Autora: Andy R. | Beta: Babs | Capista: Belle



Capítulos:
| 01 | 02 | 03 | 04 | 05 | 06 | 07 | 08 | 09 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14.1 | 14.2 | Epílogo |

Prólogo

Sinceramente, não sou muito boa contando histórias, então, não sei bem como começar isso. Acho que vou apenas contar os fatos e esperar que você entenda o que quero dizer. Se ficar complicado, você pode, talvez, pular algumas páginas, ou desistir completamente de mim. Eu provavelmente não vou me importar. Até porquê, é apenas uma história aleatória e, com certeza, devem existir outras melhores por aí.
A questão é que encontrei esse caderno há alguns dias, e estou pensando no que fazer com ele desde então. Tenho muita coisa para contar, e talvez você não tenha interesse, mas, se eu morrer sabendo que ninguém nunca vai ter conhecimento do que aconteceu aqui, provavelmente não terei paz na morte. E, acredite, eu preciso muito disso.
Bem, nesses últimos meses, algumas coisas aconteceram na minha vida. Como, por exemplo: Meu seriado preferido chegou ao fim; levei uma multa por ultrapassar a velocidade permitida, briguei com a minha melhor amiga, a bolsa de valores aumentou e um apocalipse zumbi começou no Sul da África.
Sim, sim, é uma ideia ultrapassada, mas é real. Chegou ao Brasil há alguns meses e vem sendo um inferno desde então.
Agora, se estiver disposto, pode imaginar cenas aleatórias de sangue e correria; hospitais lotados e cientistas em laboratórios procurando por curas. Isso é um resumo básico do que vem acontecendo aqui e, provavelmente, no mundo inteiro. E eu sei que não tenho conhecimento suficiente para dizer alguma coisa a respeito, mas, na minha humilde opinião: acho que estamos todos perdidos.
Provavelmente até os mais esperançosos médicos perceberam isso quando velhinhas começaram a comer criancinhas em parques de diversão. Ou quando, no meio de um programa de auditório ao vivo, o cara da iluminação mordeu o braço do apresentador e todos se chocaram com sua aparência doentia.
Olha, acho que vou ser um pouco mais direta com você, pois meu tempo está acabando e logo, provavelmente, estarei morta. Você pode até se sentar, se quiser. Colocar os óculos, ou procurar um lugar confortável, porque, não vou mentir: é uma longa história.
Meu nome é . Tenho 23 anos e moro no 31° andar de um edifício chamado Saturday Diamond, no centro de São Paulo. E, bem... As coisas tem sido um pouco difíceis, se quer saber. E eu não estou falando somente do apocalipse que, nos últimos tempos, tem sido realmente um saco. Estou falando em como é ruim ser uma sobrevivente.
Sério, você não sabe como é péssimo quando todos os seus vizinhos querem comer a sua carne. Não faz ideia de como é chato ficar sem água, ou não poder ligar um rádio. Também é horrível não ter luz, e pior ainda usar velas.
Mas, como eu disse, não são só essas coisas que me incomodam. Existe outra - uma que pode parecer besteira para você, mas para mim é extremamente grave: O fato de eu ser vizinha de um dos últimos seres humanos ainda vivos na terra.
Sim, você deve achar que sou louca, afinal, encontrei alguém vivo no meio de todos esses zumbis meio mortos e estou reclamando. Mas, não é bom, acredite em mim. Não é nada bom quando, para o meu eterno azar, a pessoa em questão se chama e tem o péssimo hábito de ser meu ex-marido.
Sim, sim... Eu tenho só 23 anos e já consegui um ex-marido. Mas você não deveria me julgar: são coisas da vida. Se você soubesse o que aconteceu, até acho que, provavelmente, riria - ou choraria - junto comigo.
Mas, com o mundo do jeito que está, o recente divórcio/casamento é a última coisa com que me preocupo.
Olha, vou adiantar mais ainda as coisas para você... Como disse antes, estou ficando sem tempo, então, começarei a contar a história a partir de certo ponto. E você pode me agradecer por te poupar dos três primeiros meses que fiquei presa à deriva, no meu apartamento, com um tédio extremo e muito, muito medo. Porque, agora que já me acostumei com a situação, será muito mais fácil - pelo menos para você -, me suportar durante as próximas linhas. (Sério, confie em mim: Todos esses seriados e filmes de zumbis que você assiste começam depois do início do apocalipse por um motivo: Sobreviventes são chatos e melancólicos demais. Nem os roteiristas aguentam.)
Onde eu tava? Ah, sim... Na parte que eu já me acostumei com a ideia da morte (Lê-se: apocalipse. É a mesma coisa... não é?), e não tenho mais medo dela. Sério, acho até que sou bem otimista em relação a esse fato: Tenho uma mente aberta e sempre imagino formas diferentes de morrer.
Sim, isso é otimismo; não me julgue. É otimismo quando se está no meio do fim do mundo e seu único futuro certo é virar uma criatura moribunda que come cérebros e mata seus próprios pais. Sim, é otimismo pensar em morrer de verdade ao invés de morrer pela metade, se é que isso faz sentido.
E, pulando aqueles três meses, posso contar qual é a minha maior preocupação quando o quarto mês finalmente chega. Posso fechar os olhos e me imaginar naquela situação. E posso dizer que a coisa que mais me preocupava, naquele momento, era o zumbi parado no meio da minha sala de estar. O que mais me preocupava, naquele momento, era o modo como a saliva suja da boca sem vida dele pingava no meu tapete novo. O que me preocupava, naquele momento, era o fato de eu estar atrás de uma porta de vidro extremamente fina, e aquilo ser a única coisa que me separava dele.
É, parece que eu tinha mesmo muita coisa com o que me preocupar. Principalmente quando ele começa a andar em minha direção.
Sabe, apesar de parecer aterrorizante e tal, eu consigo reviver aquele momento. Para falar a verdade, consigo sentir cada segundo dele, por que foi quando tudo mudou.



Capítulo 1

When you see my face,
Hope it gives you hell, hope it gives you hell.
When you walk my way,
Hope it gives you hell, hope it gives you hell.

É 1° de março, e estou na sacada do meu apartamento.
E você pode dizer que foi burrice da minha parte vir para cá, mas, foi o meu primeiro pensamento. Até porquê, aposto que você também correria para a sacada arejada de seu apartamento caso acordasse com um zumbi a menos de três passos de distância, xeretando suas coisas e farejando seu cheiro.
Se bem que, se formos avaliar, não é tão ruim. Na pior das hipóteses, posso me jogar daqui de cima e escolher uma morte aventureira e dramática ao invés de ser mordida ou ter o cérebro arrancado.
Sim, sim, gosto de mentir para mim mesma. Até porquê, olhando lá para baixo, - para os 30 andares que estão debaixo dos meus pés -, esse pensamento não me reconforta. Não me conforta estar desesperada e sem nenhuma ideia do que fazer. Não me conforta o modo como o zumbi nojento anda até a mim, arrastando-se e deixando pegadas no meu chão recém-lustrado. Não me conforta o barulho que escuto à minha esquerda.
E, com certeza, não me conforta a visão de chamando a minha atenção.
Sim, aquele é o meu ex-marido. Mas, podemos pular as apresentações, sim? Sério mesmo, não faço a menor questão de falar qualquer coisa sobre ele. Nada pessoal, de verdade. Afinal, não é como se eu não quisesse falar da minha vida amorosa pra você – sei que uma hora isso vai vir à tona – mas, sinceramente, quero adiar o máximo possível a entrada dele nessa história.
Bem, voltando... Vamos reavaliar comigo: Estou trancada do lado de fora da minha sacada. E tenho, aparentemente, três opções: Posso pular e morrer; posso esperar que o zumbi me mate ou, o que parece a pior para mim, posso aceitar a ajuda de .
É muita pressão, sério. Mais do que quando você tem que escolher uma música preferida ou um sabor de sorvete. Bem, sorvete não me salvaria naquele momento, então, mudo minha atenção para , que está oferecendo a mão para que eu pule para o seu lado.
Um zumbi está batendo contra a porta de vidro da minha sacada e, tudo o que eu consigo pensar é em como eu ficaria atirada contra o asfalto sujo da rua lá em baixo. E, pensando bem, acho que foi essa minha imagem morta que fez com que eu andasse até o limite da sacada e pulasse dela.
Até hoje, se você me perguntar, eu provavelmente direi que não pensei bem no que estava fazendo.
Naquele momento, não penso na distância de uma sacada a outra; não penso se eu vou conseguir me segurar, não penso se é realmente aquilo o que está me dizendo para fazer. No que eu penso, de fato, é em se eu me esqueci de trancar a porta. Penso na tranca dourada e tento me concentrar na chave girando, enquanto pulo, mas nada me vem à cabeça.
Aliás, acho que pulo porque o cheiro podre do zumbi incomoda o meu nariz e me faz preferir enfrentar meu ex-marido, no meio de um apocalipse zumbi, do que correr o risco de ficar igual ao meu antigo zelador.
Pobre Carl.
E quando meus dedos atingem o parapeito da outra sacada e eu os sinto escorregando, penso, por um momento, que talvez eu tenha trancado a porta, sim. Eu sempre tranco a porta. Ou talvez eu morra sabendo que não tranquei a porta. Que deixei de girar uma chave e, então, um zumbi entrou em meu apartamento e sujou meu tapete.
Sinto uma pressão nos cotovelos, quente, e percebo que estou sendo puxada para cima. Estou com os pés nadando no nada, o vento forte contra meu rosto e nem um pouco de vontade de ficar mais um segundo sequer ali. Sei que talvez esteja difícil me puxar, então tento ajudar o máximo possível, e agradeço por estar sem jaqueta e não escorregar para a morte.
me segura pela cintura e me puxa para dentro da sacada. Do outro lado, meu apartamento já não tem mais uma porta de vidro que dá para a sacada. O zumbi a quebra quando corre atrás de mim. Ele pula, tentando me alcançar, e eu quase posso escutar o barulho do corpo dele batendo contra o chão lá embaixo quando ele cai.
Eu e olhamos para abaixo, acompanhando a morte lenta e dolorosa do zumbi, quando ele finalmente fala:
- Por que demorou tanto para pular?
Olho para ele, semicerrando os olhos. Não sei se sinto mais ódio de mim mesma por ter pulado ou dele, bem... Por ser ele.
Então, não sabendo bem em quem descontar a raiva, desvio o olhar e subo na sacada.
- O que está fazendo? - ele pergunta.
- Voltando para o meu apartamento.
parece confuso e, ao mesmo tempo, indignado.
Posso perceber o quanto ele está nervoso pelo modo como retrai o ar dentro dos pulmões. sempre faz isso quando está realmente irritado. E eu estou prestes a pular, antes que ele exploda, quando a bomba finalmente estoura em meus ouvidos:
- Eu acabei de salvar a sua vida! Tem como dar uma trégua por alguns minutos?
Paro, em pé sobre a sacada, e olho para ele. Com o vento batendo conta o meu corpo, o céu azul é um fundo perfeito e infinito, e eu sinceramente penso em me jogar da sacada antes que a discussão se prolongue.
Mas minha língua, porém, sempre foi mais afiada do que minha razão.
- Uma trégua? - pulo de volta para o chão, irritada demais para conseguir parar. - A única coisa que eu deveria te dar é um tapa na cara.
, em sua atual indignação, abre a boca, provavelmente não acreditando no que eu digo.
Aliás, nem eu acredito no que eu digo. E você não precisa me falar nada, eu sei que soou estranho, mas, foi a única coisa que me veio à cabeça.
Perfeito, , você começou bem. Uma mulher madura.
- É bem típico de você, não é mesmo? Partir para a agressão ao invés de conversar como uma pessoa normal - diz, e ele grita mais do que o recomendado. - Para falar a verdade, eu deveria ter denunciado você por violência doméstica enquanto éramos casados!
- Não somos mais casados, ! - grito de volta. - Pare de remoer isso!
Ele para, por um minuto, e fica me olhando, daquele jeito que ele sempre faz quando está filtrando suas próprias palavras.
Acho que eu deveria me sentir melhor com o silencio dele, mas, não me sinto.
É engraçado, não é? Quando você diz algo que é para machucar outra pessoa, mas, no fim, acabada se sentindo mal com aquilo também. Como se te afetasse mesmo não te afetando.
Tá, eu tô fazendo aquilo de não falar as coisas com sentido de novo. Mas, olhe pelo lado bom: Pelo menos, dessa vez, não foi em voz alta.
Então, voltando à , acho que posso dizer que é meio óbvio o modo como ele se importa com o nosso recente casamento/divórcio. Pra ser sincera, sempre fui mais fria que ele. Mas, tudo bem, porque ele sempre foi mais teimoso do que eu. Então, o resultado dessa combinação foi a soma de várias brigas sem motivos e uma separação estrondosa depois de apenas três anos de matrimônio.
Lembro de como queria continuar tentando, mas eu simplesmente não quis aceitar. E, no final, quem saiu mais magoado foi ele.
Depois disso, nos falávamos poucas vezes. E eu realmente pensei que ele tivesse superado, tanto quanto eu, até um zumbi invadir o meu apartamento e eu ter que conversar com ele de novo. Era como se cada nota de seu timbre, coisa tão conhecida, me dissesse que ele aceitaria qualquer chance que eu estivesse disposta a lhe dar.
Reavaliando minhas palavras, então, percebo que talvez seja a hora de pedir desculpas; mas como nunca fui boa com isso, não faço a menor ideia de como começar. Então apenas olho pra ele, esperando que talvez ele entenda o recado, e percebo que suas mãos estão vermelhas, só então notando que elas sangram.
- O que aconteceu aí? - pergunto.
Ele encara as próprias palmas.
- Suas unhas.
Olho para as minhas mãos, e não acredito que posso ter feito um estrago daqueles. O modo como uma das unhas está quebrada, porém, é o suficiente para me convencer.
Abaixo as mãos, como se deixasse de lado o meu escudo imaginário, e puxo pelo braço.
- Venha, vamos cuidar disso.



Capítulo 2

– Ai! – reclama. – Tinha me esquecido de como você é delicada!
A ironia dele vem quando pressiono o algodão molhado com álcool sobre os cortes de sua mão com demasiada força, provocando, talvez, uma dor desnecessária.
– E eu tinha me esquecido de como você é mulherzinha – retruco, tirando o algodão que, vermelho pelo sangue dele, é tão cheio quanto a minha paciência.
Fui professora por alguns anos, mas, infelizmente, isso não foi o suficiente para que eu conseguisse adicionar aquela dádiva maravilhosa que é a paciência e a compreensão à minha lista de poucas qualidades. Muitas vezes, quando lembro das minhas aulas, sinto até pena dos meus ex-alunos; mas isso passa assim que percebo o quanto eles mereciam cada segundo do meu estresse.
Essa, aliás, é uma parte da minha vida que eu só vou contar mais tarde; quando nos conhecermos melhor e eu não correr o risco de você me achar um ser humano horrível.
– Você sabe que eu sempre encaro esse tipo de comentário como um elogio, não sabe?
– Sim, eu sei – reviro os olhos. – Afinal, completo mentalmente, eu te apresentei esse lado do pensamento.
Sério, foram alguns bons meses de vida gastos com discussões aleatórias até ele finalmente aceitar que a Mulher Maravilha dava de dez à zero em alguns super-heróis homens da Liga da Justiça, por exemplo, mas valeu a pena. E esse foi só o primeiro conceito. Depois de alguns anos, principalmente enquanto éramos casados, houve um tempo realmente engraçado em que ele se interessava pelo assunto, sempre pesquisando e me ajudando a montar seminários para os meus alunos.
Mas também podemos pular esse fato, pelo menos por enquanto.
– Eu estava só te testando – completo.
Coloco outro algodão por cima dos cortes e ficamos em silêncio por um tempo.
– Como ele entrou? – pergunta.
Passo mais álcool em seu machucado já extremamente limpo e respondo, sem olhar para ele:
– Acho que deixei a porta aberta.
Posso notar as sobrancelhas de se encontrando, e uma ruga se forma entre elas quando ele diz:
– Não acho que, vindo de você, isso seja possível.
Por algum motivo estamos próximos demais, e eu me sinto desconfortável segurando a sua mão. Tocar nele de novo é estranho, em muitos sentidos, porque a sensação é a de que ainda conheço cada pedaço dele; e eu sei que essa não é a verdade. Afinal, passamos três meses separados, e as pessoas mudam com o tempo. Ele, com certeza, mudou.
Apesar do tempo relativamente curto, o seu cabelo cresceu consideravelmente, de um modo que alguns fios caem de vez em quando sobre os seus olhos. O tom castanho parece mais escuro; a sua íris mais azul e sua pele mais clara. Existe também algo além daqueles fatos físicos tão explícitos; como o brilho diferente no olhar, o ar cansado nos traços de seu rosto e até mesmo o seu sorriso, que está mais fraco.
Ele, definitivamente, se parece com um sobrevivente.
Essa breve pausa para observação não é uma cena romântica, devo avisar. Até porque o cheiro do álcool me faz querer espirrar, tornando tudo uma situação pra lá de constrangedora.
– Pois é – respiro fundo, pego a garrafa de álcool e mergulho o algodão até onde os meus dedos alcançam. – Mas não vejo outra explicação.
Ainda estou segurando a garrafa de álcool quando afasta a minha mão, impedindo que eu comece, mais uma vez, aquele procedimento fatídico de limpeza. Assusto-me com o toque repentino, deixando um pouco do liquido pingar na minha calça jeans, e olho para ele.
– Já está limpo, . Pode parar agora – ele diz calmamente.
Jogo o algodão de lado e bufo, ridiculamente irritada.
– Por que você nunca me deixa terminar as coisas? – pergunto, não conseguindo controlar meu tom de voz. – Precisamos cuidar disso! Se infeccionar, você pode perder a mão, ou pode encostar em alguma coisa contaminada e virar um zumbi como Carl e tentar me matar e...
! – chama minha atenção, quando perco o ar e não consigo ao menos fazer pausas durante uma frase.
Congelo, e tenho noção de que pareço uma louca, mas não me importo com isso o suficiente para tentar parar de respirar de maneira tão descontrolada.
– Está tudo bem, olhe – ele mostra as palmas das mãos, completamente livres de sangue. Livres até mesmo dos rastros finos dos cortes das minhas unhas.
Então ele pega um algodão novo, colocando-o sobre os machucados com o auxílio de adesivos velhos de caderno, – já que era a única coisa que tínhamos para usar – e diz:
– Pronto, agora está protegido – sorri para mim.
Por conta do súbito nervosismo, tenho dificuldades para respirar normalmente, mas ainda estou quieta demais para os meus próprios padrões. O quê, claro, me deixa mais irritada ainda, já que, aparentemente, não se desacostumou a lidar com os meus ataques.
Mesmo depois de três meses, droga.
Eu deveria ter mudado. Durante esses 90 dias eu deveria ter me tornado alguém diferente. Um dos propósitos de um divórcio é esse, não é? Começar de novo. Dar-se uma nova chance para fazer as coisas de outro jeito; concertar os erros e tentar seguir em frente.
Mas eu, aparentemente, continuo a mesma pessoa. A maior prova é o modo como começo a ficar irritada com ao invés de assumir a minha própria culpa nesse problema existencial que criei sozinha.
Mas é quase impossível não ficar irritada.
Ele não tem esse direito. Não tem o direito de me conhecer tão bem, e eu nem ao menos posso reclamar disso. Um ", pare de me conhecer tão bem!", além de estranho, ia soar mais ridículo do que se eu batesse nele. E eu não quero isso porque, ultimamente, estou treinando ser uma mulher adulta, séria e sã.
Não, não ria de mim! É verdade! Já viu algum sobrevivente do Apocalipse Zumbi ficar fazendo piada com seu ex-marido? Não.
Droga, eu tô fazendo aquele lance de falar as coisas sem sentido de novo.
Olho para , sem querer dar o braço a torcer, e digo:
– Posso, pelo menos, fazer isso direito? – puxo a mão dele de volta. – Está horrível!
Sei que, enquanto limpo mais uma vez o machucado dele, você deve estar aí, sentado, pensando que eu tenho algum tipo de doença ou coisa do gênero. Mas quero deixar claro que não tenho.
A verdade é que sempre fui perfeccionista demais, e, em um apocalipse zumbi, muitas coisas dão errado para que eu possa ficar relaxada enquanto limpo os machucados da mão do meu ex-marido.
– Agora. – continua, olhando para o curativo recém-feito em sua palma.
Um exagero, a julgar pelo olhar dele diante de todos aqueles adesivos velhos do Batman tragicamente desperdiçados. Mas apesar do balançar de cabeça que ele dá em negação, agradeço internamente por ele não falar nada além da seguinte frase:
– Vamos dar uma olhada naquela porta. Ver o que realmente aconteceu.

...

Piso no chão da minha sacada, vendo os vidros que gemem por debaixo dos meus sapatos.
A porta de vidro está completamente destruída, e eu sinceramente fico pensando em como um zumbi com o cérebro de um retardado conseguiu fazer o que meu sobrinho de 5 anos – que eu também desconfio ser meio retardado, – não conseguiu. Penso até em chamar alguém para concertá-la, mas então lembro que o mundo acabou e ninguém mais liga para vidraceiros.
Tá, juro que essa é a última vez que falo da minha porta quebrada, mas o fato que é que estou até agora muito puta com isso. Então, em minha condicional raiva, atravesso o vão onde antes havia um grande vidro limpo e transparente, e entro no meu apartamento.
vem logo atrás de mim, olhando com interesse demais todos os detalhes.
– Meu deus, faz tanto tempo que eu não entro nesse lugar, que chega a ser surreal – ele comenta meio distraído.
Viro para , não gostando do modo nostálgico como ele olha para os móveis.
– Realmente, , se eu passasse o tempo que você passou dentro do seu apartamento, também acharia surreal quando entrasse de novo em um lugar limpo e organizado como este.
está – de um modo que chega a ser estranho – interessado demais na minha televisão. Ele apoia as mãos nos joelhos para ficar da altura do Rack, passando um dos dedos no móvel e olhando-o logo em seguida. Sua expressão diante da limpeza extraordinária do lugar me irrita, porque eu sei que ele está me julgando internamente, mas antes que eu possa falar algo a respeito disso, ele entende a minha última frase, parando o que estava fazendo só para responder:
– Sabe, às vezes eu fico pensando se você conseguiria ficar pelo menos cinco minutos sem ser grossa comigo – apesar das palavras venenosas, seu tom é casual demais. – Mas então me lembro dos três anos que passamos juntos e percebo que não, você não consegue.
Finjo que não escuto e ando para a cozinha, checando se não tem mais nenhuma visita indesejada se escondendo pelos cômodos. Rodo por todos os cantos, me certificando de que não tem mesmo nada ali. Olho até debaixo de camas e dentro de banheiras, voltando para a sala quando não encontro nada e me deparando com abaixado de frente para a minha porta de entrada.
Ele afastou o sofá que, antes, estava posto em frente à porta em uma tentativa frustrada de barreira, e parece realmente intrigado com alguma coisa ali.
– O que é isso? – pergunto quando finalmente vejo o buraco feito na parte debaixo da porta.
coloca os dedos sobre os lábios, indicando silêncio, e quando eu sento ao seu lado, posso ver o que ele vê: a nossa vizinha perambulando pelo corredor, com suas pernas mortas e seu andar tão arrastado em morte quanto era em vida.
Recuamos ao mesmo tempo quando ela se aproxima, e apesar de já não esperar ter alguma sorte nessa altura da vida, percebo meu nível extremo de azar quando ela fica parada exatamente em frente ao buraco na porta. O cheiro dela me faz querer vomitar, e eu posso ver o musgo verde que escorre por entre as suas pernas pálidas e sujas, mas eu tento me manter firme, pois realmente não quero morrer.
A senhorita Sara – como eu me lembro de seu nome – já não é mais tão graciosa, e faz um barulho alto e nojento quando tenta farejar de onde vem o cheiro de carne humana que sente.
Eu quero me levantar, mas não confio nas minhas habilidades de sobrevivência para fazer isso com sucesso e sem nenhum barulho. Então espero que faça algo, para que eu imite, mas ele está tão paralisado quanto eu.
Tá, eu admito, estou bem mais paralisada que ele.
Tá, tudo bem, eu estou estática e ele só está parado. Mas isso não quer dizer nada, se quer saber. Aliás, é muito mais inteligente da minha parte ficar com medo; eu com medo sou mais ágil.
Tá, tá, tudo bem. Você não acredita em mim, e eu sou uma medrosa de quinta sentada em frente à porta de entrada do meu apartamento, com meu ex-marido ao lado, no meio de um apocalipse zumbi, sentindo medo de uma senhora de 68 anos meio morta, que está, de fato, do lado de fora.
Mas, em minha defesa, tem um buraco na porta do meu apartamento que não me ajuda a sentir muita segurança. Acho até que grito quando a velha zumbi bate a cabeça violentamente contra a madeira marrom escura que demorei cerca de um mês para escolher; e eu não consigo fazer nada além de observar enquanto ela arranha, sem dó nenhuma, a pintura que, durante anos, eu tomei tanto cuidado para não estragar.
Mas está tudo bem, eu posso superar isso.
Fecho a boca assim que percebo meu grito ecoando pelo apartamento. Estou tremendo tanto que minhas mãos quase não param quietas quando as levo aos lábios, em uma proteção reforçada contra qualquer fio de voz que possa sair dali, e eu quero muito gritar de novo quando as batidas ficam mais insistentes e fortes.
Sei que você está pensando coisas do tipo "Cale-se, mulher, quer morrer?!", (ou uma versão mais delicada disso) mas, sério, você não deveria me julgar. Não sou como aquelas mocinhas burras de filmes; só que é meio difícil ficar quieta quando sua vizinha começa a bater a cabeça contra a sua porta já comprometida, gritando e gritando como uma louca, destruindo a imagem que você tinha dela como uma velhinha cheirosa e adorável.
se apressa em puxar o sofá de volta para frente da porta, enquanto eu simplesmente caio para trás. No chão, fico sentada sobre a mancha deixada pela baba do zumbi que quebrou minha porta de vidro, algumas horas atrás; enquanto o que sobrou da porta da frente se contrai quando a senhorita Sara, ligeiramente alarmada, começa a bater não só a cabeça, mas o corpo inteiro contra a madeira que antes era tão bem polida.
Seu grito me dá agonia, como quando minha professora passava as unhas contra o quadro negro para fazer os alunos calarem a boca. E nesse meio tempo eu só consigo pensar que vou morrer sobre o meu tapete novo de 300 reais, e que ele vai ficar manchado com o meu sangue e com a baba do meu antigo zelador.
Pior. Eu vou morrer ao lado de e cumprir um antigo voto de casamento que diz que somente a morte nos separará.
Lembro-me de e volto à realidade, enquanto o vejo colocar mais coisas diante da porta. Levanto quando percebo que não importa o que ele faça, aquilo nunca vai parar, e o puxo pelo braço, pedindo desesperadamente para sairmos logo dali.
me olha, por alguns segundos, provavelmente estranhando minha súplica afobada, mas eu estou com medo demais para sentir orgulho.
Então, afastando-se da porta, ele pega a minha mão. Foi um ato rápido, quase impulsivo, mas eu não consigo ligar para aquilo e apenas o sigo de volta para a sacada, de onde pulamos para o apartamento dele.



Capítulo 3

– Acho que ela já foi embora.
Enquanto ele está parado em frente à porta, tentando enxergar o corredor através do olho mágico, percebo o modo como os dedos de tremem quando tocam a maçaneta. Pisco e, por um momento, meu coração dá um pulo de desespero. Minha cabeça começa a procurar saídas pela sala, movida pela ilusão de que ele vai abrir a porta, mas logo percebo que ele só está checando a tranca.
Solto o ar dos pulmões. Preciso parar de ser tão paranoica.
Estou sentada no sofá da sala de . Escondo as mãos entre as pernas, porque elas estão tremendo e eu não quero que fiquem expostas, e fico roboticamente impulsionando a ponta dos pés contra o chão para elevar os calcanhares, voltando a abaixá-los e repetindo o processo logo em seguida. Isso ajuda a manter o meu corpo quente já que, do nada, começo a sentir frio. Minha respiração está mais calma, mas, por algum motivo, como se eu ainda estivesse em estado de pânico, não consigo me mexer. Então simplesmente me mantenho parada (pelo menos da cintura para cima), e olho fixamente para a mesa de centro encardida que tem na frente do sofá. Quando percebo, estou decorando as formas de cada mancha que existe sobre a superfície lisa dela, e ocupo tanto a minha cabeça com isso, que sinto raiva.
Quando éramos casados, eu amava essa mesa, e ele não me deixou ficar com ela depois do divórcio (só Deus sabe o porquê), e, agora, aparentemente, ele sequer a limpa direito.
Então, pensando em como eu amava cada pedaço daquele vidro esverdeado e cada um dos quatro pezinhos de madeira, eu sinto raiva. É mais fácil do que sentir medo. É bem mais fácil sentir vontade de xingá-lo por ser tão relaxado do que chorar como uma garotinha por causa de tudo o que vem acontecendo ultimamente.
– Como você acha que ele conseguiu abrir aquele buraco? – simplesmente pergunto, desviando minha atenção para algo que não me deixe mais nervosa ainda.
olha para trás, ainda parado em frente à porta. Ele parece pensar sobre o assunto, provavelmente tentando achar uma resposta viável que não me faça ter um surto ou algo do tipo. Ele volta e senta ao meu lado, no sofá, e enquanto se acomoda de um jeito confortável, passa os dedos pelo queixo e responde:
– Não acho que tenha sido o Carl a fazer aquilo.
Olho para ele, ligeiramente alarmada.
– O que você quer dizer?
Ainda estou fazendo aquele negócio com os pés, e me olha de um jeito estranho por causa disso. Suas sobrancelhas se encontram e ele se aproxima de uma maneira tão cautelosa, que eu me sinto como um daqueles monstros do lado de fora.
– Tudo bem? – ele pergunta.
Obrigo os meus pés a pararem de se movimentar e coloco as mãos sobre os meus joelhos, para me certificar de que vão permanecer quietos. Olho de volta para ele e faço que sim com a cabeça.
– Só estou com um pouco de frio.
– Quer que eu pegue um casaco ou um cobertor?
De um jeito quase doloroso, um baque estala dentro na minha cabeça, como se fosse uma enxaqueca. Não entendo muito bem o porquê de eu ter ficado confusa de uma hora para outra, mas, sei que algo está errado. Algo está tão errado que faz com que eu não consiga responder , e, tão subitamente quanto a dor veio à minha cabeça, algo ocupa o meu peito de um modo que eu me esqueço de respirar.
Então entendo que, apesar de parecer simples, como se ele fosse um amigo preocupado tentando me ajudar, a situação que estamos passando não é bem essa. A confusão não está na minha cabeça, mas sim no fato de eu saber que o que sente não é só preocupação. Tem algo a mais que eu não consigo ver o que é – pelo menos não claramente –, e isso me dá uma sensação estranha que tenho que ignorar se não quiser passar por louca.
Finalmente, eu percebo.
A ficha cai quando ele levanta e entra em seu quarto, voltando logo em seguida com um moletom verde escuro nas mãos. O tecido, que deveria ser quente e aconchegante, é frio quando entrega o agasalho em minhas mãos. Eu o aceito, mas não o visto. Apenas deixo-o ali, sobre o sofá, como se fosse a prova de que ainda tenho algum tipo de orgulho na vida.
Ele pensa que sou fraca. Que preciso de proteção ou algo do tipo. E é ridículo porque – sem contar o tempo antes de nos conhecermos – vivi três meses sem ele, e posso muito bem continuar assim. O casaco, a sacada, o buraco na porta do meu apartamento... Tudo fez com que ele pensasse que eu sou vulnerável. O modo como ele me olha diz isso.
Mas eu não sou.
E você pode dizer que é orgulho barato ou algo do tipo, mas, quando você tiver um ex-marido, (Deus te livre disso) você vai entender como é essa necessidade de parecer forte. De ser forte. Caso contrário; caso você ainda precise – ou mostre parecer precisar dessa pessoa –, o divórcio não terá valido de nada e tudo o que você fez foi assinar papéis na presença de um advogado.
Eu preciso mostrar à que eu não preciso dele – de nenhuma forma e em nenhum momento –, porque essa é a verdade. Eu não sou fraca; muito menos sou apegada a ele como eu era quando estávamos casados, e ele tem que saber disso agora, mais do que em qualquer outro momento das nossas vidas, porque é aqui que estamos tendo aquele "Momento Decisivo" que é bem famoso entre casais que brigam demais – ou ex-casais, no caso.
Ah, você não sabe o que é um momento decisivo? Bem, eu vou te contar.
Um Momento Decisivo é quando os limites se estabelecem e as medidas são tomadas. É quando as coisas estão em um nível avançado, longe daquele começo de relação onde um não sabe nada do outro, e as coisas começam a simplesmente fluir sem rumo. Então, o Momento Decisivo chega e cada um estabelece uma linha, essa qual o outro não pode cruzar. Muita gente nem percebe que faz isso, mas, quando uma garota sai com as amigas sem se submeter ao ciúme e a possessividade alheia, é um Momento Decisivo. Ela está estabelecendo a linha dela; as regras dela. E ele não pode passar. Vice-versa.
Pra você, pode não fazer muito sentido, mas eu criei essa lógica na minha cabeça e pretendo segui-la fielmente. Então, mesmo com o fato de eu e não estarmos mais juntos, coloco uma linha e a classifico como um Momento Decisivo, porque, apesar de tudo, estamos restabelecendo contato e não quero que nada saia do controle.
Não quero que ele me proteja ou até mesmo que tente me proteger, então deixo o seu moletom de lado, como um símbolo metafórico de recusa ao seu amparo físico e emocional, e tento manter a voz o mais firme possível ao prosseguir.
– O que quis dizer com "Eu não acho que tenha sido o Carl a fazer aquilo"? – repito a pergunta.
olha para mim por alguns segundos, provavelmente notando a súbita mudança de comportamento, mas só após algum tempo de aceitação diz:
, você viu o estrago feito na sua porta? Não tem como ele ter feito aquilo. Digo... Como ele conseguiria?
Paro para pensar, mas não acho respostas. Então simplesmente fico ali, sentada, esperando que o silêncio seja o suficiente para que eu não falhe na minha missão interior de ser forte e comece a chorar de desespero. olha para mim e tenta sorrir, como um reconforto falho, e eu conheço aquele sorriso, porque o vi durante três anos da minha vida. É o seu sorriso de consolo, como se ele achasse que pudesse fazer tudo ficar bem. E mesmo eu sabendo que ele não pode, sorrio de volta.
Apesar de eu querer muito acreditar que existe um Chiuaua zumbi com dentes pontudos por aí, sei que não foi isso que destruiu a minha porta. Com esse pensamento, fecho os olhos. , ao meu lado, tamborila os dedos no apoio de braço do sofá, e eu sei que algo o está incomodando porque é isso o que ele faz quando está irritado ou inquieto. Deduzo que talvez seja por minha causa, e me levanto; pronta para agradecê-lo e ir embora.
ergue os olhos para mim, recentemente acordado de seu transe, e pergunta:
– Aonde você vai?
– Pra casa. Ela já foi embora mesmo.
se levanta em um quase pulo.
– Não! Você nem tem porta! – diz, e seu tom me acusa de louca mesmo sem que ele fale uma palavra.
– Eu tenho uma poltrona a mais – dou risada.
não parece achar graça e me olha de uma forma estranha, mordendo o lábio inferior. E eu sei que ele está nervoso, porque é isso o que ele faz quando se sente assim. Sorrio da melhor maneira que posso, talvez até tentando deixá-lo mais sossegado, porque sei que ele pode explodir a qualquer momento, e digo:
– Obrigada, por tudo.
Por algum motivo, aquilo parece acalmá-lo. As linhas de expressão em volta de seus olhos suavizam-se miseravelmente, mesmo que eu possa ver seus ombros tensos, e eu fico parada, esperando que talvez responda alguma coisa. Desisto de esperar e sorrio mais uma vez, como uma despedida, já dando míseros passos para trás.
Então ele olha através de mim, para a sua sacada, e diz:
– Já está escurecendo.
Sei o que ele quer dizer com aquilo, mas ignoro. As noites são as piores partes, por algum motivo, e ambos sabemos que não ficaremos bem sozinhos. Eu, principalmente, sem metade da minha porta, mas isso é só um fato – levando em consideração que fiz um discurso quilométrico sobre ser forte para mim mesma.
Eu sou muito iludida, fala sério.
– Eu sei – respondo. – Todo dia escurece e todo dia eu fico bem sozinha. Não se preocupe.
Aquilo soa mais solitário do que reconfortante, e eu me arrependo do que falo assim que fecho a boca. me olha com a cabeça pendendo levemente para o lado, e eu não conheço aquele olhar, porque não o vi durante três anos da minha vida. Estranhamente, eu não sei interpretar o que ele está querendo dizer quando passa as mãos pelo cabelo e suspira, mas mesmo assim não me surpreendo quando ele fala:
– Por que não fica aqui esta noite? – solta, e talvez minha cara tenha sido pior do que imagino, pois ele logo acrescenta: – Como um teste, digo. Não sabemos se mais algum deles vai tentar entrar lá. Você passa a noite aqui, e, se tudo correr bem, pode voltar amanhã.
Paro por um segundo, analisando a sua proposta. Sinceramente, não quero voltar para aquele apartamento, sem porta, sozinha e com um recente trauma de vizinhança; mas também não quero continuar com essa sensação estranha no estômago que sinto, geralmente, quando estou perto demais dele.
Além, claro, do discurso e do Momento Decisivo.
Ah, dane-se o Momento Decisivo. Pelo menos por enquanto a minha integridade física é prioridade.
Olho para o lado, fingindo pensar somente para não aceitar tão rápido e manter um pouco daquele orgulho que eu resgatei mais cedo. Então dou de ombros e concordo com a cabeça. Ele sorri de uma maneira leve, e eu conheço aquele sorriso, porque convivi com ele durante três anos da minha vida. Era o seu sorriso aliviado; como um peso tirado de seus ombros, a certeza da segurança – e de menos uma noite que passaria sozinho.



Capítulo 4

I know it's crazy to believe in silly things
But it's not that easy
I remember it now, it takes me back to when it all first started
But I've only got myself to blame for it, and I accept that now
It's time to let it all go, go out and start again
But it's not that easy
But I've got high hopes, it takes me back to when we started

Você já viu Grease?
Grease, se você não conhece, é um filme musical da década de 70. Nele, uma garota boazinha se apaixona por um Bad Boy, e partir daí os dois passam quase duas horas de filme cantando e dançando a respeito disso. Não tô exagerando, é isso mesmo.
Apaixonar-me por foi mais ou menos como assistir Grease. No começo, eu era meio cética, pois era algo que não fazia parte do meu estilo. Eu nunca gostei de musicais. Mas aí eu resolvi dar uma chance e acabei me apaixonando. Então, com o tempo, a paixão foi passando e eu comecei a ver as falhas no enredo do filme. Comecei a ver a história problemática, os defeitos nas personalidades dos personagens, as partes forçadas das performances musicais... Mas, mesmo assim, eu continuei gostando de Grease. Continuei colocando-o nas minhas listas de filmes preferidos quando alguém me perguntava a respeito; continuei amando aquele filme que ia contra tudo o que eu acreditava e contra tudo o que eu tinha como padrão, mas eu simplesmente não conseguia mais assisti-lo sem querer gritar com os personagens.
Entende a relação? Entre e Grease?
Claro que o nunca usou roupas coladas ou cantou Summer Nights fazendo um agudo ridículo para fechar uma música igualmente ridícula; mas acho que você pode entender do que estou falando.
Eu amava o , mas não conseguia mais gostar ou até mesmo conviver com ele.
Isso, claro, foi antes do divórcio. Antes até mesmo de ele se mudar. Foi quando nós estávamos naquela fase que todos conhecem como 'Crise de Casamento', que é quase tão marcante quanto o Momento Decisivo de um namoro. Tá, na verdade, é pior que o Momento Decisivo. Muito pior.
É quando você não consegue olhar para a cara do seu parceiro e se sentir feliz. Quando tudo o que você fez na vida começa a ser questionado em pensamentos do tipo 'E se eu não tivesse feito isso? '. Dúvidas que vão até a infância e voltam; como se o fato de poder ter escolhido outra faculdade fosse fazer tudo ser diferente, por exemplo. Afinal, se eu tivesse aceitado fazer parte dos negócios da família e administrado uma imobiliária com filiais internacionais, não teria conhecido o , certo? Talvez sim, talvez não...
Isso me irrita porque, além das perguntas sem respostas, também tem aquela fase de autopunição psicológica na qual eu volto mais alguns anos. Quando começo a cogitar outros namoros e possibilidades. Onde resgato aqueles casos meio sem nexo que tive na adolescência, e as perguntas saem mais ou menos assim: 'E se eu, por algum acaso, ao invés de namorar o , tivesse aceitado o namoro com Renato, que era da minha sala no 2° ano? '.
E daí por diante só piora.
Porque talvez eu não me divorciasse de Renato. Talvez – só talvez – com o Renato eu pudesse ter evitado todo esse maldito sofrimento de três anos. Talvez até mesmo não estivesse presa em um prédio de 60 andares no meio do apocalipse zumbi com uma maldita porta de vidro quebrada enchendo a minha paciência.
Olha, acho que você já percebeu isso, mas eu tenho uma mania irritante de repetir palavras quando estou nervosa. Sério, isso foi um encosto na minha vida.
Principalmente porque, antes do apocalipse, eu era professora de História. Dificultava muito o fato de, quando eu estava estressada com os alunos, começar a repetir palavras em um texto sobre a Segunda Guerra Mundial. Mas acho que eles não ligavam muito para isso. Talvez eu deva mesmo é pedir desculpas para Hitler; afinal, eu o matei umas duas vezes no mesmo texto ao repetir desnecessariamente a invasão americana em um mesmo parágrafo.
De qualquer jeito, não estou na escola e não posso apagar a lousa e começar de novo. Não estou em Grease e não posso cantar e dançar a respeito disso. Eu nem ao menos posso usar uma roupa legal como a Olivia Newton-John e ser uma espécie de Diva dos anos 50. Eu só posso aceitar passar uma noite no apartamento do meu ex-marido e rezar para continuar não gostando tanto de Grease quanto dele. Caso contrário eu vou estar completamente ferrada.
– Isso aqui tá horrível... – comento quando entro no quarto de .
Porque, sério, tava mesmo horrível!
E você pode até me chamar de fresca ou controladora, mas você não imagina o quanto eu odeio quartos que não são o meu. De verdade. São sempre bagunçados.
Quartos são como um pequeno santuário só nosso. Eu penso assim e, por isso, costumo manter o meu sempre arrumado, limpo, claro e confortável. É o meu lugar e eu mereço o melhor, não é?
Mas parece que só eu penso assim no século XXI. Parece que ter pôsteres poluindo as paredes e roupas jogadas no chão virou a nova febre entre adolescentes e, até mesmo, adultos. Eu simplesmente não entendo como alguém pode dormir em um lugar onde existem mais copos espalhados pela mesa do computador do que lençóis na cama.
Se bem que o de não chegava a ser insuportável. Não tinha pizza velha embaixo do tapete ou cheiro de meia suja por toda a parte. Só era uma bagunça. Aquela do tipo cama desarrumada, guarda-roupa aberto e mesa com objetos derrubados por cima.
Tá, tá, tudo bem... Eu sei que estamos no fim do mundo; com zumbis perambulando por aí e buracos se abrindo em portas da noite para o dia, mas, não precisa piorar as coisas! Dá pra manter uma pouco de dignidade, gente. De verdade.
– Desculpe, a empregada faltou hoje – responde , de forma azeda, quando percebe que eu não vou mudar tão cedo a minha cara de desprezo.
Olho para ele e tento conter o bico de desaprovação que costumo fazer, mas não consigo. Então, reviro os olhos e continuo andando.
– Me dê logo um travesseiro para eu poder sair daqui.
anda até o guarda-roupa e fecha as portas. Não sei se ele faz isso pra tentar esconder alguma coisa ou para me poupar da agonia de ver aquele desastre; mas agradeço mentalmente.
– Olha, não é nada pessoal, mas... O travesseiro é meu – diz ele.
Olho para a cama, indignada quando vejo o fato:
– Vai me dizer que você só tem um travesseiro?!
não parece pensar ao responder:
– Pra que eu vou precisar de dois?
Fico em silêncio e respiro fundo, tentando absorver a informação de que, desde que nos separamos, ele não precisou comprar outro travesseiro. O que, logicamente, indica que ele não dormiu com mais ninguém naquela cama.
O que também deixa o meu ego inflado e todas essas coisas que, convenhamos, eu não vou admitir pra você.
– Tá, tudo bem... – balanço a cabeça, pensando em uma solução. – Então vamos dividir: Eu fico com a cama e com o cobertor, você fica com o travesseiro – sorrio pra ele, de modo quase inocente.
estreita as sobrancelhas e faz o seu típico balançar de cabeça indignado.
– Isso nem ao menos é justo!
– Nós dois queremos o travesseiro, – eu cruzo os braços, – o que quer dizer que ele é um objeto de grande valor e, portanto, cobre dois itens. Você vai ficar com ele, eu fico com a cama e o cobertor. Então a coisa fica balanceada e todo mundo fica feliz.
– Correção: Você fica feliz.
– A vida não é justa, eu sei. Agora, se não se importa... Eu estou cansada e quero dormir.
solta o ar dos pulmões e arruma a postura. Quando penso que ele vai ceder, porém, dá a volta na cama e pega algo da gaveta barulhenta do criado-mudo.
– Vamos resolver isso civilizadamente – diz, e quando chega perto de mim, vejo que ele tem uma moeda na mão. – Escolho Cara.
– O quê?! Deixa de ser infantil, . Eu não vou jogar Cara ou Coroa por um travesseiro!
sorri de forma conspiratória.
– Então você concorda que eu fique com ele, com a cama e com o cobertor? Ótimo!
se vira, contente, mas eu o seguro pelo braço e ele dá meia volta.
– Não! – digo, irritada. – Não, mesmo! Aliás, tenho direitos aqui! Sou a visita, lembra? Você tem que mostrar hospitalidade.
ri de maneira debochada; quase desesperada.
– Você não é visita, . É minha mulher.
Paro e, naquele momento, percebo que ainda seguro o seu braço. Corto o toque, afastando-me um passo ou dois. não parece perceber o que disse e me olha confuso, como se tentasse entender minha reação.
Então, depois de alguns segundos, ele fecha os olhos e balança a cabeça.
– Desculpe – diz e, depois de pensar um pouco, continua: – É que eu ainda não me acostumei com isso.
Não sei se ele está se referindo ao divórcio, à minha breve estadia em seu apartamento ou ao fim do mundo; então tento ser cuidadosa e mantenho a voz baixa, também com certa distância física quando respondo:
– Já se passaram três meses.
olha para a moeda que está por entre os seus dedos e sorri de uma forma quase triste.
– Eu não sei como você lida com isso, mas, para mim, é meio difícil cobrir três anos com três meses – diz, e ele ri, tentando fazer parecer que era algo inconvenientemente divertido, mesmo que sua voz falhe um pouco.
Ele levanta o rosto e me olha por alguns segundos. Existe um brilho estranho ali, como se ele quisesse dizer mais alguma coisa. Mas ele não diz; apenas respira fundo, como se estivesse recuperando o foco, e coloca a moeda na minha mão.
– Pode ficar com a cama e o travesseiro – diz. – Vou ficar na sala, acordado. Talvez eu consiga escutar caso alguma daquelas coisas entre em seu apartamento.
Então, ele sai. E eu fico no mesmo lugar, por alguns minutos, parada; observando o brilho pálido da moeda na minha mão, tentando fazer com que o barulho que a porta fez ao se fechar pare de se reproduzir repetidamente dentro da minha cabeça.

...

Abro a porta do quarto.
Está escuro, pois já é noite, mas consigo enxergar parcialmente bem. Os móveis mais claros se destacam, e com isso posso ver o sofá branco no meio da sala. está sentado nele, parado, com a atenção presa em um ponto qualquer.
Estou segurando o travesseiro entre os braços quando paro. Mantenho um cobertor em volta dos meus ombros, por causa do frio, e espero que minha visão se acostume mais um pouco com a escuridão para poder, finalmente, começar a reconhecer o lugar de verdade.
Na pressa da minha breve passada por aqui, nesta mesma tarde, eu nem ao menos parei para prestar atenção no apartamento de . Agora, com um pouco mais de calma, vejo que tirando a bagunça característica de um apocalipse, ele não mudou nada desde a última vez que estive aqui – fisicamente, pelo menos –, porque apesar dos móveis estarem nos mesmos lugares e os quadros nas mesmas paredes, a sala de estar ainda tem um ar diferente do de três anos atrás.
Eu ainda me lembro de quando comprou esse apartamento. Nós ainda estávamos na faculdade e éramos apenas amigos de classe, então, em um dia qualquer, quando ele disse que queria se mudar para um lugar mais perto do seu local de estudo, eu falei sobre o apartamento que colocaram à venda no meu prédio.
Acho que aquele foi o maior erro e o maior acerto da minha vida. Até hoje, aliás, eu tento decidir o que pensar sobre isso. Analisando bem, se o não tivesse se mudado para o meu prédio, talvez não tivéssemos nos tornado tão próximos e, consequentemente, não teríamos nos apaixonado e nem nos casado. Esse apartamento, no fim, pode ter sido o culpado de tudo.
A primeira vez que o me beijou, aliás, nós estávamos exatamente aqui, nessa sala. No lugar dos móveis, porém, havia latas de tinta espalhadas pelo lugar, um sol de tarde quente entrando pela janela suja e uma música qualquer tocando no radinho a pilha que eu trouxe para ajudar a passar o tempo.
Nós estávamos o dia inteiro pintando o apartamento. Eu o ajudei para que, talvez, o progresso fosse mais rápido e pudesse se mudar naquele mesmo final de semana. Lembro que nós ríamos muito, porque ele era realmente engraçado naquela época, e que, de repente, começamos a jogar tinta um no outro e a desenhar coisas desconexas nas paredes com os pincéis. No fim, tivemos que passar outra camada de tinta na parede para tampar a decadência que ficaram as nossas obras de arte, rendendo uma hora extra de trabalho desnecessário, mas foi bem divertido.
Estávamos sentados no chão, descansando, quando o sol começou a se pôr. Não era noite, mas o alaranjado batia contra as paredes nuas e fazia tudo ficar com aquela visão quente de verão, e eu tive que prender o cabelo para não deixar aquele fato psicológico me fazer suar.
E ali, tudo parecia perfeito. O meu melhor amigo se mudaria para o apartamento ao lado, eu ia bem na faculdade e tinha acabado de conseguir comprar o meu próprio carro. Nada podia me incomodar; nem mesmo as paredes mal pintadas ou o chão sujo de respingos brancos, resultado da nossa recente brincadeira.
A única coisa que me incomodava, talvez, era a mancha de tinta branca nas bochechas e na camiseta do .
Lembro que pensei em como ele teria trabalho para limpar aquilo, pois estava realmente um desastre. Depois, pensei em como ele não poderia nem ao menos limpar aquilo, afinal ele ainda não tinha uma máquina de lavar. E por último, pensei em como a tinta nas bochechas dele realmente me incomodava.
Então, enquanto estávamos sentados ali, em um silêncio repentino, sem pensar estiquei a mão para limpar a mancha em seu rosto.
Lembro muito bem de como os meus dedos tremiam quando os pegou e os beijou.
Na hora, por causa da surpresa, eu não entendi muito bem o motivo daquilo, mas agora vejo que era algum tipo de aviso para o que ele iria fazer em seguida. Como se o fato de eu não ter puxado a mão quando ele a beijou lhe desse o direito de me beijar de verdade.
E talvez desse porque, naquele momento, quando ele me beijou, eu o beijei de volta e foi algo que nunca me arrependi de ter feito.
Foi um beijo doce, gentil. Diferente de qualquer outro beijo que eu pudesse ter experimentado antes. E pode soar estranho, mas eu gostei da falta de urgência nele.
Todos os caras te beijam como se o mundo fosse acabar naquele instante; como se eles precisassem desesperadamente fazer aquilo e, quem sabe, partir para algo mais profundo.
Mas , não.
Ele apenas me beijou, sem malícia ou aproximações indesejadas, me dando o espaço e conforto que, para a minha personalidade fechada e extremamente antissocial, foi algo de extrema importância para que eu não me afastasse imediatamente e gritasse com ele. Como um tipo de botão acionado para eu baixar a guarda e não me estressar, já que na época eu era bem mais agressiva do que hoje em dia.
E foi algo tão devastador para mim que, de repente, eu não me importava nem com o rastro de tinta que ele deixou no meu rosto quando levou a mão à minha bochecha. Seus dedos eram ásperos e provocaram cócegas quando ele fez um carinho tímido e delicado no meu rosto, mas eu não ri por que estava nervosa demais para me mover.
Acho até que ele não entendeu a minha reação, pois, pensando bem, eu o beijei de volta, mas não retribui nenhum sorriso ou toque que ele dera. E não era por que eu não queria, já que na época eu o achava muito bonito, charmoso e simpático – além de todos esses adjetivos que adolescentes pregam aos caras que estão apaixonadas -, mas, sim, porque eu estava confusa.
Não era como se eu nunca tivesse gostado de alguém. Só que em toda a minha vida, eu nunca tinha me apaixonado por alguém tão próximo como o meu melhor amigo. Sempre que eu estava interessada em alguém, eu tinha o total controle sobre aquilo. Nós nos conhecíamos, saíamos juntos e eu sabia o tempo todo o que eu e ele queríamos. E, bem... Com o foi diferente. Ele sempre esteve fora daquela lista de possíveis pretendentes; nós sempre fomos muito distintos um do outro e aquilo sempre me fez acreditar que ele nunca, nunca seria algo além de um amigo para mim. Eu chegava a achar ridícula a ideia de ter sentimentos por ele. Afinal, eu nunca poderia me acostumar com – ou até mesmo aceitar – o que ele era. Sempre mostramos ter opiniões divergentes em todos os aspectos possíveis, e alguns desses exemplos eram coisas que estavam impregnadas nele desde o início; como as tatuagens, o vício em cigarros e a moto vermelha que ele tanto gostava de levar para a oficina e modificar. Eu nunca aceitaria aquilo; não em um namorado, pelo menos.
E não me chame de careta, era só que aquilo realmente não me atraía. Não até aquela tarde, pelo menos.
Então, naquele dia, eu estava confusa porque eu não sabia se estava gostando dele ou se estava triste. Uma parte de mim sabia que, se não acabássemos juntos, eu perderia um amigo. Enquanto a outra parte queria simplesmente risca-lo da lista de melhores amigos e colocá-lo em uma de futuros pretendentes. Afinal, é sempre assim quando esse tipo de coisa acontece. Um amigo te beija e vocês ficam estranhos um com o outro até se afastarem de vez. E eu já estava me preparando para isso com o quando ele partiu o beijo e sorriu para mim. E foi o mesmo sorriso de sempre; como se ele já soubesse o que aconteceria. Como se soubesse desde o início que nós nos beijaríamos e que não tinha nada para mudar.
– Quer pedir pizza? – ele perguntou.
Eu lembro que disse não, pois não confiava na higiene desses lugares aleatórios. E eu sei que tanto você quanto qualquer outro cara, mulher e criança acharia estranho e me chamaria de fresca, mas, naquele momento, ele só concordou com a cabeça, sorrindo, e disse:
– Então... O que acha de nós fazermos a nossa própria pizza?
E foi naquele momento em que eu definitivamente me apaixonei por ele. Até hoje não sei se foram as paredes coloridas, o clima de fim de tarde ou o fato de o sorriso dele ter me feito sorrir também, mas eu me apaixonei por ele.
E talvez seja por isso que é tão estranho estar aqui, nessa sala, de novo. É estranho ver as paredes de tinta descascada em um tom tão cinza. É estranho, sim, porque não estamos mais apaixonados e porque está sentado exatamente no lugar onde nós nos beijamos, mas agora tem um sofá, ironicamente falando, no exato ponto da sala em que derrubados tinta no piso e não conseguimos tirar nem mesmo esfregando o chão.
apoia a cabeça em uma das mãos, com o cotovelo no braço do sofá, e sua silhueta é tão escura que, por um momento, a cena parece triste demais. Então, em um lapso de coragem, ando até ele e me sento ao seu lado, abraçando os joelhos.
– O que foi? – pergunta, sem ao menos virar o rosto pra mim. – Não vai me dizer que quer o sofá também?
Por um momento, me sinto atingida por sua provocação. Depois, porém, apenas aceito o seu jogo.
– Não seja idiota. Você sabe que eu preciso de muito mais espaço do que o disponível nesse sofá.
, então, olha pra mim com o rosto ainda apoiado nas mãos, e sua maçã do rosto, amassada pelos seus dedos, o deixa com um ar emburrado que eu não via desde que fazíamos faculdade e eu o manipulava para ele sair do videogame e ir estudar para as provas.
Mas é uma cara que, mesmo depois desses anos, continua engraçada, só pra constar.
– Escutou alguma coisa? – pergunto.
faz que não com a cabeça.
– Tudo quieto demais.
Concordo com a cabeça, mordendo o lábio, não sabendo mais como continuar uma conversa saudável e livre de discussões.
A verdade, talvez, seja que faz tanto tempo que não converso com alguém, que já não sou mais familiarizada com uma relação socialmente saudável.
, por outro lado, nunca parece perder o jeito. E eu falo isso no tom mais irônico e dissimulado que você possa imaginar.
– Não precisa ficar aqui – diz, e não parece querer me provocar ou algo do tipo; só está tentando ser prestativo. – Pode ficar no quarto, tentar dormir ou sei lá. Você parece cansada.
Acomodo-me no sofá, colocando as almofadas contra o braço do meu lado e apoiando as costas nelas. Estico as pernas, cobrindo-as com o cobertor até um ponto em que meus pés quase toquem . Ele não faz nada, mas olha com o canto dos olhos e eu sei que, se essa situação fosse há três anos, ele puxaria os meus pés e faria algum tipo de massagem, ou cócegas.
Mas estamos adiantados no tempo e em um divórcio prematuro, então, apenas continuo observando-o, sentado na outra ponta, e respondo:
– Têm sido longos meses. Para todos nós.
puxa uma ponta do cobertor para cima de seu colo, tira os pés do chão e os coloca sobre o sofá, limitando-se no pouco espaço que lhe sobrara. Apesar de parecer apertado, ele não reclama, e em seu atual conforto nada espaçoso, depois de parecer pensar bastante, diz:
– Você acha que existe alguma saída?
Para lhe dar mais um pouco de espaço, encolho as pernas e, quando ele se acomoda, colo-as sobre o seu colo. Acima do cobertor, protegida por aquele pedaço insignificante de algodão, sinto os dedos dele fazerem carícias vagas, quase robóticas, pela minha perna.
– O que você quer dizer? Do prédio? – pergunto.
levanta os olhos para mim.
– De tudo. Desse caos, do prédio; desse mundo... Será que um dia conseguiremos sair disso?
Mordo o lábio inferior, observando, por um segundo, os dedos dele passeando pelo cobertor acima da minha pele. É quase como se ele ao menos notasse que estava fazendo aquilo, e eu não digo nada, pois, particularmente, acho reconfortante. Mas isso fica entre nós, ok?
– Se existir, , não vai ser uma alternativa.
, um pouco confuso pelas minhas palavras, estreita as sobrancelhas.
– Esse mundo – explico – era um lugar bom. De verdade. E, bem... Nós o estragamos – dou um suspiro pesado. – Não é como se houvesse uma saída. Fizemos por merecer.
ri. Um riso sincero demais para uma situação daquelas. E em meio ao meu desconforto com a sua falta de coerência, sinto suas palavras como facas quando ele as solta no ar.
– Se não há como escapar, qual a razão de ainda estarmos aqui?
Paro, procurando uma resposta válida para a sua pergunta. Não quero ser pessimista demais ou otimista demais; só quero que faça sentindo, tanto para mim quanto para ele. Afinal, mesmo que inconscientemente, aquela é a pergunta que venho me fazendo há três meses.
– Fé – digo.
sorri de uma maneira conspiratória.
– Em Deus?
Sorrio de volta, aceitando o seu desafio, me lembrando de todas as vezes que ele me questionara sobre religião e eu simplesmente lhe disse que não tinha nenhuma.
Não, eu não ia me forçar a acreditar em algo só para ter no que depositar a minha fé.
– Não, , fé em um futuro – respondo.
Ele concorda com a cabeça, talvez aceitando aquilo como uma resposta temporária, e eu o vejo, por um segundo, ter um pouco mais de fé também. Mas ali, no meio daquela sala escura, falando baixo para não ser ouvida e tendo que me esconder dentro de um apartamento em um prédio de 60 andares, eu não sei exatamente no que eu acredito; muito menos ele. Então apenas aceito que ele achou algo no que acreditar, mesmo que eu, apesar do que acabei de dizer, não tenha achado, e deixo meus ombros relaxarem.
Em alguns minutos, estamos olhando um para o outro e rindo de toda a nossa falta de sorte. Secretamente compartilhando aquela opinião mútua de que o destino é uma vadia que, de uma maneira ou de outra, conseguiu fazer com que acabássemos juntos.
Depois de um tempo caímos no sono, e é até estranho, na verdade, o modo como aquele sofá parece mais confortável e seguro do que qualquer outro lugar poderia ser; quase como se o mundo estivesse normal de novo e aquele fosse só mais um jogo estranho – como Paintball, só que com zumbis – que estávamos jogando com uma seriedade inabalável.
Algumas horas depois, porém, toda essa sensação de conforto e segurança se esvai, e eu estou acordada, suando e ofegante, tentando encontrar a fonte do barulho que me fez acordar tão abruptamente. Percebo que o céu está clareando aos poucos, o que indica que eu dormi menos do que deveria e mais do que pretendia, mas algo chama a minha atenção e faz com que eu esqueça disso.
O barulho que me fez acordar não parece vir de nenhum lugar específico, e eu olho freneticamente para os lados, mas ainda estou atordoada pelo despertar repentino e não consigo raciocinar bem. está sentado do mesmo jeito de quando eu dormi, aparentemente em um sono tão profundo que ele também não escuta o som que de repente parece ficar mais alto. Algo tão incômodo que eu levo as mãos aos ouvidos e caio do sofá, tentando fugir de uma coisa que ao menos posso ver. Tentando me encontrar no meio daquela sala mal iluminada.
Então meu coração se repuxa dentro do peito, batendo tão forte que sinto-o pulsar nas minhas veias, e eu finalmente descubro de onde tudo aquilo vem.



Capítulo 5

!
Depois de alguma insistência, ele finalmente abre os olhos.
Estou sentada no sofá, ao seu lado, tentando acordá-lo. O barulho alto parou, mas ainda escuto algo baixo e constante vir de algum lugar, e eu sinceramente não quero ir ver o que é. Vi muitos filmes para saber que não é bom sair no meio da noite para verificar um barulho estranho, e eu nem preciso dizer que, sendo ou não pelo fato de estarmos em um apocalipse zumbi, isso seria muito mais perigoso na vida real.
– O que foi? – ele pergunta sonolento, passando as mãos pelos olhos e tentando visivelmente mantê-los abertos.
– Alguma coisa está acontecendo – digo, não sabendo como explicar bem. – Alguma coisa errada.
finalmente consegue manter as pálpebras levantadas, arregalando os olhos de preocupação. Sua íris azul dilata-se pela má iluminação e seus lábios estão pálidos, provavelmente pelo frio. Ele se levanta do sofá em um quase pulo, apesar do sono que quase o faz cair de volta ao meu lado, e então volta a olhar para mim atrás de respostas.
– Alguém entrou aqui? – pergunta baixo.
Faço que não com a cabeça, respiro fundo e começo a explicar o que aconteceu há menos de dez segundos – mas, claro, ele não viu porque estava dormindo. Um herói.
– Primeiro teve uma sequência de barulhos muito, muito alta. Depois foi passando e agora só tem isso – aponto para o ar com a ponta dos dedos. – Um leve farfalhar. Pode escutar?
apura os ouvidos, sem tirar os olhos de mim, e espera por alguns segundos. Suas sobrancelhas se encontram com o leve reconhecimento que parece atingi-lo, e então ele passa a andar em direção à sacada do apartamento, fazendo um gesto com as mãos para que eu o siga.
Levanto do sofá sem pensar duas vezes, afinal, não quero mesmo ficar ali sozinha, e o sigo de perto, tomando o cuidado de sempre estar atrás dele para o caso de algo acontecer. Pelo menos como um escudo ele tem que servir, vamos combinar.
abre a porta da sacada, e ela emite um leve ruído ao se arrastar pelos trilhos antes de passarmos para a parte de fora do apartamento. A madrugada está acabando e eu já posso ver os indícios do amanhecer, mas mesmo com o sol chegando, está muito frio, e eu abraço meu próprio corpo enquanto um vento gélido e arrepiante passa à minha volta. Por um momento fecho os olhos, de repente sendo tomada pela sensação de ar fresco, lembrando-me da época em que o mundo era um lugar saudável e eu podia ir à praia sentir brisas como essa.
A voz de me faz acordar.
– ele chama, e quando segura o meu braço, puxando-me para o lado dele em um ato quase robótico, eu abro os olhos. – Aquilo é...
Meus pulmões estão cheios de ar fresco e meus olhos arregalados. Meus braços apertam-se mais ainda em volta do meu corpo, como se eu pudesse me proteger apenas com aquele ato, e então eu completo a frase que , por estar completamente sem reação, não consegue terminar.
– É um Helicóptero.

...

Eu sei que, quando você está lendo o diário de um sobrevivente do apocalipse, o mínimo que você espera encontrar é alguma narração dramática sobre como é, de fato, sobreviver. Você espera textos sobre autopreservação; sobre melancolia. Espera que eu fale de algo que sinto saudades, da minha infância ou adolescência; que diga que desejo o nosso velho mundo de volta. Talvez você até espere que eu faça um monólogo de como é importante ter esperança quando tudo está perdido.
E eu confesso que, como sobrevivente, eu também esperava isso.
Mas acontece que esse diário nunca foi sobre mim. Nem sobre o apocalipse. Esse diário que, suspeito eu, ninguém nem ao menos vai ficar sabendo da existência, nunca foi sobre zumbis e sobre o fim do mundo. Ele era apenas sobre... Nada. Um caderno cheio de palavras desconexas sobre mortos-vivos aleatórios, portas de vidro quebradas e sacadas. Nada.
Bem, até agora.
A partir deste momento, posso finalmente dizer que esse diário tem um propósito, afinal.
A fuga.
Talvez eu até faça algo grande, com letras curvadas bonitas e desenhos exagerados para marcar a nova fase da história. E não, eu não estou sendo dramática. Mas o fato é, que quando você está presa em um prédio de 60 andares, com seu ex-marido do lado, tendo que lutar psicologicamente consigo mesma para não ficar louca, é realmente mágico o momento em que você literalmente vê uma luz. Então, sim, eu preciso de, pelo menos, um grande título bem desenhado para marcar esse momento.
Ainda estou olhando para o céu, com as mãos sobre a boca. ri e bate palmas ao meu lado, como se achasse realmente fantástico o fato de ter um helicóptero sobrevoando o nosso prédio. E eu até começaria a rir e a bater palmas com ele se, por um milésimo de segundo, não começasse a desconfiar de que isso só pode ser um sonho.
Até porque, vamos revisar aqui, rapidinho: Há pouco tempo eu estava sentada no sofá do apartamento do meu ex-marido, quase me afogando em um poço (bem fundo, por sinal) de nostalgia e falta de dignidade – motivados, claro, pela lembrança do nosso primeiro beijo, – e então, começamos a conversar e caímos no sono.
Ok, até aqui tá tudo ótimo.
Mas, aí, eu acordo completamente assustada, no meio da noite, aflita por causa de um barulho alto e insuportável que, mesmo no meio de um apocalipse zumbi, não é normal. Um barulho que agora, olhando para o céu e escutando claramente as hélices do helicóptero, eu sei que não é o mesmo som que eu ouvi ao acordar. E eu começo a ter uma dúvida clara e completamente compreensível: o que, afinal, eu escutei no meio da noite?
, nós vamos sair daqui! – Acordo dos meus pensamentos e viro para , observando em seu rosto o sorriso que, confesso, sempre admirei.
É um daqueles sorrisos colossais que aparecem em filmes de comédia romântica. E eu não estou falando isso por nenhum motivo especial, é que eu realmente queria ter um sorriso desses.
– Nós vamos? – repito. Ainda não sei se é um sonho ou se é realidade.
O fato é que tudo parece muito real para mim. Desde o vento gelado ao leve clarão que, aos poucos, começa a dominar o céu. Parece muito real o modo como o barulho do helicóptero incomoda meus ouvidos. Parece muito, muito real.
– Nós vamos – ele repete, confirmando. E eu sei que ele diz a verdade, porque conheço aquele tom de voz tão sincero e casual. – Estamos salvos. Finalmente.
E então tudo muda. Esse breve momento mágico de felicidade e esperança é destruído quando, para a minha surpresa, um homem abre a porta de correr do helicóptero e aparece no nosso campo de visão. Ele carrega uma arma quase tão grande quanto seu próprio braço, fazendo-me engolir em seco quando a aponta para nós dois.
– O que diabos ele está fazendo? – sussurro.
franze o cenho e começa a dar míseros passos para trás. Não tira os olhos do helicóptero por um único segundo, mas responde:
– Talvez ele ache que nós somos zumbis.
Olho mais uma vez para o helicóptero, percebendo que o homem ajusta a mira da arma. Meu coração salta dentro do peito quando pergunto:
Parecemos zumbis?!
finalmente olha para mim, de cima a baixo. E então, irritantemente dá de ombros.
– Talvez, sim.
Mordo o lábio, tentando ignorar o fato de que ele acabou de dizer que eu posso parecer um zumbi. A droga de um zumbi. Um morto-vivo decadente com a pele horrível e dentes podres. Isso é inacreditável.
– E o que nós fazemos? – pergunto. – Como mostramos para eles que somos... Humanos?
Ainda estamos roboticamente andando para trás. Em passos lentos e calculados, como se qualquer movimento pudesse fazer o homem atirar na gente. O único problema é que, no fundo, eu sei que uma bala seria muito mais rápida do que nós dois.
– Estou pensando – ele responde.
– Legal. Agora tudo depende do seu cérebro. Estamos salvos!
vira o rosto para mim, talvez atingido pela provocação. Seus olhos estão estreitos e eu me sinto na obrigação de dar de ombros e fingir que não disse nada por mal. O problema é que, antes que eu possa fazer isso, escuto um barulho alto ecoar pelo ar e me assusto. Eu e , com uma sincronia quase planejada, olhamos para o helicóptero e vemos que o homem abaixou a arma.
Sinto uma dor quente no braço direito. Pontadas, para ser mais exata, e então percebo que tem sangue escorrendo pelo meu antebraço. A dor que eu sinto é leve e quase inexistente, mas o vermelho do sangue me faz arregalar os olhos e olhar para , assustada.
– Ele atirou em mim... – digo quando finalmente cai a ficha. – Ele atirou em mim! – afirmo mais uma vez, percebendo que, até ali, tudo não passava de uma leve impressão.
Quem tem a impressão de levar um tiro? Isso mesmo, eu.
... – ele começa, com o olhar perdido atrás de mim.
Estou tão revoltada por ter sido baleada e tão assustada por não saber de onde, exatamente, vem o sangue, que não dou importância para . Apenas continuo inspecionando meu braço em busca do buraco da bala, ou algo assim, e lamento pela minha blusa branca que agora está acabada.
Não encontro o ferimento, e a dor é incômoda, mas não insuportável como eu achei que seria a dor de um tiro. E só depois de perceber que não estou realmente ferida, levanto os olhos para .
Sei que não devia fazer diferença, mas, eu estou sangrando e ele está olhando melancolicamente para o horizonte. Tem algum jeito de ele ser mais sem noção? Não.
Estou prestes a reclamar quando escuto um barulho estranho. Reconheço imediatamente aquele som horroroso e nojento, que, por sinal, é o nada agradável som de um zumbi "falando".
Sim, eu acho que ele está falando. Você não acha? Eles também devem se comunicar entre si. Devem sentar à noite, depois de longos expedientes, e discutir sobre qual porta de vidro vai ser destruída na manhã seguinte. Mas, claro, tudo isso enquanto comem cérebros fritos em porções.
Tá, eu exagerei. Mas é que eu ainda não esqueci a minha porta. Vou superar uma hora, não se preocupe.
– Ele não atirou em você – diz.
Demoro um pouco para entender o sentido da frase. Olho para trás, de onde o som veio, e vejo um zumbi caindo no chão bem a nossa frente. Meu coração está disparado dentro do peito ao notar que o homem do helicóptero, na verdade, me salvou de ser atacada por um zumbi. Ele provavelmente viu a criatura chegando e percebeu que não tínhamos notado, atirou nele e salvou a minha vida. Agora, porém, eu tenho um tiro de raspão no braço e uma blusa branca manchada de sangue, o que indica que ele não é bom de mira.
Percebo, então, que a porta do apartamento está aberta e corro para dentro, fechando-a o mais rápido que posso. me segue e me ajuda a mantê-la parcialmente fechada quando a Dona Sara – que parece ter adquirido um amor quase lésbico por mim, – aparece e coloca o braço por uma brecha entre a porta e o batente dela. Ela está, de um modo quase circense, devo admitir, se contorcendo, e até consegue passar a cabeça pelo mesmo vão que passou o braço. Nesse meio tempo, porém, eu só consigo pensar em como ela conseguiu ficar mais feia do que já era, que horror!
Tento me afastar dela, colocando as costas contra a porta e me distanciando o máximo que consigo de tudo o que ela possa usar para me arranhar ou arrancar pedaço. quase é mordido uma ou duas vezes quando tenta, a toda custo, empurrá-la para trás. Então ele olha para mim e manda eu me esconder. Ele provavelmente acha que não conseguiremos escapar dessa.
Passei muitos anos da minha adolescência vendo propagandas de vitaminas na televisão. Sabe, aqueles comerciais de pequenas pílulas coloridas direcionados a idosos com ossos fracos? Mas eu nunca achei que eles realmente funcionassem. Agora eu percebo que a Dona Sara deve ter tomado vários daqueles comprimidos junto com seus antidepressivos. É a única explicação para toda essa força e quase vitalidade.
chama a minha atenção e repete o pedido que fez antes, falando para eu me esconder. Ele toma o meu lugar atrás da porta, empurrando-a com toda a força que tem. Ando alguns passos, pensado se me escondo ou se corro para a sacada e me jogo de lá. Sinceramente, nenhuma das duas alternativas me parecem boas, mas cogito a hipótese de me jogar dali de cima quando a porta sofre um solavanco mais forte e a senhorita Sara quase entra no apartamento.
Isso me faz acordar, e eu corro para o quarto de , começando a procurar algo que possa nos ajudar na defesa contra a zumbi idosa e irritantemente determinada. Eu quero muito fazer algo útil ao invés de simplesmente correr e me esconder, mas, infelizmente, não estamos naqueles filmes americanos e eu não encontro nenhum taco de Baseball pendurado dentro do armário. Penso até em usar o travesseiro de para bater nela, mas não acho que isso vá realmente funcionar, então desisto.
Abro todas as gavetas, pois sei que algum dia da vida dele foi escoteiro, e passo a pensar que, talvez, ele tenha guardado algum artefato útil daquela época. Lembro que uma vez fomos acampar e eu o fiz comprar quase uma dúzia de sinalizadores, para o caso de nos perdermos na mata. Lembro que dividimos em três para cada um, para o caso de nos distanciarmos um do outro, também. E depois, para garantir, espalhamos os outros seis que restaram pela floresta para o caso de que, no cúmulo do azar, ficássemos sem os nossos sinalizadores.
E você pode até dizer que eu sou maluca ou paranoica, mas eu continuo viva e segura, aqui, na cidade; não perdida em uma floresta.
Tá, quase segura. Esqueci o pequeno fato de que tem uma idosa recém transformada em zumbi querendo comer o meu ex-marido (no lado ruim do termo, se é que faz sentido) e eu ainda não encontrei nada que sirva como arma.
Começo a procurar na parte de cima do guarda roupa. Eu sei que parece estranho, mas é um lugar que , em um ato que eu sempre odiei, usa para jogar as tralhas que não tem um espaço especifico para ficar. Puxo as malas com objetos dentro, fazendo-as cair sobre a cama de casal em um barulho que, graças a deus, sai baixo por causa do colchão. Abro a mala e começo a retirar as coisas de dentro dela. Estou tão desesperada que não me importo com minha fobia com baratas. Sei que deve existir alguma ali, afinal, elas estão em todos os lugares, mas não consigo pensar nisso e apenas continuo procurando.
Pausa para um aviso a você que está lendo isso: Se você, que achou esse diário, tiver a chance... Extermine todas as baratas para o caso de acontecer outro apocalipse zumbi. Ao contrário, elas sobreviverão ao fim do mundo de novo. Eu juro.
Voltando à mala, fico surpresa em perceber que não são coisas de acampamento que estão ali. Esperava as cordas das barracas e as bombas de encher os colchões, mas o que eu acho são, sem brincadeiras, alguns livros e uma... Arma.
Uma arma.
Respira, . Conta até três.
Um, dois, três.
Uma arma.
Meu ex-marido tem uma arma.
Isso deveria ser perigoso, não é? O fato de seu ex ter uma arma escondida entre livros de psicologia. Não é uma combinação muito boa. Chega até perto de ser um fato irônico e meio psicopata. Mas tudo bem, eu acho que posso lidar com isso.
Coloco a arma de lado, pois sinceramente não sei como usá-la, e começo a procurar um livro pesado o suficiente para derrubar um zumbi. E então eu começo a me perguntar o porquê de ele não ter cursado História. Meus livros de história são maiores do que esses, o que seria algo bem mais útil.
Puxo a outra mala, abrindo-a o mais rápido que posso. Sei que estou no quarto há menos de três minutos, mas o tempo deve estar se arrastando para , lá fora. Posso escutar o barulho estranho das "falas" da dona Sara, e, logo depois, o barulho da porta quando ela bate o corpo contra a madeira. Ou talvez eu esteja enganada e, de repente, é só o e toda a sua inteligência, tentando derrubar um zumbi com a própria porta. Palmas.
Na segunda mala estão todos os acessórios que nós usamos no acampamento, um ano atrás. As cordas, as bombas, as lanternas, os sinalizadores e... Os sinalizadores!
Pego um deles e corro de volta para a sala. ainda está segurando a porta, tentando ao mesmo tempo alcançar o sofá, – talvez para usá-lo como uma barricada, – e a dona Sara parece estar bem mais brava do que quando nós pisamos em suas plantinhas, que ficavam no jardim do prédio, e bate os dentes de uma forma até engraçada quando tenta alcançar .
Corro até a cozinha e pego o fósforo que fica escondido dentro do forno, para caso o acendedor elétrico não funcionar, e volto para a sala, já colocando fogo no sinalizador. A luz vermelha faísca quando já estou de frente para , que me olha com os olhos arregalados.
, o eu você tá fazendo? Se esconde!
Fecho os olhos e jogo o sinalizador contra a dona sara. Nesse momento, percebo que zumbis são quase como cachorrinhos. A luz a atrai e ela para de se movimentar para prestar atenção nela, o que me dá alguns segundos de vantagem que, claro, eu desperdiço por estar atônita com o fato de o plano ter funcionado.
Quando o sinalizador cai no chão e rola para o lado de fora, parando no meio do corredor, a velha-zumbi grita e parece voltar à realidade. Quando vai começar a tentar entrar no apartamento de novo, porém, dá uma espécie de empurrão final na porta, colocando-a para fora de vez.
Olha, tudo bem que, inicialmente, meus planos eram jogar o sinalizador nela e ver se aquilo queimava. Mas até que o lado alternativo da história funcionou bem. Podemos até manter isso em segredo e fingir que foi a minha intenção o tempo todo. Eu iria preferir assim. Obrigada.
e eu puxamos o sofá para frente da porta e nos jogamos sobre ele, extremamente cansados. Depois de alguns segundos de suspiros e tentativas de manter a calma, porém, olhamos um para a cara do outro, e, em um ato ridiculamente sincronizado, falamos:
– O Helicóptero!
Levantamos e corremos de volta para a sacada. Toda a ação de impedir o zumbi de entrar levou apenas uns cinco minutos, mas o helicóptero já está se afastando. Começamos a pular, esperando que eles nos vissem, mas evitando gritar para não chamar atenção. Ele se afasta cada vez mais, e eu já estou perdendo as esperanças quando tenha uma ideia.
Corro até o quarto, pegando um dos sinalizadores e ascendendo-o com o fósforo que ficou no meu bolso. Por um segundo, esqueço que ainda estou dentro do apartamento e apenas fico olhando a luz vermelha e faiscante à minha frente. Quando me dou conta, estou correndo de volta para a sacada.
Quando paro do lado de fora, vendo o helicóptero se afastar, finalmente percebo que não faço a mínima ideia de como usar um sinalizador. Então fico olhando-o por um ou dois segundos até arrancá-lo das minhas mãos e jogá-lo no ar.
A pequena luz vermelha sobe em direção às nuvens carregadas de São Paulo, quase perdendo-se no clarão repentino do dia, que finalmente começa a florescer. O rastro do sinalizador, porém, é notável, e eu sei que, de algum modo, o homem do helicóptero o viu.
– Você acha que eles vão voltar? – pergunto.
ainda respira com dificuldades. Eu também, aliás, pois acho que nunca sofri tanta pressão física e psicológica – ao mesmo tempo – na vida. Sério. E eu digo isso mesmo tendo jogado Paintball com meus amigos da faculdade.
– Por que eles foram embora? – pergunta em meio a arfadas. – Eles nos viram. Viram que estávamos aqui e viram que estávamos limpos... Qual o sentido?
– Eu não sei – respondo. – Mas acho que eles vão voltar.
– É provável. Se eles viram o sinalizador, vão voltar.
– E o que fazemos enquanto isso?
apoia as mãos nos joelhos, tentando estabilizar a respiração. Uma fina linha de suor escorre pela sua testa, seus lábios estão trêmulos pela adrenalina e, seus olhos, de uma maneira ou de outra, continuam estranhamento calmos. Ele levanta, arrumando a postura, olha para os lados e se apoia no parapeito da sacada.
Sua atenção está completamente perdida na rua lá embaixo. E é até estranho a expressão séria e quase misteriosa que ele assume quando olha para o céu, na direção que o helicóptero seguiu, e então para cima, vendo além dos 29 andares sobre nós. Ele parece mesmo pensar sobre alguma coisa importante. Eu, porém, não pergunto o que é. Estou ocupada demais na tarefa interna de não entrar em pânico ao perceber, finalmente, com total e pura clareza, que eu levei um tiro de raspão.
E estou prestes a reclamar da dor em meu braço direito quando a voz dele me faz parar.
– Eu sei por que eles foram embora – vira para mim. – É porque nós temos que subir.



Capítulo 6

Três anos atrás, quando eu e estávamos noivos e começando a decidir como seria o nosso casamento, eu tive uma ideia brilhante: Decidi que queria dançar The time of my Life durante a festa, depois da cerimônia oficial.
Não, por favor. Guarde o riso para quando eu terminar de contar. Obrigada.
Durante a festa nós dançamos, sim, The time of my life, e foi realmente... divertido. Claro, nós erramos muita coisa, mas não nos importávamos de verdade. No começo, para ser sincera, eu até fiquei irritada, pois queria fazer tudo certo. Depois, apenas acompanhei a risada de e observei enquanto os outros convidados se juntavam a nós na pista de dança, cada um reproduzindo os passos como lembravam; os que não sabiam apenas seguiam o ritmo com a cabeça e os pés. Havia um fotógrafo irritante que passou a gravar tudo com um sorriso no rosto – o que me deixou desconfiada, em certo ponto –, mas depois o DVD ficou realmente bom. e eu rimos muito das cenas bizarras das velhinhas e dos velhinhos, das crianças amassando seus vestidos passados por mães super protetoras e dos adolescentes, que mais se preocupavam em beber do que, de fato, dançar. Nós enviamos uma cópia do DVD para todo mundo que aparecia nele, e não foi porque achamos que seria legal, mas porque queríamos que vissem o quanto estavam ridículos. Nessa categoria ridícula, claro, também se encontrava tanto eu quanto o . Mas estava tudo bem para nós, afinal éramos os noivos.
Porém, o que mais me impressionou naquele dia, foi que, mesmo com todo o nervosismo e suposta pressão, eu consegui dançar. Consegui esquecer as neuras e, no fim na música, eu já não me importava mais com aquela situação. Eu só pensava em como devia ter insistido menos naquela ideia; em como os ensaios tinham sido uma quase total perda de tempo e em como eu realmente amava aquele vestido branco igual ao da atriz do filme. É. No final foi divertido.
Agora eu comparo essa situação com a que eu me encontro agora: presa em um prédio de 60 andares, bem no meio da cidade mais populosa do país, enfrentando um apocalipse zumbi. É. Difícil, eu sei. E sabe qual é a pior parte? É que, até agora, eu não tinha percebido quão séria era a minha situação. Pois veja só: estou em uma cidade com mais de 11 milhões de habitantes. Ok, legal; cidade populosa. Só que, dessas 11 milhões de pessoas, no mínimo, 100 ainda estão saudáveis, – e eu estou sendo extremamente otimista com esse número.
Mas esquecendo dos habitantes saudáveis, vamos falar do total: 11 milhões. Desse número incrivelmente alto, podemos tirar, no mínimo, trezentas pessoas e colocá-las no meu prédio, que era mais ou menos o tanto de moradores que residiam aqui. Agora, levando em consideração que estou presa nesse lugar há quase um mês e nada aconteceu, eu me pergunto se todas essas trezentas pessoas já viraram zumbis. E eu sei que a resposta é um tanto óbvia, mas eu preciso ficar fazendo essas contas mentais para nunca esquecer de que estou no apocalipse. E eu sei que estou muito ferrada, mas o pior de tudo – até mesmo de saber que praticamente matei o meu antigo zelador – é ter que escutar dizer que quer subir esses 29 andares cheios de zumbis até o telhado, para, talvez, um helicóptero vir nos resgatar.
, nós temos que tentar! – ele insiste. – É a nossa chance de sair daqui!
Estou sentada em seu sofá, tentando limpar o machucado do meu braço. Passo o algodão sobre o sangue da minha pele, limpando-a, mas não consigo desinfetar a ferida em si, pois o ardor é insuportável. Tenho pavor de sangue desde que me conheço por gente e, sinceramente, não é nada fácil olhar para todas as manchas vermelhas na minha blusa e continuar quieta. está em pé na minha frente, com os braços cruzados e a mandíbula comprimida em uma de suas raras demonstrações de sincera irritação.
– chamo em um tom quase mandão. Acho que sou a única adulta daqui. – São 60 andares. Nós vamos morrer.
Ele bufa, indignado com a minha recusa. Ora, desculpe se eu não quero morrer, penso.
– Não são 60 andares! – ele argumenta, depois para e tentar achar algo para dizer até acrescentar: – São só... 29 andares e alguns zumbis.
– Se você esperava me convencer com isso, não funcionou.
– Tá, ok – ele balança a cabeça. – Pense no seguinte: estamos aqui há menos de um mês, certo? – eu confirmo e ele continua: – Quantas vezes quase morremos? Veja, não fará muita diferença se sairmos ou se ficarmos aqui, esperando a morte. Terminaremos do mesmo jeito. A diferença entra as duas opções é que, subindo, nós poderemos, sim, ter uma chance.
Mordo o lábio. O maldito tem razão.
– E como faríamos isso? – pergunto.
Ele sorri. Depois seus lábios voltam para a linha reta de antes.
– Não pensei nessa parte ainda.
Olho para ele e suspiro. Nunca quis tanto que decorar a coreografia de The Time of my life voltasse a ser o maior dos meus problemas. É tudo catastrófico demais, mesmo quando são coisas pequenas. É como se eu sentisse a dor em meu braço com provavelmente mais intensidade do que deveria; como se visse os olhos de mais azuis do que realmente são e me enterrasse em mais dúvidas do que, de fato, existem.
Encontramos uma maneira de escapar, então por que eu me preocupo tanto? Sei que não vai ser fácil, disso eu tenho certeza, mas não sinto apenas medo; é quase um desespero. Quase como se a morte fosse a única coisa certa, no fim das contas. Como se não houvesse outra saída.
Penso nos barulhos que escutei de madrugada e imagino o que eles poderiam ser. Não era o helicóptero, isso é óbvio, mas não vejo outra explicação. A única coisa que sei é que veio de cima, e isso me apavora ainda mais. E se houver alguma outra coisa nos andares sobre as nossas cabeças? E se estivermos prestes a ir de encontro a algo maior do que apenas zumbis? Será possível que, ao contrário do que pensamos, essas criaturas não sejam as únicas coisas ruins no mundo? Afinal, apenas deduzimos o que aconteceu lá fora; tanto eu quanto o não temos informações do que se passa no resto do mundo desde que as televisões não funcionam e os rádios não têm pilhas.
E se nós estivermos enganados em relação a tudo?
– Você pode ir, . Eu vou ficar – digo com a voz fraca. O meu braço arde e eu fecho os olhos. Não posso pedir para que ele fique; seria egoísmo demais. O máximo que posso fazer é alertá-lo do que pode acontecer e deixá-lo ir sem mim.
Sinto todo o meu corpo amolecer. O cansaço repentino que me atinge faz com que eu curve as costas, incapaz de manter a postura. Olho para e a visão de sua expressão desapontada quase me faz começar a chorar. Sinto que, talvez, essa seja a nossa única esperança, mas não sei como pode ser viável. O sangue volta a escorrer pelo meu braço na medida em que o ferimento começa a sangrar de novo, fazendo-me morder o lábio com a visão do vermelho manchando mais ainda a minha blusa.
senta ao meu lado, colocado os cotovelos sobre os joelhos e juntando as mãos. Quando ele fala, não está olhando para mim.
– Eu preciso sair daqui, – suspira, abaixa a cabeça e leva as mãos aos olhos, como se quisesse se esconder. Só então vejo como os seus ombros parecem tensos e cansados. – Mas eu não posso fazer isso sem você.
Eu estou tão cansada disso tudo que não me surpreendo com o que ele diz. Meu coração se aperta e eu também não sei mais o que sinto. Minha cabeça está uma bagunça com tudo isso; eu definitivamente não nasci para essa coisa de divórcios e zumbis. Acho que teria sido bem melhor continuar dando aulas de história, enlouquecendo alunos adolescentes e gritando com crianças que insistiam em usar giz de cera para rabiscar as carteiras. Com certeza, teria sido muito mais fácil decorar a coreografia de todos os musicais existentes da Terra, mas ao invés disso, eu parei bem no meio de um Apocalipse Zumbi.
Então tento esquecer tudo isso e passo um dos braços em volta dos ombros de , apoiando o queixo no lado direito do ombro dele. Provavelmente digo que vou subir os vinte e nove andares ao seu lado, já que ele concorda e eu o sinto forçar um sorriso, mas não presto muita atenção nisso. Estou ocupada demais pensando em se eu fiz a escolha certa. Ocupada demais sentindo a textura da sua camiseta, o maldito cheiro característico que não some nem no apocalipse. Ocupada demais percebendo como ele é quente e vergonhosamente confortável, e em como a sua respiração se torna leve e quase aliviada quando eu repito que, sim, eu vou com ele.

...

cedeu uma de suas camisetas para que eu rasgasse e usasse as tiras como curativo. O fato de se estar no meio do apocalipse zumbi e não ter nem ao menos um kit de primeiros socorros é vergonhoso, eu sei, mas não posso fazer nada em relação a isso. Eu dificilmente me machucava antes do fim do mundo, e, quando esse tipo de coisa acontecia, eu era dramaticamente competente para conseguir ir a algum Pronto Socorro.
Passo a tira em volta do meu braço e dou um nó cuidadoso para que ela não caia. Sorrio com o resultado, percebendo que o sangue parou de escorrer, mas então olho para a minha blusa manchada e sinto vontade de vomitar. Eu odeio sangue. Levanto do sofá e ando de um lado para o outro durante bons minutos. Minhas unhas estão quase completamente roídas quando finalmente volta do quarto, trazendo nas mãos uma mochila visivelmente cheia. Olho para ele e digo:
– Preciso pegar umas coisas no meu apartamento também.
Ele coloca a bolsa sobre o sofá e concorda. Depois olha para mim.
– Hm... Você quer que eu vá com você? – pergunta.
Olho para .
Se eu quero que ele vá comigo? Que tipo de pergunta é essa, pelo amor de Deus?
Não precisa, . Afinal, qual o problema de eu ir sozinha ao meu apartamento sem porta, com uma velha zumbi fascinada pela minha pessoa querendo entrar a qualquer minuto? Penso, mas apenas respiro fundo e digo:
– Seria muito gentil – meu tom é irônico, mas ele não parece perceber. – O que tem nessa bolsa? – mudo de assunto.
Ele olha para a mochila e dá de ombros.
– Alguns casacos, água e comida.
Avalio o modelo, a cor e o modo como a mochila começa a pender para o lado, caindo no sofá.
– O que você diz com comida? – pergunto cética.
Sei muito bem que os hábitos alimentares de se baseiam em salgadinhos, cerveja e, talvez, lanches gordurosos de algum Drive Thru. Eu sinceramente não sei como ele conseguia manter a forma quando esse tipo de coisa realmente importava, mas é isso mesmo: ele é uma máquina de comer besteiras. E o pior de tudo é que o maldito sequer engorda com esse tipo de atitude.
– Você sabe... – ele responde. – Comida.
É. Parece que ele não mudou em nada nesse aspecto.
– Nós definitivamente precisamos ir buscar coisas no meu apartamento – digo.

...

Estou parada no meio da sala do meu apartamento. Voltamos aqui para pegar suprimentos úteis na nossa fuga, e eu sei que não devo me importar com bens materiais nessa altura da vida, mas, ainda assim, eu me importo. Olho para o tapete e para a televisão; meu sofá vinho que demorei anos para juntar coragem e comprar, já que ele fugia de toda a decoração bege do lugar. Olho para os CDs na minha estante, organizados por ordem alfabética, marcados com etiquetas coloridas, – cada uma para um gênero, e lembro-me de todos os anos que passei para conseguir juntá-los.
está encostado contra a parede da sala, de braços cruzados, esperando que eu faça algo. Quando olho para ele, só digo que não quero levar nada além de comida.
– Tem certeza? – pergunta – Pode deixar algumas coisas no meu apartamento. Se dermos sorte, talvez eles não entrem lá quando sairmos.
– Não, não – respondo. – É besteira. Vamos só seguir o plano. Estamos perdendo tempo.
Ele assente e anda em direção à cozinha, abrindo o meu armário. Saio para pegar uma mochila no meu quarto e enche-la de qualquer tipo de suprimento. Lá dentro, ao lado da cama, ainda deixo um quadro do dia do meu casamento com .
É uma foto engraçada, de quando chegamos da igreja. Fizemos uma pós-festa só para os nossos dois únicos amigos realmente íntimos, sem toda aquela coisa de igreja, bolo e champanhe caro. Algo mais sutil; com pizza e refrigerante, só para provarmos à Barbara e Oliver, que, além de nossos padrinhos, eles eram mais importantes que a lua de mel.
Foi uma noite maravilhosa, onde nós quatro parecíamos, no mínimo, crianças deixadas sozinhas em casa pelos pais, e não quatro adultos. Nós fizemos de tudo para nos divertir, querendo que aquele casamento fosse tão raro quanto o casal em si, como Barbara falou. Aquela foto fora um dos momentos mais divertidos da noite, quando eu, ainda com meu vestido de noiva, comecei a pular na cama e me acompanhou. Por algum motivo, ela não quebrou, devo acrescentar, mas as colchas ficaram amassadas e eu tive que passá-las no dia seguinte.
Tá, eu sei o que você está pensando: Por que eu tenho uma foto do meu casamento arruinado em um quadro ao lado da cama?
Essa é uma boa pergunta, e eu poderia deixar para responder depois, mas não há nada demais em dizer que eu gostei, sim, do meu casamento. Foi muito divertido, com pessoas que eu amava à minha volta. Além de que eu estava realmente uma graça naquele vestido. Vale a pena recordar.
Antes de sair, pego a mochila atrás da porta e a foto do quadro, colocando-a no bolso.
– Você só tem coisa enlatada! – diz quando chego à cozinha. – Milho enlatado, sopa enlatada, feijão pronto e enlatado... Meu deus! Existe até x-burguer vegetariano enlatado?!
– Pare de reclamar! – coloco a mochila sobre o balcão, não querendo explicar para ele que aquilo não era um x-burguer. – Não temos tempo.
Ando até o armário e tiro uma das latas de sua mão, irritada com o modo como ele olha para ela. Abro a mochila e começo a procurar coisas que realmente possam nos ajudar. Coloco barras de cereais, bolacha integral e alguns chocolates que eu guardava ali. Não podemos levar coisas que façam barulho na mochila, muito menos alimentos saudáveis que precisem de um preparo. As besteiras calóricas e gordurosas serão tudo o que vamos ter, por enquanto, e precisamos nos contentar com isso.
– Posso te fazer uma pergunta? – ouço a voz de atrás de mim.
Estou organizando os alimentos dentro da mochila por ordem de tamanho, de um jeito que nenhum item fique sobre o outro e alguma coisa acabe amassada. Balanço a cabeça e faço um aham distraído enquanto sei que ele cruza os braços e se encosta contra a bancada da cozinha.
– Por que não usou a arma?
Paro e não viro para olhá-lo enquanto penso em uma resposta. Apesar de ficar em dúvida por um tempo, analisando o seu tom de voz, chego à conclusão de que essa pergunta é só uma desculpa. Uma maneira de chegar a algo mais. Ele sabe que eu sequer toco em armas. Conheço bem o suficiente para perceber que, na verdade, ele só está curioso. Afinal, se fosse há três anos, eu teria feito um escândalo por causa daquela arma. Teria jogado a arma pela sacada e gritado com ele ao invés de simplesmente ignorar e fingir que não sei de sua existência.
Ele provavelmente esperava que eu, pelo menos, tirasse algum tipo de satisfação. Que falasse com ele sobre isso. Que sentasse ao lado dele e dissesse que é errado e perigoso. Mas acho que esse papel já não é mais meu. Nós não estamos mais casados e eu não tenho mais a obrigação de colocar juízo em sua cabeça, como acontecera muitas vezes durante esses três anos de matrimônio.
De qualquer jeito, não consigo controlar a minha vontade de confrontá-lo.
– Por que você tem uma arma? – olho para ele por cima do ombro.
ainda está com os braços cruzados; os músculos dando forma a uma das tatuagens que ele tem por ali. Meus olhos piscam e eu volto a encarar a mochila, de repente não sabendo mais se são as bolachas ou os cereais que vão por cima.
– Por que não faz a pergunta certa? – ele parece me desafiar, mas não entendo a real intenção. – Aquela que você realmente quer saber a resposta.
Sinto que ele está, de certa forma, sendo cruel. Falar sobre armas traz para mim uma série de lembranças horríveis. Eu perdi alguém muito próximo por causa de uma coisa dessas e, desde então, não sei lidar com o assunto. E eu sei que pode parecer loucura da minha cabeça, mas acho que, talvez, ele esteja fazendo isso de propósito, para testar os meus limites. Talvez, porém, ele só esteja curioso. Não sei bem, e não quero jogar nenhum tipo de jogo com ele. Só quero ser sincera e esperar o mesmo em troca.
– Você já tinha essa arma quando éramos casados? – pergunto.
Ouço-o soltar a respiração pelo nariz. Consigo vê-lo sem ao menos precisar virar; toda a sua forma, sua expressão e seus movimentos corporais impregnados na minha mente que cisma em conhecê-lo tão bem. A demora me faz hesitar, nervosa com algo tão insignificante para alguns, mas tão complicado dentro da minha cabeça. Respiro fundo e tento pensar em se ele seria capaz de me desrespeitar daquele jeito. Se ele passaria por cima dos meus traumas por um simples capricho.
Então ouço o som da sua voz, e eu sei que ele não está mentindo.
– Não.

...

Estamos ambos parados em frente à porta do meu apartamento. Decidimos sair por aqui ao invés de pular a sacada de novo e correr o risco de morrer. Essa ação bizarra já está se tornando algo normal e isso me assusta. Pular de sacadas não deveria ser um hábito.
Estou com os dedos sobre a maçaneta e mordo os lábios enquanto me observa, em silêncio, esperando que eu faça algo. O problema é que eu simplesmente não consigo. Não consigo mesmo. Meus dedos travam e minhas pernas fraquejam só de pensar que, quando eu abrir a porta, pode haver um zumbi só esperando eu me distrair para fritar o meu cérebro no jantar.
, temos que ir logo. Se escurecer, vai ficar difícil. – fala, e eu percebo pelo seu tom de voz que, apesar de tudo, ele não quer pressionar. Só está preocupado.
– Eu sei – sinto uma dor aguda nos lábios quando finco ainda mais os dentes contra eles. – Estou só... Me preparando psicologicamente.
Ele concorda com a cabeça e eu entendo isso como um sinal de compreensão. Aperto os dedos contra a maçaneta e respiro fundo. É agora. Tenho que fazer isso, ou nunca mais farei. Eu tenho a chance, o helicóptero e uma dúzia de sinalizadores. Vai dar tudo certo.
– Vamos. Agora – digo.
Sem pensar duas vezes, olho através do olho mágico para ver se tem alguém no corredor, abrindo a porta o mais silenciosamente que posso. Passo na frente de para ver o lado de fora, estreitando os olhos para enxergar o local pouco iluminado. O corredor está vazio, a não ser por uma Dona Sara estranhamente parada lá no fundo. E eu sei que essa é, provavelmente, uma instável maneira de começar a ponderar uma possível sobrevivência, mas eu sinceramente acho que vamos morrer no primeiro passo.
– A Srta. Sara está no fim do corredor – digo. – Em frente às escadas.
Daqui posso ver a baba que cai de sua boca, indo direto para o chão. É nojento e eu sei que vou ter que pisar naquilo quando quisermos chegar às escadas, mas tento ignorar e escuto quando diz:
– Precisamos fazê-la sair de lá – ele para por um segundo. Fecho a porta e olho para ele. – Como se atrai um zumbi de forma segura? – pergunta, e parece pensativo.
– Tá, olha... – balanço a cabeça. O modo como tudo está acontecendo é estranho demais. – Não fale mais a palavra zumbi, ok? Parece que somos adolescentes jogando algum videogame idiota.
Ele me olha confuso.
– Do que quer que eu chame? – pergunta.
– Não sei... – dou de ombros, pensando.
– Mortos-vivos? – arrisca.
– Não. É pior ainda – mordo o lábio, e então, só para vingar todo o sofrimento que eu vou ter que passar, acrescento: – Já sei! Qual era o nome daquela sua ex-namorada mesmo?
– Isabela? – ele parece confuso, mas quando entende o significado da pergunta, acrescenta: – Isso é sério?! – e posso ver que ele quer rir, mas sua boa alma não deixa. Então apenas rola os olhos e balança a cabeça, fingindo que desaprova.
– O quê? É perfeito! – tento ficar séria. – Lembra o jeito que ela andou a festa de formatura inteira? Eu acho que se encaixa perfeitamente.
– Ela não sabia andar de salto, ok? – ele revira os olhos. – E você também não sabe!
– E é por isso que eu me formei de tênis!
– Olha, vamos voltar para os 29 Andares que temos que subir? – ele está claramente se divertindo com a lembrança, mas é bonzinho demais para deixar que eu perceba.
– Na verdade, é a primeira vez, em três meses, que eu estou realmente gostando de conversar com você. Poderíamos ficar aqui e aproveitar mais um pouco... – tento enrolá-lo. Talvez, se ficar tarde demais e o céu escurecer, ele desista.
– Não. – corta. É claro que ele não ia cair nos meus truques. – Eu vou abrir essa porta, e nós vamos sair. Agora. Por favor.
– Não precisa falar pausadamente, não sou retardada! – viro-me para a porta, esticando os braços em uma cena altamente dramática de preparo físico. – Vamos logo com isso.
Ele parece ficar feliz com a minha repentina vontade de querer sair dali, mas não vou nem comentar que, o único motivo de eu ter me empenhado tanto naqueles poucos segundos, foi, na verdade, porque eu sem querer admiti estar gostando de conversar com ele. E pode parecer infantilidade, mas preferi distraí-lo antes que ele percebesse o que aconteceu. Só pra não deixar as coisas estranhas e etc.
abre a porta com um cuidado quase cirúrgico, levando-me a crer que ele provavelmente fez a escolha errada ao se especializar em psicologia ao invés de qualquer outro tipo de medicina. A porta, porém, emite um clique baixo que dispensa comentários sobre o mini ataque de pânico que me causou. Eu simplesmente começo a pensar que esse clique é a nossa perdição. Estamos mortos. Fomos mortos por um clique. Malditas portas!
Mas, como sempre, eu sou enganada pela minha imaginação fértil, e, tudo o que acontece, é a madeira da porta arrastar-se silenciosamente por alguns centímetros, até achar o espaço bom o suficiente para passarmos. Então ele se esgueira pela passagem, segurando-me pelo pulso para se certificar que eu não ficarei para trás – o que, sendo bem sincera, era o que eu pretendia mesmo fazer: Ficar aqui dentro quando ele saísse e viver mais alguns dias. Mas meu plano falhou.
O corredor está surpreendentemente vazio, sem ao menos a Srta. Sara para nos importunar. Isso me faz soltar o ar que eu carregava com tanto afinco nos pulmões. Acho até que estou meio roxa pelo tanto de tempo que passei desse jeito. olha para mim e sorri, como se dissesse "Viu? Eu falei que ia dar tudo certo", e eu quero responder que nós, do modo mais literal possível, só demos um passo em direção ao nosso destino, mas sou interrompida por um barulho no fim do corredor.
Eu e olhamos ao mesmo tempo, assustados. Ele ainda segura meu pulso e seu toque parece cada vez mais forte, como se ele soubesse que eu já me preparava para entrar correndo de volta no apartamento. Suspiro com o fato de que não posso ir à lugar algum e observo a silhueta que se mexe no fim do corredor.
Percebo, então, que nós nem ao menos temos um plano. Simplesmente saímos do apartamento com uma arma, poucas balas e meia coragem. O que me leva ao quase desespero quando a silhueta no fim do corredor se torna cada vez mais visível, revelando o que eu já sabia, de alguma forma, ser a Srta. Sara.
– Essa velha não desiste – resmungo e me olha de um jeito engraçado.
Não que seja engraçado o fato de estarmos sendo perseguidos pela nossa vizinha idosa e zumbi, mas...
Tá, olhando desse ponto, até que é engraçado.
– Você era a única vizinha fora da terceira idade que suportava ela – ele comenta. – É normal que ela se apegue.
– Cale a boca – reviro os olhos. – Podemos voltar para o apartamento agora?
A Srta. Sara parece ser mais burra em morte do que era em vida, e simplesmente não nos vê. Ela está fazendo aquela coisa engraçada de zumbi: andando para um lado até bater na parede, e depois voltando de onde veio; e assim vai, até que toda a pintura já desgastada do corredor tenha as marcas de sua testa suja e esverdeada.
– O quê? – parece realente incrédulo. – Não vamos voltar!
– Como não?! – rebato. – Já deu errado! Nem saímos do apartamento e já demos de cara com um zumbi. Acho que é até um sinal do Divino para nós...
– Shiu – ele corta, e eu ficaria realmente irritada, mas então percebo o que acontece.
Ela nos viu.
Meu corpo todo se retesa. Paro e fico ali, olhando-a perceber a nossa presença. Por um momento, eu realmente sinto pena dela. O medo desaparece quando vejo o colar de pérolas falsas em volta de seu pescoço, um dos brincos ainda na orelha, enquanto a outra, já com a pele rasgada, perdeu a pedrinha azul clara que ela tanto gostava de usar. Eu me lembro das conversas fiadas que tínhamos enquanto ela cuidava de seu jardim, da gritaria odiosa dos netos dela, do modo como, depois que eu me divorciei, ela veio na minha casa todo dia para me fazer companhia, como se achasse que eu estava realmente arrasada. Nós víamos novela e eu falava coisas horríveis sobre , e, apesar de não sermos melhores amigas ou algo do tipo, eu realmente gostava dela.
E então eu escuto o gatilho da arma e acordo.
Eu sei o que sempre acontece depois desse barulho, então tento soltar meu pulso dos dedos de e impedi-lo de matar a doce Srta. Sara, mas a única coisa que consigo é um aperto mais forte que me traz para frente dele e me faz fechar os olhos, respirando fundo. Agora estou de costas para a zumbi idosa pseudo maluca e de frente para o meu ex-marido armado, e eu não sei, exatamente, qual das duas ideias é mais estranha; mas, sinceramente, não quero ficar aqui para descobrir. Também não quero surtar, gritar ou fazer com que sejamos mortos; mas simplesmente não consigo ficar parada. Não consigo escutar os passos dela cada vez mais perto. Não consigo fazer com que meu coração pare de bater tão rápido e não consigo parar de formular frases com a palavra "consigo".
Tudo o que eu penso é em como eu certamente não vou conseguir. E eu sei disso pelo modo como ainda estou com os olhos fechados e, principalmente, pelo fato de que eu só estou aqui porque está me segurando. Sinto tanto desespero que simplesmente fico parada de frente para ele, escondendo meu rosto com a mão livre e tentando me concentrar em ficar quieta enquanto ele passa um dos braços ao meu redor. Não sinto vergonha da proximidade na hora, porque o conheço suficientemente bem para saber que ele não se importa, mas agora, contando para você, admito que é um tanto patético.
– Você não pode matá-la – sussurro o mais baixo que posso. E eu sei que ela já nos viu e que isso não vai fazer diferença, mas é reconfortante saber que estou pelo menos tentando fazer algo que não nos mate.
Sinto que hesita e abro os olhos, encontrando-o me encarando. Estou de costas e não faço ideia se ela ainda está vindo em nossa direção, mas acho que isso não importa agora.
– Você não pode atirar nela – repito. Na verdade, sai quase como uma súplica. – Ela é nossa vizinha. Foi no nosso casamento! Levou flores de presente...
– Ela te deu um moedor de carne, – rebate de forma quase entediada. – E você é vegetariana!
– Isso não faz dela uma pessoa ruim – volto a fechar os olhos. – Ela está perto?
– Está quase aqui – reconheço em seu tom um leve traço de medo. Fico aliviada, admito. Estava quase cogitando a hipótese de ele não ser humano.
Por algum motivo, eu sei que ele vai atirar, e, por algum motivo mais idiota ainda, eu viro de frente para a cena que se segue, onde a Srta. Sara leva uma bala no meio da cabeça.
Por causa do silenciador, tudo o que eu escuto é um barulho passageiro, mas o corpo dela produz um eco ao cair no chão com o qual eu tenho pesadelos durante muito tempo. E é patético o modo como tudo parece se mover em câmera lenta, mas acho que a velocidade normal não seria suficientemente dramática para acompanhar toda essa cena de morte e causa.
E então eu estou chorando. Estou chorando por que meu ex-marido atirou na cabeça da minha vizinha idosa e eu simplesmente não consigo aceitar isso como algo normal. Como parte da minha nova rotina. Não consigo suportar a ideia de que, provavelmente, vou atirar na cabeça de todos os meus vizinhos de três anos de moradia durante a jornada até o maldito telhado. E não consigo parar de me amaldiçoar por não ter escolhido um apartamento alguns andares acima.
Nota para caso, um dia, você acabe em um apocalipse zumbi: compre uma cobertura. Se não puder, compre um trailer. É auto locomotivo e você pode até fugir junto com a sua própria casa.
abaixa a arma e olha para mim. Tento esconder o rosto, mas não adianta muito e ele provavelmente vê o meu estado de pânico. Acho que a situação é deplorável demais para ser narrada em detalhes, mas é só você imaginar uma pessoa que, se for parar para analisar o momento mais violento que presenciou, ele provavelmente seria o de duas crianças brigando por um lápis de cor. Talvez assim, vendo por esse lado, você entenda o porquê de eu ter ficado tão em choque vendo o sangue esverdeado escorrendo pela testa da Srta. Sara, e me dê um crédito por toda essa cena dramática.
Em um segundo, estou dentro do apartamento, e eu acho que nunca fiquei tão feliz em ver esse lugar. As coisas saíram da câmera lenta, mas giram vez ou outra e eu percebo que o que aconteceu lá fora foi muito diferente do que eu contei. É, conseguiu ser pior. Não ria. Não esboce um único sorriso, mas o fato foi que ficar paralisada não foi o suficiente e eu consegui cair no chão.
Bem, quase chão.
Acho que me segurou, eu não entendi muito bem. Parece que os meus ataques de pânico atingiram um nível mais alto quando percebi respingos do sangue da Srta. Sara na minha blusa rosa clara. E não, não é nenhum tipo de TOC; é só que eu realmente amava essa blusa.
?
Pisco os olhos, tentando fazer tudo entrar em foco. A minha visão escurece igual a quando eu levanto muito rápido da cama, pela manhã. Fico desnorteada, e então o rosto de entre em foco. Então sai de foco, e entra de novo. E as coisas ficam assim por certo tempo. Sinto meu peito pegar fogo, lágrimas escorrendo pelo meu queixo. Ele atirou nela? Nós íamos morrer? Quem, por Deus, dá um moedor de carne para uma pessoa vegetariana?
Sinto a parede gelada contra as minhas costas. O choque me faz arregalar os olhos e então tudo volta ao normal. Meu rosto dói do lado direito, quente, e eu tenho aquela sensação esgotada de alguém que chorou durante horas seguidas. As cores voltam ao normal, está me olhando menos preocupado e mais aliviado, e eu respiro descontroladamente até levar a mão ao rosto e dizer:
– Você me bateu!
– Desculpe! – ele se apressa. – Desculpe, . Você estava em estado de choque.
– Você me bateu! – repito. – Você. Me. Bateu!
– Eu sei, não precisa repetir. E eu peço desculpas, você sabe que eu nunca encostaria em você, mas achei que fosse desmaiar de verdade.
– E você bate nas pessoas quando acha que elas vão desmaiar? – Estou passando os dedos no lado do rosto em que sinto quente. Meu estado de nervos, agora, é diferente do de antes.
– Olha, eu não te bati. Foi um tapa. Um tapa leve e com muito cuidado para não te machucar de verdade. E eu peço desculpas, de novo. Era isso ou deixar você chorar e soluçar até algum zumbi escutar e matar a gente.
– Droga, ! – rosno. – Você me bateu mesmo?! Eu não acredito! E você matou a nossa vizinha! É muita coisa pra tão pouco tempo. E pare de falar "zumbis", eu já pedi!
– Mas... Você também fala "zumbis" – ele estreita as sobrancelhas, uma mistura de confusão e culpa.
– Droga, fique quieto um minuto – fecho os olhos, respirando fundo. Depois percebo o silêncio, a grosseria, o modo como, mesmo desajeitadamente, ele só quer ajudar, e acrescento: – Desculpa. Desculpa mesmo, , mas eu não posso fazer isso. Vai sozinho. Sério, eu vou ficar bem aqui.
Ele franze o cenho.
– Isso foi por causa do tapa? – pergunta. – , eu estudei isso na faculdade e juro que é o procedi...
– Não, não foi o tapa – balanço a cabeça. – Eu entendo, já bati em um aluno meu quando ele cortou metade do dedo e entrou em pânico... – arrumo as costas contra a parede, de repente apreciando o fato de ser tão gelada. Isso me ajuda a ficar acordada. – Enfim, eu sei. Obrigada. É só que eu não consigo, ok? Vou matar a nós dois.
, eu... Eu não vou sem você – diz. – Você acha mesmo que eu iria e te deixaria para trás?
– Por que não? Sou eu que não quero ir.
– Você faria isso? Me deixaria para trás? – ele pergunta. Um belo exemplo, aliás, mas o modo como ele me olha faz com que eu me sinta culpada, e eu nem sei o motivo.
Engulo em seco. O fato é que eu não faria aquilo. Se eu tivesse um meio de sair daqui, o levaria junto comigo de qualquer jeito. Afinal, independente de casamento, divórcio, namoro ou de qualquer outra coisa, ele é um ser humano saudável e um amigo. E seres humanos saudáveis, amigos ou não, tornaram-se extremamente preciosos nos últimos tempos.
– Não – respondo.
Ele sorri fraco.
– Então nós dois vamos sair daqui, juntos – diz. – Vamos lidar com a sua fobia para zumbis. Chegaremos ao telhado, entraremos no helicóptero e nunca mais vamos por os pés nesse prédio outra vez.
– Acho que podemos conseguir – tento convencer a mim mesma.
– Claro que podemos! Já matamos um deles, veja só! Agora faltam só...
– 29 Andares cheios daquelas coisas. Tem balas suficientes para isso? – levanto uma sobrancelha.
para por um segundo, olha para baixo e sorri. Fico me perguntando qual o motivo do riso no meio de todo esse caos. Não digo nada e apenas espero, de repente percebendo o quanto estamos próximos. está com uma das mãos apoiada na parede, bem ao lado do meu rosto. Respiro fundo e penso em me afastar, mas no final, apenas fico parada enquanto escuto-o dizer:
– Bem, os sinalizadores foram bem úteis da última vez. E acho que, se eu não estiver errado, ainda temos onze deles para usar.



Capítulo 7

Faltam nove meses para o apocalipse começar.
Estou sentada na beira da cama de casal que divido com . À minha volta, o quarto está completamente bagunçado. Os livros estão jogados no chão, as roupas caem para fora do guarda-roupa e os lençóis da cama estão amassados. Meu cabelo é definido por nós contornando o meu rosto, minhas costas doem e meu queixo está tenso pela pressão que naturalmente aplico quando tento não chorar.
Tenho um objeto nas mãos. Algo branco, pequeno e assustadoramente significante para o seu tamanho. E então eu presto atenção nas cores, em tudo e em nada ao mesmo tempo. Tento manter as mãos estáveis, mas elas tremem. As minhas unhas estão roídas. Uma lágrima escorre pelo meu rosto e pousa sobre o teste de gravidez, que cai no chão.
As cores. Eu tinha que prestar atenção nas cores. Somente nelas.
Mas as cores estavam erradas.

...

Sair do apartamento de pela segunda vez foi mais fácil do que imaginei. Nós abrimos a porta e nos esgueiramos para o corredor, como anteriormente, mas com o diferencial de que, ali, tínhamos um plano. Um plano de verdade. Quase bom, para ser sincera, mesmo que tivesse sido criado às pressas e envolvesse mais ação do que planejamento.
E então nós saímos. Depois de quase metade do dia negociando as condições, os prós e os contras, nós saímos. Passamos pelo corpo morto da Srta. Sara e andamos pelo corredor. Senti que estava dentro de algum dos filmes que gostava de assistir – com fugas de prisões e coisas do gênero – e isso me deu uma sensação estranha. A ideia da fuga é fora do normal, para começo de conversa, mas o pior de tudo é perceber que até que somos bons nisso. Se não morrermos aqui, talvez tenhamos uma chance de sobrevivermos lá fora.
Na primeira parte do plano, nós tínhamos que conseguir as chaves. Precisávamos encontrá-las e tomá-las e, só então, passar para a próxima etapa. E como você deve estar se perguntando quais chaves são essas, vou explicar: elas são tudo o que precisamos para poder chegar ao telhado do prédio. E isso porque, como você deve imaginar, não temos mais elevadores. O único modo de chegarmos até o telhado é pelas escadas, que têm portões de ferro gradeados impedindo a nossa passagem. Precisamos das chaves para abri-los.
Ah, deixe-me explicar o porquê dos portões de ferro: três anos atrás, uma criança fez o favor de rolar dois lances de escadas consecutivos. Ela não morreu, felizmente, mas depois disso o síndico decidiu que todas as escadas deveriam ter uma porta em forma de grade para impedir que acontecesse de novo. Então toda a parafernália foi instalada, tudo ficou com um ar horrível de prisão e as chaves foram distribuídas entre os moradores adultos. O problema é que ninguém usa escadas em um prédio de sessenta andares, então, automaticamente, todas as chaves foram esquecidas em apenas algumas semanas.
Inclusive a minha.
Depois de um debate cansativo sobre qual dos moradores do nosso andar poderia ter as chaves, eu e o chegamos à conclusão de que um homem chamado Fernando, três apartamentos à direita do nosso, poderia não tê-las descartado na primeira oportunidade que aparecesse. Ele era um homem na casa dos quarenta anos completamente viciado em exercícios. Ia de bicicleta ao trabalho e tomava vitaminas verdes preparadas no liquidificador, então imaginamos que toda aquela coisa de "Geração Saúde" incluísse o uso de escadas ao invés do elevador. Afinal ele tinha que exercitar as pernas, ou sei lá. Ele teria as chaves penduradas ao lado da porta, como se fossem as do carro, e seria fácil e prático de encontrar.
Quando saímos, vimos Fernando perambulando pelo corredor, então sabíamos que ele não estava em casa, e talvez tivéssemos a sorte de encontrar o apartamento vazio. Aquilo nos deixou animados e, tanto eu quanto o , cogitamos que seria fácil vencer a distância precária de três apartamentos para alcançar o nosso objetivo.
Mas claro que fomos iludidos.
Vou te dar um exemplo, assim você entende a minha situação.
Pense em uma ocasião na qual você acorda no meio da noite, morrendo de fome. Então você vai à cozinha preparar algo para comer, mas, naturalmente, todos na sua casa estão dormindo e você tem que tomar todo o cuidado do mundo para não fazer barulho.
E então percebe-se como todas as coisas simples, como o abrir da geladeira e o barulho dos talheres, são coisas absurdamente barulhentas e escandalosas. Quase bombas.
Bem, agora imagine isso em um Apocalipse Zumbi. Imagine cada um dos seus passos produzindo um som que, apesar de baixo, parece mortal aos seus ouvidos. E o pior de tudo é saber que, caso algo dê errado e alguém te escute, não será apenas uma mãe furiosa que aparecerá como desafio.
Apesar de tudo, tentamos sair silenciosamente. Eu fui na frente, porque achei que aquilo compensaria a cena ridícula de covardia que presenciei pouco mais cedo, mas acabei me enganando e percebendo que era uma péssima ideia. Qualquer barulho fazia com que eu parasse e, na maioria das vezes, era algo tão súbito que esbarrava em mim e nós quase chamávamos a atenção de algum zumbi distraído.
Mas a culpa não foi inteiramente minha. Na verdade, foi culpa de quem planejou esse prédio macabro. Ele certamente não foi feito para o apocalipse. Tem uma quantidade enorme de pontos cegos, além da iluminação precária e o piso escorregadio. Por fim, chegamos ao apartamento de Fernando. Ele não estava lá, como previsto, então entramos e checamos todos os cômodos, por via das dúvidas, mas não encontramos nenhum intruso. Também obtivemos sucesso ao vermos as chaves jogadas sobre a mesinha da sala.
– Começamos bem – sorriu otimista.
Concordei com a cabeça, dizendo que já estava escurecendo. Entramos em um consenso lógico quando decidimos passar a noite ali, vendo que tentar subir os 29 andares no escuro não era uma boa ideia. Partiríamos pela manhã. Tínhamos perdido muito tempo com todos os meus dramas, além de que estávamos esgotados física e emocionalmente.
Agora, eu estou deitada em um tapete que não é meu, no meio de uma sala que não é minha. Dormi aqui porque, da última vez, eu teoricamente pude ficar com a cama. E apesar de, pela lógica, ser a vez do , ele também está deitado no tapete. Ao meu lado e um pouco distante, meu ex-marido tem os olhos fechados e um cobertor envolvendo os seus ombros. E apesar de não ser inverno e não estar chovendo, ele parece sentir frio.
respira de maneira calma e contínua, e o barulho do ar passando pelas suas narinas parece ser o único som do universo.
Olho para a porta de entrada do apartamento e abraço os meus joelhos. Mesmo quando não existe mais nenhum tipo de luz no prédio, posso ver que, de algum modo, o corredor do outro lado da porta é mais claro que o apartamento. Eu poderia ver caso algo passasse por ali. Seria possível enxergar as sombras se movimentando e, certamente, eu ouviria os ruídos dos passos. Mas quando se trata dos outros andares, não. Não posso fazer nada quanto a eles. Eu não posso escutá-los e não posso ouvi-los; não posso sequer enxergá-los. É tudo parte de uma grande surpresa. Uma surpresa cruel que, muitas vezes, não se mostra boa quando revelada.
Observo dormir enquanto ele se move, virando-se para o outro lado. Agora é como se ele olhasse para a porta também, mas eu sei que é ilusão e que estou temporariamente sozinha com os meus pensamentos paranoicos. Sei que terei que lidar com os barulhos e as sombras sem a ajuda dele.
Lembro-me de quando éramos casados e eu não conseguia dormir. prometia que ficaria acordado comigo, mas sempre caía no sono. Eu não ficava brava, mas conversava sozinha por horas até que as coisas dentro da minha cabeça se acalmassem e me permitissem sonhar – o que geralmente não demorava muito, mas ainda assim era incômodo.
Antes do apocalipse, eu tinha problemas com as escolas em que eu dava aula; com os alunos e com os outros professores e pais. Eu me preocupava com o giz sujando as minhas roupas e com o modo como as minhas unhas sempre estavam brancas e minha cabeça sempre estava doendo. Me preocupava com as contas, com o meu marido e com o aquecimento global.
Aquelas eram as coisas que me mantinham acordada à noite.
Hoje, é até engraçado pensar que a única coisa que faz os meus olhos ficarem abertos é o corredor claro do prédio de sessenta andares no qual estou presa.
Apoio o queixo no joelho e mantenho os olhos fixos naquele ponto baixo da porta. Por algum motivo, estou aterrorizada. Neste momento, estou com mais medo do que estive em todas as outras noites que passei sozinha durante o apocalipse. Como se aqui, fora da minha zona de conforto – do meu apartamento e da minha própria cama – tudo pudesse ficar pior do que realmente é. Menos seguro.
Vejo e ouço muitas coisas. E eu sei que a maioria delas não são reais, mas não consigo parar de sentir medo. Não consigo parar de pensar que ouvi passos e senti cheiros, ou que alguém está parado em algum lugar dessa sala escura, esperando eu me movimentar para iniciar uma caça sem sentido atrás de mim.
São apenas frutos da minha imaginação, – do meu inconsciente medroso -, mas, mesmo assim, tudo parece real. Fico falando para mim mesma, que é imaginação. Repito que não é verdade e que estou segura. É mais ou menos como quando você é criança e aperta o cobertor com mais força contra o corpo, fecha os olhos e pensa que, se fingir que está dormindo, nenhum monstro te pegará.
Se eu fingir que não é real, estarei segura. As regras são as mesmas.
Olho para . Por algum motivo, esse ato se repete por horas. Só existe o e aquela maldita porta. Só existe o paradoxo estranho de segurança e perigo; algo que me deixa confusa e distraída ao mesmo tempo. E talvez seja culpa do hábito desenvolvido durante todas as noites de insônia que eu tive enquanto estávamos casados, sempre gastando o meu tempo observando dormir, que agora, no presente, três anos depois e estando divorciada dele, eu continue olhando-o ao esperar que tudo passe e o sono venha. Mas eu sei que não virá, porque também existe a porta. Aquela porta que me separa dos monstros do lado de fora, e que parece bem mais frágil quando tudo está escuro.
E por algum motivo, eu agradeço por não ter dormido. Sei que teria pesadelos. Sou o tipo de pessoa com o psicológico fraco, que tem sonhos ruins com mais frequência do que o normal. Alguém que quase nunca consegue uma noite completa de sono. Uma mulher que, muitas e vergonhosas vezes, ligou a televisão em algum desenho animado e rezou para sonhar com o Pica Pau ao invés de com qualquer outra coisa. Alguém assim.
Mas acho que também posso colocar uma parcela de culpa no apocalipse. Estar com medo de dormir e de sonhar, é culpa do apocalipse. A incerteza sobre viver, andar, sair, comer e falar... É tudo por causa do apocalipse. Tudo encorajado pelos carros abandonados nas ruas, pelos prédios vazios – e ao mesmo tempo cheios -, pelas estações de metrô fora de funcionamento e pelos hospitais inúteis.
E então eu percebo que entre alienígenas, bombas nucleares, macacos gigantes, o Godzilla, fantasmas, lobisomens, vampiros e qualquer outra coisa que já pensamos que pudesse nos destruir, que pensamos que seriam os nossos piores inimigos e que travaríamos batalhas que acabariam com o mundo, fomos os únicos culpados pelo famoso Apocalipse. Nós destruímos o mundo. E não, não foi um vírus. A culpa foi nossa, que, literalmente, nos transformamos em algo que não pudemos controlar. De forma lenta e quase disfarçada, nós acabamos com o mundo.
Porque ninguém sabe o que realmente aconteceu. Tudo o que temos são indícios e teorias. Nós, na verdade, não sabemos de nada. Nenhuma tecnologia foi avançada o suficiente para descobrir se o que estamos enfrentando tem cura ou, ao menos, um tratamento. Nenhuma barreira ou exército, pelo que eu vi quando ainda tinha notícias do mundo lá fora, foi capaz de controlar a situação quando isso se aproximava. Nós nem temos um nome para toda essa confusão. Apenas deduzimos que foi um apocalipse zumbi, como os que víamos nos filmes, e continuamos sobrevivendo à base disso.
Às vezes, eu fico imaginando que a resposta de tudo pode ser muito mais simples do que pensamos. Cientistas procuraram a fonte da doença em países pobres, onde outros vírus se desenvolvem rapidamente e se multiplicam, mas eu, que sou apenas uma mulher presa em um prédio qualquer, bem no centro de São Paulo, fico pensando se tudo o que está acontecendo não pode ter sido culpa de algo muito menor. Imagine só se a destruição do mundo não foi causada por algum remédio para emagrecimento com resultado suspeitoso? Um produto de alisamento capilar; uma mutação formada na poluição do Rio Tietê... Qualquer coisa. Eu realmente acredito que foi algo que nós mesmos provocamos; que construímos com ganância e se virou contra nós. Como alguém que cria uma cobra em cativeiro, alimentando-a e mostrando-a para as câmeras, só esperando o dia em que o inevitável vai chegar e ela vai atacar. Algo assim. E, mesmo que seja dramático demais, você tem que concordar comigo: é bem provável que tenhamos destruído a única coisa que tínhamos de cuidar.
Um barulho do lado de fora do corredor me faz acordar do devaneio. Encaro a brecha embaixo da porta por vários segundos antes de lembrar que, não, nós não estamos sozinhos aqui. Aqui dentro, talvez, mas lá fora ainda existem outras... Coisas. Coisas que andam para lá e para cá e podem sentir meu cheiro, ouvir a minha respiração e farejar o meu medo. Eles podem, sim, eu sei. De algum jeito, eu sei.
Levanto, pego duas almofadas e ando até a porta. Coloco-as onde a madeira termina, impedindo-me de continuar avaliando o movimento imaginário que acontece do lado de fora, e fico ali, sentada no chão, observando as almofadas. O barulho do outro lado parece tão real que eu me deixo devanear, mais uma vez, sobre algum dos meus vários vizinhos arrastando os pés sujos pelo chão do corredor, procurando algo que talvez nem ele saiba o que é.
E eu não ficaria surpresa se ele descobrisse quando passasse em frente a essa porta.
Observo a cor escura da madeira. É padrão, igual a todas as outras do prédio, mas algo chama a minha atenção: um rabisco. Algo feita com giz. E eu sei disso porque vi muitos rabiscos quando era professora. Crianças fazem isso, principalmente em paredes, portas e carteiras de escola. E das casas delas...
As casas delas.
Prendo a respiração. Tento ficar parada e não entrar em desespero. Meus olhos se fecham automaticamente e eu começo a cogitar: todos os barulhos que escutei foram imaginários?
Por fim, chego à conclusão de que não estamos sozinhos. Fernando tinha um filho.

...

Levanto, tentando caminhar o mais silenciosamente possível. Ando até , que ainda dorme, e como não quero acordá-lo – pois sei que posso cuidar disso sozinha – simplesmente me ajoelho e pego a arma que está ao seu lado. Ela é fria e estranhamente pequena em minha mão, pesada como um livro de mais de mil páginas. Levanto, respiro fundo e, mesmo querendo jogar essa coisa no chão e correr para me trancar no banheiro, repito mentalmente que eu tenho que lidar com o meu trauma de armas se quiser sobreviver ao apocalipse. Tento lembrar de todos os filmes de ação que já assisti, segurando a arma com o dedo no gatilho, preparando-me para destravá-la quando necessário. Ando em passos lentos e tão inaudíveis que eu fico imaginando se tudo não passa de um sonho.
Checamos tudo quando entramos aqui. Não havia ninguém. Porém, eu sei que não vi nenhuma criança do lado de fora, quando saímos no corredor, então ela só pode estar aqui. Possivelmente perambulando por algum cômodo que esquecemos, ou morta em algum canto com uma bala no meio da cabeça. Ou ela pode ter saído e encontrado um jeito de sobreviver quando o pai foi infectado.
Continuo andando. As plantas dos apartamentos são iguais, e apesar dos móveis em lugares distintos, tudo é estranhamente parecido com o meu antigo lar. Dessa forma, consigo me guiar pelo lugar. Posso dizer qual porta é a do banheiro e qual é a do quarto, e também sei qual é o caminho para a cozinha. O que eu não sei, de fato, é qual dos dois quartos pertence ao filho.
Deduzo que seja o menor.
Paro bem no meio do corredor, de frente para a porta que, segundo a minha lógica, dá para o quarto da criança. A madeira escura é riscada, como a da porta da frente, e eu fico imaginando como o pai deveria ficar maluco quando encontrava aqueles desenhos pela casa. E então eu tenho um sentimento estranho de familiaridade quando vejo o nome rabiscado na madeira desgastada. Lembro-me de já ter escutado em algum lugar ou em algum momento, e, apesar de saber que "Julia" é um nome comum, é como se eu a conhecesse.
Levo a mão à maçaneta, girando-a devagar. A porta se abre em silêncio, e eu destravo a arma. O quarto que aparece no meu campo de visão é bagunçado, com brinquedos por toda a parte, e é completamente escuro. Não há ninguém aqui. Não existe garotinha, e eu sei disso, mas resolvo entrar e olhar embaixo da cama. Encontro apenas brinquedos. Dentro do armário a mesma coisa. A cama está cheia de ursos de pelúcia, mas vejo que falta um. Há um espaço em branco, no meio de uma cama estranhamente arrumada para um quarto tão bagunçado.
Volto para o corredor. Há mais duas portas, e eu sei que uma é o banheiro. Ando até a do quarto, abrindo-a com a mesma lentidão da outra. Este cômodo está mais arrumado, mas também não há muita coisa para se bagunçar: uma cama e um guarda-roupa é tudo o que o cômodo tem consigo. É extremamente metódico, pálido; sem nenhuma personalidade ou emoção. Como se quem vivesse aqui não gostasse do lugar. Como se quisesse fugir a qualquer momento. E apesar de eu saber que não vou encontrar nada, me ajoelho e olho embaixo da cama. O vazio é assustador. Sigo para o armário, e mesmo com essa falta de esperança que de repente parece ser tudo o que sei sentir, eu o abro.
E então eu sinto o gosto amargo do arrependimento. Sinto falta do tapete desconfortável da sala e sinto falta do . Sinto que deveria ter ficado quieta, na minha, deitada e olhando o corredor por debaixo da brecha da porta. Eu deveria ter dormido; ter tido pesadelos, sonhado com zumbis e com o fim do mundo.
Eu não deveria ter visto o que eu vi.
Sinto meus joelhos atingirem o chão. A arma escorrega pelos meus dedos e eu não sei onde ela vai parar, mas também não me importo. Meus olhos ardem, sinto falta de ar e um nó indescritível na garganta. Meu estômago se revira e eu percebo as minhas mãos frias quando as levo ao meu rosto, deixando que todas as lágrimas de desespero caiam. E eu sei que não preciso fingir aqui. Não há ninguém. Não há nada e não há apocalipse, nem o e nem a falsa coragem que encenei nas últimas horas.
Só há aquela pequena garotinha escondida dentro de um guarda-roupas. Ela segura um urso de pelúcia e um quadro com a foto de duas pessoas mais velhas. Sei que se trata de Julia porque reconheço-a como uma aluna, da qual fui professora durante dois anos, na creche. Lembro-me da mãe que a buscava na hora da saída e do pai que a levava todas as manhãs. Sim, eu me lembro dela, e também lembro que os pais se separaram quando ela nasceu e que a menina teve que morar com o pai quando a mãe morreu. Quando isso aconteceu, porém, ela já não era mais a minha aluna.
Eu olho para ela agora e lembro de todos os fatos que coletei de sua história. E algo me faz acreditar que eu não sei o suficiente, porque quando a encaro uma segunda vez, não consigo manter meus olhos sobre ela.
Há um buraco em sua cabeça, e o rastro de sangue passa pelo seu rosto e escorre até manchar de vermelho o vidro do quadro, impedindo-me de ver o sorriso cômico que Fernando e sua ex-esposa estampam na fotografia.
E então existe eu, , ajoelhada de frente para uma garotinha de sete anos morta com um tiro na cabeça. Dentro de um apartamento que não é meu, em um mundo que não pertence mais à minha raça. Tentando fugir de um prédio de sessenta andares, ao lado do meu ex-marido. Que usa sinalizadores para não ter que matar a vizinha idosa e que levantou no meio da noite, mesmo sabendo que deveria ter ficado sentada, ali, e tentado dormir, para achar uma garotinha morta segurando um quadro com a foto dos pais.
E depois, há a esperança. Aquela que há poucas horas eu queria sentir, mas agora parece apenas algo distante e inalcançável. Algo que foi despedaçado, destruído e apagado. Que morreu junto com a garotinha a minha frente e se tornou apenas mais uma parte do prédio em que estou presa quando se esvaiu nas minhas lágrimas, atingiu o chão e se infiltrou no tapete, derretendo-se ali. Só existe isso e mais nada.
Então percebo que Julia é diferente. Não é como a senhorita Sara. Não tem os olhos esbranquiçados, a pele esverdeada e os lábios negros. Não tem o aspecto doente de todos os outros, me fazendo perceber que ela não morreu quando já estava infectada. Ela partiu saudável. A garotinha estava inteiramente viva quando atiraram nela.
E então eu entendo. Entendo o que aconteceu no momento em que vejo o cobertor que rodeia seus ombros. Consigo assimilar em meio às lágrimas, que atiraram nela. Mataram-na. Provavelmente Fernando. Ele preferiu matar a própria filha antes que ela virasse um monstro. Preferiu poupá-la do sofrimento e da humilhação; da eternidade perambulando sem rumo, livrá-la da incerteza.
A mão pequena de Julia escorrega para fora do armário e toca o chão, perto do meu joelho. Sinto que não deveria estar aqui e me afasto, um tanto alarmada pelo movimento. E então eu percebo que tudo mudou: seus olhos estão ficando brancos. Sua pele começa a mudar de pigmento, a mão se mexe de novo e eu tento levantar, mas meus joelhos estão fracos. Minha única reação é me arrastar cegamente para onde eu imagino ser a direção da porta. A arma ficou perto do armário, e eu sei que não posso pegá-la porque a garotinha está mexendo mais do que apenas a mão agora.
Ela está saindo do armário.
Eu continuo seguindo a direção da porta. As lágrimas não me permitem ver a garota com exatidão. Eu tento falar com ela, mas a menina não escuta. Tento dizer que ela está doente. Reproduzo discursos que eu nunca pensei que tinha em mente. Prováveis curas que estão por vir. Chego a implorar para que a criança pare de se aproximar. Sinto mais lágrimas descerem pelo meu rosto quando a menina pisa sobre o quadro dos pais e continua vindo em minha direção.
Não quero matá-la. Não posso matá-la, sobretudo, porque perdi a arma. Mas eu sei que, se tivesse-a, eu não o faria. Eu não teria coragem. Eu deixaria que ela chegasse perto e continuaria pronunciando qualquer coisa que eu pensasse que poderia funcionar. E talvez aquilo fosse a coisa certa a se fazer; talvez matar uma criança zumbi não tenha sido algo que eu nasci para fazer. Eu não me arrependeria.
E então eu começo a chamar o nome de . Começo a chamá-lo em uma altura mediana de voz enquanto a criança se aproxima. E existe algo no rosto dela que faz com que eu vacile uma ou duas vezes. Eu sinto medo. Medo de morrer desse jeito e pelas mãos – ou dentes – de uma garotinha de sete anos. Tenho uma sensação estranha que não faz sentido. Por que quero viver, se eu não tenho mais esperança?
Vejo o batente da porta passar à minha direita, finalmente sentindo que posso ter uma chance. Paro de rastejar e me jogo para o corredor, puxando a porta o mais rápido que posso e trancando a menina lá dentro. Então eu fico ali, do lado de fora, sentada com as costas contra a parede e observando a porta que, estranhamente, não se move. O silêncio é promissor e a menina não tenta nada violento, como a senhorita Sara, mas eu posso ver a sombra dela pela fresta da porta. E eu fico ali, olhando-a, enquanto minha respiração se acalma aos poucos.
Não me mexo por um bom tempo. Ela também não.
– Mãe?
Levanto o rosto. Sinto minhas bochechas inchadas por ter chorado tanto. Apuro os ouvidos e tento encontrar de onde vem o som, a voz e a palavra. Concentro-me nisso até perceber que a menina, do outro lado da porta, mexe os pés. E então se repete:
– Mãe, é você?
Movo o corpo contra a parede. Estou exausta. A voz é arrastada, baixa; quase não identificável. Eu não sei o que fazer. Apenas me aproximo da porta e espero que se repita, mas não acontece. Então eu digo:
– Não sou a sua mãe.
Tudo fica em completo silêncio por mais alguns segundos, e então eu escuto um solavanco na porta. Algo que me faz pular e bater contra a parede do corredor. Minha respiração é quase dolorosa e todo o desespero de antes volta avassaladoramente compulsivo. A porta se mexe, batendo cada vez mais. Faz um barulho alto, mas eu não acho que possa ser ouvido do lado de fora do apartamento. Levo as mãos aos ouvidos e tento não escutar quando ela grita a palavra "mãe" várias vezes e sua voz se alterna em tons de todos os tipos, até tudo virar um longo ruído não identificável.
O que é isso?
Então algo atinge os meus ombros. Eu me assusto e me afasto, arrastando-me para longe, no corredor. É tudo tão automático que não sinto vergonha quando percebo olhando de mim para a porta, visivelmente sonolento e confuso.
, o que...
– Tem uma menina lá dentro – digo entre soluços. – Ela me chamou de mãe.
– Ela está viva? – ele pergunta, indo até a porta e colocando a mão da maçaneta.
– Não! – grito, fazendo-o parar. – Ela... Ela é um deles. Eu não sei... Não faz sentido...
para com a mão à meio caminho da porta, olhando-me de maneira confusa e desconfiada.
– Tudo bem – ele engole em seco. – Me dê a arma – estica a mão.
Ainda estou tentando respirar normalmente. Olho para a porta, que se debate com os impulsos da criança, e então volto a encarar meu ex-marido.
– Eu... – fecho os olhos, tentando me lembrar da arma. Quando percebo o que fiz, minha voz sai fina e quase desesperada. – Eu deixei dentro do quarto.
parece levar um minuto para assimilar o que eu disse. Sua expressão preocupada passa para desacreditada, furiosa e, então, algo que não sei identificar.
– Que droga, ! – ele não grita, mas vejo que quer muito fazer isso.
– Me desculpa – peço. Por algum motivo, estou mais desesperada do que quando estava sozinha com a garotinha zumbi. – Me desculpa, por favor.
para. Continua passando as mãos pelo cabelo e pelo pescoço como se aquilo fosse aliviar a tensão. Ele olha para mim e respira fundo. Sua expressão se desfaz em algo tão doce que automaticamente faz cada parte de mim se derreter em culpa.
– Tudo bem, daremos um jeito – ele anda até mim, oferecendo a mão para que eu levante. – Tenho uma ideia.



Capítulo 8

Existem certos pontos na vida em que você para de contestar as coisas e simplesmente aceita o que vier, esperando que tudo melhore ao longo do tempo.
Mas o que nós fazemos quando as coisas não melhoram?
Bem, eu acho que acabamos aceitando que nada é fácil. Que coisas ruins acontecem e que temos que lidar com elas, mesmo que não estejamos preparados. Porque a vida é assim: difícil. Nem sempre temos um final feliz.
Dessa vez, porém, eu realmente espero que eu tenha um final feliz. Espero que as coisas comecem a melhorar para que eu possa rir disso tudo e balançar a cabeça em negação às várias tentativas falhas que insisti em repetir; porque se algo bom não acontecer logo, acho que vou simplesmente sentar em um canto escuro e chorar até desidratar completamente.
Como alguém pode ser tão azarado?
Eu realmente não sei se sou desastrada por natureza ou se a vida hora ou outra decide contribuir com a minha desgraça existencial dando alguns empurrões, mas está cada dia pior. Não houve uma única vez nos últimos três meses que algo que eu fiz deu certo, e isso nunca aconteceu antes. Digo, eu sou extremamente organizada e só faço coisas que sei que consigo fazer. Como algo pode, então, sair errado?
Mas, bem, para ser sincera, eu não sabia bem o que eu estava fazendo quando decidi enfrentar um mini zumbi que tem a estranha capacidade de falar, então não vou culpar a vida.
Afinal, talvez não seja culpa dela o fato de eu ser uma mulher de 23 anos que já está divorciada e tem problemas com limpeza, portas de vidro e armas. Talvez não seja culpa de ninguém além de mim mesma essa situação trágica de ter que dividir o cenário apocalíptico da vida com meu ex-marido irritantemente fofo demais e ter que subir vinte e nove andares de um prédio infestado de zumbis que, antes, eram meus vizinhos. É, talvez não seja culpa da vida. Talvez eu seja a única a se culpar; mas talvez também seja uma daquelas cruéis lições de moral que o Universo prega em nós de vez em quando.
Eu acho que nunca vou saber.
Mas o fato é que, além de tudo, os problemas não param de aparecer. Como se não bastasse essa extensa lista de coisas infernais penduradas em meus ombros, ainda há o fato de que eu encontrei um zumbi que fala e que me chamou de mãe.
Vou repetir:
Ela falava. De verdade.
E é nessas horas que eu volto a pensar em mim mesma exercendo o meu papel de ser humano, e em como eu não faço a mínima ideia de o que estou fazendo no mundo. Qual o propósito disso tudo? Sobreviver todos os dias para, no fim, descobrir que as coisas sempre acabam piorando.
Estou nesse estado crítico e congelado quando chama o meu nome. Olho para ele e procuro uma maneira de contar o que aconteceu dentro daquele quarto, mas não sei com qual fato me preocupar primeiro.
Não estou falando só da arma ou de Giulia, mas sim do fato de que ela me chamou de mãe. Com todas as letras.
E isso é importante, não é? Digo, se eles podem falar... O que mais podem fazer? Desmontar portas?
Precisamos avaliar isso.
?
Pisco e encontro me olhando de um jeito estranho. Reparo então que eu não soltei a sua mão quando ele a ofereceu para me ajudar a levantar, e a aperto com tanta força que seus dedos estão roxos. Solto-a em um segundo e limpo a garganta, não achando necessário pedir desculpas.
– Você está bem? – ele pergunta.
Olho para ele e, por um momento, o odeio. A questão é que eu acabei de perder a nossa única chance de sobrevivência e ele não se dá nem ao trabalho de ficar bravo comigo por mais de quinze segundos!
Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença rara: não ter a capacidade de se irritar. Por que, Deus, eu tinha que me casar e me separar de uma pessoa dessas?! Fica difícil estabelecer uma linha reta de rejeição, ódio e irritação quando o outro lado do problema não colabora.
– Estou bem. Ela não me alcançou.
– Me conte o que aconteceu – pede com calma.
Desvio o olhar, por algum motivo sentindo vergonha. A situação parece extremamente ridícula quando avaliada posteriormente, sem o medo e a adrenalina pra me distrair do lado racional.
– Você não acreditaria.
ri, e eu não sei identificar se é sincero.
– Jura, ? Acho que de uns tempos para cá eu abri um pouco a minha mente em relação às minhas crenças.
Olho para ele e suspiro, cansada. sorri de um jeito diferente do de antes, e eu sei que, de algum modo, ele sempre vai acreditar em mim.
– Em resumo: – digo – O nosso problema é bem maior do que pensávamos.

...

– Então... Eles falam?
Olho para e constato que sua mania de morder o lábio inferior quando algo o incomoda ou o confunde não mudou em absolutamente nada. Ele ainda faz isso e estreita os olhos, encarando o chão como se uma resposta fosse sair dali e, como mágica, acabar com todas as suas dúvidas. Infelizmente, isso não acontece e eu apenas espero enquanto o meu ex-marido absorve todas as informações que eu acabei de passar tão firmemente, sem brechas para que ele duvidasse de mim.
Ele aceita tudo de um jeito até mesmo estranho, e completa:
– Mas se eles falam, quer dizer que ainda são, em parte, humanos? Afinal ela se lembra da mãe dela.
– Mas eu não sou a mãe dela!
– Deve ser parecida. Talvez eles tenham uma consciência e memórias, mas tudo deve estar extremamente comprometido: como uma doença mental.
– Então eles estão doentes física e psicologicamente?
– Eu acho que sim.
Jogo-me contra o encosto do sofá e deixo minhas costas se acomodarem nas almofadas fofas. Tudo de repente ficou pior. Eu não sei como, mas essa recente descoberta me diz que a nossa jornada até o 60° andar ficará bem mais difícil agora, com todos esses zumbis meio conscientes e crianças chamando por mães.
Talvez eles possam até mesmo raciocinar; talvez tenham a capacidade de deduzir esconderijos. Essa coisa de ter memória os faz seres inteligentes, de certa forma, não é? Igual a nós, só que com o diferencial de que são famintos e doentes.
– Que droga – pestanejo.
olha para mim com o cenho franzido e eu não entendo o porquê de sua confusão. Ele chegou à mesma conclusão que eu e sabe que estamos perdidos.
, você não vê? – pergunta, e parece animado. – É uma solução! Essa é a solução para tudo. Não é algo ruim.
– O quê?!
– Se for uma doença mental, pode ter tratamento. É bem mais fácil desenvolver uma forma de tratar a mente com processos psicológicos do que esperar uma vacina em um mundo que agora é absoluto de tecnologia. Nós não temos mais laboratórios ou máquinas, mas, pense: se o psicológico for a raiz da doença, com o tratamento certo à base psíquica podemos chegar à uma cura.
, se isso for uma doença mental, não acha que está em um estado crítico demais? Eu duvido que tenha tratamento. Além do mais, vimos apenas UM zumbi com esse tipo de comportamento. Não quer dizer que todos tenham essa chance. Julia pode ter sido uma exceção.
pensa por um segundo e então sorri. Um sorriso tão largo que vaza pela sua voz quando ele responde, tão animado e cheio de esperanças que eu sinto vontade de sorrir junto:
– Não! – exclama como se tivesse achado a cura para o câncer. – Você se lembra da senhorita Sara? Ela estava fixada em você, não era? Bem... Faz sentido! Antes de ficar doente, , ela te adorava. Tratava você como uma filha, se lembra? Eu aposto que tudo aquilo no meu apartamento era a parte consciente dela querendo ficar perto de você. Ela provavelmente não fazia ideia de que podia te machucar; talvez só estivesse seguindo seus sentidos.
De algum modo, faz sentido. Mas não me sinto melhor.
– Nós a matamos – concluo, pensando no ocorrido.
O sorriso de se desfaz.
– Não sabíamos – diz de maneira triste, porém compreensiva. – Estávamos apenas sobrevivendo.
Concordo com a cabeça, mas não aceito isso de verdade. Digo, se ela estava apenas querendo ficar perto de mim e se ela ainda tinha uma parte consciente, então nós a assassinamos, não é? É como culpar um louco por fazer loucuras: a senhorita Sara não sabia que era perigosa e que podia me machucar; talvez na cabeça dela tudo aquilo tivesse um contexto extremamente diferente do que nós interpretamos.
– E o que fazemos agora? – pergunto.
– Podemos dar um jeito de conseguir a arma de volta, mas isso significaria que teríamos o poder de matar mais alguém. Você pode lidar com essa responsabilidade?
Ele olha para mim como se eu tivesse as respostas de todas as perguntas do mundo, mas a verdade é que eu não sei mais o que fazer. Minha cabeça está mais confusa do que nunca, todos os meus conceitos de certo e errado se foram e não fazem mais sentido. Tudo o que eu sei é que quero sair deste lugar o mais rápido possível. Porém, tenho a consciência de que sem a arma o risco será bem maior.
Eu tenho o direito de matar um ser humano doente e irracional para sobreviver?
– Eu não sei – respondo com sinceridade. – Você consegue?
– Não – confessa. – Antes eu achei que poderia, mas agora já não tenho mais certeza.
Concordo com a cabeça e me endireito no sofá, ficando de frente para ele. Seus olhos estão mais azuis que o normal quando me encara, um tanto esperançoso, e eu reparo que geralmente esse é o modo como eu olho para ele.
– Então teremos de achar um jeito de conseguir sobreviver sem ferir ninguém.

...

O corredor está vazio. Existem bem menos zumbis agora do que antes, e eu não me sinto bem com isso, pois fico me perguntando onde estão e o que estão fazendo com suas meia-consciências e corpos doentes.
Seguro uma frigideira rente ao corpo, – e não me julgue ou faça perguntas. Só aceite que eu não tenho mais uma arma e preciso improvisar.
vem atrás de mim, olhando para os lados do corredor que eu não tenho coragem de virar para olhar.
Eu sinto seu peito esbarrar contra o meu ombro esquerdo quando ele diz:
– Ela sumiu.
Viro-me para ele e pisco, confusa. Sigo seu olhar até o corredor do nosso apartamento e vejo que o corpo da senhorita Sara não está mais ali.
– Eu esqueci de te falar uma coisa... – digo. – Quando encontrei Julia, ela tinha um buraco de bala na cabeça. Eu acho que isso não os mata.
me olha desacreditado.
– Você descreveu todas as manchas do tapete do quarto de Fernando e esqueceu de mencionar esse pequeno fato?!
Seguro a frigideira com mais força, indicando que se ele insistir em me julgar eu vou usá-la contra ele, e revira os olhos diante do meu argumento de que "as manchas eram extremamente desnecessárias já que estávamos em um país com mais de vinte e cinco marcas diferentes de produtos de limpeza".
– Três anos se passaram e você ainda me surpreende. Vamos continuar antes que eu tenha uma recaída – diz.
Bato com o cabo da frigideira no braço dele, evitando o estrondo do alumínio, e sibilo:
– Divórcio. Papéis assinados. Apartamentos diferentes: nada mudou.
– É. E agora você tem uma frigideira e três meses de aulas de autodefesa.
– Como você sabe disso?!
– Facebook.
Reviro os olhos.
– Não me stalkeie mais!
– Podemos focar nos zumbis? – ele pergunta, apontando para a frente e indicando que devíamos continuar.
Viro-me para encarar o caminho que devemos percorrer, e confesso que a única coisa que passa pela minha cabeça é, basicamente, a frase "eu não quero ir" várias e várias vezes escrita em letras néon. Sinto-me apavorada, com uma sensação estranha que parece assombrar todo os resquícios de coragem possíveis e pequenos dentro do meu corpo. É como se o fato de eu não poder mais ver onde os zumbis estão piorasse tudo; como se elementos surpresa pudessem sair de trás das paredes a qualquer segundo e me matar.
Mas tudo bem. Eu consigo.
Eu tenho uma frigideira.
E sinalizadores.
E um pouco de dignidade.
Dou o primeiro passo e me arrependo de ter feito um escândalo mínimo para ir na frente. Eu sinceramente não sei o que queria provar quando disse que eu poderia fazer isso sem que estivesse dois passos à minha frente, como um escudo. Eu cruzei os braços e insisti que também era perfeitamente capaz de protegê-lo do mesmo jeito que ele me protegia, mas agora eu já acho que não posso.
Porque, pensando bem, nas últimas horas eu não me mostrei um ser humano controlado diante de situações extremas, então, se um zumbi aparecer, eu vou entrar em pânico. Provavelmente sairei correndo. Posso até gritar ou me esconder atrás de – o que teria sido uma solução desde o princípio.
Mais uma vez, eu fui traída pelo meu próprio orgulho.
Estou tão perdida em pensamentos que não escuto quando o primeiro sinal de vida (ou seria morte?) de um zumbi se faz presente. Eu continuo andando e pensando em como essa frigideira não está bem areada até que me puxa pelo braço e eu o vejo colocar o dedo indicador sobre os lábios.
Estico o pescoço para ver além da coluna que usamos para nos esconder, e encontro um dos nossos vizinhos perambulando pelo corredor. Eu não o reconheço, mas creio que nessa altura da vida já não faz mais diferença.
A questão é que ele anda em nossa direção, e o desespero de não poder correr ou me defender faz com que eu perca o controle da minha respiração.
Olho para e vejo que ele está com tanto medo quanto eu. Como sempre, porém, ele é o ser humano mais controlado da sala e não faz nada além de me olhar e pedir calma silenciosamente.
"Medo não é motivo para pânico", eu quase posso ouvi-lo dizer, mas é realmente difícil não se desesperar quando a sua vida depende da falta de tato de um zumbi e de uma sorte que você nunca teve.
Se ele não nos ver, talvez tenhamos uma chance. Se ele passar reto, nós vamos poder seguir em frente com o nosso plano horrível de chegar ao último andar deste prédio e pegar uma carona em um helicóptero desconhecido, o qual nem temos certeza se vem mesmo nos buscar.
Quanto mais eu analiso a minha situação, mais eu sinto vontade de chorar. Acho que vou parar por aqui para não piorar as coisas.
Os passos do zumbi ficam cada vez mais audíveis, e a cada segundo eu olho para e busco um de seus planos infalíveis, mas nada acontece.
A única coisa que ele faz é me segurar pelos ombros, deixando seus olhos fixos nos meus. E então eu sou obrigada a olhar para ele e para mais nenhum outro lugar. E de repente tudo some.
Concentre-se nele, eu repito para mim mesma.
Não há perigo lá fora.
Você tem uma frigideira.
Você pode se proteger.
Concentre-se nele e tudo ficará bem.
Então, como se tudo não tivesse durado menos de dois segundos, o zumbi passa à nossa direita e eu prendo a respiração, esperando que isso ajude o meu estado camuflado, ou sei lá, e o monstro vai direto para o caminho mais distante de nós.
Quando ele finalmente some, segura a minha mão e me puxa para a direção oposta, seguindo o caminho que nos levará para a liberdade.



Capítulo 9

Quando eu estava prestes a me casar com , bem na véspera da cerimônia, senti tanto medo que voltei para a minha cidade natal, onde os meus pais moravam, e me escondi no conforto do meu antigo quarto por toda a noite.
Lembro que minha mãe bateu na porta, cheia de restos de adesivos velhos, com uma xícara de água quente, dizendo que eu precisava fazer inalação por causa da alergia horrível que eu sentia das coisas empoeiradas, e naquele momento eu ri e me senti segura. Era tão ridículo que aos vinte anos de idade eu ainda precisasse respirar vapor com a cara dentro de uma xícara para não espirrar até a morte, que eu me esqueci que no dia seguinte toda a minha vida estava prestes a mudar. Eu me esqueci dos meus medos, das minhas inseguranças, das minhas incertezas, e apenas abracei a minha mãe e a agradeci por ser tão... Mãe – algo que ela respondeu com uma bronca pelas venezianas abertas, que deixavam o frio entrar na casa, mas que eu sabia ser o jeito dela de dizer "de nada".
Às vezes, eu penso nessa noite. Sempre que sinto medo, eu penso na minha casa, nos meus pais, no modo como aquele quarto cheio de pôsteres milimetricamente alinhados fez com que eu me sentisse criança de novo. Um ser puro e sem responsabilidade, que só brinca com carrinhos de controle remoto a tarde toda e gosta de assistir As Três Espiãs Demais na televisão.
E eu realmente gostaria de voltar para aquela noite. Porque ali, naquele momento, eu ainda poderia mudar toda a minha vida. Todo o meu futuro. Eu poderia desistir do casamento, poderia fugir para o México ou até mesmo ligar para o meu namoradinho de escola e dizer que, na verdade, eu sempre o odiei e que ele devia ser a única pessoa no mundo que não cortava as unhas dos pés.
Eu gosto de pensar que a minha vida teria sido diferente se eu tivesse feito tudo isso.
Mas também não gosto de pensar assim.
Porque, no final, um casamento fracassado não é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa. Os problemas existenciais dos seres humanos não são resumidos a isso, e temos outras prioridades. Mas o mundo constantemente te faz acreditar que é o oposto, e a vida toda você se pune pelos erros e pelo desinteresse nesse tipo de questão.
Mas, afinal, o casamento é mesmo importante?
Uma vez o meu pai me disse que casamento não é sinônimo de amor, e a partir desse dia eu comecei a perceber que as pessoas realmente misturam as duas coisas. Comecei a perceber todas as infelizes vezes em que um não acompanhou o outro, as vezes em que as pessoas foram infiéis e desonestas, e comecei a perceber que, realmente, casamento não é sinônimo de amor. E foi a humanidade que causou isso.
Porque, sim, desde pequenos, nós, mulheres, homens, crianças e adolescentes somos constantemente atacados com essas ideias de que, para se ter uma vida realizada, você tem que se casar, ter filhos, cachorros e uma casa. Como efeito colateral desse ataque, nós simplesmente começamos a nos cobrar esse tipo de coisa, inconscientemente, todos os dias das nossas vidas, até que a primeira oportunidade de realizar esse feito apareça. E nós a pegamos, abraçamos essa oportunidade sem pensar nas consequenciais por puro desespero, por puro medo de ser a nossa única chance. Ficamos tão desesperados pela segurança de ter uma vida realizada que não vemos que estamos confundindo amor com segurança.
Eu penso nisso todos os dias da minha vida; desde que me casei com e desde que me divorciei dele. Penso se o que eu sentia por ele era amor quando disse "sim". Se não era apenas segurança. Se um dia eu realmente fui apaixonada pelo homem que me encontrou no topo do altar.
E eu acho que naquela noite, na casa dos meus pais, o meu erro foi não ter feito esse mesmo questionamento.
Porque, agora, no meio de um prédio de sessenta andares, subindo as escadas com todo o cuidado que a minha existência pode emitir, eu não sei mais se existe uma resposta para essa pergunta. Agora já se passaram tantos anos, tantas experiências, tantos outros questionamentos, que a resposta não seria a mesma da de três anos atrás. Não seria válida como verdade, afinal muita coisa mudou.
, o que significa segurança para você? – pergunto.
Estamos subindo as escadas, e está tão escuro que precisa acender a lanterna para ver onde estamos pisando. O lugar é frio também – mais do que qualquer outro lugar do prédio -, e eu tremo inconscientemente.
Meu ex-marido para e se vira para mim, lançando a luz da lanterna em minha direção e parecendo confuso diante da pergunta extremamente aleatória.
Ele deve me conhecer muito bem para saber que esse tipo de questionamento não é nada bom.
– Eu não sei – diz. – Segurança é algo relativo demais.
– Sim, mas o que é segurança para você? – reforço. – Qual a coisa que mais te fez sentir seguro em toda a sua vida?
Penso na casa dos meus pais, no modo como tudo parecia distante ali. Mas não parece certo que a minha segurança seja um quarto de adolescente repleto de pôsteres da Avril Lavigne em sua época de skatista. Não parece nada certo que uma mulher de vinte e três anos precise voltar para os braços da mãe para se sentir segura, e eu quero saber se com ele acontece a mesma coisa, porque senão eu estarei sozinha.
Mas acho que a minha concepção de segurança não é igual a dele, porque quando fala, tudo o que eu um dia considerei seguro passa a não ter sentido algum.
– Eu acho que você foi a coisa que mais me deu segurança na vida – ele sorri como se fosse uma triste ironia. – Porque foi o único momento em toda a minha existência em que eu tive a impressão de ter tudo o que sempre sonhei. Mas, como eu disse, segurança é algo relativo. Veja onde estamos agora.
Fico sem saber o que dizer por alguns segundos, mas respondo, mantendo a voz baixa para que nenhum daqueles monstros nos escute:
– Não pode atribuir segurança a mim, .
– Não era só você, . Era tudo – explica, e eu sinto inveja do modo como ele fala; como se depois de tudo, ele ainda conseguisse enxergar algo bom e puro no nosso relacionamento. Como se ele não se arrependesse, como se achasse que não foi um erro.
E eu sinto inveja, porque tudo o que eu consigo guardar desses últimos três anos é pura mágoa. E isso não parece certo.
– A única coisa que eu sempre quis na vida, era ter uma família. Ser um homem melhor do que o meu pai e um pai melhor do que um simples homem, entende? Com você eu tive essa oportunidade, eu tive essa experiência, e eu me senti seguro. Eu senti que era capaz de fazer tudo isso.
– Eu sinto muito – digo.
Por algum motivo, sinto-me mais culpada ainda quando ele termina de falar. A suas aspirações em relação ao nosso casamento eram tão grandes e tão bonitas que eu me sinto um monstro por nunca ter ao menos cogitado esse tipo de coisa. Digo, filhos? Nunca pareceu plausível para mim.
Ele sorri, desce dois degraus da escada e para na minha frente. Como se pudesse ler a minha mente, então, diz algo que me faz lembrar o porquê de eu o ter amado tanto um dia:
– A culpa não foi sua. Eu apenas escolhi a mulher certa para o sonho errado.
Nesse momento um barulho alto no andar de cima impede que eu responda. Nós dois olhamos para o teto em conjunto e tentamos decifrar o que é, mas não conseguimos. A pequena bolha em que eu e havíamos nos isolado é estourada, e a realidade literalmente bate à nossa porta, querendo nos acordar. Penso nos barulhos que escutei naquela noite, no apartamento de , e imagino se é algo relacionado àquilo, mas não digo nada, porque estou cansada de me sentir maluca.
– Vamos continuar subindo. Não podemos ficar aqui – diz .
Continuamos indo em direção ao telhado, mas dessa vez não trocamos uma única palavra.
Confesso que não é nem um pouco fácil, tanto física quanto psicologicamente, subir todos esses andares. É trabalhoso, cansativo e exige muita paciência. E pior: não podemos errar.
Acontece que temos as chaves para abrir as grades, mas já está escurecendo e, a cada andar que subimos, fica mais difícil de abrir as fechaduras. Não podemos simplesmente sair sem olhar para os dois lados do corredor, procurando por zumbis. Não podemos abrir a grade sem ter a certeza de que teremos tempo de destrancar a próxima antes de alguma Isabela aparecer. E mais importante: quanto mais escuro, menos enxergamos e mais a luz da lanterna se torna uma espécie de alvo em nossas costas.
Quando chegamos ao trigésimo sétimo andar, perco a respiração e aperto o passo, não querendo me mover.
Tudo está escuro demais. Um completo breu, como se não houvesse nenhuma luz não só aqui, mas no mundo inteiro.
Procuro como se perguntando o porquê disso estar acontecendo, e ele bate nos pulsos, indicando que já deve ser muito tarde. Olho para os lados e apuro os ouvidos, tentando saber se estamos sozinhos, mas é difícil quando não tenho nenhum tipo de luz para nos dar auxílio.
Ando até o meio do corredor, longe das escadas, e olho através da pequena janela acima da minha cabeça. Vejo que a lua está coberta por nuvens carregas, impedindo-a de nos iluminar.
– Vai chover – digo.
parece ficar tenso. Anda até o meu lado e confirma com os próprios olhos o que acabei de dizer.
– É melhor andarmos logo.
Decidimos continuar até o próximo lance de escadas, e dentro do peito o meu coração bate tão forte que, por um minuto, eu sinto mais medo do escuro do que dos zumbis. Eu odeio isso. Odeio não saber onde estou indo, onde estou pisando, onde estou colocando as mãos.
Espero, sinceramente, que esses zumbis tenham a decência de não deixar seus restos mortais espalhados pelo chão, porque vai ser muito chato se eu acabar pisando em uma orelha perdida ou algo do tipo.
Estou tão preocupada com a higiene do prédio que demoro para ver a forma física movimentando-se no fim do corredor. Paro, estática no mesmo lugar, e encaro a silhueta escura de um zumbi a alguns metros de distância.
Eu não sei o que fazer nesse momento, então apenas prendo a respiração e começo a andar para trás, querendo estabelecer a maior distância possível entre eu e o zumbi. Bato contra no terceiro passo e seguro o braço dele como que em desespero, não sabendo se posso falar sem ser notada.
– O que foi? – pergunta.
– Shhhhh – me desespero, logo depois engolindo em seco e acrescentando: – É uma Isabela. No fim do corredor.
Ele franze o cenho por um segundo, provavelmente não entendendo de imediato, mas olha na mesma direção que eu e começa a dar passos para trás quando finalmente vê o que eu vejo.
De repente uma nuvem bem mais escura cobre o edifício e faz tudo ficar horrivelmente preto. Todo o tempo que a minha visão demorou para se acostumar à escuridão é em vão e agora tudo está irreconhecível de novo. Eu não sei onde estamos. Não sei para que lado é a escada e por um momento não sei onde está . Estico a mão para achá-lo e seguro a barra de sua camiseta, com medo de me perder no breu. Ele ainda dá passos para trás e eu o acompanho.
– O que faremos? – sussurro o mais baixo que consigo.
Não podemos ligar a lanterna, pois seremos notados – se é que já não fomos. Não conseguiremos destrancar a próxima grade sem luz e muito menos silenciosamente. Não temos como correr sem saber para onde estamos indo.
desenrola meus dedos de sua camiseta e segura a minha mão. Quando ele deposita certa pressão em um aperto rápido, eu sei o que significa.
Precisamos correr.
Como em um surto de coragem, meu ex-marido liga a lanterna. Com a luz que faz meus olhos doerem, vem a visão mais nítida do corredor e um flash do zumbi que eu tanto temia correndo em nossa direção.
A primeira coisa que vejo é o vermelho doentio de seus olhos, os dentes podres e o andar descompassado e extremamente rápido. Ele está tão perto que se assusta e desvia de uma tentativa falha de captura, segurando a minha mão com mais força ainda e me guiando, com a luz da lanterna, para além do corredor, tentando fugir.
Seguimos desviando das paredes, indo rápido demais, e a visão da luz da lanterna iluminado os cantos sujos do prédio me faz ficar enjoada. Afastamo-nos cada vez mais das escadas, e eu sei que é inevitável que o fim do corredor chegue. Também é inevitável não chamarmos a atenção de ninguém com todo esse movimento afobado, os barulhos dos nossos passos e a luz desenfreada da lanterna reverberando pelas paredes.
Por isso, quando vejo uma parede e uma porta se aproximando para marcar o fim da nossa rota de fuga, eu não me surpreendo. Eu apenas aceito. Aceito que é a minha hora. Que já sobrevivi demais. Que, definitivamente, tive sorte de permanecer viva durante esses meses.
Mas então algo acontece.
A porta no fim do corredor se abre. Eu não entendo o motivo e nem consigo ponderar se é uma boa ideia ou não, mas continuo correndo em direção a ela, retomando um pouco das esperanças. não solta a minha mão nem por um segundo, e é por isso que sinto tanto medo quando nossos dedos escorregam e eu fico para trás, sem nenhuma condição física e psicológica de correr sozinha.
Estamos tão perto da porta que não posso pensar em morrer. É possível que a minha salvação esteja ali. É possível que alguém ainda esteja vivo e tenha decidido nos ajudar.
Sinto um ardor nos braços e, incapaz de parar de correr para ver, me distraio e perco o senso de direção, gemendo quando meu corpo bate contra a parede ao lado da porta.
Percebo que o zumbi me arranhou, e ao passar os dedos pelo machucado e ver uma quantidade mínima de sangue manchar a minha pele, não consigo reagir.
Fico apenas encarando o tom escarlate embaixo das minhas unhas, sentindo meu corpo todo tremer, meus olhos encherem de lágrimas, meu cérebro ponderar todas as piores hipóteses existentes.
Será que eu fui infectada?
Estou imaginando as várias fases da minha morte quando sinto me puxar para dentro do apartamento, fazendo-me perceber que tudo isso não durou mais do que dois segundos.
O tempo passa devagar quando estamos encarando a morte.
Abraço o meu ex-marido por impulso, chorando de forma vergonhosa em resposta ao alívio e ao desespero que se misturam dentro de mim, sem saber qual é o mais forte.
Do lado de fora, a impressão era a de que eu estava no meio de algum filme de terror. Um com a qualidade bem ruim e pouco orçamento para contratar bons atores, mas ainda assim um filme de terror.
Olho para a porta que nos salvou e vejo um senhor ao seu lado. O zumbi se joga contra a madeira em um comportamento que eu conheço muito bem, e o velho, que aparentemente é o nosso salvador, ergue uma tábua e a coloca em dois encaixes dos dois lados da parede, trazendo logo em seguida uma estante para formar uma barricada.
Quando finalmente garante a nossa segurança, vira-se para nós. Eu ainda estou agarrada ao e chorando, portanto, tudo está embaçado e confuso demais, mas posso jurar que vi maldade em seus olhos.
Por fim, beija os meus cabelos de forma tranquilizadora, olha para ele e diz, tentando controlar a respiração:
– Obrigada. Muito, muito obrigada.



Capítulo 10

Quando eu e finalmente conseguimos nos acalmar, respirar como pessoas normais e parar de nos abraçar (ignorem essa parte, não tenho borrachas no Apocalipse), conseguimos conversar com o nosso "salvador". Um homem perto dos sessenta anos que, por algum motivo, nos ajudou a fugir de um zumbi enfurecido que, agora, bate contra a porta do seu apartamento em uma tentativa falha de tentar nos alcançar.
– Vocês dois são malucos? – pergunta ele, um tanto abismado. – O que estavam fazendo lá fora?
Olho para e, na minha cabeça, a frase que sai pela minha boca não parece tão absurda.
– Estávamos tentando chegar ao telhado. Vamos fugir, sabe? Pelo... telhado.
Ele ri.
– Vocês sabem voar?
– Um helicóptero nos buscará – completa . – Apareceu há algumas noites e nos viu. Temos esperanças de que volte.
O velho para antes de responder, olhando-nos com certo ar de superioridade.
– Então foram vocês – resmunga, sentando-se em uma poltrona no meio da sala. Ele parece cansado. Muito mais do que a gente. Um cansado do tipo "vou bater as botas logo".
– Fomos nós o quê? – pergunto.
Ele suspira, deixando bem claro que não é um sujeito amigável. Olha para nós por um segundo antes de dizer, como se fôssemos idiotas:
– Foram vocês que espantaram o meu helicóptero.
Fico ressentida por um minuto, mas respondo:
– Não vi o seu nome nele.
intervêm, mudando de assunto antes que a minha indelicadeza destrua qualquer chance de uma socialização amigável:
– O que quer dizer com "o meu helicóptero"?
– Quero dizer que eles vieram por mim, não por vocês – então pareceu ficar aborrecido. – Não sei por que foram embora antes de me encontrar.
parece cansado quando responde, como se até aquele momento ele tivesse esperanças de que o velho apresentasse uma solução para o problema do helicóptero.
– Porque os prédios estão juntos demais e ele bateria antes mesmo de chegar na metade do caminho. Você precisa subir. É o que nós estávamos tentando fazer.
– E quem é você? – pergunto, dando um passo à frente. – Que tipo de pessoa faria alguém, no meio de do Apocalipse, reservar um helicóptero de carona? A humanidade tem outras prioridades.
Ele sorri, e isso me causa arrepios. Dou dois passos para trás, disfarçadamente, ficando ao lado de , onde sinto ser mais seguro. O velho responde:
– Meu nome é Ricardo, e eu sou virologista.
Um virologista, claro. O clichê começa a rodar pela minha cabeça como um filme. É como se eu tivesse vivendo um roteiro repetitivo de algum filme ou livro.
– Não me diga que tem uma vacina que salvará a humanidade? – zombo.
– Não. – Responde, curto, seco. – Mas toda ajuda é bem-vinda para esses caras.
Não gosto nem um pouco do modo como ele fala. É como se o meu radar para gente ruim apitasse toda vez que ele se mexe. Penso em como ele falou do helicóptero e em como a sua intenção é sair desse prédio nele, e, já que não quero mesmo dividir um cubículo de menos de seis metros com esse ser humano, digo:
– Olha, desculpa, mas vimos o helicóptero primeiro – cruzo os braços.
No mesmo instante sinto olhar para mim e me julgar silenciosamente, mas não ligo. Eu sei que ele quer ser todo educado e tentar fazer amizade com todo mundo, mas, sério, se eu não fazia o tipo "falsa" antes do Apocalipse, não vou começar agora.
– O que ela quer dizer, – corrige meu ex-marido – é que, com certeza, há espaço para nós três.
Ricardo nos olha de maneira cética e, quando está prestes a responder, desvia do meu rosto para o meu braço e se levanta, andando em minha direção e praticamente empurrando , que estava ao meu lado, para longe.
– O que aconteceu aqui?
Ele olha para os arranhões provocados pelo zumbi e para o curativo improvisado mais à cima, onde a bala do atirador raspou à minha pele. Parece vidrado e embasbacado.
– Em ordem: atirador e zumbis. Mas não é nada demais – respondo.
Ele me encara com uma expressão que eu não sei decifrar, ergue a manga da minha blusa e passa os dedos pelo sangue sob a minha pele. Esse ato me assusta e, com a dor do contato com o machucado, puxo o braço de seu toque e ando para trás. Eu, por algum motivo, sinto nojo dele.
– Você foi infectada – diz Ricardo. – Está infectada.
Gaguejo ao responder:
– O quê? Isso é ridículo. Foi só um arranhão e eu estou bem!
Procuro , esperando algum tipo de confirmação, como se o fato dele concordar prove que é verdade, mas ele tem uma expressão estranha no rosto e isso me desespera.
O velho me puxa pelo braço e, antes que eu possa fazer alguma coisa a respeito, me empurra contra a poltrona. Escuto dizer um "O que você está fazendo?" extremamente alarmado e não sei como reagir enquanto Ricardo abre uma bolsa negra e grande e tira de dentro dela uma seringa. Ele segura o meu braço e, sem procurar muito por uma veia, espeta a agulha contra a minha pele. Observo ainda assustada o sangue subir pelo plástico transparente até que puxa Ricardo para longe de mim e, alarmado, exige uma resposta:
– Que droga é essa?! O que está fazendo com ela?!
– Essa seringa foi desinfetada? – pergunto. Olho para o meu braço e um minúsculo fio de sangue escorre até encontrar o machucado feito pelo zumbi. Eu quase posso sentir todas as bactérias daquela agulha se espalhar pelo meu sangue.
– Qual o problema de vocês?! Eu sou virologista! Estou coletando sangue para análise. Tire as mãos de mim. – Ricardo esbraveja.
o larga e, ainda desconfiado, diz:
– Seria bom se, da próxima vez que for espetar alguém com a droga de uma agulha, avisasse antes.
E a desinfetasse antes, completo mentalmente..
Ricardo se ajoelha ao meu lado e balança a cabeça.
– É por isso que eu gosto tanto de estudar vírus: eles não têm essa frescura. Estou há tanto tempo isolado nesse apartamento que socialização tornou-se ainda mais difícil do que era antes.
Olho para e ele balança a cabeça, dizendo que não vale a pena rebater. Em poucos segundos notou que Ricardo tem um parafuso a menos.
– O que vai fazer com o meu sangue? – pergunto.
– Tudo o que eu puder. Nunca tive algo tão fresco assim. Todas as minhas coletas vieram de corpos já mortos. Pode haver alguma diferença nesse aqui; algo que eu não conseguiria ver nos outros.
– Sim – dou uma risada nervosa, quase desesperada -, mas você não sabe se fui infectada! Eu estou saudável; foi só um arranhão.
– Sempre há a possibilidade.
Engulo em seco, terrivelmente assustada. Olho para o meu ex-marido e ele se encontra no mesmo estado que eu. Nós dois trocamos lamentações silenciosas por longos segundos antes de Ricardo nos distrair:
– A coisa está ficando feia por aqui. Não há mais comida, suprimentos e remédios. Tenho que arrumar um jeito de sair desse prédio.
– Temos comida aqui – digo, apontando para as nossas mochilas.
– Não do tipo que eu preciso – lamenta.
– Como assim?
Quando ele fecha a boca, vejo uma sombra esgueirar-se pelo corredor. Um garotinho de menos de sete anos sai de trás de uma das paredes encardidas, com um dedo na boca, e anda até Ricardo, parando aos seus pés e olhando-o como se perguntasse quem eram aqueles dois estranhos parados no meio de sua sala.
– Pedro, meu neto, é diabético – responde Ricardo, pegando o garoto no colo. – As seringas estão acabando, a comida também. Ele tem um nível extremamente alto. Precisamos sair daqui rápido.
– Olá, garotão – salda e o menino sorri.
Ele tem covinhas e um cabelo fino caindo sob sua testa. É uma das crianças mais adoráveis que já vi na vida, mas parece fraco e desnutrido, o que me deixa com um peso no coração.
– Vocês podem passar a noite aqui – diz Ricardo. – Mas, se me entendem, terão que partir pela manhã. A moça foi infectada e não posso correr nenhum risco com Pedro. Suponho que oito horas seja um período seguro; nunca vi ninguém se transformar em menos tempo. Fiquem aqui até o amanhecer.
Concordo com a cabeça e Ricardo sai com seu neto no colo, sumindo pelo corredor. senta ao meu lado, no sofá rente à poltrona, e fica encarando o vazio por um tempo desconfortável. Eu apenas permaneço imóvel, tentando respirar baixo, evitando olhar para os arranhões no meu braço. O problema é que o líquido vermelho escorrendo pela minha pele parece me chamar, como se gritasse para mim o fato de eu estar ferrada ao extremo.
Quando percebo o que tudo significa na maneira mais exata, digo:
– Você pode ficar. Eu vou sozinha.
Ele me olha como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do universo.
– Do que está falando?
– Pela manhã. Você fica e descansa, eu vou embora. Podemos nos encontrar mais à frente.
– Por que eu faria isso? – pergunta, e o seu tom inocente me faz crer que ele não notou a real gravidade dos nossos problemas.
– Eu... – engulo em seco. – Eu vou me transformar, . Vou ficar como eles. Ricardo não pode me manter segura sem causar perigo à Pedro, mas pode proteger você. Quando o sol nascer, eu vou, e você fica por um tempo, até o helicóptero chegar. Ficará tudo bem depois disso.
Por algum motivo, começo a sentir o sangue nas minhas veias pulsar. É como se já estivesse acontecendo. O meu corpo parece estranho, meus olhos doem. Um efeito psicológico, talvez, mas o suficiente para me assustar como o inferno. E eu não sei se conseguiria permanecer estável por muito tempo; não sem machucar , Pedro ou Ricardo. Não sem apresentar perigo.
Eu preciso ir, e tenho que fazer isso sozinha.
se ajoelha na minha frente e segura os meus pulsos. Seus dedos ficam vermelhos pelo sangue que ainda escorre de meus machucados e mancha sua pele. Ele olha nos meus olhos e diz com toda a calma que só ele poderia ter:
– Você vai ficar bem. Foi só um arranhão, e ninguém vai para lugar nenhum – e então sorri. – Não conseguimos nos separar nem mesmo quando o mundo estava em perfeito estado, como acha que faremos isso agora?
Eu quero acompanhá-lo, mas sei que é tudo mentira; quero acreditar no modo seguro como ele me olha, no aperto firme de seus dedos sob a minha pele. Eu quero achar segurança no tom calmo da sua voz, mas não posso. Não posso me iludir a esse ponto, deixar-me enganar assim tão facilmente. É ridículo ser tão egoísta.
E eu quero dizer isso a ele. Quero ser a pessimista que sempre sou e contar que eu não acredito em uma só palavra do que ele diz, mas não consigo. Não consigo decepcioná-lo, magoá-lo a esse ponto, porque eu sei o que significaria se ele percebesse que é tudo uma grande mentira.
Perderíamos um ao outro.
– Você tem razão – sussurro, e quase não tenho voz.
Ele sorri e se levanta, andando para o corredor no qual Ricardo sumiu com Pedro. Acho que quer saber mais sobre o helicóptero, e apesar de eu querer também, fico largada contra a poltrona fria esperando que minha pele comece a ficar verde e meus olhos vermelhos. Não quero pensar, não quero respirar; tudo o que eu faço, por mais biologicamente normal que seja, parece um possível gatilho para a transformação. E eu sei que isso é absurdo.
volta depois de alguns minutos. Ricardo e Pedro estão logo atrás de si.
– Vocês ficarão naquele quarto – o velho aponta para uma porta às minhas costas. – Quero que estejam atentos a possíveis transformações, por isso não durmam em conjunto. Tenham consciência do risco que estão correndo e nos fazendo correr.
Concordamos com a cabeça, e após ele nos entregar cobertores e travesseiros, vamos até o quarto. Ricardo nos tranca lá, dando a chave para , dizendo que se algo acontecer, é melhor ter uma proteção a mais, e eu só penso em mim como uma zumbi maluca tentando matar o meu ex-marido à mordidas.
É, não parece uma cena legal.
E, sim, eu sei que você deve estar pensando que eu estou na pior das situações possíveis, e que eu sou azarada e completamente desequilibrada... Mas, quer saber? Ainda estou respirando. Ainda estou aqui, em pé, com o meu pulmão temporariamente intacto e meus cabelos castanhos embaraçados. E eu ainda tenho uma chance, como podem ver, ainda tenho um pequeno fragmento de esperança correndo pelas minhas veias.
Entramos no quarto, e eu estou abraçando o travesseiro que Ricardo me deu com tanta força que sinto as penas pinicarem a minha pele. vai até o banheiro e pega um kit de primeiros socorros, falando para que eu me sente.
– Você sabe que não é médico, não sabe? – pergunto, sentando-me na ponta da cama.
puxa uma poltrona almofadada e responde:
– Psicólogo. É a mesma coisa.
– Claro que é – dou risada.
Ele faz um curativo nos machucados velhos e nos novos, e minha pele de repente fica limpa e clara de novo, sem todo o vermelho dramático e nojento para me fazer lembrar da minha situação. Eu fico extremamente agradecida a por isso, sentindo-me melhor, menos doente, mais viva; como se aquele simples ato fosse a cura que eu tanto precisava.
Deito-me na cama e vejo permanecer na poltrona, cruzando os dedos sobre o peito e fechando os olhos, caindo em um cochilo que chegou sorrateiro. Percebo o quanto ele parece cansado, exausto, e o puxo delicadamente para a cama, conhecendo-o bem o suficiente para saber que seu sono leve e pesado ao mesmo tempo não o deixaria acordar naqueles dois passos extremamente mínimos e vagos que ele dera até a cama. Cubro-o com o cobertor e me deito ao seu lado, observando-o dormir. E é um sentimento estranho de nostalgia que me assombra, fazendo-me lembrar de todos as vezes que repeti esse mesmo ato, em quase todas as noites durante o nosso casamento, por culpa da minha insônia dissimulada.
É um sentimento bom; familiar como nenhum outro poderia ser. Acolhedor de seu próprio modo e extremamente triste, pois eu sei que o que nem começou está prestes a terminar.

...

Abro os olhos e estou no chão do banheiro. Vejo a pia acima da minha cabeça, o ladrilho gelado incomodando a minha pele. Ao meu lado está Pedro, encolhido dentro da banheira vazia, chorando silenciosamente. Minha cabeça dói, meus ouvidos escutam zumbidos inexistentes. Tudo está confuso demais.
Eu me lembro de alguns flashes. De gritos e de barulhos horríveis. Lembro-me de adormecer na cama, ao lado de , e de acordar amarrada à uma cadeira, no centro da sala de Ricardo, com ele me olhando de um jeito maníaco, segurando uma seringa entre os dedos e usando uma máscara cirúrgica. Lembro que tentei gritar, mas minha boca estava tampada. Tentei levantar, mas minhas mãos estavam amarradas. Os cortes no meu braço haviam voltado a sangrar.
– Eu só quero fazer alguns testes – disse ele, com calma. – Logo teremos terminado, e, não se preocupe, acabarei com o seu sofrimento. Eu prometo.
Entendi que o sofrimento fosse a transformação, e o fim, a morte. Ele queria me matar, e, apesar de eu saber que virar um zumbi não seria um destino agradável, fiquei desesperada pelo sentimento de não querer morrer. Não parecia justo e nem digno.
– Eu sei que o seu amigo entenderia se eu dissesse que você se transformou no meio da noite. Principalmente porque a chave sumiria de seu bolso e a porta estaria aberta. Eu não teria outra escolha a não ser te matar para proteger Pedro.
"Eu sinto muito", ele disse. "Mas, de uma maneira ou de outra, preciso protegê-lo. Tentar achar uma cura é a única maneira que eu tenho de fazer isso."
Ele se aproximou com a seringa e espetou o meu braço outra vez. Doeu demais e eu grunhi.
– O sangue que eu coletei mais cedo não foi o suficiente para análise. Ele estava fresco demais. Este deve servir.
Só então vi que, atrás dele, havia uma mesa com vários equipamentos científicos. Ele começou a remexê-los e eu tentei me soltar enquanto Ricardo estava de costas, mas não consegui.
– Ele não se compara ao dos outros – comentou. – O seu sangue é bem mais fresco. O meu estoque já é velho e doente demais, não há o que se descobrir ali. Tive que matar alguns no dia em que o helicóptero chegou. Não podia arriscar que, caso viessem até aqui me buscar, achassem que eu estava infectado. Me deixariam para trás. Mas eles não vieram e eu perdi quase todos os meus pacientes. É bem triste.
Percebi com um sobressalto que ele estava falando de zumbis. Zumbis de verdade. Presos em algum quarto deste apartamento, como pacientes, todos, de alguma forma, sendo controlados por Ricardo para que ele pudesse estudá-los. E eu logo me juntaria a eles; seria trancada em um cubículo com outros doentes e ficaria ali até o fim da minha vida, sendo espetada e testada para que uma cura fosse desenvolvida.
Fechei os olhos e tentei não me desesperar. Era inútil porque eu sabia que não havia saída. tinha o sono pesado demais para acordar e me ajudar, e eu não tinha condições de me soltar de uma cadeira daquelas, mesmo com todos os filmes de espiões que assisti durante a vida. Eu ia me tornar uma cobaia.
Ricardo virou-se para mim depois de terminar de mexer em seus brinquedos. Sorriu de uma maneira estranha e disse que me soltaria naquele momento, que iria me levar para a sala, junto aos outros. Ele pegou uma arma e instruiu-me para que eu não tentasse lutar. Desamarrou os meus pulsos e me deixou levantar. Quando o fiz, vi, atrás dele, Pedro esgueirar-se pela parede do mesmo modo que mais cedo, só que extremamente assustado dessa vez.
Ricardo se virou para ver o que eu estava olhando e, quando se distraiu com o neto, eu tentei puxar a arma de sua mão. Foi precipitado e mal calculado, por isso o disparo veio e me assustou, fazendo-me recuar. Olhei para o chão e vi o sangue escorrendo pelo carpete. Conferi meu próprio corpo e não encontrei ferimentos, então corri para Pedro e ele estava bem. Por fim, Ricardo tinha o braço sangrando e a arma em uma das mãos, olhando-me com fúria, andando na minha direção como se quisesse sentir a vida se esvair do meu corpo ao me matar.
Eu dei passos para trás, assustada. Não sabia de onde tinha vindo a coragem para lutar com ele, mas agora ela tinha ido embora e eu estava sozinha. A única coisa que fiz foi correr de volta para o quarto em que eu e estávamos, vendo que Pedro vinha em minha direção, como se tivesse medo do próprio avô.
Eu o deixei entrar comigo e me joguei contra a porta. Gritei para que acordasse e ele deu um pulo, levantando-se, olhando-me confuso demais e não exigindo nenhuma explicação ao me ajudar a conter as batidas da porta.
Ele me mandou pegar Pedro e me esconder no banheiro, – o que eu fiz, erguendo a criança e a levando comigo até que estivéssemos dentro do cômodo, o que foi quando a porta finalmente cedeu e abriu. Ricardo entrou por ela e jogou contra a parede com extrema força para alguém de sua idade, vindo em minha direção. Eu mandei Pedro entrar dentro da banheira e tentei fechar a porta, mas o velho a segurou, puxando-me pelos cabelos quando tentei correr e jogando-me contra o chão, onde bati a cabeça.
E essas foram as últimas coisas que eu vi antes de desmaiar contra o ladrilho frio do banheiro, acordando alguns minutos depois.



Capítulo 11

Quando eu era pequena, a coisa que eu mais gostava de fazer quando estava sozinha em casa era juntar todas as minhas bonecas e tentar reconstruí-las da cabeça aos pés. Tipo um salão de beleza para pessoas feitas de plástico, onde eu pintava e cortava sem culpa, pois minha mãe não iria correr atrás de mim pela casa dizendo que o cabelo dela só devia ter diminuído dois dedos.
Eu gostava de fazer isso porque era inebriante ver o resultado de horas de trabalho. Escovar todos aqueles cabelos plastificados pintados com tinha guache enquanto tentava tirar as manchas e respingos das testas e bochechas também plastificadas de todas as treze bonecas que eu torturei durante a minha vida.
Era bem legal.
E eu sei que parece estranho, mas é nessa exata lembrança que penso quando abro a porta do quarto e vejo aquele amontoado de bonecas plásticas me encarando. Só que agora elas parecem bem menos amigáveis e extremamente assustadoras, e eu não sei se a fisionomia dada aos brinquedos femininos mudou nos últimos anos ou se sou eu que fiquei mais medrosa que o normal. O fato é que todas me dão arrepios, então eu passo o mais rápido possível por elas, chegando a e só então vendo que ele está muito mais estranho e assustador que todas juntas.
Meu ex-marido encontra-se sentado na ponta da cama de casal que antes dormíamos. Está estático e olhando para as próprias mãos, o que me deixa nervosa. Eu ando lentamente em sua direção, porque ainda há alguns passos que nos separam, e só quando estou bem perto é que vejo o corpo de Ricardo jogado no chão, bem ao lado da cama.
– O que aconteceu aqui? – corro até o velho e me ajoelho ao seu lado. Checo o seu pulso usando um método clichê e antigo que aprendi em uma aula de educação física, ainda no segundo ano, e realmente não sei se fiz errado ou se Ricardo está realmente morto. Viro-me para para confirmar. – Ele...?
faz que sim com a cabeça e eu vejo que seus olhos estão cheios de água. Sento-me ao seu lado, na cama, e o abraço sem pensar duas vezes porque sinceramente não sei o que fazer. Não sou boa com palavras, como já devem ter percebido, e por esse motivo tenho a sensação de que abraços existem exatamente para isso: servir de reação quando não há nenhuma frase suficientemente boa para expressar uma emoção.
– Isso não vale a pena, – diz ele, o som de sua voz sendo abafado pelos meus cabelos. – Isso tudo não vale a pena. Sobreviver para nos tornarmos monstros? É um absurdo. É como insistir mais de uma vez em um único erro.
Eu entendo o que ele diz, mas não entendo o que sente. Eu nunca matei ninguém em toda a minha vida e não posso sequer cogitar a ideia de saber como é ter sangue humano manchando as minhas mãos. Apesar de terrível, matar monstros é necessário para a nossa sobrevivência. Zumbis são os nossos mais novos e concretos inimigos, mas humanos? Pessoas de verdade, com sangue vermelho e pele saudável, com unhas normais e dentes alinhados... Bem, é outra história. Por mais que Ricardo tenha nos feito mal, não é de nosso direito tirar a vida de ninguém. Não é da nossa natureza. Não sabemos como aceitar os efeitos colaterais, e eu sei que é nisso que pensa enquanto o abraço e sinto o seu corpo inteiro tremer: estamos mudando a nossa natureza, e por isso tornamo-nos monstros.
– Ele era perigoso – digo com calma. – Você nos salvou, . Ricardo era visivelmente maluco e tentou nos machucar. Tente entender que o único monstro era ele.
Ouço o gemido da porta do banheiro se abrindo e viro-me para encontrar Pedro, que sai em passos confusos de dentro do cômodo e segue na nossa direção. Imediatamente penso no trauma que ver o próprio avô morto poderia causar em uma criança e corro em sua direção, pegando-o no colo e levando-o de volta para o banheiro. Coloco-o dentro do box e fecho a cortina, dizendo que vamos brincar e que é para ele contar até cem e depois ir me procurar.
– Mas eu não sei contar até cem – responde quando eu estou quase saindo.
Paro e o encaro, torcendo para ser brincadeira. Mas Pedro está sério demais até para uma criança e eu vejo que, para o meu azar, não é.
– Até que número sabe contar? – pergunto.
– Catorze.
Vai ter que servir.
– Então conte até catorze e depois vá me procurar.
Saio correndo assim que ele se vira, fechando a porta do banheiro ao aparecer no quarto. ainda está sentado, mas agora se virou para o corpo de Ricardo e parece pensar sobre o que vai fazer com o cadáver – o que, não querendo ser insensível nem nada, é bom. Pedro não pode vê-lo de jeito nenhum.
– Temos catorze segundos – digo, e ele me olha confuso, mas se levanta sem pedir explicações.
– O que podemos fazer em catorze segundos?
– Doze.
– Tá, doze.
– Dez.
, você tá me deixando nervoso.
– Tá, desculpa – e completo, baixo: – Oito.
Ele revira os olhos e anda até o corpo de Ricardo, pegando-o pelos braços. Pede ajuda e eu entendo que a sua brilhante solução foi a de esconder o cadáver embaixo de sua própria cama. E eu juro que não quero achar nenhuma ironia na situação, mas, sério, o hábito do ser humano de guardar tralhas embaixo de suas camas é gritante agora.
No exato momento em que conseguimos fazê-lo ficar ali sem nenhum braço, tecido ou cabelo saltando para fora, Pedro aparece como um foguete, passando pela porta e parando ao meu lado, olhando-me com certa superioridade ao dizer:
– Você é horrível nesse jogo.
Eu noto que, supostamente, eu teria de me esconder, e confesso que me sinto ofendida com um garoto de sete anos dizendo-me que não sei jogar um jogo de criança. Deixo passar ao lembrar que acabamos de assassinar o seu avô e o pego pela mão, levando-o para fora do quarto antes que Ricardo comece a se transformar ou algo do tipo. me segue e parece pensar a mesma coisa que eu, pois diz:
– Eu não sei se é melhor esperarmos o dia amanhecer ou não. Ele pode se transformar.
– Ricardo tinha dito que não viu ninguém passar para a outra fase em menos de oito horas.
parece aliviado ao ouvir isso, mas eu lembro, automaticamente, de outra coisa. Um flash passa pela minha cabeça e eu fico agitada com o pensamento que se forma dentro do meu cérebro.
– chamo, meu tom de voz mais preocupado que o habitual. – Giulia!
– O que tem ela?
– Pense comigo: se zumbis não se transformam em menos de oito horas, alguém teve que entrar no apartamento para matá-la, afinal o pai dela já tinha passado para a outra fase há tempos e não teria como fazer o que achamos que fez.
para, pensa um pouco e diz:
– Você quer dizer que...
– Que tem mais alguém vivo nesse prédio. Alguém que está matando pessoas. Pense bem: Giulia estava dentro do armário. Ela estava se escondendo. Faz sentido!
– Como vamos saber se não era Ricardo? Ele era maluco. Pode ter ido até lá para procurar novas cobaias e matou Giulia por algum motivo.
– Eu acho que não, . Ricardo era maluco até certo ponto. Só tentou me machucar porque achou que eu já estava condenada. Ele disse que não faria mal nenhum a você, já que estava saudável, então por que faria a uma criança?
Paro assim que percebo o que acabei de falar... Bem, Ricardo tentou me machucar porque achou que eu estava condenada.
"Condenada" parece uma palavra muito forte. Eu não sei se é a certa a se usar em uma situação como a minha. Infectada parece ainda pior e eu não sei se ajudaria muito a amenizar a situação. A única coisa que consigo pensar sobre é nas cinco horas restantes que eu tenho de vida e em como eu vou desperdiçá-la tentando subir alguns lances de escada ao lado do meu ex-marido.
É, eu sou uma mulher de vinte e três anos que está prestes a morrer de uma doença incurável e seus últimos momentos de vida serão, em resumo, flashes dela mesma correndo de outras pessoas também doentes por causa de uma doença incurável. Poderia ser pior?
Ah, sim, poderia. Afinal agora eu também vou ter que carregar uma criança de sete anos comigo.
? – chama, e eu pisco, percebendo que fiquei muito tempo parada, olhando para o nada e pensando em todos os meus problemas existenciais. – É melhor irmos agora, com ou sem as oito horas de vantagem que temos com Ricardo.

...

– Onde está o vovô?
Estou ajoelhada de frente para Pedro, arrumando a mochila em suas costas, quando ele me faz essa pergunta. A única coisa que eu sei fazer como reação é olhar para ele e gaguejar várias respostas nada convincentes, até que se junta a mim e, com toda a confiança possível, diz:
– Ele foi na frente. Vai nos encontrar lá em cima e pediu que tomássemos conta de você.
Concordo com a cabeça como se fosse a mais pura verdade e me levanto, olhando para de uma maneira ameaçadora. Ele não entende nada e me pergunta o que está acontecendo.
– Você mente muito bem – digo, estreitando os olhos.
Ele me olha, visivelmente em dúvida, até que eu continuo:
– Quantas vezes mentiu para mim, ?
Ele não parece acreditar do que acabo de dizer.
– Isso é sério?
– É claro que é.
Cruzo os braços e o encaro, exigindo uma resposta. Acho que, mesmo depois de separados, tenho o direito de saber se o meu marido mentiu muito para mim. Até porque estou prestes a morrer, então não fará muita diferença. Estou bem curiosa quanto a isso, principalmente depois de ver que ele é um mestre da mentira. Sério, você precisava ver esses olhos azuis ao encarar Pedro e mentir sobre o seu avô morto. Parecia um psicopata sem sentimentos.
– Eu não sei – responde. – Umas três vezes, talvez.
– TRÊS VEZES?! Quando e sobre o quê?
– Eu não sei, . Não me lembro.
Estou prestes a pressioná-lo mais ainda quando Pedro aparece correndo, de uma maneira que, noto, é de sua mais pura natureza. Ele nunca vai parar de correr.
– Nós podemos ir agora? – pergunta. – Eu quero ver o meu avô.
Digo para ele que já estamos indo, impaciente demais para me sentir culpada com as suas esperanças de ver o avô, e me viro para :
– Isso não acaba por aqui.
Ajoelho-me para falar com Pedro. De um jeito impressionante, ele parece ter saído de um desenho animado, com seu pijama do Batman e a mochila da Mulher Maravilha. Seu cabelo escuro cai sobre um de seus olhos e ele pisca incessantemente. Eu tiro a mecha do lugar na esperança de que isso pare, e, então, ele abre os grandes olhos castanhos e sorri, agradecendo.
Confesso que nesse momento todo um flash passa pela minha cabeça. Uma vida inteira que eu não tive e nunca vou ter. O filho que eu deixei escapar, as noites que nunca mais voltariam. Minha cabeça dói com as imagens de uma criança com o mesmo sangue que eu. E eu sei que é besteira, mas sinto um pesar ao perceber que nunca vou poder ter isso. Morrerei em cinco horas e nunca vou poder ter filhos outra vez.
Escuto o barulho dos passos de e acordo, como se estivesse em um sonho. Pedro ainda está na minha frente, mas não sorri mais. Seu sorriso se desmancha ao olhar para o meu rosto, e então eu noto que há lagrimas escorrendo pelas minhas bochechas.
– Por que está chorando? – o garoto pergunta, passando uma de suas mãos minúsculas pelo meu rosto e limpando uma das lágrimas.
Respondo que não é nada e me levanto, respirando fundo e tentando parecer normal. Não sei o que aconteceu nos últimos minutos, mas acho que, de alguma forma, a transformação está afetando-me em todos os sentidos possíveis: emocionais e físicos.
– Está pronta? – pergunta, parando ao meu lado.
Eu digo que sim e ele pega Pedro no colo, respirando fundo e me olhando como se precisasse de um encorajamento para prosseguir. Ergo a mochila com os nossos suprimentos e coloco nas costas, começando a andar em direção à porta, onde encosto o ouvido contra a madeira para ouvir se há movimento do lado de fora. Quando vejo que não, puxo-a apenas até uma brecha se firmar e me permitir ver o corredor do lado de fora. Está vazio e podemos ir.
Então, com apenas cinco horas de vantagem, uma criança, pouca comida e esperanças de que conseguiremos sobreviver pelo menos três horas do lado de fora, eu e saímos do apartamento, mais uma vez, em direção à nossa possível liberdade.



Capítulo 12

A vida me ensinou muito cedo que, independente, da situação em que você está preso, por mais ruim que seja, por mais ferrado que o ser humano possa se encontrar, sempre há como piorar.
É, essa não foi uma frase muito motivadora, mas é a realidade. Sempre pode piorar. E melhorar, também, mas é bem difícil que isso aconteça. Pelo menos comigo, a tendência para ficar pior é constante de um modo que eu ando pelos corredores do prédio preparando-me para uma catástrofe. É como um pressentimento, uma sensação ruim, aquela certeza chata de que alguma coisa vai dar errada.
, você não acha que está tudo quieto demais? – pergunto, porque realmente está.
Por mais que não tenha ninguém no corredor, eu sempre consigo escutar o barulho dos zumbis movimentando-se nos andares de cima e de baixo. Acabamos de sair do apartamento de Ricardo e meus ouvidos sentem falta daquele barulho horrível, mas extremamente essencial para a certeza de que tudo corre normal na medida do possível.
– Onde está o meu vô? – pergunta Pedro. o pegou no colo por medo de que se algo acontecer, ele não consiga correr, e eu o olho em dúvida.
– Eu já disse que ele está nos esperando lá em cima – respondo.
– Ele não iria sem mim.
– Mas ele foi. Supera isso.
me olha de uma maneira estranha e eu percebo tarde demais que fui um pouco rude com Pedro. A criança estala os lábios e franze o queixo, exibindo uma cara de choro que faz todas as partes do meu coração se despedaçar.
– Tá, tudo bem, enquanto o seu avô não chega, o que eu posso fazer por você?
Pedro parece pensar, o que me deixa pasma sobre o modo como a sua tristeza foi extremamente passageira.
– Você pode me trazer o Olavo.
– Quem?
– O Olavo.
Eu não sei se é um amigo imaginário, urso de pelúcia ou apenas uma tiração com a minha cara, então pergunto:
– E onde está o Olavo?
– No meu quarto – ele responde.
Suspiro e concordo com a cabeça. Digo a que vou buscar o tal de Olavo e que volto em um segundo. Ele concorda e, por tudo estar realmente silencioso e vazio, recosta-se contra a parede, ainda com Pedro no colo, para esperar. Quando eu volto a entrar no apartamento, vejo-o apontar a lanterna para o fim do corredor à procura de alguma ameaça.
O apartamento de Ricardo é assustadoramente familiar. Tem a mesma arquitetura que o meu, as mesmas paredes cor de caramelo, as mesmas portas de vidro e os mesmo detalhes na madeira das venezianas. Ando para o meio da sala e tento ignorar a cadeira na qual Ricardo tentou me fazer ficar mais cedo, e as lembranças de sua fala doentia apossam a minha cabeça. É praticamente impossível não criar ilusões onde tudo acaba dando errado e eu me torno uma Isabela. É praticamente impossível, também, não pensar em como, apesar de tudo, o meu destino será o mesmo que o da opção anterior.
Sinto meus dedos formigando. Meus ouvidos captam zumbidos estranhos que eu sei, de algum modo, só existir dentro da minha cabeça. Tento me distrair disso e foco no caminho para o quarto de Pedro, o qual encontro sem muita dificuldade pela placa em forma de carro com o seu nome, que está pendurada de maneira torta na madeira da porta. Entro e passo pelo amontoado de brinquedos jogados ao chão, tentando adivinhar quem, no meio de tudo aquilo, poderia ser o Olavo.
Em meio aos ursos sobre a cama, detecto um, em especial, que parece extremamente mais gasto e judiado. Pelo modo como Pedro falou, o jeito de me olhar, como se fosse óbvio que ele não poderia passar nem um minuto sequer sem o bichinho de pelúcia, deduzo que seja esse o certo e o pego, com pressa, saindo do quarto logo em seguida.
Quando chego à metade do corredor, escuto um barulho vindo do quarto vizinho. Paro e ao mesmo tempo em que apuro os ouvidos, volto um ou dois passos, sentindo o chão embaixo dos meus pés vibrar levemente. Encaro a porta fechada, por onde o barulho escapa através das frestas, e seguro o urso Olavo mais forte entre os dedos. De algum modo, a curiosidade, sempre o meu ponto fraco, fala mais alto e eu me vejo empurrando a madeira áspera, liberando espaço até que eu consiga ver o feixe de luz crescendo pelo chão, da porta até a parede do outro lado.
O que eu vejo quando os meus olhos se acostumam com a pouca iluminação faz todos os pelos do meu corpo se eriçar. Sinto a minha garganta ficar seca, o coração apertar, o meu corpo simultaneamente recuar alguns passos.
Zumbis.
Vários deles.
Todos espalhados pelo pequeno quarto, presos em correntes, parecendo extremamente famintos e fracos. Eu olho cada um deles e os reconheço como meus vizinhos e colegas. Eu olho cada um deles e vejo monstros, mas, acima de tudo, vejo que perderam todo e qualquer traço de sua humanidade. Não há nada além de pele e ossos, musgo verde e grunhidos.
Eles estão tão quietos, apenas ali, me olhando. Não parecem agitados, não parecem querer me atacar. É como se estivessem conformados com o fato de que nunca mais sairão dali, e isso me deixa, de alguma forma que não sei explicar, triste. Decepcionada. Ferida.
Do outro lado da sala, entre duas Isabelas, vejo uma pequena mesa. Sobre ela, está uma arma. Olho ao redor, pelo quarto, e percebo que é algum tipo improvisado e extremamente bagunçado de laboratório. Devia ser aqui que Ricardo fazia seus experimentos, que testava as suas curas e usava todos esses pobres seres como cobaias. Com um pouco mais de raciocínio, vejo também que aquela arma, tão acessível, deveria ser algum tipo de garantia para o caso de, durante as suas tentativas e experimentos, algo fora do controle ameaçasse a vida de Ricardo.
Adentro o quarto, dando um único e tímido passo. Com esse movimento, alguns dos zumbis levantam suas cabeças e parecem finalmente sentir a minha presença. Eu engulo a seco e seguro Olavo com mais força, olhando a arma e pensando em como, se eu conseguir pegá-la, poderei me redimir pelo erro de ter perdido a nossa única chance de sobrevivência para Giulia. Sigo mais um ou dois passos, e mais zumbis levantam suas cabeças. Eles se mexem, um sobre o outro, jogados contra o chão, em uma cena que me lembra muito o cenário macabro e sujo de um deposito de lixo.
Respiro fundo e levanto o queixo. Preciso ser rápida antes que eles despertem de vez ou algo do tipo. Dou mais três passos e, em seguida, dois, extremamente rápido, ficando de frente à arma em alguns segundos, segurando-a entre as minhas mãos ao me esquivar de um zumbi acorrentado ao seu lado. Coloco-a na cintura depois de me certificar de que está travada e viro-me para sair, mas outra coisa chama a minha atenção.
Em outra mesa, esquecida no canto do quarto escuro, há um caderno extremamente gordo, um rádio e um bolo de papéis embaralhados. Eu me aproximo para pegá-los, mas vejo que há um zumbi sentado nos pés da mesa. Ele parece dormir, se é que zumbis fazem isso, e não percebe a minha presença, enquanto os outros ficam cada vez mais agitados. Eu me aproximo e estico a mão para alcançar os objetos, e quando estrou prestes a puxá-los, sinto algo molhado e gelado pressionar o meu pulso.
Arregalo os olhos e encaro o zumbi agora acordado me segurar. E eu sei que isso parece loucura, mas, ele é extremamente diferente dos outros. Parece menos doente e até mesmo consciente. Segura o meu braço com força e me puxa para mais perto. Nossos rostos ficam a centímetros de distância e o cheiro que emana de sua carne podre me faz prender a respiração. Ele me olha, fungando como um cachorro, e eu tento me soltar, mas não consigo.
Por fim, ele espirra uma espécie irritada de grito e me deixa ir. Eu agarro o caderno e o rádio, e saio correndo do quarto, fechando a porta e indo em direção a saída do apartamento de Ricardo.
Quando chego do lado de fora, estou suada e ofegante e me olha com atenção. Tento disfarçar, como se nada tivesse acontecido, e me aproximo de Pedro, entregando o Urso à criança e recebendo um singelo abraço como agradecimento.
– Aconteceu algo? – pergunta.
Eu penso em todas as Isabelas que encontrei lá dentro, no caderno misterioso, no modo como os zumbis simplesmente me deixaram ir, na maneira como o meu corpo está estranho neste momento, e faço que não com a cabeça, dizendo que temos que continuar antes que o nosso – o meu – tempo acabe.
Mas antes que possamos nos locomover, escutamos um ruído baixo e constante. e eu nos entreolhamos, à procura da origem do som, e então meu ex-marido se aproxima de mim, puxando o meu braço com delicadeza e achando o rádio preso na minha cintura.
– Onde encontrou isto? – pergunta, já com o aparelho barulhento nas mãos.
– Lá dentro – respondo, dando de ombros.
Ele está prestes a dizer alguma coisa quando uma voz perdida em chiados emana do rádio e praticamente suplica:
– Eu não sei se você ainda está aí, Ricardo, mas preciso que me responda. Consegui convencê-los a voltar. Preciso da certeza de que você está vivo e sozinho. Não podemos arriscar outra vez.



Capítulo 13

– Como que isso funciona? – pergunto, batendo com o rádio nas minhas mãos, esperando que o chacoalhar o faça voltar a pegar.
Há alguns minutos, retornamos ao apartamento de Ricardo, esperando que o ato fizesse o sinal dar o ar de sua graça. E também porque não é nada aconselhável, no meio de um Apocalipse Zumbi, ficar parado no meio de um corredor com um rádio barulhento e poucas opções para se esconder. Mas, enfim, a questão aqui é que não temos a mínima ideia de como esse aparelho funciona e, sério, eu tenho a impressão de que podemos quebrá-lo a qualquer momento.
Suspiro e caio sobre o tapete, cansada. Minhas costas estão apoiadas contra os pés do sofá, meus dedos formigando pela adrenalina de ter escutado a voz de outro ser vivo que não seja a de . Neste momento há um pequeno raio de esperança crescendo em meu peito, e eu sei que é inútil, porque vou morrer de qualquer jeito, mas não consigo me sentir menos feliz por isso.
e Pedro ainda terão uma chance.
– Você está se sentindo bem?
Viro-me para , que acabou de lançar a pergunta no ar, olhando-me com os seus olhos azuis extremamente preocupados. Eu sei que não estou no meu melhor estado físico e mental, por isso não o culpo por querer saber o que está acontecendo. Eu só não consigo admitir em voz alta que acho que o meu tempo ao seu lado está acabando.
– Ótima – respondo. No mesmo instante sinto uma pontada terrível no estômago e tenho que cravar as unhas na pele das minhas mãos para não gritar.
O que está acontecendo com o meu corpo?
Eu deveria ter oito horas de vantagem. Eu deveria, sim, mas não sou conhecida por ser uma pessoa com bons anjos da guarda, então sinto-me cada vez mais tonta. Meu corpo está estranho de uma maneira assustadora. Eu não consigo me mover direito, nem ao menos escutar os sons mais comuns, meus olhos lacrimejam e apagões tiram e colocam coisas de foco.
De repente vejo que se aproximou, sentando ao meu lado com suas pernas cruzadas e o tronco voltando-se em minha direção. Eu não entendo quando ele segura o meu rosto entre suas mãos, passando o polegar pela minha bochecha, mas acho realmente estranho porque, no meio disso tudo, a única coisa que sinto é o seu toque. Não digo nada e apenas espero enquanto o semblante sempre calmo de seus olhos molda-se em algo preocupado e assustado.
– O que foi? – pergunto, alarmada. Ele desce as mãos do meu rosto para os meus ombros e os segura como se eu estivesse prestes a cair.
...
– O que está acontecendo?!
Levanto-me e corro para a frente da televisão. No reflexo escuro eu vejo o meu próprio rosto e percebo que linhas começaram a aparecer no meio das minhas bochechas. Aproximo-me mais para ter uma visão melhor e então noto que aquilo são veias. Veias esverdeadas. Eu estou me transformando. Droga, era real. Era tudo real.
se levanta e vem na minha direção, mas eu não quero que ele me veja assim. Não quero ser o monstro, não quero que ele tenha pena e muito menos medo de mim, então corro para a sacada do apartamento de Ricardo e fecho a porta, andando até o parapeito e passando os dedos pelo mármore frio. Tudo o que corre dentro da minha cabeça são opções e possibilidades. A minha vida inteira terminando nessa cena dramática e muito mal organizada. Confusa demais até mesmo para mim, que sempre tenho tudo organizado; sob controle.
É tudo tão rápido que eu mal posso acreditar. Em um minuto, eu estava confiante de que conseguiria sair daqui e que levaria e Pedro comigo. Havia literalmente uma voz para nos guiar. Um helicóptero. Pessoa vivas.
Agora, a única coisa que sinto são os pequenos e quase imperceptíveis espasmos que os meus dedos sofrem em suas pontas. Eu os olhos contra o parapeito, o modo como não consigo controlá-los, e sei que, logo, isso estará acontecendo com todo o meu corpo. Tudo o que eu sou, toda a minha personalidade, toda a minha humanidade se esvairá e tudo o que sobrará de mim será um corpo meio morto. O que, na verdade, faz muito sentido agora.
Então eu percebo que tenho uma opção. Uma única opção além da de virar uma Isabela. A mesma opção de quando começamos essa história, de quando eu decidi contar todos os meus problemas e os do mundo para você.
Pois bem, quem quer esteja lendo este diário: aqui estamos nós. Só eu, você e uma maldita sacada, como no começo de tudo. Eu te pergunto, com sinceridade, o que você faria no meu lugar? Você se jogaria? Ou arriscaria ficar e colocar em risco a vida do homem que um dia amou mais do que ama a si mesma? Você seria egoísta como eu estou sendo desde que percebi que era perigosa e não fiz nada a respeito?
Parece uma possibilidade distante. Os mais de trinta andares abaixo de mim são como uma grande mentira existencial: aquele pesadelo que sempre temos, no qual estamos caindo e aí acordamos. Só que real, sem escapatória, sem suor frio grudando no seu corpo ao acordar e perceber que nada era real; sem alguém do seu lado para te acalmar e dizer que você está segura; sem um copo de água gelado e uma torneira para lavar o rosto.
Sem nada dessas coisas tão banais que, agora, parecem impossíveis.
Eu quero viver. Quero mesmo. Mas agora eu tenho certeza de que a única coisa que farei continuando viva, para o resto da minha existência, é destruir outras vidas. Começando pela de e de Pedro. E eu não posso permitir isso.
Olho para a cidade à minha frente. Aqui é tão alto que eu mal consigo identificar os objetos parados no asfalto. Eu vejo alguns zumbis se movimentando ao longe, vejo carros abandonados, vejo lojas quebradas. Eu vejo tudo o que o mundo se tornou e, olhando para as minhas próprias mãos, para as manchas esverdeadas que começam a se formar por entre os meus dedos, vejo também o que eu me tornei.
E, de algum modo, eu não consigo enxergar um monstro.
Pelo menos não mais.

...

No nosso primeiro encontro, eu e marcamos de ir a um show que aconteceria no centro da cidade. Inicialmente eu não queria sair, pois era em um domingo e eu me preocupava com as aulas de segunda-feira. Mas então me garantiu que estaríamos em casa cedo e que eu me arrependeria amargamente de faltar – o que geralmente acontecia.
Então, eu fiz com que ele prometesse que não ultrapassaria nenhum limite de velocidade para cumprir a promessa; depois, claro, aceitei o convite.
Nós saímos às oito, já que o show começava às nove. Fomos de carro até o local, achamos um lugar para estacionar, andamos até o fim da fila e esperamos pacientemente enquanto a banda não entrava. parecia animado, e apesar de eu não gostar daquele tipo de música, fiquei feliz também. Eu não fui a muitos shows na vida; aquele devia ser o terceiro em meus vinte e poucos anos de idade. Era legal estar ali, com todas aquelas pessoas, mesmo que eu não fosse fã de contato humano e socialização avançada.
Digo, eu não era nenhuma excluída, sem amigos e vida social; mas eu mantinha certas regras – como, por exemplo, um número limite de pessoas para se manter contato.
Aquele lugar, no entanto, era um amontoado de gente desconhecida louca para fazer amizade, então você talvez entenda o porquê de eu não querer estar lá. Isso sem falar do chão quase grudento de tão sujo, do fato de eu não conseguir dar dois passos sem pisar no pé de alguém e, principalmente, da banda, que estava demorando séculos para começar a tocar.
Tá, eu sei que shows são assim mesmo – ou pelo menos devem ser -, mas eu não sou uma pessoa paciente. Claro que não reclamei, não sou tão má assim, mas com o tempo percebeu o meu estado de espírito e disse:
– Eu acho melhor irmos embora.
Na hora, me senti a pior pessoa do mundo. Queria estar aproveitando, de verdade. era sempre muito atencioso e prestativo, então eu queria mostrar que apreciava tudo aquilo, mas... Eu não conseguia. Nunca fui boa com esse tipo de coisa.
Balancei a cabeça afirmativamente e o segui para fora, tomando o cuidado de não pisar no pé de ninguém enquanto me movimentava. Nós dois andamos até o carro em silêncio, e apesar de tudo, estávamos bem. não parecia chateado comigo, e eu sentia meu humor aumentar gradativamente a cada centímetro de distância que crescia entre mim e aquele lugar.
Quando já estávamos dentro do carro, girou a chave na ignição e pingos de chuva começaram a cair sobre o para-brisa. Com o som das gotas contra o vidro, tudo pareceu catastrófico demais e eu senti a necessidade de falar alguma coisa.
... – comecei, e ele olhou para mim. – Eu sinto muito pelo show. Da próxima vez que sairmos, tenho certeza que será melhor.
franziu a testa por um segundo, sorrindo logo em seguida.
– Próxima vez? – perguntou. – , eu não vou te levar para casa.
– Mas eu pensei que...
– Que o show foi cancelado, mas ainda temos a noite toda – completou. – Eu te prometi uma ótima noite; uma que faria você se arrepender de escolher ter ficado em casa. E é isso o que eu vou te dar.
Eu não soube o que responder, então apenas fiz que sim com a cabeça. riu por um segundo – algo que eu não entendi o motivo – e deu ré com o carro, saindo do estacionamento.
Ao longo do caminho, ele não quis me dizer para onde estávamos indo. Apenas sorria, dizendo que iria me agradar, e eu respondia mandando-o ficar com as duas mãos no volante, já que era bem frustrante não ter respostas.
Depois de alguns minutos, ele voltou a estacionar o carro. Ainda chovia, então quando desci do carro não prestei atenção no lugar ao qual estávamos indo e apenas corri para o interior. Lá dentro, mesas de madeira ocupavam metade do salão. Havia um palco no canto direito, discos colados nas paredes e o chão mais brilhoso que eu já vi em um estabelecimento comercial.
– Música ao vivo? – perguntei quando entramos, olhando o palco que, agora, já não tinha mais apenas instrumentos.
Um homem de mais ou menos trinta anos se posicionou atrás do microfone. Outros garotos subiram e se apossaram do teclado e da guitarra, e uma menina sentou atrás da bateria.
– O melhor lugar para se escutar músicas brega na cidade – respondeu, andando até uma mesa no canto.
Sentamos cada um de um lado, e uma moça veio trazer o menu. Enquanto escolhíamos, a banda começou a tocar músicas que eu sabia conhecer, mas não lembrava o nome, muito menos o cantor. O som movimentou o salão como se tivesse energia própria; pessoas começaram a dançar, e até mesmo os funcionários entregavam-se ao ritmo vez ou outra.
– Por favor, me diga que não vai pedir água com gás – suplicou, divertido. – Eu juro que eu não vou contar pra ninguém que te vi bêbada. Tente se divertir.
Fechei o menu e o coloquei sobre a mesa, estreitando os olhos para ele. Quando o garçom parou ao meu lado, pedi uma água sem gás e sorri para .
– Não preciso de álcool para me divertir.
Ele aceitou a resposta, fazendo o seu próprio pedido.
– Água, também.
Olhei para ele, confusa.
– Enquanto você for chata, eu também serei chato – explicou.
Revirei os olhos, voltando a prestar atenção na banda. As músicas que tocavam eram todas de 1980, ou 1990. Não havia nada de novo no repertório, e eu gostei daquilo. Nunca fui fã de muitos estilos, sempre tive uma queda pelo velho e conservador. Aquele tipo de música era a playlist perfeita. Depois de algumas horas, eu acabei cedendo e pedindo uma bebida. E então outra, e outra e outra; e quando percebi, estava bêbada. me acompanhou em todas, portanto se encontrava no mesmo estado.
Tá, tudo bem, não estávamos no mesmo estado. Era possível que minha situação fosse um pouquinho mais alterada, mas, em minha defesa, eu nunca tinha ingerido aquela quantidade de álcool em toda a minha vida. É quase automático que eu ganhe perdão divino por todo e qualquer vexame que tenha ocorrido.
Voltando, eu tenho que avisar que não foi tão ruim assim. Às uma e quarenta e cinco da manhã, eu pedi para o garçom sentar na mesa conosco, e então eu perguntei se ele sabia qual era o produto que o pessoal do bar passava no chão, já que ele era tão brilhoso; às duas, se levantou e me puxou para dançar, e junto com metade das pessoas que já estavam de pé, na pista de dança em frente ao palco, nós dois improvisamos alguma dança de salão ao som de Whisky a Go Go; às três, a banda foi embora e eu me lembro de pedir para que eles ficassem, fazendo todo o salão me acompanhar. Eles tocaram mais uma ou duas músicas, agradeceram, e desceram do palco.
Eu e conversamos por alguns minutos até que eu vi o pessoal da banda sentar em uma mesa perto da nossa. Eles recebiam bebidas do bar aparentemente de graça, e enquanto outra banda – que eu não fui com a cara – subia no palco, eu os chamei para se sentar conosco.
Ao todo, eles estavam em quatro, então juntamos duas mesas para que nós seis ficássemos confortáveis. Eu perguntei sobre a banda e um deles perguntou há quanto tempo e eu namorávamos. Eu respondi que não éramos um casal, e completou com um "ainda" que primeiramente me deixou nervosa, mas que depois me fez rir.
Às quatro, o bar estava perto de fechar. As pessoas começavam a ir embora, e o céu dava sinais de clareamento. Levantei e fui até o caixa pagar a conta depois de quase agredir para que ele aceitasse que eu queria pagar pelo menos a minha parte, e meu futuro marido se despediu dos nossos novos amigos. De longe, eu pude escutar um deles desejar "boa sorte" ao em relação a mim, mas por algum motivo eu não fiquei brava. Normalmente eu mandaria os dois para o inferno, mas eu me sentia tão bem e tão relaxada que nem ao menos me importei.
Quando chegamos no carro, meus pés doíam de uma maneira gostosa. Sentei no banco do passageiro e tirei os saltos, deixando que o sangue voltasse a circular pelos meus dedos.
Quando olhei para o lado, girava a chave na ignição.
– Não! – gritei, fazendo-o levar um susto – O que você está fazendo?
Ele me olhou confuso.
– Indo... pra casa...?
– Não, não, não – apesar de três palavras idênticas, o efeito delas juntas foi desastroso, saindo tudo meio atropelado. – Você não pode dirigir!
– Mas nós temos que ir pra casa – parecia mesmo confuso. – Você tem aula, lembra? Prometi te levar a tempo.
Segurei suas mãos para que ele não pudesse ligar o carro, desenroscando as chaves de seus dedos.
– Eu sei, mas prefiro faltar a um dia de aula do que perder todo o ano morrendo em um acidente de carro.
riu.
– Tudo bem – concordou, e parecia se divertir com o meu drama. – E como você vai voltar pra casa?
– Ônibus.
– São quatro da manhã.
– Esperamos até às cinco, então.
Ele concordou com a cabeça.
– Você sabia que eu dirijo muito bem quando estou bêbado? – tentou.
– Eu vou ter que acreditar na sua palavra – pisquei. – Não precisa provar.
– E o que vamos fazer até às cinco da manhã? – perguntou.
Por algum motivo, minhas bochechas coraram. Virei para o outro lado e olhei pela janela, fingindo analisar a garoa fina do lado de fora.
– Vamos apenas esperar – respondi.
– Tudo bem – ele concordou, e o carro ficou em silêncio por um tempo.
Os funcionários do bar em que estávamos saíam aos poucos, trancando as portas e abrindo seus guarda-chuvas. Estavam todos usando seus uniformes vinhos e suas calças jeans escuras. Logo, eu fiquei imaginando quantos uniformes eles deveriam ter... Dois? Assim poderiam lavar dia sim, dia não. Mas se fossem três, seria melhor...
– Pode devolver as minhas chaves agora? – perguntou, e eu pulei de susto.
Esqueci que estava no carro com ele. Sentia tanto sono que meu subconsciente projetava uma cama imaginária ao meu redor, e eu só queria dormir.
– Não – respondi.
– Então vamos jogar alguma coisa, caso contrário acabarei dormindo – ele se ajeitou no banco, virando-se para mim.
– Jogar? Do que você está falando?
– Coisas como "Quem sou eu?" ou "Stop".
Dei risada.
– Quantos anos você tem?
– Dezenove. E estou preso em um carro com a única jovem adulta careta da América. Forço um riso.
– Engraçado. Você vai me agradecer um dia.
– Eu sei que vou – concorda. – Quando estivermos casados, com um filho adolescente que dirige bêbado.
– Meus filhos não dirigirão bêbados.
– Oh! Então aceitou casar comigo?
Reviro os olhos. Ele sorriu de um jeito que quase me fez agarrá-lo ali mesmo, olhando para o meu rosto com uma calma que fazia parecer que o mundo à nossa volta havia parado. Em um momento, só havia eu e e o modo como ele encarava os meus lábios. Eu o teria beijado ali mesmo se no segundo seguinte meu corpo não tivesse cedido ao alto nível de álcool e me feito apagar, do nada, sobre os seus ombros.
E eu não sei o porquê, mas é nessa exata lembrança a que me prendo quando abro os olhos e estou no chão, com me segurando pelos ombros, olhando-me preocupado. É como voltar no tempo, para um momento em que eu não sabia o que estava acontecendo pela primeira vez em toda a minha vida e ele fosse a única pessoa do mundo que eu pudesse confiar para chegar a esse nível de irresponsabilidade.
O único problema é que, agora, não foi opcional. Eu não procurei por isso. Para falar a verdade, eu não faço a mínima ideia do porquê de eu ter desmaiado, assim, do nada.
?
está ajoelhado à minha frente, olhando-me de um jeito estranho, uma mistura de preocupação e alarme. Eu me levanto e levo a mão à cabeça, tentando entender o que aconteceu, mas ele parece tão conturbado que eu não consigo formular nenhuma pergunta coerente.
– Qual foi a música que dançamos no dia do nosso casamento? – Meu ex-marido pergunta.
– O quê?
– A música. Por favor, diga.
– The Time Of My Life.
Ele suspira aliviado e eu não entendo uma vírgula do que pode estar acontecendo. Penso em perguntar, mas tenho medo da resposta, então apenas espero que me diga o porquê de seus olhos estarem tão vermelhos.
– Eu acho que você está se transformando – diz, e eu sei que o seu palpite é uma certeza. – Em um minuto você estava ali, parada, e no outro... Não era mais você. Foi como se a tivesse sumido.
– Eu... – engulo em seco. – Te machuquei?
Olho para as minhas mãos, esperando encontrar todas as minhas unhas e a minha pele naquele tom esverdeado que, infelizmente, conheço muito bem, mas não encontro nada disso. Muito pelo contrário, é como se eu estivesse normal – melhor até mesmo do que antes do meu pequeno surto.
– Você não me machucou. Avançou na minha direção, mas a porta da sacada a deteve. Sem poder passar, , você apenas ficou me observando, sem responder às minhas perguntas. Até que caiu ao chão.
Então eu não o machuquei. Isso é um pouco menos pior. E eu sei que o único motivo de eu não ter feito isso foi por conta daquela abençoada porta de vidro, então fico tensa de qualquer jeito. Se dependesse do meu eu descontrolado, estaria morto.
– Vamos, levante – ele diz, erguendo-se sobre os joelhos e dando a mão para que eu me levante.
– Por que eu parei? – pergunto, ainda perdida. – Eu poderia ter feito essa porta em pedacinhos. Mas eu parei. Por quê?
– Talvez a transformação ainda não esteja completa – diz ele. – Ou talvez... – e então se cala.
– Talvez o quê?
– Talvez você tenha se lembrado de mim. Do que sentia, digo. Como a senhorita Sara, só que mais forte, tão forte que foi capaz de se controlar.
Eu, por algum motivo, dou risada.
– Eu não te amo mais, . Não é como se o amor fosse a cura que a humanidade precisa!
O tempo parece parar, e as minhas palavras ecoam dentro da minha cabeça como um lembrete de que eu sou um ser humano terrível. O jeito como me olha me faria cair ao chão e chorar pelo resto da eternidade se os meus problemas existenciais não fossem um pouco maiores que um coração partido.
Eu não quero parecer insensível, mas, estou prestes a morrer. Talvez eu possa até mesmo colocar a culpa da minha falta de bom senso e extrema grosseria na senhora doença que se apossou do meu corpo nas últimas horas. Um fato que não diminuiria em nada a minha carga diária de culpa, porque sabe muito que essa minha falta de filtro para com as palavras é uma doença inteiramente minha, de nascença.
Surpreendentemente, ele ri. Um riso visivelmente magoado, mas ainda assim um riso.
– É, você tem deixado isso bem claro ultimamente – diz, e então continua: – Eu que sou burro o suficiente para achar que você ainda poderia ter algum tipo de sentimentalismo, e eu não estou falando de amor. Estou falando do básico que qualquer ser humano precisa ter.
Ele está prestes a sair quando eu rebato:
– Eu não sou obrigada a amar você, . O amor se torna um erro quando é uma obrigação.
– Eu nunca falei de amor, , e sim de um pouco, um mísero traço de consideração e de companheirismo! Eu não quero que você me ame como homem, ou como marido; eu só quero que você me veja como a droga de um ser humano, e não como um de seus capachos.
– Capachos?! Do que você está falando?!
– Eu estou falando de todos os anos nos quais eu fui um tolo por você! Estou falando de todos os sacrifícios que eu fiz.
– Sacrifícios? – dou uma risada nervosa. – Quem é você para falar de sacrifícios? Você desistiu de uma oficina mecânica, não é como se tivesse perdido muita coisa!
– Era o que eu amava!
– Você deveria amar a mim!
Mas eu amo você, ! Por que não entende isso?!
E então eu me calo. Me calo porque não há nada que eu possa falar no momento, e porque os meus olhos se enchem de lágrimas e a minha garganta se fecha em um nó que parece impossível de se desfazer. Eu o olho e me sinto arruinada; completamente destruída. Eu me sinto suja e errada, como se fosse injusto o simples fato de eu respirar o mesmo ar que ele.
Não consigo lutar contra a brisa gelada que passa pelo meu corpo, e enquanto as lágrimas quentes rolam pelo meu rosto, sinto a minha cabeça girar. Passos os braços ao redor de mim mesma e tento segurar os soluços que se seguem, sentindo-me um monstro ao ver que, mesmo no meio de toda essa raiva, ele ainda me olha com preocupação e carinho.
E é realmente injusto, porque o que eu fiz com a nossa família é imperdoável. A mentira que eu contei no passado é imperdoável. O jeito como eu continuo o enganando, dizendo que o nosso casamento acabou por puro descaso do destino, é imperdoável. Mais imperdoável ainda foi fingir que seríamos uma família do apocalipse e trazer Pedro conosco na jornada para a liberdade.
– Você não me conhece, . Não do jeito que pensa. Você não me amaria se soubesse o que eu sou – digo, e não penso nas palavras com cuidado. Apenas deixo que elas saiam por entre os soluços, as lágrimas e a minha voz arrastada.
Ele junta as sobrancelhas e me olha confuso.
, eu conheço você melhor do que ninguém. Sempre conheci.
Eu balanço a cabeça.
– Tem algo que você não sabe sobre mim. Algo terrível.
– Do que você está falando? – ele se aproxima um passo, e eu sinto que a sua intenção é me amparar, me ajudar de algum jeito.
E eu o odeio tanto por isso. O odeio tanto por não me odiar de volta, porque seria tão, mas tão mais fácil se ele fosse pelo menos um milésimo da pessoa egoísta que eu sou. Eu não teria medo de falar, não teria medo que ele se decepcionasse comigo, não teria medo que ele me odiasse, porque não faria diferença.
Mas, não. Ele é o , e ao invés de me odiar, de me repudiar, de exigir uma resposta a todo custo e me tratar com indiferença por causa da nossa discussão, ele apenas se aproxima mais de mim e me segura pelos ombros.
, do que você está falando? – repete a pergunta com delicadeza.
E olhando nos seus olhos, eu não posso mentir. Não depois de todo esse tempo. Não quando eu sei que estou prestes a morrer sem contar a verdade.
– Há nove meses, quando eu quis o divórcio pela primeira vez, , eu estava grávida. Eu estava grávida de um filho seu, e mesmo assim eu destruí a nossa família. Por favor, não me perdoe por ter feito isso.



Capítulo 14.1


Bem, eu acho que você merece saber a verdade. E talvez o fim concreto e pesaroso a seguir não venha a ser o que você esperava, mas, mesmo assim, você merece ter conhecimento sobre ele.
Há quanto tempo vem nos acompanhando? Sabe me dizer? Ou já perdeu as contas?
Eu já perdi. Há alguns meses que eu venho tentando me lembrar o exato momento em que a começou a escrever este diário, e, bem, eu não sei o quanto você demorou para lê-lo, mas, para a minha ex-esposa, foram alguns bons meses escrevendo-o. Todo dia, algo novo. E eu sempre estava no canto, observando-a, imaginando para quem ela poderia estar escrevendo e, principalmente, o que ela estava contando.
Ah, aqui é o , a propósito.
E você deve estar se perguntando onde a está neste momento, então vou responder de forma rápida e indolor: ela se foi.
Simplesmente se foi, depois de todos esses anos. E agora eu estou sentado no meio de um apartamento que não é meu, segurando uma criança que não é minha, minutos depois de ter perdido a única mulher que eu amei em toda a minha vida.
Parece trágico, não?
Eu sei que é.
Mas não fique com pena ou chateado, porque a história ainda não acabou.

...

Folheando o diário de , encontrei uma página arrancada, rabiscada de ambos os lados pela letra arrastada da minha ex-mulher. Na página, um texto melancólico ocupava quase trinta linhas, e eu sei que eu deveria ler, mas não consigo. Não quando eu sei que a não é o tipo de pessoa que escreve diários, cartas e textos de mais de trinta linhas. Se ela fez isso, é porque alguma coisa estava realmente errada – mais errada até que o fato de ela estar se transformando em um zumbi.
Quando começo a analisar, vejo que é a parte do diário que fala da última vez em que conversamos. E eu não sei se quero realmente ler, porque, afinal, estive lá e presenciei tudo; não preciso relembrar nada quando cada palavra que eu disse fica se repetindo dentro da minha cabeça como uma maldição, como se a culpa não fosse apenas um sentimento, mas um pensamento moldando-se em palavras soltas dentro da minha mente.
É difícil.
Então eu começo a ler, e, sim, é exatamente como eu me lembrava, mas incrivelmente pior: agora eu tenho os pensamentos de sobressaindo-se a cada linha, cada palavra que digo, cada coisa que faço. Eu a tenho me analisando, me descrevendo, e eu juro por Deus que não me reconheço quando chego ao fim.
Eu estava tão... Parecido com ela. Chega a ser assustador. Eu grito e grita de volta, mas ao contrário dos três anos em que passamos juntos, nesta briga eu não consigo me sentir mal por estar passando dos limites com ela. Mesmo depois de me explicar o que aconteceu, o modo como perdeu o nosso bebê no início da gestação, não sou capaz de esquecer o fato de que ela escondeu isso de mim. E eu sei que é egoísmo, que é insensibilidade, mas não posso me sentir culpado e pedir desculpas.
Então eu entendo o lado dela. Eu entendo o porquê de a ter pedido o divórcio, do porquê de ser tão dura comigo na maioria das vezes. É tudo tão óbvio que eu me sinto um completo idiota por não ter percebido antes.
Ela me odeia.
Talvez por causa das lembranças do filho, da mentira que contou, da culpa que carregou, do modo como parece enjoar de tudo de forma tão rápida, mas... Ela me odeia. Do mesmo jeito que, naquele momento, eu a odiei. Naqueles únicos cinco minutos da minha vida em que realmente a odiei, eu a queria longe, distante; queria que ela simplesmente nunca tivesse aparecido na minha vida, e eu percebo que é essa a maneira como se sentiu em relação a mim nos últimos três meses.
Porque até então eu não conseguia entender como uma pessoa que te amava ontem passa a te odiar hoje.
?
Viro-me para encarar Pedro. Está escuro e a sala não tem um traço sequer de luz. Eu não sei como ele me achou, mas estico o braço para que a criança me encontre e a acomodo ao meu lado, no chão, de costas para a porta de saída do apartamento em que estamos.
Eu nem sei de quem é este apartamento. Eu só sei que quando ainda estava conosco, disse que tinha ouvido barulhos estranhos. Estávamos a dois andares do terraço e por isso insisti que deveríamos continuar, porque assim tudo acabaria logo. Ela concordou e nós subimos, mas quando chegamos no último andar, algo nos parou. Algo que fez todas as minhas esperanças de liberdade descerem todos os cinquenta e nove lances de escada que tínhamos nos esforçado tanto para subir.
O andar estava completamente infestado de zumbis. Vário deles. Mais de cinquenta, de um modo que não conseguiam ao menos se locomover. As portas dos apartamentos estavam inacessíveis e não poderíamos nem ao menos pensar em abrir as grades sem fazer barulho e atraí-los, portanto voltamos para o andar de baixo e entramos em um apartamento vazio, pensando no que poderíamos fazer.
– Eu quero o meu avô – disse Pedro, e eu me lembro de ter visto olhá-lo com tanta culpa que eu até mesmo duvidei que fosse ela.
– O que vamos fazer? – perguntou a minha ex-mulher.
Eu não sabia o que fazer. Não sabia o que falar. Ainda estava bravo com ela, mas não tanto quanto na hora em que soube de tudo. Por outro lado, as coisas eram extremamente recentes e conversar com estava fora de cogitação, então apenas balancei a cabeça negativamente e sentei no sofá da sala de entrada do apartamento. ficou encostada com as costas apoiadas na porta, olhando para o vazio como se eu não existisse. Pedro sentou-se ao meu pé, no chão, e começou a brincar com Olavo.
E tudo o que eu conseguia pensar naquele momento era em como eu não sobreviveria àquilo; como não conseguiria salvar Pedro e e em como a minha ex-mulher havia mentido para mim por quase um ano sobre uma coisa tão importante.
Eu queria voltar a gritar com ela. Queria respostas melhores do que as que tive. Mas eu sabia que, se fizesse isso, ela começaria a chorar, e eu não poderia vê-la chorando e continuar sentindo raiva, porque uma parte de mim ainda a amava mais do que eu poderia aprovar. Então apenas fiquei quieto e tentei imaginar motivos, razões e possibilidades. Coisas que eu nunca imaginei que estaria fazendo três anos atrás.
Ela mentiu para mim três vezes: Quando soube que estava grávida, quando soube que poderia perder o bebê e quando, de fato, o perdeu. E eu me pergunto o porquê. disse que o corpo era dela e que não tinha a obrigação, mas eu, internamente, discordo. Era o meu filho, não era? Eu merecia ao menos saber. Ou será que, depois de tanto tempo sem viver em uma sociedade, acabei perdendo completamente a noção do que é certo e errado?
De qualquer jeito, o fato não é só a mentira, é o que ela representa. Representa que a minha esposa não confiava em mim na época, que não se sentia confortável para me contar uma coisa tão importante. Ou que ela apenas era egoísta. Ou estava com medo. Ou, talvez, que não achasse que eu fosse ser uma boa companhia, pai ou homem para estar ao seu lado naqueles momentos.
Droga, eu queria muito saber a resposta para essas perguntas, mas não me daria nenhuma delas. Ela nunca me deu nada além de demonstrações de orgulho, e não mudaria agora. Não estando prestes a morrer, não depois das quase duas horas que passamos gritando um com outro no apartamento de Ricardo.
Então eu me deito no sofá, e ela pergunta o que eu estou fazendo.
– Preciso descansar – digo. – Apenas alguns minutos.
concorda com a cabeça e desliza para o chão, ainda com as costas contra a porta, e eu sei no que ela está pensando: alguns minutos podem ser uma eternidade para nós. No meio de um prédio infestado, com uma criança e uma pessoa infectada, minutos podem significar muita coisa, mas eu simplesmente não consigo pensar em nada que vá nos tirar daqui, então deito no sofá e olho para o teto escuro acima de mim, esperando achar uma resposta.
Quando acordo, estou sozinho no apartamento. Pedro está na ponta do sofá, agarrado às minhas pernas, dormindo, e sumiu. Eu levanto e a procuro por todos os cantos do apartamento, mas não a encontro; de alguma forma, sei que não vou encontrar. A única coisa que acho é o seu diário, este no qual estou escrevendo agora. Eu o leio e tento entender tudo o que se passava na sua cabeça, mas é um pouco confuso.
tem uma linha de raciocínio diferente de tudo o que já vi. Muitas vezes me pego dando risada de sua obsessão por limpeza e organização, outras fico imaginando como eu nunca percebi o quanto ela poderia estar doente por causa disso. É como se eu achasse que todos os seus defeitos são qualidades. Pequenos detalhes que a fazem ser do jeito que é e que deveriam me incomodar, mas não me incomodam.
Quando termino, pego aquela folha solta no meio do caderno e recomeço a lê-la, tomando coragem para chegar na parte em que ela para subitamente de escrever porque o seu corpo já não a obedece. Começo a me perguntar se ela teve tempo de sair do apartamento para não machucar Pedro ou se conseguiu se controlar quando já transformada. Se doeu, se ela se machucou. Começo a me perguntar todas essas coisas, e só então percebo que é real.
O apartamento está vazio. Pedro está sentado ao meu lado. não está aqui. Os zumbis andam do lado de fora e a madrugada está bem longe de acabar.
não está mais aqui, e eu nem ao menos sei o que, exatamente, aconteceu com ela.
Então escuto um barulho alto e contínuo. Estou farto de surpresas para um único dia e nem sequer me preocupo em levantar. É como se eu não tivesse forças para isso. Como se só quisesse ficar aqui, sentado nesse chão que eu tenho certeza que julgaria sujo, para sempre. Sem me mover. Sem sair.
O problema é que o barulho vem do lado de fora do prédio é acompanhado por uma luz branca e forte que toma as portas de vidro e entram na sala, fazendo Pedro se levantar, maravilhado com a confusão repentina. Ele corre para a sacada do apartamento, abrindo a porta com uma genialidade invejável. Eu levanto e o sigo, parando do lado de fora e sentindo o caos criado pelo helicóptero fazer os meus cabelos ficarem ainda mais bagunçados. Estou prestes a fazer um sinal para que nos deixe, já que não há meios de sair, quando escuto um outro barulho, mas dessa vez algo que vem de dentro do prédio. Identifico de longe o som de alarmes sendo disparados, e automaticamente sei que algo ou alguma coisa está mexendo com os veículos do estacionamento.
Volto para o apartamento e corro até a porta de entrada, abrindo apenas uma fresta. Por esse espaço, vejo todos os zumbis deste andar saindo de seus apartamentos e indo para o corredor, seguindo as escadas lentamente em busca do som dos alarmes. São tantos deles que eu me pergunto o que estariam fazendo até este momento, tão quietos e escondidos que nem ao menos nos viram chegar.
Escuto o helicóptero mais forte, e então ele para, e eu sei que estacionou. Volto para a sacada e pego Pedro no colo, buscando a sua mochila e a arma que achou na casa de Ricardo. Prendo o rádio na cintura junto com o diário de Ricardo, que tem anotações que a minha ex-mulher disse serem importantes, e abro a fresta da porta mais uma vez. Os zumbis do andar de cima estão saindo de lá para seguir o som dos alarmes. Tudo está ficando vazio e, se eu esperar mais alguns minutos, poderei passar, com a ajuda da arma, por todos eles e levar Pedro em segurança ao topo.
Ergo a criança e seguro-a apoiando-a em um braço, e Pedro se agarra ao meu pescoço, com muito medo para conseguir olhar para onde estamos indo. Ele entende e obedece quando digo que, não importa o que aconteça, ele não pode gritar ou chorar, e então saio do apartamento, segurando a arma com a minha mão livre, sentindo a respiração do menino contra o meu pescoço, lembrando-me que eu tenho que ser duas vezes mais atento agora.
Quando chego ao andar de cima, ainda há zumbis rondando pelo corredor. Pego a chave da grade da escada, mas estranho ao ver que já está aberta. Empurro-a, aproveitando que eles não estão prestando atenção, e corro para a próxima grade. Esta está trancada. Seguro o cadeado com as mãos trêmulas, lutando com a arma para conseguir abri-lo. A tarefa que antes já era difícil com quatro mãos – as minhas e as da – torna-se incrivelmente pior agora, e eu tento de qualquer maneira ser rápido, porque sei que não tenho muito tempo.
Então Pedro crava as unhas no meu braço e eu sei, no mesmo instante, que algo está se aproximando. Deixo a chave cair no chão para me virar e apontar a arma para o zumbi que se aproxima de nós, e em um flash vejo o rosto de no monstro à minha frente. Vacilo por conta disso, demorando para reconhecer um vizinho que sempre me dava bom dia quando nos esbarrávamos na entrada do prédio, todas as manhãs. Sinto Pedro praticamente me enforcar ao me agarrar com mais força, com tanto medo que minha camiseta fica molhada na altura dos ombros, onde caem as suas lágrimas.
Atiro no zumbi e os outros que estão no corredor se viram para me olhar. Neste momento esqueço a arma e procuro a chave que caiu no chão, deixando Pedro para abrir o cadeado.
Sinto o piso áspero do prédio brincar com as pontas dos meus dedos enquanto procuro a chave.
Pedro está chorando alto. Vejo as minhas mãos tremendo quando consigo segurar o objeto pequeno por entre os meus dedos. O cadeado é frio ao toque. A chave escorrega e não quer se encaixar onde deveria. Pedro chora mais alto do que antes.
Escuto passos se aproximando.
Pesados.
Firmes.
Assustadores.
Consigo fazer a chave entrar no cadeado e a giro rapidamente, observando com um alívio indescritível ele deslizar e me permitir abrir a grade. Puxo Pedro pelo braço e o jogo para dentro dos lances de escadas. Pulo logo em seguida e quase não consigo nos isolar a tempo e o zumbi morde a grade dois centímetros à direita de onde os meus dedos seguravam o ferro para permanecer fechado.
Se eu soltar, eu sei que os zumbis entram, então mando Pedro subir as escadas e se esconder para ganharmos tempo. Quando puder, solto e corro atrás dele. Seria um plano perfeito se um zumbi não aparecesse dentro dos lances de escada, descendo os degraus na direção de Pedro enquanto eu o escuto chorar mais ainda, voltando tudo o que havia progredido.
Estamos cercados, e eu não tenho muita escolha senão soltar a grade e, o mais rápido que consigo, pegar Pedro do colo e passar pelo segundo zumbi, deixando tudo – exatamente tudo – para trás. Correndo sem armas, mochilas ou chaves em direção ao telhado, esperando que o helicóptero ainda esteja nos esperando.
Ao alcançar o lado de fora, deparo-me com a noite estrelada. Perco alguns segundos sentindo o frio congelar cada osso do meu corpo, percebendo que deve ser o ápice da madrugada. Corro com Pedro em direção ao helicóptero, que é real e não apenas uma miragem, mas paro quando luzes são lançadas na minha direção e um barulho me faz abaixar, protegendo Pedro do que juro ser tiros.
– Fique onde está! – alguém grita.
Levanto o rosto, verificando se a criança está bem. Em seguira viro-me para eles e grito:
– Vocês são malucos?!
O homem que gritou pela primeira vez repete:
– Fique onde está ou matamos você e a criança. Onde está Ricardo?
Sinto meu estômago girar. Não me parece uma boa ideia dizer que o matei com as minhas próprias mãos.
– Ele... Não está aqui.
– Viemos por Ricardo. Se ele não está, vamos embora.
– Espera! – levanto, correndo alguns centímetros. No terceiro passo vejo os homens ao redor do helicóptero erguerem as suas armas e paro, gritando um pedido de desculpas. – Este é o neto dele. É Pedro.
O homem que conversa comigo pula do helicóptero para o chão. Às minhas costas escuto os zumbis começando a subir os lances de escadas. Eles ficam presos na porta pesada do telhado, mas sei que aquilo não os segurará por muito tempo.
– Eu vim por Ricardo – repete o homem, agora na minha frente.
Ele tem cicatrizes por todo o rosto e um olhar opaco, como se, mesmo não sendo um zumbi, não houvesse vida em seu interior.
– Qual a diferença de nos levar e levar Ricardo? – pergunto.
– Crianças dão muito trabalho. E você, bem... Não será de nenhuma utilidade. Ricardo era virologista e estava estudando algo. Você é só um encosto. Eu sinto muito, não temos lugar para vocês.
Ele se vira para ir embora, mas digo, fazendo-o parar:
– Eu tenho todas as pesquisas de Ricardo. Se você nos ajudar, eu te dou. Está tudo aqui.
Ele me olha desconfiado, e eu tiro da cintura o caderno que recuperou do apartamento de Pedro, mostrando a ele. O homem vê que tenho o rádio por baixa da blusa e parece entender que, o que quer que tenha acontecido com Ricardo, foi minha culpa.
– Ele me deu isto antes de morrer – minto. – Tem muitas anotações. Eu sei que é importante porque estive com Ricardo e ele parecia estar bem comprometido com as suas pesquisas. Você não iria querer perder.
O homem me olha de cima abaixo, e então para o caderno. Sei que minhas mãos estão tremendo enquanto o seguro no ar, mas não consigo parar. Apenas de pensar que passamos por tudo isso para nada, que eu perdi para não conseguir nem ao menos salvar Pedro, mas faz entrar em uma espécie de desespero que nunca senti antes.
– E onde está Eduardo?
Franzo o cenho.
– Quem?
– Eduardo – repete, impaciente. – Era um dos nossos. O deixamos aqui para que trouxesse Ricardo ao terraço em segurança. Você sabe o que aconteceu com ele?
Eu realmente não sei do que ele está falando, então faço que não com a cabeça. De algum modo também sei que, naquela noite, na primeira vez em que vimos o helicóptero, ele não estava aqui para nos salvar. Provavelmente era a carona de Ricardo. A volta dos nossos supostos salvadores foi pura sorte, um fato que só ocorreu porque eles tinham a esperança de que Ricardo conseguisse sair com a ajuda de Eduardo.
– Talvez ainda esteja lá dentro – digo. – Vocês têm armas. Podem entrar para procurar. Eu conheço o prédio e os ajudo, mas só se prometerem manter Pedro em segurança.
Estou com tanto medo de falhar que os poucos segundos em que o homem gasta olhando para mim parecem uma eternidade. Tudo o que consigo pensar é em como eu preciso salvar Pedro, de qualquer jeito, e em como os zumbis às minhas costas parecem cada vez mais perto de derrubar a porta e nos atacar.
Por fim, o homem balança a cabeça.
– Não vale a pena. Ele deve estar morto – dirige o olhar para o caderno em minhas mãos. – Me dê isso e temos um trato.
Suspiro, aliviado, e ando atrás dele até o helicóptero. Quando estamos perto o suficiente, entrego Pedro e o caderno para ele e recebo um olhar confuso:
– Eu não vou – explico.
– Achei que quisesse sair daqui.
– E eu quero. Mas ainda há alguém lá dentro que precisa da minha ajuda.
Ele me olha de um jeito estranho, como se me achasse maluco.
– O menino ficará seguro – afirma, pega uma das armas de seus homens e entrega para mim. – Caso encontre Eduardo, nos chame pelo rádio. Voltaremos para buscá-los. A arma é para que consigam sobreviver até estarmos aqui.
Seguro a arma entre as minhas mãos e sinto um calafrio percorrer o meu corpo. Por algum motivo, sei que não vou encontrar Eduardo. Sei que não voltarão por nós.
– Obrigada – digo, afastando-me do helicóptero. Olho para Pedro e, tentando não pensar muito no assunto, digo Adeus. – Tchau, amigão.
Ao ouvir a despedida, Pedro começa a chorar. Se debate no colo do homem que o segura e me olha como se estivesse se sentindo traído. Ele grita o meu nome. Grita o de . Ele nem ao menos se lembra do avô, mas chora por nós, e eu sei que, mesmo que brevemente, fomos a sua família.
Sinto uma parte de mim morrer ao ver o helicóptero começar a levantar voo, afastando-se e levando consigo o som do choro de Pedro. As hélices, que foram o símbolo de toda a esperança que um dia eu e tivemos, cortam o ar e fazem tudo a minha volta parecer uma confusão sem fim.
Então, viro-me para a porta do terraço, onde vejo que não tenho muito tempo até que os zumbis raivosos se jogando contra ela obtenham sucesso em suas tentativas.
Respiro fundo, engatilhando a arma. Fecho os olhos por um momento e sei que tomei a decisão certa.
Eu tenho que entrar. Tenho que encontrar .



Capítulo 14.2

"I will not kiss you
Cause the hardest part of this
Is leaving you"
– Cancer (Twenty One Pilots Cover)

O prédio parece vazio agora. Olho para os dois lados do corredor antes de saltar da escada para o meio da passagem, certificando-me de que não há mais ninguém comigo. Aparentemente, todos os zumbis que antes impediam o caminho para o último andar seguiram o som dos tiros sendo disparados e foram para o terraço. Eu tive muita sorte de conseguir me esconder antes que me vissem. Tive muita sorte de que estivessem mais preocupados com o grande helicóptero abrindo voo do que comigo.
Quando finalmente conseguiram vencer a porta que os barravam, todos os zumbis correram na direção do helicóptero e eu segui pelos extremos do telhado, o mais longe possível, até poder me esconder atrás da pequena cabine que me levaria para o interior do prédio. Quando todos saíram, entrei a fechei a porta que, eu sabia, só podia ser aberta pelo lado de dentro. A última cena que vi daquele terraço foi a de três zumbis tentando alcançar o helicóptero, pulando em sua direção e caindo mais de sessenta andares abaixo.
Agora, estou aqui. E apesar de parecer que sim, sei que não estou sozinho. Ainda há criaturas por todos os cantos, e uma delas é a minha ex-mulher. Talvez até mesmo Eduardo, o homem que as pessoas que salvaram Pedro estavam procurando, esteja perambulando por aí, então ainda tomo cuidado ao abrir caminho pelo corredor, tentando enxergar uma saída no meio da penumbra enquanto seguro a arma baixa e engatilhada.
Vou até o próximo lance de escadas e desço os degraus. Ainda está estranhamente silencioso. Minha respiração fica cada vez mais leve, mais relaxada. Minha postura descansa. Meus olhos, antes atentos, já não prestam mais tanta atenção em todos os detalhes. A única coisa a qual me prendo é ao barulho irrefreável dos alarmes dos carros disparando nos andares abaixo dos meus pés, mais especificamente no subsolo. Eu posso escutá-los, mesmo que de uma maneira baixa. E, de repente, sei que todos os zumbis do prédio também o ouviram e automaticamente seguiram o som. deve estar lá embaixo.
Enquanto desço, repasso os acontecimentos dentro da minha cabeça. Quero encaixar tudo em seu devido lugar, portanto monto uma linha do tempo imaginária na qual o ponto de partida é a noite em que eu e vimos o helicóptero pela primeira vez. Aquele foi o momento em que Eduardo foi deixado no prédio com a intenção de tirar Ricardo daqui em segurança. Por algum motivo, o homem não cumpriu o que deveria e eu e minha ex-esposa chegamos ao avô de Pedro primeiro. Ele morreu e nós tiramos as suas anotações. Antes disso, sempre dizia ter escutado sons, e agora eu me pergunto se tudo não foi Eduardo, já que ele era o único ser vivo restante além de nós.
Começo a me questionar todos os momentos em que fugimos de algo e quais momentos esse algo poderia ter sido, na verdade, Eduardo.
Ainda estou descendo. Está tão escuro que tropeço em algumas ocasiões. Não tenho mais a para me alertar a cada cinco segundos de que alguns degraus estão lascados nas pontas e que devo ter cuidado para não escorregar, então, sim, os deslizes são frequentes. Meu corpo está tão cansado que eu começo a me perguntar se a falta de comida é a razão das minhas tonturas ou se, simplesmente, tenho um organismo fraco demais para o apocalipse.
Agora estou no andar do apartamento de Giulia. Por algum motivo, paro de frente à porta do lugar onde encontramos a menina e encaro a madeira gasta e suja. Empurro-a com os dedos e aponto a arma para cantos estratégicos, esperando que Giulia ou outro zumbi me dê um susto. Isso não acontece e eu me encontro sozinho no meio do apartamento, vendo a lua iluminar a sala de visitas ao passar pela porta da sacada.
Sigo em direção ao quarto onde encontrou a garotinha. Encosto o ouvido contra a madeira da porta e tento escutar alguma coisa, mas nada acontece. Não sei se Giulia não está lá dentro ou se só está quieta, já que não há movimentação ao seu redor, então fecho os olhos e coloco os dedos contra a porta, esperando ouvir melhor. Nada. Suspiro e me afasto, sendo abordado por um estalo às minhas costas.
Viro-me e aponto a arma para a origem do barulho, mas tudo o que encontro é uma porta fechada. Consigo escutar o som da minha respiração quando suspiro aliviado. Mesmo assim, cada movimento parece ter o efeito de uma bomba, então me aproximo da porta com calma e a empurro delicadamente, encontrando, do outro lado, um quarto de criança. Também encontro Giulia, que está encostada contra a parede contrária, segurando um urso e olhando para mim.
Levo um susto quando ela se movimenta. Ao começar a andar em minha direção, Giulia passa por um feixe de luz que se projeta pelas cortinas e eu posso ver que os seus olhos estão completamente brancos. Eu nunca vi nenhum zumbi com essa característica, então dou um passo para trás e volto a fechar a porta. Giulia, ao contrário dos outros, não grita ou se joga contra a madeira; ela apenas encosta o rosto contra a porta enquanto produz um som estranho com a boca.
Fecho os olhos e penso em como vir até aqui foi uma ideia idiota. Estou prestes a me levantar e sair quando ouço uma voz macia e gasta dizer:
– Você viu a minha mãe?
Outro susto. Pulo no lugar e me afasto da porta. Giulia não diz mais nada e eu não tenho nenhum indício de que ainda está do outro lado. Levanto e entro no quarto em que perdeu a arma, vendo que ela ainda está no chão. Abaixo-me para recolhê-la, mas algo perto do objeto chama a minha atenção.
Mudo o foco da arma para um quadro quebrado sobre o tapete em frente ao armário. Recolho-o com cuidado e encaro a foto manchada de sangue atrás do vidro quase inexistente. A imagem de um casal feliz, aparece e eu reconheço Giulia alguns centímetros abaixo, por ser a única criança da foto.
Por que ela é diferente?
Pego a foto nas minhas mãos, limpando-a para ver melhor.
Por que ela e reagiram diferente? Em menos de oito horas? Por que não se transformaram completamente e continuaram tendo recaídas na humanidade?
Suspiro e largo a foto. Não tenho nenhuma resposta. A única coisa que sei é que aquela criança e a minha esposa foram as duas únicas pessoas infectadas que tiveram uma reação diferente em relação ao vírus. Sem falar da Srta. Sara. Viro-me para a arma e a recolho, checando rapidamente quantas balas ainda há dentro dela.
Com uma sensação estranha, constato que está vazia.
Mas eu tenho certeza de que ela estava carregada e que não a disparou em momento algum.
Escuto algo se movimentar dentro do quarto. Fecho os olhos e sinto uma forma gelada contra a pele da minha nuca antes de uma voz transbordar pelo ar:
– Você é humano?
Há uma certa frieza no modo como o homem fala. Respondo cuidadosamente enquanto levanto as mãos:
– Sim, e não estou infectado.
Sinto que posso me locomover e viro-me em sua direção, deixando-o ver o meu rosto. O homem que aponta a arma para mim é um tanto mais velho, porém não tanto quanto Ricardo.
– Quem é você? – ele pergunta.
, do trigésimo primeiro andar.
– Um morador?
– Sim.
– Não achei que houvesse mais de um sobrevivente.
– Acredite se quiser, não sou o único.
Ele abaixa a arma e eu me levanto, ainda cético em relação ao desconhecido. Sei que ele deve ser o Eduardo, mas pergunto mesmo assim:
– E quem é você?
– Virologista da ONU – responde, e eu me surpreendo. Pensei que Eduardo fosse ser um soldado ou algo do tipo.
– O que um Virologista da ONU faz em um prédio do subúrbio de São Paulo?
Ele ri de forma seca.
– Você fala como se ainda houvesse distinção de classes.
– E não há?
– Estamos no fim do mundo, trigésimo primeiro. A humanidade é a prioridade, independente de quem for.
– É engraçado você dizer isso, sabe? Porque eu me lembro de quando tudo começou. Eu me lembro de todas as vacinas caras que poucas pessoas podiam pagar e dos Campos Isolados nos quais apenas algumas famílias entraram.
Ele sorri de um jeito frio.
– Pois veja, trigésimo primeiro, que no final quem sobreviveu foi um rapaz de um prédio do subúrbio de São Paulo. Eu não estou aqui para discutir os problemas sociais do mundo.
– Então qual o verdadeiro motivo?
– O meu motivo está morto.
Engulo em seco. Definitivamente, Eduardo. E eu não sei se ele desconfia de mim, mas sinto como se me olhasse de forma causadora.
– Então, você já sabe alguma coisa sobre o vírus? – pergunto, mudando de assunto. Ele balança a cabeça.
– Pouca coisa. Fizemos muitos testes, mas quase não há padrões. A doença atinge cada pessoa de um jeito diferente; ela deixa níveis distintos de raiva e mata em velocidades alternadas.
– É uma doença sem nenhum padrão? Como é possível?
– Há padrões, sim, mas são genéricos. Não nos deixa descobrir nada concreto.
Suspiro, cansado. Esperava que, depois de tanto tempo, as respostas pudessem ser mais satisfatórias.
– Este prédio é estranho, no entanto – continua ele. Para, como se estivesse pensando em algo mais, e então começa a falar como se tentasse me explicar uma coisa que nem ele mesmo entende: – Você sabe que, depois de algumas pesquisas, descobrimos que, na realidade, não é o vírus que mata ou transforma?
– Como assim?
– O vírus que infecta a vítima é uma espécie de botão. Ele ativa e incha uma pequena parte do nosso cérebro, a mais violenta de todas, a responsável pela nossa razão e memórias. Quando isso acontece, ficamos literalmente loucos.
"Você já ouviu falar que, quando a mente adoece, o corpo adoece junto? Pois é exatamente isso. O vírus não nos deixa fracos, mas sim a falta de pequenas partes da nossa humanidade. Fome e raiva são características fortes de quem está fora de si."
– Então, por que algumas pessoas reagem de forma diferente?
– Talvez por conta do próprio cérebro da pessoa. Em alguns dos testes que fizemos em laboratórios, havia zumbis que literalmente não reagiam ao vírus. Eles ficavam doentes, mas não agressivos, enquanto outros praticamente quebravam os vidros. Começamos, então, a traçar os perfis psicológicos dessas pessoas antes da transformação e obtivemos um padrão.
– Qual?
– Perda. Todos eles haviam perdido alguém importante anos antes do vírus. Há uma teoria de que pessoas que sofreram perdas e lidaram com a dor delas são seres humanos psicologicamente mais fortes. Alguém que já passou por algo ruim e superou tem mais chances de conseguir lidar com outras coisas ruins do que alguém que nunca sofreu nenhuma decepção.
– Isso foi provado?
– Não. Era uma tese em desenvolvimento.
– Mas uma pessoa que sofreu uma perda também pode ser mais vulnerável, não acha?
– É por isso que até mesmo este padrão é inviável.
Suspiro, cansado. Na realidade, nada do que ele fala parece fazer sentido para mim.
– Se quem procura está morto, o que ainda faz aqui? – pergunto.
– Este prédio tem algo especial. Os zumbis daqui são... diferentes. Estou tentando achar algo que ajude no meu estudo. Quando cheguei, encontrei uma garotinha que podia falar. Foi a primeira vez que vi esse tipo de comportamento. Eu tive que matá-la, mas talvez encontre outro que possa levar para análise.
– Você está falando de Giulia? – pergunto.
Ele faz que sim com a cabeça, olhando para a porta do quarto da garota, que tem o seu nome espalhado em letras feitas com EVA colorido.
– Pobre criança.
Por algum motivo, não consigo aceitar a sua lamentação.
– Giulia nem ao menos estava doente quando você a matou – digo, indignado.
Eduardo franze o cenho.
– O que quer dizer com isso? Eu a matei porque fui atacado.
Paro e o encaro, esperando indícios de que está mentindo. Ele me olha de um jeito confuso, porém, e não parece nervoso quando eu afirmo:
– Quando a encontramos Giulia parecia humana – argumento, lembrando-me das descrições de .
– Quando eu atirei em sua cabeça, trigésimo primeiro, a garota estava prestes a comer o meu cérebro.
De novo, as coisas param de fazer sentido e eu me vejo sem meios de formular um pensamento concreto. Se, quando a encontramos, Giulia parecia humana, como ela podia ser um zumbi ao ser assassinada por Eduardo?
– Sabe – começo, finalmente achando uma solução. – Quando a minha esposa foi infectada, mesmo depois de ter tentado me atacar, ela ainda voltava para a fase humana em alguns momentos. Como uma recaída. Acha que pode ser uma variação do vírus?
Ele parece pensar.
– É possível. Ela se encaixa no padrão?
Penso no nosso filho.
– Sim.
– Então é a variação do vírus.
– Ela pode se curar? – pergunto, esperançoso.
– Não – responde, e eu sinto o meu estômago revirar. – Eu sinto muito.
– Preciso ir – digo. – Tenho que encontrar alguém.
Eu não me importo com o que Eduardo diz. Preciso encontrar e levá-la para o topo do prédio, onde o helicóptero virá nos buscar. Nós vamos sair daqui e encontrar Pedro. Ficaremos bem.
– Este alguém seria a sua esposa? – pergunta, e eu paro quando já estou na porta, saindo do local.
– Sim – respondo.
– E ela tem mesmo recaídas para a humanidade?
– Tem.
– Posso ajudá-lo a encontrá-la.
Franzo o cenho, desconfiado.
– Por que faria isso?
– Só estou aqui para aprender mais sobre o vírus. Se a sua esposa for uma das pessoas que reagem de maneira diferente, pode me ajudar. Nós a encontramos e a levamos para laboratório, estudamos o seu organismo e tentamos aprender algo com isso.
Balanço a cabeça.
– Você não entendeu, Eduardo – respondo com firmeza. – Eu não quero encontrar para que ela se torne um rato de laboratório. Eu quero encontrá-la para dar um jeito nessa situação. vai ficar bem, ela é forte e muito teimosa para se deixar abater tão fácil. Você não vai usá-la em seu estudo.
Ele me olha por alguns segundos, como se esperasse que eu mude de ideia.
– Eu não sei se você é esperançoso ou iludido – comenta, seu tom de voz me irrita.
– Boa sorte com a sua pesquisa – respondo, colocando a minha arma na cintura e saindo do quarto.
Quando passo pela porta que prende Giulia, escuto-a bater contra a madeira de maneira leve. Continuo seguindo, pensando em tudo o que Eduardo disse. Ele acha que não há esperanças para a e, eu sei, deve ser verdade, mas Eduardo não viu o que eu vi. Ele não presenciou a mudança da minha ex-esposa; não viu o exato momento em que ela passou inexplicavelmente de um zumbi para um ser humano comum. Ele não sabe o quanto pode ser forte.
Saio do apartamento e sigo para as escadas. Os carros ainda fazem barulho. Desço cada lance com a arma apontada para o chão, com medo de que, em um impulso, eu atire na primeira coisa que se mover à minha frente e essa coisa venha a ser . Todas as grades estão abertas, destrancadas, e eu sei, de alguma forma, que a minha ex-mulher passou por aqui.
Quando chego à última escadaria, o som estridente dos alarmes, todos juntos e ecoando pelo estacionamento, é insuportável. Tapo os ouvidos e ando até a porta que dá acesso ao grande e escuro pátio. Daqui de dentro, protegido por essa pequena cabine de concreto, posso escutar o barulho dos zumbis se arrastando pelo chão. Eles fazem sons estranhos com a boca. A sombra de seus corpos marca silhuetas no vidro da porta à minha frente e eu vejo, com um frio no estômago, que todos os monstros dos sessenta andares acima da minha cabeça vieram parar aqui. Estão todos neste estacionamento, e eu sei que não tenho balas suficientes para lutar com eles.
A questão, agora, é o que eu vou fazer para conseguir encontrar .

...

Eu queria aproveitar a última página deste diário para contar a vocês uma coisa que nunca teria contado. Se trata do dia em que nos conhecemos. e eu ainda estávamos na faculdade, e, apesar de cursamos coisas diferentes, frequentávamos o mesmo prédio, o mesmo refeitório e o mesmo estacionamento.
Acontece que eu nem sempre tive um transporte próprio. Quando comecei a estudar, ia e voltava das aulas de ônibus. Quando arrumei um emprego, comprei uma moto, e foi aí que, segundo a , a vida dela se tornou um caos.
Dizia a minha ex-esposa que "estacionar aquele pedaço velho de lata no lugar em que deveria haver um veículo de quatro rodas era um absurdo", afinal no primeiro dia com a minha própria moto eu tive a brilhante, porém inocente ideia, de estacioná-la em uma vaga para carros. Pior: a vaga para carros que tinha o costume de usar.
No primeiro dia, ela não disse nada. No segundo, estacionou a duas vagas de distância e ficou me encarando durante todo o tempo em que demorei para descer da moto e tirar o capacete. No terceiro, anotou o número da minha placa, e, no quarto, veio tirar satisfações.
– O estacionamento para motos está cheio – eu disse a ela.
não pareceu se importar e cruzou os braços.
– Não me interessa. Eu anotei a placa da sua moto e, se não retirá-la daí, vou levar o assunto ao diretor.
– Ótimo! Assim ele arruma espaço para um novo estacionamento de motos. Adorei o trabalho em equipe.
Ela me impediu de sair quando fiz menção de seguir caminho para dentro do prédio, e eu parei, rindo de seu desespero. Para mim, era só uma vaga, mas para ela parecia ser a coisa mais importante do universo. Tanto que, ao me ver rindo, ficou ainda mais furiosa.
– Eu não estou brincando! – disse ela.
– Nem eu.
– Tudo bem, não precisa tirar agora – recuou, e aquilo pareceu doloroso para o seu orgulho. – Mas amanhã eu quero a sua moto do outro lado do pátio.
Com aquela última frase de efeito completamente estranha e possessiva, saiu, e, juro, foi naquele momento que eu me apaixonei por ela. Não que eu fosse maluco ou que gostasse de ser tratado mal, mas ela tinha uma autoconfiança invejável para alguém com menos de um metro e sessenta de altura. E ela era tão linda. Eu nunca vou me esquecer de como a ficava quando estava realmente brava comigo.
Droga! Eu estou falando dela como se ela já estivesse morta.
Suspiro, ainda observando o estacionamento através do vidro da porta.
Enquanto a mulher que eu amo morre, estou escrevendo lembranças em um diário lotado. A última página do caderno que vem contando a você a nossa jornada é preenchida por um flashback antigo e doloroso demais para um momento como este. E não que eu não queria relembrar o modo como conheci , mas, agora, não me parece o melhor momento para isso.
Quando tomo coragem para enfrentar os zumbis do estacionamento, abro a porta que me separa deles e me esgueiro junto a parede até estar atrás dos carros. Seus alarmes ainda tocam, mas os zumbis parecem ter entendido que não há nada para se comer dentro dos veículos. Agora, todos os monstros com os quais tenho pesadelos mudaram de ocupação e começaram a andar sem rumo pelo estacionamento escuro e úmido do prédio. Não me notam porque o cheiro de gasolina é muito forte aqui embaixo e os alarmes ofuscam o barulho dos meus passos.
Eu sei que a está por ali, em algum lugar. Eu só preciso encontrá-la. Começo a correr atrás dos carros, tentando me esconder. Alguns já morreram por falta de bateria, outros estão em seu ápice. Quando chego no meio do pátio, vejo que um amontoado de pelo menos vinte zumbis está rodeando a saída do elevador. Não parecem desesperados, mas sim curiosos, e eu penso que pode estar escondida ali dentro, então começo a ponderar maneiras de fazê-los se afastar do local.
Procuro distrações que não me matem logo de cara, e acabo encontrando uma que, na verdade, é bem óbvia. Entro em um dos carros, sentando no banco do motorista, e abro o porta-luvas. Dentro dele, um porta-CDs lotado me deixa extremamente feliz, e eu começo a procurar no meio de todas essas bandas e artistas algo bem barulhento, que possa chamar a atenção dos zumbis de imediato. O que eu encontro, porém, é infinitamente melhor e mais irônico: o CD do filme Dirty Dancing, com a música The Time of My Life, que dancei com em nosso casamento.
Percebendo que já não tenho muito tempo, coloco o CD no som e, pelo carro ainda ter bateria, a música começa a tocar nos alto-falantes e a reverberar pelo estacionamento de forma incialmente suave. Quando os zumbis parecem notar a nova forma de som, viram seus rostos para a minha direção e eu me esquivo do carro, correndo na direção oposta e me escondendo atrás de uma Jeep grande e azul.
O refrão da música chega e deixa tudo mais alto. Agora eu posso ouvir os zumbis do fundo do estacionamento vindo em minha direção também. Aproveito que os que estavam em volta do elevador saíram e corro na direção da porta de metal, que está fechada – com a exceção de uma pequena brecha, por onde enfio os dedos e puxo para que seja aberta.
Dentro do elevador, eu encontro .
Ela está sentada no chão, com os cabelos cobrindo o seu rosto. Primeiro, tenho receio de me aproximar. Se ela estiver transformada, poderá me atacar. Mas então ela levanta o rosto e olha para mim. Olha para mim de um jeito fraco e bravo, como se estivesse muito irritada por eu estar aqui, mas ao mesmo tempo aliviada. Cansada demais para argumentar e internamente grata por eu ter voltado.
Me abaixo eu seu lado e dou apoio para que ela se levante.
– Você tem que ir embora – diz ela. – Precisa tirar Pedro daqui.
Eu a deixo em pé e se apoia contra a parede.
– Pedro está seguro – respondo. – Eu voltei para te buscar. Te disse que não sairia daqui sem você.
– Você é mesmo teimoso.
– Não tanto quanto você. Venha.
Passo um de seus braços ao redor do meu pescoço e a guio para fora do elevador. Do outro lado, a música chega ao fim. Os zumbis reunidos ao redor do carro começam a se locomover. Estamos a apenas alguns metros da porta que dá para a escadaria, então eu corro com o peso de sobre os meus ombros – literalmente. Ela tosse hora ou outra, tropeça muitas vezes; parece tão fraca que é como se estivesse morrendo, não se transformando.
Quando chegamos às escadas, fecho a porta atrás de nós e a ajudo a se sentar em um dos primeiros degraus. leva a mão à barriga e respira fundo, sua expressão se distorcendo em algo que identifico ser dor.
, eu não sei o que está acontecendo comigo – diz. – Isso está errado. Tem algo errado!
Aproximo-me dela e sento ao seu lado.
– Do que você está falando?
– Dói demais. Não deveria ser assim. Ricardo não sentiu dor ao se transformar, lembra? Ele apenas se transformou. Eu estou... é insuportável!
Ela tem dificuldades para falar. Não consigo observá-la desse jeito sem poder fazer nada. Não há ferimentos, nada para cuidar, nenhum sangue para estancar. Vê-la sofrer é a única coisa que posso fazer no momento.
– Por que você fez isso? – pergunto. – Por que saiu sem nós, ? O helicóptero estava aqui. Nós poderíamos ter ido embora.
Ela balança a cabeça e ri. Eu não entendo até que explique:
– Eles nunca me levariam. Eu fui infectada. Não se iluda, , porque acabariam atirando em mim. Do jeito que fiz, pelo menos pude salvar Pedro.
– Do que está falando?
– Eu os atraí para o estacionamento. Você precisava ver, – e ri, como se estivesse contando a coisa mais legal do mundo – eu passei por todos eles como se não fosse ninguém. Nenhuma Isabela ao menos olhou para mim; era como uma imunidade. Então eu aproveitei para subir ao último andar e destrancar as grades, descer todos os lances de escadas e acionar os alarmes dos carros. Deste jeito todos os zumbis viriam para cá e você e Pedro teriam uma chance de escapar.
Penso no que ela diz. No fim, salvou as nossas vidas. Se sacrificou para que Pedro e eu pudéssemos sair daqui. Me parece injusto, de alguma forma. Por mais que ela ache que já está morta, discordo disto.
– Poderia ter dito adeus.
– Você estava bravo comigo.
– Eu nunca fico realmente bravo com você.
Ela sorri. Um sorriso tão sincero que faz com que eu sinta dor, porque eu sei que nunca mais verei este sorriso outra vez.
– Ficar brava é função minha – responde ela, segurando a minha mão. Entrelaça os nossos dedos e os observa por alguns segundos. Sua pele está gelada. Ficamos um minuto em silêncio, e ela observa o desenho que as linhas das nossas mãos formam. Até que , chorando, diz: – Eu tive muito medo de morrer sem você, . Muito medo.
Sozinha, neste estacionamento, eu penso. Ela não merecia uma morte dessas. Rodeada de outras pessoas mortas, largada dentro de um elevador como se não fosse a pessoa mais importante do universo. Faz tudo parecer ainda mais injusto, principalmente porque aperta a minha mão com força por causa da dor e eu percebo que não temos muito tempo.
Ela está lutando contra o vírus. Está fazendo de tudo para não se transformar, para não me atacar, para não se deixar vencer. E eu sei que, sim, este é o motivo de estar morrendo. Lutar contra isso está a matando.
– Estou aqui agora – digo, e me aproximo. Não tenho medo dela. – Eu sempre vou estar aqui, por mais que você tente me afastar.
– Eu sinto muito pelo nosso filho. Eu não queria mentir para você, mas eu tive medo do que podia acontecer quando eu te contasse. Eu nem ao menos sabia como te contar. Eu não devia ter escondido a gravidez, a perda do bebê. Eu não devia ter escondido nada de você. Eu sinto muito.
Suas palavras saem arrastadas. Ela mal pode falar agora. Seguro o seu rosto entre as minhas mãos e digo:
– Não é culpa sua. Não é culpa de ninguém. Não fale como se estivesse partindo, . Nós vamos dar um jeito. Há uma cura, eu sei disso, mas você tem que aguentar mais um pouco – ela abaixa o rosto e eu o seguro, fazendo-a olhar para mim. – Pessoas que perderam coisas importantes são mais resistentes ao vírus. Giulia perdeu a mãe. A Srta. Sara perdeu o marido. Você perdeu o nosso filho. , eu sei que consegue fazer isso.
Eu a abraço e me assusto com os espasmos que se espalham pelo seu corpo. está tão gelada que sinto frio, e quando as suas lágrimas quentes mancham a minha camiseta e atravessam o tecido, um arrepio corta a minha pele. As silhuetas dos zumbis voltam a aparecer do outro lado da janela e eu a seguro com mais força porque quero protegê-la de tudo, mas começa a respirar com dificuldade e eu sei que não sou capaz disso. Beijo os seus cabelos e digo que a amo, que sempre vou amá-la, e então a sinto partir.
Ela se vai de um jeito calmo, delicado. Leve como o movimento dos seus dedos se separando dos meus, do peso do seu corpo escorregando pelos meus braços. Eu a seguro com força e peço para que volte, peço para que aguente apenas mais um pouco. Imploro para que não tenha partido, porque poderemos recomeçar caso sobreviva. Teremos uma família, encontraremos Pedro, aproveitaremos uma nova chance.
Mas nada acontece, porque ela continua morta.
Eu continuo aqui, escrevendo na última folha deste diário.



Epílogo

– Você é doente, . Completamente maluca. Você se matou! Se matou na sua própria história!
Reviro os olhos para , sem um pingo de paciência para ouvir as suas críticas literárias sobre o modo como dei fim à minha história. Ele está sentado na poltrona ao lado da minha e me olha com a cara de alguém que realmente não acredita que fiz o que fiz. Como se fosse a pior coisa do mundo.
– Da próxima vez, você escreve o livro.
– Ah, eu escrevi o meu livro! E você está viva no final dele. É por isso que a Dra. Isabel vai preferir o meu ao invés do seu.
Levanto uma sobrancelha, aceitando o seu desafio. É óbvio que a nossa psicóloga não vai preferir um livro cheio de espiões e robôs. Ela vai gostar do meu. Zumbis são bem mais legais que máquinas.
– Vamos ver, então – respondo.
Quando Isabel entra na sala, estamos sentados cada um em uma poltrona, do mesmo jeito que estávamos nas últimas nove sessões da terapia em casal que fizemos desde que nos separamos, há três meses. E eu sei que esse tipo de coisa não faz muito o meu tipo, mas depois que uma orientadora infantil nos disse que a nossa separação poderia afetar Pedro, já que ele é só uma criança, não pensei duas vezes e arrastei comigo para essa série de torturas.
Agora, penso que seria mais prático pagar um psicólogo para Pedro do que para mim e para . Pedro tem sete anos e é bem mais maduro que nós para superar a loucura que esse divórcio está sendo, com ou sem máquinas e zumbis.
– Muito bem, hoje eu li o final do livro de vocês – diz Isabel, sentando-se em sua própria poltrona. – E confesso que estou surpresa.
Levanto o nariz, pois sei que ela está falando do meu. Final mais surpreendente do que a morte da personagem principal? Duvido muito. O fim clichê e água-com-açúcar do não poderia, nunca, superar o meu.
– Você pode nos dizer de qual final gostou mais? – pergunto.
Isabel me olha e sorri.
– A questão, , não é o final – responde, e eu sinto uma certa decepção. Queria que ela dissesse que gostou mais do meu para que eu pudesse esfregar isso na cara do .
Meu ex-marido contém uma risada ao meu lado e eu o ignoro, me recompondo. Eu sei que uma hora ela vai deixar escapar que 29 Andares e Alguns Zumbis foi o seu preferido dentre os dois.
– Então qual é a questão? – pergunto, e não consigo conter o tom orgulhoso.
Tá, tudo bem. Eu não estou sendo a pessoa mais madura do planeta nesta situação, mas é que eu realmente não gosto dessa mulher. E não é porque ela é extremamente bonita e simpática, ou porque eu sei que ela fez faculdade junto com o e que os dois eram bons amigos – talvez até mais que isso –, nos velhos tempos. É porque ela cisma em me olhar de um jeito superior que o meu orgulho simplesmente não tolera. Como se soubesse mais que eu sobre o meu próprio casamento.
Acredita que ela disse que achava que eu voltaria com o ? Maluca! E ainda não acreditou quando eu aleguei que isso nunca aconteceria. Isabel apenas sorriu com aquele tipo de sorriso irritante de alguém sabe que está certo e concorda só para não discutir. É desprezível.
– É sobre o ponto de vista de vocês a respeito do próprio casamento – responde ela, e eu a escuto explicar: – Eu pedi para que me escrevessem uma história na qual os dois fossem os únicos personagens da trama. Assim, não existiriam meios de um fugir do outro. Não haveriam enrolações, triângulos amorosos, desculpas, filhos, contas, nada que pudesse atrapalhar a visão de vocês sobre o próprio casamento. Você escreveu uma história pós-apocalíptica e o usou um enredo com mais ação, colocando espiões e robôs. Eu gostei bastante dos dois e é surpreendente que ambos tenham conseguido seguir essa linha, apesar de alguns personagens que deram às caras em algum ponto. Parabéns!
"Agora, sobre o enredo e os pensamentos, é um pouco mais complicado. Eu pedi para que vocês fossem os personagens, e assim as histórias que li tinham muito conteúdo pessoal. Lembranças, mágoas, piadas internas, pensamentos aleatórios... Tudo junto em um mesmo pacote. Isso é incrível porque a maioria das pessoas não se abre tão facilmente."
Ela para e pega os dois manuscritos, impressos e gordos, encadernados sob dúzias de folhas de sulfite. Eu reconheço o meu porque é extremamente organizado, com todas as folhas postas umas sobre as outras da maneira mais reta possível. O de parece ter sido atropelado por um caminhão.
– E o que tirou das nossas histórias? – pergunto, já sem o tom competitivo ou orgulhoso.
Ela me olha, pela primeira vez na vida, como se fosse uma velha amiga.
– Eu tirei muitas coisas, . Principalmente do seu. 29 Andares me divertiu do começo ao fim, me deixou querendo saber um pouco mais sobre a história de vocês dois. Eu adorei que você me contou sobre o seu casamento, sobre quando se conheceram, sobre o primeiro beijo. Me ajudou a compreender o motivo de terem decidido dividir uma vida.
Enquanto ela fala, desvio o meu olhar discretamente para . Ele percebe no mesmo minuto e olha para mim, sorrindo levemente. Eu retribuo porque todas essas lembranças são reais. Tudo em 29 Andares foi, de algum modo, parte das nossas vidas, e seria um erro dizer que não é algo que te faz sentir saudades.
"Eu percebi que, no livro, o motivo do divórcio de vocês é algo bem mais sério do que o que aconteceu aqui, na vida real. Pelo que me contaram, a separação foi por causa da pressão da rotina, das brigas que estavam acontecendo com frequência. No livro, você perdeu um filho e isto te desmotivou a continuar ao lado dele. Certo?"
Agora, não consigo olhar para . Me sinto exposta com Isabel descrevendo tudo o que eu disse em 29 Andares. É como se todos pudessem ler os meus mais profundos pensamentos.
– Não. Na verdade, não – respondo, tentando buscar as palavras. – A questão do filho foi porque, na vida real, eu acho que se nós não tivéssemos o Pedro, as coisas teriam sido diferentes. Ficamos sete anos casados e a maior parte desse tempo foi pelo nosso filho. Por medo de abandoná-lo. Eu amo o meu garotinho mais do que tudo nessa vida, não me entenda mal, mas se nós não tivéssemos essa responsabilidade, teríamos acabado com tudo mais cedo e isso causaria menos danos.
Isabel balança a cabeça, compreendendo.
– Por isso, o Pedro do livro. Você não quis abandoná-lo nem na ficção – comenta, sorrindo de uma maneira gentil. – E há algum motivo especial para os outros personagens? Giulia, Ricardo, Eduardo...
Penso por um minuto.
– Eu acho que cada um deles é um obstáculo que enfrentamos durante o tempo em que ficamos juntos. Não é nada literal, afinal nunca tivemos um velho maluco tentando me matar, mas houveram pessoas ao nosso redor que sempre cooperaram para que tudo que estivesse ruim ficasse pior.
Ela balança a cabeça mais uma vez, folheando o meu manuscrito. Por algum motivo, estou extremamente nervosa, sentindo o meu estômago revirar. Consigo perceber que está tenso, – eu o conheço bem demais para não notar o modo como levou os dedos ao queixo. Tenho medo do que ele pode pensar da minha visão sobre o nosso casamento, porque, por mais que estejamos separados, eu não quero ser aquela que vê tudo como um erro. Não foi bem assim. Eu sei que tivemos nossos bons momentos, que fomos realmente felizes. Mas há um fim para tudo e o fim da nossa jornada acabou.
– O final – diz Isabel, do nada, bem na hora em que eu ia falar com . Eu viro o rosto para ela e escuto quando ela pergunta: – Há algum motivo específico para a sua morte?
Pela visão periférica vejo balançar a cabeça. Ele claramente desaprova a minha escolha para o fim do livro.
– Na verdade, tem, sim – digo, confiante. – Se nós dois escapássemos daquele prédio, as coisas voltariam a ser como antes. A lógica diz que ficaríamos juntos, não é? Passamos por tanta coisa que no final reataríamos o casamento e cometeríamos o mesmo erro de antes: ficarmos presos a uma responsabilidade, cuidando de Pedro.
– Então se matou para que pudesse seguir em frente?
– Para que nós dois seguíssemos em frente.
– Mas você estaria morta, não estaria?
– No livro.
– E na vida real?
– Eu o esqueceria – digo, sentindo o meu coração pesar porque sei que ele escuta cada palavra que solto no ar. – Eu esqueceria tudo de ruim que havíamos passado e seguiria em frente, com a minha vida, guardando apenas boas lembranças.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Isabel anota alguma coisa em seu caderno e permanece na mesma posição pensativa de antes. Eu sento ereta na poltrona e sinto o meu coração bater tão forte que tenho a sensação de que todos na sala podem ouvi-lo. Enfim, Isabel volta a nós e pergunta para :
– Tem alguma coisa a acrescentar?
Ele responde de forma simples:
– Não, nada.
– Discorda de algo que disse?
parece em conflito sobre o que dizer, e eu sei que a sua resposta não é sincera:
– Não.
– Muito bem, o nosso tempo acabou. Amanhã discutiremos o livro do – levanta para apertar as nossas mãos, mas eu agradeço e fujo enquanto o faz.
Não gosto dessas formalidades e não gosto muito de contato humano, principalmente com estranhos que não vou com a cara. Saio da sala e sigo pelo corredor até o lado de fora. Escuto os passos de atrás de mim e me sinto extremamente infantil por estar fugindo dele.
Não é como se eu precisasse ter medo. E eu não tenho. Mas depois de Isabel escancarar tudo o que eu contei em 29 Andares para que pudesse ouvir, sinto-me envergonhada. Como uma pessoa pega no flagra.
Do lado de fora, paro na calçada e olho para o relógio. O ponto de ônibus é um pouco longe e eu sei que vai demorar muito para a condução chegar, então começo a procurar por um táxi, torcendo para que ele passe logo, assim poderei sair daqui antes que me alcance.
Isso, claro, falha e ele para ao meu lado depois de alguns segundos. Está usando o casaco preto que dei à ele dois anos atrás, no natal, calça jeans e o cabelo bagunçado pelo vento forte.
– Eu aprecio a sua tentativa – diz de forma casual, olhando para os carros passando na rua.
Eu paro e o encaro, não entendendo muito bem. Estamos em uma avenida movimentada e eu sei que o barulho do trânsito seria o suficiente para eu fingir que não o ouvi, mas sou curiosa demais e quero entender o significado da frase.
– De fugir de mim – continua , rindo quando um táxi passa direto por nós.
– Eu não estou fugindo de você – digo.
– É mesmo? – e então tira um objeto do bolso da calça. É o meu celular. – Esqueceu isso lá dentro quando praticamente voou para fora do consultório de Isabel.
Pego-o, orgulhosa demais para agradecer, e tento chamar outro táxi que, para o meu ódio interno, também passa reto.
– Por isso as pessoas usam o Uber – resmungo.
– Eu te daria uma carona, mas você está me evitando – diz , para me irritar.
– Não, obrigada – rebato, sem tirar os olhos da rua. – Estou indo para a oficina buscar o meu carro. E eu já disse que não estou te evitando.
– Então aceite a minha carona.
Paro e olho para ele. Está frio e nublado e isso deixa a pele de seu rosto ainda mais branca que o habitual. Seus olhos ficam mais azuis, e é irritantemente chato o modo como ele parece bonito demais no casaco que dei a ele – mas é claro que é só porque é o casaco que eu dei.
Respiro fundo e olho para os dois lados da rua, vendo se algum ônibus ou táxi se aproxima. Tudo está vazio e eu me pego naquele habitual impasse de continuar sendo orgulhosa ou não. Por fim, dou de ombros e nós dois andamos juntos até o seu carro.
No meio do caminho, começo a pensar sobre as decisões que tomei no enredo do meu livro e nas que tomei durante a vida. Não me parece errado ter me casado com , muito menos ter tido Pedro. Nós dois nunca passamos por um apocalipse como em 29 Andares e eu nunca perdi um filho, mas a nossa relação parecia tão instável nos últimos meses que a separação foi como uma luz no fim do túnel. A minha última esperança de tentar fazer algo certo na minha vida.
Isso é errado?
Porque eu não odeio . Não de verdade. Mas eu sei que, se tivéssemos continuado, eu o odiaria. E não seria saudável para nós, nem para Pedro. Então eu propus a separação, e , sendo a pessoa irritantemente compreensiva que sempre foi, concordou mesmo sem gostar da ideia. Ele pareceu extremamente magoado comigo naquele dia; como se não esperasse esse tipo de traição. Disse que podíamos dar um jeito. Repetiu praticamente as mesmas palavras que disse para mim no final de 29 Andares. Mas eu sabia que não havia volta.
Estou tão distraída com isso tudo que nem ao menos noto quando estaciona o carro de frente para a oficina mecânica e nós dois ficamos um bom tempo no silêncio nada confortável que se tornou característico nos nossos últimos meses de relação.
– Quer saber? Eu gostei do final do seu livro – diz , e eu me viro para olhá-lo, finalmente acordando. Ele, por outro lado, fica com os olhos fixos na placa de "Pare" à nossa frente. – Você se sacrificou para que todos ficassem bem. Me deixou partir, garantiu a segurança de Pedro... Foi um bom final.
Olho para ele de um modo desconfiado e agradeço.
– Obrigada.
– Mas eu sei que você só fez aquilo porque, se não morresse, acabaria me matando – continua. – Afinal, o único outro desfecho para a história seria aquele em que você se torna um zumbi, e, ao fazer isso, você me mataria também porque eu não te deixaria mesmo se estivesse infectada. Então escolheu morrer e me deixar partir. Se sacrificou por mim.
Eu não tenho respostas para isso, porque é um bom jeito de se analisar a situação.
– Dá no mesmo – rebato como se achasse indiferente.
– Não, , não dá – responde, e finalmente me olha. – Porque eu não preciso e não quero que me deixe partir. Não é sua responsabilidade cuidar para que todos fiquem bem. Eu sei o que faço com a minha vida.
– Você nunca soube. Eu sempre cuidei dela para você.
– E é por isso que é tão errado. Você não pode se preocupar com todos dessa maneira. É o tipo de coisa que sobrecarrega qualquer um menos estável que você.
– E agora você me chamou de maluca! – dou um riso irônico. – Típico.
– Eu não disse isso.
– Então "menos estável" quer dizer o quê?!
– Quer dizer que você é uma pessoa instável. Que se preocupa muito com qualquer detalhe, qualquer imperfeição. Mas as pessoas não são perfeitas, . Elas não são como o seu quarto, que você pode arrumar e deixar sem nenhum item fora do lugar. Dificuldades existem e devem ser enfrentadas; elas não estão ali para que você se sacrifique ao tentar resolvê-las.
– Isso é um sermão? – pergunto, irritada.
– Não – responde, balançando a cabeça. Parece cansado, como se não estivesse conseguindo colocar tudo o que quer dizer em palavras. – É só um conselho. Eu não sei.
– Preciso buscar o meu carro – digo, abrindo a porta. Nesse ponto os meus olhos já estão ardendo e eu sinto que se ficar mais um minuto aqui, com ele, começarei a chorar. – Não se esqueça que hoje é o nosso jantar com o Pedro.
Desço do carro e não olho para trás ao andar em direção a oficina. Escuto o barulho do motor do carro de quando o meu ex-marido vai embora, e eu sei que deveria me sentir melhor por ele não estar mais aqui, mas não me sinto.
Tudo o que eu consigo pensar deste momento até chegar em casa é em como tudo foi um erro. A maldita carona, a terapia de casal, o livro, o casamento. Tudo. A única coisa boa disso é a pessoa que me aborda quando entro em meu apartamento. A única reação dessa ação de quase dez anos que eu sei que nunca vou me arrepender.
– Mamãe!
Ergo Pedro no ar quando o menino pula em minha direção. Ele já está ficando velho e pesado e as minhas costas doem, mas não o largo porque senti muitas saudades do meu filho. Por mais que eu tenha ficado apenas seis horas longe dele, é como uma eternidade.
A Srta. Sara aparece, vindo da cozinha, e sorri para mim de uma forma doce ao dizer:
– Ele já estava começando a enlouquecer sem você.
Dou risada.
– Obrigada por cuidar dele para mim. Você é um anjo!
– Não foi nada, minha querida. Sempre que precisar.
Desfaço o sorriso, lembrando-me da tarde que tive. De . Da terapia. De Isabel.
– Não será mais preciso – digo. – Eu não irei mais para aquelas sessões, são uma perda de tempo.
– Então você e o papai voltaram? – pergunta Pedro, animado, e eu não sei como dizer não sem começar a chorar, então o coloco no chão e digo para ir brincar em seu quarto.
– Eu sinto muito, minha jovem – diz Sara, aproximando-se e passando a mão pelo meu rosto daquele jeito que toda pessoa com mais idade parece ter se especializado em fazer. – Vocês três eram uma bela família.
– É, nós éramos – respondo, acompanhando-a até a porta.
Quando Sara vai embora, respiro aliviada. Olho para a zona que o meu apartamento está e penso em como ela é uma péssima babá. Não fico irritada com isso, porém, e começo a ajeitar tudo, colocando as coisas de volta no lugar. Enquanto faço isso, penso no que disse.
Será que ele tem razão ao dizer que eu tento consertar as pessoas como se elas fossem a bagunça do meu quarto? Não. Ele é maluco. Não me conhece e não sabe como vejo as pessoas.
Quando termino de organizar a sala e a cozinha, Pedro sai de seu quarto e pergunta se o pai virá jantar conosco esta noite. Eu digo que sim e amaldiçoo aquela mesma conselheira infantil que disse que seria saudável se fizéssemos uma reunião pelo menos uma vez ao mês, para que Pedro não sentisse que estávamos o abandonando.
Eu não sei o que eu tinha na cabeça quando decidi consultar aquela mulher! Talvez tenha sido o medo de não saber como ajudar Pedro a lidar com a separação, talvez eu tenha mesmo enlouquecido e ficado sem ter ideia do que é ridículo ou não. Eu só sei que agora estou no meio desta enrascada e não sei como sair.
Está quase na hora do jantar, então começo a preparar tudo. O trato é que cada mês o jantar aconteça no apartamento de um dos pais, então só preciso cozinhar um mês sim e um mês não. Eu, na verdade, não ligo, mas obviamente não gosta da minha comida vegetariana, o que me deixa irritada quando ele e Pedro começam a zombar dos pratos. É um inferno, quase todo mês.
Quando a hora chega, estou acabando de servir a mesa quando escuto a campainha tocar. Pedro corre para atendar a porta porque sabe que é o pai e eu inconscientemente arrumo o cabelo e bato as mãos nas roupas. entra na sala de jantar com Pedro no colo e me entrega uma garrafa de refrigerante, porque da última vez que ele trouxe vinho eu fiz um escândalo.
Onde já se viu? Vinho!
– Boa noite – diz ele de maneira calma, e eu quero estrangulá-lo por ser tão... .
Eu estou com os nervos à flor da pele desde a nossa consulta. Não consegui pensar, comer ou trabalhar direito porque a minha mente ficava voltando para tudo o que Isabel disse, tudo o que disse. E agora ele aparece assim, calmo, com as suas roupas alinhadas e o cabelo penteado enquanto eu, pela primeira vez na vida, estou um caos – por dentro e por fora.
– Boa noite – respondo.
Ele coloca Pedro no chão e o nosso filho corre para o quarto, dizendo que quer mostrar algo para nós.
– Tudo bem? – pergunta para mim.
– Nos vimos não faz nem três horas, . Não precisa repetir a formalidade.
Ele pisca e se aproxima um pouco mais, não se deixando abater pela minha grosseria.
– Eu sei, mas você não parece bem e eu queria ter certeza.
– Certeza de que não estou bem?! – rebato. – Por quê?
– Porque assim eu sei que você pensou em tudo o que eu disse.
Abro e fecho a boca pelo menos três vezes antes de Pedro voltar, correndo e parando entre nós. Percebo, então, que estávamos muito próximos e transfiro a atenção para o meu filho, que é o único que a merece.
– O que é isso? – pergunto, vendo que ele tem algo nas mãos.
– É um álbum de fotos. Eu que fiz.
– Jura? E sobre o que é esse álbum de fotos?
– Sobre nós – responde. – Sobre a nossa família.
também para para prestar atenção no que ele diz, e nós dois nos abaixamos para ver o álbum. Pedro o abre e folheia pelo menos vinte e quatro páginas de fotos nossas, de antes e depois de seu nascimento, com momentos felizes, tristes e engraçados das nossas vidas. Ele narra tudo como se estivesse falando de seu filme favorito e eu não consigo conter o sorriso que aparece no meu rosto quando meu filho diz que organizou tudo por ordem de data, do jeito que eu havia o ensinado.
– Isso é muito legal, Pedro – digo, e concorda.
O garoto sorri orgulhoso e, pela primeira vez em muito tempo, eu sinto que as coisas podem ficar bem. Pedro está aceitando, está feliz, está sendo o nosso filho.
– Eu fiz porque assim vocês veriam que nós não podemos nos separar – responde, e meu sorriso se desfaz. – Nós temos que ficar juntos. Nós três.
Olho para em busca de alguma ajuda, mas ele parece tão preocupado quanto eu. Nós dois não sabemos como explicar para uma criança de sete anos o que está acontecendo entre os seus pais.
– Amigão, escute – começa , pegando o álbum e o abrindo, mostrando a foto do nosso casamento – Esta foto é muito bonita, não é? – pergunta e, após Pedro concordar, folheia as páginas até parar em uma outra foto. Esta é do dia em que fomos à festa de quinze anos de uma conhecida e o fotógrafo nos fotografou logo após uma briga. Estávamos sentados em lados opostos da mesa e não tínhamos uma cara muito boa: – E esta, é tão bonita quanto a outra? – pergunta.
– Não – responde Pedro.
– É porque nesta, filho, não estamos felizes – explica . – Se ficarmos juntos, sairemos assim em todas as fotos, porque não estaremos felizes. Nenhuma foto será como a primeira, nunca mais, se voltarmos a ficar juntos. Você entende?
– Eu entendo – responde, e eu sinto que ele vai chorar. – Mas não é justo! Vocês são os meus pais e os pais das crianças devem ficar juntos. Eu amo vocês, por que não me amam de volta?
– Nós te amamos! – respondo de imediato. – É por isso que nos separamos, filho. Senão você ficaria triste junto com a gente.
Ele balança a cabeça e corre para o seu quarto, e eu não sei o que fazer. Apenas fico parada no meio da minha sala de jantar, sentindo o coração pesado. Eu não queria que as coisas fossem assim. Não queria ver Pedro triste. Realmente achei que, com os jantares e as malditas sessões de terapia, as coisas estavam melhorando, mas não estão e eu não sei mais o que fazer. Me sinto perdida.
, fique calma – escuto dizer e só então percebo que estou chorando tanto que minha respiração fica pesada. Meu ex-marido se aproxima e segura meus ombros, dizendo que logo Pedro entenderá e se sentirá melhor com isso.
E tudo parece com uma cena de 29 Andares. Aquela na qual eu entro em desespero e tudo o que eu tenho no mundo é e o seu jeito de saber fazer tudo ficar bem. Eu o olho e sinto o meu rosto gelado quando a sua respiração bate contra a minha bochecha. Estou tão cansada. Não penso com clareza e tudo o que prende a minha atenção é o modo como a sua pele toca na minha e em como ele parece ser o único que sempre vai estar ali, como se a nossa vida fosse um eterno apocalipse.
Então eu o abraço e peço desculpas, porque sei que tudo isso vem da minha irrefreável mania de querer controlar tudo. Pois, talvez, eu tenha estragado o nosso casamento. Talvez ele não estivesse tão perfeito como tudo o que é meu tem que ser e eu tenha decidido acabar com isso antes que ficasse pior. Porque que eu sabia que aquela era a única coisa que eu não podia consertar; sabia que eu não poderia consertar o do mesmo modo que conserto as estantes tortas do meu quarto.
E tinha consciência disso. No dia em que me conheceu e aceitou o desafio de viver ao meu lado, ele sabia que nunca seria perfeito, porque nada nunca é perfeito para mim.
Mas agora, eu juro, ele parece. Parece perfeito com os seus braços ao meu redor e a sua voz em meu ouvido, dizendo que a culpa não é minha e que todos cometemos erros em algum momento das nossas vidas.
Quando decido que não há como nada ser mais perfeito que isso, sinto Pedro agarrar as nossas pernas em uma tentativa quase falha de abraço e percebo que, não, não podemos ser perfeitos, mas sempre seremos imperfeitos da nossa própria maneira.



Fim.

Nota da Autora: Olá, amorzões e queridos leitores fantasmas!
Muito obrigada por acompanhar a história até aqui. Espero que tenham se divertido pelo menos um pouquinho e que venham comigo em outras histórias, porque quero entretê-los cada vez mais ❤
Um beijão! Até a proxima.
Não se esqueçam de entrar no grupo do Facebook ❤.

Nota da Beta: Eu não consigo lidar com esse final. Melhor história de zumbis que li na vida!
Se encontrar algum erro de script, gramática ou o que for, por favor me avise por aqui ou por aqui.