Autora: Andy R. | Beta: Babs | Capista: Belle



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Capítulos:
| 01 | 02 | 03 | 04 | 05 | 06 | 07 | 08 |

Prólogo:

abriu os olhos, e a primeira coisa que viu fora a imagem turva e fragmentada de seus próprios pés flutuando em meio ao cenário escuro e frio no qual se encontrava. Sentiu seu corpo congelar gradualmente e os ouvidos zumbirem com o som abafado das hélices e do motor no navio; viu caixas grandes e de madeira afundarem à sua volta, todas indo em direção ao fundo do mar, seguindo o completo esquecimento. Soube que o próprio corpo também teria aquele destino, e apesar de reconhecer que deveria lutar para voltar à margem, continuou imóvel, calmo e sereno, vendo os dedos das mãos suspensos na água doce e salgada.

Ao longe, avistou um reflexo dourado ondulando a correnteza interna, um contraste claro no meio do oceano escuro. soube que se tratava de no momento em que identificou a forma humana. era a única que poderia ter sobrevivido à explosão do navio, por mais contraditório que aquilo fosse.

O escritor começou a nadar em direção a ela, e apesar da fraqueza e do frio impedindo os seus movimentos, ele a alcançou em poucos segundos, quando o ar já começava a faltar em seus pulmões. Segurou-a em seus braços, vendo seus cabelos espalharem-se pela água, e observou o seu rosto, os olhos fechados de forma pacífica. Passou os dedos cuidadosamente pela pele exposta do pescoço da mulher e viu que a marca vermelha que a assombrava não estava mais ali, sentindo-se grato e aliviado quanto àquilo.

puxou consigo quando começou a nadar para a margem, seguindo o reflexo pálido da lua e tentando não ser arrastado para baixo com os escombros que ainda eram lançados do navio em direção às profundezas.

O mistério sobre se conseguiu alcançar o topo permanecera às sombras de Nothern Lake por anos.



01 – As Coisas Andam Estranhas em Northern Lake

Ernest pressionou o cigarro contra o fundo sujo do cinzeiro, bufando enquanto tentava manter os olhos abertos. Seu rosto se contorceu automaticamente quando os olhos do homem bateram contra o relógio de parede extremamente barulhento, o qual marcava exatas três horas da manhã, sem mais nem menos. O gosto do chá gelado que tomara mais cedo ainda impregnava o seu paladar, deixando-o um tanto zonzo, e o seu nível de agonia e tédio aumentava cada vez que olhava o arquivo em branco na tela de seu computador.

, como todo bom escritor irlandês, era viciado em álcool, cigarros e sofria de insônia. Seus cabelos castanhos estavam sempre bagunçados e sua casa parecia um grande depósito de móveis velhos e empoeirados. Sua mente sempre divagava para lugares além dos reais e situações incompreensíveis para pessoas comuns.

De um jeito ou de outro, porém, ele ainda era um escritor, autor de um thriller famoso em seu país e ex-marido de uma jovem mulher loura.

O problema de tudo aquilo era, basicamente, que não conseguia mais escrever.

Formular frases e elaborar roteiros tornara-se um dos mais complexos desafios na vida do escritor. Os títulos escapavam-lhe pela cabeça e nunca pareciam representar o que ele queria, assim como qualquer história nunca era boa o suficiente. Com o tempo, aceitou que sua fonte de inspiração havia acabado e que ele deveria arrumar outros meios de conseguir escrever, mas era realmente difícil. Ele tinha medo de decepcionar a si mesmo e aos seus fãs. Havia criado um romance tão bem aclamado no último ano que escrever algo inferior àquilo seria um assassinato à sua carreira e reputação. As pessoas comprariam e leriam a nova Obra achando que seria algo tão épico quanto Os Sete Psicopatas, e iriam se decepcionar.

não podia deixar aquilo acontecer, e essa era uma das razões pelas quais tudo o que ele escrevia não passava das pilhas de rascunhos para algo oficial.

fechou o notebook e massageou o espaço entre suas sobrancelhas. Sentia um pesar incômodo nos olhos, como se estivesse cansado da luz insistente do computador. Sua cabeça não doía, mas transportava sensações de enjoo e exaustão através do seu sistema nervoso que, para o resto de seu corpo, caía como veneno.

sentia-se emocionalmente cansado. Tirou os óculos e olhou por cima da mesa, encarando a vista que a janela de seu quarto guardava tão dramaticamente: um retrato quase surreal de uma floresta calma e escura, repleta de corujas e árvores e ventanias. A cabana na qual o escritor gostava de se esconder do mundo localizava-se bem no coração de toda aquela melancolia selvagem, como se tudo ali fosse raízes ligadas às paredes malcuidadas da residência.

e sua cabana feita de madeira eram os únicos sinais de civilização dentro de um raio de dez quilômetros. Seria preciso uma picape e um senso de localização tão bom quanto o do próprio escritor para alcançar o refúgio do homem, e por causa daquilo nenhum fã ou paparazzi se arriscava a incomodá-lo.

também não via a necessidade de ter vizinhos. Nunca fora um homem sociável, mesmo que no último ano seu agente o tenha obrigado a aprender a mostrar carisma em entrevistas e sessões de autógrafo, portanto a falta de seres humanos à sua volta não fazia diferença.

parecia uma espécie de lobo solitário. Orações e parágrafos eram as únicas formas de comunicação que ele entendia. As únicas coisas que faziam sentido e eram agradáveis.

Uma pena que o agradável não era gentil com ele; seu ponto forte, o refúgio de sua imaginação fértil, estava acabado: ele era um escritor que não tinha mais como escrever.

girou na cadeira de computador, sentindo as rodinhas arranharem o chão de madeira. Olhou para a sua mesa de trabalho e encontrou o jornal local que coletava todas as manhãs no posto de gasolina. Colocou os óculos de volta no rosto e leu a manchete acompanhada de foto e fontes e que dizia:

"Garota desaparecia em Northern Lake"

O escritor leu a história da menina que saiu para ir à escola e nunca mais voltou. Examinou os relatos que diziam o quão estranho aquele sumiço era e concordou com eles, afinal Northern Lake era menor que muitas vilas ao Sul do país.

Nada de ruim acontecia ali.

Afetado por aquela notícia e outros motivos, naquela noite, no meio da floresta silenciosa e dentro de sua cabana fria, ele resolveu se deitar mais cedo e, observando a madeira do teto de seu lar, dormir.

Talvez a inspiração um dia voltasse para lhe abençoar.

...

Northern Lake era uma cidade pequena e conhecida por ter um dos invernos mais rigorosos dos Estados Unidos. Não haviam ossos suficientemente fortes para resistir às tremedeiras causadas pelos vários graus negativos típicos das manhãs, tardes e noites do local.

Ernest sempre dormia com demasiados cobertores e o aquecedor ligado no máximo de sua precária potência, afim de conseguir manter-se quente durante as noites que sempre eram piores no meio da floresta.

Foi estranho, então, quando ele acordou fora de sua cama, longe de seus cobertores e deitado sobre o deck de madeira do lago Rordeth.

O sol que nascia sobre o lago jogava luz contra o seu rosto e o homem se sentou, não sentindo tão bem os dedos nus dos pés. Olhou à sua volta e viu as árvores que margeavam o lago, as montanhas que isolavam a cidade do resto do país, e não entendeu nem por um segundo como havia ido parar ali. Levantar da cama e caminhar pela floresta parecia uma ideia impossível e distante, como se aquela situação, o frio e o barulho da água do lago se movimentando fosse um sonho no qual ele ainda estava preso.

se levantou, e apesar do sol que aquecia a parte de trás do seu pescoço, sentia tanto frio que as suas orelhas e a ponta de seu nariz ficaram dormentes. Os seus pés também continuavam no mesmo estado precário e congelado de antes e ele agradeceu por ter dormido de calças e moletom naquela noite, senão também perderia a sensibilidade dos braços e pernas.

O escritor voltou para a sua cabana, percorrendo o longo e escorregadio caminho colina acima, e se esgueirou para dentro do próprio chalé enquanto a manhã tomava o céu lentamente. Acomodou-se no conforto de um edredom quente, enrolando-se nele enquanto preparava uma xícara de café para lhe aquecer também a alma, e perdeu-se na mais pura confusão enquanto esperava a água ferver.

Não entediada o que havia acontecido. Sentia-se perdido no tempo, sem saber que horas eram ou quanto tempo havia dormido. Pensou que poderia estar sofrendo de sonambulismo por conta do estresse pela falta de inspiração – o que não seria a primeira vez.

sentou-se à pequena mesa de madeira da cozinha e bebericou o seu café, refazendo todos os passos da noite anterior e tentando achar brechas para aquela confusão, mas não conseguiu pensar em nada que justificasse o que havia acontecido.

Parou de pensar naquilo quando o seu telefone tocou e ele o atendeu no segundo toque. O barulho da música padrão fez a sua cabeça doer como se alguém estivesse brincando de tiro ao alvo com uma espingarda no quarto ao lado. A voz na linha paralela soou tão doce que ele se esqueceu das dores por um breve momento.

– Papai?

sorriu quando ouviu a voz de sua filha. Chloe tinha apenas seis anos e cabelos tão louros quanto os da mãe. Era o amor da vida do escritor, e ele sofria todos os dias por não poder estar sempre ao lado dela.

– Diga, docinho. Aconteceu alguma coisa?

– Mamãe está doente.

– O quê?

Chloe, do outro lado da linha, suspirou.

– Ela tá na cama o dia todo. Eu acho que a mamãe está doente.

não entendeu se aquilo era algum tipo de linguagem infantil ou se ela estava reproduzindo um acontecimento de modo errado, mas resolveu levar ao pé da letra.

– Ela vai ficar bem, meu anjo. Sua mãe é forte.

– É, eu sei. Mas achei que você poderia dar um jeito de fazê-la sarar.

O escritor calou-se ao ouvir aquilo. Apertou mais o cobertor contra o corpo e esperou que a filha continuasse:

– Ela sempre ficava bem quando você cuidava dela, papai. Por que não cuida mais?

– A sua mãe sabe se cuidar sozinha – escolheu as palavras com cuidado. – Sempre soube, na verdade. Eu só lhe dava apoio. Não se preocupe que ela ficará bem.

– Foi o que ela disse – a criança concordou. – Mamãe também falou que às vezes você não ajudava tanto e apenas piorava.

O homem restringiu o impulso de xingar baixo pela grosseria de Rose, sua ex-mulher, em relação a ele. ainda era pai de Chloe e, mesmo que ele e Rose tivessem se separado da forma menos amigável possível, ele ainda merecia respeito quando em relação à filha.

– Sua mãe sabe que você está me ligando? – perguntou, querendo mudar de assunto e notando de repente que Rose nunca permitiria que a menina ligasse sozinha para o pai.

– Não. Eu peguei o telefone da bolsa dela. Estou com saudades de você – respondeu com a voz triste.

O coração de afundou dentro do peito.

– Eu sei que sente saudades, meu anjo, e eu também sinto; mas você não deve usar o telefone da sua mãe sem o consentimento dela e...

Enquanto terminava a frase, ouviu um ruído do outro lado da linha. Em um segundo ele soube que o que havia acontecido, e a voz de Rose partiu a atmosfera que ele dividia tão carinhosamente com a filha:

, eu já falei para você não ligar para a Chloe sem que eu esteja por perto. Que droga! Lembra-se da ordem de restrição?! Não piore as coisas para si mesmo.

O escritor sentiu todas as veias de seu corpo inflarem de ódio. Ele queria ser calmo e racional naquele momento, sabia que tinha de ser, mas Rose era tão injusta e teimosa que o homem perdeu o controle.

– Ela é a minha filha, Rose! Não pode tirá-la de mim.

– Ah, eu posso. Você só faz mal a ela e a todos à sua volta.

Aquilo o afetou da pior forma possível e o homem se recostou da cadeira, buscando apoio para se defender.

– Eu não faria mal a ela e você sabe disso – disse, e parecia uma súplica.

Rose demorou alguns segundos para responder.

– Você já fez, Ray. Naquela noite, se lembra? Você feriu a sua própria filha e a mim – então o seu tom de voz se elevou: – Fique longe de nós duas!

Rose desligou o telefone antes que pudesse responder, e o homem não teve outra reação além da de jogar o aparelho pequeno e frágil que usava para se comunicar contra a parede.

Ele escutou o barulho que acompanhou os estilhaços de seu celular e acalmou-se lentamente, à medida que aprendia a controlar a respiração e os impulsos movidos pela raiva desenfreada. Seus dedos tremiam de frio e nervoso e seu coração parecia prestes a explodir.

O escritor não teve muito tempo para se concentrar no ressentimento. No segundo em que pensou em levantar para recolher os destroços de seu celular o barulho das batidas na porta da frente o desviou de seu objetivo.

enrolou-se no cobertor e, ainda mal-humorado, foi até a entrada da cabana, abrindo a porta e sentindo o frio do lado de fora invadir a sua sala.

– Por Deus, Ray! O que aconteceu?

O escritor revirou os olhos para o seu agente, Brian, e deu espaço para que ele entrasse.

– Não aconteceu nada – respondeu, jogando-se contra o sofá.

– Não pode sair por aí enrolado em um cobertor como se isso fosse a última moda. Você é uma figura pública e tem uma imagem a manter!

– Figura Pública... – repetiu, não gostando da ideia. – Eu só quero um pouco de paz.

– Você tem algo melhor que isso, camarada: fama; fãs e nome. Deveria estar feliz!

afundou ainda mais no sofá.

– É, eu acho que sim.

– Enfim – continuou Brian. – Passei pra te buscar para aquela entrevista na rádio local.

gemeu.

– Eu tinha me esquecido disso!

– Vamos, estamos atrasados. Espero você no carro, ok? Não se esqueça de pegar a grana e a caneta de autógrafos.

Brian saiu pela porta da frente e ficou ali, jogado contra as almofadas de seu sofá mofado e sentindo o cobertor acolhê-lo em meio ao frio. Quando se convenceu de que era necessário, levantou-se e, arrastando o cobertor pelo chão de madeira, subiu as escadas do chalé e entrou em seu quarto.

Procurou o seu blazer, juntou-o com alguns conjuntos de peças sociais e tomou um banho quente antes de fazer a barba e se vestir. Procurou os sapatos e os calçou quando ouviu a voz impaciente de Brian acompanhar uma buzina apressada na parte debaixo do chalé.

Quando se olhou no espelho, sentia-se melhor em relação à Rose, o incidente no deck, e às saudades da filha. Parecia que uma mente ocupada era tudo o que ele precisava para se distrair de seus problemas.

Desceu as escadas e trancou as janelas e portas, encontrando-se com Brian ao entrar no Jipe do agente e sentir o aquecedor do veículo proteger-lhe do frio quase mortal da floresta. Sob o painel do carro havia o jornal da manhã, e sentiu-se compelido a lê-lo para passar o tempo.

Havia atualizações sobre o caso da garota desparecida, mas nada realmente tinha mudado: seu paradeiro continuava sendo um mistério. Além daquilo, ainda leu sobre uma embarcação que, por algum motivo, apareceu abandonada nas docas de Northern Lake. Um pequeno iate velho e precário que navegou até ali sem tripulação ou que fora abandonado em alto mar e deixado à deriva até a correnteza jogá-lo no cais mais próximo.

Enfim, os dois, Brian e , partiram com o carro, e quando atingiu a estrada por entre as montanhas o escritor olhou pela janela, para o lago e o deck ao longe, e pensou mais uma vez sobre como as coisas andavam estranhas em Northern Lake.




02 – A Tempestade Enfim Chega

sentou na cadeira almofadada do estúdio de rádio e esperou em silêncio enquanto o locutor do programa anunciava a sua presença. Estava frio por conta do ar condicionado e seus dedos quase não sentiam o toque da madeira lisa da mesa.

Quando percebeu, era a sua vez de falar. Ele buscou a voz no fundo da garganta e pigarreou, sorrindo simpático e respondendo à saudação de Alan, o apresentador:

– Boa tarde, Alan. É um prazer estar aqui!

O outro concordou e também sorriu, seguindo adiante com a entrevista:

– Você é , autor do best-seller mundial Os sete psicopatas, que foi lançado há alguns meses, mas isso todos em Nothern Lake já sabem – riu, logo acrescentando: – Você é o orgulho desse pequeno vilarejo!

sorriu e agradeceu. Alan continuou:

– Você pode nos contar um pouco sobre a história do livro?

concordou com a cabeça e começou:

– É a história de um hospital psiquiátrico localizado entre as montanhas, distante de tudo e de todos. Na ala feminina, existem sete pacientes, em especial, que desenvolvem um plano de fuga. Após provocar um motim e fazer de reféns funcionários e médicos, as sete resolvem adiar um pouco a fuga e usar a noite livre para se vingar dos enfermeiros que as maltrataram durante os anos em que estiveram internadas. Dentro desse grupo há todos os tipos de mulheres, com todas as idades e níveis de demência.

"A história narra essa noite de terror vivida pelos funcionários, além de contar os relatos pessoais de cada uma das sete psicopatas."

Quando terminou, Alan o olhava vidrado. Parecia um fã.

– Uau! Arrepiante! – comentou. – Eu li o livro todo em uma noite e posso dizer que não há nada parecido no mercado. É genial.

– Obrigado.

– Mas, diga-me, , haverá uma continuação? Escutei boatos por aí e queria aproveitar a sua ilustre presença para esclarece essa dúvida.

– Sim, sim, Alan, haverá. Já comecei a escrever e não deve demorar muito – mentiu.

só conseguia pensar em Brian e em como ele ficava furioso quando o escritor negava novos projetos. O agente dizia que era um assassinato às esperanças dos fãs, e precisava de seus fãs.

– Já tem um título? – Alan perguntou.

– Tenho, mas é segredo – riu.

Alan concordou e deu continuidade à entrevista, perguntando curiosidades sobre a história, detalhes de sua vida pessoal e pedindo para que chamasse a próxima música.

Quando a entrevista acabou, o escritor agradeceu ao velho amigo pelo convite e saiu do estúdio, encontrando Brian esperando-o no corredor acarpetado do prédio.

Ele segurava um copo de café em cada mão e parecia orgulhoso.

– Você se saiu bem – parabenizou. – Desviou das perguntas sobre a separação de forma delicada e não se exaltou.

pegou um dos copos.

– Eu sei o que eu faço, Brian. Vivi sem um agente por muito tempo.

– Eu sei disso. Até porque a sua carreira está um lixo.

– Ha-ha – ironizou. – Minha carreira está ótima.

Quando bebeu o líquido quente dentro de seu copo, praticamente o cuspiu para fora. O gosto era horrível.

– Droga, Brian, está sem açúcar!

O escritor se afastou do agente e andou em direção a um pequeno carrinho no fim do corredor, que ficava perto do elevador. Lá, havia colheres de plástico e saches com sal e açúcar. esticou a mão para pegar um, mas uma voz o fez parar:

– Acredite: não vai melhorar.

Levantou os olhos e encontrou uma mulher loura sorrindo.

– Perdão?

– O café daqui é horrível – disse ela. – Além de que todos os saches são de sal. O açúcar acabou pela manhã.

recolheu a mão vazia. Estava prestes a soltar qualquer tipo de flerte inocente quando ela o interrompeu:

– Meu nome é – estendeu a mão. – Prazer.

O escritor olhou para ela por um segundo antes de cumprimentá-la de volta. Preferia quando as pessoas já sabiam o seu nome.

.

– O escritor?– ela perguntou, e parecia surpresa.

franziu o cenho. Estava acostumado com reconhecimento, admiração e surtos, mas não com aquele tipo desconfiado de surpresa.

– Sim, o escritor. Por quê?

– Nada, é só que... Não o imaginei desse jeito.

– De que jeito?

– Bonito.

Ele sorriu de canto.

– Estereótipos, eu sei – a moça deu de ombros. – Mas imaginei um velho que não toma os seus remédios em dia e só usa blazer.

– Bem, você acertou duas de três.

riu envergonhada ao ver, tarde demais, que ele usava um blazer marrom escuro. a acompanhou sem ressentimentos, achando, na verdade, muita graça. Depois que o momento passou, a loura acenou com a cabeça e se despediu, começando a se afastar. a chamou antes que a mulher desaparecesse pelo corredor.

– Será que eu posso te pagar um café qualquer dia desses? – perguntou.

– Não – ela respondeu, tão séria e direta que se assustou. Não costumava levar foras. sorriu e continuou: – Eu pago o café. Você paga os donuts.

concordou, aliviado internamente.

– É justo.

pareceu ficar contente e começou a andar de novo. a fez parar pela segunda vez e sentiu que aquilo estava ficando repetitivo.

– Você não me deu o seu número!

A mulher ainda andava quando respondeu:

– Açúcar!

abaixou os olhos para os saches de açúcar e encontrou um pequeno cartão prateado ali. Não havia o nome de e muito menos um número de telefone. A única coisa gravada no material gelado era o símbolo do infinito numa cor dourada.

não entendeu o significado daquilo, mas também não conseguiu encontrar em nenhum lugar do prédio, então optou por voltar para casa e tentar dormir um pouco.

Seguiu Brian até o Jipe do agente e ficou no banco do carona, em silêncio, durante todo o percurso para casa.

Em suas mãos o cartão era gelado e tendia a escorregar pelos seus dedos.

...

Naquela noite, quando abriu os olhos, estava em pé diante do fogão de sua cozinha, com uma frigideira sobre o fogo e os pés nus contra o chão.

Ele abriu os olhos e pulou para trás quando sentiu a pele da mão queimar junto com o cabo plástico da frigideira, que começava a derreter devido ao tempo demasiado longo que ficara exposto ao fogo.

assoprou a queimadura e depois foi para a pia, deixando os dedos embaixo da água gelada e sentindo o alívio que o ato proporcionou.

Ficou ali por alguns minutos, esperando a dor passar, pensando em como o seu recente sonambulismo estava começando a ficar perigoso.

...

No dia seguinte, enrolou-se em seu cobertor e abriu o notebook sobre a mesa da cozinha, olhando o documento em branco à sua frente e esperando ter algum surto de inspiração.

Estava frio naquela manhã, como em todas as outras. A neve caía pelos cantos das janelas e sobre os galhos das árvores e fazia tudo ficar branco e preto demais. acabava por se sentir ainda menos inspirado naquelas situações. Seus dedos pareciam congelados e seu cérebro preocupava-se mais em tentar parar de tremer do que em realmente escrever.

Depois de quase três horas ali, resolveu ceder à derrota. Levantou-se da mesa e suspirou, tentando conformar-se, mais uma vez, com o seu estado criativo.

Pegou o cartão de de dentro do bolso e o encarou pela vigésima vez no dia; estava intrigado com o significado daquele símbolo e queria descobrir como aquilo o levaria à .

Tateou os bolsos atrás de seu celular. Jogaria o símbolo no Google e veria se tinha algum significado. Não achou o aparelho, porém, e começou a procurá-lo pelos cantos da casa. Revirou todos os cômodos, mesmo que não tivesse passado por eles naquele dia, e só parou quando se lembrou de tê-lo deixado na estação de rádio.

Sobre o carrinho de café, enquanto conversava com .

correu até o lado de fora de sua casa e ligou o próprio carro, saindo apressado em direção à estrada nas montanhas. Precisava chegar na estação de rádio o mais rápido possível. Seria o inferno na terra se alguém achasse o seu telefone antes dele...

Toda a vida de estava naquele aparelho: rascunhos, contatos, agendas, lembretes...

Ele precisava se apressar.

Dirigiu o mais rápido que pôde, chegando ao local em mais ou menos vinte minutos.

Era fim de tarde e o sol começava a se pôr. estacionou de qualquer jeito e entrou pela porta da frente com pressa, pegando o elevador. Saiu no andar em que a rádio se localizava e avistou o carrinho ao seu lado, na saída do elevador, mas quando o alcançou, notou que seu telefone não estava lá.

Procurou por algum funcionário, esperando que alguém pudesse ter achado o aparelho e o guardado. Encontrou um jovem de cabelos negros e roupas desleixadas na porta do estúdio no qual dera entrevista mais cedo.

! – alegrou-se ele. – O que está fazendo aqui? Vai dar outra entrevista?

O escritor olhou para o interior da sala e viu que só havia Alan dentro dela. O apresentador parecia focado em comandar o programa.

– Você viu um celular perdido por aí? – perguntou. – Prata, modelo novo.

– Não, desculpe. Mas você pode falar com o nosso faxineiro. Talvez ele o tenha encontrado.

– E onde ele está?

– Provavelmente no andar de cima, terminando o turno da tarde.

assentiu e se retirou, andando na direção do elevador. Apertou o botão do andar de cima e esperou impaciente enquanto a caixa de ferro o levava até o local.

Quando a porta se abriu, deu de cara com um corredor escuro e vazio.

– Oi? – chamou, mas ninguém respondeu.

Ficou parado na porta do elevador por alguns minutos, esperando algum movimento. Tudo estava silencioso e frio demais. notou que não havia ninguém ali, de fato, e que o andar era completamente vazio, como se estivesse abandonado.

Precisava de seu celular, porém, e se o faxineiro estivesse ali, teria que achá-lo.

Começou a caminhar pelo corredor, olhando para além das portas à procura de alguém. Parou no último cômodo, que como todo o resto do lugar estava vazio, e encarou o seu interior, intrigado com um fato.

Adentrou a sala e andou até o seu fim, chegando à grande janela de vidro que o permitia ver o céu e toda a extensão da pequena cidade níveis abaixo do topo da montanha.

Franziu o cenho para a imagem que viu, um tanto preocupado. Nuvens carregadas tomavam todos os centímetros disponíveis no céu, e pareciam se aproximar cada vez mais.

A tempestade da qual tanto lera sobre nos jornais havia finalmente chegado.

Virou-se para se retirar, pensando em como voltaria para casa com um tempo daqueles, mas parou súbita e violentamente com o susto que se seguiu, porque, ao se virar, o escritor esbarrou em algo – ou alguém.

Um relâmpago estalou às suas costas quando deu dois passos para trás, e a luz produzida pelo fenômeno natural permitiu que o escritor reconhecesse quem estava ali.

Um senhor de uniforme azul e postura cansada o encarava, carregando um esfregão e um balde de água.

– No que posso ajudar, filho? – perguntou. Parecia um sujeito mal-humorado.

– O senhor é o faxineiro? – perguntou, recuperando-se do susto. Sentia-se um idiota.

– Sr. Cooper para você.

– Engraçado – ele riu. – Eu tenho um personagem com esse sobrenome.

O velho não parecia muito disposto a ter conversas aleatórias, portanto prosseguiu:

– Sr. Cooper, você teria visto um aparelho celular por aí?

O outro negou.

– Não sou coletor de lixo. Se algo está em um lugar que não deve estar e não tem dono, eu jogo fora.

Era tudo o que ele precisava.

– Mas o senhor viu? Mesmo que tenha jogado fora?

– Garoto, volte outra hora! Preciso terminar antes da tempestade. Não é seguro ficar aqui com toda essa escuridão.

não entendeu uma palavra do que o velho disse, mas resolveu se retirar. Lidar com os caduques alheios de um homem de sessenta anos não o ajudaria a achar o seu celular.

Voltou para o elevador e ficou parado no centro da caixa de ferro enquanto, após apertar o botão, esperava as portas unirem-se para isolá-lo daquela loucura.

A última coisa que viu antes de finalmente ser levado para o andar de baixo fora o reflexo de um trovão iluminar o corredor, fazendo as sombras do faxineiro projetarem-se pelo chão e tornarem-se gigantescas.

...

– Como assim você perdeu o seu celular?! – Brian estava furioso, quase desesperado. – E se alguém o encontrar?

estava jogado em seu sofá, olhando a lareira apagada.

– Eu voltei à estação de rádio para procurar, Brian, mas não achei e ninguém o encontrou.

O agente batia os pés incessantemente contra o assoalho de madeira da cabana de . Parecia pensar em algo.

– E se dermos uma recompensa por quem o devolver?

– Não acha dramático demais?

– Quem tem o número de telefone do Stephen King é você! E se passarem um trote em seu nome?

– Ninguém vai passar um trote para o Stephen King, Brian – respondeu pacientemente. – Vou comprar outro celular. Aquele já estava quebrado, de qualquer forma.

se lembrava bem do estrago que jogá-lo na parede por conta da raiva de Rose fizera.

– Então faça isso logo, Ray, porque eu preciso manter contato com você e não posso vir a esse fim de mundo o tempo todo.

– Irei à cidade hoje à tarde – disse, levantando-se. Andou até a mesa da cozinha e pegou o cartão de . – Enquanto isso, quero que você procure para mim o significado disto.

Brian pegou o cartão e o encarou.

– Do quê?

– De tudo. Do símbolo, cor, seus significados. Qualquer informação serve. Preciso achar uma maneira de me comunicar com a dona desse cartão.

– Tudo bem – concordou um tanto cético. – Mas pode ser simples.

– Como assim?

– Bem, é só um palpite, mas o centro de Nothern Lake é minúsculo e só possui oito ruas. O símbolo do infinito, se você o virar, transforma-se em um oito.

ergueu o cartão de Crowford contra a luz, colocando-o em comparação mental com a placa da rua Oito, qual exibia quase o mesmo símbolo do pequeno objeto em sua mão.

– Obrigada – disse. – Pode ir agora.

Brian retirou-se, ainda bravo pelo sumiço do celular, e jogou-se contra o sofá, concentrado no cartão.

Naquela tarde, o escritor foi até a cidade para comprar um aparelho descartável. A tempestade estava em seu ápice quando ele estacionou. O vento que corria pelas ruas de Nothern Lake era colossal, do tipo que te impossibilita de andar, e o homem esperou dentro do carro enquanto as grossas gotas de chuva manchavam o seu para-brisa.

A tarde clara e tranquila transformara-se em pura confusão, deixando o céu escuro, negro, carregado de nuvens estrondosas. Relâmpagos estouravam ao fundo. Pessoas passavam ao seu redor escondendo-se atrás de seus casacos e lutando contra seus guarda-chuvas.

desceu do veículo e correu de cabeça baixa até a porta de entrada da loja de conveniências do posto de gasolina. Quando entrou, deparou-se com uma réplica de si mesmo feita de papelão, achando estranho um estabelecimento daqueles gostar de vender livros.

Andou até o balcão e pediu para a atendente um telefone descartável, o qual ela buscou em poucos minutos, registrando um número e catalogando o valor.

A moça tinha os cabelos laranja, curtos e despenteados.

– Gostei do estilo – comentou.

A menina sorriu e voltou a catalogar a venda, respondendo distraidamente:

– Fiz em homenagem à personagem de um livro.

– Qual livro? – ficou curioso.

– O seu – ela respondeu de maneira casual. – Psicopata Número Dois. É a minha preferida.

sentiu-se lisonjeado.

– Fico feliz que tenha gostado – mas, no fundo, achava estranho uma adoração tão fútil a uma psicopata cruel.

retirou o dinheiro da carteira e, na hora de pagar, viu que as mãos da atendente eram machucadas. Cortes profundos nos dedos e nas costas das mãos faziam a sua pele ser um mar dolorido de hematomas rosados, de machucados recentes e frágeis.

Ele pensou em perguntar o que tinha acontecido, em oferecer ajuda, mas o barulho do alarme de seu carro disparando o fez desviar a atenção.

Do lado de fora começava a chover granizo em pequena quantidade, e uma pedra chocando-se contra a lata provocou o disparo do sistema de segurança.

terminou a compra e saiu da loja, voltando correndo para o seu carro, protegendo a cabeça contra qualquer objeto que pudesse cair dos céus.

Entrou no veículo e desembrulhou o aparelho recém comprado, salvando o número de Brian e mandando uma mensagem de texto ao agente, dizendo que usaria aquele telefone até o tempo melhorar e ele poder sair da cidade para comprar um melhor.

Ligou o carro, saindo do local, vendo através do vidro da loja de conveniências a moça de cabelos laranja sorrir para o escritor, as mãos machucadas apoiando o queixo e os olhos verdes vidrados na confusão que se instalava do lado de fora.



03 – A Estranha Dentro do Armário

encontrava-se parado na recepção do grande Hotel Nothern Lake. Um nome extremamente criativo para uma cidade criativa, sim, mas ele não poderia reclamar de verdade. Os outros hotéis da região não tinham nomes melhores e muito menos eram mais aconchegantes. Todos seguiam um padrão enjoativo composto de madeira e lareiras decorando todos os pequenos quartos no formato de chalés. Aquele era o único lugar em toda a Nothern Lake que poderia dizer, com toda a certeza, não ter a cara do lugar. Era moderno e cheio de vidros em uma construção de cidades litorâneas. No térreo havia uma piscina grande e quadrada, com guarda-sóis espalhados ao seu redor, um bar convidativo e muito espaço sobrando uma vez que o frio nunca deixaria ninguém ao menos chegar perto da água.

Talvez aquele fosse o motivo das diárias daquele lugar serem tão caras. Só pessoas malucas e extremamente ricas teriam a insana ideia de se hospedar em um lugar no qual não se pode usufruir de nada que é realmente convidativo e apenas observar e tirar fotos para o Instagram.

– Você vai ficar bem aqui. – Brian apareceu ao seu lado. Carregava a mala do escritor e olhava para as chaves do quarto reservado. – Te busco pela manhã, assim poderemos ver o estado do seu chalé com mais calma.

apenas concordou com a cabeça, sem muita reação. Ainda não acreditava no que tinha acontecido. Não de verdade. Não ao ponto de aceitar com o coração pesado e aberto. Por algum fenômeno psicológico, ainda sentia o cheiro de queimado e via os seus pertences espalhados sob a crosta negra e grossa de cinzas que se formou ao redor do que antes fora o seu chalé.

– Ei, cara, vai ficar tudo bem. Eram só bens materiais. – Brian bateu em seu ombro. – O importante é que você está bem.

O escritor não conseguiu concordar e apenas pegou a sua mala, seguindo para o elevador, onde se sentiu ligeiramente melhor ao ficar isolado. Ainda pensava nas palavras dos bombeiros, três rapazes jovens demais que lamentaram a tragédia e culparam a lareira sempre bem aquecida de pelo incêndio que destruiu o seu chalé. O homem ainda pensava na hipótese em que ele estaria dentro de sua casa. Aquela na qual comprar um celular descartável não fosse preciso e, dormindo, seu corpo fosse tomado e queimado pelas chamas que antes forneciam segurança.

Ele morreria ali, ou, heroicamente, acordaria e conseguiria conter o fogo.

Nunca iria saber. Só sabia que, sem explicações ou avisos prévios, Deus resolvera fazer o seu precioso chalé virar um amontoado de cinzas em meio à floresta verde escura que o cercava.

Sem ter mais onde se esconder do frio, então, teria de permanecer no Hotel Nothern Lake por algum tempo. Pelo menos até conseguir resgatar o seu tão amado chalé ou encontrar outro lugar para se acomodar. Seria difícil, afinal vivera tanto tempo naquele esconderijo que não sabia mais como se virar em algo que não fosse feito de madeira e vidro. Mas ele conseguiria, sem dúvidas.

seguiu direto para o seu quarto. O corredor do hotel era longo, amarelado e escuro. As portas de madeira avermelhadas estavam polidas e ainda cheiravam a lustra-móveis, o chão acarpetado desenhava um caminho de formas florais até o fim do trajeto. colocou a chave que recebera de Brian na fechadura e suspirou junto com o barulho da porta se abrindo.

Quando a visão branca, clara e limpa do quarto tomou os seus olhos castanhos, já se sentia cansado. Sua roupa cheirava a queimado e suas mãos guardavam restos de fuligem. Não sabia como tinham-no deixado entrar naquele lugar em um estado daqueles. Agradecia mentalmente que Brian fosse o responsável por suas finanças e não o deixasse guardar dinheiro vivo em sua cabana. Ele estaria completamente ferrado se não fosse por isso.

tomou um banho e depois jogou-se na grande cama de seu quarto, rodeando-se de almofadas e tentando fazer com que o barulho dos raios em meio à tempestade ficasse mais baixo. A chuva parecia não ter fim. A janela de seu quarto mostrava toda a Nothern Lake morro abaixo, a piscina do Hotel transbordando pelo excesso de água e as nuvens carregadas que chegavam aos montes e pareciam querer ficar.

se assustou quando seu celular tocou. Ainda não tinha se acostumado com o barulho estridente que o aparelho descartável fazia.

– Alô?

? – a voz do outro lado perguntou. Era rouca e ele não soube identificar se era feminina ou masculina.

– Sim.

– Aqui é da estação de rádio. Achamos o seu celular.

As duas frases, curtas, breves e bem articuladas, fizeram o escritor se surpreender. Achou que nunca mais veria seu aparelho na vida. Ficou agradecido e ansioso para tê-lo em suas mãos, apressando-se:

– Eu posso buscá-lo agora mesmo. Qual o seu nome? Procurarei por você.

esperou por uma resposta, mas nada veio. Ele se levantou e pegou o casaco, tão entediado naquele lugar que preferia enfrentar uma tempestade maligna a ficar sentado assistindo TV. Brian ficaria furioso se soubesse que o escritor saiu – para o agente, tudo levaria à morte.

...

– Senhor ? – chamou a recepcionista quando o homem passou pelo balcão de entrada. – O senhor já vai sair? Está chovendo muito lá fora. A ponte foi interditada.

Ele parou e respondeu gentilmente:

– Tudo bem, Char, eu não vou sair da cidade. Preciso chegar à estação de rádio.

– Bem, o senhor tem que passar pela ponte para isso.

ficou visivelmente decepcionado. Char, como ele a conhecia simplesmente pela mulher odiar o seu nome e sobrenome e não contar a ninguém, mordeu o próprio lábio e abriu uma gaveta da parte interior de seu balcão. Tirou de dentro dela um grande mapa e deslizou pela madeira até estar perto do escritor.

– Tem outro caminho por dentro da floresta, mas, de verdade, é arriscado demais. O que há de tão importante na estação de rádio?

não soube responder. Dizer que queria buscar o seu celular era de longe o cúmulo do ridículo. Talvez houvesse alguma razão oculta para tal comportamento e vontade de sair de lá. Talvez fosse porque, da estação, ele poderia ver os restos de sua cabana e o lago no qual vivera metade de sua vida. Talvez quisesse apenas circular e ver rostos familiares. Alan era um bom amigo e com certeza estaria lá. Ou talvez ele só quisesse o seu celular.

Pegou o mapa e saiu sem responder Char. Ela balançou a cabeça enquanto observava-o partir, apoiando o queixo nas mãos e voltando a folhear sua velha revista de cosméticos lançados em 1992.

protegeu-se ao sair na chuva e seguiu para o seu carro. Percebeu que o Jeep de Brian jazia parado ali e não entendeu o que o agente poderia estar fazendo no hotel àquela hora, depois de se despedir, e no meio daquela tempestade.

Andou até o carro do amigo e viu que a chave estava no painel. As portas destrancadas permitiram que entrasse no veículo e desligasse o motor. No banco de trás a bolsa e os pertences de Brian estavam jogados e escorregando até o chão. estranhou porque Brian, apesar de maluco, era extremamente organizado e não deixaria seu precioso Jeep naquele estado.

desceu do veículo e observou que, ao redor do carro, pegadas manchadas pelas gotas de chuva eram fortes e recentes.

estudara muito sobre investigação policial para escrever Os 7 Psicopatas, e as duas semanas que pas seguindo um detetive bêbado da Scotland Yard, em Londres, pareciam ter valido à pena não só para a sua carreira, mas para outras situações – como naquele momento, onde, de algum modo, sabia que, se seguisse as pegadas, encontraria Brian.

Então assim o fez, seguindo pelo estacionamento feito de terra e pequenas pedras, sentindo seus sapatos deslizarem em pequenos cascalhos, a água escorrer por dentro de sua roupa e esfriar o seu corpo, sua respiração transformando-se em fumaça ao sair de sua boca e morrendo em meio às gotas violentas de chuva. Ele seguiu um caminho curto e quase inacessível até chegar a um corredor estreito na parte de trás do prédio, o mesmo corredor que o levaria à piscina do local. Continuou andando, sem mais pegadas para seguir, apenas deixando sua curiosidade guiá-lo, o sentimento de que não deveria estar ali tomando-o cada vez mais, sendo mais forte até mesmo que o frio.

Viu grandes latas de lixo, um piso áspero, cadeiras de sol, guarda-sóis praticamente voando com o vendo. Viu a água azul da piscina suja e cheia de folhas, de pertences e objetos do bar que acabaram indo parar ali em algum momento da tempestade. se aproximou da água e deixou que ela molhasse os seus sapatos novos, deixou que toda e qualquer parte seca de si fosse embora junto com o período mais violento da chuva que enfrentava, quase não conseguindo andar por ser um pequeno e indefeso ser humano desafiando a natureza. Parecia poético e até mesmo triste, mas deixou de lado o pensamento filosófico para observar um objeto ainda maior perdido entre as folhas. Um objeto rodeado de um liquido vermelho que boiava para a margem e tornava-se cada vez mais reconhecível com os metros vencidos.

Um objeto que descobriu ser Brian.

O escritor não soube o que fazer de imediato. Tirar o corpo da água e tentar prestar socorros ou chamar ajuda? Estaria Brian morto ou apenas desacordado? Como ele tiraria o agente da água sem ser amordaçado pelos utensílios espalhados ao longo da piscina, todos grandes o suficiente para arrastá-lo ao afogamento e impedir a sua passagem?

Decidiu pedir ajuda, e, correndo até a recepção, molhado, sujo e assustado, assistiu enquanto Char ligava para a emergência. correu de volta para a piscina, onde agora mais perto da margem, conseguiu tirar Brian de seu leito. Ele sangrava e tinha um ferimento na testa. não sabia o que tinha acontecido ali, mas suspeitava que fosse um acidente. Talvez Brian tivesse caído na água ao parar para observar a tempestade, ou talvez escorregado. Ele não saberia, porque aparentemente o amigo estava morto.

ficou ali até o socorro chegar, pouco menos de uma hora depois. Quando colocaram Brian na maca, disseram que ele ainda respirava. o acompanhou até os paramédicos o colocarem na vã, seguindo o ritmo apressado e caótico que havia se estabelecido ali. Ficou para trás quando o agente abriu os olhos, encarando-o por trás dos globos esverdeados, puxando o braço do escritor com violência e tentando entregar algo à ele. Um objeto preso no meio de suas mãos. Um utensílio que não tinha visto que ele carregava.

Um lenço. Um simples lenço sujo de sangue.

...

esperava na pequena delegacia de Nothern Lake quando a xerife apareceu e pediu para que o escritor a seguisse até a sua sala. Todos no lugar o olhavam de soslaio e cochichavam entre si, provavelmente comentando sobre o fato do famoso escritor, prodígio da cidade, estar sentado em um banco sujo da delegacia local com sangue manchando praticamente toda a sua camiseta.

Ele se levantou e seguiu a jovem mulher ruiva até que entrasse em uma sala digna de filmes sobre cidades pequenas e delegacias caóticas. Sentaram-se ambos em lados opostos da mesa e a mulher foi a primeira a falar:

– Então, , você está me dizendo que alguém está recriando assassinatos recorrentes aos que aconteceram no seu livro?

O escritor concordou, tremendo de frio por ainda vestir as roupas molhadas. A xerife, que ele conhecia desde criança pelo nome de Scarlet Welling, lançava-lhe um olhar duro e sem prescrição. Parecia decepcionada pelo que o colega de infância havia se tornado.

– E que o seu chalé pegou fogo sozinho?

Novamente, ele apenas concordou. Não tinha certeza de nada e sentia-se cansado demais para debater.

– Escute, xerife, eu só quero descansar um pouco. Foi um longo dia.

– Um assassinato similar a um do seu livro? – repetiu, como se fosse ridículo.

– Olha, eu só disse isso por causa daquele maldito lenço. Brian leu o meu livro e estava querendo me dizer alguma coisa nos seus últimos segundos de vida! Não deve ser tão difícil assim, para você, entender.

Ela concordou lentamente com a cabeça.

– Ou o seu agente era tão maluco quanto você.

– Ele morreu. Pode ter um pouco de respeito?

– Você pode? – retrucou. – Porque o que está me dizendo ridiculariza a morte do seu agente. Um personagem de um livro, pelo amor de Deus! Prefiro acreditar que você o matou!

– Eu nunca disse que era um personagem! Eu disse que era um método similar, e você não pode negar. Além do mais, você não tem nenhuma prova de que sou o assassino!

– Tenho você, ensopado de sangue, na cena do crime.

se calou logo em seguida. Não entendia como Scarlet podia guardar tanta mágoa. Já havia se passado um ano desde o incidente com Rose, a sua esposa, e a xerife não parecia esquecer. Era como se ela nunca fosse aceitar que havia mudado.

– Olha – começou ele, mais calmo. – Eu sei que não gosta muito de mim, mas, uma coisa é o que aconteceu há um ano e outra é assassinato.

– A sua mulher me ligou – ela o cortou. – Você quebrou a ordem de restrição.

– A minha filha sentiu a minha falta e decidiu me ligar. Eu não ia rejeitá-la, se é o que sugere. Rose é maluca e exagerada.

– Como era há um ano?

Mais uma vez, ele se calou. Não havia necessidade de toda aquela lavação de roupa suja, principalmente porque o que acontecera entre e sua ex-esposa não dizia respeito a ela. Scarlet havia entrado na história por ser uma funcionária pública e xerife da cidade, mas não tinha, realmente, o direito de opinar em sua vida pessoal.

– Há um ano as coisas eram diferentes – disse ele.

Scarlet o olhou como se quisesse gritar para os quatro cantos do mundo que não acreditava em uma única palavra do que ele dizia. Parecia se controlar muito para não prendê-lo ali mesmo.

– Vá para casa, , nós conversamos pela manhã. Tenho uma cidade submergindo em água para cuidar e não posso perder o meu tempo com as suas maluquices. Não saia de Nothern Lake ou terá problemas, entendeu? Nem mesmo deixe o Hotel.

agradeceu e se levantou, saindo da sala. Do lado de fora, um policial esperava para levá-lo de volta para casa. A tempestade estava tão forte que os ônibus haviam tido suas rotas suspensas por causa das rodovias escorregadias e constantemente atacadas por postes caindo e animais assustados fugindo da floresta.

saía da delegacia quando tudo aconteceu. De repente, um carro que estava parado no estacionamento, de frente para a porta de entrada, se locomoveu e inexplicavelmente voou em direção ao prédio em que o escritor estava. O veículo chocou-se contra a porta de vidro e fez estilhaços espalharem-se pelo ar. protegeu o rosto com os braços. Estava perto demais porque queria sair, e o policial que o acompanhava caiu no chão, visivelmente ferido com algum caco maior.

As pessoas se aproximaram para ajudar o colega ferido, mas não deixou de prestar atenção no fato que cau tudo aquilo: o carro ainda estava jogado contra a porta e parecia flutuar. Ficou daquele jeito por alguns segundos, até cair ao chão e provocar mais pânico com o barulho alto.

– O que está acontecendo aqui? – Scarlet apareceu pelo corredor, logo vendo o homem ferido e todo o resto.

Correu, dando ordens, pedindo um KIT de primeiros socorros e falando para que alguém ligasse para pedir ajuda. Os funcionários se locomoveram, mas não obtiveram sucesso porque as linhas estavam cortadas e os celulares haviam perdido o sinal. Scarlet então falou para que alguém levasse o homem ferido ao hospital, e se aproximou dela para dizer:

– Alguma coisa está realmente errada. Não deixe que ninguém saia daqui.

Ela o olhou como se fosse maluco.

– Não vou deixá-lo morrer aqui. O hospital está a menos de três quadras. Vão!

Dois outros policiais se moveram, carregando a vítima ao passar pela porta quebrada, saindo da delegacia. O resto das pessoas do lugar tomaram diferentes atividades para se ocupar, desde a limpeza dos cacos de vidro à preocupação com os outros feridos. seguiu Scarlet pelo corredor quando a xerife voltou para a sua sala.

– Você tem que me escutar – pediu ele. – Mande os seus homens recuarem. Eles estão correndo perigo.

– Por quê? – ela se virou, quase rindo. – Porque um de seus personagens está lá fora e pode matá-los? Poupe-me, .

– Você não entende – ele insistiu, deixando o tom de voz baixo e quase assustado ao continuar: – Aquele carro... Ele voou. Literalmente voou em direção à delegacia, Scarlet.

E?! Nós temos algo perto de um furacão tomando essa cidade. É normal.

não sabia como explicar que ele havia criado uma personagem com poderes psíquicos. Nem ele mesmo conseguia acreditar naquilo. Era ridículo apenas para se pensar, falar em voz alta, então, seria maluquice. Mas ele tinha esse sentimento... Algo acontecendo duas vezes no mesmo dia e de maneiras tão estranhas... Não podia ser coincidência.

Saiu da sala da xerife por não saber o que falar para convencê-la. Sem ao menos saber como convencer a si mesmo de que aquilo não era maluquice demais.

O corredor que o levaria de volta para a entrada da delegacia estava escuro, todas as luzes encontravam-se apagadas. O único meio de se guiar em meio àquilo tudo era por parte da luz dos raios passando pelas pequenas venezianas nas janelas. quase morreu de susto quando sentiu algo segurá-lo pelo braço e puxá-lo para um lugar iluminado.

O escritor ainda respirava com dificuldade quando levantou os olhos do toque em seu braço para o rosto da mulher loira encarando-o. Reconheceu que estavam no grande armário de vassouras da delegacia e que a estranha que o segurava não era tão estranha assim.

?!

– Você não deveria ficar na escuridão – disse ela. – Nunca fique no meio de tantas sombras.

– Do que você está falando?

– É perigoso.

apontou para o corredor escuro com a cabeça e então viu, assustado, algumas sombras se moverem. Elas cresceram até ter o formato de um ser humano, e então o barulho dos passos ficou audível. viu uma moça de cabelos laranja seguir na mesma direção que antes ele ia, e a reconheceu como a atendente da loja de conveniência, onde comprara seu celular mais cedo.

– O que ela está fazendo aqui?

– Seguindo você – respondeu .

– Mas... Por quê?

– Porque você a criou. Não é óbvio?

Ele ia responder que não quando as luzes do corredor se ascenderam. olhou para fora e viu que a menina havia sumido. Era muito estranho.

– Você precisa chegar ao policial antes dela.

puxou-o ao começar a andar, tão confiante e apressada que não percebeu que estava assustado como o inferno. Ele parou, fincando os pés no chão, e exigiu uma resposta antes de dar qualquer passo.

– Do que você está falando?!

revirou os olhos, visivelmente impaciente. Voltou alguns centímetros e começou a explicar enquanto o puxava:

– Ela é uma psicopata e precisa matar para continuar viva. É uma questão de literal sobrevivência, porque se ela não fizer isso, perde a sua essência, e quanto mais ela perde a sua essência, mais se esvai do nosso mundo. Um personagem sem característica não é um personagem.

Pela porta dos fundos, os dois seguiram em meio à tempestade até o carro que ele deduziu ser o dela. Lá dentro, com os limpadores de vidro movimentando-se e as gotas de chuva manchando sua visão, ainda continuava confuso.

– Eu realmente não estou entendendo o que você está falando.

Já dirigindo, dando ré para sair do local, entrou na rodovia principal de Nothern Lake e seguiu na direção do hospital.

– Ela é um personagem. Saiu de dentro do seu livro. Não é só um método parecido, como você alegou para a xerife: é ela. O problema é que não é natural que ela esteja no nosso mundo, não como parte de uma realidade, não como personagem. Enquanto ela achar que é como nós, pode vagar por aí, mas se, em algum momento, ela sentir que é um personagem... As coisas perdem o equilíbrio, as duas realidades se corrompem e ela volta a ser apenas palavras em uma página amarela. Entendeu? Ela precisa entender que não é real.

– Mais ou menos. É loucura.

– Claro que é. Foi você quem inventou tudo isso, , deveria entender melhor do que eu.

– Do que você está falando?

– Abra o porta-luvas – ela apontou com a cabeça.

o abriu e, lá dentro, encontrou um livro de capa dura. Era bem velho e não havia título e nem o nome do autor.

– Que droga é essa?

– Suponho que não se lembre de ter escrito isso.

– É claro que eu não me lembro. Eu não o escrevi.

– Não, mas o seu personagem escreveu.

Ele a olhou confuso. Ela explicou:

– O seu novo livro não é uma continuação de Os 7 psicopatas. É outra história. A história de um escritor chamado Christopher Lynch que pode trazer qualquer coisa à vida apenas usando a sua imaginação e um velho livro sem título.

Olhando para o livro, ele rapidamente fez a conexão. Não podia ser real.

– Isso é loucura. Você é louca.

– Em algum momento as suas duas histórias se cruzaram e tudo se tornou real, como se uma explosão tivesse os envolvido e feito Christopher trazer as sete psicopatas à vida. Agora nós temos que achar Lych e fazê-lo ler o livro para colocar as psicopatas de volta em suas histórias, ou, de um jeito mais difícil, convencê-las de que são personagens. Assim elas voltam por conta própria. Entendeu?

– Eu acho que sim. Como você sabe de tudo isso?

Ela ficou calada por alguns segundos, apenas segurando o volante com mais força. Estacionou em frente ao hospital ao responder:

– Eu apenas sei.

Os dois desceram do veículo e encararam o grande e branco prédio à sua frente. segurava o livro sem título nos braços e tentava processar tudo o que tinha sido dito a ele. Não fazia qualquer sentido e com certeza era loucura. era apenas uma mulher doente que estava lhe pregando peças. Por outro lado, o escritor tinha um sentimento de que aquilo era importante. De que era real.

Não pôde ignorar aquele sentimento. Não tendo a profissão que tinha, onde imaginação, intuição e realidade eram coisas realmente questionáveis.

Começou a andar junto a , pensando no que poderia fazer para evitar que uma psicopata sádica e fictícia matasse alguém naquela noite.


04 – A Lanterna e o Escritor

e passaram pela entrada do Hospital St. Bartholomew no exato momento em que um raio rasgou o céu de Nothern Lake. Os funcionários do lugar andavam para lá e para cá dentro de seus jalecos brancos e não perceberam os dois estranhos afobados ignorando metade das placas de "Permitida somente a entrada de funcionários". precipitou-se na direção do balcão de atendimento e perguntou pelo policial ferido.

– Ele está em cirurgia – disse a mulher do outro lado.

virou-se para com uma expressão preocupada e o escritor não entendeu o porquê daquilo. Ele deveria estar em segurança na sala de cirurgia.

– Isso pode não ser tão bom assim – explicou .

– Por quê?

– Elas são personagens perdidos no mundo real, , e eu não acho que uma parede pode impedi-las. Por outro lado, pode nos impedir. Venha.

O escritor seguiu a mulher pelos corredores brancos do local, e era realmente estranho o modo como ela parecia saber exatamente em quais cruzamentos virar, por quais portas entrar e quando se esconder. Andavam tentando se misturar aos demais visitantes quando todas as luzes do lugar se apagaram, deixando-os no meio de uma multidão doente e precipitada.

– O que foi isso? – perguntou .

– As sombras estão chegando – disse. – Venha!

Pegou-o pela mão e o puxou para longe do resto das pessoas. não entendia metade das coisas que estavam acontecendo, mas correu junto a quando, ao olhar para trás, viu que o chão antes claro começava a se transformar em algo tão escuro que quase não se era possível ver, como se as sombras estivessem literalmente engolindo cada pedaço do piso.

Isso, seja lá o que for, está nos seguindo – ele disse, ofegante, quando os dois entraram em uma sala, com fechando a porta e trazendo itens para barrar a passagem de qualquer coisa que pudesse querer entrar. – Desde a delegacia. Por quê?!

Ele fazia perguntas e as ignorava, mantendo a sua atenção presa nas venezianas da cortina, tentando enxergar o que acontecia do outro lado da janela. percebeu que estava no quarto de um paciente, e que esse paciente os olhava assustado.

– Pare de fazer perguntas, fique quieto e se esconda – instruiu , caindo ao chão assim que pronunciara as palavras, abraçando os joelhos ao encostar as costas contra a parede que abrigava a janela de vidro.

fez o mesmo e se sentou ao seu lado, vendo que a tempestade não havia parado. Continuava chovendo do lado de fora, e apesar do apagão do hospital, os raios e trovões proporcionavam luminosidade para o quarto. O paciente deitado na cama, imóvel, olhava para os dois, mas parecia incapaz de fazer qualquer coisa a respeito da invasão. Ele estava com vários equipamentos ligados ao seu corpo, um respirador e um curativo na cabeça.

respirava com certa dificuldade, pois sentia medo. Um tipo de medo que nunca havia sentido na vida, que fazia o seu corpo inteiro tremer, os dentes batendo uns contra os outros. , que estava até o momento concentrada em manter-se escondida, olhou para o estado emocional de e se sentiu obrigada a dar-lhe uma explicação.

– Elas estão aqui. As psicopatas.

No exato momento em que fechou a boca, passos foram ouvidos do lado de fora do quarto, arrastando-se pelo corredor. e se entreolharam e recuaram inconscientemente, vendo o homem deitado na cama movimentar os olhos para a janela, arregalando-os em uma expressão de puro medo. Uma sombra se projetou sobre o paciente, erguendo-se de forma monumental, mas grande demais para ser uma das sete psicopatas.

olhou para em busca de respostas, mas ela estava com os olhos fechados, prendendo a respiração como se aquilo fosse ajudá-la a manter-se fora de vista. Ela esticou a mão para segurar a do escritor, e com isso também fechou os olhos, respirando fundo e tentando pensar em qualquer coisa, menos no formato e no tamanho da sombra que ocupava a parede oposta do quarto, porque era inacreditavelmente grande.

E surreal.

De repente, as luzes se acenderam. se levantou e olhou para o corredor, que se encontrava vazio. O homem deitado na cama agora tinha os olhos fechados, os aparelhos zumbindo estridentemente e chamando enfermeiras por todos os lados. e tiraram as barricadas que haviam montado sobre a porta e correram para fora do local, torcendo para que não fossem vistos.

Antes de sumir pelo corredor, escutou uma das enfermeiras gritar que o paciente havia tido uma parada cardíaca.

...

– O que Diabos foi aquilo?!

e estavam agora no quarto de Hotel do escritor. A mulher andava de um lado para o outro com as mãos no queixo, de maneira pensativa, enquanto tentava não surtar, bebendo um copo de uísque fornecido pelo hotel.

Estava tentando parar, mas poderia abrir uma exceção.

– Não era uma das psicopatas – respondeu .

– Ah, jura?! Eu notei isso, afinal não me lembro de ter criado nenhum tipo Godzilla, com sombras gigantescas!

continuava andando, sempre olhando para o chão, como se nem estivesse ali. Usava uma jaqueta vermelha e os cabelos longos e loiros soltos atravessando as suas costas. Calça jeans e botas surradas. De algum modo, não se parecia com ninguém que pudesse ter conhecido antes.

– Quem é você? – ele resolveu perguntar, andando até ela e a segurando pelos ombros. – Como sabe de tudo isso? O que era aquilo que estava nos perseguindo no hospital? Responda!

Tão rápido que não pôde ao menos processar, livrou-se de seu toque e o empurrou, jogando-o sobre a cama e torcendo o seu braço atrás de seu corpo. O escritor gemeu, mas o som saiu abafado pelo colchão, que praticamente emoldurava a sua cara. não o soltou quando disse:

– Não toque em mim, entendeu?! E não peça por respostas. Eu estou fazendo um grande favor aqui ao te ajudar. O problema não é meu, é seu, e se quiser sobreviver para escrever o seu próximo meio de matar a humanidade, coopere e me obedeça. Estamos entendidos?

concordou, sentindo como se os músculos de seu braço estivessem sendo rasgados. o soltou e ele sentou na cama, massageando a pele machucada ao olhá-la com uma espécie assustada de indignação.

– Você também iria querer respostas se estivesse no meu lugar.

– Tenha um pouco de paciência e saberá tudo o que quiser saber. Por enquanto, apenas tente não ser assassinado por uma de suas psicopatas.

Ela pegou a bolsa sobre a poltrona no meio do quarto e se dirigiu para a porta. , vendo que ela partiria sem falar mais nada, se levantou e correu para alcançá-la, pensando uma segunda vez antes de segurá-la pelo braço e apenas pondo-se à frente da porta.

– Por favor, me diga alguma coisa. Qualquer coisa. Pelo menos sobre a escuridão e como me proteger dela.

A mulher parou, arrumando a bolsa sobre os ombros.

– Não é óbvio? – perguntou. – Mantenha-se sempre perto das luzes. É a única maneira de a escuridão não te alcançar.

Assim, pegou uma lanterna de sua bolsa e a jogou para ele, saindo do quarto e deixando ali, parado, segurando o objeto nas mãos, com medo de apagar as luzes e encontrar o que quer que fosse que o estivesse perseguindo dentro da escuridão.

...

Durante toda a noite, segurou a lanterna firmemente contra o peito, como se ela fosse uma arma extremamente poderosa que o salvaria até mesmo dos piores demônios envolvidos na noite. Quando adormeceu, teve um pesadelo terrível com o homem que morrera no hospital, onde este, ao invés de apenas arregalar os olhos, começara a gritar ferozmente para o monstro no corredor, atraindo-o para o quarto, onde matou ele e .

Suado e ofegante, acordava, tremendo de frio, na sua cama de hotel, e ligava a lanterna para ver melhor o cômodo dentro da escuridão. Ele passava o feixe de luz por cada móvel e objeto, procurando algo estranho, mas depois de não encontrar nada apenas voltava a dormir. Isso ocorreu pelo menos sete vezes na mesma noite.

Quando realmente acordou, estava no salão principal do hotel, apenas de pijama e com os pés descalças e sujos de lama manchando o carpete vermelho e caro do lugar. Ele olhou para as próprias mãos e viu nelas mais sujeira, a lanterna que lhe dera completamente coberta de terra. Levantou o rosto para Char, que o encarava de seu balcão, e andou até ela, perguntando o que havia acontecido.

– Eu não sei. Você apenas saiu durante a noite – ela respondeu.

sentiu-se atordoado, principalmente porque a terra indicava que estivera em algum lugar no meio da floresta. Não sabia se se preocupava mais por não ter se lembrando o que tinha feito ou o que tinha sido feito com ele, mas seus olhos estavam tão pesados que ele desmaiou em sua cama após tomar um banho, não conseguindo ao menos ficar acordado para se preocupar com os eventos do dia e da noite anterior.

Horas depois, quando acordou no meio da tarde, ligou para a delegacia e teve a informação de que o policial que queria salvar tinha, de fato, morrido durante a cirurgia – algo realmente estranho, já que não era nenhum procedimento sério. folheou jornais à procura de algo que indicasse uma investigação quanto ao caso, mas nada ocorrera, e as únicas manchetes de destaque eram a respeito das tempestade que assombravam Nothern Lake.

Certa hora da manhã, ouviu alguém bater em sua porta, e deu entrada para a camareira, uma jovem garota que não parecia ter mais de dezessete anos.

– Eu volto em alguns minutos – disse ele, saindo do lugar para não atrapalhar o serviço da moça.

desceu para o saguão principal e tomou um café, lendo mais uma vez o jornal fornecido pelo Hotel. Estranhou o fato do dia estar relativamente claro, com o céu azul e um sol ardente, e decidiu sair para dar uma caminhada, pensando em como um tempo sozinho poderia fazê-lo esclarecer melhor as coisas.

Do lado de fora, encontrou Char varrendo a calçada e a cumprimentou.

– Você é a dona do Hotel, Char. Por que ainda faz essas coisas?

Ela riu e respondeu:

– Porque é o meu hotel, e ninguém cuidaria melhor dele do que eu.

Ele concordou, rindo com ela, e se despediu, escutando os barulhos ariscos da vassoura contra o concreto da calçadas diminuírem à medida que se afastava. Andou até o seu carro e pegou a sua mochila, de repente tendo uma ideia. Voltou até Char, que encontrava-se no mesmo lugar, e perguntou:

– Você sabe a direção que eu segui na noite passada, quando saí e fui para a floresta?

Ela pareceu pensar um pouco, mas logo se recordou e apontou:

– Para aquele lado.

Ele agradeceu mais uma vez e seguiu a direção que a mulher apontou, tirando de dentro de sua mochila a sua câmera fotográfica preferida, que havia usado para fotografar a capa de Os Sete Psicopatas quando o livro teve a sua primeira edição lançada. fez questão de tirar a foto, porque queria que a capa transparecesse toda a essência da história. Acabou que a imagem embaçada de uma menina com os braços pálidos cheios de sangue serviu bem, mas não agradou o primeiro lote de leitores, e o livro quase não alcançou o número mínimo de vendas, melhorando apenas quando a segunda edição foi lançada, dessa vez com uma capa diferente.

adentrou a trilha indicada por Char, e começou a procurar indícios de que ele havia passado por ali na noite anterior. Achou galhos quebrados e os fotografou; um pedaço de pano do seu pijama também estava enterrado atrás de uma ou duas folhas; pilhas de lanterna caídas sobre a terra. Ele estava começando a ficar cada vez mais confuso sobre tudo.

Por fim, achou um cartão prateado com o símbolo do infinito cravado em relevo. Aquilo, por algum motivo, lhe deu arrepios.

...

Vendo as fotos no computador, não conseguiu juntar nenhum tipo de pista. Parecia apenas que ele tinha saído para dar uma volta em um momento completamente inoportuno e estranho, com uma lanterna em mãos e nenhum sapato nos pés. Zoom nenhum proporcionou-lhe algum tipo de certeza, e sua única esperança era a de que o seu cérebro voltasse a funcionar cordialmente e ele se lembrasse do ocorrido.

pegou mais uma garrafa de uísque para beber, afogando-se no álcool amargo e nos mini chocolates que a camareira havia deixado sobre o seu travesseiro antes de sair. Quando se conformou de que não acharia nada, entrou na página inicial do Google e procurou pelo nome de , mas seu computador desligou antes que as informações pudessem ter sido carregadas. A bateria tinha acabado e o carregador estava no carro, muitos andares abaixo de onde o escritor se encontrava.

Cansado e precisando urgentemente de uma aspirina, ele se levantou e andou até o banheiro. Lavou o rosto e escovou os dentes, vendo no próprio reflexo a imagem perfeita de um homem à beira do abismo emocional. Ele precisava urgentemente sair de férias, esquecer toda aquela loucura e voltar a ser apenas um escritor bêbado no meio de uma cidade entre as montanhas.

Porém, ao se virar para sair do banheiro, notou que aquilo nunca mais seria possível. Não quando a sua vida havia se tornado um show de horrores; não quando os seus próprios personagens saíam de páginas para atormentá-lo e não quando o corpo de um homem morto era colocado na banheira de seu quarto de hotel, às três da tarde de uma terça-feira, quando a última coisa que ele queria era ter mais problemas.


05 – Corpos Mortos

– Você vai ficar aí, olhando, sem fazer nada? – questionava com uma expressão quase desacreditada.

O escritor, por sua vez, permanecia com as costas apoiadas no ladrilho frio das paredes do banheiro, tentando com todas as suas forças não surtar diante da cena que presenciava.

aparecera no quarto de hotel dele trinta minutos depois de o escritor achar o corpo dentro de sua banheira. Ele não sabia o porquê, mas havia pensado em chamá-la antes mesmo de chamar a polícia. É claro que, sem o telefone da mulher, ele não tinha meios de contatá-la, mas, de alguma forma, ali estava ela. havia apenas pensado em e a mulher misteriosa que parecia ter virado a sua vida de cabeça para baixo havia literalmente se materializado na sua porta, com um saco preto de lixo nas mãos e os longos cabelos loiros presos em um rabo-de-cavalo.

– Eu... – gaguejou ao responder. Todo aquele sangue fazia o seu estômago girar. – Eu não sei o que poderia fazer para ajudar.

O escritor nunca pensou que tirar um cadáver de seu quarto de hotel poderia ser um dos problemas de sua vida, mas, ali estava a situação: uma garota morta em sua banheira, e uma viva tentando se livrar da morta. Parecia um eterno nó em seu cérebro.

– Você pode pegar os braços dela – respondeu . – Eu fico com os pés.

– Espera... O que você vai fazer?! – perguntou, aproximando-se, vendo-a não levá-lo tão a sério quanto ele desejava.

– Vou sumir com o corpo.

automaticamente imaginou dirigindo com o corpo morto em seu porta-malas, procurando pela cidade um lugar afastado o suficiente para poder se livrar da carga.

– Não, não vai.

– Você quer mesmo estar ligado a dois assassinatos diferentes em menos de dois dias? Eu não iria querer se estivesse em seu lugar.

– É claro que não! Mas não podemos simplesmente deixá-la em um beco frio e isolado. Nós nem sabemos quem é.

– Eu não iria deixá-la em um beco frio e isolado – garantiu , e suspirou aliviado antes dela completar. – Eu iria deixá-la na floresta, onde um caçador a encontraria mais cedo ou mais tarde.

– Isso não pode estar acontecendo – o escritor passou a falar consigo mesmo enquanto passava as mãos pelos cabelos, sentando-se no chão gelado e tentando pensar no que havia feito para merecer que todas aquelas coisas ruins estivessem acontecendo com ele.

– Ok, olha, tente se lembrar de tudo o que aconteceu. – se ajoelhou ao seu lado. – Tente se lembrar quem é essa garota morta dentro da sua banheira, ok? Você disse que a camareira estava no seu quarto quando saiu. Tem certeza de que não é o corpo dela?

– Tenho. Ela tinha o cabelo castanho. Essa menina é ruiva.

– Se parece com alguma personagem do seu livro? A camareira, digo.

levantou os olhos, fincando-os na porta de madeira do banheiro. Tentava se lembrar do rosto da mulher, mas todos os traços fugiam de sua memória independente do esforço que ele fazia. percebeu que o escritor não se recordaria tão cedo e apenas caiu sobre os joelhos, sentando-se no chão, à frente dele.

– Olha, eu sei que isso é péssimo, mas não posso deixar que te prendam. Não agora. Precisamos nos livrar do corpo antes que alguém veja. Entende isso? – perguntou ela.

– Por que você se importa? Nem me conhece.

Ela sorriu para ele. Um sorriso de certa forma triste, como se houvesse algo que precisasse falar, mas não pudesse. apenas levantou do chão, puxando-o logo em seguida, e pegou o saco preto que havia trazido consigo ao chegar. Andou até a banheira e, com a ajuda de um extremamente enjoado, colocou o corpo da garota morta dentro do plástico. Em seguida, ambos se juntaram para limpar todo o sangue do local, gastando bastante tempo nessa última tarefa. Quando terminaram, juntou as suas coisas e perguntou o que ele estava fazendo.

– Vou procurar outro hotel – ele explicou.

– De jeito nenhum – contrariou a mulher, observando o corpo envolto no plástico, aos seus pés. – Se fugir, será o primeiro suspeito quando descobrirem que ela morreu, independente de quem for. Você ficará aqui.

– Mas eu acabei de encontrar um cadáver na minha banheira! Não posso dormir neste lugar.

– Terá de conviver com isso, pelo menos por alguns dias. Tome banho de chuveiro – deu de ombros. – Agora, me ajude a levar o corpo lá para baixo.

, mesmo contrariado, a obedeceu, e os dois juntaram-se na tarefa de descer as escadas com o fardo pesado e perigoso da menina morta em suas mãos. Já era madrugada, então poucas pessoas circulavam pelo hotel, e eles tiveram sorte de ninguém os ver. No saguão, conversou com Char para causar uma distração e dar tempo à , que estacionou o carro do escritor na porta do hotel e arrastou o corpo para o seu porta-malas.

Tudo estava tão vazio que ela sentia estar sendo observada, como se alguém, escondido no topo do prédio, anotasse todas as usas ações.

– Você vai deixá-la na floresta? – perguntou , sentando no banco do passageiro.

havia dominado o lado direito do carro, deixando bem claro que dirigiria naquela noite. não reclamou, mas preferia saber para onde estavam indo e, frustrado por ela não responder, acabou por se contentar em ficar observando a paisagem escura de Nothern Lake à medida que o carro descia as montanhas em direção ao centro da cidade.

...

– Eu achei que você a levaria para a Floresta – disse ele.

– E eu vou. Mas não aquela perto do Hotel. Uma longe.

– Mesmo assim, estamos no centro da cidade. Não há florestas aqui.

– Preciso checar uma coisa primeiro.

Ao falar isso, estacionou atrás de um prédio de seis andares. Saiu do carro e a acompanhou quando a mulher abriu o porta-malas e arrastou o corpo que carregavam para o asfalto sujo. Ele perguntou em que lugar estavam e não obteve uma resposta, mas, mesmo assim, seguiu as instruções quando pediu para que ele batesse três vezes na pequena porta de madeira escondida em uma das paredes do lugar.

Uma mulher de longos cabelos castanhos os atendeu, escorando-se no batente da porta e olhando-os de cima abaixo, sorrindo de uma maneira quase desafiadora em seguida.

– Eu sabia que você iria voltar – piscou para . – No que posso ajudar?

subiu os olhos e viu que, na parte de cima da porta, como se fosse o número de uma residência, havia a mesma coisa impressa no cartão de . O número oito deitado, ou, mais precisamente, o símbolo do infinito.

– Não estou aqui por você – respondeu . – Onde está Richard? Preciso falar com ele.

A mulher deu de ombros, e pareceu decepcionada. Deu passagem para entrar, e a mulher passou, arrastando o corpo da garota e deixando um rastro de sangue para trás. não se mexeu inicialmente, mas, depois de sair de seus devaneios sobre o quão ferrado ele estava, percebeu que a mulher parada na porta ainda o encarava.

– Você é bonito – disse ela.

Ele não soube o que dizer, e até ficou sem graça, então respondeu:

– Meu nome é .

– Eu sei.

– Isso é uma desvantagem, porque, bem, eu não sei quem você é.

A mulher sorriu, descendo os dois pequenos degraus que a fazia mais alta. Parou na frente dele e observou-o por alguns segundos, como se quisesse guardar cada traço de seu belo rosto, antes de responder:

– Meu nome é Carmen Holland, e você sabe exatamente quem eu sou.

praticamente engasgou com a própria saliva. O olhar dela era tão forte que poderia derrubá-lo com apenas uma piscada. Carmen tinha longos cabelos castanhos e cacheados, usava roupas provocantes e se equilibrava sobre saltos altos de cor negra. O escritor não sabia como não havia a reconhecido antes, logo quando a viu.

Ela era Carmen Holland, a Psicopata Número Cinco.

...

– Você é maluca?!

se assustou com o modo como a segurou pelos braços, puxando-a adiante no beco para um lugar longe de Carmen e seu sorriso psicopata. A quinta das sete mulheres que ele havia criado em um poço de maldade olhava os dois como se estivesse realmente feliz em vê-los; uma predadora contente por ter arrumado novas presas.

– Eu sei, eu sei, mas ela é diferente – disse .

– ELA É UMA PSICOPATA! Você leu o livro?!

revirou os olhos.

– Não, , eu entrei nessa sem saber de nada, apenas contando com a sua astúcia – e então se soltou do toque dele. – É claro que eu li o livro! E você o escreveu, portanto sabe que a número cinco é diferente.

– São situações completamente distintas. Não é só porque ela fez algo bom no livro que vai fazer aqui também.

– Bem – erguei o nariz, orgulhosa. – Se você não sabe, , ela já está fazendo. Carmen está nos ajudando a capturar as outras seis psicopatas, portanto seja legal com ela ou vai acabar com a garganta cortada.

juntou as sobrancelhas. Nada do que dizia parecia ter nexo, o que, além de confuso, o deixava desconfiado. O escritor tinha uma sensação naquele momento, algo dizendo para ele que aquilo era errado, que não daria certo. Mas o olhava com tamanha convicção que, em um impulso, o rapaz se permitiu confiar nela mais uma vez.

– Podemos entrar agora? – ela perguntou, passando por ele e por Carmen para adentrar o prédio.

O escritor ficou ali, parado, sentindo o olhar da psicopata sobre suas costas, temendo o momento que precisasse virar para encará-la em sua íris castanha e extremamente intimidadora. Ele fechou os olhos e contou até algum número relativamente alto, esperando que aquilo fizesse o seu coração parar de bater mais forte. não entendia como ele o quanto aquela mulher podia ser maluca e perigosa, e talvez por aquele motivo estivesse tão confiante de que Carmen tinha mudado – assim como no livro.

Mas ele sabia que era mentira, porque a criou como uma mentirosa.

– E então, , não vai entrar? – Carmen apareceu ao seu lado, fazendo-o pular. Sorria como uma criança inocente, seus cachos pulando de uma maneira adorável.

Exatamente como ele a criou: doce ao olhar e terrível ao toque. não queria saber até que ponto Carmen estava disposta a fingir, mas decidiu que o faria também. Aquilo podia lhe dar alguma vantagem.

Então, seguiu-a para dentro do prédio, vendo a psicopata enrolar seus braços uns nos outros, como um cavalheiro guiando uma dama, mas com a exceção de que o cavalheiro tremia até a alma.

...

– O que você quer que eu faça? – perguntou o homem.

deduziu que aquele deveria ser Richard, o rapaz pelo qual procurava. Ele vestia um jaleco branco e então o escritor percebeu que haviam acabado de entrar pelos fundos de uma clínica veterinária.

– Quero que determine a causa de morte – disse .

– Você sabe que eu não sou médico, não é?

– Mas já foi, um dia. Então faça isso.

O homem suspirou, como se não tivesse escolha, e começou a rasgar o saco preto no qual a vítima estava enrolada. O rosto pálido e morto da garota apareceu e o cheiro antes preso dentro do plástico espalhou-se por todo o lugar, fazendo se sentir enjoado. fez uma careta para a visão dos ferimentos e Carmen, bem... Parecia estar assistindo a um de seus filmes preferidos, balançando os pés, sentada em cima de um balcão, perto do escritor. Uma maluca, como ele dissera.

– O que aconteceu com ela? – perguntou Richard.

– A encontrei assim, no meu quarto de hotel, pela manhã – respondeu.

Carmen riu.

– A noite foi boa, ham?

Ele pensou em responder, mas preferiu ignorar. deu continuidade:

– Não sabemos quem é ou por qual motivo foi morta. Muito menos a razão de a terem colocado no quarto de . Mas, talvez, se descobrirmos qual a causa da morte, poderemos identificar o padrão e automaticamente qual das sete psicopatas fez isto.

– Seis – corrigiu Carmen. – Eu estou aposentada.

tentou lutar contra a vontade de olhá-la desconfiado, mas foi forte demais.

– Desde quando? – perguntou.

– Desde que percebi que humanos são amigos, não comida.

Ele reconheceu aquela fala de algum filme da Disney, mas não disse nada. Era bom que a sua psicopata canibal estivesse disposta a mudar. Ele não acreditava realmente naquilo, mas, bem, podia dar uma chance a ela desde que a mulher passasse bem longe de seu quarto de hotel.

– Parece que ela se afogou – disse Richard, acordando-o.

– Mas e todos os outros ferimentos? – questionou.

O homem pareceu sentir um calafrio ao responder:

– Diversão. Alguém a torturou antes de matá-la, apenas isso. Essa garota morreu por falta de ar nos pulmões. Notem que a sua pele ainda está inchada. Ela foi afogada.

E então teve um lampejo, uma sensação de familiaridade. Afastou-se de Carmen, que de repente queria brincar com os seus cabelos, e se aproximou do corpo da garota, reconhecendo-a de algum modo. Lembrou-se de seu rosto, dos traços, da notícia no jornal que dizia que ela estava desaparecida.

E então reconheceu que ela era a garota que havia desaparecido há algumas semanas, a que estava em todos os noticiários, jornais e revistas de Nothern Lake.

Automaticamente todas as matérias sobre o seu desaparecimento inundaram a mente do escritor, e ele se pegou imaginando o que diriam quando o corpo dela fosse encontrado no meio da mata. Pensou nas investigações e em como queria poder participar de todas, afinal ainda havia o mistério de saber como o corpo dela tinha ido parar em seu quarto de hotel.

Por fim, Carmen suspirou às suas costas, mas não parecia realmente lamentar ao dizer:

– Que desperdício! Ela parecia ter uma carne deliciosa – e então riu, se desculpando quando todos a olharam espantados.

...

– E se um animal a comer?

– Melhor ainda! Assim não haveria nenhuma chance de acharem, no corpo da vítima, algo que te comprometa.

segurava um pedaço de pano contra o nariz e a boca, tentando não tossir ou vomitar. Estavam no meio da Floresta Negra de Nothern Lake, que tinha esse nome por causa do número excessivo de árvores com folhas em tons mais escuros, deixando tudo com a impressão de que uma grande nuvem cinza pairava no ar. havia estacionado o carro do escritor entre dois troncos extremamente altos e arrastado o corpo que carregavam para a beira de um barranco, praticamente moldando-o para que escorregasse floresta abaixo, em direção ao lago, com o plano de que parecesse que a menina havia se afogado e que as pedras do rio tivessem machucado o seu corpo.

– Grims – disse o escritor, vendo parar e olhá-lo confusa. – O nome dela era Elisa Grims. Desapareceu há alguns dias, ao sair da escola. Tem... Tinha catorze anos.

parou e o olhou de uma maneira triste. Aquela fora a primeira vez desde que a conhecia que o homem viu algum tipo de emoção humana passar pelos traços finos de seu rosto. Só então percebeu o quanto ela era bonita e o quanto parecia, de certa forma, trágica. Como se algo ao seu redor dissesse, a todo instante, que não existia mais esperanças para a situação na qual, em apenas dois dias, haviam se envolvido.

E então se sentiu um tolo por pensar que em algum momento tudo aquilo poderia acabar. Olhando , sua frieza, os pensamentos rápidos, a prática em deslocar o corpo da garota de catorze anos, ele percebeu que ela provavelmente já havia passado por aquilo antes. E que, claro, não seria a última.

– Você era policial, não era? – perguntou ele.

assentiu com a cabeça, e foi a primeira vez que ele sentiu que ela estava sendo honesta.

– Como descobriu? – questionou a mulher.

– Passei algum tempo com um detetive e, assim como você, ele se referia às pessoas mortas como "vítimas", e não por seus nomes. Creio que é um costume da profissão.

– Nos ajuda a separar as coisas – explicou . – Uma vítima é só mais um corpo enquanto não tem nome. Quando sabemos de sua identidade, passa a ser uma responsabilidade.

– Ele me disse a mesma coisa – riu sem humor .– Elisa Grims e sua infância e breve adolescência tornam-se apenas um corpo, e nós nos esquecemos de que realmente houve um ser humano inocente ali – recitou, como se estivesse querendo convencer a si mesmo.

assentiu com a cabeça e, lentamente, voltou à sua tarefa. Ficara feliz que houvesse entendido o modo como ela enxergava as coisas. Estava claro que não gostava nada de enterrar corpos e se livrar de provas, mas, de um jeito ou de outro, aprendera a fazer isso nos últimos meses. Havia virado uma infeliz rotina.

Ela empurrou o corpo de Elisa pelo barranco e viu as folhas que grudavam em sua pele ficar na margem do rio quando a garota afundou na água. Sua mão pálida e fofa foi a última coisa a desaparecer nos tons escuros espelhados pelas nuvens cinzas, as montanhas que circulavam o rio desaparecendo em meio à neblina que nascia aos poucos.

começou a caminhar junto a de volta para o carro, pensando nas últimas palavras da mulher. Tentaria se lembrar daquilo na próxima vez em que os pesadelos não o deixasse dormir. Sempre que Elisa ou Brian viessem à tona, o escritor imaginaria um corpo morto, sem rosto ou identidade, e tentaria se afastar ao máximo da ideia de que ambos estavam mortos por sua causa.

Talvez, um dia, ele conseguisse afastar a própria identidade.

Parou quando interrompeu o passo, amassando folhas sob a sola de seu sapato. Ela olhou ao redor e acompanhou o movimento de sua cabeça até notar que não havia nada ali. A mulher voltou a andar e chegou ao carro, correndo quando viu o veículo parado a alguns metros dos dois.

não entendeu o que acontecia até ver que os pneus estavam murchos e baixos, e que parecia lutar contra uma mistura de medo e raiva dentro de seu corpo.

– Elas furaram os nossos pneus – disse ela, olhando para as altas árvores ao redor dos dois. – Estamos presos aqui, , e está quase anoitecendo.

O escritor respirou fundo diante da constatação, ouvindo ruídos pelos quatro cantos da floresta. Jurou com todas as suas forças ver alguém correr de uma árvore para outra no momento em que uma risada fria e constante cortou o ar como uma flecha, ecoando por todos os cantos.

Então era isso. Ele morreria ali, no meio de uma floresta, pelas mãos de um personagem que havia criado, ao lado de uma mulher misteriosa que não parecia estar com um pingo de medo do que quer que estivesse para acontecer com os dois.

Parecia um final digno de seus livros.


06 – O Medo na Floresta

daria tudo para ver o brilho pálido da Lua por um só instante. O suficiente para proporcionar algum tipo de iluminação ao seu subconsciente assustado que sempre relacionou escuridão a perigo. As palavras do faxineiro da estação de rádio se repetiam dentro de sua cabeça como uma maldição, e a frase "não é seguro com toda essa escuridão" foi como a voz do próprio diabo atentando a sua sanidade.

, por outro lado, tremia apenas de frio. Parecia uma psicopata diante do caos, demonstrando uma única emoção realmente humana: raiva. Ela estava furiosa pelos pneus do carro – mais pelo preço do que pelo significado do ato.

– O que faremos agora? – perguntou o escritor.

– Tenho uma lanterna no carro. Ache-a enquanto procuro sinal de telefone por aqui.

abriu a porta do veículo e começou a procurar pelo porta luvas algo que o ajudasse na iluminação. Seus dedos passaram por diversos objetos frios até que ele encontrou o celular e, após analisá-lo, sentir a assustadora constatação de que o conhecia de algum lugar.

– Este é o meu celular? – perguntou.

estava com os braços erguidos, deixando o seu próprio aparelho contra a garoa fina. Era óbvio que não estava obtendo sucesso em suas buscas. Ela parou o que estava fazendo ao ouvir a voz de e encarou o escritor com uma expressão neutra ao dizer:

– Eu não sei. É?

– Você sabe que sim.

– Por que eu pegaria o seu celular?

– Eu não sei! Me diga você.

A discussão acabou antes mesmo de começar. Um barulho dentro da floresta pareceu estabelecer outras prioridades, e com o raio que estalou ao sul do principal lago de Nothern Lake, tanto o escritor quanto a mulher misteriosa souberam que coincidências eram realmente raras em verdadeiras histórias de terror.

Finalmente pareceu entrar em um estado mínimo de desespero, aproximando-se do homem com uma expressão de urgência no rosto. Ela pegou o telefone da mão do escritor e disse, como se estivesse com medo de quem estaria escutando:

– Eu não peguei o seu telefone, . Mas alguém pegou.

Ele franziu o cenho e então olhou ao redor, para a floresta, de uma maneira tão lenta que pensou que ele não a estivesse escutando. A luz da lanterna dos dois celulares os ajudava apenas a enxergar os rostos aflitos um do outro, as gotas finas e imperceptíveis da garoa deixando tudo em uma espécie claustrofóbica de desfoque.

acompanhou a breve busca do escritor com os olhos, o frio da floresta soando tão intenso que parecia machucar os ossos frágeis dentro de seus corpos quentes.

– Não estamos sozinhos – sussurrou ele, mas já sabia daquilo, portanto apenas assentiu com a cabeça. Tremia tanto quanto . – Por favor, me diga o que está acontecendo.

– Eu não posso.

E quando terminou a frase, um movimento muito mais brusco cortou o balançar suave dos galhos das arvores. O barulho foi surreal demais para ser qualquer unanimidade humana, portanto, no mesmo segundo, exatamente quando mais uma risada fria ecoou pelo ar, o escritor e a mulher começaram a correr por entre as grandes e intermináveis árvores.

Ele seguiram às cegas, na escuridão, por longos minutos. Até que se sentiram seguros o suficiente para parar, tomar um ar e tentar entender o que diabos havia acontecido ali. Era uma perseguição realizada pelas psicopatas? Ou era um animal? Por que estariam fazendo aquilo com eles?

– Ela quer o corpo – disse , de repente. Estava curvada sobre os joelhos enquanto procurava ar para preencher os seus pulmões. – Ela quer a droga do corpo!

– Do que você está falando?! – perguntou , extremamente confuso, tentando enxergar o rosto da mulher por entre a penumbra.

– Qual duas suas psicopatas gosta de guardar os corpos? – ela rebateu em um tom óbvio demais.

– Você não está falando da Colecionadora, está?

– A mesma.

levou as mãos ao cabelo. Começava a se sentir realmente desesperado.

– Estamos ferrados, . Ela é maluca. Completamente pirada. Vai nos caçar a noite toda! Não nos deixará partir.

tinha começado a andar de um lado para o outro, passando um dedo pelo queixo. Parecia pensar em uma solução, balançando a cabeça e negando tudo o que afirmava.

– Ela só quer o corpo – disse. – Foi a psicopata que matou a garota. Lembra? Ela é a número Dois. Coleciona corpos. Tem todas as vítimas empalhadas em seu porão. Ela não quer nos machucar, só quer a garota para colocar na coleção.

pareceu em dúvida, mas acabou aceitando a teoria de . Por isso, a acompanhou quando a mulher faz o caminho inverso de volta para a direção na qual acreditava que encontraria o seu carro.

– Se ela não quer nos machucar, por que furou os pneus de seu carro?

– Eu não sei. A personagem é sua.

E era, mas não fazia ideia de como a cabeça de nenhuma das sete funcionava. Ele as tinha criado como modelos perfeitos da insanidade, pessoas imprevisíveis e sem limites. Não havia meios de ao menos imaginar quais as intenções por detrás de seus atos.

Tentou esquecer daquilo para se concentrar nos inúmeros pontos perigosos da trilha em que andava. parecia exercer a sua caminhada com maestria, nem ao menos deslizando, focada na posição das estrelas e em seu trajeto imaginário de volta para o carro.

Foram até o barranco em que haviam jogado a menina e quase preferiu ser assassinado antes de entrar na água extremamente fria do rio para puxar o corpo de onde o haviam jogado. Tinha certeza de que acabaria com uma hipotermia, e o tempo que demorou imerso na escuridão do lago tendo apenas uma lanterna à prova de água como aliada pareceu uma eternidade.

quase não conseguia mover os membros de seu corpo, pois pareciam congelados. A temperatura era tão baixa que as suas mãos ficaram dormentes, e o desespero de não saber se conseguiria voltar à margem era alto, tão assustadoramente irregular que o homem se esqueceu do que fazia por um instante. Levou um susto, claro, quando a luz da lanterna revelou um rosto pálido de olhos azuis escancarados, o fazendo soltar todo o ar restante em seus pulmões em um falso grito abafado pela água.

O homem desamarrou a pedra que havia deixado nos tornozelos da menina e puxou o corpo de volta à margem, onde encontrou o esperando na beira do lago. A mulher tremia de frio também, mas estava seca e protegida pela sua jaqueta vermelha. O homem, por sua vez, usava apenas a sua camisa branca e as calças, pois preferiu poupar agasalhos que pudessem esquentá-lo depois.

Arrastou o corpo da menina pelas folhas e pela sujeira da margem, vendo se aproximar assim que ele a soltou. se afastou das duas e se encolheu sob as pequenas pedras da margem, tremendo tanto de frio que de repente era como se o homem não tivesse mais controle sobre o seu corpo. Ele só conseguia tremer. levantou os olhos para e pareceu se sentir culpada por tê-lo deixado ir, pegando a jaqueta do homem e se aproximando ao dizer:

– Tire a blusa.

estava tão imerso na dor que o frio causava em suas entranhas que demorou um pouco para responder. Quando o fez, o viu tirar os olhos vidrados do corpo da garota morta para levá-los lentamente ao seu rosto, as pupilas escuras dilatas tomando todo o castanho das orbes do rapaz. Sua expressão parecia confusa e surpresa, quase cômica.

riu, percebendo como homens seriam sempre homens, e levantou a jaqueta em um gesto explicativo.

– Ah, sim – ele grunhiu, e parecia até mesmo desapontado.

Puxou a camisa branca por sobre a cabeça e pegou a jaqueta, vestindo-se e sentindo um alívio indescritível quando o tecido quente se chocou contra a sua pele. Fechou o zíper sobre o abdômen e trincou os braços, ficando cada vez mais quente, e se levantou para voltar ao ápice do problema que os dois tinham naquela noite.

– Então, se entregarmos o corpo para ela, a psicopata nos deixa livres? – perguntou , olhando para ele.

ainda estava sentado sobre as folhas mortas da beira do lago quando respondeu:

– Se eu a entendo do jeito que penso, sim. Ela não vai mais nos incomodar – e então passou a língua nos lábios, hesitante. – É a coisa certa a se fazer?

– Não é como se aquele lago fosse um túmulo digno, de qualquer jeito.

concordou com a cabeça. Ainda se sentia mal por entregar a menina para a psicopata. Ela era jovem, com certeza tinha pais e uma família que iria querer lhe dar um enterro descente. Sem falar do fato de que, sem um corpo, eles nunca teriam real paz para deixar a filha ir embora.

Mas precisava fazer aquilo. Era bem maior que ele. Se morresse naquela noite, deixaria para trás sete das piores pessoas do mundo da ficção para fazer o que quisessem da pequena cidade. Muito mais gente passaria por momentos ruins e incertezas e de nada teria adiantado se deixar levar pela culpa.

Levantou e ajudou a arrastar o corpo ladeira acima, e, quando chegaram perto do carro, quase como em um passe de mágica macabro, viram que os pneus do carro estavam cheios de novo.

– Ela trocou os nosso pneus? – perguntou, visivelmente confuso.

– Eu acho que nunca estiveram furados – a mulher comentou, largando a carga sobre o chão. – Você tem uma psicopata com dons psíquicos, não tem? Por acaso sabe tudo o que ela é capaz de causar?

– Fazer um carro voar em direção a uma delegacia é uma coisa, . Controle da mente é outra bem diferente. Ela não pode simplesmente entrar em nossas cabeças e nos fazer ver o que quer que vejamos.

desviou o olhar para os quatro pneus intocados de seu carro. Tudo tinha ficado tão bem mais complicado naquele momento que ela começou a se perguntar se deixar todos ali para morrer não era uma boa opção. Bem, não era. precisava consertar aquilo, precisava acabar com aquela confusão, e teria que aprender a lidar com as dificuldades.

– Aparentemente, – respondeu, andando até o carro e abrindo a porta para se acomodar no interior frio e isolado do veículo, – ela pode, sim – completou baixo quando sentou ao seu lado, pensativo.

...

Quando chegou ao hotel, naquela noite, encontrou Char, a recepcionista, folheando a mesma revista dos últimos três ou dois dias e a cumprimentou, amaldiçoando os céus por ter sido visto com as calças e cabelos molhados. Seria difícil explicar de onde tinha vindo toda aquela água em um frio de -3° como o que estava fazendo naquele momento. Ele não poderia apenas ter saído para nadar.

– Oh, céus! – ela exclamou, saindo de trás do balcão. – Está chovendo! Tenho que fechar as janelas do escritório.

Saiu correndo antes que pudesse avisá-la de que aquilo era um mal entendido. Mas ele também não reclamou pela falta de perguntas e seguiu para o elevador, sentindo-se claustrofóbico da melhor maneira possível dentro daquele cubículo de ferro. Era até mesmo bom estar em um lugar tão iluminado, vazio e pequeno depois de passar mais de quatro horas em uma floresta escura que não parecia ter fim e ainda era repleta de psicopatas. O homem se sentia em um de seus livros de terror.

Quando a porta se abriu, dividindo-se em duas, ele percebeu que não era o seu andar. Do lado de fora, o corredor estava vazio. Ele esperou que alguém entrasse, mas aquilo não aconteceu. Aguardou que a porta voltasse a se fechar, mas também não foi uma expectativa que se concretizou. Tudo o que viu acontecer fora o piscar das luzes eclodindo de maneira calma. Sentiu o ar ficar mais frio e a chuva que Char tanto temia começar a cair do lado de fora do prédio, sendo acompanhada por um daqueles raios já característicos de Nothern Lake.

Fechou os olhos. Não era nada demais. Apenas um erro provocado por alguma falha, provavelmente culpa da chuva que caía há tanto tempo sobre a cidade que as coisas começaram a ficar comprometidas pelo estrago. Ele não podia estar sendo perseguido. Havia entregue o corpo à psicopata, do jeito que ela queria. O que mais o homem poderia oferecer?

Decidiu tomar coragem para olhar a extensão do corredor, dando pequenos e calmos passos até a direção da porta do elevador. As luzes tinham parado de piscar, mas não havia sinal de que fosse conseguir sair dali tão cedo, então colocou a cabeça para fora, olhando para o lado direito e vendo que ele estava vazio. Depois, sentindo cada célula do seu corpo tremer, ele olhou para o lado esquerdo. E quando parou, decidindo que voltaria para dentro do elevador e esperaria, um comichão atravessou a sua espinha.

Uma sensação apossou o corpo do escritor, e os pelos da sua nuca se arrepiaram com a certeza de que havia alguém atrás dele, dentro do elevador, parado às suas costas. Ele hesitou em se mover, fechando os olhos, pedindo silenciosamente para que estivesse ficando maluco. Pensou em sair correndo e não olhar para trás, mas, para onde iria? Sabia que seria perseguido. Sabia que não tinha escolha, que as escadas seriam uma opção pior ainda. Então, apenas se virou, recusando-se a ficar perto do que quer que fosse que estivesse ao seu lado. Ainda estava parado sobre a linha de ferro por onde a porta do elevador passava, sabendo que enquanto estivesse ali não seria abandonado pelo meio de transporte.

Quando se virou soltou a respiração presa dentro de seus pulmões de forma inconsciente, e olhou para as três paredes cobertas por espelhos. Não encontrou nada além do sentimento de loucura que já havia tomado a sua personalidade há um bom tempo, o que fez uma risada nervosa sair pela boca do escritor.

Ele zombou de si mesmo, chamando-se de covarde. E quando estava prestes a voltar para dentro do elevador, sentiu um tremor abaixo dos seus pés. As luzes piscando de novo. Os espelhos fazendo a própria imagem sumir e aparecer, sumir e aparecer, até que alguém estivesse junto com ele, atrás de si, rindo e rindo como se aquele fosse o momento mais engraçado do mundo.

– Senhor?

pulou, batendo a cabeça contra o espelho às suas costas. Respirava com tanta dificuldade que parecia perto de explodir. Suas mãos tateavam o ambiente ao seu redor em busca de reconhecimento, e ele só se concentrou no mundo real quando um par de olhos castanhos entraram em seu campo de visão.

– O senhor está bem?

A voz pertencia a uma garota de porte pequeno, alguns bons centímetros menor que o escritor. Ela usava um uniforme branco e azul, os cabelos presos com uma fita. a reconheceu no mesmo instante, lembrando-se do dia em que a camareira apareceu na porta do seu quarto de hotel. Horas depois encontrara um corpo em sua banheira.

não podia fugir, mas reprimiu-se contra a parede do elevador para se afastar dela. A menina tinha uma expressão preocupada e quase assustada, olhando-o como se esperasse que ele começasse a surtar de novo.

Aquilo não aconteceu, pois percebeu que havia adormecido enquanto o elevador subia todos aqueles andares. Os poucos segundos foram o suficiente para lhe proporcionar um dos piores pesadelos de sua vida, e deveria até mesmo ser grato à garota que o acordou para livrá-lo daquilo.

– Estou ótimo – respondeu. – Desculpe por isso, ando tendo alguns problemas de insônia.

Ela pareceu aliviada com a garantia do escritor, afastando-se, e só então viu que ela agarrava um lençol branco entre os braços, cruzando-os em frente ao peito.

– Tudo bem, eu nem deveria estar aqui, de qualquer jeito. O elevador dos funcionários está quebrado – explicou ela, virando-se para a porta e falando sem olhar para o escritor. – Mas eu prefiro ser demitida antes de usar aquelas escadas. Elas são escuras demais.

a observou sem dizer uma palavra. A menina não parecia ter medo enquanto descrevia o quanto as escadas poderiam ser ruins. Aquilo o confundiu tanto quanto o lembrou do faxineiro da rádio, o Sr. Cooper, que também tinha receio da escuridão.

– O que há de errado com o escuro? – perguntou, com medo da resposta.

A menina virou o rosto lentamente para ele, os olhos minimamente estreitos.

– Não se preocupe, . Nada vai te machucar enquanto for útil para nós – sorriu. A porta do elevador se abriu antes que ele pudesse processar a informação, e, em um minuto, a menina já não estava mais com ele.

...

Naquela noite, não conseguiu dormir. Portanto pegou um notebook emprestado do Hotel para realizar as mais bizarras e estranhas pesquisas na internet, sempre usando um navegador anônimo e olhando por sobre os ombros para ter certeza de que estava sozinho no grande salão que em seu funcionamento era o bar do local.

Todos estavam dormindo e o lugar estava fechado, mas Char confiava e era uma grande fã do escritor, portanto disse que, se ele quisesse, poderia se servir de qualquer bebida disponível nas prateleiras do local, e assim o fez, pegando uma garrafa do whisky mais barato e colocando um pouco em um copo com gelo. Precisava daquilo para se acalmar.

Passou horas procurando sobre truques da mente e personagens se tornando reais, mas tudo o que achou foram mágicos de programas de TV a cabo e livros da Cornelia Funke. Além disso havia teorias da conspiração sobre o governo norte-americano e documentários de extraterrestres. Nada que explicasse como as suas personagens haviam saído do seu livro para a vida real, e muito menos nada que explicasse o envolvimento de naquilo tudo.

Virou o copo com o liquido já sem gelo, sentindo a garganta queimar. Passou as mãos pelo cabelo bagunçado e estranhou o cheiro do sabonete do hotel. Queria a sua vida de volta; maldito fora o dia que reclamara do tédio na cabana, do comportamento mandão de Brian. Sentia falta de Rose, de sua filha. Naquele momento, bêbado e assustado, queria poder voltar no tempo e mudar tudo o que havia acontecido entre ele e a ex-mulher – não por ela, mas pela filha. Sentia muitas saudades dela.

Pegou o seu celular, passando os dedos sobre o visor empoeirado. havia dito que não tinha sido a responsável pelo seu sumiço, e ele sabia que muitas das psicopatas eram verdadeiras maníacas que poderiam fazer de tudo para causar a discórdia. Por que não colocariam o celular do escritor no carro da mulher, então?

Por outro lado, quando o perdeu a única pessoa por perto era . Mas, também, qual motivos teria ela para fazer aquilo? O que ela ganharia? Qual era a vantagem?

Ligou o aparelho quando viu que a bateria tinha sido carregada. Havia demorado um pouco porque não encontrara tomadas pelo salão e teve que usar o cabo USB para ligá-lo no notebook e aproveitar um pouco da energia. Mas ali estava, seu velho celular, o item que parecia ser o centro de toda aquela confusão.

Havia muitas notificações de suas redes sociais, o que quase fez o aparelho explodir. Ele tinha fãs e tudo mais, e com a notícia do incêndio e do sumiço, as pessoas tinham ficado preocupadas. deixou uma nota em sua página no Facebook para certificar que tudo estava bem e que ele só precisava de um tempo para reorganizar a sua vida. Depois, checou as ligações perdidas e as mensagens ignoradas, vendo que não havia nada prioritário, e partiu para o WhatsApp.

Havia uma mensagem de Rose que, de acordo com o relógio, tinha chegado há duas horas. Nela, leu a frase mais assustadora de sua vida. A única que provocou um medo tão avassalador, tão cruel e profundo que o homem não conseguiu fazer nada além de deixar o telefone cair no chão ao se levantar e correr para fora do Hotel.

Pela manhã, quando Char encontrou o notebook e a garrafa de whisky sobre uma das mesas do bar, quase pisou sobre o celular do escritor. Ele estava jogado no chão com o visor aceso na seguinte mensagem:

", eu preciso de sua ajuda! A nossa filha sumiu!"


07 – A Nossa Canibal Favorita

– Não, por favor, Chloe não. Não a minha filha!

Aquele foi o mantra que Raymond repetiu durante todo o trajeto percorrido por entre as estradas das montanhas. Não queria acreditar que algo tinha acontecido a Chloe, mas, no fundo, podia imaginar o cenário catastrófico de dor e desgraça que o aguardava quando chegasse à casa da ex-mulher.

Raymond não tinha a mínima ideia do que fazer, e aquilo era o pior de tudo. Quando entrasse no quarto da filha e visse que Chloe estava mesmo desaparecida, como começaria a procurá-la? Como convenceria Rose, sua ex, a não chamar a polícia? Como falaria das psicopatas? Como explicaria toda aquela confusão?

Tentou afastar essas preocupações enquanto dirigia, passando a amaldiçoar Sara Crawford e a sua mania de aparecer quando precisava do escritor e desaparecer quando o escritor precisava dela. Ernest não tinha como contatá-la, nunca tivera. Sempre fora a mulher que o procurou, então passou a esperar que alguma coisa a fizesse se materializar no banco de trás do seu carro.

Claro que aquilo não aconteceu.

Ao invés disso, Raymond dirigiu sozinho pela madrugada fria. Brigava com os faróis fracos do carro que havia alugado quando percebeu que não tinha mais Brian para ser seu motorista. Era estranho dirigir, fazer aquelas coisas normais. Havia contratado o agente para não precisar exercer atividades chatas ou até mesmo entrar em contato com outros seres humanos. A ironia era trágica.

Quando estacionou o carro em frente ao conjunto habitacional de paredes brancas e varandas de madeira, Raymond saltou de dentro do veículo com tanta pressa que o motor continuou ligado. A noite ali era bem mais calma e agradável, fazendo-o suar dentro de sua jaqueta. As montanhas haviam ficado para trás, e, com isso, o frio. Havia grilos e estrelas, também. Uma noite linda como ele nunca veria em Nothern Lake.

Raymond ainda se lembrava do esconderijo embaixo da terra do vaso sobre a janela, à esquerda da porta. Ernest cavou até que achasse o objeto prata e sujo, podendo então entrar na casa escura para subir as escadas de uma forma tão barulhenta e desesperada que não percebeu quando Rose se aproximou. O homem esbarrou nela, mas nenhum dos dois se machucou ou caiu. Apenas se entreolharam, os dois com os olhos arregalados. Até que Raymond segurou a ex-mulher pelos ombros de forma firme ao dizer:

– Eu vim o mais rápido que pude. O que aconteceu?

O escritor respirava de forma frenética. Rose não o respondeu de imediato e ele a chacoalha, ansioso.

– Raymond, o que está fazendo aqui? – Rose parecia assustada. De verdade. – Se esqueceu da ordem de restrição?

Ernest estreitou os olhos, confuso. Então os dois começaram a falar ao mesmo tempo. Rose o ameaçava de chamar a polícia, pedia para que saísse, tentava afastá-lo enquanto Raymond queria adentrar o corredor para ver a filha. Ele explicava que aquilo era maior que a droga da ordem de restrição e que ela corria perigo. Nenhum dos dois realmente escutava o outro, e tudo só parou quando a voz fina de Chloe soou pelo corredor:

– Papai?

Rose tentava conter Raymond ao segurá-lo pela jaqueta, mas o homem paralisou no momento em que viu a filha em meio à penumbra. Ele se ajoelhou e estendeu os braços, recebendo a criança em um aperto quase surreal. Ernest poderia chorar de alívio naquele momento, mas tremia demais e sua cabeça estava muito confusa para aquilo.

Então ele apenas agradeceu em sussurros desconexos pela segurança da filha, e Rose permaneceu em pé, olhando a cena de forma assustada. Era claro que achava que Raymond tinha enlouquecido de vez. Ou que estava bêbado. Provavelmente cogitava os dois. Mas o que realmente tornou tudo um caos foi o puxão que fez Ernest se afastar da filha.

O escritor levantou os olhos e, no meio do escuro, viu o rosto de um homem que deveria ter a mesma idade que Raymond. Então foi jogado contra a grade da escada, só não caindo porque manteve o equilíbrio. Chloe começou a chorar.

– Quem é você?! – perguntou Raymond, virando para quem havia o atacado.

A resposta foi adiada. Naquele momento, mais uma pessoa chegou. Ninguém havia notado que Raymond deixara a porta da casa aberta ao entrar, então Sara Crawford subiu os lances de escada durante a confusão sem que ninguém a visse.

E dessa vez foi Rose que perguntou:

– Quem é você?

Sara a olhou entediada. Mascava um chiclete de menta e tinha os cabelos em cachos, como Raymond nunca havia visto antes.

– Sou a agente de condicional dele – respondeu. Estava séria, mas Raymond não achou que fosse uma piada.

– Condicional? – Rose repetiu.

A pergunta, mesmo que retórica, não teve uma resposta. Raymond falou antes que Sara pudesse responder com propriedade, dirigindo-se ao homem que o afastou da filha e perguntando de uma maneira incrédula:

– Está dormindo com a minha esposa?

O outro apenas arregalou os olhos, reconhecendo a figura à sua frente.

– Você é Raymond Ernest?!

– Não sou mais a sua esposa! – esclareceu Rose, mas ninguém a escutava.

– Cara, sou um grande fã seu! – o homem se aproximou do escritor, mas parou quando Raymond pôde reagir.

– Ah, vai se foder! – Ernest amaldiçoou qualquer força maior que estivesse fazendo aquilo acontecer.

– Raymond, é melhor irmos – disse Sara, puxando-o escada abaixo.

O homem a seguiu, mas só depois de se despedir da filha e olhar feio uma última vez para o seu mais novo inimigo. Rose apenas continuou com aquele olhar assustado e a mão sobre a boca. Sara ainda parecia entediada, como se soubesse que aquilo iria acontecer.

Quando entraram no carro, Raymond não reclamou por estar no banco do passageiro.

– Ela está com outro cara – disse de forma robótica, olhando para o porta luvas.

Sara deu partida e rolou os olhos.

– Pelo amor de deus, tenha um pouco de amor próprio! Espere chegar em seu quarto de hotel para chorar.

– Eu não estou chorando!

– Não por fora.

Raymond abriu a porta do carro, que, felizmente, ainda estava se locomovendo lentamente. Sentia-se claustrofóbico ali dentro. Sara apenas riu e abaixou o vidro para poder gritar:

– Volte para o carro, Raymond! Não está em Nothern Lake. Vai ser assaltado.

– Não tenho muita coisa para levar.

– Verdade, e acabou de perder a sua dignidade também – riu.

Raymond se aproximou do carro e bateu com as mãos no capô, fazendo um estalo reverberar pelo automóvel e pela rua. Sara pulou no banco, seu sorriso se desfazendo. O escritor respirava com dificuldade, os largos ombros subindo e descendo à medida em que ele se preparava para dizer:

– Qual é o seu problema?! Eu pensei que a minha filha tinha sido sequestrada por uma das suas psicopatas malucas, mas quando chego aqui, ela está bem e eu quase tenho que bater no idiota que está transando com a minha mulher! O que queria que eu fizesse? Sentasse e tomasse um chá com ele? Vá para o inferno!

Deu um chute no carro, mas Sara não ligou, porque não era o seu, de qualquer jeito. Apenas observou enquanto Raymond se afastava, ainda furioso, e desceu do veículo também. Seguiu-o até alcançá-lo.

Suas psicopatas – corrigiu. – E ex-mulher. Aceite isso.

– Por favor, me deixe em paz – ele pediu, nunca parando de andar.

Sara interrompeu o passo e o fez parar ao segurá-lo pelo braço. Olhou-o de uma forma diferente de todas as outras. Parecia... Orgulhosa. Talvez admirada. Provavelmente confusa a respeito o escritor.

– O que foi? – ele perguntou.

– Você é um bom homem, Raymond Ernest. Não deixe que elas tirem isso de você – foi o que disse.

...

Scarlet, a xerife da cidade, não deixaria a situação na casa de Rose passar, Raymond sabia. Tinha plena certeza de que teria problemas assim que pisasse em Nothern Lake, mas não imaginou que seria de uma forma tão peculiar.

Em um minuto, estava sentado no seu carro alugado, voltando para a sua cidade entre montanhas. Sara dirigia, quieta, e o escritor caía no sono a cada segundo, lembrando-se de que já não dormia há algumas boas horas.

E então ele apagou. Deixou-se levar pelo cansaço, por tudo, e quando acordou já não estava mais no carro. Já não tinha Sara por perto. Já não sabia mais o que estava acontecendo.

A única coisa que sabia era que conhecia o lugar que o cercava. Cada pequeno detalhe dele era familiar, afinal passou muito tempo ali. O banco em que estava sentado quase poderia ter o seu nome escrito nele.

Raymond estava na delegacia.

Policiais de fardas cor bege passavam, ocupados, e não prestavam atenção no escritor. Ele se sentiu perdido. O que tinha acontecido? Por que não se lembrava? Onde estava Sara?

Estava prestes a se levantar e procurar respostas em seu quarto de hotel quando a porta do outro lado do corredor se abriu. Raymond parou no lugar e viu Scarlet sair da sua sala e cruzar os braços, o sorriso nos lábios pintados de um tom claro de vermelho o assombrando.

Estava com problemas.

– Onde pensa que vai? – ela perguntou.

– Eu só ia beber água.

– Entre.

Raymond bufou, cansado, mas a mulher levantou uma sobrancelha para ele e o escritor cedeu, seguindo-a para dentro da sala. Assim que ela sentou atrás de sua mesa organizada Ernest sentiu que, dessa vez, o seu sonambulismo realmente o havia colocado em problemas.

– Por que desrespeitou a ordem de restrição? – Scarlet perguntou, séria, mas entediada. – Não está se ajudando muito, Ernest.

– Recebi uma mensagem no meu celular – ele resolveu ser honesto. – De Rose. Ela dizia que Chloe havia sumido, então eu não pensei duas vezes antes de correr até lá.

Scarlet o olhou desconfiada.

– Posso ver essa mensagem?

Raymond fez que sim com a cabeça, procurando pelo aparelho nos bolsos. Não o encontrou e notou que o tinha deixado no bar do hotel, quando recebeu a mensagem e saiu desesperado. Mas era claro que Scarlet não acreditaria naquilo.

– Não está comigo.

– Ah, não está? – levantou a sobrancelha outra vez. – Rose disse que não mandou mensagem alguma.

– Falou com ela? – o homem perguntou. Quanto tempo havia se passado desde que tudo aconteceu?

– Sim, Raymond. Ela me ligou assustada com a sua invasão durante a madrugada. Disse que levou uma mulher com você – e então semicerrou os olhos. – Ainda bebe como antes? Estava com uma prostituta?

– Sim, eu bebo, e não, não era uma prostituta – respondeu, abismado com o quanto ela era intrometida. – Independente disso, eu tenho a prova no meu celular. Vá até o hotel e ache-o, no bar. Encontrará a mensagem de Rose por lá.

Scarlet estava com as pernas cruzadas e uma caneta na mão. Girou em sua cadeira almofadada por alguns segundos, em silêncio, até que arrumou a postura, se aproximou da mesa, e falou:

– Não será preciso. Rose não quis prestar queixa, ela só ficou preocupada. Vá para o seu quarto de hotel e evite arrumar mais problemas.

Raymond ficou bravo por alguns momentos. Tudo aquilo era pura curiosidade de Scarlet? Se ela não iria prendê-lo, o interrogatório fora apenas um meio da mulher se divertir com o psicológico quebrado do escritor. Era um absurdo.

Por outro lado, pensar que Rose tinha relevado o que tinha acontecido e que Chloe estava bem fez toda a raiva em seu coração dissipar. Ele apenas levantou da cadeira em que estava e andou até a porta da saída, parando quase no corredor para se virar e perguntar:

– E o assassino de Brian? Algum suspeito?

– Ainda estamos investigando. É confidencial. Até mais.

Ele concordou com a cabeça e saiu. Do lado de fora, ainda havia algumas pessoas pelo corredor, mas, ao contrário da última vez, ninguém parecia notar a sua presença. A cidade virara um caos com a tempestade que nunca parecia querer ir embora. Os policiais tinham muita coisa com o que se preocupar, sempre ajudando o corpo de bombeiros a organizar e manter a cidade segura. Talvez Scarlet o tivesse livrado daquela por ter coisa maior para lidar.

Raymond voltou para o hotel e notou que já era noite. Quando perguntou para Char, a dona do hotel, sobre o seu celular, ela entregou o aparelho ao homem e perguntou se estava tudo bem com Chloe.

– Foi só um mal entendido – disse ele, aliviado.

– Bom – a mulher concordou. – Não queremos que mais ninguém se machuque, não é?

E naquele momento o homem sentiu um calafrio subir pela sua espinha. Char o olhava de forma fixa, os olhos azuis presos nos seus como se a coisa mais interessante do mundo estivesse ali. E ele sabia que ela apenas queria anotar cada traço da sua expressão assustada – se divertiria muito com aquilo.

– Você... – ele começou, mas foi interrompido.

– Não se preocupe, Raymond. Nada acontecerá à você e à sua família enquanto ainda for útil para nós – ela o cortou, sorrindo, e o escritor engoliu a seco.

...

Raymond Ernest andava de um lado para o outro dentro de seu quarto de hotel. Passava as mãos pelos cabelos já grandes demais – ele não poderia pensar em cortes naquele momento – e respirava de uma forma tão pesada que Sara não pôde deixar de se preocupar.

Ele estava prestes a ter um ataque cardíaco?

– Tudo bem, então sabemos quem matou a garota da banheira – Crawford concluiu. Parecia ter achado um ponto positivo na suspeita de Raymond sobre Char ser uma das sete psicopatas.

– Mas e a camareira? – ele retrucou. – Ela me disse a mesma coisa. É uma psicopata também? Não é possível que estejam todas aqui!

– Tudo bem, então não sabemos que matou a garota do banheiro – ela se jogou contra o encosto do sofá, observando o nervosismo no escritor e rindo.

– Qual é a graça? – ele parou.

Sara esperou um pouco para responder, como se estivesse organizando coisas dentro de sua mente.

– Elas estão... Protegendo você – disse, parecendo pensar em algo.

– Isso é proteção?! – repetiu o homem, indignado. – Parece tortura psicológica!

– Pense bem, Raymond... – ela começou, levantando-se. – Primeiro, a sua cabana. Todo mundo sabe que aquela floresta não é segura. O incêndio aconteceu enquanto você estava fora, então elas não queriam te matar. Apenas te tirar de lá.

– Não podiam mandar uma carta? Um aviso?

– E também teve Brian – continuou ela, ignorando-o. – Brian era paranoico e extremamente chato. Queria te arrastar para diversas entrevistas e sempre te pressionava sobre o andamento dos livros e o modo como você levava a sua vida.

– Sim, mas ele era o meu agente! – rebateu. – Era, basicamente, o trabalho dele.

– Não importa. Elas sentiram que Brian era uma ameaça.

Raymond não entendia onde ela queria chegar com aquilo.

– Tudo bem. E a minha filha? Qual a sua explicação para que elas me fizessem passar por louco?

Sara pareceu pensar um pouco.

– Talvez Chloe tenha mesmo sumido.

Ele revirou os olhos.

– E aquela criança na casa da minha ex-mulher é quem, Sara? Um alien?

Crawford fez que sim com a cabeça, séria. Então o escritor abriu a boca para dizer o quão absurdo aquilo era e a mulher riu.

– Psicopata com poderes psíquicos, lembra? Chloe sumiu, Rose te mandou a mensagem. As psicopatas a acharam e a levaram de volta para casa e fizeram sua ex pensar que a menina nunca tinha saído.

Quando Sara terminou de explicar, Raymond processou tudo por longos minutos. Aquela seria uma das muitas explicações plausíveis para a confusão com as mensagens de texto e todo o resto, mas, ainda assim, ele sabia, algo não fazia sentido. Por que as psicopatas o infernizariam tanto, o fariam ter pesadelos, se no fundo queriam protegê-lo? E por quê? O que elas ganhariam mantendo-o vivo?

Até onde Raymond sabia, ele era uma ameaça. Assim como Sara. O escritor era o único que poderia achar Lynch, o seu personagem com dons para tirar e colocar pessoas dentro e fora de livros. Se as psicopatas o matassem, Lynch nunca seria encontrado e as sete poderiam andar por aí o resto de suas vidas, matando pessoas e agindo como se fossem reais.

Por que não o matavam logo?

– Bem – começou Raymond, decidido. – Precisamos ter certeza de que é isso mesmo o que elas estão fazendo.

Sara concordou. Então se levantou do sofá, pegou a sua jaqueta vermelha e disse:

– Venha – foi até a saída do quarto. – Precisamos encontrar a nossa psicopata canibal favorita e fazer algumas perguntas.

...

Raymond e Sara estavam na sala de exames da mesma clínica veterinária que visitaram quando carregavam o corpo deixado por uma das psicopatas no quarto de hotel de Raymond. Agora, porém, o dono do lugar – um veterinário que, por algum motivo, sabia dizer as causas da morte da menina – não estava presente. Eram apenas Sara Crawford, Raymond Ernest é Carmen Holland. A sós.

O escritor e a mulher misteriosa estavam de um lado do balcão de exames, a psicopata do outro. Carmen os olhava com um sorriso fresco nos lábios e os olhos cheios de uma malícia que só era vista em crianças encrenqueiras.

– Apenas responda – disse Sara.

Raymond não sabia como ela tinha coragem de falar com Carmen daquele jeito. Toda vez que o homem ficava no mesmo ambiente que ela, apesar de fugir de suas carícias e toques, Raymond tentava soar agradável. Não queria vê-la irritada.

– Eu não sei – a número cinco deu de ombros. Parecia estar sendo sincera. – Não faço mais parte do Clube das Psicopatas Anônimas. É impossível saber o que estão querendo ao proteger Ray.

Ernest fechou os olhos, como se estivesse sentindo dor. Não era possível que ela havia mesmo inventado um apelido para ele.

– Então você não sabe de nada? – pressionou Sara, séria.

– Não – confirmou Carmen.

Sara suspirou e se virou para Raymond. Ele a olhava com a expressão de alguém que busca respostas divinas em lugares obscuros: sem esperança. No que haviam se metido?

– Temos que encontrar Lynch e acabar logo com isso – disse a mulher. – Ele é a nossa única esperança.

– Quem é Lynch? – perguntou Carmen.

– Não é da sua conta – respondeu Sara.

Carmen revirou os olhos.

– Ela não quis ofender – completou Raymond.

Crawford puxou o escritor para fora do lugar, adentrando o beco e entrando no carro alugado de Raymond sem dizer uma palavra. Seus ombros estavam tensos e seus olhos fixos nas ações que exercia. Era quase como se evitasse olhá-lo.

– Podemos tentar falar com Char – disse o escritor. – Ela sempre foi minha amiga. Talvez, como Carmen, tenha mudado.

– Duvido disso.

– Então o que vamos fazer?

Sara suspirou e apoiou os braços no volante.

– Vamos visitar o hospício de onde as suas sete psicopatas saíram. Assim como elas, o lugar agora também é real.

08 – O Anjo no Meio do Inferno

Quando e pasm pela porta de entrada, olhares se voltaram para eles. Toda a imensidão branca encardida, os funcionários em uniformes e os pacientes sendo movimentados pararam o que estava fazendo para encarar o escritor e a mulher misteriosa. Os dois esperaram palavras, explicações ou gritos, mas nada veio. Tudo o que restou foi a confusão do porquê de tal recepção.

foi a primeira a balançar a cabeça e voltar a se movimentar. Ela andou até o balcão principal e pediu para que não a acompanhasse. Quando falou com a recepcionista, o escritor percebeu que ela, em certo momento, apontou para ele com a cabeça, e foi só então que a outra cedeu. Levantou-se de seu banco, deu a volta e parou ao lado de , mandando-a acompanhá-la. as seguiu sem ser convidado, curioso.

– Como ficaram sabendo disso?

Estavam no fim de um corredor quando a recepcionista fez aquela pergunta. Na etiqueta presa do lado esquerdo de seu uniforme, leu "Vivian Earles" e percebeu que ela também era uma das personagens de seu livro, porém, ao contrário das psicopatas, era inofensiva, sendo apenas uma coadjuvante.

– Apenas sabemos – respondeu , com um sorriso presunçoso.

acordou de seu transe e balançou a cabeça. , confiante ao seu lado, era um contraste quase alarmante da confusão presente na postura e nos trejeitos do escritor. Algo que foi quase motivo de risada quando ele perguntou:

– Sabemos do quê?

– De que sete pacientes sumiram deste hospital – respondeu como se contasse com aquela pergunta.

Vivian olhou-os encabulada, como se estivesse sob algum tipo de ameaça.

– Eram sete das piores psicopatas que tínhamos aqui e a polícia quis manter isso em segredo – fez o sinal da cruz, pronunciando um "amém". – Ninguém queria pânico.

Só então deixou cair as fichas que diziam que as coisas estavam indo muito diferente dos livros. Ele não se lembrava de deixá-las fugir em algum momento. Preferiu matá-las a permitir que aquilo acontecesse. Mesmo na ficção, tinha medo do estrago que poderiam causar.

Aquilo o assustava, porque mostrava o quão fora de controle as coisas andavam. Se o roteiro do livro estava se modificando, o que mais poderia acontecer?

entrou em desespero.

– Vocês deveriam contar! – pestanejou o escritor, agitado. – As pessoas poderiam se proteger, evitar sair sozinhas. Esconder não ajuda em nada! O que tinham na cabeça?!

arregalou os olhos diante do surto do amigo, e Vivian pareceu se sentir culpada. Provavelmente pensava em todas as pessoas que tinham morrido por causa das fugitivas, no que poderia ter feito para evitar que as tragédias acontecessem. achava que com um alarde, com o aviso de que estavam por aí e eram perigosas, as pessoas poderiam se proteger.

, apesar de concordar com em alguns pontos, não queria que aquilo acontecesse. Se a situação com as psicopatas virasse assunto internacional, seria muito mais difícil de alcançá-las. precisava delas acessíveis para mandá-las de volta para o livro de .

– Sr. , – começou Vivian. Ela tremia embaixo de suas palavras, – se alguma daquelas psicopatas quiser matar alguém, nada, nem prevenção e nem companhia, as impediriam.

Aquilo fez ficar sem respostas. Ele engoliu em seco e nem ao menos conseguiu se mexer quando e Vivian voltaram a andar pelo corredor. O homem ficou estático, pensando no que aquilo significava para a própria segurança e a da sua família, e as outras pasm por uma porta logo no fim do caminho, que se dividia em duas partes e tinha uma placa escrita "Ala C" em prata logo acima. Sozinho no corredor, olhou por cima dos ombros e percebeu a locomoção no salão de entrada.

Se fechasse os olhos e se concentrasse, poderia escutar o som dos gemidos e dos gritos dos pacientes nos quartos ao redor. pesqui muito sobre manicômios quando começara a escrever o seu livro, portanto tinha uma ideia do tratamento e das perversidades pelas quais os pacientes passavam, mas, aquilo... Aquilo era o Instituto Robert Ryan. O lugar que, nascido da parte mais perversa de sua mente, fora a casa das suas setes psicopatas, o lugar onde tudo era movido a extremidades cruéis.

Se você tivesse que criar um lugar para abrigar alguns dos piores demônios, então ele deveria ser o próprio inferno. O Instituto Robert Ryan certamente era.

Alguém passou e esbarrou em seu ombro, fazendo acordar. Ele piscou, respirou fundo e seguiu pela porta em que Vivian e haviam passado, mas não as encontrou, nem mesmo depois de uma rápida busca. Aquilo era horrível, porque ele nem ao menos sabia o que queria ali. conhecia aquele lugar melhor do que ninguém, caso precisasse ir sozinho ao destino da ação, mas o problema era que, como sempre, não havia lhe dito o motivo de fazer o que fazia.

Sem rumo, o escritor andou pelos corredores, esperando que a mulher voltasse para buscá-lo. Parecia uma criança perdida da mãe no meio do mercado – o que era humilhante, mas não surpreendente –, e aquilo o motivou a apenas continuar andando. Em um minuto, estava tão longe da saída que ele duvidou que, se não tivesse desenhado aquele hospital diversas vezes, teria se perdido.

E, bem, ele se perdeu.

Uma das coisas mais importantes sobre o Instituto Robert Ryan era que ele tinha duas alas exatamente iguais, e, então, altamente fáceis de se confundir. Principalmente quando elas se encontravam e você passava de uma para outra sem nem notar. pensou que, por ter sido o homem a projetar o prédio, aquilo não aconteceria consigo. Mas aconteceu. E em um minuto ele se via sem saber onde estava, perdido e ainda procurando por indícios da presença de .

– Senhor? – ouviu uma voz fina às suas costas. Ele se virou e encontrou uma funcionária o encarando. – Não pode estar aqui. É uma área restrita.

A mulher deveria ter uns vinte anos, e não parecia pertencer àquele lugar. Sem precisar nem ao menos ler o seu nome na etiqueta, reconheceu quem ela era: Diana Roberts, mais uma de suas personagens de alma pura. Longe das psicopatas, Diana era, na verdade, o único ser literário pelo qual o homem se apaixonara.

Ela era gentil, bondosa e nascera na história para dar contraste a todo o mal e a perversidade do enredo. A única funcionária do Instituto Robert Ryan que não encostava o dedo em ninguém e que, além de tudo, ajudava quando via algo fora dos limites humanos. No livro, Diana morreu no incêndio. As psicopatas não a pouparam.

– D-desculpe – gaguejou o escritor, ainda atordoado por vê-la.

Diana tinha o semblante preocupado quando se aproximou, tocando o seu ombro para levá-lo de volta ao lugar de onde veio. No caminho, não conseguiu parar de encará-la, muito menos de notar o quão fiel à sua imaginação a mulher era. Seus cabelos extremamente negros e pele clara se destacariam em qualquer lugar. Diana parecia um anjo.

– Por favor, não diga a ninguém que veio até aqui – pediu a mulher, puxando-o pelas escadas. nem ao menos havia percebido que, em algum momento, estivera descendo degraus.

– Não direi – ele concordou. – Mas por qual motivo não posso ir até lá?

O escritor sabia a resposta, mas queria ouvi-la falar. As suas dúvidas sobre o quão fiel ao seu livro as coisas naquele lugar eram praticamente gritaram dentro de sua cabeça. Se estivesse certo, em algum lugar, naquele momento, uma pobre alma sofria torturas.

– Porque há segredos aqui, senhor, e nós temos que mantê-los guardados. Se souberem que foi até lá, eles podem...

– Diana, para onde está levando este homem?

e Roberts viraram o rosto para a mulher que se aproximou. Ela parecia ter pelo menos cinquenta anos e a incapacidade de passar batom, o que resultava em lábios manchados de vermelho apenas em algumas partes. Tinha a expressão dura e, como com as outras, a reconheceu como a inspetora do hospital – uma das piores e mais cruéis personagens do livro.

– Ele... hm... Não é...

– Oh, céus, Diana – ela reclamou. – Você não pode andar com pacientes pelo corredor! São perigosos. Quem é este? Não me recordo. Novo aqui?

Parou à frente de , o examinando. Ele era bem mais alto do que ela e aquilo fez com que a mulher tivesse que ficar na ponta dos pés, seu nariz o farejando como se fosse um cachorro.

– Eu... – ele começou, mas ela o interrompeu.

– Esses pacientes estão ficando cada vez mais jovens – se afastou. – Que desperdício, um homem tão bonito! Leve-o daqui, precisaremos de você no refeitório, para o almoço.

E se afastou, sem dar a eles a chance de responder. , apesar de ter ficado desesperado, com medo de ser descoberto ou internado por engano, começou a rir. Diana o olhou surpresa, mas, em alguns segundos, riu também.

– Ela é sempre assim? – perguntou ele, como se não soubesse. Na verdade, quando escrevia sobre ela, a inspetora não parecia tão insuportável.

– O tempo todo – Diana concordou, divertida. – Eu acho que esqueceram de colocar um botão de "pare" nela!

– Vou me lembrar disso da próxima vez – comentou , mas apesar de Diana claramente não entender a referência, ela riu. – Obrigado por não me entregar. Não queria me meter em encrencas.

Diana concordou com a cabeça.

– Sem problemas. Eu também me perco aqui, de vez em quando. Esse hospital é muito... Assustador.

Começaram a andar, dessa vez mais tranquilos. Estavam perto da saída, e sabia daquilo porque, a cada segundo, o ar ficava mais fresco, como se uma janela tivesse sido aberta. Ele andou ao lado de Diana e fez perguntas para as quais já sabia as respostas – afinal fora o seu criador – apenas para ouvir sua voz e o modo como ela ria.

Quando chegaram ao salão de entrada, pararam em frente ao balcão de Vivian, que estava vazio, e se olharam em silêncio.

– O que veio fazer aqui? – Diana finalmente perguntou. – No hospital, digo. O motivo de ter se perdido.

mordeu o lábio inferior. Toda a descontração antes presente se esvaiu e seus ombros ficaram tensos. Ele não poderia falar das psicopatas e soar ameaçador, como fora com Vivian. Por algum motivo, se importava com o que Diana pensaria dele. Não queria assustá-la.

– Estou acompanhando uma amiga em uma visita – disse. – Mas me perdi dela em algum momento.

Diana concordou com a cabeça

– É mais frequente do que pensa – confortou.

Naquele momento surgiu no corredor, passando pela mesma porta que fizera se perder dela. A mulher não estava acompanhada de Vivian, porém, e ignorou completamente o escritor ao passar os olhos pelo salão, seguindo para a porta de saída sem demonstrar qualquer tipo de reação.

sentiu que algo havia acontecido e, apesar de não querer, despediu-se de Diana.

– Espera! – ela o chamou, fazendo-o parar a apenas dois passos de distância. – Você não me disse o seu nome.

pensou um pouco, ponderando suas respostas. Não achava que era uma boa ideia gritar o seu verdadeiro nome naquele lugar. Era como se o homem fosse um alvo, além de que, caso soubessem quem ele era, nunca poderia prever a reação de todos aqueles personagens reunidos em um único lugar.

Por outro lado, ele também não queria mentir para Diana.

– Eu volto para te dizer, ok? – sorriu, vendo-a, apesar de confusa, rir também. – Tenha um bom dia!

Então saiu, passando pela porta de vidro do salão de entrada e encontrando o carro que trouxera ele e parado no mesmo lugar que haviam deixado. A mulher, porém, não estava lá dentro, e aquilo o fez questionar a própria sanidade, porque tinha certeza de que a havia visto saindo do hospital.

Lembrando-se da última vez que encontrara um carro vazio, se afastou e começou a vasculhar o estacionamento com os olhos castanhos. Não encontrou , mas várias evidências de que outra parte da tempestade que assombrava Nothern Lake estava se aproximando apareceram. Nuvens escuras de repente tomaram o céu, e o que antes estava claro passou a ser cinza.

– Vejo que conheceu o seu grande amor – a voz de zombou às suas costas.

não pôde conter o pulo que o susto causou, fazendo rir.

– Droga, , eu achei que estava morta, como Brian! – ele pestanejou.

– Não ainda, . Só fui checar uma coisa.

– O quê? – peguntou, curioso, dando a volta para sentar no banco do passageiro.

assumiria a direção, porque era a única que sabia os destinos da dupla com antecedência.

– Nada para se preocupar – respondeu, levantando os olhos acinzentados para o céu.

Agora também ventava, e folhas espalhavam-se pelo chão. De repente os dois sentiam calafrios subirem pelas suas costas, tomando o coração de ambos como um mau pressentimento, quase uma premonição. Algo ruim se aproximava.

– Entre no carro – ordenou, um tanto trêmulo, e os dois se isolaram no veículo.

Assim que entraram um raio estalou, caindo numa floresta próxima. pulou no banco com o barulho extremamente alto, fechou os olhos por causa do flash de luz. Quando passou, os dois se entreolharam.

– Isso não pode ter relação com qualquer uma delas, pode? – perguntou .

Era impossível que uma tempestade fosse causada por um personagem de um livro de terror. Nenhuma delas tinha aquele tipo de poder.

– O que você acha que criou, , um X-Man? – rebateu. Parecia achar todas as deduções de tolas. – Quando vai aparecer o homem com as garras?

– Eu não estou brincando! – o escritor rebateu. – Se elas podem arremessar carros e controlar mentes, o que mais são capazes de fazer?!

– Não isso! – e parecia óbvio demais para ela. – É só uma tempestade, ! Nothern Lake sempre teve várias delas. Vamos para o Hotel, onde é seguro.

– Eu não apostaria nisso – foi o que ele disse, cruzando os braços e afundando no banco. – Charlotte é uma psicopata, lembra? Não é nada seguro por lá.

bufou, batendo os dedos no volante. Depois daquela breve discussão, ambos estavam exaltados, desesperados e sem ter a mínima pista do que se era certo fazer. Foi naquilo que pensou quando teve a ideia que se seguiu, pensando em como estava tão encrencado como ela; em como os dois tinham se metido naquilo juntos.

– Então você vai para a minha casa – disse. – Lá é seguro, conversaremos e veremos o que é melhor. Não podemos nos separar com essa tempestade chegando, ela deixa tudo mais escuro que o normal e as sombras são muito perigosas.

concordou, aliviado internamente. Não queria voltar ao hotel depois do incidente no elevador, depois de descobrir que Charlotte era uma das psicopatas. Além de tudo, daquele jeito conheceria um pouco mais de ; saberia onde ela vivia e, talvez, alguns de seus segredos pudessem ser revelados.

Então, decididos, deu partida com o carro, e os dois seguiram pela estrada dentro das montanhas por alguns minutos antes de alcançar o destino almejado.

Chegaram no exato momento em que a chuva começou a cair.



Continua...

Nota da Autora: Oi! Espero que tenham gostado do capítulo.
O que estão achando das psicopatas? Eu fiz um vídeo super legal com os nomes e as apresentações delas. É só conferir aqui.
Qualquer coisa você pode surtar comigo pela ask, no twitter ou no grupo do Facebook ❤.
Beijão.

Confira outras fics da Andy.

Nota da Beta: AAAAAAAAAAAAAAAAAH
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.