dizer o que eu tenho que sentir. Ninguém pode obrigar ninguém a amar ou odiar ou sentir qualquer outra coisa - como ele permanecia mudo, prossegui - Aí você pode falar que nunca me obrigou a sentir nada, mas, porra, , nós estamos juntos a pouquíssimo tempo e você fala que me ama, assim do nada, sem nem um prato de entrada. Você queria que eu reagisse como? Queria que eu disse: É, bem, vamos conversar. Eu não estou assim tão envolvida.
- Seria melhor.
- Você gostaria de ouvir isso de mim? - sorri em escárnio - Pois eu duvido, . Cara, no momento em que eu falasse isso você me largava e me mandava vir pra escola sozinha.
- Claro...
- Ah, não vem bancar o irônico pra mim. Conhecendo esse teu ego fodido, seria exatamente assim a cena.
- Tá, , que seja! Mas e agora? O que mudou? Pra que insistir que antes não amava, agora ama? Qual o seu argumento?
Abri a boca para responder e no mesmo segundo percebi que a resposta não ia sair por ali. Não tinha resposta! Eu não sabia qual era a diferença, não consegui notar em qual momento deixou de ser envolvimento pra ser algo mais forte. Em contraponto, continuava me encarando, me requerendo algo que eu não podia dar. E eu simplesmente odiava do fundo da alma quando ele fazia aquilo.
Naquele minuto, eu achei que o diretor andando em nossa direção tinha sido meu golpe de liberdade. Respirei aliviada e esperei ele chegar, talvez para perguntar algo, avisar algo, reclamar de qualquer coisa, provavelmente da minha presença no dormitório masculino. Qualquer coisa seria melhor que achar uma resposta de última hora para a pergunta capciosa de .
E eu me tornava, de novo, a covarde da história.
- Diretor - cumprimentei.
- Boa tarde! - começou sem preâmbulos - Não que sua presença desse lado do dormitório seja correta, , mas facilita meu trabalho de alguma forma.
- Que trabalho? - perguntou, entendendo tanto quanto eu.
- Me acompanhem até a diretoria.
E pelo seu tom de voz eu pude entendi que aquilo não era um pedido.

Só havia entrado ali uma vez na vida antes daquele dia. Foi quando meus pais receberam um telefonema avisando que eu passara na seleção com nota máxima e ganhei o direito de estudar na Escola como bolsista. O diretor foi bem receptivo naquela tarde e me falou das regras e comandos da instituição com tanto orgulho que eu tive vontade de segui-los com afinco.
Nada de escândalos, bebedeiras, brigas e ser alvo de fofocas. A imagem da escola precisava ser sempre bem cuidada, afinal de contas, grandes nomes saíam de lá todos os anos, formados e praticamente prontos para a vida no mercado de trabalho artístico.
Eu garanto que cumpri tudo aquilo nos primeiros meses. E depois deles, quando bebia um pouquinho a mais do necessário, ainda ficava com a consciência pesada por estar descumprindo as regras e desrespeitando o diretor, mas confesso que depois tudo passava sem ser percebido. E ali estava eu depois de descumprir uma regra que ainda não tinha sido meu alvo: as brigas.
Não que eu nunca tivesse saído num bate-boca com alguém, nada disso, já saí várias vezes, mas sempre mantendo o nível das coisas. Mas Hannah me irritava de uma forma tão... argh! Naquele momento eu tive certeza de que ela tinha ido correndo ao diretor contar tudo já que, por ser filha de Tatiana, ela se tornava a queridinha da direção da escola.
- O que nós estamos fazendo aqui, diretor? - perguntou. Ele ainda tinha ousadia para isso. Eu não. Sabendo que estava encrencada, preferi ficar quieta no meu lugar.
- Na verdade, foi seu pai que me alertou para o que estava acontecendo, - o diretor falou o sobrenome de daquele jeito. Daquele jeito que denunciava o quanto ele sabia o significado que tinha.
Vi se remexendo na cadeira, já incomodado. Ele percebera também.
- E o que está acontecendo? - insistiu.
- Veja bem, a mais ou menos uma hora minha secretária comentou que os alunos estavam agitados. Ela havia acabado de chegar da sala comum entre os dois dormitórios e disse que todos estavam assistindo alguma coisas nos celulares e não paravam de comentar. Mas eu fiquei aqui e continuei meu trabalho, até porque, todos os dias o Youtube lança algum besteirol que todo mundo vai assistir. Não me interessava. Então eu estava aqui, entretido nesse monte de diversão que vocês podem ver - e com isso, ele apontou uma pilha de papéis com uma caneta acima, provavelmente algo que ele precisava morrer de ler para assinar - Quando o seu pai, , o governador George ligou perguntando que tipo de arte nossa escola ensinava aos seus alunos e queria saber o motivo de seu filho estar protagonizando um vídeo erótico em rede nacional.
Então eu não sabia se estava realmente caindo da cadeira ou se era só impressão da minha cabeça. O diretor encarava e eu não sabia se continuava ali ou fugia pela porta. Dava pra notar que ele estava com o vídeo aberto na tela do seu computador, eu reconheci a música de fundo, mas ele não o virou para nós. E eu até achei melhor dessa forma. Já seria mais vergonhoso do que estava sendo.
Eu definitivamente não sabia o que falar, mas parecia pronto para iniciar uma guerra.
Primeiro ele olhou para mim, talvez imaginando que, de alguma forma, eu tinha deixado aquilo vazar. Quando, mesmo com os olhos, eu deixei bem claro que não tinha feito nada, ele atacou o diretor.
- Como o senhor teve acesso a esse vídeo? Esse aquivo é pessoal. Só e eu o temos guardado.
- Pois não é isso o que parece, . Não é o que parece, . Até porque se não fosse seu pai eu nem sequer saberia da existência dele.
- Que filho da puta! - xingou. Quando o diretor levantou da mesa, indignado, fez questão de explicar que não se dirigia a ele, mas a George - Ele só pode ter catado isso no meu quarto, ! - falou comigo dessa vez.
Eu ainda não me movia. Minha vida estava arruinada.
O diretor falou que o vídeo estava circulando em rede nacional. Se aquilo estivesse mesmo se espalhado pela internet pelo país, a minha vida nunca mais ia ser a mesma coisa. Seria para sempre a garota qualquer que aceitou fazer sexo na frente de uma câmera com o filho de um político. E do jeito que a vida dos já não era a mais discreta dos Estados Unidos, as coisas se espalhariam ainda mais rápido.
- Meu Deus! - foi a única coisa que consegui dizer antes de esconder o rosto entre as mãos para nenhum dos dois ver que eu estava a beira das lágrimas. De desespero.
- Meu pai faz essas coisas, diretor! - explicou - Tenho certeza de que ele publicou isso e agora está querendo cobrar do senhor e da escola. Mas pode ficar tranquilo. Eu vou resolver essa situação.
De repente, era como se tivesse esquecido do nosso desentendimento anterior. Ele levantou da cadeira e me puxou pelo braço para que eu o acompanhasse. Eu, entretanto, não tive tempo de dar um passo sequer.
- Eu ainda não disse que terminei - o diretor nos parou antes de chegarmos à porta.
Ainda tremendo, olhei para trás, esperando o que ele iria dizer. De alguma forma eu sabia que ia me afetar. Independente do que fosse o assunto, as palavras, a forma de dizer, eu senti que as palavras atravessariam meu corpo diretamente. E acertei.
- , você sabia das condições quando veio estudar aqui. Eu te expliquei pessoalmente. Lembra desse dia? - assenti com um movimento da cabeça - Sem escândalos.
- Diretor, eu... Isso não era pra ter acontecido. É um vídeo pessoal.
- Gravado em uma das salas da Escola de Artes. Isso realmente não deveria ter acontecido.
Voltei a abrir a boca para tentar me explicar, mas ele foi mais rápido.
- Vá resolver a sua vida, as suas coisas. Tente consertar a bagunça que vocês fizeram. Mas quando acabar, volte aqui porque nós precisamos conversar sério.

Capítulo 27: I could have died right there

- Minha vida está arruinada.
Foi a primeira coisa que ela disse ao sairmos da sala do diretor. Antes mesmo de olhar nos meus olhos, antes de fechar a porta direito atrás de si, antes de dar um passo em qualquer direção. estava preocupada com sua própria vida, como sempre. Apenas seus próprios interesses.
- Não precisa de tanto drama também.
- Drama? - com o tom de voz que ela usou, tenho certeza que deu pro diretor ouvir de dentro da sala. - Você ouviu o que ele acabou de dizer? Me chamou pra conversar, , isso significa que eu vou levar uma bronca tão grande que não vou conseguir olhar pra frente por dois dias inteiros. E isso nem é o pior.
Comecei a andar para fora dali. O corredor cheirava a madeira velha e eu quis sair logo para qualquer lugar. Primeiro que o lugar me incomodava e segundo que estava me incomodando também e eu queria que ela fosse para um lado diferente do meu. Mas não foi.
Começando a me seguir, a garota continuou seu monólogo sem me dar espaço.
- Ele não vai fazer nada!
- Só se for com você! Porque eu... eu vou ser expulsa da escola!
- Isso não é motivo para expulsão, .
Mas era. Se o diretor puxasse mesmo pelo lado de que o vídeo havia sido gravado em um dos aquários públicos da faculdade, acho que poderia até nos processar se quisesse. Só que não deveria tomar aquele rumo, fazer aquele drama, tornar tudo tão apocalíptico. Precisávamos tomar uma decisão, claro, mas de cabeça fria.
- Ele pode até não me expulsar, mas pode tirar minha bolsa. E aí? O que eu faço da minha vida? Posso ter sido uma garota econômica durante toda a vida e trabalhado pra juntar dinheiro suficiente pra me manter na Califórnia, mas eu, com certeza, não daria conta de bancar um curso desses, . Você fica mandando eu não fazer drama, mas nem de longe a sua carreira vai ser afetada como a minha, caso esse vídeo continue repercutindo.
- Dinheiro não é o problema aqui. Nunca foi.
Quando parou de andar e me encarou com os olhos mais abertos que eu já tinha visto na vida, eu entendi que nós dois estávamos enxergando tudo por dois pontos de vista bem diferentes. Para ela, o que pesava mais era toda a questão monetária e como ela faria para continuar o curso caso perdesse a bolsa. Além do mais, eu achava que o fato de ficar mal vista pela sociedade também a assustava bastante. Para mim, a única coisa que importava é que, embora George fosse meu pai e eu estivesse cometendo um pecado horrível em pensamentos, eu queria matá-lo com as minhas próprias mãos.
Afinal, porra! Quem ele pensava que era para se envolver daquela forma na minha vida, nos meus pertences, nos meus vídeos, no meu namoro? Que direito ele tinha de expor minha vida para o país inteiro por causa de um caprichozinho? Eu não entendia se sua vontade era apenas me ver correndo pros seus braços pra pedir ajuda, interceder para que seu poder político me livrasse de mais uma enrascada. Honestamente, eu não sabia qual era a vontade daquele crápula, e eu só queria entender. Será que as coisas não poderiam ser resolvidas de uma forma menos escandalosa?
- Dinheiro não é problema pra você, filhinho de papai!
- Você quer, por favor, calar essa boca? - o problema nunca foi ela. não tinha culpa de estar envolvida entre meus problemas familiares e ter acabado presenciando cenas que não lhe diziam respeito. Mas falando em respeito, esse era um papel que ela não estava cumprindo. estava me desafiando de diversas maneiras diferentes e a cada minuto eu ficava mais esgotado. - Você fica me tratando como se eu fosse um sustentado mimado, mas você entende bem menos de problemas do que eu! É dinheiro o seu problema? A gente resolve isso num piscar de olhos, . Passamos no banco e sacamos dinheiro suficiente pra pagar o restante das mensalidades que faltam nessa merda de curso, mas presta atenção no real problema. George está se enfiando na minha vida e, consequentemente, na sua. Esse é o caso maior aqui!
Ainda estávamos parados no corredor, mas ainda bem que não era mais o que levava à diretoria, pois se fosse, tudo estaria sendo ouvido por metade da coordenação, já que não era o tipo de pessoa que costumava levar um debate discreto.
- Em primeiro lugar, nunca mais me mande calar a boca. Em segundo lugar, seu problema com seu pai NÃO É PROBLEMA MEU. E EM TERCEIRO LUGAR, ENFIE O SEU DINHEIRO NA GOELA E VÁ PRA PUTA QUE O PARIU!
Sua última frase fez minha raiva aumentar em níveis estrondosos. Sem conseguir conter a cólera, soquei a parede e pedi que ela falasse de novo.
- Repete isso, ! - à essa altura, eu falava tão alto quanto ela. - Vai jogar tudo nos meus ombros agora? Vai me deixar sozinho no meio dessa bagunça? - soquei a parede de novo e dei um passo em sua direção, crente de que ela recuaria, mas a garota permaneceu parada no mesmo lugar, me resistindo. - Depois de toda a confiança que eu depositei em você, depois de todos os desabafos e segredos contados você fala que meus problemas não são do seu interesse? Pois eu realmente não sei por que me surpreendo, , afinal de contas, esse é bem o seu tipo. O tipo que joga a rede pra você deitar e depois corta as alças pra você cair no chão. O tipo que MENTE QUE AMA VOCÊ E AINDA TEM A AUDÁCIA DE SE SENTIR OFENDIDA.
- Ingrato! - ela gritou, perante o meu rosto. - Eu te odeio! - e socou meu peito. - Odeio você! Você não merece um pingo do meu esforço!
- O seu esforço fingido? Não quero merecer, , muito obrigado pela oferta! Foi muito tentadora, mas eu passo.
O ar saía tão forte pelas narinas de que eu sentia o vento atravessar minha camisa. Ela fechou os olhos com pressa, creio que estava se esforçando para não enfiar a mão na minha cara. E eu, do meu lado, torcendo para que ela não conseguisse. Se levasse aquela briga pro nível físico, eu me vingaria, nem que pra isso precisasse segui-la até o inferno.
Mas ela conseguiu conter-se e começou a se afastar de mim. Virou as costas e deu vários passos em silêncio até que nós estivéssemos na bifurcação que levava aos dois dormitórios. Ela já estava seguindo para o seu lado do prédio e eu iria para o meu se ela não tivesse virado e me chamado a atenção. Sua voz estava muito mais baixa que antes, mas o que saiu por sua boca teve efeito maior do que qualquer outra coisa dita naqueles minutos sufocantes.
- Eu estava na minha, . Não pedi pra você vir até mim. Não queria me envolver, você sabe, eu suportei até o meu limite. Eu nunca fui o tipo de mulher que se deixa levar muito fácil por esses sentimentozinhos clichês e toda vez que isso acontece eu só quebro a cara. Eu tentei ficar longe de você o máximo de tempo que consegui, mas você insistiu até me ganhar. Eu quebrei barreiras dentro de mim que você nem sequer imagina. Então não venha duvidar do que eu sinto e do que eu digo que sinto. Eu não pedi pra ir pra sua cama, quem fez isso foi você. Eu não pedi pra te amar, você pediu. Então não trate meu amor como farsa porque você sabe bem que não é. E não tente mudar minha forma de agir porque você também sabe que eu não sou influenciável.
- Acabou?
- Acabou - ela falou, após quase dez segundos de olhos fixos, lacrimejando, e uma engolida em seco.
Cortei seu assunto como se não me importasse, mas a verdade é que tudo aquilo me atingiu como uma flecha em chamas. Eu duvidei do 'eu te amo' assim que Hannah me contou a verdade. Foram poucas as vezes em que me falou aquilo, mas após saber pelo outro ponto de vista eu desacreditei de todas elas. E ali estava ela, me acusando de não confiar no que ela disse, sendo que ela mesma me deu motivos para isso.
Seu discurso magoado me soava muito sincero, verdade, mas quem poderia me culpar por ainda não ficar seguro?
Acabou.... Mas o discurso acabou e eu agora tinha tempo de pensar em uma resposta à altura para dar. , entretanto, não estava muito disposta a esperar, pois voltou a andar e foi direto na direção do dormitório feminino.
Então, sozinho, comecei a ir na direção do dormitório também, para o quarto de e , onde eu pretendia me abrigar durante a noite. Porém, nesse percurso, a má colocação da palavra me deixou angustiado. Acabou, foi o que ela disse, quando, gramaticalmente, era mais correto ela ter respondido "Acabei". Acabei a frase, acabei o que estava falando, acabei meu estoque de xingamentos e defesas. Acabei, não acabou.
Acabou tinha outro significado naquele contexto. Pelo que eu podia entender, não estava falando do dircurso, estava falando de nós. E se o 'nós' havia acabado, as coisas mudavam totalmente de contexto.
Dessa vez era eu quem precisava de um banho. Talvez esfriando a cabeça eu conseguisse pensar e entender melhor o que foi que ela quis dizer com aquela palavra mal colocada.

- , ainda bem que você apareceu. Senta aí, eu tenho que te contar uma coisa - disse, totalmente agoniado quando eu entrei no quarto após o banho.
- Relaxa, , já estou sabendo do vídeo. Estou fodido, é, eu sei, mas fazer o quê?
- Cara, que história foi essa que eu ouvi todo mundo comentando no refeitório? - entrou no quarto logo depois de mim e começou a falar do mesmo assunto.
Sem paciência, enrolei minha cabeça na toalha úmida e me joguei em uma das camas, tentando fugir daquele assunto chato.
- já viu isso? - perguntou.
- Já!
- Caralho, o dia tá sendo puxado pra vocês dois, hein? Primeiro uma briga, agora um vídeo desses.
Respirei fundo, me preparando para ouvir mais. Conhecendo e como eu conhecia, dava pra saber que aquele assunto não iria acabar nem tão cedo.
- Mas sério, foi muito genial. Não sei se pega bem eu dizer que assisti, mas, cara, eu assisti e vocês mandaram bem! - continuou, perfurando meu cérebro com um assunto que eu, definitivamente, não estava no clima pra conversar. - E eu não tô falando de iluminaçãozinha e toda essa coisa gay que você curte, não, tô falando da ação do vídeo.
- Tá pegando mal, ! - alertou.
- Que nada. entende do que eu estou falando.
Desenrolei a toalha do rosto, já que muito em breve eu acabaria sufocado contra o pano úmido e o fiz de travesseiro. Minha expressão preguiçosa tentou convencer a calar a boca, mas não funcionou. E como eu não estava com muito ânimo pra mais um pouco de discussão, deixei que ele continuasse.
- Cara, no aquário! Como vocês tiveram essa ideia?
- Não era pra ser um vídeo de sexo, animal, era só a dançando. Só que as coisas fugiram do controle!
- Bom pra você! - ele riu feito um moleque. - Mas, mudando o ponto de vista da conversa... Vocês deixaram vazar ou...?
- Claro que não, ! Isso estava muito escondido e, se dependesse de nós dois, continuaria pelo resto da vida.
- Mas então... - ele pareceu parar para pensar um pouco. - Será que a Hannah fez isso? Sei lá, talvez pra se vingar por ter apanhado mais cedo.
- Não, eu não acho que tenha sido isso. Na verdade, eu sei que foi o meu pai. Ele faz essas coisas.
Só percebi depois que tinha falado demais. Os caras não sabiam de nada sobre a minha relação com George. Até onde eu me lembrava, nem sequer havia falado pra eles que o mais velho estava na cidade.
Na verdade, naquele momento eu percebi que todo o esforço que fiz pra esconder de quem era filho estava indo por água abaixo. Tanto tempo falando o mínimo possível, omitindo detalhes, não respondendo perguntas básicas... e então, por causa de uma droga de vídeo vazado, eu deixaria de ser apenas , o estudante de cinema, para ser o filho do governador que apareceu fazendo sexo com a namorada. Ou ex-namorada.
Acabou... Tornei a lembrar, mas fiz força para afastar a palavra da minha cabeça pelo máximo de tempo que conseguisse.
- Por que seu pai faria isso? - perguntou, sem perceber que estava começando a ultrapassar uma barreira que, pelo menos até ali, eu não queria deixá-lo passar.
- Porque ele é um filho da puta - resumi.
- Na verdade, - voltou à conversa. - Era sobre isso que eu precisava falar contigo.
Franzi os olhos, sem entender. Por que queria falar comigo a respeito do meu pai?
O garoto se aproximou de mim com o notebook aberto. Na tela, meu vídeo tocava mais ou menos pela metade. Eu amava aquela parte, quando agarrava as pernas pela minha cintura e me deixava tê-la como nunca antes. Eu poderia passar muito tempo ali, repetindo aquele um minuto e meio se a situação não fosse tão crítica. E, na verdade, era tudo muito mais complexo do que eu havia imaginado.
No canto superior esquerdo da tela, estava a informação que me assustou. Encarei , tentando entender se o que ele estava tentando dizer era a mesma coisa que eu havia entendido. Porque, honestamente, não podia ser. Se minhas dúvidas se concretizasse, seria o pingo d'água para estourar uma guerra muito maior do que a que já estava acontecendo entre nós. Tudo ficaria muito pior.
- Você não está falando sério, !
- O pior é que estou - ele disse, afastando-se para a outra cama e deixando o notebook comigo.
Por minha vez, continuei encarando o canto da tela com terror. Perguntando a mim mesmo o que era aquilo que estava acontecendo no mundo!
- Olha isso, ! - empurrei o computador pra ele.
Sua expressão não foi menos assustada que a minha. Na verdade, ele precisou se aproximar bastante da tela para ter certeza de que estava mesmo vendo o que estávamos vendo.
, nos vendo abismados, começou a contar a história. Segundo ele, Hannah o chamou pouco tempo depois de ter se livrado da briga. Haviam combinado que ele iria ao quarto da loira tapar o buraco que havia feito para espiá-la pelo outro lado. E foi quando ele estava lá que teve todas as respostas que eu precisava.
Peguei o notebook da cama e saí do quarto em disparada. Eu sabia exatamente onde deveria ir.
Aparentemente, independente do que eu quisesse e para que fosse, meu caminho sempre era o mesmo dentro daquela escola. O dormitório feminino me atraía porque lá ficava tudo o que podia me interessar. Primeiro Hannah, agora , em seguida a minha resposta.
Andei com pressa pelos corredores, sem me importar a mínima pra quem olhava torto pra mim no meio do caminho. A magia da hipocrisia era realmente incrível. Eu daria um dedo pra ter a lista de todas as pessoas que já fizeram sexo pelos corredores e salas daquela escola. O culpado pior era eu apenas por ter filmado, apenas por ter sido exposto. De repente, a minha relação sexual era digna de comentários e olhares feios só porque eu não consegui esconder direito.
Como a porta não estava trancada de chave, obedeceu rápido para abrir quando eu a chutei. Não foi com brutalidade, eu apenas não estava com paciência para segurar o notebook em uma mão só e, com a outra, pegar na maçaneta.
Ela estava deitada na cama com o travesseiro cobrindo os olhos. Sinal claro de gente que não está muito afim de conversa, mas eu estava. E era isso o que importava. Do outro lado do quarto, veio na minha direção, querendo, provavelmente, saber por qual motivo eu estava entrando em seu quarto daquela forma.
- , eu preciso falar com você - falei, ignorando e vendo tirar o travesseiro dos olhos para me encarar. Ainda confusa, ela sentou na cama e esperou.
- O que é isso, ? - continuou insistindo.
Apontei a tela na direção dela. A princípio não compreendeu sobre o que eu estava falando, mas quando meu dedo indicador apontou o canto correto da tela, ela arregalou os olhos e soube o que eu estava querendo dizer.
- É o Bean? - ela perguntou, a voz ainda baixa de quem está tentando acompanhar o ritmo dos acontecimentos. - O nosso vídeo está no Bean? , por que essa merda está no Bean?
levantou da cama e encarou a tela com os olhos quase saltando das órbitas.
- Meu Deus, o mundo só pode estar desabando aos poucos em cima da minha cabeça - começou a falar alto e eu me vi naquele corredor de novo. Mais briga, mais confusão, mais busca de respostas. - Primeiro Hannah, depois , depois o diretor, de novo e agora você! - falou com . - Está querendo me dilapidar? O que é isso? Que dia amaldiçoado é esse?
continuava parada, aparentemente perplexa, tanto quanto nós. Mas aquilo não me amoleceu. Ela estava nos devendo algumas respostas.
- disse que estava no quarto da Hannah e olhou pro lado de cá pelo buraco. Ele viu quando a saiu da cama e deixou o vídeo fazendo upload.
- Eu não fiz isso!
- Está na nossa cara que você fez, sim! - respondi.
- , eu nunca vi esse vídeo na minha vida! - foi sua vez de falar alto. - Eu não sei nem o que falar sobre isso. Como vou postar alguma coisa que eu nunca vi? Que nunca tive contato.
- Está no Bean, ! - por mais óbvio que aquilo fosse, fiz questão de explicar. Talvez, depois de muito eu falar, ela entendesse que eu não cairia na conversa de que ela não tinha feito upload. Só ela tinha acesso ao vídeo e ao Bean ao mesmo tempo. Mas pensando sobre ter acesso ao vídeo, uma pergunta me veio à mente. E deve ter pensado a mesma coisa, porque perguntou antes de mim.
- Esse vídeo estava escondido. Como você o achou?
- Não achei! - gritou de novo. - Não achei nada. Estou falando! Eu não postei o vídeo no Bean!
- viu você! - acusei.
- Então ele viu errado! ... - ela parou por cerca de cinco segundos olhando para a tela. - ... isso é muito sério e muito íntimo. Você poderia ter matado a minha mãe e ainda assim eu não jogaria isso no Bean ou em qualquer outro lugar da internet.
- Ai, meu Deus! - falou, e sua voz estava diferente. Estranhamente diferente.
Virei meu rosto em sua direção pra ver sua expressão cansada e seu rosto vermelho parecendo prestes a explodir. A garota enfiou as mãos no cabelo e as apertou ali, talvez querendo reprimir algum sentimento. Eu percebi depois de poucos segundos que a tentativa não foi bem sucedida. Caiu uma lágrima do seu olho.
Eu tenho a impressão de que, naturalmente, em um dia normal, ela esconderia aquilo de nós. Mas era como se ela já estivesse tão cansada que omitir o choro já não fazia mais sentido. A lágrima abriu espaço para outras e soluçou tão alto que eu achei que houvesse machucado sua garganta.
- Eu não acredito mesmo que isso está acontecendo! - continuou soluçando.
- - quase suplicou. - Eu não fiz isso!
Com uma gargalhada impiedosa, se afastou de nós e da tela do computador para ir até embaixo da cama e pegar um par de sandálias de lá. Então ela as calçou e se direcionou para a porta. Saiu sem olhar pra trás, mas ainda rindo. Eu não sabia se era por não acreditar no que dizia ou por não saber o que fazer com a informação.
Bom, eu não sabia o que fazer. Escolher entre ir embora dali ou procurar não era tão fácil.
Decidi fugir do quarto, da forma com que fez. que ficasse ali sozinha pensando nas grandes consequências do que acabara de fazer.

Capítulo 28: I need to let you go

O dia passou. O outro também.
ficou mudo. também.
foi dormir em casa e sumiu. Não sei por onde estava. Só sei que passei duas noites dormindo sozinha no quarto, tendo que enfrentar por mim mesma os fantasmas da solidão. O problema consistia em não ser uma escolha. Muitas pessoas preferiam ficar sós, morar sozinhas, viver por si. Mas eu não era assim. Sempre precisei de companhia pra ser feliz. Quando criança, invadia o quarto dos meus pais pra ouvi-los conversando antes de dormir. E quando eu cresci, invadia ainda assim para conversar junto.
Dormir sozinha naquele quarto que tinha espaço para dois significava que as coisas estavam andando muito mal.
Do outro lado do conflito, o mistério ruiu. Isso significou muito na vida de . Eu soube mesmo que não estivesse acompanhando de perto. Ele ia às aulas e almoçava na mesma mesa de sempre com e , mas Hannah, e eu nos distribuíamos em três mesas diferentes. Uma longe das outras.
Com o vídeo espalhado, não conseguiu mais disfarcar detalhes sobre sua família. Diversos programas apresentaram o vídeo e o escândalo do filho do governador em um filme íntimo. Ele fazia força para não ligar, mas no refeitório era notório o quanto ficava incomodado com todos aqueles olhares.
Eu me sentia dolorida por ele. Eu precisava ajudá-lo, tinha essa vontade crescendo e crescendo, mas estava tão magoado comigo que não me olhava desde o dia do apocalipse. Ensaiei diversas formas de me aproximar, de oferecer meu ombro ou só ouvir o que ele precisava dizer, e só conseguia imaginá-lo me afastando, jogando nos meus ombros o 'eu te amo' tão falado.
E eu estava magoada também. Não era só o fato dele ter desconfiado, era a forma com que agira. me jogou contra a parede, me acusou. E eu sempre esperei compreensão dele.
Além do mais, não era somente a vida dele sendo afetada. Se por um lado, foi descoberto como garoto famoso já personagem de escândalos anteriores, eu estrelei em um mundo que antes não me pertencia. Fui fotografada na janela do meu próprio quarto no dia anterior por algum sanguessuga sem vida própria querendo expor a minha à gente que não tem nada a ver. Eu ganhei a fama. Eu virei a safada, a que se deixou ser filmada, a que tinha interesses monetários na conta do governador.
A forma com que desfiz os nós da cabeça e deixei tudo de lado não é difícil de imaginar: dancei. Já que não tinha condições de, verbalmente, mandar todo mundo ir se foder, optei por me isolar e fazer a única coisa boa que ainda me restava naquela escola.
A coreografia que criei com para o desafio do ano ainda estava incompleta e, nesses dois dias, eu me concentrei em terminá-la, mesmo sem saber se ainda teria a oportunidade de me apresentar. Depois de passar tanto tempo tendo a certeza de que ela seria minha dupla, meu apoio, me vi perdida para decidir se iria continuar ou não.
Mas eu escolhi finalizar os passos. Precisei de alguém pra filmar tudo no final só que, infelizmente, meu namorado não parecia estar disponível. Dei meu próprio jeito, pendurando o celular em um cordão e deixando-o filmar sozinho. Claro que fiquei chateada ao assistir e ver que todas as vezes que o vento entrava no aquário o celular mexia e a imagem ficava turva. Mas o que eu podia fazer? Ninguém podia ocupar o espaço de , parado atrás de uma câmera, apontando-a para mim.
Meus dias estavam passando mais devagar também. Eu saía da aula para o quarto, almoçava e ia pro quarto de novo. Estudava por lá mesmo e, quando queria ir dançar, preferia os horários da noite, quando os aquários iam ficando mais vazios. Ser alvo de piadinha nunca foi tão cruel. Saber que quase todos na escola haviam me visto parcialmente nua em um vídeo de noventa segundos, entendendo da maneira completamente errada e suja o que fora tão limpo e mágico no momento...
Tentei relevar.
No fim da aula do terceiro dia, eu andei como antes até o quarto. Sozinha, sem ânimo, mas nunca de cabeça baixa. Independente de qualquer coisa, eu ainda era a mesma , a mesma pessoa que pisava em cima do dedo do filho da puta que quisesse me passar pra trás. Ser apontada era horrível, mas ninguém precisava saber quão mal eu me sentia. Vesti minha capa e andei como sempre até estar protegida e só entre as paredes do meu quarto.
estava no quarto.
Depois de muitas horas afastadas e duas noites dormindo sem ela, eu não sabia como agir. Sua resposta ao vídeo continuava soando estranha para mim. Se a viu postando, como ela ainda ousava negar tudo? E ainda por cima dizia que nunca havia assistido os noventa segundos.
Quando me viu entrando no quarto, retesou-se, como se não esperasse minha chegada. Estava mexendo no guarda-roupas e continuou assim.
A princípio, minha intenção era pegar o notebook e estudar um pouco para as provas da semana seguinte, mas com ela ali, perto demais da minha raiva e confusão, não consegui me concentrar. A verdade é que eu queria resolver aquela situação de uma vez por todas, só não fazia a mínima ideia de como faria isso. ainda estava calada, sem me dar a ideia de como eu poderia iniciar uma conversa. E eu nunca fui um gênio em conversas pacíficas.
- Onde você dormiu? - perguntei, sem conseguir parecer sutil.
deu meia volta em seu próprio corpo e olhou pra mim, surpresa. Provavelmente não esperava que eu me dirigisse à sua pessoa, pelo menos não daquela forma, sem pular com uma faca em seu pescoço.
- Com - ela disse, sem delongas.
Certo, o passo inicial eu já havia dado, precisava então decidir como seguir adiante.
Mas quem dera minha mente fosse suficientemente não-orgulhosa para aceitar tranquilamente as outras maneiras com que ela havia me traído. afirmava não ter enviado o vídeo para o Bean, mas em relação a Hannah não tinha como negar. Ela contou meu segredo. E quem me garantia que aquele havia sido o primeiro? Se eu fosse caçar, seria capaz de descobrir que Hannah sabia mais sobre mim do que meus próprios amigos. E tudo por culpa de .
- Você dormiu aqui mesmo? - ela perguntou.
- Sim.
- E como você está?
Aparentemente, ela tinha mais sucesso que eu em começar uma conversa embaraçosa. E se eu fosse parar pra pensar, ela sempre fora mais comunicativa que eu. A prova viva da sua versatilidade era o emprego que tinha: comunicando, expondo, falando, contando. Até mesmo sobre mim.
Olhei e tentei deixar claro nos meus olhos o quanto eu estava cansada, o quanto meu peito doía toda vez que eu lembrava o quanto as peças do quebra-cabeça se bagunçaram na minha frente.
- Estou doente - sorri de lado, triste.
Pude ouvi-la respirar forte antes de dar dois passos na minha direção e parar de repente, indecisa.
Droga, era a minha amiga. Minha amiga. Não podíamos ficar daquela forma.
Dei os passos que restavam para quebrar a distância que nos separava e então eu engoli seu pescoço com meus braços, ao mesmo tempo em que arranjava alguma forma de retribuir meu carinho. Menos de um minuto depois, as duas já choravam e a voz dela começava a surgir, baixinha, falando coisas que eu precisei me esforçar para ouvir.
- ... você precisa acreditar em mim, droga. Eu não fiz isso. Eu nunca faria uma maldade dessas com você!
- E então o que foi que aconteceu? - nos separamos para poder conversar cara a cara. - , seu chefe não tem interesse algum em publicar minha vida, ele não me conhece, não tinha como saber que eu namoro com .
- E nem eu tinha interesse de publicar vocês dois lá. Pensa bem! Eu nem sequer sabia que era celebridade.
- Não é bem celebridade e ele odeia que todo mundo saiba disso.
- Escondeu muito bem! Eu não sabia! Se eu estivesse com muita raiva de você e quisesse espalhar seu sextape, isso levando em consideração que eu soubesse da existência dele, o distribuiria pela escola, ou sei lá... Imagina um vídeo meu com o na internet. Vai fazer efeito? Não! E por quê? Ninguém sabe quem nós somos!
- Se não foi você, quem foi?
- Como eu vou saber? - ela disse, alto. - Você não tem algum palpite?
- acha que foi George, mas eu não sei, não. Não entendo a razão pra ele querer expor a própria família.
- George é o pai dele, não é?
- Sim. O homem é medonho. Todo simpático, mas não caiu nas minhas graças. Não confio nele.
- E por que você acha que não foi ele?
- Como ele faria esse post? Só se tivesse pago seu chefe, mas isso é tão absurdo!
- Tem muita coisa estranha nessa história - ela disse, naquele tom honesto de quem tem muitas desconfianças e lados para olhar.
Mas ali acabava o nosso assunto. Alguns minutos depois, ela me perguntou a respeito de e como andavam as coisas entre nós, mas, honestamente, ela ainda era a minha traidora. Independente do vídeo, Hannah ainda estava na história e eu tinha medo de que outros sentimentos meus fossem expostos a ela. "Não estamos bem." foi a única coisa que eu disse e decidi ser sincera sobre isso. O mal estar era óbvio. Qualquer um em toda a instituição saberia que tudo estava ruim se nos visse.
Quando o outro mal estar começou a ficar mais apaziguado, entre e eu, nós decidimos que estava na hora de voltar a ensaiar nossa coreografia. Muita coisa estava acontecendo, mas nós ainda tínhamos o Desafio do Ano para ganhar.

- Oi, - atendi o celular.
Após algumas horas dançando com em um dos aquários, tomamos banho e voltamos ao quarto. Iríamos nos arrumar pra ir comer alguma coisa. Mas então meu celular tocou e o nome de apareceu na tela e eu não tinha escolha a não ser atender.
- Você pode vir ao estacionamento?
- Por quê?
- Quero falar com você.
Ele deve ter ouvido minha respiração forte do outro lado da linha e, com aquilo, entendido que eu não estava com disposição para mais discórdia. Brigar ia me fazer tão mal naquele momento. Pior ainda se quisesse continuar com as cobranças e as dúvidas a respeito do que eu falava.
- É importante - resumiu. - Sobre o vídeo. Não foi meu pai.
- E você sabe quem foi?
chegou perto de mim, tentando ouvir a conversa. Mas não havia muito o que ouvir porque não parecia disposto a falar pelo celular.
- Não, mas nós precisamos descobrir - ele disse, agora já parecendo impaciente. - Escuta... você não pode vir aqui? Não estou afim de passar mais tempo que o necessário aí dentro. Eu não vou demorar, juro.
- Tudo bem, vou descer.

estacionou na vaga mais afastada e escondida, sendo assim, eu mesma demorei a encontrá-lo no prédio garagem. Não fiz questão de ser educadinha ou demorar a entrar no carro para fazer cena. Ele tinha algo sério para tratar e eu estava mais do que disposta a mandar aquela pendência pro inferno de uma vez por todas. Sentei no banco ao seu lado e, como de costume, tirei as sandálias dos pés.
- Não foi a também.
- Imaginei que não tivesse sido. Mas alguém usou o perfil dela pra postar.
- Levando essa ideia em consideração, eu bem posso imaginar quem teria postado.
- Hannah.
- Ninguém mais pura.
- Por qual motivo? - encarei seu rosto com descrença. A garota tinha todos os motivos do mundo para armar contra mim, ela só precisava de um gancho. - Tudo bem que ela não goste de você, mas espalhando isso ela saberia que eu ia me ferrar junto. Então eu volto a repetir. Não faz sentido.
- Ela sabia sobre George? - perguntei, torcendo internamente para que não. Parte de mim queria ser a única a saber dos segredos de .
- Só você sabia disso, .
- Era só pra confirmar.
- Claro.
Silêncio no carro. Acontecia isso antes de ficarmos juntos, mas depois da nossa primeira vez, só ficávamos em silêncio para nos beijar. E ficar sem falar por desconforto era ultrajante quando nós dois éramos os personagens da cena.
- Como sabe que não publicou o vídeo?
- Ela me disse - falei. - E eu acreditei porque ela foi... convincente, eu acho. , ela não tinha motivos. Essa é a verdade.
- Fizeram as pazes? - ele perguntou, mal me deixando acabar a frase anterior.
- Fizemos.
- Imagino que somente pelo vídeo. Até porque a briga de antes não foi culpa dela.
E então ele ia mesmo começar a falar do motivo da briga? Se fosse, eu estava bem preparada para dizer de novo que o motivo da briga havia sido e sua relação com Hannah, não a minha com ele. Mas eu não queria brigar, eu realmente não queria brigar. Eu preferia morrer. Então calcei as sandálias de novo e abri a porta para sair do carro. Pouco tempo depois, ele fez a mesma coisa que os mocinhos babacas nos filmes de romance. Segurou meu braço e falou:
- Não, , espera. A gente não vai falar sobre isso. Me desculpa.
Talvez tenha parecido que eu aceitei seu pedido para me explicar, para ser superior ou só porque achava o Jeep dele confortável, mas a verdade é que eu fiquei porque estava com saudades.
- Não tenho problema nenhum em falar sobre isso, sabe? Só que não adianta conversar com alguém que não quer me ouvir.
- Eu quero ouvir.
- Mas não acredita no que eu digo!
- Por causa do histórico!
E com isso, eu só consegui deixar o ar sair de forma cansada pela boca entreaberta.
- É por isso que eu não quero conversar.
- Mas eu preciso de uma resposta - ele segurou meu braço com mais força, nada que causasse dor. - Dá uma pra mim!
- Eu já dei! - falei, baixo. Como meu corpo voltou a se encostar no banco, me soltou. Seu afastamento me deu vontade de aproximação de novo então, desta vez, eu me aproximei de seu banco, para que nossos rostos estivessem a menos de cinquenta centímetros de distância. - Já dei as respostas que você quer. É você quem não acredita em mim.
- , você mentiu!
- Me desculpa!
Não gritávamos, nem sequer falávamos alto. Nossas vozes estavam quase em um cochicho e mesmo assim era o suficiente.
venceu a distância entre nós e me beijou nos lábios. Mas foi leve. Não leve no sentido cuidadoso, suave e gentil. Foi leve no sentido frio. Todo o meu corpo se arrepiou, é verdade, afinal de contas, aquilo sempre acontecia quando estava colado em mim, mas assim que notei que não havia tanto calor ali, me afastei e encostei no banco de volta.
Foi ali que eu entendi que, assim como eu ainda não estava pronta para confiar na totalmente, não estava para confiar em mim. E aquilo doeu de verdade.
- Eu preciso ir pra casa.
- Eu sei - Sabia, mas não queria. - Como estão as coisas lá?
- Péssimas. Meus pais estão no meio do divórcio.
- Divórcio? - me assustei. - Mas como assim divórcio? Eles não pareciam tão bem alguns dias atrás?
- Tudo o que eu sei é que eles estão brigando pra caralho e meu pai apareceu com uns papéis pra ela assinar. Eu desconfio que não seja de agora, sabe? Ninguém se divorcia do nada.
- Mas pelo que você diz não é de hoje.
- As brigas não são de hoje. Agora se você me disser um dia inteiramente feliz e verdadeiro nos últimos três anos, vou ficar muito grato em recordar. E mesmo assim eles pareciam dispostos a continuar levando com a barriga. Aí naquele mesmo dia amaldiçoado, eu cheguei em casa e eles estavam sentados na mesa, cheios de cara fechada, lendo esses papéis.
- Falaram pra você que era divórcio?
- Não, mas não tem outra resposta. E quer saber, ? Minha mãe não vai perder nada com isso. George só traz tristeza pra vida dela de uns tempos pra cá. Ela está melhor aqui, e estaria ainda mais se ele não tivesse chegado.
- O clima em casa deve estar super pesado, imagino.
- Está e é por isso que eu detesto a ideia de ir embora - ele respirou fundo. - Mas eu preciso ir.
E com essa última frase, eu entendi os dois sentidos do momento. Ele precisava ir para ser apoio a Bridget, mas também precisava ir porque se afastar de mim era o melhor pra ele, pelo menos por enquanto.
Dessa vez eu levantei e saí do carro sem nenhuma interrupção, mas quando a fechei pelo lado de fora, precisei me encostar na janela e fazer uma pergunta antes que ele fosse embora.
- ... - esperei ter sua total atenção. - Como ficamos?
- Eu pensei que isso já houvesse sido resolvido - tomei um choque.
Quando nós brigamos, eu achei, sim, que estava tudo terminado e que nunca mais as coisas seriam como antes, mas ali, tão perto dele, eu não conseguia parar de imaginar o quanto aquela ideia era assustadora. Para piorar, vê-lo falando daquela maneira, colocando o ponto final que eu me recusava a impor, meu coração doeu mais que antes.
Minha única saída foi engolir em seco e me afastar do carro, deixando que ele fosse embora.

Capítulo 29: You know it's so hard when love comes

Precisei bater a cabeça no volante cerca de três vezes e me xingar bastante pra me dar conta do que eu havia acabado de fazer. Mas, porra, ela havia começado com tudo. perguntou como estávamos e a minha resposta não foi nada além de honesta. Eu realmente achava que tudo estava resolvido. Quando falei isso, não quis cortar assunto e me afastar de vez. Na verdade, era mais como um pedido desesperado por uma volta. "Achei que estava tudo resolvido, mas se não estiver, me diga porque eu quero mudar as coisas."
Era pra entender assim, mas só percebi a burrada quando já estava longe da escola.
Não era necessário ser gênio para saber que eu havia acabado de ferrar o que já estava mais do ferrado. Bom garoto!
Em casa, as coisas não estavam boas também. Naquela noite, eu entrei ali só pra ter certeza de que tudo sempre podia ficar pior. George estava trancado no quarto enquanto minha mãe cozinhava algo rápido para o jantar. Larguei minha mochila no sofá e fui até a cozinha lhe dar um beijo.
- Oi, mãe.
- Oi, filho.
Tanto eu como ela esbanjávamos aquela sensação de infortúnio. A cabeça dela estava pesada também, imagino que da mesma forma que a minha. A verdade é que estávamos passando por formas distintas de sofrimento e que eu nunca saberia definir qual era a pior. Não fazia o meu tipo ser dramático, nem quero dizer que os problemas da minha mãe eram menores que os meus, mas... eu estava passando por muita coisa. Assim como ela.
- E com foi hoje na faculdade?
- Foi um saco, mãe. Seu marido não poderia ter me dado um presente melhor que esse.
- Ai, , por que você insiste? - ela virou de frente pra mim, ficando de costas com o fogão. - Por que George exporia você desse jeito, meu filho? Será que você não vê que é ele quem sai mais prejudicado?
- Mãe, a vida dele já está ferrada. Agora ele quer destruir a minha.
- Você não entende o conceito de amor paternal. Depois reclama que ele te chama de criança e, , você precisa amadurecer, menino.
Aquela defesa toda me enojava. Por que ela fazia aquilo? E todas as coisas que ele a fizera passar? E o que estava fazendo a Louise? E todas as pancadas, todas as amantes, as festas chatas que a obrigavam a servir de esposa troféu, todos os maus costumes que ela teve que se acostumar.
- Por que está defendendo ele? Não é nem seu marido mais.
Vi minha mãe voltar a me olhar, mas desta vez, com uma expressão em choque no rosto. Como se não conseguisse falar nada a respeito.
- O quê? Você acha que eu não vi que vocês estavam assinando os papéis do divórcio na mesa?
Ela não mudou de posição ou expressão facial. Continuou ali, me censurando como antes, talvez por dentro estivesse amaldiçoando o dia em que me pariu, mas que se dane! Eu não podia ficar calado diante daquela enganação.
- Eu acho que é melhor você ir se deitar. Venha comer depois que seu pai estiver no quarto de novo. Vamos evitar confusões por hoje.
- Você não está me pedindo isso - sorri amargo, mas já estava no caminho da sala, buscando a mochila para me trancar no quarto. - Está errada, mãe, e eu, sinceramente, não consigo enxergar um cenário em que você não esteja arrependida daqui um tempo.
Dizendo isso, fiz o que ela pediu. Me tranquei ali para que seu adorado marido não tivesse o desprazer da minha presença.
Mas não estava livre ainda. Enquanto tirava o tênis, a porta do quarto se abriu e minha mãe entrou por ela, apenas para dizer duas frases que ecoariam em minha mente pelo restante da noite.
- George está indo para Washington amanhã pela manhã. Não precisará vê-lo por um bom tempo.
- Pelo menos alguma coisa pra me deixar feliz.
E então ela saiu. Não parecia contente e, de fato, não estava. Mas havia algo mais pesando sobre suas costas, algo que eu queria saber, mas ainda não estava disposto o suficiente para perguntar. E ficaria para depois. Minha mãe ia me desculpar, mas não havia espaço para mais problemas na minha cabeça.

Você espera que as pessoas amadureçam na medida em que o tempo passa. Quando eu cheguei à faculdade, não imaginei encontrar babacas. Estava torcendo por pessoas adultas, sem brincadeiras de colegial, sem o maldito bullyinng que eu sempre achei tão frescurento.
Eu, com certeza, não esperava encontrar um recadinho em cima da minha cadeira na aula. Muito menos que nesse bilhete algum imbecil tirasse um sarro por eu só ter aguentado fazer sexo por noventa segundos. Não me importei por duvidarem da minha capacidade sexual, aquilo não era da conta de ninguém, por outro lado, estar no meio daquele lixo me deixou enojado. Era verdade que eu não fizera grandes amigos, apenas colegas, só que você espera respeito das pessoas com que convive.
Mesmo à contragosto, permaneci na aula até o final. Meu desempenho letivo não podia ser prejudicado por um invejoso qualquer. Com certeza, todos aqueles caras da minha sala dariam um dedo para protagonizar um vídeo daqueles, principalmente se fosse com . Pensar nisso me deixou enciumado, mas também me fez olhar o outro lado da moeda. Eu não deveria me sentir diminuído por ninguém. Minha vida estava exposta, mas ainda havia algum mérito.
Ela fora minha da forma que ninguém mais naquela escola havia tido.
Quando a aula acabou, apressei meus passos para conseguir alcançar a garota antes que ela tomasse outro rumo. Algumas coisas precisavam ser vistas e as frases deveriam começar a fazer sentido. Ela estava saindo da sala de aula com a câmera ainda pendurada no pescoço e não demorou a me avistar. A princípio, não pareceu que ia parar para falar comigo, mas depois ela simplesmente esperou.
- A gente precisa conversar sério.
- O que foi? - nunca, e eu repito, nunca Hannah havia sido tão ríspida comigo antes. - Está disposto a arcar com as consequências do que aquela filha da puta fez comigo?
Aparentemente, não havia nenhuma marca física, mas Hannah estava com uma blusa de mangas compridas e, como fazia um calor infernal naquela manhã, eu imaginei que só podia ser para esconder algo. E olhando bem... havia uma pequena marca avermelhada em sua testa, o que provavelmente era fruto da sandália que havia mirado ali.
Eu confesso, quando cheguei em casa no dia da briga, ri daquilo. podia ser louca, mas sua pontaria era aguçada e sua forma de defesa muita diferenciada.
- Não estou interessado nisso agora, Hannah.
- E então o quê? - ela nem sequer me olhava. Estava ocupada tirando a câmera do pescoço e a organizando para colocar no case.
Não precisei tomar coragem ou pensar melhor para dizer o que disse a ela naquele minuto, e minha falta de cuidado deve ter sido bem grande porque Hannah olhou pra cima com tanto espanto que seus olhos quase saltaram das órbitas.
- Você enviou o vídeo, não foi?
- Não. enviou. E todo mundo já sabe.
- É, mas a não tinha porque fazer isso, então talvez todo mundo esteja enganado.
- E eu por acaso trabalho no Bean?
- Por acaso, não, mas...
- Mas o que, ? Você ficou irritadinho porque todo mundo descobriu sua história de vida e o quanto você já aprontou nela, mas não me envolva. Não tenho absolutamente nada a ver com isso.
- Você tinha motivos! - acusei.
- E você é muito vaidoso! - ela riu de mim. Hannah riu de mim e aí sim eu me senti diminuído. - já deve ter te dito isso, mas nós não brigamos por sua causa, garoto bonito. Brigamos por , brigamos por nós mesmas, brigamos porque eu não aguento aquela garotinha na minha frente. Você foi um dos tópicos, claro, mas apenas um. Não se sinta o centro da nossa desavença.
- Não estou me sentindo nada.
Mentira. A princípio eu estava sim, mas aquela verdade estava sendo tão jogada na minha cara que estava mais do que na hora de entender que elas não chegariam ao ponto de brigar por mim. Eram controladas demais por isso. A briga aconteceu porque os motivos foram acumulando-se uns por cima dos outros. Mas eu não era o topo dos motivos.
- E eu estou acreditando - seu olhar irônico me permitiu entender o real sentido da frase. Eu não sabia disfarçar.
O fato de estar negando firmemente não a isentava de culpa. Pessoas mentem. Talvez ela só fosse tão boa em fingir quanto havia sido. Eu sabia muito bem que, se Hannah realmente houvesse enviado o vídeo e quisesse esconder isso do mundo, esconderia. A garota sabia ser bem fingida.
- Eu vou descobrir quem fez isso.
- Te desejo toooooda a sorte do mundo - ela cantarolou, se afastando de mim.

Sentei com e para almoçar, mas não imaginei que veria puxando pela mão para nossa mesa. Embora surpreso, imaginei que aquela talvez fosse a minha chance de consertar a burrada que havia dito na noite anterior.
Ela parecia realmente chateada por estar sentando ali, mas mesmo naquela cena, teve algo que me fez rir genuinamente. Era final do mês de novembro, e eu percebi isso só quando vi um copo imenso de milk shake na mão dela.
Sentada de frente pra mim, procurava não olhar muito pra ninguém, talvez pra não acabar esbarrando com meus olhos, que se mantinham fixos nela na maioria do tempo. e eram os responsáveis por manter a mesa livre do silêncio. e comiam empolgados como sempre e eu dividia meu tempo em olhá-la, prestar atenção ao que dizia e imaginar como pediria desculpas.
Eu planejava diversas coisas para falar e só percebi que passei tempo demais apenas pensando quando ela fez barulho tomando o último gole do milk shake pelo canudo. levantou da mesa e disse:
- Estou morta de sono. Vou pro quarto dormir.
- Daqui a pouco eu chego por lá pra me arrumar - foi quem disse.
- Pensei que você ia trabalhar por aqui hoje - fez um muxoxo.
- Não vai dar. Tem coisa até o pescoço pra fazer e o site está muito agitado desde a... - é, ela ia falar do vídeo. - ... desde que tudo aconteceu.
- Vou nessa! - começou a se despedir e nem sequer olhou na minha direção. - Vê se não faz muito barulho quando entrar.
E então ela foi.
Levantar ali mesmo e correr atrás dela para conversar não ia dar certo. Nós iríamos precisar de mais calma, um ambiente menos agitado. Até porque o que tínhamos para pôr em pratos limpos dificilmente se resolveria em cinco minutinhos. Então deixei que ela fosse e minha cabeça formou outra ideia no mesmo instante.
- Você vai ter que se arrumar na velocidade de luz - falei pra . Ela não pareceu entender, então eu expliquei melhor. - Preciso conversar com a .
- Então vai lá! - disse, dando de ombros.
- Aí daqui a pouco você chega no quarto e a conversa vai ter que parar - bebi um gole do meu suco. - Não vai dar! Você vai lá e se arruma rápido pra eu poder entrar. E não deixa ela dormir. Você deve saber muito bem o quanto é sacrificante acordar aquela garota.
pareceu considerar a opção, o meu pedido.
- O que você quer falar pra ela?
- Qualquer coisa que desfaça esse nó.
- Só toma cuidado - ela pediu, e a súplica não pareceu ser dita da boca pra fora. Ela realmente queria que eu fosse cuidadoso. - não anda tão forte quanto aparenta esses dias.
- Eu vou ser gentil, pode deixar.

Precisava lembrar de agradecer a quando a visse de novo. Eu sabia que preferia dormir com a porta trancada de chave, mas quando eu a empurrei, a madeira obedeceu levemente e abriu espaço pra mim. O quarto estava escuro e refrescante porque havia um ventilador resfriando no canto do cômodo. E ela estava na cama, fazendo a única coisa que eu pedi a que não a deixasse fazer: dormindo.
Fechei a porta atrás de mim e a observei por alguns momentos. Incrível como ela conseguia bagunçar a cama inteira e se espalhar toda. A camisola curta que mais parecia um vestido estava meio levantada e deixava a perna esquerda quase inteira de fora. Eu podia imaginar o quanto estava morna a sua pele e não segurei a vontade de ir até lá.
Aproveitei o momento em que se mexeu, virando o corpo quase completo para a parede e deitei ali, no espaço pequeno que a cama de solteiro ainda deixava. E como eu imaginei, estava quente. A cama, a própria ... eu também.
- ! - chamei, baixinho, sabendo que se não fosse cuidadoso, ela acordaria gritando de susto.
Como chamar não iria funcionar, toquei seu corpo e a balancei de leve, aumentando a força dos movimentos gradativamente pra ela perceber que aquilo não era um carinho, e sim um pedido para que ela despertasse.
- ! - repeti, um pouco mais alto.
- Oi... não, me deixa. Não quero acor... - ela nem finalizou a frase, voltou a ficar muda no seu sono. Balancei seu corpo de novo. - Sai, - ela disse, com uma voz manhosa que me fez ter certeza de que não estava acordada. E o fato de ter chamado meu nome era simplesmente pelo costume de dormir comigo. Com certeza aquilo me deixava feliz, e saudoso.
- Acorda, eu quero conversar com você - continuei falando baixo, embora algo dentro de mim tivesse certeza que ela estava entendendo.
virou o corpo de frente pra mim e abriu os olhos aos poucos, sonolenta. E como eu imaginei, mesmo dormindo ela já tinha me percebido ali, por esse motivo não fez escândalo ao abrir os olhos de vez e me ver deitado ao seu lado.
- O que está fazendo aqui? - perguntou.
- Quero conversar.
- Conversamos ontem.
- Mas agora tem que ser direito.
- E o que houve? Ontem conversamos errado?
- Sim, totalmente errado - finalmente comecei a colocar para fora o que estava nos prejudicando. - O que você entendeu da nossa conversa?
- Como assim? - começou a levantar para ficar sentada na cama, então eu fiz o mesmo.
- Quando você me perguntou "Como ficamos?" e eu respondi que achei que já estava tudo conversado. O que você entendeu?
- Acho que você já tem essa resposta, ela é meio óbvia.
- Pois não é. Claro, eu devo ter falado no tom errado, mas... vê só, me senti da mesma forma no dia em que o vídeo foi espalhado. Você estava falando um monte de coisas pra mim sobre como eu não tinha o direito de duvidar dos seus sentimentos...
- E não tem mesmo - tentou me interromper, mas eu não deixei.
- ... aí eu perguntei "Acabou?" e você disse "Acabou.". Mas eu estava perguntando do seu discurso e tudo o que eu consegui entender é que você estava acabando com o que nós temos, com o nosso relacionamento. Depois disso, você saiu de perto de mim e eu não tinha a quem perguntar se eu tinha entendido certo ou não.
- Pensou que estava acabando com nosso namoro?
- Claro! - ergui os ombros. - No meu lugar, qualquer um teria pensado. E não foi isso o que aconteceu?
- Eu nunca faria isso daquela forma, idiota! Você me perguntou se eu ia parar de falar, eu disse que ia. Porque se não querem ouvir o que eu digo, eu não digo. Além do mais, eu achei que você já tinha colocado um ponto final na hora em que saiu do banheiro com raiva.
- Acho que a gente tem entendido as coisas de forma errada demais - encarei seus olhos.
- Jura?
desviou do meu olhar e voltou a deitar na cama. Fiz o mesmo como reflexo e fiquei ao seu lado, ambos olhando para o teto. O espaço não era tão grande, mas conforto era o nome dado a qualquer lugar em que ela estivesse comigo.
- A gente precisa juntar forças - eu disse, virando de lado e me apoiando no cotovelo. - O mundo está contra nós, . Se a gente não se ajudar, vai ser muito mais difícil superar.
- Isso nunca vai ser superado, - me olhou. - Por toda a eternidade, nós seremos lembrados por causa desse vídeo. E quer saber mais? O diretor me chamou na sala dele.
- O que ele disse?
- Disse que eu perco a bolsa na próxima confusão em que eu me meter.
- Ele não vai fazer isso com você.
- E quem te garante? - havia uma preocupação genuína em seus olhos. - E a bolsa não é o único problema, sabe? Eu quero trabalhar com crianças quando sair daqui. Quero continuar dando aulas igual eu faço aos sábados na creche, mas com a fama de puta do menino rico... - sorriu de forma amarga. - Quem vai deixar uma criança comigo?
- Qualquer um que te conheça e saiba quem você é. , isso vai passar. Desde quando um único casal passa mais de um mês sendo o foco?
- Sempre resta alguma coisa. Meu nome nunca mais vai ter o mesmo significado.
- E você é brilhante o suficiente pra dar outros significados ao seu nome - Eu precisava acalmá-la, porque estava certa em tudo o que falava. Era certeza que a nossa vida pra sempre ficaria marcada com o vídeo, mas precisávamos ser fortes pra superar aquilo. - Nome esse que quase ninguém sabe qual é, afinal. , por que você não usa seu nome de verdade?
- É horrível! E, além do mais, esse não é o assunto aqui. Que tal trocar?
Quando me olhou nos olhos após essa frase, pude notar que algumas coisas estavam passaram a mudar. A garota ainda estava bem chateada, mas parte dela aparentava começar a se acalmar, talvez aceitar o fato de que conseguiria passar por aquilo sem danos. E sua expressão estava mais amena também, pelo menos não tinha mais aquele fogo de raiva.
- . . ... Tem um filme com esse nome - nesse momento, ela virou de lado e ficou de frente pra mim. Então eu soube: o mar estava calmo de novo.
- É um filme bom?
- Uma droga! Fala de uma menina e de uma bicicleta. Sem pé nem cabeça, enfim... Não vale a pena perder tempo.
- Okay.
- Com nada.
- Hein?
- Não vale a pena perder tempo com nada. Inclusive nós dois aqui, perdendo tempo falando de filmes ruins enquanto a gente poderia estar resolvendo outra questão.
- A nossa questão?
- Exatamente.
Ela enroscou o corpo pelo cobertor por cinco ou seis centímetros e levantou a perna direita para colocá-la em cima do meu quadril, em um abraço. Minha mão foi direto à sua perna, fazendo força para deixá-la ainda mais junto de mim. E quando ela estava onde eu queria, minha boca avançou sobre a sua, tratando de dar conta da saudade que eu estava sentindo. Seus dedos tomaram conta da minha bochecha e a mão livre agarrou meu cabelo com carinho. Ela também pressionava a perna ao redor de mim, nos colando.
- Isso resolve? - perguntou, após alguns minutos, já ofegante.
Não respondi.
Ataquei seu pescoço com meus dentes em uma mordida leve e molhada, da forma que eu sabia que ela adorava fazer e adorava que eu fizesse também. Troquei nossas posições, lhe deixando embaixo de mim, assim eu consegui mais espaço para passear com as minhas mãos por todo o espaço quente do seu corpo.
E ela nunca havia sido tão minha como naquele momento. Mesmo que ainda estivéssemos totalmente vestidos, mesmo que a porta pudesse ser aberta a qualquer momento, já que eu não havia passado a chave. Mesmo que os dias anteriores tivessem sido horríveis e os próximos ainda prometessem mais dificuldades... apesar de tudo aquilo, se entregava nas minhas mãos com tanta confiança, tanto sentimento...
Com tanto amor!
E ela nem sequer precisava falar. As três palavrinhas podiam ficar inibidas o quanto quisessem, eu sabia do sentimento por todo o restante, pelo ambiente, pelo olhar e a respiração.
Nós conseguiríamos passar juntos pelo quer que fosse. Depois de fazer as pazes nada mais poderia quebrar o laço reestabelecido. Agora éramos um de novo, e dessa vez, muito mais forte que antes. Eu sabia que nós saberíamos vencer qualquer obstáculo.
me amava também.

Capítulo 30: Enough to make my systems blow

Ninguém podia me responsabilizar por ter persamentos incoerentes. Não enquanto estivesse em cima de mim, beijando meu pescoço e me olhando com tanto carinho. Quando ele estivesse longe e, preferencialmente, vestido, eu poderia pensar melhor em como as coisas seriam resolvidas dali pra frente.
- Eu não quero que a gente brigue dessa forma nunca mais - deixei meu lado firme de lado e abri as portas para que a menininha que morava dentro de mim saísse e se mostrasse. - Foi horrível. Eu pensei que a gente ia ficar brigado de vez.
- Também não quero mais saber desse tipo de confusão - ele disse, ainda beijando meu pescoço. - Mas pra isso acontecer, , nós precisamos aprender a confiar mais um no outro. E eu falo isso principalmente pra mim, porque sou desconfiado demais e acabei deixando isso afetar nós dois.
- Nunca mais duvide dos meus sentimentos - puxei seu rosto e o segurei entre as minhas mãos.
- Nunca mais minta pra mim - continuou me olhando firme.
- Temos um acordo então?
- Temos! - falou, ao sorrir e voltar a beijar meu corpo, dessa vez seus lábios se direcionaram aos meus ombros.
Agarrei seu quadril entre as minhas pernas para que pudéssimos passar mais um tempo namorando confortavelmente na minha cama, porém algum tempo depois ele precisou levantar e se arrumar. Segundo , o clima não estava dos melhores na sua casa. E como eu sabia que desde antes não estava, imaginei que houvesse piorado. Eu só esperava que ele não enlouquecesse.
- Te chamaria pra ir dormir comigo se eu não soubesse que você iria odiar.
- Posso ir se você quiser - me ofereci, torcendo internamente porém para que ele recusasse.
Eu queria, sim, dividir o peso da responsabilidade com e faria por ele tudo o que eu pudesse fazer, desde que não precisasse enfrentar George e seu porte inquisidor. Além de tudo, eu ainda não havia falado com Bridget desde que o vídeo fora espalhado; não estava ciente sobre o que ela estava pensando a respeito. Como eu podia aparecer na frente de Bridget após ter certeza de que ela me vira nua? Como saber se ela não estava pensando de mim o mesmo que todo o país deveria estar?
- Deixa pra próxima - disse, e eu fiz força para que ele não percebesse meu alívio. - Quando minha mãe se conformar por meu pai ter ido embora eu te levo lá.
- Não sabia que ele ia.
- Até onde eu sei, ele saiu hoje pela manhã, mas eu também não fiz questão de perguntar.
- O que houve?
- Acho que eles assinaram o divórcio de uma vez - ele disse, já de pé, vestindo a camisa após ter atacado o cinto na bermuda. - E é por isso que eu estou querendo tanto ir pra casa. Minha mãe está sozinha e com certeza precisa de mim nesse momento.
- Imagino que ela deva estar muito mal - fiquei triste. Eu gostava de Bridget. Imaginei que enfrentar um divórcio deveria ser tortuoso, principalmente nas suas condições. A filha em coma, o filho com problemas, o marido famoso na política... Bridget merecia um pouco mais de paz.
- Está pra baixo o tempo todo. Por minha vez, eu não poderia estar mais satisfeito. Minha mãe ficará melhor sem George.
- Tenta não ser tão agressivo se for falar isso pra ela - pedi, encarecidamente. - Não deve ser fácil passar por um divórcio.
Meus pais nunca tiveram aquele tipo de problema. Brigas aconteciam o tempo todo, o que era super normal já que eles eram pessoas idênticas. Dois bicudos não se beijam, é o que diz o ditado e isso eu via diariamente em casa. Mas se amavam tanto e se respeitavam tão bem que qualquer sinal de briga maior era tratado com cuidado. Meus pais sempre souberam conversar, aceitar a opinião um do outro, consequentemente a minha. Quando eu brigava com minha mãe ou com meu pai, a briga também era resolvida da melhor maneira possível.
- Vou tentar não soltar fogos de artifício pela janela do meu quarto.
- ! - repreendi, mas sorri ao seu encontro.
Ele me chamou com a mão e eu o acompanhei. Lhe dei um abraço, um beijo no pescoço e um beliscão no bumbum.
- Volta logo pra Escola.
- Assim que o dia amanhecer - disse, me beijando na testa.
- Amo você.

saiu e eu me preparei para ir jantar. Um bom banho, uma roupa leve e fácil de tirar na hora de dormir, sandálias confortáveis. Estava pronta para ir até o refeitório e enfrentar mais uma vez a ladainha sussurrada sobre como eu havia sido louca de me deixar ser gravada na hora do sexo. Tudo era muito torturante, todas aquelas pessoas me olhando. Entretanto, por ser algo que estava acontecendo com frequência, eu precisei dar um jeito de ignorar todos os raios na minha direção. Peguei minha comida, sentei, comi e pronto. Ninguém tinha nada a ver com a minha vida.
Voltei para o quarto sem pressa, pensando em alguma coisa para fazer. Meus exercícios de aula para entregar no dia seguinte já estavam prontos, ainda não havia chegado do trabalho para ir treinar comigo no aquário e eu não estava afim de dançar sozinha. Então, fadada a mexer no celular até a hora de dormir, voltei ao corredor feminino com preguiça.
Hannah estava lá. Com o celular no ouvido, ela dava passos para frente e passos para trás, concentrada na voz que saía pelo fone.
- Mas já está feito. Eu cumpri a minha parte, agora falta a sua!
Algo naquele tom de voz e de conversa me fez ter vontade de ouvir o resto. Fiquei escondida na parede antes de virar o corredor do quarto, onde ela não pudesse me perceber.
- Não estou duvidando de nada. Só queria deixar bem claro - calou-se de novo para ouvir a resposta.
Hannah levou um dos dedos à boca e roeu um pedaço do dedo, parecendo nervosa ou somente agitada. Eu fiquei curiosa, tive vontade de chegar perto e perguntar com quem ela estava falando.
- Sim. Amanhã nos encontramos. Eu sei onde fica - ela respirou fundo enquanto ouvia a resposta mais uma vez. - Até amanhã então. Boa noite!

Já dentro do meu quarto, eu criava teorias e explicações para o que eu havia acabado de ouvir. Podia ser qualquer coisa, claro, afinal, Hannah tinha uma vida fora daquela escola. Milhares de coisas eu ainda não sabia sobre ela, então aquele telefonema podia significar uma infinidade de coisas. Mas, para mim, não significava.
Hannah podia negar o quanto quisesse, acusar , sair de situações, mas algo de mim simplesmente tinha certeza de que ela tinha algo a ver com a divulgação do vídeo. E eu, aflita e curiosa, procurava saídas e meios de descobrir o que estava acontecendo.
Ela se encontraria com alguém no dia seguinte.
Uma luz se acendeu na minha mente, como nos desenhos animados, quando os personagens recebem uma ideia. Podia parecer stalker demais, ou loucura da minha parte, mas mesmo que fosse uma grande merda e não tivesse nada a ver com o meu assunto, eu descobriria do que se tratava aquela conversa.
Eu a seguiria no dia seguinte e veria no que aquilo iria dar.
chegou ao quarto pouco tempo depois. Perguntou se eu queria ir dançar, mas eu estava cheia de ideias demais e pedi que fôssemos em outra hora. Acabamos decidindo assistir algum seriado no pc mesmo até que o sono chegasse para as duas.
No meio de uma cena, eu pausei o filme e fiz uma pergunta:
- Como você está com a Hannah?
- Por que essa pergunta? - desconfiada, me olhou de frente e esperou a resposta.
- Bem, ela aprontou com você também, não foi só comigo. Tenho certeza de que você não gostou nada sobre ela ter saído espalhando o que você contou.
- Claro que não gostei - ela encostou o corpo na parede.
- E então? - insisti. - Vocês estão se falando?
- Claro que estamos nos falando, . A gente não é criança. Os problemas precisam ser resolvidos, não ignorados.
Engoli em seco ao receber aquela resposta. Era ciúmes de novo. conseguira se resolver com Hannah muito mais rápido do que comigo.
- Que bom!
- Mas não estamos bem uma com a outra, se era isso o que você estava querendo saber.
- E você confia nela?
- Em relação ao quê?
- Segredos - dei de ombros. - Contar coisas, confiar no que ela diz.
- Não temos conversado direito desde que tudo aconteceu, então eu ainda não testei meu nível de confiança nela - ela respondeu, rapidamente, e voltou a dar play no seriado, mas ao contrário do que era de se esperar, ela não prestou atenção na cena, mas ignorou o que passava e voltou a falar comigo. - Por que você está perguntando isso?
- Só por perguntar mesmo.
E eu sabia que não se contentaria com uma resposta rasa daquela, mas também não queria ir fundo. Voltamos ao filme e ao fingimento. Eu fingia que não queria nada com aquilo e ela fingia que acreditava. Enquanto fingíamos que tudo estava normal e que nossa vida não estava sendo afetada por milhares de problemas.

grudou em mim na hora do almoço. Não que eu não gostasse, gostava. Principalmente depois de termos ficado separados por dias e querendo nos reaproximar, sem conseguir afogar o orgulho. Eu amava tê-lo por perto, mas naquele dia em específico eu queria ir atrás de Hannah.
Tive medo de que ela tivesse matado aula pra ir encontrar a tal pessoa e isso me consumiu por diversos minutos. Mas quando, após o almoço, vi que ela saiu rápido do refeitório na direção do dormitório, me animei de novo.
Levantei rápido da mesa também e fui me preparando para segui-la, quando senti a mão de segurando meu pulso.
- Pra onde você vai?
- Eu preciso resolver um assunto - tentei evitar olhá-los nos olhos. Não queria que ele perguntasse qual era o assunto que eu precisava resolver. Embora conhecendo como eu conhecia, não deveria esperar esse tipo compreensivo de reação.
Em vez de falar, ele cerrou os olhos pra mim e apertou a mão no meu pulso.
- Não posso dizer o que é - falei, pedindo indiretamente que ele não me forçasse a dizer nada.
Então ele sorriu pra mim na sua melhor forma sarcástica e levantou também. Empurrou meu corpo pra frente com delicadeza, me fazendo andar.
- O que você está fazendo?
- Vou com você, .
Eu fiz cara feia e tentei negar, mas já estava andando.
- Mas eu não preciso de ajuda. É coisa minha!
- Se você tivesse dito, ah, sei lá, que precisava ir fazer as unhas do pé, eu não ia duvidar. Mas você diz que precisa resolver um assunto, então eu fico curioso. É o ciclo normal da vida.
- - respirei fundo e fiquei na sua frente, lhe impedindo de olhar. - É uma besteira minha, tenha certeza disso - e nessa parte eu estava sendo sincera.
Ir atrás de Hannah podia dar em tudo, como também podia dar em nada. E eu já me sentia bastante irresponsável e imbecil fazendo isso sozinha. Ter companhia só faria as coisas ficarem piores e mais grandiosas.
me encarou por alguns instantes e pareceu pensar a respeito, sendo que em nenhum momento seu rosto deixou transparecer que ele me deixaria sozinha naquela tarde. Eu não tinha escolha.
- Então tá bom, se você quiser vir, vem. Mas não pode ficar falando besteira e nem me atrapalhando - ele revirou os olhos, provavelmente reclamando da minha voz mandona. - E vem logo. Não podemos perder tempo.

Ele queria ir de Jeep, mas eu deixei bem claro que não podíamos ser vistos. E quando ele percebeu que era Hannah a quem estávamos, entre aspas, perseguindo, aceitou minha proposta de arrumarmos um táxi. não me chamou de louca, nem nada do tipo, e eu imagino que isso deva créditos somente às minhas exigências antes de sair da escola. Eu lhe pedi encarecidamente que ele não se metesse em nada porque, embora eu não soubesse o que estava fazendo, eu sabia o que estava fazendo.
O táxi em que Hannah estava parou em frente a um restaurante mediano e a loira desceu após um tempo pequeno. e eu descemos do nosso táxi também e ficamos à espreita, esperando que algo diferente acontecesse. Vimos quando Hannah atendeu uma ligação e, logo após, entrou no restaurante balançando o cabelo de um lado para o outro.
- Sério, ... o que você está querendo ver?
Não respondi. Apenas lhe beijei nos lábios, pedindo confiança sem falar. Quando eu segurei sua mão, me apertou também e, juntos, nós entramos no restaurante pela porta lateral, um pouco distante de onde Hannah havia ido parar.
Ela sentou sozinha em uma mesa e nós dois ficamos lhe observando com distância e cuidado. Nossa mesa era praticamente no fundo do restaurante, próximo de umas árvores artificiais que bloqueavam um pouco a visão de quem estava mais na frente do ambiente.
Quando ficou claro que nós também teríamos que esperar a pessoa que Hannah esperava, eu entendi que talvez conversar com fosse uma boa ideia, podia fazer o tempo passar.
- Você publicou nosso vídeo? - perguntei.
Embora eu soubesse a resposta e também soubesse disso, ele encostou o corpo na cadeira com os braços cruzados, como se estivesse perguntando mentalmente que porra era aquela.
- Não - ele resumiu.
- Eu também não publiquei.
- Eu sei disso.
- também não, pelo que ela diz. Hannah também não.
- Estou entendendo. O que você quer dizer é que, pelo que dizem, ninguém publicou nada. São todos inocentes.
- Exato, exceto pelo fato de não ser. O computador não criou vida e saiu postando as coisas sozinho. Alguém fez.
- E você acha que foi a Hannah.
- Não acho, , eu tenho certeza - deixei aquilo sair de vez da minha garganta. Se era o que eu realmente achava, não tinha motivo algum pra inventar pedras no meio do caminho. E era por esse motivo que nós estávamos naquele restaurante, escondidos como bandidos, tentando descobrir algo. - Eu só preciso saber por que, pra quê.
- Eu tive uma conversa séria com ela essa semana. A Hannah confirmou, , ela disse com todas as letras que não tinha feito isso. E não que eu ache que ela é a pessoa mais confiável do mundo, nada a ver, só que ela falou com todas as letras que não fez. E, sei lá, eu nunca imaginei que ela tivesse motivo pra esconder alguma coisa que fez.
- Eu sei o motivo. O motivo é que ela é uma vaca. E as vacas cagam na vida das pessoas, é isso o que elas fazem.
revirou os olhos. Ele desencostou da cadeira e aproximou o corpo do meu. Seu ombro me tocava e eu pude me sentir mais aquecida, mesmo que o contato fosse mínimo.
- E se não tiver sido ela? - ele perguntou, ao me olhar.
- Não sei o que vou fazer.
- Talvez a gente só devesse deixar isso pra lá. Nossas vidas não podem parar por causa disso.
Virei o corpo até estar de lado na cadeira e de frente para ele. Havia tanto apreço em mim por aquele cara. Seria realmente mais tranquilo se eu deixasse tudo pra puta que pariu resolver e seguisse minha vida ao lado dele, mas era impossível fazer isso. Não dava para esquecer quando eu sabia que havia alguém próximo a mim tentando destruir a minha reputação, a minha vida.
- Não posso - lamentei.
deu de ombros, mas não se afastou de mim. Pelo contrário, usou os braços para me prender em um abraço gostoso, que só precisou ser desfeito quando o garçom veio até nós com o cardápio. Não estávamos com fome, afinal de contas, havia sido hora do almoço apenas alguns minutos atrás. Mas como não poderíamos ficar ali sem consumir nada, pedidos duas taças de sorvete com amendoins.
Vez ou outra espiávamos pra frente do restaurante, onde Hannah permanecia sentada em uma das primeiras mesas. A loira já aparentava impaciência, o que era altamente compreensível, já que até eu e já estávamos cansados de esperar também. Vi quando ela tirou o celular com uma capinha verde limão de dentro da bolsa e digitou alguma coisa rapidamente na tela, levando o celular ao ouvido logo em seguida.
Meu ouvido ardia para escutar o que ela estava falando, e meus olhos tentavam, a pulso, fazer uma leitura labial, só que eu não era boa nisso.
Ela desligou o telefone e menos de cinco minutos depois sua companhia chegou. e eu tentávamos a todo custo ver o rosto dele. Era um homem alto, corpulento e de pele e cabelos claros. Usava óculos escuros e paletó cinza. O traje era muito formal e fechado para um dia tão quente quanto estava, embora ele não parecesse se importar. Como estava de costas para nós, nosso trabalho de ver seu rosto tornava-se o dobro mais difícil.
A conversa entre e eu cessou de vez, enquanto tentávamos entender o que acontecia alguns metros à nossa frente. Nosso garçom chegou com as sobremesas e nós fizemos questão de dispensá-lo com pressa, para que ele não distraísse a nossa atenção ou percebesse o que estávamos fazendo.
Hannah falava rápido, o homem à sua frente gesticulava com as mãos e ombros, mas parecia mais tranquilo. Após alguns tensos minutos de conversa, ele tirou a carteira do bolso e a colocou sobre a mesa. Pela minha posição, eu não podia enxergar o que ele estava fazendo com a carteira, mas pude ter uma ideia ao notar que Hannah estendia as mãos para a frente e pegava algo que ele lhe entregava.
- Está dando dinheiro pra ela - confirmou minha teoria.
- Você o conhece?
- Ainda não consegui ver o rosto.
- Merda! - xinguei, já impaciente.
Eles permaneceram sentados por mais alguns minutos. Hannah ainda falava bem rápido e, naquele momento, também gesticulava negativamente com a cabeça. Dava a entender que ela não queria mais nenhum envolvimento com o homem. O que era bem engraçado. Se eu não quisesse envolvimento com alguém, não aceitaria seu dinheiro em troca de algo.
Ela levantou da mesa, guardou o dinheiro na bolsa à tiracolo e, pelo que dava a entender, despediu-se do homem, que ainda estava sentado. Pude vê-lo tamborilando o dedo nas costas da cadeira ao lado antes de levantar-se também.
Eu vi seu rosto, mas para mim foi um desapontamento, já que eu não o conhecia. Pra mim, era um completo estranho e por mais que eu tentasse, não conseguia achar semelhança com ninguém.
- Não acredito que ele vai embora e eu não vou entender a história - reclamei.
Ao meu lado, permanecia sentado, embora eu tenha visto uma expressão nada tranquila no seu rosto quando parei para reparar.
- Filho da puta! - ele xingou.
- Quem é filho da puta? - perguntei. - Quem é filho da puta, ? Aquele cara? Você o conhece?
Demorou um pouco para levantar da mesa, mas quando ele levantou, assumiu uma postura que me deixou um pouco amedrontada. Ele ia até a mesa. Dava pra sentir que ia. Meu estômago se agitou, eu tive medo e fiquei nervosa. Estávamos ali escondidos. Hannah não podia saber que a tínhamos perseguido. Mas parecia determinado e eu tive ainda mais certeza quando ele deu o primeiro passo, dizendo:
- O nome dele é Troy Dropper Gen. Eu conheço o filho da puta.

Capítulo 31: I'm telling you to loosen up my buttons, babe.

- É só uma garotinha. Não vai interferir ou prejudicar em nada. Posso fazer isso pessoalmente. Cuido de tudo e você nem precisa saber o nome dela.
- Tanto faz, Troy. Essa ideia só está me deixando preocupado.
- É drástica, sei disso. Mas é exatamente do que você precisa.
- O garoto já não gosta muito de mim.
- Ele não vai saber - Troy ergueu as mãos no ar, tentando mostrar ao outro o que ele via como óbvio. - Além do mais, não é como se você se importasse muito com esses laços afetivos.
- É meu filho, Dropper. Só quero o melhor pros meus filhos, ambos.
Até parecia extremamente sentimental quando ele falava daquela maneira, Troy pensou.
- O melhor pros seus filhos é o sucesso da sua carreira. E eu sei que você nunca quis, como ainda não quer que ela seja prejudicada.
- Claro que não!
- Vamos resolver isso da melhor maneira possível. Falamos com a garota - George lhe olhou alarmado, negativo. - Eu falo com a garota. Resolvo toda a situação.
- Tem tudo encaminhado?
- Quer saber se eu tenho o vídeo guardado? Eu tenho. Só precisamos divulgar.
- Como pretende fazer?
- Tem outra garotinha. Essa não publicaria nada por maldade, mas a primeira pode dar um jeito nisso, controlá-la, não sei. Isso é besteira, na verdade. Não devemos nos prender a detalhes tão pequenos. O resultado é o que importa.
- O resultado é um escândalo.
- Que encobrirá tantos outros, George. Você precisa pensar no bolo, não na fatia.
- O bolo - ele pensava, olhando para o nada, imaginando como seu filho reagiria àquilo. Imaginando como Bridget sairia afetada depois de suas decisões. - O bolo é mais importante - ele decidiu.
- Claro que é.
- Fale com a garota. Você tem minha permissão, Troy. Mas se isso chegar aos ouvidos de ou Bridget em algum momento das nossas vidas, você é um homem acabado.
Troy Dropper Gen revirou os olhos e soltou uma gargalhada convencida. George falou como se não soubesse que Troy não costumava falhar.
- Seu problema já está resolvido, governador.

Eu andei com raiva até aquela mesa. Como ele ousava ser tão canalha comigo? Até que nível iria toda aquela covardia?
- O que porra você está fazendo aqui, Troy? - perguntei, enquanto tocava seu ombro e o fazia virar pra mim com pressa.
Ao reconhecer minha voz e meu rosto, Troy pareceu ficar nervoso, mas esperto como era, se recompôs rápido. Olhei na direção de Hannah também e ali, sim, eu pude ver o susto sendo claro. Quase dava pra sentir no ar a sua vontade de sair correndo ou voltar no tempo.
- ! - Troy me cumprimentou. - Não vai me apresentar sua amiga? - ele disse, enquanto olhava atrás de mim, onde estava.
- Não, não vou, não. O que você tem a ver com a Hannah? - como seria difícil arrancar algo dele tão facilmente, mudei meu alvo para a garota. - Que merda é essa, Hannah? De onde você conhece o Troy?
- Hey, garoto, calma aí. Isso é jeito de falar com a moça? - Troy respondeu, com seu típico sorriso confiante nos lábios. Eu o odiei a partir daquele momento. - Nos conhecemos no fim de semana passado, não foi, Hannah? - ela afirmou, de prontidão, mas ainda agitada. - Em um barzinho meio descolado que visitei por aqui. O que há de errado com isso?
- Imbecil! - xinguei e projetei meu corpo em sua direção, atacando-o.
Mas o próprio Troy estendeu o braço contra o corpo para se proteger, e também me puxou para trás, evitando que eu o esmurrasse.
- , para! - falou, atrás mim.
- Não se mete na minha vida. O que foi agora? Sua namoradinha te deu espaço pra vir atrás de mim? - Hannah provocou.
- Vá se foder, Hannah - respondi, com ódio contra ela também. - O que eu quero saber é o motivo de você estar em uma mesa de restaurante recebendo dinheiro da merda do advogado do meu pai - a resposta dela pareceu sumir ali. - O que foi? Agora você faz sexo por dinheiro? Se for, está tudo bem, não tenho nada a ver com a sua vida. Mas diz a verdade!
A loira sorriu de repente. Sorriu. Não por felicidade, óbvio, estava mais para desistência. Hannah sentou na cadeira onde estava antes e continuou sorrindo. De mim, da situação, de tudo. Desistiu de disfarçar, talvez.
- Eu odeio você, sabia?
- Jura? - sorri sarcástico.
- Crianças, estamos fazendo muito barulho por aqui, não acham? - Troy falou, de novo, e àquela altura da conversa, eu já odiava seu tom de voz. - , vamos conversar como gente grande.
- Boa ideia, Troy! - eu falei, cheio de raiva. - Começa com a verdade. Por que está dando dinheiro a Hannah?
O silêncio que se instalou naquela mesa após minha pergunta entregou muitas coisas. A princípio, entregou a dúvida de sobre o envolvimento de Hannah na divulgação do vídeo. Hannah havia afirmado por diversas vezes e de várias formas diferentes que não tinha feito nada e aquilo só serviu pra mostrar o quão boa mentirosa ela conseguia ser. Pelo menos aos meus olhos, não havia nenhuma outra explicação plausível para a cena que acontecia na minha frente. Qual o interesse de Troy em Hannah? Ele era um homem de quase cinquenta anos. Eu conhecia muito bem a história de suas saídas extraconjugais, mas nunca com garotinhas da idade de Hannah. Aquela desculpa não serviria pra mim.
E embora eu nunca esperasse nada de bom vindo do homem que se denominava como meu pai, a certeza de que ele estava pos trás daquilo destruiu o restante de respeito que eu ainda tinha por ele. Troy não tinha interesse em manipular minha vida, mas o homem para quem ele trabalhava tinha.
- Você nem precisa responder na verdade - eu disse, ao perceber que ele não estava muito disposto a falar de uma vez o que eu queria saber.
- Acho que a gente deve ir embora - segurou meu braço. - Não tem mais nada aqui que a gente precisa saber, na verdade - ela havia entendido tudo também.
Aceitei seu chamado e dei alguns passos pra trás. Mesmo contrariado, eu ainda lembrei que tinha que voltar à mesa e pagar pelo sorvete que e eu tomamos. Então ela me seguiu até lá. Eu deixei o dinheiro na mesa, sem sequer pedir a conta e lhe puxei pela mão na direção da saída. Mas não a saída lateral por onde entramos, e sim a saída principal que Hannah havia usado ao chegar.
- Hey, Troy, já que você já fez o favor de destruir minha imagem pro país inteiro, eu vou te pedir outro.
Pude ver seu rosto inexpressivo, provavelmente tentando imaginar como contaria a George que eu descobrira seu plano nojento.
- O que você quer ?
- Fala pro seu patrão que ele não precisa se lembrar que tem um filho. Fala também que isso vai ter volta.

- Mãe!
Gritei, ao chegar em casa. Ouvi fechando a porta depois de entrar também, mas infelizmente eu não conseguiria lhe atenção naquele momento. Andei pela casa inteira procurando pela minha mãe, abrindo as portas dos quartos e banheiro, mas ela não estava em lugar algum.
- Eu sei que é uma situação complicada, mas você precisa parar de andar e pensar quieto.
- Ficar quieto como, ?
- Coloca essa bunda no sofá, - então ela me empurrou. - Anda logo! - me empurrou mais até eu cair sentado no sofá, a contragosto. - Acha que eu não estou com raiva também?
- Não como eu! Foi meu pai!
- É, seu pai fodeu com tudo, eu sei, mas andar de um lado pro outro não vai adiantar nada - então ela sentou também, ao meu lado, mas não tão perto.
Deitei a cabeça no encosto do sofá, olhando o sol brilhar pela janela de uma maneira injusta. O dia estava bonito do lado de fora, embora estivesse quase no final, deixando o céu alaranjado, mas dentro daquele apartamento e dentro de mim, tudo chovia, relampejava. E por mais que eu tentasse não ficar magoado, por mais que eu dissesse a mim mesmo que aquilo não era novidade, que eu deveria esperar qualquer coisa do tipo vindo dele... não dava. Porra! Meu pai estava fazendo tudo pra me prejudicar. Não se tratava mais de uma briguinha de família. Não era uma briguinha de família há muito tempo, na verdade, desde o acidente de Louise. Só que piorava a cada dia. Seu anseio de controle, sua mania de me perseguir, de querer mandar em mim como se eu fosse um garoto de sete anos que não sabe fazer as próprias escolhas. George queria ser um deus acima de mim, da minha mãe, de Louise. Uma angústia começava a crescer no meu peito como eu achei que nunca sentiria em relação ao meu pai. Eu não queria aquele sentimento, mas estava impregnado na minha pele e nos meus olhos quando eles começaram a lacrimejar.
Eu senti começar a se mexer ao meu lado. Pra minha sorte, minha mãe abriu a porta de casa antes que pudesse vir me consolar.
- Boa tarde, garotos! - ela disse, fechando a porta, sem olhar pra ninguém diretamente. Estávamos todos cheios de peso na consciência. - , como vai?
- Bem, e você?
- Caminhando - vi seu sorriso murcho. - Estou voltando da creche. Hoje saí mais cedo, não me sentia muito bem.
- O que você tem? - perguntei.
- Nada demais, na verdade. Quando você está com muita coisa pesando na cabeça o corpo começa a sofrer também.
- Eu preciso conversar com você, mãe - lhe interrompi, mesmo sabendo que ela não gostava dessa ação. - Eu disse a você que tinha dedo dele nessa história!
- Do que você está falando, ? - cansada, ela jogou a bolsa no sofá e afastou o cabelo dos ombros, provavelmente com calor.
- Deixa que eu falo, ok? - estava com a sobrancelha erguida e aquela pose de quem sabe que vai fazer alguma coisa melhor que eu. E naquela situação ela iria mesmo. Minha explicação sairia gritada, xingada, chorada, recheada dos palavrões que minha mãe sempre odiou me ouvir chamando. Talvez soubesse explanar tudo bem melhor que eu. - Bridget, nós ainda não conversamos sobre o vídeo, né? Eu fiquei morta de vergonha de aparecer na sua casa, na sua frente. Não costumo dar tanta atenção ao que dizem sobre mim, mas nesse caso era diferente porque a pessoa era você, então eu me escondi. E me escondi mesmo. Fui covarde, confesso, eu não tinha coragem.
- Você poderia ter vindo. Embora eu não aprove tudo o que foi feito, não tenho permissão de te julgar porque sou tão falha quanto qualquer outro.
- Mas não é tão fácil quanto parece...
- ! - interrompi, antes que as duas começassem o melodrama de perdão e bons costumes. - Conta pra ela - pedi.
respirou fundo e me deu um olhar atravessado.
- Você deve imaginar que isso tudo me pegou de surpresa. De repente, eu estava exposta pros Estados Unidos, junto a e toda a bagagem que a sua família tem. Todo mundo me conhecia. Eu precisava ir atrás de quem tinha feito isso comigo e com . Briguei com muita gente, fiquei desconfiada, não dormia direito. Até que eu decidi seguir a garota de quem eu desconfiava. Isso foi hoje à tarde, faz pouco tempo.
- Você seguiu alguém?
- Não faço isso sempre. Hoje foi uma necessidade. E eu seguiria de novo, Bridget, porque foi assim que nós conseguimos descobrir alguma coisa.
- E que coisa foi essa?
- Tinha um homem conversando com ela e lhe dando dinheiro. Eu não o conhecia, mas me disse que seu nome era Troy Dropper alguma coisa.
- Gen - completei. - Troy Dropper Gen.
- Troy. O que ele está fazendo na Califórnia? George nem sequer está aqui.
- Ele está aqui pra ferrar comigo, mãe. Você não entendeu ainda que Troy está a mando do meu pai, que foi ele quem mandou Hannah deixar meu vídeo com a vazar?
- Meu filho, não conspire! - vi sua expressão, praticamente implorando. - Não passa pela sua cabeça que talvez George tenha coisas muito, muito mais importantes pra se preocupar?
- E onde ele está agora? Você sabe, por acaso?
- Em Washington, depois Texas, depois Washington de novo. É suficiente pra você? - ela se aproximou de mim no sofá. - Meu filho, nós estamos passando por uma má fase. Não está fácil pra ninguém dessa família. Nós precisamos nos unir, !
- Não confia nele, mãe - implorei.
Depois de alguns segundos de aparente excitação, ela se afastou do sofá e foi na direção da bolsa.
- Pegarei um avião no começo da semana. Vou encontrar George no Texas.
- O que você quer no Texas?
Ela estava fugindo de mim. O mundo podia rachar no meio e o martelo aparecer na mão do meu pai, mas aparentemente, ainda assim minha mãe continuaria lhe defendendo.
- Não quero mais conversar agora, meu filho. Estou cansada, minha cabeça dói. Pode dar um tempo pra mim?
E qual era a minha escolha. Iria forçá-la a conversar? Perguntar por que ela defendia tanto o desgraçado do marido? O esforço valeria a pena? É claro que não. Eu me resumi a baixar a cabeça e deixar que ela fosse na direção do quarto.
- Me desculpe por isso, - ela pediu, antes de sair.
- O que é isso? É a sua casa. Eu é que peço desculpas por tudo.
- Não há de que, meu amor.
Ela saiu e eu reprimi um grito que, insistente, se alojou na minha garganta. Eu queria espernear, xingar, quebrar os móveis da sala... parecer uma criança birrenta consequentemente. O que acontecia é que havia uma agonia, uma angústia gritante dentro da minha alma. E eu queria jogar tudo aquilo pra fora. Como minha mãe não conseguia enxergar que aquele homem só atrasava a vida dela? Eu, , não podia mais ver nada de bom vindo de George.
- Não posso ficar aqui - suspirei. - Vamos, . Eu vou ligar pro , vou dormir na Escola. Não posso respirar o ar dessa casa.
- Você vai deixá-la sozinha? - ela quis saber, com seu tom de voz beirando a urgência.
- Ela sabe se cuidar. Vamos!
Levantei do sofá e a esperei na porta. Descemos sem falar nada até a garagem e o caminho até nosso destino foi quase tão silencioso também. Eu tentava puxar algum assunto, ela tentava também. Mas parecia que quanto mais escura ficava a noite, mais pesadas tornavam-se nossas mentes. Disfarçar era impossível e ficar falando do mesmo assunto o tempo inteiro também não era agradável, então ficávamos muito tempo calados para ser mais desconfortável do que já estava.
Nós chegamos à Escola e ela me pediu pra esperar no quarto dela enquanto tomava um banho. não estava lá então eu pude ficar um pouco mais à vontade. Encostei na janela e senti o vento tocando meu corpo, me deixando mais aliviado, pelo menos ali não estava fazendo tanto calor.
Virei o rosto ao notar a porta sendo aberta e a vi chegar com o cabelo úmido. Sorri um pouco, era bom vê-la chegando perto.
- Falei com a . Ela vai dar um jeitinho de dormir no quarto do e você fica aqui comigo.
- É a melhor notícia do dia - sorri, saindo da janela e andando em sua direção.
- Vai tomar um banho também. Eu te espero aqui e a gente vai jantar.
- Não acho que vou conseguir jantar hoje, não.
- Vai, sim. Quer ficar fraco?
- Vai ficar falando igual minha mãe?
- Se você agir feito um bebê, eu vou, sim - mas ela não estava com a cara feia, muito pelo contrário. Os seus lábios sorriam abertos e seus pés lhe traziam pra mais perto.
Ela alisou meus braços com suas mãos frias do banho e subiu até meu pescoço, deixando minha nuca arrepiada de felicidade e ansiedade. E que conforto! A tarde inteira fora péssima, meus conceitos mudavam a cada momento, eu notava que cada vez mais diminuía a quantidade de pessoas em quem podia confiar. era uma das únicas que estava ali ao meu lado, compartilhando comigo os momentos ruins, mas também os bons quando o dia chegava ao final.
Eu precisava erguer as mãos pros céus e agradecer por ter aquela mulher na minha vida.
- E o que mais?
- Ah... tem uma infinidade de coisas. Posso ser má de maneiras diferenciadas. É só você apostar.
- Nossa! - apertei sua cintura com as duas mãos.
- Mas também há muitas maneiras de ser boa. E eu sei ser boa, você conhece as minhas habilidades.
Nessa hora, eu podia jurar que meu sangue e meu cérebro me fizeram largá-la e correr para a porta. Não era um sentimento normal. Fiquei elétrico e precisei correr.
- Pra onde você está indo? - ela perguntou, gargalhando.
- Pro banho! - respondi, antes de fechar a porta. - Não importa se você vai ser boa ou má, o que eu sei é que não quero perder um minuto.
- ! - pude ouvir sua voz me chamando, mas eu já havia fechado a porta.
Corri pro banheiro, ainda rindo, ainda feliz que ela fosse mesmo fazer minha noite passar da melhor forma possível.
Quando eu voltei pro quarto, havia apagado todas as luzes e distribuído algumas lanternas, que eu nem sabia que ela tinha, por cima de alguns móveis. Perguntou se eu sabia o que era lapdance e apontou uma cadeira no meio do quarto quando eu disse que sabia. Eu sentei, de muito bom grado, diga-se de passagem, e observei enquanto ela andava até a porta para trancá-la de chave.
Ela não andava devagar, como a gente imagina que as mulheres vão fazer pra nos seduzir. não precisava me seduzir mais. Eu já havia sido fisgado desde o primeiro dia, desde a primeira dança. ligou a música, que eu tinha certeza que era alguma coisa no estilo The Pussycat Dolls e tirou o vestido curto que usava, deixando eu ver sua lingerie preta e, puta merda, de renda.
Ninguém nunca havia feito um lapdance pra mim, por isso eu estava nervoso. E eu tive certeza de que não queria ver mais nenhum outro lapdance na minha vida além do dela. Quando ela começou a balançar o corpo, pôr uma perna na frente da outra enquanto andava na minha direção, quando ela sorriu pra mim apenas com os olhos, porque os lábios permaneciam unidos... eu já estava entregue.
O cabelo ainda estava úmido, a pele cheirava a algum hidratante dos céus, o rosto limpo de maquiagens, o sutiã preto tocando meu rosto quando ela fazia algum movimento mais próximo.
Ela só me deu uma missão: não podia tocá-la, exceto quando tivesse permissão.
E por mais que fosse difícil, porque convenhamos, imagine a cena... Eu prometi cumprir minha missão da melhor forma possível, torcendo para que os momentos de permissão chegassem logo.

Capítulo 32: When will I see you again?

- Será que agora eu posso saber por que fui expulsa do meu próprio quarto?
Precisei me esforçar muito para não gritar e acabar acordando , ao meu lado. Quando eu ouvi aquela voz, abri os olhos para ver bem perto de mim, ajoelhada ao lado de cama. E eu tinha quase certeza de que havia trancado a porta com a chave na noite anterior.
- Shiu! - reclamei com ela e levantei da cama rápido.
Lhe puxei pela mão até o outro canto, onde havia a janela. Abri e fechei os olhos, incomodada com a claridade. Reparei enquanto , também incomodado, virava o corpo para a parede, fugindo da luz.
- Como você entrou aqui?
- Com a minha chave - ela balançou a chave no ar. - A noite foi boa, hein? - ela disse, puxando e soltando a alça do meu babydoll.
- Foi - fiz careta e lhe mostrei a língua. Curiosa demais aquela . - Vamos conversar lá fora. Eu vou tomar um banho. Como você entra assim? E se ele estivesse sem roupa?
- Já vi quase tudo no vídeo de vocês dois. Qual seria a novidade?
- Ah, querida - eu sorri, achando graça. - Tem muita coisa, sim, viu?
- Não me faz inveja - então ela piscou o olho pra mim.
Sem querer continuar com as piadinhas ali dentro, saí do quarto com , antes que acordasse. Eu me enrolei em um robe enquanto ela já estava arrumada, parecendo pronta pra ir à aula, o que me fez duvidar de ainda ser muito cedo. Eu estava, provavelmente, atrasada para entrar na classe.
- Pela cara que você estava quando foi falar comigo, sexo não era a única razão pra você querer dormir com ontem.
- E não era mesmo.
Apesar dos pesares, das brigas, confusões, do pequeno afastamento e da desconfiança, ainda era a minha melhor amiga. E sendo dona desse posto, costumava me conhecer como quase ninguém. Ela lia as minhas expressões quando eu me esforçava para escondê-las.
- Hannah é a responsável pelo vídeo, , e dessa vez eu tenho certeza.
E o meu alívio por saber que nossa relação ainda era a mesma foi abafado pela certeza de que o carinho dela por Hannah não havia diminuído também. Eu pude ver os olhos de ficando mais tristes ao ouvir o que eu acabara de dizer.
- Como você sabe?
- Ela está envolvida com um cara próximo ao pai do , advogado dele, algo assim. Depois, se você quiser, pergunta de onde ela conhece essa cara chamado Troy Dropper Gen.
- Isso é sério?
- Sim - confirmei. - e eu a vimos receber dinheiro dele. está acabado, você deve imaginar - soltei um sorriso triste, lembrando o quanto ele havia ficado pra baixo ao ter certeza de que o pai estava mesmo por trás de toda aquela covardia. - , eu não sei o que seria de mim se estivesse em uma família daquela. É horrível estar na pele dele. Você não faz ideia.
- Ainda estou digerindo a história da Hannah.
- Eu nem preciso, né? - dei de ombros. - Você sabe que eu já esperava isso ou pior dela. Mas nunca, e eu repito, nunca imaginei que a Hannah fosse tão fundo. Quer dizer, se envolver com George ? O que ela ganha com isso, sabe? Dinheiro nenhum compensa poder colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz durante a noite.
- Você já conversou com ela?
- Ah, briguei, né? Nenhuma conversa séria e cheia de argumentos. Na verdade, eu falei pouco. ficou tão alterado na hora em que vimos os dois conversando que eu achei melhor tirá-lo logo dali.
- É, você fez certo. - me deu razão. E eu continuava vendo sua expressão triste. - Posso conversar com ela mais tarde, se você quiser.
- Pra quê?
De que valeria o envolvimento de na história? Pedir que ela pressionasse Hannah só faria de tudo um caos ainda maior. Hannah se sentiria acuada, eu não teria um artifício forte de fazê-la retirar tudo o que fez e, céus! Como seria bom se ela pudesse simplesmente voltar no tempo e desistir de se envolver com o tal Troy. Se ela não tivesse dados ouvidos ou o procurado... eu nunca saberia se a ideia partiu dela ou dele.
- Ela passou de todos os limites, .
- Hannah não é minha amiga, . Não é, simplesmente me odeia por todo e qualquer motivo e faria qualquer coisa pra me prejudicar. O que eu não imaginava, é que esse qualquer coisa atingiria níveis tão íntimos. E ela nem sequer sabe com quem está trabalhando, eu acho. George é o governador de sei lá onde, ele tem poder suficiente pra acabar com a raça dela se quiser.
- Por que ele faria isso, ? - ela disse, pressionando as têmporas, parecendo mais preocupada que antes.
- Sua amiga é uma puta insatisfeita. Da mesma forma que me atingiu pode querer atingir George, provocá-lo, ameaçar espalhar que ele solicitou isso. Se ela se armar pra cima dele, vai acabar se dando muito mal. Imagine só a cena...
- Não quero imaginar nada - ela pediu. - E para de chamar a menina de puta!
- Não chamaria se ela não fosse - retruquei. - Mas ela é. E das grandes.
- !
- Não defende essa desgraçada - apontei pra trás, onde ficava a porta do quarto de Hannah, tão próximo de nós. - Eu não sou baixa como ela, , nunca faria o que ela fez, mas você pode ter certeza de que, se um dia eu tiver oportunidade, acabo com a vida dela também.
- Por que isso é super necessário na sua vida, hein? - a essa altura ela já falava alto. - Vai perder um dedo se não se vingar.
- Não quero mais falar sobre isso contigo. Acho que já deu de ver minha melhor amiga defendendo uma puta logo no começo do dia. Até mais tarde na aula!
Dizendo isso, eu me afastei e voltei a entrar no quarto, trancando a porta por dentro sem me importar se ela ainda me olhava e chamava do lado de fora. Provavelmente estava tão irritada como eu, mas aquela era uma situação difícil de lidar. Eu tentava ficar amena a tudo, mas ela defendia Hannah com as unhas tanto quanto antes. Por mais adulta que eu fosse e tentasse agir, meu coração ciumento nunca iria aguentar o fato de que amava mais a Hannah do que a mim. Não era o tipo de sentimento que eu podia aturar.
Desatei o laço que havia dado no robe e o deixei pendurado na maçaneta. Caminhei com preguiça até a cama e deitei de novo, abraçando com o braço e a perna. Ele estava de costas pra mim, permitindo que eu beijasse sua nuca e cheirasse até tê-lo acordado.
- Isso é bom - sua voz preguiçosa falou.
- Então faz em mim - pedi.
Soltei seu corpo e virei de costas, ficando na posição que ele estava antes e ele na minha, sendo que sua perna não estava em cima de mim porque ele sabia que eu não aguentaria o peso por muito tempo. Então ele beijou meu pescoço e me cheirou, deu uma mordida leve na minha orelha e me abraçou mais forte.
- Já é hora de acordar?
- Acho que já deveríamos estar na aula.
- Tô com muita preguiça.
- Eu também - respondi. - Mas não posso ficar na cama. Tenho diversas atividades de classe valendo nota hoje.
- Uow, que interessante - mas sua voz estava empolgada como um cágado. - Boa sorte!
- Vou precisar - eu sorri e virei de frente pra ele.
Lhe dei um beijo leve nos lábios e não deixei que ele o aprofundasse. Eu precisava mesmo levantar. O ano estava chegando ao fim e eu precisava me dedicar bastante às atividades e às provas para que o início do próximo semestre fosse mais tranquilo. Ainda tinha o desafio... durante a aula eu me lembraria de cobrar para que fôssemos ensaiar.
e eu nos arrumamos rápido até e fomos até o refeitório comer alguma coisa bem rápido porque estávamos mesmo atrasados. Depois disso, nos despedimos e fomos cada um pro seu canto.

- É a atividade mais ridícula que eu já tive que fazer em toda a minha vida - reclamou, sendo muito exagerada. - Eu me sinto na quinta série. "Escolha um lugar e dance sobre ele!" - ela imitou a voz encorpada da professora de História da Dança.
- Não é assim tão ruim - Alef falou, sentando no chão onde eu estava com .
Nós éramos um dos trios responsáveis por "escolher um lugar e dançar sobre ele". Alef havia ido à frente da sala escolher entre os pequenos papéis que a professora separou com os nomes dos estados. Ele fazia umas caras engraçadas ouvindo reclamar. Minha amiga costumava ser meio terrorista com os professores nos dias em que não estava afim. E não era por mal, sempre fora uma boa aluna, mas tinha surtos esquisitos de vez em quando.
Eu preferi deixar a confusão por ciúmes de mais cedo passar. Não valeria a pena ficar arrastando e esticando um assunto que só nos faria mal. Como ela também deixou passar, nós nem sequer tocamos no assunto.
- Texas - Alef anunciou, ao abrir o pequeno papel.
- Oh, God, Kacey Musgraves não, por favor! - ela demonstrou sofrimento ao passar a mão pela testa e dramatizar como uma lady.
- Deixa de ser expansiva - bati de leve em sua perna, mandando-a se recompor. - Texas. Precisamos de um pouco de country nessa vida.
- Sério!? - ela ironizou.
- Acho que a gente podia sair daqui - Alef deu a ideia e já começou a se levantar. - Pesquisar lá no laboratório e depois bolar alguma coisa em um dos aquários. Vai ser mais fácil trabalhar sem esse monte de gente falando ao redor.
- Acho uma boa ideia - apoiei.
Ele estendeu as duas mãos pra frente, e eu aceitamos e ele nos puxou até que estivéssemos em pé. Eu fui até o meio da sala, onde minha mochila repousava em cima de uma cadeira e os acompanhei pela saída.
Àquela hora da manhã não deixava o laboratório cheio, então Alef e sentaram cada um em um notebook enquanto eu preguiçava em uma poltrona. Combinamos de buscar curiosidades sobre o lugar, afinal de contas, o country já havia sido dançado diversas vezes, com muitas músicas e inúmeras maneiras diferentes. Nós precisávamos inovar, até porque aquilo valeria nota.
- Vamos combinar uma coisa - Alef começou, afastando-se um pouco do notebook para olhar pra gente. - Eu não visto aquelas roupas ridículas de cowboy, ok? Se quiserem dançar country, que seja com roupas normais.
- É como dizer que vai comer sushi com garfo e faca. Isso não faz sentido! - retruquei.
- Sushi não tem sentido. Hashi não faz sentido.
Continuamos por mais algum tempo com aquela discussão sem sentido e nos ignorava pela maior parte do tempo. Digitava as coisas no teclado, abria imagens e vídeos no Youtube. Não falava quase nada, submersa em seu mundo irritadinho de quem não queria dançar uma música de Kacey Musgraves.
- Vamos pesquisar algumas curiosidades - Alef deu a ideia.
Eu deixei minha preguiça de lado e abri um notebook pra mim também. Quanto mais pessoas pesquisassem, mais rápido seria feito o serviço. Mas eu nem prestava tanta atenção assim porque Alef começou a batucar uma música de Kacey e eu cantei junto só pra deixar irritada. Eu sorria e aumentava a voz nos acordes mais animados.
- As pessoas andam armadas nas ruas. Isso é amedrontador! - sussurei, mas os dois ouviram.
- As pessoas são pontuais - Alef respondeu. - Está ouvindo isso, ? Pontuais. Elas não chegam na sala quando a aula já está pela metade - ele disse, referindo-se ao meu pequeno grande atraso na primeira aula.
- Eu estava ocupada!
- Sem detalhes, ! - reclamou, e continuou sua pesquisa.
Alef e eu continuamos brincando. A gente jogava no ar as curiosidades e ria das coisas mais escrotas, como o fato de algumas mães irem de pijama levar os filhos à escola. não brincava muito. Depois de alguns minutos, eu notei que ela estava muito entretida em uma única matéria que não parecia ser relacionada à dança. Alef e eu também não estávamos muito preocupados com a atividade pra entregar, então não havia problema.
Deixei que ela ficasse em paz procurando o que quisesse.
- Um viva às botas de couro e às garotas de shortinho jeans porque lá é tão quente - ele falou, com os olhos quase brilhando.
- Garotas da Califórnia também usam shorts, babaca - briguei com ele.
O interessante do momento era perceber o quanto Alef e eu podíamos levar uma conversa por minutos e minutos à frente. Ele era super interessante. Nunca na vida havia conhecido um homem que tivesse tanta afinidade comigo quando o assunto era atualidades. Ao mesmo tempo, eu me sentia feliz por poder admirá-lo da forma mais despretensiosa que cabia em mim. Não era mais uma paixonite. Eu só o achava um cara muito muito muito legal.
- Você nem sequer é americana de verdade, não reclama.
- ...
me chamou, mas a princípio eu não dei muita atenção, já que Alef estava merecendo umas respostas afiadas.
- ! - ela chamou, mais firme.
- Oi - lhe olhei, sorrindo.
- Há motivos pra você se preocupar com o Texas.
E, de repente, eu fiquei preocupada, como ela disse.
Sua forma de olhar carregava um pesar, uma coloração avermelhada e uma testa franzida, mostrando incômodo. Talvez ela não quisesse passar pela cena de me falar o que estava acontecendo, tanto é que ela estava demorando. Eu fui até a tela do notebook que usava para ver do que ela estava falando.
A página mostrava informações sobre hospitais e cuidados médicos que eram muito bem exaltados no estado Texano. Ainda não tinha dado pra entender até começar a explicar.
- Depois da primeira aula você falou pra mim que seu sogro não estava mais na Califórnia. Que ia fazer alguma coisa em Washington e depois seguiria pro Texas. Certo?
- Sim, e daí? Tinha mais alguns lugares na lista também, só que não tem importância.
- Você precisa conversar com ! - ela disse, com a voz baixa.
Eu ainda podia sentir a presença de Alef atrás de nós. Ele estava calado, mas com certeza prestava atenção à nossa conversa. E quem não prestaria?
- O que foi, ? - perguntei, mais alto.
Ela apontou na tela. O parágrafo que estava lendo falava sobre algumas leis e eu parei para averiguar.
"... importante mencionar que no Estado do Texas a eutanásia é autorizada em determinados casos que médicos e hospitais paralisem os tratamentos quando estes se mostrarem inadequados ou fúteis, permitindo, assim, a chamada eutanásia passiva..."
Louise...
- Eu preciso ir falar com ele - falei, antes de levantar da cadeira e sair correndo.
Qualquer minuto ali era importante porque a situação nunca havia sido mais complicada. Eu desci os degraus com pressa e fui até o prédio e andar das classes. Precisei passar por grupos de pessoas pelos corredores, tentei não tropeçar em ninguém e fiz força para lembrar em qual sala estaria naquela manhã. Ele havia dito, eu só precisava lembrar.
Fui andando rápido, olhando pelas janelinhas de cada sala, tentando ver sua cabeça pelo vidro.
Quando eu o avistei dentro de uma das salas, não hesitei e entrei lá, sem querer saber se atrapalharia a aula. O professor deve ter me olhado com uma cara muito feia porque começou a me pedir para sair, mas eu não sairia de forma alguma.
- - chamei, andando em sua direção.
- , o que aconteceu? - ele já havia levantado e vinha até mim também.
- Você precisa ir em casa. Vai falar com a Bridget. Ela vai deixar ele matá-la, . Você não pode deixar isso acontecer.
- Deus do céu. Do que você está falando? - me puxou pela mão e nós saímos da sala com pressa.
Ele fechou a porta por fora e me olhou bem fundo nos olhos. Eu respirei fundo e tentei formar uma frase coerente e prática.
- Onde está a Louise?
- Em um hospital de Seattle. Por que, ?
- Droga! - pisei firme no chão. - Sua mãe disse que George estava indo pra Washington, depois Texas. Texas é um dos Estados em que a eutanásia é legalizada, . Ele a está levando para interromper os aparelhos.
Vi seus olhos petrificarem no momento em que o cérebro processou o que eu havia acabado de falar. Ele soltou minha mão, sem força, e apoiou as costas na parede. Pude ver que seus olhos ficaram vermelhos e ele olhava através de mim, para algo que estava apenas em sua cabeça, muito provavelmente.
- Precisa falar com Bridget, - falei, mas notei seu corpo escorregando no caminho do chão. - ! - gritei e segurei seus ombros. - Você não vai cair agora! Olha pra mim. Porra, olha nos meus olhos! - puxei seu rosto e lhe fiz olhar. - Você vai até em casa agora, ok?
engoliu em seco, escorreu a única lágrima que brotava no olho esquerdo e assumiu a postura determinada que eu admirava. Ele puxou minha mão e começou a andar comigo na direção do final do corredor. Nós estávamos saindo da Escola. Ele iria em casa e queria que eu fosse junto.
Chegamos rápido ao estacionamento, onde ele entrou com pressa no Jeep e deu partida, quando eu ainda estava colocando o cinto. Fomos em silêncio até chegar ao prédio e continuamos em silêncio ao subir no elevador, entrar no apartamento e notar que ele estava vazio.
Irritados porque sabíamos que àquela hora já havia ido pra creche, sentamos à mesa da cozinha e pudemos, enfim, respirar um pouco.
- Uma hora ela vai voltar pro almoço. Podemos esperar e quando ela chegar eu vou pro quarto e deixo vocês conversarem sozinhos.
- Tudo bem - ele disse, abaixando a cabeça e a apoiando entre os braços. - , eles vão matar a minha irmã.
E o que eu podia falar em relação àquilo? Era isso o que estava prestes a acontecer mesmo. Iriam buscá-la em Seattle e levá-la pro Texas, desligar os aparelhos e então... ela não existiria mais. George estaria livre de um peso. E notar o quanto aquilo soava sujo era desesperador. Porque era a própria filha dele!
- Tenho certeza de que eles não estavam assinando os papéis do divórcio - ele disse, de repente.
- Pensei nisso também.
Ele levantou a cabeça e encostou as costas na cadeira.
- E eu sendo inocente esse tempo todo. Aquele desgraçado veio aqui só pra convencer a minha mãe - ele disse. - Meu Deus, como ela pode ser tão burra? Como ela aceita uma proposta desse nível? Ela que já feio pra cá fugindo disso, acabou aceitando assim...
E de repente ele parou de falar. Seus olhos estavam presos em algum lugar atrás de mim. Eu olhei pra trás, querendo saber em que ele havia fixado os olhos, mas só consegui notar a pia dos pratos, o microondas e a geladeira.
- O que foi? - perguntei.
Em vez de me responder, levantou da cadeira e pisou forte até a geladeira. Havia um bilhete pendurado nela que eu ainda não havia reparado. Ele tirou o ímã que o colava na geladeira e aproximou dos olhos para ler. Menos de trinta segundos depois, ouvi o barulho de seu pé chutando a geladeira e vi um pequeno papel voando pelo ar, amassado. deixou a cozinha com brutalidade ímpar e foi na direção do quarto.
Eu poderia ir atrás dele e perguntar o que havia acontecido, mas aquilo iria demorar.
Esperei ele trancar a porta do quarto e fui atrás do bilhete, amassado embaixo da pia.
Desamassei com cuidado para não rasgar e li as palavras escritas em caneta de tinta vermelha.
Querido,
Eu precisei antecipar minha ida. Tenho compromissos a cumprir com George nessa viagem. Nos falamos em breve.
Se cuide e não esqueça nunca que eu amo você.
Beijos,
Sua mãe.

Capítulo 33: It was a long and dark December

- Quer repetir os passos? Acho que faz bem, vai fazer você ficar mais calmo.
Nada me faria ficar mais calmo. Eu estava quieto, o que não significava tranquilidade de forma alguma.
- Vou te deixar na Escola e conversar com o diretor, explicar que preciso passar uns dias fora.
- E por que isso é importante?
- Estamos perto das provas e eu não posso reprovar.
- E depois que você falar com o diretor?
- Durmo um pouco até a tarde porque meu vôo pra Washington é só à noite - eu me sentia como um idiota repetindo aquilo pela terceira ou quarta vez. Não me acalmava, só mantinha a minha mente ocupada. - Você sabe que eu não vou conseguir dormir.
- Deitamos juntos e você só descansa.
Eu lembro de quando era criança e Louise me colocava no colo, como se fosse o seu bebê. Ela era uma pirralha também, pouco tempo mais velha que eu, mas ela brincava comigo por tempos e tempos, até que eu enjoasse e fosse brincar de outra coisa mais agitada. Nós crescemos e aquela relação continuou igual. Ela cuidava de mim com tanto afinco. Éramos amigos, embora bem diferentes no quesito personalidade. Era de forma diferente, mas nós lutávamos um pelo outro.
E então, em determinado momento da vida, eu precisava fazer as malas com pressa e jogá-las dentro do carro, precisava viajar pra salvá-la, lutar por ela de uma forma que eu nunca imaginei precisar.
me ajudou em todo o processo. Esteve quieta e paciente, ela entendia o que eu estava passando mesmo que nunca tivesse visto situação parecida. Ela me abraçou um pouco pra eu poder chorar e depois ouviu com atenção o que eu disse que queria fazer. Dobrou algumas roupas pra eu colocar na mala, juntou alguns pertences que eu precisaria e me esperou tomar um banho. Embora naquele momento eu não tivesse forças para agradecê-la, pois minha mente estava em outro lugar.
Todo o meu medo consistia em não chegar a tempo. Eu precisava estar em Seattle antes que George tivesse tempo de tirar Louise do hospital. Ele ainda precisaria resolver toda a questão burocrática, assinar papéis, conseguir permissões e formas de transporte e eu contava com uma carta na manga: George não sabia que eu estava indo atrás. Sendo assim, não precisaria se apressar. Dessa forma, eu me comprometi a ser discreto como nunca. Evitaria mostrar o rosto e ficar em lugares muito cheios. Se conseguisse chegar no hospital a tempo, daria meu jeito, mesmo que fora da lei, de tirar Louise de lá e levá-la para um lugar seguro.
- Se ela não estiver mais em Seattle quando eu chegar, você sabe que eu vou demorar mais um pouco, não sabe?
- Você vai fazer o que for necessário - ela disse, me olhando, mesmo que eu não pudesse retribuir o olhar com profundidade, já que estava dirigindo. - Eu confio em você.
Não demoramos a chegar à Escola. Embora não valesse a pena ter pressa naquele momento do dia, eu não queria ficar no trânsito por muito tempo. Queria mesmo deitar na cama com e tentar descansar um pouco até a hora de pegar o avião. Eu sabia que não conseguiria dormir, e tinha plena consciência de que passaria o tempo todo pensando na minha família e em George, só que fazer outra coisa qualquer também não funcionaria. Eu não ia render nada durante o dia. Fosse conversando, estudando, comendo, correndo... Não iria funcionar.
deitou comigo e eu sei que ela dormiu. Eu pude notar sua respiração mais forte, seus olhos fechados de forma leve, sem perigo de acordar. Mas eu permaneci como estava: estático, olhando para o teto, pensando em como eu queria que tudo desse certo.

Depois disso, tudo passou rápido como um raio. Naquele dia meu avião atrasou, minha mala quase se perdeu nas dependências do aeroporto e o hotel em que fui para guardar as malas enrolou no check-in. Claro que tudo isso poderia ser evitado se eu tivesse revelado minha identidade de filho do político mais babaca da américa. Mas na minha situação, ser o Babaca Júnior não adiantaria de nada, pelo contrário, só ferraria tudo o que eu tentasse fazer pela frente. Meu pai entenderia as minhas intenções e faria o necessário para me parar. E eu não podia ser parado. George era o único quem deveria receber uma interrupção, mesmo que fosse de uma forma bruta.
E mesmo cansado, eu não me permiti ficar no hotel. Apenas tomei um banho para não aparecer sujo de aeroporto no hospital, vesti uma roupa limpa e procurei um táxi.
Eu havia ido muito pouco a Seattle desde que Louise fora internada lá. Foi escolha da minha mãe não deixá-la em Chicago. Ela não queria toda a família e toda a imprensa investigando sua vida e rodeando o hospital como sempre faziam. Em contrapartida, ela pegava um avião praticamente toda semana e ia até lá para ver a filha. Eu lhe acompanhei algumas vezes antes de fugir de casa. Depois disso, acompanhava a situação pela minha mãe ou por algumas enfermeiras que me mantinham informado. Mas estar ali, naquele hospital, na frente da porta do quarto em que Louise dormia... não era uma sensação comum.
Eu hesitei por vários, vários minutos antes de ter coragem de abrir a porta. O corredor estava silencioso, não havia muita movimentação naquela área. Era o quarto que nossa família pagava para mantê-la... viva.
Minhas mãos ainda estavam meio úmidas por causa do álcool em gel que me fizeram passar nelas na recepção. Além disso, elas suavam de nervosismo. Fazia tempo que eu não via minha irmã. Então eu tomei coragem e abri a porta com cuidado, devagar, vendo aos poucos os pés se tornarem pernas, e tronco, e cabeça.
E meu coração deu um salto, eu me aproximei e toquei sua mão magra com a minha úmida de suor e álcool em gel. Louise estava diferente. Seu cabelo era ralo na cabeça, os dedos pareciam mais compridos que antes, embora eu soubesse que aquilo era somente pelo fato de estarem mais finos.
Eu gastei algum tempo ali conversando com Louise, na esperança que ela me ouvisse, que me respondesse, não sei bem. Se eu fosse ser bem honesto, assumiria pra mim mesmo que as possibilidades de ver alguma reação no corpo dela era mínima. Mas quem se importaria? Eu só rezava e implorava para que ela abrisse os olhos, para que lutasse pela própria vida, que assumisse seu lugar.
É claro que foi em vão, mesmo que eu torcesse para que não fosse.
Depois de quase uma hora ali, eu decidi sair do quarto e conversar com o médico. Ele me falou mais sobre toda a situação, deu detalhes. Disse que não queria ser parcial, mas praticamente deixou claro sua preferência pelo encerramento dos aparelhos. Ali eu decidi que não queria mais conversar com ele, então saí do hospital e voltei pro meu hotel. Eu precisava dormir um pouco.
Deixei tudo organizado. Sondei médicos e enfermeiras, acabei descobrindo que ninguém havia visitado Louise nos últimos dias, então pude ficar um pouco mais tranquilo.
Liguei para antes de dormir e lhe contei um pouco como havia sido o dia. Mas não o dia inteiro porque ainda era hora do almoço. Ela estava entretida em alguma coisa com , provavelmente ensaiando ou em alguma atividade de classe. Ela parou o que fazia para falar comigo, me deu atenção, me confortou. E ali eu consegui realmente relaxar. Louise estava bem. Depois de ter certeza daquilo eu poderia continuar lhe visitando até que meu pai desistisse da ideia, ou aprontasse alguma coisa e eu lhe fizesse desistir.
Passei três dias vivendo a mesma rotina. Eu acordava, tomava um café da manhã tranquilo e ia ao hospital passar o dia por lá. Não podia ficar com Louise por muito tempo, o horário de visitas era um tanto quanto injusto, mas eu ficava o mais perto que podia. À noite eu saía pra jantar e conversava com os médicos, acompanhava cada processo da minha irmã. Tudo o que eu podia acompanhar, entretanto, era o motor pouco barulhento dos aparelhos que a mantinham ali. Esperar por novidades era utopia, e achar ruim o fato dela não poder se mover era insano.
Mas foi na tarde do quarto dia que tudo aconteceu.
Eu decidi ir ao hospital mais tarde. Precisava dar um jeito na minha alimentação, que não estava nada boa, e na minha cara também. Nunca fui de deixar a barba crescer, mas naqueles dias ela quase saltava no rosto das outras pessoas. Passei mais um tempo no hotel, fiz a barba, tomei um banho longo, vesti roupas mais confortáveis e saí para almoçar em um restaurante um pouco mais distante.
Enquanto estava no táxi, indo para o hospital, baixei alguns pdf's no celular, coisas que eu deveria estar estudando, mas minha cabeça não deixava. Eu teria muito tempo para ler enquanto estivesse com Louise, então era melhor aproveitar o tempo estudando mesmo. Assim eu não teria tanta dificuldade nas provas quando voltasse à Califórnia.
Mas o quarto estava vazio. A cama fora bem arrumada e não com os costumeiros lençóis amarelos que Louise gostava desde criança. Estava tudo branco como um quarto de hospital comum, ocupado por ninguém, cuidado por pessoa alguma.
Saí do quarto com pressa e me encaminhei à recepção para saber aonde haviam levado minha irmã. A enfermeira que estava lá era uma moça ruiva, de aparelho nos dentes, que quase não prestou atenção em mim, e muito à contragosto respondeu minha pergunta, dizendo que a haviam levado pela manhã.
- Quem a levou? - eu perguntei, já alterado.
- Os pais dela. Saíram antes das dez, assinaram os papéis e foram embora.
Eu sei que ela continuou falando mais algumas coisas depois disso, só que eu não ouvia mais.
Acenei positivamente com a cabeça, mostrando que entendia o que ela falava, quando, na verdade, meu cérebro só funcionava em uma única função: achar Louise. Era o que eu temia que acontecesse. George conseguira o que estava tentando.
Me peguei imaginando se eu estava sendo vigiado durante aqueles dias. Afinal de contas, Louise não havia sido levada até o dia em que eu precisei me afastar. Talvez meu pai tivesse mesmo esperando eu sair para fazer o que queria sem levantar escândalos. Porque é claro que ele sabia que eu faria um. A qualquer momento em que George aparecesse na minha frente querendo levar minha irmã pro Texas, pro inferno ou pra puta que pariu, eu partiria a cara dele no meio na frente de qualquer câmera ou autoridade que pudesse assistir.
Então ele foi paciente e esperou.
Corri até o hotel e juntei todas as minhas coisas na mala, indo logo na direção da recepção pagar minhas contas e ir embora dali. Tive que passar horas no aeroporto esperando um vôo pro Texas, mas dessa vez eu não fiz questão de me esconder.
Em qualquer outra situação eu teria vergonha de dizer isso, mas acabei fazendo o papel de filho mimado do governador para conseguir lugar em um vôo que já estava lotado. Aquela situação era diferente, eu precisava de um pouco de preferência. Era a vida da minha irmã correndo perigo.
Eu estava um caco quando cheguei ao Texas, mas não podia me dar o direito de descansar. Também não havia contado com o nível de dificuldade naquele lugar. Quando eu fui para Seattle, sabia muito bem onde Louise estava. Mas ali tudo era diferente. Além de não conhecer o estado, a cidade, não fazia ideia de onde levariam Louise. Além do mais, George com certeza faria o possível para disfarçar, esconder.
E eu liguei tanto pra minha mãe. Mas eu liguei tanto!
A chamada sempre caía na caixa de mensagens e eu deixava uma, mas nunca recebia resposta. A angústia era ainda maior em saber que ela havia sido convencida pelo demônio do marido a fazer uma barbaridade daquelas.
A busca pelo hospital correto não foi fácil, não foi nada fácil. Eu precisei seguir todos os rastros que ficavam disponíveis, até apelei pra um aplicativo de rastreamento que baixei no celular. Coloquei o número da minha mãe pra ser localizado, mas a última localização que ele me deu foi do hotel em que ela ficou hospedada no dia em que chegou. Mas ela nem sequer estava lá mais.
Precisei conversar com estranhos, pagar pessoas por informações. Precisei me desdobrar como nunca havia feito antes.
Claro que aquela situação não era de todo estranha pra mim. Eu já havia estado em uma fuga antes, sendo que, na outra situação, era eu apagando os rastros, não caçando.
Mas cinco dias depois de chegar ao Texas, eu achei a dona Bridget em uma recepção hospitalar. Ela parecia cansada e dormia com a cabeça encostada na poltrona da sala de espera. Hesitei bastante antes de me aproximar. Eu não sabia o que esperar. Se meu pai também estivesse ali, provavelmente tentaria me expulsar e nós brigaríamos feio, atraindo muito mais atenção do que a situação pedia e merecia.
Sentei na poltrona vazia ao lado e toquei sua mão de leve, esperando-a despertar. Ela tinha o sono muito leve, sentia qualquer toque, por mais fraco que fosse.
Quando ela abriu os olhos eu senti o coração batendo mais forte. De todas as vezes em que fui contra a opinião da minha mãe, aquela era a que me deixava mais fraco. Me entristecia ter que ir contra ela, ter que confrontá-la, brigar por uma decisão mal tomada, mas era tão extremamente necessário.
- Oi, mãe - falei, baixinho, quando ela focou meu rosto e se tocou de que eu estava ali de verdade, não era uma visão.
- O que está fazendo aqui, ? - ela perguntou, sentando-se melhor na poltrona e soltando a mão da minha.
- O que você acha, mãe? - eu continuava calmo. - Vocês realmente chegaram a pensar que eu assistiria tudo sentado? Que eu não iria contestar, tentar impedir?
Minha mãe levantou da poltrona e começou a se afastar de mim. Andou na direção de um corredor mais deserto e eu lhe segui. Na verdade, eu não tinha muita certeza de que ela queria minha companhia, mas eu fui assim mesmo porque precisava de algumas respostas. Antes de qualquer coisa, eu lhe perguntaria por quê. Desde quando ela havia sido convencida? Quando sua opinião mudou de aversão a aceitação? Eu queria ouvir de sua própria boca.
- Espera... - falei, segurando seu braço quando chegamos ao corredor.
- Volte pra sua Escola, pra sua namorada. Tudo ficará bem, meu filho.
- Como ficará bem, mãe? - ali eu já começava a me alterar, mas mantinha o tom de voz macio. Não gritaria com ela de novo. Minha mãe não merecia aquela tipo de tratamento.
- ...
- Onde está ele, hein? - olhei ao redor, tentando achá-lo. - Onde está o meu pai? Eu quero conversar diretamente com ele. De novo, eu sei que já tentei milhares de vezes, mas dessa vez nós precisamos falar sério, mãe. Olha onde a gente está, mãe. Vocês estão prestes a desligar os aparelhos da Lou, mãe - eu sentia as lágrimas começando a molhar todo o meu rosto e a garganta fechando. Aquilo era desespero. - Mãe, é a sua garotinha!
Ela começou a chorar comigo também. Senti dor saindo de sua garganta e de suas lágrimas. Ela curvava os ombros e chorava com força, muito mais força que eu. E nós passamos alguns minutos ali, sem falar palavra alguma, apenas deixando que nossas lágrimas expressassem o que estávamos sentindo. Quando ela ficou mais calma, secou as lágrimas mais evidentes com as costas da mão e depois tocou meu rosto. Me fez um carinho rápido e soltou a bomba que eu não queria ouvir.
- Já desligamos, querido.
Eu não podia acreditar.
Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não podia acreditar. Não queria acreditar!
- Eu odeio você - falei, em sua direção.
E céus, aquilo não era verdade. Eu não odiava minha mãe, não odiava sua pessoa e nada em sua forma de ser, mas naquele momento era tudo o que eu conseguia sentir e dizer. E naquele minuto ela sentiu o meu ódio e entristeceu-se. Consegui me sentir um monstro por fazê-la sofrer mais do que já estava sofrendo, mas eu queria apenas gritar!
De repente, nada mais fazia sentido. Em apenas um minuto minha própria mãe conseguiu fazer toda a minha estrutura desmoronar.
Eu só pude correr dali, com as lágrimas embaçando meus olhos. Mas quando a silhueta de George apareceu na minha frente eu fiz questão de limpar os olhos e acertar um soco com toda a força que eu consegui juntar no meu corpo. Deve ter quebrado dois ou três dentes, no máximo. Não passava nem perto da minha real vontade no momento. Eu já podia sentir o mandamento em Êxodo pesando nas minhas costas. Honrar pai e mãe não caberia mais na minha existência dali em diante. Eu também sabia o que significava.
"Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá."
Vida curta pra mim. O que era tudo o que eu queria também.

Capítulo 34: Can't breathe with no air, that's how I feel whenever you ain't there.

Eu já estava ciente dos últimos acontecimentos, mas não pela boca dele. não telefonou mais e nem deu sinal de vida. Com certeza eu fiquei preocupada e querendo ir atrás dele, mesmo sabendo que era uma loucura. Mas no fundo do meu coração, eu simplesmente sabia que deveria respeitar seu espaço, sua dor. Eu nunca poderia definir o que ele estava passando naquele momento. Depois ele poderia me explicar, tentar falar a respeito pra ficar menos sobrecarregado, mas aquela era uma dor que ele nunca poderia dividir com ninguém totalmente. Apenas em partes.
Enquanto isso, na Califórnia, eu precisava segurar minha parte da barra. O caso de Louise não ficou em segredo por muito tempo.
Depois de um tempo, ficou claro que toda a história da publicação do meu vídeo foi só para ofuscar um pouco o procedimento médico que George pretendia fazer. As pessoas falavam de Louise, mas o caso de - por se tratar de sexo, exposição e fofoca - trazia muito mais audiência, por assim dizer.
Cerca de dois dias depois, os boatos sobre o que havia acontecido começaram a correr pela televisão e internet. Mas, como eu disse antes, em nível menor de fofoca do que quando foi comigo. Porque, na verdade, desde que as pessoas possam meter o dedo sujo na vida dos outros e falar mal, elas não se importam se alguém morreu ou não. Tudo o que interessa de verdade é apontar quem tem o "pecado maior e mais sujo". Eu era a bola da vez, também. O governador George passou a ser a alma caridosa que todos queriam ter como pai.
E como isso aconteceu? É simples explicar.
Chegando a Illinois, George e Bridget devem ter percebido que esconder a morte de Louise acabaria sendo pior. estava louco no mundo e vez ou outra dava um jeito de soltar um escândalo de seu pai na televisão. Claro, as notícias eram postadas em anonimato, mas apenas tinha motivo para fazer isso no momento. Então eles convocaram uma coletiva para falar a respeito. E eu consigo me lembrar de cada uma das palavras de George.
"Não consigo me arrepender dessa decisão. Fizemos o que era melhor pra nossa menina. Foi uma escolha complicada, passamos por muitas dificuldades até chegar nesse ponto e ele nem sequer foi aceito por 100% da família. Mas o que faríamos?
Durante toda a vida de Louise nós fomos os pais que podíamos ser, demos nosso melhor, cuidamos de sua educação, de sua saúde, do seu bem-estar. Fazê-la feliz era a nossa missão e com a ajuda de Deus nós fizemos isso. Mantê-la naquele estado, em uma cama de hospital, em um quarto solitário, não era cuidar da sua felicidade. Vê-la deixando de brilhar aos poucos era uma sensação ensurdecedora.
Nós sabíamos que Louise faria o mesmo. Ela tinha esse espírito maternal, ela sempre buscou o bem de todos. Assim como buscamos o dela.
Vamos sentir falta da nossa filha, mas sabemos que esse foi o melhor, e que agora ela pode descansar em paz."

E ele segurou a mão de Bridget durante todo o tempo em que esteve falando. Ela também soltou algumas palavras, mas como ainda sofria muito, não soube se expressar bem, então deixou que o marido prosseguisse dando a opinião como se também fosse sua. E eu sabia que não era...
Tudo o que conversei com Bridget pelo tempo em que a conheci me dizia que ela não estava feliz com a decisão. Se aquela mulher foi capaz de sair de Chicago, do conforto da sua casa e da sua família para ir até a Califórnia passar um tempo com o filho em um apartamento minúsculo e sem toda a segurança com que estava acostumada para fugir da proposta do marido, por que trocaria de ideia? Ela simplesmente assinou os papéis. George soube convencê-la. E quem assistisse aquele vídeo poderia afirmar de pés juntos que ele realmente só pensava no conforto de Louise, mas pro inferno com todo aquele sentimentalismo! Não estou dizendo que eu não assinaria os papéis também, se fosse eu no lugar dela... mas a situação era outra. George não era, nunca foi e provavelmente nunca seria um homem totalmente confiável. Por todo o seu histórico, pelas agressões de que tanto falava. Particularmente, eu só conseguia ver como se ele estivesse se livrando de um fardo.
De toda forma, eu não tinha muito tempo para dar minha opinião por aí. Estávamos em semana de provas, e por ser final de ano nos preocupávamos muito com o desafio. Eu sentia saudade de e vontade de telefonar o tempo inteiro, mas para respeitar seu espaço, procurava me ocupar com coisas do dia-a-dia. Sempre que e eu estávamos livres ao mesmo tempo, corríamos para um dos aquários a fim de ensaiar nossa coreografia.
No dia em que precisamos montar uma coreografia de country eu não tive como me apresentar. Perdi um terço da nota por causa disso e precisei fazer uma prova escrita para recuperar, mas apresentou com Alef e eles receberam uma bela nota. Estávamos quase finalizando o período e dentro de alguns dias apresentaríamos o desafio. Depois disso, cada um seguiria seu próprio caminho para comemorar as festas de fim da ano com a família. Eu já estava louca para ver meus pais.
Como no ano anterior, eu já estava ansiosa pela hora de arrumar as malas. Minha mãe estaria me esperando na janela com seu cabelo cacheado batendo nos ombros, ou talvez já estivesse mais comprido. Meu pai tiraria uma torta de qualquer coisa do forno e viria me dar um abraço apertado, me chamando de pirralha e dizendo que eu tenho idade suficiente pra passar tanto tempo longe de casa. E eu estava com tanta saudade do peru de natal acompanhado de salpicão na nossa mesa redonda na sala de jantar.
Se aparecesse a tempo, eu lhe pediria pra ir comigo. Meus pais não seriam tão modernos de nos deixar dormir no mesmo quarto, mas eu daria uma fugida no meio da noite. Mas, pra viajar comigo, primeiro ele precisava aparecer na Escola, ou dar sinais de vida, um telefonema, qualquer coisa que me deixasse menos aflita.
Eu não podia apressá-lo, entretanto. Invadir seu tempo e espaço era algo que eu não pretendia e nem ia fazer.
Só me restava esperar.

- Levanta!
Eu acordei com um chute. É, um chute no meio da minha bunda.
A voz irritantemente alegrinha de soava pelo quarto ao tempo em que ela abria a janela e me fazia visualizar duas silhuetas através dos meus olhos ainda sonolentos. Uma era a dela, óbvio. A outra silhueta tinha cabelo longo e claro suficiente pra me fazer começar o dia irritada.
- O que ela está fazendo aqui? - perguntei, antes de pronunciar sequer um bom dia.
- É o último dia de aula, molenga. Levanta! - continuou, sem se preocupar em responder minha pergunta.
A contragosto, eu ergui o tronco da cama e fiz menção de levantar, mas percebi que estava sem blusa e voltei a deitar, me escondendo nos lençóis.
- Acorda! - veio até mim e arrancou o lençol do meu corpo. - E larga essa mania de dormir sem roupa. não está aqui pra ver. Respeite minha presença.
- Grande merda a sua presença.
- Também te amo, flor.
- Não me chama assim! - resmunguei, mas a voz saiu fraca. Brigar após acordar não era meu forte.
- É o dia da nossa tradição - ela olhou para mim e depois para Hannah, que também não parecia tão empolgada em estar no meu quarto. - Nós vamos bagunçar a aula inteira, colar nas duas provas, irritar os professores e rasgar as anotações insignificantes ao sair da sala.
- Ninguém está no clima - Hannah disse, e eu não pude deixar de concordar. - Não vai dar muito certo se logo hoje a gente começar a colocar os monstros pra fora.
- E quem se importa mesmo? - continuou.
Aquele bom humor momentâneo era um saco. Era bom alguém me lembrar de avisá-la para ir aos poucos. Primeiro você dá um risinhos, depois ri de tudo e depois faz piadas pra só em seguida ser a miss simpatia. Ninguém podia ser Satanás num dia e a Cinderela no outro.
Ninguém normal conseguia fazer aquilo. Só que nunca fora normal.
Nós fomos os melhores alunos que poderíamos ter sido para um último dia de aula, só que isso não é muita coisa. Nossa atenção não estava no professor e nas questões, mas nas festas, na pausa, no meio quilo de liberdade que sair da escola significava, embora não durasse o suficiente como as férias de verão... que ainda estavam tão longe!
Minha atenção também estava sempre ligada ao celular e à vontade desequilibrada de ouvi-lo tocar. Mas foi uma boa amiga e fez minha cabeça espairecer.
Eu rasguei as anotações do dia, como o restante da turma. Beijei e abracei todo mundo, gritei "Festa e comida" pensando no Natal e Réveillon. Corri descalça até a praia, sofrendo com o asfalto quente, mas erguendo as mãos pro céu quando meu corpo foi tomado pelas ondas de água salgada.
Depois eu voltei, tomei um banho frio de chuveiro e deitei na minha cama com o celular ao lado. Eu não podia mais aguentar o silêncio. Vê-lo tão sofrido e tão sozinho era pavoroso. Havia uma gama de possibilidades e caminhos que podia estar traçando, mas todos me irritavam porque eu queria estar junto. Ajudando, mesmo que fosse só ficando ao seu lado.
E chamou a primeira vez.
Eu pensei em desistir e esperar que ele me ligasse, quis respeitar seu tempo, mas no segundo toque minha vontade se fortaleceu e eu decidi esperar pelo terceiro.
E o quarto e o quinto.
Eu sabia que depois do sétimo a ligação iria cair na caixa portal e acabei ficando triste pelo desencontro. Mas no início do sexto toque a voz dele disse "alô" e eu tive que sorrir de alívio. Todo o meu ser se encheu de um tipo de paz que eu não podia medir. Era simplesmente gratificante ter a certeza de que ele estava inteiro.
- Oi - falei, feliz. - Sou eu.
- - ele me cumprimentou, também parecendo feliz.
- Tô sentindo a sua falta.
Ele não respondeu de imediato, mas eu não me senti acuada por causa disso. Aquilo não era sobre nós, não era sobre mim; era algo muito maior, que talvez nem desse pra medir. estava daquele jeito porque provavelmente não conseguia se expressar de outra forma. Havia novidade recente demais para ele digerir e saber o que pensar sobre.
- Ainda não consegui voltar - ele começou a explicar. - Eu... nem sequer tenho mais nada pra fazer, mas fico imaginando que todo mundo vai ficar me encarando quando eu voltar.
- Eu sei...
- ... e dessa vez, , é muito, muito pior que a história do nosso vídeo.
- Claro que é. Eu te entendo. Não liguei pra pressionar.
- Eu sei, mas eu também sinto sua falta e não quero que você pense que eu não estou me importando.
- Não pensei isso...
- Eu me importo. Me importo muito, mas eu preciso respirar um pouco.
- Respira...
- E eu acho que não vou conseguir aí.
- , respira! - eu falei, tentativamente. Minha voz soando em um fio tênue, divagando entre a minha insegurança e a vontade de passar força pra ele. - Você vai ficar o tempo que for preciso. E quando voltar, eu vou estar bem aqui te esperando.
- Obrigado - ele disse, e ficou em silêncio em seguida.
Eu estava deitada na cama e conseguia me sentir pelo menos fisicamente confortável. Revirei algumas vezes e fiquei escutando o som de sua respiração, que não era tão alto, mas ainda assim notável. Agarrei um travesseiro e esperei que ele dissesse mais alguma coisa ou que minha própria inspiração aparecesse para eu falar.
- Onde você está agora?
- Tennessee.
- Oh-hoo, coitada da minha conta de telefone esse mês - eu fiz uma piadinha, mesmo sem esperança, mas ele riu um pouco.
- Vai ter que trabalhar muito pra recuperar o furo no orçamento.
- Uhum, tudo o que eu queria - ironizei, tentando continuar na brincadeira, mas ela não durou por muito tempo. Não tinha clima. Eu sentia falta de e sabia que ele sentia a minha, mas naquele momento, nossa falta de assunto era tão tangível que eu cheguei a ficar envergonhada. - Acho que vou desligar, deixar você... sei lá, respirar - sorri, ainda desconfortável.
Demorou um pouco antes dele responder. Eu sentia como se precisasse pensar bem antes de responder cada coisa que eu falava.
- Olha, eu não vou demorar, tá?
- Fica tranquilo. Eu só quero que você volte quando estiver tudo bem. Enquanto isso eu seguro as pontas por aqui. Ninguém vai ficar te incomodando com o assunto.
- Obrigado.
- Não precisa agradecer.
E o silêncio se fez presente de novo. Era realmente hora de desligar. Antes que ficasse desconfortável pros dois lados, antes que o ato de se falar virasse uma obrigação, antes que ele tivesse que inventar desculpas para desligar o telefone sem me magoar. Eu não seria mais um peso pra ele, mas o que o deixaria leve. E para isso acontecer, eu precisava aprender a esperar.
- Eu te amo, tá? - foi o que ele disse.
Corrida de borboletas ou chame do que quiser, meu corpo estava em festa, meu coração dançava feliz. Toda a situação ficava mais amena. Eu sabia que tudo ia passar. sabia também. Um dia tudo aquilo estaria guardado no coração dele: a briga com os pais, a morte da irmã, a fuga do mundo, a incompreensão. Eu sabia que nada daquilo ia ser perdoado facilmente, a mágoa ficaria lá.
Mas eu também sabia que um dia tudo ficaria bem. merecia isso. E só o fato de acreditar, de ter fé, me dava a certeza de que eu podia esperar pelos dias melhores, pelo raio de sol.

Mais duas semanas passaram e ele ainda não estava de volta. O desafio do ano estava batendo à porta e eu gastava muito do meu dia ensaiando com , trancada no aquário de vidro. E mesmo quando ia pro trabalho eu continuava lá e criava coisas novas, dançava sozinha ou simplesmente deitava no chão e ouvia a música tocar.
Resumindo: eu tinha muito tempo livre.
Foi em uma dessas tardes desocupadas que eu tive minha última e principal conversa com Hannah. Ninguém morreu ou se machucou, nada do tipo. Mas com "última conversa" eu digo a lavagem de roupas. A conversa que fez todos os segredos serem revelados, que eu saiba.
Ela estava comendo no refeitório e meu estado de espírito naquele dia não estava assassino, portando, era o melhor dia para um confronto pacífico, um debate. Em qualquer outro momento, eu teria aproveitado a oportunidade pra arrancar seus olhos com os garfos do refeitório, mas naquele dia eu podia conversar. Eu queria falar, apenas isso.
Sentei à mesa, mesmo sem permissão. Hannah levava uma colher com sopa à boca e não parou só porque eu cheguei. Não me dirigiu a palavra, não parou de comer, não mexeu um músculo além do que era realmente necessário para mastigar os legumes. Ou seja, eu estava sendo ignorada com sucesso.
Sem saber como começar, eu encostei meu corpo na cadeira e só observei enquanto ela acabava de tomar sua sopa. Seria melhor se ela não estivesse no meio de uma refeição ao responder as perguntas que eu faria. Isso é: se ela estivesse com disposição para responder. O fato de eu estar em um dia de paz não significava que o mesmo se repetia pra Hannah. Ela podia estar planejando mirar algum talher bem naquele momento.
Passado o momento inicial, a espera, Hannah deve ter percebido minha dificuldade em começar e pareceu desistir. Ela levantou da cadeira, já quase se afastando da mesa, por pouco escapando do aperto da minha mão em seu pulso.
- Hey!
- Não enche, - reclamou, sem nem me olhar.
- Espera um pouco.
Eu estava bem ciente das suas unhas compridas bem perto da minha pele. Ela podia me arranhar a qualquer momento. Entretanto, pra minha sorte, Hannah também parecia estar em um momento mais calmo.
- Hannah, eu só quero resolver as coisas.
- Ah, claro - ela sorriu de modo sarcástico. - Está chegando o Natal e você não quer que o Papai Noel te deixe fora da lista de presentes por você ter sido uma péssima menina.
Se o Papai Noel existisse de verdade, meus presentes já estariam quase garantidos. Exceto brigar, beber muito e deixar um vídeo de sexo vazar na rede, eu havia sido uma pessoa compreensiva e agradável durante o ano. Até um namorado eu arrumei. Trabalhei, estudei bastante, me esforcei mesmo. Se alguém merecia presentes do Papai Noel, eu era esse alguém.
O que Hannah não entendia é que aquela conversa era eu lhe dando uma chance de ser presenteada também.
- - ela finalmente sentou. - Quem ferrou as coisas entre nós duas foi você.
- E por que você fala isso? Nós, por acaso, fomos melhores amigas em algum momento?
- Você não precisa ser melhor amigo de alguém pra respeitá-lo.
- Olha você falando de respeito, Hannah! Foi por respeito que você expôs minha intimidade pro país inteiro assistir? É por respeito que você agora pragueja tudo o que eu faço?
- Você não acha que eu tenho mais o que fazer, não? , você acha mesmo que eu passo meus lindos e coloridos dias pensando em como te matar envenanada?
- E o que é que você faz então, Hannah? - encostei meu cotovelo na mesa e o queixo na mão. Com a cabeça meio inclinada, já cansada, eu observei enquanto ela tentava entender sobre o que eu falava. - Quer me ver convencida de que você fez tudo aquilo pelo , que você é louca e apaixonada por ele e não queria vê-lo com outra pessoa além de você mesma? Eu não sou inocente, Hannah. Seu problema é comigo.
E como um arqueiro comemora quando acerta a flecha no local desejado, eu comemorei, silenciosamente, ao notar nos olhos de Hannah que eu estava certa no palpite. A garota ficou muda e o fato de emudecer me dizia que ela estava sem resposta.
- É comigo, não é? É claro que é! Se não fosse, você continuaria dando em cima dele como fez no começo. Seja honesta com a sua consciência e assuma que essa perseguição toda é mais complexa. A história sempre foi sobre nós duas.
- E que eu sou apaixonada por você? - ironizou.
- Que você tem inveja.
Eu soltei.
Hannah me olhou com ódio.
Não tinha mais o tom de conversa amena e pacata que eu pretendia ter ao me sentar naquela mesa. Saíra disso para um acerto formal, final. A verdade estava sendo posta na mesa. E, céus, eu demorei a descobrir. Eu não havia me dado conta de que a inveja que eu sentia de Hannah e ela de mim acabaria por nos tornar rivais de verdade.
- Desde quando isso acontece? - perguntei, ainda falando da inveja.
- Desde quando acontece com você? - rebateu.
- Eu não vou negar o que eu sinto, Hannah. Não seja ache grande coisa, mas frequentemente você conquista um centímetro a mais na vida da minha melhor amiga, independente de quanta merda você esteja fazendo. Isso. Me. Irrita. Pronto!
Ela continuava mantendo a pose. Já estava sentada e, pelo que eu podia ver, com as pernas cruzadas despreocupadamente, como se aquele assunto não lhe afetasse de alguma forma.
- Não tenho inveja de você.
- Mentirosa! - acusei, batendo na mesa. - Você sabia que assumir os próprios pecados faz você se recuperar deles com mais facilidade? É só dar o primeiro passo, Hannah.
- Você não me afeta!
- Você deixou a ser acusada no seu lugar na história do vídeo. Essa é só mais uma prova de que a sua raiva de mim é maior que o seu amor pela . Se isso não é doentio, o que é?
- Ponha-se no seu lugar, ! - Hannah levantou da mesa de novo.
Mas ela mentia. Eu via em seus olhos, em sua postura, em sua pose de defesa. Eu havia lhe atingido. Hannah não era forte o suficiente pra assumir um defeito, uma falha, e eu sabia que aquilo a mataria por dentro algum dia na vida. Mas ela não parecia se importar.
- No dia em que eu sentir inveja de você - ela continuou. - Pode me internar porque eu estarei com sérios problemas. Seríssimos.

Capítulo 35: I'm walking through the flames

Inodoro demais para um ambiente antes tão perfumado, fosse pelo cheiro de comida ou pelos produtos de limpeza que minha mãe passava pela casa mesmo. Entrar por aquela porta depois de fechá-la vários dias atrás e voltar sem uma resposta de paz era enlouquecedor. E minha mãe faria falta ali. Eu gostava de vê-la andando pelo apartamento, contando suas novidades da creche ou do novo grupo que frequentava na igreja. Agora eu estaria por mim mesmo.
Deixei as malas perto da porta mesmo, já que não teria ninguém para reclamar delas no meio do caminho. Fui arrancando a roupa até o caminho do banheiro e liguei o chuveiro quente pra lavar meu corpo enquanto eu pensava em como fazer minha rotina voltar ao normal.
Era uma situação cômica e trágica ao mesmo tempo, convenhamos. Eu comecei a história sem falar com meu pai, defendendo minha mãe e torcendo pela minha irmã. Agora Louise estava morta e minha mãe havia ido embora com o desgraçado que tratou de ferrar tudo.
E eu precisava aprender a seguir em frente, mesmo que isso fosse injusto, desleal e apavorante.
Ainda passei dois dias sem sair de casa e sem falar com ninguém, exceto por , que me ligou e eu achei que seria interessante atender.
me deu uma visão geral do que estava acontecendo na escola e a quantidade de problemas que eu teria que enfrentar quando voltasse. A maioria deles se referia às pessoas falando de mim, falando de , falando do meu pai... Mas se eu havia aprendido uma coisa durante o tormento das últimas semanas, era que eu tinha mesmo a capacidade de mandar todo mundo ir se foder com a própria opinião. Não me faria falta. Eu precisava me preocupar com , claro. Ela também estava sendo alvo de comentários, mas eu sabia que minha namorada era muito mulher e sabia se virar sozinha enquanto eu não aparecia. Eu podia confiar que ela não pensaria naquilo como um abandono, o que, de fato, não era.
Mas se havia uma coisa me deixando chateado, era a minha situação acadêmica mesmo. Faltei demais, perdi provas, abandonei tudo por tempo suficiente pra ferrar o semestre inteiro. Por causa disso, eu precisava voltar à escola e conversar com o diretor. Com certeza ele me daria um parecer, me diria o quão ferrado eu estava e as minhas chances de recuperação.
Então, vendo que sair de casa era realmente necessário pra colocar todos os pontos nos is de uma vez, eu saí.
Resolvi ir à escola e conversar com o diretor. Depois disso, eu iria atrás de e lhe pediria desculpas por não ter ligado e aparecido. Ela iria me receber bem. Eu tinha certeza disso.
Mas a minha surpresa foi chegar à escola e perceber uma agitação fora do normal. Naturalmente, aquele lugar não era tão barulhento à tarde, muito menos tão cheio. Depois de algum tempo caminhando, eu notei que eu não poderia estar sendo mais cego. Era o dia do Desafio do ano.
Pessoas andavam carecterizadas de um lado para o outro, apressadas, estressadas. Havia visitantes também e alguns professores andavam acompanhados de gente muito chique, muito bem vestida.
Ótimo! Todos estariam ocupados demais pra reparar em mim, então eu poderia resolver meus problemas em paz.
Caminhei até a sala do diretor e bati na porta em expectativa. Sua voz encorpada me mandou entrar e eu obedeci sem demora. Ele não apresentou nenhuma surpresa em me ver, mesmo que eu tenha ficado sumido por um tempo. Ao contrário, mandou que eu sentasse e acenou com a mão, me pedindo para começar a falar.
- Estou de volta - eu disse.
- Posso ver, - ele começou. - Como as estão as coisas?
- Não estão maravilhosas.
- Imagino.
Um silêncio incômodo iria se instalar na sala, mas eu preferi começar a falar tudo de vez. Quanto antes terminasse aquela conversa, mais tempo eu teria para ver e assistir as apresentações do desafio.
- Eu sei que demorei demais a voltar. Disse que ficaria fora por uma semana, não sei, e acabei ficando mais do que esperava. Conversei com meu amigo, ele disse que foram muitas provas e que já faz um tempo que acabaram, mas eu preciso saber do senhor se eu... se eu ainda tenho condições de continuar esse semestre.
- Sim, condições de continuar, com certeza você tem, até porque ainda falta muita coisa pra acabar. O que precisamos ver aqui é a disponibilidade dos professores para lhe aplicar as provas de novo, alguns deles já viajaram. Isso seria a sua preocupação. No máximo, você precisaria se esforçar mais nas próximas provas, caso não consiga fazer essas. Ficaria faltando muitos pontos... - ele então cruzou os braços em cima da mesa, aproximando-se mais de mim. O diretor podia ter aquela cara fechada e a mania de falar lhe amedrontando, mas eu via o cuidado em seus olhos. - Tudo vai depender da sua força de vontade, de você querer. Você quer continuar?
- Claro que quero - respondi, sem ao menos pestanejar.
- Então mostre isso. Não só a mim, mas a si mesmo. Não falte mais. Eu sei que esse período está sendo difícil pra você. Até mesmo não te conhecendo tanto, convenhamos, pude acompanhar sua vida nos noticiários. Mas vai depender da sua garra. E de sua namorada, claro. , vocês precisam parar de se meter em confusão. A bolsa da já está ameaçada e ela bem ciente de que precisa seguir nos trilhos até o final.
- Nós sabemos disso, senhor.
- Eu espero mesmo que saibam.
Assenti com a cabeça.
- Eu falo sério, . Isso não se trata apenas da época da faculdade, isso é pela vida. Aprendam a separar os momentos de diversão dos momentos de seriedade. Alguns lugares precisam ser tratados com mais respeito e formalidade. Ainda há alguns detalhes que vocês precisam ajustar.
- Vamos nos ajustar. Eu prometo. Nem gosto de fazer promessas, na verdade, mas não tenho muita escolha.
- É, você não tem mesmo - ele afirmou, soltando um tipo de risinho, permitindo que minha postura ficasse mais relaxada. - Agora vá. Vá assistir o desafio. Preparou alguma apresentação?
- Não tive tempo, nem cabeça.
- Então vá assistir. E eu espero não lhe ver nessa sala pelos próximos meses. Chega de polêmica, !
- Tomara que sim.
Levantei e saí da sala com a esperança um pouco mais alta. Se até o diretor confiava em mim, eu podia me dar uma chance também.

Elas entraram no palco e a platéia se calou. Todo o jogo de iluminação foi arrumado, as pessoas sentaram e elas ficaram paradas, uma de frente para a outra enquanto o silêncio ainda acontecia.
Suas roupas eram bem diferentes. Algo como um macacão, só que sem as pernas compridas, mas como shorts, não sei o nome. Só que eram bem curtos e misturando estampas de cor preta e branca.
O silêncio perdurou por quase dois minutos após elas entrarem no palco e eu já começava a ficar agoniado, queria mesmo saber o que aquelas duas haviam preparado porque passaram tempo demais empenhadas naquilo. Só podia sair coisa de qualidade e era isso o que eu estava esperando.
Mas quando o silêncio começava a ficar chato - o que eu comecei a entender como proposital - a introdução da música começou a tocar e não teve uma alma sequer naquele auditório que não tenha ficado agitada. Eu duvido que alguém não tenha ficado animado a ponto de soltar pelo menos um sorriso ladino, acompanhando mentalmente.
Applause.
E como a música pedia, o coro de aplausos soou pelo ambiente antes mesmo delas começarem a se mexer. e sabiam como agitar. Ninguém podia duvidar disso.
E então começaram.
Uma projetava o corpo para cima enquanto a outra ia para baixo e a sequência de movimentos contrastantes continuava. Eu nunca saberia definir perfeitamente como elas faziam aquilo. Eu poderia filmar, mas não estava com a minha câmera. Para a sorte delas, pelo menos, a escola havia preparado uma equipe especificamente para fotografar e filmar todas as apresentações.
A dança continuava esperta, graciosa, e os movimentos das duas faziam todo mundo se agitar. Os movimentos de me deixavam ainda mais enérgico porque eu sabia o quanto aquela desenvoltura nos fazia bem quando estávamos na cama.
Elas não pareciam ligar para nada. Na maioria das vezes, os olhos estavam fixos em algum ponto específico e suas expressões eram fechadas, mas vaidosas ao mesmo tempo. Entendi ali que, para elas, dança não era apenas movimentação do corpo. Era sobre poder. Era sobre ter sua imagem exposta da melhor forma possível para todos. e exprimiam ali naqueles movimentos o quanto gostavam da atenção, de serem vistas, o quanto amavam os aplausos.
E foi no refrão que elas fizeram o público pegar fogo.
Uma tinta verde começou a cair de algum lugar do teto, melando suas roupas, seus rostos e cabelos. Depois a tinta caiu rosa, depois amarela e permaneceu mudando durante todo o restante do refrão. As meninas mantinham os braços abertos para os lados, como se recebessem da tinta uma capacidade maior de vencer os obstáculos para alcançar a fama, ou qualquer que fosse seu alvo.
Depois disso, a tinta parou de cair, mas as meninas continuaram a dançar e seus movimentos se tornaram mais rápidos, mais violentos. As gotas de tinta de seus corpos respingavam na plateia a cada movimento brusco e ninguém ousava reclamar. Cada rosto paralisado, prestando atenção no nível de detalhamento que aquela dança tinha. Cada momento pormenorizado, rico e que, com certeza, ficaria marcado na cabeça de todos ali por muito tempo.
E tudo o que eu podia fazer era sorrir pra ela, mesmo que não estivesse me vendo. se balançava muito rápido. Dessa forma, não conseguia manter os olhos em um ponto fixo por muito tempo, principalmente em mim, que havia me sentado mais para trás. Mas me vendo ou não, ela merecia a admiração e orgulhoso que eu lhe enviava através do meu sorriso escondido. Ela merecia os aplausos que a música falava. Ela merecia todo o tipo de ovação do mundo porque, porra, que mulher magnífica!
Fiquei babando, confesso, até a música acabar, até as duas saírem do palco e o público inteiro ficar de pé, aplaudindo.

Depois da dança, eu deixei que se organizasse e conversasse com todo mundo tranquilamente, ainda sem me ver. Aquele era o seu momento e ela merecia curtir as felicitações sem nenhuma preocupação.
Entretanto, eu sentia cada minuto passar se arrastando. Eu queria muito vê-la de perto, tinha saudades.
Então eu a segui quando ela finalmente saiu do auditório, pegando o corredor que a levaria ao prédio do dormitório feminino. Forcei meus passos a serem mais leves, afinal de contas, não era uma pessoa muito distraída e eu não queria que ela me notasse ainda. Eu planejava uma pequena surpresa e me divertia achando tudo uma imitação barata de Agatha Christie.
Quando ela virava em um corredor, eu esperava alguns momentos para poder ir atrás. Mas ao chegar ao andar dela, eu fiquei mais tranquilo. Não demorou muito para ela entrar no quarto e fechar a porta atrás de si. Então eu me adiantei para lá antes que ela passasse a chave.
Entrei rápido e fechei a porta também, mas a chave não passou despercebida. O corpo de virou-se na minha direção ao ouvir o barulho da porta e o sorriso que se formou em seus lábios foi o suficiente para amenizar as semanas de cão que eu havia tido.
Abri os braços e ela simplesmente pulou, correu pra mim com seu melhor olhar de aconchego. Seu cheiro tomou conta dos meus sentidos e eu lhe abracei tão forte que até teria medo de machucar se ela não estivesse me devolvendo na mesma proporção e vontade.
- Senti sua falta - foi o que ela disse, antes de grudar os lábios aos meus em um beijo forte e apressado.
Conseguia sentir naquela ação a mesma quantidade de saudades que havia dentro de mim. E, de fato, eu sabia que ela sentia minha falta, mas minha cabeça andou tão ocupada e acabou deixando qualquer coisa que não fosse Louise no segundo plano. Mas ali estava ela, me beijando, me tendo de volta, me apertando em seus braços, como se quisesse deixar claro o quanto havia detestado ficar longe de mim.
- Senti sua falta também, . Senti demais, demais - intercalei um beijo e um cheiro entre outro beijo e outro cheiro.
Senti que podia passar horas lhe beijando, mas eu precisava abrir meus olhos para vê-la também. Agora que eu estava de volta, não iria a lugar algum, então eu podia me dar ao trabalho de soltar seus lábios por alguns instantes para conversar um pouco.
- Você vai ganhar o desafio esse ano - apontei.
- Você assistiu? - perguntou, soltando as pernas da minha cintura e voltando a fixar os pés no chão.
Suas mãos pareciam trêmulas, sua respiração forte e os olhos avermelhados; acho que eu também estava do mesmo jeito.
- Claro que sim. Você acha mesmo que eu perderia? - em resposta, armou as mãos na cintura, formando dois arcos e ergueu uma das sobrancelhas, ironizando. - Ok, confesso. Eu não lembrava que o desafio era hoje, mas meu timing foi perfeito. Isso você não pode negar!
- Não, eu não posso negar - ela suspirou. - E você gostou?
- Sim. Acho que vocês ganham o desafio. E não só na categoria dança. Ficou muito bom, muito original. O pessoal nem se importava pra que lado a tinta respingava - sorri.
- A tinta foi ideia da - ela disse, sorrindo, orgulhosa de si e da amiga.
- Não poderia ter sido melhor - comemoramos. - Quem foi o vencedor do curso de cinema?
- Ainda vai acontecer às 15hrs - ela disse, me fazendo um carinho no rosto. - , você não vai apresentar nada! - exclamou, parecendo realmente surpresa, como se só agora tivesse percebido que eu não tivera condições de me preparar para o desafio.
- É, mas não tem problema, não. Esse é só o meu primeiro ano aqui e ainda está no início. O desafio do próximo ano é meu e ninguém toma - fiz piada. - Esse ano quem vai ganhar é você e a . Eu tenho certeza.
assentiu e agradeceu meus elogios, mas ainda parecia insatisfeita por eu não apresentar nada, então eu a distraí do assunto até que ela tivesse esquecido. Minha cabeça já estava cheia demais de problemas não resolvidos e eu não queria que o desafio se tornasse mais um.
O cinema se tornaria minha profissão, porém, acima de tudo, era meu amor, meu hobby. Eu realmente gostava do que fazia e não deixaria que pequenos desajustes transformassem aquela parte da minha vida em obrigação, em algo chato.
- Mas eu queria assistir as apresentações - falei.
- Ah, eu também. O pessoal de cinema sempre arrasa.
- Vou medir a concorrência do próximo ano - esfreguei uma mão na outra em brincadeira, fingindo criar um plano mirabolante.
balançava a cabeça e ria de mim. Eu ficava feliz porque ela se divertia comigo e porque seu sorriso deixava meu coração mais aquecido por dentro.
- Ainda falta bastante tempo pra dar três horas - ela disse, e eu olhei em meu relógio de pulso para confirmar a informação. - O que faremos com esse tempo todo, namorado?
Ela arranjou o tom exatamente certo para despejar malícia naquela frase. Ver tirando a blusa do corpo após dizer uma frase daquelas e me encarar com o sorriso mais erótico do mundo foi essencial para me deixar animado no ponto em que fiquei imediatamente. Eu ataquei seus lábios e fiz questão de terminar pessoalmente a tarefa de tirar suas roupas, peça a peça. Quanto às minhas, não tive tanta paciêcia assim. Arranquei tudo com a pressa de um faminto e, quando vi, já estava deitado em uma das camas com o corpo de em cima do meu.
A vida ainda estava complicada e eu sabia que precisaria de boas doses de maturidade para poder superar tudo, mas ali, com ela, eu conseguia recuperar minha paz aos poucos.

- Pode ir na frente. Eu já vou também.
Já passava um pouco das quinze horas quando e eu acabamos de nos arrumar para ir assistir o desafio da turma de cinema. Eu, pronto, só esperava escolher a cor da calça que ia usar e ficar pronta também. Por fim, ela escolheu uma verde, parecida com o tom de verde do meu carro. Entretanto, mesmo depois de arrumada, ela me disse para ir na frente, que me alcançaria depois.
É claro que eu achei estranho. Mas ia fazer o quê? Dizer "Não, , eu só saio desse quarto quando você vier junto" não estava nos planos e também não combinava muito com o contexto. Dessa forma, deixei seu mistério de lado e saí na direção do auditório antes que eu perdesse todas as apresentações interessantes.
Encontrei e no auditório. Eles conversaram um pouco comigo sobre a história da Louise, mas trocaram de assunto sem demora. Minha expressão deve ter deixado claro o quanto eu queria prestar atenção em outra coisa.
Empolgado, me contou que ele e fizeram uma música nova para apresentar no desafio e que estavam bem confiantes de ganhar o prêmio, pelo menos na categoria música. A música se chamava Reason e eu estava curioso de verdade para ouvir. Aqueles caras eram bons.
Passamos algum tempo assistindo as apresentações de meus colegas de classe e nem sinal de . Eu olhava na direção da porta o tempo todo, achando que era ela sempre que alguém entrava por lá. Tentei prestar atenção nos vídeos. A maioria deles era bem produzido e filmado, material de qualidade. Os professores deveriam estar bem orgulhosos.
Mas minha curiosidade era grande também. Por que diabos aquela garota resolvera desaparecer? Do nada!
Condicionei meus olhos ao palco para não ficar mais prestando atenção na porta. Eu estava incomodado mesmo assim. Era a típica sensação chata e quase exclusivamente feminina de se sentir abandonado. O que eu quero dizer é que não era um grande problema ter saído pra fazer outra coisa, ela tinha liberdade para fazer o que quisesse, mas... Por outro lado, eu estava longe há semanas, nos falamos muito pouco por telefone a agora que eu estava de volta ela ia fazer outra coisa em vez de vir assistir o desafio comigo.
Idiota, eu sei. Muito idiota e menininha, mas eu já estava chateado com ela.
A gota d'água foi quando apresentaram o criador do último vídeo e o colocaram para tocar. Ela tinha mesmo me dado o bolo no dia do nosso reencontro. Sendo bem, bem, bem dramático, eu estava na merda mesmo.
Quando eu realmente desisti e cruzei os braços, vendo os créditos do último vídeo subirem na tela, surgiu, pedindo que fosse para uma cadeira vazia para ela sentar do meu lado.
- Onde você estava? - perguntei, em um misto de surpresa e irritação.
Ela olhou para mim com uma sobrancelha erguida e um ar de mistério incomum. Enrolou o braço no meu, encostou a cabeça no meu ombro e só respondeu quando eu achei que ela não iria mais.
- Fui resolver umas coisas com a - e a resposta foi irritantemente incompleta. - Mas já está tudo certo.
O apresentador do desafio pegou o microfone de novo e, dessa vez, sua boca anunciou meu nome. Eu não pude fazer mais nada além de petrificar ao ouvi-lo falar com tanta eloquência e em seguida narrar meu pequeno histórico escolar ali.
- O que você fez? - perguntei a , tendo certeza de que aquilo tinha a ver com seu recente sumiço.
- Por que tem que ter sido eu? - ela perguntou, pra se defender, mas seu tom era brincalhão. Não estava negando. piscou um olho e sorriu. - Só assiste, tá?
E eu pude ter certeza de que aquela mulher era louca. O vídeo sendo apresentado era meu mesmo, mas um que eu nunca me atreveria a colocar no desafio. Éramos ela e eu ali na tela, nos amando pela primeira vez na frente da minha câmera, na sala de vidro. Nosso momento adorado, mas proibido aos olhos de outras pessoas.
É claro que todo mundo já tinha assistido, não era novidade nenhuma, mas o que contava bastante ali era a ousadia e sabia disso. Ela sabia que os jurados sempre apoiavam o que era novidade e opinião forte. Por outro lado, sabia também que sua bolsa na Escola estava por um fio e que qualquer coisa seria suficiente para tirá-la de lá. A garota havia se arriscado por mim. Pela minha autoestima, minha independência, minha postura.
- Você é louca - acusei, mas eu não estava chateado de forma alguma. Pelo contário, estava orgulhoso dela também. Só Deus sabe o quanto eu ouvi de reclamação quando aquele vídeo foi exposto. Todas as falácias sobre sua carreira, sua reputação, sua família. E agora, ali, ela lançava tudo pro alto e se jogava comigo em um mundo de possibilidades.
Porra! Como eu amava aquela mulher!
- Tá sabendo que você pode perder a bolsa depois disso, né?
- Quem se importa? - deu de ombros. - Meu namorado é rico. Ele pode pagar o restante das minhas mensalidades num piscar de olhos.
- Louca! - acusei de novo, mas sorrindo e beijando sua testa com carinho. - Muito louca!
Pus o braço ao redor de seus ombros e continuei assistindo. Já estava quase acabando, afinal de contas, era um vídeo de noventa segundos, embora parecesse maior por causa de sua intensidade. Eu podia sentir as pessoas virando o pescoço para nos encarar. Elas cochichavam porque, no geral, todo mundo adora uma fofoca, todos amam ver alguém tendo sua intimidade exposta.
Mas eu não me importei. também não. Quando a apresentação acabou, nós saímos do auditório de mãos dadas e... sério, a partir daquele momento, nós soubemos que as coisas iriam mudar. Eu estava preparado e esperava que estivesse também. Muitas coisas estavam deixando de importar, o botão do foda-se nunca estivera tão aceso. E com tudo isso, eu conseguia me sentir extremamente como não me sentia há um bom tempo.
Ah, e sobre o desafio... eu ganhei.

Fim

Nota da autora: Eu que estava dizendo pra todo mundo que não iria sentir falta de 90 segundos ou dos personagens dela. Mentira. Sou muito mentirosa ou iludida haha. Vou sentir falta demais, sim. Vou ter saudades dos palavrões da pp aparecendo na minha cabeça do nada, do pp falando sobre filmá-la e depois do vídeo. Vocês não fazem ideia de como esse um ano e um mês de 90 Segundos fez bem pra mim. Vocês são especiais demais. Todas as minhas leitoras, que me fazem tão feliz... Sério, quero que Deus abençoe muito vocês!
Agora, em especial, 90 segundos não teria existido se não fosse uma letra T e três letras S. T de Talita, claro, e S de Sabrina, Silvana e Stephanie, meus anjos. Sabrina foi a inspiração, 90 Segundos nunca seria Emblem 3 se não fosse por causa dela. Silvana me socorria nos momentos em que eu achava que não conseguiria continuar. E Stephanie é aquela que sempre me tudo haha. Me corrige, me socorre, me ajuda com os traumas e códigos html. À vocês três, meus três S's, um obrigada maior que GYOMM, Mané e 90S juntas.
E pra quem está achando que eu parei por aqui, pare de achar. Volte nesse site semana que vem pra acompanhar a fic nova, Oração.
Muito obrigada de novo. Beijo grande e até a próxima! <3

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Nota da beta: Sua maravilhosa! Eu é que tenho a agradecer por me escolher pra ser sua beta sempre! Tu sabe muito bem o quanto eu te admiro e admiro tua escrita. Estou tão orgulhosa em ver mais um trabalho seu incrivelmente concluído <3 Parabéns, meu amor, minha marida linda! Você merece todo o reconhecimento do mundo. Amei 90 Segundos do começo ao fim e que venha Oração pra lacrar ainda mais <3 Amo você!

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